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  • Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Uma família ingleza Scenas da vida do Porto

    Aproximadamente 124.879 palavras.

    VI

    AO DESPERTAR DE CARLOS

    Jenny ficou ainda por muito tempo immovel junto da porta, onde se
    despedira do pae. O olhar corria-lhe pelos objectos que a rodeiavam; o
    pensamento porém não acompanhava o olhar.

    Aquellas feições, em que se podia reconhecer, mysteriosamente, combinada
    á candura de uma creança não sei que severidade, toda maternal, tomavam
    agora um ar de preoccupação e melancolia, uma d'essas sombras, que as
    ideias graves parece projectarem no semblante de quem não aprendeu a
    dissimulal-as.

    Jenny presentia haver chegado uma nova occasião de ser necessario
    intervir com a sua influencia pacificadora e angelica para dissipar a
    nuvem, embora tenue, que assomava no horizonte domestico.

    Exercera já de um dos lados essa influencia, conseguira adoçar as
    disposições acerbas de Mr. Richard para com o filho; faltava-lhe porém o
    resto, estava ainda incompleta a obra; era preciso ensaial-a sobre
    Carlos tambem.

    E Jenny, que bem conhecia o irmão, tinha fé em que o não tentaria
    debalde.

    Rompia porisso um raio de confiança por entre as sombras d'aquella
    preoccupação.

    Foi n'este estado de espirito que chamou André para que fosse acordar o
    irmão.

    André era o mais antigo criado da casa, especie de mordomo jubilado, que
    servia Mr. Whitestone desde o seu estabelecimento no Porto e trouxera já
    ao collo os dois filhos do inglez.

    –Vá,–disse Jenny–diga a Charles que eu o espero na bibliotheca.

    Carlos dormia tranquillamente, quando o velho André lhe entrou no
    quarto. A respiração profunda, pausada e regular denunciava um somno,
    livre de pesadelos e de sonhos importunos.

    O criado, depois de escutar algum tempo aquelle som, unico que, com o do
    bater da pendula vizinha, se percebia no quarto, caminhou com precaução,
    bem escusada a quem vinha para despertar, até uma das janellas, que
    entreabriu.

    Espalhou-se então no aposento uma meia claridade, coada através das
    longas cortinas que, soltas das abraçadeiras douradas, rojavam pelo
    tapete.

    Pôde então o velho observar a completa desordem que ia n'aquella sala.

    Estes raios de luz, menos felizes do que os evocados pelo _fiat lux_ do
    _Genesis_, póde dizer-se que vieram ainda illuminar um cháos; pois
    difficilmente se encontraria mais apropriada expressão para designar o
    aspecto do aposento, a cuja vista se dissolveu em sorrisos toda a sisuda
    gravidade, desenhada nos labios e nas feições do mordomo.

    A scena, de facto, escapa á mais esmiuçadora descripção.

    Parecia que todos os objectos, alli contidos, haviam, durante a noite,
    entrado em dança phantastica, de tal sorte os surprendera o dia,
    deslocados da natural situação.

    As cadeiras, amontoadas em desordem no meio da sala, haviam usurpado as
    attribuições dos guarda-roupas; estes, abertos de par em par,
    patenteavam o interior desordenado e quasi vazio, como após um saque de
    cidade conquistada.

    Nas mesas, nos sofás, em _voltaires_, no chão, por toda a parte emfim,
    menos nos logares competentes, via-se casacos, coletes, calças, mantas
    de differentes côres e feitios. O pavimento achava-se literalmente
    alastrado de objectos de impossivel enumeração; aqui, umas luvas,
    calçadas pela primeira vez na vespera e já postas de lado como inuteis;
    alli, alguns ramos de flores desfolhadas e murchas, cuja posse,
    procurada talvez com incansavel insistencia, trouxe depressa após si o
    abandono e o esquecimento; n'outros pontos, charutos meio consumidos, os
    fragmentos de uma preciosa jarra de porcelana da India, um livro, que
    commettera o delicto de não excitar a curiosidade, uma cadeira derrubada
    com o fardo que lhe pesou sobre o espaldar; cartas, collarinhos,
    retratos, lenços, chicotes. As esporas no logar do relogio; este pousado
    na beira do marmore do fogão; sobre o leito, um dominó de setim;
    pendente á cabeceira, o jornal da vespera e um longo cachimbo com tubo
    de gutta-percha; aos pés polvorinho de caça, o robe-de-chambre de
    damasco e o teliz da horsa favorita; no velador, um tinteiro de prata,
    transformado em cinzeiro de charutos; um chapéo pendurado na chave da
    porta; o candieiro no chão, alguns livros e mappas geographicos quasi
    debaixo da cama. Um _abat-jour_ de cartão envernizado com figuras
    extravagantes, representando chins em posições todas chinezamente
    ridiculas, servia de barrete ao busto de Shakespeare, cujo pescoço
    estava além d'isso diplomaticamente enfeitado com uma gravata de baile;
    defronte, Byron, coberto com chapéo de feltro de abas largas, o qual lhe
    pendia galhardamente sobre a orelha esquerda, parecia fitar com
    petulancia o seu illustre conterraneo; no outro angulo, era aquella
    figura séria e bondosa de sir Walter Scott, com não sei que ares de
    acanhado debaixo do barrete turco, que a guerra da Crimeia pozera então
    á moda; e finalmente um quarto busto occultava, sob mascara de setim
    preto, a expressão de candura e de soffredora tristeza do cantor dos
    combates dos anjos e demonios, o sublime Milton.

    Dir-se-hia que estes grandes personagens da litteratura ingleza,
    obedecendo á voz do carnaval, haviam surgido da sepultura, para virem
    celebrar tambem entre si, com as suas cabeças pallidas, a mais estranha
    mascarada.

    No meio de toda esta confusão, um enorme _terra-nova_, de ventas
    leoninas e corpulencia de touro, languidamente recostado nas molles
    almofadas do sofá luxuoso, pousava as patas musculosas e pelludas sobre
    um magnifico album de gravuras, com a mais absoluta irreverencia pela
    preciosidade, que assim lhe servia de cabeceira e de estrado.

    Imagine-se o resto.

    André, o methodico André, sorria e abanava a cabeça no meio de tanta
    desordem. Demorou-se alguns instantes a examinar todo aquelle
    desarranjo, que bem simulava os vestigios de recente lucta; depois
    caminhou para o leito, afastou vagarosamente, de má vontade ainda, as
    cortinas brancas, que o resguardavam, e curvando a cabeça, fitou os
    olhos na fronte espaçosa e liza de Carlos, sem que se resolvesse a
    acordal-o de dormir tão tranquillo.

    Carlos tinha a physionomia sympathica e expressiva. O melhor do typo
    saxonio encontrava-se alli. Os cabellos louros, curtos e naturalmente
    annelados, deixavam-lhe livre a fronte ampla, de bossas proeminentes, e
    cujos angulos se prolongavam por sobre as temporas; as côres eram do
    alvo delicado, proprio dos typos septentrionaes; o nariz de perfil, em
    que não entrava o elemento da mais desvanecida curva; os labios, algum
    tanto grossos e levemente encrespados n'um sorriso, entre ironico e
    affectuoso, prompto a caracterisar-se com facilidade igual n'um ou
    n'outro d'estes sentidos; as palpebras longas, salientes e nas quaes, em
    curvas azuladas, transparecia uma rede de pequenas veias, e em torno ás
    orbitas o circulo de côr desmaiadamente rôxa, vestigio de longas noites
    de agitadas vigilias; taes eram os traços principaes d'aquella
    physionomia aberta e attrahente, que, em alguns d'elles, offerecia o que
    quer que era de Byron. Os olhos, n'aquelle momento velados, possuiam
    fogo correspondente á vivacidade do espirito que os animava; as feições,
    paralysadas agora pelo somno, gosavam em vigilia de mobilidade extrema e
    eloquente, outro ponto de analogia com as do poeta inglez, segundo a
    crença dos seus biographos.

    André acabou emfim por o chamar, mas com voz, que parecia de quem
    desejava não ser escutado.

    –Snr. Carlos–disse elle.

    Apesar de pronunciada em tom baixo, e quasi a mêdo, bastou esta palavra
    para o despertar.

    Abriu immediatamente os olhos, fitou-os no criado e, estendendo os
    braços n'aquelle quasi involuntario movimento, com que todas as manhãs
    despedaçamos as ultimas cadeias com que nos algema o somno, deixou-lh'os
    cair em volta do pescoço, como para apoiar-se, dizendo ainda com voz mal
    distincta:

    –Bons dias, André. Que horas são?

    –Meio dia.

    Foi a resposta que obteve, acompanhada de significativo sorriso.

    –_Save us!_–exclamou Carlos, imitando a despenseira ingleza, de quem
    era esta a phrase habitual, e ao mesmo tempo voltou os olhos para o
    relogio fronteiro, o qual, como em resposta a esta mimica
    interrogatoria, bateu doze lentas e sonoras pancadas.

    –Pois não me parecia–continuou Carlos, ao acabar de contal-as.–Ia até
    estranhar-te a madrugada, sabes tu? E… e… o pae?

    –Saíu já.

    –E… e que disse?

    André encolheu os hombros, respondendo:

    –Nada.

    Era a maneira de exprimir que alguma cousa dissera.

    Carlos comprehendeu isto mesmo, mas não perguntou mais nada.

    –Toca a pôr a pé, que são horas!–dizia o André, occupando-se a
    levantar alguns dos objectos que via pelo chão.

    –Deshumano, cruel, que me recordas?–respondeu-lhe Carlos em tom de
    recitação tragica.

    –Vamos, vamos, preguiçoso.

    Carlos abriu ainda outra vez a bôca em gesto quasi sentimental de
    despedida ao somno que se afastava; afagou com a mão o colossal
    _terra-nova_, que veio pousar-lhe a cabeça nos joelhos, e abriu ao acaso
    o livro que encontrou á mão, um romance de Dickens, do qual leu algumas
    linhas distrahido.

    –Então?–insistiu o André, vendo-o pouco disposto a levantar-se–Fica
    ahi?

    –Vae-me buscar o almoço, homem. Traze-me só café. Parece-me que inda
    agora terminei aquelle turbulento jantar de hontem.

    –Então quer almoçar aqui?

    –E julgo que é uma resolução muito louvavel.

    –Mas…

    –Mas o quê?… Que objecções lhe pões? Falla.

    –É que miss Jenny espera-o na bibliotheca.

    Carlos de um salto sentou-se na cama.

    –Ó pateta! e inda agora me vens com isso? Depressa–chega-me d'ahi esse
    robe-de-chambre.–Isso não… não vês que é um dominó?… Anda…
    avia-te… Aquelle lenço… O outro… Bem… Vae… Dize a Jenny que
    n'um momento estou com ella.

    E depois de proceder com a maior celeridade áquelle ligeiro _toilette_
    de manhã, Carlos entrou na bibliotheca, onde Jenny o esperava.

    Era n'esta bibliotheca que muitas vezes os dois irmãos se entregavam a
    leituras communs, restos de habitos adquiridos na infancia, quando pelos
    mesmos livros estudavam, formando um gracioso grupo de cabeças louras,
    objecto das contemplações apaixonadas e das bençãos cordiaes de Mr.
    Richard Whitestone.

    –Bom dia, Charles–disse Jenny, estendendo-lhe a mão, que elle apertou
    affectuosamente.

    –Fiz-te esperar muito, filha? Perdôa-me; mas aquelle pateta não soube
    dizer-me logo que tu…

    –Desculpa mandar-te acordar, mas…

    –Fizeste bem; senão, dormiria até á noite.

    –Vieste hontem muito tarde, Charles–disse Jenny, abaixando-se
    disfarçadamente para acariciar o _terra-nova_, que se lhe deitára aos
    pés.

    –Pois ouviste-me?

    –Ouvi.

    –Então acordei-te, Jenny? Não foi por falta de cautela, porém… sempre
    sou um desastrado!

    –Não, não acordaste. Eu não tinha adormecido ainda.

    –Não tinhas adormecido! Ás quatro horas! Estiveste doente, Jenny?

    –Não, mas…

    Carlos olhou para a irmã com uns modos, que procurou tornar severos.

    –Querem ver que foi por minha causa?… Então que te tenho eu dito,
    Jenny? Fico de mal comtigo se tornas a ter essas canceiras por mim, a
    ponto de…

    –Não, não foi por canceira, é que…

    –É que tu és uma teimosa e o que merecias…

    –Não se trata agora d'isso. Dize-me: vens hoje mais cêdo?

    –Hoje! Á terça-feira de entrudo! Ó Jenny! Deixa ao menos passar o
    carnaval, deixa já agora acabar esta maldita época, e depois… depois
    verás que hei de ficar muitas noites em casa ao pé de ti e de… Tens-te
    enfastiado muito aqui só, não tens, pobre pequena?

    –Ora, não fallo por mim; mas… é que… isso faz-te doente por certo,
    Charles. Esses jantares tão longos… Essas noites tão mal dormidas…

    –A mim?! A mim nada me faz mal, filha; lá por isso…

    –E depois… Olha, Charles, ha devéras tanto tempo já que te não vemos
    comnosco, á noite… Não é por mim que fallo, repito; mas o pae… bem
    sabes, antigos habitos… gosta de nos ver reunidos todos… a certas
    horas. Coitado! Não digo sempre, mas… ás vezes, de quando em quando,
    se te não custasse…

    –Pois sim, Jenny, pois sim. Deixa voltar o verão, que eu prometto…
    prometto que, muitas vezes até, hei de fazer o que dizes. Mas as noites
    de inverno! As noites de inverno, não obstante tudo quanto imaginou
    aquelle bom Thomson nas suas _Estações_, são tão longas para se passarem
    em casa!

    –As de estio… depois… já sei… has de achal-as tão formosas que…

    –Não–replicou Carlos, sorrindo;–então depois de eu te prometter havia
    de… Mas, olha cá, Jenny, tu és muito boa, e já sei que me vaes até
    ralhar por o que eu vou dizer; mas deves concordar em que de facto é
    pouco agradavel, para um rapaz da minha idade pelo menos, a maneira por
    que o pae costuma passar aqui as suas _soirées_. Aquelle eterno _Times_,
    aquelle _Times_ sem fim aterra-me, Jenny. A _Biblia_ é um livro que
    respeito e admiro, mas tremo um pouco das paraphrases dos nossos
    reverendos lettrados; confesso que tremo. O _Tristam Shandy_ do Sterne
    já o sei de cor; no _Tom Jones_ de Fielding, quando o não tivesse ainda
    lido, não haveria já capitulo de que não fosse bem informado, á força de
    o ouvir citar; e, a fallar verdade, ter de passar uma noite a escutar,
    mais uma vez, os commentarios a um e outro, com que fatalmente nos
    flagella o inesgotavel enthusiasmo paterno… a fallar verdade!

    –Charles!–disse Jenny, em tom reprehensivo.

    –E para cumulo dos males–proseguiu Carlos–estar sempre debaixo da
    permanente ameaça de uma visita do _spleen_ de Mr. Morlays ou da, não
    menos para temer, jovialidade de Mr. Brains, Heraclito, e Democrito,
    inglezes que o sabor nacional tornou mais difficeis de digerir ainda, do
    que os proprios philosophos gregos. Ahi está o que me faz procurar
    aquelles logares onde, como diz Thomson: «sussurra um publico, possuido
    de todos os assumptos, e animado de mixtos discursos».

    Jenny não pôde deixar de sorrir ás reflexões do irmão; mas, como para
    diminuir o effeito d'esta fraqueza, apressou-se a dizer-lhe:

    –Pois sim, Charles; mas nem hontem! Hontem, na verdade!… no dia dos
    teus annos!…

    –Então que queres, menina? Não me lembrei de tal, realmente. Acredita.
    Reputo tão pouco motivo para festas o facto do meu nascimento!

    –Mas os que te estimam formam melhor opinião d'esse dia. Nem lhes
    queres dar o prazer de t'o affirmarem?

    –Daria se… se me lembrasse.

    –O pae destinava-te uma surpreza. Coitado! Fez-me pena a maneira por
    que elle me encarregou, ainda ha pouco, de te entregar este
    relogio–disse Jenny, passando para as mãos do irmão o presente de Mr.
    Richard.

    –Devéras?! Pois elle… Pobre pae! Vês? E eu que lhe roubei esse
    prazer! Ai Jenny, esta minha cabeça! Tu inda ao menos sabes o que me vae
    no coração, não é assim?

    –Sei, Charles, sei.

    –Mas os outros…

    –Todos te fazem justiça, só tu é que…

    –Mas repara, Jenny, é um relogio magnifico este; pois não é?! Bem; não
    ha que ver, snr. Carlos; é preciso que pela sua parte faça alguma cousa
    tambem. Está dito; não esperarei pelo verão. O carnaval está a expirar;
    acabando elle … penitenciar-me-hei na quaresma.

    –O carnaval! Muito divertidos devem ser esses bailes de mascaras, para
    assim te attrahirem, Charles!

    –Enganas-te, Jenny; são insipidos, mas… Tu não pódes talvez entender
    isto, que não obstante é exacto… são insipidos, mas irresistiveis ao
    mesmo tempo.

    –Ora!

    –Acredita-me. Rara é a noite em que me não encho de tédio, em que não
    morro de semsaboria no meio d'aquelle infernal tumulto, e então, se de
    lá me lembro de ti, do socego dos teus serões, do silencio das tuas
    noites, do teu bonito quarto côr de violeta, pergunto a mim mesmo,
    Jenny, por que me conservo longe d'alli, o que me afasta das portas
    d'esse paraizo, voluntariamente perdido por este louco, que nem merece
    ser teu irmão. Sinto vontade então de soltar uma lamentação como a de
    Eva por errar n'um mundo, que ao pé do teu, Jenny, é tambem obscuro e
    selvagem; por estar a respirar n'um ar bem menos puro.–Não é assim que
    diz o Milton?–E comtudo não tenho nenhum archangelico poder a impôr-me
    a expatriação. Vês?

    –Estás a gracejar, Charles?

    –Acredita que não. Outros te poderiam dizer o mesmo se…

    –E é isso que te conservou por lá, ainda hoje, até ás quatro horas da
    manhã?

    –Hoje? Ah, mas… perdão, Jenny; tudo tem suas excepções. A noite de
    hontem, por exemplo, não me deixou desagradavel memoria de si; devo
    confessal-o.

    –Então?

    –Então… é que eu tenho que te contar, e se tiveres a paciencia de me
    escutar e prometteres não me ralhar muito…

    –Ah! pois temos culpas?

    –Eu sei? Desconfio tanto de mim, que já me não atrevo a affirmar que
    procedesse bem. Mas tu o dirás.

    Jenny sorriu.

    –Ouçamos–disse ella, preparando o almoço, que um criado acabava de
    trazer para a sala.

    VI

    REVISTA DA NOITE

    –Como te disse, Jenny,–principiou Carlos, procedendo áquelle
    extemporaneo almoço, ás horas a que muita gente encetava a séria e
    importante tarefa da digestão do jantar–hontem correu-me a noite mais
    agradavel que de costume.

    –Sim? Então que te succedeu?

    –Eu te conto. Levantamo-nos da mesa ás onze horas; foi um longo jantar,
    ao qual os brindes continuados não deixaram nunca desfallecer a
    animação. Entrei no theatro, um pouco atordoado e um pouco pezaroso;
    atordoado pelos effeitos excitantes d'aquellas muitas libações e
    d'aquelle ruído todo…

    –E pezaroso…

    –Com os remorsos que a tua carta me veio despertar.

    –Ah!… remorsos?!…

    –Afianço-te que os tive. N'estas disposições de animo parecia-me um
    inferno o theatro, verdadeiros demonios aquellas insulsas mascaras,
    gritos de condemnados as desafinações da orchestra…

    –E ficaste?

    –E fiquei; fiquei, ancioso por que o final do divertimento me
    auctorisasse a retirada. Já vejo que nem ideia fazes sequer d'estas
    cousas, que aliás são verdadeiras. Deixa-me continuar.

    –Continúa–disse Jenny, folheando ao acaso um livro de gravuras
    inglezas, que estava na mesa.–Mas é devéras estranha essa maneira de te
    divertires… martyrisando-te.

    –É, confesso que é. Mas outros muitos estão n'este caso; pódes crel-o.

    –Bem; vamos adiante–replicou Jenny, fitando os olhos nas lettras
    douradas da brochura.

    Carlos proseguiu:

    –Deixei os meus companheiros e sentei-me extenuado; nem queria ver, nem
    apreciava nada do que em torno de mim succedia. A final, porém, por
    fazer alguma cousa, reparei nos vizinhos de hombro a hombro, entre quem
    a sorte me arrojára.

    Jenny ergueu para o irmão a vista, com um modo particular.

    –Do lado direito, encontrei um homem gordo, que dormia. Como a
    felicidade alheia não é espectaculo de que nos venha conforto, quando o
    infortunio nos punge, desviei com despeito os olhos d'esta
    bemaventurança e voltei-os…

    –Para o lado esquerdo?

    –Justamente; para o lado esquerdo.

    –E… e o que achaste d'esse lado do coração, Charles?–perguntou
    Jenny, sorrindo.

    –Ai, Jenny! ai, minha pobre irmã! prepara a tua santa paciencia, que
    aqui venho eu confiar-te mais uma das minhas paixões.

    –Eu logo vi; não sei porque foi que t'o estava a ler no rosto. Então é
    devéras uma paixão?

    –Receio que sim.

    –Pobre Charles! Que fatalidade!

    –Estás a rir?–disse Carlos, sorrindo tambem e estendendo a chavena
    para a encher outra vez–Ora ouve. Ao meu lado esquerdo, do lado do
    coração, como dizes, estava um dóminó feminino, fitando-me de uma
    maneira … como nem te sei dizer… e com uns olhos… mal sabes que
    bonitos olhos eram aquelles, Jenny!

    –Os da mascara?–perguntou Jenny, preparando a chavena.

    –Não; os da mascarada, os quaes eu percebia através das aberturas
    oculares da elegante mascara de setim preto que ella trazia. A cabeça
    descaía-lhe ligeiramente sobre o hombro em postura de tanta languidez e
    melancolia, e n'esta posição a sêda da mascara descobria-lhe um canto de
    labios e um principio de collo tão bem modelados, que eu não pude
    desviar mais d'alli o olhar extasiado, e… e… Então que quer dizer
    agora esse teu sorriso, Jenny?

    –Estou a admirar a rapidez com que te apaixonas e extasias.

    –É que não imaginas que bonito cortôrno o d'aquelle rosto; não
    imaginas! Eu digo-te uma cousa, Jenny; bem sei quantas illusões andam
    ligadas á mascara de sêda, que, por descuido estudado, se afasta um
    pouco, o preciso… o conveniente… Porque na maior parte dos rostos ha
    pequenos pontos fracos, que a mascara artificiosamente occulta, deixando
    só apparecer as perfeições. Conheço que é facil illudir-se então o olhar
    e phantasiar-se falsamente o todo pela parte que se póde ver, conheço…

    –Basta, basta, Charles. Pena é que de tão pouco te sirva o tanto que
    conheces, visto que ainda hontem…

    –Hontem não havia, não podia haver illusão. Isso é que não. Aquella
    cabeça não era d'essas cabeças buliçosas, como folhas de alamo, que
    morrem por ser adivinhadas. Era uma cabeça scismadora, melancolica,
    cheia de sentimento, estremecendo a cada belleza que, com pezar seu, não
    podéra occultar…

    –Ah! Que singular cabeça!

    –E depois ha certos extremos de perfeição, que a natureza, quando os
    cria, não os vae desperdiçar assim em qualquer rosto, que nas mais
    feições destroe d'esses primores parciaes. E n'este caso estava tudo o
    que eu vira do perfil da minha sympathica vizinha, a quem dirigi a
    palavra!

    –A quem dirigiste a palavra!

    –Sim; que achas tu de extraordinario n'isto, para fazeres esse
    movimento? N'um baile de mascaras prescinde-se das apresentações,
    ridicula invenção da etiqueta, que eu desconfio ser originaria da nossa
    diplomatica Inglaterra.

    A reflexão historica transformou n'um sorriso o movimento de surpreza de
    Jenny.

    Carlos continuou:

    –E depois vaes ver que tudo quanto lhe disse podia bem ser repetido á
    mais ingenua lady n'um dos nossos bailes de familia. A final de contas,
    irmanzita, eu, que arranjei por ahi, não sei bem como, a reputação de
    atrevido, tenho ainda canduras, de que muitos dos mais timidos se riam
    já aos quinze annos.

    Esta confissão, na qual alguma cousa havia verdadeira, desafiou em Jenny
    um gesto de duvida, que o mesmo sorriso affectuoso veio porém suavisar.

    –Olha que é assim–proseguiu o irmão–e senão… escuta. Como te disse,
    fallei á minha sympathica vizinha. Perguntei-lhe se estava muito
    fatigada. Ahi tens; a pergunta é mais do que ingenua, é quasi ridicula.
    Que lhe censuras tu?

    –A essa, de certo que nada. E depois?

    –Ella respondeu-me:–«Bem mais fatigada d'isto tudo do que esperava,
    vindo aqui, snr. Carlos.»

    –Como disseste?… Snr. Carlos?!

    –É verdade, «snr. Carlos». Sabia o meu nome a mysteriosa incognita;
    sabia o meu nome! Está de ver que augmentou a minha curiosidade.
    Continuando a conversar, vim a saber d'ella que tinha vindo alli
    acompanhada de outros dóminós femininos, cujo humor mais galhofeiro
    contrastava com aquella melancólica seriedade. Ficamos a conversar um
    com outro, amigavelmente, innocentemente, assim como eu converso agora
    comtigo. E… queres que te diga? havia até alguma cousa do teu fallar,
    maneiras de dizer tuas, na conversa d'aquella rapariga; e era isto
    talvez o que me impunha certo acatamento para com ella, de que não podia
    livrar-me. Não imaginas a graça, o bom senso, a viveza, que revelou em
    todo aquelle dialogo commigo. Mostrou-se muito informada a meu respeito
    e até a respeito da nossa familia; houve um momento, em que deu mostras
    de querer fallar de ti; eu porém evitei a conversa…

    –Porquê?!–perguntou Jenny, fingindo-se offendida.

    –Porque…–balbuciou Carlos embaraçado, e depois, com mais resolução,
    continuou:–Digo-te a verdade Jenny; respeito-te muito; tenho por o teu
    nome uma veneração muito grande, para que me fosse agradavel ouvil-o
    pronunciar n'aquelles logares, e pronunciado de mais a mais por…–não
    obstante o favoravel conceito que continuo a fazer da
    desconhecida–mas… por labios que… não sei ainda… que não tenho a
    certeza se serão dignos d'isso. Passadas duas horas talvez n'este
    inoffensivo conversar, chegaram, já fartos de alvorotar o salão, alguns
    dos rapazes, que me tinham acompanhado. Foi-me pouco agradavel,
    confesso-o, a presença dos meus amigos e sobretudo desagradabilissimos
    os galanteadores conceitos que dirigiram á minha interlocutora e os
    gracejos com que a respeito d'ella me mimosearam.

    –Coitada!

    –Coitada? Ai, se já principias assim a lamental-a … mal vae á minha
    historia.

    –Pois acaso?…

    –Escuta. Ao principio, ella não mostrou timidez; sustentou com
    vivacidade o dialogo, aparando e retribuindo triumphantemente os
    galanteios, que elles lhe dirigiram. Mas a lucta era desigual; porque
    emfim os contendores, n'esta esgrima de palavras, tinham de reserva
    armas, de que ella não podia servir-se. Foi então, ao reconhecer isto,
    que se mostrou inquieta e ergueu-se para retirar-se; seguimol-a; á porta
    do salão ella e as companheiras voltaram-se, viram-nos e pareceram
    atemorisadas. Ella então, a desconhecida, dirigiu-se a mim e pediu-me
    que lhes servisse de protector, appellou para a minha generosidade e
    eu…

    –Tu protegeste-as, não é verdade?–disse Jenny, juntando as mãos, e
    fixando no irmão um olhar de sympathia–Protegeste, não protegeste?

    –Fui, fui um D. Quixote de donzellas perseguidas. Então que queres tu?
    Não te dizia eu que havia ainda em mim muito da candura dos quinze
    annos?

    –Não te arrependas, Charles, não te arrependas de ser generoso.

    –É certo que consegui afastar os meus associados, o que não foi pequena
    tarefa; fiz valer porém os direitos de descobridor e prometti-lhes
    revelar o segredo d'aquella mascara, segredo cuja investigação me
    competia. Feito isto, segui-as. Ao principio tudo foram effusões de
    gratidão á minha nobreza de caracter, ao meu coração, aos meus
    sentimentos, etc., mas, quando nos livramos das ruas mais centraes e
    passou o perigo da perseguição que temiam, tudo mudou de figura e
    principiaram já a pedir-me para tambem me retirar. Esta ingratidão
    offendeu-me e recusei… Então? ahi estás séria outra vez!

    –E com razão, Charles. Pois pediam-te e tu… Isso já não é de
    generoso… Quem sabe os motivos?

    –Perdôa-me, Jenny; tu é que não sabes nada d'estas cousas. Pouco
    generosas eram ellas. E demais, esses pedidos seriam sinceros? A regra é
    recusal-os sempre; e está certa de que quasi nunca a recusa offende.

    –Basta que uma vez…

    –Mas repara, Jenny… Valha-me Deus!… Ora vem cá. Tu estás-me ahi a
    phantasiar uns bailes de mascaras á tua moda. Suppões que todos estes
    dóminós eram… eu sei lá… outras tantas princezas disfarçadas ou
    outras Jennys como tu.

    –Pois bem, uma vez que o disseste, vamos que era eu?…

    Carlos previu o mau terreno, em que se collocava, admittindo a hypothese
    e porisso interrompeu a irmã, dizendo:

    –Mas não supponho, nem posso suppôr, porque… porque ainda ninguem viu
    uma Jenny n'aquelles logares; e demais ouve, que eu não sou ainda assim
    merecedor de tantas severidades. Teimei, como disse, em seguil-as; para
    desistir, exigia conhecel-as; ellas porém recusaram tirar a mascara e
    sobretudo a tal, que eu mais desejava saber quem era. Ás tres horas e
    meia estavamos aqui defronte de casa, aonde me tinham trazido
    manifestamente para me tentarem a entrar. Resisti á tentação e transpuz,
    sem hesitar, a porta, continuando a seguil-as. As companheiras da minha
    incognita levavam já o caso a rir e acredito que não poriam grande
    duvida em darem-se a conhecer; ella porém mostrava-se… ou fingia-se,
    deveras afflicta; dirigiu-se a mim e de mãos juntas pediu-me que me
    retirasse.

    –E tu?…

    –Eu… eu recusei.

    –Ó Charles!

    –Ouve. Ella insistiu. Disse-me que lhe poderia fazer muito mal se
    teimasse, e eu insisti…

    –Como és ás vezes tão mau!

    –Mas se eu não acreditava na sinceridade d'aquelles mêdos, e agora
    mesmo… Mas a final, a rapariga disse-me com uma voz chorosa e na qual
    me pareceu descobrir tanta sinceridade: «–Peço-lhe este favor por…»
    Adivinhas por quem ella me foi pedir?

    –Não.

    –«Peço-lhe este favor por sua irmã, por Jenny»; sim, por ti, foi por ti
    que ella me pediu e fêl-o ajuntando as mãos com tal candura, que eu…
    Precisas de perguntar-me se condescendi d'esta vez?

    Jenny estendeu a mão ao irmão.

    –Obrigada. A final o bem triumpha sempre no teu coração. Estava certa
    d'isso.

    Carlos baixou a cabeça, como mortificado com estes louvores da irmã.
    Dir-se-hia que aquellas palavras lhe estavam a fazer sentir remorsos,
    longe de os desvanecerem.

    Depois de uma hesitação de momentos, terminou por dizer, com evidente
    enleio:

    –Olha, Jenny… eu por fim de contas não sou homem para aceitar
    louvores que não mereço… repugna-me esta hypocrisia; custa-me deveras,
    mas… sou forçado a dizer-te que… que não sou digno d'esses
    applausos.

    –Porquê?

    –Porque… alguma cousa se passou… Eu não disse tudo ainda e… É
    verdade que… condescendi… sim… mas não tão desinteressadamente
    como… sim… porque exigi… usurpei… á maneira de compensação…

    –O quê?

    –Um beijo, ao qual a pobre rapariga não retirou a tempo a face e que a
    lançou n'uma especie de desespêro, fingido talvez, de certo… mas bem
    fingido…

    Jenny reproduziu o gesto de desgosto.

    –Mas não me condemnes, Jenny,–apressou-se Carlos a acrescentar–porque
    a final eu nem lhe vi o rosto, e estou provavelmente condemnado a nunca
    descobrir quem ella seja. Além d'isso cumpri religiosamente o
    promettido, renunciando a acompanhal-a, o que me custou devéras; ainda
    hoje me preoccupa o olhar, a voz d'aquella rapariga e quasi lamento…
    Vamos, não continues a olhar-me d'esse modo. Pois recusas perdoar-me,
    quando eu…

    –A fallar verdade, mereces bem pouco que te perdoem. Mas, como cedeste
    em meu nome, quasi me tiraste o direito de ser severa. O final… o
    final… na verdade…

    –E vês o meu endurecimento na culpa? foi isso de toda a aventura o que
    me deixou mais agradavel memoria de si…

    –Então!–disse Jenny, batendo-lhe com o livro na mão–Olha se queres
    que retire ainda o perdão que já te dei. Que mais terás a pezar-te na
    consciencia? aproveita o ensejo d'esta minha disposição benevola.

    –Julgo que não tenho mais nada.

    –Ahi está uma alma com excellente opinião de si! Visto isso, tens
    cumprido todos os teus deveres?

    –Mas… deveres de que genero?

    –Que pergunta! Pois nem sabes os deveres que tens?! Maus indicios!
    Deveres de christão, de cidadão, de filho, e de…

    –O que ahi vae! o que ahi vae! Por quem és, Jenny! vamos por partes,
    senão…

    –Pois bem, quero fallar-te agora só de uns, que me parece teres
    descurado um pouco.

    –Falla.

    –Dize-me: tens ido ao escriptorio?…

    –Ai, o escriptorio!–disse Carlos, rindo–Então era d'isso que me
    querias fallar? Bem longe estava eu de pensar no escriptorio.

    –Tens lá ido?

    –Eu não.

    –Não!

    –Ha já bastante tempo que lá não vou, ha… mas… achas isso grande
    peccado?

    –E pergúntal-o? Não é o trabalho um dever?

    –O trabalho será.

    –Então…

    –É que faz sua differença. Tu não sabes como eu trabalho no
    escriptorio? É outra d'essas imposturas sociaes, que me fariam rir
    devéras, se não fossem tão fastidiosas. É preciso que saibas, minha boa
    Jenny, que no escriptorio, o trabalho real, o trabalho util, o
    trabalho–trabalho, está encarnado na pessoa de Manoel Quentino. Esse
    sim. É quem alli faz tudo, quem a tudo dá solução, e parece-me que o
    unico até capaz de o fazer. Exige-se que eu vá lá tambem, não para
    trabalhar; a minha cooperação o mais que faz é impacientar o bom do
    homem, distrahir os outros caixeiros e alterar a ordem methodica dos
    papeis commerciaes. Eu vou só para fingir que entro n'aquellas cousas,
    para representar de commerciante, embora não penetre em nenhum dos
    segredos ou transacções, em que anda empenhada a firma. Hoje lembram-se
    de me communicar o principio de certo negocio, do qual se julgam depois
    tão dispensados de dizer-me o resultado, como eu de perguntar por elle;
    ámanhã, dar-me-hão parte da conclusão de outro, cuja existencia eu
    ignorava ainda. Ora aqui tens como eu sou commerciante. O pae gosta de
    me ver lá em baixo, como representante da firma Whitestone & C.ª, e mais
    nada. Chego ao escriptorio, abro a janella, mostro-me ao publico como
    uma especie de taboleta da casa, dou tres passeios na Praça, converso em
    tudo, menos no negocio, e venho embora. Se isto é trabalhar…

    –Mas, já que te repugna essa ociosidade, porque não trabalhas devéras?

    –Porque não é costume. O trabalho é para o guarda-livros. Nós somos uma
    especie de padrinhos; damos o nome á creança e pagamos-lhes o enxoval,
    mas não nos encarregamos das fadigas da sua educação. Comtudo, já uma ou
    outra vez tentei trabalhar, por descargo de consciencia; mas lembrança
    minha era saudada com uma risada do Manoel Quentino e com o riso mal
    disfarçado dos outros caixeiros. Pelos modos era disparate certo.

    –Pois bem; porisso mesmo que tão pouco se exige de ti é que devias ser
    mais assiduo.

    –Mas é tão monotono! Fazes lá ideia! Odeio aquella rua dos Inglezes,
    Jenny; abomino-a.

    –E preferes mortificar o pae, que já hoje se queixou das tuas faltas,
    quando um pequeno sacrificio…

    –Não lhe chames pequeno; mas, grande que seja, estou resolvido a
    fazel-o para te agradar. Ámanhã…

    –Ámanhã!–disse Jenny, encolhendo os hombros.

    –Pois então? queres que já hoje?…

    –E porque não?

    –Mas vê que já é tarde…

    –Mais tarde será se te demorares.

    Carlos emmudeceu.

    –E ao mesmo tempo–proseguiu Jenny–aproveitaria a occasião de mandar
    saber d'aquella pobre viuva ingleza, que ha já tantos dias não apparece.
    Não tenho querido que lá vá nenhum criado, porque, por mais que lhes
    recommende, todos gostam de a aperrear, e ella, coitada, afflige-se
    tanto… Se tu fosses hoje ao escriptorio, ficava-te em caminho…

    Jenny sabia que qualquer acção generosa servia a Carlos de estimulo para
    realisar sacrificios: por isso lhe lembrou esta visita de caridade a uma
    das muitas pobres, que a familia Whitestone soccorria. Não se enganou a
    previdencia da irmã.

    –Está dito–disse Carlos com modo resoluto.–Vou hoje … trabalhar.
    Mal sabe Manoel Quentino, que é o grande motor d'aquella machina
    commercial, o que lhe está imminente. O homem dá ao demo o meu auxilio;
    mas que t'o agradeça, Jenny. Manda-me o José para me ajudar a vestir;
    inda hoje me não deu o gosto de o ver, o mariola.

    –Ai, o José?–disse Jenny, pousando a mão no hombro do irmão–Olha,
    Charles, o pobre rapaz tem a mãe tão doente, que eu tive pena d'elle e
    mandei-o…

    –Basta, basta; fizeste bem. Eu não me lembrava d'isso, senão…
    Passaremos sem o José, e não passaremos mal.

    Jenny abraçou o irmão, e saiu contente da sala.

    Em consequencia d'este dialogo, Carlos appareceu na Praça Commercial
    pelas duas horas da tarde.

    VIII

    NA PRAÇA

    Havia grande actividade na larga rua chamada dos Inglezes, á hora a que
    o filho de Mr. Richard Whitestone alli chegou.

    A vida commercial estava então no seu auge; numerosos grupos occupavam
    os passeios, o centro da rua e os portaes das velhas casas, que de um e
    de outro lado limitam. Presta-se a curioso estudo o aspecto da Praça em
    occasião assim.

    Nas posturas, no ademan e em varias outras exterioridades dos
    differentes individuos, que compõem estes grupos, póde-se encontrar
    indicios da posição commercial, que elles occupam.

    Vêem-se homens de aspecto grave, de movimentos pausados, de palavras
    medidas e espremidas, escutados, aqui e além, por um auditorio attento,
    mudo, boquiaberto, cujas cabeças, balançando-se, como as dos bonecos de
    porcelana, commentam com movimentos de approvação as palavras d'estes
    oraculos;–são directores de bancos, ou de companhias commerciaes de
    outra qualquer natureza, bem ou mal reputados as primeiras capacidades
    da Praça; os accionistas, sempre inquietos pelo seu futuro dos capitaes,
    meditam cada palavra d'elles, como as de uma mensagem de Napoleão III,
    na abertura do parlamento francez.

    Mais longe, passeiam, com ar de quem está confiado em si, outros que não
    escutam os primeiros, mas que os saudam com fraternal familiaridade. Não
    teem tão numeroso cortejo a rodeial-os, porém são igualmente
    cumprimentados por todas as cabeças da Praça; chamam aos labios das
    pessoas, a quem se dirigem, um sorriso de affabilidade, e obrigam-lhes o
    tronco á inclinação expressiva de acatamento, pouco differente da
    eloquencia persuasiva, a qual, segundo um escriptor humorista, é
    representada por o angulo de 85º 1/2 com o horizonte.–São estes os
    negociantes, que não administram capitaes alheios, mas que dispõem de
    grandes capitaes proprios; de quem menos directamente depende portanto a
    numerosa turba dos pequenos capitalistas, mas cujos destinos influem,
    mais ou menos, sobre os de toda a Praça. Além d'isso teem a fazel-os
    valer o prestigio da riqueza, prestigio que se impõe até aos que nada
    esperam d'ella.

    Observa-se ás vezes um espectaculo, á primeira vista de difficil
    interpretação. Um homem, humildemente vestido, de aspecto triste, de
    cabeça baixa e barbas crescidas, é escutado com anciedade na roda dos
    mais esplendidos membros do corpo commercial; todos parecem esforçar-se
    por não perder a menor palavra das poucas e sumidas, que o tal homem
    pronuncia. De vez em quando, elle murmura não sei que phrase e limpa ou
    faz que limpa uma lagrima, e os outros levantam as mãos ao céo, cruzam
    os braços, encolhem os hombros, coçam a cabeça, dão uma volta, como a
    distrahir mágoas, e tornam a acercar-se d'elle, como se fosse o centro
    de attracção d'aquelles elementos dispersos; e toda a scena se produz de
    novo. Que quer dizer isto?–É um negociante fallido de pouco e rodeiado
    de credores, a quem, na sua humiliação, domina e que, de quando em
    quando apavora, calculando com voz dolente o diminuto dividendo que lhes
    concederá. Não ha posição social, situação na vida, por mais abjecta e
    precaria que pareça, que não tenha a sua aristocracia. Os ladrões teem
    os monarchas conquistadores; os homicidas, os duellistas e guerreiros; a
    pobre, a opprimida, a miseravel classe dos devedores, tem os grandes
    negociantes fallidos.

    O olhar exercitado em estudar a physiologia da praça talvez possa
    distinguir do negociante, cujos pagamentos ainda em época alguma foram
    suspensos, aquelles, cujas remotas _fracturas_ teem sido miraculosamente
    _consolidadas_ pelos dotes das esposas. Mas a segurança e franqueza de
    maneiras é tão igual nas duas especies, que á nossa analyse não é
    possivel a discriminação.

    A contrastar com todos estes, vê-se uma turba, igualmente numerosa,
    agitar-se na Praça, sempre a passo rapido, rapazes pela maior parte com
    papeis, saccas ou amostras na mão; sáem de um portal para entrar em
    outro; descem a calçada do Terreiro em direcção á alfandega, ao caes ou
    a bordo de algum navio mercante; consultam os individuos dos grupos, que
    já mencionamos, ou aguardam pacientes que elles os descubram e
    interroguem; dirigem-se-lhes então, tirando o chapéo–attenção nem
    sempre retribuida–; são estes os segundos caixeiros, os chamados «de
    fóra», os praticantes de escriptorio, os cobradores, e ainda os
    despachantes; aquelles, emfim, sobre quem mais pesada se exerce a carga
    da vida do commercio e que menos proventos auferem d'ella. Distinguem-se
    pelo grau de velocidade dos passos; a dos despachantes chega a ser
    incommoda de ver-se.

    É digna de nota tambem a posição que tomam mais ordinariamente os dois
    interlocutores dos curtos dialogos, que a cada momento se travam no meio
    da rua, entre os representantes das diversas hierarchias sociaes, que se
    dizem–caixeiro e patrão–. O caixeiro está perfilado, com a mão na aba
    do chapéo e os olhos fitos nos labios do negociante; este responde-lhe,
    olhando para o lado e, ás vezes, sorrindo até para um collega, que de
    longe falla por acênos–distracção perigosa para a clareza da ordem
    dada, mas cujas consequencias são attribuidas depois a quem a recebeu;
    os patrões mais accessiveis levam a sua bondade a ponto de puxarem por o
    botão do casaco, ou de desapertarem o do collete do subordinado,
    emquante lhe dão instrucções. Quando o caixeiro expõe o resultado da
    commissão que executou, é-lhe permittido o accionado, mórmente se, na
    execução d'ella, houve a vencer a renitencia de algum devedor emerito,
    circumstancia, na qual póde até tentar um epigramma, com a certeza de
    que agradará. Porém quando são mais modestos os ares do caixeiro e mais
    impertinentes os do patrão, é quando o segundo está sendo convencido por
    o outro de um erro, que repugna ao seu amor-proprio confessar.

    Ha ainda outra classe, tambem inquieta, apressada, incansavel, porém
    muito longe das disposições para a reverencia d'esta ultima, em que
    fallamos. Ha nas suas cortezias rasgadas alguma cousa de artificial, que
    não illude ninguem, e ás vezes a menos ceremoniatica familiaridade
    substitue até essas apparencias de respeito. São espantosos de
    tenacidade a perseguirem em certos casos o commerciante, que em vão
    tenta fugir-lhes; passam-lhe da esquerda para a direita, da direita para
    a esquerda; atravessam-se-lhe no caminho; entram com elle nos portaes,
    sobem com elle as escadas, invadem-lhe o ádito dos escriptorios,
    transpõem a barreira dos mostradores, encostam-se sem ceremonia ás
    escrivaninhas, batem-lhe amigavelmente nos hombros, collocam-lhe diante
    dos olhos garrafas, vidros, massos de fazenda, tabellas de preços,
    amostras de todos os generos commerciaveis, de que andam constantemente
    munidos e a custo se resolvem a soltar das mãos a victima, que chegaram
    a atacar.–São estes os corretores e agentes de casas estrangeiras.

    A classe dos primeiros guarda-livros é a porção aristocratica d'esta
    _bureaucracia_ ou escriptoriocracia commercial. Mostra-se principalmente
    á janella dos primeiros andares, onde vem, de vez em quando, descansar
    das fadigas de uma escripturação. De ordinario, conservam a penna entre
    os dedos, como para significar que é momentanea a pausa–o que nem
    sempre succede. Mais necessarios, e porisso mais apreciados e
    attendidos, gosam já de certas franquias e privilegios entre os da sua
    classe. É-lhes concedido fallarem da janella para a rua com algum
    collega ou amigo que passa; a alguns até se permitte fumar na varanda um
    charuto, e ausentarem-se algum tempo do escriptorio sem prévia
    requisição; na rua, saudam mais desassombrados os patrões e são menos
    distrahidamente correspondidos por estes.

    Acrescente-se agora a progenie ociosa dos grandes
    capitalistas–commerciantes honorarios, cuja vida commercial se reduz,
    como a de Carlos, a passeiar na Praça até ás quatro horas da tarde; o
    brazileiro retirado, distrahindo-se a presenciar, como espectador, o
    labutar do negocio, á maneira da maritimo velho que se senta á beira-mar
    a olhar para as ondas, de que vive arredado já; acrescente-se ainda o
    empregado da alfandega, fumando o cigarro, nas frequentes entreabertas
    de descanso de suas laboriosas manhãs; os carrejões em disponibilidade,
    estacionados a cada esquina; os moços de escriptorio encostados ás
    ombreiras das portas: os meninos dos directores de companhias, confiados
    á vigilancia de algum empregado subalterno; isto tudo composto de
    inglezes ruivos, de allemães louros, de brazileiros escuros, de
    portuguezes de todas as côres, e ter-se-ha imaginado o aspecto da Praça
    commercial do Porto, á hora em que Carlos Whitestone a atravessou.

    Carlos passava pelos differentes grupos alli reunidos como por entre
    gente, que toda lhe era igualmente familiar.

    Como sempre, e como em toda a parte, não se constrangia alli tambem.

    O genio que tinha não lhe consentia etiquetas; a sua posição social não
    deixava que ninguem lhe estranhasse as familiaridades.

    Enfiava o braço no de um dos mais sisudos commerciantes, a quem tratava
    pelo nome de baptismo; de repente, deixava-o, para accender o charuto no
    cigarro de um segundo caixeiro de escriptorio, que o estava saboreando
    ás occultas, e alli mesmo pactuava com este qualquer partida de caça.
    Aproximava-se do grupo de capitalistas e barões, que discutiam
    acaloradamente o relatório de uma companhia, e cêdo, com suas reflexões
    e commentarios, fazia degenerar a conversa para assumpto mais frivolo e
    jovial; abandonava-os, e ia abraçar alguns rapazes, tão laboriosos como
    elle, que fallavam dos bailes da vespera ou abriam a bôca de enfadados;
    d'alli dirigia-se a cumprimentar um inglez esgalgado, que passava sobre
    uma hursa, mais esgalgada ainda, e examinava com olhos de conhecedor as
    qualidades physicas do quadrupede e os expedientes da arte do
    cavalleiro; tolhia a passagem do despachante que atravessava a correr a
    Praça e, apesar de tantas pressas, conseguia fazel-o parar a escutal-o:
    chamava pelo nome o gallego da esquina, para que lhe viesse sacudir a
    lama das botas, e, durante esta operação, divertia-se a bater-lhe com o
    chicote na copa do chapéo. Ás vezes ouvia com apparente attenção um
    homem, que lhe vinha fallar de certo negocio pendente do escriptorio
    Whitestone, mas, se a exposição se demorava, o seu interlocutor, quando
    menos o esperasse, achava-se só, porque Carlos fora, sem ceremonia,
    conversar com o guarda-livros, seu amigo, que avistára na janella de um
    primeiro andar. Tão depressa entrava em um dialogo com o mendigo que lhe
    pedia esmola, como com qualquer rapariga, cujas graças o attrahissem.

    N'este genero de occupações se demorou Carlos Whitestone na Praça
    aquelle dia, procurando ser visto pelo pae,–unico fim que tinha na
    ideia.

    Mr. Richard estava porém na Assembleia Ingleza ou Feitoria, da qual era
    assiduo frequentador.

    Um dos muitos grupos, de que Carlos Whitestone se aproximou, compunha-se
    das mais graduadas individualidades da praça.

    Carlos passou o braço por cima do hombro de um barão, enfiou o outro no
    de um capitalista brazileiro, e cumprimentou familiarmente um velho
    inglez, que estava na companhia tambem.

    –O que não ha em toda a Europa é uma Bolsa assim como a do Porto–dizia
    um commerciante bem intencionado, em quem se encarnára a balda, muito
    portugueza, de pendurar no pinaculo da perfeição alguma cousa boa, que
    temos ainda por cá.

    O inglez estremeceu de pasmo.

    –_What!!_–A exclamação saiu-lhe ingleza na violencia da explosão–Na
    Europa! Que diz, senhor? Vocemecê já viajou?

    –Nada, não, senhor; ainda não saí do Porto; mas dizem entendedores…

    –Ora então… então… A Bolsa de Londres… o Royal Exchange… não
    vamos mais longe… o Royal Exchange, o moderno; porque o primeiro Royal
    Exchange foi do tempo da rainha Elisabeth, construido por um architecto
    chamado Gresham, em 1500 e tantos; ardeu em 1667. Dois annos depois
    levantou-se o segundo; este foi construido por Jerman; ainda me lembra
    bem d'elle; ardeu em 1838. Estava eu em Londres. Em 1842 lançou-se a
    primeira pedra de novo, que foi segundo o plano de Tite, e dentro em
    tres annos estava completo.

    –E esse quando ardeu?–perguntou Carlos.

    O inglez sorriu, sem responder á pergunta, e preparava-se para entrar em
    circumstanciada descripção da planta baixa e alta do edificio.

    Carlos interrompeu-o outra vez:

    –O que estou vendo, Mr. Lyons, é que ha em Londres uma terrivel
    disposição para _arderem as bolsas_.

    O barão e o brazileiro acharam extraordinaria graça ao dito de Carlos, e
    batendo-lhe no hombro e chamando-lhe «maganão, patusco, cabeça de
    vento», e outras injurias assim amaveis, não quizeram mais saber do que
    lhe dizia o inglez, o qual se viu constrangido e engulir o resto da
    noticia historica e architectonica.

    –Mas, senhores!–dizia em outro grupo, para o qual Carlos se dirigiu, o
    meticuloso possuidor de umas cinco acções de certa companhia, a um dos
    directores da mesma–Eu não vejo as cousas bem figuradas. Para que hei
    de estar a dizer o contrario? Negocios com o governo nunca me agradaram.
    O governo! Quem é o governo? O governo a final não é pessoa que se
    penhore; porisso voto que…

    –Mas repare,–dizia o director com exemplar paciencia–repare que as
    garantias offerecidas são das mais seguras; o governo compromette-se…

    –E adeus, minhas encommendas!–tornou o outro–Ora que é scisma! Mas
    quem é o governo? Eu não sei quem é o governo! Uns valdevinos, que hoje
    são tudo e ámanhã são nada… Faz-se o contracto com uns e ámanhã
    respondem por elle caras novas. Não me entendo com isso. Muito bonitas
    fallas, sim, senhores; mas como não respondem por o que é seu… E os
    nossos capitaes…

    Estes capitaes eram cem mil réis por junto.

    O director pedia resignação a Deus, para não romper com o obstinado.

    Carlos representou aqui de enviado celeste. Tomou o braço do accionista
    dissidente, e, sem lhe attender aos esforços, afastou-o para o passeio,
    dizendo-lhe a meia voz:

    –O senhor já sabe do que se trata hoje na Praça? Vae organisar-se uma
    companhia monstro.

    –Pois sim, sim; mas deixe-me, que tenho que discutir alli com o
    senhor…

    –Ouça–insistia Carlos–é negocio dos accionistas ganharem quarenta por
    cento, avaliando muito por baixo.

    O homem, que era de ingenuidade proverbial entre os collegas, olhou para
    Carlos com gesto entre desconfiado e inquiridor.

    Depois a phrase «quarenta por cento» era de uma sonoridade!

    A physionomia de Carlos tomára uma expressão de sisudez irreprehensivel.

    –Pois sim, mas… eu agora…–dizia ainda o homem.

    Carlos insistiu:

    –Olhe que lhe fallo serio. É uma companhia de capitalistas inglezes,
    que se vae metter n'isso. Meu pae está encarregado do trabalho da
    instituição. É porisso que eu…

    –Mas que é a final?–perguntou o sujeito com curiosidade.

    –Demais espera-se que o governo conceda um subsidio…

    O homem teve vontade de perguntar quem era o governo, mas resistiu á
    tentação d'esta vez.

    –Mas qual é o fim?–perguntou em vez d'isso.

    –E o commercio do Porto vae resentir-se vantajosamente d'este
    commettimento–continuava Carlos, devéras embaraçado em organisar a tal
    companhia.

    –Mas o fim da empreza? … o fim?–bradava já o outro.

    –O fim? Um grande fim… uma nova via de trafego commercial entre a
    cidade alta e a baixa.

    –Como? Alguma rua…

    –Não, senhor; aproveita-se uma riqueza ainda inexplorada, que ha no
    seio da cidade.

    Um enxame de ideias extravagantes esvoaçaram na imaginação do
    accionista, que já com ardente curiosidade perguntou:

    –Mas… que é? como?

    –Nada menos do que tornar navegavel o rio da Villa.

    O accionista dissidente olhou ainda alguns instantes para Carlos; mas
    cêdo depois voltou-lhe as costas _desapontado_ e procurou o director,
    que estivera interpellando; este porém aproveitára o ensejo e
    desapparecera, esquivando-se a resolver o difficil problema que o outro
    lhe apontára ao peito–Quem era o governo?

    O leitor, que é do Porto, permitta-me que eu explique aos que o não são,
    que este nome pomposo de rio da Villa é dado a um pequeno riacho de
    aguas menos limpas que se despenha por uns sitios escusos e não mais
    asseiados do que ellas, até desaguar furtivamente e como envergonhado,
    no Douro.

    O primeiro individuo de quem, depois d'este, Carlos se avizinhou, era
    uma potencia commercial, que ouvia amavelmente o pedido que lhe fazia um
    collega, para elle pedir a outro, para este pedir a terceiro e este
    terceiro pedir ao ministro para o ministro empregar na alfandega o filho
    do cunhado do primeiro que pedia. Esta complicação enredada de
    pedidos–da qual inevitavelmente se havia de resentir o periodo, como
    resentiu–parecia clarissima para o que estava sendo exorado, pois, sem
    pedir explicações, e como homem que logo á primeira vista entrou no
    ámago da questão, não fazia senão prometter applicar todo o seu
    valimento e ser até importuno para servir o amigo.

    Carlos chegou no meio d'essas promessas cordialissimas. É preciso que se
    diga que Carlos sabia, por acaso, que este capitalista havia recebido,
    aquella mesma manhã, uma carta de Lisboa, assegurando-lhe que fora
    provido, no logar disputado, um parente seu. Esta circumstancia fez com
    que o pouco dissimulado irmão de Jenny ficasse verdadeiramente abysmado
    diante da impavidez, com que o negociante illudia o amigo. Obedecendo á
    franqueza pouco de sociedade, que dissemos ser um dos elementos do
    caracter d'elle, Carlos não pôde emfim reprimir-se, que não dissesse:

    –Mas, senhor F., olhe o que promette; esqueceu-se de que o seu parente
    C. foi, hontem mesmo, despachado para esse logar?

    Seguiu-se uma careta entre os dois interlocutores, que trocaram algumas
    phrases, em taes casos forçosamente tolas; fartos emfim de mastigar
    orações sem nexo, separaram-se friamente.

    O capitalista ralhou muito com Carlos; porém Carlos ainda ralhou mais
    com elle pela sua pouca lisura.

    E o certo é que ficaram amigos. Ha nos caracteres francos e generosos
    como o de Carlos, o que quer que seja que dissipa resentimentos ainda
    aos mais reservados e egoistas.

    Resolveu finalmente o irmão de Jenny entrar no escriptorio.

    Ao dirigir-se para lá, viu que lhe vinha ao encontro um homem gordo,
    baixo e córado, que já de longe lhe estava fazendo cortezias.

    Parou a escutal-o.

    –V. s.ª passou bem?–disse o recem-chegado.

    Carlos correspondeu ao cumprimento.

    –Ora eu–continuou o homem–já ha pouco fui ao escriptorio de v. s.ª;
    mas nem v. s.ª nem o senhor seu pae lá estavam. Eu não sei se v. s.ª me
    conhece.

    –Não, senhor–disse Carlos, entretido a olhar para o laço da gravata do
    seu interlocutor.

    –Eu sou o Anastacio Rebello, que fiz aquelle carregamento de laranjas o
    anno passado…

    Carlos fez distrahidamente um gesto affirmativo, e passou a examinar o
    botão de peito do snr. Anastacio Rebello.

    –Ora v. s.ª–proseguiu este–ha de estar certo de que ha dois mezes…
    um meu correspondente de Braga me pediu… Eu não sei se o pae de v. s.ª
    lhe disse… Talvez não dissesse…

    –Talvez não–disse Carlos, sem o attender…

    –Pois o negocio é simples: este meu correspondente… que é também meu
    compadre… isto é, eu é que sou padrinho do filho d'elle, uma creança
    de treze annos, que esteve ha mezes em minha casa, a banhos na Foz, por
    causa de uns humores frios que…

    Carlos assobiava já.

    –Mas agora quer este meu compadre… Olhe; aqui está a carta que elle
    me escreveu;–proseguiu o homem, procurando-a no casaco–eu julgo que a
    trago commigo… Por ella fará ideia.

    E principiou a tirar papeis sobre papeis, cartas, escriptos, ordens,
    letras, contas, recibos… dizendo, ao passo que examinava cada qual por
    sua vez:

    –Não… isto é outra cousa… é a ordem para me pagarem uns cincoenta e
    tantos mil réis… E já não veem sem tempo… Mas onde diabo puz eu a
    carta?… Não é isto… Isto é o escripto de arrendamento da minha casa
    do Forno Velho… Isto é… Que S. Pedro é isto?… Ah! a carta do
    Maranhão… isto … isto é uma encommenda que me fazem de Bragança…
    V. s.ª não me sabe dizer onde se vende… a estampa da guerra da
    Crimeia?

    –Eu não, senhor–disse Carlos, dando dois passos para o escriptorio.

    –Encommendaram-m'a e eu…–continuava o homem, seguindo-o–Ah! achei;
    cá está a carta!–exclamou, segurando Carlos pela manga do casaco–Ora
    quer ler?

    –Eu não, senhor–respondeu este, tentando evadir-se.

    –«Prezado amigo e compadre–principiou o homem a ler.–«Recebi a sua de
    13 e agradeço-lhe as recommendações, que me manda. A comadre…–é a
    mulher d'elle–recommenda-se á snr.ª D. Maria do Carmo–é a minha
    mulher…–e o Juca…–é o tal meu afilhado…–manda muitos beijos ao
    padrinho…

    –Que é o senhor–disse Carlos, já impaciente com a massada.

    –Justamente–respondeu o homem, sorrindo á perspicacia de Carlos.

    –Pois sim, mas eu agora não posso demorar-me–acrescentou Carlos,
    fazendo outra tentativa para fugir.

    –Isto tambem não interessa…–concordou o homem–aqui mais abaixo é
    que… tal, tal, tal… sim, senhores…–«A festa do Bom Jesus este
    anno promette ser feita com espavento e eu espero que
    vocemecê…»–Elles querem que eu…

    –Com licença, que estou com pressa.

    –Sim; isto tambem não faz ao caso. É aqui abaixo…–«A camara
    municipal foi reeleita, como sabe; a gente da opposição levou uma
    derrota que…»

    Carlos já não podia mais.

    –Ora, meu caro senhor, que tenho eu com isso? Faz favor de me dizer?

    –Tem v. s.ª razão… É que eu julgava… Tal, tal, tal–«O seguro não
    quer pagar os prejuizos do incendio da minha casa da rua do
    Souto…»–Olhe que tambem isto de seguros…

    –Adeus–disse Carlos, rompendo de todo com o snr. Anastacio Rebello.

    –Ah! é aqui; agora sim–exclamou este triumphantemente–Cá
    está…–Aquella encommenda que eu fiz para Inglaterra…

    Justamente quando o snr. Anastacio chegava ao ponto desejado, através
    d'aquelle mar, cheio de baixios, da carta do seu correspondente, Carlos
    vendo uma galante costureira, que a passos apressados atravessava a rua,
    deixou-o sem ceremonia para se dirigir a ella.

    –Adeus, minha flor.

    A rapariga respondeu-lhe:

    –Ninguem o conheceu hontem no baile.

    –Então esteve lá?

    E proseguiu o dialogo, mesmo em presença de toda a sisuda classe
    commercial, que ao filho de Richard Whitestone tudo desculpava.

    Anastacio Rebello dobrou a carta do compadre, e afastou-se escandalisado
    com o que via.

    Outros rapazes aproximaram-se. A rapariga fugiu.

    Carlos, depois de alguns instantes tomados por occupações analogas ás
    que descrevemos, caminhou emfim para o escriptorio.

    Era assim que elle tratava negocios na Praça Commercial; vejamos no
    escriptorio.

    IX

    NO ESCRIPTORIO

    Na velha sala de paredes cinzentas e de soalho carcomido pelo caruncho,
    onde Mr. Richard Whitestone tinha o escriptorio, havia vinte annos que
    escrevia, addicionava, subtrahia, multiplicava, e dividia algarismos, e
    isto tudo resmoneando, cantarolando e tossindo, o snr. Manoel Quentino,
    personagem da idade do seu seculo, primeiro guarda-livros da casa, e
    homem de habitos de vida, tão beneficiadores da saude do corpo, como
    mantenedores da serenidade do espirito.

    Manoel Quentino era a alma d'aquelle recinto. Na confusão de papeis, com
    que lidava, taes como:–correspondencias, facturas, contas correntes,
    contas de venda, conhecimentos, primeiras, segundas e terceiras vias de
    letras, minutas de seguros, recibos e mais documentos commerciaes, elle
    só, habituado desde muitos annos áquillo, podia descobrir uma disposição
    ordenada.

    D'isto mesmo se gabava; o que não se devia taxar de presumpção da sua
    parte.

    Pedissem-lhe de repente a mais insignificante carta, que elle, sem
    hesitar, iria dar com ella. Era porém seu o segredo d'esta singular
    classificação, que dera ás cousas; para o proprio Mr. Richard,
    antolhava-se um dédalo o escriptorio, dédalo onde, ao querer
    orientar-se, não dispensava nunca o fio conductor das explicações do
    guarda-livros.

    Homem de habitos regulares, a mais não poder ser, invariavelmente ao
    soarem as sete horas da manhã no verão, e as oito, no inverno, estava
    Manoel Quentino movendo a chave na porta do escriptorio; e meia hora
    depois, sentado já á banca, todo entregue ao trabalho da escripta. Ás
    tres da tarde, no inverno, e ás quatro, no verão, movia segunda vez a
    chave, mas em sentido contrario; exceptuando uma ou outra occasião
    extraordinaria, em que a affluencia de serviço o obrigava a serões.

    Não era Manoel Quentino d'estes guarda-livros de mão rapida, e de
    prompto expediente, que n'um momento dão solução a muitos negocios
    juntos. Elle tudo queria feito com tempo, e, como a cada momento dizia:
    «para pressas é que não era»; graças, porém, á paciencia e á
    regularidade de trabalho, que não perdia nunca, insensivelmente o
    serviço adiantava-se-lhe nas mãos e difficil seria acharem-o atrazado
    alguma vez.

    Observava pontualmente o judicioso preceito: _festina lente_, e
    comprovava, com o exemplo, a efficacia d'elle.

    Queria Manoel Quentino immensamente áquelle escriptorio, tal qual se
    achava, assim mesmo desataviado e nú. Por vezes, Mr. Richard, e
    principalmente Carlos, haviam procurado realisar n'elle certos
    melhoramentos, que o fizessem mais commodo; tiveram porém de recuar
    diante das repugnancias do velho guarda-livros, que declarou affligir-se
    devéras com isso; e, como era elle a parte mais interessada no caso,
    visto que alli passava grande parte da vida, foi-lhe facil vencer.

    Em resultado d'isso, continuava a deliciar-se com aquellas quatro
    paredes escuras, com o tecto de castanho apainelado, que o tempo
    ennegrecera, com o chão aspero e picado pelos insectos, com as janellas
    de construcção antiga, de pequenos caixilhos, e abundantes em fechos,
    aldrabas e postigos, com a porta de fortaleza, cujos gonzos perros
    tinham um chiar, que era para Manoel Quentino como o timbre de uma voz
    de amigo, agradavel ainda quanto pouco harmoniosa, com as escrivaninhas,
    os mochos, os cabides, o lavatorio e toda a mobilia emfim, feita segundo
    os velhos modelos dos escriptorios antigos.

    Eram aquellas as testimunhas do encanecimento dos seus cabellos; como
    taes as amava.

    Além de Manoel Quentino, compunha-se o pessoal do escriptorio de dois
    segundos caixeiros e um rapaz de serviço, a todos os quaes o
    guarda-livros accusava constantemente de mandriões e ao mesmo tempo
    quasi os impedia de trabalhar, pela excessiva disposição que tinha para
    fazer tudo por suas mãos.

    Momentos antes de Carlos chegar, Manoel Quentino havia dado aos
    escripturarios duas cartas insignificantes a copiar e entregára-se elle,
    com todos os seus cinco sentidos, á redacção da correspondencia para
    Londres.

    Dos escripturarios, um, tendo terminado a sua facil tarefa,
    aproveitou-se da distracção de Manoel Quentino, tirou ás escondidas da
    escrivaninha um romance de Paulo de Kock e pôz-se a lel-o, com a sôfrega
    curiosidade dos dezesete annos; o outro occupou o tempo a escrever uma
    carta de amores á dama dos seus pensamentos, carta em que, por
    incidente, foram inclusas algumas allusões epigrammaticas ao
    guarda-livros, a quem entre outras cousas se chamava «Argos
    desapiedado»; o rapaz de serviço, deixado tambem em disponibilidade,
    entretinha-se a perseguir as moscas da vidraça ou a traçar com o dedo
    lettras maiusculas nos vidros, que humedecia com o bafo. Qualquer
    d'estas tres occupações, sendo pouco ruidosa, mantinha-se no escriptorio
    um silencio, que agradava a Manoel Quentino.

    Elle era o unico a interrompel-o, graças ao singular monologo, que
    estava de contínuo murmurando á penna com que escrevia.

    Dava-se effectivamente em Manoel Quentino uma illusão singular.

    Á força de lidar com a penna, á força de tão indissoluvelmente a ver
    associada ao seu destino, o velho guarda-livros acabára por julgal-a
    quasi dotada de certa intelligencia e fallava-lhe, animando-a,
    reprehendendo-a, sopeando-lhe os impetos, como a caprichoso corcel que
    se pretende guiar.

    –Anda, anda,–dizia elle–que ronceira que estás hoje! Olha que não
    temos esse tempo, que julgas… Então?… Que é isso agora?… Pois já
    queres mais tinta? Depressa gastaste a que bebeste! Vá, avia-te…
    Bonito R! Isso não esperava eu de ti!… Adeus! Agora mais este
    cabello!… E sujas-me todo!… Trapalhona!… Ai, que impertinente que
    estás!… Adiante! adiante! adiante!… Espera, espera… Lá te esqueceu
    um D!… E agora?… Agora vê se te mexes entre essas duas lettras…
    Assim… Ah! … não toques nos SS … assim… Bem… Continúa, mas com
    tento… Então! Não querem ver que páras outra vez? Ora isto é
    demais!… Deixa estar que… Oh!

    Era um borrão, que lhe caía no meio da pagina e lhe inutilisava a
    correspondencia quasi no seu termo.

    «Trai la rai, la rai, larai lai
    Trai, larai, larai, larão, lão
    Trai larai lai, larai larai lai,
    Trai lari, lari, lari, larão lão.
    Trai lari, lari, lari, larão lão.»

    Isto era a trautear o hymno da Carta, cousa que elle fazia sempre
    n'estas occasiões criticas. E sem mais alguma observação pôz a folha
    suja de lado, preparou outra e encetou nova correspondencia, não sem
    primeiro substituir a penna, dizendo-lhe ao deixal-a:

    –Descansa. Hoje não estás nos teus dias. Vem cá tu–dizia para
    outra.–Vê lá como te portas!

    E, olhando fixo para ella:

    –Umh! Não tens lá muito boa cara! não… Ora vamos a ver… Vá,
    despacha-te, que tenho mais que fazer!… Abre os bicos… abre…
    Assim… bem! Sim, senhora!… Bravo… Ninguem havia de dizer que tu…
    Caspite!…

    E com estas palavras de animação ia applaudindo o bom serviço da penna e
    quasi lhe parecia vel-a trabalhar com mais ardor, assim estimulada.

    Foi n'este momento que um valente encontrão abriu a porta do
    escriptorio, e o _terra-nova_, precedendo Carlos Whitestone, invadiu o
    até alli silencioso e tranquillo recinto, principiando logo por entornar
    a infusa com agua, collocada a um dos cantos da sala.

    Manoel Quentino, que estremecera com a subita apparição do quadrupede,
    ao ver o estrago que a sua impetuosidade produzira, pôz-se a olhar
    silencioso para elle e em seguida para a porta, como se contasse com
    mais alguma invasão, não menos revolucionaria do que esta.

    Effectivamente Carlos não se fez esperar.

    –_Good Morning_, Mr. Manoel Quentino!–bradou Carlos do limiar, fazendo
    para o guarda-livros uma reverencia muito rasgada.

    –_Good Morning_, Mr. Charles–respondeu Manoel Quentino, encolhendo os
    hombros e dando ás feições um ar de paciente resignação, uma especie de
    bondoso mau humor.

    Cumpre advertir aqui que Manoel Quentino fallava o inglez, graças á sua
    longa convivencia com os _Her Majesty's subjects_ residentes na nossa
    cidade; mas o inglez de Manoel Quentino era, até certo ponto, como o
    portuguez do patrão. Causava especial sensação ouvil-o pronunciar todas
    as palavras inglezas n'um tom, inflexão e maneiras, do cunho mais
    genuinamente portuguez. Podia dizer-se que Manoel Quentino fallava
    portuguez em inglez.

    –Ditosos olhos que o vêem!–disse elle a Carlos; e depois para o rapaz
    do escriptorio:–Olha aquella agua que se entornou…–e para Carlos
    outra vez com gesto velhaco:–Então esteve doente?

    –Eu? Tenho gosado a mais florescente saude do mundo–respondeu Carlos.

    –Como não tem apparecido!–Anda, avia-te rapaz!

    –Tenho-lhe talvez feito aqui muita falta?

    –Umh!–resmungou Manoel Quentino.

    Os caixeiros, que com a entrada de Carlos haviam escondido, um o
    romance, outro o modelo epistolar, sorriram entre-olhando-se.

    –E você como tem passado por aqui sem mim, minha flor?–perguntou
    Carlos, mexendo-lhe nos papeis–Cada vez mais bonito, cada vez mais
    contente.

    –Adeus, adeus. Não bula ahi, homem! Que é o que quer? que é o que quer?

    –Lumes. Não ha lumes n'esta casa? que diabo!…

    –Eu logo vi. Não pensa senão em fumar. Espere lá, espere lá. Não me
    desarranje isso. Eu dou-lhe lumes, eu dou. Ora ahi tem. E deixe-me.

    Carlos accendeu um charuto e offereceu outro a cada um dos caixeiros,
    que os afagaram com olhares ávidos, mas sem se atreverem a aceital-os.

    –Fumem–insistia Carlos.

    Manoel Quentino levantou os olhos e fixou-os nos dois rapazes.

    Sob a influencia d'aquelle olhar, hesitaram ainda.

    Carlos obrigou-os porém a aceitar, offereceu-lhes lume para accenderem,
    e emquanto o faziam, voltou-se para Manoel Quentino, e vendo a cara de
    contrariado com que ficava, aproximou-se d'elle:

    –Que tem você, Manoel Quentino? Deixe fumar os rapazes. Não seja
    fossil.

    –Se o pae vier por ahi, cuida que ha de gostar de… E demais a mais, é
    distrahil-os do serviço…

    –Que serviço? Olhem o grande serviço que elles
    faziam!–Rapaz–acrescentou logo depois, dirigindo-se ao perseguidor das
    moscas da janella–vae á rua de Santo Antonio saber se aquelle meu
    casaco está prompto… e chega de caminho ao theatro de S. João,
    pergunta pelo bilheteiro e dize-lhe que vaes de meu mando tomar seis
    cadeiras para a recita de quinta-feira… entendes? Seis cadeiras;
    depois…

    –E faz favor de me dizer quando é que elle ha de levar a
    correspondencia ao correio?–perguntou com mau humor Manoel Quentino.

    –Eu sei lá d'isso? Anda, vae…

    –Mas…

    –Ora! mande ao correio quem quizer… Avia-te. Salta.

    O rapaz saíu a correr.

    Manoel Quentino encolheu os hombros.

    Carlos dirigiu-se á janella, que abriu de par em par. Uma rajada de
    vento, entrando na sala, fez esvoaçar toda a papelada da banca de Manoel
    Quentino.

    –Lá vae! lá vae! lá vae tudo com os diabos!–exclamou o
    guarda-livros–Adeus, minha vida; estou arranjado!

    Carlos desatou a rir.

    –Isso; ria-se, que tem muita graça! Então os senhores que
    fazem?–perguntou, descarregando as iras sobre os caixeiros–Ponham-se á
    palestra e a fumar, e eu que trabalhe; hein?

    –Deixe estar que eu apanho isso–disse Carlos, continuando a rir.

    E todos quatro principiaram a apanhar os papeis, dispersos por a sala.

    –Vão lá saber agora…–proseguiu Manoel Quentino–vão lá saber agora a
    ordem em que eu tinha tudo isto! Olhem… olhem… Ficou bonita a carta
    do correspondente de Liverpool! Sim, senhores! Olhem para estas contas
    da gerencia da capella ingleza! Tambem ficaram asseiadas! Pois estas
    apolices… E o maldito cão a afocinhar-me na agua aquella minuta!…
    Passa fóra! Eh!… passa fóra, tratante.

    E voltando á escrivaninha pôz-se a coordenar outra vez os papeis.

    –Ó Manoel Quentino–perguntou-lhe Carlos já da janella–quem é aquella
    rapariga que está aqui defronte no terceiro andar? Aquella cara é nova
    para mim.

    –Eu sei lá d'isso, homem? Tomára que me deixassem.

    –Quem é, ó Paulo, você ha de saber. Um rapaz da sua idade…–disse
    Carlos, dirigindo-se familiarmente a um dos caixeiros.

    Era este um rapaz ainda imberbe, pallido, com certo fundo de melancolia,
    transparecendo por debaixo do jovial sorriso, proprio dos seus, ainda
    incompletos, dezoito annos.

    Á pergunta de Carlos, aproximou-se da janella.

    –Não sei–disse depois de ver a pessoa designada–não a conheço. O
    Pires ha de saber.

    Pires era o nome do outro caixeiro, que por sua vez foi chamado.

    E todos tres, em resultado d'esta conferencia, ficaram encostados á
    varanda, praticando em varios assumptos de igual momento.

    Manoel Quentino, que já tinha posto por ordem os papeis, olhava de
    quando em quando para a janella e principiava:

    Trai la rai…

    trauteava o hymno da Carta.

    O vento, depois de prejudicar a papelada do guarda-livros, dirigiu os
    seus furores contra a pituitaria do mesmo; Manoel Quentino começou a
    espirrar.

    –Deus me salve!–dizia elle de cada vez.

    Á quinta não teve mão em si, que não dissesse a Carlos:

    –O' snr. Carlos! Ora a fallar a verdade, homem! Isso sempre é um gosto
    exquisito! Ahi posto á janella com este vento dos diabos! Eu já
    estou…–e espirrava outra vez–já estou constipado.

    –N'esse caso recolho-me–disse Carlos, fechando a janella e vindo
    debruçar-se na escrivaninha de Manoel Quentino, o qual começára de novo
    a correspondencia.

    –Sim, senhor, snr. Manoel Quentino;–dizia Carlos expellindo uma
    baforada de fumo, á qual o velho fez caretas–você será parente de
    Quentino Durward, de que falla o Walter Scott? Você sabe quem era o
    Walter Scott, Manoel Quentino?

    –Eu não, senhor…–respondeu o velho, continuando a escrever.

    –Walter Scott era um romancista. Sabe o que é ser romancista? Diga-me,
    já leu algum romance?

    –Não, senhor, que tenho mais que fazer.

    –Pois deixe estar que lhe hei de emprestar romances para ler…

    –Muito agradecido.

    –O primeiro ha de ser _O Cavalheiro de_…

    Os dois caixeiros fungaram do outro lado da sala.

    –_De Harmental_–concluiu maliciosamente Carlos–e acrescentou:–Não
    sei de que se riem estes senhores.

    –É porque teem a vida muito canceirosa–respondeu Manoel Quentino.

    –Depois hei de emprestar-lhe a _Mademoiselle_…

    O mesmo effeito nos caixeiros.

    –_Mademoiselle de La Seiglière_–delicada concepção de Jules
    Sandeau–concluiu Carlos, olhando-os com gravidade comica.

    –Adeus, já me fez enganar!–exclamou Manoel Quentino–Por sua causa
    escrevi agora–cavalheiro–em vez de–Companhia.

    –Isso emenda-se.

    –Ha de emendar boas cousas.

    –Emenda, sim. Olhe d'esse _a_ faz-se bem um _o_; depois o _m_ fórma-se
    do _v_ e do…

    –O remedio é outro…

    E com exemplar paciencia começou nova carta.

    –Oh! com os diabos! Então vae outra vez principiar?

    –É o que o senhor faz.

    –O caso é que você tem bonita lettra! Invejo-lh'a. Se me ensinasse a
    escrever assim!

    –Não precisa.

    E, para fixar a attenção, ia dizendo em voz alta o que escrevia:

    –Recebi o seu favor de 14 do corrente e em resposta…

    –Não preciso? Preciso tal–proseguiu Carlos–rapariga a quem eu
    escreva…

    –Do nosso ajuste–dizia Manoel Quentino, e fallando para Carlos
    alternadamente:–Elle ahi vem com as raparigas; o que eu lhe queria eram
    os cuidados!…–O preço do genero…

    –Então parece-lhe indigno o assumpto? Ora diga, Manoel Quentino, diga
    se, quando era rapaz, não massava tambem com o tal assumpto os velhos do
    seu tempo.

    –E a competente commissão.–Não que eu, quando era rapaz, já tinha mais
    em que cuidar…–Em vista pois das ordens recebidas…–Cuida que me
    levantava ao meio dia para pensar em moças, e que me deitava lá por
    altas horas, inda por causa d'ellas?

    –Então que fazia você?–insistia Carlos, tomando a penna e desenhando
    uma figura na margem do jornal do dia.

    –Com lucros provaveis…–O que eu fazia bem o sei; ainda me não
    esqueceram as madrugadas dos meus vinte annos…

    –Ah! madrugadas!… Bem entendo!…

    –Para trabalhar, para trabalhar! Está muito enganado, se cuida que
    todos tiveram a sua vida. Bom era isso!–A fallencia da casa Rodrigues
    e…

    –Grande vida a minha!–continuava Carlos–Ha lá nada mais semsabor?
    Veja que precioso tempo perdido n'esta soturna sala.

    E ao dizer isto ia, insensivelmente, sem reparar no que fazia,
    aproximando a penna da borda da carta, que Manoel Quentino escrevia, e
    quasi principiava a desenhar algum ornato n'ella.

    –Oh! oh!–exclamou o velho, arredando-lhe a mão–Que ia fazer? Se lhe
    parece, suje-me agora a carta.

    Carlos ergueu-se rindo e pôz-se a passeiar na sala.

    –O pae inda não veio hoje aqui?

    –Ha que tempos!

    –E não volta?

    –Ha de voltar, se Deus quizer.–É preciso fechar isto mais cêdo
    hoje–continuou Carlos.–Estes senhores precisam de gosar o carnaval.

    –Bom carnaval é o d'este mundo!

    –Que horas são?

    –Duas e vinte minutos–Respondeu Manoel Quentino, sem olhar para o
    relogio e não errando meio minuto.

    –Se meu pae…–principiava a dizer Carlos, mas foi interrompido pelo
    ranger das botas de Mr. Richard, que se ouviu nas escadas.

    Restabeleceu-se a ordem no escriptorio.

    Os caixeiros pozeram-se a escrever, e o proprio Carlos pegou em uma
    folha ingleza e fez que a examinava na secção commercial.

    Manoel Quentino curvou-se ainda mais sobre a banca e moveu com maior
    agilidade a penna sobre o papel paquete, em que estava escrevendo.

    Mr. Richard entrou no escriptorio com o rosto jovial e assobiando uma
    das suas predilectas toadas inglezas; mas, graças ao duro ouvido musical
    de que era dotado o velho _gentleman_, tão transtornada lhe saía ella,
    que o proprio auctor lhe custaria de certo a reconhecel-a.

    O _Butterfly_, com a leveza, que justificava o nome de lepidoptero, que
    lhe tinham posto, atravessou a sala e foi cumprimentar o seu companheiro
    _terra-nova_, o qual, sentado, com a lingua de fóra, o recebeu com
    benevola, mas sisuda, magestade.

    Todos se ergueram á entrada de Mr. Richard, em cujo rosto um olhar,
    exercitado em estudal-o, facilmente descobriria certa expressão de
    contentamento, despertada pela vista do filho, o qual, elle, n'aquelle
    dia, estava bem longe de esperar alli.

    O plano de Jenny sortira bom effeito.

    Mr. Richard dirigiu-se immediatamente ao seu gabinete particular. Carlos
    foi ter com elle, para lhe pedir a benção e ao mesmo tempo aproveitou a
    occasião para lhe agradecer o relogio e para desculpar-se de não ter
    assistido na vespera ao jantar de familia.

    Mr. Richard Whitestone já não tinha cousa alguma no coração contra o
    filho. A vinda d'este ao escriptorio fora bastante para dissipar a menor
    sombra de resentimento.

    –Não teve duvida–repetia elle muitas vezes, interrompendo a longa
    justificação de Carlos–não teve duvida, não teve duvida… Pois… esse
    relogio é de um fabricante muito acreditado, e, segundo o homem affirma
    aos compradores, não fará differença de meio minuto em cinco annos!
    Talvez seja confiança de mais!–acrescentou, rindo com vontade.

    –Ou cegueira paternal–observou Carlos, rindo como elle.

    –Sim, sim, ou isso, cegueira paternal, sim–concordou Mr. Richard,
    rindo cada vez mais e experimentando elle mesmo tambem os effeitos da
    tal cegueira.

    E em seguida destapou duas garrafas de cerveja de Bass, tirou do armario
    uma copiosa provisão de bolacha e, na companhia do filho, celebrou a sua
    terceira refeição d'aquella manhã.

    Passados minutos, voltaram ambos ao escriptorio nas melhores disposições
    d'este mundo.

    Se Jenny os podesse ver então, como exultaria de contentamento!

    Mr. Richard encaminhou-se para a escrivaninha de Manoel Quentino, Carlos
    sentou-se na escrivaninha opposta, e fingiu examinar os livros
    commerciaes.

    Mr. Richard dirigiu varias perguntas ao guarda-livros, sobre alguns
    negocios pendentes, ás quaes Manoel Quentino deu respostas laconicas,
    mas peremptorias.

    O inglez consultou depois algumas cartas, entregou outras ao
    guarda-livros, tomou notas, expediu ordens, examinou a escripturação,
    abriu o copiador e, de repente, voltando as costas a Manoel Quentino e
    dirigindo-se a Carlos:

    –Já leste a carta do nosso correspondente em Londres?–perguntou com
    affabilidade.

    –Ainda não, senhor.

    –Manoel Quentino! Então porque lh'a não mostrou?!–disse o pae,
    voltando-se outra vez para o guarda-livros; e depois acrescentou de novo
    para Carlos:–Ha noticias importantes e que fazem prever a probabilidade
    de ser este um anno de vantajosas transacções, se por acaso…

    –É um homem diligente, Mr. Leeson–notou Carlos, querendo dizer alguma
    cousa, mas com tanta infelicidade, que trocou o nome do correspondente
    de Londres pelo do de Liverpool.

    –Ho!–disse logo Mr. Richard, mortificado–Leeson!… de Londres!
    Repara!… de Londres!?

    Carlos conheceu que tinha sido inconveniente a observação, mas o peior
    era que não sabia corrigil-a, pois que de todo lhe esquecera o nome do
    tal correspondente.

    –Ai, de Londres…–dizia elle embaraçado.–Eu julguei que… sim, de
    Londres; é que me pareceu…

    Mr. Richard esperava ouvir o verdadeiro nome, pronunciado por o filho;
    mas não succedeu assim.

    Manoel Quentino, que tinha bem fundados motivos–motivos, que o leitor
    deve prever quaes fossem–para não julgar de instante necessidade pôr
    Carlos Whitestone ao corrente das noticias commerciaes, abriu comtudo a
    escrivaninha e, procurando a carta em questão, levou-a a Carlos, não
    podendo disfarçar um sorriso, ao qual este correspondeu com ligeiro
    movimento de hombros.

    Carlos, em vez de citar o nome do correspondente, pôz-se portanto a
    examinar a carta.

    –Falle-lhe n'aquelle negocio da aguardente–disse Manoel Quentino quasi
    ao ouvido de Carlos, antes de se retirar outra vez para a banca onde
    escrevia.

    Mr. Richard pozera-se a passeiar na sala, esfregando as mãos, e de
    quando em quando parava junto da vidraça, onde tocava um ligeiro rufo.
    Não estava ainda de todo restabelecido da má impressão que lhe causára o
    haver encontrado o filho tão pouco sciente do nome dos correspondentes
    da casa.

    Carlos ficou a olhar para a carta commercial, mas julgo que nem a lia.
    Estava pensando como havia de aproveitar o conselho, pouco explicito, de
    Manoel Quentino e fallar ao pae no tal problematico negocio da
    aguardente, para elle inteiramente mysterioso.

    Temia, referindo-se-lhe aventuradamente, aggravar as difficuldades da
    sua posição, longe de diminuil-as.

    Manoel Quentino continuava a escrever, lançando para Carlos, ao molhar
    da penna, um sorriso malicioso.

    Este pousou a carta.

    O pae olhava-o obliquamente, como a esperar alguma reflexão.

    Carlos fitou ainda Manoel Quentino, o qual lhe fez um imperceptivel
    signal.

    Carlos aventurou-se:

    –Emquanto ao negocio da aguardente…–disse elle com certa
    hesitação–nada…

    O effeito foi maravilhoso!

    Mr. Whitestone voltou-se com viveza e, sem disfarçar a intima
    satisfação, que lhe causava ver o filho tão bem informado, exclamou:

    –Ah! tambem reparaste? Foi o que logo me deu que entender. Cuidei que
    nem estavas ao facto!

    Carlos, animado com o resultado, proseguiu com mais coragem:

    –Como era negocio de vulto…

    Manoel Quentino fez porém uma carêta, que o levou a corrigir.

    –Isto é… de vulto não digo… mas…

    –Mas que podia bem vir a sel-o para o futuro … é assim–atalhou Mr.
    Richard.

    –Exactamente–concordou o filho.

    Manoel Quentino sorria.

    –Mas já estive a pensar–proseguiu Mr. Richard–talvez influissem
    n'isto as condições do mercado em Londres. Subiria o genero a ponto de
    exceder o maximo indicado nas nossas cartas.

    –Póde ser, mas…–dizia Carlos, olhando para Manoel Quentino, á espera
    de receber inspirações d'alli.

    Este affeiçoou os labios como para pronunciar uma palavra, que a Carlos
    pareceu dever ser «juro». Por isso abalançou-se outra vez a dizer:

    –E tambem o juro…

    Parou, porque devéras não sabia o que devesse dizer do juro, nem se era
    natural imaginar que tivesse subido ou descido.

    Manoel Quentino moveu a cabeça em direcção do tecto, exprimindo
    mimicamente a primeira hypothese.

    –Talvez o juro subisse–concluiu, em vista d'isto, Carlos Whitestone.

    Mr. Richard aproveitou a insinuação do filho, e evidentemente satisfeito
    notou com vivacidade:

    –Effectivamente o juro está muito alto em Londres.

    –Ha muito tempo que o não tivemos tão desfavoravel–apressou-se Carlos
    em dizer, d'esta vez sem hesitar, visto que dava apenas nova fórma á
    mesma ideia.

    –É verdade que não. Creio até que ainda n'estes ultimos dez annos não
    subiu tanto, como agora.

    Carlos percebeu em Manoel Quentino um movimento de desapprovação, que o
    animou a dizer:

    –Isso é que não sei; dez annos será demais, comtudo…

    –Olha que não é demais–insistiu Mr. Richard, devéras admirado das
    informações do filho; e, depois de meditar algum tempo, continuou,
    voltando-se para o guarda-livros:–Em que anno teve logar aquella quebra
    da casa Blackfield de Londres, Manoel Quentino?

    –Em outubro de 1847–respondeu este, sem levantar os olhos da escripta.

    –Em 47?–Ai, então tens razão, tens; 47 a 55… 8… É isso… Porque
    eu lembro-me de que estava então o juro a 8 por cento.

    –E d'essa vez–acrescentou Manoel Quentino–o cambio era-nos mais
    desfavoravel que hoje.

    –É isso, é isso.

    Esta conversa prolongou-se por algum tempo com visivel satisfação de Mr.
    Richard, com bastante difficuldade para Carlos e com superior diplomacia
    do bondoso Manoel Quentino, que estava sendo collaborador de Jenny, na
    obra de pacificação domestica, encetada por ella.

    Ouviram-se emfim tres horas na torre de S. Francisco, e Mr. Richard,
    depois de ultimo exame aos livros e algumas recommendações mais, saíu do
    escriptorio, dando as boas tardes a Manoel Quentino, fazendo a Carlos um
    signal de despedida, menos sêcco do que de ordinario, e, o que mais era,
    afagando na passagem o _terra-nova_, cousa que não praticava, senão em
    occasiões de grande harmonia com o filho.

    Ainda mal se tinha perdido nas escadas o som dos passos de Mr. Richard e
    o dos latidos de contentamento do _Butterfly_, impaciente de liberdade,
    já a carta do correspondente de Londres, descrevendo uma parabola, vinha
    caír na escrivaninha ao lado de Manoel Quentino, e Carlos accendia novo
    charuto e dispunha-se a seguir o exemplo paterno.

    –Até que soou a hora da redempção!–exclamou elle, pondo o chapéo na
    cabeça.

    –Então já se vae embora?–disse Manoel Quentino, maliciosamente.

    –E acha você que não tomei dóse bastante de commercio esta manhã? Isto
    em pleno carnaval? Que impiedade!

    –Eh! eh! eh! E que me diz do tal negocio da aguardente? Então com que,
    está alto o juro, hein? Eh! eh! eh!

    –Vi-me devéras embaraçado com a tal aguardente!

    –Mas saíu-se bem.

    –Agradeço-lhe o auxilio.

    –Quer mandar dizer alguma cousa ao correspondente a tal respeito?

    –Que vá para o diabo! Não me pôde occorrer o arrevezado nome d'esse
    maldito. Como se chama elle?

    –Então não sabe ainda? Woodfall Hope… Uma das primeiras firmas
    commerciaes de Londres; e n'este negocio da aguardente…

    –Não, isso mais devagar, Manoel Quentino–atalhou Carlos–não lhe aturo
    nem mais uma palavra a respeito do tal negocio da aguardente. Boas
    tardes. Adeus, meus senhores. Deixem isso e vão ver as mascaras. Adeus.

    –_Farewell_! Mr. Charles… Eh! eh! eh!…

    Dentro em pouco, ouvia-se o descer apressado de Carlos, e a pancada
    violenta da meia cancella do portal impellida de encontro ao batente.

    O escriptorio voltou ao primeiro silencio. A Praça estava quasi deserta.
    Como era terça-feira de carnaval, terminára mais cêdo a azafama do
    commercio. Os caixeiros bocejavam e o chiar da penna de Manoel Quentino
    augmentavam o effeito somnifero do logar.

    De repente porém foi mais ruidosamente interrompido o silencio por o
    «Trai larai, larai, larai, lai» do guarda-livros.

    O bom homem, revendo o trabalho feito, descobriu omissões e enganos, que
    o obrigavam a refazel-o outra vez; a isto procedeu com exemplarissima
    paciencia.

    Voltou a si todas as culpas.

    –Ora eu devia ter mais juizo. Ainda me deixo distrahir como as
    creanças; merecia palmatoadas.

    Depois, lembrando-se de Carlos:

    –Aquelle traquinas tambem! Valha-me Deus!

    Em seguida para os caixeiros:

    –Os senhores podem ir embora. Vão ás mascaras, vão; e olhem se teem
    juizo e não arruinem a saude. Adeus. Eu ainda fico.

    –Mas se quer que o ajudemos, snr. Manoel Quentino…–disseram elles,
    por deferencia.

    –Eu quero, mas é que me deixem. Vão com Deus.

    Os caixeiros não se fizeram rogar.

    –Agora, juizo–continuou Manoel Quentino, ficando só–juizo, senão só
    chego a casa á noite, e a Cecilia ha de estar com canceira já. Como se
    transtornou hoje tudo! Eu, que contava acabar com isto mais cêdo, pois
    levava o serviço adiantado e vae… Como diabo lhe deu o rapaz para vir
    hoje ao escriptorio?… Bom moço, isso lá é, um coração de pomba… A
    cabeça é que… E n'isto de negocio, então!… Eh! eh! eh!… E o pae a
    imaginar ha pouco… A gente sempre tem cegueiras pelos filhos! Cala-te,
    bôca, que tambem não pódes fallar! Coitados dos paes! E o velho quer-lhe
    devéras… Toda a sua pena é o rapaz não tomar gosto para o commercio.
    Aquillo tambem muda… Verduras! Bom rapaz! bom rapaz! Tem a quem saír.
    O pae, um homem de bem ás direitas… a mãe era uma santa senhora…
    Pois a irmã? Isso então nem fallemos… Um anjo! E pensar que não são
    catholicos! A fallar a verdade! Ora adeus! protestantes d'estes, que
    remedio tem S. Pedro senão ir recebendo-os no céo.

    Em consequencia da visita de Carlos, só ás tres e meia foi que Manoel
    Quentino pôde terminar a sua tarefa e fechar o escriptorio, para voltar
    a casa com appetite no estomago e tranquillidade no coração. Já vê o
    leitor que tinha razão Carlos ao assegurar que não era das mais
    proveitosas a sua ingerencia nos negocios commerciaes.

    X

    JENNY

    Jenny entrou no seu quarto, logo depois da partida de Carlos para o
    escriptorio. Era um delicioso quarto, côr de violeta, onde se divisava o
    bom gosto e a elegancia desaffectada, maravilhosamente unidos a um não
    sei quê de austeridade ingleza, não em tal grau que destruisse a feição
    leve e graciosa, que compete aos aposentos de uma mulher de vinte annos,
    mas bastante para os despojar de certo excesso de ornamentos, que em
    extremo agradam a alguns espiritos, mais que femininos, pueris.

    Não lhe era cabida a descripção, que um romancista francez nos faz do
    quarto de uma das suas heroinas, pintando-nos tão abundantes as
    tapeçarias e alcatifas que, em todo elle, se não mediria uma pollegada
    de madeira a descoberto, e tão flacidas e macias, que n'essa gaiola
    perfumada poderia qualquer avesita voar, de canto a canto, sem receio de
    magoar as azas.

    Este requinte de molle elegancia parisiense mal se quadrava com a indole
    séria e com a actividade natural de Jenny Whitestone. Ha em toda a
    ingleza um pouco de puritana; no caracter das mais ternas conserva-se
    sempre alguma cousa que, debaixo do ponto de vista moral, corresponde
    áquelle esbelto e inflexivel de fórma, que lhes é proprio, tão diverso
    do requebrar indolente e quasi morbido das mulheres meridionaes.

    Não se encontrava no quarto de Jenny um unico objecto d'essa mobilia,
    quasi de boneca, dos _boudoirs_ da moda, onde predominam o _papier
    maché_, o pau rosa, a madeira branca e dourada; e os primores de uma
    arte, que, á força de querer apurar em delicadeza os seus productos, os
    faz ás vezes acanhados e ridiculos.

    A elegancia, alli, não abdicava certa dignidade, á qual hoje é raro
    combinar-se. Nenhum dos costumados artificios da industria moderna; tudo
    era o que parecia ser; o marmore, marmore; o bronze, bronze; o damasco,
    damasco; as rendas, rendas verdadeiras. Não havia nos moveis esses
    tenuissimos folheados, mascarando, com madeiras de preço, outras de
    menos valor; nenhumas d'essas maravilhas de imitação, obtidas com
    vernizes e tintas; nenhuns metaes enfeitados, pelo galvanismo, com
    falsos titulos de nobreza. Nem um só objecto mentia dentro d'aquelle
    recinto.

    Os caracteres, naturalmente observadores da boa fé, até n'estas cousas a
    amam.

    A côr predominante do quarto, de um tom que agradaria a pintores, fazia
    vantajosamente sobresair a alvura dos cortinados do leito, castamente
    descidos.

    Côres mais garridas só as das camelias, que, em singelas jarras de
    _biscuit_ e porcellana, adornavam o toucador e o fogão.

    Não usurpavam o logar, devido ás pobres flores, essa profusão de
    quinquilharias, hoje tanto á moda: vidros de essencias, de pomadas, de
    oleo, cartonagens de todos os feitios, figuras de porcellana e de jaspe,
    flores de pennas, de papel, de sola, de cascas de cebolas, de tudo com
    preferencia ás verdadeiras; retratos de rainhas e de reis, sabonetes de
    varias côres e fórmas e uma infinidade de pequenos objectos, que dão a
    qualquer d'esses gabinetes a apparencia de bazar ou de exposição de
    feira.

    Alguns bronzes de arte, alguns purissimos crystaes de Inglaterra,
    algumas bonitas floreiras e uma ou outra obra de litteratura ou de
    religião, n'aquellas inimitaveis brochuras inglezas, era o mais que alli
    se podia ver.

    As paredes estavam limpas de arrebicadas lithographias coloridas,
    representando meninas a disfarçarem um sorriso atraz do leque, a
    brincarem com um gato, a cheirarem uma flor, a olharem-nos através de
    uma luneta e em outras muitas posições todas affectadas, de tão
    graciosas que querem ser; em vez d'este adorno, então commum nas salas
    do Porto, notavam-se as mais afamadas producções do inexcedivel buril
    britannico e algumas aquarellas, cópias fieis de paizagens inglezas.

    A luz penetrava na sala por entre discretas venezianas e cortinas, que
    lhe temperavam a intensidade, até o grau adequado aos habitos de viver
    de Jenny.

    De tudo emfim vinha a este quarto um aspecto de placido recolhimento, em
    que se aprazia o espirito, pensador e inclinado á melancolia, da
    amoravel irmã de Carlos.

    Era alli dentro que, corridos os reposteiros e as cortinas, recostada ás
    mãos a fronte pensativa, em silencio, a sós, tantas vezes, como agora, a
    sympathica menina se entregava a meditações abençoadas de Deus, e das
    quaes dimanavam jubilos suaves para quantos de perto a rodeiavam.

    Agitado o coração de saudades, sempre vivas e pungentes, contemplava
    n'esses momentos, com fervor quasi religioso, o retrato da mãe, fiel e
    mimosa miniatura, que recatava como a mais preciosa das suas joias.

    A imagem d'aquella, que a estremecera tanto e que parecia ainda olhal-a
    com um bondoso sorriso, que nem a morte lhe apagára dos labios, produzia
    em Jenny a mais poderosa impressão.

    Ás vezes, á força de muito a contemplar, figurava-se-lhe que essas
    amadas feições se animavam, que um ligeiro movimento lhe corria nos
    labios, que um raio de vida fulgia, por instantes, nos olhos tão cheios
    de piedade e de tristeza.

    Que alegria para o coração da pobre Jenny! Persuadia-se de que a alma da
    mãe, evocada pela sympathia filial, passára alli, illuminára
    momentaneamente a imagem inerte, e abençoára a filha, que tão pequena
    deixára orphã de apaixonadas caricias.

    Esta illusão vivia com Jenny; era n'ella um d'esses intimos segredos do
    coração humano, para os quaes não há confidentes possiveis. Perante a
    amizade mais provada, perante o amor mais extremoso, a alma, por
    expansiva que seja, não se revela toda. Ha uma parte obscura do nosso
    mundo interior, sempre inaccessa aos olhares estranhos, onde se refugiam
    esses muitos segredos do eu para o eu, segredos, de que nós mesmos nos
    ririamos, se os labios ousassem pronuncial-os um dia;–que não ousam. Ha
    exemplos de perfumes tão subtis, que, aberto o vaso que os contém, quasi
    instantaneamente se dissipam na atmosphera; assim estes mysterios
    interiores, inconsistente alimento da nossa phantasia, perdem-se tambem,
    ao tentarmos communical-os.

    Guarde cada um para si essa parte do pensamento, superstições
    infundadas, crenças pueris, que não podem separar-se de nós, sem que nós
    proprios as desconheçamos e com os estranhos zombemos d'ellas, das
    pobres, que não nasceram para viver senão assim, presas á alma, de cuja
    essencia parece receberem vida.

    São como umas delicadas algas maritimas, cuja textura tenuissima se
    expande na agua em formosas arborisações, illudindo as esperanças dos
    que, namorados de tanta belleza, as arrancam de lá; fóra do ambiente, em
    que vegetam, cêdo se mirram e desformam.

    Bem lucida e forte era a razão de Jenny, e comtudo, no mundo interior,
    nutria a crença illusoria–pelo menos illusoria me parece, a mim que de
    fóra a examino–de que aquelle retrato de sua mãe não tinha uma
    expressão invariavel.

    Eu queria dizer que isto era sentido, e não pensado, pela bondosa
    menina; mas não sei se o rigor philosophico me permittirá a linguagem; e
    comtudo não vejo como de outra sorte dar conta d'este frequente
    phenomeno psychologico–o da persistencia de certas crenças irracionaes,
    nos espiritos mais vigorosos e logicos.

    Dias havia, em que nos traços e delineamentos d'aquella miniatura, Jenny
    julgava descobrir um ar de alegria, que logo se lhe insinuava no
    coração; outros em que, pelo contrario, ganhavam vulto a seus olhos não
    sei que sombras de tristeza que a faziam estremecer, como se fossem
    presagio de mal.

    Seriam reflexos de presentimentos proprios, que então a illudiam?
    Talvez; e ficar-se-ha comprehendendo melhor o mysterio, interpretando-o
    assim?

    Presentimentos! Que espirito philosophico ha ahi, que os admitta?

    Jenny era ainda uma creança, quando perdeu a mãe; no meio dos jogos e
    dos brinquedos infantis veio um dia surprendel-a este profundo golpe no
    coração; ao seu lado, crescera o mal ameaçador e terrivel, mas, no
    descuido de tão tenros annos, só dera por elle, quando a victima lhe
    caía prostrada nos braços. Feliz idade, a d'estas imprevidencias! N'um
    momento a vida inteira se lhe affeiçoou muito diversa, do como até então
    a antevira. Cêdo, muito cêdo, aquella creança franzina e debil, recebeu
    a solemne investidura da sacrosanta missão de mulher; transmittiu-lh'a a
    mãe, já moribunda; legou-lhe, nos derradeiros instantes, a tarefa
    abençoada, que até o fim cumprira, sem um só dia de desalento.

    Apertando nas mãos já frias as da filha lacrimosa, que só então vira a
    morte, que, tanto havia, a ameaçava nos seus mais queridos affectos,
    incumbiu áquelles poucos annos o pesado encargo da familia; e com a voz
    trémula e os olhos turvados pelas sombras do adormecer final, disse-lhe
    que a essas mãos ia deixar entregue a paz da vida interior, a felicidade
    dos seus; que a ellas confiava os thesouros e balsamos de affeições e de
    carinhos, com que, no lar domestico, se sanam tantas dores e
    desillusões, colhidas lá fóra, nas luctas da sociedade; depois, cingindo
    ao peito a filha, como em extrema recommendação, para a qual as palavras
    lhe faltavam já, morreu beijando-a; ungiu-a de suas ultimas lagrimas e
    impressionou-lhe a mente infantil a ponto que a orphã, depois de a
    chorar sobre o tumulo, levantou-se mulher, mulher apesar dos seus doze
    annos, mulher pela sisudez dos pensamentos, pela consciencia viva e
    fervente da sua nova missão.

    É um ensino efficaz o do infortunio! Desde essa hora fatal, como que se
    abriram os olhos de Jenny para verem mais fundo no coração d'aquelles
    que era dever seu tornar felizes. Só então principiou a reflectir que,
    entre os corações mais nobres e puros, se estabelecem ás vezes
    contrastes, de que podem resultar conflictos dolorosos; que o infortunio
    e as miserias da vida nem sequer proveem da funesta influencia do mal,
    de que se tenha deixado eivar completamente uma alma humana; que mais
    vezes é do encontro de duas paixões, na essencia generosas, que a
    tempestade se origina. No alto mar, um vento dominante póde governar o
    movimento e a derrota de um navio, mas é necessario que seja extrema a
    sua violencia, para que elle, por si só, o faça sossobrar; penetre porém
    o vaso mais poderoso no seio d'esses redemoinhos, que formam os ventos
    encontrados; e a submersão será quasi inevitavel.

    É assim na vida.

    Não basta que sejam grandes e sympathicos os caracteres, que laços de
    familia ou de sociedade prendem uns aos outros, para que entre elles
    exista harmonia. Que nas suas orbitas os animem movimentos contrarios, e
    serão já de temer os embates e as perturbações fataes.

    A natureza physica tambem nos mostra como venenos energicos resultam ás
    vezes da combinação de elementos inoffensivos.

    Tudo isto se foi esclarecendo, á força de meditações, no espirito da
    pequena Jenny, que tão precoce adeus teve de dizer áquellas espontaneas
    e não motivadas alegrias da infancia, que n'ella findaram com o ultimo
    suspiro da mãe.

    E cêdo foi, muito cedo para uma creança ingleza que, de ordinario, na
    idade em que as outras principiam já a querer ser senhoras, brinca
    alegre e descuidada nos parques, correndo, saltando, rindo, sem se
    affligir por a fimbria dos vestidos ainda se lhe não humedecer na relva.

    Esta livre expansão, que sabem e costumam dar á alegria as pequenas
    inglezas, é talvez a causa de serem desaffectadamente sérias, quando
    emfim a natureza, e não a arte prematura, as faz mulheres.

    Cessaram pois em Jenny os risos d'essa idade, risos expansivos e
    irreprimiveis, que a cada palavra, que á menor causa rebentam, como da
    laranjeira florida chovem sobre o prado as pétalas nevadas e fragrantes,
    á mais leve viração que lhe agita a folhagem.

    Afez-se a reflectir, a votar-se toda á felicidade dos seus, procurando
    insinuar-se nos pequenos segredos de caracter de cada um, para os
    dirigir, sem lucta funesta, na mesma esphera de acção, no mesmo circulo,
    em que tinham de viver.

    Desde essa época principiou a crescer e a vigorar com rapidez o
    predominio de Jenny em toda a familia–suave sujeição, grata aos que a
    supportavam, como uma benção do céo.

    Até então amára-se em Jenny uma creança meiga, cujas graças joviaes
    faziam distrahir o espirito de preoccupações mais sérias; cêdo porém
    tomou esse amor diverso e mais respeitoso caracter.

    Em Mr. Richard Whitestone á affeição protectora, de que rodeiava a
    filha, principiou a misturar-se uma deferencia, que tinha seus vestigios
    de veneração; em Carlos, a familiaridade que as idades quasi iguaes e os
    jogos e estudos communs haviam feito nascer entre ambos, degenerou
    gradualmente em um sentimento de mais respeito, em uma docil submissão,
    que em todos os seus actos se denunciava.

    Forte com esta dupla preponderancia, ía cumprindo Jenny religiosamente o
    legado da mãe, sempre com o pensamento n'ella, sempre com os olhos na
    sua imagem, na qual julgava entrever os reflexos da alegria ou da
    tristeza, que a sorte da familia devia por certo despertar n'aquella
    alma de justa, que a contemplava do céo.

    Este oraculo, para todos mudo, só eloquente para os sentidos da filha,
    consultava-o Jenny com ardente fé ao encerrar-se sósinha no quarto, onde
    a luz e o rumor de fóra penetravam discretamente, como convinha a logar
    de tão piedosos mysterios.

    Era triste a imagem d'esta vez!

    Triste porquê?

    Se os labios da irmã de Carlos trahissem n'aquelle momento as ideias,
    que tão profundamente a absorviam, elles fallariam d'este modo:

    –Pobre mãe! porque venho encontrar-te assim triste? Não passaria ainda
    a nuvem d'esta manhã?… Mas era tão ligeira!… tão leve! que a mim
    mesma me inquietou pouco. Que adivinhas tu, boa mãe?–Isto pensava, ao
    beijar o retrato–Alegra-te; Carlos deve estar agora no escriptorio;
    pobre Carlos! É tão bondoso aquelle coração! Como elle havia de amar-te,
    como havia de acariciar-te, mãe, se ainda vivesses comnosco! Poucos o
    conhecem bem. Mas por que estás ainda triste? Has de ver como voltarão
    amigos. É facil reconciliar aquelles corações, que a final tanto se
    estremecem! Uma ou outra nuvem, que passe entre ambos, gera-a o mesmo
    excesso de amor. Parece-me que ia dizer como tudo se passou. A vista de
    Carlos foi bastante para dissipar todo aquelle resentimento…
    resentimento proprio de quem muito estima!… Então! Já não tens
    confiança na tua filha? Bem vês como todos aqui me querem. Elles de
    certo vêem em mim alguma cousa do teu espirito, mãe, para serem assim
    tão doceis com uma pobre rapariga. É á tua alma, á tua alma, que me
    acompanha, que elles obedecem a final. Continúa ao meu lado, mãe, e eu
    serei forte; não me abandones, e verás que não ha fundamentos para
    apprehensões. E ainda triste!–E beijava o retrato–E ainda!… e
    ainda… e ainda!…–beijava-o repetidas vezes.

    Depois tentava a razão dissipar aquelas piedosas illusões:

    –Estou louca!–pensava então Jenny–Pois como póde um retrato…

    Aproximava-se mais da luz.

    As illusões voltavam outra vez, como volta o enxame de abelhas que o
    vento afasta das flores.

    –Não sei, não sei como isto é, não posso saber… mas esta expressão é
    mais triste do que a de hontem… De que procede esta tristeza?… A
    maneira por que me fallou do baile de hontem… O baile! … acaso …
    aquela mascara?… Mas que póde resultar d'alli?… Meu Deus! diria que
    ainda te pozeste mais triste! Deverei pois acreditar…

    N'isto ouviu passos fóra da porta.

    Quebrou-se o encanto! Como que se extinguiu toda a impressão do retrato
    para os sentidos, meio allucinados, da commovida…
    visionaria–chamar-lhe-hei assim?–Apressou-se em escondel-o.

    A figura de Luiza, aquella mesma criada que já conhecemos, appareceu no
    limiar.

    –Que é, Luiza?

    –É a filha do snr. Manoel Quentino.

    –Ah! chegou finalmente Cecilia? Que entre, Luiza, que entre. Nem sei
    para que a fez esperar–acudiu Jenny com vivacidade.

    Era Cecilia uma das suas mais affeiçoadas amigas.

    XI

    CECILIA

    Passados momentos, entrava no quarto, ligeira como uma andorinha,
    risonha como uma creança, a filha de Manoel Quentino. Era a unica
    familia que o velho guarda-livros tinha no mundo.

    Jenny estendeu-lhe affectuosamente a mão … e «beijaram-se», pensará a
    leitora. Pois não beijaram, não, minha senhora; as inglezas poupam muito
    mais esse thesouro dos beijos, do que as mulheres dos outros paizes; um
    amigavel aperto de mãos, um sorriso, uma phrase affectuosa… e mais
    nada. Será para os fazer mais apreciados, quando concedidos?

    Cecilia era um modelo da belleza portugueza, e portuense talvez, nas
    suas mais felizes realisações.

    É costume entre nós, quando se quer exaltar, no conceito dos leitores, a
    belleza de uma mulher, classifical-a entre as hespanholas, entre as
    italianas, entre as allemãs, e entre as inglezas, mas nunca entre as
    nossas compatriotas, que soffrem, ha muitos annos, com sublime
    resignação de martyres, esta velha e flagrante injustiça.

    Parece que o typo nacional é indigno de referencia, e que só quando
    d'elle aberra e, por um capricho da natureza, reveste a feição
    estrangeira, é que uma figura de mulher merece as fórmulas, mais ou
    menos sonoras e hyperbolicas, da nossa admiração.

    É vulgar ouvir-se dizer:–«Como é bella! Ha n'aquelle todo vaporoso
    certo ar germanico!»–«Que mulher! Tem o _salero_ de uma
    hespanhola!»–«Que magestade! que _morbideza_! É uma perfeita _madonna_
    italiana!»–«Que poetica gravidade! Dir-se-hia uma candida _lady_!» O
    que porém se não ouve, pelo menos o que eu ainda não ouvi, é: «–Que
    sympathica rapariga! É uma portugueza perfeita!»

    A causa d'isto é o sermos nós uma nação pequena e pouco á moda, acanhada
    e bisonha n'esta grande e luzida sociedade europeia, onde por obsequio
    somos admittidos, dando-nos já por muito lisongeados, quando os
    estrangeiros se deixam, benevolamente, admirar por nós.

    Falta-nos certo uso de sociedade, que ensina cada qual a occupar o seu
    logar. Quando não encarecemos exageradamente as cousas patrias, á
    maneira d'aquelle sujeito que vimos n'um dos grupos da Praça, caímos no
    excesso opposto e nem sequer fallamos d'ellas, como se nos corressemos
    da origem.

    Bem que peze á vaidade nacional, é forçoso o fazer aqui, em familia, uma
    confissão:–Nós temos o defeito d'aquelles provincianos que, nos
    circulos da capital, suffocam envergonhados, como cousa de mau gosto,
    uns restos de amor da terra, que ainha os punge, e deitam-se a exaltar,
    com affectação altamente comica, os prazeres e commoções da vida das
    grandes cidades, que ainda mal gosaram e ainda mal saboreiam;–fallam
    dos theatros, dos bailes, da cantora da moda, do escandalo do dia, sem
    se atreverem a dizer uma palavra pelo menos das arvores, das paizagens,
    das tradições, dos costumes locaes, do conchego domestico da sua
    provincia, o que porventura os outros lhe escutariam com mais vontade; e
    no fim de tudo ficam mais ridiculamente provincianos, do que nunca.

    Assim tambem os portuguezes, acanhados nos circulos da Europa, não ousam
    conferir diplomas de excellencia a cousa que lhes pertença;
    envergonham-se de fallar nas riquezas patrias, emquanto abrem a bôca,
    por convenção, a tanta insignificancia que, em todos os generos, a
    vaidade estrangeira apregôa como primores: levam o excesso da modestia,
    se é só modestia isso, até receiarem que as vistas dos estranhos
    averiguem do que lhes vae por casa, e agradecem, com effusões de
    sensibilidade, uma ou outra phrase de louvor, que, em momentos raros,
    elles lhes concedem.

    Se ousamos fallar de Camões, ao mesmo tempo que de Tasso, de Dante e de
    Milton; se ousamos apregoar o vinho do Porto, junto com o de Xerez,
    Chateau-Laffite e Tokay, é porque lhes deram lá fóra o diploma de
    fidalguia; que por nós … continuariamos, calados, a ler um e a beber o
    outro, sem bem conhecermos a preciosidade que liamos e que bebiamos, ou
    pelo menos correndo-nos de uma nos parecer sublime, e a outra deliciosa.

    Ainda que se taxe um dos similes de menos delicado, é certo que o mesmo
    succede com as bellezas femininas; costumamo-nos ás exclamações á
    moda:–«Ah! as hespanholas!»–«Oh! as italianas!»–«Ai, as allemãs!» e
    julgariamos de mau gosto dizer em publico:–«As portuguezas!» até sem
    interjeição prévia a encarecer-lhes a valia.

    E isto fazem-o até muitos, que nunca transpozeram as barreiras d'esta
    cidade, onde não abundam os typos d'essas varias bellezas exoticas.

    Eu porém atrever-me-hei a arvorar a bandeira puritana n'esta campanha
    gloriosa.

    De certo não serão os leitores que m'o levarão a mal.

    Deus me defenda de querer, por forma alguma, ferir a fama tradicional de
    todas as já estudadas e classificadas bellezas, admittidas e exaltadas,
    como taes, no mundo inteiro; a minha tolerancia abrange todas; queria
    sómente que se abrisse tambem logar para as nossas patricias, que bem
    merecem essa distincção.

  • Só

    Só

    Aproximadamente 21.019 palavras.

    Produced by Ricardo Diogo and Tiago Tejo. Edited by Rita
    Farinha (Biblioteca Nacional Digital–http://bnd.bn.pt).
    (This file was produced from images generously made
    available by National Library of Portugal (Biblioteca
    Nacional de Portugal).)

    Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141,
    rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire
    de o «Só», pour le Portugal.

    L.V.

    SÓ

    ANTONIO NOBRE

    SÓ

    PARIS

    LÉON VANIER, ÉDITEUR

    19, QUAI SAINT-MICHEL, 19

    1892

    Tous Droits Réservés

    MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE

    Aquelle que partiu no brigue _Boa Nova_,
    E na barca _Oliveira_, annos depois, voltou;
    Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
    Uma vez, uma vez, linda menina amou:
    Tempos depois, por uma certa lua-nova,
    Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
    Mas ella disse:–«Vou, alli adiante, à _Cova_,
    Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
    Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
    «Só» é o poeta-nato, _o lua_, o santo, a cobra!
    Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
    Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
    Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
    E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

    *Antonio*

    Que noite de inverno! Que frio, que frio!
    Gelou meu carvão:
    Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
    Faz sol de verão!

    Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
    Á beira-mar.

    Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
    Contavas-me historias:
    Assim… desenterro, do val do passado,
    As minhas Memorias.

    Sou neto de Navegadores,
    Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
    Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

    Moreno coveiro, tocando viola,
    A rir e a cantar!
    Empresta, bom homem, a tua sachola,
    Eu quero cavar:

    E o vento mia! e o vento mia!
    Que irà no mar!

    Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
    Qual Lua, a distancia!
    Vizões enterradas no adro da Igreja,
    Branquinha, da Infancia…

    Que noite! ó minha Irmã Maria,
    Accende um cyrio à Virgem Pia,
    Pelos que andam no alto mar…

    Lá vem a Carlota que embala uma aurora
    Nos braços, e diz:
    «Meu lindo menino, que Nossa Senhora
    O faça feliz!»

    Ao mundo vim, em terça-feira,
    Um sino ouvia-se dobrar!

    E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
    Feliz que vivia!
    (E a Dor, que morava com elle no peito,
    Com elle crescia…)

    Vim a subir pela ladeira
    E, n'uma certa terça-feira,
    Estive jà p'ra me matar…

    Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
    Que fado cruel!
    E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
    A _Esponja do Fel_…

    Ides gelar, agoas dos montes!
    Ides gelar!

    A Tia Delphina, velhinha tão pura,
    Dormia a meu lado
    E sempre rezava por minha ventura…
    E sou desgraçado!

    Agoas do rio! agoas das fontes!
    Cantigas d'agoa pelos monles,
    Que sois como amas a cantar…

    E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
    Pedir ao Senhor:
    E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
    Mudava de cor!

    Passam na rua os estudantes
    A vadrulhar…

    E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
    A mail-os francezes,
    Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
    Levava-me, ás vezes.

    Assim como elles era eu d'antes!
    Meus camaradas! estudantes!
    Deixae o Poeta trabalhar…

    Santinho como ia, santinho voltava:
    Peccados? Nem um!
    E a instancias do padre dizia (e chorava):
    «Não tenho nenhum…»

    Ó Job, coberto de gangrenas,
    Meu avatar!

    As noites, rezava (e rezo ainda agora)
    Ao pé da lareira.
    (A chuva gemente caia lá fóra,
    Fervia a chaleira…)

    Conservo as mesmas tuas penas,
    Mais tuas chagas e gangrenas,
    Que não me farto de coçar!

    –Que Deus se amercie das almas do Inferno!
    –Amen! Oxalá…
    E o moço rosnava, tranzido de inverno:
    –Que bom lá está!

    E a neve cae, como farinha,
    Là d'esse moinho a moer, no Ar:

    O sino da Igreja tocava, á tardinha:
    Que tristes seus dobres!
    Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
    O caldo dos pobres…

    Ó bom Moleiro, cautellinha!
    Não desperdices a farinha
    Que tanto custa a germinar…

    Ó velhas criadas! na roca fiando,
    Nos lentos serões…
    Corujas piando, _Farrusca_ ladrando
    Com medo aos ladrões!

    Andaes, à neve, sem sapatos,
    Vos que nâo tendes que calçar!

    O Zé do Telhado morara, alli perto:
    A triste viuva
    A nossa caza ia pedir, era certo,
    Em noites de chuva…

    Corpos au léu, vesti meus fatos!
    Pés nus! levae esses sapatos…
    Basta-me um par.

    Ó feira das uvas! em tardes de calma…
    (O tempo voou!)
    Pediam-me os pobres «esmola pela alma
    Que Deus lhe levou!»

    Quando eu morrer, hirto da magoa.
    Deitem-me ao mar!

    E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
    Mostrando a gangrena!
    E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
    Que eu tinha mais pena…

    Irei indo de fragua, em fragua,
    Até que, emfim, desfeito em agoa,
    Hei-de fazer parte do mar!

    Chegou uma carta tarjada: a estampilha
    Bastou-me enxergar…
    Coitados d'aquelles que perdem a filha,
    Tão longe do lar!

    No Panthéon, tragico, o sino
    Dà meia-noite, devagar:

    Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
    Entre herva sedenta…
    Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
    Luar, agoa-benta…

    É o Victor, outra vez menino,
    A compor um alexandrino,
    Pelos seus dedos a contar!

    Ao dar meia-noite no _cuco_ da sala,
    Batiam: «Truz! truz!»
    E o Avô que dormia, quietinho na valla,
    Entrava, Jezus!

    Que olhos tristes tem meu vizinho!
    Ve-me comer e poe-se a ougar:

    Nas sachas de Junho, ninguem se batia
    Com nosso cazeiro:
    Que espanto, pudéra! se da freguezia
    Elle era o coveiro…

    Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
    Que eu dou-te um copo d'este vinho
    E metade do meu jantar.

    Morria o mais velho dos nossos criados,
    Que pena! que dó!
    Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
    Á alminha da Avó…

    Bairro-Latino! dorme um pouco!
    Faze, meu Deus, por socegar…

    Ó banzas dos rios, gemendo descantes
    E fados do mundo!
    Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
    Com eiras no fundo!…

    Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
    Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
    Ó boulevard!

    Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
    Como astros no céu:
    E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
    O roto chapéu…

    Boas almas, vinde ao meu seio!
    Espiritos errantes no Ar!

    Ó lua encantada no fundo do poço,
    Moirinha da magoa!
    O balde descia, chymeras de moço!
    Trazia só agoa…

    Sou médio: evoco-os, noite em meio,
    Vos não acreditaes, eu sei-o…
    Deixal-o não acreditar.

    Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
    Escriptos na cal:
    Cantavam Aquella que é a roza mais linda
    Que tem Portugal!

    Se eu vos podesse dar a vista,
    Ceguinhos que ides a tactear…

    A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
    Bailados na terra…
    Luar é caleiro que, pallido, caia
    Ermidas da serra…

    Quanto essa sorte me contrista!
    Mas ah! mais vale não ter vista,
    Que um mundo d'estes ter d'olhar.

    O conde de Furnas sabia o Horacio,
    Tin-tin, por tin-tin!
    E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
    Licção de latim.

    A Morte, agora, é a minha ama…
    Que bem que sabe acalentar!

    E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
    N'essa hora da vida!
    Uzava uma bluza, que linda que era!
    E trança comprida…

    Á noite, quando estou na cama:
    «Nana, nana! Que a tua ama
    Vem jà, não tarda! foi cavar…»

    Os outros rapazes furtavam os ninhos
    Com ovos a abrir;
    Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
    Deixava-os fugir…

    Camões! ó lua do mar-bravo!
    Vem-me ajudar…

    Os prezos, ás grades da triste cadeia,
    Olhavam-me em face!
    E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
    Pedir que os soltasse…

    Tenho o nome do teu escravo;
    Em nome d'elle e do mar-bravo,
    Vem-me ajudar!

    E quando um malvado moia a chibata
    Um filho, ou assim,
    Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
    Bata antes em mim…»

    E o vento geme! e o vento geme!
    Que irà no mar!

    E quando dobrava na terra algum sino
    Por velho, ou donzella,
    A meu Pae rogavam «deixasse o menino
    Pegar a uma vela…»

    Lobos d'agoa, que ides ao leme,
    Tende cuidado! a lancha treme…
    Orçar! orçar!

    Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
    Aos tristes cazaes!
    Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
    Saudes aos paes…

    Meu velho cão, meu grande amigo,
    Porque me estàs assim a olhar?

    A Prima doidinha por montes andava,
    Á lua, em vigilia!
    Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
    Na minha Familia…

    Quando ou choro, choras commigo
    Meu velho cão! és meu amigo…
    Tu nunca me has-de abandonar.

    E os annos correram, e os annos cresceram,
    Com elles cresci:
    Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
    Só eu não morri…

    Frades do Monte de Crestello!
    Abri-me as portas! quero entrar…

    Fui vendo que as almas não eram no mundo
    Singellas e francas:
    A minha que o era ficou, n'um segundo,
    Cheiinha de brancas!

    Cortae-me as barbas e o cabello,
    Vesti-me esse habito singello…
    Deixae-me entrar!

    Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
    Tal qual Pedro-Sem,
    Que teve fragatas, que teve galeras,
    Que teve e não tem…

    Moço Luziada! criança!
    Porque estàs trisle, a meditar?

    Vieram as rugas, caiu-me o cabello
    Qual musgo da rocha…
    Fiquei para sempre sequinho, amarello,
    Que nem uma tocha!

    Ves teu paiz sem esperança,
    Que todo allue, à semelhança
    Dos castellos que ergueste no Ar?

    E a velha Carlota, revendo-me agora
    Tão pallido, diz:
    «Meu pobre menino! que Nossa Senhora
    Fez tão infeliz…»

    Pariz, 1891.

    *Menino e Moço*

    Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
    Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
    Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
    Que d'antes estendia as azas sobre mim.

    Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
    E que era sempre dia, e nunca tinha fim
    Essa vizão de luar que vivia encantada,
    N'um castello de prata embutido a marfim!

    Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
    Que me enchiam de lua o coração, outrora,
    Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

    Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
    Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
    Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

    Leça, 1885.

    *Os Cavalleiros*

    –Onde vaes tu, cavalleiro,
    Pela noite sem luar?
    Diz o vento viajeiro,
    Ao lado d'elle a ventar…
    Não responde o cavalleiro,
    Que vae absorto a scismar.
    –Onde vaes tu, torna o vento,
    N'esse doido galopar?
    Vaes bater a algum convento?
    Eu ensino-te a rezar.
    E a lua surge, um momento,
    A lua, convento do Ar.
    –Vaes levar uma mensagem?
    Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
    Irás em meia viagem
    E eu já de volta hei-de estar.
    E o cavalleiro, á passagem,
    Faz as arvores vergar.
    –Vaes escalar um mosteiro?
    Eu ajudo-t'o a escalar:
    Não ha no mundo pedreiro
    Que a mim se possa egualar!
    Não responde o cavalleiro
    E o vento torna a fallar:
    –Dize, dize! vaes p'ra guerra?
    Monta em mim, vou-te levar:
    Não ha cavallo na Terra
    Que tenha tão bom andar…
    E os trovões rolam na serra
    Como vagas a arrolar!
    –E as guerras has-de ganhal-as,
    Que por ti hei-de velar:
    Ponho-me á frente das balas
    Para a força lhes tirar!
    E as arvores formam alas
    Para os guerreiros passar.
    –Vaes guiar as caravellas
    Por sobre as agoas do mar?
    Guiarei as tuas velas
    Á feição hei-de assoprar.
    E os astros vêm ás janellas
    E a lua vem espreitar…
    –Onde vaes na galopada,
    Á tua infancia, ao teu lar?
    Conheço a tua pousada:
    Já lá tenho ido ficar.
    E vae longe a trovoada,
    Vae de todo a alliviar.
    –Vaes ver tua velha tia,
    Na roca de oiro a fiar?
    Loiro linho que ella fia,
    Ajudei-lh'o eu a seccar!
    E o luar é a Virgem Maria…
    Que lindo vae o luar!
    –Vaes ver a tua mãesinha?
    Coitada! vi-a expirar:
    Tinha a alma tão levezinha,
    Que voou sem eu lhe tocar!…
    E o cavalleiro caminha,
    Caminha sem se importar!
    –Vaes ver tua irmã? Ao peito
    Traz um menino a criar:
    Ai com que bom, lindo geito
    Ella o sabe acalentar!
    E o vento embala no peito
    Uma nuvem, p'ra imitar!
    –Onde vaes tu? Aonde, aonde?
    Phantasma! vaes-te cazar?
    Eu sei da filha d'um conde
    Que por ti vive a penar…
    E o phantasma não responde,
    Sempre, sempre, sempre a andar!
    –Vaes á cata da Ventura
    Que anda os homens a tentar?
    (Ai d'aquelle que a procura
    Que eu nunca a pude encontrar…)
    N'isto, pára a criatura,
    Faz seu cavallo estacar:
    –Vento, sim! Espera, espera!
    Que estrada devo tomar?
    (É um menino, é uma chymera
    E todo lhe ri o olhar…)
    E o vento, com voz austera,
    Dor, querendo disfarçar:
    –Toma todas as estradas
    Todas, áquem e além-mar:
    Serão inuteis jornadas,
    Nunca lá has-de chegar…
    Palavras foram facadas
    Que é vel-o, todo a sangrar…
    E seus cabellos trigueiros
    Começam de branquiar,
    E olham-se os dois cavalleiros…
    Quedam-se ambos a scismar.
    Brilha o Oriente entre os pinheiros,
    Ouvem-se os gallos cantar…
    –Adeus, adeus! Nasce a aurora,
    Adeus! vamos trabalhar!
    Adeus, adeus! vou-me embora:
    Chamaram-me as velas, no mar…
    E o vento vae por hi fóra,
    No seu cavallo, a ventar…

    Pariz, 1891.

    *Purinha*

    O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
    Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
    Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
    Toda cheia de véus, como uma Espuma,
    O Sr. Padre me dará p'ra mim
    E a seus pés me dirá, toda corada: _Sim_!
    Ha-de ser alta como a _Torre de David_,
    Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
    E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
    E negro como a capa das viuvas…
    (Á maneira o trará das virgens de Belem
    Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
    E será uma espada a sua mão,
    E branca como a neve do Marão,
    E seus dedos serão como punhaes,
    Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
    E os seus seios serão como dois ninhos,
    E seus sonhos serão os passarinhos,
    E será sua bocca uma romã,
    Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
    Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
    Como um sonho, como a neve,
    Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
    Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
    E ha-de ser natural como as hervas dos montes
    E as rolas das serras e as agoas das fontes…
    E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
    Mais pura, mais simples, que moça e menina.
    Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
    E os rios ao passar hão-de cantal-a.
    Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
    Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
    Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
    Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
    Mais a farinha do moleiro e a violeta,
    E a lua para mim será como uma preta!

    Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
    Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
    E a minha fada, com sua vara de encantar,
    Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    E no dia do meu recebimento!
    Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
    Quando ainda no céu não bole uma aza,
    A minha Noiva sairá de caza
    Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
    E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
    E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
    E ficará, coitada! como morta!
    E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
    Com o avental seus olhos enxugando…
    E hão-de cercal-a sete madrinhas,
    Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
    Todas contentes por estreiar vestido novo!
    E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
    E o povo da freguezia
    Esperará mais eu, no adro de _Santa Iria_.
    E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
    E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
    E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
    E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
    E animados então (o povo é uma criança!)
    Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
    «Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
    «Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
    E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
    Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
    E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
    «Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
    É a minha Noiva que parece dia,
    Branquinha como a cal de _Santa Iria_!
    E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
    Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
    E dirá o pastor, com espanto tamanho,
    Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
    E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
    E o pescador explicará ao bom moleiro
    Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
    E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
    Que assim já foram as velhinhas scismarão,
    E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
    Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
    E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
    E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
    E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
    E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
    E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
    E, em seguida, será a nossa boda,
    E festas haverá, na aldeia toda.
    E as mais raparigas do sitio, solteiras,
    Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
    Com _trinta moedas_ de oiro sobre o peito!
    E cantigas dirão a seu respeito.
    E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
    Sorrirá com simplicidade para ellas.
    E a noite, pouco e pouco, descerá…
    E tudo acabará.
    E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
    E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
    E a sua alcova deitará sobre o quintal,
    Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
    E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
    O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

    Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
    Que este Palacio de Ventura encerra?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
    E a minha fada com sua vara de condão
    Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas! lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    O nosso lar!
    Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
    Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
    Que seja tal qual uma rezidencia,
    Alegre, branca, rustica, por fóra.
    Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
    Mas no interior ella ha-de ser sombria,
    Como eu com esta melancholia…
    E salas escuras, chorando saudades…
    E velhos os moveis, de antigas idades…
    (E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
    N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
    E nas paredes telas de parentes…
    E janellas abertas sobre os poentes…
    (E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
    E cravos vermelhos por cima das mezas…
    E o relogio dará as horas devagar,
    Como as palpitações de quem se vae finar…
    E, dia inteiro, n'esta solidão,
    Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
    E a scismar e a scismar em que? em quem?
    Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no _Além_?
    E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
    Rogarei aos Espiritos remedio
    E um bom Espirito virá tratar do doente
    E ha-de tremer de susto a outra gente.
    E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
    E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
    Mas a Purinha, então, vindo da rua,
    Toda de branco surgirá, como uma Lua!
    E, então, acordarei d'essa desesperança
    E pela mão me levará, como uma criança.
    E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
    «Não te afflijas…» dirá, baixinho…
    E, assim, será piedoza para os mais:
    E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
    Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
    E será a Saude dos Enfermos!
    E quando pela estrada encontrar um velhinho
    Todo suado, carregadinho,
    (Louvado seja Nosso Senhor!)
    Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
    E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
    E, aos sabbados, o dia das esmolas,
    A Santa descerá ao patamar da escada,
    Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
    Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
    E mais aos alleijadinhos,
    Mais aos que botam sangue pela bocca,
    Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
    Amores, naufragios e _A Nau Cathrineta_,
    Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
    Mais ás viuvas dos degredados…
    E tudo seja pelos meus peccados!
    E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
    As velas rôtas dos pescadores
    E a luz do seu olhar benzerá essas velas
    E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
    E accenderá os cyrios ao Senhor,
    (Que sejam como ella no talhe e na cor!)
    Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada
    Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
    E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
    Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
    Fallar á alma que na angustia se consome,
    Dar de comer a quem tem fome,
    Dar de beber a quem tem sede…
    E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
    E eu hei-de em minhas obras imital-a
    E amal-a como á Virgem e adoral-a.
    E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
    As marés-vazas d'este doido coração
    E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
    Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
    Que para mim será a lua-nova!
    E ha-de ir commigo para a mesma cova,
    Pois que no dia em que eu morrer
    Veneno tomará, n'uma colher…

    Mas em que patria, em que nação é que se esconde
    Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
    Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
    Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
    E a minha fada com sua vara de marfim
    Tocou meu peito… e _alguem_ sorriu lá dentro: _Sim_…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    Pariz, 1891.

    *Elegia*

    Vae em seis mezes que deixei a minha terra
    E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
    Boa velhinha! que eras mais uma criança…
    Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
    Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
    Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
    Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
    Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
    Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
    Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
    Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
    Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
    Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
    Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
    Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
    (E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
    Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
    Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
    E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
    Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
    Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
    Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
    Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
    Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
    Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
    Chegas!
    E cae e cae no soalho alguma terra:
    Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

    Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
    Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
    Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
    Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
    Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
    Onde levavas as desgraças d'esta vida;
    Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
    (Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
    E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
    E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
    Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
    E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
    E tu de novo me verás…
    Ah! como deve
    Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
    Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
    Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
    Que a tua cova era a unica sem cheiro…
    E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
    Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
    Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
    Sem uma mão amiga e cheia de bondade
    Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
    Que abra a janella para tu veres o sol,
    Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
    E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
    Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
    Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
    Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
    Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

    Dobra era meu coração o sino da saudade…

    Aqui, no meio d'esta fria soledade,
    Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
    Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
    Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
    Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
    Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
    E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
    Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
    Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
    Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
    Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
    Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
    D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
    Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
    Devagar, devagar, como os ais d'um doente…
    Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
    Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
    Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
    Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
    Meio cerrados, como ao sol uma janella,
    Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_!
    E andava á solta pela caza, não fugia,
    Que aos libres ares o cazulo preferia…
    Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
    Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
    Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
    Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
    Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
    No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
    Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
    Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
    Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_,
    E tu encommendando a alminha que voara…
    Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_,
    As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
    Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
    E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
    Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
    Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
    Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
    Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
    Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
    Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
    Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
    Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
    Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
    Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
    E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
    E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
    Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
    Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
    (Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio…)
    Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
    D'um lado e eu de outro…

    Que abençoado refeitorio!

    Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
    E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
    E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
    Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
    (Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
    O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
    (Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio…)
    Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
    (Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
    A janella ainda tem o mesmo parapeito
    (Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
    Na sala de jantar ainda se estende a meza
    (Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
    Vejo o relogio na parede como outrora
    (Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
    O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
    (Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
    A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
    (Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
    Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes
    (Mas não destraçam suas capas, como d'antes…)
    Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
    (Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
    As andorinhas ainda têm o mesmo fito
    (Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
    Ainda dobra por defuntos e defuntas
    (Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
    Ainda lá está o figueiral com figos,
    (Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
    O Ruy ainda traz a farda de soldado
    (Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
    As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
    (Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
    O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
    (Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_)
    Ainda lá estão os cravos, no jardim,
    (Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
    Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
    (Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
    A Margareth ainda é a papoila de outrora
    (Mas a papoila… já está uma senhora!)
    Ainda lá estão as papoilas em flor
    (Mas a velhinha já não vae de regador…)
    Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
    (Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
    Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
    Tudo ficou, tudo passou…

    Que mundo este!

    Pariz, 1891.

    *Os Sinos*

    1

    Os sinos tocam a noivado,
    No Ar lavado!
    Os sinos tocam, no Ar lavado,
    A noivado!

    Que linda criança que assoma na rua!
    Que linda, a andar!
    Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
    Que vem a andar…

    Tambem, algum dia, o povo na rua,
    Quando eu cazar,
    Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
    Que vae cazar…

    2

    E o sino toca a baptizado
    Que lindo fado?
    E o sino toca um lindo fado,
    A baptizado!

    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o lavar,
    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o sujar.

    Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
    Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
    Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve!
    Não soffre mais…

    3

    Os sinos dobram por anjinho,
    Coitadinho!
    Os sinos dobram, coitadinho…
    Pelo anjinho!

    Que aceiada que vae p'ra cova!
    Olhae! olhae!
    Sapatinhos de sola nova,
    Olhae! olhae!

    Ó lindos sapatos de solinha nova,
    Bailae! bailae!
    Nas eiras que rodam debaixo da cova…
    Bailae! bailae!

    4

    O sino toca p'ra novena,
    _Gratiae plena_,
    E o sino toca, _gratiae plena_,
    P'ra novena.

    Ide, meninas, á ladainha,
    Ide rezar!
    Pensae nas almas como a minha…
    Ide rezar!

    Se, um dia, me deres alguma filhinha,
    Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
    Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
    Com sua mãe…

    5

    E o sino chama ao Senhor-fóra,
    A esta hora!
    Os sinos clamam, a esta hora,
    Ao Senhor-fóra!

    Accendei, vizinhos, as velas,
    Allumiae!
    Velas de cera nas janellas!
    Allumiae!

    E luas e estrellas tambem poem velas,
    A allumiar!
    E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas,
    A allumiar…

    6

    E os sinos dobram a defuntos,
    Todos juntos!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    A defuntos!

    Que triste ver amortalhados!
    Senhor! Senhor!
    Que triste ver olhos fechados!
    Senhor! Senhor!

    Que pena me fazem os amortalhados,
    Vestidos de preto, deitados de costas…
    E de olhos fechados! e de olhos fechados!
    E de mãos postas!

    E os sinos dobram a defuntos,
    Dlin! dlang! dling! dlong!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    Dlong! dlin! dling! dlong

    Pariz, 1891.

    *Terças-Feiras*

    Ao Alberto

    1

    Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
    Santo de minha extrema devoção,
    Alma tamanha, que adorei de perto,
    Lá na _Thebaida_ do Sr. João.

    Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
    Luar branco na minha escuridão!
    Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
    Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

    A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno,
    D'aquelle que nasceu, em terça-feira
    E em terça-feira morrerá, talvez…

    Quando eu for morto já, noites de inverno,
    Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
    Para eu ouvir de _lá_:

    «Era uma vez…

    Pariz, 1891.

    2

    Legenda do Santo

    «Era uma vez um velho, mui velhinho,
    Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
    Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
    Dois saccos de Amargura a carregar.

    O pobre velho, todo derreadinho,
    Já não podia mais, queria arreiar;
    Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
    Eu deito-lhe uma mão para o ajudar…»

    E o fidalgo desceu do seu cavallo:
    Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
    E aos hombros carregou com o maior!

    E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
    Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
    Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»

    Pariz, 1891.

    3

    Prologo

    Em hora de afflicçãô, molhei a penna
    Na chaga aberta d'esse corpo amado,
    Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
    Cheia de puz, de sangue já coalhado!

    E depois, com a mão firme e serena,
    Compuz este missal d'um torturado:
    Talvez choreis, talvez vos faça pena…
    Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

    Abri-o! Orae com devoção sincera!
    E, à leitura final d'uma oração,
    Vereis cair no solo uma chymera…

    Moços do meu paiz! vereis então
    O que é esta Vida, o que é que vos espera…
    Toda uma Sexta-feira de Paixão!

    Coimbra, 1889.

    4

    Natal d'um Poeta

    Em certo reino, á esquina do planeta,
    Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
    Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
    Que melhor fôra não a ver jamais.

    Mal despontava para a vida inquieta,
    Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
    A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
    Como os bandidos nas estradas reaes!

    E, embora eu seja descendente, um ramo
    D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
    E guerras, se esforçaram pelo ideal:

    Nada me importas, Paiz! seja meu amo
    O Carlos ou o Zé da Th'reza… Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!

    Coimbra, 1889.

    5

    Ai de Mim!

    Venho, torna-me velho esta lembrança!
    D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
    Infancia, era este o nome da criança
    Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro…

    Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
    Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
    E recebeu, segundo a velha usança,
    A chave do caixão o meu Futuro.

    Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
    Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
    Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

    Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
    Um bacharel formado em illuzões
    Pela Universidade da Chymera?

    Boa Nova, 1887.

    6

    Conde

    Na praia lá da Boa Nova, um dia,
    Edifiquei (foi esse um grande mal)
    Torreão de gloria, o que é a phantasia,
    Todo de lapis-lazzuli e coral!

    N'aquellas redondezas, não havia
    Quem se gabasse d'um dominio egual:
    Oh o Torreão de gloria! parecia
    O territorio d'um Senhor-feudal!

    Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
    Um vento secco de tortura e spleen
    Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

    O meu condado, o meu condado, sim!
    Porque eu já foi um poderoso Conde,
    N'aquella idade em que se é conde assim…

    Porto, 1887.

    7

    Ó Virgens!

    Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
    Pelas estradas ermas, a cantar!
    Eu quero ouvir uma canção ardente
    Que me transporte ao meu perdido lar…

    Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
    O sol que tomba, aureolando o mar,
    A fartura da seara reluzente,
    O vinho, a graça, a formozura, o luar!

    Cantae! cantae as limpidas cantigas!
    Das ruinas do meu lar desatterrae
    Todas aquellas illuzões antigas

    Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai…
    Ó suaves e frescas raparigas;
    Adormecei-me n'essa voz… Cantae!

    Porto, 1886.

    8

    Á Luz de Lua!

    Iamos sós pela floresta amiga,
    Onde em perfumes o luar se evola,
    Olhando os céus, modesta rapariga!
    Como as crianças ao sair da escola.

    Em teus olhos dormentes de fadiga,
    Meio cerrados como o olhar da rola,
    Eu ia lendo essa ballada antiga
    D'uns noivos mortos ao cingir da estola…

    A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
    Cobria com os seus os teus cabellos
    E dava-te um aspeto de velhinha!

    Que linda eras, o luar que o diga!
    E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
    E ambos scismando na floresta amiga…

    Porto, 1884.

    9

    Desobriga

    Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
    Contar-t'os? Para que, se não têm fim…
    Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
    Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

    A ti accendo cyrios perfumados,
    Faço novenas, queimo-te alecrim,
    Quando soffro, me vejo com cuidados…
    Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

    Que eu seja puro d'alma e pensamento!
    E que, em dia do grande julgamento,
    Minhas culpas não sejam de maior:

    Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
    Um processo a correr n'essa comarca,
    Cujo delegado é Nosso Senhor…

    Hamburgo, 1891.

    10

    Que Aborrecido!

    Meus dias de rapaz, de adolescente,
    Abrem a bocca a bocejar sombrios:
    Deslizam vagarozos, como os rios,
    Succedem-se uns aos outros, egualmente.

    Nunca desperto de manhã, contente.
    Pallido sempre com os labios frios,
    Oro, desfiando os meus rozarios pios…
    Fôra melhor dormir, eternamente!

    Mas não ter eu aspirações vivazes,
    E não ter, como têm os mais rapazes,
    Olhos boiando em sol, labio vermelho!

    Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
    E não sei, sendo assim, emquanto moço,
    O que serei, então, depois de velho…

    Bellos-Ares, 1889.

    11

    Poveiro

    Poveirinhos! meus velhos pescadores!
    Na Agoa quizera com vocês morar:
    Trazer o lindo gorro de trez cores,
    Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!

    Far-me-ia outro, que os vossos interiores
    De ha tantos tempos, devem já estar
    Calafetados pelo breu das dores,
    Como esses pongos em que andaes no mar!

    Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
    Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
    Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

    No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
    Promettermos, _si o barco fôri intieiro_,
    _Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!

    Leça, 1889.

    12

    O Sr. Abbade

    Quando vem Junho e deixo esta cidade,
    Batina, _Caes_, tuberculozos céus,
    Vou para o Seixo, para a minha herdade:
    Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

    Tomo o regimen do Sr. Abbade,
    E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
    No seu direito olhar vejo a bondade,
    E ás capellinhas vou ver os judeus.

    Que homem sem par! Ignora o que são dores!
    Para elle uma ramada é o pallio verde,
    Os cachos d'uvas são as suas flores!

    Ao seu passal chama elle o mundo todo…
    Sr. Abbade! olhe que nada perde:
    Viva na paz, ahi, longe do lodo.

    Coimbra, 1850.

    13

    Maes, Vinde Ouvir!

    Longe de ti, na cella do meu quarto,
    Meu copo cheio de agoirentas fezes,
    Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
    Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

    Para fallar, assim, ve tu! já farto,
    Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
    Soffres por mim as dores crueis do parto
    E trazes-me no ventre nove mezes!

    Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
    Nunca eu mamasse o leite aureolado
    Que me fez homem, magica bebida!

    Fôra melhor não ter nascido, fôra,
    Do que andar, como eu ando, degredado
    Por esta Costa d'Africa da Vida…

    Coimbra, 1889.

    14

    Sê Altivo!

    Altos pinheiros septuagenarios
    E ainda empertigados sobre a serra!
    Sois os Enviados-extraordinarios,
    Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

    A noite, sob aquelles lampadarios,
    Conferenciaes com elle… Ha paz? Ha guerra?
    E tomam notas vossos secretarios,
    Que o _Livro Verde_ secular encerra.

    Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
    Tendes a linha, não vergaes as frontes
    Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

    Voltaes aos homens com desdem a face…
    Ai oxalá! que Pan me despachasse
    Addido á vossa extranha legação!

    Coimbra, 1888.

    15

    Sê de Pedra!

    Não reparaste nunca? Pela aldeia,
    Nos fios telegraphicos da estrada,
    Cantam as aves, desde que o sol nada,
    E, á noite, se faz sol a lua cheia…

    No entanto, pelo arame que as tenteia,
    Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
    O Ministro que joga uma cartada,
    Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

    –Revolução!–Inutil.–Cem feridos,
    Setenta mortos.–Beijo-te!–Perdidos!
    –Emfim, feliz!–?–!–Desesperado.–Vem!

    E as lindas aves, bem se importam ellas!
    Continuam cantando, tagarellas:
    Assim, Antonio! deves ser tambem.

    Colonia, 1891.

    16

    Vae para um Convento!

    Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
    Torres por terra! As arvores sem ramos!
    Ó meus amigos! todos nós falhamos…
    Nada nos resta. Somos uns perdidos.

    Choremos, abracemo-nos, unidos!
    Que fazer? Porque não nos suicidamos?
    Jezus! Jezus! Resignação… Formamos
    No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

    Troquemos o burel por esta capa!
    Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
    Clamam por nós, convidam-nos a entrar…

    Vamos semear o pão, podar as uvas,
    Pegae na enxada, descalçae as luvas,
    Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

    Coimbra, 1889.

    17

    A França!

    Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
    Por este mar de Gloria, em plena paz.
    Terras da Patria somem-se na treva,
    Agoas de Portugal ficam, atraz…

    Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
    Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
    Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
    Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

    Ó Luzitania que te vaes á vela!
    Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
    Na minha _Nau Catharineta_, adeus!

    Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
    Sobe depressa á gavea, marinheiro,
    E grita, França! pelo amor de Deus!…

    Oceano Atlantico, 1890.

    18

    Tempestade!

    O meu beliche é tal qual o bercinho,
    Onde dormi horas que não vêm mais.
    Dos seus embalos já estou cheiinho:
    Minha velha ama são os vendavaes!

    Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
    O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais…
    Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
    Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

    Coragem! Considera o que has soffrido,
    O que soffres e o que ainda soffrerás,
    E ve, depois, se accaso é permittido

    Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
    Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
    Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

    Golpho de Biscaya, 1891.

    19

    Continua a Tempestade

    Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
    Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
    Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
    E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

    Aqui, não tenho um unico deleite!
    Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria,
    Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_,
    Sem uma flor, sem o menor enfeite…

    Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
    Lar adorado, em fumos, a distancia,
    Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

    Minha velha aia! conta-me essa historia
    Que principiava, tenho-a na memoria,
    «Era uma vez…»
    Ah deixem-me chorar!

    Canal da Mancha, 1891.

    20

    Vaidade, Tudo Vaidade!

    Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
    Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
    Tuas amigas ter-te-ão amizade,
    (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

    Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
    Tudo vaidade! E, se pensares bem,
    Verás, perdoa-me esta crueldade,
    Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

    Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
    E eu vi-me só no mar com minha escuna,
    E ninguem me valeu na tempestade!

    Hoje, já voltam com seu ar composto,
    Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…
    E isto em mim não será uma vaidade?

    Mar do Norte, 1891.

    21

    Paz!

    E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
    Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…
    Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
    Com uma taça, ou um punhal na mão!

    Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
    Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
    E a tortura do _além_ e quem lá mora!
    Isso é, talvez, minha unica afflicção…

    Toda a dor pode suspportar-se, toda!
    Mesmo a da noiva morta em plena boda,
    Que por mortalha leva… essa que traz…

    Mas uma não: é a dor do pensamento!
    Ai quem me dera entrar n'esse convento
    Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!

    Pariz, 1891.

    22

    Epilogo

    Meu coração, não batas, pára!
    Meu coração, vae-te deitar!
    A nossa dor, bem sei, é amara,
    A nossa dor, bem sei, é amara…
    Meu coração, vamos sonhar…
    Ao mundo vim, mas enganado.
    Sinto-me farto de viver:
    Vi o que elle era, estou massado,
    Vi o que elle era, estou massado…
    Não batas mais! vamos morrer…
    Bati á porta da Ventura
    Ninguem m'à abriu, bati em vão:
    Vamos a ver se a sepultura,
    Vamos a ver se a sepultura
    Nos faz o mesmo, coração!
    Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
    Que a ambos nós vaes digerir…
    Meu coração, a _Velha_ chama,
    Meu coração, a _Velha_ chama…
    Basta, por Deus! vamos dormir…

    Coimbra, 1888.

    *Carta a Manoel*

    Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
    Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
    Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
    A cuja influencia a minha alma não reziste,
    Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
    Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem…
    E pede ao vento que não uive e gema tanto:
    Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
    Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
    Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
    Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias
    De velhas magras, galopando _Ave-Marias_,
    Peor que um diamante a riscar na vidraça!
    Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
    Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
    Tal a menina pelas vesperas da boda,
    Atarefada mail-a ama, a arrumar…
    O vento afoga o meu espirito n'um mar
    Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões
    São todos feitos de luar, recordações.
    Á noite, quando estou, aqui, na minha toca,
    O grande evocador do vento evoca, evoca
    Nosso verão magnifico, este anno passado,
    (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado,
    O _tic-tac_ do relogio do fogão)…
    Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão!
    Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.
    E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar,
    Triste, ao clarão da lamparina que desmaia,
    Na existencia que tive este verão na praia,
    Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora,
    Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,
    No barco á vela do moreno Gabriel!
    Vejo passar de negro, envoltas n'um burel,
    Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações!
    Phantasmas do passado! encantadas vizões!
    Que, embora estejam lá, no seu paiz distante,
    Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

    Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

    Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo!
    Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote…
    E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote,
    Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_!
    Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
    Tudo se foi…

    Hoje, mais nada tenho que esta
    Vida claustral, bacharelatica, funesta,
    N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
    Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
    Bem me dizias tu, como que adivinhando
    O que isto para mim seria, Amigo, quando
    O anno passado, vim contra tua vontade
    Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
    «Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim.
    Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
    Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
    Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
    Que optimas prelecções as prelecções modernas,
    Cheias de observação e verdades eternas,
    Que faz diariamente o Proff. Oceano!
    Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_,
    Manoel! faltava um anno só para acabar
    Meu curso de Psychologia com o Mar.
    Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
    Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
    Talvez… preguiça, eu sei… A _cabra_ é a cotovia:
    As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

    Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
    Era a distancia, o _além_, que me impressionava:
    Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
    Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…)
    Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_
    Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
    Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
    Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
    Tia Camella… só ficou a camelice.

    Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
    Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
    Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
    Que extraordinarias e medievas raparigas!
    E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
    As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
    Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
    Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
    Manoel! tão lindas são…»

    Que pena que não ouças!

    Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
    Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

    Olha… São os _Geraes_, no intervallo das aulas.
    Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
    Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
    Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
    Dos navegantes do seculo XVI?
    Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
    E magros! tristes! de cabeça derreiada!
    Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
    –E os doutores?–Ahi, os tens graves, á porta.
    Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa?
    Ha duas excepções: o mais, são todos um,
    Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum…
    Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
    Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
    Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
    Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
    Penedo!
    Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
    Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
    Mal diria eu em pequenito, quando a ama
    Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
    Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
    Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo,
    Imitava-te o andar, que não era bem de homem…
    Eu tinha birras?–Ahi vem o lobishomem!
    Dizia ella.–Bate á porta! Truz! truz! truz!
    E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

    Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
    Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
    Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
    Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
    Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
    Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
    E eternamente, para espanto de vindoiros:
    No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.

    Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora!
    Saiamos…
    Manoel, vamos por ahi fóra
    Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
    Por esses lindos, deliciozos arredores,
    Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
    Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
    Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
    Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
    Santos Logares, onde jaz meu coração!
    Cada um é para mim uma recordação…

    _Condeixa_?

    Vamos ao arraial que, alli, ha.
    –Sol, poeira, tanta gente!–É o mesmo, vamos lá!

    Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
    Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
    Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
    Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
    Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
    Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
    Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
    Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
    Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
    Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
    E sabemos das leis…» O que devem fazer
    Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
    D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
    Que estraga as plantações!–Que hão-de fazer? Bebel-as!
    E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos…
    Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

    _Tentugal_?

    Que manhã! E não quereres vir…
    Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
    É logo alli: quinze kilometros, é perto.
    Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
    Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
    Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
    Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
    Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
    Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
    Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
    Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
    Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
    Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
    Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
    Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
    Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
    O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
    Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
    E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
    Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
    Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
    Uma colonia de phtysicos, a ares!…
    Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
    Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo:
    A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
    Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

    Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
    Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
    Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
    Á natureza e o sol a semear Justiça!
    Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
    Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
    Mas o trem voa á desfilada…–Olá! arreda!
    (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
    E assim n'este galope, a charrette rodando,
    Já de Tentugal se vae quazi approximando:
    S. João do Campo já nos fica muito atraz…
    Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz!
    Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
    Emfim!

    Tentugal toda a rir de cazas brancas!

    A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
    E contrariado vou de todas essas vezes.
    Venho ao convento vizitar a linda freira,
    Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
    Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
    Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
    Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
    Tem de recheio o coração da minha amada.
    Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…–Traz?–Não!

    Regresso a Coimbra só com o meu coração.

    Coimbra, 1888-1889-1890.

    *Para As Raparigas de Coimbra*

    1

    Ó choupo magro e velhinho,
    Corcundinha, todo aos nós:
    És tal qual meu avôzinho,
    Falta-te apenas a voz.

    2

    Minha capa vos acoite
    Que é p'ra vos agazalhar:
    Se por fóra é cor da noite,
    Por dentro é cor do luar…

    3

    Ó sinos de _Santa Clara_,
    Por quem dobraes, quem morreu?
    Ah, foi-se a mais linda cara
    Que houve debaixo do céu!

    4

    A sereia é muito arisca,
    Pescador, que estás ao sol:
    Não cae, tolinho, a essa isca…
    Só pondo uma flor no anzol!

    5

    A lua é a hostia branquinha,
    Onde está Nosso Senhor:
    É d'uma certa farinha
    Que não apanha bolor!

    6

    Vou a encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu'é da tua agoa?
    Qu'é dos prantos que eu chorei?

    7

    A _cabra_ da velha Torre,
    Meu amor, chama por mim:
    Quando um estudante morre,
    Os sinos chamam, assim.

    8

    –E só porque o mundo zomba
    Que poes luto? Importa lá!
    Antes te vistas de pomba…
    –Pombas pretas tambem ha!

    9

    Therezinhas! Ursulinas!
    Tardes de novena, adeus!
    Os corações ás batinas
    Que diriam? sabe-o Deus…

    10

    Teu coração é uma igreja:
    N'uma eça dorme, alli,
    Manoel, bemdito seja,
    Que morreu d'amor por ti.

    11

    Manoel no _Pio_ repoiza:
    Todos os dias, lá vou
    Ver se quer alguma coiza,
    Perguntar como passou.

    12

    Agora, são tudo amores
    A roda de mim, no _Caes_,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    13

    Aos olhos da minha fronte
    Vinde os cantaros encher:
    Não ha, assim, segunda fonte
    Com duas bicas a correr!

    14

    Nossa Senhora faz meia
    Com linha feita de luz:
    O novello é a lua-cheia,
    As meias são p'ra Jezus.

    15

    Meu violão é um cortiço,
    Tem por abelhas os sons
    Que fabricam, valha-me isso,
    Fadinhos de mel, tão bons…

    16

    Ó fogueiras, ó cantigas,
    Saudades! recordações!
    Bailae, bailae, raparigas!
    Batei, batei, corações!

    Coimbra, 1890.

    *Luzitania no Bairro-Latino*

    Só!
    Ai do Luziada, coitado,
    Que não tem mãe, nem tem avó,
    Que não ama, nem é amado…
    Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
    Que triste foi o seu fado!
    Antes fosse p'ra soldado,
    Antes fosse p'ro Brazil…

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite,
    Searas que davam linho de fiar,
    Moinhos de velas, como latinas,
    Que S. Silvestre fazia andar…
    Formozas cabras, muito pequeninas,
    Loiras vaquinhas de maternas ancas
    Que me davam o leite de manhã,
    Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
    Meus bibes eram da sua lã…

    Antonio era o pastor d'esse rebanho:
    Com ellas ia para os montes, a pastar.
    E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
    E o pasto d'ellas era o meu jantar…
    E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
    Passava a noite, passava o dia
    Com essas boas irmãzinhas
    A quem só mingoava a falla
    Para serem perfeitas criaturinhas…
    E quando na Igreja das _Alvas Saudades_
    Que era da minha Torre a freguezia,
    Batiam as _Trindades_,
    Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
    Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_…
    E as doces ovelhinhas imitavam-me.

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite…
    Um dia, os castellos cairam do Ar!

    As oliveiras seccaram,
    Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
    Sairam-me os ladrões, só me deixaram
    As velas do moinho… mas rôtas e velhas!

    Que triste fado!
    Antes fosse aleijadinho,
    Antes doido, antes cego…

    Ai do Luziada, coitado!

    Veio da terra, mail-o seu moinho:
    Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
    Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
    É negra a sua farinha!
    Orae por elle! tende pena!
    Pobre Moleiro da Saudade…
    Ó minha
    Terra encantada, cheia de sol,
    Ó campanarios, ó luas cheias,
    Lavadeira que lavas o lençol,
    Ermidas, sinos das aldeias,
    Ó ceifeira que cegas cantando,
    Ó moleiro das estradas,
    Carros de bois, chiando…
    Flores dos campos, beiços de fadas,
    Poentes de Julho, poentes mineraes,
    Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

    Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

    Ó padeirinhas a amassar o pão,
    Velhinhas na roca a fiar,
    Cabello todo em caracoes!
    Pescadores a pescar
    Com a linha cheia de anzoes!
    Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
    Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
    Ó boi negro entre as capas vermelhas!
    Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
    Ó romaria do _Senhor do Viandante_!
    Procissões com muzica e anjinhos!
    Srs. Abbades d'Amarante,
    Com trez ninhadas de sobrinhos!

    Onde estaes? onde estaes?

    Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
    Cidade triste agazalhada entre choupaes!
    Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_!
    Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_!
    Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
    Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
    Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_,
    Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
    Onde se enroscam como espozos as lagartas!
    Sr. Governador a podar as rozeiras!
    Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
    Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

    Que é feito de vós?
    Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_,
    Pelo porta-voz…
    Arrabalde, maritimo da França,
    Conta-me a historia da _Princeza Magalona_,
    E do _Senhor de Calais_,
    Mais o naufragio do vapor _Perseverança_,
    Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
    Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras,
    Para os vapores a fazer signaes!
    Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
    Diccionario magnifico de cores!
    Alvas espumas, espumando a fragua,
    Ou rebentando, á noite, como flores!
    Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
    Cheias de brigues como pinhaes…
    Morenos mareantes, trigueiros pastores!

    Onde estaes, onde estaes?

    Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
    Cuja Abbadessa secular é a Lua
    E cujo Padre-capellão é o Vento…
    Agoa salgada d'esses verdes poços,
    Que nenhum balde, por maior, escua!
    Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
    Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
    Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

    Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
    Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
    Noiva cadaver ainda com véu…
    Ossadas ainda com os mesmos fatos!
    Cabeça roxa ainda de chapéu!
    Pés de defunto que ainda traz sapatos!
    Boquinha linda que já não canta…
    Boccas abertas que ainda soltam ais!
    Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
    Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
    Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

    Onde estaes, onde estaes?

    Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar,
    Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
    Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
    Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
    Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes!
    Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios…
    Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes!
    Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_!
    Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza!
    Engenheiros, medindo a estrada com a fita…
    Agoa fresquinha d'_Amoroza_!
    Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_!
    Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_,
    Atracou, diz a Historia,
    No dia… não estou lembrado;

    Ó capellinha do _Senhor d'Areia_,
    Onde o Senhor appareceu a uma velhinha…
    Algas! farrapos do vestido da sereia!
    Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
    Poveiros, que ides para as _vinte braças_,
    Sol-por, entre pinhaes…
    Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

    Onde estaes?

    2

    Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
    Traze o teu livro, toma as tuas notas:

    Oh as lanchas dos poveiros
    A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
    Que extranho é!
    Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
    Á espera da maré,
    Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
    E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
    Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!»
    E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
    (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
    Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
    Içam a vela, quando já têm mar,
    Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
    Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
    Rozario de velas, que o vento desfia,
    A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:

    _S^{nra} Nagonia_!

    Olha, acolá!
    Que linda vae com seu erro de ortographia…
    Quem me dera ir lá!

    _Senhora Da guarda_!

    (Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
    Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
    O caçador!

    _Senhora d'ajuda_!
    _Ora pro nobis_!
    _Calluda_!
    _Sêmos probes_!
    _S^{enr} dos ramos_!
    _Istrella do mar_!
    _Ca bamos_!

    Parecem Nossa Senhora, a andar.

    _S^{ra} da luz_!

    Parece o pharol…

    _Maim de Jesus_!

    É tal qual ella, se lhe dá o sol!

    _S^r dos Passos_!
    _Sinhora da Ora_!

    Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
    Parecem ermidas caiadas por fóra…

    _S^{nr} dos Navegantes_!
    _Senhor de Matuzinhos_!

    Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
    Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
    A mail-os quatro filhinhos,
    Vascos da Gama, que andam a ensaiar…

    _Senhora aos aflitos_!
    _Martyr Sao Sebastiao_!
    _Ouvi os nossos gritos_!
    _Deus nos leve pla mao_!
    _Bamos em paz_!

    Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
    Ide em paz!

    Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
    O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_,
    E das vagas, aos rythmos cadenciados,
    As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
    «As armas e os barões assignalados…»

    Lá sae a derradeira!
    Ainda agarra as que vão na dianteira…
    Como ella corre! com que força o vento a impelle:

    _Bamos com Deus_!

    Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
    Por esse mar de Christo…

    Adeus! adeus! adeus!

    3

    Georges! anda ver meu pàiz de romarias
    E procissões!

    Olha essas moças, olha estas Marias!
    Caramba! dá-lhes beliscões!
    Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
    Gula e luxuria dos Maneis!
    Têm nas orelhas grossas arrecadas,
    Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis,
    Ao pescoço serpentes de cordões,
    E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
    Além dos seus, mais trinta _coraçoes_!
    Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
    Toca a bailar!
    Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
    Que hão de gostar!

    Tira o chapéu, silencio!

    Passa a procissão.

    Estralejam foguetes e morteiros.
    Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
    Honestos e morenos cavalheiros.
    Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
    Parecem _Torres de David_, na amplidão!
    Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
    Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
    Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
    Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!

    Os anjinhos!
    Vêm a suar:
    Infantes de trez annos, coitadinhos!
    Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
    Que elles mal sabem andar…

    Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros!
    (Assim estava, em _certo dia_, na Judeia)
    Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!)
    E aquella outra é a _Lua-Cheia_!
    Seus doces olhos fazem luar…
    Essa, acolá, leva na mão os _Dados_,
    Mas perde tudo se vae jogar.
    E esta que passa, toda de arminhos,
    (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
    Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_,
    Flor de criança que os não tem.
    E que bonita vae a _Esponja de Fel_!
    Mal ella sabe, a innocentinha…
    Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel:
    Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
    Lá vem a _Lança_! A bainha
    Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_…
    Jezus!
    Que maravilha de criança!
    O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
    Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
    Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…

    Passa o ultimo, o _Sudario_!
    O corpo de Jezus, Nosso Senhor…

    Parece o sol-por!
    E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
    É o Oceano Atlantico!
    O bom povinho de fato novo,
    Nas violas de arame soluça, romantico,

    Fadinhos chorozos da su'alma beata.

    Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

    Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
    O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
    Como a velha cabeça aureolada de Deus!

    Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
    Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

    Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_!
    _Pão de ló de Margaride_!
    _Agoinha fresca da Moirama_!
    _Vinho verde a escorrer da vide_!

    Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
    Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
    E uma netinha com um ramo de loireiro
    Enxota as moscas, do moribundo…

    Dança de roda mail-as moças o coveiro.

    Clama um ceguinho:
    «Não ha maior desgraça n'esta vida,
    Que ser ceguinho!»
    Outro, moreno, mostra uma perna partida!
    Mas fede tanto, coitadinho…
    Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
    E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
    Labareda de cancros em fogueira,
    Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
    Ó Georges, ve! que excepcional cravina…

    Que lindos cravos para por na botoeira!

    Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
    Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
    Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
    Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
    Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
    Talvez lá dentro com perfeitos corações:
    Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
    Tragicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
    Das suas obrigações!»
    Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
    E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…

    Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
    Onde estão elles que não vêm pintar!

    Pariz, 1890-1891.

    *Os Figos Pretos*

    –Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
    Vós sois odiadas desde os seculos avós:
    Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
    Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

    –Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
    Deixae-o fallar!
    Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
    Que bom que é amar!

    –O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
    Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
    No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
    E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

    –Quando eu for defunta para os esqueletos,
    Ponde uma ao meu lado:
    Tristinha, chorando, darà figos pretos…
    De luto pezado!

    –Os aldeões para evitar vosso perfume
    Sua respiração suspendem, ao passar…
    Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
    Os carpinteiros não vos querem aplainar.

    –Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
    Que incensa o Senhor!
    Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
    Para o meu amor…

    –As outras arvores não são vossas amigas…
    Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
    Com essas folhas, sois como velhas mendigas
    N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

    –Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
    E cheias de figos!
    Os ricos là passam e não vos dao nada,
    Vos daes aos mendigos…

    –Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
    O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
    Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
    Utilizada para as forcas, onde as ha…

    –Que màs creaturas! que injustas sois todas
    Que injustas que sois!
    Serà de figueira meu leito da bodas…
    E os berços, depois

    –Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
    Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!…
    Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
    Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

    –Tambem era negro, de negro cegava
    O pranto, o rosario,
    Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
    Alguem, no Calvario…

    –E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
    Se os figos caem de maduros, pelo chão:
    Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
    A chorar, a chorar sua alta traição!

    –Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
    Deixae-o fallar!
    Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
    Cantar e bailar…

    Coimbra, 1889.

    *Febre Vermelha*

    Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
    Para que em vosso seio o labio meu se atole:
    Beber até cair, bebedo, para o lado!
    Quero beber, beber até o ultimo gole!

    Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
    Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
    As ondas como o oceano, ou antes como um rio
    Levando na corrente Ophelias de luar…

    Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
    Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
    Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
    E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…

    Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
    Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
    Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
    E eu ando a construir meu cortiço de mel…

    Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
    Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
    Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
    Tintos da mesma cor os corações e as balas!…

    Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
    N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
    Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
    Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…

    Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
    Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
    Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
    Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

    Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
    Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
    Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
    O triste fado que me deu Nosso Senhor…

    Scismo já farto de velar minha alma doente,
    Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
    Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
    A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

    Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
    Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
    Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
    Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

    Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
    Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
    E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
    Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…

    Leça, 1886.

    *Poentes de França*

    –Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
    Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…)
    Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
    Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

    –Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
    O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
    Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
    Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

    Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros,
    Á hora em que passam branquinhos moleiros,
    Levando farinha p'ra cozer o pão!

    –Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
    Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
    Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
    Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

    –Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores!
    Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
    Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
    Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

    Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
    Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
    Quando vem das sachas o Sr. Joao…

    –Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
    Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
    Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
    Varaste os corações d'um exercito em fila!

    –Ó hora em que as agoas rebentam das minas…
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
    Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
    Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
    E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

    –Ó hora em que passam moças e meninas
    Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_,
    Com rozas nos seios e um livro na mão…

    –Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
    A tua saude erguer a minha taça ardente!
    Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
    Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

    –Eu amo os poentes, mas sem agonias,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
    A tua porta os marinheiros vão bater:
    Lá vejo os astros por seus calices de prata,
    Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber…

    Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
    Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    Pariz, 1891.

    *Pobre Tysica*!

    Quando ella passa á minha porta,
    Magra, livida, quazi morta,
    E vae até á beira-mar,
    Labios brancos, olhos pizados:
    Meu coração dobra a finados,
    Meu coração poe-se a chorar…

    Perpassa leve como a folha,
    E suspirando, ás vezes, olha
    Para as gaivotas, para o Ar:
    E, assim, as suas pupillas negras
    Parecem duas toutinegras,
    Tentando as azas para voar!

    Veste um habito cor de leite,
    Saiinha liza, sem enfeite,
    Boina maruja, toda luar:
    Por isso, mal na praia alveja,
    As mais suspiram com inveja:
    «Noiva feliz, que vaes cazar…»

    Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_
    Que, dentro em pouco, á fria cova
    A irá de vez acompanhar…
    O chão desnuda com cautella,
    Que _Boy_ conhece o estado d'ella:
    Quando ella tosse, poe-se a uivar!

    E, assim, sósinha com a aia,
    Ao sol, se assenta sobre a praia,
    Entre os bébés, que é o seu logar…
    E o Oceano, tremulo avôzinho,
    Cofiando as barbas cor de linho,
    Vem ter com ella a conversar…

    Fallam de sonhos, de anjos, e elle
    Falla d'amor, falla d'aquelle
    Que tanto e tanto a faz penar…
    E o coração parte-se todo,
    Quando a sorrir, com tão bom modo,
    O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»

    Sarar? Mizerrima esperança!
    Padres! ungi essa criança,
    Podeis sua alma encommendar:
    Corpinho d'anjo, casto e inerme,
    Vae ser amada pelo Verme:
    O bichos vão-na desfructar…

    Sarar? Da cor dos alvos linhos,
    Parecem fuzos seus dedinhos,
    Seu corpo é roca de fiar…
    E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
    Eu julgo ouvir n'uma officina
    Taboas do seu caixão pregar!

    Sarar? Magrita como o junco,
    O seu nariz (que é grego e adunco)
    Começa aos poucos de afilar,
    Seus olhos lançam igneas chammas…
    Ó pobre mãe, que tanto a amas,
    Cautella! O outomno está a chegar…

    Leça, 1889.

    *A Poezia do Outomno*

    Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
    Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
    Tardes de sonho em que a poezia escorre
    E os bardos, a sonhar, molham a penna!

    Ao longe, os rios de agoas prateadas
    Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
    São como estradas liquidas, e as estradas
    Ao luar, parecem verdadeiros rios!

    Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
    O chale pedem a quem vae passando…
    E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
    As lavandiscas noivam piando, piando!

    O orvalho cae do céu, como um unguento.
    Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
    E a larangeira, aos repellões do vento,
    Deixa cair por terra a flor dos noivos.

    E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega
    O val sem fruto, a terra arida e nua!
    E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
    O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

    Tardes de outomno! ó tardes de novena!
    Outubro! Mez de Maio, na lareira!
    Tardes…
    Lá vem a Lua, _gratiae plena_,
    Do convento dos céus, a eterna freira!

    Porto, 1886.

    S.^{ta} Iria

    N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
    Pequenino baixel, a santa vae boiando…
    Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
    E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

    Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
    Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
    E, com a graça etherea e meiga das crianças,
    Formosa Iria vae boiando, vae boiando…

    Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_,
    E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
    Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

    Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,
    A mãe do pescador, rezando a ladainha
    Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…

    Leça, 1885.

    *Enterro de Ophelia*

    Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
    (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
    Como padres orando, os choupos formam ala,
    Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…

    Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
    Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
    Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_,
    D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…

    O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
    Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
    Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

    Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
    E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
    Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

    Leça, 1888.

    *Ballada do Caixão*

    O meu vizinho é carpinteiro,
    Algibebe de Dona Morte:
    Ponteia e coze, o dia inteiro,
    Fatos de pau de toda a sorte:
    Mogno, debruados de velludo
    Flandres gentil, pinho do Norte…
    Ora eu que trago um sobretudo
    Que já me vae a aborrecer,
    Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
    Havia immenso que fazer!…)
    –Olá, bom homem! quero um fato,
    Tem que me sirva?–Vamos ver…
    Olhou, mexeu na caza toda…
    –Eis aqui um e bem barato.

    –Está na moda?–Está na moda.
    (Gostei e nem quiz apreçal-o:
    Muito justinho, pouca roda…)
    –Quando posso mandar buscal-o?
    –Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
    (Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

    Ó meus amigos! salvo-erro,
    Juro-o pela alma, pelo céu!
    Nenhum de vós, ao meu enterro,
    Irá mais dandy, olhae! do que eu!

    Pariz, 1891.

    *Á Toa*

    O Primeiro Homem

    Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
    Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

    A Montanha

    Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
    E veias do meu corpo os azulados rios.

    Os Rios

    Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
    Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

    A Lua

    Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
    Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…

    A Terra

    E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
    Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

    A Macieira

    Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
    Abanae a macieira e cairão estrellas!

    A Estrellas

    No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
    E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_…

    O Mar

    Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
    Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

    Os Relampagos

    Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
    Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…

    O Infinito

    Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
    Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…

    A Esperança

    Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
    No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

    Os Cyprestes

    Para apontar os céus, como dedos funereos,
    Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…

    Os Cemiterios

    Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos!
    Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

    Os Mortos

    Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
    E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

    Porto, 1885.

    *A Vida*

    Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
    Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
    Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
    Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
    Ó olhos negros como noites, como poços!
    Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
    Ó puros como o céu! ó tristes como levas
    De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

    Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
    Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
    Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
    Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
    Olhos accezos como altares de novena!
    Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
    Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
    Lume dos que no mar andam botando as linhas…
    Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
    Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
    Mais os que vão na diligencia pela serra!
    Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
    Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
    Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
    Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
    Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
    Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
    Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
    Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
    Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
    Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
    Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
    Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha…
    Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha…
    Olhos tranquillos e serenos como pias!
    Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias
    Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos,
    Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
    Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
    E milagrozos, e misericordiozos,
    Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
    Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
    Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
    Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…

    Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
    De que te serve ter uns astros sem eguaes?
    Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
    O mar a uivar! A espuma verde das marés!
    Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
    Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
    A arder entre clarões de coleras! O orgulho
    Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
    Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
    Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
    Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
    Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
    Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
    Quantos suores sem proveito! quantas taças
    A trasbordar veneno em espumantes boccas!
    Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
    N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
    E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
    E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
    E aquella que não sae por ter uzada a saia!
    E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
    E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
    Olha essa procissão que passa: um torturado
    De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
    E para ser feliz fez todos os esforços…
    Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
    Como dez annos de prizão maior-cellular!
    Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
    Olha o bébé que teve Torre de coral
    De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
    Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
    Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
    Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas…
    Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
    Olha esse olhar que têm os homens da politica!
    Olha um artista a ler, soluçando, uma critica…
    Olha esse que não tem talento e o julga ter
    E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever!
    Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
    Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
    Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
    Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
    Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
    Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
    Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
    Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
    Olha um velhinho a carregar com a farinha
    E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
    Olha a sair a barra a galera _Gentil_
    E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
    Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
    É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
    Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…

    Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

    Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
    Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
    Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
    Foi para ver, coitada! essa bola de lama
    Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
    A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha…

    Pariz, 1891.

    *O Somno de João*

    O João dorme… (Ó Maria,
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…)

    Tem só um palmo de altura
    E nem meio de largura:
    Para o amigo orangotango
    O João seria… um morango!
    Podia engulil-o um leão
    Quando nasce! As pombas são
    Um poucochinho maiores…
    Mas os astros são menores!

    O João dorme… Que regalo!
    Deixal-o dormir, deixal-o!
    Callae-vos, agoas do moinho!
    Ó mar! falla mais baixinho…
    E tu, Mãe! e tu, Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    O João dorme… Innocente!
    Dorme, dorme eternamente,
    Teu calmo somno profundo!
    Não acordes para o mundo,
    Póde affogar-te a maré:
    Tu mal sabes o que isto é…

    Ó Mae! canta-lhe a canção,
    Os versos do teu irmão:
    «Na Vida que a Dor povoa,
    Ha só uma coisa boa,
    Que é dormir, dormir, dormir…
    Tudo vae sem se sentir.»

    Deixa-o dormir, até ser
    Um velhinho… até morrer!

    E tu vel-o-ás crescendo
    A teu lado (estou-o vendo
    João! Que rapaz tão lindo!)
    Mas sempre, sempre dormindo…

    Depois, um dia virá
    Que (dormindo) passará
    Do berço, onde agora dorme,
    Para outro, grande, enorme:
    E as pombas que eram maiores
    Que João… ficarão menores!

    Mas para isso, ó Maria!
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    E os annos irão passando.

    Depois, já velhinho, quando
    (Serás velhinha tambem)
    Perder a cor que, hoje, tem,
    Perder as cores vermelhas
    E for cheiinho de engelhas:
    Morrerá sem o sentir,
    Isto é deixa de dormir…
    Acorda e regressa ao seio
    De Deus, que é d'onde elle veio…

    Mas para isso, ó Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais davagar:

    Não vá o João, acordar…

    Pariz, 1891.

    *Ao Canto do Lume*

    Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
    Ninguem, viv'alma… O que farão os mais?
    Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen o d'estas noites immortaes!

    Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…)
    Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
    E quando todo se extinguir na aurea chamma,
    Eu botarei (para que serve? já não ama…)
    As cinzas brancas, meu vermelho coração!

    Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
    Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
    Cautella… Orçae! Largae a escota! _Ave Maria!
    Cheia de Graça_… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
    Que triste ver defuntos a boiar!

    Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
    Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
    Nada ha peior que este somnambulo abandono!
    Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
    D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!

    A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
    Que felizes, sois prestes a partir!
    Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!…
    Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
    Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…

    Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
    Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
    Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando…
    Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
    Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…

    Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
    Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
    Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te…
    –Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
    Coitado de quem fica… Adeus! adeus!

    Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
    Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
    –Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero
    Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
    E a Agueda beber agoa do Botareu…

    Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
    Paizes raros, Neves, Areiaes;
    Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
    Armei na França minha tenda de campanha…
    E tedio, tedio, tedio e nada mais!

    Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
    Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
    Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
    Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
    Tal como aspirações irrealizaveis, ai!

    Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
    Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
    Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
    Agora, trago uma medalha sobre o seio
    Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.

    Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
    Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
    As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
    E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo,
    Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

    Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
    Pelo luar da lua de Canaan:
    Quero passar o _além_ que para além se alteia,
    A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
    E um logarejo a Estrella da Manhã!

    (E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
    Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
    Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

    Pariz, 1890-1891.

    *A Sombra*

    Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
    São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
    Que já a lua, a sentinella, rende
    Na esplanada do céu, ás portas do Castello…

    Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
    Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
    Com o cabello separado ao meio,
    Todo caido para traz, como o de Christo!

    Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
    Quantas lembranças d'este peito arranco!
    Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
    Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

    Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
    Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
    Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
    Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

    Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
    Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
    Terá ainda a mesma voz tranquilla?
    Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…

    Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
    Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
    Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
    E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
    «Anda commigo…»

    Coimbra, 1888.

    *O Meu Cachimbo*

    Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
    Tu, meu thuribudo sagrado!
    Com que, bom Abbade, incenso
    A Abbadia do meu passado.

    Fumo? E occorre-me á lembrança
    Todo esse tempo que lá vae,
    Quando fumava, ainda criança,
    Ás escondidas do meu Pae.

    Vejo passar a minha vida,
    Como n'um grande cosmorama:
    Homem feito, pallida Ermida,
    Infante, pela mão da ama…

    Por alta noite, ás horas mortas,
    Quando não se ouve pio, ou voz,
    Fecho os meus livros, fecho as portas
    Para fallar comtigo a sós.

    E a noite perde-se em cavaco,
    Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
    Alli, mettido no buraco,
    Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.

    Chorando (penso e não o digo)
    Os olhos fitos neste chão,
    Que tu és leal, és meu amigo…
    Os meus amigos onde estão?

    Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
    Os trez, os intimos, _Aquelles_,
    Estão na Morte, no extrangeiro…
    Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

    Morreram-me uns. Por elles peço
    A Deus, quando está de maré:
    E, ás noites, quando eu adormeço,
    Phantasmas, vêm, pé ante pé…

    Tristes, nostalgicos da cova,
    Entram. Sorrio-lhes e fallo…
    Deixam-se estar na minha alcova,
    Até se ouvir cantar o gallo…

    Outros, por esses cinco oceanos,
    Por esse mundo erram, talvez…
    Não me escreveis, ha tantos annos!
    Que será feito de vocês?

    Hoje, delicias do abandono!
    Vivo na paz, vivo no limbo:
    Os meus amigos são o Outomno,
    O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

    Ah! quando for do meu enterro,
    Quando eu partir gelado, emfim,
    No meu caixão de mogno e ferro,
    Quero que vás ao pé de mim.

    Santa mulher que me tratares,
    Quando em teus braços desfalleça,
    Caso meus olhos não cerrares,
    Embora! Que isto não te esqueça:

    Colloca, sob a travesseira,
    O meu cachimbo singular
    E enche-o, sollicita enfermeira,
    Com _Gold-Fly_, para eu fumar…

    Como passar a noite, amigo!
    No _Hotel da Cova_ sem conforto?
    Assim, levando-te commigo,
    Esquecer-me-ei de que estou morto…

    Coimbra, 1889.

    *Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*

    Memoria
    A J. d'Oliveira Macedo,
    Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.

    Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_,
    Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
    Vae dar o leite ás cazas do Infinito…

    Ás horas das _Trindades_, á noitinha,
    Quando ha milagres e sublimes couzas
    E caza o rouxinol com a andorinha…

    Quando a alma das virgens religiozas,
    Triste se envolve n'um burel de magoa
    E os anjos noivam mail-as suas Rozas…

    Quando o luar azula a espuma, a fragua,
    E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
    Como que tem os olhos razos de agoa…

    N'essa hora indeciza, augustiada,
    Em que o universo está, meio ás escuras,
    Que não se sabe se é antes a alvorada:

    Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
    Essa radioza lagryma de pranto
    Que despedem, morrendo, as criaturas.

    E ao vir da noite, livido de espanto,
    Vi uma estrella a mais no azul do céu:
    É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

    Ás horas do crepusculo… morreu!
    O simples coração de Julieta
    Dentro da alma clara de Romeu!

    Uma criação de Deus, mas incompleta:
    Aguia, encerrando um coração de pomba,
    Cedro que dava folhas de violeta!

    Ah, quando vejo alguma flor que tomba
    Meu coração estorce-se de dor,
    De Deus minha alma inconsolavel zomba!

    Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
    Aos ventos, aos relampagos, ficou
    N'este Valle de Lagrymas, Senhor!

    Quem lhe dera a mortalha que levou
    Toda coberta do cabello loiro
    Da mystica menina que elle amou!

    Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
    Na janella que deita para o mar,
    Soltas ao vento as suas tranças de oiro!

    Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
    Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
    Deixae do céu a vossa luz tombar!

    Ó aves, que trazeis a primavera,
    Para cobrir o solitario ninho,
    Ide buscar á sua campa a hera!

    Ó pombas de luar, pombas de linho,
    Que ides tão alto, divagando errantes,
    Quazi mortas, perdidas no caminho:

    Do vento sobre as azas triumphantes
    Prendei a aza e, assim, acompanhae
    O scismador que vos cantava d'antes!

    Elle precorre victoriozo, olhae!
    Entre espumas de brancas andorinhas
    O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!

    Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
    Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
    E beijos com as pallidas mãozinhas…

    Mas elle vae boiando nos espaços,
    Sendo o seu corpo uma subtil galera
    Com leves remos de marfim, seus braços…

    Onde vae elle? a que ditoza esphera
    Velhinha Morte a sua alma guia?…
    Que vida immensa, lá no céu, o espera!

    Para ganhar o pão de cada dia
    Cuidará da lavoira, mais das flores,
    Lavrando as terras da Virgem Maria!

    Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
    N'uma herdade do céu, entre charruas,
    A cavar entre simples lavradores,

    Semeando estrellas e plantando luas…
    E ainda o choram, que feliz desgosto!
    O vento passa a uivar por essas ruas…

    E um oleo algente, excepcional composto,
    Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
    Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.

    E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
    Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
    Não chores mais estrella azul do Norte!

    Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
    E, como a juba d'um leao hirsuto,
    O cedro curva, em tempestade, a fronte;

    Os pallidos jasmins vestem de luto…
    Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
    O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.

    Formozo, branco, meigo, sorridente,
    Com esses olhos que parecem soes,
    Vaes repoizar na cova, eternamente.

    O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
    E allumia-te a bocca de criança,
    O sorrizo dos virgens, dos heroes!

    E o corpo teu na cova, essa esperança
    Eterna como os seculos e as flores,
    Entre verduras, afinal, descança…

    Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
    Abrem as campas, lugubres cavernas:
    O coveiro é o melhor dos constructores!
    Covas que elle abra são cazas eternas.

    Leça, 1885.

    *Quando Chegar a Hora*

    Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
    Oiça isto que lhe peço:
    Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
    Olhe: eu mesmo lh'a meço…

    O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
    O cão pode lá ir:
    Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
    Que m'a venha elle abrir.

    E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
    Que toque a Alléluia!
    Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
    A minha alma é dia!

    Será meu confessor o vento, e a luz do raio
    A minha Extrema-Uncção!
    E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
    De padres farão.

    Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
    Virão devagarinho,
    E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
    Em tiras, para o ninho!

    E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
    N'aquelle dia, ai!
    Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
    Sugae! sugae! sugae!

    Raro têm de comer. A pobreza consome
    As aguias, coitadinhas!
    Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
    A essas desgraçadinhas…

    De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
    Não me lembrei, não vi
    Que tinha feito com as aguias um contrato,
    No dia em que nasci.

    Seixo, 1886.

    *Certa Velhinha*

    1

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes…
    Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

    Os ventos entoam cantigas funestas,
    Relampagos tingem de vermelho o Azul!
    Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
    Com vento da _Barra_ puxado do sul?

    Aonde irá ella, pastores! boieiras!
    Aonde irá ella, n'uma noite assim?
    Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
    Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

    Contava-me aquella que a tumba já cerra,
    Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
    Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
    Porque em noites d'estas não anda ninguem…

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que linda velhinha que vem a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes!
    Quaes velas accezas que a vêm a guiar…

    Que pobre capinha que leva de rastros,
    Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
    Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
    É o céu estrellado vestido do envez…

    Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
    Parece uma vinha de luar em flor…
    Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
    So no céu ha uvas com aquella cor…

    A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
    Que ao redor espalha divino clarão!
    Parece que chove luar na montanha…
    Que noite de inverno que parece verão!

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Velhinha tão alta que vem a chegar!
    Parece uma Torre côada de luzes!
    Ou antes a _Torre de Marfim_, a andar!

    Não! Não é uma Torre côada de luzes,
    Nem antes a _Torre de Marfim_, a andar,
    Que pela tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite destas, eu vejo passar…

    Tambem não é, ouve, minha velha ama!
    Como tu contavas, a Virgem de Luz:
    Digo-te ao ouvido como ella se chama,
    Mas guarda segredo, que é…
    –Jezus! Jezus!

    2

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Já não é a velhinha que vae a passar:
    Um grande cortejo cheiinho de luzes,
    Anninhas da Eira que vae a enterrar.

    Falla d'um pastor:

    «Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
    Cantae, raparigas, cantae e chorae!
    Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
    Como um passarinho, sem soltar um ai.

    Quando era pequeno, levava-me á escola,
    E quando, mais tarde, cresci e medrei,
    Oh danças nas eiras, ao som da viola!
    Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

    Os annos vieram, os annos passaram,
    Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
    Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
    Perdi-a de todo, nunca mais a vi…

    E além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite d'estas com vento a ventar,
    Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
    Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

    Olá! bons senhores, vestidos de preto,
    Deixae a defunta, que a levarei eu!
    O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
    O caixão de Anninhas é tambem o meu!

    Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
    A rezar por ella, sob o temporal!
    Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
    Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

    Mas os bons senhores, de preto vestidos,
    Cigarros accezos, e velas na mão,
    Lá passam ao vento, com sete sentidos,
    Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…

    «Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
    Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
    Com suas mãosinhas, agora tão frias,
    Irá na viagem a dizer-me adeus…

    Ó vento que passas! corcel de rajada!
    Assenta-nos ambos no mesmo selim:
    Quero ir mais ella na longa jornada…
    Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

    Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
    Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
    Quero ir como ella, assim de mãos postas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella for!

    Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
    Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
    Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»

    3

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes…
    Aonde irá ella? Quem irá buscar?

    Pariz, 1891.

    *Males de Anto*

    A Ares n'uma aldeia

    Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
    Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
    Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
    Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
    Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
    Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
    No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
    Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
    Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
    Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
    Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
    Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
    Comia terra, embebedava-me com luz!
    Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
    Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
    Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
    O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
    Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
    Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
    (Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
    Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
    Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.

    Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
    Sentia renascer minha antiga bondade
    N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
    Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
    A minha bolsa pequenina, de estudante,
    Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
    E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
    Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
    Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
    P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
    Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar…
    E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
    Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
    Costumava esconder-me em uma certa rocha,
    Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
    E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
    Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
    E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!

    Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
    Que as tem maiores este filho de seus Paes!
    Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
    Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!

    Meu pobre coração toda a noite gemia
    Como n'um hospital…

    Entrae na enfermaria!

    Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
    Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
    Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
    Ó mornos vagalhões do coração humano,
    Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
    Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!…
    Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
    A que horas é a baixamar, quem vos escua?
    Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
    Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
    Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
    O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
    Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
    Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…)
    A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
    Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!

    Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
    Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
    Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
    Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
    Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
    Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
    De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
    De coleras! Horror…

    Deixei fugir a escota,
    Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
    Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!…
    Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
    Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
    Da minha vingança! ó Ophelias do perdão…
    (Socega! Faze por dormir, meu coração!
    Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias!
    Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
    Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
    O mundo jovial de guarda-sol aberto!
    Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
    Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
    Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
    E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
    E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
    Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
    Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
    E reis e generaes envoltos nas mortalhas!…
    P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
    Homens! criae outro systema de algarismos!

    Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta…
    Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
    Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me…
    Um lenço branco _Adeus_! nos longes, a acenar-me:
    Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
    E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite
    Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
    Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos _Alguens_…
    Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
    Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios
    Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
    Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
    Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
    De amor mystico! Amar freiras de habito branco
    Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
    Sob relampagos!…

    Jezus! Jezus! Jezus!

    Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
    Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
    E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
    Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
    Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
    Quando os soes-postos são uma delicia, quando
    Os aldeões andam a podar, cantarolando,
    E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
    Ceifam curvadas, como na haste as violetas!

    Medico? Para que… A doença era d'alma.
    Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
    Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
    Tomava quazi sempre a estrada dos _Malheiros_.
    A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
    Onde perpassam os aldeões na caminhada
    E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
    Ora havia, lá (e ha ainda) umas _Alminhas_
    Com um painel antigo sob um oratorio,
    Que são as almas a penar no Purgatorio.
    E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
    Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
    Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
    Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…

    E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
    Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
    Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
    Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
    Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
    Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
    Deita uma pedra: cada pedra é uma oração…
    Oh raras orações, que nunca findam, não!
    Perpetuamente, lá ficam os _Padre-Nossos_,
    Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!…
    Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
    Dizendo para mim: «se me matasse alguem…»
    Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
    E ninguem me matava…

    Ah! vinham a essa hora
    As moças da lavoira a cantar, a cantar,
    (Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…)
    Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
    Paravam de cantar e ficavam-me olhando…
    E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
    Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»

    Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
    Que ia o cantaro encher á _Fonte do Salgueiro_,
    Lindos cabellos empoeirados de farinha:
    Era uma flor, mas parecia uma velhinha…
    –Vae melhorzinho?–Assim… vou indo, vou melhor…
    –Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…

    E um pouco mais além, no logar do _Cazal_,
    N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
    Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
    E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
    Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
    «Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
    Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
    É que chama a attenção para a sua desgraça!

    E, para bem coroar o meu tragico fado,
    Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
    «Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
    E, grave, para si:
    «A Sciencia abandonou-te!»

    Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
    Em tudo via a _Velha_, em tudo via a Morte:
    Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
    Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova…
    Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
    Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
    E ao ver as terras estrumadas, como lume,
    Quedava-me a scismar no meu destino… estrume!
    A pomba que passava era a minha alma a voar…
    E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
    E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
    Pensava… se estaria, alli, o meu lençol…
    E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
    Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
    A tiracollo a cerra, o martello e o formão…
    Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
    Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
    Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…

    Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!

    A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
    Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
    Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
    Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
    Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
    Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
    E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
    Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho…
    Quando na ermida dão _Trindades_, de mansinho,
    E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre…
    Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
    Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
    Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
    Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
    (Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
    Quando para beber me debrucei na pia,
    No fundo d'agoa, vi uma photographia…
    Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
    O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
    O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
    E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!

    Fugi!

    E, desde então, não mais sai de caza.
    Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
    Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
    Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
    As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
    D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
    Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
    E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio…
    E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
    Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
    E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio…
    Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!

    Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
    Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
    Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
    E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
    E já me resignei… Mas Carlota, esse amor,
    Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
    E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
    Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
    N'estas trez legoas, o Dr. da _Preza Velha_.
    Eil-o que chega…
    –Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
    Toma-me o pulso…–Está bem, isso não é nada,
    Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
    E, sobretudo, veja lá… nada de versos…
    Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
    Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
    D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
    Tysica d'Alma. Emfim…

    Ó Carlota! ó Carlota!
    Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
    Já estaria bom, se me valessem rezas.
    E, no Oratorio, tem duas velas accezas
    Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
    E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
    E sei, até, que prometteu uma novena,
    Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena!
    E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
    Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
    Com as iniciaes do meu nome em canella,
    E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
    Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
    Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
    Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
    Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
    Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
    Quando me sinto pior, ao bater das _Trindades_,
    E me appetece comer terra, algumas vezes
    (Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
    Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
    Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…»
    E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
    Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
    Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
    E com um mimo que só sabe ter uma ama
    Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
    E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
    Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
    E não se vae deitar…

    Onde ha, assim, uma avó?

    A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
    Trez legoas em redor manda saber de mim.
    (Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
    Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
    Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
    –Quem é?… E, então, olhae!

    «É o Sr. Abbade
    Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
    Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
    «Que manda um gigo», mais as senhoras do _Rôfo_
    Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
    Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
    Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
    Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
    «Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
    Mais o Sr. Doutor de _Linhares_ «que manda
    Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
    Mais «o da _Igreja_ que offerece a codorniz
    Que matou, hoje, na _Tapada de D. Luiz_»;
    Mais o Sr. Miguel das _Alminhas de Pulpa_
    «Que manda este peru e que pede desculpa»;
    E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
    Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos
    Mandam tambem saber «como vae o menino…»
    E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
    Na noite a badalar as suas badaladas!
    Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
    Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:

    –Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero…
    Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar…
    Em pequenino era tão bom de aturar…
    E depois era tão alegre, tão esperto!
    E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
    Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
    Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
    E tosse tanta vez! já arqueia das costas…
    Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
    E elle é tão bom, tem tão bons modos…
    –Coitadinho!
    –Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
    Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
    E que se poe assim a esticar, a esticar?
    Assim é o meu menino…
    –Ó S.^{ra} Carlota,
    E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
    As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu…
    –Nunca foi assim: foi depois que se metteu
    A fumar, a beber e lá com as po'sias.
    Aquillo para mim foram as companhias.
    Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
    E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
    E nunca ia á licção, ficava sempre mal
    Nos seus exames, escrevia no jornal;
    E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
    Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
    Com medo de o affligir… mas depois, quando estava
    Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava.
    –O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
    Lá dos estudos, de Coimbra…
    –Antes fosse
    Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei…
    –Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei…
    –S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
    Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
    Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
    Depois, está aqui, está quazi formado…

    Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
    A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço
    E vae por hi fóra, por todas essas salas,
    A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
    Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
    Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
    (Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
    Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
    E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
    Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar!
    E quando foi para chamar o cirurgião?
    Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
    Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
    Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…

    Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
    Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
    É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
    E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
    E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
    Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

    E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
    Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
    Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
    E as velas accendia á Senhora das Dores,
    (Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
    Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
    E uiva-lhe, assim:
    «Antes as tuas sete espadas!»

    E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.

    Coimbra, 1890.

    Pariz, 1891.

    *Ah Deixem-me Dormir!*

    O Poeta

    Olá, bom velho! é aqui o _Hotel da Cova_,
    Tens algum quarto ainda para alugar?
    Simples que seja, basta-me uma alcova…
    (Como eu estou molhado! é de chorar…)

    O povo

    O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
    Jezus! que lindo…

    Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
    Que eu tenho somno, quero-me deitar!
    Ó velha Morte, minha outra ama!
    Para eu dormir, vem dar-me de mamar…

    A S.^{ra} Julia

    São as Janeiras da Lua!

    O Coveiro

    Os quartos, meu senhor, estão tomados
    Mas se quizer na valla (que é de graça…)
    Dormem, alli, somente os desgraçados:
    Têm bom dormir… bom sitio… ninguem passa…

    O Zé dos Lodos

    A lua é a nossa vacca, ó Maria!
    Mugindo…

    Ainda lá, hontem, hospedei um moço
    E não se queixa… E ha-de poupal-o a traça,
    Porque esses hospedes só trazem osso,
    E a carne em si, valha a verdade, é escassa.

    O Dr. Delegado

    A noite parece dia!

    O Poeta

    Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
    Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem…
    Guia-me ao quarto… (a lua vae tão linda!)
    Dize-me: quantos annos me dás? Cem?

    O Sr. Abbade

    E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
    Trouxe a d'anjinho!

    A Mulher do Moleiro

    É o luar, Sr. Abbade, é o luar…

    Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
    Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
    «Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
    Foi lavar á _Fontinha de Belem_…»

    O Astronomo

    Isto lunar assim! Isto é o verao
    De S. Martinho!

    O Coveiro

    Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
    Colxão assim não acha em parte alguma!
    Os outros são de chumbo, de madeira,
    Mas este, veja bem, é sumauma…

    O Cego do Cazal

    Faz solzinho, que horas são?

    _Cantando_:

    «Colxão de raizes e de folhas, lizo,
    Lençoes de terra brandos como espuma,
    Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo…»
    Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?

    Carlota

    Ó luar, anda mais devagarinho!
    Deixa dormir o meu menino…
    Coitadinho!

    O Poeta

    Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
    (Que linda noite! Os cravos vão a abrir…
    Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
    A roupa chega para me cobrir…)

    A Mãe do Poeta

    Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
    Tens o logar quentinho…

    Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
    Final, quando a Trombeta além se ouvir,
    Tu não me venhas acordar, embora
    Chamem… Ah! deixa-me dormir, dormir!

    Deus

    Dorme, dorme.

    Pariz, 1891.

    FIM

    TABOA

    Antonio
    Menino e Moço
    Os Cavalleiros
    Purinha
    Elegia
    Os Sinos
    Terças-Feiras
    Carta A Manoel
    Para As Raparigas De Coimbra
    Luzitania No Bairro-Latino
    Os Figos Pretos
    Febre Vermelha
    Poentes De França
    Pobre Tysica!
    A Poezia Do Outonno
    Sta. Iria
    Enterro De Ophelia
    Ballada Do Caixão
    Á Toa
    A Vida
    O Somno De Joao
    Ao Canto Do Lume
    A Sombra
    O Meu Cachimbo
    Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)
    Quando Chegar A Hora
    Certa Velhinha
    Males De Anto
    Ah Deixem-me Dormir!

    Imprimerie Henri Jouve, 15, rue Racine, Paris.

    Achevé d'imprimer le deux avril mil huit cent quatre-vingt-douze

    Pour

    LÉON VANIER

    éditeur

    Par

    HENRI JOUVE

    15, Rue Racine, 15

    A Paris

  • Os Simples

    Os Simples

    Aproximadamente 8.264 palavras.

    Produced by João Miguel Neves, Rita Farinha and the Online
    Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
    file was produced from images generously made available
    by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de
    Portugal).)

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    OS SIMPLES

    IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:

    1 exemplar em papel pergaminho
    16 exemplares em papel Wathman

    Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    A F.

    _Querida:

    É este por emquanto o meu melhor livro.
    Pertence-te.

    teu J._

    *PRELUDIO*

    I

    A CAMINHO

    (_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos,
    olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos
    ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)

    Um Lavrador

    (_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Ides de caminho para algum logar?

    O Peregrino

    Vou dar volta ao mundo…

    O Lavrador

    Sem arnez ou lança?!
    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Penas e miserias é o que ireis achar!…

    Uma Velhinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Ides com cuidados para um tal andar!…

    O Peregrino

    Vou a prender monstros, combater serpentes…

    A Velhinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Os dragões ferozes vam-no espostejar!…

    Uma Joven Camponeza

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Ides pela fresca para algum pomar?

    O Peregrino

    Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados…

    A Camponeza

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!…

    Uma Pastorinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Vossos olhos disem que ides p'ra casar…

    O Peregrino

    Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes…

    A Pastorinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!…

    Um Mendigo

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Vossos olhos ardem como a luz solar!…

    O Peregrino

    Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!…

    O Mendigo

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!…

    A Estrella D'Alva

    Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,
    Por infernos deixas tua paz, teu lar!…

    O Peregrino

    (_desaparecendo ao longe_)

    Florirei as pedras pelos maus caminhos!
    Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
    A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!…

    II

    DE VOLTA

    (_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando,
    esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)

    Um Lavrador

    (_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)

    Mendigo d'olhos sem esp'rança,
    Vaes-te perder na escuridão…
    Entra em meu lar; dorme, descança…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Quem dera a paz divina e mansa,
    Velho, que tens no coração!…

    Uma Velhinha

    (_a resar à porta do moinho_)

    Mendigo d'olhos sem ventura,
    Dentro da azenha ha um enxergão;
    Terás lençoes, terás fartura…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Eu só quizera essa candura,
    Irmã da Graça e da Ilusão!…

    Uma Camponeza

    (_que vem da vindima_)

    Mendigo d'olhos d'engeitado,
    Na nossa casa ha vinho e pão;
    E ha leite fresco; e ha mel doirado…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Tua alegria sem cuidado,
    Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

    Uma Pastorinha

    Mendigo d'olhos de coveiro,
    Trago a merenda no surrão;
    O queijo é bom, mas é grosseiro…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Dá-me o teu riso feiticeiro,
    Lirio do monte inda em botão!

    Um Pedinte

    Mendigo d'olhos na agonia,
    Dou-te o meu manto e o meu bordão;
    Nada mais levo… a noite é fria…

    O Pobrezinho

    (_andando sempre_)

    Apenas ai! desejaria
    Tua cristã resignação!…

    A Estrella Vesper

    Ó sonhador louco d'outrora,
    Teus sonhos lindos onde estão?!
    Ebrio da luz, rico d'aurora,
    Vi-te partir… e vejo agora
    Um morto erguido d'um caixão!

    Teus olhos fulvos namorei-os
    De dia e noite, da amplidão:
    Vi-os sorrir entre gorgeios,
    Vi-os cantar e vi-os cheios
    De pranto e febre e indignação!
    Regressa emfim, é teu destino,
    Á paz obscura, á submissão…
    E outra vez meigo e pequenino
    Deixa dormir, como um menino,
    Teu velho e exhausto coração!…

    O Pobresinho

    (_chorando_)

    Só tu, estrella, me conheces
    Em minha dor, minha aflição!…
    Só tu não dormes, não esqueces…
    Só tu ouviste as minhas preces…
    Bemdito, estrella, o teu clarão!

    Setembro–91.

    I

    *A MOLEIRINHA*

    A MOLEIRINHA

    Pela estrada plana, toc, toc, toc,
    Guia o jumentinho uma velhinha errante.
    Como vão ligeiros, ambos a reboque,
    Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
    A velhinha atraz, o jumentito adiante!…

    Toc, toc, a velha vae para o moinho,
    Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
    E comtudo alegre como um passarinho,
    Toc, toc, e fresca como o branco linho,
    De manhã nas relvas a córar ao sol.

    Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
    O gerico russo d'uma linda côr;
    Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
    Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
    Com o galho verde d'uma giesta em flor.

    Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
    Toc, toc, toc, que recordação!
    Minha avó ceguinha se me representa…
    Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
    Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

    Toc, toc, toc, lindo burriquito,
    Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
    Nada mais gracioso, nada mais bonito!
    Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
    Com certeza ia n'um burrico assim.

    Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
    Nascem as estrellas, vivas, em cardume…
    Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
    Logo a moleirinha, toc, se levanta,
    P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume…

    Toc, toc, toc, como se espaneja,
    Lindo o jumentinho pela estrada chan!
    Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
    Dá-me até vontade de o levar á egreja,
    Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

    Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
    Toda, toda branca, vae n'uma frescata…
    Foi enfarinhada, sorridente amiga,
    Pela mó da azenha com farinha triga,
    Pelos anjos loiros com luar de prata!…

    Toc, toc, como o burriquito avança!
    Que prazer d'outrora para os olhos meus!
    Minha avó contou-me quando fui creança,
    Que era assim tal qual a jumentinha mansa
    Que adorou nas palhas o menino Deos…

    Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
    Moleirinha branca, branca de luar!…
    Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
    Como estremunhados cherubins divinos,
    Os olhitos meigos para a ver passar…

    Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
    Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
    O burrico pensa: Quanto milho loiro!
    Quem será que moe estas farinhas d'oiro
    Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!…

    Novembro de 1888.

    II

    *CADAVER*

    I

    PRESTITO FUNEBRE

    Que alegrias virgens, campezinas, fremem
    N'este imaculado, limpido arrebol!
    Como os galos cantam!… como as noras gemem!…
    Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
    Refulgente e novo passarinha o sol!…

    Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
    Uma pequerrucha,–tro-la-ró-la-rá!–
    Vae cantando e guiando o carro para a aldeia…
    São os bois enormes, e a carrada cheia
    Com um castanheiro apodrecido já.

    Oh, que donairosa, linda boieirinha!
    Grandes olhos garços, sorrisinho arisco…
    D'aguilhada em punho lepida caminha,
    Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
    Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

    Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
    Fresca como os cravos pelo amanhecer;
    Brincos de cerejas presos nas orelhas,
    Na boquita rosea tres canções vermelhas,
    Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

    Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
    Nada mais esvelto, mais encantador!
    Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo…
    O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
    A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!…

    E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
    Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
    Vão como bondosos monstros enigmaticos,
    Almas por ventura d'ermitões extaticos
    Ruminando biblias pelos campos fora!…

    Ao arado e ao carro presos noite e dia,
    Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
    E, submissos, uma pequerrucha os guia!
    E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
    As boninas riem-se e amadura o pão!…

    Levam as serenas frontes magestosas
    Enramalhetadas como dois altares:
    Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
    Abelhões ardentes desflorando rosas,
    Borboletas claras em noivado, aos pares…

    E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
    Melros assobiam nos trigaes alem…
    Heras amortalham-no em seu verde manto…
    Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto…
    Que feliz cadaver, que até cheira bem!…

    Musgos, lichens, fetos,–chimica incessante!–
    Fazem montões d'almas d'essa podridão…
    Já n'esse esqueleto seco de gigante,
    Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
    Mil milhões de vidas polulando estão!…

    Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
    Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
    Do seu tronco ainda na caverna escura
    Um enxame d'oiro rutilo murmura,
    Construindo um favo candido de mel!…

    Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
    Meditando estranhas, incubas visões!…
    Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
    E por sobre os longos, torridos caminhos
    Dos seus olhos caem bençãos e perdões…

    Chorarão o velho castanheiro ingente,
    Sob o qual dormiram sestas estivaes?
    Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
    Saberá acaso misteriosamente
    Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!…

    Castanheiro morto! que é da vida estranha
    Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
    E criou raizes, e se fez tamanha,
    Que tresentos anos sobre uma montanha
    Seus tresentos braços de colosso ergueu?!…

    Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
    Em tão varias formas que sonhou dizer?
    Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
    E desfeito o encanto, que nos não revelas,
    Que aparencias novas tomará teu ser?…

    Noite escura!… enigmas!… Ai, do que eu preciso,
    Boieirinha linda, linda d'encantar,
    É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
    Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
    Da candura d'alva que ha no teu olhar!…

    Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
    Quem me dera a vossa mansidão christã!
    Arrotear os campos, fecundar a vinha,
    E nos olhos garços d'uma boieirinha,
    Ter duas estrellas virgens da manhã!…

    E tambem quizera, mortos castanheiros,
    Como vós erguer-me para o sol a flux,
    Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
    E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
    A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!…

    1889.

    II

    IN PULVIS…

    Oh, que noite negra, que invernia brava!
    Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
    Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
    Como quando dizem que de dor chorava
    Toda a santa noite em que expirou Jesus!…

    Vem sanguinolentos gritos muribundos
    Das soturnidades torvas do horisonte!…
    Já nos ermos andam lobos vagabundos…
    Já os rios cheios, com bramidos fundos,
    N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!…

    Em casal de serras arde o castanheiro,
    Lampada de pobres a fazer serão;
    De redor do grande, festival braseiro,
    A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
    A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

    Queima-se o gigante, rude centenario,
    Que jamais os astros hão-de ver florir…
    E do seu cadaver o esplendor mortuario
    Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
    Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!…

    Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
    –Morte negra, foge do telhado, ó, ó…–
    E no lar as brasas simultaneamente
    Dizem para o anjo:–tudo é oiro ardente…
    Dizem para o velho:–tudo é cinza e pó!…

    Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
    Em pequeno, alegre como um colibri,
    Não trepara aos braços todos verdejantes
    D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
    Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!…

    Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
    Quantas noites, quantas! elle ali dormia
    Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
    E das restolhadas, quentes como um forno,
    Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!…

    Como não sentir um entranhado afecto,
    Como não amal-o com veneração,
    Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
    Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
    Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

    Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
    Fez com elle as portas contra os vendavaes;
    E com elle é feito o velho leito amado,
    Onde se deitara para o seu noivado,
    E onde já morreram seus avós, seus paes!

    E o bom velho embala o seu netinho doente…
    –Morte negra, foge… dorme, dorme… ó, ó…–
    E, fitando as chamas simultaneamente,
    Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
    Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!…

    A velhinha resa, resa afervorada…
    Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
    Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
    Entre palmas verdes até Deos levada
    N'um andor de rosas pelos serafins…

    Resa pelos mortos… resa á virgem pura…
    Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
    Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
    Quantos tem partido para a sepultura,
    Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!…

    Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
    Muitas almas vivem mortas a sonhar!…
    Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto…
    Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
    Nos seus labios roxos fosforece o luar…

    E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
    –Talisman da crença, magico poder!–
    Frias como a neve vem do seu jasigo,
    Vem sentar-se todas no logar antigo,
    A chorar á roda do braseiro a arder!…

    Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
    Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
    Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
    Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
    Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz…

    D'esses desgraçados, mortos no abandono,
    Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
    Quando o vento uivando lhes perturba o somno
    Pela treva errantes, como cães sem dono,
    Andarão perdidas a ulular talvez!…

    Pois até por essas que ninguem conforta
    A velhinha chama… e todas ellas vem…
    –Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
    Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
    A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!–

    E a dos olhos garços pastorinha bella
    Fia no seu fuso linho por corar;
    É trigueiro o linho, trigueirinha é ella…
    Rodopia o fuso… quando for donzella,
    Já terá camisas para se ir casar!…

    E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
    Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
    Deu já cachos brancos como o branco arminho,
    Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
    Já sobre elle amando palpitaram azas!…

    Fuso como giras em dedinhos breves
    Prasenteiramente, com tão louco ardor!
    Que estarás fiando?… que enxovaes?… que neves?
    Se serão camisas, ou mortalhas leves,
    Cama para bodas, ou lençoes de dor!…

    No vetusto escano o lavrador sombrio
    Pensa na courela… Santo Deos, Jesus!
    Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
    Como é que hade o gado pelo ardor do estio
    Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!…

    Choram ventanias!… panica tristeza!…
    Sentem-se na loja bois a ruminar…
    Queixas insondaveis vem da naturesa!…
    Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
    Contemplando a Noite sem poder fallar!…

    Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
    Almas misteriosas, em que sonharão?…
    Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
    De ter sido tigre lembra-se inda o gato?…
    De ter sido hiena lembra-se inda o cão?…

    Eis as brasas mortas… Eil-o já converso
    O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz…
    Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
    Reviver na vida eterna do universo,
    Circulo de enigmas, que ninguem traduz…

    Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
    Viverão, morrendo a toda a hora… sempre!…
    Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
    Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
    Serão tudo, tudo!… inconcebivel!… Sempre!

    Mas a alma, as almas quem as ha criado?
    Qual a origem d'onde a sua essencia emana?…
    Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
    Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
    Lançam as estrellas á miseria humana!…

    Oh em vão!… que os astros, onde em sonho habito,
    São tambem fogueiras sobrenaturaes,
    Que na pavorosa noite do Infinito
    Crepitando espalham seu clarão bemdito,
    Suas alvoradas roseas, virginaes,

    Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
    A tremer com frio, a soluçar com dor,
    Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
    Atravez d'eternos turbilhões profundos,
    N'um virtiginoso, angustioso horror!…

    E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
    No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
    Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
    Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
    Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!…

    E o mundo e os mundos a girar na altura
    Como vós, ó velhos, morrerão tambem…
    Blocos de materia fria, sem verdura,
    Errarão na vaga imensidade escura,
    Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!…

    Dormirão? oh, nunca!… vão eternamente
    Circular na eterna vida universal:
    Nebulosa fluida, lavareda ardente,
    Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
    Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!…

    Formas da materia, que eu em vão desnudo,
    Que invisiveis forças, e almas encobris?
    Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo…
    Mas o enigma impresso no seu labio mudo
    Só na treva aos mortos é que a morte o diz!…

    Só a Morte o sabe… mais a Fé que abrasa,
    Que penetra as coisas com o seu olhar!
    Não ha fé na alma, não ha luz na casa…
    A rasão é um verme, mas a crença é aza…
    Verme! aos infinitos poderás chegar!…

    Ó velhinha santa, minha boa amiga,
    Resa o teu rosario, move os labios teus!…
    A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
    Não importa! resa, minha boa amiga,
    Que orações são lingoas de falar com Deos!…

    Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
    Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
    Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
    Que andam por agrestes, solitarios montes,
    Sem errar a estrada, sem cahir jamais!…

    Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
    Com os seus farrapos mais o seu bordão,
    Marcham por milagre na continua treva…
    Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
    Que prodigio oculto? que invisivel mão?

    Pois, velhinha branca, tua crença pura,
    Tua resa antiga, que me faz chorar,
    É egual aos cegos, que na noite escura
    Não precisam d'astros para ver a altura,
    Não precisam d'olhos para ter olhar!

    No Infinito mudo tua ingenua crença,
    Tremula ceguinha de risonho alvor,
    Eil-a andando, andando, como que suspensa,
    Pelos descampados d'uma noite imensa,
    Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!…

    E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
    Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
    A ceguinha debil, vagabunda, errante,
    D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
    N'um enlevo aereo perpassando vae!…

    Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
    Corta por abismos, plagas sem faroes,
    Stepes infindaveis que ninguem descreve,
    Lugubres desertos de mudez e neve,
    Bategas de brasas, turbilhões de soes!…

    Vae andando, andando, té que emfim cercada
    D'uma aleluia mystica de luz,
    Com o bordãosinho que a amparou na estrada
    Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
    Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!…

    Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
    Põe-se de joelhos, em adoração…
    Diz-lhe o anjo:–Toma, guarda esta lembrança:
    Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
    Que á velhinha humilde levarás na mão!

    E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
    Já com alimento para os filhos seus,
    Eil-a que regressa por egual caminho,
    E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
    Tão amada ofrenda que te envia Deos!…

    Resa esse rosario, santa lagrimosa!
    Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
    Triste da minh'alma!… vê, que desditosa!…
    Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!…
    Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!…

    Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
    Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
    Morta de miseria, morta de fadiga,
    Deixa que ella durma na pureza antiga…
    Que ella durma… sonhe… e não acorde mais!…

    89.

    III

    *EIRAS AO LUAR*

    EIRAS AO LUAR

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Bailae sob as lagrimosas
    Estrellinhas misteriosas,
    Scintilações, nebulosas,
    Fremitos vagos d'empyreos!…
    Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas,
    Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!…

    Ai, medas de prata e oiro,
    De lua branca e pão loiro,
    Malhadas no malhadoiro,
    A enfeitiçar e a fulgir!…
    Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro,
    Que é a codea negra que ceaes a rir!…

    Quem nas ladeiras e prados,
    Com as lanças dos arados,
    Abriu sulcos e valados
    Na terra gelida e nua?
    Oh, bailae á volta desses bois deitados,
    Que estão d'olhos tristes adorando a lua!…

    Que bandos de passarinhos,
    Vem lá de campos maninhos,
    De fraguedos, de caminhos,
    Jantar aqui, merendar!…
    Oh, bailae em volta de milhões de ninhos!
    Oh, bailae cantando para os acordar!…

    Entre as palhas do centeio,
    Quantas esmolas no meio,
    Que deixam lirios no seio
    E as mãos escorrendo luz!…
    Oh, bailae em volta do celeiro cheio!
    Oh, bailae á volta dos mendigos nus!…

    Quanta hostia consagrada,
    –Pão da ultima jornada!–
    Dorme na meda encantada
    Ao luar tão leve e tão lindo!…
    Oh, bailae em volta d'essa mó doirada,
    Que bailaes á volta de Jesus dormindo!…

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Setembro–91.

    IV

    *AS ERMIDAS*

    AS ERMIDAS

    Alvas ermidinhas sob azues maguados,
    Vejo-vos de longe n'uma adoração,
    Como ninhos brancos de Ideal pousados
    Lá n'esses fragosos montes escalvados,
    Onde não ha agoa, nem germina o pão.

    Serranias ermas, solidões contritas…
    Azinheiras como velhos Briarcus….
    Pedras calcinadas… gados parasitas…
    Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
    Que em burel d'estevas amortalha Deos!…

    Pelas torvas, fundas noites de invernada,
    Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
    Que infinitos sustos n'uma tal morada,
    Para debil virgem tão desamparada
    Com um inocente nos seus braços… ai!

    Como é que não treme pelo seu menino?
    Como é que não chora seu piedoso olhar?
    Como é que o seu labio, fresco e matutino,
    Se abre n'um sorriso, precursor divino
    Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!

    Não receia feras quem de rosto ledo
    Sofre sete espadas sobre o coração!…
    E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
    Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
    Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!…

    Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
    Sem o bafo impuro que dos homens vem,
    É que a mãe de Christo com as andorinhas,
    E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
    N'um casebre terreo se acomoda bem.

    Bispos não precisa; servem-na pastores,
    Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal…
    Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
    Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
    N'uma egrejasinha que é como um pombal.

    E nas brutas, rudes solidões tão calmas
    Ai, muito se engana quem a julga só!
    Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
    Para lá caminham romarias d'almas…
    Todos nós lá fomos com a nossa avó!…

    Oh, as invisiveis procissões piedosas,
    Romarias fluidas, sobrenaturaes!
    Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
    Fica nos espaços um alvor de rosas
    E uma angelisante tremulina d'ais!…

    Almas de velhinhas, do palor silente
    D'uma estrella, quando desmaiando está…
    Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
    Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
    Vão rogar a Gloria para os mortos já…

    Almas de meninos, loiras como abelhas,
    A sorrir ao colo d'almas a cantar…
    Almas em noivados, roseas e vermelhas…
    E almas de pastores ofertando ovelhas,
    Chocalhinhos d'astros, velos de luar…

    Almas d'assassinos dos montados ermos,
    Com o seu remorso como um javali…
    Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos…
    Almas vagabundas, de perdidos termos,
    Que atravessam agoas p'ra chegar ali!…

    Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
    Das aradas verdes, da campina em flor…
    Almas de borregos, touros, passarinhos…
    E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
    Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!…

    E essas almas todas ella apasigua
    Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
    Verte sobre as penas sugestões de lua,
    Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
    Lagrimas aos crimes e ao remorso paz…

    Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
    E dos sonhos loucos o torpor febril…
    Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
    Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
    Faz fugir os lobos vendo o seu candil.

    Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
    Que á romagem d'oiro não acodem já!
    Almas moribundas… Noites de procellas…
    Olha nos casebres tremeluzem velas!…
    É signal que a Morte anda a rondar por lá!…

    Mas a sempre linda Virgem da Amargura
    Baixa do altarzinho toda afadigada,
    E atravez de serras, pela noite escura,
    De menino ao colo,–santa creatura!–
    Lá vae ella andando, não tem medo a nada!…

    Lá vae ella andando… no caminho estreito
    Deixa um rasto d'oiro pela escuridão…
    Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
    Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
    Põem-lhe um setestrello sobre o coração…

    E de povo em povo, que é de serra em serra,
    Almas na agonia visitando vae;
    Quando chega, a Morte já as não aterra,
    Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
    Seu menino beijos p'ra levar ao Pae…

    Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
    Quantas noites, quantas! tremula de dor,
    Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
    A parir, balando como uma creança,
    Entre fragaredos de meter horror!

    A deshoras mortas eil-a vigilante,
    Prompta a dar socorros ao menor queixume:
    Acender estrellas para o navegante,
    Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
    Defender das cobras a ninhada implume…

    Pois como não ha-de consolar as dores
    Dos humildes, simples, engeitados, nus,
    Se inda se recorda de só ver pastores,
    Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
    Na sagrada noite em que pariu Jesus!…

    Sim! adora a rude gente da lavoira,
    Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
    Porque não se esquece da vaquinha loira,
    Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
    Quando nas palhinhas dormitava Deos…

    E por isso arreda pestes, ventanias,
    Fomes e procellas, bruxas e trovão,
    Lá para malditas, negras penedias,
    Onde silvam cobras doudas e bravias,
    E onde não existe nem christão, nem pão!…

    E por isso ex-votos, que relembram dores,
    Cobrem de ternura todo o seu altar:
    Bustos de meninos, mãos de cavadores,
    Tranças de donzellas, soluçando amores…
    Corações e peitos, de fazer chorar!…

    Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
    Sois n'essas alturas para os olhos meus,
    Como ninhos virgens d'orações piedosas,
    Miradoiros brancos de luar e rosas,
    D'onde as almas simples entreveem Deos!…

    90-91.

    V

    *CANÇÃO PERDIDA*

    CANÇÃO PERDIDA

    Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
    Roxas macerações de dor e d'agonia,
    O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…

    Triste, canta uma voz na sincope do dia:

    Alguem de mim se não lembra
    Nas terras d'alem do mar…
    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Com o beijo do sol na face cadaverica,
    Beijo que a morte esvae em palidez algente,
    Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…

    Doce, canta uma voz melancolicamente:

    O meu amor escondi-o
    N'uma cova ao pé do mar…
    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Latescente a neblina opalica flutua,
    Diluindo, evaporando os montes de granito
    Em colossos de sonho, extasiados de lua…

    Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

    Quem dá ais ó rouxinol,
    Lá para as bandas do mar?…
    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
    Imponderalisou a natureza inteira,
    Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…

    Triste expira uma voz na canção derradeira:

    Ó meu amor, dorme, dorme
    Na areia fina do mar,
    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Maio–91.

    VI

    *O PASTOR*

    O PASTOR

    Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
    Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
    Velho tão velhinho nenhum outro havia…
    P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
    Ha noventa e quatro que era já pastor.

    Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
    Já de surrãosito cheio a tiracol,
    A escalar montanhas com ardor, com ancia,
    Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
    Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…

    A deserta, imensa, rustica paisagem,
    Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
    Tudo se invertera, por continua imagem,
    Em heroica, em livre candidez selvagem
    Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.

    Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
    Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
    Mordiscando a codea do seu pão centeio,
    Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
    Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.

    Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
    Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
    E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
    Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
    Tal como tormentas de trovões de pedra!

    Cada serrania alcantilada e brava,
    Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
    Recozida a febre e atordoada em lava,
    Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
    Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!

    E por essas fulvas, ingremes ladeiras
    Pastoreava o gado, quasi morto já:
    Só rochedos tristes, nus como caveiras,
    E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
    Acres como pragas d'uma boca má!

    E depois as torvas, negras invernadas,
    Noites formidandas, lobos a ulular,
    Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
    Carcavões abertos pelas enxurradas,
    Troncos de sobreiros de raiz ao ar!…

    Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
    N'um covil de feras, ou algar deserto!…
    E dormia ao lume sem temor, sem medo,
    Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
    Na ermidinha branca lhe ficava perto…

    Mas no mez de Março pincaros maninhos,
    Montes cenobitas, d'ossos e burel,
    Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
    Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
    E distilam favos de inocencia e mel!…

    Era então alegre como o sol nascente,
    Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
    Anhos e cabritos, leite rescendente,
    Pastos tão mimosos, que quizera a gente
    Transformar-se em ave para os não calcar!

    Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
    Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
    Tinham-lhe gravado na expressão robusta
    Como que uma sombra de grandeza augusta,
    Junta a uma inocencia matinal de flor.

    Que importavam gelos, ventanias, feras?
    Peito nu, aberto; construção de touro!
    Quasi me admirava que nas primaveras
    D'esse peito rude não brotassem heras,
    Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!

    Ao relento a cama no orvalhado pasto,
    Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
    Que divino leito primitivo e casto,
    Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
    Sob a paz imensa do perdão de Deos!…

    E esse gigantesco latagão corado
    Era, como os santos ermitões, frugal:
    Duas azeitonas, queijo do seu gado,
    E de rala escura meio pão migado
    N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.

    Não jantava morte, assassinato, dores,
    Hecatombes tristes que jantamos nós;
    E por isso ria como riem flores,
    Atrahindo em bandos aves de mil cores,
    Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!…

    Sua rude frauta de pastor ouvindo
    Na misteriosa luz crepuscular,
    Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
    E desabrochava pelo azul infindo
    Soluçante a lua como um nenufar!…

    Que trinados vivos, d'argentino encanto
    Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
    N'essa frauta, quando de cajado e manto
    Ia deitar loas ao menino santo
    No altar-mór da egreja sorridente e nu!

    Fôra lá creança, magica ventura!
    Centenario quasi a derradeira vez…
    E gorgeava a frauta com egual candura,
    Pois a alma virgem, luminosa e pura,
    Conservara-a sempre como Deos a fez.

    N'ella penetrava, n'ella se embebia
    Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
    Fremito de pomba, voz de cotovia,
    Canticos dos montes ao nascer do dia,
    Lagrimas dos astros pela escuridão!…

    Longe dos Pecados de raivosas presas,
    Belzebuths famintos d'olhos de metal,
    Longe das horriveis tentações acezas
    No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
    Pululantes larvas, vibriões do Mal,

    O pastor ditoso envelheceu ridente
    Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
    E na fronte augusta de ermitão, de crente,
    Lhe geavam anos luminosamente,
    Como as pombas brancas sobre os campanarios!

    Das ovelhas meigas,–intimas heranças!–
    Recolhera toda a abnegação christã:
    Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
    Que com vosso leite sustentaes creanças,
    E vestis os pobres com a vossa lã!

    Aos noventa anos, festival, risonho,
    Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
    Sim! inda na boca risos de medronho,
    E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
    Dois miosotis virgens de candura e fé!

    Com seu manto branco de burel grosseiro,
    Cans de puro arminho, baculo na mão,
    Alembrava um santo feito pegureiro,
    Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
    D'uma ogiva d'astros, em adoração!

    Centenario quasi, recordava aspectos
    De lendario tronco n'um feliz vergel,
    Moribundo em meio de seus verdes netos,
    Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
    Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

    E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
    E que cego ao ether de esplendor ideal,
    Com o ai extremo lança dois raminhos,
    A chamar ainda por canções de ninhos
    E a dizer aos astros um adeos final!

    Tal o pastor santo, já de vez cahido,
    Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
    Arrimado ao velho baculo torcido,
    Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
    Vagamente olhando com o olhar absorto,

    Ia pelos montes na tristeza infinda
    D'um coração ermo, com a morte aceite,
    A pedir aos anjos para ouvir ainda
    Badalar ovelhas n'uma noite linda,
    Quando a lua os campos alagasse em leite!…

    Seu bisavô fora guardador de gado,
    Guardador de gado seu avô, seu pae;
    Creou filho e netos como foi creado,
    E morreu ditoso porque o seu cajado
    Seu rebanho ainda pastoreando vae!

    Candido, na paz das solidões dormentes,
    Ignorando o mundo rancoroso e vil
    Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
    Punha olhos claros, simples, inocentes,
    Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!

    Levará no esquife para os ceos a palma
    Da grandeza mansa, da virtude austera.
    Realisou no mundo a perfeição da Alma:
    Porque foi bondoso como a lua é calma,
    Porque foi um santo sem saber que o era!…

    Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
    Cesares, tiranos, capitães, heroes,
    Epicas figuras de imortal memoria,
    Que de serro em serro iluminaes a historia
    Como crepitantes, tragicos faroes,

    Na região do Imenso, no Infinito puro,
    Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
    Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
    Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
    Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!

    E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
    Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
    Tão asselvajado, cabeludo e feio,
    Que dissereis quasi que esse monstro veio
    Da matriz da terra, como as pedras brutas,

    Já liberto agora da Ilusão do mundo
    Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
    Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
    São rebanhos d'almas pelo azul profundo
    As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!…

    90-91.

    VII

    *O CAVADOR*

    O CAVADOR

    Dezembro, noite, canta o galo…
    Rouco na treva canta o galo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Aldeão não durmas!… Vae chamal-o,
    Miseria negra, vae chamal-o!…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bate-lhe á porta, é teu vassalo,
    Que traga a enxada, é teu vassalo,
    Miseria negra, o cavador!

    O vento ulula… Tremem ninhos…
    Na noite aziaga tremem ninhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    A neve cae, fria d'arminhos…
    Na escuridão, fria d'arminhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Passa maldito nos caminhos,
    D'enxada ao hombro nos caminhos,
    Fantasma negro, o cavador!

    Vem roxa a estrella d'alvorada…
    Vem morta a estrella d'alvorada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Montanhas nuas sob a geada!…
    Hirtas, de bronze, sob a geada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Torvo, inclinado sobre a enxada,
    Rasga as montanhas com a enxada.
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou desde que é dia…
    Cavou, cavou… Bateu meio dia…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    De pé na encosta erma e bravia,
    Triste na encosta erma e bravia,
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Largando a enxada, «Ave Maria!…»
    Resa em silencio… «Ave Maria!…»
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou na serra agreste,
    D'alva á noitinha em serra agreste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    E um caldo em premio tu lhe deste,
    Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Batem trindades… «Pae celeste!…
    Bemdito sejas, Pae celeste!…»
    Resa, fantasma, o cavador!

    Cavou cem montes… que é do trigo?!
    Gerou seis bocas… que é do trigo?!
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bateu a Fome ao seu postigo…
    Bateu a Morte ao seu postigo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    «Que a paz de Deos seja comigo!
    Que a paz de Deos seja comigo!…»
    Disse, expirando, o cavador!

    Junho–91.

    VIII

    *OS POBRESINHOS*

    OS POBRESINHOS

    Pobres de pobres são pobresinhos,
    Almas sem lares, aves sem ninhos…

    Passam em bandos, em alcateias,
    Pelas herdades, pelas aldeias.

    É em Novembro, rugem procellas…
    Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

    Vem por desertos, por estevaes,
    Mantas aos hombros, grandes bornaes.

    Como farrapos, coisas sombrias,
    Trapos levados nas ventanias…

    Filhos de Christo, filhos d'Adão,
    Buscam no mundo codeas de pão!

    Ha-os ceguinhos, em treva densa,
    D'olhos fechados desde nascença.

    Ha-os com f'ridas esburacadas,
    Roxas de lirios, já gangrenadas.

    Uns de voz rouca, grandes bordões,
    Quem sabe lá se serão ladrões!…

    Outros humildes, riso magoado,
    Lembram Jesus que ande disfarçado…

    Engeitadinhos, rotos, sem pão,
    Tremem maleitas d'olhos no chão…

    Campos e vinhas!… hortas com flores!…
    Ai, que ditosos os lavradores!

    Olha, fumegam tectos e lares…
    Fumo tão lindo!… branco, nos ares!…

    Batem ás portas, erguem-se as mães,
    Choram meninos, ladram os cães…

    Resam e cantam, levam a esmola,
    Vinho no bucho, pão na sacola.

    Fructa da horta, caldo ou toucinho,
    Dão sempre os pobres a um pobresinho.

    Um que tem chagas, velho, coitado,
    Quer ligaduras ou mel-rosado.

    Outro, promessa feita a Maria,
    Deitam-lhe azeite na almotolia.

    Pelos alpendres, pelos curraes,
    Dormem deitados como animaes.

    Em caravanas, em alcateias,
    Vão por herdades, vão por aldeias…

    Sabem cantigas, oraçõesinhas,
    Contos d'estrellas, reis e rainhas…

    Choram cantando, penam resando,
    Ai, só a morte sabe até quando!

    Mas no outro mundo Deos lhes prepara
    Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

    Os pés doridos lh'os lavarão
    Santos e santas com devoção.

    Para laval-os, perfumaria
    Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

    E embalsamados, transfigurados,
    Tunicas brancas, como em noivados,

    Viverão sempre na eterna luz,
    Pobres bemditos, amen, Jesus!…

    Outubro–91

    IX

    *CAMPO SANTO*

    CAMPO SANTO

    Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!…
    Somno d'arminho… colxão de terra… lençol de flores!…

    Cahi dormentes,
    Cahi exanimes, trementes,
    Palidos silencios do luar dorido!
    Litanias fluidas do luar dorido!
    Misereres brancos do luar dorido!
    Balsamos, piedades, orações dolentes
    Do luar dorido!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!…
    Cama tão fresca!… cobertor branco, de jasmineiros…

    Cahi maviosas,
    Cahi somnambulas, piedosas,
    Concavas tristezas do luar magoado!
    Resonancias d'orgão do luar magoado!
    Extrema-unções profundas do luar magoado!
    Sincopes, oblivios, quietações chorosas
    Do luar magoado!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!…
    Cama de violetas!… que lhe fez a Virgem, sua madrinha…

    Cahi radiantes,
    Angelisantes,
    Esfolhados lirios do luar divino!
    Musselina argentea do luar divino!
    Halitos de leite do luar divino!
    Perolas, opalas, beijos e diamantes
    Do luar divino!…

    Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!…
    Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!… que sonho lindo!…

    Cahi cantando,
    Cahi mas brando, muito brando,
    Misticas nevadas do luar de prata!
    Linho da candura do luar de prata!
    Angelus da ermida do luar de prata!
    Extasis boiando, sagrações ondeando
    No luar de prata!…

    Dormi, dormi!… que bellas camas!… ai, que bons lençoes!…
    Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!…

    Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!…
    Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!…

    Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!…
    Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado…

    Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas!
    Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas…

    Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados…
    Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados…

    Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos…
    Ai, que lindos fructos!… ai, que ricos vinhos!…

    Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar,
    Que no ceo os anjos regam com luar…

    Ordenhando ovelhas andam serafins,
    Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.

    Outros nas arribas crestam as colmeias,
    Grandes favos brancos como luas cheias.

    Ai, que bom almoço, feito n'um vergel,
    Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!…

    Para as avósinhas tem lá Deos bastantes
    Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes…

    Como vós, ó moças, lá no ceo casaes,
    Ellas darão teias para os enxovaes…

    Já no setestrello dançam nos terreiros,
    Tamboris e violas, frautas e pandeiros…

    Já lá vejo os noivos, com S. João á espera,
    N'uma ermida branca revestida d'hera…

    Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar,
    Que no ceo com anjos vos ireis casar…

    Ai, dormi, creanças! que no azul divino
    Brincareis alegres com o Deos-menino…

    Partirá comvosco, porque é vosso irmão,
    A laranja,–o mundo, que lá tem na mão…

    Dormi, dormi, sem dor, sem penas…
    Dormi, dormi!…
    E em vossos leitos florescentes,
    De rosas brancas e assucenas,
    Caiam dormentes,
    Caiam exanimes, trementes,
    Graças do baptismo do luar alvissimo!
    Beijos do noivado do luar purissimo!
    Lagrimas da morte do luar tristissimo!
    Canticos d'exequias, orações dolentes
    Do luar santissimo!…

    Abril–91.

    *EPILOGO*

    REGRESSO AO LAR

    Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
    D'este meu saudoso, carinhoso lar!…
    Foi ha vinte?… ha trinta?… Nem eu sei já quando!…
    Minha velha ama, que me estás fitando,
    Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

    Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida…
    Só achei enganos, decepções, pesar…
    Oh! a ingenua alma tão desiludida!…
    Minha velha ama, com a voz dorida,
    Canta-me cantigas de me adormentar!…

    Trago d'amargura o coração desfeito…
    Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
    Nunca eu sahira do meu ninho estreito!…
    Minha velha ama, que me déste o peito,
    Canta-me cantigas para me embalar!…

    Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
    Pedrarias d'astros, gemas de luar…
    Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
    Minha velha ama, sou um pobresinho…
    Canta-me cantigas de fazer chorar!…

    Como antigamente, no regaço amado,
    (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
    Ai, o teu menino como está mudado!
    Minha velha ama, como está mudado!
    Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

    Canta-me cantigas, manso, muito manso…
    Tristes, muito tristes, como á noite o mar…
    Canta-me cantigas para ver se alcanço
    Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
    Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!…

    90.

    *NOTA*

    NOTA

    É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas
    liricas ineditas. Os outros dois–_Flores de Ideal_–e _Infinito_
    (_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de
    mezes.

    Duas palavras sobre os _Simples_.

    Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha
    anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo
    salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me
    electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_
    (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha
    natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da
    _morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li
    com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes,
    revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á
    historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das
    coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim
    proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do
    universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de
    dizel-o, nem isso interessa seguramente.

    A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de
    filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades
    do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes,
    muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era
    intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos
    sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina
    raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás
    cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e
    resoluto.

    D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas
    emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo
    renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria,
    meramente verbal e de superficie.

    No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do
    meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas
    como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são
    verdadeiramente a alma essencial e geradora.

    Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento
    fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os
    Simples_.

    Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas
    creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de
    vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição
    para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então
    encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha
    octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na
    mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do
    castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a
    choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa,
    d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na
    terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das
    sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e
    desejaram.

    É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade
    estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a
    minha alma, com o meu proprio ideal.

    Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a
    paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

    É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros
    campestres e bucolicos.

    A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante,
    subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_
    minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto–_In Pulvis_ é já de todo
    transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro
    para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem
    eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama…

    Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_
    descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella
    satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo
    dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a
    ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A
    exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma
    penetração sublime e reveladora.

    As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem,
    acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento
    progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á
    egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e
    divino espirito de Jesus.

    Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota
    não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.

    A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco
    que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu,
    pertence-me.

    E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a
    publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha
    a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia,
    que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil.
    Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.

    Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo
    absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e
    fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.

    14 de Maio de 1892.

    _G. J._

    *INDICE*

    PRELUDIO
    I–A Caminho
    II–De Volta

    I–A MOLEIRINHA

    II–CADAVER
    I–Prestito funebre
    II–In Pulvis

    III–EIRAS AO LUAR

    IV–AS ERMIDAS

    V–CANÇÃO PERDIDA

    VI–O PASTOR

    VII–O CAVADOR

    VIII–OS POBRESINHOS

    IX–CAMPO SANTO

    EPILOGO
    Regresso ao lar

    NOTA

    ERRATA

    Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos,
    de facil emenda para o leitor.

    PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL

    Exemplar unico em pergaminho 45$000
    Exemplares em papel Wathman 4$000

    _A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr.
    Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as
    requisições_.

  • Os meus amores contos e balladas

    Os meus amores contos e balladas

    Aproximadamente 60.805 palavras.

    O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Câmara. Não lhe
    respondeu. Subiu os três degraus do _pelourinho_, pausadamente, com
    pompa, e chamou a atenção dos amigos. Ia ler. Abriu o _Almanaque de
    Lembranças_, onde trazia um papel, e rompeu:–«Indignidade».

    –Em letras bem graúdas, queiram inspeccionar.

    E colou ao peito o _Almanaque_, voltando para fora na página onde o seu
    dedo reboludo apontava a terrível palavra, escrita ao alto em
    epígrafe.

    Houve um sussurro, alguns pediram silêncio. O Rodrigues que lesse.

    «Os versos intitulados _Flor do Campo_, que viram a luz no _Almanaque de
    Lembranças_ do ano extinto, foram-nos remetidos pelo Sr. José Maria
    Teles, escrivão.»

    –Copiados por mim, uma letra floreada–esclareceu o Fernandinho.–Ele
    depois assinou–e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma
    complicada do Teles.

    Pediram silêncio outra vez. O Rodrigues continuou:

    «Publicámo-los na convicção de que eram da lavra daquele senhor, pois
    que ele os assinava.»

    –E então?–perguntaram uns poucos, sem compreender ainda.

    –«Pura ilusão!»–continuou solenemente o Rodrigues.–«Escreve-nos o
    mimoso e assaz conhecido poeta Sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os
    versos lhe pertencem, e que o Sr. Teles os roubara (sic) do seu volume
    _Lira Matutina_.»

    Foi uma estupefacção! O Rodrigues prosseguiu mais alto, fugindo aos
    comentários:

    «Averiguámos, e disso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a
    probidade do Sr. Teles, a quem mais de uma vez tínhamos fechado a nossa
    porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ela na cara–por indigno.»

    E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a
    porta na cara do Teles escrivão; tomou praça fora, o livro debaixo do
    braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solene,–vingado!

    Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados,
    porque além de sempre terem julgado o Teles muito superior ao
    Rodrigues–e o Rodrigues bem o sabia, olha ele!…–tinham dado uma
    sorte de mil demónios, agora é que eles viam! distribuindo no teatro,
    por ocasião da festa de Santa Barbara, a _Flor do Campo_ que eles
    tinham mandado imprimir avulso–para lisonjear o Teles que tivera o
    trabalho de os ensaiar no _Santo António_. Hein? quem diabo havia de
    dizer que aqueles papelinhos de cor, uns verdes, outros amarelos,
    chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quase
    disputados a murro, num alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma
    insídia,–um logro à boa-fé, à credulidade ingénua de toda a comarca!

    E relembravam episódios, particularidades quase extintas: o Fernandinho
    vestido da menino do coro, batina vermelha e roquete de rendas,
    cobrindo-se de teias de aranha lá pelo forro do teatro, de gatinhas e
    com um «toco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser
    ele a despejar do _óculo_ aquela papelada; o Melo da administração,
    vestido de Frei António, sandálias e grande chinó de calva redonda,
    feita de uma bexiga de porco, com o Teles em triunfo por entre os
    bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em hábitos de
    frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao _poeta_! ao grande Teles,
    ensaiador da rapaziada!

    Que desastre! Afinal tinha-lhes saído um intrujão! E quase se regalavam
    da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora
    humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!

    O Antunes da Câmara, sobretudo, estava furioso. Fora ele o da lembrança
    de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel
    Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.^o 11, que mandava os
    impressos para a Câmara, e pedira-lhe aquilo como especial favor. O
    homem–pronto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que
    se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que
    desembolsara ele só, afinal. Bem feito! ninguém o mandava ser burro.
    Arre! cavalgadura!

    E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopléctico.

    –Mas a bem dizer, tudo isso é nada!–continuou comovido o Antunes.–Ó
    senhores! e a figura que eu fiz… sim, a figura que eu fiz naquele
    intervalo do drama para a farsa?…

    Todos desataram a rir, tinha sido fresca… Ele sempre acontece cada
    uma! E relembravam:–levantara-se o pano quando os ouvintes menos o
    esperavam. Os que tinham sabido lá fora, às doceiras, voltaram
    apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um
    reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam
    senhoras, gente fina, começavam a aparecer caras barbadas de sujeitos
    que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licor, um
    docinho. Em cima, na galeria alta, criadas e raparigas do povo,
    debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, de olhar atónito.

    –Ele que dianho é?–perguntavam.

    De baixo, da plateia, todos faziam _chut_! voltados lá para cima:

    –Caluda, sua gentalha!

    No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da
    recebedoria com o seu fato de Marco Aurélio; o Paula de cardeal, báculo
    em punho e a cara metida numa estriga; o Fernandinho de menino de
    coro, todo lépido; a Ana Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olívia;
    a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da _Glória_, em que
    ela subira num cesto vindimo à «região sidérea dos astros»; o pai de
    Santo António, em ceroulas e de saia branca pelo pescoço, lívido como
    saíra do túmulo; aquela canalha da tropa–todos enfim!

    Nisto, entra pelo fundo o Teles todo de preto, no meio do Melo
    vestido de Santo António e do Proença telegrafista que fazia de Frei
    Inácio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hino da Carta
    à meia dúzia de músicos que não entravam na peça. O hino rompeu com
    grande estampido de pratos, numa cadência fúnebre. No palco, tudo
    imóvel. Ninguém sabia o que era aquilo, não estava no cartaz.
    Esquecimento do Fernandinho, talvez… pensavam.

    Mas ao acabar o hino, o Antunes da Câmara, com farda de centurião,
    durindana e botas de água, irrompe furioso do buraco do ponto e prega um
    discurso na bochecha extática do Teles:

    «Não era ele o mais competente, de certo, o mais… etc. Mas tinham-no
    encarregado, obedecia… e tal. Só sentia não ter frases, oratória,
    porque enfim estava falando a um poeta…–colaborador do _Almanaque de
    Lembranças_ para Portugal e Brasil–acrescentou voltado para o público,
    esclarecendo. Enfim, finalmente… vinha para aquilo: dar-lhe um abraço
    em nome de todos…–e abraçou-o comovido, enquanto os espectadores
    berravam _apoiados_, dando palmas–«… e para isto»–acrescentou
    fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.

    Houve um sussurro de aplauso, dos camarotes crianças gritavam–«ó
    Emilinha!» Era com efeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e
    Medidas, que saía também do buraco do ponto, vestida de anjo, tules
    verdes e muita lantejoula a brilhar.

    Ficou-se a olhar a plateia, imóvel, muito fria, ensaiada, enquanto o
    Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, num requebro doce da
    «melodia», ele fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu
    nuns guinchos, cantando a _Flor do Campo_, com música da _Muchagateira_
    original do Peres do correio.

    O Teles sorria, entre glorioso e modesto, falando a Santo António e a
    Frei Inácio:–Era de mais, era de mais, ele não merecia…–Ora essa!
    pareciam dizer-lhe os outros–seríamos ingratos se…

    A «cantoria» acabou, o teatro parecia desabar com palmas, tudo berrava,
    um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir,
    cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas
    do tecto desabassem.

    Todos olhavam, curiosos. E naquela expectação viram de repente descer
    do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia
    vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da
    boca muito inchada saíam-lhe faúlhas, do algodão a arder que lá trazia
    dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanás nos ímpetos da
    cólera. O pano começou a descer, oblíquo, esfarrapado de uma banda. O
    Freixedas, suspenso, atirou fora o algodão e gritou, furibundo:

    –Alto! suas bestas! Inda não!…

    Voltou-se de costas para o público, e um letreiro que trazia de ombro a
    ombro dizia em caracteres amarelos–_C'est fini_! O pano desceu
    então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros,
    não tinham percebido… Foi nesse momento que o Sr. Antoninho, que
    tinha estudado em Braga, traduziu de um camarote, em voz alta:

    –_É findo_!

    V[AE] VICTORIBUS!

    _A Maria Lucila_.

    Em Dezembro, às seis é noite cerrada. Mais bocado, menos bocado, a
    essa hora recolhia do monte o José Gaio, sozinho, sachola ao ombro, um
    pouco atarantado com a trovoada que rugia ao longe, em surdina. Por cima
    dele, o céu ia-se fazendo cada vez mais negro, dessa negrura espessa
    de tempestade que infunde pavor à gente, e da qual os próprios pássaros
    têm medo. Cessara de chover. Mas o vento do sul principiava agora,
    agitando os grandes ramos despidos dos castanheiros, fazendo-os murmurar
    não sei que estranha elegia… A um relâmpago mais vivo, o José Gaio
    apressou o passo, e, benzendo-se, rezou a _Magnificat_. O trovão chegou,
    depois, lúgubre, cavernoso, alastrando-se em roldões na larga amplitude
    do céu. Debaixo dos pés, o José Gaio sentia o caminho lamacento,
    encharcado das enxurradas valentes de todo o dia. Mas a ponte já não
    ficava longe. Depois, a ladeira, e no meio da ladeira a casa.

    –Vamo' lá com Deus! fazia ele animando-se.

    Um clarão súbito de relâmpago deslumbrou-o. Diante dele surgiu de
    repente a paisagem, e de repente desapareceu, feericamente iluminada.
    Deitou então a correr, aterrado; mas tão forte veio em seguida o trovão,
    que ele instintivamente parou e levou ao céu as mãos aflitas, num
    gesto de quem implora misericórdia. Naquela iminência de perigo as
    próprias árvores lhe pareciam imobilizadas pelo terror, à beira do
    caminho. E através dos castanhais, o surdo rumor do vento era como a voz
    implorativa da natureza, unindo-se à voz dele num longo coro de
    suplicas…

    O José Gaio ia transido. Mas pior ficou quando de repente, sem saber
    donde, alguém chamou por ele, lugubremente:

    –Ó José Gaio!

    O homem parou. E como perto dele apenas enxergasse os braços da cruz
    negra, que era o sinal de ali terem matado o José Tendeiro, há anos,
    apertou o passo e tomou por um atalho, direito à ponte. Mas então a
    mesma voz tornou-lhe mais de perto:

    –Ó José Gaio!

    Quis fugir, mas o medo parece que lhe tolhia as pernas. Nisto veio um
    relâmpago que iluminou a mil cores a paisagem. Ele cerrou os olhos com
    força, nervosamente, ferido por aquele deslumbramento que por milagre o
    não prostrou. E quando o trovão bramiu, rudemente, uma imobilidade de
    estátua prendia o camponês à terra. Foi então que veio de novo aquela
    voz, como um prolongamento do trovão:

    –Ó José Gaio!

    Ia avançar para ganhar a ponte. Parecia-lhe que, uma vez transposta,
    galgaria a ladeira num instante. Mas involuntariamente, cedendo a uma
    força violentíssima, entrou de retroceder, cambaleando. Aquele rugir da
    água que logo abaixo da ponte fazia cachão, rugir violento mas monótono,
    infundiu-lhe um grande pavor. Teve medo e deixou-se retroceder… Senão
    quando, estacou ouvindo a mesma voz:

    –Ó José Gaio!

    E logo atrás da voz, com um rastro, um intensíssimo relâmpago cor de
    sangue. Viu tudo vermelho, afogueado, tudo menos aquela cruz preta de
    longos braços, sempre abertos e sempre firmes, que pareciam desafiar a
    tempestade…

    Aquela serenidade da cruz estonteou-o. Dir-se-ia que esse nobre
    exemplo de altivez vinha agora humilhar mais a sua fraqueza. Desviou os
    olhos e cerrou violentamente as pálpebras. Mas em vão! que fora tão vivo
    o deslumbramento, e tanto lhe ferira o cérebro, que num fundo cor de
    sangue, como num transparente de mágica, ele via nitidamente
    desenhada, sempre firme e sempre altiva, a cruz que o estonteara. Então
    deram-lhe ímpetos de fugir; uma onda de coragem parecia dilatar-lhe o
    peito impelindo-o. Precisamente nesse momento, a voz tornou a chamar:

    –Ó José Gaio!

    Sentiu-se alquebrado, transido até ao mais íntimo do seu ser. Um longo
    desfalecimento invadiu-o todo, quebrando-lhe a última fibra de energia,
    como se quebra um vime seco. Aquela paralisia atacou-lhe também o
    cérebro: não formava um só raciocínio nem elaborava sequer uma ideia, a
    mais simples. E foi preciso um grande trovão para todo ele tremer,
    abalado como a própria terra. Depois, outro relâmpago fez reviver nele
    a vida do espírito; sentiu um grande pavor àquele aspecto súbito do
    campo que diante dele se perdia de vista, afogueado como se estivesse
    todo em chamas. Aqui, um pinhal, uma ermida além, para toda a banda
    Casais, surgiam de repente, nítidos nos seus contornos, definidos
    maravilhosamente nas suas atitudes. As grandes árvores despidas,
    sobretudo, tinham um ar fantástico, nessa pureza nítida de recorte que
    traçava na luz as sinuosidades mais delicadas dos troncos e ramarias. No
    meio deste cenário de mágica, a um tempo majestoso e tétrico, o triste
    camponês sentia-se apavorado, jactitante e quase inerte, ali chumbado à
    terra, hirto como a cruz que tinha diante. E nem um só gesto
    implorativo, e nem uma só palavra de súplica lhe saía dos lábios
    crispados. Porque uma vez que tentara uma palavra, o mais formidável
    trovão cortara-lha na primeira sílaba. Depois, aquela voz não o
    largava, imperturbável e monótona:

    –Ó José Gaio!

    E ele, não respondendo nem falando, pensava esconjurá-la, exorcismá-la
    como se fosse a voz de um duende. E para esta evocação do sobrenatural
    muito concorria, como os senhores compreendem, esse aspecto sereno da
    cruz negra, inabalável sob a asa agitada da procela.

    Nisto veio a chuva, em grossas gotas a princípio, em cordas de água
    depois. Ela varejava-o inclemente, impelida agora por um vento sul
    furioso. Não deu um passo para procurar um abrigo, não se mexeu sequer.
    Como todo ele ardia em febre, aquele dilúvio era quase um celeste
    benefício para a sua cabeça num vulcão. Mas quando os relâmpagos
    vieram, aquela reverberação da luz nas cordas de água fez-lhe um
    deslumbramento mais forte. E caiu inerte sobre o caminho lamacento por
    onde a água escorria impetuosa, ao mesmo tempo que a voz do costume,
    sobrelevando o trovão, repetia do lado da cruz:

    –Ó José Gaio!

    Cobarde, sujo como um sapo, encharcado até aos ossos, como caiu assim
    ficou–de borco. Depois, quando abriu os olhos, na larga poça onde quase
    tinha a cara, via reflectir-se a cruz, a cada relâmpago. Ela lá estava
    no seu posto, altiva, serena, intemerata, recta como um exemplo… E
    pois que parara o dilúvio, dos seus braços abertos as gotas da chuva
    caíam, vermelhas à luz, como grossas lágrimas de sangue…

    Cobarde! Nenhuma comparação pode dar ideia do estado de prostração desse
    miserável, reduzido pelo terror a uma quase inacção de besta morta.
    Dir-se-ia um imundo trapo ali caído, abandonado ali na lama ignóbil
    de um caminho, à espera da enxurrada que o levasse… Era abjecto!… E
    enquanto esse animal assim jazia, atordoado, como boi que uma malhoada
    prostrou, ao fundo do horizonte, para sul, o encastelamento fantástico
    das grandes nuvens plúmbeas, listradas de negro e roxo, metralhando com
    fúria o largo espaço, aos quatro ventos, era tudo quanto o nosso
    espírito pode conceber de mais grandioso e de mais sublime, épico e
    trágico a um tempo, soberbo, majestoso, imponente.

    Mas a voz sempre a ouvia, por cima do vento e por cima dos trovões,
    aquela voz:

    –Ó José Gaio!

    Assim largo tempo, horas talvez. O torpor do frio agravava-lhe o outro,
    o do medo. Parecia colado à lama, preso ao caminho como se fosse uma
    rocha. No entanto, a espaços, tinha a compreensão clara da sua posição
    e do seu estado. E então uma raiva súbita galvanizava-o: queria
    erguer-se, fugir, desaparecer–erguer-se como aquela cruz, fugir como
    aquele vento, desaparecer como esses relâmpagos, que nem deixam rastro
    na treva…

    Tais rebates de coragem eram, porém, efémeros, impotentes para lhe
    provocarem um movimento. Aquele diabo tinha de morrer ali,
    miseravelmente, ignobilmente, como um cão a que houvessem amputado as
    quatro pernas. E esta ideia, que o instinto de viver lhe sugeriu,
    apavorou-o ainda mais que a própria tempestade. Morrer ali! Mas que
    dúvida, se ninguém lhe vinha acudir, se não passava por ali vivalma, a
    tais desoras! Era horrível! No meio de um caminho, numa noite medonha
    de tempestade, ao pé daquela cruz negra de longos braços
    hirtos–morrer ali!… Eram então já por ele as lágrimas que essa cruz
    parecia chorar?…

    Estava nisto, quando num silêncio de acaso ouviu passos à distância.
    Vinha gente. Quem quer que era tinha de passar por ali, de tropeçar
    nele, talvez. Subitamente, sentiu-se reviver. Estava salvo. Em breve
    estaria de pé,–de pé como essa cruz que um relâmpago muito vivo acabava
    de lhe mostrar… No entanto, a voz é que se não importava:

    –Ó José Gaio!

    Mas os passos vinham-se chegando; e então, como se receasse que o
    calcassem, reuniu num supremo esforço as máximas energias, e rebolou-se
    para um lado, até ficar detrás dumas urzes. Coisa notável foi,
    senhores, que esse miserável em vez de gritar calou-se, e todo se
    recolheu numa absoluta quietação, com medo que o surpreendessem… E
    quem quer que era passou, cabeça nua, diante da cruz gotejante… Aos
    ouvidos do miserável chegou um como murmúrio de prece… Não ia só a
    rezar; ia também chorando, aquele homem…

    …Quem seria?

    Um clarão branco de relâmpago fez irromper da treva, lívido como um
    espectro, o filho do José Tendeiro…

    O desgraçado ia a chorar pelo pai, ali assassinado havia anos, por uma
    noite como aquela…

    Passou, ladeira abaixo, na direcção da velha ponte. Só aquele cobarde
    não se mexeu, prostrado sobre as urzes, quase arrumado à cruz.

    E assim esteve horas e horas, até que, noite velha, cessou a tempestade,
    perdida num murmúrio longínquo, lá na extrema fímbria do horizonte…
    Quando a lua rompeu, lívida num céu de anil, nem a grande sombra da
    cruz, incidindo sobre aquele corpo, como um beijo ou uma bênção, logrou
    reanimá-lo. Tinha morrido, o estafermo!

    Ao outro dia, está claro, foram lá os da justiça. O velho abade foi
    depois, buscar o corpo. Os médicos nem lhe tinham mexido.

    –Sangue pelos olhos, sangue pela boca, sangue pelo nariz, uma
    congestão muito linda–dissera um a rir.

    –E muito mal empregada–fizera o outro do lado, indiferente.

    Mas quando os da maca disseram a um tempo–_Upa_!–esse bom velho do
    abade caiu de joelhos diante da cruz, numa convulsão agudíssima de
    choro. E elevando ao céu as mãos mirradas–ao céu que um divino azul
    fazia diáfano–ele exclamou, soluçando:

    –Senhor! Senhor! a vossa justiça é tremenda, como é infinita a vossa
    misericórdia!

    …Segredo de confissão…–mas o abade bem sabia quem tinha ali
    matado o José Tendeiro…

    BALADAS

    _A Luís Osório_

    I

    MARICAS

    Vocês lembram-se da Maricas, aquela magrita de cabelos muito
    castanhos, quase louros, que morava defronte da redacção, lembram-se? A
    boa da rapariga era nossa amiga, pois não era? Sempre benévola e
    complacente para as nossas balbúrdias e algazarras de todo o dia e de
    toda a noite. E vocês bem sabem que tais elas eram, as nossas
    balbúrdias e algazarras…

    Eu, na Maricas, admirava uma virtude rara, toda original e
    encantadora–a de não mostrar jamais na sua amizade preferência por
    algum de nós. Dir-se-ia que era nossa irmã, ou mesmo nossa mãe, pois
    que nos queria a todos por igual, a pobre Maricas de olhar azul e
    brando…

    Não sei se já vos disse: adivinho o interesse com que ela vos
    perguntaria por mim, nos meus dias de cábula, pela solicitude e
    interesse com que me perguntava por vocês, quando faziam gazeta ao
    escritório.

    –Então esses cábulas? então esses marotinhos? Doente, algum?

    –Na estúrdia, Maricas. Andam todos por lá…

    –Ora vejam!–fazia ela quase escandalizada.

    Ah, como eu me lembro neste momento da vivacidade franca dos sorrisos
    que nos mandava, quando todos em pinha, furando pelos ombros uns dos
    outros, palreiros conversávamos com ela de janela para janela, num
    _tête-à-tête_ que durava horas, muito familiares, muito dados, quase que
    chamando-lhe por tu e ela a nós!

    Como eu me lembro!

    Ela tinha sempre uma resposta e um sorriso para cada uma das mil
    perguntas que lhe fazíamos, e então uma grande paciência inexaurível.
    Nós, os estroinas, quase que chegávamos a adorar aquela ingenuidade
    singela do seu coração de vinte anos. A boa da Maricas era adorável,
    toda ela bondade e paciência para os nossos distúrbios e para as nossas
    algazarras de toda a hora e de todo o instante.

    Mas como se familiarizou ela connosco e nós com ela, é que me não
    lembra, e porventura a nenhum de vocês, acho eu. O que é certo, rapazes,
    é que nós como que a considerávamos uma companheira de redacção, espécie
    de directora com casa à parte e viver independente pois que se entrávamos
    no escritório (parece mesmo que estou a ver aquela barafunda
    de escritório!) e, assomando à janela, a não víamos na sua, dizíamos
    quase sem querer, mas invariavelmente:

    –Mau! falta hoje a Maricas! Diacho! mas onde iria a Maricas?

    E passados instantes debandávamos todos, um agora, outro logo, à
    formiga, mal nos convencíamos de que ela passava a tarde fora, em casa
    da _freira_ de Quebra-Costas–dessa lembram-se vocês… No entanto,
    deveis recordar-vos que ela, no dia seguinte…–coitada!–…a
    primeira coisa que fazia era justificar a sua falta, «estive aqui,
    estive ali, fui a umas compras com a mamã», um pouco ruborizada e
    confusa, como se na realidade a sua obrigação fosse estar ali a
    aturar-nos. Por pouco ela nos não pedia de mãos postas que lhe
    perdoássemos, a boa da rapariga.

    E nós então galhofeiros, brincalhões:

    –Sem mais _aquelas_, D. Maricas! A congregação risca-lhe a falta, ora
    essa!…

    E ela mais confusa, fazendo girar no dedo o seu anelzito de cobra:

    –Pois sim, mas é que às vezes…

    –Às vezes quê?…

    «Não! ora adeus! Ninguém desconfiava que ela estivesse zangada
    connosco. Saíra, porque tinha de sair, essa é boa…»

    –Pois não era verdade–perguntávamos-lhe–que ela adorava aquela
    _trupe_ de boémios?

    –São todos muito bons rapazes–dizia já a sorrir.–Todos me tratam
    muito bem…

    E quando dizia isto, o seu rosto miudinho e muito pálido todo se
    iluminava de prazer e sorria de íntima gratidão. Mas porque
    simpatizava ela connosco, a pobre Maricas?

    Quando nos via em palestras intermináveis, nas libações do _congnac_ e
    do café, ouvia-se lá da janela um _pschiu_! muito sibilado.

    –Que manda a D. Maricas? É servida?

    E ela, levantando os olhos da costura, com ares de formalizada:

    –Mando que escrevam, que trabalhem! Já fizeram o jornal?

    O cuidado que lhe dava o jornal!

    –Ora faz favor de não falar em coisas tristes? Olhem agora que
    lembrança, o jornal!

    Ela então, por única resposta, dizia-nos às vezes que na semana passada
    o tipógrafo viera queixar-se de que havia falta de originais, quantas
    vezes o garoto da imprensa viera pedir as provas emendadas.

    E por falar em provas:–a Maricas sabia todos os sinais das emendas,
    todos.

    –Olhe lá, Maricas, está aqui uma letra a mais nesta palavra.

    –Risco por cima, risco à margem, e um _d_ cortado; é fácil.

    –Um _m_ de pernas para o ar, e esta?

    –Risca-se, e um três cortado, à margem. Está farto de o saber…

    Quando via algum sentado à mesa, a rabiscar, pedia sempre que lhe fosse
    mostrando as tiras, à medida que as escrevesse, talvez porque adivinhava
    que isso era um estímulo. A gente fazia-lhe então a vontade, e mal
    escrevia a derradeira letra pegava da tira e dizia-lhe para a janela,
    acenando-lhe com o papel:

    –Maricas, cá está uma, vá contando. Veja: escrita de alto a baixo.

    À terceira que se lhe mostrava, ela saía-se de lá com um _bravo_! e
    recomendava, solícita, cinco minutos de folga, enquanto se fumava um
    cigarro.

    A Maricas era quem nos cortava as cintas para o jornal e quem nos fazia
    a goma nos dias de expedição. Que ricas cintas e que bela goma! Em
    paga, quando o jornal chegava da imprensa, quase sempre nos sábados à
    noite, o primeiro exemplar era para ela. Como a rua era estreita
    atirava-se-lhe da janela.

    –Maricas, aí vai ainda fresquinho!

    –'stá bem, obrigada. Vou ler, até amanhã.

    Corríamos todos à janela, a dar as boas-noites à nossa amiga.

    –Durma bem, ouviu?

    E no dia seguinte, a Maricas repetia a cada autor frases e frases do
    artigo publicado, jurava que nos conheceria no estilo ainda que
    mudássemos de pseudónimo. De resto, sempre benévola: achava tudo muito
    bom, «escrito com muita graça e muito bem», como ela dizia.

    Nos serões que fazíamos e que por via de regra não passavam de um
    interminável cavaco, dizia-se mal das mulheres, discutiam-se escândalos,
    desvendavam-se segredos, tal e qual como em todas as redacções… Mas da
    Maricas ninguém tinha que dizer senão bem; era a privilegiada naquelas
    sessões de má língua. Quase sempre a conversa degenerava em
    algazarra–um que se lembrava de cantar, outro que ia pela guitarra e
    gemia fados com acompanhamento de violão. E era de ver o Santos Melo,
    de olhos cerrados e cabeça à banda, como cantava a sua quadra predilecta:

    Sei cantigas misteriosas,
    Cantigas de endoidecer,
    Que os lírios dizem às rosas,
    Que as rosas me vêm dizer.

    Mas no meio desta inferneira havia sempre um que recomendava silêncio.

    «Com mil demónios! não viam que a Maricas não podia pregar olho…»

    Todavia…–ó suprema bondade!–…ela nunca se queixava quando no dia
    seguinte nos vinha dizer até que horas durara a estroinice, o que se
    tinha tocado, o que se cantara, quem tinha rido mais, e, até, as vezes
    que as cadeiras tinham caído.

    «Ora viam?! Não a tínhamos deixado dormir! A Maricas que desculpasse;
    palavra de honra! doravante…»

    Ela então acudia logo, como a remediar uma grande desgraça:

    –Não, não, eu até gosto. Entretém-me vê-los alegres, faz-me bem, ora
    essa…

    * * * * *

    Pois, meus amigos, a boa da Maricas–morreu! vocês não sabiam! E morreu
    tísica, a desgraçada Maricas! Só depois que o soube, é que eu comecei a
    pensar naquela tossezinha muito seca em que às vezes a
    surpreendíamos, naquele branco pálido das suas faces, no bistre das
    suas olheiras, naquela magreza transparente das suas mãozitas de
    marfim…

    Pobre Maricas!

    Haverá três meses que ela me desapareceu da sua janela, onde
    continuei a vê-la depois que o jornal acabou. Eu sabia lá para onde ela
    tinha ido?!…

    Mal diria eu que estavas no cemitério, tão longe e tão só! porventura na
    vala comum, sem umas folhas de rosa sobre a tua sepultura
    humilde,–onde neste instante cai chuva e chuva! Ainda se as noites
    fossem todas de luar… Minha triste amiga! como eu agora relembro cheio
    de mágoa a tua frase de infinita bondade e de infinita resignação:

    –…«Entretém-me vê-los alegres, até me faz bem»…

    Compreendo agora tudo: vivias da nossa alegria, já que a tua alma era
    triste… Mas porque foi que nos não disseste, pobrezinha! que nessa
    frase singela ia a revelação do pressentimento que tinhas da tua morte
    prematura?! Triste criança que nós não mais veremos!

    * * * * *

    Olha, Maricas, escrevi quatro tiras. Já me não dizes–_bravo_!–ora
    não?…

    * * * * *

    …Bom Deus! bom Deus! para que a terra produza diamantes, e dela
    rebentem flores, são talvez precisos estes corpos a avigorar-lhe as
    seivas…

    II

    PARA A ESCOLA

    No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras
    letras. A porta lá estava, amarela com fortes pinceladas vermelhas, ao
    cima da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la.
    Obra de frades, os senhores calculam… Já tinha principiado a aula
    quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas
    bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada,
    num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz
    da Helena dizer para o senhor professor, um de óculos e cara rapada,
    falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa:

    –Muito bons-dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a
    encomendinha.

    Oh! oh! a encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali
    estava a encomendinha!

    –Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão?

    E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena
    enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia
    metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia… E ali estava eu
    entre os joelhos do senhor professor, com o _bonnet_ numa das mãos e a
    saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria
    contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus.

    –Adeus, Josezinho, logo venho cá pelo menino.

    Choraminguei, quis sair na companhia dela.

    –Não, agora o menino fica–disse-me a Helena.–Isto aqui é a escola, é
    onde se aprende a ler.–E agachando-se, diante de mim:–Olhe tanto
    menino, vê?

    –Mas fica tu também–disse-lhe eu então.

    Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir,
    iracundo:

    –Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai
    tudo raso com bolaria!

    Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos
    meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, p'los modos.
    Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes,
    cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão
    principalmente.

    –Isto é preciso muita paciência, senhora Helena, muita soma de
    paciência. Um mestre precisa de ser um santo.–(Pausa. Olho duro sobre
    as bancadas.)–Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa
    hora entrasse…

    –Entrou, ele há-de estudar. Ora há-de, Josezinho?

    Das bancadas alguns acenavam-me que não, arregalando muito os olhos.

    –É verdade,–insistiu por sua vez o professor–o menino há-de estudar
    as suas lições, não é assim?

    –Diga, sim senhor–ensinou-me então a Helena.–Hei-de estudar muito e
    ser sossegadinho na aula, diga.–E a meia voz para o professor:–isto em
    casa é o vivo mafarrico; faz lá ideia?

    Ele riu, já sabia; as crianças são todas assim, enquanto estão no mimo
    das mães. Mas uma vez metidas na escola, as coisas mudavam um pouco. E
    piscando o olho, designou a palmatória. A Helena ficou transida.

    –Faz milagres, Sr.^a Helena. Digam lá o que disserem, olhe que faz
    milagres.

    Eu tinha percebido. Começava de novo a _embezerrar_, com vontade de sair
    quando a Helena saísse. Aquilo sabia eu para que servia, a
    palmatória…

    –Mas para o nosso Zezito não há-de ser precisa, ora não?

    –Diga assim: não senhor, porque eu hei-de cumprir com as minhas
    obrigações, diga.

    –Ora aí é que está–atalhou o professor.–Vê, Sr.^a Helena? Aqui já os
    pequenos têm a sua obrigaçãozinha, os seus deveres a cumprir, as suas
    coisas…

    –Sim senhor, sim, enquanto que em casa…

    –Em casa é o que nós sabemos. Tudo são mimos, meu menino isto, meu
    menino aquilo. Vão assim criados à lei da natureza, sabe vossemecê? É
    mau isso, péssimo! Porque é que os rapazes são todos teimosos?–E bateu
    num «Monteverde» pousado sobre a mesa, dizendo:–Olhe, aqui está neste
    livro: «_de pequenino_…

    –…_é que se torce o pepino_»–concluiu rápida a Helena, orgulhosa de
    saber o que estava no livro, coitada!

    –Nem mais. A modos que isto faz rir. Um pepino é uma coisa que se cria
    na horta…

    Risota dos rapazes!

    –Ora vê isto, Sr.^a Helena? vê estes brutinhos?–E com entono, de
    palmatória alta, fazendo-se carrancudo:

    –Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Sr.^a Helena,
    começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o
    que se chama tudo!

    E fitou-os altivo, sereno, minaz. Sob aquela ameaça, os rapazes ficaram
    transidos, cabisbaixos, olhos pregados nos livros. É verdade que ele
    podia pedir licença à Sr.^a Helena, e mesmo diante dela _cascar_ de
    rijo… Uma sombra de terror passou por toda a sala, sossegaram; até o
    Estêvão deixou de me fazer caretas.

    –É o que vê, Sr.^a Helena–disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom
    do professor.–É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem
    ferramenta, não faz nada. _Santa Luzia_ milagrosa! Aqui onde a vê tem
    feito muitos doutores.

    –Essa?–perguntou ingenuamente a Helena, disposta a venerar aquele
    pedaço de pau de buxo, se na verdade ele tivesse feito muitos doutores.

    –Não, mulher, se não foi esta, outras como esta, essa é boa! Isso não
    faz ao caso.

    Pela resposta bem se vê que foi indiscreta a pergunta da pobre Helena.
    Também ele, velho naquele ofício, muitas vezes investigara com mágoa
    o motivo por que a sua palmatória não fazia um único doutor… Morreria
    sem ter essa «glória,» decerto! Forte martírio que a Helena veio
    recordar-lhe!…

    Houve uma interrupção, um rapaz que se levantou e de braço no ar pedia
    para ir lá fora.

    –_Licéte_!–foi como ele disse, arremedando o latim _licet_. Outros
    havia que diziam, por troça, _Aniceto_!

    –Ora já a mim me admirava,–tornou-lhe o professor.–Se tu não havias
    de pedir para ir lá fora, tu…–E ficou-se a fitá-lo, meneando
    pausadamente a cabeça.–Ora vá você lá fora.

    O rapaz saiu apressado, com grande estrupido de pés.

    –Olá?–chamou zangado o Sr. professor.

    O outro assomou à porta, contrafeito.

    –Para a outra vez faz-se menos barulho com esses pés, ouviu? Não sei se
    percebes… Ora já que tem tanta pressa, eu não tenho nenhuma; faça
    favor de esperar um pouco.

    Pôs-se então a correr a vista pelas bancadas, resmungando:

    –Tu não… tu não… tu não… Tu, olá, venha cá!

    Levantaram-se uns poucos, foi um barulho.

    –Canalha!–gritou-lhes então, batendo o pé.–Corja de atrevidos!
    Sentados, já!

    Grande silêncio nas bancadas. Um perguntou de lá, humilde, se era ele,
    apontando para o peito.

    –Sim, és tu, p'ra que queres os olhos? Avance e perfile-se.

    Mediu-o de alto a baixo. Depois:

    –Isso mesmo. Essa mão no bolso é que não é do _regulamento_, fora com
    ela. Agora, sim senhor. Ora vês além aquele sujeito? o tal das
    pressas?…

    –Vejo, sim senhor.

    –Bem sei que vês, se o não vissem é porque eras cego; que tal está o
    palerma? Ora acompanhe-o, já sabe p'ra quê. E sempre quero ver se tenho
    de vos ir lá buscar pelas orelhas.

    Saíram. Mal tinham salvado a porta, gritou-lhes o Sr. professor:

    –Olá?

    Eles assomaram, outra vez, atrapalhados.

    –Então, seus cabeças de avelã, torres de vento, então não falta nada?

    Os dois puseram-se a coçar a cabeça, muito comprometidos. Faltava com
    efeito alguma coisa…

    –Então é aí?

    Eles avançaram até ao meio da sala, tropeçando um no outro.

    –Ora passa por esta vez, em atenção a estar aqui a Sr.^a Helena.–E
    enrugando o sobrolho, comandou em tom marcial:–Ordinário! marche!

    Faltava aquilo. Em obediência aos seus velhos hábitos de militar, dava
    o Sr. professor aquela voz, sempre que mandava algum aluno cumprir
    ordens suas:

    –Ordinário! marche!

    Sentou-me então no joelho e perguntou:

    –Olha lá, Josezinho, tu queres ser militar, queres? Assim como o Sr.
    capitão do destacamento, que lá está aboletado em casa, queres?

    –Corneta, mais queria ser corneta. Ou então como o Sr. prior, dizer
    missas.

    Riram-se. Quem sabia lá o que dali sairia? Mas o Sr. professor fez
    notar que era bom que os pequenos tivessem já assim uma tendência
    qualquer. E pôs-se a puxar-me o nariz, a dar-me palmadinhas nas
    bochechas.

    –Corneta ou prior, hein? Pois isso é que é preciso escolher.–E para a
    Helena:–Pois olhe que os tenho conhecido, Sr.^a Helena, que respondem a
    pés juntos que não querem ser nada. Mau sinal, péssimo, Sr.^a Helena!
    Quando eles assim dizem, de ordinário assim fazem, depois. Nunca são
    gente.–E virando-se para mim:–Mas então, Josezinho, em que ficamos?
    Corneta ou prior?

    Preferia ser prior. Sempre me parecia melhor, mais bonito, especialmente
    em dias de festa, com aquela capa toda doirada…

    –Muito bem, escolheste bem. «_Telha de igreja_…

    –…_sempre goteja_»–concluiu a Helena que ainda hoje é forte em
    adágios.

    O bom do professor tinha finalmente chegado onde queria.

    –Prior, então! Está muito bem, seu reverendo. Pois olha, Josezinho,
    para ser prior é preciso estudar, saber ler no missal, ora é?

    –É.

    –Ah!… Não é assim que se diz. É, sim senhor–emendou a Helena.

    O Sr. professor teve um gesto de indulgência.

    –Mas tu não sabes ainda, ora não?

    –Não senhor.

    Ele então, fingindo uma grande surpresa, perguntou se o que eu trazia
    na saca era um livro.

    –Querem ver que é um livro?…

    –Diga–ensinou a Helena–é o meu livro para aprender a ler. Mostre-o lá
    ao Sr. professor, tome.

    Houve na sala um murmúrio, ao verem a capinha verde, toda lustrosa, do
    meu livro.

    –Muito bem! muito bem!–aplaudiu o Sr. professor.–Mas este livro é
    mesmo para aprender a prior… O menino já tinha dito lá em casa que
    queria ser prior, ora já?

    Fiz que sim com a cabeça. Era verdade aquilo; mas como é que ele o
    sabia?

    –Bem se vê por este livro. É livro para prior. Queres então principiar,
    não queres?

    –Quero, sim senhor,–ensinou ainda a Helena e eu repeti.–O que eu
    quero é dizer missa quanto mais cedo melhor, diga.

    –Primeiro do que aqueles?–perguntou voltando-me para as bancadas.

    Então fui eu mesmo que respondi:–«Sim senhor!»–contente com a
    lembrança de vir a dizer missa, e de a vir a dizer primeiro do que todos
    aqueles. Até podia acontecer que o Estêvão das caretas me ajudasse a
    alguma…

    –Ora então está muito bem, estamos entendidos.–E com intenção, ferindo
    muito as palavras, para mas gravar no espírito:–A primeira coisa que é
    precisa para prior é saber bem isto, vês?–E punha-me diante dos olhos o
    livro aberto na primeira página.–Isto aqui é já missa, chama-se o _a b
    c_, e é aquilo que os priores dizem quando vão para o altar.

    –_Ito_?–inquiri curioso, furando a página com o dedo.

    –Sim, isto. E amanha já me hás-de trazer sabido daqui até ali. Hein?
    valeu?

    –Diga que sim, menino, diga. Valeu, sim senhor.

    Eram as seis primeiras letras, ainda me lembro bem. A minha primeira
    lição!

    _A B C D E F_!

    A minha primeira lição!

    –Ora sabe vossemecê o que isto é, Sr.^a Helena? isto que eu tenho
    estado a fazer?

    –Sim senhor, sei… é assim… como quem diz… é…

    –Não sabe, não admira,–disse complacente o Sr. professor.–Puxar o
    gosto, Sr.^a Helena, puxar o gosto é que isto é. Nem todos os mestres o
    fazem, todos o deviam fazer. O pequeno, assim, até já vai estudar com
    mais gosto, digo-lho eu; olé se vai!

    «Mas ele não a queria demorar mais, tinha lá em casa as suas
    obrigações, as suas voltas, e deviam ser horas.»

    –Pois isso é verdade, Sr. professor; mas não sei que é, custa-me a
    separar do menino…–disse a boa da Helena, quase a chorar.

    –Foi ama, deu-lhe o seu leite, aí é que está a coisa. Pois tenha
    paciência. Aprender é tão preciso como mamar–concluiu numa prosa que é
    mesmo poesia.

    –Pois é preciso, é!…

    E a pobre Helena beijou-me, para se ir embora. Quando me beijou, senti
    na minha cara as lágrimas daquela boa amiga. Retirava-se, deixando-me
    ainda sobre o joelho do meu velho professor, quando este a chamou:

    –Sr.^a Helena!

    –Meu senhor!–respondeu, levando aos olhos o avental.

    –Já agora, espere mais um instante.

    Percorreu com a vista, minuciosamente, as bancadas todas da aula.
    Depois, intimou:

    –Tu, Francisco, olá, chega acima. E tu do lado, como te chamas, abaixo
    um pouco.–E virando-se para a pobre mulher lacrimosa:–Ora é ali,
    Sr.^a Helena, ali é que é o lugar do pequeno. Leve-o lá, ande, que lhe
    não deve pesar.

    E dos braços do meu professor passei para os braços da ama. Novo beijo,
    lágrimas mais quentes, e saiu a boa da Helena, deixando-me no meu
    lugar…–o meu primeiro posto na arriscada milícia das letras…

    Depois, só vi isto: o mestre a sorrir-se para a porta e a conversar por
    acenos com a pessoa que estava de fora. Pequeno como era, percebi, no
    entanto. O mestre vinha a dizer na sua mímica:

    –Bolos?… Não?!… Perdoe a Sr.^a Helena, mas isso, quando forem
    precisos… Pois sim… lá isso sim… pequeninos… Han? mesmo com a
    mão?… Está bem… Descanse… Mesmo com a mão…

    E ela devia sorrir por entre lágrimas, porque foi também por entre
    lágrimas que o bom velho se sorriu, dizendo adeus…

    * * * * *

    …Helena, minha boa amiga! Acabo de chegar ao fim da viagem que
    principiei nesse dia. Não volto mais à escola! Venho hoje restituir-te,
    querida amiga, aquele beijo–dulcíssimo beijo aquele!–que tu então me
    deste. E afinal não fui prior, ora vê!… Mas ainda bem. Se o fosse,
    acho que parecia mal beijar-te, minha boa e santa amiga! Pois ainda bem
    que não fui prior, ainda bem… Não é verdade, Helena?

    Em Coimbra, no dia do meu acto de formatura.

    TRAGÉDIA RÚSTICA

    I

    _Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à
    porta do José Grilo_

    Truz! truz! truz!

    Os de casa acordaram, sobressaltados.

    –Schiu! nem pio!–fez o José Grilo para a mulher.–Moita!

    –Truz! truz! truz!

    Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo
    pai.–Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria
    divertir…

    Mas logo outra vez na porta:

    –Truz! truz!

    –Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José
    Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos
    cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de
    alguém que fugia.

    –Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir–explicou ele
    para a mulher.

    Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um
    cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham
    vindo pôr zorro…

    –Ó mulher, queres tu ver que há novidade?

    De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do
    casebre.

    –Ele que demónio de embrulho…?

    Pegou-lhe com muito jeito. Era efectivamente uma criança, envolta em
    dois trapinhos muito velhos.

    –Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha.

    –Grandes cadelas!–E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a
    gente da casa.

    –Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os
    Bons-dias à gente!

    Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo
    metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada…

    –Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do António das
    Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

    Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que
    chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga
    que ia correndo:

    –Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.

    Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a
    saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito
    embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

    –Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de
    conta…–observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da
    fêmea.

    Ela só redarguiu que _nosso_ era um modo de falar. Seria dele, mais
    de qualquer desavergonhada…

    O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e
    pregou-lhe uma gargalhada.

    –Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E
    deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo.

    A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé
    da criança, afirmando-lhe às risadas que sim, que o pequeno era filho
    dele.

    –O pequeno?… mas é que pode ser cachopa–disse o José Grilo para a
    mulher.–E certificando-se:–Nada! é rapaz.

    Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela
    sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.

    –Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cómica, braços no ar, o
    balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de
    sobrepeliz.–Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!

    –Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz–disse-lhe de lá o
    José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança.

    Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito
    aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para
    ela e disse-lhe muito solene:

    –Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.

    Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para
    ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.

    –Juras pelas cinco chagas, ó homem?

    –Juro pelas cinco chagas.

    –Assim te Deus dê saúde, ó José?

    –Assim me Deus dê saúde.

    –Preto sejas tu como o teu chapéu?

    –Preto seja eu como o meu chapéu.

    A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo
    a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da
    Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia.

    Depois desabafou, muito aliviada:

    –Ai!

    O José Grilo pôs-se a rir.–«O demónio da Joana, com ciúmes!»

    –Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo
    tens tu ciúmes?–perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo
    diante da mulher desconfiada.

    A outra, muito delambida, redarguiu com ironia–«que o seu homem era um
    santinho…»–O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo,
    reguingou de alto:

    –Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que
    enjeitou este…

    Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:

    –Mas quem seria a grande cadela?

    Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém,
    murmurando frases de ódio, moralistas:

    –Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo
    entranhas de lobo.

    O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do
    José Grilo.

    –É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar–disse
    contristado o lavrador.

    Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a
    Ana era a outra, a Doroteia do António das Veredas.

    –Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demónio vens tu cá
    fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer?–E deu um bofetão
    na filha, «para que soubesse dar o recado».

    A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é
    que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe
    mal sair de casa assim cedo…

    –Só se lhe queres tu dar de mamar–insistiu ainda o José Grilo, virado
    para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens.

    A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:

    –Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.

    –Eu sei lá se não se dizem?–observou o lavrador, muito zangado.–Dá cá
    daí o pequeno.

    Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O
    lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois
    ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse
    bem quente.

    –Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço,
    p'ra ver isto do ajuste.

    A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os
    farrapos, gritou para a rapariga:

    –Ó D'roteia! espera que inda cá ficou isto.

    Então pôs-lhe os farrapos ao ombro–uns pedaços miseráveis de velha
    chita–e a Doroteia partiu onde à irmã.

    II

    _Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de
    António Palma, casado com Rufina Maria_

    O António Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher,
    a Rufina, principiava a lavar a loiça, quando à grade do quinchoso uma
    voz chamou:

    –Ó Sr.^a Rufina!

    Vieram os pequenos, veio o António Palma, a mulher com as mãos
    fumegantes. Foi preciso fazer calar o _Farrusco_ para se poder ouvir o
    que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.

    –Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.

    O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de
    cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma
    desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de
    gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos
    olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles
    não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto
    o Palma e a mulher afectavam procurar ambos um banco, acotovelando-se,
    com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O _Farrusco_
    investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o
    pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou
    assim:

    –Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias.
    Já vêem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu
    filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá
    em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que
    não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem
    jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vêem
    como eu ando…

    Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e
    a mulher diziam não sei que monossílabos, o _Farrusco_ rosnava. A outra
    prosseguiu:

    –Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de
    nascer no chão, como os cães… Bem sabem que isto custa. Pouco se me
    dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse…
    Coitadinho!

    Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o
    Palma e para a mulher.

    –Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.

    O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de
    seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo
    se havia de arranjar, que sossegasse.

    –Que a falar os pontos de verdade, Sr.^a Fortunata, vossemecê é que
    tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.

    Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.

    –Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com
    vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.

    Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.

    –Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado,
    nem o diabo. Des'que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira.
    Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.

    Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atónitos. Depois
    continuou:

    –Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo
    saco…

    A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O
    Palma prosseguiu:

    –Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí
    mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na
    camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal.
    Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado,
    sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado.
    E mais é que bem pode o rapaz dar em doido…

    A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se
    dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo
    para ele, mal a Sr.^a Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia?
    Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os
    porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe baptizasse o
    filho, dizendo que já tinha nascido.

    –No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma.–Anda com
    ela ferrada que o filho já nasceu.

    Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo
    falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não
    afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.

    Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou.

    –Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por
    vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem
    culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás.
    Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já
    diz _era_, já fala nele como se o pobre tivesse morrido…

    Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns
    bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois,
    quando já ia para sair, disse em resumo:

    –Fique vossemecê então, Sr.^a Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela
    inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.

    Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu
    e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha
    feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali
    chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota
    aos cevados, ficou espantado:

    –Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sr.^a Ana!

    Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido.

    –Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí.

    Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe
    perguntou num sobressalto:

    –Vivo ou morto, Sr. António?

    O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse
    morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a
    pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença
    do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de
    fazer.

    O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse
    com a pergunta: «que se há-de agora fazer a isto?» ele redarguiu,
    irado;

    –Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há-de
    fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar…

    A velha ia falar.

    –Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda
    nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu
    uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer
    cadela vale mais que vocês duas.

    O Palma ia-se pondo amarelo, a Sr.^a Rufina interveio, aconselhando-o a
    que saísse.

    –Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de
    véspera até à feira.

    Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua.

    –Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me
    qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua.

    Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos
    cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:

    –Em estando capaz, rua!

    –Daqui a três dias, talvez…

    –Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando
    esses estafermos saírem.

    Ora o António Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora–com o
    embrulhinho do neto ao colo…

    Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado…

    Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na
    madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do
    José Grilo.

    Madrugada de Fevereiro, nevava…

    III

    Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha
    amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo
    retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo.
    Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão
    triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto,
    faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão
    estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul
    anunciava um dia de sol.

    A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda
    daquele lado em contacto com o pequenino…

    Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe
    perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da
    levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.

    –Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.

    Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu
    como um eco:

    –…Um enjeitadinho.

    Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga.

    –Sim, um enjeitadinho, deve ser isso…–continuou o moleiro.–E
    daí… pode ser que não seja…

    A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.

    –Nada! pode ser que a história seja outra–elucidou o moleiro.–Onde
    foi que isso foi posto?

    –Esta madrugada, à porta do José Grilo.

    –Olá! isso então pode ser coisa dele–observou a rir o moleiro.–Esse
    diabo não é seguro.

    Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a
    explicar à rapariga:

    –É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a
    modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às primeiras,
    tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo…

    –Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e
    senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há-de ter fome.

    A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria
    ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados.

    –Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria
    a desavergonhada?…

    –Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.

    –Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso
    que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num
    falatório pegado. «Que o filho era dele, que se a cabra da mãe
    teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.» Um arrazoado
    assim, muito comprido.

    Espantada, a Doroteia ia falar.

    –Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia
    isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que
    onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar.

    Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança.

    A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão.

    –Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a
    Doroteia.–Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai,
    coitadinho!

    A Sr.^a Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar
    compungido:

    –Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir!

    Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho
    batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda
    que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer
    obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe
    respondera:–«Para a feira. Vender um gado.»

    –Ora vá lá o diabo entender isto!–rematou por fim o moleiro. Um doido
    a vender gado.

    Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa
    por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora,
    direita à casa do pai.

    –Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto.–E o Paulo
    correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram
    todo o enxoval do triste pequenino…

    Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a
    criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da
    rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda
    materna.

    –Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja
    capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho,
    embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José
    Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem
    depois os cães e comê-lo.

    E espreitando pela fenda estreita do xaile:

    –Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi?

    –Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco.

    A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de
    longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não
    tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair
    com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela
    conhecia gritou ali de perto:

    –Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa!

    E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.

    –É o José Tomás que está doido,–explicou o pastor.–Desde que a
    mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!

    Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa
    à rapariga.

    –Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho!–rugiu ele com voz
    furiosa.

    E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre
    lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas,
    impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho…

    A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente.

    E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do
    enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a
    rir-se…

    –Conheces? perguntou-lhe a rapariga.

    No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não
    respondeu.

    –Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.

    Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como
    estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo
    sobre os calcanhares.

    E ria… ria… enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável
    farrapo, as lágrimas corriam, copiosas…

    Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram
    percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A
    mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele… A
    grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao
    homem!

    –Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor.–Ora vês aí um
    estafermo que precisava que a matassem!

    O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte
    impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.

    –Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai
    deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.

    Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve,
    foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro… E como aos
    lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez
    ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.

    Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía
    mais densa…–ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como
    no seio imenso de um órgão, o vento sul–gemia…

    ABYSSUS ABYSSUM…

    Nesse dia, os dois pequenitos tinham jurado que haviam de ir ao rio.
    Assim eles tivessem uma coisa boa!… Mas que tentação para ambos, o
    rio! Ainda lhes soavam aos ouvidos, com todo o seu entono vibrante de
    ameaça, aquelas terríveis palavras com que a mãe os intimidara, um dia
    que lhe apareceram em casa tarde e às más horas.

    –Ouvistes?–ralhara-lhes a mãe.–Olhai se ouvistes: se voltais ao rio,
    mato-vos com pancada. Andai lá…

    Ih! como ela dissera aquilo, Mãe Santíssima! Colérica, ameaçadora, com
    a mão em gume sobre as suas cabecitas loiras… Lembravam-se de haver
    tremido, cheios de susto, muito chegados um ao outro, humildes sob
    aquela ameaça terminante. E então, nesse dia, eles não tinham ido ao
    rio. Aos pássaros sim…–lá estavam as calças rotas do Manuel a
    dizê-lo–…aos pássaros é que eles tinham ido. Ao rio era bom! a mãe
    que o soubesse…

    Ah, mas então não os deixassem dormir naquele quarto. Logo de manhã,
    mal abriam as janelas, a primeira coisa que viam era o rio, uma
    corrente muito lisa e esverdeada, serpeando entre os renques baixos dos
    salgueiros. Lá estava a ponte velha, donde os rapazes se atiravam
    despidos, de cabeça para baixo, e então o barquinho branco do
    fidalgo,–lindo barquinho!–sempre à espera que o fidalgo o desamarrasse
    para passar à grande quinta que tinha na margem de lá.

    De modo que o primeiro desejo que logo pela manhã assaltava os dois
    rapazes era o de irem por ali abaixo, muito madrugadores, tão
    madrugadores como os melros, meterem-se dentro do barco, desprendê-lo
    da praia, e deixá-lo ir então por onde ele quisesse, contanto que fosse
    sempre para diante… Quando fechavam as janelas para se deitar, a sua
    vista seguia, mesmo através da escuridão da noite, a linha que ia dar ao
    barco. Era o seu–«adeus até amanhã!»–àquele pequeno objecto que valia
    tesouros, que para os dois valia mais que tudo, tudo…

    Ah! tivessem eles assim um barquinho, que não queriam mais nada…

    –Mais nada?

    –Isso não… mais alguma coisa. E a mãe que não ralhasse, está visto.

    Mas nessa manhã, bela manhã, na verdade! a mãe viera acordá-los mais
    cedo. Ia já pela aldeia um claro rumor de vida–gente que passava para
    os campos, os solavancos dos carros no empedrado péssimo da rua, os
    patos da vizinhança que saíam em rancho para a digressão pelos prados,
    grasnando ruidosamente, levantando-se em voos curtos, espantados da
    agressão acintosa dos rapazes. Havia mais de uma hora que ali perto
    se ouvia o retimtim agudo do martelo do ferrador atarracando cravos na
    bigorna. Já o reitor passara para a missa, em batina, muito hirto e
    vagaroso, as chaves da igreja na mão esquerda e na direita a cabacita do
    vinho. E àquela hora, onde iria já a missa! A última beata, encapuçada
    e lenta, recolhera, trazendo consigo a esteira em que ajoelhara na
    igreja. Havia mais de meia hora que o João carpinteiro, no meio da rua,
    dava com valentia num carro cujo eixo _ardera_ na véspera, e que era
    urgente compor, p'los modos. Até o Ernestinho do estanco abrira já a
    loja, e subira à varanda a regar os manjericos. Começos da labuta
    diária, enfim; os senhores sabem.

    Pois como lhes disse, a mãe viera nessa manhã acordar mais cedo os dois
    pequenos.

    –Fora, mandriões, vamos! É preciso afazerem-se a madrugar, que tal
    está! Ai, ai, dia claro há que tempos, vem aí o sol, e os morgadinhos
    na cama.–E enquanto falava, ia-lhes abrindo as janelas.–Persignar e
    vestir, vamos! Calças… colete… os jaquetões… tomem.

    E pôs-lhes tudo sobre a cama.

    –Mãe, a bênção!–balbuciaram os dois, tontos do sono ainda.

    –Deus os abençoe. Que Deus não abençoa mandriões, ouviram? Ora eu já
    volto. Queira Deus que não vos encontre cá fora, tendes que ver.

    Os dois sentaram-se na cama para se vestir, contrafeitos, fechando os
    olhos àquela hostilidade viva da luz que invadira o quarto num jacto
    repentino e brutal. Pela abertura larga da camisa assomava-lhes o peito
    que eles afagavam numa última carícia, suavemente, docemente. Seria
    tão bom tornar a adormecer, assim mesmo sentados! O mais novito ainda
    tentou deitar-se outra vez, pesaroso de ter de abandonar já o aconchego
    morno da cama, onde se estava tão bem! onde os sonhos eram tão lindos!

    Mas a mãe não tardava ali. Era preciso vestirem-se, que remédio! Foi
    então que o Manuel, mais esperto do sono, olhando para o campo o achou
    encantador, todo resplandecente de verduras.

    –Bonita manhã, não vês? As árvores parecem mais lindas, repara. Porque
    será?

    O outro encolheu os ombros, não sabia: só se fosse por não haver
    nuvens…

    Pela janela aberta, avistava-se um trecho de paisagem que a luz viva da
    manhã fazia muito nítida. As vinhas tinham um verde encantador, muito
    suave, trepando encosta acima, fazendo contraste com a rama escura das
    laranjeiras que cerravam alas nos pomares húmidos das baixas. Revestidos
    de folhagem, ascendiam ares fora os olmos gigantescos. Pedaços de horta
    estavam em toda a pompa do seu viço e da sua frescura. Viam-se as rodas
    das noras, latadas compridas a cuja sombra regalam as merendas.

    Um renque de choupos esguios marcava a borda do rio que nessa manhã
    deslizava muito sereno, esverdeado de águas, espelhante sob aquele céu
    imaculado.

    –Ah! ah!…–riu-se o Manuel, contemplando-o.–O rio! Que te parece?
    Olha que é lindo, o rio; ora é, ó António?

    –É, lá isso… Mas _tamém_ de que vale?–tornou-lhe com desalento o
    irmão.–A gente não pode lá ir… Olha se a mãe o soubesse, han?–E
    mirando por sua vez a paisagem perguntou:–Já reparaste no barco, ó
    Manuel?

    –Tão bonito!

    Os dois riram.

    –Parece pintado de novo… E nem se mexe, repara.

    –Pudera!…–explicou o Manuel–…amarrado com uma corda…–E depois
    radiante, gesticulando para o irmão:–Mas eu era capaz de o
    desamarrar…

    –Ai eras!–disse duvidoso o António, para o incitar.

    Calaram-se. Era bom podê-lo desamarrar, lá isso era. Ambos dentro
    dele, sozinhos, isso é que seria bom! E eles então que estavam mortos
    por ir às azenhas, e pelo rio era um instante enquanto lá chegavam. O
    barco! Era tão bom andar no barco! E aquele então era lindo, como não
    tinham ainda visto outro. Nunca lhes haviam esquecido–olhem lá não
    esquecessem!–aquelas tardes em que o fidalgo os levara dentro do
    barquinho, ensinando-lhes como se remava.

    O Manuel foi o primeiro que se vestiu, e foi logo direito à janela.
    Passava naquele instante um bando de andorinhas, chilreando.

    –Está um dia lindo, avia-te.

    –Olha avia-te! p'ra quê?–perguntou o António torcendo e retorcendo o
    pé para enfiar o sapato, apoiado com as mãos ambas na borda da cama.

    O Manuel sorriu-se, triste.–Era verdade… Aviarem-se p'ra quê? A mãe
    não os deixava ir ao rio… E se não que fossem! «Mato-vos com pancada
    se desceis a ladeira.» Já se vê que depois disto…–E os dois
    suspiravam, desgostosos. Que pena serem pequenos!

    Nisto o António chegou-se também para a janela. Que lindo, o campo!
    Mas os olhos dos dois não se desfitavam do barco, fascinados. Demónio de
    tentação! E para mais, tinham-no pintado de novo: sobre o branco, a todo
    o comprimento, uma faixa azul-clara destacava nitidamente, parece que
    apenas meio palmo acima do nível da água.

    –Tate, ó Manuel! E se fugíssemos?

    –Ora! se fugíssemos!… E depois? A gente tínhamos de voltar…

    Ora aí esta! isso é que era o pior! A mãe, depois, era capaz de fazer o
    que tinha prometido. E arregalando muito os olhos, imitando a cólera da
    mãe:–«Se voltais ao rio…» Ai, ai, a triste sorte!

    Recaíram em silêncio. Ficaram-se por instantes a ver o sol que rompia
    ao nascente, numa explosão violenta de luz, acendendo coloridos na
    largura muito ampla da paisagem.

    –Mas palavra que o barco parece pintado de novo… relembrou com
    alegria o Manuel.

    –Mas é que está, palavra que está. Agora é que há-de ser bom andar
    dentro dele…

    Os dois riram-se muito àquela ideia encantadora de andarem no
    barquinho, assim pintado de novo. Diacho! e porque não? Por isso,
    cobrando ânimo, o António disse resoluto:

    –Olha agora o medo! Seguro que nos mata.–E puxando-o pela
    jaqueta:–Vamos lá, ó Manuel?

    O Manuel fez que não com a cabeça, e espreitou se vinha a mãe. Como não
    vinha, disse baixo ao irmão:

    –À tardinha, hein? dois pulos e estamos lá. Não é tão fácil dar pela
    nossa falta, ali à tardinha. A gente finge que vai para o adro.
    Levam-se os peões…

    –Há-de ser mesmo assim! à tardinha!–concordou o António.–Eh! eh! eu
    cá desatraco.

    –E eu remo,–disse logo o Manuel com gesto de quem remava.

    –Ao leme vou eu: o leme é aquilo que regula–explicou.

    –Pois sim, mas à vinda pertence-me a mim, remas tu. Se quiseres
    assim…

    –Pois está bem, quero! Assim mesmo é que há-de ser!

    E recapitulando, para melhor ficarem combinados:

    –Ao p'ra baixo remo eu, ora remo?

    –Remas.

    –E tu regulas, ora regulas?

    –Regulo.

    –Ao p'ra cima é às avessas, ora é?

    –É.

    Muito bem, basta palavra! E ambos ao mesmo tempo, um ao outro se
    impuseram segredo…

    –Schiu!…

    –Schiu!

    * * * * *

    A tarde descaía límpida. Na vasta cúpula do céu, penachos de nuvens
    alvejavam, imóveis.

    Acesas naquela explosão rubra do ocaso, as arestas dos montes
    franjavam-se de púrpura e oiro, na decoração mágica dos poentes.
    Começava de cair sobre os campos a larga paz tranquila dos crepúsculos,
    e uma quietação dulcíssima e vagamente melancólica entrava de adormecer
    a natureza para o grande sono reparador de toda a noite.

    …E a tarde ia descaindo, cada vez mais límpida.

    Naquela luz indecisa de crepúsculo que mansamente se ia acentuando,
    os montes do sul tomavam um torvo aspecto de sombras gigantescas,
    imobilizados num fundo em que se iam apagando ao de leve todos os
    cambiantes de luz. Os pormenores da paisagem perdiam-se naquela
    indecisão vaga de noite que vinha descendo, e uma espécie de silêncio
    confrangedor dominava a natureza toda, recolhida num como espasmo
    amedrontador e sinistro que dentro de nós evoca a essa hora não sei que
    vagos receios ou medos inconscientes que fazem com que na imaginação as
    coisas criem vulto, e no mundo exterior obrigam a retina a exagerar as
    formas às coisas…

    Muda de gorjeios, atravessando o espaço em voos muito rápidos, a
    passarada demandava os ninhos onde se acoitasse do frio que acordava.
    Caíam já pesadas sobre os vales as sombras das montanhas, e um
    fumozito subtilmente azulado nadava à flor das coisas, velando-as para o
    tranquilo sono em que iam adormecer.

    E a tal hora e no meio de tal silêncio, o barquinho branco deslizava
    mansamente sobre a água tranquila do rio, onde as primeiras estrelas
    começavam de lampejar. Dentro dele, os dois irmãozitos silenciosos
    iam-se deixando enlevar naquele ruído suave dos remos abrindo fendo
    nas águas… Não! era bem certo que eles não tinham jamais sentido uma
    tão poderosa e viva alegria–alegria doida que lhes transvazava do peito,
    fundindo-se em energia nos músculos e cristalizando-se nos lábios em
    sorrisos.

    Dentro daquele adorado barco, assim no meio do rio, eram senhores
    absolutos da sua vontade, poderiam ir para onde lhes parecesse, livres
    de admoestações alheias, sozinhos, independentes. E esta feliz convicção
    de liberdade alcançada, fazia-os agora orgulhosos, além de os encher de
    alegria. Por certo eles nunca tinham sido tão felizes, e quem sabe se o
    seriam jamais?… No entanto a noite acentuava-se. Espertava nas
    margens o marulho da água nas raízes fundas dos salgueiros. No céu alto
    e sereno cintilavam as estrelas em cardumes.

    –Remas, António?–perguntou o do leme.–Olha se a vês…–E apontava
    para Vésper, a estrela que mais brilhava.

    Tinham os dois concebido o estranho desejo de alcançar a estrela cujo
    brilho diamantino os fascinava. Tão linda!

    –Anda-me tu com o leme!–tornou-lhe com intimativa o Manuel.–Ai a
    estrelinha! Deixa que ela faz-se fina, mas havemos de passar-lhe
    adiante, só por isso…

    –Olha o milagre! Ela está queda!–fez o outro, convencido da
    facilidade da empresa.

    –Está queda, está queda, mas sempre na frente de nós; vai lá
    entendê-la. Olha como brilha, ó António.

    –Mas rema que eu cá vou, falta pouco. Ao direito daquela fraga é que
    ela está.

    Não era difícil passar-lhe adiante, qual era? Era menos de meia hora
    era certo alcançá-la.

    E engastada no azul escuro do céu, a estrela parecia brilhar mais,
    quanto mais a olhavam.

    –De que são feitas as estrelas?–perguntou o mais novito.

    –De prata, pois está visto.

    Então o outro, lançando um amplo olhar à vastidão infinita do céu,
    exclamou:

    –Eh! tanta prata!

    –O sol, esse é de oiro–disse ainda o Manuel.

    –Bem de ver!–volveu-lhe convencido o irmão.–Que eu, se me dessem à
    escolha, antes queria as estrelas. Olha que rebanho!

    –Pois eu antes queria o sol. Com licença do teu querer, sempre é mais
    grande.

    E enquanto falavam, os dois não desfitavam olhos da estrela feiticeira
    que perseguiam. Os remos, no entanto, iam abrindo fenda na água, com
    certo ruído muito doce… E lá no alto céu, dir-se-ia que de instante
    para instante a feiticeira estrela mais brilhava, incitando-os.

    –Vê-la a fazer assim?–e pôs-se a pestanejar, imitando a palpitação
    crebra e irregular da luz sideral.

    –É que tem sono–respondeu o outro.

    –Olha que não. Aquilo é a fazer-nos negaças, _tamém_ to digo.

    –Ai é?! Pois que faça as negaças e que se descuide: se malha cá baixo,
    bem se afoga…–E apontando-lhe um punho cerrado, gritou a rir:–Eh,
    _boieira_!

    Neste momento, uma estrela cadente abriu esteira de prata no azul,
    sumindo-se rapidamente. Os pequenos ficaram com medo e ambos murmuraram
    em tom de reza as palavras rituais:

    Deus te guie bem guiada,
    Que no céu foste criada.

    –Vês? disse o Manuel que era dos dois o mais supersticioso.–Torna a
    apontar para elas… Eu cá não aponto, que nascem «cravos» nas mãos.

    –A ti talharam-te o ar, ó Manuel.

    –Diz a mãe. À meia-noite levaram-me à fonte e esparrinharam-me água
    para o corpo. E a água havia de estar fria… observou, encolhendo os
    ombros. Depois, viraram-me para as estrelas e disse então a mãe:

    Ar vejo,
    Lua vejo,
    Estrelas vejo:
    O mal do meu corpo
    Pr'a trás das costas o despejo.

    Riram muito. O Manuel, despidinho, couracho ao colo da mãe, havia de ser
    engraçado. E então todos de volta, a ver quando o ar se talhava.

    –Mas talhou-se. Agora, em paga, uma vez por ano, ao menos uma vez por
    ano, tenho de olhar pelos ralos do lenço p'r'as _cinco chagas_, umas
    estrelas que além estão, e rezar uma ave-maria.

    –Sempre, sempre?

    –Até que morra. Depois de morrer vou morar três dias com três noites
    dentro de uma.

    –Ora! tornou-lhe incrédulo o irmão.–Tu não cabes lá…

    –Não sei: assim é que anda nos livros.

    …Mas os braços doíam já dos remos, doíam muito…

    Devia ser tarde, e eles sem darem fé, enlevados como iam no desejo
    louco de alcançar a estrela.

    A noite estava calma, não bulia nas ramagens ramo verde de salgueiro, um
    silêncio contínuo dominava tudo em volta. E amolentadora e múrmura, a
    água da corrente ia espumando na quilha, com certo ruído de uma brandura
    suavíssima e doce.

    …Mas os braços cada vez doíam mais!…

    Agora, no céu, havia muitas estrelas brilhantes, muitas, mas nenhuma
    como aquela, ainda assim. Entretanto os dois pequenos entraram de olhar
    menos para ela, pois que irresistivelmente a cabeça lhes pendia para o
    peito, e as pálpebras se lhes cerravam, a despeito de todo o esforço.

    …E os braços sempre a doerem!…

    Por algum tempo, os remos foram com a pá mergulhada na corrente,
    cortando-a com levíssimo ruído. Imobilizara-se também o cabo do leme,
    sem que nenhum dos dois irmãos desse fé do súbito desleixo do outro.

    …E os braços já não doíam, nem ao de leve sequer…

    O pequeno barco vogava agora à mercê da corrente, sem impulso algum
    estranho. Dentro dele… a música levíssima das respirações dos dois
    pequenos adormecidos…

    Algum tempo assim. Senão quando, um ruído surdo, e logo um movimento
    brusco de balanço, fez acordar o do leme.

    Na grande alucinação do perigo, desvairado pelo medo, gritou
    imediatamente:

    –Manuel! Ó Manuel!

    O remador acordou, sobressaltado.

    –A estrela? Ainda lá está, olha!–disse incoerente, estonteado pelo
    sono.

    –Uma fraga de cada lado! Ouves o rio? É já muito tarde!–continuou
    aflito o António.

    –Então não lhe passamos adiante?–perguntou ingenuamente o Manuel,
    referindo-se ainda à estrela.

    Mas o irmão, sacudindo-o convulsamente, procurando chamá-lo à realidade,
    de novo lhe gritou, com lágrimas na voz:

    –Manuel, acorda! Olha que estamos perdidos, Manuel!

    E mal conheceram o grande perigo em que estavam, ambos romperam num
    choro muito convulso, agarrados um ao outro, feridos de um terrível
    susto que a hora e o lugar aumentavam cruelmente. Parecia-lhes medonho
    aquele marulhar contínuo da corrente, afligia-os como se fosse o
    psalmodiar monótono e rouco de uma legião de espíritos maus,
    preludiando-lhes as agonias lentas da morte. Aos dois pequenos os
    rochedos informes das margens afiguravam-se-lhes negros gigantes, que
    num requinte de malvada indiferença houvessem jurado assistir
    impassíveis e mudos à escura tragédia da sua desgraça.

    E o barco sempre encalhado, não havia forças que o arrancassem dali.
    Tinham perdido os remos. Teriam de esperar que amanhecesse e alguém
    viesse acudir-lhes, alguém que ouvisse de longe os seus aflitivos
    gritos.

    Crudelíssimo transe!…

    E então os braços continuavam a doer, doía-lhes agora o corpo todo, ao
    mesmo tempo que uma tristeza mais e mais pesada lhes oprimia o
    espírito, parece que embrutecendo-os.

    –Mas a estrela sempre além…–notou ainda o Manuel, balbuciante de
    medo, como se quisesse increpar a própria estrela da sua indiferença
    criminosa, no meio daquele enorme infortúnio em que por causa dela
    se haviam precipitado.–Se ela pudesse acudir-nos…

    Até que por fim, prostrados da fadiga e das lágrimas de novo se deixaram
    adormecer, era já alta noite.

    Mas na sua fúria constante, a corrente que ali era muito forte não
    cessava de bater contra as pedras o pobre barco indefeso. Até que após
    tamanho lidar, o rio safou-o de repente para um lado onde as águas se
    contorciam em remoinho, e entrou de girar com ele, violentamente.
    Quando a água se precipitou para dentro, os dois pequenos assim de
    súbito acordados romperam em gritos lancinantes:

    –Ai quem acode! Ai Jesus, quem nos vale!

    Tinha surgido a manhã, serena, tranquila, cheia de gorjeios e de azul.
    Mas como ninguém acudisse e a luta no rio fosse desigual, num repelão
    mais violento o pobre barco esfacelado investiu de proa com o abismo e
    lá se sumiu para sempre! Feridos de morte, no último paroxismo da sua
    enorme dor desesperada, os dois irmãozitos abraçados sumiram-se também
    com ele!…

    * * * * *

    …Nesse mesmo instante…–e mais longe do que nunca–…a estrela
    feiticeira acabava de cerrar também a pálpebra luminosa!…

    MÃE!

    _Ao Dr. J.C. da Moita Prego_

    Bela cabra, a Ruça!–posso dizê-lo aos senhores. A melhor da manada,
    luzida, de pêlo macio, sem saliências de ossos como as outras, altiva
    de porte quando à frente do rebanho parecia comandá-lo, badalando
    cadencialmente o seu chocalho enorme–tlão! tlão! Era no rebanho a que
    mais dava que fazer ao pastor, requerendo vigilâncias particulares no
    seu atrevimento, pois que se a deixassem livre não havia árvore a que
    não trepasse, oliveira especialmente, nem rebento novo que não
    triturasse esfomeada no seu dente acerado de roedora.

    E depois, ali onde a viam, estava cara só pelas coimas, que muitas
    vezes iludira ela a atenção do pastor, e se ficara por hortas e
    quintalórios, causando estragos que os louvados depois avaliavam caro.
    Por isso Alípio José, pastor, a quem doíam as denúncias, ao pescoço da
    Ruça prendera o chocalhão, para dar do atrevido animal mais fácil
    rumor, pois era de timbre muito distinto dos demais, e muito mais
    grave.

    Em pastagens pelos montados, a Ruça era de uma audácia extrema. Fazia
    gosto vê-la trepar às últimas cumeadas, subir destemidamente às arestas
    superiores dos rochedos, muito serena, erecta nas suas pernas delgadas,
    pescoço alto, ajoelhando destemida a retoiçar as ervas dos declives
    alcantilados e escorregadios, não medindo perigos nem se importando com
    abismos, enquanto as companheiras se ficavam pelas encostas e córregos,
    saboreando as giestas, sem se atreverem a segui-la nas suas excursões
    arriscadas de _touriste_.

    Se a miravam de baixo, sentia-se orgulhosa de superiores audácias, e
    então cabriolava em saltos funambulescos, de rochedo em rochedo ou de
    garganta em garganta, pouco se lhe dando de perigos. Cobra que
    encontrasse por essas paragens era para ela um desespero–tamanha a
    fúria com que a perseguia, e a insistência com que se ficava às marradas
    na lura onde se lhe acoitava. O chocalho então badalava com força, e o
    Alípio que dormia à sombra das azinheiras, de chapéu sobre a cara,
    levantava-se sobre um cotovelo e intimava para o alto, com o seu
    vozeirão que fazia eco:

    –Toma tento, Ruça!

    E depois, de ventre para baixo, estirado sobre a manta, cotovelos
    fincados no chão, os queixos entre as mãos espalmadas, Alípio José
    ficava-se a olhar a cabra, invejoso daquela facilidade em subir aos
    últimos pináculos, admirado dos saltos que ela fazia para salvar
    gargantas pedregosas e perpendiculares, onde, se caísse, a morte seria
    infalível. E por lá andava dias inteiros a Ruça, naquela
    vagabundagem por sítios inacessíveis ao resto do rebanho,
    resguardando-se da chuva em recôncavos de rocha, onde as águias faziam
    ninho.

    * * * * *

    Foi num desses sítios que a Ruça teve o primeiro filho, e por lá se
    deixou ficar, acho que dormindo ou toda a noite velando. Ao outro dia
    quis ela descer, e vir para o rebanho que a aguardava. Mais de cem
    vezes, fitando o topo da ladeira, Alípio José gritara cá debaixo, cada
    vez mais desesperado:

    –Volta ao rebanho, Ruça!

    E, cuidando que mais lhe feria assim a atenção, punha-se a agitar com
    fúria o molho dos chocalhos, gritando sem cessar:

    –Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

    Mas impossível! que a não deixava a quebreira em que toda ela ficara do
    parto, nem o pequeno poderia–pobrezinho!–descer por tais ladeiras, de
    pedregosas e ásperas que eram.

    Mas de noite o frio era intenso naquelas alturas, e o pequeno
    congelava unindo-se à mãe que o bafejava para o aquecer, e a si o
    aconchegava mais e mais para lhe transmitir o natural calor do seu
    corpo enfraquecido e doente.

    Por altas horas da noite, na solidão lúgubre daquele sítio,
    alcantilado e íngreme, entre penedias escarpadas onde o vento sibilava
    lugubremente, num como choro dolente e prolongado, o balido da mãe,
    traduzindo angústias e desesperos íntimos, respondia ao vagido fraco do
    filhito, cuja vida parecia ir-se apagando de hora a hora e instante a
    instante, inteiriçando-se-lhe com o frio os membros delicados e tenros.

    Eram assim as noitadas dos desgraçados. Por tais frios e doenças,
    impossível dormir. Toda a noite velavam e gemiam, achegando-se mais e
    mais num como abraço de eterna despedida–amigos que se iam apartar
    para uma longa viagem de trevas, com o coração alanceado pela saudade,
    soluçando e gemendo, num adeus! que era infinito, como o infinito amor
    que os unia…

    E a cada momento, como um dobre de finados, o chocalho badalava
    lugubremente, assustando o animalzinho, como se aquele fora o sinal
    para o transe derradeiro…

    Para maior desgraça, as noites eram sem lua. Encravadas na abóbada, as
    estrelas bocejavam dormentes, numa criminosa indiferença por aquela
    dor suprema de que eram as únicas testemunhas.

    E balando muito, e balando sempre, a pobre cabra imprecava ao céu a vida
    do filho, ao menos,–ora súplice em balidos de resignação que uma
    profundíssima dor ungia, ora desvairada e louca, em gritos que
    significavam blasfémias, blasfémias de desespero contra o céu que a
    não ouvia, e contra a morte que bem sentia aproximar-se para lhe
    estrangular o filhinho que ela amava tanto.

    E a fazer-lhe mais incruenta a sua enorme dor–a ironia acerba da
    chocalhada longínqua das companheiras, que se iam pelos montes da outra
    banda, deixando-a a ela sozinha com o filho, à espera da morte que era
    inevitável.

    Então ergueu-se por instantes! Agitou convulsamente o pescoço, e pelo ar
    fora o som triste do chocalho espraiou-se lentamente, num adeus! adeus!
    de despedida às companheiras felizes que lá iam, num ruído longínquo de
    chocalhos…

    * * * * *

    Naquela solidão os dias eram melhores. Com os primeiros raios do sol
    entravam de reanimar-se os dois; pouco a pouco os membros desentorpeciam
    e o sangue circulava.

    E o cabritinho sem poder ainda descer!…

    De pé, ao lado do filho, a pobre cabra lançava olhos compungidos para as
    escarpas da ladeira, ia para um lado e outro, desvairada e trémula, como
    que a escolher o melhor caminho por onde levasse o filho. Mas eram todas
    horríveis! Silvedos e rocha viva era o que mais se via. E depois o rio,
    lá baixo, rugia nas cachoeiras, aumentando-lhe o receio.

    Impossível! impossível!

    E sentia-se enfraquecer à míngua de sustento, pois a erva, por ali,
    estava comida e recomida pela pastagem miserável de três dias.

    Num momento de desespero, quando os gemidos do filho eram mais dolentes
    e crebros, refez-se de coragem a cabra, e segurando entre os dentes o
    chibo tentou o primeiro passo, arrastando-o pela ladeira, do lado em que
    o declive era menor. Mas em breve desanimou a pobre, que o filhito,
    assim arrastado, mais e mais gemia, convulsionado e trémulo…

    Impossível! impossível!

    Nada que signifique a dor daquela mãe, e traduzir possa em linguagem
    toda a gama de sentimentos e emoções no seu balar expressos. Atirou-se
    de joelhos sobre o corpinho do filho que hirto chorava e tremia,
    estendido para ali, na prostração pesada do último desalento; animava-o
    com carícias, aproximava-lhe da boca os úberes já flácidos e
    amolentados, convidando-o a mamar, como se aquele leite pudesse levar
    ao filho a coragem que a ela própria faltava em tamanho transe
    aflitivo…

    Mas pouco a pouco a noite ia caindo. Tinha-se já apagado a última
    cambiante do poente, e sobre as gargantas dos montes passavam
    subtilmente as primeiras névoas, alvadias e ténues. À medida que a treva
    se condensava, decresciam os ruídos em todo o horizonte, acentuando-se
    cada vez mais a melopeia sonolenta do rio nos açudes. Perpassavam pelo
    ar as aves para os ninhos. Bandos de pombas, como flocos voláteis de
    arminho, cortavam em voos mansos a profundidade calma do céu, demandando
    os pombais e os povoados, onde se acolhessem da noite que vinha caindo.
    Revoadas de perdizes e de tordos passavam por ali alegremente, num
    chilrear sonoro, caindo de chofre sobre o monte, a esconderem-se nos
    estevais e nas urzes. Pelas ervagens secas rastejavam apressados os
    répteis, e sob os tojais bravios a lebre buscava a cama…

    …E tudo tinha ninho–pombas que voavam e perdizada sonora, quem
    passava no ar e quem rastejava no monte, lagartos, sardões, cobras, toda
    a colónia vagabunda de répteis e de aves, que passou alegremente o seu
    dia, e se ia recolher agora para recomeçar dia amanhã…

    Só a desgraçada cabra, ali, junto do filho tenro, não mais fizera
    passo. Com as brumas da noite, as brumas da tristeza para o seu coração
    alanceado de mãe. Aí vinha o frio inclemente flagelar-lhe o filho…–o
    filho que já tremia a ela aconchegado–o triste pobrezinho!

    Rompia de toda a banda o gri-gri sonoro dos grilos, vivo e cantante
    naquele silêncio que se definia. Cerrou de todo a noite. O céu era
    baixo e torvo de nuvens. Estrelejava a espaços a abóbada, irradiando
    uma luz mortiça e alvadia, que levava a pensar em últimos transes de
    crianças, em que a vida gradualmente se extinguisse, num latejar
    vagaroso de pálpebras sonolentas…

    Mais álgida fazia a noite, e mais pesada de melancolias, essa torva
    aparência da atmosfera e do céu. Noite pior do que as outras, porém
    com menos balidos, pois que mãe e filho estavam extenuados de forças e
    nem gemer podiam. E a morte que não vinha arrancá-los do abraço em que
    se uniram, mal cerrara a noite!

    A pequena distância, o monte era cortado de profundíssima garganta em
    rocha viva. Do lado oposto, e quase defronte dos moribundos,
    acenderam-se na treva dois pontos fosforescentes, de uma claridade
    esverdeada rútila. E, imóveis, esses dois olhos estoirados de lobo, a
    que parecia terem arrancado as pálpebras, projectavam a sua luz sinistra
    na direcção do grupo que velava. A natureza inteira retraía-se num
    como pavor medonho, concentrado de íntimos terrores e silêncios lôbregos
    de horas altas. Cerrava-se mais no céu a falange muda das nuvens,
    densificando-se em tintas negras, impenetráveis e caliginosas, sem
    cintilas de estrelas, por fugidias e ténues que fossem…

    E sempre, e constantemente imóveis na escuridão pesada, aqueles dois
    olhos flamejavam, de instante a instante mais vivazes, perscrutando a
    treva da direcção mais exacta do grupo. Transida de susto, arquejando
    convulsamente no último paroxismo da sua enorme dor, a pobre mãe não
    ousava arriscar um único movimento e mais e mais cerrava contra si o
    corpo inanimado do filhito que parecia adormecido.

    Assim durante horas que aquele atrocíssimo suplício fez enormes, quase
    eternas, tumultuosas de acerbos sofrimentos e de indizíveis angústias,
    vazias de esperança na vida do seu pequenino filho.

    De repente, aqueles dois pontos brilhantes apagaram-se na treva, e de
    novo os viu brilhar a cabra, mas já a maior distância. Estremeceu a
    pobre de súbita alegria,–e no abalo que sofreu o seu corpo, até então
    retraído, o chocalho badalou. Voltou a correr o lobo, e então a
    desgraçada viu errarem na treva, como dois grandes coleópteros de asas
    fosforescentes, os olhos até então imóveis do inimigo. E por ali
    levou a noite toda, farejando e uivando, até que cansado de perscrutar o
    insondável, se foi ladeira abaixo, aos primeiros assomos da madrugada
    que vinha, docemente, alumiando píncaros e arestas.

    * * * * *

    Ao romper da alva o céu era azul. Apenas de longe em longe penachos de
    nuvens brancas ondulavam as suas cristas alvadias, que se esfarpavam
    lentamente ao menor sopro da aragem. Pouco a pouco o azul ia desmaiando,
    diluindo-se na luz esbranquiçada que vinha do alto em gradações
    imperceptíveis e suaves.

    Começavam de animar-se os longes da paisagem, e a retina acusava já as
    diferenças mais salientes dos campos e herdades, pedaços esbranquiçados
    de restolhos, tons pardos de olivais, terras plantadas de vinhedo, e
    pinheirais cerrados galgando desfiladeiros e investindo com o céu no
    alto dos montados.

    Pelas ladeiras dalém, caminhos e atalhos corriam em torcicolos até ao
    areal da margem. Em turbilhões de espuma alvíssima precipitava-se a água
    nos açudes, marulhando nos altos penedos marginais, denegridos e
    informes, de uma mudez contemplativa e perpétua. Do tecto do moinho, lá
    em baixo, uma coluna azulada de fumo elevava-se tranquilamente no ar
    sereno e doce, até se desfazer no espaço amplo e benigno, como uma
    ambição ou como um sonho…

    * * * * *

    Foi então que Alípio José, à frente do rebanho, de novo abordou àquelas
    paragens, no intuito de procurar a cabra tresmalhada.

    –Ruça! torna ao rebanho, Ruça!

    Mas precisamente a essa hora, a Ruça exalava o último alento, pendida
    sobre o cadáver do pobre filhinho morto!…

    E ao pino do meio-dia, quando o sol faiscava causticando nos
    rochedos–passava na direcção da montanha, crocitando lugubremente, a
    esfaimada legião dos amaldiçoados corvos…

    ARRULHOS

    _A M. da Silva Gaio_.

    Ao fundo do jardim ficava o pombal–uma casinhola redonda, com orifícios
    triangulares no alto, em toda a volta, alegre na alvura impecável do
    muro que falava ao longe, muito ao longe, a léguas de distância.

    –Pombal da Morgada! diziam.–Lá se vê além…–E um gesto muito longo
    levava a vista horizontes fora, à cata do Pombal da Morgada, que
    alvejava longe, muito distante, na meia sombra dos montes sobranceiros,
    como um pequenino ermitério cheio de lendas, onde santos de carne e osso
    provocassem romarias, promessas avultadas de pessoas ricas, e onde
    seriam encantadoras as tardes quentes de estio, à sombra de árvores
    seculares em cuja ramagem trinassem pássaros em barda, pardalada sonora,
    gralhadora, rindo da nossa merenda e da nossa sem-cerimónia–frangãos
    assados e boa vinhaça da terra.

    Pombal da Morgada porquê? História singular que vou contar-lhes. A
    Morgada era uma senhora rica, muito rica, tinha vinte e cinco anos e
    outras tantas quintas, viúva antes de casar, pesarosa da morte
    desastrada do noivo–um trambolhão de um cavalo que o matara logo ali,
    sem mais pio, num ai.

    A recordar esse amor–um casal de pequeninos pombos que ele lhe dera na
    véspera, simbolizando, dizia ele, a pureza da sua alma dela, e a
    castidade das suas intenções dele…

    Muito bem. Fez-se então o pombal, o casal procriou, vieram pombos
    novos–todos brancos uns, raiados outros, de um _gris_ delicadíssimo
    alguns, todos encantadores, veludíneos, muito mansos.

    Belos pombos, na verdade!

    Todas as tardes, quando as tintas do crepúsculo começavam de esbater-se
    numa uniformidade vagarosa de tons, e a percepção clara das coisas
    entrava de se desfazer em imperceptíveis _nuances_ subtis, num
    _smorzando_ melancólico onde palpitavam vagos terrores de noite que vem
    caindo, quando os vales se cobriam de uma sombra azulada e a vida
    cessava no campo e começava no céu em cintilações argênteas de
    estrelas–todas as tardes, digo, quem quer poderia ver aberta a
    estreita porta do pombal, e uma mulher nova, vestida de preto,
    espalhando no pavimento térreo, com solicitudes de _menagère_, as
    provisões de um pequeno cabaz que lhe pendia do braço–milho em
    abundância e fartura de alpista.

    Assim todas as tardes, ia já em quatro anos, que não havia forças que
    levassem a Morgada para fora do seu pequeno solar, onde vivia só,
    retirada de tudo, a tudo indiferente, impassível a pedidos de amigas
    que saíam para as praias, no Inverno para Lisboa, e que a queriam levar
    para que se distraísse, para que se alegrasse–«era nova ainda, podia
    arranjar noivo, nada mais fácil…»

    –E as pombas? objectava.–Mas era pecado deixá-las, dizia consigo.
    Quando voltasse estaria deserto o pombal, umas que fugissem, outras que
    matassem, haviam de até roubá-las, entrar de noite no pombal, levá-las
    todas.

    –Que não e que não! insistia renitente;–que tivessem paciência, que se
    divertissem muito, ela ficava.

    –Platonismos! gargalhavam depois as amigas.–Saudades do outro que
    rebentou do trambolhão. Bem tola!

    E partiam sós, rindo da Morgada e do seu amor pelas pombas, achando-a
    ridícula com aquele seu luto perpétuo, escarnecendo da simplicidade
    habitual da sua _toilette_–vestido preto todo liso, muito afogado, um
    pequeno _ruche_ no pescoço e mangas, nem uma prega, nem sequer um laço.

    Muito respeitadas, as pombas da Morgada. Caçador que as visse não
    desfechava sobre elas. Assim, a manada crescia de hoje para amanhã,
    desenvolvia a propagação o bom tracto, a habitação confortável, muito
    abrigada de ventos, onde a chuva não entrava e os ninhos eram
    flácidos–folhas de milho mudadas cada dois dias.

    Que bom, ser pombo da Morgada!

    A música dos arrulhos, uma volata muito lânguida, começava com o
    aclarar, muito cedo, depois do descanso do sono na placidez do ninho,
    quando as forças eram sãs e as asas pediam vos.

    Hora dos amores!

    Pombos atrevidos, sanguíneos, de íris rutilante e índole impaciente,
    lançavam-se sobre as pombas, forçavam-nas, perseguiam-nas se voejavam,
    ameaçando-as de bicadas primeiro, picando-as nas cabecitas se resistiam,
    possuindo-as à força, a tremer, asas em concha, penugem eriçada,
    arrulhando muito, arrulhando sempre, caindo desfalecidos depois,
    hirtos, pálpebras cerradas, trementes, frementes, em espasmos de luxúria
    e paroxismos do gozo; enquanto elas, as pombas, se emplumavam agora de
    contentes, sacudindo as asas, pescoço levantado, orgulhosas talvez,
    muito felizes.

    Outros então, mais meigos ou mais pachorrentos, mais velhos por certo,
    quedavam-se horas seguidas, horas longas, defronte da sua eleita, numa
    doçura plangente de musicais arrulhos, frementes de desejos, mas pedindo
    às boas, não querendo violências, detestando-as, bem se via,
    suplicando, rogando, comovendo. E se logravam intentos, redobravam os
    carinhos, havia meiguices de jeitos e friccionamentos leves de
    penugens, arrulhos mais doces e toques delicadíssimos de bicos–beijos
    com certeza.

    Isto todos os dias, nas manhãs enevoadas especialmente. Imagine-se a
    vida do pombal àquelas horas:–pombas que voejavam assustadas, esquivas
    mesmo, e pombos que as perseguiam; pombas que condescendiam e pombas que
    queriam arrulhos: quem não voasse arrulhava, quem não arrulhasse voava;
    e tudo gozava–quem era feliz e quem estava para o ser, quem era
    sanguíneo e quem era pachorrento.

    Ar dos campos, depois; alegres, muito amigos, pousando todos quando um
    pousava, retomando voo se um voava, sempre juntos, sempre na mesma
    direcção, a beber no mesmo ribeiro, em linha, todos a um tempo, num
    ruído muito doce de bicos que sorviam.

    Ainda com sol, iam pousar de revoada no telhado da casa onde habitava a
    Morgada, participar-lhe por certo que iam recolher, cumprimentá-la ao
    balcão da sua janela, alegre de trepadeiras em flor, pousar-lhe nos
    ombros, na cabeça as mais ousadas ou as mais amigas, segredando-lhe não
    sei que arrulhos que ora a faziam sorrir, ora lhe traziam lágrimas, mas
    que sempre provocavam novos afagos, afagos intermináveis:

    –Minha pombinha… minha amiguinha… minha querida…

    Dali para o pombal, continuar aquela vida de boémios felizões, vida
    de concubinagem, numa promiscuidade sem limites e numa libertinagem de
    harém.

    Poligamia desenfreada!

    Excepção a ela, apenas um casal–a melhor pomba da manada, pomba
    branca, de uma alvura impecável de neve, e então um pombo raiado, preto
    e cinzento, de _nuances_ azuis-escuras, ares aguerridos de lutador
    vaidoso, um D. Juan emplumado, tentador.

    Era o pombo mais atrevido do pombal, o de génio mais insofrido e
    espasmos menos longos, muita vida, numa mobilidade contínua de pescoço,
    nervoso, libertino. Pomba que desejasse possuía-a, sem arrulhos prévios,
    sem pedidos, brutalmente se resistia, pacificamente porque muitas se lhe
    entregavam, preferiam-no, vinham deitar-se-lhe no ninho, disputando
    primazias à força de bicadas.

    E umas atrás de outras, e dias após dias, sempre assim!

    Mas todas fugiam em seguida, não sei se de esfalfadas, se para dar lugar
    a outras; uma só, a pomba branca, se quedava ao lado dele, paciente,
    resignada, num arrulhar cada vez mais doce, cheio de ternuras, muito
    meigo, idealmente brando, que agradava ao raiado, que o ufanava,
    incitando-o, convidando-o, provocando-o. Por isso entrou de aborrecer as
    outras, achando-as menos pombas, umas desavergonhadas que se iam
    entregar a outros, e de se afeiçoar à branca, a ela só, acarinhando-a
    muito, arrulhando com ela, alternadamente, ora um ora outro, gemendo
    amores.

    Não imaginam os senhores nem há nada que possa dar ideia da desordem, da
    perturbação que isso levou ao rancho tão dado a instintos cómodos de
    poligamia, tão avesso a duetos daquela natureza, onde os pombos eram
    de todos e as pombas eram comuns.

    E tal desordem subiu de ponto com o proceder do casal que levava dias
    inteiros dentro do pombal, sem sair, numa concubinagem que revoltava de
    egoísta. E quando saíam não se juntavam com os outros–uma desfeita! uma
    ofensa!–tomavam rumo diferente: para a direita se os outros iam para
    a esquerda, para a esquerda se os outros iam para a direita, sempre ao
    contrário.

    Recolhiam mais cedo, com sol ainda, e quando os outros vinham, já os
    encontravam no pombal, em ninhos contíguos a princípio, no mesmo ninho
    depois!

    Um escândalo! Um desaforo!

    E planeavam-se ataques, desfeitas ao casal, muitas desfeitas.

    Se os dois eram felizes arrulhando manso, entravam os outros a arrulhar
    forte, troça talvez, desespero decerto, todos juntos, combinados. E se
    isto não bastava, começavam todos a voar, batendo muito as asas,
    levantando a palha dos ninhos, precipitando-se sobre o casal, fingindo
    quedas, dando bicadas os mais raivosos, ou então os mais despeitados…

    Prestes o raiado saltava do ninho, opunha defesas de asas sobre a pomba
    branca e tímida que o susto transia, inquieto, colérico; reagia depois,
    lutava por fim, levando-os não raro de vencida, obrigando-os a fugir do
    pombal em vergonhoso tropel, muito assustados, vencidos. E noite além,
    entravam um a um, vagarosos, muito mansos, sem ruído de asas, receando
    acordar o casal que dormia aconchegado, muito quente, pescoço escondido
    sob a asa veludínea.

    Dois meses assim–dois meses!–numa fidelidade conjugal ininterrupta,
    digna de servir de exemplo a outros bípedes que eu conheço, que os
    senhores conhecem, não?… Vida boa, na verdade, perfumada de arrulhos e
    esplêndida de alegrias, passada em belas digressões campos fora,
    pousando no mesmo ramo, bebendo na mesma poça, dormindo no mesmo palmo
    de ninho, sonhando os mesmos sonhos, talvez…

    Mas no fim desse tempo o raiado entrou de ter desconfianças, suspeitas
    de inconstâncias e receios de infidelidades, de noite, enquanto dormia.
    Havia certa frieza nos jeitos da pomba, menos ternura nos arrulhos,
    modos de enfadada às vezes, certas perrices, resistências mal
    disfarçadas. Ficava-se em casa se o raiado saía, impassível a
    súplicas, muito mona, com elanguescimentos de pálpebras e quebramentos
    de asas, uma desleixada; e espreitando-lhe o voo, tomava para norte se o
    raiado ia para sul, vinha tarde e ia aninhar-se só, para lhe fugir.

    Estava farta, vê-se. E como os outros a não queriam–rameira do
    raiado!–um dia levantou voo e fez-se ao largo.

    * * * * *

    Abade de aldeia, conhecem, desses mui dados aos latins e ao
    _vinagrinho_ de Xabregas, muito nacional e muito fino, bons velhos de
    _quinzena_ e calça de alçapão, feros, muito rijos, à prova de
    reumatismo e à prova de vintém, felizes na sua pobreza, amigos das
    crianças, bem humorados sempre, flores de uma árvore que ora vai dando
    cardos. Perto do solar da Morgada, a três quilómetros só, havia um assim,
    o abade das Donas, bom pregador noutras eras, com famas de teólogo
    ainda ao tempo.

    –Disse-o o das Donas, colega! disse-o o das Donas!–era assim que
    muitas vezes acabavam disputas acaloradas, salpicadas de vários latins,
    sobre textos da Bíblia e passagens dos apóstolos.

    –Teologia velha, diziam, a genuína!

    A casa da residência era uma casa muito antiga, portas em arco, paredes
    a desabar,–uma invernada forte e ia abaixo. O pátio da entrada era
    térreo, rimas de lenha seca de um lado e doutro, seguia-se a cozinha,
    um pequeno corredor, e ao fim uma velha varanda em ruínas que dava para
    um quintalório, e cujas pedras se deslocavam, de mal assentes que
    estavam.

    Preferia-a o bom do abade para a reza das suas devoções, e nessa tarde
    quem quer o poderia ver passeando-a a todo o comprimento, óculos na
    ponta do nariz, breviário na mão direita, a dois palmos, a esquerda a
    segurar a aba da _quinzena_, e um pequeno solidéu com borla
    resguardando-lhe a calvície.

    A interromper a leitura, de quando em quando, umas pequenas exclamações
    de desgosto, arremessos de breviário, e por fim levantando a voz:

    –Fome as pombas, Sr.^a Luísa: não fazem senão saltar…

    –Bem fartas!–retorquiu de dentro, da labuta da cozinha,–mas têm lá
    visita, pomba que arribou.

    E depois informando:

    –Pomba guapa, toda branca. São agora três ao todo, e então o pombo…

    –Huum!… resmungou o abade em voz de reticências.–Percebo… percebo
    perfeitamente…–E foi meter-se no quarto, continuar a
    leitura.U+2014.Deixá-las! concluiu evangélico.

    Era a pomba do raiado, adivinharam, que ali viera parar à reles
    pelintragem daquele metro de gaiola feita de um caixão velho, com
    grades só na frente, muito suja sempre, arrumada p'r'ali ao fundo da
    varanda, húmida de águas entornadas, exalando maus cheiros, um nojo.

    Quando a mostrava à criada, o abade dizia-lhe sempre:

    –A sua vergonha, Sr.^a Luísa; a vergonha da sua cara. Como se os
    animais não fossem também criaturas de Deus…

    As pombas eram magras e o pombo era esquelético.

    Fez-se de amores com ele, tomou-lhe os hábitos canalhas, manchando a
    alvura imaculada das penas na imundície fétida da gaiola em que ambos
    se aninhavam, arrulhavam, se espojavam. E como ela era gorda e bem
    tratada, flácida de penugens e de carnação consistente, apetitosa, o
    pombo não a largava–génio de libertino em corpo de tísico.

    Em breve período entrou a pobre de emagrecer, sem forças para voar se
    queria voar, quedando-se dias inteiros ao canto da gaiola, encolhida,
    tristonha, arrependida talvez de ter deixado o pombal,–saudosa do
    raiado, o seu primeiro amor, quem sabe!

    E depois, o pombo sujo já não se importava com ela, desprezava-a,
    tentara mesmo expulsá-la de parceiro com as outras, dando-lhe maus
    tratos,–à intrusa. Dor incomparável!

    Mas um dia o ataque foi mais violento e ela teve de fugir, de voar,
    descansando amiudadas vezes, porque lhe faltavam as forças, arquejando
    sempre, arrastando-se em voos baixos, sentindo vertigens se subia mais
    alto. Para passar um ribeiro descansou uma hora, e quando cobrou alento
    e começou o voo, viu-se na água e estremeceu, molhou ainda as asas, viu
    um corvo na sua própria imagem, um corvo negro que a perseguia
    silencioso, traiçoeiramente, que a ia talvez devorar… O que ela tinha
    sido e o que era!…

  • Os Lusíadas

    Os Lusíadas

    Aproximadamente 56.628 palavras.

    Luís Vaz de Camões
    Os Lusíadas

    Canto Primeiro

    1
    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;

    2
    E também as memórias gloriosas
    Daqueles Reis, que foram dilatando
    A Fé, o Império, e as terras viciosas
    De África e de Ásia andaram devastando;
    E aqueles, que por obras valerosas
    Se vão da lei da morte libertando;
    Cantando espalharei por toda parte,
    Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

    3
    Cessem do sábio Grego e do Troiano
    As navegações grandes que fizeram;
    Cale-se de Alexandro e de Trajano
    A fama das vitórias que tiveram;
    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
    A quem Neptuno e Marte obedeceram:
    Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    4
    E vós, Tágides minhas, pois criado
    Tendes em mim um novo engenho ardente,
    Se sempre em verso humilde celebrado
    Foi de mim vosso rio alegremente,
    Dai-me agora um som alto e sublimado,
    Um estilo grandíloquo e corrente,
    Porque de vossas águas, Febo ordene
    Que não tenham inveja às de Hipoerene.

    5
    Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
    E não de agreste avena ou frauta ruda,
    Mas de tuba canora e belicosa,
    Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
    Dai-me igual canto aos feitos da famosa
    Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
    Que se espalhe e se cante no universo,
    Se tão sublime preço cabe em verso.

    6
    E vós, ó bem nascida segurança
    Da Lusitana antígua liberdade,
    E não menos certíssima esperança
    De aumento da pequena Cristandade;
    Vós, ó novo temor da Maura lança,
    Maravilha fatal da nossa idade,
    Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
    Para do mundo a Deus dar parte grande;

    7
    Vós, tenro e novo ramo florescente
    De uma árvore de Cristo mais amada
    Que nenhuma nascida no Ocidente,
    Cesárea ou Cristianíssima chamada;
    (Vede-o no vosso escudo, que presente
    Vos amostra a vitória já passada,
    Na qual vos deu por armas, e deixou
    As que Ele para si na Cruz tomou)

    8
    Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
    O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
    Vê-o também no meio do Hemisfério,
    E quando desce o deixa derradeiro;
    Vós, que esperamos jugo e vitupério
    Do torpe Ismaelita cavaleiro,
    Do Turco oriental, e do Gentio,
    Que inda bebe o licor do santo rio;

    9
    Inclinai por um pouco a majestade,
    Que nesse tenro gesto vos contemplo,
    Que já se mostra qual na inteira idade,
    Quando subindo ireis ao eterno templo;
    Os olhos da real benignidade
    Ponde no chão: vereis um novo exemplo
    De amor dos pátrios feitos valerosos,
    Em versos divulgado numerosos.

    10
    Vereis amor da pátria, não movido
    De prémio vil, mas alto e quase eterno:
    Que não é prémio vil ser conhecido
    Por um pregão do ninho meu paterno.
    Ouvi: vereis o nome engrandecido
    Daqueles de quem sois senhor superno,
    E julgareis qual é mais excelente,
    Se ser do mundo Rei, se de til gente.

    11
    Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
    Fantásticas, fingidas, mentirosas,
    Louvar os vossos, como nas estranhas
    Musas, de engrandecer-se desejosas:
    As verdadeiras vossas são tamanhas,
    Que excedem as sonhadas, fabulosas;
    Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
    E Orlando, inda que fora verdadeiro,

    12
    Por estes vos darei um Nuno fero,
    Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
    Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
    A cítara para eles só cobiço.
    Pois pelos doze Pares dar-vos quero
    Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
    Dou-vos também aquele ilustre Gama,
    Que para si de Eneias toma a fama.

    13
    Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
    Ou de César, quereis igual memória,
    Vede o primeiro Afonso, cuja lança
    Escura faz qualquer estranha glória;
    E aquele que a seu Reino a segurança
    Deixou com a grande e próspera vitória;
    Outro Joane, invicto cavaleiro,
    O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

    14
    Nem deixarão meus versos esquecidos
    Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
    Fizeram, só por armas tão subidos,
    Vossa bandeira sempre vencedora:
    Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
    Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
    Albuquerque terríbil, Castro forte,
    E outros em quem poder não teve a morte.

    15
    E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
    Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
    Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
    Dareis matéria a nunca ouvido canto.
    Comecem a sentir o peso grosso
    (Que pelo mundo todo faça espanto)
    De exércitos e feitos singulares,
    De África as terras, e do Oriente os marços,

    16
    Em vós os olhos tem o Mouro frio,
    Em quem vê seu exício afigurado;
    Só com vos ver o bárbaro Gentio
    Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
    Tethys todo o cerúleo senhorio
    Tem para vós por dote aparelhado;
    Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
    Deseja de comprar-vos para genro.

    17
    Em vós se vêm da olímpica morada
    Dos dois avós as almas cá famosas,
    Uma na paz angélica dourada,
    Outra pelas batalhas sanguinosas;
    Em vós esperam ver-se renovada
    Sua memória e obras valerosas;
    E lá vos tem lugar, no fim da idade,
    No templo da suprema Eternidade.

    18
    Mas enquanto este tempo passa lento
    De regerdes os povos, que o desejam,
    Dai vós favor ao novo atrevimento,
    Para que estes meus versos vossos sejam;
    E vereis ir cortando o salso argento
    Os vossos Argonautas, por que vejam
    Que são vistos de vós no mar irado,
    E costumai-vos já a ser invocado.

    19
    Já no largo Oceano navegavam,
    As inquietas ondas apartando;
    Os ventos brandamente respiravam,
    Das naus as velas côncavas inchando;
    Da branca escuma os mares se mostravam
    Cobertos, onde as proas vão cortando
    As marítimas águas consagradas,
    Que do gado de Próteo são cortadas

    20
    Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
    Onde o governo está da humana gente,
    Se ajuntam em concílio glorioso
    Sobre as cousas futuras do Oriente.
    Pisando o cristalino Céu formoso,
    Vêm pela Via-Láctea juntamente,
    Convocados da parte do Tonante,
    Pelo neto gentil do velho Atlante.

    21
    Deixam dos sete Céus o regimento,
    Que do poder mais alto lhe foi dado,
    Alto poder, que só co'o pensamento
    Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
    Ali se acharam juntos num momento
    Os que habitam o Arcturo congelado,
    E os que o Austro tem, e as partes onde
    A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

    22
    Estava o Padre ali sublime e dino,
    Que vibra os feros raios de Vulcano,
    Num assento de estrelas cristalino,
    Com gesto alto, severo e soberano.
    Do rosto respirava um ar divino,
    Que divino tornara um corpo humano;
    Com uma coroa e ceptro rutilante,
    De outra pedra mais clara que diamante.

    23
    Em luzentes assentos, marchetados
    De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
    Os outros Deuses todos assentados,
    Como a razão e a ordem concertavam:
    Precedem os antíguos mais honrados;
    Mais abaixo os menores se assentavam;
    Quando Júpiter alto, assim dizendo,
    C'um tom de voz começa, grave e horrendo:

    24
    "Eternos moradores do luzente
    Estelífero pólo, e claro assento,
    Se do grande valor da forte gente
    De Luso não perdeis o pensamento,
    Deveis de ter sabido claramente,
    Como é dos fados grandes certo intento,
    Que por ela se esqueçam os humanos
    De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

    25
    "Já lhe foi (bem o vistes) concedido
    C'um poder tão singelo e tão pequeno,
    Tomar ao Mouro forte e guarnecido
    Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
    Pois contra o Castelhano tão temido,
    Sempre alcançou favor do Céu sereno.
    Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
    Teve os troféus pendentes da vitória.

    26
    "Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
    Que coa gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com Viriato, na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram;
    Também deixo a memória, que os obriga
    A grande nome, quando alevantaram
    Um por seu capitão, que peregrino
    Fingiu na cerva espírito divino.

    27
    "Agora vedes bem que, cometendo
    O duvidoso mar num lenho leve,
    Por vias nunca usadas, não temendo
    De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
    Que havendo tanto já que as partes vendo
    Onde o dia é comprido e onde breve,
    Inclinam seu propósito e porfia
    A ver os berços onde nasce o dia.

    28
    "Prometido lhe está do Fado eterno,
    Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
    Que tenham longos tempos o governo
    Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
    Nas águas têm passado o duro inverno;
    A gente vem perdida e trabalhada;
    Já parece bem feito que lhe seja
    Mostrada a nova terra, que deseja.

    29
    "E porque, como vistes, têm passados
    Na viagem tão ásperos perigos,
    Tantos climas e céus experimentados,
    Tanto furor de ventos inimigos,
    Que sejam, determino, agasalhados
    Nesta costa africana, como amigos.
    E tendo guarnecida a lassa frota,
    Tornarão a seguir sua longa rota."

    30
    Estas palavras Júpiter dizia,
    Quando os Deuses por ordem respondendo,
    Na sentença um do outro diferia,
    Razões diversas dando e recebendo.
    O padre Baco ali não consentia
    No que Júpiter disse, conhecendo
    Que esquecerão seus feitos no Oriente,
    Se lá passar a Lusitana gente.

    31
    Ouvido tinha aos Fados que viria
    Uma gente fortíssima de Espanha
    Pelo mar alto, a qual sujeitaria
    Da índia tudo quanto Dóris banha,
    E com novas vitórias venceria
    A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
    Altamente lhe dói perder a glória,
    De que Nisa celebra inda a memória.

    32
    Vê que já teve o Indo sojugado,
    E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
    Por vencedor da Índia ser cantado
    De quantos bebem a água de Parnaso.
    Teme agora que seja sepultado
    Seu tão célebre nome em negro vaso
    D'água do esquecimento, se lá chegam
    Os fortes Portugueses, que navegam.

    33
    Sustentava contra ele Vénus bela,
    Afeiçoada à gente Lusitana,
    Por quantas qualidades via nela
    Da antiga tão amada sua Romana;
    Nos fortes corações, na grande estrela,
    Que mostraram na terra Tingitana,
    E na língua, na qual quando imagina,
    Com pouca corrupção crê que é a Latina.

    34
    Estas causas moviam Citereia,
    E mais, porque das Parcas claro entende
    Que há de ser celebrada a clara Deia,
    Onde a gente belígera se estende.
    Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
    E o outro pelas honras, que pretende,
    Debatem, e na porfia permanecem;
    A qualquer seus amigos favorecem.

    35
    Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
    De silvestre arvoredo abastecida,
    Rompendo os ramos vão da mata escura,
    Com ímpeto e braveza desmedida;
    Brama toda a montanha, o som murmura,
    Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
    Tal andava o tumulto levantado,
    Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

    36
    Mas Marte, que da Deusa sustentava
    Entre todos as partes em porfia,
    Ou porque o amor antigo o obrigava,
    Ou porque a gente forte o merecia,
    De entre os Deuses em pé se levantava:
    Merencório no gesto parecia;
    O forte escudo ao colo pendurado
    Deitando para trás, medonho e irado,

    37
    A viseira do elmo de diamante
    Alevantando um pouco, mui seguro,
    Por dar seu parecer, se pôs diante
    De Júpiter, armado, forte e duro:
    E dando uma pancada penetrante,
    Com o conto do bastão no sólio puro,
    O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
    Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

    38
    E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
    Tudo aquilo obedece, que criaste,
    Se esta gente, que busca outro hemisfério,
    Cuja valia, e obras tanto amaste,
    Não queres que padeçam vitupério,
    Como há já tanto tempo que ordenaste,
    Não onças mais, pois és juiz direito,
    Razões de quem parece que é suspeito.

    39
    "Que, se aqui a razão se não mostrasse
    Vencida do temor demasiado,
    Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
    Pois que de Luso vem, seu tão privado;
    Mas esta tenção sua agora passe,
    Porque enfim vem de estâmago danado;
    Que nunca tirará alheia inveja
    O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

    40
    "E tu, Padre de grande fortaleza,
    Da determinação, que tens tomada,
    Não tornes por detrás, pois é fraqueza
    Desistir-se da cousa começada.
    Mercúrio, pois excede em ligeireza
    Ao vento leve, e à seta bem talhada,
    Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
    Da índia, e onde a gente se reforme."

    41
    Como isto disse, o Padre poderoso,
    A cabeça inclinando, consentiu
    No que disse Mavorte valeroso,
    E néctar sobre todos esparziu.
    Pelo caminho Lácteo glorioso
    Logo cada um dos Deuses se partiu,
    Fazendo seus reais acatamentos,
    Para os determinados aposentos.

    42
    Enquanto isto se passa na formosa
    Casa etérea do Olimpo onipotente,
    Cortava o mar a gente belicosa,
    Já lá da banda do Austro e do Oriente,
    Entre a costa Etiópica e a famosa
    Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
    Queimava então os Deuses, que Tifeu
    Com o temor grande em peixes converteu.

    43
    Tão brandamente os ventos os levavam,
    Como quem o céu tinha por amigo:
    Sereno o ar, e os tempos se mostravam
    Sem nuvens, sem receio de perigo.
    O promontório Prasso já passavam,
    Na costa de Etiópia, nome antigo,
    Quando o mar descobrindo lhe mostrava
    Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

    44
    Vasco da Gama, o forte capitão,
    Que a tamanhas empresas se oferece,
    De soberbo e de altivo coração,
    A quem Fortuna sempre favorece,
    Para se aqui deter não vê razão,
    Que inabitada a terra lhe parece:
    Por diante passar determinava;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava.

    45
    Eis aparecem logo em companhia
    Uns pequenos batéis, que vêm daquela
    Que mais chegada à terra parecia,
    Cortando o longo mar com larga vela.
    A gente se alvoroça, e de alegria
    Não sabe mais que olhar a causa dela.
    Que gente será esta, em si diziam,
    Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

    46
    As embarcações eram, na maneira,
    Mui veloces, estreitas e compridas:
    As velas, com que, vêm, eram de esteira
    Dumas folhas de palma, bem tecidas;
    A gente da cor era verdadeira,
    Que Faeton, nas terras acendidas,
    Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
    O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

    47
    De panos de algodão vinham vestidos,
    De várias cores, brancos e listrados:
    Uns trazem derredor de si cingidos,
    Outros em modo airoso sobraçados:
    Da cinta para cima vêm despidos;
    Por armas têm adargas o terçados;
    Com toucas na cabeça; e navegando,
    Anafis sonoros vão tocando.

    48
    Co'os panos e co'os braços acenavam
    As gentes Lusitanas, que esperassem;
    Mas já as proas ligeiras se inclinavam
    Para que junto às ilhas amainassem.
    A gente e marinheiros trabalhavam,
    Como se aqui os trabalhos se acabassem;
    Tomam velas; amaina-se a verga alta;
    Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

    49
    Não eram ancorados, quando a gente
    Estranha pelas cordas já subia.
    No gesto ledos vêm, e humanamente
    O Capitão sublime os recebia:
    As mesas manda pôr em continente;
    Do licor que Lieo prantado havia
    Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
    Os de Faeton queimados nada enjeitam.

    50
    Comendo alegremente perguntavam,
    Pela Arábica língua, donde vinham,
    Quem eram, de que terra, que buscavam,
    Ou que partes do mar corrido tinham?
    Os fortes Lusitanos lhe tornavam
    As discretas respostas, que convinham:
    "Os Portugueses somos do Ocidente,
    Imos buscando as terras do Oriente.

    51
    "Do mar temos corrido e navegado
    Toda a parte do Antártico e Calisto,
    Toda a costa Africana rodeado,
    Diversos céus e terras temos visto;
    Dum Rei potente somos, tão amado,
    Tão querido de todos, e benquisto,
    Que não no largo mar, com leda fronte,
    Mas no lago entraremos de Aqueronte.

    52
    "E por mandado seu, buscando andamos
    A terra Oriental que o Indo rega;
    Por ele, o mar remoto navegamos,
    Que só dos feios focas se navega.
    Mas já razão parece que saibamos,
    Se entre vós a verdade não se nega,
    Quem sois, que terra é esta que habitais,
    Ou se tendes da Índia alguns sinais?"

    53
    "Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
    Estrangeiros na terra, Lei e nação;
    Que os próprios são aqueles, que criou
    A natura sem Lei e sem razão.
    Nós temos a Lei certa, que ensinou
    O claro descendente de Abraão
    Que agora tem do mundo o senhorio,
    A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
    Informações. A Ilha de Moçambique.

    54
    "Esta ilha pequena, que habitamos,
    em toda esta terra certa escala
    De todos os que as ondas navegamos
    De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
    E, por ser necessária, procuramos,
    Como próprios da terra, de habitá-la;
    E por que tudo enfim vos notifique,
    Chama-se a pequena ilha Moçambique.

    55
    "E já que de tão longe navegais,
    Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
    Piloto aqui tereis, por quem sejais
    Guiados pelas ondas sabiamente.
    Também será bem feito que tenhais
    Da terra algum refresco, e que o Regente
    Que esta terra governa, que vos veja,
    E do mais necessário vos proveja."

    56
    Isto dizendo, o Mouro se tornou
    A seus batéis com toda a companhia;
    Do Capitão e gente se apartou
    Com mostras de devida cortesia.
    Nisto Febo nas águas encerrou,
    Co'o carro de cristal, o claro dia,
    Dando cargo à irmã, que alumiasse
    O largo mundo, enquanto repousasse.

    57
    A noite se passou na lassa frota
    Com estranha alegria, e não cuidada,
    Por acharem da terra tão remota
    Nova de tanto tempo desejada.
    Qualquer então consigo cuida e nota
    Na gente e na maneira desusada,
    E como os que na errada Seita creram,
    Tanto por todo o mundo se estenderam,

    58
    Da Lua os claros raios rutilavam
    Pelas argênteas ondas Neptuninas,
    As estrelas os Céus acompanhavam,
    Qual campo revestido de boninas;
    Os furiosos ventos repousavam
    Pelas covas escuras peregrinas;
    Porém da armada a gente vigiava,
    Como por longo tempo costumava.

    59
    Mas assim como a Aurora marchetada
    Os formosos cabelos espalhou
    No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
    Ao claro Hiperiónio, que acordou,
    Começa a embandeirar-se toda a armada,
    E de toldos alegres se adornou,
    Por receber com festas e alegria
    O Regedor das ilhas, que partia.

    60
    Partia alegremente navegando,
    A ver as naus ligeiras Lusitanas,
    Com refresco da terra, em si cuidando
    Que são aquelas gentes inumanas,
    Que, os aposentos cáspios habitando,
    A conquistar as terras Asianas
    Vieram; e por ordem do Destino,
    O Império tomaram a Constantino.

    61
    Recebe o Capitão alegremente
    O Mouro, e toda a sua companhia;
    Dá-lhe de ricas peças um presente,
    Que só para este efeito já trazia;
    Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
    Não usado licor, que dá alegria.
    Tudo o Mouro contente bem recebe;
    E muito mais contente come e bebe.

    62
    Está a gente marítima de Luso
    Subida pela enxárcia, de admirada,
    Notando o estrangeiro modo e uso,
    E a linguagem tão bárbara e enleada.
    Também o Mouro astuto está confuso,
    Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
    E perguntando tudo, lhe dizia
    "Se por ventura vinham de Turquia?"

    63
    E mais lhe diz também, que ver deseja
    Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
    Para ver se conforme à sua seja,
    Ou se são dos de Cristo, como Crê.
    E porque tudo note e tudo veja,
    Ao Capitão pedia que lhe dê
    Mostra das fortes armas de que usavam,
    Quando co'os inimigos pelejavam.

    64
    Responde o valeroso Capitão
    Por um, que a língua escura bem sabia:
    "Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
    De mim, da Lei, das armas que trazia.
    Nem sou da terra, nem da geração
    Das gentes enojosas de Turquia:
    Mas sou da forte Europa belicosa,
    Busco as terras da índia tão famosa.

    65
    A lei tenho daquele, a cujo império
    Obedece o visíbil e ínvisíbil
    Aquele que criou todo o Hemisfério,
    Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
    Que padeceu desonra e vitupério,
    Sofrendo morte injusta e insofríbil,
    E que do Céu à Terra, enfim desceu,
    Por subir os mortais da Terra ao Céu.

    66
    Deste Deus-Homem, alto e infinito,
    Os livros, que tu pedes não trazia,
    Que bem posso escusar trazer escrito
    Em papel o que na alma andar devia.
    Se as armas queres ver, como tens dito,
    Cumprido esse desejo te seria;
    Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
    Que nunca as queiras ver como inimigo."

    67
    Isto dizendo, manda os diligentes
    Ministros amostrar as armaduras:
    Vêm arneses, e peitos reluzentes,
    Malhas finas, e lâminas seguras,
    Escudos de pinturas diferentes,
    Pelouros, espingardas de aço puras,
    Arcos, e sagitíferas aljavas,
    Partazanas agudas, chuças bravas:

    68
    As bombas vêm de fogo, e juntamente
    As panelas sulfúreas, tão danosas;
    Porém aos de Vulcano não consente
    Que dêem fogo às bombardas temerosas;
    Porque o generoso ânimo e valente,
    Entre gentes tão poucas e medrosas,
    Não mostra quanto pode, e com razão,
    Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

    69
    Porém disto, que o Mouro aqui notou,
    E de tudo o que viu com olho atento
    Um ódio certo na alma lhe ficou,
    Uma vontade má de pensamento.
    Nas mostras e no gesto o não mostrou;
    Mas com risonho e ledo fingimento
    Tratá-los brandamente determina,
    Até que mostrar possa o que imagina.

    70
    Pilotos lhe pedia o Capitão,
    Por quem pudesse à Índia ser levado;
    Diz-lhe que o largo prémio levarão
    Do trabalho que nisso for tomado.
    Promete-lhos o Mouro, com tenção
    De peito venenoso, e tão danado,
    Que a morte, se pudesse, neste dia,
    Em lugar de pilotos lhe daria.

    71
    Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
    Que aos estrangeiros súbito tomou,
    Sabendo ser sequazes da verdade,
    Que o Filho de David nos ensinou.
    ó segredos daquela Eternidade,
    A quem juízo algum nunca alcançou!
    Que nunca falte um pérfido inimigo
    Aqueles de quem foste tanto amigo!

    72
    Partiu-se Disto enfim coa companhia,
    Das naus o falso Mouro despedido,
    Com enganosa e grande cortesia,
    Com gesto ledo a todos, e fingido.
    Cortaram os batéis a curta via
    Das águas de Neptuno, e recebido
    Na terra do obsequente ajuntamento
    Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

    73
    Do claro assento etóreo o grão Tebano,
    Que da paternal coxa foi nascido,
    Olhando o ajuntamento Lusitano
    Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
    No pensamento cuida um falso engano,
    Com que seja de todo destruído.
    E enquanto isto só na alma imaginava,
    Consigo estas palavras praticava:

    74
    "Está do fado já determinado,
    Que tamanhas vitórias, tão famosas,
    Hajam os Portugueses alcançado
    Das Indianas gentes belicosas.
    E eu só, filho do Padre sublimado,
    Com tantas qualidades generosas,
    Hei de sofrer que o fado favoreça
    Outrem, por quem meu nome se escureça?

    75
    "Já quiseram os Deuses que tivesse
    O filho de Filipo nesta parte
    Tanto poder, que tudo submetesse
    Debaixo de seu jugo o fero Marte.
    Mas há-se de sofrer que o fado desse
    A tão poucos tamanho esforço e arte,
    Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
    Demos lugar ao nome Lusitano?

    76
    "Não será assim, porque antes que chegado
    Seja este Capitão, astutamente
    Lhe será tanto engano fabricados
    Que nunca veja as partes do Oriente.
    Eu descerei à Terra, e o indignado
    Peito revolverei da Maura gente;
    Porque sempre por via irá direita
    Quem do oportuno tempo se aproveita."

    77
    Isto dizendo, irado e quase insano,
    Sobre a terra africana descendeu,
    Onde vestindo a forma e gesto humano,
    Para o Prasso sabido se moveu.
    E por melhor tecer o astuto engano,
    No gesto natural se converteu
    Dum Mouro, em Moçambique conhecido
    Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.

    78
    E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
    A sua falsidade acomodadas,
    Lhe diz como eram gentes roubadoras,
    Estas que ora de novo são chegadas;
    Que das nações na costa moradoras
    Correndo a fama veio que roubadas
    Foram por estes homens que passavam,
    Que com pactos de paz sempre ancoravam.

    79
    E sabe mais, lhe diz, como entendido
    Tenho destes cristãos sanguinolentos,
    Que quase todo o mar têm destruído
    Com roubos, com incêndios violentos;
    E trazem já de longe engano urdido
    Contra nós; e que todos seus intentos
    São para nos matarem e roubarem,
    E mulheres e filhos cativarem.

    80
    "E também sei que tem determinado
    De vir por água a terra muito cedo
    O Capitão dos seus acompanhado,
    Que da tensão danada nasce o medo.
    Tu deves de ir também co'os teus armado
    Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
    Porque, saindo a gente descuidada,
    Cairão facilmente na cilada.

    81
    "E se inda não ficarem deste jeito
    Destruídos, ou mortos totalmente
    Eu tenho imaginado no conceito
    Outra manha e ardil, que te contente:
    Manda-lhe dar piloto, que de jeito
    Seja astuto no engano, e tão prudente,
    Que os leve aonde sejam destruídos,
    Desbaratados, mortos, ou perdidos."

    82
    Tanto que estas palavras acabou,
    O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
    Os braços pelo colo lhe lançou,
    Agradecendo muito o tal conselho;
    E logo nesse instante concertou
    Para a guerra o belígero aparelho,
    Para que ao Português se lhe tornasse
    Em roxo sangue a água, que buscasse.

    83
    E busca mais, para o cuidado engano,
    Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
    Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
    De quem fiar-se possa um feito grande.
    Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
    Por tais costas e mares com ele ande,
    Que, se daqui escapar, que lá diante
    Vá cair onde nunca se alevante.

    84
    Já o raio Apolíneo visitava
    Os montes Nabatêos acendido,
    Quando o Gama, colos seus determinava
    De vir por água a terra apercebido.
    A gente nos batéis se concertava,
    Como se fosse o engano já sabido:
    Mas pode suspeitar-se facilmente,
    Que o coração pressago nunca mente.

    85
    E mais também mandado tinha a terra,
    De antes, pelo piloto necessário,
    E foi-lhe respondido em som de guerra,
    Caso do que cuidava mui contrário;
    Por isto, e porque sabe quanto erra
    Quem se crê de seu pérfido adversário,
    Apercebido vai como podia,
    Em três batéis somente que trazia.

    86
    Mas os Mouros que andavam pela praia,
    Por lhe defender a água desejada,
    Um de escudo embraçado e de azagaia,
    Outro de arco encurvado e seta ervada,
    Esperam que a guerreira gente saia,
    Outros muitos já postos em cilada.
    E, porque o caso leve se lhe faça,
    Põem uns poucos diante por negaça,

    87
    Andam pela ribeira alva, arenosa,
    Os belicosos Mouros acenando
    Com a adarga e co'a hástia perigosa,
    Os fortes Portugueses incitando.
    Não sofre muito a gente generosa
    Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
    Qualquer em terra salta tão ligeiro,
    Que nenhum dizer pode que é primeiro.

    88
    Qual no corro sanguino o ledo amante,
    Vendo a formosa dama desejada,
    O touro busca, e pondo-se diante,
    Salta, corre, sibila, acena, e brada,
    Mas o animal atroce, nesse instante,
    Com a fronte cornígera inclinada,
    Bramando duro corre, e os olhos cerra,
    Derriba, fere e mata, e põe por terra:

    89
    Eis nos batéis o fogo se levanta
    Na furiosa e dura artilharia,
    A plúmbea péla mata, o brado espanta,
    Ferido o ar retumba e assovia:
    O coração dos Mouros se quebranta,
    O temor grande o sangue lhe resfria.
    Já foge o escondido de medroso,
    E morre o descoberto aventuroso.

    90
    Não se contenta a gente Portuguesa,
    Mas seguindo a vitória estrui e mata;
    A povoação, sem muro e sem defesa,
    Esbombardeia, acende e desbarata.
    Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
    Que bem cuidou comprá-la mais barata;
    Já blasfema da guerra, e maldizia,
    O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

    91
    Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
    Sem força, de covarde e de apressado,
    A pedra, o pau, e o canto arremessando;
    Dá-lhe armas o furor desatinado.
    Já a ilha e todo o mais desemparando,
    A terra firme foge amedrontado;
    Passa e corta do mar o estreito braço,
    Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

    92
    Uns vão nas almadias carregadas,
    Um corta o mar a nado diligente,
    Quem se afoga nas ondas encurvadas,
    Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
    Arrombam as miúdas bombardadas
    Os pangaios subtis da bruta gente:
    Desta arte o Português enfim castiga
    A vil malícia, pérfida, inimiga.

    93
    Tornam vitoriosos para a armada,
    Co'o despojo da guerra e rica presa,
    E vão a seu prazer fazer aguada,
    Sem achar resistência, nem defesa.
    Ficava a Maura gente magoada,
    No ódio antigo mais que nunca acesa;
    E vendo sem vingança tanto dano,
    Somente estriba no segundo engano.

    94
    Pazes cometer manda arrependido
    O Regedor daquela iníqua terra,
    Sem ser dos Lusitanos entendido,
    Que em figura de paz lhe manda guerra;
    Porque o piloto falso prometido,
    Que toda a má tenção no peito encerra,
    Para os guiar à morte lhe mandava,
    Como em sinal das pazes que tratava.

    95
    O Capitão, que já lhe então convinha
    Tornar a seu caminho acostumado,
    Que tempo concertado e ventos tinha
    Para ir buscar o Indo desejado,
    Recebendo o piloto, que lhe vinha,
    Foi dele alegremente agasalhado;
    E respondendo ao mensageiro a tento,
    As velas manda dar ao largo vento.

    96
    Desta arte despedida a forte armada,
    As ondas de Anfitrite dividia,
    Das filhas de Nereu acompanhada,
    Fiel, alegre e doce companhia.
    O Capitão, que não caía em nada
    Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
    Dele mui largamente se informava
    Da Índia toda, e costas que passava.

    97
    Mas o Mouro, instruído nos enganos
    Que o malévolo Baco lhe ensinara,
    De morte ou cativeiro novos danos,
    Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
    Dando razões dos portos Indianos,
    Também tudo o que pede lhe declara,
    Que, havendo por verdade o que dizia,
    De nada a forte gente se temia.

    98
    E diz-lhe mais, com o falso pensamento
    Com que Sinon os Frígios enganou:
    Que perto está uma ilha, cujo assento
    Povo antigo cristão sempre habitou.
    O Capitão, que a tudo estava a tento,
    Tanto com estas novas se alegrou,
    Que com dádivas grandes lhe rogava,
    Que o leve à terra onde esta gente estava.

    99
    O mesmo o falso Mouro determina,
    Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
    Que a ilha é possuída da malina
    Gente que segue o torpe Mahamede.
    Aqui o engano e morte lhe imagina,
    Porque em poder e forças muito excede
    A Moçambique esta ilha, que se chama
    Quíloa, mui conhecida pela fama.

    100
    Para lá se inclinava a leda frota;
    Mas a Deusa em Citere celebrada,
    Vendo como deixava a certa rota
    Por ir buscar a morte não cuidada,
    Não consente que em terra tão remota
    Se perca a gente dela tanto amada.
    E com ventos contrários a desvia
    Donde o piloto falso a leva e guia.

    101
    Mas o malvado Mouro, não podendo
    Tal determinação levar avante,
    Outra maldade iníqua cometendo,
    Ainda em seu propósito constante,
    Lhe diz que, pois as águas discorrendo
    Os levaram por força por diante,
    Que outra ilha tem perto, cuja gente
    Eram Cristãos com Mouros juntamente.

    102
    Também nestas palavras lhe mentia,
    Como por regimento enfim levava,
    Que aqui gente de Cristo não havia,
    Mas a que a Mahamede celebrava.
    O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
    Virando as velas, a ilha demandava;
    Mas, não querendo a Deusa guardadora,
    Não entra pela barra, e surge fora.

    103
    Estava a ilha à terra tão chegada,
    Que um estreito pequeno a dividia;
    Uma cidade nela situada,
    Que na fronte do mar aparecia,
    De nobres edifícios fabricada,
    Como por fora ao longe descobria,
    Regida por um Rei de antiga idade:
    Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

    104
    E sendo a ela o Capitão chegado,
    Estranhamente ledo, porque espera
    De poder ver o povo batizado,
    Como o falso piloto lhe dissera,
    Eis vêm batéis da terra com recado
    Do Rei, que já sabia a gente que era:
    Que Baco muito de antes o avisara,
    Na forma doutro Mouro, que tomara.

    105
    O recado que trazem é de amigos,
    Mas debaixo o veneno vem coberto;
    Que os pensamentos eram de inimigos,
    Segundo foi o engano descoberto.
    Ó grandes e gravíssimos perigos!
    Ó caminho de vida nunca certo:
    Que aonde a gente põe sua esperança,
    Tenha a vida tão pouca segurança!

    106
    No mar tanta tormenta, e tanto dano,
    Tantas vezes a morte apercebida!
    Na terra tanta guerra, tanto engano,
    Tanta necessidade avorrecida!
    Onde pode acolher-se um fraco humano,
    Onde terá segura a curta vida,
    Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
    Contra um bicho da terra tão pequeno?

    Canto Segundo

    1
    Já neste tempo o lúcido Planeta,
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo,
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    As naus, que pouco havia que ancoraram.

    2
    Dentre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assim dizia:
    "Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria,
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te, e do necessário reformar-te.

    3
    "E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada:
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.

    4
    "E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria,
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo."

    5
    Ao mensageiro o Capitão responde
    As palavras do Rei agradecendo:
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra para dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.

    6
    Pergunta-lhe depois, se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.

    7
    E de alguns que trazia condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

    8
    E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade, que mostrava,
    Tenha firme, segura, limpa e branda;
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos,
    Os dous da frota em terra recebidos.

    9
    E depois que ao Rei apresentaram,
    Co'o recado, os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaras
    De lhes mostrarem tudo o que pediam:
    Que onde reina a malícia, está o receio,
    Que a faz imaginar no peito alheio.

    10
    Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava numa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso, que adorava.

    11
    Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura:
    A cândida pombinha debuxada
    Sobre a única Fénix, Virgem pura;
    A companhia santa está pintada
    Dos doze, tão torvados na figura,
    Como os que, só das línguas que caíram,
    De fogo, várias línguas referiram.

    12
    Aqui os dous companheiros conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assim por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.

    13
    Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento,
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas assim como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido horizonte
    Da moça de Titão a roxa fronte,

    14
    Tornam da terra os Mouros co'o recado
    Do Rei, para que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo,
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.

    15
    Dizem-lhe os que mandou, que em terra
    Sacras aras e sacerdote sinto; viram
    Que ali se agasalharam o dormiram,
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto,
    Que não podia certo haver suspeita
    Numa mostra tão clara e tão perfeita.

    16
    Com isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam;
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras, que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos, porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.

    17
    Na terra, cautamente aparelhavam
    Armas e munições que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E, nesta treição determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que incautos pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.

    18
    As âncoras tenaces vão levando
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando
    Inclinam para a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande, e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como uma seta.

    19
    Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia.
    E propondo-lhe a causa a que desceu,
    Com todas juntamente se partia,
    Para estorvar que a armada não chegasse
    Aonde para sempre se acabasse.

    20
    Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto eo'o peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma.
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa, em força suma.
    Abrem caminho as ondas encurvadas
    De temor das Nereidas apressadas.

    21
    Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão formosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.

    22
    Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito,
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Para detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam,
    E da barra inimiga a desviavam.

    23
    Quais para a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado,
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    A gente Portuguesa o fim nefando.

    24
    Torna para detrás a nau forçada,
    Apesar dos que leva, que gritando
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

    25
    A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
    Cuidam que seus enganos são sabidos,
    E que hão de ser por isso aqui punidos.

    26
    Ei-los subitamente se lançavam
    A seus batéis velozes que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam,
    Saltando n'água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.

    27
    Assim como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem por ventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando, o charco soa,
    Por fugir do perigo que se sente,
    E acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:

    28
    Assim fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.

    29
    Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos, ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assim dizia:

    30
    "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo sabiamente,
    Se lá de cima a Guarda soberana
    Não acudir à fraca força humana?

    31
    "Bem nos mostra a divina Providência
    Destes portos a pouca segurança;
    Bem claro temos visto na aparência,
    Que era enganada a nossa confiança.
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!

    32
    "E se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos."

    33
    Ouviu-lhe essas palavras piedosas
    A formosa Dione, e comovida,
    Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Para onde estava o Padre, se moveu.

    34
    E como ia afrontada do caminho,
    Tão formosa no gesto se mostrava,
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
    E tudo quanto a via namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a esfera fria.

    35
    E por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
    Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
    Na selva Idea, já se apresentara.
    Se a vira o caçador, que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.

    36
    Os crespos fios d'ouro se esparziam
    Pelo colo, que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava, e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Menino as almas acendia;
    Pelas lisas colunas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.

    37
    C'um delgado sendal as partes cobre,
    De quem vergonha é natural reparo,
    Porém nem tudo esconde, nem descobre,
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, para que o desejo acenda o dobre,
    Lhe põe diante aquele objeto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

    38
    E mostrando no angélico semblante
    Co'o riso uma tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
    E se torna entre alegre magoada,
    Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:

    39
    "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, para as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrário lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
    Sem que to merecesse, nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei enfim que fui mofina.

    40
    "Este povo que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo!
    Por ele a ti rogando choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado,
    Quero-lhe querer mal, será guardado.

    41
    "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui…" E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Se lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

    42
    E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa, e acendido
    Na face a beija, e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.

    43
    E co'o seu apertando o rosto amado,
    Que os soluços e lágrimas aumenta,
    Como menino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:

    44
    "Formosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais,
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente.

    45
    "Que se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo;
    E se o piedoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.

    46
    "Fortalezas, cidades e altos muros,
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros,
    Deles sempre vereis desbaratados.
    Os Reis da índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados;
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis melhores.

    47
    "Vereis este, que agora pressuroso
    Por tantos medos o Indo vai buscando,
    Tremer dele Neptuno, de medroso
    Sem vento suas águas encrespando.
    Ó caso nunca visto e milagroso,
    Que trema e ferva o mar, em calma estando!
    Ó gente forte e de altos pensamentos,
    Que também dela hão medo os Elementos!

    48
    "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
    Que inda há-de ser um porto mui decente,
    Em que vão descansar da longa via
    As naus que navegarem do Ocidente.
    Toda esta costa enfim, que agora urdia
    O mortífero engano, obediente
    Lhe pagará tributos, conhecendo
    Não poder resistir ao Luso horrendo.

    49
    "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
    Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
    Vereis de Ormuz o Reino poderoso
    Duas vezes tomado e sojugado.
    Ali vereis o Mouro furioso
    De suas mesmas setas traspassado:
    Que quem vai contra os vossos, claro veja
    Que, se resiste, contra si peleja.

    50
    "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
    Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
    Ali se mostrará seu preço e sorte,
    Feitos de armas grandíssimos fazendo.
    Invejoso vereis o grão Mavorte
    Do peito Lusitano fero e horrendo:
    Do Mouro ali verão que a voz extrema
    Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

    51
    "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
    A qual virá depois a ser senhora
    De todo o Oriente, e sublimada
    Co'os triunfos da gente vencedora.
    Ali soberba, altiva, e exalçada,
    Ao Gentio, que os ídolos adora,
    Duro freio porá, e a toda a terra
    Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

    52
    "Vereis a fortaleza sustentar-se
    De Cananor, com pouca força e gente;
    E vereis Calecu desbaratar-se,
    Cidade populosa e tão potente:
    E vereis em Cochim assinalar-se
    Tanto um peito soberbo e insolente,
    Que cítara jamais cantou vitória,
    Que assim mereça eterno nome e glória.

    53
    "Nunca com Marte instructo e furioso,
    Se viu ferver Leucate, quando Augusto
    Nas civis Actias guerras animoso,
    O Capitão venceu Romano injusto,
    Que dos povos da Aurora, e do famoso
    Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
    A vitória trazia, e presa rica,
    Preso na Egípcia linda e nego pudica.

    54
    Como vereis o mar fervendo aceso
    Colos incêndios dos vossos pelejando,
    Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
    De nações diferentes triunfando.
    E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
    Até ao longínquo China navegando,
    E as ilhas mais remotas do Oriente,
    Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

    55
    "De modo, filha minha, que de jeito
    Amostrarão esforço mais que humano,
    Que nunca se verá tão forte peito,
    Do Gangético mar ao Gaditano,
    Nem das Boreais ondas ao Estreito,
    Que mostrou o agravado Lusitano,
    Posto que em todo o mundo, de afrontados,
    Ressuscitassem todos os passados."

    56
    Como isto disse, manda o consagrado
    Filho de Maia à Terra, por que tenha
    Um pacífico porto o sossegado,
    Para onde sem receio a frota venha;
    F, para que em Mombaça, aventurado,
    O forte Capitão se não detenha,
    Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
    A terra, onde quieto repousasse.

    57
    Já pelo ar o Cileneu voava;
    Com as asas nos pés à Terra desce;
    Sua vara fatal na mão levava,
    Com que os olhos cansados adormece:
    Com esta, as tristes almas revocava
    Do Inferno, e o vento lhe obedece.
    Na cabeça o galero costumado.
    E desta arte a Melinde foi chegado.

    58
    Consigo a Fama leva, por que diga
    Do Lusitano o preço grande e raro,
    Que o nome ilustre a um certo amor obriga
    E faz, a quem o tem, amado e caro.
    Desta arte vai fazendo a gente amiga,
    Co rumor famosíssimo, e perclaro.
    Já Melinde em desejos arde todo
    De ver da gente forte o gesto e modo.

    59
    Dali para Mombaça logo parte,
    Aonde as naus estavam temerosas,
    Para que à gente mande que se aparte
    Da barra amiga e terras suspeitosas:
    Porque mui pouco val esforço e arte,
    Contra infernais vontades enganosas;
    Pouco val coração, astúcia e siso,
    Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

    60
    No feio caminho a noite tinha anelado,
    E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
    Tinham o largo Mundo alumiado;
    E só co'o sono a gente se recreia.
    O Capitão ilustre, já cansado
    De vigiar a noite que arreceia,
    Breve repouso então aos olhos dava,
    A outra gente a quartos vigiava;

    61
    Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
    Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
    Da cilada que o Rei malvado tece,
    Por te trazer ao fim, e extremo dano;
    Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
    Sereno o tempo tens e o Oceano,
    E outro Rei mais amigo, noutra parte,
    Onde podes seguro agasalhar-te.

    62
    "Não tens aqui senão aparelhado
    O hospício que o cru Diomedes dava,
    Fazendo ser manjar acostumado
    De cavalos a gente que hospedava;
    As aras de Busíris infamado,
    Onde os hóspedes tristes imolava,
    Terás certas aqui, se muito esperas.
    Fuge das gentes pérfidas e feras.

    63
    "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
    E outra terra acharás de mais verdade,
    Lá quase junto donde o Sol ardendo
    Iguala o dia e noite em quantidade;
    Ali tua frota alegre recebendo
    Um Rei, com muitas obras de amizade,
    Gasalhado seguro te daria,
    E, para a índia, certa e sábia guia."

    64
    Isto Mercúrio disse, e o sono leva
    Ao Capitão, que com mui grande espanto
    Acorda, e vê ferida a escura treva
    De uma súbita luz e raio santo.
    E vendo claro quanto lhe releva
    Não se deter na terra iníqua tanto,
    Com novo espírito ao mestre seu mandava
    Que as velas desse ao vento que assopravam.

    65
    "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
    Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
    Que um mensageiro vi do claro assento
    Que só em favor de nossos passos anda."
    Alevanta-se nisto o movimento
    Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
    Levam gritando as âncoras acima,
    Mostrando a ruda força, que se estima.

    66
    Neste tempo, que as âncoras levavam,
    Na sombra escura os Mouros escondidos
    Mansamente as amarras lhe cortavam,
    Por serem, dando à costa, destruídos;
    Mas com vista de linces vigiavam
    Os Portugueses, sempre apercebidos.
    Eles, como acordados os sentiram,
    Voando, e não remando, lhe fugiram.

    67
    Mas já as agudas proas apartando
    Iam as vias húmidas de argento;
    Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
    Com suave e seguro movimento.
    Nos perigos passados vão falando,
    Que mal se perderão do pensamento
    Os casos grandes, donde em tanto aperto
    A vida em salvo escapa por acerto.

    68
    Tinha uma volta dado o Sol ardente
    E noutro começava, quando viram
    Ao longe deus navios, brandamente
    Co'os ventos navegando, que respiram:
    Porque haviam de ser da Maura gente,
    Para eles arribando, as velas viram:
    Um, de temor do mal que arreceava,
    Por se salvar a gente à costa dava.

    69
    Não é o outro que fica tão manhoso;
    Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
    Sem o rigor de Marte furioso,
    E sem a fúria horrenda de Vulcano;
    Que como fosse débil e medroso
    Da pouca gente o fraco peito humano,
    Não teve resistência; e se a tivera,
    Mais dano resistindo recebera.

    70
    E como o Gama muito desejasse
    Piloto para a Índia que buscava,
    Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava,
    Que nenhum deles há que lhe ensinasse
    A que parte dos céus a Índia estava;
    Porém dizem-lhe todos, que tem perto
    Melinde, onde achará piloto certo.

    71
    Louvam do Rei os Mouros a bondade,
    Condição liberal, sincero peito,
    Magnificência grande e humanidade,
    Com partes de grandíssimo respeito.
    O Capitão o assela por verdade,
    Porque já lhe dissera, deste jeito,
    Cileneu em sonhos; e partia
    Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

    72
    Era no tempo alegre, quando entrava
    No roubador de Europa a luz Febeia,
    Quando um e outro corno lhe aquentava,
    E Flora derramava o de Amalteia:
    A memória do dia renovava
    O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
    Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
    O selo pôs a quanto tinha feito;

    73
    Quando chegava a frota àquela parte,
    Onde o Reino Melinde já se via,
    De toldos adornada, e leda de arte
    Que bem mostra estimar o santo dia.
    Treme a bandeira, voa o estandarte,
    A cor purpúrea ao longe aparecia;
    Soam os atambores o pandeiros,
    E assim entravam ledos e guerreiros.

    74
    Enche-se toda a praia Melindana
    Da gente que vem ver a leda armada,
    Gente mais verdadeira, e mais humana,
    Que toda a doutra terra atrás deixada.
    Surge diante a frota Lusitana,
    Pega no fundo a âncora pesada;
    Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
    Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

    75
    O Rei, que já sabia da nobreza
    Que tanto os Portugueses engrandece,
    Tomarem o seu porto tanto preza,
    Quanto a gente fortíssima merece:
    E com verdadeiro ânimo e pureza,
    Que os peitos generosos enobrece,
    Lhe manda rogar muito que saíssem,
    Para que de seus reinos se servissem.

    76
    São oferecimentos verdadeiros,
    E palavras sinceras, não dobradas,
    As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
    Que tanto mar e terras tem passadas.
    Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
    E galinhas domésticas cevadas,
    Com as frutas, que então na terra havia;
    E a vontade à dádiva excedia.

    77
    Recebe o Capitão alegremente
    O mensageiro ledo e seu recado;
    E logo manda ao Rei outro presente,
    Que de longe trazia aparelhado:
    Escarlata purpúrea, cor ardente,
    O ramoso coral, fino e prezado,
    Que debaixo das águas mole cresce,
    E como é fora delas se endurece.

    78
    Manda mais um, na prática elegante,
    Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
    E que de não sair naquele instante
    De suas naus em terra o desculpasse.
    Partido assim o embaixador prestante,
    Como na terra ao Rei se apresentasse,
    Com estilo que Palas lhe ensinava,
    Estas palavras tais falando orava:

    79
    "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
    Foi da suma Justiça concedido
    Refrear o soberbo povo duro,
    Não menos dele amado, que temido:
    Como porto mui forte e mui seguro,
    De todo o Oriente conhecido,
    Te vimos a buscar, para que achemos
    Em ti o remédio certo que queremos.

    80
    "Não somos roubadores, que passando
    Pelas fracas cidades descuidadas,
    A ferro e a fogo as gentes vão matando,
    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
    Mas da soberba Europa navegando,
    Imos buscando as terras apartadas
    Da Índia grande e rica, por mandado
    De um Rei que temos, alto e sublimado.

    81
    "Que geração tão dura há hi de gente,
    Que bárbaro costume e usança feia,
    Que não vedem os portos tão somente,
    Mas inda o hospício da deserta areia?
    Que má tenção, que peito em nós se sente,
    Que de tão pouca gente se arreceia?
    Que com laços armados, tão fingidos,
    Nos ordenassem ver-nos destruídos?

    82
    "Mas tu, e quem mui certo confiamos
    Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
    E aquela certa ajuda em ti esperamos,
    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
    A teu porto seguro navegamos,
    Conduzidos do intérprete divino;
    Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
    Que és de peito sincero, humano e raro.

    83
    "E não cuides, ó Rei, que não saísse
    O nosso Capitão esclarecido
    A ver-te, ou a servir-te, porque visse
    Ou suspeitasse em ti peito fingido:
    Mas saberás que o fez, porque cumprisse
    O regimento, em tudo obedecido,
    De seu Rei, que lhe manda que não saia,
    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

    84
    "E porque é, de vassalos o exercício,
    Que os membros tem regidos da cabeça,
    Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
    Que ninguém a seu Rei desobedeça;
    Mas as mercês e o grande benefício,
    Que ora acha em ti, promete que conheça
    Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
    Enquanto os rios para o mar correrem."

    85
    Assim dizia; e todos juntamente,
    Uns com outros em prática falando,
    Louvavam muito o estâmago da gente,
    Que tantos céus e mares vai passando.
    E o Rei ilustre, o peito obediente
    Dos Portugueses na alma imaginando,
    Tinha por valor grande e mui subido
    O do Rei que é tão longe obedecido.

    86
    E com risonha vista e ledo aspeito,
    Responde ao embaixador, que tanto estima:
    "Toda a suspeita má tirai do peito,
    Nenhum frio temor em vós se imprima;
    Que vosso preço e obras são de jeito
    Para vos ter o mundo em muita estima;
    E quem vos fez molesto tratamento,
    Não pode ter subido pensamento.

    87
    "De não sair em terra toda a gente,
    Por observar a usada preminência,
    Ainda que me pese estranhamente,
    Em muito tenho a muita obediência;
    Mas, se lho o regimento não consente,
    Nem eu consentirei que a excelência
    De peitos tão leais em si desfaça,
    Só porque a meu desejo satisfaça.

    88
    "Porém, como a luz crástina chegada
    Ao mundo for, em minhas almadias
    Eu irei visitar a forte armada,
    Que ver tanto desejo, há tantos dias;
    E se vier do mar desbaratada,
    Do furioso vento e longas vias,
    Aqui terá, de limpos pensamentos,
    Piloto, munições e mantimentos."

    89
    Isto disse; e nas águas se escondia
    O filho de Latona; e o mensageiro
    Coa embaixada alegre se partia
    Para a frota, no seu batel ligeiro.
    Enchem-se os peitos todos de alegria.
    Por terem o remédio verdadeiro
    Para acharem a terra que buscavam;
    E assim ledos a noite festejavam.

    90
    Não faltam ali os raios de artifício,
    Os trêmulos cometas imitando;
    Fazem os bombardeiros seu ofício,
    O céu, a terra e as ondas atroando.
    Mostra-se dos Ciclopas o exercício
    Nas bombas que de fogo estão queimando;
    Outros com vozes, com que o céu feriam,
    Instrumentos altíssonos tangiam.

    91
    Respondem-lhe da terra juntamente,
    Co'o raio volteando, com zunido;
    Anda em giros no ar a roda ardente,
    Estoura o pó sulfúreo escondido.
    A grita se alevanta ao céu, da gente;
    O mar se via em fogos acendido,
    E não menos a terra; e assim festeja
    Um ao outro, a maneira de peleja.

    92
    Mas já o Céu inquieto revolvendo,
    As gentes incitava a seu trabalho,
    E já a mãe de Menon a luz trazendo,
    Ao sono longo punha certo atalho;
    Iam-se as sombras lentas desfazendo,
    Sobre as flores da terra em frio orvalho,
    Quando o Rei Melindano se embarcava
    A ver a frota, que no mar estava.

    93
    Viam-se em derredor ferver as praias
    Da gente, que a ver só concorre leda;
    Luzem da fina púrpura as cabaias,
    Lustram os panos da tecida seda;
    Em lugar das guerreiras azagaias
    E do arco, que os cornos arremeda
    Da Lua, trazem ramos de palmeira,
    Dos que vencem, coroa verdadeira.

    94
    Um batel grande e largo, que toldado
    Vinha de sedas de diversas cores,
    Traz o Rei de Melinde, acompanhado
    De nobres e seu Reino e de senhores:
    Vem de ricos vestidos adornado,
    Segundo seus costumes e primores;
    Na cabeça uma fota guarnecida
    De ouro, e de seda e de algodão tecida.

    95
    Cabaia de Damasco rico e dino,
    Da Tíria cor, entre eles estimada,
    Um colar ao pescoço, de ouro fino,
    Onde a matéria da obra é superada,
    C'um resplendor reluze adamantino;
    Na cinta, a rica bem lavrada;
    Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
    Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

    96
    Com um redondo emparo alto de seda,
    Numa alta e dourada hástia enxerido,
    Um ministro à solar quentura veda.
    Que não ofenda e queime o Rei subido.
    Música traz na proa, estranha e leda,
    De áspero som, horríssono ao ouvido,
    De trombetas arcadas em redondo,
    Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

    97
    Não menos guarnecido o Lusitano
    Nos seus batéis, da frota se partia
    A receber no mar o Melindano,
    Com lustrosa e lograda companhia.
    Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
    Mas Francesa era a roupa que vestia,
    De cetim da Adriática Veneza
    Carmesi, cor que a gente tanto preza:

    98
    De botões douro as mangas vêm tomadas,
    Onde o Sol reluzindo a vista cega;
    As calças soldadescas recamadas
    Do metal, que Fortuna a tantos nega,
    E com pontas do mesmo delicadas
    Os golpes do gibão ajunta e achega;
    Ao Itálico modo a áurea espada;
    Pluma na gorra, um pouco declinada.

    99
    Nos de sua companhia se mostrava
    Da tinta, que dá o múrice excelente,
    A vária cor, que os olhos alegrava,
    E a maneira do trajo diferente.
    Tal o formoso esmalte se notava
    Dos vestidos, olhados juntamente,
    Qual aparece o arco rutilante
    Da bela Ninfa, filha de Taumante.

    100
    Sonorosas trombetas incitavam
    Os ânimos alegres, ressoando;
    Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
    Os toldos pelas águas arrojando;
    As bombardas horríssonas bramavam,
    Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
    Amiúdam-se os brados acendidos,
    Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

    101
    Já no batel entrou do Capitão
    O Rei, que nos seus braços o levava;
    Ele coa cortesia, que a razão
    (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
    C'umas mostras de espanto e admiração,
    O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
    Como quem em mui grande estima tinha
    Gente que de tão longe à índia vinha.

    102
    E com grandes palavras lhe oferece
    Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
    E que, se mantimento lhe falece,
    Como se próprio fosse, lho pedisse.
    Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
    A gente Lusitana, sem que a visse;
    Que já ouviu dizer, que noutra terra
    Com gente de sua Lei tivesse guerra.

    103
    E como por toda África se soa,
    Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
    Quando nela ganharam a coroa
    Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
    E com muitas palavras apregoa
    O menos que os de Luso mereceram,
    E o mais que pela fama o Rei sabia.
    Mas desta sorte o Gama respondia:

    104
    "Ó tu, que só tiveste piedade,
    Rei benigno, da gente Lusitana,
    Que com tanta miséria e adversidade
    Dos mares experimenta a fúria insana;
    Aquela alta e divina Eternidade,
    Que o Céu revolve e rege a gente humana,
    Pois que de ti tais obras recebemos,
    Te pague o que nós outros não podemos.

    105
    "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
    Nos recebes em paz, cio mar profundo;
    Em ti dos ventos hórridos de Eolo
    Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
    Enquanto apascentar o largo Pólo
    As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
    Onde quer que eu viver, com fama e glória
    Viverão teus louvores em memória."

    106
    Isto dizendo, os barcos vão remando
    Para a frota, que o Mouro ver deseja;
    Vão as naus uma e uma rodeando,
    Porque de todas tudo note e veja.
    Mas para o céu Vulcano fuzilando,
    A frota coas bombardas o festeja,
    E as trombetas canoras lhe tangiam;
    Co'os anafis os Mouros respondiam.

    107
    Mas depois de ser tudo já notado
    Do generoso Mouro, que pasmava
    Ouvindo o instrumento inusitado,
    Que tamanho terror em si mostrava,
    Mandava estar quieto e ancorado
    N'água o batel ligeiro que os levava,
    Por falar de vagar co'o forte Gama,
    Nas cousas de que tem notícia e faina.

    108
    Em práticas o Mouro diferentes
    Se deleitava, perguntando agora
    Pelas guerras famosas e excelentes
    Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
    Agora lhe pergunta pelas gentes
    De toda a Hespéria última, onde mora;
    Agora pelos povos seus vizinhos,
    Agora pelos úmidos caminhos.

    109
    "Mas antes, valeroso Capitão,
    Nos conta, lhe dizia, diligente,
    Da terra tua o clima, e região
    Do mundo onde morais distintamente;
    E assim de vossa antiga geração,
    E o princípio do Reino tão potente,
    Co'os sucessos das guerras do começo,
    Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

    110
    "E assim também nos conta dos rodeios
    Longos, em que te traz o mar irado,
    Vendo os costumes bárbaros alheios.
    Que a nossa África ruda tem criado.
    Conta: que agora vêm co'os áureos freios
    Os cavalos que o carro marchetado
    Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
    O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

    111
    "E não menos co'o tempo se parece
    O desejo de ouvir-te o que contares;
    Que quem há, que por fama não conhece
    As obras Portuguesas singulares?
    Não tanto desviado resplandece
    De nós o claro Sol, para julgares
    Que os Melindanos têm tão rudo peito,
    Que não estimem muito um grande feito.

    112
    "Cometeram soberbos os Gigantes,
    Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
    Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
    O Reino de Plutão horrendo e escuro.
    Se houve feitos no mundo tão possantes,
    Não menos é trabalho ilustre e duro,
    Quanto foi cometer Inferno o Céu,
    Que outrem cometa a fúria de Nereu.

    113
    "Queimou o sagrado templo de Diana,
    Do subtil Tesifónio fabricado,
    Heróstrato, por ser da gente humana
    Conhecido no mundo e nomeado:
    Se também com tais obras nos engana
    O desejo de um nome avantajado,
    Mais razão há que queira eterna glória
    Quem faz obras tão dignas de memória."

    Canto Terceiro

    1
    Agora tu, Calíope, me ensina
    O que contou ao Rei o ilustre Gama:
    Inspira imortal canto e voz divina
    Neste peito mortal, que tanto te ama.
    Assim o claro inventor da Medicina,
    De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
    Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
    Te negue o amor devido, como soe.

    2
    Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
    Como merece a gente Lusitana;
    Que veja e saiba o mundo que do Tejo
    O licor de Aganipe corre e mana.
    Deixa as flores de Pindo, que já vejo
    Banhar-me Apolo na água soberana;
    Senão direi que tens algum receio,
    Que se escureça o teu querido Orfeio.

    3
    Prontos estavam todos escutando
    O que o sublime Gama contaria,
    Quando, depois de um pouco estar cuidando,
    Alevantando o rosto, assim dizia:
    "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
    De minha gente a grão genealogia:
    Não me mandas contar estranha história,
    Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

    4
    "Que outrem possa louvar esforço alheio,
    Cousa é que se costuma e se deseja;
    Mas louvar os meus próprios, arreceio
    Que louvor tão suspeito mal me esteja;
    E para dizer tudo, temo e creio,
    Que qualquer longo tempo curto seja:
    Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
    Irei contra o que devo, e serei breve.

    5
    "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
    É não poder mentir no que disser,
    Porque de feitos tais, por mais que diga,
    Mais me há-de ficar inda por dizer.
    Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
    Segundo o que desejas de saber,
    Primeiro tratarei da larga terra,
    Depois direi da sanguinosa guerra.

    6
    "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
    Meta setentrional do Sol luzente,
    E aquela que por f ria se arreceia
    Tanto, como a do meio por ardente,
    Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
    Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
    Com suas salsas ondas o Oceano,
    E pela Austral o mar Mediterrano.

    7
    "Da parte donde o dia vem nascendo,
    Com Ásia se avizinha; mas o rio
    Que dos montes Rifeios vai correndo,
    Na alagoa Meotis, curvo o frio,
    As divide: e o mar que, fero e horrendo,
    Viu dos Gregos o irado senhorio,
    Onde agora de Tróia triunfante
    Não vê mais que a memória o navegante.

    8
    "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
    Os montes Hiperbóreos aparecem,
    E aqueles onde sempre sopra Eolo,
    E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
    Aqui tão pouca força tem de Apolo
    Os raios que no mundo resplandecem,
    Que a neve está contido pelos montes,
    Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

    9
    "Aqui dos Citas grande quantidade
    Vivem, que antigamente grande guerra
    Tiveram, sobre a humana antiguidade,
    Co'os que tinham então a Egípcia terra;
    Mas quem tão fora estava da verdade,
    (Já que o juízo humano tanto erra)
    Para que do mais certo se informara,
    Ao campo Damasceno o perguntara.

    10
    "Agora nestas partes se nomeia
    A Lápia fria, a inculta Noruega,
    Escandinávia Ilha, que se arreia
    Das vitórias que Itália não lhe nega.
    Aqui, enquanto as águas não refreia
    O congelado inverno, se navega
    Um braço do Sarmático Oceano
    Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.

    11
    "Entre este mar e o Tánais vive estranha
    Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
    Sármatas outro tempo; e na montanha
    Hircínia os Marcomanos são Polónios.
    Sujeitos ao Império de Alemanha
    São Saxones, Boêmios e Panónios,
    E outras várias nações, que o Reno frio
    Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.

    12
    "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
    Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
    Estão os Traces de robusto peito,
    Do fero Marte pátria tão querida,
    Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
    Ao Otomano está, que submetida
    Bizâncio tem a seu serviço indino:
    Boa injúria do grande Constantino!

    13
    "Logo de Macedónia estão as gentes,
    A quem lava do Axio a água fria;
    E vós também, ó terras excelentes
    Nos costumes, engenhos e ousadia,
    Que criastes os peitos eloquentes
    E os juízos de alta fantasia,
    Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
    E não menos por armas, que por letras.

    14
    "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
    Onde Antenor já muros levantou,
    A soberba Veneza está no meio
    Das águas, que tão baixa começou.
    Da terra um braço vem ao mar, que cheio
    De esforço, nações várias sujeitou,
    Braço forte, de gente sublimada,
    Não menos nos engenhos, que na espada.

    15
    "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
    Co'os muros naturais por outra parte;
    Pelo meio o divide o Apenino,
    Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
    Mas depois que o Porteiro tem divino,
    Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
    Pobre está já de antiga potestade:
    Tanto Deus se contenta de humildade!

    16
    "Gália ali se verá que nomeada
    Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
    Que do Séquana e Ródano é regada,
    E do Giruna frio e Reno fundo.
    Logo os montes da Ninfa sepultada
    Pirene se alevantam, que segundo
    Antiguidades contam, quando arderam,
    Rios de ouro e de prata então correram.

    17
    "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
    Como cabeça ali de Europa toda,
    Em cujo senhorio o glória estranha
    Muitas voltas tem dado a fatal roda;
    Mas nunca poderá, com força ou manha,
    A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
    Que lhe não tire o esforço e ousadia
    Dos belicosos peitos que em si cria.

    18
    "Com Tingitânia entesta, e ali parece
    Que quer fechar o mar Mediterrano,
    Onde o sabido Estreito se enobrece
    Co'o extremo trabalhado Tebano.
    Com nações diferentes se engrandece,
    Cercadas com as ondas do Oceano;
    Todas de tal nobreza e tal valor,
    Que qualquer delas cuida que é melhor.

    19
    "Tem o Tarragonês, que se fez claro
    Sujeitando Parténope inquieta;
    O Navarro, as Astúrias, que reparo
    Já foram contra a gente Mahometa;
    Tem o Galego cauto, e o grande e raro
    Castelhano, a quem fez o seu Planeta
    Restituidor de Espanha e senhor dela,
    Bétis, Lião, Granada, com Castela.

    20
    "Eis aqui, quase cume da cabeça
    De Europa toda, o Reino Lusitano,
    Onde a terra se acaba e o mar começa,
    E onde Febo repousa no Oceano.
    Este quis o Céu justo que floresça
    Nas armas contra o torpe Mauritano,
    Deitando-o de si fora, e lá na ardente
    África estar quieto o não consente.

    22
    "Esta é a ditosa pátria minha amada,
    A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
    Torne, com esta empresa já acabada,
    Acabe-se esta luz ali comigo.
    Esta foi Lusitânia, derivada
    De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
    Filhos foram, parece, ou companheiros,
    E nela então os Íncolas primeiros.

    22
    "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.
    Esta, o velho que os filhos próprios come
    Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
    Veio a fazer no mundo tanta parte,
    Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

    23
    "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
    Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
    Que por armas sanguinas, força e manha,
    A muitos fez perder a vida o a terra;
    Voando deste Rei a fama estranha
    Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
    Muitos, para na guerra esclarecer-se,
    Vinham a ele e à morte oferecer-se.

    24
    "E com um amor intrínseco acendidos
    Da Fé, mais que das honras populares,
    Eram de várias terras conduzidos,
    Deixando a pátria amada e próprios lares.
    Depois que em feitos altos e subidos
    Se mostraram nas armas singulares,
    Quis o famoso Afonso que obras tais
    Levassem prémio digno e dons iguais.

    25
    "Destes Anrique, dizem que segundo
    Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
    Portugal houve em sorte, que no mundo
    Então não era ilustre nem prezado;
    E, para mais sinal d'amor profundo,
    Quis o Rei Castelhano, que casado
    Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
    E com ela das terras tornou posse.

    26
    "Este, depois que contra os descendentes
    Da escrava Agar vitórias grandes teve,
    Ganhando muitas terras adjacentes,
    Fazendo o que a seu forte peito deve,
    Em prémio destes feitos excelentes,
    Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
    Um filho, que ilustrasse o nome ufano
    Do belicoso Reino Lusitano.

    27
    "Já tinha vindo Anrique da conquista
    Da cidade Hierosólima sagrada,
    E do Jordão a areia tinha vista,
    Que viu de Deus a carne em si lavada;
    Que não tendo Gotfredo a quem resista,
    Depois de ter Judeia sojugada,
    Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
    Para seus senhorios se tornaram;

    28
    "Quando chegado ao fim de sua idade,
    O forte e famoso Úngaro estremado,
    Forçado da fatal necessidade,
    O espírito deu a quem lhe tinha dado,
    Ficava o filho em tenra mocidade,
    Em quem o pai deixava seu traslado,
    Que do mundo os mais fortes igualava;
    Que de tal pai tal filho se esperava.

    29
    "Mas o velho rumor, não sei se errado,
    Que em tanta antiguidade não há certeza,
    Conta que a mãe, tomando todo o estado,
    Do segundo himeneu não se despreza.
    O filho órfão deixava deserdado,
    Dizendo que nas terras a grandeza
    Do senhorio todo só sua era,
    Porque, para casar, seu pai lhes dera.

    30
    "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
    Se chamava, do avô tomando o nome,
    Vendo-se em suas terras não ter parte,
    Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
    Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
    Imagina consigo como as tome.
    Revolvidas as causas no conceito,
    Ao propósito firme segue o efeito.

    31
    "De Guimarães o campo se tingia
    Co'o sangue próprio da intestina guerra,
    Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
    A seu filho negava o amor e a terra.
    Com ele posta em campo já se via;
    E não vê a soberba o muito que erra
    Contra Deus, contra o maternal amor;
    Mas nela o sensual era maior.

    32
    "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
    Se em vossos próprios filhos vos vingais
    Da maldade dos pais, da culpa alheia,
    Olhai que inda Teresa peca mais:
    Incontinência má, cobiça feia,
    São as causas deste erro principais:
    Cila, por uma, mata o velho pai,
    Esta, por ambas, contra o filho vai.

    33
    "Mas já o Príncipe claro o vencimento
    Do padrasto e da iníqua mãe levava;
    Já lhe obedece a terra num momento,
    Que primeiro contra ele pelejava.
    Porém, vencido de ira o entendimento,
    A mãe em ferros ásperos atava;
    Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
    Tanta veneração aos pais se deve!

    34
    "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
    Para vingar a injúria de Teresa,
    Contra o tão raro em gente Lusitano,
    A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
    Em batalha cruel o peito humano,
    Ajudado da angélica defesa,
    Não só contra tal fúria se sustenta,
    Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

    35
    "Não passa muito tempo, quando o forte
    Príncipe em Guimarães está cercado
    De infinito poder; que desta sorte
    Foi refazer-se o inimigo magoado;
    Mas, com se oferecer à dura morte
    O fiel Egas amo, foi livrado;
    Que de outra arte pudera ser perdido,
    Segundo estava mal apercebido.

    36
    "lulas o leal vassalo, conhecendo
    Que seu senhor não tinha resistência,
    Se vai ao Castelhano, prometendo
    Que ele faria dar-lhe obediência.
    Levanta o inimigo o cerco horrendo,
    Fiado na promessa e consciência
    De Egas Moniz; mas não consente o peito
    Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

    37
    "Chegado tinha o prazo prometido,
    Em que o Rei Castelhano já aguardava
    Que o Príncipe, a seu mando sometido,
    Lhe desse a obediência que esperava.
    Vendo Egas que ficava fementido,
    O que dele Castela não cuidava,
    Determina de dar a doce vida
    A troco da palavra mal cumprida.

    38
    "E com seus filhos e mulher se parte
    A alevantar com eles a fiança,
    Descalços e despidos, de tal arte,
    Que mais move a piedade que a vingança.
    –"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
    De minha temerária confiança,
    Dizia, eis aqui venho oferecido
    A te pagar, coa vida, o prometido.

    39
    "Vês aqui trago as vidas inocentes
    Dos filhos sem pecado e da consorte;
    Se a peitos generosos e excelentes,
    Dos fracos satisfaz a fera morte.
    Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
    Nelas sós exprimenta toda a sorte
    De tormentos, de mortes, pelo estilo
    De Cínis e do touro de Perilo"!–

    40
    "Qual diante do algoz o condenado,
    Que já na vida a morte tem bebido,
    Põe no cepo a garganta, e já entregado
    Espera pelo golpe tão temido:
    Tal diante do Príncipe indinado,
    Egas estava a tudo oferecido.
    Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
    Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

    41
    "Ó grão fidelidade Portuguesa,
    De vassalo, que a tanto se obrigava!
    Que mais o Persa fez naquela empresa,
    Onde rosto e narizes se cortava?
    Do que ao grande Dario tanto pesa,
    Que mil vezes dizendo suspirava,
    Que mais o seu Zopiro são prezara,
    Que vinte Babilónias que tomara.

    42
    Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
    O Lusitano exército ditoso,
    Contra o Mouro que as terras habitava
    D'além do claro Tejo deleitoso;
    Já no campo de Ourique se assentava
    O arraial soberbo e belicoso,
    Defronte do inimigo Sarraceno,
    Posto que em força e gente tão pequeno.

    43
    "Em nenhuma outra cousa confiado,
    Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
    Que tão pouco era o povo batizado,
    Que para um só cem Mouros haveria.
    Julga qualquer juízo sossegado
    Por mais temeridade que ousadia,
    Cometer um tamanho ajuntamento,
    Que para um cavaleiro houvesse cento.

    44
    "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
    Dos quais o principal Ismar se chama;
    Todos exprimentados nos perigos
    Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
    Seguem guerreiras damas seus amigos,
    Imitando a formosa e forte Dama,
    De quem tanto os Troianos se ajudaram,
    E as que o Termodonte já gostaram.

    45
    "A matutina luz serena e fria,
    As estrelas do Pólo já apartava,
    Quando na Cruz o Filho de Maria,
    Amostrando-se a Afonso, o animava.
    Ele, adorando quem lhe aparecia,
    Na Fé todo inflamado assim gritava:
    –"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
    E não a mim, que creio o que podeis!"

    46
    "Com tal milagre os ânimos da gente
    Portuguesa inflamados, levantavam
    Por seu Rei natural este excelente
    Príncipe, que do peito tanto amavam;
    E diante do exército potente
    Dos imigos, gritando o céu tocavam,
    Dizendo em alta voz:–"Real, real,
    Por Afonso alto Rei de Portugal."

    47
    "Qual co'os gritos e vozes incitado,
    Pela montanha o rábido Moloso,
    Contra o touro remete, que fiado
    Na força está do corno temeroso:
    Ora pega na orelha, ora no lado,
    Latindo mais ligeiro que forçoso,
    Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
    Do bravo a força horrenda se quebranta:

    48
    "Tal do Rei novo o estâmago acendido
    Por Deus e pelo povo juntamente,
    O Bárbaro comete apercebido,
    Co'o animoso exército rompente.
    Levantam nisto os perros o alarido
    Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
    As lanças e arcos tomam, tubas soam,
    Instrumentos de guerra tudo atroam.

    49
    "Bem como quando a flama, que ateada
    Foi nos áridos campos (assoprando
    O sibilante Bóreas) animada
    Co'o vento, o seco mato vai queimando;
    A pastoral companha, que deitada
    Co'o doce sono estava, despertando
    Ao estridor do fogo que se ateia,
    Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

    50
    "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
    Toma sem tento as armas mui depressa;
    Não foge; mas espera confiado,
    E o ginete belígero arremessa.
    O Português o encontra denodado,
    Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
    Uns caem meios mortos, e outros vão
    A ajuda convocando do Alcorão.

    51
    "Ali se vêem encontros temerosos,
    Para se desfazer uma alta serra,
    E os animais correndo furiosos
    Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
    Golpes se dão medonhos e forçosos;
    Por toda a parte andava acesa a guerra:
    Mas o de Luso arnês, couraça e malha
    Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

    52
    "Cabeças pelo campo vão saltando
    Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
    E doutros as entranhas palpitando,
    Pálida a cor, o gesto amortecido.
    Já perde o campo o exército nefando;
    Correm rios de sangue desparzido,
    Com que também do campo a cor se perde,
    Tornado carmesi de branco e verde.

    53
    "Já fica vencedor o Lusitano,
    Recolhendo os troféus e presa rica;
    Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
    Três dias o grão Rei no campo fiei.
    Aqui pinta no branco escudo ufano,
    Que agora esta vitória certifica,
    Cinco escudos azuis esclarecidos,
    Em sinal destes cinco Reis vencidos,

    54
    "E nestes cinco escudos pinta os trinta
    Dinheiros por que Deus fora vendido,
    Escrevendo a memória em vária tinta,
    Daquele de quem foi favorecido.
    Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
    Porque assim fica o número cumprido,
    Contando duas vezes o do meio,
    Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

    55
    "Passado já algum tempo que passada
    Era esta grão vitória, o Rei subido
    A tomar vai Leiria, que tomada
    Fora, mui pouco havia, do vencido.
    Com esta a forte Arronches sojugada
    Foi juntamente, e o sempre enobrecido
    Scalabicastro, cujo campo ameno,
    Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

    56
    "A estas nobres vilas sometidas,
    Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
    E nas serras da Lua conhecidas,
    Sojuga a fria Sintra o duro braço;
    Sintra, onde as Naiades, escondidas
    Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
    Onde Amor as enreda brandamente,
    Nas águas acendendo fogo ardente.

    57
    "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
    Facilmente das outras és princesa,
    Que edificada foste do facundo,
    Por cujo engano foi Dardânia acesa;
    Tu, a quem obedece o mar profundo,
    Obedeceste à força Portuguesa,
    Ajudada também da forte armada,
    Que das Boreais partes foi mandada.

    58
    "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
    E da fria Bretanha conduzidos,
    A destruir o povo Sarraceno,
    Muitos com tensão santa eram partidos.
    Entrando a boca já do Tejo ameno,
    Co'o arraial do grande Afonso unidos,
    Cuja alta fama então subia aos Céus,
    Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

    59
    "Cinco vezes a Lua se escondera,
    E outras tantas mostrara cheio o rosto,
    Quando a cidade entrada se rendera
    Ao duro cerco, que lhe estava posto.
    Foi a batalha tão sanguina e fera,
    Quanto obrigava o firme pressuposto
    De vencedores ásperos e ousados,
    E de vencidos já desesperados.

    60
    "Desta arte enfim tomada se rendeu
    Aquela que, nos tempos já passados,
    A grande força nunca obedeceu
    Dos frios povos Cíticos ousados,
    Cujo poder a tanto se estendeu
    Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
    E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
    Que à terra de Vandália nome deram.

    61
    "Que cidade tão forte por ventura
    Haverá que resista, se Lisboa
    Não pôde resistir à força dura
    Da gente, cuja fama tanto voa?
    Já lhe obedece toda a Estremadura,
    Óbidos, Alenquer, por onde soa
    O tom das frescas águas, entre as pedras,
    Que murmurando lava, e Torres Vedras.

    62
    "E vós também, ó terras Transtaganas,
    Afamadas co'o dom da flava Ceres,
    Obedeceis às forças mais que humanas,
    Entregando-lhe os muros e os poderes.
    E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
    Se sustentar a fértil terra queres;
    Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
    E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

    63
    "Eis a nobre Cidade, certo assento
    Do rebelde Sertório antigamente,
    Onde ora as águas nítidas de argento
    Vem sustentar de longo a terra e a gente,
    Pelos arcos reais, que cento e cento
    Nos ares se alevantam nobremente,
    Obedeceu por meio e ousadia
    De Giraldo, que medos não temia.

    64
    "Já na cidade Beja vai tomar
    Vingança de Trancoso destruída
    Afonso, que não sabe sossegar,
    Por estender coa fama a curta vida.
    Não se lhe pode muito sustentar
    A cidade; mas sendo já rendida,
    Em toda a cousa viva a gente irada
    Provando os fios vai da dura espada.

    65
    "Com estas sojugada foi Palmela,
    E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
    Sendo ajudado mais de sua estrela,
    Desbarata um exército potente:
    Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
    Que a socorrê-la vinha diligente
    Pela fralda da serra, descuidado
    Do temeroso encontro inopinado.

    66
    "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
    Com quatro mil cavalos furiosos,
    Inúmeros peões, d'armas e de ouro
    Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
    Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
    Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
    Sentindo gente o bruto e cego amante
    Salteia o descuidado caminhante:

    67
    "Desta arte Afonso súbito mostrado
    Na gente dá, que passa bem segura,
    Fere, mata, derriba denodado;
    Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
    Dum pânico terror todo assombrado,
    Só de segui-lo o exército procura;
    Sendo estes que fizeram tanto abalo
    Não mais que só sessenta de cavalo.

    68
    "Logo segue a vitória sem tardança
    O grão Rei incansábil, ajuntando
    Gentes de todo o Reino, cuja usança
    Era andar sempre terras conquistando.
    Cercar vai Badajoz, e logo alcança
    O fim de seu desejo, pelejando
    Com tanto esforço, e arte, e valentia,
    Que a fez fazer às outras companhia.

    69
    "Mas o alto Deus, que para longe guarda
    O castigo daquele que o merece,
    Ou, para que se emende, às vezes tarda,
    Ou por segredos que homem não conhece,
    Se até que sempre o forte Rei resguarda
    Dos perigos a que ele se oferece;
    Agora lhe não deixa ter defesa
    Da maldição da mãe que estava presa.

    70
    "Que estando na cidade, que cercara,
    Cercado nela foi dos Lioneses,
    Porque a conquista dela lhe tomara,
    De Lião sendo, e não dos Portugueses.
    A pertinácia aqui lhe custa cara,
    Assim como acontece muitas vezes,
    Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
    A batalha, onde foi vencido e preso.

    71
    "Ó famoso Pompeio, não te pene
    De teus feitos ilustres a ruína,
    Nem ver que a justa Némesis ordene
    Ter teu sogro de ti vitória dina,
    Posto que o frio Fásis, ou Siene,
    Que para nenhum cabo a sombra inclina,
    O Bootes gelado e a linha ardente,
    Temessem o teu nome geralmente.

    72
    "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
    Eníocos e Colcos, cuja fama
    O Véu dourado estende, e os Capadoces,
    E Judeia, que um Deus adora e ama,
    E que os moles Sofenos, e os atroces
    Cilícios, com a Arménia, que derrama
    As águas dos dous rios, cuja fonte
    Está noutro mais alto e santo monte;

    73
    "E posto enfim que desde o mar de Atlante
    Até o Cítico Tauro monte erguido,
    Já vencedor te vissem, não te espanto
    Se o campo Emátio só te viu vencido,
    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
    Tudo render-se ser depois rendido.
    Assim o quis o conselho alto e celeste,
    Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

    74
    "Tornado o Rei sublime finalmente,
    Do divino Juízo castigado,
    Depois que em Santarém soberbamente
    Em vão dos Sarracenos foi cercado,
    E depois que do mártire Vicente
    O santíssimo corpo venerado
    Do Sacro Promontório conhecido
    A cidade Ulisseia foi trazido;

    75
    "Porque levasse avante seu desejo,
    Ao forte filho manda o lasso velho
    Que às terras se passasse d'Alentejo,
    Com gente e co'o belígero aparelho.
    Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
    Avante passa, e faz correr vermelho
    O rio que Sevilha vai regando,
    Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

    76
    "E com esta vitória cobiçoso,
    Já não descansa o moço até que veja
    Outro estrago como este, temeroso,
    No Bárbaro que tem cercado Beja.
    Não tarda muito o Príncipe ditoso
    Sem ver o fim daquilo que deseja.
    Assim estragado o Mouro, na vingança
    De tantas perdas põe sua esperança.

    77
    "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
    O corpo fez perder, que teve o Céu;
    Já vem do promontório de Ampelusa
    E do Tinge, que assento foi de Anteu.
    O morador de Abila não se escusa,
    Que também com suas armas se moveu,
    Ao som da Mauritana e ronca tuba,
    Todo o Reino que foi do nobre Juba.

    78
    "Entrava com toda esta companhia
    O Miralmomini em Portugal;
    Treze Reis mouros leva de valia,
    Entre os quais tem o ceptro imperial;
    E assim fazendo quanto mal podia,
    O que em partes podia fazer mal,
    Dom Sancho vai cercar em Santarém;
    Porém não lhe sucede muito bem.

    79
    "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
    Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
    Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
    Mina secreta, aríete forçoso:
    Porque o filho de Afonso não perdendo
    Nada do esforço e acordo generoso,
    Tudo provê com ânimo e prudência;
    Que em toda a parte há esforço e resistência.

    80
    "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
    Os trabalhosos anos ao sossego,
    Estando na cidade, cujo prado
    Enverdecem as águas do Mondego,
    Sabendo como o filho está cercado
    Em Santarém do Mauro povo cego,
    Se parte diligente da cidade;
    Que não perde a presteza coa idade.

    81
    "E coa famosa gente à guerra usada
    Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
    A Portuguesa fúria costumada
    Em breve os Mouros tem desbaratados.
    A campina, que toda está coalhada
    De marlotas, capuzes variados,
    De cavalos, jaezes, presa rica,
    De seus senhores mortos cheia fica.

    82
    "Logo todo o restante se partiu
    De Lusitânia, postos em fugida;
    O Miralmomini só não fugiu,
    Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
    A quem lhe esta vitória permitiu
    Dão louvores e graças sem medida:
    Que em casos tão estranhos claramente
    Mais peleja o favor de Deus que a gente.

    83
    "De tamanhas vitórias triunfava
    O velho Afonso, Príncipe subido,
    Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
    Da larga e muita idade foi vencido.
    A pálida doença lhe tocava
    Com fria mão o corpo enfraquecido;
    E pagaram seus anos deste jeito
    A triste Libitina seu direito.

    84
    "Os altos promontórios o choraram,
    E dos rios as águas saudosas
    Os semeados campos alagaram
    Com lágrimas correndo piedosas.
    Mas tanto pelo mundo se alargaram
    Com faina suas obras valerosas,
    Que sempre no seu Reino chamarão
    "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

    85
    "Sancho, forte mancebo, que ficara
    Imitando seu pai na valentia,
    E que em sua vida já se exprimentara,
    Quando o Bétis de sangue se tingia,
    E o bárbaro poder desbaratara
    Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
    E mais quando os que Beja em vão cercaram,
    Os golpes de seu braço em si provaram;

    86
    "Depois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    87
    "Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, coa gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    88
    "Mas a formosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assim como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado Silves toma,
    E o bravo morador destrue e doma.

    89
    "E se tantos troféus do Mahometa
    Alevantando vai, também do forte
    Lionês não consente estar quieta
    A terra, usada aos casos de Mavorte,
    Até que na cerviz seu jugo meta
    Da soberba Tui, que a mesma sorte
    Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
    Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

    90
    "Mas entre tantas palmas salteado
    Da temerosa morte, fica herdeiro
    Um filho seu, de todos estimado,
    Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
    No tempo deste, aos Mouros foi tomado
    Alcácere-do-Sal por derradeiro;
    Porque dantes os Mouros o tomaram,
    Mas agora estruídos o pagaram.

    91
    "Morto depois Afonso, lhe sucede
    Sancho segundo, manso e descuidado,
    Que tanto em seus descuidos se desmede,
    Que de outrem, quem mandava, era mandado.
    De governar o Reino, que outro pede,
    Por causa dos privados foi privado,
    Porque, como por eles se regia,
    Em todos os seus vícios consentia.

    92
    "Não era Sancho, não, tão desonesto
    Como Nero, que um moço recebia
    Por mulher, e depois horrendo incesto
    Com a mãe Agripina cometia;
    Nem tão cruel às gentes e molesto,
    Que a cidade queimasse onde vivia,
    Nem tão mau como foi Heliogabalo,
    Nem como o mole Rei Sardanapalo.

    93
    "Nem era o povo seu tiranizado,
    Como Sicília foi de seus tiranos;
    Nem tinha como Fálaris achado
    Gênero de tormentos inumanos;
    Mas o Reino, de altivo e costumado
    A senhores em tudo soberanos,
    A Rei não obedece, nem consente,
    Que não for mais que todos excelente.

    94
    "Por esta causa o Reino governou
    O Conde Bolonhês, depois alçado
    Por Rei, quando da vida se apartou
    Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
    Este, que Afonso o bravo, se chamou,
    Depois de ter o Reino segurado,
    Em dilatá-lo cuida, que em terreno
    Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

    95
    "Da terra dos Algarves, que lhe fora
    Em casamento dada, grande parte
    Recupera co'o braço, e deita fora
    O Mouro, mal querido já de Marte.
    Este de todo fez livre e senhora
    Lusitânia, com força e bélica arte;
    E acabou de oprimir a nação forte,
    Na terra que aos de Luso coube em sorte.

    96
    "Eis depois vem Dinis, que bem parece
    Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
    Com quem a fama grande se escurece
    Da liberalidade Alexandrina.
    Com este o Reino próspero florece
    (Alcançada já a paz áurea divina)
    Em constituições, leis e costumes,
    Na terra já tranquila claros lumes.

    97
    "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva;
    E de Helicona as Musas fez passar-se
    A pisar do Monde-o a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
    Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
    Do bácaro e do sempre verde louro.

    98
    "Nobres vilas de novo edificou
    Fortalezas, castelos mui seguros,
    E quase o Reino todo reformou
    Com edifícios grandes, e altos muros.
    Mas depois que a dura Átropos cortou
    O fio de seus dias já maduros,
    Ficou-lhe o filho pouco obediente,
    Quarto Afonso, mas forte e excelente.

    99
    "Este sempre as soberbas Castelhanas
    Co'o peito desprezou firme e sereno,
    Porque não é das forças Lusitanas,
    Temer poder maior, por mais pequeno.
    Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
    A possuir o Hespérico terreno
    Entraram pelas terras de Castela,
    Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

    100
    "Nunca com Semirâmis gente tanta
    Veio os campos idáspicos enchendo,
    Nem Atila, que Itália toda espanta,
    Chamando-se de Deus açoute horrendo,
    Gótica gente trouxe tanta, quanta
    Do Sarraceno bárbaro estupendo,
    Co'o poder excessivo de Granada,
    Foi nos campos Tartésios ajuntada.

    101
    "E vendo o Rei sublime Castelhano
    A força inexpugnábil, grande e forte,
    Temendo mais o fim do povo hispano,
    Já perdido uma vez, que a própria morte,
    Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
    Lhe mandava a caríssima consorte,
    Mulher de quem a manda, e filha amada
    Daquele a cujo Reino foi mandada.

    102
    "Entrava a formosíssima Maria
    Pelos paternais paços sublimados,
    Lindo o gesto, mas fora de alegria,
    E seus olhos em lágrimas banhados;
    Os cabelos angélicos trazia
    Pelos ebúrneos ombros espalhados:
    Diante do pai ledo, que a agasalha,
    Estas palavras tais, chorando, espalha:

    103
    –"Quantos povos a terra produziu
    De África toda, gente fera e estranha,
    O grão Rei de Marrocos conduziu
    Para vir possuir a nobre Espanha:
    Poder tamanho junto não se viu,
    Depois que o salso mar a terra banha.
    Trazem ferocidade, e furor tanto,
    Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

    104
    –"Aquele que me deste por marido,
    Por defender sua terra amedrontada,
    Co'o pequeno poder, oferecido
    Ao duro golpe está da Maura espada;
    E se não for contigo socorrido,
    Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
    Viúva e triste, e posta em vida escura,
    Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

    105
    "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
    O corrente Muluca se congela,
    Rompe toda a tardança, acude cedo
    A miseranda gente de Castela.
    Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
    De pai o verdadeiro amor assela,
    Acude e corre, pai, que se não corres,
    Pode ser que não aches quem socorres."–

    106
    "Não de outra sorte a tímida Maria
    Falando está, que a triste Vénus, quando
    A Júpiter, seu pai, favor pedia
    Para Eneias, seu filho, navegando;
    Que a tanta piedade o comovia
    Que, caído das mãos o raio infando,
    Tudo o clemente Padre lhe concede,
    Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

    107
    "Mas já co'os esquadrões da gente armada
    Os Eborenses campos vão coalhados:
    Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
    Vão rinchando os cavalos jaezados.
    A canora trombeta embandeirada,
    Os corações à paz acostumados
    Vai às fulgentes armas incitando,
    Pelas concavidades retumbando.

    108
    "Entre todos no meio se sublima,
    Das insígnias Reais acompanhado,
    O valeroso Afonso, que por cima
    De todos leva o colo alevantado;
    E somente co'o gesto esforça e anima
    A qualquer coração amedrontado.
    Assim entra nas terras de Castela
    Com a filha gentil, Rainha dela.

    109
    "Juntos os dous Afonsos finalmente
    Nos campos de Tarifa estão defronte
    Da grande multidão da cega gente,
    Para quem são pequenos campo e monte.
    Não há peito tão alto e tão potente,
    Que de desconfiança não se afronte,
    Enquanto não conheça e claro veja
    Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

    110
    "Estão de Agar os netos quase rindo
    Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
    As terras como suas repartindo
    Antemão, entre o exército Agareno,
    Que com título falso possuindo
    Está o famoso nome Sarraceno.
    Assim também com falsa conta e nua,
    À nobre terra alheia chamam sua.

    111
    "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
    Do rei Saul, com causa, tão temido,
    Vendo o pastor inerme estar diante,
    Só de pedras e esforço apercebido,
    Com palavras soberbas o arrogante
    Despreza o fraco moço mal vestido,
    Que, rodeando a funda, o desengana
    Quanto mais pode a Fé que a força humana:

    112
    "Desta arte o Mouro pérfido despreza
    O poder dos Cristãos, e não entende
    Que está ajudado da Alta Fortaleza,
    A quem o inferno horrífico se rende.
    Co ela o Castelhano, e com destreza
    De Marrocos o Rei comete e ofende.
    O Português, que tudo estima em nada,
    Se faz temer ao Reino de Granada.

    113
    "Eis as lanças e espadas retiniam
    Por cima dos arneses: bravo estrago!
    Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
    Uns Mafamede, e os outros Santiago.
    Os feridos com grita o Céu feriam,
    Fazendo de seu sangue bruto lago,
    Onde outros meios mortos se afogavam,
    Quando do ferro as vidas escapavam.

    114
    "Com esforço tamanho estrui e mata
    O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
    Totalmente o poder lhe desbarata,
    Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
    De alcançar tal vitória tão barata
    Inda não bem contente o forte braço,
    Vai ajudar ao bravo Castelhano,
    Que pelejando está co'o Mauritano.

    115
    "Já se ia o Sol ardente recolhendo
    Para a casa de Tethys, e inclinado
    Para o Ponente, o Véspero trazendo,
    Estava o claro dia memorado,
    Quando o poder do Mauro grande e horrendo
    Foi pelos fortes Reis desbaratado,
    Com tanta mortandade, que a memória
    Nunca no mundo viu tão grã vitória.

    116
    "Não matou a quarta parte o forte Mário
    Dos que morreram neste vencimento,
    Quando as águas co'o sangue do adversário
    Fez beber ao exército sedento;
    Nem o Peno asperíssimo contrário
    Do Romano poder, de nascimento,
    Quando tantos matou da ilustro Roma,
    Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

    117
    "E se tu tantas almas só pudeste
    Mandar ao Reino escuro de Cocito,
    Quando a santa Cidade desfizeste
    Do povo pertinaz no antigo rito:
    Permissão e vingança foi celeste,
    E não força de braço, ó nobre Tito,
    Que assim dos Vates foi profetizado,
    E depois por Jesu certificado.

    118
    "Passada esta tão próspera vitória,
    Tornando Afonso à Lusitana terra,
    A se lograr da paz com tanta glória
    Quanta soube ganhar na dura guerra,
    O caso triste, e dino da memória,
    Que do sepulcro os homens desenterra,
    Aconteceu da mísera e mesquinha
    Que depois de ser morta foi Rainha.

    119
    "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
    Que os corações humanos tanto obriga,
    Deste causa à molesta morte sua,
    Como se fora pérfida inimiga.
    Se dizem, fero Amor, que a sede tua
    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
    É porque queres, áspero e tirano,
    Tuas aras banhar em sangue humano.

    120
    "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruto,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuto,
    Aos montes ensinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    121
    "Do teu Príncipe ali te respondiam
    As lembranças que na alma lhe moravam,
    Que sempre ante seus olhos te traziam,
    Quando dos teus fermosos se apartavam:
    De noite em doces sonhos, que mentiam,
    De dia em pensamentos, que voavam.
    E quanto enfim cuidava, e quanto via,
    Eram tudo memórias de alegria.

    122
    "De outras belas senhoras e Princesas
    Os desejados tálamos enjeita,
    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
    Quando um gesto suave te sujeita.
    Vendo estas namoradas estranhezas
    O velho pai sesudo, que respeita
    O murmurar do povo, e a fantasia
    Do filho, que casar-se não queria,

    123
    "Tirar Inês ao mundo determina,
    Por lhe tirar o filho que tem preso,
    Crendo co'o sangue só da morte indina
    Matar do firme amor o fogo aceso.
    Que furor consentiu que a espada fina,
    Que pôde sustentar o grande peso
    Do furor Mauro, fosse alevantada
    Contra uma fraca dama delicada?

    124
    "Traziam-na os horríficos algozes
    Ante o Rei, já movido a piedade:
    Mas o povo, com falsas e ferozes
    Razões, à morte crua o persuade.
    Ela com tristes o piedosas vozes,
    Saídas só da mágoa, e saudade
    Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
    Que mais que a própria morte a magoava,

  • Os fidalgos da Casa Mourisca

    Os fidalgos da Casa Mourisca

    Aproximadamente 147.699 palavras.

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    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    OS FIDALGOS

    DA

    CASA MOURISCA

    CHRONICA DA ALDEIA

    POR

    *JULIO DINIZ*

    *VOLUME I*

    *PORTO*

    TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
    Rua Ferreira Borges, 31

    1871

    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    I

    A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se
    remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas.

    Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É,
    porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz
    habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança
    os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos
    de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa
    época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem
    illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances
    nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares
    publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades
    do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles
    tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos.

    Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão
    se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na
    soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em
    silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação
    extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas
    formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços
    invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a
    palavra magica.

    Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é
    propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros
    por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já
    não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os
    descobrir.

    Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente
    facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um
    solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer
    particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio
    designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria
    da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a
    lendaria e mysteriosa época dos mouros.

    Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos,
    que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos
    Fidalgos da Casa Mourisca.

    Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição
    pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que
    mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre
    denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas
    de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas
    e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a
    certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga
    familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a
    qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte.
    Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente
    respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo
    á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me
    imponham a obrigação de descrevel-a miudamente.

    Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de
    architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa,
    quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á
    aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle
    vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes
    disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter
    uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o.

    Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que
    o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado
    pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto
    d'aquella residencia, sempre magestoso e severo.

    Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para
    fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o
    velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e
    além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da
    capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro,
    abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita:
    e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia
    de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma
    serie de melancolicas reflexões.

    E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a
    familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus
    primeiros e espontaneos juizos.

    Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o
    pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os
    seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes,
    Jorge, ainda não completára vinte e tres annos.

    A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da
    provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco,
    embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos,
    desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os
    curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em
    charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e
    os muros de circunscripção das quintas.

    Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra
    pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou
    apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte.

    Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o
    fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um
    verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse
    para morgado.

    Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz
    podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de
    mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua
    provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que
    o tractavam com uma deferencia excepcional.

    Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande
    sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não
    abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna,
    casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa
    corte, encarregado de negocios politicos.

    Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda
    revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se
    logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar
    diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas
    scenas politicas d'essa época.

    Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe
    amarguraram o resto da vida.

    Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal.

    D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as
    relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da
    pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e
    irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava.

    O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á
    perseguição.

    O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á
    vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais
    tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos
    generosos e juvenis.

    Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras
    das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão,
    não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas.

    Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as
    supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle
    rancor.

    O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi
    imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar
    livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus
    perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda
    expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa
    emancipação politica.

    Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu
    porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto
    anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella
    sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz
    um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia
    inscrever o seu nome.

    A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D.
    Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um
    golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella
    convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas.

    Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou
    então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus
    despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame
    de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que
    tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos
    da humanidade.

    O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos
    correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova
    organisação social.

    Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia
    ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos
    liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli
    homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia.

    A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou
    não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a
    tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava
    assim.

    A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres
    filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio
    pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem
    aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga
    consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas
    violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o
    caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a
    mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns
    remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade,
    com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado
    do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que
    tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se
    encarniçára o odio do implacavel realista.

    Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima
    lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do
    combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a
    quem tanto queria.

    D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria
    da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que
    a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores
    particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra
    companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo.
    Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na
    Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa
    mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão
    que fallecêra.

    Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos
    d'aquella familia.

    Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia,
    cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre
    os seus caracteres infantis.

    Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os
    habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres
    descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois
    rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão
    retirado da provincia, como aquelle era.

    Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se
    esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se
    atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas
    por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano.

    A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um
    profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que
    o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia
    liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia
    guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia.

    Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa
    prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de
    que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente,
    seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor
    vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos
    dos mestres.

    Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos
    seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação
    heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo,
    costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um
    martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario.

    Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão.

    O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles
    tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo
    ultimo suspiro recolhêra.

    As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do
    velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um
    encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que
    elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do
    Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra
    de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e
    finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um
    enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa
    imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural.

    As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial
    de tantos feitos heroicos.

    E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos,
    encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo
    affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de
    os amarem de reflexão.

    Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia.

    A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario
    desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos
    sacrificios.

    D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel
    aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a
    procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando
    recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que
    se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um
    obstaculo áquella ruina.

    O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de
    letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada
    residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores.

    Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio,
    que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas,
    homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha
    capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre
    sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a
    propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o
    que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que
    fizessem os administradores da casa para a manter no costumado
    esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação.
    Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam
    que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com
    que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe
    d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é
    certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia
    só.

    Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.

    Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido
    tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as
    lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe
    ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No
    fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.

    D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja
    missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não
    havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração
    d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem.

    O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos,
    se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na
    presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos,
    queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato
    refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da
    criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os
    cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de
    desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com
    tanta força sabia odiar.

    E não era só o pae que experimentava essa influencia.

    Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a
    bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós
    com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um
    espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender
    o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo,
    que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos,
    lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo.

    Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a
    um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu
    desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o
    continham nos desvarios.

    Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião.

    Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos
    labios, e prostrou-a exanime no tumulo.

    Fez-se então devéras escuro no espirito do pae.

    Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão
    vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A
    vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres
    homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os
    seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se
    assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz
    que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada
    fulmina inesperada cegueira.

    Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e
    concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em
    Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos,
    das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A
    alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua
    mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem.

    Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava.

    Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi
    immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para
    nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia.

    O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a
    companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da
    sua antiga côrte.

    Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel
    enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario
    passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos
    seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões
    do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.

    O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os
    mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli
    o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com
    impaciencia as horas da comida.

    Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na
    Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma
    aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia
    fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta,
    com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes
    rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao
    fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo
    a familia inteira.

    D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia
    n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano,
    satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o
    contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem
    o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os
    remoques encapotados do procurador.

    Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae
    procural-a a nossa narração.

    Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de
    D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum
    prático.

    D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A
    nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada
    pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos
    Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos
    principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados
    no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos
    dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas
    se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este
    territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo
    mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só
    se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!

    Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo
    cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida,
    cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de
    rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.

    Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos;
    porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia
    mais a differença se pronunciava.

    Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido.
    Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae,
    o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse
    a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as
    raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma
    saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda
    quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou
    pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o
    como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem
    n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca
    um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e
    intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor
    no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se
    para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro
    debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo.

    As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás
    mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes
    podem vir perigos desconhecidos.

    Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu
    primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de
    galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde
    então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão
    tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza
    feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.

    Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e
    elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias
    tinha uma memoria ingrata.

    Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida
    a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario
    tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura
    nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto
    alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos
    livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como
    reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente
    a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a
    pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas
    instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe
    haviam imposto como dogmas.

    A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam
    passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da
    decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe
    ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro.

    Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais
    frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia;
    deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e
    das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil
    fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A
    sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente
    inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o
    espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão.

    Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição
    d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em
    Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.

    Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já
    suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não
    passaria ella tambem desapercebida.

    Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia
    as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos
    arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios
    pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.

    O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.

    Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os
    signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo
    aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o
    futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria,
    o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio,
    correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas
    construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um
    celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras
    vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas
    galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares
    productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e
    proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam
    incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do
    palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas
    raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de
    bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais
    modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o
    serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras
    para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes
    a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa
    Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e
    melancolico.

    Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no
    espirito de Jorge o espectro que o entristecia.

    O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,
    passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma
    fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco
    tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia
    numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.

    Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão
    pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco?

    Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito
    de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do
    palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da
    propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto
    silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores.

    II

    Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa
    terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos.
    Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
    cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
    rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
    alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
    pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
    de que já fallamos.

    Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
    encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
    montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de
    fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos
    dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
    se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.

    Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
    eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
    o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
    quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as
    cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
    series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um
    arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das
    fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da
    lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
    erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
    do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.

    O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas
    tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
    robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.

    E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas
    meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
    de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão
    desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.

    Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
    petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
    habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça,
    que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
    latidos e cabriolas.

    Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão,
    exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:

    –Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não
    desespero de te vêr um dia fazer versos.

    Jorge respondeu, encolhendo os hombros:

    –Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
    d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de
    tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então…

    –Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás,
    sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma
    importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas,
    quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as
    fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os
    unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?

    Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
    Monté sur la montagne en presence des cieux?

    E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
    do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos
    ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
    cuidados seus.

    Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
    monte.

    Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:

    –Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
    Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é
    bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para
    deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que
    nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
    inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece
    que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.

    E acrescentou, suspirando:

    –Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os
    actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!

    Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á
    simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
    arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.

    Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os
    olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:

    –Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha
    notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.

    –Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar
    minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.

    –Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu
    observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.

    –Qual era então?

    –Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella
    gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!

    –Ora adeus!–exclamou Mauricio–é justamente o que me não roubaria um
    momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de
    insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se
    passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para
    estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo
    isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se
    elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para
    gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
    Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a
    trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
    vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma
    sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.

    Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:

    –Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça;
    e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
    entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o
    contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
    em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
    montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
    tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até,
    para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria
    encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
    mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
    allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso
    enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
    torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.

    –Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
    muito longe.

    –Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
    muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e
    mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
    admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
    prejudica a belleza d'esta paisagem?

    –Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
    fundo que lhe fazem os castanheiros!

    –Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas
    realidades–observou Jorge, suspirando.

    Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o
    fitou, Jorge correspondeu, dizendo:

    –Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
    Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
    nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
    celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza,
    Mauricio?

    –Pobreza?!

    –Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
    d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
    paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
    chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a
    desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.

    Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
    tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
    vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até
    então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.

    Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:

    –Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A
    riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia… oh! essa
    deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira
    da opulencia.

    –Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da
    opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
    de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
    maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
    civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello
    arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
    granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
    enthusiasmo e de fé no futuro.

    Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
    de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou
    erguendo-se e com affectado estouvamento:

    –Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é…
    é… é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas
    ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
    passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E
    ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
    poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem
    foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
    Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
    vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
    emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes
    pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando
    nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
    musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
    silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará
    o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de
    aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!

    –No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!–acudiu Jorge–Mas
    antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a
    nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
    os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
    anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
    trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
    que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
    dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
    pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
    os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.

    –Não o nego, mas… na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
    quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
    será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.

    –O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo
    prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.

    –Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá;
    lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
    escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
    o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor
    negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É
    bom para dissipar visões.

    –Não estou hoje para caçar.

    –Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?

    –Não, vou reatal-o acolá.

    –Vaes á Herdade?!

    –Vou.

    –Fazer o quê?

    –Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.

    –Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?

    –Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.

    –Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
    vêr-te ao jantar de melhor aspecto.

    –Adeus, Mauricio.

    E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em
    direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
    Herdade.

    III

    Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde
    desejar-se.

    «Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o
    homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a
    alegria.

    Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle.
    Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia
    com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes
    laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo
    superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade
    toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou
    outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição
    dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o
    Porto, chamado por negocios relativos á lavoura.

    Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos
    contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua
    aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em
    certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em
    familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a
    lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os
    desalentos.

    Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos
    trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã.

    Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas
    o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se
    familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois;
    sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo
    ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.

    Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas
    eiras e quinteiros da Herdade.

    E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo
    a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e
    da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta
    mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,
    sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais
    crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.

    –Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me
    arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça… Ó meu maluco, não
    reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo
    isso, que eu não quero nada desperdiçado… Está quieto, João, vae para
    casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois,
    menino! Ai que tu… Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles
    homens…. Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por
    causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje
    não posso olhar por isso… Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu
    fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle
    milho que eu te disse; corre… O moleiro já veio? Pois as azenhas já
    moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora… Ó Manoel, arreda
    esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de
    Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?
    Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro;
    elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que
    podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano.
    Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para
    os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas?
    Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje.
    Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.

    No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi
    Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:

    –Ai, ó Thomé, olha quem alli está!

    O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do
    quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo
    espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.

    Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo
    ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A
    granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma
    lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu
    orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.

    Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a
    familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia
    e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em
    casa do fidalgo.

    Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações
    com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina
    em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre
    indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de
    seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que
    houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com
    elle.

    Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os
    trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não
    voltarem lá.

    Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas
    possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do
    fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a
    mulher:

    –Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de
    morrer.

    Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar
    signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o
    rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.

    –Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas
    emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada.
    Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira… ou deixa estar, é melhor entrar
    lá para dentro.

    –Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou
    sentado.

    –Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda
    então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?

    –Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta
    lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli
    de cima: por isso desci.

    –Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles
    meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.

    E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com
    grandes olhos para Jorge.

    –São todos seus?–perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos
    joelhos.

    –E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade.

    –Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?

    –Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu
    vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e
    nada mais.

    –Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o
    seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim.

    –Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia–acrescentou olhando para o
    sol–d'aqui a nada vae esta gente jantar e… Para onde levas tu esse
    carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos… Eu
    attendo-o já.

    E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e
    encaminhou o carro na direcção conveniente.

    –Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões
    este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge–disse elle,
    regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.

    Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.

    –Como está crescido e fero–dizia ella, olhando-o com curiosidade e
    complacencia–e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na
    ponte do Giestal. Pareceu-me bom.

    –E como está seu pae, snr. Jorge?–perguntou Thomé gravemente.

    Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos
    criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia
    recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.

    Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando
    o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos
    fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro
    suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma
    curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos
    presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:

    –Venham jantar.

    Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo
    ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada.

    –São horas do seu jantar, Thomé–disse Jorge, levantando-se para sahir.

    –Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde
    attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe
    offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar
    uma volta por os campos emquanto elles jantam…

    –Se lhe não causar incommodo…

    –Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que
    mandei abrir lá em baixo.

    E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé
    obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.

    E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns
    pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a
    quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na
    construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da
    nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os
    cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao
    amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar,
    onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.

    Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando
    grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da
    categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com
    tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de
    lavoura.

    E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que
    por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um
    proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade;
    acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que
    Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres
    Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.

    Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas
    informações.

    Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma
    propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital
    exigido para a elevar a esse grau de florescencia.

    Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a
    melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.

    A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que
    terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a
    fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:

    –E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de
    ortigas e saramagos, Thomé?

    Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar
    penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia
    até o fundo do pensamento de uma pessoa.

    –Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?–perguntou elle logo depois,
    com um tom de voz serio e quasi triste.

    –Quero, sim.

    –É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o
    fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.

    Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou:

    –É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e
    porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de
    Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde
    que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o
    menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de
    serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua
    que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o
    suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem
    confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi
    está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás
    terras–acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a
    allusão, que não escapára a Jorge.

    –Mas como se explica isto, Thomé?–continuou Jorge com a docilidade de
    um discipulo–os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura;
    passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes
    visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa
    casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje…

    –Isso lá… Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e
    não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o
    está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa
    robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças,
    não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um
    certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno
    que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?

    –Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de
    que–proseguiu Jorge pensativo–n'aquelles tempos, as classes
    privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de
    dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os
    desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado
    as condições sociaes, e agora ao acordarem…

    Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu
    interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa
    Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:

    –E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda?

    Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia.

    –Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa
    dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá.

    –Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas
    arvores–observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado
    solar e para os bosques seculares que o rodeavam.

    –Talvez deitasse–disse Thomé–póde bem ser que o fizesse, porque lá
    amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu,
    que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes
    negras, porque alli passei um tempo… mau era elle de certo… mas
    emfim… sempre tinha vinte annos…, eu, que me não atreveria a
    deitar-lhe o machado… ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que
    esteve.

    Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi
    de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se
    para a Casa Mourisca:

    –Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos
    teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para
    vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim
    Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não
    destruir na reforma.

    Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com
    dignidade:

    –Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,
    que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios
    olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos?

    –Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer
    um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.

    –Senhor Jorge–acudiu Thomé com um ar quasi solemne–resolva-se devéras
    a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira
    do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da
    praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal
    ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto
    e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os
    n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde
    chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os
    capitaes, chegará o credito.

    –É uma esmola que me offerece, Thomé?–perguntou Jorge, mas sem o menor
    signal de irritação.

    –Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia
    fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo,
    menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha
    um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se
    um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e
    resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,
    mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro
    que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica
    mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade
    os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem
    emprestado?

    –Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o
    emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.

    –Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?…
    Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois
    se tenho razão no que digo.

    E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a
    nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:

    –Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida,
    que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,
    que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do
    romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer
    de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos
    açudes e o palheirito que fica ao lado?

    –Bem sei.

    –Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo
    casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,
    mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na
    tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe
    falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor
    Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto.

    –Ainda tenho uma ideia de o vêr.

    –Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre
    prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a
    novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas,
    as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as
    mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira
    que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.

    –Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto.

    –A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria
    faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei
    para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o
    caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como
    não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me
    diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e
    atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das
    arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não
    houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram
    completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor
    Menezes.

    –E elle?

    –Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as
    pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então
    o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª
    sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora
    se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro
    virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o
    dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a
    vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e
    disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E
    você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para
    elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É
    celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro
    que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma
    coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro,
    ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do
    seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me
    deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da
    sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu
    proximo.»

    –Bella alma!–exclamou Jorge commovido pela narração.

    Thomé continuou:

    –«Em todo o caso–disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor–você fez hoje
    um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu
    visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe
    aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o
    capital e hoje arranjou-o.

    –Que queria elle dizer n'isso?

    –Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,
    porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez,
    mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que
    tractar.»

    –E que lhe queria elle?–perguntou Jorge, cada vez mais attento.

    –No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle
    tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé,
    sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a
    sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto
    de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o
    menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das
    Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de
    arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:
    «Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e
    você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e
    estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas,
    disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços
    para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem,
    torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao
    desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os
    caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem
    fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se
    não esfomeassem a terra.

    –Mas esse homem era um grande philosopho!–observou Jorge.

    –«Vá você para lá–continuou elle–tracte-me bem d'aquillo, e os
    capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas
    obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia
    apostar que ambos havemos de lucrar.

    –E o Thomé foi?

    –Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e
    depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que
    o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na
    terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava
    com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador.
    Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé,
    dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a
    longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da
    mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a
    ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,
    juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não
    abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo
    quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que
    fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto
    vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava
    em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me
    tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me
    elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em
    comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te
    chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um
    cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que
    negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o
    caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.

    –Mas a final sempre comprou?

    –Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era
    ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr.
    doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra
    todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a
    propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que
    nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,
    emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a
    isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como
    continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de
    gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e
    remir a divida.

    Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé
    da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos
    radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.

    –Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!
    Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação
    no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma
    criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como
    um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava
    quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá
    dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra
    coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu!
    Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros,
    que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e
    cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu
    abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses
    tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas
    arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final…. quer que lhe
    diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra!
    beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito
    trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,
    em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de
    cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim
    na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e
    que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma
    coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu
    soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um
    cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim
    causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento
    era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as
    arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo
    nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus
    ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr.
    Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu
    pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.

    Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:

    –Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e
    n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a
    rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse
    dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e
    ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.
    Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.

    –Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda
    a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu
    futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o
    menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer
    missas, porque depois…

    –Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque
    meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu
    pae…

    Thomé da Povoa não o deixou concluir.

    –Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da
    casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle
    ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto
    que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do
    que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca,
    eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não
    gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os
    serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.

    Jorge disse finalmente com resolução:

    –Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da
    ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será
    impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.

    –E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa
    n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro
    escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.

    A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o
    jantar esperava por elle.

    Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção,
    que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter
    com o pae.

    Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e
    realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.

    A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar
    voltou para a eira, cantando.

    Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.

    IV

    Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
    janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
    esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
    capellão-procurador frei Januario dos Anjos.

    Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.

    Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
    occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
    amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o
    deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei
    Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era
    para se devassar de prompto.

    D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
    Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições
    liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas–a liberdade de
    imprensa–; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
    complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.

    De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
    approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
    pelo governo, que nunca tinha razão.

    Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico,
    as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com
    que eram fulminados os homens da época.

    Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações,
    voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava
    dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
    Os intervallos das refeições eram para elle seculos!

    –Humh!–disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado
    com o que lêra–Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço
    de estrada de Valle-escuro!

    –Fartos sejam elles de estradas!–acudiu logo frei Januario–Para esta
    gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
    diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja?
    Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão
    por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
    tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.

    Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
    elle não faltava vontade… de comer. O certo é que, mudando de tom,
    acrescentou:

    –Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi
    duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
    coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.

    E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que
    elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
    familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do
    jantar.

    D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do
    padre, que entrou indignado.

    –Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do
    jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde
    descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer
    crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta
    casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
    libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
    errado… Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em
    que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
    Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
    quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que
    andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão
    a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
    cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando
    não…

    D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e
    da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
    hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.

    D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
    succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião
    abatêra, resultando muitas victimas.

    A indignação do padre exaltou-se.

    –Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
    abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se
    importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem
    estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram
    os homens da Carta! Isto é bonito!

    E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
    crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos
    governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim
    subsidios e de lhe dar importancia demasiada.

    A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.

    D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a
    serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
    contrahida synthese:

    –Isto vae cada vez melhor, frei Januario.

    –Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma–secundou o padre.

    –O peior é o futuro–tornou o fidalgo, assombrado.

    –Ai, o futuro ha de ser fresco!–repetiu o procurador, fungando uma
    pitada.

    –Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta
    torrente.

    –E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
    hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira
    por que vão as coisas…

    –Ai, pobre Portugal!–exclamou melancolicamente D. Luiz.

    –Que vaes á vela–concluiu o padre.–Desde que puzeram a cabeça á roda
    a esta gente com liberalismos… ficou tudo transtornado. Agora todos
    mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que
    governe… Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma
    casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
    vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se
    servidos!

    O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.

    –O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
    sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada,
    aos pobres rapazes!–disse o fidalgo, suspirando com escuras
    apprehensões sobre a posição precaria da familia.

    –Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes
    homens!–exclamou com vehemencia o padre–É não fazer como a sobrinha de
    v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles.
    Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.

    –É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
    em parte preparado por nós–insistia o fidalgo.–Tambem peccamos.

    –Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que
    nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
    nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no
    fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi
    levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o
    dinheiro.

    –O Thomé da Herdade!–repetiu D. Luiz com amargura–Esse é que
    prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!

    –Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que
    o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
    alguem?

    –A Bertha?

    –Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma
    coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição
    falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que
    ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve
    para algum dos seus filhos.

    D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.

    –Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella
    tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me
    dirá v. exc.ª?

    –Todos hoje teem aspirações a subir–reflectiu D. Luiz com ironia.–A
    maré sóbe.

    –Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da
    barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido
    e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas
    parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje
    todos por lá tem excellencia!

    N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar
    os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as
    instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a
    ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,
    cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus
    desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente
    para ir vêr se o jantar estava servido.

    Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo.
    Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca
    aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e
    esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.

    D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o
    capellão.

    Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com
    quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia
    presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais
    melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao
    sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos
    conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.

    D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,
    apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.

    –Então os senhores não ouviram a sineta?

    –Os senhores ainda não vieram.

    –Nem Jorge?–perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
    Mauricio.

    –Nem um, nem outro.

    –O snr. D. Mauricio–observou o padre, que temia um adiamento do
    jantar–sahiu para a caça; quando virá elle agora?

    E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.

    –E Jorge?–insistiu o pae.

    –O snr. D. Jorge… esse não sei… talvez esteja ahi por alguma parte.

    O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que
    ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar
    a jantar sem elles.

    O jantar correu em silencio.

    O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo
    ao dialogo.

    Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o
    competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.

    D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.

    Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
    mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
    silencioso.

    Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes
    exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
    isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:

    –Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o
    que viu por esses campos?

    –Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural–respondeu Jorge.

    –Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.

    –Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não
    vejo o movimento dos outros?

    A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.

    –Causou-me sensação isto hoje–proseguiu Jorge.–Quem subir ao alto do
    outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o
    valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
    quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
    cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.

    –Não é tanto assim… É verdade que… meu rico filho, que quer? depois
    que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
    mudaram. Quem não está por o que elles querem…

    –Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
    impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
    pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?

    –O que os outros fazem, diz elle! Os outros… os outros… e quem são
    os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os
    cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.

    –Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa
    posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.

    –Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos,
    para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa
    é muito boa!

    –E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?

    –Á miseria… á miseria!… Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
    Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino
    ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e…

    As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
    energia e irritação:

    –Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de
    vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade,
    quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade
    d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
    para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
    gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
    responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
    dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me
    responda, snr. frei Januario.

    –Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
    cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra
    com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja
    suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?

    –E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
    por ahi se arruinam?

    –Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os
    lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está
    de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a
    certa gente!

    –O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não
    diz que eram uns miseraveis?

    –Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
    enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o
    fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.

    –Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos
    sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos
    ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
    nos enleia e que nos ha de afogar a todos.

    –Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha
    quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
    confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!

    –Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de
    administração?

    –Os meus planos?!… Ora essa!… Então que planos quer que sejam os
    meus? Systema de administração!… isso é phrase de côrtes… Humh!
    tenho entendido… É o que eu digo… Ó snr. Jorge, ora falle-me a
    verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã?
    ora diga.

    –Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é
    que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas
    agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
    repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
    quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
    grandeza do mal que nos opprime.

    –E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?

    –Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis,
    que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
    hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época
    não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de
    actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util
    pelo trabalho honrado.

    –Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
    costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!

    –Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.

    –Que vae fazer, snr. Jorge?

    –O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa
    familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que
    esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.

    –Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora… ora… ora… ora
    esta não está má!

    –Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não
    o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso
    não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda
    n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
    comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
    que ainda temos, para comprar dois bois.

    –Mas…

    –Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.

    –Mas…

    Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
    assustado, o chamou.

    –Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
    razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem;
    e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a
    culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o
    mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa,
    d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á
    vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde
    que os liberaes…

    –Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu
    tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me
    deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!… Os liberaes o
    que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
    pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e
    instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem
    severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
    lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
    ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da
    propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
    e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
    na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
    prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si
    um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero
    conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.

    –Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas
    fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua
    casa devia ser muito bem servida com ellas?

    –Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente
    administrada não póde pois perder com ellas.

    –Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
    ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr
    acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia
    de gostar–argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
    apanhava em falso o seu adversario.

    Jorge respondeu serenamente:

    –E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto
    de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance
    politico.

    –Ai… ai… ai… O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!…
    Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
    illustres do reino… Ai, como elle está!…

    –Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas
    que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
    trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
    familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei.
    Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que
    elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser
    deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
    d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde
    saberá das consequencias d'elle.

    E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.

    –Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o
    morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é
    outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho… já estou de
    pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um
    prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um
    castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe
    chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor
    do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a
    cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é
    uma coisa muito appetitosa… Será, será, mas eu, por mim, se pudesse
    deixar de trabalhar… Ah! ah! ah.

    Aqui bocejava o egresso.

    –Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde
    estou. Como elle fallou nos morgados!… Provará que é tão pateta que,
    sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae… Não
    declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o
    deixem… O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim,
    contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade,
    quem puder deixar de trabalhar…

    Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco
    invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma
    especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja
    ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.

    Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
    angulos da Casa Mourisca.

    V

    Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera
    occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com
    attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
    responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.

    A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
    proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
    applicação pratica qualquer.

    Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura
    arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
    instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
    necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas
    arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
    soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que
    consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles
    lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus
    avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que
    não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.

    Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
    fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle
    os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de
    Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
    fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
    consultava.

    A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi
    ao fechar da tarde.

    Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa
    com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação.
    Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
    antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte,
    sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.

    Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
    irmão, interrogou-o:

    –Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?

    –Deixa-me, Jorge–respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
    pondo-se a passear no quarto.–Se soubesses como eu venho suffocado de
    raiva?

    –Contra quem?

    –Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
    que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o
    mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!

    –Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
    hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.

    –É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha
    sangue nas veias e pundonor no coração.

    –E sangue tambem no coração–emendou Jorge, sorrindo.–Olha que tambem
    é lá preciso.

    –Não rias, Jorge! Por quem és!–tornou o irmão despeitado.–Bem vês que
    fallo seriamente.

    –Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.

    –Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca
    felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa
    sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
    quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção
    das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no
    pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os
    cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
    do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
    grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde
    andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é
    terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe
    respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para
    mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que
    estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma
    risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
    que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a
    cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha
    palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado,
    mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
    correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
    primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
    gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu
    a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi
    tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a
    ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
    de fallar nas dividas da nossa casa?

    –Quem as contrahiu e não procura pagal-as–respondeu, triste mas
    placidamente, Jorge.

    E logo depois acrescentou:

    –Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês
    agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.

    –O que foi?

    –Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
    para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.

    –Inevitaveis?! Eu te juro…

    –Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
    calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
    que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito
    que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
    que me fez pensar.

    –Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?

    –Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.

    –Sim, mas de que maneira?

    –Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores
    insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
    lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.

    –Queres então fazer-te lavrador?

    –Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
    dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos
    despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
    perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
    pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
    Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós?
    Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
    familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de
    ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica
    não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
    patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram
    entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes
    como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
    pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á
    religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza.
    O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços
    particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por
    toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
    genealogicas; desengana-te.

    –Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não
    sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?

    –Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso
    deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos
    desprezar do que nós a elles.

    –Desprezar-nos!–repetiu indignado Mauricio.

    –Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito.
    Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia
    não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
    dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em
    pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres
    pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
    e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
    em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens
    que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas
    casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder,
    Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
    precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?

    –Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que…

    –Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
    salvar, se quizermos ser homens.

    –E como?

    –Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.

    –Mas…

    –D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
    pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das
    nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda
    certa.

    –Mas que entendes tu de administração?

    –Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses
    rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.

    Mauricio ficou pensativo.

    A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
    achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo
    o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
    vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o
    seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á
    primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por
    o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança
    n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
    duração.

    Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
    uma impetuosidade juvenil:

    –Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
    e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma
    missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
    a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
    a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos
    figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por
    exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado
    sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
    sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos,
    a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará
    sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.

    Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
    e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em
    honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
    habitual serenidade:

    –Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem
    adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
    illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas
    a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
    fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
    desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela
    razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
    composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
    mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
    vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
    que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das
    materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
    ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
    trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a
    viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
    fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira
    d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
    que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a
    contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes
    ficar a montear por estas aldeias.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Aproximadamente 50.547 palavras.

    Produced by Carla Martins Ramos, Ricardo Diogo, and Tiago
    Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt).

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

    *TOMO VII*

    *QUESTÕES PUBLICAS*

    TOMO IV

    1.^a EDIÇÃO

    LISBOA

    TAVARES CARDOSO & IRMÃO–EDITORES

    _5, Largo de Camões, 6

    1898

    Typ. da Empreza Litteraria e Typographica

    Rua de D. Pedro, 184–Porto

    ADVERTENCIA

    O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a
    data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos
    ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida
    do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos
    para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar
    com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um
    vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,
    politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a
    entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,
    entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão
    esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da
    recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo
    quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara
    e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte
    d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em
    diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um
    formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia
    de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com
    esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura
    dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,
    facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de
    emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na
    cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o
    apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu
    ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,
    pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;
    mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto
    ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes
    considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre
    vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento
    d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos
    fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de
    poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção
    dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos
    de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera
    com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para
    o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior
    proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos
    fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22
    de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento
    do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se
    tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se
    conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo
    Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a
    essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então
    effectuadas segundo a lei de 1846.

    Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.
    Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de
    1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,
    outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.
    Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume
    apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes
    importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,
    tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.
    A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de
    1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os
    concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas
    do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não
    attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella
    devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos
    recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para
    prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as
    opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle
    plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do
    concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de
    vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o
    pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o
    ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este
    modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações
    da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para
    satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.
    Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração
    mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse
    procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da
    sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que
    falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local
    que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros
    concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que
    em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a
    grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas
    profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa
    prosperidade e força politica.

    Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.
    Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o
    historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que
    ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.

    1898.

    Os editores.

    DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA

    1843

    Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi
    D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o
    reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em
    ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,
    e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e
    magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,
    mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em
    conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou
    sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV
    levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V
    tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia
    lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João
    V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo
    vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que
    só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.

    D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com
    o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz
    n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o
    palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo
    inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com
    púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo
    que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que
    sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do
    seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão
    brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos
    andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo
    isso.

    Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe
    quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que
    n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das
    artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.
    Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos
    que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma
    chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos
    historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os
    homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas
    a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas
    inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração
    que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro
    de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por
    motivo tal foi a architectura sincera.

    Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira
    grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como
    os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do
    templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma
    velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines
    ou de Tertulliano.

    Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei
    liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal
    na primeira metade do seculo XVIII.

    Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender
    quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,
    em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A
    Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva
    como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,
    santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que
    edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,
    deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,
    crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A
    Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,
    ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão
    complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo
    povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.

    O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um
    edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas
    vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia
    fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida
    e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo
    anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses
    generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.

    Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:
    que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque
    se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua
    decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque
    principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai
    esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões
    pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do
    sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;
    deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e
    confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o
    mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a
    escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será
    grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a
    precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não
    tem procellas.

    O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e
    ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre
    terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:
    e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta
    situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,
    posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não
    foi riscado do livro dos eternos destinos.

    Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo
    o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento
    industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira
    entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem
    incontestavelmente sido o nosso principal progresso.

    Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de
    regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia
    substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas
    geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri
    a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil
    monumentos que significarão o espirito do presente.

    Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o
    céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,
    a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as
    tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das
    montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações
    virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto
    universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um
    hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor
    e gratidão de nossos filhos!

    Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans
    grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas
    eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas
    pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente
    estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos
    ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de
    muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão
    de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores
    tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que
    coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,
    hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da
    Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas
    e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a
    qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no
    comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem
    repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.

    A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram
    nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a
    segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente
    quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o
    symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em
    pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre
    ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e
    o amor do trabalho.

    Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos
    os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado
    de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras
    hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a
    curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o
    preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;
    mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia
    tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados
    de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e
    as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;
    transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde
    dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome
    manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.

    A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo
    edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou
    uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:
    serão no futuro bençãos da posteridade.

    O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua
    juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre
    mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos
    que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.
    Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das
    injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os
    membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte
    e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento
    redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas
    solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos
    capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas
    passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta
    o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do
    estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria
    não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as
    ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?

    A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios
    creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo
    zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á
    munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem
    algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que
    mais vale, em fructos de verdadeira gloria.

    Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,
    estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e
    outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde
    raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar
    continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no
    meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um
    symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu
    conjuncto–o orgulho tendo por fundamento o nada.

    Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos
    incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino
    Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,
    e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada
    mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os
    trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as
    despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que
    talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o
    pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que
    ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.

    O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de
    tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser
    prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro
    progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos
    proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam
    os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da
    imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada
    nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o
    exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos
    ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de
    estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae
    estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça
    sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.
    Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do
    paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos
    seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de
    Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos
    melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da
    Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito
    exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos
    agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam
    ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e
    progressivo pensamento d'este seculo.

    Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar
    á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,
    cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até
    hoje.

    O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.
    Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos
    habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O
    inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a
    quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o
    solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito
    deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa
    cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta
    tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no
    anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,
    cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que
    de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas
    onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos
    sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,
    e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e
    nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,
    os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.

    Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já
    uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas
    entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi
    são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na
    começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores
    methodos modernos, e com attenção a importantes considerações
    hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o
    tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa
    se bom ou máu.

    Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de
    regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados
    como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este
    estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da
    azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que
    separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão
    os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.

    As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a
    luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a
    anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens
    ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem
    adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o
    methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de
    luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma
    especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de
    pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de
    luzerna que não fosse transplantada.

    O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e
    tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.
    Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e
    supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas
    construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar
    convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar
    um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.

    A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de
    agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo–o noroeste. Este vento
    sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que
    vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste
    na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas
    ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema
    d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas
    até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os
    pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados
    que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os
    castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,
    quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e
    então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e
    fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando
    extensos e bem ordenados viveiros.

    Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante
    extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer
    progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos
    brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.
    Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as
    terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.

    Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são
    construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso
    principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça
    grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades
    triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de
    traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do
    paiz construidos com perfeição.

    Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses
    maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante
    transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz
    n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as
    vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae
    abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos
    livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma
    fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este
    é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos
    abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações
    da sciencia–o alimento para o espirito.

    O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado
    da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São
    dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a
    philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as
    intelligencias que fizeram surgir um e outro.

    BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA

    1849

    Ajuda, 8 de março de 1849

    Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz
    de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno
    em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças
    dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal
    tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.

    Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é
    cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é
    respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á
    fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é
    generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta
    situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente
    proveito para o futuro.

    O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do
    seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da
    America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a
    tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os
    sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam
    para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então
    que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades
    da religião.

    Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons
    missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas
    verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para
    interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que
    vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,
    praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos
    seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella
    depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.

    Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem
    lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,
    aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para
    insinuar n'estes importantes verdades.

    A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma
    pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,
    a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.
    Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha
    das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma
    certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de
    todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.

    Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,
    podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado
    pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que
    sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos
    cereaes.

    Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar
    é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é
    necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria
    onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes
    n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é
    proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a
    natureza a supprir a alimentação dos animaes.

    Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo
    de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,
    pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,
    imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento
    quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina
    fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma
    larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.

    As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a
    producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma
    grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se
    collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada
    proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e
    embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o
    anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e
    o cultivador fica sempre miseravel.

    A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a
    negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para
    este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na
    distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e
    engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas
    tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão
    que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de
    uma abundancia mais apparente que real.

    Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,
    pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós
    talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma
    infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso
    _d'intensidade_ na agricultura nacional.

    Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por
    diversos modos a nossa situação deploravel.

    De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os
    interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio
    pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que
    possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi
    exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á
    Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança
    nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a
    faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da
    Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa
    actividade intellectual e material.

    Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;
    perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto
    pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.

    Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas
    hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a
    segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e
    reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os
    prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses
    recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão
    para resistir ás incertezas das estações?

    O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava
    ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta
    pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,
    variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que
    porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que
    não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.

    Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,
    essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para
    os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima
    adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»

    Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o
    sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo
    que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,
    limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.

    E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria
    agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr
    annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por
    centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,
    fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção
    excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,
    mais admiravel?

    Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da
    nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que
    dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas
    noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de
    humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes
    productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras
    fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem
    odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,
    que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são
    o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia
    lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o
    seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à
    perdição.

    Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de
    contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A
    Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,
    que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do
    destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na
    Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde
    se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos
    dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do
    norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as
    encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o
    orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na
    verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao
    cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas
    impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão
    vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como
    advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem
    mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.
    Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio
    contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição
    das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.

    O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos
    arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica
    indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos
    sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as
    penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e
    enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,
    pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o
    baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs
    são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás
    maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos
    terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,
    ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso
    clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para
    ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia
    duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,
    n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados
    dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa
    propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma
    quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura
    exclusiva.

    A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais
    graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a
    natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até
    certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de
    afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem
    uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema
    sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações
    judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de
    multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo
    a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,
    não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de
    adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,
    pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe
    necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para
    ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a
    carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em
    que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de
    principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação
    dos animaes.

    Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de
    consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de
    consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos
    incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas
    vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os
    povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os
    supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter
    combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas
    á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha
    de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.
    Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados
    emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,
    achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta
    de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto
    que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se
    vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a
    que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente
    sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.

    Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no
    interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma
    porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,
    cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a
    escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno
    correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos
    deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,
    forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de
    pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros
    terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou
    o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos
    visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela
    devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes
    do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores
    um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de
    um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o
    rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a
    reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo
    interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de
    vir.

    E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova
    que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações
    de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que
    finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento
    das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias
    economicas, os meios de progresso material, as indicações da
    experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra
    ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a
    que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do
    nosso dominio.

    S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de
    Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e
    calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de
    verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se
    vão prolongando até a beira do oceano.

    Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho
    uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o
    dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso
    era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno
    acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da
    vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio
    porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;
    tem-n'a ás miserias da terra.

    Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne
    mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.
    Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o
    deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de
    previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,
    que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto
    redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.
    Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da
    industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a
    pretensão de justa, e a intenção de progressiva.

    E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias
    economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as
    metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos
    dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso
    exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem
    de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,
    incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja
    perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de
    nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das
    discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe
    compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não
    acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito
    commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe
    calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro
    qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o
    ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos
    convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas
    paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.

    Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o
    aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma
    das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de
    S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as
    preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não
    aconteceu assim.

    O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do
    maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.
    Pinta o paiz.

    Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões
    tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes
    malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as
    verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não
    appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.

    Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra
    abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem
    quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A
    mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma
    grande parte da serra.

    Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às
    solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe
    parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos
    que carneiros. O bom Sancho era um typo!

    Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o
    remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se
    façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo
    logico.

    Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos
    frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha
    das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os
    estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas
    raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as
    em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza
    de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as
    converter em combustivel.

    E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma
    epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?

    No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á
    serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o
    que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil
    braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.

    Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de
    trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual
    força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes
    jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que
    possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel
    à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial
    ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela
    jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas
    quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia
    agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso
    não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam
    lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados
    vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou
    meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens
    laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do
    vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da
    indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se
    oppõe ao verdadeiro progresso agricola.

    Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.
    Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?

    Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:
    deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;
    que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é
    illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os
    homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao
    pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão
    nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem
    a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.
    Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás
    conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria
    sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de
    elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um
    passado de independencia e de probidade politica, é generoso não
    vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem
    poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.

    A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos
    communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está
    resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa
    questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não
    vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de
    mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;
    estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da
    agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,
    aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na
    questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,
    accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a
    distribuição e applicação dos maninhos.

    A GRANJA DO CALHARIZ

    1851

    Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,
    maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos
    curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se
    pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão
    das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa
    litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou
    sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.
    Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus
    auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e
    discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo
    são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as
    doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se
    escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas
    quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero
    de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam
    na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e
    pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar
    associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as
    reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no
    paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um
    cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem
    que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando
    uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos
    interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos
    resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de
    subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,
    (para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes
    aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes
    especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr
    ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto
    positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,
    onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis
    paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,
    bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural
    pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante
    trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos
    melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento
    agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,
    d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar
    os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,
    contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem
    unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa
    parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,
    uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em
    qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,
    não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor
    proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.
    A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da
    revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que
    tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em
    certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que
    todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por
    certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por
    ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É
    necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias
    agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido
    illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,
    feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades
    rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é
    determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de
    productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,
    preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas
    illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas
    doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do
    jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé
    da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que
    tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a
    sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.
    Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia
    bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como
    o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões
    modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,
    que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais
    sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a
    _rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma
    gloriosa… mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de
    quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)
    ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo
    amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a
    condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á
    vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os
    consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que
    esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,
    teem até certo ponto razão?

    D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:
    d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna
    na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não
    seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte
    especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é
    contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não
    estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor
    escala? Parece-me que sim.

    E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões
    agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.
    Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado
    aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto
    de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de
    quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo
    grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.
    Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado
    com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os
    resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle
    estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as
    cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de
    agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o
    custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,
    não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito
    que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir
    opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se
    accommodadas sempre a este solo e a este clima?

    Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os
    elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos
    foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da
    terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do
    desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões
    scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter
    relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas
    que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a
    Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como
    desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais
    habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a
    imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos
    institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que
    não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples
    particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que
    os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na
    edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em
    manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que
    nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos
    nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a
    que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse
    d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita
    Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido
    duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á
    patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada
    devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.

    Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.
    Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a
    acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que
    sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando
    casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em
    muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que
    tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração
    nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo
    a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se
    tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o
    snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia
    sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias
    custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a
    _de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,
    que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.

    Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje
    as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres
    cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o
    agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes
    esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou
    lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.

    PROJECTO DE DECRETO

    1851

    Senhora!

    O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de
    trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de
    propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento
    de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro
    acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se
    assim um desenvolvimento vigoroso de população.

    Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a
    Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os
    espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não
    legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de
    uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado
    mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e
    terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de
    contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque
    o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto
    que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por
    esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes
    illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos
    especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,
    que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a
    propriedade e a familia sejam completamente annulladas.

    Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação
    comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que
    rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é
    incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa
    para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os
    riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer
    diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e
    do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil
    factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade
    dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que
    não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o
    supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais
    adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;
    combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade
    humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi
    nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a
    liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos
    mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,
    aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao
    feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de
    similhante natureza.

    Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as
    complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma
    grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate
    desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas
    e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;
    previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;
    aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de
    modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,
    nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais
    atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação
    as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder
    com prudencia.

    Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,
    ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem
    accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que
    possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra
    pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos
    oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em
    todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes
    inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,
    e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança
    pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a
    patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para
    outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os
    interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a
    propriedade sabem inspirar.

    Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha
    e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população
    agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços
    robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de
    frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande
    consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o
    espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que
    rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e
    pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de
    paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem
    comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as
    suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as
    exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.

    Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá
    dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de
    terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.
    Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas
    presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia
    publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.
    Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar
    se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e
    os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura
    prosperidade do paiz.

    Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos
    directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo
    procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por
    condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia
    de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as
    provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.
    Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de
    produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,
    não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a
    suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio
    de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a
    subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura
    a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao
    imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito
    necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo
    progressivo da renda publica.

    A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para
    facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário
    applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,
    pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e
    principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como
    effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o
    instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o
    proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados
    politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode
    ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.

    Á emphyteuse e ao systema parcellario teem opposto, Senhora, varias
    considerações economicas, os adversarios d'essa instituição, filha da
    civilisação romana, que resistindo a todos os abalos, a todas as
    transformações profundas verificadas durante os seculos medios, chegou
    até nós, abonando por esse facto a sua congruencia com a indole das
    sociedades humanas. Considerada no seu valor absoluto, e pelas regras da
    moral e da justiça, nada se vê na separação entre o dominio directo e
    util, que offenda uma ou outra. Os motivos para a preferir á
    allodialidade, ou para lhe preferir esta são todos relativos,
    condicionaes. Olhada a questão em these, como theoria abstracta, algumas
    razões podem militar a favor da allodialidade, mas, era hypothese, em
    relação ao nosso estado actual, a emphyteuse é preferivel se quizermos
    dar impulso á cultura e mais rapido movimento á transmissão da
    propriedade. N'um paiz onde a representação monetaria escacea, onde o
    atrazo da sciencia agronomica é incontestavel, onde, emfim, a elevação
    do salario e a depreciação dos generos teem produzido um desiquilibrio
    embaraçoso para o cultivador, a consideração acima feita de que o
    principio da allodialidade, isto é, a compra do fundo, absorve desde
    logo uma parte do capital, que nos aforamentos se substitue, em rigor,
    pela promessa de um juro, juro pagavel depois de obtido o producto da
    applicação do capital, bem demonstra que aquelle principio não soffre
    comparação com o emphyteutico, e quanto este será efficaz para os fins a
    que se destina o presente decreto.

    Modificada pelo systema parcellario a emphyteuse contrapõe-se ao systema
    dos latifundios allodiaes. Caracterisados assim, a antinomia entre os
    dous principios torna-se mais evidente e profunda. Mas é aqui tambem
    onde a superioridade de um ao outro, se torna mais incontestavel. Os
    defensores dos vastos allodios ponderam que a grande cultura é só
    propria dos extensos terrenos, só ella é compativel com os grandes
    melhoramentos, só ahi se podem introduzir as machinas, que produzindo
    mais barato facilitam o consumo; e, não podendo negar os inconveníentes
    sociaes da grande propriedade, accrescentam que sujeitos ao direito
    commum, esses predios se retalharão pela divisão forçada das successões,
    resultando d'ahi que dentro de curto praso ha-de apparecer um novo
    phenomeno economico e agricola; isto é, que a propriedade, dividindo-se
    quanto ao dominio, se conservará unida quanto ao trabalho, porque de
    outro modo, separando-se, individualisando-se o trabalho, a grande seria
    forçosamente substituida pela pequena cultura, e inutilisando-se as
    machinas, os novos possuidores do solo teriam de annullar um capital
    avultado sem vantagem conhecida. Assim quanto a elles, a exploração
    industrial da terra se conservará unida pela associação, ao passo que o
    dominio se irá retalhando atravez de todas as phases possiveis, n'uma
    esphera separada.

    Estas doutrinas, Senhora, são inexactas em grande parte. Pondo de lado
    os inconvenientes, as difficuldades prácticas da associação applicada ao
    trabalho agricola, quando, separado o dominio, o valor do producto
    relativo a cada fracção do fundo, não é só determinado pela applicação
    do trabalho, mas tambem pela força productiva do solo, grandemente
    variavel em vastos tractos de terra; suppondo possivel e até fácil
    similhante associação, e admittindo sem reserva os seus importantes
    effeitos, não se vê como o incitamento do interesse individual não possa
    conduzir os colonos no systema emphyteutico, a associarem-se para
    substituir pela grande a pequena cultura, adoptando as machinas que
    barateam os productos e empregando um trabalho commum. Por outra parte é
    inexacto que a pequena cultura não possa simplificar-se pela introducção
    de machinas e instrumentos novos ou aperfeiçoados, embora n'um grau
    inferior ao da grande cultura, e por isso fazer tambem descer até certo
    ponto o valor das subsistencias e dos outros productos agricolas,
    accrescendo a essa consideração o facto incontestavel, de que se a
    introducção dos instrumentos e machinas que simplificam o trabalho
    agricola, acha mais poderosos incentivos na grande cultura, os methodos
    aperfeiçoados teem nascido e nascem quotidianamente, da experiencia e
    das necessidades da pequena cultura. Independentemente porém, d'este
    argumento, sendo a divisão do solo pela indole da allodialidade sem
    questão mais tardia do que pela emphyteuse parcellaria, favorecida
    immediatamente pela lei, porque privaremos a geração presente, o homem
    de trabalho actual, do beneficio que queremos proporcionar aos
    vindouros? Emfim, Senhora, os que attribuem tão rapidos e efficazes
    effeitos aos obitos e ás successões, attenderam a todos os factos que
    modificam e retardam esses effeitos? Lembraram-se, por exemplo, dos
    consorcios, dos dotes, das terças e de tantas outras instituições civis,
    tendentes a entorpecer esse meio, sem duvida poderoso, de retalhar os
    predios rusticos? Attenderam acaso aos usos immemoriaes de algumas
    provincias, como o Alemtejo, onde o costume dos chamados quinhões torna
    a allodialidade inutil para a divisão das grandes herdades, porque se
    reparte a renda mas fica o solo unido em poder de um só agricultor?

    Que o systema da emphyteuse parcellaria seja o meio mais efficaz e
    talvez unico de chamar as classes humildes á propriedade, parece
    evidente. A acquisição do dominio pleno de vastos predios suppõe
    avultados capitaes. A dos pequenos predios suppõe-nos menores; mas ainda
    os suppõe. Nos emprazamentos de áreas limitadas como aquellas cujo
    maximo se fixa no presente decreto, e que é o mesmo estabelecido no
    Alvará de 27 de novembro de 1804, as economias do simples seareiro, do
    operario rural, bastarão de ordinario para as despezas do arroteamento.
    Elle conta além d'isso com os proprios braços, com o auxilio de sua
    mulher e de seus filhos, recursos cuja efficacia o sentimento da
    propriedade sabe redobrar de um modo maravilhoso. Como consequencia do
    facto logo que os aforamentos d'esta especie se facilitem e protejam, o
    trabalhador celibatario, a quem convidam as exempções concedidas por
    este decreto, e que uma ambição legitima incita a aproveitar-se do
    beneficio da lei, cuidará em associar a si uma companheira que o auxilie
    na sua laboriosa empreza. Assim os consorcios serão promovidos e
    portanto o desenvolvimento da população.

    Se, porém, a applicação do capital quasi unico das classes pobres, o
    trabalho dos proprios braços se torna não só possivel mas tambem facil
    pela emphyteuse parcellaria, o emprego do grande capital monetario
    torna-se onde ella predomina assaz difficil. A experiencia quotidiana
    nos ensina que os pequenos predios ruraes cultivados por conta do seu
    dono, mas não pelas mãos d'elle são constantemente causa de ruina. A
    pequena cultura exige grande numero de prevenções, e de economias
    insignificantes mas severas, uma actividade contínua, um zelo sem
    limites, um meditar incessante em tornar productiva a minima parcella de
    terra. Nada d'isto se obtem a troco de salarios, com que o homem do
    capital monetario tem de contar para alem d'isso obter um lucro, e com
    que o homem de trabalho não conta porque tirando da cultura o seu
    salario e o da sua familia, elle considera a somma d'esses salarios como
    o principal lucro. Assim os capitaes amoedados não podendo fraccionar-se
    em pequenas e ruinosas emprezas, operarão com dobrada energia na grande
    cultura que sempre ha-de ser avultada, ao passo que se tornarão mais
    accessiveis á industria fabril.

    A consideração mais grave que se pode oppor á idea que predomina n'esta
    proposta de decreto, e o Governo não quer, Senhora, dissimulal-a, é que
    abrindo-se em larga escala o caminho da propriedade ás classes
    trabalhadoras, os agricultores actuaes, que já laboram na difficuldade
    do augmento gradual do salario ao lado da diminuição de valor nos
    productos, verão crescer essa difficuldade pela distracção de um
    avultado numero de braços que habilitados para trabalhar por conta
    propria, recusarão fazel-o por conta alheia. Até certo ponto a
    consideração é verdadeira. Mas por um lado ha algumas que a attenuam, e
    por outro o governo pode e ha-de empregar os meios para que esse
    inconveniente seja compensado. Primeiro que tudo como o recurso unico do
    operario é o trabalho, ha-de verificar-se frequentemente o que já
    acontece por muitas partes. Nos tractos de terra mais ferteis que se tem
    arroteado pelo systema parcellario, porque, ainda sem o favor da lei, o
    interesse individual tem sido bastante para o fazer adoptar em diversos
    logares, o novo proprietario redobrando d'esforcos reparte as suas lidas
    entre a cultura propria e a alheia. Essa divisão é grandemente
    facilitada pelo atrazo da agricultura entre nós, porque sendo esta na
    maxima parte dedicada aos cereaes, ás vinhas e aos olivedos apresenta
    uma procura mui desigual de trabalho, de modo que elevando o salario
    desmesuradamente em certas epochas em outras essa procura affrouxa,
    chegando o obreiro rural a ponto de não achar muitas vezes emprego.
    Onde, porém, não for possivel restabelecer o equilibrio por similhante
    meio, esse embaraço irá gradualmente desapparecendo com o accrescimo da
    população, sendo entretanto um incentivo poderoso para os grandes
    cultivadores irem trocando o systema das culturas exclusivas pelo das
    culturas alternas, que, exigindo n'um tempo dado menor numero de braços,
    exige um mais constante emprego d'elles. Finalmente tendo a peito o
    governo acudir quanto antes á primeira necessidade do paiz, a
    construcção das estradas, para as quaes vae applicar todos os recursos
    de que pode dispor, a facilidade da viação e por consequencia a barateza
    do transporte, compensarão amplamente qualquer elevação de salarios, que
    n'um ou n'outro caso possa resultar da applicação do presente decreto.

    Não é necessário nem possivel, Senhora, entrar em largas explicações
    sobre os motivos que levaram o governo a propor a V. Magestade, a
    promulgação das disposições contidas nos diversos paragraphos do art.
    4.^o. A gradação estabelecida entre as varias culturas corresponde ao
    estado actual da nossa industria agricola e á necessidade de não dirigir
    cegamente o impulso que se pretende dar-lhe. O favor, desproporcionado
    na apparencia, que se liberalisa á plantação dos bosques, não se estriba
    só na consideração do demorado resultado que se dá no seu cultivo;
    funda-se tambem na da repugnancia á arborisação que é um dos erros mais
    communs e que parece necessario combater energicamente. É obvia tambem a
    causa das excepções ácerca do pinheiro maritimo, unica madeira que
    superabunda no nosso mercado. O favor comparativamente excessivo que o
    decreto pretende dar á cultura collectiva ou singular das forragens, das
    amoreiras e do canhamo, importa a idéa de fortalecer pela sabedoria das
    leis civis as reformas que hão-de trazer o ensino e educação dos futuros
    agricultores, por via das sociedades agrícolas, das escholas, e dos
    predios rusticos experimentaes, que o governo começou já a promover e
    fundar, e que está resolvido a fazer progredir logo que para isso se lhe
    proporcionem recursos, contando aliás com o auxilio de todos os homens
    de boa vontade e sinceros amigos do paiz. Escaceam entre nós os gados,
    sobretudo nas provincias do sul, porque a cultivação dos cereaes tem
    progredido em extensão e não em intensidade; porque os systemas biennal
    e triennal, que ahi predominam e que em certas circumstancias serão
    desculpaveis, serão até preferiveis, nunca podem ser uma regra geral
    senão onde a agricultura está na infancia: emfim, a falta de gados e de
    bons methodos de afolhamento explicam a maior parte dos embaraços da
    grande cultura em Portugal. Por outro lado se considerarmos os enormes
    valores que a Italia, o paiz mais analogo ao nosso e ainda
    agronomicamente inferior a elle, sabe tirar da producção da seda,
    devemos propagar até onde for possivel o cultivo da amoreira. Tambem a
    experiencia tem provado que o canhamo do nosso paiz, cultivado
    judiciosamente e nos terrenos convenientes, excede em bondade não só o
    da Russia mas o proprio canhamo de Bolonha, reputado o melhor da Italia.
    Por ultimo os fundamentos da menor protecção dada aos ramos de
    agricultura largamente espalhados pelo reino, fundamentos que em parte
    derivam do que fica dito, são obvios para V. Magestade.

    Era impossivel, Senhora, propor a promulgação de um decreto tendente a
    trazer á producção os terrenos incultos e a fomentar a divisão
    espontanea da propriedade territorial, sem estender a sua acção ao solo
    vinculado. São sobretudo os vinculos que nos offerecem o triste
    espectaculo de terras, muitas vezes de primeira qualidade, inuteis e
    desaproveitadas. Entre as razões moraes, politicas e economicas, que
    condemnam a instituição dos vinculos, esse facto subministra contra ella
    um argumento assaz ponderoso. A sua extincção parcial ou completa é
    questão, na verdade, que os ministros de V. Magestade não poderiam
    discutir aqui, e que se deve tractar pausada e reflectidamente; porque,
    resolvida de leve e, sobretudo, decretada de golpe, a abolição dos
    vinculos ainda parcial, teria, talvez, inconvenientes politicos e até
    economicos maiores do que geralmente se pensa. Todavia a instituição é
    em these insustentavel e se considerações de tempo e de circumstancias,
    podem absolver a sua existencia e aconselhar a sua condicional
    conservação, essas considerações são absolutamente inapplicaveis aos
    terrenos incultos, que na maior parte dos casos não representam valor
    algum, ou só o representam minimo. Exemptar os vinculos de contribuirem
    para o bem commum n'esta parte seria absurdo.

    Egualal-os para os effeitos da lei ás propriedades allodiaes, dar-lhes
    as mesmas vantagens e impor-lhes as mesmas restricções era justiça. Foi
    o que se fez n'este projecto de decreto.

    É evidente que nos aforamentos dos maninhos vinculados se dá um facto
    similhante ao que se verifica nos dos maninhos allodiaes. A somma total
    dos fóros representa um juro e portanto a creação de um capital. O
    decreto, suppondo para estabelecer as suas ulteriores providencias, que
    a somma dos fóros representa um juro de cinco por cento, faz d'ahi
    resultar um capital inferior á realidade, porque é sabido que os
    emprazamentos difficilmente produzem essa renda. Em todo o caso esta
    nascerá do favor da lei, favor que se não é um sacrificio effectivo e
    presente, virá a sel-o de futuro. Um tal favor, tendo por fim
    exclusivamente desenvolver o progresso de uma agricultura sensata e
    chamar o proletariado ao amor da paz e da ordem, pela acquisição da
    propriedade, produziria ao mesmo tempo, sem as convenientes restricções,
    a consequencia de augmentar o valor dos vinculos ou por outra, daria
    maior vulto a um genero de propriedade que á luz das indicações
    economicas apenas pode ser tolerado. Era, portanto, dever do governo
    obstar a similhante augmento, e o governo obstou-lhe com as providencias
    consignadas nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o. Ao passo que
    firmou o principio de libertar um cumulo de bens igual em valor ao
    capital accrescido pelos novos aforamentos, deu o maximo alvedrio aos
    administradores de vinculos para se aproveitarem do beneficio do
    decreto, pelo modo que reputassem mais conveniente, e até para não se
    aproveitarem d'elle. Entretanto elle feriu n'um ponto a integridade dos
    cumulos vinculados. Foi na disposição do artigo 13.^o; mas este
    sacrificio é tão tenue comparado com o alto objectivo de promover a
    divisão do solo, que os ministros de V. Magestade poderão antes ser
    taxados de nimiamente escrupulosos a favor da instituição, do que
    suspeitos em demasia de seus adversarios.

    Alguem poderá objectar, Senhora, que em logar do systema um tanto
    complicado que os ministros de V. Magestade adoptaram, para operar um
    grande movimento de propriedade nos bens vinculados, seria mais simples,
    depois de auctorisar e favorecer a alienação do dominio util dos
    terrenos incultos pela emphyteuse parcellaria, auctorisar também a
    alienação do dominio directo d'esses mesmos bens, ou pela remissão ou
    pela venda. Com a lealdade que professam os ministros de V. Magestade,
    dirão a proposito d'esta consideração, que parece razoavel, o seu
    pensamento inteiro. Primeiro que tudo o movimento dos valores, da
    propriedade considerada de um modo absoluto, seria na verdade o mesmo;
    mas o movimento do dominio util da propriedade territorial seria
    equivalente a metade, a um terço, e em certos casos ainda a menos. O fim
    principal do decreto, o augmentar o numero dos proprietarios, tão
    favorecido pelos artigos 12.^o e 13.^o, ficaria incomparavelmente mais
    restricto; o numero dos afiliados pelo sentimento da propriedade e da
    familia ao partido da paz e da ordem, seria muito menor. Por outro lado
    esse systema complexo cria um incentivo poderoso e talvez irresistivel,
    para o rapido aforamento dos baldios vinculados. Não será tanto o homem
    de trabalho que procure obter um tracto de terra para cultivar, como o
    administrador de vinculo que busque o homem de trabalho para lh'o
    offerecer, porque um grande interesse o incita. Gravados por dividas em
    grande parte ficticias e fructo monstruoso dos desvarios das paixões e
    de uma agiotagem infrene, uma parte dos possuidores de vinculos e
    sobretudo dos grandes vinculos, laboram em graves difficuldades
    economicas, de que os soltará em muitos casos a libertação de uma parte
    dos bens vinculados. Nem se diga que a muitos d'elles faltará a cordura
    para aproveitar utilmente o beneficio da lei: a obcecação d'estes não
    deve reverter em damno dos prudentes e avisados; ao passo que esses
    taes, ainda quando se não verificasse a libertação de uma parte do
    vinculo, saberiam sempre completar de um ou de outro modo a propria
    ruina, ajudados pela agudeza infernal da usura e da agiotagem.

    Em todo o caso, Senhora, o governo respeitou com escrupulo o fundo
    hypothecario e os direitos de terceiro, sem entrar no exame da
    legitimidade moral da origem d'esses direitos. Depois de um grande
    movimento de propriedade dentro d'essa instituição immobilisadora, o
    fundo vinculado fica em rigor sendo o mesmo e portanto a mesma a
    garantia dos encargos e hypothecas. É esse na opinião dos ministros de
    V. Magestade, o principal merito, n'esta parte, da presente proposta de
    decreto.

    Por todos os motivos e fundamentos economicos e politicos até aqui
    ponderados, o governo tem a honra de offerecer á Regia approvação de V.
    Magestade o seguinte:

    DECRETO

    Artigo 1.^o São confirmadas, ampliadas, alteradas ou revogadas as
    disposições dos Alvarás de 23 de julho de 1766, de 27 de novembro de
    1804 e de 11 de julho de 1815, da Carta de Lei de 24 de novembro de
    1823, e de outra qualquer legislação geral existente, relativas a
    maninhos ou terrenos incultos de qualquer especie ou denominação que
    sejam, possuidos allodialmente, e que forem reduzidos a cultura por
    contractos d'emprazamento, debaixo das condições declaradas nos artigos
    do presente decreto.

    Artigo 2.^o Os emprazamentos a que se refere o artigo antecedente
    constituirão prazos fateosins perpetuos hereditarios. Fica a respeito
    d'elles supprimido o direito senhorial do laudemio, bem como o de opção
    e prelação. O canon será fixado livremente por accordo entre o senhorio
    e o emphyteuta.

    Artigo 3.^o Os terrenos assim reduzidos a cultura ficarão
    temporariamente exemptos de todos e quasquer impostos directos geraes ou
    municipaes, tanto em relação à renda liquida do emphyteuta, como ao foro
    estipulado por este com o senhorio directo.

    Artigo 4.^o Os novos predios constituidos em virtude d'este decreto, e
    cuja superficie não exceder dez mil braças quadradas (proximamente dez
    geiras) gosarão da exempção concedida no artigo antecedente, debaixo das
    condições e com as limitações seguintes:

    § 1.^o–A exempção durará 30 annos em relação aos predios que forem
    applicados, ao menos em duas terças partes da sua superficie, ao plantio
    de bosques de arvores de córte, que não sejam pinheiros maritimos, salvo
    sendo o predio situado na orla do mar oceano, até a distancia de uma
    legua para o interior das terras, dentro da qual a cultura dos pinheiros
    maritimos é equiparada á de quaesquer outros arvoredos de córte.

    § 2.^o–A mesma exempção durará 16 annos sendo os predios applicados, ao
    menos em dous terços da sua superficie, á cultura, singular ou
    collectiva, da amoreira branca, do canhamo e dos prados artificiaes,
    quer permanentes, quer temporarios, sendo porém necessario, no caso de
    se applicarem os dous terços sobredictos á cultura dos prados
    artificiaes, com exclusão da amoreira branca e do canhamo, que se
    conserve sempre um quarto do dicto predio em prados artificiaes
    permanentes, para se verificar a exempção concedida.

    § 3.^o–A mesma exempção durará 12 annos se ao menos os dictos dous
    terços forem applicados ao plantio de oliveiras.

    § 4.^o–Durará 8 annos a sobredicta exempção se ao menos dous terços do
    predio forem applicados á cultura da vinha.

    § 5.^o–Se ao menos dous terços do predio forem applicados á cultura dos
    cereaes ou a outras quaesquer culturas não especificadas nos §§
    antecedentes, esse predio gosará por seis annos de igual exempção.

    Artigo 5.^o O beneficio da exempção não é applicavel em nenhum caso aos
    prazos instituidos em terrenos incultos de regadio ou pantanosos, que se
    applicarem no todo ou em parte á cultura de arrozaes.

    Artigo 6.^o Se a superficie do prazo exceder a que é fixada no artigo
    4.^o, o periodo da exempção será reduzido a metade do tempo, em cada uma
    das hypotheses dos diversos §§ do mesmo artigo.

    § unico–Exceptua-se a cultura dos arvoredos de córte de que tracta o §
    1.^o do artigo 4.^o, á qual é applicavel favor igual, seja qual for a
    extensão do terreno emprazado.

    Artigo 7.^o Se um individuo possuir, quer como emphyteuta originario,
    quer como cessionario, dous ou mais prazos d'aquelles de que tracta o
    artigo 4.^o, a exempção ficará reduzida a metade do tempo em relação a
    cada um d'elles, salva sempre a hypothese do § 1.^o do dicto artigo 4.^o.

    Artigo 8.^o O beneficio reduzido, designado no artigo 6.^o, é igualmente
    concedido ao proprietario que, conservando em si unidos os dominios
    directo e util, tornar productivos os seus terrenos incultos, dando-lhes
    a applicação de que tractam o § unico do dicto artigo e o § 1.^o do
    artigo 4.^o.

    Artigo 9.^o O presente decreto fica sendo extensivo a quaesquer maninhos
    ou terrenos incultos que tenham a natureza vincular. Para os effeitos
    d'esta disposição os dictos terrenos são considerados como livres e
    allodiaes, e os administradores actuaes ou futuros dos vinculos havidos
    como proprietarios d'esses terrenos com dominio pleno, unicamente para
    poderem celebrar com respeito a elles os contractos emphyteuticos,
    permittidos nos artigos anteriores, com as condições n'estes expressas.

    Artigo 10.^o Os fóros estabelecidos em cada um dos prazos, cuja
    instituição é facultada no artigo antecedente, ficarão incorporados no
    vinculo a que pertencia o terreno emprazado, e sujeitos desde logo aos
    encargos e hypothecas que pesarem sobre o mesmo vinculo.

    Artigo 11.^o Tanto que o administrador de um vinculo houver emprazado,
    pela maneira precedentemente prescripta, a totalidade dos terrenos
    incultos pertencentes ao mesmo vinculo, ser-lhe-ha licito alienar o
    dominio pleno de uma porção de predios urbanos, ou de predios rusticos
    cultivados anteriormente á data deste decreto, e pertencentes ao cumulo
    vinculado. Esta porção alienavel será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros, considerados como juro de cinco
    por cento; isto é, será igual em valor a vinte vezes a somma dos fóros.
    A livre alienação de taes predios não poderá ser embaraçada pelos
    encargos ou hypothecas que possam pesar sobre o vinculo, ou por
    quaesquer outros motivos ou pretextos.

    Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente
    por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,
    unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos
    predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do
    artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como
    juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta
    vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon
    estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser
    inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo
    rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses
    contractos ficarão incorporados no vinculo.

    Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem
    feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,
    ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma
    estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela
    dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra
    porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas
    disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os
    fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda
    media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.

    Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do
    dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e
    d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo
    do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições
    dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.

    Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe
    é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do
    vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua
    morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que
    pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a
    successão d'esses bens pelo direito commum.

    Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se
    verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação
    da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do
    procurador regio.

    Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto
    nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas
    judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que
    tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou
    por hypothecas.

    Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.

    O PAIZ E A NAÇÃO

    (ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL–«o PAIZ»)

    1851

    I

    Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as
    observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o
    nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o
    cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.

    O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais
    hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas
    instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que
    elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma
    alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de
    inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios
    horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas
    congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem
    nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam
    differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em
    serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a
    censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam
    apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos
    mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o
    exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,
    para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e
    tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta
    ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram
    víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo
    de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,
    Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de
    Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos
    velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada
    ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este
    seculo, a fabula e o escarneo das gentes.

    Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia
    contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em
    que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da
    tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao
    obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos
    conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,
    virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,
    ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava
    arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,
    para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal
    chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real
    magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e
    ignorantes.

    Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do
    presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas
    _Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de
    Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos
    tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas
    de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae
    certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas
    saudosas por bem diversos monumentos.

    Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da
    que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia
    secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis
    conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas
    as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as
    cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as
    com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e
    depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da
    _anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e
    material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre
    a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?

    Sois singularmente esquecidos!

    Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem
    roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os
    educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou
    essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe
    de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados
    era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo
    vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa
    regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos
    militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções
    honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem
    a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,
    pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem
    sobre nós, da sentina do absolutismo?

    N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a
    que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as
    armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não
    tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido
    vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;
    combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de
    franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens
    publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,
    reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,
    reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios
    reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,
    partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,
    dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,
    sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o
    absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e
    carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo
    tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,
    monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto
    benemerito da monarchia.

    Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes
    nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde
    as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha
    poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter
    pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os
    malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,
    tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero
    instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da
    tyrannia.

    Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.
    Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos
    comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do
    suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos
    antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,
    foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,
    empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso
    e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre
    practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas
    republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas
    tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa
    negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma
    cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de
    Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que
    fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu
    tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma
    auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de
    usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da
    logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.
    Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de
    D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal
    e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a
    suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe
    conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos
    tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é
    desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes
    magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação
    publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a
    necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.

    O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da
    sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com
    que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito
    e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,
    com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte
    e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a
    trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento
    os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas
    grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,
    junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da
    dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que
    sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os
    salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma
    restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em
    abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os
    dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as
    jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas
    _ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios
    desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e
    prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda
    deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos
    antepassados.

    Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,
    como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma
    providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos
    com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de
    subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.

    Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É
    exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é
    exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e
    posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas
    populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.

    Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde
    era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que
    é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão
    escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na
    sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a
    aos passageiros nús, famélicos, espoliados.

    A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos
    geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos
    povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o
    absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um
    d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando
    os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_
    que amaldiçoaes.

    Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos
    traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das
    façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a
    sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das
    aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido
    tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.

    Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos
    _bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações
    religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das
    leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal
    podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se
    extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de
    amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de
    responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá
    vão.

    Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o
    mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má
    fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes
    d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das
    nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os
    impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que
    apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os
    pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos
    queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado
    a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?
    Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de
    10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara
    a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que
    partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao
    de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.
    Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso
    não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes
    da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos
    e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.

    Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero
    está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é
    inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a
    differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos
    envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos
    fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os
    resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos
    em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a
    emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com
    um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que
    vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo
    iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,
    d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,
    mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e
    corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que
    com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,
    por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em
    miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de
    frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque
    statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo
    era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte
    ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,
    nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes
    que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,
    aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos
    banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do
    lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de
    alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa
    exiguidade.

    Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas
    actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber
    quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para
    instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,
    as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias
    dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria
    do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o
    contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois
    defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas
    porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os
    fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os
    beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero
    aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.

    Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema
    vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos
    capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos
    soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos
    em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma
    increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas
    aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso
    com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista
    dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses
    soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,
    ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se
    por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,
    vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que
    lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O
    unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta
    princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.
    De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio
    da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na
    praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide
    para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do
    Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.

    Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do
    quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,
    fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé
    popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares
    se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter
    feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,
    para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas
    pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de
    Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio
    essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da
    companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares
    que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas
    e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e
    os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue
    em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos
    cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,
    não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?
    Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia
    tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós
    inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos
    officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os
    vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas
    que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos
    patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta
    terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre
    as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,
    onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam
    acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o
    genio do duque de Bragança não os houveram salvado.

    Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr
    a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais
    milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide
    ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles
    compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será
    uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar
    letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.

    II

    Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a
    legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na
    carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se
    parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso
    da redacção da _Nação_ comnosco.

    O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.
    Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro
    comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma
    questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então
    accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,
    reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o
    absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa
    historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição
    primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão
    democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a
    _Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes
    côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos
    seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do
    mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em
    que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem
    dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos
    que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de
    municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de
    liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam
    salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo
    isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da
    comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes
    de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de
    D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o
    absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só
    depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao
    estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da
    communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,
    como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,
    suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições
    primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do
    sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de
    uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A
    _Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda
    o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos
    duramente. Foi um proceder ferino.

    Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas
    da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e
    vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás
    actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de
    controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um
    homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto
    individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a
    dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á
    intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria
    politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.
    Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da
    indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um
    tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez
    haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas
    as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a
    supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da
    corrupção e da tyrannia.

    No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.
    Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até
    á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não
    respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente
    ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança
    sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é
    inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos
    cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,
    ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.
    Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam
    os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que
    apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a
    liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra
    cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas
    mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava
    fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a
    _Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas
    publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de
    alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram
    composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de
    sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho
    (sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as
    mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em
    sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão
    largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos
    liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,
    inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com
    os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se
    enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella
    onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge
    pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o
    libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia
    para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,
    irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas
    mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da
    victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e
    o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o
    _Raio_.

    Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á
    prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,
    extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis
    perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos
    de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar
    debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas
    do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os
    vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria
    envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a
    sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito
    pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes
    antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as
    gentis façanhas dos defensores do passado!

    Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as
    nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois
    nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva
    que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade
    das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,
    dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.
    Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.

    III

    Os sete seculos

    Agora nós.

    Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um
    artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não
    sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu
    profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas
    faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho
    insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que
    deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,
    fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,
    pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os
    flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.
    Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes
    saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as
    maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados
    e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa
    resignação christã.

    Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas
    descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma
    carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,
    conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era
    efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita
    polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem
    apenas por cima da cabeça dos inimigos.

    Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a
    descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o
    despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança
    de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,
    ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros
    como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de
    nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas
    ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos
    cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a
    civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações
    de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento
    invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,
    que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,
    e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de
    depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para
    dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a
    _Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de
    parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das
    sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,
    rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do
    altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os
    fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda
    trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o
    diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar
    á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e
    com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches
    espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um
    espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na
    dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos
    desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e
    tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em
    si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.

    Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre
    velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas
    esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.
    Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os
    ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da
    sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam
    impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro
    5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços
    apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas
    aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem
    de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma
    edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos
    emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em
    quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar
    a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das
    taipas e páus podres de que era construida.

    Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes
    d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal
    o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os
    olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das
    vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos
    da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;
    são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de
    joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do
    convento absurdo de Mafra.

    Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e
    prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a
    primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre
    estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa
    decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande
    pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial
    e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande
    por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria
    comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da
    Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim
    pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita
    entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da
    indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam
    patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime
    constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.

    Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos
    tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma
    serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados
    commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma
    fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar
    algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais
    commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos
    jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as
    doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes
    de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no
    coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.

    Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do
    céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas
    que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam
    escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos
    municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das
    cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a
    sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se
    continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e
    cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos
    contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que
    os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a
    cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham
    introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico
    municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.

    Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até
    1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não
    raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,
    na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que
    nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses
    parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e
    revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)
    senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do
    poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito
    constitucional com que crescera e vigorava o paiz?

    Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um
    pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a
    que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para
    nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos
    da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e
    cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e
    crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para
    os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do
    tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a
    abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para
    viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa
    que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso
    espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das
    prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,
    roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,
    canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da
    gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da
    corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os
    pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se
    fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.
    Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o
    lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da
    terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos
    olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o
    que está elevado, para o ar e para o céu.

    É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em
    que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e
    accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do
    absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem–falsificaste,
    inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos
    factos,–traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um
    crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria
    não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante
    do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos
    filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa
    ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,
    dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a
    perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para
    a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,
    sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa
    reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á
    cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio
    podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o
    nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de
    instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas
    instituições primitivas?

    Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender
    contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações
    foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao
    mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso
    não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são
    vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos
    de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas
    de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da
    sociedade politica.

    Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes
    assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação
    mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres
    senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes
    para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a
    villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas
    medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava
    uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas
    no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte
    do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta
    municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente
    á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a
    sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer
    aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,
    porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»
    Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a
    reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só
    vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.

    Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como
    nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a
    estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a
    organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses
    gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de
    obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios
    de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma
    terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros
    villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro
    para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava
    atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o
    direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos
    vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,
    que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em
    breve, novas da boa-saude do direito divino.

    Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos
    velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos
    agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á
    democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,
    que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos
    barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que
    subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos
    assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos
    corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de
    liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu
    antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus
    primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra
    morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões
    constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.
    Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a
    pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se
    tranquillamente sobre o paiz.

    Até ao seculo XV, posto que já a indole politica da sociedade começasse
    a alterar-se, porque os desembargadores caminharam de longe e de vagar
    para não serem sentidos, os procuradores de côrtes tinham uma
    significação, um valor politico; atraz d'elles e do seu mandado estava
    um grupo social, a democracia, formado de muitos grupos, os concelhos.
    Desde que estes se compozeram de _clero, nobreza e povo_, desde que as
    classes se confundiram politicamente, a liberdade popular morreu. Os
    concelhos não foram mais d'ahi ávante, do que um instrumento de governo
    e uma divisão territorial e administrativa. Cessou entre nós o direito
    politico do povo, e reinou despeado o absolutismo. Que são todas essas
    côrtes posteriores senão um simulacro, ou antes um escarneo dos nossos
    antigos parlamentos? Esses procuradores do _povo_, eleitos pelo _clero_,
    _nobreza_ e _povo_, senão uns titeres com que os oppressores se
    divertiam á custa da democracia? Desde o seculo XVI Portugal teve factos
    politicos mais ou menos tyrannicos, mais ou menos vergonhosos, mais ou
    menos abusivos; mas o direito constitucional onde estava elle? Onde
    estavam os pactos sociaes que Fernão de Pina trocára por outros,
    _reformados_ exclusivamente com os olhos no céo e nas amplas barrigas
    dos alcaides-móres, dos donatarios da corôa, dos dignissimos avós de
    vossas excellencias e reverencias? Estavam esquecidos no fundo dos
    archivos do reino, onde ainda estão hoje para vossa vergonha eterna,
    raça de escravos, que succedestes n'esta nobre terra a uma raça gigante
    de homens livres; estavam onde ainda existem hoje, onde os podeis lêr e
    polluir com essas mãos servas, mentirosos insignes, porque as portas
    estão abertas para examinardes a infidelidade com que os citamos, as
    entrelinhas que n'elles escrevemos, as raspaduras com que os viciamos.
    Ide, miseraveis, punir-nos!

    Respondei, illustres Pegas _ad ordinationem_, donde veiu aos reis de
    Portugal o direito de rescindir contractos politicos solemnes? Os
    monarchas portuguezes da edade media reconheceram estarem limitados os
    deveres dos povos e os proprios direitos, por essas cartas
    constitucionaes, que reunidas eram o complexo do direito publico do
    paiz, e que tinham em si proprias as garantias da realidade: os seus
    successores proclamaram o principio contrario e derivaram d'ahi a
    manifestação do poder publico. Como agrupaes vós estas duas idéas que se
    excluem, que se negam? Como unis a morte á vida? Como ousaes dizer:
    _pertencem-nos sete seculos_? A vós? dementes! O primeiro monumento
    grave da vossa historia, o primeiro resultado practico das vossas
    adoradas doutrinas é a inquisição. A inquisição não foi filha da
    perversidade da curia romana, que tem sobejos crimes para que não se lhe
    attribuam os alheios. A inquisição foi um calculo frio e feroz do
    absolutismo de D. João III (este é vosso: guardae-o) que estava pobre
    pela sua falta de juizo e pelas vaidades paternas. Quiz queimar os
    judeus para os roubar, e pediu lume a Roma, que lh'o recusou largo
    tempo, porque não ignorava para que elle o pedia. Quando quizerdes as
    provas d'isso, fallae; já se sabe, entrelinhadas, supprimidas,
    respançadas, viciadas segundo o velho costume de que nos accusaes com as
    provas na mão, como bons e verdadeiros jesuitas.

    Absolutistas, vós acceitaes a solidariedade do passado: posto que não
    possaes reclamar senão a do que vos pertence. Falamos por isso comvosco,
    não para apontar uma ou outra mancha no vosso predominio, como vós
    modestamente imaginaes, mas para vos dizer o que elle foi na sua
    essencia. Começastes, insultando o evangelho, por queimar aquelles que
    não adoravam Deus á vossa guiza, e terminastes, matando ás machadadas
    prisioneiros inermes, diante dos quaes, armados, tantas vezes tinheis
    fugido. Na vossa historia o espectro da tyrannia esconde a fronte no
    fumo da carne humana, assada para o sancto rei D. João III ter dinheiro,
    e firma os pés nas poças de sangue, sobre os ossos triturados e as
    carnes esmagadas pelos machados dos bravos que tão valentemente fugiam
    das nossas bayonetas. Mas o vosso pedestal e a vossa corôa são
    comparativamente dous dixes infantis. O crime imperdoavel, sem nome,
    pelo qual a posteridade vos ha de escrever a maldição sobre a campa, é o
    terdes vivido abraçados durante tres seculos com esse espectro da
    tyrannia. É o terdes arrastado aos pés dos cortezãos, dos conegos de Gil
    Vicente, dos Pegas, dos bobos regios, dos frades gordos, luxuriosos e
    hypocritas, de que nos fala o viso-rei D. João de Castro na sua
    correspondencia inedita, (viciada por nós, já se sabe), as velhas
    liberdades do paiz, as liberdades do povo, que querieis espoliar sem que
    vos resistisse, concedendo-lhe apenas, se estaveis de pachorra para dar
    gargalhadas, o direito dos gemidos.

    Quando o vosso idolo vos fugiu das mãos, quando a espoliação,
    regio-fidalga, clerical e desembargatoria passou para mãos castelhanas,
    que vos tractaram como vós tinheis tractado o povo durante oitenta
    annos, veiu-vos, excellentissimos e reverendissimos senhores, um accesso
    momentaneo de febre liberdadeira. Incumbistes então um frade ignorante
    de vos redigir um codigo imaginario, em que todas as instituiçães
    sociaes da edade media estão desmentidas, e em que até o regicidio é
    elevado á altura de principio politico. Porque fizestes isto? Porque
    entre vós e as epochas de liberdade havia um abysmo insondavel; porque o
    seculo que precedêra se divorciava da antiga monarchia, em que os povos
    não precisavam do regicidio para defender os seus fóros, de que só foram
    privados por uma serie de traições cobardes e indignas.

    Na verdade depois de sacudido o jugo estranho representastes uma farça
    parlamentar, e depois outras farças analogas. Sempre gostastes de
    galhofa, como succede a todos os mandriões, que comem bem e dormem
    commodamente á custa do suor alheio. Vieram á folia politica os
    procuradores do _povo_, eleitos tambem pelo _clero_ e _nobreza_ das
    cidades e villas: vieram ahi os padres e os fidalgos. Apraziam-vos estes
    espectaculos em que o povo fazia o papel de urso. Que importa que no
    preambulo das côrtes de 1641, se escrevesse a doutrina da soberania
    nacional sobre os proprios reis. Era o horror da tyrannia, que tambem
    vos fizera experimentar como morde, quem vos arrancava esta concessão
    theorica, reproduzida por Velasco de Gouvêa, no livro com que a vossa
    recondita erudição nos assassina? Perguntae-o aos vossos cabelleiras do
    absolutismo. Essa doutrina foi declarada depois _illusiva_, _ob_ e
    _subrepticia_, _atroz_ e _sacrilega_, introduzida n'essas côrtes e no
    livro de Velasco, pelo _synedrio monarchomaco_ dos jesuitas; porque é de
    advertir que o jesuitismo e o absolutismo andaram sempre ás unhadas,
    emquanto os Franzonis e os Autonellis não os jungiram com a mesma soga,
    para trabalharem na vinha do Senhor com a benção cardinalicia.

    Entre parenthesis. Os jurisconsultos de ha cem annos pareciam-se
    convosco, doutores da _Nação_. É a mesma logica. Regeitavam as idéas
    jesuiticas sobre o direito dos subditos para deporem os reis, e
    acceitavam as côrtes de Lamego, o codigo do frade bernardo, onde se
    proclama o regicidio. O absolutismo tem ao menos uma gloria: é a de
    verificar em si um milagre: o de ser ao mesmo tempo profundamente atroz
    e soberanamente ridiculo.

    Vamos, sabichões! Que é o que vale? São as doutrinas do synedrio
    monarchomaco de Velasco e do frade regicida, ou é o direito divino?
    Podemos esganar de vez em quando o nosso reizito, se reconhecer
    supremacia estranha; depôl-o, se não nos andar a geito, ou pelo
    contrario é inviolavel a legitimidade da monarchia?

    E dizeis vós que haveis de morrer no vosso posto! Qual posto, nem qual
    morte, nem qual carapuça? Quem ha-de agora matar meia duzia de patetas,
    que parecem mandados de proposito pela Providencia para divertimento
    d'esta terra, no meio das mágoas e afllicções que lhe causa o
    cabralismo?

    Sabeis o que são, alem de farças, as vossas côrtes de 1641, e as outras
    côrtes do absolutismo? São um monte de inepcias em direito politico.
    Depois de proclamarem a soberania nacional por ordem dos jesuitas, os
    absolutistas de 1641 estabeleciam que o testamento de um rei era uma
    constituição, d'onde derivava a legitimidade de outro rei por direito
    incontroverso!

    Defensores do absolutismo, buscae nas actas parlamentares da edade
    media, alguma passagem em que os mandatarios dos concelhos de Portugal
    declarem, como os titeres de 1641, que a demissão dos tributos
    violentos, _impostos tyrannicamente_ pelos reis de Castella, era uma
    _liberalidade_, uma _magnificencia_, uma mercê d'el-rei. Onde achaes vós
    lá esta linguagem de Baixo-Imperio? Lá oppunham-se os aggravamentos dos
    concelhos aos abusos do poder. Era a distancia que vae de uma epoca de
    liberdade a outra de servidão.

    A servidão, a servidão! Eis o grande crime dos tres seculos que vos
    pertencem. Pensaes vós que nos importam, considerados em si, os
    adulterios da mulher de Affonso VI, ou que D. João V dormisse em
    Odivellas, ou cantassem n'aquella bestialidade architectonica de Mafra,
    cem ou duzentos frades comilões e ignorantes? Importa-nos tudo isso
    porque vós, que nos accusaes de não havermos feito nada em dezoito
    annos, não fizestes cóusa nenhuma em tres seculos, senão consumir a
    substancia publica em devassidões e em bugiarias; senão queimar judeus
    para os roubar, e perseguir-vos uns aos outros, jesuitas e absolutistas,
    quando vos faltou o judaismo para cevar os vossos instinctos
    sanguinarios. O que nos importa é que vós, legitimistas de agua doce,
    representaes a illegitimidade de tres seculos: a tyrannia convertida em
    principio politico, por velhacadas desembargatorias que havemos de vos
    contar um dia, e pela ingratidão fementida da dynastia manuelina para
    com o povo, que tão leal havia sido á monarchia nas suas luctas com os
    padres e fidalgos d'esta terra. Importa-nos que, accusando-nos
    diariamente de destruidores dos thronos, tendes estampada na fronte do
    vosso jornal a lei regicida do frade bernardo, e que entoando hymnos á
    lealdade, ao realismo do alto clero e da fidalguia, ousaes metter no
    peitilho da roupeta os quatro seculos de liberdade, durante os quaes o
    unico exemplo de um rei atirado do throno para o exilio, e substituido
    por um principe estrangeiro, (estrangeiro segundo as vossas doutrinas)
    foi dado pelo alto clero e pela nobreza, em quanto o povo combatia a
    favor de uma illustre desdita. Importa-nos pagar-vos a divida do partido
    liberal, que estaes insultando refalsadamente, porque tem tido a
    desgraça de haverem obtido o poder, pelos meios essencialmente
    absolutistas da corrupção e da violencia, homens cujas doutrinas
    prácticas de governo são as vossas, e contra as quaes tendes visto
    protestar a maioria do partido liberal, com a palavra e com o ferro, do
    mesmo modo que o fizera contra vós. Importa-nos que penseis parvamente
    ao vêr-nos regeitar a anarchia ou a demagogia, ter descoberto nas nossas
    idéas contradicções monstruosas. Importa-nos que enchaes as bochechas
    com as vossas crenças, escrevendo ao signal das chibatas dos vossos
    sargentos, adoradores da censura, da abnegação servil das proprias
    idéas, e tendo opiniões uniformes por que estão stereotypadas nas
    capellas e sacristias. Importa-nos que, não vos movendo impulsos de
    convicções espontaneas, quando vêdes na imprensa as provas de que o
    sacerdocio vem audazmente insultar, n'um convenio insolente, as regalias
    do imperio civil, (a sustentação das quaes é o unico ponto em que são
    acordes as doutrinas politicas dos sete seculos da monarchia) vos caleis
    cobardemente, para não terdes de despir a roupeta de sancto Ignacio, ou
    de tirar a cabelleira desembargatoria, ao que essa questão forçosamente
    vos constrangeria, provando assim que os vossos enthusiasmos
    monarchicos, o vosso patriotismo, são apenas hypocrisias necessarias
    para vêr se grangeaes de novo as commendas e as prebendas, os quartos e
    as jugadas, as alcaidarias-móres e as capitanias-móres, os bispados e as
    conezias, e os beneficios succulentos.

    _Sic valeas ut farina es_.

    IV

    As prestações foraleiras e a fidalguia

    Os servos voluntarios e perpetuos, os que venderam alma e corpo á
    tyrannia, insultam-nos a nós liberaes, e cospem sobre as cinzas de D.
    Pedro, porque não quizemos que esta terra de Portugal fosse uma vasta
    gleba de adscriptos que trabalhassem para suas excellencias
    reverendissimas. Os bens da corôa, o patrimonio publico, os tributos
    locaes eram propriedade d'esse grupo de nobres luxuarios, que enlameavam
    com o rodar dos seus coches, com o galopar dos seus cavallos, o homem
    laborioso curvado para o sólo desde que o sol rompia até que
    desapparecia no occaso. Assim nol-o affirmam. Debalde nossos avós, os
    villãos, protestaram contra a accumulação dos tributos geraes e dos
    locaes, debalde a monarchia, a propria monarchia absoluta, fazia
    recordar nas leis e nos actos, que a renda publica não era, não podia
    ser, patrimonio dos donatarios; os doutores da _Nação_, esses Pegas que
    nos atiram a proposito de tudo com a sua sabença juridica, que nos falam
    nas manuelinas e nas philippinas, nas extravagantes, e nas leis de D.
    José, declaram que os bens da corôa eram do dominio dos comilões,
    alcunham-nos de communistas e, quando dizemos a esses illustres senhores
    que vão trabalhar, respondem-nos em nome d'elles que os espoliámos já do
    fructo do trabalho dos seus antepassados, e que queremos que trabalhem
    de novo para de novo os roubarmos, porque o primeiro roubo não satisfez
    as ambições de todos nós.

    O que é mais admiravel n'estas palavras absurdas, a demencia ou a
    imprudencia?

    Mentís, porque todas as leis, todos os actos do poder, desde a lei
    mental até á lei sobre confirmações do 1769, vos estão dizendo que as
    terras, os direitos dominicaes, os tributos locaes, as jurisdições, as
    rendas, tudo emfim, quanto fôra havido da corôa pelos donatarios, era em
    seu poder um simples uso-fructo, que o rei podia fazer cessar por
    solemne, perpetua, incondicional, que fosse a concessão.

    D'onde vinha, pois, esse direito de propriedade de que falaes, em
    contradicção não só com o direito publico do tempo da liberdade, mas até
    com as leis, com as doutrinas e com os actos do absolutismo? D'onde
    vinha essa propriedade, causidicos dos orgulhosos comilões, e mandriões
    das armarias e dos reposteiros? Da prescripcão? Mas vós, doutores da
    _Nação_, ignoraes que ainda nas vossas côrtes de 1641, se proclamou a
    doutrina de que contra o paiz não ha prescripção, emquanto elle não tem
    liberdade para reclamar, e esqueceis que a tolerancia dos povos durante
    os seculos XVI, XVII e XVIII, ácerca da ladroice com que eram
    malbaratados os bens da corôa, não significa o seu consenso, mas sim os
    terrores do absolutismo?

    Vós pensaes que os redactores do _Paiz_ são os dos jornaes do conde de
    Thomar, aos quaes vós ousastes dizer que as côrtes de Lamego haviam sido
    invocadas a favor de D. Catharina em 1550, antes de as inventar o frade
    bernardo, e que não souberam punir-vos d'esta falsificação?

    Mentís quando dizeis que nós queremos que os fidalgos trabalhem para os
    espoliar de novo. Falta a primeira espoliação para d'ella inferirdes a
    segunda. O decreto de 13 de agosto que respondeu definitivamente aos
    aggravos dos nossos avós, os canalhas do tempo de D. Fernando, de D.
    João I, de Affonso V; que tornou uma realidade práctica, em harmonia com
    a sciencia economica e fiscal das eras modernas, as promessas d'aquelles
    principes e o direito que elles reconheciam nos povos, se teve algum
    defeito foi o ser nimiamente generoso com os donatarios, com os
    excellentissimos filhos do sol e netos da lua: foi a homenagem que os
    ladrões do Mindello prestaram ao trabalho e á morigeração, aos nobres
    que haviam sabido tractar d'esses bens mal-havidos por seus
    antepassados, investindo-os no dominio allodial dos predios que
    desfructavam até ahi por uma posse mal-segura, mas que, como bons
    economos, como homens de costumes regulares, os cultivavam por si ou por
    seus rendeiros, e não tinham alienado o dominio util d'elles por titulos
    permanentes. O decreto de 13 de agosto não perguntou se os que auferiam
    proveitos das suas disposições, eram liberaes ou absolutistas; libertou
    o solo e honrou a morigeração e o trabalho. O partido liberal
    deixou-vos, excellentissimos, aquillo de que segundo as vossas leis
    tinha direito de privar-vos. Os descamisados, os homens do povo que o
    absolutismo trazia subjugados pela miseria, e a classe media em cujos
    bens patrimoniaes e adquiridos licitamente, vós vos cevastes durante
    cinco annos pelos sequestros, pelas peitas dadas aos vossos esbirros
    togados, para concederem um pouco de ar nas masmorras, e pelas luvas
    para trocarem a forca pelos presidios de Africa, podiam ajustar contas
    comvosco, expulsando-vos d'esses bens mal-havidos para se resarcirem de
    lhes haverdes roubado tudo, inclusivamente a camisa, recordações
    gloriosas, em que se estriba o vosso direito de lhes chamardes
    descamisados.

    Os descamisados perguntam-vos pela nossa bocca quanto renderam na
    almoeda dos sequestros, as camisas repassadas do suor da agonia, quando
    despistes os martyres da liberdade enforcados no campo de Sanct'Anna, na
    Praça-Nova, no Cães do Tojo, no Cães do Sodré? Quanto renderam as
    camisas dos martyres da liberdade fallecidos nos presidios pestiferos da
    Africa e nas casa-matas de S. Julião e de Cascaes, as dos mortos a páu
    ao serem conduzidos das enxovias do Porto para as de Lamego, e as dos
    presos assassinados nas outras cadêas do reino? Quantas orgias fizestes
    no fundo das sacristias, nas alcovas soturnas dos palacios com esse
    dinheiro? As dos prisioneiros mortos a machado, essas haviam de estar
    muito despedaçadas. Pouco deviam valer.

    Nós vamos traçar-vos em rapido esboço os titulos da _vossa propriedade_,
    que vos convidâmos a desmentir.

    A fazenda publica do paiz consistia na sua origem em propriedades, cujos
    cultivadores pagavam fóros, pensões, quotas por um systema assaz variado
    e complexo, nos tributos dos concelhos, pagos pelo uso-fructo do sólo, e
    por um systema analogo, nas multas judiciaes, nas portagens ou direitos
    de barreira das villas e cidades, e finalmente nos impostos das
    alfandegas maritimas. Os tributos indirectos, os cobrados nas alfandegas
    e barreiras recahiam pela sua natureza sobre todas as classes. Dos
    tributos directos eram isentos os nobres. Nas honras e coutos não
    entrava o agente fiscal nem o judicial. Para as despezas do estado
    pagava o homem laborioso; o nobre mandrião não tinha nada com isso.

    O serviço militar, o tributo de sangue estava regulado pelo mesmo
    principio. Organisados os concelhos, os seus habitantes, divididos em
    cavalleiros, besteiros e peões, segundo a sua fortuna, ou a natureza
    anterior da sua propriedade, eram arrolados para o serviço da guerra, ou
    para os trabalhos de fortificação, que se consideravam analogos.
    Armavam-se, compravam cavallos e sustentavam-se á sua custa, salvo se a
    guerra ou os trabalhos se protraiam demasiadamente. Os nobres eram
    isentos da defeza da patria, salvo o caso de uma recompensa. A maxima
    parte da renda publica n'isso se consumia. Os ricos-homens governadores
    civis e militares dos districtos, recebiam uma grande parte dos tributos
    locaes, e distribuiam a percepção das rendas dos bens publicos pelos
    cavalleiros, a cada um sua aldêa, sua porção de cazaes, etc. A isto
    chamava-se prestamos. Os alcaides-móres, chefes militares, e até certo
    ponto civis dos concelhos, haviam pelo seu serviço uma porção de rendas.

    Este systema profundamente injusto, segundo as idéas de hoje, não feria
    então os espiritos. O nobre tinha o direito de não supportar encargos na
    sua propriedade patrimonial, e de não defender a patria; o villão devia
    pagar e servir, e ainda com o seu dinheiro comprava o serviço dos
    illustres suissos d'aquelle tempo.

    Rico-homias, prestamos, alcaidarias, tudo era movel: o rei tirava-o,
    dava-o, trocava-o a seu bel-prazer; porque nada d'isso passava em rigor
    de um systema de subvenções pessoaes. Entre nós não havia nada que
    recordasse a fixidade do feudalismo.

    Gradualmente estes encargos e concessões foram-se tornando menos moveis;
    mas a hereditariedade feudal nunca se introduziu: mesmo quando os filhos
    succediam aos paes, os estylos e as leis recordavam que tudo isso era
    accidental, temporario, dependente da vontade do poder central, do
    principe.

    Mas tambem gradualmente se introduziu um abuso. Ás rendas publicas
    procedidas das imposições directas sobre o solo, dadas a qualquer nobre
    e depois d'elle a seus filhos, foram-se pouco a pouco considerando como
    mercês graciosas, e d'ahi nasceram os soldos, as _quantias dos nobres_,
    isto é, um vencimento em dinheiro para servirem o paiz.

    Dizemos _quantias dos nobres_ porque tambem os villãos tinham
    _quantias_, mas negativas; isto é, avaliavam-se-lhes os bens para na
    proporção d'estes terem armas e cavallos, serem bésteiros ou lanceiros,
    para formarem, digamos assim, a cavalleria, a infanteria pezada e a
    infanteria ligeira, tudo gratuito.

    Introduzido aquelle abuso dos soldos, a economia d'esta organisacão
    ficou sendo: o povo pagar na proporção dos seus meios, e servir
    militarmente na mesma proporção: os nobres serem isentos de tributos e
    de serviço militar, ao passo que, como homens de guerra, comiam uma boa
    porção da renda publica em soldos, e outra parte como donatarios da
    corôa.

    Nos fins do seculo XIV este iniquo systema de percepção e distríbuição
    da renda publica, tinha tomado proporções tão espantosas, que a
    principal materia dos aggravamentos populares, nas diversas assembléas
    de côrtes do reinado de D. Fernando, é este assumpto. Ahi o rei
    reconheceu a extensão do mal, e prometteu até onde fosse possivel
    remedio, que na verdade era difficultoso, attento o poder da nobreza.

    Na revolução de D. João I, uma grande parte da nobreza, ou seguiu a
    parcialidade de Castella, ou se mostrou avessa ao mestre de Aviz. Os
    fidalgos, porém, não se esqueceram no meio dos transes e miserias porque
    a nação passava na lucta gigante que emprehendera, de conservar intacta
    a malversação da fazenda publica. Emquanto as derramas e as sizas vinham
    pelas necessidades da guerra aggravar a sorte do povo, a fidalguia
    invocava o passado para que se lhe pagassem as _quantias_ em dinheiro, e
    as terras se lhe dessem gratuitamente, para ser _mercê acabada_. D. João
    I commettêra a _atrocidade_ de resolver com o povo em cortes, que aos
    fidalgos que serviam na guerra se lhes descontassem as quantias nos
    redditos das terras de que eram donatarios, já se sabe, comendo elles o
    resto de mão-beijada, porque esse resto não se dividia em prestamos para
    pagarem a outros cavalleiros que os seguissem na guerra, segundo a
    organisação primitiva. Era só o serviço pessoal que por essas terras se
    exigia dos illustres suissos dos seculos XIV e XV. Os villãos, esses
    combatiam de graça, lá estavam para sustentar com a bolça e com o corpo,
    a independencia do paiz.

    Esse vil e escandaloso requerimento da nobreza lá está impresso ha
    muitos annos na ordenação affonsina. Vós, doutores da _Nação_,
    conhecereis melhor a philippina, o codigo do rei estrangeiro, mas nós
    conhecemos melhor a affonsina, o codigo do rei portuguez.

    Sabeis vós, como a nobreza se desforrava da falta de despacho á sua
    petição? O sancto Nunalvares, os mestres das ordens e os outros
    fidalgos, roubavam os mantimentos nas povoações por onde passavam: os
    alcaides-móres em vez de pagarem ás guarnições dos castellos, pediam
    gente dos concelhos para os guardar; e os senhores quando se achavam
    n'alguma povoação com homens de armas, bastantes para sopear os villãos,
    deixavam-se ficar ahi, comendo e bebendo sem pagar e forçando mulheres.
    Lá tendes essas gloriosas paginas da nobreza nas côrtes de 1397.

    O desbarato gradual da renda publica pelas mãos dos fidalgos, fez
    apparecer o systema dos tributos geraes directos: a principio pelos
    _pedidos reaes_, que eram em rigor o mesmo que o recente imposto de
    repartição, que ha poucos annos se quiz introduzir no paiz, com a
    differença de que os pedidos só se repartiam entre os concelhos. As
    sizas foram o primeiro tributo geral directo que abrangeu tudo. Sobre
    estas bases se fundou o systema das contribuições geraes, de que o
    estado subsequentemente viveu.

    Nas côrtes do seculo XV, como nas do anterior, o povo protestou sempre
    contra a dispersão dos bens da corôa. A monarchia dava-lhe razão,
    promettia emenda, e alguma cousa chegou a fazer por vezes, mas
    insufficiente e estragada d'ahi a pouco por influencia dos poderosos. Ha
    uma observação singular a este respeito. O povo em vez de exigir a
    organisação dos impostos geraes, e a suppressão dos chamados direitos
    reaes que constituiam o grosso dos bens da corôa, queria que se
    despojassem os donatarios, e que o estado vivesse das suas rendas
    primitivas. Era um erro economico, mas que provava o desinteresse dos
    villãos, e quanto elles amavam as instituições de liberdade, com que
    estava ligado por muitos modos, aquelle systema da imposição antiga.

    O absolutismo triumphante poz emfim ordem n'estas gritarias populares. O
    paiz ficou dotado com dous systemas tributarios: o primitivo para os
    fidalgos e desembargadores comerem, pagando-se-lhes além d'isso o
    serviço que faziam: para os fidalgos e desembargadores começados por
    _mercé acabada_, como diziam os virtuosos avós de suas excellencias e
    reverencias: o outro systema para se pagar aos que comiam os fructos do
    antigo, e para o resto das despezas do estado. Como se isto não bastasse
    metteram-lhes na barriga os dizimos e os outros rendimentos das
    commendas, prebendas e beneficios.

    Realmente, os absolutistas teem razão de chorar pelos bons tempos.
    Aquillo era uma delicia. Este seculo de ferro só foi feito para os
    demagogos e para os pedreiros livres.

    E crêem os pantalões que em falando em duas ou tres batalhas, em dous ou
    tres nomes historicos, em Ourique, em Aljubarrota e em Montes-Claros, em
    Martim de Freitas, no Condestavel e em Affonso d'Albuquerque, na Sancta
    religião, no amor das nossas cousas antigas, teem feito tudo; teem-nos
    mettido pelo chão abaixo, esmagados pelo peso de tantas maravilhas.

    Pensam que ao lado da historia dos conventos, das cathedraes e dos
    palacios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam
    que se esses nobres senhores teem os seus registos esplendidos e
    luxuarios, o povo não tem tambem as suas humildes memorias de
    espoliações, de aggravos, de soffrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-as.
    Por isso é impossivel a volta do absolutismo.

    E crêdes vós que esta gente insaciavel, chegou a comprehender o
    patriotismo e a abnegação? Abri as chancellarias de Philippe II, vereis
    que ella sacrificou sempre ao egoismo e á cubica. Lá achareis os
    ferretes que o rei castelhano poz em tantas familias illustres por seus
    avós e pela sua situação. Lá estão os preços porque cada alcaide-mór,
    cada titular, cada desembargador vendia esta terra ao estrangeiro, em
    quanto a _canalha_, a villanagem, combatia e morria nas espadas e lanças
    dos soldados do duque d'Alva, pensando ter um novo D. João I no prior do
    Crato, o miseravel que tractava tambem com Philippe II sobre o preço
    d'esse povo generoso, que cria n'elle, porque era da raça dos seus
    principes.

    Depois de sessenta annos de oppressão, em que o paiz recebera duras
    lições, crêdes que os donatarios da corôa aprenderam a amar a patria e a
    morrer por ella. Quereis o reverso dos quarenta conspiradores de 1640,
    muitos dos quaes vingaram com a revolução aggravos particulares? Não vos
    falaremos das conspirações fidalgas e episcopaes contra D. João IV.
    Pedimos-vos só que leiaes um parecer, hoje impresso, do procurador da
    corôa, Thomé Pinheiro da Veiga, um dos mais venerados e veneraveis
    caracteres d'aquella epocha. Vianna, no meio da excitação popular que a
    revolução produzira, teve uma saudade, uma velleidade das suas garantias
    da edade-media. Lembrou-se dos tempos em que pertencia ao povo em muitos
    concelhos do typo de Salamanca, que fôra o da sua origem, a instituição
    electiva do seu chefe militar, do seu alcaide-mór. Pediu-a. Thomé
    Pinheiro da Veiga foi ouvido sobre a pretenção e votou por ella. N'um
    impeto de indignação, elle que tinha por dever reprimir e _amaldiçoar_
    (como elle se exprime) estas pretenções da democracia, viu-se
    constrangido a abençoal-as. E porque? Lêde-o. Porque os alcaides-móres
    comiam as rendas e desamparavam os castellos no fervor da guerra, sem
    gastarem um vintem na defesa, não havendo _quasi nenhum_, que cumprisse
    os seus deveres, no que se pareciam com os outros chefes militares, os
    capitães-móres, que comiam os soldos e roubavam os soldados. Elle ahi
    lança em rosto aos avós de vossas excellencias e reverencias, o atroarem
    o paço com petições de bens da corôa, sem fazerem cousa nenhuma. Será
    Thomé Pinheiro um dos ladrões do Mindello?

    Bem sabeis que tambem fariamos um livro contra vós, se quizessemos
    descer aos factos singulares que mostram a corrupção espalhada
    largamente entre a aristocracia dos tempos do absolutismo. Não quizemos
    senão apresentar-vos em grande, a origem monstruosa d'essa
    _propriedade_, de que nós a espoliamos, e mostrar-vos quanto ella em
    massa era digna de que se conservassem dous systemas tributarios no
    paiz: um para o estado e outro para ella: ambos, porém, tirados aos
    contribuintes.

    Direis que com esses bens da corôa recompensou o absolutismo os serviços
    das comquistas? Recompensou é verdade; mas foi os d'aquelles que vinham
    curvar a fronte gloriosa á corrupção cortezã: as almas altivas e nobres
    tinham paga diversa. Lembrae-vos de Pacheco, de Albuquerque, de Camões.
    Depois serviram elles nos tempos modernos para isso mesmo? Quantas
    alcaidarias-móres, quantos direitos reguengueiros, quantas terras da
    corôa, distribuistes pelos soldados da guerra peninsular, cuja sorte
    vindes hoje deplorar com lagrimas hypocritas? Fostes sequer buscar os
    bens da corôa a essas casas, onde elles se tinham tornado uma especie de
    patrimonio, para recompensar aquelles que se batiam contra nós os
    salteadores do Mindello? Repartistes sequer a tunica popular segundo as
    vossas idéas de justiça politica? Respondei.

    Com o decreto de 13 de agosto D. Pedro cumpriu as promessas dos seus
    antepassados, os reis da edade-media; mas cumpriu-as segundo as
    condições da civilisação moderna: aboliu o systema tributario local e
    excepcional que seria hoje absurdo, e que devorado pela nobresa era um
    duplicado escandalo. As cinzas de tantas gerações de villãos espoliados
    por seculos, foram, emfim, vingadas pelo braço de um rei. Que quereis?
    Nós, os vis, por força havemos de abençoar a memoria de D. Pedro.

    Dizei, doutores da _Nação_, é verdade ou é mentira aquillo que se
    escreveu nas actas das _vossas_ côrtes de 1641, que não ha prescripção
    contra o reino emquanto elle não tem faculdade, nem liberdade para
    reclamar os seus direitos? Outra vez: respondei.

    Sabeis vós uma coisa? Se o decreto de 13 de agosto podesse conter
    disposições de uma reparação atroz, não só seria preciso fazer cessar as
    prestações foraleiras, mas tambem mandar trabalhar nos campos com as
    cadêas da servidão aos pés, tres ou quatro gerações de donatarios de
    bens da corôa, por conta das suas victimas. Nem assim, talvez, flcaria
    compensada a oppressão e o escandalo de alguns seculos.

    V

    No momento em que escreviamos e mandavamos para a imprensa o ultimo
    artigo, em resposta ao que a _Nação_ escrevera contra nós, a proposito
    das leis da dictadura de D. Pedro, mal imaginavamos que o agente publico
    intervinha na questão, para defender nos tribunaes a memoria do
    imperador, se, como crêmos, é exacto o que se lê hoje nas columnas
    d'aquelle jornal. Se o tivessemos sabido a tempo, o nosso artigo teria
    sido supprimido. Desde o momento em que a auctoridade interveiu no
    combate, a questão acabou para nós. D. Pedro e a sua vida pertencem hoje
    á historia: na nossa opinião o defendel-o ou aggredil-o não pertence ao
    ministerio publico. Crêmos que sem negar os seus deffeitos de homem,
    teriamos meios de o fazer vêr a uma luz mais favoravel, do que o viu a
    _Nação_, e que saberiamos reivindicar para elle a justiça dos homens,
    que apreciam os actos e os successos não só em si, mas tambem nas suas
    causas e effeitos. As reivindicações da imprensa são mais efficazes e
    uteis para os mortos do que as dos tribunaes.

    Na redacção do _Paiz_ ha quem fosse soldado de D. Pedro; quem entrasse
    em mais de vinte combates sob o seu mando supremo. Não lhe consta que
    elle désse nunca ordem aos seus soldados para que, no recontro com os
    inimigos, chamassem os officiaes de justiça para os prenderem, ou os
    escrivães para os auctoarem. A ordem era levar os sessenta na patrona,
    outros sessenta no burnal, e as bayonetas bem pulidas. Se as ordens
    tivessem sido o inverso, o ministerio publico não teria hoje o incómmodo
    de accusar o jornal realista.

    De hoje ávante até que se conclua o processo da _Nação_, o orgão do
    partido do snr. D. Miguel não nos ha-de encontrar mais no campo da
    imprensa, ainda mesmo quando nos aggredisse. A perseguição sanctificou e
    tornou para nós inviolaveis os nossos adversarios politicos.

    Os redactors do _Paiz_ são em geral pobres, e os recursos de um jornal
    nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou
    o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a _Nação_
    em embaraços pecuniarios, nós rogamos singella e sinceramente aos seus
    redactores que não se esqueçam de que no escriptorio do _Paiz_, hão de
    encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e
    provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas[2].

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO GOVERNO

    1854

    Senhor.

    A camara do concelho de Belem, eleita para o biennio de 1854 e 1855, no
    momento de entrar no exercicio das suas funcções, entendeu que o seu
    primeiro dever é fazer subir á presença de V.M., uma exposição fiel da
    situação economica e administrativa do novo municipio, e pedir justiça
    para os habitantes d'elle, sem o que a camara não se poderá habilitar
    para estabelecer os seus meios de administração e satisfazer aos
    encargos que pesam sobre ella. Os vereadores sentem ter de distrahir a
    attenção de V.M. e a dos seus ministros, dos negocios geraes do Estado
    para uma questão puramente local; mas constrange-os a assim procederem a
    obrigação que teem de não trahir a confiança que n'elles depositaram os
    seus concidadãos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, que constituiram os dous
    concelhos de Belem e dos Olivaes com o antigo termo de Lisboa, foram uma
    providencia benefica; mas foram ainda mais do que isso: foram uma
    providencia justa no seu pensamento. O Governo reconheceu no respectivo
    relatorio a _urgencia e a justiça_ d'aquella medida reclamada pelos
    povos. Posto que ahi não se particularisassem os fundamentos d'essa
    justiça, os ministros que propozeram e referendaram aquelles decretos
    tinham-nos por certo presentes. Á camara de Belem cumpre, todavia,
    apontar os principaes para n'elles estribar as conclusões mais
    importantes d'esta representação.

    Talvez em nenhuma questão de direito publico, o legislador deva ser mais
    cauteloso em não ferir o dogma da igualdade dos cidadãos perante a lei,
    do que em materia de tributos. Era todavia n'esta relação que os
    habitantes do _denominado_ termo de Lisboa, pareciam constituir uma
    classe de ilotas no meio da população portugueza. Aos tributos geraes
    d'este territorio, que entravam nos cofres do Estado, accresciam outros
    que constituiam pela sua indole e origem, e pela sua importancia, a
    melhor porção dos impostos municipaes, sendo necessario ainda contribuir
    com uma serie de pesadas e variadas contribuições directas e indirectas,
    que conservavam o primitivo destino, para perfazer a sua quota nos
    encargos geraes do concelho de Lisboa, a que o mesmo territorio andava
    annexo. Por este modo os numerosos habitantes de algumas leguas
    quadradas em volta da capital, ficavam n'essa parte fóra do direito
    commum.

    Na apparencia, esta situação constitucionalmente impossivel, vinha a ser
    a mesma de Lisboa, onde as contribuições arrecadadas na repartição das
    Sete Casas, são verdadeiros impostos municipaes que entram no thesouro
    publico e de que o Governo deduz certa parte para dotação do concelho.
    Mas em Lisboa esta excepção tinha e tem um fim justo. Tende a
    estabelecer a igualdade parecendo destruil-a: equilibra por excesso de
    encargos um excesso de vantagens. Lisboa tem theatros, aqueductos,
    jardins, monumentos que custaram milhões tirados dos cofres publicos,
    escholas superiores, academias, museus, bibliothecas, tudo mantido á
    custa do Estado. Grande parte das contribuições geraes despendem-se no
    seu seio, e a circumstancia de ser o centro da administração, o foco do
    luxo e da civilisação do paiz, dá-lhe uma população fluctuante, que vem
    por mil modos consummir ahi boa parte da renda liquida da propriedade e
    do trabalho nacional. A applicação de uma porção das rendas do municipio
    a compensar beneficios tão custosos para o resto do reino como
    importantes para a cidade, é justa. Repetimol-o, desigualdade apparente
    é n'este caso a igualdade real.

    Estas considerações não eram nem são applicaveis ao territorio
    circumadjacente de Lisboa, districto pela maior parte rural, cuja
    industria agricola definhava, como bem advertiu o Governo, debaixo da
    pressão inevitavel da fiscalisação dos impostos de consumo. Aqui a
    desigualdade de situação, relativamente aos outros concelhos ruraes, era
    palpavel e escandalosa, porque não tinha nenhuma das compensações que
    justificam o gravame extraordinario que pesa sobre a capital. Bastava
    comparar dous factos que estavam patentes aos olhos de todos, para
    conhecer a injustiça que se practicava. Ao ponto que em Lisboa os
    edificios arruinados se reedificavam e se multiplicavam as novas
    construcções; emquanto ahi o commercio em grosso e de retalho e as
    industrias fabris cresciam a olhos vistos, na parte urbana mais populosa
    do termo e que se considerava até como um bairro da cidade, nas
    freguezias de Belem e Ajuda, viam-se cair ou serem derribadas as casas,
    fecharem-se lojas, acabarem pequenas industrias, emfim todos os signaes
    de uma rapida decadencia. A oppressão e o excesso do imposto faziam seu
    officio; o que faltava eram os elementos de vida que annullam em Lisboa
    os effeitos da desigualdade das contribuições.

    Taes deviam ser os fundamentos principaes da desannexação. A
    consequencia forçosa d'esta, era equiparar os novos concelhos aos outros
    concelhos do reino. Foi o que só se fez até certo ponto, deixando-se
    continuar a subsistir a injustiça na applicação para o thesouro publico,
    de uma parte dos impostos de sua natureza municipaes, que até então se
    cobravam pela alfandega das Sete Casas.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, tiveram por objecto beneficiar os
    habitantes do antigo termo. Negal-o seria negar a verdade. O que não
    lhes fizeram foi justiça inteira. Talvez se possa sustentar a
    legitimidade do imposto excepcional e gradativo, que a lei estabeleceu
    nas licenças para a venda de líquidos, até certa distancia da linha de
    circumvallação de Lisboa. É materia essa que esta camara ainda não
    examinou devidamente e sobre que, portanto, não se julga habilitada para
    reclamar, podendo acaso considerar-se tal tributo como uma transformação
    de parte dos impostos de consumo da capital, que de nenhum modo se
    poderiam cobrar nas barreiras. Mas alem d'esse, estabeleceram-se outros
    dous para os quaes a camara não acha razão plausivel. São os de dez reis
    em canada de vinho, vendido a miudo e de quinze reis em arratel de carne
    verde. A disposição que os estabeleceu, reduzindo os direitos que o
    termo pagava ás Sete Casas, importava um beneficio, uma concessão
    parcial; mas importava tambem um encargo que nada pode justificar.

    No relatorio que precede um dos decretos de 11 de setembro relativos a
    este assumpto, assevera-se que a solução dos impostos especiaes que os
    novos concelhos continuam a pagar, é justa _pelos beneficios e cómmodos
    que lhes resultam do contacto com a capital_.

    Quaes são os fundamentos d'esta affirmativa? Occultou-os o Governo. A
    camara procurou rastrial-os. Examinando a serie de factos em que ella se
    poderia estribar, não achou senão tres que não sejam insignificantes:
    1.^o a segurança publica mantida n'uma pequena porção do seu territorio
    pela guarda municipal: 2.^o desnecessidade de um estabelecimento
    especial d'expostos: 3.^o a proximidade do grande mercado de Lisboa para
    os productos da industria agricola dos dous concelhos. Fóra d'isto a
    camara não atina com as vantagens que possa trazer aos seus
    administrados a visinhança da capital.

    Pelo que respeita ao serviço de segurança publica, feito n'uma pequena
    parte do concelho, a camara de Belem, uma vez que se faça inteira
    justiça, pagará cora a melhor vontade pelo seu cofre, a quota que se
    arbitrar proporcional ao serviço da guarda municipal de Lisboa n'este
    concelho.

    Relativamente aos expostos o concelho de Belem está igualmente prompto a
    contribuir para a Sancta Casa da Misericordia de Lisboa, do mesmo modo
    que contribue a camara da cidade, guardada a relação das respectivas
    populações, alem de estar certo que a Junta Geral do Districto não
    deixará de prover n'esse caso, conforme as attribuições que lhe confere
    o § 7 do art. 216.^o do codigo Administrativo.

    Reconhecendo essas vantagens, a camara de Belem dá um documento de boa
    fé, offerecendo-se voluntariamente a retribuil-as. A mesma boa fé a
    obriga, porém, a ponderar que o 3.^o fundamento que póde occorrer para a
    conservação de impostos excepcionaes, ou não existe ou é compensado de
    sobra por desvantagens reaes.

    A população dos novos concelhos de Belem e dos Olivaes é uma população
    principalmente rural, facto que não deveria ter esquecido na confecção
    das leis de setembro. Todos sabem que hoje o maior embaraço da
    agricultura portugueza é a escacez de braços. Tendo-se desenvolvido
    muito em extensão e pouco em intensidade, o augmento progressivo do seu
    producto bruto, resultado da maior area cultivada, não está em harmonia
    com o desenvolvimento da população agricola. Assim, em quanto os
    productos da primeira industria nacional caminham regularmente para a
    baixa pela superabundancia, o salario tende de contínuo a elevar-se. No
    reino em geral a situação do proletario melhorou e muito, porém o
    cultivador por essas tendencias oppostas de alta e baixa, mas que
    convergem ambas em seu damno, cada vez se vê em maiores apuros e
    difficuldades. Este phenomeno commum aggrava-se nas cercanias de Lisboa
    por diversas circumstancias, que justamente procedem da visinhança de
    uma populosa capital. A industria fabril desenvolvida em Lisboa
    desproporcionadamente com o resto do paiz, exceptuando, talvez o Porto,
    traz uma procura maior de braços, que é causa poderosa do accrescimo do
    salario rural nos concelhos limitrophes. Depois o excesso de produccão
    geral mantendo um excesso de concorrencia por toda a parte, exaggera
    esta no principal mercado do reino, e a depressão dos preços torna-se
    correlativa d'essa exaggeração; por isso acontece, não só equipararem-se
    ás vezes, mas até acharem-se mais baratos os generos (captivos de
    direitos) na capital do que nos districtos remotos onde foram
    produzidos. Accrescente-se a isto a decadencia no mercado dos trigos
    durazios, principal producção do antigo termo, e a preferencia dada aos
    trigos ribeiros improprios d'estes terrenos; accrescente-se tambem a
    continua destruição dos pomares por uma enfermidade que não tem sido,
    que não será provavelmente atalhada, e poder-se-ha calcular se os novos
    concelhos, debaixo destas condições desfavoraveis, independentes da sua
    proximidade ou não proximidade da capital, mas peioradas pelas
    circumstancias que nascem d'essa visinhança, devem ser onerados com
    impostos extraordinarios.

    Na situação economica em que se acha a agricultura, de produzir caro e
    vender barato, a tenuidade do lucro sente-se com dobrada força na
    visinhança da capital, e essa visinhança para as populações agricolas,
    longe de ser um bem é um mal. A maxima concorrencia do numerario é em
    Lisboa, e o numerario como outra qualquer mercadoria deprime-se pela
    concorrencia; ou por outra, a vida torna-se mais cara por esse motivo
    não só na cidade mas tambem nas suas immediações. Ao passo porém, que se
    dá este facto, occorre outro que com elle se combina. A população rural
    visinha de Lisboa, cuja civilisação material é muito maior que a das
    provincias, participa mais ou menos d'essa civilisação, porque a
    influencia d'esta é inevitavel e irresistivel. D'ahi resulta para ella
    um maior numero de necessidades a satisfazer com o numerario deprimido
    no seu valor de troca. E este facto vem não só influir directamente no
    bem estar do proprietario, do agricultor, do seareiro, do pequeno
    commerciante, dos contribuintes, em summa, mas tambem associar-se ás
    causas geraes e locaes da elevação do salario, e a recair por outro modo
    indirectamente sobre elles.

    Ha mais. Quando a acção fiscal das Sete Casas abrangia tambem o termo,
    os cereaes que vinham de fóra encontravam aqui um tributo que
    rigorosamente constituia um dos chamados direitos protectores para os
    lavradores d'estes contornos. Era o de 60 reis por arroba no genero, ao
    passo que os cereaes de lavra propria consumidos no termo não soffriam
    contribuição alguma de consumo. Separados os novos concelhos, os cereaes
    estranhos vem concorrer livremente com os de producção local, que aliás
    tem de ir luctar com elles no mercado de Lisboa, onerados com os mesmos
    60 reis por arroba que os outros pagam. Accresce a isto outro
    inconveniente resultante da proximidade de um grande mercado. Os cereaes
    do Ribatejo e Alemtejo affluindo á capital, deprimidos como se notou já
    por uma concorrencia excessiva, achando aberto o mercado contiguo dos
    novos concelhos, com um favor de quasi 50 reis por alqueire que lhes
    resulta da suppressão do direito fiscal n'estes pontos, e sem differença
    de custo no transporte, affluem naturalmente aqui ainda mais do que a
    Lisboa, e augmentam pelos effeitos de urna concorrencia exaggerada, no
    mercado interno dos dictos concelhos, os embaraços geraes e particulares
    em que laboram os agricultores do nosso territorio.

    A camara, Senhor, tem de advertir de passagem, para que os seus desejos
    não sejam calurmniados e as suas idéas mal interpretadas, que não
    suspira por direitos alguns protectores, por leis d'excepção que
    favoreçam a agricultura do concelho de Belem com detrimento da alheia.
    Pelo contrario está persuadida de que a liberdade da industria e do
    commercio, quanto mais ampla melhor, hade vir a remediar os males que
    quasi sempre resultam da transição do antigo systema de tropeços
    fiscaes, para o systema contrario que é o verdadeiramente protector. A
    camara crê ser fiel interprete da opinião dos seus representados,
    asseverando que estes preferem a sua independencia municipal, a essa
    união absurda com a capital, que tinha por base a injustiça e a
    iniquidade; preferem-na a essa rede de vexames que fazia pesar sobre
    este territorio a fiscalisação das Sete Casas e que eram uma fonte
    perenne de immoralidade e de crimes; preferem-na aos tributos desiguaes
    e sem razão d'existencia com que estavam onerados. O intuito da camara é
    provar que os que se decretaram são tão injustos como os que foram
    supprimidos, porque as vantagens da visinhança de Lisboa em que a
    dictadura se fundou para os estabelecer, não existem ou são annulladas
    por desvantagens que resultam da mesma circumstancia.

    Ha, Senhor, um fado assaz significativo, que se prende a esta questão, e
    sobre o qual a camara de Belem chama a attencão dos ministros de V.M. O
    termo fiscal das Sete Casas não abrangia só o territorio dos concelhos
    novamente creados: estendia-se por freguezias de outros concelhos
    limitrophes. Acabando com o termo, e creando os novos impostos só nos
    dous municipios, a dictadura libertou indirectamente de todos os onus
    extraordinarios aquellas freguezias. Se isso era justo em relação a
    ellas, como o seria tambem que ficassem ao mesmo tempo oneradas as que
    compõem os concelhos de Belem e dos Olivaes? Nenhuns motivos podem
    existir para tão flagrante desigualdade.

    Mas supponhamos, Senhor, que as considerações em que se estriba a
    imposição dos novos tributos, cuja suppressão a camara pede, eram
    exactas. Não desapparecem essas razões diante de outro facto da propria
    dictadura, de que ella se esqueceu ao promulgar os decretos de 11 de
    setembro? O Governo contractou a feitura de um caminho de ferro que
    partindo da capital vai atravessar alguns territorios mais ferteis do
    reino. Os effeitos de uma tal via de communicação serão o approximar,
    tornar contiguos, digamos assim, das portas da capital, um grande numero
    de ricos concelhos da Extremadura e do Alemtejo. Em relação ao contacto
    commercial entre esta e muitos dos concelhos do Ribatejo; em relação á
    facilidade de transportes, e communicações de toda a ordem, esses
    concelhos ficarão mais perto do centro de Lisboa do que Odivellas,
    Carnide, Porcalhota, o valle de Oliveiras ou a ribeira de Algés, cujos
    cultivadores teem de conduzir os productos da sua industria ou de ir
    buscar os objectos de que carecem, por estradas ordinarias abertas
    imperitamente em encostas ladeirentas, estradas que não é possivel mudar
    ou sequer melhorar, sem dispendio de avultados impostos municipaes.

    Se dos novos concelhos se devem tirar algumas dezenas de contos de reis
    porque estão em proximo contacto com Lisboa, ou a igualdade dos cidadãos
    perante as leis tributarias é uma fabula, ou a esses concelhos
    corographicamente mais remotos, mas atravessados pelo caminho de ferro,
    se ha-de exigir uma maioria de impostos, tanto ou mais pesados que os
    creados pelos decretos de 11 de setembro, para o termo desannexado e
    constituido municipalmente.

    Mas abstrahindo da existencia ou não existencia do caminho de ferro,
    temos um facto actual e não contingente, que mostra com evidencia o
    nenhum fundamento de um imposto especial nos dous municipios do antigo
    termo. É o dos concelhos da margem esquerda do Tejo em frente de Lisboa.
    Todos sabem que a facilidade de transporte e communicação pelas vias
    aquaticas apenas é inferior á que proporcionam as estradas ferreas, e
    que em relação á barateza esse meio de transito é ás vezes superior ao
    d'estas. Nos seus effeitos economicos a distancia de algumas freguezias
    dos novos concelhos ao interior da cidade, empregando os meios
    ordinarios de transporte, pelos caminhos communs, está talvez n'uma
    razão quadrupla da distancia d'Almada (por exemplo) ao centro da
    capital. E todavia ninguem se lembra de fazer pagar aos habitantes
    d'aquelles territorios um imposto especial, pela rapidez e facilidade
    das suas communicações com Lisboa.

    A camara, Senhor, não pede esses impostos, porque não pede absurdos, nem
    folga com os males e oppressões alheias. Reclama simplesmente para os
    seus administrados o direito commum, a lei da igualdade garantida na
    Carta constitucional.

    Demonstrada a insubsistencia da razão do relatorio que precede um dos
    decretos de 11 de setembro, resta outra talvez menos categoricamente
    expressa no mesmo relatorio, mas que era a mais forte em relação ao
    thesouro publico. O respectivo ministro presuppunha uma diminuição de
    renda pelo facto da desannexação do termo. Obstava-lhe isto á suppressão
    de alguns direitos de consummo em Lisboa, mas influia tambem na
    conservação de parte d'elles no antigo termo. Vem proval-o a discussão
    que houve na camara dos Dignos Pares na sessão de 13 de agosto de 1853,
    exclusivamente relativa aos impostos excepcionaes conservados nos dous
    novos concelhos. N'essa sessão o mesmo ministro declarou que, attento o
    estado da Fazenda, a mente do Governo não fôra effectuar uma reducção no
    _quantitativo_ dos impostos, mas _unicamente_ alliviar os vexames. Posto
    que esta declaração seja altamente inexacta, (visto que foi diminuido o
    quantitativo na carne e no vinho, e substituida a base do consummo pela
    da venda, o que põe a salvo do mesmo imposto, todos os que mandarem vir
    de fóra do concelho aquelles dous generos directamente para o proprio
    consummo, e visto que foram inteiramente abolidos outros impostos das
    Sete Casas, no termo, como os do azeite e do combustivel) todavia a
    explicação é terminante quanto ás considerações economicas que moveram a
    dictadura a conservar nos novos concelhos _uma parte_ dos antigos
    impostos. Além da persuasão de que era justo pagar mais pela
    contiguidade de Lisboa, as apprehensões do Governo ácerca de um
    desfalque na renda publica, em frente de um _deficit_, obrigaram-no
    pois, a não estender a esta parte do paiz o beneficio do direito commum.

    Sem discutir se é licito invocar motivos de tal ordem quando se tracta
    de um negocio de justiça ou de injustiça, porque se o acto é justo as
    considerações de conveniencia ou inconveniencia são superfluas, e se é
    injusto nunca ellas o podem legitimar, a camara de Belem acceita esse
    fundamento. Se, porém, os factos vierem provar que a desannexação do
    termo, longe de trazer um desfalque nas rendas cobradas pelas Sete
    Casas, deu um resultado contrario, isto é, um augmento de receita, é
    evidente que esse mesmo fundamento cae por terra, e a conservação dos
    direitos nos novos concelhos fica reduzida á categoria de uma oppressão
    absolutamente infundada.

    E é exactamente, Senhor, o que se verifica. Tomado o rendimento das Sete
    Casas e Terreiro (repartições unidas pelas reformas de 11 de setembro de
    1852) durante os primeiros seis mezes da nova organisação, (setembro,
    outubro, novembro, dezembro, de 1852, janeiro e fevereiro de 1853)
    acha-se que o seu valor foi de 532:098$421 réis: examinando porém os
    rendimentos das duas repartições separadas, nos mezes correspondentes de
    1851 a 52, acha-se que o das Sete Casas foi de 416:054$523 réis e o do
    Terreiro de 70:894$940 réis, o que perfaz um total de 486:949$463 réis.
    Assim a concentração da acção fiscal até á linha da circumvallação, onde
    essa acção é possivel e efficaz, produziu o effeito que devia produzir,
    um augmento de receita em seis mezes de 45:148$958 réis. Na verdade, os
    novos direitos creados sobre legumes e que subiram n'esse periodo a
    5:450$561 réis, reduziriam o excesso a menos de 40 contos: mas deve-se
    attender tambem a que desappareceu do rendimento das Sete Casas a verba
    dos direitos de exportação de vinhos, e além d'isso, por effeito da nova
    lei da sisa, o producto d'esta diminuiu nos seis mezes de 1852 a 53,
    tomados por termo de comparação, de 3:500$000 réis, podendo-se deduzir
    da falta de uma verba e da diminuição da outra, que o sobredito
    accrescimo nos direitos de consummo, excede muito os 45 contos de réis.

    Taes são, Senhor, os factos e as razões que a camara municipal de Belem
    submette á consideração de V.M., ácerca dos impostos extraordinarios que
    ficaram pesando sobre os novos municipios. A abolição d'elles é
    moralmente necessaria, e de certo o Governo de V.M. não deixará, á vista
    das considerações expostas, de tomar, perante o Parlamento, a iniciativa
    de uma modificação indispensavel da lei, cujo espirito e cuja intenção
    benefica não é possivel desconhecer.

    A camara, Senhor, diz–intenção benefica–e dil-o mui de proposito.
    Repetindo ainda uma vez que os habitantes d'este concelho tiraram
    vantagens reaes dos decretos de 11 de setembro, ella sente que lhe
    cumpra representar dentro em breve a V.M., sobre as interpretações
    forçadas que se tem dado ás disposições claras e terminantes da lei,
    para se gravarem os povos, e abusos que se tem practicado e practicam,
    para conservar em proveito particular os vexames de que, na sessão de 13
    de agosto de 1853, o ministro da fazenda asseverava (provavelmente por
    falta de exactas informações) estarem livres os novos municipios. N'esta
    parte a camara recorrerá opportunamente a V.M., para que de prompto se
    occorra a males, cujo remedio depende simplesmente do executivo. Na
    presente supplica restringe-se a mostrar os inconvenientes que só podem
    ser removidos pelo legislativo.

    A insubsistencia dos motivos que se buscaram para conservar os novos
    concelhos n'uma situação excepcional produziu, como era de esperar,
    disposições que na lei contrariavam esses motivos. A consciencia de que
    realmente os novos concelhos não deviam ser onerados com os encargos
    especiaes que se lhes impozeram, inspirou a prescripção do artigo 12.^o
    do decreto de 11 de setembro de 1852, expedido pelo Ministerio do Reino,
    no qual se estatue que o Governo dará annualmente uma prestação ás
    camaras dos municipios novamente creados, equivalente á despeza media
    que anteriormente fazia a camara de Lisboa, com a illuminação e calçadas
    no territorio desannexado. Se na realidade os impostos então
    estabelecidos eram uma conpensação das vantagens obtidas pela
    proximidade da capital, se o Governo queria alem d'isso obstar com elles
    a um augmento de _deficit_, a camara de Belem não póde atinar com a
    razão porque se lhe havia de fazer um dom puramente gratuito,
    augmentando para isso o _deficit_ em detrimento commum da nação. Nem se
    diga que essa dadiva é deduzida da prestação concedida ao conselho de
    Lisboa. Não importam para este caso nem a origem ou legitimidade
    d'aquella prestação, nem a justiça das deducções que n'ella se fazem. O
    que importa é que estabelecendo a dotação que se destina a esta camara,
    a dictadura ou não estava bem firme nos principios que invocava, ou
    desbaratava uma somma que aliás deveria entrar nos cofres publicos,
    fazendo donativo d'ella aos habitantes do antigo termo.

    Mas esta disposição não é só contradictoria com os fundamentos das
    provisões tributarias de um dos decretos de 11 de setembro: é tambem
    inexplicavel em si mesma. Ordena-se ahi que as sommas dadas aos novos
    concelhos, sejam calculadas pela media da anterior despeza local, de
    illuminação e calçadas. Porque, porém, essas duas unicas verbas hão-de
    ser tomadas para base do calculo, e não conjunctamente a assaz avultada
    da limpeza, a dos vencimentos, etc.?

    Se o Governo entende, contra as suas proprias declarações, que recebendo
    d'estes dous concelhos perto de 60 contos annuaes de contribuição
    extraordinaria, tem o dever de prover ás suas despezas municipaes, não é
    por certo com supprimentos calculados arbitrariamente e muito inferiores
    aos encargos locaes, que reparará a flagrante injustiça d'aquella
    contribuição.

    Se todavia taes provisões devem cair deante das considerações que
    theoricamente as invalidam, que dirá, Senhor, esta camara ácerca do
    artigo 6.^o do decreto de 11 de setembro expedido pelo Ministerio do
    Reino, que priva o concelho das propriedades municipaes, para as
    attribuir ao de Lisboa? Acaso os logradouros communs dos visinhos e que
    só pelos visinhos podem materialmente ser utilisados, os mercados, cuja
    localidade aliás pertence á camara escolher, com approvação da Junta
    Geral de Districto, os cemiterios emfim, onde repousam as cinzas dos
    paes, irmãos e filhos dos habitantes do concelho, podem ou devem
    constituir propriedade alheia? Esta prescripção, van quanto a mercados e
    logradouros de que os habitantes de Lisboa não podem utilisar-se,
    offerece, quanto aos cemiterios, uma nova especie de servidão, a
    servidão que passa alem dos tumulos. As cinzas dos mortos do concelho de
    Belem pertencerão ao municipio da capital, e poderão ser mudadas ou
    dispersas ou vendidas com o chão que as cobre, sem que seja licito á
    propria municipalidade obstar a taes actos? Fortes deviam ser os motivos
    que a dictadura teve presentes para tomar tão estranha providencia; mas
    esta camara não os alcança, e por isso mal póde combatel-os.

    Demonstrado, como parece ficar, que os decretos de 11 de setembro,
    justos e beneficos no seu pensamento, pelas provisões especiaes que
    encerram, annullam na maior parte os bons effeitos d'esse pensamento,
    segue-se a necessidade da sua reforma. Tendo sido os mesmos decretos
    acto do Governo constituido em dictadura, e sendo para elle honroso o
    havel-os publicado, embora imperfeitos no seu desenvolvimento, esta
    camara entendeu que devia antes dirigir-se a V.M. do que ao Parlamento,
    para que o Governo podesse usar n'este negocio de uma iniciativa que
    justamente lhe pertence.

    Não só essa consideração, mas tambem o sabido e provado amor de V.M. á
    equidade e a tudo quanto possa arredar dos povos oppressões e vexames,
    asseguram feliz exito a uma pretenção tão legitima, e fundada em tão
    urgentes razões. Se, porém, os ministros de V.M. houvessem de
    desprezal-a, o que de nenhum modo esta camara espera, então ella se
    veria na necessidade de appellar directamente para os representantes do
    paiz, e não cessaria nas suas supplicas até obter desaggravo e inteira
    justiça.

    A camara de Belem está tão convencida de que não existe motivo nenhum
    razoavel para os seus administrados viverem, em relação aos impostos,
    fóra do direito commum; conhece tanto a impossibilidade de sobrecarregar
    com fintas, derramas ou outros quaesquer tributos, um concelho em cuja
    parte urbana as apparencias externas bastam para indicar decadencia, e
    que na parte rural lucta com as difficuldades que ficam ponderadas;
    repugna-lhe tão profundamente annullar pelo estabelecimento de novos
    encargos, o allivio que resultou para este territorio da sua separação
    da capital, que está na firmissima resolução de não exigir dos
    habitantes d'elle um unico ceitil para as despezas do municipio, em
    quanto não forem libertados do tributo extraordinario lançado pelas leis
    de setembro sobre dous dos mais importantes objectos de consummo, as
    carnes verdes e o vinho, tributo cuja importancia n'este concelho excede
    a 30 contos de réis. Seja qual fôr o resultado dos seus esforços, que
    serão incessantes ácerca d'este negocio, a resolução que tomou de não
    legitimar com a sua aquiescencia uma situação constitucionalmente
    impossivel, ficará inabalavel porque assenta em convicções
    indestructiveis.

    A camara reconhece que o mal não pode ser remediado senão n'um certo
    prazo, pela indispensavel intervenção do Parlamento. Existe além d'isso
    um contracto de arrematação dos novos impostos no concelho de Belem, que
    só termina em junho do corrente anno, e um dos primeiros deveres do
    Governo é manter illésa a fé publica. O tempo que resta ainda para os
    habitantes d'este municipio soffrerem a arrematação dos direitos de
    venda sobre o vinho e carnes verdes, é sufficiente para o Governo fazer
    votar nas duas casas do Parlamento, as reformas indispensaveis dos
    decretos dictatoriaes de 11 de setembro. No decurso d'este periodo a
    camara procurará conciliar os deveres que lhe impõe a voz da consciencia
    com a escrupulosa obediencia ás leis vigentes, porque sabe que a
    primeira condição da liberdade é a observancia da lei. Na orbita da sua
    acção não tolerará abusos da parte dos arrematantes d'aquelles tributos
    excepcionaes, mas não tolerará tambem que lhes sejam defraudados pelos
    habitantes do concelho do que legitimamente lhes pertencer.

    Applicando ao cofre municipal de Belem uma quota deduzida da dotação do
    de Lisboa, calculada sobre uma base desarrazoada, mas precisa, as leis
    de setembro attribuiram ao Governo e á camara da capital a avaliação
    d'essa quota, excluindo virtualmente a camara de Belem do direito de
    verificar, á vista dos documentos da mesma avaliação, a exacção d'ella.
    É mais uma violencia transitoria a que este concelho tem de
    submetter-se. A camara acceitará essa somma (qualquer que venha a ser)
    fixada pelo arbitrio do Governo e da camara de Lisboa interessada em que
    seja a mais modica possivel. Com ella, com o producto das licenças e com
    outra qualquer pequena fonte de rendimento que possa existir, occorrerá
    ás despezas de administração, de limpeza, de calçadas e de illuminação,
    até onde esses rendimentos chegarem, certa de que os seus representados
    preferirão a falta temporaria de uma parte dos cómmodos e vantagens que
    deve subministrar-lhe a administração municipal, a que esta camara
    practique o minimo acto, do qual se possa deduzir que o concelho presta
    a sancção do seu assentimento a provisões tributarias que são moralmente
    impossiveis.

    Se porventura, Senhor, o Governo de V.M. entendesse dever cerrar os
    ouvidos ás representações d'esta camara, o que nem remotamente os abaixo
    assignados suspeitam, tambem ella poderia elevar respeitosamente á
    presença de V.M., uma supplica para que ordenasse ao seu Governo que,
    usando das attribuições que lhe confere o artigo 106.^o do Codigo
    Administrativo, a dissolvesse, sendo certo que os habitantes do concelho
    de Belem facilmente achariam outros cidadãos que melhor soubessem
    promover os seus interesses municipaes do que os actuaes vereadores.

    Deus Guarde a Vossa Magestade por muitos e dilatados annos como todos
    havemos mister,–Camara 11 de fevereiro de 1854–O presidente, Alexandre
    Herculano–João Ferreira Godinho–João José Teixeira–José Street
    d'Arriaga e Cunha–Visconde da Junqueira.

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO PARLAMENTO

    1854

    Senhores deputados da nação portugueza.

    A camara municipal do concelho de Belem vem perante o Parlamento pedir a
    reforma dos decretos de 11 de setembro de 1852, que instituiram com o
    antigo termo de Lisboa os dous concelhos de Belem e Olivaes. Ella
    recorreu já com esse intuito ao Governo de Sua Magestade, para que o
    mesmo Governo usasse da sua iniciativa naquella reforma, pelos
    fundamentos expostos no requerimento que lhe dirigiu, e que se ajunta á
    presente súpplica. Á vista d'este o Parlamento não só apreciará, sem que
    seja necessario repetil-as aqui, as razões em que esta camara se
    estriba, para pedir uma reforma altamente reclamada pelos principios
    mais incontestaveis do direito publico constitucional e da economia
    politica, mas tambem avaliará devidamente o proceder do Governo sobre
    tão grave assumpto.

    N'esse requerimento a camara dava ao Ministerio uma prova de deferencia,
    expondo-lhe os aggravos que dos decretos de setembro resultam para os
    seus administrados, e confiando á sua iniciativa o remedio dos mesmos
    aggravos. Via na idéa fundamental dos decretos uma idéa benefica e
    justa, e esperava que o Governo adoptasse uma desenvolução mais logica
    de um pensamento que era seu. Quando assim não succedesse esta camara
    tinha o direito de contar com uma denegação franca e positiva dentro de
    curto prazo. Só assim poderia recorrer em tempo opportuno á
    Representação Nacional. Versando a questão principalmente sobre tributos
    cobrados por arrematação, e devendo esta renovar-se antes de julho do
    anno corrente, é claro que a resolução favoravel da pretensão da camara
    de Belem ficaria indefinidamente addiada, logo que, celebrada a nova
    arrematação, se creasse a necessidade de manter por um, dous ou tres
    annos a fé de um contracto, que nem o proprio Parlamento poderia
    invalidar sem prévia indemnisação aos lesados.

    Á deferencia d'esta camara o Governo respondeu com o silencio; á
    confiança d'ella na sua illustração, na sua justiça, na sua lealdade
    respondeu com uma das propostas apresentadas na Camara dos Senhores
    Deputados pelo Ministro da Fazenda, na sessão de 11 de abril, proposta
    relativa ao imposto do real d'agua, inteiramente connexa com a pretensão
    do municipio de Belem, e cuja approvacão sem restricções importa uma
    negativa ás suas justissimas súpplicas. Este procedimento, posto que
    singular, seria na verdade cómmodo para sem ruido se calcarem aos pés a
    justiça e o direito de milhares de cidadãos, se a esta camara não
    incumbisse velar por elles, e impedir que o Parlamento haja de ser
    illudido, tornando-se innocente cumplice de uma obra de iniquidade.

    Reportando-se ás ponderações feitas no requerimento dirigido ao Governo,
    sobre as diversas disposições mais ou menos irreflectidas e injustas dos
    decretos de 11 de setembro, que esta camara espera sejam abrogadas ou
    substituidas pelo Parlamento, ella invoca especialmente a attenção dos
    Senhores Deputados da Nação sobre o imposto excepcional de quinze réis
    em arratel de carne e de dez réis em canada de vinho, creado nos dous
    novos concelhos de Belem e Olivaes, e assimilado ao real d'agua, por ser
    lançado, não sobre o consumo total, mas sobre a venda a retalho, e por
    ficar incluindo em si, nos ditos concelhos, aquelle antigo tributo
    geral.

    Na representação junta á presente súpplica está ponderada largamente a
    insignificancia dos fundamentos em que a dictadura de 1852 se estribou,
    para crear aquelle tributo excepcional. Aqui, esta camara tem
    considerações de outra ordem que ajuntar ás que offereceu ao Governo, e
    que por certo não serão inuteis na discussão da materia.

    A parte tributaria dos decretos de 11 de setembro pecca desde logo na
    base. É sabido que os tributos do paiz, em harmonia com as nossas
    instituições, se dividem em duas categorias: tributos geraes e
    contribuições municipaes. Directos ou indirectos, a condição de todos os
    impostos geraes é a universalidade. A Carta consagrou este principio. A
    lei que o quebrar é de direito nulla. Pela sua indole o imposto
    indirecto affecta ás vezes mais particularmente uma classe de cidadãos,
    conforme os objectos sobre que recae; mas esse facto resulta sempre das
    leis economicas e da diversidade das condições sociaes. O direito
    publico escripto não póde nunca admittir a hypothese de se tributarem
    diversamente os habitantes de diversas circumscripções. Os impostos
    municipaes, destinados a despezas publicas exclusivamente locaes, são os
    unicos que justamente variam de localidade para localidade, porque o
    municipio é uma pequena sociedade civil dentro da grande sociedade, e os
    seus membros teem deveres e direitos, vantagens e encargos proprios e
    exclusivos da vida publica municipal. Os decretos de setembro, em
    contravenção d'estas doutrinas, crearam um tributo hybrido nos dous
    concelhos do antigo termo: fundiram no imposto do real d'agua outro, que
    é municipal na sua indole, porque exclusivo e de localidade, e que é ao
    mesmo tempo geral na sua applicação, por ser destinado a entrar nos
    cofres do Estado. Esta situação, monstruosa e constitucionalmente
    impossivel, é que o Parlamento, a quem incumbe manter as doutrinas da
    Carta e a inviolabilidade dos principios, deve primeiro que tudo fazer
    cessar.

    Na verdade a dictadura fundamentou as insolitas provisões dos decretos
    de 11 de setembro, nas vantagens que os dous concelhos deviam auferir da
    proximidade da capital. Dado, porém não concedido, o facto, a
    consequencia d'elle, se a dictadura soubesse respeitar as boas
    doutrinas, seria exigir uma compensação directa do municipio, na
    hypothese de que essas vantagens resultavam de um sacrificio especial do
    Estado, porque, resultando das condições naturaes e corographicas dos
    dous concelhos, é ignorar os elementos da economia politica, imaginar
    que taes vantagens escapam aos tributos geraes. Reduzindo os fundamentos
    allegados pela dictadura ás suas verdadeiras dimensões na representação
    junta, esta camara declarou que acceitaria de bom grado o encargo de
    retribuir directamente quaesquer beneficios, em que se dessem os
    caracteres que exigem uma retribuição especial. Era o mais que
    legitimamente d'ella se podia exigir, e que ella se apressou a offerecer
    para tirar todos os pretextos á espoliação.

    Independente da inconstitucionalidade do tributo especial, que os
    decretos de setembro estabeleceram nos dous concelhos do antigo termo,
    para elles poderem gosar de um direito desconhecido dos publicistas, o
    _direito de proximidade_, é de notar o desacordo d'este acto da
    dictadura com o systema que, como tal, e depois como poder executivo, o
    actual Ministerio parece haver adoptado. As suas tendencias, pela
    reducção das pautas, pela adopção do imposto de repartição e por outras
    providencias analogas, bem ou mal concebidas, são evidentemente para o
    tributo directo e para a sua divisão equitativa. E todavia, tractando de
    impôr uma especie de contribuição de guerra nos dous concelhos que
    creára, em vez de exigir a troca de serviços, fossem elles quaes fossem,
    a compensação directa dos sacrificios especiaes do Estado em beneficio
    especial dos mesmos municipios, por uma somma qualquer paga pelos cofres
    das respectivas camaras, a dictadura quintuplicou ahi o imposto do real
    d'agua, imposto cuja substituição ha muito houvera procurado qualquer
    Governo, que, habituando-se a fazer ou a propôr leis depois de examinar
    os factos, achasse que elle tira das bolsas dos contribuintes talvez o
    triplo do que entra nos cofres publicos, com offensa flagrante dos
    principios fundamentaes sobre materia de contribuições, acceitos por
    todos os economistas desde Adam Smith até hoje.

    A dictadura, promulgando os decretos de 11 de setembro, reconheceu nos
    respectivos relatorios uma verdade sabida por todos, a decadencia da
    riqueza nos territorios _extramuros_ sujeitos á fiscalisacão das
    Sete-Casas, decadencia que na realidade, e segundo a opinião do proprio
    Governo, procedia do peso dos impostos e dos vexames, ainda mais
    gravosos, que se ligavam á sua arrecadação e fiscalisação. Esse estado,
    procedido de uma situação tributaria especial, repugnava a todas as
    conveniencias publicas; repugnava á justiça e á moral. A primeira e mais
    importante necessidade na reforma das Sete-Casas era, na opinião dos
    Ministros, destruir esse estado anormal. O Governo entendia com a medida
    que decretava _prover amplamente ás urgentes e justas reclamações dos
    povos_. É evidente que as consequencias logicas d'estas premissas
    consistiam em acabar com o tributo excepcional e com as oppressões; em
    acabar no termo, como diziam os Ministros, com os _impostos de cidade e
    vexames a elles inherentes_. Vejamos como estas bellas promessas se
    realisaram.

    Depois d'espoliar os novos concelhos de todos os proprios, que lhes
    pertenciam pelo simples facto de existirem, attribuindo á camara de
    Lisboa baldios, logradouros, predios urbanos e rusticos, mercados,
    aqueductos, e até os ossos dos mortos, nos dous concelhos de Belem e
    Olivaes, do modo que se vê nos decretos de 11 de setembro, e vai
    largamente exposto no requerimento appenso a esta súpplica, a dictadura
    veiu á questão do imposto especial. Escondido no meio das phrases
    pomposas, dos annuncios prosperos do futuro, encontra-se no relatorio
    dos Ministros o seguinte periodo:–«os concelhos novamente creados,
    ficando sujeitos ás imposições geraes do reino, apenas são obrigados ao
    pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os deixa em grandissima
    vantagem em relação ao seu estado anterior.»–Examinemos se os factos
    condizem com estas affirmativas.

    O antigo termo fiscal das Sete-Casas, como é vulgarmente sabido,
    compunha-se de 37 freguezias, 23 pertencentes ao termo municipal de
    Lisboa, e 14 aos termos de outros concelhos limitrophes. No anno
    economico que precedeu immediatamente a reforma das Sete-Casas e a
    creação dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o rendimento d'essa casa
    fiscal no termo d'ella dependente foi proximamente, segundo os mappas
    officiaes, de reis 62:000$000. Suppondo as forças economicas das 23
    freguezias _extramuros_ do concelho de Lisboa similhantes ás das 14 dos
    outros concelhos, porque as desigualdades entre as de cada um dos dous
    grupos são compensadas pelas desigualdades entre as do outro grupo,
    segue-se que os habitantes dos dous novos concelhos, ou das 23
    freguezias, pagavam proximamente 38 ou 40 contos. O novo imposto foi
    arrematado nos dous concelhos em 51 contos, despresadas as fracções. É
    portanto evidente que o encargo tributario dos dous concelhos ficou
    sendo maior do que era d'antes. Á vista disto, o Parlamento poderá
    apreciar qual é essa _grandissïma vantagem_ em que os deixaram,
    relativamente ao seu estado anterior, os decretos de 11 de setembro.

    Cumpre aqui obviar a um reparo que por parte do Governo, ou dos homens
    de simples theorias se poderá fazer. Descendo á analyse dos impostos das
    Sete-Casas achar-se-ha na verdade que d'antes, no territorio dos dous
    novos concelhos, eram tributados mais generos do que hoje, e que nas
    proprias carnes verdes o imposto era duplo e no vinho quadruplo. Mas o
    ponto verdadeiro da questão é o comparar a totalidade do onus a que
    estes territorios estavam sujeitos, com aquelle a que o estão agora.
    Quando se diz que era impossivel que o termo prosperasse debaixo da
    pressão dos tributos, attende-se ao facto real, e não ao facto nominal.
    A differenca enorme, que achamos entre os suppostos resultados das
    imposições e fiscalisação das Sete-Casas e os seus resultados
    verdadeiros, o que prova? Prova o mesmo que se deduz de outro facto
    altamente significativo, observado na historia do rendimento das
    Sete-Casas no decurso de 18 ou 20 annos, isto é, que esse rendimento
    augmenta logo que se encurta o termo fiscal, diminue desde que este se
    dilata; prova que a medida de reduzir a acção das Sete-Casas ao
    perimetro da circumvallação da cidade foi profundamente judiciosa, e um
    acto em que, á justiça feita aos habitantes do antigo termo,
    separando-os municipalmente da capital, se associou a conveniencia do
    thesouro; prova finalmente que, a não suppormos uma espantosa
    malversação nas Sete-Casas, o contrabando, esse castigo supremo e
    inevitavel de leis ineptas e anti-economicas, remediava até certo ponto
    a exaggeração do tributo, sendo impotente contra elle uma fiscalisação
    violenta, assoladora, immoral nas suas consequencias, e incapaz de
    preencher os fins a que era destinada.

    O imposto sobre a carne e o vinho basta pois, na realidade, para
    compensar actualmente com um gravame novo, ainda maior, o gravame
    antigo. Mas não ha só isto. Na representação junta, dirigida ao Governo,
    esta camara absteve-se de discutir o imposto gradativo, estabelecido
    pelos decretos de 11 de setembro para as vendas de liquidos. Queria
    examinar primeiramente os effeitos positivos d'esse imposto, que ao
    simples aspecto parece ter unicamente por objecto tornar mais facil a
    fiscalisação das barreiras da cidade, e ferir especialmente, de um modo
    indirecto, o consumo de vinho feito pelas classes inferiores da capital
    fóra da linha de circumvallação. A verdade, porém, é que elle nem
    protege a fiscalisação naquella linha, nem recae só sobre o povo da
    capital que vem (quasi exclusivamente nos dias sanctos) consumir vinho
    nos arrabaldes. Por grande que seja este consumo, é evidentemente muito
    inferior ao dos proprios moradores dos novos concelhos, cujo gasto é
    diario, e que consomem outros liquidos. Assim, calculando proximamente
    em 7 contos de réis annuaes o producto das licenças gradativas de cem,
    cincoenta, vinte e dez mil réis, exigidas pelo fisco ás lojas de
    liquidos dos novos concelhos, póde-se affirmar sem exaggeração que 4
    contos de réis recaem sobre os habitantes d'elles e não sobre a
    população inferior de Lisboa. Esta somma addicionada aos 51 contos por
    que foi arrematado o imposto da carne e vinho, eleva o gravame actual
    pelo menos a 55 contos, augmentando-lhe assim o excesso sobre o gravame
    antigo. Ao mesmo tempo a nova taxa de licença, pelo lado dos seus
    effeitos economicos e commerciaes, é por muitos modos vexatoria para os
    novos concelhos; porque o resultado della foi fecharem as portas
    centenares de pequenas lojas de liquidos, que não poderam resistir a um
    direito quasi prohibitivo, convertendo-se assim a taxa n'uma especie de
    direito de patente de um exclusivo, exigida aos donos dos grandes
    armazens de liquidos. De similhante exclusivo resultou que, além de
    ficarem na miseria centenares de familias, apesar do imposto gradativo o
    preço do vinho não subiu, porque o novo encargo para os grandes
    estabelecimentos ficou superabundantemente compensado pelo triplicado ou
    quadruplicado da venda. Todavia as consequencias d'este estado de cousas
    vão mais longe. Diminuindo em virtude de tal facto o numero das licenças
    municipaes, e consequentemente os redditos das novas camaras
    provenientes d'essa origem, ellas teem de ir buscar por outro qualquer
    meio ás algibeiras dos contribuintes, o supprimento de similhante
    desfalque.

    Esta perda e gravame para os habitantes dos dous concelhos reverte,
    porém, em beneficio do fisco? Como todos os tributos, sobretudo
    indirectos, imprevidentemente estabelecidos, os 6 ou 7 contos auferidos
    por esse meio, produzem por outro lado um desfalque, talvez igual. São
    duzentos a trezentos sellos de licenças, duzentas a trezentas verbas de
    decima e do imposto de quatro por cento sobre casas, que desappareceram
    com a cessação d'esses duzentos a trezentos estabelecimentos
    commerciaes. Entretanto os 6 a 7 contos da taxa gradativa figurarão como
    um augmento de receita no orçamento geral do Estado, do mesmo modo que
    tantas outras decepções, que n'elle figuram por motivos analogos.

    Esta camara disse que o imposto gradativo não protege a fiscalisação nas
    barreiras da cidade. Efectivamente n'esta relação elle é de todo
    impotente ou nullo. Basta para o conhecer saber-se o que no nosso
    systema fiscal se entende em regra por imposto de consumo, á vista do
    Codigo Administrativo e leis correlativas. O imposto de consumo
    unicamente se póde verificar na venda a retalho. Assim, não sómente em
    virtude dos regulamentos existentes, mas tambem pelas indicações da
    experiencia, o unico meio de fiscalisação para taes impostos é o methodo
    dos manifestos combinados com os varejos dados nas lojas de retalho. O
    systema do imposto das barreiras, como existe em Lisboa, é o que
    propriamente corresponde aos direitos chamados em França d'_octroi et
    d'entrée_. Se as barreiras e registos fiscaes na orla dos dous novos
    concelhos fossem licitos, e todos os generos importados pagassem sem
    distincção um direito maior ou menor, essas barreiras, especie de guarda
    avançada das de Lisboa, defenderiam mais ou menos estas, fazendo elevar
    sempre os preços dos generos no territorio dos dous concelhos, que assim
    voltariam legalmente ao estado de oppressão e vexame, de que as leis de
    setembro tentaram libertal-os. Mas sem isto, nem o imposto de consumo
    sobre a carne e o vinho, nem a taxa gradativa das licenças conduzem, por
    essa parte, a resultado algum. O contrabandista não precisa de ser
    taberneiro, carniceiro ou merceeiro, para exercer o seu odioso mister, e
    não o sendo póde livremente conduzir o objecto destinado ao contrabando
    até á proximidade da linha de circumvallação, sem pagar nem o imposto
    nem a taxa gradativa. Uma vez que não venda a retalho o que conduz, nada
    tem com elle o fisco ou os seus subrogados.

    Que o Parlamento releve a esta camara uma observação. As linhas fiscaes
    de Lisboa defendem-se como se defenderam ha vinte annos as suas linhas
    militares. Defendem-se com animos probos; com a lealdade dos agentes
    fiscaes; com a vigilancia e actividade de quem quer e sabe cumprir o seu
    dever; com a severidade do castigo e com a justiça das recompensas. O
    espirito mais rude comprehende que uma alta muralha, dominada por um
    passeio de ronda, onde de noite e de dia se patrulhe convenientemente, e
    cujas vinte ou trinta portas sejam continuamente vigiadas por homens
    zelosos, é inaccessivel ao contrabando. Se, por hypothese, houvesse um
    Ministro que viesse perante o Parlamento dizer–«tenho nas barreiras da
    capital empregados fiscaes que trahem o seu dever: tenho chefes a quem
    incumbe vigial-os e que não os vigiam: tenho regulamentos imperfeitos:
    tenho considerações de patronato que me impedem de demitir os suspeitos,
    e de fazer punir os culpados: concedei-me, portanto, que cinja essas
    barreiras com uma faixa de territorio sujeito a uma lei excepcional, com
    um vasto _pomoerium_ de maldição, cujos habitantes innocentes,
    absolutamente innocentes, dos descaminhos que tolero por falta de
    energia e de vigilancia, ou por considerações pessoaes, sejam obrigados
    a compensar pelas suas bolsas, os effeitos da corrupção ou da
    incapacidade dos meus propostos e subordinados»,–o Parlamento
    rejeitaria com indignação esta proposta demente e atroz, e por certo o
    individuo que assim escarnecesse da intelligencia e da consciencia dos
    Representantes do paiz, não tornaria a sentar-se nos bancos do
    Ministerio.

    Não é, por consequencia, possivel que o Governo pense em defender por
    este lado a manutenção das provisões tributarias dos decretos de 11 de
    setembro, aliás já condemnadas no tribunal da razão, por contradictorias
    com a sua idéa fundamental, visto que em vez de reduzirem os impostos
    que _effectivamente_ pesavam sobre o territorio dos dous concelhos, os
    aggravam, directa e indirectamente, ainda mais.

    Ao augmento de encargos que veiu pesar pelo tributo indirecto sobre este
    opprimido territorio, em virtude de expressas disposições das leis de
    setembro, accresce o de outro imposto directo, augmento que resulta das
    leis geraes de Fazenda. Os quatro por cento sobre a renda das casas cuja
    base era em Belem, como districto municipal de Lisboa, de 30$000 réis,
    agora, convertido este territorio em concelho sobre si, teem por base a
    renda de 12$000 réis, vindo a sobrecarregar as classes pobres com um
    tributo de que estavam exemptas, e aos proprietarios urbanos que, com
    difficuldade achavam inquilinos para os seus predios, do que dão
    testemunho as casas deshabitadas e em ruinas que se encontram a cada
    passo n'esta povoação, augmentam-se por essa mudança de base tributaria,
    as difficuldades para auferirem uma renda modica dos seus capitaes
    immobilisados.

    Se, porém, aquelles decretos e as suas consequencias, não tornaram menos
    oppressivas as contribuições que affligiam o antigo termo, cumpre
    confessar que ao menos o exemptavam dos vexames a que os sujeitava a
    fiscalisação das Sete-Casas, com o seu cortejo de violencias, de
    embaraços commerciaes, de extorsões, de rixas, e até de assassinios,
    quadro repugnante, que por inutil esta camara não desenhará diante dos
    olhos dos Senhores Deputados. Mas infelizmente esse beneficio, que está
    na lei e que devia traduzir-se nos factos, não chegou a realisar-se no
    concelho de Belem. O que se tem passado a similhante respeito não se
    acreditaria, se a narrativa dos successos não se estribasse em provas
    irrecusaveis. Na representação junta, esta camara julgou dever abster-se
    de mencionar certos factos e de apreciar severamente outros, de modo que
    parecesse dirigir ao Governo acres censuras. O procedimento d'este para
    com ella, soltando-a de quaesquer considerações, habilitam-na para dizer
    a verdade nua, a verdade em toda a sua extensão, perante os
    Representantes do paiz.

    Apenas celebrados pelos fins de 1852 os contractos de arrematação dos
    novos impostos, nos dous concelhos do antigo termo de Lisboa, e o do
    real d'agua no resto do antigo termo fiscal das Sete-Casas, os
    arrematantes estabeleceram immediatamente registos fiscaes no perimetro
    do territorio que os seus contractos abrangiam. N'estes registos
    exigiam-se direitos de consumo, e davam-se guias dos generos
    despachados. Por auctoridade particular collocaram-se homens armados em
    diversos pontos, e começaram a apprehender-se individuos que, diziam os
    guardas dos arrematantes, se esquivavam ao pagamento dos impostos. A
    fiscalisação, emfim, das Sete-Casas, tão odiosa e tão justamente odiada,
    renascia n'este infeliz territorio com todo o seu sequito de abusos e
    violencias. Unanimemente, porém, as auctoridades administrativas do
    concelho dos Olivaes e dos outros concelhos limitrophes ao antigo termo
    municipal de Lisboa, aonde d'antes chegava o termo fiscal das
    Sete-Casas, intimaram os arrematantes para retirarem os registos, e
    fazerem cessar um systema de fiscalisação incompativel com os
    regulamentos e com a indole do imposto que haviam arrematado. Obedeceram
    elles ás intimações dos magistrados administrativos, e o abuso cessou.
    No Concelho de Belem não succedeu assim. A auctoridade tolerou tudo, e
    os renovados vexames das Sete-Casas continuaram. Como era natural,
    surgiram as resistencias, e os arrematantes pensaram em manter o abuso
    recorrendo ao Governo. Requereram ao Ministerio da Fazenda para que lhes
    assegurasse a conservação d'aquella especie de barreiras fiscaes que
    haviam estabelecido; mas as suas súpplicas foram indeferidas; nem podiam
    deixar de o ser. Communicou-se officialmente esta resolução ao
    respectivo Administrador de concelho, que se recusou a cumpril-a por
    motivos que esta camara ignora, e apesar das leis, dos regulamentos e da
    decisão do Ministro, as cousas continuaram no mesmo estado.

    Entretanto crescia a reacção popular contra um abuso intoleravel, e
    tanto mais intoleravel quando se considerava que os outros concelhos
    limitrophes, e sobretudo o dos Olivaes, creado pelas mesmas leis, com as
    mesmas condições de existencia, e sendo-lhe applicaveis os mesmos
    regulamentos fiscaes, estavam perfeitamente exemptos de taes vexames, só
    reservados ao territorio do concelho de Belem. Os habitantes d'este
    lembraram-se então de procurar allivio aos seus males recorrendo tambem
    ao Ministro, que já ordenara se lhes pozesse termo e que não havia sido
    obedecido. Dirigiram pelo Ministerio da Fazenda um requerimento em que
    pediam de novo essa justiça, que já espontaneamente se lhes mandara
    fazer. Mais de um anno tem decorrido desde então, e até hoje, uma
    súpplica tão simples, tão justa, tão clara, até, para o Ministro, que de
    antemão e por si proprio a resolvêra, não pôde obter uma resolução
    favoravel!

    A camara de Belem deixa á apreciação do Parlamento similhantes factos. A
    sua significação e o seu valor podem todavia calcular-se melhor pela
    comparação com outros que lhes são correlativos. Singulares e estranhos,
    esta camara não ousa nem quer explical-os. Pertence ao Parlamento
    remontar ás suas causas.

    É de antigos tempos contestavel e contestada a extensão que se deve dar
    ao imposto do real d'agua. É questionavel se elle deve recair unicamente
    sobre as carnes verdes ou se tambem abrange as seccas, salgadas ou
    fumadas. Os tribunaes teem julgado diversamente, e o Governo em diversas
    epochas e por diversos actos tem procurado fazer admittir a significação
    mais lata. Estes actos do Governo são perfeitamente indifferentes,
    porque não é ao Executivo, mas ao Legislativo que pertence a
    interpretação das leis. De que a do real d'agua é obscura não ha a menor
    dúvida. Ao passo que o Poder Judicial vacilla a este respeito, o
    Ministro da Fazenda vem ao Parlamento pedir a sua interpretação,
    reconhecendo por esse acto a nullidade de todas as portarias, circulares
    ou officios com que se tem pretendido fixar o sentido d'ella. Posto
    isto, venhamos aos factos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, conglobaram o real d'agua no novo
    imposto que estabeleceram nos dous concelhos. Liberto dos impostos das
    Sete-Casas, este territorio ficava por esse facto submettido ao do real
    d'agua, a que a dictadura, por aquelles decretos, veiu accrescentar nove
    réis em canada de vinho e onze réis em arratel de carne. Os §§ 1.^o e
    2.^o do artigo 3.^o do decreto expedido pelo Ministerio da Fazenda,
    dizem que os dous concelhos são obrigados:

    «A pagar o imposto de dez réis por cada canada de vinho vendido a miudo,
    nos mesmos termos em que se paga o real d'agua.»

    «A pagar quinze réis por cada arratel de _carne verde_,
    comprehendendo-se n'este direito o real d'agua, e os tres réis
    addicionaes.»

    Se a dictadura entendia que o imposto do real d'agua era legalmente
    extensivo ás carnes seccas, é evidente que quiz restringir a nova
    imposição ás carnes verdes.: se entendia que não o era, quiz tornar bem
    sensivel a intelligencia que dava á lei do real d'agua, excluindo
    positivamente as carnes seccas. Se estas ultimas se comprehendiam
    n'aquella designação limitativa, quaes eram as que excluia a lei?

    Trez mezes depois o Ministerio da Fazenda publicava as condições para a
    arrematação do real d'agua no antigo termo fiscal das Sete-Casas,
    comprehendendo o territorio dos dous novos concelhos, desannexado do
    municipio de Lisboa, e as freguezias dos outros concelhos limitrophes,
    que haviam pertencido ao termo fiscal das Sete-Casas. A quinta condição
    dizia assim:

    Que ao arrematante ficará pertencendo no territorio que constituia o
    termo fiscal da extincta alfandega das Sete-Casas, a percepção do
    imposto do real d'agua, assim em canada de vinho que se vender para
    consumo nas ditas terras, quer seja nas tabernas, quer fóra d'ellas,
    como em arratel de carne de gado vacum, suino, lanigero e cabrum, que no
    estado de verde, secca, ou por qualquer fórma preparada, fôr vendida nos
    açougues ou fóra d'elles; sendo o sobredito imposto, nas freguezias dos
    concelhos que faziam parte do referido termo, de um real por canada de
    vinho, e quatro réis em arratel de carne, conforme foi estabelecido pelo
    alvará de 23 de janeiro de 1643, lei de 21 de novembro de 1844, e mais
    legislação a similhante respeito; e nas freguezias que formam
    actualmente os concelhos de Belem e Olivaes, de dez réis em canada de
    vinho, e quinze réis em arratel de carne, como se acha determinado nos
    n.^os 1.^o e 2.^o do artigo 3.^o do decreto de 11 de setembro do
    presente anno.

    N'esta condição o Ministerio da Fazenda revelava a intelligencia que a
    dictadura déra á lei do imposto do real d'agua, isto é, a extensiva,
    mandando regular a percepção d'elle pela legislação anterior á
    dictadura, e ao mesmo tempo mandava que nos dous novos concelhos se
    observasse na percepção do imposto excepcional dos dez réis em canada de
    vinho e dos quinze réis em arratel de carne, o disposto nos n.^os 1.^o e
    2.^o acima citados do decreto com força de lei de 11 de setembro,
    expedido pelo mesmo Ministerio, e que o restringia ao vinho e ás carnes
    verdes. A condição discriminava as duas hypotheses e referia-se nos seus
    dous membros ás leis que regulavam uma e outra. Rigorosamente a condição
    estava dentro da estricta legalidade. Seria nulla se d'ella se
    departisse.

    Os arrematantes, depois de celebrado o contracto, não entendendo a
    condição, ou fingindo não a entender, exigiram direitos das carnes
    seccas. Resistiram-lhes os interessados. Recorreram elles ao Governo. A
    12 de janeiro de 1853 expedia-se pelo Ministerio da Fazenda a seguinte
    portaria:

    «Ministerio da Fazenda.–Direcção Geral das Alfandegas.–Sua Magestade a
    Rainha, attendendo ao que lhe representaram os arrematantes do imposto
    do real d'agua, nas carnes, e no vinho dos Concelhos de Belem e Olivaes,
    sobre a necessidade de se fazer constar aos moradores d'estes Concelhos,
    que lhes cumpre pagar a elles arrematantes não só aquelle imposto na
    razão de dez réis em canada de vinho, e quinze réis em arratel de carne
    verde, e secca, de todas as qualidades d'estes generos que foram
    encontrados em ser na occasião do varejo a que se procedeu, e das que de
    novo admittirem para consumo; mas tambem o imposto addicional para
    amortisação das notas do Banco de Lisboa: Ha por bem determinar que o
    Delegado do Thesouro, no districto de Lisboa, expeça as ordens
    convenientes aos escrivães de fazenda dos Concelhos de Belem, e Olivaes,
    para que elles façam constar por meio de Editaes affixados nos lugares
    publicos dos mesmos Concelhos, quaes as condições com que o referido
    imposto foi arrematado, e as penas a que está sujeito todo e qualquer
    individuo que se recusar ao pagamento d'elle, as quaes são as de que
    tractam os §§ 4.^o e 7.^o do Alvará de 23 de Janeiro de 1643, e mais
    leis posteriores a similhante respeito.»

    O Parlamento desculpará por certo alguma expressão mais dura que possa
    escapar aos signatarios da presente súpplica, ao fazerem a repugnante
    exegese d'este singular diploma. A maior demonstração de benevolencia
    que poderiam dar ao Ministro que o assignou seria acreditar que o fez
    sem ler o que assignava. Esta camara quer suppol-o assim. Na essencia a
    portaria de 12 de janeiro illude a questão. É uma d'essas composições,
    com pretensão á ambiguidade, indignas de um Ministro da Corôa. Despojada
    do seu preambulo, das longas e tortuosas phrases que se arrastam como a
    serpente, o que resta? Uma ordem para se publicarem por Editaes as
    condições da arrematação, e as penas em que incorre quem devendo pagar o
    imposto, recusar fazel-o. Mas o que pediam os arrematantes? Pediam, que
    entre outras cousas, se fizesse constar, não aos logistas, aos
    vendedores de retalho, mas _aos moradores_ dos dous concelhos, que
    deviam pagar quinze réis de cada arratel não de carne verde, mas de
    _carne verde, e secca_. Era este o ponto importante. Na sua modesta
    súpplica elles exigiam simplesmente que ao direito de consumo cobrado
    sobre a venda a retalho, fosse substituido um direito de entrada ou
    barreiras. Queriam tornar fecundos os seus registos de Belem. Pediam
    que, limitando o decreto de 11 de setembro o imposto da carne ás carnes
    verdes, o Governo o estendesse ás carnes seccas. Eram pretensões
    absurdas que o Ministro devia desattender porque tendiam a ultrapassar
    uma lei, e lei tributaria. Pediam-lhe que perpetrasse um crime. E em vez
    de repellir a injuria; em vez de recommendar aos seus subalternos
    severidade e vigilancia em cohibirem as violencias dos arrematantes e em
    manterem o direito dos cidadãos, que se defendiam da espoliação, o
    Ministro, invocando n'esta comedia vergonhosa o nome do Chefe do Estado,
    ordenava que se lhes recordasse a penalidade fulminada contra os que
    tentam subtrahir-se ao pagamento dos tributos legitimos. Por uma
    inversão de todas as idéas administrativas e até do senso commum, a
    advertencia severa fazia-se aos cidadãos ameaçados, que se defendiam com
    a lei: a attenção era para as pretensões da cobiça insolente que
    reclamava para chegar aos seus fins, o apoio illegal do poder!

    Que todo o homem honesto diga com a mão na consciencia, se ao ler a
    portaria de 12 de janeiro não conhece o intuito com que foi redigida; se
    não sente que se busca produzir um effeito de temor, para que os
    habitantes dos dous concelhos se hajam de submetter ás exacções dos
    arrematantes justas ou injustas, sem que todavia se possa em rigor
    accusar o Ministro de exorbitar? Quem não tivesse presentes os decretos
    de 11 de setembro; quem não conhecesse bem o mechanismo dos nossos
    impostos de consumo e os diversos regulamentos sobre a sua percepção e
    fiscalisação, vendo n'essa portaria que o Governo _attendia_ ás
    representações dos arrematantes, sobre a _necessidade_ de recommendar
    aos cidadãos o cumprimento de certos deveres, e que o mesmo Governo
    depois de enumerar sem distincção esses deveres, reaes e imaginarios,
    ameaçava os renitentes com o rigor das leis; quem, dizemos, se não
    persuadiria de que os arrematantes invocavam unicamente direitos
    legitimos, resultantes de um contracto, que a boa fé do Executivo era
    obrigada a manter?

    O povo, todavia, continuou no concelho de Belem a resistir ao vexame dos
    registos e guias, e d'estas resistencias chegaram a originar-se
    symptomas de graves conflictos. Por outra parte os vendedores de carnes
    seccas, bem aconselhados, deixaram os agentes publicos affixar os seus
    Editaes, as suas condições, as suas portarias, e recorreram ao Poder
    Judicial, de quem ainda hoje está pendente a decisão do negocio. D'esse
    Poder esperam elles justiça, se antes d'isso as Côrtes não approvarem a
    actual proposta do Ministro da Fazenda; porque sanccionada ella, nada
    mais resta aos cidadãos do que curvar a cabeça ante a soberania
    nacional.

    Aos factos precedentes veiu, passados mezes, associar-se outro que os
    completa, e que illustrando o anterior procedimento do Ministerio da
    Fazenda, acaba de habilitar a Camara dos Senhores Deputados para avaliar
    aquelle procedimento e talvez remontar ás suas causas. Interpellado na
    Camara dos Dignos Pares, na sessão de 13 de agosto de 1853, sobre os
    impostos e vexames dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o Ministro da
    Fazenda contradisse o direito e os factos, e fez revelações
    deploraveis.–Disse que a intenção do Governo, (queria dizer da
    dictadura) nos decretos de setembro fôra pôr os povos ao abrigo das
    vexações, sem o thesouro d'isso tirar partido, e que tambem o Governo (a
    dictadura) não quizera diminuir o quantitativo dos impostos nos dous
    concelhos, como o declarava no relatorio de um d'esses decretos. Tudo
    isto era inexacto. Os vexames não cessaram como se acaba de mostrar. O
    thesouro tirou partido da reforma, porque em lugar de 38 ou 40 contos
    que auferia do territorio dos dous concelhos, passou a tirar 55 contos
    como tambem se mostrou. Diminuiu-se o quantitativo dos impostos, embora
    os factos viessem depois provar que a diminuição era nominal. Emfim, a
    dictadura não declarou as intenções que o Ministro lhe attribuia n'essa
    memoravel sessão, citando aquelle relatorio, porque todas quantas
    considerações n'elle se fazem relativas a _deficit_, impossibilidade de
    reduzir impostos, etc., referem-se aos direitos fiscaes na cidade de
    Lisboa, e não aos dos dous concelhos, como facilmente verificará quem se
    der ao trabalho de o ler. E tanto assim, que depois d'essas
    considerações os Ministros da dictadura accrescentaram, que os concelhos
    de Belem e Olivaes «ficavam sujeitos ás imposições geraes do Reino, e
    apenas obrigados ao pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os
    deixava _em grandissima vantagem em relação ao seu estado anterior_, mas
    que era justo pagassem pelos beneficios e cómmodos que lhes resultam do
    contacto com a capital.»

    Se isto é deploravel, mais o foi ainda a defesa da portaria de 12 de
    janeiro. O Ministro que nessa conjunctura confessava que não soubera
    redigir o decreto de 11 de setembro, relativo ao assumpto, podia tambem
    declarar francamente que não soubera o que tinha feito expedindo-a. A
    Camara dos Dignos Pares seria por certo indulgente á vista d'esta
    confissão ingenua. O joven Ministro achou, porém, mais facil emprehender
    a apologia d'aquella monstruosidade administrativa. Para isso preferiu
    confessar que a portaria tinha por alvo fazer considerar como extensivo
    ás carnes seccas o novo imposto. O real d'agua era-o na opinião do
    Tribunal do Thesouro, do conselho da direcção dos impostos e d'elle
    Ministro, que hoje vem pedir ao Parlamento a interpretação d'essas leis
    sobre o real d'agua, ácerca das quaes nenhuma duvida tinha. Por um
    genero novo de hermeneutica tirou d'esse facto supposto uma conclusão
    singular. O decreto de 11 de setembro era lei promulgada por uma
    dictadura. Esta, assumindo, bem ou mal, o poder legislativo, podia
    modificar, alterar, revogar todas as leis do Reino, menos o alvará de
    1643 e a carta de lei de 1844, relativos ao real d'agua. A esse poder
    nem se quer era licito dar-lhes uma interpretação menos extensiva do que
    lhes dava o Ministerio da Fazenda e as repartições ou individuos d'elle
    dependentes. Aquelle alvará e as leis correlativas eram inviolaveis como
    o Chefe do Estado, embora se dissesse no decreto de 11 de setembro que
    os dous novos concelhos pagariam o imposto de quinze réis por arratel de
    _carne verde_. Supposta a inviolabilidade do alvará de 1643 e da
    interpretação ministerial, essa designação não podia significar o que
    significa. A expressão _carnes verdes_, dizia o Ministro, é alli
    similhante á disposição _em globo_ do alvará de 1643 e da lei de
    1844.–Na sua opinião _verde_ é o genero, _secco_ a especie. Até hoje os
    adjectivos indicavam as qualidades do sujeito, e importavam sempre uma
    limitação porque excluiam as qualidades contrarias, e repugnavam ao
    absoluto; mas desde agora podem incorporar aquellas e representar este.
    Se qualificarmos de branco um corpo qualquer, isso não obstará a que
    seja ao mesmo tempo preto. _Branco_ ficará qualificando o genero;
    _preto_ ficará qualificando a especie. É pelo menos esta a theoria do
    illustre Ministro da Fazenda. A grammatica geral e o diccionario da
    lingua foram abrogados por elle naquella memorada sessão.

    Apesar, porém, da nova theoria, o Ministro não evitou a responsabilidade
    dos seus actos. Quando se publicaram as condições da arrematação do
    imposto que nos dous concelhos de Belem e dos Olivaes substituiu o real
    d'agua, essa theoria era desconhecida no mundo visivel. Podia existir na
    intelligencia do Ministro e na jurisprudencia occulta dos seus tribunaes
    e conselhos fiscaes, mas de certo não na dos licitantes d'aquella
    arrematação. O dever, portanto, do Ministro era expôl-a a tempo, e tanto
    mais que existindo ainda a dictadura seria legal, embora absurda, a
    interpretação dada por ella ao n.^o 2 do artigo 3.^o do respectivo
    decreto. Valia a pena fazel-o n'uma questão de tributos. Declarando-se
    aos licitantes que a expressão _carnes verdes_ significava igualmente
    _carnes seccas_, é evidente que o preço da arrematação subiria alguns
    contos de réis. Adoptal-a por uma portaria quinze ou vinte dias depois
    da adjudicação, e interpretal-a e confirmal-a perante o Parlamento
    passados seis mezes, foi defraudar o thesouro, em proveito particular,
    da somma differencial a que teria subido o preço da arrematação.

    Mas se tudo isto apenas merece a compaixão ou o riso dos Senhores
    Deputados, ha no acto ministerial de 12 de janeiro uma circumstancia que
    se tornava de notavel gravidade, desde que o Ministro vinha declarar
    n'uma das casas do Parlamento que a ambiguidade evidente na forma d'esse
    acto, não existia na indole e na intenção d'elle e que, praticando-o, o
    Ministro da Fazenda adoptára como verdadeiras e legitimas as indicações
    dos arrematantes. Dizia-se na portaria que os _moradores_ dos dous
    concelhos deviam pagar o imposto do vinho e de todas as carnes verdes e
    seccas existentes, ou que de futuro se consumissem. Esta doutrina
    alterava forçosamente o systema da fiscalisação. Pelo Codigo
    Administrativo os impostos sobre o consumo affectam só os generos
    vendidos a retalho dentro de qualquer circumscripção fiscal. O vinho ou
    as carnes que os moradores conduzem de fóra d'essa circumscripção, para
    seu proprio consumo e não para revenderem, são livres. D'aqui a _fórma_
    de se verificar a cobrança e fiscalisação do imposto. É a esta _fórma_
    de arrecadação a que evidentemente allude o decreto de 11 de setembro. O
    vendedor a retalho manifesta o genero perante a auctoridade quando o
    intruduz e paga o imposto: os agentes fiscaes fiscalisam pelos varejos,
    comparando os resultados d'estes com os manifestos. Considerando como
    sujeitos ao pagamento do imposto todos os moradores da circumscripção, e
    onerado sem excepção o genero tributado consumido dentro d'ella, (que é
    o que succede em Lisboa) a fórma da cobrança e fiscalisação varia
    necessariamente. Surgem então as barreiras, as linhas de circumvallação
    e, á falta d'estas, os registos, as guias, os homens armados que vigiam
    a orla do redil fiscal, que espancam e assassinam os contrabandistas, ou
    que são por elles espancados e assassinados. Volta-se ao systema das
    portagens do seculo XIII. A portaria de 12 de janeiro, confundindo o
    tributo portuguez de consumo pela venda a retalho com o tributo francez
    de _octroi_, de barreiras, ou de consumo absoluto, legitimava as guias,
    os registos, os guardas armados que existiam por excepção no concelho de
    Belem, ao passo que indeferia a súpplica dos arrematantes para os
    estabelecerem. A auctoridade local, despresando esse indeferimento e
    mantendo o vexame, era mais logica do que o Ministerio da Fazenda, e
    este mais logico deixando sem solução até hoje a representação dos
    moradores do concelho, do que indeferindo a pretensão dos arrematantes.

    De tudo quanto se passou na sessão de 13 de agosto da Camara dos Dignos
    Pares, a proposito da interpellação do Sr. Conde de Peniche, nada
    porventura é mais singular do que a audacia com que o Ministro
    exclamava: «_Hoje não ha a guia_ (nos dous concelhos): _transita-se por
    toda a parte sem o incómmodo d'esses exames geraes a que procediam os
    guardas das Sete-Casas: não ha registo, etc._» E no mesmo dia, e á mesma
    hora, talvez, em que elle orava no Parlamento, os guardas dos
    arrematantes estavam postados a espaços nas estradas do concelho de
    Belem, e os moradores que conduziam generos para seu consumo eram
    arrastados aos registos, onde se lhes exigiam os impostos, que pagavam
    ou deixavam de pagar conforme conheciam melhor ou peior o seu direito, e
    tinham mais ou menos valor para o sustentar. No dia, e talvez na hora,
    em que o Ministro falava, davam-se guias selladas e pagas n'esses
    registos, que não só existiam então, mas tambem existem hoje, embora com
    um caracter menos vexatorio, porque esta camara saberia defender os seus
    administrados se actualmente se dessem violencias, recorrendo, não ao
    Ministerio da Fazenda, mas sim ao chefe da policia para que mantivesse a
    segurança das vias publicas, e aos tribunaes para que punissem os
    culpados.

    A camara de Belem, depois da exposição de todos estes factos, tão
    incriveis como verdadeiros, transcreve um periodo da resposta dada pelo
    Ministro da Fazenda á interpellação do Digno Par Conde de Peniche. São
    as suas palavras textuaes:

    «Se o Governo substituisse os vexames dos arrematantes pelos da Fazenda
    teria feito talvez peior; porque os impostos arrematados são sempre
    cobrados com maior rigor fiscal; mas o Governo não tem admittido o
    registo pelos arrematantes; não está estabelecido o systema de guias
    como antes estava…»

    Confessa, portanto, o Ministro que em relação aos vexames, o systema que
    chama de Fazenda, e pelo qual esta camara suppõe que elle entende o das
    Sete-Casas ou de barreiras com registos, guias, etc., a situação dos
    novos concelhos, dada a hypothese da arrematação dos impostos, seria
    mais dura de soffrer do que antes, pela maior severidade da fiscalisação
    feita em proveito particular. Ora o systema que tem regido o Concelho de
    Belem é o dos registos e guias. Logo a situação dos habitantes d'este
    concelho tem sido, conforme a opinião dos Ministros, mais vexatoria do
    que sob o regimen das Sete-Casas.

    Fica, portanto, claro, á vista dos factos ponderados n'esta súpplica e
    na representação annexa dirigida ao Governo, que o concelho de Belem,
    espoliado dos bens que lhe deviam pertencer, sobrecarregado de onus
    tributarios, nominalmente menores, mas na realidade maiores do que os da
    epocha em que formava parte do de Lisboa, soffrendo em relação aos
    impostos geraes as consequencias da acquisição da sua individualidade
    municipal, continuando a experimentar por um abuso intoleravel da
    auctoridade os vexames das anteriores fórmas fiscaes, vilipendiado na
    sua magistratura municipal pelo desdenhoso silencio com que foi
    despresada a modesta e respeitosa representação dirigida ao Governo pela
    camara do mesmo concelho, não podia deixar de vir buscar protecção e
    justiça no seio do Parlamento. É o que em nome d'elle esta camara faz.
    Fal-o porque é o seu restricto dever; fal-o porque de outro modo
    trahiria a confiança dos que a elegeram. Pede a reforma dos decretos de
    11 de setembro; pede que as provisões d'esses decretos se affiram pelos
    principios eternos da moral e da justiça; que o concelho de Belem seja
    libertado de tributos excepcionaes e que tambem seja privado de
    quaesquer vantagens excepcionaes, cuja manutenção esteja a cargo da
    Fazenda Publica ou do municipio de Lisboa, uma vez que não se prefira
    haver uma compensação recebida do cofre d'esta camara; que se lhe retire
    consequentemente a subvenção deduzida das prestações dadas pelo Governo
    á camara de Lisboa; que se lhe restituam as propriedades, terrenos e
    edificios municipaes contidos no perimetro do concelho, e que fique este
    sujeito unicamente ao imposto do real d'agua como os outros concelhos do
    Reino, cobrado e fiscalisado do mesmo modo; pede em summa, em quanto
    esse admiravel invento dos economistas de D. João IV continuar a
    devastar o paiz, que aos habitantes d'este territorio seja applicado o
    direito commum, e concedido igual quinhão nos deveres e encargos que
    oneram os outros cidadãos, igualdade garantida a todos pela lei politica
    da monarchia.

    Esta camara, precisando de applicar ás despezas ordinarias do municipio
    uma somma excedente a dezeseis contos de réis, tem de rendimento actual,
    incluindo a subvenção do Governo estabelecida nas leis de setembro,
    menos de nove contos de réis. Onerados já com o imposto excepcional, a
    carne e o vinho, não poderiam ser tributados municipalmente senão n'uma
    proporção tenuissíma. No meio dos embaraços em que labora a agricultura
    do concelho, embaraços que se acham expostos na representação dirigida
    ao Governo, seria absolutamente impossivel sobrecarregar com imposições
    os cereaes, o principal, o quasi unico alimento das classes mais
    infelizes, e a unica producção importante d'este territorio. Os impostos
    indirectos sobre outras subsistencias dariam apenas sommas
    insignificantes. Resta a contribuição directa. Esta pelas nossas
    instituições administrativas não póde exceder a dez por cento da decima
    do concelho, e hoje da respectiva quota de repartição, a qual se eleva
    proximamente a 16 contos de réis, e cujo decimo, portanto, equivale
    apenas a 1:600$000 réis. Assim, ainda lançando todas as contribuições
    possiveis, directas e indirectas, esta camara difficilmente chegaria a
    igualar a sua receita com as suas inevitaveis despezas. Mas para obstar
    á decadencia da riqueza na circumscripção municipal de Belem, decadencia
    evidente a todos os olhos e que o proprio Governo reconheceu, além
    d'essas despezas ordinarias a municipalidade tem de recorrer á
    reconstrucção de estradas geraes e caminhos travessos, pela maior parte
    intransitaveis, para o que se precisam sommas avultadissimas,
    despendidas com a mais severa economia, porque a linha das estradas e
    caminhos de todo o municipio equivale á extensão de muitas leguas. Urge
    tambem a construcção de matadouros, porque a população inteira clama
    contra os abusos no fornecimento das carnes verdes, abusos que não só
    lhe affectam as bolsas, mas tambem a saude e a existencia, e para obstar
    aos quaes o unico meio é o estabelecimento de matadouros publicos, onde
    o genero se fiscalise, porque um dos resultados do imposto do real
    d'agua quer simples quer quintuplicado, como nos dous novos concelhos, é
    impossibilitar a concorrencia e converter o fornecimento das carnes
    verdes em monopolio dos arrematantes do imposto. Ás despezas porém, do
    meneio ordinario do regimen municipal, e ás extraordinarias que são
    inevitaveis para acudir á decadencia do concelho, e ás primeiras
    exigencias da hygiene publica, ajunta-se a necessidade de occorrer á
    creação do material indispensavel da administração de um concelho novo,
    constituido no termo de outro concelho, para o qual passou a maior parte
    do material empregado no serviço do territorio desannexado. Em
    similhante situação, a camara actual ignora a que meios hade recorrer
    para manter a administração do municipio, se continuar a pesar sobre
    elle o imposto excepcional.

    N'estes termos, a camara espera do Parlamento uma resolução favoravel
    sobre o presente assumpto.

    E.R.M.

    Ajuda 28 de abril de 1854. O presidente, Alexandre Herculano. Vogaes,
    João Ferreira Godinho–José Street d'Arriaga e Cunha–Joaquim Ferreira
    Pinto Basto–João José Teixeira Leal–Mathias Antonio Vieira.

    PROJECTO DE CAIXA DE SOCCORROS AGRICOLAS

    1855

    Senhor.

    A camara municipal de Belem, resolvida a occorrer a uma das maiores
    necessidades do concelho, a crear uma instituição do mais subido
    interesse e cuja utilidade já hoje ninguem se atreve a pôr em duvida,
    embora as opiniões variem sobre o modo de a realisar, offerece á
    approvação do Governo de Vossa Magestade, pedindo o uso da iniciativa do
    mesmo Governo perante o Parlamento a favor d'elle, o projecto de lei
    junto, relativo á fundação de uma Caixa de Soccorros Agricolas, especie
    de banco rural, accommodado ás necessidades d'este concelho, ao nosso
    estado economico e juridico, aos nossos usos agricolas, e até ás idéas e
    talvez ás preoccupações dos cultivadores, idéas e preoccupacões que, não
    havendo inconveniente, se devem respeitar, porque é esse o meio de fazer
    acceitar instituições novas, de cuja importancia só a experiencia de
    seus salutares effeitos póde persuadir os menos illustrados. Vossa
    Magestade permittirá que esta camara exponha, com a brevidade que taes
    materias comportam, os fundamentos que abonam a idéa geral do projecto e
    as suas varias disposições.

    Por toda a Europa se tem reconhecido a necessidade de salvar da usura a
    industria agricola, de facilitar a esta capitaes, cujo modico juro seja
    accommodado aos modestos lucros do cultivador. Em Portugal, onde tantas
    vezes e por tantas maneiras tem reinado uma agiotagem desenfreada, nem a
    industria fabril, nem o commercio, nem a fazenda publica teem padecido
    talvez por este lado metade dos males que a agricultura padece. Nas
    provincias do sul, sobretudo, os campos são devorados por uma praga de
    usurarios, que conservam o lavrador n'uma barbara servidão, e que
    defecando-lhe de continuo os recursos, não só lhe obstam a toda e
    qualquer tentativa de aperfeiçoamento rural, mas tambem o vão
    gradualmente conduzindo á miseria. Clama-se contra o atrazo dos
    cultivadores portuguezes, contra a imperfeição dos methodos, e esses
    clamores são em grande parte pouco assisados. Sem pretendermos que a
    nossa agricultura seja modelo, é certo que muitos dos defeitos que se
    lhe notam, não são senão necessidades resultantes do clima, do solo, do
    estado da viação, das condições dos mercados, do modo de ser da
    propriedade, e de mil outras circumstancias economicas e juridicas, que
    os agronomos especulativos desconhecem, ou que não apreciam. Se
    attendermos á elevação quasi constante dos salarios ruraes desde 1834
    para cá, á depreciação progressiva dos generos, e sobretudo á carestia
    sempre crescente dos capitaes, o accrescimo constante da massa dos
    nossos productos agricolas, abona a crença de que o systema de
    agricultar não é tão imperfeito como folgam de pintal-o os admiradores
    exclusivos das prácticas estrangeiras. Os grandes embaraços para o mais
    rapido desenvolvimento da agricultura consistem sobretudo na falta de
    capitaes, nas leis que por differentes modos se oppõem á divisão da
    terra e á translação do dominio, á falta de vias de transito e de
    policia rural, a circumstancias, em summa, que nada teem que vêr com
    esta ou com aquella fórma de instrumentos agricolas, com este ou com
    aquelle systema de afolhamentos, com a introducção d'esta ou d'aquella
    cultura nova, ou que, se teem alguma influencia n'essas cousas, é em dar
    razão ás vezes ao agricultor para não as adoptar, embora sejam boas
    absolutamente consideradas.

    A camara de Belem, tractando de remover o maior dos obstaculos ao
    desenvolvimento da agricultura n'este concelho, a carestia dos capitaes,
    deve fazer sentir a maneira como a usura procede na obra infernal de
    arruinar os cultivadores. O quadro que ella vae traçar é triste, mas
    verdadeiro, e oxalá não representasse ao mesmo tempo o que se passa na
    maioria dos outros concelhos, ao menos no sul do reino.

    Em geral a usura exercida sobre a agricultura é de duas especies. A 1.^a
    tem os caracteres genericos d'esta immoralidade: o mutuante, segundo a
    necessidade do agricultor, empresta sobre as hypothecas ordinarias com
    os juros mais exorbitantes que póde, suppostas taes ou taes
    circurmstancias no mutuario: é um agiota insolente, vulgar, ávido como
    qualquer outro. A 2.^a especie tem caracteres á parte: é a usura
    hypocrita, muito mais commum no campo do que a primeira. O usurario
    d'esta especie segue diverso rumo. É homem chão, modesto, exacto no
    cumprimento dos seus deveres civis, laborioso, valedor: é quasi um bom
    homem. Ignora as partidas dobradas e repugnam-lhe por via de regra, não
    só os juros exorbitantes mas até o juro legal. Quando empresta o seu
    dinheiro ao agricultor é por dó d'elle; é para lhe acudir n'um apuro. O
    que quer é assegurar o reembolso da somma mutuada. Tendo horror ás
    demandas, se o lavrador é proprietario não lhe acceita o predio como
    hypotheca, porque conhece a imperfeição das nossas leis hypothecarias:
    se o não é, nem por isso quer abandonal-o. N'esta situação que faz?
    Empresta sem juro; mas exige um contracto que lhe dê a certeza do
    reembolso. O cultivador ha de pagar-lhe em genero na eira. E como ha de
    ser o pagamento? Os cereaes regular-se-hão pelo preço mais inferior do
    genero n'essa conjunctura. É uma precaução. Para os riscos das baixas
    possiveis que depois sobrevenham de uma venda anterior, de uma divida
    desconhecida, de uma colheita insignificante, etc., o mutuario promette
    o abatimento de um, de dous, de tres vintens ou mais em alqueire. É
    outra precaução. O usurario é compassivo, é benevolo para com a sua
    victima, mas precisa de ser prudente. O contracto fica secreto ou como
    secreto; não se escreve porque o mutuante conta com a probidade do
    mutuario, ou para melhor dizer, com o temor que este terá de achar em
    novos apuros condições mais onerosas, e esses apuros são quasi
    inevitaveis desde que o cultivador caíu uma vez nas suas mãos. Taes são
    as fórmas mais communs da agiotagem rural n'este e n'outros concelhos.
    As circumstancias especiaes modificam-nas, mas em geral as transacções
    d'este genero caracterisam-se assim.

    O segredo que se guarda ácerca d'estas transacções obscuras e hediondas,
    a que se póde chamar a crapula da agiotagem, predomina tambem
    forçosamente no facto geral que resume esses mil factos de usura. A
    cargo da irregularidade das estações e dos mercados, da falta de vias de
    transito, do peso dos impostos, etc., ficam todos os males do lavrador.
    Murmura-se vagamente e em voz baixa; mas nas queixas publicas o usurario
    passa illéso. Como buscando o verme que destroe a arvore antiga, é
    preciso que o ouvido do observador seja bem agudo e o silencio á roda
    d'elle bem profundo, para sentir a usura roendo no amago da industria
    agricola. Se o Governo ou o Parlamento instituissem um inquerito solemne
    a este respeito, o mais provavel é que fosse nullo o seu resultado. O
    agricultor calar-se-hia porque não crê na auctoridade; não espera d'ella
    remedio. Martyr, olharia para o algoz e vêr-lhe-hia nas mãos os
    instrumentos dos tractos, ao passo que no poder publico só creria
    descortinar a indifferença, a fraqueza, a impotencia. Curvar-se-hia por
    isso e respeitaria o mais forte. Evitaria assim que no seguinte anno a
    sua imprudencia fosse castigada com mais uma volta na corda do potro;
    com mais um ou dous vintens de abatimento no preço por que devera vender
    cada alqueire de trigo.

    Para se avaliar bem toda a extensão do mal, é necessario, Senhor,
    attender a alguns factos. Ordinariamente o lavrador executa com um
    capital seu os primeiros trabalhos annuaes. Na prosecução d'esses
    trabalhos é que é vulgar virem a faltar-lhe os recursos, e é então que
    elle compromette o futuro. As mondas, as sachas, as cavas, as ceifas, as
    vindimas, acham-no muitas vezes desprovido. Ora entre estes ultimos
    trabalhos e o recolhimento dos fructos medeiam apenas de cinco a dous
    mezes e ainda prazos mais curtos. Por outro lado, como é vulgarmente
    sabido, a epocha em que os productos da agricultura teem menor valor é
    na occasião da colheita. Ajunte-se a isto a reducção de um tanto no
    preço de cada alqueire de cereaes ou de cada almude de vinho, e
    imagine-se qual será a exorbitancia do lucro do mutuante. Supponhamos (e
    esta supposição não vae por certo longe do que commummente succede) que
    o preço medio annual dos trigos temporãos, principal producção d'este
    concelho, corresponde a 500 reis, e que na epocha das eiras o cereal
    vale a 460 reis. Fazendo o abatimento de 20 reis em alqueire, o lavrador
    paga com cada um d'estes apenas 440 reis de uma divida que, suppondo-se
    contrahida por uma media de tres mezes, vem a soffrer um juro de 12 por
    cento em trimestre, ou 48 por cento ao anno.

    Esta camara, Senhor, não foi buscar exemplos aos casos mais
    escandalosos, que annualmente occorrem. Quando o credito do lavrador
    está abalado, muitas vezes por causa das mesmas usuras de que foi
    victima, quando a sua reputação de probidade não é inconcussa, quando os
    seus habitos de economia são pouco severos, quando as incertezas das
    estações o empobreceram, as usuras redobram de violencia. Mas, ou
    maiores ou menores, as difficuldades da sua situação augmentam de anno
    para anno, e o resultado mais ou menos remoto d'essa situação é a ruina
    e a miseria. O cancro da usura devorou-lhe interiormente a vida
    economica lento, lento e sem ruido; e esta lentidão e este silencio são
    uma das caracteristicas da agiotagem rural que a tornam mais difficil de
    extirpar. O que enleva, o que arrasta sobretudo o lavrador, é o mysterio
    d'essas transacções leoninas que não se escrevem, que não se vão contar
    na praça, porque o usurario é discreto e sabe tirar partido d'essa
    preoccupação dos agricultores.

    Foi attendendo a estes factos e ás circumstancias d'elles, que se
    concebeu o projecto de uma instituição que, supprindo com vantagem os
    bancos ruraes como existem nos outros paizes e que parecem, ao menos por
    emquanto, inapplicaveis ao nosso, trouxesse um alivio seguro á
    agricultura d'este concelho, mais compromettida e ameaçada de ruina do
    que se cuida. O pensamento do projecto foi aproveitar a experiencia,
    digamos assim, da industria da usura para a combater, organisando a
    Caixa de Soccorros de modo que á facilidade das transacções se ajuntasse
    a modicidade do juro, e o respeito por certos habitos e preoccupações
    que o progresso da illustração ha de destruir, mas que desattendidos
    emquanto são vigorosos, impedem sempre a realisação das melhores cousas.

    Affirmou, Senhor, esta camara que a Caixa de Soccorros, instituição
    simples e exequivel, substituirá com vantagem os bancos ruraes, que esta
    camara reputa inapplicaveis ao paiz. Efectivamente varias objecções
    gravissimas se pódem oppôr á tentativa de crear entre nós o chamado
    credito rural por via de bancos. Que são os bancos territoriaes ou
    hypothecarios? Uma instituição de garantia, intermedia entre o mutuante
    e o mutuario, ou mais exactamente entre o capital e a propriedade, e que
    attrahe aquelle pela segurança, esta pela barateza do dinheiro que a
    segurança do emprestimo produz. Na expressão da indole de taes bancos se
    manifesta desde logo o imperfeito da instituição, ainda absolutamente
    considerada. Não é só, diremos mais, não é tanto a propriedade rural
    como a industria rural que precisa de ser por toda a parte soccorrida
    por capitaes baratos. A terra é um capital como o dinheiro, porque não
    passa de um instrumento de producção: o productor é o que a cultiva. É
    para este, para quem representa o trabalho que sobretudo taes bancos
    deveram ser instituidos. Proprietario ou rendeiro, que importa a qual
    das duas cathegorias pertence o cultivador, o industrial agricola? Um
    carecerá só de ser mutuario do capital dinheiro; outro carecerá do
    capital dinheiro e do capital terra. Qual d'elles precisa de maior
    protecção? Evidentemente o segundo. Os bancos ruraes não satisfazem a
    esta necessidade. Aproveitam aos primeiros, porém não aos segundos, ao
    menos directamente. E todavia, não dizemos em Portugal, mas em quasi
    todos os paizes, o maximo numero dos cultivadores são os rendeiros. Na
    Polonia, na Allemanha, na Russia, na Dinamarca, na Belgica, as
    instituições de credito agricola não vão além da propriedade
    territorial. Nem outra cousa podia ser porque ellas suppõem geralmente a
    existencia do fundo, os bens de raiz, como hypotheca para o reembolso.
    D'esse facto deriva outra objecção grave contra os bancos ruraes. Os
    paizes do norte, onde a instituição nasceu, teem luctado com os mil
    tropeços, que traz á sua consolidação o regimen hypothecario, e a França
    debate-se para a crear com as difficuldades d'esse mesmo regimen, mais
    imperfeito ainda que n'aquelles paizes. Entre nós o systema de
    hypothecas póde considerar-se na infancia, e elle seria um obstaculo
    insuperavel ao estabelecimento dos bancos de credito territorial.

    Dir-se-ha que as nossas leis hypothecarias serão reformadas como acto
    preliminar á creação dos bancos? As nações mais adiantadas teem
    consumido annos e annos em estudos e tentativas para reformar essas
    leis, que prendem directa ou indirectamente com todo o direito civil, e
    ainda não o teem completamente alcançado. É permittido por isso duvidar
    de que tal facto se verifique entre nós, que ainda não temos um Codigo
    Civil e onde a legislação é um chaos. Faz, na verdade, sorrir a
    facilidade com que se imagina prover em Portugal, ao complemento e
    organisação d'esse esboço que ahi temos de um systema hypothecario.

    As instituições destinadas a servirem de intermedio entre os
    capitalistas e os proprietarios, ou dependem de associações poderosas e
    respeitaveis, ou da garantia publica. Mas quer sejam de um, quer de
    outro genero, é necessario que o seu credito se repute inabalavel. Sem
    isso debalde se buscaria obter capitaes baratos para agricultura. Mas
    quaes serão as associações poderosas e respeitaveis que possam ou
    queiram organisar entre nós os bancos territoriaes? Por outra parte a
    historia da fazenda publica e dos grandes estabelecimentos de credito
    n'este paiz, não abonaria demasiado a confiança dos mutuantes na
    garantia publica. Todos os diversos bancos ruraes actualmente existentes
    na Europa presuppõem a emissão de notas, de letras, de inscripções, de
    titulos de credito, em summa, para funccionarem. Mas quem prudentemente
    poderia esperar hoje em Portugal a acceitação de taes titulos? Mr.
    Thiers dizia em 1848 perante a assembléa nacional, n'um paiz onde o
    credito publico mal se poderia comparar com o nosso: «Basta que um papel
    se introduza n'um paiz como nota de banco para se me tornar suspeito».
    Nós os portuguezes não suspeitamos: descremos. E esta descrença matará
    todas as tentativas; porque o credito nem se improvisa, nem se decreta.

    Ás precedentes objecções vem associar-se outra, talvez não menos
    peremptoria. Os capitaes em Portugal teem um valor subido. São communs
    os emprestimos, feitos com toda a segurança compativel com o desordenado
    e incompleto das nossas leis civis, a 7, a 8 e a mais por cento. Ainda
    suppondo possivel a existencia de bancos ruraes que offerecessem solidas
    garantias, e que a situação actual da agricultura portugueza admittisse
    a exigencia de um juro de 5 ou 6 por cento, como attrahir os capitaes
    para os bancos? Como resolver o capitalista a contentar-se com um juro
    de 4 ou 5 por cento, visto ser necessario reservar pelo menos 1 por
    cento para as despezas da gerencia dos bancos, quando elle póde obter
    para o seu dinheiro um preço mais subido?

    Restaria só um meio, a emissão de notas que não representassem valores
    positivos; restariam as chimeras da mobilisação do solo e da
    multiplicação dos capitaes, ou por outra a moeda papel, que os utopistas
    crêem ter descoberto porque inventaram algumas phrases ou palavras
    novas, para exprimir erros velhos. Esta camara julga inutil combater
    similhantes preoccupações, porque o Governo de Vossa Magestade e o
    Parlamento estão acima de taes desvios. Se fosse possivel não o estarem,
    a opinião publica faria prompta e inexoravel justiça a esses papeis de
    credito, desacreditados ainda antes de emittidos.

    Esta camara, Senhor, não pretende com o que leva dito negar os
    beneficios produzidos pelos bancos ruraes nos diversos paizes da Europa,
    nem que o progresso das luzes economicas os venha a tornar mais amplos
    nos seus effeitos, nem finalmente que possa chegar um dia em que a sua
    fundação seja não só possivel, mas tambem conveniente ao nosso paiz.
    Quiz só mostar a convicção profunda que tem de que, por agora, para
    fazer alguma cousa verdadeiramente util á agricultura, considerada nas
    suas relações com o capital, cumpre tomar por base outro pensamento, e
    desenvolvel-o em harmonia com o nosso estado economico e civil, e além
    d'isso com as idéas, habitos e até preoccupações innocentes dos
    agricultores.

    Na creação da Caixa de Soccorros, que submette á approvação, e para que
    pede a iniciativa do Governo, esta camara tomou para ponto de partida o
    tributo municipal, em vez da esperança de obter capitaes alheios para
    gerir. A razão é simples: não os obteria senão por um preço que o estado
    da agricultura do concelho não comporta. Considerações mais largas a
    este proposito talvez aqui tivessem cabida, mas ella contenta-se com o
    que já ponderou, e que no caso especial é decisivo. Conhecendo pelos
    exames a que procedeu sobre a materia, que o grande mal consiste nas
    usuras a que o lavrador tem de sujeitar-se para obter os meios de
    executar os amanhos annuaes, foi sobretudo este mal que procurou
    combater. Se a usura espreita as necessidades instantes, que
    regularmente vêm assaltar o cultivador no grangeio annual, é ahi que
    deve ser repellida. A Caixa de Soccorros emprestará annualmente e só
    annualmente. D'este principio resultam a possibilidade e a proficuidade
    da instituição. Resulta: 1.^o que sendo a hypotheca do emprestimo os
    fructos em vez do predio, as questões hypothecarias desapparecem com um
    pequeno favor da lei, e sem offensa grave do direito de terceiro: 2.^o
    que limitando-se a quantia mutuada ao equivalente da renda liquida do
    cultivador, reduzida ainda a tres quartos para obviar aos inconvenientes
    das alterações inevitaveis n'essa renda, a Caixa, obrigada a
    subministrar apenas sommas comparativamente modicas, poderá multiplicar
    os emprestimos e, recolhido integralmente o capital todos os annos,
    salvo nos de escacez completa, estará sempre habilitada com recursos
    para renovar opportunamente o beneficio: 3.^o que limitando-se a
    emprestimos annuaes a mesma Caixa, evitará um dos grandes escolhos dos
    bancos hypothecarios, a absorpcão de capitaes avultados por um periodo
    indeterminado ou demasiado longo; isto é, evitará a causa mais ordinaria
    da ruina dos bancos hypothecarios: 4.^o que por esta mesma razão deixará
    de cair na justificada censura, que mais de uma vez se tem feito aos
    bancos territoriaes, de favorecerem a paixão excessiva pela propriedade,
    paixão vulgar no homem do campo, e a que se póde chamar _o vicio da
    terra_. Este vicio produz, mais frequentemente do que se cuida, a ruina
    do cultivador. Ha uma observação feita já por toda a Europa, e que é
    facil de fazer em Portugal. O lavrador que póde obter um capital por
    tempo indeterminado ou assás longo, não procura em regra dar maior
    intensidade ou aperfeiçoamento, á cultura do predio que cultiva: tracta
    de dilatar o grangeio. Ás difficuldades com que luctava accrescenta
    maiores, endivida-se cada vez mais; cada vez faz maiores sacrificios até
    que completamente se arruina. É esta a historia de muitos. O
    proprietario rural não deve estender a sua propriedade senão com
    economias realisadas: o rendeiro não deve converter-se em proprietario
    senão pelos mesmos meios. Tudo o mais é imprudente e arriscado, e tanto
    mais arriscado quanto é certo que o _vicio da terra_ cria facilmente na
    imaginação do cultivador esperanças de lucros, que se não verificam. Os
    bancos ruraes teem no meio de muitas vantagens este inconveniente. A
    amortisação pelas annuidades, systema facil para o mutuario remir a
    divida insensivelmente, não remedeia o mal senão causando outro. A
    annuidade não significa para o cultivador senão um augmento de juro, que
    excedendo as forças productivas da terra, o arruina tambem. No fim de um
    certo numero de annos não deverá o capital extincto pelas annuidades,
    mas deverá outro que tomará emprestado, quando a somma da annuidade com
    o juro annual exceder o producto liquido da sua industria.

    Nas disposições organicas da Caixa de Soccorros Agricolas, esta camara
    inseriu algumas provisões tendentes a remover uma apprehensão grave.
    Esta apprehensão, a que já anteriormente se alludiu, funda-se n'um facto
    de ordem moral: o cultivador portuguez envergonha-se de tomar dinheiro a
    juro: entende que ha o que quer que seja menos regular n'esse acto tão
    innocente como legitimo. Prefere tudo á publicidade do que elle chama a
    sua miseria, e que ás vezes o é. Não raro o usurario explora este
    sentimento de orgulho, porventura nobre na sua origem. Custa menos ao
    agricultor pedir áquelle a quem já pediu uma vez, e que não assoalha o
    facto, porque o defeito da usura não é ser vangloriosa. O usurario
    contenta-se com reter em servidão perpétua o cultivador que uma vez lhe
    caiu nas mãos. Aos olhos de muitos essa circumstancia pareceria de bem
    pouco momento: a esta camara pareceu que, practicamente, era uma das
    maiores difficuldades a vencer, e por isso insiste n'ella. Um facto,
    hoje esquecido, prova a sua importancia. Em 1845 o Governo decretando um
    emprestimo aos lavradores do Ribatejo, convidou a Companhia das Lezirias
    a fazel-o. Acceitou a Companhia o encargo com condições que presuppunham
    a publicidade como garantia. Pedia-se um juro modico em relação ás
    usuras de que ordinariamente é victima áquelle districto agricola.
    Nenhum mutuario todavia appareceu. Era o emprestimo um acto publico, e
    até certo ponto ruidoso, no qual cumpria que cada um se confessasse
    necessitado. Preferiram a usura, e uma circumstancia apparentemente
    insignificante bastou para inutilisar as intenções bemfazejas do Governo
    e da Companhia. Importava, portanto obstar a que igual successo se
    renovasse no caso presente. Imaginou-se o meio de conciliar a segurança
    da Caixa com as prevenções dos cultivadores, e esta camara crê têl-o
    achado nas disposições dos artigos 5.^o, 11.^o e 12.^o O registo dos
    emprestimos, se não dá a certeza de um segredo absoluto, offerece pelo
    menos tantas garantias de pouca publicidade como a discrição dos
    usurarios. Para o mutuario honesto ha a segurança de que, paga a divida,
    não ficarão d'ella vestigios escriptos, e de que emquanto subsistiu, o
    conhecimento da sua existencia não passou de poucos individuos. Na
    occasião da venda dos productos agricolas, raras vezes terá de se
    verificar o disposto no artigo 14.^o Ninguem duvida em geral de entregar
    ao lavrador uma parte do preço do genero vendido antes de completar a
    tróca.

    Com os simples meios de operar as transacções tanto dos emprestimos como
    da restituição adoptadas por esta camara, o cultivador evita esses
    tramites complicados a que ficaria sujeito n'outra qualquer instituição
    de credito. Os cultivadores, em troco do direito que adquirem a obter um
    capital barato quando lhes convier, não tomam senão o encargo de mandar
    buscar á Caixa de Soccorros uma certidão de corrente, se d'ella
    precisarem antes do dia 30 de agosto, para sem obstaculo negociarem os
    seus generos, e os compradores de productos agricolas nunca poderão
    allegar ignorancia, visto ser prohibido aos cultivadores do concelho
    operarem qualquer transacção sobre fructos, sem mostrarem o estado das
    suas relações com a Caixa.

    A vantagem dos cultivadores, sobretudo dos de cereaes, que são a
    grandissima maioria dos do concelho, não é só a de obterem capitaes a
    1/4 por cento ao mez, ou a 3 por cento ao anno, em logar dos juros
    exorbitantes de 30, 40 ou 50 por cento; é tambem a de poderem vender em
    conjunctura mais propicia do que a da colheita, visto que a restituição
    só tem de estar verificada no fim de janeiro: e se, por causa da
    facilidade de se harmonisarem os emprestimos com os reembolsos, os
    primeiros ficam circumscriptos ao periodo de fevereiro a julho, é esta a
    epocha em que realmente o cultivador precisa d'elles, porque é sabido
    que todo aquelle que não póde executar os primeiros trabalhos do anno
    agricola com os proprios recursos, não está habilitado para ser
    agricultor. Quando porém tal situação se désse, teria o lavrador a
    liberdade de vender na eira, restituindo o emprestimo á Caixa, fazendo
    os primeiros trabalhos com o resto, e vindo buscar em fevereiro novo
    emprestimo.

    Explicado o pensamento da camara no essencial, seria offender a
    intelligencia do Governo e do Parlamento, dar tambem a razão de cada uma
    das provisões do projecto. Em geral, ha n'elle a manifestação de
    desconfiança da boa vontade com que será mantida de futuro a nova
    instituição. Esta desconfiança existe de feito no espirito da actual
    camara. A fundação da Caixa de Soccorros Agricolas fere interesses
    poderosos. Esses interesses cuja legitimidade é mais que disputavel,
    hão-de combatêl-a antes e depois de creada, e o combate será tanto mais
    perigoso, quanto é certo que a usura tem de caminhar nas trevas, usando
    de meios indirectos. Eram necessarias prevenções contra o perigo, e a
    camara crê têl-as tomado. Quando, o que não é de esperar, viesse uma
    vereação hostil á existencia da instituição, as provisões do projecto
    são taes, que os vereadores comprometteriam seriamente a propria
    fortuna, faltando n'esta parte ao seu dever. Além d'isso, o
    administrador da Caixa, cuja subsistencia dependerá da permanencia da
    instituição, defendido de uma demissão injusta da parte da camara pelas
    disposições da lei, será um obstaculo permanente aos abusos que poderiam
    trazer a ruina da mesma Caixa.

    Resta ainda, Senhor, a esta camara dar algumas explicações sobre o meio
    adoptado para a formação do fundo, e sobre a quantia que se fixou para o
    constituir.

    Das considerações até aqui feitas deriva a creação do fundo por meio de
    um imposto. O capital assim accumulado, sendo propriedade do concelho,
    pôde mutuar-se por um juro insignificante sem detrimento de ninguem.
    Levantando-se um capital por emprestimo e applicando-se o imposto á
    amortisação d'elle, as operações da Caixa poderiam na verdade satisfazer
    desde logo a toda a procura de pequenos capitaes; mas é evidente que o
    imposto oneraria o concelho por mais annos, e o juro exigido dos
    mutuarios não poderia ser inferior a seis ou sete por cento, para
    occorrer ao pagamento do juro de 5 por cento (suppondo que se obtivesse
    dinheiro por preço tal) e ás despezas do estabelecimento. A camara,
    porém, está convencida de que a cultura do concelho, sobretudo a de
    cereaes, não soffre similhante juro. Além d'isso, sendo esta uma
    instituição nova no paiz, tendo contra si as repugnancias e hesitações
    que sempre se dão em taes casos, a fóra a guerra que lhe hão-de fazer os
    interessados em manter o estado actual das cousas, a procura de pequenos
    capitaes deve ser tenue a principio e crescer gradativamente á medida
    que o fundo augmentar.

    A base adoptada para determinar o algarismo do fundo foi a estatistica
    dos predios rusticos do concelho, a que a camara mandou proceder com a
    exacção possivel, supposta a sabida carencia de recursos que ha para
    obter a exacção em taes materias. Existem no concelho 812 predios
    rusticos, que se distribuem do modo seguinte, por uma escala gradativa
    da sua renda liquida:

    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+
    | |De 1$000|De 10$000|De 50$000|De 100$000|De 200$000|De 300$000|
    |FREGUEZIAS|a 10$000|a 50$000 |a 100$000|a 200$000 |a 300$000 |a 600$000 |
    | |reis |reis |reis |reis |reis |reis |
    |———-+——–+———+———+———-+———-+———-|
    |Belem | 3 | 10 | 7 | 2 | — | 2 |
    | | | | | | | |
    |Ajuda | 16 | 37 | 14 | 11 | 5 | 3 |
    | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | |
    |d' | | | | | | |
    |Alcantara | — | 2 | 11 | 10 | 3 | — |
    | | | | | | | |
    |Bemfica | 30 | 193 | 74 | 48 | 14 | 5 |
    | | | | | | | |
    |S. | | | | | | |
    |Sebastião | | | | | | |
    |da | | | | | | |
    |Pedreira | — | 20 | 20 | 24 | 4 | 3 |
    | | | | | | | |
    |Carnide | — | 49 | 8 | 10 | 2 | 2 |
    | | | | | | | |
    |Odivellas | 18 | 107 | 28 | 13 | 3 | 1 |
    | |——–+———+———+———-+———-+———-|
    |7 | | | | | | |
    |Freguezias| 67 | 418 | 162 | 118 | 31 | 16 |
    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+

    Tomadas as medias da escala gradativa, e multiplicando cada media pelo
    numero de predios de cada-gráu, achamos a media da renda liquida total
    ser de 57:175$000 reis.

    Mas aconselhando a prudencia que se limitem os emprestimos a trez
    quartos da renda liquida de cada mutuario, seguir-se-hia que o fundo da
    Caixa deveria ser proximamente de 42 contos de reis. Entretanto, do
    seguinte mappa, em que os predios rusticos do concelho são classificados
    segundo a natureza das respectivas culturas, deriva a consequencia de
    que uma somma menos elevada satisfará plenamente aos fins da
    instituição. Eis o mappa:

    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    | FREGUEZIAS |Quintas|Casaes|Terras|Hortas|Vinhas|Cercas|Olivaes|Pinhaes|
    |————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    |Belem | 4 | 2 | 14 | 4 | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |Ajuda | 19 | 19 | 67 | — | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | | | |
    |d'Alcantara | 13 | 6 | — | 2 | 1 | — | 1 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Bemfica | 89 | 61 | 219 | — | 25 | — | 3 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Carnide | 19 | 1 | 21 | 11 | 27 | 2 | 2 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Odivellas | 22 | 34 | 123 | 16 | 9 | 1 | 3 | 2 |
    | | | | | | | | | |
    |S. Sebastião| | | | | | | | |
    |da Pedreira | 33 | 7 | 21 | 2 | 7 | — | 3 | — |
    | |——-+——+——+——+——+——+——-+——-|
    | | 199 | 130 | 465 | 35 | 69 | 5 | 12 | 2 |
    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+

    As quintas e as hortas no precedente mappa constituem mais da quarta
    parte dos predios rusticos do concelho. As primeiras pertencentes no
    maximo numero a proprietarios abastados da capital, e cultivadas por
    seus donos, sendo além d'isso muitas d'ellas antes objecto de luxo que
    de industria, não carecerão provavelmente nunca de soccorros da Caixa
    para o seu cultivo. As segundas pela indole de uma cultura, que não
    soffre a accumulação de fructos que possam servir de garantia ao
    emprestimo, estão forçadamente excluidas do beneficio da Caixa. Muitos
    dos predios, porém, incluidos n'estas duas categorias, figuram entre os
    de maior renda na lista das propriedades rusticas do concelho. Seria,
    portanto, necessario que todos os cultivadores, para cuja utilidade, ou
    antes para cuja redempção do captiveiro da usura esta instituição é
    destinada, carecessem de emprestimos integralmente equivalentes a trez
    quartos da respectiva renda liquida, para ser absorvido o fundo creado
    de 35:000$000 reis.

    O imposto destinado para este objecto, posto não seja senão a
    transformação de outro mais antigo e pesado, que hoje não poderia
    subsistir, tem encontrado as difficuldades que se costumam encontrar na
    fiscalisação e cobrança de um imposto novo. Para o realisar era
    necessario que a moderação acompanhasse a firmeza. Esta camara adoptou o
    methodo das avenças, methodo popular que facilita as operações da
    cobrança, tanto para os exactores como para os contribuintes, e que sob
    certo aspecto equivale ao systema do imposto directo e simples, e está
    demonstrando a excellencia d'elle, excellencia que infelizmente o povo
    ainda não comprehende. As avenças feitas não representam por agora a
    verba do que o imposto deve produzir; mas hão de approximar-se d'ella á
    medida que fôr possivel ir tornando a fiscalisação mais severa. Se a
    camara se não illude nas suas previsões, o fundo da Caixa estará
    preenchido dentro de sete ou oito annos, podendo e devendo cessar o
    imposto desde que estiverem preenchidos os fins d'elle.

    Reservando a quarta parte do tributo especial para as despezas geraes do
    municipio, a camara attendeu a que sem esta reserva recaíria sobre os
    outros ramos do serviço municipal a cobrança e fiscalisação d'elle, bem
    como a despeza com a gerencia da Caixa, emquanto os seus rendimentos não
    chegarem para isso, e finalmente considerou essa reserva como uma
    indemnisação pelo encargo estabelecido no ultimo periodo do artigo 23.^o.

    A camara de Belem espera que esta sua tentativa, para acudir á mais
    urgente necessidade de um concelho, em grande parte rural, merecerá a
    benevola attenção de Vossa Magestade, e que o projecto junto, corrigido
    pela sabedoria do Governo de Vossa Magestade, será submettido á
    approvação do Parlamento, que não a recusará por certo a uma
    instituição, cuja utilidade é inquestionavel.

    Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Magestade, como todos havemos
    mister.–Camara, em Vereação, 27 de março de 1855.

    O Presidente–_Alexandre Herculano_.

    _Joaquim Ferreira Pinto Bastos_.

    _João José Teixeira Leal_.

    _Matheus Antonio Vieira_.

    _José Street d'Arriaga e Cunha_.

    CAIXA MUNICIPAL DE SOCCORROS AGRICOLAS

    Artigo 1.^o É instituido no concelho de Belem um fundo permanente com a
    denominação de Caixa Municipal de Soccorros Agricolas. O seu destino é
    subministrar capitaes baratos aos cultivadores para os amanhos ruraes.

    Artigo 2.^o O fundo d'esta Caixa formar-se-ha com tres quartos do
    producto do actual imposto de 20 reis em cada alqueire de farinha
    fabricada, até completar a somma de 35:000$000 reis.

    § unico. A camara poderá substituir o dito imposto por outro qualquer,
    uma vez que o seu producto seja pelo menos equivalente ao dos mesmos
    tres quartos do actual. Se a camara, porém, distrahir estes do fim a que
    são destinados, ou supprimir o imposto sem o substituir, antes de se
    completar o fundo, embora com approvação do Conselho de Districto, os
    vereadores ficarão responsaveis por seus bens ao complemento d'elle.

    Artigo 3.^o A administração superior da Caixa incumbe a uma direcção
    composta do presidente da camara, que será o presidente da direcção, do
    fiscal, e de um vogal eleito pelos cinco membros restantes da camara
    d'entre si.

    Artigo 4.^o A Caixa emprestará aos cultivadores do concelho, por prazos
    que nunca excederão a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o
    capital necessario para o movimento da cultura annual dos respectivos
    predios, pela totalidade da somma existente em Caixa até ao complemento
    do fundo creado, e d'ahi ávante pelo total do mesmo fundo, o qual por
    nenhum pretexto poderá ter outra applicação, que não seja a de
    emprestimos annuaes aos cultivadores.

    Artigo 5.^o Haverá um registo, numerado e rubricado em todas as folhas
    pelos membros da direcção, de todos os cultivadores do concelho.

    Artigo 6.^o Os ditos cultivadores serão designados em duas categorias:
    1.^a lavradores; 2.^a fazendeiros.

    § 1.^o Entende-se por lavrador o cultivador de cereaes, e por fazendeiro
    o vinhateiro, o pomareiro e o que cumulativamente cultiva vinhas e
    pomares.

    § 2.^o Quando o grangeio do cultivador abranger ambas as categorias, o
    mesmo cultivador será classificado conforme a importancia relativa
    d'esse grangeio em cada uma d'ellas.

    Artigo 7.^o Abrir-se-ha um titulo a cada um dos cultivadores do
    concelho, contendo o seu nome, a natureza e condições da cultura, que
    determinaram a sua categoria, e bem assim a verba do producto liquido
    ordinario da mesma cultura, á vista da ultima quota do tributo geral
    directo, em que o cultivador tiver sido tributado. A administração,
    porém, da Caixa recorrerá ás informações que julgar opportunas para
    verificar a exacção da verba, que todavia nunca poderá ser superior á
    que corresponde a quota do tributo directo.

    Artigo 8.^o A somma mutuada por cada cultivador, nunca poderá exceder a
    tres quartos da sua renda liquida averbada no registo.

    Artigo 9.^o Serão hypotheca especial do emprestimo os fructos do anno
    corrente, produzidos no predio ou predios cultivados pelo mutuario, e na
    falta d'estes os dos annos immediatos até o reembolso da divida.

    Artigo 10.^o Os emprestimos far-se-hão durante o decurso dos mezes de
    fevereiro a julho de cada anno, por uma vez na importancia de tres
    quartos da renda liquida do mutuario, ou por duas vezes em duas
    parcellas iguaes, que completem os ditos tres quartos, ou apenas por um
    terço da renda liquida do mesmo mutuario, tudo a arbitrio d'este.

    Artigo 11.^o Haverá um livro de talão, chamado do registo annual dos
    emprestimos, numerado e rubricado em todas as folhas pelos membros da
    direcção da Caixa, onde se registarão as ementas dos mesmos emprestimos.
    Estas ementas, que conterão um numero de ordem, o nome do mutuario e a
    quantia por que fica devedor, serão escriptas, datadas e sobscriptas
    pelo administrador da Caixa e assignadas pelos mutuarios ou por outra
    pessoa a seu rogo, e por uma testemunha quando o mutuario não souber
    escrever. No talão escrever-se-ha o numero de ordem, a quantia mutuada e
    data da transacção.

    § 1.^o Cada uma das ementas feitas da maneira determinada no precedente
    artigo, será lançada n'uma folha separadamente.

    § 2.^o As certidões passadas do livro das ementas pelo administrador da
    Caixa, e referendadas pelos membros da commissão e pelo administrador do
    concelho, terão para os effeitos legaes o valor de uma escriptura
    publica de divida.

    § 3.^o O exame do registo annual dos emprestimos é vedado a todas as
    pessoas estranhas á administração da Caixa, salvo ao administrador do
    concelho.

    § 4.^o Na escripturação da Caixa de Soccorros o numero de ordem
    substituirá sempre o nome do mutuario.

    Artigo 12.^o No fim do anno, ou antes se os cultivadores o quizerem,
    verificar-se-ha o reembolso da Caixa, capital e juro, devendo esse
    reembolso estar realisado dentro do mez de janeiro immediato.
    Entregar-se-ha a cada mutuario como quitação a ementa ou ementas, que
    lhe forem relativas cortadas dos respectivos talões.

    Artigo 13.^o A acção e direito da Caixa de Soccorros terá a preferencia
    a outra qualquer acção e direito particular, sobre os fructos do anno em
    que foi contraído o emprestimo. Exceptua-se a acção da fazenda publica
    pelos impostos devidos.

    Artigo 14.^o Ninguem poderá levantar por titulo de compra, troca, cessão
    ou outro qualquer contracto, os fructos do predio rustico cultivados
    pelos individuos designados nos artigo 5.^o e 6.^o, sem que o cultivador
    lhe apresente certidão do estado da sua conta com a Caixa de Soccorros.

    § 1.^o Estas certidões serão rubricadas pelos membros da direção da
    Caixa, e passadas gratuitamente pelo administrador da mesma, e só ao
    cultivador interessado. Se a certidão declarar este em divida, o
    comprador dos fructos será obrigado a entrar na Caixa com a importancia,
    capital e juro, da dita divida, pagando ao cultivador a somma
    correspondente a essa importancia com o recibo respectivo. Se não
    cumprir o disposto n'este artigo, ficará responsavel pela divida,
    capital e juro.

    § 2.^o Se o contracto de compra ou de outra qualquer especie, e o
    levantamento dos fructos tiver sido feito occultamente, aquelle que
    houver feito o contracto ou recebido os fructos, ficará não só
    responsavel pela divida, capital e juro, mas tambem sujeito a uma multa
    de 20 por cento da mesma divida para o official da camara ou da
    administração, que descobrir o facto, ou para outro qualquer individuo
    que venha denuncial-o á direcção da Caixa.

    § 3.^o Se o cultivador tiver vendido os fructos a comprador transeunte e
    desconhecido, sendo por este levantados os mesmos fructos, ficará o dito
    cultivador incurso no crime de burla, e sujeito ás penas das leis.

    § 4.^o Aos cultivadores do concelho, que não houverem recebido
    emprestimos da Caixa, enviar-se-ha a certidão corrente n'esse anno até
    ao dia 30 de agosto, embora elles não a hajam anteriormente exigido.

    Artigo 15.^o Os cultivadores que mudarem de predio serão obrigados a dar
    aviso á administração da Caixa, e a declarar a importancia do seu novo
    grangeio e do rendimento liquido d'elle. Os que não o fizerem, ficarão
    inhabilitados por dous annos para receber emprestimos da Caixa.

    Artigo 16.^o Todos os annos, depois de concluido o lançamento dos
    tributos geraes directos, o administrador do concelho communicará á
    direcção da Caixa as alterações que houverem occorrido nas respectivas
    quotas de repartição, em relação aos cultivadores do concelho. Dadas
    essas alterações, mudar-se-ha no registo a verba, até a qual póde subir
    o emprestimo ao respectivo cultivador.

    Artigo 17.^o Acontecendo que o total das verbas pedidas pelos
    cultivadores exceda os recursos da Caixa, a preferencia será dada em
    razão ascendente da menor renda liquida para a maior.

    Artigo 18.^o Se qualquer cultivador do concelho fôr eleito vereador não
    poderá, em quanto exercer esse cargo, ser mutuario de somma alguma
    havida da Caixa de Soccorros Agricolas.

    Artigo 19.^o A nenhum dos mutuarios individualmente poderá a
    administração da Caixa espaçar o prazo fatal do reembolso no fim do
    anno. Quando por motivo de escacez das colheitas, ou de outra calamidade
    publica, se reputar necessaria a concessão de móra, a camara resolverá
    essa concessão, e fundamentando-a a offerecerá á sancção do Conselho de
    Districto. Sendo por este approvada, gosarão do beneficio da móra todos
    os mutuarios que d'ella quizerem aproveitar-se. Se a camara, porém
    entender que as circumstancias aconselham que se faca a dita concessão,
    ou só á classe dos cultivadores de cereaes, ou só á dos fazendeiros,
    conceder-se-ha a essa classe a móra especial com approvação do Conselho
    de Districto, sob a mesma condição de nunca ser individual.

    § 1.^o A móra entende-se em todo o caso para o capital; o juro será pago
    no prazo prefixo.

    § 2.^o O pagamento da divida não poderá ser exigido nos annos
    subsequentes, senão pela decima parte da renda liquida do cultivador,
    que se calculará com abatimento da mesma decima parte para o effeito de
    novos emprestimos.

    § 3.^o São hypothecas d'esta divida os bens de raiz do
    cultivador-proprietario, e os do cultivador-rendeiro, se os tiver. Se
    este não os tiver, sel-o-hão os seus bens moveis e semoventes, sendo
    além d'isso obrigado a dar fiador idoneo á divida.

    § 4.^o Estas dividas não vencerão juro, e a acção e direito da Caixa
    para as cobrar serão os mesmos da fazenda publica.

    Artigo 20.^o Para supprir até onde fôr possivel o desfalque do fundo
    pala móra, dada a hypothese do artigo antecedente, a Caixa tomará um
    emprestimo dentro das seguintes limitações:

    1.^a O total do emprestimo será equivalente ao capital representado por
    dous terços do rendimento liquido da Caixa, considerados como juro, os
    quaes effectivamente ficarão applicados ao pagamento do juro do
    emprestimo.

    2.^a O terço restante do rendimento liquido ficará destinado á
    amortisação, bem como o remanescente annual dos dous terços applicados
    para o pagamento do juro.

    3.^a A camara, sobre proposta da direcção, submetterá o contracto do
    emprestimo á sancção legal, na forma do artigo 103.^o do Codigo
    Administrativo.

    Artigo 21.^o Os membros da direcção da Caixa serão responsaveis pelos
    actos da sua gerencia, remettendo annualmente até o mez de março uma
    conta especificada das transacções operadas no anno anterior, para o
    Conselho de Districto examinar se a lei foi cumprida, e impôr a
    responsabilidade á direcção.

    Artigo 22.^o Haverá um administrador com o vencimento annual de 300$000
    reis, a quem pertencerá o meneio de todos os negocios da Caixa que lhe
    forem incumbidos pelo respectivo regulamento. Os zeladores da camara
    servirão por turno de contínuos, e o procurador da mesma camara servirá
    de agente forense, mediante uma gratificação annual arbitrada pela
    camara, e approvada pelo Conselho de Districto, a qual nunca excederá a
    20$000 reis. Quando trabalhos extraordinarios o exigirem, a direcção
    requisitará da camara o serviço de um ou mais amanuenses da secretaria
    da mesma camara.

    Artigo 23.^o O administrador da Caixa será nomeado pela camara, que lhe
    exigirá fiança idonea no valor de 3:000$000 reis; só, porém, poderá ser
    demittido por uma resolução do Conselho de Districto, sobre proposta da
    direcção, approvado pela camara, a qual aliás o póde suspender, havendo
    para isso proposta da direcção.

    Artigo 24.^o Os vencimentos acima referidos e mais despezas da Caixa
    serão pagos pelo seu rendimento e emquanto este para isso não chegar,
    será completada a somma total da despeza pelo cofre da camara.

    Artigo 25.^o O rendimento da Caixa, deduzidas as despezas da sua
    gerencia, e fóra do caso previsto no artigo 20.^o, será exclusivamente
    applicado, a arbitrio da camara, aos seguintes objectos: 1.^o á
    manutenção das escholas primarias municipaes de 1.^o ou de 2.^o grau;
    2.^o à compra de sementes, cuja introduccão se repute util, para serem
    gratuitamente distribuidas aos cultivadores, que quizerem tentar a sua
    cultura; 3.^o á compra de instrumentos, machinas ou utensilios
    agricolas, com as mesmas condições e fins; 4.^o á sementeira ou plantio
    de pinhaes ou mattas nos baldios ou terrenos de inferior qualidade,
    pertencentes ao concelho, ou adquiridos por elle para tal fim.

    § _unico_. Estas applicações só se verificarão depois de completo o
    fundo da Caixa. Até ahi o seu rendimento liquido será n'elle
    encorporado.

    Artigo 26.^o A camara fará os regulamentos opportunos para a boa
    gerencia da Caixa, os quaes terão vigor depois de approvados pelo
    Conselho de Districto.

    Camara de Belem, 27 de março de 1855.

    _Alexandre Herculano_.

    SOBRE A QUESTÃO DOS FORAES

    1858

    Meu amigo.–Sinto que as primeiras linhas que escrevo para o seu jornal,
    e que escrevo e escreverei para satisfazer ao desejo que me manifestou,
    de que o ajudasse na sua util empreza conforme as minhas escassas
    possibilidades, seja para rectificar idéas ahi contidas e que me parecem
    pouco exactas. São as de uma correspondencia insérta a paginas 94 do
    1.^o volume do Archivo. Pondera-se n'aquella correspondencia a
    necessidade de uma nova lei de Foraes. Não sei até que ponto essa nova
    lei é possivel, depois de tantos factos consummados em harmonia com a
    carta de lei de 22 de junho de 1846. Quando medito nas difficuldades,
    nas injustiças relativas, nas incertezas que resultariam de novas
    providencias contrarias ás d'aquella lei, eu, que não recuo facilmente
    diante das consequencias de commettimentos de tal ordem, quando se
    tracta de grandes reformas, de grandes actos de justiça social, titubeio
    perante as hypotheses que prevejo se dariam quando se tratasse de
    legislar com mais liberal espirito sobre tão grave assumpto, e faço
    votos para que os legisladores que tentarem tal empreza, achem a solução
    racional de um problema, que a meus olhos não a tem das mais faceis.

    A lei de 1846 é uma lei reaccionaria, profundamente reaccionaria. É a
    explosão da guerra occulta feita por interesses illegitimos ao grande
    acto de justiça nacional, chamado o decreto de 13 de agosto de 1832,
    pensamento talvez o mais grandioso da dictadura do Duque de Bragança, a
    que só faltaram desenvolvimento e provisões, que facilitassem a sua
    execução, falta que subministrou pretextos ao espirito de reacção para o
    falsificar e annullar em grande parte. A lei de 1846 não me inspira só
    hostilidade; inspira-me indignação. Mas quando uma lei tem actuado
    durante doze annos sobre o modo de ser de uma grande parte da
    propriedade territorial do paiz, quando tem regulado milhares de
    contractos, servido de norma a milhares de sentenças, influido em
    milhares de successões, determinado para mais ou para menos milhares de
    fortunas, pretender alteral-a póde não ser uma grande temeridade, mas
    requer por certo uma alta força de intelligencia, e uma circumspecção
    pouco vulgar.

    Mas o que ha mais grave na correspondencia que o meu amigo publicou é
    uma outra circumstancia. Adopta-se ahi um erro analogo ao que produziu
    as peiores disposições da lei de 22 de junho, se abstrahirmos do seu
    pensamento fundamental, o salvar tudo o que, sem extremo escandalo,
    fosse possivel salvar das velhas extorsões dominicaes. O pensamento,
    infelizmente mal desenvolvido, do decreto de 13 de agosto era libertar o
    paiz do nosso primitivo systema de renda publica, derivada por abusos de
    seculos para a algibeira de particulares, e substituido em relação ao
    estado por outro systema de renda, o que trouxera uma situação
    intoleravel para a maior parte da propriedade territorial, a solução de
    duas series de impostos uma só das quaes chegava aos cofres do erario. O
    decreto de 13 de agosto supprimia a serie primitiva, a serie delapidada.
    Era uma idéa simples, clara, justa em these. O mal veiu da
    insufficiencia dos meios na sua applicação á hypothese. O decreto de 13
    de agosto não tivera, não podia ter em mira offender contractos
    particulares sobre propriedade patrimonial: o que cumpria em qualquer
    lei posterior tendente a esclarecel-o e a rectifical-o, era reformar as
    suas provisões que de qualquer modo dessem azo a ser offendido o direito
    privado, e por outra parte completar aquellas que não bastassem a
    extirpar o grande abuso, a immensa extorsão publica a que se pozera o
    machado. Para isso tornava-se necessario designar quaes caracteres,
    quaes condições, na falta de provas directas e incontestaveis, serviriam
    para demonstrar ou para se presumir que tal fôro, tal censo, tal direito
    dominical procedia de um contracto expresso ou tacito com o estado. Onde
    e quando as condições e os caracteres fossem demonstrativos, a prova em
    contrario deveria ser supprimida; onde e quando produzissem só
    presumpções, admittir-se-hia essa prova em contrario. Tudo o mais
    reputar-se-hia resultado de contractos particulares, salvo tambem o
    direito do colono, emphyteuta, ou censuario a provar a origem publica do
    onus ligado ao predio que possuia. O principio da abolição, dada essa
    origem publica, não podia ter nem excepção nem limites. A lei devia
    reconhecer a indemnisação pelo estado na unica hypothese em que ella era
    justa, a da venda de direitos dominicaes feita pela corôa. A verba total
    não havia de ser demasiado avultada; e que o fosse era uma divida que se
    pagava. As gerações são solidarias.

    Em vez d'isto, appellou-se para a distincção cerebrina de _titulo
    generico_ e _titulo especial_, que vinha tanto para o assumpto, como uma
    sura do alcorão, ou um artigo das leis de Manú; e á sombra d'esta
    distincção que não distinguia nada, confundiu-se tudo, e restaurou-se
    quasi tudo fazendo-se aos colonos originariamente da corôa, o grande
    favor de poderem remir o onus dando por elle (considerado como juro ou
    renda) o equivalente em capital. O que os legisladores quizeram bem
    averiguado foi se a transmissão do uso da terra, reservado o dominio,
    fôra escripta para servir de titulo a muitos colonos ou a um só, se n'um
    se em muitos diplomas. Era uma curiosidade archeologica sobre a
    abundancia ou a raridade do pergaminho na idade media, que poderia
    subministrar um capitulo interessante a alguma nova edição da _Economia
    Politica del Medio Evo_, do meu amigo Luiz Cibrario.

    É este erro, esta confusão do direito privado com o publico, mas em
    sentido opposto ao da lei de 22 de junho, que me parece conter-se na
    correspondencia de que falo. Rigorosamente, e considerado na sua
    verdadeira indole, o decreto de 13 de agosto estatuiu sobre uma questão
    de direito publico. Consideral-o de outro modo é desconhecer os seus
    fins e o seu alcance. Libertar a terra é exemptal-a de onus injustos, de
    vexames, de encargos impostos pela força; não é annullar contractos
    livres particulares ácerca da propriedade patrimonial. Quando se pede
    uma lei que crie para emphyteutas e sub-emphyteutas, sem excepção, o
    direito de _remir todos os fóros_, pede-se que a lei desfaça contractos
    livremente debatidos, espontaneamente celebrados, e conformes na sua
    essencia aos principios de justiça absoluta. O canon emphyteutico, o
    censo, qualquer quota no producto da terra que o senhorio directo de um
    predio, de accordo com o colono, reserva para si transmittindo o dominio
    directo, é em rigor a renda de um capital, ou aluguer perpétuo de um
    instrumento de producção. Póde a lei expropriar o dono d'esse
    instrumento para utilidade particular, e por um preço taxado de antemão
    por ella? Se tal se houvesse de admittir porque não se admittiria a
    regra contraria? Porque não revocaria a si o senhorio directo o capital,
    o instrumento, pagando as bemfeitorias ao colono? Suppondo justa a
    primeira prescripção, porque se reputaria injusta a segunda?

    Repito: não sei se é possivel recuar no caminho que abriu a lei de 22 de
    junho. Se o é, se os fóros de Alpiarça pertencem á categoria d'aquelles
    que o decreto da primeira dictadura queria abolidos, e se a lei
    reaccionaria e insensata que destruiu, ao menos em parte, aquelle grande
    acto de justiça nacional, póde ainda ser substituida por outra mais
    conforme com o espirito d'esse acto, não é a remissão de taes fóros que
    d'ella deve resultar, quer o senhorio directo pertença hoje ao estado,
    quer a corporações, quer a individuos; é a suppressão, a abolição
    completa. Quanto a fóros em bens de origem patrimonial, é impossivel
    acceitar a doutrina da correspondencia.

    Escrevo estas linhas, meu amigo, ao correr da penna e sem os
    desenvolvimentos que requeria a gravidade do assumpto, porque antevejo
    os inconvenientes sociaes da propagação de taes doutrinas. Para mim o
    grande meio de progresso na cultivação do paiz, da melhor distribuição
    da população, do melhoramento das classes laboriosas, do chamamento do
    proletario ao goso da propriedade, e por ella aos bons costumes e ao
    amor da familia e da patria, é a emphyteuse. A meus olhos, a emphyteuse
    é o unico meio de obstar aos inconvenientes da divisão indefinita do
    solo, e ao mesmo tempo de combater os males que resultam da existencia
    dos latifundios, sobretudo dos latifundios amortisados, esterilisados
    pela instituição vincular. Mas se a opinião que proclama o direito de
    remissão a bel-prazer do emphyteuta, ameaçar de contínuo o dominio
    directo, todas as providencias que se hajam de tomar, que se devem
    tomar, para impellir indirectamente os donos de vastos tractos de terra
    a retalhal-os por aforamentos, serão baldadas. Os possuidores de
    latifundios mal cultivados preferirão o atrazamento agricola, os menores
    redditos actuaes á espoliação futura, e o paiz difficilmente sahirá de
    uma situação economicamente mais embaraçosa do que muitos crêem, e que
    nos horisontes do futuro se me representa assaz carregada.

    Que o direito emphyteutico seja simplificado; que se dispa de todos os
    accessorios de que o revestiram os costumes e as idéas de epochas
    barbaras, é necessario e justo: que se vicie na sua essencia, n'aquillo
    em que é legitimo, sensato, benefico e civilisador, é absurdo. A lei que
    tal ordenasse seria ao mesmo tempo espoliadora e inepta.

    Julho, 10 de 1858.

    _A. Herculano_.

    FIM DO VOLUME VII.

    NOTAS

    [1] O novo artigo não veio a publico.

    _Nota dos editores_.

    [2] Este artigo foi publicado em 22 de agosto e o primeiro em 7 do mesmo
    mez.

    _Nota dos editores_.

    INDICE

    Advertencia

    Duas epochas e dous monumentos ou a granja real de Mafra

    Breves reflexões sobre alguns pontos de economia agricola

    A Granja do Calhariz

    Projecto de decreto

    _O Paiz e A Nação_

    Representação da Camara Municipal de Belem ao governo

    Representação da Camara Municipal de Belem ao parlamento

    Projecto de Caixa de Soccorros Agricolas

    Sobre a questão dos foraes

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Aproximadamente 58.014 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

    OPUSCULOS V

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO V*

    CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS

    TOMO II

    LISBOA

    VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXX VI

    COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

    AO

    ILL-^{MO} E EX.^{MO} SENHOR CONSELHEIRO

    ANTONIO DE SERPA PIMENTEL

    DEDICAM

    OS EDITORES

    Compõe-se este volume de tres escriptos já impressos em outras épochas,
    mas provavemente desconhecidos da maior parte dos leitores actuaes, e
    bem assim de um notavel estudo inedito ácerca do Feudalismo, que o
    auctor não chegou a concluir, e em que trabalhava quando a morte o
    surprehendeu.

    Pouco diremos a respeito d'aquellas primeiras composições.

    As noticias da vida e obras de alguns historiadores portuguezes são
    extrahidas do _Panorama_. Destinadas, apenas, a satisfazer a curiosidade
    dos leitores habituaes d'este genero de publicações, nas quaes a
    variedade e a concisão são requisitos essenciaes, essas noticias não
    teem todo o desenvolvimento que o auctor hoje lhes daria, se houvesse de
    aproveital-as para algum d'estes volumes; mas, apezar d'isso, cremos que
    o leitor folgará de as encontrar aqui reunidas, não só pelo seu
    indisputavel merecimento, mas tambem por serem invocadas em todos os
    artigos do _Diccionario bibliographico_, onde coube ao laborioso
    Innocencio da Silva tractar dos escriptores a que ellas dizem respeito.

    As _Cartas sobre a historia de Portugal_ sairam á luz nos tomos 1.^o e
    2.^o da _Revista universal lisbonense_, precedidas das seguintes
    palavras do illustre redactor d'este semanario: «Temos em nosso poder a
    preciosa serie de cartas, cuja primeira publicamos hoje. N'ellas
    descobre o nosso infatigavel e eloquentissimo antiquario, o sr.
    Alexandre Herculano, um grande numero de importantes verdades ácerca dos
    principios de Portugal–da constituição, natureza e relações mutuas das
    classes, n'esses tempos tão obscuros e tão pouco averiguados. N'estes
    escriptos, que não são mais do que o preludio de uma obra, que sem falta
    sairá cabal, sobre a materia, faz o sr. Herculano á sua pátria, e
    geralmente á sciencia, um presente de altissima valia, de que a _Revista
    universal_ devidamente aprecia a honra de ser mensageira.» Com effeito,
    estas cartas, publicadas em dezeseis numeros d'este semanario, desde 7
    de abril de 1842 até 3 de novembro do mesmo anno, foram então
    interrompidas, porque o auctor, conscio já das proprias forças, dedicou
    d'ahi em deante todos os cuidados ao immenso valor da obra monumental,
    que lhe havia de conquistar o primeiro logar entre os historiadores do
    seu paiz.

    O terceiro dos opusculos agora reunidos, isto é, a carta em defeza de
    algumas asserções do primeiro volume da _Historia de Portugal_,
    appareceu, tambem, na _Revista universal_. O auctor mantem e defende as
    suas idéas, combatendo um artigo de critica publicado em 2 de abril de
    1846, e firmado com as iniciaes D. S. M. de Vilhena Saldanha, que
    suppômos serem a assignatura do respeitavel ancião D. Sancho Manuel,
    fallecido em 30 de maio de 1880. Como esta carta não trazia titulo, e
    nós tinhamos de lhe dar algum, pareceu-nos conveniente alludir á pessoa
    que escreveu o artigo a que ella responde: tanto mais que a cortezia de
    ambas as composições tornava desnecessario qualquer resguardo.

    Até aqui falámos de trabalhos que já tinham visto a luz publica, e a
    respeito dos quaes é sufficiente o que fica dicto. Agora, porém,
    chegados á parte inedita e mais valiosa do presente volume, procuraremos
    satisfazer a justa curiosidade do leitor, descrevendo minuciosamente o
    manuscripto, e declarando o systema que seguimos ao dal-o à estampa.

    O luminoso estudo ácerca da existencia ou não existencia do feudalismo
    em Portugal compõe-se (no estado em que chegou ás nossas mãos) de oito
    capitulos completos e um apenas começado, além de algumas folhas
    avulsas, de que adeante nos occuparemos.

    Os primeiros seis, que neste livros abrangem as paginas 193 a 242, foram
    escriptos em 1875, isto é, dois annos depois da publicação do _Ensaio
    sobre la historia de la propriedad territorial en España_, como o auctor
    declara, e chegaram a estar no escriptorio da _Revista occidental_, onde
    todavia não poderam sair impressos, por ter acabado esta _Revista_ em
    julho do mesmo anno. Acham-se lançados em meias folhas de papel almaço,
    escriptas de um só lado, e promptos para a imprensa, não offerecendo,
    por isso, difficuldade alguma de leitura. O grande escriptor calculava
    n'esse tempo ser esta a terça parte do que lhe seria necessario dizer em
    relação a tão interessante e debatido ponto historico.

    Ou por essa occasião ou pouco tempo depois, accrescentou os capitulos
    VII e VIII, não já em meias folhas, mas em oitavos do mesmo papel,
    formato que lhe permittia, não só intercalar quaesquer novas provas ou
    argumentos, que lhe fossem occorrendo, mas ainda dar diversa collocação
    aos paragraphos, se de futuro a deducção das idéas e a harmonia da
    composição o exigissem.

    Incommodos de saude mais ou menos graves, trabalhos litterarios de outra
    indole, e varios negocios domesticos, impediram então o auctor de
    proseguir n'este importante assumpto, e foram causa de não possuirmos
    hoje completo mais um livro serio, coisa de extrema raridade nos tempos
    que vão correndo.

    Quando, d'ahi a muitos mezes, recuperada a saude e dispondo do tempo
    necessario, pôde dedicar-se de novo ao exame da obra do sr. Cárdenas,
    tudo nos persuade de que trazia profundamente alterado o plano primitivo
    do seu trabalho. Achou-se, sem duvida, apertado e tolhido nos estreitos
    limites em que a principio o circumscrevera, e resolveu abrir mais largo
    campo, onde podesse desenvolver a grande copia de noticias que
    enthezourara, e que directa ou indirectamente se prendian com o assumpto
    em discussão.

    Foi este, a nosso, ver, o motivo por que, voltando atraz, tomou nota de
    numerosas proposições do _Ensayo_, transcrevendo as passsagens
    respectivas em meias folhas de papel de pequeno formato, e pondo no alto
    da primeira a cota: «_IV_ (_Continuação_)». O leitor encontrará este
    additamento desde paginas 242 até o fim do capitulo.

    Resolvido, pois, a dar maior amplidão ao seu trabalho, tractou o auctor
    de reconstruir os capitulos VII e VIII, que hoje apresentam em mais de
    um logar graves difficuldades de leitura, por causa das transposições,
    emendas, entrelinhas e accrescentamentos, de que estão cheios os
    respectivos borrões.

    Apezar d'isso, o capitulo VII–o magistral estudo do _Codigo
    wisigothico_–póde considerar-se completamente organisado, tanto na
    doutrina como na forma, embora deixe vêr, aqui ou alli, «as arestas
    vivas do cunho», porque o auctor não chegou a pôr-lhe a ultima lima.

    Não acontece, porém, outro tanto com o VIII, destinado ao estudo do
    _Direito consuetudinario_. Este capitulo compõe-se de 32 oitavos de
    papel, que a principio tinham tido outra ordem, e cuja disposição
    definitiva não ficou claramente marcada senão até o 17, isto é, até
    paginas 283 d'este livro. D'ahi em deante os embaraços crescem, porque
    alguns d'esses oitavos não teem numeração antiga nem moderna, e,
    formando sentido completo, sem dependencia de outros anteriores ou
    posteriores, tornam sobremodo difficil acertar com o seu verdadeiro
    logar: quer-nos parecer, porém, que não contrariámos demasiado a
    intenção do auctor, dando-lhes a ordem em que vão impressos.

    Além dos já referidos, encontrámos uma serie de oitavos numerados de 1
    até 10, mas sem designação do capitulo a que eram destinados. O ultimo
    d'elles está acabar, o que indica que foi ahi que se interrompeu o
    trabalho do insigne escriptor. Por esta circumstancia, e tambem por ser
    a materia de que ia tractar (a divisão da propriedade territorial) a que
    justamente se devia esperar, na ordem dos apontamentos que tomara do
    livro do sr. Cárdenas, não tivemos duvida em os considerar como
    principio do capitulo IX, marcando, comtudo, entre paretheses este
    numero de ordem.

    Restavam ainda duas folhas da primeira composição, que não tinham sido
    aproveitadas, nem podiamos introduzir no texto, embora se conheça que
    deviam fazer do capitulo que ficou por acabar. São, porém, tão
    importantes, e formam por si sós um corpo de doutrina tão perfeito, que
    julgamos prestar um serviço, formando com ellas o Esclarecemento A, no
    fim do volume.

    No mesmo caso está uma nota relativa á intelligencia que se deve dar á
    palavra _Feudo_, nas raras vezes que apparece nos documentos d'aquella
    edade. Esta nota estava lançada tambem em folhas inteiras, e tanto pode
    servir de elucidação ao que se diz na Carta 3.^a sobre a Historia de
    Portugal (pag. 79), como de prova da affirmativa do auctor a pag. 199,
    onde fizemos a competente chamada. Constitue o Esclarecimento B.

    Resumindo: os primeiros seis capitulos estavam promptos para serem
    impressos, segundo o plano primitivo; a continuação do VI, o VII e o
    VIII, conservavam-se no primeiro borrão, e portanto dependentes de
    ulteriores modificações, tanto na sua disposição geral, como no estylo,
    que não tinha recebido ainda as ultimas correcções; o que reputamos IX
    ficou apenas principiado; e as folhas avulsas, que aproveitámos para
    Esclarecimento, esperavam o seu futuro destino.

    Se attendermos, agora, ás doutrinas contidas nos extractos do livro do
    sr. Cárdenas, com que o auctor ampliou o capitulo VI do seu trabalho,
    reconheceremos que elle se propunha estudar detidamente a divisão da
    propriedade territorial, as relações das diversas classes entre si, o
    serviço militar, a administração da justiça, o poder central e seus
    representantes locaes; a organisação social, em summa, do nosso paíz
    n'aquellas épochas remotas. Já não era, pois, um simples opusculo que
    tinhamos a esperar da sua penna auctorisada: era um livro precioso, que
    viria supprir, em grande parte, o V volume da _Historia de Portugal_, se
    não no desenvolvimento e discussão erudita de todos os pontos
    controvertidos ou ignorados, com certeza nos resultados finaes a que
    chegara o seu longo estudo e admiravel lucidez de espirito.

    Entre Fernão Lopes e fr. Antonio Brandão mediaram dois seculos. Entre o
    douto cisterciense e o auctor d'este livro outros dois, e bem medidos.
    Oxalá que, d'esta vez, seja mais curto o prazo, em que tenha de
    apparecer o continuador idoneo dos trabalhos, que Alexandre Herculano
    deixou interrompidos.

    (1881).

    _Os editores_.

    HISTORIADORES PORTUGUEZES

    1839–1840

    I

    *Fernão Lopes*

    Tão raros ou tão pouco lido andam os antigos escriptores portuguezes,
    que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de
    nome os conhecem, e frequentes vezes nem de nome. Grave mal, por certo,
    e mui de lamentar é tal e tão ingrato desamor áquelles que assim lidaram
    em suas doutas vigilias ou para nos transmittirem as heroicas façanhas
    de nossos antepassados, ou para nos doutrinarem com virtuosos conselhos,
    ou para nos consolarem com um brado de poesia de mais singelas eras, ou,
    finalmente, para nos herdarem sua sciencia; que muita e boa a tiveram.
    Assustam os livros pesados e volumosos do tempo passado as almas debeis
    da geração presente: a aspereza e severidade do estylo e linguagem de
    nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao
    polido e suave dos livros francezes. Sabemos assim quaes são os
    documentos em que estribam glorias alheias: ignoramos quaes sejam os da
    propria, ou, se os conhecemos, é porque estranhos nol-os apontam,
    viciando-os quasi sempre. Symptoma terrivel da decadencia de uma nação é
    este; porque o é da decadencia da nacionalidade, a peior de todas;
    porque tal symptoma só apparece no corpo social quando este está a ponto
    de dissolver-se, ou quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel
    dos brutos. Desenterra a Allemanha do pó dos cartorios e bibliothecas
    seus velhos chronicons, seus poemas dos Nibelungos e Minnesingers; os
    escriptores encarnam na poesia, no drama e na novella actual as
    tradições populares, as antigas glorias germanicas, e os costumes e
    opiniões que foram: o mesmo fazem a Inglaterra de hoje á velha
    Inglaterra, e a França de hoje á velha França: os povos do Norte saúdam
    o Edda e os Sagas da Irlanda, e interrogam com religioso respeito as
    pedras runicas, cobertas de musgos e sumidas no amago das selvas: todas
    as nações, emfim, querem alimentar-se e viver da propria substancia. E
    nós? Reimprimimos os nossos chronistas? Publicamos os nossos numerosos
    ineditos? Revolvemos os archivos? Estudamos os monumentos, as leis, os
    usos, as crenças, os livros, herdados de avoengos?

    Não.–Vamos todos os dias ás lojas dos livreiros saber se chegou alguma
    nova semsaboria de Paul de Kock; alguma exaggeração novelleira do
    pseudonymo Michel Massan; algum libello antisocial de Lamennais. Depois,
    corremos a derrubar monumentos, a converter em latrinas[1] ou tabernas
    os logares consagrados pela historia ou pela religião…

    E, depois, se vos perguntarem: de que nação sois? respondereis:
    Portuguezes!

    Callae-vos; que mentis desfaçadamente.

    Mas nós faremos lembrada, ao menos aqui, a nossa gloria litteraria.

    Como o pae da historia nacional, como o velho Fernão Lopes, começámos a
    escrever as memorias que d'elle restam moralisando primeiro, do mesmo
    modo que elle moralisava antes de entrar na materia. Não se nos leve a
    mal um defeito, se o é, em que já caiu o nosso principal chronista,
    quando é d'elle que devemos fallar.

    Escassas são as noticias que chegaram até nós ácerca de Fernão Lopes. A
    epocha do seu nascimento ignora-se; mas parece que devia ser na da
    gloriosa revolução de 1380, ou alguns annos antes. O abbade Barbosa e
    outros dizem que fôra secretario d'el-rei D. Duarte, quando infante, e
    de seu irmão D. Fernando, e cavalleiro da casa do infante D. Henrique.
    Em 1418 foi encarregado por D. João I da guarda do real archivo, cargo
    que até então andava unido a um emprego da fazenda publica.

    Por trinta e seis annos serviu Fernão Lopes de guarda dos archivos, e de
    todo este tempo existem varias certidões, passadas por elle, _das
    escripturas da torre do castello da cidade de Lisboa_. Depois de tão
    largo periodo foi substituido por Gomes Eannes de Azurara, que D.
    Affonso V nomeou em logar de Fernão Lopes, _por este ser já tam velho e
    flaco, que per sy non podia bem servir o dicto officio_, dando-o a
    outrem _por seu prazimento e por fazer a elle mercê, como é rezom de se
    dar aos boõs servidores_, segundo diz a carta de nomeação de Azurara. A
    epocha da morte do chronista ignora-se absolutamente; mas sabe-se que
    ainda vivia em 1459, cinco annos depois de ter sido exonerado do cargo
    de guarda do archivo.

    Quando D. Duarte subiu ao throno (1434) deu _carrego a Fernão Lopes, seu
    escripvam, de poer em caronyca as estorias dos Reys, que antygamente em
    Portugal forom; e esso mesmo os grandes feytos e altos do muy vertuoso e
    de grandes vertudes El-Rey seu senhor e padre_ (D. João I), dando-lhe
    por isto quatorze mil libras cada anno, mercê que foi confirmada em nome
    do moço principe, por influencia do infante D. Pedro, tão sabio quanto
    infeliz, pae e protector das letras.

    Foi, com effeito, Fernão Lopes o primeiro que poz em _caronyca_, isto é,
    em ordem, as _estorias_ da primeira dynastia dos reis portuguezes, e fez
    a bella Chronica de D. João I. Até ahi havia apenas algumas memorias
    espalhadas, alguns breves compendios dos successos publicos. N'este
    numero deve entrar um manuscripto que existia em Sancta Cruz de Coimbra,
    feito, segundo parece, nos fins do seculo XIV, em que mui de leve se
    mencionam os acontecimentos mais notaveis dos tres primeiros reinados, e
    d'elle talvez se houvessem de contar as antigas chronicas, que Duarte
    Nunes reformou, ou estragou, e que muito desconfiamos sejam as mesmas
    que _colligiu_ Acenheiro no principio do seculo XVI, e que serviram de
    fundamento a Ruy de Pina e Galvão: sobre tudo o que pesam ainda muitas
    sombras, ao menos para nós, parecendo-nos, todavia, indubitavel que
    alguma cousa havia escripta antes de Fernão Lopes; porque a alguma cousa
    eram essas _estorias_ dos antigos reis, mencionadas na carta de nomeação
    de Fernão Lopes, e que n'esse documento se distinguem claramente dos
    _feitos_ de D. João I.

    De quanto Fernão Lopes escreveu, o que hoje existe conhecido e impresso
    é a Chronica de D. Pedro I, a de D. Fernando e a D. João I. Comtudo, por
    averiguado se tem que elle escrevera as dos outros reis anteriores, e
    até Damião de Goes lhe attribue uma de D. Duarte. Seja o que for, é
    certo que para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos as tres
    chronicas que d'elle existem.

    O nosso celebre critico Francisco Dias, o homem, talvez, de mais apurado
    engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores,
    diz que Fernão Lopes fôra o primeiro, na moderna Europa, que dignamente
    escrevera a historia: com razão o diz, e poderia accrescentar que poucos
    homens teem _nascido_ historiadores como Fernão Lopes. Se em tempos mais
    modernos e mais civilisados houvera vivido e escripto, não teriamos por
    certo que invejar ás outras nações nenhum dos seus historiadores. Além
    do primor com que trabalhou sempre por apurar os successos politicos,
    Lopes adivinhou os principios da moderna historia: a _vida_ dos tempos
    de que escreveu transmittiu-a á posteridade, e não, como outros fizeram,
    sómente um esqueleto de successos politicos e de nomes celebres. Nas
    chronicas de Fernão Lopes não ha só historia: ha poesia e drama: ha a
    edade media com sua fé, seu enthusiasmo, seu amor de gloria. N'isto se
    parece com o quasi contemporaneo chronista francez Froissart; mas em
    todos esses dotes lhe leva conhecida vantagem. Com isto, e com chamar a
    Fernão Lopes o Homero da grande epopea das glorias portuguezas, teremos
    feito a tão illustre varão o mais cabal elogio.

    II

    *Gomes Eannes de Azurara*

    A Fernão Lopes succedeu no cargo de guarda dos archivos Gomes Eannes de
    Azurara, como dissemos no primeiro artigo, com o consentimento d'elle,
    que por velho e doente de boa vontade resignou o emprego, que tão
    dignamente servira. Foi Gomes Eannes filho de João Eannes de Zurara ou
    de Azurara, conego de Evora e de Coimbra. Entrou, sendo mancebo, na
    ordem de cavalleria de Christo, onde chegou a ter o grau de commendador
    de Alcains, a qual commenda possuia em 1454, e que depois trocou pelas
    do Pinheiro-grande e da Granja de Ulmeiro, que achamos serem suas pelos
    annos de 1459.

    Parece que durante a sua mocidade Gomes Eannes, segundo o costume dos
    cavalheiros d'aquelles tempos, se occupou inteiramente no exercicio das
    armas, sem curar de instruir-se nas boas letras. Verdade é que o abbade
    Barbosa o faz erudito na historia desde mancebo; mas o mestre Matheus de
    Pisano, seu contemporaneo, preceptor de D. Affonso V e auctor de uma
    chronica da conquista de Ceuta, escripta em latim, diz que, sendo já de
    idade madura, se applicàra ao estudo, mas que até então fôra
    inteiramente hospede em litteratura.

    Foi depois d'esta epocha que Gomes Eannes entrou no serviço d'el-rei D.
    Affonso V, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de
    sua nomeação, passada a 6 de Junho de 1454; como bibliothecario da
    livraria real fundada por aquelle monarcha, do que nos informa mestre
    Matheus na obra citada; e como encarregado de escrever varias chronicas
    das cousas portuguezas, conforme o diz o proprio Azurara no capitulo II
    da Chronica do conde D. Pedro de Menezes.

    Documentos d'aquelle tempo provam D. Affonso V fizera grande estimação
    de Gomes Eannes. Morava este em umas casas d'el-rei á porta do paço de
    Lisboa; tinha uma tença de doze mil reaes brancos; e fez-se-lhe mercê,
    em 1467, de uma capella que vagara para a corôa, graça esta que, como
    observa o abbade Corrêa da Serra, era n'aquelles tempos assaz
    extraordinaria. Doou-lhe, tambem, el-rei umas casas em Lisboa, do que se
    acha memoria no livro 3.^o dos Misticos. Antes d'isto, porém, Gomes
    Eannes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos.

    Ácerca d'este chronista se conserva ainda uma lembrança curiosa no
    Archivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma pelliteira viuva e rica, chamada
    Joanna Eannes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O já
    citado abbade Corrêa nota, com razão, que tal adopção de um homem
    nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavalleiro, feita por uma
    plebea, era inteiramente opposta ás idêas do seculo XV, devendo-se por
    isso suspeitar que Azurara foi d'aquellas pessoas, para quem o respeito
    ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.

    São incertissimas todas as datas relativas á vida de Gomes Eannes:
    apenas se póde dizer que vivera pelo meado do seculo XV. A maior parte
    das memorias que d'elle fallam não mencionam nem a epocha do seu
    nascimento, nem a da sua morte. Algumas ha que dizem fôra nomeado
    chronista em 1459: ignoramos se existe ainda a carta de tal nomeação;
    mas d'isso duvidamos. O que se póde affirmar é que Azurara acabou uma
    das suas chronicas (a do conde D. Pedro) em 1463, porque elle proprio o
    diz. Antes d'esta compozera a da tomada de Ceuta, que serve de terceira
    parte á de D. João I escripta pelo immortal Fernão Lopes; e depois
    d'ella a de D. Duarte de Menezes. Estas são as tres obras, que com
    certeza se podem attribuir a Azurara. Quer, todavia, Damião de Goes que
    na Chronica d'el-rei D. Duarte, attribuida vulgarmente a Ruy de Pina, e
    cuja melhor parte elle julga de Fernão Lopes, houvesse tambem alguma
    cousa de Gomes Eannes.

    Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus
    contemporaneos, parece que o seu immediato successor lhe levou n'isso
    conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em merito.
    Azurara, tendo de escrever sobre cousas de Africa, passou áquellas
    partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os logares e
    circumstancias das façanhas que tinha de narrar. Estando alli, recebeu a
    celebre carta de D. Affonso V, que anda impressa no principio da
    Chronica de D. Duarte de Menezes. Este documento prova quão bella era a
    alma d'aquelle monarcha, a quem podemos sem receio chamar o ultimo rei
    cavalheiro, e cuja honrada memoria teem pretendido escurecer aquelles
    que só em seu filho encontram um grande homem. Vê-se nesta carta que D.
    Affonso entendia que uma penna vale bem um sceptro, e o engenho um
    throno. De irmão para irmão não houvera mais affavel e affectuosa
    linguagem, e mais generosas animações e mercês. Bem nos pêsa que não
    seja possivel, pela extensão d'esse documento, o lançal-o n'este logar;
    não para exemplo de reis, mas de quem mais do que elles carece de tão
    formosa lição, neste seculo que se diz allumiado, e em que ha homens que
    em nome da patria votam miseria e fome para àquelles que mais bem
    merécem.

    Do merecimento litterario de Gomes Eannes de Azurara diremos em breves
    palavras o que entendemos. Pode-se de algum modo comparar ao italiano
    Alfieri, posto que pareça pouco exacta qualquer comparação entre um
    auctor de chronicas e um poeta dramatico. E todavia muito ha em um que
    do outro se possa dizer: ambos chegaram á idade viril sem possuirem os
    rudimentos sequer das boas letras: nos escriptos de ambos apparece o
    resultado d'esta falta de educação litteraria: ha em um e outro certa
    inflexibilidade feroz e ausencia inteira d'aquellas graças de estylo que
    nascem do coração amaciado desde a infancia pela cultivação do espirito:
    as concepções nascem-lhes do entendimento, como Minerva da cabeça de
    Jupiter, cubertas, por assim dizer, de um arnez de ferro. Louva-se em
    Azurara, e de louvar talvez é, a sinceridade bravia, com que lança em
    rosto aos heroes, cujas façanhas escreve, os defeitos que tiveram, os
    erros e culpas em que cairam: n'isto se parece tambem, de certo modo,
    com Alfieri. Mas nós preferimos o systema de Froissant e Fernão Lopes:
    para cada um dos seus heroes havia n'estas almas generosas um typo ideal
    a que procuravam assemelhal-os, engrandecendo-os: e por ventura que mais
    proficua é assim a historia ao genero humano. Para acabarmos um
    parallelo, que poderiamos levar mais longe, notaremos a tendencia dos
    dois escriptores, que collocámos em frente um do outro, para
    _philosophar trivialidades_, e ostentar elegancias rhetoricas e
    erudições suadas para elles, impertinentes para os leitores. Move a riso
    ver o pobre Azurara a lidar em pôr claro como a luz do dia, com a
    auctoridade de S. Jeronymo, Sallustio, Fulgencio, e _casy todolos outros
    auctores_, que são temiveis as más linguas, como causa somno o observar
    os tractos que o illustre dramaturgo italiano dá ao juizo para nos fazer
    odiar a tyrannia, ácerca da qual escreveu um volume, cousa muito
    escusada na moderna litteratura. Todavia, em ambos elles a sinceridade
    das intenções suppre de algum modo a aridez e o vazio da obra.

    Posto, porém, que Azurara esteja em grau inferior a Fernão Lopes, não
    deixou de fazer com seus escriptos bom serviço à litteratura patria.
    João de Barros o tinha em subida conta, e até no estylo d'elle se
    comprazia. Não assim Damião de Goes, que foi o primeiro em notar-lhe as
    affectações rhetoricas. Infelizmente para Azurara, Goes era melhor juiz;
    e a posteridade, confirmando a sentença do perspicaz chronista de D.
    Manuel, rejeitou o parecer do historiador da India.

    III

    *Vasco Fernandes de Lucena–Ruy de Pina*

    O nome de Lucena parece vir pouco a ponto em uma noticia dos
    historiadores portuguezes, porque d'elle não resta uma só pagina
    _original_ sobre historia; mas julgamos dever fazer menção de Vasco
    Fernandes, não só por ter sido um dos homens mais celebres do seu tempo,
    como tambem, e principalmente, por ser d'entre elles o primeiro que,
    depois de Azurara, teve o cargo de chronista-mór. Encarregado de varias
    missões politicas nos reinados de D. Duarte, D. Affonso V e D. João II,
    e vivendo, por tal motivo, a maior parte da vida em paizes extranhos,
    occupado, além d'isso, quando residíu no reino, em grandes negocios
    d'estado, não pôde provavelmente occupar-se dos estudos historicos
    necessarios para poder desempenhar as obrigações do seu cargo, do qual
    fez desistencia em Ruy de Pina no anno de 1497.

    Escreveu, todavia, Vasco de Lucena varias obras que, ou se perderam, ou
    jazem manuscriptas em parte que se não sabe. Da _Instrucção para
    Principes_, de Paulo Vergerio, traduzida por elle de ordem do infante D.
    Pedro e que Barbosa diz existir na bibliotheca real, não achámos o menor
    vestigio, apesar de consultarmos um catalogo anterior, segundo nos
    parece, a 1807. Das outras obras suas, de que faz menção Barbosa, tambem
    nenhum rasto encontramos, ao passo que existe uma, que não duvidamos de
    lhe attribuir, e que o nosso illustre bibliographo não conheceu. É esta
    uma traducção franceza de Quinto Curcio, feita no anno de 1468, a qual
    pertenceu a Philippe de Cluys, commendador da ordem de S. João de
    Jerusalem, e que actualmente se guarda entre os manuscriptos do Museu
    britannico.[2]

    * * * * *

    Ruy de Pina succedeu, como dissemos, a Vasco Fernandes, em 1497, no
    cargo de chronista-mór, postoque muito antes exercitasse o officio de
    historiador. Dos primeiros annos de Ruy de Pina apenas se sabe que foi
    natural da Guarda, mas ignora-se o anno do seu nascimento, ainda que
    haja algumas suspeitas de fosse pelos annos de 1440. Em 1482 diz elle
    que fôra por secretario da embaixada mandada por D. João II a Castella,
    e o mesmo cargo serviu d'ahi a dous annos na embaixada de Roma. Parece
    que, voltando de desempenhar esta commissão, o encarregou el-rei de
    escrever as chronicas do reino, apesar de então ser chronista-mór
    Lucena, o que se deprehende de uma provisão de D. João II, em que lhe
    manda dar uma tença de nove mil e seiscentos réis «esguardando ao
    trabalho e á occupação grande que Ruy de Pina escripvão da nossa camara
    tem com o carrego que lhe demos de escrepver e assentar os feitos
    famosos _asy nossos_ como de nossos regnos que _em nossos dias são
    passados_, e ao diante se fizerem[3].» Em outra provisão lhe concede
    tambem seis mil réis de mantimento.

    Depois d'esta epocha ainda Ruy de Pina serviu em outra embaixada a
    Castella e andou envolvido nos difficeis negocios publicos d'aquelle
    tempo, até que, succedendo na corôa D. Manuel, não só lhe confirmou as
    mercês do seu antecessor, mas fez-lhe outras novas, dando-lhe finalmente
    o cargo de chronista-mór, e guarda-mór da Torre do Tombo e da livraria
    real.

    Em 1504 tinha Ruy de Pina concluido os seus trabalhos historicos, porque
    n'esse anno recebeu de D. Manuel uma nova tença de trinta mil réis pelas
    chronicas de D. Affonso V e de D. João II, accrescentando a esta somma
    cinco moios de trigo em Ceuta e um cazal d'el-rei no termo da Guarda.

    «Cheio de honras e de recompensas, diz o abbade Corrêa, que para aquelle
    tempo eram grandes, viveu Ruy de Pina todo o reinado de el-rei D.
    Manuel, alcançando ainda alguns annos do d'el-rei D. João III, que lhe
    encommendou a chronica de seu pae, que deixou adiantada até a tomada de
    Azamor, e de que Damião de Goes confessa ter-se servido para a
    composição da sua.»

    É Ruy de Pina de todos os nossos antigos chronistas o de que nos restam
    maior numero de chronicas. Escreveu elle a de D. Sancho I, D. Affonso
    II, D. Sancho II, D. Affonso III, D. Diniz, D. Affonso IV, D. Duarte, D.
    Affonso V e D. João II. As duas ultimas são sem duvida escriptas
    originalmente por elle. Na de D. Duarte, segundo parece a Damião de
    Goes, o substancial da historia é de Fernão Lopes; o que é relativo á
    expedição de Tangere, de Gomes Eannes de Azurara; e de Ruy de Pina
    apenas a coordenação d'esses diversos trabalhos. Quanto ás da primeira
    dynastia, quer o mesmo Goes (e esta opinião prevalece hoje) que não
    sejam mais que uma recopilação ou resumo do primeiro volume das
    chronicas de Fernão Lopes, que existia em poder de um tal Fernão de
    Novaes, e que D. João II mandou fosse entregue a Ruy de Pina. Impossivel
    parece hoje averiguar até a certeza esta opinião; porque esse volume de
    Lopes ou se perdeu, ou foi aniquilado por Pina, que, ambicioso de pouco
    suada gloria, quiz, pobre corvo de D. João II, adornar-se com as
    brilhantes pennas de pavão do Homero de D. João I.

    Segundo o testemunho de João de Barros, Ruy de Pina foi uma potencia
    litteraria no seu tempo. O historiador da India refere que o grande
    Affonso de Albuquerque tivera a fraqueza de enviar joias a Ruy de Pina,
    para que se não esquecesse d'elle na sua historia. Aquella cujo nome
    devia encher o mundo não teve a consciencia de que era o maior capitão
    do seculo, é creu que a sua immortalidade dependia de um chronista
    obscuro! Triste documento de que os genios mais portentosos estão como
    os homens ordinarios sujeitos às mais ridiculas fraquezas.

    O abbade Corrêa da Serra põe Ruy de Pina acima dos chronistas que o
    precederam. É talvez o juizo litterario mais injusto que se tem
    pronunciado na republica das letras. Que elle exceda Azurara não o
    contestaremos nós; mas que seja anteposto a Fernão Lopes é no que não
    podemos consentir: as narrações de Ruy de Pina, postoque superiores ás
    de Gomes Eannes, estão mui longe da vida e _côr local_ que se encontra
    nos escriptos do patriarcha dos chronistas portuguezes.

    Parece que os fados de Ruy de Pina eram ganhar nome e celebridade á
    custa do trabalho alheio: ajudou elle o seu destino em quanto vivo;
    ajudaram-lh'o outros depois de morto. Em 1608 publicou-se em Lisboa um
    volume em 8.^o com o titulo de _Compendio das grandezas e cousas
    notaveis d'entre Douro e Minho_, obra que no frontispicio é attribuida a
    Ruy de Pina. Este livro, porém, nada mais é do que o que compoz mestre
    Antonio, _fisiquo e solorgiam_, natural de Guimarães, e que em antigos
    codices anda juncto ás chronicas de Ruy de Pina, bastando ler uma pagina
    d'elle para nos convencermos de que é escripto em um periodo da lingua
    anterior á epocha d'este chronista, e que elle talvez não fez mais que
    copial-o, com intento de lhe chamar seu, podendo-se-lhe applicar aquelle
    distico francez:

    Pour tout esprit que le bon homme avait, Il compilait, compilait,
    compilait.

    IV

    *Garcia de Rezende*

    Com os começos do reinado de D. Manuel os horizontes da nossa
    litteratura estenderam-se consideravelmente. Era a epocha do esplendor
    nacional e, ao passo que as nossas conquistas e poderio se dilatavam,
    dilatavam-se tambem os progressos litterarios dos portuguezes. A
    imprensa tinha produzido o magnifico livro da _Vita-Christi_, e com isso
    dava mostra de que Portugal possuia, esse motor maravilhoso que devia
    conduzir a Europa com passos agigantados pela estrada da civilisação e
    do progresso. N'este reinado de gloria e de predominio–mas de uma
    gloria differente da antiga e de um predominio que assentava sobre base
    tão incerta como eram os milhões de ondas do oceano em que elle se
    estribava–proseguiu em maior escala o triste systema de D. João II de
    substituir a agricultura pelo commercio, como fonte principal da riqueza
    publica. Era então que a monarchia, aniquilando os derradeiros restos da
    sociedade feudal nas Ordenações Manuelinas, e assentando-se na larga e
    firme base do direito romano, realisava e completava, por um lado o
    pensamento politico, por outro o pensamento economico do manhoso filho
    do nosso ultimo rei cavalleiro. As palavras _e da conquista, navegação e
    commercio da Ethiopia_, etc., que D. Manuel accrescentava ao dictado de
    _senhor de Guiné_, que D. João para si tomara, eram a expressão mais
    simples e mais exacta da idêa commercial e monarchica, isto é, de que o
    commercio obtido por meio das conquistas e navegações pertencia ao
    _senhorio real_, e a historia dos ciumes de D. João II e do seu
    successor sobre os novos descobrimentos confirma a nossa opinião. Assim
    o estado se confundia ou, antes, se incorporava na corôa, e se
    constituiam essas formas politicas dos reinados seguintes que resumbram
    em toda a legislação posterior, e a que, talvez, possamos chamar meio
    termo entre o absolutismo e o despotismo, como a organisação social
    portugueza antes das côrtes de 1481 se póde também considerar como um
    meio termo entre o absolutismo e a monarchia representativa.

    Substituida, portanto, a agricultura, que era do povo, pelo commercio
    exclusivo, que era da corôa, e extinctas as tradições feudaes na nova
    compilação Manuelina, a idade media morrera, com o seu systema de luctas
    e resistencias, e começara esse seculo XVI, cujo caracter essencial em
    politica foi a unidade monarchica. Este phenomeno explica o novo aspecto
    que tomou a historia e o apparecimento de uma litteratura cortezan e
    paceira, que visivelmente se distingue nos poetas mais modernos do
    cancioneiro, nas obras latinas que por esse tempo appareceram,
    principalmente nas de Cataldo Siculo, e nos autos do Aristophanes
    portuguez Gil-Vicente, compostos para alegrar as horas de tedio nos
    paços de D. Manuel. A chronica tomou logo o sabor do elogio historico, e
    Garcia de Rezende, velho cortezão, escreveu a vida de D. João II debaixo
    dos tectos dos sumptuosos paços da Ribeira. A este pobre homem não cabe,
    todavia, a gloria da invenção d'aquelle genero historico: Ruy de Pina
    foi o seu inventor. A Chronica de D. João II escripta por este foi o
    modelo ou, antes, o original da de Garcia de Rezende, que apenas lhe
    accrescentou alguns dictos e feitos do seu heroe, algumas anecdotas
    desenxabidas e triviaes de antecamara, em que não esqueceram as
    acontecidas com o proprio auctor. Garcia de Rezende não fez senão
    aperfeiçoar a chronica individual e tornal-a, ainda mais que Ruy de
    Pina, uma biographia real. E que outra fórma podia ter a historia n'uma
    epocha em que a organisação social tinha sumido o povo, a nobreza, e
    ainda o clero, debaixo do throno do monarcha?

    Seria uma das comparações mais curiosas a do caracter historico da
    Chronica de D. João I por Fernão Lopes com o da Chronica de D. João II
    por Garcia de Rezende, se ao mesmo tempo se comparasse o estado da
    sociedade portugueza no meado do seculo XV com o em que se achava no
    principio do XVI. Esta comparação nos parece serviria para explicar as
    formulas historicas pelas politicas, e vice-versa estas por aquellas.

    Que distancia espantosa não ha, com effeito, entre o grande poema de
    Lopes e a mesquinha collecção de historietas de Garcia de Rezende, onde
    apenas avultam algumas paginas com o supplicio de um nobre, o assassinio
    de outro, e o mysterio de um rei que morre, ao que parece; envenenado?
    Que distancia espantosa de um cadafalso, de um punhal, e de uma taça de
    veneno, ao cerco de Lisboa, à batalha d'Aljubarrota, ao baquear de
    Ceuta? No livro de Garcia de Rezende vê-se o aspecto triste, e a vida de
    agonia, e o sorrir forçado de um rei sem familia, rodeado de cortezãos,
    cujos nomes pela maior parte se resolvem em fumo com o morrer de seu
    senhor, a quem seguem os ginetes de Fernão Martins, os bésteiros e
    espingardeiros da guarda, não para pelejarem com estranhos, mas para o
    defenderem contra os odios de seus naturaes. Ahi o vulto real abrange
    quasi os horizontes do quadro, e só lá no fundo, mal desenhadas e
    indistinctas, se enxergam as personagens historicas d'aquella epocha, e
    as multidões agitadas ou tranquillas a um volver d'olhos do monarcha,
    mas nullas tanto em um como em outro caso. Na chronica de Fernão Lopes
    ha, pelo contrario, a historia de uma geração: é um quadro immenso de
    muitas figuras no primeiro plano. Nos degráus do throno de D. João I
    estão assentados guerreiros e _sabedores_, e monges e clerigos, e povo
    que tumultua e brada com vóz de gigante–_patria_! Ao pé da imagem
    homerica de Nunalvrez vê-se a fronte serena e sancta do arcebispo de
    Braga, e a face meditabunda e enrugada de João das Regras, e os vultos
    terriveis do Ajax portuguez Mem Rodrigues, e do esforçadissimo Martim
    Vasques, e de tantos outros cavalleiros a quem difficilmente sobrepuja o
    rei popular, o Mestre de Aviz. O chronista faz-vos acompanhar as
    multidões quando rugem amotinadas pelas ruas e praças; guia-vos aos
    campos de batalha onde se dão e recebem golpes temerosos; abre-vos as
    portas dos paços ao celebrar das côrtes, ao discutir dos conselhos;
    arrasta-vos aos templos onde trôa a voz do monge eloquente; lança-vos,
    emfim, no existir dos tempos antigos, e embriagando-vos com o perfume da
    idade media, e deslumbrando-vos com o brilho da epocha mais gloriosa da
    historia d'esta nossa boa terra portugueza, evoca inteiro o passado, e
    rasgando-lhe o sudario em que jaz, com o sopro do genio dá alma, e vida,
    e linguagem ao que era pó, e morte, e silencio.

    Em Ruy de Pina raro se encontra a historia da nação: em Garcia de
    Rezende talvez nunca. Fernão Lopes e Azarara tinham escripto no tempo de
    Affonso V: estes escreviam no de D. Manuel. D'ahi provém a differença.

    Em poucas palavras o pouco que se sabe da biographia de Rezende.

    Ignora-se a epocha do seu nascimento; mas sabe-se que era natural de
    Evora é irmão do celebre André de Rezende, o traductor de Cícero. Foi
    pagem da escrevaninha de D. João II e seu predilecto. Grato por isto,
    lhe escreveu a vida, a qual se imprimiu Evora em 1554.[4] Compoz tambem
    uma relação da ida infanta D. Beatriz para Saboia, e outra da viagem
    d'el-rei D. Manuel a Castella, e finalmente umas trovas satyricas que
    intitulou _Miscellanea_. Colligiu em um volume as poesias avulsas que no
    seu tempo tinham mais celebridade, tanto dos poetas d'quella epocha,
    como de outros mais antigos. Este volume, que foi dado á luz por elle em
    Lisboa em 1516 com o titulo de _Cancioneiro Geral_, é hoje um dos mais
    raros monumentos da nossa litteratura, e o verdadeiro titulo de gloria
    de Garcia de Rezende.

    Em 1514 foi a Roma como secretario de embaixador Tristão da Cunha,
    mandado ao papa por el-rei D. Manuel. Voltando á patria morreu em Evora,
    não sabemos em que anno, e jaz no convento do Espinheiro.

    CARTAS SOBRE A HISTORIA DE PORTUGAL

    1842

    *CARTA I*

    1 d'abril de 1842.

    Srs. Redactores da _Revista universal lisbonense_.–A reforma ha pouco
    feita no seu estimado jornal; o agasalhado que n'elle se concede a tudo
    quanto se chama fructo de sciencia humana; a maior extensão de
    escriptura que nas suas paginas se póde hoje encerrar; e sobretudo a
    ambição, que desperta nos entendimentos ainda humildes, de se acharem á
    meza da sciencia em tão honrada companhia litteraria como a dos
    collaboradores da _Revista_; tudo isso me excitou a dirigir-lhes esta
    carta, que folgarei mereça a honra da publicação, e que se o merecer
    será seguida por outras sobre o mesmo objecto, porque traçando e
    alevantando a _Revista_ um formoso edificio de civilisação n'esta pobre
    terra de Portugal, posto que eu saiba serem as pedras que posso cortar e
    carrear para o monumento toscas e mal desbastadas, sei tambem que até
    estas teem sua cabida e serventia, quando para mais não sejam ao menos
    para sumir lá nos alicerces e na grossura dos muros, em quanto os
    artifices de primor vão aperfeiçoando as portadas, columnas, cimalhas,
    remates, e mais exterioridades de desenho, em que os architectos da obra
    põem as suas complacencias d'artistas.

    Entendi eu, que o entreter alguns momentos os leitores da _Revista_ com
    diversos estudos sobre a nossa antiga antiga historia, não seria
    fazer-lhes mau serviço. Ha n'este fallar das recordações de avós o que
    quer que é saudoso e sancto, porque a historia patria é como uma d'estas
    conversações d'ao pé do lar em que a familia, quando se acha só, recorda
    as memorias do pae e mãe que já não são, de antepassados e parentes que
    mal conheceu. Mais saboroso pasto d'espirito que esse não ha talvez,
    porque em taes lembranças alarga-se o ambito dos nossos affectos: com
    ellas povoamos a casa de mais entes para amarmos; explicamos pelos
    caracteres e inclinações dos mortos os caracteres e inclinações dos que
    vivem; os habitos actuaes pelos habitos e costumes dos nossos velhos.
    Se, abastados e engrandecidos, viemos de humildes e pobres, pretendemos
    muitas vezes fazer esquecer ao mundo o nosso berço; mas no abrigo
    familiar, deixada tão viciosa vergonha, abrimos o larario domestico e
    tiramos d'elle os deuses da meninice, grosseiros simulacros da imagens
    paternas, e folgamos de os contemplar, e de recontar ou de ouvir a sua
    historia, que temos recontado e ouvido mil vezes, que todos os da casa
    bem sabem, mas que sempre narramos ou escutamos com attenção e deleite,
    e talvez com enthusiasmo. As recordações da terra da patria não são,
    porém, mais que as memorias de uma numerosa familia.

    Ha muito que para ellas voltei as minhas predilecções. E não sei, até,
    quem possa deixar de o fazer em tempos como os que ora correm. Se o rico
    e poderoso que nasceu dos minguados e chãos vai pedir ao passado frescor
    e regalo para o espirito, como deixará o que se vê abatido e em
    amarguras de lembrar-se de opulentos e nobres avós? Qual será a nação
    que amarrada ao poste do padecer, ludibriada e appupada por tudo,
    despida, cuberta de lodo, cheia de pisaduras e de feridas, se não volte
    para os tempos que passaram quando esses tempos foram feracissimos de
    muitos generos de grandezas e de glorias, e como o Salvador no Calvario
    lhes não diga: _Tenho sêde_? Quem, vendo diante de si desfolharem-se-lhe
    uma a uma todas as esperanças, se não retrahe do presente, e não vai
    pelo campo sancto dos seculos buscar e colher saudades de consolação?

    Separado, e não de poucos dias, d'esse tumulto e ruido da sociedade
    actual, que Deus louvado não entendo nem desejo entender, e em cujas
    opiniões e idéas, ou por demasiado grandiosas ou por vergonhosamente
    pequeninas, não acho medida pela qual afira e concerte as minhas, que
    não passam de triviaes e means; ajuramentado com a propria consciencia
    para deixarmos seguir o mundo seu caminho, bom ou mau, com tanto que não
    nos embargue o nosso, tenho procurando estudar algumas epochas da tão
    poetica e formosa historia da gente portugueza. É para varios d'esses
    estudos imperfeitissimos que eu peço algumas columnas da _Revista
    universal_, não porque elles preencham completamente os fins da
    instituição d'este Jornal–a instrucção; mas porque poderão mover os que
    valem e sabem muito a que, pretendendo corrigir erros sobejos, em que
    por certo cairei; instruam verdadeiramente o commum dos leitores da
    _Revista_, e os chamem a contemplar o espectaculo da nossa sociedade
    antiga.

    Estes estudos, feitos por um systema d'historia como me pareceu que
    elles deviam ser feitos, apparecerão na _Revista_ soltos, em quanto de
    mais perfeito modo os não posso trazer á luz da imprensa. Fragmentos são
    os que unicamente se hão-de e devem lançar nas columnas de uma folha
    volante, entre cujos meritos a variedade é talvez o que mais se busca.
    Trabalhos completos são para livros, e livros d'historia estou eu (sem
    humildade hypocrita o digo) bem longe ainda de os poder fazer. Todavia
    darei a estas Cartas, quanto em mim couber, um certo nexo, que a
    natureza da materia requer. Um dos principaes defeitos dos trabalhos
    historicos do nosso paiz parece-me ser a _insulação_ de cada um dos
    aspectos sociaes de qualquer epocha, que nunca se conhecerá, nem
    entenderá, em quantop a sociedade se não estudar em todas as suas formas
    d'existir, em quanto se não contemplar em todos os seus caracteres.

    Estas Cartas, se merecerem a approvação de vv. ss., poderão algum dia
    servir, no que tiverem bom, se tiverem, de esclarecimento e notas a uma
    parte da Historia Portugueza, como eu concebo que ella se deveria
    escrever: historia não tanto dos individuos como da Nação; historia que
    não ponha á luz do presente o que se deve ver á luz do passado;
    historia, emfim, que ligue os elementos diversos que constituem a
    existencia de um povo em qualquer epocha, em vez de ligar um ou dois
    d'esses elementos, não com os outros que com elle coexistem, mas com os
    seus affins na successão dos tempos, grudados pelos tôpos
    chronicologicos com massa de papel feita das folhas _Arte de verificar
    as datas_.

    *CARTA II*

    Quando, volvendo os olhos para os tempos remotos, indagamos a historia
    de nossos antepassados e da terra em que nascemos, a primeira pergunta
    que nos occorre para fazermos ás tradições e monumentos é naturalmente a
    seguinte: onde, quando, e como nasceu este individuo moral chamado a
    Nação? O berço da sociedade de ser, com effeito, a primeira pagina da
    sua historia.

    Quem, examinando uma carta topographica da Peninsula espanhola, vê esta
    faixa de terra chamada Portugal, estreitada entre o oceano e o vulto
    enorme da Hespanha, sem divisões nascidas da natureza do solo e fundadas
    na geographia physica, que a separem naturalmente della, e quando depois
    disto sabe que por sete seculos, com a curta interrupção de sessenta
    annos, os habitadores deste cantinho do mundo conservaram intacta a sua
    independencia e individualidade nacional, prevê desde logo nesses
    homens, que assim souberam conservar-se livres d'estranho jugo, grandes
    virtudes e generoso esforço, e na organisação social do paiz uma
    extraordinaria robustez e uma harmonia notavel com as suas necessidades
    e indole; porque as instituições e costumes de qualquer povo são a sua
    physiologia, pela qual se lhe explica principalmente o curto ou o
    dilatado da vida. A curiosidade então volta-se para a primeira infancia
    desse povo, para a epocha em que disse a si mesmo: _Eu existo_. Na
    disposição daquelles tenros annos devem-se-lhe achar já os annuncios do
    vigor da juventude e da idade viril.

    Tanto que o imperio wisigodo desabou em ruinas ao embate violento do
    enthusiasmo e pericia militar dos arabes, e a policia e civilisação
    destes substituiu nas Hespanhas a muito mais viciosa e incompleta
    civilisação dos godos, a reacção christã e europea contra a violencia
    mahometana e asiatico-africana começou immediatamente. Desde a batalha
    do Chryssus ou Guadalete, em que expirou o imperio fundado por
    Theodorico e estabelecido em toda a Peninsula por Leovigildo, até o
    encontro de Canicas ou Cangas, em que pôde dizer nasceu o reino de
    Asturias, bem curto espaço mediou. Restituido pela desgraça a esse
    punhado de godos o antigo valôr e energia, em quanto os arabes perdiam o
    primeiro nos ocios do triumpho, nos deleites de uma civilisação immensa,
    e malbaratavam a segunda nas luctas intestinas, os territorios e o
    poderio christão cresceram e prosperaram até o tempo d'Affonso III rei
    d'Oviedo, ao passo que o imperio arabe se achava já decadente no rei
    reinado de Abdallah, antecessor e avô do celebre Abderranhhman III
    (Annassir). Mas Abderrahhman, o maior dos Ommaijadas, restabelecendo a
    unidade do governo na Hespanha arabe, regendo os povos com justiça e
    sabedoria, resistindo aos valentes reis de Leão e Asturias, Ordonho II e
    Ramiro II, e aproveitando habilmente, depois da morte destes, as
    dissenções dos christãos para exercitar sobre elles uma especie de
    patronato, segurou para largos annos na Peninsula o dominio do Islam.
    Seguiram-se as variadas e terriveis guerras de mais de dous seculos
    entre as duas raças inimigas que disputavam o dominio das Hespanhas, e a
    representação dos dramas ensanguentados que mancham torpemente tanto as
    paginas dos annaes christãos como as dos musulmanos. Ora os arabes levam
    de vencida os netos dos godos, ora estes os arabes; de dia para dia as
    fronteiras indecisas das duas nações inimigas circumscrevem-se ou
    alargam-se prodigiosamente: as divisões intestinas de um dos campos são
    por via de regra o signal de victoria para o campo contrario; grandes
    capitães sobem aos thronos, e d'ahi a pouco os thronos se derrocam
    debaixo dos pés de reis inhabeis, viciosos, ou crueis.

    Durante mais de cinco seculos a Peninsula foi um cahos, e a sua historia
    é um mixto confuso e monstruoso de todas as virtudes e de todas as
    atrocidades. Entre os arabes, apezar da cultura intellectual,
    predominava a barbaria moral: as letras e as sciencias, levadas a um
    alto gráu d'esplendor, não suavisaram jámais os costumes ferozes dos
    mahometanos, porque a civilisação moral nunca existiu na terra senão por
    beneficio do christianismo. Nos estados christãos, pelo contrario, era a
    rudeza intellectual que destruia as influencias moraes do evangelho. As
    paixões desenfreadas no meio do estrondo de uma lucta de morte entre
    homens diversos por origem, lingua, instituições e religião, corriam
    despeadas, e os fratricidios, os homicidios, os roubos, as violações, os
    incendios, os sacrilegios multiplicavam-se por toda a parte. As leis
    calavam-se, a espada imperava, e a bruteza do povo era tal, que o
    proprio clero, classe distincta no tempo dos wisigodos por sua cultura,
    tinha caído na extrema barbaridade. Ainda nos fins do seculo XI os
    conegos de Compostella eram comparados por um escriptor, que vivia entre
    elles, a animaes brutos e indomados[5], comparação que justificam
    milhares de successos conservados nos documentos e memorias desses
    tempos.

    Da somma, porém, dos acontecimentos daquella epocha vêem-se resultar
    dous factos geraes–a decadencia da sociedade arabe, e os progressos de
    organisação na sociedade christã. Tendia a dissolver a primeira a grande
    variedade de tribus e nações africanas, asiaticas e europeas, que
    estanceavam pelas diversas provincias da Hespanha, umas vezes sujeitas
    ao khalifado de Cordova, outras rebelladas contra elle[6]. Estas tribus
    e nações, unidas unicamente pela crença commum, guerreavam-se atrozmente
    a todos os instantes, e para maior desordem por entre ellas vivia a raça
    gothica-romana, conhecida pelo nome pouco proprio de mosarabes[7] que,
    sujeitando-se aos arabes na occasião da conquista, forçosamente devia
    desejar o triumpho e predominio dos seus correligionarios. Por outro
    lado a civilisação dos arabes, assentando sobre a falsa base do
    Islamismo, brevemente envelheceu e tornou-se em corrupção de costumes,
    enfraquecendo e envilecendo os animos. O quadro da decadencia moral da
    Hespanha mahometana no meado do Seculo XII, que no livro intitulado
    _Regimento de principes e capitães_ faz Ben Abdelvahed, é espantoso, e
    quanto ao estado politico a situação dos arabes não era melhor. Não
    havia paz nem segurança em parte alguma, e o imperio caía em pedaços no
    meio das dissenções civis[8]. Accrescentavam o mal as estreitas relações
    e unidade politica do imperio de Cordova com as provincias da
    Mauritania, cujas revoluções estendiam os seus effeitos até a Peninsula;
    e as repetidas mudanças de predominio das tribus e dynastias, por via de
    regra, procediam das alterações e guerras que se alevantavam na Africa.

    Pelo contrario os reinos christãos da Hespanha eram mais homogeneos:
    havia ahi muitas dissidencias de ambição; porém as incompatibilidades de
    raça quasi que não existiam, porque só no reinado de Affonso VI os
    francezes vieram influir na Peninsula, mas como individuos e não como
    nação, e esta influencia foi ainda ecclesiastica do que politica. Não
    houve uma colonisação franceza nos dominios de Affonso VI: houve sim a
    collocação de bispos daquelle paiz em muitas dioceses, o chamamento de
    muitos principes e cavalleiros da França aos cargos politicos e
    militares. Estes estrangeiros traziam as idéas e as instituições da sua
    terra natal, traziam ás vezes a oppressão, mas incorporavam-se na raça
    goda. Se impunham habitos e costumes estranhos, acceitavam tambem muitos
    usos e idéas da nova patria, os seus filhos eram inteiramente
    hespanhoes, e este elemento adventicío de povoação, em vez de contribuir
    para o enfraquecimento da força social, servia realmente para a
    fortalecer.

    Os resultados das invasões e conquistas, que de continuo arabes e
    christãos faziam mutuamente nos territorios dos seus a adversarios, eram
    tambem diversos. Ainda rebaixando no que dizem os escriptores arabes
    sobre a excessiva povoação das Hespanhas, é indubitavel que nas
    provincias dominadas pelos serracenos ella foi muito mais numerosa do
    que hoje é. Esta povoação, porém, era em grande parte romano-gothica ou
    mosarabe, e, como já disse, para ella as invasões feitas pelos homens da
    mesma crença não podiam ser consideradas como destinadas a subjuga-la
    mas a quebrar-lhe o jugo dos infieis. Esta circumstancia tornava-se
    tanto mais importante, quanto é certo que os wisigodos que acceitaram o
    dominio arabe, ficaram na mesma situação civil[9] em que se achavam no
    momento da conquista, e por consequencia possuidores de riquezas,
    senhores de servos, superiores por isso forçosamente a uma parte da
    população arabe, e iguaes da mais abastada. Assim não só eram um
    poderoso auxilio para os christãos no meio dos inimigos, mas por muitas
    vezes bastaram por si sós para expulsar d'algumas povoações os
    conquistadores sarracenos[10].

    Desde os meados do undecimo seculo apparece na Hespanha um systema
    regular d'organisação. O concilio, ou côrtes, de Leão convocado em 1020
    por Affonso V constitue uma data importante na historia social da
    Peninsula. N'este concilio, ou côrtes, se estabeleceram leis politicas e
    civis geraes para todas as provincias do reino leonez, que eram Leão,
    Galliza, Asturias e Castella. Fernando I celebrou igualmente côrtes em
    1046, 1050, e 1058.

    O caracter principal das resoluções d'estes parlamentos (á excepção do
    ultimo que elle convocou para dar validade á divisão do reino entre seus
    tres filhos) é o de regular e fixar o direito de propriedade. A par
    d'estas leis geraes, os _fueros_ propriamente dictos (foraes) tendiam a
    augmentar a povoação, estabelecendo as communas e ligando-as por muitos
    modos ao corpo politico. Alguns d'estes foraes conhecidos remontam ao
    tempo de Affonso V, mas multiplicam-se cada vez mais com o correr dos
    tempos. Isto é, o pensamento de organisação vigora e cresce cada vez
    mais. A sociedade christã da Hespanha revela no seculo XI um progresso
    constante de vida, de ordem, e de energia.

    E a sociedade arabe?–A queda do imperio dos Ommaijadas (1037), o qual
    durara perto de tres seculos, foi o resultado das dissenções civis.
    Tirado este centro d'unidade, que nos seus ultimos tempos era apenas um
    nome, os diversos bandos travaram luctas duradouras e sanguinolentas. A
    Hespanha arabe retalhou-se em tantos principados, quantos eram os
    cabeças de partido. A guerra civil prolongou-se por quasi todo o seculo
    XI; e bem que nos estados christãos as houvesse tambem entre os tres
    filhos de Fernando Magno, estas tinham passado rapidamente, e Affonso
    VI, vencidos seus irmãos, reinava por fim tranquillo nas Asturias,
    Galliza, Leão e Castella, e rei de uma nação energica e unida
    conquistava, ou fazia tributarias da sua corôa, as principaes cidades e
    provincias dos sarracenos da Peninsula.

    Para as suas guerras brilhantes muitos nobres cavalleiros francezes
    atravessaram os Pyreneus. Foi entre estes que Henrique de Borgonha veio
    á Hespanha, para ser o fundador da independencia dos portuguezes.

    *CARTA III*

    A origem da independencia de Portugal, e a sua separação do reino
    leonez, tem sido uniformente attribuida pelos nossos historiadores ao
    casamento do principe borgonhez Henrique com D. Thereza, filha de
    Affonso VI. É cousa assentada que o rei leonez, casando sua filha, lhe
    dera _em dote_ a terra de Portugal, que, tendo estado já separada da
    Galliza, então o foi de novo ficando-lhe servindo de limite o Minho.
    Esta opinião que até hoje tem passado inconcussa, sendo ainda recebida
    por um sabio dos nossos dias, respeitavel por todos os titulos,
    parece-me todavia involver difficuldades insuperaveis.

    Até á invação dos arabes, os godos conservaram nas Hespanhas tenazmente
    as instituições germanicas ácerca dos dotes. Pelas suas leis, contrarias
    ao que estatuiam as leis romanas, era noivo quem dotava a mulher.
    Similhante costume dos barbaros, porventura mais nobre que o romano, foi
    regulado por uma lei de Chindaswintho, inserida no _Codigo
    wisigothico_[11]. Esta lei, assim como as mais disposições d'aquelle
    codigo, atravessando o dominio dos arabes, que deixaram aos vencidos o
    governarem-se civilmente pela sua legislação e pelos seus magistrados,
    continuou a vigorar, não só até o tempo de Affonso VI, mas porventura
    até a publicação da lei das Partidas[12]. Não havia pois na legislação
    d'Hespanha, nem nos usos nacionaes, n'esta parte perfeitamente accordes
    com ella, causa alguma para o rei de Leão se lembrar de pôr em pratica,
    no casamento de sua filha, um costume romano, provavelmente até ignorado
    por elle.

    Seria este acto insolito uma imitação de costumes francezes? Fica dicto
    foi no reinado de Affonso VI, principalmente, que as idéas e
    instituições francezas se introduziram na Peninsula. Nas suas vastas
    empresas contra os arabes, este rei ajudou-se grandemente de cavalleiros
    francezes, a quem enriquecia e honrava, ao mesmo passo que enchia as
    cadeiras episcopaes de bispos d'aquella nação.

    A predilecção que elle sempre mostrou pelas cousas de França, e que
    tanto contribuiu para alterar os costumes wisigodos, podiam tê-lo movido
    a seguir, casando suas filhas com os principes borgonhezes Raimundo e
    Henrique, e outra com o conde de Tolosa, os costumes d'aquelle paiz, se
    elles n'esta parte fossem contrarios aos das Hespanhas.

    Mas não acontecia assim. Ainda n'aquelle seculo era commum por toda a
    Europa a instituição germanica ácerca dos dotes. Em Ducange, á palavra
    _Dos_, se acham colligidas as disposições dos diversos codigos europeus
    a este respeito, bem como documentos de que os factos não eram
    contrarios á legislação: o que sempre é necessario examinar na historia
    da idade media, na qual a confusão social, e a ignorancia em que jaziam
    todas as nações, faziam que a pratica das relações civis contrastasse ás
    vezes com os preceitos legaes.

    A difficuldade de acceitar a tradição de um facto incomprehensivel para
    os individuos por quem se diz praticado seria bastante para o tornar
    mais que suspeito. Mas ainda occorrem contra elle outras considerações.

    É incontestavel que Raimundo, o marido de D. Urraca, senhoreou a Galliza
    e Portugal, antes de Henrique; e que a porção do territorio hespanhol
    dado a este para governar como conde, ou consul, foi desmembrada do
    territorio governado pelo conde Raimundo antes do fallecimento d'este.
    Se Portugal foi dado em dote a D. Theresa com direito hereditario,
    segundo affirma a chronica latina do imperador Affonso Raimundez,
    provindo d'essa circumstancia o governo de Henrique, como se ha-de
    suppor que D. Urraca, filha mais velha e incontestavelmente legitima,
    não recebesse em dote tambem, _jure haereditario_, as terras que seu
    marido governou? E se assim foi, como e porque se destruiu em parte este
    direito, dando em dote de outra filha uma porção do que já era dote de
    D. Urraca, e isto sem que Raimundo se queixasse, antes fazendo pactos de
    concordia e mútua alliança, como o que fez com o conde Henrique?

    Além d'isso, D. Elvira, irmã de D. Theresa e casada com o conde de
    Tolosa, não recebeu em dote terras algumas: diz-se que fôra a causa
    d'isto o possuir Raimundo de S. Gil estados em França. Mas que lei ou
    costume d'Hespanha obstava a que elle possuisse um condado em outro
    paiz, conjunctamente com os estados que tivesse em Leão? E se não havia
    legislação ou uso em contrario, porque consentiu este principe, mais
    poderoso que os outros dois, que fossem para elles estas liberalidades,
    ao passo que ficava sem quinhão na monarchia hespanhola, que assim se
    faz retalhar loucamente pelo habil Affonso VI?[13].

    Mas admittindo que isto acontecesse, ainda resta difficuldade maior.
    Além de Urraca, Theresa e Elvira, Affonso VI teve uma filha chamada
    Sancha e outra Elvira[14], nascidas da rainha Isabel, a primeira das
    quaes casou com o conde Rodrigo Gonçalves e a segunda com Rogerio, duque
    de Sicilia. Quanto a este, nada accrescentarei ao que já disse ácerca do
    conde de Tolosa, Raimundo de S. Gil. Mas no conde Rodrigo Gonçalves não
    se dava por certo a circumstancia de ser principe estrangeiro, com
    estados fóra d'Hespanha, e todavia não consta que el-rei dotasse a
    infanta D. Sancha com terras ou provincias que elle devesse possuir
    _hereditariamente_, antes pelo contrario, possuindo o conde Rodrigo as
    honras de Asturias de Santillana, lhe foram estas tiradas por suas
    turbulencias, e reconciliado depois com Affonso VI lhe deu el-rei o
    governo de Segovia, e a alcaidaria de Toledo, que tornou a tirar-lhe
    passados tempos, ao que parece, por seu genio inquieto[15]. Porque seria
    excluido, porém, o conde Rodrigo, nobre, natural, e poderoso, do
    beneficio que recebera um estrangeiro pobre, embora illustre e valente?
    É na verdade inexplicavel similhante contradicção.

    A estes raciocinios, fundados em factos incontroversos, nenhum
    argumento, nenhuma auctoridade se póde oppor senão uma phrase do
    chronista anonymo de Affonso Raimundez, que, fallando de D. Theresa, não
    directamente mas por occasião da guerra de Affonso VII com seu primo
    Affonso Henriques, diz–que Affonso VI a casara com o conde Henrique, e
    a dotara magnficamente, dando-lhe a terra portugalense com _dominio
    hereditario_. Este testemunho singular, porque todas as outras memorias
    coevas guardam silencio a similhante respeito, será porém de tal peso
    que nos faça acreditar um facto contrario á legislação e aos costumes da
    epocha, e laborando nas difficuldades que apontei? Não o creio. A
    chronica latina é proxima, porém não contemporanea do reinado de Affonso
    VII, segundo o diz seu auctor, _que ouviu contar os successos d'aquelle
    reinado aos que os tinham presenciado_[16], o que por certo não poderia
    dizer do reinado de Affonso VI, começado, pela segunda vez, 54 annos
    antes do de seu neto. E sendo d'aquelle reinado o casamento de D.
    Theresa, deve-se confessar que para o A. da chronica eram as
    circumstancias d'elle tradições um pouco remotas.

    Ajunte-se a isso que d'esta historia apenas restavam copias incorrectas
    e incompletas quando, depois de Berganza, a publicou Flores, e que ella
    passou pelas mãos do celebre falsario, consocio de Fr. Bernardo de
    Brito, o padre Higuera[17]. Será portanto bastante por si só para
    dissolver as dúvidas apontadas? Aconselha-lo-ha a boa critica? Parece-me
    que não.

    Mas suppondo a chronica d'Affonso VII esteja correcta e sem
    interpollação, e que a sua auctoridade se deva acceitar como a de um
    testemunho contemporaneo, ainda assim ella provaria quando muito que D.
    Affonso VI dera a seu genro, em attenção a D. Theresa, o governo de
    Portugal para si e seus filhos perpetuamente, visto que o hereditario se
    ía introduzindo nos cargos administrativos como na corôa. Tal seria pois
    n'esse caso a significação da palavra _dote_, que então era mui diversa
    da que hoje lhe damos, e correspondia a _donatio_, como se vê claramente
    dos diplomas que vão indicados em nota[18].

    Mas o conde Henrique governou Portugal em quanto viveu. D. Theresa o
    governou igualmente depois da morte d'elle, em 1112[19], até seu filho a
    desapossar da suprema auctoridade em 1128. Este, finalmente, tomando o
    titulo de rei, firmou para sempre a separação e independencia de
    Portugal dos reinos de Leão e Castella. Como se consummou similhante
    facto? Qual foi a historia d'este successo, verdadeira ou pelo menos
    provavel?[20]

    Como seu primo Raimundo conde de Borgonha; como os demais cavalheiros
    francezes que n'aquella epocha vinham exercitar nas Hespanhas a maxima
    virtude do seculo–o guerrear o Islamismo, Henrique IV, filho de outro
    Henrique senhor de Borgonha ducado, serviu ao que parece por muito tempo
    nos exercitos de Affonso VI. As conquistas de Fernando Magno tinham
    alargado os ambitos do imperio leonez. Affonso VI seguiu a carreira
    gloriosa de seu pae, e Toledo, a antiga capital dos godos, caiu em suas
    mãos. Pelo lado de Portugal os dominios de Fernando Magno tinham-se
    estendido até Coimbra. Seu filho continuou a guerra por esta parte, e
    chegou a apossar-se temporariamente de Santarem, Lisboa e Cintra, mas
    empregou principalmente as forças para o lado de Toledo. O conde
    Raimundo de Borgonha, marido de sua filha D. Urraca, foi por elle
    encarregado do governo da Galliza, incluindo n'esse territorio tudo o
    que corre desde o Minho até o Mondego, e depois até o Téjo: o que n'esse
    tempo ora se considerava como parte da Galliza, ora como um ou mais
    condados distinctos d'ella[21], constituindo no todo, talvez, a mais
    vasta provincia do reino de Leão e Castella.

    Mas esta mesma grandeza tornava necessaria a divisão do territorio;
    porque, estabelecida a auctoridade militar, civil, e politica no centro
    da actual Galliza, não era facil nem admnistrar bem os logares mais
    remotos para o sul, nem preseguir com energia e actividade a guerra na
    frontaria dos mouros. Este pensamento deu provavelmente origem á escolha
    de Henrique para governar as terras que se estendiam desde o Minho até
    as raias da provincia conhecida entre os arabes pelo nome generico
    d'_Algarb_;[22] e por ventura a derrota que padece o conde Raimundo
    n'uma entrada que fizera até Lisboa[23] pelos annos de 1094 serviu para
    apressar a realisação d'este pensamento. Ou Henrique fôsse já conde e
    genro d'el-rei, ou n'esta occasião casasse, e recebesse esse titulo[24]
    pelo governo que se lhe encarregava, o que é certo é que no principio de
    1095 elle governava Coimbra, em 1096 o territorio de Braga,
    incontestavelmente desde o Minho até o Téjo em 1097.[25] Se ao principio
    esteve subordinado a Raimundo na administração parcial de Coimbra e de
    Braga; se logo governou independente d'elle toda a parte de Portugal
    moderno, conquistada já então aos mouros, é cousa que me parece não se
    poder affirmar nem negar, e que talvez algum dia se haja de resolver,
    quando venha a ser conhecido maior numero de documentos d'aquella
    epocha.

    O novo conde deu provavelmente então toda a actividade á guerra com os
    sarracenos; ainda que as noticias dos primeiros annos do seu governo
    sejam bastante escassas. A viagem, porém, que emprehendeu á Terra-Santa
    nos primeiros annos do XII seculo retardou por certo as suas conquistas.
    Esta viagem, intentada depois de 1100, estava indubitavelmente concluida
    em 1106, em que Henrique apparece fazendo uma doação a dous presbyteros
    de uma herdade em Céa.[26] Desde então até à sua morte, em 1112[27],
    elle proseguiu na administração do territorio que lhe fora confiado por
    Affonso VI, e foi no periodo que decorre de 1109, epocha da morte do rei
    de Leão, que elle se prepararou para tornar estado independente o
    condado que lhe fora dado para reger como simples consul ou governador.
    É a este tempo que me parece pertencer o pacto successorio entre
    Henrique e Raimundo, isto é, aos fins de 1106 ou principios de 1107,
    anno do fallecimento de Raimundo[28]. Henrique foi mais feliz
    sobrevivendo ao sogro, e recusando depois da morte d'este reconhecer a
    supremacia de D. Urraca, que succedera a seu pae por falta d'herdeiro
    varão, tendo morrido na batalha d'Uclés o infante D. Sancho, para quem,
    parece, elle procurava a eleição dos hespanhoes, por seu fallecimento.

    Affonso VI foi incontestavelmente um habil e valoroso rei: a morte porém
    de Sancho destruiu todos os seus intentos, e abreviou-lhe por ventura a
    vida. Proximo a morrer, viu que a Hespanha leoneza se dividiria em
    facções, e a experiencia do passado lhe ensinava que isto seria a causa
    da sua ruina. Assim, tendo já dado dous annos antes a investidura da
    Galliza a seu neto Affonso Raimundez[29], cuja mãe e sua filha mais
    velha, a viuva D. Urraca, ficava, na falta de filho varão, successora do
    reino, ordenou a esta casasse com Affonso o _Batalhador_, rei d'Aragão,
    rude e grosseiro soldado, mas por isso mesmo capaz de conservar a
    integridade do estado do leonez[30]. Por morte de D. Urraca a corôa
    devia passar para Affonso Raimundez, que entretanto possuiria a Galliza.
    Estas disposições de Affonso VI cumpriram-se; mas não produziram todo o
    effeito salutar, que elle d'ahi esperava, pelo caracter das personagens
    a quem respeitavam, ou que deviam contribuir para o seu cumprimento.

    A dissolução dos costumes n'aquelles seculos era geral, e D. Urraca não
    escapou a ella. Naturalmente d'ahi nasceram as suas dissensões com o rei
    aragonez, que com a brutalidade propria dos tempos chegou a
    espanca-la[31]. A separação dos dous conjuges deu aso á guerra civil, e
    ás suas terríveis consequencias n'uma epocha em que o vicio, a
    perversidade, e a cubiça se apresentavam em todo o seu vigor barbaro, e
    sem o veu hypocrita com que n'estes tempos mais politicos se costumam
    esconder. Os nobres e cavalleiros, a titulo de pertencerem a este ou
    àquelle bando, apossavam dos castellos de que eram alcaides, ou
    construiam-nos de novo, e d'alli faziam guerra por sua conta, ou os
    convertiam em covis de salteadores, d'onde sahiam a roubar ou matar os
    viandantes e mercadores. Tal é pelo menos o quadro que do estado da
    Galliza faz a _Historia Compostellana_, e que era provavelmente
    similhante no resto do imperio leonez. Tal pelo menos no-lo devem fazer
    suppôr as palavras de Pelaio de Oviedo, quando assevera que por morte
    d'Affonso VI o lucto e as tribulações cobriram o solo da Peninsula.

    Foi no meio d'estas perturbações que o conde Henrique pôde assegurar,
    senão de direito ao menos de facto, a independencia das terras que
    governava. Ora mostrando-se favoravel ao moço Affonso Raimundez contra a
    mãe e padrasto, que se tinham temporariamente congraçado, e incitando
    Pedro Froylaz, conde de Trava, aio do infante, a sustentar animosamente
    a causa do seu pupillo, quando o veio[32] sobre isso consultar; ora
    colligando-se com o rei d'Aragão contra D. Urraca, divorciada de novo do
    marido no anno seguinte de 1111[33]. Henrique evidentemente procurava
    aproveitar nas dissensões civis a occasião de constituir independente o
    seu condado, e, com effeito, procrastinadas as perturbações da Hespanha
    quasi até 1126, elle falleceu em 1112[34], deixando o governo a sua
    mulher D. Theresa, sem nunca submetter o collo ao jugo de D. Urraca.

    É resumidamente nisto que me parece encerrar-se a historia da separação
    de Portugal da monarchia leoneza. Sobre a origem d'este facto tem-se
    discursado muito, porque com a legitimidade d'elle quizeram legitimar a
    nossa independencia os escriptores portuguezes, e com a sua
    illegitimidade impugna-la os escriptores castelhanos. Ha um ou dois
    seculos tal materia poderia ainda parecer grave á luz politica; hoje,
    porém, não sei eu se tocaria, a similhante luz, as raias de ridicula.
    Qual é a nação que não vae achar no seu berço uma violencia ou uma
    illegalidade? E que tem com isso o presente? _Somos independentes porque
    o queremos ser_: eis a razão absoluta, cabal, inconstrastavel, da nossa
    individualidade nacional. E se essa não bastasse, ahi estão escriptos
    com sangue, desde Valdevez até Montes-Claros, por toda esta nobre e
    livre terra de Portugal, os títulos da nossa alforria. Com subtilisar ou
    torcer a historia não é que se defende a patria: a sua defensão está em
    saberem seus filhos pelejar por ella, quando o soldado estrangeiro ousar
    accommetter a terra que nos herdaram nossos paes, e onde elles morreram
    livres, como nós havemos de morrer.

    O eruditissimo auctor das _Memorias_ sobre as origens de Portugal e
    sobre o conde Henrique segue algumas opiniões acerca d'estes primeiros
    tempos da monarchia differentes das minhas. O peso, que o respeitavel
    nome d'aquelle sabio dá a todos os seus escriptos, obriga-me a
    accrescentar varias considerações em abono da opinião, que o estudo
    d'essa epocha e dos seus monumentos me constrange a seguir.

    Destruida, como me parece ficou, a tradição de haver sido dado _em dote_
    a D. Theresa _o dominio_ de Portugal, resta averiguar se não se fundaria
    em outros motivos legaes o procedimento do conde Henrique,
    alevantando-se com o condado de Portugal, e convertendo-o em estado
    independente.

    Digo _alevantando-se_, e digo-o muito de proposito, porque esta
    expressão é a que designa exactamente o facto que resulta dos documentos
    d'aquella epocha. A somma dos diplomas que colligiu J. P. Ribeiro[35],
    relativos ao governo em Portugal do conde Henrique, levam á evidencia
    que, emquanto viveu Affonso VI, seu genro se considerou sempre como um
    consul ou governador de provincia dependente do rei, segundo o systema
    politico e administrativo da Hespanha, e que por morte d'aquelle
    principe é que este reconhecimento de dependencia desapparece dos
    documentos. Não constando, porém, de acto ou diploma algum publico a
    separação legal do condado d'Henrique, antes pelo contrario, não se
    fazendo menção d'ella ajunctamento que antes de morrer, para deixar a
    Galliza a seu neto, e fazer acceitar D. Urraca por successora da
    monarchia, póde concluir-se que a independencia do conde foi apenas uma
    revolta, que as circumstancias das divisões intestinas coroaram de bom
    successo.

    O respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ diz que «a
    practica d'aquella edade parece _em certo modo_ favoravel ás pretenções,
    que os leonezes e castelhanos tiveram a este respeito. Os muitos e
    grandes senhores, que então havia em Leão, Castella e Galliza, e
    governavam algum grande territorio com o titulo de condes, eram sujeitos
    _como feudatarios_ aos reis…» Seja-me permittido dizer que n'estas
    palavras ha talvez uma notavel confusão d'idéas. Eram as _instituições_,
    não a _practica_, que, não _em certo modo_, mas _postivamente_, eram
    favoraveis a essas pretenções. Os grandes senhores que governavam
    condados eram sujeitos á corôa, não _como feudatarios_, mas como
    exercendo uma _delegação do soberano_. As instituições feudaes
    essencialmente diversas das da Hespanha christã, central e occidental.
    Um conde, um senhor (_princeps terrae_), um alcaide de castello
    (_municeps_) eram n'este paiz existencias e castelleiros (_castellani_)
    dos paizes feudaes. A influencia franceza introduziu na Hespanha muitas
    fórmulas da organisação aristocratica chamada feudalismo, mas na
    essencia a indole wisigothica da sociedade hespanhola subsistiu sempre
    atravez d'essa influencia. É isto o que nos dizem claramente as leis e
    os factos, os documentos, os monumentos e a historia.

    No seculo XI o systema feudal chegou ao seu desenvolvimento completo. Os
    feudos, amoviveis a principio, tinham-se tornado hereditarios, e a
    feudalidade tinha-se estendido não só á terra, mas aos cargos, ao
    serviço publico, a tudo. A perpetuidade foi o seu primeiro caracter: a
    soberania do feudatario em seu feudo, o segundo. Satifeitas as
    obrigações dos serviços do senhor territorial para com o suzerano, elle
    exercitava livremente em suas terras todos os actos, que n'um governo
    absoluto dos tempos modernos póde exercitar o rei. O terceiro caracter
    do feudalismo, que consistia nas relações mutuas entre os nobres e entre
    estes e o monarcha ou suzerano supremo, era todo, por assim dizer,
    exterior á organização interna do dominio feudal. Estes tres caracteres
    são os que distinguem essencialmente aquelle systema politico. Tudo o
    mais é variavel, accessorio, incerto[36]. Dão-se porém esses caracteres
    no que se chama feudalidade hespanhola? Não; porque as instituições do
    paiz lhes eram contrarias. O feudalismo invadindo a Peninsula aninhou-se
    geralmente nas fórmulas, mas nunca pôde penetrar no amago da organização
    social.

    Eu já lembrei o absurdo que resulta de suppôr que ao _dote_ de D. Urraca
    se tirou uma porção para dar tambem _em dote_ a D. Theresa. O mesmo
    absurdo resultaria de suppôr que ao feudo do conde Raimundo se tinha
    tirado um fragmento para infeudar a Henrique. Mas já na instituição
    d'aquelle feudo da Galliza occorre outra difficuldade: ou os condes e
    senhores, que vemos governarem differentes districtos de Galliza e
    Portugal antes de Raimundo, tinham todos morrido e _sem filhos_, quando
    este foi posto no governo do territorio gallego e portuguez, ou d'este
    successo resulta igual absurdo. Associar com taes factos a idéa de
    feudalismo é em meu intender gerar uma monstruosidade; é pretender
    destruir incompatibilidades indestructiveis; é tirar ao feudalismo o seu
    primeiro caracter.

    A célebre carta de Affonso VI ao conde Henrique, ácerca da demanda que
    corria entre o bispo de Coimbra e um tal D. Cibrão sobre a aldêa de
    Golpelhares, em que diz que não a concederá (_outorgabo_) ao D. Cibrão
    se pertencer ao mosteiro de Vacariça[37], seria um attentado flagrante
    contra o direito feudal, como elle se achava já constituido n'aquella
    epocha; seria offender a soberania do feudatario dentro dos seus
    territorios, se Portugal fosse possuido pelo conde segundo os principios
    da jurisprudencia feudal.

    Lemos na _Historia Compostellana_[38] que, tendo o conde Raimundo feito
    uma lei para obviar a certas vexações que padeciam os burguezes de
    Compostella, na qual impunha aos transgressores penas pecuniarias, vindo
    depois Affonso VI fazer as suas devoções a Sanctiago, os cidadãos e o
    proprio consul Raimundo lhe pediram a confirmação d'ella para que fosse
    valedoura no futuro. Ou Raimundo, tendo vindo do paiz do feudalismo,
    ignorava completamente os principios essenciaes do direito feudal, ou
    não se considerava de modo algum como senhor feudatario da Galliza,
    aliás regeitaria similhante confirmação.

    Poderia citar centenares de factos análogos, que estão demonstrando que
    taes feudatarios não existiam na Hespanha. Mas a demonstração capital
    d'esta verdade resulta da impossibilidade em que estava o paiz de
    admittir esses extensos feudos.

    As situações hierarchicas dos senhores de terras nos paizes feudaes eram
    n'aquelle tempo diversas. Os _vavassores majores_, ou _barões_, eram os
    feudatarios da corôa; abaixo d'estes ficavam os simples _vavassores_ e
    _castellani_, subfeudatarios dos primeiros[39]. Esta graduação era
    possivel em França, por exemplo, porque no tempo das conquistas dos
    francos nas Gallias, os capitães das hostes (_herzoge, koninge_),
    tomando para si vastas extensões de territorio, as tinham repartido pelo
    seus guerreiros. Passando da vida errante á existencia fixa, os barbaros
    sentiram logo a necessidade do principio hereditario applicado á
    propriedade territorial. D'aqui os feudos e subfeudos, e as obrigações
    diversas inherentes aos possuidores d'elles. Mas as hierarchias não se
    alteravam á mercê suzerano supremo; o filho do barão era barão como seu
    pae, o filho do vavassor, vavassor como este. Os factos que se possam
    apresentar de algum modo em contrario, ou foram practicados em terras
    que fossem primitivamente _allodios reaes_ (correspondentes aos nossos
    _reguengos_), que o rei podia infeudar a um vavassor para o elevar á
    hierarchia de _Baro_, ou custaram muitas guerras, incendios, e mortes;
    isto é, nasceram da violencia e da extra-legalidade, e não das
    instituições feudaes, a que seriam perfeitamente contrarios.

    Na Hespanha, porém, a elevação de Raimundo e de Henrique não foi
    resultado de uma conquista. Os territõrios da Galliza dados áquelle, e
    os de Portugal dados a este, para governarem como condes, estavam
    libertados do jugo árabe, na sua maxima parte, e regidos por condes,
    senhores, maiorinos, alcaides, etc., que, admittindo ser então a
    organisação politica da sociedade Hespanhola feudal, eram (pelo menos os
    condes) _barões_, isto é, feudatarios immediatos do rei. E como
    consentiriam estes _vavassores majores_ em passar para a classe de
    simples _vavassores_, o que de necessidade aconteceria se na realidade
    se tivessem creado então estes dous grandes feudos? Como não apparece o
    menor vestigio de resistencia a essa violação do direito politico do
    paiz?

    Sei que os que imaginam existirem na Hespanha instituições feudaes
    poderão talvez soccorrer-se ás clausulas, que no pacto successorio entre
    Raimundo e Henrique assentam nos principios de direito feudal[40].
    D'estas passagens muitas outras se poderiam colligir dos diplomas e
    memorias d'esse tempo; mas n'este documento, que era um tractado
    secreto, não admira que os dous principes, sendo ambos francezes,
    contractassem debaixo dos principios da jurisprudencia patria, ou que,
    bem como acontece nos outros diplomas, em que se acham passagens
    analogas, houvesse n'elle um abuso de terminologia feudal accommodada ás
    instituições hispanicas, vindo assim a significarem as palavras _ut sis
    inde meus homo, et de me eam habeas domino_, que o conde Henrique
    ficaria com o governo de Toledo, como conde delegado n'aquella
    provincia, reconhecendo a supremacia real de Raimundo n'esse districto,
    emquanto Portugal ficava sendo estado separado e independente.

    Que se fazia este abuso de termos da Peninsula é incontestavel. O
    _Feudum reddibile_ não existia ainda n'aquella epocha, porque só
    appareceu quando, degeneradas as instituições feudaes, a palavra
    _feudum_ começou a servir para indicar todo o genero de transmissão
    incompleta de propriedade[41]. Não podia, portanto, ser conhecido na
    Hespanha no principío do seculo XII um genero de falso feudo, que se
    oppunha á mesma essencia da propriedade feudal–o hereditario e a
    perpetuidade. Todavia a _Historia Compostellana_ assevera que o
    arcebispo de Santiago dera ao de Braga certas propriedades _ad tempus
    pro feudo_, e este declara que as recebera _in praestimonium sive
    feudum_, d'onde claramente se vê que então se tomava _feudo_ por
    synonymo de _prestano_, sendo aliás coisas diversissimas[42]. A rainha
    D. Urraca, tendo comprado ao mesmo arcebispo de Santiago o castello de
    Cira, pediu-lh'o depois _in pheodum_, diz o historiador compostellano, e
    elle lh'o concedeu com a condição de que logo que lhe fosse pedido o
    entregasse[43]. Se entendessemos, porém, a palavra _pheodum_ na sua
    verdadeira accepção, não houvera sido impossivel similhante contracto?

    Vemos, pois, que a idéa de ter sido dado Portugal em feudo ao conde
    Henrique é tão repugnante e inadmissível como a de lhe ter vindo em dote
    de sua mulher. Resta só um meio para deixar de attribuir pura e
    simplesmente á revolta do conde a sua independencia politica.

    Este meio consiste em suppôr que, morrendo Affonso VI sem filhos varões,
    o conde julgasse que o reino se devia dividir entre suas filhas; que a
    sua mulher tocava, pelo menos, a provincia que elle governava; e que
    finalmente se estribasse n'este fundamento para não se reconhecer
    subdito de D. Urraca. Similhante idéa parece ter occorrido ao
    respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, quando por
    occasião do célebre pacto successorio, diz que «_os dois condes_, vendo
    que a _herança_ de tão vastos e ricos estados, a que por suas mulheres
    _tinham direito_, lhes escapava das mãos….. isto devia…..
    inspirar-lhes o pensamento de se prevenirem, etc.»

    Tal reflexão, creio eu, não fizeram os dois condes pela mui simples
    razão de que não a podiam fazer; tal motivo não tiveram porque não o
    podiam ter. A razão do pacto, a meu ver, não foi mais que um calculo de
    forças: os dois condes unidos assim eram naturalmente mais fortes que
    qualquer outro competidor ao throno que por morte de Affonso VI se
    alevantasse. O conde Raimundo entendeu, e entendeu bem, que valia a pena
    de sacrificar uma parte de territorio á ambição de Henrique, com a
    condição de cingir a corôa d'Hespanha. Do theor o pacto successorio se
    vê que este negocio começou a ser tecido em Cluni; porque este celebre
    mosteiro era então o foco de todos os grandes enredos politicos, e
    exercia uma influencia immensa na curia romana, sempre prompta para
    proteger novidades uma vez que estas lhe produzissem as celebres
    _benedictiones_[44], de que tantas vezes falla á _Historia
    Compostellana_. E com effeito o negocio tinha assim todas as
    probabilidades de bom resultado, se a morte, como costuma, não viesse
    baralhar as combinações humanas.

    Disse que Raimundo e Henrique não podiam ter tido por motivo do pacto a
    consciência de um direito commum a ambos; porque tal direito seria
    sonhado. Que!? A coròa do reino leonez-castelhano era alguma herdade,
    aldêa, mosteiro, _testamento_[45] emfim, que se repartisse entre
    herdeiros, ficando a este o quarto, a outro o sexto, a aquell'outro o
    resto? Se o fosse, que deveriamos nós chamar a Raimundo, o qual se
    contentava com tomar para seu quinhão _hanc totam terram Regis
    Aldephonsi_, ou ao conde Henrique, que promettia ajuda-lo em tão sancta
    e louvavel empreza? Porque haviam assim de ser espoliadas as outras
    filhas de Affonso VI, entre as quaes se contam algumas com mais
    segurança legitimas que a mulher de Henrique?[46] Raimundo poderia
    talvez julgar-se com justiça na successão, por ser sua mulher a filha
    mais velha de Affonso VI: o hereditario da corôa começara de havia muito
    a fixar-se por direito consuetudinario opposto ao direito politico
    escripto, e Urraca devia succeder a seu pae por este _costume_, que
    apenas deixava a sentença do codigo wisigothico a tal respeito, como
    simples e mera formalidade: Henrique, porém, nada tinha que vêr em
    similhante negocio, e só legalmente lhe cumpria obedecer ao novo
    monarcha, como obedecia a Affonso VI.

    Mas, dir-se-ha, Raimundo podia d'antemão ceder uma parte da monarchia,
    que lhe havia de pertencer, a Henrique, seu cunhado, primo e companheiro
    d'armas, a fim de que este o ajudasse com a força a tornar effectivo o
    seu direito de successão, se este direito existia[47]. Não! A indole das
    instituições hespanholas oppunha-se formalmente a similhante cessão.

    É preciso em todas estas averiguações não esquecer nunca um grande facto
    social d'aquella epocha, facto que o historiador-philosopho Martinez
    Marina provou irrecusavelmente, e que derruba pelos fundamentos essas
    explicações violentas de um acontecimento mui simples–a revolta do
    conde Henrique. Este acontecimento não deshonra o conde, porque elle não
    podia ter as idéas de estreita legalidade, que nós hoje exigimos e
    devemos exigir dos homens politicos. No seu tempo a força corria
    trivialmente parelhas com o direito: era esta uma das infinitas e
    pessimas consequencias moraes da barbaria e rudeza dos tempos. Do mesmo
    modo nenhuma nódoa póde pôr nos fastos gloriosos da nação essa origem
    menos ajustada pelas regras da jurisprudencia politica d'aquellas eras.
    Toda a nação independente legitimamente o é, seja qual for a historia do
    apparecimento da sua individualidade ou da sua organisação. Nem a França
    recusa a usurpação de Pepino, ou de Hugo, nem a Inglaterra a conquista
    de Guilherme o _Normando_: essas nações possuem sobeja luz de gloria
    para desvanecer taes sombras. Será o velho Portugal mais pobre e obscuro
    do que ellas?

    O facto, digo, de que nunca nos devemos esquecer é, que a monarchia
    fundada por Pelaio nas Asturias, e que depois se chamou Leão e Castella,
    não foi uma nova sociedade que appareceu; não foi uma nova raça que pela
    conquista substituísse no dominio da terra uma sociedade conquistada o
    dissolvida. A monarchia leoneza foi a reacção wisigothica contra a
    invasão arabe: mais nada. O throno de Leovigildo recuou deante do throno
    dos califas até as margens do Deva, e d'abi voltou a Toledo. Ida e volta
    foi por uma estrada coberta de cadaveres, e a viagem gastou tres
    seculos. Mas com esse throno, na fuga e no triumpho, as instituições, as
    leis, quasi os costumes, que o rodeavam, subsistiram por largo tempo. As
    _Partidas_ de Affonso o _Sabio_ são a declaração de que a sociedade
    wisigothica tinha emfim expirado, depois de dilatada agonia. Este codigo
    feudal-canonico-romano é o verdadeiro ponto d'intersecção entre a
    monarchia germanica e a monarchia moderna; e ainda áquem das _Partidas_,
    quantas reminiscencias, quantos costumes, quantas leis, enraizadas no
    solo Peninsula pela cuidadosa cultura dos godos, melhor radicadas talvez
    ainda, como as arvores robustas, pelo tufão terrivel da conquista arabe,
    não ficaram vivas, perennes, activas, no meio da sociedade moderna!
    Ninguem mais que nós os filhos das Hespanhas se abraça ternamente com as
    usanças do passado. É que ainda em nossas veias gira muito sangue dos
    godos. Na historia das instituições, os povos da Peninsula são mais
    velhos do que elles pensam.

    Todos sabem que o codigo das _Partidas_ pertence á segunda metade do
    seculo XIII, e que a epocha de Affonso VI pertence aos fins do XI, e
    primeiros annos do XII. Para outro logar deixamos o exame das
    alterações, quasi todas formaes e poucas substanciaes, que os francos
    introduziram na organisação politica da Hespanha: é, porém, indubitavel
    que a natureza da monarchia não tinha sido mudada. A substituição do
    hereditario ao electivo na successão havia-se convertido em uso, é
    verdade; mas este uso não pertencia exclusivamente aos tempos
    posteriores a Pelaio. Anteriormente aos arabes, os godos tinham
    conhecido a vantagem immensa d'aquelle systema de transmissão da corôa
    ao systema electivo; e a successão de paes a filhos começava a fixar-se
    como principio politico na côrte de Toledo, quando justamente uma
    offensa feita a esse principio na enthronização de Rudericus (Rodrigo)
    produziu a guerra civil, que abriu o caminho aos conquistadores
    sarracenos.

    A eleição do rei lá ficou, todavia, escripta na lei da terra, no codigo
    wisigothico, e as consequencias naturaes do principio electivo
    designadas nesta lei, e além d'isso traduzidas nos factos. A acclamação
    do novo imperante, o _hominium_ ou preito e menagem que lhe faziam os
    barões convocados a côrtes (_concilium_), e até a expressão de
    _electus_, de que muitos reis de Oviedo e Leão usaram nos diplomas
    fallando de si, provam que elles não se esqueciam de qual era o
    fundamento legal da sua existencia politica[48]–a escolha dos godos.
    D'esta circumstancia, d'este pensamento, que por assim dizer se achava
    como incorporado no facto contrario–a successão hereditaria–e
    modificava esse facto, nascia que todas as outras disposições do codigo
    wisigothico, relativas ás obrigações contrahidas pelos reis no momento
    da acclamação, se conservavam em vigor como nos tempos em que a
    monarchia era na realidade electiva. Entre estas obrigações era uma das
    mais importantes o prestarem juramento de nunca alhearem os bens ou
    estados da corôa, e de não herdarem a seus filhos senão as terras ou
    bens que adquirissem antes de subirem ao throno, ficando no patrimonio
    do estado tudo o que depois da sua eleição n'elle tivessem
    accrescentado[49]. Era a esta lei, observa Martinez Marina[50], que D.
    Affonso o _Sabio_ se referia no seculo XIII, dizendo: «foro e
    estabelecimento fizeram antigamente em Hespanha, que o senhorio do rei
    nunca se dividisse ou alheasse.»[51] A tradição d'esta antiga
    jurisprudencia veio ainda reflectir de algum modo entre nós na feitura
    da _Lei mental_.

    Similhante instituição obsta a que qualquer cessão de Raimundo a seu
    primo tivesse validade ainda quando subisse ao throno, quanto mais sendo
    apenas um simples pretendente. Assim, ao passo que se vê não ser o pacto
    successorio mais que um documento da ambição dos dous condes, conhece-se
    tambem que é escusado procurar n'elle o titulo da independencia
    portugueza. Ainda, repito, subindo ao throno, Raimundo teria exorbitado
    das suas attribuições: teria offendido uma das partes essencialissimas
    do direito politico da Hespanha, se houvesse alheado da corôa uma tão
    importante porção de territorio como Portugal, sem consentimento do
    _concilium_, ou _côrtes_. Fernando Magno tinha entendido isto
    perfeitamente quando, para dividir a monarchia em tres estados que
    herdassem seus tres filhos, as convocou em Leão a fim de obter o
    consentimento nacional[52].

    Nestas considerações, a meu ver, está a razão capital de se dever
    recusar a sancção historica a essas tradições de dotes, d'infeudações,
    de direitos hereditarios, que se tem acceitado de antigas chronicas com
    demasiada boa fé.

    Não concluirei já agora, sem accrescentar alguns reparos aos argumentos
    negativos, que faz o sabio auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, a
    favor da opinião que sustenta a legalidade do acto de separação que deu
    origem á monarchia portugueza.

    Aquelle erudito illustre observa que, practicando o conde depois da
    morte d'Affonso VI todos os actos de um soberano independente (e isto,
    creio eu, ninguem contesta hoje), não appareceu um documento público em
    que os leonezes accusassem Henrique e depois D. Theresa de _rebeldes_,
    ou em que exigissem vassalagem d'elles; que não _ha prova alguma
    positiva e certa de que por esse singular motivo fizessem a guerra aos
    portuguezes_; que finalmente nenhuma das _numerosas_ chronicas
    d'aquelles tempos haja feito menção da dependencia de Portugal, salvo a
    _Historia Compostellana_, a que, n'esta parte, o illustre auctor das
    citadas _Memorias_ parece recusar o seu assenso por ser obra d'estylo e
    modo d'historiar _exaggerado_, e ás vezes manifestamente apaixonado.

    O governo do conde Henrique divide-se em dois periodos distinctos: o
    primeiro, que corre de 1096 até 1109, isto é, até a morte _d'Affonso_
    VI: o segundo desde esta epocha até a morte d'elle proprio em 1112[53].
    Quanto á primeira não pode haver questãpo sobre a sua dependencia do
    monarcha: os diplomas d'esse tempo não consentem a menor sombra de
    dúvida a similhante respeito. Quanto á segunda tambem me parece
    indubitavel que o conde saccudiu o jugo de Leão; mas o que não posso
    admittir é que os leonezes legalisassem este facto com o seu
    reconhecimento antes do tempo de D. Affonso Henrique.

    Bastaria dizer aqui que um argumento negativo bem pouco fôrça pode ter
    contra provas em contrario deduzidas da propria natureza, instituições,
    leis e costumes do paiz. Mas não ha só isso; considerando em si o
    argumento, elle não parece dos mais vehementes no seu genero. Vejamos.

    Primeiro que tudo, _as numerosas chronicas d'esses tempos_ parece-me uma
    expressão demasiado vaga e incerta. Se o respeitavel sabio, a que
    alludo, intende por _chronicas d'esses tempos_ os escriptores
    _contemporaneos_ do conde e ainda de D. Theresa, que lhe sobreviveu 18
    annos, eu desejaria saber onde existe esse grande numero d'ellas, para
    as lêr, e evitar assim os avultados erros, em que por ignorancia das
    fontes historicas terei provavelmente caído. Se intende os escriptores
    dos tempos immediatos, seja-me permittido lembrar-lhe que Rodrigo de
    Toledo, escrevia na primeira metade do seculo XIII[54], concorda com a
    _Historia Compostellana_ em chamar _rebellião_ ao procedimento do
    conde[55], e n'esse caso não é _singular_ o testimunho d'aquella
    importante historia.

    Eu sei que existe um certo numero de _chronicons d'esses tempos_,
    publicados pela maior parte nos appendices da _Hespanha Sagrada_. Mas
    infelizmente para o nosso caso, aquelles em que os successos vem mais
    particularisados, e que mereceriam não o nome de _historias_, mas
    talvez, alguns pelo menos, o de _chronicas_[56], não ultrapassam a
    epocha d'Affonso VI. Taes são o d'Isidoro de Béja, o do Biclarense, o de
    Sebastião de Salamanca, o de Sampiro, o Monge de Sillos etc. Os que
    passam áquem da morte d'Affonso VI são apenas um aggregado de datas
    relativas aos seculos XII e XIII e aos anteríores, datas estremes de
    nascimentos, batalhas, obitos e phenomenos naturaes. Em taes monumentos,
    essencialmente chronologicos, como fôra possivel encontrar a menção do
    facto que pela sua propria natureza devia ser lento, e concluido por uma
    série de actos graduaes e escuros, praticados successivamente durante
    annos? Como se poderia achar uma historia politica em rudes apontamentos
    de monges ignorantes, que muitas vezes para indicarem uma batalha
    importante contentavam-se com dizer: _Era de tal_–_Foi a de Sagralias:
    foi a d'Ucles_? Eu, ao menos, não creio que similhante espécie ahi se
    podesse encontrar.

    Mas, se abstrairmos d'estes _chronicons_, que obras historicas nos
    restam escriptas n'esse tempo ou proximamente, com tal extensão, que
    devamos buscar n'ellas noticia d'este facto politico e complexo? Conheço
    apenas tres: a _Historia Compostellana_, a _Chronica d'Affonso VII_, e o
    livro de D. Rodrigo Ximenes _Das coisas de Hespanha_. Como já notei, a
    primeira e terceira chamam rebellião a esse facto: a segunda é que
    guarda silencio a similhante respeito. Tire d'aqui o leitor a conclusão
    que quizer, não se esquecendo que já ponderei sobre o valor historico
    que me parece têr a _Chronica d'Affonso VII_.

    O clarissimo auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ regeita, ao que
    parece, n'este ponto a auctoridade dos historiadores compostellanos
    (postoque na _Memoria sobre a origem de Portugal_ os houvesse
    qualificado de _não suspeitos_) por serem _exaggerados_ e _apaixonados_.
    Esta observação é exactissima. Quem ler dez ou vinte capitulos d'aquella
    chronica ficará plenamente convencido de tão inquestionavel verdade, sem
    que lhe seja preciso ter presente a extensa dissertação de Masdeu a este
    respeito.[57] Mas o que _exaggeram_ os tres conegos de Sanctiago
    auctores do livro?–A perversidade de D. Urraca, e as virtudes do
    arcebispo Diogo Gelmirez. Não ha injúria que elles não vomitem repetidas
    vezes contra aquella rainha, que sem ser sancta, ou pelo menos beata,
    como a pinta Flores, não foi tão detestavel mulher como os tres honrados
    conegos a descreveram. Por outra parte não ha lisonja ridicula ou louvor
    despropositado que não dirijam ao seu velhaco, hypocrita, cubiçoso e
    violento patrono. Porque serão pois elles suspeitos mostrando-se
    favoraveis ás pretensões de D. Urraca ácerca de Portugal, quando, além
    d'isso, não tinham motivo nenhum de odio contra D. Theresa, que
    beneficiou a sé de Compostella, e que até, andando Diogo Gelmirez com a
    rainha D. Urraca devastando o Minho, lhe deu aviso de que sua irmã o
    queria prender ou matar? É realmente incomprehensivel para mim o motivo
    por que na questão da legitimidade ou illegitimidade da separação de
    Portugal a _Historia Compostellana_ haja de ser-nos suspeita por
    exaggeração e parcialidade.

    Finalmente, a exigencia de um documento leonez, pelo qual conste a
    pretendida sujeição de Portugal, parece-me demasiado violenta. Qual
    devia ser o documento? Um manisfesto? No seculo XII não creio existisse
    ainda essa divindade dos homens honestos, chamada opinião pública. Nas
    questões politicas recorria-se ás armas para obter justiça ou desforço,
    e não se faziam allegações. Se apparecesse um tal documento, a prova da
    sua falsidade seria a sua existencia; e todavia só por um manifesto
    poderiam constar directamente as pretensões de D. Urraca e de Affonso
    VII. Indirectamente, porém, na propria _Memoria_, a que alludo, se
    lembra seu respeitavel auctor do que D. Urraca se intitúlava _rainha de
    toda a Hespanha_. Que mais podia fazer? Doações em Portugal de bens da
    corôa? Ninguem lh'as quizera, porque não se effeituariam, visto que
    Portugal não a tinha por senhora. Providencias governativas? Não lhe
    obedeceriam. De que titulo, pois, pode resultar a prova directa que se
    exige?

    Prova directa digo, porque só esta tinha em mente por certo o sabio, de
    cuja opiniões me vejo constrangido a afastar-me, quando escreveu que não
    existe documento pelo qual _conste a pretendida sujeição_[58]. Era
    impossivel que elle se não lembrasse do tractado que traz Brandão[59] em
    cujo preambulo se lê: «É este o juramento e convenio que faz a _rainha_
    D. Urraca a sua irmã a _infanta_ D. Theresa.» Desejaria eu saber porque,
    intitulando-se a viuva do conde Henrique constantemente _regina_ nos
    documentos de Portugal, consentiu em um tractado de paz com sua irmã que
    esta reservasse para si similhante titulo, e lhe désse unicamente o
    d'_infanta_? Como se registou tal denominação no _Liber Fidei_ de Braga,
    d'onde a tirou Brandão, sendo assim offensiva da legitima independencia
    e senhorio real de D. Theresa?

    Accrescentarei uma conjectura. O documento produzido por Brandão não tem
    data. Quem lêr attentamente os capitulos 40 e 42 do livro 2.^o da
    _Historia Compostellana_ poderá talvez attribui-lo ao anno de 1121, em
    que D. Urraca acompanhada do guerreiro arcebispo Diogo Gelmirez entrou
    por Portugal dentro, e o devastou, chegando D. Theresa ás estreitezas de
    se ver cercada no castello de Lanhoso. Distraídos pelos perigos do seu
    heroe Gelmirez, que n'esta occasião D. Urraca, dizem elles, quiz prende,
    esqueceram-se de narrar expressamente as consequencias politicas da
    guerra. Mas dos factos referidos n'esses capitulos se pode deduzir que
    as duas irmãs fizeram pazes, e até os dois campos inimigos conviveram
    familiarmente[60]. Aquelle tractado não é por ventura mais que o
    desfècho da invasão; bem como as condições vantajosas que por elle devia
    obter D. Theresa, o repentino intento de prender o arcebispo, e a
    notoria perfidia e turbulencia d'aquelle sancto varão, me fazem
    suspeitar que elle tramaria alguma traição contra a sua soberana, a qual
    odiava cordialmente, e tractando secretamente com D. Theresa (cujo
    repentino accésso de amor por um homem que lhe devastava o paiz é aliás
    inexplicavel) pretenderia com a juncção das suas forças ás portuguezas
    aniquilar D. Urraca. Se assim foi, porque isto é apenas uma conjectura
    verosimil, habilmente andou a rainha em conceder uma paz vantajosa a sua
    irmã, para poder desaggravar-se da traição de Gelmirez. Admittida esta
    hypothese, o documento do _Liber Fidei_ e a _Historia Compostellana_
    concorda e explicam-se excellentemente.

    O titulo d'_infanta_, dado com exclusão de outro a D. Theresa, não
    apparece unicamente no _Liber Fidei_. Remettendo Bernardo, arcebispo de
    Toledo, a Diogo Gelmirez copia de certas letras apostolicas relativas ao
    celebre Mauricio Bordino, arcebispo de Braga, envia-lhe com ellas outras
    dirigidas á _infanta dos portuguezes_[61]. Vê-se d'esta passagem, da
    carta do primaz que tal era o titulo diplomatico com que na côrte de
    Toledo se designava D. Theresa; titulo vago, que mostra, a meu vêr, a
    incerteza d'aquella côrte entre o facto, que provavelmente não tinha
    fôrça para annullar, e o direito de supremacia, que julgava evidente.

    Ficarei aqui pelo que toca ao facto da origem da independencia de
    Portugal: algum dia examinaremos como ella se consolidou e legalisou.
    Chama-nos mais grave assumpto–a historia social do nosso paiz n'essa
    épocha.

    *CARTA IV*

    A folhinha d'algibeira, tecendo o catalogo dos nossos reis, divide-se em
    quatro dynastias: a 1.^a Luso-Capêta, a 2.^a, do Mestre d'Aviz, a 3.^a
    dos Philippes, a 4.^a Brigantina. A folhinha resume e representa o
    estado da sciencia historica do nosso paiz.

    Mas a folhinha, salvo o incompleto e inexacto d'aquellas divisões
    dynasticas, tem razão. Ella tece o catalogo das familias reaes. Quem não
    tem razão é a sciencia, que, annunciando a _Historia de Portugal_, em
    vez de distribuir as épochas chronologicas pelas transformações
    essenciaes da sociedade, sujeita a ordem dos acontecimentos sociaes ás
    mudanças das raças reinantes. Isto é altamente absurdo.

    Mr. Thierry, fallando das divisões dynasticas applicadas á historia
    franceza, já observou a impropriedade de similhante systema[62].
    «Supponde (diz elle) que um estrangeiro, pessoa de juizo, que não seja
    hospede na leitura dos historiadores originaes da decadencia do imperio
    romano, e que nunca houvesse aberto um volume moderno da nossa historia;
    supponde, digo, que ao encontrar a primeira vez um livro d'estes lhe
    corra o indice, e divise ahi por balizas, ou antes por fundamentos da
    obra, a distincção das diversas raças. Que idéa quereis que faça d'estas
    raças e do pensamento do auctor? Ha-de provavelmente crer que tal
    distincção corresponde á de diversas gentes, ou gaulesas ou peregrinas,
    cuja mistura produziu a nação franceza; e quando souber que se enganou,
    que são unicamente diversas familias de principes, sobre as quaes versa
    todo o systema da nossa historia, ficará sem duvida cheio
    d'assombro.»–Esta reflexão do mais célebre historiador francez da
    épocha presente, é inteiramente applicavel ao nosso paiz.

    Com effeito, quem, á vista das diversões estabelecidas na _Historia de
    Portugal_, imaginará, por exemplo, que os acontecimentos sociaes do
    ultimo quartel do seculo XIII, isto é, do reinado de D. Diniz, consituem
    uma divisão naturalissima, uma verdadeira épocha historica, ao mesmo
    tempo que a intrusão dos Philippes apenas mereceria tal nome? Quem
    adivinhará que no reinado de D. João II se completa uma revolução
    capital na indole da organisação politica do paiz, ao passo que a
    revolução de 1640 traz á sociedade portugueza levissimas mudanças no seu
    mode de existir? Ninguem o crerá, se attendendo unicamente ás épochas
    assentadas pelos historiadores se persuadir de que a historia é a
    biographia dos individuos eminentes.

    A historia pode comparar-se a uma columna polygona de marmore. Quem
    quizer examina-la deve andar ao redor d'ella, contempla-la em todas as
    suas faces. O que entre nós se tem feito, com honrosas excepções, é
    olhar para um dos lados, contar-lhe os veios da pedra, medir-lhe a
    altura por palmos, pollegadas e linhas. E até não sei dizer ao certo se
    estas indagações se teem applicado a uma face ou unicamente a uma
    aresta.

    Mas é similhante trabalho desprezivel? Não por certo. Este exame miudo,
    feito com consciencia, tem grande applicação, e ainda em si é
    importante; mas dar-nos isso como a historia da nação é, salvo erro,
    enganar redondamente o genero humano; é não perceber os fins da
    historia, a sua applicação como sciencia; é sobretudo fazer uma coisa, a
    que podêmos chamar novella, distincta sómente d'aquellas a que se dá tal
    titulo, pelo tedioso, árido e sem sabor da leitura que offerece.

    As divisões historicas actuaes nasceram d'este modo falso (por
    incompleto) de considerar o passado. A necessidade de estabelecer uma
    chronologia rigorosa era evidente: os factos politicos e a vida dos
    homens publicos precisavam de ser fixados com exacção no correr dos
    tempos, principalemente para o julgamento dos diplomas, genero de
    monumentos, em que as gerações extinctas se pintam melhor, que em
    nenhuns outros. O erro, a meu vêr, foi acreditar que ficando-se aqui
    existia a historia: erro digo, e completo; porque nem se quer a
    biographia dos homens eminentes surgiu de taes averiguações. Temos a
    certidão do seu nascimento, baptismo, casamento e morte. Se foi um
    guerreiro, temos a descripção das suas batalhas; se legislador, a medida
    intellectual e moral de seu espirito, os seus habitos e costumes, não os
    conhecemos. E porque? Porque esse homem é uma abstracção: está separado
    do seu seculo. As opiniões, os costumes, os usos, todos os modos, emfim,
    de existir da épocha em que viveu, são desconhecidos para nós; e todavia
    tudo isso, toda essa existencia complexa de muitos milhares de homens, a
    que se chama nação, devia ter uma influencia immensa, absoluta,
    n'aquella existencia individual do homem illustre, que o historiador
    acreditou poder fazer-nos conhecer com os simples extractos de quatro
    chronicas, cosidos com bom ou máu estylo ás respectivas certidões de
    baptismo, de casamento e de obito.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Aproximadamente 55.130 palavras.

    Produced by Isabel Calderon Dinis (Projecto Enclave) and
    edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt)

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO IV*

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO III

    LISBOA

    *VIUVA BERTRAND & C.^a* SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXIX

    *COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE*

    ADVERTENCIA

    Propondo-nos continuar a interrompida compilação dos _Opusculos_ do
    fallecido escriptor Alexandre Herculano, importa dizermos em breves
    palavras qual é o nosso intuito, para que não se tomem á conta de
    insensato arrojo as timidas diligencias que fazemos por cumprir um
    dever, que reputamos impreterivel.

    Quem leu a primorosa _Advertencia previa_ do primeiro volume d'esta
    collecção sabe que o auctor resolvera imprimir de novo, de envolta com
    alguns trabalhos seus ainda ineditos, os numerosos escriptos que, no
    dilatado periodo de quasi quarenta annos, dera á luz, ou em folhetos
    avulsos, cujas edições estavam esgotadas, ou em folhas periodicas,
    algumas pouco conhecidas hoje, e todas mais ou menos difficeis de reunir
    e compulsar. Como elle proprio declara, um dos motivos, se não o
    principal, que o levava a «ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do seu passado intellectual», era o desejo de ser um dia julgado,
    com imparcialidade e justiça, pelas idéas que emittira e pelas opiniões
    que sustentara. E foi para tornar mais justa semelhante apreciação que
    assentou em conservar escrupulosamente a parte doutrinal dos opusculos
    primitivos, junctando-lhes, apenas, as datas da sua composição; porque,
    «sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entendia que a responsabilidade seria ora maior ora menor, se porventura
    se attendesse á epocha em que essas opiniões foram manifestadas.»

    Fiel a estes principios, e obedecendo ao plano que traçara, conseguiu
    ainda o sabio escriptor dar á luz os tres primeiros volumes da presente
    collecção, nos quaes inseriu grande parte dos trabalhos que maior abalo
    produziram no animo publico, pela elevação, desassombro e energia com
    que ahi são tractados os mais melindrosos assumptos. Muitos outros,
    porém, estavam virtualmente destinados a formar novos livros, que por
    fim haviam de completar os elementos necessarios do processo, sobre que
    tinha de recair a sentença definitiva dos juizes imparciaes, a quem elle
    com tamanha confiança entregava o julgamento da sua causa; e são esses
    trabalhos dispersos, entre os quaes ha não poucos inteiramente
    desconhecidos da geração actual, que diligenciamos reunir e publicar.

    É grave, sem duvida, a responsabilidade moral e litteraria que
    contrahimos, escasso o tempo de que podemos dispor, debeis as forças,
    nulla a competencia. Erraremos, necessariamente, na escolha dos artigos,
    na ordem em que os collocarmos, na preferencia que lhes dermos, e acaso,
    até, na inserção de algum que o proprio auctor excluiria, O que, porém,
    podemos affirmar ao leitor é que empregaremos os maximos esforços para
    que seja fidelissima a transcripção d'esses artigos: fidelissima,
    dizemos, em quanto ao texto; porque a orthographia deixamol-a ao cuidado
    da imprensa. Seria muito moroso, além de sujeito a frequentes
    irregularidades, querer reduzir escriptos de tão differentes epochas, e
    publicados em desvairadas folhas periodicas, sem unidade orthographica,
    ao systema que o auctor ultimamente seguia.

    Para este quarto volume da collecção geral dos _Opusculos_, e terceiro
    das _Questões publicas_, escolhemos dois trabalhos egualmente
    importantes, e que nos parece terem intima correlação.

    O primeiro é um largo e consciencioso estudo ácerca da instituição
    vincular, onde são maduramente apreciadas as vantagens e os
    inconvenientes d'este modo de ser da propriedade, bem como as
    difficuldades que offerecia, n'aquella epocha, a sua immediata abolição.
    Este estudo, que encontrámos completo e mostra ter sido escripto sem
    interrupções, ficou, todavia, inedito na sua maior parte; porque apenas
    se imprimiram os tres primeiros capitulos, no jornal _A Patria_ de 8, 17
    e 25 de fevereiro de 1856, e o quinto, d'ahi a tres annos, nos numeros 5
    e 7 do _Archivo Universal-, a instancias do mallogrado escriptor Rodrigo
    Paganino. Quaes foram os motivos que impediram a publicação dos
    restantes, n'uma conjunctura em que as luminosas reflexões do auctor
    podiam auxiliar a resolução do grave problema, não nos foi possivel
    descobril-os; mas, com quanto a abolição dos vinculos fosse, poucos
    annos depois, levada a effeito, pelas leis de 30 de junho de 1860 e de
    19 de maio de 1863, aos homens competentes pertence o decidir se n'essas
    leis foram, ou não, previstas com lucidez, e resolvidas com acerto todas
    as diffículdades que faziam vacillar um espirito tão esclarecido e um
    animo tão resoluto.

    Compõe-se o segundo trabalho de uma serie de cartas, dirigidas ao sr.
    conselheiro Carlos Bento da Silva, nas quaes o auctor manifesta, com a
    sua habitual lealdade e franqueza, a opinião que tinha ácerca da
    emigração para a America, assumpto que então preoccupava muito os
    espiritos, e hoje parece não dar excessivo cuidado a ninguem. Publicadas
    na _Revista agricola_ e no _Jornal do Commercio_, e sustentando
    doutrinas contrarias, em grande parte, às que eram geralmente seguidas,
    estas cartas levantaram clamores, que, não só interromperam um estudo
    cheio de bom senso e de generosas aspirações, mas arrastaram, em breve,
    para o terreno ingrato das luctas politicas a discussão, que só podia
    ser proveitosa mantendo-se nas regiões serenas da sciencia. Não é, por
    conseguinte, o dezejo de avivar a lembrança de uma controversia
    desagradavel, que nos leva a reproduzir, sem a menor alteração, algumas
    paginas mais calorosas deste trabalho litterario: fazemol-o, porque era
    impossivel mutilar um escripto de tanta importancia, justamente na parte
    em que o auctor, além de responder ás objecções do seu antagonista,
    desenvolve e reforça com argumentos novos as suas proprias idéas.

    Como succede a todos os homens que, súperiores ás preoccupações do seu
    tempo e movidos por um sentimento innato de rectidão, não encobrem o seu
    modo de pensar, nem sacrificam a verdade, embora tenham de censurar
    amigos ou de dar razão a adversarios, Alexandre Herculano foi, por via
    de regra, mal avaliado pelo commum dos seus concidadãos, e victima
    frequentes vezes de infundadas e contradictorias accusações. Têm,
    comtudo, os grandes engenhos e as consciencias immaculadas certa no
    futuro a justiça que os contemporaneos lhes negaram; e nós cremos que o
    leitor desapaixonado, comparando estes dois opusculos, distanciados até
    aqui por um intervallo de cerca de vinte annos e reunidos agora no
    presente volume, encontrará n'elles, como em todas as obras do auctor,
    os mais claros testemunhos da coherencia das suas idéas, da
    imparcialidade dos seus juizos, e da pureza das suas intenções.

    _Os legatarios_.

    OS VINCULOS

    1876

    I

    *Preliminares*

    O caracter mais prominente dos actos legislativos promulgados durante a
    dictadura do duque de Bragança, foi a tendencia para alterar na sua
    essencia, melhorando-a, a condição das classes laboriosas e productoras,
    aquellas em que verdadeiramente reside a força vital da sociedade.

    As leis d'essa epocha singular da nossa moderna historia tinham de
    ordinario por fim principal desmoronar os alicerces do antigo systema
    politico, e tornar impossivel a sua restauração. Era uma idéa grandiosa,
    implacavel como o destino, que presidia á redacção de todas ellas; mas,
    em quasi todas, ao pensamento da lei ou ás suas provisões ligava-se a
    idéa de um allivio ou o de um incitamento á quasi unica industria do
    paiz–a agricultura. Assim a lei dos foraes e a abolição dos dizimos,
    destruindo os recursos de certas corporações de mão-morta e de certa
    aristocracia de berço, em cuja influencia fatal se estribava
    principalmente o velho systema, livravam ao mesmo tempo a propriedade e
    o trabalho rural dos mais gravosos impostos; e a extincção das milicias,
    dos capitães-móres e das ordenanças, ao passo que desorganisava as
    resistencias locaes ás novas instituições, restituia ao lavrador e ao
    obreiro dos campos o uso integral do fructo do seu suor.

    A restauração era grandemente revolucionaria nas suas manifestações
    legislativas; mas, como todas as revoluções vivedoiras, ella
    representava uma revolução politica e ao mesmo tempo uma revolução
    social e economica.

    Em quanto Mousinho da Silveira influiu nos conselhos do duque de
    Bragança, a restauração conservou os caracteres que lhe imprimira esse
    homem singular. Os actos subsequentes da dictadura, sem deixarem de ser
    logicos com os que até ahi se haviam practicado, deixaram de ter egual
    alcance. A extincção, por exemplo, das ordens monasticas, ao mesmo tempo
    que desprezava direitos legitimos, os que os monges tinham ás suas
    dotações, e condemnava á miseria muitos individuos innocentes e
    respeitaveis, atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem
    previsão um enorme cumulo de propriedade territorial, que, alienada por
    um systema sensato e previdente, teria sido dez vezes mais util á
    prosperidade geral do que realmente foi.

    A suppressão das ordens religiosas e a extincção do papel-moeda
    constituem os dois unicos actos de verdadeira audacia revolucionaria
    practicados pelos successores de Mousinho. As chagas sociaes em que elle
    não puzera o ferro ficaram. Taes foram as complicações do direito
    emphyteutico, que tornam absurda essa excellente fórma de transmissão e
    conservação de propriedade; taes os vinculos, instituição incompativel
    com o espirito da nossa epocha e com o regimen da liberdade; taes as
    contribuições municipaes sobre o consumo; taes os pastos communs, que
    offerecem embaraços permanentes a uma revolução agricola, que as
    circumstancias tornaram indispensavel. Toda essa farragem do passado
    teria provavelmente desapparecido, se o genio de Mousinho houvesse
    dirigido por mais algum tempo os destinos de Portugal.

    O movimento mais ou menos bem regulado d'aquella grandiosa revolução
    tinha por principal incentivo a febre de uma guerra civil violenta,
    especie de duello gigante entre o passado e o futuro. Quando a lucta
    cessou, o impulso reformador foi esmorecendo, e a reacção começou, como
    era natural apoz tamanho abalo, a modificar os espiritos. Houve quem
    parasse nos limites do justo; mas outros passaram além. Movia á piedade
    a situação do clero regular; causava graves apprehensões a
    desorganisação do secular; e o systema de administração franceza, cuja
    adopção fôra um erro de Mousinho, funccionava mal. Estes lados da
    reforma eram os menos defensaveis, e tinham contra si por um lado o
    sentimento religioso offendido, e por outro o incommodo dos povos nas
    suas relações administrativas. Explorou-se a mina: buscou-se tirar
    partido a favor dos velhos abusos das confissões leaes d'aquelles que,
    addictos ás doutrinas generosas da dictadura, eram assaz sinceros para
    condemnarem os erros que se haviam commettido. Animados por essas
    confissões, os interesses illegitimos, que a revolução havia ferido
    profundamente, agítaram-se e conspiraram contra ella. No meio das luctas
    civis que sobrevieram de novo, posto que menos violentas, e das
    incertezas e perturbações publicas, devidas umas aos nossos erros e
    paixões, outras a circumstancias independentes da vontade do paiz e das
    parcialidades, as tradições do duque de Bragança esqueceram
    gradualmente. Os exemplos de tentativas para sophismar ou destruir as
    suas leis economicas não foram raros. Houve mais d'um Oza que estendesse
    a mão á arca santa, não para a amparar, mas para a derribar, sem que
    cahisse fulminado. Nada prova mais esse progresso gradual de reacção do
    que os diversos projectos de refórma do decreto de 13 de agosto de 1832,
    chamado vulgarmente lei dos foraes, e as respectivas discussões nas duas
    camaras, reacção que veiu a formular-se na lei de 22 de junho. A questão
    do restabelecimento completo ou incompleto dos dizimos chegou a
    agitar-se nas commissões do parlamento. A idéa da reorganisação das
    milicias tem passado uma e outra vez pelas cabeças de homens assaz
    influentes, e porventura ahi vive ligada á existencia dos denominados
    batalhões nacionaes, que successivamente perecem e renascem. O jury,
    combatido a principio cora vantagem, como succede a todas as
    instituições novas que por via de regra funccionam mal, accusado por
    algumas das suas decisões, que a maior parte das vezes procediam e
    procedeam de causas alheias à instituição, foi pouco a pouco
    restringido, desnaturado, e posto á mercê dos juizes chamados letrados,
    designação infelizmente inexacta em relação a muitos. Não se ponderou
    que não ha jurados sem segurança publica, e que essa segurança não
    existia; que não os ha sem juizes habeis, e que muitos d'elles o não
    eram; que não os ha sem ensino primario, amplo na extensão e
    intensidade, e que o ensino era entre nós, como ainda é, incompletissimo
    em ambas as relações. Reagiu-se, em summa, no que se pôde, desde a
    vaidade de ter em Lisboa um patriarcha e um simulacro de patriarchal,
    inutilidades dispendiosas que a dictadura annullara, até o imposto sobre
    a pesca, vexame intoleravel abolido pelo duque de Bragança em favor de
    uma classe e de uma industria, que a humanidade e as boas doutrinas
    economicas mandavam proteger com a melhor das protecções, a plena
    liberdade.

    A reacção manifestada nestes e em outros factos parece incutir já
    receios em muitos homens publicos, que reflectem. N'outros uma especie
    de instincto politico suppre a falta da intelligencia superior e da
    razão esclarecida. Sente-se que é preciso conter o movimento retrogrado.
    Em nossa opinião o remedio é simples: é voltar aos bons principios; é
    comprehender bem a indole da restauração; é applicar as suas doutrinas,
    modificando-as nas applicações pelo que a experiencia de vinte annos nos
    deve ter ensinado. A dictadura do duque de Bragança foi demasiado curta
    e tempestuosa. Fez muito; mas não podia fazer tudo. Completae a sua
    obra; favorecei o augmento e o bem estar das classes productoras; ligae
    os seus interesses á manutenção das instituições, e a reacção reduzida á
    impotencia de uma vã theoria cessará de se reproduzir nos factos.

    As questões de direito publico são graves: o respeito pelas fórmulas e
    garantias da liberdade não merecem por certo o desdem com que alguns
    escriptores, aliás sinceramente liberaes, as tem às vezes tractado,
    desdem de que bem desejamos, por nós e por elles, não tenham ainda de
    arrepender-se. Entretanto é indubitavel que o meio mais seguro de
    colligir uma força moral que as mantenha é crear interesses de tal modo
    ligados com a existencia d'ellas, que toda e qualquer reacção os ameace
    collectivamente. É necessario que esses interesses se contraponham á
    organisação social, ao modo de ser da propriedade, ao systema de
    administração e de impostos, á distribuição das classes, congenitos com
    a monarchia absoluta. Não ha evolução completa de progresso sem as duas
    condições do melhoramento material e do aperfeiçoamento social. Podem
    dar-se factos que realisem a primeira, e que todavia sejam estranhos á
    fórmula politica do paiz onde se verificam. Nenhum descobrimento
    contribuiu tanto para o augmento da civilisação como o vapor e os
    caminhos de ferro, e todavia o vapor e os caminhos de ferro tem-se
    estabelecido em maior ou menor extensão, mas com as mesmas facilidades e
    vantagens, tanto na Inglaterra e nos Estados-Unidos, como na Austria ou
    na Russia, sem que alterem ou devam alterar por em quanto a indole
    politica ou social d'esses paizes. O erro deploravel dos adeptos de
    certa escola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no
    melhoramento social e moral dos povos, e aquelle que só melhora a sua
    condição physica. Esses taes não contestam a superioridade do primeiro,
    porque isso seria demasiado imprudente; mas julgam ter cumprido com o
    que devem ás doutrinas que professam, limitando-se a applaudir quaesquer
    tentativas mais ou menos imperfeitas para se obter o ultimo. Dir-se-hia
    que para elles o homem interior em relação ao homem physico equivale a
    zero á esquerda de qualquer algarismo. E todavia não é assim. Se o povo,
    deduzindo as ultimas consequencias de certas maximas que elles ás vezes
    proclamam sem reflexão, se entregasse nas mãos do primeiro despota que
    lhe promettesse o bem estar material; se essa triste philosophia do luxo
    e dos gosos, que dominava no imperio romano sob a tyrannia dos Cesares,
    chegasse a gangrenar inteiramente as sociedades modernas, horrorisados
    da obra para que teriam contribuido, apressar-se-hiam a renegar a
    propria escola e a alistar-se n'aquella, que, sem desprezar o homem
    exterior, não esquece que ha n'elle uma coisa interior chamada a
    consciencia, que reclama a liberdade e a dignidade como condições
    impreteriveis em todo e qualquer progresso das sociedades humanas.

    É debaixo da impressão d'estas doutrinas, e convencidos da sua
    importancia, que vamos escrever. Os estudos que iremos successivamente
    publicando não são um trabalho completo; porque talvez n'elles nenhuma
    questão seja considerada sob todos os seus aspectos. São apenas
    reflexões soltas que temos lançado ao papel nas diversas epochas em que
    circumstancias especiaes nos obrigaram a volver a attenção para os
    negocios publicos: são simples apontamentos, posto que coordenados e
    ampliados agora. Podem ter erros; mas a intenção que os dictou é leal. O
    auctor nunca poz a penna a soldo de partidos ou de escolas; nunca
    mercadejou com a sua razão, nem com a sua consciencia. Á falta de outro
    merecimento, estes estudos tem o da convicção sincera.

    II

    *Processo agricola.–Propriedade rural.–Opportunidade da discussão*

    Apezar do impulso dado ao desinvolvimento agricola pelas leis da
    dictadura de 1832, as consequencias de certos factos historicos, de
    certas instituições abusivas, que por seculos haviam esmagado o paiz,
    ainda em parte se experimentam. Remover essas instituições; neutralisar
    os effeitos d'aquelles factos é completar a revolução politica pelo
    complemento da revolução economica.

    A extincção dos dizimos, das milicias, das ordenanças, das prestações
    foraleiras deram á lavoira uma extensão imprevista, e a situação do
    cultivador portuguez melhorou sensivelmente. Se por uma parte os
    methodos sempre cambiantes da percepção dos tributos, aliás viciosos na
    sua essencia, não houvessem substituido por gravames novos os gravames
    antigos, posto que em muito menor escala; se, por outra parte, a grande
    propriedade não fosse ainda demasiado preponderante; se a falta de
    proporção entre o accrescimo da cultura e o accrescimo da população não
    houvesse augmentado, pela subida do salario, o custo das producções,
    cujo valor a concorrencia nos mercados tem ido progressivamente
    diminuindo; se a falta de instituições de credito agricola e a derivação
    dos recursos pecuniarios do paiz para a agiotagem, resultado de uma
    pessima administração da fazenda publica, não houvessem tornado o
    capital esquivo á agricultura; se o quasi nenhum melhoramento das vias
    de communicação não pesasse indirectamente sobre os productos; se o
    atrazo da instrucção popular não inhabilitasse o homem do campo para
    simplificar os methodos e instrumentos de cultura; se finalmente um
    falso systema de protecção não difficultasse indirectamente ao productor
    portuguez o accesso aos mercados estrangeiros; a industria agricola
    entre nós teria chegado ou chegaria em breve a uma situação brilhante.
    Descentralisação administrativa; divisão razoavel de propriedade;
    construcção de estradas geraes e caminhos concelhios; simplicidade e
    ordem no systema tributario, tanto geral como municipal; meios de crear
    o credito rural accommodado aos habitos e necessidades do paiz; impulso
    á instrucção popular, ou antes nacional, substituindo o impulso, talvez
    excessivo, dado á instrucção litteraria e superior; mudança gradual e
    reflectida do systema protector para o systema da livre permutação, a
    que só se poderá chegar pela descentralisação administrativa; eis o que,
    em nosso intender, constituiria em geral o complemento da revolução de
    1832. Por esses meios, desinvolvidas as forças productivas da terra em
    toda a sua energia, o accrescimo da população acompanharia o accrescimo
    de trabalho; o valor d'este se harmonisaria com o das subsistencias; o
    producto liquido guardaria sempre proporcionalidade com o producto
    bruto, ou, pelo menos, seria bastante para se accumular em capital e
    converter-se em instrumento de producção; e emfim a grande industria
    nacional, livre de peias e, ainda melhor, de uma falsa protecção,
    influiria poderosamente no progresso da industria fabril e do commercio,
    cuja prosperidade é impossivel onde a agricultura definha debaixo do
    peso de instituições ou incompletas ou absurdas.

    De todas estas questões, cuja solução importa a este grande problema,
    nenhuma, se exceptuarmos a da liberdade do commercio, é tão grave,
    difficil e importante como a da divisão do sólo, isto é, da fórma e
    condições da propriedade territorial em relação á industria agricola.
    Debatendo-a, não só se discute uma das principaes materias economicas:
    discutem-se, digamos assim, as bases da sociedade civil.

    A revolução de 1832, a unica revolução séria que tem havido em Portugal,
    occorreu, entre outras coisas, ao damno e á vergonha, a que os erros dos
    nossos antepassados nos haviam conduzido, de comprarmos aos
    estrangeiros, durante uma parte do anno, a subsistencia de uma população
    pouquissimo numerosa em relação ao nosso territorio, e que uma
    insignificante industria fabril por certo não distrahia do trabalho
    agricola. Mas as grandes providencias d'essa epocha não deram nem podiam
    dar á industria e á população rural um impulso de maxima energia.
    Deram-lhes apenas o que procede da libertação da terra, da cessação de
    certas rapinas senhoriaes e fiscaes, e, consequentemente, o impulso
    indirecto que provinha da maior facilidade de produzir subsistencias,
    cuja abundancia e barateza, sempre progressivas, nos tem efficazmente
    convertido, no fim de quinze ou vinte annos, de importadores em
    exportadores. Os outros meios de augmento de população e de industria
    agricola, que eram consectarios do largo systema que a revolução
    adoptara, não se pozeram por obra desde que os dois elevados espiritos
    que tinham encetado a reforma radical do paiz desappareceram, um no
    tumulo, outro no esquecimento ingrato dos seus concidadãos.

    A redempção da terra pela destruição dos antigos vexames devia
    completar-se, de feito, por instituições e leis cujas tendencias fossem
    accordes com as da revolução. Desde que pelas providencias da dictadura
    de D. Pedro se entrava no caminho da reforma; desde que se fazia sair a
    agricultura da immobilidade e somnolencia em que jazera por seculos;
    desde que se lhe dizia «caminha!» era necessario acabar de lhe pôr
    franca a estrada, removendo todos os obstaculos á sua marcha ulterior.
    Não succedeu, porém, assim. Um dos factos mais importantes da historia
    da nossa fazenda publica prova que o systema da revolução, ou não foi
    comprehendido, ou foi promptamente abandonado por aquelles que deviam
    manter as tradições d'essa epocha.

    A lei dos foraes e, ainda mais do que ella, a extincção da maior e mais
    opulenta parte das corporações de mão morta trouxeram á massa de bens
    publicos uma porção avultadissima de propriedade rural. Calcular com
    alguma certeza os valores, os capitaes possuidos por essas corporações
    abolidas, ou rehavidos pela reversão gradual dos bens da corôa, é
    dífficillimo, senão impossivel, pelo pessimo methodo com que taes bens
    foram e tem sido incorporados na fazenda e depois alienados. Não será
    porém excessivo o algarismo de cincoenta a sessenta mil contos. Mas
    esses bens eram na sua maxima parte predios rusticos, ou censos e
    pensões sobre elles, symbolo do senhorio directo e portanto equivalentes
    de um capital. Tendo-se aberto uma nova era ao progresso da agricultura,
    os homens publicos d'então deviam pensar que não seria indifferente e
    sem influencia na economia social do paiz o destino que se désse a tão
    avultada somma de instrumentos de trabalho rural. N'um paiz de vinculos,
    de commendas, de bens de corôa, devia suppôr-se que a grande propriedade
    não estava em equilibrio com a pequena. Não era, porém, necessario
    suppol-o. Sabia-se que só na provincia do Minho preponderava a ultima, e
    que nas outras províincias predominava a primeira, sendo quasi exclusivo
    esse predominio na mais extensa de todas, o Alemtejo. Cumpria, portanto,
    comparar os resultados económicos e sociaes da grande e da pequena
    propriedade. Este exame mostraria, quanto a nós, a necessidade de
    favorecer a multiplicação dos pequenos predios, sobretudo no centro e no
    sul do reino. Não se fez, porém, isto. A massa enorme de riqueza
    territorial possuida então pelo Estado, a qual na maxima parte poderia
    ter cabido em mãos laboriosas e humildes por emprasamentos de superficie
    limitada, ou que, pelo menos, poderia ser vendida depois de retalhada,
    alienou-se por um systema absolutamente contrario. Dividida a
    propriedade tornar-se-hia accessivel a todas as condições e fortunas
    pelo emprasamento, e pela venda a milhares de pequenos peculios. Em vez
    d'isso cahiu geralmente nas mãos de homens opulentos, trocou-se por
    capitaes avultados. Em muitos casos foi o rico proprietario que
    conglobou nos seus extensos predios vastos predios nacionaes, e isto
    n'um mercado onde reinava pela abundancia a depreciação do genero, e
    onde a concorrencia era difficil. Outra parte serviu para converter
    muitos capitalistas em proprietarios. Assim se annullaram os mais
    importantes resultados que se deviam ter tirado da reivindicação parcial
    dos bens da corôa para o patrimonio publico, e da extincção das
    corporações religiosas.

    Foi a ignorancia que produziu o mal? Foi a persuasão de que a grande
    propriedade era mais util do que a pequena? Não o cremos. A verdadeira
    razão era o interesse pessoal dos homens influentes. Tinham-se inventado
    as indemnisações; tinham-se taxado os exilios, as perdas effectivas, os
    lucros cessantes, as perseguições que se haviam padecido por causa de
    opiniões. A religião do juramento, a fé nos principios, a lealdade á
    dynastia legitima deixaram de ser uma herança de honra para se legar
    como exemplo a filhos e netos, e converteram-se em capital com juro: os
    heroes transformaram-se em chatins. Foi uma abdicação moral quasi
    completa, a que a historia fará justiça. Para as indemnisações a
    alienação em grande convinha por mais de um modo. O _Ha-de-haver_ da
    conta de ganhos e perdas engrossava-se prodigiosamente ao lado do _Deve_
    em branco. Os mercadores politicos, que a escripturavam, viam-se no
    governo, no parlamento, nos conselhos, nos altos cargos administrativos,
    judiciaes, e militares. Olharam para essa mole appetitosa e immensa que
    tinham ante si, e talharam a reparação pelo valor da presa cubiçada.
    Quanto mais se accumulassem e portanto se depreciassem no mercado os
    bens nacionaes, maior porção d'elles seria necessaria para satisfazer
    indemnisações exaggeradas. Com o tempo desappareceu tudo. O que não
    serviu para se trocar a honra politica por fortuna predial,
    desbaratou-se por preços insignificantes. Os capitalistas vieram
    substituir-se aos donatarios, aos commendadores e aos frades. Depois os
    heroes e os capitalistas foram ao templo dar graças aos deuses. A
    republica estava salva.

    Então seguiram-se quinze a vinte annos de revoluções tão estrondosas
    como insignificantes. Os partidos disputaram o poder, luctaram,
    digladiaram-se: houve sangue e desventuras; houve theorias dominantes,
    vencidas depois, e vencedoras de novo; houve homens turbulentos e
    cubiçosos (os ambiciosos são raros no nosso paiz) que ora se apoderaram
    do poder, ora desappareceram na obscuridade, quando não no exilio: houve
    todas as convulsões, todas as peripecias dos tempos de politica pessoal,
    de politica de odios acerbos e de interesses individuaes feridos. Só
    faltaram novos incitamentos para o progresso legitimo. Dentro da acção
    administrativa e parlamentar, o desenvolvimento do paiz, desenvolvimento
    innegavel, posto que muito inferior ao que devera ter sido, foi apenas a
    consequencia das providencias da primeira dictadura, e de alguns poucos
    actos da revolução de 1836, em que appareceu um homem de verdadeiro
    talento e de verdadeiro patriotismo, mas que, perdoe-nos elle, quasi
    compensou o bem que fez com os males cuja semente lançou á terra,
    transportando do campo da theoria para o dos factos as idéas
    proteccionistas. Ainda eram, comtudo, idéas: ainda era um reflexo de
    1832. Depois só houve politica esteril ou reaccionaria. O progresso,
    independente das instituições, das leis e da acção administrativa, que
    se realisou n'este periodo, tem-se devido ás idéas e aos esforços
    particulares, á razão e á actividade dos cidadãos, movendo-se n'um
    ambiente de liberdade intellectual; porque é preciso confessar que
    n'esta longa epocha de pequenas paixões e de turbulencias interminaveis
    a iniciativa individual e a liberdade dos espiritos, fóra da esphera
    politica, tem sido geralmente respeitada.

    O cansaço quebrou por fim a violecia das facções e trouxe o periodo do
    repoiso. Boas ou más que fossem as doutrinas dos partidos militantes,
    ellas eram bandeira, não crença. A prova ahi está na historia dos
    ultimos quatro annos. Modificaram-se e mollificaram-se as opiniões,
    porque não tinham sido senão o estandarte dos interesses particulares, e
    porque nas phases variadas da longa lucta das parcialidades aquelles
    interesses chegaram mesmo, por acaso, a uma combinação politicamente
    possivel. Mas este facto trouxe outro mais grave: o paiz, que suspeitava
    de muitos, descreu de todos. É um mal ou um bem absoluto? O futuro o
    dirá. O que é certo é que desanimou e tornou-se indifferente aos
    partidos. Entretanto é incontestavel que vivemos n'uma quadra
    tranquilla. Que os homens influentes da situação o attribuam, não á
    indifferença do paiz, ao seu tedio de conflictos mais ou menos
    sanguinolentos e devastadores, mas sim á illustração, á justiça, á
    moralidade e ao liberalismo do poder, e á sua propria philosophia
    politica, que se remonta acima da comprehensão de nós outros homens
    vulgares, que importa? É uma rixa domestica; é uma questão entre os
    labios e a voz intima do coração. Nada temos com isso. O que nos importa
    é o facto, e o facto é que gosamos de paz e de liberdade de discussão
    ácerca de todas as materias politicas e sociaes. A quem nos deixa isto
    deve-se perdoar alguma coisa. Pode-se ter qualquer sentimento a respeito
    dos homens da situação: ter-lhes odio seria impossivel. Estão abaixo e
    além d'isso.

    E no meio da paz e da liberdade da palavra e da escripta apparecem
    tendencias, e mais do que tendencias, esforços para a realisação de
    novos progressos. O governo actual é arrastado pela opinião publica,
    como o seria qualquer outro que o substituisse, a melhorar as
    communicações internas, e no Minho ergue-se o povo para tomar n'esta
    parte a iniciativa. As questões d'instrucção popular, que passavam
    desapercebidas, excitam já a attencão e o interesse: não tardará que a
    opinião reclame a sua solução practica tão imperiosamente como reclama
    as estradas. As doutrinas da liberdade da industria e do commercio não
    só combatem face a face as preoccupações contrarias, mas até são
    chamadas á prova, e legitimam-se pelos resultados. Os espiritos começam
    a comprehender que o credito rural pode deixar de ser uma utopia, a
    associação uma vã palavra. No parlamento é atacada a instituição dos
    vinculos, e parece aproximar-se a ultima ruina d'estes. O governo,
    emíim, abriu o caminho para se chegar um dia ao verdadeiro systema
    tributario, sem o qual o triumpho completo do livre commercio e da livre
    industria é impossivel. Por ora a repartição do imposto directo,
    substituida á decima, pouco mais é do que uma troca de palavras, e Deus
    queira que não deixe de o ser antes de tempo; mas o povo vai-se afazendo
    á idéa, e é essa uma grande difficuldade vencida para o futuro.

    Estes factos são importantes, e estão, em geral, no espirito da
    revolução de 1832; mas todos elles tem uma desenvolução posterior, e
    essa desenvolução é que ha-de aproximal-os ou afastal-os do systema
    d'aquella epocha. Oppõem-se-lhes as tendencias reaccionarias, algumas
    das quaes já se manifestam nas leis e traduzem-se nos factos. Quando em
    muitos animos preponderam os desejos da restauração do passado; quando
    estes desejos começam a apparecer na legislação, é preciso estar de
    sobreaviso para que a reacção se não introduza no progresso sob o manto
    da imparcialidade. É esse o perigo das doutrinas, que nos aconselham
    afastemos os olhos das questões de ordem moral para só pensarmos no
    melhoramento material. Servirão taes doutrinas a tal ou tal situação,
    porque precisará d'ellas para se absolver a si propria; mas não servem
    ao paiz, e podem ser ainda fataes áquelles mesmos que as propugnam.
    Cumpre na desenvolução de cada reforma ligal-a pelas suas condições ao
    systema da liberdade.

    Se repetidos exemplos de corrupção fizeram descrer o paiz dos homens
    publicos, o progresso material, desligado e independente das condições
    politicas da sociedade actual, pode fazel-o descrer d'essas condições. O
    governo representativo não é commodo nem barato. É preciso que o povo
    considere as vantagens do bem estar como inseparaveis dos incommodos e
    sacrificios que as instituições exigem. O triste espectaculo, que hoje
    presenceamos, de uma grande nação privada dos seus fóros é a mais
    tremenda lição que nos offerece a historia sobre as consequencias de
    converter o porco de Epicuro em symbolo exclusivo da religião social.

    III

    *Abolição dos vinculos*

    O pró e o contra

    Entre as reformas pendentes merece attenção particular a abolição dos
    vinculos. Agita-se hoje essa questão, á roda da qual vêm accumular-se
    outras mais graves. Considerada em si, e só em relação aos seus
    resultados economicos, a extincção d'esta fórma de propriedades
    realisar-se-ha de um modo. Considerada em relação a todas as
    consequencias da medida, tanto economicas como sociaes e politicas,
    ha-de realisar-se de outro. A abolição dos morgados e capellas pode, até
    certo ponto, remediar o mal que resultou do systema inconveniente
    adoptado na distribuição e alienação dos bens nacionaes, se essa
    abolição se reputar um problema subordinado, uma hypothese que entra na
    questão geral da organisação da propriedade em relação ao bem estar
    material, moral e politico da sociedade. A esta luz a solução da questão
    geral determina forçosamente a da hypothese. Não é possivel, portanto,
    separal-as. Nas considerações que vamos fazer, considerações talvez
    incompletas, mas que cremos uteis, procuraremos quanto fôr possivel
    attingir á generalidade.

    As principaes objecções que se podem oppôr á existencia dos vinculos são
    de diversa ordem: moraes, politicas e economicas. Uma parte d'ellas
    entram na questão geral da grande e da pequena propriedade. Outras
    pertencem á ordem politica e á ordem moral.

    Oppõe-se aos vinculos que, sendo estes uma fórma de propriedade em que o
    direito de testar é tirado ao possuidor d'ella, convertido em simples
    administrador, falta a este o principal estimulo para os melhoramentos
    permanentes. Tudo pelo contrario o incita a tirar dos predios que possue
    a maxima utilidade pessoal. Salvas as hypotheses de viva affeição
    áquelle, que, não elle, mas a lei e a instituição fazem seu herdeiro, ou
    de uma decisiva paixão pela agricultura, o administrador do vinculo será
    sempre o peior entre os proprietarios ruraes, e a terra vinculada será
    constantemente um modelo de atrazamento e de incuria, um obstaculo
    permanente ao progresso agricola. A historia e o estado dos vinculos em
    Portugal demonstram _a posteriori_ a verdade e o alcance d'esta
    objecção.

    A instituição vincular é injusta excluindo os irmãos menores de egual
    quinhão na herança paterna, tornando-os dependentes, por um subsidio, do
    irmão mais velho, ao passo que não podem obstar a que este annulle os
    recursos para o pagar. Aquelle incerto meio de subsistencia é, alem
    d'isso, um incentivo de preguiça e ignorancia, uma fonte de irremediavel
    miseria para o homem a quem um berço illustre poz sem culpa sua fora do
    direito commum.

    O vinculo é a negação permanente de uma das primeiras condições da
    propriedade: n'elle os dois dominios estão incorporados n'um só, mas
    esse dominio não está _actualmente_ em parte nenhuma. Ficou, digamos
    assim, chumbado na campa de um tumulo: o tumulo retem-n'o até o fim das
    gerações. O morto desmentiu o direito dos vivos. O seu herdeiro, o homem
    que lhe succedeu na posse da terra e que elle chamou a isso por um acto
    livre e espontaneo, é pouco mais que um simples usufructuario. Mas ha
    outro que deva depois d'elle succeder com pleno direito, porque o
    affecto nascido dos laços domesticos ou do sentimento da gratidão moveu
    o instituidor a tornal-o proprietario d'essa terra apoz o
    quasi-usufructuario? Não ha. Ha só uma serie de descendentes que o
    instituidor desconhece, e, na falta d'estes, os de collateraes que não
    lhe importam. O fundador de um vinculo não fez mais do que empilhar os
    corpos de individuos tirados das diversas gerações para sobre elles
    assentar o throno da sua vaidade. Decretou-se homem grande: teve pena de
    que o futuro esquecesse personagem tão importante. Certa escola
    socialista mais moderada nega no que possue o direito de testar: os que
    estabeleceram a jurisprudencia dos morgados foram os precursores d'essa
    escola. Os antigos sacrificavam ao Deus desconhecido, _ignoto deo_; os
    instituidores de vinculos sacrificam _ignoto homini_.

    Os vinculos refogem, pela condição da inalienabilidade, aos impostos
    sobre transmissão por venda. Tornam, n'esta parte, em virtude de um
    privilegio, impossivel de se realisar ácerca d'elles a proporcionalidade
    constitucional das contribuições.

    A existencia dos vinculos, derivando de um privilegio, está
    absolutamente em antinomia com a lei política, não se provando que essa
    existencia seja de utilidade publica.

    Admittidos entre nós os vinculos em epochas, nas quaes o atrazo agricola
    tornava pouco productiva a terra, esta só podia constituir um morgado ou
    capella importante, vinculando-se uma immensa extensão de solo. No meio,
    porém, de população rara e de cultura pouco intensa e pouco frequente,
    elles não ofereciam grande obstaculo á exploração da terra. Agora,
    porém, que já o agricultor arrosta com os terrenos de segunda qualidade,
    e que a população se desenvolve e cresce, cada decada, cada anno, cada
    dia estão mostrando mais claramente o absurdo de se conservarem
    terrenos, muitas vezes de primeira ordem, incultos ou mal cultivados por
    causa de uma instituição, cuja existencia não é legitimada por nenhum
    motivo attendivel.

    A propriedade d'esta especie esta em regra condemnada á ruina e ao
    atrazamento. O predio vinculado, passando livre ao successor, é uma
    pessima hypotheca. O capital não se põe em contacto com elle senão por
    meio de exorbitantes usuras. Comprehende-se como um mau administrador de
    vinculo para satisfazer os proprios appetites ou paixões sacrifique á
    agiotagem um futuro que é seu; mas não se comprehenderia egual
    sacrificio da parte de um homem cordato, que pretendesse applicar um
    capital avultado aos melhoramentos de propriedades arruinadas pelo
    desleixo e falta de economia dos seus antecessores. Embora as
    bemfeitorias sejam encargo transmissivel, é certo que o dinheiro seria
    sempre incomparavelmente mais caro para elle do que para o proprietario
    cujos bens podem ser executados, e o dinheiro caro é para a agricultura
    do nosso paiz como se não existisse.

    Na verdade, trazida sem restricções a propriedade vinculada ao direito
    commum, o mau administrador desbarataria facilmente os proprios haveres;
    mas o bom poderia com uma parte d'esses bens, por qualquer modo
    alienados, tornar solido o resto da sua fortuna: mais; poderia tirar do
    sacrificio os meios de dar á porção salva um valor egual ou maior do que
    tinha todo o vinculo. Por certo que para isso necessitava de actividade,
    de economia e de intelligencia; mas favorecer taes dotes não seria uma
    das menores vantagens da abolição.

    Se a facil divisão do solo tem em geral uma grande importancia economica
    e social; se a tem egualmente a facil transmissão pelos contratos de
    compra e venda; os vinculos, contradizendo completamente esses dois
    factos, devem cessar de existir.

    Taes são as considerações principaes que se offerecem ou podem offerecer
    para se abolir esta forma especial de propriedade. Os seus defensores
    recorrem não raro a subterfugios e a razões insignificantes. Ha todavia
    algumas considerações que parecem favorecer os vinculos. Contrapol-as às
    allegações em contrario é mostrar que se busca sinceramente a verdade.

    O direito de propriedade é virtualmente atacado na abolição dos
    vinculos. O instituidor de qualquer d'elles estabeleceu-o em bens seus
    inteiramente livres, e sem offensa das leis de successão. Se elle tinha
    o direito de testar esses bens, tinha tambem o direito de regular o modo
    de succeder, de limitar e impôr condições á fruição do que era seu.

    Nas monarchias representativas considera-se a existencia das
    aristocracias como um facto social legitimo. Pelas instituições esse
    facto é convertido em principio politico manifestado no pariato: ou,
    antes, o facto indestructivel da desegualdade social é circumscripto por
    aquellas instituições dentro da orbita politica, ficando ao mesmo tempo
    excluido das relações civis legaes. Desde que, porém, a aristocracia,
    representante da desegualdade, é considerada como elemento politico,
    torna-se necessario garantil-a. Os vinculos, destinados a manter e
    perpetuar as familias aristocraticas, estão portanto essencialmente
    ligados á existencia da monarchia representativa.

    A divisão indefinita do solo tem os inconvenientes que a França, onde as
    instituições de direito publico e de direito civil a favorecem
    excessivamente, já experimenta em larga escala. A idéa de allodialidade
    absoluta da terra, e de favor para a subdivisão contínua da propriedade,
    prevalecendo entre nós no commum dos espiritos, e manifestando-se já nas
    tendencias de certas leis, ha-de emfim vir a produzir os mesmos males
    que produz em França e em outros paizes, e contra os quaes varios
    estados de Allemanha tratam de prevenir-se por via de leis positivas e
    terminantes. A existencia dos morgados estabelece uma compensação a
    similhantes tendencias, e equilibra a grande e a pequena propriedade.

    Suppondo, porém, que em geral a grande propriedade prepondere hoje;
    suppondo ainda que a parte allodial d'ella se não transforme pelo
    decurso do tempo, e que resista ás tendencias e leis que favorecem a
    divisão do solo; nem ainda assim os vinculos devem ser abolidos por
    manterem a grande propriedade. Esta não pode ser considerada como um
    inconveniente, visto parecer demonstrado que a grande cultura produz
    mais barato, que dá em resultado maior producto liquido, e que não ha
    grande cultura sem vasta propriedade. Deduzir da situação accidental dos
    vinculos, situação que ainda se não examinou se podia ser melhorada,
    argumentos contra a essencia de uma instituição, que pode contribuir
    para a creação de importantes valores, parece pessima logica e ainda
    peior economia politica.

    Na hypothese, porém, de que a propriedade perfeitamente livre tenda sem
    remedio a subdividir-se indefinidamente, opinião que tem por si os
    factos e as previsões de distinctos economistas, abolidos os vinculos,
    que é o que fica para satisfazer á necessidade economica da existencia
    de grandes predios ruraes?

    A centralisação é o grande defeito dos governos representativos:
    centralisação da soberania; centralisação da administração pelo
    executivo; centralisação da justiça; centralisação da força publica. Mas
    todos os poderes centraes tendem a destruir a independencia ou a acção
    uns dos outros e a elevar-se acima d'elles. Não raro acontece isto, e a
    experiencia ensina-nos que por via de regra é o executivo quem triumpha,
    sobre tudo pelos meios de corrupção, triumpho tanto mais perigoso,
    quanto é certo que se mantem de ordinario as apparencias
    constitucionaes, e que esse absolutismo é mais facil de sentir do que de
    demonstrar quando acata certas formulas tornadas estereis. A força dos
    agentes administrativos é, n'esta hypothese, immensa; porque se
    multiplica de um modo incalculavel a energia da centralisação já d'antes
    exaggerada. Abolindo-se os morgados e capellas, e destruindo-se por esse
    modo a grande propriedade e as influencias dos nomes historicos, não se
    faz mais do que remover obstaculos ás demasias dos delegados do poder
    central. O _cavalheiro de provincia_, essa entidade com recursos
    materiaes e moraes para contrastar a autocracia do funccionalismo,
    cessará de existir. Retalhados os predios allodiaes pelas heranças, os
    morgados seriam o ultimo e unico refugio da resistencia legal ao
    despotismo da centralisação administrativa.

    Ainda outros argumentos a favor da manutenção dos vinculos se costumam
    deduzir de certa ordem de considerações moraes. Tal é a difficuldade de
    os abolir sem offender direitos adquiridos ou as regras da equidade. Mas
    tambem os adversarios dos vinculos vão buscar nessa mesma ordem de idéas
    considerações que se oppõem á sua conservação. Subsequentemente teremos
    de avaliar alguns d'esses encontrados argumentos quando a successão das
    idéas nol-os suggerir. Aqui só quizemos indicar as ponderações mais
    graves que mutuamente se contrapõem sobre um problema, de cuja solução
    pendem muitos interesses, não só geraes mas tambem particulares, e em
    que por isso as exaggerações e argucias são frequentes e é difficil a
    imparcialidade.

    Basta porém attender ás considerações principaes para se conhecer que a
    sua confirmação ou refutação dependem do modo de resolver os mais serios
    problemas sociaes, taes como a indole e fins das aristocracias nas
    sociedades modernas, a organisação do poder central, e o equilibrio
    politico pela descentralisação administrativa, as vantagens e os
    inconvenientes da grande e da pequena propriedade, da grande e da
    pequena cultura, as leis que determinam o augmento da riqueza publica,
    tudo, emfim, quanto mais intimamente se liga com o progresso material e
    moral do paiz. Importa ter idéas claras ácerca d'esses graves assumptos
    para dar um voto sobre a questão dos morgados. Sem isto os instinctos ou
    os interesses de classe, de partido ou de individuos influirão
    exclusivamente na abolição ou não abolição, e, supposta a primeira
    hypothese, nas disposições da lei por que forem abolidos.

    IV

    *O principio vincular considerado na sua legitimidade*

    A primeira consideração que parece favorecer a conservação dos vinculos
    é de ordem juridica; liga-se com a maxima questão social–o direito de
    propriedade. O commum dos morgados em Portugal foram instituidos em
    terças, de que os instituidores podiam livremente dispor; e quando, com
    licença do rei, então arbitro supremo, abrangiam os bens de legitima,
    resalvavam-se os alimentos, a que se entendia terem jus os filhos por
    direito natural, que ao rei não era licito infringir. Os instituidos,
    com permissão regia, em bens de corôa, em commendas, etc., ou fundados
    por individuos sem herdeiros forçados, é evidente que não offendiam
    direito algum particular, e que o instituidor não fazia senão practicar
    um acto legitimo, dando esse futuro destino a bens que podia livremente
    testar, ou de que a auctoridade suprema lhe consentia dispor para esse
    fim como de cousa propria. Assim a abolição, destruindo a fórma e
    condições impostas na transmissão da propriedade pelo proprietario,
    negaria retroactivamente o uso de um direito legitimo. A lei pode
    prohibir as novas instituições vinculares; mas não pode converter o
    administrador em proprietario, nem regular a successão dos bens de
    vinculo pelo direito commum.

    Na verdade os instituidores de morgados tinham o direito de transmittir
    a propriedade de que livremente podiam dispor com as condições que
    entendessem; mas as consequencias que d'ahi se deduzem estão longe de
    serem incontestaveis. Se admittis a doutrina que apenas estriba o
    direito de propriedade nas leis positivas, é evidente que ellas podem
    modificar, restringir e até annullar esse direito. Se, com mais razão,
    considerais a propriedade como de direito natural, ainda assim as
    difficuldades subsistem. As opiniões variam ácerca da extensão d'esse
    direito. Ha quem negue que a successão testamentaria e _ab intestato_ se
    inclua n'elle; não seja de pura instituição civil: ou, por outra, que o
    direito de propriedade possa subsistir além do tumulo. O acto, porém, de
    instituir um vinculo não é mais do que levar o exercicio d'esse direito
    não só além da morte, mas tambem á perpetuidade. Supponhamos, todavia,
    que a successão esteja envolvida no direito natural da familia. Não se
    comprehende melhor como a successão vincular se haja de fundar em tal
    direito. Que é o que transmittiu o instituidor? Apenas uma parte do
    dominio. Nenhum dos seus herdeiros tem o dominio absoluto dos bens do
    vinculo: o que tem é, digamos assim, apenas meia propriedade. Resulta
    d'aqui um facto. Pela nossa jurisprudencia os morgados extinguem-se: e
    esta extincção dimana da sua natureza. Quando ao ultimo administrador
    não restam parentes consanguineos, que tambem por consanguinidade o
    sejam do instituidor, o morgado acabou. Os bens vinculados devolvem-se
    então á corôa, á fazenda publica, á sociedade. Por mais intimos que
    sejam os laços de familia que unam o derradeiro possuidor com outros
    individuos, esses individuos são excluidos. Comtudo a legitimidade da
    successão nos vinculos, como em outra qualquer propriedade, estriba-se
    forçosamente ou na lei civil revogavel, ou no direito natural da
    familia. N'esta ultima hypothese o vinculo repugna ao principio da sua
    propria validade. Porque veiu a succeder o Estado? O dominio residia
    n'elle? Dir-se-hia que sim. A idéa de semi-propriedade é uma idéa de
    restricção, limitativa: cumpre por isso que exista a cousa restringida,
    limitada. Concebe-se, por exemplo, perfeitamente o usofructo nos bens
    não vinculados: após o usofructuario ha sempre um herdeiro definitivo.
    Nos morgados não acontece assim. Existe á limitação sem a cousa
    limitada, se não suppozermos o Estado revestido d'aquelle dominio que
    não existe no possuidor. Em relação, pois, ao direito natural da
    propriedade a existencia dos vinculos é uma cousa incoherente,
    contradictoria, inexplicavel.

    Mas ha uma consideração ainda mais grave a oppor áquelles que invocam os
    fundamentos do direito em favor d'essa instituição. É que, para
    subsistir, ella carece absolutamente das leis de privilegio. A sociedade
    deve proteger o livre uso da propriedade e as disposições testamentarias
    em quanto ellas se conformam com o direito commum. Lei de excepção para
    taes ou taes hypotheses é que não deve nem pode admittir senão por um
    motivo que virtualmente o faça entrar na regra geral–a utilidade
    publica; e a utilidade publica só pode qualificar-se por uma declaração
    legal, por uma disposição de direito positivo. Declarada não util a
    existencia dos vinculos, o direito politico faz desapparecer
    necessariamente desde logo as leis que mantêm os vinculos. Revogadas
    estas, como se não pode conceber propriedade sem proprietario, ou o
    dominio completo dos bens de morgado será considerado como _nullius_ e
    recahirá no Estado, ou esse dominio se incorporará no meio dominio,
    convertendo-se o administrador em proprietario. Seria, com effeito,
    absurdo que qualquer individuo tivesse o direito de regular a applicação
    e uso dos proprios bens _post mortem_ por tal arte que não se houvesse
    de realisar a sua vontade sem certas disposições especiaes de direito
    positivo, e que a sociedade fosse constrangida a promulgar ou a manter
    semelhantes disposições. A soberania de tal homem excederia a da razão
    publica, unica de legitimidade indubitavel.

    A abolição, pois, dos vinculos, ou, para falarmos mais exactamente, a
    revogação das leis positivas que os protegem, e sem as quaes a sua
    existencia não se comprehende, respeita o direito de propriedade. A
    questão pode versar sobre a conveniencia ou não conveniencia do
    principio vincular, e sobre a maneira da abolição ou da conservação, mas
    nunca sobre o direito que o paiz tem de retirar o seu apoio a esta
    antiga instituição.

    Tirada, porém, a base de um direito primitivo e indestructivel, os
    defensores dos morgados appellam para o direito politico. A monarchia
    representativa consagra o principio da desegualdade social, fazendo-a
    representar pela aristocracia de berço, cuja conservação forçada deriva
    da indole do pariato hereditario. Exigindo-se para este, além de outras
    habilitações, uma renda avultada, importa que as instituições e as leis
    mantenham a perpetuidade d'essa renda, em harmonia com as que consagram
    a perpetuidade das funcções. A permanencia dos vinculos assegura esse
    resultado, ao passo que a sua abolição importa a não existencia do
    pariato hereditario.

    A lei politica estabelece o pariato hereditario e o vitalicio; mas nem
    determina a proporção de um ou de outro, nem, rigorosamente, exige a
    existencia simultanea de ambos. Não a exige, porque seria absurda essa
    exigencia. Sem as leis organicas e com a Carta na mão, o rei poderia
    substituir o par fallecido sem herdeiro que o representasse por um par
    vitalicio. Esta hypothese verificada em vinte ou trinta casos teria
    acabado com o pariato hereditario. Vice-versa o rei poderia deixar de
    supprir os logares vagos por morte dos pares vitalicios, ou tornal-os
    hereditarios e acabar assim com a não hereditariedade.

    A lei de 11 de abril de 1845, exigindo, além de outras habilitações, uma
    certa renda ao individuo que succede no pariato, levou em mira a
    manutenção da dignidade e independencia dos membros da camara alta. Ora
    essas condições não podem verificar-se com uma renda imaginaria: é
    preciso que esta seja real e effectiva. Mas são justamente os vinculos
    que menos asseguram a realidade e effectividade de semelhante renda, e
    que ao mesmo tempo offerecem mais meios para ser sophismada a letra e
    desmentido o espirito da lei. O mau administrador de morgado (e a regra
    é ser mau administrador do fundo quem não passa de pouco mais de
    usufructuario) pode reduzir-se a si proprio á miseria dentro de um ou
    dous annos, e perder a independencia e a dignidade que a lei requer
    n'elle: pode, até, transmittir ao seu successor a propria miseria,
    porque são vulgarmente sabidos os alvitres de que usa o capital, ou, se
    quizerem, a agiotagem, para illudir o principio da immunidade vincular.
    Na apparencia, porém, a renda exigida pela lei continua a subsistir: o
    fundo não desapparece: o administrador actual lá possue nominalmente
    _uma casa_ de quatro, seis ou oito contos de réis. Na verdade hoje não
    tem que almoçar, ámanhã não terá que jantar; ao seu successor acontecerá
    o mesmo; mas que importa? A letra da lei está salva: o que se annullou
    completamente foi o seu intuito, o seu espirito, a razão que a
    sanctificava. Se os bens do par fossem sujeitos á lei commum, este facto
    servir-lhe-hia de poderoso incentivo para ser um cidadão economico,
    activo e bem morigerado; porque a manutenção da dignidade de par, em si
    e n'aquelle que houvesse de succeder-lhe, dependeria d'essas virtudes,
    virtudes que aliás não deixariam de influir nas suas opiniões e no seu
    procedimento politico, e de reverterem em beneficio da republica.

    Mas admittamos por um momento que o pariato hereditario seja inseparavel
    da existencia dos vinculos. Não se segue d'ahi a necessidade de os
    conservar. É facil reformar o artigo constitucional que consagra
    simultaneamente a hereditariedade e o vitalicio no pariato, reduzindo-o
    a esta ultima fórmula. Se a abolição dos vinculos involve um grande
    interesse social, a solução mais razoavel será a suppressão da
    hereditariedade do pariato, suppressão que em nosso modo de ver
    representaria um verdadeiro progresso na organisação politica, acabando
    com uma idéa falsa.

    Esta idéa, na qual se estriba o pariato por successão, é a de que a
    aristocracia, elemento politico, é forçadamente o mesmo que a
    aristocracia de linhagem: ou, por outra, que o facto indestructivel da
    desegualdade humana se ha de manifestar eterna e quasi exclusivamente na
    fórmula dos tempos feudaes.

    É uma opinião que vale a pena de se examinar.

    V

    *Desegualdade e personalidade*

    A desegualdade natural entre os homens tem sido negada de um modo
    absoluto nos tempos modernos: tem-se empregado todas as subtilezas da
    philosophia do direito para demonstrar a possibilidade de destruir um
    facto indestructivel. Tudo nasce, em nosso entender, de se confundirem
    as idéas de diversa ordem.

    A egualdade civil não é só possivel, é necessaria. Deriva do direito
    natural que cada um tem de desenvolver a sua actividade até onde não
    impede a desenvolução da actividade alheia. Esse direito suppõe deveres
    correlativos. A sociedade existe para manter aquelle e estes. É por isso
    que o estado social é inseparavel da humanidade, e que o homem da
    natureza, sonhado por alguns philosophos do seculo passado como anterior
    á sociedade, não passa de uma chimera. Um simples exemplo fará sentir
    melhor esta incontestavel doutrina do que longas dissertações. O que,
    trabalhando, deu valor a um tracto de terra desoccupado e inculto e o
    fez fructificar, desenvolveu legitimamente a propria actividade. Se
    outrem quizer colher os fructos ou substituir-se ao primeiro occupador
    do campo agricultado exorbitará da esphera legitima da propria
    actividade, e deixará de cumprir o dever de respeitar a livre acção
    alheia. N'este exemplo se resumem e symbolisam as infinitas relações
    civis que a sociedade mantém e que correspondem ás idéas de egualdade.
    As instituições que asseguram o livre movimento do individuo dentro da
    esphera da propria acção, sejam quaes forem, são instituições de
    liberdade, porque mantém a egualdade civil.

    Mas a egualdade civil importa a desegualdade social. Outro exemplo
    tornará tambem evidente esta doutrina. Se em campina illimitada e
    fertil, mas sem dono e inculta, dous individuos occuparam dous tractos
    de terra diversos, e um d'elles dotado de maiores forças physicas, de
    melhores instrumentos, de maior energia e actividade, assignalou mais
    extensa área aos proprios esforços e accumulou maior somma de trabalho
    intelligente, e por consequencia maior somma de productos, nem por isso
    o menos forte e menos habil pode queixar-se de que elle penetrou na sua
    esphera de legitima actividade. Se pretendesse que a sociedade
    repartisse com elle uma parte dos valores creados pelo seu vizinho,
    pretenderia uma injustiça–a quebra da egualdade civil. Por outro lado,
    se o mais robusto e intelligente, pretextando a incapacidade relativa,
    physica e moral, do menos energico e menos habil, pretendesse
    apoderar-se da terra e dos instrumentos do pequeno cultivador, a
    sociedade seria injusta se lhe désse razão; se tolerasse que elle
    estendesse a esphera da propria actividade até penetrar na esphera da
    acção alheia: toleraria a quebra da egualdade civil, se não mantivesse
    cada qual na orbita que lhe fôra assignalada pelo supremo direito da
    natureza.

    Se a manutenção, porém, do livre exercicio da actividade dos vizinhos
    era n'este caso equivalente á manutenção da egualdade e da justiça, as
    consequencias que derivassem d'esse facto, e só d'elle, seriam tambem
    incontroversamente legitimas. Ora uma d'ellas, a mais importante, havia
    de ser forçosamente a desegualdade social; a desegualdade d'aquellas
    relações cujas normas se estabelecem, em parte, pelas regras a que
    chamamos direito publico, direito que a razão e a historia nos
    apresentam como mais cambiante, menos conforme no espaço, e menos
    permanente no tempo, do que as regras das relações civis. A desegualdade
    social dos dois vizinhos manifestar-se-ia em muitos factos
    impreteriveis. O que por excesso de energia e de trabalho tivesse obtido
    melhores, mais numerosos, e mais variados productos, gosaria mais, e
    necessariamente, pela intelligencia e pelos recursos materiaes,
    exerceria maior influxo no animo dos outros homens. A sua generosidade
    fora mais ampla, a sua hospitalidade mais opulenta, o seu tracto mais
    aprazivel, a sua opinião mais seguida: isto é, elle seria socialmente um
    algarismo em relação ao qual o seu vizinho representaria outro bem
    inferior. E todavia a desegualdade nascida da egualdade não offenderia o
    direito, não seria senão justiça.

    O arroteador do grande predio é o symbolo da aristocracia: como emanação
    do direito fundamental que virtualmente a gera é que esta se absolve e
    legitíma. Mas d'ahi nasce o corollario de que ella é essencialmente
    individual, personalissima. A desegualdade não é de gerações, de
    linhagens predestinadas: é de individuos. Por isso as suas manifestações
    collectivas, para serem naturaes e logicas, devem ter ao mesmo tempo o
    sello da individualidade. A aristocracia, como entidade real, é uma
    concreção necessaria, mas artificial; é a generalisação da idéa das
    desegualdades individuaes; é a incorporação das maximas forças sociaes;
    é o reconhecimento e a organisação de um facto impreterivel.

    Na verdade, superioridade social herdada e derivando do direito natural
    da familia pode em alguns casos ser legitima; mas é accidental, e vem
    entrar em ultima analyse na regra da superioridade individual. Se o pae,
    que era um membro da aristocracia pela sua riqueza, a legar ao filho,
    este o será como seu pae, independentemente de todas as instituições
    positivas, do mesmo modo que deixará de o ser na realidade desde o dia
    em que perder essa herança, sejam quaes forem as leis que pretendam
    manter-lhe um caracter social que lhe desappareceu da fronte.

    A fórma por que adquiriu os valores, que o convertem em uma força de
    excepção, nada importa, uma vez que seja legitima. É indifferente que
    lh'os désse o trabalho, a intelligencia ou o berço. O importante, o
    indispensavel é que elle actualmente os possua: que exista um facto que
    a força bruta pode destruir, mas que a razão publica não pode deixar de
    reconhecer.

    O influxo moral de um nome illustre, herdado de antepassados, é tambem
    uma força social. Esse influxo constitue a nobreza, a qual, não sendo em
    rigor um facto indestructivel, é todavia uma realidade. A democracia,
    quando o condemna ou o nega, engana-se. O valor da _aristocracia de
    sangue_ assenta n'uma ordem de idéas extranha ao direito; procede do
    sentimento, digamos assim, poetico das sociedades, porque todas as
    sociedades tem a sua poesia. A esta luz nada mais legitimo do que a
    fidalguia; porque o senso esthetico é uma condição natural das
    sociedades civilisadas, e o orgulho pelas tradições gloriosas do passado
    constitue uma parte da sua vida moral. A nobreza de linhagem é um
    monumento do passado. Os que pretendem expungil-a da lista das
    manifestações da vida social devem por maioria de razão mandar destruir
    os tumulos dos heroes e dos sabios, e dispersar-lhes as cinzas ao vento,
    quebrar-lhes os bustos e as estatuas, arrazar os templos, os obeliscos,
    os monumentos, sejam quaes forem, que ligam as glorias do passado ao
    presente pelas recordações. Aquelle que affirma ser coisa absolutamente
    van a herança de um grande nome, não chame vandalo ao que derriba a
    quadrella da muralha ou a torre do castello antigo para calçar as ruas.
    Este não faz mais do que elle: nega a significação dos monumentos; nega
    tudo aquillo que só a poesia nacional sanctifica. N'este systema a unica
    maneira de ser rigorosamente logico é ir até aonde foi a revolução
    franceza de 1793. É necessario que ao lado das pedras, que desabam,
    rolem pelo chão as cabeças.

    O facto social, em que se estriba a aristocracia de linhagem, está,
    porém, ligado a uma condição que forçadamente dá a esta o mesmo caracter
    de personalidade, que é indelevel nas outras especies de aristocracia.
    Essa condição deriva do principio de que o poetico é inseparavel do
    moral, o bello do bom. Ora o que se eleva acima dos outros, porque
    herdou um nome venerado pela opinião, está adstricto a respeitar a
    moralidade dos seus actos para não perder essa _força_ herdada, que não
    póde existir sem a sua condição philosophica. Esta doutrina é confirmada
    plenamente pela observação practica. Os netos degenerados dos homens
    grandes, se os depojardes de todas as distincções facticias que servem
    de encobrir o vicio e a incapacidade, invocarão debalde o nome de seus
    avós como uma _desegualdade_, uma _força_, que os eleva _socialmente_
    acima d'aquelles que _civilmente_ são seus iguaes. O sentimento moral,
    que exteriormente se traduzia em consideração e respeito, desappareceu
    ao passo que a lei esthetica se annullou. Assim a nobreza hereditaria,
    dependendo inteiramente da acção do individuo, entra na lei geral da
    aristocracia–a personalidade.

    O erro dos escriptores democraticos, que entendem ser possivel a
    destruição _effectiva_ de uma classe aristocratica, procede de
    confundirem a fidalguia hereditaria com a do corpo aristocratico; de
    tomarem a especie pelo genero. É possivel que a especie chegue a
    desapparecer temporariamente, ou por degeneração moral dos individuos
    que representam as velhas linhagens, ou pela extincção d'estas; mas o
    tempo sanctificará as novas illustrações que se alevantam, e em quanto
    as nações tiverem o sentimento do bom e do bello, isto é, em quanto
    tiverem uma condição sem a qual não podem existir, a progenie d'esses
    homens summos herdará a força moral de seus nomes, e só a perderá
    destruindo-a pela _villania_ pessoal.

    Mas extincta ou existente, brilhante ou obumbrada, a fidalguia não é uma
    formula essencial da aristocracia. Para ser revalidado o protesto da
    desegualdade social em todas as gerações, não é necessaria a assignatura
    das castas; não é preciso que esse protesto seja firmado com sellos
    blasonados. O genero fica, embora a especie desappareça.

    Reflectiram bem os que dizem que as sociedades caminham á completa
    egualdade democratica, porque se facilita o caminho das mais elevadas
    situações, das mais poderosas influencias, a todas as vontades
    energicas, a todos os talentos fecundos, e porque, do fastigio das
    grandezas e do poderio, familias e individuos caem facilmente na
    obscuridade e na impotencia social? Esta observação, que muitos julgam
    profunda, não passa de uma trivialidade sem alcance. A questão é se esse
    fastigio, esse poderio, essas influencias, essas manifestações, em
    summa, da desegualdade humana desappareceram; se podem desapparecer ou
    se ha sempre, ou não ha, sujeitos em quem ellas se personalisem; se,
    collocados em situação identica e tendo interesses communs, elles
    constituem ou não uma entidade moral juxtaposta ou sobreposta á
    democracia. Eis a questão. Que importa se a preeminencia do individuo se
    explica por um testamento, por um berço, pelo genio, pelo trabalho, ou
    por um acaso feliz? Seja qual for a origem d'essa preeminencia, d'essa
    força, a sociedade pode negal-a, combatel-a, annullal-a temporariamente;
    o que não pode é impedir a sua reproducção. A desegualdade é a lei: a
    aristocracia a sua manifestação indestructivel.

    No mosaismo e no brahmismo o sacerdocio foi e é a herança de tribus ou
    de castas privilegiadas; no christianismo, porém, o sacerdocio acceitou
    sempre homens de todas as condições e hierarchias. Desde a dignidade do
    metropolita até ás humildes funcções do ostiario, que situação houve ou
    ha na igreja, a que igualmente não houvessem ou não hajam de ser
    chamados o nobre, o burguez, o filho da plebe? E todavia o clero foi por
    seculos a mais poderosa aristocracia conhecida. As tradições de
    influencia e predominio do corpo ecclesiastico perderam-se, alteraram-se
    acaso, porque não era a hereditariedade do berço que as mantinha? Não
    era e não é o corpo do clero a negação da familia, e por consequencia da
    hereditariedade? Houve nunca, especialmente durante a idade media, uma
    classe social mais compacta, mais distincta das outras, com interesses
    mais exclusivos, com uma acção collectiva mais irresistivel e incessante
    na vida das nações? O clero que combatia nos campos, nas conspirações, e
    nos parlamentos contra o poder central; que não raro o fazia ceder, e
    que o esmagava algumas vezes, valia bem mais do que essa fidalguia
    hereditaria dos ultimos seculos, que vivia das migalhas distribuidas
    pela côroa, e que, sem iniciativa nem vigor, comprava com genuflexões
    nos paços do rei a altanaria que ostentava nas ruas e praças do povo.

    Parece-nos evidente que a aristocracia, ao passo que é indestructivel
    como elemento social, é no concreto e em relação aos individuos
    essencialmente pessoal e por consequencia movel. Assim, na sua
    manifestação politica, não pode perder esse caracter que lhe é
    essencial.

    Pouco tardará a epocha em que a razão triumphe das preoccupações, a
    realidade de hoje das tradições de uma sociedade que deixou de existir.
    O pariato deve tornar-se em breve simplesmente vitalicio e talvez
    amissivel. Dado e não concedido que a existencia dos vinculos fosse uma
    condição impreterivel do pariato hereditario, a abolição d'elles não
    faria senão apressar n'esta parte convenientemente a reforma das
    instituições politicas.

    VI

    *Os vinculos garantia de liberdade*

    Demonstrado, como parece, que nem na abrogação do direito vincular se
    offende principio algum de justiça absoluta, nem a manifestação politica
    das desegualdades sociaes está ligada á existencia dos vinculos, antes
    de entrar nas difficeis questões economicas que este debate suscita,
    passemos a examinar o que ha mais grave nas objecções politicas que se
    offerecem contra a abolição d'esta fórma especial de propriedade. As
    considerações sobre as resistencias, que uma aristocracia territorial
    permanente e hereditaria pode oppôr ás demasias de um poder central
    excessivamente forte, parecem-nos fundadas, e nunca se poderão
    desprezar, em quanto o nosso systema administrativo fôr, como é, uma
    copia, mais ou menos mal delineada, do systema administrativo da França.
    Na verdade hoje a unica resistencia séria, que os abusos do executivo e
    dos seus delegados podem encontrar em certas provincias, é a d'essa
    especie de aristocracia rural, que vulgarmente se designa pelo nome de
    _cavalheiros_. A illustração e a riqueza, não excessiva mas solida,
    consistindo geralmente em bens territoriaes, pertencem principalmente a
    esta classe nos districtos do norte do reino, onde predomina quasi
    exclusivamente a pequena propriedade. Sem a fundação de municipios assaz
    vastos e poderosos, mas organisados de modo que a vastidão do territorio
    não faça com que a administração se difficulte aos administrados; sem as
    magistraturas municipaes recuperarem a força primitiva que
    successivamente perderam; sem um novo methodo de renovação d'essas
    magistraturas, que mantenha na administração dos concelhos a sequencia e
    unidade de systema e de idéas; sem se lhes restituirem as funcções que
    lhes são proprias e que a centralisação lhes traz alheadas; sem, em
    summa, restaurar a vida municipal, de que resta apenas um vão simulacro;
    o correctivo contra os abusos do poder central só pode consistir nas
    resistencias legaes e pacificas dos individuos que, pelo respeito
    tradicional do povo ao nome da sua familia, pelos recursos materiaes de
    que dispõem, pela maior cultura intellectual, pelos instinctos generosos
    que lhes inspira uma educação mais elevada, constituem um elemento
    poderoso de equilibrio. Quem tem residido nas provincias do norte ou por
    ellas viajado sabe que naquella classe é que principalmente se dão essas
    condições de superioridade individual, que suppre até certo ponto nas
    relações politicas a falta ou o incompleto das instituições locaes.

    É preciso notar aqui um facto, que ao diante havemos de ponderar mais
    detidamente. Os vinculos nas provincias do norte não tem em geral os
    mesmos caracteres que nas provincias do sul: aproximam-se mais, nas suas
    condições economicas, dos bens emphyteuticos, e não é raro achar
    individuos que se denominam morgados e que não passam de possuidores de
    prazos. Tão facil é neste ponto a confusão das cousas pelos accidentes
    externos. Em geral, o vinculo dos districtos do norte ou é instituido em
    uma ou mais propriedades de mediocre grandeza, ou em propriedades e em
    direitos dominicaes. Mas o que em todo o caso se pode affirmar é que as
    grandes fortunas vinculares são raras. Os poucos inconvenientes
    economicos dos vinculos mediocres havemos de avalial-os n'outra parte.
    Para o intuito presente o que importa é attender ás consequencias
    politicas da sua abolição. Ou mediocres em si, ou compostos de diversas
    e pouco vastas propriedades, e de censos e pensões senhoriaes, entrando
    esses vinculos no direito commum, as leis da successão e os accidentes
    da vida, que accumulam ou dissolvem mais rapidamente as pequenas do que
    as grandes fortunas, fariam desapparecer em breve a aristocracia
    provincial, e por conseguinte um poderoso elemento de resistencia ás
    demasias da auctoridade central, e uma importante garantia de liberdade.

    Mas, dir-se-ha, assim como a desvinculação, o livre movimento da
    propriedade, produziria a dissolução das fortunas e das familias
    patricias, tambem esse movimento elevaria, como já eleva, outras
    familias, crearia, como já cria, outras fortunas, e uma especie de
    aristocracia movel e pessoal substituiria a hereditaria como elemento de
    resistencia e equilibrio. Em these a resposta é concludente: o que não
    tem é applicação á hypothese.

    'Nesta, o argumento a favor dos vinculos estriba-se em factos
    transitorios e especiaes, factos que só o tempo e os progressos sempre
    lentos da civilisação moral e material podem destruir. De certo os
    vinculos não são de um modo absoluto obstaculo ás demasias do poder
    nesta especie de organisação plethorica, de apoplexia administrativa
    eminente em que vivemos. São-no relativamente. A restauração da vida
    municipal, a descentralisação bem caracterisada; seria o remedio natural
    e completo contra os excessos do executivo. Com elle, não só a
    aristocracia permanente e hereditaria, mas tambem a individual e movel
    seriam inuteis como obstaculos ou instrumentos de equilibrio. Mas
    tracta-se do presente, e no presente as condições da nossa sociedade dão
    todo o valor ás considerações politicas em que os defensores dos
    vinculos estribam a manutenção delles.

    A riqueza maior ou menor não basta para que o cidadão saiba, queira e
    possa defender o seu direito ou erguer a voz a favor do opprimido. É
    necessario que a educação o habituasse a uma nobre altivez ou á
    independencia moderada mas firme do homem livre, e que a cultura do
    intendimento o habilitasse para discernir e apreciar os proprios
    direitos e deveres, e os direitos e deveres dos agentes do poder. Ora
    esses dotes, nos districtos da Beira, Traz-os-Montes e Minho, dão-se
    principalmente entre os cavalheiros, que, alem das idéas que lhes
    inculcam na educação domestica, frequentam de ordinario os estudos
    juridicos, e que, ainda abandonando a cultura das letras, não perdem
    nunca, digamos assim, o verniz litterario e as idéas geraes que
    adquiriram na universidade; porque a universidade, com todos os seus
    defeitos, ainda é o foco d'onde irradia a luz da civilisação
    intellectual para a maxima porção do paiz. Os advogados, os
    facultativos, um certo numero de ecclesiasticos, e os administradores de
    vinculos, constituem quasi exclusivamente a classe illustrada das
    provincias sertanejas. Na verdade, o filho de um ou de outro lavrador
    mais abastado, de um ou de outro industrial ou commerciante, recebe a
    educação universitaria, e despido de ambições honra-se de seguir a
    condição paterna; mas o geral d'estes busca na carreira das letras uma
    situação mais elevada ou pelo fôro ou pela medicina ou pelas funcções
    publicas. Os possuidores de direitos territoriaes ou de predios assaz
    consideraveis para não serem obrigados a cultival-os pelas suas proprias
    mãos, e para não procurarem um supprimento de renda pelo exercicio de
    uma profissão scientifica, são quasi unicamente os administradores dos
    vinculos. 'Nelles reside, por tanto, e residirá por muito tempo a
    principal força de resistencia, a quasi unica barreira que encontra uma
    centralisação excessiva.

    Nos districtos sertanejos, nesses tractos do paiz onde vive a maxima
    parte da sua população, só muito excepcionalmente apparecem os grandes
    capitaes monetarios, as grandes industrias, o grande commercio, e, como
    já dissemos, nos do norte até é rara a vasta propriedade. Não ha, por
    consequencia, ahi as poderosas influencias pessoaes que resultam de
    factos puramente economicos. As grandes influencias só podem proceder de
    se darem no mesmo individuo condições de diversa ordem–a superioridade
    da intelligencia, a superioridade da fortuna, a superioridade de um nome
    illustre que o povo está costumado a venerar, e a elevação de animo
    resultado da educação domestica, elevação de que é consectario o valor
    civil indispensavel para defender a liberdade e os outros direitos, ou
    proprios ou dos pequenos e humildes. Com a ruina das familias nobres
    essas influencias salutares desapparecerão quasi completamente, e o
    imperio das portarias e das circulares não achará limites.

    O celebre dr. Johnson, fallando das substituições inglezas, dizia que
    tinham a vantagem de não produzirem senão um tolo em cada familia. O dr.
    Johnson fazia um epigramma de mau gosto, porque era falso. A historia
    diplomatica, militar, naval, administrativa e parlamentar da Inglaterra
    prova que os primogenitos da aristocracia ingleza podem ser tanto homens
    grandes como os segundo-genitos, ou como os filhos da raça puramente
    saxonia. Entre nós o epigramma do dr. Johnson é uma preoccupação
    popular, preoccupação que invade até espiritos que tinham obrigação de
    serem superiores a ella. A idéa da incapacidade dos administradores de
    vinculos é tão verdadeira como a da ignorancia e imbecilidade mental dos
    cistercienses, que não eram nem mais ignorantes nem mais imbecis do que
    outros quaesquer frades. Os que tem visitado os districtos interiores do
    reino sabem por experiencia que é no seio das familias aristocraticas
    onde se encontram mais vestigios do que o antigo caracter portuguez
    tinha generoso, elevado e bom, e onde se acha mais illustração, embora
    misturada com os preconceitos nobiliarios. É nessa categoria que
    predomina uma benevolencia efficaz e real para com as classes
    inferiores, benevolencia muito mais rara entre a duvidosa burguezia
    saída d'essas mesmas classes.

    Esta burguezia das provincias, considerada em geral, está longe por
    emquanto de ser uma forte barreira aos excessos da auctoridade central.
    Os seus destinos politicos tem de ser grandes quando existirem no paiz
    instituições congenitas com a indole das tradições primitivas d'elle;
    quando nos cançarmos de traduzir _ad usum_ administração franceza em
    portuguez bastardo. Por emquanto faltam-lhe os principaes elementos dos
    que constituem a força da opinião e o espirito publico; falta-lhe a
    cultura intellectual, que nos habilita para irmos até ás raias do nosso
    direito sem as ultrapassar; falta-lhe o orgulho da independencia, que
    está principalmente na consciencia e no caracter. Tudo isto tem
    excepções, e excepções notaveis; mas fallamos da regra geral. A
    burguezia mais ou menos opulenta das provincias, e sobretudo dos
    districtos do centro e do norte, forma-se pela pequena industria, pelo
    commercio de retalho, e pelos mediocres grangeios agricolas. Fóra das
    duas cidades mais populosas, as grandes fabricas, as vastas emprezas
    commerciaes, em summa, as applicações de avultados capitaes e a
    existencia d'estes na mão de um individuo, são cousas raras. Mas é acaso
    de esperar d'aquelle, que começou obscura e quasi pobremente a edificar
    uma fortuna modesta pelo trabalho, pela parcimonia, pelos habitos da
    obediencia passiva, quasi da subserviencia, sem educação politica, sem
    educação litteraria, sem idéas geraes, e que depois de vinte ou trinta
    annos de esforços, de prudencia, de abnegação, de sacrificios moraes e
    materiaes, creou uma riqueza, que aliás poderia servir-lhe de esteio, e
    inspirar audacia para manter a dignidade e independencia de cidadão de
    um paiz livre; é de esperar, dizemos, de tal homem que lhe chegue tão
    tarde o sentimento e a convicção profunda do seu direito e o valor
    politico para o fazer respeitar do poder? Que o leitor busque a resposta
    na sua razão, e, ainda melhor, na sua experiencia.

    Para nós é grave, pois, a questão da existencia ou não existencia de uma
    especie de aristocracia provinciana, que tenha, em geral, por titulo da
    sua preponderancia o nome, a educação, e a fortuna, em quanto o
    municipio fôr entre nós pouco mais de que um vão nome, ou de que uma
    tapeçaria das salas administrativas. É grave essa questão, porque são
    ainda graves, ao menos para nós, as questões da liberdade e da dignidade
    humanas. Quando as resistencias d'essa aristocracia aos excessos a que
    tende naturalmente uma centralisação exaggerada fossem demasiado
    egoistas, e nunca servissem de egide ás classes democraticas
    desorganisadas e opprimidas, quereriamos mantel-a como protesto, como
    laço entre as tradições do passado e a organisação do futuro. Se a
    historia serve para alguma cousa, lembremo-nos de que o absolutismo se
    erguia em Portugal á altura de uma instituição quando a um chefe da
    aristocracia do paiz rolava a cabeça pelo cadafalso, e outro cahia
    apunhalado aos pés d'aquelle monarcha, tão caro a uma democracia
    inintelligente, que substituiu a vontade real, como principio politico,
    ao rude esboço de monarchia representativa com que a sociedade
    portugueza vivera e progredira durante mais de tres seculos. Diminuir as
    resistencias individuaes ao absolutismo do executivo, em quanto se não
    criam resistencias collectivas, é um erro profundo. Direitos, que não
    tem força para se traduzirem em factos, são, por nos servirmos de uma
    phrase de Shakespeare, palavras, palavras e mais palavras. São isto, e
    nada mais.

    VII

    *Difficuldades moraes e economicas na abolição dos vinculos*

    Se considerações de ordem politica parece aconselharem a manutenção
    temporaria dos pequenos mas numerosos vinculos das provincias do norte,
    na questão practica da abolição da propriedade vincular suscitam-se
    dificuldades de ordem economica e de ordem moral, que tendem
    indirectamente a manter uma instituição, a qual, absolutamente
    considerada, não tem motivo nenhum racional de existencia. A apreciação
    d'essas difficuldades deve influir nas resoluções que se hajam de tomar
    sobre tão grave assumpto.

    Supponhamos que abolimos os vinculos; que fazemos entrar essa parte de
    propriedade territorial no direito commum; que lançamos esse capital
    immobilisado no vortice das evoluções economicas, fazendo-o mover
    livremente por toda a esphera da sua acção. Foi, em these, um
    melhoramento social importante. Falta o modo practico de conseguir esses
    resultados salutares.

    A lei proclamou que o principio vincular pereceu; que o direito commum
    rege toda a propriedade. Mas não basta proclamar a regra geral: é
    preciso ver o modo de a applicar aos factos.

    Quaes são estes factos?

    Até agora havia certa especie de propriedade, em que uma porção de
    dominio pertencia não sabemos a quem (porque o considerar como
    co-proprietarios os _successores_, entidades contingentes, não passa de
    uma subtileza juridica), e outra porção d'esse dominio, que se confunde
    quasi com o usofructo, pertencia a um individuo chamado administrador de
    morgado. É esta fórmula da propriedade a que deixou de existir.

    O administrador do morgado passou a ser proprietario d'aquillo de que
    era pouco mais que usufructuario: pode hypothecar, doar, vender,
    emprazar, testar, como outro qualquer possuidor de bens allodiaes. Este
    facto, porém, deve forçosamente produzir consequencias juridicas e
    economicas.

    A primeira é para o Estado. O Estado é sempre, ao menos potencialmente,
    um dos successores, mas successor que existe já, que não é uma entidade
    contingente. Extincta a linha chamada pelo instituidor, o herdeiro
    definitivo é o Estado, que não morre, ao passo que as linhas
    successorias vem mais tarde ou mais cedo a extinguir-se. Convertendo o
    vinculo em bens livres, a sociedade despojou-se de um direito em
    beneficio de um homem que não tem motivo nenhum especial para
    beneficiar.

    Os vinculos tem encargos pios, que, ou pela propria instituição ou por
    effeito de providencias legislativas, revertem muitas vezes em beneficio
    de instituições, cuja existencia as doutrinas economicas não podem
    condemnar. Seja qual for a resolução que se tome a este respeito
    abolindo-se os vinculos, ou a propriedade que se quiz fazer allodial
    ficará forçadamente censitica, ou serão espoliados os institutos de
    caridade.

    Embora os jurisconsultos considerem ou não os bens vinculados como
    hypotheca dos alimentos dos irmãos do administrador, o que é certo
    economicamente é que esses alimentos constituem uma renda, e que essa
    renda é representada necessariamente por um capital incluido na somma
    dos bens vinculados, porque as subtilezas juridicas não alteram a
    essencia das cousas. Desvinculados aquelles bens, ficarão as pensões dos
    segundo-genitos consideradas como onus e seguindo os bens atravez de
    todas as phases de venda, emphyteuticação e hypotheca? Qual será o valor
    de troca dos predios gravados por pensões cuja duração é indeterminada?
    Serão os segundo-genitos espoliados dos alimentos para tornar a
    propriedade inteiramente livre?

    Á luz economica, a utilidade real do administrador era poder, em quanto
    vivo, consummir a renda liquida do vinculo, excepto a parte destinada
    aos encargos. Rigorosamente, ao menos em grande numero de hypotheses, as
    pensões dos segundo-genitos representando uma renda e correspondendo a
    um capital estavam no caso da renda fruida pelo administrador. Porque,
    pois, não entregar aos segundo-genitos como allodiaes porções de bens ao
    menos equivalentes ao capital das respectivas pensões? Porque ha-de a
    lei favorecer desegualmente o mais velho convertendo-o só a elle em
    proprietario? Não repugna esse facto a um dos motivos que se invocam
    para a abolição–a desegualdade de direitos entre os irmãos? Desde que a
    lei reconhece que essa desegualdade é uma injustiça pode reservar a
    reparação d'ella para a geração seguinte?

    Mas juncto a este direito ha outro direito antinomico, inconciliavel com
    elle. É o do immediato successor. Salvos os raros casos da lenta
    devolução ao Estado, o vinculo sempre tem um successor immediato, porque
    a successão vai até o millesimo gráu de parentesco. O nascimento deu a
    esse individuo, quem quer que seja, o direito de succeder integralmente
    no morgado, embora onerado com alimentos. Desde que a obrigação de os
    solver cessar, por morte dos pensionistas ou por outra qualquer
    circumstancia, a fruição d'essa parte da renda liquida será sua. Se,
    reduzidos os bens vinculados a allodiaes, uma parte d'esses bens tiver
    passado aos irmãos do antecedente administrador, elle será espoliado do
    seu direito n'essa parte pela lei.

    Estatuindo-se, porém, que a applicação d'esta sómente se verificasse por
    morte do administrador actual, evitar-se-hiam esses inconvenientes? Não
    por certo. O direito do successor existe já durante a vida do
    administrador. Como pois serão partiveis os bens entre elle e seus
    irmãos sem offensa grave do anterior direito, sem uma espoliação? Na
    verdade, em relação á sua legitima elle passa a possuir com pleno
    dominio; mas servir-lhe-ha isso de compensação ao que perde? Estribado
    n'um direito que as leis lhe garantiam, achou-se collocado n'uma
    situação social accorde com os seus futuros recursos. Educação, habitos,
    profissão, relações de familia, tudo foi calculado para elle ou por elle
    á luz d'esse direito. Sem culpa sua, a sociedade retira-lhe, digamos
    assim, a base da sua vida civil. Será isto justo? A lei que proclamou
    como iniqua a indivisibilidade dos vinculos, e que todavia a manteve em
    beneneficio do administrador, no momento em que a morte d'este chama o
    successor a uma situação perfeitamente identica cessa de tolerar a
    iniquidade que tolerou até ahi.

    Removendo o facto da abolição para a epocha da morte do immediato
    successor, uma parte d'estes inconvenientes da ordem moral poderiam
    evitar-se; mas nem se evitariam todos, nem a abrogação do principio
    vincular teria grande importancia. Apenas indicámos aqui uma parte das
    difficuldades que cumpria resolver, conforme á consciencia e á justiça,
    em relação á familia. Muitas se apresentariam ainda quando a
    transformação do direito e do facto houvessem de verificar-se n'uma
    epocha mais remota. Legislar, porém, sobre factos economicos, que só
    poderiam realizar-se depois de quarenta ou cincoenta annos, parece-nos
    absurdo. Suppondo a media da vida humana de 30 annos, e portanto a media
    da vida que resta aos administradores actuaes de 15, pode tambem
    calcular-se a media da extincção de todos os administradores e
    immediatos successores em 45 annos. O que é incalculavel é o progresso
    que terão feito n'este periodo as idéas politicas e economicas, e a
    relação em que estaria uma lei actual de desvinculação com essas idéas e
    com o estado da sociedade: podendo-se affirmar, sem receio de erro, que
    no fim de tão largo periodo uma tal lei seria obsoleta antes de ser
    applicada.

    Depois, a solução da questão dos vinculos é uma instante necessidade.
    Este modo de ser da propriedade, conservado sem modificação, embaraça
    profundamente o progresso economico, ao menos n'uma parte do reino.
    Veremos adiante como a nossa situação exige que se pense attentamente na
    maneira por que a população está distribuida pela superficie do paiz, e
    o movimento que cumpre dar á translação e divisão da propriedade
    rustica. Os vinculos são um grande obstaculo á satisfação d'essa
    necessidade, e o unico modo legal de desvincular a propriedade–a
    subrogação–não corresponde ás exigencias da situação presente, antes a
    contraría como teremos occasião de observar.

    Mas a jurisprudencia que regula as subrogações é sobretudo immoral e
    antieconomica. A subrogacão faz-se, em regra, por inscripcões ou
    apolices de divida fundada, e o que se exige n'esse contracto é o
    equivalente não do capital mas da renda. A renda media da propriedade
    territorial não excede a tres por cento, em quanto a das inscripções é,
    ainda hoje depois de reduzido o juro, de seis a sete por cento, visto
    que o valor nominal das apolices é mais que duplo do seu valor de
    mercado. Assim 47$000 réis em dinheiro, convertidos n'uma apolice de cem
    mil réis, crearão uma renda de 3$000 réis; em quanto, convertidos em
    propriedade territorial, apenas darão 1$410 reis. Trocado por
    inscripções o predio, resta portanto um capital de mais de metade do
    valor d'esse predio, de que o administrador de vinculo parece poder
    livremente dispor. Como, porém, taes actos para serem válidos necessitam
    da acquiescencia do successor do vinculo, cumpre repartir com elle: e se
    o successor é menor, recorre-se não raro á corrupção para obter o
    consentimento dos seus tutores e curadores; porque a subrogação por
    inscripções é sempre para elle um mal. O remanescente divide-se de
    ordinario entre o novo proprietario e o administrador; porque, em regra,
    semelhantes transacções são feitas debaixo da pressão de necessidades
    urgentes: o luxo, o jogo, as devassidões, a miseria são as mais das
    vezes os conselheiros d'estes deploraveis negocios, e a situação mais ou
    menos apurada do possuidor do vinculo determina as deducções mais ou
    menos fortes a favor do capitalista. Raras vezes acontece reverter
    integralmente o agio da transacção em beneficio do primeiro.

    A lei em que se estriba esta especie de contractos não pertence á nossa
    epocha. É o alvará de 13 de maio 1797, que permitte a subrogação por
    apolices. Semelhante meio de aggredir as instituições vinculares não é
    uma transacção entre o passado e o futuro, porque estas podem e devem
    fazer-se quando grandes e radicados interesses se oppõem a uteis
    innovações: é apenas uma astucia indigna de figurar na jurisprudencia de
    nações livres. Se entendeis que não existe outro meio de libertar a
    terra vinculada se não destruindo absolutamente os vinculos, matae-os,
    mas não os _assassineis_. Os expedientes da timidez são os peiores de
    todos. N'este meio capcioso não ha, porém, só isso: ha outros
    inconvenientes não menos graves. É o primeiro o jogo de bolsa, a
    agiotagem dos fundos publicos feita pela lei; é a creação de um elemento
    de falso credito. Milhares de contos de inscripções, procurados
    successivamente no mercado, e procurados para se amortisarem, para não
    voltarem a elle, tem contribuido e contribuem de certo para a elevação
    do preço dos titulos de divida fundada. Mas essa elevação, que em regra
    é um indicio de credito, deixa de o ser n'este caso, porque a procura
    significa, não a confiança, mas a necessidade creada pela lei. Na compra
    pelo capitalista e na venda immediata que este faz ao administrador de
    vinculo a troco da propriedade territorial, ao primeiro não importa o
    que lhe custam os titulos que compra, nem a sua futura depreciação, em
    quanto o segundo, indifferente até certo ponto a isso, visto que só lhe
    interessa a manutenção do juro e a regularidade do pagamento d'este,
    considera como uma vantagem o trocar a propriedade por titulos o mais
    depreciados que for possivel, porque maior será o seu lucro individual
    n'aquella operação, operação que desmente as leis do mercado, por isso
    que é essencialmente viciosa.

    A procura dos fundos publicos, resultado de especulações livres,
    podendo, em resultado de outras especulações, converter-se brevemente em
    offerta, não incita os governos a abusarem do credito; ao passo que a
    procura das apolices para subrogações é um incitamento para novas
    emissões, e portanto um meio de facilitar o augmento da divida do
    Estado. Averbadas nos titulos dos vinculos, essas inscripções
    immobilisaram-se, e o governo pode ir substituindo-as gradualmente com
    diversos pretextos, sem que o mercado se resinta, ao menos de um modo
    facil de appreciar, do augmento da divida publica. Por ventura esse
    unico pensamento explica o alvará de 1797.

    Não são os administradores de moderados vinculos, que os cultivam por si
    proprios em todo ou em parte, e a quem o modico rendimento d'elles
    obriga a viver longe dos grandes centros da população e do luxo, os que
    de ordinario recorrem a estas transacções deploraveis. São, por via de
    regra, os donos de grandes casas, os cortesãos, os titulares, os homens
    para quem os habitos de uma vida dissipada ou luxuaria se converteram em
    segunda natureza, os opulentos possuidores dos vastos predios do sul,
    incapazes não raro de se dedicarem a uma administração complicada e
    trabalhosa, que mal se accommoda com a sua educação; são de ordinario
    estes, quando a desordem dos seus negocios os tem collocado em
    difficuldades insoluveis, que se precipitam na voragem das subrogações.
    Não faltam exemplos de ser o lavrador abastado, o proprio rendeiro do
    predio destinado á subrogação, quem se aproveita das circumstancias para
    se apoderar do solo onde exerce a sua industria. Succede isto quando
    elle casualmente vem, n'uma conjunctura de angustia, tentar com o cumulo
    das suas lentas economias a miseria ostentosa do administrador
    arruinado. 'Nesta hypothese o mal das subrogações é menor. Na verdade
    aquelle capital, accumulado por privações, por honestos e longos
    esforços, seria mais utilmente empregado em augmentar as forças
    productivas do solo; mas ao menos o industrial agricola consolida a
    propriedade com o trabalho, e as novas economias irão d'ahi ávante
    preencher fins mais positivos para a sociedade. É, todavia, commum esta
    hypothese? Não por certo. O desperdicio, o luxo, as noites febris do
    jogo, os affectos de bastidor, as vãs ambições da vaidade, os extravios
    de um sensualismo que a saciedade leva até o delirio; as paixões ruins
    em summa, que arruinam tantas familias das classes mais elevadas, só
    raramente consentem que nos cataclysmos das grandes fortunas vinculares
    aquella hypothese se verifique. É o cabedal monetario do especulador, a
    quem, não sabemos se com justiça, se dá o nome insultuoso de agiota, o
    que vai de ordinario trocar-se pela propriedade territorial. A razão é
    obvia. O capitalista está sempre prompto para empregar dinheiro n'uma
    transacção vantajosa, e elle sabe que o desleixo, a incapacidade, ou os
    vicios dos administradores dos vinculos são campos feracissimos para a
    especulação.

    Mas posto que a abolição completa dos morgados, ainda que fosse em
    virtude de uma lei irreflectida e imprevidente, valesse mais que a
    existencia d'elles com o systema da destruição lenta pelo meio indirecto
    das subrogações, é certo que a abolição traria tambem, em muitos casos,
    ou uma difficuldade insoluvel, ou uma vantagem para os mutuantes de
    capitaes, que não seria menos immoral do que as subrogações, porque
    equivaleria a uma espoliação dos mutuarios. Fallamos do que succederia a
    respeito dos vinculos, cujos administradores contrahiram dividas mais ou
    menos avultadas, ficando hypothecados á divida os rendimentos dos bens
    vinculares durante a vida d'elles, ou d'elles e dos immediatos
    successores, se os ultimos intervieram no contracto com o seu
    assentimento.

    Diz-se que a agiotagem mais infrene preside commummiente a esta especie
    de negocios. Cremos que nisto ha pelo menos exaggeração. De certo que o
    juro de ura emprestimo de tal ordem deve ser avultado; mas pode ser
    avultado sem ser excessivo. Não ha ahi só a renda do capital mutuado: ha
    um juro de risco. É evidente que a restricção legal de passarem livres
    aos successores os bens vinculados pode modificar de mil modos as
    condições do mutuo. Na hypothese de intervir no contracto o immediato
    successor, o risco é menor mas não deixa de ser grandissimo. A garantia
    é dupla, mas egualmente incerta: é a instabilidade de duas vidas em
    logar da de uma. Depois, a idade mais ou menos avançada do administrador
    do vinculo, ou d'este e do successor quando o successor intervem, os
    seus habitos de maior ou menor dissipação, a existencia de outras
    dividas, a deterioração dos bens vinculados e por consequencia a
    diminuição gradativa do rendimento; esses factos e dezenas de outros
    analogos determinam a maior ou menor elevação do juro em contractos que,
    considerados de um modo absoluto, seriam altamente usurarios, mas que as
    poucas probabilidades do pagamento integral talvez plenamente
    justifiquem.

    Mas como se representa esse juro de risco? Uma lei inepta, impotente
    sempre para impedir a usura, e que, taxando o lucro do capital, não
    discrimina as circumstancias que o devem fazer variar, fixa ao dinheiro
    determinado preço para todas as hypotheses. A necessidade, porém, e o
    capital são astutos: o capitalista e o administrador do morgado sabem
    como se illude a lei. O juro de risco representa-se no capital e no juro
    da parte nominal d'este. Quando se recebe uma somma, o contracto
    refere-se ao duplo; a mais ou menos, conforme o valor do dinheiro, a
    gravidade do risco, a necessidade do mutuario e a consciencia do
    mutuante. A transacção, respeitando na apparencia a lei, ludibria-a na
    essencia: sorte de todas as leis civis, que radicalmente contradizem as
    economicas.

    Qual é, porém, a consequencia d'estes factos, que constituem a historia
    da avultadissima divida que grava os vinculos? É que uma parte d'essa
    divida representa apenas um juro e juro de risco. No contracto que lhe
    deu existencia houve um verdadeiro jogo sobre um calculo de
    probabilidades. O capitalista arriscou-se a perder a somma que realmente
    emprestou, recebendo como premio no caso de amortisação o capital
    nominal, além dos juros legaes; a eventualidade d'esse premio
    equilibrou-se portanto com a possibilidade da não amortisação. Entre as
    vantagens e as desvantagens deu-se a mutua compensação.

    Desvinculae, porém, a propriedade vincular e sujeitae-a ao direito
    commum. Em relação ás dividas que pesam sobre ella violaes um contracto,
    irregular na verdade, mas irregular porque as leis que sanctificavam a
    exempção hereditaria dos vinculos, e as que fixavam o juro do
    emprestimo, o tornavam tal forçadamente. Supponde illicitas, criminosas
    as transacções d'esta especie: considerae, se quizerdes, o mutuante como
    usurario e o mutuario como prodigo. A desvinculação pune este e premeia
    aquelle. A divida nominal, escripta no contracto, é uma; a real é outra.
    O mutuante receberá, porém, ou por execução ou por outro qualquer modo,
    o valor expresso. O que terá desapparecido é a desvantagem do risco.

    A iniquidade é flagrante, e tem-se reconhecido que o é. Como meio de a
    evitar lembram-se varios arbitrios para restringir a acção do credor
    sobre os bens desvinculados. De todos esses arbitrios o mais simples e o
    que parece mais justo e exequivel é o de considerar taes bens como ainda
    vinculados em relação ás dividas contrahidas, limitando-se o direito do
    credor á percepção da renda, durante a vida d'aquelle ou d'aquelles que
    contrahiram o encargo, se n'este periodo não se verificar a amortisacão
    completa. Mas qual será o resultado d'esta nova situação d'aquella
    especie de propriedade? A quasi impossibilidade da alienação. Ninguem
    compraria um predio cuja renda está hypothecada por um periodo
    indeterminado (e a que, portanto, não se pode fixar o valor) senão por
    um preço infimo, que salvasse todas as eventualidades, e que o vendedor
    não acceitaria. A transacção só poderá effeituar-se com o proprio
    credor; mas este, certo de que é impossivel a competencia, ha-de levar
    as suas pretensões até onde chegar a possibilidade de se realisarem as
    vantagens que aliás lhe dá o proprio direito. Assim a transacção tem de
    ser forçosamente lesiva para o vendedor; lesiva a ponto de impedir a
    alienação, ou de se realisar a expoliação que se pretendera evitar.

    A consequencia ordinaria de tal arbitrio seria, pois, a immobilidade dos
    bens ainda depois de desvinculados; ou, por outra, a desvinculação pelo
    que respeita aos grandes morgados, sobre cujos redditos pesam
    avultadissimos encargos e que são os mais numerosos, não alteraria as
    principaes condições da sua existencia actual que justificam a abolição.
    O livre movimento do dominio territorial, a subdivisão da propriedade, o
    desenvolvimento da população e da cultura, o augmento das sizas; tudo
    isso ficaria, em regra, suspenso até á morte dos individuos pessoalmente
    responsaveis pelas dividas. É outra vez o adiamento, que parece
    tornar-se inevitavel desde que, partindo da idéa da abolição absoluta,
    se pretende legislar sobre a propriedade privilegiada, na qual o
    interesse publico exige modificações immediatas.

    VIII

    *Os vinculos considerados em relação á grande e á pequena propriedade, á
    grande e á pequena cultura*

    Antes de debater em relação a Portugal uma questão ventilada com ardor
    na Europa ha mais de um seculo, a da grande e da pequena propriedade,
    consideremol-a successivamente como resolvida em favor de um e de outro
    systema, e indaguemos que influencia possa exercer no predominio de um
    ou de outro a conservação ou a abolição dos vinculos. Vendo-os a esta
    luz, os que defendem a sua manutenção presuppõem a grande propriedade
    como ligada á grande cultura, e a grande cultura como preferivel á
    pequena. Os que sustentam a abolição presuppõem vantajosa a divisão
    indefinita da propriedade, embora acompanhada da pequena cultura, que em
    regra é a consequencia da subdivisão illimitada do solo, e ácerca de
    cujas vantagens variam as opiniões d'aquelles mesmos que mais
    ardentemente desejam a suppressão de todas as instituições tendentes a
    impedir a livre divisão do solo.

    Os que, preferindo os vastos predios e a grande lavoura aos pequenos
    casaes, cuja cultura principalmente se caracterisa pelo trabalho braçal,
    vêem nos vinculos um meio poderoso de manter o systema agricola que
    suppõem mais vantajoso, podem acaso invocar em seu abono os factos?
    Podem invocal-os os que pensam de modo contrario? Comecemos pelos
    exemplos do nosso paiz, que são os primeiros que nos importa estudar.

    Já n'outra parte nos referimos á differença profunda que se dá entre os
    vinculos das provincias septemtrionaes e os das provincias meridionaes
    do reino. Nos districtos do norte a constituição moral dos vinculos é a
    mesma dos vinculos situados nos districtos do sul; mas a sua
    constituição material é diversa. Em geral os vinculos do norte são
    constituidos, em relação á propriedade territorial, n'um maior ou menor
    numero de predios de dimensões taes que a designação de latifundios lhes
    seria inteiramente inapplicavel. São quintas, casaes, bouças, campos;
    nunca ou raramente uma granja, uma herdade analoga áquillo a que damos
    estes nomes nos districtos do sul. O senhorio directo de predios
    emphyteuticos e os censos completam para o administrador do morgado o
    cumulo da renda territorial. Todas as fórmas de exploração agricola se
    manifestam n'aquella multidão de propriedades vinculadas: a cultura
    directa, a parçaria, o arrendamento, o colonato. Discorrei pelo Minho.
    Certos edificios nas villas, nas aldeias, mais grandiosos, ornados de
    pedras-d'armas, hão-de revelar-vos a existencia de centenares de
    morgados: mas os campos e a sua cultura, as quintas e as suas dimensões
    não vos dirão nada; porque a allodialidade, a emphyteuse, o vinculo na
    sua influencia sobre a agricultura não imprimem aos campos caracteres
    especiaes que distingam estas diversas especies de propriedade, ou
    diversifiquem as culturas.

    Penetremos agora no Alemtejo, sobretudo no Alemtejo central e
    meridional. Como o Minho é o typo da propriedade e da cultura
    septemtrionaes do reino, o Alemtejo é o typo mais acabado da propriedade
    e da cultura meridionaes. As outras provincias são a transição entre os
    dous extremos. Como o Minho é a terra classica da subdivisão
    territorial, o Alemtejo é a terra classica dos latifundios. Grande parte
    d'estes latifundios pertencem a importantes morgados; mas o resto
    constitue geralmente propriedades allodiaes, sendo os prasos n'aquella
    provincia, em contradicção com o que succede no Minho, apenas uma
    excepção rara, e ainda assim caracterisados ás vezes pela indole geral
    da propriedade no Alemtejo–a extensão demasiada. Um systema de cultura
    uniforme é applicado ahi sem distincção aos predios livres e aos
    vinculados.

    Na Extremadura e na Beira occidental, mas principalmente na Extremadura,
    predomina a cultura media e a propriedade media, se exceptuarmos as
    margens do Tejo desde a Barquinha até perto de Lisboa, onde a extensão
    da propriedade, como na Beira-baixa, annuncia, por assim nos
    exprimirmos, a aproximação do Alemtejo. Mas, no meio de todos estes
    cambiantes nas dimensões dos predios rusticos, vemos os vinculos
    amoldarem-se a todas as fórmas de propriedade e de cultura, e
    amortizarem em si a quinta, o casal, a granja, o praso, a horta, o
    pinhal, o montado, a charneca interminavel; com a mesma facilidade com
    que se amoldam ás manifestações extremas da grande e da pequena
    propriedade e da pequena cultura.

    Que se infere d'estes factos? Que outras causas alheias á instituição
    vincular determinam a maior ou menor vastidão dos predios rusticos e o
    seu systema de grangeio. Umas são puramente historicas, outras
    juridicas, outras agronomicas, outras economicas. Não queremos dizer com
    isto que a instituição não influa, n'um ou n'outro caso, no facto de
    maior ou menor dimensão dos predios, e na sua situação agricola; mas
    cremos que de todas as causas esta é a menos importante. Desejariamos
    que os defensores da manutenção dos vinculos como garantia de grande
    propriedade nos explicassem a existencia dos vastos allodios do
    Alemtejo, a sua força de cohesão contra os effeitos do direito commum da
    successão, pelo engenhoso expediente dos _quinhões_, de que n'outra
    parte teremos de falar. Esses predios estão provando que não é
    necessario o principio vincular para impedir a disgregação das grandes
    propriedades rusticas; que o interesse individual bem ou mal avaliado,
    as condições do solo e clima, a natureza das culturas dependentes
    d'essas condições, o estado economico do respectivo districto, e, até,
    os habitos e preconceitos, podem assegurar a união de amplos tractos de
    terra, embora deixe de existir uma instituição que o espirito publico
    reprova, por motivos que, posto sejam especiosos ás vezes, são em grande
    parte subejamente justificados.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Aproximadamente 63.487 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    QUESTÕES PUBLICAS

    *TOMO II*

    LISBOA

    EM CASA DA VIUVA BERTRANDA & C.^a–CHIADO, N.^o 73

    M DCCC LXXIII

    MONUMENTOS PATRIOS

    1838

    I

    Diz-se que uma das mais bellas missões da imprensa é defender a boa
    razão, a arte, e a honra e gloria da patria. Imagina-se ampla colheita
    de renome, de bençãos, de vantagens de toda a especie para o escriptor
    que alevanta a voz a favor do bom, do justo e do bello, se a voz do que
    escreve é assás poderosa para se esperar que mova os animos dos seus
    concidadãos. E com effeito, indicar a estes o recto caminho, quando
    transviados; tentar affeiçoá-los a nobres e puros sentimentos; fazê-los
    amar o solo natal; despertar-lhes affectos pelo que foi grande e nobre
    na historia do paiz, parece que deveria produzir fructos de benção para
    o escriptor que o tentasse. Não é, todavia, assim. Ha para isso um
    obstaculo quasi insuperavel; a superstição pelas idéas e tendencias do
    presente, mais cega que a superstição pelas crenças do passado. As
    paixões são mais energicas do que as reminiscencias, as aspirações que
    as saudades. Gloria, lucro, respeito, bençãos são para aquelle que afaga
    com palavras mentidas as preoccupações populares; para aquelle que, sem
    discrime, louva, adorna ou repete como echo as opiniões que ao redor
    delle, talvez por cima delle, esmagando-lhe a consciencia, passam como
    torrente. Tumultua o genero humano correndo ao longo dos seculos: o
    louvador, ás vezes o promotor do tumulto, se a natureza lhe concedeu
    imaginação e talento, vai adiante como capitão e guia da geração que
    corre ebria: incita-a, arrasta-a, deslumbra-a. As corôas voam-lhe do
    meio do tropel sobre a cabeça. Verdade é que ao cabo do tanto lidar elle
    se despenhará com essa geração no abysmo do passado; verdade é que o
    abysmo se fechará para elle com o sêllo da reprovação de cima, e que,
    porventura, não tardará que o futuro passe por ahi a sorrir, ou se
    afaste com tedio do sepulchro dealbado do erro ou da villania. Mais isso
    que importa? O homem que vendeu ao seculo a consciencia e o engenho, que
    Deus não lhe deu para mercadejar com elle, foi bemquisto e glorificado
    emquanto vivo; foi antesignano do progresso, embora este seja avaliado
    algum dia como progresso fatal!

    Mas que póde esperar aquelle que, nessa longa e ampla estrada do tempo,
    por onde o genero humano corre desordenado, quizer vir, do lado do
    futuro e em nome do futuro, dizer á geração a que pertence:–parae lá–?
    Embora a sua voz troveje: embora as suas palavras devam fazer vibrar
    todas as cordas do coração e despertar todas as convicções da alma: não
    espere ser ouvido. As multidões continuarão a passar desattentas.
    Escarnecido, amaldicçoado talvez, dormirá esquecido na morte, e os
    sabios e prudentes cultores de uma philosophia corrompida e egoista
    dirão, com insultuosa compaixão, ao passar pelo que jaz no pó:–Pobre
    louco, recebeste o premio de querer contrastar o seculo!

    O que havemos dito é crua verdade; mas é a verdade. Ha nesta epocha dous
    caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem precipicios,
    mas que conduz á prostituição da intelligencia; outro, vereda estreita,
    tortuosa, malgradada, mas que se dirige ao applauso da propria
    consciencia. Aquelles cujas esperanças não vão além dos umbraes do
    cemiterio e que ahi veem, não o termo da sua perigrinação na terra, mas
    o remate da existencia, que sigam a facil estrada. Nós, porém, que
    guardâmos para além da vida as nossas melhores esperanças, tomaremos o
    bordão do romeiro e iremos rasgar os pés pela vereda d’espinhos.
    Resignar-nos-hemos nos desprezes e, como os soldados do eremita Pedro,
    que, pondo a cruz vermelha no hombro para irem morrer na Palestina,
    clamavam–«Deus assim o quer! Deus assim o quer!»–diremos
    tambem:–«soffrâmos o menoscabo e o vilipendio: soffrâmos que assim o
    quer Deus.»

    É contra a indole destruidora dos homens de hoje que a razão e a
    consciencia nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo eremita,
    todos os animos capazes de nobre esforço para nova cruzada. Ergueremos
    um brado a favor dos monumentos da historia, da arte, da gloria
    nacional, que todos os dias vemos desabar em ruinas. Esses que julgam
    progresso apagar ou transfigurar os vestigios venerandos da antiguidade
    que sorriam das nossas crenças supersticiosas; nós sorriremos tambem,
    mas de lastima, e as gerações mais illustradas que hão de vir decidirão
    qual destes sorrisos significava a ignorancia e a barbaridade, e se não
    existe uma superstição do presente como ha a superstição do passado.

    A mais recente quadra de destruição para os monumentos, tanto artisticos
    como historicos, de Portugal, póde dividir-se em duas epochas bem
    distinctas. Acabou uma: a outra é aquella em que vivemos.

    A ultima metade do seculo XVIII e os annos já decorridos deste seculo
    tem sido um periodo de reforma ou antes de revolução. A revolução não é
    de hontem. Quasi sempre as manifestações ruidosas e, digamos assim,
    externas das epochas de grandes transformações vem muito depois de
    iniciadas estas. No seio da formula social que vai fenecer ha a gestação
    da formula social que surge. Quando as labaredas rompem pelas janellas
    do edificio, ha muito que o incendio lavra pelo interior dos aposentos.

    Entre nós, as reformas começou-as um homem grande, mas que era homem do
    seu tempo. Genio positivo e mui pouco especulativo, ministro de um rei
    absoluto, e sabendo que, se não caminhasse depressa, ficaria no caminho,
    o marquez de Pombal fez resurgir de salto sciencia, artes, industria e
    administração. A maioria do paiz obedecia ás reformas, mas sem as
    comprehender. O circulo dos individuos que alcançavam o valor dellas e o
    influxo que deviam ter no futuro, era assás limitado. A iniciação estava
    feita, mas o fogo tinha de lavrar muito tempo debaixo da cinzas.
    Exteriormente, a maior parte das reformas, destoando de habitos
    inveterados, repugnando não raro a opiniões vulgares, devendo ter
    resultados remotos, que o commum dos espiritos não sabiam antever, nem
    podiam apreciar, definharam-se ou morreram logo que se quebrou o braço
    de ferro que as realisára e mantivera, sorte ordinaria de todos os
    commettimentos sociaes que antecedem a diffusão das idéas que
    representam. O conde de Oeiras, pondo os estudos ao nivel dos do resto
    da Europa, fez acceitar o movimento scientifico desta; mas as
    intelligencias reconduzidas de salto ao bom caminho, sem transições
    graduaes, acceitaram mais as fórmas do que comprehenderam o espirito.

    O que succedeu na sciencia succedeu na litteratura. Acabaram os
    acrostichos, os restos do gongorismo, os sermões de antitheses e
    argucias, os elogios e conferencias palavrosas e retumbantes da Academia
    da Historia, onde o proprio reformador tambem peccara: ficámos, porém,
    com a litteratura á Luiz XIV, cuja influencia em Portugal começara a
    despontar no horisonte desde o começo daquelle seculo e que, depois, os
    nossos innocentes Arcades acceitaram como emanação legitima da arte
    grega e romana. Peior do que na sciencia, a regeneração litteraria,
    desprovida de nacionalidade, alheia ás tradições portuguesas, nascia,
    digamos assim, morta. O mau gosto desapparecera, mas em logar delle
    ficava cousa que pouco mais valia; a inspiração pautada, o estro
    convencional e a vacuidade da idéa escondida debaixo da opulencia da
    fórma.

    Se, em parte, as sciencias e a industria foram introduzidas, ou como
    inventadas, no reinado do marquez de Pombal, as artes plasticas, e
    principalmente a architectura, cuja historia, mais do que a de nenhuma
    arte, neste momento nos importa, já anteriormente existiam. A epocha de
    D. João V foi uma epocha de luxo e riqueza lançados sobre um paiz
    miseravel, como alfombra preciosa em pavimento carunchoso e podre. Esse
    luxo e riqueza, que brotavam das minas da America, foram favoraveis aos
    artistas. As obras magnificas do nosso Luiz XIV, ou antes do simia de
    Luiz XIV, e mais que tudo a edificação do fradesco palacio de Mafra
    fizeram apparecer estatuarios, esculptores, architectos. Achou-os o
    conde de Oeiras, e deu aos seus talentos nova applicação. Ao gosto
    corrompido da architectura italiana, que era a seguida em Portugal, fez
    substituir um gosto mais severo, mais util e mais mesquinho. Era o homem
    politico, o homem da vida practica dirigindo as artes: eram as artes
    reduzidas pura e simplesmente a um ramo de administração. Compare-se o
    caracter geral do convento de Mafra com o das grandes obras do marquez
    de Pombal, o plano da nova Lisboa, o Terreiro do Paço, a Alfandega, o
    Arsenal da Marinha, a parte moderna dos edificios da Universidade de
    Coimbra. Em Mafra, achar-se-hão a exageração de ornatos e os primores do
    cinzel, mas nenhuma inspiração verdadeiramente nobre e grande;
    achar-se-ha o desmesurado supprindo o sublime: nas obras do marquez, só
    se encontram largas moles desadornadas, edificios monotonos, postoque
    uteis ou necessarios, uma praça magnifica, onde campeiam monolithos
    enormes e que seriam admiraveis se não estivessem cobertos de remendos e
    parches, e cujas paredes se pintaram de ochre para poupar alguns palmos
    de silharia, alguns palmos de marmore n'uma collina de marmore. O plano
    de qualquer obra publica desta epocha dir-se-hia sempre traçado na mente
    de um negociante hollandês. O despotismo ignorante e presumido estragara
    a arte com a puerilidade; o despotismo illustrado estragou-a com a
    razão. Mafra é um poema da Fenix-Renascida: a Lisboa do marquez de
    Pombal um soneto de Diniz ou uma ode de Garção. A cidade depois do
    convento é o Novo-methodo do padre Pereira expulsando das escholas
    latinas a grammatica do padre Alvares.

    Morreu D. José I, facto insignificante em si, mas grave pelas suas
    consequencias. Com a morte desse homem desappareceu da scena politica o
    forte espirito que reinara em vez delle. Portugal soçobrou então; apenas
    sobre o seu vortice de perdição boiaram por algum tempo as letras e a
    sciencia sustentadas ao de cima pelo braço do duque de Lafões. A
    architectura, que n'um paiz pequeno e pobre, como o nosso, depende quasi
    exclusivamente do governo para existir, não decahiu porque estava já
    decadente: o que fez foi retroceder das fórmas mesquinhas, mas graves e
    simples, que adoptara, para os fogaréus e burriés e repolhos e espiraes
    e grinaldas da epocha anterior. Quereis saber o que ella foi d'ahi
    ávante? Olhae para o mais notavel edificio do subsequente reinado, para
    o convento do Coração de Jesus. Como o pensamento unico do governo era
    desmentir o bom, o mau, o indifferente, tudo, em summa, quanto se fizera
    no antecedente reinado, buscou-se restaurar a architectura de Mafra,
    menos a vastidão, menos a opulencia. Caricatura de caricatura. Aquelles
    portaes microscopicos, aquellas columnas disformes e deformes,
    encostadas á portada da igreja, especie de polypos de pedra, guardados
    alli para servirem de pilares em outro monumento que delles viesse a
    carecer; aquelle atrio que recorda o _vomitorium_ dos amphitheatros
    romanos; aquellas torres onde não se pouparam nem columnellos inuteis,
    nem franjas e avellorios de marmore; tudo isso é amostra do gosto da
    epocha, gosto que tem durado e que ainda campeia nas fachadas de varios
    armazens ao divino construidos nos ultimos sessenta annos e baptisados
    com a pomposa denominação de templos.

    Tal foi em Portugal a architectura durante seculo e meio. O
    renascimento, que condemnou em peso, como barbaras, as origens das
    nações modernas e especialmente o que desdizia das diversas
    manifestações da civilisação grega e romana, envolveu n'esta
    condemnação, em muitos casos injusta ou inepta, os admiraveis monumentos
    de arte que a idade media legara aos tempos modernos. As gerações
    subsequentes, educadas n'uma adoração irreflexiva de tudo quanto viera
    da Grecia e de Roma pagans, não podiam comprehender a sublime magestade
    e, digamos assim, o espiritualismo da arte christan. Os paços, os
    castellos, as pontes, os cruzeiros, as galilés das praças, as portas, as
    torres, os pelourinhos das cidades e villas, construidos desde o XI até
    o XV seculo quasi que desappareceram. Conservaram-se alguns mosteiros e
    sanctuarios, algumas cathedraes e parochias, não por serem obras da
    arte, mas por serem logares consagrados a instituições religiosas, e
    talvez por terem faltado os recursos para os substituir por novas
    edificações.

    Ainda assim, restar-nos-hiam hoje em mosteiros, em cathedraes e em
    outros edificios consagrados ao culto inestimaveis monumentos, se nesta
    terra, desamparada de Deus e da arte, tivesse havido sequer um vislumbre
    de gosto e de veneração pelo passado, e não fosse justamente entre o
    clero, isto é, entre os guardadores naturaes desses mesmos monumentos,
    que surgissem os seus mais funestos adversarios. Porém os bispos sabiam
    theologia e direito canonico; os conegos e parochos, alguns sabiam
    latim; os frades, pelo menos os membros das antigas ordens monachaes,
    eram eruditos e homens de letras; mas nem os bispos, nem os conegos e
    curas d'almas, nem os frades entendiam de architectura. Entregaram tudo
    aos architectos e mestres de obras, que estragaram tudo. Quasi que
    escaceiava a pedra para se converter em cal. Os batefolhas não tinham
    mãos a medir. Columnas, capiteis, abobadas, torres, portaes, arcarias,
    claustros, tudo foi caiado, dourado, enfeitado, estragado. Procurae na
    maior parte das nossas sés, das nossas collegiadas, das nossas velhas
    parochias, um desses pilares polystylos, desses capiteis e cimalhas
    rendadas, desses bocetes e penduroes variados, dessas gargulas ás vezes
    insolentes, ás vezes terrificas, ás vezes finamente epigrammaticas, e
    nada achareis do que foi. Aquelles livros de pedra, complexos como os
    poemas de cavallaria, ingenuos como os poemas do Cid ou dos Nibelungen,
    converteram-se em palimpsestos donde se raspou a historia das crenças,
    dos costumes, dos trajos, das alfaias de antigas eras; onde se apagaram
    os vestigios de successos notaveis, de dramas populares, de lendas
    poeticas, e até retratos unicos de varões singulares. Nesses livros
    preciosos, em vez do seu primitivo conteúdo, só achareis as rasuras que
    mãos ineptas ahi fizeram e os caracteres que sobre essas paginas,
    outrora eloquentes, traçou a peior das barbarias, a barbaria pretenciosa
    e civilisada. Passou por lá o picão do reformador, a colher do
    estucador, o mordente do dourador. Paredes, pilares, capiteis, laçarias,
    ogivas estão rebocados, alvos, polidos, dourados. A luz do sol já não
    bate no pavimento do templo convertida em luz baça e saudosa pelos
    vidros córados das frestas esguias, dos espelhos circulares: agora alaga
    em torrentes essas paredes brancas e lisas, que fingem ás vezes
    absurdamente pedras impossiveis estendidas pela colher do alveneu sobre
    a face rugosa, mas secular e veneranda, da verdadeira pedra. O templo de
    Deus é como a sala do baile, como a sala dos legisladores, como a sala
    do theatro, como a praça publica, sem mysterios, sem tradições, sem
    saudades.

    Mas se a culta barbaria dos nossos avós e de nossos paes forcejou por
    cobrir com remendado véu os monumentos dos primeiro seculos da
    monarchia, deixou em muitos delles ao menos, os seus formosos e ideaes
    perfis, as suas linhas architectonicas. O pensamento que inspirou essas
    concepções grandiosas como que se alevanta d'entre as devastações
    perpetradas pelo camartélo, pela picareta e pelos boiões de cal delida,
    e apesar de se haverem dirigido sem tino, sem gosto, sem harmonia as
    restaurações dos edificios que as injurias do tempo em parte haviam
    arruinado, resta ainda muito que estudar e admirar nesses monstros. Até,
    em alguns delles, é possivel supprimir, pela imaginação, o moderno e pôr
    em logar deste o antigo. A poesia ainda não desamparou de todo o
    mutilado monumento.

    Mas durarão por muito tempo esses restos da mais formosa e magnifica de
    todas as artes? Não o esperamos; mas lavraremos aqui, ao menos, um
    protesto contra o vandalismo actual. Nossos paes destruiram por
    ignorancia e ainda mais desleixo: destruiram, digamos assim,
    negativamente: nós destruimos por idéas ou falsas ou exageradas;
    destruimos activamente; destruimos, porque a destruição é uma vertigem
    desta epocha. Feliz quem isto escreve, se podesse curar alguem da febre
    demolidora; salvar uma pedra, só que fosse, das mãos dos modernos hunos!

    II

    Falámos da decadencia da architectura durante seculo e meio; porque as
    manifestações dessa decadencia foram sempre as mesmas em tão largo
    perido. Vê-se a arte na sua lenta agonia rodeiada de curandeiros que se
    propõem sará-la, mas que a transfiguram, sem alcançarem qual é o achaque
    intimo que a devora: vêmos acumular columnas a proposito e
    desprositadamente: vêmos gesso, ouro e talha: vêmos converter os velhos
    monumentos em monstros de Horacio; pôr ao lado da torre ou do curucheu
    gothico zimborios á Buonaroti ou portadas á Barrozio; enxertar a capella
    do seculo XVIII na parede de nave do seculo XIV semelhante a um viveiro
    de cogumélos, nascidos por entre as fisgas humidas da pedraria, a favor
    da meia obscuridade daquellas profundas arcadas: vêmos alteiar edificios
    que representam o gosto architectonico do mercador de retalho, e erguer
    templos cujo indecente e ridiculo elogio é o de serem _bonitos_: vêmos
    as grandes praças de Lisboa, bem esquadriadas, bem symmetricas, bem
    prosaicas: vêmos igrejas, como a da Encarnação ou a dos Martyres,
    caiadas, pulidas, alindadas, onde não móra um só pensamento de Deus. A
    arte entendeu-se assim por largos dias. Ao passo que se imprimia a
    Poetica do padre Freire, que se coroava a Osmia, e que se publicavam por
    ordem superior as poesias, assim chamadas, de Ribeiro dos Sanctos,
    encostavam-se columnas disformes pelas paredes de um pio armazem,
    conhecido vulgarmente pelo nome de igreja de S. Domingos, ladeiavam-se
    com ellas os portaes dos edificios publicos e as frestas do atrio tyscio
    do convento do Coração de Jesus. No meio daquellas semsaborias
    architectonicas parecia sentir-se uma tendencia instinctiva para a
    regeneração; mas essa tendencia, que buscava uma solução ao problema nas
    tradições da arte romana ou antes grega, não podia lá encontrá-la. Fora
    o renascimento; fora a admiração dessas tradições, até certo ponto
    justa, mas exagerada depois, que dentro de pouco mais de cem annos
    chegara, de modificação em modificação, até a architectura do seculo
    XVII, á architectura da Sé nova de Coimbra, do Seminario de Santarem, á
    architectura jesuita. Não só a regeneração litteraria e a politica, mas
    tambem a da arte devia consistir em considerar o renascimento, não como
    phase, mas como lacuna na vida das nações christans, das sociedades
    novas; em descer logicamente do crer e sentir da sua idade viril. Embora
    a arte seja uma só; embora seja sempre e em toda a parte a expressão
    sensivel do ideal, tanto este como as suas manifestações é que são
    diversos nas diversas epochas e em sociedades differentes. Naquelle
    dilatado periodo de decadencia o que sobretudo faltava á architectura
    era a luz, o horisonte, a atmosphera respiravel, em que podesse viver e
    produzir.

    A decadencia, porém, na epocha em que vivêmos é outra, e mais profunda.
    Já não ha a corrupção do gosto, o inapplicavel das theorias, o erro do
    entendimento. Agora é o instincto barbaro, a malevolencia selvagem, a
    philosophia da brutalidade. Dura ha poucos annos; mas esses poucos annos
    darão maior numero de paginas negras á historia da arte do que lhe deu
    seculo e meio. O picão e o camartello só ha bem pouco tempo que podem
    dizer–triumphámos. Até então escaliçavam-se paredes, roçavam-se
    esculpturas, faziam-se embréchados; mas agora derribam-se curuchéus,
    partem-se columnas, derrocam-se muralhas, quebram-se lousas de
    sepulturas, e vão-se apagando todas as provas da historia. Faz-se o
    palimpsesto do passado. Corre despeiado o vandalismo de um a outro
    extremo do reino, desbaratando e assolando tudo. Comico perfeito,
    desempenha todos os papeis, veste todos os trajos. Aqui é vereador, alli
    administrador de concelho: ora é ministro, logo deputado: hoje é
    escriptor, ámanhan funccionario. Corre na carruagem do fidalgo, faz
    assentos de debito e credito no escriptorio do mercador, dá syllabadas
    em latim de missaes, préga nos botequins sermões d'economia politica e
    do direito publico, capitaneia soldados, vende bens nacionaes, ensina
    sciencias; em summa, é tudo e mora por toda a parte. Attento ao menor
    murmurio dos tempos que foram, indignado pela mais fugitiva lembrança
    das gerações extinctas, irrita-se com tudo que possa significar uma
    recordação. Assim excitado, argumenta, ora, esbraveja, esfalfa-se. O
    eretismo dos nervos só póde affrouxar-lho, como as harmonias
    melancholicas de harpa eolia, o ruido de algum monumento que desabe.

    Apesar da ferocidade nervosa do vandalismo, não se creia, todavia, que
    elle é desalinhado no vestuario, carrancudo na catadura, descomposto nos
    meneios. Nada disso. O vandalismo é aprimorado no trajo, lhano e grave a
    um tempo no porte, pontual na cortezia. Encontrá-lo-heis nas sallas
    requebrando as damas, dançando, tomando chá; no theatro palmeiando com
    luvas brancas os lances dramaticos. Entende francês e leu jà Voltaire,
    Pigault-Lebrun e os melhores tractados do wisth: quasi que sabe ler e
    escrever português. O vandalismo é culto, instruido, civil, affavel.
    Tirem-lhe de diante os monumentos; será o epilogo de todos os dotes e
    boas qualidades; será a mansidão incarnada.

    Mas, infelizmente para elle, o velho Portugal estava cuberto de
    recordações do passado. Cada facto historico tinha uma igreja, uma casa,
    um mosteiro, um castello, uma muralha, um sepulchro, que eram os
    documentos perennes desse facto e da existencia dos individuos que nelle
    haviam intervindo. Encontrando tantas injurias mudas á decadencia
    presente, o vandalismo irritou-se, ergueu-se e falou em feudos, em
    dizimos, em corrupções fradescas, em maninhádegos, em servos de gleba,
    em direitos de osas, em superstições; catou, em summa, todas as
    vergonhas e deshonras do passado que pôde e soube, entresachando-as com
    sentenças e logares communs do cathecismo politico de Ramon Salas e, por
    uma logica incomprehensivel, por uma logica sua, chamou os homens do
    alvião e da picareta e começou a derribar, victoriado pelo povo. Só
    elle, immovel no meio da mobilidade do nosso tempo, no meio das opiniões
    encontradas, das luctas, das commoções, tem apontado constante ao seu
    alvo, a demolição indiscriminada do passado. Assim, pertence a todos os
    bandos politicos, acceita todos os principios, curva-se a todos os
    jugos, comtanto que o deixem roer os testemunhos da historia e da arte;
    que o deixem fazer-nos esquecer da gloria nacional e de que somos um
    povo de illustre ascendencia. Este pensamento é o seu pensamento unico,
    perpetuo, inabalavel.

    Ha pouco que que da villa de Peniche nos escreviam o seguinte: «Tendo
    havido quem ousasse revolver e desfazer o tumulo em que jazia o cadaver
    de D. Luiz de Athaide, na igreja do extincto convento do Bom-Jesus desta
    villa, o facto excitou nos que concorreram a observar os despojos
    mortaes daquelle heroe vivos desejos de ouvirem falar da sua vida e
    feitos.» Não nos fallecem cartas em que se contenham noticias de
    analogas profanações. De todos os angulos do reino se alevantam brados
    de homens generosos, que lamentam a ruina dos velhos edificios, a
    profanação das sepulturas, a destruição de todas as memorias da arte e
    da historia. Quem hoje quizesse escrever as biographias dos nossos
    homens illustres, talvez já não podesse dizer onde actualmente jazem os
    restos da maior parte delles. O braço omnipotente do vandalismo
    estendeu-se para os sepulchros; as campas estalaram e os ossos de nossos
    avós lançaram-se aos cães e rolam pelo pó das estradas e pelas
    immundicies das ruas. As inscripções lapidares vão-se enterrando por
    alicerces e paredes, não á face destas, porque ahi alguem ainda poderia
    lê-las; mas no fundo dos cavoucos ou no amago dos muros. Sem isso, não
    nos vangloriariamos com inteira justiça de ter completamente renegado de
    nossos maiores.

    Referiu-nos um respeitavel viajante hespanhol que, entre os entulhos do
    convento de S. Domingos de Lisboa, vira uma lagea onde se lia o
    epitaphio de Fr. Luiz de Granada. Sollicitou dos demolidores que a
    tirassem do meio das ruinas, porque essa pedra era valiosa memoria.
    Provavelmente os economistas da alavanca, os philosophos da picareta
    riram a bom rir do desvario daquelle hespanhol fanatico. A lapide
    sepulchral de um dos homens mais sabios e eloquentes que a Peninsula
    gerou lá jazerá a estas horas nos fundamentos de algum edificio, cujo
    rendimento, abatidos decima e concertos, o vandalismo e o dono acharão
    de certo preferivel á gloria de Fr. Luiz de Granada.

    Oh, civilisação!

    Levaram-nos a Coimbra em 1834 obrigações de serviço publico. Residiamos
    ahi quando foi supprimido o mosteiro de Santa-Cruz. Correu então a
    noticia de que se pretendia pedir ao governo que esse bello edificio
    fosse doado ao municipio. Mas, para que? Para a camara o arrasar e fazer
    uma praça. Não se realisou o nefando alvitre; mas os bons desejos não
    faltaram. Uma praça no logar onde estivera Sancta-Cruz; uma praça
    calçada com os fragmentos dos rendados umbraes do velho templo, com as
    lageas quebradas dos tumulos de Affonso Henriques e de Sancho I e dos
    demais varões illustres que alli repousam! Ha ahi, porventura, quem
    avalie a sublimidade de tal pensamento e meça a incommensuravel
    distancia que vai d'um edificio monumento, onde apenas ha historia,
    arte, poesia, religião, a um terreiro amplo, bem amplo, onde a vadiagem
    possa estirar-se regaladamente ao sol? Infelizmente; a cidade
    litteraria, a _alma mater_, ficou privada deste documento ineluctavel da
    sua illustração.

    Pelas largas que tem tomado o vandalismo, podemos assegurar que dentro
    deste seculo não haverá em Portugal um monumento. O Mexico ufanar-se-ha
    do seu templo de Palenque, da sua pyramide de Tehuantepec; a India dos
    subterraneos de Ellora e de Elephanta, e até, os habitantes barbaros da
    Australia terão que mostrar aos estrangeiros os _moraes_ dos seus
    antigos deuses. Só nós os portugueses não lhes poderemos dizer:–«eis os
    testemunhos indubitaveis de que fomos uma nação antiga e gloriosa».

    Correi as principaes cidades do reino; buscae os mais veneraveis
    edificios. Ou jazem por terra ou foram applicados a usos que lhes estão
    produzindo a ruina. A bella e grandiosa igreja de S. Francisco do Porto,
    único monumento importante do seculo XV que possuia aquella cidade, foi
    consagrada a armazem da alfandega. O mosteiro dos Jeronymos em Belem,
    obra prima da architectura média entre ao néo-gothica e a da chamada do
    renascimento, edificio magnifico de uma epocha de transição na arte,
    como Sancta Sophia de Constantinopla o é de uma epocha analoga, foi
    deturpada, não nos importa por quem, e o seu maravilhoso claustro
    ludibriado com tapumes caiados e convertido em dormitorios forçamente
    humidos e malsãos. A Batalha, Alcobaça, o convento da ordem de Christo
    em Thomar cáhem em ruinas, e diz-se–«que importa?» Barbaros! Importa a
    arte, as recordações, a memoria de nossos paes, a conservação de cousas
    cuja perda é irremediavel, a gloria nacional, o passado e o futuro, as
    obras mais admiraveis do engenho humano, a historia, a religião. Vós,
    homens da destruição, dos alinhamentos, dos terreiros, da civilisação
    vandalica, é que importaes bem pouco; porque, semelhantes a vermes,
    roeis e não edificaes; porque não deixareis rasto no mundo depois de
    apagar tantos vestigios alheios; porque nada valendo, menoscabaes os que
    valeram muito; porque se um templo, um mosteiro, um castello duraram
    seis ou oito seculos e durariam, sem vós, outros tantos, as vossas
    picaretas, as vossas alavancas, os vossos camartellos estarão comidos de
    ferrugem e informes antes de vinte annos, e são essas as unicas e
    tristes memorias da vossa ominosa passagem na terra.

    Desprezar os monumentos é brutal; persegui-los é impio e sacrilego. Os
    que os desprezam fazem o que faziam os lombardos, apoderando-se da
    Italia, ás formosas obras da architectura greco-romana. Deixavam-nas
    perecer; porém não as destruiam. Os que as arrasam ou mutilam são
    adeptos de uma velha heresia que resurge; são iconoclastos redivivos.

    Procurae hoje, por exemplo, em Lisboa as antiquissimas igrejas
    parochiaes de Sancta Marinha e de S. Martinho: achareis os logares onde
    estiveram, e achá-los-heis, porque aos hunos encapados em lemiste não é
    dado supprimir um fragmento do orbe terraqueo. Os homens desta Lilliput
    da intelligencia estão desentulhando aquelles terrenos para fazerem
    casas. Onde haviam elles de morar, senão fizessem alli mais umas casas?
    Sancta Marinha encerrava memorias anteriores á monarchia, e a parochia
    de S. Martinho prendia-se com a historia da grande crise por que
    Portugal passou nos fins do XIV seculo. Mas de que momento é essa
    consideração, se attendermos a que lá, onde estiveram os dous templos
    ricos de idade e de tradições, se podem construir duas moradas bem
    pintadas, bem alvas exteriormente, com sua beirada vermelha e seu rodapé
    amarello? Que importa que se dispersem os ossos do conde Andeiro ou se
    desfaça a sepultura do conde de Alvor? As cinzas dos mortos podem jazer
    tão tranquillas debaixo do balcão de uma taberna, como aos pés de um
    altar, á sombra da eterna cruz. Bemdicta sejas tu, geração philosophica,
    geração arrasadora, geração camartelladora! O futuro, está certa disso,
    ha de fazer-te justiça.

    Uma das mais notaveis obras do seculo XIV foi, sem duvida, a muralha com
    que el-rei D. Fernando cingiu Lisboa. Todos julgavam impossivel a sua
    edificação, dizem os chronistas, porque suppunham que levaria cem annos
    a construir: aquelle principe soube, porém, acabá-la em dous. Os povos
    foram chamados de grandes distancias a trabalhar nella, fazendo-se
    aliás, todas as prevenções para suavisar aquella especie de anudúva
    extraordinaria. A esta muralha deve hoje Portugal não ser uma provincia
    d'Hespanha, porque salvou Lisboa de cahir nas mãos d'el-rei de Castella.
    Se isto se tivesse realisado, o reino estava perdido. Considerada a
    semelhante luz, a muralha de D. Fernando era, talvez, o nosso mais
    importante monumento historico. O progressivo accrescimo da capital
    tinha-a em grande parte destruido; mas restava ainda, além de outros, um
    lanço importantissimo. Era o angulo que fechava a cidade pelo lado do
    bairro dos judeus. Por este angulo, onde houvera uma porta e onde ainda
    restavam os vestigios de uma torre que a defendia, a torre de Alvaro
    Paes, se podia delinear quasi exactamente a direcção que seguiam os dous
    lanços de norte e de oeste. Era, assim, uma especie de padrão que
    indicava os limites septemtrionaes e occidentaes da povoação, e uma
    reliquia que demonstrava a grossura e solidez da antiga muralha, mui
    superior á de outras porteriormente construidas em epochas mais ricas e
    mais civilisadas.

    Este angulo, este fragmento, testemunha do periodo mais glorioso da
    nossa historia, lá se está derribando para se fazer uma praça quanto
    possivel ampla. Homens gigantes, como nós, não cabem onde couberam
    nossos avós, pygmeus conquistadores da Africa e da India. Far-se-ha pois
    uma praça, que, se não prestar para mais nada, poderá servir de mercado
    de hortaliça. Uma pyramide de repolhos substituirá o adarve, por onde,
    em noite sem lua, se viam a espaços scintillar as armaduras dos
    escudeíros ou cavalleiros idos em sobrerolda a vigiar as roldas dos
    besteiros do conto da cidade, quando pela terceira vez no reinado de D.
    Fernando os castelhanos a accommettiam com grande poder. Alli, no sitio
    daquella porta, por onde o, depois tão celebre, Nunalvares sairia muitas
    vezes nessa conjuctura a espalhar o terror e a morte entre os homens de
    armas inimigos, venha a lide incruenta sobre o preço da couve, sobre o
    viçoso ou murcho das favas, substituir o grito clamoroso de S. Jorge,
    que chamava nosso avós, os rudes burgueses do seculo XIV, aos combates
    em defesa da patria.

    O que estes netos de Attila, de collarinhos e peitilhos engommados, são,
    sobretudo, é ridiculos.

    Vergonha é confessá-lo: os estrangeiros tem mostrado maior veneração
    pelas antiguidades do nosso paiz do que os portugueses. Um estrangeiro
    salvou no convento dominicano de Bemfica a antiga capella de D. João de
    Castro. Ha pouco ouvimos outro, em cujos olhos chammejava a indignação,
    clamar altamente contra a barbaria com que se deixavam estragar no
    mosteiro de Belem varios quadros magnificos de eschola portuguesa, nos
    quaes os passaros, entrando pelas frestas mal reparadas do edificio, vão
    amontoando as immundicies. Mas estes estrangeiros são homens que sabem
    qual seja o valor dos monumentos da arte e da historia. Nós é que temos
    perdido o sentimento e a intelligencia para apreciar essas cousas.

    Se com a nossa incuria aggressiva e com a nossa raiva assoladora
    desmentimos o passado, para darmos em tudo documento de insipiencia
    desmentimos, até, essas mesmas opiniões e tendencias do presente, a que
    recorremos para condemnar em nome do progresso, sem distincção nem
    juizo, o mau e o bom de eras antigas. É a economia politica a sciencia
    do nosso tempo: todos falam em capitaes, em industria, em riquezas
    sociaes, em valores. Mas que serão os monumentos? Que serão essas
    admiraveis aggregações de marmore ou de granito? São o resultado ou
    _producto_ da concepção, da applicação e da execução: vem a ser,
    portanto, uma riqueza social. E por quê e para quê annullaes vós essa
    riqueza? Dado que representasse um capital improductivo, com que intuito
    o deitaes fóra? Não o são, porém, na sua maxima parte, os monumentos.
    Quando a arte ou os factos historicos os tornam recommendaveis,
    convertem-se em capital productivo. Calculae quantos viajantes terão
    atravessado Portugal neste seculo. De certo que não vieram cá para
    correrem nas nossas commodas diligencias pelas nossas bellas estradas,
    ou navegarem nos nossos rapidos vapores pelos nossos amplos canaes; de
    certo que não vieram para aprenderem a agricultar com os nossos
    agricultores, nem a fabricar com os nossos fabricantes; mas para
    admirarem os mosteiros da Batalha, de Alcobaça e de Belem, a sé velha
    Coimbra, a cathedral, a igreja de S. Francisco e o templo romano de
    Evora, a matriz de Caminha e a collegiada de Guimarães, os castellos da
    Feira e de Almourol, e emfim, tantas obras primas de architectura que
    encerra este cantinho do mundo. Crêdes que esses romeiros da arte voltam
    da romagem aos seus lares sem dispender muito ouro, e esqueceis que esse
    ouro ficou por mãos portuguesas? E falaes de economia politica, e
    anniquilaes o capital dos monumentos? Adoradores do camartello, por
    qualquer lado que se observe a vossa obra, não se descobre senão o
    absurdo.

    Quizeramos que os homens deste paiz que tem coração português fizessem
    uma associação, cujo trabalho de patriotismo ligasse os seus membros
    dispersos por todo o reino; que os residentes em Lisboa constituissem
    uma especie de juncta, á qual os das provincias, logo que á sua noticia
    chegasse a demolição de algum monumento da historia ou da arte,
    remettessem uma breve nota, individuando as circumstancias do edificio
    destruido e o nome do arrasador, quer este fosse magistrado ou
    funccionario publico ou municipal, quer fosse individuo particular.
    Quizeramos depois que essa breve nota, sem reflexões, sem affrontas,
    estampada em todos os jornaes, se legasse á posteridade. Nenhuma lei
    prohibe que se narre, singelamente e sem o qualificar, um facto que o
    seculo julga indifferente. Ninguem, por certo, teria a queixar-se de
    semelhante publicação. Eram simplesmente factos que se transmittiam á
    apreciação da posteridade; era apenas um trabalho historico.

    «Mas isso provocava as maldicções dos vindouros.–E que importam as
    maldicções dos vindouros ao que não cura nem da arte, nem do passado,
    nem do futuro, nem da gloria nacional, nem da memoria de seus avós, nem
    dos sepulchros, nem das tradições, nem sequer, emfim, dos interesses
    materiaes que resultam e hão de resultar da conservação dos monumentos?
    Que importa isso áquelles para quem os horisontes da vida são
    exclusivamente os horisontes da terra? Nada. Ririam desse corpo de
    delido de terrivel processo. Mas, talvez, seus filhos e netos não
    rissem, vendo-se obrigados a renegar de um nome, no qual gerações mais
    allumiadas e mais nobres haviam forçosamente de imprimir o ferrete de
    perpetua deshonra.

    III

    Os xeques da tribu arabe de Bka estavam um dia, pela volta da tarde,
    assentados juncto das columnas de um templo, na extremidade oriental da
    acrópole de Balbek.

    D'aqui, pondo a mão sobre os olhos para os resguardarem do sol que os
    deslumbrava, os chefes da tribu de Bka alongavam a vista para a banda do
    poente.

    E o sol, que descia rapido, mandava a sua luz suave atravez daquellas
    arcarias gigantes o immensas; daquellas columnas monolithas, a menor das
    quaes os braços de dez mil árabes não valeriam a erguer.

    A hora era de meditação e de melancholia, e os xeques olhavam com
    aspecto carregado para a ossada grandiosa da erma cidade, que é como um
    olhar de desdem com que o mundo antigo contempla o mundo moderno, e é ao
    mesmo tempo demonstração solemne da vaidade disso a que se chama poderio
    e gloria, cuja duração se confunde na eternidade com a duração de um
    dia.

    E por entre aquellas rumas de mármores e de syenites viam-se passar,
    buscando as suas leves e moveis habitações, dispersas entre as ruinas,
    os arabes do deserto, semelhantes aos gusanos que refervem no cadaver
    meio apodrecido do elephante abandonado pelos caçadores nas margens
    solitarias do Zambeze.

    E depois de largo silencio, um dos xeques abaixou os olhos e, com voz
    presa de furor intimo, disse para os companheiros:

    «Porque consentiremos nós, os filhos do Propheta, que estes gigantes de
    pedra estejam continuamente assoberbando a tenda humilde do arabe, que
    passa livre no mundo?

    Se a nossa vida é um instante, o homem não deve construir edificios
    destinados a transpor seculos. É quasi blasphemia revestir o transitorio
    com o trajo da eternidade. A eternidade não é da terra; é do paraiso.
    Porque haviam de querer os que já não são immobilisar no deserto para os
    seus ultimos netos esse arraial quasi interminavel de tendas de pedra?

    Para que semeiaram as gerações passadas uma seara immensa de abysmos
    pelos pendores do Ante-Libano, arrancando delle pedreiras macissas, como
    se fossem os grãos de areia, com que ergue collinas movediças o sopro do
    Simúm quando varre o deserto?

    Que temos nós com os tempos que já passaram, para que elles venham
    increpar-nos com a muda insolencia dos monumentos o nosso livre e solto
    viver, e instituir parallelos offensivos entre a decadencia actual e o
    esplendor das artes e a magnificencia laboriosa e incommoda daquellas
    eras de grandeza e poderio?

    Que importa que então saissem da Assyria os conquistadores da Asia e as
    frotas que descobriam novos céus e novos mares, ou que os poetas de
    então tivessem para cantar lendas de façanhas quasi incriveis?

    Em vez das conquistas, a liberdade. Hoje não ha acto que seja defeso ao
    arabe do deserto. Corremos livres por livres descampados. Embora o
    reluzir do sabre de um spahi de Ibrahim faça fugir aterrados cem
    cavalleiros nossos, e o frangue do occidente nos despreze como barbaros.
    Saboreamos quietamente o pão esmolado ou arrebatado ao que o cultivou
    para nós. Da bolsa do viandante o ouro cai-nos aos pés com seu dono. O
    nosso trabalho é apenas erguer aquelle quando este cai. Depois de uma
    vida sem sacrificio, sem amarguras, que nenhum monumento contará aos
    vindouros, dormiremos na paz do esquecimento, porque não deixaremos
    vestigios da nossa jazida. Não se revolvem os ossos dos mortos, quando o
    seu ultimo abrigo é a amplidão do nosso oceano de areias, que não
    consente nem lapides, nem inscripções, nem edificios na sua face
    tristemente pallida.

    Porque, pois, continuarão eternamente erguidos estes templos, estes
    palacios, estas muralhas, reprehensão ou antes injuria perpetua ao nosso
    viver?

    Que se ajunctem os filhos das profundas solidões do deserto, e que, dia
    a dia, vão esboroando uma parte, minima que seja, desses pannos de muros
    de cem covados, formados de poucas pedras; dessas columnatas, sobre
    cujos frizos e arestas pousa á noite o abutre, como costuma pousar sobre
    a cumiada de longa serrania, a que essa obra de homens se assemelha.»

    Callou-se o xeque. Os outros abaixaram as cabeças com lento meneio, como
    quem approvava o dicto.

    Se eu, se vós, chegassemos neste momento ao pé do velho templo de Balbek
    e ouvissemos o discursar do beduino, o que diriamos no primeiro impeto
    de justissima indignação?

    Diriamos que o xeque era uma vibora, que, esmagada debaixo de vinte
    seculos, queria voltar contra a historia os dentes envenenados, como se
    a peçonha da sua colera podesse anniquilar a historia.

    E antes que a nefanda obra que elle traçava e os demais applaudiam
    começasse a ser executada, falariamos assim áquelles loucos:

    «Vós outros quereis derribar a memoria das gerações que foram, porque a
    magestade do passado pesa mais sobre a vossa consciencia do que pesam
    sobre esse chão que parece acurvar-se e gemer debaixo de tantas
    grandezas, os pylones macissos, as sphinges gigantes, as arcarias
    profundas, as pedras de dez covados inseridas em muralhas
    indestructiveis. Melhor fora que forcejasseis por ser tambem grandes,
    convertendo-vos á virtude antiga, e que, em vez de constituir um bando
    de miseraveis, vos tornasseis n'uma nação illustrada e forte, capaz de
    legar á posteridade monumentos como estes, quando lhe chegasse a sua
    ultima hora; porque a morte abrange todas as sociedades, todas as
    civilisações, como abrange todos os individuos.

    Credes que a luz do sol occidental, batendo nas columnas avermelhadas do
    velho templo, vos reflecte nas faces envilecidas o rubor que as tinge?
    Não sentis o sangue que estas palavras vos fazem subir do coração ao
    gesto? É o sangue e não o marmore; é que, mau grado vosso, ellas foram
    despertar uma voz que não podeis soffocar, a da consciencia, que vos
    reprehende da actual decadencia. A vermelhidão que surgiu nessas faces
    crestadas não reflecte da pedra lisa; reflecte-se das almas que se
    rebellam contra si mesmas.»

    Ouzariamos nós, em verdade, dizer isto aos beduinos, sem que tambem o
    rubor viesse tingir-nos as faces?

    Não; porque somos como elles; porque, bem como elles, nos persuadimos de
    que, varrendo todos os vestigios do Portugal antigo, poderemos esconder
    aos estranhos a nossa decadencia actual; porque, além disso, cremos que
    para ser deste seculo, é preciso renegar dos antepassados.

    Todavia, ainda ha quem deplore a destruição das memorias venerandas de
    melhores tempos; ainda ha quem lucte contra a torrente de barbaria que
    alaga este paiz tão rico de recordações, recordações que tantos animos
    envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de
    indignação acham echo em muitos corações. Temos visto e recebido cartas
    acerca deste assumpto escriptas com a eloquencia da convicção e de
    profundo despeito. São protestos solemnes de que nem todos os filhos
    desta terra venderam a alma ao demonio da devastação. Provam ellas que o
    ruido dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão,
    da consciencia e do amor patrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias
    contra essa idéa fatal que entrou na maioria dos espiritos, de que tudo
    quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a peior cousa que ha é
    essa idéa, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais
    destestavel a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua
    infancia a inscripção que o atheismo decreta para os sepulchros:–aqui é
    a jazida do nada.

    É singular, por exemplo, a historia das recentes vicissitudes por que
    tem passado a collegiada de Sancta Maria da Oliveira em Guimarães.
    Guimarães parece fadada para victima desta especie de escandalos. A
    igreja da collegiada de Guimarães era um dos mais bellos monumentos de
    architectura ogival. O seu tecto de grossas vigas primorosamente
    lavradas constituia com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza
    de Portugal neste genero, porque, durante a idade média, empregava-se
    geralmente a abobada de pedra nas edificações sumptuosas. Além disso, as
    bem proporcionadas arcarias, os capiteis adornados de esculpturas
    variadas e subtis, as tres naves magestosas divididas por elegantes
    columnas, inspiravam em subido grau aquelle respeito melancholico e
    saudoso que é um segredo das igrejas chamadas gothicas. Os annos não
    tinham deslisado em vão por cima do monumento: arruinado em partes,
    carecia de reparos. O cabido ajunctou para isso grossas sommas.
    Chamaram-se obreiros, e ha sete ou oito annos que estes lidam por apagar
    todos os vestigios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capiteis
    e cornijas: substituiram-se com pedras lisas: estas pedras cubriram-se
    de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do
    Mestre d'Aviz lá está alindado; lá está cuberto de arrebiques. Os que
    deviam manter-lhe a magestade das cans; os que deviam dispender seus
    thesouros accumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o
    venerando aspecto e as rugas dos seculos, fizeram da casa do Senhor um
    velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flaccidez do
    gesto. Blasphemaram de Deus, não com blasphemias de palavras, mas com a
    blasphemia das obras. Deram emfim documento indubitavel de que não havia
    alli quem soubesse a harmonia que existe entre a architectura e a
    religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dous
    typos sensiveis, dous verbos que inspiram, um directamente ao espirito,
    outro symbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de
    que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escripto, mas que tambem é
    impio rasgar o livro de pedra.

    E que disseram os habitantes de Guimarães durante oito annos em que os
    vermes andaram a roer naquelle cadaver?

    Louvaram o _bonito_ da obra. O longo tasquinhar do cabido
    despertou-lhes, até, o appetite. Alguns lembram-se já de demolir as
    muralhas da villa reconstruidas por D. Dinis. Talham ainda banquete mais
    lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique;
    dos paços onde Affonso I nasceu. A gloria dos conegos de Santa Maria da
    Oliveira, tão dispendiosamente conquistada, offuscar-se-hia, assim, por
    pouco dinheiro, como a luz pallida da lua nos esplendores do surgir do
    sol.

    Arrasados, pois, os muros reconstruidos pelo rei lavrador, apagados os
    ultimos vestigios dos paços dos nossos primeiros monarchas, raspado e
    serapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de
    ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trahir, lhe
    restará uma ruga na face: o frontispicio da collegiada. Mas se a
    picareta do municipio pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita,
    o colherim, as tigellas de ochre e vermelhão e as broxas canonicaes,
    vingue-se o illustrissimo cabido arranjando mais alguns vintens, e
    mandando á custa delles picar e caiar aquelle frontispicio. Depois, para
    esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triumphantemente
    a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado.

    Mas haverá um governo que tolere tantos desvarios, tantas devastações
    brutaes? Póde haver, e ha. Não seria difficil encontrar ministros e
    administradores geraes, que, se não fora o defeito de lerem sem
    soletrar, symptoma altamente suspeito para os eleitores, dariam
    excellentes vereações aos concelhos desta terra, onde o sangue dos
    conquistadores suevos parece ter ficado predominando nas veias dos seus
    habitantes. Mais de um governo tem disputado ás camaras municipaes
    primores de barbaridade. Já alludimos á igreja de S. Francisco do Porto
    convertida em armazem da alfandega; ao claustro de Belem convertido em
    dormitorio; ao abandono dos conventos de Thomar, da Batalha e de
    Alcobaça. Ha, porém, mais. Vede essa igreja de S. Domingos de Santarem.
    As suas velhas e grossas portas estão fechadas e o convento está vazio
    dos seus antigos habitadores. Não é, todavia, provavel que o templo
    mandado edificar pelo malfadado Sancho II e de cuja primitiva fabrica
    ainda resta inteira a capella mor, ficasse deserto de culto, como o
    convento ficou ermo de frade. A suppressão das ordens monasticas não foi
    a abolição das solemnidades religiosas. Vede, pois, o templo, que, se
    agora está fechado, não tardará a ecchoar com orações e psalmos.
    Transportae-vos pela imaginação para o interior da igreja na hora em que
    os canticos e o incenso se alevantam ante o altar; em que o orgam sólta
    a sua voz melancholica; em que a nave está cheia de povo e o sacerdote
    ora por elle e com elle; na hora em que o sol coado através das esguias
    janellas reflecte pelas pedras que o tempo amarelleceu uma luz
    suavemente pallida; imaginae essa hora, e vereis que, se o convento se
    despovoou, nem por isso ficou despovoado o templo. A oração do
    dominicano não é necessaria nas solemnidades da igreja. Não o abandonou
    á soledade a pia sollicitude dos fieis. De noite, as lampadas,
    penduradas ao longo da nave, ou brilhando na escuridão das capellas,
    como estrellas engastadas em céu profundo, despedem frouxos raios que
    vão quebrar-se por cima de campas onde se divisam, em caracteres
    confusos e gastos nomes de varões illustres que alli vieram repousar das
    lidas da vida á sombra da cruz. Lá estão os sepulchros de Gil e de
    Martim d'Ocem, cuja voz exprimia a summa razão e a summa sciencia nos
    conselhos dos reis; lá alveja o jazigo do infante D. Affonso, filho de
    Affonso IV, e o de Fernando Sanches, a quem Fr. Luiz de Sousa chama
    _bastardo querido_ de D. Dinis. Por ahi dormem muitos pobres frades,
    cuja vida obscura, mas cuja morte foi invejada. Misturam-se alli os
    ossos dos que foram grandes na terra com os dos que reputamos grandes no
    céu; e uns e outros são como testemunhas que tornam mais solemne o
    culto, esse laço que liga ao céu a terra. Mas as portas do edificio
    sagrado rangem nos quicios de ferro, para se abrirem de par em par.
    Ondas de povo vão precipitar-se pelo estreito ádito e espraiar-se até
    juncto do altar. O sacerdote vai começar o sacrificio incruento, e o
    orgam acompanhar as orações com as suas harmonias. Entremos.

    Não! Refujamos! Orações, psalmos, harmonias, luzes, incenso, sacerdotes,
    povo, nada disso ha ahi. Há só as trevas da nave pesando sobre as trevas
    dos sepulchros. O velho templo é um palheiro do Commissariado…

    E quem fez isso? Foi o vereador boçal de um concelho obscuro? Não. Foi o
    governo de uma nação que se diz civilisada, ou que pelo menos toma
    assento no convivio das nações da Europa.

    Quasi contiguo á igreja palheiro existe outra, modelo em muitas cousas
    da mais elegante architectura ogival. É a do extincto convento de S.
    Francisco. Lá, na parte da nave sobposta ao côro, o tumulo da infanta D.
    Constança, cujos lavores se vão diariamente quebrando e oblitterando,
    serve de cabide a sellins e arreios de cavallaria. Applicação igual e
    igual fim vai tendo o del-rei D. Fernando, que anteriormente os frades
    tinham transferido da nave para o côro.

    Com estes exemplos do governo não é de admirar que ahi mesmo em Santarem
    se derribem as portas das velhas muralhas para calçar as ruas, ou que na
    antiga villa da Torre-de-Moncorvo, hoje Moncorvo só, a antiquissima
    torre que dera origem e nome á povoação, fosse deitada por terra com o
    mesmo intuito; que, emfim, se tracte de dar ás muralhas da Guarda
    identico destino. Aqui o vandalismo confunde-se com a demencia. Na
    Guarda, ninho d'aguias, collocado no cimo de um cerro de granito, a
    pedra vai calçar a pedra. D'antes, no inverno, o viver alli era bem
    duro, quando os edificios estavam abrigados atraz da solida cerca.
    Agora, o vento gelado que passa pelas cumiadas da serra da Estrella virá
    precipitar-se rugindo por aquellas ruas meio desertas e tornar
    inhabitavel a povoação. A Guarda, que em si propria é um monumento, e
    que encerra uma cathedral magnifica, estará no decurso, talvez, de
    poucas décadas convertida n'um covil de féras.

    Dos males que os seculos passados legaram ao presente nenhum foi tal
    fatal como a ignorancia em que deliberadamente se conservavam as
    multidões. Essa ignorancia que ha de levar annos, talvez seculos, a
    dissipar, era incomparavelmente menos nociva em epochas de servidão,
    quando o poder absoluto, concentrado em poucas mãos, podia facilmente
    reunir n'um foco as luzes intellectuaes do paiz e aproveitá-las
    desassombradamente na solução das questões de administração. Hoje que o
    vassalo se converteu em cidadão; hoje que os erros e preoccupações das
    intelligencias incultas se despenham de todos os lados na torrente da
    opinião publica e se confundem de modo inextricavel com as idéas
    sensatas; hoje, finalmente, que é necessario não afrontar essa torrente,
    nem querer fazê-la refluir á força, os resultados fataes da ignorancia
    são incomparavelmente mais difficeis de evitar e remediar. Se as portas
    dos ministerios estivessem fechadas para os arrasadores professos, e
    fosse exigivel dos pretendentes a pastas uma justificação de que, nem
    pelo lado paterno, nem pelo materno, descendiam de algum soldado de
    Genserico, ainda assim, dada a competencia dos magistrados municipaes, e
    o valor moral que resulta para os seus actos da sua origem electiva, um
    governo illustrado, mas que não quizesse ultrapassar os limites da
    propria auctoridade, não poderia talvez reduzir completamente ao
    silencio o fragor das demolições que reboa por todos os angulos do
    reino. O camartello é o enlevo, o bezerro d'ouro, o Moloch, o Baal da
    nossa burguesia. Um camartellão deitado sobre uma ara de pedra em frente
    dos paços do concelho deveria substituir os seculares pelourinhos
    (tambem já, em parte, roidos ou despedaçados), como symbolo do poder
    municipal.

    Imaginemos, de feito, cinco, seis, ou mais figurões assentados ao redor
    d'uma banca, falando sem juizo, ás vezes sem decencia, sempre sem
    grammatica, sobre a administração do municipio, e ponderando os
    proveitos e aformoseamentos que para este hão-de resultar da destruição
    de um monumento da arte ou da historia. Lá pede a palavra um delles,
    logista gordo, ensebado, vermelho, quasi-virtuoso, e cujas unhas e cuja
    barba estão accusando a tesoura e a navalha de vergonhoso desleixo no
    desempenho das respectivas funcções. É o Demosthenes do conciliabulo.
    Aprendeu a ler pela Historia de Carlos Magno e dos Doze Pares, e é
    assignante das traducções de Paul de Kock, para se exercitar. Um
    palacio, um muro, uma igreja de eras remotas fazem-no estremecer de
    horror. Ao lado de cada ameia do castello ermo lhe parece enxergar um
    cavalleiro cuberto de armas ferrugentas; em cada torre crê ouvir soar as
    badaladas da campa feudal. Escutam com assombro os outros cidadãos
    vereadores o Mirabeau logista. Os animos commovem-se: os cabellos
    arripiam-se. A sentença contra o monumento vai ser fulminada. Ha um
    instante de terrivel silencio. O presidente pede votos.–«A terra»:–diz
    o homem gordo.–«A terra»:–vão repetindo com voz solemne os outros
    membros do sanhedrim. Então o secretario lavra o fatal accordam. Por
    entre aquellas letras, logo á nascença amarellas, e escriptas com penna
    de duvidosa classificação ornithologica, surge magestosa no meio de cada
    palavra uma letra capital, como que protegendo as que a precedem e
    seguem. Acabou-se emfim a magistral composição: o erudito secretario
    estende o papel ao presidente, que, enlevado na voz melodiosa da
    consciencia a asseverar-lhe que fez desmarcado serviço á patria, o
    recebe ás avessas, e lhe lança no topo, com ademan desdenhoso, a cruz de
    seu signal. Passa aos outros juizes a acta fulminante. O logista que,
    por incessantes exercicios gymnasticos nas paginas de Paul de Kock, já
    soletra com rapidez vertiginosa, e conhece n'um relance o erro do
    presidente, cujo pundonor litterario não ousa, aliás, ferir advertindo-o
    do lapso, escreve o proprio nome, em menos de dez minutos, no seu devido
    logar, e debaixo da garatuja do Mirabeau burguês, os outros magistrados
    municipaes vão plantando as respectivas cruzes n'um devoto calvario.
    Emfim, o secretario assigna, e o crime está consummado.

    Torre, muro, paço, ou o que quer que sejas, cuja ruina foi decretada,
    para ti já não ha salvação. Amanhan, nos teus lanços desconjunctados, no
    teu cimento desfeito, nas tuas pedras estouradas, nos teus fundamentos
    revoltos, estará escripto á ponta de picareta e de alavanca a palavra
    fatal–«a terra!»–extrahida do calvario municipal.

    Mas–dir-se-ha–que quereis que se faça ácerca dos monumentos? Que
    queremos que se faça?! Que se deixem em paz. Não pedimos museus; porque
    estes não são, digamos assim, senão necropoles, em relação á
    architectura. Depois, em muitos casos, os monumentos não se transportam,
    nem cabem lá. Os fragmentos de um edificio, tirados do seu logar, sem
    destino, sem união, são mortos; são cinza e pó de cadaveres. Reunam-se
    em bibliothecas e em galerias os livros e os quadros que não foram
    roubados, estragados ou abandonados por ignorancia crassissima; mas as
    pedras só pedem repouso. Que os representantes do paiz lhe salvem os
    seus titulos mais nobres. Haja no seio do parlamento uma voz que se
    alevante energica a favor do passado. Essa voz achará eccho em todos os
    districtos do reino, porque em todos elles há homens sisudos e peitos
    generosos. Appareça uma lei ácerca do assumpto, efficaz pela sancção do
    castigo, já que, n'um seculo corrompido e de decadencia, as
    palavras–pundonor e gloria–vão insensivelmente passando para o
    glossario dos archaismos. Entenda-se, emfim, que nenhum monumento
    historico pertence propriamente ao municipio em cujo ambito jaz, mas sim
    á nação toda. Por via de regra, nem a mão poderosa que o ergueu regía só
    esse municipio, nem as sommas que ahi se despenderam sairam delle só,
    nem a historia que transforma o monumento em documento é a historia de
    uma villa ou cidade, mas sim a de um povo inteiro. Se, por exemplo, aos
    habitantes de Guimarães, de Coimbra, do Porto ou de Lisboa não importa
    que desappareçam as mudas testemunhas dos factos que ahi se deram, dos
    homens que ahi passaram; se não lhes importa que o viajante vá examinar
    os monumentos que os livros dizem existir ahi, e que, achando-os
    convertidos em pavimentos das ruas, fuja espavorido temendo alguma
    fréchada ou azagaiada, suppondo-se, por illusão momentanea, nos sertões
    invios da Cafraria; se não curam da propria reputação, consentindo que
    os seus eleitos vão assentar praça posthuma nas extinctas legiões
    d'Attila, e que o seu clero se filie na seita dos modernos iconoclastas,
    ao menos que o governo e o parlamento não deem ao mundo documento de
    igual ignorancia e barbaria, mas acudam ao que ainda resta. Que uma lei
    salvadora aposente de vez os picões e alviões e alavancas que tantas
    esculpturas tem roçado, tantas campas profanado, tantas columnas
    quebrado e tantas torres, muros, ameías, campanarios, arcarias, galilés
    derribado e desfeito.

    DA PROPRIEDADE LITTERARIA E DA RECENTE CONVENÇÃO COM FRANÇA AO VISCONDE
    D'ALMEIDA GARRETT

    1851

    APPENDICE

    1872

    Senhor Visconde.–Ha dias que no _Diario do Governo_ se publicaram
    varios documentos assignados por v. ex.^a, entre os quaes um, cujo
    verdadeiro nome e indole ignoro pela minha pouca noticia dos ritos
    diplomaticos e formulas officiaes. Neste documento, no meio de graves
    ponderações dirigidas á Soberana por v. ex.^a ácerca da convenção
    recentemente celebrada com a republica francesa, vem citado o meu nome
    em abono, se não daquella triste convenção, ao menos do decreto que
    creou e legitimou em Portugal a propriedade litteraria. A honra que v.
    ex.^a me faz citando o meu nome, e citando-o conjunctamente com o do
    illustre Silvestre Pinheiro, exigiria da minha parte o mais vivo
    reconhecimento, se eu podera acceitá-la. Infelizmente prohibe-m'o a
    consciencia. Enganaria os meus conscidadãos; enganaria a v. ex.^a, se
    com o silencio désse a minha fraca sancção á doutrina da propriedade
    litteraria, a qual considero mais que disputavel, ou á convenção com
    França, que, além de consagrar opiniões que reputo profundamente
    inexactas, é prejudicialissima por diversos modos aos interesses da
    nossa terra. E torna-se tanto mais indispensavel esta minha
    manifestação, quanto é certo que, não só em conversações particulares,
    mas tambem pela imprensa, desapprovei altamente a feitura desse ruinoso
    convenio. N'um jornal, em que eu collaborava, appareceram varias
    considerações, que supponho não serem de desprezar, contra os ajustes
    celebrados com França a semelhante respeito. Essas considerações eram
    minhas: adopto-as hoje, como então as exarei, sem lhes ajunctar a minha
    assignatura, porque um nome não dá nem tira força a um raciocinio, e um
    absurdo não fica mais ou menos absurdo quando é ou deixa de ser adoptado
    por um engenho grande ou pequeno. Todos sabiam que o artigo do _Paiz_
    contra a convenção litteraria era meu: foi, até, por isso,
    accidentalmente me constou a publicação do papel dirigido por v. ex.^a a
    S. M. a Rainha; foi por isso, e só por isso, visto que nunca leio o
    _Diario_, e nomeiadamente a parte official, com temor de chegar a
    esquecer a grammatica geral, e a indole e propriedade da nossa lingua.
    Por alguem, que suppôs ver ahi uma refutação do que eu tinha escripto,
    soube da existencia de tal papel, que, no entender dessa pessoa,
    affectava com arte ser uma especie de prevenção contra objecções
    futuras. Busquei o _Diario_, e desenganei-me de que haviam dado ao
    documento uma interpretação inexacta e malevola. Lendo-o, convenci-me de
    que a alta razão de v. ex.^a reluctava contra a obra fatal do convenio,
    e de que a voz dos sophistas, que v. ex.^a suppunha ouvir do lado do
    futuro, era a da propria intelligencia, que condemnava a illusão em que
    se transviara. Tentando persuadir a Soberana, v. ex.^a, sem talvez o
    saber, persuadia-se a si proprio. Era malevola e injusta, portanto, a
    significação que se dava áquelle e aos outros documentos publicados no
    _Diario_ a este proposito. Se v. ex.^a intentasse refutar as
    considerações do _Paiz_, te-lo-hia feito directamente, francamente,
    lealmente: sobejam-lhe para isso recursos. V. ex.^a teria apreciado as
    razões dos que condemnam a convenção, e não se limitaria a qualificá-los
    de sophistas, sem mostrar que o sophisma estava do lado delles. V. ex.^a
    é uma intelligencia demasiado superior, para não recorrer a essa pobre
    argumentação _ad odium_, de que contra mim mesmo a hypocrisia ignorante
    e irritada ainda ha pouco tempo deu nesta terra tão deploraveis
    exemplos. Só nas circumstancias em que v. ex.^a escrevia, quando a
    imprensa não tinha interposto o seu voto sobre a materia, e quando v.
    ex.^a estava provavelmente persuadido de que ás doutrinas em que se
    funda o tractado e ás provisões delle se não opporiam senão sophismas;
    só nessas circumstancias, digo, v. ex.^a poderia empregar as duras
    phrases com que condemnou os adversarios possiveis da convenção
    litteraria.

    Persuadido de que isto era assim, e de que os termos geraes, em que v.
    ex.^a se expressava, não destruiam na minima cousa as minhas posteriores
    observações, eu teria evitado o para mim, por muitas razões,
    ingratissimo trabalho de escrever a v. ex.^a sobre o assumpto, se v.
    ex.^a me não houvera, até certo ponto, chamado á auctoria sobre a
    doutrina que serve de fundamento tanto ao decreto de 8 de Julho, como á
    convenção, que se reputa seu corollario. Mas, podendo concluir-se das
    palavras com que v. ex.^a quiz honrar-me, que eu commungo nas suas idéas
    sobre a propriedade litteraria, o que não sería exacto, devo rectificar
    os factos a que v. ex.^a allude, e expôr depois as duvidas que tenho
    contra a legitimidade das doutrinas de v. ex.^a nesta materia, bem como
    os inconveniente que, na minha opinião, resultam para Portugal da
    applicação de taes doutrinas á feitura do tractado ou convenção, em que
    v. ex.^a foi um dos plenipotenciarios.

    Diz v. ex.^a que eu e Silvestre Pinheiro tinhamos approvado e
    aperfeiçoado o trabalho de v. ex.^a sobre o direito de propriedade
    litteraria, o qual hoje se acha convertido em lei do reino. Pelo que me
    toca, posso assegurar a v. ex.^a que de tal approvação e aperfeiçoamento
    não conservo outra memoria que não seja a seguinte: estando eu e v.
    ex.^a na camara dos deputados na legislatura de 1840, tinha v. ex.^a
    apresentado um projecto de lei sobre aquella materia. Pertencia eu á
    minoria da camara, e no seu zelo por fazer passar uma providencia, que,
    sinceramente o creio, reputava util e justa, v. ex.^a teve a bondade de
    falar comigo e com outros membros da opposição, para que não a
    fizessemos a esse projecto sobre que ía deliberar-se. D'entre os
    individuos com quem v. ex.^a tractou o assumpto, recordo-me de quatro,
    dos srs. Soure, Ferrer, Marreca e Seabra, o ultimo dos quaes, conforme
    minha lembrança, reluctou antes de acceder aos desejos de v. ex.^a Eis a
    memoria que conservo de semelhante negocio. Se v. ex.^a me mostrou então
    o seu projecto, e se eu lhe propús a alteração ou o accrescentamento de
    algum artigo, nem o affirmo, nem o contesto. São cousas que
    completamente me esqueceram. Mas, se o fiz, que se deduz d'ahi a favor
    ou contra o pensamento da lei; a favor ou contra o direito de
    propriedade litteraria? Esses additamentos ou observações podia
    submettê-los á consideração de v. ex.^a, acceitando hypotheticamente a
    doutrina, sem a fazer minha; podia propô-los em attenção ao
    desenvolvimento logico do projecto, ou ás circumstancias externas que
    devessem modificá-lo, sem adoptar a idéa geradora delle. Se, porém, v.
    ex.^a quer que por esse facto eu mostrasse seguir então as idéas de v.
    ex.^a, declaro que sou agora contrario a ellas, e demitto de mim
    qualquer responsabilidade que de tal facto, se o foi, possa provir-me.
    Dez annos não passam debalde para a intelligencia humana, e eu não me
    envergonho de corrigir e mudar as minhas opiniões, porque não me
    envergonho de raciocinar e aprender. O que me traria o rubor ás faces
    seria alterar doutrinas e crenças para promover os meus interesses;
    duvidaria, até, de o fazer, se tal mudança, por caso fortuito, se
    ligasse com vantagens para mim. Mercê de Deus, nessa parte tenho sido
    feliz. É desgraça que ainda me não succedeu.

    Permitta-me v. ex.^a que, antes de lhe expôr as duvidas que tenho ácerca
    da propriedade litteraria, eu invoque, para desculpar a minha descrença,
    o scepticismo d'uma das primeiras intelligencias de Portugal neste
    seculo, que é v. ex.^a mesmo. Parecendo sustentar como incontroversa a
    doutrina que serviu de fundamento ao decreto e á convenção, affirmar que
    a moral e o direito seriam offendido se essa doutrina não se reduzisse á
    practica legal, equiparar a contrafacção á fraude, ao roubo e á
    falsificação, considerar como blasphemos e sophistas os que duvidam da
    legitimidade moral da sua theoria, v. ex.^a assevera, comtudo, que não
    estipularia definitivamente o artigo 8.^o do convenio, que fere os
    interesses provenientes da contrafacção, nem as mais provisões que delle
    se deduzem, se não houvera verificado que era minima a somma das nossas
    importações de livros da Belgica. V. ex.^a, consinta-me dizê-lo,
    calumniar-se-hia a si proprio se houvessemos de dar a estas proposições
    encontradas um valor absoluto. Se v. ex.^a estivesse perfeitamente
    convencido das nequicias e immoralidades que lhe apraz atribuir á
    contrafacção, e da legitimidade _sacratissima_ que presuppõe na
    propriedade litteraria, v. ex.^a não poderia hesitar na estipulação do
    artigo 8.^o, fossem quaes fossem os proveitos que tirassemos da sua
    eliminação; porque nas doutrinas indisputaveis de moral e de justiça
    quem é capaz, não digo de deixar de proceder em conformidade d'ellas,
    mas sequer de hesitar, é tambem capaz de trahir o seu dever, e v. ex.^a
    nunca por certo o seria. Se v. ex.^a, para resolver o negocio, julgou
    opportuno examinar a questão d'interesse, para admittir ou repellir o
    artigo 8.^o da convenção, cumpre-me acreditar que reputava duvidosa a
    legitimidade da sua doutrina.

    Examinemos a essencia dessa doutrina.

    O que é o direito propriedade? É o direito transmissivel de possuir e
    transformar um valor creado pelo trabalho do que o possue, ou
    transforma. Esse direito complexo existe desde o momento em que o homem
    applicou o trabalho intelligente á materia, e creou assim um valor. As
    modificações, os limites que a sociedade lhe impõe vem da indole e das
    necessidades della; não são inherentes ao mesmo direito.

    A propriedade litteraria (abstrahindo das obras d'arte para simplificar
    a questão) não póde ser senão o direito sobre um valor creado pelo
    trabalho dos que o crearam; sobre a representação material da idéa;
    porque esse valor está ligado a um objecto que se chama o _livro_, na
    accepção vulgar e sensivel desta palavra.

    O que é o livro? Um complexo de phrases unidas entre si para
    representarem uma certa somma de idéas, fixadas no papel para se
    transmittirem á intelligencia, e repetidas certo numero de vezes para
    aproveitarem a muitos individuos; mas para aproveitarem ainda mais ao
    auctor.

    Como nasce o livro? Pelos esforços combinados do escriptor, do
    capitalista que empregou o capital para a sua publicação, do fabricante
    de papel, do compositor, do impressor, etc. São estes esforços junctos
    que criam o valor do livro, valor que, antes ou depois de trocado, se
    reparte pelos que trabalharam em creá-lo.

    Qual é a parte que pertence ao auctor nesse complexo de esforços? A
    correspondente ao seu trabalho, no sentido vulgar da palavra, porque só
    o trabalho material, embora dirigido pela intelligencia, como todo o
    trabalho productivo, póde crear verdadeiramente um valor de troca. Esta
    quota, indeterminada em si, é fixada em cada um dos casos pelas
    convenções espontaneas e livres entre os individuos que concorreram para
    a existencia do valor venal que o livro representa.

    Como se procede ordinariamente nessa operação economica? O editor, seja
    o proprio auctor, seja pessoa diversa que subministre o capital,
    retribue o trabalho de todos os outros individuos e realisa o valor da
    mercadoria, conjunctamente com a renda do capital, por meio da venda.
    Todos esses esforços e factos economicos que delles derivam foram
    calculados, avaliados. A totalidade dos exemplares de qualquer
    publicação representa a totalidade desses diversos valores; é
    determinada por elles e determina-os ao mesmo tempo, porque ha uma
    condição extranha que a restringe, a das probabilidades maiores ou
    menores da procura no mercado.

    Estas phases que se dão na industria dos livros, na sua fabricação e
    commercio, são as mesmas que se dão n'outra qualquer industria. As leis
    civis que a protegem devem, portanto, ser as mesmas que protegem as
    outras. A igualdade civil não consente que sejam nem mais nem menos.

    O direito de propriedade litteraria, como v. ex.^a o entende, cria,
    porém, um valor ficticio para crear uma propriedade que não o é menos.
    De feito, o que é que se transfere de uma edição para outra? Unicamente
    as idéas, as phrases, as palavras, combinadas deste ou daquelle modo.
    Pois isso póde ser propriedade de ninguem? Menos ainda, se é possivel,
    que o ar, o calorico, a chuva, a luz do sol, a neve, ou o frio. Como
    cada um destes phenomenos naturaes, essas idéas, essas phrases, essas
    palavras podem ser uteis; mas a _utilidade_ não é o _valor_; porque nada
    d'isso é susceptivel de uma apreciação de troca. O professor, por
    exemplo, não vende as suas doutrinas e as formulas com que as exprime;
    vende o tempo e o trabalho que emprega em ensiná-las; vende o tempo e o
    trabalho que emprega em ensiná-las; vende o tempo e o trabalho que
    consumiu em adquiri-las. O discipulo que as ouviu uma ou mais vezes, e
    que as decorou, póde ir repeti-las, ensiná-las a outros, sem que ninguem
    se lembre de o considerar como um contrafactor. Onde está a razão para
    se darem naturezas diversas á concepção escripta e á concepção falada? A
    lei, para ser logica, deve prohibir a repetição do discurso proferido
    seja onde fôr, na cadeira, no pulpito, nas assembléas consultivas e
    deliberantes, uma vez que o acto da repetição possa produzir lucro. Se a
    idéa que se manifesta se torna pelo simples facto da manifestação uma
    propriedade, é preciso que assim se verifique sempre e em todas as
    hypotheses; porque a qualidade de escriptor não dá a ninguem melhor
    direito do que ao resto dos cidadãos.

    Permitta-me v. ex.^a que eu procure um exemplo onde se possa bem sentir
    o diverso modo por que cada um de nós concebe a questão. Um individuo
    quis edificar uma habitação mais ou menos sumptuosa, mais ou menos
    commoda, para negociar o predio depois de acabado. Chamou um architecto
    e ajustou com elle retribuir-lhe o desenho na proporção do lucro da
    venda. O architecto delineou o edificio: o edificador reuniu o cimento,
    a pedra, as madeiras e os outros materiaes para a edificação. Veio então
    o mestre d'obras com os seus obreiros: lançaram-se os fundamentos;
    altearam-se as paredes; travaram-se os madeiramentos; assentaram-se os
    tectos; dividiram-se e adornaram-se os aposentos; pôs-se, emfim, remate
    ao edificio. Vendeu-se este depois, e o architecto recebeu a retribuição
    do seu trabalho. Em rigor que tinha elle feito? Manifestara o seu
    pensamento; escrevera um livro, e imprimira-o n'um unico exemplar, para
    haver uma quota, proporcional e livremente ajustada, do producto da
    venda desse exemplar. Quanto a mim, recebida esta quota, a especie de
    co-propriedade que elle tinha no predio cessou. O comprador podia fazer
    reproduzir o edificio tal qual n'outra ou n'outras partes; podiam
    reproduzi-lo todos que o vissem. Se, porém, fosse verdadeira a doutrina
    de v. ex.^a era necessario que se chamasse o architecto a cada nova
    edificação que se emprehendesse, e que de novo se lhe pagasse o desenho,
    como lho pagara o primeiro emprezario. A theoria da propriedade
    applicada ás manifestações da intelligencia para ser lógica comsigo
    mesma tem de ir até o absurdo. E senão, imaginemos outras hypotheses.

    Um marceneiro ideou uma cadeira elegante e commoda; deu depois
    existencia e vulto á sua concepção, fabricando uma duzia ou um cento de
    cadeiras, em que essa concepção se manifestou, e vendeu-as com um lucro
    mais ou menos avultado. Os que crêem na propriedade das idéas devem
    invocar o direito de propriedade para a concepção do marceneiro, porque
    o marceneiro é tão cidadão como o escriptor: devem declarar contrafactor
    outro qualquer individuo da mesma profissão, que, vendo a procura no
    mercado daquella fórma de moveis, os imitou sem licença do inventor; sem
    lhe pagar o preço da idéa, o preço da sua propriedade intellectual.

    Um cultivador, á força de observações e de meditação, tendo unido ao
    estudo da sciencia de agricultar o da natureza do solo e das condições
    do clima em que habita, achou emfim um systema de rotação e um methodo
    de cultura muito mais perfeito que o dos seus vizinhos. Esses methodo e
    systema, applicados á terra, produziram-lhe, em vez de dez sementes,
    vinte; em vez de uma colheita annual, duas. Os vizinhos, convencidos da
    utilidade das idéas do cultivador, applicaram o novo systema de rotação,
    o novo methodo de amanhos aos proprios campos: _contrafizeram_ o livro
    do lavrador, escripto a ferro de charrua nas vastas paginas da terra.
    Venha uma lei que véde este attentado contra a propriedade sacratissima
    das idéas.

    E essa lei protectora que se estenda a tudo quanto o espirito humano
    póde conceber: prohiba-se a luz que o trabalho da intelligencia derrama
    no meio da sociedade, e que se chama a civilisação; annulle-se a obra de
    Deus que pôs no mundo os homens summos como apostolos da sua sabedoria
    eterna, como instrumentos da sua providencia; neguem-se os destinos de
    perpetuo progresso, que são os do genero humano, e cujo mais poderoso
    mobil é a imitação, se essa luz, se essa civilisação, se esse progresso
    não for comprado na praça publica; se não se respeitar o direito da
    propriedade litteraria, que não é, que não póde ser senão o direito de
    propriedade das idéas manifestadas, não importa com que formulas;
    materialisadas, não importa por que meio, nos objectos sensiveis.

    Todavia, dir-se-ha, o trabalho dos auctores com essa protecção dada ao
    livro só como uma especie de manufactura para que elles contribuiram,
    não fica dignamente retribuido. Depois, não é isso fazer descer o homem
    de talento ao nivel do rude obreiro? Não é envilecer o nobre mister de
    escriptor? Absurdo tudo isso! Desde que pondes a retribuição do engenho
    á mercê da procura no mercado, é necessario que elle se submetta ás
    condições do mercado. Quem o reduz unicamente à qualidade de fabricante
    de livros sois vós com as vossas leis de propriedade. Se o quereis
    recompensar como é recompensado o lavrador, o industrial, não exijaes
    para elle um direito diverso. O auctor de um volume, que custou um anno
    de trabalho, realisada a venda de mil exemplares que se imprimiram,
    lucrou, supponhamos, 300$000 réis. Que meio tendes para verificar que o
    seu trabalho não está pago? Que outra cousa, senão o mercado, regula o
    valor dos serviços? Quem vos disse, que, attribuindo ao auctor o direito
    exclusivo de reimprimir o livro, elle ou seus herdeiros, tantas vezes
    quantas o exigir a procura, durante a sua vida e mais trinta annos
    depois da sua morte, nem mais um mez, nem menos um mez, é que a
    retribuição correspondeu ao lavor? Onde está a vossa balança, o vosso
    metro? Respondei.

    E cabe aqui repetir uma observação a que por parte dos defensores da
    propriedade litteraria nunca se deu resposta que tivesse o senso commum.
    Se as idéas e as phrases de um livro constituem uma propriedade, um
    valor, um capital accumulado e fixo; se esta propriedade é sacratissima,
    ou por outra, se é sagrada entre as mais sagradas, porque lhe recusaes a
    vantagem que o direito assegura sem excepção a todo o outro capital
    accumulado e activo, a perpetuidade? Porque espoliaes os herdeiros do
    auctor no fim de trinta annos? O capital não se consummiu, porque o
    livro ahi está. Em virtude de que principio moral ou juridico hão-de
    elles ser privados de uma herança sacratissima? Em virtude da utilidade
    publica? Mas as expropriações de outra qualquer propriedade menos
    sagrada, em proveito commum, por mais remota que seja a origem desse
    capital accumulado, pagam-se. A expropriação publica não é mais do que
    uma troca regulada, como todos os valores, pelo preço do mercado.

    O que me parece ineluctavel, sr. visconde, á vista destas ponderações, é
    que o escriptor, ao mesmo tempo homem de trabalho e evangelisador da
    civilisacão e do progresso, exerce na terra um duplicado mister. Na
    feitura de um livro ha dous phenomenos distinctos: um material, outro
    immaterial. O material é o lavor visivel que essa feitura custou. O
    auctor consumiu horas e horas sobre os livros, emprehendeu viagens,
    trabalhou nos laboratorios, revolveu bibliothecas e archivos, penetrou
    nas minas e subterraneos, herborisou por valles e serras, observou os
    ceus, sondou os mares, e depois, encerrado no seu gabinete, durante dias
    inteiros, no ardor da canicula; durante longas noites nos rigores do
    inverno, ennegreceu o papel com a traducção visivel das reflexões ou dos
    factos que o seu espirito havia coordenado. Em todas estas occupações,
    em todos estes phenomenos exteriores não houve da parte delle senão a
    obediencia á lei commum do genero humano; a condição do trabalho imposta
    a nossos primeiros paes. Exteriormente, a sua situação é a mesma do
    official mechanico, que, depois de cinco annos de aprendizagem, obteve
    meios de trabalhar de sol a sol para ganhar um salario. Nenhum principio
    de moral, de justiça lhe dá melhor direito que ao operario que funde o
    ferro, que acepilha a madeira, que ara a terra. Sob este aspecto, a
    sociedade nada mais lhe deve do que as garantias da retribuição do seu
    trabalho dentro das regras ordinarias de apreciação. Ao lado, porém, de
    esforços grosseiros houve outros immateriaes e inapreciaveis pela
    craveira commum. São os da cogitação, da inspiração, do genio; são os
    que elevam o engenho acima do vulgo; são os que trazem á terra as
    centelhas da infinita sciencia, da immensa sabedoria de Deus; são os que
    attingem os mysterios, as harmonias do universo, que o escriptor vem
    revelar; são aquelles com que aspiramos estas perennes emanações do
    Verbo que se espargem sobre a humanidade, transfusas pela intelligencia,
    e que se chamam a civilisação; são os que dão ao homem de letras uma
    especie de sacerdocio, o sacerdocio da imprensa. Estes esforços
    immateriaes não se apreciam, não se medem, não se recompensam como a
    creação e o transporte ao mercado d'alguns saccos de trigo, ou como o
    covado de chita produzido pelo tear do operario fabril.

    Não! Se a imprensa é um sacerdocio, não confundamos o que ha nella
    elevado e espiritual com o trabalho venal e externo; não instituamos a
    simonia como um direito; não equiparemos a idéa pura, que vem de Deus ao
    homem como os raios do sol que nos illuminam, como o ar que respirâmos,
    como todas as utilidades gratuitas que a Providencia nos concede; não a
    equiparemos ao ouro amoedado, á geira de terra; não meçamos a obra onde
    predomina a inspiração pela bitola com que medimos aquella em que
    predominam os esforços dos musculos.

    Para os que não são capazes de apreciar _a priori_ as antinomias que ha
    na applicação do direito de propriedade material aos trabalhos do
    espirito será útil examinar os resultados practicos dessa applicação. A
    propriedade material, o capital accumulado e activo produz uma renda:
    esta renda é maior ou menor conforme a importancia desse capital. Se
    1:000$000 réis em terras produz 50$000 réis, 20:000$000 réis hão-de
    produzir 1:000$000 réis; se 200$000 réis empregados na agiotagem
    produzem 40$000 réis, 600$000 réis hão-de produzir 120$000 réis: esta
    lei é constante e uniforme, quando circumstancias accidentaes e
    extranhas não a modificam. Nas letras succede exactamente o contrario.
    Supponde que cogitações, que contensão d'espirito, que calculos, que
    raciocinios, que observações custaram a Pedro Nunes, a Leibnitz, a
    Newton, a Vico, a Brotero, a Kant os livros que nos deixaram. Que
    thesouros accumulados, que capital d'estudo, ideas! E todavia,
    protegidos pela lei da propriedade litteraria, esses homens summos,
    esses homens cujos nomes são immortaes, teriam com ella morrido de fome;
    porque os seus escriptos publicados, os seus meios de obter uma renda,
    seriam lentos e insufficientes. Comparae agora com elles os romancistas
    modernos, os Arlincourts, os de Kocks, os Balzacs, os Sues, os Dickens.
    Estes homens, cujos estudos se reduzem a correr os theatros, os bailes,
    as tabernas, os lupanares, a viajar commodamente de cidade para cidade,
    de paiz para paiz, a gosar os deleites que cada um delles lhes offerece,
    a adornar os vicios, a exaggerar as paixões, a trajar ridiculamente os
    affectos mais puros, a corromper a mocidade e as mulheres; estes homens,
    que só buscam produzir effeitos que subjuguem as multidões; que
    espreitam as inclinações do povo para as lisonjeiarem, os seus gostos
    depravados para os satisfazerem; a estes operarios da dissolução e não
    da civilisação, a estes sim, aproveitam as doutrinas da propriedade
    litteraria! Para elles a recompensa do mercado; para elles os grossos
    proventos do industrialismo litterario, que ó o grande incitamento dos
    seus infecundos trabalhos. A litteratura-mercadoria, a
    litteratura-agiotagem, tem na verdade progredido espantosamente á sombra
    de tão deploraveis doutrinas! Um dos nossos escriptores modernos, que
    mais abusou do talento, e que mais proventos auferiu do systema ignobil
    do industrialismo nas letras, o padre Macedo, disse, não me recordo em
    que escripto, que a folhinha era e seria sempre a desesperação dos
    auctores, porque nenhum livro tinha ou teria nunca tantas edições. Neste
    dicto está resumida toda a critica do falso direito de propriedade
    litteraria. Silvestre Pinheiro, o grande pensador português deste
    seculo, com cujo nome v. ex.^a acaba de me fazer a honra de associar o
    meu, e João Pedro Ribeiro, o restaurador dos estudos historicos em
    Portugal, morreram n'uma situação vizinha da penuria. É como teriam
    morrido sob o regimen da propriedade litteraria; porque para elles foi
    como se esse regimen já existisse: ninguem lhes contrafez, ninguem lhes
    contrafará os seus livros. Sabe v. ex.^a quem ganharia immensamente em
    viver hoje? O auctor do Carlos-Magno. As edições daquelle celebre rol de
    semsaborias e despropositos ainda não cessaram de repetir-se.

    Que propriedade será esta, em que os terrenos de alluvião,
    cuidadosamente cultivados, só geram espinhos, e as gredas inferteis
    produzem messes opulentas, sem nenhum cultivo?

    Permitta-me, sr. visconde, que eu duvide da inteireza da sua fé na
    doutrina da propriedade litteraria. V. ex.^a cedeu antes a um generoso e
    nobre impeto de coração do que a reflectidas convicções. N'uma situação
    elevada, v. ex.^a não esqueceu os seus antigos companheiros nesta rude
    peregrinação das letras, em que o seu glorioso exemplo foi incitamento a
    nós todos. Não se envergonhou de nos estender a mão aos que pouco
    podemos e valemos diante dos grandes do mundo. Pensou que uma lei de
    propriedade litteraria nos seria grandemente util; util, sobretudo
    áquelles que, desvalidos e pobres, vem no verdor dos annos associar-se a
    nós os que já podemos chamar-nos os veteranos da imprensa. V. ex.^a não
    previu todos os inconvenientes de ordem moral e litteraria que do novo
    direito introduzido no paiz podem provir. Mas sejam quaes forem os
    tristes desenganos que elle nos traga, nem eu me queixo, nem creio que
    ninguem deva queixar-se das intenções de v. ex.^a; dôo-me só, devemos
    doer-nos todos de que em materia tão grave falhasse uma tão bella
    intelligencia.

    O direito de propriedade litteraria, sr. visconde, já existia
    virtualmente entre nós nos tempos da censura e da inquisição; já viveu
    largos annos nessas más companhias. Aquelle direito vigorava de certo
    modo em resultado dos nossos usos administrativos. No seculo XVI ou XVII
    os _privilegios de impressão_ creavarn os mesmos factos juridicos que
    resultam da lei aconselhada por v. ex.^a A differença estava em ser uma
    jurisprudencia que assentava em praxes administrativas e não em lei
    geral. Dava-se ao auctor ou editor auctorisação exclusiva para publicar
    uma edição de qualquer livro: esgotada a edição, repetia-se igual
    concessão, e os que não a tinham ficavam inhibidos de o reproduzir.
    Fazia-se mais: almotaçava-se o genero; taxava-se o preço de cada
    exemplar. Applicavam-se-lhe as idéas economicas d'então sobre as
    transacções do mercado. Já se vê que a theoria de propriedade
    litteraria, do industrialismo applicado á missão elevada e pura do
    escriptor, não é nova. Succede-lhe o que succede a muitas das
    providencias legaes, que, com rotulos trocados, nos andam ahi a carrear
    de Londres e de Paris, sirvam ou não para cá.

    Foi debaixo desse regimen do _privilegio de impressão_, que um genio a
    quem Portugal deve em gloria quanto uma nação póde dever a um homem; foi
    com duas edições dos Lusiadas feitas dentro do mesmo anno, e defendidas
    pela garantia de obra grossa chamada privilegio, ou propriedade
    litteraria, que Luiz de Camões foi morrer entre as angustias da miseria
    e do abandono na pobre enxerga d'um hospital. Pouco depois os jesuitas,
    imprimindo aos milhares em diversos formatos e typos as _Cartas do
    Japão_, lisonjeiando o gosto popular com as narrativas dos próprios
    milagres no oriente, mettiam nos cofres de S. Ignacio bons cruzados
    extorquidos á credulidade, e, especulando na superstição, faziam as
    vezes dos Balzacs e de Kocks, que especulam nas paixões más e viciosas
    de sociedades corrompidas e gastas.

    Porém–dir-se-há–se essa mesma recompensa, que retribue na razão
    inversa do merito, se tirasse ao cultor da sciencia, reduzido a receber
    o preço do seu trabalho como simples obreiro; se as concepções uteis e
    civilisadoras do espirito; se as grandes e nobres idéas, que encerram os
    elementos do progresso futuro, não tivessem premio condigno, as fontes
    desse progresso estancar-se-hiam na sua origem; e o homem d'engenho
    preferiria o trabalho braçal, que fortifica os membros e prolonga a
    vida, ás contensões do espirito que a devoram. D'accordo. Mas, em logar
    de estabelecer recompensas, identicas na essencia, na fórma, nas
    condições para esforços perfeitamente heterogeneos, que se movem em
    espheras absolutamente distinctas, eu concebo e desejo retribuições
    diversas para os diversos casos. Pague o mercado o trabalho material;
    mas retribua a sociedade a obra do espirito, que não é destinada ao
    commodo d'um ou d'outro individuo, mas sim á utilidade commum.

    E ella retribue; ha de retribui-la sempre, com leis de propriedade
    literaria ou sem ellas; com o poder publico ou apesar delle. Que é a
    gloria? Que são a consideração, os respeitos, as distincções com que a
    sociedade tracta o homem que perante o seu tribunal deu provas
    indubitaveis de talento ou de genio; que collocou algumas pedras no
    immenso e interminavel edificio da civilisação? Que é essa voz da
    opinião publica, que esmaga tantas invejas, que faz calar tantos odios,
    e que os pune com a irrisão, quando ousam manifestar-se; que vos cria
    amigos nos logares onde nunca estivestes, entre individuos que nunca vos
    viram; que transpõe os mares; que se dilata por toda a parte, em que o
    vosso livro fez bater um coração, ou saciou um espirito sedento de
    sciencia? Quanto dariam ás vezes os ricos e os felizes e os poderosos
    para comprarem ou imporem essas affeições mysteriosas que o escriptor
    pobre e desvalido vai despertar, por uma acção invisivel, no seio das
    multidões? A consciencia, que vos assegura que tendes tudo isso em grau
    mais ou menos subido, recompensa-vos dos vossos esforços intellectuaes.
    Vaidade ou orgulho legitimo, essa persuasão é um goso, e o goso é a
    causa final de todas as ambições, de todo o trabalho humano. São na
    verdade diversas as utilidades que provém da riqueza das que provém do
    engenho. Predominam naquellas os commodos materiaes, nestas a satisfação
    interior; mas por isso mesmo; tanto n'umas como n'outras, ha a
    homogeneidade, a harmonia entre os esforços e as recompensas.

    Se v. ex.^a, interrogando a propria consciencia, volver os olhos para a
    sua carreira litteraria, ha de forçosamente convir na exacção destas
    observações. Quando, por exemplo, um dos dramas, a que não faltou senão
    a fortuna de ser escripto em alguma das duas linguas principaes da
    Europa, o francês ou o allemão, para ser um dos mais notaveis monumentos
    litterarios da nossa epocha; quando _Fr. Luiz de Sousa_ fazia correr as
    mudas lagrymas de um auditorio extasiado, ou lhe arrancava ruidosos
    applausos d'enthusiasmo, pensava acaso v. ex.^a nas edições legitimas ou
    contrafeitas, no honorarios da representação, nas provisões da lei de
    propriedade litteraria? Atrevo-me a protestar que não: atrevo-me a jurar
    que v. ex.^a se reputava sobejamente pago com sentir-se grande, com
    fazer vibrar as cordas da dor e da piedade em tantas almas; com essas
    manifestações ardentes que respondiam ao verbo de seu genio, digamos
    assim, incarnado n'um espectaculo scenico.

    Mas–arguir-se-ha novo–se o trabalho do escriptor é duplo e
    heterogeneo, tambem a sua existencia o é. Se a mente o eleva acima do
    vulgo; se o illumina mais do que ao vulgo um raio da intelligencia
    divina, os seus pés rasgam-se tambem, como os delle, nos abrolhos da
    vida. A dor, as privações, todos os males humanos, todas as necessidades
    pesam do mesmo modo sobre o engenho. A virtude da abnegação, o animo
    para luctar com a miseria e ainda para viver na estreiteza não são mais
    communs no homem de letras do que nos outros homens. Limitados a uma
    retribuição de ordem moral pelo lavor litterario, e equiparados ao
    operario pelo trabalho material, muitos abandonariam o seu ingrato
    mister, com detrimento do progresso e civilisação do paiz, e da propria
    sciencia. Torno a repetir que concordo plenamente nessa parte. O
    remedio, porém, para taes inconvenientes não está na lei de propriedade
    litteraria. Creio tê-lo provado. A civilisação de qualquer povo não é um
    negocio d'individuos, é uma questão da sociedade, de que depende o seu
    futuro: é uma religião que tem ministros, e estes ministros são os
    homens de letras ou de sciencia. Se estabeleceis distincções,
    privilegios, subvenções para o sacerdocio do culto externo, porque não
    haveis de subministrar os commodos da vida, as recompensas, reguladas
    pela jerarchia intellectual, para o sacerdocio da imprensa? É por este
    arbitrio que as retribuições materiaes se tornam possiveis, não pela
    falsa medida da procura commercial. A sociedade, creando uma existencia
    aprazivel áquelle que lhe util, não estabelece equações impossiveis
    entre as idéas e os cruzados novos; mas proporciona os gosos do
    individuo aos gosos que elle lhe deu. Em vez da anarchia deleteria e
    repugnante que o regimen da propriedade litteraria produz, e em que o
    homem de talento, mas immoral, envenena as multidões para se locupletar,
    emquanto o genio de sciencia e consciencia morre de fome, um systema de
    recompensas publicas prudentemente organisado traria a ordem e a
    justiça, e substituiria o verdadeiro progresso ás orgias intellectuaes,
    á veniaga da corrupção moral, resultado infallivel da conversão das
    idéas em capital productivo.

    O direito de propriedade litteraria! Que aproveita esse direito ao
    mancebo desconhecido, em cuja alma se eleva a sancta aspiração da arte
    ou da sciencia, e para quem, no berço, a fortuna se mostrou avara? Como
    entrará elle nesse mercado do espirito, onde a marca de um nome illustre
    é necessaria para se tentarem com vantagem as luctas da concorrencia?
    Esse direito, que se diz protector do talento e das fadigas do espirito,
    como é que protege os neophytos das letras, aquelles que mais carecem de
    protecção? Suppre elle alguma das instituições que realmente fazem
    progredir a cultura do espirito humano?

    Uma lei de recompensas nacionaes seria a verdadeira lei protectora dos
    tabalhos da intelligencia. Nos paizes onde existe a jurisprudencia
    introduzida agora em Portugal existem ao lado della fundações
    poderosissimas, que são as que suscitam os livros realmente uteis. Em
    França o premio Monthyon e os outros analogos, as pensões academicas, as
    empresas litterarias ou scientificas do governo, o professorado, os
    provimentos de certos cargos destinados, inventados talvez, unicamente
    para dar pão aos homens de letras, tem sido os incitamentos mais
    efficazes para se escreverem as obras graves e civilisadoras. A lei de
    propriedade litteraria, ou antes a lei d'envilecimento, que pendura a
    idea no mercado entre o barril da manteiga e a sacca de algodão, essa o
    que produz em regra é os taes livros absurdos, frivolos, prejudiciaes,
    que, na opinião de v. ex.^a, são quasi os unicos cujas contrafacções nos
    subministra a Belgica.

    Quando, ex.^{mo} sr., o direito creado neste paiz pelo decreto de 8 de
    julho não tivesse contra si as precedentes considerações, e outras que
    omitto para não fazer um livro em vez de uma carta, bastaria um facto
    para condemnar esse decreto, e conseguintemente a convenção com França,
    que, embora anterior, se estriba no pensamento daquelle decreto e fica
    sendo um corollario delle. Toda a lei inutil é má, e esta é
    inutilissima. Desejaria que se me apontasse uma contrafacção, uma unica,
    feita entre nós; um exemplo desses delictos que as provisões do decreto
    tendem a cohibir. Se existe, é tão obscuro que não chegou á minha
    noticia.

    Examinada a pouca solidez de alicerce em que assenta a convenção
    litteraria com França, consinta-me v. ex.^a que eu passe a fazer algumas
    ponderações ácerca dessa mesma convenção. Não sei se as razões que me
    obrigam a considerá-la como um acto diplomatico deploravel tem algum
    valor, ou se me condemnam a entrar na categoria dos sophistas, contra os
    quaes v. ex.^a quiz prevenir de antemão a Soberana no papel que lhe
    dirigiu. Seja v. ex.^a o meu juiz.

    Já tomei a liberdade, sr. visconde, de dizer que duvidava da inteireza
    da sua fé no direito de propriedade litteraria. Agora começarei por
    dizer que não acredito na dos homens d'estado da França, que mandam
    sollicitar nos paizes pequenos e atrazados convenções em que seja
    sanctificado esse mais que controverso direito. Ha nisto, a meu ver, a
    arte vulpina de quem quer fazer triumphar uma idéa em cuja energia e
    legitimidade não crê. Se a França estivesse convencida da justiça e
    moralidade do principio que pretende introduzir no direito publico da
    Europa, não vinha tractar comnosco, nem com o Piemonte: dirigia-se aos
    dous grandes focos da imprensa; aos dous paizes seus rivaes na sciencia,
    e tambem no industrialismo litterario, a Allemanha e a Inglaterra. Era
    caminhar direito ao alvo; era provar uma convicção sincera.

    A falta desta convicção deduz-se tambem do exame dos motivos immediatos
    do convenio. O que fere sobretudo os interesses da França é a
    contrafacção belga: e esse convenio é uma phase da guerra declarada ao
    industrialismo litterario da Belgica pelo industrialismo litterario da
    França. Os franceses poseram-nos nas mãos, a nós e aos piemonteses, os
    riffles dos seus arsenaes, e lançam-nos em atiradores para a frente do
    inimigo. Se os homens de estado daquelle paiz estivessem persuadidos de
    que a propriedade litteraria é a mais inquestionavel de todas as
    propriedades, como a v. ex.^a apraz chamar-lhe, não procederiam assim;
    porque o seu procedimento sería indigno de uma grande nação. Segundo a
    nova doutrina, centenares, talvez milhares de franceses estão sendo
    roubados pelos belgas no mais legitimos e sagrados dos seus haveres.
    Bruxellas é o Alger do mundo litterario. Supponhamos agora que este
    facto escandaloso se verificava em haveres menos sagrados; que, durante
    annos e annos, Lamartine, Dumas, Sue, Thiers, e cem, e mil outros
    personagens influentes e respeitados, passando por aquella Achem da
    Europa, por aquella horrenda _spelunca latronum_, eram constantemente
    desvalijados á porta das hospedarias por grupos dos chananeos
    bruxellenses, sem que os magistrados ou a força publica interviessem a
    favor dos espoliados estangeiros. Crê v. ex.^a que nesta hypothese a
    França nos viria pedir que não comprassemos a matalotagem daquellas
    illustres victimas; que fechassemos os nossos portos aos adellos das
    margens do Senne? Não. Reclamações instantes, ameaçadoras e violentas
    partiriam de Paris para Bruxellas, e fariam entrar o gabinete e a nação
    belgas no caminho da moralidade e da justiça. Se essas reclamações
    fossem desattendidas, veriamos as esquadras de Rochefort e de Brest
    navegarem para a foz do Scalda, e as brigadas francesas passarem a
    fronteira. Porque não succede isto n'um caso que se diz mais grave? É
    porque os que proclamam em França a sanctidade do industrialismo
    litterario não acreditam na validade moral das proprias theorias. O
    governo francês, actuado pelas poderosas influencias da imprensa,
    desejoso de conciliar a benevolencia dos fabricantes do genero
    litteratura, protege pelos meios que póde uma industria importante: e
    faz bem. Nós é que não sei se o fazemos, ajudando-o nesse empenho com
    prejuizo proprio.

    Se á convenção de 12 de abril falta a base moral em que se quis fundar,
    falta-lhe ainda mais a base racional e de conveniencia; porque, se á
    primeira se pôde dar certa plausibilidade com pretextos e phrases, que
    não admira illudam as comprehensões vulgares, quando, até, illudiram a
    alta intelligencia de v. ex.^a, não vejo necessidade, circumstancia,
    utilidade, ou consideração alguma que favoreça a segunda. Por esta parte
    a convenção, sem nos trazer um unico bem, acarreta-nos muitos males,
    sobre os quaes, com permissão de v. ex.^a, offerecerei aqui varias
    ponderações, além daquellas que já expús no jornal _O Paiz_. As
    principaes que então expendi foram, em resumo, que, ainda admittindo que
    á fabricação dos livros contrafeitos se associasse um acto immoral,
    seria cousa inaudita que uma nação prohibisse a entrada de qualquer
    objecto industrial só porque no acto da sua producção concorresse alguma
    circumstancia menos conforme com as regras da ethica e do direito; que,
    se tal principio se houvesse de estabelecer, sería necessario ordenar um
    inquerito moral sobre a industria e o commercio estrangeiros, e fechar
    depois os nosses portos a tudo aquillo em que achassemos esse vicio de
    origem; que, não se contrafazendo em França os nossos escriptos, nem
    comprando aquelle paiz senão por excepção algum livro português
    contrafeito ou não contrafeito, não póde haver neste caso reciprocidade
    entre Portugal e França; e de feito, n'um commercio puramente passivo,
    todo e qualquer tractado, que não seja para o ligar com outro commercio
    activo, será sempre inconveniente; que, creando embaraços á diffusão da
    leitura em Portugal, a convenção contrariava poderosamente os progressos
    da civilisação entre nós; que, pelas condições actuaes do nosso trafico
    de livros com o Brazil, para cujo movimento não contribuem só as
    publicações portuguesas, mas tambem as reexportações de livros
    estrangeiros; o tractado, tornando estas geralmente inexequiveis, longe
    de favorecer os auctores portugueses, os privaria em boa parte dos
    beneficios da concorrencia no mercado brazileiro; que o sello ordenado
    no artigo 13.^o da convenção para legitimar a posse das contrafacções,
    não só era injusto, punindo quem comprou na boa fé do direito existente,
    mas tambem involvia a imposição de um tributo, que, embora se
    considerasse válido como acto da dictadura, traria o absurdo de não
    poder ser annullado pelo parlamento, visto achar-se estatuito n'um
    convenio feito com um paiz estrangeiro; que, finalmente, esse imposto do
    sello era exigido antes de se verificar, pelos meios que a propria
    convenção assignala, quaes são os livros contrafeitos, o que o torna
    inexequivel. Taes foram as objecções que me occorreram ao escrever o
    artigo do _Paiz_, e que não são talvez metade das que poderiam fazer-se
    áquelle infeliz tractado, se o comportassem os breves limites das
    columnas d'um jornal politico, mas que me pareceram só por si
    sufficientes para pensarmos desde logo em remediar um tal erro, apenas
    expire o praso durante o qual somos forçados a respeitar a convenção
    litteraria.

    Entretanto não leve v. ex.^a a mal que n'uma publicação avulsa eu aponte
    varias outras provisões dessa convenção que reputo inconvenientes ou
    injustas. Move-me a fazê-lo o desejo de não passar aos olhos de v. ex.^a
    por um daquelles sophistas contra que v. ex.^a invectiva no papel em que
    se congratula com o Chefe do Estado pela conclusão de um negocio, que a
    meus olhos é o mais deploravel que ha muitos annos temos concluido com
    um paiz estrangeiro, embora a nossa historia diplomatica não seja a mais
    gloriosa do mundo.

    Considerados em geral os ajustes celebrados entre v. ex.^a e mr. Barrot,
    affigura-se-me a mim que v. ex.^a cahiu n'uma singular illusão. A sua
    mente era, se não me engano, que esta convenção, ao passo que consagrava
    os principios da moral e do direito, fosse favorecer aquelles–«que
    trabalham no silencio do gabinete, rodeiados da penuria e da fome tantas
    vezes, victimas da sciencia, martyres da civilisação, que não poucas o
    tem pago com a vida, que pela maior parte sacrificam fortuna, saude, o
    futuro de seus filhos á gloria das letras, do seu paiz, e da especie
    humana».–Eis-aqui os que v. ex.^a queria que fossem protegidos por um
    tractado que vai ferir os contrafactores, e sobretudo os contrafactores
    belgas. Isto dizia v. ex.^a á soberana: dizia-o sinceramente, na minha
    opinião, arrastado por um nobre e generoso, embora inexacto, pensamento.
    Mas que dizia tambem v. ex.^a ao ministro do reino no seu officio de 28
    de maio ácerca deste mesmo assumpto?–«As nossas quasi unicas
    importações da livraria belga são de maus livros, de romances absurdos,
    de quanto ha mais frivolo e prejudicial na litteratura francesa
    contemporanea; pois todos os outros livros, os bons, os uteis, os
    civilisadores, directamente os havemos de França, e os lemos nas edições
    legitimas, sem prejuizo de seus proprietarios».

    Se, porém, v. ex.^a supunha que isto era assim, como é possivel que
    associasse o seu illustre nome áquella fatal convenção? Para os
    escriptores franceses de livros bons, uteis, civilisadores, é ella
    perfeitamente inutil. A sua propriedade, na opinião de v. ex.^a, está
    segura e defendida no estado actual das cousas. A quem pois favorece o
    tractado? Que propriedade vai elle garantir, admittindo tal propriedade?
    A dos maus livros, a dos romances absurdos, a de quanto ha mais frivolo
    e prejudicial na litteratura francesa contemporanea. Que triste illusão
    foi esta, sr. visconde, que levou v. ex.^a a convencionar favores
    exclusivos para a insensatez, para a corrupção e para a immoralidade?

    Felizmente por um lado e infelizmente por outro, o presupposto de v.
    ex.^a, quanto ás contrafacções da Belgica, não é todavia exacto. Se v.
    ex.^a verificasse quaes tem sido no ultimo decennio as importações dos
    livros belgas; se examinasse os catalogos dos livreiros de Lisboa, Porto
    e Coimbra, comparando-os com os catalogos dos diversos estabelecimentos
    typographicos de Bruxellas, convencer-se-hia de que não compramos só
    livros maus á Belgica; de que nem sempre o trabalho da imprensa é alli
    apllicado ás obras de simples distracção, e de que não raro os prelos
    belgas reproduzem os escriptos graves e uteis, postoque, na verdade, em
    proporção inferior, e provavelmente mais de uma vez com perda. Mas a
    superioridade numerica dos livros inuteis e insignificantes encontra do
    mesmo modo nas publicações _legitimas_ de todos os paizes, e é o
    resultado, não da contrafacção, mas sim do industrialismo litterario,
    industrialismo que as doutrinas da propriedade, mal applicadas ao
    pensamento, não fazem senão promover. Ao redor de mim, no momento e no
    logar onde escrevo, tenho muitos volumes datados de Bruxellas, que não
    me parecem nem insignificantes nem inuteis, e estou certo de que v.
    ex.^a me faz a justiça de acreditar que não me entretenho demasiado com
    leituras frivolas. Estes livros de edição belga (que por signal não
    estou inclinado a mandar sellar, collocando-me assim em manifesta
    rebellião) preferi-os por serem mais baratos, circumstancia attendivel
    para mim, que não sou abastado, e muito mais attendivel para os que,
    menos felizes do que eu, _rodeiados de penuria, victimas da sciencia, e
    martyres da civilisação_ tem de cortar pelo necessario á vida physica
    para comprarem o alimento da vida immaterial. Para estes quizera eu, não
    convenções litterarias que, accrescentando afflicções ao afflicto, lhes
    tolham satisfazer a primeira necessidade do homem de letras, a dos
    livros, mas instituições que os amparassem na aspera peregrinação em que
    vão consumindo a existencia. Quando mancebos desta geração que vem após
    nós, e que confio em Deus será a todos os respeitos melhor do que a
    nossa, desprezados, esquecidos, e tanto mais desprezados e esquecidos,
    quanto mais um nobre orgulho os conserva arredados do grande receptaculo
    de corrupções chamado o poder, luctam debalde com a pobreza para crearem
    pelos esforços da intelligencia uma situação no mundo! Como eu, v. ex.^a
    não ignora quantas vezes essas almas predestinadas, e que annunciam a
    este paiz a aurora de melhor futuro, se vêem constrangidas a ir vender
    por vil preço ao minotauro da imprensa periodica escriptos imperfeitos,
    na lingua, no estylo, no desenho, no pensamento, mas onde centelham as
    faiscas do genio. E nós, nós que fazemos tractados, cujo resultado, se
    fosse possivel tê-lo, seria grangeiar para os romancistas, para os
    poetas, para os especuladores litterarios da França mais uma noite de
    orgias, ou os meios de dar mais uma vez por anno verniz nas suas
    carruagens, sorrimo-nos das faltas grammaticaes, das incorrecções
    d'estylo, dos erros de sciencia dos pobres desvalidos, que nasceram como
    nós nesta terra, sem nos lembrarmos de que no seu balbuciar litterario
    lhes serve frequentemente de musa a urgente necessidade, quando não a
    miseria! Nós, os homens feitos, que temos centenares de contos de réis
    para construir theatros, que sejam ao mesmo tempo aleijões artisticos e
    escandalos administrativos, e que não temos vinte contos, dez contos,
    cinco contos para dar pão aos talentos desafortunados, vamos em troco
    d'isso privá-los dos meios d'instrucção; vamos privá-los de livros!