Os meus amores contos e balladas

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Os meus amores contos e balladas

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OS MEUS AMORES

TRINDADE COELHO

*OS MEUS AMORES*

(Contos e Baladas)

_2.^a edição_

LISBOA

Livraria de António Maria Pereira

50, 52–Rua Augusta–52, 54

1894

_LISBOA_

Tipografia e Estereotipia Moderna

11–_Apóstolos_–11

Ao Doutor

António Xavier Perestrelo

«_Os Meus Amores_»

_Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
Vivo enxame das minhas alvoradas,
Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
As Desdémonas sois de um outro mouro.

As brancas horas que eu em sonhos douro,
Essas horas febris, iluminadas,
Ei-las fugindo, em tristes debandadas…
Levais nas asas todo o meu tesouro.

Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
Que o céu em estrelas vos converta e mude,
Lá nas longínquas ilusões que exalto;

Como as frementes águas de um açude,
Levai a Deus, no derradeiro salto,
O derradeiro adeus da juventude_…

_Luís Osório_.

IDÍLIO RÚSTICO

_A Fialho de Almeida_.

Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
estúrdia, a desoras…

Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
novo ele se punha a caminhar.

Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
que o eco levou para longe.

–Não gastes pólvora, António!–recomendou o pastor.–Ouviste?

E logo a voz do guardador:

–Madrugas hoje, Gonçalo!

–P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.

–Está bem. Adeus!

–Saudinha.

A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra… Neste assomo
de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
secas, onde algum réptil passasse vagaroso.

–Busca, Turco!–fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.–Busca,
valente!

À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
se chegasse ainda era preciso andar… Era um poder de passos e de
paciência,–reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
o Gonçalo desabafou:

–Uff! até que enfim!–E pensava aliviado:–Nada mais fácil do que
terem-me saído os lobos!…

Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
descuido involuntário–simples remadela pouco a tempo, manobra menos
segura de leme, ou impulso errado de vara.

E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
limitada a paisagem.

A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
manso, e sem o mínimo ruído.

Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.

–Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada…

E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:

–Ora se será ela?…

Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.

–Ai, se fosse a Rosária!… dizia consigo.

E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.

«O rebanho parecia o mesmo, lá isso… Agora o pastor é que podia ser
outro que não a Rosária…»

Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.

No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:

–Eh lá, Gonçalo, és?

O pastor desatou a rir.

–Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!

E logo a voz fresca da rapariga lembrou:

–Não te esqueceu a moda, rapaz!

–Isso esquece ela!… Ouviste, Rosária?–Se outra fosse que ma
tivesse ensinado…

Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:

–Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?

–Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?

–Basta!

E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
bravas.

A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
era como um talismã precioso para livrar de maiores
desgraças–naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.

Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
seguida do seu rebanho.

–Ora viva a Rosária!–disse o pastor muito alegre, parando defronte da
cachopa.

–Bons dias, Gonçalo; então que ventos?

Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
feira dos Caniços.

–Por sinal que nem rês se vendeu!–lembrou o Gonçalo.

–Por sinal!–disse com pena a Rosária.

Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
sonhar! Nanja ele…»

–Mas se eu estive tão doente!–volveu triste a Rosária.

E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:

–Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
mesmo lume desde manhã até ao escurecer… Uma assim!

E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
como agora tinha acontecido, «tal e qual».

–Assim te Deus salve, ó Rosária?–atalhou rápido o pastor, a quem
enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.

–Assim; pois que dúvida?–tornou-lhe confiada a Rosária.

–Não!–disse agastado o Gonçalo.–Não hás-de dizer assim… Diz certo,
hás-de jurar direito.

–Pois assim me Deus salve…

–Como é verdade…–Diz tudo, Rosária!–suplicava o pastor.

–Sim, volveu-lhe paciente a companheira,–como é verdade que sonhava
que nos encontrávamos–concluiu por fim, muito risonha.

E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
ela lhe tinha ensinado.»

–Lembras-te?

A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:

–Saem daqui sem falhar uma.–E resoluto:–Vá feito, Rosária, pede por
boca!

A Rosária pediu então a _Pastorinha_.

–Eu é da que mais gosto,–explicou.–É a mais linda.

–E é!–concordou o Gonçalo.–Ora escuta lá.

E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:

Onde _vás_, ó Pastorinha,
Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé…

–Sabes essa! É mesmo assim!–disse-lhe a Rosária a rir-se.

–É como vês!–afirmou contente o Gonçalo.

Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
confundidos, andavam na pastagem.

–Olha as ovelhas juntas!–notou o Gonçalo.

–Também nós nos quedámos juntos,–volveu-lhe a pequena, sorrindo.–As
pobres dão-se bem, são amigas…–continuou com júbilo.

–E nós também, ora também, Rosária?

–Também–respondeu afoita a pastora.

E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.

* * * * *

A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
asas–passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
e continuavam conversa.

Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
Rosária…

–Mas o cabelo assim cortado…–disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
nua, e passando a mão pela dele,–é que te não fica bem!

«Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
mais, que era como ele gostava…»

–Promessa da mãe se eu melhorasse–explicou a Rosária–Lembranças… A
gente quando está aflita…

–…Quando está aflita…–repetiu como um eco o pequeno. E depois,
amuado:–Se promete os olhos…

A rapariga fitou-o, espantada.

–…é porque tos tirava!–concluiu convicto.

Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

–Não falas, Rosária?–perguntou o pastor sem levantar os olhos para
ela.

–Também tu…–começou com medo a pequena,–logo te zangas! Olhem a
lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!–E depois
animando-se:–Já foste à Senhora dos Remédios?

O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.

–Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.

O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
para acabar com ela:

–Que enfim como melhoraste…–fez que concordava, pondo o bilro a
girar.–Olha como dança…–E depois, mais pensativo, batendo com o
bilro nos dentes:

–Que às vezes as promessas pouco fazem…–E interrompendo:–Sabes quem
fez este bilro?

–Foste tu, aposto.

Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
orgulhoso–«que visse os _torneados_.» Depois continuou:

–Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
santos!–Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
bem promessas fez, mas ela foi-se.

E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.

–Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar… Pois
era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.–E deitando-se para
trás:–Lá anda ela a pastar!–concluiu desalentado.

–Mas tinha de ser,–volveu-lhe triste a Rosária,–que as promessas
sempre fazem, lá isso…

E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
firme na sua objecção:

–Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

* * * * *

À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.

–Olha lá não caiam,–tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.–Se eles
fossem tolos…

E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
então propôs que jogassem a pocinha.

–E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
tarde, bato-me com qualquer, sabias?

E generoso:–Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta…

Como o tempo rendia, jogaram tudo–a pocinha, o fito, as necas, a
bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
buscar o pauzinho, quando zinia longe.

–Turco, traz cá!

* * * * *

No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
tão viva a areia branca das margens.

Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:

–Mas olha o que prometeste… Inda vais feita no que disseste?

«Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»

–E o mais, ó Rosária?–perguntou de novo com interesse.

A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
respondeu:

–Também.–E sorriu-se.–Pois eu…

Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
de partida, assobiando aos cães.

Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.

–É bonito!–fez notar o pastor.

A Rosária explicou logo:

–São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?

Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro–«boas tardes!
boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
carregados, tilintando campainhas.

–Adeus pequenos! cumprimentou.

–Venha com Deus!–tornaram-lhe ambos.

E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada…

Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.

–Vês além… neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?

A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:

–Então é ali?

–Ali mesmo–volveu-lhe já de marcha.

E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
repetiu-lhe muito contente:

–É mesmo além.

Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.

–Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
cavalo.

E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
saber:

–Estás triste, ó Rosária?

–Triste… não. Já agora… tem de ser–volveu-lhe cabisbaixa.

–Huum! Arrependeu-se…–volveu consigo o pastor.

* * * * *

Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.

Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
indefinido do céu.

–E os lobos?–perguntou a Rosária com medo.

–Não há perigo–tranquilizou-a o Gonçalo.–Isso é lá com os cães.

* * * * *

Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
deixaram adormecer,–quando a história das moiras encantadas ia no seu
melhor episódio…

E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
crianças…

Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu…

–Bonito dia, Gonçalo!

–Bonito dia, Rosária! Olha…

…na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando…
voando…

SULTÃO

(Copiado do Natural)

_Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.

I

Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
andar um dia inteiro a mourejar no campo.

–Meus pecados, boa tarde!–dizia ele para a mulher, com um sorriso a
afectar seriedade.

Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.

–Deus te abençoe.

–Pai, olhe que o «Sultão»… ia a dizer o pequeno.

–Bem sei! atalhava logo o Tomé.–O «Sultão» é um maroto e tu és outro.

E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
_meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:

–É que por este caminho não tenho um dia descansado… Nem uma hora…

Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

–…Pois vamos já que já era tempo… Porque p'ra mim há-de chegar… A
modos que vou já cansando…

Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
sem ir campos fora, madrugador como um melro.

–Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.

Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.

Costume velho do Tomé:–mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
logo para o filho:

–Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».

O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
contente, dizendo cá da rua:

–«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!

No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
pálpebras pestanudas…

E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,–um grande riso de
alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».

Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono…

Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
desdenhoso jumento–o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
a navalha de _meia-lua_:

–Então, «Sultão», não vens?

–Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
na soleira, zap!

–Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.–De mal comigo?

E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
vontade…–que não fosse vê-lo o «Sultão»… Metia entre dentes um
pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:

–Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?

O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
fazendo-se humilde…

–Então se és, anda daí. Olha…–E mostrava um pedacito de pão.–P'ra
ti se vieres…

O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
cigano, entrava a tratá-lo por senhor–_sôr_ «Sultão»…

Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar… andando… orelhas
baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
da arrelia.

Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
como um perdido.

–Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
o mariola!–E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.

No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:

–Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.–Cuidas talvez
que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!

Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
superior, a tremer, e roubava-lho da mão.

Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
estrídulas.

–Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.–Até pareces
doido!

–Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
o Tomé, nuns grandes gestos.–Vamos que eu lhe não queria dar da
merenda? Ladrão, de mais a mais!… Ora bem! agora brinque.

Era precisamente o que o Tomé queria:–ver o «Sultão» a brincar.

…Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
causticantes e chuvas torrenciais.

Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
«partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o–como se o
mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
rua… E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
espavorida dos inimigos…

–«Sultão»! eh lá! «Sultão»!

Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
desse na bolha atacá-los… E abriam alas de repente, quando ele,
tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
se deixava cair,–derrotado!

–P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
como um perdido.

Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
rapazes o aviso de se arredarem–«porque era doido, aquele demónio»!…

Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
viandante.

–Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
verdasca:–«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.

E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
ganhava o terreno perdido–fitando impassível o cão… O bruto formava
então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

–Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.

E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
ao correr a caravelha:

–Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
primeiro descer a ver o «Sultão»,–de candeia na mão esquerda, e na
direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.

Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

–Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.

E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
falou,–história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:

–Boas noites!

* * * * *

Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
enorme–gelada…

–Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.–Ó Josefa!

A mulher assomou à janela, sobressaltada.

–Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!

–Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.

–O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!

E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
três na gritaria, defronte do cortelho vazio:

–À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!

Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.

Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:

–Nada!…

II

Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
igreja, as paredes caiadas da escola.

A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
«medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
«medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
brincava, os da lavoura descansavam–vermelhos da soalheira intensa de
todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»–visto
que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
«baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
varrendo em roda num afã… Em certo ponto, carros vazios; um além, de
altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
gigantes.

Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
submissa…

Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
farta colheita do Tomé da Eira.

–Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.–A primeira
da aldeia!

–Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
dizer, muita palha e pouco grão…

E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.

–Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
bem.

E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
dormir…

–Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
que eu depois te ensinarei, ouviste?–Que faz aí no chão esse
«rasouro», ó coisa?–Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
fiquem bem atados.

O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
ar, se era preciso mais alguma coisa.

–Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
deixa ir os animais a passo. Vai-te.

Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

–Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
bois para o lameiro.

Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:–«seria preciso vir por
eles?»

–Não vale a pena, lá irão.

E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
levava, aqueles dois sacos…

–Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?

«Eles sabiam lá?… Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»

–O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
passava nem à mão de Deus Padre!»

–A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?

Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
todos–«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
a cavalo.

–Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
pálido.–Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele…

Recordaram:–«estrela malhada na testa, a mão direita branca»…

–É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!

E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
estrada.

Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

–Que o mata! gritavam todas.–Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
a alma lhe deixa! Acudam!

Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
bandas da eira, os cães ladravam.

–Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
agarrados a ele.–Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!

–Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
mais a vocês, se me não largam! Arreda!

E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

–Vê, Sr. Tomé?!

«Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

–Abaixo! intimou.–Você é um ladrão!

–Um quê?

–Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!

E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
raso–«com seiscentos milhões de diabos!»

Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.

–Já lhe disse que você é um ladrão!

–Ladrão será você!–tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
cerrados.–E não mo diga outra vez, que o racho!

Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.

Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:–«tinha-o
comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado…»

–Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.–O homem não tem culpa.–E
gritavam-lhe aos ouvidos:–Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
Vês–aí está!

–Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.–Mente!

–Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.

–Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.

De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
amainou,–prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
camarinhas.–«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»

Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
resolver…»

–Serve-lhe o contrato?

–Qual contrato?

–Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
bandas donde você vem… Você donde vem?

–Dos Casais.

–Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu…

–E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,–concluíram alguns do
grupo, conciliadores.

–Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
burro tomasse para a aldeia… Vinha de tão má vontade, que até lhe
custara tirá-lo de casa.

–Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
Casais…–afirmou.

–Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
dito?–quis saber o Tomé.

–Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.

Ia já a abrir a boca para dizer–«uma!»

–Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
festas ao animal.

E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»

–«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!

O burro estremeceu… Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente…

–Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!

E afastou-se para o lado, aguardando.

Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
roer as unhas, nervoso…

–Então você porque espera? perguntou.

Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

–À uma!…

O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita…

–…às duas!

–Ih! c'um raio!… dizia baixo o Tomé.

E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.

–…às três!

Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
o caso era para foguetes.

–Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!

–Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!–emendava o Tomé a rir.
Tenho-os com dois pés, que não valem metade…

–Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.

–Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa… Está visto que
não é com vocês.

E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais…

Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
contínuo na soleira.

–Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!

Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.

–Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.

Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
homem teria endoidecido…

–Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
pulo.

–Ah!

A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.

–Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.

Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
qualquer coisa de tomo…

–Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.

–Nome do Padre…

–Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!

–Nome do Padre, nome do Filho…

–A caneca! Venha de lá agora a caneca!

–…nome do Espírito Santo!

–Passa bem, ó mulher,–concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
dos demais.–Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!

E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:

–Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
«Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».

–Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!

E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

* * * * *

Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão–sem pinga…

Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.

–Colheita rica, sim senhores, um colheitão!

E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
remexendo o alguidar de barro:

–Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.

…Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
as sopas:

–Ámen!

ÚLTIMA DÁDIVA

_Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.

Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
pobre homem restava dos seus antigos haveres:–o horto, a um canto a
nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.

De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
simplicidade.

No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.

–Ó tio José!–gritavam-lhe do caminho.–Tio José! Ó regalado!

Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.

Ora na verdade!… Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
cultura–tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
castas–desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
estações competentes–cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.

Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.

Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre
visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
morrido… E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo
que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria
sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.
Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um
gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo
gemido, e punha-se de novo a andar.

–Vens ou não vens?–perguntava ele, evocando com dorido esforço a
imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se
fosse um relâmpago, apagava-se logo.

Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,
talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,
apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.

Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
onde a sombra era mais densa.

–Temos história…–resmungou consigo o rapaz.

E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou
que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali
fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou
duas, para o caso de não acertar a primeira.

–Cão do diabo!–exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
pedra.–Espera que eu te arranjo…–E já ia arremessá-la na direcção do
canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
lugar onde o rapaz estava.

–Melhor! Mais a jeito ficas…

E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,
para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
por onde elas tinham andado.

Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
deixou cair as pedras e perguntou:

–Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís… Vossemecê que tem?

O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

–Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?

–Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.

O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José
Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
a pedrada.

No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não
fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,
ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.
Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.

–Ó Tomás!

–Sr. José!–respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
barqueiro.

O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele
então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

–Como tinha de madrugar…

–Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda
que comece a amanhecer.–E como estavam à porta de casa:–Será bom
acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.–Iam à vela
se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.

Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
violentamente.

O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.

–Então, Sr. José?… O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
homem!–E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.–Limpe lá essas lágrimas, que
vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?

O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os
olhos com a manga da camisa.

–Pois então levante-se lá.–E segurou-o com força por baixo dos
braços.–Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique
vossemecê a pensar que o não torna a ver.

Mas era isso mesmo o que ele pensava…

–Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno–concluiu
a chorar o José Cosme.

–Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de
vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
aparece-lhe aí rico…

Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.

Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que
se animasse para animar o pequeno–recomendava o barqueiro.

–Sim… sim…–tartamudeava o Cosme.–Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.

E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a
pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser
desgraçado até que o levassem para a cova… Sobre a estreita e humilde
cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe
se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era
quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto
paterno… O último sono! o último sono!

–Ainda se o deixássemos acordar…–aventurou-se a dizer o triste.

Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
pôr o barco a andar.

O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o
acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.
Dormia!… Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
praticar um grande crime:

–Filho, olha que são horas, meu filho…

Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da
luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.

–Adeus, pai!

–Adeus, filho!

Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar
aquele abraço.

–Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!

O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do
alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.

–A andorinha, filho?–perguntou o José Cosme.–Deixa que eu hei-de
olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.

Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um
instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
tocou com as pontas dos dedos…

–Adeus!–disse-lhe o pequeno afagando-a.

A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo
seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda
a bagagem do Joaquim.

Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
soluçando:

–Quando voltarás ao horto, meu filho?

O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
de tudo o que adorava–a andorinha, depois da andorinha o horto, as
árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.

Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
falavam alto.

–Pronto?–perguntou ainda de longe o Tomás.

Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.

Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos
dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
angústia, pelo deslizar monótono das águas… Aquilo confrangia o
barqueiro, ele também era pai… Por isso, mal chegaram à beira do rio,
apressou-se a dizer para o pequeno:

–Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.

Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
o filho:

–Então, meu filho?… Deus te abençoe, meu amor… Nossa Senhora te
veja ir.–E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a
gente feliz.

–Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã…

Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,
beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
desvairado:

–Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!

E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas
mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por
uma vez.

–Com'assim, Sr. José, isto tem de ser…–E segurando o pequeno com
força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
Cosme que suplicava de mãos postas:

–Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!–E o pobre pai caía de
joelhos na areia, numa atitude de súplica.

Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
ao colo a criança.

–Rema!–intimou em voz rápida.

O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
_plhau_! sobre a água.

Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao
ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.

–Adeus, Joaquim, adeus!

–Adeus, pai!

–Adeus!

Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
direcção do barco:

–Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.

Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor
ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás
que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de
pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,
de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou
ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

–É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!…
Reza-lhe, sim?!

E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
chegasse o pequeno para o último beijo…

Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a
lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
em região misteriosa de lágrimas… E no silêncio agoireiro da noite,
apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado
do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
longe–longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai–com o seu
fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno…

* * * * *

…Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,
diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,
fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à
praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,
na direcção do horto silencioso…

COMÉDIA DA PROVÍNCIA

_A Alberto Braga_.

I

PRELÚDIOS DE FESTA

Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito–abonados e
decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
tivesse tempo de o acabar.

–Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_
fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da
Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

–Ora deixa estar que eu te arranjo… murmurou com os seus botões o
António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém
falava noutra coisa.

–Então você já sabe?

–Já sei. A cegonha.

–A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro…

–O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?

–Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei
Arauto Fiel_.

Enganava-se.

O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
aferidor.

–Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver
arder.

O outro não percebeu. «Que se explicasse…»

–Um urso, no arraial queima-se um urso.

–Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.–Também se lá
queima um burro.

Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
predilecção.

O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
dentro.

–Põe a tranca, se for preciso.

Mas então era cá da rua:

–Ó Sr. António!

E na porta as pancadas ferviam:

–Truz! truz! truz! Sr. António!

–Éna! c'um raio de diabos!–fazia lá de dentro o homem, furioso.

–O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do
nariz e a carta do foguetório na mão.

–O camelo? perguntava zangado.–O urso?! Camelos me parecem vocês,
ouviram? O que o homem diz é isto.

E lia a carta, rematando:

–Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?… Tirava
os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.–Irra!

E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
fosse ele burro… Mesmo porque cada um começou logo a inventar
animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí
tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
José da Loja.

–Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio…

–Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!

–Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
soube.

E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar
montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de
preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
lendária:

–Como-te a alma se te mexes!

–E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
convictos.

Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era
nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.
Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,
conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.

–Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para
se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma
testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,
foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando
prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
como o pintavam.»

–Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
Fagote. Do que ele é capaz sei eu.

Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!

Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
este ano.

–Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
«entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas…»

–Nome do Padre, do Filho… A mulher benzia-se «das ideias do seu
António.»

–Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
assim me Deus salve!

–Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

–Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.–Foi
este mindinho. Não falha.

E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de
arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei
quantos andores, acho que meia dúzia!»

–Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!
Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
ver assim o seu António.

E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava
farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
atar das sangrias!»

–Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por
esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.

A mulher contraveio:–«dois seriam bastantes…»

–Mau que aí principiamos nós!–E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé
no soalho, arreliado.–Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque
dois eram os do _outro_, o ano passado.

A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da
mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.

–Agora não fanfas tu… insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu
gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.

A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.

–Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.

–Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
de casarem…

–E olha que depois de casada… insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,
enfiando a agulha. Cala-te boca.

Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.
Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo
porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da
Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a
vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação
lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas…

–É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António
Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De
mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de
vitela assada.

–O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para
um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que
ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!

–A mim o devem, se cá vem!–disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e
14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.

–Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário…

Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.

–Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

Era a criada da mestra régia, foram abrir.

–A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a
Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.

Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi
acender uma luz.

«Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»

–Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.

–E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
a criada.

E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que
lhe queria uma palavrinha.

Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa
serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

–Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.

–Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
um favor, disse atrapalhada a criada.

–Se estiver na minha mão…

A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela
com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
mentira.»–Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os
papéis lá da terra, não podiam tardar».–Está claro que eu tenho
afeição ao rapaz…

–Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para
dizer alguma coisa.

–Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero
chegar.

–Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso
nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.–E
dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.

–Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via
disso que eu lhe quero pedir um favor.

Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:

–Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
estado! inda não há nada que saiu da cama.

–Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa
a Sr.^a Luísa.–Muito longe!

–Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina
e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!

Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é
que ela não sabia.

–A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais
os mordomos. Não ouvi.

–Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que
o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,–suplicou aflita a
rapariga.

–Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade
a Sr.^a Luísa.–Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada…

–Era só isto, muito agradecida à senhora.

Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a
testa.

–Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que
desculpe. Mas enfim que leia como puder.

–Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.

–Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já
hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

–Chh! fez admirada a rapariga.

–Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
pausa:–Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
uma horta, além no prado.

–Muita gente… disse a rapariga.

–Muita! e depois de certa aquela… À mesa talvez vinte e quatro
pessoas…

A rapariga benzeu-se!

–Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
Fagote.–Olhe: o pregador…

–Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.

–É. Não o há melhor. Missionário…–explicou o juiz. Pois o pregador,
um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
os pequenos, dois, doze.

–A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.

–Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
(_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
mais de vinte e quatro pessoas à mesa.–E a rir-se: Mas há-de sobrar
muita coisa, graças a Deus… E depois os pobres?

–Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
chão assim… E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
Assim…

Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.–«Adeusinho! o que havia de
estimar é que tudo corresse como desejavam.»–E se for preciso qualquer
coisa… ofereceu-se. As minhas fracas posses…

–Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
mestra…

–E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
Fagote.

E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».

–Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.

A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.

–Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
homem que sabe dar o merecimento às coisas… Mas o diabo agora é o
macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
do macaco…

A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
bicho não viesse.

–Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.–Dá cá
daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.

–Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
aquilo já está fechado, o fio.

–Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
das dúvidas.

Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:

–Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.

–Hã? qual pau?

–O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.

Ele riu-se.

–Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!…

E como ela ficasse estupefacta.

–Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
vinho noutra?

–Ah!…

–Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
satisfeito:

O ladrão do negro melro
Onde foi fazer o ninho

* * * * *

Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.

–Vai lá ver o que será, ó Luísa!–disse da cama o Fagote sobressaltado.

Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

–Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.

–Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.

–Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.

–Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?

–Pior do que isso! resumiu o José Manco.

–Pior do que isso, então não sei…

–Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.

O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
chapéu.

–Pronto! cá estou!

–Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.

E rodaram rua acima.

–Diabo! mas então…? ia perguntando o Fagote.

–Aguarde, que já vai saber. Não tarda.

De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.

–Roubaram Nosso Pai, aposto?!

–Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
e veja vossemecê isto, esta porcaria!

E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–_Farófia_!

Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
com os olhos fitos no papel.

E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.

–Hum! resmungou. Bem sei…

–Não tem que saber,–fez o outro.

–O patife do José da Loja…

–Pois está visto.

–Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
Fagote.–Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.

O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
era melhor botar o patife ao desprezo.

–Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
metendo-o na algibeira de dentro.–Pois sim!

Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
ele José Manco. Mas fazia de conta… Como o outro que diz, vozes de
burro não chegam ao céu».

–Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
disse num grande ar de condescendência o Fagote.–E você vá lá regar a
horta.

Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
daquela demora.

–Grande cão! grande cão! monologava.

Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
porta.

–Ó Sr. José.

–Dirá.

–Venho aqui saber de um caso.

Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
da cara:

–Foi o Sr. José que fez isto?

O outro olhou-o, atónito.

–Sim! se foi o Sr. José que fez isto?

–Nada, eu não senhor.

–Jura pela boa sorte dos seus filhos?

Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

–Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:

–É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.

–É outro, que outro?!–disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
barriga panda sob o casacório de lona.

–Isto!–E foi-lhe uma bofetada para a cara.–E muito caladinho, que eu
também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.

Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
cumprir uma obra de misericórdia.

* * * * *

Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

–O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
que queria para o jantar.

Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
um foguete.

–Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
senhor! prometia! Se fossem todos assim… Caramba! que estoiro! Pum!

–P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
girar de volta com o braço–o que é fogo do chão?–Mas tinha-se visto em
calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
caso tinha estado sério!

Mentia.

–Hein? mas não o enganavam?

–Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
rua:

–Senhor abade! ó senhor abade!

–Que é lá?

–Chegue à janela, faz favor?

–Mas está muito sol, entre você, se quer.

–Só duas palavras:

O abade, um rapaz novo, assomou à janela.

–Que é?

–Chegou o homem!

–O homem! que homem?

–O fogueteiro, quem há-de ser?

–Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?

–De cara.

–Faz-me então um favor?

–Dirá.

–Dê-lhe recados meus.

E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
aquilo tinha sido o fogueteiro.

–Grande homem! com seiscentos diabos!

Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
fogueteiro, com fúria.

–Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
amigo, seu grande amigo».

–Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
solene.–Viva o senhor fogueteiro!

–Viva!

…Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
que o António Fagote–chorou!…

II

TIPOS DA TERRA

Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,–«_a
praça_.»–Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
com casas em volta,–o que na vila havia de melhor em construções.
Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
_X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
sete: aquele–«_estafermo_»–é que não andava nunca direito. De dia
ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
o sol.

Eram as sete. Àquela hora é que os–«_figuros_»–da terra, quase tudo
empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
passeavam,–seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
outros do mesmo feitio cavaqueavam,–coletes desabotoados, perna
cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
chamavam-lhe intrujão. Algumas–«_madamas_»–pelas janelas em volta,
nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
outra roda,–uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
cadeiras de pinho. Era a–_roda mais forte_,–quase tudo maiores
burocratas:–o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

–Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
lanço fora.»

E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
tais coisas… De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,–um
poucochinho beato,–diziam-lhe.

–Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.

E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
um poucochinho sibiladas nos _ss_.

–Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
desses fortes.

Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.

–Pois guarde-os!–disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
vintém por oito cigarros.–Guarde-os!

«O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»

–Olha o figurão!–disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
idiota! forte cavalgadura!

O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

–O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
outros.

Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:–«alguém
era servido?»

Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.–«E vão dois e dois
quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
receberia!»–E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
ofício…

Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
Ernestinho,–um pulha a quem ajudavam a viver… Se hoje não há
dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia…

O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.

–Estender as pernas,–disse. Quem vem daí?

Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
sensaboria da praça.

–Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?

–Apareço, vou à desforra.

E cumprimentando em roda:

–Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.

Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.

–Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
diga _bem-haja_…

Era um parvo.–Era um tolo.–Tinha dívidas nos outros estancos.–Em toda
a parte.–Lá em casa a família passava fomes.–Um batoteiro de marca.

Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

–Com que então… _ponha lá ao pé dos outros_?–disseram-lhe, para o
lisonjear nos seus despeitos.–Bem bom freguês!

Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
de mártir resignado. E não disse palavra–p'ra falar daquele tinha de
falar também deles…

Mandaram vir limonadas,–três limonadas!

–Aí vão trinta réis!

Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,–e
sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
onde grandes manjericões floriam:

–Ó Emília! Emilinha!

A mulher assomou, gorducha, muito mole.

–Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.

As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
grupos.–Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,

_Vai alta a lua na mansão da morte_

com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
tinha uma coisa boa–a caligrafia.–Um talhe de letra
bonito,–confessavam.–E as calças, hein? reparem vocês naquelas
calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:–idiota,
palerma, pechisbeque…

Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
marcha, contrafeito.

–Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
telhudo? E isto:–e pôs-se a imitar o escrivão.

Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
em acróstico.

–Isso é o Teles!–fez um que vinha da praça.–Aquilo é um intrujão.
Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
daquilo que _ferve_?

O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia…

–Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas…

–Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas…

–Ora é isso mesmo, nem mais.

–Bem sei.

Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
tostão…

–Eram aos três para beber uma garrafa…

–Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
uma soda,–objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.

–E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
sujava tudo de escuma?

Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
seiscentos diabos!

–Cerveja!–disse o Ernestinho–cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

E com um sorriso de desdém, exclamou:

–O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho…

Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
palavra–«_pulha_»–pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
três.–O que pagava as limonadas exultou:–Homem! nem de propósito!
Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
súcia lhe chupava o refresco:

–Tó Ruça! já lá vai esse tempo.

Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:–Que
provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
estar bom…

Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
aquelas coisas.

–Obrigado, ó Melo!

–Obrigado, ó menino!

E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
e limpando os beiços.

Quando o Melo ia sair,–a ver o que ia na praça,–o Ernestinho, muito
cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:–Se ali não tinha,
depois. Isso era o mesmo…

–Mas trinta réis?!… De que são os trinta réis?–perguntou desconfiado
o Melo.

–Do açúcar, foi do refinado,–explicou o Ernestinho. O mascavado
acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.

Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
princípio.–E saiu sem dar mais palavra, furioso:–Uma ladroeira! Três
vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco…

Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:–que lhe
contassem–«_o escândalo_».

Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
é casmurro, teimou:–que não acreditava, ainda assim!–Vai o outro
chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!

–Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?–quis saber o Melo. Aquilo
há-de ser escrito por alguém, está claro.

Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
eles…

–Quem, então?

Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.

–Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga…

Mas o da ideia insistiu, renitente:–havia ali suas coisas que o faziam
lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
_Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.

–Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
como um alarve, mente da primeira linha até à última!–disse firmemente
o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.

De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura…

Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.

–Só de pulha!–rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
Engrácia, pobre velha…

–A quem?–interrogaram uns poucos. À Dona quê?

–À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
aos missionários é ela. Presumo eu que é ela–fazia o Nunes das
correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
deitei.

Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
com a D. Joana, a do–«_chá de erva-cidreira_.»–Outra canalhice! A D.
Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
viu:–que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
correspondência. Por exemplo:–_A deusa da festa dizem que recebeu
telegramas de… amor_.–Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte… Que afinal, quem
sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

–Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria…

Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

–Quando digo uma rapariga séria… Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,
vocês deixem falar,–tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
rapariga séria, quero dizer… sim… quero dizer…–e procurava a
frase, entalado,–por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,
alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer
fazer suspeitar.

Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

–Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar
franco.

Saltaram-lhe:

–E você jura, ó Nunes? você jura?–perguntou, com gesto perfurante, o
Alves dos Pesos e Medidas.

Não… isso agora…Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
via, pelo que se podia julgar…

–Léria!–disseram todos.

O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,
para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

O Nunes observou modesto, quase agradecido:

–Ingenuidade, eu te digo… Não é bem isso… O que sou é prudente.
Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que
está…

–Vocês é um modo de falar,–emendaram alguns.

–Vocês, digo eu, vocês… quando escrevem correspondências,–explicou
sofisticamente o Nunes.

Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com
guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.
Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
cumprimentá-las, submisso.

–Dar o seu passeio, não é verdade?–E apertando-lhes a
mão:–Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.
Assim… assim…

Então? que diziam àquele calor?

–Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

–O Brasil tal e qual–reforçou o Nunes.

Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite
de truz, aquilo sim!

–Olhe, senhora D. Amélia, a flauta… a flauta é que nem por isso, foi
pena! O Abelzito andava constipado.

A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas
noitadas.–E em voz mais baixa, quase dolente:

–Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

–Não há tal!–fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,
senhor Nunes.

E por pouco que não chorava ao dizer isto.

O Nunes afectou um sentimento profundo:–Era melhor não falar nisso,
não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma
garotada!–resumiu o Nunes.–E em tom confidencial:

–Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois… e
depois… Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso
dar um exemplo,–concluiu terminantemente. Uma severa lição!

Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes–«a parte que tomava no seu
desgosto.»–E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem
aquele vestido à Amélia.

Não podiam subir, talvez à volta.

–Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase
pronto, que trabalhão!

Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
Coisas de anjinhos:

–Verás.

Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,–homens com malhos, e
mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No
degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de
chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

–Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,–dizia o Paula para o Francisco
Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.

O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,
afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula
valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
pedia a rir, boçalmente:

–Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.

E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.–Se era
preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

–É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó
Fernando?

–Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.
Olhem que pergunta!

Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

–Então, ó Paula…–suplicava o administrador.

–Está fechado o realejo… Depois.

Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou
ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.

–Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_
se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo… Bem feito! «gramou» um
entalão que se consolou.

–Quatro coroas.–Na véspera tinha ganho um quartinho.

Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

–Quem eu te quero à perna é o _Aramis_…–rosnou o Teles escrivão que
embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.–E ainda ele não
sabe tudo…–insinuava perfidamente.

–Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em
verso–fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.

O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a
analfabetos.

–E eu a brutos, sabe você?

Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício… Ó senhores,
lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
o outro. Pelo contrário.

O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
essa importância, essa honra.

O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez
seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
tesas.

–Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
portuguesas,–ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.

Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

–Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.–Bem sei
que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo
habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
que mando para público sim, o que entrego aos prelos–é meu!–E batia no
peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
triunfante.–Não roubo! nunca roubarei!–afirmou mais alto o
Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
amigos, conciliadores, o ouvisse.–Repito: não roubo, não faço como
ele!–E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os
lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
dizer.

–As provas…–e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
ímpeto:–as provas, vê-las aqui estão!

Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.–Era do ano
que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
tinha entregado ele mesmo.

–Sou testemunha–confirmou do lado não sei quem.

O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos–zás!
versalhada para o _Lembranças_…

–Era colaborador–disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de
Teles.–Era colaborador.

–Era quê?–interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da
orelha.–Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as
asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,
chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é
ele. Nunca o admitiram.

–Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
versos–insistiu o Antunes.

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