A Cidade e as Serras
EÇA DE QUEIROZ
A CIDADE E AS SERRAS
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1901
Todos os direitos reservados
EÇA DE QUEIROZ
A CIDADE E AS SERRAS
PORTO
LIVRARIA CHARDRON
De Lello & Irmão, editores
1901
Todos os direitos reservados
Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
da mesma Lei.
_Porto–Imprensa Moderna_
[Figura de Eça de Queirós]
A CIDADE E AS SERRAS
Obras do mesmo auctor:
*Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000
*As minas de Salomão.* 1 volume $600
*Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000
*O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso
volume 1$200
*O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000
*A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000
*O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500
*Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600
*A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000
A CIDADE E AS SERRAS
I
O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival.
No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já
entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro.
E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora.
Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em
Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.
Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e
botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou
o enorme Jacintho–até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára
para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:
–Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
pedras?
E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!
Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de
tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala
nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
«seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em
Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
_anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou
a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.
Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia
vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»
mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro–Jacintho _Galião_
correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
furiosamente:
–Tambem cá não fico! tambem cá não fico!
Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão
fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com
o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares
que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa
d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma
aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,
soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o
quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu
amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:
–Irra! É de mais!
Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um
Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma
lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os
amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se
queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe
comprehendiam os escrupulos e a asthma.
–Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta
a boa agua d'Alcolena… O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.
O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de
longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo
de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos
seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla,
educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,
concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851,
quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.
'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, não se quiz arredar da
Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardônha
sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
um resto de sangue; e passou, como uma sombra.
Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.
* * * * *
Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a
_Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica
d'um pinheiro das dunas.
Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
entraram por elle tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os
camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e
Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;–nem crepusculos
quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
certas–sem que jámais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem
desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem coração bastante forte
para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
libertava, do amor só experimentou o mel–esse mel que o amor reserva
aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
nunca lhe conhecemos outra ambição além de comprehender bem as Ideias
Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e
controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou
mera facecia que lançasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;–e não
recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel
maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristão
hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle
passasse… Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
_Sorte-Ruim_! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava
citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
de boa lição:
Sabei, senhora, que esta Vida é um rio…
Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente estendido
sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
aldeias, não offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais segurança
e doçura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.
Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da Gran-Ventura»!
* * * * *
Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
Paris, nas Escólas do Bairro Latino–para onde me mandára meu bom tio
Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.
Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia… Este Principe concebêra
a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde
Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgãos com
todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
torna um magnifico Adão, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto
portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
(tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
proveitos que resultam de Saber e de Poder… Pelo menos assim Jacintho
formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.
Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo,
que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a Espingarda-de-agulha
que vencêra em Sadowa e fôra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan,
estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
individuos, como a das nações, se realisa pelo illimitado
desenvolvimento da Mechanica e da Erudição. Um d'esses moços mesmo, o
nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe
facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica:
Summa sciencia}
X }= Summa felicidade
Summa potencia}
E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
a _Equação Metaphysica de Jacintho_.
Para Jacintho, porém, o seu conceito não era meramente metaphysico e
lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:–mas
constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o
seu preceito–elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
Universaes_ em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados
do 202, n'um mirante envidraçado, um telescopio. Justamente com esse
telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos
languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de
vestidos claros.
–Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacintho, encostado á janella do
mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas
distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraça
alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraça,
presuntos, queijos, boiões de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo
portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com
os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se
agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
composição mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os
mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. É outra
noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
elevado pela Civilisação á sua maxima potencia de visão. E desde já,
pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle não
suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os orgãos e
comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade
que d'ella se tira pela incançavel accumulação das noções, só te peco
que compares Renan e o Grillo… Claro é portanto que nos devemos cercar
de Civilisação nas maximas proporções para gosar nas maximas proporções
a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?
Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se côlha em
distinguir atravez do espaço manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas concordei, porque sou
bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:
–Vamos então beber, nas maximas proporções, _brandy and soda_, com
gelo!
Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilisação, para Jacintho,
não se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
seus vastos orgãos funccionando poderosamente. Nem este meu
super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, parelhas de
luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a illusão do gozo–o
homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!
Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
Que creação augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por
ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!…
–Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião não prova a alma?
Elle encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento
sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o
chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!… Mas
o telephone! o phonographo!
–Ahi tens tu, o phonographo!… Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz
verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa
do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não ha senão a
Cidade!
E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessaria
á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
milhões de sêres arquejando na obra da Civilisação (para manter na
natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só
comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
lumes e de armas…
Eu murmurava, impressionado:
–Caramba!
Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.
Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum
silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á
subita e humilhante inutilisação de todas as suas faculdades superiores.
De que servia, entre plantas e bichos–ser um Genio ou ser um Santo? As
searas não comprehendem as _Georgicas_; e fôra necessario o socorro
ancioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturaes, e um violento
milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco d'Assis,
que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!
Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a
bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar,
suffocando no calido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda
se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr tão
nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A
alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para largar n'ellas a
crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
Jacinthico!
E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
reaes–que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés
calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais
crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,
da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que
lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flôres que não
tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa
esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões
do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.
Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir
d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando
penetramos no lagêdo e no gaz de Paris–e a nossa vittoria quasi se
despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou
descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
aquella materialisação em que sentia a cabeça pesada e vaga como a d'um
boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe
ficára dos melros cantando nos choupos altos.
Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e era um
soberbo moço em quem reapparecêra a força dos velhos Jacinthos ruraes.
Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás
delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não natural, mas composta
destramente pela sua ramalheteira com petalas de flôres dessemelhantes,
cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
leve folhagem de funcho.
* * * * *
Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi
uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas
mais rijas»–me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no
Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha
Nini deixára um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a
flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
accrescentava–«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas,
e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque
vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o
Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».
Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o
arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas
do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço
de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio,
entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam
agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
e cheiroso de serra e de pinheiral.
Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
metti solicitamente entre calças e piugas um Tratado de Direito Civil,
para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
e piedade:
–Para Guiães!… Oh Zé Fernandes, que horror!
E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão
longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma
poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!…»
Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
arbusto desarraigado que não reviverá. A magoa com que me acompanhou ao
comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
sepultura, eu quasi solucei–com saudades minhas.
Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas mimosas do nosso pateo; comi
com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti
á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia,
atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presepios de Natal, por alli
me passaram docemente sete annos, tão atarefados que nunca logrei abrir
o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,
em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das
Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á
pressa por entre o tumulto da Civilisação. Depois, n'um Setembro muito
quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão
quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um
passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matança do porco.
Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.
II
Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas
recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reçumava
elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz
das costas, calçadas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o
nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.
–Oh Jacintho!
–Oh Zé Fernandes!
O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na
lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:
–Ha sete annos!…
–Ha sete annos!…
E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,
as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as
antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.
Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
por Jacintho–apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma
escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr.^a D. Angelina!
Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro
que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do
calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
aquelle ar delicado e superfino.
Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:
–Eis a civilisação!
Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma pilha monstruosa
de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa
de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
n'um concilio.
Não contive a minha admiração:
–Oh Jacintho! Que deposito!
Elle murmurou, n'um sorriso descorado:
–Ha que lêr, ha que lêr…
Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára
mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante cançado. Os
anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode
murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.
Elle erguêra uma tapeçaria–entramos no seu gabinete de trabalho, que me
inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão
baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma
estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de
mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
hastes, friezas, rigidezas de metaes…
Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo
cançado que eu não lhe conhecia:
–Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessario reatarmos estas
nossas vidas, tão apartadas ha sete annos!… Em Guiães, sete annos! Que
fizeste tu?
–E tu, que tens feito, Jacintho?
O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra–cumprira com
serenidade todas as funcções, as que pertencem á materia e as que
pertencem ao espirito…
–E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo Deus… Está tremendo, o
202!
Elle espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga
vivacidade:
–Sim, ha confortos… Mas falta muito! A humanidade ainda está mal
apetrechada, Zé Fernandes… E a vida conserva resistencias.
Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?–Está
lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
estranha e miuda legião de instrumentosinhos de nickel, d'aço, de cobre,
de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
manejar–e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quasi ancioso. Jacintho
acudiu, com a face no telephone:
–Vê ahi o telegrapho!… Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve
estar a correr.
E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava ao meu amigo
Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrára em Marselha com avaria!
Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.
–Da _Azoff_?… A avaria? A mim?… Não! É uma noticia.
Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:
–Eu preciso escrever uma carta, seis linhas… Tu esperas, não, Zé
Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
d'esta manhã. As Illustrações além, n'aquella pasta de couro com
ferragens.
Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade
serrana todos os gostos d'uma iniciação. Aos lados da cadeira de
Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões tumidos e molles,
colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira
de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
como na agua d'um poço, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma
torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
ruas de Samarkande. Que macissa torre de informação! Sobre prateleiras
admirei apparelhos que não comprehendia:–um composto de laminas de
gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma tuba, toda
aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás
cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.
Todos mergulhavam em forças universaes, todos transmittiam forças
universaes. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e
entrára na sua domesticidade!…
Jacintho atirou uma exclamação impaciente:
–Oh, estas pennas electricas!… Que secca!
Amarrotára com colera a carta começada–eu escapei, respirando, para a
Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
Imaginação! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma
lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.
Avancei–e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas.
N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas–e que
todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as
doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em
cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante começavam as
Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
como fresca terra d'alluvião tapando uma riba secular. Contornei essa
collina, mergulhei na secção das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo–e por
traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos
ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais candidas, o ar e a luz do
Senhor.
Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa
de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
Japão. Cedi á seducção das almofadas; trinquei um damasco, abri um
volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel
n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois percebi que o susurro remoto
e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer tão discreto. Arredei uma
_Gazeta de França_; e descornitei um cordão que emergia de um orificio,
escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos
rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
entendimento, susurrou capciosamente:
–…«E assim, pela disposição dos cubos diabolicos, eu chego a
verificar os espaços hypermagicos!…»
Pulei, com um berro.
–Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro
d'uma caixa!
O meu camarada, habituado aos prodigios, não se alvoroçou:
–É o Conferençophone… Exactamente como o Theatrophone; sómente
applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!… Que diz o
homem, Zé Fernandes?
Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:
–Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de horrores…
Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:
–Ah, é o coronel Dorchas… Lições de Metaphysica Positiva sobre a
Quarta Dimensão… Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas
commigo e com uns amigos, Zé Fernandes?
–Não, Jacintho… Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!
E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanella
grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas…
Quem? O auctor do _Coração Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára
ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
n'uma vasta composição, _Helena Devastadora_…
Eu coçava a barba:
–Não, Jacintho, não… Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar
em toda esta civilisacão, lentamente, com cautella, senão rebento. Logo
na mesma tarde a electricidade, e o conferençophone, e os espaços
hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é
excessivo! Volto ámanhã.
Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuço
(como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
ramo que lhe floria o peito.
–Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes d'almoço, com as tuas malas dentro
d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel são
embaraços, privações. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros…
Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
murmurou:
–Grillo!
Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
Gallião_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,
reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
botões de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo «o siô Fernandes». E,
quando soube que eu occuparia o quarto do avô Jacintho, teve um claro
sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
sentir emfim reprovido d'uma familia.
–Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol… Escuta!
Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no
domingo… Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
Fricção com malva-rosa.
E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
vago:
–Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
n'este velho Paris…
Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
iniciação:
–Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já
ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos… São uteis?
Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os
sublimava.–Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
simplificação que dão ao trabalho! Assim… E apontou. Este arrancava as
pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
aquell'outro, além, raspava emendas… E ainda os havia para collar
estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos…
–Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os
bicos, ás vezes magoam, ferem… Já me succedeu inutilisar cartas por as
ter sujado com dedadas de sangue. É uma massada!
Então, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, não
lhe quiz retardar a consolação da douche e da malva-rosa.
–Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei… Agora até ámanhã, com as
malas.
–Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento… Vamos pela sala de
jantar. Talvez te tentes!
E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,–que me
encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
medalhões de damasco côr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,
resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de
gulas delicadas, de gulas intellectuaes.
–Viva o meu Principe! Sim senhor… Eis aqui um comedoiro muito
comprehensivel e muito repousante, Jacintho!
–Então janta, homem!
Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher
correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:–um
Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,
quasi assustador d'aguas–aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.
–Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és ainda o mesmo tremendo
bebedor d'agua, hein?… _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
chileno, que andava a traduzir Klopstock.
Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuçada em metal,
um olhar desconsolado:
–Não… É por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
microbios… Mas ainda não encontrei uma bôa agua que me convenha, que
me satisfaça… Até soffro sêde.
Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista–traçado,
ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
Começava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa…
–É bom?
Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:
–Sim… Eu não tenho nunca appetite, já ha tempos… Já ha annos.
Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.
–Em ether, Jacintho?
O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação d'um aroma que
s'evola.
–É novo… Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
fructas…
Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:
–Eis a Civilisação!
E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guiães,
onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
porém, bemdito Deus, na convivencia de um tão grande iniciado como
Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
Civilisação.
E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa–e através d'ella e
por ella recolhe a felicidade perfeita.
Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da
Gran-Ventura!
III
No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda
em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupão branco de pello de
cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
marfim, prata, aço e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
para não desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisação e manter n'ella
o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
meu espanto–porque as havia largas como a roda massiça d'um carro
sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rôla! De todas,
fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
quatorze minutos.
No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
lavatorio–que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as
duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilisada para os
dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,
que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a
uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a
circulação, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações do seu dia, tão
numerosas por vezes que cobriam duas laudas.
Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á sua civilisação muito
complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára
para viver em mais consciente communhão com todas as funcções da Cidade.
(Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupações parecia porém aprazivel ao
meu amigo–porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellião de homem
livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhãs (de
vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
de um carinhoso tom de rosa murcha–descobri que o meu Jacintho devia
depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
fidelidade a uma votação no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
ecarté… E ainda se acavallavam outras indicações, escrivinhadas por
Jacintho a lapis:–«Carroceiro–Five-oclock dos Ephrains–A pequena das
_Variedades_–Levar a nota ao jornal…» Considerei o meu Principe.
Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
bocejo immenso e mudo.
Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, depois do
banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
enxugado, dentro do seu roupão de pello de cabra do Thibet ou de grossas
pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
temeroso–todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de rapina.
Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
salva… Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «unica», quasi
inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
memorial ou o seu catalogo!
Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno:
–Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos…
Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina… Uma
sécca!
Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
o seduzia;–e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis
cigarretes que o resequiam, começava por se encharcar com um immenso
copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;–e reclamava
impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor
do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
de canella!
–E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer?
–Eu?
Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
collete:
–Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!
O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava
através da numerosa Civilisação da Cidade uma occupação que me
encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposição, ou uma Conferencia, ou
monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:
–Por fim nem vale a pena, é uma sécca!
Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraçava
um maço tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da
Gran-Ventura mergulhava na Cidade.
* * * * *
Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo
de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
querido de Jacintho–porque n'elles mais intensamente e mais
minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr,
porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença)
descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha
claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções
da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos
museus do seculo XIX»…
–Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas
pelucias… Não vale a pena!
Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
impressionava o seu horror pela Multidão–por certos effeitos da
Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos».
–Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras… Pois constituem o
rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende
n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a
immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão
repulsiva… Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa!
Tudo isto era especioso, talvez pueril–mas para mim revelava, n'aquelle
chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma
tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas…
–Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
bazar!
E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na
fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são
prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça…
Jacintho murmurou, com a face arripiada:
–É feio, é muito feio!
E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:
–Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
producção!
Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira
sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum
elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
astros, garantindo a eternidade da sua luz!
Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,–o meu
Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com
rodar rangente n'outra arrastada fila–e murmurava um nome. E assim fui
conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as
bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame
Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e
palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado,
esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandòs furiosamente
negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz,
na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava
ao cocheiro:
–Para casa, depressa!
E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á
de Jacintho.
Para o sondar eu denegria o Bosque:
–Já não é tão divertido, perdeu o brilho!…
Elle acudia, timidamente:
–Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas…
E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas,
com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a
adornar para o serviço social da noite.
E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos,
n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata
branca–quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
luzes–e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se
agitassem, animadas por aquella rebellião da agua–ouvimos roncos surdos
no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo
para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»
Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
quarto, em ceroulas, livido:
–Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!… Que impotencia, que
impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
perfeitos, um processo novo…
–E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!
Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua
aquecia em seguras panellas–e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da
Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no
Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
branco cysne e as suas brancas armas–entallado, aperreado, cortado nos
sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia
estonteadoramente a flores de Nessari.
* * * * *
No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as
trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as
cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:
–Vem no _Figaro_!
Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
publicidade, que tambem sorrí, deleitado.
–E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo,
rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber… «Está lá?
Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes!
O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só
desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o
Grillo e eu:
–É do Gran-Duque Casimiro… Ratão amavel! Coitado!
Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu
Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem
boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro…» Murmurei tambem com
deferencia:–«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:
–Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
telephona, te telegrapha, te…?
–Diana?… Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!
–Tua?
–Minha, minha… Não! tenho um bocado.
E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino
orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
gamella publica–Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado
no garfo:
–Tu vens das serras… Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é
necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado… Mas meramente
por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
não chafurdo. Pobre Diana!… Dos hombros para baixo nem sei se tem a
pelle côr de neve ou côr de limão.
Arregalei um olho divertido:
–Dos hombros para baixo?… E para cima?
–Oh para cima tem pó d'arroz!… Mas é uma sécca! Sempre bilhetes,
sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além
das flores… Uma massada!
E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.
Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os
reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro,
d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
docemente chalrada:
–É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me
contive, quiz vêr os estragos… Uma inundação em Paris, nos
Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
Vesuvio… Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
tapetes… Estou morrendo por admirar as ruinas!
Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
interesse, retomára risonhamente o charuto:
–Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
cahido uma parede!
Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
d'uma inundação. O _Figaro_ contára… E era uma aventura deliciosa, uma
casa escaldada nos Campos-Elyseos!
Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á
ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo
espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma,
uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.
Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera… Eu
voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida.
Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri
vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da
janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela
mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.
Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
forte–mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo
cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do
cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de
macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de
Civilisação:–e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já
desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e
d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
ante-murcho.
No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
montão de telegrammas sobre a toalha.
–Tudo esta manhã, por causa da inundação?… Ah, Jacintho é hoje o
homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?
Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
séria:
–É brilhante!
Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho,
n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar,
porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão!
Jacintho exclamou com innocencia:
–Sermão?… É já a estação dos sermões?
Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê!
pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De
resto não se admirava–Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia!
d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a
fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma
brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo,
muito branco, muito forte!
O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo
negro. E Jacintho, rindo:
–Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
almas…
Ella acudiu:
–Não! infelizmente o Père Granon não confessa!
E de repente reconsiderou–aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era
necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos
nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que
ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que
ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:
–Elegante, não é verdade?… É uma creação inteiramente nova de Madame
Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.
O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema
do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava
delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos!
Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.
O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se
deslocasse um mundo:
–Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
natural…
–Em quê?
Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
longe, cançados e com pouca esperança:
–Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!
IV
N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.
–Uma festa?…
–Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O
Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do
seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo… Mas é uma massada
amarga!
Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com
relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas
ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a
faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação
de luxo e gosto, que eu murmurei:–«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!»
Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante
e minuciosa–sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
frigorificas. Oh, este 202!
Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o
manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança
d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas
trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guiães. Jacintho em
cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva
ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução
outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma
reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á
ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O
Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade
se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
algibeira dous côtos de estearina.
A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca
furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos
Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
arfavam, boliam com os pés venerandos!
Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no
peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o
«numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia
demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella
offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
(de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de
«vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e
lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae
atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda
sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de
que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E
de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
enlevado sorriso murmurou:–«Prodigiosa, esta prensa electrica!…»
Jacintho accudiu:
–Não! Não! Esta é…
Mas ella sorria, seguia… Madame de Treves não comprehendera nenhum
apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma
dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a
Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a
Danjon a admiração que me penetrava.
O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:
–Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!… E depois como se
janta bem em casa d'ella! Que café!… Mulher superior, meu caro senhor,
verdadeiramente superior!
Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da
estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
_Coração Triple_, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no
202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e
com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado n'essa semana
entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um
sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia
postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão
fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
«mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
_Couraça_, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de
mais mel, murmurei com um leve assobio:–«uma delicia!»
E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente
que dissecára todas aquellas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,
sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a
sangrar… E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos
bolsos:
–No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um
erro bem estranho, bem curioso!…
O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz:
–Um erro?
Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!… Era
attribuir á esplendida amorosa da _Couraça_, uma duqueza, e do gosto
mais puro,–_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se
despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos
bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
collete de setim preto?
O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão
suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em
quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
dolorida–se põem em collete e saia branca!… De resto o director do
_Boulevard_ condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme,
aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
mettendo os dedos pelo cabello:
–Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae!
O pobre mestre da _Couraça_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
Elegancias-Femininas desmantelada–e Paris suppondo que elle nunca vira
uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então,
passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa:
–Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!… Com
effeito! é absurdo, um collete preto!… Mesmo por harmonia com o estado
da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito
desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines… É prodigioso
como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
bem documentadas!…
Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de
artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os
tons… E gritou, com os braços estendidos para o director do
_Boulevard_:
–Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma _interview_, meu caro
mestre! Mande um dos seus redactores… Ámanhã, ás dez horas! Fazemos
uma _interview_, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz… Mande um dos
seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar,
bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito ás sciencias
psychologicas e feministas!
Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos
Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
debatia e se recusava entre dous homens.
Eram os dois homens de Madame de Treves–o marido, conde de Treves,
descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por
«caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os
dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o
nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já
preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das
_Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas
convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma
corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
acceitára a direcção por patriotismo…
–De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
feito, n'um mundo superior, entre amigos…
E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a
sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava
o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os
Nagayers, os Bolsans, os Saccart…
Jacintho franzia o nariz, enervado:
–Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha
esmeraldas?
Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:
–Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!… Ha sempre esmeraldas
desde que haja accionistas!
E eu admirava a grandeza d'aquella maxima–quando appareceu, esbaforido,
desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
(Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,
conhecia todos os enredos de Paris.
–Já veio?… Já cá está o Gran-Duque?
Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle?
–Não poude… No sophá… Esfolou uma perna.
–Oh!
–Quasi nada… Cahiu do velocipede!
Jacintho, logo interessado:
–Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede?
–Aprende. Nem tem velocipede!… Agora, na quaresma, é que se applicou
mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no
Bosque, zás, terra!… Perna esfolada. Aqui.
E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.
Ephraim, brutal e serio, murmurou:–«Diabo! é no melhor sitio!» Mas
Todelle nem o escutára, correndo para o director do _Boulevard_, que se
avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.
Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de
Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois
botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle,
também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de
cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára
certamente alguma historia de bom e grosso sal–porque deante do divan,
de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso!
divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal:
–Ha melhor, ha infinitamente melhor… Todos aqui conhecem Madame
Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas…
Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
n'uma surda irritação:
–Aria da Patti… Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além
d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
trabalha!
–Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_… É mais
de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_…
Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr
de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido
branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:–«Quem é?» Mas já o
festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço
de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava
gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,
quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho
(que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,
pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina
era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú
e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente
lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella
despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:
–O Gran-Duque vem, com certeza?
–Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!
–P'ra o peixe?…
Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
annunciava:
–S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!
Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como
para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real.
Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,
quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em
mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
hombro de Jacintho:
–E o peixe?… Preparado pela receita que mandei, hein?
Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.
–Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que
eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando
deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»
Em casa do Joseph!… Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,
gallinholas… Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola!
Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
indignação:
–Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em
Paris!
Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o
director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e
torpe pelo barato.
–No Paillard, todavia…–começou o Ephraim.
–No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!
os Borgonhas são tão maus!…
Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu
lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas
côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho:
–Em communicação com o Alcazar?… O Theatrophone?
–Certamente, meu senhor.
Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte
n'uma cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
Electrica_…–Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e
quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um
commando forte:
–É ella! Chut! Venham ouvir!… É ella! Venham todos! Princeza de
Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut…
Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um
provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão côr de rosa murcha,
na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu
fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.
No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de
monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta
delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado
n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação
conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre
uma sepultura.
Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um
silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
canos das fezes,–pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais
lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe
no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,
nuasinha e candida…
Uma das senhoras murmurou:
–Mas, não é a Gilberte!…
E um dos homens:
–Parece um cornetim…
–Agora são palmas…
–Não, é o Paulin!
O Gran-Duque lançou um _chut_ feroz… No pateo da nossa casa ladravam
os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me
encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o
cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
das sebes altas, e o susurro dormente das levadas…
Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:
–Não se ouve nada!… Só guinchos! E um zumbido! Que massada!… Pois é
uma belleza, a cançoneta:
Oh les casquettes,
Oh les casque-e-e-tes!…
Todos largaram os fios–proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:
–_Monseigneur est servi_!
Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de
pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de
desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
percorrer o _menu_–que approvou. E inclinando para mim a sua face de
Apostolo obeso:
–Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico…
Hein?
Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas
classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os
longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho,
que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma
desconsolação risonha:
–Que pena!… Só falta aqui um general e um bispo!
Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
do meu Jacintho… Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais
cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella
carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde,
com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella
reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mão
pelas barbas, rosnou com desdem:
–Bella mulher… Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas!
No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não
possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!…
–Para que, meu caro senhor?
Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:
–Para uma bomba de dynamite… Temos aqui um explendido ramalhete de
flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
dynamite, atirada da porta!… Que bello fim de ceia, n'um fim de
seculo!
E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina,
seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas
almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de _crear_ estava
esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!
Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro
cuidado–reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára
como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os
escudeiros sumidos!
Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de
Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente
do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores
param–e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para
traz d'uma pedra… Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
n'esse descampado, agachada atraz da pedra–porque justamente o mordomo
appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com
paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso:
–Meus amigos, ha uma desgraça…
Dornan pulou na cadeira:
–Fogo?
Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado!
O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
um esmalte mal posto:
–Essa é forte!… Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á
mão, simplesmente? Encalhado… Quero vêr! Onde é a copa?
E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe!
O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde
mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata,
torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos
cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de
bronze eterno.
Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o
Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes
ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,
quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
ganindo:–«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os
decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó
d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
bicudo e triste.
De repente, Todelle teve uma idéa!
–É muito simples… É pescar o peixe!
O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o
peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua
colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica
polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca
miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca
se pescára com tão divino anzol!
Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho,
com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço
fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
_Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam,
amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os
punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio
sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não
fisgava.
–Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!…
Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender.
Agora… Qual! Que diabo! Não vae!
Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só
carpinteiros, com alavancas!… E todos, anciosamente, bradamos que se
abandonasse o peixe!
O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra
mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu
sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou
ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
o arranjo da sua copa… Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina
intelligencia do conforto!
S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de
Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezirias
marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
sonoro e entra no Nobiliario de França.
Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura
insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação,
todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no
emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da
sua festa.
Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na
antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar
com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
enfiar–convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás
suas terras da Dalmacia…
–Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
caçada!
E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
S. Alteza repisava, pegajoso:
–Uma bella caçada… E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé
Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Barão de Pauillac_,
divino!… Creio que o devemos nomear Duque… O Senhor Duque de
Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
Ah!… Não venham fóra! Não se constipem!
E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:
–O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio,
com môlho verde!
JIM – Assistente
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