A Cidade e as Serras
Trepando cançadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em
que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:
–Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o
elevador…
E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:
–Uma massada! E tudo falha!
* * * * *
Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe
inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta
e solar de Tormes, por toda a serra, passára uma tormenta devastadora de
vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que
os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador
Silverio), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o valle
da Carriça, desabára, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica
do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacintho desde os
tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam
agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silverio já
começára com os moços da quinta a desatulhar dos «preciosos restos». Mas
esperava anciosamente as ordens de sua exc.^a…
Jacintho empallidecêra, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo
e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz
piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro
fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data,
uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!
–Coisa estranha, coisa estranha!…
E toda a noite me interrogou ácerca da serra e de Tormes, que eu
conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda
de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo
caminho de Guiães á estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom
Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:–e muitas vezes,
depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrára no robusto casarão
de granito, e avaliára o grão espalhado pelas salas sonoras, e provára o
vinho novo nas adegas immensas…
–E a egreja, Zé Fernandes?… Entraste na egreja?
–Nunca… Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra,
onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas… Terrivel
transtorno para as cegonhas!
–Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.
E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as
ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e
reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.
V
No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores–as
torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se
encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as
resistencias finaes da Materia e da Força por novas e mais poderosas
accumulacões de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as
rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas
dos Campos-Elyseos que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu,
envolta n'um pó de caliça e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o
retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era
dôce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde
madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o
_Petît-Bleu_, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em
fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava
com pericia algum andaime obstruindo as portas–logo se esbarrava com
uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme
d'argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente,
como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os
sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.
Cada dia estacava deante do portão alguma lenta carroça, d'onde os
creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos
de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao
fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado
pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida
mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a
Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascenção,
ensaiamos esperançadamente, para refrescar as aguas mineraes, a
Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na
copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um
instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente.
Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer
phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo
o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos
uivos! Mas elle teimava… Nos actos mais elementares, para alliviar ou
apressar o esforço, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por
intervenção d'uma machina que abotoava as ceroulas.
E simultaneamente, ou em obediencia á sua Idéa, ou governado pelo
despotismo do habito, não cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de
accumular Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! Solitarios, aos
pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de
auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de
marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as
largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se
repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas
robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas,
como se, suffocados pela sua propria multidão, procurassem com ancia
espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos
restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um
pensativo crepusculo de outono emquanto fóra Junho refulgia. A
Bibliotheca transbordára através de todo o 202! Não se abria um armario
sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não
se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de
livros! E immensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo
urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda
collecção de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!
Mais amargamente porém me lembro da noite historica em que, no meu
quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras
poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito,
praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete
volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros,
os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana… E já me
estirára, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do
joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhára entre a
parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo
affrontoso–que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E
nem sei se depois adormeci–porque os meus pés, a que não sentia nem o
pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a
tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o
luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa
como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram
construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de
livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com
titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a
brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concordia,
avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar,
arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora
batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e
Critica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das
nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam
serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros,
d'onde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal
juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao
Paraiso. Decerto era o Paraiso–porque com meus olhos de mortal argila
avistei o Ancião da Eternidade, aquelle que não tem Manhã nem Tarde.
N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades,
entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em
vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por
sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos–o Altissimo
lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão
super-forte que o Mundo creára–e o Creador lia e sorria. Ousei,
arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro
coruscante. O livro era brochado, de tres francos… O Eterno lia
Voltaire, n'uma edição barata, e sorria.
Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei
que um Santo novo chegára da Terra. Era Jacintho, com o charuto em
braza, um molho de cravos na lapella, sobraçando tres livros amarellos
que a Princeza de Carman lhe emprestára para lêr!
* * * * *
N'uma d'essas activas semanas, porém, a minha attenção subitamente se
despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202
a minha mala e a minha roupa: e, acostado á bandeira do meu Principe,
ainda occasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha
alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo,
habitavam então na rua do Helder, n.^o 16, quarto andar, porta á
esquerda.
Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idéas e sensações, o Boulevard da
Magdalena, quando avistei, deante da Estação dos Omnibus, rondando no
asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena,
quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta
de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapéo velho de
plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A
creatura passou–no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de
telhado, ao luar de Janeiro. Dous poços fundos não luzem mais negra e
taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não
recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sêda, lustroso e
encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súpplica por entre os
dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais
silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Café Durand, safado e
môrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentidão d'um rito triste,
tirou o chapéo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sêda poida do
corpete esgarçava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram
immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons
amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma
torta ao sahir quente do forno.
Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
–E o nomesinho, hein?
Ella séria, quasi grave:
–Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta á esquerda.
E eu (miseravel Zé Fernandes!) tambem me senti muito sério, trespassado
por uma emoção grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcôva de Café,
a magestade d'um Sacramento. Á porta, empurrada levemente, o creado
avançou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e
Borgonha. E foi sómente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando
convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a
tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre
saliva e gôsto de pimentão! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo
molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em
frente á grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:–«Móro
alli, todo o anno!…» E como ao mirar o Palacete, debruçada, ella
roçára a matta fulva do pello crespo pela minha barba–berrei
desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.^o
16, quarto andar, porta á esquerda!
Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os
Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial,
como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um
bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava
a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gôsto afundava
a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas
semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Zé
Fernandes–Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me affigurava
ser um pedaço de cêra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno
rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde
flammejava, estalava e se consumia um mólho de galhos seccos. D'esses
dias de sublime sordidez só conservo a impressão d'uma alcôva forrada de
cretones sujos, d'uma bata de lã côr de lilaz com sotaches negros, de
vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo
tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a
sensação de incessantemente e com arrobado deleite me despojar,
arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns
joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os
meus botões de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em
ouro que eu trouxera de Guiães n'uma cinta de camurça. Do solido,
decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcassa errando
atravéz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.
Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do
Helder, encontrei a porta fechada–e arrancado da hombreira aquelle
cartão de _Madame Colombe_ que eu lia sempre tão devotamente e que era a
sua taboleta… Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse!
Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechára! Para além estavam
as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficára sósinho,
n'aquelle patamar do Não-ser, fóra da porta que se fechára, unico ser
fóra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma
pedra, até ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas
em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado
o Universo!
–Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
–Ja não mora… Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!
Para outra terra! com outra porca!… Vasio, negramente vasio de todo o
pensar, de todo o sentir, de todo o querer–boiei aos tombos, como um
tonel vasio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei n'um
banco da Praça da Magdalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a
febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já
se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre
todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas
as ruinas–a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos
entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordação que m'escaldava a
alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o
collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira
da Magdalena, pensei com desconfôrto:–«Santissimo Nome de Deus! Que
immensa sêde me fez esta desgraça!…» De manso acenei ao moço:–«Antes
do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito gêlo, e um grande
copo!…» Creio que aquelle Champagne se engarrafára no Ceu onde corre
perennemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bemdita que
me coube penetrára, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte
inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo,
embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois,
garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois
Hortelã-Pimenta granitada em gêlo! E depois um desejo arquejante de
espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guiães, a porca que fugira com
outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao
202, não suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos
atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde _via_, furiosamente
_via_ a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde
se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhára!
Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a
besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moços accudiram e me
sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos
cançados da minha colera.
Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impôr ao _siô_ Zé
Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a immensa indignidade d'um chá de
macella! E estirado no leito de D. Galião, com as botas sobre o
travesseiro, o chapéo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso,
d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente
senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que
esfuziára da chamma da vela, e saltára sobre o meu leito, e desabotoára
o meu collete, e arrombára as minhas costellas, e toda ella, com as
saias sujas, mergulhára dentro do meu peito, e abocára o meu coração, e
chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu coração!
Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para
mergulhar na minha sepultura, que, através da nevoa final, eu distinguia
sobre o tapete–redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a
minha sepultura, que tão irreverentemente se assimilhava ao meu vaso,
vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um
esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não sómente toda a
entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi
sobre o leito de D. Galião… Recarreguei o chapéo sobre os olhos para
não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se
erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente
embalada n'um berço de verga pelo Anjo da Guarda.
De manhã, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os
aromas do 202, desde folhas de limonete da India até essencia de jasmin
de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra
farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da
compota de ginja que nunca lhe sahíra tão fina, e da alegre fogueira do
pateo em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabelluda que
viéra do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, á janella, bem
limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando chá
de Naïpò, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da
madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me
emporcalhára, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito
tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezão, sezão da carne, sezão
da imaginação, apanhada n'um charco de Paris–n'esses charcos que se
formam através da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os
tortulhos e os vermes d'uma Civilisação que apodrece.
* * * * *
Então, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se
virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas
da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de
sophás, ou vagueando através da Bibliotheca entre os seus trinta mil
volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha
pressa indigna, só lhe lançava um distrahido–«que é isso?» Elle, no seu
moroso desalento, só murmurava um sêcco–«é calor!»
E, n'essa manhã da minha libertação, ao penetrar antes d'almoço no seu
quarto, no sophá o encontrei enterrado, com o _Figaro_ aberto sobre a
barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra,
e os pés abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia
as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das
minhas flanellas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a
segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia,
impressionaram o meu Principe–a quem a melancolia nunca embotava a
agudeza. Ergueu mollemente um braço molle:
–Então esse capricho?
Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:
–Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado.» Jaz! Ou
antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do
esgoto!
Jacintho bocejou, murmurou:
–Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!…
E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com
desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela
suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou
esse consummado egoismo… Claramente percebia eu que o meu Jacintho
atravessava uma densa nevoa de tedio, tão densa, e elle tão afundado na
sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada não o
commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua
sensibilidade por immensas camadas de algodão. Pobre Principe da
Gran-Ventura, tombado para o sophá de inercia, com os pés no regaço do
pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar tão bravamente
todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Força e
a Materia!–E esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes
quando recomeçou entre nós a communhão de vida e de alma a que eu tão
torpemente me arrancára, uma tarde, deante da Estação dos Omnibus, no
charco da Magdalena.
Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado
Jacintho não torcia os braços, gemendo–«Oh vida maldita!» Eram apenas
expressões saciadas; um gesto de repellir com rancôr a importunidade das
coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo
d'um divan, d'onde se não desenterrava, como para um repouso que
desejasse eterno; depois os bocejos, os ôcos bocejos com que sublinhava
cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e
sobretudo aquelle murmurar que se tornára perenne e natural–«Para
que?»–«Não vale a pena!»–«Que massada!…»
Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grillo:
–Jacintho anda tão mucho, tão corcunda… Que será, Grillo?
O venerando preto declarou com uma certeza immensa:
–S. Exc.^a soffre de fartura.
Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:–e
na Cidade, na symbolica Cidade, fóra de cuja vida culta e forte (como
elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia
saborear plenamente a «delicia de viver», elle não encontrava agora
fórma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o
esfôrço d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um
jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica até aos Annuncios,
com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitario,
que só possuisse na sua Solidão esse alimento intellectual, do que o
Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse verão
capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão
d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente á cadeira com um
maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o
castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada,
que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em
abalar, a sua fuga d'ave solta… Raramente (e então com vehemente
arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo
dos Campos-Elyseos. Não se occupara mais das suas Sociedades e
Companhias, nem dos _Telephones de Constantinopla_, nem das _Religiões
Esotericas_, nem do _Bazar Espiritualista_, cujas cartas fechadas se
amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente
como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as
suas convivencias. As paginas da Agenda côr de rosa murcha andavam
desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a
um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era tão
arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletot leve,
que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia,
a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda
comer uma lamprêa de ovos!
Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem
defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu
Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de
Civilisação, não lhe désse uma sensação dolorosa de abafamento, de
atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis
roliços e fôfos, todos os seus metaes e todos os seus livros, tão
espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para
prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira,
suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
–Oh, este pó da Cidade!
–Mas, oh Jacintho, por que não vamos para Fontainebleau, ou para
Montmorency, ou…
–P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!
E na sua face enrugada, através d'este berro, lampejava sempre tanta
indignação, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter
affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado
Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava então pelas
salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeições
e sem occupações. Esses desaffeiçoados e desoccupados passos
monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, á Bibliotheca
d'ebano, onde accumulara Civilisação nas maximas proporções para gozar
nas maximas proporções a delicia de viver. Espalhava em tôrno um olhar
farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mãos,
enterradas nas algibeiras das pantalonas de sêda, n'uma inercia de
derrota. Annulado, bocejava com descorçoada molleza. E nada mais
instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio
de todos os apparelhos reforçadores dos seus orgãos, e de todos os fios
que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universaes, e dos seus trinta
mil volumes repletos do saber dos seculos–estacando, com as mãos
derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão
molle d'um bocejo, o embaraço de viver!
VI
Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que
cança jámais cançam, Jacintho, ás quatro horas, com regularidade devota,
visitava Madame d'Oriol:–por que essa flôr de Parisianismo permanecera
em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da
Cidade. N'uma d'essas tardes, porém, o Telephone, anciosamente repicado,
avisou Jacintho de que a sua dôce amiga jantava em Enghien com os
Trèves. (Esses senhores gozavam o seu verão á beira do lago, n'uma casa
toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).
Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás
voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri
a Jacintho que subissemos á Basilica do _Sacré-Coeur_, em construcção
nos altos de Montmartre.
–É uma secca, Zé Fernandes…
–Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica…
–Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!
E por fim logo que começamos a penetrar, para além de S. Vicente de
Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietação de provincia,
com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas
cozendo á soleira das portas, carriolas desatreladas descançando diante
das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando
em canas–o meu fastidioso camarada sorriu áquella liberdade e singeleza
das cousas.
A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que trepa, cortando
viellasinhas campestres, até á esplanada, onde, envolta em andaimes, se
ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto,
forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos,
Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retroz, claros molhos de
Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Avè-Maria. Dois
padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava
na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:
–É curioso!
Mas a Basilica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e
andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E
Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a
borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie
cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada
de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de
fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo
o vestigio visivel da sua vida magnifica.
Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade,
augusta creação da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta
cinzenta da Terra–uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No
emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia
d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgãos funccionando,
abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal
plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora
eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos,
escutavamos–e de toda a estridente e radiante Civilisação da Cidade não
percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os
seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus
trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para
este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem
metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço?
Hein, Jacintho?… Onde estão os teus Armazens servidos por tres mil
caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas
atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que
suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que elle suba,
fumando o seu cigarro, a uma arredada collina–a sublime edificação dos
Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da côr do pó
final. O que será então aos olhos de Deus!
E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para espicaçar o meu
Principe, elle murmurou, pensativo:
–Sim, é talvez tudo uma illusão… E a Cidade a maior illusão!
Tão facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu
Principe, uma Illusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na
Cidade a base de toda a sua grandeza e só n'ella tem a fonte de toda a
sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a força e belleza
harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou
obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos
como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem
sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda–esse ser em que Deus,
espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na
Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ella lhe impõe uma
necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre
e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar,
rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o
enreda em tradições, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos,
serviços mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel… A sua
tranquillidade (bem tão alto que Deus com elle recompensa os Santos)
onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada
pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gôzo, ou pela fugidia
rodella d'ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de
seres que tumultuam na arquejante occupação de _desejar_–e que, nunca
fartando o desejo, incessantemente padecem de desillusão, desesperança
ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se
deshumanisam! Vê, meu Jacintho! São como luzes que o aspero vento do
viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e
faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com
desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianças que o
interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata
apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da
rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho?
Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva
se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho
Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão
a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos
caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei
natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de
Lesbos!… Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia,
por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a
extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idéas e Formulas que
constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella
envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as
expressões já exprimidas:–ou então, para se destacar na pardacente e
chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um
gemente esforço, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e
que detenha a multidão como um mostrengo n'uma Feira. Todos,
intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o
mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila,
as pégadas pisadas;–e alguns são macacos, saltando no topo de mastros
vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade,
n'esta creação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e
alcatrão, e o carvão tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como
o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se
murmuram através d'arames–o homem apparece como uma creatura
anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem
sentimento, e trazendo em si um espirito que é passivo como um escravo
ou impudente como um histrião… E aqui tem o bello Jacintho o que é a
bella Cidade!
E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas
pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez
dos seculos–o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas
brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelação superior, n'aquelles
cimos de Montmartre:
–Sim, com effeito, a Cidade… É talvez uma illusão perversa!
Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil
philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a
totalidade dos sêres, que a manteem… Mas não! Só uma estreita e
reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O
resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos
especiaes que só n'ella existem! D'este terraço, junto a esta rica
Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem
avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo
opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua
propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela
Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e
sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles,
através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com
este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a
abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não
abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham;
abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a
neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas
pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris… A neve
cáe, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a
policia, em torno, ronda attenta para que não seja perturbado o tépido
somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de
Bolonha com pelliças de tres mil francos. Mas quê, meu Jacintho! a tua
Civilisação reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá,
n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dér ao Trabalho, por cada
arquejante esfôrço, uma migalha ratinhada. Irremediavel é, pois, que
incessantemente a plebe sirva, a plebe péne! A sua esfalfada miseria é a
condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a
justa ração de caldo–não poderia apparecer nas baixellas de prata a
luxuosa porção de _foie-gras_ e tubaras que são o orgulho da
Civilisação. Ha andrajos em trapeiras–para que as bellas Madamas
d'Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, subam, em doce ondulação, a
escadaria da Opera. Ha mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos
que agradecem o dom magnanimo d'um _sou_–para que os Ephrains tenham
dez milhões no Banco de França, se aqueçam á chamma rica da lenha
aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas
dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus
pequeninos–para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando,
sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio
d'ether!
–E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!
Elle murmurou, desolado:
–É horrivel, comemos d'esses morangos… E talvez por uma illusão!
Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade,
estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a
molleza cinzenta da tarde, philosophando–considerando que para esta
iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os
Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só
abandonarão ou affrouxarão a exploração das Plebes, se uma influencia
celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes
converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no
peccado–e contra elle são impotentes os prantos dos Humanitarios, os
raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer tão
duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente
posta n'um Messias!… Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e,
para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela
porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um
meigo sermão n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehensão
moderada aos Phariseus que então redigiam o _Boulevard_; algumas
vergastadas nos Ephrains vendilhões; e logo, através da porta da morte,
a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve
demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle
incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influencias
dos Ephrains, dos Trèves, da gente do _Boulevard_, bem depressa
esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberiade–e eis que por seu
turno revestem a purpura, e são Bispos, e são Papas, e se alliam á
oppressão, e reinam com ella, e edificam a duração do seu Reino sobre a
miseria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da
Redempção. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que
Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da
Asia, deverá novamente descer á terra de servidão. Virá elle, o
desejado? Porventura já algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a
estrella, e tomou a myrrha nas suas mãos reaes, e montou pensativamente
sobre o seu dromedario? Já por esses arredores da dura Cidade, de noute,
emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo,
attento, n'um vôo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que
os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca,
trotando o burrinho?
–Tu sabes, Jacintho?
Não, Jacintho não sabia–e queria accender o charuto. Forneci um
phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terraço, espalhando pelo ar
outras idéas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na
Basilica–quando um Sachristão nedio, de barrete de velludo, cerrou
fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um
cançado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.
–Estou com uma sêde, Jacintho… Foi esta tremenda Philosophia!
Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada
comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando
alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:
–Eh Jacintho!
O meu Principe abriu os braços, tambem espantado:
–Eh Mauricio!
E, n'um alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de
riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho,
com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa
de sêda, sem gravata, como se descançasse n'um banco, entre as sombras
do seu jardim.
E ambos, apertando as mãos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um
domingo de verão, sobre as alturas de Montmartre.
–Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em
familia, em chinellos… Ha tres mezes que subi para estes cimos da
Verdade… Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas
d'Israel!
O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes:
–Com este amigo, em peregrinação á Basilica… O meu amigo Fernandes
Lorena… Mauricio de Mayolle, velho camarada.
Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava
Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapeu de palha. E
empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho
ou para um bock.
–Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com
sêde!
Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais sêcos que pergaminhos:
–Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, com um
vinhosinho gelado!
Mauricio saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malicia. E
immediatamente, para o meu Principe:
–Ha tres annos que te não vejo, Jacintho… Como tem sido possivel,
n'este Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?
–A vida, Mauricio, a espalhada vida… Com effeito! Ha tres annos,
desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?
Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
–Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica… Uma
turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo
estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental…
Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e á Parola do 37, e á _Cerveja ideal_,
o que reinava?…
Jacintho catou lentamente as suas recordações por entre os pêllos do
bigode:
–Eu sei!… Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as
Nornas… Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico… Em
moral, o Renanismo.
Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado
archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilára a
sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'açafrão, já o
Renanismo passára, tão esquecido como o Cartesianismo…
–Tu ainda és do tempo do culto do _Eu_?
O meu Principe suspirou risonhamente:
–Ainda o cultivei.
–Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o
Nietzismo, o Feudalismo espiritual… Depois grassou o Tolstoïsmo, um
furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um
jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida,
que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e
que grunhia com o dedo espetado:–«Busquemos a luz, muito por baixo, no
pó da terra!»–E á sobremeza bebemos á delicia da humildade e do
trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde
dava nos grandes dias em copos da fórma do San-Gral! Depois veio
Emersonismo… Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma
Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já havia uns
desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas,
coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada
mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que depois se fez
Monge Branco, e que anda no Deserto… Um horror! E uma tarde, de
repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!
Eu, agarrado á bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que
redemoinhava, me torcia o craneo! E até Jacintho balbuciou, esgazeado:
–O Ruskinismo?
–Sim, o velho Ruskin,… John Ruskin!
O meu ditoso Principe comprehendeu:
–Ah, Ruskin!… _As sete lampadas da Architectura_, _A Corôa de
Oliveira Brava_… É o culto da Belleza.
–Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu,
enojado, já descera de todas essas nuvens vãs… Pisava um chão mais
seguro, mais fertil.
Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho
esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flôr de
Novidade que ia desabrochar:
–E então? então?…
Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se
velava:
–Vim para Montmartre… Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que
percorreu toda a India… Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de
Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo
de Urga… Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnação de Guatama, e era
portanto um Boddi-sattva… Trabalhamos, procuramos… Não são visões.
Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de
Christna…
Através d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos
ritos, arredára a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa,
distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de
cobre, murmurava com os olhos descançados em Jacintho, mas perdidos
n'outra visão:
–Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da
suprema pureza da Vida. É toda a sciencia e força dos grandes mestres
Hindus… Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo!
Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto
Thibet… Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos resultados bem
extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas
sensitivas… O pobre chimico, para demonstrar as vibrações do som,
tocou quasi ás portas da verdade isoterica. Mas què! homem de sciencia,
portanto homem d'estupidez, ficou áquem, entre as suas placas e as suas
retortas! Nós fômos além. Verificámos as _ondulações da Vontade_! Deante
de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadencia com o
seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu
linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra,
resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza
morreu!
E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braços
abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe
d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno,
accendendo de vagar um cigarro:
–Uma d'estas manhãs, Jacintho, appareço no 202, para almoçar comtigo, e
levo o meu amigo. Elle só come arrôz, uma pouca de salada, e fructa. E
conversamos… Tu tinhas um exemplar do _Sepher-Zerijah_ e outro do
_Targum d'Onkelus_. Preciso folhear esses livros.
Apertou a mão do meu Principe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e
serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca,
as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas
naturaes.
–Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!… Quem é elle, santissimo nome
de Deus?
Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu Principe
contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito
intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques
de Septimania… E murmurou, através do costumado bocejo:
–O desenvolvimento supremo da vontade!… Theosophia, Buddhismo
isoterico… Aspirações, decepções… Já experimentei… Uma massada!
Atravessamos, callados, o rumôr de Paris, sob a molleza abafada do
crepusculo de verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão d'Armenonville,
onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o _Hymno da Carta_ com
paixão, com langor, n'uma cadencia de _czarda_ dolorosa e aspera.
E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
–Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho gelado!
Grandemente o mereço, caramba, que superiormente philosophei!… E creio
que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar
horror da cidade!
O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em
quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:
–Mande gelar duas garrafas de champagne S.^t Marceaux… Mas antes, um
Barsac velho, apenas refrescado… Agoa de Evian… Não, de Bussang!
Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.
Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
–Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre,
com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descançar de tarde
e dominar a Cidade…
VII
Julho findára com uma chuva refrescante e consoladora:–e eu pensava em
realisar finalmente a minha romagem ás cidades da Europa, sempre
retardada, através da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne.
Mas, de repente, Jacintho começou a rogar e a reclamar que o seu Zé
Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E
eu comprehendi que o meu Principe (á maneira do divino Achilles, que,
sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca
dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o
confôrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manhã
combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e
doçura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e
solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal
cabiamos, suffocavamos na confusão, entre os cestos de flôres, e os
ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos
Saxes, e as pelles de feras estiradas aos pés de sophás adormecedores, e
os biombos de Aubusson formando alcôvas favoraveis e languidas…
Aninhada n'uma cadeira de bambú lacada de branco, entre almofadas
aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regaço, ella
esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me
lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas
Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes cançada do grande
seculo; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era
como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na
intimidade d'aquellas tardes, não a contrariava–antes lhe trazia um
vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu
_cher Fernandez_!
E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma
ferida fresca, e começava a chalrar–logo nos envolvia o burburinho e a
murmuração de Paris. Ella só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o
resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu
Paris:–e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com
suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeição n'uma sala e
irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de
cêra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em
mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a
vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e
as «Festas» do _Figaro_; e de vez em quando murmurar para o marido–«Ah,
és tu?…» Além d'isso, ao lusco-fusco, n'um sophá, alguns certos
suspiros, entre os braços d'alguem a quem era constante. Ao meu
Principe, n'esse anno, pertencia o sophá. E todos estes deveres de
Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que
já duas prégas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas
nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua
Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario.
Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjára no cerebro
(onde de certo penetrára o pó d'arroz que desde o collegio acamava na
testa) algumas Idéas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os
outros «horrores», a Republica, o Socialismo, a Democracia que se não
lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa
juntava ás rendas do chapeu a Corôa amarga de espinhos–por serem esses,
para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dôr. E, deante de todo o
Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o
juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fôsse elegante formular e
sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embaraçára nos tormentos d'uma
paixão. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um
Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religião intíma
(e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos á missa
de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel
cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem
abrigo–ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de
patinagem. E preparava tambem os de Caridade–porque era boa, e
concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados
pelas Duquezas do seu «rancho». Depois, na primavera, muito
methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de
inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flôr de Parisianismo.
Pois respirando esta macia e fina flôr passamos nós as tardes d'esse
julho em quanto as outras flôres pendiam e murchavam na calma e no pó.
Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho não parecia encontrar esse
contentamento d'alma, que entre tudo que cança jámais cança. Era já com
a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem
tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e
orlada de tão frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com
dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão
desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pêllos do bigode
murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, em quanto os
melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso
funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mão da
sua dôce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.
Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da
Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho,
atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar
desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a
collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, já com a
preguiça triste da façanha a que se impellia:
–Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para
hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma secca! Vamos a casa de
Madame d'Oriol… Ao menos lá, ás vezes, ha um bocado de frescura e paz.
E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava
desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio
da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu
já o conhecia–porque Jacintho m'o mostrára uma noite, no Grand Café,
ceiando com dançarinas do _Moulin Rouge_. Era um moço gordalhufo,
indolente, de uma brancura crúa de toucinho, com uma calvice já séria e
já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos
carregados de anneis. N'essa tarde, porém, vinha vermelho, todo
emocionado, calçando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho–e
sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:
–Visita lá acima? Vai achar a Joanna em pessima disposição… Tivemos
uma scena, e tremenda.
Deu outro puxão desesperado á luva côr de palha, já esgaçada:
–Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, é excellente! Mas
em tudo ha medida e fórma… Ella tem o meu nome, não posso consentir
que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do
trintanario. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!… Se quer
dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua
casa de Corbelle. E lá até com os animaes!… Foi o que eu lhe disse!
Ficou como uma fera.
Sacudiu então a mão do Jacintho que «era da sua roda»–rebolou pela
escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face
pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando
para mim, como um sèr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo póde
caber:
–Já agora subamos, sim?
* * * * *
Parti então, com muita alegria, para a minha appetecida romagem ás
Cidades da Europa.
Ia viajar!… Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, bufando, com todo
o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um
wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de
suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas
mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi
derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel;
e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma
cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas
desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina
que me cheirava a lôdo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com
cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenços, tres
ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé
direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me
chegasse o _boeuf-a-la-mode_, já frio, com môlho coalhado–e que o
copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com
desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos
marmores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei
mollemente, com uma dôr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e
quarenta salas revestidas até aos tectos de Christos, heroes, santos,
nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias
manchas de betume, tristezas das formas immoveis!… E o dia mais dôce
foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho
inglez de penca flammejante que habitára o Porto, conhecêra o Ricardo, o
José Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista…
Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
Emfim, n'uma bemdita manhã d'outubro, na primeira friagem e nevoa
d'outomno, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda
fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde
encontrei o ar macio e tepido que deixára em Florença, apertei os ossos
do Grillo excellente:
–E Jacintho?
O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:
–S. Exc.^a circula… Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da
Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de
Loches… Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado… E disse a
coçar a cabeça: «Eh! que massada! Eh! que massada!»
Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e quentinho
dentro do roupão de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de
braços abertos e sedentos:
–Oh Jacintho!
–Oh viajante!…
Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a
face–e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno côr de malva
orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas
duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo
parecia já vergado sob o pezo e a oppressão e o terror do seu dia. Eu
sorri, para que elle sorrisse:
–Valente Jacintho… Então como tens vivido?
Elle respondeu, muito serenamente:
–Como um morto.
Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fôsse leve:
–Aborrecidote, hein?
O meu Principe lançou, n'um gesto tão vencido, um _oh_ tão cansado–que
eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar
uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!
* * * * *
Desde essa manhã, Jacintho começou a mostrar claramente,
escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existencia o
saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfôrço consistiram então em
sondar e formular esse tédio–na esperança de o vencer logo que lhe
conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu
a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a
sua Melancolia! N'esse raciocinío, elle partia sempre do facto
irrecusavel e massiço–que a sua vida especial de Jacintho continha
todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX,
n'uma vida de homem que não é um Genio, nem um Santo. Com effeito!
Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e môlhos ricos
elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua
intelligencia não apparecêra nem tremor nem morrão; a boa terra de
Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a
sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as
sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de
confôrtos; nenhuma amargura de coração o atormentava;–e todavia era um
Triste. Porque?… E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, á conclusão
de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava
amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacintho–mas da
Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel,
intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombára no Pessimismo.
E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para
ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos
doze annos, emquanto fôra um bicho superiormente amimado, com a sua
pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira
fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena–e as lagrimas eram
para elle tão incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. Só quando
crescêra, e da animalidade penetrára na humanidade, despontára n'elle
esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das
primeiras curiosidades, e que depois alastrára, o invadira todo, se lhe
tornára consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto
era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos
differentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada lucta pelo pão,
pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas,
é a amargura das desillusões, o mal da imaginação insatisfeita, o
orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e
desejos nenhuns, era o tédio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade,
fastio da Intelligencia–eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a
sua occupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face
pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.
Foi então que o meu Principe começou a ler apaixonadamente, desde o
_Ecclesiastes_ até Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos
do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovação
de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacinthico»–mas grandiosamente
resultante d'uma Lei Universal. Já ha quatro mil annos, na remota
Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia
em Illusão. Já o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor,
summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas
conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil
concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle
as fecundasse e no seu ventre depozésse um Deus! Não ha nada novo sob o
sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males.
Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do
pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó ephemero, em Jerusalém e em Paris!
E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver–como no seu
throno d'ouro, entre os seus quatro leões d'ouro, o filho magnifico de
David.
Não se separava então do _Ecclesiastes_. E circulava por Paris trazendo
dentro do coupé Salomão, como irmão de dôr, com quem repetia o grito
desolado que é a summa da verdade humana–_Vanitas Vanitatum_! Tudo é
Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sophá,
n'um roupão de sêda, absorvendo Schopenhauer–emquanto o pedicuro,
ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos
pés. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse café de Moka
enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela
força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um
olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dôr o
torturaria–pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o
remexer assim, perpetuamente, em pés alheios… E quando o pedicuro se
erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade–com um
«adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!»
Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tédio.
Jacintho encontrára emfim na vida uma occupação grata–maldizer a Vida!
E para que a podésse maldizer em todas as suas fórmas, as mais ricas, as
mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de
novo luxo, de interesses novos d'espirito, e até de fervores
humanitarios, e até de curiosidades supernaturaes.
O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi então que elle
iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Côr contados na
Historia Augusta: e offereceu ás suas amigas esse sublime jantar côr de
rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louças,
os crystaes, os gelados, os Champagnes, e até (por uma invenção da
Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros
serviam, empoados de pó rosado, com librés da côr da rosa, em quanto do
tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas… A
Cidade, deslumbrada, clamou–«Bravo, Jacintho!» E o meu Principe, ao
rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mãos nas ilhargas e
gritou triumphalmente:–«Hein? Que massada!…»
Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre
jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças debeis á beira
do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindù de
Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para
verificar a mysteriosa _exteriorisação da motilidade_. Depois,
desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do _Times_, para
que no seu gabinete, como n'um coração, palpitasse toda a vida Social da
Europa.
E a cada um d'estes esforços da elegancia, do humanitarismo, da
sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de
braços alegres, com um grito victorioso:–«Vês tu, Zé Fernandes? Uma
massada!»–Arrebatava então o seu _Ecclesiastes_, o seu Schopenhauer, e,
estendido no sophá, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina
e da Experiencia. Possuia uma Fé–o Pessimismo: era um apostolo rico e
esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da
sua Fé! Muito gozou n'esse anno o meu desgraçado Principe!
No começo do inverno, porém, notei com inquietação que Jacintho já não
folheava o _Ecclesiastes_, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem
Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do _Times_, pareciam
interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua
Crença. E a sua abominavel funcção de novo se limitou a bocejar, a
passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira.
Incessantemente alludia á morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo,
no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes,
consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes
rapidas, sem dôr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela
violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que
apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito
elegante–atacára bruscamente a Vontade!
Todo o seu movimento então foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a
canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento–nem mesmo se
lastimava que ella lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indifferente, Zé
Fernandes!» E tão indifferentemente sahiria á sua janella para receber
uma Corôa Imperial offerecida por um Povo–como se estenderia n'uma
poltrona rôta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e não
conduzindo senão a maior desillusão, que podia importar a mais rutilante
actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me
irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos,
dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?… E no minimo acto,
raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão
desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos até á alma,
pelas voltas apertadas d'uma corda que se não via e que o travava.
* * * * *
Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de
Janeiro. Cêdo, de manhã, recebèra, com uma carta de Madame de Trèves, um
açafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este
mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o
fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:
–Então, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?
E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o
Champagne do «Natalicio»–elle recusou, com o nariz enojado. Oh! Não!
Que horrivel sécca!… E bradou mesmo para o Grillo:
–Eu hoje não estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei
para Marselha… Morri!
E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os
telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a
meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flôres que vieram, em
vistosos cestos, com vistosos laços, foram por elle comparadas ás que se
depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente
de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava até ao tapete ou se
alteava até ao tecto–para que, senhor Deus meu?
Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredamos do 202, com os
pés estendidos ao lume, em preguiçoso silencio. Eu terminára por
adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grillo…
Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel!
E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que cançára a mocidade a
accumular todas as noções formuladas desde Aristoteles e a juntar todos
os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em
que elle, cercado de Civilisação nas maximas proporções para gozar nas
maximas proporções a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao
seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!
O Grillo trazia um presente do Gran-Duque–uma caixa de prata, forrada
de cedro, e cheia d'um chá precioso, colhido, flôr a flôr, nas veigas de
Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Asia, em
caravanas, com a veneração d'uma reliquia. Então, para despertar o nosso
torpôr, lembrei que tomassemos o divino chá–occupação bem harmonica com
a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma
bailando no fogão. Jacintho accedeu–e um escudeiro acercou logo a meza
de Ephraim para que nós lhe estreassemos os serviços destros. Mas o meu
Principe, depois de a altear, para meu espanto, até aos crystaes do
lustre, não conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as
molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o
escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica,
unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do
chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de
alfaias de prata, que communicavam a essa occupação, tão simples e dôce
em caza de minha tia, _fazer chá_, a magestade d'um rito. Prevenido pelo
meu camarada da sublimidade d'aquelle chá de Kiang-Sou, ergui a chavena
aos labios com reverencia. Era uma infusão descorada que sabia a malva e
a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou… Não tomamos chá.
Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no
lume:
–E as obras de Tormes? A egreja… Já haverá egreja nova?
Jacintho retomára o papel e a thesoura:
–Não sei… Não tornei a receber carta do Silverio… Nem imagino onde
param os ossos… Que lugubre historia!
Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendára pelo Grillo
ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dôce, com as
iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, á moda amavel da nossa
meiga terra. E o meu Principe á meza, percorrendo a lamina de marfim
onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervôr
a ideia patriarchal:
–Arrôz dôce! Está escripto com dois _ss_, mas não tem dúvida…
Excellente lembrança! Ha que tempos não cômo arrôz dôce!… Desde a
morte da avó.
Mas quando o arrôz dôce appareceu triumphalmente, que vexâme! Era um
prato monumental, de grande arte! O arrôz, massiço, moldado em fórma de
pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os
fructos seccos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma
corôa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as
iniciaes, a data, tão lindas e graves na canella ingenua, vinham
traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos,
n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de
Champagne, murmurou como n'um funeral pagão:
–_Ad Manes_, aos nossos mortos!
Recolhemos á Bibliotheca, a tomar o café no conchego e alegria do lume.
Fóra, o vento bramava como n'um êrmo serrano: e as vidraças tremiam,
alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez
mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre
cêrro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob
o abrigo da sua telha vã, com a sua panella atestada de couves, se
agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha
ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade,
que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como
sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no fôrno.
Ah Portugal pequenino, que ainda és dôce aos pequeninos!
Suspirei, Jacintho preguiçava. E terminamos por remexer languidamente os
jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de
prata–jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines,
Revistas, Illustrações… Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas
espreitava o summario, logo farto; ás Illustrações rasgava as folhas com
o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais
estirado para o lume:
–É uma sécca… Não ha que lêr.
E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava,
saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou
erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se
intimasse aquelle seu 202, tão abarrotado de Civilisação, a que por um
momento sequer fornecesse á sua alma um interesse vivo, á sua vida um
fugitivo gôsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o
animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate
mais rude de agua e vento.
Então o meu Principe, succumbido, arrastou os passos até ao seu
gabinete, começou a percorrer todos os apparelhos completadores e
facilitadores da Vida–o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu
Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a
sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa
Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus
tubos, todos os seus fios… Assim um Supplicante percorre altares
d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou
rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina
vibrasse, para entreter o seu Senhor.
Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o
curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite,
annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu
pêzo–diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob que elle gemia, vergado.
O Principe da Gran-Ventura, então, decidiu recolher para a cama–com um
livro… E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca,
considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e
magestade como Doutores n'um Concilio–depois as pilhas tumultuarias dos
livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a
consagração das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou
por fim para a região dos Historiadores: espreitou seculos, farejou
raças: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou
na Revolução Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mão
indeliberada toda a vasta Grecia desde a creação de Athenas até a
aniquilação de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas,
que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro,
nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. Não
appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas–e recuou, desconsolado, até
aos Biologos… Tão massiça e cerrada era a estante de Biologia que o
meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel!
Rolou a escada–e, fugindo, trepou, até ás alturas da Astronomia:
destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com
fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das
obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate.
Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma
torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões:
e relanceando uma linha, esgravatando além n'um indice, todos
interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas
grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de
encontrar um Livro! Parou então no meio da immensa nave, de cocoras, sem
coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle chão todo
alastrado, os seus setenta mil volumes–e, sem lhes provar a substancia,
já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua
abundancia. Findou por voltar ao montão de jornaes amarrotados, ergueu
melancholicamente um velho _Diario de Noticias_, e com elle debaixo do
braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
VIII
Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava
na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pallido um bafo
de Primavera ainda timido–Jacintho assomou á porta do meu quarto,
revestido de flanellas leves, d'uma alvura de açucena. Parou lentamente
á beira dos colxões, e, com gravidade, como se annunciasse o seu
casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração
formidavel:
–Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D.
Galião:
–Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?…
Deleitado com a minha emoção, o Principe da Gran Ventura tirou da
algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas,
fundamente estudadas:
–«Ill.^{mo} e exc.^{mo} snr.–Tenho grande satisfação em communicar a
v. exc.^a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da
capella…»
–É do Silverio? exclamei.
–É do Silverio. «…as obras da capella nova. Os venerandos restos dos
excelsos avós de v. exc.^a, senhores de todo o meu respeito, podem pois
ser em breve trasladados da egreja de S. José, onde têm estado
depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v.
exc.^a… Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.^a a respeito
d'esta magestosa e afflictiva ceremonia…»
Atirei os braços, comprehendendo:
–Ah! bem! Queres ir assistir á trasladação…
Jacintho sumiu a carta no bolso.
–Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que
são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galião…
Tambem não o conheci. Mas este 202 está cheio d'elle; tu estás deitado
na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. Não posso abandonar ao
Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo.
Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral… Emfim, decidi.
Apertei os punhos na cabeça, e gritei–_vou a Tormes_! E vou!… E tu
vens!
Eu enfiara as chinellas, apertava os cordões do roupão:
–Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes está
inhabitavel…
Elle cravou em mim os olhos aterrados.
–Medonha, hein?
–Medonha, medonha, não… É uma bella casa, de bella pedra. Mas os
caseiros, que lá vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo
á lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos
moveis de Tormes, se bem recordo, são um armario, e uma espinetta de
charão, côxa, já sem teclas.
O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava
ao Destino:
–Acabou!… _Alea jact est!_ E como só partimos para abril, ha tempo de
pintar, d'assoalhar, d'envidraçar… Mando d'aqui de Paris tapetes e
camas… Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarçar algum
buraco… Levamos livros, uma machina para fabricar gelo… E é mesmo
uma occasião de pôr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma
decencia e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de
1410… Ainda existia o Imperio Byzantino!
Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu
Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do
toucador, considerando o meu preparo com uma attenção triste que me
incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe
reter bem a moral e o succo:
–Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um
absoluto dever, ir eu a Tormes?
Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o
meu Principe:
–Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E
honra te seja, menino… Não cedas a ninguem essa honra!
Elle atirou o cigarro–e, com as mãos enterradas nas algibeiras das
pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os
postes torneados do velho leito de D. Galião, n'um balanço vago, como
barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar
incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada,
por gradações de sentimentos, desde o dagarreotypo do papá até á
photographia do _Carocho_ perdigueiro, a galeria da minha Familia.
E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me
pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde
muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em
Civilisação, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem
energia, a raça fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthões,
que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado
ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para
lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a
lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, alli estava
aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em
aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando
baixinho na miuda indecisão de viver.
–Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?
Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera d'entre a minha
galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:
–Mais respeito, Snr. D. Jacintho… Um pouco mais de respeito,
cavalheiro!… É minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flôr da
Malva.
–Flôr da Malva, murmurou o meu Principe. É a casa do Condestavel, de
Nun'alvares.
–Flôr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flôr da Rosa, no
Alemtejo… Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!
O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha
prima d'entre os dedos molles–que levou á face, no seu gesto horrendo
de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo
esforço, em que se endireitou e cresceu:
–Bem! _Alea jacta est!_ Partamos pois para as serras!… E agora nem
reflexão, nem descanço!… Á obra! E a caminho!
Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que
abre os Destinos–e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e
açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe
ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste
marche, com pendões e bagagens…
Logo n'essa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa
enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando
caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço appareceu na
Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a
remessa de mobilias e confortos, o director da _Companhia Universal de
Transportes_.
Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um
jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas
brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta
multicor resumindo as suas condecorações exoticas de Madagascar, de
Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos
seus serviços. Apenas Jacintho mencionou «Tormes, no Douro…»–elle
logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros
esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.
–Tormes… Perfeitamente! Perfeitamente!
Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota–emquanto eu
considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Chorographico, assim
familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus
velhos solares. Já elle atirára a carteira para o bolso… E «nós, seus
caros senhores, não tinhamos senão a encaixotar as roupas, as mobilias,
as preciosidades! Elle mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a
que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço…»
–Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca…
Perfeitamente! Tormes… Muito pittoresco! E antigo, historico!
Perfeitamente, perfeitamente!
Desengonçou a cabeça n'uma venia profundissima–e sahiu da Bibliotheca,
com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus
Transportes.
–Vê tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptidão, que
facilidade!… Em Portugal era uma tragedia. Não ha senão Paris!
Começou então no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos
necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera–camas de penna,
banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para
vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os
sotãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram
esvasiados–porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós
romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manhã
fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam,
atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os
nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido,
organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de
conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as
trovoadas da serra, comprou um immenso pára-raios. Desde o amanhecer,
nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como
na construcção d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do
portão, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.
Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava aquella
actividade e aquella disciplina:
–Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!… Sahimos do 202, chegamos á
serra, encontramos o 202. Não ha senão Paris!
Recomeçára a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu
Exodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores,
descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas
listas de encommendas a cada loja de Paris–era com delicia que se
vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava
para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba
talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o
Psychologo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de
oito-molas fornecida pelas operações conjunctas da Bolsa e da alcôva.
Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no
Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome
alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos
e os Champagnes bem granitados. E no theatro das _Nouveautés_, no
_Palais Royal_, nos _Buffos_, ria, batendo na côxa, com encanecidas
facecias d'encanecidas farças, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos
actores, com que já rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo
Napoleão!
De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A
magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia,
deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem
fui, de «moço de forcado».) E na _Associação para o Desenvolvimento das
Religiões Esotericas_ discursou e batalhou bravamente pela construcção
d'um Templo Budhista em Montmartre!
Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos tempos de Escóla,
da «famosa Civilisação nas suas maximas proporções.» Mandou encaixotar o
seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu
espirito germinasse a idéa de crear, no cimo da serra, uma Cidade com
todos os seus orgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacintho que essas
semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulação das
noções–porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que
entre tantos confortos e fórmas de Civilisação esqueceramos os livros!
Assim era–e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros
escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu
Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da
Historia Natural–e nós mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo
d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio.
Despejamos depois para dentro, ás braçadas, Geologia, Mineralogia,
Botanica… Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para
fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor
cunhas de Metaphysica.
Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do
portão do 202 na derradeira carroça da _Companhia dos Transportes_, toda
esta animação de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de
Champagne. Era em meados já tepidos de Março. E de novo os seus
desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophás rangeram sob o
peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela
fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de
solidão e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle
Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo
entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, á doçura das
mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah
não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de
braços em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu
jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
–Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar prompto, a
reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em
cova sua!… A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os
vivos!… Irra! São cinco de Abril!… É o bom tempo da serra!
O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:
–O Silverio não me escreveu, nunca me escreveu… Mas, com effeito,
deve estar tudo preparado… Já lá temos certamente creados, o
cosinheiro de Lisboa… Eu só levo o Grillo, e o Anatole que envernisa
bem o calçado, e tem geito como pedicuro… Hoje é Domingo.
Atirou os pés para o tapete, com heroismo:
–Bem, partimos no Sabbado!… Avisa tu o Silverio!
Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horarios–e o dedo
magro de Jacintho, por sobre o mappa, avançando e recuando entre Paris e
Tormes. Para escolher o «salão» que deviamos habitar durante a temida
jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estação d'Orleans,
atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu
Principe recusava este salão por causa da côr tristonha dos estofos;
depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do
Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que
passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho,
indeciso, suspirava… Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del
Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do
Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas,
socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no
comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de
Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe
offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo
conviva do 202! Jacintho corría os dedos anciosos pela face:–«E os
saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun
para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores
de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle
murmurava:–«Pois sim, mas em Hespanha, de noite!…» A noite, longe da
Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia
ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só acalmou depois de
verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor
Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisação d'aquella viagem
historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de
affagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel
pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e
sete mezes de Paris, me tinham chamado «_mon petit chou! mon rat
cheri!_»–quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de
orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.
–Vamos ao Bosque, por despedida?
Fomos–á grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da
vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela
Avenida do Bosque, quasi me pezava não ficar sempiternamente rolando, ao
trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes,
sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre tão bem regadas
flôres e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina,
de elegancia bem acabada, que almoçára o seu chocolate em porcellanas de
Sevres ou de Minton, sahira d'entre sèdas e tapetes de tres mil francos,
e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos
ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro.
Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte
traçou e enroscou na espessura–nenhum esgalho desgrenhado desmanchava
as ondulações macias da folhagem que o Estado escóva e lava. O piar das
aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada;–e
mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas
novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas
pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzamos
Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais
avivado áquella hora pelo vermelhão ainda humido. Logo atraz a barba
talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manhã, no
alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas
Acacias–e as mãos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calçavam luvas
frescas côr de palha, côr de perola, côr de lilaz. Todelle relampejou
rente de nós sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira
de ferro, sob um espinheiro em flôr, mamava o seu immenso charuto, como
perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo,
que nos não avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro
d'um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia
dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a
cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a
Jacintho se apparecia á noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu
Principe rosnou um–«não, parto para o sul…»–que mal lhe passou
d'entre os bigodes murchos… E Marizac lamentou–porque era uma festa
estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!…
Madame Verghane, de Magdalena, de braços nús, peitos nús, pernas núas,
limpando com os cabellos os pés do Christo!–O Christo, um latagão
soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo,
derreado, sob uma cruz de papelão! Havia tambem Lucrecia na cama, e
Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E depois ceia, em
mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle já estava
aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso
esse–Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as
fórmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por
polidez, ficára combinado que Nero admiraria sem reserva todas as fórmas
de Madame de Malbe… Emfim collossal, e estupendamente instructivo!
Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac. E recolhemos sem que
Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmára, com os
braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e
fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabeça, murmurou:
–É muito grave, deixar a Europa!
* * * * *
Emfim, partimos! Sob a doçura do crepusculo que se enublára deixamos o
202. O Grillo e o Anatole seguiam n'um fiacre atulhado de livros, de
estojos, de paletots, de impermeaveis, de travesseiras, de agoas
mineraes, de saccos de couro, de rolos de mantas: e mais atraz um
omnibus rangia sob a carga de vinte e tres malas. Na Estação, Jacintho
ainda comprou todos os Jornaes, todas as Illustrações, Horarios, mais
livros, e um saca-rolhas de fórma complicada e hostil. Guiados pelo
Chefe do Trafico, pelo Secretario da Companhia, occupamos copiosamente o
nosso salão. Eu puz o meu bonet de sêda, calcei as minhas chinellas. Um
silvo varou a noite. Paris lampejou, fugiu n'um derradeiro clarão de
janellas… Para o sorver, Jacintho ainda se arremessou á portinhola.
Mas rolavamos já na treva da Provincia. O meu Principe então recahiu nas
almofadas:
–Que aventura, Zé Fernandes!
Até Chartres, em silencio, folheamos as Illustrações. Em Orleans, o
guarda veio arranjar respeitosamente as nossas camas. Derreado com
aquelles quatorze mezes de Civilisação adormeci–e só acordei em Bordeus
quando Grillo, zeloso, nos trouxe o nosso chocolate. Fóra, uma chuva
miudinha pingava mollemente d'um espesso ceu de algodão sujo. Jacintho
não se deitára, desconfiado da aspereza e da humidade dos lençoes. E,
mettido n'um roupão de flanella branco, com a face arripiada e
estremunhada, ensopando um bolo no chocolate, rosnava sombriamente:
–Este horror!… E agora com chuva!
Em Biarritz, ambos observamos com uma certeza indolente:
–É Biarritz.
Depois Jacintho, que espreitava pela janella embaciada, reconheceu o
lento caminhar pernalto, o nariz bicudo e triste, do Historiador Danjon.
Era elle, o facundo homem, vestido de xadrezinho, ao lado d'uma dama
roliça que levava pela trella uma cadellinha felpuda. Jacintho baixou a
vidraça violentamente, berrou pelo Historiador, na ancia de communicar
ainda, através d'elle, com a Cidade, com o 202!… Mas o comboio
mergulhára na chuva e nevoa.
Sobre a ponte do Bidassoa, antevendo o termo da vida facil, os abrolhos
da Incivilisação, Jacintho suspirou com desalento:
–Agora adeus, começa a Hespanha!…
Indignado, eu, que já saboreava o generoso ar da terra bemdita, saltei
para diante do meu Principe, e n'um saracoteio de tremendo salero,
castanholando os dedos, entoei uma «petenera» condigna:
A la puerta de mi casa
Ay Soledad, Soleda… á… á… á.
Elle estendeu os braços, supplicante:
–Zé Fernandes, tem piedade do enfermo e do triste!
–_Irun_! _Irun_!…
N'essa Irun almoçamos com succulencia–por que sobre nós velava, como
Deusa omnipresente, a Companhia do Norte. Depois «el jefe d'Aduana, el
jefe d'Estacion», preciosamente nos installaram n'outro salão, novo, com
setins côr d'azeitona, mas tão pequeno que uma rica porção dos nossos
confortos em mantas, livros, saccos e impermeaveis, passou para o
compartimento do _Sleeping_ onde se repoltreavam o Grillo e o Anatole,
ambos de bonets escocezes, e fumando gordos charutos.–_Buen viaje_!
_Gracias_! _Servidores_!–E entramos silvando nos Pyreneos.
Sob a influencia da chuva embaciadora, d'aquellas serras sempre eguaes,
que se desenrolavam, arripiadas, diluidas na nevoa, resvalei a uma
somnolencia dôce;–e, quando descerrava as palpebras, encontrava
Jacintho a um canto, esquecido do livro fechado nos joelhos, sobre que
cruzára os magros dedos, considerando valles e montes com a melancolia
de quem penetra nas terras do seu desterro! Um momento veio em que,
arremessando o livro, enterrando mais o chapéo molle, se ergueu com
tanta decisão, que receei detivesse o comboio para saltar á estrada,
correr atravez das Vascongadas e da Navarra, para traz, para o 202!
Sacudi o meu torpôr, exclamei:–«oh menino!…» Não! O pobre amigo ia
apenas continuar o seu tedio para outro canto, enterrado n'outra
almofada, com outro livro fechado. E á maneira que a escuridão da tarde
crescia, e com ella a borrasca de vento e agoa, uma inquietação mais
aterrada se apoderava do meu Principe, assim desgarrado da Civilisação,
arrastado para a Natureza que já o cercava de brutalidade agreste. Não
cessou então de me interrogar sobre Tormes:
–As noites são horriveis, hein, Zé Fernandes? Tudo negro, enorme
solidão… E medico?… Ha medico?
Subitamente o comboio estacou. Mais grossa e ruidosa a chuva fustigou as
vidraças. Era um descampado, todo em treva, onde rolava e lufava um
grande vento solto. A machina apitava, com angustia. Uma lanterna
lampejou, correndo. Jacintho batia o pé:–«É medonho! é medonho!»…
Entreabri a portinhola. Da claridade incerta das vidraças surdiam
cabeças esticadas, assustadas.–«_Que hay_? _Que hay_?»–A uma rajada,
que me alagou, recuei:–e esperamos durante lentos, calados minutos,
esfregando desesperadamente os vidros embaciados para sondar a
escuridão. De repente o comboio recomeçou a rolar, muito sereno.
Em breve appareceram as luzinhas mortas d'uma estação abarracada. Um
conductor, com o casacão de oleado todo a escorrer, trepou ao salão:–e
por elle soubemos, emquanto carimbava apressadamente os bilhetes, que o
trem, muito atrazado, talvez não alcançasse em Medina o comboio de
Salamanca!
–Mas então?…
O casaco de oleado escorregára pela portinhola, fundido na noite,
deixando um cheiro de humidade e azeite. E nós encetamos um novo
tormento… Se o trem de Salamanca tivesse abalado? O salão, tomado até
Medina, desengatava em Medina:–e eis os nossos preciosos corpos, com as
nossas preciosas almas, despejados em Medina, para cima da lama, entre
vinte e trez malas, n'uma rude confusão hespanhola, sob a tormenta de
ventania e d'agua!
–Oh, Zé Fernandes, uma noite em Medina!
Ao meu Principe apparecia como desventura suprema essa noite em Medina,
n'uma _fonda_ sordida, fedendo a alho, com gordas filas de percevejos
atravez dos lençoes d'estopa encardida!… Não cessei então de fitar,
n'um desassocego, os ponteiros do relogio:–emquanto Jacintho, pela
vidraça escancarada, todo fustigado da chuva clamorosa, furava a
negrura, na esperança de avistar as luzes de Medina e um comboio
paciente fumegando… Depois recahia no divan, limpava os bigodes e os
olhos, maldizia a Hespanha. O trem arquejava, rompendo o vasto vento da
planura desolada. E a cada apito era um alvoroço. Medina?… Não! Algum
sumido apeadeiro, onde o trem se atardava, esfalfado, resfolgando,
emquanto dormentes figuras encarapuçadas, embrulhadas em mantas,
rondavam sob o telheiro do barracão, que as lanternas baças tornavam
mais soturno. Jacintho esmurrava o joelho:–«Mas por que pára este
infame comboio? Não ha trafico, não ha gente! Oh esta Hespanha!…» A
sineta badalava, moribunda. De novo fendiamos a noite e a borrasca.
Resignadamente comecei a percorrer um _Jornal do Commercio_, antigo,
trazido de Paris. Jacintho esmagava o espesso tapete do salão com
passadas rancorosas, rosnando como uma fera. E ainda assim se escoou, ás
gottas, uma hora cheia de eternidade.–Um silvo, outro silvo!… Luzes
mais fortes, longe, palpitaram na neblina. As rodas trilharam, com rijos
solavancos, os encontros de carris. Emfim, Medina!… Um muro sujo de
barracão alvejou–e bruscamente, á portinhola aberta com violencia,
apparece um cavalheiro barbudo, de capa á hespanhola, gritando pelo snr.
D. Jacintho!… Depressa! depressa! que parte o comboio de Salamanca!
–«Que no hay un momento, caballeros! Que no hay un momento!»
Agarro estonteadamente o meu paletot, o _Jornal do Commercio_. Saltamos
com ancia:–e, pela plataforma, por sobre os trilhos, através de
charcos, tropeçando em fardos, empurrados pelo vento, pelo homem da capa
á hespanhola, enfiamos outra portinhola, que se fechou com um estalo
tremendo… Ambos arquejavamos. Era um salão forrado de um panno verde
que comia a luz escassa. E eu estendia o braço, para receber dos
carregadores açodados as nossas malas, os nossos livros, as nossas
mantas–quando, em silencio, sem um apito, o trem despegou e rolou.
Ambos nos atiramos ás vidraças, em brados furiosos:
–Pare! As nossas malas, as nossas mantas!… P'ra aqui!… Oh Grillo!
Oh Grillo!
Uma immensa rajada levou os nossos brados. Era de novo o descampado
tenebroso, sob a chuva despenhada. Jacintho ergueu os punhos, n'um furor
que o engasgava:
–Oh! Que serviço! Oh que canalhas!… Só em Hespanha!… E agora? As
malas perdidas!… Nem uma camisa, nem uma escova!
Calmei o meu desgraçado amigo:
–Escuta! eu entrevi dous carregadores arrebanhando as nossas cousas…
Decerto o Grillo fiscalisou. Mas na pressa, naturalmente, atirou com
tudo para o seu compartimento… Foi um erro não trazer o Grillo
comnosco, no salão… Até podiamos jogar a manilha!
De resto a sollicitude da Companhia, Deusa omnipresente, velava sobre o
nosso conforto–pois que á porta do lavatorio branquejava o cesto da
nossa ceia, mostrando na tampa um bilhete de D. Esteban com estas doces
palavras a lapis–_á D. Jacintho y su egregio amigo, que les dè gusto_!
Farejei um aroma de perdiz. E alguma tranquillidade nos penetrou no
coração sentindo tambem as nossas malas sob a tutella da Deusa
omnipresente.
JIM – Assistente
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