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  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01 02)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01 02)

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    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO VIII

    Janeiro a Fevereiro 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    Universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A actual situação politica. Conceituosa parabola das moscas e das
    maselas. O partido revolucionario e o partido conservador. A funcção de
    um e outro d'estes partidos. Anarchia ou retrocesso. Extincção do
    partido revolucionario por falta de idéas. Mancommunação conservadora.
    Philosophica historia de uns almocreves e de um pipo de vinho. A
    profunda synthese do pipo do Estado.–As inundações. Crise
    meteorologica. Theoria da chuva. Os irrigamentos e as cheias. As
    civilisações e os rios. As previsões industriaes e economicas. O
    regimen das torrentes. A arborisação. Os diques provisorios. As fontes
    de Palissy. Crise economica. O Estado e o Inundado. Troca de
    correspondencias. Lisboa durante a crise: os salões, os espectaculos, a
    imprensa, o parlamento. Intervenção de sua magestade a rainha. A
    caridade como elemento de administração. Autopsia do anjo. De como este
    não baixou do ceu. Demonstra-se que saiu da arcada do Terreiro do Paço.
    A intervenção dos Prelados. As preces para mudar o tempo e os
    observatorios para o estudar. Os moinhos do Tibet e as cabaças dos
    Kalmuks. A intervenção da colonia portugueza no Brazil. O brazileiro
    que parte, e o brazileiro que chega. O patriotismo dos nostalgicos. A
    commissão de soccorros.–Um banquete militar. O que se passa dentro dos
    craneos sob a pressão das barretinas.–O centenario da Academia das
    Sciencias. A tradição academica. A Academia, berço da revolução e da
    liberdade. Ferreira Gordo, o abbade Correia da Serra, o padre Antonio
    Pereira, o duque de Lafões, academicos e jacobinos.–_O crime do Padre
    Amaro_ romance d'Eça de Queiroz.

    A situação politica…

    Mas, perdão–antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

    Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistára
    amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida.
    Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de
    um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel,
    olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e
    encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e
    procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idéas
    philosophicas.

    Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das
    illusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta
    ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pelle resequída e aspera.
    Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe
    o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo
    de missangas pretas e palpitantes,–coisa rabujosa á vista.

    –Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de
    que, á similhança do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso
    musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e
    moveres a pelle?… Sacode-te, bestiaga!

    Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

    –Não sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas
    é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é
    a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, teem a mansidão
    abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,–as
    famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como
    causticos, mordem como furunculos. As que tu vês prestam-me um serviço
    impagavel:–livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e
    suave, o meu arnez, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres
    pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a
    herva, uma ephemera transição entre o alfobre da meninice e a palha da
    edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho
    imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que não aprende
    linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca
    sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das
    revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham!
    Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?

    Revertamos agora, como vinhamos dizendo, á situação politica.

    Em toda a sociedade em movimento ha dois unicos partidos: o partido
    conservador e o partido revolucionario.

    A funcção do partido revolucionario, qualquer que seja o seu
    nome–republicano, socialista, federalista, fourrierista, proudhonista,
    positivista, etc.–é transformar a ordem estabelecida, modificando as
    condições da civilisação no sentido de um mais rapido progresso.

    Para este fim o partido revolucionario agita constantemente por meio de
    idéas novas as opiniões preconcebidas.

    Como, porém, não está ainda definido o programma geral e harmonico da
    revolução, como a tendencia progressiva das multidões indisciplinadas se
    basea no sentimentalismo esteril ou no phantastico ideal methaphysico
    dos phraseadores eloquentes, succede que todo o esforço revolucionario
    representa para a sociedade um perigo de desordem, de incoherencia e de
    anarchia.

    A funcção do partido conservador é a manutenção da ordem contra todas as
    invasões que directa ou indirectamente ameacem a integridade da
    organisação existente. Em todas as velhas sociedades os governos são por
    essa rasão, os inimigos natos do progresso. A evolução progressiva da
    humanidade realisa-se, a despeito d'elles, pela elaboração irresistivel
    das idéas fora da esphera official, sob a acção das descobertas da
    sciencia ou das suggestões da arte. O mais que fazem os governos é
    submetterem-se ás transformações sociaes que a solução de cada novo
    problema resolvido pela sciencia impõe á existencia dos povos. Os
    governos, portanto, sempre que uma forte effervescencia intellectual não
    agita a sociedade e os não abala constantemente na eminencia do seu
    posto forçando-os a concessões successivas, tendem ao retrocesso.

    A civilisação não é na orbita politica senão o justo equilibrio das
    forças resultantes d'essas duas tendencias: a tendencia retrograda na
    ordem, a tendencia anarchica na revolução.

    Em Portugal o que succede?

    A vida intellectual é extremamente debil. A sciencia não tem cultores
    desinteressados e ardentes, a acção da arte sobre a aspiração dos
    espiritos é nulla.

    O resultado é que os partidos de opposição, não encontrando nos
    phenomenos da vida nacional a profunda expressão implacavel de novas
    necessidades a que os governos tenham de amoldar-se, acham-se
    naturalmente desarmados das grandes rasões que reptam os governos a
    progredir ou a abdicar.

    Em taes condições o partido revolucionario dentro da milicia politica,
    partido fabricado pelos proprios governos com a corrupção do
    suffragio,–sendo uma pura convenção, uma fixão constitucional, uma
    expressão rhetorica, sem raizes na consciencia e na vontade
    popular,–acabou por desapparecer inteiramente do nosso systema
    representativo. Ha muitos annos que a revolução não tem quem a
    represente no parlamento portuguez.

    Ha, todavia, uma maioria parlamentar e uma opposição composta de varios
    grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do unico
    partido existente–o partido conservador–fragmentos cuja gravitação
    constitue o organismo do poder legislativo.

    Estes partidos, todos conservadores, não tendo principios proprios nem
    idéas fundamentaes que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente
    indifferente para a ordem e para o progresso que governe um d'elles ou
    que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de
    commum accordo revesarem-se no podler e governarem alternadamente
    segundo o lado para que as despesas da rhetorica nos debates ou a força
    da corrupção na urna fizesse pesar a balança da regia escolha. Tal é o
    espectaculo recreativo que ha vinte annos nos esta dando a representação
    nacional.

    Imaginem meia duzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um
    pipo de vinho. Como nenhum d'elles tem mais direito que os outros a
    beber do pipo, combina-se que cada um d'elles ponha a bocca ao espicho e
    beba em quanto os pontapés dos outros o não contundirem até o ponto de o
    obrigar a largar as mãos da vasilha para as apertar na parte ferida
    pelos pontapés applicados pela companhia que espera. É exactamente o que
    ha muito tempo tem sido feito pelos partidos portuguezes com relação ao
    usofructo do poder que elles acharam na estrada, perdido.

    Chegou finalmente a vez de pôr o pipo á bocca um partido
    excepcionalmente valoroso de sede e inconfundivel de fibra. Este partido
    não desemboca o pipo por mais que lhe façam. Protestações
    escandalisadas, de almocreves, retroam.

    –Este partido abusa!

    –Isto não vale!

    –Isto não é do jogo!

    –Elle esvasia o pipo!

    –Larga o pipo, pipa!

    –Larga o pipo, pimpão!

    –Larga o pipo, ladrão!

    E incitam-se uns aos outros até á ferocidade:

    –Chega-lhe rijo!

    –Mais! que lhe dôa bem!

    –Rebenta-me esse ôdre!

    –Racha-me esse tunel!

    –Ah! cão!

    O partido, porém, continua sempre a beber, e é insensivel a tudo: á dor,
    ao insulto, ao chasco, ao improperio, á graça pesada, á insinuação
    perfida e á alusão venenosa!

    Em vista de uma tal pertinacia, que nós mesmos somos forçados a taxar de
    irregular, os partidos em expectativa do pipo, confederam-se, ferem o
    pacto da Granja, constituem-se n'um só partido novo,–n'uma só bocca
    para o pipo. Fazem um programma, redigem um manifesto, vão de terra em
    terra pedindo ao paiz que intervenha. Precisamente lhes occorreu n'esse
    momento que o pipo tem dono! que é do paiz o pipo!

    Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatarios do
    manifesto, pelos auctores do novo programma, pelos oradores dos
    _meetings_ revolucionarios, pelos jornaes opposicionistas, o paiz
    responde-lhes:

    Lestes a historia do sabio burro lazarento contada pelas _Farpas_? Eu
    sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo
    expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas–sendo meu destino que
    ellas sempre me cubram e me comam–prefiro as antigas moscas saciadas ás
    novas moscas famintas.

    Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas,–que é
    para não bolir comigo!

    * * * * *

    Nuvens escuras, espessas, parecendo feitas da conjugação erea de
    Hymalaias de cinza e de Caucasos de cebo, toldam o céu, descem no espaço
    sobre as nossas cabeças, rolam pelos telhados com os idyllios felinos do
    mez de janeiro, cáem sobre os candieiros das ruas, espraiam-se pelo
    asphalto dos passeios, valsam nas ruas, envolvem os transeuntes em
    abraços aquosos que lhes atravessam o paletot, o collete de flanella e
    as articulações dos ossos; penetram em rodopio no interior das casas
    pelos resquicios das portas e das janellas, e na sua dança macraba as
    pardas e humidas filhas do ar cobrem de sofregos beijos molhados e
    bolorosos as lombadas dos livros, o liso marfim dos teclados, o marmore
    polido das chaminés, os cabellos que se desfrisam e as idéas que se
    dissolvem. Ao cabo de pouco tempo chove de toda a parte: chove do céu,
    chove das paredes e dos tectos das casas, das portas, da mobilia, dos
    castões das bengalas, dos _abat-jours_ dos candieiros, e dos barretes de
    dormir. Ha dois violentos temporaes com poucos dias de espaço entre um e
    outro. Trasbordam os rios. Inundam-se os campos. Desenraizam-se arvores.
    Desmoronam-se casas. Os rebanhos, os instrumentos agricolas, os generos
    em deposito nos celleiros, os viaductos e os rails das linhas fereas são
    arrebatados pela corrente das aguas. O curso ordinario dos negocios, o
    movimento das mercadorias e dos viajantes suspende-se. Alguns dos
    habitantes das regiões inundadas ficam na miseria e têem fome.

    * * * * *

    Ha por tanto duas crises: uma crise meteorologica e uma crise economica.

    * * * * *

    Sendo a crise economica um effeito da crise meteorologica, a questão
    fundamental no estudo d'essas duas crises é a questão da chuva.

    Esta questão acha-se definida e tem a sua theoria na sciencia.

    Assim como a agua sujeita a uma dada elevação de temperatura se evapora
    e se converte em ar, assim o ar sujeito a uma proporcional depressão
    athmospherica se transforma e se converte em agua. Os conhecimentos que
    já hoje se possuem da physica do globo permittem determinar os
    differentes tramites do processo seguido pela natureza para obter os
    resultados achados pela observação humana.

    Todo o vento (effeito da rotação da terra) humedecido pela impregnação
    aquatica do mar, encontrando na sua passagem um estorvo que o dilate na
    atmosphera, transforma-se em chuva, ou transforma-se em neve, segundo o
    gráu de arrefecimento, maior ou menor, resultante da altura a que o
    eleva no espaço o volume do estorvo interposto na sua corrente.

    Assim se explica o phenomeno da chuva, a existencia da neve nos
    pincaros de todas as altas montanhas, e o nascimento dos rios. D'estes,
    uns, como o Rhodano, o Rheno, o Danubio, são formados pela opposição das
    cordilheiras á corrente regular de certos ventos; outros, como o
    Mississipi e o Missouri, nascem do encontro das duas correntes
    atmosphericas oppostas, uma que sáe do golpho do Mexico, outra que parte
    dos Estados Unidos na direcção da Europa.

    Achando-se determinado que 200 metros de elevação acima do nível do mar
    dão 3 gráus de frio, é facil calcular, o frio que deve actuar no ar
    elevado ás alturas dos Alpes, dos Pyreneus, do Caucaso, e de descobrir
    assim as causas das geleiras, do mesmo modo se descobriu a origem das
    chuvas e a do nascimento dos rios.

    Possuida esta simples e clara noção, o homem adquiriu o poder de
    intervir no meteoro. Em 14 de novembro de 1854 uma tempestade medonha
    caíu sobre as esquadras franceza e ingleza, estacionadas no Mar Negro.
    Todos os navios das duas marinhas tiveram avarias desastrosas. Muitas
    embarcações de transporte naufragaram. O sr. Leverrier, director do
    observatorio de Paris, procedeu então a um inquerito sobre as
    perturbações atmosphericas d'esse dia, dirigindo circulares a todos os
    meteorographos do mundo. Duzentas e cincoenta respostas de differentes
    observatorios provaram que a onda atmospherica qua determinara a
    tempestade fôra presentida pelos observadores, e que a catastrophe teria
    sido evitada se o telegrapho, que caminha mais depressa do que a
    corrente do ar, houvesse feito passar de observatorio em observatorio a
    noticia do phenomeno.

    Antigamente faziam-se preces e penitencias para pedir chuva; hoje em dia
    a chuva não se pede, manda-se-lhe simplesmente que caia, e ella cáe
    precisamente no ponto que se lhe designa.

    Ha poucos annos ainda, no Baixo Egypto, não chovia nunca. Os celleiros
    eram construidos ao ar livre, a descoberto, sobre os telhados. Desde
    tempos immemoriaes que o vento secco do norte mantinha esse estado de
    coisas na referida região. Um dia, porém, a corrente septentrional chega
    á Alexandria e encontra uma certa difficuldade em passar com a rapidez
    do costume; detem-se um momento, retarda-se um instante: basta isso para
    que ella se dilate, para que se eleve no espaço, para que arrefeça na
    razão da altura a que subiu e para que, por-consequencia, se converta
    em chuva. D'onde viera esta poderosa resistencia á invasão do vento
    esteril? De uma revolução geologica na configuração do solo? Do encontro
    de um vento opposto? Da influencia calorifica da radiação solar? Não. A
    voz de preso dada ao vento norte, o encarceramento d'elle n'uma certa
    porção do espaço, a sua condemnação inilludivel a condensar-se e a ser
    chuva, fôra simplesmente a obra do homem, que vencera o vento plantando
    a arvore.

    As florestas que têem o poder de occasionar as chuvas por meio da sua
    interferencia na corrente dos ventos, possuem ainda a propriedade de
    lhes regular os effeitos impedindo os excessivos irrigamentos, e as
    inundações.

    Além de certos processos de cultura e de arborisação nos cabeços dos
    montes e nas encostas das colinas, ha outros meios de impedir os
    estragos das cheias,–dando aos rios um regimen torrencial, operando
    largos cortes transversaes nos declives do solo para regular a descida
    das aguas, construindo tubos de drenagem, etc.

    Quando um dique, como o de Vallada, se rompe por effeito de um
    repentino augmento no volume da agua no leito de um rio, ha meios
    praticos, prontos, expeditos, de construir diques provisorios. O sr.
    Babinet, nos seus estudos ácerca da chuva e do irrigamento da França,
    lembra para os casos analogos ao de Vallada a construcção de barreiras
    feitas com grandes caixas de ferro fundido similhantes ás que
    transportam a agua potavel nas navegações de longo curso. Estas caixas
    enchem-se com a mesma agua do rio e sobrepõem-se ou enfileiram-se de
    encontro á corrente até formarem um obstaculo de dimensões adquadas ao
    volume da agua que se tem por fim represar.

    O mesmo sr. Babinet suggere para o meio preventivo da arborisação o
    sabio alvitre, tão moralisador, de organisar regimentos de plantadores
    formados de corpos de veteranos, cujas praças encontrariam n'esse
    trabalho um suave emprego da sua actividade, que o Estado poderia
    utilisar remunerando-a com liberalidade superior á importancia mesquinha
    do soldo e proporcional ao serviço prestado por esses cidadãos, até hoje
    inuteis, á salubridade e á riqueza publica.

    Por occasião das ultimas inundações em França, das recentes inundações
    na Inglaterra, os meios apontados e muitos outros, descobertos pela
    sciencia no momento do perigo, em frente da catastrophe, têem sido
    objecto dos mais graves estudos por parte do governo, por parte da
    imprensa, por parte principalmente das corporações especiaes, dos
    meteorologistas, dos engenheiros hydrographos, dos de florestas, dos de
    pontes e calçadas, etc.

    Em Portugal deante do facto da inundação espraiada sobre as povoações do
    Ribatejo, e das margens do Guadiana, a questão principal, a questão
    summa, a questão technica, é posta completamente de parte, ou nem sequer
    chega a ser afastada: não concorre no problema, é como se não existisse!

    * * * * *

    Em face do desastre, dos nossos periodicos, do nosso parlamento, dos
    nossos proprios estabelecimentos de instrucção, irrompe um só grito
    enorme, consternado, lacrimoso, impotente, imbecil:–_Caridade!
    Caridade! Caridade!_

    Parece não se ter unicamente em vista achar um remedio, mas cumprir uma
    expiação que minore os castigos do Ceu!

    Um antigo proloquio egypcio dizia: _Chuva em Tebas, desgraça no Egypto_.
    A população portugueza não mostra ter da chuva uma comprehensão menos
    supersticiosa que a da tradição tebana. Estamos na metaphysica dos
    cataclismos incommensuraveis.

    Debalde a meteorologia–com quanto em estado rudimentar, não constituida
    ainda em sciencia sobre bases experimentaes e com processos
    deductivos,–nos annuncia, ainda assim, que não ha nos phenomenos do ar
    aberrações extraordinarias, inaccessiveis á previsão, mas sim
    uniformidades periodicas de successão, as quaes o estudo das ondas
    atmosphericas e da acção magnetica do globo, estudo dirigido
    harmonicamente em uma cinta de observatorios que cinja
    ininterrompidamente o globo, chegará por certo a poder um dia
    regulamentar systematicamente. Definir-se-ha o sentido scientifico do
    sonho symbolico das vaccas magras e das vaccas gordas, demonstrando-se
    como aos annos de estiagem e de fome succedem annos compensadores de
    irrigação e de abundancia.

    Debalde a historia nos mostra que foi das inundações dos grandes rios
    que saiu a iniciação dos grandes progressos humanos; que foi das
    inundações do Nilo que procedeu a civilisação do Egypto; das inundações
    do Hoang-Ho que procedeu a civilisação da China; das inundações do
    Euphrates, que procedeu a civilisação da Caldea, da Babilonia e da
    Syria. Povos na infancia, desprovidos das lições da experiencia,
    desarmados dos instrumentos da analyse moderna, souberam fundar a sua
    vida historica na previsão industrial e na previsão economica das cheias
    dos seus rios.

    Nós, portuguezes, em pleno seculo XIX, na posse dos mais importantes
    segredos da mechanica, da astronomia, da physica, da chimica, nós,
    filhos de Kepler, de Galileu, de Newton e de Francklin, nós,
    contemporaneos de Mayer, de Helmboltz, de Virchow, de Haeckel, de
    Humboldt, e de Wourtz, de Ampere, de Leverrier, nós, não sabemos tirar
    das inundações successivas de um rio que vem de annos a annos,
    periodicamente, contra nossa vontade, fertilisar os nossos campos,
    nenhuma das lições que a experiencia devia suggerir-nos para regularmos
    e utilisarmos em nosso proveito a acção violenta d'esse phenomeno!

    Ha perto de trezentos annos que um velho naturalista, um modesto
    oleiro, um simples, um santo, Bernardo Palissy, ensinou a construir as
    fontes artificiaes, fazendo passar as aguas da chuva atravez de um
    pequeno trato de terreno arborisado sobre um declive de cimento
    argiloso, terminando n'um muro de supporte que se corta no ponto em que
    se colloca a fonte e onde se deseja que a chuva, armazenada no inverno
    entre as raizes do pomar plantado na encosta de subsolo sedimentado,
    venha a correr no verão em bica de agua mineralisada e limpida. Ha
    trezentos annos que isto se ensinou. Em Portugal, onde a chuva
    torrencial é um facto de quasi todos os invernos, onde a falta de agua
    potavel é um facto de quasi todos os verões, ainda ninguem aprendeu a
    construir a fonte de Palissy!

    Em Lisboa cairam alguns muros e desabaram algumas casas. Se um ligeiro
    abalo de terra se tivesse seguido ás grandes chuvas é natural que muitos
    outros predios aluissem, porque a grave questão das edificações em
    Lisboa está absolutamente despresada e abandonada á rotina do velho
    systema adoptado pelo marquez de Pombal. Ora esse systema, aliás
    excellente no tempo da reedificação subsequente ao terremoto, é hoje
    imperfeito e perigoso. A canalisação da agua e as chaminés dos fogões de
    sala vieram modernamente alterar os dados do problema resolvido pela
    sabia administração pombalina. Os andaimes de madeira geralmente
    adoptados para sustentar os soalhos e os tectos ou apodrecem rapidamente
    ao contacto dos canos da agua que envolvem os predios ou se carbonisam
    por effeito do calor que lhes communicam os tubos das chaminés. A
    elasticidade que se tem em vista obter para evitar os desabamentos
    procedentes dos terremotos, substituindo os madeiramentos pela pedra, só
    poderia conseguir-se, sem perigo do apodrecimento ou da carbonisação,
    empregando nas construcções modernas o ferro em vez do pau. Esta
    modificação tão facil, tão economica, tão urgentemente exigida nos novos
    systemas de edificar, o nosso desleixo nacional não nol-a tem deixado
    ensaiar. De modo que a mesma previsão do perigo discorrida pelo unico
    homem que acordou em Portugal por occasião do grande tremor de terra com
    que á natureza benigna approuve tentar acordar-nos, essa mesma a nossa
    indolencia e a nossa incuria conseguiu converter dentro de poucos annos
    em mais uma causa de destruição e de aniquilamento!

    Do regimen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas, dos côrtes
    transversaes das vertentes, da construcção dos tubos de drenagem, das
    applicações da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes
    caixas de ferro fundido, caixas que boiam na agua em quanto vasias e que
    um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos
    centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar
    pelo pequeno espaço de tempo necessario para evitar o perigo, quasi
    momentaneo, das inundações, do emprego finalmente de qualquer dos muitos
    meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas,
    ninguem se occupa–nem o governo que assiste ao espectaculo commodamente
    sentado nos seus _fauteuils de orchestre_ e applica á marcha dos
    successos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbavel, nem o
    parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!

    * * * * *

    A crise economica não nos parece ter sido objecto de cuidados mais
    serios do que aquelles que cercaram a questão hydraulica. Ou é certo ou
    não é que a inundação do Tejo e os temporaes que concorreram com ella
    destruíram as casas, devastaram os campos, reduziram povoações inteiras
    á miseria e á fome. Se isto é uma pura invenção dos _reporters_
    sentimentaes, o diligente esforço humanitario empregado para arrancar da
    caridade o remedio supremo do grande mal é uma simples ostentação
    insensata e ridicula. Se são verdadeiras as informações que os jornaes
    vagamente nos transmittem das desgraças provenientes da inundação do
    Tejo e do Guadiana, n'esse caso a questão não se resolve pela caridade
    particular mas sim pela assistencia publica.

    Porque–reflictamos um momento–ou existe esse conjuncto harmonico de
    instituições solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou não existe.

    Se não existe, em nome de que principio nos estão aqui a impôr o serviço
    militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funccionalismo e a
    lista civil?

    Se o Estado existe, o que é para elle o _lnundado?_ O _Inundado_ é o
    productor e é o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o
    cavallo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha,
    pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado
    desde tempos immemoraveis que não faz mais do que estas duas coisas:
    produz e paga.

    Nós outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, socios do
    Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, nós,
    republicanos, regeneradores ou granjolas, commendadores de Christo e
    mesarios da confraria das Chagas, nós outros não produzimos e por
    conseguinte, em rigor, tambem não pagamos.

    Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores,
    poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores
    de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos
    de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,–nós,
    francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto
    é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas–mais
    ou menos legitimamente–os usufrutuarios, os administradores officiosos
    ou officiaes do dinheiro dos outros.

    Portanto, como acima dissemos, nóa outros, como não produzimos, em
    rigor tambem não pagamos. Aquillo que alguns suppomos pagar é apenas uma
    parte que se nos deduz n'aquillo que recebemos. Quem em ultima analyse
    vem a pagar é unica e simplesmente o Inundado, queremos dizer o
    productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que
    cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o
    cavallo, o porco e o carneiro, o que dá a cortiça, o mel, a cebola, o
    pão, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amendoa e as laranjas.

    É elle, o Inundado, quem até hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as
    carruagens dos ministros, os cavallos dos correios de secretaria, as
    purpuras dos nossos reis, as _toilettes_ das nossas dançarinas, os
    penachos do nosso exercito, a campainha e o copo d'agua dos nossos
    parlamentos, finalmente toda a despeza de administração, de pompa, de
    luxo e de força, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.

    Como foi que o Estado resolveu o Inundado a pagar-lhe as suas contas? O
    Estado resolveu-o fazendo-lhe o seguinte discurso:

    Inundado! Você trabalha como um boi de nora, o que o não impede de ser
    um infeliz e um estupido. Eu sou o Estado. Proponho-me dar-lhe a
    felicidade material, intellectual e moral, cujos elementos lhe faltam, e
    que v. não sabe nem póde constituir sem mim. Você não sabe lêr nem
    escrever, você não sabe trabalhar, não sabe prevêr, não sabe economisar.
    Você não nem a escola rural, nem a biblioteca rural, nem a policia
    rural, nem o banco rural. Você não tem a granja modelo que lhe ensine os
    novos processos agricolas e lhe empreste as grandes machinas de
    trabalho. Você não tem arborisação nos seus montes nem canalisação nos
    seus rios. Para o dotar com todos esses instrumentos de aperfeiçoamento
    e de prosperidade, arranjei-lhe eu um systema, que se chama o systema
    monarchico-representativo, com uma carta, um rei, e doze homens, sendo
    seis ministros e seis correios a cavallo, um parlamento, composto de
    duas camaras, uma electiva e outra hereditaria. Quer você ou não quer a
    civilisação? Se a quer, aceite o meu systema e eleja um deputado que vá
    á minha camara electiva pedir por boca em seu nome tudo o que você
    appeteça. Em troca d'este enorme serviço que eu lhe presto ha de você
    resignar-se a pagar-me um imposto annual, que eu cá mandarei cobrar pelo
    escrivão de fazenda, e cuja importancia applicarei a regalal-o e a
    divertil-o summamente com um exercito, uma côrte, um sceptro, varias
    duzias de repartições publicas, um theatro, um _Diario das Camaras_, um
    arsenal, uma cordoaria, uma imprensa, etc., etc.

    O Inundado começou desde então a pagar e o estado começou a dispender.
    Ha perto de cincoenta annos que dura esta troca de serviços. O Inundado,
    porém, ainda até hoje não pôde obter nem a escola pratica, nem a
    bibliotheca, nem a granja, nem os novos instrumentos agricolas, nem as
    grandes machinas para a lavoura a vapor, nem a arborisação, nem os
    trabalhos hydraulicos no rio.

    Um bello dia, um temporal rebenta, as aguas das chuvas, sem florestas
    que as espongem, sem valas que sangrem a torrente, desabam de chofre no
    rio, este trasborda por cima de velhos diques em ruina, alaga as
    povoações, invade as casas, e deixa o Inundado entregue á nudez, á
    desolação e á fome.

    O Inundado pede então a alguem que em seu nome exponha ao Estado a
    situação em que elle se acha:

    * * * * *

    Excellentissimo Estado e meu amigo.–Ha cincoenta annos que para aqui me
    acho, tendo pago sempre a v. ex.'a quantia que combinámos quando v.
    ex.'a fez comigo o contracto de eu lhe mandar o imposto para Lisboa e de
    v. ex.'a me mandar para aqui a civilisação. Até á data d'esta nada
    recebi.

    Os deputados que para ahi tenho expedido á custa de muita intriga, de
    muito dinheiro, de muito copo de vinho e de bastantes bordoadas
    distribuidas com as listas á bocca da urna, nada remetteram para cá
    senão discursos cheios de exclamações e de erros de grammatica. Graças
    aos effeitos de quarenta annos de eloquencia sobre os trabalhos da terra
    e sobre as obras do rio, este cresceu repentinamente com as ultimas
    chuvas, invadiu-me a casa e levou-me tudo: moveis, roupas, generos,
    ferramentas.

    Acho-me na derradeira miseria.

    Antigamente, antes do contrato que v. ex.'a fez comigo e a que já
    alludi, o dinheiro que eu ganhava, em vez de o mandar para Lisboa,
    entregava-o aqui assim ao morgado, ao capitão-mór, e ao convento. Mas o
    morgado e o capitão-mór, se por um lado me arrancavam a pelle como v.
    ex.'a hoje faz, por outro lado eram meus amigos. Eram meus compadres,
    padrinhos dos meus filhos; davam-lhes as brôas e as amendoas pelas
    festas do anno, esperavam pelas rendas, punham os varapaus argolados dos
    seus moços e os d'elles proprios ao serviço da nossa causa, quebravam
    todos os ossos do corpo aos corregedores, aos alcaides, aos portageiros
    e aos almotacés, quando estes se faziam finos, matavam-nos de quando em
    quando a creação ou davam-nos chicotadas quando estavam bebados, mas em
    seu juizo eram bons homens e tinham sempre as portas e os braços abertos
    para nos acudirem, para nos protegerem e para nos ajudarem. Os frades
    resavam,–o que, se não nos fazia bem, tambem nos não fazia mal; e esta
    é a differença que distingue os frades dos seus successores, os
    deputados: o frade resava, os deputados intrigam. Além d'isso, os
    frades, se diziam asneiras, diziam as pelo menos em latim, o que sempre
    acho que lhes custaria mais do que dizel-as em portuguez rasteiro e
    agallegado como me dizem que os deputados fazem. Finalmente os frades,
    se de ordinario viviam á nossa custa, tambem nas occasiões de crise nos
    permittiam viver á custa d'elles, e o caldo da portaria era uma
    restituição.

    Quem até hoje não tem restituido a importancia de um vintem nem em
    dinheiro, nem em caldo, nem em presentes, nem em favores de nenhuma
    especie é v. ex.'a, meu nobre e illustre senhor.

    Tudo quanto tenho pago a v. ex.'a a titulo de imposto, v. ex.'a o tem
    gasto na verba recreios: exercito com as suas revistas e as suas
    paradas; corpo diplomatico; côrte; gratificações aos doze homens que
    representam o governo trotando sobre as pilecas de uns atraz das tipoias
    dos outros; governadores civis e secretarios geraes; desembargadores
    para Gôa e juizes para os Açores; repartições publicas; arsenaes;
    imprensa nacional; fabrica das cordas; etc.

    Portanto, achando-me eu hoje sem real em consequencia de uma desgraça de
    que v. ex.'a tem a principal culpa, quer-me parecer que não serei
    desarrazoado pedindo-lhe o favor de me abonar para as minhas
    necessidades mais urgentes uma pequenissima parte das sommas com que eu
    ha cincoenta annos tenho estado a custear uma galhofa para a qual nem
    sequer ao menos me teem convidado,

    D'este que é

    De v. ex.'a

    Humilde subdito e servo

    _O Inundado._

    A resposta do Estado a estas argumentações e a estas instancias é de tal
    modo recreativa, que pareceria inventada, se a sua authenticidade não
    fosse reconhecida, como é, de todo o mundo.

    O Estado respondeu:

    Meu caro Inundado.–A tua estimada carta veiu encontrar-me em uma
    situação bem critica para te poder servir, como desejava.

    Acho-me a braços com a resposta ao discurso da corôa, com a apparição
    dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para
    me occupar de ti.

    Pedi a sua magestade a Rainha para te abrir uma subscripção. A rainha
    acceitou gostosa esta incumbencia. Vieram a Palacio todos os banqueiros
    e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se commissões de homens e
    commissões de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de
    amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.

    Dizes-me que não tens nada de comer. É pouco. Todavia espero que, com
    alguma economia, possas d'isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que
    simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. Sê
    sobrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia
    garrafa de vinho é quanto te deve bastar. Como não tens nada, resigna-te
    um pouco e abstem-te de champagne e de faisões dourados. Perdeste a
    casa, a mobilia e o fato. Vae para o hotel, enrola-te na tua robe de
    chambre e não saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogão,
    toma grogs e lê romances. Reveste-te de paciencia, já que não podes
    revestir-te de pano piloto, e espera.

    Tudo está preparado e em via de execução para te acudir. Eduardo Coelho
    e Rio de Carvalho escrevem o hymno e estão no segundo moteto. O nosso
    Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso
    Thomaz Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o
    nosso Forte Gato, e outros.

    É tal o movimento poetico e o consumo de rimas que escaceam já os
    consoantes para _rainha_; manda-me pelo telegrapho os que ahi tiveres
    disponiveis e mais proprios do alto estylo do que _tainha, morrinha,
    doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, gallinha e mezinha_.
    Manda tambem para _Pia_ os que poderes obter, menos os que pareça
    conterem allusões irreverentes como _enguia, folia, tosquia, letria,
    azia, mania_ e _bacia_.

    Cada um ajusta ao pé o patim da caridade e guina para seu lado em
    arabescos cheios de phantasia e de elegancia: está-se n'um _skating
    rink_ de beneficencia para te accudir, meu grande maganão.

    Além dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os
    teus revezes–tão lastimados elles são!–têem feito espigar mazurkas e
    rebentar polkas… de pura dôr.

    Entre as modistas tem havido largas discussões para se decidir se a
    caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os actos
    de beneficencia diurna têem-se adoptado geralmente os vestidos de meia
    caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de
    beneficencia nocturna as _toilettes_ são sempre de grande-caridade, isto
    é: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxellas, toda a cauda,
    luvas de dez botões, e diamantes.

    É indiscriptivel a animação ferverosa que reina em todos os salões para
    se tratar de ti. Triplicaram as _soirées_ n'este inverno e dança-se
    todas as noites com o expresso fim de te favorecer. Tocam-se os
    lanceiros e fazem-se discursos para te obsequiar.

    –Elle geme nas vascas da mais horrorosa agonia!… Chaine anglaise,
    minha senhora!

    –Mas nós havemos de arrancal-o das fauces da miseria… Sirva-me um
    gelado!

    –Arrancal-o-hemos, ainda que seja a ferros!… De fructa ou de leite,
    minha senhora?

    –Salvemol-o vivo ou morto!… De leite!

    Ás duas horas ceia, volante ou de bufete, serviço quente e frio, menu de
    Baltresquí.

    Um telegramma que chega:–O Inundado está com agua pela cinta.

    Um sujeito fugindo com um perú assado:–Vou levar-lhe uma boia!

    Uma menina gritando:

    –Não! Não! não o devo consentir! não consentirei jámais que o coração
    generoso d'aquelle que me deu o ser se sacrifique assim, principalmente
    por um inundado que só está em perigo–da cinta para baixo! Accudam ao
    papá! Subtraiam-lhe essa boia! Subtraiam-lh'a, que lhe vae fazer mal:
    elle já comeu uma!

    De rasgos d'estes poderia citar-te centenas.

    Restos de velhas edições de livros, de polkas, de almanacks, que o
    consumo do publico se recusou a tragar e que jaziam desde tempos remotos
    nos archivos de familia dos respectivos autores, acabam de te ser
    coasagrados e cáem sobre as subscripções abertas para te proteger como
    bençãos dos genios incomprehendidos e olvidados.

    A mesma infancia estudiosa abre nas aulas de instrucção primaria
    subscripções para te acudir, e meninos, que ainda não conseguiram
    penetrar no _quadro de honra_ como sufficientemente fortes em leitura,
    figuram nas resenhas dos jornaes como bemfeitores dos homens.

    Não sei realmente, querido Inundado, como poderás agradecer-nos tão
    reiterados e tão grandes beneficios! Como não sabes fazer mais nada,
    espero ao menos quo rezes por nós. Compenetra-te bem de quanto nos
    deves, e não te esqueças nunca, em primeiro logar de nos pagar as
    decimas, e em segumdo de nos encommendares a Deus em todas as tuas
    orações de manhã e de tarde para que o Altissimo vele constantemente
    pelos nossos preciosos e divertidos dias e nos dilate a vida pelos mais
    longos annos, como desejas e has mister.

    Não te assustes, por quem és, com esse passageiro incidente da agua pela
    cinta. Mantem-te em uma attitude serena e firme. As cheias bolindo-se
    com ellas ainda enchem mais. Ao passo que, abandonadas a si mesmas, as
    cheias aborrecem-se e esvasiam. Por tanto deixa obrar a natureza. Logo
    que o tempo enxugue e os terrenos sequem, socega que irei ver-te. Podes
    desde já preparar a foguetada, o vivorio, e o publico regosijo, para
    receberes quem é devéras,

    Teu amo e protector

    _O Estado_.

    _P. S._ O bom amigo Luiz de Campos recommenda-se-te muito e manda
    perguntar-te como gostas mais da caridade, se escripta á latina com _c
    a_, ou á grega com _c h a_.

    * * * * *

    Diz-se geralmente–e parece-nos util fixar este boato como um symptoma da
    epoca–que sua magestade a rainha fôra aconselhada e guiada em todos os
    tramites da sua intervenção a favor do Inundado por um personagem já
    hoje eminentemente poderoso, mas ao qual os recentes conselhos a sua
    magestade vão dar um novo grau de importancia culminante e unica na
    governação publica. Será perfeitamente legitima essa importancia. Se
    effectivamente houve um homem sufficientemente sagaz para se conservar
    na sombra e para suggerir a sua magestade a rainha a idéa profunda de
    apparecer ella, unica e exclusivamente, a debellar unma catastrophe
    publica, esse homem fez aos partidos conservadores em Portugal um
    servigo incomparavel e deu uma prova de pericia e de habilidade que
    nunca se egualou e que se não póde exceder.

    Como se sabe, os partidos conservadores não têem idéas, não podem e não
    devem tel-as; os que por excepção as produzem commettem um erro fatal e
    são victimas do seu proprio acto. Em todo o _statu quo_ toda a idéa nova
    é um rombo. Quem no poder tem idéas, afunde-o. Nos regimens
    conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos annos, as
    idéas são erupções revolucionarias extranhas á acção governativa. A
    missão dos que governam não é lançar na circulação essas idéas, mas sim
    e unicamente vigiar o systema, como se vigia a couraça de um monitor em
    batalha naval, e sempre que uma idéa penetre, rolhar o furo e
    disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo
    projectil inimigo.

    Aos governos conservadores não se pedem por conseguinte idéas: pedem-se
    expedientes. Expedientes para quê? Para conservar. Como? Por todos os
    meios que produzam este resultado:–a consolidação do que está.

    É de dentro d'esta theoria, que encerra toda a sciencia de governar, que
    nós dizemos: os conselhos a sua magestade a rainha, se alguem
    effectivamente lh'os deu (cremos que sim e diremos já porque) são o acto
    mais sabio, porque esse acto faz recair no assumpto o expediente mais
    adequado e mais proficuo.

    Se o governo procurasse directamente estudar e resolver o problema da
    inundação, que succederia? A opposição contraditava-o. Na imprensa e na
    camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriaes,
    controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos,
    com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo
    e estibordo não acabaria por metter agua, iniciando um simulacro de
    alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma idéa?!

    Que aconteceu, porém, em vez d'isso?

    Sua magestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os
    soccorros ás victimas da inundação. E sobre esta noticia publicada em
    grandes letras nos jornaes da manhã, o governo foi para a camara, cruzou
    os braços e esperou corajosamente que a representação nacional se
    manifestasse. Então a opposição em peso, composta dos srs. Barros e
    Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela
    bocca dos seus oradores.

    O sr. Osorio de Vasconcellos disse:–«Partiu de alto a iniciativa;
    partiu de uma illustre senhora, de sua magestade a rainha. Pois
    congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este
    sentimento homogeneo de caridade manifestado por todos os cidadãos sem
    distincção de classe e que veio em allivio e amparo da miseria, que é
    geral _(apoiados)_ do soffrimento que é grande; das amarguras que são
    immensas… O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da
    caridade… Se porventura do alto do Golgotha o Divino Mestre, etc.,
    etc.»

    O sr. Barros e Cunha:–«Mando para a mesa a seguinte proposta que espero
    seja desde já votada por acclamação: A camara prestando a caridosa
    iniciativa de que sua magestade a rainha houve por bem usar em beneficio
    das victimas das inundações a homenagem que lhe deve em nome do povo que
    representa, resolve que este voto seja lançado na acta das suas sessões,
    e que uma grande deputação deponha aos pés da augusta princeza o tributo
    do seu reconhecimento.»

    O sr. Pinheiro Chagas, (fallando comsigo mesmo)–«Trago tambem aqui uma
    proposta da mensagem a sua magestade, feita com tanto patriotismo como a
    de Barros e Cunha e com mais grammatica. Visto, porém, que a camara
    approvou a d'elle, vou pôr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio.
    Tenho concluido.»

    E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido
    violentamente e perigosamente accusado pela sua cumplicidade nos
    effeitos da inundação, os unicos tres deputados da opposição que n'este
    dia se achavam na sala não tiveram voz senão para louvar a caridade,
    para citar o Golgotha e para convidar uma grande commissão a ir depôr
    nos degraus do solio os testemunhos mais humildes do reconhecimento
    popular!

    A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua magestade a rainha era
    indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam
    permittir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em signal de
    gratidão.

    Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporações todas
    com o seu obulo e o seu communicado aos jornaes. Os soldados, os
    empregados das repartições publicas, os carpinteiros, os serralheiros,
    os cocheiros, etc. collocaram a sua prosa apologetica sobre os voadouros
    angelicaes da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes,
    _speechs_, mensagens, missivas particulares, desenhos á penna, vivas,
    bordados a cabello e a missanga, hurrahs explosivos, tropheus
    emblematicos e pratos montados com figuras allegoricas, tudo concorreu
    n'esta immensa apotheose.

    E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que
    anteriormente estava, o throno dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais
    firme que nunca no amor dos novos.

    Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de
    resolver a crise aconselhando sua magestade a rainha a intervir pela
    caridada revela o politico mais habil, o homem de estado mais profundo
    que o paiz podia desejar na sua situação presente.

    * * * * *

    O que nos leva a admittir que sua magestade foi aconselhada por um
    promotor das conveniencias politicas e não guiada por impulsos
    expontaneos é o exame das pequenas circumstancias que acompanharam a
    intervenção da Corôa e nas quaes se revela a mão burocratica do
    conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir
    programmas do que a imitar a graça engenhosa, a poetica delicadeza, o
    fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os
    actos nativos de um coração de mulher. N'esses actos, quando legitimos e
    authenticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os
    laboratorios officiaes não imitam senão por meio de falsificações
    baratas e reles.

    Por este lado, que já não é o lado politico mas sim o lado esthetico, o
    lado artistico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vós,
    meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procissão de
    popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas
    companhias de amadores dramaticos em que só representam homens: tem os
    pés chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e
    miseravel.

    Por baixo das candidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos
    grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na
    alva pennugem immaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos
    collocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas
    azas prendem por articulações de couro a espaduas de porta-machado.

    Sua magestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vós a
    não bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ella de per si só,
    teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada
    simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita
    educação de senhora, ella saberia ser util sem ser espectaculosa;
    far-se-hia amar sem se deixar applaudir; chegaria á dedicação absoluta
    de toda a sua alma pelos desgraçados e pelos humildes, sem passar por
    cima da arêa encarnada dos triumpos de rua, sem transpôr os arcos de
    murta das glorias de phylarmonica, sem se vulgarisar, finalmente, até o
    ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas
    _réclames_ com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens
    sentimentaes e sonoras do _perfume dos seus cabellos_, das _pregas dos
    seus vestidos_, da _flexibilidade da sua estatura_, etc. Houve um
    folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lyrismo a comparar sua
    magestade–a Magdalena!

    Nós protestamos contra similhantes invasões do enthusiasmo nos dominios
    da dignidade pessoal, e negamos á rhetorica monarchica o direito de
    lançar ás faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela
    mão, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na vespera
    deitar fora com as camelias murchas.

    Este abuso iniquo e grosseiro fostes vós, conselheiros habeis nos
    manejos politicos mas imperitos nas questões do gosto,–que os
    promovestes e auctorisastes.

    Vós começastes por abusar da vossa influencia no espirito da soberana
    prefixando a quantia de um conto de reis como verba de subscripção.
    Quando a miseria é geral, quando as amarguras são immensas, como disse o
    proprio sr. Osorio de Vasconcellos, quando dos poderes publicos não
    baixa uma só medida para acudir a tanto infortunio, quando todo o
    remedio para tamanhos males se confia da liberalidade de uma rainha,
    como quereis vós que se acredite que essa rainha, em uma tal
    conjunctura, se tenha posto a contar pelos seus dedos magnanimos até
    achar o numero de libras que compense a miseria geral e a amargura
    immensa? Por que vibrações de piedade, por que processo de sentimento,
    por que logica de consternação, por que inducção de pezares, quereis vós
    que o alanceado coração de sua magestade tenha chegado de dor em dor, de
    lagrima em lagrima, á conta, que só vós podieis ter feito, de duzentas e
    vinte e duas libras em oiro e dez tostões em prata? Esta conta
    deploravel é de um estalajadeiro ou de um cambista. Uma princeza, não
    tendo aprendido pelas necessidades proprias qual é o valor do dinheiro,
    não sabe contal-o para as necessidades dos outros. Se vós lhe tivesseis
    dito simplesmente que para acudir a uma catastrophe nacional não havia
    nem uma só disposição da sciencia ou da lei e que todo o remedio para
    essa desgraça publica se esperava da influencia regia, a rainha,
    entregue ao impulso instinctivo do seu coração, não deixaria de
    contribuir para esse fim de um modo illimitado, sacrificando-se
    inteiramente e incondicionalmente á fatalidade da fome como teria de se
    sacrificar á fatalidade da guerra.

    Depois não vos occorreu que tudo quanto se dispendesse em pompas se
    cerceava em soccorros no producto dos espectaculos em beneficio das
    victimas da inundação. Sendo esses espectaculos dirigidos por uma
    senhora esqueceu-vos um ponto essencial que a toda a mulher occorreria:
    a prescripção da _toilette_. Como sois homens publicos e viveis
    permanentemente na ostentação e no apparato vós não podeis conceber
    quanto ha de inopportuno, de indelicado, de offensivo do bom gosto no
    aspecto de senhoras que se reunem para um fim de caridade cobertas de
    joias como para um certame de luxo. Se fosse effectivamente uma senhora
    quem tivesse a direcção d'esses actos de phylantropia, as joias teriam
    sido abolidas, o preço das luvas de baile teria sido applicado á
    subscripção para os pobres, e nas mãos nuas um annel de ferro mandado
    fazer pela commissão ornaria toda a pessoa que quizesse acceital-o em
    troca de um annel de oiro offerecido aos inundados. Em vez dos
    ramilhetes, de 15 ou 20 libras, offertados aos actores, aos musicos e
    aos poetas, uma mulher economisaria em favor dos pobres essa luxuosa
    despesa e manifestaria o seu agradecimento por um modo extremamente mais
    economico e mais expressivo como seria por exemplo, o offerecimento de
    uma pequena photographia de sua magestade com uma simples dedicatoria
    autographa.

    * * * * *

    Além da commissão de soccorros presidida nominalmente por sua magestade
    a rainha a unica corporação que em Portugal se occupou do problema das
    inundações foi a de suas excellencias os srs. bispos.

    Apenas constou que alguns dos nossos rios tinham trasbordado, em todos
    os bispados do reino se fizeram preces implorando da divina misericordia
    que os rios voltassem aos seus leitos.

    Este recurso piedoso lembra-nos que seria vantajoso para o fim de pôr em
    harmonia a meteorologia e a religião, crear barometros especiaes
    dedicados ás nossas circumscripções ecclesiasticas.

    Estes barometros, que os srs. parochos collocariam nas sacristias ao
    lado das folhinhas em que se prescreve a côr das vestimentas, teriam as
    indicações precisas para constituirem um formulario perpetuo sem o
    incommodo da intervenção dos srs. bispos por via das suas pastoraes.
    Bastaria que os aneroides _ad usum ecclesiae_ fossem um pouco mais
    desenvolvidos na indicação dos resultados da pressão atmospherica sobre
    os aspectos do tempo. Por exemplo:–78, _bom tempo fixo, faça preces a
    pedir chuva_;–74 _grande chuva, faça preces a pedir sol_;–73
    _tempestade, saia procissão e faça preces a pedir bom tempo_.

    N'este caso os observatorios astronomicos e meteorologicos poderão ser
    substituidos com vantagem pelas cabaças rotatorias dos Kalmuks ou pelos
    moinhos do Tibet. As cabaças, cheias de orações e agitadas polo vento,
    produzem a adoração perenne. Os moinhos são uma fabrica mecanica de
    preces continuas, de moagens devotas.

    É preciso que n'este ponto nos decidamos por uma das duas:–pela
    meteorologia ou pela prece. Se os estados atmosphericos se determinam
    nos templos é absolutamente inutil estudal-os nos observatorios. As duas
    coisas juntas refutam-se e destroem-se. Ou bem cabeças que pensem ou bem
    cabaças que rodem. Decidam!

    * * * * *

    O que escreve estas linhas, tendo sahido do Porto no dia 8 de janeiro,
    foi surprehendido pela tempestade e embargado pelas cheias, não podendo
    chegar a Lisboa senão oito dias depois d'aquelle em que partira do
    Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos–quinze ou
    vinte–que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um
    dos paquetes da Mala Ingleza. Nas primeiras estações proximas de Gaya
    esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo
    pendente do pescoço por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraçavam
    nas gares os seus parentes que ahi tinham ido abençoal-os, dar-lhes os
    ultimos conselhos e as ultimas lagrimas. Havia um grande alarido de
    mulheres que choravam. Vozes soluçadas diziam: «Adeus! adeus talvez para
    sempre!» Abraços tenazes parecia não poderem deslaçar-se dos derradeiros
    abraços. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres,
    indifferentes, debruçados das portinholas, intervinham nos excessos da
    ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com
    commentarios facetos, com exclamações punidoras. Um aldeão já velho,
    magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe
    abraçára ao pescoço; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e
    uma borracha ao tiracollo, gritou-lhe da carroagem:–«Ó labrego, larga o
    rapaz!» e accrescentou sentenciosamente este conceito:–«Beijos de
    homens são coices de burro!» O velho teve a coragem de sorrir com uma
    visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e mettendo o rapaz na
    carroagem, á pressa, em voz baixa, envergonhada: «Deus Nosso Senhor te
    abençôe! Deus Nosso Senhor te abençôe e te dê boa sorte!»

    O comboyo batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva não
    pôde, em consequencia dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde
    chegou ás duas horas da noite. Os pequenos aldeões, trespassados de
    frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os pés
    molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mãos nas algibeiras das
    calças, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da
    estação. O comboyo demorou-se ahi tres ou quatro dias. Os emigrados,
    perdidos no meio da indifferença, desappareceram. Quando nós, no
    primeiro dia em que a estrada se tornou praticavel, proseguimos de
    Coimbra, onde ficaramos, até Santarem, não encontramos nenhum dos nossos
    pequenos companheiros. É provavel que tivessem continuado a pé, sob a
    tempestade, até chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Ingleza.
    Esses pequenos, obscuros, miseraveis passageiros, troçados, escarnecidos
    na sua dôr, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanças de
    fortuna, eram os embriões da riqueza portugueza, eram o brasileiro ao
    deixar a patria.

    Outro companheiro d'esta nossa viagem atravez das inundações era um
    velho de sessenta e cinco a setenta annos. Traz apertado ao queixo, por
    baixo do chapeu, um lenço de seda e ás costas uma manta _couvre-pieds_,
    que elle abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por
    traz até os calcanhares. Esta manta, de pano baetão, tem estampada a
    figura de um tigre, o que dá ao nosso companheiro, visto pelas costas,
    com o seu lenço na cabeça, os seus sócos, o seu chapeu de chuva, o
    aspecto de um Attila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua
    prima, mais velha que elle, e de um pão de ló mais volumoso do que os
    dois primos juntos.

    Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e
    de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua
    naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu
    amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fôra em
    creança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma
    modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara
    para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus
    paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de
    uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, mettera
    operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de
    castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome
    de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na
    politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias,
    contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera
    toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional–a
    fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os
    partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o
    inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte–a
    imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o,
    desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações.
    Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado
    acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na
    vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim,
    invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as
    suas arvores. Elle querelára, e vinha para Lisboa esperar que se lhe
    fizesse justiça. «Exijo–dizia elle–que me paguem indemnisação na
    medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a
    quem pouco tempo já resta para esperar que as arvores cresçam. Venho
    para Lisboa até que os tribunaes decidam a minha sorte. Se não me
    fizerem justiça, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não
    tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz
    extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida,
    repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha
    dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado
    e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto
    hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta n'essa
    terra estimavel, onde os homens não teem rei nem os campos teem muros
    mas onde a nação da justiça baixou já dos dominios da intelligencia até
    penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto
    vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de
    menos[1].»

    [Nota 1: Textual.]

    Este homem representava a ultima faze da vida em que iam entrar os
    pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aquelles eram o
    brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.

    Entre aquella infancia despresada e esta velhice desprotegida, está o
    portuguez residindo e trabalhando no Brasil. Lá, esquecido do que
    passou na infancia, despreoccupado do que o espera na velhice, o
    portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostalgica, o mais ardente
    patriotismo. Nas suas allucinações de exilado a patria apparece-lhe
    deslumbrante de todos os prestigios com que a saudade e o amor aureolam
    os seus idolos. Assim como elle proprio se aperfeiçôa em cada dia pelo
    trabalho, imagina que a patria se desenvolve proporcionalmente pelo
    progresso, e mede pelo esforço d'elle, muitas vezes sublime e heroico, o
    empenho com que estão concorrendo para a civilisação no paiz os seus
    homens de estado, os seus politicos, os seus industriaes, os seus
    escriptores e os seus artistas. Á similhança da colonia de que elle faz
    parte, suppõe a patria um grande todo confederado e harmonico com
    interesses solidarios, com intuitos communs, com fins determinados,
    tendo ideias, tendo principios, tendo sentimentos, sendo capaz de
    paixões profundas, de dedicações fortes, de sacrificios illimitados. E
    tem pela patria os mesmos affectos e as mesmas dedicações de que a
    suppõe susceptivel.

    Assim é que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundações
    a colonia portugueza principia a mandar para a metropole milhares de
    libras por cada paquete.

    Os rios cahiram nos respectivos alveos, as terras enxugaram, as
    sementeiras começam a crescer, a lembrança da catastrophe principia a
    dissipar-se, e o dinheiro das subscripções do Brasil continua a chegar.
    Dentro de pouco tempo a commissão portugueza de soccorros aos inundados
    não saberá o destino que ha de dar ao dinheiro que amontôa.

    As crises do trabalho subsequentes ás inundações são transitorias e tão
    rapidas como as proprias inundações. Desde que a inundação cessa, o
    trabalho restabelece-se nas suas condições normaes. Os estragos causados
    pelas cheias não affectam os trabalhadores e os pobres, affectam
    unicamente os proprietarios. Ora estes poderiam acceitar um emprestimo
    proposto pelo governo, mas não podem receber um donativo feito pela
    caridade. Portanto, desde que o governo não acudiu aos pobres em tempo
    opportuno nem auxiliou os proprietarios pelo meio conveniente, todo o
    dinheiro accumulado pela caridade é inutil a todos: aos pobres porque
    não tem a opportunidade do tempo em quê, e aos ricos porque não tem a
    opportunidade do modo como.

    É por estas rasões que suppomos fazer um serviço á commissão de
    soccorros suggerindo-lhe um meio de applicar uma parte das sommas com
    que se acha a braços. Este meio é: dar em nome do paiz uma satisfação de
    honra aos portuguezes residentes no Brasil–1.° indemnisando os
    emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboyos dos dias 7 e 8 de
    janeiro pelos prejuizos provenientes de não haverem chegado a Lisboa a
    tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2.° fundando em
    Felgueiras uma policia rural que empeça a população indigena de destruir
    as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na
    provincia do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes
    residentes no Brasil, os unicos estragos recentes de que temos noticia e
    que acima referimos, procedem, não das inundações dos rios, mas da
    indisciplina dos homens.

    * * * * *

    Para servir de complemento á historia das inundações portuguezas, eis o
    que succedeu no Minho, junto de Villa Nova de Famalicão, com um pequeno
    riacho obscuro que ali passa.

    Havia-se ultimamente deliberado dotar a alludida corrente com o
    adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, além de uma obra fluvial, era
    tambem um viaducto entre duas collinas e um atalho entre dois caminhos,
    todos os grandes proprietarios da região em que passava o ribeiro
    pretenderam ter a ponte á sua respectiva porta. N'este sentido ferveram
    os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaças, as pressões dos votos,
    todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia
    das idéas, a direcção dos principios, os planos das estradas e os
    projectos das pontes.

    A obra fez-se finalmente sob a acção d'essas influencias e, como é
    costume, em satisfação do empenho mais preponderante. Era no verão, e
    tinha seccado o ribeiro. Vieram n'este inverno os grandes temporaes e as
    copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e
    pelos caminhos, passou por toda a parte, sómente não passou–por baixo
    da ponte!

    Enviamos os nossos parabens aos habitantes de Famalicão. A sua ponte é
    verdade que não representa completamente uma ponte, mas representa um
    symbolo monumental, que os habitantes não procurarão para atravessar o
    ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos
    os philosophos irão ver com admiração e respeito para se compenetrarem
    do legitimo espirito da politica e da administração na presente phase da
    civilisação portugueza.

    * * * * *

    Contam os periodicos que no dia de Natal sua magestade el-rei se dignára
    de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda,
    offerecendo-lhes em Palacio um banquete composto das iguarias mais finas
    e mais preciosas, taes como sopa de massa, boi cosido com chouriço,
    carne guisada com batatas e laranjas.

    No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da
    guerra e com as rosas da paz, libavam as taças da victoria, nas quaes, a
    um gesto da regia munificencia o _doutor roxo_ se repartira e
    prodigalisára na razão de dois decilitros por praça, o sr. capitão da
    companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos
    dithyrambos, ás canções bachicas e aos hymnos bellicos que o aspecto tão
    anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jámais deixa
    de influir em mentes inflammadas e em animos generosos, proclamou d'esta
    arte:

    «Soldados! O principe, cujo pennacho branco vós tendes visto
    constantemente á vossa frente, conduzindo-nos ao fogo e guiando-vos ás
    victorias, o principe cuja espada invencivel vós tendes visto sempre no
    meio de vós, já relampagueando intemerata ao sol das batalhas, já
    embebendo-se sedenta no sangue inimigo, o principe, generoso e
    magnanimo, n'este dia consagrado ao ephemero repouso dos acampamentos,
    convoca a este festim guerreiro os seus amados companheiros d'armas. Uma
    coisa de que sua real magestade jámais se póde esquecer é a maneira como
    vos tem visto pelejar! Porque é mister dizer-vol-o: no maior ardor dos
    combates, no proprio momento em que mais absorto elle parece no afan de
    retalhar em postas os exercitos inimigos, nunca o principe vos perdeu de
    seu real olho!

    «Tudo elle viu, e nada do que obrastes lhe é occulto.

    «Viu-vos caminhar ávante para as hostes contrarias! Viu-vos quando, no
    meio do estrondo e do fumo das descargas, tomastes as bandeiras e os
    estandartes do outro campo! Viu-vos quando á chegada fatal da maldita
    cavallaria inimiga, formastes quadrado e a esperastes impavidamente e a
    pé firme, no posto da honra! Viu-vos depois cair a um por um feridos
    pelo peito como heroes! Viu-vos morder o pó! Viu-vos finalmente exhalar
    o ultimo suspiro, a vós todos, desde o primeiro ao ultimo, até nada mais
    se ver no logar onde estaveis senão um monte de cadaveres abraçados a um
    monte de bandeiras! Foi ainda o principe, piedoso e grande, quem,
    percorrendo o campo no dia seguinte á batalha, recolheu e enfrascou as
    vossas cinzas, restituindo-as elle proprio ás vossas viuvas, e
    dizendo-lhes entre suspiros e lagrimas: «Em cada um d'esses frascos,
    marcados com o numero da praça e da companhia, encontrareis uma pitada
    de tudo quanto vos resta d'esse punhado de bravos!»

    «Foi depois de todas essas provações–tão arduas!–que sua magestade
    deliberou reunir-vos n'este banquete sumptuoso.

    «Soldados! em testemunho de agradecimento a uma tão manifesta prova de
    consideração e de amor, peço-vos que ergaes as vossas taças, de dois
    decilitros cada, e que, antes de haurirdes o phalerno de Torres que
    ellas encerram, me acompanheis nos vivas que passo a entoar e com os
    quaes dou por finda esta allocução marcial. Viva sua magestade el-rei!
    Viva a real familia! Viva a carta constitucional da monarchia!»

    Nenhum soldado respondeu em discurso, como pede a etiqueta dos _toasts_,
    porque nenhum dispunha da fortaleza cerebral necessaria para criticar os
    seus proprios sentimentos, para os discernir e para os coordenar em
    palavras. De modo que se contentaram em dar vivas e beber, coçando nas
    cabeças essa especie de comichão produzida por todo o rude encontro de
    idéas contradictorias e confusas.

    Expressos sob a fórma litteraria, os sentimentos que o soldado revelou
    sob a fórma de coceira dariam o seguinte discurso:

    «Capitão! Ha alguns annos que eu fui agarrado á força na minha terra
    para vir para a tropa. A minha primeira idéa foi livrar-me comendo um
    dedo. Affiançaram-me, porém, que poderia egualmente livrar-me dizendo
    que tinha queixa de peito. Assim o disse, mas não me acreditaram, e cá
    fiquei ás ordens.

    «Desde que jurei bandeiras é raro o dia em que o capitão, o major, o
    tenente-coronel ou o proprio commandante me não fallam do meu ardor
    mavorcio, da minha firme e tremenda attitude diante do inimigo e dos
    meus louros cegados com a espada nos campos da batalha.

    «Eu devo dizer ao capitão, com toda a franqueza, que desde que estou na
    militança nunca tive _ardôr mavorcio_ nem d'outra qualquer especie, a
    não ser que o capitão se refira ao que senti nas orelhas quando na
    recruta me puchava por ellas o sargento instructor. Se é d'este ardôr
    que se trata, tive-o, e se o sargento o não teve ainda, ha de tel-o
    tambem se, quando eu largar a farda, elle continuar a conservar as
    orelhas, que eu, como livre paisano, lhe hei de então estender
    conscienciosamente desde a porta do quartel até á entrada da minha minha
    freguezia.

    «Emquanto ao inimigo declaro que o não conheço, e muito obrigado ficaria
    ao capitão se tivesse a bondade de m'o mostrar para que eu podesse
    desenferrujar estas inuteis pernas applicando-lhe sem perigo de offender
    a disciplina alguns dos pontapés que em observancia da mesma disciplina
    não tenho até hoje feito senão receber.

    «Quem é o inimigo? Não farão favor de me responder:–quem é o inimigo?

    «Julguei algum tempo que fosse um sujeito de casaco côr de pinhão, de
    gola levantada para cima, que ás vezes se mettia commigo nas guardas.
    Tinha resolvido atacal-o, quando vim a saber que era um simples curioso
    das artes da guerra.

    «Vejo todavia que não fazemos mais do que preparar-nos constantemente
    para resistir ao inimigo, o qual parece não implicar com mais ninguem
    senão connosco. Pelo menos ninguem o teme senão a tropa.

    «Ha familias, compostas unicamente de mulheres, que dormem sósinhas nas
    suas casas sem medo a ninguem; no quartel, cheio de homens, cada um dos
    quaes tem uma espingarda e uma bayoneta, é preciso pôr sentinellas a
    todas as portas, velam uns emquanto os outros dormem, e ha sempre gente
    armada até aos dentes, com os olhos arregalados nas trevas da noite,
    para que não nos surprehenda o inimigo!–Que é sempre com o que lhe
    dão:–com o inimigo!

    «Emquanto aos loiros segados nos campos das batalhas cumpre-me
    egualmente fazer sentir ao capitão que desde que estou no exercito ainda
    não seguei.

    «A minha vida tem consistido unica e exclusivamente em deitar todas as
    manhãs umas correias ás costas e em pôr uma tocha ao hombro para marchar
    ao som da musica ou para passear de sentinella á porta dos edificios
    publicos.

    «Pelo que diz respeito ao banquete opiparo para que sua real magestade
    me convidou, agradeço-o muito, confesso-me profundamente sensivel aos
    attractivos da real carne guizada e das fulgidas batatas da corôa.
    Todavia não posso esconder que o que principalmente me lisongeava seria
    que me fizessem a especial mercê de me mandar embora.

    «Apezar da excellencia das iguarias preciosas de que consta este
    banquete olympico, sou forçado a dizer que por mais de uma vez a esta
    meza o bocado se me tem enfardelado na bocca sem querer ir para baixo.
    Porque? Porque me sobe do coração e me aperta a guela a lembrança da
    minha aldeia, da alegre festa do Natal, n'este dia, ao pé do lar, no
    casal da minha velha… Chamo-lhe eu a minha velha! O capitão faz
    idéa… Fallo-lhe da minha mãe.

    «Hontem matava ella o porco, ou antes era eu que lh'o matava. Hoje
    tinhamos lombo assado á fogueira do lar, n'um espeto de loureiro. Que
    lombo aquelle, capitão! Com que vontade que eu principiava a jantar
    outra vez se fosse d'esse lombo que me déssem! E depois não era o rei
    que me convidava a mim,–o capitão ha de comprehender o effeito moral
    d'esta differença–era eu que poderia convidar o rei a comer no meu
    casal, d'aquillo que era meu, que eu proprio ganhara ou ajudara a ganhar
    com o meu trabalho, com a minha força, com o meu prestimo! Na minha
    aldeia eu era, mais ou menos, um dono de casa, um trabalhador, um
    cidadão, um homem. E dentro do meu quinteiro, como o meu pequeno rebanho
    e com o meu cajado, o rei era eu!

    «Aqui, que diabo! Aqui, francamente, capitão, que raio de diabo!

    «Aqui, que sou eu? Um monte de cisco, um molho de palha, um estafermo,
    um espantalho de botões de ouro fingido, de espingarda descarregada e de
    patrona vasia, para metter medo a outro estafermo, a outro espantalho, a
    outra abantesma de espingarda egualmente descarregada e de patrona
    egualmente vasia, o qual outro se chama o inimigo!

    «Dizem qae tambem sirvo para–manter a ordem. A ordem que eu mantenho é
    outra historia da carocha como a do inimigo que eu combato.

    «Na minha aldeia, onde nunca de memoria de homem appareceu o bico de uma
    bayoneta, todos vivem em harmonia e em paz. Aqui, onde a ordem é mantida
    por dez ou doze regimentos, ha desordens todos os dias e todos os annos
    ha revoltas. Revoltas de quem, meu capitão?–Dos sargentos!

    «Ora, se eu não sirvo para nada, se o inimigo, sendo outro que tal como
    eu, não serve tambem para coisa nenhuma, não acha o capitão, que o mais
    justo seria mandar-nos para nossas casas a ambos–ao inimigo e a mim?

    «Se como o capitão affirma, el-rei é meu amigo e pretende obsequiar-me,
    que sua real magestade cesse de esbanjar-se nos acepipes com que me
    cumula! Que me permitta estar na minha casa, como sua magestade está na
    d'elle com sua excellentissima esposa e com os seus interessantes
    filhos! Eu lhe protesto que não só dispensarei todos os seus favores,
    mas que poderei ainda fazer-lhe alguns, e me tornarei um cidadão
    independente, serviçal e util, em vez de me desfallecer para aqui,
    dentro d'este uniforme, coberto por esta barretina, inundado de
    ociosidade, comido de tedio[2], de nojo de mim mesmo, de todas as más
    molestias da alma e do corpo, perdido para o bem dos outros e não
    prognosticando grande coisa senão para o mal de mim mesmo. Nada mais
    accrescento porque está a cair o quarto e tenho de me ir deitar ao
    inimigo,–passeiando de sentinella á porta de palacio.»

    [Nota 2: No dia em que estas linhas foram escriptas suicidavam-se dois
    soldados, um de infanteria n.° 1, em Belem, outro de caçadores n.° 10,
    em Setubal.]

    Depois de coçado este discurso na cabeça dos soldados, terminou o
    banquete, retirando-se todos os convivas profundamente penhorados pela
    excellencia do serviço e pelas delicadas maneiras do sr. capitão.

    * * * * *

    Referem os jornaes que a Academia Real das Sciencias celebrará no mez de
    março do futuro anno de 1879 a festa do primeiro centenario da sua
    fundação.

    A primeira das rasões porque folgamos com esta noticia e que se inicia
    em Portugal uma tendencia nova no espirito das sociedades modernas:–a
    tendencia a reformar o calendario, substituindo as ephemerides
    ecclesiasticas pelas taboas historicas.

    Essa tendencia revela um progresso.

    A igreja tem, certamente, datas memoraveis que a civilisação ha de
    manter entre as grandes epocas da humanidade. Mas essas datas, por mais
    gloriosas que sejam, não bastam para prehencher os fastos da humanidade
    e para pautar o culto devido á lembrança dos grandes factos e á memoria
    dos grandes homens.

    Se a igreja tem os seus santos, os seus martyres, os seus doutores, a
    liberdade, a sciencia, o trabalho, a arte, teem tambem os seus, e a
    gratidão humana não deve menos aos segundos do que aos primeiros. O dia
    de S. Bernardino, a 20 de maio, é tambem o dia de Christovão Colombo. O
    dia de S. Luciano, a 8 de janeiro, é egualmente o dia Galileu. O dia 5
    de abril é o de Santo Adriano e é o de Danton e de Camille Desmoulins. O
    dia 23 do mesmo mez é o aniversario do nascimento de S. Jorge e é
    tambem o da morte de Shakespeare e de Cervantes.

    Nem toda a gente sabe, de pronto, sem consultar a collecção dos
    bolandistas ou o _Flos Sanctorum_ o que foram precisamente para o mundo
    e para Deus, Bernardino, Adriano ou Luciano. Ninguem todavia ignora o
    que a humanidade deve a Colombo, a Galileu, a Danton e a Shakespeare.

    Depois a circumstancia de ir para o ceu por uma decisão dos concilios
    nem sempre equivale a haver deixado na terra um exemplo que fortifique
    as almas para servirem ao mundo ou para servirem a Deus.

    Temos por exemplo que, segundo S. Lucas, capitulo XXII, versiculo 61, S.
    Pedro, convicto da divindade de Jesus, o renega por tres vezes no
    tribunal de Caiphaz. No tribunal da Inquisição, deante da fogueira que o
    vae devorar se não renegar o seu livro, Giordano Bruno prefere morrer a
    trahir a verdade. S. Pedro fundou a igreja christã; Giordano Bruno
    fundou uma nova teoria do Universo. Um é adorado como santo; o outro é
    condemnado como hereje. E todavia é com Bruno e não é com Pedro que
    todos nós, filhos do seculo ou filhos da religião, temos que aprender
    como se sustenta uma convicção ou como se defende uma crença.

    A iniciativa da Academia contribuirá poderosamente, de certo, para fazer
    entrar nos costumes a fecunda lição alliada ao culto dos grandes homens
    e á commemoração dos grandes feitos, ceremonias destinadas a tornarem-se
    as festas nacionaes de todos os povos civilisados.

    Ao centenario da Academia succeder-se-ha sem duvida o do apostolo da
    nacionalidade portugueza Camões, e o do martyr da liberdade de
    pensamento Damião de Goes.

    * * * * *

    A segunda rasão porque nos regosija a noticia que registamos é que a
    celebração do jubileu academico, pedindo a publicação de uma historia
    d'aquelle instituto, virá por meio d'esse documento recordar o papel
    brilhantissimo que teve na historia das idéas em Portugal essa
    corporação scientifica, e chamar talvez alguns dos actuaes academicos a
    reatarem a tradição gloriosa d'aquelles que os precederam na direcção
    intellectual do paiz.

    A Academia Real das Sciencias foi o foco da revolução e o berço da
    moderna liberdade em Portugal.

    Em um excellente livro do sr. Theophilo Braga, recentemente
    publicado–_Bocage, sua vida e epoca litteraria_–encontram-se os mais
    preciosos documentos para a nossa moderna historia litteraria,
    documentos até hoje ineditos e pacientemente colligidos por aquelle
    eminente escriptor, em cujas obras, as mais eruditas que em Portugal se
    teem feito, o publico não aprendeu ainda senão a calumniar o auctor.
    Entre esses documentos tirados a lume pelo sr. Theophilo Braga, acham-se
    as mais curiosas revelações para a historia dos nossos primeiros
    academicos.

    O duque de Lafões, o abbade José Correia da Serra, Joaquim José Ferreira
    Gordo, Antonio Pereira de Figueiredo, insignes na philosophia e nas
    sciencias naturaes, conhecidos e respeitados na Europa, estavam
    denunciados ao governo como jacobinos e eram espionados e perseguidos
    pela policia sob a direcção do intendente Pina Manique, o qual nas suas
    _contas para as secretarias_, manuscriptos conservados na Torre do
    Tombo, por differentes vezes se refere aos alludidos academicos,
    accusando-os como sectarios das idéas da Revolução franceza,
    relacionados com os homens da Convenção, iniciadores do movimento
    liberal em Portugal. A policia envolve-os na mesma suspeição com os
    livreiros francezes residentes em Lisboa, com os addidos á legação de
    França, com os frequentadores de botequins que se atrevem a ostentar nas
    tampas das suas caixas de rapé a figura da liberdade, com os populares
    finalmente que em certa noite vão debaixo das proprias janellas do paço
    entoar a canção do _Ça-ira_.

    Os cabeças d'este movimento de revolta contra o despotismo
    monarchico-catholico são designados pelo intendente Manique com o nome
    generico, ainda hoje em voga, de _philosophos modernos_. Os livros
    dirigidos de França á Academia sob o nome do duque de Lafões são
    sequestrados na alfandega.

    A publicação de qualquer escripto revolucionario por parte da Academia é
    impossivel sob a espionagem de Manique, mas a adhesão d'esta companhia
    ás idéas francezas é manifesta em muitas passagens dos registros
    policiaes.

    «Acha-se n'esta corte–diz o intendente Manique–nas casas da _Academia
    das sciencias_, ao Poço dos Negros, hospedado, segundo me dizem pelo
    _abbade Correia_, Broussonet, que foi medico de profissão em Paris, e
    depois secretario de Necar (É assim que Manique escreve o nome de
    Necker) e aquelle que se fez marcar quando na sessão da convenção
    Nacional, de que era tambem deputado, continuou o discurso que o
    sobredito Necar não acabou de recitar por lhe dar no meio d'este acto um
    deliquo; e ainda mais conhecido por ser um d'aquelles sanguinarios do
    partido de Robespierre na Convenção. Pela morte que este assassino
    soffreu, fugiu aquelle e aqui foi acolhido e introduzido ao _duque de
    Lafões_ na qualidade de agricultor, e hospedado nas casas da Academia
    das Sciencias, d'onde frequenta as casas do sobredito duque e do _abbade
    Correia_ que é amigo mui particular do ministro e consul da America do
    Norte e dos mais jacobinos que aqui se acham e de que tenha dado parte a
    v. ex.ª, e reputado por pedreiro livre.»

    Eguaes accusações pesam sobre Ferreira Gordo e sobre o auctor da
    _Recreação Philosophica_ o Padre Theodoro de Almeida, «com o qual,
    accrescenta Manique, o já alludido Broussonet fica algumas vezes na casa
    do Espirito Santo de Lisboa.»

    A Academia encerrava pois no seu gremio o fermento da revolução,
    levedada mais tarde em 1820, e da qual procedeu a reforma das nossas
    instituições em 1834 e a liberdade subsequente.

    A missão da Academia em Portugal não pode ainda hoje ser senão a mesma
    que era no fim do seculo passado.

    Não é no estado de indifferença, de egoismo e de ignorancia em que ainda
    hoje se acha o espirito portuguez que as Academias podem assumir, como
    queria Proudhon, a funcção moderadora dos trabalhos do pensamento e das
    creações da arte.

    A intervenção das academias como elemento official e conservador pode
    ser util e salutar em França ou em Hispanha, onde a temeridade
    impaciente e indisciplinada dos escriptores revolucionarios, actuando
    constantemente na opinião, pode perturbar a lei da continuidade
    historica e lançar a sociedade na anarchia. Ahi compete ás academias
    salvaguardar a ordem pelo ascendente moral.

    Em Portugal, porém, onde a revolução de modo algum ameaça partir da
    circumferencia para o centro movida pelas tendencias progressivas e
    invasoras dos espiritos, é absolutamente preciso, para que nos possamos
    considerar uma nação, que a revolução parta do centro para a periferia,
    que seja a Academia quem a enuncie e quem a propague, acolhendo no seu
    gremio as intelligencias mais avançadas, discutindo os problemas mais
    vivos da philosophia, aclarando todas as questões relativas aos maximos
    interesses do espirito, á religião, á politica, á esthetica, implantando
    finalmente a revolução na esphera intellectual para que d'ahi ella
    penetre nos costumes e se infunda nas instituições.

    Se o desempenho d'este papel, que lhe está marcado pela sua tradição, é
    incompativel com as ligações existentes entre a Academia, presidida pelo
    chefe do Estado, e o mesmo Estado, o que á Academia compete fazer é
    libertar-se d'essa dependencia e constituir-se em corporação livre. O
    poder espiritual, de que ella é a encarnação litteraria, não lhe procede
    de ser a hngida do Estado mas sim a da sciencia.

    Subsidiada pelos governos ou não subsidiada por elles, estabelecida em
    um palacio ou refugiada em um sotão, recrutando os seus membros entre os
    invalidos da popularidade ou entre os dispersos batalhadores vigorosos
    da controversia moderna, separando-se da sua tradição gloriosa, ou
    sendo-lhe fiel, a Academia acha-se destinada a ser d'estas duas coisas
    uma:–ou a força dirigente do futuro social, a cabeça do paiz, ou uma
    excrecencia apparatosa, um orgão atrophiado e inutil á civilisação.

    * * * * *

    Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens que
    lêem, a funcção da publicidade é predominar nos espiritos–ou seja
    lisonjeando-os, ou seja combatendo-os. Toda a obra litteraria dá um
    d'esses resultados; ou se adapta ás opiniões existentes e as consolida e
    reforça ou reage sobre ellas e as decompõe. Toda a litteratura ou é
    _conservadora_ ou é _revolucionaria_. Queremos dizer: ou transige
    passivamente com as condições do meio social ou se debate contra o
    obstaculo que a influencia d'esse meio lhe impõe.

    Sempre que a litteratura toma o caracter conservador tende a immobilisar
    a sociedade e a atrophiar o progresso. Foi o que succedeu nos seculos em
    que a litteratura não fez mais do que fortalecer as superstições que
    achou consagradas no seu caminho, prostrando a humanidade n'um marasmo
    de quinhentos annos embalados com o esteril rumor monotono das homilias
    e das legendas dos santos. Felizmente, desaprendendo quasi completamente
    de ler, a humanidade voltou a si. A litteratura havia sido para ella uma
    catacumba em que jazera sepultada pela credulidade, amortalhada pelo
    mysticismo. Guizot calcula em vinte e cinco mil as vidas de santos de
    que se compõe a bibliotheca bollandista, e são esses _acta sanctorum
    quotquot tote orbe coluntur_ que encerram a historia inteira da
    humanidade sob o regimen clerical em toda a Europa e em quasi todo o
    Oriente, desde o seculo VI até o seculo XII! Com razão conclue Buckle–o
    grande historiador da civilisação–que o maior dos estorvos do progresso
    tem sido a manutenção do erro pelo poder litterario.

    Nos tempos modernos, sob os dominios despoticos, em quanto a obra do
    pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarchica como
    succedeu em Portugal durante o imperio do Santo Officio, a litteratura
    deixou egualmente de ser o livre producto artistico e converteu-se n'um
    poder do Estado, o mais enervante para a imaginação, o mais dissolvente
    da intelligencia e da dignidade humana.

    Portanto: a primeira condição social para a existencia de uma
    litteratura compativel com o progresso é a liberdade.

    Todo o escriptor portuguez actual nasceu n'esse meio propicio. Todavia,
    por uma fatalidade physiologica, por um effeito da heriditariedade,
    falta-nos a orientação cerebral da independencia. O nosso espirito
    conserva o stygma servil, o signal da marca que, em muitas gerações que
    nos precederam, foi deixando a grilheta da oppressão mental. A nossa
    tendencia de escriptores é ainda hoje, geralmente, para lisonjear a
    rotina, para comprazer com o vulgo, para seguir as correntes da
    credulidade geral.

    A maior parte dos individuos que fazem um livro teem, nas precauções da
    forma, no rebuço das opiniões, na doblez do stylo, o ar miseravel de
    pedintes que solicitam venia para divertir inoffensivamente o
    respeitavel publico.

    Entre as aberrações eminentes d'essa tendencia geral, como por exemplo
    os srs. Anthero de Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Theophilo
    Braga na historia e na critica, o sr. Oliveira Martins na economia
    politica, a Sr.ª D. Maria Amalia Vaz de Carvalho no
    folhetim,–apparece-nos o sr. Eça de Queiroz no romance. Na pequena
    litteratura portugueza destinada a ser um agente na evolução das ideias
    e dos costumes, um elo no grande encadeamento das causas e dos effeitos
    sociaes, _O crime do padre Amaro_, representa a obra mais profundamente
    caracteristica.

    Este livro foi recebido pela imprensa periodica com um silencio que pode
    parecer o resultado de um _mot d'ordre_. Cremos, para honra do
    jornalismo, que a razão do apparente despreso de que foi objecto este
    romance está no simples facto de que a critica se considerou
    incompetente para o julgar. A unica coisa de que temos de accusar a
    critica é de nos não haver dito isso mesmo. Em circumstancias analogas
    as _Farpas_ deram um exemplo de sinceridade que ficou esteril. Um dia
    escreviamos um artigo ácerca do adulterio; a logica arrastava-nos a
    deducções que nos não atreviamos a imprimir; publicámos o nosso artigo
    até o ponto em que o julgavamos compativel com os costumes e
    concluimol-o com a confissão franca de que nos achavamos coactos pelo
    publico. Quando tivemos medo confessamol-o. É verdade que omittimos uma
    opinião, mas, estudando os costumes, revelamos pelo menos um estado de
    espirito que elles determinavam e que seria um symptoma a ponderar pelos
    analysadores que se nos seguissem.

    _O crime do padre Amaro_ é effectivamente difficil de sentenciar porque
    constitue um caso novo, não previsto nas ordenações porque se regulam as
    audiencias geraes do folhetim e do noticiario.

    Essencialmente moderno este romance não é a narrativa de uma aventura ou
    de uma serie de aventuras á Lessage, á Dumas ou á Gaboriot, não é um
    estudo de sentimento á Rousseau, á Alfred de Musset ou á George Sand. É
    uma pintura de caracteres, mas não uma pintura á Balzac ou á Flaubert,
    porque este livro não é exclusivamente de nenhuma escola senão da escola
    de si mesmo, e é esse cunho profundamente pessoal qne lhe dá o caracter
    que o distingue como verdadeira obra d'arte.

    Ora uma exposição de caracteres se pertence á sphera da arte pelos
    processos da pintura, é um ramo da historia e está subordinado á
    sciencia pelas operações de critica e de relacionação. O officio do
    historiador é discernir no estudo das epocas e no estudo dos
    acontecimentos o seu caracter social. O officio do romancista é
    discernir no mesmo estudo das epocas e no mesmo estudo dos factos o seu
    caracter artistico. O methodo do historiador é o methodo do romancista.
    Não pode ser romancista um simples _observador_. Cada sciencia tem, como
    diz Littré, o seu methodo particular e caracteristico. A _observação_ é
    um methodo exclusivo da astronomia, para cujos phenomenos irreductiveis
    o astronomo não pode fazer mais que olhar. O chimico procede pela
    _experiencia_ e pela _analyse_. O biologo tem por methodo especial a
    _comparação_. O historiador, e por tanto o romancista, teem como
    instrumento particular a _filiação_, isto é, a producção dos estados
    sociaes uns pelos outros. Pintar um caracter é expor no personagem a
    figura moldada dentro do contorno delineado n'uma dada porção do espaço
    e do tempo por um certo estado social.

    Um caracter é um phenomeno historico, que se não comprehende senão
    emoldurado na convergencia de todos os factores que o produziram.

    É por isso que o romance de caracteres tem de ser uma exposição
    concentrica de todas as influencias que determinam um pensamento ou um
    acto;–influencias naturaes, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, o
    sexo, a idade, o temperamento, a idiosyncrasia, a heriditariedade;
    influencias sociaes, as instituições, os costumes, a familia, a
    educação, a profissão.

    Comprehende-se a commoção de surpreza que produziu este livro, ao
    notar-se que a proposito da biographia de um padre em uma parochia da
    provincia elle suscitava as mais graves e melindrosas questões
    physiologicas e sociaes que podem envolver a igreja, o celibato, a
    sentimentalidade e o mysticismo, isto é, todos os pontos de controversia
    philosophica que o jornalismo exclue da discussão para se não pôr em
    conflicto com o assignante. Confessamos que n'este caso o melhor que
    tinha que fazer a critica jornalistica era effectivamente calar-se.

    Pela nossa parte, como é precisamente o conflicto que constitue o nosso
    programma, não temos rasão plausivel para abster-nos da apreciação
    d'este livro.

    A rasão da condemnação silenciosa, do escandalo branco, que envolveu a
    apparição do _Crime do padre Amaro_ está no simples facto de que elle é
    um _romance de caracter_. Esta simples designação explica tudo. O genero
    é novo e sem precedentes. Os livros do sr. Camillo Castello Branco são
    romances de sentimento. A obra de Julio Diniz pertence á litteratura de
    _tricot_ cultivada com ardor na Inglaterra pelas velhas _miss_. Apesar
    das suas qualidades de paizagista, do seu mimo descriptivo, da sua
    feminilidade ingenua e pittoresca, as novellas de Julio Diniz não teem
    alcance social, são meras narrativas de salão.

    O livro do sr. Eça de Queiroz offerece-nos o primeiro exemplo de uma
    obra d'arte suggerida pela consideração de um problema social.

    E todavia _O crime do padre Amaro_ não é de nenhum modo um livro de
    critica, é um livro de pura arte na mais alta accepção d'esta palavra.
    Nem na bocca do auctor nem na de nenhum dos seus personagens ha uma
    palavra declamativa ou didactica.

    Em uma pequena cidade de provincia, na Extremadura portugueza, o velho
    parocho morre, o novo parocho chega com o seu capote ecclesiastico e o
    seu bahu, apeia-se da diligencia de Chão de Maçãs, sobe aos quartos que
    lhe estão preparados, calça uns chinellos de ourelo, veste o casaco
    velho, e o drama principia, desdobra-se e termina de um folego,
    caminhando para o seu desfecho, recto, implacavel, como um traço riscado
    pela fatalidade atravez d'aquella estreita vida de provincia, com a sua
    intriga local, os seus personagens mesquinhos, os seus padres, as suas
    beatas, os seus tristes aspectos de coisas, sujos, tortuosos,
    compungidos, pretenciosos, miseraveis.

    D'este fundo sombrio, espesso, pesado como o tedio, a acção destaca-se
    luminosamente, e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectaculos
    vivos. É a vida mesma com toda a sua trivialidade real que n'essas
    paginas perpassa aos nossos olhos como aquellas florestas que andam no
    sonho de Machet.

    Nunca artista portuguez desenvolveu na sua obra maior poder de execução.

    O dialogo, trasbordante de verdade, é de um rigor psychologico, de um
    colorido flagrante e de uma energia de naturalidade que os primeiros
    stylistas francezes não conseguiram ainda egualar. A lingua portugueza,
    pela incomparavel variedade das suas construcções grammaticaes, pela
    inexgotavel abundancia dos seus idiotismos, pela bravura inculta do seu
    arranco plebeu, presta-se admiravelmente a estes prodigios de execução
    sempre que a não deturpa esse maneirismo requintado, esse culto da
    farragem e do euphemismo, que tem sido em Portugal a sarna epidemica do
    estylo erudito.

    O dialogo do sr. Eça de Queiroz, não porque o trabalhasse a
    preoccupação do purismo, mas em resultado do escrupulo com que foi
    arrancado da indole e da natureza dos personagens, é de tal modo genuino
    e tão accentuadamente portuguez, que o temos por intraduzivel.

    Ao lado do dialogo mais vivamente travado e das situações dramaticas
    mais profundamente sentidas, mais commoventemente narradas, o auctor
    compraz-se habitualmente em pintar, com frio cynismo, as ridentes
    paizagens em que scintillam as frescuras da manhã, os suaves occasos do
    outomno impregnados do rumor das aguas e do perfume dos prados, os
    tepidos interiores aconchegados e pacificos, todos os aspectos da
    natureza vegetativa, da natureza animal, da natureza morta. E nada mais
    profundamente real do que a impressão deduzida d'esse contraste entre a
    inclemente immobilidade das coisas e a devastação tempestuosa das
    supremas paixões no fundo da alma humana!

    O desenho dos caracteres e principalmente o das duas personagens
    principaes sobre que versa o drama, o padre Amaro e Amelia, é deduzido
    com o mais scientifico rigor da diagnose n'um caso de pathologia
    psychica.

    A infancia de Amaro em uma casa nobre, onde a mãe d'elle era criada de
    quarto. Os pequenos pormenores d'esse interior de familia, onde o
    catholicismo era um requinte heraldico, onde as meninas, acreditando em
    Deus como na omnipotente elegancia, tinham como culto dos destinos da
    alma a preoccupação da _toilette com que haviam de entrar no paraizo_. A
    creação de Amaro até aos doze annos n'essa convivencia mulheril,
    ajudando ás missas na capella, espanando os santos, aparando as hostias,
    dormindo entre as criadas, que lhe faziam cocegas, lhe chamavam
    _Padreca, Frei Lombrigas_, e o utilisavam nas suas intrigas para «fazer
    as queixas.» A sua mocidade no seminario, «abafando na estreitesa dos
    corredores, invejando todos os destinos ainda os mais humildes, o
    almocreve que via passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro
    que ia cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os mendigos
    errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro!» Os seus
    primeiros alvoroços de adolescente ao pensar na mulher sobre os livros
    dogmaticos: «Que ser era esse que atravez de toda a theologia ora era
    collocado sobre o altar como a Rainha da Graça ora amaldiçoado com
    apostrophes barbaras? Que poder era o seu que a tragica legião dos
    santos, ora se arremessa ao seu encontro, n'uma paixão extactica,
    dando-lhe n'uma acclamação o profundo reino dos céus, ora vae fugindo
    diante d'ella como do universal inimigo com soluços de terror e com
    gritos de odio, e, escondendo-se, para a não vêr, nas thebaidas, nos
    claustros e nos sepulchros, vae alli morrendo do mal de a ter amado?
    Amaro sentia, sem as definir, estas perturbações, e julgava-se
    desgraçado e maldito.»

    Vemos, a dia por dia, crescer, constituir-se, formar-se esse homem,
    branco, lymphatico, molle, creado entre chumaços de mulheres ordinarias,
    e sobrepelizes de padres boçaes, no fartum das alcovas sujas e na sombra
    humida dos claustros musgosos. E prevê-se a quéda fatal d'essa natureza
    stagnada e paludosa, atravez da qual os desejos insaciados luzem como os
    olhos de um tigre.

    É egualmente bem assignalado o caracter de Amelia. A sua educação
    sentimental e devota é descripta a golpes de bisturi. Cada traço é uma
    incisão. Aos oito annos tinha ido para a escola. A mestra era uma
    velhita roliça e branca que fôra tacho das freiras de Santa Joanna em
    Aveiro; com os seus oculos redondos, junto da janella, empurrando a
    agulha, morria-se por descrever o convento, os seus terrores, as suas
    legendas, as suas peripecias; as perrices da escrivã sempre a escabichar
    os dentes furados; a madre rodeira preguiçosa e pacata, com uma
    pronuncia minhota; a mestra de canto-chão, admiradora de Bocage e que se
    dizia descendente dos Tavoras; a historia de uma freira que morrera de
    amor e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores,
    soltando gemidos dolorosos e chamando:–Augusto! Augusto!… Tinham-lhe
    ensinado o cathecismo e a doutrina: fallavam-lhe sempre dos castigos do
    céu; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um Ser que dá o
    soffrimento e a morte, e que é necessario abrandar resando e jejuando,
    ouvindo novenas e amando os padres. Era por isso toda cuidadosa e se ás
    vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro
    dia porque temia que Deus lhe mandasse sessões ou a fizesse cair na
    escada.» Além da doutrina aprendera a tocar piano com um velho
    romanesco. Lêra livros de versos, fôra namorada durante uma estação de
    banhos por um estudante de Coimbra, que lhe fizera umas quadras. Estava
    pedida por um escrevente de tabellião, que se perturbava sob o seu olhar
    voluptuoso mas que ella não amava, sentindo em si «como um grande somno
    do coração.» Não tinha pae. Era sanguinea e forte, de grossos beiços
    levemente sombreados de pennugem negra. Ouvia missa todos os dias e
    confessava-se todas as semanas.–A mãe era protegida por um conego. Ella
    padecia tedios nevralgicos e inquietações hystericas.

    Todos os demais personagens, alguns d'elles apenas indicados por quatro
    palavras, que têem o poder de uma evocação, o conego Dias, o padre
    Natario, o padre Brito, o chantre, o coadjutor, o Libaninho, o tio
    Esguelha, o escrevente, o redactor da _Voz do Districto_, as senhoras
    Gançosos, a sr.ª D. Maria da Assumpção, a Joanneira,–vivem, têem uma
    physionomia, uma personalidade.

    O desenlace do drama, a morte de Amelia, a fuga do padre da quinta da
    Cortegaça, de noite, levando o filho escondido na capa; o seu terror ao
    sentir-se seguido, ao ouvir atraz de si no macadam as passadas surdas do
    escrevente, passadas commedidas pelas d'elle, acompanhando-o como o
    remorso, como o presentimento da catastrophe que se aproxima; o
    infanticidio perpetrado no escuro, com os pés no lodo, á beira do rio,
    escondido nos juncos como um animal ferido cercado pelos latidos
    raivosos da matilha; a sua retirada de Leiria ao outro dia, por uma
    serena tarde de outomno, de uma poetica serenidade ineffavel, partindo a
    cavallo no momento em que os sinos da sé começavam a soluçar o dobre de
    defuntos, emquanto um realejo toca na rua um trecho da _Norma_, e, de
    uma casa defronte, um pequerrucho seguro ao peitoril da janella pelo pae
    e pela mãe que riem, lhe diz adeus com a sua pequena mãosita
    papuda;–constituem paginas de uma concepção e de uma tonalidade
    tragica, profundamente elegiaca e solemne, que fica vibrando por muito
    tempo na memoria como o ecco funebre de um _dies irae_.

    Este livro misanthropicamente concebido, e executado com uma ironia
    mordente e com um humorismo repassado de lagrimas, deixa todavia no
    espirito uma forte impressão consoladora; é a obra de um grande artista,
    de um poderoso revelador de ideal; e como toda a idealisação perfeita,
    repousa-nos das nossas preoccupações pessoaes e egoistas,
    engrandece-nos, eleva-nos aos nossos proprios olhos, infunde-nos a fé,
    obriga-nos a crêr no sagrado desinteresse da arte, na divina
    immortalidade do bello.

    * * * * *

    Se depois da idéa que procurei dar-te d'este livro, tu, leitor me
    perguntares se o deves dar a ler á menina tua filha, eu respondo-te
    terminantemente que não. As meninas nunca lêem romances, quaesquer que
    elles sejam.

    Se o podem lêr as mulheres–é uma outra questão, á qual respondo que
    podem, ainda que com esta reserva–ás escondidas.

    Não que este livro seja immoral. A arte é absolutamente independente da
    moral, e não póde nunca nem servil-a nem prejudical-a.

    Quando para minha consolação e refrigerio eu me desvio da estrada em que
    succumbo de fadiga mordido pelo sol, e vou descançar um momento á sombra
    de uma arvore, não pergunto se essa arvore dá peras ou se dá pilritos,
    se da sua resina se póde extrair um balsamo ou um veneno, se dos seus
    filamentos se póde entrançar uma corda para o sino ou um baraço para a
    fôrca, se no seu tronco se podem serrar as pranchas para construir a
    arca ou para armar o patibulo. A unica coisa que lhe pergunto é se ella
    tem, para m'a dar, uma boa sombra fresca, macia, aromatica; e se a tem,
    eu, que n'esse momento não sou um negociante de productos alimenticios,
    nem um madareiro nem um chimico nem um engenheiro constructor, mas sim
    um caminheiro prostrado, eu declaro, não só em meu nome, mas em nome da
    sciencia, em nome da moral, em nome da religião, em nome do homem e em
    nome de Deus, que essa arvore é boa, é util, é necessaria–não pelos
    materiaes que ministra, não pelos fructos que produz, nem pelas
    substancias que segrega, mas unica e simplesmente por uma condição
    imponderavel e etherea, da qual em dada crise pode depender o meu
    destino inteiro e toda a minha vida; e essa condição é a de se interpôr
    no espaço entre mim e o ceu, e projectar sombra.

    Na esphera das multiplas vegetações do nosso espirito a sciencia e a
    philosophia fornecem as substancias alimenticias e ministram os
    materiaes das construcções; a arte é a arvore santa, a arvore da sombra
    para os peregrinos do pensamento.

    Schiller em uma das suas cartas, cujo texto não tenho presente, expôe
    uma theoria que pode resumir-se n'estes termos: «Se um critico em nome
    da moral processa o meu livro não pelo que eu n'elle escrevi mas pelas
    conclusões que elle critico lhe extrae, eu despreso esse julgamento. Se,
    porém, a critica me convencer de que, dado o assumpto qual eu o concebi,
    eu poderia executal-o por outro modo, eu n'esse caso submetto-me, não
    porque tenha errado contra a moral, mas porque errei contra a arte.

    Ora na execução do livro do sr. Eça de Queiroz ha na parte descriptiva
    dois ou tres pormenores que não quereriamos eliminados–com quanto isso
    fosse possivel sem quebra da verdade–mas que nos parece poderem ser
    referidos de um modo–não dizemos mais pudico–dizemos mais artistico.

    Ha em todos os grandes romancistas modernos, desde Balzac até o sr.
    Queiroz, uma tendencia de que o vulgo tem feito o attributo de uma
    escola, tendencia febril a demorarem sensualmente as analyses da torpeza
    e da podridão.

    O grande Eschylo dizia, censurando Euripides: «Elle deprimiu tudo
    aquillo em que pegou, eu enobreci tudo aquillo em que toquei; os homens
    saidos das minhas mãos respiram gladios e lanças, capacetes de
    pennachos brancos e escudos reforçados com sete couros.» Os artistas
    modernos não podem infelizmente inscrever nos seus brazões a nobre
    divisa do velho tragico. A sociedade actual não fornece á arte os
    grandes crimes que alimentaram o interesse da tragedia grega, porque as
    depravações contemporaneas não gravitam em torno do crime heroico mas
    sim em torno do vicio mesquinho e vergonhoso. Quem descreve os
    caracteres modernos tem fatalmente de operar na gangrena; o que nos não
    parece egualmente inevitavel é que o puz do tumor salpique a mão que o
    opera. Ora o que julgamos notar, por duas ou tres vezes como acima
    dissemos, na obra tão profundamente casta do sr. Eça de Queiroz é que os
    seus instrumentos anatomicos, tão bem acerados e tão finos, teem os
    cabos demasiadamente curtos.

    A dissecção–permitta o nosso amigo que lh'o observemos–tem tambem as
    suas leis de conveniencia e de elegancia. Além de que, para estudar um
    orgão é ocioso expôr aos olhos do amphitheatro toda a nudez do cadaver.
    Mesmo em anatomia o completo conjuncto é obsceno, porque é inutil.

    As damas da côrte tão _pointilleuse_ de Luiz XIV–ellas que
    representavam tudo quanto possamos conceber mais escrupuloso e mais
    exigente no decoro e no gosto–frequentavam, sem offensa do seu fragil
    melindre de estufa, os theatros anatomicos.

    «Á medida, diz Fontenelle, que Verney se tornava um homem á moda punha
    em moda a anathomia, a qual, encerrada até ahi nas escolas de medicina
    ou em Saint-Côme, ousou produzir-se na alta sociedade apresentada pela
    mão d'elle.» O tacto especial de Verney contém um exemplo que pode não
    ser inutil ao sr. Eça de Queiroz.

    As senhoras portuguezas não cursam os estudos scientificos. Não teem os
    menores principios de biologia, de anathomia e de physiologia,
    principios indispensaveis para entrar nos estudos mais complexos do
    homem como são na sciencia a historia e na arte o romance de caracter e
    a esculptura do nú.

    Por isso a falsa noção que ellas teem do pudor as torna incompativeis
    com muitas das mais preciosas convivencias intellectuaes.

    Uma noção social não pode, porém, ser modificada pelos escriptores ou
    pelas academias. Essa reforma é a obra collectiva e impessoal do
    progresso nos costumes e nas instituições.

    N'estas condições, deploraveis mas inamoviveis, maior deve ser a atenção
    do artista em limar–tanto quanto isto seja possivel sem detrimento da
    obra–os pequenos angulos subalternos que difficultem a adaptação d'ella
    aos costumes.

    Sob este ponto de vista _O crime do Padre Amaro_ está adeante do seu
    tempo. Como obra de arte é este um destino feliz, porque n'este caso ter
    de esperar é adquirir a certeza de sobreviver. Como obra de hygiene
    social lamentamos que elle não possa desde já actuar pela sua
    influencia no espirito d'este paiz onde o primeiro livro da educação
    moderna _La femme, le prêtre et la famille_ é ainda tido por um
    sacrilegio de Michelet, o impio!

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10 11)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10 11)

    Aproximadamente 17.182 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGÃO. EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    3.º ANNO

    Outubro a Novembro de 1873

    VOLUME XX

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. Proudhon.

    SUMMARIO

    Regresso. Explicações–Historia de uns pés–Modos de morrer. Os
    Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova–Epistola aos catholicos
    do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua
    organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
    liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni,
    Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os
    padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
    confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O
    partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
    do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
    politica, na sciencia, na religião. A tolerancia–Festa veneziana nas
    aguas de Caparica–O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.
    Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados,
    as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
    regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de
    Arbes–As senhoras hispanholas e os faqueiros–O santo padre, o
    imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de
    Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
    philosophica dos pontapés nas monarchias modernas–Perfil do sr. D.
    Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo
    physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
    fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia,
    o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é
    anemico–O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica–O
    drama do Mexilhoeiro–A falta do elemento feminino nos banquetes
    patrioticos.

    Leitor querido–Depois de uma longa abstenção de tres mezes–os mezes do
    verão–_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
    que recomeçam a servir-se tambem as ostras.

    Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não
    teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
    no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.

    * * * * *

    Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que
    desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca
    das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o
    interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua
    hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria,
    supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
    uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e
    passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as
    idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim
    todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
    atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
    emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.
    Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos
    vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
    Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
    cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os
    interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos
    vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.
    Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em
    Pedroiços, por exemplo, a vida–toda de porta da rua–é transparente:
    vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um
    sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
    Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
    observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
    senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos
    de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns
    milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
    nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
    jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da
    recreio, com os seus amigos, comer um safio!

    * * * * *

    Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a
    estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós
    adoecemos … Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
    convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos
    esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima
    nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á
    sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente
    recemnascido para a trincadeira nacional.

    O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto
    no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que
    padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas
    peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
    especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença
    climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as
    desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as
    febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das
    Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
    deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.
    Cada um dá o que tem.

    A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão
    romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil
    como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
    leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
    profundamente–como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
    ophtalmias e as esquinencias–as duas maiores enfermidades de Lisboa.
    Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não,
    porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal
    maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
    primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é
    formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
    pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.

    De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol
    canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.
    conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis
    velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
    cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
    jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal
    maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os
    engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações
    suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a
    mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
    especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
    Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
    agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.

    De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a
    Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A
    patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das
    podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
    descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com
    louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de
    «_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de
    Melicio!»–ou–«Nitreira de Soares!»

    Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
    influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos
    prudente substituir–como fizemos–a convivencia do publico pela do
    gargarejo.

    * * * * *

    No theatro de D. Maria, o drama–_Idiota_.

    Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do
    auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.

    No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.
    Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
    violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado–nas
    caixas das rebecas.

    Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar,
    os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
    retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as
    malas.

    Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
    pedido as chaves dos pés!

    Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está
    deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito,
    embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os
    pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
    momento, elle então, compadecido–levanta-se.

    Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
    teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem
    obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas
    vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças
    pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,–pela cabeça. Antes de
    chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era
    obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os
    pés.

    Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
    primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
    como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
    mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de
    confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
    d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o
    empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
    preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza
    desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente
    sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.

    Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle
    cantava nos pequenos palcos?…

    Do mesmo modo que cantam os gallos–n'um pé só.

    * * * * *

    Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um
    homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
    azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado
    com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de
    metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
    portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
    á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
    officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
    afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa
    na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.

    Bem feita coisa!

    * * * * *

    Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
    apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães
    se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno
    somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em
    condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
    que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é
    querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
    exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do
    ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
    respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se
    apresente,–o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
    que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi,
    para não pôr em equívocos a celestial etiqueta!

    * * * * *

    É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
    gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a
    sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas
    de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe
    ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
    um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em
    toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
    pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
    podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão
    de bom gosto!

    Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
    vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do
    Padre Eterno.

    * * * * *

    O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
    jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios
    sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
    abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha
    da embarcação–um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
    companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo
    menos a gente,–lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com
    quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos
    de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
    assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções,
    o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com
    nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.

    Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha
    deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á
    phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
    figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.

    Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
    pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das
    phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
    calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias
    e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
    cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus
    leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
    sob as folhas dos nenufares.

    Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
    secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
    sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando
    austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão
    magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor
    commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
    Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
    guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre
    e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É
    n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
    carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
    augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
    systema nervoso da monarchia e da constituição.

    Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
    rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
    morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
    consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
    outra parte.

    Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
    luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de
    mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.

    Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter
    artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi
    que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de
    almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da
    companhia?!

    Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa
    lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
    a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
    Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no
    Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos
    constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados,
    agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na
    humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato–e muito!

    * * * * *

    O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente
    da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.
    O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
    conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
    horas.

    Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as
    republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.

    Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
    America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em
    Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
    dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.

    É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas
    do que as republicas.

    Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
    democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
    Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende
    gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
    republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.

    * * * * *

    Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
    perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
    realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
    apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar
    os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este
    uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente–das
    pratas.

    * * * * *

    _Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_

    Meus senhores e minhas senhoras.–Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
    e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos
    desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr–taes como o
    dizeis–sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
    lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
    os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
    seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
    apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
    fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus
    estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a
    condição essencial–abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_;
    depois: _vinde commigo_.

    Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
    o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
    frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne,
    a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
    entendimento e a alma das lepras mundanaes.

    Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é
    temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut
    stercora_, como muito bem disse S. Paulo!

    Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
    ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas
    e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
    coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
    tendas dos piedosos peregrinos. Porque–bem o sabeis–só com as
    inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
    Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.

    Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
    pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos
    veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos
    tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as
    ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas
    penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as
    vossas alegrías celestiaes e eternas!–_Secundum multitudinem dolorum
    meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._

    * * * * *

    Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações
    que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
    na simples contemplação do nome que lhe puzestes.

    Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
    _catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
    rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio
    de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em
    Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião
    especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a
    religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que
    nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso–_catholica_?
    Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
    religiões?…

    Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo
    no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no
    Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
    cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
    Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
    levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
    Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o
    espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da
    sciencia?…

    Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
    A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
    triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina
    bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os
    habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
    de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros
    embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
    felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis
    que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
    os foguetes furavam o limpido azul da manhã.

    O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal,
    começava no emtanto–por festejar o S. João!

    Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque
    supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser
    melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
    catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.

    Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
    vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa,
    então–meditae-o–achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
    de presumpção de merecimentos.

    Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes
    tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

    Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa,
    e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!

    * * * * *

    Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela
    importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

    Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos
    fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
    ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

    Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso
    patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus
    illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
    desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
    imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
    poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
    elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle
    do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
    e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o
    Aristoteles do christianismo–como lhe chamou Michelet–, o mais
    poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
    seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior
    fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
    Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
    Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
    «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon
    era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
    dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
    mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
    da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
    os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV,
    filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
    n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
    sapatos.

    Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
    carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos
    trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os
    dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
    commungar o veneno na hostia consagrada.

    Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
    propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
    apenas:–como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
    patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas,
    lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca
    fé, e com alguns erros de grammatica.

    Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a
    pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
    Bemaventurança e nos fecha o ceu–n'um armazem de commissões.

    Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
    não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
    cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

    O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
    benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

    _I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio
    do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
    Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os
    romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

    Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
    um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
    italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
    adoraveis,–e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda
    começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
    segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de
    emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e
    escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os
    padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está
    fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
    que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado
    do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil
    ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção
    de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião,
    era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o
    desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso
    escriptor.

    Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios,
    eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
    diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja
    esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito
    aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para
    conseguir o seu fim.

    * * * * *

    Que pretende a associação catholica?

    Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o
    sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
    Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque
    Portugal, é por emquanto independente e livre.

    Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não,
    porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte
    n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
    crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se
    satisfatoriamente moralisados e instruidos.

    Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
    proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não,
    pelas razões seguintes:

    Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
    classes:–os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

    O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
    entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa
    os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a
    culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
    domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá
    se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De
    resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as
    gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e
    pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão
    um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém
    alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
    sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes
    esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas
    subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os
    olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um
    desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça
    com o seu grosso marmeleiro argolado.

    O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em
    eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
    protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo
    os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

    O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
    passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
    misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos
    brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O
    confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua
    arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e
    abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi
    que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as
    confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos
    maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
    as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e
    da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
    pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
    dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
    minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
    que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
    por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o,
    inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente–para a
    moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
    retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
    dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
    sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
    romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
    a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
    envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
    communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento
    terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
    friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
    commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
    condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
    seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação
    catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
    partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem
    discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
    tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de
    velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
    confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
    Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
    _Nação_, e quasi sempre é rico.

    Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação
    Catholica influe, aconselha ou dirige?

    O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre
    liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
    ultramontano.

    Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.
    Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe
    simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
    o sr. conde de Samodães apparece.

    * * * * *

    A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama
    academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras
    da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
    inviolavel e de mais sagrado?

    Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a
    impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
    parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.

    Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação
    Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
    temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.
    Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
    assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
    suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
    saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia
    juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
    elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e
    dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!»

    Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se
    das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no
    salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão
    os homens?

    Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os
    murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
    finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos
    que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não
    poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça
    valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de
    Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata
    por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da
    _Illustração_ nem um album que se folheie …

    Estranha perplexidade!

    Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
    _fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela
    seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer
    fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve
    dissertação sobre os novissimos do homem?»

    Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos
    assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o
    claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões,
    persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:

    –«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu
    parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
    e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»

    * * * * *

    Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
    academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a
    controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e
    não os discutis.

    No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios,
    entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis
    no racionalismo heretico.

    No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de
    fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
    prostrar-vos na penitencia e na oração.

    Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja
    para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o
    arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões
    da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e
    arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
    bons.

    Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de
    uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de
    consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
    constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
    passando, esta palavra séria:

    Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha
    instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu,
    para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa
    ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações
    mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a
    consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
    toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração
    do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
    a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a
    moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade
    é uma religião.

    * * * * *

    Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
    amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
    Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
    cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos
    os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

    Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não
    concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
    casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente
    incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e
    os senhores liberaes tambem se não retiram.

    Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia
    continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
    emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
    suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
    _Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem
    theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir
    para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como
    elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa
    operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
    Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um
    _Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis
    inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
    em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação
    de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a
    Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
    esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
    4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual
    constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
    prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
    chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do
    Porto!

    Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as
    circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
    burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé
    portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não
    afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires
    hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não
    mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem
    desembainharam as suas espadas famosas … Não, elles apenas entoaram a
    ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre
    os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas
    aos seus adeptos.

    Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
    e sobresaltar o paiz.

    É singular esta coincidencia:

    O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
    unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os
    paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
    perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
    os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
    patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação
    allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
    deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
    severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
    ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.

    Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja
    catholica–quem o diria!–appella para as garantias espirituaes e quer a
    distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
    ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
    entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
    tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!…
    Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não
    supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade
    como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

    Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja
    apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr–o grito das
    garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção
    dos poderes.

    Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
    desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
    consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
    corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa
    temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
    arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a
    opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

    É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
    momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a
    egreja catholica como um perigo para a liberdade!

    No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a
    receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
    desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
    scientifico moderno.

    Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
    as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
    penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
    periodicos liberaes–no que nos parece que confundis tambem um pouco a
    religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
    Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
    civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como
    producto lachante. A sciencia estima-vos … como droga. O velho mundo
    invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
    mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
    burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a
    philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do
    progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
    o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.
    Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

    A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o
    estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da
    corrente invasora do scepticismo moderno.

    Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós
    pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução
    scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os
    nossos dias.

    O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a
    tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
    na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
    discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda
    o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!

    Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais
    fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão
    esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão
    a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.
    Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
    é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito
    para o absoluto.

    O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não
    o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.
    Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
    Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A
    duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

    A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
    entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
    Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu
    á mecanica e Lavoisier á chimica.

    Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido
    sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade
    indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da
    astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a
    imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás
    estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.

    Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
    Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de
    crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção
    augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é
    a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio
    e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo
    do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções
    intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
    progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é
    elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
    liberdade; na religião o precursor da tolerancia.

    Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este
    serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão
    individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão
    larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar
    de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
    forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
    desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.

    De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
    ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um
    estabelecimento que Lisboa ainda não possue–A associação catholica da
    rua da Picaria,–a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das
    cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um
    systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
    de adorações e de preces.

    * * * * *

    Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de
    mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
    mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
    illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que
    deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
    da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte
    n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
    apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O
    jubilo era indescriptivel.

    Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
    treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de
    Caparica.

    O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor
    uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem
    escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
    insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
    assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
    á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como
    os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
    prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
    punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam
    desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
    doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que
    chega.

    Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez
    correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.

    Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
    roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
    estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
    outra vez–os primeiros.

    Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão,
    tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral,
    começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
    repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
    encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos
    braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
    do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

    Era immenso a bordo o desalento.

    Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os
    serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação
    com a profundidade da sua critica, comprehendera–e muito bem!–que a
    questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.

    Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem,
    recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
    passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
    pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
    brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
    dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o
    interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
    chegado todos a terra–pelo avesso.

    * * * * *

    Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de
    sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado
    jurisconsulto e procurador geral da corôa.

    * * * * *

    É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
    burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
    possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições
    especiaes de um aio junto de um principe. Todavia–debalde procurariamos
    escondel-o–em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é
    a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
    nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso
    filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
    nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa
    phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas
    presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
    affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
    um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que
    necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
    que condições, em que circumstancias, em que especial momento da
    preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á
    presença de sua alteza o principe?!… Nós o ignoramos.

    Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
    espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
    instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou
    algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor
    de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de
    Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
    urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
    organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu
    jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de
    sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de
    sua alteza.

    E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
    inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a
    necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.

    A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
    deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como
    um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo
    modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:

    «Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens
    Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos
    de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
    Martens Ferrão de engonsos.»

    * * * * *

    Se porém–e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
    palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata,
    popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
    amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
    respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do
    joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
    elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu
    filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
    innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona
    os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
    geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão
    é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação,
    pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão
    inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o
    proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
    complicada navegação da vida.

    Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os
    braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
    sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a
    sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.

    Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições
    historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido
    exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
    ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
    pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
    orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
    liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
    d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
    espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
    elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
    e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de
    punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito
    internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais
    anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o
    seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação
    districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é
    elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de
    concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a
    personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia
    referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga–_ella_.
    Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as
    ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto
    simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
    neutra.

    Como diziamos, pois, tal é–el.

    * * * * *

    Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens
    Ferrão para aio do principe real–note-se bem isto–não é a sorte de sua
    alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia … Ah! não!
    É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
    influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente
    socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão
    candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
    repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!

    Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
    commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
    surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços,
    quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
    inexperiente e inerme d'_el!_ …

    Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
    monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
    innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
    carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
    longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;–o que
    se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para
    a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
    sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém
    não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha
    outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
    tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama–a
    mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
    geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos
    de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
    todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
    chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
    chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos!
    Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de
    Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!

    Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei
    geral da humanidade, e os que vivem com elles–ponderemol-o bem–ficam
    sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.

    Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra
    Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
    do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma
    velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
    tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles
    sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso
    Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o
    medite!

    De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
    mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na
    perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.

    Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos
    _boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
    ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
    Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
    Passefilou … Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!

    Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios
    possam preservar os principes dos perigos das suas ligações
    clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
    propria convivencia legal das mulheres legitimas!

    Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
    rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
    expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
    seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei
    resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são
    sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações
    custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o
    aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
    rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o
    seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
    antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
    homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

    Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
    auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no
    champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e
    para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não
    obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
    aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
    homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem
    haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
    passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
    d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
    dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua
    mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

    Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas
    decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
    principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
    chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
    Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
    de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
    batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta
    mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
    sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças
    dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
    esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
    uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do
    soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
    vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com
    uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.

    * * * * *

    Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a
    innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a
    inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes
    como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta
    magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
    espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
    os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.

    * * * * *

    Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
    as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
    mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para
    dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes,
    uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem
    a fazer-lhes directamente.

    Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
    faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
    suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem
    abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
    excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
    insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
    supplementar de metterem as facas pela bocca.

    … Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
    entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e
    comem as facas–sem peixe!

    Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em
    seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos
    inspiram, devem ou não continuar a manter–na lista dos seus acepipes
    predilectos–os faqueiros.

    * * * * *

    Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a
    Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.

    O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
    escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
    Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da
    Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente,
    escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
    com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e
    de madame de Sevigné.

    * * * * *

    O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
    Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador
    Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir
    na rebelião contra o governo da Alemanha.

    D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
    bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
    martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
    confortos policiaes.

    O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a
    tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
    pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
    elle–abatido, beato, lacrimoso–pede egualmente para as suas
    tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.

    E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes
    na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
    christandade!

    Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
    malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
    livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
    veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades
    chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de
    Lambert.

    * * * * *

    A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
    constitucionalismo monarchico.

    O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe,
    pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para
    que missão o invoca.

    Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
    invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior
    aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida
    da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
    força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
    culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
    para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu
    povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do
    propheta Samuel.

    N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
    principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as
    esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
    oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções
    de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por
    quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
    gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.
    Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
    occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem
    idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit
    jus regis qui vobis imperaturus est_.

    Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente
    que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
    me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a
    personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
    é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para
    que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos
    assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos
    convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
    nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
    herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da
    miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
    consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe
    escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e
    um gibão roto nos cotovellos!

    Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
    em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
    baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um
    _entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das
    costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao
    segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
    viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte,
    até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
    hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz–que ficava com elle.

    Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
    carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou
    a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os
    pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de
    baixo.

    Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
    alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e
    da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o
    testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto
    importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?

    A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta
    consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
    e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever
    acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
    corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando
    não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham.
    N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que
    é? Pois bem! É a benzina!

    * * * * *

    A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo
    tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
    authentico manifesto politico de um principe proscripto.

    Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de
    todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua
    maior gloria–restaurar o throno pontificio. N'este simples traço
    encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,–o que nos parece
    de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.

    Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida
    dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de
    dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
    revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
    visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio
    da nossa raça! Que degeneração!

    O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
    extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha
    profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do
    paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os
    campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
    meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos
    enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
    vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava,
    com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
    prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
    plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação,
    comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão
    esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
    mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
    pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
    como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
    cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
    pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
    do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por
    cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
    vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da
    perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador,
    o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o
    acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle
    nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta
    Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde,
    a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
    levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
    veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
    tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da
    destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.

    O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
    A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.

    Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
    assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade
    e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o
    partido liberal portuguez.

    Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles
    não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
    clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles
    combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos
    do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
    João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não
    vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios
    da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram
    simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
    recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto
    sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos
    interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa
    exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
    espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela
    existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
    amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não
    teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao
    jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles
    tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a
    maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte
    do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_,
    foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
    liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_,
    figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
    pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
    portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
    concentravam-se.

    Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
    sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!

    * * * * *

    Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
    mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de
    menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria
    sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da
    rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito
    justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
    Intitula-se–_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira
    Martins.

    A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:–o
    bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral
    do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos,
    não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no
    estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá
    nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.

    A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
    partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a
    orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
    inteiramente fóra do seu objecto–a simples e pura verdade humana.

    O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente
    se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade,
    a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe
    tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
    interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.

    Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
    Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas
    faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas
    predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o
    artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de
    frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
    multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do
    homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da
    politica da sociedade moderna?

    Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
    sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_?

    Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
    que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
    representativo?

    Não nos parece.

    O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
    trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
    do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas
    correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais
    altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
    assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução
    por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.

    Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
    Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas,
    não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua
    independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das
    maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
    pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
    moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e
    expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
    consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.

    * * * * *

    É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata,
    tão viva, tão humana:

    «Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram
    ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
    em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza
    da fabrica–_manufactura de algodão e de pobres_–não pode servir-nos. O
    não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer
    dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
    extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras
    um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação
    politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente
    absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
    concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e
    propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
    distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção
    anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção
    que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do
    trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão
    economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de
    Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
    povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a
    orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da
    taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
    se funde a feria?

    A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não
    fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas
    para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de
    familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem
    quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador
    recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde
    resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a
    roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
    d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
    constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é
    então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A
    industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario
    destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
    _fabrica_ …»

    * * * * *

    A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da
    honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem
    á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que,
    pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
    portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela
    sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós
    tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.

    * * * * *

    Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
    desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa
    concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços
    dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos
    no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria
    de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as
    escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na
    Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
    habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na
    industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
    empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
    proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
    fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas
    nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
    emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos
    correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
    para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
    offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.

    Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de
    estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados
    aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
    Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
    pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos
    paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
    outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
    feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
    fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
    medica.

    A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
    teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
    exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito
    exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
    gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
    photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
    Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
    serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
    Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas
    academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
    impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.

    Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
    communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres
    todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes
    destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
    as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
    um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua
    disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
    instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
    academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
    de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
    subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
    Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
    municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
    Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
    differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás
    mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas
    preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção
    superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
    escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
    uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
    linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
    Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
    feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á
    mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação
    commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
    Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
    sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das
    raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
    escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
    classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram
    immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.

    A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
    de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de
    capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres
    se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.

    * * * * *

    Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em
    Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
    dignarão responder-nos.

    * * * * *

    O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
    brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do
    presente inverno com um jantar _prié_.

    Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
    illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
    reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre
    fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa
    para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o
    perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr.
    marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o
    homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de
    barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
    mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
    É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina
    pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
    risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação
    finalmente, com a idealidade, com o espirito.

    * * * * *

    Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
    embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
    dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
    obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar,
    tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
    natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau,
    procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos;
    sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado
    e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
    frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
    os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
    primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
    primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
    quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
    Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão
    deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
    as suas perolas … isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
    augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos
    sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta
    cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres–ellas
    que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
    tedio–desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
    assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações,
    as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
    sobre um ramo de rosas.

    Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade
    indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
    fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
    bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
    palitos nos dedos–o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
    do gosto.

    * * * * *

    Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um
    pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se
    ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
    esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
    bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão
    deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o
    illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente
    preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne,
    lhe pedira a palavra.

    Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto
    d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:

    _Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_.

    * * * * *

    Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
    fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
    pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em
    irem … para a mesa!

    Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam
    bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
    venciam batalhas, conquistavam reinos.

    Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
    cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
    duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto
    que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos
    a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!

    E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
    quanto sois capazes de amar.

    Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
    elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado
    sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato,
    contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
    feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos
    titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das
    refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o
    estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás
    salchichas com couve lombarda!

    * * * * *

    Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes
    dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão
    monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
    mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
    a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
    vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções
    do bello, e salvem sequer as apparencias–vestindo-se de mulheres!

    Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
    maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos
    pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
    tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da
    Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
    Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
    levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
    ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo–não o
    esqueçaes–trazei _tournure_ … Que vos custa trazer _tournure_? Uma
    coisa tão facil, que se traz como as patronas!

    É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
    supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não
    representadas no vosso banquete … Em nome de Mecia Lopes, meus
    senhores! Em nome de D. Urraca!

    * * * * *

    A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por
    excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
    importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a
    missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as
    idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca
    o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
    com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
    Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico,
    pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
    club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
    Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos
    corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
    Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;–é o termo
    technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
    que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
    hoje–notae-o bem–é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma
    fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de
    transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e
    approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e
    fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a
    tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros
    publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio,
    é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente–o cano.

    * * * * *

    Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
    transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O
    leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
    ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A
    conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para
    as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
    portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos
    escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
    seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
    respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores
    portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
    opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de
    novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente
    caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
    que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou
    vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções
    baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é
    substituido pelo _mot d'ordre_.

    Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não
    tem um partido, que não tem um centro, que não tem um _club_, que não
    tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu
    tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual,
    isto é–livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as
    presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada
    um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por
    differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
    manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de
    dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
    á casa de correcção installada no convento das Monicas.

    * * * * *

    Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
    inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições
    publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.

    Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é:
    demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das
    celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
    analyse. Porque nós–talvez o não tenhaes comprehendido bem–nós não
    somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que
    pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
    experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
    se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do
    tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
    para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de
    cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No
    exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um
    perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
    napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
    Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe
    de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a
    gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
    sua grande arma contra os tyrannos.

    O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
    grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria … Michelet
    diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos
    que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
    pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.

    * * * * *

    De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
    tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso.
    Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
    aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para
    conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
    das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no
    nariz.

    * * * * *

    Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
    Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da
    historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
    de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
    dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas
    expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de
    todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.

    Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que
    eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide:

    AOS MOLHADOS
    POR UMA FRIA TARDE
    NO PEGO DO MEXILHOEIRO
    A GLORIA
    RECONHECE N'ESTE MONUMENTO
    OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS
    DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS
    Á
    CONSTIPAÇÃO

    INDEX

    _Dos volumes d'esta chronica_

    PUBLICADOS ATÉ HOJE

    I–Maio………………. 1871

    II–Junho……………… »

    III–Julho……………… »

    IV–Agosto…………….. »

    V–Setembro…………… »

    VI–Outubro……………. »

    VII–Novembro…………… »

    VIII–Dezembro…………… »

    IX–Janeiro……………. 1872

    X–Fevereiro………….. »

    XI–Março……………… »

    XII–Abril……………… »

    XIII–Junho a julho………. »

    XIV–Julho a agosto……… »

    XV–Setembro a outubro….. »

    XVI–Novembro…………… »

    XVII–Dezembro…………… »

    XVIII–Janeiro a fevereiro…. 1873

    XIX–Março a abril………. »

    XX–Outubro a novembro….. »

    Nota. D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado
    com o correspondente numero.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03 04)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03 04)

    Aproximadamente 15.695 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS–R. ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Março a Abril de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de si mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    O sr. _Alexandre Herculano_, opusculista. Os semi-deuses e os rapazes.
    As armaduras e as flanellas. _A Voz do Propheta_, geremiada de salão. A
    biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os
    egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os
    fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com
    Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de
    Radway. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa,
    Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e
    Carl Marx. O sr. Herculano Salomão e nós o bôbo Marcullo.–João Felix
    Pereira, historiador. Os compendios da instrucção publica e as
    equarissages.–O sr. D. Fernando em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e
    seus principios politicos.–A casa de detenção nas Monicas. O edificio,
    as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a
    catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia
    penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem
    se fazendo-se dezembargadores ou coroneis–As curiosidades infantis da
    Republica Portugueza–_Duas palavras aos leitores das Farpas_, folheto
    brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil:
    testemunho insuspeito e juizo final. O sr. Mathias de Carvalho e a
    actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero
    e a nossa.–O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O
    Sport e o Lagoia. Perfil do _high-life_. Os srs. De Lagrange, De Mouchy,
    Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas
    tipoias vencedoras–Representação da comedia _Magdalena_. Os caracteres,
    os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas honestas.–Um anjo
    catholico e uma jovem deusa da Razão, typos da litteratura e da moda.–O
    leilão do espolio de sua magestade imperial.

    O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de _Opusculos_
    um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e
    inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino
    Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do
    illustre escriptor.

    Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas
    com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou
    1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a
    combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu,
    formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés
    empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.

    * * * * *

    Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os
    accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com
    as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de
    uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras
    primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos
    capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de
    cera côr de rosa e olhos de vidro.

    E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos
    instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo
    dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de _stick_ do
    primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois
    dedos de Proudhon e de um copo de Champagne!

    Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a
    corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que,
    n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas
    futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina _veste
    Bênoiton_ a que triumpha.

    Ai! perdoae-nos … Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos
    gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro,
    a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos
    macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se
    abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos,
    graças ás capsulas ferruginosas e ao _Rob Lafecteur_, podendo
    impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan,
    chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.

    Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de
    todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses,
    inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca–na attitude
    classica dos Abrahões de jardim–suspendem os seus alphanges, como
    poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta
    gerações de pardaes!

    * * * * *

    Aqui temos nós, por exemplo, _A voz do propheta_, cem paginas sybilinas,
    em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.

    É uma especie de _Dies irae_–de salão.

    Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado
    n'um figle.

    Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da
    caveira de um cyclope.

    A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos
    desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem
    tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso
    esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do
    onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende–ella,
    desvairada, tambem o não sabe!–mas pisa o tablado a largos compassos
    tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido
    apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de
    rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores
    angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae
    occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para
    acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita
    natureza humana se desencarrega–ai de nós!–pelo nariz….

    O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa
    melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas
    palavras:

    «O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze
    resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu
    obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos …»

    E conclue assim:

    «N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e
    repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro
    houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que
    diziam:–Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor
    me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.»

    Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor
    se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam
    contristadas e attonitas:

    Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o
    propheta _banhado em suor frio_ e _repassado de amargura_?!

    Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito
    de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma
    o _ultimo clarão de esperança_?

    Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido
    directamente por Deus de _fazer resoar palavras de terror_, explica
    satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e
    dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção,
    destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham
    promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes
    consentissem penetrar o sentido da _Voz do propheta_.

    A explicação d'essa voz que diz ao povo «_que a sua hora extrema vae
    soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e
    pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé_»,–a explicação da voz
    que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de
    morte para o povo e para o paiz, é que:

    A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre
    Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação
    interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das
    proprias ambições _as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque
    invejosas, espoliadoras, porque miseraveis_;» e Elle, o propheta, Elle,
    o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações … Elle
    era–cartista!

    * * * * *

    Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «_O
    espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze,
    resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror_ …»–é que
    naturalmente Deus era tambem–cartista.

    E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de
    um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia
    e de rhetorica!

    * * * * *

    Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande
    historiador:

    Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: _Vae_,
    o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o
    mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe
    tivesse dito–_Vence_? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que
    precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a _Voz
    do propheta_. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus
    appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não
    poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio?
    Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos
    cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina,
    authentico e legitimo?

    * * * * *

    Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos:

    Primeiro–Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca
    do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo
    em relação aos documentos ainda n'elles existentes»–questão que se acha
    resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.

    Segundo–«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe
    desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor
    da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado
    hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos
    obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este
    ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros
    de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.

    Terceiro–«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que
    a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei
    para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»–especie de
    carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr.
    Herculano quer _um jurado especial encarregado de defender a moralidade,
    punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em
    offensa da moral_,–o que nos parece ser, sem a minima duvida, o
    restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos
    da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano,
    sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.

    Quarto e ultimo–Uma _advertencia preliminar_, na qual o autor explica
    que compoz a sua obra _com o fim de_–matar o tédio das longas noites
    de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que
    os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos–no inverno
    pelo menos–são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para
    s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue–a bisca sueca. O fim
    moral retira-se, havendo uma perna para o _voltarete_.

    E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle
    que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes!

    * * * * *

    Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da
    razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as
    pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto,
    firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que
    Michelet chama a _indigente correcção de Malherbe_: tem portanto as
    condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue,
    nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.

    Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica
    e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica
    da revolução, que essas conferencias propagavam.

    Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a
    carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem
    Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um
    desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que
    se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma
    theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais
    adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho
    ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «_La légalité nous
    tue_».

    Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que
    constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as
    _caixas economicas_, escondendo que a questão de coarctar a miseria não
    é de estabelecer o _mealheiro_ mas sim de crear o trabalho.

    Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um
    jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não
    sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra,
    justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a
    arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este
    ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que
    o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o
    pensamento ou de disfarçar a verdade.

    * * * * *

    No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na
    polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a
    justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a
    negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que
    ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios,
    nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz,
    no bem estar e na virtude,–n'este momento supremo, um dos mais graves
    em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa
    para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos–, um
    philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais
    auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a
    reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno,
    lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações
    theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em
    Cartago e Attila nas margens do Danubio.

    * * * * *

    Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido,
    desalentado …

    D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os
    annos nem os desgostos justificam?

    Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma
    grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se
    acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada.
    Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria.
    «Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar
    a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse
    tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda,
    e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão
    secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica:
    «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da
    minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve
    o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se
    Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico
    depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua
    herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás
    pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando
    finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo–por ter chegado!

    Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr.
    Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua
    obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.

    Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se
    póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em
    substituição da vida artistica.

    Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua
    granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na
    saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente
    effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é
    o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A
    padecer o que? Esta molestia:–a nostalgia da arte.

    * * * * *

    A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um
    homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A
    tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as
    aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é
    então uma lesão profunda e mortal.

    O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na
    applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo,
    publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes,
    amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais
    póde sem perigo retirar-se d'esse meio.

    Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma
    luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o
    tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle,
    elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa,
    immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e
    grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam,
    tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na
    immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce
    mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao
    trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.

    Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos,
    muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos!

    Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha
    das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no
    seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos?
    Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a
    voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue
    vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?…

    São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.

    Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e
    viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos!

    * * * * *

    Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é
    impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos
    interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma
    penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se
    á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a
    porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste
    do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó
    triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do
    teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde
    procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que
    atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua
    patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre
    lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus
    pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que
    se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella!

    Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua
    pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e
    uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!… Spinoza,
    que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e
    sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura;
    João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot
    desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando
    oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido,
    caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos
    tamancos das suas montanhas do Jura!

    * * * * *

    Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato,
    restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo.

    Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa
    sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples
    proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são
    absolutamente indifferentes á humanidade.

    Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob
    uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á
    similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a
    publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir
    um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e
    recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella,
    radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo
    d'elle uma força moral.

    Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos
    com o seu desalento.

    Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de
    antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa
    reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas
    phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso
    contentamento de uma alma perseverante e forte.

    Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o;
    ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me
    pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa,
    a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a
    realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais
    poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse
    tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas
    que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se
    apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na
    luz.

    São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram
    essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu
    passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o
    cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço
    maior do que escrevel-o; é calal-o.

    * * * * *

    Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada
    franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia
    criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em
    esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis
    ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É
    preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de
    Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons,
    bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico
    insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo
    esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei.
    Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem
    não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio
    plebeu.

    Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do
    bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano
    tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que
    escreveu o _Cantico dos canticos_ e edificou o templo.

    * * * * *

    Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o
    sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.–É a logica do
    absurdo.

    * * * * *

    A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do
    latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores
    uma, idéa da obra.

    _O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por
    seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode
    recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia,
    virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo
    ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores,
    chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte
    Palatino_ …

    Tal é Eutropio–traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma
    coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez–se por ventura houvesse
    alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix,
    qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil,
    agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade!

    Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios–medico,
    engenheiro civil e agronomo–vós, que sois na sciencia o mesmo que são
    na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra
    batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com
    a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o
    nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de
    ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!…

    Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso
    João, ó feliz Felix.

    Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua
    lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta
    Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo
    assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas
    particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas
    equarissages litterarias.

    A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que
    fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos
    sertões.

    A verdade é que ninguem vos entende.

    Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana
    prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir
    directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a
    linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia;
    ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á
    grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as
    epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus,
    interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e
    demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as
    inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos
    baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos … Tudo isso, ó João, antes,
    mil vezes antes, do que procurar entender-vos!

    * * * * *

    Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente
    continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não
    nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de
    vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro
    civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa
    vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos
    vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros:

    POR JOÃO FELIX BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS SEGUNDO DARWIN E LAMARCK

    * * * * *

    O _Tribuno Popular_, folha democratica de Coimbra, referindo-se em um
    notavel artigo á recente viagem áquella cidade do S.M. o sr. D.
    Fernando, escreve estas linhas:

    _«N'este intervallo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de
    Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Mello,
    emprehendiam um passeio notavelmente pittoresco. Dirigiram-se ao caes,
    entraram n'um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas
    formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela
    orchestra de mil rouxinoes que de ambas as margens pareciam advinharem
    os espectadores nocturnos que os escutavam.»_

    Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinoes para que se entendesse que
    elles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!»

    Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real familia? Perguntaram por
    Melicio?…

    Por Deus! que o _Tribuno Popular_ nol-o diga! Queremos pedir para o
    peito d'esses passarinhos a commenda de S. Thiago.

    Emquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Mello, estamos
    certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriotica
    manifestação dos rouxinoes do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente
    responderam aos rouxinoes, desentranhando-se por sua parte nos mais
    ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios … Oh! nós conhecemos a fidalga
    bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar tambem
    de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois:
    _có, có ró, có!_ por Lisboa agradecida.

    * * * * *

    Sempre que em cada anno se celebra na cadeia do Limoeiro a ceremonia da
    communhão aos presos, o senhor procurador regio convida a imprensa a
    assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia immediato que a
    cadeia está no maior aceio e que o senhor procurador regio é digno dos
    maiores elogios. Porque? Porque commungaram os presos.

    * * * * *

    Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida
    no antigo convento das Monicas estava no dito «maior aceio» e que o
    mesmo procurador regio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão:
    Tinham commungado os presos.

    * * * * *

    Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões
    portuguezas–quando os presos não commungam.

    Nós visitámos a casa de detenção–antes da oitava da Paschoa. Eis o que
    vimos:

    * * * * *

    Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e
    pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde.
    Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas
    humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio.
    Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as
    exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias
    deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das
    vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos
    que apanharam chuva.

    Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade
    de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos
    em um estreito pateo interior, na sombra–porque tambem ali não chegava
    o sol–frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou
    deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos–como
    um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos
    doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos,
    anemicos, tristes.

    Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que
    faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao
    edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não
    deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na
    quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não
    havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos
    domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma
    charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os
    fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio
    militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que
    acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para
    treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem
    por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer
    para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem
    alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada.
    As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão,
    coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que
    passavam os domingos.

    * * * * *

    Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho,
    extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são
    alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma
    escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes
    ensina.

    Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina
    moral.

    Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.

    Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um
    capellão, um perceptor.

    Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as
    attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a
    benzerem-se.»

    Teem duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar
    feijões e arroz.

    Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem.
    Nunca bebem vinho.

    O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito
    duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o _menu_ da
    enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de
    correcção!

    * * * * *

    Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito
    camas e uma latrina.

    Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave.

    Não ha vigilancia alguma durante todo o espaço de tempo que decorre
    dentro d'aquellas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol.
    Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitorios, dorme um
    guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que,
    sempre que havia desordens nas camaratas, elle intervinha com o rigor da
    sua auctoridade por isso que, concluiu elle, _quem dá o pão dá o
    ensino_.

    Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em
    Portugal á infancia criminosa é elle. O ensino pelo menos é exclusivo de
    sua mercê.

    * * * * *

    A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem
    é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos
    basta, é que esse director ganha–cinco tostões por dia!

    * * * * *

    Eis a physionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a
    traços mathematicos, sem commentarios, sem emphase, sem exclamações
    doloridas ou sentimentaes, nenhum toque artificial de luz ou de sombra
    que possa alterar a exacção rectilinea do quadro!

    Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma
    velha instituição apodrecida pelos annos. É uma creação nova, que tem
    apenas alguns mezes de existencia. Dá a medida exacta das forças de
    sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha officialmente
    habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se
    póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova
    de capacidade! Eis tudo quanto elle sabe do direito criminal, da hygiene
    physica e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da
    educação intellectual, da educação moral, da educação religiosa, dos
    deveres phylantropicos do Estado, da missão paternal do poder para com
    os orphãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões
    finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem
    d'aquelle a que nos referimos.

    O povo, tranquillo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios
    estolidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e
    julga-se fielmente levado para a mystica terra da promissão pelos homens
    que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na
    tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os
    primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma
    cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por
    um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vacca. Em Portugal João
    Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador regio na casa
    das Monicas, dirigem os espiritos e guiam as consciencias para o ideal.
    A opinião obedece-lhes.

    * * * * *

    Vemos em uma conta official que nas obras feitas no convento das Monicas
    para adaptar o edificio ao fim a que elle hoje se destina, se gastaram
    seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço
    minimo porque poderia ser vendido o convento e quinta annexa e ter-se-ha
    mais que o sufficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou
    do Alemtejo uma exemplar colonia agricola penitenciaria.

    Seis contos de réis, só em obras n'um edificio torto, absolutamente
    impossivel de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da
    hygiene!…

    Mas é um desperdicio, que revela a ignorancia mais crassa em similhantes
    assumptos. Na magnifica colonia agricola de Mettray, perto de Tours, em
    França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por
    casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma d'estas casas,
    de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento terreo e de dois
    andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a officina. Em cada um
    dos dois andares ha uma sala, que serve successivamente de dormitorio,
    de refeitorio, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de
    chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao
    muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao
    longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o
    refeitorio, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões
    e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma
    mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em
    seguida descem-se das paredes lateraes pranchas de madeira fixadas
    n'ellas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas
    ao muro por um lado prendem-se pelo lado opposto ao travessão por meio
    de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da
    officina. Se se quer armar o dormitorio, em vez das pranchas com que se
    formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas.
    Ao fundo de cada um d'estes dormitorios ha um quarto aberto para a sala
    em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os
    contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitorio, de modo que
    durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia
    entre os dois travessões de que fallámos.

    Cada um d'estes pequenos predios contendo quarenta e tres pessoas,
    custou, incluida toda a mobilia, um relogio, toda a roupa de camas, e
    toda a loiça de lavatorio e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000
    réis.

    Tres dos predios descriptos seriam muito mais que o sufficiente para
    recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das
    Monicas.

    Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos
    n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos
    um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido
    inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos
    e quinhentos mil réis!

    * * * * *

    Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento
    portuguez quasi tudo o que existe é erro.

    Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim
    hortelões e jardineiros.

    Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das
    suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam
    aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos
    novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,–as
    noções mais essenciaes á vida.

    Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem
    rapazes em marcha faz d'elles cem homens.

    Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com
    ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento,
    levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos
    condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida
    pelos seus similhantes.

    Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as
    desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a
    enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente,
    deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e
    sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim
    um emprego elevado e digno do seu tempo.

    Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e
    cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade
    e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas,
    embiocadas e inuteis, o pão de cada dia.

    Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade
    fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais
    definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser
    obrigados a rachar lenha ou a britar pedra–os exercicios mais saudaveis
    para os musculos de quem está parado.

    Finalmente a casa de detenção das Monicas não é sómente a negação do que
    devia ser, é mais do que isso, é a affirmação contradictoria de todos os
    principios oppostos aos principios verdadeiros.

    Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de
    apodrecimentos humanos, um seminario de vicios torpes e secretos, um
    curso accelerado de preparatorios infalliveis para o Limoeiro, para o
    hospital, ou para o cemiterio.

    * * * * *

    Uma derradeira observação:

    A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são
    cumplices do crime de vadiagem.

    Ora sendo aquelles presos todos menores, não tendo uma familia, não
    tendo um officio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune
    por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho?

    Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios?

    Quer que sejam medicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de
    contas, escriptores publicos, capitalistas ou banqueiros?

    Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caracter mais digno de
    attenção e de respeito de que se pode alguem revestir. Somos n'este
    momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infancia orphã,
    desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir
    para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que
    está inteiramente no seu direito. É um innocente.

    Todavia ninguem o chama para fazer artigos nos jornaes, ninguem o quer
    para commandar a Municipal, ninguem o incumbe de tratar uma molestia, de
    deffender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio.
    Nenhuma viuva rica lhe offerece a sua mão de esposa. Os agiotas quando
    elle passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de
    trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que elle
    deseja saber é o seguinte:

    O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe
    prohibe ser o que é.

    Espera-se resposta.

    * * * * *

    A _Republica Portugueza_, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença
    que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e
    dirige-nos as seguintes textuaes perguntas:

    1.ª «A redacção das _Farpas_ quer a resolução do problema economico,
    quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre
    quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica
    é insufficiente para garantir o direito?»

    2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da
    justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em
    uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos
    principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois
    seculos?»

    * * * * *

    Temos a honra de responder á _Republica Portugueza_:

    1.º Aquillo que a _Republica Portugueza_ chama a _formula politica_ não
    é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de
    estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com
    todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras,
    no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a
    incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o.
    Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente
    perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que
    pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças
    industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da
    liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a
    liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle
    pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua
    miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na
    Revolução, está apenas na inepcia.

    2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de
    governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal
    queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a
    _Republica Portugueza_ quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não
    somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a
    _Republica Portugueza_ não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos:

    «Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a
    _revolução_–tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quasi sem
    revolucionarios.»

    Ora aqui tem a _Republica Portugueza_ como ha quem imagine, a solução
    dos actuaes principios revolucionarios em uma forma de governo de ha
    dois seculos. Quem teve a petulancia de imaginar isso, sem a previa
    licença da _Republica Portugueza_, foi Proudhon.

    * * * * *

    Depois de nos fazer as suas perguntas, a _Republica_ tem a bondade de
    nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos
    não lh'os acceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a
    folha conimbricense nos dirige, annulla a competencia das admoestações
    que nos faz.

    * * * * *

    O folheto brazileiro intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_,
    ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares,
    tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e
    mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos ácerca da sociedade
    e da civilisação do Brazil em um artigo consagrado á emigração
    portugueza para aquelle imperio.

    Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse
    conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se
    diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das
    nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam,
    nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos
    pés triumphantes d'este sympathico patriota.

    Como, exactamente pelo contrario,

    São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a
    verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como
    fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de
    ridicularisar o grande imperio,–o que se parece demasiadamente a nossos
    olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que
    mentimos,

    Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe
    sentir, em algumas linhas rapidas, que as _Farpas_ não são inteiramente
    uma creação poetica e phantasista.

    Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser _As fabulas de
    Florian_, nem tão pouco os _Contos de Perrault_.

    * * * * *

    Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos
    referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos
    pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: _A producção e o
    commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria_.

    * * * * *

    Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das
    substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós
    affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este
    fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias
    durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente
    á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de
    fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações
    acerbas, conclue assim:

    «Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho,
    o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc.,
    porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas,
    manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.»

    Quer isto dizer:

    O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a
    respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como
    a proporção existente entre a exportação e a importação no seu
    mercado–com uma simples condição–e é: que se lhe concedam alguns
    pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo,
    da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos
    annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a
    verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos … Nada
    mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de
    substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez
    mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as
    substancias alimenticias, como não sendo–substancias alimenticias.

    Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e
    das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar
    ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as
    fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos
    estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto,
    espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais
    vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto:
    que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples
    _producto de gutta-percha!_ o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja …
    puros _tecidos de algodão!_ os queijos, os alhos, as cebolas, os figos,
    as passas … mera _perfumaria!_

    * * * * *

    Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que
    sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90
    habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de
    que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que
    habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em
    cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de
    cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos
    da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali
    existem são na proporção de–1 para 3:021 habitantes _livres_; além do
    que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e
    sociedades sabias, entre as quaes _As duas palavras aos leitores das
    Farpas_ nos citam as seguintes: _associação commercial, sociedade
    musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação
    typographica, instituto pharmaceutico_, e finalmente a famosa
    _associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim
    promover o melhoramento da raça cavallar_.

    É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se
    tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no
    Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes _livres_, e vinte
    _sociedades sabias!_

    Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós
    desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os
    senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e
    sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do _jockey-club_,
    encarregados do melhoramento da raça cavalar!

    No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós
    publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é
    quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras
    palavras extrahidas de um _Retrospecto commercial de 1872_, publicado no
    _Jornal do Commercio_:

    «Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e
    de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que
    apertada em um circulo estreito.»

    Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A
    estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos
    industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes
    extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da
    industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima
    a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus
    mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um
    circulo estreito.»

    Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação
    viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das
    atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos
    que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos
    da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e
    Avé-Lallemant, acha bem o auctor das _Duas palavras aos leitores das
    Farpas_ não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que
    pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo,
    informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de
    Janeiro.

    Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não
    os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As _Farpas_ não
    fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem
    objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a
    emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe
    a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus.

    Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação
    mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos
    transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu
    auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por
    outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um
    hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro
    estabelecimento do mundo.

    Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero
    de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo
    e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria
    certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão–em
    pleno uso das suas faculdades.

    O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está
    muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota
    alienado,–como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial
    para o receber–é recolhido na cadeia.

    Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um
    d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro
    asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este
    facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes
    pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da
    natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a
    vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões
    de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a
    respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos
    documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns
    viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do
    testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores
    brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão
    sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do
    estado da civilisação na sua patria.

    * * * * *

    Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro
    contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias
    de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do
    Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no
    seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.

    Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que
    representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual
    ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas
    inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha
    resumida nas seguintes datas que extrahimos do _Livro Branco_: Em 7 de
    junho de 1859–começa a negociação o encarregado de negocios interino no
    Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno–prosegue o sr. Mathias de
    Carvalho. Em dezembro de 1871–principia negociações para um egual
    tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de
    1872–terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872–é
    assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em
    quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres
    annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção
    postal, nem a convenção litteraria!

    Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os
    applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse
    caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho–a sr.ª Emilia
    Adelaide.

    * * * * *

    Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado _Duas palavras aos
    leitores das Farpas_, aos leitores das _Farpas_, e ao mundo, o seguinte:

    1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que
    antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na
    imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes,
    entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas
    informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus,
    Tschudi e Avé-Lallemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem
    mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros
    propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios
    especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos
    paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado _Duas
    palavras aos leitores das Farpas_, por um patriota brazileiro … e
    anonymo!

    2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos
    convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de
    ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima
    de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos _syllabus_ do
    Catete ou das _bulas_ da rua do Ouvidor?!

    * * * * *

    Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece
    tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua
    felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero
    a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever
    para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua.

    * * * * *

    As «corridas» do Campo Grande–Extraordinario successo de dandysmo!

    Não assistimos, mas lemos que esteve o _high-life_, o famoso
    _high-life_, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar!

    Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no
    Campo Grande, em volta do lago–o _high-life_ …

    A aristocracia nos seus _landeaux_, com enormes cocheiros gordos, de
    barrigas de pernas phenomenaes e bizarras.

    A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os
    creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis,
    empoados, descobertos, com os tricornes na mão.

    Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem
    sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz _truffada,_
    repimpados em _daumonts,_ com uma _carvajal_ nos beiços e uma marta
    zibelina debaixo dos pés.

    A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a
    pelle especial dos estranhos climas do _cold-cream,_ da decocção indiana
    aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e
    de _ess-bouquet,_ dentro dos seus _broughams_ ou em pequeninos coupés de
    flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um
    ramalhete de cem francos ou um microscopico _kings' charles,_
    descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III
    trazia mettida na manga …

    Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os
    postilhões, as _victorias_, as _americanas_, os _poney-chaises_ … os
    _grooms_ em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos
    scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os
    _sportmen_ em _breaks_ ou em _dog-cart_….

    Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia.
    Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como
    n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e
    dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se
    empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.

    Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos
    ditos que partem do fundo dos _coupés_.

    De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer,
    e encontram-se os olhares que fazem scismar.

    Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras
    das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos
    seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios
    de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do
    seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno,
    calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes,
    languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes.

    As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de
    reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres
    esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas
    e dos cantos de Ossian.

    Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes
    aerias de volupluosidade indefinida.

    Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne
    polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador
    e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam,
    ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de
    preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na
    opera, os fofos _coupés_, os quentes _cachemires_, e os finos jantares.

    Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas
    finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao
    governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo
    dinheiro illimitado …

    E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os
    cavalleiros passam, e as _toilettes_ scintillam, a pobre natureza ao
    longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na
    humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que
    tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não
    tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de
    Malines!

    Tal é o perfil das «corridas»; tal é o _high-life_.

    Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o
    crêmos.–Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao _Collete
    Encarnado_.

    Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem
    os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se
    apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da
    praça…. _Alea jacta est!_

    Elles partem nos seus fiacres, ao trote.–_Montjoie et Saint-Denis!_

    O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca.
    _Hurrah!_

    * * * * *

    Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa
    estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em
    Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça … das tipoias!

    Parabéus a todo o _Sport_ europeu, e ao nosso defunto Lagoia!

    * * * * *

    Hontem no theatro de D. Maria–primeira representação da _Magdalena_,
    especie de _Dalila_, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do
    Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas
    ás curiosidades do _chic_, na Baixa.

    * * * * *

    N'este drama ha tres typos principaes:

    _O amante_–Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro–de
    Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de
    figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim
    portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra
    da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico–sob os symptomas
    lancinantes e urgentissimos da colica.

    _A noiva_–Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com
    livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor
    e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões,
    não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua
    mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e
    rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em
    vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais
    disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo
    modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama
    finalmente senão uma coisa–o talento!… Pobre rapariga! desditosa
    burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O _talento!… a
    divina inspiração!… o supremo encanto!.._ Coitada! se acreditas
    n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa,
    humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de _soirées_ que te
    appareça, á primeira _bas-bleu_ que te escreva cartas, ou á primeira
    actriz que te beije e abrace. O talento!… Mas não ha nada
    verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a
    perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples
    fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a
    _toilette_ e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de
    apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para
    que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um
    meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O
    talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça:

    _A amante do noivo_–Uma actriz que foi educada no convento com a noiva
    o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento,
    com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma
    _lorette_; uma artista _aux camelias_; grande genio de _petit-lieu_;
    celebridade baptisada com _Champagne_, entre rapazes, depois das ceias,
    em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que
    exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma
    paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia
    com o _cancan_, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca
    chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de
    _pale-ale;_ que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com
    rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena
    penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos
    sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz
    extravasado.

    _O drama_. O noivo acha que _Tant-de-charmes_ é mil vezes mais
    interessante do que _La-vertu-même_. Por tanto o noivo abandona a noiva
    virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae
    então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com
    tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este
    mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão
    de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,–de
    sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe
    restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer
    perder aos outros.

    O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno
    cáe.

    * * * * *

    Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e
    no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos
    a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em
    casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel
    juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da
    casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher
    cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem
    mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que
    lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.

    O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta
    _ménagére,_ que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo
    recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz _cocodette_.

    Pois bem: é essa mulher que se vae embora–notae-o bem, minhas queridas
    burguezas!–é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós,
    está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas
    d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só
    esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.

    O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que
    vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do
    theatro ou no _demi-monde_, é tomardes o braço dos vossos maridos e
    sairdes com elles.

    Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com
    as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de
    Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação
    plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas
    derrancado ou extincto.

    As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos
    contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle,
    serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão
    comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes
    indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com
    que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca
    luctar.

    Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha
    as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a
    sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de
    Saxe–inalteravel mimo de galeria ou de étagère.

    Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de
    Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas
    vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem
    as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar
    estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade
    estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.

    Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do
    setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas
    por dia.

    Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o
    vicio.

    Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande
    parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e
    poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da
    melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados,
    quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam–por enjoar a
    virtude.

    Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos.
    Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande
    aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As _Magdalenas_ não sobem
    as escadas das casas em que ha mulheres honestas.

    E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?…

    Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos
    pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses
    direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem
    constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os
    dramaturgos!

    Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por
    discutida?…

    * * * * *

    Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não
    somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre
    corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua
    vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que
    levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar
    arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados
    os nossos antecessores.

    * * * * *

    Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do
    espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.

    Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,–á marquez de
    Pombal.

    Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no
    estylo chato, _parvennu_, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte,
    esse Luiz XIV de caserna.

    Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa,
    guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.–O que quer
    que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do
    genio!

    As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres–tudo
    bronze, macisso, pesado.

    As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos
    de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja
    na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.

    Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça
    e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo
    molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola
    da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho,
    enche os salões e vae deitando os lanços.

    O pregoeiro–_Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!_

    Um adelo–_Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito … e, em fim,
    porque é de mosaico!_

    Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram
    rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas
    regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.

    Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne
    dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e
    fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.–Extranho
    espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso!

    * * * * *

    Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.

    Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.

    Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.

    N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos
    annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se
    perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia.
    Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto
    com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos
    os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos.
    Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as
    disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por
    toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de
    costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas
    proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o
    minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria–uma
    visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de
    mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para
    motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas
    diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos
    biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma
    especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha
    muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e
    uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes
    numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella
    uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo
    aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a
    imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus
    ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo,
    marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes,
    decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como
    diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos
    dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo
    de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em
    publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do
    _Malade imaginaire_, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena:
    ao lado do aphorismo, _Medicamen clister nobile est_.

    E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão
    os principios politicos de suas excellencias os executores
    testamentarios da fallecida soberana.

    Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar….

    Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam
    saber que nunca se abrem as caixas reservadas da _toilette_ de uma
    senhora.

    Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de
    discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas
    denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias,
    que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima
    d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus
    simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um
    novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens–a
    constipação intestinal dos principes!

    * * * * *

    O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul
    da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz
    fallecida.

    O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante
    a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o
    valor de cada coisa.

    S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em
    beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua
    irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve
    mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena
    aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os
    mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que
    sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!

    * * * * *

    Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por
    s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos
    e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce
    consolação–tão sensivel ás almas sublimes–de receber duzentas libras a
    maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos
    despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã–como mulher e
    como rainha!

    * * * * *

    Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os
    rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada,
    embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso
    throno,–tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa
    cova aberta,–fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella
    que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas
    sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia:

    «Sim, ella morreu … mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó
    Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle
    objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma
    cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado–por
    trez mil e seiscentos!»

    * * * * *

    SCENAS DE RELIGIÃO.–Lemos no _Diario Illustrado_ o seguinte:

    «Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do
    Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje
    informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e
    D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do
    acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa
    de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas
    aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e
    por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do
    Santissimo d'aquella freguezia.

    «Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul
    claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e
    um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de
    estrellas de oiro de lindo effeito.

    «Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem
    levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece
    no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais
    apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes,
    e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é
    variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites
    de senhora.»

    * * * * *

    Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes
    como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a
    caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S.
    Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.–O amor dos
    corações puros e das consciencias boas!

    Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo
    vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto
    branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo
    effeito!

    Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo
    Ignacio–_incorporeas mentes_–com esta descripção que o _Diario
    Illustrado_ nos apresenta dos vossos anjos modernos!

    Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel,
    Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais _toilette_ que as suas longas
    azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo
    anjo–Almeida Fernandes?!

    Como ficarão vexados e humilhados no Céo–os outros–quando o cherubim
    Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão
    nos beiços, e o seu _vestido aventalado adiante_, e contar que foi o
    papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos
    homem a imagem da caridade!

    Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador!
    Lição terrivel de elegancia e de _chic_ ministrada a todo o reino dos
    Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande
    importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes–no
    Empireo!

    Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr.
    Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino,
    acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da
    côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de
    tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado
    em Deus … de filó!

    E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu
    commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de
    batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira:

    Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um
    par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente
    minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós–para
    nos tomar medida. _Amen_!

    * * * * *

    Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no
    catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas
    entendem os principios do direito perante a revolução.

    Ao passo que o _Diario Illustrado_, folha monarchica e catholica, nos
    apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o _Pensamento Social_,
    periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os
    direitos do povo.

    O _Pensamento Social_ diz assim:

    «Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho
    nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a
    sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma
    companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem.
    Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma
    companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada
    pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a
    palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu:

    «Companheiros e companheiras.–Declaro-lhes que cada vez que tenho de
    entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e
    cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de
    levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas
    companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses.
    Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos,
    porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás
    nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são
    castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com
    pancada.

    «Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e
    pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não,
    que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os
    nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas
    associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é
    muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que
    não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram
    os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e
    companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação
    para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os
    trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os
    nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom
    dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não
    esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.–_Palmira da Conceição_.»

    * * * * *

    Esta creança de nove annos de edade que nos declara _que os olhos se lhe
    arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que
    lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza_, é uma
    verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é
    uma pequena nossa senhora apparecida–da fabrica lisbonense de fiação e
    tecidos!

    Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o
    actual anjo Almeida Fernandes–nas festividades populares.

    * * * * *

    Ha pequenas differenças:

    O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a
    portadora da _emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres
    sociaes._

    O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro
    inquieto de Alcantara.

    O anjo caminha gravemente–enfunado, crespo de folhos e de rendas, como
    um peru armado–a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica
    _Alumnos de Minerva_, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e
    espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o
    mundo velho.

    A deusa vem ao collo de um _companheiro_ membro da _Fraternidade
    Operaria_ e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais
    convicto e consciencioso _hymno da carta_, atraz da angelica vergontea
    de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia
    da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence,
    mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na
    futura organisação social.

    O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.

    A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação
    e de erros de prosodia.

    O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo
    confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano
    de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.

    Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais
    efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.

    Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e
    pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á
    corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.

    Não será tambem com a sua oradora de nove annos, _inspirada pela razão e
    pela justiça_, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade
    dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.

    O trabalho–bem o sabemos–é uma coisa augusta e sagrada. O
    commercio–desculpem-nos os senhores proletarios–é tão sagrado como o
    trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas
    obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que
    consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um
    serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.

    O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o
    pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois
    quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis.
    Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma
    boneca de _vitrine_ e encarregando o _Diario Illustrado_ de lh'a
    apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é
    ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha,
    para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal
    entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo _Pensamento
    Social_, orgão das classes operarias.

    * * * * *

    Já que fallamos no _Pensamento Social_ notemos que nem sempre nos parece
    perfeitamente logico este jornal.

    Succede que elle guerreia o burguez, o _infame burguez_, e não cessa
    nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada
    temos que objectar.

    Quando se deu, porém, a _grève_ dos surradores, succedeu o seguinte:

    Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a
    phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que
    apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de
    ceder á _grève_ ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que
    fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas,
    associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles
    mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em
    fabrica, levantar os cortumes.

    Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia
    dos patrões curtidores o que o _Pensamento Social_ escolheu para os
    flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que
    exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser
    burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o
    _Pensamento Social_ não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu
    caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem
    trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.

    * * * * *

    Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na
    justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de
    revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum
    e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos
    burguezes–deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios–são na actual
    organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e
    padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a
    menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em
    voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon:

    «Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais
    habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era
    christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a
    mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que
    vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria
    governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa
    ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois
    vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das
    outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de
    imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de
    industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao
    altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a
    egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das
    contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da
    opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os
    fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou
    sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante
    da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o
    ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos
    desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.»

    * * * * *

    Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação
    acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe
    pôr brincos.

    Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as
    santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria
    talvez que ellas procedessem com s.ex.ª …

    Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o
    maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos
    que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que
    extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de
    reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens–as genuflexões, o
    incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico–pela verruma!

    Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
    lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o
    seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia–em vez de
    pregar-lhes sermões–principiar a pregar-lhes pregos!

    Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
    lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando
    definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um
    bello dia–em vez de pregar-lhes sermões–principiar a pregar-lhes
    pregos!

    Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem
    satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de
    estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa
    Caetanos, 30, Lisboa.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01 02)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01 02)

    Aproximadamente 16.329 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS–R. ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Janeiro a Fevereiro de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
    partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
    Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
    governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
    portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
    virtude, o nosso direito á liberdade–Reforma do exercito e dos
    estribos–As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento–O
    enterro da senhora duqueza de Bragança.–Um conselho á força
    armada.–Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
    cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
    personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
    sobre as botas de s.ex.ª–Resposta áquelle que jurou assassinar-me.–Os
    srs bispos do ultramar–O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
    A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade–Joseph Prudhome
    e Pickuick.

    Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
    se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
    Esta discussão partindo de um ponto–a approvação do projecto–, para
    findar exactamente no mesmo ponto de que partiu–a approvação do dito
    projecto–, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
    egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
    immobilidade oriental.

    Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
    tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
    assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
    paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!

    Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
    affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
    que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
    podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
    alargar-se d'estes termos.

    _Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»

    _Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»

    Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo–e é immoral.

    * * * * *

    Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
    collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
    confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
    reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
    provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
    effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

    As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
    que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
    interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
    d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e–o que é peior que
    tudo–preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
    maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
    dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
    decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
    luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

    Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
    segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
    desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
    seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
    operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
    pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
    onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
    precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
    assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
    sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
    estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
    sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
    lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
    distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
    suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
    surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
    riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
    rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
    descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.

    E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
    tem de aprender a ser digno e honrado!

    * * * * *

    Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
    negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
    administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
    correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
    todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

    Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
    cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
    nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
    para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
    constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
    quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
    da Companhia.

    Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
    erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
    definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:

    «Os partidos são cinco–regeneradores, historicos, reformistas,
    avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
    revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
    senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
    que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
    se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»

    Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
    srs. deputados votariam calados.

    Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
    que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
    Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
    sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
    propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.

    Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
    discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
    republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
    todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
    é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
    bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.

    Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
    constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
    interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
    tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
    povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
    distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
    parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
    fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
    symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
    trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
    problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
    parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
    em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
    defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
    tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
    especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
    em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
    constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
    é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
    ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
    pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
    declararem que lhes appetece roer:–«Meus senhores, o leão pede
    viveres.»

    Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
    obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
    fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
    governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
    aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
    catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
    absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
    o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
    e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
    esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
    por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
    quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
    tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
    depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
    fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
    Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
    socego e da ordem.

    Hoje porém:

    Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
    vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;

    Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
    mesmas;

    Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
    transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
    a maior parte dos poderes delegados nos governantes;

    Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
    impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
    via da eleição representem a vontade popular:

    Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
    póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
    considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
    de poder que ellas asseguram ao povo.

    Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
    uma monarchia parlamentar.

    A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
    por chefe do poder executivo–um presidente eleito.

    A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
    povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
    executivo–um rei hereditario.

    O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
    republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
    monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
    responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
    dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
    liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
    para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
    tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
    tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
    suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
    N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
    grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
    monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
    de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
    reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
    de juizo para governar.

    Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
    das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
    nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
    Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
    monarchia representativa.

    A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
    de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
    politica. A fórma do governo na egreja–o mais despotico governo de
    quantos se possam imaginar–é a fórma republicana. O papa é um
    presidente eleito.

    O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
    funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
    affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
    soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
    Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
    ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
    d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
    que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
    expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
    para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
    França poderia introduzir na organisação do trabalho.

    A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
    vantagem–a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
    defeito:–a republica suscita as grandes ambições, que o
    constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
    nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.

    Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
    que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
    escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
    relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
    distincção: um e outro affirmam um governo livre.

    A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
    é:

    Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
    verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.

    Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.

    Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
    a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
    pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
    dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
    guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
    Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
    a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
    reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
    physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
    pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
    Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
    manifeste o intuito partidario–de lançar-se nos braços de um valido. Os
    unicos convivas extra-officiaes do principe–os tenores e os baritonos
    de _primo-cartello_–estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
    não seja–a de desafinarem.

    Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
    de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
    livre sob a monarchia portugueza.

    Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
    correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
    dizem que a republica–com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
    ou ser um imperfeito governo segundo outros–não póde por emquanto
    existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
    para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
    deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
    elle encerra….

    E que digamos a suas excellencias:

    Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
    egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
    verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
    governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
    eleitos.

    Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
    o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
    governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
    mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
    constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
    mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
    eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
    monarchia parlamentar.

    Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
    republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
    regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
    monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
    exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
    exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
    portuguez?

    Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
    republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
    por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
    Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
    moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
    tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
    representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
    da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
    independente e pensante–emquanto houver um rei. No momento em que o
    monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
    srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
    sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
    voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
    pedirá–herva.

    * * * * *

    Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
    deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
    camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
    suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
    as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
    á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
    onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
    onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
    fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
    que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
    effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
    capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
    republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
    complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
    excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
    representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
    não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
    representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
    dois governos livres–republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
    os legitimos representantes do povo não prestam, teremos–a anarchia na
    republica, e teremos–a escravidão na monarchia.

    * * * * *

    Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
    uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
    patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
    e não se esclarece nem se desaffronta,–o que prova que não tem sciencia
    e que parece não ter caracter.

    Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
    parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
    arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
    elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
    cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
    sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
    tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
    na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
    quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
    _Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
    essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

    Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
    D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
    corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
    o machinismo constitucional.

    Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
    liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
    todo ha um surdo descontentamento geral.

    Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
    prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
    como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
    grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
    que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
    differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
    a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.

    Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
    divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
    paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
    entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
    convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
    elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
    seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
    que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
    seccas.

    Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
    perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
    na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
    maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
    governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
    promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
    de fadiga, apupado e corrido.

    Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
    constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
    poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
    alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
    burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
    amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
    crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
    satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

    O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
    altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
    estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
    militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
    da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
    que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
    paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

    A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
    direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
    sentimental,–o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
    direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
    obreiros–jornalistas e oradores–a pedirem mais descanços para
    discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

    O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
    hypothecada.

    Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
    instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

    Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
    ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
    riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
    dando dinheiro e recebendo papeis.

    A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
    seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
    agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
    bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
    qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
    muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
    laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
    dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
    elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
    suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
    o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
    finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
    dignidade verdadeira e segura–o trabalho pessoal e livre. A mocidade
    tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
    justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
    sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
    ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
    necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
    simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
    nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
    sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
    tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
    typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
    e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

    * * * * *

    A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
    despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
    pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
    ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
    religião–mais clerical que divina–penetrando-nos completamente,
    dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
    assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
    lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
    lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
    mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
    e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
    similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
    consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
    religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
    se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
    delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
    eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
    que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
    responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
    o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
    sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
    liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

    Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
    interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
    noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
    elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
    conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
    rebaixa.

    * * * * *

    Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
    bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
    tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
    servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos–sermos victimas;
    faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
    e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
    proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
    passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
    então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
    interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

    Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
    apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
    mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
    baixeza. Temos do constitucionalismo–esgotado–tudo o que elle tinha da
    mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
    grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
    a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
    sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
    a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
    para o reles, para o chinfrim … Vêde a camara dos deputados: não é só a
    precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
    a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
    maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
    discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
    _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

    Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
    regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
    Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
    na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
    sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
    novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
    se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
    a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
    saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
    perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

    * * * * *

    O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
    republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
    nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
    norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
    necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
    que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
    não seja para nós um irremediavel perigo.

    Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
    immediatamente de manter os abusos.

    Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
    melhor politica.

    Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
    longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
    é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
    reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

    Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
    politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
    inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
    como se é homem de bem.

    Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
    e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
    d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
    partido,–isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
    governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
    possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
    opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
    oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
    falta da virtude.

    Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

    Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
    probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
    publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
    que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
    homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
    poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
    corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
    que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram–Cesar e Bonaparte
    pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

    Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
    desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
    gangrena e a dissolução latente do estado.

    Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
    virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
    popular, e que consiste resumidamente em preferir–o dever á
    conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

    De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
    de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
    comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
    liberdade.

    Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
    nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
    acreditava em Deus e acreditava na justiça–a imagem immortal da
    perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
    entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
    actos que a homem algum foi ainda permittido commetter–dar a liberdade
    aos negros e dar a paz á America.

    * * * * *

    Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
    fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
    influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
    mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
    se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
    prudente e justo.

    No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
    conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
    livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
    despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
    nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
    geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
    sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
    mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
    condição essencial–intrinseca–da vida, a garantia do trabalho e a
    segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
    sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
    facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
    jantar?… É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
    social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
    demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
    Theagenes em Megara.

    O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
    ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
    Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
    que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

    Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
    constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
    desfallecimento e a morte.

    Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
    forma politica–no governo–, a primeira obrigação do povo é manter esse
    principio sob a sua forma philosophica–na razão.

    * * * * *

    O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
    colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
    intelligentemente armadas e equipadas da Europa….

    A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
    ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
    gabinetes de repouso suspensos de uns loros–coisa tão confortavel que
    as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
    depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
    o jornal e tomar o café–para os estribos.

    O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
    acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
    desde hoje e para todo sempre invenciveis.

    Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
    dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
    soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
    artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
    com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
    freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
    scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
    nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa–molhavam os
    pés!

    De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
    branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
    abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
    saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
    pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria–mudasse
    de piugas.

    * * * * *

    Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
    que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
    do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
    infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida–ter os
    pés quentes!

    Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
    sola, a infanteria seja egualmente dotada–com galochas de borracha.

    Depois do que,–adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
    estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
    sapato de ourello e do cobertor de papa–tendo o exercito os seus pés
    quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições–elle será feroz!

    * * * * *

    Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
    de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
    qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
    Tavira_.

    Que nos perdôe s.ex.ª–e Tavira!

    Eis a moção:

    «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
    dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
    manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
    ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»

    Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
    os srs. deputados.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:

    «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
    noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
    independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
    está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
    constitucional.»

    Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
    juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
    qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
    garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
    ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
    Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
    apparecer.

    E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
    illibados.

    * * * * *

    Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
    referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
    desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
    destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
    ha dois annos.»

    Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
    tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
    queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
    da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
    illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
    collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:

    «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
    criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
    espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
    independencia, e passa á ordem do dia.»

    Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

    Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
    Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

    * * * * *

    Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
    Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
    Palhés e a villa de Mangualde.»

    Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:

    «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
    desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
    passa á ordem do dia–e a abotoar-se.»

    * * * * *

    Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
    ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
    ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
    crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
    tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
    crimes, cujos cumplices estão processados–d'aqui, inutil–e affirma o
    que não é–pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

    * * * * *

    Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
    Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

    No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
    que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado–não
    certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

    O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
    moção:

    «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
    tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
    instituições e contra a dynastia … Esses perigos não posso occultar á
    camara que existem … Extranho que o poder moderador não convocasse a
    camara … pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
    as instituições.»

    Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
    correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
    independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
    camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
    instituições, de respeito e affeição á dynastia_!

    O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
    conspirações continuadas.

    O partido historico caiu victima de uma conspiração.

    O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
    Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
    ao mais a que se podia chegar_.»

    Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
    partidos se reunirem e votarem unanimemente–que ninguem conspira!

    * * * * *

    Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
    luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
    espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
    Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
    artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
    Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
    pombinha branca, de assucar–tão casta!–das lampreias d'ovos.

    * * * * *

    Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
    funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
    Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
    faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
    conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
    senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
    povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
    trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
    estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
    funeral.

    Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
    longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
    imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
    entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
    multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

    Dizia-se fallando-se d'ella:

    «Deixou pouco.»

    «Que fez ella ao que tinha?»

    «Que miseravel! que mesquinha!»

    E um jornal catholico escreveu:

    «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
    cautellas de vinte e cinco.»

    Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
    homens deseguaes.

    Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
    acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
    pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
    deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

    Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
    levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
    silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
    flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
    passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
    suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
    o descanço eterno.

    E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
    que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
    nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
    encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.

    As imperatrizes–coitadas!–teem de resignar-se á sua triste condição de
    imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
    interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
    ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
    de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
    escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
    ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
    soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
    lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
    ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
    triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
    similhantes condições e com eguaes amarguras!

    Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
    suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
    descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
    gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
    devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
    considerar-se menos que quaesquer outros.

    * * * * *

    É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
    mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
    sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
    circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
    alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
    proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
    Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
    illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
    pela mulher digna e virtuosa que morreu.

    * * * * *

    Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
    perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
    reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
    insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
    feridos e dois mortos.

    Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
    programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
    ninguem era ferido.

    Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
    levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
    algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
    de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
    illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
    acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
    satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
    recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
    sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
    jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
    preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
    multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
    a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
    para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição–ao piano.

    Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
    usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
    perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
    desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
    delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
    delicto? _«Por abuso de defesa»_.

    Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
    caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
    atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico–por _abuso de
    defeza_.

    * * * * *

    Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
    clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
    armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
    Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
    desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
    pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
    contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
    Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
    por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
    espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
    Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
    rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
    barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
    momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
    musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
    diga assim:–«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
    uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
    d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

    E se o povo ainda assim resistir–diacho … então, que o exercito fuja!

    Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o …

    Mas se não foge, o ministerio publico querela-o …

    Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
    energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
    nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
    Melicio vela!

    * * * * *

    A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
    politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
    gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
    vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
    para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
    de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
    meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo–uma figura de
    rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
    de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara–uma funda.

    * * * * *

    Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
    patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
    governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
    entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
    provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
    phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
    alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
    verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
    ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
    Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
    Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
    rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

    O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
    encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
    sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
    barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
    deputado, com voz pausada e firme disse:

    «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
    espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
    a quem verdadeiramente podemos chamar …»

    Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
    bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
    bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
    momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
    multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
    tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
    um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

    O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo–«Aquelle a quem
    verdadeiramente podemos chamar»–_O sol no occaso!_ (Prolongados
    apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
    Vozes: Muito bem! muito bem!)

    * * * * *

    Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
    presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
    quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
    das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
    eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

    Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
    provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
    arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
    commum…. O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
    vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
    espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro … O senso commum com
    que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
    vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
    á beira dos golphos innundados de azul …

    Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
    a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
    monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
    Escuta-o, ó principe! Tu és–_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
    tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
    occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
    _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
    deuses immortaes, os deuses–guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
    prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
    ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
    por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
    com brisa fresca!_

    * * * * *

    Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
    vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
    camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
    evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
    que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
    phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
    proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
    nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
    modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
    seguintes:

    Sol no occaso … como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
    inspirada voz!

    Sol no occaso … qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
    assembléa, labio tão selecto como attico!

    Sol no occaso … só me é licito empregar a phrase penetrante que não
    ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
    amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

    Sol no occaso … segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
    por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
    immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

    (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
    estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
    monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

    Sol no occaso … direi pela segunda vez, se a camara permitte que
    comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já …

    (Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
    Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
    outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
    d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
    são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
    porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
    interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
    malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
    emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
    badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
    luminosamente–uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
    mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
    commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
    amigo fiel, Melicio–o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
    desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
    um desconhecido).

    * * * * *

    _Áquelle que jurou assassinar-me_

    Meu senhor–Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
    obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
    a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
    prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
    posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
    consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
    regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

    «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
    sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
    Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia…… de
    …… d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
    manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
    fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
    cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

    Omitto n'este extracto o dia e o mez–os quaes o meu amigo fixa com a
    mais amavel pontualidade–porque, sendo um negocio inteiramente
    particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
    indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
    desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
    de occupar-se do caso.

    Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
    que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas …
    Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
    de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
    pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
    o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
    momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
    atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

    Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
    poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
    assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
    viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

    Meu amigo–Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
    sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
    opinião:

    Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
    obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
    uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
    concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
    convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
    me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
    empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
    o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
    momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
    conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
    Brazil–onde custa tudo tão caro!–o barato que ha de sair ao meu amigo
    o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
    barateza que nem costumo levar nada–por me achar em casa!

    Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
    apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
    vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
    ordinariamente comsigo.

    Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
    da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
    fecha o discurso.

    Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
    assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
    que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
    que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
    violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
    e o jornalista Courrier.

    Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
    dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
    de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
    obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
    trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

    Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
    coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
    mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
    pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,–tão
    correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
    felizes,–irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
    implacaveis da desgraça!

    No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
    inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
    o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
    uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

    Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
    completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
    affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
    sentia a displicencia, a melancholia.

    Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?…

    Vermes!

    O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
    existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
    começava a nutrir–de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
    com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
    aziaticos, que o que eu tenho é–o meu amigo. Considero-o já como uma
    parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
    como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
    a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
    mezes, e todavia–como é commodo isto!–o meu amigo não me obriga a
    tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
    golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
    é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
    vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

    Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
    allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

    E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
    o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
    de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
    ventura me amam … vou descansar para debaixo dos cyprestes–bastante
    para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
    que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
    terra, que me não expulsarão nunca–elles!–da sua convivencia gulosa,
    mas discreta.

    A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será–que
    elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
    mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
    um scirrho no estomago; eu terei apenas tido–o meu amigo! o meu amigo
    que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
    caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:–ausente!

    Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
    zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

    –Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

    –Sabem … era aquelle com quem nós embirravamos …

    –O que trazia o bigode assim?…

    –Esse mesmo!

    –Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume …

    E algumas outras coisas doces e impereciveis.

    E do meu amigo dirão apenas:

    «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

    Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
    agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
    tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
    isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
    Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
    consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
    designadamente a minha … Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
    directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
    os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete–com feijão
    branco.

    * * * * *

    Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
    encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
    promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
    soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
    civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

    Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
    de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
    perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
    sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
    os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
    nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
    redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
    emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
    mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
    na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
    figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
    selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
    encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
    instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
    ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
    de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos–com
    o vate:

    _Aos infieis, senhores, aos infieis!_

    * * * * *

    D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
    resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
    individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
    ministro do reino.

    O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
    ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
    ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
    camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
    pasta para ir adoptar o seu livro.»

    O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
    aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
    pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
    de membro do actual gabinete.

    É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
    elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
    represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
    para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
    poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
    colloca-se assim na logica que leva a consideral-a–pelos effeitos
    passivos da sua inanidade–como uma especie de virtude.

    O processo d'aquelle que por uma causa qualquer–boa ou má, justa ou
    iniqua–arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
    ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
    fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
    o chão.

    Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
    ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
    guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
    papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
    que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
    era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

    Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão … Quantas
    mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
    amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
    sorrisos, com a malevolencia das allusões?

    Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
    de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
    amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
    desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

    Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
    que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
    covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
    respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
    salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
    de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
    contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
    bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
    que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
    domestica.

    A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
    fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
    _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
    publica da sua virtude.

    Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
    reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
    a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
    As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
    ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

    Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
    paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
    ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
    Porque em verdade ser apenas um ministro–unico estado social que nos
    dispensa de sermos alguma outra coisa–não é propriamente um destino.
    Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
    marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
    eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte–pela coragem,
    pelo sacrificio ou pelo talento–que são as tres maximas constellações
    do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

    Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
    interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
    inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
    viveu.

    Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
    passado no mundo.

    O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
    venturosas–com um ganso,–o sr. Jayme Moniz.

    * * * * *

    Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
    luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
    _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
    periodicos portuguezes são–anonymos.

    * * * * *

    Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
    que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:–que possa
    alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
    escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
    que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
    este:–não assignar.

    Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
    assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
    Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
    declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
    responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
    effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
    as antipathias que tenha podido suscitar.

    Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
    portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
    mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
    tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

    * * * * *

    A primeira razão por que se não assigna é esta:

    A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
    convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
    de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
    machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
    lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
    eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
    muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
    N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
    dignidade e da razão.

    Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
    perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
    firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
    transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
    necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
    _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
    resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
    imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
    opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
    catastrophe para a justiça.

    Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
    apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
    sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
    entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
    naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
    dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
    que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
    quanto mais se lê peor se escreve.

    Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
    assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
    immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

    Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
    publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
    Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
    durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
    que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
    dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
    jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

    Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
    que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
    apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
    quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
    que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
    me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
    _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
    foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
    salchicheiro.

    Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
    respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
    socialistas ou muito auctoritarios–tudo isto com a expressa condição de
    que nunca hei de saber quem elles são–dão-me exactamente aquelle
    receio:–medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
    magnezia.

    * * * * *

    Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
    Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
    representativo nacional.

    Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
    abalisam uma época, enquadram um seculo.

    Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

    «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
    sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
    determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
    respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
    para o seculo attonito uma torcida,–e a luz foi feita. Os homens, os
    principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
    geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
    frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
    isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes–ai de
    nós!–o empanaram e entenebreceram, é porque elles–o discreto Pickuick
    e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
    mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
    detinham,–geniaes, assombrosos e tremendos–para se espevitarem.»

    * * * * *

    O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
    teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
    historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
    posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
    fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
    Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
    contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
    guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
    historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
    actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
    varões extraordinarios!

    No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
    vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
    pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
    scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:–Barros
    ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
    estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
    barrete de algodão branco–casto symbolo dos sonhos immaculados–e a
    nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
    publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

    Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
    espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
    as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos–outrora tão puros!–quando
    se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
    destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
    esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
    correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
    suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
    ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
    nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
    solo e dizia-se em um documento hispanhol–a _Peninsula Iberica_, ao que
    Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
    nunca!»

    Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
    geographia–e á canalha!

    Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
    cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
    unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
    Peninsula Iberica?… Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
    isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
    pecego. Mas peninsula!… Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
    tola?… Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
    perra vil!

    E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
    os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
    devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

    Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
    benevolencia do imperador Guilherme … Pudera! aquelle que acabou com as
    peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
    congressos … Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
    a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
    cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
    tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

    Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?… Que venham! Cada fita
    de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
    botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte–de
    ôlho de perdiz!

    Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio–o
    extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria–e das
    peninsulas!

    * * * * *

    Agora–Barros.

    Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
    Brazil–grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
    consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
    o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
    phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

    Como o explica, como o justifica elle?

    Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
    occorrido a ninguem …–Pelo precedente das andorinhas!

    * * * * *

    Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
    attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
    sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
    magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia–por
    dentro,–nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

    «Elle tem alguma coisa na cabeça!»

    Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
    excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
    celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
    parisiense de Champfleury!

    Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
    um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
    é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
    trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
    intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

    Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
    simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
    o povo–e o passarinho!

    Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
    conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
    civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
    arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
    pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
    Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
    que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

    Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
    como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
    sacrosanto em que a idéa lhe veiu!…

    Estamos em que não poderia deixar de ter sido–no campo! O sabio no
    bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
    lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
    toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
    portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
    laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
    suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
    tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
    corucheu da velha ermida em ruinas— ellas, as duas, as mysticas
    amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar–a andorinha e a
    questão social–batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
    amplidões do azul em phantasticos arabescos….

    E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
    magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
    que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
    andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
    evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
    carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
    que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
    paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

    Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
    Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
    Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

    * * * * *

    Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
    homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

    Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
    profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
    e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
    manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
    comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

    O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
    recebia successivamente em tres botes tres visitas–a do porto, a da
    saude e da alfandega–cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

    Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
    visitas n'um só bote!

    E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
    discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

    * * * * *

    Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
    menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
    homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
    portentoso que pretendeu economisar á patria–dois botes!

    Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
    Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
    simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
    extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
    elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
    pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
    para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
    elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
    maiores!

    O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
    heroe–sr. Barros e Cunha–com este outro–sr. Barros e Sá. Porque–ó
    ilusão!–elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
    parecem–dois coelhos,–dois porta-machados–ou dois pretos.

    * * * * *

    No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto–um
    caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

    Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
    fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
    um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
    charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
    algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
    extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
    novos ceus, novas floras e novas faunas.

    Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

    Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
    oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
    pessoas.

    Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
    nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
    com a Russia européa.

    Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
    felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
    deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

    Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
    thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
    gelados nove mezes por anno.

    Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
    Strelitz.

    Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
    Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
    caravanas do chá….

    E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
    comeremos ninhos de andorinhas–uma especie de letria insipida, cara
    como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!–mas se
    soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
    letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
    litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
    no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
    subditos do grande Filho do Ceu.

    E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
    espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
    caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
    expresso_–o heroe do poeta Campoamor–, que devora o espaço e o tempo,
    fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
    galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
    baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

    E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
    Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
    atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
    barril immundo para um fino cristal facetado!

    * * * * *

    A camara dos srs. deputados….

    Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
    deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
    encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
    se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim–nós estamos
    como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
    cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
    freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
    apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
    permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
    desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
    aceno–tão profundamente triste para os que partem–de um lenço branco
    que palpita, ao longe!

    E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
    abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
    estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna….

    A camara pois–diziamos–querendo collocar-se ao par do que a
    civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
    leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
    realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
    um phenomeno–mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

    Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
    barril, uma pipa ou um tonel!

    E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
    problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
    camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
    revista, a celebre e immortal lei–_do engarrafamento das vasilhas_, na
    qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

    «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
    antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
    vasilhas.»

    Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
    a camara–intemerata e altiva–se acha habilitada para proceder á face
    da Europa a este milagre:

    _Engarrafar vasilhas_.

    * * * * *

    E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
    parlamentar–onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
    uma mosca caida sobre uma taça de creme–para o refugio inviolavel da
    vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
    das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
    aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
    bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
    perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
    camoeza!

    Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

    Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
    coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
    d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
    seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
    um capitalista ou um sabio.

    Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

    Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

    Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
    leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
    habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,–é não as fazer.

    Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
    grande.

    Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
    grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
    no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
    meio de não ser ridiculo:–é ficar em casa.

    Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
    trinchado por ella…. Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
    teu voltarete.

    Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
    se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
    um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
    si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
    outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
    suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
    narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
    barejes…. Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
    cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
    triste representação–de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
    veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
    verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
    das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso–porque
    elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
    orthographia, nem mão de redea!

    O que estes são–na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
    como o foste–na politica! Não tornes cá.

    Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
    beijo, desculpa…. É que nós temos razões para desconfiar,–pelas tuas
    moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
    discursos,–que tu usas _patchouly_ e comes alho.

  • Amor de Perdição Memorias d’uma familia

    Amor de Perdição Memorias d’uma familia

    Aproximadamente 50.604 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    AMOR DE PERDIÇÃO.

    AMOR DE PERDIÇÃO

    (MEMORIAS D'UMA FAMILIA).

    ROMANCE

    POR

    CAMILLO CASTELLO BRANCO.

    * * * * *

    Quem viu jámais vida amorosa, que não a visse afogada nas lagrimas do
    desastre ou do arrependimento?

    D. Francisco Manoel, (_Epanaphora amorosa_).

    * * * * *

    PORTO

    EM CASA DE N. MORÉ–EDITOR,

    PRAÇA DE D. PEDRO.

    A mesma casa em Coimbra, Rua da Calçada.

    Casa de Commissões em Paris, 2 bis, Rua d'Arcole.

    1862.

    PORTO: 1862–TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA.

    Rua do Almada, 641.

    AO ILLUSTRISSIMO E EXCELENTISSIMO SENHOR

    *ANTONIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELLO*

    DEDICA

    O Author.

    _Ill.^mo e Ex.^mo Snr.

    Ha de pensar muita gente que V. Ex.^a não dá valor algum a este livro,
    que a minha gratidão lhe dedica, porque muita gente está persuadida que
    ministros do estado não lêem novellas. É um engano. Uma vez ouvi eu um
    collega de V. Ex.^a discorrer no parlamento ácerca de caminhos de ferro.
    Com tanto engenho o fazia, de tantas flôres matizára aquella árida
    materia, que me deleitou ouvil-o. Na noite d'esse dia encontrei o
    collega de V. Ex.^a a lêr a Fanny, aquella Fanny, que sabia tanto de
    caminhos de ferro como eu.

    Que V. Ex.^a tem romances na sua bibliotheca, é convicção minha. Que lá
    tem alguns, que não leu porque o tempo lhe falece, e outros porque não
    merecem tempo, também o creio. Dê V. Ex.^a, no lote dos segundos, um
    logar a este livro, e terá assim V. Ex.^a significado que o recebe e
    aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado
    de V. Ex.^a

    Na cadêa da Relação do Porto,

    aos 26 de Setembro de 1861.

    Camillo Castello Branco_.

    PREFACIO.

    Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartorio das cadêas da
    Relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a
    folhas 232, o seguinte:

    _Simão Antonio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e
    estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa,
    e assistente na occasião de sua prisão na cidade de Vizeu, idade de
    dezoito annos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita
    Preciosa Caldeirão Castello-Branco, estatura ordinaria, cara
    redonda, olhos castanhos, cabello e barba preta, vestido com
    jaqueta de baetão azul, collête de fustão pintado e calça de panno
    pedrez. E fiz este assento, que assignei.

    Filippe Moreira Dias_.

    Á margem esquerda d'este assento está escripto:

    _Foi para a India em 17 de Março de 1807_.

    Não será fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o
    degredo de um moço de dezoito annos lhe havia de fazer dó.

    Dezoito annos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As
    louçanias do coração que ainda não sonha em fructos, e todo se embalsama
    no perfume das flôres! Dezoito annos! O amor d'aquella idade! A passagem
    do seio da familia, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as
    caricias mais dôces da virgem, que se lhe abre ao lado como flôr da
    mesma sazão e dos mesmos aromas, e á mesma hora da vida! Dezoito
    annos!… E degradado da patria, do amor, e da familia! Nunca mais o ceo
    de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem rehabilitação, nem
    dignidade, nem um amigo!… É triste!

    O leitor de certo se compungia; e a leitora se lhe dissessem, em menos
    de uma linha, a historia d'aquelles dezoito annos, choraria! Pois não? A
    olhos enchutos poderia ouvil-a a mulher, a creatura mais bem formada das
    branduras da piedade, a que por vezes traz comsigo do ceo um reflexo da
    divina misericordia, essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos
    os infelizes não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdêra
    honra, rehabilitação, patria, liberdade, irmãs, mãe, tudo, por amor da
    primeira mulher que o despertou do seu dormir de innocentes desejos?!

    Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobresalto que
    me causaram aquellas linhas, de proposito procuradas, e lidas com
    amargura e respeito e, ao mesmo tempo, odio. Odio, sim… A tempo verão
    se é perdoavel o odio, ou se antes me não fôra melhor abrir mão desde já
    de uma historia que me póde acarear enojos dos frios julgadores do
    coração, e das sentenças que eu aqui lavrar contra a falsa virtude de
    homens, feitos barbaros, em nome de sua honra.

    * * * * *

    AMOR DE PERDIÇÃO.

    PRIMEIRA PARTE.

    I.

    Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Menezes, fidalgo de
    linhagem, e um dos mais antigos solarengos de Villa Real de
    Traz-os-Montes, era, em 1779, juiz de fóra de Cascaes, e n'esse mesmo
    anno casara com uma dama do paço, D. Rita Thereza Margarida Preciosa da
    Veiga Caldeirão Castello-Branco, filha d'um capitão de cavallos, e neta
    de outro, Antonio de Azevedo Castello-Branco Pereira da Silva, tão
    notavel por sua jerarchia, como por um, n'aquelle tempo, precioso livro
    ácerca da Arte da Guerra.

    Dez annos de enamorado mal succedido consumira em Lisboa o bacharel
    provinciano. Para se fazer amar da formosa dama de D. Maria I
    minguavam-lhe dotes physicos: Domingos Botelho era extremamente feio.
    Para se inculcar como partido conveniente a uma filha segunda,
    faltavam-lhe bens de fortuna: os haveres d'elle não excediam a trinta
    mil cruzados em propriedades no Douro. Os dotes de espirito não o
    recommendavam tambem: era alcançadissimo de intelligencia, e grangeara
    entre os seus condiscipulos da universidade o epitheto de «brocas» com
    que ainda hoje os seus descendentes em Villa Real são conhecidos. Bem ou
    mal derivado, o epitheto _brocas_ vem de _brôa_. Entenderam os
    academicos que a rudeza do seu condiscipulo procedia do muito pão de
    milho que elle digeria na sua terra.

    Domingos Botelho devia ter uma vocação qualquer; e tinha: era excellenle
    flautista; foi a primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta se
    sustentou dois annos em Coimbra, durante os quaes seu pae lhe suspendeu
    as mesadas, porque os rendimentos da casa não bastavam a livrar outro
    filho de um crime de morte[1].

    Formara-se Domingos Botelho em 1767, e fôra para Lisboa lêr no
    desembargo do paço, iniciação banal dos que aspiravam á carreira da
    magistratura. Já Fernão Botelho, pae do bacharel, fôra bem acceite em
    Lisboa, e mórmente ao duque de Aveiro, cuja estima lhe teve a cabeça em
    risco, na tentativa regicida de 1758. O provinciano sahiu das masmorras
    da Junqueira illibado da infamante nodoa, e bem-quisto mesmo do conde de
    Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera do primor de sua
    genealogia sobre a dos Pintos Coelhos do Bomjardim do Porto: pleito
    ridiculo, mas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo portuense
    fizera de sua filha ao filho de Sebastião José de Carvalho.

    As artes com que o bacharel flautista vingou insinuar-se na estima de D.
    Maria I e Pedro III não as sei eu. É tradição que o homem fazia rir a
    rainha com as suas facecias, e por ventura com os tregeitos de que
    tirava o melhor do seu espirito. O certo é que Domingos Botelho
    frequentava o paço, e recebia do bolsinho da soberana uma farta pensão,
    com a qual o aspirante a juiz de fóra se esqueceu de si, do futuro, e do
    ministro da justiça, que muito rogado fiara das suas letras o encargo de
    juiz de fóra de Cascaes.

    Já está dito que elle se atreveu aos amores do paço, não poetando como
    Luiz de Camões ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa
    provinciana, e captando a bem-querença da rainha para amollecer as
    durezas da dama. Devia de ser, a final, feliz o «doutor bexiga»–que
    assim era na côrte conhecido–para se não desconcertar a discordia em
    que andam rixados o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com
    D. Rita Preciosa. Rita era uma formosura que ainda aos cincoenta annos
    se podia presar de o ser. E não tinha outro dote, se não é dote uma
    serie de avoengos, uns bispos, outros generaes, e entre estes o que
    morrêra frigido em caldeirão de não sei que terra da mourisma; gloria,
    na verdade, um pouco ardente; mas de tal monta que os descendentes do
    general frito se assignaram _Caldeirões_.

    A dama do paço não foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades da
    côrte, das pompas das camaras reaes, e dos amores de sua feição e molde,
    que immolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porém, não
    impeceu a reproduzirem-se em dois filhos e quatro meninas. O mais velho
    era Manoel, o segundo Simão; das meninas uma era Maria, a segunda Anna,
    e a ultima tinha o nome de sua mãe, e alguns traços da belleza d'ella.

    O juiz de fóra de Cascaes, solicitando logar de mais graduado banco,
    demorava em Lisboa, na freguezia da Ajuda em 1784. N'este anno é que
    nasceu Simão, o penultimo de seus filhos. Conseguiu elle, sempre
    blandiciado da fortuna, transferencia para Villa Real, sua ambição
    suprema.

    A distancia de uma legua de Villa Real estava a nobreza da villa
    esperando o seu conterraneo. Cada familia tinha a sua liteira com o
    brasão da casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no
    feitio, e as librés dos criados as mais surradas e traçadas que
    figuravam na comitiva.

    D. Rita, avistando o prestito das liteiras, ajustou ao olho direito a
    sua grande luneta de oiro, e disse:

    –Ó Menezes, aquillo que é?!

    –São os nossos amigos e parentes que veem esperar-nos.

    –Em que seculo estamos nós n'esta montanha?–tornou a dama do paço.

    –Em que seculo?! o seculo tanto é dezoito aqui como em Lisboa.

    –Ah! sim? Cuidei que o tempo parára aqui no seculo doze.

    O marido achou que devia rir-se do chiste, que o não lisonjeára
    grandemente.

    Fernão Botelho, pae do juiz de fóra, sahiu á frente do prestito para dar
    a mão á nora, que apeava da liteira, e conduzil-a á de casa. D. Rita,
    antes de vêr a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as
    fivelas de aço, e a bolsa do rabicho. Dizia ella depois que os fidalgos
    de Villa Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes
    de entrar na liteira avoenga de seu marido, perguntou, com a mais
    refalsada seriedade, se não haveria risco em ir dentro d'aquella
    antiguidade. Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira não
    tinha ainda cem annos, e que os machos não excediam a trinta.

    O modo altivo como ella recebeu as cortezias da nobreza–velha nobreza
    que para alli viera em tempo de D. Diniz, fundador da villa–fez que o
    mais novo do prestito, que ainda vivia ha doze annos, me dissesse a mim:
    «Sabiamos que ella era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com
    que nos tractou, ficamos pensando que seria ella a propria rainha.»
    Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou á Senhora de
    Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepção dos sinos era a mais
    estrondosa e barata.

    Apearam á porta da velha casa de Fernão Botelho. A aia do paço relanceou
    os olhos pela fachada do edificio, e disse de si para si: «É uma bonita
    vivenda para quem foi criada em Mafra e Cintra, na Bemposta e Queluz.»

    Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha mêdo de ser
    devorada das ratasanas; que aquella casa era um covil de feras; que os
    tectos estavam a desabar; que as paredes não resistiriam ao inverno; que
    os preceitos de uniformidade conjugal não obrigavam a morrer de frio uma
    esposa delicada e affeita ás almofadas do palacio dos reis.

    Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e começou a
    fabrica de um palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para os
    alicerces: escreveu á rainha, e obteve generoso subsidio com que ultimou
    a casa. As varandas das janellas foram a ultima dadiva que a real viuva
    fez á sua dama. Quer-nos parecer que a dadiva é um testemunho até agora
    inedito da demencia de D. Maria I.

    Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D. Rita,
    porém, teimara que no escudo se abrisse um emblema das suas; mas era
    tarde, porque já a obra tinha vindo do esculptor, e o magistrado não
    podia com segunda despeza, nem queria desgostar seu pae, orgulhoso de
    seu brasão. Resultou d'aqui ficar a casa sem armas, e D. Rita
    victoriosa[2].

    O juiz de fóra tinha alli parentella illustre. O aprumo da fidalga
    dobrou-se até aos grandes da provincia, ou antes houve por bem
    levantal-os até ella. D. Rita tinha uma côrte de primos, uns que se
    contentavam de serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O
    mais audacioso não ousava fital-a de rosto, quando o ella remirava com a
    luneta em geito de tanta altivez e zombaria, que não será estranha
    figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante
    sentinella da sua virtude.

    Domingos Botelho desconfiava da efficacia dos merecimentos proprios para
    cabalmente encher o coração de sua mulher. Inquietava-o o ciume; mas
    suffocava os suspiros, receando que Rita se désse por injuriada da
    suspeita. E razão era que se offendesse. A neta do general frigido no
    caldeirão sarraceno ria dos primos, que, por amor d'ella, arriçavam e
    empoavam as cabelleiras com um desgracioso esmero, ou cavalleavam
    estrepitosamente na calçada os seus ginetes, fingindo que os picadores
    da provincia não desconheciam as graças hippicas do marquez de Marialva.

    Não o cuidava assim, porém, o juiz de fóra. O intriguista que lhe trazia
    o espirito em ancias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e
    conhecia Rita cada vez mais em flôr, e mais enfadada no trato intimo.
    Nenhum exemplo da historia antiga, exemplo de amor sem quebra entre o
    esposo deforme e a esposa linda, lhe occorria. Um só lhe mortificava a
    memoria, e esse, com quanto fosse da fabula, era-lhe avêsso, e vinha a
    ser o casamento de Venus e Vulcano. Lembravam-lhe as rêdes que o
    ferreiro coixo fabricára para apanhar os deuses adulteros, e
    assombrava-se da paciencia d'aquelle marido. Entre si, dizia elle, que,
    erguido o véo da perfidia, nem se queixaria a Jupiter, nem armaria
    ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Luiz Botelho, que varára em
    terra o alferes, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fóra
    era entendido com muito superior intelligencia á que revelava na
    comprehensão do Digesto e das Ordenações do Reino.

    Este viver de sobresaltos durou seis annos, ou mais seria. O juiz de
    fóra empenhára os seus amigos na transferencia, e conseguiu mais do que
    ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou
    saudades em Villa Real, e duradoura memoria da sua soberba, formosura e
    graças de espirito. O marido tambem deixou anecdotas que ainda agora se
    repetem. Duas contarei sómente para não enfadar. Acontecèra um lavrador
    mandar-lhe o presenle de uma vitella, e mandar com ella a vacca para se
    não desgarrar a filha. Domingos Botelho mandou recolher á loja a vitella
    e a vacca, dizendo que quem dava a filha dava a mãe. Outra vez, deu-se o
    caso de lhe mandarem um presente de pasteis em rica salva de prata. O
    juiz de fóra repartiu os pasteis pelos meninos, e mandou guardar a
    salva, dizendo que receberia como escarneo um presente de dôces, que
    valiam dez patacões, sendo que naturalmente os pasteis tinham vindo como
    ornato da bandeja. E assim é que ainda hoje, em Villa Real, quando se dá
    um caso analogo de ficar alguem com o conteúdo e continente, diz a gente
    da terra: «Aquelle é como o doutor brocas.»

    Não tenho assumpto de tradição com que possa deter-me em miudezas da
    vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a
    comarca, e ameaçava o marido de ir com os seus cinco filhos para Lisboa,
    se elle não sahisse d'aquella intratavel terra. Parece que a fidalguia
    de Lamego, em todo o tempo orgulhosa d'uma antiguidade, que principia na
    acclamação de Almacave, desdenhou a philaucia da dama do paço, e
    esmerilhou certas vergonteas pôdres do tronco dos Botelhos Correias de
    Mesquita, desprimorando-lhe as sãs com o facto de elle ter vivido dois
    annos em Coimbra tocando flauta.

    Em 1801 achamos Domingos José Correia Botelho de Mesquita corregedor em
    Vizeu.

    Manoel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois annos, e frequenta
    o segundo anno juridico. Simão, que tem quinze, estuda humanidades em
    Coimbra. As tres meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua
    mãe.

    O filho mais velho escreveu a seu pae queixando-se de não poder viver
    com seu irmão, temeroso do genio sanguinario d'elle. Conta que a cada
    passo se vê ameaçado na vida, porque Simão emprega em pistolas o
    dinheiro dos livros, e convive com os mais famosos perturbadores da
    academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e
    provocando-os á luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu
    filho Simão, e diz á consternada mãe que o rapaz é a figura e o genio de
    seu bisavô Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que déra
    Traz-os-Montes.

    Manoel, cada vez mais aterrado das arremettidas de Simão, sáe de Coimbra
    antes de ferias, e vai a Vizeu queixar-se, e pedir que lhe dê seu pae
    outro destino. D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavallaria. De
    Vizeu parte para Bragança Manoel Botelho, e justifica-se nobre dos
    quatro costados para ser cadete.

    No entanto Simão recolhe a Vizeu com os seus exames feitos e approvados.
    O pae maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagancia
    por amor do talento. Pede-lhe explicações do seu mau viver com Manoel, e
    elle responde que seu irmão o quer forçar a viver monasticamente.

    Os quinze annos de Simão tem apparencias de vinte. É forte de
    compleição; bello homem com as feições de sua mãe, e a corpolencia
    d'ella; mas de todo avêsso em genio. Na plebe de Vizeu é que elle
    escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição
    que faz, Simão zomba das genealogias, e mórmente do general Caldeirão
    que morreu frito. Isto bastou para elle grangear a mal-querença de sua
    mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte
    no desgosto d'ella, e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante
    Rita, a mais nova, com quem elle brincava puerilmente, e a quem
    obedecia, se lhe ella pedia, com meiguices de criança, que não andasse
    com pessoas mecanicas.

    Finalisavam as ferias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um de
    seus criados tinha ido levar a beber os machos, e por descuido ou
    proposito deixou quebrar algumas vasilhas que estavam á vez no parapeito
    do chafariz. Os donos das vazilhas conjuraram contra o criado, e
    espancaram-no. Simão passava n'esse ensejo; e, armado d'um fueiro que
    descravou d'um carro, partiu muitas cabeças, e rematou o tragico
    espectaculo pela farça de quebrar todos os cantaros. O povoleu intacto
    fugira espavorido, que ninguem se atrevia ao filho do corregedor; os
    feridos, porém, incorporaram-se e foram clamar justiça á porta do
    magistrado.

    Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral que
    o prendesse á sua ordem. D. Rita, não menos irritada, mas irritada como
    mãe, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem
    detença, fugisse para Coimbra, e esperasse lá o perdão do pae.

    O corregedor, quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se
    zangado, e prometteu fazel-o capturar em Coimbra. Como, porém, D. Rita
    lhe chamasse brutal nas suas vinganças, e estupido juiz d'uma rapaziada,
    o magistrado desenrugou a severidade postiça da testa, e confessou
    tacitamente que era brutal e estupido juiz.

    II.

    Simão Botelho levou de Vizeu para Coimbra as arrogantes convicções da
    sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que
    pozera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada
    d'este, o levantar-se d'aquelle ensanguentado, a bordoada que abrangia
    tres a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o
    estrepito dos cantaros a final, Simão deliciava-se n'estas lembranças,
    como ainda não vi n'algum drama, em que o veterano de cem batalhas
    relembra os lourós de cada uma, e esmorece, a final, estafado de
    espantar, quando não é de estafar, os ouvintes.

    O academico, porém, com os seus enthusiasmos era incomparavelmente muito
    mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragedia. As
    recordações esporeavam-no a façanhas novas, e n'aquelle tempo a academia
    dava azo a ellas. A mocidade estudiosa, em grande parte, sympathisava
    com as balbuciantes theorias da liberdade, mais por presentimento que
    por estudo. Os apostolos da revolução franceza não tinham podido fazer
    reboar o trovão dos seus clamores n'este canto do mundo; mas os livros
    dos encyclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebêra a peçonha
    que sahiu no sangue de noventa e tres, não eram de todo ignorados. As
    doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns timidos
    sectarios em Portugal, e esses de vêr é que deviam pertencer á geração
    nova. Além de que, o rancor a Inglaterra lavrava nas entranhas das
    classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de
    estranhos, apertado, desde o principio do seculo anterior, com as sôgas
    de ruinosos e perfidos tractados, estava no animo de muitos e bons
    portuguezes que se queriam antes alliançados com a França, Estes eram os
    pensadores reflexivos; os sectarios da academia, porém, exprimiam mais a
    paixão da novidade que as doutrinas do raciocinio.

    No anno anterior de 1800 sahira Antonio de Araujo de Azevedo, depois
    conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal.
    Rejeitaram-lhe as potencias alliadas as propostas, tendo-lhe em conta de
    nada os dezeseis milhões que o diplomata offerecia ao primeiro consul.
    Sem delongas, foi o territorio portuguez infestado pelos exercitos de
    Hespanha e França. As nossas tropas, commandadas pelo duque de Lafões,
    não chegaram a travar a lucta desigual, porque, a esse tempo, Luiz Pinto
    de Sousa, mais tarde visconde de Balsemão, negociara ignominiosa paz em
    Badajoz, com cedencia de Olivença á Hespanha, exclusão de inglezes dos
    nossos portos, e indemnisação de alguns milhões á França.

    Estes successos tinham irritado contra Napoleão os animos d'aquelles que
    odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do
    rompimento com Inglaterra. Entre os d'esta parcialidade, na convulsiva e
    irriquieta academia, era voto de grande monta Simão Botelho, apesar dos
    seus imberbes dezeseis annos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins,
    e muitos outros algozes e martyres do grande açougue, eram nomes de
    soada musical aos ouvidos de Simão. Diffamal-os na sua presença era
    affrontarem-no a elle, e bofetada certa, e pistolas engatilhadas á cara
    do diffamador. O filho do corregedor de Vizeu defendia que Portugal
    devia regenerar-se n'um baptismo de sangue, para que a hydra dos
    tyrannos não erguesse mais uma das suas mil cabeças sob a clava do
    Hercules popular.

    Estes discursos, arremêdo d'alguma clandestina objurgatoria de
    Saint-Just, afugentavam da sua communhão aquelles mesmos que o tinham
    applaudido em mais racionaes principios de liberdade. Simão Botelho
    tornou-se odioso aos condiscipulos que, para se salvarem pela infamia, o
    delataram ao bispo-conde, reitor da universidade.

    Um dia proclamava o demagogo academico na praça de Sansão aos poucos
    ouvintes que lhe restaram fieis, uns por mêdo, outros por analogia de
    boças. O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma
    escolta de verdeaes lhe aguou a escandecencia. Quiz o orador resistir,
    aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braços musculosos da
    cohorte do bispo-conde com quem as haviam. O jacobino, desarmado e
    cerrado entre a escolta dos archeiros, foi levado ao carcere academico,
    d'onde sahiu, seis mezes depois, a grandes instancias dos amigos de seu
    pae e dos parentes de D. Rita Preciosa.

    Perdido o anno lectivo, foi para Vizeu Simão. O corregedor repelliu-o da
    sua presença com ameaças de o expulsar de casa. A mãe, mais levada do
    dever que do coração, intercedeu pelo filho, e conseguiu sental-o á mesa
    commum.

    No espaço de tres mezes fez-se maravilhosa mudança nos costumes de
    Simão. As companhias da ralé despresou-as. Sahia de casa raras vezes, ou
    só, ou com a irmã mais nova, sua predilecta. O campo, as arvores, e os
    sitios mais sombrios e êrmos eram o seu recreio. Nas dôces noites de
    estio demorava-se por fora até ao repontar da alva; e aquelles que assim
    o viam admiravam-lhe o ar scismador e o recolhimento que o sequestrava
    da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e sahia quando o
    chamavam para a mesa.

    D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido d'ella, ao
    fim de cinco mezes consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.

    Simão Botelho amava. Ahi está uma palavra unica, explicando o que
    parecia absurda reforma aos dezesete annos.

    Amava Simão uma sua visinha, menina de quinze annos, rica herdeira,
    regularmente bonita e bem nascida. Da janella do seu quarto é que elle a
    vira a primeira vez para amal-a sempre. Não ficara ella incolume da
    ferida que fizera no coração do visinho: amou-o tambem, e com mais
    seriedade que a usual nos seus annos.

    Os poetas cansam-nos a paciencia a fallarem do amor da mulher aos quinze
    annos, como paixão perigosa, unica, e inflexivel. Alguns prosadores de
    romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze annos é uma
    brincadeira; é a ultima manifestação do amor ás bonecas; é a tentativa
    da avesinha que ensaia o vôo fóra do ninho, sempre com os olhos fitos na
    ave mãe que a está da fronde proxima chamando: tanto sabe a primeira o
    que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.

    Thereza de Albuquerque devia ser, por ventura, uma excepção no seu amor.

    O magistrado e sua familia eram odiosos ao pae de Thereza, por motivos
    de litigios em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afóra
    isso, ainda no anno anterior dois criados de Thadeu de Albuquerque
    tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. Salta aos olhos
    que o amor de Thereza, declinando de si o dever de obtemperar e
    sacrificar-se ao justo azedume de seu pae, era verdadeiro e forte.

    E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e
    fallaram-se tres mezes, sem darem rebate á visinhança, e nem sequer
    suspeitas ás duas familias. O destino, que ambos se promettiam, era o
    mais honesto: elle ia formar-se para poder sustental-a, se não tivessem
    outros recursos; ella esperava que seu velho pae fallecesse para,
    senhora sua, lhe dar com o coração o seu grande patrimonio. Espanta
    discrição tamanha na indole de Simão Botelho, e na presumivel ignorancia
    de Thereza em coisas materiaes da vida, como são um patrimonio!

    Na vespera da sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se
    da suspirosa menina, quando subitamente ella foi arrancada da janella. O
    allucinado moço ouviu gemidos d'aquella voz que, um momento antes,
    soluçava commovida por lagrimas de saudade. Subiu-lhe o sangue á cabeça;
    contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexiveis da
    jaula. Teve tentações de se matar, na impotencia de soccorrêl-a. As
    restantes horas d'aquella noite passou-as em raivas e projectos de
    vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança
    com os calculos.

    Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal
    modo desfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado d'elle, foi
    ao quarto interrogal-o e despersuadil-o de ir era quanto assim estivesse
    febril. Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para
    Coimbra, e esperar lá noticias de Thereza, e vir a Vizeu occultamente
    fallar com ella. Ajuizadamente discorrêra elle, que a sua demora
    aggravaria a situação de Thereza.

    Descêra o academico ao páteo, depois de abraçar a mãe e irmãs, e beijar
    a mão do pae, que para esta hora reservara uma admoestação severa, a
    ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se elle recahisse em
    novas extravagancias. Quando mettia o pé no estribo, viu a seu lado uma
    velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta, como quem pede esmola, e, na
    palma da mão, um pequeno papel. Sobresaltou-se o moço; e, a poucos
    passos distante de sua casa, leu estas linhas:

    «Meu pae diz que me vai encerrar n'um convento, por tua causa. Soffrerei
    tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-has no convento, ou
    no ceo, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá
    irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de
    responder á tua pobre Thereza.»

    A mudança do estudante maravilhou a academia. Se o não viam nas aulas,
    em parte nenhuma o viam. Das antigas relações restavam-lhe apenas as dos
    condiscipulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no
    carcere de seis mezes, dando-lhe alentos e recursos, que seu pae lhe não
    dava, e sua mãe escassamente suppria. Estudava com fervor, como quem já
    d'alli formava as bases do futuro renome e da posição por elle merecida,
    bastante a sustentar dignamente a esposa. A ninguem confiava o seu
    segredo, senão ás cartas que enviava a Thereza, longas cartas em que
    folgava o espirito da canceira da sciencia. A apaixonada menina
    escrevia-lhe a miudo, e já dizia que a ameaça do convento fôra mero
    terror de que já não tinha mêdo, porque seu pae não podia viver sem
    ella.

    Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simão, chamado em pontos
    difficeis das materias do primeiro anno, tal conta deu de si, que os
    lentes e os condiscipulos o houveram como primeiro premiado.

    A este tempo, Manoel Botelho, cadete em Bragança, destacado no Porto,
    licenciou-se para estudar na universidade as mathematicas. Animou-o a
    noticia do reviramento que se déra em seu irmão. Foi viver com elle;
    achou-o quieto; mas alheado n'uma ideia que o tornava misanthropo e
    intratavel n'outro genero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da
    separação um desgraçado amor de Manoel Botelho a uma açoriana casada com
    um academico. A esposa apaixonada perdeu-se nas illusões do cego amante.
    Deixou o marido, e fugiu com elle para Lisboa, e d'ahi para Hespanha. Em
    outro relanço d'esta narrativa darei conta do remate d'este episodio.

    No mez de Fevereiro de 1803 recebeu Simão Botelho uma carta de Thereza.
    No seguinte capitulo se diz minuciosamente a peripecia que forçára a
    filha de Thadeu de Albuquerque a escrever aquella carta de pungentissima
    surpreza para o academico, convertido aos deveres, á honra, á sociedade
    e a Deus pelo amor.

    III.

    O pae de Thereza não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o
    ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o odio de
    um e o desprêso do outro. O magistrado mofava do rancor do seu visinho,
    e o visinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. Este
    sabia da injuriosa vingança em que o outro se ia despicando; fingia-se
    invulneravel á detracção; mas de dia para dia se lhe azedava a bilis; e
    é de crêr que, se o não contivessem considerações de familia, soffreria
    menos, desabafando pela bôca d'um bacamarte, arma da predilecção dos
    Botelhos Correias de Mesquita. Era obra sobrehumana o reconciliarem-se.
    Rita, a filha mais nova, estava um dia na janella do quarto de Simão, e
    viu a visinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mãos. Sabia
    Thereza que era aquella menina a mais querida irmã de Simão, e a que
    mais semelhança de parecer tinha com elle. Sahiu da sua artificial
    indifferença, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mão um
    gesto e sorrindo para ella. A filha do corregedor sorriu tambem, mas
    fugiu logo da janella, porque sua mãe tinha prohibido ás filhas de
    trocarem vistas com pessoa d'aquella casa.

    No dia seguinte á mesma hora, levada da sympathia que lhe causára
    aquelle sorriso e aceno, tornou Rita á janella, e lá viu Thereza com os
    olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com
    resguardo, afastando-se, a um tempo, do peitoril das janellas; e assim,
    ambas de pé, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a
    rua era estreita, podiam ouvir-se fallando baixo. Thereza, mais pelo
    movimento dos labios que por palavras, perguntou a Rita se era sua
    amiga. A menina respondeu com um gesto affirmativo, e fugiu,
    acenando-lhe um adeus. Estes rapidos instantes de se vêrem repetiram-se
    successivos dias, até que, perdido o maior mêdo de ambas, ousaram
    demorar-se em palestras a meia voz. Thereza fallava de Simão, contava á
    menina de onze annos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ella havia
    de ser ainda sua irmã, recommendando-lhe muito que não dissesse nada á
    sua familia.

    N'uma d'essas conversações, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz
    que foi ouvida d'uma irmã, que a foi logo accusar ao pae. O corregedor
    chamou Rita, e forçou-a pelo terror a contar tudo que ouvira á visinha.
    Tanta foi sua cólera, que, sem attender ás razões da esposa, que viera
    espavorida dos gritos d'elle, correu ao quarto de Simão, e viu ainda
    Thereza á janella.

    Ólé!–disse elle á pállida menina–Não tenha a confiança de pôr olhos em
    pessoa de minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que é um
    digno genro de seu pae.

    Thereza não ouviu o remate da brutal apostrophe: tinha fugido aturdida e
    envergonhada. Porém, como o desabrido ministro ficasse bramindo no
    quarto, e Thadeu de Albuquerque sahisse a uma janella, a cólera
    d'aquelle redobrou, e a torrente das injurias, longo tempo represada,
    bateu no rosto do visinho, que não ousou replicar-lhe.

    Thadeu interrogou sua fllha, e acreditou que foi causa á sanha de
    Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando innocentemente, por
    tregeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de
    Thereza, admoestando-a a que não voltasse áquella janella.

    Esta mansidão do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicação
    no projecto de casar em breve a filha com seu primo Balthazar Coutinho,
    de Castro-d'Aire, senhor de casa, e egualmenle nobre da mesma prosapia.
    Cuidava o velho, presumpçoso conhecedor do coração das mulheres, que a
    brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao
    esquecimento d'aquelle pueril amor a Simão. Era maxima sua que o amor,
    aos quinze annos, carece de consistencia para sobreviver a uma ausencia
    de seis mezes. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As
    excepções tem sido o ludibrio dos mais assizados pensadores, tanto no
    especulativo como na sciencia positiva. Não era muito que Thadeu de
    Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas
    variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma maxima
    póde ser-nos guia, a não ser esta: «Em cada mulher, quatro mulheres
    incomprehensiveis, pensando alternadamente como se hão de desmentir umas
    ás outras.» Isto é o mais seguro; mas não é infallivel. Ahi está Thereza
    que parece ser unica em si. Dir-se-ha que as tres da conta, que diz a
    sentença, não podem coexistir com a quarta, aos quinze annos? Tambem o
    penso assim, posto que a fixidez, a constancia d'aquelle amor, funda em
    causa independente do coração: é porque Thereza não vai á sociedade, não
    tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso d'outros
    galans, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida
    pela ausencia, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor
    nas palavras que a convencem de que ha um coração para cada homem, e uma
    só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Thereza teria em si
    as quatro mulheres da maxima, se o vapor de quatro incensorios lhe
    estonteasse o espirito? Não é facil, nem preciso decidir; e vamos ao
    conto.

    Ácerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Thadeu de Albuquerque
    proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que
    elle fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro d'Aire, e
    prevenil-o do seu designio, para que elle em face de Thereza procedesse
    como convinha a um enamorado de feição, que mutuamente se apaixonassem e
    promettessem auspicioso futuro ao casamento.

    Por parte de Balthazar Coutinho a paixão inflammou-se tão depressa,
    quanto o coração de Thereza se congelou de terror e repugnancia. O
    morgado de Castro-d'Aire, attribuindo a frieza de sua prima a modestia,
    a innocencia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre d'aquella
    alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista.
    Verdade é que Balthazar nunca se explicara de modo que Thereza lhe désse
    resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, affoitou-se o
    ditoso noivo a fallar assim á melancólica menina:

    –É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a
    ouvir-me?

    —Eu estou sempre bem disposta a ouvil-o, primo Balthazar.

    A desplicencia enfadosa d'esta resposta abalou algum tanto as convicções
    do fidalgo, respeito á innocencia, modestia e acanhamento de sua prima.
    Ainda assim quiz elle no momento persuadir-se que a boa vontade não
    poderia exprimir-se d'outro modo, e continuou:

    –Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as
    nossas casas se unam.

    Thereza impallideceu, e baixou os olhos.

    –Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradavel?!–proseguiu Balthazar,
    rebatido pela desfiguração de Thereza.

    –Disse-me o que é impossível fazer-se–respondeu ella sem turvação–O
    primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua
    amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo
    pensava em tal.

    –Quer dizer que me aborrece, prima Thereza?–atalhou corrido o morgado.

    –Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não
    devo ser esposa d'um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não
    seria só minha…

    –Muito bem… Posso eu saber–tornou com refalsado sorriso o
    primo–quem é que me disputa o coração de minha prima?

    –Que lucra em o saber?

    –Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem… é
    exacto?

    –É.

    –E com tamanha paixão que desobedece a seu pae?

    –Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma
    filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pae; mas eu não
    disse ao primo Balthazar que casava; disse-lhe unicamente que amava.

    –Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de dizer!… quem
    pensaria que os seus dezeseis annos estavam tão abundantes de
    palavras!…

    –Não são só palavras, primo–retorquiu Thereza com gravidade–são
    sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu
    mentisse ficaria mais bem vista de meu primo?

    –Não, prima Thereza; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.
    Ora, olhe, não duvída declarar quem é o ditoso mortal da sua
    preferencia?

    –Que lhe faz saber isso?

    –Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me
    vêr vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus
    olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo
    Balthazar, se o tivesse em conta do seu amigo intimo?

    –N'essa conta é que eu o não posso já ter…–respondeu Thereza,
    sorrindo e contando, como elle, as syllabas das palavras.

    –Pois nem para amigo me quer?!

    –O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em
    diante meu inimigo.

    –Pelo contrario…–tornou elle com mal rebuçada ironia–muito pelo
    contrario… Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir
    casada com algum miseravel indigno de si.

    –Casada!…–interrompeu ella; mas Balthazar cortou-lhe logo a réplica
    d'este modo:

    –Casada com algum famoso ébrio ou jogador de páo, valentão de
    aguadeiros, e distincto cavalheiro que passa os annos lectivos
    encarcerado nas cadêas de Coimbra…

    Visivel é que Balthazar Coutinho estava senhor do segredo de Thereza.
    Seu tio, naturalmente, lhe communicara a criancice da prima, talvez
    antes de destinar-lh'a esposa.

    Ouvira Thereza o tom sarcastico d'aquellas palavras, e erguêra-se
    respondendo assim com altivez:

    –Não tem mais que me diga, primo Balthazar?

    –Tenho, prima: queira sentar-se algum tempo mais. Não cuide agora que
    está fallando com o namorado infeliz: convença-se de que falla com o seu
    mais proximo parente e mais sincero amigo, e mais decidido guarda da sua
    dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade
    de seu pae, uma ou outra vez conversára da janella com o filho do
    corregedor. Não dei valor ao successo, e tomei-o como criancice. Como eu
    frequentasse o meu ultimo anno em Coimbra, ha dois annos conheci de
    sobra Simão Botelho. Quando vim e me contaram a sua affeição ao
    academico, pasmei da boa fé da priminha; depois entendi que a sua mesma
    innocencia devia ser o seu anjo custodio. Agora, como seu amigo,
    cumpunjo-me de a vêr ainda fascinada pela perversidade do seu visinho.
    Não se recorda de ter visto Simão Botelho sociando com a infima
    vilanagem d'esta terra? Não viu os seus criados com as cabeças quebradas
    pelo tal varredor de feiras? Não lhe constou que elle, em Coimbra,
    abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador de
    estradas, proclamando á canalha a guerra aos nobres, e aos reis, e á
    religião de nossos paes? A prima ignoraria isto por ventura?

    –Ignorava parte d'isso, e não me afflige o sabêl-o. Desde que conheci
    Simão, não me consta que elle tenha dado o menor desgosto á sua familia,
    nem ouço fallar mal d'elle.

    –E está por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor a reforma de
    costumes?

    –Não sei, nem penso n'isso–replicou com enfado Thereza.

    –Não se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ultimas palavras: eu hei
    de, em quanto viver, trabalhar para salval-a das garras de Simão
    Botelho. Se seu pae lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos
    ataques do seu demonio, eu farei vêr ao valentão que a victoria sobre os
    aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fóra da
    casa de meu tio Thadeu d'Albuquerque.

    –Então o primo quer-me governar?–atalhou ella com desabrida irritação.

    –Quero-a dirigir em quanto a sua razão precisar de auxilio. Tenha
    juizo, e eu serei indifferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima
    Thereza.

    Balthazar Coutinho foi d'ali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial
    do dialogo. Thadeu, atonito da coragem da filha, e ferido no coração e
    direitos paternaes, correu ao quarto d'ella, disposto a espancal-a.
    Reteve-o Balthazar, reflexionando-lhe que a violencia prejudicaria muito
    a crise, sendo coisa de esperar que Thereza fugisse de casa. Refreou o
    pae a sua ira, e meditou. Horas depois chamou sua filha, mandou-a sentar
    ao pé de si, e em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era
    sua vontade casal-a com o primo; porém que elle já sabia que a vontade
    de sua filha não era essa. Ajuntou que a não violentaria; mas tambem não
    consentiria que ella, sovando aos pés o pundonor de seu pae, se désse de
    coração ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar
    na sepultura, e mais depressa desceria a ella, perdendo o amor da filha,
    que elle já considerava morta. Terminou perguntando a Thereza, se ella
    duvidava entrar n'um convento, e ahi esperar que seu pae morresse, para
    depois ser desgraçada á sua vontade.

    Thereza respondeu, chorando, que entraria n'um convento, se essa era a
    vontade de seu pae; porém que se não privasse elle de a ter em sua
    companhia, nem a privasse a ella dos seus affectos, por mèdo de que sua
    filha praticasse alguma acção indigna, ou lhe desobedecesse no que era
    virtude obedecer. Prometteu-lhe julgar-se morta para todos os homens,
    menos para seu pae.

    Thadeu ouviu-a, e não lhe replicou.

    IV.

    O coração de Thereza estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao
    coração!

    Para finos entendedores, o dialogo do anterior capitulo definiu a filha
    de Thadeu de Albuquerque. É mulher varonil, tem força de caracter,
    orgulho fortalecido pelo amor, despêgo das vulgares apprehensões, se são
    apprehensões a renuncia que uma filha faz de sua vontade ás
    imprevidentes e caprichosas vontades de seu pae. Diz boa gente que não,
    e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será aleive attribuir-lhe
    uma pouca de astucia, ou hypocrisia, se quizerem; perspicacia seria mais
    correcto dizer. Thereza adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na
    estrada real da vida, e que os melhores fins se attingem por atalhos
    onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na
    idade inexperta de Thereza; mas a mulher do romance quasi nunca é
    trivial, e esta, de que resam os meus apontamentos, não o era. A mim me
    basta para crêr em sua distincção a celebridade que ella veio a ganhar á
    conta da desgraça.

    Da carta que ella escreveu a Simão Botelho, contando as scenas
    descriptas, a critica deduz que a menina de Vizeu contemporisava com o
    pae, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem
    romper com o velho em manifesta desobediencia. Na narrativa que fez ao
    academico omittiu ella as ameaças do primo Balthazar, clausula que, a
    ser transmittida, arrebataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios
    e ferocidade para mantêl-os.

    Mas não é esta ainda a carta que surprendeu Simão Botelho.

    Parecia bonançoso o ceo de Thereza. Seu pae não fallava em claustro, nem
    em casamento. Balthazar Coutinho voltára ao seu solar de Castro-d'Aire.
    A tranquilla menina dava semanalmente estas boas novas a Simão, e este,
    alliando ás venturas do coração as riquezas do espirito, estudava
    incessantemente, e desvelava as noites arquitectando o seu edifício de
    futura gloria.

    Ao romper d'alva, d'um domingo de Junho de 1803, foi Thereza chamada
    para ir com seu pae á primeira missa da igreja parochial. Vestiu-se a
    menina assustada, e encontrou o velho na ante-camara a recebêl-a com
    muito agrado, perguntando-lhe se ella se erguia de bons humores para dar
    ao author de seus dias um resto de velhice feliz. O silencio de Thereza
    era interrogador.

    –Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Ballhazar, minha filha. É
    preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pae. Logo que
    déres este passo difficil, conhecerás que a tua felicidade é d'aquellas
    que precisam ser impostas pela violencia. Mas repara, minha querida
    filha, que a violencia de um pae é sempre amor. Amor tem sido a minha
    condescendencia e brandura para comtigo. Outro teria subjugado a tua
    desobediencia com maus tractos, com os rigores do convento, e talvez com
    o desfalque do teu grande patrimonio. Eu, não. Esperei que o tempo te
    aclarasse a razão, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabolico
    prestigio do maldito, que acordou o teu innocente coração. Não te
    consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexão
    fizesse mal ao fervor de boa filha com que tu vais abraçar teu pae, e
    agradecer-lhe a sisudez com que elle respeitou o teu genio, velando
    sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.

    Thereza não desfitou os olhos do pae; mas tão abstrahida estava, que
    escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ultimas.

    –Não me respondes, Thereza?!- tornou Thadeu, tomando-lhe caridosamente
    as mãos.

    –Que hei-de eu responder-lhe, meu pae?–balbuciou ella.

    –Dás-me o que te peço? enches de contentamento os poucos dias que me
    restam?

    –E será o pae feliz com o meu sacrificio?

    –Não digas sacrificio, Thereza… A'manhã a estas horas verás que
    transfiguração se fez na tua alma. Teu primo é um composto de todas as
    virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moço lhe falta, como se a
    riqueza, a sciencia e as virtudes não bastassem a formar um marido
    excellente.

    –E elle quer-me, depois de eu me ter negado?–disse ella com amargura
    ironica.

    –Se elle está apaixonado, filha!… e tem bastante confiança em si para
    crêr que tu has de amal-o muito!…

    –E não será mais certo odial-o eu sempre!? Eu agora mesmo o abomino
    como nunca pensei que se podesse abominar! Meu pae…–continuou ella,
    chorando, com as mãos erguidas–mate-me; mas não me force a casar com
    meu primo! E' escusada a violencia, porque eu não caso!..

    Thadeu mudou de aspecto, e disse irado:

    –Hás de casar! Quero que cases! Quero!… Quando não, amaldiçoada serás
    para sempre, Thereza! Morrerás n'um convento! Esta casa irá para teu
    primo! Nenhum infame ha de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se
    és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar
    appellidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pae
    d'esse miseravel que tu amas! Maldita sejas! Entra n'esse quarto, e
    espera que d'ahi te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.

    Thereza ergueu-se sem lagrimas, e entrou serenamente no seu quarto.
    Thadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:

    –Não te posso dar minha filha, porque já não tenho filha. A miseravel,
    a quem dei este nome, perdeu-se para nós e para ella.

    Balthazar, que, a juizo de seu tio, era um composto de excellencias,
    tinha apenas uma quebra: a absoluta carencia de brios. Malograda a
    tentativa do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de
    Thereza, dizendo ao velho que elle o livraria do assedio em que Simão
    Botelho lhe tinha o coração da filha. Não approvou a reclusão no
    convento, discorrendo sobre as hypotheses infamantes que a opinião
    publica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse
    que o filho do corregedor viesse de Coimbra.

    Ponderaram no animo do velho as razões de Balthazar. Thereza
    maravilhou-se da quietação inesperada de seu pae, e desconfiou da
    incoherencia. Escreveu a Simão. Nada lhe escondeu do succedido; nem as
    ameaças de Balthazar por delicadeza supprimiu. Rematava communicando-lhe
    as suas suspeitas de alguma nova traça de violencia melhor agourada.

    O academico, chegando ao periodo das ameaças, já não tinha clara luz nos
    olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezões, e as artérias
    frontaes arfavam-lhe entumecidas. Não era sobresalto do coração
    apaixonado: era a indole soberba que lhe escaldava o sangue. Ir d'ali a
    Castro-d'Aire, e apunhalar o primo de Thereza na sua propria casa, foi o
    primeiro conselho, que lhe segredou a furia do odio. N'este proposito
    sahiu, alugou cavallo, e recolheu a vestir-se de jornada. Já preparado,
    a cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavallo demorou-se
    meia hora, e o seu bom anjo, n'este espaço, vestido com as galas com que
    elle vestia na imaginação Thereza, deu-lhe rebates de saudade d'aquelles
    tempos e ainda das horas d'aquelle mesmo dia, em que scismava na
    felicidade que o amor lhe promettia, se a elle procurasse no caminho do
    trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto affecto, como
    se em cada um estivesse uma pagina da historia do seu coração. Nenhuma
    d'aquellas paginas tinha elle lido, sem que a imagem de Thereza lhe
    apparecesse a fortalecêl-o para vencer os tédios da continuada
    applicaçao, e os impetos d'um natural inquieto e ancioso de commoções
    desusadas. «E ha de tudo acabar assim?»–pensava elle, com a face entre
    as mãos, encostado á sua banca de estudo.–«Ainda ha pouco eu era tão
    feliz!…»–«Feliz!»–repetiu elle erguendo-se de golpe–«quem póde ser
    feliz com a deshonra d'uma ameaça impune!… Mas eu perco-a! Nunca mais
    hei de vêl-a… Fugirei como um assassino, e meu pae será o meu primeiro
    inimigo, e ella mesma ha de horrorisar-se da minha vingança… A ameaça
    só ella a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Thereza,
    pelos insultos do miseravel, talvez que ella os não repetisse…»

    Simão Botelho releu a carta duas vezes, e á terceira leitura achou menos
    affrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finaes desmentiam
    formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho o
    atormentava: eram expressões ternas, supplicas ao seu amor como
    recompensa dos passados e futuros desgostos, visões encantadoras do
    futuro, novos juramentos de constancia, e sentidas phrases de saudade.

    Quando o arreeiro bateu á porta, Simão Botelho já não pensava em matar o
    homem de Castro-d'Aire; mas resolvêra ir a Vizeu, entrar de noite,
    esconder-se e vêr Thereza. Faltava-lhe, porém, casa de confiança onde se
    occultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro
    se conhecia alguma casa em Vizeu onde elle podesse estar escondido uma
    noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro respondeu que
    tinha a um quarto de legua de Vizeu um primo ferrador; e não conhecia em
    Vizeu senão os estalajadeiros. Simão achou de aproveitar o parentesco do
    homem, e logo d'alli o presenteou com uma jaqueta de pelles e uma faxa
    de sêda escarlate, á conta de maiores valores promettidos, se elle o bem
    servisse n'uma empreza amorosa.

    No dia seguinte chegou o academico a casa do ferrador. O arreeiro deu
    conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante.

    Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo
    ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no
    mais impraticavel bêcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da
    pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro.
    Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.

    Era a resposta um grito de alegria. Thereza não reflectiu, respondendo a
    Simão, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se
    reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que ás onze horas em ponto ella
    iria ao quintal, e lhe abriria a porta.

    Não esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua
    para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle
    avaliava o maximo. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o halito, abraçal-a
    talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além de
    suas modestas e honestas ambições, egualmente o enlevavam e assustavam.
    Enlevo e susto em corações que se estreiam na comedia humana, são
    sentimentos congeniaes.

    Á hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez,
    sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma,
    são esses lances de mysterioso alvoroço que aos mais ricos de coração
    succedem em todas as sasões da vida, e a todos os homens, uma vez ao
    menos.

    Ás onze horas em ponto estava Simão encostado á porta do quintal, e a
    distancia convencionada o arreeiro com o cavallo á rédea. A toada da
    musica, que vinha das salas remotas alvoroçava-o, porque a festa em casa
    de Thadeu de Albuquerque o surprendêra. No longo termo de tres annos
    nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia
    natalicio de Thereza, espantára-se menos da estranha alegria d'aquellas
    salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simão imaginou
    desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em
    redor da phantasia apaixonada. Não ha balisa racional para as bellas,
    nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho,
    com o ouvido collado á fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as
    pancadas do coração sobresaltado.

    V

    Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferença por
    sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não
    deixavam respirar Thereza. Moças e velhas, todas á uma, se repetiam,
    aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria
    que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos.
    Replicava Thereza que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava
    sentida d'elle; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe elle
    deixasse livre o coração.

    O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes,
    presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a
    filha com os prazeres congruentes á sua idade, dando-lhe ensejo a que
    ella repartisse o espirito, concentrado n'um só ponto, por diversões em
    que a natural vaidade se preoccupa, e a força do amor contrariado se vai
    a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já
    em sua casa, já na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se
    mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos
    valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos.
    O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha lá um systema seu
    de ajuizar das mulheres, e porque vivêra trinta annos de vida libertina
    e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietação.
    Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A
    morgada viu então o que era o minuete da côrte, e certos jogos de
    prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em
    delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral.

    Mas, de agitada que estava, Thereza não compartia do gôso dos seus
    hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da
    festa parecia tão alheada das finezas com que senhoras e homens á
    competência a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu fé do dessocêgo de
    sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendêra da
    indifferença d'elle. Generoso até ao perdão, o morgado de Castro-d'Aire,
    compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e
    pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas,
    que tem vulcões por dentro e neve por fóra. Thereza teve a sinceridade
    de responder que não tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou
    para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em
    vulcões. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala.

    Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrêra ao fundo do quintal,
    abrira a porta, e, como não visse alguem, tornou de corrida para a sala.
    No momento, porém, de subir a escada que ligava o jardim á casa,
    Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a
    uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via.
    Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas
    portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo
    tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando
    passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua
    prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava
    uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez pé atraz
    para não ser visto. Thereza, porém, n'um relance de olhar temeroso,
    ainda víra um vulto retirar-se. Teve mêdo, e retrocedeu a largar a capa,
    e entrou na sala, offegante de cansaço e pallida de mêdo.

    –Que tens, minha filha?–disse-lhe o pae–Já duas vezes sahisteda sala,
    e vens tão alvoroçada! Tens algum incommodo, Thereza?

    –Tenho uma dôr: preciso de ir respirar de vez em quando… Nada é, meu
    pae.

    Thadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dôr;
    só o não disse a seu sobrinho, porque o não encontrou, e soube que elle
    tinha sahido.

    Tambem Thereza dera pela ausencia do primo, e fingiu que o ia procurar,
    resolução de que o velho gostou muito. Desceu ella ao jardim, correu á
    porta, onde a esperava Simão, abriu-a, e com a voz cortada pela
    anciedade, apenas disse:

    –Vai-te embora: vem ámanhã ás mesmas horas… Vai, vai!

    Simão, quando isto ouvia, tinha os olhos, fitos n'um vulto, que se
    approximava d'elle, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que
    primeiro o vira, dera um signal, e entalara as rédeas do cavallo entre
    umas pedras, para ficar desembaraçado, se o estudante se não podésse
    haver com o inimigo.

    Simão Botelho não se moveu do local, e Balthazar Coutinho parou na
    distancia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avançado a meio
    caminho do patrão, quando lhe este disse que não se aproximasse. E,
    caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe:

    –Isto aqui não é caminho. Que quer?

    O fidalgo não respondeu.

    –Parece-me que lhe abro a bôca com uma bala!–tornou Simão.

    –Que lhe importa o senhor quem está?!–disse Balthazar–Se eu tiver um
    segredo, como o senhor parece que tem o seu n'estes sitios, sou obrigado
    a confessar-lh'o?!

    Simão reflectiu, e replicou:

    –Este muro pertence a uma casa onde mora uma só família, e uma só
    mulher.

    –Estão n'essa casa mais de quarenta mulheres esta noite–redarguiu o
    primo de Thereza–Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra.

    –Quem é o senhor?–tornou com arrogancia o filho do corregedor.

    –Não conheço a pessoa que me interroga, nem quero conhecer. Fiquemos
    cada um com o nosso incognito. Boas noites.

    Balthazar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si: «que partido tem uma
    espada contra dois homens e duas pistolas?»

    Simão Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador.

    O sobrinho de Thadeu de Albuquerque entrou na sala, sem denunciar
    levemente alteração de animo. Viu que Thereza o observava de revez, e
    soube dissimular-se de modo que a socegou. A pobre menina, cansada de
    commoções, viu com prazer erguer-se para sahir a primeira familia, que
    deu rebate ás outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas irmãs, que
    ficaram hospedados em casa de seu tio, com tenção de se demorarem oito
    dias em Vizeu.

    Velou Thereza o restante da noite, escrevendo a Simao a detida historia
    dos seus terrores, e pedindo-lhe perdão de o ella não ter advertido do
    baile, por fcar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de
    se encontrarem na seguinte noite não havia alteração na carta. Isto
    espantou o academico. A seu vêr, o vulto era Balthazar Coutinho, e o pae
    de Thereza devia ser avisado n'aquella mesma noite.

    Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado;
    receando, porém, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova
    carta, em que não transluzia mêdo de ser atacado, nem sequer receio de
    marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simão Botelho que este era o digno
    porte de um amante corajoso.

    Passou o estudante aquelíe dia contando as longas horas, e meditando
    instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se
    Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservára para melhor relance
    a vingança da provocação insolente. Mas de si para si tinha elle que
    pensar em tal era mais covardia que prudencia.

    O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro annos, e formas
    bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simão os reparos em que ella
    se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar
    melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso
    triste, o respondeu:

    –Não sei o que me adivinha o coração a respeito de v. s.^a Alguma
    desgraça está para lhe succeder.

    –A menina não dizia isso–replicou Simão–sem saber alguma coisa da
    minha vida.

    –Alguma coisa sei…–tornou ella.

    –Ouviu contar ao arreeiro?

    –Não, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem
    conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu
    tio, que é o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razões para
    saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer…

    –Porque?

    –Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire.

    Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores
    do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre
    ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se
    passára. A môça, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por
    outra porta.

    –Com sua licença–disse mestre João.

    Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca.

    –Ora, meu fidalgo–continuou elle, descendo as mangas arregaçadas da
    camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem
    sabe as exigencias da ceremonia–ha de desculpar que eu viesse assim em
    mangas de camiza; mas não dei com a jaqueta…

    –Está muito bem, senhor João–atalhou o academico.

    –Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta.
    Uma vez armou-se aqui á minha porta uma desordem, a trôco d'um couce que
    um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em tão
    hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrête por aqui, salvo tal logar.

    João da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fôra fracturada a da
    egua, e continuou:

    –Eu tinha alli á mão o martello, e não me tive que não pregasse com
    elle na cabeça do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de
    Carção, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia
    entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma
    damnada!–disse-lhe eu–pois tu vês que o teu macho me aleijou esta
    egua, que custou vinte peças a seu dono, e que eu tenho de pagar, e
    dás-me um tiro por eu te atordoar o macho!?

    –E o tiro acertou-lhe?–atalhou Simão.

    –Acertou; mas saberá v. s.^a que me não matou; deu-me aqui por este
    braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou á
    cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na táboa do
    peito. O almocreve cahiu como um tôrdo, e não tugiu nem mugiu.
    Prenderam-me, e fui para Vizeu e já lá estava ha tres annos, no anno em
    que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a
    trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca.
    Estava lá na enxovia comigo um prêso a cumprir sentença, e disse-me elle
    que o senhor corregedor tinha muita devoção com as sete dôres de Nossa
    Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa,
    disse-lhe eu «senhor Corregedor, peço a v. s.^a pelas sete dôres de
    Maria Santissima, que me mande ir á sua presença, para eu explicar a
    minha culpa a v.s.^a». O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e
    mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor,
    e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do braço. Seu pae
    ouviu-me, e disse-me. «Vai-te embora, que eu farei o que podér.» O caso
    é, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu
    havia de ser inforcado á minha porta. Faz favor de me dizer se eu não
    devo andar com a cara onde o seu paesinho põe os pés!?

    –Tem o senhor João motivo para lhe ser grato, não ha duvida nenhuma.

    –Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado
    de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que é o senhor Balthazar.
    Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!…

    –Conheço de nome.

    –Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas
    paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou
    chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe
    fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me
    que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro
    comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto
    não é um matador de officio, acho eu, não é assim?

    –De certo…–respondeu Simão, adivinhando o remate da historia–quem
    era o homem que elle queria morto?

    –Era v. s.^a… Ó homem!–disse o ferrador com espanto–O senhor nem
    sequer mudou de côr!

    –Eu não mudo nunca de côr, senhor João–disse o academico.

    –Estou pasmado!

    –E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo–tornou Simão.

    –Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade
    era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina.

    –E elle disse-lhe a razão porque me mandava matar?

    –Não, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o
    senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com
    o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passára. O senhor
    corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de
    perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual.

    –Diga.

    –Seu pae começou a esfregar o nariz, e disse-me: «Eu sei o que é isso.
    Se aquelle bréjeiro de meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a
    prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se
    ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!..» Ainda disse mais coisas
    que me não lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que
    houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu.
    Perdoará a minha confiança; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e
    eu estive vai não vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que é homem
    para tres, fiquei descançado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a
    teve á porta do quintal da menina. Se lá torna, senhor Simão, vá
    preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a não é
    medroso; mas d'uma traição ninguem se livra. Se quer que eu vá também,
    estou ás suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda
    alli está, e dá fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a
    dá licença que eu lhe diga a minha opinião, o melhor é não andar n'essas
    encamizadas. Se quer casar com ella, vá pedir a seu pae licença, e deixe
    o resto cá por minha conta; ponto é que ella queira, que eu, n'um abrir
    e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma égua de chupêta, que
    alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vêr navios.

    –Obrigado, meu amigo–disse Simão–Aproveitarei os seus bons serviços,
    quando me forem necessarios. Á noite hei de ir, como fui a noite
    passada, a Vizeu. Se houver novidade, então veremos o que se ha de
    fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo.

    Mestre João da Cruz não replicou. D'alli foi examinar miudamente a
    fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas
    necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com
    uns balotes especiaes que elle denominava «amendoas de pimpões».

    N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e
    disse com meiguice a Simão Botelho:

    –Então sempre é certo ir?

    –Vou, porque não hei de ir?

    –Pois Nossa Senhora vá na sua companhia–tornou ella, sahindo logo para
    esconder as lagrimas.

    VI.

    Ás dez horas e meia da noite d'aquelle dia, tres vultos convergiram para
    o local, raro frequentado, em que se abria a porta do quintal de Thadeu
    de Albuquerque. Alli se detiveram alguns minutos discutindo e
    gesticulando. Dos tres havia um, cujas palavras eram ouvidas em silencio
    e sem replica pelos outros: Dizia elle a um dos dois:

    –Não convém que estejas perto d'esta porta. Se o homem apparecesse aqui
    morto, as suspeitas cahiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se um do
    outro, e tenham o ouvido applicado ao tropel do cavallo. Depois apressem
    o passo, até o encontrarem de modo que os tiros sejam dados longe
    d'aqui.

    –Mas…–atalhou um–quem nos diz que elle veio hontem a cavallo, e
    hoje vem a pé?

    –E' verdade! – accrescentou o outro.

    –Se elle vier a pé, eu lhes darei aviso para o seguirem depois até o
    terem a geito de tiro, mas longe d'aqui, percebem vocês?–disse
    Balthazar Coutinho.

    –Sim, senhor; mas se elle sáe de casa do pae, e entra sem nos dar
    tempo?

    –Tenho a certeza de que não está em casa do pae, já lh'o disse. Basta
    de palavriado. Vão esconder-se atraz da igreja, e não adormeçam.

    Debandou o grupo, e Balthazar ficou alguns momentos encostado ao muro.
    Soaram os tres quartos depois das dez. O de Castro-d'Aire collou o
    ouvido á porta, e retirou-se acceleradamente, ouvindo o rumor da
    folhagem sêcca que Thereza vinha pizando.

    Apenas Balthazar, cosido com o muro, desapparecêra, um vulto assomou do
    outro lado a passo rapido. Não parou: foi direito a todos os pontos onde
    uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja que estava a duzentos
    passos de distancia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que
    formava a juncção da capella mór, e sobre o qual cabiam as sombras da
    torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; não os conheceu; mas elles
    disseram entre si, depois que elle desapparecêra:

    –É o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por elle!…

    –Que fará a esta hora por aqui?!

    –Eu sei!

    –Não desconfias que elle entre n'isto?

    –Ágora! Se entrasse, era por nós. Não sabes que elle foi mochila do
    nosso amo?

    –E tambem sei que pôz a loja com dinheiro do nosso amo.

    –Pois então que mêdo tens?

    –Não ha mêdo; mas tambem sei que foi o corregedor que o livrou da
    forca…

    –Isso que tem! O corregedor não se importa com isto, nem sabe que o
    filho cá está…

    –Assim será; mas não estou muito contente… Elle é homem dos diabos…

    –Deixal-o ser… tanto entram as balas n'elle como n'outro…

    A discussão continuou sobre varias conjecturas. De tudo o que elles
    disseram uma coisa era certissima: ser o vulto o João da Cruz, ferrador.

    Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram
    o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu
    escondrijo, sabia João da Cruz á frente do cavalleiro. Simão aperrou as
    pistolas, e o arreeiro uma clavina.

    –Não ha novidade–disse o ferrador–mas saiba v. s.^a que já podia
    estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito.

    O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:

    –És tu, João?

    –Sou eu. Vim primeiro que tu.

    Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse commovido:

    —Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão de urn homem honrado.

    –Nas occasiões é que se conhecem os homens–redarguiu o ferrador.–Ora
    vamos… não ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera.

    –Tenho?–disse Simão.

    –Atraz da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se
    me dava de jurar que são criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do
    cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas v.
    s.^a veio, e agora é andar com a cara para a frente.

    –Olhe que eu não tremo, mestre João–disse o filho do corregedor.

    –Bem sei que não; mas, á vista do inimigo, veremos.

    Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavallo, recuou alguns
    passos na rua, e foi prendêl-o á argola da parede de uma estalagem.

    Voltou, e disse a Simão que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia
    de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de
    Albuquerque, não passasse do ponto d'onde os visse.

    Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como
    protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porém, não admittiu a
    réplica.

    –Faça o que eu lhe digo, fidalgo–disse elle com energia.

    João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte
    do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede.

    –Vamos sobre elles–disse o ferrador–que lá passaram para o adro da
    igreja; n'este entrementes, o doutor chega á porta do quintal e entra;
    depois voltaremos para lhe guardar a sahida.

    N'este proposito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as
    pistolas aperradas na direcção da porta.

    Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada,
    que se esplainava depois n'uma alamêda sombria.

    Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou,
    recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio
    azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamêda quando o
    academico chegava á porta do quintal.

    –Agora está seguro–disse um.

    –Se lá não ficar dentro….–respondeu o outro, vendo-o entrar, e
    fechar-se a porta.

    –Mas além vem dois homens…–disse o mais assustado, olhando para a
    outra entrada da alamêda.

    –E vem direitos a nós… aperra lá a clavina…

    O melhor é retirarmos. Nós estamos á espera de outro, e não d'estes.
    Vamos embora d'aqui…

    Este não esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do
    cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os
    assassinos assalariados: seguiu o assustadiço, e deu-lhe razão, quando
    ouviu após de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo
    de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes:

    –Vocês a que fogem, seus poltrões?

    Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.

    João da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles,
    bradando:

    –Alto ahi!

    O ferrador disse ao cunhado:

    –Falla-lhe tu, que eu não quero que elle me conheça.

    –Quem manda fazer alto?–disse o arreeiro.

    –São tres clavinas–respondeu Balthazar.

    –Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia–disse João da Cruz
    ao ouvido do arreeiro.

    –Pois nós cá estamos parados–replicou o criado de Simão.–Que nos
    querem vocês?

    –Quero saber o que tem que fazer n'este sitio.

    –E vocês que fazem por cá?

    –Não admitto perguntas–disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns
    passos vacilantes para a frente.–Quero saber quem são.

    Mestre João disse ao ouvido do cunhado:

    –Diz-lhe que se dá mais um passo que o arrebentas.

    O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou.

    Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos
    dois, que não fallava, parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou, e
    quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse
    ao cunhado:

    –Vem comigo, que elles conhecem-me.

    Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de
    Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada,
    como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos
    fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os não seguissem; mas elles,
    momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo após o
    inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes.

    Simão Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido
    pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem
    elles fossem. João da Cruz, com ar galhofeiro, já quando os
    perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado
    o casamento, que não havia panno para mangas.

    Simão entendeu o perigo, apertou convulsamente a mão de Thereza, e
    retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia;
    mas João da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga á submissão, disse
    ao filho do corregedor:

    –Vá por onde veio, e não olhe para traz.

    Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois
    inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o
    subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de
    alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia
    levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão,
    dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam
    ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que
    o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para
    não forçar os homens a aligeirar o passo.

    –Vá como quizer–disse mestre João–que nós vamos por fóra do caminho.

    E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por
    moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com
    a estrada.

    –O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo–disse o
    ferrador ao cunhado–hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai
    mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão
    atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa…

    E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram
    a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o
    pontilhão de um córrego.

    –Já não vamos a tempo–disse afflicto o João da Cruz–os homens vão
    atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz.

    E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado
    o outeiro, em cujo valle corria a estrada.

    –Os homens vão atirar-lhe…–disse o ferrador.

    –Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante.

    –Já não é tempo… Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos.

    Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira, quando ouviram dois
    tiros.

    –Arriba!–exclamou João da Cruz–que não vão elles metter-se á estrada,
    se mataram o fidalgo.

    Tinham vencido a chã, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas.
    Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam
    pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simão iam adiante
    batendo os pontos azados á emboscada, ou se tinham retardado.

    –Elles ahi vem!–disse o arreeiro.

    –Nós cá estamos–respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um
    cômoro.–Senta-te também que eu não estou p'ra correr atraz d'elles.

    Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos,
    e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma
    vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes.

    –Atira ao da esquerda!–disse João da Cruz.

    Foram simultaneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um
    cadaver. Os balotes do arreeiro não estremaram o outro entre o carrascal
    onde se embrenhára.

    A este tempo assomava Simão no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria
    ao ponto onde ouvira os segundos tiros.

    –É v. s.^a, fidalgo?–bradou o ferrador.

    –Sou.

    –Não o mataram?

    –Creio que não–respondeu Simão.

    –Este desalmado deixou fugir o melro–tornou João da Cruz–mas o meu lá
    está a pernear na vinha. Sempre lhe quero vêr as trombas…

    O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o
    cadaver, dizendo:

    –Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas não ias sósinho para o
    inferno!

    –Anda d'ahi!–disse o arreeiro–deixa lá esse diabo, que o senhor
    doutor está ferido n'um hombro. Vamos depressa, que está o sangue a
    escorrer-lhe.

    –Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e
    cuidei que eram vocês–disse Simão, em quanto o ferrador, com a destreza
    de habil cirurgião, lho enfaixava o braço ferido com lenços.–Parei o
    cavallo, e disse: «Ólé! ha novidade?» Logo que me não responderam,
    saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram
    fogo. Quiz saltar á ribanceira, mas não pude romper o matto. Dei uma
    volta grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar
    ferido…

    –Isto é uma arranhadura–disse João da Cruz–olhe que eu sei d'isto,
    fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas.

    –Nos burros, mestre João?–disse o ferido, sorrindo.

    –E nos christãos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um
    rei que não queria outro medico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o
    meu corpo que está uma rêde de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com
    ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que
    alli está a escutar a cavallaria.

    N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha
    saltado o companheiro do morto.

    João da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou:

    –Querem vocês vêr que ellas se armam!… Dar-se-ha caso que o outro
    ainda esteja por alli a tremer maleitas!…

    O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem
    chilreando.

    –O homem está alli!–tornou o ferrador.–Passe-me cá uma pistola,
    senhor Simão!

    Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre
    as moitas de codêços e urzes.

    –Elle estrinça lenha como um porco do monte!–exclamou o ferrador.–Ó
    cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vêr sahir o javali da
    moita!…

    Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a
    sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro.

    –Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!–bradou Simão ao
    ferrador.

    –Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou
    fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo!

    Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára
    desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O
    arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e
    achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do
    aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um
    cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os
    melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o
    mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus
    em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu
    bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a
    cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em
    redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do
    trabalho, disse ao arreeiro:

    –Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e
    vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado.

    O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para
    fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo
    de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o
    desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre
    elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos
    erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella
    desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito,
    quando Simão lhe reteve o braço.

    –Não se bate assim n'um homem!–disse o moço–Levanta-te, rapaz!

    –Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para
    a minha vida.

    N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou:

    –Pois este tratante ainda está vivo!

    E correu sobre elle com o podão.

    –Não mate o homem, senhor João!–disse o filho do corregedor.

    –Que o não mate! essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo
    quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar… eim?

    –Com a forca!?–atalhou Simão.

    –Podéra não! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha
    bonito? Lá v. s.^a, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu,
    que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o baraço no pescoço.
    Não me faz geito o negocio. Deixe-me cá com o homem…

    –Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha
    não nos póde fazer mal.

    –O quê?–redarguiu o ferrador–v. s.^a saberá muito, mas de justiça não
    sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha
    para guiar a justiça na devassa. Ás duas por tres, uma testemunha de
    vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer
    os pausinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro.

    –Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para
    Castro-d'Aire–exclamou o homem.

    –Deixe-o ficar, João da Cruz… vamos embora…

    –Isso!–acudiu o ferrador–chame-me João da Cruz, para este maroto
    ficar bem certo de que sou o João da Cruz!… Com effeito, não sei o que
    me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um
    tiro para o matar!

    –Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseraveis que me
    não resistem.

    –E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor
    doutor!

    –Vamos embora–tornou Simão–deixemos para ahi esse miseravel.

    Mestre João scismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com
    descontentamento:

    –Vamos lá… Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre.

    Tinham já sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a
    estrada, quando o ferrador exclamou:

    –Lá me ficou a minha clavina encostada á sebe. Vão indo, que eu venho
    já.

    O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a
    relva das paredes marginaes da estrada, quando Simão ouviu gritos.
    Conjecturou com certeza o que era.

    –O João lá está a fazer justiça!–disse o arreeiro. Deixál-o lá, meu
    amo, que elle é homem que sabe o que faz.

    João da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podão
    ensanguentado.

    –Você é cruel, senhor João!–disse o academico.

    –Não sou cruel–disse o ferrador–o fidalgo está enganado comigo; é que
    diz lá o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que é mais velho.
    Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto
    faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou então
    o melhor é não se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha
    consciencia socegada.

    A justiça que prove, se quizer; mas não ha de ser por que lh'o digam
    aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo.

    Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se
    ter ligado com tal homem.

    VII.

    O ferimento de Simão Botelho era melindroso de mais para obedecer
    promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de
    alveitaria. A bala passára-lhe de revez a porção muscular do braço
    esquerdo; mas algum vaso importante rompêra, que não bastavam compressas
    a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se
    febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para
    Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simão
    Botelho.

    Mais que as dôres e os receios da amputação, o mortificava a ancia de
    saber novas de Thereza. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda,
    precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As
    pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens
    tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de
    Gastro-d'Aire. Ninguem, porém, ouvira imputar o assassinio a
    determinadas pessoas.

    Na tarde d'esse dia recebeu Simão a seguinte carta de Thereza:

    «Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu
    não sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu não posso
    adivinhar. Meu pae tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim
    não me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu
    felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre
    viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; senão eu nem tinha
    modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. Não sei o que ella
    me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu não pude entender… Tua
    mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto…

    Disse-me tua mana que os moços de meu primo tinham apparecido mortos
    perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi
    estás; mas não me deram tempo. Meu pae de hora a hora dá passeios no
    corredor, e solta uns ais muito altos.

    Ó meu querido Simão, que será feito de ti?… Estarás tu ferido? Serei
    eu a causa da tua morte?

    Diz-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge
    d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa
    situação.

    Tem confiança n'esta desgraçada, que é digna da tua dedicação…. Chega
    a pobre: não quero demoral-a mais… Perguntei-lhe se se dizia de ti
    alguma coisa, e ella respondeu que não. Deus o queira.»

    Respondeu Simão a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu
    ferimento fallava tão de passagem, que dava a suppôr que nem o curativo
    era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer
    sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o,
    assim que as ameaças de convento passassem a ser realisadas.

    Entretanto Balthazar Coutinho, chamado ás authoridades judiciarias para
    esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens
    mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhára de
    Castro-d'Aire. Accrescentou que não sabia que elles tivessem inimigos em
    Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpções.

    Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham
    apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao
    mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que não
    podia alumiar a justiça, e vinha a ser que o mato, nas visinhanças do
    local, fôra chapotado. N'esta escuridade a justiça não podia dar passo
    algum.

    Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simão
    Botelho. Fôra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das
    sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao
    morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvêl-os no
    mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados não mereciam a pena d'um
    desforço que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simão
    Botelho não podiam adduzil-as. Áquella hora o suppunham elles a caminho
    de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a
    esperança de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local
    em que o tinham assaltado.

    Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do
    Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta.
    Escreveu á prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para
    negociar as licenças ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o
    velho algum incidente no espaço de tempo que medeava até se conseguirem
    as licenças, resolveu não ter comsigo Thereza, e solicitou a retenção
    temporaria d'ella n'um convento de Vizeu.

    Acabára Thereza de lêr e esconder no seio a resposta de Simão Botelho,
    que a pobre lhe enviára ao escurecer, pendente de uma linha, quando o
    pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu,
    tomando uma capa e um lenço.

    –Vista-se como quem é: lembre-se que ainda tem os meus
    appellidos–disse com severidade o velho.

    –Cuidei que não era preciso vestir-me melhor para sahir á
    noite…–disse Thereza.

    –E a senhora sabe para onde vai?

    –Não sei… meu pae.

    –Então vista-se, e não me dê leis.

    –Mas, meu pae, attenda-me um momento.

    –Diga.

    –Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo…

    –E d'ahi?

    –De certo não caso; morro, e morro contente; mas não caso.

    –Nem elle a quer. A senhora é indigna de Balthazar Coutinho. Um homem
    do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos
    amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento.

    –Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes.

    –Não quero reflexões. D'aqui a pouco appareça-me vestida. Suas primas
    esperam-a para a acompanharem.

    Quando se viu sósinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever
    a Simão. Áquella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo
    da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos
    que a protegesse, e désse forças a Simão para resistir ao golpe, e
    guardar-lhe constancia através dos trabalhos que succedessem. Depois
    vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o
    tinteiro, o papel, e o massête das cartas de Simão. Sahiu do seu quarto,
    relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o
    pae, pediu-lhe licença para levar comsigo aquella devota imagem.

    –Lá irá ter–respondeu elle.–Se tivesse tanta vergonha como devoção,
    seria mais feliz do que ha de ser.

    Uma das primas, irmãs de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe:

    –Ó menina! estava ainda na tua mão dares remedio á desordem d'esta
    casa…

    –Qual remedio?!–perguntou Thereza com artificial seriedade.

    –Diz a teu pae que não duvidas casar com o mano Balthazar.

    –O primo Balthazar não me quer–replicou ella, sorrindo.

    –Quem te disse isso, Therezinha?

    –Disse-m'o meu pae.

    –Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem.
    Queres tu que eu lhe falle?

    –Para que?

    –Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós.

    –Estás a brincar, prima!–redarguiu Thereza.–Eu hei de ser tua
    cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo
    outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por
    elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo
    Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça.

    –Então, vamos?!–disse o velho.

    –Estou prompta, meu pae.

    Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou
    a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das
    freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se
    a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:

    –Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo.

    As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração»
    uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor.

    –Que diz a menina?!–perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos
    oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho.

    –Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.

    –Não diga minha senhora–atalhou a escrivã.

    –Como hei de dizer?

    –Diga «nossa madre prioreza.»

    –Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem.

    –Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir
    bem–tornou a nossa madre prioreza.

    –Não?!–disse Thereza com sincera admiração.

    –Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar lá
    fóra as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de
    noviças, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a.

    Thereza não redarguiu: fez um gesto de respeito á mestra de noviças, e
    seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.

    A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua
    hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pae
    escolheria aquelle convento ou outro.

    –Que importa que seja um ou outro?–disse Thereza.

    –É conforme. Seu pae póde querer que a menina professe em ordem rica
    das bentas ou bernardas.

    –Professe!–exclamou Thereza.–Eu não quero ser freira aqui, nem
    n'outra parte.

    –A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja.

    –Freira!? a isso não póde ninguem obrigar-me!–recalcitrou Thereza.

    –Isso assim é–retorquiu a prioreza–mas como a menina tem de noviciado
    um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não ha
    vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma.

    –Mas a nossa madre–tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe
    fosse habitual–já disse que a estas casas ninguem vem para se sentir
    bem…

    –É um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificações e
    obrigações de côro e de serviços para que nem sempre o espirito está bem
    disposto. Ora vês-a-hi. Mas em comparação do que lá vai pelo mundo, o
    convento é um paraizo. Aqui não ha paixões nem cuidados que tirem o
    somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com
    as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más
    linguas é coisa que a menina não ha de achar aqui, nem intriguistas, nem
    murmurações de soalheiro. Emfim, Deus fará o que fôr servido. Eu vou á
    cosinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora
    madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que
    sabe dizer melhor que eu o que é a virtude n'estas santas casas.

    Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista á mestra de noviças:

    –Que grande impostora!

    –E que estupida!–acudiu a outra.–A menina não se fie n'esta
    trapalhona, e veja se seu pae lhe dá outra companhia em quanto cá
    estiver, que a prioreza é a maior intriguista do convento. Depois que
    fez sessenta annos, falla das paixões do mundo como quem as conhece por
    dentro e por fóra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos
    dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria
    amar e ser amada; agora, que está decrepita, anda sempre este mostrengo
    a fazer missões, e a curar indigestões.

    Thereza, apesar de sua dôr, não pôde reprimir uma risada, lembrando-se
    da _vida de Deus com anjos_ que as esposas do Senhor alli viviam, no
    dizer da madre prioreza.

    Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras.

    –Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?–disse
    ella a Thereza.

    –Pareceram-me muito bem.

    A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho liquido,
    e regougou:

    –_Hum!_… está feito, está feito!… Ainda não são das peores; mas, se
    fossem melhores, não se perdia nada… Ora vamos a isto, menina; aqui
    tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos.

    –Eu não cômo nada, minha senhora–disse Thereza.

    –Ora essa! não come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste.
    Paixões!… que as leve o porco-sujo!… As mulheres é que ficam
    logradas, e elles não tem que perder!… Que eu cá de mim, até ao
    presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem
    cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que vê
    penar ás outras doidibanas. E para não ir mais longe, estas duas, que
    d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo á asneira, Deus me perdôe
    se pécco. A organista tem já os seus quarenta bons, e ainda vai ao
    locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de
    noviças á falta d'outra que quizesse sêl-o, se eu lhe não andasse com o
    olho em cima, estragava-me as raparigas…

    Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã
    que vinha, palitando os dentes, pedir á prelada um copinho de certo
    vinho estomacal com que todas as noites era brindada.

    –Estava eu a dizer a esta menina as peças que são a organista e a
    mestra–disse a prioreza.

    –Oh! são para o que lhe eu prestar! Lá foram ambas para a cella da
    porteira. A esta hora está a menina a ser cortada por aquellas linguas,
    que não perdoam a ninguem.

    –Vaes tu vêr se ouves alguma coisa, minha flôr?–disse a prelada.

    A escrivã, contente da missão, foi imperceptivelmente ao longo dos
    dormitorios até parar a uma porta que não vedava o ruido estridente das
    risadas.

    No entanto dizia a prelada a Thereza:

    –Esta escrivã não é má rapariga: só tem o defeito de se tomar da
    pinguleta; depois não ha quem a ature. Tem uma boa tença, mas gasta tudo
    em vinho, e tem occasiões de entrar no côro a fazer _ss_, que é mesmo
    uma desgraça. Não tem outro defeito; é uma alma lavada, e amiga da sua
    amiga. É verdade que ás vezes… (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos
    dormitorios, e fechou por dentro a porta) é verdade que, ás vezes,
    quando anda azuratada, dá por paus e por pedras, e descobre os defeitos
    das suas amigas. A mim já ella me assacou um aleive, dizendo que eu,
    quando sahia a ares, não ia só a ares, e andava por lá a fazer o que
    fazem as outras. Forte pouca vergonha! Lá que outra fallasse, vá; mas
    ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na
    grade, isso lá me custa; mas, emfim, não ha ninguem perfeito!… Boa
    rapariga é ella… Se não fosse aquelle maldito vicio…

    Como tocasse ao côro n'esta occasião, a veneranda prioreza bebeu o
    segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um
    quarto de hora, que ella ia ao côro, e pouco se demoraria. Tinha ella
    sahido, quando a escrivã entrou a tempo que Thereza, com as mãos abertas
    sobre a face, dizia em si: «Um convento, meu Deus! isto é que é um
    convento!»

    –Está sósinha?–disse a escrivã.

    –Estou, minha senhora.

    –Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda sósinha? Bem
    se vê que é filha de funileiro!… Pois tinha tempo de ter prática do
    mundo, que tem andado por lá que farte… Pois eu havia de ir ao côro;
    mas não vou para lhe fazer companhia, menina.

    –Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sósinha–disse Thereza, com a
    esperança de poder desafogar em lagrimas a sua afflicção.

    –Não vou, não!… A menina aqui estarrecia de mêdo; mas a prelada não
    tarda ahi. Ella, se póde escapar-se do côro, não pára lá muito tempo. A
    apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim?

    –Não, minha senhora, pelo contrario…

    –Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não falla bem de
    ninguem. Para ella tudo são libertinas e bebadas.

    –Nada, não, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira.

    –E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho não o bebe, suga-o, é uma
    esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomára eu tantos mil cruzados
    como de amantes ella tem tido! Faz lá uma pequena ideia, menina!…

    A escrivã bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou:

    –Faz lá uma pequena ideia! Ella é velhissima como a sé. Quando eu
    professei já ella era velha como agora, com pouca differença. Ora, eu
    sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de
    esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me
    creia, quer não, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos,
    não fallando no padre capellão, que esse ainda agora lhe fornece a
    garrafeira, á nossa custa, entende-se. É uma dissipadora dos rendimentos
    da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ella rouba. Eu tenho
    immensa pena de vêr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. Não se
    deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe
    mandou fallar, e a encarregou de a não deixar escrever, nem receber
    cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro,
    papel, obreias e o meu quarto, se para lá quizer ir escrever. Se tem
    alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu
    chamo-me Dionizia da Immaculada Conceição.

    –Muito agradecida, minha senhora–disse Thereza, animada pelo
    offerecimento.–Quem me déra poder mandar um recado a uma pobre que mora
    no bêcco do…

    –O que quizer, menina. Eu mando lá logo que fôr dia. Esteja descansada.
    Não se fie de alguem, senão de mim. Olhe que a mestra de noviças e a
    organista são duas falsas. Não lhe dê trela, que, se as admitte á sua
    confiança, está perdida. Ahi vem a lêsma… Fallemos n'outra coisa…

    A prelada vinha entrando, e a escrivã proseguiu assim:

    –Não ha, não ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se
    tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa… Ai! eras tu, menina?
    Olha, se estivessemos a fallar mal de ti!

    –Eu sei que tu nunca fallas mal de mim–disse a prelada, piscando o
    olho a Thereza.–Ahi está essa menina que diga o que eu lhe estive a
    dizer das tuas boas qualidades…

    –Pois o que eu disse de ti–respondeu soror Dionizia da Immaculada
    Conceição–não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu
    estava dizendo. Oxalá que se podesse dizer o mesmo das outras que
    deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que é mesmo
    coisa de peccado.

    –Então não vaes ao côro, nini?–tornou a prioreza.

    –Já agora é tarde… Tu absolves-me da falta, sim?

    –Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho…

    –Do estomacal?

    –Podéra…

    Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a
    prelada na sua hora de oração.

    Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do
    convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o
    purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais
    depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique.

    Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas
    de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira
    fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das
    esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em
    Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa.
    D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás
    velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e
    até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de
    fugir d'alli!

    A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova
    separada, com cortinas de cassa.

    Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a
    menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia
    seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha
    não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se
    tivesse tinteiro e papel na cella.

    Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a
    corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria
    ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo
    _Padre-Nosso_ cabeceava de modo que já não atinou com a primeira
    _Áve-Maria_. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do
    sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar.

    Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre
    o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.

    A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que
    Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da
    cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos
    d'aquelle dia. A carta rematava assim:

    «Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem
    leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça
    não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São
    alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu
    pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas
    noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim
    desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam
    de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto
    é triste, meu querido amigo!… Adeus.»

    VIII.

    Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do
    braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da
    fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher
    affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as
    feiras e romarias.

    –Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu
    fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou
    o casco á navalha–disse o ferrador.–Pelo que vejo o sangue do fidalgo
    deu volta ao estomago da rapariga!… Estamos então bem aviados! Eu
    tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu
    doente…. És ou não és, rapariga?–disse elle á filha, quando ella
    abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza.

    –Serei com muito gosto, se o pae quizer.

    –Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para
    a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida;
    vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa.
    Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que
    não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de
    ceremonia, nem me diga a Marianna–a menina isto, a menina aquillo.
    É–rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as
    compressas–e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque
    eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito
    tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu
    podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez
    annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus
    haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra,
    vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas.

    –Se vocemecê tem uma casinha soffrivel–atalhou Simão–póde, querendo,
    casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira.

    –Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a
    queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale
    quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e
    eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande
    vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se
    não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás
    feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo
    sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe
    ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me
    fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella
    não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar
    pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me
    pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou.

    Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de
    linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas
    sublime de poesia e naturalidade.

    João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes
    termos:

    –Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como
    quem é, e como se fosse teu irmão ou marido.

    O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu,
    natural como todas, da bôca de seu pae.

    A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.

    –Não foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!–disse o
    academico–Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir
    costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam….

    –Que se me dá a mim d'isso!–respondeu ella, sacudindo o avental, e
    baixando o coz ao logar da cintura com infantil graça.

    –Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse… Vá buscar a
    sua costura, e dê-me d'alli uma folha de papel e um lapis que está na
    carteira.

    –Mas o pae tambem me disse que o não deixasse escrever…–replicou
    ella, sorrindo.

    –Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.

    –Veja lá o que faz…–tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis–Olhe
    se alguma carta se perde, e se descobre tudo…

    –Tudo, o quê, Marianna? Pois sabe alguma coisa?!

    –Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua
    amizade a uma menina fidalga da cidade?

    –Disse; mas que tem isso?

    –Aconteceu o que eu receava. V. s.^a está ahi ferido, e toda a gente
    falla n'uns homens que appareceram mortos.

    –Que tenho eu com os homens que appareceram mortos?

    –Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens
    eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de
    mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem
    soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores
    trabalhos…

    –Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que
    tivemos…

    –E Deus queira que seja o ultimo!… Tanto tenho pedido ao Senhor dos
    Passos que lhe dê remedio a essa paixão!… O peor futuro eu que ainda
    está por passar…

    –Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja
    bom, e a menina da cidade fica em sua casa.

    –Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos;
    mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz…

    -Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido–pelo bem que me
    deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.

    –Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu–disse ella, limpando as
    lagrimas.–O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca
    como toda a gente dizia!… Eu era ainda muito nova quando elle estava
    na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço,
    se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle,
    ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a
    Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de
    proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e
    uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli
    tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava
    uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha
    á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu
    estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu
    muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim
    do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas
    como um doido… Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com
    o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque
    tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar,
    porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito
    funda…

    –Isso são sonhos, Marianna…

    –São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando
    meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro
    n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella,
    e mais ainda viveu dois mezes… A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas
    Deus sabe o que isto é… Ahi vem meu pae… Senhor dos Passos! não vá
    ser alguma má nova!…

    João da Cruz entrou com uma carta que recebêra da pobre do costume. Em
    quanto Simão leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus
    grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contracção da fronte
    d'elle, angustiava-se-lhe a ella o coração. Não teve mão da sua ancia, e
    perguntou:

    –É noticia má!

    –Tu és muito atrevida, rapariga!–disse João da Cruz.

    –Não é, não–atalhou o estudante.–Não é má a noticia, Marianna. Senhor
    João, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que
    sabem avaliar os amigos.

    –Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz.

    –Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simão
    estava afflicto quando lia.

    –E não se enganou–tornou o doente, voltando-se para o ferrador.–O pae
    arrastou Thereza ao convento.

    –Sempre é patife d'uma vez!–disse o ferrador, fazendo com os braços
    instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mãos um pescoço.
    N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna
    um clarão de innocente alegria.

    Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza
    espontaneamente lhe chegou, dizendo:

    –Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver.

    «É necessário arrancar-te d'ahi–dizia a carta de Simão.–Esse convento
    ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo
    esperar-te. Se não podéres fugir, essas portas hão de abrir-se diante da
    minha cólera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe,
    avisa-me, que eu irei sósinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É
    indispensavel que te refaças de animo para te não assustarem os arrojos
    da minha paixão. És minha; não sei de que me serve a vida se a não
    sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na
    vida e na morte. Não soffras com paciencia; lucta com heroismo. A
    submissão é uma ignominia, quando o poder paternal é uma affronta.
    Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma
    palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminue as
    forças do coração.»

    Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador,
    e recommendou-lhe que o entregasse á pobre com a carta.

    Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que déra.

    Mestre João foi á cosinha, e disse a Marianna:

    –Desconfio d'uma coisa, rapariga.

    –Que é, meu pae?

    –O nosso doente está sem dinheiro.

    –Porquê? o pae como sabe isso?

    –É que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava
    tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me cá por
    dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e não sei como ha de ser…

    –Eu pensarei n'isso, meu pae–disse Marianna reflectindo.

    –Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores ideias que eu.

    –E se o pae não quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle
    dinheiro dos meus bezerros; são onze moedas d'ouro menos um quarto.

    –Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem _remorsos_.

    Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era synonimo de
    _escrupulos_ ou _repugnancia_.

    Foi Marianna levar o caldo a Simão, que lh'o rejeitou como distrahido em
    profundo scismar.

    –Pois não toma o caldinho?–disse ella com tristeza.

    –Não posso, não tenho vontade, menina; será logo. Deixe-me sósinho
    algum tempo; vá, vá; não passe o seu tempo ao pé d'um doente aborrecido.

    –Não me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar.

    Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas.

    Simão notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicação da môça; mas
    não lhe disse palavra alguma.

    E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe
    ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus
    heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da
    falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e
    plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito
    em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros
    que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no
    modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se
    desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de
    paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta
    por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem
    sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe
    se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o
    leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não
    tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu
    coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu
    heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que
    escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho.
    Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações
    das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para
    transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As
    estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a
    certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha,
    porque me dizem que ha tudo.

    Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o
    filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em
    dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado.

    A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos:

    Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?

    Com que agradeceria os desvelos de Marianna?

    Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos!

    Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era
    grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta
    generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante
    ferrador.

    As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle
    dia. Má situação!

    Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua
    residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da
    morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho?

    Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a
    mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario
    para a jornada até Coimbra. Péssima situação!

    Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno
    profundo.

    E Marianna entrára pé ante pé na sala, e ouvindo-lhe a respiração alta,
    aventurou-se a entrar na alcova. Lançou-lhe um lenço de cassa sobre o
    rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre
    uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu pé ante pé.
    Abriu a carteira, viu papeis, que não soube lêr, e n'um dos
    repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao
    seu logar, e tomou d'um cabide as calças, collête, e jaqueta á
    hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e não encontrou um ceitil.

    Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora
    assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de
    golpe, e conversou longo tempo com o pae. João da Cruz escutou-a,
    contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; até que,
    a final, disse:

    –Farei o que dizes, Marianna. Dá-me cá o teu dinheiro, que não vou
    agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos
    mil reis. Tanto faz um como outro: teu é elle todo.

    Marianna deu-se pressa em ir á arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com
    dinheiro em prata, e alguns cordões, anneis e arrecadas. Guardou o seu
    oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae.

    João da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do
    doente.

    Acordou Simão.

    –Não sabe!?–exclamou ella com semblante entre alegre e assustado,
    perfeitamente contrafeito.

    –Que é, Marianna?

    –Sua mãesinha sabe que v. s.^a aqui está.

    –Sabe?! isso é impossivel! quem lh'o disse?

    –Não sei; o que sei é que ella mandou chamar meu pae.

    –Isso espanta-me!… E não me escreveu?

    –Não, senhor!… Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor
    aqui esteve, e cuide que já não está, e por isso lhe não escreveu…
    Poderá ser?

    –Poderá; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar
    da morte dos homens.

    –Póde ser que não; e ainda que desconfiem, não ha testemunhas. O pae
    disse que não tinha mêdo nenhum. O que fôr, soará. Não esteja agora a
    scismar n'isso… Vou-lhe buscar o caldinho, sim?

    –Vá, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irmã.

    Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta á doçura que o
    rosto do mancebo exprimira.

    Veio com o «caldinho» diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga
    approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a
    par da travessa com meia gallinha loira de gorda.

    –Tanta coisa!–exclamou, sorrindo, Simão.

    –Coma o que podér–disse ella córando.–Eu bem sei que os senhores da
    cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais
    pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar á
    loja, por pensar que v. s.^a não quizera hontem comer por se atrigar da
    outra.

    –Não, Marianna, não seja injusta, eu não comi hontem pela mesma razão
    que não cômo agora: não tinha, nem tenho vontade.

    –Mas coma por eu lhe pedir… Perdôe o meu atrevimento… Faça de conta
    que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse…

    –Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irmã…

    –Pois ahi está…

    Simão achou tão necessario á sua conservação o sacrificio, como ao
    contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de
    vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dôce creatura. Entre si
    disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeição, quando
    não tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem
    longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moça. Ninguem
    sente em si o pêso do amor que inspira e não comparte. Nas maximas
    afflicções, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda
    sentir-se amado quem já não póde achar no amor diversão das penas, nem
    soldar o ultimo fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do
    coração humano, seja o que fôr, no amor, que nos dão, é que nós
    graduamos o que valemos em nossa consciencia.

    Não desprazia, portanto, o amor de Marianna ao amante apaixonado de
    Thereza. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se
    me deixam ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza,
    que é toda galas no ceu, no mar, e na terra, é toda incoherencias,
    absurdezas, e vicios no homem, rei da creação chamado!

    IX.

    Duas horas se detivera João da Cruz fóra de casa. Chegou quando a
    curiosidade do estudante era já soffrimento.

    –Estará seu pae prêso?!–dissera elle a Marianna.

    –Não m'o diz o coração, e o meu coração nunca me engana–respondêra
    ella.

    E Simão replicára:

    –E que lhe diz o coração a meu respeito, Marianna? Os meus trabalhos
    ficarão aqui?

    –Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simão… mas não digo…

    –Diga, que lh'o peço, porque tenho fé no bom anjo que falla em sua
    alma. Diga…

    –Pois sim… O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no
    comêço…

    Simão ouviu-a attentamente, e não respondeu. Assombrou-lhe o animo esta
    ideia torva, e affrontosa á singela rapariga:–«Pensará ella em me
    desviar de Thereza para se fazer amar?»

    Pensava assim, quando chegou o ferrador.

    –Aqui estou de volta–disse elle com semblante festivo–Sua mãe
    mandou-me chamar…

    –Já sei… E como soube ella que eu estava aqui?

    –Ella sabia que o fidalgo estivera cá; mas cuidava que v. s.^a já tinha
    ido para Coimbra. Quem lh'o disse não sei, nem perguntei; porque a uma
    pessoa de respeito não se fazem perguntas, dizia meu pae. Dizia ella que
    sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa;
    mas eu, cá como pude, accommodei-a, e não ha novidade. Perguntou-me o
    que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fôra para o
    convento. Disse-lhe que v. s.^a estava adoentado d'uma quéda que dera do
    cavallo abaixo. Tornou ella a perguntar se o senhor tinha dinheiro; e eu
    disse que não sabia. E vai ella foi dentro, e voltou d'ahi a pouco com
    este embrulho, para eu lhe entregar. Ahi o tem tal e qual; não sei
    quanto é.

    –E não me escreveu?

    –Disse que não podia ir á escrivaninha, porque estava lá o senhor
    corregedor–respondeu com firmeza mestre João–e tambem me recommendou
    que não lhe escrevesse v. s.^a, senão de Coimbra, porque, se seu pae
    soubesse que o menino cá estava, ia tudo razo lá em casa. Ora ahi está.

    –E não lhe fallou nos criados de Balthazar?

    –Nem um pio!.. Lá na cidade ninguem já fallava n'isso hoje.

    –E que lhe disse da senhora D. Thereza?

    –Nada, senão que ella fôra para o convento. Agora, deixe-me ir amantar
    a egua, que está a escorrer em fio. Ó rapariga, traz-me cá a manta.

    Em quanto Simão contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado da
    estranha liberalidade, Marianna, abraçando o pae no repartimento visinho
    da casa, exclamava:

    –Arranjou muito bem a mentira!…

    –Ó rapariga, quem mentiu foste tu! Aquillo lá o arranjaste tu com essa
    tua cabecinha! Mas a coisa sahiu ao pintar, heim? Elle comeu-a que nem
    confeitos! Anda lá, que ficaste sem os bezerros; mas lá virá tempo em
    que elle te dê bois a troco dos bezerros.

    –Eu não fiz isto por interesse, meu pae…–atalhou ella resentida.

    –Olha o milagre! isso sei eu; mas, como diz lá o dictado, quem semeia
    colhe.

    Marianna quedou pensativa, e dizendo entre si:–Ainda bem, que elle não
    póde pensar de mim o que meu pae pensa. Deus sabe que não tenho
    esperanças nenhumas interesseiras no que fiz.

    Simão chamou o ferrador, e disse-lhe:

    –Meu caro João, se eu não tivesse dinheiro, aceitava sem repugnancia os
    seus favores, e creio que vocemecê m'os faria sem esperança de ganhar
    com elles; mas como recebi esta quantia, ha de consentir que eu lhe dê
    parte d'ella para os meus alimentos. Motivos de gratidão a dividas, que
    se não pagam, ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si, e da
    sua boa filha. Tome este dinheiro.

    –As contas fazem-se no fim–respondeu o ferrador, retirando a mão–e
    ninguem nos ha de ouvir, se Deus quizer. Precisando eu de dinheiro cá
    venho. Por ora, ainda está a capoeira cheia de gallinhas, e o pão
    coze-se todas as semanas.

    –Mas aceite–instou Simão–e dê-lhe a applicação que quizer.

    –Em minha casa ninguem dá leis senão eu–replicou o mestre João, com
    simulado enfadamento–Guarde lá o seu dinheiro, fidalgo, e não fallemos
    mais n'isso, se quer que o negocio vá direito até ao fim. _E
    victo-serio_!

    Nos cinco subsequentes dias recebeu Simão regularmente cartas de
    Thereza, umas resignadas e confortadoras, outras escriptas na violencia
    exasperada da saudade. Em uma dizia:

    «Meu pae deve saber que estás ahi, e em quanto ahi estiveres, de certo
    me não tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e
    deixassemos esquecer a meu pae os ultimos acontecimentos. Senão, meu
    querido esposo, nem elle me dá liberdade, nem eu sei como hei de fugir
    d'este inferno. Não fazes ideia do que é um convento! Se eu podesse
    fazer do meu coração sacrificio a Deus, teria de procurar uma atmosphera
    menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se póde orar e ser
    virtuosa, menos n'este convento.»

    N'outra carta exprimia-se assim: «Não me desampares, Simão, não vás para
    Coimbra. Eu receio que meu pae me queira mudar d'este convento para
    outro mais rigoroso. Uma freira me disse que eu não ficava aqui; outra
    positivamente me affirmou que o pae diligenceia a minha ida para um
    convento do Porto. Sobre tudo, o que me aterra, mas não me dobra, é
    saber eu que o intento do pae é fazer-me professar. Por mais que imagine
    violencias e tyrannias, nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu
    não posso professar sem ser noviça um anno, e ir a perguntas tres vezes;
    hei de responder sempre que não. Se eu podesse fugir d'aqui!… Hontem
    fui á cêrca, e vi lá uma porta de carro que dá para o caminho. Soube que
    algumas vezes aquella porta se abre para entrarem carros de lenha; mas
    infelizmente não se torna a abrir até ao principio do inverno. Se não
    poder antes, meu Simão, fugirei n'esse tempo.»

    Tiveram entretanto bom e prompto exito as diligencias de Thadeu de
    Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de summas virtudes,
    cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoção e amor a Deus, se
    recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa e congratulou-se com a sobrinha
    de tão piedosa resolução. A carta congratulatoria não a recebeu Thereza,
    porque viera á mão de seu pae. Continha ella reflexões tendentes a
    desvanecêl-a do proposito, se algum desgosto passageiro a impellia á
    imprudencia de procurar um refugio onde as paixões se exacerbavam mais.

    Tomadas todas as precauções, Thadeu de Albuquerque fez avisar sua filha
    de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum tempo, e
    que a partida teria logar na madrugada do seguinte dia.

    Thereza, quando recebeu a surprendente nova, já tinha enviado a carta
    d'aquelle dia a Simão. Em sua afflictiva perplexidade, resolveu fazer-se
    doente, e tão febril estava das commoções, que dispensava o artificio. O
    velho não queria transigir com a doença; mas o medico do mosteiro reagiu
    contra a deshumanidade do pae e da prioreza interessada na violencia.
    Quiz Thereza n'essa noite escrever a Simão; mas a criada da prelada,
    obedecendo ás suspeitas da ama, não desamparou a cabeceira do leito da
    enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escrivã, n'nma hora de
    má digestão d'aquelle vinho estomacal, que Thereza passava as noites em
    oração mental, e tinha correspondencia com um anjo do céu por
    intervenção d'uma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no
    páteo do convento esperando a esmola de Thereza; mas cuidaram que era
    aquella pobre uma devoção da menina. As palavras ironicas da escrivã
    foram commentadas, e a mendiga recebeu ordem de sahir da portaria.
    Thereza, n'um impeto de angustia, quando tal soube, correu a uma
    janella, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lançou-lhe ao
    pateo um bilhete com estas palavras: «É impossivel a nossa
    correspondencia. Vou ser tirada d'aqui para outro convento. Espera em
    Coimbra noticias minhas.» Isto foi rapidamente ao conhecimento da
    prioreza, e logo, ás ordens d'ella, partiu o hortelão no encalço da
    pobre. O hortelão seguiu-a até fóra de portas, espancou-a, tirou-lhe o
    bilhete, e foi do convento apresental-o a Thadeu de Albuquerque. A
    mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simão o
    acontecido.

    Simão lançou-se fóra do leito, e chamou João da Cruz. N'aquelle aperto
    queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem, que lhe
    estendesse mão capaz de apertar o cabo d'um punhal. O ferrador ouviu a
    historia, e deu o seu voto: «esperar até vêr». Simão repelliu a
    prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Vizeu
    immediatamente.

    Marianna estava alli; ouvira a confidencia, e achára acertada a opinião
    de seu pae. Vendo, porém, a impaciencia do hospede, pediu licença para
    fallar onde não era chamada, e disse:

    –Se o senhor Simão quer, eu vou á cidade, e procuro no convento a
    Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça d'uma freira, e dou-lhe
    uma carta sua para entregar á fidalga.

    –Isso é possivel, Marianna?!–exclamou Simão, a ponto de abraçar a
    moça.

    –Pois então!–disse o ferrador–o que póde fazer-se, faz-se. Vai-te
    vestir, rapariga, que eu vou botar o albardão á égua.

    Simão sentou-se a escrever. Tão embaralhadas lhe acudiam as ideias, que
    não atinava a formar o designio mais proveitoso á situação de ambos. Ao
    cabo de longa vacillação, disse a Thereza que fugisse á hora do dia,
    quando a porta estivesse aberta, ou violentasse a porteira a abrir-lh'a.
    Dizia-lhe que marcasse ella a hora do dia seguinte em que elle a devia
    esperar, com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, promettia
    assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendial-o para se abrirem
    as portas. Este programma era o mais parecido com o espirito do
    academico: em vivo fogo estava aquella pobre cabeça! Fechada a carta,
    começou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados
    impulsos. Encravava as unhas na cabeça, e arrancava os cabellos n'ellas.
    Marrava como cego contra as paredes, e sentava-se um momento para
    erguer-se de mais furioso impeto. Machinalmente aferrava das pistolas, e
    sacudia os braços vertiginosos. Abria a carta para relêl-a, e estava a
    ponto de rasgal-a, cuidando que iria tarde, ou não lhe chegaria ás mãos.
    N'este conflicto de contrarios projectos, entrou Marianna, e muito
    allucinado devia de estar Simão para lhe não dar fé das lagrimas.

    O que tu soffrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse
    moço é gratidão ao homem que salvou a vida de teu pae, que rara virtude
    a tua! Se o amas, se por lhe dar allivio ás dôres, tu mesma lhe
    desempeces o caminho por onde te elle ha de fugir para sempre, que nome
    darei á tua virtude! que anjo te fadou o coração para a santidade d'um
    obscuro martyrio!

    –Estou prompta, disse Marianna.

    –Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faça muito por não vir sem
    resposta–disse Simão, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro.

    –E o dinheiro também é para a senhora?–disse ella.

    –Não, é para si, Marianna: compre um annel.

    Marianna tomou a carta, e voltou rapidamente as costas, para que Simão
    lhe não visse o gesto de despeito, se não desprêso.

    O academico não ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o
    quinteiro, onde o ferrador enfreava a egua.

    –Não lhe chegues muito com a vara–disse João da Cruz a Marianna, que,
    d'um pulo, se assentou no albardão, coberto d'uma colxa escarlate.–Tu
    vaes amarella como cidra, moça!–exclamou elle reparando na pallidez da
    moça–Tu que tens?

    –Nada; que hei de eu ter?! dê-me cá a vara, meu pae.

    A egua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na
    filha e na egua, dizia em soliloquio, que Simão ouvira:

    –Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Vizeu! Pela mais
    pintada não dava eu a minha egua; e, se cá viesse o Mira-Molim de
    Marrocos pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lh'a dava! Isto é
    que são mulheres, e o mais é uma historia!

    X.

    Apeou Marianna defronte do mosteiro, e foi á portaria chamar a sua amiga
    Brito.

    –Que boa moça!–disse o padre capellão, que estava no raro lateral da
    porta, praticando com a prioreza, ácerca da salvação das almas, e d'umas
    ancoretas de vinho do Pinhão, que elle recebêra n'aquelle dia, e do qual
    já tinha engarrafado um almude para tonisar o estomago da prelada.

    –Que boa moça!–tornou elle, com um olho n'ella e outro no raro, onde a
    ciumosa prioreza se estava remordendo.

    –Deixe lá a moça, e diga quando ha de ir a servente buscar o vinho.

    –Quando quizer, senhora prioreza; mas repare bem nos olhos, no feitio,
    n'aquelle todo da rapariga!

    –Pois repare o senhor padre João–replicou a freira–que eu tenho mais
    que fazer.

    E retirou-se com o coração mal-ferido, e o queixo superior escorrendo
    lagrimas… de simonte.

    –D'onde é vocemecê?–disse brandamente o padre capellão.

    –Sou da aldeia–respondeu Marianna.

    –Isso vejo eu; mas de que aldeia é?

    –Não me confesso agora.

    –Mas não faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre.

    –Bem vejo.

    –Que mau genio tem!…

    –É isto que vê.

    –Quem procura cá no convento?

    –Já disse lá para dentro quem procuro.

    –Marianna! és tu?! Anda cá!

    A moça fez uma cortezia de cabeça ao padre capellão, e foi ao locutorio
    d'onde vinha aquella voz.

    –Eu queria fallar comtigo em particular, Joaquina–disse Marianna.

    –Eu vou vêr se arranjo uma grade: espera ahi.

    O padre tinha sahido do pateo, e Marianna, em quanto esperava, examinou,
    uma a uma, as janellas do mosteiro. N'uma das janellas, através das
    rexas de ferro, viu ella uma senhora sem habito.

    –Será aquella?–perguntou Marianna ao seu coração, que palpitava–Se eu
    fosse amada como ella!…

    –Sobe aquellas escadinhas, Marianna, e entra na primeira porta do
    corredor, que eu lá vou–disse Joaquina.

    Marianna deu alguns passos, olhou novamente para a janella onde vira a
    senhora sem habito, e repetiu ainda:

    –Se eu fosse amada como ella!…

    Mal entrou na grade, disse á sua amiga:

    –Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, alva como leite,
    que estava alli agora n'uma janella?

    –Seria alguma noviça, que ha duas cá muito lindas.

    –Mas ella não tinha vestimenta nenhuma de freira.

    –Ah! já sei: é a D. Therezinha Albuquerque.

    –Então não me enganei–disse Marianna, pensativa.

    –Pois tu conhecel-a?

    –Não; mas por amor d'ella é que eu cá vim fallar comtigo.

    –Então que é?! Que tens tu com a fidalga?

    –Eu, cá por mim, nada; mas conheço uma pessoa que lhe quer muito.

    –O filho do corregedor?

    –Esse mesmo.

    –Mas esse está em Coimbra.

    –Não sei se está, nem se não. Fazes-me tu um favor?

    –Se eu poder…

    –Pódes… Eu queria fallar com ella.

    –Ó dianho! isso não sei se poderá ser, porque a trazem as freiras
    debaixo d'olho, e ella vai-se embora ámanhã.

    –Para onde vai?

    –Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os bahus
    já estão preparados, e ella está morta por sahir. E tu que lhe queres?

    –Não t'o posso dizer, porque não sei… Queria dar-lhe um papel… Faz
    com que ella cá venha, que eu dou-te chita para um vestido.

    –Como tu estás rica, Marianna!…–atalhou, rindo, Joaquina–Eu não
    quero a tua chita, rapariga. Se eu podér dizer-lhe que venha, sem que
    alguem me ouça, digo-lh'o. E agora é boa maré, porque tocou ao côro….
    Deixa-me lá ir.

    Joaquina sahiu-se bem da difficil commissão. Thereza estava sósinha,
    absorvida a scismar com os olhos fitos no ponto onde vira Marianna.

    –A menina faz favor de vir comigo depressinha?–disse-lhe a criada.

    Seguiu-a Thereza, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:

    –O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se
    perguntarem por v. ex.^a, digo-lhe que a menina está no mirante.

    A voz de Marianna tremia, quando D. Thereza lhe perguntou quem era.

    –Sou uma portadora d'esta carta para v. ex.^a

    –É de Simão!–exclamou Thereza.

    –Sim, minha senhora.

    –A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

    –Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguem
    me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de
    Monchique do Porto. Que se não afflija, porque eu sou sempre a mesma.
    Que não venha cá, porque seria inutil, e muito perigoso. Que vá vêr-me
    ao Porto, que eu hei de arranjar modo de lhe fallar. Diga-lhe isto, sim?

    –Sim, minha senhora.

    –Não se esqueça, não? Vir cá por modo nenhum. É impossivel fugir, e vou
    muito acompanhada. Vai o primo Balthazar e as minhas primas, e meu pae,
    e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho
    é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

    Joaquina disse fóra da porta:

    –Menina! olhe que a prioreza anda lá por dentro a procural-a.

    –Adeus, adeus–disse Thereza sobresaltada.–Tome lá esta lembrança como
    prova da minha gratidão.

    E tirou do dedo um annel de ouro, que offereceu a Marianna.

    –Não aceito, minha senhora.

    –Porque não aceita?

    –Porque não fiz algum favor a v. ex.^a. A receber alguma paga ha de ser
    de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja
    feliz.

    Sahiu Thereza, e Joaquina entrou na grade.

    –Já te vaes embora, Marianna?

    –Vou, que é pressa; um dia virei conversar comtigo muito. Adeus,
    Joaquina.

    –Pois não me contas o que isto é? O amor da fidalga está perto d'aqui?
    Conta, que eu não digo nada, rapariga!…

    –Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquininha.

    Marianna, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga,
    e, se alguma vez se distrahia d'este exercicio de memoria, era para
    pensar nas feições da amada do seu hospede, e dizer, como em segredo, ao
    seu coração: «Não lhe bastava ser fidalga e rica; e, além de tudo, linda
    como nunca vi outra!» E o coração da pobre moça, avergando ao que a
    consciencia lhe ia dizendo, chorava.

    Simão, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do
    caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.

    Ao descobrir Marianna, desceu ao quinteiro, despresando cautelas, e
    esquecido já do ferimento cuja crise de perigo peorára n'aquelle dia,
    que era o oitavo depois do tiro.

    A filha do ferrador deu o recado, sem alteração de palavra. Simão
    escutára-a placidamente até ao ponto em que lhe ella disse que o primo
    Balthazar a acompanhava ao Porto.

    –O primo Balthazar!…–murmurou elle com um sorriso sinistro–sempre
    este primo Balthazar cavando a sua sepultura e a minha!…

    –A sua, fidalgo?!–exclamou João da Cruz–morra elle, que o levem
    trinta milhões de diabos! mas v. s.^a ha de viver em quanto eu fôr João.
    Deixe-a ir para o Porto, que não tem perigo no convento. D'hora a hora
    Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, está por lá algum tempo,
    e ás duas por tres, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha
    engrampa-o, e é sua como dois e dois serem quatro.

    –Eu hei de vêl-a antes de partir para Coimbra–disse Simão.

    –Olhe que ella recommendou-me muito que não fosse lá–acudiu Marianna.

    –Por causa do primo?–tornou o academico ironicamente.

    –Acho que sim, e por talvez não servir de nada lá ir v. s.^a–respondeu
    timidamente a moça.

    –Lá se quer–bradou mestre João–a mulher vai-se-lhe tirar ao caminho.
    Não tem mais que dizer.

    –Meu pae! não metta este senhor em maiores trabalhos!–disse Marianna.

    –Não tem duvida, menina–atalhou Simão–eu é que não quero metter
    ninguem em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ella seja, hei
    de eu luctar sósinho.

    João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se
    ennobrecia, disse:

    –Senhor Simão, v. s.^a não sabe nada do mundo. Não metta sósinho a
    cabeça aos trabalhos, que elles, como o outro que diz, quando pegam de
    ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rustico;
    mas, a bem dizer, estou n'aquella d'aquelle que dizia que o mal dos seus
    burrinhos o fizera alveitar. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem
    com ellas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ella seja filha do
    rei, não se ha de um homem botar a perder. Mulheres ha tantas como a
    praga, e são como as rãs no charco, que mergulha uma, e apparecem quatro
    á tona d'agua. Um homem rico e fidalgo como v. s.^a, onde quer topa uma
    com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o olho. Deixe-a
    ir com Deus ou com a breca, que ella, se tiver de ser sua, á mão lhe ha
    de vir dar, e tanto faz andar p'ra traz como p'ra diante, é dictado dos
    antigos. Olhe que isto não é mêdo, fidalgo; tome sentido, que João da
    Cruz sabe o que é pôr dois homens d'uma feita a olhar o sete-estrello,
    mas não sabe o que é mêdo. Se o senhor quer sahir á estrada e tirar a
    tal pessoa ao pae, ao primo, e a um regimento, se fôr necessario, eu vou
    montar na egua, e d'aqui a tres horas estou de volta com quatro homens,
    que são quatro dragões.

    Simão fitára os olhos chammejantes nos do ferrador, e Marianna
    exclamára, ajuntando as mãos sobre o seio:

    –Meu pae! não lhe dê esses conselhos!…

    –Cala-te ahí, rapariga!–disse mestre João–vai tirar o albardão á
    egua, amanta-a, e bota-lhe sêcco. Não és aqui chamada.

    –Não vá afflicta, senhora Marianna–disse Simão á moça, que se retirava
    amargurada.–Eu não aproveito algum dos conselhos de seu pae. Ouço-o com
    boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a
    honra e o coração me aconselhar.

    Ao anoitecer, Simão, como estivesse sósinho, escreveu uma longa carta,
    da qual extractamos os seguintes periodos:

    «Considero-te perdida, Thereza. O sol de ámanhã póde ser que eu o não
    veja. Tudo, em volta de mim, tem uma côr de morte. Parece que o frio da
    minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.

    Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se
    conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as
    contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata.
    O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de
    mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ella.

    Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um
    inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Thereza;
    mas não haverá ahi um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho
    ciumes de todas as tuas horas. Has de pensar com muita saudade no teu
    esposo do ceu, e nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para vêres ao
    pé de ti o miseravel que nos matou a realidade de tantas esperanças
    formosas.

    Tu verás esta carta quando eu já estiver n'um outro mundo, esperando as
    orações das tuas lagrimas. As orações! Admiro-me d'esta faisca de fé que
    me alumia nas minhas trévas!… Tu déras-me com o amor a religião,
    Thereza. Ainda creio; não se apaga a luz que é tua; mas a providencia
    divina desamparou-me.

    Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a
    uma sombra, a razão por que me attrahiste a um abysmo. Escutarás com
    gloria a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.

    Á hora em que leres esta carta…………»

    Não o deixaram continuar as lagrimas, nem depois a presença de Marianna.
    Vinha ella pôr a mesa para a ceia, e quando desdobrava a toalha, disse
    em voz abafada, como se a si mesma sómente o dissesse:

    –É a ultima vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa!

    –Porque diz isso, Marianna?

    –Porque m'o diz o coração.

    D'esta vez o academico ponderou supersticiosamente os dictames do
    coração da moça, e com o silencio meditativo deu-lhe a ella a evidencia
    anticipada do vaticinio.

    Quando voltou com a travessa da gallinha, vinha chorando a filha de João
    da Cruz.

    –Chora com pena de mim, Marianna?–disse Simão enternecido.

    –Choro, porque me parece que o não tornarei a vêr; ou, se o vir, será
    de modo que oxalá que eu morresse antes de o vêr.

    –Não será, talvez, assim, minha amiga…

    –V. s.^a não me faz-uma coisa que eu lhe peço?…

    –Veremos o que pede, menina.

    –Não saia esta noite, nem ámanhã.

    –Pede o impossivel, Marianna. Hei de sahir, porque me mataria se não
    sahisse.

    –Então perdôe a minha ousadia. Deus o tenha de sua mão.

    A rapariga foi contar ao pae as intenções do academico. Acudiu logo
    mestre João combatendo a ideia da sahida, com encarecer os perigos do
    ferimento. Depois, como não conseguisse dissuadil-o, resolveu
    acompanhal-o. Simão agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decisão. O
    ferrador não cedia do proposito, e estava já preparando a clavina, e
    arreçoando com medida dobrada a egua–para o que désse e viesse–dizia
    elle, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvêra não ir
    a Vizeu, e seguir Thereza ao Porto, passados os dias da convalescença.
    Facilmente o acreditou João da Cruz; mas Marianna, submissa sempre ao
    que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança, e disse ao pae que
    vigiasse o fidalgo.

    Ás onze horas da noite ergueu-se o academico, e escutou o movimento
    interior da casa: não ouviu o mais ligeiro ruido, a não ser o rangido da
    egua na manjedoura. Escorvou de polvora nova as duas pistolas. Escreveu
    um bilhete subscriptado a João da Cruz, e ajuntou-o á carta que
    escrevêra a Thereza. Abriu as portadas da janella do seu quarto, e
    passou d'alli para a varanda de pau, da qual o salto á estrada era sem
    risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral á
    porta da varanda, se abriu, e a voz de Marianna lhe disse:

    –Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na
    sua companhia.

    O academico parou, e ouviu voz intima que lhe dizia: «O teu anjo da
    guarda falla pela bôca d'aquella mulher, que não tem mais intelligencia
    que a do coração alumiado pelo seu amor.»

    –Dê um abraço em seu pae, Marianna–disse-lhe Simão–e adeus… até
    logo, ou….

    –Até ao juizo final…–atalhou ella.

    –O destino ha de cumprir-se… Seja o que o ceu quizer.

    Tinha Simão desapparecido nas trevas, quando Marianna accendeu a lampada
    do sanctuario, e ajoelhou orando com o fervor das lagrimas.

    Era uma hora, e estava Simão defronte do convento, contemplando uma a
    uma as janellas. Em nenhuma vira clarão de luz; luz só a do lampadario
    do Sacramento se coava baça e pallida na vidraça d'uma fresta do templo.
    Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu, ali immovel, as quatro
    horas. Das mil visões, que lhe relancearam no atribulado espirito, a que
    mais a miudo se repetia era a de Marianna supplicante com as mãos
    postas; mas, ao mesmo tempo, cria elle ouvir os gemidos de Thereza,
    torturada pela saudade, pedindo ao ceu que a salvasse das mãos de seus
    algozes. O vulto de Thadeu de Albuquerque, arrastando a filha a um
    convento, não lhe afogueava a sêde de vingança; mas cada vez que lhe
    acudia á mente a imagem odiosa de Balthazar Coutinho, instinctivamente
    as mãos do academico se asseguravam da existencia das pistolas.

    Ás quatro horas e um quarto acordou a natureza toda em hymnos e
    acclamações ao radiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do
    mosteiro melodias interrompidas pelo toque solemne das Ave-Marias na
    torre. O horisonte passára, de escarlate a alvacento. A purpura da
    aurora, como lavareda enorme, desfizera-se em particulas de luz, que
    ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planicies e nas
    varzeas, como se o anjo do Senhor, á voz de Deus, viesse desenrolando
    aos olhos da creatura as maravilhas do repontar d'um dia estivo.

    E nenhuma d'estas galas do ceu e da terra enlevava os olhos do moço
    poeta!

    Ás quatro horas e meia ouviu Simão o tinido de liteiras, dirigindo-se
    áquelle ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira
    ao convento.

    Pararam as liteiras vasias na portaria, e logo depois chegaram tres
    senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irmãs de Balthazar,
    acompanhadas de dois mochilas com as mulas á rédea. As damas foram
    sentar-se nos bancos de pedra, lateraes á portaria. Em seguida abriu-se
    a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as tres senhoras entraram.

    Momentos depois viu Simão chegar á portaria Thadeu de Albuquerque
    encostado ao braço de Balthazar Coutinho. O velho denotava quebranto e
    desfallecimento a espaços. O de Castro-d'Aire, bem composto de figura e
    caprichosamente vestido á castelhana, gesticulava com o aprumo de quem
    dá as suas irrefutaveis razões, e consola tomando a riso a dôr alheia.

    –Nada de lamurias, meu tio!–dizia elle–Desgraça seria vêl-a casada!
    Eu prometto-lhe antes de um anno restituir-lh'a curada. Um anno de
    convento é um optimo vomitorio do coração. Não ha nada como isso para
    limpar o sarro do vicio em corações de meninas creadas á discrição. Se
    meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediencia cega, têl-a-ia agora
    submissa, e ella não se julgaria authorisada a escolher marido.

    –Era uma filha unica, Balthazar!–dizia o velho, soluçando.

    –Pois por isso mesmo–replicou o sobrinho–Se tivesse outra, ser-lhe-ia
    menos sensivel a perda, e menos funesta a desobediencia. Faria a sua
    casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licença regia
    para desherdar a primogenita. Assim, agora não lhe vejo outro remedio
    senão empregar o cauterio á chaga; com emplastros é que não se faz nada.

    Abriu-se novamente a portaria, e sahiram as tres senhoras, e após ellas
    Thereza.

    Thadeu enchugou as lagrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que
    não ergueu do chão os olhos.

    –Thereza…–disse o velho.

    –Aqui estou, senhor–respondeu a filha, sem o encarar.

    –Ainda é tempo–tornou Albuquerque.

    –Tempo de quê?

    –Tempo de seres boa filha.

    –Não me accusa a consciencia de o não ser.

    –Ainda mais?!… Queres ir para tua casa, e esqueceres o maldito que
    nos faz a todos desgraçados?

    –Não, meu pae. O meu destino é o convento. Esquecêl-o nem por morte.
    Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.

    Thereza, circumvagando os olhos, viu Balthazar, e estremeceu,
    exclamando:

    –Nem aqui!

    –Falla comigo, prima Thereza?–disse Balthazar, risonho.

    –Comsigo fallo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença?

    –Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha
    eu ha dias, dignos de acompanharem a minha prima; mas esses houve ahi um
    assassino que m'os matou. Á falta d'elles, sou eu que me offereço.

    –Dispenso-o da delicadeza–atalhou Thereza com vehemencia.

    –Eu é que me não dispenso de a servir, á falta dos meus dois fieis
    criados, que um scelerado me matou.

    –Assim devia ser–tornou ella tambem ironica–porque os covardes
    escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.

    –Ainda se não fizeram as contas finaes…, minha querida
    prima–redarguiu o morgado.

    Este dialogo correu rapidamente, em quanto Thadeu de Albuquerque
    cortejava a prioreza e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas
    de Balthazar, tinham sahido do atrio do convento, e deram de rosto em
    Simão Botelho, encostado á esquina da rua fronteira.

    Thereza viu-o…. adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:

    –Simão!…

    O filho do corregedor não se moveu.

    Balthazar, espavorido do encontro, fitando os olhos n'elle, duvidava
    ainda.

    –É crivel que esse infame aqui viesse!–exclamou o de Castro-d'Aire.

    Simão deu alguns passos, e disse placidamente:

    –_Infame…_ eu! e porquê?

    –Infame, e infame assassino!–replicou Balthazar–Já fóra da minha
    presença!

    –É parvo este homem!–disse o academico–Eu não discuto com s. s.^a…
    Minha senhora–disse elle a Thereza com a voz commovida e o semblante
    alterado unicamente dos affectos do coração–Soffra com resignação, da
    qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a
    violencia, e bem póde ser que a meio caminho do seu calvario a
    misericordia divina lhe redobre as forças.

    –Que diz este patife?!–exclamou Thadeu.

    –Vem aqui insultal-o, meu tio!–respondeu Balthazar–Tem a petulancia
    de se apresentar a sua filha a confortal-a na sua malvadez! Isto é de
    mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su villão!

    –Villão é o desgraçado, que me ameaça, sem ousar avançar para mim um
    passo–redarguiu o filho do corregedor.

    –Eu não o tenho feito–exclamou enfurecidamente Balthazar–por entender
    que me avilto, castigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu
    pódes suppôr meus defensores, canalha!

    –Se assim é–tornou Simão, sorrindo–espero nunca me encontrar de rosto
    com s. s.^a. Reputo-o tão covarde, tão sem dignidade, que o hei de
    mandar azorragar pelo primeiro ganha-pão das esquinas.

    Balthazar Coutinho lançou-se de impeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a
    garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as
    damas chegaram a interpôr-se entre os dois, Balthazar tinha o alto do
    craneo aberto por uma bala, que lhe entrára na fronte. Vacillou um
    segundo, e cahiu desamparado aos pés de Thereza.

    Thadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados
    rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola.
    Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao
    homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara,
    correu da rua fronteira, e se collocou, de bacamarte aperrado, á beira
    de Simão. Estacaram os homens.

    –Fuja, que a égua está ao cabo da rua–disse o ferrador ao seu hospede.

    –Não fujo… Salve-se, e depressa–respondeu Simão.

    –Fuja, que se ajunta o povo, e não tardam ahi soldados.

    –Já lhe disse que não fujo–replicou o amante de Thereza, com os olhos
    postos n'ella, que cahira desfallecida sobre as escadas da igreja.

    –Está perdido!–tornou João da Cruz.

    –Já o estava. Vá-se embora, meu amigo, por sua filha lh'o rogo. Olhe
    que póde ser-me util; fuja…

    Abriam-se todas as portas e janellas, quando o ferrador se lançou na
    fuga, até cavalgar a egua.

    Um dos visinhos do mosteiro, que, em razão de seu officio, primeiro
    sahiu á rua, era o meirinho geral.

    –Prendam-no, prendam-no, que é um matador!–exclamava Thadeu de
    Albuquerque.

    –Qual?–perguntou o meirinho geral.

    –Sou eu–respondeu o filho do corregedor.

    –V. s.^a!–disse o meirinho espantado; e, approximando-se, accrescentou
    a meia voz–venha, que eu deixo-o fugir.

    –Eu não fujo–tornou Simão.–Estou prêso. Aqui tem as minhas armas.

    E entregou as pistolas.

    Thadeu de Albuquerque, quando se recobrou do spasmo, fez transportar a
    filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao
    Porto.

    As irmãs de Balthazar seguiram o cadaver de seu irmão para casa do tio.

    SEGUNDA PARTE.

    I.

    O corregedor acordara com o grande reboliço que ia na casa, e perguntou
    á esposa, que elle suppunha tambem desperta na camara immediata, que
    bulha era aquella. Como ninguem lhe respondesse, sacudiu freneticamente
    a campainha, e berrou ao mesmo tempo, aterrado pela hypothese de
    incendio na casa. Quando D. Rita acudiu, já elle estava enfiando os
    calções ás avessas.

    –Que estrondo é este? quem é que grita?–exclamou Domingos Botelho.

    –Quem grita mais é o senhor–respondeu D. Rita.

    –Sou eu!? Mas quem é que chora?

    –São suas filhas.

    –E porquê? Diga n'uma palavra.

    –Pois sim, direi: o Simão matou um homem.

    –Em Coimbra?… E fazem tanta bulha por isso!

    –Não foi em Coimbra, foi em Vizeu–tornou D. Rita.

    –A senhora manga comigo?! Pois o rapaz está em Coimbra, e mata em
    Vizeu! Ahi está um caso para que as ordenações do reino não
    providenciaram.

    –Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada de hoje
    Balthazar Coutinho, sobrinho do Thadeu de Albuquerque.

    Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto.

    –Foi prêso?–perguntou o corregedor.

    –Está em casa do juiz de fóra.

    –Mande-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e porque foi essa
    morte?!… Mande-me chamar o meirinho, sem demora.

    –Porque se não veste o senhor, e vai a casa do juiz?

    –Que vou eu fazer a casa do juiz?

    –Saber de seu filho como isto foi.

    –Eu não sou pae: sou corregedor. Não me incumbe a mim interrogal-o,
    Senhora D. Rita, eu não quero ouvir choradeiras; diga ás meninas que se
    calem, ou que vão chorar no quintal.

    O meirinho chamado relatou miudamente o que sabia, e disse ter-se
    verificado que o amor á filha do Albuquerque fôra causa d'aquelle
    desastre.

    Domingos Botelho, ouvida a historia, disse ao meirinho:

    –O juiz de fóra que cumpra as leis. Se elle não fôr rigoroso, eu o
    obrigarei a sêl-o.

    Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido:

    –Que significa esse modo de fallar de seu filho?

    –Significa que sou corregedor d'esta comarca, e que não protejo
    assassinos por ciumes, e ciumes da filha de um homem, que eu detesto. Eu
    antes queria vêr mil vezes morto Simão, que ligado a essa familia.
    Escrevi-lhe muitas vezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se
    alguem me désse a certeza de que elle tinha correspondencia com tal
    mulher. Não ha de querer a senhora que eu vá sacrificar a minha
    integridade a um filho desobediente, e de mais a mais homicida.

    D. Rita, algum tanto por affecto maternal e bastante por espirito de
    contradicção, contendeu largo espaço; mas desistiu, obrigada pela
    insolita pertinacia e cólera do marido. Tão iracundo e aspero em
    palavras nunca o ella vira. Quando lhe elle disse: «Senhora, em coisas
    de pouca monta o seu dominio era toleravel; em questões de honra, o seu
    dominio acabou: Deixe-me!»–D. Rita, quando tal ouviu, e reparou na
    physionomia de Domingos Botelho, sentiu-se mulher, e retirou-se.

    A ponto foi isto de entrar o juiz de fóra na sala de espera. O
    corregedor foi recebel-o, não com o semblante affectuoso de quem vai
    agradecer a delicadeza e implorar indulgencia, senão que de carrancudo
    que ia, mais parecêra ir elle reprehender o juiz por vir n'aquella
    visita dar a crer que a balança da justiça na sua mão tremia algumas
    vezes.

    –Começo por dar a v. s.^a os pezames–disse o juiz de fóra–da desgraça
    de seu filho.

    –Obrigado a v. s.^a Sei tudo. Está instaurado o processo?

    –Não podia deixar eu de acceitar a querella.

    –Se a não acceitasse, obrigal-o-ia eu ao cumprimento dos seus deveres.

    –A situação do senhor Simão Botelho é pessima. Confessa tudo. Diz que
    matou o algoz da mulher que elle amava…

    –Fez muito bem–interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada secca
    e rouca.

    –Perguntei-lhe se foi em defeza, e fiz-lhe signal que respondesse
    affirmativamente. Respondeu que não; que, a defender-se, o faria com a
    ponta da bota, e não com um tiro. Busquei todos os modos honestos de o
    levar a dar algumas respostas, que denotassem allucinação ou demencia;
    elle, porém, responde e replíca com tanta egualdade e presença de
    espirito, que é impossivel suppor que o assassinio não foi perpetrado
    muito intencionalmente e de claro juizo. Aqui tem v. s.^a uma
    especialissima e triste posição. Queria valer-lhe, e não posso.

    –E eu não posso nem quero, senhor doutor juiz de fóra. Está na cadêa?

    –Ainda não: está em minha casa. Venho saber se v. s.^a determina que
    lhe seja preparada com decencia a prisão.

    –Eu não determino nada. Faça de conta que o prêso Simão não tem aqui
    parente algum.

    –Mas, senhor doutor corregedor–disse o juiz de fóra com tristeza e
    compuncção–v. s.^a é pae.

    –Sou um magistrado.

    –É demasiada a severidade, perdôe-me a reflexão que é amiga. Lá está a
    lei para o castigar; não o castigue v. ex.^a com o seu odio. A desgraça
    quebranta o odio de estranhos, quanto mais o affectuoso resentimento de
    um pae!

    –Eu não odeio, senhor doutor; desconheço esse homem em que me falla.
    Cumpra os seus deveres, que lh'o ordena o corregedor, e o amigo mais
    tarde lhe agradecerá a delicadeza.

    Sahiu o juiz de fóra, e foi encontrar Simão na mesma serenidade em que o
    deixára.

    –Venho de fallar com seu pae;–disse o juiz–encontrei-o mais irado do
    que era natural calcular. Penso que por em quanto naaa póde esperar da
    influencia ou patrocinio d'elle.

    –Isso que importa?–respondeu socegadamente Simão.

    –Importa muito, senhor Botelho. Se seu pae quizesse, haveria meios de
    mais tarde lhe adoçar a sentença.

    –Que me importa a mim a sentença?–replicou o filho do corregedor.

    –Pelo que vejo não lhe importa ao senhor ir a uma forca?

    –Não, senhor.

    –Que diz, senhor Simão!–redarguiu espantado o interrogador.

    –Digo que o meu coração é indifferente ao destino da minha cabeça.

    –E sabe que seu pae não lhe dá mesmo protecção, a protecção das
    primeiras necessidades na cadêa?

    –Não sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou morrer no
    patibulo?

    –Porque não escreve a sua mãe? Peça-lhe que…

    –Que hei de eu pedir a minha mãe?–atalhou Simão.

    –Peca-lhe, que amacie a cólera de seu pae, senão o senhor Botelho não
    tem quem o alimente.

    –V. s.^a está-me julgando um miseravel, a quem dá cuidado saber onde ha
    de almoçar hoje. Penso que não incumbem ao senhor juiz de fóra essas
    miudezas de estomago.

    –De certo não–redarguiu irritado o juiz—Faça o que quizer.

    E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o réo, dispensando o aguazil
    de pedir força para acompanhal-o.

    O carcereiro recebeu respeitosamente o prêso, e alojou-o n'um dos
    quartos melhores do carcere; mas nú e desprovido de tudo o carcere.

    Um outro prêso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simão sentou-se, cruzou
    os braços, e meditou.

    Pouco depois, um criado de seu pae conduziu-lhe o almoço, dizendo-lhe
    que sua mãe lh'o mandava a occultas, e entregando-lhe uma carta d'ella,
    cujo conteúdo importa saber. Simão, antes de tocar no almoço, cujo cabaz
    estava-no pavimento, leu o seguinte:

    «Desgraçado, que estás perdido!

    Eu não te posso valer, porque teu pae está inexoravel. A occultas d'elle
    é que te mando o almoço, e não sei se poderei mandar-te o jantar!

    Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer!

    Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não quiz
    largar a victima [3].

    Para que sahiste de Coimbra? a que vieste, infeliz? Agora sei que tens
    vivido fóra de Coimbra ha quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que
    dissesses a tua mãe!…»

    Simão suspendeu a leitura, e disse entre si:

    –Como se intende isto?! Pois minha mãe não mandou chamar João da Cruz!
    E não foi ella quem me mandou o dinheiro?

    –Olhe que o almoço arrefece, menino!–disse o criado.

    Simão continuou a ler, sem ouvir o criado:

    «Deves estar sem dinheiro; e eu desgraçadamente não posso hoje enviar-te
    um pinto. Teu irmão Manoel, desde que fugiu para Hespanha, absorve-me
    todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas
    receio bem que teu pae saia de Vizeu, e nos leve para Villa Real, para
    abandonar de todo o teu julgamento á severidade das leis.

    Meu pobre Simão! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo é
    que teu pae teve carta d'um lente, participando-lhe a tua falta nas
    aulas, e sahida para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te
    acompanhou.

    Não posso mais. Teu pae já espancou a Ritinha, por ella querer ir á
    cadêa.

    Conta com o pouco valor de tua pobre mãe ao pé d'um homem infurecido
    como está teu pae.»

    Simão Botelho reflectiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro
    recebido era de João da Cruz. Quando sahiu com o espirito d'esta
    meditação, tinha os olhos marejados de lagrimas.

    –Não chore, menino;–disse o criado–os trabalhos são para os homens, e
    Deus ha de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão.

    –Leva o almoço–disse elle.

    –Pois não quer almoçar?!

    –Não. Nem voltes aqui. Eu não tenho familia. Não quero absolutamente
    nada da casa de meus paes. Diz a minha mãe que eu estou socegado, bem
    alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já.

    O criado sahiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava
    doudo. D. Rita achou provavel a suspeita do servo e viu a evidencia da
    loucura nas palavras do filho.

    Quando o o carcereiro voltou ao quarto de Simão, entrou acompanhado
    d'uma rapariga camponeza: era Marianna. A filha de João da Cruz que, até
    áquelle momento não apertava sequer a mão do hospede, correu a elle com
    os braços abertos, e o rosto banhado de lagrimas. O carcereiro
    retirou-se, dizendo comsigo: «Esta é bem mais bonita que a fidalga!»

    –Não quero ver lagrimas, Marianna–disse Simão–Aqui, se alguem deve
    chorar sou eu; mas lagrimas dignas de mim, lagrimas de gratidão aos
    favores que tenho recebido de si e de seu pae. Acabo de saber que minha
    mãe nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pae aquelle dinheiro, que
    recebi.

    Marianna escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.

    –Seu pae teve algum perigo?–tornou Simão em voz só perceptivel d'ella.

    –Não, senhor.

    –Está em casa?

    –Está; e parece furioso. Queria vir aqui; mas eu não o deixei.

    –Perseguiu-o alguem?

    –Não, senhor.

    –Diga-lhe que não se assuste, e vá depressa socegal-o.

    –Eu não posso ir sem fazer o que elle me disse. Eu vou sahir, e volto
    d'aqui a pouco.

    –Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel–disse
    Simão, dando-lhe dinheiro.

    –Ha de vir logo tudo; já cá podia estar; mas o pae disse-me que não
    comprasse nada sem saber se sua familia lhe mandava o necessario.

    –Eu não tenho familia, Marianna. Tome o dinheiro.

    –Não recebo dinheiro, sem licença de meu pae. Para essas compras trouxe
    eu de mais. E a sua ferida como estará?

    –Ainda agora me lembro que tenho uma ferida!–disse Simão,
    sorrindo–Deve estar boa, que não me dóe…. Soube alguma coisa da D.
    Thereza?

    –Soube que foi para o Porto. Estavam alli a contar que o pae a mandára
    metter sem sentidos na liteira, e está muito povo á porta do fidalgo.

    –Está bom, Marianna… Não ha desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu
    hospede, seja o seu anjo de misericordia.

    Saltaram de novo as lagrimas dos olhos da moça; e por entre soluços,
    estas palavras:

    –Tenha paciencia. Não ha de morrer ao desamparo. Faça de conta que lhe
    appareceu hoje uma irmã.

    E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoutos e uma
    garrafa de licor de canella, que depôz sobre a cadeira.

    –Mau almoço é; mas não achei outra coisa prompta–disse ella, e sahiu
    apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratidão.

    II.

    O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e
    filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser
    transportado em cavalgaduras.

    Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella
    familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes:

    «Já lá vão cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem
    hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei
    como é que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia.
    Parece-me que, há trinta annos, me não lembravam com tantas
    circumstancias e promenores.

    Quando a mãe disse a mim e a minhas irmãs que preparassemos os nossos
    bahus, rompemos todas n'um chôro, que irritou a ira do pae. As manas,
    como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu,
    porém, que só uma vez e unicamente por causa de Simão, tinha sido
    castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae
    que me deixasse ir vêr o mano á cadêa antes de sahirmos de Vizeu.

    Então fui castigada pela segunda vez e asperamente.

    O criado, que levou o jantar á cadêa, voltou com elle e contou-nos que
    Simão já tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com
    exterior socegado. Áquella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando
    a finados por alma de Balthazar.

    Ao pé d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia,
    triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava,
    disse Simão:–A minha família é esta.

    No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Villa Real. A mãe
    chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que
    vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a
    jornada na minha cavalgadura.

    Logo que chegamos a Villa Real, eram tão frequentes as desordens em
    casa, á conta do Simão, que meu pae abandonou a familia, e foi sósinho
    para a quinta de Montezellos. A mãe quiz tambem abandonar-nos, e ir para
    os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae,
    que fizera uma espantosa mudança de genio, quando tal soube, ameaçou
    minha mãe de a obrigar judicialmente a não sahir da casa de seu marido e
    filhas.

    Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ella que o filho
    não respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as
    cartas que ella escrevêra. Ja se vê que o pae as fazia tirar no correio.

    Uma senhora de Vizeu escreveu á mãe, louvando-a pelo muito amor e
    caridade com que ella acudia ás necessidades de seu infeliz filho. Esta
    carta foi-lhe entregue por um almocreve, senão teria o destino das
    outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e
    confessou lhe que não o tinha soccorrido, porque o filho rejeitára o
    pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de
    Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas
    visinhanças da cadêa, e cuidava do prêso com abundancia e limpeza, e a
    todos dizia que ali estava por ordem e á custa da senhora D. Rita
    Preciosa. Accrescentava a amiga de minha mãe, que algumas vezes mandára
    chamar a bella moça e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos
    para Simão, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simão não
    aceitava nada.

    De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na
    ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as
    pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraçado irmão.

    A mãe escrevia aos seus parentes da capital, implorando graça regia para
    o filho; mas aquellas cartas não sahiam do correio, e iam dar todas á
    mão de meu pae.

    E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem
    recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava
    aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que
    voltaram com o abandono, se podem vêr reliquias das cêpas plantadas por
    elle. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia
    que a justiça não era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios
    paes condemnavam os filhos criminosos.

    Teve minha mãe a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença
    para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a
    furiosamente.

    Passados sete mezes, soubemos que Simão tinha sido condemnado a morrer
    na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as
    janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha mãe cahiu
    doente.

    Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra
    foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o
    seu valimento na salvação do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns
    parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir
    sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: «A forca
    não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A
    ignominia das familias são as más acções. A justiça não infama senão
    aquelle que castiga.»

    Tinhamos nós um tio-avô muito velho e venerando, chamado Antonio da
    Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae
    e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e tres annos.
    Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem já é vida; mas foi-o, e
    honrada, e sem mancha até agora, e já agora ha de assim acabar; meus
    olhos não hão de vêr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu
    me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me
    mato.–E dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pae
    teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.

    No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na
    Relação, e de lá para Lisboa[4].

    Em principio de Março de 1805 soube minha mãe com grande prazer que
    Simão fôra removido para as cadêas da Relação do Porto, vencendo os
    grandes obstaculos que oppozera a essa mudança dos queixosos, que eram
    Thadeu de Albuquerque, e as irmãs do morto.

    Depois……»

    Suspendemos aqui o extracto da carta, para não anticiparmos a narrativa
    de successos, que importa, em respeito á arte, atar no fio cortado.

    Simão Botelho vira imperturbavel chegar o dia do julgamento. Sentou-se
    no banco dos homicidas sem patrono, nem testemunhas de defeza. Ás
    perguntas respondeu com o mesmo animo frio d'aquellas respostas ao
    interrogatorio do juiz. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com
    toda a lealdade sem articular o nome de Thereza Clementina de
    Albuquerque. Quando o advogado da accusação proferiu aquelle nome, Simão
    Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:

    –Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infamia e
    sangue? Que miseravel accusador está ahi, que não sabe com a confissão
    do réo provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputação d'uma
    mulher? A minha accusação está feita: eu a fiz: agora a lei que falle, e
    cale-se o villão que não sabe accusar sem infamar.

    O juiz impôz-lhe silencio. Simão sentou-se, murmurando:

    –Miseraveis todos!

    Ouviu o réo a sentença de morte natural para sempre na forca arvorada no
    local do delicto. E ao mesmo tempo sahiram d'entre a multidão uns gritos
    dilacerantes. Simão voltou a face para as turbas, e disse:

    –Ides ter um bello espectaculo, senhores! A forca é a unica festa do
    povo! Levai d'ahi essa pobre mulher que chora: essa é a creatura unica
    para quem o meu supplicio não será um passatempo.

    Marianna foi transportada em braços á sua casinha, na visinhança da
    cadêa. Os robustos braços que a levaram eram os de seu pae.

    Simão Botelho, quando, em toda a agilidade e força dos dezoito annos, ia
    do tribunal ao carcere, ouviu algumas vozes que se alternavam d'este
    modo:

    –Quando vai elle a padecer?

    –É bem feito! vai pagar pelos innocentes que o pae mandou enforcar.

    –Queria apanhar a morgada á força de balas!

    –Não que estes fidalgos cuidam que não é mais senão matar!…

    –Matasse elle um pobre, e tu verias como elle estava em casa!

    –Tambem é verdade!

    –E como elle vai de cara no ar!

    –Deixa ir, que não tarda quem lh'a faça cahir ao chão!…

    –Dizem que o carrasco já vem pelo caminho.

    –Já chegou de noite, e trazia dous cutélos n'uma coifa.

    –Tu viste-o?

    –Não; mas disse a minha comadre que lh'o dissera a visinha do cunhado
    da irmã, e que o carrasco está escondido n'uma enxovia.

    –Tu has de levar os teus pequenos a vêr o padecente?

    –Podéra não! Estes exemplos não se devem perder.

    –Eu cá de mim já vi enforcar tres, que me lembre, todos por matadores.

    –Por isso tu ha dois annos não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a
    casa do diabo!…

    –Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me elle.

    –Então de que voga o exemplo?!

    –Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que préga aos
    paes que levem os filhos a vêrem os enforcados.

    –Isso ha de ser para o não esfolarem a elle, quando elle nos esfola com
    os peditorios.

    Tão desassombrado ia o espirito de Simão, que algumas vezes lhe esvoaçou
    nos labios ura sorriso, desafiado pela philosophia do povo, ácerca da
    forca.

    Recolhido ao seu quarto, foi intimado para appellar dentro do prazo
    legal. Respondeu que não appellava, que estava contente da sua sorte, e
    de boas avenças com a justiça.

    Perguntou por Marianna, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar.
    Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a
    via delirante a fallar em forca, e a pedir que a matassem primeiro.
    Agudissima foi então a dôr do academico ao comprehender, como se
    instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Marianna o amava até
    morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Thereza, se é
    possivel assim pensal-o. Vêl-a-ia por ventura como um anjo redemido em
    serena contemplação do seu creador; e veria Marianna como o symbolo da
    tortura, morrendo a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe
    dessem a gloria do martyrio. Uma, morrendo amada; outra, agonisando, sem
    ter ouvido a palavra «amor» dos labios que escassamente balbuciavam
    frias palavras de gratidão.

    E chorou então aquelle homem de ferro. Chorou lagrimas que valiam bem as
    amarguras de Marianna.

    –Cuide de sua filha, senhor Cruz!–disse Simão com fervente supplica ao
    ferrador.–Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa
    creatura, que nasceu debaixo da minha má estrella. Tire-a de Vizeu:
    leve-a para sua casa. Salve-a, para que n'este mundo fiquem duas irmãs
    que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a
    brevidade da minha vida. D'aqui a dias mandam-me recolher ao oratorio:
    bom será que sua filha ignore.

    De volta, João da Cruz achou a filha prostrada no pavimento, ferida no
    rosto, chorando e rindo, demente em summa. Levou-a amarrada para sua
    casa, e deixou a cargo d'outra pessoa a sustentação do condemnado.

    Terribilissimas foram então as horas solitarias do infeliz. Até áquelle
    dia, Marianna, bem quista do carcereiro e protegida pela amiga de D.
    Rita Preciosa, tinha franca entrada no carcere a toda a hora do dia, e
    raras horas deixava sósinho o prêso. Costurava, em quanto elle escrevia,
    ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito
    doente ou prostrado, Marianna, que tivera alguns principios de escripta,
    sentava-se á banca, e escrevia cem vezes o nome _Simão_, que muitas
    vezes as lagrimas diliam. E isto assim, durante sete mezes, sem nunca
    proferir nem ouvir a palavra amor. Isto assim, depois das vigilias
    nocturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa,
    onde ia visitar o pae a deshoras.

    Nunca mais o prêso, na perspectiva da forca, viu entrar aquella doce
    creatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar medido e
    calculado para que as honras da asphyxia as gozasse o cordel do
    patibulo. Nunca mais!

    E, quando elle avocava a imagem de Thereza, um capricho dos olhos
    quebrantados lhe affigurava a visão de Marianna ao par da outra. E
    lagrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos
    espêssos ferros da janella, e pensava em partir o craneo contra as
    grades.

    Não o sostinha a esperança na terra nem no ceu. Raio de luz divina
    jámais penetrou no seu ergastulo. O anjo da piedade incarnára n'aquella
    creatura celestial, que enlouquecêra, ou voltara para o ceu com o
    espirito d'ella. O que o salvava do suicidio não era, pois, esperança em
    Deus, nem nos homens: era este pensamento: «A final, _covarde_! Que
    bravura é morrer quando não ha esperança de vida!? A forca é um
    triumpho, quando se encontra ao cabo do caminho da honra!»

    III.

    E Thereza?

    Perguntam a tempo, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me
    arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.

    Esquecido, não. Muito ha que me reluz e voeja, alada como o ideal
    cherubim dos santos, n'esta minha quasi escuridade[5], aquella ave do
    ceu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que
    ella deixou na terra. Mais lagrimas que sangue deixaste, ó filha da
    amargura! Flores são tuas lagrimas, e do ceu me diz se os perfumes
    d'ellas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita
    devota, que morre canonisada, e cujo cheiro de santidade não passa do
    olfacto hypocrita ou estupido dos mortaes.

    Thereza Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde
    cabira, á liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu
    defronte de si uma criada, que lhe dizia banaes e frias expressões de
    allivio. Se alguma criada de seu pae lhe era amiga, de certo não
    aquella, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para
    a expansão em gritos restava á affligida menina.

    Perguntava-se a si mesma Thereza se aquella horrorosa situação, seria um
    sonho! Sentia-se de novo fallecer de forças, e voltava á vida, sacudida
    pela consciencia da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a
    respirar, chorando com ella, e dizendo-lhe:

    –Póde fallar, menina, que ninguem nos segue.

    –Ninguem?!

    –As suas primas ficaram: apenas vem os dois lacaios.

    –E meu pae não?

    –Não, fidalga… Póde chorar e fallar á sua vontade.

    –E eu vou para o Porto?

    –Vamos, sim, minha senhora.

    –E tu viste tudo como foi, Constança?

    –Desgraçadamente vi….

    –Como foi? conta-me tudo.

    –A menina bem sabe que seu primo morreu.

    –Morreu?! Vi-o cahir quasi aos meus pés; mas….

    –Morreu logo, e depois quizeram os criados, á voz de seu pae, prender o
    senhor Simão; mas elle com outra pistola….

    –E fugiu?–atalhou Thereza com vehemencia e alegria.

    –A final foi elle que se deu á prisão.

    –Está prêso?!

    E suffocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras
    confortadoras de Constança.

    Serenado algum tanto o violento accesso de gemidos e choro, Thereza
    suggeriu á criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem
    onde pousassem, para ella ir a Vizeu dar o ultimo adeus a Simão.

    A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos
    perigos que ia accumular á desgraça do seu amante, e animando-a com a
    esperança de livrar-se Simão do crime, com a influencia do pae, apesar
    da perseguição do fidalgo.

    Calaram lentamente estas razões no espirito de Thereza, apesar dos
    estorvos do coração.

    Chorosa, doente, a revezes desfallecida, foi Thereza vencendo a
    distancia que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de
    jornada.

    A prelada já estava sabedora dos successos, por emissarios que se
    adiantaram ao moroso caminhar da liteira.

    Foi Thereza recebida com brandura por sua tia, posto que as
    recommendações de Thadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa, e
    absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.

    Ouviu a prelada da bôca de sua sobrinha a fiel historia dos
    acontecimentos, e mostrou-lhe uma a uma as cartas de Simão Botelho.
    Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lagrimas de mulher ao
    fogo da austeridade religiosa, fallou e aconselhou como freira, e freira
    que ciliciava o corpo com as rozetas, e o coração com as privações
    tormentosas de quarenta annos.

    Thereza carecia de forças para a rebellião. Deixou a sua tia a santa
    vaidade de exorcismar o demonio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da
    morte, que, de permeio ao seu amor e á esperança, lhe interpunha a aza
    negra, que tão de luz refulgente rebrilha ás vezes em corações
    infelizes.

    Quiz Thereza escrever.

    –A quem, minha filha?–perguntou a prelada.

    Não respondeu Thereza.

    –Escrever-lhe para que?–tornou a religiosa–Cuidas tu, menina, que as
    tuas cartas lhe chegam á mão? Que vaes tu fazer senão redobrar a ira de
    teu pae contra ti e contra o infeliz prêso! Se o amas, como creio,
    apesar de tudo, cuida em salval-o. Se não ouves a minha razão, finge-te
    esquecida. Se pódes violentar a tua dôr, dissimula, faz muito por que a
    teu pae chegue a noticia de que lhe serás obediente em tudo, se elle
    tiver piedade do teu pobre amigo.

    Não recalcitrou Thereza. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe
    que a envolvesse a ella, e ao seu amor, e á sua esperança, de todo, na
    negrura de suas azas.

    De mez a mez recebia a abbadessa de Monchique uma carta de seu primo.
    Eram estas cartas um respiradouro da vingança. Em todas dizia o velho
    que o assassino iria ao patibulo irremediavelmente. A sobrinha não via
    as cartas; mas reparava nas lagrimas da compassiva freira.

    A debil compleição de Thereza deprecia acceleradamente. A sciencia
    condemnou-a a morte breve. D'isto foi informado Thadeu de Albuquerque, e
    respondeu: «Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria
    mais tranquillo, e com a sua honra sem mancha.» Era assim immaculada a
    honra do fidalgo de Vizeu!… a HONRA, que dizem proceder em linha recta
    da virtude de Socrates, da virtude de Jesus Christo, e da virtude de
    milhões de martyres, que se deram ás garras das feras, quando predicavam
    a caridade e o perdão aos homens!

    Quantas caricias inventou a sympathia e a piedade, todos, por ministerio
    das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o
    ardor, que consumia rapidamente a reclusa. Inutil tudo. Thereza
    reconhecia com lagrimas a compaixão, e ao mesmo tempo alegrava-se,
    tirando das caricias a certeza de que os médicos a julgavam incuravel.

    Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento
    dos Remedios de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido condemnado á
    morte.

    Thereza estremeceu e murmurou, sem forças já para a exclamação:

    –E eu vivo ainda!

    Depois orou, e chorou; mas os habitos da sua vida em paroxismos
    continuaram inalteraveis.

    Perguntou á senhora, que lhe dera a noticia, se a sua amiga do convento
    dos Remedios lhe faria a esmola de fazer chegar ás mãos de Simão uma
    carta. Promptificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada.
    Entendeu esta religiosa que o derradeiro colloquio entre dous moribundos
    não podia damnifical-os na vida temporal nem na vida eterna.

    Esta é a carta, que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento:

    «Simão, meu esposo. Sei tudo… Está comnosco a morte. Olha que te
    escrevo sem lagrimas. A minha agonia começou ha sete mezes. Deus é bom,
    que me poupou ao crime. Ouvi a noticia da tua proxima morte, e então
    soube por que estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim,
    Simão!.. Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos
    de felicidade, e eu te dizia os meus!… Que mal fariam a Deus os nossos
    innocentes desejos!… Porque não merecemos nós o que tanta gente
    tem!… Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crêl-o! A eternidade
    apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz, que me guiava
    de ti para a fé. Mas não póde findar assim o nosso destino. Vê se podes
    segurar o ultimo fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-hemos
    n'um outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu
    rezo, supplíco; mas desfalleço na fé, quando me lembram as ultimas
    agonias do teu martyrio. As minhas são suaves, quasi que as não sinto.
    Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranquillo. O peor é a
    saudade, saudade d'aquellas esperanças que tu achavas no meu coração
    adivinhando as tuas. Não importa, se nada ha além d'esta vida. Ao menos,
    morrer é esquecer. Se tu podesses viver agora, de que te serviria? Eu
    tambem estou condemnada, e sem remedio. Segue-me, Simão! não tenhas
    saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser
    feliz se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei á
    morte… E que morte, meu Deus!… Aceita-a! não te arrependas. Se houve
    crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angustias que tens de soffrer
    no carcere… e nos ultimos dias, e na presença da…»

    Thereza ia escrever uma palavra, quando a penna lhe cahiu da mão, e uma
    convulsão lhe vibrou todo o corpo por largo espaço. Não escreveu a
    palavra; mas a ideia de _forca_ parou-lhe a vida. A freira entrou na
    cella a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Thereza,
    indicando-lh'a, disse:

    –Leia, se quizer, e feche-a, por caridade, que eu não posso.

    Nos tres dias seguintes Thereza não sahiu do leito. A cada hora, as
    religiosas assistentes esperavam que ella fechasse os olhos.

    –Custa muito morrer!–dizia algumas vezes a enferma.

    Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo.

    Thereza ouvia-os, e dizia com ancia:

    –Mas a esperança do ceu, sem elle!… que é o ceu, meu Deus?

    E o apostolico capellão do mosteiro não sabia dizer se os bens do ceu
    tinham commum com os do mundo as delicias que falsamente na terra se
    chamam assim.

    Aquellas subtilezas espirituaes, que vem com algumas especies de tisica,
    assim á maneira dos ultimos lampejos da vital flamma, tinha-as a
    enferma, quando acontecia fallarem-lhe as religiosas na bemaventurança.
    Ás vezes, se o capellão, convidado pela lucidez de Thereza, entrava os
    dominios da philosophia, tratando como problema a immortalidade da alma,
    a inculta senhora argumentava em breves termos, mas com razões tão
    claras a favor da união eterna das almas, já d'este mundo esposas, que o
    padre ficava em duvida se seria heretico contestar uma clausula não
    inscripta em algum dos quatro evangelhos.

    Maravilhava-se já a medicina da pertinacia d'aquella vida. Tinha a
    abbadessa escripto a seu primo Thadeu, apressurando-o a ir vêr o anjo ao
    despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade, e por ventura de amor
    paternal, deliberou tirar do convento a filha na esperança de salval-a
    ainda. Uma forte razão accrescia áquella: era a mudança do condemnado
    para os carceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao
    Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava á
    doente esta carta de Simão:

    «Não me fujas ainda, Thereza. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pae
    protege-me, e a salvação é possivel. Prende ao coração os ultimos fios
    da tua vida. Prolonga a tua agonia, em quanto eu te disser que espero.
    Ámanhã vou para as cadêas do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou
    commutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda
    a parte ha ceu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a
    pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Thereza, vive! Ha dias
    lembrava-me que as tuas lagrimas lavariam da minha face as nódoas do
    sangue do enforcado. Esse pesadêlo atroz passou. Agora, n'este inferno
    respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta.
    Já fito os olhos no ceu, e reconheço a providencia dos infelizes. Hontem
    vi as nossas estrellas, aquellas dos nossos segredos nas noites da
    ausencia. Volvi á vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não
    morras, filha da minha alma!»

    Ia alta a noite, quando Thereza, sentada no seu leito, leu esta carta.
    Chamou a criada para ajudal-a a vestir. Mandou abrir a janella do seu
    quarto, e encostou a face ás rexas de ferro. Esta janella olhava para o
    mar; e o mar era n'essa noite uma immensa flamma de prata; e a lua
    esplendidissima eclipsava o fulgor d'umas estrellas, que Thereza
    procurava no ceu.

    –São aquellas!–exclamou ella.

    –Aquellas quê, minha senhora?–disse Constança.

    –As minhas estrellas!… pallidas como eu… A vida! ai! a
    vida!–clamou ella, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos
    cadavericas–Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor!

    –Ha de viver, menina! ha de viver, que Deus é piedoso!–disse a
    criada–mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande
    mal.

    –Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver… Não vejo o ceu ha tanto
    tempo! Sinto-me resuscitar aqui, Constança! Porque não tenho eu
    respirado todas as noites este ar?! Eu poderei viver alguns annos?
    poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito á minha Virgem Santissima!
    Vamos orar ambas!… Vamos, que o Simão não morre… O meu Simão vive e
    quer que eu viva. Está no Porto amanhã; e talvez já esteja…

    –Quem, minha senhora?!

    –Simão, o Simão vem para o Porto.

    A criada julgou que sua ama delirava; mas não a contrariou.

    –Teve carta d'elle a fidalga?–tornou ella, cuidando que assim lhe
    alimentava aquelle instante de febril contentamento.

    –Tive… queres ouvir?… eu leio…

    E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu.

    Agora vamos rezar, sim?… Tu não és inimiga d'elle, não? Olha,
    Constança, se eu casar com elle, tu vaes para a nossa companhia. Verás
    como és feliz. Queres ir, não queres?

    –Sim, minha senhora, vou; mas elle conseguirá livrar-se da morte?

    –Livra; tu verás que livra; o pae d'elle ha de livral-o… e a Virgem
    Santissima é que nos ha de unir. Mas se eu morro… se eu morro, meu
    Deus!

    E com as mãos convuísamente enlaçadas sobre o seio, Thereza archejava em
    pranto.

    –Se eu não tenho já forças!… todos dizem que eu morro, e o medico já
    nem me receita!… Então melhor me fôra ter acabado antes d'esta hora!
    Morrer com esperanças, ó mãe de Deus!…

    E ajoelhou ante o retabulo devoto, que trouxera do seu quarto de Vizeu,
    ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os
    olhos das duas senhoras moribundas tinham fixado os seus ultimos raios
    de luz.

    IV.

    Annunciára-se Thadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia
    seguinte dos anteriores successos.

    Sua prima, primeira senhora que lhe sahiu ao locutorio, vinha enxugando
    lagrimas de alegria.

    –Não cuide que eu choro de afflicta, meu primo–disse ella–O nosso
    anjo, se Deus quizer, pode salvar-se. Logo de manhã a vi a passear por
    seu pé nos dormitorios. Que differença de semblante ella tem hoje! Isto,
    meu primo, é milagre de duas santas, que temos inteiras na claustra, e
    com as quaes algumas perfeitas creaturas d'esta casa se apegaram. Se as
    melhoras continuarem assim, temos Thereza; o ceu consente que esteja
    entre nós aquelle anjo mais alguns annos…

    –Muito folgo com o que me diz, minha boa prima–atalhou o fidalgo–A
    minha resolução é leval-a já para Vizeu, e lá se restabelecerá com os
    ares patrios, que são muito mais sadios que os do Porto.

    –É ainda cêdo para tão longa e custosa jornada, meu primo. Não vá o
    senhor cuidar que ella está capaz de se metter ao caminho. Lembre-se que
    ainda hontem pensamos em encontral-a hoje morta. Deixe-a estar mais
    alguns mezes; e depois não digo que a não leve; mas por em quanto não
    consinto semelhante imprudencia.

    –Maior imprudencia–replicou o velho–é conserval-a no Porto, onde a
    estas horas deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez não
    saiba a prima?… Pois é verdade: o patife do corregedor sahiu a campo
    em defeza d'elle, e conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a
    appellação da sentença, passado o prazo da lei; e, não contente com
    isto, fez que o filho fosse removido para as cadêas do Porto. Eu agora
    trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero conseguil-o; mas,
    em quanto o assassino aqui estiver, não quero que minha filha esteja no
    Porto.

    –O primo é pae, e eu sou apenas uma parenta—disse a
    abbadessa–cumpra-se a sua vontade. Quer vêr a menina, não é assim?

    –Quero, se é possível.

    –Pois bem, em quanto eu vou chamal-a, queira entrar na primeira grade á
    sua mão direita, que Thereza lá vai ter.

    Avisada Thereza de que seu pae a esperava, instantaneamente a côr sadia,
    que alegrava as senhoras religiosas, se demudou na lividez costumada.
    Quiz a tia, vendo-a assim, que ella não sahisse do seu quarto, e
    encarregava-se de espaçar a visita do pae.

    –Tem de ser–disse Thereza–Eu vou, minha tia.

    O pae, ao vêl-a, estremeceu e enfiou. Esperava mudança, mas não tamanha.
    Pensou que a não conheceria, sem o prevenirem de que ia vêr sua filha.

    –Como eu te encontro, Thereza!–exclamou elle commovido–Por que me não
    disseste ha mais tempo o teu estado?

    Thereza sorriu-se, e disse:

    –Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam.

    –Terás tu forças para ir comigo para Vizeu?

    –Não, meu pae; não tenho mesmo forças para lhe dizer em poucas palavras
    que não torno a Vizeu.

    –Porque não?! Se a tua saude depender d'isso!…

    –A minha saude depende do contrario. Aqui viverei ou morrerei.

    –Não é tanto assim, Thereza–replicou Thadeu com simulada brandura–Se
    eu entender que estes ares são nocivos á tua saude, has de ir, porque é
    obrigação minha conduzir e corrigir a tua má sina.

    –Está corrigida, meu pae. A morte emenda todos os erros da vida.

    –Bem sei: mas eu quero-te viva, e portanto recobra forças para o
    caminho. Logo que tiveres meio dia de jornada, verás como a saude volta
    como por milagre.

    –Não vou, meu pae.

    –Não vaes?!–exclamou irritado o velho, lançando ás grades as mãos
    trementes de ira.

    –Separam-nos esses ferros a que meu pae se encosta, e para sempre nos
    separam.

    –E as leis? cuidas tu que eu não tenho direitos legitimos para te
    obrigar a sahir do convento? Não sabes que tens apenas dezoito annos?

    –Sei que tenho dezoito annos; as leis não sei quaes são, nem me
    incommoda a minha ignorancia. Se póde ser que mão violenta venha
    arrancar-me d'aqui, convença-se meu pae de que essa mão ha de encontrar
    um cadaver. Depois o que quizerem de mim. Em quanto, porém, eu podér
    dizer que não vou, juro-lhe que não vou, meu pae.

    –Sei o que é!–bramiu o velho–Já sabes que o assassino está no Porto?

    –Sei, sim, senhor.

    –Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda…

    –Meu pae–interrompeu Thereza–não posso continuar a ouvil-o, porque me
    sinto mal. Dê-me licença… e vingue-se como podér. A minha gloria
    n'este longo martyrio seria uma forca levantada a par da do assassino.

    Thereza sahiu da grade, deu alguns passos na direcção da sua cella, e
    encostou-se esvaída á parede. Correram a amparal-a sua tia e criada; mas
    ella, afastando-as suavemente de si, murmurou:

    –Não é preciso… Estou boa… Estes golpes dão vida, minha tia.

    E caminhou sósinha a passos vacillantes.

    Thadeu batia á porta do mosteiro com irrisorio enfurecimento pancadas,
    umas após outras, com grande mêdo da porteira e outras madres,
    espantadas do insolito desproposito.

    –Que é isso, primo?–disse a prelada com severidade.

    –Quero cá fóra Thereza.

    –Como fóra? Quem ha de lançal-a fóra?!

    –A senhora, que não póde aqui reter uma filha contra a vontade de seu
    pae.

    –Isso assim é; mas tenha prudencia, primo.

    –Não ha prudencia, nem meia prudencia. Quero minha filha cá fóra.

    –Pois ella não quer ir?

    –Não, senhora.

    –Então espere que por bons modos a convençamos a sahir, porque não
    havemos trazer-lh'a a rastos.

    –Eu vou buscal-a, sendo preciso–redarguiu em crescente
    furia.–Abram-me estas portas, que eu a trarei!

    –Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A
    Regra do mosteiro não póde ser quebrantada para servir uma paixão
    rancorosa. Tranquillise-se, senhor! Vá descançar d'esse frenesi, e venha
    n'outra hora combinar comigo o que fôr digno de todos nós.

    –Tenho entendido!–exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do
    locutorio–Conspiram todas contra mim! Ora descancem, que eu lhes darei
    uma boa lição. Fique a senhora abbadessa sabendo que eu não quero que
    minha filha receba mais cartas do matador, percebeu?

    –Eu creio que Thereza nunca recebeu cartas de matadores, nem supponho
    que as receba d'ora em diante.

    –Não sei se sabe, nem senão. Eu vigiarei o convento. A criada, que está
    com ella, ponham-na fóra, percebeu?

    –Porquê?–redarguiu a prelada com enfado.

    –Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ella nada me tem contado.

    –Se não tinha que lhe dizer, senhor!

    –Não me conte historias, prima! A criada quero vêl-a sahir do convento,
    e já!

    –Eu não lhe posso fazer a vontade, porque não faço injustiças. Se v.
    s.^a quizer que sua filha tenha outra criada, mande-lh'a; mas a que ella
    tem, logo que deixe de a servir, ha muitas senhoras n'esta casa que a
    desejam, e ella mesma deseja aqui ficar.

    –Tenho entendido!—bradou elle–querem-me matar! Pois não matam;
    primeiro ha de o diabo dar um estoiro!

    Thadeu de Albuquerque sahiu em corcovos do atrio do mosteiro. Era
    hedionda aquella raiva que lhe contrahia as faces incorreadas, revendo
    suor e sangue aos olhos acovados.

    Apresentou-se ao intendente da policia, pedindo providencias para que se
    lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que não solicitava
    competentemente taes providencias. Instou para que o carcereiro da cadêa
    não deixasse sahir alguma carta de um assassino, vindo da comarca de
    Vizeu, por nome Simão Botelho. O intendente disse que não podia, sem
    motivos concernentes a devassas, obstar a que o prêso escrevesse a quem
    quer que fosse.

    Reduplicada a furia, foi d'ali ao corregedor do Porto, com os mesmos
    requerimentos em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de
    Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a
    velhice sem juizo era coisa tão de riso como de lastima. Esteve então a
    pique de perder-se a cabeça de Thadeu de Albuquerque. Andava e desandava
    as ruas do Porto, sem atinar com uma sahida digna da sua prosapia e
    vingança. No dia seguinte bateu á porta d'alguns desembargadores, e
    achava-os mais inclinados á clemencia, que á justiça, a respeito de
    Simão Botelho. Um d'elles, amigo de infancia de D. Rita Preciosa, e
    implorado por ella, fallou assim ao sanhudo fidalgo:

    –Em pouco está o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria
    v. s.^a hoje feito, se alguns adversarios se oppozessem á sua cólera?
    Esse infeliz moço, contra quem o senhor solicita desvariadas violencias,
    conserva a honra na altura da sua immensa desgraça. Abandonou-o o pae,
    deixando-o condemnar á forca; e elle da sua extrema degradação nunca fez
    sahir um grito supplicante de misericordia. Um estranho lhe esmolou a
    subsistencia de oito mezes de carcere, e elle aceitou a esmola, que era
    honra para si e para quem lh'a dava. Hoje fui eu vêr esse desgraçado
    filho de uma senhora que conheci no paço, sentada ao lado dos reis.
    Achei-o vestido de baetão e panno pedrez. Perguntei-lhe se assim estava
    desprovido de fato. Respondeu-me que se vestira á proporção dos seus
    meios, e que devia á caridade d'um ferrador aquellas calças e jaqueta.
    Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pae para o vestir decentemente.
    Disse-me que não pedia nada a quem consentiu que os delictos de seu
    coração e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados
    n'um patibulo. Ha grandeza n'este homem de dezoito annos, senhor
    Albuquerque. Se v. s.^a tivesse consentido que sua filha amasse Simão
    Botelho Castello-Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se
    lhe atravessou com insultos e offensas corporaes de tal affronta, que
    deshonrado ficaria Simão se as não repellisse como homem de alma e
    brios. Se v. s.^a se não tivesse opposto ás honestissimas e innocentes
    affeições de sua filha, a justiça não teria mandado arvorar uma forca,
    nem a vida de seu sobrinho teria sido immolada aos seus caprichos de mau
    pae. E se sua filha casasse com o filho do corregedor de Vizeu, pensa
    acaso v. s.^a que os seus brasões soffriam desdouro? Não sei de que
    seculo data a nobreza do senhor Thadeu de Albuquerque; mas do brasão de
    D. Rita Thereza Margarida Preciosa Caldeirão Castello-Branco posso
    dar-lhe informações sobre as paginas das mais veridicas e illustres
    genealogias do reino. Por parte de seu pae, Simão Botelho tem do melhor
    sangue de Traz-os-Montes, e não se temerá de entrar em competencias com
    o dos Albuquerques de Vizeu, que não é de certo o dos _Albuquerques
    terriveis_ de que resa Luiz de Camões…

    Offendido até ao amago pela derradeira ironia, Thadeu ergueu-se de
    impeto, tomou o chapéo e a enorme bengala de castão d'ouro, e fez a
    cortezia da despedida.

    –São amargas as verdades, não é assim?–disse-lhe, sorrindo, o
    desembargador Mourão Mosqueira.

    –V. ex.^a lá sabe o que diz, e eu cá sei no que hei de ficar–respondeu
    com tom ironico o fidalgo, alanceado na sua honra, e na dos seus quinze
    avós.

    O desembargador retorquiu:

    –Fique no que quizer; mas vá na certeza, se isso lhe serve d'alguma
    coisa, que Simão Botelho não vai á forca.

    –Veremos…–resmoneou o velho.

    V.

    São treze dias corridos do mez de Março de 1805.

    Está Simão n'um quarto de malta das cadêas da Relação. Um catre de
    táboas, um colchão de embarque, uma banca e cadeira de pinho, e um
    pequeno pacote de roupa, collocado no logar do travesseiro, são a sua
    mobilia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contém as cartas
    de Thereza, ramilhetes sêccos, os seus manuscriptos do carcere de Vizeu,
    e um avental de Marianna, o ultimo com que ella enxugára lagrimas, e
    arrancára de si no primeiro instante de demencia.

    Simão relê as cartas de Thereza, abre os envoltorios de papel que
    encerram as flôres resequidas, contempla o avental de linho, procurando
    os visiveis vestigios das lagrimas. Depois encosta a face e o peito aos
    ferros da sua janella, e avista os horisontes boleados pelas serras de
    Vallongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pittorescas de Gaya, do
    Candal, de Oliveira, e do mosteiro da serra do Pilar. É um dia lindo.
    Reflectem-se do azul do ceu os mil matizes da primavera. Tem aromas o
    ar, e a viração, fugitiva dos jardins, derrama no ether as urnas que
    roubou aos canteiros. Aquella indefinida alegria, que parece reluzir nas
    legiões de espiritos, que se geram ao sol de Março, rejubila a natureza,
    que toda pompas de luz e flôres se está namorando do calor que a vai
    fecundando.

    Dia de amor e de esperanças era aquelle que o Senhor mandava á choça
    encravada na garganta da serra, ao palacio esplendoroso que reverberava
    ao sol os seus espiraculos, ao opulento que passeava as suas molles
    equipagens, bafejado pelo respiro acre das çarças, e ao mendigo que
    desentorpecia os membros encostado ás columnas dos templos.

    E Simão Botelho, fugindo a claridade da luz, e o voejar das aves,
    meditando, chorava e escrevia assim as suas meditações:

    «O pão do trabalho de cada dia, e o teu seio para repousar uma hora a
    face, pura de manchas. Não pedi mais ao ceu.

    Achei-me homem aos dezeseis annos. Vi a virtude á luz do teu amor.
    Cuidei que era santa a paixão que absorvia todas as outras, ou as
    depurava com o seu fogo sagrado.

    Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo, que eu não
    possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Thereza, se os meus
    labios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quiz
    eu fazer do meu amor o teu opprobrio.

    Nunca, Thereza! Nunca, ó mundo que me condemnas!

    Se teu pae quizesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer,
    beijar-lh'os-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser
    feliz com outro homem, morreria, Thereza!

    Mas tu eras sósinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz não devia
    sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insania do crime
    aturde a consciencia; não a minha, que se não temia das escadas da
    forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da
    suffocação.

    Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratorio, e dizia comigo:
    Fallarei a Jesus Christo.

    Sem pavor, premeditava nas setenta horas d'essa agonia moral, e antevia
    consolações que o crime não ousa esperar sem injuria da justiça de Deus.

    Mas chorava por ti, Thereza! O travor do meu calix tinha sobre a sua
    amargura as mil amarguras das tuas lagrimas.

    Gemias aos meus ouvidos, martyr! Vêr-me-ias sacudido nas convulsões da
    morte, em teus delirios. A mesma morte tem terror da suprema desgraça.
    Tarde morrerias. A minha imagem, em vez de te acenar com a sua palma de
    martyrio, te seria um fantasma levantado das táboas d'um cadafalso.

    Que morte a tua, ó minha santa amiga!»

    E proseguiu até ao momento em que João da Cruz, com ordem do intendente
    geral da policia, entrou no quarto.

    –Aqui!–exclamou Simão, abraçando-o–E Marianna? deixou-a sósinha?!
    morta, talvez?!

    –Nem sósinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atraz da
    porta… Marianna voltou ao seu juizo.

    –Falla a verdade, senhor João?

    –Podéra mentir!… Aquillo foi coisa de bruxaria em quanto a mim…
    Sangrias, sedenhos, agua fria na cabeça, e exorcismos do missionario,
    não lhe digo nada, a rapariga está escorreita, e assim que tiver um
    todonada de forças bota-se ao caminho.

    –Bemdito seja Deus!–exclamou Simão.

    –_Amen_–accrescentou o ferrador–Então que arranjo é este de casa? Que
    breca de tarimba é esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa
    em que um christão se possa sentar.

    –Isto assim está excellente.

    –Bem vejo… E de barriga? como vamos nós de barriga?

    –Ainda tenho dinheiro, meu amigo.

    –Ha de ter muito, não tem duvida: mas eu tenho mais, e v. s.^a tem
    ordem franca. Veja lá esse papel.

    Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escripta ao ferrador, em que o
    authorisava a soccorrer seu filho com as necessarias despezas,
    promptificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas
    com a sua assignatura.

    –É justo–disse Simão, restituindo a carta–porque eu devo ter uma
    legitima.

    –Então já vê que não tem mais que pedir por bôca. Eu vou comprar-lhe
    arranjos…

    –Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso–atalhou o
    prêso.

    –Diga lá, fidalgo.

    Simão pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Thereza de
    Albuquerque.

    –O berzabum parece-me que as arma!–disse o ferrador–Venha de lá a
    carta. O pae d'ella está cá, já sabia?

    –Não.

    –Pois está; e, se o diabo o traz á minha beira, não sei se lhe darei
    com a cabeça n'uma esquina. Já me lembrou de o esperar no caminho, e
    pendural-o pelo gasnete no galho d'um sobreiro… A carta tem resposta?

    –Se lh'a derem, meu bom amigo.

    Chegou o ferrador a Monehique, a tempo que um official de justiça, dois
    medicos, e Thadeu de Albuquerque entravam no páteo do convento.

    Fallou o aguazil á prelada, exigindo em nome do juiz de fóra, que dois
    medicos entrassem no convento a examinar a doente D. Thereza Clementina
    de Albuquerque, a requerimento de seu pae.

    Perguntou a prelada aos medicos se elles tinham a necessaria licença
    ecclesiastica para entrarem em Monchique. Á resposta negativa redarguiu
    a abbadessa que as portas do convento não se abriam. Disseram os medicos
    de Thadeu de Albuquerque que era aquelle o estylo dos mosteiros, e não
    houve que redarguir á rigorosa prelada.

    Sahiram, e o ferrador só então reflectiu no modo de entregar a carta, A
    primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:

    –Ó senhora freira!

    –Que quer vocemecê?–disse a prelada.

    –A senhora faz favor de dizer á senhora D. Therezinha de Vizeu, que
    está aqui o pae d'aquella rapariga da aldeia, que ella sabe?

    –E quem é vocemecê?

    –Sou o pae da tal rapariga que ella sabe.

    –Já sei!–exclamou de dentro a voz de Thereza, correndo ao locutorio.

    A prelada retirou-se a um lado, e disse:

    –Vê lá o que fazes, minha filha…

    –A sua filha escreveu-me?–disse Thereza a João da Cruz.

    –Sim, senhora, aqui está a carta.

    E depositou na roda a carta, em que a abbadessa reparou, e disse
    sorrindo:

    –Muito engenhoso é o amor, Therezinha… Permitta Deus que as noticias
    da rapariga da aldeia te alegrem o coração; mas olha, filhinha, não
    cuides que a tua velha tia é menos esperta que o _pae da rapariga da
    aldeia_.

    Thereza respondeu com beijos ás jovialidades carinhosas da santa
    senhora, e sumiu-se a lêr a carta, e a responder-lhe. Entregando a
    resposta, disse ella ao ferrador:

    –Não vê ahi sentada n'aquella escadinha uma pobre?

    –Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio aqui parar esta
    mulher? Cuidei que depois da esfrega, que lhe deu o hortelão, a
    pobresita não tinha pernas que a cá trouxessem! A mulher pelos modos tem
    fibras d'aquella casta!

    –Falle baixo–tornou Thereza–Pois olhe… quando trouxer as cartas,
    entregue-lh'as a ella, sim? Eu já a mandei á cadêa; mas não a deixaram
    lá entrar.

    –Bem está, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina.

    Esta boa nova alegrou Simão. A Providencia divina apiedára-se d'elle
    n'aquelle dia. O restaurar-se o juizo de Marianna, e a possibilidade de
    corresponder-se com Thereza, eram as maximas alegrias, que podiam baixar
    do ceu ao seu cerrado infortunio.

    Exaltára-se Simão em graças a Deus, na presença de João da Cruz, que
    arrumava no quarto uns moveis que comprára em segunda mão, quando este,
    suspendendo o trabalho, exclamou:

    –Então vou-lhe dizer outra coisa, que não tinha tenção de lhe dizer,
    para o apanhar de _súpeto_.

    –Que é?

    –A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque não se
    podia bolir com dôres; mas ámanhã ella cá está para lhe fazer a cozinha
    e varrer a casa.

    Simão, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe
    causára, disse com melancolica pausa:

    –É pois certo que a minha má estrella arrasta a sua desgraçada filha a
    todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do ceu!

    –Que está o senhor ahi a prégar?–interrompeu o ferrador–Parece que
    ficou a modo de tristonho com a noticia!…

    –Senhor João–tornou solemnemente o prêso–não deixe aqui a sua querida
    filha, Deixe-m'a vêr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas não a
    deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Marianna. Como ha de
    ella viver no Porto, sósinha, sem conhecer ninguem, bella como ella é, e
    perseguida como tem de ser!?…

    –Perseguida! _Tó carocha_! Não que ella é mesmo de se lhe dar de que a
    persigam!… Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu
    amigo, as mulheres são como as pêras verdes; um homem apalpa-as, e, se o
    dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sáe á mãe.
    Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um
    dia um beliscão n'uma perna. E vai ella põe-se direita comigo, e deu-me
    dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!…
    aquillo é da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar
    com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troçada que elle levou com as
    rédeas da egua, só por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima
    da burra!

    Simão sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moça, e orgulhou-se
    secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelára em oito mezes
    de quasi continuada convivencia.

    –E vocemecê ha de privar-se da companhia de sua filha?–insistiu o
    prêso.

    –Eu lá me arranjarei como podér. Tenho um cunhada velha, e levo-a para
    mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estará…. O
    senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sáe
    cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo
    d'uma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um
    estoiro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ella
    tem paixão d'alma por v. s.^a isso é tão certo como eu ser; João. É a
    sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixál-a, que pelo senhor Simão não
    lhe ha de vir mal, ou então já não ha honra n'este mundo.

    Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando:

    –Podésse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!

    –Qual marido!…–disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras
    lagrimas que Simão lhe vira–Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!… Eu
    sei que sou um ferrador, e ella sabe que póde ser sua criada, e mais
    nada, senhor Simão; mas, sabe que mais, eu não desejo que os meus amigos
    sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre
    rapariga! Não fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego
    a chorar sou um chafariz… Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a
    commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acolá.
    O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que
    não sei como se chama. Os lençoes e o mais bragal tem-os lá a rapariga.
    Ámanhã é que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a
    Marianna já me disse que comprasse duas aquellas… como se chamam
    aquellas invasilhas de pôr ramos?

    –Jarras.

    –É como diz, duas jarras para flôres; mas eu não sei onde se vende
    isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça ha de cuidar que me não
    deixam sahir da cadêa. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar
    hontem á tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um
    senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manhã já lá tinha na
    estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo.

    VI.

    Um incidente agora me occorre, não muito concertado com o seguimento da
    historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do
    ex-corregedor de Vizeu, já então exonerado do cargo.

    Sabido é que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar
    mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal
    a seu marido, estudante açoriano que cursava medicina.

    Um anno demorára na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva,
    alimentando-se dos recursos que sua mãe, extremosa por elle, lhe
    remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas
    dos adornos proprios dos annos e da qualidade.

    Seccaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse a final
    ao filho que deixára de soccorrer Simão por não ter meios; e agora das
    escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em
    obrigação de pagar os alimentos de Simão á pessoa que por compaixão
    lh'os déra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para
    consolação do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse
    comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella
    n'uma estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era
    opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da
    familia.

    Voltou pelo Minho Manoel Botelho, e chegou com a dama ao Porto quinze
    dias depois que Simão entrára no carcere.

    Já n'outro ponto deixamos dito que nunca os dois irmãos se deram nem
    estimaram; mas o infortunio de Simão remia as culpas do genio fatal que
    o orphanára de pae e mãe, e só da irmã Rita lhe deixára uma lembrança
    saudosa.

    Foi Manoel á cadêa, e abrindo os braços ao irmão, teve um glacial
    acolhimento.

    Perguntou-lhe Manoel a historia do seu desastre.

    –Consta do processo–respondeu Simão.

    –E tem esperanças de liberdade?–replicou Manoel.

    –Não penso n'isso.

    –Eu pouco posso offerecer-lhe, porque vou para casa forçado pela falta
    de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei comsigo da minha.

    –Não preciso nada. Esmolas só as recebo d'aquella mulher.

    Já Manoel tinha reparado em Marianna, e da belleza da moça inferira
    conclusões para formar falsos juizos.

    –E quem é esta menina?–tornou Manoel.

    –É um anjo… Não lhe sei dizer mais nada.

    Marianna sorriu-se, e disse:

    –Sou uma criada do senhor Simão, e de v. s.^a

    –É cá do Porto?

    –Não, meu senhor, sou dos arrabaldes de Vizeu.

    –E tem feito sempre companhia a meu mano?

    Simão atalhou assim á resposta balbuciante de Marianna:

    –A sua curiosidade incommoda-me, mano Manoel.

    –Cuidei que não era offensiva–replicou o outro, tomando o
    chapéo.–Quer alguma coisa para a mãe?

    –Nada.

    Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para
    seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mourão
    Mosqueira, e pelo corregedor do crime.

    –Devemos á espionagem da policia–disse o corregedor–a novidade de
    estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e
    collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço, e
    offerecer o nosso prestimo. Esta senhora é sua esposa?–continuou o
    magistrado, reparando na açoriana.

    –Não é minha esposa…–balbuciou Manoel–é… minha irmã.

    –Sua irmã!…–disse Mosqueira–qual das tres? Ha cinco annos que as vi
    em Vizeu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas
    feições absolutamente coisa nenhuma! É a senhora D. Anna Amalia?

    –Justamente–disse Manoel.

    –Bella, lhe affirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto
    muito outro do que era!…

    –Vieram vêr o infeliz Simão?–atalhou o corregedor.

    –Sim, senhor… viemos vêr meu pobre irmão.

    –Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!…– ajuntou
    Mosqueira–mas póde estar na certeza que a sentença não se executa; diga
    a sua mãe que m'o ouviu da minha bôca. O meu tribunal está preparado
    para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae,
    segundo me disse na passagem para Villa Real, já preparou as coisas na
    supplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto lá ter
    parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvêl-o, e
    restituil-o á sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e
    confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em
    defeza o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilissimos! Chovem
    cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz
    com uma sem-ceremonia que indigna o animo.

    –E essa menina que foi a causa da desgraça?–perguntou Manoel.

    –Isso é uma heroina!–respondeu o corregedor do crime–Davam-na já por
    morta quando Simão chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da
    commutação da pena, deu um pontapé na morte, e está salva, segundo me
    disse o medico.

    –Conhece-a muito bem, minha senhora?–disse o desembargador á dama,
    supposta irmã de Manoel.

    –Muito bem–respondeu ella, relanceando os olhos ao amante.

    –Dizem que é formosissima!

    –De certo–acudiu Manoel–é formosissima.

    –Muito bem–disse o corregedor, erguendo-se.–Leve este abraço ao pae,
    e diga-lhe que o condiscipulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu
    tenho de lhe escrever brevemente.

    –E outro abraço a sua virtuosa mãe–acerescentou o desembargador.

    –Vou desconfiado!–disse o Mosqueira ao collega–Manoel Botelho tinha,
    ha coisa d'um anno, fugido para Hespanha com uma senhora casada. Aquella
    mulher, que vimos, não é irmã d'elle.

    –Pois se nos mentiu é mariola, por nos obrigar a cortejar uma
    concubina!… Eu me informarei…–disse o corregedor, offendido no seu
    austero pundonor.

    E no proximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no periodo
    final: «Tive o gosto de conhecer teu filho Manoel, e uma de tuas filhas;
    por elle te mandei um abraço, e por ella te mandaria outro, se fosse
    modo ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos
    paes.»

    Estava já Manoel em casa de seus avós, e cuidava em trastejar uma
    modesta casa para a açoriana, auxiliado por sua bondosa e indulgente
    mãe. O pae fôra informado da vinda, e dissera que não queria vêr o
    filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavallaria seis,
    desde que abandonára os estudos, onde estava com licença.

    Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou immediata e
    secretamente devassar se em Villa Real estava a senhora que indicava a
    carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, em quanto Manoel
    Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz
    de fóra, e este mandou chamar á sua presença a mulher suspeita, e ouviu
    d'ella a sua historia sincera e lagrimosamente contada. Condoeu-se o
    juiz, e revelou ao collega as suas averiguações. Domingos Botelho foi a
    Villa Real, e hospedou-se em casa do juiz de fóra, onde a senhora foi
    novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da provinda
    lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavallaria de
    Bragança.

    A açoriana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda
    sombra, e apparencias de intenções sinistras.

    –Eu sou pae de Manoel–disse Domingos Botelho–Sei a historia da
    senhora. O infame é elle. V. s.^a é a victima. O castigo da senhora
    principiou desde o momento em que a sua consciencia lhe disse que
    praticou uma acção indigna. Se a consciencia lh'o não disse ainda, ella
    lh'o dirá. D'onde é?

    –Da ilha do Fayal–respondeu tremula a dama.

    –Tem familia?

    –Tenho mãe e irmãs.

    –Sua mãe aceital-a-ia se a senhora lhe pedisse abrigo?

    –Creio que sim.

    –Sabe que Manoel é um desertor, que a estas horas está prêso ou
    fugitivo?

    –Não sabia…

    –Quer isto dizer que a senhora não tem protecção de alguem.

    A pobre mulher soluçava, abafada por ancias, e debulhada em lagrimas.

    –Porque não vai para sua mãe?

    –Não tenho recursos alguns–respondeu ella.

    –Quer partir hoje mesmo? Á porta da estalagem encontrará uma liteira, e
    uma criada para acompanhal-a até ao Porto. Lá entregará uma carta. A
    pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa
    outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sahir para os
    Açores. Estamos combinados? Aceita?

    –E beijo as mãos de v. s.^a… Uma desgraçada como eu não podia esperar
    tanta caridade.

    Poucas horas depois a esposa do medico….

    –Que tinha morrido de paixão e vergonha, talvez!–exclama uma leitora
    sensivel.

    Não, minha senhora; o estudante continuava n'esse anno a frequentar a
    Universidade; e como tinha já vasta instrucção em pathologia, poupou-se
    á morte da vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de A.
    Garrett no _Fr. Luiz de Souza_, e á morte de paixão, que é outra morte
    inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos
    maridos a quem o seculo dotou d'uns longes de philosophia, philosophia
    grega e romana, porque bem sabem que os philosophos da antiguidade davam
    por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor
    lh'as não tiravam. E esta philosophia, hoje então…[6] Pois o medico
    não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou _r_ significativo de
    preoccupação do animo insensivel ás amenidades da therapeutica.

    A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que
    seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem
    esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou
    ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma
    carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim:

    «Déste-me noticia d'uma filha, que eu não conhecia, nem reconheço. A mãe
    d'esta senhora está no Fayal, para onde ella vai. Cuida tu, ou manda
    cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguem de correr
    com a passagem d'ella para os Açores no primeiro navio. A mim me darás
    conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao menos a virtude de não
    matar ninguem para se constituir amante. Do modo como correm os tempos,
    muito virtuoso é um rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se
    consegues do general, que está ahi, perdão para o rapaz, que é desertor
    de cavallaria seis, e me consta que está escondido em casa de um
    parente. Em quanto a Simão, creio que não é possivel salval-o do degredo
    temporario… É uma lança em Africa livral-o da forca. Em Lisboa
    movem-se grandes potencias contra o desgraçado, e eu estou malvisto do
    intendente geral por abandonar o logar… etc.»

    Partiu para Lisboa a açoriana, e d'ali para a sua terra, e para o abrigo
    de sua mãe, que a julgára morta, e lhe deu annos de vida, se não ditosa,
    socegada e desilludida de chimeras.

    Manoel Botelho, obtido o perdão pela preponderancia do corregedor do
    crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu até que,
    fallecido seu pae, pediu a baixa, e voltou á provincia.

    VII.

    João da Cruz, no dia 4 de Agosto de 1805, sentou-se á mesa com triste
    aspecto e nenhum appetite do almoço.

    –Não comes, João?–disse-lhe a cunhada.

    –Não passa d'aqui o bocado–respondeu elle, pondo o dedo nos
    gorgomilos.

    –Que tens tu?

    –Tenho saudades da rapariga… Dava agora tudo quanto tenho para a vêr
    aqui ao pé de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos
    desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da
    minha vida que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para
    sempre!… Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar
    em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou
    morresse…

    –Mas se tens saudades–atalhou a senhora Josefa–manda buscar a
    rapariga, tem-l'a cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor
    Simão.

    –Isso não é d'homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella
    lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto é venêta que me
    deu hoje… Sabes que mais? leve a breca o dinheiro: ámanhã vou ao
    Porto.

    –Pois isso é o que tu deves fazer.

    –Está dito! Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anneis e fiquem os
    dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se
    ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha.

    Reanimou-se a physionomia do mestre ferrador, e como que os impeços da
    garganta se iam removendo á medida que planisava a sua ida ao Porto.

    Acabára de almoçar, e ficára scismatico, encostado á mesa do escano.

    –Ainda estás malucando?!–tornou Josefa.

    –Parece coisa do demonio, mulher!… A rapariga estará doente ou morta?

    –Anjo bento da Santíssima Trindade!–exclamou a cunhada, erguendo as
    mãos–que dizes tu, João!

    –Estou cá por dentro negro como aquella sartã!

    –Isso é flato, homem! vai tomar ar, trabalha um poucaxinho para
    espaireceres.

    João da Cruz passou ao coberto onde tinha o armario da ferragem e a
    bigorna, e começou a atarracar cravos.

    Alguns conhecidos tinham passado, palavreando com elle consoante
    costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graças.

    –Que tens tu, João?–dizia um.

    –Não tenho nada. Vai á tua vida, e deixa-me, que não estou para lérias.

    Outro parava e dizia:

    –Guarde-o Deus, senhor João.

    –E a vocemecê tambem. Que novidade ha?

    –Não sei nada.

    –Pois então vá com nossa Senhora, que eu estou cá de candeias ás
    avessas.

    O ferrador largava o martello; sentava-se aos poucos no tronco, e coçava
    a cabeça com frenesi. Depois recomeçava novamente, e tão alheado o
    fazia, que estragava o cravo, ou martellava os dedos.

    –Isto é coisa do diabo!–exclamou elle; e foi á cosinha procurar a
    pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixões ethereas se
    aturde com absyntho–Hei de afogar-te, coisa má, que me estás apertando
    a alma!–continuou o ferrador, sacudindo os braços, e batendo o pé no
    soalho.

    Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua
    possante mula. Envolvia-se o cavalleiro n'um amplo capote á moda
    hespanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de
    coiro cru com esporas amarellas afiveladas, e o chapéo derrubado sobre
    os olhos.

    –Ora viva!–disse o passageiro.

    –Viva!–respondeu mestre João, relanceando os olhos pelas quatro patas
    da mula, a vêr se tinha obra em que entreter o espirito–A mula é de
    ropia e chibança!

    –Não é má. Vocemecê é que é o senhor João da Cruz?

    –Para o servir.

    –Venho aqui pagar-lhe uma divida.

    –A mim? o senhor não me deve nada que eu saiba.

    –Não sou eu que devo; é meu pae, e elle foi que me encarregou de lhe
    pagar.

    –E quem é seu pae?

    –Meu pae era um recoveiro de Garção, chamado Bento Machado.

    Proferida metade d'estas palavras, o cavalleiro afastou rapidamente as
    bandas do capote, e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O
    ferido recuou, exclamando:

    –Mataram-me!… Marianna, não te vejo mais!…

    O assassino teria dado cincoenta passos a todo o galope da espantada
    mula, quando João da Cruz, debruçado sobre o banco, arrancava o ultimo
    suspiro com a cara posta no chão, d'onde apontára ao peito do almocreve
    dez annos antes.

    Os caminheiros, que perpassaram pelo cavalleiro inadvertidamente,
    ajuntaram-se em redor do cadaver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro e já
    não ouviu as ultimas palavras de seu cunhado. Quiz transportal-o para
    dentro, e correr a chamar cirurgião; mas um cirurgião estava no
    ajuntamento, e declarou morto o homem.

    –Quem o matou?–exclamavam trinta vozes a um tempo.

    N'esse mesmo dia vieram justiças de Vizeu lavrar auto e devassar: nenhum
    indicio lhes deu o fio do mysterioso assassinio. O escrivão dos orphãos
    inventariou os objectos encontrados, e fechou as portas quando os sinos
    corriam o derradeiro dobre ao cahir da lousa sobre João da Cruz.

    Deus terá descontado, nos instinctos sanguinarios do teu temperamento, a
    nobreza de tua alma! Pensando nas incoherencias da tua indole, homem que
    me explicas a providencia, assombra-me as caprichosas antítheses que a
    mão de Deus infunde em alentos na creatura. Dorme o teu somno infinito,
    se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e
    pelo uso que fizeste da tua. Mas se ha estancia de castigo e de
    misericordia, as lagrimas de tua filha terão sido, na presença do Juiz
    Supremo, os teus merecimentos.

    Fez Josefa escrever a Marianna, noticiando-lhe a morte de seu pae, mas
    sobrescriptou a carta a Simão Botelho, para maior segurança. Estava
    Marianna no quarto do prêso, quando a carta lhe foi entregue.

    –Não conheço a letra, Marianna… E a obreia é preta…

    Marianna examinou o sobrescripto, e empallideceu.

    –Eu conheço a letra–disse ella–é do Joaquim da loja.

    –Abra depressa, senhor Simão… Meu pae morreria?

    –Que lembrança! Pois não teve ha tres dias carta d'elle? E não lhe
    disse que estava bom?

    –Isso que tem?… Veja quem assigna.

    Simão buscou a assignatura, e disse:

    –_Josefa Maria_… É sua tia que lhe escreve.

    –Leia… leia… que diz ella?

    O prêso lia mentalmente, e Marianna instou:

    –Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer… e v. s.^a
    descora… que é, meu Deus?

    Simão deixou cahir a carta, e sentou-se prostrado de animo. Marianna
    correu a levantar a carta, e elle, tomando-lhe a mão, murmurou:

    –Pobre amigo!… choremol-o ambos… choremol-o, Marianna, que o
    amavamos como filhos…

    –Pois morreu?–bradou ella.

    –Morreu… mataram-no!…

    A moça expediu um grito estridulo, e foi com o rosto contra os ferros
    das grades. Simão inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura
    e vehemencia:

    –Marianna, lembre-se que é o meu amparo. Lembre-se de que as ultimas
    palavras de seu pae deviam ser a recommendar-lhe o desgraçado que recebe
    das suas mãos bemfeitoras o pão da vida. Marianna, minha querida irmã,
    vença a dôr que póde matal-a, e vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga
    da minha alma?

    Marianna exclamou:

    –Deixe-me chorar, por caridade!… Ai! meu Deus, se eu torno a
    endoidecer!

    –Que seria de mim!–atalhou Simão–A quem deixaria Marianna o seu nobre
    coração para me suavisar este martyrio? Quem me levaria ao desterro uma
    palavra amiga que me animasse a crêr em Deus!… Não ha de enlouquecer,
    Marianna, porque eu sei que me estima, que me ama, e que affrontará com
    coragem a maior desgraça, que ainda póde suggerir-me o inferno! Chore,
    minha irmã, chore; mas veja-me através das suas lagrimas!

    VIII.

    Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herança paterna. Em
    proporção com o seu nascimento bem dotada a deixára o laborioso
    ferrador. Afóra os campos, cujo rendimento bastaria á sustentação
    d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os
    quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as
    regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou
    a casa a sua tia, que nascêra n'ella, e onde seu pae casára.

    Liquidada a herança tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas
    mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que
    vivia, fronteira á Relação, na rua de S. Bento.

    –Porque vendeu as suas terras, Marianna?–perguntou o prêso.

    –Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.

    –Não faz?… Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no
    Porto?

    –Não, senhor, não fico–balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, á
    qual o seu coração julgava ter respondido de muito.

    –Pois então!

    –Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia.

    Fingindo-se surprendido, Simão seria ridiculo aos seus proprios olhos.

    –Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me não dava outra. Mas
    sabe o que é o degredo, minha amiga?

    –Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão… É uma terra
    mais quente que a nossa; mas tambem lá ha pão, e vive-se…

    –E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades
    da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das
    galés, que tem um condemnado na conta de féra.

    –Não ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso á mulher
    d'um prêso que cumpriu dez annos de sentença na India, e viveu muito bem
    em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se não fossem as
    saudades, diz ella que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida
    que por cá. Eu, se fôr por vontade do senhor Simão, vou pôr uma lojinha
    tambem. Verá como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a
    não está; mas não ha de ter precisão, se Deus quizer, de andar ao tempo.

    –E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo?

    –Não fallemos n'isso, senhor Simão…

    –Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir á hora da morte a
    pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino… Se eu morrer?

    –Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem.

    –Ninguem morre quando quer, Marianna…

    –Oh! se morre!… e vive tambem quando quer… Não m'o disse já a
    senhora D. Thereza?

    –Que lhe disse ella?

    –Que estava a passar quando v. s.^a chegou ao Porto, e que a sua
    chegada lhe dera vida. Pois ha muita gente assim, senhor Simão… E mais
    a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os
    trabalhos; e, se fosse preciso metter uma lanceta no braço e deixar
    correr o sangue até morrer, fazia-o como quem o diz.

    –Oiça-me, Marianna, que espera de mim?

    –Que hei de eu esperar!… Porque me diz isso o senhor Simão?

    –Os sacrificios que Marianna tem feito e quer fazer por mim só podiam
    ter uma paga, embora m'os não faça esperando recompensa. Abre-me o seu
    coração, Marianna?

    –Que quer que eu lhe diga?

    –Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?

    –Conheço, e que tem isso?

    –Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte áquella desgraçada
    senhora?

    –E d'ahi? quem lhe diz menos d'isso?!

    –Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.

    –E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!

    –Nada me pediu, Marianna; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz
    o pêso da obrigação.

    Marianna não respondeu, chorou.

    –E porque chora?–tornou Simão carinhosamente.

    –Isso é ingratidão…. e eu não mereço que me diga que o faço infeliz.

    –Não me comprehendeu… Sou infeliz por não poder fazêl-a minha mulher.
    Eu queria que Marianna podésse dizer: «Sacrifiquei-me por meu marido; no
    dia em que o vi ferido em casa de meu pae, velei as noites ao seu lado;
    quando a desgraça o encerrou entre ferros, dei-lhe o pão, que nem seus
    ricos paes lhe davam; quando o vi sentenciado á forca, endoideci; quando
    a luz da minha razão me tornou n'um raio de compaixão divina, corri ao
    segundo carcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do
    seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a patria d'aquelle
    pobre coração, trabalhei á luz do sol homicida para elle se resguardar
    do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam…»

    O espirito de Marianna não podia altear-se á expressão do prêso; mas o
    coração sinil, esse adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moça sorria e
    chorava a um tempo. Simão continuou:

    –Tem vinte e seis annos, Marianna. Viva, que esta sua existencia não
    póde ser senão um supplicio occulto. Viva, que não deve dar tudo a quem
    lhe não póde restituir senão as lagrimas que lhe eu tenho custado. O
    tempo do meu desterro não póde estar longe; esperar outro melhor destino
    seria uma loucura. Se eu ficasse na patria, livre ou prêso, pediria a
    minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão, esperando
    que eu lhe désse a ultima palavra da minha vida. Mas não vá comigo á
    África ou á India, que sei que voltará sósinha á pátria depois que eu
    fechar os olhos. Se o meu degredo fôr temporario, e a morte me guardar
    para maiores naufragios, voltarei á patria um dia. E preciso que
    Marianna aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha familia,
    que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com
    marido e filhos, a sua familia será a a minha. Se a vir livre e só, irei
    para a companhia de minha irmã. Que me responde, Marianna?

    A filha de João da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse:

    –Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o
    degredo….

    –Pense desde já, Marianna.

    –Não tenho que pensar… A minha tenção está feita…

    –Falle, minha amiga, diga qual é a sua tenção.

    Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:

    –Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu
    ponho muito em me matar? Não tenho pae, não tenho ninguem, a minha vida
    não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão póde viver sem mim?
    paciencia!… eu é que não posso…

    Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prêso
    apertou-a nos braços estremecidamente, e disse:

    –Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortunio de nós ambos
    d'ora em diante, que elle é commum, é um veneno que havemos de tragar
    unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da patria.

    Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o coração de Marianna. Não
    inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Marianna.
    Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem
    as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se
    fazerem vêr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha
    ciumes de Thereza, não ciumes que se refrigeram na expansão ou no
    despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos labios,
    porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava
    com as delicias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer
    á cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua ingloria
    missão de irmã d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: «Ninguem o amará
    como eu; ninguém lhe adoçará as penas tão desinteresseiramente como o eu
    fiz.»

    E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mão de Thereza ou da mendiga as
    cartas para Simão. A cada vinco de dôr que a leitura d'aquellas cartas
    sulcava na fronte do prêso, Marianna, que o espreitava disfarçada,
    tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: «para que ha
    de aquella senhora amargurar-lhe a vida!»

    E amargurava acerbamente a desditosa menina!

    Resurgiram n'aquella alma esperanças, que não deviam durar além do tempo
    necessario para que a desillusão lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara
    ella a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a corôa do seu
    martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque
    não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em
    demasia nas orações das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das
    prophetisas se realisassem, Simão sahiria da cadêa, Thadeu de
    Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto
    indisputavel, e o ceu dos desgraçados principiaria n'este mundo.

    Porém Simão Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, já sabia o seu
    destino, e achára util prevenir Thereza, para não succumbir ao
    inevitavel golpe da separação. Bem queria elle alumiar com esperanças a
    perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em
    que não era parte a convicção nem o sentimento. Thereza não podia sequer
    illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando
    sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos
    estranhos.

    E então era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu
    amigo; invocações a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras
    de paciencia e impetos de cólera contra o pae; o afferro á vida que lhe
    foge, e súpplicas á morte, que a não livra das torturas da alma e do
    corpo.

    No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena
    ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque
    acompanhou a Lisboa a appellação, e offereceu a sua casa a quem
    mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pae do condemnado, segundo
    o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar
    com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque
    grangeára na casa da supplicação e no desembargo do paço. Venceu
    Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor
    paternal, alcançou do principe regente a graça de cumprir o condemnado a
    sua sentença na prisão de Villa Real.

    Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do
    regente, o prêso respondeu que não aceitava a graça; que queria a
    liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios
    contra um favor que não implorára, e que reputava mais atroz que a
    morte.

    Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse
    elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores
    e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente
    obtida.

    Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simão Botelho foi
    inscripto no catalogo dos degredados para a India.

    IX.

    A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.

    Na vida real, recebemol-a como ella sáe dos encontrados acasos, ou da
    logica implacavel das coisas; mas, na novella, custa-nos a soffrer que o
    author, se inventa, não invente melhor; e, se copía, não minta por amor
    da arte.

    Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é
    impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente,
    sequer uma temporada, em quanto elle nos lembra, d'este jogo de nora,
    cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela
    manivella do egoismo.

    A verdade! se ella é feia, para que offerecêl-a em paineis ao publico!?

    A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de
    ferro, que o prendem ao barro d'onde sahiu, ou pezam n'elle e o
    submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergil-o,
    retratal-o, e dal-o á venda!?

    Os reparos são de quem tem o juizo no seu logar; mas eu que perdi o meu
    a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintal-a, como ella
    é, feia e repugnante.

    A desgraça afervora ou quebranta o amor?

    Isso é que eu submetto á decisão do leitor intelligente. Factos e não
    theses é que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não
    explica as funcções opticas do apparelho visual.

    Ao cabo de dezenove mezes de carcere, Simão Botelho almejava um raio de
    sol, uma lufada de ar não coada por ferros, o pavimento do ceu, que o da
    abobada do seu cubiculo pesava-lhe sobre o peito.

    Ancia de viver era a sua; não era já ancia de amar.

    Seis mezes de sobresaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras
    do coração; e o coração, para o amor, quer-se forte e tenso de uma certa
    rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anceios das esperanças, e
    com as alegrias que o enchem e reforçam para os revezes.

    Cahiu a forca pavorosa aos olhas de Simão; mas os pulsos ficaram em
    ferros, o pulmão ao ar mortal das cadêas, o espirito intanguido na
    glacial estupidez d'umas paredes salitrosas, e d'um pavimento, que resôa
    os derradeiros passos do ultimo padecente, e d'um tecto que filtra a
    morte a gottas d'agua.

    O que é o coração, o coração dos dezoito annos, o coração sem remorsos,
    o espirito anhelante de glorias, ao cabo de dezoito mezes de estagnação
    da vida?

    O coração é a viscera, ferida de paralysia, a primeira que fallece
    suffocada pelas rebelliões da alma que se identifica á natureza, e a
    quer, e se devora na ancia d'ella, e se estorce nas agonias da
    amputação, para as quaes a saudade da felicidade extincta é um cauterio
    em braza, e o amor que leva ao abysmo pelo caminho da sonhada
    felicidade, não é sequer um refrigerio.

    Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora
    de desafôgo, como que sentia o patibulo lascar entre os seus braços, e
    então convidou o coração da mulher, que o perdêra, a assistir ás
    segundas nupcias da sua vida com a esperança.

    Depois, a passo igual, a esperança fugia-lhe para as areias da Asia, e o
    coração intumecia-se de fel, o amor afogava-se n'elle, morte inevitavel,
    quando não ha abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão
    intima.

    Esperança, para Simão Botelho, qual?

    A India, a humilhação, a miseria, a indigencia.

    E os anhelos d'aquella alma tinham mirado a ambições de um nome. Para a
    felicidade do amor invidava as forças do talento; mas, além do amor,
    estava a gloria, o renome, e a vã immortalidade, que só não é demencia
    nas grandes almas, e nos genios que se presentem viver nas gerações
    vindouras, e se preluzem n'ellas. Mas grinaldas de amor a escorrerem
    sangue dos espinhos, essas instillam veneno corrosivo no pensamento,
    apagam no seio a faisca das nobres affoitezas, apoucam a ideia que
    abrangêra mundos, e paralysam de mortal spasmo os estos do coração.

    Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito mezes de carcere, com o
    patibulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor
    da alma.

    A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava
    responder, retrahia-se recriminado pelos dictames da razão.

    D'além, d'aquelle convento onde outra existencia agonisava, gementes
    queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias, nem
    podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ella, e
    recebias as do demonio do desespêro para ti.

    Os dez annos de ferros, era que lhe quizeram minorar a pena, eram-lhe
    mais horrorosos que o patibulo. E aceital-o-ias, por ventura, se amasse
    o ceu, onde Thereza bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em
    peçonha? Creio:–antes a masmorra, onde póde ouvir-se o som abafado de
    uma voz amiga; antes os paroxismos de dez annos sobre as lages humidas
    d'uma enxovia, se, na hora extrema, a ultima faisca da paixão, ao
    bruxolear para morrer, nos alumia o caminho do ceu por onde o anjo do
    amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do
    que ficou.

    Thereza pedira a Simão Botelho que aceitasse dez annos de cadêa, e
    esperasse ahi a sua redempção por ella.

    «Dez annos!–dizia-lhe a inclausurada de Monchique–Em dez annos terá
    morrido meu pae, e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te
    perdôe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vaes ao degredo, para
    sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memoria de mim
    quando voltares.»

    Como a pobre se illudia nas horas em que as debeis forças de sua vida se
    lhe concentravam no coração!

    As ancias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que
    creára novo, já lhe sahia em golfadas com a tosse.

    Se por amor ou piedade o condemnado aceitasse os ferrolhos tres mil
    seiscentas e cincoenta vezes corridos sobre as suas longas noites
    solitarias, nem assim Thereza sosteria a pedra sepulcral que a vergava
    d'hora a hora.

    «Não esperes nada, martyr–escrevia-lhe elle.–A lucta com a desgraça é
    inutil, e eu não posso já luctar. Foi um atroz engano o nosso encontro.
    Não temos nada n'este mundo. Caminhemos ao encontro da morte… Ha um
    segredo que só no sepulcro se sabe. Vêr-nos-hemos?

    Vou. Abomino a patria, abomino a minha familia, todo este solo está aos
    meus olhos coberto de forcas, e quantos homens fallam a minha lingua,
    creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem
    a liberdade com a opulencia; nem já agora a realisação da esperanças que
    me dava o teu amor, Thereza!

    Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não
    aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do ceu, quero-a! quero
    vêr o ceu no meu ultimo olhar.

    Não me peças que aceite dez annos de prisão. Tu não sabes o que é a
    liberdade captiva dez annos! Não comprehendes a tortura dos meus vinte
    mezes. A voz unica que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola
    o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcastica boa-nova
    de uma graça real que me commuta o morrer instantaneo da forca pelas
    agonias de dez annos de carcere.

    Salva-te, se pódes, Thereza. Renuncia ao prestigio d'um grande
    desgraçado. Se teu pae te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma
    aurora de paz, vive para a felicidade d'esse dia. E senão, morre,
    Thereza, morre, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as
    fibras laceradas pela dôr, é o esquecimento que salva das injurias a
    memoria dos padecentes.»

    As palavras unicas de Thereza, em resposta áquella carta, significativa
    da turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdôa
    tu ao meu destino… Perdi-te… bem sabes que sorte eu queria dar-te…
    e morro, porque não posso, nem poderei jámais resgatar-te. Se pódes,
    vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares.
    Consolar-te-ha o meu espirito… Estou tranquilla… Vejo a aurora da
    paz… Adeus até ao ceu, Simão.»

    Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão
    Botelho não respondia ás perguntas de Marianna. Dil-o-ieis arrobado nas
    voluptuosas angustias do seu proprio aniquilamento. A creatura, posta
    por Deus ao lado d'aquelles dezoito annos tão attribulados, chorava; mas
    as lagrimas, se Simão as via, tiravam-no da mudez socegada para impetos
    de afflicção, que a final o extenuavam á força de convulsões.

    Decorreram seis mezes ainda.

    E Thereza vivia, dizendo ás suas consternadas companheiras, que sabia ao
    certo o dia do seu trespasse.

    Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu carcere. A
    terceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.

    Era em Março de 1807.

    No dia 10 d'esse mez recebeu o condemnado intimação para sahir na
    primeira embarcação que levava ancora do Douro para a India. N'esse
    tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa
    os que tinham igual destino.

    Nenhum estorvo impedia o embarque de Marianna, que se apresentou ao
    corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu
    amo.

    –E a passagem vale-a bem!–disse o galhofeiro magistrado.

    Simão assistiu no encaixotar de sua bagagem, n'uma quietação terrivel,
    como se ignorasse o seu destino.

    Quiz muitas vezes escrever a derradeira carta á moribunda Thereza, e nem
    signaes de lagrimas podia já enviar-lhe no papel.

    –Que trevas, meu Deus!–exclamava elle, e arrancava a mãos cheias os
    cabellos–Dai-me lagrimas, Senhor! deixai-me chorar, ou matai-me, que
    este soffrimento é insupportavel!

    Marianna contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os
    não menos medonhos da lethargia.

    –E Thereza!–bradava elle, surgindo subitamente do seu spasmo–E
    aquella infeliz menina, que eu matei! Não hei de vêl-a mais, nunca mais!
    Ninguem me levará ao degredo a noticia da sua morte! E quando a eu
    chamar para que me veja morrer digno d'ella, quem te dirá que eu morri,
    ó martyr!

    X.

    A 17 de Março de 1807 sahiu dos carceres da Relação Simão Antonio
    Botelho, e embarcou no caes da Ribeira, com setenta e cinco
    companheiros. O filho do ex-corregedor de Vizeu, a pedido do
    desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não
    ia amarrado com cordas ao braço d'algum companheiro. Desceu da cadêa ao
    embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Marianna, que vigiava os
    caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a
    bordo da nau, e recommendou ao commandante que distinguisse o degredado
    Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o á sua mesa. Chamou Simão de
    parte, e deu-lhe um cartuxo de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe
    enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e na presença de Mourão
    Mosqueira pediu ao commandante que fizesse distribuir pelos seus
    companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.

    –É demente o senhor Simão?!–disse o desembargador.

    –Tenho a demencia da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi:
    quero agora vêr a que extremo de infortunio ella póde levar os seus
    amantes. A caridade só me não humilha, quando parte do coração e não do
    dever. Não conheço a pessoa, que me remetteu este dinheiro.

    –É sua mãe–tornou Mosqueira.

    –Não tenho mãe. Quer v. ex.^a remetter-lhe esta esmola rejeitada?

    –Não, senhor.

    –Então, senhor commandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto
    ao rio.

    O commandante aceitou o dinheiro, e o desembargador sahiu de bordo como
    espantado da sinistra condição do moço.

    –Onde é Monchique?–pergutou Simão a Marianna.

    –É acolá, senhor Simão–respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se
    debruça sobre a margem do Douro, em Miragaya.

    Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um
    vulto.

    Era Thereza.

    Na vespera recebêra ella o adeus de Simão, e respondêra enviando-lhe a
    trança dos seus cabellos.

    Ao anoitecer d'aquelle dia, pediu Thereza os sacramentos, e commungou á
    grade do côro, onde se foi amparando á sua criada. Parte das horas da
    noite passou-as sentada ao pé do sanctuario de sua tia, que toda a noite
    orou. Algumas vezes pediu que a levassem á janella que se abria para o
    mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com
    as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo, por seu pé, ás
    cellas das senhoras entrevadas, para lhes dar o beijo da despedida.

    Todas cuidavam em reanimal-a, e Thereza sorria, sem responder aos
    piedosos artificios com que as boas almas a si mesmas queriam simular
    esperanças. Ao abrir da manhã, Thereza leu uma a uma as cartas de Simão
    Botelho. As que tinham sido escriptas nas margens do Mondego,
    enterneciam-na a copiosas lagrimas. Eram hymnos á felicidade prevista:
    eram tudo que mais formoso póde dar o coração humano, quando a poesia da
    paixão dá côr ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe
    empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscencias
    d'aquelles dias: a sua alegria doida, as suas dôces tristezas,
    esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colloquios com a irmã
    querida de Simão, o ceu aromatico que se lhe ampliava á aspiração
    sôfrega de vagos desejos, tudo, emfim, que lembra a desgraçados.

    Emmassou depois as cartas, e cintou-as com fitas de sêda desenlaçadas de
    raminhos de flôres murchas, que Simão, dois annos antes, lhe atirára da
    sua janella ao quarto d'ella.

    As petalas das flôres soltas quasi todas se desfizeram, e Thereza,
    contemplando-as, disse: «Como a minha vida…» e chorou, beijando os
    calices desfolhados das primeiras que recebêra.

    Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito
    d'ellas, que logo veremos cumprida.

    Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado
    sobre uma cadeira. Erguendo-se, quasi tirada pela violencia, aceitou uma
    chicara de caldo, e murmurou com um sorriso: «Para a viagem…»

    Ás nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante
    e, sentando-se em ancias mortaes, nunca mais desfitou os olhos da nau,
    que já estava de verga alta, esperando a leva dos degredados.

    Quando viu, a dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os
    condemnados, Thereza teve um breve accidente, em que a já froixa
    claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos convulsas pareciam querer
    aferrar a luz fugitiva.

    Foi então que Simão Botelho a viu.

    E ao mesmo tempo atracou á nau um bote, em que vinha a pobre de Vizeu
    chamando Simão. Foi elle ao portaló, e estendendo o braço á mendiga,
    recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu elle que a primeira não
    era sua, pela lizura do papel; mas não a abriu.

    Ouviu-se a voz de levar ancora, e largar amarras. Simão encostou-se á
    amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.

    Viu agitar-se um lenço, e elle respondeu com o seu áquelle aceno. Desceu
    a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distinctamente Simão viu
    um rosto e uns braços suspensos das rêxas de ferro; mas não era de
    Thereza aquelle rosto: seria antes um cadaver que subiu da claustra ao
    mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.

    –É Thereza?–perguntou Simão a Marianna.

    –É, senhor, é ella–disse n'um afogado gemido a generosa creatura,
    ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condemnado iria breve no
    seguimento d'aquella por quem se perdêra.

    De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e avistou Simão
    um movimento impetuoso de alguns braços, e o desapparecimento de Thereza
    e do vulto de Constança, que elle entre-vira mais tarde.

    A nau parou de fronte de Sobreiras. Uma nuvem no horisonte da barra, e o
    subito encapellamento das ondas, causára a suspensão por ordem do
    commandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia, com o piloto mór,
    que mandava lançar ferro, até novas ordens. Mais tarde, deferiu-se a
    sahida para o dia seguinte.

    E, no entanto, Simão Botelho, como o cadaver embalsamado, cujos olhos
    reluzentes se cravam n'um ponto immoveis, lá tinha os seus immersos na
    interior escuridade do miradouro. Nenhum signal de vida, e as horas
    passaram até que o derradeiro raio do sol se apagou nas grades do
    mosteiro.

    Ao escurecer voltou de terra o commandante, e contemplou, com os olhos
    embaciados de lagrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras
    estrellas, eminentes ao mirante.

    –Procura-a no ceu?–disse o nauta.

    –Se a procuro no ceu!–repetiu machinalmente Simão.

    –Sim!… no ceu deve ella estar.

    –Quem, senhor?

    –Thereza.

    –Thereza!… Morreu?!

    –Morreu, álem, no mirante, d'onde lhe estava acenando.

    Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O
    commandante lançou-lhe os braços e disse:

    –Coragem, grande desgraçado, coragem! os homens do mar crêem em Deus!
    Espere que o ceu se abra para si pelas supplicas d'aquelle anjo!

    Marianna estava um passo atraz de Simão, e tinha as mãos erguidas.

    –Acabou-se tudo!…–murmurou Simão– Eis-me livre… para a morte…
    Senhor commandante–continuou elie energicamente–eu não me suicido.
    Póde deixar-me.

    –Peço-lhe que se recolha á camara. O seu beliche está ao pé do meu.

    –É obrigatorio recolher-me?

    –Para v. s.^a não ha obrigações; ha rogos: peço-lh'o não mando.

    –Vou, e agradeço a compaixão.

    Marianna seguiu-o com aquelle olhar quebrado e mavioso do jáo, quando o
    poeta desembarcava, segundo a ideia apaixonada do cantor de Camões.

    Encarou n'ella Simão, e disse ao commandante:

    –E esta infeliz?

    –Que o siga…–respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus.

    Simão recolheu-se ao beliche, e o commandante sentou-se em frente
    d'elle, e Marianna ficou no escuro da camera a chorar.

    –Falle, senhor Simão!–disse o commandante–desafogue e chore.

    –Chorei, senhor!

    –Eu não tinha imaginado uma angustia igual á sua. A invenção humana não
    creou ainda um quadro tão atroz. Arripiam-se-me os cabellos, e tenho
    visto espectaculos horriveis na terra e no mar.

    Acintemente, o commandante estava provocando Simão ao desabafo. Não
    respondia o degredado. Ouvia os soluços de Marianna, e tinha os olhos
    postos no masso das cartas, que pozera sobre uma banqueta.

    O capitão proseguiu:

    –Quando em Miragaya me contaram a morte d'aquella senhora, pedi a uma
    pessoa relacionada no convento, que me levasse a ouvir d'alguma freira a
    triste historia. Uma religiosa m'a contou; mas eram mais os gemidos que
    as palavras. Soube que ella, quando desciamos na altura do Oiro,
    proferira em alta voz: «Simão, adeus até á eternidade!» e cahiu nos
    braços d'uma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a
    trouxeram meia-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma
    palavra mais lhe ouviram. Depois contaram-me o que ella penára em dois
    annos e nove mezes n'aquelle mosteiro. O amor que ella lhe tinha, e as
    mil mortes que ella ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria,
    Que desgraçada menina, e que desgraçado moço o senhor é!

    –Por pouco tempo…– disse Simão, como se o dissesse a si proprio, ou
    a propria imaginação o estivesse dialogando comsigo.

    –Creio, creio, por pouco tempo–proseguiu o capitão;–mas se os amigos
    podessem salval-o, senhor, eu dar-lh'os-ia na India mais fieis que em
    Portugal. Prometto-lhe, sob minha palavra de honra, alcançar do visorei
    a sua residência em Gôa. Prometto segurar-lhe um decente principio de
    vida, e as commodidades que fazem a existencia tão saudavel como ella é
    na Asia. Não o intimide a ideia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por
    vencer-se, e será feliz!

    –O seu silencio, por piedade, senhor…–atalhou o degredado.

    –Bem sei que é cêdo ainda para planisar futuros. Desculpe á sympathia,
    que me inspira, a indiscrição. Mas aceite um amigo n'esta hora
    atribulada.

    –Aceito, e preciso d'elle…. Marianna!–chamou Simão–Venha aqui, se
    este cavalheiro o permitte.

    Marianna entrou no quarto.

    –Esta mulher tem sido a minha providencia–disse Simão–Porque ella me
    valeu, não senti a fome em dois annos e nove mezes de carcere. Tudo que
    tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta creatura.
    Seja respeitavel aos seus olhos, senhor, porque ella é tão pura como a
    verdade o deve ser nos labios d'um moribundo. Se eu morrer, senhor
    commandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se
    ella fosse minha irmã. Se ella quizer voltar á patria, seja o seu
    protector na passagem.–E estendendo-lhe a mão, disse com
    transporte:–Promette-me isto, senhor?

    –Juro-lh'o.

    O commandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com
    Marianna.

    –Estou tranquillo pelo seu futuro, minha amiga.

    –Eu já o estava, senhor Simão–respondeu ella.

    Não se trocaram palavra por largo espaço. Simão apoiou a face sobre a
    mesa, e apertou com as mãos as fontes archejantes. Marianna, de pé, ao
    lado d'elle, fitava os olhos na luz mortiça da lampada oscillante, e
    scismava, como elle, na morte.

    E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau.

    CONCLUSÃO.

    Ás onze horas da noite o commandante recolhêra-se n'um beliche de
    passageiro, e Marianna, sentada no pavimento, com o rosto sobre os
    joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e afflictivas
    horas d'aquelle dia.

    Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre
    o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente d'um arame. O
    ouvido têl-o-ia talvez attento ao assovio da ventania: devia de soar-lhe
    como um ai plangente aquelle silvo agudo, voz unica no silencio da terra
    e do ceu.

    Á meia noite estendeu Simão o braço tremulo ao masso das cartas que
    Thereza lhe enviára, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que
    era d'ella. Rompeu a obreia, e dispôz-se no camarote para alcançar o
    baço clarão da lampada.

    Dizia assim a carta:

    «É já o meu espirito que te falla, Simão. A tua amiga morreu. A tua
    pobre Thereza, á hora em que leres esta carta, se me Deus não engana,
    está em descanso.

    Eu devia poupar-te a esta ultima tortura; não devia escrever-te; mas
    perdôa á tua esposa do ceu a culpa pela consolação que sinto em
    conversar comtigo a esta hora, hora final da noite da minha vida.

    Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? D'aqui a pouco
    perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de leguas, e não
    acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: «A infeliz
    espera-te n'outro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.»

    Se te podesses illudir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava
    com vida e com esperança de vêr-te na volta do degredo? Assim póde ser,
    mas ainda agora, n'este solemne momento, me domina a vontade de fazer-te
    sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem ás
    vezes vaidade de mostrar que o é, até não podêl-o ser mais! Quero que
    digas: Está morta, e morreu quando lhe eu tirei a ultima esperança.

    Isto não é queixar-me, Simão, não é. Talvez que eu podesse alguns dias
    resistir á morte, se tu ficasses; mas, d'um modo ou d'outro, era
    inevitavel fechar os olhos quando se rompesse o ultimo fio, este ultimo
    que se está partindo, e eu mesma o oiço partir.

    Não vão estas palavras accrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar
    um remorso injusto á tua saudade.

    Se eu podesse ainda vêr-te feliz n'este mundo; se Deus permittisse á
    minha alma esta visão!… _Feliz_, tu, meu pobre condemnado!… Sem o
    querer, o meu amor agora te fazia injuria, julgando-te capaz de
    felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro te não matar
    ainda antes de succumbires á dôr do espirito.

    A vida era bella, era, Simão, se a tivessemos como tu m'a pintavas nas
    tuas cartas, que li ha pouco. Estou vendo a casinha que tu descrevias
    defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. A tua imaginação
    passeava comigo ás margens do Mondego, á hora pensativa do escurecer.
    Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
    mudez do coração ao teu silencio, e animada por teu sorriso inclinava a
    face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas
    cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia em quanto a alma se
    esta recordando. N'outra carta me fallavas em triumphos e glorias e
    immortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou
    adiante d'ella, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espirito
    queria eu que fosse meu. Era criança ha tres annos, Simão, e já entendia
    os teus anhelos de gloria, e imaginava-os realisados como obra minha, se
    me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o
    estimulo do meu amor.

    Ó Simão, de que ceu tão lindo cahimos! Á hora que te escrevo estás tu
    para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.

    Que importa morrer, se não podemos jámais ter n'esta vida a nossa
    esperança de ha tres annos?! Poderias tu com a desesperança e com a
    vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos
    beneficios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é
    uma misericordia divina, uma bemaventurança para mim.

    E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio? Onde irás tu
    aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem poder esmagar a
    imagem d'esta docil mulher, que seguiu cegamente a estrella da tua
    malfadada sorte?

    Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma
    vez visses passar rapidamente a minha imagem por diante dos teus olhos
    enxutos? Soffre, soffre ao coração da tua amiga estas derradeiras
    perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta lêres.

    Rompe a manhã. Vou vêr a minha ultima aurora… a ultima dos meus
    dezoito annos!

    Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre d'uma agonia longa.
    Todas as minhas angustias lhe offereço em desconto das tuas culpas. Se
    algumas impaciencias a justiça divina me condemna, offerece tu a Deus,
    meu amigo, os teus padecimentos para que eu seja perdoada.

    Adeus; á luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão.»

    Erguei-se Simão Botelho, olhou em redor de si, e fitou com spasmo
    Marianna, que levantava a cabeça ao menor movimento d'elle.

    –Que tem, senhor Simão?–disse ella, erguendo-se.

    –Estava aqui, Marianna?… não se vai deitar?!

    –Não vou: o commandante deu-me licença de ficar aqui.

    –Mas ha de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é
    necessario o seu sacrificio.

    –Se o não incommodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão.

    –Esteja, minha amiga, esteja… Poderei subir ao convez?

    –Quer ir ao convez, senhor Botelho?–disse o commandante lançando-se do
    beliche.

    –Queria, senhor commandante.

    –Iremos juntos.

    Simão ajuntou a carta de Thereza ao maço das suas, e subiu cambaleando.
    No convéz sentou-se n'um monte de cordame, e contemplou o mirante de
    Monchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em que
    actualmente vai a rua da Restauração.

    O capitão passeava da prôa á ré; mas com o ouvido fito aos movimentos do
    degredado. Receára elle o proposito do suicidio, porque Marianna lhe
    incutira semelhante suspeita. Queria o maritimo fallar-lhe palavras
    consoladoras, mas pensava comsigo: «O que ha de dizer-se a um homem que
    soffre assim?» E parava junto d'elle algumas vezes, como para
    desviar-lhe o espirito d'aquelle mirante.

    –Eu não me suicido!–exclamou abruptamente Simão Botelho–Se a sua
    generosidade, senhor capitão, se interessa em que eu viva, póde dormir
    descansado a sua noite, que eu não me suicido.

    –Mas mereço-lhe eu a condescendencia de descer comigo á camara?

    –Irei; mas eu lá soffro mais, senhor.

    Não replicou o commandante, e continuou a passear no convez, apesar das
    rajadas de vento.

    Marianna estava agachada, entre os pacotes da carga, a pouca distancia
    de Simão. O commandante viu-a, fallou-lhe, e retirou-se.

    Ás tres horas da manhã Simão Botelho segurou entre as mãos a testa que
    se lhe abria abrazada pela febre.

    Não pôde ter-se sentado, e deixou cahir meio corpo. A cabeça, ao
    declinar, pousou no seio de Marianna.

    –O anjo da compaixão sempre comigo!–murmurou elle–Thereza foi muito
    mais desgraçada…

    –Quer descer ao camarote?–disse ella.

    –Não poderei… Ampare-me, minha irmã.

    Deu alguns passos para o alçapão, e olhou ainda para o mirante. Desceu a
    ingreme escada, apegando-se ás cordas. Lançou-se sobre o colchão, e
    pediu agua, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o
    estorcimento, e as ancias, com intervallos de delirio.

    De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando
    o condemnado, disse que era «maligna» a doença, e que bem podia ser que
    elle achasse a sepultura no caminho da India.

    Marianna ouviu o prognostico, e não chorou.

    Ás onze horas sahiu barra fóra a nau. Ás ancias da doença accresceram as
    do enjoo. A pedido do commandante, Simão bebia remedios, que bolsava
    logo, revoltos pelas contracções do vomito.

    Ao segundo dia de viagem Marianna disse a Simão:

    –Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer áquellas cartas que vão na
    caixa?

    Pasmosa serenidade a d'esta pergunta!

    –Se eu morrer no mar–disse elle–Marianna atire ao mar todos os meus
    papeis; todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro
    tambem.

    Passada uma ancia, que lhe embargara a voz, Simão continuou:

    –Se eu morrer, que tenciona fazer, Marianna!

    –Morrerei, senhor Simão.

    –Morrerá?!.. Tanta gente desgraçada que eu fiz!…

    A febre augmentava. Os symptomas da morte eram visiveis aos olhos do
    capitão, que tinha sobeja experiencia de vêr morrerem centenares de
    condemnados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum
    medicamento.

    Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascaes,
    sobreveio tormenta subita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e
    perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado para o sul. Ao sexto dia
    de navegação incerta, por entre espêssas brumas, partiu-se o leme
    defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas,
    desencapellaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um
    formoso dia de primavera. Era o dia 27 de Março, o nono da enfermidade
    de Simão Botelho.

    Marianna tinha envilhecido. O commandante, encarando n'ella, exclamou:

    –Parece que volta da India com os dez annos de trabalhos já
    passados!…

    –Já acabados… de certo…–disse ella.

    Ao anoitecer d'esse dia o condemnado delirou pela ultima vez, e dizia
    assim no seu delirio:

    «A casinha, defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves.
    Passeavas comigo á margem do Mondego, á hora pensativa do escurecer.
    Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
    mudez do coração ao teu silencio, e, animada por teu sorriso, inclinava
    a face ao teu seio como se fosse o de minha mãe… De que ceu tão lindo
    cahimos… A tua amiga morreu… A tua pobre
    Thereza………………………..

    E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio?… Onde irás
    tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou… Rompe a manhã… Vou
    vêr a minha ultima aurora… a ultima dos meus dezoitos annos. Offerece
    a Deus os teus padecimentos para que eu seja perdoada… Marianna…»

    Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou
    ouvir o seu nome.

    «Tu virás ter comnosco; ser-te-hemos irmãos no ceu… O mais puro anjo
    serás tu… se és d'este mundo, irmã; se és d'este mundo, Marianna…»

    A transição do delirio para a lethargia completa era o annuncio
    infallivel do trespasse.

    Ao romper da manhã apagára-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e
    ouvira um gemido estorturoso. Voltando ás escuras, com os braços
    estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mão convulsa,
    que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a pressão dos dedos.

    Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respiração,
    que não embaciou levemente o vidro.

    –Está morto!…– disse elle.

    Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro
    beijo. Ajoelhou depois ao pé do camarote com as mãos erguidas, e não
    orava nem chorava.

    Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna:

    –Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo … É ventura
    morrer quando se vem a este mundo com tal estrella… Passe a senhora
    Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto.

    Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma
    caixa buscar os papeis de Simão. Atou o rolo no avental, que elle tinha
    d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o
    embrulho á cintura.

    Foi o cadaver envolto n'um lençol, e transportado ao convez.

    Marianna seguiu-o.

    Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou ás pernas
    com um pedaço de cabo. O commandante contemplava a scena triste com os
    olhos humidos, e os soldados, que guarneciam a nau, tão funeral respeito
    os acurvava, que insensivelmente se descobriram.

    Marianna estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia
    estupidamente encarar aquelles empuxões, que o marujo dava ao cadaver
    para segurar a pedra na cintura.

    Dois homens ergueram o cadaver ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o
    balanço para o arremessarem longe. E antes que o baque do morto se
    fizesse ouvir na agua, todos viram, e ninguém já pôde segurar Marianna,
    que se atirára ao mar.

    Á voz do commandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens
    para salvar Marianna.

    Salval-a!…

    Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir á morte, mas para
    abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O
    commandante olhou para o sitio d'onde Marianna se atirára, e viu,
    enleado no cordame, o avental, e á flor d'agua um rolo de papeis que os
    marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondencia de
    Thereza e Simão.

    * * * * *

    Da familia de Simão Botelho vive ainda, em Villa Real de Traz-os-Montes,
    a senhora D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, a irmã predilecta
    d'elle. A ultima pessoa fallecida, ha vinte e seis annos, foi Manoel
    Botelho, pae do author d'este livro.

    FIM.

    * * * * *

    [1] Ha vinte annos que eu ouvi d'um coevo do facto a historia do
    assassinio assim contada: Era em quinta Feira santa. Marcos Botelho,
    irmão de Domingos, estava na festa de endoenças, em S. Francísco,
    defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ella era.
    N'outro ponto da igreja estava, apontado em olhos e coração á mesma
    mulher, um alferes de infanteria. Marcos enfreou o seu ciume até ao
    final do officio da paixão. Á sahida do templo encarou no militar, e
    provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Terçaram
    as armas longo tempo sem desaire nem sangue. Amigos de ambos tinham
    conseguido aplacal-os, quando Luiz Botelho, outro irmão de Marcos,
    desfechou uma clavina no peito do alferes, e alli á entrada da «rua do
    Jogo da Bola» o derribou morto. O homicida foi livre por graça regia.

    [2] É a casa-palacete da «rua da Piedade», hoje pertencente ao doutor
    Antonio Girardo Monteiro.

    [3] Esclarece este dizer de D. Rita a certidão de idade de Simão, a qual
    tenho presente, e é extrahida por Herculano Henrique Garcia Camillo
    Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a
    folhas 159 v. Reza assim:

    «Aos dois dias do mez de maio de 1784, pôz os santos oleos o reverendo
    padre cura João Domingues Chaves a Simão, o qual foi _baptisado em casa
    em perigo de vida_ pelo Reverendo Frei Antonio de S. Pelagio, etc.»

    [4] N'alguns papeis que possuimos do corregedor de Vizeu achamos esta
    carta: «Meu amigo, collega e senhor. Entregará, ao portador d'esta, que
    é o senhor padre Manoel de Oliveira, as cincoenta moedas em que lhe
    fallei na sua passagem para Lisboa. A appellação de seu filho está a meu
    cuidado, e está segura, apesar das grandes forças contrarias. Seu
    amigo–O desembargador _Antonio José Dias Mourão Mosqueira_. Porto 11 de
    fevereiro de 1805.–Sobrescripto: Ill.^mo Snr. D.^or Domingos José
    Correia Botelho de Mesquita e Menezes.–Lisboa.»

    (_Nota do auctor_).

    [5] Este romance foi escripto n'um dos cubiculos-carceres da Relação do
    Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das
    abobadas. Anno da Graça de 1861.

    [6] _Hoje então!…_ Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopho
    da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa.
    Hoje (21 de Setembro de 1861) estava eu no escriptorio do illustre
    advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o
    seguinte:–«Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***; e fui
    roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante
    para Vianna. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro.»
    –Póde querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor
    quer querelar por adulterio?–Responde o queixoso: «O que eu quero é o
    meu dinheiro.»–Mas, redargue o consultor, o senhor póde querelar de
    ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto.–«E
    receberei o meu dinheiro?»–Conforme. Eu sei cá se elle tem o seu
    dinheiro?! O que sei é que não póde pronuncial-a a ella como
    ladra.–«Mas os meus oitocentos mil reis?!»–Ah! o senhor não se lhe dá
    que sua mulher fuja e não volte?–«Não, senhor doutor, que a leve o
    diabo; o que eu quero é o meu dinheiro.»–Pois querele d'ambos, o
    veremos depois.–«Mas não é certo receber eu o meu dinheiro?!»–Certo
    não é; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas
    capturam o ladrão com o seu dinheiro.–«E, se elle o não tiver
    já?–redargue o marido consternado.»–Se o não tiver já, o senhor
    vinga-se na querela por adulterio.–«E gasta-se alguma coisa?»–Gasta,
    sim; mas vinga-se.–«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor:
    a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.»–Cincoenta
    annos!–acudiu o doutor–o senhor está vingado do amante. Vá para casa,
    deixe-se de querelas, que o mais desgraçado é elle.

    Encadernação N.° 2465

    FAUSTO FERNANDES

    ENCADERNOU

    Patio de D. Fradique, 1–LISBOA

    End of Project Gutenberg's Amor de Perdição, by Camillo Castello Branco

  • A Relíquia

    A Relíquia

    Aproximadamente 85.218 palavras.

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    A RELIQUIA

    *A Reliquia*

    Decidi compôr, nos vagares d'este verão, na minha quinta do _Mosteiro_
    (antigo solar dos condes de Landoso) as memorias da minha Vida–que
    n'este seculo, tão consumido pelas incertezas da Intelligencia e tão
    angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu
    cunhado Chrispim, uma lição lucida e forte.

    Em 1875, nas vesperas de Santo Antonio, uma desillusão de incomparavel
    amargura abalou o meu sêr: por esse tempo minha tia D. Patrocinio das
    Neves mandou-me do Campo de Sant'Anna, onde moravamos, em romagem a
    Jerusalem: dentro d'essas santas muralhas, n'um dia abrazado do mez de
    Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa, Elius Lamma legado
    imperial da Syria e J. Kaiapha Summo Pontifice testemunhei,
    miraculosamente, escandalosos successos: depois voltei–e uma grande
    mudança se fez nos meus bens e na minha moral.

    São estes casos–espaçados e altos n'uma existencia de bacharel como, em
    campo de herva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e
    murmurio–que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, emquanto
    no meu telhado voam as andorinhas, e as moitas de cravos vermelhos
    perfumam o meu pomar.

    Esta jornada á terra do Egypto e á Palestina permanecerá sempre como a
    gloria superior da minha carreira; e bem desejaria que d'ella ficasse
    nas Lettras, para a Posteridade, um monumento airoso e macisso. Mas
    hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituaes, pretendi que as
    paginas intimas em que a relembro se não assemelhassem a um _Guia
    Pittoresco do Oriente_. Por isso (apesar das solicitações da vaidade)
    supprimi n'este manuscripto succulentas, resplandecentes narrativas de
    Ruinas e de Costumes…

    De resto esse paiz do Evangelho, que tanto fascina a humanidade
    sensivel, é bem menos interessante que o meu sêcco e paterno Alemtejo:
    nem me parece que as terras favorecidas por uma presença Messianica
    ganhem jámais em graça ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os
    Lugares Santos da India em que o Budha viveu–arvoredos de Migadaia,
    outeiros de Veluvana, ou esse dôce valle de Rajagria por onde se
    alongavam os olhos adoraveis do Mestre perfeito quando um fogo rebentou
    nos juncaes, e Elle ensinou, em singela parabola, como a Ignorancia é
    uma fogueira que devora o homem–alimentada pelas enganosas sensações de
    Vida que os sentidos recebem das enganosas apparencias do Mundo. Tambem
    não visitei a caverna d'Hira, nem os devotos areaes entre Meca e Medina
    que tantas vezes trilhou Mahomet, o Propheta Excellente, lento e
    pensativo sobre o seu dromedario. Mas, desde as figueiras de Bethania
    até ás aguas caladas de Galilêa, conheço bem os sitios onde habitou esse
    outro Intermediario divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem
    chamamos Jesus-Nosso-Senhor:–e só n'elles achei bruteza, seccura,
    sordidez, soledade e entulho.

    Jerusalem é uma villa turca, com viellas andrajosas, acaçapada entre
    muralhas côr de lôdo, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.

    O Jordão, fio d'agua barrento e pêco que se arrasta entre areaes, nem
    póde ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do
    _Mosteiro_, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia vêde! estas
    meigas aguas portuguezas não correram jámais entre os joelhos d'um
    Messias, nem jámais as roçaram as azas dos anjos, armados e rutilantes,
    trazendo do céo á terra as ameaças do Altissimo!

    Entretanto como ha espiritos insaciaveis que, lendo d'uma jornada pelas
    terras da Escriptura, anhelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao
    preço da cerveja–eu recommendo a obra copiosa e luminosa do meu
    companheiro de romagem, o allemão Topsius, doutor pela Universidade de
    Bonn e membro do _Instituto Imperial de Excavações Historicas_. São sete
    volumes _in-quarto_, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo
    fino e profundo–Jerusalem Passeada e Commentada.

    Em cada pagina d'esse solido Itinerario o douto Topsius falla de mim,
    com admiração e com saudade. Denomina-me sempre o _illustre fidalgo
    lusitano_; e a fidalguia do seu camarada, que elle faz remontar aos
    Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. Além
    d'isso o esclarecido Topsius aproveita-me, através d'esses repletos
    volumes, para pendurar ficticiamente, nos meus labios e no meu craneo,
    dizeres e juizos ensopados de beata e babosa credulidade–que elle logo
    rebate e derroca com sagacidade e facundia! Diz, por exemplo:–«Diante
    de tal ruina, do tempo da Cruzada de Godofredo, o illustre fidalgo
    lusitano pretendia que Nosso Senhor, indo um dia com a Santa
    Veronica…»–E logo alastra a tremenda, turgida argumentação com que me
    deliu. Como porém as arengas que me attribue não são inferiores em sabio
    chorume e arrogancia theologica ás de Bossuet, eu não denunciei n'uma
    nota á _Gazeta de Colonia_–por que tortuoso artificio a afiada razão da
    Germania se enfeita assim de triumphos sobre a romba fé do Meio-Dia.

    Ha porém um ponto de Jerusalem Passeada que não posso deixar sem
    energica contestação. É quando o doutissimo Topsius allude a dois
    embrulhos de papel, que me acompanharam e me occuparam, na minha
    peregrinação, desde as viellas de Alexandria até ás quebradas do
    Carmello. N'aquella fórma rotunda que caracterisa a sua eloquencia
    universitaria, o dr. Topsius diz:–«O illustre fidalgo lusitano
    transportava alli restos dos seus antepassados, recolhidos por elle,
    antes de deixar o sólo sacro da patria, no seu velho solar torreado!…»
    Maneira de dizer singularmente fallaz e censuravel! Porque faz suppôr á
    Allemanha erudita que eu viajava pelas terras do Evangelho–trazendo
    embrulhados n'um papel pardo os ossos dos meus avós!

    Nenhuma outra imputação me poderia tanto desaprazer e desconvir. Não por
    me denunciar á Egreja como um profanador leviano de sepulturas
    domesticas: menos me pezam a mim, commendador e proprietario, as
    fulminações da Egreja–que as folhas sêccas que ás vezes cahem sobre o
    meu guardasol de cima d'um ramo morto: nem realmente a Egreja, depois de
    ter embolsado os seus emolumentos por enterrar um mólho d'ossos, se
    importa que elles para sempre jazam resguardados sob a rigida paz d'um
    marmore eterno, ou que andem chocalhados nas dobras molles d'um papel
    pardo. Mas a afirmação de Topsius desacredita-me perante a Burguezia
    Liberal:–e só da Burguezia Liberal, omnipresente e omnipotente, se
    alcançam, n'estes tempos de semitismo e de capitalismo, as coisas boas
    da vida, desde os empregos nos bancos até ás commendas da Conceição. Eu
    tenho filhos, tenho ambições. Ora a Burguezia Liberal aprecia, recolhe,
    assimila com alacridade um cavalheiro ornado de avoengos e solares: é o
    vinho precioso e velho que vai apurar o vinho novo e crú: mas com razão
    detesta o bacharel, filho d'algo, que passeie por diante d'ella,
    enfunado e têso, com as mãos carregadas de ossos de antepassados–como
    um sarcasmo mudo aos antepassados e aos ossos que a ella lhe faltam.

    Por isso intímo o meu douto Topsius (que com seus penetrantes oculos viu
    formar os meus embrulhos, já na terra do Egypto, já na terra de Canaan)
    a que na edição segunda de Jerusalem Passeada, sacudindo pudicos
    escrupulos de Academico e estreitos desdens de Philosopho, divulgue á
    Allemanha scientifica e á Allemanha sentimental qual era o recheio que
    continham esses papeis pardos–tão francamente como eu o revelo aos meus
    concidadãos n'estas paginas de repouso e de ferias, onde a Realidade
    sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da
    Historia, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da Farça!

    I

    Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em theologia, author
    de uma devota _Vida de Santa Philomena_, e prior da Amendoeirinha. Meu
    pai, afilhado de Nossa Senhora da Assumpção, chamava-se Rufino da
    Assumpção Raposo–e vivia em Evora com a minha avó, Philomena Raposo,
    por alcunha a «Repolhuda,» doceira na rua do Lagar dos Dizimos. O papá
    tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no _Pharol do
    Alemtejo_.

    Em 1853, um ecclesiastico illustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de
    Chorazin (que é em Galilêa), veio passae o S. João a Evora, a casa do
    conego Pitta, onde o papá muitas vezes á noite costumava ir tocar
    violão. Por cortezia com os dois sacerdotes, o papá publicou no _Pharol_
    uma chronica, laboriosamente respigada no _Peculio de Prégadores_,
    felicitando Evora «pela dita d'abrigar em seus muros o insigne prelado
    D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclarissima torre de santidade.»
    O bispo de Chorazin recortou este pedaço do _Pharol_ para o metter entre
    as folhas do seu Breviario; e tudo no papá lhe começou a agradar, até o
    aceio da sua roupa branca, até a graça chorosa com que elle cantava,
    acompanhando-se no violão, a xacara do conde Ordonho. Mas quando soube
    que este Rufino da Assumpção, tão moreno e sympathico, era o afilhado
    carnal do seu velho Rufino da Conceição, camarada de estudos no bom
    Seminario de S. José e nas veredas theologicas da Universidade, a sua
    affeição pelo papá tornou-se extremosa. Antes de partir de Evora deu-lhe
    um relogio de prata; e, por influencia d'elle, o papá, depois de
    arrastar alguns mezes a sua madraçaria pela alfandega do Porto, como
    aspirante, foi nomeado, escandalosamente, director da alfandega de
    Vianna.

    As macieiras cobriam-se de flôr quando o papá chegou ás veigas suaves
    d'Entre-Minho-e-Lima; e logo n'esse julho conheceu um cavalheiro de
    Lisboa, o commendador G. Godinho, que estava passando o verão com duas
    sobrinhas, junto ao rio, n'uma quinta chamada o _Mosteiro_, antigo solar
    dos condes de Lindoso. A mais velha d'estas senhoras, D. Maria do
    Patrocinio, usava oculos escuros, e vinha todas as manhãs da quinta á
    cidade, n'um burrinho, com o criado de farda, ouvir missa a Sant'Anna. A
    outra, D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa, sabia de cór os
    versos do _Amor e Melancolia_, e passava horas, á beira da agua, entre a
    sombra dos amieiros, rojando o vestido branco pelas relvas, a fazer
    raminhos silvestres.

    O papá começou a frequentar o _Mosteiro_. Um guarda da alfandega
    levava-lhe o violão; e emquanto o commendador e outro amigo da casa, o
    Margaride, doutor delegado, se embebiam n'uma partida de gamão, e D.
    Maria do Patrocinio rezava em cima o terço–o papá, na varanda, ao lado
    de D. Rosa, defronte da lua, redonda e branca sobre o rio, fazia gemer
    no silencio os bordões e dizia as tristezas do conde Ordonho. Outras
    vezes jogava elle a partida de gamão: D. Rosa, sentava-se então ao pé do
    titi, com uma flôr nos cabellos, um livro cahido no regaço; e o papá,
    chocalhando os dados, sentia a caricia promettedora dos seus olhos
    pestanudos.

    Casaram. Eu nasci n'uma tarde de sexta-feira de Paixão; e a mamã morreu,
    ao estalarem, na manhã alegre, os foguetes da Alleluia. Jaz, coberta de
    goivos, no cemiterio de Vianna, n'uma rua junto ao muro, humida da
    sombra dos chorões, onde ella gostava de ir passear nas tardes de verão,
    vestida de branco, com a sua cadellinha felpuda que se chamava
    _Traviata_.

    O commendador e D. Maria não voltaram ao _Mosteiro_. Eu cresci, tive o
    sarampo; o papá engordava; e o seu violão dormia, esquecido ao canto da
    sala, dentro d'um sacco de baeta verde. N'um julho de grande calor, a
    minha criada Gervasia vestiu-me o fato pesado de velludilho preto; o
    papá poz um fumo no chapéo de palha; era o luto do commendador G.
    Godinho a quem o papá muitas vezes chamava, por entre dentes,
    «malandro.»

    Depois, n'uma noite de entrudo, o papá morreu de repente, com uma
    apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado
    d'urso, para ir ao baile das senhoras Macedos.

    Eu fazia então sete annos; e lembro-me de ter visto, ao outro dia, no
    nosso pateo, uma senhora alta e gorda, com uma mantilha rica de renda
    negra, a soluçar diante das manchas de sangue do papá, que ninguem
    lavára, e já tinham seccado nas lages. Á porta uma velha esperava,
    rezando, encolhida no seu mantéo de baetilha.

    As janellas da frente da casa foram fechadas; no corredor escuro, sobre
    um banco, um candieiro de latão ficou dando a sua luzinha de capella,
    fumarenta e mortal. Ventava e chovia. Pela vidraça da cozinha, emquanto
    a Marianna, choramigando, abanava o fogareiro, eu vi passar no largo da
    Senhora da Agonia, o homem que trazia ás costas o caixão do papá. No
    alto frio do monte a capellinha da Senhora, com a sua cruz negra,
    parecia mais triste ainda, branca e nua, entre os pinheiros, quasi a
    sumir-se na nevoa; e adiante, onde estão as rochas, gemia e rolava, sem
    descontinuar, um grande mar d'inverno.

    Á noite, no quarto de engommar, a minha criada Gervasia sentou-me no
    chão, embrulhado n'um saiote. De quando em quando, rangiam no corredor
    as botas do João, guarda da alfandega, que andava a defumar com
    alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão de ló. Adormeci: e
    logo achei-me a caminhar á beira d'um rio claro, onde os choupos, já
    muito velhos, pareciam, ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia
    andando um homem nú, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos,
    que era Jesus, Nosso Senhor.

    Passados dias, acordaram-me, n'uma madrugada em que a janella do meu
    quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenuncio de
    coisa santa. Ao lado da cama, um sujeito risonho e gordo fazia-me
    cocegas nos pés com ternura e chamava-me _bréjeirote_. A Gervasia
    disse-me que era o snr. Mathias, que me ia levar para muito longe, para
    casa da tia Patrocinio: e o snr. Mathias, com a sua pitada suspensa,
    olhava espantado para as meias rôtas que me calçára a Gervasia.
    Embrulharam-me no chale-manta cinzento do papá; o João, guarda da
    alfandega, trouxe-me ao collo até á porta da rua, onde estava uma
    liteira com cortinas d'oleado.

    Começámos então a caminhar por compridas estradas. Mesmo adormecido, eu
    sentia as lentas campainhas dos machos: e o snr. Mathias, defronte de
    mim, fazia-me de vez em quando uma festinha na cara, e dizia: «Ora cá
    vamos.» Uma tarde, ao escurecer, parámos de repente n'um sitio ermo,
    onde havia um lamaçal; o liteireiro, furioso, praguejava, sacudindo o
    archote acceso. Em redor, dolente e negro, rumorejava um pinheiral. O
    snr. Mathias, enfiado, tirou o relogio da algibeira e escondeu-o no cano
    da bota.

    Uma noite, atravessámos uma cidade onde os candieiros da rua tinham uma
    luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira, da fórma d'uma tulipa
    aberta. Na estalagem em que apeámos, o criado, chamado Gonçalves,
    conhecia o snr. Mathias: e depois de nos trazer os bifes, ficou
    familiarmente encostado á mesa, de guardanapo ao hombro, contando coisas
    do snr. barão, e da ingleza do snr. barão. Quando recolhiamos ao quarto,
    alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma
    senhora, grande e branca, com um rumor forte de sêdas claras, espalhando
    um aroma d'almiscar. Era a ingleza do snr. barão. No meu leito de ferro,
    desperto pelo barulho das seges, eu pensava n'ella, rezando Ave-Marias.
    Nunca roçára corpo tão bello, d'um perfume tão penetrante: ella era
    cheia de graça, o Senhor estava com ella, e passava, bemdita entre as
    mulheres, com um rumor de sêdas claras…

    Depois, partimos n'um grande coche que tinha as armas do rei, e rolava a
    direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de quatro cavallos
    gordos. O snr. Mathias, de chinelas nos pés e tomando a sua pitada,
    dizia-me, aqui e além, o nome d'uma povoação aninhada em torno d'uma
    velha igreja, na frescura d'um valle. Ao entardecer, por vezes, n'uma
    encosta, as janellas d'uma calma vivenda faiscavam com um fulgor d'ouro
    novo. O coche passava; a casa ficava adormecendo entre as arvores;
    através dos vidros embaciados eu via luzir a estrella de Venus. Alta
    noite tocava uma corneta; e entravamos, atroando as calçadas, n'uma
    villa adormecida. Defronte do portão da estalagem moviam-se
    silenciosamente lanternas mortiças. Em cima, n'uma sala aconchegada, com
    a mesa cheia de talheres, fumegavam as terrinas; os passageiros,
    arripiados, bocejavam, tirando as luvas grossas de lã; e eu comia o meu
    caldo de gallinha, estremunhado e sem vontade, ao lado do snr. Mathias,
    que conhecia sempre algum moço, perguntava pelo doutor delegado, ou
    queria saber como iam as obras da camara.

    Emfim, n'um domingo de manhã, estando a choviscar, chegámos a um
    casarão, n'um largo cheio de lama. O snr. Mathias disse-me que era
    Lisboa; e, abafando-me no meu chale-manta, sentou-me n'um banco, ao
    fundo d'uma sala humida, onde havia bagagens e grandes balanças de
    ferro. Um sino lento tocava á missa; diante da porta passou uma
    companhia de soldados, com as armas sob as capas d'oleado. Um homem
    carregou os nossos bahús, entrámos n'uma sege, eu adormeci sobre o
    hombro do snr. Mathias. Quando elle me poz no chão, estavamos n'um pateo
    triste, lageado de pedrinha miuda, com assentos pintados de preto: e na
    escada uma moça gorda cochichava com um homem d'opa escarlate, que
    trazia ao collo o mealheiro das Almas.

    Era a Vicencia, a criada da tia Patrocinio. O snr. Mathias subiu os
    degraus conversando com ella, e levando-me ternamente pela mão. N'uma
    sala forrada de papel escuro, encontrámos uma senhora muito alta, muito
    secca, vestida de preto, com um grilhão d'ouro no peito; um lenço rôxo,
    amarrado no queixo, cahia-lhe n'um bioco lugubre sobre a testa; e no
    fundo d'essa sombra negrejavam dois oculos defumados. Por traz d'ella,
    na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dôres olhava para mim, com o
    peito trespassado d'espadas.

    –Esta é a titi, disse-me o snr. Mathias. É necessario gostar muito da
    titi… É necessario dizer sempre que _sim_ á titi!

    Lentamente, a custo, ella baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu
    senti um beijo vago, d'uma frialdade de pedra: e logo a titi recuou,
    enojada.

    –Credo, Vicencia! Que horror! Acho que lhe puzeram azeite no cabello!

    Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ella,
    murmurei:

    –Sim, titi.

    Então o snr. Mathias gabou o meu genio, o meu proposito na liteira, a
    limpeza com que eu comia a minha sopa á mesa das estalagens.

    –Está bem, rosnou a titi seccamente. Era o que faltava, portar-se mal,
    sabendo o que eu faço por elle… Vá, Vicencia, leve-o lá para dentro…
    Lave-lhe essa ramella, veja se elle sabe fazer o signal da cruz…

    O snr. Mathias deu-me dois beijos repenicados. A Vicencia levou-me para
    a cozinha.

    Á noite vestiram-me o meu fato de velludilho; e a Vicencia, séria,
    d'avental lavado, trouxe-me pela mão a uma sala em que pendiam cortinas
    de damasco escarlate, e os pés das mesas eram dourados como as columnas
    d'um altar. A titi estava sentada no meio do canapé, vestida de sêda
    preta, toucada de rendas pretas, com os dedos resplandecentes de anneis.
    Ao lado, em cadeiras tambem douradas, conversavam dois ecclesiasticos.
    Um, risonho e nedio, de cabellinho encaracolado e já branco, abriu os
    braços para mim, paternalmente. O outro, moreno e triste, rosnou só
    «boas noites.» E da mesa, onde folheava um grande livro de estampas, um
    homemzinho, de cara rapada e collarinhos enormes, comprimentou,
    atarantado, deixando escorregar a luneta do nariz.

    Cada um d'elles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste
    perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava _Tedrico_. O outro,
    amoravel, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as
    syllabas e dissesse _The-o-do-ri-co_. Depois acharam-me parecido com a
    mamã, nos olhos. A titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu
    não tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes collarinhos fechou o
    livro, fechou a luneta, e timidamente quiz saber se eu trazia saudades
    de Vianna. Eu murmurei, atordoado:

    –Sim, titi.

    Então o padre mais idoso e nedio chegou-me para os joelhos,
    recommendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre
    obediente á titi…

    –O Theodorico não tem ninguem senão a titi… É necessario dizer sempre
    que _sim_ á titi…

    Eu repeti, encolhido:

    –Sim, titi.

    A titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da bocca. Depois disse-me
    que voltasse para a cozinha, para a Vicencia, sempre a seguir pelo
    corredor…

    –E quando passar pelo oratorio, onde está a luz e a cortina verde,
    ajoelhe, faça o seu signalzinho da cruz…

    Não fiz o signal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratorio da titi
    deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de sêda rôxa, com
    paineis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do
    Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos
    de marfim e de madeira, com aureolas lustrosas, viviam n'um bosque de
    violetas e de camelias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar
    duas salvas nobres de prata, encostadas á parede, em repouso, como
    broqueis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um docel,
    Nosso Senhor Jesus Christo era todo d'ouro, e reluzia.

    Cheguei-me devagar até junto da almofada de velludo verde, pousada
    diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da titi. Ergui para Jesus
    crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no céo os
    anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de
    ouro, cravejados talvez de pedras: o seu brilho formava a luz do dia; e
    as estrellas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo
    através dos véos negros, em que os embrulhava á noite, para dormirem, o
    carinho beato dos homens.

    Depois do chá, a Vicencia foi-me deitar n'uma alcovinha pegada ao seu
    quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as mãos, ergueu-me a face
    para o céo. E dictou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saude da
    titi, pelo repouso da mamã, e por alma d'um commendador que fôra muito
    bom, muito santo, e muito rico, e que se chamava Godinho.

    * * * * *

    Apenas completei nove annos, a titi mandou-me fazer camisas, um fato de
    pano preto, e collocou-me, como interno, no collegio dos Isidoros, então
    em Santa Isabel.

    Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz Chrispim,
    mais crescido que eu, filho da firma Telles, Chrispim & C.^a, donos da
    fabrica do fiação á Pampulha. O Chrispim ajudava á missa aos domingos;
    e, de joelhos, com os seus cabellos compridos e louros, lembrava a
    suavidade d'um anjo. Ás vezes agarrava-me no corredor e marcava-me a
    face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; á noite, na
    sala, d'estudo, á mesa onde folheavamos os somnolentos diccionarios,
    passava-me bilhetinhos a lapis, chamando-me _seu idolatrado_ o
    promettendo-me caixinhas de pennas d'aço…

    Á quinta-feira era o desagradavel dia de lavarmos os pés. E tres vezes
    por semana o sebento padre Soares, vinha, de palito na bocca,
    interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor.

    –Ora depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de Caiphás… Olá, o
    da pontinha do banco, quem era Caiphás?… Emende! Emende adiante!…
    Tambem não! Irra, cabeçudos! Era um judeu o dos peores… Ora diz que,
    lá n'um sitio muito feio da Judêa, ha uma arvore toda d'espinhos, que é
    mesmo d'arripiar…

    A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e d'estalo, fechavamos a
    cartilha.

    O tristonho pateo de recreio, areado com saibro, cheirava mal por causa
    da visinhança das latrinas; e o regalo para os mais crescidos era tirar
    uma fumaça do cigarro, ás escondidas, n'uma sala terrea onde aos
    domingos o mestre de dansa, o velho Cavinetti, frisado e de sapatinhos
    decotados, nos ensinava mazurkas.

    Cada mez a Vicencia, de capote e lenço, me vinha buscar depois da missa,
    para ir passar um domingo com a titi. Isidoro Junior, antes de eu sair,
    examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia
    d'elle, dava-me uma ensaboadella furiosa, chamando-me baixo _sebento_.
    Depois trazia-me até á porta, fazia-me uma caricia, tratava-me de seu
    _querido amiguinho_, e mandava pela Vicencia os seus respeitos á snr.^a
    D. Patrocinio das Neves.

    Nós moravamos no Campo de Sant'Anna. Ao descer o Chiado, eu parava n'uma
    loja de estampas, diante do languido quadro d'uma mulher loura, com os
    peitos nús, recostada n'uma pelle de tigre, e sustentando na ponta dos
    dedos, mais finos que os do Chrispim, um pesado fio de perolas. A
    claridade d'aquella nudez fazia-me pensar na ingleza do snr. barão: e
    esse aroma, que tanto me perturbára no corredor da estalagem,
    respirava-o outra vez, finamente espalhado, na rua cheia de sol, pelas
    sêdas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e
    graves.

    A titi, em casa, estendia-me a mão a beijar: e toda a manhã eu ficava
    folheando volumes do _Panorama Universal_, na saleta d'ella, onde havia
    um sofá de riscadinho, um armario rico de pau preto, e lithographias
    coloridas, com ternas passagens da vida purissima do seu favorito santo,
    o patriarcha S. José. A titi, de lenço rôxo carregado para a testa,
    sentada á janella por dentro dos vidros, com os pés embrulhados n'uma
    manta, examinava solicitamente um grande caderno de contas.

    Ás tres horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do lenço
    começava a perguntar-me doutrina. Dizendo o _Credo_, desfiando os
    _Mandamentos_, com os olhos baixos, eu sentia o seu cheiro acre e
    adocicado a rapé e a formiga.

    Aos domingos vinham jantar comnosco os dois ecclesiasticos. O de
    cabellinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador da titi:
    dava-me abraços risonhos; convidava-me a declinar _arbor arboris, currus
    curri_; proclamava-me com affecto «talentaço.» E o outro ecclesiastico
    elogiava o collegio dos Isidoros, formosissimo estabelecimento de
    educação, como não havia nem na Belgica. Esse chamava-se padre Pinheiro.
    Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por
    diante d'um espelho, deitava a lingua de fóra, e alli se esquecia a
    estical-a, a estudal-a, desconfiado e aterrado.

    Ao jantar o padre Casimiro gostava de vêr o meu appetite.

    –Vai mais um bocadinho da vitellinha guisada? Rapazes querem-se alegres
    e bem comidos!…

    E padre Pinheiro, palpando o estomago:

    –Felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitella!

    Elle e a titi fallavam então de doenças. Padre Casimiro, córadinho, com
    o guardanapo atado ao pescoço, o prato cheio, o copo cheio, sorria
    beatificamente.

    Quando, na praça, entre as arvores, começavam a luzir os candieiros de
    gaz, a Vicencia punha o seu chale velho de xadrez e ia levar-me ao
    collegio. A essa hora, nos domingos, chegava o sujeitinho de cara rapada
    e vastos collarinhos, que era o snr. José Justino, secretario da
    confraria de S. José, e tabellião da titi, com cartorio a S. Paulo. No
    pateo, tirando já o seu paletot, fazia-me uma festa no queixo, e
    perguntava á Vicencia pela saude da snr.^a D. Patrocinio. Subia; nós
    fechavamos o pesado portão. E eu respirava consoladamente–porque me
    entristecia aquelle casarão com os seus damascos vermelhos, os santos
    innumeraveis, e o cheirinho a capella.

    Pelo caminho a Vicencia fallava-me da titi, que a trouxera, havia seis
    annos, da Misericordia. Assim eu fui sabendo que ella padecia do figado;
    tinha sempre muito dinheiro em ouro n'uma bolsa de sêda verde; e o
    commendador Godinho, tio d'ella e da minha mamã, deixára-lhe duzentos
    contos em predios, em papeis, e a quinta do _Mosteiro_ ao pé de Vianna,
    e pratas e louças da India… Que rica que era a titi! Era necessario
    ser bom, agradar sempre á titi!

    Á porta do collegio a Vicencia dizia «Adeus, amorzinho,» e dava-me um
    grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraçado ao travesseiro, eu
    pensava na Vicencia, e nos braços que lhe vira arregaçados, gordos e
    brancos como leite. E assim, foi nascendo no meu coração, pudicamente,
    uma paixão pela Vicencia.

    Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio _lambisgoia_.
    Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um
    murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Chrispim sahira dos
    Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela
    Vicencia desappareceu um dia, insensivelmente, como uma flôr que se
    perde na rua.

    E os annos assim foram passando: pelas vesperas de Natal accendia-se um
    brazeiro no refeitorio, eu envergava o meu casacão forrado de baeta e
    ornado d'uma gola d'astrakan; depois chegavam as andorinhas aos beiraes
    do nosso telhado, e no oratorio da titi, em lugar de camelias, vinham
    braçadas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés d'ouro de Jesus;
    depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava á titi
    um gigo d'uvas da sua quinta de Torres… Eu comecei a estudar
    rhetorica.

    * * * * *

    Um dia o nosso bom procurador disse-me que eu não voltaria mais para os
    Isidoros, indo acabar os meus preparatorios em Coimbra, na casa do dr.
    Rôxo, lente de Theologia. Fizeram-me roupa branca. A titi deu-me n'um
    papel a oração que eu diariamente devia rezar a S. Luiz Gonzaga,
    padroeiro da mocidade estudiosa, para que elle conservasse em meu corpo
    a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O padre
    Casimiro foi-me levar á cidade graciosa onde dormita Minerva.

    Detestei logo o dr. Rôxo. Em sua casa soffri vida dura e claustral; e
    foi um ineffavel gosto quando, no meu primeiro anno de Direito, o
    desagradavel ecclesiastico morreu miseravelmente d'um anthraz. Passei
    então para a divertida hospedagem das Pimentas–e conheci logo, sem
    moderação, todas as independencias, e as fortes delicias da vida. Nunca
    mais rosnei a delambida oração a S. Luiz Gonzaga, nem dobrei o meu
    joelho viril diante de imagem benta que usasse aureola na nuca;
    embebedei-me com alarido nas Camellas; affirmei a minha robustez
    esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carne com
    saborosos amores no Terreiro da Herva; vadiei ao luar, ganindo fados;
    usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho
    a alcunha de _Raposão_. Todos os quinze dias porém escrevia á titi, na
    minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a
    severidade dos meus estudos, o recato dos meus habitos, as copiosas
    rezas e os rigidos jejuns, os sermões de que me nutria, os dôces
    desaggravos ao Coração de Jesus á tarde, na Sé, e as novenas com que
    consolava a minha alma em Santa-Cruz no remanso dos dias feriados…

    Os mezes de verão em Lisboa eram depois dolorosos. Não podia sahir,
    mesmo a espontar o cabello, sem implorar da titi uma licença servil. Não
    ousava fumar ao café. Devia recolher virginalmente á noitinha: e antes
    de me deitar tinha de rezar com a velha um longo terço no oratorio. Eu
    proprio me condemnára a esta detestavel devoção!

    –Tu lá nos estudos costumas fazer o teu terço? perguntára-me, com
    seccura, a titi.

    E eu, sorrindo abjectamente:

    –Ora essa! É que nem posso adormecer sem ter rezado o meu rico
    terço!…

    Aos domingos continuavam as partidas. O padre Pinheiro, mais triste,
    queixava-se agora do coração, e um pouco tambem da bexiga. E havia outro
    commensal, velho amigo do commendador Godinho, fiel visita das Neves, o
    Margaride, o que fôra delegado em Vianna, depois juiz em Mangualde. Rico
    por morte de seu mano Abel, secretario da Camara Patriarchal, o doutor
    aposentára-se, farto dos autos, e vivia em ocio, lendo os periodicos,
    n'um predio seu na Praça da Figueira. Como conhecêra o papá, e muitas
    vezes o acompanhará ao _Mosteiro_, tratou-me logo com authoridade e por
    _você_.

    Era um homem corpulento e solemne, já calvo, com um carão livido, onde
    destacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carvão. Raras
    vezes penetrava na sala da titi sem atirar, logo da porta, uma noticia
    pavorosa. «Então, não sabem? Um incendio medonho, na Baixa!» Apenas uma
    fumaraça n'uma chaminé. Mas o bom Margaride, em novo, n'um sombrio
    accesso d'imaginação, compuzera duas tragedias; e d'ahi lhe ficára este
    gosto morbido d'exagerar e d'impressionar. «Ninguem como eu, dizia elle,
    saborêa o grandioso…»

    E, sempre que aterrava a titi e os sacerdotes, sorvia gravemente uma
    pitada.

    Eu gostava do dr. Margaride. Camarada do papá em Vianna, muitas vezes
    lhe ouvira cantar, ao violão, a xacara do conde Ordonho. Tardes inteiras
    vagueára com elle poeticamente, pela beira da agua, no _Mosteiro_,
    quando a mamã fazia raminhos silvestres á sombra dos amieiros. E
    mandou-me as amendoas mal eu nasci, á noitinha, em sexta-feira de
    Paixão. Além d'isso, mesmo na minha presença, elle gabava francamente á
    titi o meu intellecto, e a circumspecção dos meus modos.

    –O nosso Theodorico, D. Patrocinio, é moço para deleitar uma tia… V.
    exc.^a, minha rica senhora, tem aqui um Telemaco!

    Eu córava, modesto.

    Ora foi justamente passeando com elle no Rocio, n'um dia d'agosto, que
    eu conheci um parente nosso, afastado, primo do commendador G. Godinho.
    O dr. Margaride apresentou-m'o, dizendo apenas:–«o Xavier, teu primo,
    moço de grandes dotes.» Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que
    fôra galante e desbaratára furiosamente trinta contos, herdados de seu
    pai, dono d'uma cordoaria em Alcantara. O commendador G. Godinho, mezes
    antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade á
    secretaria da Justiça, com vinte mil reis por mez. E o Xavier agora
    vivia com uma hespanhola chamada Carmen, e tres filhos d'ella, n'um
    casebre da rua da Fé.

    Eu fui lá n'um domingo. Quasi não havia moveis; a bacia da cara, a
    unica, estava entalada no fundo rôto da palhinha d'uma cadeira. O Xavier
    toda a manhã deitára escarros de sangue pela bocca. E a Carmen,
    despenteada, em chinelas, arrastando uma bata de fustão manchada de
    vinho, embalava sorumbaticamente pelo quarto uma criança embrulhada n'um
    trapo e com a cabecinha coberta de feridas.

    Immediatamente o Xavier, tratando-me por _tu_, fallou-me da tia
    Patrocinio… Era a sua esperança, n'aquella sombria miseria, a tia
    Patrocinio! Serva de Jesus, proprietaria de tantos predios, ella não
    podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se alli n'aquelle casebre,
    sem lençoes, sem tabaco, com os filhos em redor, esfarrapados, a chorar
    por pão. Que custava á tia Patrocinio estabelecer-lhe, como já fizera o
    Estado, uma mesadinha de vinte mil reis?

    –Tu é que lhe devias fallar, Theodorico! Tu é que lhe devias dizer…
    Olha essas crianças. Nem meias teem… Anda cá, Rodrigo, dize aqui ao
    tio Theodorico. Que comeste hoje ao almoço?… Um bocado de pão
    d'hontem! E sem manteiga, sem mais nada! E aqui está a nossa vida,
    Theodorico! Olha que é duro, menino!

    Enternecido, prometti fallar á titi.

    Fallar á titi! Eu nem ousaria contar á titi que conhecia o Xavier, e que
    entrava n'esse casebre impuro onde havia uma hespanhola, emmagrecida no
    peccado.

    E para que elles não percebessem o meu ignobil terror da titi, não
    voltei á rua da Fé.

    No meado de setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora, soube pelo
    dr. Barroso que o primo Xavier, quasi a morrer, me queria fallar em
    segredo.

    Fui lá, de tarde, contrariado. Na escada cheirava a febre. A Concha, na
    cozinha, conversava por entre soluços com outra hespanhola, magrita, de
    mantilha preta e corpetesinho triste de setim côr de cereja. Os
    pequenos, no chão, rapavam um tacho d'açorda. E na alcova o Xavier,
    enrodilhado n'um cobertor, com a bacia da cara ao lado, cheia de
    escarros de sangue, tossia, despedaçadamente:

    –És tu, rapaz?

    –Então que é isso, Xavier?

    Elle exprimiu, n'um termo obsceno, que estava perdido. E estirando-se de
    costas, com um brilho secco nos olhos, fallou-me logo da titi.
    Escrevera-lhe uma carta linda, de rachar o coração: a fera não
    respondera. E, agora, ia mandar para o _Jornal de Noticias_ um annuncio,
    a pedir uma esmola, assignando «Xavier Godinho, primo do rico
    commendador G. Godinho.» Queria vêr se D. Patrocinio das Neves deixaria
    um parente, um Godinho, mendigar assim, publicamente, na pagina d'um
    jornal.

    –Mas é necessario que tu me ajudes, rapaz, que a enterneças! Quando
    ella lêr o annuncio, conta-lhe esta miseria! Desperta-lhe o brio.
    Dize-lhe que é uma vergonha vêr morrer ao abandono um parente, um
    Godinho. Dize-lhe que já se rosna! Olha, se hoje pude tomar um caldo, é
    que essa rapariga, a Lolita, que está em casa da Benta Bexigosa, nos
    trouxe ahi quatro corôas… Vê tu a que eu cheguei!

    Ergui-me, commovido.

    –Conta commigo, Xavier.

    –Olha, se tens ahi cinco tostões que te não façam falta, dá-os á
    Concha.

    Dei-lh'os a elle: e sahi, jurando-lhe que ia fallar á titi,
    solemnemente, em nome dos Godinhos e em nome de Jesus!

    Depois do almoço, ao outro dia, a titi, de palito na bocca, e vagarosa,
    desdobrou o _Jornal de Noticias_. E decerto achou logo o annuncio do
    Xavier, porque ficou longo tempo fitando o canto da terceira pagina onde
    elle negrejava, afflictivo, vergonhoso, medonho.

    Então pareceu-me vêr, voltados para mim, lá do fundo nú do casebre, os
    olhos afflictos do Xavier; a face amarella da Concha, lavada de
    lagrimas; as pobres mãosinhas dos pequenos, magras, á espera da côdea de
    pão… E todos aquelles desgraçados anciavam pelas palavras que eu ia
    lançar á titi, fortes, tocantes, que os deviam salvar, e dar-lhes o
    primeiro pedaço de carne d'aquelle verão de miseria. Abri os labios. Mas
    já a titi, recostando-se na cadeira, rosnava com um sorrisinho feroz:

    –Que se aguente… É o que succede a quem não tem temor de Deus e se
    mette com bebedas… Não tivesse comido tudo em relaxações… Cá para
    mim, homem perdido com saias, homem que anda atraz de saias, acabou…
    Não tem o perdão de Deus, nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que
    tambem Nosso Senhor Jesus Christo padeceu!

    Baixei a cabeça, murmurei:

    –E ainda nós não padecemos bastante… Tem a titi razão. Que se não
    mettesse com saias!

    Ella ergueu-se, deu as graças ao Senhor. Eu fui para o meu quarto,
    fechei-me lá, a tremer, sentindo ainda regeladas e ameaçadoras, as
    palavras da titi, para quem os homens «acabavam quando se mettiam com
    saias.» Tambem eu me mettera com saias, em Coimbra, no Terreiro da
    Herva! Alli, no meu bahú, tinha eu documentos do meu peccado, a
    photographia da Thereza dos Quinze, uma fita de sêda, e uma carta
    d'ella, a mais dôce, em que me chamava «unico affecto da sua alma» e me
    pedia dezoito tostões! Eu cosera essas reliquias dentro do fôrro d'um
    collete de pano, receando as incessantes rebuscas da titi, por entre a
    minha roupa intima. Mas lá estavam, no bahú de que ella guardava a
    chave, dentro do collete, fazendo uma dureza de cartão que qualquer dia
    poderiam palpar os seus dedos desconfiados… E eu acabava logo para a
    titi!

    Abri devagarinho o bahú, descosi o fôrro, tirei a carta deliciosa da
    Thereza, a fita que conservára o aroma da sua pelle, e a sua
    photographia, de mantilha. Na pedra da varanda, sem piedade, queimei
    tudo, amabilidades e feições: e sacudi desesperadamente para o saguão as
    cinzas da minha ternura.

    N'essa semana não ousei voltar á rua da Fé. Depois, um dia que
    choviscava, fui lá, ao escurecer, encolhido sob o meu guarda-chuva. Um
    visinho, vendo-me espreitar de longe as janellas negras e mortas do
    casebre, disse-me que o snr. Godinho, coitado, fôra para o hospital
    n'uma maca.

    Desci, triste, ao comprido das grades do Passeio. E, no crepusculo
    humido, tendo roçado bruscamente por outro guarda-chuva, ouvi de repente
    o meu nome de Coimbra, lançado com alegria.

    –Oh, Raposão!

    Era o Silverio, por alcunha o _Rinchão_, meu condiscipulo, e companheiro
    de casa das Pimentas. Estivera passando esse mez no Alemtejo, com seu
    tio, ricaço illustre, o barão d'Alconchel. E agora, de volta, ia vêr uma
    Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, n'uma casa côr de
    rosa, com roseirinhas á varanda.

    –Queres tu vir cá um bocado, ó Raposão? Está lá outra rapariga bonita,
    a Adelia… Tu não conheces a Adelia? Então que diabo, vem vêr a
    Adelia… É um mulherão!

    Era, um domingo, noite de partida da titi; eu devia recolher
    religiosamente ás oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinchão fallou
    da brancura dos braços da Adelia: e eu comecei a caminhar ao lado do
    Rinchão, enfiando as luvas pretas.

    Munidos d'um cartucho de pasteis e de uma garrafa de Madeira,
    encontrámos a Ernestina a coser um elastico nas suas botinas de duraque.
    E a Adelia, estendida no sofá, de chambre e em saia branca, com os
    chinelos cahidos no tapete, fumava um cigarro languido. Eu sentei-me ao
    lado d'ella, commovido e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos.
    Só quando o Silverio e Ernestina correram dentro á cozinha, abraçados, a
    buscar copos para o Madeira, ousei perguntar á Adelia, córando:

    –Então a menina d'onde é?

    Era de Lamego. E eu, novamente acanhado, só pude gaguejar que era
    tristonho aquelle tempo de chuva. Ella pediu-me outro cigarro,
    cortezmente, dizendo-me–o _cavalheiro_. Apreciei estes modos. As mangas
    largas do seu roupão, escorregando descobriam braços tão brancos e
    macios que entre elles a Morte mesma deveria ser deleitosa.

    Fui eu que lhe offereci o prato onde a Ernestina collocára os pasteis.
    Ella quiz saber o meu nome. Tinha um sobrinho que tambem se chamava
    Theodorico; e isto foi como um fio subtil e forte que veio, do seu
    coração, enrodilhar-se no meu.

    –Porque é que o cavalheiro não põe o guarda-chuva alli a um canto?
    disse-me ella, rindo.

    O brilho picante dos seus dentinhos miudos fez desabrochar dentro em mim
    uma flôr de madrigal.

    –É para não me tirar d'aqui d'ao pé da menina nem um instantinho que
    seja.

    Ella fez-me uma cocega lenta no pescoço. Eu, aboborado de gôzo, bebi o
    resto do Madeira que ella deixára no calice.

    A Ernestina, poetica, e cantando o _fado_, aninhou-se nos joelhos do
    Rinchão. Então a Adelia, revirando-se languidamente, puxou-me a face–e
    os meus labios encontraram os seus no beijo mais sério, mais sentido,
    mais profundo que até ahi abalára o meu sêr.

    N'esse dôce instante, um relogio medonho, com o mostrador fingindo uma
    face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o marmore d'uma mesa do
    mogno, d'entre dois vasos sem flôres, começou a dar dez, horas, fanhoso,
    ironico, pachorrento.

    Jesus! era a hora do chá em casa da titi! Com que terror eu trepei,
    esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as viellas escuras e
    infindaveis que levam ao Campo de Sant'Anna! Em casa, nem tirei as botas
    enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo, lá ao fundo, no sofá de
    damasco, os oculos da titi, mais negros, assanhados, esperando por mim e
    fuzilando. Ainda balbuciei:

    –Titi…

    Mas já ella gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos.

    –Relaxações em minha casa não admitto! Quem quizer viver aqui ha de
    estar ás horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, emquanto eu
    fôr viva! E quem não lhe agradar, rua!

    Sob a rajada estridente da indignação da snr.^a D. Patrocinio, padre
    Pinheiro e o tabellião Justino tinham dobrado a cabeça embaçados. O dr.
    Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu
    pesado relogio d'ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como
    sacerdote, como procurador, influente e suave.

    –D. Patrocinio tem razão, tem muita razão em querer ordem em casa…
    Mas talvez o nosso Theodorico se tivesse demorado um pouco mais no
    Martinho, a ouvir fallar d'estudos, de compendios…

    Exclamei amargamente:

    –Nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No
    convento da Encarnação! É verdade, encontrei um condiscipulo meu, que ia
    lá buscar a irmã. Hoje era festa, a irmã tinha ido passar o dia com uma
    tia, uma commendadeira… Estivemos á espera, a passear no pateo… A
    irmã vai casar, elle andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do
    apaixonada que ella está… Eu morto por me safar, mas com ceremonia do
    rapaz, que é sobrinho do barão d'Alconchel… E elle zás, zás, a fallar
    da irmã, e do namoro, e das cartas…

    A tia Patrocinio uivou de furor.

    –Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa
    para o pateo d'uma casa de religião! Cala-te, alma perdida, que até
    devias ter vergonha!… E fique entendendo! Para outra vez que venha a
    estas horas, não me entra em casa! Fica na rua, como um cão…

    Então o dr. Margaride estendeu a mão pacificadora e solemne:

    –Está tudo explicado! O nosso Theodorico foi imprudente, mas o sitio
    onde esteve é respeitavel… E eu conheço o barão d'Alconchel. É um
    cavalheiro da maior circumspecção, e um dos mais abastados do
    Alemtejo… Talvez mesmo um dos mais ricos proprietarios de Portugal…
    O mais rico, direi!… Mesmo lá fóra não haverá fortuna territorial que
    lhe exceda. Nem que se lhe compare!… Só em porcos! Só em cortiça!
    Centenares de contos! milhões!

    Erguera-se; o seu vozeirão empolado rolava serras d'ouro. E o bom
    Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura:

    –Tome o seu chásinho, Theodorico, vá tomando o seu chásinho. E creia
    que a tia não deseja senão o seu bem…

    Puxei, com a mão a tremer, a minha chavena de chá: e, remexendo
    desfallecidamente o fundo d'assucar, pensava em abandonar para sempre a
    casa d'aquella velha medonha que assim, me ultrajava diante da
    Magistratura e da Igreja, sem consideração pela barba que me começava a
    nascer, forte, respeitavel e negra.

    Mas, aos domingos, o chá era servido nas pratas do commendador G.
    Godinho. Eu via-as, macissas e resplandecentes, diante de mim: o grande
    bule terminando em bico de pato; o assucareiro cuja aza tinha a fórma
    d'uma cobra assanhada; e o paliteiro gentil em figura de macho trotando
    sob os seus alforges. E tudo pertencia á titi. Que rica que era a titi!
    Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!…

    Por isso, mais tarde, quando ella penetrou no oratorio para cumprir o
    terço, já eu lá estava, de rojos, gemendo, martellando o peito, e
    supplicando ao Christo de ouro que me perdoasse ter offendido a titi.

    * * * * *

    Um dia emfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor mettidas
    n'um canudo de lata. A titi examinou-as reverente, achando um sabor
    ecclesiastico ás linhas em latim, ás paramentosas fitas vermelhas, e ao
    sêllo dentro do seu relicario.

    –Está bom, disse ella, estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves, vê
    não lhe faltes…

    Corri logo ao oratorio, com o canudo na mão, agradecer ao Christo de
    ouro o meu glorioso grau de bacharel.

    Na manhã seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba, que agora
    tinha cerrada e negra, o padre Casimiro entrou-me pelo quarto, risonho e
    a esfregar as mãos.

    –Boa nova vos trago aqui, snr. doutor Theodorico!…

    E depois de me acariciar, segundo o seu affectuoso costume, com
    palmadinhas dôces nos rins, o santo procurador revelou-me que a titi,
    satisfeita commigo, decidira comprar-me um cavallo para eu dar honestos
    passeios, e espairecer por Lisboa.

    –Um cavallo! Oh, padre Casimiro!

    Um cavallo. E além d'isso, não querendo que seu sobrinho, já barbado, já
    letrado, soffresse um vexame, por lhe faltar ás vezes um troco para
    deitar na salva de Nossa Senhora do Rosario, a titi estabelecia-me uma
    mezada de tres moedas.

    Abracei com calor o padre Casimiro. E desejei saber se a amoravel
    intenção da titi era que eu não tivesse outra occupação além de cavalgar
    por Lisboa, e lançar pratinhas na salva de Nossa Senhora.

    –Olhe, Theodorico, eu parece-me que a titi não quer que você tenha
    outro mister senão temer a Deus… O que lhe digo é que o amigo vai
    passal-a boa e regalada… E agora, ande, vá-lhe lá dentro agradecer, e
    diga-lhe uma coisinha mimosa.

    Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos piedosos do patriarcha
    S. José, a titi, sentada a um canto do sofá de riscadinho, fazia meia,
    com um chale de Tonkin pelos hombros.

    –Titi, murmurei eu encolhido, venho aqui agradecer…

    –Está bom, vai com Deus.

    Então, devotamente, beijei-lhe a franja do chale. A titi gostou. Eu fui
    com Deus.

    Começou d'ahi, farta e regalada, a minha existencia de sobrinho da
    snr.^a D. Patrocinio das Neves. Ás oito horas, pontualmente, vestido de
    preto, ia com a titi á igreja de Sant'Anna, ouvir a missa do padre
    Pinheiro. Depois d'almoço, tendo pedido licença á titi, e rezadas no
    oratorio tres _Gloria Patri_ contra as tentações, sahia a cavallo, de
    calça clara. Quasi sempre a titi me dava alguma incumbencia beata:
    passar em S. Domingos, e dizer a oração pelos tres santos martyres do
    Japão; entrar na Conceição Velha, e fazer o acto de desaggravo pelo
    Sagrado Coração de Jesus…

    E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava de dar estes ternos
    recados que ella mandava a casa do Senhor.

    Mas era este o momento desagradavel do meu dia: ás vezes, ao sahir,
    surrateiro, do portão da igreja, topava com algum condiscipulo
    republicano, dos que me acompanhavam em Coimbra, nas tardes de
    procissão, chasqueando o Senhor da Cana Verde.

    –Oh, Raposão! pois tu agora…

    Eu negava, vexado:

    –Ora essa! Não me faltava mais nada! Sou mesmo lá de carolices… Qual!
    entrei aqui por causa d'uma rapariga… Adeus, tenho a egua á espera.

    Montava–e de luva preta, a perna bem collada á sella, um botãosinho de
    camelia no peito, ia caracolando, em ocio e luxo, até ao largo do
    Loreto. Outras vezes deixava a egua no Arco do Bandeira, e gozava uma
    manhã regalada no bilhar do Montanha.

    Antes do jantar, em chinelas, no oratorio com a titi, eu fazia a
    jaculatoria a S. José, aio de Jesus, custodio de Maria e amorosissimo
    patriarcha. Á mesa, adornada apenas por compoteiras de doce de calda em
    torno d'uma travessa d'aletria, eu contava á titi o meu passeio, as
    igrejas em que me deleitára, e quaes os altares alumiados. A Vicencia
    escutava com devoção, perfilada no seu lugar costumado, entre as duas
    janellas, onde um retrato de nosso santo padre Pio IX enchia a tira de
    parede verde, tendo por baixo, pendente d'um cordão, um velho oculo
    d'alcance, reliquia do commendador G. Godinho. Depois do café a titi,
    lentamente, cruzava os braços; e o seu carão sumia-se, dormente e
    pesado, na sombra do lenço rôxo.

    Eu ia enfiar as botas; e, authorisado agora por ella a recrear-me fóra
    de casa até ás nove e meia, corria ao fim da rua da Magdalena, ao pé do
    largo dos Caldas. Ahi, com resguardo, encolhido na gola do meu
    sobretudo, cosido com o muro, como se o candieiro de gaz que alli havia
    fosse o olho inexoravel da titi–penetrava sofregamente na escadinha da
    Adelia…

    Sim, da Adelia! Porque nunca mais me esquecera, desde a noite em que o
    _Rinchão_ me levou ao Salitre, o beijo que ella me dera, languida e
    branca, sobre o sofá. Em Coimbra procurára mesmo fazer-lhe versos: e
    esse amor dentro do meu peito foi no ultimo anno de Universidade, no
    anno de Direito ecclesiastico, como um maravilhoso lirio que ninguem via
    e que perfumava a minha vida… Apenas a titi me estabeleceu a mezada
    das tres moedas, corri em triumpho ao Salitre; lá havia as roseirinhas á
    janella, mas a Adelia já lá não estava. E foi ainda o prestante
    _Rinchão_ que me mostrou esse primeiro andar, junto ao largo dos Caldas,
    onde ella agora vivia patrocinada por Eleuterio Serra, da firma Serra
    Brito & C.^a, com loja de fazendas e moelas na Conceição Velha.
    Mandei-lhe uma carta ardente e séria, pondo reverentemente no alto:
    «Minha senhora.» Ella respondeu, com dignidade:–«O cavalheiro póde vir
    aqui ao meio dia.» Levei-lhe uma caixinha de pastilhas de chocolate,
    atada com uma fita de sêda azul: pizando commovido a esteira nova da
    sala, eu antevia, pela engommada brancura das bambinellas, a frescura
    das suas saias; e o rigido alinho dos moveis revelava-me a rectidão dos
    seus sentimentos. Ella entrou, um pouco constipada, com um chale
    vermelho pelos hombros. Reconheceu logo o amigo do _Rinchão_; fallou da
    Ernestina, com severidade, chamando-lhe «porcalhona.» E a sua voz
    enrouquecida, o seu defluxo, davam-me o desejo de a curar nos meus
    braços, d'um longo dia d'agasalho e somnolencia, sob o peso dos
    cobertores, na penumbra molle da sua alcova. Depois ella quiz saber se
    eu era empregado ou estava no commercio… Eu contei-lhe com orgulho a
    riqueza da titi, os seus predios, as suas pratas. Disse-lhe, com as suas
    mãos grossas presas nas minhas:

    –Se a titi agora rebentasse, eu é que lhe punha á menina uma casa chic!

    Ella murmurou, banhando-me todo na negra doçura do seu olhar:

    –Ora! o cavalheiro, se apanhasse o bago, não se importava mais commigo!

    Ajoelhei sobre a esteira, tremulo, esmagando o peito contra os seus
    joelhos, offertando-me como uma rez; ella abriu o seu chale, aceitou-me
    misericordiosamente.

    Agora, á noitinha (emquanto Eleuterio, no club da rua Nova do Carmo,
    jogava a manilha) eu tinha alli na alcova da Adelia a radiante festa da
    minha vida. Levára para lá um par de chinelas–era o eleito do seu seio.
    Ás nove e meia, despenteada, envolta á pressa n'um roupão de flanella,
    com os pés nús, acompanhava-me pela escadinha de traz, colhendo em cada
    degrau, nos meus labios, um beijo lento e saudoso.

    –Adeus, Délinha!

    –Agasalha-te, riquinho!

    E eu recolhia devagar ao campo de Sant'Anna, ruminando o meu gozo!

    O verão passou, languidamente. Os primeiros ventos d'outono levaram as
    andorinhas e as folhagens do campo de Sant'Anna: e logo n'esse outubro,
    de repente, a minha vida se tornou mais facil, mais larga. A titi
    mandára-me fazer uma casaca; e eu estreei-a, com permissão d'ella, indo
    ouvir a S. Carlos o _Poliuto_–opera que o dr. Margaride recommendára,
    como «repassada de sentimentos religiosos e cheia de elevada lição.» Fui
    com elle, de luvas brancas, frizado. Depois, no outro dia, ao almoço,
    contei á titi o devoto enredo, os idolos derrubados, os canticos, as
    fidalgas que estavam nos camarotes, e de que lindo velludo vestia a
    rainha.

    –E sabe quem me veio fallar, titi? O barão d'Alconchel, o ricaço, tio
    d'aquelle rapaz que foi meu condiscipulo. Veio apertar-me a mão, esteve
    um bocado commigo no salão… Tratou-me com muita consideração.

    A titi gostou d'esta consideração.

    Depois, tristemente, como um moralista magoado, queixei-me do nedio
    decote d'uma senhora immodesta, núa nos braços, núa no peito, mostrando
    toda essa carne, esplendida e irreligiosa, que é a desolação do justo e
    a angustia da Igreja.

    –Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a titi, estava com nojo!

    A titi gostou d'este nojo.

    E passados dias, depois do café, quando eu me dirigia, ainda de
    chinelas, ao oratorio, a fazer uma curta petição ás chagas do nosso
    Christo d'ouro–a titi, já de braços cruzados e somnolenta, disse-me
    d'entre a sombra do lenço:

    –Está bom, se queres, volta hoje a S. Carlos… E lá quando te
    appetecer, não te acanhes, tens licença, pódes ir gozar um bocado de
    musica… Agora que estás um homem, e que parece que tens proposito, não
    me importa que fiques fóra, até ás onze ou onze e meia… Em todo o caso
    a essa hora quero estar já de porta fechada, e tudo prompto, para
    começarmos o terço.

    Ella não viu o triumphante lampejar dos meus olhos. Eu murmurei,
    requebrado, a babar-me de gosto devoto:

    –Lá o terço, titi, lá o meu querido terço não perdia eu, nem pelo maior
    divertimento… Nem que el-rei me convidasse para um chásinho no paço!

    Corri, delirante, a enfiar a casaca. E este foi o começo d'essa anhelada
    liberdade que eu conquistára laboriosamente, vergando o espinhaço diante
    da titi, macerando o peito diante de Jesus! Liberdade bem vinda, agora
    que Eleuterio Serra partira para Paris, fazer os seus fornecimentos, e
    deixára a Adelia só, solta, bella, mais jovial, mais fogosa!

    Sim, decerto, eu ganhára a confiança da titi com os meus modos pontuaes,
    sisudos, servis e beatos! Mas o que a levára a alargar assim, com
    generosidade, as minhas horas de honesto recreio, fôra (como ella disse
    confidencialmente ao padre Casimiro) a certeza de que eu «me portava com
    religião e não andava atraz de saias.»

    Porque para a tia Patrocinio todas as acções humanas, passadas por fóra
    dos portaes das igrejas, consistiam em _andar atraz de calças_ ou _andar
    atraz de saias_:–e ambos estes dôces impulsos naturaes lhe eram
    igualmente odiosos!

    Donzella, e velha, e resequida como um galho de sarmento; não tendo
    jámais provado na livida pelle senão os bigodes do commendador G.
    Godinho, paternaes e grisalhos; resmungando incessantemente, diante de
    Christo nú, essas jaculatorias das _Horas de piedade_, soluçantes de
    amor divino–a titi entranhára-se, pouco a pouco, d'um rancor invejoso e
    amargo a todas as fórmas e a todas as graças do amor humano.

    E não lhe bastava reprovar o amor como coisa profana: a snr.^a D.
    Patrocinio das Neves fazia uma carantonha, e varria-o como coisa suja.
    Um moço grave, amando sériamente, era para ella «uma porcaria!» Quando
    sabia d'uma senhora que tivera um filho, cuspia para o lado,
    rosnava–«que nojo!» E quasi achava a Natureza obscena por ter creado
    dois sexos.

    Rica, apreciando o conforto, nunca quizera em casa um escudeiro–para
    que não houvesse na cozinha, nos corredores, _saias a roçar com calças_.
    E apesar de irem embranquecendo os cabellos da Vicencia, de ser
    decrepita e gaga a cozinheira, de não ter dentes a outra criada chamada
    Eusebia, andava-lhes sempre remexendo desesperadamente nos bahús, e até
    na palha dos enxergões, a vêr se descobria photographia d'homem, carta
    d'homem, rasto d'homem, cheiro d'homem.

    Todas as recreações moças; um passeio gentil com senhoras, em burrinhos;
    um botão de rosa orvalhado offerecido na ponta dos dedos; uma decorosa
    contradança em jucundo dia de Paschoa; outras alegrias, ainda mais
    candidas, pareciam á titi perversas, cheias de sujidade, e chamava-lhes
    _relaxações_. Diante d'ella já os sisudos amigos da casa não ousavam
    mencionar d'essas emoventes historias, lidas nas gazetas, e em que
    transparecem motivos d'amor–porque isso a escandalisava como o
    desbragamento de uma nudez.

    –Padre Pinheiro! gritou ella um dia furiosa, com os oculos chammejantes
    para o desventuroso ecclesiastico, ao ouvil-o narrar d'uma criada que em
    França atirára o filho á sentina. Padre Pinheiro! Faça favor de me
    respeitar… Não é lá pela latrina! É pela outra porcaria!

    Mas era ella propria que sem cessar alludia a desvarios e a peccados da
    Carne–para os vituperar, com odio: atirava então o novello de linha
    para cima da mesa, espetando-lhe raivosamente as agulhas de meia–como
    se trespassasse alli, tornando-o para sempre frio, o vasto e inquieto
    coração dos homens. E quasi todos os dias, com os dentes rilhados,
    repetia (referindo-se a mim) que se uma pessoa do seu sangue, e que
    comesse o seu pão, andasse atraz de saias, ou se désse a relaxações,
    havia d'ir para a rua, escorraçado a vassoura, como um cão.

    Por isso agora as minhas precauções eram tão apuradas que, para evitar
    me ficasse na roupa ou na pelle o delicioso cheiro da Adelia, eu trazia
    na algibeira bocados soltos d'incenso. Antes de galgar a triste
    escadaria de casa, penetrava subtilmente na cavalhariça deserta, ao
    fundo do pateo; queimava no tampo d'uma barrica vazia um pedaço da
    devota resina; e alli me demorava, expondo ao aroma purificador as abas
    do jaquetão e as minhas barbas viris… Depois subia; e tinha a
    satisfação de vêr logo a titi farejar, regalada:

    –Jesus, que rico cheirinho a igreja!

    Modesto, e com um suspiro, eu murmurava:

    –Sou eu, titi…

    Além d'isso, para melhor a persuadir «da minha indifferença por saias,»
    colloquei um dia, no soalho do corredor, como perdida, uma carta com
    sêllo–certo que a religiosa D. Patrocinio, minha senhora e tia, a
    abriria logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era escripta por mim a um
    condiscipulo d'Arrayollos; e dizia, em letra nobre, estas cousas
    edificantes: «Saberás que fiquei de mal com o Simões, o de philosophia,
    por elle me ter convidado a ir a uma casa deshonesta. Não admitto
    d'estas offensas. Tu lembras-te bem como já em Coimbra eu detestava taes
    relaxações. E parece-me ser uma grandissima cavalgadura aquelle que, por
    causa d'uma distracção que é _fogo-viste-linguiça_, se arrisca a penar,
    por todos os seculos e seculos, amen, nas fogueiras de Satanaz, salvo
    seja! Ora n'uma d'essas refinadissimas asneiras não é capaz de cahir o
    teu do C.–_Raposo_.»

    A titi leu, a titi gostou. E agora eu vestia a minha casaca, dizia-lhe
    que ia ouvir a _Norma_, beijava com unção os ossos dos seus dedos;–e
    corria, ao largo dos Caldas, á alcova da Adelia, a afundar-me
    perdidamente nas beatitudes do Peccado. Alli, á meia luz que dava
    através da porta envidraçada o candieiro de petroline da sala, os
    cortinados de cambraia e as saias dependuradas tomavam brancuras
    celestes de nuvem; o cheiro dos pós d'arroz excedia em doçura o olor dos
    junquilhos mysticos; eu estava no céo, eu era S. Theodorico; e sobre os
    hombros nús da minha amada desenrolavam-se as madeixas do seu cabello
    negro, forte e duro como a cauda d'um corcel de guerra.

    N'uma d'essas noites, eu sahia d'uma confeitaria do Rocio, de comprar
    trouxas d'ovos para levar á minha Adelia–quando encontrei o dr.
    Margaride que me annunciou, depois do seu abraço paternal, que ia a S.
    Carlos vêr o _Propheta_.

    –E você, vejo-o de casaca, naturalmente tambem vem…

    Fiquei varado. Com effeito vestira a casaca, dissera á titi que ia gozar
    o _Propheta_, opera de tanta virtude como uma santa instrumental
    d'igreja… E agora tinha de soffrer o _Propheta_, deveras, entalado
    n'uma cadeira da Geral, roçando o joelho do douto magistrado–em vez de
    preguiçar n'um colchão amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer o
    seu docinho d'ovos.

    –Sim, com effeito, tambem eu ia d'aqui para o _Propheta_, murmurei
    aniquilado. Diz que é uma musicasinha de muita virtude… A titi gostou
    muito que eu viesse.

    Com o meu inutil cartucho de trouxas d'ovos, lá fui subindo,
    melancolicamente, ao lado do dr. Margaride, a rua Nova do Carmo.

    Occupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca e com
    tons d'ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria da Adelia, e no
    desalinho das suas saias–quando reparei que d'uma friza ao lado uma
    senhora loura e madura, uma Ceres outonal, vestida de sêda côr de palha,
    voltava para mim, a cada dôce arcada das rebecas, os seus olhos claros e
    sérios.

    Perguntei logo ao dr. Margaride se conhecia aquella dama «que eu
    costumava encontrar ás sextas na igreja da Graça, visitando o Senhor dos
    Passos, com uma devoção, um fervor…»

    –O sujeito que está por traz, a abrir a bocca, é o visconde de Souto
    Santos. E ella ou é a mulher, a viscondessa de Souto Santos, ou a
    cunhada, a viscondessa de Villar-o-Velho…

    Á sahida, a viscondessa (de Souto Santos ou de Villar-o-Velho) ficou um
    momento á porta esperando a sua carruagem, embrulhada n'uma capa branca
    que uma pennugem orlava, delicadamente; a sua cabeça pareceu-me mais
    altiva, incapaz de rolar, tonta e pallida, n'um travesseiro d'amor; a
    cauda côr de palha alastrava-se sobre as lages; era esplendida, era
    viscondessa; e outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos
    claros e sérios.

    A noite estava estrellada. E, descendo o Chiado em silencio ao lado do
    dr. Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da titi fosse meu e
    dourasse a minha pessoa, eu poderia então conhecer uma viscondessa de
    Souto Santos ou de Villar-o-Velho, não na sua friza, mas na minha
    alcova, já cahida a grande capa branca, despidas já as sêdas côr de
    palha, alva só do brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os
    meus braços… Ai, quando chegaria a hora, dôce entre todas, de morrer a
    titi?

    –Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? perguntou-me o dr.
    Margaride ao desembocarmos no Rocio. Não sei se você conhece a torrada
    do Martinho… É a melhor torrada de Lisboa.

    No Martinho, já silencioso, o gaz ia adormecendo entre os espelhos
    baços; e havia apenas n'uma mesa do fundo um moço triste, com a cabeça
    enterrada entre os punhos diante d'um capilé.

    O Margaride encommendou o chá–e vendo-me olhar com inquietação os
    ponteiros do relogio, affirmou-me que eu chegaria a casa ainda a horas
    de fazer a minha tocante devoção com a titi.

    –A titi agora, disse eu, não se importa que eu esteja até mais tarde…
    A titi agora louvado seja Deus, tem mais confiança em mim.

    –E você merece-o… Faz-lhe a vontade, é sisudo… Ella pouco a pouco
    tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro…

    Então lembrei-me da velha affeição que ligava o dr. Margaride ao padre
    Casimiro, procurador da tia Patrocinio e seu zeloso confessor. E,
    arrebatando a opportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu coração ao
    magistrado, largamente, como a um pai.

    –É verdade, a titi tem-me amizade… Mas acredite v. exc.^a, dr.
    Margaride, que o meu futuro inquieta-me ás vezes… Olhe que tenho
    pensado mesmo em ir a um concurso para delegado. Até já indaguei se
    seria difficil entrar como despachante na alfandega. Porque emfim a titi
    é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, unico parente, unico
    herdeiro; mas…

    E olhei anciosamente para o dr. Margaride, que, pelo loquaz padre
    Casimiro, conhecia talvez o testamento da titi… O silencio grave em
    que elle ficou, com as mãos cruzadas sobre a mesa, pareceu-me sinistro:
    e n'esse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e
    felicitando o magistrado por o vêr melhor do seu catarrho.

    –Deliciosa torrada! murmurou o doutor.

    –Excellente torrada! suspirei eu cortezmente.

    De vez em quando o dr. Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a
    face, os dedos; e recomeçava a mastigar devagar, com delicadeza e com
    religião.

    Eu arrisquei outra palavra timida.

    –A titi, é verdade, tem-me amizade…

    –A titi tem-lhe amizade, atalhou com a bocca cheia o magistrado, e você
    é o seu unico parente… Mas a questão é outra, Theodorico. É que você
    tem um rival.

    –Rebento-o! gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chammas,
    esmurrando o marmore da mesa.

    O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o dr.
    Margaride reprovou com severidade a minha violencia.

    –Essa expressão é impropria d'um cavalheiro, e d'um moço comedido. Em
    geral não se rebenta ninguem… E além d'isso o seu rival não é outro,
    Theodorico, senão Nosso Senhor Jesus Christo!

    Nosso Senhor Jesus Christo? E só comprehendi, quando o esclarecido
    jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no ultimo
    anno da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e
    predios, a Irmandades da sua sympathia e a padres da sua devoção.

    –Estou perdido! murmurei.

    Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o moço triste
    diante do seu capilé. E pareceu-me que elle se assemelhava a mim como um
    irmão, que era eu proprio, Theodorico, já desherdado, sordido, com as
    botas cambadas, vindo alli ruminar as dôres da minha vida, á noite,
    diante d'um capilé.

    Mas o dr. Margaride acabára a torrada. E estendendo regaladamente as
    pernas, consolou-me, de palito na bocca, affavel e perspicaz.

    –Nem tudo está perdido, Theodorico. Não me parece que esteja tudo
    perdido… É possivel que a senhora sua tia tenha mudado d'idéa… Você
    é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ella…
    Tudo isto influe. Que é necessario dizel-o, o rival é forte!

    Eu gemi:

    –É d'arromba!

    –É forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito… Jesus Christo
    padeceu por nós, é religião do Estado, não ha senão curvar a cabeça…
    Olhe, quer você a minha opinião? Pois ahi a tem, franca e sem rebuço,
    para lhe servir de guia… Você vem a herdar tudo, se D. Patrocinio, sua
    tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como
    deixal-a á Santa Madre Igreja…

    O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, já abafado no seu
    paletot, ainda me disse baixinho:

    –Com franqueza, que tal, a torrada?

    –Não ha melhor torrada em Lisboa, dr. Margaride.

    Elle apertou-me a mão com affecto–e separamo-nos, quando estava dando a
    meia noite no velho relogio do Carmo.

    Estugando o passo pela rua Nova da Palma, eu sentia agora bem
    claramente, bem, amargamente, o erro da minha vida… Sim, o erro!
    Porque até ahi, essa minha devoção complicada, com que eu procurára
    agradar á titi e ao seu ouro, fôra sempre regular, mas nunca fôra
    fervente. Que importava murmurar com correcção o terço diante de Nossa
    Senhora do Rosario? Diante de Nossa Senhora em todas as suas
    encarnações, e bem em evidencia para commover a titi, eu devia mostrar
    habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo
    pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilicios… Até ahi a titi
    podia dizer com approvação: «É exemplar.» Era-me preciso, para herdar,
    que ella exclamasse um dia, babada, de mãos postas: «É santo!»

    Sim! eu devia identificar-me tanto com as coisas ecclesiasticas e
    submergir me n'ellas de tal sorte, que a titi, pouco a pouco, não
    podesse distinguir-me claramente d'esse conjunto rançoso de cruzes,
    imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era
    para ella a Religião e o Céo; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar
    dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já
    salpicada d'estrellas, e diaphana como a tunica de bem-aventurança.
    Então, evidentemente, ella testaria em meu favor–certa que testava em
    favor de Christo e da sua dôce Madre Igreja!

    Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho
    de Maria, a aprazivel fortuna do commendador G. Godinho. Pois quê! Não
    bastavam ao Senhor os seus thesouros incontaveis; as sombrias cathedraes
    de marmore que atulham a terra e a entristecem; as inscripções, os
    papeis de credito que a piedade humana constantemente averba em seu
    nome; as pás d'ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos pés
    trespassados de pregos; as alfaias, os calices, e os botões de punho de
    diamantes que elle usa na camisa, na sua igreja da Graça? E ainda
    voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e
    uns insipidos predios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos,
    fugitivos haveres–tu, ó filho do Carpinteiro, mostrando á titi a chaga
    que por ella recebeste, uma tarde, n'uma cidade barbara da Asia, e eu
    adorando essa chaga, com tanto ruido e tanto fausto, que a titi não
    possa saber onde está o merito, se em ti que morreste por nos amar de
    mais, se em mim que quero morrer por não te saber amar bastante!…
    Assim pensava, olhando de través o céo, no silencio da rua de S. Lazaro.

    Quando cheguei a casa, senti que a titi estava no oratorio, sósinha, a
    rezar. Enfiei para o meu quarto, surrateiramente; descalcei-me; despi a
    casaca; esguedelhei o cabello; atirei-me de joelhos para o soalho–e fui
    assim, de rastos, pelo corredor, gemendo, carpindo, esmurrando o peito,
    clamando desoladamente por Jesus, meu Senhor…

    Ao ouvir, no silencio da casa, estas lugubres lamentações de arrastada
    penitencia, a titi veio á porta do oratorio, espavorida.

    –Que é isso, Theodorico, filho, que tens tu?…

    Abati-me sobre o soalho, aos soluços, desfallecido de paixão divina.

    –Desculpe, titi… Estava no theatro com o dr. Margaride, estivemos
    ambos a tomar chá, a conversar da titi… E vai de repente, ao voltar
    para casa, alli na rua Nova da Palma, começo a pensar que havia de
    morrer, e na salvação da minha alma, e em tudo o que Nosso Senhor
    padeceu por nós, e dá-me uma vontade de chorar… Emfim, a titi faz
    favor, deixa-me aqui um bocadinho só, no oratorio, para alliviar…

    Muda, impressionada, ella accendeu reverentemente, uma a uma, todas as
    velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem de S. José, favorito
    da sua alma, para que fosse elle o primeiro a receber a ardente rajada
    de preces que ia escapar-se, em tumulto, do meu coração cheio e ancioso.
    Deixou-me entrar, de rastos. Depois, em silencio, desappareceu, cerrando
    o reposteiro com recato. E eu alli fiquei, sentado na almofada da titi,
    coçando os joelhos, suspirando alto–e pensando na viscondessa de Souto
    Santos ou de Villar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe atiraria por
    aquelles hombros maduros e succulentos, se a podesse ter só um instante,
    alli mesmo que fosse, no oratorio, aos pés de ouro de Jesus, meu
    Salvador!

    * * * * *

    Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o
    bacalhau das sextas-feiras não fosse uma sufficiente mortificação,
    n'esses dias, diante da titi, bebia asceticamente um copo d'agua e
    trincava uma côdea de pão: o bacalhau comia-o á noite, de cebolada, com
    bifes á ingleza, em casa da minha Adelia. No meu guarda-roupa, n'esse
    duro inverno, houve apenas um paletot velho, tão renunciado me quiz
    mostrar aos culpados regalos da carne; mas orgulhava-me de ter lá,
    purificando os cheviottes profanos, a minha opa rôxa de irmão do Senhor
    dos Passos, e o devoto habito cinzento da Ordem Terceira de S.
    Francisco. Sobre a commoda ardia uma lamparina perennal diante da
    lithographia colorida de Nossa Senhora do Patrocinio: eu punha todos os
    dias rosas dentro d'um copo, para lhe perfumar o ar em redor; e a titi,
    quando vinha remexer nas minhas gavetas, ficava a olhar a sua padroeira,
    desvanecida, sem saber se era á Virgem, ou se era a ella,
    indirectamente, que eu dedicava aquelle preito da luz e o louvor dos
    aromas. Nas paredes dependurei as imagens dos santos mais excelsos, como
    galeria d'antepassados espirituaes de quem tirava o constante exemplo
    das difficeis virtudes; mas não houve de resto no céo santo, por mais
    obscuro, a quem eu não offertasse um cheiroso ramalhete de Padre-Nossos
    em flôr. Fui eu que fiz conhecer á titi S. Telesforo, Santa Secundina, o
    beato Antonio Estronconio, Santa Restituta, Santa Umbulina, irmã do grão
    S. Bernardo, e a nossa dilecta e suavissima patricia Santa Basilissa,
    que é solemnisada juntamente com S. Hypacio, n'esse festivo dia d'agosto
    em que embarcam os cirios para a Atalaya.

    Prodigiosa foi então a minha actividade devota! Ia a matinas, ia a
    vesperas. Jámais falhei igreja ou ermida onde se fizesse a adoração ao
    Sagrado Coração de Jesus. Em todas as exposições do Santissimo eu lá
    estava, de rojos. Partilhava sofregamente de todos os desaggravos ao
    Sacramento. Novenas em que eu rezei contam-se pelos lumes do céo. E o
    Septenario das Dôres era um dos meus dôces cuidados.

    Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido, eu ia
    á missa das sete a Sant'Anna, e á missa das nove da igreja de S. José, e
    á missa do meio dia na ermida da Oliveirinha. Descansava um instante a
    uma esquina, de ripanço debaixo do braço, chupando á pressa o cigarro:
    depois voava ao Santissirno exposto na parochial de Santa Engracia, á
    devoção do Terço no convento de Santa Joanna, á benção do Sacramento na
    capella de Nossa Senhora ás Picôas, á novena das Chagas de Christo, na
    sua igreja, com musica. Tomava então a tipoia do _Pingalho_, e ainda
    visitava, ao acaso, de fugida, os Martyres e S. Domingos, a igreja do
    convento do Desagravo e a igreja da Visitação das Selesias, a capella de
    Monserrate ás Amoreiras e a Gloria ao Cardal da Graça, as Flamengas e as
    Albertas, a Pena, o Rato, a Sé!

    Á noite, em casa da Adelia, estava tão derreado, mono e molle ao canto
    do sofá,–que ella atirava-me murros pelos hombros, e gritava, furiosa:

    –Esperta, morcão!

    Ai de mim! Um dia veio, porém, em que a Adelia, em vez de me chamar
    _morcão_, quando, esfalfado no serviço do Senhor, eu mal podia ajudal-a
    a desatacar o collete–passou, sempre que os meus labios insaciaveis se
    collavam de mais ao seu collo, a empurrar-me, a chamar-me _carraça_…
    Foi isto pelas alegres vesperas de Santo Antonio, ao apparecerem os
    primeiros manjaricões, no quinto mez da minha devoção perfeita.

    A Adelia começára a andar pensativa e distrahida. Tinha ás vezes, quando
    eu lhe fallava, um modo de dizer «hein?», com o olhar incerto e
    disperso, que era um tormento para o meu coração. Depois um dia deixou
    de me fazer a caricia melhor, que eu mais appetecia–a penetrante e a
    regaladora beijoca na orelha.

    Sim, decerto permanecia terna… Ainda dobrava maternalmente o meu
    paletot; ainda me chamava _riquinho_; ainda me acompanhava ao patamar em
    camisa, dando, ao descollar do nosso abraço, esse lento suspiro que era
    para mim a mais preciosa evidencia da sua paixão;–mas já me não
    favorecia com a beijoquinha na orelha.

    Quando eu entrava abrazado–encontrava-a por vestir, por pentear, molle,
    estremunhada e com olheiras. Estendia-me a mãosinha desamoravel,
    bocejava, colhia preguiçosamente a viola: e emquanto eu, a um canto,
    chupando cigarros mudos, esperava que se abrisse a portinha envidraçada
    da alcova que dava para o céo–a deshumana Adelia, estirada no sofá, de
    chinelas cahidas, beliscava os bordões, murmurando, por entre longos
    _ais_, cantigas de estranha saudade…

    N'um arranco de ternura, eu ia ajoelhar-me á beira do seu peito. E lá
    vinha logo a dura, a regelada palavra:

    –Está quieto, carraça!

    E recusava-me sempre o seu carinho. Dizia-me: «não posso, estou com
    azia.» Dizia-me: «adeus, tenho a dôr na ilharga.»

    Eu sacudia os joelhos, recolhia ao Campo de Sant'Anna–espoliado,
    miserrimo, chorando na escuridão da minha alma pelos tempos ineffaveis
    em que ella me chamava _morcão_!

    Uma noite de julho, macia como um velludo preto e pespontada
    d'estrellas, chegando mais cedo a casa d'ella, encontrei a portinha
    aberta. O candieiro de petroline, pousado no soalho do patamar, enchia a
    escada de luz;–e dei com a Adelia, em saia branca, fallando a um rapaz
    de bigodinho louro, embrulhado pelintramente n'uma capa á hespanhola.
    Ella empallideceu, elle encolheu–quando eu surgi, grande e barbudo, com
    a minha bengala na mão. Depois a Adelia, sorrindo, sem perturbação, vera
    e limpida, apresentou-me «seu sobrinho Adelino.» Era filho da mana
    Ricardina, a que vivia em Vizeu, e irmão do Theodoriquinho… Tirando o
    chapéo, apertei na palma larga e leal os dedos fugidios do snr. Adelino:

    –Estimo muito conhecel-o, cavalheiro. Sua mamã, seu mano, bons?

    N'essa noite a Adelia, resplandecente, tornou a chamar-me _morcão_,
    restituiu-me o beijinho na orelha. E toda essa semana foi deliciosa como
    a d'um noivado. O verão ardia; e começára na Conceição Velha a novena de
    S. Joaquim. Eu sahia de casa á hora repousante em que se regam as ruas,
    mais contente que os passaros chalrando nas arvores do campo de
    Sant'Anna. Na salinha clara, com todas as cadeiras cobertas de fustão
    branco, encontrava a minha Adelia de chambre, fresca de se ter lavado,
    cheirando a agua de colonia, e aos lindos cravos vermelhos que a
    toucavam; e depois das manhãs calorosas, nada havia mais idyllico, mais
    dôce que as nossas merendas de morangos na cozinha, ao ar da janella,
    contemplando bocadinhos verdes de quintaes e ceroulas humildes a seccar
    em cordas… Ora uma tarde que assim nos apraziamos, ella pediu-me oito
    libras.

    Oito libras!… Descendo á noite a rua da Magdalena, eu ruminava quem
    m'as poderia emprestar sem juro e rasgadamente. O bom Casimiro estava em
    Torres, o prestante _Rinchão_ estava em Paris… E pensava já no padre
    Pinheiro (cujas dôres de rins eu lamentava sempre com affecto) quando
    avistei a escapar-se, todo encolhido, todo surrateiro, d'uma d'essas
    viellas impuras onde Venus Mercenaria arrasta os seus chinelos–o José
    Justino, o nosso José Justino, o piedoso secretario da confraria de S.
    José, o virtuosissimo tabellião da titi!…

    Gritei logo: «boas noites, Justininho!» E regressei ao Campo de
    Sant'Anna, tranquillo, gozando já a repenicada beijoca que me daria a
    Délinha, quando eu risonho lhe estendesse na mão as oito rodellas
    d'ouro. Ao outro dia cedo, corri ao cartorio do Justino, a S. Paulo,
    contei-lhe a pranteada historia d'um condiscipulo meu, tisico,
    miseravel, arquejando sobre uma enxerga, n'uma fetida casa d'hospedes,
    ao pé do largo dos Caldas.

    –É uma desgraça, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho… Eu é que
    o ajudo: mas, que diabo, estou a tinir… Faço-lhe companhia, é o que
    posso; leio-lhe orações, e _Exercicios da vida christã_. Hontem á noite
    vinha eu de lá… E acredite você, Justino, que nem gósto d'andar por
    aquellas ruas, tão tarde… Jesus, que ruas que indecencia, que
    immoralidade!… Aquelles beccos d'escadinhas, hein?… Eu hontem bem
    percebi que você ia horrorisado: eu tambem… De sorte que esta manhã
    estava no oratorio da titi, a rezar pelo meu condiscipulo, a pedir a
    Nosso Senhor que o ajudasse e que lhe désse algum dinheiro, e vai
    pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da cruz a dizer: «entende-te com o
    Justino, falla ao nosso Justininho, elle que te dê oito libras para o
    rapaz…» Fiquei tão agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui venho,
    Justino, por ordem d'Elle.

    O Justino escutava-me, branco como os seus collarinhos, dando estalinhos
    tristes nos dedos;–depois, em silencio, estendeu-me uma a uma sobre a
    carteira as oito moedas d'ouro. Assim eu servi a minha Adelia.

    Fugaz foi porém a minha gloria!

    D'ahi a dias estando no Montanha, regalado, a gozar uma carapinhada–o
    criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira e de chale, a snr.^a
    Marianna, esperava por mim á esquina… Santo Deus! A Marianna era a
    criada da Adelia. E corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada
    ficára soffrendo da sua abominavel dôr na sua branca ilharga. Pensei
    mesmo em começar o Rosario das dezoito apparições de Nossa Senhora de
    Lourdes, que a titi considera efficacissimo em casos de pontada ou de
    touros tresmalhados…

    –Ha novidade, Marianna?

    Ella levou-me para dentro d'um pateo onde cheirava mal; e ahi, com os
    olhos vermelhos, destraçando furiosamente o chale, rouca ainda da bulha
    que tivera com a Adelia, rompeu a contar-me coisas torpes, execrandas,
    sordidas. A Adelia enganava-me! O snr. Adelino não era sobrinho: era o
    querido, o _chulo_. Apenas eu sahia, elle entrava: a Adelia
    dependurava-se-lhe do pescoço, n'um delirio; e chamavam-me então o
    _carraça_, o _carola_, o _bode_, vituperios mais negros, cuspindo sobre
    o meu retrato. As oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de
    verão; e ainda sobrára para irem á feira de Belem, em tipoia descoberta,
    e de guitarra… A Adelia adorava-o com pieguice e com furor:
    cortava-lhe os callos; e os suspiros da sua impaciencia, quando elle
    tardava, lembravam o bramar das cervas, nos mattos quentes, em maio!…
    Duvidava eu? Queria uma evidencia? Que fosse n'essa noite, tarde, depois
    da uma hora, bater á portinha da Adelia!

    Livido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me suffocava vinha
    do canto escuro do pateo–se das immundicies que borbulhavam da bocca da
    Marianna, como d'um cano d'esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a
    desfallecer:

    –Está bom Marianna, obrigadinho, eu verei, vá com Deus…

    Cheguei a casa tão sombrio, tão murcho, que a titi perguntou-me, com um
    risinho, se eu «malhára abaixo da egoa.»

    –Da egoa?… Não, titi, credo! Estive na igreja da Graça…

    –É que vens tão enfiado, assim com as pernas molles… E então o Senhor
    hoje estava bonito?

    –Ai, titi, estava rico!… Mas não sei porquê, pareceu-me tão
    tristinho, tão tristinho… Até eu disse ao padre Eugenio: «Ó Eugeninho,
    o Senhor hoje tem desgosto!» E disse-me elle: «Que quer você, amigo? É
    que vê por esse mundo tanta patifaria!» E olhe que vê, titi! Vê muita
    ingratidão, muita falsidade, muita traição!

    Rugia, enfurecido: e cerrára o punho como para o deixar cahir, punidor e
    terrivel, sobre a vasta perfidia humana. Mas contive-me, abotoei devagar
    a quinzena, recalquei um soluço.

    –Pois é verdade, titi… Fez-me tanta impressão aquella tristeza do
    Senhor que fiquei assim um bocado amarfanhado… E de mais a mais tenho
    tido um desgosto: está um condiscipulo meu muito mal, coitadinho, a
    espichar…

    E outra vez, como diante do Justino (aproveitando reminiscencias do
    Xavier e da rua da Fé), estirei a carcassa d'um condiscipulo sobre a
    podridão d'uma enxerga. Disse as bacias de sangue, disse a falta de
    caldos… Que miseria, titi, que miseria! E então um moço tão
    respeitador das coisas santas, que escrevia tão bem na _Nação_!…

    –Desgraças, murmurou a tia Patrocinio, meneando as agulhas da meia.

    –É verdade, desgraças, titi. Ora como elle não tem familia e a gente da
    casa é desleixada, nós os condiscipulos é que vamos por turnos
    servir-lhe d'enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E queria então que a titi
    me désse licença para eu ficar fóra, até cerca das duas horas… Depois
    vem outro rapaz, muito instruido, que é deputado.

    A tia Patrocinio permittiu:–e até se offereceu para pedir ao patriarcha
    S. José que fosse preparando ao meu condiscipulo uma morte somnolenta e
    ditosa…

    –Isso é que era um grande favor, titi! Elle chama-se Macieira… O
    Macieira vesgo. É para S. José saber.

    Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na molleza do luar de
    julho. E por cada rua me acompanharam sempre, fluctuantes e
    transparentes, duas figuras, uma em camisa, outra de capa á hespanhola,
    enroscadas, beijando-se furiosamente–e só desligando os beiços pisados
    para rirem alto de mim e para me chamarem _carola_.

    Cheguei ao Rocio quando batia uma hora no relogio do Carmo. Ainda fumei
    um cigarro, indeciso, por debaixo das arvores. Depois voltei os passos
    para a casa da Adelia, vagaroso, e com medo. Na sua janella vi uma luz
    enlanguecida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da porta,–mas hesitei
    com terror da certeza que vinha buscar, terminante e irreparavel… Meu
    Deus! Talvez a Marianna, por vingança, calumniasse a minha Adelia! Ainda
    na vespera ella me chamára _riquinho_, com tanto ardor! Não seria mais
    sensato e mais proveitoso acreditar n'ella, tolerar-lhe um fugitivo
    transporte pelo snr. Adelino, e continuar a receber egoistamente o meu
    beijinho na orelha?

    Mas então á idéa lacerante de que ella tambem beijava na orelha o snr.
    Adelino, e que o snr. Adelino também dizia _ai! ai!_ como
    eu–assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo e a murros,
    alli, n'esses degraus onde tantas vezes arrulhára a suavidade dos nossos
    adeuses. E bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre o
    seu fragil, ingrato peito.

    Senti correr desabridamente o fecho da vidraça. Ella surgiu em camisa,
    com os seus bellos cabellos revoltos:

    –Quem é o bruto?

    –Sou eu, abre.

    Reconheceu-me–a luz dentro desappareceu; e foi como se aquella torcida
    de candieiro, apagando-se, deixasse tambem a minha alma em escuridão,
    fria para sempre e vazia. Senti-me regeladamente só, viuvo, sem
    occupação e sem lar. Do meio da rua olhava as janellas negras, e
    murmurava: «ai, que eu rebento!»

    Outra vez a camisa da Adelia alvejou na varanda.

    –Não posso abrir, que ceei tarde e estou com somno!

    –Abre! gritei erguendo os braços desesperados. Abre ou nunca mais cá
    volto!…

    –Pois á fava, e recados á tia.

    –Fica-te, bebeda!

    Tendo-lhe atirado, como uma pedrada, este urro severo, desci a rua muito
    teso, muito digno. Mas á esquina aluí de dôr, para cima d'um portal, a
    soluçar, escoado em pranto, delido.

    Pesada foi então ao meu coração a lenta melancolia dos dias d'estio…
    Tendo contado á titi que andava a escrever dois artigos, piamente
    destinados ao _Almanach da Immaculada Conceição_ para 1878, encerrava-me
    no quarto, toda a manhã, emquanto faiscavam ao sol as pedras da minha
    varanda. Ahi, arrastando as chinelas sobre o soalho regado, remoía,
    entre suspiros, recordações da Adelia; ou diante do espelho contemplava
    o lugar macio da orelha em que ella costumava dar-me o beijo… Depois
    sentia um ruido de vidraça–e o seu perfido, o seu affrontoso brado «á
    fava!» Então, perdido, esguedelhado, machucava o travesseiro com os
    murros que não podia vibrar ao peito magro do snr. Adelino.

    Á tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas cada
    janella aberta ás aragens da tarde, cada cortina de cassa engommada me
    lembrava a intimidade da alcovinha da Adelia; n'um simples par de meias,
    esticado na vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfeição da sua
    perna; tudo o que era luminoso me suggeria o seu olhar; e até o sorvete
    de morango, no Martinho, me fazia repassar nos labios o adocicado e
    gostoso sabor dos seus beijos.

    Á noite, depois do chá, refugiava-me no oratorio, como n'uma fortaleza
    de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado
    na sua linda cruz de pau preto. Mas então o brilho fulvo do metal
    precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva côr de carne,
    quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos,
    arredondava-se em fórmas divinamente cheias e bellas; por entre a corôa
    d'espinhos, desenrolavam-se lascivos anneis de cabellos crespos e
    negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos,
    dois esplendidos seios de mulher, com um botãosinho de rosa na ponta;–e
    era ella, a minha Adelia, que assim estava no alto da cruz, núa,
    soberba, risonha, victoriosa, profanando o altar, com os braços abertos
    para mim!

    Eu não via n'isto uma tentação do Demonio–antes me parecia uma graça do
    Senhor. Comecei mesmo a misturar aos textos das minhas rezas as queixas
    do meu amor. O céo é talvez grato: e esses innumeraveis santos, a quem
    eu prodigalisára Novenas e Coroinhas, desejariam talvez recompensar a
    minha amabilidade restituindo-me as caricias que me roubára o homem
    cruel da capa á hespanhola. Puz mais flôres sobre a commoda diante de
    Nossa Senhora do Patrocinio; contei-lhe as angustias do meu coração. Por
    traz do limpido vidro do seu caixilho, com os olhos baixos e magoados,
    ella foi a confidente do tormento da minha carne; e todas as noites, em
    ceroulas, antes de me deitar, eu lhe segredava, com ardor:

    –Ó minha querida Senhora do Patrocinio, faze que a Adelinha goste outra
    vez de mim!

    Depois utilisei o valimento da titi com os santos seus amigos–o
    amorosissimo e perdoador S. José, S. Luiz Gonzaga, tão benevolo para a
    juventude. Pedia-lhe que fizesse uma Petição por certa necessidade
    minha, secreta e toda pura. Ella accedia, com alacridade; e eu,
    espreitando pelo reposteiro do oratorio, regalava-me de vêr a rigida
    senhora, de joelhos, de contas na mão, em supplicas aos Patriarchas
    castissimos para que a Adelia me désse outra vez a beijoquinha na
    orelha.

    Uma noite, cedo, foi experimentar se o céo escutára tão valiosas preces.
    Cheguei á porta da Adelia; e bati, tremendo todo, uma argoladinha
    humilde. O snr. Adelino assomou á janella, em mangas de camisa.

    –Sou eu, snr. Adelino, murmurei abjectamente e tirando o chapéo. Queria
    fallar á Adeliasinha.

    Elle rosnou para dentro, para a alcova, o meu nome. Creio mesmo que
    disse _o carola_. E lá do fundo, d'entre os cortinados, onde eu a
    presentia toda desalinhada e formosa, a minha Adelia gritou com furor:

    –Atira-lhe para cima dos lombos o balde da agua suja!

    Fugi.

    * * * * *

    No fim de setembro, o _Rinchão_ chegou de Paris: e um domingo, á
    noitinha, á volta da Novena de S. Caetano, entrando no Martinho,
    encontrei-o, rodeado de rapazes, contando ruidosamente os seus feitos
    d'amor e de gentil audacia em Paris. Tristonho, puxei um banco e fiquei
    a ouvir o _Rinchão_. Com uma ferradura de rubis na gravata, o monoculo
    pendente d'uma fita larga, uma rosa amarella no peito, o _Rinchão_
    impressionava, quando por entre o fumo do charuto esboçava traços do seu
    prestigio: «Uma noite no Caffé de la Paix, estando eu a cear com a Cora,
    com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um principe…» O que o
    _Rinchão_ tinha visto! o que o _Rinchão_ tinha gozado! Uma condessa
    italiana, delirante, parenta do Papa, e chamada _Popotte_, amára-o,
    levára-o aos Campos-Elyseos na sua victoria–cujo velho brazão eram dois
    chavelhos encruzados. Jantára em restaurantes onde a luz vinha de
    serpentinas d'ouro, e os criados, macilentos e graves, lhe chamavam
    respeitosamente _Mr. le Comte_. E o _Acazar_, com festões de gaz entre
    as arvores, e a Paulina cantando, de braços nús, o _Chouriço de
    Marselha_–revelára-lhe a verdade, a grandeza da civilisação.

    –Viste Victor Hugo? perguntou um rapaz de lunetas pretas, que roía as
    unhas.

    –Não, nunca andava cá na roda chic!

    Toda essa semana, então, a idéa de vêr Paris brilhou incessantemente no
    meu espirito, tentadora e cheia de suaves promessas… E era menos o
    appetite d'esses gozos do Orgulho e da Carne com que se abarrotára o
    _Rinchão_, que a anciedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas, claro
    rio e claro céo, só me lembravam a Adelia, o homem amargo de capa á
    hespanhola, o beijo na orelha perdido para sempre… Ah! se a titi
    abrisse a sua bolsa de sêda verde, me deixasse mergulhar dentro as mãos,
    colher ouro, e partir para Paris!…

    Mas, para a snr.^a D. Patrocinio, Paris era uma região ascorosa, cheia
    de mentira, cheia de gula–onde um povo sem santos, com as mãos
    maculadas do sangue dos seus arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o
    sol, ou luza o gaz, commettendo uma _relaxação_. Como ousaria eu mostrar
    á titi o desejo immodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva
    moral?…

    Logo no domingo porém, jantando no Campo de Sant'Anna os amigos
    dilectos, aconteceu fallar-se, ao cozido, d'um sabio condiscipulo do
    padre Casimiro que recentemente deixára a quietação da sua cella no
    Varatojo, para ir esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O
    nosso modesto Casimiro não comprehendia esta cubiça d'uma mitra,
    cravejada de pedras vãs: para elle a plenitude d'uma vida ecclesiastica
    era estar assim aos sessenta annos, são e sereno, sem saudades e sem
    temores, comendo o arrozinho do forno da snr.^a D. Patrocinio das
    Neves…

    –Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitavel senhora, que este seu
    arroz está um primor!… E a ambição de ter sempre um arroz d'estes, e
    amigos que o apreciem, parece-me a mais legitima e a melhor para uma
    alma justa…

    E assim se veio a discursar das acertadas ambições que, sem aggravo do
    Senhor, cada um podia nutrir no seu coração. A do tabellião Justino era
    uma quintasinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde elle
    pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.

    –Olhe, Justino, disse a titi, uma coisa que lhe havia de fazer falta
    era a sua missa na Conceição Velha… Quando a gente se acostuma a uma
    missinha, não ha outra que console… A mim, se me tirassem a de
    Sant'Anna, parece-me que começava a definhar…

    Era o padre Pinheiro que a celebrava; a titi, enternecida, collocou-lhe
    no prato outra aza de gallinha;–e padre Pinheiro revelou tambem a
    ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria vêr o Papa restaurado
    n'esse throno forte e fecundo em que resplandecera Leão X…

    –Se ao menos houvesse mais caridade com elle! exclamou a titi. Mas o
    Santissimo Padre, o vigariosinho de Nosso Senhor, assim n'uma masmorra,
    em farrapos, sobre palha… É de Caipházes, é de judeus!

    Bebeu um gole da sua agua morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma–a
    rezar a Ave-Maria que sempre offertava pela saude do Pontifice e pelo
    termo do seu captiveiro.

    O dr. Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontifice dormisse
    sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo
    Padre, querendo, podia ter carruagem.

    –Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiára;
    mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandissima commodidade…

    Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam
    as suas ambições) qual era a do douto, do eminente dr. Margaride.

    –Diga lá a sua, dr. Margaride, diga lá a sua! clamaram todos, com
    affecto.

    Elle sorria, grave.

    –Deixe-me v. exc.^a primeiro, D. Patrocinio, minha senhora, servir-me
    d'essa lingua guizada, que marcha para nós e que me parece preciosa.

    Depois de fornecido, o veneravel magistrado confessou que appetecia ser
    Par do Reino. Não por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para
    defender o principio sacro da authoridade…

    –Só por isto, acrescentou com energia. Porque desejava tambem, antes de
    morrer, poder dar, se v. exc.^a, D. Patrocinio, me permitte a expressão,
    uma cacheirada mortal no atheismo e na anarchia. E dava-lh'a!

    Todos declararam fervorosamente o dr. Margaride digno d'esses fastigios
    sociaes. Elle agradeceu, seriissimo. Depois volveu para mim a face
    magestosa e livida:

    –E o nosso Theodorico? O nosso Theodorico ainda não nos disse qual era
    a sua ambição.

    Córei: e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas
    serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do
    seu champagne–fascinante, embriagante, e adormentando toda a dôr… Mas
    baixei os olhos; e affirmei que só aspirava a rezar as minhas corôas, ao
    lado da titi, com proveito e com descanso…

    O dr. Margaride porém pousára o talher, insistia. Não lhe parecia um
    desapego de Deus, nem uma ingratidão com a titi, que eu, intelligente,
    saudavel, bom cavalleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cubiça…

    –Nutro! exclamei então decidido como aquelle que arremessa um dardo.
    Nutro, dr. Margaride. Gostava muito de vêr Paris.

    –Cruzes! gritou a snr.^a D. Patrocinio, horrorisada. Ir a Paris!…

    –Para vêr as igrejas, titi!

    –Não é necessario ir tão longe para vêr bonitas igrejas, replicou ella,
    rispidamente. E lá em festas com orgão, e um Santissimo armado com luxo,
    e uma rica procissão na rua, e boas vozes, e respeito, e imagens de dar
    gosto, ninguem bate cá os nossos portuguezes!…

    Calei-me, esmagado. E o esclarecido dr. Margaride applaudiu o
    patriotismo ecclesiastico da titi. Decerto, não era n'uma republica sem
    Deus, que se deviam procurar as magnificencias do culto…

    –Não, minha senhora, lá para saborear coisas grandiosas da nossa santa
    religião, se eu tivesse vagares, não era a Paris que ia… Sabe v.
    exc.^a onde eu ia, snr.^a D. Maria do Patrocinio?

    –O nosso doutor, lembrou o padre Pinheiro, corria direito a Roma…

    –Upa, padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!

    Upa? Nem o bom Pinheiro, nem a titi comprehendiam o que houvesse de
    superior a Roma pontifical! O dr. Margaride então ergueu solemnemente as
    sobrancelhas, densas e negras como ebano.

    –Ia á Terra Santa, D. Patrocinio! Ia á Palestina, minha senhora! Ia vêr
    Jerusalem e o Jordão! Queria eu tambem estar um momento, de pé, sobre o
    Golgotha, como Chateaubriand, com o meu chapéo na mão, a meditar, a
    embeber-me, a dizer «salvè!» E havia de trazer apontamentos, minha
    senhora, havia de publicar impressões historicas. Ora ahi tem v. exc.^a
    onde eu ia… Ia a Sião!

    Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento
    reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu
    parecia-me vêr lá muito longe, na Arabia, ao fim de arquejantes dias de
    jornada sobre o dorso d'um camêlo, um montão de ruinas em torno d'uma
    cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céo arqueia-se
    mudo e triste como a abobada d'um tumulo. Assim devia ser Jerusalem.

    –Linda viagem! murmurou o nosso Casimiro, pensativo.

    –Sem contar, rosnou padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma oração,
    que Nosso Senhor Jesus Christo vê com grande apreço, e muito agradece,
    essas visitas ao seu Santo Sepulchro.

    –Até quem lá vai, disse o Justino, tem perdão de peccados. Não é
    verdade, Pinheiro? Eu assim li no _Panorama_… Vem-se de lá limpinho de
    tudo!

    Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-flôr, que considerava
    indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia á Terra Santa, n'uma devota
    peregrinação, recebia sobre o marmore do Santo Sepulchro, das mãos do
    Patriarcha de Jerusalem, e pagando os rituaes emolumentos, as suas
    Indulgencias Plenarias…

    –Não só para si, segundo tenho ouvido dizer, acrescentou o instruido
    ecclesiastico, mas para uma pessoa querida de familia, piedosa, e
    comprovadamente impedida de fazer a jornada… Pagando, já se vê,
    emolumentos dobrados.

    –Por exemplo! exclamou o dr. Margaride inspirado, batendo-me com força
    nas costas. Assim para uma boa titi, uma titi adorada, uma titi que tem
    sido um anjo, toda virtude, toda generosidade!…

    –Pagando, já se vê, insistiu padre Pinheiro, os emolumentos dobrados!

    A titi não dizia nada; os seus oculos, girando do Sacerdote para o
    Magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando mais com o
    clarão interior d'uma idéa: um pouco de sangue subira á sua face
    esverdinhada. A Vicencia offereceu o arroz dôce. Nós rezamos as graças.

    Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente.
    Nunca a titi me deixaria visitar a terra immunda de França: e aqui
    ficaria enclausurado n'esta Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais
    rumorosas ruas me aggravavam o ermo do meu coração, e até a pureza do
    fino céo de estio me recordava a torva perfidia d'essa que fôra para mim
    estrella e Rainha da Graça… Depois, n'esse dia, ao jantar, a titi
    parecera-me mais rija, solida ainda, duradoura, e por longos annos dona
    da bolsa de sêda verde, dos predios e dos contos do commendador G.
    Godinho… Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a odiosa
    velha o fastiento terço, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo de
    tanta bocca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar os joelhos diante
    do corpo d'um Deus, magro e cheio de feridas? Oh vida entre todas
    amargurosa! E já não tinha, para me consolar do enfadonho serviço de
    Jesus, os macios braços da Adelia…

    * * * * *

    De manhã, apparelhada a egoa, e já d'esporas, fui saber se minha titi
    tinha algum pio recado para S. Roque, por ser esse seu milagroso dia. Na
    saleta votada ás glorias de S. José, a titi, ao canto do sofá, com o
    chale de Tonkin cahido dos hombros, examinava o seu grande caderno de
    contas, aberto sobre os joelhos; e, defronte, calado, com as mãos
    cruzadas atraz das costas, o bom Casimiro sorria pensativamente ás
    flôres do tapete.

    –Ora venha cá, venha cá! disse elle, mal eu assomei curvando o
    espinhaço. Ouça lá a novidade! Que você é uma joia, respeitador de
    velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua tia. Chegue-se cá, venha
    de lá esse abraço!

    Sorri, inquieto. A titi enrolava o seu caderno.

    –Theodorico! começou ella, cruzando os braços, impertigada. Theodorico!
    tenho estado aqui a consultar com o snr. padre Casimiro. E estou
    decidida a que alguem que me pertença, e que seja do meu sangue, vá
    fazer por minha intenção uma peregrinação á Terra Santa…

    –Hein, felizão! murmurou Casimiro, resplandecendo.

    –Assim, proseguiu a titi, está entendido e ficas sabendo que vaes a
    Jerusalem e a todos os divinos lugares. Escusas de me agradecer, é para
    meu gosto, e para honrar o tumulo de Jesus Christo, já que eu lá não
    posso ir… Como, louvado seja Nosso Senhor, não me faltam os meios, has
    de fazer a viagem com todas as commodidades; e para não estar com mais
    duvidas, e pela pressa d'agradar a Nosso Senhor, ainda has de partir
    n'este mez… Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o snr. padre
    Casimiro. Obrigado, não quero nada para o snr. S. Roque: já me entendi
    com elle.

    Balbuciei: «Muito agradecido, titi; adeusinho, padre Casimiro.» E segui
    pelo corredor, atordoado.

    No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este rosto e estas
    barbas, onde em breve pousaria o pó do Jerusalem… Depois, cahi sobre o
    leito.

    –Olha que tremenda espiga!

    Ir a Jerusalem! E onde era Jerusalem? Recorri ao bahú que continha os
    meus compendios e a minha roupa velha; tirei o Atlas, e com elle aberto
    sobre a commoda, diante da Senhora do Patrocinio, comecei a procurar
    Jerusalem lá para o lado onde vivem os Infieis, ondulam as escuras
    caravanas, e uma pouca d'agua n'um poço é como um dom precioso do
    Senhor.

    O meu dedo errante sentia já o cansaço d'uma longa jornada: e parei á
    beira tortuosa d'um rio que devia ser o devoto Jordão. Era o Danubio. E
    de repente o nome de Jerusalem surgiu, negro, n'uma vasta solidão
    branca, sem nomes, sem linhas, toda de arêas, nua, junto ao mar. Alli
    estava Jerusalem. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que triste!

    Mas então comecei a considerar que, para chegar a esse sólo de
    penitencia, tinha d'atravessar regiões amaveis, femininas e cheias de
    festa. Era primeiro essa bella Andaluzia, terra de Maria Santissima,
    perfumada de flôr de laranjeira, onde as mulheres só com metter dois
    cravos no cabello, e traçando um chale escarlate, amansam o coração mais
    rebelde, _bendita sêa su gracia_! Era adiante Napoles–e as suas ruas
    escuras, quentes, com retabulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os
    corredores d'um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grecia: desde a
    aula de Rhetorica ella apparecera-me sempre como um bosque sacro de
    loureiros onde alvejam frontões de templos, e, nos lugares de sombra em
    que arrulham as pombas, Venus de repente surge, côr de luz e côr de
    rosa, offerecendo a todo o labio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus
    seios immortaes. Venus já não vivia na Grecia; mas as mulheres tinham
    conservado lá o esplendor da sua fórma e o encanto do seu impudor…
    Jesus! o que eu podia gozar! Um clarão sulcou-me a alma. E gritei, com
    um murro sobre o Atlas, que fez estremecer a castissima Senhora do
    Patrocinio e todas as estrellas da sua corôa:

    –Caramba, vou fartar o bandulho!

    Sim, fartal-o! E mesmo, receando que a titi, por avareza do seu ouro ou
    desconfiança da minha piedade, renunciasse á idéa d'esta peregrinação
    tão promettedora de gozos–resolvi ligal-a supernaturalmente por uma
    ordem divina. Fui ao oratorio; desmanchei o cabello, como se por entre
    elle tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da titi,
    esgazeado, com os braços a tremer no ar.

    –Ó titi! pois não quer saber? Estava agora no oratorio, a rezar de
    satisfação, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de
    cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer: «Fazes bem, Theodorico,
    fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulchro… E estou muito contente
    com tua tia… Tua tia é das minhas!…»

    Ella juntou as mãos, n'um fogoso transporte d'amor:

    –Louvado seja o seu santissimo nome!… Pois disse isso? Ai, era bem
    capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando…
    Louvado seja outra vez o seu santissimo nome! Louvado seja em Terra e
    Céo! Anda, filho, vai, reza-lhe… Não te fartes, não te fartes!

    Eu ia, murmurando uma Ave-Maria. Ella correu ainda á porta, n'uma
    effusão de sympathia:

    –E olha, Theodorico, vê lá a respeito de roupa branca… Talvez te
    sejam necessarias mais ceroulas… Encommenda, filho, encommenda, que
    graças a Nossa Senhora do Rosario tenho posses, e quero que vás com
    decencia e te apresentes bem lá na sepulturasinha de Deus!…

    Encommendei: e, tendo comprado um _Guia do Oriente_ e um capacete de
    cortiça, informei-me, sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalem,
    com Benjamim Sarrosa & C.^a, judeu sagaz, que ia todos os annos, de
    turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, n'um
    papel, o meu grandioso itinerario. Embarcaria no _Malaga_, vapor da casa
    Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, n'um mar
    sempre azul, á velha terra do Egypto. Ahi um repouso sensual na festiva
    Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da
    Syria, aportaria a Jaffa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo
    uma estrada macadamisada, ao chouto d'uma egoa dôce, veria, ao fim d'um
    dia e ao fim d'uma noite, surgirem, negras entre collinas tristes, as
    muralhas de Jerusalem!

    –Diabo, Benjamim… Parece-me muito mar, muito paquete. Então nem um
    bocadinho de Hespanha? Ó menino, olhe que eu quero refastelar-me.

    –Refastela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipoia,
    tem a batota, tem a mulherinha… Tudo do bom. É lá que você se
    refastela!

  • A Queda d’um Anjo Romance

    A Queda d’um Anjo Romance

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    A QUEDA D'UM ANJO

    ROMANCE

    POR

    CAMILLO CASTELLO BRANCO

    LISBOA

    LIVRARIA DE CAMPOS JUNIOR–EDITOR

    77–Rua Augusta–81

    1866

    Imprensa de J. G. de Sousa Neves–Rua do Caldeira, 17

    *DEDICATORIA*

    ILL.^{MO} E EX.^{MO} SR. ANTONIO RODRIGUES SAMPAIO

    Meu amigo.

    Volto a offerecer-lhe uma das minhas bagatelas. Chamo assim, para me
    fingir modesto, bagatelas a umas coisas que eu reputo no maximo valor.
    Se não fossem ellas, naturalmente eu não chegaria a grangear a estima de
    V. Ex.^a, que m'as tem lido, e alguma vez louvado. Já V. Ex.^a, antes de
    me conhecer, quiz encravar a roda do meu infortunio, roda com que eu
    estou sempre brincando como as creanças com os seus arcos. Que tinha eu
    feito para commover a bemquerença do meu prestante amigo? Tinha feito
    uns livros futilissimos, á imitação d'este que lhe offereço.

    Não é esta boa opportunidade de eu vir com a minha oblação de pobre a V.
    Ex.^a Lembra-me a sentença do nosso Diogo de Teive:

    _Donat cum egenus diviti
    Retia videtur tendere_.

    Os praguentos hão de querer ver aquellas _rêdes_, por que não sabem que
    V. Ex.^a já me constituiu, ha muito, no dever de eterna e profunda
    gratidão.

    Lessa da Palmeira 27 de setembro de 1865.

    CAMILLO CASTELLO BRANCO.

    I

    *O heroe do conto*

    Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de
    Freimas, tem hoje quarenta e nove annos, por ter nascido em 1815, na
    aldeia de Caçarelhos, termo de Miranda.

    Seu pae, tambem Calisto, era cavalleiro fidalgo com filhamento, e decimo
    sexto varão dos Barbudas da Agra. Sua mãe, D. Basilissa Escolastica,
    procedia dos Silos, altas dignidades da egreja, commendatarios, sangue
    limpo, já bom sangue no tempo do senhor rei D. Affonso I, fundador de
    Miranda.

    Fez seus estudos de latinidade no seminario bracharense o filho unico do
    morgado da Agra de Freimas, destinando-se a doutoramento _in utroque
    jure_. Porém, como quer que o pae lhe fallecesse, e a mãe contrariasse a
    projectada formatura, em razão de ficar sosinha no solar de Caçarelhos,
    Calisto, como bom filho, renunciou á carreira das lettras, deu-se ao
    governo da casa algum tanto, e muito á leitura da copiosa livraria,
    parte de seus avós paternos, e a maior dos doutores em canones, conegos,
    desembargadores do ecclesiastico, cathedraticos, chantres, arcediagos e
    bispos, parentella illustrissima de sua mãe.

    Casou o morgado, ao tocar pelos vinte annos, com sua segunda prima D.
    Theodora Barbuda de Figueirôa, morgada de Travanca, senhora de raro
    aviso, e muito apontada em amanho de casa, e ignorante mais que o
    necessario para ter juizo.

    Unidos os dois morgadios, ficou sendo a casa de Calisto a maior da
    comarca; e, com o rodar de dez annos, prosperou a olho, tendo grande
    parte n'este incremento a parcimonia a que o morgado circumscreveu seus
    prazeres, e, por sobre isto, o genio cainho e apertado de D. Theodora.

    _Remenda teu panno, chegar-te-ha ao anno_, dizia a morgada de Travanca;
    e, afferrada ao seu adagio predilecto, remendava sempre, e sergia com
    perfeição justamente admirada entre a familia, e fallada como exemplo na
    área de quatro leguas, ou mais.

    Em quanto ella recortava o fundilho ou apanhava a malha rôta da pinga, o
    marido lia até noite velha, e adormecia sobre os in-folios, e acordava a
    pedir contas á memoria das riquezas confiadas.

    Os livros de Calisto Eloy eram chronicões, historias ecclesiasticas,
    biographias de varões preclaros, corographias, legislação antiga,
    foraes, memorias da academia real da historia portugueza, cathalogos de
    reis, numismatica, genealogias, annaes, poemas de cunho velho, etc.

    Respeito a idiomas estranhos, dos vivos conhecia o francez muito pela
    rama; porém, o latim fallava-o como lingua propria, e interpretava
    correntemente o grego.

    Memoria prompta, e cultivada com aturado e indigesto estudo, não podia
    sair-se com menos de um erudito em historia antiga, e repositorio de
    noticias miudas sobre factos e pessoas de Portugal.

    Consultavm-n'o os sabios transmontanos como juiz indeclinavel em
    decifrar cipos e inscripções, em restabelecer épocas e successos
    controvertidos por authores contradictorios.

    Sobre castas e linhagens, coisa que elle tirasse a limpo, não dava péga
    a duvida nenhuma. Ia elle desenterrar geração já sepultada ha setecentos
    annos, e provar que, na era de 1201, D. Fuas Mendo casára com a filha de
    um mesteiral, e D. Dorzia se havia sujado casando mofinamente com um
    pagem da lança de seu irmão D. Payo Ramires.

    Farpeados pela viperina lingua d'elle, os fidalgos provincianos
    retaliavam quanto podiam a prosapia dos Benevides, propalando que
    n'aquella familia se gerára um clerigo grande femieiro, beberrão e
    lambaz, a quem o santo arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Martyres, uma
    vez, perguntára que nome havia; e, como quer que o padre respondesse
    _Onofre de Benevides_, o arcebispo accudira dizendo: Melhor vos acertará
    com o nome, segundo a vida que fazeis, quem vos chamará de _Bene bibis_
    e _male vivis_.»[1] O remoque, talvez por ser de santo, era medianamente
    engraçado e pouco para affligir; assim mesmo Calisto Eloy, á conta
    d'esta injuria dos fidalgos comarcãos, tanto lhes esgravatou nas
    gerações, que descobriu radicalmente serem quasi todas de má casta.

    É superfluo dizer-se a qual doutrinação politica pendia o animo do
    morgado da Agra de Freimas. Estava com a decisão das côrtes de Lamego.
    Fizera-se n'ellas, e cuidava ter assistido, em 1145, áquelle congresso
    mythologico, e ter conclamado com Gonçalo Mendes da Maya, o Lidador, e
    com Lourenço Viegas, o Espadeiro: _Nos liberi summus, rex noster liber
    est_.[2] Todavia, se assim fossem todos os doutrinarios politicos, a
    gente apodrecia na mais refestelada paz, e supina ignorancia do
    andamento da humanidade.

    Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda queria que se venerasse o
    passado, a moral antiga como o monumento antigo, as leis de João das
    Regras e Martim d'Ocem, como o mosteiro da Batalha, as ordenações
    manuelinas como o convento dos Jeronymos.

    O mal que d'aqui surdia ao genero humano, a fallar verdade, era nenhum.
    Este bom fidalgo, se lhe tirassem o sestro de esmiuçar desdouros nas
    gerações das familias patriciatas, era inoffensiva creatura. D'este
    senão, a causa foi um chamado _Livro-negro_, que herdára de seu tio avô
    Marcos de Barbuda Tenazes de Lacerda Falcão, genealogico pavoroso, o
    qual gastára sessenta dos oitenta annos vividos, a colligir borrões,
    travessias, mancebias, adulterios, coitos damnados, e incestos de muitas
    familias n'aquellas satanicas costaneiras, denominadas _Livro-negro das
    linhagens de Portugal_.

    Em summa, Calisto era legitimista quieto, calado, e incapaz de impecer a
    roda do progresso, com tanto que elle não lhe entrasse em casa, nem o
    quizesse levar comsigo.

    Prova cabal de sua tolerancia foi elle acceitar em 1840 a presidencia
    municipal de Miranda. Na primeira sessão camararia fallou de feitio e
    geito, que os ouvintes cuidavam estar escutando um alcaide do seculo xv
    levantado do seu jazigo da cathedral. Queria elle que se restaurassem as
    leis do foral dado a Miranda pelo monarcha fundador. Este requerimento
    gelou de espanto os vereadores; d'estes, os que poderam degelar-se,
    riram na cara do seu presidente, e emendaram a galhofa dizendo que a
    humanidade havia já caminhado sete seculos depois que Miranda tivera
    foral.

    –Pois se caminhou, replicou o presidente, não caminhou direita. Os
    homens são sempre os mesmos e quejandos; as leis devem ser sempre as
    mesmas.

    –Mas… retorquiu a opposição illustrada, o regimen municipal expirou
    em 1211, sr. presidente! V. ex.^a não ignora que ha hoje um codigo de
    leis communs de todo o territorio portuguez, e que desde Affonso II se
    estatuiram leis geraes. V. ex.^a de certo leu isto…

    –Li, atalhou Calisto de Barbuda, mas reprovo!

    –Pois seria util e racional que v. ex.^a approvasse.

    –Util a quem? perguntou o presidente.

    –Ao municipio, responderam.

    –Approvem os srs. vereadores, e façam obra por essas leis, que eu
    despeço-me d'isto. Tenho o governo de minha casa, onde sou rei e
    govérno, segundo os foraes da antiga honra portugueza.

    Disse; saiu; e nunca mais voltou á camara.

    II

    *Dois candidatos*

    Desde o qual incidente, o morgado, convicto da podridão dos vereadores
    em particular, e da humanidade em geral, prometteu a onze retratos, que
    tinha de onze avós, pintados indignamente, nunca mais tocar o cancro
    social com suas mãos impollutas.

    N'este proposito, nem ao menos consentiu que o vigario lhe mandasse o
    _Periodico dos Pobres_ do Porto de que era assignante emparceirado com
    mais quatro reitores limitrophes, e o mestre escola e o boticario.

    Um dia, porém, quando elle saia da festividade de S. Sebastião, cujo
    mordomo era, deteve-se no adro, onde o rodearam os mais graudos
    lavradores da sua freguezia e das visinhas. N'outro grupo, fallava-se do
    sermão, e da constancia do santo capitão das guardas do barbaro
    Diocleciano, e da desmoralisação do imperio.

    Estas puchadas reflexões era o boticario que as expendia, coadjuvado
    pelo mestre de primeiras lettras, sujeito que sabia mais historia romana
    do que é permittido a um professor da preciosa e capitalissima sciencia
    de ler, contar e escrever, pelo que o sabio vinha a grangear para a
    humanidade a sciencia, e para elle nove vintens e meio por dia. E comia
    o sabio estes nove vintens e meio quotidianos, e ensinava os rapazes, e
    sobejava-lhe tempo para ler historia! Podéra!… Os governos davam-lhe
    férias grandes ao estomago, em proveito do espirito. Se elle andasse bem
    nutrido e succado de tripa, não aprendia nem ensinava coisa de monta.
    Que a pobresa é o estimulo das maiores façanhas da intelligencia.
    _Paupertas impulit audax_[3]. Isto que o Horacio faminto dizia de si,
    accomodam-no os regedores da coisa publica aos professores de primeiras
    lettras; porém, outros muitos versos do Horacio farto, esses tomam-os
    elles para seu uso.

    Estava, pois, o mestre-escola, de parceria com o boticario, a castigar a
    perversidade dos imperadores romanos, por amor do martyr S. Sebastião,
    que, segunda vez, acabava de ser fréchado no panegyrico. N'este comenos,
    abeirou-se d'elles Calisto Eloy, e para logo se callaram as duas
    capacidades, em referencia ao Salomão da terra.

    –Que dizem vocemecês?–perguntou Calisto benignamente. Continuem…
    Parece que fallavam do santo.

    –É verdade, sr. morgado–accudiu o boticario, ajustando os collarinhos
    percucientes ao lóbulo das orelhas, escarlates do atrito da
    gomma.–Fallavamos na malvadez dos imperadores pagãos.

    –Sim!–disse Calisto, com proeminencia declamatoria,–sim! Horrorosos
    tempos aquelles foram! Mas os tempos actuaes não se differençam tanto
    dos antigos, que possamos, em consciencia e sciencia, encarecer o
    presente e praguejar o passado. Diocleciano era pagão, cego á luz da
    graça: os crimes d'elle hão de ser contrapesados, e descontados, na
    balança divina, com a ignorancia do delinquente. Ai, porém, dos que
    prevaricaram fechando olhos á luz da notoria verdade, afim de se
    fingirem cegos! Ai dos impios, cujas entranhas estão afistuladas de
    herpes! No grande dia, funestissima ha de ser a sentença d'elles, novos
    Caligulas, novos Tiberios, e Dioclecianos novos!

    Relanceou o pharmaceutico uma olhadella esguelhada ao professor, o qual,
    abanando tres vezes e de compasso a cabeça, dava assim a perceber que
    abundava na admiração do seu amigo e consocio erudito em historia
    romana.

    Obrigado ás orelhas do auditorio attento, Calisto, em toada de Ezequiel,
    continuou:

    –Portugal está alagado pela onda da corrupção, que subverteu a Roma
    imperial! Os costumes de nossos maiores são mettidos a riso! As leis
    antigas, que eram o baluarte das antigas virtudes, dizem os sycophantas
    modernos, que já não servem á humanidade, a qual, em consequencia de ter
    mais sete seculos, se emancipou da tutela das leis. (Allusão bervada aos
    vereadores de Miranda, que discreparam do intento restaurador do foral
    dado por D. Affonso. Vinham a ser sycophantas os collegas
    municipalenses.) _Credite, posteri_!–exclamou Calisto Eloy com enfase,
    nobilitando a postura.

    O latim não lh'o entenderam, salvo o mestre-escola, que antes de ser
    sargento de milicias, havia sido donato no convento dominicano de
    Villa-Real.

    E repetiu: _Credite, posteri_!

    N'esta occasião, saiu da egreja a sr.^a D. Theodora Figueirôa, e disse
    ao esposo:

    –Vem d'ahi, Calisto. Vamos jantar, que é uma hora, e já lá vae o padre
    prégador para casa.

    Enguliu o morgado tres phrases de polpa, que lhe inflavam os bocios, e
    foi ao jantar, sacrificando-se á regularidade das suas horas
    inalteraveis de repasto.

    Ficaram o boticario e o professor de primeiras lettras, e mais os
    lavradores, ruminando as palavras do fidalgo, e glosando-as de notas
    illustrativas, ao alcance das capacidades.

    Um dos mais graves e anciãos lavradores, regedor, ensaiador e ponto nos
    entremezes do entrudo exclamou:

    –Aquillo é que dava um deputado ás direitas! Um homem assim, se fosse a
    Lisboa fallar ao rei, as contribuições haviam de acabar!

    –Isso não, perdoará vocemecê, tio José do Cruzeiro,–observou o
    mestre-escola–os impostos é necessario pagal-os. Sem impostos, não
    haveria rei nem professores de instrucção primaria (observem a modestia
    da gradação!) nem tropa, nem anatomia nacional.

    O mestre-escola havia lido, repetidas vezes no _Periodico dos Pobres_,
    as palavras _autonomia nacional_. Falhou-lhe d'esta feita a memoria,
    lapso que não destoou em nenhumas orelhas, exceptuadas as do boticario,
    que resmungou:

    –Anatomia nacional!

    –Que é?!–perguntou ao pharmaceutico um estudante de clerigo.

    –Parece-me que é asneira!–respondeu o outro com certa indecisão.

    Proseguiu, concluindo, o mestre-escola:

    –E, portanto os tributos, tio José do Cruzeiro, são necessarios ao
    estado como a agua aos milhos. Ora, agora, que ha muito quem bebe o suor
    do povo, isso ha; e aquelles, que deviam ser bem pagos, são os que menos
    comem da fazenda nacional. Aqui estou eu, que sou um funccionario
    indispensavel á patria, e receberia cento e noventa réis por dia, se não
    trouxesse rebatidos seis recibos a trinta e seis por cento, de modo que
    venho a receber seis e cinco! Que paiz!… O senhor morgado disse bem:
    estamos chegados aos tempos dos Dioclecianos e Caligulas!

    O auditorio já vacillava em decidir qual dos dois era mais talhado para
    ir fallar ao rei a Lisboa, se Calisto, se o mestre escola.

    III

    *O demonio parlamentar descobre o anjo*

    Fermentou na mente dos principaes lavradores e parochos das freguezias
    do circulo eleitoral a idéa de levar ao parlamento o morgado da Agra de
    Freimas.

    Os deputados eleitos até áquelle anno no circulo de Calisto Eloy, eram
    coisas que os constituintes realmente não tinham enviado ao congresso
    legislativo. Pela maior parte, os representantes dos mirandenses tinham
    sido uns rapazes bem fallantes, areopagitas do café Marrare, gente
    conhecida pela figura desde o botequim até S. Carlos, e affeita a beber
    na Castalia, quando, para encher a veia, não preferia antes beber da
    garrafeira do Matta, ou outro que tal ecónomo dos apollineos dons.

    Em geral, aquella mocidade esperançosa, eleita por Miranda e outros
    sertões lusitanos, não sabia topographicamente em que parte demoravam os
    povos seus comittentes, nem entendia que os aborigenes das serranias
    tivessem mais necessidades que fazerem-se representar, obrigados pelo
    regimen da constituição. Se algum influente eleitoral, prelibando as
    delicias do habito de Christo, obrigára a urna e o senso commum a gemer
    nos apertos do doloroso parto do paralta lisboeta, o tal influente
    considerava-se idóneo para escrever ao deputado incumbindo-lhe trabalhar
    na nomeação d'um vigario chamôrro, ou outra coisa, que foi denominação
    de bando politico, em tempo que a politica não sabia sequer dar-se nomes
    decentes. Pois o deputado não respondia á carta do influente, nem o
    requerente sabia onde procural-o, fóra do Marrare.

    Por muitos factos d'esta natureza conspiraram os influentes do circulo
    de Miranda contra os delegados do governo; e a idéa de eleger o morgado
    foi recebida entusiasticamente por todos aquelles que o ouviram fallar
    no adro da egreja, e por quantos houveram noticias da sua parlenda.

    O partido, que o mestre-escola ganhára de eloquente assalto, cedeu ao
    imperio das rasoaveis conveniencias, e conglobou-se na maioria. A
    verbosidade, porém, do professor não ficou despremiada, sendo nomeado
    secretario da junta de parochia.

    Resistiu Calisto de Barbuda tenazmente ás solicitações dos lavradores,
    que o procuraram com o mestre-escola á frente, facto que muito honra
    este desinteresseiro e reportado funccionario. N'este encontro, o
    professor excedeu o juizo avantajado que elle propriamente fazia de sua
    vocação oratoria. Mostrou as fauces do abysmo escancaradas para tragarem
    Portugal, se os sabios e virtuosos não acudissem a salvar a patria
    moribunda. Calisto Eloy, enternecido até ás lagrimas pela sorte da terra
    de D. João I, voltou-se para a esposa, e disse, como o agricultor
    Cincinnatus:

    –Aceito o jugo! Assás receio, mulher, que os nossos campos sejam mal
    cultivados este anno…

    Estavam proximas as eleições.

    A authoridade, assim que soube da resolução do morgado da Agra, preveniu
    o governo da inutilidade da lucta. Não obstante, o ministro do reino
    redobrou instancias e promessas, no intuito de vingar a candidatura de
    um poeta de Lisboa, mancebo de muitas promessas ao futuro, que tinha
    escripto revistas de espectaculos, e recitava versos d'elle ao piano,
    cuja falta ou demasia de syllabas a bulha dos sonoros martellos
    disfarçava. Redarguiu o administrador do concelho ao governador civil,
    que pedia sua demissão para não soffrer a inevitavel e desairosa
    derrota.

    Quiz assim mesmo o governo alliciar no circulo algum proprietario, que
    contraminasse a influencia do candidato legitimista, fazendo-se eleger.
    Alguns lavradores, menos afferrados á candidatura de Calisto, lembraram
    á authoridade o professor de instrucção primaria, estropeando phrases
    dos discursos d'elle, proferidos na botica. O administrador riu-se, e
    mandou-os bugiar, como parvoinhos que eram.

    Por derradeiro, o governador civil fez saber ao ministerio que os povos
    de Vimioso, Alcanissas e Miranda se haviam levantado com selvagem
    independencia e tintam fugido com a urna para os desfiladeiros das suas
    serras. Pelo conseguinte, não pôde ser proposto o poeta, que beliscado
    na sua vaidade assanhou-se contra o governo, escrevendo umas feras
    objurgatorias, as quaes, se tivessem grammatica á proporção do fel, o
    governo havia de pôr as mãos na cabeça e demittir-se.

    Á excepção de uma lista, o morgado da Agra de Freimas teve-as todas. A
    que não tinha o nome sympathico aos eleitores, votava em Braz Lobato,
    professor de instrucção primaria, secretario da junta de parochia, e
    ex-sargento das milicias de Mirandella. Parece que votára em si o
    mestre-escola. A final, maculou a alvura do nobilissimo desprendimento
    com que perorara em pró da eleição de Calisto! Fragilidade humana!

    Principiou, desde logo, o morgado eleito a refrescar a memoria com as
    suas leituras de historia grega e romana; era isto entroixar sciencia e
    enfreixar flores para o parlamento. Depois, releu a legislação dos bons
    tempos de Portugal, afim de restaurar os costumes desbaratados, fazendo
    remoçar as leis, que haviam sido o tabernaculo da moral humana guardado
    pelo temor de Deus. Tosquenejou muitas noites sobre os bacamartes
    pulvéreos; e, desde que a manhã raiava até horas de almoço, ia á margem
    do Douro, que lhe lambia a ourela da quinta, declamar, como Demosthenes
    nas ribas maritimas, ao stridor de uma açude e das rodas de duas
    azenhas. Os moleiros, que o viam bracejar, e lhe ouviam o vozeamento,
    benziam-se, pensando que o sabio treslêra, ou coisa má lhe entrara no
    corpo. A sr.^a D. Theodora Figueirôa, vendo o marido assim tresnoitado,
    seguia-o ás vezes, de madrugada, espreitava-o de um cabeço sobranceiro
    ao rio, e benzia-se tambem, dizendo: «Dão-me com o homem doido!»

    Chegou o tempo de partir para a capital.

    O deputado mandou adiante por almocreve duas cargas de livros, nenhum
    dos quaes tinha menos de cento e cincoenta annos.

    Seguia-se, na conducta dos machos portadores, uma carga de persunto e
    orelheira, substancia quotidiana da alimentação de Calisto Eloy.

    Depois, outra carga de ancoretas de vinho velho, e na entrecarga uma
    garrafeira com duas duzias de garrafas de vinho, que competia
    antiguidade com a fundação da companhia.

    A guarda-roupa do procurador dos povos era modesta, salvo o chapéo
    armado, calção de tafetá e espadim, com que elle, na qualidade de
    fidalgo cavalleiro, costumava contribuir para a magestade das procissões
    de Miranda, pegando ao pallio.

    A pessoa de Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda foi em liteira,
    e chegou a Lisboa ao decimo quinto dia de jornada, trabalhada de
    perigos, superiores á descripção de que somos capaz.

    De proposito, saltamos por cima dos pormenores da partida, para não
    descrever o quadro lastimoso do apartamento de Calisto e Theodora.

    O apartamento de Theodora e Calisto era titulo para dois capitulos de
    lagrimas.

    IV

    *Asneiras da erudição*

    Por fins de janeiro, chegou Benevides de Barbuda a Lisboa, e alugou casa
    no bairro de Alfama, por lhe terem dito que, n'aquella porção da Lisboa
    antiga, a cada esquina havia um monumento á espera de archeologo
    competente.

    Ao cabo de tres dias, Calisto mudou-se para rua mais limpa, suppondo que
    os lamaçaes de Alfama haviam tragado os monumentos, lamaçaes em que elle
    desastradamente escorregára, e d'onde saíra mal-limpo, e assoviado por
    marujos e collarejas, seus visinhos mais chegados. Mau agouro! A
    primeira chimera de Calisto, seu tanto ou quanto scientifica,
    atascara-se na lama d'aquella parte de Lisboa, que devia de ser a
    _inclita Ulissea_ de Luiz de Camões!

    O deputado, sem embargo de ir habitar o quarto andar de uma casa lavada
    de ares e muito desafogada na rua da Procissão, quiz-lhe parecer que a
    atmosphera da capital não cheirava bem.

    Abriu um dos seus livros velhos, intitulado _Do sitio de Lisboa_ etc.
    por Luiz Mendes de Vasconcellos, e leu:

    «…E assim, de todo o territorio de Lisboa, parece que da terra, fontes
    e rios, respiram suavissimos vapores, amigos da natureza humana; porque
    é coisa certissima que a benignidade dos ares d'este sitio, não só é por
    natureza deleitosa, pelo seu temperamento, mas de grandissimo proveito
    para algumas doenças, etc…»

    Calisto Eloy fechou o livro, e disse de si para comsigo, tomando uma vez
    de rapé:

    –O meu classico não podia mentir. Este mau cheiro é desconcerto da
    minha membrana pituitaria.

    E alcatroou segunda vez, as ventas com uma pitada desinfectante.

    Pareceu-lhe tambem pesada e salôbra a agua.

    Recorreu ao seu classico Luiz Mendes, no artigo _agua_, e leu que o
    chafariz de El-Rei dava uma lympha gostosa e de suave quentura, a qual
    limpava a garganta de toda a roquidão, e afinava as vozes, _e assim_,
    dizia o classico, _não errará quem disser que ella é causa das boas
    vozes que em Lisboa docemente ouvimos cantar; e tambem dos bons carões
    que conservam as mulheres_.

    Em quanto aos bons carões das mulheres, Calisto, que, de um relancear
    honesto de olhos, observára os rostos pallidos e esgrouviados de algumas
    senhoras de Lisboa, não podendo arguir de fallacia o dizer de Luiz
    Mendes, attribuiu á degeneração dos costumes e raças o descarnado e
    amarellido das caras; no tocante á suavidade das vozes, ficou indeciso,
    não querendo desmentir o seiscentista, nem formar conceito por uns
    grunhidos de cantaróla barbara com que os vendilhões pregoavam os
    comestiveis.

    Todavia, como a agua do chafariz de El-Rei aclarava o orgão vocal, e
    Calisto, á força de berrar ao pé da açuda e azenhas, estava um tanto
    rouco, mandou buscar um barril d'aquella salutifera agua, que o Mendes
    de Vasconcellos compára á das fontes camenas. Bebeu á tripa fôrra o
    deputado, e teve uma dôr de barriga precursora de febres quartãs.
    Valeu-se ainda do seu classico, e por conta d'elle mandou buscar á
    Pimenteira outro barril de agua, a qual, diz o citado author, _se busca
    para os doentes de febres_.

    O velho criado e enfermeiro, quando viu o seu amo encharcado e cada vez
    peior, foi de moto proprio em cata do cirurgião, o qual deu o morgado
    rijo e fero em quinze dias com algumas beberagens quinadas.

    Desde então, Calisto Eloy não bebeu senão vinho, e melhorou da garganta
    e do espirito, um tanto quebrantado, recitando, a cada garrafa que
    abria, o proverbio da sagrada escriptura:–_Vinum bonum laetifical cor
    hominis_.[4]

    Não obstante, o descredito do seu classico deveras lhe doeu, mormente
    pelo tom de mofa com que o cirurgião enxovalhou as cãs do honrado e
    lusitanissimo escriptor Luiz Mendes.

    Apenas convalescido, Calisto abria outro livro da mesma edade, escripto
    por identico motivo, para averiguar se o author do _Sitio de Lisboa_
    claudicára como patranheiro em materia de chafarizes.

    O bacamarte consultado era a _Fundação, antiguidades e grandezas da
    muito insigne cidade de Lisboa_, etc., escripto pelo capitão Luiz
    Marinho de Azevedo.

    –Cá está!–exclamou Barbuda em soliloquio–cá está explicada a minha
    dôr de barriga! era destemperança do figado.

    O deputado acabava de ler o seguinte periodo de Luiz Marinho:

    «Encareceu Plinio muito a agua, que vinha a Roma da fonte Marcia, e
    Vitruvio a das fontes Camenas, porque nasciam quentes e eram saborosas
    no gosto, sendo por esta causa muito sadias e proveitosas para conservar
    saude. E posto que (_sic_) Luiz Mendes de Vasconcellos queira que por
    estas propriedades tenha a agua do charariz d'El-Rei as mesmas
    qualidades; a experiencia mostra que, sendo suave no gosto, o não é nos
    effeitos, porque lhe attribuem os medicos a destemperança do figado, que
    muitas pessoas padecem, e de que procedem varias enfermidades.»

    –Fie-se lá a gente!–monologou o deputado.–É preciso cuidado com os
    classicos a respeito da agua de Lisboa.

    E, proseguindo na leitura, encontrou confirmada a maravilha de se
    afinarem as vozes com o uso da agua do chafariz d'El-Rei, por estes
    termos:

    «É causa das boas vozes dos musicos naturaes de Lisboa, ou que n'ella
    moraram, que tanto lustram em sua real capella, e na da corte de
    Madrid[5], conventos e egrejas cathedraes d'este reino e do de Castella:
    excellencia que tambem se acha nas mulheres, cuja feminina voz enleva os
    sentidos, como se experimenta ouvindo cantar as religiosas dos mosteiros
    d'esta cidade, em que mais parece se ouvem córos de anjos que vozes
    humanas.»

    Á primeira vez que saiu, andou Calisto em demanda dos conventos de
    freiras, e das festividades de cada um. Disseram-lhe, em face de um
    repertorio, que a mais proxima festa era, no domingo immediato, em Santa
    Joanna. Foi Calisto á festa para ouvir cantar as freiras. Não lhe
    pareceu cantoria o que ouviu: eram tres narizes roufinhando destoantes.
    Calisto saiu do templo, foi ao palratorio, chamou a madre-porteira, e
    disse-lhe, com a sua candura de bom homem, que recommendasse ás senhoras
    cantoras a agua do chafariz d'El-Rei. A madre ficou passada do
    disparate, e voltou-lhe as costas.

    Como quer que o morgado da Agra de Freimas não fosse homem que estudasse
    as materias perfunctoriamente, quiz esquadrinhar a respeito de aguas
    toda a substancia d'este importante elemento.

    Decepções sobre decepções!

    Quando morára na Alfama, observára elle que, n'aquelle bairro, as
    mulheres eram sardentas, rôxo-terra, e crespas de pelle. Pois o classico
    Marinho saía-lhe com este desmentido aos seus proprios olhos:

    «Tem mais outra propriedade occulta a agua do chafariz (d'El-Rei) que é
    conservar os rostos das mulheres, que com ella se lavam, em uma alvura
    engraçada, e côr natural tão encarnada, que não necessita de unturas,
    nem confecções, com que ellas se envelhecem antes de tempo: _o que se vê
    claramente na vantagem que as de Alfama levam ás dos outros bairros no
    carão, rosto mimoso, e côr que logo se conhece por natural_; e, se
    bastára isto, por desengano ás que as usam postiças, não fôra pequeno o
    fructo, que se tirára de ler este paragrapho, havendo quem lh'o
    recitasse.»

    Calisto Eloy certamente não iria recitar o paragrapho a nenhuma senhora
    pallida e magra, depois da incivil resposta, que lhe deu a porteira de
    Santa Joanna, e mais ainda com a desconfiança em que o puzeram os bons
    authores da sua predilecção.

    Parece, porém, que elle andava aporfiado em afogar o seu recto juizo nas
    aguas de Lisboa. Lêra o deputado que tambem o _chafariz dos cavallos da
    rua Nova_ tinha prodigiosas virtudes em cura de molestias d'olhos.
    Procurou a rua Nova, que o terramoto de 1755 sotterrára; procurou o
    chafariz, que segundo elle, devia de estar na rua dos Capellistas ou
    Algibebes successoras d'aquella rua. Ninguem lhe dava conta do _chafariz
    dos cavallos_; e alguns logistas interrogados suppuzeram que o
    provinciano não podia beber em fonte que não tivesse aquella
    applicação.[6]

    O erudito respondia aos chacoteadores.

    –Pois saibam que se perdeu um mirifico chafariz! Resam os meus livros
    que as saluberrimas aguas d'esta fonte perdida tinham a propriedade
    occulta de engordar as cavalgaduras que bebiam d'ella; e acrescenta
    Marinho d'Azevedo, textualissimas palavras: _e quando ella faz tão
    conhecidos effeitos nos animaes, os fizera nos corpos humanos, se a
    beberam em sua fonte_.

    Um bacharel, que ouvira as lastimas de Calisto, disse a um visinho a
    meia-voz:

    –Este homem parece que tem uma cavalgadura magra no corpo!

    Com estas zombarias é que em Portugal os sabios são premiados… Se
    Calisto fosse um parvo, o governo dava-lhe um subsidio até elle achar o
    chafariz dos cavallos.

    V

    *Estreia parlamentar de Calisto*

    Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Eloy de Barbuda leu
    o _Regimento interno da camara dos deputados_, juntamente com um collega
    transmontano, o abbade de Estevães, sujeito de annos, e doutrina
    monarchico-absolutos.

    O morgado de Agra embicou logo na fórma do juramento, e disse que não
    jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel
    á carta constitucional. O abbade quiz amaciar-lhe a rigidez de
    espiritos, absolvendo-o do perjurio, que não era serio, porque já de si
    o juramento era irrisorio e mera brincadeira de nenhum peso na balança
    da justiça divina.

    E allegava o clerigo esclarecido que os representantes da nação, com
    quanto jurassem fidelidade á religião-catholica-apostolica-romana, eram
    aliás atheus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-n'o nas gazetas;
    jurando fidelidade á nação, avexavam-n'a de tributos, e alguns a queriam
    fundir na Hespanha. Comedia e comedoria! exclamava o abbade. Se os
    deixarmos a elles jurar e mentir á sua vontade, a monarchia portugueza
    d'aqui a pouco não terá mais realidade no mappamundi que a ilha
    Berataria do Miguel Cervantes, ou as ilhas beatas do poeta Alceu!

    A respeito das ilhas beatas do poeta Alceu, saiu-se Calisto de Barbuda
    com uma despropositada torrente de citações, em que a paciencia do padre
    esteve a pique. Era perigoso dar-lhe azo ás ejecções da sciencia velha,
    que não havia abafar-lhe as valvulas ejaculatorias.

    O sabio, lá na sua terra, nunca tivera auditorio digno; escutava-se a si
    proprio; admirava-se e applaudia-se com perdoavel, senão legitima
    vaidade; faltava-lhe, porém, alguma coisa, a qual coisa era o abbade de
    Estevães.

    Este clerigo, bem que tivesse exercido as funcções desembargatorias na
    relação ecclesiastica de Braga, era menos lettrado que o antiquario de
    Caçarelhos, mas um tanto mais illustrado em critica da historia. Por
    delicadesa, fingia engulir as araras que o morgado lhe ministrava
    guizadas pelo monge de Alcobaça Bernardo de Brito, por Fernão Mendes e
    Miguel Leitão d'Andrade, e centenares de outros escrevedores de polpa,
    que mentiram «mais do que permitte a força humana.»

    Convencido da irresponsabilidade seria do juramento parlamentar, foi
    Calisto Eloy de Silos empossar-se da sua cadeira na representação
    nacional. Porém, proferido o juramento, e antes de sentar-se, não teve
    mão de si, e disse:

    –Sr. presidente!

    O abbade de Estevães ainda ciciou um _cio_, como quem lembrava ao
    collega que o _Regimento_ lhe tolhia o dom da palavra assim abrupta
    n'aquelle acto; mas o presidente, como esperasse alguma extraordinaria
    reflexão, deixou violar o artigo 30.^o do titulo e ouviu-o.

    Continuou Calisto:

    –Sr. presidente! Nos primordios da humanidade, a boa fé dispensava os
    juramentos: hoje em dia, para tudo se faz mister jurar, porque a boa fé
    desappareceu _velut umbra_ da face da terra. Se bem me recordo, os casos
    de juramentos mais antigos lêem-se nas sagradas escripturas. Abrahão
    jurou ao rei de Sodoma e ao rei Abimelech; Elieser a Abrahão; e Jacob a
    Labão…

    O presidente, como o riso andasse já contagioso na sala e galerias,
    observou:

    –O sr. deputado está fóra das prescripções do regimento. Peço licença
    para o convidar a sentar-se do lado que lhe convier.

    –Eu concluo em duas palavras, tornou Calisto, conformando-me com o
    regimento, e mais ainda com o jurisconsulto Struvius, o qual no seu
    _jurisprudencia civilis syntagma_, diz que não deve exigir-se o
    juramento quando póde temer-se o perjurio. Preceito de mui remontada
    moralidade; sr. presidente! Preceito, cujo despreso, é a causa
    efficiente das apostasias que deshonram, dos sacrilegios que condemnam a
    alma, e estampam na testa dos precitos lemma de opprobrio indelevel.
    Disse.

    E foi sentar-se, flauteando cromathicamente uma pitada, á beira do seu
    amigo abbade de Estevães.

    A maior parte dos legisladores estava como indecisa entre rir-se ou
    espantar-se do aprumo com que o transmontano, atando facilmente as
    phrases, atirava á cara dos legisladores um murro indirecto. Tres brados
    lhe haviam victoriado o cabeçalho do discurso: eram expansões de
    deputados legitimistas, que entre si se ficaram victoriando de terem um
    homem bastante audaz, se necessario fosse, para fallar ao imperante como
    João Mendes Cicioso fallara a El-Rei D. Manuel.

    –Fallou á portugueza, sr. morgado; mas extemporaneamente–murmurou-lhe
    o abbade de Estevães.

    –A verdade é de todas as horas, abbade–redarguiu Calisto–mal de nós
    se havemos de esperar que ella caia a talho de fouce!… Deixem-me ir
    assim, que os meus constituintes assim me querem, Catão e Cicero,
    Hortensio e Demosthenes não fallavam pelo regimento. O conselheiro que
    disse a Affonso IV «senão procuremos outro rei» não pediu licença a
    presidente algum, nem viu no regimento se era hora de lh'o dizer. Eu li
    de tento e vagar o regimento, amigo abbade; e a mim me quiz parecer que
    tudo aquillo é um modo, o mais cerimonioso, de fazer callar aquelles
    cujos dizeres desagradam á presidencia, por via de regra, mancommunada
    com o governo.

    –_Prudentia in omnibus_, diz o sabio–retorquiu o abbade.[7]

    O morgado accudiu logo:

    –_Estote prudentes, sicut serpentes et simplices sicut columbae_, disse
    Jesus, o sabio dos sabios.[8]

    VI

    *Virtuosas parvoiçadas*

    A estreia parlamentar de Calisto de Barbuda fez hyperbolico estrondo nos
    salões da aristocracia, legitimista, que abriu suas portas ao
    esperançoso Berryer de Portugal.

    Algum tempo se andou furtando o morgado ás solicitadas apresentações.
    Impediam-n'o o natural acanhamento de provinciano, e o affecto
    entranhado aos seus classicos, que lhe eram o deleite das horas feriadas
    do dia, e dos serões do inverno.

    Como á força, fôra elle uma noite, ao theatro lyrico, em companhia do
    abbade de Estevães, que amava a musica pelo muito amor que tinha á
    guitarra, delicias da sua mocidade, e consoladora da velhice, já saudosa
    do tempo em que o coração lhe gemia nos bordões do instrumento
    apaixonado.

    Calisto inteirou-se do enredo da opera, e assistiu em convulsões ao
    espectaculo, que era a _Lucrecia Borgia_. Saiu da platéa frio de horror
    e protestou, em presença de Deus e do abbade, nunca mais contribuir com
    oito tostões para a exposição das chagas asquerosas da humanidade.
    Rompeu-lhe então do imo peito esta exclamação sentida: _Amici_, noctem
    _perdidi_! Melhor me fôra estar lendo o meu Euripides e Seneca, o
    tragico! Medéa não mata os filhos cantando, como a scelerada Lucrecia!
    As devassidões postas em musica, dão bem a entender que geração esta é!
    Brinca-se com o crime, abafando-se os gemidos da humanidade com o
    stridor das trompas e dos zabumbas. É um tripudio isto, amigo abbade!
    Quem sae do seio da natureza rude, e de repente se acha à lavareda
    d'estes focos das grandes cidades, é que atina com a providencial
    phylosophia d'estas tramoias de theatros!

    Assanhou o abbade de Estevães o azedume do fidalgo, dizendo-lhe que o
    estado subsidiava o theatro de S. Carlos com vinte contos de réis
    annuaes. Calisto fez pé atraz, e exclamou:

    –_Obstupui_!… O abbade zomba!… _O estado_!… o meu collega disse o
    estado!

    –Sim o thesouro… confirmou o clerigo.

    –A res publica? o dinheiro da nação?

    –Certamente: pois de quem hade ser o dinheiro, senão da nação?

    –Pois eu e os meus constituintes estamos pagando para estas cantilenas
    do theatro de Lisboa!

    –Vinte contos de réis.

    Calisto Eloy correu a mão pela fronte humedecida de suor civico, e
    sentou-se nas escadas da egreja de S. Roque, por que ao espanto, colera
    e dôr d'alma seguiram-se-lhes caimbras nas pernas. Minutos depois,
    ergueu-se taciturno, despediu-se do abbade, e foi para casa.

    Os alvores da primeira manhã acharam-no passeando e declamando na
    estreita saleta do seu aposento. Via-se-lhe no rosto a pallidez dos
    Fabricios.

    Ás onze horas entrou na camara. Dir-se-hia que entrava Cicero a delatar
    a conjuração de Catilina. Deu nos olhos dos seus tres correligionarios
    que entre si disseram:

    –Calisto vae fazer alguma interpellação de grande alcance!

    Acabava de sentar-se quando um deputado do Porto se ergueu, e disse:

    –Sr. presidente. Muito a meu pezar, e talvez da camara, volto de novo a
    expender as razões já tres vezes inutilmente expendidas sobre o dever, e
    justiça com que o Porto reclama um subsidio para o seu theatro lyrico.
    Sr. presidente…

    –Peço a palavra! bradou Calisto Eloy, erguendo-se inteiriço e
    fulminante–Peço a palavra!

    O representante do Porto expendeu a quarta edição peorada das suas
    idéas, sobre o dever e justiça, com que o theatro de S. João reclamava
    subsidio, e sentou-se.

    –Tem a palavra o sr. Calisto Eloy de Silos e Benevides de Barbuda,
    disse o presidente.

    O morgado da Agra escorvou-se de rapé, trombeteou a pitada, e orou
    d'este theor:

    –Sr. presidente. Em Grecia e Roma as festas annuaes eram solemnisadas
    com espectaculos. Os cidadãos timbravam em se dispenderem aporfiadamente
    para o maior realce das representações theatraes. Na Grecia, o archonte
    eponymo, a cargo de quem o estado delegava as despezas das
    representações, esmava o dispendio de cada uma em dois talentos,
    3:250$000 réis, pouco mais ou menos da nossa moeda. Este dispendio
    faziam-no espontaneamente os ricos; e se era o thesouro nacional, que
    adiantava as despezas, a concorrencia convidava pelo preço diminutissimo
    do _theorikon_ ou entrada, que correspondia ao vintem da nossa moeda. E
    de Pericles em diante, sr. presidente, tomou o estado á sua conta o
    pagamento das entradas dos pobres. Entre os romanos, eram os poderosos,
    como Lepido e Pompeu, e, ao diante, os imperadores, que sustentavam do
    seu bolsinho as representações theatraes. Os imperios opulentos, sr.
    presidente, os imperios, que digeriam a substancia do universo, os
    imperios que edificavam theatros para trinta mil espectadores, não
    impunham aos povos a obrigação de se privarem do necessario para
    abrilhantarem Athenas ou Roma, com luxuosas superfluidades. Os serranos
    das provindas do Lacio não eram constrangidos a pagarem as delicias dos
    patricios romanos. Estes, sr. presidente, quando queriam divertir-se em
    espectaculos theatraes, pagavam-os, e regalavam a gente pobre em vez de
    a obrigarem a entrar no erario com o estipendio dos actores. (_Sussurro
    e alguns «apoiados» provocados pelo sussurro_.)

    Sr. presidente–continuou o orador, tomando rapé com a soffreguidão de
    quem teme que o raio inspirativo se arrefente–sr. presidente! Eu tenho
    o desgosto de ter nascido n'um paiz, em que o mestre-escola ganha cento
    e noventa réis por dia, e as cantarinas, segundo me dizem, ganham trinta
    e quarenta moedas por noite. Eu sou de um paiz, sr. presidente, em que
    se pede ao povo o subsidio litterario para pagar com elle as tramoias da
    Lucrecia Borgia. Eu sou de um paiz, pobrissimo, em que a veia da nação
    exangue soffre cada anno a sangria de algumas duzias de contos para
    sustentar comediantes, farcistas, funambulos e dansarinas impudicas! Sr.
    presidente, v. ex.^a sorriu-se, vejo que a camara está sorrindo, e eu
    ouso dizer a v. ex.^a e aos meus collegas, como o poeta mantuano: _sunt
    lacrimae rerum_. Aqui é o ponto de se carpirem por seus filhos aquelles,
    que se cuidam muito avantajados em civilisação a seus avós. Aqui é o
    ponto de nos alembrarmos dos israelitas livres, que sorriam em
    Jerusalem, e choravam depois escravos ás margens do rio estranho. Depois
    será o declamarmos com o epico:

    Em Babylonia, sobre os rios, quando
    De ti, Sião sagrada, nos lembramos,
    Alli com gran saudade nos sentamos
    O bem perdido, miseros, chorando.

    Os instrumentos musicos deixando

    Peço á camara que repare nos tres versos, que completam a quadra e a
    prophecia:

    Os instrumentos musicos deixando
    Nos estranhos salgueiros penduramos,

    _Hic_, sr. presidente:

    Quando aos cantares que já em ti cantamos
    Nos estavam imigos incitando.

    Nos _cantares_, sr. presidente, é que bate o ponto do meu discurso:
    (_Hilaridade: susurro nas galerias: o presidente tange a campainha_).

    O _orador_:–Sr. presidente! que me não queiram persuadir de que estou
    em casa de orates! Que é isto? Que bailar d'ebrios é este em volta de
    Portugal moribundo? Como podem rir-se os enviados do povo, quando um
    enviado do povo exclama: Não tireis á nação o que ella vos não póde dar,
    governos! Não espremais o ubre da vacca faminta, que ordenhareis sangue!
    Não queiraes converter os clamores do povo em cantorias de theatro! Não
    vades pedir ao lavrador quebrado de trabalho os ratinhados cobres das
    suas economias, para regalos da capital, em quanto elle se priva do
    aprezigo de uma sardinha, por que não tem uma pogeia com que compral-a.

    E vinte contos e trinta contos de subsidios que moralidade fomentam, que
    lampadas accendem nos altares da civilisação? Eu peço á camara que leia
    attentamente o discurso theologico do padre Ignacio de Camargo, lente no
    real collegio de Salamanca, ácerca dos theatros. Não menos
    fervorosamente peço a v. ex.^a e ás camaras que leiam as mirificas
    paginas do nosso oratoriano Manuel Bernardes, sobre representações
    theatraes. O que são comedias? Responda por mim o eminente moralista, e
    mais que todos vernaculissimo escriptor: «Os assumptos das comedias pela
    maior parte são impuros cheios de lascivos amores, de galanteios
    profanos, de papeis amorosos, de rondas, passeios, musicas, dadivas,
    visitas, solicitações torpes, finezas loucas, empenhos desatinados,
    chimeras, emprezas impossiveis, que as solicita ordinariamente um
    criado, uma mulher terceira, uma chave, um jardim, uma porta falsa, um
    descuido do pae, ou do irmão, ou do marido da dama, e tudo isto costuma
    parar em uma communicação deshonesta, em um incesto, ou em um adulterio,
    em que ha muitos lances torpes, louvores lisongeiros da formosura,
    expressões affectadas de amor, promessas de constancia, competencias de
    affectos, temores, ciumes, suspeitas, sustos, desesperações, e em summa,
    uma gentilica idolatria, ajustada pontualmente ás infames leis de Venus
    e Cupido, e aos torpes documentos de Ovidio no livro de _Arte amandi_.»

    _Vozes da galeria_: _Muito bem_! _Bravo_! (Espirram as risadas de varios
    sujeitos. Gargalhada compacta).

    _O orador_: Sr. presidente! Eu irei contar aos povos, que me aqui
    mandaram, as gargalhadas com que fui recebido no seio da representação
    nacional, por que ousei dizer que um paiz carregado de dividas não
    instaura divertimentos attentatorios dos bons costumes com o dinheiro da
    nação. Irei dizer aos meus constituintes que se desfaçam das arrecadas e
    cordões de suas mulheres e filhas, para enfeitarem as gargantas
    despeitoradas das Lucrecias Borgias que custam quarenta libras por
    noite!

    Sr. presidente, nossos avós, os coevos d'el-rei D. Manuel e D. João III,
    tiveram theatros. Era no tempo em que as frotas da India rompiam Téjo
    acima carregadas de oiro. O Plauto portuguez deliciava os paços dos
    reis, e os pateos e tablados do povo. Quando se abriu o erario para
    locupletar o alto engenho de Gil Vicente? Quando foi necessario ir mundo
    fóra em cata de gritadores que vendem tão caro o ar dos pulmões vibrado
    no mechanismo da garganta?

    _Uma voz_: Fez-se a civilisação depois.

    O _orador_: E a pobreza tambem. A civilisação que canta e dança, em
    quanto tres partes do paiz choram. A civilisação dos civilisados que
    dizem: _Coronemus nos rosis antequam marcessant_[9]. A civilisação do
    perdulario irrisorio, que traja de luzente lemiste no exterior, e
    aconchêga da pelle uma camisa surrada e fetida. Magnifica civilisação!
    Não sei de selvagens que nol-a possam invejar, e queiram cambiar
    comnosco a sua selvatiqueza!

    Sr. presidente gosem nas boas horas os sátrapas da capital os deleites
    da sua civilisação theatral. Dispendam-se, arruinem-se, doudejem com
    essas ficções e visualidades, que relembram factos de alto escandalo que
    não deviam ser vistos á luz da civilisação, que o meu illustre collega
    preconisa. Se gostam, não serei eu, homem de outros tempos e gostos,
    quem lhes impugne a racionalidade de seus passatempos. O que eu
    requeiro, em nome da justiça e da pobreza do paiz, é que se não sizem os
    povos provinciaes para manutenção dos divertimentos de Lisboa. O que eu
    contesto é o direito de me fazerem pagar a mim e aos meus visinhos as
    notas garganteadas dos ganha-pães, que não tem na sua terra officio
    honesto em que vivam com seriedade e utilidade commum. O que eu
    sobretudo lamento, sr. presidente, é o silencio desapprovador dos meus
    collegas. Sou eu só: serei eu só o vencido. Não importa! _Victis
    honos_![10] As pequenas coisas tratam-n'as os pequenos: _Parvum parva
    decent_. Eu abro mão das glorias promettidas ao nobre collega, que,
    pouco ha, pediu subsidio para o theatro do Porto. Dêem-lh'o. Desenrolem
    a onda aurifera do Pactolo do nosso thesouro até Braga. Quem pede
    subsidio para o theatro bracharense? A equidade reclama-o. O meu circulo
    tambem quer um theatro. Theatro e subsidio para todo o logarejo onde
    morar um contribuinte. Estamos em vida ficticia como paiz independente.
    Somos como o sapateiro, que se veste de principe no entrudo. Pois bem!
    Comedia geral! Seja Portugal um theatro desde Monção ao cabo da Roca!
    Peço uma companhia italiana para a minha terra. Os meus constituintes
    querem provar o sabor das delicias que tem estipendiadas em Lisboa. Se
    eu não posso, sr. presidente, levar-lhes a boa nova de que vão ter
    estradas que os liguem á sua nação, seja-me permittida a gloria de lhes
    levar a Lucrecia Borgia, a incestuosa e envenenadora Lucrecia, que os ha
    de edificar e converter á civilisação. Disse.

    _Algumas vozes por entre frouxos de riso_: Muito bem! Bravissimo!

    Eram as ironias dos sublimes engenhos, que, ás vezes, não sabem como hão
    de havel-as com espiritos selvaticos do desplante montezinho de Calisto
    de Barbuda.

    VII

    *Figura, vestido, e outras coisas do homem*

    Assim que os personagens dos romances começam a ganhar a estima ou
    aversão de quem lê, vem logo ao leitor a vontade de compor a physionomia
    do personagem plasticamente. Se o narrador lhe dá o bosquejo, a
    imaginativa do leitor aperfeiçoa o que sae muito em sombra e confuso no
    informe debuxo do romancista. Porém, se o descuido ou proposito deixa ao
    alvedrio de quem lê imaginar as qualidades corporaes de um sujeito
    importante como Calisto Eloy, bem póde ser que a intuição engenhosa do
    leitor adivinhe mais depressa e ao certo a figura do homem, que se lh'a
    descrevessem com abundancia de relevos e rara habilidade no estampal-os
    na phantasia estranha.

    Não devo ater-me á imaginação do leitor n'este grave caso. Calisto Eloy
    não é a figura que pensam. Estou a adivinhar que o inquadraram já em
    molde grotesco, e lhe deram a edade que costuma authorisar, mórmente no
    congresso dos legisladores, os desconcertos do espirito, exemplificados
    pelo deputado por Miranda. Dei eu azo á falsa apreciação, por não
    antecipar o esboço do personagem. Acudo pelos creditos do personagem.

    Calisto Eloy, n'aquelle tempo, orçava por quarenta e quatro annos. Não
    era desageitado de sua pessoa. Tinha poucas carnes, e compleição, como
    dizem, afidalgada. A sensivel e dessimetrica saliencia do abdomen
    devia-se ao uso destemperado da carne de porco e outros alimentos
    intumecentes. Pés e mãos justificavam a raça que as gerações vieram
    adelgaçando de carnes. Tinha o nariz algum tanto estragado das invasões
    do rapé e torceduras do lenço de algodão vermelho. A dilatação das
    ventas e o escarlate das cartilagens não eram assim mesmo coisa de
    repulsão. Estes narizes, se não se prestam á poesia lyrica, inculcam a
    seriedade de seus donos, o que é melhor. Eram assim os narizes de José
    Liberato Freire de Carvalho e de Silvestre Pinheiro. Quasi todos os
    estadistas de 1820 se condecoravam com a rubidez nazal. Não sei que ha
    n'isto indicativo de estudo, gravidade e meditação; mas ha o quer que
    seja.

    As restantes feições de Calisto Eloy de Silos eram regulares, a não
    querermos encarecer a alta e brunida fronte, que poderia servir de
    rotulo a um talento abalisado, se o inimigo da Lucrecia Borgia não
    fosse, a meu ver, capacidade eminente, viciada pela educação e tradições
    de familia. Excedia a estatura meã, e era direito de pernas. No tronco
    havia tal qual inclinação, que denunciava o arqueamento da espinha por
    effeito da incansavel leitura, e minguado exercicio.

    O que certamente o desairava era o traje. Calisto Eloy vestia de briche
    da Gollegã, e dos alfaiates de Miranda. A gola e portinholas da casaca
    eram serias de mais para estes tempos em que um homem se veste hoje á
    moda, e d'aqui a um mez corre o perigo de sair ridiculamente entrajado.
    Não se sabe a razão por que o morgado da Agra se affeiçoara ás calças
    rematando em polainas abotoadas de madreperola. Vestira assim umas
    pantalonas em 1833, quando se matrimoniou com D. Theodora. Ou por que a
    esposa gostasse do feitio das calças, ou porque a moda se mantivesse,
    mantida pelo fidalgo, na comarca de Miranda, o certo é que desde aquella
    época todas as pantalonas de Calisto foram talhadas pelas primeiras, e a
    abotoadura sempre aproveitada.

    Ora, isto em Lisboa fez uma rasoavel impressão, especialmente no
    espirito observador dos gaiatos. Um d'estes desbragados ousou chamar
    gebo ao legislador; e outro levou a gandaíce ao extremo de planear-lhe
    um assalto ao chapéo.

    Fartas vezes o advertira o abbade de Estevães da necessidade de reformar
    o vestido, e entrajar-se conforme o costume. Calisto respondia que não
    tinha que intender em costumes, que não fossem, em lusitanissima phrase,
    ruins costumes. Em quanto a vestiduras, dizia que o estofo das suas era
    portuguez como elle, e o feitio d'ellas era o que mais se aproximava das
    usanças dos seus maiores, os quaes andavam mais apontados no trajar do
    espirito que nas galanices do corpo. Salvo o abbade, ninguem se atrevia
    a contrarial-o, desde que a um joven deputado, que lhe observou o
    archaismo do trajo perguntou se elle era o alfaiate da camara, ou se as
    modas tinham fiscal subsidiado no parlamento.

    Aconteceu ainda que outro deputado lhe analysasse galhofeiramente as
    botas aguçadas no bico. Sabia Calisto Eloy que este deputado era filho
    de um sujeito de Espozende que começara sua vida fazendo botas. Assim,
    pois, que o chocarreiro subiu da analyse das botas para a das polainas
    da calça, teve mão d'elle, dizendo-lhe: «agora, alto ahi! Em quanto o
    senhor escarneceu o feitio das minhas botas, estava no seu officio e no
    seu direito. Das botas acima, não. É o caso de eu lhe dizer como Apelles
    ao sapateiro, que lhe censurava a pintura: _ne sutor ultra crepidam_; o
    que em linguagem quer dizer: «não analyse o sapateiro acima da chinela.»
    Os circumstantes e a victima fizeram-se da côr do nariz de Calisto.

    Estas passagens, significativas do salgado espirito do provinciano,
    sobre-doiravam a reputação que o trazia nas boas graças da fidalguia
    realista.

    Sabia Calisto, como profundo genealogico, que existia illustrissima
    parentela sua em Lisboa; porém, pesavam graves motivos para que elle não
    quizesse recordar parentesco remoto com tal gente. Era o grão caso que,
    nos tempos do mestre d'Aviz estava na côrte um Martim Annes de Barbuda,
    da casa de Agra de Freimas, o qual conjurára com o Mestre na façanha do
    assassino do conde Andeiro. Até aqui havia muito para que o honrado
    portuguez se desvanecesse de tal parente. Martim Annes, todavia temeroso
    ou arrependido depois do feito, passou-se a Leonor Telles, e com ella e
    sua familia se foi a Hespanha, onde morreu, desprezado e amaldiçoado dos
    portuguezes. Na época de D. Duarte, os descendentes de Martim voltaram
    ao reino, e conseguiram perdão e posse dos seus haveres confiscados para
    a corôa. Eis aqui a razão do odio de Calisto á raça do máo portuguez.

    Estava elle, um dia, folheando a reformação das leis de 1760 por Diogo
    de Pina, no intento de cravejar de erudição um projecto de lei
    sumptuaria, quando lhe annunciaram a visita do conde do Reguengo.
    Calisto estremeceu, e disse de si comsigo: «Vens ver o que eram e o que
    são os legitimos Barbudas de Agra de Freimas… Sê bem vindo!»

    Entrou o conde, e disse com alegre alvoroço:

    –Venho apertar nos braços um parente, que me honra tanto com a
    intelligencia, quanto seus avós me honraram com a lança.

    Calisto permaneceu immovel na cadeira, e, tirando os oculos de prata,
    disse:

    –Falta saber se meus avós se honraram dos avós de v. ex.^a

    –Eu sou o conde do Reguengo—disse o outro, attonito.

    –Já sei. O conde do Reguengo é o decimo sexto varão de Martim Annes de
    Barbuda?

    –Sou eu mesmo.

    Calisto ergueu-se, montou os oculos, foi mui depausa e a passo mesurado
    á estante dos seus livros, e tirou um in-folio. Voltou a sentar-se,
    mandou sentar o conde, abriu o livro e disse:

    –Esta é a chronica dos reis, escripta por Duarte Nunes de Leão, e
    mandada publicar por D. Rodrigo da Cunha, arcebispo de Lisboa. Abro a
    pagina vinte e tres, e peço ao excellentissimo conde do Reguengo que
    leia.

    O conde recebeu entre mãos a chronica, e leu o seguinte desde o
    paragrapho indigitado por Calisto: «As razões que ao Mestre moviam a
    apressar sua ida para fóra de Portugal, era conhecer a condição da
    Rainha, que, além do natural das mulheres, que é serem vingativas, ella
    o era mais que todas; mas, como mulher de grandes espiritos, e astuta
    que era, onde maior odio tinha, alli mostrava mais benevolencia, pelo
    que o Mestre tinha por mui suspeita a mostra de amizade que lhe fazia, e
    se temia mais d'ella, e tanto cria que lhe tinha maior odio, quanto mais
    affeiçoada era ella ao conde João Fernandes, de quem elle a apartou.
    Ajuntava-se a isto ter ella mandado chamar a El-Rei de Castella. Pelo
    que, sendo ella Rainha, e tendo o favor d'El-Rei presente, não confiava
    o Mestre que sua vida estava segura, pois em vida d'El-Rei D. Fernando,
    não sendo aggravada d'elle, o fez prender e o faria matar. Além d'isto,
    (as seguintes palavras estavam sublinhadas na chronica e emendadas com
    um _proh dolor_! da letra de Calisto) muitos dos que se a elle chegaram
    o deixavam e se passavam á Rainha, como fez Vasco Porcalho, e Martim
    Annes de Barbuda, commendadores de sua ordem, e Garcia Peres Craveiro de
    Alcantara, que para elle se viera.»

    O conde entregou a chronica, e disse n'um tom de abborrido e confuso:

    –E então?

    –É v. ex.^a da progenie d'esse Barbuda infamado na pagina eterna de
    Duarte Nunes?

    –Sou–respondeu ufanamente.

    –Pois vá em paz, que eu não procedo d'esses Barbudas. Eu sou o decimo
    sexto varão de Gonçalo Pero de Barbuda, que morreu em Aljubarrota, na
    ala dos namorados. Gonçalo era irmão de Martim: mas, ao entrar na
    batalha, pediu a D. João I que lhe legitimasse um filho natural, para
    que, no caso d'elle perecer, os filhos do irmão trêdo lhe não manchassem
    o solar. Gonçalo, morreu e D. João I cumpriu a vontade do portuguez de
    lei.

    –O que d'ahi infiro–disse sarcasticamente o conde–é que v. ex.^a
    procede de um filho natural.

    –A mãe do filho natural era abbadessa de Vairão, da familia dos
    Alvins–redarguiu triumphantemente Calisto.

    –Coito damnado!–retorquiu o conde.

    –Discutamos esses pontos graves–voltou serenamente o morgado da Agra,
    tomando rapé.–A decima segunda avó de v. ex.^a Jeronyma Talha, era
    judia de Cezimbra, e esteve como covilheira dos sobrinhos de um Heitor
    de Barbuda com quem casou. Sua tresavó enviuvou sem filhos e casou com
    um filho do capellão. D'este matrimonio nasceu seu avô Luiz de Almeida
    de Barbuda, que foi o primeiro conde do Reguengo. Reconciliemo-nos, sr.
    conde, em quanto ao sangue de coito damnado, se v. ex.^a quer emparelhar
    o filho do padre com a abbadessa de Vairão, tia da mulher de Nuno
    Alvares Pereira por Alvins.

    O conde ergueu-se accendido em raiva, e disse:

    –No que não podemos emparelhar, sr. Calisto, é na tolice. Vou-me
    embora, com a vergonha de ter aqui vindo.

    –Não vá, acudiu Calisto Eloy, que eu é que me hei de forrar á vergonha
    de dizer que v. ex.^a veiu cá.

    E, passando a penna de ferro na pagina da chronica, rasgou a linha que
    dizia _Martim Annes de Barbuda_.

    VIII

    *Faz rir o parlamento*

    Andava o animo de Calisto Eloy martellado pelo desejo de pôr cobro ao
    luxo da gente de Lisboa, sendo grande parte n'este intento o haverem-lhe
    os dois pisa-verdes do parlamento mettido a riso a sua casaca de briche.
    Impugnavam-lhe a idéa o abbade de Estevães, e outros correligionarios
    cordatos, mais entrados do espirito do seculo, e convencidos da
    inutilidade de atravessar represas á torrente caudal da indole de cada
    época. O deputado de Miranda respondia que viera de sua terra a
    cauterisar as chagas do corpo social, e não a cobril-as de pachos e
    lenimentos palliativos em respeito á sensibilidade dos doentes. Rebelde
    ás admoestações sisudas de amigos, que lhe receavam alguma queda mortal
    no conceito da camara, Calisto, provocado por um debate sobre importação
    e direitos de objectos de luxo, pediu a palavra, e o mesmo foi alvorotar
    alegremente a camara, desejosa de ouvil-o.

    Concedida a palavra, e feito o silencio da curiosidade na sala,
    ergueu-se o morgado da Agra, e orou d'este feitio:

    –Sr. presidente! Os conselheiros dos antigos reis de Portugal, homens
    de claro juizo e sciencia bastante, cortavam os abusos do luxo com
    pragmaticas, quando os vassallos se desmandavam em trajos, regalos e
    ostentações ruinosas do individuo, e, portanto, da cidade. O senhor rei
    D. Sebastião, que santa memoria haja, promulgou justas e rigorosas leis
    sobre o uso das sedas. E, n'aquelle tempo, sr. presidente, Portugal
    ainda se banqueteava com a baixella d'oiro do Pegu: ainda as paredes das
    salas nobres estavam colgadas de gualdamecins e razes da Persia. Era o
    Portugal, já não robusto nem enthusiasta; mas ainda sopitado das
    embriagadoras delicias dos reinados de D. Manuel e D. João III.

    Nas Ordenações Filippinas, liv. 5.^o t. 82, § 4.^o, e seguintes, foram
    incluidas as principaes leis da reformação da justiça de 27 de julho de
    1582.

    Lá se vê quão salutar era a vara ferrea da lei no castigo dos contumazes
    em proveito da communidade. (_Um deputado boceja contagiosamente: outros
    bocejam; e o presidente de ministros adormece_). Vejamos a pena dos
    infractores: o peão perdia o vestido defezo, e pagava da cadeia quinze
    cruzados; e o nobre pagava da cadeia mais quinze cruzados que o plebeu.
    Note a camara que as reformas liberaes não complanaram tanto a egualdade
    entre poderoso e fraco. Bradam por ahi os ignaros contra os privilegios
    e exempções da fidalguia dos tempos ominosos. Estes democratas, se
    acontece de cairem nas presas da justiça, gritam pelo codigo das
    egualdades, e então experimentam o que vae da bonita redacção da lei á
    execução d'ella. Recolho-me ao assumpto, sr. presidente….

    _Um deputado_: Faz bem.

    _O orador_: Não me lisongea o beneplacito do collega. Recolho-me ao
    assumpto, sr. presidente. Lastimo este luxo que vejo em Lisboa! Por toda
    a parte, oiro, pedrarias, sedas, veludos, pompas, vaidades! Parece que
    toda esta gente voltou hontem da India nas naus que trouxeram as parias
    do Oriente! Essas ruas estrondeiam de carroagens, calechas e berlindas,
    como se cada dia se estivesse commemorando a passagem do cabo
    tormentorio ou o descobrimento da terra de Santa Cruz, atirando ás
    rebalinhas os thesouros que de lá nos vem. Por entre estas soberbas
    carroças…

    _Um deputado_: Carroças são de lixo.

    _O orador_: E bem póde ser que seja lixo o que vae n'ellas… Por entre
    estas soberbas carroças, sr. presidente, vejo eu passar mal arrimados ás
    paredes, e temerosos de serem esmagados, uns homens de aspecto
    melancholico, e mal entrajados. N'estes cuido eu vêr D. João de Castro,
    que empenhou as barbas, e tem duas arvores em Cintra; Duarte Pacheco,
    que vae entrar no hospital; e Luiz de Camões que vem de comer as sopas
    dos frades de S. Domingos. Cada época tem centenares d'estas illustres
    victimas.

    _Um deputado_: Vê coisas magnificas!

    _O orador_: E tambem vejo o dedo do propheta escrevendo na parede o
    lemma d'aquelle devasso festim… (_Pausa. O orador conserva o braço em
    postura sculptural, apontando á parede. O presidente accorda
    estremunhado, com a risada do ministro da fazenda_). O que eu vejo? quer
    o illustre deputado saber o que eu vejo? É a industria agricola de
    Portugal devorada pelas fabricas do estrangeiro; é o braço do artifice
    nacional alugado á escravidão do Brazil, porque a patria não lhe dá
    fabricas; é o funccionario publico prevaricado, corrupto e ladrão,
    porque os ordenados lhe não abastam ao luxo em que se desbarata; é o
    julgador dos vicios e crimes sociaes transigindo com os criminosos
    ricos, para poder correr parelhas com elles em regalias; é a mulher de
    baixa condição prostituida, para poder realçar pelos ornatos sua
    belleza; é a alluvião de homens, inhabeis, que rompe contra os
    reposteiros das secretarias pedindo empregos, e conjurando nas
    revoluções se lh'os não dão. O que eu vejo, sr. presidente, são sete
    abysmos, e á bocca de cada um o rotulo dos sete peccados capitaes que
    assolaram Babylonia, Cartago, Thebas, Roma, Tyro, etc. É o luxo, sr.
    presidente!

    _Um deputado do Porto_:–Peço a palavra.

    _O orador continuando_:

    –De que desconhecida lua choveu ouro sobre estes paraltas enluvados e
    encalamistrados que pejam os theatros, praças, e botequins de Lisboa?
    Foi para estes tempos que um sabio e claro varão d'outro seculo
    escreveu: «Desde o bico do pé até á cabeça anda um d'estes cavalheiros
    bizarros (ou qualquer d'estes bizarros ainda que não sejam cavalheiros)
    armado de vaidade e de estudos de sua compostura, que são captiveiros de
    espirito, corrupções dos costumes, da republica, e despezas da sua
    fazenda, ou talvez da fazenda que não é sua.»

    Aqui é que bate o ponto: _da fazenda que não é sua_. Á custa de quem se
    vestem estes Narcisos e Adonis? Que incognitos veios de ouro exploram?
    Qual é sua arte, se não devo antes perguntar quaes sejam suas manhas ou
    ronhas? Que sabe a policia d'elles?

    E eu já vi, sr. presidente, andarem as senhorias e excellencias, as
    pobres esfarrapadinhas, por meio d'estes peralvilhos, que saem de casa
    do alfayate com o fôro grande e o desaforo maior. Que desbarato e
    corruptela é esta dos tratamentos em Lisboa? Abandalha-se tudo para
    passar a rasoira por sobre um lamaçal plano? Isso é congruente; mas
    então tapem lá o rôto cofre das graças, que a toda hora nos está
    despejando corôas e veneras, cruzes e mais cruzes, cruzes onde a honra
    de Portugal geme cravejada! Fechem lá esses decretos de permanente
    carnaval, que nos trazem sempre acotovellados com mascaras, que eram
    hontem os nossos fornecedores de bacalhau, e hoje nos não conhecem a
    nós, receiosos de que os conheçamos a elles!

    Sr. presidente! v. ex.^a conhece a pragmatica do Sr. D. João V, ácerca
    de tratamentos. Eu tenho de a ler ámanhã a um tendeiro, que me vendeu
    figos de comadre, por que o homem se offendeu de receber um _vossemecê_,
    que eu longanimamente lhe dei. O alvará resa assim: «Que aos viscondes e
    barões, aos officiaes da minha casa, e aos das casas das rainhas, e
    princezas d'estes reinos; aos gentis-homens das camaras dos infantes;
    aos filhos e filhas legitimos dos grandes, dos viscondes e barões…
    como tambem aos moços fidalgos… se dê o tratamento de senhoria.»

    Senhoria aos ministros no estrangeiro; senhoria aos governadores das
    praças; reitor da universidade; senhorias ás dignidades prelaciaes e
    civis; sr. presidente, falta uma senhoria legal para o homem, que me
    vendeu os figos. Creêmos esta senhoria, para alliviarmos de escrupulos
    os que lh'a derem a medo. Legislemos a podridão dos tratamentos
    nobilitarios. Atiremos ao esterquilinio com esta moeda refece. Isto já
    não vale nada, não prova nada, não estrema coisa nenhuma. Latissima
    licença de condecorar-se a gentalha! Se algum mesteiral, uma vez,
    praticar feito nobre, que lhe conquiste justo galardão, havemos de
    honral-o chamando-lhe homem do povo, d'aquella raça de povo, que D.
    Diniz e D. João I amaram cordialmente.

    Desviei-me algum tanto, sr. presidente. Vou chegar-me á questão, e
    concluir, porque a hora me não permitte delongas, nem a camara terá a
    benevolencia de m'as tolerar.

    Invoco a attenção dos representantes do paiz para a mortal peçonha, que
    vae cancerando o machismo vital da nossa independencia. Rédeas ao luxo!
    Tranquem-se as alfandegas ás drogas estrangeiras. Carreguem-se de
    direitos as mercadorias, que incitam o appetite e prevertem as condições
    melhormente morigeradas. Vistamo-nos do que podemos colher de nossas
    possessões, e do estofo, que nossas fabricas podem dar. Sigam-se as leis
    velhas do ultimo rei da dynastia de Aviz. Coimem-se e castiguem-se os
    que venderem tecidos estrangeiros e os que os puzerem em obra.

    _Um deputado_: Como redigirá o illustre deputado similhante absurdo de
    lei?

    _O orador_: Como redigirei? Facilmente. Como D. João II legislou a
    respeito das mulas dos frades. Ora aconteceu que os frades teimaram em
    cavalgar mulas. Que fez então o estomagado rei? Deu sentença de morte
    aos ferradores, que ferrassem as mulas dos frades. E o caso foi que os
    desmontou.

    Conclui, sr. presidente.

    _O presidente_: Fica reservada para amanhã a palavra ao sr. dr. Liborio
    de Meirelles, e está fechada a sessão.

    O dr. Liborio de Meirelles era o deputado portuense, que pedira a
    palavra, durante o discurso de Calisto Eloy.

    –Que sairá d'aquelle arganaz?–perguntou o morgado de Agra ao abbade de
    Estevães.

    –Dizem que é moço de muita sabedoria, e que já escreveu livros.

    Calisto sorriu-se e disse:

    –Estou bem aviado, se elle escreveu livros!

    IX

    *O doutor do Porto*

    O dr. Liborio de Meirelles, sujeito de trinta e dois annos, cara
    honesta, e posturas contemplativas, reunia os predicados que nos outros
    paizes ou passam despercebidos, ou são solemnisados pela irrisão
    publica; mas, em Portugal, taes predicados alçam o homem ao cume da
    escala politica, e dão-lhe escolta de absurdos propicios até onde o
    parvo laureado quer guindar-se.

    Esta pessoa madrugou aos dezoito annos escrevendo poemas satyricos
    contra os titulares portuenses, não porque elle se pejasse de vel-os em
    sua plana, mas porque lhe fugiram d'ella. O progenitor de Liborio era um
    tendeiro, que entrara na estrada franca da fortuna prospera, creando de
    sua cabeça, para uso de gallegos e carretões madrugadores, um mixto
    saboroso e alcalino de licores, que ainda hoje sustentam o credito e
    primasia. Afóra isto, inventara o pae do dr. a aguardente de nabos.

    Liborio foi menos feliz que o pae, no genero a que se dedicou. Os seus
    poemas viveram alguns dias afagados pela calumnia, como a belleza das
    collarejas lisongeada pelo rosto derrancado dos libertinos. Depois, o
    filho do tendeiro, graças á baixesa de sua posição social, antes de
    grangear o odio dos insultados, já tinha caido no desprezo d'elles.

    Impellido pelo couce do pégaso, Liborio já não podia retroceder. Foi
    para Coimbra: fez-se examinar em latim, e foi reprovado. Desde este
    funesto dia de sua vida, Liborio começou a dizer que era sabio, e, por
    vingança dos examinadores, traduziu um poema latino com tanta claresa e
    fidelidade, que o poema original ficou sendo muito mais intelligivel aos
    ignorantes de latim, do que a versão; com que a memoria de Lucrecio fôra
    ultrajada.

    Formou-se e doutorou-se Liborio, sem impedimento de uns _rr_ que, alguma
    vez, lhe acalcanharam o orgulho. Em seguida foi visitar a Europa; e, de
    volta aos lares, achou-se no regaço da estupida fortuna que o beijou, na
    fronte, e lhe disse: «este anhelito de meus beiços côa-te fogo ao
    cerebro! Amo-te, porque careço de ti. Eu sou a Circe dos gregos:
    bestifico tudo que toco, e em ti delego o condão de radiares tua
    bestidade ao cerebro de quem embarrar por ti. Proponho-me transfigurar,
    não já em cochinos, mas em mais nobres alimarias, os regedores da coisa
    publica de Portugal. Tu, dilecto, vae caminho da gloria. Hoje és
    deputado; d'aqui a pouco serás ministro.»

    De feito, Liborio estava deputado, á mesma hora em que o fidalgo da Agra
    de Freimas era fadado a ser um dia verberado no parlamento pelo filho do
    inventor da aguardente de nabos.

    Calisto entrou á sala, e, digamol-o com espanto de sua fleuma, ia
    tranquillo e até contente, sem embargo de lhe haverem dito alguns
    collegas quão funesto era o contendor que a sua má sorte e imprudencia
    lhe deparara.

    O dr. Liborio, dada a palavra, ergueu-se com ademanes não vulgares,
    alisou os bigodes, encravou na orbita esquerda um vidro sem grau, e
    disse:

    –Sr. presidente, discorri cêrca d'anno por estranhas plagas. Fui-me
    mundo fóra com o meu bordão e concha de romeiro do progredimento social.
    Bebi a tragos nas enchentes de mel hybleú que desborda dos mananciaes da
    civilisação. Vi muito, vi tudo, que me abraseavam sedes de aprender,
    fomes de Ugolino que rompe seus ferros, e se defronta com lautos
    estendaes de loirejantes iguarias. Que deliquios de exultação me tomavam
    alma! como eu me sentia a tragar luz e humanidade por aquelles climas
    onde o supremo architecto chove inventos a frouxo e a flux! Vi muito, e
    vi tudo, sr. presidente. Encheu-se-me o peito de anhelos pela sorte da
    patria, e d'amores muito seus d'ella, como de filho que do imo das
    entranhas lhe quer. Volvi-me no rumo do ninho meu; e mal se enrubesceram
    os horisontes d'esta minha e tão nossa terra de fragrancias e idyllios,
    assim me coou as fibras do seio um como filtro de melancholia, que me
    subia aos olhos exsudando lagrimas.

    (_Calisto Eloy, em perigo de rebentar, ri-se. Parte da camara ciciou-lhe
    um sio prolongado. Calisto accommoda-se e desconfia que a maior parte da
    camara é tola_).

    _O orador_: É que eu, sr. presidente, muito a dentro d'alma sentia uns
    rebates de presagio. Locustas de excruciantissimos toxicos, que me
    estavam empeçonhando esperanças, enleios, arrobos e dulcissimas chimeras
    de ainda ver florejarem os agros da patria, estrellarem-se estes céos
    plumbeos e rasgarem-se os horisontes á onda fecundante d'este uberrimo
    torrão. Doeu-me alma, choraram-me olhos, e comprehendi a angustia
    virgiliana do hemestichio: _pulcia linquimus arva_. (_Muitos apoiados_.)

    Pois que, sr. presidente? Cançariam maguas a quem se lhe antolhasse ter
    de ainda ouvir n'esta casa voz de homem, de homem nado do ventre d'este
    seculo, de homem que aqui entrou a verter no gasolifacio do templo do
    eterno Christo da eterna liberdade, a drachma ou o talento, a mialha ou
    o thesouro de sua dedicação, repito, sr. presidente, quem deixára de
    estillar bagas de pranto, ao aportar em chão portuguez com o presagio de
    que, alguma hora, havia de ouvir n'este _sancta-sanctorum_ das luzes,
    blasphemias contra o luxo, que é a arteria, a órta do corpo industrial?
    Quem quizera, por tal preço, dizer ás nações cultas: «eu sou d'aquelle
    céo, nasci n'aquelle jardim de magas, onde Camões poetou glorias para
    invejas do mundo? Sou da terra dos laranjaes onde suspirou Bernardim?
    Sou da raça dos bravos que perpetuavam Aljubarrota, Badajoz, Valverde?
    (_Apoiados prolongados_.) Na minha terra… (quem quererá já dizer!)
    nasceram Gamas, nasceram Cabraes, e Castros, e Abuquerques, Nunes e
    Regras? Quem sr. presidente?

    (_Calisto pede a palavra_.)

    _O orador_: Que é o luxo? Perguntae ao selvatico das florestas invias o
    que é o seu _hamac_, e ao europeu o que é o seu almadraque de plumas,
    tão crato e flacido ás evoluções corporeas. Perguntae ás bellas europeas
    que lhes faz a grinalda de brilhantes, e ás bellas da Florida que prazer
    lhes insinuam os vitreos adornos de variegadas côres. Oh! o luxo! o
    luxo, senhores, é marco miliario de civilisação, a pomba que se volita
    da arca, e se vae espanejando de azas por céos e terras além, recobrada
    dos pavores primeiros, e saltitando de frança em frança. Oh! que
    rejubilos de coração para quem fadado lhe foi de cima o entender e amar,
    que o comprehender é amar, na phrase incisiva e galharda de Victor Hugo!

    Sr. presidente! O coração da França, o encephalo, o grande nervo da
    França é o luxo. E eu estive na França, sr. presidente, fui lá para me
    reverberarem nos cristaes d'alma os lumes d'aquella perla d'Offir! Ai! a
    França! Quando nos entreluzem os zimborios da moderna Babylonia, «_a
    esperança remonta-se-nos em rasgado vôo para tudo mais vasto, mais
    copioso, mais opulento, a espirar vida e bem para o alto, para o largo e
    de muita benção, a branquear-nos a casinha da serra, a florir-nos o
    pomar da veiga, a dar-nos canções e alegrias no artifice_.» [11]

    O luxo, sr. presidente, é o espantalho dos animos sandios e cainhos.

    _O deputado Calisto_: Seja pelo amor de Deus!

    _O orador_: Pois seja, e muito que lhe preste ao collega, que mister se
    lhe faz perdão de Deus pelas blasphemias economicas que ejaculou, sem
    dar de olhos na civilisaçao, matrona prestimosa, que toda se desentranha
    em blandicias e florinhas de viço e olor para opulentos e desremediados.

    _O deputado Calisto_: Isso que diz em vernaculo?

    _O orador_: Que me não falle á mão, se lhe sobranceio o intellecto.
    Affigura-se-me, sr. presidente, que tenho pela frente sombra, e sombra
    de que não ha temermo-n'os. Não sei, á bofé, com quem me esgrimo.
    Propugnar por artes, pôr peito a defender industrias, ruir os cancêlos
    das fabricas, bafejar incentivos á imaginativa do artifice, emfim e
    derradeiramente, encarecer a utilidade do luxo, isto me está assetteando
    o animo temeroso de desfechar injuria ao progresso, á idéa, ao _fiat_, á
    humanidade! Para que me estou aqui afadigando e derramando, sr.
    presidente se só mumias podem sair-me com esgares, de encontro ao
    civilisador principio? (_Muitos apoiados_.)

    Corre-me obrigação de silencio. Já de contricto me recolho, e da
    offensa, á luz me penitencío; que eu me estive a espancar trevas que, em
    que pese a pávidos agoireiros, já não hão de espessar-se em derredor do
    sol esplendorosissimo.

    _E, pois, antevejo que não ha mais dizer, sem entibiar-me a nota de
    repetições, aqui ponho fecho_.[12]

    _O orador foi comprimentado_.

    O _presidente_: Tem a palavra o nobre deputado Calisto Eloy de Silos de
    Benevides de Barbuda.

    –Sr. presidente!–disse Calisto–Eu entendi quasi nada, porque o sr.
    deputado dr. Liborio não fallou portuguez de gente (_riso nas
    galerias_.) As laranjas, espremidas de mais, dão sumo azedo, que corta a
    lingua. O sr. deputado fez do seu idioma laranja azeda. Se a linguagem
    portugueza fosse aquillo que eu acabo de ouvir, devia de estar no
    vocabulario da lingua bunda. Parece me que os obreiros da torre de
    Babel, quando Deus os puniu do atrevimento impio, fallaram d'aquelle
    feitio! (_Ordem_! _ordem_!)

    O _orador_: Ordem, srs. deputados, peço eu para a lingua portugueza!
    Peço-a em nome dos illustres finados Luiz de Sousa, Barros, Couto, e
    quantos, no dia do juizo, se hão de filar á perna do sr. dr. Liborio.

    O _presidente_: Peço ao illustre deputado que se abstenha de usar
    phrases não parlamentares.

    O _orador_: Tomo a liberdade de perguntar a v. ex.^a se as locuções
    repolhudas do illustre collega são parlamentares; e, se o são, peço
    ainda a mercê de se me dizer onde se estudam aquellas farfalhices.
    (Vozes: _Ordem_! _ordem_!)

    O _orador_: Quando aquelle senhor me chamou _sandio_, não foi violada a
    ordem? (_Apoiados_). Ora pois: eu não quero desordens. Vou pacificamente
    responder ao sr. deputado, como souber e podér. Estou a desconfiar que a
    minha linguagem secca e desornada raspará nos ouvidos da camara, que
    ainda agora se deleitou com a rethorica florida do sr. deputado do
    Porto. Sou homem das serras. Creei-me por lá no tracto facil e chão dos
    velhos escriptores: aprendi coisa de nada, ou pouquissimo. A mim,
    todavia, me quer parecer que o fallar gente palavras do uso commum é
    coisa util para nos entendermos todos aqui, e para que o paiz nos
    entenda. Do menospreço d'esta utilidade resulta não poder eu
    aperceber-me de razões para cabalmente responder aos argumentos do
    discreteador mancebo. Percebi, a longes, pouquinhas idéas; porém,
    querendo Deus, hei de, se me ajudar a paciencia com que estudei o idioma
    de Thucydides, decifrar os dizeres de s. ex.^a no «_Diario das
    Camaras_.» (_Riso_).

    O illustre deputado quer que o luxo indique a riqueza das nações. Isto é
    o que eu entendi do seu arrasoamento. Em França viu s. ex.^a mosquitos
    por cordas. Pois, sr. presidente, eu li que, em França, onde o luxo é
    maior, ahi é menor, em proporção, o numero dos individuos ricos (Vozes:
    _apoiado_!) Este caso, se é verdadeiro, corta pela haste as flores todas
    dos jardins oratorios do sr. dr. Liborio. Que mais disse s. ex.^a?
    Faça-me a graça de m'o achanar na linguagem caseira com que o diria á
    sua familia em _pratica como do lar_, consoante phrase a D. Francisco
    Manuel de Mello na _Carta de Guia_.

    O _dr. Liborio de Meirelles_: Não velei as armas do raciocinio para me
    ir á liça da absurdeza. Melhores fadas me fadaram; e não me estou aqui
    sabbatinando como em pleitos de bancos escolares. (Vozes: _Muito bem_.)

    O _orador_: Muito bem o que?… Vae-me parecendo historia isto, sr.
    presidente!… Eu queria-me entender com o sr. deputado, afim de
    tirarmos algum proveito d'este debate; mas s. ex.^a, pelos modos por me
    vêr assim minguado de affeites poeticos, acoima-me de absurdidade, e
    despreza-me!… Valha-me Deus! Se o sr. dr. Liborio me não lançasse da
    sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram
    Athenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas
    e luxuosas? Havia de perguntar-lhe que artes e sciencias progrediram
    entre os sybaritas e lydios, povos que a mais elevado gráo de luxo
    subiram? Havia da perguntar-lhe por que foi que os persas acaudilhados
    por Ciro cortados de vida aspera e privada do necessario, subjugaram as
    nações opulentas? Havia de perguntar-lhe porque foram os persas, logo
    que se deram ás delicias do luxo, vencidos pelos lacedemonios?

    A suprema verdade, sr. presidente, a verdade que os arrebiques da
    rhetorica não seduzem, é que á medida que os imperios antigos se
    locupletavam, o luxo ia de foz em fóra, e os costumes a destragarem-se
    gradualmente, e o pulso da independencia a quebrantar-se, e os cimentos
    das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egypto, da Persia, da
    Grecia e Roma.

    Até aqui a historia, sr. presidente; d'aqui em diante o sr. dr. Liborio
    de Meirelles, o moço poeta, que foi a França, e achou desmentidos
    Xenophonte e Thucidydes, Livio e Tacito, Plutarcho e Flavio.

    O sr. dr., a meu juizo, é sujeito de grande imaginativa. Bonita coisa é
    idear fabulações em academia de poetas; porém, n'esta casa, onde a nação
    nos manda depurar a verdade dos fallaciosos ornatos com que a mentira se
    arrea, mister é que sejamos sinceros. Já o insigne author dos _Apologos
    dialogaes_ disse que a _imaginação era curral do conselho, onde, por não
    ter portas, todo o animal tinha entrada_. Bom é tambem que os moços
    muito imaginativos senão pavoneem até ao philaucioso sobrecenho de
    passarem alvará de sandeus á gente que raciocina mais porque imagina
    menos. É permittido aos versistas poetarem em prosa; mas as liberdades
    poeticas não ajustam bem nos debates circumspectos da res publica.

    Vou concluir, sr. presidente, votando contra a proposta do illustre
    collega, que propoz a reducção dos direitos aduaneiros das sedas, e
    pedindo ao sr. dr. Liborio, que, se outra vez me der a honra de imbicar
    com este pobre homem lá das montanhas da raia, haja por bem de se
    expressar em linguagem correntia. Não sou homem de salvas e rodeios:
    digo as coisas á moda velha. Quero-me portuguez com os do sujeito, verbo
    e caso no seu competente logar. E, se assim não fôr, ir-me-hei com
    aquellas palavras que ouviu Arsenio: _Fuje, quíesce, et tace_; «foge,
    socega, e não falles.»

    Sentou-se Calisto Eloy. Alguns deputados anciãos do partido liberal
    foram cumprimental-o; e outros, que se pejaram de imitar os velhos,
    encararam no rustico provinciano com cortezia e tal qual veneração.
    Calisto Eloy ganhára consideração na camara e no paiz.

    Os deputados governamentaes acercaram-se d'elle, convidando-o em termos
    delicados a aceitar, no banquete do progresso, o logar que a sua
    intelligencia reclamava. Os deputados opposicionistas conjuravam-no a
    não levantar mão de sobre os projectos depredadores com que a facção
    governamental andava cavando novas voragens ao paiz.

    O morgado da Agra respondia que estava descontente de gregos e troyanos,
    e acrescentava:

    –Não sei, por ora, de qual dos lados da camara se falla peor a lingua
    patria. Tenho ouvido os quinhentistas á la moda, e os galliparlas. Todos
    ressabem á hervilhaca; uns estão gafados de francezias, outros tresandam
    nos seus dizeres o bafio que os bons seiscentistas regeitaram. Carecem
    de cunho nacional estes homens. O máo portuguez principia a sel-o, desde
    que mareia a pureza de sua lingua. Dêem-me portuguezes de lingua, e eu
    me bandearei com elles, como com portuguezes de coração. Com aquelle dr.
    Liborio do Porto nem para o céo. Tenho medo que Deus o não entenda, e
    nos ponha ambos fóra de cambulhada.

    X

    *O coração do homem*

    Entremos no coração de Calisto Eloy.

    Cuidava o leitor que não tinhamos que entender com aquella entranha do
    homem? Estou que a julgaram inviolavel ás suspeitas da historia em acto
    de tanto alcance na biographia d'este personagem!

    Já se disse que orçava pelos quarenta e quatro o morgado. N'aquella
    edade, se ha fibras virginaes no coração, eram as d'elle.

    Casára com sua prima Theodora, menina estimabilissima por virtudes, mas
    mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta. A noiva
    deixou-se ir pela mão do pae á casa do esposo. Não ia alegre nem triste.
    Tanto se lhe dava casar com o primo Calisto como com o primo Leonardo.
    Logo que o pae lhe consentiu que levasse para Caçarelhos umas tres
    duzias de gallinhas e parrecos, que ella creara, não lhe ficou na casa
    natal coisa para sérias saudades.

    Encontrou marido ao pintar. Coraram ambos ao mesmo tempo, quando o
    bulicio das festas nupciaes se aquietou e a mãe do noivo lhes disse:
    «Meninos, cada môcho a seu soito» phrase amenissima que em pouco e
    depressa exprime a muita poesia de toda aquella família.

    Calisto, ao outro dia da primeira noite de esposo, por volta das sete
    horas da manhã, já estava a ler a _Viagem á terra santa_, por frei
    Pantaleão de Aveiro; e, á mesma hora a noiva andava de pé sobre um catre
    de pau preto rendilhado, com uma bassoira de giesta, a limpar teias de
    aranha do tecto.

    Almoçaram, e foram visitar o pae e o sogro, em cuja casa jantaram.
    Durante a visita, a sr.^a D. Theodora esteve a ensinar uma criada a
    engommar as camisas do pae; e Calisto, como descobrisse n'um armario um
    tratado de alveitaria de 1610, levou-o de um folego, e tirou
    apontamentos, visto que o sogro se tratava por aquelle tratado,
    diminuindo as doses das drogas. Não sei quem lhe dissera a elle que o
    sr. D. João IV, nas doenças graves, se medicava com um veterinario.

    Ora, d'este começo de amores infiram v. ex.^as o restante d'aquella doce
    vida!

    Theodora tomou a cargo os cuidados domesticos de sua sogra, e muitos do
    tracto com caseiros, vendo que o marido, tirante as horas de comer, não
    saia da livraria, onde a mulher, como amavel sombra, o ia visitar, e
    olhando com desdem sobre os infolios, dizia-lhe:

    –Ó homem, ainda não acabaste de ler estes missaes?

    –Isto não são missaes, rapariga. Não estejas a profanar os meus
    classicos.

    A esposa não entendia isto, e pedia-lhe que lhe lêsse pela vigesima vez
    as _Sete partidas de D. Pedro_. E o bom marido lia-lhe pela vigesima vez
    as _Sete partidas_, porque estavam escriptas em portuguez de lei. Vida
    para invejar! paraiso em que Deus se esqueceu de mandar o anjo do
    montante de fogo vedar a entrada!

    Discorreram annos, sem que o morgado tivesse de perguntar á sua
    consciencia a explicação do minimo alvoroto de sangue na presença de
    mulher estranha. Andava por feiras, quando a mulher o mandava comprar
    utensilios agricolas; pernoitava por diversas casas da provincia,
    famosas pela belleza das donas, e contava-lhes casos mirificos de suas
    leituras, se acontecia não achar livro velho, que lhe deliciasse o
    serão.

    Da maior, e talvez unica dôr litteraria da sua vida, fui eu causa.
    Calisto, pernoitando em não sei que solar de damas dadas á leitura
    amena, pediu algum livro, e deram-lhe um romance meu. Consta-me que
    deixou o volume com as margens annotadas de gallicismos e nodoas de toda
    a casta. Imaginem quantas punhaladas eu dei n'aquelle lusitanissimo
    coração!

    Afóra este incidente, as boninas da vida campestre floriam
    immarcessiveis para o homem de bem, raro exemplo de compostura; salvo
    quando lhe beliscavam a estirpe que, então, como já disse, retaliava
    descaridosamente, e revelava a quebra contingente de todo homem
    imperfeito de sua natureza. Isto creou-lhe inimigos; mas detrahidores de
    sua fidelidade marital nenhum tentou infamar-lhe o bom nome. Das
    virtudes conjugaes de Theodora até me treme a penna sómente de escrever
    isto para encarecel-as! Duvide-se da pureza das onze mil virgens, antes
    de maliciar suspeitas d'aquella matrona, em tudo romana, do puro estofo
    das Cornelias, Poncias e Arrias.

    Com esta pureza de vida entrara em Lisboa o morgado da Agra.

    Ahi está um como Daniel á beira da fornalha. Ahi está o homem-anjo!
    Quarenta e quatro annos immaculados! Um coração que, se algumas imagens
    tem gravadas, são as dos frontispicios apparatosos de alguma edição
    princeps, d'algum Elsevir annotado por Grenobio.

    XI

    *Santas ousadias!*

    Natural coisa é que este sujeito, intangivel ás caricias do amor, seja
    severo e intolerante com as fragilidades do coração.

    Aconteceu-lhe frequentar, uma noite por outra, a sala d'um antigo
    desembargador do paço, que era pae de duas galantes senhoras, uma casada
    e outra solteira.

    Soou aos ouvidos de Calisto Eloy, que uma das illustres damas innodoava
    sua gentileza e prosapia, violando os deveres de esposa. Fez-lhe sangrar
    o coração honrado tão funesta nova, e communicou elle o seu espanto e
    dôr ao collega abbade. O abbade desfechou-lhe na cara uma estrallada de
    riso civilisado, e disse-lhe:

    –Ora o morgado tem coisas! V. ex.^a parece que caiu, ha pouco, de algum
    planeta! Olhe que Lisboa não é Miranda, meu amigo. Se o morgado tem de
    espantar-se por cada caso d'estes que chegar ao seu conhecimento, a sua
    vida na capital tem de ser um permanente ponto de admiração!… Deixe
    correr o mundo…

    –Que remedio!–atalhou o morgado–mas o que eu farei é sacudir o pó dos
    meus botins á porta das casas, cuja desordem de costumes me escandalisa.
    Não voltarei a casa do desembargador Sarmento.

    –Faça v. ex.^a o que quizer; porém, consinta que eu reprove similhante
    procedimento, por duas razões; seja a primeira, que o desembargador e a
    familia receberam o sr. morgado com cordeal affecto; segunda razão, é
    que v. ex.^a já não está em edade de perder a sua virtude seduzida por
    máos exemplos. Faça como eu: lamente as miserias dos homens, e viva com
    elles, sem participar-lhes dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a
    gente vae a regeitar as relações das familias, justa ou injustamente
    abocanhadas pela maledicencia, a poucos passos não temos quem nos
    receba.

    –Eu tenho os meus livros, accudiu Calisto.

    –E os seus livros, as suas chronicas, os seus classicos gregos e
    latinos não lhe contam enormes desmoralisações? V. ex.^a, que leu a vida
    romana em Tacito, e Apuleio, e no Festim de Trimalicão de Petronio…

    –De qual Petronio?–interrompeu o morgado. Foram doze os Petronios em
    Roma, e todos escreveram com mais ou menos despejo.

    –Pois melhor. Se v. ex.^a leu doze, eu li um, que era o ecónomo, ou
    arbitro dos prazeres de Nero, e este me bastou para edificação do meu
    espirito. Pois se o meu amigo póde ler sem horror as infamias das
    saturnaes, e os mysterios da deusa Bona, e quejandas protervias dos
    antigos tempos, como póde espantar-se do que ouve dizer da filha do
    desembargador Sarmento, que a final de contas, póde estar innocente do
    crime que lhe assacam?! Não a vê v. ex.^a filha cuidadosa, mãe
    estremecida, e esposa honesta na apparencia? Já a ouviu defender theses
    da moral do adulterio? Que lhe importa a v. ex.^a o que se passa lá na
    vida privada da mulher?

    Calisto deteve-se breves instantes com a resposta, e disse:

    –Acho-lhe razão, sr. abbade, não tanto pelo que disse, como pelo que
    não disse. As pessoas de vida impolluta devem acercar-se d'aquellas que
    prevaricam. Lá vem uma hora em que o conselho é taboa salvadora… Quem
    sabe se eu terei predestinação de desviar aquella senhora do caminho
    máo!?…

    –É verdade–assentiu o abbade;–mas é justo e urbano que v. ex.^a não
    vá interrogal-a sobre coisas do fôro intimo.

    –Não me ensine as leis da cortezia, abbade–replicou algum tanto
    affrontado o fidalgo da Agra.–Eu não me fiz em alcatifas de salas; mas
    aprendi a policia e trato humano nas lições de galãs afamados como D.
    Francisco Manuel. E, demais d'isso, meu caro sr. abbade, não me peça
    Deus conta de minha soberba, se lhe eu digo que o bom sangue como que já
    tem congeniaes e infusas em si as regras da urbanidade cortezã. Não se
    fazem mister directorios de civilidade a sujeitos, que herdam com a
    fidalguia a indole de avoengos palacianos, feitos nas côrtes, e affeitos
    a sentarem-se na ourella dos thronos.

    –Não ponho duvida n'isso;–obtemperou o abbade, e accrescentou com
    malicia e bem rebuçada ironia–alguns fidalgos muito mal-creados que
    tenho topado, em quanto a mim, não lhes faltou a herança de polidez;
    foram elles que propriamente derrancaram sua indole, até se fazerem
    plebe grosseira e ignobil.

    –Acertadamente–disse o morgado.

    –Eu ensinar cortezia a v. ex.^a!–insistiu o deputado bracharense.–A
    minha observação tendia a moderar os impulsos descomedidos da sua justa
    censura aos máos costumes da sr.^a D. Catharina Sarmento. _Noli esse
    multum justum_, diz o Ecclesiastico.[13] Bem fidalgos e policiados eram
    S. Domingos de Gusmão, S. Francisco de Borgia, e Santo Ignacio de
    Loyola, todavia, bem sabe v. ex.^a com que exempção e santa descortezia
    elles invectivavam as corruptelas da mais elevada sociedade, em rosto
    dos proprios delinquentes.

    –Mas eu não sou apostolo–acudiu Calisto.–Conheço que já não vim a
    tempo, nem a missão me condecora.

    Assim mesmo, sem desaire das pessoas, hei de pôr a pontaria aos vicios,
    e, se poder, influirei pensamentos de emenda ao animo dos viciosos.

    N'uma das seguintes noites, foi Calisto ao chá do desembargador
    Sarmento. Achou mais abatido e melancholico o antigo magistrado.
    Estiveram conversando á puridade sobre o desgosto que revia á face do
    hospedeiro ancião. Crê-se que Sarmento lhe dissera que sua filha
    Catharina, depois de haver casado por paixão, com cedo se desaviera da
    vontade do marido, e este da estima d'ella; de modo que raro dia
    deixavam de altercar e renhir por motivos insignificantes. D'isto
    resultava a tristeza constante do velho, acrescentada agora com ter-lhe
    dito alguem que sua filha andava infamada pela voz publica.

    –Ferro penetrante–exclamou o desembargador–que me traspassou este
    corpo já fraco, e pendido á campa.

    Calisto apertou-o nos braços e clamou:

    –Amigo e senhor meu! A desgraça não derrete o aço dos peitos fortes.
    Tenha-se v. ex.^a arrimado ao bordão de sua honra, que não hão de
    adversidades derribal-o. Aqui me ponho de seu lado, com a fortaleza da
    amizade, para, como filho de v. ex.^a e irmão da sr.^a D. Catharina,
    minha senhora, tirar a limpo da sugidade da calumnia, se o é, a virtude
    d'ella, e o contentamento de v. ex.^a. Aqui vem de molde o repetir as
    palavras affectivas do meu dilecto Heitor Pinto, no tractado da
    _Tribulação_: «O que eu queria é que a boceta de vossas angustias
    estivesse depositada em minhas entranhas, e que os meus bens fossem
    vossos, e os vossos males fossem meus.»

    Ouvido isto, o desembargador commoveu-se até ás lagrimas, e disse com
    mui entranhado affecto:

    Quem me dera assim um marido para a minha Adelaide, que n'esta casa
    reinaria o socego da virtude! Agora vejo que lá nos escondrijos dos
    mattos da provincia se refugiaram as reliquias da honra portugueza!
    Ditosa senhora a que avassallou tão honesta alma!

    D'ahi a pouco, o morgado da Agra, buscando azo de estar apartado com
    Catharina a um canto da sala, e praticando sobre livros perigosos,
    rompeu elle n'esta pergunta:

    –A sr.^a D. Catharina já leu Homero?

    –É romance? disse ella.

    –Romance ou fabulado de alta moral lhe havemos de chamar; não já
    romances d'uns que, de oitiva o sei, por ahi impestam a sociedade. Na
    Iliada de Homero achei dois pares de casados; um é Paris, que se
    matrimoniou com Helena; o outro é Ulysses, que se casou com Peneloppe.
    Os primeiros, cubiçosos e voluptuarios, cobriram a Grecia de
    calamidades; os segundos, prudentes e discretos, foram o modelo do
    thalamo ditoso.

    Fez Calisto uma longa pausa, e proseguiu, interpollando os dizeres com
    algumas pitadas, que solemnisavam a gravidade das fallas.

    –Ninguem devera casar sem muito lêr e sem applaudir aquelles preceitos
    do casamento, escriptos pelo eminentissimo Plutarcho.

    –Não conheço, disse a dama… Li _Le mariage_, de Balzac.

    –Não sei quem é: deve ser francez.

    –Pois não leu?

    –Eu não leio francez. Não me chega o meu tempo para tirar aguas sujas
    de poços infectos. Plutarcho é oraculo n'esta materia. Um pensamento lhe
    li que me chegou á medula, e que ainda agora em Lisboa me saiu
    explicado. Diz elle algures. «Não podem as mulheres convencer-se de que
    Pasiphae, bem que esposa d'um rei, se enamorasse apaixonadamente de um
    touro; ao passo que estão vendo, sem espanto, mulheres que menospresam
    maridos benemeritos e honrados, e se dedicam a homens bestificados pela
    libertinagem.» Asseveram-me os pilotos peritos n'estes mares verdes e
    aparcellados da capital, que ha d'isto muito por aqui.

    –É possivel… balbuciou D. Catharina.

    –E porque não ha de ser, se algumas senhoras conheço eu casadas, tornou
    Calisto, que andam com os braços nus fóra das alcovas do seu leito
    nupcial!…

    –E isso que tem?–atalhou a dama–é a moda…

    –A moda, que franqueia as portas aos ruins desejos, ás cogitações
    viciosas, aos afrontamentos, ao pudor. Aquella filha de Pytagoras, a
    quem encareceram o feitio do braço, respondeu: «Bello é; mas não para
    ser visto». Na Andromacha de Euripedes, Hermion exclama:
    «Infelicitei-me, consentindo que de mim se achegassem mulheres
    preversas.» Quantas damas de hoje em dia poderão dizer, e na consciencia
    o estarão dizendo: Consenti, para minha desgraça, que preversos homens
    convisinhassem de mim!…

    –Mas onde quer v. ex.^a chegar com o seu discurso? interrompeu a filha
    do desembargador.

    –Á razão da sr.^a D. Catharina, minha senhora.

    –Como assim?! quem o auctorisa…

    –As lagrimas de seu ex.^{mo} pae.

    –Veja lá, sr. Barbuda, que se não equivocasse com as lagrimas de meu
    pae… A minha reputação e costumes repellem similhantes allusões, se o
    são.

    –Peores do que estas, sr.^a D. Catharina, minha senhora, peores
    referencias do que estas lhe faz a voz do mundo.

    –A mim?

    –Á fé! que sim! Dou-lhe em penhor da verdade a minha honra.

    –Mas–interrogou irada e rubra de despeito a dama–que ousadia a de v.
    ex.^a fallar assim a uma senhora, que apenas conhece!… Olhe que essas
    liberdades de provincia não se usam cá em Lisboa.

    –Não se moleste assim, minha senhora–tornou Calisto.–Respeito tanto
    v. ex.^a quanto estimo seu venerando pae. O atrevimento é grande, maior
    será a magnanimidade de v. ex.^a em perdoar-m'o. Lagrimas de velho e de
    pae dão estranho ousio. Desgraças sobranceiras incutem alentos
    destemidos nas mais fracas almas. No proposito de conjurar a tormenta,
    que se encapella e ameaça de sossobrar a felicidade de uma familia
    illustre, é que eu, sr.^a D. Catharina, me affoitei a ser o advogado
    espontaneo do bem de todos.

    –Agradeço o zelo; mas agradecera-lhe mais a discrição–disse D.
    Catharina; e, retirando-se, fez uma ceremoniosa mesura a Calisto.

    Não voltou mais á sala a dama. O desembargador não desfitava olhos de
    Calisto Eloy, que se assentou meditativo no mais assombrado do recinto.

    Erguera-se do voltarete o abbade de Estevães, e abeirou-se d'elle,
    dizendo:

    –Desconfiei que v. ex.^a estava missionando a dama… Amolleceu-a?

    Calisto ergueu a fronte, enclavinhou os dedos das mãos sobre o peito
    consternado, e murmurou:

    –Agora acabo de entender o meu padre Manuel Bernardes.

    E repetiu em tom cavo:

    «…Converto minha attenção, e temor a ti ó Lisboa, Lisboa, considerando
    o que em ti passa. Medo me fazem tuas corrupções tão graves e tão
    devassas, que já o lançar-t'as em rosto, não seja nos zelosos falta de
    prudencia, senão obra de magua.»

    Depois, suspirou, e cheirou rapé.

    XII

    *O anjo custodio*

    Santa audacia! Bizarra indole de antigo cavalleiro, que abriga no peito
    a generosidade com que os heroes dos Lobeiras, Barros, e Moraes se
    lançavam ás aventurosas lides, no intento de corrigir vicios e
    indireitar as tortuosidades da humana maldade!

    Não desanimou Calisto Eloy, tão desabridamente rebatido por D. Catharina
    Sarmento.

    Averiguou quem fosse o galan d'aquella cega dama, e facilmente lh'o
    nomearam. Era um gentil moço, ouzeiro e vezeiro de similhantes baldas,
    enfatuado d'ellas, e respondendo por si com sabre ou florete, quando
    gente intromettida em vidas alheias lhe fallava á mão.

    O informador do morgado esplanou diffusamente as qualidades do sujeito,
    relatando as victimas, e os acutilados na defeza d'ellas.

    Occorreu á memoria de Calisto aquella apostolica e heroica intrepidez de
    fr. Bartholomeu dos Martyres, quando foi a defrontar-se com um criminoso
    e façanhudo balio, que promettia engulir o arcebispo de Braga, e o
    collegio dos cardeaes com o proprio papa, se necessario fosse! Grande
    coisa é ter lido os bons classicos, se desejamos saber a lingua
    portugueza, e crear alentos para atacar velhacos!

    Ahi vae o esforçado Calisto Eloy de Silos em demanda de D. Bruno de
    Mascarenhas. Um escudeiro annuncia ao fidalgo um ratazana.

    –Quem é um ratazana?–pergunta D. Bruno.

    É um sujeitorio, diz o criado, vestido ratonamente, e não diz o nome,
    porque v. ex.^a o não conhece.

    –Que quer elle?

    –Fallar com v. ex.^a

    Vae perguntar-lhe quem é, d'onde vem, e que quer.

    Interrogou o criado com máo semblante o morgado.

    Calisto escreveu n'uma pagina rasgada da carteira, e perguntou ao criado
    se sabia lêr. Disse que não o interrogado.

    –Pois entrega esse papel a s. ex.^a

    D. Bruno leu, meditou algum espaço, e perguntou:

    –Sabes se em casa do desembargador Sarmento ha algum criado chamado
    Custodio?

    –Não, senhor, não havia até hontem; só se entrou hoje.

    –Esse homem que ahi está dá ares de criado?

    –Não, senhor: é assim um jarreta vestido á antiga, com uma gravata que
    parece um colete.

    –Manda-o entrar para aqui.

    D. Bruno releu a linha escripta a lapis, e disse entre si:

    –Que Custodio é este!?

    N'isto, assomou Calisto Eloy.

    Bruno de Mascarenhas adiantou-se a recebel-o, e disse-lhe maravilhado.

    –Eu já tive a honra de comprimentar v. ex.^a no escriptorio da _Nação_.
    V. ex.^a é o sr. Calisto Eloy de Barbuda.

    –Sou, e agora me recordo que já tive o prazer de o encontrar…

    –Mas v. ex.^a n'este bilhete diz que é Custodio!–tornou Bruno.

    –Custodio, que é sinonymo de anjo-da-guarda, ou anjo-custodio da
    ex.^{ma} sr.^a D. Catharina Sarmento.

    Abriu o moço a bôcca, e disse:

    –Ah… agora é que eu entendi… Mas… queira v. ex.^a sentar-se… Eu
    não sei que allusão possa ser esta… que… a respeito de…

    Calisto sentou-se, estendeu o braço direito com a mão aberta, e atalhou
    o enleio de Bruno, dizendo solemnemente:

    –Vou fallar.

    E, apoz curta pausa, relanceou discretamente os olhos á porta, como quem
    receia ser ouvido.

    –Póde v. ex.^a fallar, que eu fecho a porta, disse o confuso
    Mascarenhas.

    –O sr. Bruno de Mascarenhas–proseguiu o morgado–é solteiro. Cedo ou
    tarde ha de ser casado, por que é varão de preclarissima linhagem, e
    duas forças invenciveis hão de compellil-o a propagar-se: o sentimento
    congenito da especie, e a gloria, que vangloria não é, da prosecução da
    raça.

    (Este exordio abrupto invencilhou os espiritos de D. Bruno, os quaes
    eram pouco entendidos em estylo garrafal.)

    Façamos de conta–proseguiu Calisto–que v. ex.^a é hoje, como será,
    volvidos mezes ou annos, casado com uma dama egual em sangue, de honrada
    fama, acatada do conceito geral, dama emfim, na qual v. ex.^a empregou
    suas complacencias todas. Á boa dita de esposo succede-lhe a
    prosperidade de pae. Vê v. ex.^a em redor de si umas alegres
    creancinhas, que o beijam e o furtam com graciosas blandicias ás graves
    cogitações dos negocios, e aos aborrimentos que salteam as existencias
    mais descuidadas e desprendidas. A mãe dos filhinhos de v. ex.^a é o
    cofre de oiro: as creanças são as joias inestimaveis que v. ex.^a lá
    encontrou e lá encerra.

    A mãe é a flôr, os filhos são o fructo. V. ex.^a arde de amores d'elles
    e d'ella. Por que a sua familia é não sómente a sua alegria domestica,
    senão que lhe é fóra de casa um pregão da honestidade e honra que vae
    n'ella.

    De repente, quando v. ex.^a está meditando nos jubilos da velhice, com
    seus filhos já homens, com sua esposa laureada pelas cans sem macula, de
    repente, digo, ha um amigo em lagrimas, ou um inimigo secretamente
    satisfeito, que, lhe diz: «Tua mulher deshonra-te; essas creanças, que
    tu affagas, e para quem estás multiplicando os teus haveres, podem não
    ser teus filhos, por que tua mulher prevaricou.» Pergunto eu ao ex.^{mo}
    Bruno de Mascarenhas: a sua agonia, n'essa hora de atroz revelação, como
    hão de expressal-a os que a não sentiram ainda?

    –Não sei…–respondeu Bruno–Só, no caso de se darem as circumstancias
    que v. ex.^a diz, é que se póde responder.

    –Todavia, o seu entendimento e coração, já antes da experiencia, podem
    antever qual deva ser a agonia do marido deshonrado pela ignominia de
    sua mulher…

    –Sim…

    –Até aqui a hypothese em v. ex.^a: agora o exemplo em Duarte de
    Malafaya, marido de D. Catharina Sarmento. Duarte era rico, e dos mais
    fidalgos; por excesso de amor casou com D. Catharina, filha de um
    nobilissimo cavalheiro, porém magistrado empobrecido pelos desconcertos
    da politica. Duarte entrou n'aquella casa, restaurou a decencia antiga,
    e encostou ao seio as cans do magistrado octogenario, assegurando-lhe o
    socego e contentamentos dos annos ultimos da vida.

    Decorridos cinco annos, Duarte tem cinco filhos. São anjos que descem a
    povoar o paraiso d'aquella ditosa familia. Brincam á volta de sua mãe, e
    como que lhe estão dando os alegres emboras da felicidade que elle está
    gosando, e lhe augura a elles.

    É n'este ensejo que o inferno se abre aos pés d'esta familia honrada e
    ditosa. Surge das tenebrosas agonias um homem que despedaça ás mãos os
    laços humanos e divinos da santa união do velho, da filha, do genro, e
    dos netos. Ora, o homem que os assaltou no seu eden, foi o sr. D. Bruno
    de Mascarenhas.

    –Eu!…–exclamou o moço com artificial espanto.

    –V. ex.^a. Vejo-o admirado, não sei se da minha affoitesa, se da
    responsabilidade que lhe pesa, sr. D. Bruno!

    –Mas que houve em casa do Sarmento?–perguntou alvoroçado o fidalgo.

    –O que eu antes de hontem vi foi a face do ancião lavada de lagrimas. O
    que eu vi hontem á noite foi Duarte de Malafaya fitar os olhos nas
    creancinhas, e escondel-os para que o não vissem chorar. O que hoje
    verei em casa do desembargador Sarmento, se v. ex.^a o não presagia…
    Não temos tempo para conjecturas: a chaga deve ser cauterisada já, para
    não ser gangrena ámanhã. Quer v. ex.^a ajudar-me a conjurar a nuvem
    negra que vae rasgar-se em torrentes de desgraças?

    D. Bruno reflectiu dois segundos, como se houvesse pejo de responder, no
    primeiro instante:

    –Da melhor vontade. Eu desisto d'estas relações, para evitar desgostos
    serios á sr.^a D. Catharina.

    –Falla-me um honrado portuguez, que tem o appellido dos Mascarenhas?
    perguntou com solemnidade o Barbuda.

    –Juro pela honra de meus avós.

    –Que vae fazer v. ex.^a?–tornou Calisto.

    –Antecipo um passeio que mais tarde tencionava fazer á Europa. Parto no
    paquete de ámanhã para França.

    –Sem dizer, nem fazer saber á sr.^a D. Catharina que esteve aqui um
    amigo do desembargador Sarmento…

    –Nada direi sr. Barbuda.

    –Aperto-lhe e beijo esta mão. Agradeço-lh'o em nome dos cinco filhos de
    Duarte de Malafaya, ou dos cinco anjos que lhe chamam pae.

    –E saíu com os olhos marejados.

    * * * * *

    D. Bruno cumpriu a promessa com tanta pontualidade como o faria um
    sujeito de menos fidalgos brios, se lhe dissessem: «Afasta-te, se não
    queres o encargo de amparar uma familia, cujo esteio estás quebrando.»

    É coisa que pouquissimo custa, em condições analogas, o ser pontual. Ás
    vezes, até se vinga fama de prudente e ajuizado.

    Como quer que fosse Calisto Eloy foi d'alli em direitura á poltrona do
    magistrado, e disse-lhe:

    –Cobre animo, amigo e senhor meu. O inimigo levantou o cerco. A
    maledicencia descaridosa, se não mudar de juizo, esquece-se.

    Seguiu-se a narrativa do acontecido, e as alegrias do ancião
    interpolladas de agradecidas lagrimas.

    XIII

    *Regeneração*

    Ó coração sensivel! ó peccadora Catharina, que vaes agora expiar o teu
    crime nas agonias da saudade! Aquelle Calisto, cuidando que te salvava,
    matou-te!

    Não foi tanto quanto diz a apostrophe; mas, de feito, Catharina, quando
    recebeu de Bruno de Mascarenhas uma carta saturada de sãs doutrinas e
    reflexões, como as faria S. Francisco de Salles a mad. du Chantal,
    entendeu de si para comsigo que devia morrer de despeito e raiva. O
    fugitivo escrevia-lhe pouco antes de embarcar-se. Não referia o dialogo
    com Calisto; dava porém como certa uma tempestade a prumo das cabeças
    d'elles delinquentes. «Irei, dizia elle, morrer longe da mulher que amo,
    para lhe não sacrificar os creditos e os filhos. Se souberes que eu
    morri, recompensa-me esta virtude rara, dizendo em tua consciencia que
    eu te amei, como já ninguem ama sobre a face da terra.»

    Depois, seguiam-se na carta os conselhos ajustados á felicidade da vida.
    Expunha as consequencias funestas das paixões. E terminava dizendo que
    as lagrimas o não deixavam continuar.

    Que dama resistiria, depois d'isto, á morte?

    Encerrou-se a filha do desembargador, no intento de providenciar em
    artigo de morte, e entrouxar para a eternidade.

    N'estas cogitações a surprehendeu a mana Adelaide, mostrando-lhe uma
    carta de um certo Vasco da Cunha, que escrevia desde muito, e
    honestamente a menina solteira, no proposito de casamento. Este Vasco,
    de boa linhagem, conhecia Bruno, e via com desprazer os amores da dama,
    que havia de ser sua cunhada. Eventualmente soubera elle do embarque do
    Mascarenhas. Pessoas que o viram a bordo, referiram-lhe que o sujeito,
    perguntado ácerca dos amores de Catharina Malafaya, respondera
    fatuamente que se ia escapando a um aguaceiro de escandalos, com que
    elle não queria brincar, por que a mulher, enthusiasta e apaixonada mais
    que o necessario, seria capaz de o fazer assumir as funcções de marido
    não canonico.

    Pouco mais ou menos, era d'aquella amavel contextura o periodo que D.
    Adelaide leu a sua irmã lagrimosa.

    D. Catharina levantou-se com fidalgos brios, chamou pelos filhos,
    abraçou-se n'elles, e disse á irmã:

    –Estou bem! Deus me perdoará, rogado por estes innocentes. Meu amado
    marido, como eu te quero hoje! como eu sinto o teu coração a consolar-me
    n'estes remorsos!…

    Ora, eu não tenho a caridade de crêr nos remorsos de D. Catharina; mas
    piamente acredito que a mulher se estava sentindo mais amiga do marido,
    fineza que elle devia agradecer-lhe com as suas mais melifluas caricias.

    E veiu logo a succeder que o esposo, surprehendido pela extremosa
    ternura da senhora, estranhou o caso, e requereu brandamente a
    explicação da improvisa mudança. Catharina, imaginosa como todas as
    pessoas que amam muito, explicou, entre alegre e lagrimante, que a final
    se convencera de que o seu Duarte a não trahia: suspeita de tanta força
    para ella, que podéra empeçonhar, com as serpes do ciume, a felicidade
    de duas almas, ligadas por paixão.

    Duarte ficou lisongeado e satisfeito. Seguiu-se confessar elle tambem as
    suas vagas desconfianças emquanto á lealdade da esposa. Aqui é que foi a
    scena, digna de mais conspicuo narrador. A offendida senhora pregou os
    olhos no firmamento de madeira, espreitou por elle o azul do empyreo,
    com a dupla vista que dá a angustia, e murmurou:

    –Céos! que injustiça!

    Era dôr que lhe encolhia os folipos das lagrimas. Não arranjou a chorar.
    Caíu de golpe na poltrona de mais capacidade e flacidez para quedas
    d'aquella natureza! e, tapando a face com as mãos alvissimas, balbuciou,
    desentallando-se dos suspiros:

    –Oh! que infeliz! que infeliz!

    Duarte inclinou-se com os labios ao colo de Catharina, e disse
    affectuosamente:

    –Perdoemos um ao outro. Estes ciumes reciprocos dizem que nos amavamos
    por egual.

    Não queria a magoada senhora perdoar; porém, como lhe faltasse fôlego de
    despejo para sustentar a scena, envergonhou-se de si mesma, e teve dó do
    marido, a quem ella, e pae, e irmã, deviam a decencia, estado,
    representação e sociabilidade com as primeiras familias de Lisboa.

    Instantes foram estes de consciencia rehabilitada, que poderam muito com
    ella no decurso da vida, e promettem ser-lhe amparo até ao fim.

    É-me pequeno o peito para o prazer que sinto, relatando este caso, que é
    unico dos meus apontamentos, em egualdade de circumstancias. Ainda ha
    gente boa e de muitissima virtude: isto é que é verdade.

    O fautor d'este successo, com que a gente se consola, foi, sem debate,
    Calisto Eloy, aquelle anjo!

    Com que delicias d'alma contemplava elle a restaurada ventura d'aquelles
    casados, e o jubilo do desembargador! E os agradecimentos do ancião, que
    bem lhe faziam ao peito honrado! E os affectos de Catharina, que de todo
    ignorava ter sido elle o agente do seu socego; porém muito lhe queria
    pelo tom grosseiro, mas paternal com que lhe admoestára a culpa!

    Afóra o desembargador, uma pessoa unica sabia que o morgado tinha sido o
    conciliador engenhoso da paz da familia: era Adelaide. Esta menina
    vivera receosa de que o seu Vasco, rapaz timbroso, a não quizesse
    esposar, fazendo-a cumplice dos desvios da irmã. Agora, já mais
    esperançada na realisação do casamento, via com olhos agradecidos o bom
    provinciano, e attendia-o com os disvelos de extremosa amiga. A isto a
    incitava o pae, que frequentes vezes lhe dizia:

    –Se este honrado fidalgo fosse solteiro, e podesses amal-o, filha, que
    prazer o nosso se…

    —Oh! papá…–atalhava quasi sempre a menina–pois eu havia de casar
    com elle?…

    –Por que não? Honra, riqueza, sciencia e nobreza… que mais querias
    tu, filha?–perguntava o pae.

    Adelaide sorria-se, e murmurava de si comsigo.

    –Ainda bem que elle é casado, senão eu tinha que vêr com a jarrêta da
    creatura!…

    No entanto, a reconhecida senhora, no auge da sua gratidão, jogava a
    sueca emparceirada com Calisto de Barbuda, e ensinou-lhe a jogar as
    damas, prenda em que o morgado revelou uma inhabilidade que excede todo
    o encarecimento.

    XIV

    *Tentação! Amor! Poesia!*

    Eis que, a subitas, do coração de Calisto resalta a primeira faisca de
    amor!

    Conheço que este desastre não se devia contar sem grandes prologos. Sei
    que o leitor ficou passado com esta noticia. Grita que a
    inverosimilhança é flagrante. Não póde de boamente consentir que se lhe
    desfigure a sisuda physionomia moral do marido de D. Theodora Figueirôa.
    Quer que se limpe da fronte d'este homem o stigma de um pensamento
    adultero. Honrados desejos!

    Mas eu não posso! Queria e não posso! Tenho aqui á minha beira o demonio
    da verdade, inseparavel do historiador sincero, o demonio da verdade que
    não censentiu ao sr. Alexandre Herculano dizer que Affonso Henriques viu
    coisas extraordinarias no céo do campo de Ourique, e a mim me não deixa
    dizer que Calisto Eloy não adulterou em pensamento! Estes são os ossos
    malditos do officio; esta é a condemnação dos infelizes artifices que
    edificam para a posteridade, e exploram nas cavernas do coração humano
    os cimentos da sua obra.

    Ai! Se Calisto Eloy foi de repente assalteado do dragão do amor, como
    hei de eu inventar preludios e antecedencias que a natureza não usou com
    elle!? Se o homem, espantado, a si mesmo se interrogava, e dizia: «isto
    que é?!» como hei de eu dizer ao leitor o que foi aquillo?!

    O que elle sabia e eu sei é que, estando Calisto de Barbuda a jogar a
    sueca de parceiro com Adelaide, a razão de cruzado novo a partida, a
    menina passou a sua bolsinha de filagrana para a mão do parceiro, e
    disse-lhe:

    –Administre-me o meu thesouro, sr. morgado. Tenho ahi o meu dote.

    –Pois sejam todos muito boas testemunhas da quantia que recebo da
    ex.^{ma} sr.^a D. Adelaide, minha senhora;–disse Calisto, esvasiando a
    bolsinha.

    Com as moedas de prata e oiro, que a bolsa continha, saíu um pequeno
    coração de oiro esmaltado com iniciaes.

    Ah!–acudiu Adelaide pressurosa–isto não!…–E retirou sofregamente o
    coraçãosinho.

    Algum dos circumstantes disse:

    –Então o sr. morgado não serve para administrar corações?!

    –Serve para os dominar com a sua bondade, e enchel-os de affectuosa
    estima–respondeu com adoravel graça a menina.

    Foi n'este instante que o morgado da Agra de Freimas sentiu no lado
    esquerdo do peito, entre a quarta e quinta costella, um calor de
    ventosa, acompanhado de vibrações electricas, e vaporações calidas, que
    lhe passaram á espinha dorsal, e d'aqui ao cerebêlo, e pouco depois, a
    toda a cabeça, purpureando-lhe as maçãs de ambas as faces com o rubor
    mais virginal.

    D'isto não deu tento Adelaide nem a outra gente.

    Duas enfermidades ha ahi, cujos symptomas não descobrem as pessoas
    inexpertas; uma é o amor, a outra é a tenia. Os symptomas do amor, em
    muitos individuos enfermos, confundem-se com os symptomas do idiotismo.
    É mister muito acume de vista e longa pratica para descriminal-os. Passa
    o mesmo com a tenia, lombriga por excellencia. O aspecto morbido das
    victimas d'aquelle parasita, que é para os intestinos baixos o que o
    amor é para os intestinos altos, confunde-se com os symptomas de graves
    achaques, desde o hidrotorax até á espinhela caída.

    E aqui está que Calisto Eloy–ia me esquecendo dizel-o–tambem sentiu a
    queda da espinhela, sensação esquisita de vacuo e despêgo, que a gente
    experimenta, uma pollegada e tres linhas acima do estomago, quando o
    amor ou o susto nos leva de assalto repentinamente.

    Sem embargo da concumitancia de tantas enfermidades, Calisto de Barbuda
    embaralhou as cartas, passou-as á esquerda, e jogou a primeira partida
    com tamanha incuria e desacerto, que Adelaide, no acto do pagamento da
    aposta observou ao parceiro que era preciso administrar com mais zelo o
    dote da sua amiga.

    E ajuntou:

    –V. ex.^a esteve a compor algum bello discurso para a camara…

    O morgado cacarejou um sorriso, e mais nada.

    Proseguiu o jogo. Calisto deu provas de supina bestidade em quatro
    partidas de sueca. Adelaide, dissimulando a má sombra do fastio com que
    estava jogando, aturou até ao fim a partida, com grande desfalque do seu
    peculio.

    Tinha-se feito uma atmosphera nova em redor dos pulmões de Calisto. A
    loquacidade, embrechada de sentenças e latinismos, com que elle
    costumava aligeirar as palestras dos eruditos amigos do desembargador,
    desamparou-o n'aquella noite. Isto causou extranhesa e cuidados ao
    amoravel Sarmento, que presava Calisto como a filho.

    A partida acabou taciturna e triste.

    Fechado em seu gabinete de estudo, o morgado da Agra, sentou-se á banca,
    apanhou entre dois dedos o beiço superior, e esteve assim meditabundo
    largo espaço. Depois, ergueu-se para dar largas ao coração que pulava, e
    andou passeando com desusada agilidade e aprumo de corpo. Parou diante
    da livraria, tirou d'entre os poetas classicos o dilecto Antonio
    Ferreira, sentou-se, abriu á sorte, e leu, declamando os dois quartetos
    do soneto V;

    Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
    Rosto, qu'entre nós ha, do mais divino
    Lume, mais branca neve, oiro mais fino,
    Mais doce fala, riso mais gracioso:

    D'um Angelico ar, de um amoroso
    Meneo, de um spirito peregrino
    S'acendeu em mim o fogo, de qu'indino
    Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

    Repetiu, fez pausa, suspirou, e declamou ainda o primeiro verso do
    terceto:

    Não cabe em mim tal bem-aventurança!

    N'isto, a imagem de sua prima e esposa D. Theodora Figueirôa, trazida
    alli por decreto do alto, antepoz-se-lhe aos olhos enleados na imagem de
    Adelaide. Calisto estremeceu de puro pejo de sua fraqueza, e lançou mão
    da ultima carta que recebêra de sua saudosa mulher. Resava assim,
    escripta por mão de uma filha do boticario de Caçarelhos, com
    orthographia mais imaginosa que a minha:

    «Meu amado Calisto. Cá soube pelo mestre-escóla que tens botado algumas
    fallas nas côrtes, e que tens muita sabedoria. O sr. abbade já cá veiu
    ler-me um pedaço do teu dito, e oxalá que seja para bem da religião.
    Olha se botas abaixo as decimas, que é o mais necessario. Aqui veiu um
    padre de Miranda para tu o despachares para abbade; e o regedor tambem
    quer que tu lhe arranjes um habito de Christo para elle, e uma pensão
    para a tia Josepha, que é viuva de um sargento de milicias de
    Mirandella. Assim que arranjares isso, manda para cá.

    Saberás que mandei trocar os bois barrosãos á feira dos onze, e comprei
    vaccas de cria. Os sevados não saíram de boa casta, e acho que será bom
    trocal-os na feira dos dezenove. A porca russa teve dez leitões hontem
    de madrugada. E, com isto, olha se isso lá acaba depressa, que eu ando
    por cá triste e acabrunhada de saudades. Na semana que passou andei mal
    das reins, e muito despegada do peito. Hoje vou vêr medir seis carros de
    centeio, que vão para a feira, por isso não te enfado mais. D'esta tua
    mulher muito amiga, _Theodora_.»

    Por mais que recolhesse o espirito vagabundo, Calisto não dava tento
    d'estes dizeres de Theodora, encantadores de simplicidade e boa
    governança de casa. Arrumou a carta, re-abriu o seu Antonio Ferreira, e
    leu no soneto XXXIII:

    Eu vi em vossos olhos novo lume,
    Qu'apartando dos meus a nevoa escura.
    Viram outra escondida fermosura,
    Fóra da sorte e do geral costume…

    Deitou-se por deshoras, e dormitou sobresaltado. Ante-manhã espertou com
    as alvoradas de uns pintassilgos e calhandras, que lhe cantavam
    amorosamente na alma. Eram as alegrias do primeiro amor, aquelles
    momentos de céo, visita dos anjos, que todo coração hospedou na
    infancia, na virilidade, ou já na decadencia na vida. Saíu alegre do
    leito, e leu algumas lyricas de Camões e Filintho Elysio.

    Nunca em sua vida poetára Calisto Eloy de Silos. O amor não lhe havia
    dado o beliscão suavissimo, que por vezes, abre torrentes de metro da
    veia ignorada. Eis que o corisco da inspiração lhe vulcanisa o peito.
    Levanta machinalmente a mão á fronte, como a palpar a excrescencia
    febril que todo o poeta apalpa no conflicto sublimado do estro.
    Senta-se: pega da penna, e o coração distilla por ella este fragmento de
    madrigal, que, a meu vêr, foi o ultimo que o sincero amor suggeriu em
    peito portuguez:

    Senhora de grão primor,
    Meu amor,
    Formosissima deidade,
    Arde meu peito em saudade,
    Quem fui hontem, não sou hoje;
    Minha alegria me foge,
    Se vos olho.
    Já captivo em vós me acôlho,
    Havei de mim piedade;
    Sêde minha divindade;
    Não leveis a mal que eu chore
    Com tanto que vos adore
    Gentil e nobre menina
    Como Camões a Cath'rina
    E como Ovidio a Corinna.

    Posto isto, o morgado da Agra relanceou os olhos com desdem para o
    taboleiro do almoço, e com muita repugnancia, consentiu ao appetite que
    se desejuasse com uma linguiça assada, almoço que elle alternava com um
    salpicão frito.

    Depois quando se estava vestindo, olhou para a casaca de briche e para
    as pantalonas apolainadas, e teve engulho d'esta fatiota. Vestiu-se,
    saíu apressado, entrou no estabelecimento do sr. Nunes na rua dos
    Algibebes. Aqui o vestiram o mais desgraciosamente que puderam, com um
    farto paletó de panno côr de rato, e umas calças, de xadrez cinzento, e
    colete azul, de rebuço, com botões de coralinas falsas. No Chiado
    abjurou um chapéo de molas de merino, e comprou outro de castor, á
    ingleza. Cumpria-lhe vestir as primeiras luvas de sua vida. No vestil-as
    arrostou com difficuldades, que venceu, rompendo a primeira luva de meio
    a meio. Disse-lhe a luveira que não introduzisse os cinco dedos ao mesmo
    tempo, e ajudou o na ardua empreza.

    Dois mancebos galhofeiros, que estavam na loja, riram indelicadamente da
    inexperiencia do sujeito desconhecido. Um d'elles, confiado na inepcia
    tolerante do provinciano, ou supposto brazileiro, disse, a meia voz, ao
    outro:

    –Quatro pés nunca vestiram luvas.

    Calisto encarou n'elles com sorriso minacissimo, e disse á luveira:

    –As luvas são boa coisa para a gente não dar bofetadas com as mãos.

    Os joviaes sujeitos olharam-se com ar consultivo, sobre o despique digno
    da affronta, e tacitamente concordaram em se irem embora.

    Ao meio dia, entrou o morgado na camara, e fez sensação. As calças de
    xadrez eram uma das grandes desgraças, que a providencia, por intermedio
    do sr. Nunes aljubêta mandára a este mundo. Como se a substancia não
    fosse já um crime de leso gosto e lesa seriedade; ainda por cima as
    pernas caíam sobre as botas em feitio de boca de sino.

    A camara afogou o riso, salvo o dr. Liborio do Porto, que tirou de
    dentro esta facecia puchada á fieira do costumado estylo:

    –Guapamente intrajado vem mestre Calisto! Faz-se mister saber que rolos
    de pragmaticas lhe impendem entre as botinas e as pantalonas. Certo, que
    o urso se pule e lustra. Bom seria que o cerebro se lhe vestisse de
    roupagens novas e hodiernos afeites!…

    Foram festejados estes apódos pelos tolos mais convisinhos do dr.
    Liborio.

    Calisto houve noticia da zombaria do doutor: a intriga politica não
    perdeu lanço de acirrar o morgado contra Liborio, que era governamental.

    N'esta sessão fôra dada ao deputado portuense a palavra, na discussão de
    uma proposta de lei sobre cadeias. O morgado, assim que lh'o disseram,
    aguardou opportunidade de desforrar-se da chacota.

    Ai da patria, quando os talentos parlamentares se incanzinam n'estas
    pugnas inglorias!

    XV

    *Ecce iterum Crispinus…*

    Corrido um quarto de hora, fez-se na camara o silencio da subterranea
    Pompea. É que o dr. Liborio ia fallar.

    –Sr. presidente, e senhores deputados da nação portugueza!–disse
    elle–_Vem-nos agora sob a mão assumpto, até aqui pretermittido_.[14]
    Pelo que toca e friza com cadeias patrias, direi os cinco stygmas que um
    estylista de folego esculpiu nos frontaes d'esses antros:

    INJUSTIÇA!

    IMMORALIDADE!

    IMMUNDICIE!

    INSULTO!

    INFERNO!

    Inferno, sr. presidente, inferno dantesco, inferno theologico em que ha
    o ranger de dentes, _stridor dentium_!

    Que é da civilisação d'esta miserrima e tão coitada terra? Quem nos
    lampeja verdade n'esta escureza em que nos estorcemos? Ai! _A verdade
    ainda não matiza de rosicler a alvorada do novo dia_. As idéas entre nós
    estão como _flores palpitantes no gomo nascente_. Eu me esquivo, sr.
    presidente, _o lavor de historiar as successivas phases que tem
    percorrido os methodos do aprisoamento_. Urge primeiro pregoar a brados
    que se faz mister funda cauterisação na lei. O direito não se estudou
    ainda em Portugal. Pois que é o direito? _No seu todo synthetico e como
    corpo doutrinal, o direito é a sciencia da condicionalidade ao fim do
    homem_. Consoante vige e viça o nosso direito de punir, sr. presidente,
    _o juiz é o delegado de Deus, o carrasco o substituto do anjo S.
    Miguel_.[15]

    Calisto Eloy pediu a palavra. O orador proseguiu:

    –Sr. presidente, n'este paiz não se attende ás bossas. Os legisladores
    não estudam o crime com o compasso sobre um craneo esbrugado. _Se fordes
    a Windsor Castle e vos metterdes de gôrra com os guardas que mostram o
    castello, ouvireis que um dos filhos da rainha tem uma irresistivel
    tendencia para a rapina: é uma pêga humana_. Uma pêga humana,
    rapacissima, a mais não! Sr. presidente, _do nosso rei D. Miguel se
    conta, que já mancebo saodo da puericia, se entretinha a maltratar
    animaes, chegando um dia a ser encontrado arrancando as tripas a uma
    gallinha viva com um sacarolhas_.[16]

    –_Vozes_: Á ordem! Á ordem!

    –_O orador_: Pois em que me transviei da ordem?

    –_Uma voz_: Não se diz no seio da representação nacional: _o nosso rei
    D. Miguel_.

    –_O orador_: Eu referi o caso com as expressões em que o acho narrado
    n'um livro mirifico e sobre-excellente do sr. dr. Ayres de Gouveia.

    –_Uma voz_: Pois não faça obra por inepcias do dr. Ayres de Gouveia.

    –_O orador_: Retiro a dessoante phrase, que impensada destilei do
    labio, e ao ponto me revêrto. Sem a sciencia de Porta e de Blumenbache
    toda a penalidade saírá vêsga, bestial, e infernalissima. É natural, sr.
    presidente, que o sentimento se corrompa, assim como o _calculo se
    empedra, e arraiga o cancro nas entranhas, e o coração se ossifica, e o
    hydrocephalo se gera, ainda nos mais solicitos em hygiene_:

    Posto isto, sr. presidente, cumpre dividir os sexos, pelo que diz
    respeito ao calibre do castigo. Eu citarei com quanta emphase me cabe
    n'alma, algumas linhas do jovem explendido de verbo, que auspicia e
    promette o primeiro criminalista d'esta terra. Fallo de Ayres de
    Gouveia, e n'elle me estribo. O douto viajeiro diz: «O individuo, para
    quem a lei legisla, e a quem tem em vista, é o homem (_vir_), não a
    mulher (_mulier_), desde os vinte e um annos, ou época do predominio
    racional, até aos sessenta, ou principio do periodo debilitante, no
    estado generico, ou que constitue a generalidade de ser homem, não
    descendo sequer ás gradações principaes, que tornam o _homo_ homem, o
    genero especie.»[17]

    É certo, sr. presidente, que _a femina toca o requinte da depravação, e
    chega a effeituar horrores cuja narração é de si para gelar ardencias de
    sangue, para infundir pavor em peitos equanimes_, porem, o mobil dos
    crimes seus d'ellas é outro: _as faculdades da mulher agitam-se
    perturbadas; é um periodo de evolução_, e não ha ahi _arcar com
    evidencia_.

    Que farte me hei despendido em razões que superabundam no caso em que me
    empenho, de parçaria com Victor Hugo, e com quejandas lumieiras que
    esplendem na vanguarda d'esta caravana da humanidade, que se vae
    demandando a Meca da perfectibilidade. Faça-se a lei, restaure-se a
    justiça, e depois crie-se a penitencia, regimente-se o criminoso
    _aprisoado_! Aos que já metteram rêlha e adubo no torrão do novo
    plantio, d'aqui me desentranho _em louvores e muitos e francos e
    perennes_.

    Sr. presidente! Em quanto a cadeias, estamos no mesmo _pé de idéas da
    inquisição_! Que esterquilinios! que protervia! Eu quero, com o dr.
    Ayres, que _todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave rosto
    e mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello da cabeça cortado á
    escovinha_. Eu quero, com o doutor supracitado, que elle não fume, nem
    beba bebida fermentada. _Água em abundancia_, e mais nada potavel. Não
    quero que os presos se conversem, porque, no dizer do insigue patricio
    meu, e abalisado humanista, _das cadeias saem delineamentos de assaltos,
    e assassinatos de homens que sabem ricos_.

    _Lastimado isto_, sr. presidente, um preso descomedido entre os de mais,
    _é qual febricitante despedido do leito que como setta voada do arco,
    exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_.

    Eu quero que o preso funcionne intellectivamente, e de lavores corporaes
    se não desquite. O homem sem instrucção _obra instinctivamente, obra
    egoistamente, obra septicamente_, se lhe escaceia religião. Ao preso
    _lide-lhe a mão na tarefa, sim; mas lide-lhe tambem a cabeça na idéa_.
    _Inclinando rasoamento_ para isto, em todas as cadeias europeas lustram
    sciencias, pulem saber, e se amenisam instinctos. Veja-se o que diz o
    nunca de sobra invocado Ayres, honra e joia da cidade de Sá de Menezes,
    d'Andrade Caminha, de Garrett, cidade onde me eu rejubilo de haver
    vagido nas faixas infantis. É mister que se entranhe o sacerdote no
    cancro das masmorras; mas o sacerdote _atilado de engenho e todo
    impeccavel de costumes_; e não padres cuja _uncção sacrosanta se lhes
    convertesse no corpo em lascivos amavíos_. Quem sabe ahi _joeirar o
    optimo para capellães de prisões_?

    Depois quer-se _um director, olho e norma_. _E tão boas partes se lhes
    requerem, que ainda scismando talhal-o um composto de virtudes, o não
    viriamos delinear senão escorço_.

    Deu a hora, sr. presidente. A materia é tal e tão rica, e para tamanho
    cavar n'ella, que se me confrange alma de lhe não dar largas. Aqui me
    fico, e do imo peito espido brado de louvor, que louvaminha não é, ao
    illustre membro d'esta camara que mandou para a mesa a proposta da
    reformação das cadeias. Bençãos lhe chovam, que assim, com valida mão,
    emborca a froixo urnas de balsamos sobre a esqualidez da mais ascosa
    ulcera da humanidade. (Prolongados applausos. _O orador foi
    comprimentado por pessoas graves, que tinham estado a rir-se_.)

    Calisto Eloy contemplou-o com a fixidez de medico, que estuda os
    symptomas da demencia nos olhos do enfermo. Depois, voltando-se contra o
    abbade de Estevães, disse:

    –Eu queria ver como este dr. Liborio tem a cabeça por dentro.

    E rythmando o compasso com os dedos na tampa da caixa declamou:

    Quantos folgam fallar a prisca lingua
    Qual Egas, qual fallou, Fuas Roupinho,
    Qual esse conde antigo, que levára
    A villa de Condeixa por compadre!
    Mas como a fallam? Põem sua méestria
    Em palavras sediças, termos velhos
    Termos de saibo e mofo, que arrepiam
    Os cabellos da gente…
    Que dizes d'isto?
    Como chamas a estes?…..
    Que eu não acerto a dar-lhe um nome proprio.
    Que bem quadre a tão rancidos guedelhas?
    Quando estas coisas desvairadas vejo
    Dão-me engulhos de riso, ou já bocejos,
    Como arrepiques certos de gran fome![18]

    XVI

    *Quantum mutatus!…*

    Á noite, no salão do desembargador Sarmento, soube-se que o morgado da
    Agra havia de orar no dia seguinte. Entre as pessoas alvoraçadas com a
    noticia, a mais empenhada em ouvil-o era D. Adelaide. Ao encontro de
    Calisto Eloy saiu ella pedindo-lhe com requebrada doçura, tres entradas
    na galeria das senhoras, para ella, irmã e pae.

    –Já sou considerado senhora, amigo Barbuda!–ajuntou o velho–São as
    tristes honras da ancianidade!… E lá vou, lá vamos ouvil-o. Ha seis
    mezes que não saí de casa, nem saíria para ouvir o proprio Berryer ou
    Montalembert.

    –Beijo-lhe as mãos pela cortezia, meu benigno amigo–disse Calisto;
    porém olhe que ha de chorar o tempo malbaratado. Eu não vou discorrer,
    nem cogitei ainda no que direi. Pedi a palavra, quando uma brava sandice
    me esfusiou nos tympanos, e estorcegou os nervos. Soou-me lá que o
    carrasco estava substituindo o anjo S. Miguel!… Ó meu caro
    desembargador, eu entro a desconfiar que a besta do apocalipse já tem
    tres pés bem ferrados no parlamento! Quando lá metter o quarto pé, a
    gente escorreita é posta fóra da sala a couces. Peço a vv. ex.^{as}
    perdão do pleismo do termo–disse Calisto voltando-se para as damas, que
    estavam examinando com espanto as transfiguradas vestes do morgado.–A
    boa policia, continuou elle, perde-se com a paciencia. Hei grão medo de
    volver-me ás minhas serras mais rudo do que vim.

    –Está-se desmentindo v. ex.^a–acudiu D. Catharina graciosamente–com
    os trages cidadãos que apresenta hoje! Cuidavamos que havia jurado nunca
    reformar a sua _toilette_ de 1820!

    Calisto sorriu contrafeito, e sentiu-se algum tanto molestado no seu
    pundonor e seriedade. Como a causa da mudança do vestido era pouco menos
    de irrisoria, o homem foi logo castigado pela propria consciencia. A si
    lhe quiz parecer que era já ante si proprio, outro sujeito, e que os
    estranhos lhe liam no rosto o desaire inquietador. Então lhe foi
    desabafo o coração. Soccorreu-se d'elle para contradizer as reprimendas
    do juizo; e o coração, coadjuvado pelas maneiras e ditos affectuosos de
    Adelaide despontara as ferroadas do juizo.

    Os visitantes habituaes do desembargador e as senhoras da casa notaram
    certa mudança nos modos e linguagem de Calisto. Dir-se-ia que o paletó e
    as pantalonas lhe tolhiam a liberdade dos movimentos, e aquella assim
    rude, que sympathica espontaneidade da expressão.

    Authorisados philosophos e christãos disseram que o vestido actua
    imperiosamente sobre o moral do individuo. Nas paginas immorredouras de
    fr. Luiz de Sousa está confirmado isto. «É nossa natureza muito amiga de
    si (diz o historiador do santo arcebispo) e experiencia nos ensina que
    não ha nenhuma tão mortificada, que deixe de mostrar algum alvoroço para
    uma peça de vestido novo. Alegra e estima-se ou seja pela novidade ou
    pela honra, e gasalhado que recebe o corpo. Até os pensamentos e as
    esperanças renova um vestido novo.»[19]

    O adoravel dominicano, pelo que diz da alegria que influe no animo um
    vestido em folha, enganou-se a respeito de Calisto Eloy. O homem dava ar
    de quebranto e melancholia, salvo se o jubilo se lhe introvertera ao
    coração. Creio que era isto. Era o amor abscondito a magoal-o docemente.
    E a não ser o amor, o que poderia ser senão as calças de xadrez? De
    feito, o amor quando é serio, põe ás canhas o mais pespontado espirito,
    e o mais mazorral tambem. O amoroso de grande loquella, volve-se
    parvoinho em presença da sua amada; o sandeu tem inspirações e raptos,
    que seriam influxo do céo, se não soubessemos, que o demonio tentador
    costuma incubar-se e parvoejar eloquentemente no corpo d'estes palermas.

    Calisto Eloy pagou o tributo dos espiritos esclarecidos. Umas eloquentes
    simplezas, com que elle costumava alegrar o auditorio; as maximas
    joviaes de Supico e outras com que elle intermeava a conversação; as
    gargalhadas provincianas, as liberdades desmaliciosas, o ar de familia
    com que elle se fazia bem-querer e desculpar de alguma demasia menos
    urbana do que permitte a convenção das salas: tudo isto, que lhe ia tão
    bem ao morgado, se demudou em recolhimento cogitativo, sombra triste e
    acanhada parvolez.

    N'esta noite, concorreu á partida do desembargador aquelle Vasco da
    Cunha, galanteador de Adelaide, mancebo bem composto de sua pessoa,
    sisudo, e muito catholico. Este fidalgo, representante dos melhores
    Cunhas, mencionados na «Historia Genealogica da Casa Real» e no
    «Villas-boas» além do brilho herdado, estava-se gosando de lustre
    propriamente seu, figurando sempre nos annuncios pios em que os fieis
    eram convidados a assistir a tal festividade religiosa, ou convocando
    assembléas de irmandades, para o fim de consultas attinentes á maior
    pompa do culto divino. Dito isto, dispensa o leitor que se annumerem
    outras virtudes a facto só por si tão significativo. As outras virtudes
    hão de vir apparecendo naturalmente.

    Alguem disse a Calisto Eloy que o circumspecto Vasco da Cunha não era
    estranho ao coração de Adelaide. Esta nova sobresaltou o peito do
    morgado, sem comtudo, lhe innevoar os olhos do discreto juizo, a ponto
    de se dar em espectaculo de risivel ciume. Reparou no porte de ambos; e
    tão graves e cerimoniosos os viu durante a partida, que não achou razão
    para os crer enamorados bem que, n'esta noite, Adelaide jogasse o
    voltarete com Vasco da Cunha, e seu cunhado Duarte Malafaya.

    Ás onze horas, Calisto Eloy retirou-se taciturno e contristado.

    A só com a sua consciencia, e debaixo do olhar severo dos seus livros, o
    marido de D. Theodora Figueirôa reflectiu conturbado na transformação do
    seu modo de viver e sentir. Gritou-lhe a razão que fizesse pé atraz no
    caminho que o levava á ladeira de algum abysmo, ou ás fauces
    voracissimas do amor que tão illustres victimas tinha ingulido. A
    memoria, alliada da razão, abriu-lhe os fastos desgraçados do coração
    humano, desde o perdimento de Troia até á extincção do imperio godo nas
    Hespanhas. Viu desfilarem, uma por uma, todas as mulheres fataes, desde
    Dalila até Florinda, a forçada do conde Julião; e, no couce de todas, a
    phantasia febril da insomnia afigurou-lhe Adelaide.

    Aos quarenta e quatro annos a razão póde muito, se o coração já está
    enervado e enfraquecido de luctas e quedas; todavia, a razão dos
    quarenta e quatro annos é ainda frouxa e transigente, se o coração
    começa a amar tão a deshoras. Não se calculam as miserias e parvoiçadas
    d'esta serodia mocidade!

    Não obstante, Calisto, pouco antes de adormecer por volta das quatro da
    manhã, protestára esquecer Adelaide, perguntando a si proprio se seria
    crime amal-a como os paladinos dos tempos heroicos amaram incognitamente
    grandes damas, sem mais logro de seus amores que adorarem-n'as? Com isto
    queria elle responder á imagem plangente de Theodora, que o estava
    arguindo.

    Pobre senhora! àquella hora já ella andaria a pé, a moirejar pela
    cosinha, a fim de mandar almoçados para a lavoura os servos, e cuidar
    dos leitões.

    Ai! maridos, maridos! Quando a Providencia vos enviar mulheres d'este
    raro cunho, encostae a face ao regaço d'ellas, e não queiraes saber como
    é que o inimigo de Deus enfeita as suas cumplices na perdição da
    humanidade!

    XVII

    *In Liborium*

    Estavam cheias as galerias da camara.

    Entre as mais formosas, extremava-se a filha do desembargador Sarmento.
    A pedido de Calisto Eloy, fôra o abbade de Estevães levar as entradas ao
    magistrado, e offerecer-se a conduzir as senhoras á galeria.

    O vistoso coreto das damas exornavam-n'o, talvez mais que a formosura,
    algumas senhoras doutas enfrascadas em politica, amoraveis Cormenins,
    que aquilatavam o merito dos oradores com incontrastavel rectidão de
    juizo e apurado gosto. Lisboa tem dezenas d'estas senhoras Cormenins.

    Não dírei que o renome de Calisto attrahisse as damas illustradas: era
    grande parte n'este concurso femeal a esperança de rirem. A nomeada do
    provinciano, bem que favorecida quanto a dotes intellectuaes, cobrára
    fama de coisa extravagante e impropria d'esta geração.

    Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fôra
    vestir-se de calça mais cordata em côr e feitio. Não me acoimem de
    archivista de insignificancias. Este pormenor das calças prende mui
    intimamente com o cataclismo que passa no coração de Barbuda. Aquella
    alma vae-se transformando á proporção da roupa. Assim como o leitor, á
    medida que o amor lhe fosse avassalando o peito, escreveria paginas
    intimas, ou ainda peor, cartas corruptoras á mulher querida, Calisto, em
    vez d'isso, muda de calças.

    As damas, que o esperavam vestido conforme a fama lh'o pintára,
    desgostaram-se de vêl-o trajado no vulgar desgracioso, do commum dos
    representantes do paiz.

    Apenas Calisto Eloy se assentou, entrou-se na ordem do dia, e logo o
    presidente lhe deu a palavra.

    Cessou o reboliço e fallario d'aquella feira veneranda, assim que o
    deputado por Miranda, começou d'este theor:

    –Sr. presidente! Muito ha que se foi d'este mundo o unico sujeito, de
    que me eu lembro, capaz de entender o sr. dr. Liborio, e capaz de fallar
    portuguez digno de s. ex.^a. Era o chorado defuncto um personagem que
    foi uma vez consultar o dr. Manuel Mendes Enchundia, ácerca d'aquella
    famigerada casa que elle tinha na ilha do Pico, com um passadiço para o
    Baltico. V. ex.^a e a camara, podem refrescar a memoria, lendo aquelle
    pedaço de estylo, que presagiou estas farfalharias de hoje.

    Sr. presidente, a mim faz-me tristeza contemplar a ribaldaria, com que
    os belfurinheiros de missangas e lantejoulas adornam a lingua de Camões,
    despojando-a dos seus adereços diamantinos. A pobresinha, trajada por
    mãos de gente ignara, anda por aqui a negacear-nos o riso como moura do
    auto, ou anjo de procissão de aldeia. Se acerta de lhe pagarem os
    farrapinhos broslados de folha de Flandres em algum silvedo, a mesquinha
    fica núa, e nós a córarmos de vergonha por amor d'ella.

    É forçoso, sr. presidente, que a linguagem castiça vá com a patria a
    pique?

    Á hora final da terra de D. Manuel, não haverá quem lavre um protesto em
    portuguez de João Pinto Ribeiro, contra os Iskariotas, Juliões,
    Vasconcellos e Mouras, que nos vendem?

    _Vozes_: Á ordem!

    _O orador_: É contra o regimento d'esta casa, repetir o que está dito na
    historia, sr. presidente?

    _O presidente_: Sem offensa de particulares.

    _O orador_: Authorisa-me portanto, v. ex.^a a crer que n'esta casa está
    Iskariotas, e o bispo Julião, e Miguel de Vasconcelos, e…

    _Vozes_: Á ordem!

    _O orador_: Pois então eu calo-me, se offendo estes personagens a quem
    me não apresentaram, ainda bem! As minhas intenções são inoffensivas, no
    entanto, desconsola-me a camaradagem. Se eu soubesse que estava aqui
    similhante gente, não vinha cá, palavra de homem de bem!

    _O dr. Liborio_: Mais prestimoso fôra ao cosmos, se o sr. Calisto
    estanceasse no agro do seu covil a lidar com a fereza dos javalis.

    _O orador_: Não percebi o dito bordalengo: faça favor de explicar-se.

    _O dr. Liborio_: Já disse que não desço.

    _O orador_: Se não desce, cairá de mais alto. Refiro a v. ex.^a a fabula
    da aguia e do kágado, na linguagem lidima e chan de D. Francisco Manuel
    de Mello. É o _Relogio da Aldeia_, que falla no dialogo dos _Relogios
    fallantes_: «…Lembra-me agora o que vi succeder a um kágado com uma
    aguia, lá em certa lagoa da minha aldeia: veiu a aguia, e de repente o
    levantou nas unhas, não com pequena inveja das rãs, e de outros kágados,
    que o viam ir subindo, vendo-se elles ficar tão inferiores a seu
    parceiro. Julgavam por gran fortuna que um animal tão para pouco, fosse
    assim sublimado á vista de seus eguaes. Quando n'isto, eis que vemos
    que, retirada a aguia com sua presa a uma serra, não fazia mais que
    levantar o triste animal, e deixal-o cair nas pedras vivas, até que
    quebrando-lhe as conchas com que se defendia…» não me lembra bem se D.
    Francisco Manuel diz que a aguia lhe comeu o miolo.

    Se o sybillino collega figura na moralidade d'este conto, offerece-se-me
    cuidar que não é a aguia.

    (_Pausa do orador: riso das galerias_.)

    Sabido, pois, sr. presidente, que as citações historicas fazem
    repugnancias ao regimento e á ordem, abjuro e exorciso os demonios
    incubos e succubos da historia, pelo que rogo a v. ex.^a muito rogado
    que me descoime de desordeiro.

    Direi de Quintiliano, se este nome não desconcerta a ordem. Trata-se de
    oradores, e de estylos viciosos. Diz este mestre dos rethoricos que «ha
    um natural prazer em escutar qualquer que falla, ainda que seja um
    pedante, e d'aqui aquelles circulos que a cada hora vemos nas praças á
    roda dos charlatães» N'esta nossa edade, Quintiliano redivivo diria:
    «nas praças e nos parlamentos.»

    _Vozes_: Á ordem?

    _O orador_: Pois tambem Quintiliano?!

    Bem me quer parecer que rarissimas vezes o admittem aqui a elle!…

    _O presidente_: Lembro ao nobre deputado, que a camara não é aula de
    rethorica.

    _O orador_: Assim devo presumil-o, vendo que todos a professam com
    dignidade, exceptuado eu, que me não desdoiro, em confessar que sou o
    discipulo unico e máo de tantos mestres. Eu direi a v. ex.^a qual
    eloquencia considero necessaria n'esta casa da nação: é a eloquencia que
    a nação entenda. A arte de bem fallar, _ars béne dicendi_, é o estudo da
    clareza no exprimir a idéa. Os affectos, as galas da linguagem, que lhe
    tolhem o mostrar-se e dar-se a conhecer dos rudos, não é arte, é
    tramoya, não é luz, é escuridade. Os meus constituintes mandaram-me aqui
    fallar das necessidades d'elles em termos taes que por elles v. ex.^a e
    a camara lh'as conheçam, ponderem, e remedeiem.

    Sou da velha clientela de Quintiliano, sr. presidente. Com elle entendo
    que por de mais se enganam aquelles que alcunham de popular o estylo
    vicioso e corrupto, qual é o saltitante, o agudo, o inchado, e o pueril,
    que o mestre denomina _proedulce dicendi genus_, todo affectação
    menineira de florinhas, broslados de pechisbeque, recamos de fitas como
    em bandeirolas de arraial.

    Eis-me já de força inclinado á substancia do discurso do sr. dr.
    Liborio. Primeiro me cumpre declarar que não sei pelo claro a quem me
    dirijo. Ha dias me regalei de ler o succoso livro de um doutor grande
    lettrado que escreveu da _Reforma das Cadeias_. Achei-o lusitanissimo na
    palavra; mas hebraico na locução. Tem elle de bom e singular que tanto
    se percebe lendo-o da esquerda para a direita como da direita para a
    esquerda. Soou-me que o sr. dr. Liborio, amador do que é bom, se
    identificára com o livro, e aformosentára o seu discurso com muitas
    louçainhas d'aquelle thesouro.

    Não sei, pois, se me debato com o sr. dr. Ayres, se com o sr. dr.
    Liborio. _Se me debato_, desavisadamente disse! O discurso não dá péga a
    debates que não sejam philologicos. Estes não vem aqui de molde.
    Rethorica, grammatica e logica, se alguem quizer tratal-a n'este predio,
    entretenha-se lá em baixo no pateo com o porteiro, ou com as viuvas e
    orphãos, que pedem pão com a logica da desgraça, e com a rethorica das
    lagrimas: grammatica não sei eu se a fome a respeita: parece-me que não,
    por que na representação nacional ha famintos que a não exercitam
    primorosamente. (_Murmurio e agitação na direita. Applausos na galeria.
    Um «bravo» estridulo do desembargador Sarmento. Um cautelleiro dá palmas
    na galeria popular. A tolice é contagiosa. O presidente sacode a
    campainha. Restabelece-se o silencio. Calisto Eloy tabaqueia da caixa do
    radioso abbade de Estevães_.)

    _O presidente_: Relembro, já com magoa, ao sr. deputado que se abstenha
    de divagações alheias do debate.

    _O orador_: De maneira, sr. presidente, que v. ex.^a quer á fina força,
    subjugar as minhas pobres idéas em _aprisoamento_, como disse
    gentilmente o illustre collega!

    Pois assim sou esbulhado de um sacratissimo direito? É então certo, como
    disse o sr. dr. Liborio, que não ha direito em Portugal? V. ex.^a sem o
    querer, está sendo, na phrase ingrata do illustre deputado, o
    _substituto do anjo S. Miguel_! (_Riso_) Oh! V. ex.^a não será algoz do
    pensamento, já de si tão intanguido que não é mister matal-o: basta
    deixal-o morrer… Callar-me-hei, se estou magoando v. ex.^a.

    _Vozes_: Falle! falle!

    _O orador_: O illustre collega referiu o que vem contado no livro do sr.
    dr. Ayres de Gouveia: _que o nosso rei D. Miguel já mancebo, saido da
    puericia se entretinha a maltratar animaes, chegando um dia a ser
    encontrado, arrancando as tripas a uma gallinha com um sacarolhas_. É
    pasmoso, sr. presidente, que os dois doutores, protestando pela
    legitimidade do seu rei, um no livro, outro no discurso, refiram a
    sanguinaria historia do sacarolhas nos intestinos da deploravel
    gallinha! Eu suei quando ouvi este canibalismo, suei de afflicção, sr.
    presidente, figurando-me o desgosto da ave!

    Protesto, sr. presidente, protesto contra a suja aleivosia cuspida na
    sombra de um principe ausente, indefeso e respeitavel como todos os
    desgraçados. Que historia villã é esta? Quem contou ao sr. dr. Ayres o
    caso infando do sacarolhas nas tripas da gallinha?! Em que soalheiro de
    antigos lacaios de Queluz ou Alfeite ouviram os refundidores da justiça
    estas anedoctas hediondas, e mais torpes no squalôr de recontal-as?

    E, depois, sr. presidente, que me diz v. ex.^a e a camara áquelle filho
    da rainha da Grã-Bretanha, que é um rapinante: _uma pêga humana_! Que
    musa de tamancos! _uma pêga humana_! Que imagem! que allegoria tão
    ignobil, e extractado do vocabulario da ralé!…

    Em desconto d'estas repugnantes noticias, fez-nos o sr. doutor o bom
    serviço de nos dizer que homem em latim é _vir_, e mulher é _mulier_, e
    que, em alguns casos, _homo_ tambem é homem. Ficamos inteirados e
    agradecidos. Uma lição de linguagens latinas para nos advertir que a lei
    não legisla para a mulher!… Teremos ainda de assistir á repetição do
    concilio em que havemos de averiguar se a mulher é da especie humana? Se
    os srs. drs. Ayres ou Liborio, alguma vez, dirigirem os negocios
    judiciarios e ecclesiasticos em Portugal, receio que os legisladores
    excluam a mulher das penas codificadas, e que os bispos lusitanos as
    excluam da especie humana!… E peior será se algum d'estes ministros,
    no intento de punil-as, as classificam nas aves, e nomeadamente nas
    gallinhas! O horror dos sacarolhas, sr. presidente, não me desaperta o
    animo!

    Porque não ha de ser castigada a mulher por egual com o homem? Resposta
    séria á pergunta que tresanda a paradoxo: «Porque, no delicto, as
    faculdades da mulher agitam-se perturbadas; é um periodo de evolução.» A
    mulher, que mata, por ciume é que mata; a mulher, que propina venenos,
    por ciume é que despedaça as entranhas da victima. Isto é crime, ao que
    parece; crime, porém, de _faculdades que se agitam perturbadas, e
    periodo de evolução_. Se o termo fosse parlamentar, eu diria
    _farelório_!

    Quem ha de enristar armas de argumentação contra estes odres de vento?

    O que eu melhor entendi, graças á linguagem correntia e pedestre da
    arenga, foi que o illustre collega, avençado com o sr. dr. Ayres, querem
    _que todo o preso seja de todo barbeado semanalmente, lave o rosto e
    mãos duas vezes por dia, e tenha o cabello cortado á escovinha, e beba
    agua com abundancia, e não beba bebidas fermentadas, nem fume_.

    N'este projecto de lei a pequice corre parelhas com a crueldade. Que o
    preso lave a cara duas vezes por dia, isso bom é que elle o faça, se
    tiver a cara suja, mas obrigal-o a lavatorios superfluos, é risivel
    puerilidade, juizo pouco aceiado que precisa tambem de barrela.

    Privar do uso do tabaco o preso que tem o habito de fumar inveterado, é
    requisito de deshumanidade que sobreleva á pena de prisão perpetua ou
    degredo por toda a vida. Tirem o cigarro ao preso; mas pendurem logo o
    padecente, que elle ha de agradecer-lhe o beneficio.

    Estes reformadores de cadeias, sr. presidente, parece que tem d'olho
    apertar mais as cordas que amarram o condemnado á sentença; picar-lhe as
    veias, e desangral-o gota a gota, na intenção de o regenerar e
    rehabilitar! Optima rehabilitação! humanissimos legisladores! Querem que
    o preso se regenere hydropaticamente. Mandam-n'o lavar a cara duas vezes
    por dia. _Agua em abundancia_, conclamam os dois doutores. Fazem elles o
    favor de dar ao preso agua em abundancia; mas descontam n'esta
    magnanimidade prohibindo-os de fallarem aos companheiros de infortunio,
    com o formidavel argumento de que _sáem das cadeias delineamentos de
    assaltos, e assassinatos de homens que sabem ricos_!…

    «Delineamentos de assassinatos»! Que é isto? _Assassinato_ é coisa que
    me não cheira a idioma de Bernardes e Barros. Seja o que fôr, é coisa
    horrivel que sáe das cadeias com seus delineamentos, contra homens que
    os _presos sabem ricos_. Aqui, sr. presidente, n'este _sabem ricos_,
    quem soffre o _assassinato_ é a grammatica. O alticismo d'esta phrase é
    grego de mais para ouvidos lusitanos.

    O que é um preso descomedido, sr. presidente? Dil-o-hei? _Vox faucibus
    haesit_!…

    _É febricitante despedido do leito, que, como setta voada do arco,
    exaspera em barulho os males de toda a enfermaria_. Que se ha de fazer a
    um patife que é setta voada do arco? Faz-se-lhe lavar a cara terceira
    vez!

    Que desperdicio de poesia para descrever um preso bulhento!

    _Setta voada do arco_! Que infladas necedades assopram estes estylistas
    de má morte!

    _Inclinando rasoamento_ (peço venia para me tambem enriquecer com esta
    locução do sr. dr. Ayres) inclinando rasoamento a pôr fecho n'este
    palanfrorio com que dilapido o precioso tempo da camara, sou a dizer,
    sr. presidente, que a melhor reforma das cadeias será aquella que
    legislar melhor cama, melhor alimento, e mais christã caridade para o
    preso. Impugno os systemas de reforma que disparam em accrescentamento
    de flagelação sobre o encarcerado. Visto que Jesus Christo, ou seus
    discipulos, nos ensinam como obra de misericordia visitar os presos,
    conversal-os humanamente, amaciar-lhes pela convivencia a ferocia dos
    costumes, não venham cá estes civilisadores aventar a soledade aos
    ferrolhos, o insulamento do preso, aquelle terrivel _voe soli_! que
    exacerba o rancor, e os instinctos enfurecidos do delinquente.

    Tenho dito, sr. presidente. Não redarguo ao mais do discurso, porque não
    percebi. Sou um lavrador lá de cima, e não adivinhador de enygmas.
    _Davus sum, non OEdipus_.

    _O orador foi comprimentado por alguns provincianos velhos_.

    XVIII

    *Vae cair o anjo!*

    A respeito do ultimo discurso de Calisto Eloy, as gazetas governamentaes
    estamparam que a sala da representação nacional nunca tinha sido
    testimunha de insolencias de tamanha rudesa e tão audaciosa ignorancia.
    Os jornaes da opposição liberal disseram que o representante de Miranda,
    á parte as demasias escolares do seu discurso, déra uma util, bem que
    severissima lição, aos meninos que jogueteam com o paiz, indo ao
    sanctuario das leis bailar em acro-batismos de linguagem, que seriam
    irrisorios em palestra de estudantes de selecta segunda.

    Em casa do desembargador é que o morgado deslumbrou o renome dos
    fulminadores de catilinarias e filippicas. A numerosa roda do fidalgo
    legitimista encarava com venerabundo assombro em Calisto Eloy. As raças
    godas, que o não conheciam, concorreram a dar-lhe os emboras a casa de
    Sarmento. Sangue dos Affonsos e Joões não se dedignava de inventar em
    Calisto um primo. Todos queriam ter nas arterias sangue de Barbudas. E
    elle, o genealogico por excellencia, modestamente contradictava o
    empenho de alguns parentes honorarios; bem que, de si para si, e para
    alguns amigos, se ufanava de não carecer de tal parentella para
    egualar-se barba por barba com os mais antigos titulares em limpeza de
    sangue. As expressões laudatorias que mais calaram no animo de Calisto
    Eloy disse-as Adelaide. A menina, confessando sua surpresa no
    parlamento, foi sincera. Não o julgava tão denodado e destemido em face
    de gente nova, que parecia acovardar-se diante da coragem de um
    provinciano algum tanto achamboado. Disse ella á mana Catharina que a
    fronte de Calisto parecia allumiada, e no todo das feições e ademanes se
    revelava certa nobreza e garbo, que o faziam parecer mais novo.

    E era assim. Os quarenta e quatro annos do morgado, vividos na aldeia, e
    no resguardo da bibliotheca, viçavam ainda frescura de mocidade. A
    reforma do trajar fôra grande parte n'isto. A casaca antiga, e o
    restante da roupa trazida de Miranda, tolhiam-lhe a elegancia das
    posturas e movimentos, nos primeiros discursos.

    Cicero e Demosthenes, se entrassem de frak, no forum ou na ágora,
    desdouravam os mais luzentes relevos de suas esculpturaes orações. A
    estatuaria do orador pende grandemente do alfaiate. Vistam Casal Ribeiro
    ou Latino Coelho, Thomaz Ribeiro ou Rebello da Silva, Vieira de Castro
    ou Fontes, de casaca de brixe e gravata sepulchral da mandibula
    inferior: hão de vêr que as perolas desabotoadas d'aquellas bocas de
    oiro se transformam em graniso glacial no coração dos ouvintes.

    –Eu estava encantada de ouvil-o, sr. Barbuda–disse Adelaide–Tem uma
    voz muito sã e argentina. Gostei de vêr a presença de espirito de v.
    ex.^a, quando se levantou aquella algazarra contra as suas ironias.
    Lembrou-me então que prazer sentiria sua senhora, se o escutasse!

    –Minha prima Theodora de certo me não attendia–observou o morgado.–Em
    quanto eu fallasse, estaria ella pensando no governo da casa, e na
    calacice dos criados. Eu já disse a v. ex.^a que minha prima Theodora
    entendeu no summo rigor da expressão a palavra «casamento». _Casamento_
    deriva de _casa_. Senhora de casa e para casa é que ella é. E eu assim a
    acceitei e assim a préso.

    –Mas o coração…–atalhou Adelaide.

    –O coração, minha senhora, ninguem lá nos disse que era necessario á
    felicidade domestica. Tanto sabia eu o que era coração, como aquella
    creancinha, que sua ex.^{ma} mana tem nos braços, sabe o que é sensação
    do fogo. Ora veja como ella está estendendo as mãosinhas inexperientes
    para a chamma das velas… Se as tocar, que dôr não sentirá ella?

    –Então, volveu a filha do magistrado, hei de crêr que v. ex.^a ainda
    ignora o que seja coração… o que seja amor?

    –Se ignoro o que seja…–balbuciou Calisto.–Sabe v. ex.^a–proseguiu
    elle, reanimado, apoz longa pausa–sabe v. ex.^a que no paraizo existiu
    uma celestial ignorancia, até ao momento em que na arvore da sciencia
    tocou Eva?

    –Sim… E Adão lambem tocou…

    –Depois, minha senhora. Mas não discutamos a primasia: tocaram ambos, e
    eu comprehendo que deviam ambos peccar. Maior crime sería a resistencia
    a Eva que a Deus. Perdoe-me o céo a blasphemia!… A que hei de eu
    comparar nos nossos tempos, e n'este instante, a arvore da sciencia, da
    sciencia do coração?!… Comparo-a a v. ex.^a.

    –A mim?! que idéa!

    –A v. ex.^a. Eu contemplei-a, e… aprendi!… Hoje sei o que é
    coração: agora começo a estudar a maneira de o matar ao passo que elle
    vae nascendo.

    Calisto levantou-se, agradecendo á Providencia a chegada de um ancião
    respeitavel que se aproximava d'elle a cortejal-o.

    Adelaide quedou pensativa. Reflectiu, e considerou-se molestada e
    mescabada no respeito que devia ás suas virtudes um homem casado.

    Receiosa de ajuizar mal, por equivoca intelligencia do que ouvira,
    buscou azo de provocar explicações de Calisto Eloy. Como o ensejo lhe
    não saisse de molde, consultou a irmã, referindo-lhe o supposto
    galanteio do morgado. D. Catharina dissuadiu-a de pedir esclarecimentos,
    aconselhando-a a simular que o não entendêra.

    Pouco antes de terminada a partida, um moço legitimista recitou um
    poemeto dedicado ao nascimento do terceiro filho do sr. D. Miguel de
    Bragança. Perguntou alguem a Calisto se conversava alguma hora com as
    musas, ou se, á maneira de Cicero, escrevia o desgracioso:

    _Ó fortunatam natam, me consule, Romam_.

    Disse o morgado relanceando os olhos a Adelaide, que o seu primeiro
    parto metrico apenas tinha de vida quarenta e oito horas, e tão aleijado
    saíra, que elle se envergonhava de o offerecer ao apadrinhamento de
    pessoas authorisadas.

    Instaram damas e cavalheiros pela amostra da obra prima, que certamente
    o era, attenta a modestia do poeta.

    –São versos, disse elle, que se poderiam mostrar aos quinze annos, e
    que seriam derisão e lastima aos quarenta e quatro.

    Objectaram as damas argumentando que o homem de quarenta e quatro annos
    devia receber as inspirações dos vinte, porque no vigor da edade é que o
    coração fulgura em toda a sua luz.

    Tregeitou Calisto uns esgaros de satisfação ridicula. Eram os
    percursores de alguma enorme necedade.

    Embora resistisse á exposição da sua estreada musa, não se conteve que,
    despedindo-se de cada uma das senhoras da casa, disse, á puridade, a D.
    Adelaide:

    –V. ex.^a verá as trovas que só Deus viu, e ninguem mais verá no mundo.

    D. Adelaide ficou embaçada. Seria aggravar as meninas de dezoito annos,
    e educadas como a filha do desembargador, e amantes como ellas de um
    compromettido esposo, estar eu aqui a definir a entranhada zanga que lhe
    fez no espirito d'ella o desproposito de Calisto. A estima affectuosa
    que lhe ella ganhára, por amor d'aquella cavalheirosa acção, por onde a
    paz domestica se restaurára, não teve força de rebater o tedio e o odio
    do tom mysterioso do provinciano.

    Em quanto ella confiava da irmã o despeito e aversão com que a deixaram
    as ultimas palavras de Calisto Eloy, estava elle no seu gabinete
    retocando e peorando aquellas linhas rimadas, a cuja rebentação assistiu
    o leitor com piedosa tristeza.

    XIX

    *Ó mulheres!…*

    Seguiram-se horas de insomnia. O juizo dava-lhe tratos amarissimos ao
    coração. O homem sentava-se na cama, e remechia-se inquieto como se o
    escarneo o estivesse picando d'entre a palha do enxergão.

    Os intervalos lucidos eram-lhe intervalos do inferno. Os axiomas
    classicos sobre o amor caiam-lhe na memoria como chuva de dardos. Quem
    mais o suppliciou foi o seu mestre e amigo D. Amador Arraiz. Este santo
    bispo apresentou-se-lhe em visão, com D. Theodora Figueirôa ao lado, e
    disse-lhe as palavras do capitulo XLV dos _Dialogos_: «Em a lei de
    Christo a fidelidade que deve a mulher ao marido, essa mesma deve o
    marido á mulher; e, se as leis civis dão mais poder aos maridos que ás
    mulheres, não é para as offender e maltratar, nem para um ter mór
    jurisdição sobre si que o outro.»

    Seguiram-se outras visões de não somenos pavor. Ahi pela madrugada,
    Calisto Eloy amodorrou-se em roncado dormir; mas a fada que lhe abrira
    os thesouros virgineos do coração, a esbelta Adelaide bateu-lhe com as
    azas brancas nas palpebras, e o homem acordou estremunhado a desgrudar
    os olhos, que se haviam fechado com duas lagrimas, as primeiras que o
    amor lhe esponjára do seio, e cristalisára nos cilios, como diria o dr.
    Liborio. Então foi o trabalharem-n'o umas cogitações tão sandias, que
    seriam imperdoaveis, se não estivessem na tresloucada natureza de todo
    homem que ama.

    Entrou a inventariar as alterações que devia fazer no substancial e
    accidental da sua personalidade.

    O uso do meio grosso pareceu-lhe incompativel com um galan. Aquelles
    sibilos da pitada, bem que denotassem espiritos cogitantes e gravidade
    de juizo, deviam de toar ingratamente nos ouvidos de Adelaide. De mais
    d'isso, a saraivada de bagos de rapé que elle sacudia dos sorvedouros
    nasaes, algumas vezes obrigava as damas a formarem sobre os olhos com os
    dedos um antemural sanitario contra as insuflações immundas do sabio.
    Deliberou, portanto, immolar as delicias pituitarias.

    Viu-se no espelho de barbear, modesto utensilio do estojo de bezerro, e
    conveio no deslavado prosaismo da sua cara clerical. Resolveu deixar
    pera e meia barba, como transição para o bigode, que devia ir-lhe bem na
    tez um tanto moreno-pallida.

    Como o estudo lhe havia extenuado os olhos, e por amor d'isso usava
    oculos de prata quando lia, adoptou a luneta de oiro com molas pensis.

    N'este proposito, saiu a delinear as reformas capillares; fez alinhar as
    bases de uma cabelleira, que trouxera escadeada da provincia; e
    consentiu que lhe encalamistrassem dois topes rebeldes ao ferro.

    Depois, quando a ancia de uma pitada começava a importunal-o, fez
    provisão de charutos, e fumou o primeiro com afflictivas caretas, e
    engulhos de estomago.

    Colheu informações dos alfaiates de melhor fama, e foi ao Keil
    encommendar duas andainas de fato. O artista offereceu-lhe os figurinos;
    e, como lhe fallasse francez, Calisto suppoz que o attencioso alfaiate
    lhe dava a conhecer os retratos de alguns sujeitos illustres da França.
    Corrido do engano, depois de lêr as indicações das _toilettes_, saiu
    d'alli a procurar mestre de linguas, e a comprar diccionarios e guias de
    conversação.

    Se o leitor, mais perseguido da fortuna esquerda, nunca passou por
    lances analogos, não se tenha em conta de desgraçado.

    Quem tivesse conhecido, um mez antes, Calisto Eloy de Silos e Benevides
    de Barbuda, devia choral-o, quando o viu entrar n'um café a pedir agua
    para combater os vomitos provocados pelo charuto!

    Irá perder-se aquella alma tão portugueza, aquelle exemplar marido,
    aquelle sacerdote e glorificador dos classicos lusitanos?

    O amor abrirá no pavimento da camara um alçapão, onde se afunda aquelle
    grande brilhante, desluzido, mas promettedor de refulgente lume?

    _Di meliora piis_!

    Ó Lisboa!…

    Ó mulheres!…

    XX

    *Proh dolor!…*

    Adelaide, temerosa de algum imprevisto accidente, que a desmerecesse no
    conceito de Vasco, por causa do morgado da Agra, relatou ao pae o
    dialogo da antevespera, e a promessa da poesia para a noite seguinte.

    O desembargador duvidou do entendimento da filha, antes de acreditar na
    insania do seu melhor amigo. Como havia de crer elle no intento
    deshonesto de um homem que lhe emergira a outra filha da voragem? E,
    crendo, como se comportaria em lanço de tanto melindre?

    Meditou, e discretamente resolveu que suas filhas e genro fossem passar
    alguma temporada da primavera na sua quinta de Campolide; e se
    pretextasse a doença de uma neta, para que a saida se fizesse n'aquelle
    mesmo dia. Pôde mais com o velho a gratidão que a offensa.

    Calisto Eloy chegou á hora costumada. Já não entrava á presença do
    magistrado com a facilidade e lhanesa de outros dias. A sisudeza do
    semblante arguia o incommodo da consciencia. Mais lh'a inquietava a
    estudada jovialidade, com que Sarmento o recebeu. Antes de perguntar
    pelas senhoras, lhe disse o velho o motivo da inopinada saida para ares.
    Calisto passou o restante da noite com os amigos da casa; porém,
    insolitamente abstraido, concorreu a augmentar a lethargia d'aquelles
    velhos soporosos, que pareciam ajuntar-se para se narcotisarem, e
    entrarem emparceirados nas silenciosas regiões da morte.

    Fez sensação na assembléa tirar Calisto de uma charuteira de prata um
    charuto, e baforar columnas de fumo, com uns modos aperalvilhados, e
    improprios de sua gravidade. Sarmento, com delicada liberdade, observou
    a preponderancia que os costumes de Lisboa iam actuando sobre o animo do
    seu bom amigo. Sentiu que os ruins exemplos vingassem quebrantar aquella
    admiravel singeleza de trajo e maneiras que o morgado trouxera da sua
    provincia. Lamentou que, em menos de tres mezes, o modelo do portuguez
    dos bons tempos, se baralhasse com os usos modernos e viciosos.

    Calisto Eloy defendeu-se froixamente, allegando que as mudanças
    exteriores não faziam implicancia ás faculdades pensantes; e ajuntou
    que, sciente de que tinha sido incentivo da mofa entre os seus collegas,
    á conta da simpleza um tanto anachronica dos seus costumes, entendera
    que a prudencia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de
    Lisboa, e na provincia, segundo o seu genio e habitos aldeãos. Concluiu,
    dizendo que: _Cum fueris Roma, Romam vivito mora_,[20] e que o fazer-se
    singular importava fazer-se ridiculoso; e que os seus annos não eram
    ainda bastantes para authorisarem a distinguir-se no mero accidente dos
    trajos.

    Perguntado por que deixára de tomar rapé, costume indicativo de homem
    pensador e estudioso, respondeu que alguns escriptores modernos
    attribuiam á ammoniaca componente do rapé, o deperecimento das
    faculdades retentivas, pela acção deleteria que o poderoso alcali
    exercitava sobre a massa encephalica. Além de que a fumarada do charuto,
    sobre ser purificante e anti-putrida, dava aos alvéolos solidez, e
    consistencia aos dentes.

    Estas explicações não evitaram que o desembargador, com os seus velhos
    amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra, depois que
    elle se retirou, algum tanto azedado das reflexões d'aquella gente
    encanecida.

    Sarmento não o convidára a ir visitar as filhas a Campolide, nem de
    leve; no correr da noite, fallou d'ellas. Calisto Eloy tambem não
    suscitou conversação relativa ás senhoras, porque já a doblez do
    espirito lhe tolhia a usual franqueza e familiaridade.

    Entrou a dementar-se aquella desconcertada cabeça. A saudade, em vez de
    lhe tirar lagrimas do intimo amadurou-lhe temporamente a apostêma de
    sandices, que em todo homem se cria paredes-meias com o coração. Ahi
    começa elle a imaginar que o desembargador Sarmento, adivinhando os
    amores mal recatados de Adelaide, a obrigara a sair de Lisboa.
    Corroborava a suspeita não o convidar elle a visitar as damas. Isto
    sobre excitou-lhe o sentimento; por que, a seu vêr, Adelaide estava
    penando, havia uma victima, um coração sopesado, uma alma em abafos de
    paixão.

    Esta conjectura atirou com Calisto para os tempos cavalleirosos.

    O olhar em si, e ver-se maneatado pelos vinculos sacramentaes, não o
    reduzia á compostura e honestidade de seu estado e annos. Ainda assim,
    sejamos justiceiros e ao mesmo tempo misericordiosos com esta alma
    enferma: na cabeça allucinada de Calisto de Barbuda não havia idéa
    ignobil e impudica.

    O amor, resaltando da cratera abafada quarenta e quatro annos, dizia-lhe
    que era fidalguia de alma não transigir, por conveniencias e respeitos
    sociaes, com a oppressão, e alvedrio paterno. Se Adelaide o amava como e
    quanto Calisto já não podia duvidar, sua honra d'elle era pôr peito á
    defesa da oppressa, beber metade do absyntho do seu calix, luctar, sem
    desdouro da probidade de um Barbuda, até perecer, exemplo de amadores de
    antiga tempera.

    Amou quem isto lê, e tresvariou aos vinte annos? Passou por uns hórridos
    eclipses de entendimento, que apoz si deixam lagrimas tardias e
    vergonhas insanaveis?

    Amisere-se, pois, d'aquelles lucidissimos espiritos de Calisto, que por
    um se vão apagando ao ventar rijo da paixão, quaes se apagam em céo de
    bronze as estrellas do mar alto, já quando o naufrago desesperançado
    finca os dedos recurvos na espuma das vagas.

    Ó mal-sorteado Calisto! que aureola de patriarcha te resplendia em volta
    do teu chapéo de merino e aço, quando entraste em Lisboa! Que anjo eras,
    entrajado na tua casaca de saragoça sem nodoas! Aquella scientifica boa
    fé com que procuravas monumentos em Alfama, e agua depurante do muco
    catharroso no chafariz d'El-Rei, e querias que os aljubêtas da rua de S.
    Julião te dessem conta do chafariz dos cavallos!…

    Que te valeram as maximas de boa vida colhidas a centenares nos teus
    classicos, e enceleiradas n'essa alma, refractaria á ternura de tanta
    moça escarlate e succada, que, lá em Caçarelhos, se enfeitava para achar
    graça em teus olhos?

    Cairias tu nas piozes d'esta princeza dos mares, d'esta Lisboa que
    filtra aos nervos dos seus habitantes o fogo que lhe estua nas
    entranhas?

    Cairias tu, anjo?

    XXI

    *O mordomo das tres virtudes cardeaes*

    Era por uma noite escura e fria de abril.

    O vento esfusiava nas ramalheiras de Campolide.

    A lua, a longas intermittencias, parecia, wagon dos céos, correr
    velocissima entre nuvens pardas, para ir ingolfar-se n'outras. Então era
    o carregar-se a escuridão da terra, e mais para pavores o rangido das
    arvores sacudidas pelos bulcões do septentrião.

    Soaram doze horas por egrejas d'aquelles valles. Era um como crebro
    soluçar da natureza por pulmões de bronze. Era o grão clamor da terra em
    angustias parturientes de alguma enorme calamidade.

    Áquella hora, e por aquella noite capeadora de assassinos e
    bestas-feras, Calisto Eloy, embrulhado n'um capote de tres cabeções e
    mangas, que trouxera de Caçarelhos, passava rente com o muramento da
    quinta de Adelaide.

    Depois, como saisse da vereda escura a um recio que defrontava com a
    frontaria da casa, aqui parou, e cruzando os braços, se esteve largo
    espaço quedo, e fito nas janellas.

    Nem lua nem scintilla de estrella no céo! As confidentes d'aquelle
    amador torvo como o cerrado da noite, negro como o coração que lhe arfa
    a lapela esquerda do collete, são as trevas. Quiz accender um charuto.
    Nem os phosphoros vingavam lampejar na escuridão.

    E o vento assoviava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o
    qual, levado do instincto da conservação, levantou a gola do capote á
    altura das bossas parietaes, e disse, como Carlos VI:

    –Tenho frio!

    E passou-lhe então pelo espirito um painel da sua situação tirado pelo
    natural. Viu-se no espelho, que a razão lhe offereceu, e cobrou horror
    da sua figura.

    Bem que tal acto não implicasse delicto, nem affrontasse os bons
    costumes, Calisto, apertado no transito difficil das indoles que se
    passam do comportamento austero e captivo ás liberdades e solturas do
    vicio, olhava com saudade o seu passado, as suas alegrias puras; e, mais
    que tudo, áquella hora, como o frio cortava as orelhas, lembrou-se da
    quentura e aconchego do leito nupcial.

    E como esta visão honesta, para mais o pungir, havia de ser encarecida
    com uma imagem de mulher leal e immaculada, Calisto viu D. Theodora de
    touca, n'aquelle dormir placido de quem adormeceu com a alma quieta e
    intemerata. Não bastava a touca, tão hygienica quanto pudica, a
    penitencial-o com remordentes saudades: viu-lhe tambem o lenço de tres
    pontas de algodão azul com que ella costumava resguardar os hombros,
    antes de subir as quatro escadinhas que conduziam ao alteroso leito de
    páo santo.

    Se visões analogas, alguma vez, puzeram guerra ao demonio tentador dos
    maridos infieis e o venceram, d'esta feita não se logra a sã virtude do
    triumpho.

    É que as toucas e lencinhos pudibundos, sobre não serem enfeites mui
    seductores, algumas vezes tornam a virtude rançosa e tamsómente boa para
    adubar palestras de avós com as netas casadoiras. Este mal deve-se ás
    artes da estatuaria, artes em que a imaginativa não põe nada seu, porque
    tudo é copiado da natureza nua, ou quasi nua. Nem se quer as Niobes, as
    Lucrecias e Penelopes o buril respeita. Nos casos mais lacrimaveis e
    tragicos, querem fados máos que os olhos achem sempre pasto á cobiça,
    quando a impressão devera ser toda para levantamentos de espirito, e
    «visões altas» como diz o bom Sá de Miranda.

    Quando a arte deshonesta não despe as figuras, veste-as de feitio que
    pelo ondeado das roupas transparentes esteja o peccado a fazer negaças a
    conjecturas taes que, certo estou, Calisto Eloy, antes de se empestar em
    Lisboa, se taes impudicias visse, romperia no parlamento os vesuvios da
    sua eloquente indignação. E a posteridade, ajuizando da moral d'esta
    nossa edade de limos e alforrecas, viria a este lameiral esgaravatar a
    perola da edade aurea, caida dos labios do marido de D. Theodora, a
    qual, segundo fica dito, dormia de touca e lencinho de algodão azul de
    tres pontas.

    Esta peregrina imagem não bastou a desandar Calisto pelo caminho de
    Lisboa, e do seu gabinete, onde os pergaminhos dos seus livros pareciam
    rever lagrimas de amigos descaroavelmente desprezados. O infeliz não
    desfitava olhos de certa janella, desde que vira perpassar uma luz pelos
    resquicios das portadas. Podia a trahida Theodora antepôr-se aos olhos
    extasiados do esposo, com a pudenda touca, ou com as madeixas
    estrelladas de brilhantes, que elle não a via nem queria ver.

    Ahi por volta de meia noite estava Calisto recordando o que dissera, em
    circumstancias analogas, Palmeirim aquelle grão cavalleiro de Francisco
    de Moraes, diante do castello de Almourol que fechava em seus arcanos a
    formosa Miraguarda. N'isto scismava, comprehendendo então as phrases
    mélicas dos famosos amadores, quando as portadas da janella se abriram
    subtilmente, e logo a vidraça foi subindo mui de leve.

    O recanto, em que o morgado da Agra se abrigára do vento, estava fóra do
    caminho, e sumido aos olhos da pessoa que abrira a janella. Ao mesmo
    tempo, ouvia elle passos na estrada, e logo viu acercar-se um vulto
    rebuçado da casa de Adelaide, e parar debaixo da janella que se abrira.

    Conjecturou Calisto de Barbuda, que D. Catharina Sarmento, a esposa
    infida, reincidira nas presas do velho peccado, e sentiu algum tanto
    molestada sua vaidade de regenerador de corações estragados. Tambem
    suspeitou que Bruno de Vasconcellos, quebrando a palavra jurada, voltára
    do estrangeiro a reatar a criminosa alliança. Não lhe deram tempo a mais
    conjecturas. O encapotado espectorou um cacarejo de tosse secca; da
    janella, como contra-senha, respondeu outro cacarejo de mais sympathico
    som, e logo as duas almas se abriram n'este dialogo:

    –Ainda bem que recebeste a minha carta, Vasco!…–disse
    Adelaide–Estavas em casa da tia condessa? Eu mandei lá por me lembrar
    que se fazia lá hoje a novena das Chagas…

    –Fiquei espantado–disse Vasco da Cunha–Que rapida deliberação foi
    esta?! Vir para uma quinta com tão máo tempo! Foi caso de maior!…

    –Fui eu a causa–tornou ella–São melindres do meu coração, que, por
    amor de ti, não soffre que outra voz de homem lhe falle a linguagem que
    eu só quero e acceito de tua bocca. Antes me quero aqui escondida com a
    tua imagem, que ver-me obrigada a tolerar os atrevimentos do Calisto de
    Barbuda…

    –Que!–atalhou Vasco–pois aquelle homem tão serio!… tão temente a
    Deus!…

    –É um hypocrita com a brutalidade de um provinciano!… Offereceu-me
    uns versos em segredo! Que ultraje! que falta de respeito á minha
    posição…

    –E que desmoralisada e irreligiosa creatura! Casado, já d'aquelles
    annos, legitimista, e catholico, segundo diz, e ousar… Estou
    espantado! E a tia condessa que me tinha encarregado de o convidar para
    assistir, no domingo á festa das Chagas! Fiem-se lá!… E tu não faltes,
    á festa, Adelaide. Esto anno fazemol-a com toda a pompa. O prégador já
    me leu o discurso, e trata eruditamente a materia. A prima Lacerda vae
    cantar um _Benedicite_, e a prima viscondessa de Lagos canta um _Tantum
    ergo_. Havemos de fazer melhor festa que a do conde de Melres. Eu começo
    ámanhã a colher flores e a pedil-as para enfeitar o altar dos tres reis
    magos e das tres virtudes cardeaes, de que me fizeram mordomo, não sei
    se sabias?

    –Não sabia, meu amor–disse Adelaide, congratulando-se com os
    enthusiasmos pios do excellente moço.

    A palestra proseguiu n'este tom por espaço de uma hora. A lua espreitava
    estas duas pessoas por entre as nuvens, que a pouco e pouco se foram
    descondensando. O céo azulejou-se e estrellou-se para galardoar a
    virtude do mordomo das tres virtudes cardeaes e da bella menina
    destinada a maridar-se com o mais energico influente da festa das
    Chagas, com que o devoto conde de Melres se havia de dar a perros.

    No entanto, Calisto Eloy, consultando a sua consciencia a respeito de
    Vasco da Cunha, decidiu que o homem, se não era um santo, propendia
    grandemente para a semsaboria de idiotismo. Esta critica é a prova de um
    animo já iscado da peçonha da meia impiedade que degenera em impiedade
    inteira. Já como castigo de escarnecer um moço virtuoso, sentia elle
    encher-se-lhe de amargura o coração. Não bastava ouvir-se qualificado de
    hypocrita brutal por Adelaide; quiz de mais d'isto a providencia dos
    amantes lerdos, providencia que eu não posso escrever se não com _p_
    pequeno, quiz, digo, que Vasco da Cunha, mancebo em flor d'annos e
    gentileza, se estivesse alli rejubilando em novenas e mordomias das tres
    virtudes cardeaes, em quanto elle Calisto, a mais de meio caminho da
    morte, ardia em fogo impuro e cobiça peccaminosa, com os olhos cerrados
    á visão duas vezes pura de uma esposa de touca e lencinho azul de tres
    pontas sobre as espaduas não despeciendas, segundo me consta.

    Merecem escriptura as ultimas phrases de Adelaide e Vasco.

    A menina, interrompendo os enlevos do devoto moço, que se deleitava em
    conjecturar a zanga do conde de Melres, perguntou-lhe, com doce
    requebro, quando viria o dia suspirado de sua união.

    Vasco deteve a resposta alguns segundos, e disse:

    –Deixemos vêr se morre minha tia Quiteria, que me quer deixar os
    vinculos do Algarve.

    –Pois nós–volveu Adelaide magoada–não poderemos ser felizes sem os
    vinculos de tua tia Quiteria, meu Vasco?

    –Ninguém é feliz desobedecendo aos seus maiores, replicou Vasco. A tia
    Quiteria quer que eu espere a volta d'el-rei para depois tomar ordens
    sacras, e trazer mais uma mytra episcopal á nossa linhagem onde estavam
    como em vinculo as principaes prelazias do reino.

    Adelaide, não obstante o coração, quando aquillo ouviu, sentiu-se mal do
    estomago.

    XXII

    *Outro abysmo*

    Esta pungente lancetada não esvermou a postema do peito de Calisto de
    Barbuda. Desde que qualquer sujeito perde o siso do coração, escusado é
    esperar que a razão lh'o restaure: em tão boa hora que elle o recupera
    depois das amargas provas. O homem, porém, que amanhece tolo aos
    quarenta e quatro annos, a mim me quer parecer que ao entardecer-lhe a
    vida a tolice refinará.

    Tenho dois grandes exemplos d'isto: um é Calisto de Caçarelhos; o outro
    é Henrique VIII de Inglaterra. Este, ahi pelas alturas dos quarenta
    annos, tão bom homem era, que até escrevia contra o impio Luthero, e
    vivia santamente com sua esposa, Catharina de Aragão. Insandeceu de
    amor, vinte annos depois de marido exemplar, e d'ahi por diante sabe o
    leitor que golpes elle deu no peito invulneravel do papa e no fragil
    pescoço das pobres mulheres.

    Calisto Eloy não será capaz de repudiar nem degolar Theodora, porque
    n'este paiz ha leis que reprimem os patetas sanguinarios; todavia, eu
    não assevero que elle seja incapaz, alguma hora, de lhe chamar parva e
    hedionda, e de lhe atirar com a touca e com o lenço azul de tres pontas
    á cara vermelha de pudor. Veremos.

    Calisto, digamol-o sem refolhos, caiu. Atascou-se. Foi de cabeça ao
    fundo do pégo em que deram a ossada o ultimo rei dos godos, e Marco
    Antonio, e o rei enfeitiçado pela comborça Leonor Telles, e Simplicio da
    Paixão, e varias pessoas minhas conhecidas, que experimentaram todos os
    systemas de desfazer a vida, desde o muro de S. Pedro d'Alcantara até ás
    cabeças dos palitos phosphoricos.

    Este enguiçado Barbuda, na volta de Campolide, não teve uma lagrima que
    chorasse sobre a sua dignidade esfarrapada. Circumvagou a vista pelos
    seus livros, figurou-se-lhe vêr na lombada de cada in-folio o olho de um
    demonio zombeteiro, bem que aquelles pergaminhos encadernassem almas, no
    céo bem-aventuradas, e na terra immorredoiras, almas que n'este mundo se
    chamaram fr. João de Jesus Christo, fr. Pantaleão d'Aveiro, fr. Antonio
    das Chagas, e dezenas d'estes talismans, que tem salvado o leitor e a
    mim de soçobrarmos nos parceis que esbravejam á volta de Calisto.

    Eram duas horas da manhã, quando o morgado experimentou uma sensação,
    que viria a definir-lhe o espirito, se alguem carecesse de vêr este
    homem a luz extraordinaria.

    Nas aguas-furtadas do andar, em que elle morava, residia uma viuva de um
    tenente, senhora d'annos insuspeitos, de muitas lerias, minguada de
    recursos, e, por amor d'isso, se offerecêra a cuidar da casa e da
    cosinha do deputado. Ás duas horas, pois, bateu Calisto á porta da
    visinha, e, como ella lhe fallasse, exprimiu elle a sensação imperativa,
    que o levou alli, por estes termos:

    –Sr.^a D. Thomazia, ha por ahi alguma coisa que se coma?

    –Não ha nada feito; mas eu vou fazer chá, sr. Barbuda, e o que v. ex.^a
    quizer.

    –Olhe se me póde frigir uns ovos com presunto–volveu elle.

    –Pois lá vão ter d'aqui a pouco.

    –Veja lá que se não constipe, sr.^a D. Thomazia–recommendou elle.

    –Não tem duvida. Olhe que eu tenho muito que lhe dizer. Achou um
    bilhete de visita na escrevaninha? perguntou D. Thomazia pelo buraco da
    fechadura.

    –Não achei.

    –Pois lá está. Faz favor de ir, que eu vou vestir-me.

    –Então a sr.^a D. Thomazia está-se constipando? Ora esta! Isso é que eu
    não queria!… Cá desço, e até logo.

    O bilhete, que o deputado encontrou, dizia: Iphigenia de Teive Ponce de
    Leão, e logo a lapis: _viuva do tenente general Gonçalo Telles Teive
    Ponce de Leão_.

    Desfilaram por diante do espirito de Calisto Eloy regimentos de
    illustres familias oriundas dos Telles e dos Teives e dos Ponce de Leão.
    Na linhagem dos Barbudas tambem alguma vez tinham entrado os Teives, e
    uma decima nona avó de Calisto viera de Hespanha, e era Ponce, dos
    Ponces genuinos dos duques de Banhos.

    Estava o morgado combinando estes parentescos contrahidos ahi pelo
    ultimo quartel do seculo XII, quando D. Thomazia entrou com o presunto e
    ovos. Calisto assentou o prato sobre dois volumes da Historia
    Geneologica, que lhe tomavam a banca: e quanto a deglutição lh'o
    permittia, n'alguns intervalos, foi perguntando:

    –Então quem é esta senhora, que me procurou?

    –Eu só sei dizer, respondeu D. Thomazia, que é uma creatura linda,
    linda quanto se póde ser!

    –Como assim?! atalhou Calisto, retendo uma lasca de presunto entre os
    dentes molares, pois ella não é a viuva de um tenente general, que
    naturalmente havia de morrer velho?

    –Póde ser que elle morresse velho; mas a viuva o mais que póde ter é
    trinta annos.

    –E com que então galante?

    –É uma imagem de cera. V. ex.^a ha de vêl-a. E então elegante! A
    cintura cabe aqui, proseguiu D. Thomazia, formando um annel com dois
    dedos. Eu, quando ouvi parar uma carruagem, cuidei que era v. ex.^a e
    vim abrir as portas do escriptorio. A senhora veiu subindo, e puchou á
    campainha. Eu espreitei lá de cima, e, a fallar verdade, lembrei-me se
    seria a sua esposa, que lhe quisesse fazer uma agradavel surpreza.
    Perguntou-me ella pelo sr. Barbuda de Benevides, e foi entrando comigo
    para a sala. Levantou o véo, e disse: «Não está em casa?» Que voz, sr.
    morgado, que voz de creatura aquella!

    –E isso a que horas foi? atalhou Calisto. Era por noite alta?

    –Não, meu senhor. Eram seis horas da tarde. V. ex.^a tornou ás oito,
    mas saiu logo; e, quando eu voltei de fazer uma visita, já o não achei
    para lhe dar esta noticia.

    –E depois a senhora que mais disse?

    –Mostrou-se pesarosa de o não encontrar, e prometteu de voltar hoje ás
    tres horas.

    –E a sr.^a D. Thomazia saberá o que me quer essa dama?

    –Não sei; o que ella sómente disse foi que v. ex.^a era um genio.

    –Pois ella disse-lhe isso sem mais nem menos?

    –Foi a respeito de vêr aqui estes livros muito grandes, acho eu. Esteve
    a reparar n'elles com uma luneta… E a graça com que ella punha a
    luneta!… Mulher assim!… Os homens ás vezes por mais asneiras que
    façam, teem desculpa!…

    –As paixões, minha sr.^a D. Thomazia…–obtemperou o morgado, e lambeu
    os beiços molhados da libação de um vinho nervoso d'aquella garrafeira
    já mencionada. E proseguiu.–As paixões do amor… Nem os grandes sabios
    nem os grandes santos se exemptaram d'ellas. Somos todos de quebradiço
    barro; somos uns pucarinhos de Extremoz nas mãos infantis das mulheres.
    O tributo é fatal: quem o não pagou aos vinte annos, ha de pagal-o aos
    quarenta, e mais tarde, quando Deus quer… Deus ou o demonio, que eu
    não sei ao justo quem fiscalisa estes malaventurados successos de amor,
    que a historia conta e a humanidade experimenta cada dia…

    –É um gosto ouvil-o!–interrompeu D. Thomazia–Bem no disse aquella
    senhora: v. ex.^a é um genio, e falla de modo que se mette no coração da
    gente. Quer que lhe diga a verdade, sr. Barbuda? Foi bom que v. ex.^a me
    encontrasse n'esta edade. Se eu fosse moça e bonita, como dizem que fui,
    um homem como v. ex.^a havia de me dar cuidados.

    –Ora, minha sr.^a D. Thomazia, isso é lisonja e favor. Eu já não estou
    tambem na edade de tocar corações, nem os meus habitos vão muito para
    ahi!

    –Edade!–accudiu a viuva do tenente–v. ex.^a póde dizer que tem trinta
    e cinco annos, que ninguem lh'o duvida. É mania agora dos rapazes
    quererem á fina força passar por velhos. Pergunte quem quizer á visinha
    do primeiro andar se o acha velho. Está-me sempre a perguntar se v.
    ex.^a me diz d'ella alguma coisa… Conhece-a?

    –Bem sei: uma mocetona cheia, com umas fitas escarlates na cabeça…
    Não é má…

    –E sabe v. ex.^a que mais? Eu vou apostar que esta senhora, que veiu
    cá, traz coisa no coração, que a obrigou. Assim uma senhora nova,
    sosinha, tão encantadora!… Aquillo, em quanto a mim, é que já o ouviu
    no parlamento, e apaixonou-se. Ha muitos casos assim cá em Lisboa de
    senhoras apaixonadas pelos homens de talento. O talento é uma coisa
    muito bonita! Meu marido casou comigo quando era sargento do treze de
    infanteria, e andava nos estudos. Era feio, e ao principio tinha-lhe
    medo; mas assim que elle me mandou um acrostico… V. ex.^a sabe fazer
    acrosticos?

    –Ainda não me puz a isso.

    –Pois como eu me chamo Thomazia Leonor e tenho quatorze letras fez-me
    elle um soneto que me deu volta á cabeça, e tamanho incendio me tomou o
    peito, que o amei até á morte, e ainda agora, ficando eu viuva aos
    trinta e nove annos, fui, sou e serei fiel á sua memoria.

    N'este ponto, D. Thomazia, ferida n'alma pelo acrostico memorando,
    chorou.

    Calisto represou-lhe os prantos com algumas maximas consoladoras sobre a
    morte, e bocejou, já por que eram tres horas e meia da manhã, já por que
    o dialogo descaira nos aborrimentos de uma palestra em dia de fieis
    defuntos. D. Thomazia começou a espirrar, por que se não agasalhára
    bastantemente, e assim se apartaram estas duas pessoas, que uma hora de
    expansão aproximara.

    Calisto, conforme ao antigo uso, levou um livro para a cabeceira do
    leito. Escolheu poeta, e saiu-lhe o seu já tão querido outr'ora Sá de
    Miranda. Abriu ao acaso, e saiu-lhe n'uma pagina _d'Os Estrangeiros_
    esta maxima: _Duas sortes de homens ha no mundo que se possam servir: ou
    muito parvos ou muito namorados, e ainda os namorados tem grande
    vantagem_.

    A meu vêr, o espirito d'aquelle honrado doutor, que tão santo marido
    fôra de Briolanja de Azevedo, até de saudades d'ella se deixar morrer,
    alli lhe viera, áquella hora, relembrar occasionalmente e a ponto uma de
    suas maximas, como em paga do affectuoso respeito com que Barbuda o lia
    e inculcava á mocidade depravada.

    Calisto Eloy pôde ainda admirar o lidimo portuguez da maxima, e
    adormeceu.

    XXIII

    *Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa*

    Calisto dormiu mal.

    As alvoradas de um dia feliz são mais temporãs que as da estrella
    d'alva. O coração acorda primeiro que os passaros. O amor diz o seu
    _fiat lux_ primeiro que Deus. Estas tres sentenças, a meu vêr, são mais
    intelligiveis que o contentamento do morgado da Agra, ao levantar-se da
    cama em que dormitára algumas escassas horas alvoroçadas.

    O desastre de Campolide quebrantaria um homem qualquer que viesse a
    cumprir n'este mundo os vulgares destinos da maxima parte dos mortaes.
    Individuos notaveis já sairam scepticos e bravos cynicos de aperturas
    menos dilacerantes. Os annaes ensanguentados da humanidade estão cheios
    de facinoras, empuxados ao crime pela ingratidão injuriosa de mulheres
    muito amadas e perversissimas. Superabundam casos de embaçadellas
    analogas á de Calisto: d'estes lances obscuros tem saido aparvalhada
    muita gente que era escorreita, e que se volve daninha á republica. São
    uns homens que vos namoram as criadas, se vos não podem requestar a
    familia; uns vampiros de sangue femeal, que trazem o demonio da vingança
    no corpo, demonio meridiano e nocturno, que bebe lagrimas de mulher, em
    quanto os possessos d'elle bebem cognac e absyntho. Um homem d'estes,
    encostado a frade de esquina, é o leão que espreita da sua caverna
    lybica a antilopa descuidosa. Officiala de modista, que se espaneja nas
    verduras do jardim da Estrella, como alvéola nas praias borrifadas de
    espuma, se o anjo da guarda a desampara um quarto de hora, tem os seus
    dias contados. O scelerado, com o simples auxilio de um gallego, em que
    por vezes se ingere e chafurda o confidente de Fausto, arranca da fronte
    da alegre palmilhadeira de botinhas a grinalda de laranjeira em botão,
    que esperava a sua primavera, o seu abrir-se e rescender, no primeiro
    dia nupcial. Que tristeza! E ninguem falla d'isto senão eu, porque me
    cumpre fazer o elogio de Calisto Eloy, que não fez cousa nenhuma
    d'aquellas.

    Assim que se ergueu cuidou em aformosear a saleta, cuja decoração era
    menos de modesta. Saiu açodado ao armazem dos mais elegantes estofos, e
    comprou alfaias magnificas. O homem pasmava dos nomes d'aquelles
    objectos, nenhum dos quaes soava portuguezmente.

    –Porque chamam a isto _chaise-longue_?–perguntava Calisto Eloy ao
    engenhoso Margoteau.

    –Porque chamam?!

    –Sim: eu creio que se não offende a França no caso de chamarmos a este
    movel uma cadeira longa, ou uma preguiceira, que sôa melhor. E _étagère_
    e _console_ e _téte-à-tête_, e _onaise_? E é carissimo tudo isto! A
    gente, pelos modos, de fóra parte os objectos, tambem paga a lição de
    francez de samblador, que vem aqui aprender?

    Sem embargo d'estes reparos, o oiro saiu-lhe generosamente da algibeira
    bem apercebida.

    A pobre saleta do morgado, dentro em pouco, transformou-se em recinto
    digno de uma Ponce de Leão. Calisto, refestelado nos coxins elasticos da
    ottomana, contemplava os restantes adornos do aposento, quando lhe
    chegou do correio carta da sua esposa.

    Dizia assim:

    «Já com esta são tres que te escrevo, e ó por hora nem uma nem duas da
    tua parte. Marido! que fazes tu, que não respondes? Ando a futurar que
    não tens o miolo no seu logar. Longe da vista, longe do coração, diz lá
    o ditado. Ora, queira Deus que não seja por minga de saude; e, se é,
    dil-o para cá, que eu estou aqui estou lá.

    «O primo Affonso de Gamboa esteve cá ha dias, e a modo de caçoada foi-me
    dizendo que lá na capital as mulheres inguiçam os homens, e fazem
    d'elles gato sapato. Eu fiquei sem pinga de sangue, meu Calisto! Mal fiz
    eu em te deixar ir ás côrtes. Bem tolo é quem está bem na sua casa, e se
    mette n'estas coisas dos governos, que só servem para quem não tem que
    perder, como diz o primo Affonso.

    O peor é se tu pegas a doidejar com as mulheres, e saes do teu sério.
    Eras um marido perfeito como a santa religião o quer, e tenho cá uns
    agouros no peito que me não deixam fechar olho ha tres noites. Deus te
    defenda, homem, e te traga aos braços da tua mulher são e escorreito da
    alma e do corpo.

    Saberás que o mestre-escola anda de candeias ás avessas por que tu lhe
    não respondes á carta em que elle te pediu uma venera. Olha se lhe
    arranjas isso ainda que te custe pedir ao rei ou lá a quem é a tal
    coisa. O homem tem-me feito favores, quando eu preciso que elle me leia
    a relação dos foreiros. A vacca preta comeu o bicho, e morreu hontem á
    noite. Lá se vão cinco moedas e um quartinho com a breca. O centeio da
    tulha do meio deu-lhe o gorgulho, e tratei de o vender, a trezentos e
    quinze, foi bem bom arranjo; eram mil e duzentos alqueires.

    Olha cá, meu Calisto, disse-me a Joanna Pedra, que ouvira dizer ao
    Manuel da Loja, que ouviu dizer ao compadre Francisco Lampreia, que veiu
    de Bragança que lá lhe disseram que tu mandaras ir de casa de um
    negociante mais de cem moedas de ouro!!! Fiquei estarrecida. Pois tu lá
    não recebes do rei dinheiro que te sobre? Em que affundes tu tantas
    moedas, homem? Vê lá no que andas mettido, Calisto! E, se te fôr muito
    necessario algum dinheiro, cá estou eu para t'o mandar. Aquelle caixote
    de peças de duas caras fui ha dias escondêl-o na lareira da cosinha
    velha, porque tenho medo á ladroeira desde que tu andas por lá.

    Não te enfado mais. Responde sem demora, que estou muito consternada.

    Tua mulher que muito te quer
    _Theodora_.»

    Calisto Eloy dobrou a carta vagarosamente, e disse de si para comsigo:

    –Pobre mulher! já me sinto enfadado com as tuas cartas… Já as tuas
    sinceras babozeiras me incommodam e enjoam!… Agora vejo que tu eras
    quasi nada na minha vida. Não sei em que logar do meu coração estiveste,
    porque não dou pela falta, nem sequer a saudade me chama para ti!… Os
    contentamentos da minha vida passada deu-m'os o estudo. O coração dormia
    como os ventos da tempestade no bojo da nuvem negra, que serenamente se
    vae acastellando no horisonte. Eil-a começa a desfechar agora relampagos
    e coriscos. Mas o viver é isto! eu quero e preciso amar. Levam-me os
    impetos de uma vontade juvenil, e «a vontade é vida» como diz o Jorge
    Ferreira na Eufrozina. Amor! amor! que me caldeaste e retemperaste o
    peito nas tuas forjas! emborca-me os teus nectareos phyltros,
    embriaga-me este coração, que já não póde respirar de afogado nos seus
    ardores!…

    Disse, e tirou de uma charuteira de canudos de prata um havano, cujas
    ondulações de fumo lhe perfumaram o quarto e subtilisaram a phantasia.

    Depois, com forçado tregeito, estendeu o braço sobre uma banqueta de
    charão, em que assentava um tinteiro de crystal, e escreveu á esposa,
    n'este theor:

    «Prima Theodora e estimada esposa.

    Passo bem de saude; mas saudoso de ti. Não te tenho escripto, porque os
    negocios do estado me levam todo o tempo. Mandei vir dinheiro de
    Bragança, para emprezas de grande vantagem. Não te dê cuidado os meus
    gastos, que somos muito ricos, e não temos filhos. Até aqui vivemos
    miseravelmente, quando eu voltar a casa, quero que mudes de vida, prima.
    Hei de reformar o nosso palacete de Miranda, e viveremos como nossos
    avós, com representação e commodidades proprias d'este tempo. É preciso
    gosarmos a vida, que é curta. Não andes por lá a medir grão nem a tratar
    das aves. Entrega isso ás criadas, e faz-te a senhora e fidalga que és.

    Em quanto ao mestre-escola, e á sua exigencia do habito de Christo, devo
    dizer-te que o mestre-escola é um asno. Não respondo a taes cartas.
    Manda-o á tabua, e não admittas similhante palerma á tua conversação.
    Lembra-te que és uma Figueirôa, casada com um Barbuda.

    Se receberes ordem minha, em mão de algum negociante de Bragança, paga o
    dinheiro que disser a ordem.

    Não te lembres de infidelidades do teu Calisto. O primo Gamboa é um
    patarata sem juizo, que te diz essas coisas para te disfructar.

    Quando vier o recoveiro de Miranda, manda-me presunto, salpicões, e
    algumas ancoretas do vinho da Ribeira.

    Teu muito affecto e extremoso
    _Calisto_.»

    XXIV

    *A mulher fatal*

    Ás tres horas em ponto, parou uma sege de praça, á porta de Calisto Eloy
    de Silos. O bolieiro subiu ao terceiro andar, perguntando se s. ex.^a
    estava em casa. O morgado arregaçou com o pente as mechas do cabello,
    que lhe escondiam porção das escampadas fontes, apertou os cordões do
    rob-de-chambre na volta mais airosa da cintura, e desceu ao pateo a
    receber a visita.

    Saltou da sege, amparando-se levemente na mão de Calisto, uma mulher
    d'aquellas que Lucifer fazia, quando assaltava no deserto a pudicicia
    dos Antonios, dos Paulos, dos Pacomios e Hilarioens.

    Era alta e pallida: rutilavam-lhe os olhos como lustrosos azeviches á
    flor de um busto de marfim, algum tanto emaciado. Calisto machinalmente
    levou a mão ao coração: traspassara-lh'o uma azagaia electrica.

    –É muita delicadeza da parte de v. ex.^a, disse Iphigenia.

    –Oh, minha senhora!… tartamudeou o morgado da Agra, offerecendo-lhe o
    braço.

    –Parece, tornou ella quando iam subindo, que o meu palpite não me
    enganou…

    –O palpite de v. ex.^a?

    –Sim… eu contava com um cavalheiro no rigor da palavra… Delicadeza
    egual ao talento, qualidades que raras vezes se conformam.

    Entraram á sala. O morgado conduziu Iphigenia ao sophá, e disse com voz
    tremida:

    –A que devo eu a honra d'esta visita, minha senhora?

    –Abreviarei a minha historia e a minha pretenção. As suas horas deve-as
    v. ex.^a ao bem da patria, e indiscreta fui eu obrigando-o a estar fóra
    do parlamento a esta hora…

    –Minha senhora… que vale a patria, em comparação da honra que v.
    ex.^a me dá?! atalhou Calisto Eloy, com o coração nos labios a sorrir.

    –Sou brazileira. Pela falla me terá já conhecido…

    –Sim: eu estava notando no fallar de v. ex.^a, uma graça indisivel…

    –Meu pae era portuguez, capitão de mar e guerra. Foi de Portugal com D.
    João VI, e casou no Rio de Janeiro, com minha mãe, senhora de boa
    linhagem, mas de pouquissimos recursos. Nasci em 1830, e casei em 1846
    com um official general, do exercito do imperador do Brazil. Meu marido
    tinha sessenta e seis annos. Emigrára em 1834, com a patente de
    brigadeiro dada por D. Miguel, tendo sido coronel ainda no reinado de D.
    João. Gonçalo Telles offereceu a sua espada e intelligencia a Pedro II,
    serviu bravamente o imperio, e subiu em postos. Eu vivia orphã de pae e
    mãe, na companhia de parentes maternos, que pensavam constantemente em
    me dar posição. Casaram-me, e, se me não fizeram feliz, deram-me pae,
    amigo e mestre na pessoa de Gonçalo Telles.

    Ha dois annos que meu marido morreu. Deixou-me pouco, porque ninguem
    póde grangear muito com honra, principalmente na vida militar. Pouco
    antes de cair enfermo, me disse que, se algum dia me faltassem recursos
    e beneficios do governo brazileiro, viesse a Portugal e procurasse o
    amparo de alguns grandes fidalgos, seus parentes que elle me nomeou um
    por um; e ajuntou que, se os parentes me não amparassem, pedisse ao
    estado uma tença em attenção aos muitos serviços que elle fizera á
    patria em trinta annos, até ao dia em que foi promovido a coronel de
    cavallaria.

    Ha tres mezes que cheguei a Lisboa. Procurei os parentes do meu marido.
    Apeei á porta de grandes palacios, e esperei largas horas em grandes
    salas de espera, como viuva que anda requerendo esmola. Enganaram-se.

    Alguns, por mais tractos que deram á memoria, já não conseguiram
    lembrar-se de Gonçalo Telles de Teive Ponce de Leão; outros, os mais
    velhos, recordavam-se do sujeito, e lastimavam que elle deixasse o
    serviço da patria. Quando eu não tinha mais que lhes dizer nem elles a
    mim, eu levantava-me, elles levantavam-se, e despediamo-nos
    cerimoniosamente. A altivez com que eu os despreso, sr. Barbuda,
    authorisa-me a dizer-lhe que os miseraveis são elles: eu tenho comigo a
    riqueza do meu orgulho; e, se conservo os appellidos de meu marido, é
    porque elle foi talvez o unico de sua raça que os não desdourou…

    –Diz v. ex.^a muito bem–atalhou Calisto.–Que nobre alma as suas
    palavras me manifestam!

    –Ha dias, por não ter de portas a dentro coisa que me distraisse de
    pensares melancholicos, fui ao parlamento. Segui umas senhoras que iam
    subindo para as galerias. Um homem pediu-me o meu bilhete de admissão:
    eu não tinha bilhete, e ia descer algum tanto envergonhada, quando um
    deputado cortezmente me disse: «aqui tem uma entrada, minha senhora.»
    Agradeci, posto que a minha vontade seria regeitar. Entrei, quando v.
    ex.^a começava a fallar. Impressionou-me a sua eloquencia chã, os seus
    ares graves, a compostura, um não sei quê mais sério que os seus annos,
    permitta-me assim fallar. E, ao mesmo tempo, lembrou-me a recommendação
    de meu marido, respectivamente aos direitos que elle tinha de ser
    remunerado na pessoa de sua viuva. Eu nada sei de leis nem consultei
    quem as soubesse; ignoro se tenho direito a reclamar o que meu marido
    nunca reclamou. V. ex.^a póde de prompto responder-me?

    –Não, minha senhora. O que eu de prompto posso asseverar a v. ex.^a é
    que, em honra da memoria e cinzas do honrado brigadeiro do sr. D.
    Miguel, não erguerei minha voz humilde no parlamento, pedindo aos
    inimigos de D. Miguel favores para a viuva de Gonçalo Telles.

    –Em tal caso…–balbuciou D. Iphigenia–baldou-se a minha pretenção.

    –Queira v. ex.^a ouvir-me…–Molesta-se com o fumo do
    charuto?–perguntou elle erguendo-se.

    –Não, senhor.

    Calisto accendeu o charuto com ademanes theatraes, e voltou a sentar-se,
    proseguindo:

    –Se o marido de v. ex.^a houvesse profundamente estudado a sua arvore
    genealogica, ajuntaria alguns nomes, mais obscuros mas não menos
    antigos, á lista dos parentes em Portugal. Mais obscuros, digo eu;
    porém, a illustração dos mais claros não é de invejar, minha nobilissima
    senhora. Entre aquelles que se honram do parentesco dos Telles, dos
    Teives e ainda dos leonezes chamados Ponces de Leão, ha um que dispensou
    estes appellidos por se não demasiar em composturas nobiliarias. E esse,
    minha senhora e prima, sou eu.

    –V. ex.^a?!–acudiu Iphigenia.

    –Eu, que não costumo fallar de meus antepassados, sem invocar o
    testemunho dos tratadistas nobliarchicos, dos chronistas, dos
    genealogicos impressos e não impressos. Devo poupal-a a discursos, aliás
    curiosos, de agradaveis e historicas noticias: mais tarde v. ex.^a
    ouvirá com interesse as allianças travadas entre os meus maiores e os de
    meu parente Gonçalo Telles de Teive. Achou, pois, v. ex.^a um parente em
    Portugal. Boa estrella nos fez confluir a Lisboa; em boa hora me deixei
    vencer das instancias dos meus constituintes.

    –Eu estou maravilhada!…–exclamou Iphigenia–Ha presentimentos
    prodigiosos!… Que força estranha era esta que me impellia para v.
    ex.^a!? Subi as escadas de sua casa com desusada affoiteza. Comecei a
    fallar-lhe com segurança e tranquilidade extraordinarias! Não me lembrei
    que estava diante de um cavalheiro, que podia intender-me falsa e
    desairosamente… Em fim, eu fallava a v. ex.^a como se deve fallar… a
    um primo.

    –E mais que tudo a um amigo. E, como amigo, ouso perguntar a v. ex.^a
    qual é actualmente a sua situação.

    –Francamente responderei. Entrei em Lisboa com dinheiro, que poderia
    bastar á minha economica subsistencia de dois annos; porém, como ao fim
    de tres mezes, não se me antolhava amparo de ninguem, nem esperanças de
    alcançar a paga dos serviços de meu marido, pensei em trabalhar para não
    exhaurir o peculio que tinha. Li um annuncio, convidando mestra de
    linguas ingleza e franceza para collegio. Confiei bastante em mim, e
    apresentei-me aos directores. Fallei francez, e cuidaram que eu nascêra
    em França; em quanto a inglez, deram-me como bastante conhecedora da
    lingua. Pareceu-me que a minha posição melhorava; mas enganei-me. Eu
    levava comigo o fatal condão de algumas mulheres; dizem que ainda não
    estou velha nem feia…

    –Que favor lhe fazem, minha senhora!–atalhou Calisto mui risonho.

    –Pois este accidente, de que tanto se desvanecem algumas mulheres,
    tornou-se para mim supplicio. Não querem crêr que eu envolvi meu coração
    na mortalha de meu marido, no tumulo d'elle o fechei; e, se podesse,
    este resto de formosura atirara áquella campa, que me roubou um pae.

    –Então é certo que minha prima abjurou todas as alegrias do
    coração?–perguntou Calisto, já ferido n'alma por este desengano á
    paixão que o ia queimando com um crescer e desenvolvimento para pavores!

    –Todas as que não condigam com a minha situação de viuva.

    –Pois se a Providencia lhe deparasse um marido digno…

    –Maridos dignos são unicamente aquelles que affagam como a filhas as
    mulheres; são aquelles que as mulheres estremecem como paes; são os que
    concentram todo o seu viver no pequenino ambito da familia, na placidez
    e silencios de almas que se contemplam mudas, quando as vozes do coração
    já não tem que dizer. Eu experimentei estes contentamentos ao lado de um
    pae, que me deu todo o seu saber quando já não tinha forças para manejar
    a espada. Não se podem repetir as situações do meu passado; lembro-as
    com saudade; mas não cogito nem levemente em revivêl-as. Aqui tem v.
    ex.^a a sincera exposição do que sou. Veiu isto a dizer-lhe que a vida
    de mestra, que adoptei, me é golpeada de desgostos e repugnancias que me
    fazem desgraçada.

    –E como seria v. ex.^a feliz?–interrompeu Calisto.

    –N'uma casinha entre duas arvores, com os meus livros e com as minhas
    saudades. Ambiciono muito, porque ha pessoas abastadas que nunca puderam
    conseguir esta felicidade, tão moderada apparentemente.

    Ergueu-se Calisto Eloy de golpe, avisinhou-se da brazileira, tomou-lhe a
    mão com solemnidade, e abriu do peito estas graves e doces vozes:

    –Prima Iphigenia, eu não permittirei que a sua mocidade vá
    emmurchecer-se n'uma casinha entre duas arvores. Para as arvores e
    flôres se fizeram as aves; e, todavia, na estação desabrida, umas aves
    desferem remontado vôo a outros climas, e outras pipilam enfezadas de
    frio e fome. Na estação das manhãs regorgeadas e das tardes inspirativas
    terá v. ex.^a a sua casa bem assombrada de arvores e rodeada de relvas e
    fontes que retemperem as calmas do estio. Porém, no inverno, gosará o
    aconchêgo e regalos que as grandes populações offerecem. Não lhe admitto
    replicas, prima. Achou um parente de edade authorisada, que requer
    obediencia. Agora, fallar-lhe-hei de mim. Sou rico, não tenho filhos,
    com quanto seja casado…

    N'este ponto do discurso, Calisto de Barbuda fez ama visagem funebre, e
    correu os dedos vertiginosamente por sobre o bigode, ainda escasso.
    Depois, desentranhou um suspiro cavo, e continuou:

    –Minha prima e mulher, se alguma vez se encontrar com v. ex.^a
    abrir-lhe-ha os braços de parenta. É uma creatura feita no campo, dotada
    apenas das luzes naturaes, que a levam pelo melhor caminho da felicidade
    n'este mundo. Casei, por que era necessario que o vinculo dos Figueirôas
    voltasse á casa d'onde saíra. Acho-me ha vinte e alguns annos ligado á
    mulher, que não devia ser minha. E, se ella é feliz, isso prova a muita
    probidade e resignação com que me tenho conformado ao meu destino…

    Fez uma breve pausa, e proseguiu:

    –V. ex.^a deu largas á sua alma: consinta que eu seja avaro do prazer
    de uma expansão.

    –Porque não ha de sêl-o?–accudiu D. Iphigenia, interessada na
    commovente historia.

    –Não sei o que é felicidade. Tenho quarenta e quatro annos, e ainda não
    vi uma aurora benigna. Muitos annos procurei aturdir-me no estudo.
    Roía-me o abutre de um desejo vago; mas eu, que me segregára do mundo
    para o escondrijo da minha bibliotheca, se ás vezes passava de relance
    entre mulheres, que poderiam espertar-me paixões, fitava n'ellas como
    idiota que perdeu a memoria da terra natal, e se quêda espantado das
    coisas que ligeiramente lhe espertam a lembrança. Se alguma vez me
    surpresou algum sentimento estranho de affecto, podia tanto comigo a
    consciencia da sujeição ao dever, que o mesmo era cerrar os ouvidos da
    alma ao quer que era, entidade dupla, que me segredava delicias de uma
    vida incognita. Estas breves e poucas pelejas, com o discorrer dos
    annos, cessaram. Eu tinha consummado a paralysia do coração, e chamado
    sobre mim todos os habitos da velhice. A minha vinda para Lisboa foi o
    resurgimento da vida, sepultada antes de haver consciencia de si.
    Achei-me entre homens, aquecidos á luz d'este seculo. Na athmosphera
    d'esta cidade ha perfumes que vaporam do coração das esposas amadas, das
    amantes queridas, das pombas ideaes, que volteam á volta dos espiritos
    anhelantes de cada homem. Pulou-me como arfar de vulcões a vida no
    peito. Vi-me no passado, e tive pesar, e saudade, e pejo da minha
    mocidade… Onde vão estas candidas revelações do meu pobre coração? Não
    na enfadam porventura minha senhora?

    –Interessam-me e commovem-me–disse com affectuosa sympathia a
    brazileira–Vae dizer-me que se apaixonou?

    –Tive um delirio–respondeu o morgado, compassando as palavras em tom
    muito do intimo–Um delirio, sonho de infeliz, que se desperta a
    arrancar do seio uma frecha. Foi o estremecer do terremoto, que alarma
    terrores, e se aquieta. Medi a profundeza da minha alma, e pude vêr que
    eu seria capaz de um crime… E, todavia, se algum seio de mulher
    podesse comprehender quanta pureza sanctificava os meus affectos!… Se
    alguem visse a aguia que por tão alto avoeja, sem descer ás searas a
    roubar um grão!… Fallo a um espirito elevado, que tem obrigação de me
    comprehender… Agora, senhora, perdão! Eu disse tudo: confessei-me
    diante de um anjo de Deus. Mostrei-lhe o desamparo d'este meu viver. E,
    se estas lagrimas alguma coisa significam, é uma supplica de amizade. Eu
    vejo ahi uma formosura que dobra a alma, e ouso procurar o
    compadecimento de uma amiga, porque sei agora que ha mulheres, diante
    das quaes um homem precisa chorar.

    Calou-se o morgado. Iphigenia encarava n'elle com certo assombro e
    estranheza de pessoa que não póde, nem quer conhecer dos sentimentos que
    a alvoroçam. O inesperado remate d'este dialogo figurou-se-lhe a ella a
    passagem de um romance, que se não presa de muito verosimil. Porém, como
    quer que a viuva do general Ponce de Leão fosse grandemente lida em
    novellas francezas, o caso não lhe pareceu tão extraordinario como ao
    leitor e a mim, quando m'o referiram.

    Passados momentos, Iphigenia, contemplando, sem as vêr, umas figuras
    chinezas do seu leque, disse:

    –De maneira que esta apparição imprevista de uma mulher desafortunada,
    se deu logar á expansão, tambem foi causa a uma dôr de v. ex.^a!…

    Calisto entrelaçou os dedos em postura supplicante, e exclamou:

    –Chovam-lhe os archanjos do Senhor quantas felicidades a
    bem-aventurança encerra! Nunca uma nuvem escura lhe ennegreça os seus
    sonhos de felicidade! Multipliquem-se em alegrias eternas para v. ex.^a,
    estes instantes de ventura que me deu, minha misericordiosa amiga!

    Nenhuma paixão subita estalou ainda com estrondos d'este tamanho. A
    gente comprehende como estas coisas acontecem; casos se podem ter dado
    comnosco da mesma natureza, mas o que nós não fizemos nunca, se o amor
    nos assaltou de improviso, foi fallar assim, romper tão depressa em
    vehemencias de enthusiasmo. Nós, homens creados mais ou menos por salas,
    affeitos a subordinar o sentimento ás praticas da civilidade,
    desafogâmos em extasis e suspiros, contemplamos embellezados a mulher
    que nos endoudece, respondemos com frioleiras gagas a uma pergunta, que
    nos ella faz com toda a presença do seu espirito. Toda a lastima é pouca
    para os ridiculissimos tregeitos que fazemos então.

    Ora, isto é bom que assim continue a ser. Esse quarto de hora de suprema
    realeza das mulheres é tudo que ellas tem, e pouco mais. Esse espaço de
    fascinação, que nos embrutece, é a divinisação d'ellas. Ás pobresinhas,
    quando o tempo as apêa dos altares, e os maridos convertem a prata dos
    thuribulos em caixas de rapé, fica-lhes sempre a memoria consolativa
    d'aquelle quarto de hora.

    Tornando ao ponto, queria eu dizer, que o morgado da Agra de Freimas não
    fallaria d'aquelle modo, nem tão do intimo da alma apaixonada, se
    tivesse experiencia dos usos da boa sociedade. Os bons usos ordenam que
    o homem se declare á mulher que ama, depois que as impressões repetidas
    de vêl-a e ouvil-a bajam desfalcado o vigor do sentimento. A praxe
    requer primeiro o extasis, depois as semsaborias tratamudas, ultimamente
    a declaração, com intervalo de tres mezes ao extasis.

    XXV

    *Perdido!*

    Fecharam-se as camaras.

    Calisto Eloy desamparára a sua cadeira do parlamento, quinze dias antes
    de encerrada a legislatura. Era opinião geral que o deputado de Miranda,
    desgostoso do governo e da opposição, se retirara, convicto da fraqueza
    de seus hombros contra o colosso, que tombava sobre o desangrado
    Portugal.

    As gazetas realistas indigitavam Calisto como exemplo de peito illustre
    e invulneravel no marnel de febres podres em que ardiam e patinhavam
    miseraveis ambiciosos. Deram-lhe, á conta d'isso, varios nomes gregos e
    romanos, que lhe ajustavam tão a primor, como a verdade historica á
    legenda das fabulosas virtudes de Grecia e Roma. A opposição liberal
    lamentava que as medidas obnoxias e hybridas do governo afugentassem da
    camara um deputado como Benevides de Barbuda, a cuja alta intelligencia
    e virtude repugnavam os desatinos da camarilha. Calisto Eloy lia estas
    coisas nas gazetas, e dizia entre si:

    –Como hei de eu crer no que vejo escripto a respeito dos outros!…

    Ao tempo que estes juizos dos publicistas eram impressos e mandados á
    posteridade, estava o morgado da Agra no hotel de Cíntra, cuidando em
    alugar e trastejar com elegancia britannica uma casa, entre moitas de
    arbustos, a qual parecia feita para a rainha das flores ou para
    repousar-se em fresca sesta a aurora.

    Decoradas as paredes interiores, cobertos de oleado os pavimentos, e
    afestoadas as paredes exteriormente com lilazes e jasmineiros, baunilhas
    e eras de verdejante urdidura, entrou n'aquella casa D. Iphigenia,
    conduzida pelo braço de Calisto, e seguida de uma senhora de porte
    honesto e recommendavel, que vinha a ser aquella D. Thomazia Leonor, em
    honra de quem as musas do defuncto tenente suspiraram acrosticos. Mais
    atraz, iam duas criadas, e um servo fardado de casimira côr de pombo,
    com gola e canhões escarlates, golpeados de listas amarellas,
    distinctivos da libré dos Ponces de Leão de Hespanha.

    Iphigenia foi surprehendida pelo seu gabinete de estudo, decorado de
    graciosas estantes e _étagères_, cheias de livros luxuosamente
    encadernados, acondicionados com tão elegante symetria que induziam
    muito mais á contemplação que á leitura. O restante d'aquella vivenda de
    fadas era por egual magnifico, em gosto e riqueza.

    Calisto deu posse da casa a sua prima, e retirou-se ao hotel, para que
    ella sestiasse e se recobrasse da fadiga e calma da jornada.

    Ao descair da tarde, o morgado foi bater á porta d'aquelle eden.
    Iphigenia saiu-lhe ao encontro com um ramilhete de flores, e disse-lhe:

    –Aqui tem as primicias do seu jardim, primo.

    Calisto aspirou o aroma das flores, osculou a mão que lh'as offerecera,
    e murmurou:

    –Fechem-se os meus olhos, quando eu as poder vêr sem lagrimas de
    gratidão.

    –Lagrimas… para que?–Volveu ella com meiguice.–As lagrimas
    deixemol-as aos infelizes. O primo não comparte do meu contentamento?
    Não vê que me realisou o meu sonho com tamanho excesso de delicias, que
    eu não me atrevera, sequer, a imaginar? Sinto-me ditosa!… Ainda não
    quiz pensar um instante se estas alegrias podem descair em magoas…
    Estou sonhando, e não quero que me acordem. Seria crueldade dizerem-me
    que ha viboras debaixo d'estas alcatifas de flores. Isto deve ser
    paraizo sem culpa, ignorancia santa do porvir sem pomo de arvore da
    sciencia que m'o descubra. Não é assim?…

    –Que fallar o seu prima!–disse com vehemente, mas suffocado amor, o
    morgado–Que melodias!… Eu não sei responder-lhe… Apenas sei
    escutal-a. N'uma composição dramatica de Sá de Miranda, chamada
    _Vilhalpandos_, ha um epitheto dado a uma mulher, o qual eu não podia
    perceber, sem que o baptismo das doces lagrimas me chamassem o coração á
    vida.

    –Sempre lagrimas!…–atalhou Iphigenia–Então que é que diz o Sá de
    Miranda?

    –Na bocca de um amante, que encontra a sua amada, põe estas palavras:
    «mulher santissima». Quem disse mais n'este mundo? os seus poetas
    francezes disseram coisa mais peregrina?… E n'esta mesma scena, poucas
    linhas abaixo, diz o amante a Fausta: «Sabes que sonho?». Que immenso
    amor devia de ser o de Antonioto, que assim perguntava á vida de sua
    alma: «Sabes que sonho?»

    –_Fausta_!… é um nome lindo, disse a mimosa viuva.

    –Se não existisse Iphigenia…–accudiu Calisto. Já este nome me soava
    docemente quando, na minha mocidade relia as angustias da filha da
    Agamemnão, cujo sacrificio o oraculo de Aulida demandava.

    –Ah! tambem eu conheço essas angustias da tragedia de Racine. Quantas
    vezes eu, nas minhas horas tristes, repetia com a Iphigenia do grande
    poeta francez, e com o espirito na alma de minha mãe, assim como ella o
    tinha no afflicto rosto da sua:

    _Ah!
    Sous quel astre-cruel avez-vous mis au jour
    Le malheureux objet d'un si tendre amour?_

    O primo, continuou ella, conhece perfeitamente Racine e Corneille?

    –Perfunctoriamente. Conheço melhor Euripedes e Seneca. Pendi sempre á
    lição de classicos gregos, latinos e portuguezes. Crê-se nas provincias
    que o saber humano está n'isto. Os francezes começo a presal-os agora,
    porque… não ha linguagem que não sôe divinamente fallada por minha
    prima.

    –Essas lisonjas–volveu ella sorrindo–aprendeu-as nos seus livros
    velhos, primo Calisto?

    –A lisonja deixará alguma hora de ser mentira?… Eu não podia
    mentir-lhe, prima Iphigenia. Não!… Os meus classicos só me ensinaram
    duas palavras, que eu possa dizer-lhe: Mulher Santissima!

    Iphigenia deixou-se amorosamente beijar nos dedos.

    A natureza de Cintra, incluindo os rouxinoes d'aquellas ramarias,
    poderia espantar-se: eu, não.

    XXVI

    *E ella amava-o!*

    Era já pleno estio. Os galans mais hardidos de Lisboa estanceavam por
    Sitiaes, por Pisões, e por aquellas varzeas de Collares, a engarrafar
    lyrismo para gastarem por salas nas noites de inverno.

    O primeiro d'elles que descortinou por entre arvores a formosa
    brazileira foi alviçarando aos outros a ondina incognita, que saira das
    vagas a buscar camilha de folhagem e boninas entre as fragas da serra da
    lua.

    Entram os agitados monteiros da estranha caça a circumvagarem nas
    encostas e oiteirinhos que rodeavam a vivenda de Iphigenia. Uns a viam
    ao sol posto, outros ao arraiar da manhã, e outros, quando ella
    perpassava por entre aleas de cylindras para uma gruta fechada como
    concha de perola.

    A presença de Calisto Eloy, confundido com os arbustos floridos da
    casinha mysteriosa, augmentou a curiosidade dos indagadores. Uns
    consideraram esposa do deputado a bella esquiva; outros aventaram
    hypotheses mais romanticas, mas menos honestas. Á primeira conjectura
    oppunha-se uma forte razão negativa: se era marido, porque vivia no
    hotel do Victor? Á segunda conjectura, contradictava outra razão
    ponderavel: se era amante, que descuidado amante era elle, que se
    encerrava no seu quarto do hotel, durante as noites,–facto averiguado
    minudenciosamente pelos interessados? O mysterio, pelo conseguinte, a
    nublar-se, e as esporas de uma curiosidade impaciente a picar os moços
    ociosos, e os ricassos velhos, que espreitavam por entre a rede das
    sebes verdejantes, esta Susana, mais cuidadosa do que a outra, que
    accendia fogos nos lubricos juizes de Israel.

    Entre os mancebos, estremava-se um, que passava grandes espaços de tempo
    em quietismo esculptural debaixo de um olmo, que sobranceava a casa de
    Iphigenia. Sempre que ella, á hora da maior calma, se aproximava da
    janella do seu gabinete a respirar o frescor do jardim, via o
    contemplativo sujeito de braços cruzados, e olhos fitos. Mas, assim que,
    ao intardecer, os arredores da casa começavam a ser frequentados, o
    moço, como quem se resguarda, desapparecia.

    Era este sujeito aquelle Vasco da Cunha, que esperava a herança de uma
    tia para casar com Adelaide Sarmento. Os olhos indifferentes de
    Iphigenia assetearam-lhe a pia alma, n'um d'aquelles dias em que elle
    viera de Lisboa a Cintra para assistir á novena de Santo Antonio de
    Padua, celebrada solemnemente na capella de uma tia marqueza. Ou porque
    o ascetico fidalgo andasse com o coração amollecido pelas praticas
    piedosas, ou porque Iphigenia se lhe figurasse algum d'aquelles
    seraphins que visitavam os anachoretas da Thebaida, o certo é que não
    houve mais despegar-se-lhe a phantasia d'aquella imagem, que se
    interpunha entre elle e o santo filho de Martim de Bulhões.

    Iphigenia attentou na pertinacia do homem, e contou ao primo Calisto,
    gracejando, a tempestade amorosa que lhe andava imminente na pessoa
    d'aquelle sujeito. Assomaram differentes côres ao rosto do morgado.
    Quizera elle dissimular o sobresalto com o sorriso: mas a rubidez
    sanguinea dos olhos, se o dramaturgo inglez a visse, arranjaria
    d'aquelle aspeito feroz assumpto para mais scelerado preto.

    Iphigenia lisongeou-se d'aquella explosão de lavas que archejavam na
    testa do homem.

    _Lisongeou-se_!… Pois amava-o ella?!

    Não sei com que direito me fazem esta pergunta assim com uns visos de
    espanto! Amava-o como quem não tinha amado nunca. E para lisongear-se de
    incutir ciume não lhe fôra mister amal-o, digamol-o de passagem, e em
    nome da consciencia incorruptivel das senhoras, cuja attenção e reparo é
    felicidade que eu anteponha a todas.

    Amava-o, sem pensar os beneficios extremamente delicados com que elle
    lhe dulcificava a existencia. Amava-o captiva do quer que é que primeiro
    prende a vontade da mulher, sem dependencia dos dons da alma. Calisto
    Eloy de Silos estava uma esbelta figura de homem. A cara compuzera-se
    arabicamente. O bigode cerrado e negro caía-lhe sobre as claviculas. O
    descostume da leitura restituira-lhe o aprumo da espinha dorsal. O
    ventre baixou ás proporções rasoaveis. No trajar; refinava em elegancia
    e gosto, subordinando-se ao alvitre do alfaiate. Todo aquelle ar de
    meneios, posturas e geitos accusava os fidalgos espiritos, resgatados da
    brutesa da antiga vida. Póde ser que alguma affectação lhe maculasse os
    modos e garbo das attitudes: sem embargo, o senhor da Agra de Freimas
    era homem para merecer, sem favor, a consideração de qualquer dama
    superciliosa na escolha.

    Se isto não bastasse a ponderar no animo de Iphigenia, mal poderia
    resistir-lhe o coração aos respeitos, porventura demasiados, com que
    elle interpunha largo stadio entre as expansões da palavra e o minimo
    vislumbre de qualquer intento menos decoroso. Casos houve era que ella o
    surprehendeu com os olhos marejados de lagrimas e um sorriso nos labios,
    sorriso supplicante, de perdão para as lagrimas. Casos houve em que ella
    sentiu ferver-lhe o desejo de lhe pedir que, em vez de lagrimas, lhe
    desse um beijo na face, um d'aquelles beijos, que não tiram nada á
    formosura do corpo nem da alma, porque no rosto augmentam o rubor–o que
    é bello–; e na alma convencem a consciencia da adoração–o que é
    sublime. Difficil coisa será achar a virtude que se furta a estes
    conflictos! Virtude, que se esconde e encolhe para não ser alcançada
    pela flecha de um beijo, ás vezes acontece que, por muito esquivar-se,
    apouca-se, vapora-se, safa-se e ninguem sabe como ella se foi, nem como
    é possivel que um vaso fechado de essencias aromaticas appareça vasio
    sem ter sido quebrado. Este caso, naturalmente, anda explicado na
    esthetica. Eu hei de vêr o que é isto quando tiver vagar.

    Vamos já rodeando por longe dos ciumes de Calisto Eloy. Revertamos ao
    assumpto.

    Iphigenia tomou-lhe amorosamente da mão e disse-lhe:

    –Meu primo, eu não quero lêr em sua alma uma pagina que se não
    assimelha ás outras.

    –Pois que é, prima?… perguntou elle enleado e tremente.

    –Eu não quero ter de justificar-me, tornou ella balbuciante.

    –Justificar-se….

    –Sim. Duas palavras que bastem a definir-me. Se eu perder a sua
    amizade, quero morrer. Veja quanto eu farei para lh'a merecer.

    Calisto dobrou o joelho, e beijou a mão, que lhe estreitava
    calorosamente, a d'elle.

    Seguiu-se silencio de alguns minutos.

    Se houvesse elos na cadeia da felicidade humana, o ultimo, a maxima
    perfeição, devia prender com os gosos celestiaes. Esse ultimo elo não o
    ha: se existisse, o morgado, n'aquelle instante, perderia a consciencia
    d'esta vida, e entraria na exaltação beatifica dos anjos.

    A fortuna dos corações que desbordam da felicidade no amor, deve ser
    aquella _Fortuna parva_, á qual Servio Tullio erigiu templos. Tito
    Livio, a meu vêr, toma o _parva_ no sentido de _baixa_ ou _pequena_: eu
    traduzo latamente «fortuna lorpa»; porque não conheço, quem, n'uns
    lances analogos ao de Calisto, mantivesse a inteireza de sua razão e
    espiritos. É que o morgado não disse coisa que mereça escriptura, elle
    que tão donosamente, em supremos apertos, face a face do dr. Liborio,
    tirou da veia copiosa repuchos de eloquencia!

    No dia seguinte, quando as aves abraseadas do sol das onze horas, se
    embrenhavam nos tufos das ramagens, lá estava Vasco da Cunha debaixo da
    arvore.

    Á mesma hora, Calisto Eloy circuitava a parede da matta em que se
    emboscava o religioso mancebo, saltava de manso, e quasi a subitas
    passava rente d'elle hombro a hombro.

    Vasco não conheceu o homem que o fitava com sobranceria. Tres mezes
    antes se havia encontrado em casa do desembargador Sarmento com um
    Calisto, que não tinha que vêr com aquelle homem.

    Sorriu-se o morgado, e disse-lhe:

    –Costuma v. ex.^a intermear as suas novenas com a oração mental nas
    brenhas e florestas, á imitação dos antigos padres? Ou está pedindo aos
    deuses infernaes que lhe levem a alma da tia, e lhe deixem o vinculo da
    mesma para poder maridar-se com a sr.^a D. Adelaide Sarmento?

    Alumiou-se Vasco de uns longes de suspeita, e cuidou estar ouvindo a voz
    mesurada e sonora de Calisto.

    –O senhor… disse elle.

    –Eu, que?–atalhou o morgado á suspensão do moço.

    –Com que direito vem aqui incommodar-me?–tornou o mordomo das tres
    virtudes cardeaes.

    –Não o incommodo, nem me incommodo. Dir-lhe-hei muito de relance que
    mora alli n'aquella casa uma prima de um Barbuda, e accrescentarei que
    tal dama não faz novenas a santo nenhum das particulares devoções de v.
    ex.^a. Se o sr. Vasco da Cunha aqui voltar ámanhã, continuaremos a
    palestra.

    Vasco não voltou.

    XXVII

    *A saudade e a sciencia em dialogo*

    Dois mezes depois de fechado o parlamento, D. Theodora Figueirôa, farta
    de escrever cartas, e de esperar respostas que lhe iam a razão de uma
    por dez, mandou chamar aquelle Braz Lobato, professor de instrucção
    primaria, e, com os olhos vermelhos de chorar, abriu do peito oppresso
    estas palavras:

    –Que me diz vocemecê sr. Braz, á demora do meu homem?

    –Eu estou passado, fidalga!–disse o mestre-escola empunhando e
    sacudindo o queixo inferior.–Seu marido, a minha opinião é que ficou
    por lá embeiçado n'alguma mulher. Lisboa é uma Babylonia, fidalga. Quem
    para lá vae com um bocado de temor de Deus, perde-o; e quem não tiver
    muito lume no olho, e alguns annos de tarimba e experiencia do mundo,
    como eu, póde contar que em lá chegando fica reduzido á expressão mais
    simples.

    –E que é ficar reduzido á… que? como disse vocemecê? perguntou D.
    Theodora.

    –Quero dizer que dá com as canastras n'agua. Foi o que succedeu ao
    fidalgo, futura-se-me isto! Sabio era elle, mas faltava-lhe a pratica do
    mundo. Foi uma asneira mandal-o a côrtes; eu bem não queria… mas
    emfim… tanto me azoinaram os abbades e os lavradores, que eu deixei-me
    ir com os outros… (O impostor que tinha votado em si!) E que diz elle
    nas cartas a v. ex.^a?

    –Lá por milagre recebo alguma… Aqui tem vocemecê a que veiu aqui ha
    dias atraz. Ora leia lá isso.

    Braz montou os oculos de cobre, e leu:

    «Prima Theodora. Cessa de ter cuidado com a minha saude: eu passo
    soffrivelmente. Não me pude ainda desembaraçar dos negocios do estado,
    que me não deixam tomar fôlego. Á vista te contarei o que tenho feito a
    favor da nação. Tem tu saude, e descança da vida trabalhosa que tens. Ha
    de ir ahi um sujeito de Bragança para lhe entregares oito centos mil
    réis. Vende o grão todo que houver, e diz aos lavradores que por lá tem
    dinheiro a juro que eu preciso recolher essas quantias para negocio de
    mais interesse. Teu primo e affectuoso marido _Calisto_.»

    Ahi tem vocemecê!–continuou a esposa atribulada, com os braços em cruz
    e as mãos nos sovacos.–O dinheiro, que ha sete mezes tem saido d'esta
    casa, é um louvar a Deus! Ainda o dinheiro vá que o leve a breca! mas
    andar-me por lá o marido, o meu homem, que d'antes, se ficava uma noite
    fóra de casa, era lá uma vez de anno a anno, e dizia elle que não estava
    bem senão á beira de sua mulher!… Que me diz a isto sr. Braz? Então
    vocemecê é de parecer que elle está por lá embeiçado? Pois o meu Calisto
    seria capaz d'isso?!

    –Olhe fidalga–respondeu o professor de instrucção primaria fazendo com
    os beiços um bico e logo um arco, tregeitos meditabundos com que elle
    usava solemnisar os dizeres graves.–Um homem cá nas aldeias é uma
    coisa, e nas cidades é outra. Eu corri mundo, e sei o que fui. As
    mulheres das cidades tem umas artes e manhas, que, se um homem se não
    precata, ás duas por tres, não sabe de que freguezia é. Ainda que a
    gente não queira aquelles demonios taes esparrelas armam, que não ha
    remedio senão cair em fragilidades proprias da fragil natureza humana,
    como o outro que diz. O sr. morgado já não é rapaz; mas tambem não é
    velho. Aquillo, em quanto a mim, e oxalá que eu me engane, deu por lá
    com alguma menina que o embruxou…

    –Sabe vocemecê que mais–interrompeu com abrupta resolução D.
    Theodora–pégo em mim, metto-me n'uma liteira, e vou por ahi abaixo até
    á capital. É o que eu faço!

    –Essa idéa precisa de ser pensada com prudencia–observou o
    mestre-escola, erguendo-se, e dando alguns passeios na eira, onde
    estavam dialogando–Se a fidalga fôr, esta casa fica sem dono, entregue
    á criadagem, e o sr. morgado póde zangar-se. De mais a mais, ora
    supponhamos nós que o senhor seu esposo está, como elle diz na sua,
    occupado em negocios do estado; a ida de v. ex.^a vae atrapalhal-o, por
    que elle não a ha de deixar sosinha na estalagem. Depois a fidalga vae,
    palavra puxa palavra, um diz uma coisa, outro diz outra, e afinal
    desavem-se, e começam a viver de esguêlha. A minha opinião é que v.
    ex.^a se deixe estar em sua casa, e espere a vêr para onde correm os
    ventos. Se elle por lá anda com a cabeça a juros, deixal-o pagar o
    tributo, que elle cairá em si. Antes isso que quebrar uma perna. Lá o
    dinheiro isso é o menos. A casa dá para tudo, graças a Deus. A fidalga
    não sabe o que tem de seu. Lá em quanto ao marido, uma extravagancia não
    lhe dá nem tira. Salomão foi o mais sabio dos homens e teve trezentas
    mulheres e setecentas concubinas, e mais acho que foi santo. David,
    tambem era santo, e caiu tambem na fraqueza de amar a mulher de um
    capitão, general, ou uma coisa assim. As sagradas escripturas contam
    muitos casos d'estes… Pois emfim, a fidalga não esteja ahi a chorar.
    Seu marido ha de voltar são e salvo. O mais que eu posso fazer-lhe é ir
    por ahi abaixo ter com elle, e desenganar-me por meus proprios olhos.

    –Isso é que era bom, sr. Braz!–exclamou Theodora, limpando as lagrimas
    ao avental de chita.

    –Eu estou ainda com a idéa ferrada do habito de Christo. É cá uma birra
    com o boticario, que disse ao cirurgião que eu havia de ser cavalleiro
    do habito quando elle fosse papa. O sr. morgado não me responde ás
    cartas: é um ingrato d'aquella casta; mas, emfim, os favores que lhe fiz
    na eleição não me arrependo de lh'os fazer… Emfim, fidalga, se v.
    ex.^a quer, eu vou ter-me com o sr. morgado, e póde ser que venha com
    elle para cima e com o habito.

    –Está dito!–clamou Theodora–Vocemecê vae, e eu faço-lhe as despezas.

    –Isso lá como v. ex.^a quizer… Eu, a fallar verdade, não estou muito
    indinheirado, e alguns vintens que tenho todos me hão de ser precisos
    para pagar os direitos da mercê.

    * * * * *

    Ahi vem Braz Lobato, caminho de Lisboa.

    XXVIII

    *Ingratidão de um deputado*

    Braz Lobato, antigo sargento de milicias, e antigo borra de frades
    franciscanos, era legitimo homem para farejar Calisto em Lisboa. Cuidou
    elle que encontraria o marido de D. Theodora de Figueirôa nos logares
    mais celebrados e admirados da capital, segundo é fama nas provincias.
    Como o não encontrasse na Memoria do Terreiro do Paço, foi procural-o ao
    Aqueducto das Aguas-Livres. Depois de baldadas estas pesquisas, outro
    qualquer sujeito desanimaria; Braz Lobato, porém, resolveu ir ao Paço
    das Necessidades em busca do seu patricio, porque, no seu modo de julgar
    as correlações dos altos poderes do estado, Calisto Eloy devia
    frequentar regularmente a casa real.

    Perguntou o mestre-escola affoitamente á sentinella do paço se o
    representante nacional, morgado da Agra estava em palacio. A sentinella
    mandou-o entrar, e que perguntasse ao commandante da guarda. O
    commandante mandou-o a um fidalgo que vinha descendo, e o fidalgo
    interrogado mandou-o á fava.

    Com o quê, Braz Lobato saiu á rua, e perguntou a um aguadeiro se alli
    não morava o rei. E, como soubesse que a familia real estava em Cintra,
    conjecturou que os deputados, e particularmente Calisto, deviam estar em
    Cintra para de lá governarem a monarchia.

    Chegou o mestre-escola a Cintra, e descavalgou do jumento portador, á
    porta do palacio. Fez as suas perguntas á sentinella com aquelle ar
    marcial que lhe ficou das milicias. Esperou a vinda de um camarista,
    velho fidalgo attencioso, que sorriu da supposição do provinciano, e lhe
    disse que o deputado Calisto Eloy residia no hotel do Victor.

    Chegado ao hotel, á hora mais de passeio, por fim da tarde, não
    encontrou Calisto, e foi demandal-o nos logares mais frequentados.
    Abeirou-se de um grupo de sujeitos, que inculcavam gente grave, e
    perguntou por Calisto Eloy de Silos Benevides de Barbuda.

    Esta pergunta coincidiu com o caso de estarem aquelles individuos
    aventando hypotheses sobre a formosa solitaria, cujo ninho de folhas e
    flores apenas Calisto de Barbuda frequentava.

    O ar provinciano de Braz fez crêr aos curiosos que o homem, sendo
    patricio de Calisto, poderia esclarecel-os ácerca da creatura
    mysteriosa.

    –D'onde conhece vocemecê o sr. Barbuda?–perguntou um.

    –Conheço-o desde menino, que é da minha terra, e eu sou o professor de
    instrucção primaria lá do concelho do sr. morgado da Agra de Freimas.

    –Então, volveu outro, ha de saber se a senhora que está com elle em
    Cintra é parenta d'elle, ou mulher ou amante.

    –A mulher do sr. morgado ficou em casa; parenta não me consta que elle
    tenha cá nenhuma. Isso ha de ser negocio de contrabando, em quanto a
    mim. Fazem favor vv. s.^as de me ensinarem o caminho da casa onde elle
    está?

    Conduzido á espessa cancella de ferro, que estremava o jardim do caminho
    publico, Braz Lobato puchou a campainha. Fallou lhe um criado de libré,
    o qual, perguntado se o sr. morgado estava em casa, respondeu que
    n'aquella casa morava a viuva do general Ponce de Leão.

    Dada a resposta, o criado rodou solemnemente nos calcanhares, e deixou o
    mestre-escola com o nariz n'um orificio da grade, e os olhos n'outros
    orificios, espreitando os massiços de murtas, que escondiam a fachada da
    casa.

    D'ahi a pouco lobrigou elle entre os arbustos um galhardo homem com uma
    senhora pelo braço, atravessando vagarosamente para um bosque de
    aveleiras.

    Fitou-se n'elle; mas não viu coisa que lhe désse lembranças do fidalgo
    da Agra. Cuidou que o tinham enganado os lisboetas, e desandou para a
    hospedaria.

    Novamente informado, resolveu esperar que o morgado entrasse ás dez
    horas, consoante o costume.

    Sentou-se á porta do pateo.

    Viu entrar um empavesado sujeito retorcendo as guias do bigode, com os
    olhos postos na lua atravez de uma luneta. Levou urbanamente a mão ao
    chapéo. Calisto, divertido pela acção civil do sujeito, ia corresponder,
    quando reconheceu o mestre-escola.

    –Você aqui, Braz! disse elle.

    O professor arregaçou as palpebras, e exclamou:

    –Que vejo! a voz é a do fidalgo!

    –Sou eu, não tenha duvida nenhuma.

    Braz levou a mão á testa, e da testa ao peito, e de um hombro ao outro,
    murmurando:

    –Em nome do Padre, e do Filho, e do Espirito Santo! Coisa assim nunca
    os meus olhos esperaram vêr!… V. ex.^a é outro homem!… Eu estarei a
    dormir! E esfregava os olhos, desconfiando seriamente que estava
    dormindo.

    –Entre cá dentro, disse o morgado.

    Entrados á sala, perguntou o fidalgo com um ar secco:

    –Que novidade o traz aqui?

    –Vim por ahi abaixo, afim de vêr v. ex.^a, e ao mesmo tempo…

    –Bem sei no que quer fallar. O habito de Christo, sim?

    –Não sendo coisa muito de costa acima…

    –Ha de arranjar-se. E que mais?

    —E que mais?…

    Braz Lobato sentia-se como esmagado pelo tom rispido e sobranceria do
    fidalgo. A concisão e rapidez das perguntas enleavam-no a ponto de o
    engasgarem nas respostas.

    –Como ficou minha prima? disse Calisto.

    –Está muito contristada, senhor.

    –Porque?

    –São saudades. Ainda na vespera da minha vinda esteve a chorar na
    eira… O melhor seria que v. ex^a viesse comigo para casa… Mas como o
    fidalgo está mudado!… Então v. ex.^a, pelos modos, era o mesmo que eu
    vi, ao fim da tarde, n'aquella casa que tem porta de ferro! Bem me
    diziam que v. ex.^a estava lá com uma madama, e eu não o conheci.

    –Aonde?–atalhou desabrido o morgado.

    –N'aquella casa que tem muitas flores.

    –Quem o mandou lá?

    –Uns fidalgos a quem eu perguntei por v. ex.^a

    –E quem o manda perguntar por mim?! Quem lhe disse que eu estava em
    Cintra?

    –Foi no palacio do rei que…

    –Então foi-me procurar ao palacio do rei! O sr. Braz é parvo!… Bem.
    Eu preciso recolher-me. Quer mais alguma coisa?

    –Não, sr. fidalgo… E v. ex.^a não quer nada lá para a terra?–volveu
    logo o antigo sargento com o nariz rubro de colera.

    –Não quero nada.

    –Pois eu para cá vou. Passe muito bem por cá, e até lá.

    Não pôde ter mão de si o professor: voltou ao limiar da porta, que se
    fechava, e disse:

    –Sr. morgado…

    –Que é?

    –Eu, para a outra vez, elegerei deputado que me arrange o habito de
    Christo. Faça favor de se não incommodar.

    –É asno!–murmurou Calisto batendo a porta com impeto.

    XXIX

    *O demonio em Caçarelhos*

    Estava D. Theodora presidindo á limpeza do lagar em que se havia de
    fabricar o azeite, quando Braz Lobato, ainda empoado da jornada, assumou
    á porta, e chamou de parte a fidalga.

    –O meu homem veiu!–exclamou ella.

    –Faz favor de me ouvir aqui fóra, disse elle á puridade.–E, retirados
    ao escuro de um bosque de castanheiro, continuou:

    –Seu marido está perdido, sr.^a morgada.

    –Que me diz? bradou a pallida consorte.

    –Estragou-se; d'alli ao inferno não tem mais que morrer.

    –Credo! Então que é?

    –Seu marido está tolhido! A mulher que o roubou á patria, e á esposa, e
    aos amigos, está lá n'uma serra, cercada de arvores, e de grades de
    ferro![21] Dizem que é a viuva de um general, e bonita como os serafins.
    Eu ainda a enxerguei pelo braço do fidalgo; ia vestida de branco, e
    parecia uma estrella.

    –Ai! que eu estalo! clamou Theodora, apertando a cabeça entre as mãos.

    –Seu marido, se a senhora o vir agora não o conhece. Está mais apanhado
    do corpo; aquella barriga, que elle tinha, sumiu-se-lhe. Tem um bigode
    muito grande, e aqui no queixo uma moita de pellos, como os bodes. Traz
    os cabellos puchados para cima e retorcidos. Usa oculos á moderna, de
    oiro, pendurados ao pescoço. O panno de roupa luzia como vidro, e andava
    apertado n'ella e puchado á substancia que parecia espremido no peso do
    lagar. Repito: a sr.^a morgada, se o vir, não o conhece.

    –E então elle está lá com essa mulher? insistiu soluçando a quebrantada
    senhora.

    –É verdade, lá a tem como uma princeza. Agora já sabe a fidalga no que
    elle estraga o dinheiro.

    –E vocemecê não lhe disse que viesse para sua casa?

    –Ora se disse! chamou-me parvo e asno. Asno a mim fidalga! E eu
    acommodei-me, porque não quero testilhas com doidos. Afinal, eu estava a
    vêr quando me empurrava pela porta fóra! Aqui tem o que ha a tal
    respeito. Sirva-lhe de governo, sr.^a morgada. Agora, faça por ter mão
    na manta. A casa é grande; mas tem-se visto acabarem casas maiores. O
    que a fidalga deve fazer é não deixar ir pela agua abaixo o seu
    patrimonio.

    –Não, que eu vou a Lisboa!–exclamou ella batendo o pé, e vibrando
    murros contra o ar.–Vou a Lisboa, e faço lá o diabo!… Então a tal
    mulher está n'uma serra? Vocemecê disse que ella estava n'uma serra?…

    –É serra; mas a terra é bonita. Ha por lá arvores do começo do mundo, e
    cada pedaço de jardim que dava trezentos alqueires de centeio. Chama-se
    Cintra, e está lá o rei e a fidalguia.

    –Pois vou lá, que o meu homem é meu–vociferou ella voz em grita.–Se
    elle não quizer vir para casa, vou fallar ao rei e aos governos.

    –Fidalga, pense bem no que faz, e ouça o que lhe diz o senhor seu primo
    Lopo de Gamboa, que sabe mais do que eu. D'aqui me vou a vêr a minha
    gente, e até amanhã, fidalga.

    Doida de afflicção, a traida esposa mandou logo um criado á casa da
    Verdoeira chamar o primo Lopo de Gamboa.

    Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos annos, e sagaz
    até á protervia, vivia na companhia do irmão morgado, comendo o
    rendimento da sua escassa legitima de filho segundo. Tinha máo nome em
    materia de mulheres. A bruteza dos espiritos não lhe implicava o
    exercicio de tramoias e bom palavriado com que mareara a reputação de
    muitas moças, que, á conta d'elle, ficaram solteiras; e tambem de
    algumas casadas, que não conservam as costellas todas.

    Calisto desadorava este primo de sua mulher, em razão das suas ruins
    manhas; não obstante, admittia-o ao seu trato familiar, e consentia que
    Theodora, uma vez por outra, lhe désse alguns pintos para charutos, já
    que o morgado lh'os não dava, sem lançar o emprestimo a desconto da
    legitima.

    Theodora, com quanto o excedesse em edade uns quatro annos, tinha sido
    creada com elle, e por suas mãos lhe fizera o enxoval, que o primo Lopo
    levou para Coimbra. Esta poesia de infancia converteu-se n'ella em
    sentimentos benignos de generosidade para com as privações monetarias do
    sujeito, algumas das quaes lhe remediou liberalmente a occultas do
    marido. Mais se afervorou a estima da prima Theodora, quando viu que
    Lopo, na ausencia de Calisto, amiudava as visitas, e lhe fazia companhia
    ao serão nas noites de inverno.

    Mandou, pois, a esposa angustiada chamar o primo Lopo de Gamboa. Já
    raivosa, já em mavioso soluçar, contou Theodora o que ouvira ao
    mestre-escola.

    –Bem t'o agourava eu, prima!–disse Lopo, concluidos os queixumes de
    Theodora.–Eu sei o que são homens. Quando meu irmão morgado e outros
    santarrões me apontavam como exemplo as virtudes de teu marido,
    dizia-lhes eu: «Tirem-n'o da aldeia para Lisboa ou Porto, deixem-n'o lá
    estar dois mezes, e fallem-me depois á mão.» O Calisto vivia bem com
    todo o mundo e comtigo, Theodora, porque se apaixonou pela livralhada, e
    encheu a cabeça d'aquellas velhas arólas dos seus classicos, e não
    queria saber de mais nada. E, além d'isso, diz-me tu prima, que grande
    amor era o d'elle por ti? Passavam-se dias e noites que o não vias,
    senão enterrado na livraria. Nunca lhe vi fazer-te uma meiguice!

    –Pois fazia; estás enganado, Lopo–atalhou D. Theodora, molestada no
    instincto da sua vaidade de esposa.

    –Parecia-te isso, prima, porque tu não viste ainda como os bons maridos
    acariciam as suas mulheres. Nunca te levou aos banhos do mar, precisando
    tu de tonicos; nunca te levou a festa nenhuma de Miranda nem de
    Bragança; sendo tu a mais rica herdeira d'estes arredores, deixou-te
    viver para ahi sujamente; a cuidar em sevados e gallinhas. As senhoras,
    que não te chegam em fidalguia aos calcanhares, vivem á lei da nobreza,
    visitam-se, tem os seus bailes, vão ás romarias ricamente vestidas; e
    tu?… chorava-me o coração, quando vim de me formar, e te visitei, e
    vim dar comtigo a cortar couves para fazer a comida dos patos.

    –Isso é porque eu gosto.

    –Muito embora gostasses; teu marido não devia consentir que o fizesses.
    Trabalhar é bom e necessario; mas cada qual trabalhe segundo a pessoa
    que é. As senhoras cozem, bordam, marcam, e dão-se a outros muitos
    cuidados domesticos e limpos. Os serviços, que tu fazias, pertencem ás
    criadas da cosinha. De maneira que a tua riqueza não te dava o descanço
    e bem estar que desfrutam as pessoas da lavoira. Esta casa parecia-me
    sordida; e, apezar das grandes sabenças de teu marido, ainda não vi
    casados que tão estupidamente vivessem! Ahi está agora teu marido a
    despejar sacas de dinheiro no regaço de uma amasia, e tu aqui de vestido
    de chita e chinellas! Tu!… de chinellas!… Foi bom que levasses vida
    de negra vinte annos para elle agora levar em Lisboa vida de principe!

    –Não ha de levar, que eu vou lá!–bradou Theodora assanhada pelas
    reflexões do primo.

    –Não vaes, prima, que os teus parentes não consentem que tu vás ser em
    Lisboa motivo de gargalhadas d'aquella gente, e maltratada por Calisto.
    A morgada de Travanca, a filha de Francisco de Figueirôa, não vae, como
    as mulherinhas da ralé, procurar o marido fóra de sua casa. Se elle
    vier, veiu; se elle ficar, fique embora. Gaste o que quizer, mas que não
    gaste a casa de sua mulher. N'este paiz ha leis que separam do máo
    marido a esposa affrontada, e prohibem que os bens dos Figueirôas sejam
    desbaratados em devassidões de um extravagante.

    –Eu não quero separar-me do meu homem!–balbuciou ella afogada de
    soluços.

    –Tambem te não aconselho a que o faças por em quanto, prima. Ainda é
    cedo. Póde ser que teu marido caia em si, e se arrependa. Isto da
    separação é um remedio extremo, que se ha de applicar no caso de
    continuarem os saques de dinheiro como até aqui, e os embustes infames
    com que o Calisto te tem enganado. Ai! prima, prima, grande desgraça foi
    para ti e para mim, que te esquecesses do nosso amor de creanças, e tão
    depressa aceitasses o casamento com este homem! Eu estava a concluir a
    minha formatura, resolvido a pedir-te, e casar comtigo, quer teu pae
    quizesse, quer não. Nunca t'o disse; digo-t'o agora, porque a minha dôr
    me obriga. Não serias tu mais feliz, se casasses com teu primo Lopo?

    –Eu sei cá?…–disse ella, alimpando as lagrimas.

    –Pois duvidas, Theodora?

    –Tu tens sido um estroina com mulheres…

    –E não sabes por que?

    –Não…

    –Desesperado por te encontrar casada, quando cheguei de Coimbra, não
    tratei mais de me ligar seriamente ao coração de mulher nenhuma. Queria
    distrahir-me, e fazia desatinos que me tornavam ainda mais desgraçado. A
    minha consolação unica era estar alguns momentos ao pé de ti; mas
    quantas vezes, eu saía do teu lado com o coração cheio de fel!… Nunca
    te disse uma palavra por onde tu desconfiasses o meu estado, pois não?

    –Tu o que me dizias ás vezes é que estavas afflicto por causa de
    dividas, e eu dava-te o dinheiro que podia arranjar…

    –É verdade: foste sempre o meu bom anjo, prima; mas olha que essas
    mesmas dividas as fazia eu para poder sair d'estes sitios; ia para as
    feiras, para as caldas, por toda a parte á busca de distracções, e não
    achava coisa que me distraisse de ti o pensamento. Toda a gente da nossa
    parentella me aborrecia, menos tu. Ora imagina, prima, que tormentosa
    vida a minha desde os dezenove annos! Amar-te, amar-te sempre, e vêr-te
    mulher de outro homem; e, de mais a mais, de outro homem indigno de ti!
    Céos! que martyrio! que martyrio!

    Lopo cobriu a cara deslavada com as mãos enormes.

    Theodora estava como idiota a olhar para aquillo, sem poder atinar com
    as sensações atrapalhadas que aquellas palavras lhe causavam.

    Ergueu-se o velhaco de golpe, e disse:

    –Adeus, prima: eu estou profundamente magoado com a tua desgraça;
    doem-me mais os teus pezares que os meus. Disse-te o que me pareceu
    rasoavel a respeito de teu marido, d'esse cruel que me roubou a mulher
    do meu coração, da minha alma, da minha vida, e da minha morte. Adeus,
    prima!

    –Tu vaes afflicto, Lopo!–exclamou ella, resahindo do spasmo tolo em
    que estivera–Vem cá; se te aconteceu alguma desgraça, remedeia-se como
    poder ser.

    –Ha doenças sem remedio, prima. A minha é mortal.

    –Então que tens, primo? que te dóe?

    –Doe-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua
    união com este homem!… a certeza de que o has de amar sempre, ainda
    que elle te despreze como já te desprezou.

    –Pois se elle é o meu homem recebido á face do altar!…

    –Por isso, por isso, é que eu perdi o teu amor, Theodora!…

    –Pois eu sou casada, bem no sabes, senão teria casado comtigo.

    –Não fallemos mais n'isto–atalhou com muita serenidade Lopo–Já
    chorei, e fiquei melhor!–continuou elle esborrachando os olhos até
    elles reverem agua–Estas lagrimas estavam aqui no peito ha vinte annos.
    Foi bom que tu as visses para que saibas que o homem que chora por ti,
    bem mais te merecia que o outro que te despreza… Queres mais alguma
    coisa de mim, prima? Queres que eu escreva a teu marido, e lhe diga que
    seja honrado e digno da melhor das esposas? Queres que eu mesmo o vá
    procurar a Cintra?

    –Se tu lá fosses, Lopo, não seria máo!–disse ella.

    Lopo de Gamboa, como grande farçola que era, sentiu impulso de desfechar
    uma risada na cara da prima. O homem viu-se ridiculo até onde a
    consciencia de um bargante se póde vêr a si mesma.

    Reteve-o, porém, a coherencia do seu plano. Resolutamente disse que iria
    a Cintra, bem que nenhum sacrificio lhe podesse ser mais cruelmente
    imposto ao coração.

    –Irei, disse elle, irei buscar o marido da mulher que adoro. Venha mais
    esta punhalada da tua mão, prima.

    —Valha-me Deus!–exclamou ella afflictivamente.–Tu dizes-me coisas
    que me fazem endoudecer! Pois tu não vês que eu já não posso dar o meu
    coração a outro em quanto fôr casada com um?

    –Vejo que me não amaste nunca, Theodora. Diz a verdade… Nunca me
    tiveste amor?

    –Eu sei cá, primo!… Se me casasse comtigo, tinha-te amor… Assim
    como casei com o meu marido, que hei de eu fazer agora?

    –Matar-me!–disse com vehemencia Lopo, deixando cair os braços, e
    descendo ao chão os olhos amortiçados.

    –Ai! que peccados os meus! exclamou Theodora–Eu não sei o que te hei
    de fazer, Lopo!

    –Diz-me quando queres que eu parta para Lisboa–tornou elle gravemente.

    –Então sempre queres ir, primo?

    –Ámanhã, hoje, quando quizeres.

    –E não te custa?

    –E a ti não te custa que eu vá?

    –Eu queria que fosses, a vêr se trazias para casa aquelle perdido.

    –Irei, já t'o disse.

    –Então eu vou buscar-te dinheiro, primo, quanto queres tu levar?

    –Nada, prima. Se alguma vez aceitei as tuas franquezas, foi por que tu
    ignoravas quanto eu te amava, e eras minha proxima parenta, filha de uma
    prima de minha mãe. Hoje que sabes que te amo, não posso, não me
    consente a minha honra que receba de ti o mais pequeno favor de
    dinheiro.

    –Então não quero que vás–accudiu ella–que tu não podes ir á tua
    custa…

    N'este comenos, Theodora escuta muito attenta um rumor de campainhas, e
    brada:

    –É uma liteira! Será o meu homem?

    Corre a uma janella; o primo vae depoz ella: affirmam-se na liteira que
    desce uma congosta, e reconhece Calisto Eloy, não pela figura; mas por
    que uns rapazes vinham adiante gritando que era o fidalgo. Theodora
    espede tres ais, que pareciam de ave nocturna, e perde os sentidos. Lopo
    amparou-a nos braços, foi sental-a n'uma cadeira incourada de espaldar
    alto, e desceu ao pateo a receber nos braços o primo Calisto de Barbuda.

    XXX

    *Como ella o amava!*

    O morgado previu o seguimento funesto da desabrida recepção e despedida
    que deu ao mestre-escola.

    A sua felicidade era d'aquellas que o possuidor receia, a cada hora,
    perder; e o desaccordo com sua mulher podia redundar-lhe em dissabores
    grandissimos. De todos, o de que elle mais se temia,–o dissabor por
    excellencia monstruoso–era a vinda de Theodora a Cintra, a isso
    aguilhoada por o professor de primeiras lettras, azedado pelo desprezo.
    Envergonhava-se elle, além de muitas outras vergonhas, que a morgada de
    Travanca lhe apparecesse em Cintra com a cintura do vestido sobre o
    estomago, com as ancas desprovidas de balão, com a cara incavernada n'um
    chapéo de 1832, que lá chamavam barretina, de immensas orelhas de palha
    amarellada pelo rodar dos annos. Era-lhe aviltante o caso aos olhos de
    toda a gente, e especialmente aos de Iphigenia.

    Para prevenir esta e outras calamidades, saiu Calisto, caminho de
    Caçarelhos, quatro dias depois de Braz Lobato, e afim de encurtar tempo,
    embarcou em o vapor, e do Porto para cima accelerou as jornadas,
    repousando poucas horas. Contava elle anticipar-se ao mestre-escola.
    Chegou tarde; mas o coração da esposa estava ainda aberto.

    –Tua senhora desmaiou de alegria, primo–disse-lhe Lopo de
    Gamboa–estava chorando comigo quando ouvimos a guizalhada da liteira.
    Muito te quer a nossa santa prima? Boas as fizeste por lá… Olha que o
    patife do mestre-escola veiu contar tudo!

    –Já chegou?!

    –Hoje ás cinco da tarde.

    –Que disse?

    –Contou que tens lá em Cintra uma mulher teúda e manteúda…

    –Que infame embusteiro!–clamou o fidalgo–Chama-me um lacaio, que lhe
    vou mandar cortar as carnes, com um tagante!

    Merecia-o! Mas quem deu cá o lacaio? É coisa que ainda cá não vi!

    Assim dialogando, entraram á sala em que D. Theodora estava ainda
    muitissimo intalada de soluços.

    –Então que é isto, Theodora?!–perguntou brandamente Calisto, pondo-lhe
    as pontas dos dedos na face.

    Ergueu-se ella arrebatada, e pendurou-se-lhe ao pescoço exclamando:

    –Meu Calisto, meu Calisto, cuidei que te não tornava a enxergar!

    –És tola, és tola, prima!–disse elle, assás incommodado com o apertão
    do abraço–Pois eu não havia de tornar?! Quem te metteu essa na cabeça?

    Theodora entrou a encarar no homem muito de fito, e rompeu n'um choro
    desfeito.

    –Que tens tu?–perguntou elle.

    –Como tu estás mudado! não me pareces o meu homem!… Corta essas
    barbas; por alma de tua mãe, corta-me essas barbas, que pareces o diabo,
    Deus me perdôe!…

    Calisto sorriu-se, com um profundo tédio de sua mulher. N'aquelle
    instante alanceou-o mortalmente a saudade de Iphigenia. Aquella casa de
    Caçarelhos e a mulher pareceram-lhe um retalho do inferno, d'aquelle
    inferno alagado e frio de que falla o padre A. Vieira.

    Começou a passeiar na sala, e a despedir baforadas de anciada respiração
    do peito. A mulher não lhe despregava os olhos das barbas, e de vez em
    quando arrancava um ai das entranhas.

    –A fallar verdade–observou Lopo de Gamboa–estás um homem
    completamente differente! E o caso é que pareces muito mais novo! Já nem
    andas corcovado, nem tens aquella proeminencia da barriga. Olha os ares
    de Lisboa o que fazem, primo Barbuda!

    Calisto exprimia o seu nojo de tudo aquillo, sorrindo-se. Tirou da
    algibeira um charuto, e accendeu um phosphoro. Eis que a mulher rompeu
    em mais desentoada choradeira, dizendo:

    –O meu homem a fumar!… Que feitiçaria te fizeram, Calisto!…

    –De maneira, disse o morgado vencido pela impaciencia, de maneira que
    me recebes com choradeiras, e observações estupidas, Theodora! Ora
    acabemos com esta feia comedia, e manda-me preparar jantar, que preciso
    comer e dormir.

    Saiu Theodora cabisbaixa da saleta, e Lopo de Gamboa despediu-se,
    pedindo-lhe que tolerasse com generosidade as tolices de sua prima, que
    tudo aquillo n'ella era rudeza e bondade do coração.

    –Bem sei, bem sei…–disse Calisto Eloy, e recolheu-se á sua
    bibliotheca, a principiar uma carta, que dizia:

    «Minha querida Iphigenia.

    Não te asseguro tres horas da minha vida, se me disserem que hei de aqui
    viver tres dias. Não é enôjo, é peior, é horror o que me faz tudo isto!
    Deixa-me pedir coragem ao teu retrato. Ó imagem da filha do meu coração,
    salva-me, resgata-me, arranca-me d'este tumulo! Ó consoladora d'esta
    agonia sem nome, vale-me, tem mão n'esta vida, que me foge…»

    Entrou Theodora esbofada de dar ordens, de cortar o presunto, de ir á
    cesta dos ovos, de andar á pilha da mais gorda gallinha.

    Correu a abraçar-se outra vez n'elle com mais possante enthusiasmo,
    emquanto o marido com um braço a cingia ao peito, e com o outro escondia
    o retrato.

    –Meu Calistinho–suspirava a esposa palpitante–meu amado marido, não
    tornes mais para Lisboa, eu não te deixo sair mais de tua casa!…

    –Que remedio senão ir, Theodora!…–disse elle–Sou obrigado por esta
    desgraçada posição de deputado a assistir mais algum tempo na capital.

    –Não é isso, não é isso!–clamou ella, saindo-lhe dos braços, que a
    largaram facilmente–Bem sei o que é…

    –Sabes o que?–interrompeu com violentada placidez o marido–Sabes as
    calumnias que te veiu contar o Braz, o villão que se vingou como canalha
    por lhe eu não alcançar o habito de Christo! É o que faltava! pendurar a
    imagem da cruz n'um peito cheio de tanta porcaria!… Então que te disse
    elle?…

    –Que tinhas lá outra… e que te viu a passeiar com ella.

    –Viu-me a passear com uma nossa parenta, viuva de um general. Quem
    disse ao javardo que esta senhora era minha amante? Hei de
    perguntar-lh'o diante de ti. Manda-o chamar á minha presença.

    –Agora mando! que o leve a breca!–disse Theodora com alegre
    aspecto–Como tu vieste, foi o que eu quiz; agora, pilhei-te cá, e não
    te deixo ir embora. Mas tu has de cortar estas barbas, sim? e não
    estejas a fumar por isso, que me fazes embrulhar a estomago, não?

    O tom e gesto caricioso, com que ella dizia isto, não moveu medianamente
    o esposo. Impava de zangado e aborrecido dos languidos amorinhos com que
    a meiga senhora se lhe quebrava langorosamente nos braços.

    –Eu preciso escrever umas cartas que ainda hoje hão de ir para Miranda,
    disse elle, afastando brandamente a esposa. Vae-te embora, e logo
    conversaremos.

    Theodora estava n'um d'aquelles elevados gráos de amoroso sentimento, em
    que a mulher menos esperta conhece, que é desamada. Repellida d'aquelle
    modo, ainda as lagrimas lhe vidraram os olhos; mas o despeito seccou-as.

    –Não me podes vêr á tua beira! disse ella com altiveza. Vê-se mesmo na
    tua cara que me aborreces! Ainda agora chegaste, e já estás a fallar na
    ida para Lisboa. Escusavas então de cá vir. Mal haja a hora em que
    saiste d'esta casa. Já não tenho marido!…

    N'este ponto, não pôde represar as lagrimas. Acocorou-se no chão a
    chorar, com a cara mettida entre os joelhos.

    Calisto saltou da cadeira n'um empuchão de raiva, e passou á sala
    immediata, gesticulando com phreneticos sacões de braços.

    Que diabo vim eu aqui fazer? dizia entre si o desesperado.

    O demonio da expiação já andava ás cavalleiras do homem. A saudade de
    Iphigenia era uma serpente de fogo que lhe abafava os respiradouros das
    goelas.

    XXXI

    *Vence o demonio! choram os anjos!*

    Para distrahir-se do supplicio de alguns dias, Calisto Eloy, sem
    consultar a esposa, entretinha-se a ajuntar os cabedaes, espalhados por
    mão de lavradores, e a remir alguns foros, que sommaram consideravel
    quantia.

    Theodora presenciava com suffocada ira as diligencias do marido, e
    acautellava o sacco das peças de duas caras, que trouxera de casa de seu
    pae, thesouro antigo na familia de Travanca, trazido por seu bisavô,
    governador do Brazil. Era um dos soberanos gosos de Theodora addicionar
    mais uma peça de D. Maria e D. Pedro III ás mil e duzentas que seu
    bisavô reunira. Bem que o marido respeitasse sempre aquelle peculio,
    Theodora receiava muito que os respeitos d'outro tempo não podessem nada
    agora com elle, e dispoz-se a resistir a todo trance ao sacrilegio.

    Não carecia o morgado de lançar mão de alguma verba do patrimonio de sua
    mulher: tinha muito que explorar no propriamente seu, antes de alienar
    alguma das quintas; no entanto, quando a consorte abespinhada lhe disse
    que as peças eram d'ella, e não cuidasse elle que as havia de levar,
    Calisto encarou na mulher com tal enchente de odio, e logo desprezo, que
    lhe voltou as costas para lhe não redarguir.

    D'ahi em diante, nas quarenta e oito horas que o morgado se deteve em
    Caçarelhos, baldaram-se as tentativas conciliatorias de Theodora.
    Fechado no seu quarto, que elle desde a chegada fizera propriedade sua
    exclusiva, ou encerrado na bibliotheca, onde escrevia monologos
    saturados de lagrimas, em vão a esposa o espreitava pelos orificios das
    fechaduras, e lhe assoprava suspiros dignos de mais humano marido.

    No dia da partida, a despedaçada senhora experimentou um ataque de
    eloquencia. Entrou com o almoço no gabinete do marido, e bradou:

    –Então que é isto? Entendamo-nos.

    –Isto quê?

    –Sempre vaes para a vida perdida?

    –Vou hoje para Lisboa–respondeu serenamente Calisto Eloy, dobrando em
    massos os titulos de sua casa.

    –E então da tua mulher não queres saber mais nada?

    –Minha mulher fica em sua casa, e eu vou cumprir os meus deveres como
    deputado.

    –Mas eu não quero saber d'isso.

    –Então que queres tu saber, prima Theodora?

    –Quero saber a lei em que hei de viver.

    –Vive na lei de Deus.

    –E tu na do diabo, ein?

    –Berra pouco.

    –Hei de berrar o que eu quizer.

    –Pois berra, que eu não te hei de ouvir muito tempo.

    –Se isto é assim, quero separar-me.

    –Separa-te.

    –Vou para o meu morgadio de Travanca.

    –Pois vae.

    –Cada qual fique com o que é seu.

    –Pois sim. Leva d'aqui o que fôr teu.

    A desesperação de Theodora augmentava á medida que a fleugma do marido
    lhe cravava o dardo do desengano no coração ainda fiel. Começou a pobre
    mulher a saltar no pavimento, sem proferir sons articulados. Expedia uns
    grunhidos roucos, que fizeram pavor a Calisto. Este feiíssimo tregeitar
    desfechou n'um insulto nervoso, com symptomas epilepticos.

    A commiseração feriu as estragadas entranhas do morgado. Foi apanhar a
    mulher do chão, reteve-lhe os braços que escabujavam, e levou-a d'alli
    para um leito, onde a deixou entregue ás criadas e ao primo Lopo de
    Gamboa, que vinha entrando.

    Passada a crise, Theodora ardia em febre, e dava pouco tino das pessoas
    que a rodeavam. Pareceu-lhe, porém, sentir um beijo nas costas da mão
    esquerda; e, olhando apressada na supposição de que era o marido, viu o
    rosto lastimoso do primo Lopo, que lhe disse a meia voz:

    –Esquece o ingrato, prima!… Guarda a tua vida para quem te ama!…

    Calou-se, porque entrava uma criada com um chá de sidreira e macella.
    Tomou elle das mãos da criada a chavena, e ministrou o charope a
    Theodora, que o foi bebendo com muitos vágados da cabeça desfallecida
    para sobre a espadua de Lopo, que se ageitára para amparal-a.

    Á hora final Calisto entrou ao quarto, e não se commoveu. Disse algumas
    breves e seccas palavras de despedida, acrescentando que fechado o
    segundo anno da sua legislatura, viria para casa.

    Theodora ainda balbuciou:

    –E deixas-me assim doente, homem?

    –Esse incommodo é passageiro, prima. Logo que tu reflexiones um pouco,
    levantas-te curada. Mal da patria, se os deputados casados obedecessem
    aos caprichos das mulheres, que lhes impedem irem onde o dever os chama.
    Pensas assim, porque foste educada rusticamente. Era minha tenção
    tirar-te d'aqui, levar-te para terra de gente, dar-te alguma educação,
    para depois te poder levar comigo para qualquer terra culta; vejo,
    porém, que desatinas e te fazes creança n'uma edade impropria de ciumes.

    –Olha que não és mais novo que eu!–bradou ella.–Tens quarenta e
    quatro e eu quarenta.

    –Está bom, está bom–obviou elle–não discutamos edades. O que se segue
    é que ambos envelhecemos: razão de mais para justificar a toleima dos
    teus zelos e desconfianças… Não posso demorar-me, que já ahi está a
    liteira, e a jornada de hoje é muito grande. Adeus. Primo Lopo, olha tu
    se dás juizo a tua prima, e manda-me no que quizeres em Lisboa.

    –Parece-me que me não pões mais os olhos, Calisto!–clamou ella com
    profunda angustia.

    –Adeus, adeus, minha tola; não penses em tal.

    E saiu alegre como o encarcerado da prisão de longos annos. As azas
    candidas de Iphigenia sacudiam-lhe do espirito saudades e remorsos.

    XXXII

    *A virtude de Theodora em paroxismos*

    Em outubro d'aquelle anno, a friza dezeseis do theatro de S. Carlos
    expoz uma cara desconhecida de todos, excepto de alguns raros rapazes da
    nata social que a tinham visto de relance, entre as aves e flores de
    Cintra.

    Era Iphigenia, a formosa do novo-mundo, que uns chamavam a feição
    genuina da Circassia, outros a romana herdeira do perfil correcto das
    Faustinas e Fulvias; e os mais circumscreviam a sua admiração á mulher
    dispensando-se de lhe esquadrinhar o typo.

    De feito, Iphigenia era belleza das que sómente se assimelham
    propriamente a si.

    Ao lado d'esta mulher estava um homem, cuja nobre e fidalga presença
    abonava e encarecia a qualidade da dama: era o morgado da Agra de
    Freimas, Benevides de Barbuda.

    A opinião publica da platéa e camarotes estava ou duvidosa ou indecisa.
    Aqui dizia-se que Iphigenia era parenta do cavalheiro, além
    desdouravam-lhe a posição, sem comtudo os rostos se voltarem corridos do
    escandalo.

    Iphigenia, á saída do theatro, entrava n'uma luxuosa caleche tirada por
    hanoverianos soberbos. Calisto Eloy apertava a mão da dama, e entrava
    n'outra sege. A caleche parava na rua de S. João dos Bem Casados, no
    pateo de um palacete; o morgado apeava da sege em frente do hotel
    inglez, a Buenos-Ayres.

    As pesquizas sincavam n'esta diversidade de paragens. Sabia-se que o
    deputado frequentava o palacete a horas em que se visitam senhoras
    cerimoniosamente. Sabia-se que morava alli a viuva do general Ponce de
    Leão, o qual morrera no serviço do Brazil. A pouco e pouco, a
    maledicencia ajuntou á admiração o respeito.

    Uns parentes do general, porventura filhos d'aquelles que se
    entre-lembravam de terem sido procurados por uma viuva, levaram os seus
    cumprimentos ao palacete de S. João dos Bem Casados. Iphigenia fez-lhes
    saber pelo seu escudeiro que lhes agradecia a delicadeza e a honra do
    parentesco. E mais nada.

    Ora, Calisto Eloy, sem embargo da seriedade e gentil compostura de sua
    pessoa, não podia de todo poupar-se ao riso de certas pessoas da platéa.
    Estava alli gente que o ouvira fulminar no parlamento o theatro lyrico,
    e nomeadamente a Lucrecia Borgia. Estava quem se lembrasse d'aquellas
    calças de polainas assertoadas de madre-perola, e do farfalhoso colete,
    e das pantalonas axadrezadas do aljubeta Nunes & filho. O doutor
    Liborio, do Porto, principalmente, ainda estomagado da reprimenda,
    saboreava a vingança, indigitando-o á hilaridade dos camaradas parelhos
    em nascimento, asnidade e estylo.

    N'uma noite, Iphigenia reparou na attenção e nos sorrisos de um grupo.
    Ao voltar a vista para seu primo, encontrou os olhos d'elle, com uma
    tempestade sobranceira, que era o avincado profundo da testa. Andava por
    alli n'aquella fronte sangue de Traz-os-Montes, sangue de Barbudas.

    Calisto estremara o doutor Liborio de Meirelles, entre a roda dos
    peraltas, que bebiam da garrafeira do paternal tendeiro, prodigalisada
    ao filho das esperanças suas e da patria.

    N'um intervallo, saiu Calisto Eloy do camarote, e como não encontrasse
    no portico nem nos corredores o risonho deputado portuense, entrou á
    platéa.

    Avisinhou-se de Liborio, que o encarou com semblante de côr incerta.

    –O collega por aqui?–disse o doutor–Reminiscencias me não acodem de
    havel-o visto na platéa!

    Calisto, sem o fitar no rosto, respondeu:

    –Venho vêr as dimensões das suas orelhas.

    –Como assim!…–balbuciou Liborio.

    –Tenciono puchar-lh'as até á bocca, no proposito de tapar com ellas um
    riso alvar que vossa mercê tem, e que me incommoda grandemente. Veja lá
    se a operação lhe convém aqui ou lá fora.

    –Não comprehendo a razão do insulto!–disse Liborio.

    –Será lá fora–concluiu Calisto e saiu.

    A gente, que rodeava o doutor portuense, comportou-se bem: cada qual,
    dizia de si para comsigo, que, se o caso fosse com elle, o provinciano
    enguliria a injuria com uma balla; assim, como não era com elles o caso,
    Calisto mereceu a Deus a felicidade de não ser varado de ballas.

    O que passa como certo é que Liborio nunca mais desfranziu um riso
    voltado para a friza de Iphigenia.

    N'uma d'essas noites, estava na friza fronteira á de Calisto a familia
    Sarmento. Adelaide não despregava o occulo de Iphigenia, salvo quando
    Catharina lh'o tirava da mão, para lh'o assestar.

    Calisto exultava em delicias incomparaveis. Era a vingança, a
    carapinhada dos deuses n'um meio dia de julho, a vingança de amador
    menoscabado. Este cuidar que se vingam, mulheres e homens, é inepcia de
    marca maior, a que não houve esquivar-se aquelle sujeito de condição
    muito ajuizada se o confrontamos com outros, a quem o amor aleijou de
    todo em todo.

    Reparou Calisto que no camarote de Duarte Malafaia, marido de D.
    Catharina Sarmento, entrara um sujeito que lhe não era desconhecido.
    Examinou-o com o binoculo, e reconhecera aquelle D. Bruno de
    Mascarenhas, a quem elle se apresentara na qualidade de anjo Custodio de
    D. Catharina. Sorriu-se o morgado para dentro por que lhe já não ficava
    bem indignar-se por dentro nem por fóra. A esposa de Duarte, segundo
    parecia, raro relance de olhos desfechava sobre o perturbador da sua
    consciencia de outro tempo. O morgado entendeu que a esposa regenerada
    reincidira na velha culpa. Enganara-se.

    Permanecia ainda o salutar effeito da façanha moralisadora de Calisto
    Eloy. Bruno era odioso a Catharina: o anjo advogado dos maridos a estava
    sempre lustrando com as lagrimas do arrependimento. Não sei se o morgado
    da Agra levará ao desconto do juizo final duas acções que pesem tanto
    como esta na balança.

    Passaram dois mezes sem que D. Theodora escrevesse ao marido. Embargada
    no leito pela enfermidade, que a poz em começos de phtisica, a pobre
    senhora, esteiada no amparo da piedade, fazia penosas promessas a santos
    da sua particular devoção, pedindo-lhes a amizade e restituição do
    marido. D'esta feita, pelo que a gente está vendo, os santos não levaram
    a melhor da legião de demonios que resaltam dos olbos de uma brazileira
    galante. Não obstante, a protecção dos privados do céo valeu-lhe o
    levantar-se da cama, e convalecer-se com leite de jumenta e oleo de
    figados de bacalhau. Mas o coração estava ainda, e cada vez mais
    encancerado; a saudade crescia consoante a ausencia e desprezo do marido
    se augmentava.

    Por ventura, aquelles santos tão rogados estavam em volta d'ella a
    defendel-a das tentações do primo Lopo. Já Theodora o repulsava
    desabridamente, quando se via no risco de ser abalada em sua fidelidade.
    A pervicacia, porém, do astuto negociador de seus vilissimos interesses,
    servidos por infames lagrimas e exclamações compungentes, alguma vez a
    surprehendeu quasi desprotegida do escudo celestial.

    Mas–honra á virtude que cae mais tarde que o costume!–honra á virtude
    de Theodora, que lhe punha sempre diante dos olhos, nas conjuncturas
    perigosas, a imagem do marido, e de sua mãe e avós todas esposas
    immaculadas!

    Passemos a esponja por sobre Penelopes e Lucrecias.

    Começou Calisto a receber cartas de sua mulher. Algumas, que abriu, não
    pôde digeril-as. Como a dôr sincera não costuma ser eloquente, nem a
    orthographia da filha do boticario exprimia com certeza as singelas
    lastimas de Theodora, o cru marido queimava as cartas para desmemoria
    eterna.

    XXXIII

    *Escandalos*

    Abriram-se as camaras.

    A opposição espantou-se de vêr o deputado por Miranda conversando muito
    mão por mão com os ministros. O abbade de Estevães ousou perguntar ao
    seu collega, amigo e correligionario, de que rumo estava. Calisto
    respondeu que estava de rumo em que o pharol da civilisação alumiava com
    mais clara luz. O antigo desembargador do ecclesiastico redarguiu com
    admoestações benevolas. O morgado sorriu-lhe na cara veneranda, e
    disse-lhe:

    –Meu amigo, abra os olhos, que não ha martyrologio para as toupeiras.
    As idéas não se formam na cabeça do homem; voejam na athmosphera,
    respiram-se no ar, bebem-se na agua, coam-se no sangue, entram nas
    moleculas, e refundem, reformam e renovam a compleição do homem.

    –Segue-se que está liberal?–perguntou o pavido abbade.

    –Estou portuguez do seculo XIX.

    –Apostatou!–disse com pesar mui entranhado o padre–Apostatou!…

    –Da religião dos nescios.

    –Mercês!–accudiu o abbade.

    –Sem direitos–retorquiu o sardonico Barbuda.

    Não tornaram a fallar-se, até um dia do anno seguinte em que o padre,
    despachado conego da sé patriarchal de Lisboa, aceitou o parabem e o
    sorriso pungitivo de Calisto Eloy.

    Na primeira votação importante para o ministerio, Calisto Eloy defendeu
    o projecto que era vital para o governo, e fez-se desde logo necessario
    á situação. Orou por vezes, com seriedade tal de principios, que não
    servem para romance os seus discursos. Explicou a profissão da sua nova
    fé, respeitando as crenças politicas dos seus antigos correligionarios.
    Disse que escolhia o seu humilde posto nas fileiras dos governamentaes,
    por que era figadal inimigo da desordem, e convencido estava de que a
    ordem só podia mantel-a o poder executivo, e não só mantel-a, senão
    defendel-a para consolidar as posições, obtidas contra os cubiçosos de
    posições. Reflexionou sisudamente, e fez escola. Seguiram-se-lhe
    discipulos convictissimos, que ainda agora pugnam por todos os governos,
    e por amor da ordem que está como poder executivo.

    Preparava Calisto um projecto de lei para a abolição dos vinculos,
    quando recebeu a seguinte carta de Lopo de Gamboa:

    «Primo e amigo.

    Recommendaste-me que désse juizo a tua senhora e minha prima. Contra
    paixões não ha conselhos. Tu lá o sabes por theoria e experiencia, como
    eu que não tenho dado máo burro ao dizimo, um coisas de coração.

    Préguei-lhe prudencia, conformidade e paciencia. O abbade tambem lhe
    citou exemplos admiraveis de esposas sanctificadas pela ingratidão dos
    maridos. Não conseguimos nada. Cada vez te ama com mais furor. Diz que
    te ha de ir buscar ás entranhas da terra e aos abysmos do bárathro. Isto
    vae de galhofa; mas eu tenho sincera pena da nossa pobre prima.
    Desculpo-te, porque és homem, porque amas outra mulher, e porque esta
    realmente, deve pouco á formosura e graças. Não sou de ambages: digo o
    que sinto.

    Contou-me o primo Gastão de Villarandêlho que te vira em S. Carlos, e
    comtigo no camarote uma deidade arrebatadora. Se é essa a rival da
    Theodora, quem ousará chamar-te ao caminho da probidade conjugal?! Já
    agora, só milagre. Nas nossas edades, meu amigo e primo, amores que
    entram, não ha juizo purgativo que os ponha fóra do corpo.

    Vamos agora ao que importa.

    Está tua senhora resolvida a ir procurar-te a Lisboa. Tenho tido mão
    d'ella; mas já não posso. Como lhe não respondeste á carta,
    desesperou-se, declarou-te guerra de morte, e tens que vêr com uma
    mulher furiosa. Fiz-lhe vêr que póde ser mal recebida e desprezada.
    Responde que quer esganar quem lhe roubou seu marido. Está doida; mas
    quem ha de contel-a?! Alguns parentes nossos dão-lhe razão: é o diabo
    isto; espicassam-n'a, e ella volta-se contra mim, dizendo que sou um
    patife como tu. Isto é bonito!

    Em divorcio não quer que lhe fallem. Diz que quer o seu homem e não ha
    tiral-a d'aqui.

    Prevejo os crueis desgostos que te vae ahi dar, além das vergonhas.
    Disse-lhe que não fosse, sem se vestir ao estylo das senhoras de Lisboa.
    Não quer. Apparece-te ahi gothicamente vestida, com o fatal vestido do
    casamento, e o fatal chapéo, que é um monstro de palha. Ha dois annos te
    dizia eu que vestisses tua mulher senhorilmente. Respondias-me que os
    melhores enfeites de uma virtuosa são as virtudes. Agora, atura-a. Se
    ella ahi fôr vestida de virtudes, diz lá a essa gente que se não ria
    d'ella.

    E se tu tens de a vêr a testilhas com essa _diva_, que em quanto a mim
    não é _casta_? Então é que ellas são, primo Barbuda! Sobre arranhaduras,
    escandalo! A tua posição seria feita ludibrio da canalha. Os jornaes a
    fustigarem-te, e tu com a cabeça perdida! Eu imagino-me na tua situação,
    e tenho horror.

    Que has de tu fazer n'estes apertos? Tens uma boa cabeça; mas eu estou
    mais a sangue frio para te aconselhar. O meu parecer é que sáias de
    Lisboa com essa dama, e vás para onde Theodora não te veja o rasto. Olha
    que vae com ella o tio Paulo Figueirôa de Travanca, besta finoria que ha
    de dar comtigo, se te não esconderes a bom recado.

    A lealdade impoz-me o dever de te dar esta má noticia. Mais má seria, se
    t'a levasse tua senhora. Sei que outra pessoa te faria reflexões
    inuteis; mas eu tenho obrigação de conhecer os homens. No entanto, faz o
    que teu bom juizo te suggerir.

    Teu primo muito dedicado
    _Lopo_.»

    No dia seguinte, Calisto Eloy pediu licença á camara para retirar-se por
    algum tempo de Lisboa, a cuidar de sua saude.

    Ao outro dia embarcou para França.

    Perguntava-lhe Iphigenia, contente da repentina deliberação:

    –Porque é isto, primo? Nunca me fallaste em visitarmos Paris!

    –Quiz dar-te o prazer da surpreza. As melhores coisas, muito pensadas
    antes de possuidas, desmerecem quando se possuem.

    Partiram.

    No palacete da rua de S. João dos Bem Casados, ficou governando os
    criados, aquella sr.^a D. Thomazia Leonor, que fôra já desde Cintra,
    recebida como dispenseira e aia de Iphigenia.

    XXXIV

    *Perdida!…*

    Para leitores entendidos na perversidade humana, a carta de Lopo de
    Gamboa é uma refinada e suja barganteria, estudada e escripta com um
    despejo não vulgar em bachareis d'aquelles sitios. Aquelle homem, se
    tivesse nascido em terras onde ha a centralisação dos biltres, morria
    com um nome para lembrança duradoura. Assim, nascido n'aquellas serras,
    onde não apégou ainda romancista de medrança, se o eu não transplantar
    para a corja dos birbantes das minhas novellas, o homem escorrega lá da
    serra no inferno, sem que a execração publica o cubra de maldições.

    Repulso do coração da prima, que incessantemente se estava entregando á
    protecção dos santos, mudou o plano das insidias, incitando-a a procurar
    o marido em Lisboa, como ultimo desengano e final affronta. Convinha-lhe
    que a pobre mulher afogasse em lagrimas as ultimas e mais entranhadas
    raizes da sua pureza.

    Em companhia de um velho inexperiente e credulo, o honrado Paulo de
    Figueirôa, que nunca saira das ruinas solarengas de Travanca, metteu-se
    D. Theodora a caminho de Lisboa. Deu um geito ás abas do chapéo que se
    entortara na canastra esquecida, lavou as fitas e a palha com chá da
    India, arejou o bafio do vestido de veludo que embolecera no inverno
    passado, e d'este geito entrajada se encaixotou na liteira, defronte do
    tio, que tinha a sinceridade de achar sua sobrinha muito bonita, vestida
    assim á moderna.

    Nas differentes villas que atravessou até ao Porto, D. Theodora prendeu
    o espanto publico. Muita gente, aliás urbana, ria-se a cair. Onde
    parasse a liteira, o gentio fazia-lhe roda, e queria saber d'onde vinha
    aquella creatura incomparavel. Theodora, á entrada de Penafiel, a pedido
    respeitoso do liteireiro, tirou o chapéo e cobriu a cabeça com um
    lencinho de tres pontas. Ainda assim, o vestido de veludo côr de ginja
    dava nos olhos. Os padres de Penafiel, quando avistaram a liteira,
    cuidaram um momento que vinha alli alguma preeminencia ecclesiastica,
    como cardeal, ou coisa assim. A desharmonia do lencinho com o vestido
    offendia o bello ideal, e a symetria esthetica das damas da terra, as
    quaes ao verem-na saltar da liteira para o pateo da estalagem com o
    chapéo na mão, similhante a um cabaz de cavacas das Caldas, soltaram
    grande estrallada de riso. As meninas da estalagem, condoidas do aspecto
    doentio e honesto da viandante, informaram-se da qualidade da pessoa, e
    romperam no louvavel excesso de se insinuarem na fidalga, para lhe
    pedirem que se vestisse de outra maneira.

    Accedeu sem repugnancia Theodora. As risadas francas do povo haviam-na
    amolecido. O velho tambem votou pela reforma dos trajos. E, como alli
    pernoitasse e deliberasse esperar o dia seguinte, deu tempo a que a
    provessem de chapéo rasoavel, e vestido com o competente paletó de seda,
    nas quaes coisas collaboraram todas as modistas da terra. Regenerada
    pelo vestido, parecia outra. As meninas pentearam-lhe os opulentos e
    negros cabellos a Stuart, segundo ellas disseram. Descobriram-lhe a
    fronte bem talhada. Deram-lhe umas lições de pisar e arregaçar-se, para
    a desacostumarem de ir com os pés sobre a orla do vestido, ou mostrar os
    calcanhares na andadura. O mirinaque foi um golpe certeiro no desaire da
    fidalga de Travanca. Ella mesma, olhando em si, dizia no secreto da sua
    consciencia illustrada em Penafiel:

    –Eu assim estou melhor, a fallar verdade!

    O tio Paulo torcia um pouco o nariz ao mirinaque, dizendo:

    –Pareces-me uma boneca de roda de fogo! Tens aleijados os quadris,
    salvo tal logar! Mas, se é moda, deixa-te ir assim, menina até Lisboa;
    porém, quando entrares em casa, manda espetar esses arcos n'um pau, para
    espantar os pardaes da sementeira.

    Como o velho fidalgo desejasse vêr o mar, resolveram ir para Lisboa no
    vapor. Theodora, quando principiou a enjoar, pediu os sacramentos;
    animada, porém com as risadas de outras senhoras, convenceu-se de que
    não era mortal a sua afflicção.

    Hospedaram-se no cáes do Sodré. D. Theodora, não obstante a anciedade em
    que ia de avistar-se com o marido cuidou em reparar as forças com um
    dormir d'aquelles que a Providencia concede ás consciencias puras e ás
    pessoas que desembarcam enjoadas.

    Paulo de Figueirôa saiu para a rua, no intento de informar-se da
    residencia de Calisto. Porém, como encontrasse na rua do Alecrim um
    macaco encavalgado n'um cão, que trotava a compasso de realejo,
    deixou-se ficar pasmado no espectaculo; depois, foi subindo até ao largo
    das Duas Egrejas, e quedou-se a ouvir um cego de oculos verdes que
    pregoava e referia o successo negro de um homem que matára seu avô.
    Terminava o cego, offerecendo a noticia impressa, onde tudo estava
    declarado. Comprou o fidalgo da Travanca a pavorosa noticia, e esteve
    largo tempo a soletral-a, sentado á porta da egreja do Loreto.

    Terminada a leitura, o velho disse entre si:

    –Isto é má terra! Tomara-me eu d'aqui para fóra!… Os netos matam os
    avôs!…

    Chamou um gallego, que o guiou ao palacio das côrtes. Perguntou ao
    porteiro se estava lá dentro o deputado Calisto Eloy, morgado da Agra de
    Freimas.

    –Não sei–disse mal encarado o funccionario.

    –Eu sou tio d'elle; faça favor de lhe ir dizer que está aqui o tio
    Paulo de Figueirôa.

    –Não posso lá ir–volveu o porteiro, mais brando.–Peça áquelle sr.
    deputado, que ahi vem que lh'o diga.

    Paulo dirigiu-se a um sujeito de exterior sacerdotal. Era o abbade de
    Estevães.

    –Essa pessoa está fóra de Lisboa, creio eu–disse o deputado–pelo
    menos pediu licença ás camaras para retirar-se.

    –Iria para casa?–perguntou o velho.

    –Creio que não. Então o senhor é tio d'elle!

    –Sou tio d'elle em terceiro gráo, e sou irmão do pae da esposa d'elle.

    –Pobre senhora! Murmurou compassivamente o padre.–Ella perdeu um
    excellente marido e o partido legitimista um strenuo defensor.

    –Então meu sobrinho–atalhou Paulo–já não é legitimista?!

    –Qual! fez-se um malhado acerrimo. Está com esta gente, e demais a mais
    fez-se governamental!…

    –Oh! que maroto!…

    –E tudo isto, meu caro senhor, deve-se á desmoralisação de uma mulher,
    que lhe tirou o juizo e a dignidade, e lhe ha de dar cabo da casa.
    Apresenta-se com ella nos theatros, e tem-na em palacete com carruagem
    montada, e lacaios e estado de princeza. E a pobre senhora lá na
    provincia a economisar as rendas, que elle está por cá delapidando!…

    –Minha sobrinha veiu comigo–observou o velho.

    –Veiu? Coitada da infeliz senhora! Quanto desejava eu poder ir
    comprimental-a; mas como estou indisposto com o sr. Barbuda, não quero
    que elle me julgue capaz de irritar sua consorte com os meus despeitos.
    Pois senhor, se sua sobrinha quizer vêr a pompa e luxo com que está
    vivendo a manceba de seu marido, que vá á rua de S. João dos Bem
    Casados, e veja o palacio, que está ao cimo da rua, onde lá os visinhos
    dizem que mora a chamada «fidalga brazileira».

    –Faz favor de tornar a dizer?–pediu Paulo desenrolando o nastro de uma
    enorme carteira escarlate, para fazer nota da residencia da brazileira.

    –Se eu lhe prestar de alguma coisa, aqui estou como principal amigo que
    fui do desgraçado sr. Calisto Eloy–ajuntou o abbade de Estevães.

    Ao fim da tarde d'este dia, D. Theodora, que fremia de raiva desde que o
    tio lhe revelou as informações do padre, entrou com o velho n'uma sege
    de praça, por lhe dizerem que era muito longe a rua de S. João dos Bem
    Casados.

    Apeou á porta do palacete, que um logista lhe indicou. Perguntou ao
    criado, que lhe fallou por um postigo da cavallariça, se estava em casa
    o sr. Calisto.

    –Não mora aqui–disse o lacaio.

    –Mora aqui!–teimou D. Theodora.

    –Já lhe disse que não mora aqui–recalcitrou o criado.

    –Então aqui não está uma mulher viuva?

    –Mulher viuva?

    –Sim.

    –Está lá em cima uma mulher viuva, que é a governante da casa.

    –Essa mesma é que eu quero vêr, disse D. Theodora.

    –Quem lhe hei de eu dizer que a procura?

    –Diga-lha que é uma pessoa.

    –A este tempo estava já na janella a sr.^a D. Thomazia Leonor, cuja
    attenção fôra chamada pelo desabrimento do dialogo.

    –Quem é a senhora?–perguntou a viuva do tenente.

    D. Theodora impertigou o pescoço, e como visse uma mulher de touca
    parda, e já avelhentada, conjecturou que fallava com uma criada.

    –Quero fallar á senhora viuva.

    –Abra a porta, José–disse D. Thomazia ao criado.

    –Subiu a fidalga com o tio, entraram na sala de espera, que já estava
    aberta, e d'ahi a pouco entravam n'outra sala, que era a das visitas.

    D. Theodora olhava em de redor de si por sobre aquelles riquissimos
    setins e marmores, e dizia intallada:

    –Olha o meu dinheiro por onde anda!…

    Paulo benzia-se e murmurava:

    –Parece o palacio do rei!

    D. Thomazia demorara-se a mudar de touca, de cazebeque e botinhas.
    Entrou na sala com o garbo de lisboeta, e disse a D. Theodora:

    –Eu desejo saber com quem tenho a honra de fallar.

    –Então a senhora é que é a viuva?

    –Eu é que sou a viuva do tenente de infanteria 13, João da Silva
    Gonçalves. Dar-se-ha caso que v. ex.^a seja uma prima que meu marido
    tinha na provincia do Minho?

    –Não sou quem a senhora pensa.

    –Então tem a bondade de dizer…

    –Pois a senhora é que é a tal pessoa?…–tornou Theodora, já menos
    raivosa, que espantada do depravado gosto do marido.

    –Que pessoa? não sei de quem v. ex.^a falla.

    –A amasia de meu marido…

    –Amasia de seu marido!… Cruzes!… a senhora veiu enganada… Eu sou
    uma viuva honrada; chamo-me Thomazia Leonor. Quem é o marido da
    senhora?! Isto tem graça!…

    –Meu marido é o deputado Calisto Eloy.

    –Ah!–exclamou Thomazia–Então v. ex.^a é esposa do sr. morgado…

    –Já me conhece?!…–disse sorrindo ferozmente Theodora.

    –Agora tenho a honra de a conhecer; mas eu não sou a pessoa que v.
    ex.^a procura. Bem vê que sou uma mulher de edade, e por desgraça estou
    aqui n'esta casa da prima do sr. morgado como dispenseira, e aia da
    fidalga.

    –E que é da tal fidalga?

    –Anda a viajar pela Europa.

    –Onde é a Europa?–perguntou D. Theodora colerica.

    –A Europa é este mundo por onde anda a gente, minha senhora–respondeu
    promptamente a viuva.

    –Mas é longe onde está a tal prima de meu marido?

    –Muito longe: elles já embarcaram ha seis dias… Deus sabe onde elles
    estão agora.

    –Pois foram os dois?–bradou Theodora, sacudindo murros fechados.

    –Foram sim, minha senhora.

    –E quando voltam?

    –Quem sabe!… Os fidalgos não disseram nada: póde ser que passem
    alguns mezes lá por fóra.

    –Raios os partam!–vociferou Theodora.

    –Deus os defenda!–emendou Thomazia–Pois v. ex.^a deseja tanto mal a
    seu marido, que é um anjo, e a sua prima, que é um serafim!…

    –A minha prima?!–ululou a morgada.

    –Sim, minha senhora; pois tão prima é ella do marido de v. ex.^a como
    sua.

    –Ella o que é, sabe que mais? é uma desavergonhada, e tudo que aqui
    está é meu, foi comprado com o meu dinheiro.

    –Seria–disse Thomazia algum tanto enfadada–seria, mas eu não tenho
    nada com isso, minha senhora. A sr.^a D. Iphigenia Ponce de Leão
    entregou-me a sua casa, quando foi viajar: hei de entregar-lh'a como a
    recebi; e v. ex.^a lá se avenha com seu marido, quando elle voltar. D.
    Theodora Figueirôa, empuchada por impulsos dos nervos, corria de angulo
    para angulo o salão. De uma vez, olhou por entre duas portadas mal
    fechadas para o interior de outra sala, e exclamou:

    –Olhe, meu tio! olhe que riqueza aqui vae!

    Deu um pontapé nas portadas, e entrou, bradando:

    –O meu dinheiro! o meu dinheiro!…

    Era ali o sumptuoso gabinete de leitura e musica de D. Iphigenia.
    Ornavam as paredes dois retratos a corpo inteiro: Calisto Eloy com a
    farda de fidalgo cavalleiro; e Iphigenia trajada de amazona.

    –Olha o meu marido!–clamou Theodora–aquella é a tal mulher? perguntou
    á espantada Thomazia.

    –Aquella é a sr.^a D. Iphigenia.

    –Vou rasgar aquelle diabo!–berrou a morgada, puchando uma cadeira para
    trepar.

    –Isso alto lá, minha senhora!–acudiu irada a dispenseira–V. ex.^a não
    estraga coisa nenhuma. E, se continua n'esse disparate, eu mando chamar
    o cabo da rua para a pôr lá fóra.

    –Pôr-me a mim lá fóra?! bradou Theodora!

    –Sim, minha senhora, que isto não são termos. Nem me parece senhora! cá
    em Lisboa acções d'estas só as praticam as peixeiras.

    Paulo foi ao pé da sobrinha, e disse-lhe:

    –Theodora, vamos. A mulher tem razão, porque é criada da casa e tem de
    dar contas.

    –Não sou criada; sou aia da fidalga–corregiu a viuva, offendida nas
    dragonas do seu defunto tenente.

    –Aia, ou o diabo que é–tornou Paulo–Vem d'ahi, sobrinha–e tirou-a
    pelo braço, em quanto ella assestava os punhos fechados ao retrato de
    Iphigenia.

    Á saida d'aquella casa, D. Theodora, a consorte fiel, a mulher que fez
    eclypse nas virtudes conjugaes do Indostão, sentiu quebrar-se o ultimo
    cabello que a prendia á historia das esposas exemplares.

    N'aquella hora funesta, lembrou-se com saudades do primo Lopo de Gamboa.

    O patife vencêra!

    XXXV

    *A felicidade infernal do crime*

    Recebeu Calisto Eloy em Paris a minudenciosa narrativa dos factos
    acontecidos, e escondeu de Iphigenia a carta de D. Thomazia.

    Foi tamanha sua vergonha e odio, que d'alli escreveu a Lopo de Gamboa,
    reagradecendo-lhe o aviso que lhe dera do infame projecto de Theodora;
    e, lhe asseverava que, depois de tão incrivel e original desaforo, se
    considerava viuvo, e nunca mais diante de seus olhos consentiria
    similhante furia. Ajuntava que, na volta para Portugal, ia requerer
    divorcio, e separação dos casaes, se a esse tempo Theodora se não
    houvesse recolhido á sua casa de Travanca, sem tocar no minimo dos
    valores pertencentes ao casal da Agra de Freimas.

    Tirante o que, n'esta carta, dizia respeito ao aviso enviado para
    Lisboa, Lopo leu declamatoriamenle as ameaças de Calisto, e os epithetos
    injuriosos com que elle castigava a petulancia da mulher. Ao tempo
    d'esta leitura, superflua já era tão rija catapulta para derrubar a
    virtude de Theodora.

    Quasi impassivelmente recebeu ella os insultos. Cuidou logo em
    transferir-se para o seu solar, e repartiu entre o velho Paulo e seu
    primo Lopo, o cuidado da administração dos seus abastosos vinculos. Ora,
    o primo Lopo, afim de esmerar-se na tarefa que lhe era confiada, mudou a
    sua residencia para casa da prima, e cuidou de restituir áquelle solar a
    antiga magestade dos defuntos Figueirôas. Para isto, lhe transmittiu sua
    prima aquelle caixote das peças, que para alli estavam amuadas, desde
    que o governador da India voltára com ellas d'além-mar, provavelmente
    adquiridas com tanta honestidade como agora iam ser esbanjadas.

    Graças ás modistas de Penafiel, e, mais ainda, ás meninas da estalagem,
    D. Theodora Figueirôa affeiçoou-se ao merinaque, e ao feitio e estofo do
    vestido e paletó. O primo Lopo dizia-lhe, algumas vezes, que ella, em
    companhia de Calisto, era um diamante bruto; e se n'isto havia
    encarecimento, até certo ponto o bacharel maravilhava-se do influxo que
    o trajar exercitava nas fórmas de sua prima. A cintura adelgaçou-se;
    apequenou-se-lhe o pé; alargaram-se-lhe os encontros; amaciou-se-lhe a
    cutis; branquearam-se-lhe os braços; escampou-se-lhe a fronte com o
    riçado dos cabellos; toda ella adquiriu no andar certo requebro e
    donaire que lhe ia tão ao natural como se tivesse sido educada por salas
    e adextrada em flexuras da dança! A mulher, com effeito, é um mysterio!
    Estas methamorphoses aos quarenta annos só podem fazer-se e estudar-se a
    espelho, cujo aço tem composição dos laboratorios d'aquelle imaginoso
    chefe dos rebeldes, que Deus despenhou do empyreo, sem todavia o
    esbulhar dos dons da intelligencia!

    E, por sobre tudo isto, para que ninguem duvide da intervenção diabolica
    n'este caso, Theodora vivia contente, esquecida, feliz!

    XXXVI

    *Saldo de contas conjugal*

    Chegou a Paris a boa nova, desacompanhada de pormenores deshonrosos.
    Dizia apenas o feitor do morgado que a fidalga se retirara para
    Travanca, deixando tudo que encontrára, e levando tudo que trouxera.
    Lopo de Gamboa industriára o feitor na direcção que havia de dar á
    carta. Faltou-lhe apurar o desvergonhamento ao extremo de continuar
    correspondencia com o marido de sua prima.

    Calisto desandou para Lisboa, prevenindo Thomazia que occultasse de
    Iphigenia a indecorosa scena que sua mulher fizera.

    Na volta de Paris, o morgado aposentou-se no palacete da brazileira. O
    passeio á Europa limpou-lhe do espirito as teias: é bom desempoeirar os
    olhos com a viração salutar dos ares de França e Italia. Lisboa pareceu
    a Calisto Eloy terra pequena de mais para sacrificios tamanhos.
    Emancipou o coração, e obedeceu-lhe.

    Assistiu ainda o deputado a algumas sessões parlamentares. Floreou os
    seus discursos com as recordações do progresso industrial no
    estrangeiro. Enlevou-se nas delicias de França, e não andou por muito
    longe da phrase arrobada do dr. Liborio de Meirelles na apologia dos
    esplendores estranhos, e lamentações das miserias da patria.

    Providenciou sobre negocios de sua casa, para que os recursos lhe não
    minguassem nas pompas do seu viver em Lisboa, e começou um doce viver,
    não mareado de minimo dissabor. Renasceu-lhe no espirito, já livre dos
    sobresaltos do coração, o amor á leitura de livros modernos, em que se
    lhe deparavam luzes e idéas, que elle, a furto, conseguia entrever nas
    litteraturas antigas. Avermelhava-se-lhe o rosto, quando lia o seu
    discurso ácerca do luxo, e o outro mais tôlo sobre Lucrecia Borgia do
    theatro lyrico. A sciencia moderna flagellava-o. Tinha elle escripto nos
    dois primeiros mezes alguns quadernos de papel, no proposito de dar á
    estampa um livro contra o luxo. Releu com pejo a sua obra, e ordenou a
    um criado que queimasse o manuscripto. O criado não o queimou.
    Escondeu-o sem máo intento; e alguma vez saberá o mundo litterario como
    aquelles papeis vieram á minha mão, e ainda me são deleite e licção de
    sã linguagem e sãs doutrinas.

    Decorreram alguns mezes sem successo que dê capitulo d'algum interesse.
    Fechado o triennio da legislatura, Calisto Eloy foi agraciado com o
    titulo de barão da Agra de Freimas, e carta do conselho. Sondou o animo
    de alguns influentes eleitoraes de Miranda para reeleger-se pelo seu
    circulo. Disseram-lhe que o mestre-escola lhe hostilisava a candidatura,
    emparceirado com o boticario. Comprou o barão dois habitos de Christo
    que fez entregar, com os respectivos diplomas, aos dois influentes. Na
    volta do correio foi-lhe assegurada a eleição, que, de mais a mais, o
    governo apoiava.

    Por esta occasião, Braz Lobato, religada a amizade antiga, escreveu ao
    fidalgo uma carta em que, pouco menos de brutalmente, reproduzia os
    boatos correntes ácerca do procedimento da sr.^a D. Theodora com o seu
    primo Lopo de Gamboa.

    O barão experimentou um mal-estar de especie nova, que se desvaneceu a
    pouco e pouco, e só mui levemente se repetiu no dia seguinte. Eu creio
    que o homem aprendêra em Paris dois consolativos versos de Molière:

    _Quel mal cela fait-il? la jambe en devient elle
    Plus tortue, après tout, et la taille moins belle_?

    Averiguei quanto em mim coube o viver interno de Iphigenia e do primo.
    Convinha-me descobrir amarguras lá dentro, para tirar d'ellas o symptoma
    da expiação. Não descobri coisa alguma, que não fosse invejavel. O mais
    que se me deixou vêr de novidade foram duas creanças loiras, lindas,
    alvas de neve, e amimadas entre Iphigenia e Calisto como dois penhores
    de felicidade infinita.

    Como ali cairam dos pombaes do céo aquellas duas avesinhas, que
    saltitavam dos braços de um para o colo do outro, não sei. Eu digo ao
    leitor o que as mães de recem-nascidos dizem aos filhos mais velhos:
    «vieram de França n'uma condecinha.»

    Ouvi rosnar que no sollar de Travanca tambem appareceu um ropolhudo
    menino, que pelos modos, tambem veiu n'um cêsto de alguma parte. Se não
    fossem estas remessas prodigiosas de creanças, acabavam duas
    illustrissimas familias sem posteridade. A natureza é muito engenhosa.

    O barão esperava que a mulher morresse, para legitimar os seus meninos,
    um dos quaes se chamava Mem de Barbuda como seu decimo setimo avô, e o
    outro Egas de Barbuda como seu decimo oitavo avô.

    A baroneza, que, digamol-o depressa, não regeitou o titulo do marido,
    esperava que o marido se anniquillasse na perdição dos seus costumes,
    para tambem legitimar o seu Bernabé. Chamava-se Bernabé aquelle gordo
    menino, gordo que não parecia fructo outoniço de arvore já tão
    esgravinhada e resêca! O amor é tão engenhoso como a natureza.

    *Conclusão*

    Deixal-o ser feliz: deixal-o. Calisto Eloy, aquelle santo homem lá das
    serras o anjo do fragmento paradisico do Portugal velho, caíu.

    Caiu o anjo, e ficou simplesmente o homem, homem como quasi todos os
    outros, e com mais algumas vantagens que o commum dos homens.

    Dinheiro a rôdo!

    Uma prima que o presa muito!

    Dois meninos que se lhe cavalgam no costado!

    Saude de ferro!

    E barão!

    Conjectura muita gente que elle é desgraçado, apezar da prima, do
    baronato, dos meninos, do dinheiro e da saude.

    Eu, como já disse, não sei realmente se lá no recesso dos arcanos
    domesticos ha borrascas.

    Na qualidade de anjo, Calisto, sem duvida, seria mais feliz; mas, na
    qualidade de homem a que o reduziram as paixões, lá se vae concertando
    menos mal com a sua vida.

    Eu, como romancista, lamento que elle não viva muitissimo apoquentado,
    para poder tirar a limpo a sã moralidade d'este conto.

    Fica sendo, portanto, esta coisa uma novella que não ha de levar ao céo
    numero d'almas mais vantajoso que o do anno passado.

    FIM

    *INDICE*

    Dedicatoria
    I–O heroe do conto
    II–Dois candidatos
    III–O demonio parlamentar descobre o anjo
    IV–Asneiras da erudição
    V–Estreia parlamentar de Calisto
    VI–Virtuosas parvoiçadas
    VII–Figura, vestido, e outras coisas do homem
    VIII–Faz rir o parlamento
    IX–O doutor do Porto
    X–O coração do homem
    XI–Santas ousadias!
    XII–O anjo custodio
    XIII–Regeneração
    XIV–Tentação! Amor! Poesia!
    XV–Ecce iterum Crispinus
    XVI–Quantum mutatus!
    XVII–In Liborium
    XVIII–Vae cair o anjo!
    XIX–Ó mulheres!
    XX–Proh dolor!
    XXI–O mordomo das tres virtudes cardeaes
    XXII–Outro abysmo
    XXIII–Tenta o seu anjo da guarda salval-o mediante uma carta da esposa
    XXIV–A mulher fatal
    XXV–Perdido!
    XXVI–E ella amava-o!
    XXVII–A saudade e a sciencia em dialogo
    XXVIII–Ingratidão de um deputado
    XXIX–O demonio em Caçarelhos
    XXX–Como ella o amava!
    XXXI–Vence o demonio! choram os anjos!
    XXXII–A virtude de Theodora em paroxismos
    XXXIII–Escandalos
    XXXIV–Perdida!
    XXXV–A felicidade infernal do crime
    XXXVI–Saldo de contas conjugal
    Conclusão

    *NOTAS*

    [1] _Bebes bem_ e _vives mal_. Fr. Luiz de Sousa confirma este caso,
    algures, na _Vida do arcebispo de Braga_.

    [2] _Nós e nosso rei somos livres, etc_.

    [3] L. II, Epist. II, v. 51.

    [4] O bom vinho alegra o coração do homem.

    [5] Marinho escreveu no periodo da usurpação dos Filippes.

    [6] Duarte Nunes de Leão ainda via os cavalleiros de bronze cujos
    cavallos deram o nome ao chafariz. Historiando o reinado de D. Fernando,
    e a invasão de castelhanos em Lisboa, escreve a pag. 205 e seguintes, da
    primeira parte da chronica dos reis:

    «…E ardeu toda a rua nova, e a freguezia da Madanella e de S. Gião e
    toda a judaria com a melhor parte da cidade. E para memoria daquelle
    grande incendio, tomarão h[~u]as fermosas portas da alfandega da cidade
    para levarem a Castella quando se fossem. E assi quiserão levar h[~u]s
    cavalleiros de bronze, mui bem feitos, [~q] stavã no chafariz, a que
    ficou o nome dos cavallos por cuja bocca sahia aquella grossa agua. Mas
    os cidadãos prevenirão nisso, e os guardarão [~q] lh'os não tomassem,
    por ser cousa publica, e [~q] sendo levado o terião por affronta. Estes
    cavallos que… por aquella differença [~q] os antigos tiverão sobre
    elles os houveram de conservar os governadores da cidade, nestes dias
    proximos, como poucos curiosos de antiguidades, mandaram sem proposito
    tirar, donde tantos tempos estiveram.»

    [7] Prudencia em tudo.

    [8] Sede prudentes como as serpentes, e simplices como as pombas. _S.
    Matt._ c. x. v. 16.

    [9] Coroemo-nos de rosas em quanto ellas não fenecem.

    [10] Gloria aos vencidos.

    [11] O orador forrageou os elegantes dizeres, que vão sublinhados, na
    feracissima seara de um livro do sr. dr. A. Ayres do Gouveia Osorio,
    intitulado: «_A reforma das prisões_.»

    [12] Esta chave de oiro do peregrino discurso foi tambem roubada dos
    thesouros do sr. dr. Ayres de Gouveia, ministro da justiça. Pag. 150,
    2.^o vol. da _Reforma das prisões_.

    [13] Não sejas por demasia justo.

    [14] Palavras e phrases sublinhadas são plagiatos. O dr. Liborio tinha
    vasta leitura da _Reforma das Cadeias_ do insigne escriptor, A. Ayres de
    Gouveia, ministro da justiça, ao fazer d'esta nota (20 de março de 1865,
    meia-noite).

    [15] Já se disse que os primores sublinhados são despejadamente
    forrageados no livro do sr. dr. Ayres de Gouveia.

    [16] _A Reforma das Cadeias_, part. I, pag. 26.

    [17] _Ibid._, pag. 17.

    [18] Antonio Ribeiro dos Santos, 1.^o vol., p. 186.–_A. Alexis_

    [19] É egual o sentir do padre Manuel Bernardes. Diz assim: «Adverte que
    as varias disposições e accidentes que tocam ao nosso corpo, pegam o seu
    modo tambem ao espirito… Diversa feição e actualidade tem o espirito
    de quem vae montado em um formoso cavallo, e o do que vae em um
    despresivel jumento. Se o teu vestido fôr pobre e roto, repara que o
    espirito recebe d'aqui alguma disposição differente da que tem quando o
    vestido é novo e asseado: e assim nas mais cousas. (Luz e Calor. _Silva
    de varios dictames espirituaes_.)

    [20] Se fores a Roma, vive á moda de Roma.

    [21] Creio que os grandes effeitos d'esta narrativa foram detidamente
    estudados e calculados pelo caminho.

    End of Project Gutenberg's A Queda d'um Anjo, by Camilo Castelo Branco

  • A paranoia

    A paranoia

    Aproximadamente 44.906 palavras.

    A PARANOIA

    Julio de Mattos

    ENSAIO PATHOGENICO SOBRE OS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

    _…Ci iroviamo proprio faccia a faccia col nudo
    querito della pura pazzia._

    EUGENIO TANZI

    Lisboa
    Livraria Editora
    Tavares Cardoso & Irmão
    5, Largo de Camões, 6

    1898

    A MEMORIA AMIGA DO PROFESSOR SOUSA MARTINS

    PREFACIO

    Ao passo que na sua maioria as doenças hoje estudadas pelos alienistas
    pertencem no fundo á pathologia interna, e só pelo predominio, mais
    apparente ás vezes do que real, dos seus symptomas psychicos se
    apropriaram a designação de _mentaes_, os delirios systematisados,
    esses, pela ausencia de caracteristicas lesões, pela falta de privativas
    causas determinantes e pela carencia de symptomas funccionaes
    objectivamente apreciaveis, constituem a verdadeira loucura, a psychose
    por excellencia, n'uma palavra, o proprio e irreductivel dominio da
    psychiatria.

    Isto é dizer que a observação clinica não póde, ella só, determinar a
    génese d'estes delirios, pois que o confronto dos dados psychicos com os
    somaticos e etiologicos é, no caso sujeito, impraticavel.

    Foi, todavia, pelo exclusivo exame do hypocondriaco, do perseguido, do
    ambicioso, que os alienistas buscaram até ha pouco surprehender a
    pathogenia dos delirios essenciaes. D'aqui o natural insuccesso dos seus
    trabalhos, melhor do que nunca evidenciado nos ultimos debates das
    sociedades psychiatricas de Paris e de Berlim, em que se não fez, por
    confissão dos proprios oradores, mais do que obscurecer e confundir o
    problema posto.

    Por outro caminho,–introduzindo no controvertido thema a criterio da
    evolução, seguiram, felizmente, na Italia contemporanea eminentes
    pshychiatras.

    Inquiridos clinicamente os delirios essenciaes nos seus symptomas e na
    sua marcha, uma coisa resta ainda fazer para os interpretar: o estudo do
    delirante, considerado, não em si mesmo, como individuo, ou nos seus
    ascendentes immediatos, como membro de uma certa familia, mas
    anthropologicamente na sua vasta ancestralidade, como representante de
    uma especie em plena evolução.

    Na sua marcha normal não segue o Espirito ao acaso, mas
    _progressivamente_ por linhas de ideação desde muito entrevistas, senão
    inteiramente definidas; quem nos affirma que na sua marcha anormal elle
    não segue _regressivamente_ pelas mesmas prefixas e inflexiveis linhas
    ideativas?

    Se a dissolução da memoria se apagam primeiro os factos recentes e só
    depois os remotos, primeiro os nomes e só por ultimo os adjectivos e os
    verbos; se na dissociação da motricidade se perdem em primeiro logar os
    actos conscientes e só por fim os habituaes e instinctivos; se na
    desaggregação affectiva são os primeiros a fazer naufragio os
    sentimentos altruistas e só em derradeiro logar se extinguem os
    egoistas, é possivel e provavel mesmo que na esphera propriamente
    conceptiva a marcha pathologica se realise, ao menos em certos casos,
    n'um sentido tambem regressivo. Ora, segundo a escóla italiana, isto se
    dá, com effeito, nos delirios systematisados essenciaes, manifestação.

    PRIMEIRA PARTE

    Historia dos delirios systematisados

    I–PHASE INICIAL

    De Areteu a Esquirol–Confusão dos delirios systematisados com a
    melancolia–A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
    expansiva.

    Se conheceram os delirios systematisados, não deixaram d'isso documento
    os escriptores que precederam a nossa era. É sómente a datar do primeiro
    seculo, em Areteu e Celio Aureliano, que encontramos incontestaveis e
    inequivocas referencias aos perseguidos.

    Occupando-se dos melancolicos, escrevia, com effeito, o primeiro d'estes
    medicos: «Muitos receiam que lhes propinem venenos; os seus sentidos
    adquirem um redobramento de finura e de penetração que os torna
    suspeitosos e de uma habilidade extrema em verem por toda a parte
    disposições hostis»[1]. Pelo seu lado, Celio Aureliano, fallando dos
    mesmos doentes, affirmava que muitos «experimentam uma desconfiança
    continua, um permanente receio de imaginarias armadilhas»[2].

    [1] Areteu,_De Melancholia_, apud Trelat, _Recherches historiques sur la
    folie,_ pag. 10

    [2] Vid. Trelat, _Obr. cit._, pag. 38.

    A confusão que n'estas passagens se nota entre perseguidos e
    melancolicos, subsistirá, como veremos, até muito perto de nós e merece
    explicar-se desde já.

    Definindo a melancolia «animi angor in una cogitatione defixus», Areteu
    caracterisava esta doença por duas ordens diversas de factos a que dava
    igual valor: de um lado, o phenomeno emotivo, consistindo n'um estado de
    angustia _animi angor_, do outro, o facto intellectual de uma concepção,
    delirante absorvendo e fixando o espirito (_in una cogitatione
    defixus_). Pouco a pouco, porém, a consideração de um delirio limitado
    foi, talvez por mais apparente, predominando sobre a de um estado mental
    depressivo na caracterisação da melancolia, como se vê nos auctores que
    succederam a Areteu. Procurando, com effeito, differenciar a melancolia
    da mania, elles não o faziam pondo em contraste os estados emotivos que
    acompanham estas vesanias, mas proclamando que na primeira o delirio é
    limitado, unico e absorvente, ao passo que na segunda elle é multiplo,
    geral e dispersivo.

    Repetindo-se atravez dos tempos, esta doutrina que faz prevalecer o
    elemento intellectual sobre o emotivo, conquista de tal modo as opiniões
    que no seculo XVII melancolia e delirio parcial tornam-se termos
    equivalentes. Assim Sennert a definia: «Uma concentração da alma sobre a
    mesma idéa ou um delirio que se exerce sobre um pensamento, falso quasi
    exclusivo».[1]

    [1] Vid. Morel,_Traité des maladies mentales_, pag. 54.

    Nenhuma idéa de emoção depressiva e dolorosa se encontra n'esta e
    analogas definições, em que, pelo contrario, a unidade do delirio figura
    como elemento exclusivo. O _angor animi_ de Areteu desapparecera,
    restando apenas da antiga definição o conceito de um espirito absorvido
    _in una cogitatione_. Logicamente, pois, incluiram os medicos do seculo
    XVII o delirio de grandezas no quadro clinico da melancolia. Sob o seu
    ponto de vista, com effeito, tanto valem os perseguidos como os
    megalomanos, porque uns e outros são, no dizer de Sennert, doentes «cuja
    razão se acha pouco alterada ou apenas alterada em relação a um
    objecto», isto é, por definição, melancolicos. Entre estes collocava o
    auctor que acabamos de citar, um doente julgando-se monarcha do Universo
    e cuja razão, _só parcialmente lesada_, lhe permittia «dissertar
    perfeitamente sobre as mais graves questões». Plater, ao lado dos
    melancolicos sitiophobos «receiando envenenamentos e accusando de
    hostilidade e perfidia os seus mais intimos amigos», collocava doentes
    «possuidos das idéas de opulencia e de realeza».

    A unidade do delirio e não a natureza d'elle ou das emoções que o
    acompanham, constituia no seculo XVII, como se vê, a caracteristica dos
    estados melancolicos. De resto, Sennert explicitamente affirmava que «na
    melancolia o delirio é muitas vezes alegre».

    Os medicos do seculo XVIII acceitaram unanimemente a doutrina que no
    quadro clinico da melancolia fazia entrar a titulo de variedades os
    delirios de perseguições e de grandezas. Para Sauvages, por exemplo, o
    delirio exclusivo caracterisava a melancolia; mais explicito, Lorry
    descreveu como fórma d'esta vesania «um delirio parcial exaltado com
    paixão excitante».

    A primeira metade do nosso seculo não trouxe modificação sensivel a
    estas idéas. Rusch descrevia em 1812 duas variedades melancolicas, uma
    triste, _tristimania_, outra alegre, _aménomania_. Pinel admittia
    igualmente duas fórmas de melancolia: uma depressiva e outra ambiciosa,
    caracterisadas por um delirio parcial. «Nada mais inexplicavel, diz
    elle, e, todavia, nada mais verificado que a existencia de duas fórmas
    oppostas da melancolia. É algumas vezes uma explosão de orgulho e a
    idéa chimerica de possuir immensas riquezas e um poder sem limites,
    outras vezes o abatimento mais pusilanime, uma consternação profunda e
    mesmo o desespero»[1].

    [1] Pinel, _Traité médico-philosóphique sur l'aliénation mentale_, pag.
    165.

    Sob diversa nomenclatura, Esquirol propagou, sem as alterar no fundo, as
    idéas dos seus antecessores. Designando pelo termo infeliz de
    _monomania_ o grupo dos delirios parciaes, acceita duas variedades ou
    especies: uma, depressiva, a _lypemania_, outra, expansiva, a _monomania
    propriamente dita_. A _lypemania_, que não é senão a _tristimania_ de
    Rusch ou a melancolia de fórma depressiva de Pinel, comprehende entre
    outras variedades o delirio de perseguições, ainda então innominado; _a
    monomania propriamente dita_, que equivale á _aménomania_ de Rusch e á
    melancolia de fórma expansiva de Pinel, é por elle definida «um delirio
    parcial ou monomania alegre», e comprehende os delirios de grandezas,
    não só o idiopatico, mas, como se vê nos casos que aponta, o
    symptomatico da paralysia geral, ao tempo ainda não descripta.

    Recebendo a influencia tradicional dos seus predecessores, Esquirol
    transmittiu-a, reforçada pela sua grande auctoridade, aos alienistas que
    lhe succederam na primeira metade d'este seculo. É documento d'isso o
    extraordinario successo da doutrina das monomanias, aliás
    psychologicamente erronea, clinicamente infecunda e juridicamente
    perigosa.

    No seu _Tratado das Doenças Mentaes_ affirma Esquirol que o termo
    _monomania_ adquiriu direitos de cidade pela, introducção no diccionario
    da Academia Franceza, e felicita-se por isso. E, todavia, esse termo é
    confuso, porque no proprio livro do mestre nos apparece com
    significações diversas, ora designando, como vimos, delirios parciaes,
    ora obsessões e impulsos, isto é, um conjuncto de factos heterogeneos e
    de significação clinica diferente. Primitivamente creada para designar o
    mesmo que a melancolia dos antigos–uma affecção parcial do
    entendimento, acompanhada quer de tristeza, quer de expansão, a palavra
    _monomania_ foi insensivelmente generalisada pelo proprio Esquirol no
    sentido de exprimir uma doença, ou desvio parcial de qualquer faculdade:
    ao lado de uma _monomania intellectual_, tem logar uma _monomania
    affectiva_ e uma _monomania impulsiva_. Delirios systematisados, emoções
    procedentes de idéas obsediantes, impulsos cegos e irresistiveis, tudo
    entra no quadro da monomania–o mais amplo, diz Esquirol, de toda a
    classificação.

    De sorte que, se os antigos, desviando a palavra _melancolia_ do
    significado que Areteu lhe dera, chamaram a um só grupo delirios do
    caracter diverso e lançaram assim na sciencia uma grande confusão,
    Esquirol não fez senão augmental-a pela creação das monomanias.

    Como quer que seja, o immenso e, por innumeros titulos, justificado
    prestigio d'este observador fez correr a palavra e a doutrina. Sem
    duvida, objecções foram bem cedo erguidas contra ambas por Falret,
    Delasiauve e outros, que negaram a existencia de delirios circumscriptos
    a uma só idéa, affirmados na palavra, ou pozeram em relevo a
    solidariedade das funcções mentaes, contradictada pela doutrina. «Todas
    as faculdades, escrevia Falret em 1819, participam em maior ou menor
    grau das desordens intellectuaes; de resto, sempre que uma idéa falsa
    invade a intelligencia, o seu poder contagioso exerce-se sobre as
    outras, de sorte que sob um delirio preponderante véem-se estabelecer
    delirios secundarios e derivados que não tardam a invadir todo o
    intendimento»[1]. Pelo seu lado, Delasiauve escrevia em 1829: «Póde
    acaso limitar-se o circulo d'acção em que uma idéa dominante deve
    exercer ou realmente exerce a sua influencia?» E mais tarde ainda: «O
    delirio dos monomanos não é nunca tão circumscripto como se pretendeu; a
    verdadeira monomania é rarissima!»[2] Todavia, a criticas d'esta ordem
    redarguiam Esquirol e os seus discipulos que nem a palavra _monomania_
    significava unidade de delirio, nem a doutrina necessariamente implicava
    que a lesão de uma faculdade não podesse fazer-se sentir sobre as
    outras; para elles, a monomania designava uma lesão parcial e
    preponderante, mas não unica e independente, das faculdades.

    [1] Falret, _Des maladies mentales_

    [2] Delasiauve, _Les Pseudomonomanies_

    «Tem-se negado, escrevia Esquirol, a existencia dos monomaniacos,
    dizendo-se que os alienados não deliram nunca sobre um só objecto, mas
    que sempre n'elles há perturbações da sensibilidade e da vontade. Mas,
    se assim não fosse, os monomaniacos não seriam loucos.»[1] Pelo seu
    lado, Marcé escrevia: «Nunca os que crêem na existencia das monomanias
    pensaram em negar a solidariedade das faculdades intellectuaes no
    monomaniaco. Reconhecendo que o delirio é raras vezes limitado a um só
    ponto, crêem, no emtanto, dever conservar as monomanias a titulo de
    grupo distincto.»[2]

    [1] Esquirol,_Des maladies mentales,_ tom. II, pag. 4.

    [2] Marcé, _Traité pratique des maladies mentales,_pag. 351.

    Voltemos, porém, ao nosso restricto assumpto.

    A _monomania intellectual_ de Esquirol, caracterisada por um delirio
    limitado de natureza alegre ou triste, não é senão a _melancolia_ dos
    antigos medicos. Para aquelle, como para estes, era a extensão dos
    conceitos falsos o criterio para classificar as loucuras em que ha
    compromisso da intelligencia: de um lado, a mania, manifestando-se por
    um delirio geral e dispersivo, do outro, a monomania, symptomatisada por
    um delirio parcial e fixo.

    Se a estas duas especies accrescentarmos a _idiotia_ e a _demencia,_
    entrevistas por Pinel, mas só definidas por Esquirol, a _estupidez_
    descripta por Georget, e a _paralysia geral,_ estudada por Calmeil,
    encontramo-nos em face da classificação das psychoses que até ao meiado
    do nosso seculo a França inteira adoptou. Ora, dentro d'esta
    classificação, não teem logar distincto e proprio, como se vê, os
    delirios systematisados: o de perseguições é descripto como uma
    variedade lypemaniaca, e o de grandezas é confundido com as
    manifestações symptomaticas de outras doenças mentaes.

    II–PHASE ANALYTICA

    De Lasègue a J Falret e de Griesinger a Snell e Sander–O delirio de
    perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
    secundaria; a Verrücktheit originaria–Começo de interpretação
    pathogenica.

    Foi Lasègue em 1852 quem primeiro destacou do cahos da melancolia o
    delirio de perseguições para eleval-o á dignidade de «especie
    pathologica entre as alienações mentaes».

    No seu memoravel trabalho sobre este assumpto, o eminente alienista
    começa por notar que as idéas de perseguição apparecem como episodio
    symptomatico e a titulo de phenomeno incidente no _alcoolismo_, nas
    _loucuras provocadas por certas substancias narcoticas_ e em muitos
    _delirios parciaes_; na doença, porém, que elle descreve pela primeira
    vez essas idéas não são um syndroma fortuito, mas um facto constante e
    essencial, um phenomeno preponderante e fixo. A nova psychose tem, de
    resto, como titulos á autonomia nosographica, symptomas especiaes e uma
    evolução caracteristica.

    Estudando a marcha do delirio de perseguições, Lasègue reconhece-lhe
    dois periodos: um, _de incubação,_ consistindo n'um mal-estar indefinido
    e vago, mas absorvente e inquietante, em que o doente se suspeita
    victima de hostilidades cuja origem não sabe ainda determinar; outro,
    _de estado_, em que o delirio definitivamente se installa e systematisa.
    Ao principio o doente não exprime a idéa de uma perseguição senão com
    uma _certa reserva_, hesitantemente, tentando ainda provar a si mesmo
    que ella é _absurda_; mais tarde, porém, a duvida esbate-se e o systema
    delirante apparece definitivamente formado. A duração do primeiro
    d'estes periodos é essencialmente variavel: tão rapida em alguns doentes
    _que a custo se lhe surprehende o primeiro grau_, prolonga-se e
    arrasta-se em outros, que só _muito gradualmente_ e por uma _progressão
    bem sensivel_ e bem apreciavel attingem a construcção do seu romance
    delirante.

    Do mal-estar caracteristico do primeiro periodo diz Lasègue que elle _se
    não parece em nada com a inquietação ainda a mais viva do homem normal_;
    é indefinivel, accrescenta, como _os symptomas que annunciam e fazem
    presentir a invasão das doenças graves_. O periodo de estado, esse, é
    como a _floração_ da psychose: o _romance systematico_ desenvolve-se
    pelo reconhecimento dos perseguidores–a policia, o jesuitismo, os
    magnetisadores, a maçonaria, os physicos, etc.

    Passando ao estudo dos symptomas, Lasègue põe em relevo o papel que
    desempenham na doença as falsas sensações auditivas. «O orgão do
    ouvido, escreve o eminente professor, fornece as primeiras sensações
    sobre que se exerce a intelligencia pervertida. O doente ouve retalhos
    de conversas que interpreta e se applica; os mesmos ruidos que
    naturalmente se produzem,–a passagem de um trem, os passos de uma
    pessoa que sobe ou desce uma escada, uma porta que se abre ou fecha, são
    objecto dos seus commentarios».[1] Fallando, em seguida, das
    allucinações auditivas, declara-as _as unicas compativeis com o delirio
    de perseguições;_ e accrescenta: «Basta que um doente accuse visões para
    que eu não hesite em affirmar que elle pertence a outra cathegoria de
    delirantes»[2]. Na mesma ordem de idéas escreve ainda: «Qualquer que
    seja a epocha em que ellas se declarem, as allucinações pertencem sempre
    ao quadro das auditivas; não é demais a minha insistencia sobre este
    caracter, que considero pathognomonico»[3]. Todavia as allucinações do
    ouvido, tão importantes e de tão vasto papel, não são para Lasègue um
    phenomeno constante na psychose que descreve: «A allucinação do ouvido,
    diz elle, não é nem a consequencia obrigada, nem o antecedente
    necessario do delirio de perseguições»[4]. Os perseguidos podem, segundo
    elle, não experimentar nunca allucinações; limitando-se a _fundar
    inducções delirantes sobre sensações anditivas reaes_, alguns ha que
    percorrem _todos os periodos da doença_.

    [1] Lasègue, _Le délire des persécutions_ in _Ètudes médicales_, tom.
    1., pag. 554.

    [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 555.

    Lasègue não refere allucinações além das auditivas: «As outras sensações
    de que os perseguidos se queixam, diz elle, reduzem-se a impressões
    nervosas»[3]. De resto, estas mesmas impressões devem antes lançar-se á
    conta do hysterismo que á do delirio de perseguições: «As mulheres, diz
    elle, offerecem os exemplos mais frequentes–sopros internos, subitos
    calores, entorpecimentos, dores atrozes e passageiras e os outros
    accidentes tão moveis da hysteria»[4].

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 556.

    [4] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 557.

    Como a symptomatologia e a marcha da doença, a pathogenia d'ella mereceu
    tambem as attenções de Lasègue. Segundo elle, o delirio procederia
    sempre da necessidade que o alienado sente de explicar as sensações
    anormaes do periodo inicial, e resultaria, portanto, de uma consciente
    elaboração logica. «A crença n'uma perseguição, diz elle, não é senão
    secundaria; provoca-a a necessidade de dar uma explicação a impressões
    morbidas provavelmente communs a todos os doentes e que todos referem á
    mesma causa»[1]. Por um raciocinio, pois, passaria o perseguido do vago
    mal-estar do periodo prodromico ao delirio systematisado e quasi
    invariavel que caracterisa a doença em plena floração. O facto inicial
    seria um phenomeno confuso da sensibilidade, uma perturbação emotiva, o
    phenomeno intellectual, o delirio, seria ulterior e nascido do primeiro.
    «É, diz Lasègue, depois de um certo tempo de preoccupação e de
    resistencia que o alienado procura remontar á causa dos seus
    soffrimentos, e passa assim do primeiro ao segundo periodo. A transição
    faz-se então por este invariavel raciocinio: os males que soffro são
    extraordinarios; tenho experimentado bem mais duros golpes, mas
    concebia-os, descobria-lhes mais ou menos o motivo; agora encontro-me em
    condições extranhas que não dependem nem da minha saude, nem da minha
    posição, nem do meio em que vivo: é preciso que alguma coisa de
    exterior, de independente de mim intervenha; ora eu soffro e sou
    desgraçado: só inimigos podem ter interesse em me magoar; devo, pois,
    crêr que intenções hostis são a causa das impressões que
    experimento»[2].

    [1] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

    [2] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 552.

    Decorrido o periodo prodromico e attingida a systematisação delirante,
    a doença deixaria, segundo Lasègue, de acompanhar-se de _grandes
    perturbações de sentimentos_. Ha perseguidos que, _mudando
    constantemente de casa, fatigando incessantemente magistrados e
    auctoridades com interminaveis queixas, conservam_, todavia, _uma certa
    egualdade de humor_ «Nunca vi nenhum, diz o auctor, cahir em melancolia
    continua, reagir por odios violentos ou meditar vinganças»[3].

    [3] Lasègue, _Loc. cit._, pag. 551.

    Occupando-se da etiologia, Lasègue nota que o maximo de frequencia do
    delirio de perseguições se realisa entre os 35 e os 50 annos e que esta
    psychose ataca de preferencia as mulheres: segundo a sua estatistica,
    25% das alienadas, comprehendidas as idiotas e imbecis, seriam
    perseguidas. As causas proximas seriam, em regra, _de uma completa
    insignificancia:_ uma insomnia, uma phrase inoffensiva, uma refeição de
    sabôr desagradavel, etc. Emfim, estudando o delirio em relação ao
    caracter anterior do doente, Lasègue nota que «os espiritos mais timidos
    não são os mais predispostos»; no delirio de perseguições vê o eminente
    clinico, não o exaggero de uma prévia tendencia natural, mas um
    _elemento pathologico novo introduzido no organismo moral e sem
    equivalente no estado de saude._

    Procurando apenas «estabelecer um typo clinico e determinar os
    caracteres que devem entrar na sua definição», o notavel alienista
    declara abster-se de estudar «a marcha decrescente da doença e as suas
    indicações therapeuticas».

    Tal é nos seus traços capitaes e na sua mesma essencia a extraordinaria
    memoria de Lasègue.

    Sem nada accrescentar a este quadro clinico, Morel fez, todavia, desde
    1853 umas importantes observações sobre a historia dos perseguidos,
    affirmando que muitos d'elles principiam por ser hypocondriacos e acabam
    por delirar n'um sentido ambicioso.

    Exposta pela primeira vez d'uma maneira dogmatica e n'um certo grau de
    generalidade nos seus _Estudos Clinicos,_ a observação de Morel tinha,
    contudo, precedentes na sciencia. Pinel, com effeito, illustrando o que
    elle chamava a transição da _melancolia depressiva_ á _melancolia
    ambiciosa_, expozera em 1809 alguns casos de doentes que, tendo-se
    julgado por mais ou menos tempo victimas de hostilidades e de manejos
    criminosos, acabaram por crêr-se grandes personagens; pelo seu lado,
    Esquirol notára tambem desde 1838 que da hypocondria póde passar-se á
    _lypemania_ e d'esta á _monomania da vaidade_, apresentando como
    exemplos alguns interessantes vesanicos primeiro hypocondriacos, depois
    perseguidos e por ultimo ambiciosos. Entre os casos de Pinel ha o de um
    alienado que durante oito annos delirou como perseguido, crendo-se em
    constante imminencia de morte por envenenamento, não ingerindo senão
    alimentos que furtava na cosinha do asylo, e que acabou por crêr-se
    igual ao Creador e soberano do mundo; entre as observações de Esquirol
    figura a de um doente que, excessivamente inquieto sobre o seu estado de
    saude durante mais de dois annos, entra em seguida no caminho das
    perseguições, imaginando-se objecto de tentativas de envenenamento por
    parte da familia, e termina, decorrido um anno, por crêr-se filho de
    Luiz XVI. Mas, por valiosas e instructivas que sejam em si mesmas, estas
    observações não desempenham nos livros de Pinel e de Esquirol mais que
    um papel episodico e sem alcance. Morel foi indiscutivelmente o primeiro
    a vêr n'uma tal successão de delirios, não apenas um curioso accidente,
    mas uma verdadeira lei de evolução vesanica, segundo a qual a passagem
    regular da hypocondria ao delirio de perseguições e d'este ao delirio
    ambicioso seria um facto constante nos alienados hereditarios. D'aqui a
    affirmar a existencia de uma psychose degenerativa de que os delirios
    hypocondriaco, persecutorio e ambicioso, succedendo-se, não
    constituiriam senão _étapes_ ou phases evolutivas, vae uma pequena
    distancia que Morel percorreu, como veremos, desde a publicação dos
    _Estudos Clinicos_ em 1853 até á do _Tratado das Doenças Mentaes_ em
    1860.

    Outros auctores franceses, entre os quaes Renaudin, Broc e Dagonet,
    notaram a successão de delirios diversos, nomeadamente de perseguições e
    de grandezas, n'um mesmo alienado; todavia, por desconhecimento ou
    incomprehensão do alcance dos trabalhos de Morel, nenhum d'elles se
    preoccupou com a interpretação do phenomeno. Só em 1869 Foville,
    retomando a questão na sua excellente memoria sobre a _Loucura com
    predominio ao delirio de grandezas_, procurou interpretar, sobretudo, a
    passagem–tão frequentemente observada agora que a attenção dos clinicos
    incidia sobre ella–do delirio de perseguições ao de grandezas.

    Marcando na historia dos delirios systematisados um periodo importante,
    o trabalho de Foville merece deter-nos um momento.

    Depois de ter mostrado que o delirio de grandezas póde apparecer a
    titulo episodico na maioria das doenças mentaes e com mais ou menos
    relevo constituir um syndroma de algum dos seus periodos evolutivos,
    Foville estabelece que elle se torna preponderante e reveste
    inconfundiveis caracteres semeioticos em dois casos: na loucura parcial
    e na demencia paralytica. Pondo de parte, por alheio ao nosso estudo,
    este ultimo caso, vejamos o que Foville pensava do primeiro.

    A loucura parcial, que importa não confundir com a monomania de
    Esquirol, representaria, segundo Foville, as alienações caracterisadas
    pelo conjuncto d'estes caracteres: presença de um delirio systematisado,
    ausencia de um estado habitual depressivo ou expansivo, existencia de
    perturbações sensoriaes, e chronicidade.

    O delirio de perseguições descripto por Lasègue é um dos representantes
    d'este grupo; um outro seria, segundo Foville, a _megalomania_, que elle
    define como um delirio de grandezas logicamente coordenado,
    associando-se a allucinações chronicas e, no seu periodo de estado, a
    idéas de perseguição.

    Em rigor, nem o termo é novo, porque antes o tinham empregado, entre
    outros, Broc e Dogonet, nem a definição da doença absolutamente
    original, porque desde Esquirol se havia reconhecido a existencia de um
    delirio ambicioso idiopatico. O que de original e novo existe no
    trabalho de Foville é a maneira de estudar a génese do delirio de
    grandezas e as relações d'elle com a doença de Lasègue.

    Segundo Foville, na loucura parcial, de que são escólas o delirio de
    perseguições e a megalomania, toda a symptomatologia essencial se reduz
    a concepções delirantes e erros sensoriaes, podendo estas duas ordens de
    factos manter entre si relações diversas, que importa muito considerar
    para a comprehensão da pathogenia. Ou as concepções delirantes se
    apresentam primeiro, apparecendo as illusões e allucinações como um
    facto secundario da doença, ou, pelo contrario, a esphera sensorial é
    primitivamente affectada e só depois irrompem as concepções chimericas.

    Ora, segundo Foville, não é de modo nenhum indifferente para a natureza
    mesma da doença que a successão das duas ordens de symptomas se realise
    n'um sentido ou n'outro, porque o allucinado-delirante é, em regra, um
    perseguido que póde tornar-se megalomano, ao passo que o
    delirante-allucinado é mais vezes um megalomano que póde vir a ter idéas
    de perseguição. A razão d'isto, no dizer de Foville, vem de que na
    loucura parcial as allucinações primitivas são, como estabelecera
    Lasègue, preponderantemente, senão exclusivamente as do ouvido, de um
    caracter, em regra, penoso ao principio e de molde, portanto, a gerarem
    um delirio depressivo. Ora, sendo a hypothese do allucinado-delirante
    mais frequente que a do delirante-allucinado, é tambem mais vulgar o
    perseguido-megalomano que o megalomano-perseguido.

    Posto isto, que serve para mostrar que não é meramente accidental a
    passagem de um delirio a outro, Foville, estreitando mais o assumpto,
    deriva á explicação do modo intimo por que ella se realisa.

    A transição (mais frequente, como foi dito) do delirio de perseguição ao
    de grandezas opera-se, ao vêr de Foville, por um processo logico.
    «Depois, diz elle, de terem por mais ou menos tempo attribuido as
    proprias allucinações a inimigos desconhecidos, contentando-se com
    explical-as por uma palavra mais ou menos obscura e mysteriosa, certos
    lypemaniacos allucinados dizem a si mesmos: Factos d'esta ordem não
    podem passar-se, no estado social em que vivemos, sem a intervenção de
    pessoas influentes e altamente collocadas; essas só, portanto, são as
    instigadoras dos nossos tormentos. Outros, ao contrario, reconhecendo
    que não succumbem nunca de um modo completo aos perigos de que se sentem
    cercados; suppõem ter amigos occultos, mas de um grande poder, que os
    protegem. Esta ordem de idéas imprime desde então o seu cunho ao
    conjunto das concepções e allucinações: os doentes fallam de grandes
    personagens que vêem por toda a parte, desconhecem a identidade real dos
    individuos, que os cercam e crêem que imperadores, imperatrizes e
    principes os visitam ou lhes enviam mensagens. No meio do delirio
    melancolico as idéas de grandeza adquirem realmente uma importancia
    preponderante. Mas as coisas podem ir mais longe ainda. Impressionados
    pela desproporção entre a sua posição burgueza e o poder de que devem
    dispôr os seus inimigos para os attingirem, a despeito de tudo; entre o
    apagado papel que desempenham no mundo e os moveis imperiosos que podem
    explicar o encarniçamento com que são perseguidos, alguns d'estes
    doentes acabam por a si proprios perguntarem se realmente são tão pouco
    importantes como parecem. Uma nova perspectiva se abre diante do seu
    atormentado espirito: não é já a dos outros, mas a propria personalidade
    que aos seus olhos se transforma. Para que os persigam d'este modo,
    dizem elles, é preciso que um alto interesse se dê, e isso só se
    comprehende porque elles façam sombra a gente rica e poderosa, porque
    tenham, elles proprios, direito a uma fortuna e a uma posição de que
    fraudulentamente os despojaram, porque pertençam a uma classe elevada de
    que foram afastados por circumstancias mais ou menos mysteriosas, porque
    não sejam seus verdadeiros paes os que como taes consideram, porque
    pertençam, emfim, a uma alta estirpe, as mais das vezes real»[1].

    [1] Foville, _La folie avec prédominence du délire des grandeurs_, pag.
    345.

    E accrescenta: «Estas idéas terão, sobretudo, tendencia a produzir-se
    nos casos em que, já antes de doente, o individuo teve de soffrer no seu
    orgulho ou nos seus interesses pelo facto da irregularidade ou do
    mysterio do proprio nascimento. Assim, temos notado que esta fé n'uma
    origem illustre, que esta crença n'uma imaginaria fortuna é
    relativamente frequente nos _filhos naturaes_ que véem a cahir na
    loucura. São elles principalmente os preparados para ás idéas de
    perseguição juntarem um novo romance em que dominam as concepções de
    grandeza, as substituições ao nascer, as confusões de pessoas»[1].

    [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 346.

    Como se vê, Foville não faz senão seguir a orientação psychologica de
    Lasègue, que explicava pela intervenção de um raciocinio a passagem, no
    delirio de perseguições, do periodo prodromico ao de estado. Um processo
    logico, essencialmente deductivo e syllogistico preside tambem, segundo
    Foville, á génese das idéas ambiciosas que derivam de um delirio
    persecutorio.

    Mas não é este, reconhece-o Foville, o unico modo por que o delirio de
    grandezas póde produzir-se; algumas vezes succede que as concepções
    ambiciosas se installam primitivamente, dando-se então o caso de
    surgirem depois idéas de perseguição, por _uma sorte de propagação
    regressiva que, ao fim de um certo tempo, acaba por nivelar as
    situações._ Qual é agora o mecanismo de transição? «É difficil, escreve
    Foville, crêr-se um doente na posse de direitos á fortuna e ao mando,
    figurar-se descendente de uma familia illustre, e não se sentir vexado
    pela modestia da posição que occupa ou pela exiguidade dos recursos de
    que dispõe. N'isto vê elle um signal de injustiça, que attribue á acção
    de inimigos poderosos; crê-se, pois, victima de manobras hostis e
    fabrica assim um systematico delirio de perseguições, secundario agora e
    consequencia das idéas de grandezas»[1].

    [1] Foville, _Loc. cit._, pag. 347.

    É ainda, como se vê, um processo logico o destinado; segundo Foville, a
    explicar a passagem do delirio ambicioso ao de perseguições; toda a
    vesania parcial, portanto, qualquer que tenha sido o seu ponto de
    partida e qualquer que haja de ser o seu termo, se desenrola sob a
    dependencia do raciocinio e dentro da esphera consciente da ideação.

    Os casos em que o delirio de grandezas succede immediatamente a
    allucinações de caracter agradavel e lisongeiro, são extremamente raros;
    a interpretação dos erros sensoriaes, isto é, um processo consciente e
    reflectido, é ainda d'esta vez origem da doença.

    Referindo-se á doutrina de Morel, Foville declara não a acceitar, porque
    o delirio hypocondriaco, ponto de partida necessario, segundo aquelle
    auctor, dos delirios de perseguições e de grandezas, só excepcionalmente
    o encontrou.

    De quanto vem de ser exposto a conclusão a tirar é esta:

    Existe um delirio systematisado de grandezas que, no seu periodo de
    estado, se combina sempre com idéas de perseguição, que é
    invariavelmente acompanhado de allucinações auditivas e que tanto póde
    originar-se, por via deductiva, de um preexistente delirio
    persecutorio, como nascer _d'emblèe_. Não sendo um episodio morbido, nem
    mesmo a phase evolutiva de uma vesania anterior, porque póde ser e é
    muitas vezes primitivo, esse delirio constitue uma doença com foros de
    autonomia e direitos a uma designação privativa: a _megalomania_.

    Tal é, em resumo, a memoria de Foville na parte consagrada ao delirio
    parcial de grandezas.

    Depois dos importantes trabalhos de Lasègue e Foville, a psychiatria
    franceza não nos offerece, dentro d'este periodo de analyse, estudo que
    tenha feito progredir pela interferencia de pontos de vista novos o
    conhecimento dos delirios systematisados. O livro publicado por Legrand
    du Saulle, sob o titulo de _Delirio de perseguições_, em 1871, valioso,
    certamente, pela copia de observações e pelos detalhes de analyse
    clinica, nada tem, no fundo, de original, embora tentem proclamar o
    contrario estas ambiciosas palavras do prefacio: «A despeito da sua
    extrema frequencia e dos seus tão claros caracteres distinctivos, o
    delirio de perseguições achou-se confundido com a melancolia de Pinel,
    com a lypemania de Esquirol, com a monomania depressiva de Baillarger; é
    ahi que eu vou buscal-o para o estudar nas suas diferentes phases, para
    o constituir _de toutes pièces_ e fazer d'elle uma _especie_ á
    parte»[1]. Dezenove annos antes fizera Lasègue, como vimos, o que n'esta
    passagem se annuncia. O trabalho de Legrand du Saulle, excepção feita
    dos capitulos consagrados ao tratamento, á medicina legal e ao contagio
    do delirio, que nada teem que vêr com a constituição scientifica da
    doença, não é senão um desenvolvimento da memoria de Lasègue, cuja ordem
    de exposição adopta e cujas expressões mesmo não raro se apropria.

    [1] Legrand du Saulle, _Le Délire des persécutions,_ pag. 11.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle descreveu dois periodos no delirio de
    perseguições: um, de começo, exteriorisado por uma _inquietação
    indefinivel e de nenhum modo comparavel á do homem normal que tem um
    grande interesse compromettido;_ outro, de estado, caracterisado pela
    definitiva systematisação das idéas delirantes formando um _romance_
    invariavel para cada doente.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle caracterisa a inquietação do primeiro
    periodo comparando-a á _cephalalgia_ e ao _arrepio_ que são muitas vezes
    os precursores de graves doenças communs, mas que em si mesmos nada teem
    de preciso.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle explica a transição do primeiro ao
    segundo periodo por um acto de reflexão do perseguido, por um verdadeiro
    raciocinio. «O doente, escreve Legrand du Saulle, diz a si proprio e aos
    outros que não são naturaes as inquietações e angustias que experimenta,
    que lhes não encontra causa no meio em que vive, no estado da propria
    saude, no da propria fortuna. No seu passado experimento grandes
    infortunios, mas sabia o motivo d'elles e não eram os mesmos os seus
    soffrimentos, não tinham o caracter vago e indefinido dos actuaes. Este
    mal-estar tão grande, estas impressões tão penosas e tão injustificadas
    devem ter uma causa secreta. E é assim que o doente se sente
    naturalmente levado a pensar que inimigos occultos, interessados em
    perdel-o, se reunem e procuram fazel-o soffrer»[1].

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 17.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle dá na symptomatologia da doença um logar
    preponderante ás allucinações auditivas, precedidas frequentemente de
    illusões do mesmo sentido. «O doente, escreve o auctor, começa por dar
    uma falsa significação aos ruidos reaes que escuta: uma porta que se
    abre, pessoas que fallam na rua, uma palavra pronunciada ao pé d'elle,
    os passos de alguem, tudo é materia do delirio. As verdadeiras
    allucinações só começam, em geral, mais tarde e n'uma epocha
    variavel»[2].

    [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 43.

    Como Lasègue, Legrand du Saulle admitte um periodo de declinação na
    doença, que, sendo, em regra, incuravel, póde terminar pela cura n'uma
    quinta parte dos casos. Na etiologia, Legrand du Saulle constata, como
    Lasègue, que a doença é mais frequente nas mulheres e se realisa
    preferentemente na epocha por excellencia das grandes luctas da vida.
    Algumas considerações que faz sobre a _hereditariedade_, o _onanismo_ e
    as _perseguições infantis_ são de um caracter vago. Como se vê, em tudo
    quanto póde servir para caracterisar como _especie_ o delirio de
    perseguições–na symptomatologia, na marcha, na etiologia, Legrand du
    Saulle não faz senão seguir a memoria de Lasègue.

    Vamos vêr que n'um ponto de maxima importancia, não tratado pelo
    eminente professor da faculdade de Paris no seu trabalho de 1852,
    Legrand du Saulle acompanha a memoria de Foville. Refiro-me á passagem
    do delirio de perseguições ao de grandezas, explicada, como vimos, por
    Legrand du Saulle acceita esta mesma pathogenia. «Depois, diz elle, de
    ter soffrido tantas hostilidades da parte de implacaveis inimigos,
    depois de ter sido victima de tantas intervenções devidas á magia ou ao
    electro-magnetismo, o perseguido recolhe-se por vezes e pensa: Como
    podem em pleno seculo XIX produzir-se factos d'esta natureza? É preciso
    admittir no fundo de tudo isto uma energica vontade superior, a de um
    alto personagem, a de um principe ou, talvez, de um rei! Deve ter sido
    necessaria, com effeito, para explicar o meu caso uma auctoridade
    verdadeira, que só póde existir nas mãos de millionarios, de ministros e
    de imperadores: quem ordenou tudo é, pois, um grande senhor ou um
    notavel personagem. Um outro perseguido pensará: Armam-me redes, mas eu
    evito-as; expõem-me a coalisões formidaveis, mas eu saio-me bem d'ellas;
    attentam contra a minha vida, mas eu resisto; alguem, pois, de um alto
    poder vela por mim e me protege; esse alguem é o chefe do estado. Eis, a
    partir d'aqui, toda uma ordem nova de idéas imprimindo uma outra
    direcção ás concepções delirantes e ás allucinações. O perseguido não
    cessa desde então de fallar em ministros, em familias reinantes, na
    côrte pontifical, desconhecendo o caracter real das pesssoas que o
    cercam e affirmando que Napoleão lhe envia mensagens, que Trochu o
    chamou, que Thiers vae recebel-o, que tal ou tal princesa vem visital-o.
    N'uma palavra, encontramo-nos em presença de idéas de grandeza
    pathologicamente juxtapostas, porque as perseguições não cessaram, os
    inimigos existem ainda»[1].

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 84.

    «Acabamos de constatar, continua Legrand du Saulle, erros grosseiros
    sobre a personalidade dos outros; pois vamos vêr que uma nova
    transformação se opera agora e que erros mais grosseiros ainda vão
    dar-se d'esta vez sobre a personalidade de perseguido. Sigamos um pouco
    o raciocinio do doente: As operações dos meus inimigos, pensa elle, são
    tão desleaes como persistentes e perigosas; os meus inimigos são
    infatigaveis e poderosos; mas que interesse podem elles ter em me
    mortificarem d'este modo, a mim, homem ignorado, obscuro ou collocado
    n'uma situação modesta? O contraste entre os perseguidores e a victima é
    dos mais notaveis. Quem sou eu com effeito? Talvez um ser menos apagado
    do que se pensa, mais importante do que se imagina, mais temivel do que
    se suppõe. E nem póde deixar de ser assim. Enchem-me de humilhações
    odiosas, dirigem contra mim os mais tenebrosos attentados; ha, pois, um
    interesse em fazel-o. Esse interesse parte de millionarios, duques,
    principes ou imperadores, e é, portanto, dos mais consideraveis. Mas
    então faço eu sombra a alguem e esse alguem roubou-me necessariamente o
    meu nome, o meu titulo, a minha fortuna, o meu logar social, a minha
    corôa. Eu não sou, portanto, o homem humilde sob cuja mascara vivi até
    hoje: fui mysteriosamente posto de lado, iniquamente esbulhado; o nome
    de que uso não é o meu, os que teem feito de meus paes não são da minha
    familia; eu sou o neto de Luiz XVI ou o filho de Napoleão, sou o duque
    de Orleans ou chamo-me D. Carlos»[2].

    [2] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 85.

    Para não deixar de seguir passo a passo Foville, que, como vimos, notara
    a relativa frequencia do delirio ambicioso nos perseguidos _filhos
    naturaes_, Legrand du Saulle accrescenta: «Se o perseguido não tem um
    acto de nascimento regular, se alguma vez soffreu pelo facto de uma
    situação indecisa, de uma paternidade não confessada ou de uma educação
    mysteriosa, se o seu orgulho foi torturado ou lesada a sua fortuna, com
    que perniciosos elementos não crescerá o seu delirio, com que
    apparencias de verosimilhanças não fallará elle a todos da sua
    imaginaria fortuna, do seu nascimento illustre?!»[1]

    [1] Legrand du Saulle, _Obr. cit._, pag. 86.

    Como Foville e Morel, Legrand du Saulle refere casos em que no delirio
    de perseguições se observam concepções hypocondriacas; estas, porém,
    como as de grandeza, não constituem para elle uma phase evolutiva, mas
    apenas um _acompanhamento_ ou _complicação_ da doença de Lasègue.

    Uma parte nova e valiosa do trabalho de Legrand du Saulle é a que se
    refere ao diagnostico differencial entre o delirio de perseguições
    idiopathico e o que, como syndroma, apparece na demencia senil, na
    paralysia geral, no alcoolismo subagudo e nas intoxicações pelo chumbo e
    pelo sulfureto de carbone.

    Não terminaremos esta rapida analyse do livro de Legrand du Saulle sem
    notar que elle soube pôr em relevo dois factos interessantes,
    ulteriormente notados por quantos se teem occupado d'este assumpto: a
    existencia em muitos perseguidos de allucinações auditivas bilateraes de
    caracter differente–vozes benevolas d'um lado, vozes hostis do outro, e
    a tendencia d'estes doentes á formação de _neologismos_ e de um
    incomprehensivel vocabulario privativo de cada um.

    * * * * *

    Até aqui os trabalhos francezes. Vejamos agora, retrocedendo um pouco na
    ordem dos tempos, de que maneira os psychiatras allemães comprehenderam
    os delirios systematisados.

    Foi Griesinger o primeiro entre elles a occupar-se d'este assumpto no
    seu _Tratado de Doenças Mentaes_ cuja apparição remonta a 1845, mas que
    só vinte annos depois veio a ser conhecido em França pela traducção
    Doumic. N'esse livro, por muitos titulos notavel, descreve o eminente
    professor de Zurich, sob a denominação de _Verrücktheit_, os delirios
    parciaes que alguns annos mais tarde Lasègue e Foville haviam de elevar,
    dando-lhes nomes privativos, á cathegoria de especies em nosographia
    mental. Se bem que abreviada e n'um ou outro ponto confusa, a descripção
    de Griesinger abrange todos os pontos essenciaes da symptomatologia dos
    perseguidos e megalomanos, como facilmente se ajuizará pelas
    transcripções que seguem.

    Referindo se ás concepções que são o nucleo mesmo do delirio e o seu
    mais apparente symptoma, Griesinger escreve: «São umas vezes idéas
    activas, exaltadas, maniacas; o doente occupa uma posição elevadissima e
    tem um grande poder: é Deus, as tres pessoas da Santissima Trindade,
    reformador do Estado, rei, um grande sabio, um propheta, um enviado de
    Deus ou descobriu o movimento perpetuo, é o dominador de toda a natureza
    e conhece os elementos de todas as coisas, etc. Outras vezes são idéas
    passivas: os doentes crêem-se lesados, dominados, submettidos ao poder
    d'outrem; julgam-se perseguidos, victimas de tramas hostis; mysteriosos
    inimigos atormentam-nos pela electricidade, os maçonicos fazem lhes mal,
    são possessos do diabo, estão condemnados a supplicios eternos, e
    roubados nos seus bens mais caros, etc.»[1]

    [1] Griesinger, _Traité des maladies mentales,_ trad. franceza, pag.
    386.

    Occupando-se dos erros psycho-sensoriaes, escreve: «As illusões e
    allucinações em nenhuma outra fórma de loucura são tão frequentes como
    na _Verrücktheit;_ em grande numero de casos são ellas principalmente
    que alimentam e entreteem o delirio. Muitas vezes os doentes conversam
    com as vozes que escutam, ou discutem com ellas, entregando-se então a
    accessos de colera»[1]

    [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Sobre o caracter absorvente d'estes delirios e sobre as transformações
    de personalidade, diz Griesinger; «Involuntariamente o alienado refere
    tudo ao seu delirio, e é d'este ponto de vista que julga todas as
    coisas … As concepções falsas relativas ao proprio Eu chegam a attingir
    um elevadissimo grau, a partir do qual o doente não considera as coisas
    do mundo externo senão de um modo inteiramente pervertido … Alguns
    d'estes doentes parecem crêr que a sua verdadeira personalidade anterior
    deixou de existir»[2]

    [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 387.

    Sobre a necessidade do _neologismo_ nos delirios systematisados de uma
    longa duração, escreve o eminente alienista: «Por vezes a linguagem
    ordinaria não basta ao doente para exprimir o proprio pensamento, pelo
    que construe, ao menos para traduzir as suas concepções delirantes, um
    vocabulario especial, que elle crê ser a linguagem primitiva, a
    linguagem dos ceus»[3]. Ainda a proposito da exteriorisação do delirio,
    Griesinger nota que «por vezes o doente occulta cuidadosamente o seu
    systema geral de absurdos»[4].

    [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    [4] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Sobre o estado affectivo d'estes delirantes exprime-se assim o professor
    allemão: «Nunca estes doentes tomam parte, como outr'ora, nas coisas do
    mundo externo, ou são capazes de amar e odiar como antes; podem
    morrer-lhes os paes e os amigos, póde ser-lhes subtrahido o que mais
    estimavam, póde o mais terrivel acontecimento incidir-lhes sobre a
    familia sem que elles sintam mais que uma ligeira emoção, se alguma
    sentem. Um só ponto ha em que podem ser ainda emocionados, que póde
    abalar-lhes promptamente os sentimentos e provocar uma forte reacção da
    vontade: procurem-se combater pelo raciocinio as suas idéas fixas e logo
    elles se irritarão e entrarão em colera; acariciem-se, pelo contrario,
    as suas concepções e elles mostrar-se-hão contentes»[1].

    [1] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 388.

    Crêmos que as citações precedentes bastam para demonstrar que Griesinger
    conheceu intimamente os perseguidos e ambiciosos. A descripção que
    d'elles faz, como quadro symptomatico _d'après nature_, é nas suas
    linhas capitaes e até em alguns detalhes a mesma que alguns annos mais
    tarde haviam de exhibir-nos os alienistas francezes que, não conhecendo
    os trabalhos do professor allemão, tinham, comtudo, diante de si
    analogos modelos.

    Mas se a descripção symptomatica é a mesma, a _interpretação
    nosographica e pathogenica_ é profundamente diversa, porque, ao passo
    que os francezes consideraram sempre os delirios parciaes como fórmas
    primarias da loucura, Griesinger julga-os, como vamos vêr, fórmas
    secundarias ou estados procedentes da mania e da melancolia.

    O que é, com effeito, a _Verrücktheit_ do psychiatra allemão? «Sob este
    nome, diz elle, designamos os estados secundarios de loucura, nos quaes,
    embora tenha diminuido consideravelmente ou mesmo desapparecido por
    completo a situação afectiva que caracterizava a fórma mental no seu
    começo, o doente não cura, e em que a alienação consiste n'um pequeno
    numero de concepções delirantes fixas que elle acaricia de um modo
    particular e constantemente repete»[2]. E accrescenta: «A _Verrücktheit_
    é _sempre_, pois, uma doença _secundaria_, consecutiva á melancolia ou á
    mania»[3]. _Residuos de estados de exaltação ou depressão,_ diz ainda em
    outro logar, constituem a _Verrücktheit_ que, por isso mesmo, elle
    colloca no grupo dos _estados de enfraquecimento psychico_, ao lado da
    demencia.

    [2] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

    [3] Griesinger,_Obr. cit._, pag. 382.

    Na direcção de Griesinger e pelo caminho que elle abriu seguiram longo
    tempo os alienistas allemães. «O delirio parcial, escrevia Albers em
    sobretudo uma fórma de terminação da loucura com excitação ou depressão
    geraes; quando se encontra esta fórma, uma das duas existiu
    anteriormente e acabou por _uma cura incompleta_»[1]. Fallando da
    metamorphose do Eu que acompanha os delirios systematisados n'uma phase
    de adiantada chronicidade, Spielmann escrevia no mesmo anno «que ella
    suppõe a existencia anterior da melancolia ou da mania, sem uma das
    quaes não póde _nunca_ produzir-se»[2]. Em 1859 Neuman considerava a
    _Verrücktheit_ «uma cura com perda de substancia da intelligencia», isto
    é, uma cura incompleta da mania ou da melancolia, um estado secundario
    ou consecutivo, acompanhado de uma decadencia das faculdades.

    [1] Albers, _Memoranda der Psychiatrie_.

    [2] Spielmann, _Diagnostik der Geisteskrankheiten_.

    Crêmos inutil proseguir em citações. As precedentes bastam a dar-nos uma
    clara idéa da doutrina pathogenica dos delirios, systematisados segundo
    a psychiatria allemã d'esta epocha. Suspensas na sua evolução para a
    demencia, a mania e a melancolia atardar-se-hiam nas fórmas expansivas
    ou depressivas da _Verrücktheit,_ delirio de grandezas ou delirio de
    perseguições.

    Em contraste, porém, com estas idéas, que durante vinte annos dominaram
    absolutamente a psychiatria allemã, descreveu Snell em 1865, baseando-se
    em dez casos de observação pessoal, uma nova fórma de loucura
    essencialmente caracterisada pela apparição primitiva de estados
    allucinatorios e conceitos delirantes de contheudo mixto, expansivo e
    depressivo.

    Esta fórma, que Snell denomina _monomania_ ou _Wahnsinn_, é inteiramente
    distincta da mania e da melancolia. N'ella podem as idéas de perseguição
    e de grandeza ser contemporaneas ou successivas; quando as ideias
    ambiciosas succedem ás de perseguição realisa-se uma metamorphose da
    personalidade vesanica. A evolução d'esta fórma é essencialmente
    chronica e o seu prognostico infausto. A adopção do termo francez
    _monomania_ parece indicar a parcialidade do delirio que, segundo Snell,
    não conduz nunca á demencia, como a do termo allemão (derivado de
    _Vahn_: delirio, e _Sinn_: sentidos) põe em relevo a importancia das
    allucinações.

    Acceitando este modo de vêr, Griesinger penitenceia-se em 1867 da
    excessiva e precipitada generalisação das suas idéas pathogenicas e
    acaba por admittir, ao lado da _Secundäre Verrücktheit,_ uma _Primäre
    Verrücktheit_, analoga ao _Wahnsinn_ de Snell. Na lição de abertura do
    seu curso n'esse anno exprimia-se assim o grande chefe da psychiatria
    allemã: «Áctualmente não considero já como fórmas secundarias as
    alterações peculiares, muito chronicas e mixtas do delirio persecutorio
    e ambicioso; ao contrario, convenci-me da origem _protogenica_ d'estes
    estados que denomino _Primäre Verrücktheit»._

    Perfilhando as idéas de Griesinger sobre a _Primäre Verrücktheit,_
    descreveu Sander em 1868, baseado em quatro casos clinicos, uma
    variedade congenita d'esta fórma sob a designação de _Originäre
    Verrücktheit_. Os delirantes perseguidos ou ambiciosos d'este sub-grupo
    são desde a infancia taciturnos, mysantropos, romanticos, excessivamente
    phantasistas, faltos de energia, onanistas, n'uma palavra,
    originariamente enfermos. É na puberdade que os delirios, de longa data
    preparados, fazem explosão. Sander nota as tendencias remittentes da
    _Originäre Verrücktheit_ e observa que a demencia está muito longe de
    ser um dos seus modos de terminação.

    Como se vê, a primitividade ou protogénese dos delirios systematisados,
    admittida desde todo o principio pelos alienistas francezes, é agora
    acceite pela psychiatria allemã, cujo dogmatismo desde 1845 a 1865
    mandava admittir _quand méme_ uma preexistente psychose maniaca ou
    melancolica em todos os delirios de perseguição e de grandeza.

    Não morreu, como veremos ainda, a _Secundäre Verrücktheit,_ a despeito
    de Koch e de Pelman que lhe negaram a existencia; mas a sua esphera
    clinica foi estreitecendo á medida que alargava a da _Primäre
    Verrücktheit_.

    * * * * *

    Voltemos aos trabalhos francezes.

    Tendo tido a felicidade de sobreviver trinta e um annos á publicação da
    sua memoria sobre o delirio de perseguições, Lasègue foi conduzido pela
    ulterior observação clinica dos factos a modificar uma das affirmações
    que n'esse trabalho fizera. Assim, tendo escripto em 1852 que os
    perseguidos supportam resignadamente todos os seus martyrios–a ponto,
    dizia então, de não ter visto um só reagir por um acto de vingança,
    Lasègue constatou mais tarde a existencia de muitos que se apresentam
    armados para a lucta, represaliando energicamente, como Sandon, como
    Verger, como Teulot, as suppostas perseguições. Perito em mais de uma
    ruidosa questão medico-legal determinada pelas violencias d'esta ordem
    de doentes, o eminente professor foi ainda, elle proprio, victima das
    aggressões brutaes de um d'elles, que o appellidava _chefe dos
    alienistas alienisantes_. Modificando as suas primitivas idéas, o
    celebre psychiatra achou que o delirio de perseguições comporta duas
    variedades, correspondendo aos modos de reacção dos doentes: uma
    _passiva_, a mais commum, representada pelos perseguidos que apenas se
    defendem, fugindo ao convivio, mudando de logares, tomando nomes
    suppostos, cosinhando os proprios alimentos, queixando-se ás
    auctoridades, barricando-se dentro dos seus aposentos, suicidando-se
    mesmo; outra _activa_, representada pelos que acceitam a lucta e
    respondem ao mal com o mal, calumniando, ferindo, matando até. Aos
    doentes d'esta ultima cathegoria deu Lasègue o nome, depois consagrado,
    de perseguidos-perseguidores, consignando que a explicação do seu modo
    especial de reagir deve ser pedida, não a condições privativas do
    delirio, mas ao caracter moral preexistente á vesania.

    Pondo no estudo da variedade _activa_ do delirio de perseguições o mesmo
    espirito de analyse que desenvolvera na creação da fórma _passiva_ ou
    commum, Lasègue fez a proposito as seguintes indicações de uma justeza
    clinica indiscutivel: que os perseguidos-perseguidores chegam á
    personificação do seu delirio em virtude de circumstancias accidentaes
    ou de factos sem importancia, mas exactos, que determinaram a sua
    antipathia por um dado individuo; que taes circumstancias ou factos
    reaes não são, em geral, recentes, mas antigos e evocados pela memoria,
    incessantemente occupada na revivescencia do passado; emfim, que os
    doentes, uma vez achado o seu perseguidor, não o esquecem mais, não o
    abandonam, nem o substituem, quando mesmo factos ulteriores e de maior
    valia justifiquem sentimentos de odio e de vingança contra outros
    individuos. Na escolha do perseguidor evidenceiam os perseguidos activos
    a mesma critica futil que os passivos demonstram na determinação dos
    factos que apontam como provas de perseguição: uma pedra achada á porta,
    um lençol esquecido na varanda de um visinho, a tosse de um sujeito que
    passa. De resto, Lasègue observou que, excepção feita do modo de reacção
    delirante, perseguidos activos e passivos se comportam identicamente,
    offerecendo o mesmo quadro de symptomas e a mesma evolução pathogenica.

    Creando a variedade _activa_ do delirio de perseguições, o notavel
    professor melhorou, pois, completando-a, a sua primitiva descripção
    clinica d'esta psychose, sem, todavia, a alterar na essencia; de facto,
    a unidade da doença persistiu, não tendo alcance nosologico, mas apenas
    medico-legal, o reconhecimento das duas variedades.

    Ulteriores trabalhos, porém, vieram quebrar, dentro da propria França,
    essa unidade do delirio de perseguições.

    Notou, com effeito, J. Falret em 1878 que ha entre os perseguidos
    activos ou perseguidos-perseguidores duas cathegorias de doentes que
    profundamente divergem; symptomas, evolução, etiologia–tudo n'elles é
    differente. Uns, em verdade (e são esses os que Lasègue notou), apenas
    no modo de reacção delirante se separam do typo classico dos perseguidos
    passivos, sendo-lhes em tudo o mais similhantes: nos symptomas, porque,
    como estes, offerecem idéas systematicas de perseguição alimentadas por
    erros sensoriaes constantes, sobretudo por allucinações auditivas; na
    marcha, porque, como os perseguidos communs, podem soffrer a alteração
    de personalidade caracterisada clinicamente pela passagem do delirio de
    perseguições, ao de grandezas; na etiologia, emfim, porque teem uma
    historia ancestral e pregressa identica á dos perseguidos vulgares. Com
    razão, portanto, fez Lasègue d'estes perseguidos activos os
    representantes apenas de uma variedade clinica do delirio de
    perseguições. Outros, porém, não offerecem do quadro d'esta psychose
    senão as idéas systematisadas de perseguição, divergindo em tudo o mais:
    na symptomatologia, porque as suas concepções morbidas não se apoiam em
    erros sensoriaes; na marcha, porque nunca o seu delirio se transforma,
    n'um sentido ambicioso; na etiologia, emfim, porque a sua historia
    ancestral e anamnestica não é a dos outros perseguir, dos, activos ou
    passivos, mas a dos degenerados hereditarios.

    A doença de Lasègue não comporta esta cathegoria de
    perseguidos-perseguidores; forçoso é, pois, no dizer de Falret,
    acceital-os como representantes de uma outra _especie_ nosographica.

    Pottier desenvolve no seu _Estudo sobre os alienados perseguidores_ as
    idéas do eminente clinico de Salpêtrière, seu mestre, insistindo no
    diagnostico differencial entre estes vesanicos e os outros perseguidos.
    A proposito da etiologia escreve: «Estes doentes, em vez de apresentarem
    desde a juventude um caracter desconfiado ou de passarem pela phase de
    hypocondria que muitas vezes precede o delirio de perseguições
    ordinario, teem quasi sempre manifestado na infancia, na adolescencia ou
    na idade adulta alguns dos symptomas physicos e moraes attribuidos hoje
    aos alienados hereditarios: alterações de caracter, desigual
    desenvolvimento das funcções intellectuaes, faculdades eminentes ao lado
    de enormes lacunas, accidentes nervosos ou perturbações mentaes
    passageiras, na puberdade, existencia movimentada, irregular, vagabunda,
    perversões genitaes e outras. O passado d'estes doentes é, n'uma
    palavra, não o dos perseguidos classicos, mas o dos alienados
    hereditarios»[1].

    [1] Pottier, _Ètude sur les aliénés persécuteurs_, pag. 3

    A proposito da ausencia de allucinações n'estes doentes, diz Pottier:
    «Imaginou-se que as allucinações auditivas, escapando a uma observação
    superficial, seriam encontradas n'estes doentes por um exame
    escrupuloso. Não é assim, porém. Nós crêmos, ao contrario, que, na
    direcção actual das idéas, se teem admittido allucinações não
    demonstradas ou se teem tomado como allucinações simples phenomenos de
    interpretação delirante, illusões ou mesmo impressões procedentes do
    mundo exterior e realmente percebidas pelos doentes, cuja acuidade
    sensorial se encontra muitas vezes exaggerada»[2].

    [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 38.

    Sobre a evolução do delirio n'estes doentes, diz ainda Pottier: «Ha
    periodos de remissão prolongada e de intensa exacerbação, mas nenhuma
    evolução progressiva … Estes alienados são, em regra, muito orgulhosos,
    mas não chegam, como os outros perseguidos, á megalomania, ao delirio de
    grandezas, emfim, a uma verdadeira transformação da personalidade»[1].

    [1] Pottier, _Obr. cit._, pag. 39.

    A estas notas differenciaes junta Pottier uma outra: a existencia, nos
    doentes de que nos occupamos, de accidentes cerebraes, congestivos ou
    convulsivos, produzindo-se a largos intervallos. «Observem-se
    attentamente, diz, o auctor, estes doentes durante o curso da sua vida,
    estudem-se as observações já publicadas, e chegar-se-ha a verificar que,
    nos perseguidores lucidos, accidentes cerebracs graves se dão de tempos
    a tempos e que, as mais das vezes, elles morrem cerebralmente, quer por
    um ataque, quer por influencia de lesões consecutivas»[2].

    [2] Pottier, _Obr. cit._, pag. 41.

    Ainda no capitulo do diagnostico, o mais completo do trabalho que vimos
    citando, observa Pottier a extrema facilidade com que os perseguidores
    conseguem fazer perfilhar as suas idéas por um grande numero de pessoas,
    chegando mesmo a interessar em sua defeza a propria imprensa. A
    explicação d'este _contagio delirante_ procede sobretudo, segundo
    Pottier, da convergencia d'estes dois factos: de um lado, a
    intelligencia de ordinario muito viva d'estes doentes e a sua incansavel
    actividade; de outro lado, o colorido verosimil do seu delirio, que não
    é em si mesmo absurdo, que se não apoia em estados allucinatorios, mas
    que tem por base factos reaes, embora morbidamente interpretados, e
    circumstancias possiveis, cuja veracidade não é facil contestar ou mesmo
    pôr em duvida.

    Os _litigantes_ ou _processomanos_ constituem a mais importante
    cathegori d'estes doentes; uma outra é formada pelos _perseguidores
    hypocondriacos_ que, attribuindo os seus imaginarios males ao tratamento
    seguido, hostilisam o medico assistente.

    As idéas de J. Falret fizeram carreira em França, onde os
    perseguidos-perseguidores são geralmente considerados como exemplares de
    loucura lucida _(folie raisonnante)_, sub-grupo das degenerescencias
    psychicas hereditarias. Nas suas _Lições clinicas sobre as doenças
    mentaes_, Magnan presta um largo apoio á doutrina de Falret, fazendo
    apenas reservas sobre dois pontos: as allucinações, que elle admitte a
    titulo de excepção, e os accidentes cerebraes, que julga, em face da sua
    experiencia pessoal, muito menos frequentes do que se tem pensado.

    De passagem faremos notar que na Allemanha o _delirio processivo_ tem
    soffrido as mesmas vicissitudes theoricas que experimentou em França o
    delirio dos perseguidos-perseguidores. Ao passo que a maioria dos
    auctores, á maneira de Lasègue, consideram aquelle delirio uma simples
    variedade da _Verrücktheit_, descrevendo-o, como faz Krafft-Ebing, ao
    lado do delirio de perseguições, outros, como Arndt, Kraepelin e Schüle,
    fazem d'elle um sub-grupo da _loucura moral._

    III–PHASE SYNTHETICA

    De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva–A
    loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
    Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
    insanity–Determinação pathogenica.

    Vimos precedentemente que Morel, quando ainda a psychiatria franceza se
    esforçava por elevar á cathegoria de fórmas nosographicas autonomas os
    delirios de perseguições e de grandezas, esboçara a doutrina segundo a
    qual taes delirios não seriam senão manifestações de uma doença ou, mais
    precisamente, transformações progressivas da loucura hypocondriaca.

    Da idéa inicial de um compromisso da saude, caracteristica da
    hypocondria, passaria o doente, generalisando, á idéa de um compromisso
    da vida, da honra, dos interesses intellectuaes e moraes, caracteristica
    do delirio de perseguições. Este seria uma simples manifestação da
    hypocondria anomala ou, como elle proprio escreve, sublinhando, _uma
    hipocondria de uma natureza mais intellectual_. Em 1860 exprimia-se
    assim no seu _Tratado_ o illustre psychiatra: «Fallando da hysteria,
    disse eu que esta nevrose póde percorrer as suas phases mais
    extraordinarias sem que a alteração das faculdades intellectuaes e
    afectivas se torne uma consequencia forçada. A hysteria larvada, se
    assim posso exprimir-me, offerece perigos muito maiores para o livre
    exercicio das faculdades, como provei com numerosos exemplos. A mesma
    reflexão póde applicar-se á hypocondria. Para d'isto nos convencermos,
    basta examinar até que ponto o temperamento dos individuos com delirio
    predominante de perseguições está sob a influencia d'este estado
    nevropathico»[1]. E mais adiante: «Quando elles (os hypocondriacos)
    chegam á supposição de que os seus alimentos teem venenos ou, pelo
    menos, substancias que lhes produzem as sensações de que se queixam;
    quando elles se imaginam expostos aos maleficios do que chamam potencias
    occultas, como a electricidade e o magnetismo, e pensam que a propria
    policia procura perdel-os, podemos estar certos de que vão entrar _na
    phase d'este delirio especial_ que a designação de _delirio de
    perseguições_ melhor do que todas exprime»[2].

    [1] Morel, _Traité des maladies mentales_, pag. 706.

    [2] Morel, _Obr. cit._, pag. 707.

    Quanto ao _delirio ambicioso_ elle seria, segundo Morel, uma terminação
    frequente do delirio de perseguições. Fallando dos megalomanos,
    escrevia: «E quando mesmo os doentes chegaram a este estado de
    contentamento e de vaidosa satisfação que é proprio das idéas
    systematicas de grandeza, elles não lograram collocar-se de um modo fixo
    e irremediavel sobre o pedestal da sua loucura senão com a condição de
    passarem por todas as peripecias do delirio de perseguições, e de terem,
    as mais das vezes, experimentado todos os soffrimentos dos
    hypocondriacos»[3].

    [3] Morel, _Obr. cit._, pag. 716.

    Para explicar a passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
    Morel não invocava, á maneira de Foville, o _raciocinio_ e a _logica,_
    mas a _physiologia morbida:_ era, com effeito, ao echo psychico de uma
    alteração no funccionalismo visceral dos hypocondriacos que elle ia
    procurar a chave d'este phenomeno _tão frequente quanto assombroso para
    os homens alheios á medicina e desconhecedores das leis dos organismos
    doentes._

    Esta doutrina, integrando os delirios de perseguições e de grandezas na
    hypocondria, representava uma tentativa de synthese clinica,
    naturalmente destinada a não encontrar seguidores entre os
    contemporaneos de Morel, porque o tempo era de analyse, e a tendencia
    geral a da multiplicação das fórmas nosographicas. O estudo minucioso
    dos symptomas absorvia as attenções, relegando a um plano subalterno o
    das causas e da evolução das doenças. Embora combatidas quasi desde a
    sua introducção na sciencia, as _monomanias_ de Esquirol triumphavam
    ainda então: o delirio de perseguições era uma monomania, o delirio de
    grandezas, outra. O _Tratado_ de Marcé, o mais cotado dos livros
    classicos da psychiatria franceza, consagrava esta doutrina em 1862; e a
    memoria de Foville, que atraz citámos, tem a data de 1869, como tem a de
    1871 a monographia de Legrand du Saulle, de que tambem démos idéa no
    capitulo anterior.

    Isto é dizer que não foi comprehendida a maneira de vêr de Morel sobre
    os delirios systematisados, como o não foram outros pontos de vista
    d'este homem de genio, que Morselli justamente denomina o _Darwin da
    psychiatria_. Fallava para o futuro o auctor das _Degenerescencias
    Humanas_, cuja alta originalidade rompe na historia da medicina mental
    franceza o parallelismo entre a ordem chronologica e a ordem logica das
    idéas.

    É só em 1883, mais de vinte annos depois de publicado o _Tratado_ de
    Morel, que as idéas d'este psychiatra a proposito dos delirios
    systematisados são retornadas e postas em relevo n'um trabalho de
    Gérente.

    Escripto sob a evidente inspiração de Magnan, esse trabalho destina-se a
    provar com o apoio dos factos, que não existe _um_ delirio
    hypocondriaco, _um_ delirio de perseguições e _um_ delirio de grandezas,
    mas uma vesania, o _Delirio Chronico,_ de que aquelles não são senão
    phases evolutivas. «Vamos, diz o auctor, estudar clinicamente todos os
    delirios da vesania; seguiremos n'uma observação attenta a génese e a
    evolução d'estes delirios; e, por conclusão d'este trabalho, esperamos
    que em vez d'essas _monomanias_, tão artificiaes e tão confusas, de
    certos auctores, appareça claramente, emfim, _uma só e mesma especie
    morbida_ que chamaremos o _Delirio Chronico_»[1].

    [1] Gérente, _Le délire chronique_, pag. 10.

    O que é, verdadeiramente, este _Delirio Chronico_? Segundo Gérente, uma
    doença que, germinando sempre n'um terreno hypocondriaco, se denuncía
    nos seus casos typicos e eschematicos pela successão regular de tres
    periodos: um de concentração dolorosa do espirito; um de expansão; e um
    mixto ou de transição entre os dois. Se a doença se prolonga
    sufficientemente, a demencia é o seu termo natural.

    O terreno hypocondriaco em que, segundo Gérente, o _Delirio Chronico_
    mergulha as suas raizes para constituir-se e crescer, é caracterisado
    essencialmente por uma impressionabilidade anormal, de origem quasi
    sempre hereditaria, por uma perversão dolorosa da sensibilidade mental,
    n'uma palavra, por uma _hyperalgesia psychica_; uma autoobservação
    permanente, uma sorte de habitual _ruminação_ interior de estados
    physicos ou de estados moraes define a mentalidade prediposta, da qual,
    sob a mais ligeira causa determinante, ha de surgir a vesania. É, pois,
    um hypocondriaco o candidato ao _Delirio Chronico_; mas não é um
    alienado, emquanto sobre si mesmo poder exercer uma acção de _contrôle_.
    Sel-o-ha no dia em que esse exercicio se torne impossivel, no dia em que
    a preoccupação dos seus estados physicos e moraes venha a ser absorvente
    e o desligue das relações normaes com a sociedade. A hypocondria simples
    torna-se então loucura hypocondriaca. E é d'ela que vae sahir o periodo
    inicial ou depressivo do _Delirio Chronico_.

    Este periodo é caracterisado por uma concentração dolorosa do Eu, de que
    procedem idéas delirantes de natureza depressiva e de um contheudo que
    varía com a intelligencia, a educação e o meio do doente. As falsas
    concepções hypocondriacas subsistem ainda; mas, ao lado d'ellas, outras
    germinam: a crença n'uma hostilidade dos homens (delirio de
    perseguições) ou de maleficos poderes sobrenaturaes (demonomania).
    Perturbações da sensibilidade geral e especial, sobretudo allucinações
    auditivas, dominam esta phase do _Delirio Chronico_, de uma duração que
    póde ser muito longa.

    Mas, pouco a pouco, a dôr moral esbate-se; e na personalidade vesanica,
    enfraquecida pelo delirio depressivo, uma sorte de reacção se dá em
    sentido contrario. Então, no espirito enfermo, trabalhado por infinitas
    angustias, uma pouca de felicidade rompe, como n'um ceu enevoado uma
    restea de sol: entre as idéas depressivas surgem idéas de grandeza,
    ainda vagas, mas a que o futuro reserva uma preponderancia definitiva.
    Esta confusão de elementos apparentemente contradictorios, de idéas e
    sentimentos depressivos com estados expansivos, caracterisa o segundo
    periodo, chamado, por isso, mixto ou de transição.

    Como a dôr moral e as idéas depressivas definem o primeiro periodo, a
    plena beatitude de espirito e as idéas ambiciosas definem o terceiro.
    Lentamente, as emoções e as concepções expansivas do periodo mixto vão
    tomando crescente logar no espirito vesanico á custa de uma reducção na
    intensidade e numero das emoções e idéas depressivas, que acabam por
    desapparecer. Então, um delirio de grandezas de colorido mystico ou
    humano, versando sobre a graça, sobre dotes pessoaes, sobre riquezas,
    sobre posição social, se estabelece definitivamente, caracterisando na
    sua exclusividade o terceiro periodo do _Delirio Chronico_.

    Esta lenta evolução da vesania–tão lenta que póde cobrir dezenas de
    annos, não se faz sem que a mentalidade soffra nas suas forças vivas e
    productoras. E assim, o seu termo natural é a demencia, quer simples e
    apathica, se o delirio cessou absolutamente, quer agitada, se restam
    perturbações da sensibilidade e falsas concepções desconnexas e
    dissociadas.

    Tal é, summariamente, a marcha typica do _Delirio Chronico,_ segundo
    Gérente,

    Nem sempre, porém, faz observar o auctor, as coisas se passam d'este
    modo regular e eschematico; não raro apparecem casos em que a evolução
    descripta não tem logar: póde, por exemplo, o periodo depressivo,
    representado por um delirio de perseguições, extender-se por toda a vida
    do doente que não chega a fazer um delirio de grandezas, caracteristico
    do terceiro periodo; póde do periodo mixto passar um outro doente á
    demencia, sem que o periodo expansivo se tenha realisado em toda a sua
    pureza; póde acontecer que a doença suspenda a sua evolução n'um delirio
    hypocondriaco inicial, que se perpetua, systematisando-se e
    estereotypando-se; emfim, póde mesmo dar-se uma regressão, voltando o
    doente do delirio ambicioso ao de perseguições. Como todas as doenças,
    comporta o _Delirio Chronico_ anomalias evolutivas, que compete á
    clinica registrar; esses casos, porém, não invalidam o _typo_ descripto
    sobre exemplares completos.

    Como se vê, n'esta synthese clinica retoma Gérente as idéas fundamentaes
    de Morel sobre os delirios systematisados, reduzindo-os a expressões
    symptomaticas e momentos evolutivos de uma vesania caracterisada pela
    successão de duas phases apparentemente oppostas: uma, inicial,
    angustiosa e depressiva; outra, final, expansiva e de beatitude, Toda a
    differença, entre os dois psychiatras, está em que Morel chamava
    _Loucura hypocondriaca_ ao que Gérente denomina _Delirio Chronico_,

    Vejamos agora a pathogenia da doença, tal como a comprehende este
    psychiatra.

    De um lado, importa considerar o fundamento hereditario, commum a todas
    as psychoses funccionaes: «Não é vesanico, diz elle, quem quer: é
    precisa uma longa incubação; são precisas, pelo menos, duas gerações que
    preparem o terreno»[1]. Não, é claro, duas gerações de delirantes
    chronicos, mas de nevro e psychopatas. «São umas vezes, explica,
    nevroses, outras vezes intoxicações chronicas, outras ainda anomalias da
    intelligencia, do sentimento ou da vontade a que se não prestaria,
    talvez, attenção, mas que nem por isso deixaram de imprimir o seu cunho
    sobre o individuo e os seus descendentes»[2]. A tara hereditaria cria a
    predisposição; para determinar a doença qualquer abalo moral é bastante.

    [1] Gérente,_Obr. cit._, pag. 8.

    [2] Gérente,_Obr. cit._, pag. 9.

    Mas, por outro lado, importa em relação ao _Delirio Chronico_ attender á
    natureza especial do terreno predisposto. O que atraz dissemos,
    dispensa-nos de insistir sobre este ponto: é sabido que para Gérente,
    como para Morel, essa feição peculiar consiste na hypocondria.

    Emfim, conhecidas as causas e o terreno morbido, importa conhecer a
    _lesão,_ no sentido psychologico do termo.

    Ora, segundo Gérente, nenhuma duvida póde existir a este proposito. «É
    sempre, diz elle, uma alteração do senso emotivo, é a alteração do
    sentimento, agora penosa, logo expansiva, que imprime tal ou tal
    direcção ás perturbações da sensibilidade e ás idéas delirantes; esta
    alteração é, pois, a _lesão essencial e caracteristica ao delirio
    chronico_»[3].

    [3] Gérente,_Obr. cit._, pag. 24.

    Cremos ter dado uma idéa sufficiente da doutrina exposta por Gérente.
    Uma psychose, de origem hereditaria, de evolução de ordinario regular e
    tendo por lesão primitiva uma perturbação do sentimento, integraria como
    syndromas os delirios systematisados, hypocondriaco, de perseguições e
    ambicioso, descriptos na antiga psychiatria como doenças autonomas, sob
    a designação de monomanias; _Delirio Chronico_ é o nome d'essa psychose.

    Dissemos que Gérente se inspirou nas idéas de Magnan; e talvez
    podessemos mesmo affirmar que aquelle não fez senão expôr no seu
    trabalho, que é uma these de doutoramento, os pontos de vista do mestre.
    De facto, não só a designação de _Delirio Chronico_ tomada por Gérente
    para titulo do seu livro, foi creada por Magnan, que a vulgarisara nas
    suas lições oraes, mas foram colhidas no serviço e sob a direcção
    d'este, no asylo de Sant'Anna, as observações clinicas da these.
    Entretanto, nos debates que em 1887 se abriram sobre o assumpto na
    Sociedade Medico-Psychologica de Paris, Magnan apparece-nos, como mais
    tarde nas suas _Lições Clinicas_, publicadas em 1893, expondo uma
    doutrina do _Delirio Chronico_ notavelmente diversa da proclamada por
    Gérente. Admittiremos que o insigne clinico de Sant'Anna concedesse ao
    seu discipulo uma absoluta liberdade de opinião? É isso possivel; mas
    não é provavel que Gérente abusasse de tal liberdade até ao ponto de
    cobrir com a designação consagrada pelo mestre uma doutrina propria e em
    mais de um ponto contraria á d'este. O que nos parece mais acceitavel é
    que o conceito de _Delirio Chronico_ tenha soffrido no espirito de
    Magnan uma evolução durante o periodo que vem da these de Gérente á
    discussão da Sociedade Medico-Psychologica.

    Como quer que seja, as duas doutrinas, a de 1883 e a de 1887, differem
    muito. É o que vamos vêr.

    Ao passo que Gérente, como foi dito, fazia derivar o _Delirio Chronico_
    de uma predisposição quasi sempre hereditaria e preparada atravez de
    gerações, Magnan affirma que um tal facto é excepcional e que, de
    ordinario, a psychose affecta individuos isentos de qualquer tara
    nervosa e absolutamente correctos no ponto de vista mental. «O _Delirio
    Chronico_, diz Magnan, fere em geral na idade adulta individuos sãos de
    espirito, não tendo até então apresentado perturbação alguma
    intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este importante ponto,
    porque tal particularidade basta para separar immediatamente os
    delirantes chronicos dos degenerados hereditarios que offerecem desde a
    infancia perturbações que os fazem reconhecer»[1].

    [1] Magnan, _Leçons cliniques sur les maladies mentales_, pag. 236.

    Ao passo que Gérente, seguindo a tradição de Morel, admittiu como
    constante uma phase inicial hypocondriaca na constituição do _Delirio
    Chronico_, Magnan não a acceita senão a titulo excepcional. «Para Morel,
    escreve o medico de Sant'Anna, é preciso que elles (os perseguidos que
    se tornam ambiciosos) tenham sido hypocondriacos primeiro; ora, sendo a
    hypocondria, como se sabe, as mais das vezes uma manifestação
    dos hereditarios degenerados, não parece provavel que o
    _hypocondriaco-perseguido-ambicioso_ possa apresentar caracteres
    bastante fixos para entrar no quadro do _Delirio Chronico_»[2].

    [2] Magnan, _Obr. cit._, pag 221.

    Emfim, emquanto Gérente concedia irregularidades de marcha ao _Delirio
    Chronico_, admittindo a existencia de casos frustres em que a evolução
    se suspendia ou mesmo por algum tempo retrogradava, Magnan exclue do
    _Delirio Chronico_ todos os casos d'esta natureza. Depois, com effeito,
    de ter admittido na evolução do _Delirio Chronico_ quatro periodos
    nitidamente desenhados–o _de incubação_, o _de perseguições_, o
    _ambicioso_ e o _demente_, Magnan escreve: «Estes periodos succedem-se
    irrevogavelmente da mesma maneira, de sorte que podemos sem receio pôr
    fóra do _Delirio Chronico_ todo o doente que _d'emblèe_ se torna
    perseguido ou ambicioso, ou que, primeiro ambicioso, se torna depois
    perseguido»[3].

    [3] Magnan, _Obr. cit._, pag 237.

    São estes tres os pontos em que as syntheses clinicas do _Delirio
    Chronico_, a de 1883 e a actual, differem. Quanto ao nome, julgou
    Magnan, depois dos reparos de alguns criticos, dever amplial-o para o
    tornar mais explicativo: _Delirio Chronico de evolução systematica_ é a
    designação adoptada por este psychiatra nas suas _Lições Clinicas_.

    Naturalmente occorre perguntar para que nova cathegoria são relegados os
    casos, tão numerosos, de delirios systematisados de evolução irregular
    que Gérente considerava como exemplares frustres de _Delirio Chronico_ e
    que Magnan resolutamente aparta do quadro clinico d'esta psychose. A
    resposta vae o leitor encontral-a no resumo que em seguida fazemos dos
    debates a que deu logar na Sociedade Medico-Psychologica de Paris a
    doutrina do _Delirio Chronico_.

    Digamol-o desde já: vigorosamente sustentada por Garnier e Briand, a
    synthese clinica de Magnan foi tambem rudemente combatida.

    Ninguem contestou a existencia de alienados que, primeiro inquietos,
    suspeitosos, interpretando illusoriamente e n'um sentido pejorativo
    todos os actos e palavras d'outrem (_periodo de incubação_), se tornam
    depois allucinados, sobretudo do ouvido, e se lançam n'um delirio
    systematisado de hostilidades (_periodo de perseguições_), fabricam mais
    tarde ainda idéas de grandeza (_periodo ambicioso_), e, por fim, cahem
    n'um estado de enfraquecimento cerebral em que as concepções falsas se
    esbatem e dissociam (_periodo de demencia_). Ninguem contestou,
    repetimos, a existencia d'estes casos; contestou-se, porém, desde todo o
    principio, que elles fossem _regra_. A fatalidade do terceiro periodo do
    _Delirio Chronico_ foi, por exemplo, negada. Assim, J. Falret sustentou
    que _o delirio de grandezas só n'um terço dos casos succede ao delirio
    de perseguições_. Facilmente se comprehende o alcance d'esta affirmação
    que varios alienistas–Christian entre outros–apoiaram: ao passo que
    para Magnan o delirio ambicioso é um periodo inevitavel do _Delirio
    Chronico_, para Falret elle não constitue senão um episodio fallivel da
    evolução vesanica, um delirio que apenas accidentalmente vem
    juxta-por-se ao de perseguições. Se todo o alienado que entrou, não
    _d'emblèe_, mas após uma phase mais ou menos longa de incubação, no
    delirio de perseguições, houvesse fatalmente de tornar-se ambicioso,
    Magnan teria, talvez, razão, affirmando a existencia de uma _Psychose_
    na qual o delirio de grandezas representaria, segundo a sua phrase, um
    papel evolutivamente similhante ao da _suppuração n'nuna erupção
    variolica;_ mas se, como pretende Falret, esse alienado póde
    perpetuar-se no delirio de perseguições sem jámais esboçar uma idéa
    ambiciosa, tal _Psychose_ não existe: a synthese clinica legitima não é
    o _Delirio Chronico de evolução systematica,_ mas o _Delirio de
    Perseguições,_ que póde ou não, _sem mudar de natureza_, complicar-se de
    um delirio ambicioso. Baseada em factos e apoiada na auctoridade de
    alienistas illustres, a objecção de Falret parece decisiva contra a
    doutrina actualmente professada por Magnan.

    Notemos de passagem que o argumento de Falret não attingiria a doutrina
    de Gérente, segundo a qual o _Delirio Chronico,_ á maneira d'outras
    doenças, comportaria casos de evolução irregular, anomala, entre os
    quaes estariam esses a que se reporta o sabio medico da Salpêtrière.

    J. Falret contestou ainda a Magnan que a demencia constitua o termo
    irrevogavel de uma vesania que passou pelas phases dos delirios de
    perseguições e de grandezas: muitos perseguidos e ambiciosos ha, segundo
    elle, que, ao fim de trinta, de quarenta e mais annos de delirio, morrem
    sem ter attingido a demencia. É mister dizer-se, para avaliar este
    argumento, que Magnan não toma a palavra _demencia_ no restricto sentido
    de abolição das faculdades, mas na accepção mais larga de
    enfraquecimento e falta de iniciativa mental. Desde que o delirio se
    _estereotypa_ (o que é de regra na phase ambiciosa e muitas vezes se dá
    mesmo na phase persecutoria da vesania), o enfraquecimento cerebral é
    já, segundo Magnan, um facto, que a diuturnidade da doença não faz senão
    aggravar; chamar-lhe, pois, _demencia_, quando elle attinge um grau em
    que os conceitos delirantes, desde ha muito invariaveis, se dissociam,
    não deverá parecer senão legitimo. Em todo o caso, é n'este sentido que
    o medico de Sant'Anna toma a _demencia_ quando faz d'ella a phase
    terminal da sua Psychose.

    Manifestando uma grande incomprehensão das idéas do medico de Sant'Anna,
    alguns membros da Sociedade tentaram atacar a doutrina do _Delirio
    Chronico_, affirmando que muitos vesanicos são ambiciosos antes de serem
    perseguidos; que outros surgem com um delirio de perseguições sem terem
    passado por uma phase de incubação; que alguns, emfim, só
    intermittentememe deliram n'um sentido persecutorio ou ambicioso. Todos
    estes casos são conhecidos e de observação diaria; mas, desde que Magnan
    os colloca, pela irregularidade mesma da sua marcha, fóra do quadro do
    _Delirio Chronico_, é evidentemente absurdo invocal-os contra a
    legitimidade d'esta psychose.

    Para Magnan, ao lado do _Delirio Chronico de evolução systematica_, ha
    os delirios que elle chama _polymorphos_ ou _d'emblèe_. E as distincções
    entre aquelle e estes são, segundo o eminente alienista, tão profundas
    quanto possivel, porque derivam da marcha, da etiologia e do
    prognostico. Ao passo que o _Delirio Chronico_ se caracterisa
    evolutivamente pela successão regular e irrevogavel de certos periodos,
    sendo o primeiro de incubação, os delirios polymorphos teem uma evolução
    irregular, imprevista, e rompem subitamente, sem preparação. Emquanto,
    sob o ponto de vista da etiologia, o _Delirio Chronico_ prescinde para
    constituir-se de uma pesada tara ancestral, podendo installar-se em
    individuos psychicamente correctos, os delirios polymorphos são
    eminentemente hereditarios e só podem realisar-se em degenerados, quer
    dizer em individuos tendo antes offerecido signaes de um desequilibrio
    mental. Emfim, emquanto o _Delirio_, _Chronico_, na sua qualidade de
    psychose progressiva e cyclica, é absolutamente incuravel, os delirios
    polymorphos, de marcha remittente ou intermittente, curam muitas vezes.

    É evidente, em face d'esta doutrina, exposta sem reticencias no seio da
    Sociedade Medico-Psychologica de Paris, que os casos, invocados por
    Dagonet e outros, de doentes que entram em delirio de grandezas para
    ulteriormente se tornarem perseguidos, de doentes que abruptamente, de
    um dia para o outro, apparecem allucinados do ouvido e se crêem victimas
    de injustificadas hostilidades, de doentes que após semanas de um
    delirio qualquer ambicioso ou de perseguições, surgem curados para
    recidivarem mais tarde, ou cahem rapidamente em demencia,–é evidente,
    diziamos que esses casos nada provam, em si mesmos, contra a existencia
    do _Delirio Chronico_, por isso que, segundo Magnan, elles pertencem a
    uma cathegoria diversa e não são senão episodios mais ou menos longos e
    interessantes da vida dos degenerados hereditarios.

    A doutrina do medico de Sant'Anna não póde ser combatida senão pela
    demonstração de que as differenciações por elle feitas entre os
    delirantes chronicos e os delirantes degenerados, são infundadas. Mas
    como, sob o ponto de vista da marcha, a differenciação é, _ao menos
    n'um certo numero de casos_, indiscutivelmente exacta; como por consenso
    de todos os alienistas e por testemunho irrecusavel da experiencia, ao
    lado de doentes que incubam um delirio de perseguições e d'este passam
    para o ambicioso, cahindo por fim n'um estado de fraqueza mental
    (_Delirio Chronico_ de Magnan), ha doentes que fazem bruscos,
    irregulares e mais ou menos ephemeros delirios multiplos, de que por
    vezes curam, embora para recidivarem mais tarde (_delirios
    degenerativos_ de Magnan), o ataque á synthese clinica do medico de
    Sant'Anna só póde ser feito de um ponto de vista mais alto,
    demonstrando-se que as duas ordens de delirios, a despeito das suas
    _allure_ diversas, procedem de uma causa commum e assentam sobre um
    mesmo fundo.

    Séglas viu isto–e só elle parece tel-o visto–quando na Sociedade
    Medico-Psychologica affirmou que alguns delirantes chronicos de Magnan
    apresentam os estygmas physicos e mentaes dos degenerados hereditarios.

    Demonstrar esta proposição seria evidentemente destruir á doutrina de
    Magnan o seu mais solido fundamento: o etiologico. Se os degenerados
    hereditarios podem delirar tanto de um modo remittente e anomalo como de
    um modo regular e progressivo, caminhando tanto para a cura como para a
    demencia, toda a differença entre o _Delirio Chronico_ e os _delirios
    polymorphos_ se reduz a accidentes de marcha e a possiveis variações de
    prognose, o que não é bastante para estabelecer _especies_ morbidas
    distinctas.

    Nos longos debates da Sociedade Medico-Psychologica sobre os delirios
    systematisados, tomaram parte os mais eminentes psychiatras francezes;
    cremos, porém, que só Falret e Séglas produziram contra a legitimidade
    clinica do _Delirio Chronico_ argumentos de valor.

    Mas não insistiremos sobre elles; por agora fazemos apenas historia.

    Para completarmos o que na psychiatria franceza tem direito a menção
    especial em materia de delirios systematisados, resta-nos expôr a
    maneira de vêr de Régis.

    Retomando uma doutrina exposta por Baillarger em 1853, o auctor do
    _Manual pratico de Medicina Mental_ sustenta que uma natural distincção
    existe entre as _loucuras generalisadas_ e a _Loucura parcial_: ao passo
    que as primeiras se caracterisam pela presença constante e essencial de
    um elemento affectivo, _excitação_ na mania e _depressão_ na melancolia,
    a segunda manifesta-se por simples perturbações intellectuaes e moraes
    sem participação, a não ser accidental e episodica, da emotividade. A
    excitação e a depressão, affirma Régis, são tanto a fundamental
    caracteristica das loucuras generalisadas que muitas vezes só ellas
    existem n'estas doenças: tal é o caso das manias e melancolias sem
    delirio, nas quaes, como se sabe, ha exaltação ou diminuição do _tonus
    emotivo_, sem compromisso grave da intelligencia e do senso moral. O
    contrario d'isto se dá na _Loucura parcial_: um delirio mais ou menos
    extenso caracterisa n'este caso a alienação, que só por momentos póde
    acompanhar-se de crises ephemeras de excitação ou depressão, analogas ás
    dos espiritos normaes em conflicto com causas externas. A mania e a
    melancolia, accrescenta Régis, sendo muitas vezes idiopathicas, são, não
    raro, meros symptomas d'outras doenças mentaes, como a hysteria, a
    epilepsia, a demencia paralytica; ao contrario, a _Loucura parcial_ é
    sempre idiopathica, essencial.

    Ora, é n'esta _verdadeira loucura_ que os delirios systematisados se
    integram, segundo Régis, a titulo de manifestações e de estadios
    evolutivos.

    No seu curso regular e typico, a _Loucura parcial_ offereceria tres
    periodos: um, de _analyse subjectiva_, caracterisado pelo _delirio
    hypocondriaco_; outro de _interpretação_, revellado pelo _delirio de
    perseguições_ ou pelo _delirio mystico_, segundo o doente attribue a
    pessoas ou a divindades os seus males; um terceiro, emfim, de
    _transformação pessoal_, exteriorisado pelo _delirio ambicioso_. As
    allucinações, sobretudo auditivas, são o symptoma dominante da _Loucura
    parcial_.

    Quanto á etiologia, sustenta Régis que a doença é constitucional, faz
    parte do individuo e surge n'um dado momento sob a influencia de
    quaesquer circumstancias; isto é dizer que _Loucura parcial_ é
    eminentemente hereditaria. Segundo este auctor, «ella attinge de
    preferencia os individuos sombrios, desconfiados, com tendencias á
    mysantropia e ao orgulho»[1]

    [1] E. Régis, _Manuel pratique de médecine mentale_, 2º ed., pag. 228.

    Como se vê, a _Loucura parcial_ de Régis mantem relações profundas de
    similhança com a _Loucura Hypocondriaca_ de Morel e o _Delirio Chronico_
    de Gérente. Um mesmo pensamento etiologico-evolutivo preside ás tres
    syntheses clinicas.

    * * * * *

    Expostos os trabalhos francezes sobre os delirios systematisados na sua
    phase de synthese clinica e de interpretação pathogenica, vejamos,
    retrocedendo na ordem dos tempos, o que se passou na Allemanha desde
    que, com Snell, Griesinger e Sander, a psychiatria d'este paiz assentou
    na existencia de delirios _primitivos_ de perseguições e de grandezas.

    Antes, porém, seja-nos licito dar uma explicação sobre a marcha a
    seguir.

    Delimitar um assumpto é a primeira das condições a preencher para
    tratal-o scientificamente; a segunda, é possuir uma nomenclatura
    definida e precisa. Ora, não satisfazendo a uma só d'estas duas
    condições os trabalhos allemães sobre os delirios systematisados, a
    impressão que recebe quem d'elles procura tomar conhecimento, é, sem
    exaggero, a de ter penetrado n'um labyrintho. Não o dizemos nós: por
    esta ou analogas expressões disseram-no em 1887 Séglas e recentemente
    Kéraval, os alienistas francezes que com maior auctoridade se occuparam
    do assumpto; disse-o tambem, mais insuspeitamente, Pelman ao formular ha
    vinte annos esta queixa: «Acabaremos por nem mesmo entre nós,
    psychiatras, nos entendermos»; repetirara-n'o, emfim, em 1894 quasi
    todos os alienistas allemães que tomaram parte na discussão aberta sobre
    a Paranoia na Sociedade Psychiatrica de Berlim.

    De facto, a extensão do assumpto varia de auctor para auctor; restricta
    para uns que, como Krafft-Ebing, lhe estabelecem os mesmos limites que
    os alienistas francezes, ella é tão vasta para outros, para Cramer, por
    exemplo, que parece estar contida lá dentro a psychiatria inteira. Por
    outro lado ainda, a nomenclatura é vaga e é confusa: vaga, pela
    multiplicidade de termos com que um dado auctor exprime um mesmo facto;
    confusa, pela variedade de significações de cada termo para cada auctor.
    _Wahnsinn, Verrücktheit_ e _Paranoia_ são as palavras com que na
    litteratura allemã apparecem designados os delirios systematicos
    descriptos pelos franceses; estes termos, porém, ora figuram como
    synonimos, ora como vocabulos de significados distinctos, succedendo
    ainda que o ultimo é pelo mesmo auctor tomado umas vezes n'um sentido
    restricto, outras vezes n'um sentido geral, infinitamente mais amplo.

    N'estas deploraveis condições de maxima obscuridade, fazer n'uma ordem
    rigorosamente chronologica e sob a respectiva terminologia a exposição
    das doutrinas allemãs ácerca dos delirios systematisados, seria,
    evidentemente, deixar o leitor em conflicto com obstaculos e
    difficuldades que indeclinavelmente nos cumpre remover-lhe. E eis
    porque, abandonando este invio caminho, procuraremos, antes de fazer
    historia, fixar os limites do assumpto e o valor dos termos.

    A expressão _delirio systematisado_, empregada por opposição á de
    _delirio dissociado_ ou _incoherente,_ significa apenas que certas idéas
    morbidas habitualmente adherem e se conjugam em grupos associativos;
    assim comprehendida, esta expressão não allude, nem mesmo remotamente,
    quer á _origem_ d'essas idéas, quer á _natureza_ e _grau_ da affinidade
    que as liga, quer, emfim, á sua _evolução_. N'este sentido, tão
    systematisados são os delirios protogenicos como aquelles que succedem a
    estados affectivos, tanto os que constituem doenças como os que apenas
    representam syndromas, tanto aquelles em que as associações morbidas são
    activas e fortes como aquelles em que ellas são examines, passivas e
    frouxas, tanto os que marcham para a extincção pela demencia como
    aquelles que se perpetuam, tanto os continuos como os que procedem por
    accessos.

    N'este sentido geral ha, pois, delirios systematisados _primitivos_ e
    _secundarios_, _idiopaticos_ e _symptomaticos_, _continuos_ e
    _intermittentes, agudos_ e _chronicos_. E assim, a não ser nos casos
    extremos de mania, de demencia, de confusão mental e de idiotia, todos
    os delirios serão mais ou menos systematisados, até os que se geram na
    imbecilidade, até os que, uma ou outra vez, se desenvolvem nos periodos
    iniciaes da paralysia geral, o que não fará espanto, se nos lembrarmos
    de que a systematisação associativa é o fundamento mesmo de toda a
    actividade mental. _Verrücktheit_ é o termo empregado pela maioria dos
    auctores allemães para, exprimirem este sentido geral dos delirios
    systematisados; e se estes, como é de regra, se associam a illusões e
    allucinações, o termo _Wahnsinn_ é synonimamente empregado, se bem que
    com menor frequencia.

    Mas ao lado d'este sentido geral e vago, ha um outro limitado e
    restricto,–precisamente o que nas paginas precedentes vimos
    implicitamente adoptado pelos psychtatras francezes. Este novo sentido
    exclue os delirios _secundarios,_ os _symptomaticos_ e os _agudos_ para
    comprehender apenas os _primitivos_, os _idiopaticos_ e os _chronicos_.
    Na accepção restricta do termo, só são systematisados os delirios que
    não teem uma base affectiva em estados expansivos ou depressivos (mania
    ou melancolia), e que na sua evolução progressiva ou remittente, mas
    sempre continua e chronica, não offerecem tendencias para a demencia.
    Tal o delirio de perseguições, typo-Lasègue; tal o delirio ambicioso,
    typo-Foville; tal o delirio dos perseguidos-perseguidores, typo-Falret.

    Este sentido restricto parece ser tambem o proprio, se attendermos
    a que o termo _systema_, pedido á technologia das sciencias
    physico-mathematicas, implica a idéa de uma força _activa_ e
    _persistente_ de attracção ou de affinidade (_systemas planetarios,
    systemas de crystalisação_); por analogia, na esphera psychologica o
    _systema delirante_ deveria resultar de uma força _viva_ e _permanente_
    de associação das idéas, tal como se dá sómente nos delirios primitivos,
    idiopaticos e chronicos,–delirios movimentados, activos, tenazes.
    _Paranoia_ é o termo com que de preferencia exprimem os auctores
    allemães contemporaneos este sentido restricto dos delirios
    systematisados, quer isolados, quer succedendo-se, quer coexistindo no
    mesmo doente; e assim corresponde inteiramente á _loucura systematizada_
    dos francezes, na qual estão comprehendidas as syntheses de Morel, de
    Gérente e de Régis.

    Entretanto, mesmo os auctores para quem o termo _Paranoia_ tem esta
    accepção restricta e determinada, o desviam d'ella não raras vezes (o
    que é uma causa de confusão) para tomal-o no sentido geral e como
    synonimo de _Verrücktheit_ ou _Wahnsinn_; é o que faz, por exemplo,
    Krafft-Ebing que, não admittindo na sua theoria da Paranoia (_psychose
    degenerativa_) senão a fórma primaria, idiopatica e chronica, não duvida
    empregar as expressões de _Paranoia epileptica_, de _paranoia
    masturbatoria_ (_delirios syntptomaticos_), como não deixa de occupar-se
    em detalhe de uma _Paranoia Secundaria (estado terminal das
    psychoneuroses_). Note-se, porém,–e isto fará cessar toda a
    confusão–que o termo Paranoia, quando empregado n'um sentido geral
    pelos auctores a que me refiro, vem sempre seguido de um adjectivo que o
    determina; quando tomado no seu sentido restricto, ou vem só ou, quando
    muito, acompanhado de um termo que faz allusão a accidentes evolutivos
    de chronicidade ou ao contheudo das idéas delirantes, como nas
    expressões _Paranoia originaria, Paranoia adquirida_, ou ainda _Paranoia
    persecutoria, Paranoia ambiciosa_. No primeiro caso, sendo a _Paranoia_
    uma _Verrücktheit_, um _Wahnsinn_, um delirio systematisado, importa
    determinar-lhe a _especie_; no segundo, sendo uma _Primäre
    Verrücktheit_, um _Cronicher Wahnsinn_, um delirio systematisado
    primitivo e chronico, a sua especie está definida, o seu logar marcado
    na classificação, importando apenas, quando importe, designar-lhe a
    _variedade_.

    Posto isto, diremos que é sobre a _Paranoia_ como synthese clinica e
    doutrina equivalente em extensão á _loucura systematisada_ dos francezes
    que primeiro vae recahir a nossa attenção. Claro está que este modo de
    limitar o assumpto e de fixar-lhe a terminologia, de modo nenhum nos
    inhibe de dar na historia das doutrinas um logar áquellas em que o
    assumpto se toma n'uma extensão maior; esse logar, porém, deve ser o
    ultimo, não só porque assim o exige a clareza da exposição, mas porque
    só depois de passados em revista os delirios systematisados primitivos e
    chronicos, ácerca dos quaes ha na Allemanha uma doutrina mais ou menos
    definida, poderemos com vantagem occupar-nos dos secundarios e agudos,
    cuja controvertida existencia é um thema de infinitas e obscuras
    divagações.

    Quanto á terminologia por nós adoptada n'esta exposição, diremos que,
    podendo empregar indifferentemente as palavras Paranoia, Primäre
    chroniche Verrücktheit ou Chronicher Wahnsinn, faremos uso exclusivo da
    primeira, não só por um motivo de simplicidade, senão pelas razões que
    os italianos invocam para dar-lhe tambem preferencia: a sua origem
    grega, que a assemelha aos outros nomes da psychiatria; a sua
    expansibilidade internacional, que lhe vem d'essa mesma procedencia;
    emfim, a facilidade com que d'ella se fazem necessarias palavras
    derivadas, adjectivos e adverbios.

    Depois dos trabalhos de Snell[1], de Griesinger[2] e de Sander[3], a
    doutrina da Paranoia foi retomada em 1878 por Westphal[4], que a
    desenvolveu e aprofundou.

    [1] _Über Monomanie_, 1863.

    [2] _Arch. f. Psych._, 1867.

    [3] _Über eine specielle Form der primäre Verrücktheit_, 1868-69.

    [4] _Zeitschr. f. Psych._, 1878.

    Como os seus antecessores, elle insistiu na origem protogenica da
    Paranoia: a perturbação ideativa é o facto inicial, independente de
    estados affectivos preexistentes; os sentimentos depressivos ou
    expansivos que no curso d'esta psychose se observam, não são senão
    secundarios e determinados pelo contheudo das idéas hypocondriacas, de
    perseguição ou de grandezas. Ainda como os seus predecessores, Westphal
    insistiu na falta de tendencias da Paranoia para a demencia; a
    debilidade mental que por vezes se nota nos paranoicos, é prévia e não
    consecutiva, e não póde, por isso, servir para caracterisar a psychose,
    mas o terreno em que ella germina. Reconhecendo a frequencia das
    allucinações na Paranoia, Westphal notou, todavia, que ellas podem
    algumas vezes faltar; para elle a caracteristica fundamental da Paranoia
    reside na perturbação ideativa, na anomalia conceptual que, por si só e
    independentemente dos erros sensoriaes, gera as idéas delirantes
    destinadas a dominarem de um modo completo e absoluto o Eu vesanico. As
    idéas de perseguição e de grandeza podem, segundo Westphal, succeder,
    como notara Morel, á hypocondria, mas podem tambem nascer e organisar-se
    _d'emblèe_. De resto, segundo Westphal, o desvio paranoico está no modo
    de formar as idéas, não de as associar, o que explica a persistencia do
    raciocinio e a coherencia entre os actos e os pensamentos do doente.

    Alargando a area extensiva da Paranoia, Westphal integrou no quadro
    clinico d'esta psychose as _obsessões_, que, não offerecendo a marcha e
    evolução das idéas delirantes dos paranoicos, teem, comtudo, como ellas,
    uma origem primitiva e espontanea; d'aqui a creação de uma variedade,
    _Paranoia abortiva_ ou rudimentar ou frustre, para designar a loucura
    obsessiva ou das idéas fixas.

    Até aqui, como se vê, a doutrina de Westphal não differe essencialmente
    das estudadas syntheses clinicas dos psychiatras francezes. Todavia na
    sua classificação da Paranoia produziu o eminente professor de Vienna
    uma idéa que o separa dos seus predecessores francezes e allemães: de
    facto, ao lado da fórma _hypocondriaca_, já conhecida desde Morel, da
    fórma _originaria_ ou congenita, descripta antes por Sander, e da fórma
    _chronica_, de marcha progressiva ou remittente, em que _d'emblèe_ se
    produzem idéas de perseguição e de grandeza, admittiu Westphal uma
    fórmia _aguda_, caracterisada pela subita eclosão de allucinações
    principalmente auditivas e muitas vezes aterradoras, acompanhando-se de
    idéas de perseguição e levando o doente ora á incoherencia e confusão
    mental (_Verwirrtheit_) com impulsões, ora ao stupor, á prostração e aos
    estados catatonicos de Kahlbaum.

    A creação d'esta fórma _aguda_, que está fóra dos limites por nós
    traçados ha pouco á Paranoia, foi o ponto de partida, entre os allemães,
    das mais numerosas e mais graves dissidencias doutrinarias sobre este
    capitulo da psychiatria. Comquanto não tenhamos de occupar-nos agora
    d'este ponto, entendemos dever fazer-lhe desde já uma referencia, não só
    para não deixarmos incompleta a exposição das idéas de Westphal, mas
    para marcarmos a origem historica de uma corrente de idéas que teremos
    de estudar e precisar mais tarde.

    Notaremos, por fim, que Westphal só á fórma _originaria_ reconhece um
    fundo degenerativo.

    Fritsch[1] em 1878 insistiu nas relações entre as idéas delirantes e os
    estados affectivos, comparando o que se passa na Paranoia com o que tem
    logar na mania e na melancolia.

    [1] _Psychiatr. Centralblatt_, 1878.

    Ao passo que n'estas psychoses o delirio surge secundariamente, e as
    idéas falsas podem, com Griesinger, considerar-se _tentativas de
    interpretação_ das emoções iniciaes depressivas ou expansivas, na
    Paranoia, ao inverso, as idéas delirantes são primitivas e os estados
    emocionaes secundarios,–meras reacções do sentimento sob o contheudo
    das idéas. Adiante voltaremos a citar este auctor, que não acceita a
    fórma _aguda_ da Paranoia.

    Em 1879, Schaefer[1] continuou as idéas de Westphal, pondo, comtudo,
    n'um relevo maior o papel das allucinações e illusões.

    [1] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1879.

    Se a Paranoia essencialmente consiste no facto de que as idéas
    delirantes são acceites pelo doente como realidades e n'este sentido
    constituem o alimento habitual e ordinario de toda a sua actividade
    psychica, não deve esquecer-se que os erros sensoriaes, mais frequentes
    n'esta psychose do que em todas as outras, activam o delirio, dão-lhe
    uma base, um ponto de apoio constante, e pela sua diuturnidade criam
    para o doente um mundo phantastico, falseam-lhe o juizo e acabam por
    n'elle abolir o _senso critico_.

    Digamos de passagem que Schaefer acceita todas as fórmas da Paranoia
    descriptas por Westphal, incluindo a _aguda_, que teria por ponto de
    partida as allucinações.

    No mesmo anno, Merklin[2] descreveu pela primeira vez o delirio
    processivo (_Quaerulantenwahnn_) como variedade ou sub-grupo da
    Paranoia, encontrando-se assim no terreno da theoria com Lasègue, para
    quem, como foi dito, o delirio dos perseguidores seria uma variedade
    (_fórma activa_) do delirio de perseguições.

    [2] _Studien über primäre Verrücktheit_, 1879.

    No seu _Tratado_, cuja primeira edição remonta a 1879, fez Krafft-Ebing
    da Paranoia um estudo completo, de uma rara e attrahente lucidez.
    Paranoia e loucura systematisada são termos e noções equivalentes;
    assim, separando-se de Westphal, regeita a fórma aguda da Paranoia e
    desintegra d'esta psychose a loucura obsessiva, no que procede á maneira
    dos auctores francezes. Mas o ponto original da sua doutrina está em dar
    á Paranoia um logar entre as degenerescencias psychicas. Duas ordens de
    considerações conduzem Krafft-Ebing a este modo de vêr; a génese e a
    evolução da doença, por um lado, os antecedentes psychopaticos dos
    doentes, por outro. Nem o modo de apparição, nem a marcha permittem
    considerar a Paranoia uma doença accidental, como o são as
    psychonevroses; pelo contrario, tudo a inculca uma psychose
    constitucional, uma doença de um cerebro tocado quer pela
    hereditariedade, quer por graves affecções capazes de irreparavelmente o
    enfraquecerem. De facto, sem obnubilação de consciencia, sem alteração
    fundamental de affectos, no goso habitual de um humor nem deprimido, nem
    exaltado, e a despeito da integridade das fórmas do raciocinio, o
    paranoico vê o mundo erradamente e é incapaz de corrigir quer as suas
    idéas, quer as suas falsas percepções. As idéas delirantes, não
    procedendo do exterior, nem resultando de emoções preexistentes pelo
    mecanismo psychologico da reflexão, vêem do inconsciente e impõem-se ao
    paranoico, do mesmo modo que se lhe impõem os erros sensoriaes: um
    excesso de subjectivismo e uma radical ausencia de senso critico, são,
    pois, as caracteristicas fundamentaes da Paranoia, cuja evolução, sem
    tendencias para a demencia ou para a cura, é essencialmente chronica. De
    resto, a banalidade das causas determinantes (que muitas vezes não são
    senão as phases physiologicas da vida: a puberdade, a menopause, etc.)
    implica uma forte predisposição congenita ou adquirida. Por outro lado,
    a historia de todos os paranoicos (e não só, como pretendia Westphal, a
    dos originarios de Sander) é a dos desequilibrados, dos candidatos á
    loucura, dos degenerados, n'uma palavra; de sorte que a doença
    representa apenas o exaggero ou _hyperthrophia_ de um caracter
    preexistente, não podendo entre ella e o estado normal traçar-se, como
    nas psychonevroses, uma nitida linha divisoria.

    Krafft-Ebing classificou a Paranoia pelo contheudo das idéas delirantes,
    descrevendo uma fórma _persecutoria_ com o seu sub-grupo _processivo_, e
    uma fórma _ambiciosa_ com as suas variedades _religiosa_ e _erotica_; e
    notou o sabio professor de Graz que estas fórmas podem observar-se
    isoladas e podem ora coexistir, ora succeder-se no mesmo doente. Na
    descripção da Paranoia persecutoria insistiu na passagem gradual e
    progressiva das idéas hypocondriacas ás de perseguição e d'estas ás de
    grandeza. Segundo a pratica do grande alienista, esta ultima evolução
    dar-se-hia n'um terço dos casos da doença. É de notar que Krafft-Ebing,
    ao inverso da maioria dos auctores francezes, não concedeu ao raciocinio
    o minimo papel na transformação pessoal, que se realisa pela passagem do
    delirio de perseguições ao de grandezas; o inconsciente domina, segundo
    o eminente professor, toda a evolução da doença.

    Póde seguramente affirmar-se que, com Krafft-Ebing, a doutrina da
    Paranoia, tomada como equivalente de loucura systematisada, recebeu na
    Allemanha os seus derradeiros desenvolvimentos. De facto, n'esta ordem
    de idéas, os psychiatras allemães que lhe succedem, nada accrescentam a
    esta construcção synthetica, ao mesmo tempo simples, elegante e
    profunda.

    Ulteriormente veremos que logar assignala o eminente professor aos casos
    que Westphal, Schaefer e outros incluiam na fórma aguda da Paranoia.

    Em 1880, Scholz[1] insistiu lucidamente nas idéas de Krafft-Ebing sobre
    o papel do inconsciente na génese dos delirios paranoicos. Os factos
    morbidos obedecem, no fundo, ás leis reguladoras dos factos normaes;
    ora, no estado physiologico, é da esphera inconsciente que procedem os
    factos psychicos destinados a tornarem-se conscientes; nos delirios
    primitivos é tambem d'essa esphera que naturalmente emergem as idéas e
    conceitos falsos. As idéas delirantes, como as idéas justas, não são,
    definitivamente, senão resultados finaes, complexos e conscientes de
    actividades elementares e inconscientes do cerebro; toda a differença
    está em que nas idéas delirantes a actividade molecular das cellulas
    corticaes se encontra pervertida. D'aqui resulta que, a não existirem,
    como não existem na Paranoia, modificações anatomicas profundas, os
    processos logicos do pensamento podem subsistir, e o doente não fará
    senão raciocinar _justo_ sobre premissas _falsas_; a apparente lucidez
    dos paranoicos não é senão isto. Mas não são susceptiveis d'esta
    explicação os casos em que o delirio tem por base as allucinações e
    illusões; o inconsciente não representa aqui um papel. Para dar conta
    d'estes casos, é necessario admittir no cerebro um estado de
    enfraquecimento, que o predispõe á falsa interpretação das percepções ou
    das excitações sensoriaes; n'esta ordem de idéas, Scholz dá aos delirios
    de base allucinatoria um caracter eminentemente asthenico, notando que
    elles se desenvolvem frequentes vezes na convalescença das doenças
    febris.

    [1] _Über primäre Verrücktheit_, 1880.

    Em 1882, Jung[1] reeditou as idéas de Westphal e de Fritsch sobre a
    diversidade genetica dos delirios na Paranoia e nas psychoses depressiva
    ou expansiva. Notando a frequencia crescente da Paranoia, Jung attribuiu
    o facto á extensão que todos os dias toma a degenerescencia physica e
    mental da nossa especie. Isto denuncía um accordo entre este auctor e
    Krafft-Ebing sobre a pathogenia intima da doença.

    [1] _Zeitsch. f. Psych_, 1882.

    Kraepelin[1] em 1883, retomando no seu _Compendio de Psychiatria_ as
    idéas de Krafft-Ebing sobre a Paranoia, definiu-a «uma profunda e
    duradoura transformação do Eu, essencialmente evidenciada por uma
    anomala comprehensão e elaboração das impressões internas e externas».
    Sem obnubilação da consciencia e sem vivas emoções que lhe perturbem o
    curso dos processos intellectuaes, o paranoico acceita as idéas
    delirantes, que se lhe impõem e que elle é incapaz de corrigir; esta
    _invalidade psyquica_–umas vezes congenita, adquirida outras–é, pois,
    a base e o terreno de evolução da Paranoia, que, porisso mesmo, não
    representa um mero accidente na vida de um homem são, mas uma doença
    _constituicional_, atacando nos seus mesmos fundamentos a personalidade
    psychica. Todas as relações do Eu com o exterior se encontram
    radicalmente pervertidas no paranoico; e isto não tanto pela
    interferencia das allucinações, que são apenas symptomas, como pela
    caracteristica tendencia do doente á _comprehensão egocentrica do
    mundo_. E não só as relações do Eu com o meio ambiente, mas as que elle
    mantem com o corpo, se encontram alteradas. Pelo que, ás fórmas
    _persecutoria_ e _ambiciosa_ de Krafft-Ebing, Kraepelin accrescenta,
    descrevendo-a minuciosamente, a fórma _hypocondriaca_,

    [1] _Comp. der Psych._, 1883

    Devemos notar que Kraepelin separa da Paranoia o _delirio processivo_,
    que considera uma fórma de _loucura moral_. Baseia-se para essa
    separação em dois factos: de um lado, a ausencia de allucinações nos
    alienados litigantes; do outro, a radical incapacidade destes enfermos
    para se elevarem á noção de direito, como facto objectivo, o que
    denuncía uma suspensão de desenvolvimento psychico nos dominios ethicos,
    tal como se dá nos criminosos.

    Em 1883, Tuczek[2], fazendo o estudo da hypocondria, apeia-a do pedestal
    de fórma nosographica e considera-a um syndroma, ora da melancolia, ora
    da Paranoia, ora loucura obsessiva. A presença ou ausencia habitual de
    uma depressão primitiva indicará se a hypocondria symptomatisa um estado
    melancolico ou representa, pelo contrario, simples e primitivo desvio
    ideogenico. Este modo de vêr projecta uma luz intensa no assumpto,
    fazendo ás idéas hypocondriacas na Paranoia a parte que de todos os
    tempos vinha sendo feita ás idéas de perseguição e de grandeza, que não
    são, aliás, privativas da loucura systematisada. Um delirio de
    perseguições póde episodicamente symptomatisar um accesso de melancolia
    ou secundariamente estabelecer-se após elle, como um delirio de
    grandezas póde ser a expressão de um accesso maniaco; mas, ao lado
    d'estes delirios, ha uma Paranoia persecutoria e uma Paranoia ambiciosa.
    O que distingue estes casos é a lesão primitiva: da sensibilidade nos
    primeiros, da ideação nos segundos, com o delirio hypocondriaco, ora
    expressão de uma hyperesthesia dolorosa, essencial e primitiva, ora
    manifestação de um desvio ideogenico permittindo ao vesanico a habitual
    serenidade e igualdade de humor que caracterisa o paranoico. N'este
    ultimo caso a hypocondria, como justamente observara Kraepelin, não
    seria senão uma perturbação das relações do Eu com o corpo ou com as
    impressões internas, analoga á perturbação das relações d'elle com o
    mundo externo ou com as impressões sensoriaes. E assim se comprehende
    como, ao lado das fórmas _persecutoria_ e _ambiciosa_, deva dar-se no
    quadro da Paranoia um logar á fórma _hypocondriaca_, a despeito de uma
    errada tradicção que espirito faz surgir como inseparaveis as idéas de
    hypocondria e de melancolia.

    [2] _Alig. Zeitschr. f. Psych._, 1883

    Meynert expôz, em 1890, nas suas _Lições Clinicas_ uma interessante
    doutrina da Paranoia, diversa das perfilhadas pelos seus predecessores
    allemães. Para o sabio professor de Vienna esta psychose não
    representaria um especial desvio ideogenico de um cerebro invalido, mas
    a perturbação de um cerebro normal sob a influencia de impulsos morbidos
    que, como nos maniacos e melancolicos, dirigem as idéas. «Os affectos
    originarios, escreve, são os de defeza e de conquista. Os primeiros
    estão em relação com o sentimento de uma influencia externa; os segundos
    com o sentimento de uma força que actua sobre o exterior. São processos
    physiologicos ou, antes, indispensaveis funcções biologicas do
    organismo. Um ser animal incapaz de experimentar affectos conducentes a
    movimentos de defeza, apossar-se-hia da natureza para as suas
    necessidades, mas succumbiria sem resistencia ás nocivas acções d'essa
    mesma natureza; um ser sem movimentos de conquista, como resultados de
    affectos relativos, poderia subtrahir-se aos males da natureza, mas, por
    defeito de apropriação, morreria á falta de satisfação das proprias
    necessidades. Na illimitação das idéas de defeza da creança inexperiente
    e timida encontra-se esboçado physiologicamente o delirio de
    perseguições, como o de grandezas se encontra na mesma creança, quando
    tenta soprar á lua para apagal-a como se fôra uma vela. O delirio de
    perseguição inclue em si a angustia; na Paranoia, como na mania e na
    melancolia, isto póde representar uma relação restabelecida entre este
    sentimento e as circumstancias exteriores. Do sentimento de angustia
    conclue-se para a perseguição. Eu vou, porém, mais longe: o que
    immediatamente se associa ao sentimento de angustia, é o perigo. Perigo,
    antes de tudo, de uma doença illusoria, na hypocondria simples; perigos,
    nas idéas de violencia, em connexão com a chamada angustia
    neurasthenica; perigos, nas coisas da natureza morta–infecções,
    venenos; perigos, creados por nós proprios, como quando receiamos, por
    impulso d'outrem, cahir de uma altura. Este é o delirio de perigo. O
    delirio de perseguição refere-se, porém, a uma influencia procedente
    d'outrem, sendo certo que na Paranoia a angustia causada pelos homens
    excede a que determinam as coisas. O sentimento de defeza é n'este caso
    _anthropomorphisado_: como as suas aggressões procedem de um impulso
    humano, as que o doente receia, teem para elle analoga origem nos
    sentimentos dos homens, na vontade d'elles. Este modo de pensar não é
    especial de um estado de doença; o delirio que se lhe refere é popular,
    diffuso, quanto póde sel-o, por exemplo, a crença na religião natural.
    Todos os phenomenos favoraveis ou perniciosos, o ceu, o sol, as nuvens,
    o oceano, o fogo são assim comprehendidos n'um termo de analogia; e,
    como o homem explica as suas aggressões ou conquistas sobre o natureza
    como resultados de disposições que o estimulam, pensa elle que tambem as
    vantajosas ou maleficas influencias naturaes procedem de affectos de
    seres mais perfeitos. Com razão disse um dos mais profundos pensadores
    da época da encyclopedia que o _homem creou os deuses à sua imagem_»[1].

    [1] Meynert, _Lezioni cliniche di Psychiatria_, trad. it., pag. 128.

    Como do sentimento de defeza fez surgir o delirio de perseguição,
    Meynert faz derivar o delirio de grandezas do sentimento de conquista; e
    como as duas ordens de sentimentos physiologicos, longe de se
    hostilisarem, coexistem no mesmo individuo e mais ou menos se implicam
    n'um fim geral de conservação, as duas ordens de delirios, persecutorio
    e ambicioso, se agregam e formam corpo no mesmo doente.

    D'onde vem ao paranoico o exaggero d'esses fundamentaes sentimentos de
    defeza e de conquista? Meynert não hesita em responder que elle procede
    de uma sorte da hypertrophia do sentimento pessoal, determinada por
    _sensações hypocondriacas_ ou _estimulos subcorticaes bulbares_. O
    doente sentiria mais fortemente o seu Eu; e esta emoção intensa,
    associando-se a todas as percepções, crearia um estado particular de
    consciencia no qual tudo seria interpretado egocentricamente. Uma
    _hyperesthesia psychica_ seria, pois, para Meynert, como vimos que o era
    para Gérente, o fundamento da Paranoia.

    Ao contrario de Krafft-Ebing, Meynert não liga uma grande importancia á
    hereditariedade como causa da Paranoia; e junto d'elle a noção
    psychiatrica da degenerescencia não tem senão um frio e reservado
    acolhimento. Para Meynert a etiologia não fornece, nem fornecerá nunca a
    base de uma classificação natural das psychoses; essa base tem de ser
    procurada na anatomia pathologica, na lesão do cerebro. Na Paranoia essa
    lesão seria um processo atrophico do manto cerebral.

    O conceito da degenerescencia psychica não encontra em Mendel[1] melhor
    acolhimento do que em Meynert. Occupando-se em 1883 da Paranoia, n'um
    extenso trabalho a que teremos de alludir ainda, Mendel apenas concedeu
    fóros de degenerativa á fórma originaria de Sander.

    [1] _Die Paranoia_, 1883.

    Pelo seu lado, Schüle[2], em 1886, só considerou francamente
    degenerativas as fórmas _originaria_ e _processiva_, por elle descriptas
    no seu _Tratado Clinico_ dentro do grupo das psychoses hereditarias,
    entre a loucura obsessiva e a loucura moral.

    [2] _Klinische Psychiatrie_, 1886.

    Mendel, distinguindo a obsessão da idéa delirante, separa da Paranoia a
    fórma _abortiva_ de Westphal. Ao contrario, Salgo[3] vê na loucura
    obsessiva uma fórma frustre ou incompleta da Paranoia, porque para elle
    a obsessão e a idéa paranoica teem a mesma génese: uma e outra surgem
    primitiva e espontaneamente n'um cerebro fraco. Para este auctor, com
    effeito, a _debilidade de espirito_, no sentido do que outros chamam
    _invalidade psychica_ e _ausencia de senso critico_, representa na
    Paranoia um papel fundamental. Poderiamos inscrever, ao lado dos nomes
    até aqui citados, os de Koch, Arndt, Weiss, Pelman, Samt, outros ainda,
    tão vasta é na Allemanha a bibliographia do assumpto que nos occupa; não
    accrescentariamos, porém, com isso o quadro doutrinario da Paranoia como
    conceito equivalente ao de Loucura Systematisada dos auctores francezes.
    Passemos, pois, á exposição dos trabalhos em que um tal conceito se
    altera pela integração de uma fórma _aguda_, sem precedentes quer em
    França, quer na Allemanha, antes de 1878.

    [3] _Compend. der Psychiatrie_, 1887.

    Foi Westphal, como dissemos, quem primeiro admittiu a existencia de uma
    variedade da Paranoia procedendo de estados allucinatorios primitivos e
    apresentando na sua marcha ora a confusão mental da mania, ora a
    depressão stuporosa da melancolia. Tal era a Paranoia aguda do professor
    de Vienna, desde logo perfilhada por Schaefer e tambem desde logo
    rudemente combatida por Fritsch e outros.

    Sem extemporaneos intuitos de critica, mas n'um unico fim de ordenar
    idéas, accentuemos, antes de tudo, as differenças que separam as fórmas
    aguda e chronica da Paranoia.

    Segundo as doutrinas recebidas de Snell, de Griesinger, de Sander, do
    proprio Westphal, dois factos caracterisam principalmente a fórma
    chronica: de um lado, a primitividade das idéas delirantes, que ao
    espirito se impõem á maneira de obsessões; do outro, a integridade da
    associação logica dos pensamentos, explicando a resistencia dos doentes
    á demencia.

    Na fórma aguda, o contrario teria logar: as allucinações seriam o facto
    primordial, e a associação das idéas achar-se-hia fundamentalmente
    compromettida quer por um exaggero até á fuga, quer por um affrouxamento
    até á suspensão. Na fórma chronica, as allucinações, constituindo um
    symptoma secundario e mesmo fallivel, são tributarias das idéas
    delirantes a cujo contheudo se subordinam (depressivas e hostis no
    delirio persecutorio, expansivas e benevolas no ambicioso); na fórma
    aguda, pelo contrario, sendo um facto primitivo e essencial, as
    allucinações teriam sob a sua dependencia os conceitos delirantes (de
    perseguição sob vozes hostis, de grandeza sob audições lisongeiras).
    Quanto á associação das idéas, não ha na fórma chronica mais do que um
    desvio inicial de orientação, sem compromisso da consciencia e sem perda
    de lucidez; pelo contrario, na fórma aguda a precipitação das idéas
    poderia levar o doente á incoherencia e á dissociação da mania, como o
    affrouxamento do seu curso o poderia conduzir á fixidez melancolica ou
    mesmo, sob a acção inhibitoria de allucinações terrorisantes, a estados
    de catatonia. Estas differenças de marcha implicam naturalmente a de
    prognostico: a fórma chronica não cura e não conduz por si mesma á
    demencia; pelo contrario, a fórma aguda terminaria umas vezes pela cura,
    outras pela abolição das faculdades.

    Assim, tanto a subordinação dos symptomas como a terminação separam as
    duas fórmas. O que as une então? O contheudo das idéas delirantes, que
    são sempre, n'uma e n'outra, reductiveis ás tres conhecidas cathegorias:
    hyponcondriacas, persecutorias e ambiciosas, sobretudo ás duas ultimas.

    É este, com effeito, para todos os que admittem uma Paranoia aguda, o
    traço clinico de ligação entre esta fórma e a outra. Que exista uma
    perturbação de consciencia ou até mesmo uma inconsciencia mais ou menos
    duradoura; que o delirio se acompanhe de allucinações em massa de todos
    os sentidos; que haja manifesta incoherencia, pouco importa, desde que,
    como diz Mendel, se possam reconhecer os dois typos de ideação:
    persecutorio e ambicioso. Muitas vezes, como o mesmo Mendel o confessa,
    o diagnostico differencial entre a Paranoia aguda e a mania com
    predominio de allucinações seria difficil de estabelecer. D'esta sorte,
    no quadro da Paranoia entram não só os delirios systematisados, mas até
    os dissociados e incoherentes, uma vez que as idéas de perseguição ou de
    grandeza n'elles predominem ou mesmo _tendam_ a predominar, como alguns
    escrevem.

    É necessario, entretanto, reconhecer que Schüle, achando, talvez,
    demasiadamente frouxo, como unico laço de união entre fórmas por muitos
    symptomas diversas e até antinomicas, o contheudo das idéas delirantes,
    tenta a approximação das duas Paranoias sobre um terreno de evolução,
    notando que dos casos agudos aos chronicos e d'estes áquelles a
    transição se póde fazer sem violencia, antes insensivelmente. Depois,
    com effeito, de ter accentuado (como acabamos de fazel-o) todos os
    symptomas que separam as fórmas chronica e aguda, Schüle escreve: «Estas
    differenças, porém, caracterisam apenas os casos extremos do delirio
    systematisado chronico e agudo; ha casos intermedios em que
    manifestamente se revella o parentesco d'estas duas fórmas. De modo que
    o importante grupo da fórma aguda não é senão a repetição da fórma
    chronica: é um delirio de perseguição, uma interpretação delirante com
    erros sensoriaes e raciocinio falso que abre a scena, sendo ainda
    possiveis ao principio as percepções exactas. Ao mesmo tempo que a
    consciencia se torna mais obscura, produz-se um delirio expansivo de
    fórma mystica ou erotica; o Eu conserva-se, sem poder distinguir as
    percepções exactas das allucinações que se unem e entre si se prendem
    systematicamente. Este estado representa o delirio systematisado agudo
    por excellencia. Por vezes este aspecto clinico mantem-se, mas póde
    tambem mudar, como acontece nos casos de affeções agudas e febris: as
    allucinações tornam-se predominantes, variaveis, e trata-se então de um
    d'esses casos extremos de que fallamos. Por outro lado, a fórma chronica
    apresenta muitas vezes exacerbações que não são, pela fórma e pelo
    fundo, senão o delirio systematisado com allucinações; o começo,
    sobretudo, da doença offerece este aspecto. O delirio systematisado
    agudo, quando não cura, torna-se uma fórma chronica com allucinações e
    systematisação parcial. Todas estas transições demonstram que as
    differenças notadas não são essenciaes e que estas fórmas, apesar de
    variadas, são visinhas»[1].

    [1] Schüle, _Traité clinique des maladies mentales_, trad. fr., pag.
    122.

    A citação que acabamos de fazer, synthetisando as idéas de quantos
    acceitam hoje na Allemanha a Paranoia aguda, dispensa-nos de toda uma
    erudita, mas inutil _étalage_ de nomes proprios; por ella se fica
    sabendo o que pensam do parentesco das duas fórmas os que, desde
    Westphal, as admittem ambas. Entretanto, não será ocioso fixar idéas
    sobre este ponto por uma nova e caracteristica citação de Schüle: «Uma
    analyse minuciosa, escreve este psychiatra, revella differenças entre
    todos os casos que entram n'este grupo tão consideravel de psychoses,
    direi mesmo, d'este grupo que é de todos o maior. Assim, devem
    distinguir-se casos intermediarios n'este vastissimo grupo dos delirios
    systematisados. Os casos chronicos approximam-se tanto, no ponto de
    vista dos symptomas, do delirio systematisado dos degenerados, de que
    muitas vezes offerecem a physionomia clinica, quanto os casos agudos se
    approximam das psychonevroses (melancolia e certas fórmas de stupor com
    allucinações). Estas relações devem ser cuidadosamente notadas. Assim,
    distingue-se, em regra, nitidamente o delirio systematisado agudo, da
    melancolia, pela mediocre importancia da perturbação primitiva do humor,
    que é n'esta, pelo contrario, um elemento psychico duravel, que produz e
    domina toda a doença; entretanto, o delirio systematisado agudo contém
    tambem um grupo demonomaniaco, o qual não só apresenta um sentimento
    depressivo intenso (panophobia), mas succede a um estado de verdadeira
    depressão, de caracteristica diminuição do sentimento da personalidade,
    de illusões e de allucinações de caracter triste. O mesmo acontece com o
    stupor. Em regra, o stupor typico (_atonito_) póde nitidamente
    distinguir-se do delirio systematisado agudo, que não apresenta as
    caracteristicas ausencia de percepção e falta absoluta de vontade; mas o
    stupor com allucinações (_pseudo-stupor_) está evidentemente ligado á
    variedade do delirio systematisado agudo em que a intelligencia
    obscurecida tem phases passageiras de semi-lucidez. Poderiamos chamar a
    este estado a fórma estupida do delirio systematisado agudo tanto como o
    stupor com allucinações; a génese e a marcha da doença permittiriam uma
    e outra coisa. Assim, póde definir-se e conceber-se todo este grupo do
    delirio systematisado agudo como sendo, em summa, a repetição de certas
    psychonevroses melancolicas, maniacas e estupidas em que a consciencia
    se acharia _completamente perturbada pelo delirio_ (estado do
    sonho)»[1].

    [1] Schüle, _Obr. cit._, pag. 123.

    Estas palavras de Schüle, pondo em relevo a immensuravel extensão da
    Paranoia no conceito de alguns psychiatras allemães, permittem-nos
    interpretar expressões, aliás frequentes, que parecem meros jogos de
    termos, que um accidente de composição typographica juntou: tal, por
    exemplo, a da _Paranoia dissociativa_, de Ziehen. Só quem tiver em
    vista que a fórma aguda integra situações mentaes que vão desde a
    obnubilação até á fuga das idéas, desde a somniação até á catatonia,
    póde comprehender que um termo creado para exprimir a idéa de
    _systematisação_ se adjective por uma palavra synonima de
    _incoherencia_.

    Como já dissemos, a idéa de uma Paranoia aguda, primeiro enunciada por
    Westphal e logo acceite por um grande numero de alienistas allemães, foi
    vivamente combatida desde todo o principio por muitos outros. Defensores
    e adversarios d'essa idéa constituem hoje duas escólas nitidamente
    separadas, como temos tentado mostrar nas paginas precedentes. O nosso
    estudo d'este assumpto seria, comtudo, incompleto, se não dissessemos de
    que maneira os adversarios da Paranoia aguda interpretam os casos
    clinicos expostos como pertencendo a esta fórma. Que pathogenia teem e
    que logar occupam na classificação das psychoses, uma vez eliminada a
    Paranoia aguda, os delirios, tão numerosos, em que idéas de perseguição
    e de grandeza surgem sem systematisação completa, sem coherencia até,
    acompanhadas de vivos estados allucinatorios, seguindo uma evolução
    irregular e marchando tantas vezes para a cura?

    A resposta a esta questão, já formulada, talvez, no espirito do leitor,
    vae permittir-nos completar a differenciação das duas escólas, pondo em
    mais alto relevo o caracteristico espirito das doutrinas de cada uma.

    Dizer que esses delirios persecutorio e ambicioso de marcha aguda estão
    fóra da Paranoia, porque são diversos d'ella pelo começo, pela
    terminação, pela hierarchia mesmo dos symptomas, não basta, porque
    precisamente se discute se a Paranoia deve ter a limitada extensão que
    uma tal doutrina lhe assignala ou, pelo contrario, alargar-se para
    abranger novos grupos de factos clinicos. Schüle, Mendel e Cramer (para
    não citarmos senão os principaes e mais modernos defensores da Paranoia
    aguda), acceitando como perfeitamente distinctos e até apparentemente
    contrarios os casos _extremos_ das duas fórmas, sustentam, comtudo, que
    a fusão d'ellas se estabelece pelo exame dos casos _de transição_, em
    que os motivos differenciaes se esbatem.

    Ora, sabendo-se que em sciencias naturaes, desde que n'ellas penetrou o
    criterio evolutivo, deixaram de existir grupos definitivos e fechados,
    importa considerar este argumento. E é por isso que não podemos
    prescindir de saber como interpretam os pretendidos casos de Paranoia
    aguda aquelles que apenas admittem uma Paranoia chronica.

    Fritsch, um dos primeiros a combater a noção da Paranoia aguda, designou
    esses casos sob o nome _Verwirrtheit_ ou confusão mental, fazendo-os
    depender de uma fraqueza irritavel ou esgotamento nervoso dos
    hemispherios cerebraes, que póde observar-se como syndroma ou como
    complicação da maior parte das psychoses e, portanto, da Paranoia.
    Decerto, a _Verwirrtheit_ offerece, como a Paranoia, idéas delirantes e
    allucinações; estes symptomas communs, porém, não são da natureza,
    segundo Fritsch, a permittir a confusão entre uma _doença_, de marcha
    gradual, em que se dá uma transformação da personalidade, e um simples
    _estado_ transitorio, um mero _syndroma_ de innumeras psychoses
    funccionaes e organicas.

    Pelo seu lado, Krafft-Ebing, que á Paranoia dá um logar entre as
    degenerescencias psychicas ou psychoses constitucionaes, relega os
    pretendidos casos de Paranoia aguda para o delirio sensorial,
    _Hallucinatorischer Wahnsinn_, que elle colloca entre as psychonevroses
    ou psychoses accidentaes, ao lado da mania e da melancolia.

    Como Fritsch, Krafft-Ebing faz esses casos tributarios de uma asthenia
    cerebral. De facto, segundo elle, o _Hallucinatorischer Wahnsinn_
    reconhece por causas as doenças febris, infecciosas, neurasthenisantes;
    a sua caracteristica é um enfraquecimento cerebral _d'emblèe_, ou
    passageiro e curavel ou rapidamente demencial, impedindo todo o trabalho
    de systematisação delirante. A passagem do _Hallucinatorischer Wahnsinn_
    á Paranoia é, pois, impossivel.

    Para Kraepelin os pretendidos casos de Paranoia aguda entrariam quer na
    _Hallucinatorische Verwirrtheit_, quer no _Hallucinatorischer Wahnsinn_.
    A primeira d'estas psychoses é uma confusão mental devida a um
    esgotamento agudo do cerebro; a segunda é um delirio pouco coherente, da
    marcha rapida e terminação favoravel, em que as allucinações representam
    o principal papel, subordinando a si o estado emotivo e as idéas falsas.
    A distincção entre estas duas doenças não parece muito nitida; como quer
    que seja, ambas se distinguem profundamente, segundo Kraepelin, da
    Paranoia, que consiste n'uma lenta e intima transformação da
    personalidade, sem obnubilação da consciencia e sem perturbações
    fundamentaes do humor.

    Mayser[1] considera os mesmos casos de Paranoia aguda como exemplares de
    _Delirio asthenico_, analogos aos produzidos pelas intoxicações
    medicamentosas ou outras; a obnubilação da consciencia e a confusão
    mental, devidas a um esgotamento do cerebro, seriam as caracteristicas
    d'este delirio.

    [1] _Zur sogennanter hallucinatorischer Wahnsinn_.

    Meynert[2] pertence ao numero dos que contestam a existencia de uma
    Paranoia aguda. Os casos expostos como taes, são por elle estudados sob
    o nome da _Amencia_, especie de confusão mental, ora idiopathica, ora
    symptomatica, tributaria de uma fraqueza irritavel, de um exhaurimento
    do cerebro e podendo manifestar-se tanto por symptomas de stupor, como
    por excitação acompanhada de vivos e multiplos estados allucinatorios. O
    predominio de phenomenos neurasthenicos sobre os irritativos explicaria
    os casos que difficilmente se distinguem da melancolia, como,
    inversamente, o predominio de phenomenos irritativos sobre os
    depressivos explicaria os casos que a custo se distinguem dos delirios
    maniacos, agudos e sobreagudos.

    [2] _Obr. cit._, pag. 27 e seg.

    As causas da _Amencia_ seriam todos os accidentes capazes de produzir
    mais ou menos rapidamente o esgotamento cerebral: choques moraes
    intensos n'um individuo debilitado, onanismo abusivo, doenças febris,
    puerperio, intoxicações, traumatismos, molestias infecciosas, outros
    ainda. A hereditariedade não exerceria senão um papel subalterno. A
    marcha da _Amencia_ seria sempre aguda e a terminação far-se-hia pela
    morte, pela demencia ou pela cura ao fim de um tempo variavel entre
    algumas semanas e alguns mezes. As recidivas seriam para receiar. De
    resto, a Amencia póde complicar grande numero de psychoses, não sendo
    raro que surja como um episodio na marcha da Paranoia. Meynert insiste,
    porém, sobre o diagnostico differencial entre a Amencia e a Paranoia
    que, mesmo coincidindo temporariamente, conservam a sua physionomia
    propria. Da Amencia não póde passar-se a outra psychose que não seja à
    demencia, termo natural das psychopatias que não curam.

    Tal é, pela voz dos seus mais illustres representantes, a theoria que
    rejeita a existencia de uma Paranoia aguda. Esta designação
    representaria um mal-intendido, pois que os casos clinicos por ella
    cobertos não seriam senão expressões de uma asthenia cerebral, quer
    idiopatica e primitiva, quer symptomatica e secundaria, profundamente
    diversa, não só pelos _symptomas_ e pela _marcha_, mas ainda pelas
    _causas_, da Paranoia. Que essa, asthenia com todo o seu cortejo de
    phenomenos ora stuporosos, ora maniacos, venha intercalar-se na marcha
    da Paranoia em algum dos periodos d'esta, é incontestavel; que devamos
    confundir as duas entidades morbidas é, porém, insustentavel, porque,
    desde os symptomas até ás causas, desde a marcha até á terminação, tudo
    se conspira para as separar.

    Os casos de delirio agudo em que retalhos de conceitos persecutorios e
    ambiciosos apparecem de mistura com erros sensoriaes, não seriam, pois,
    exemplares da Paranoia; seriam casos de _Verwirrtheit_, de
    _Hallucinatorischer Wahnsinn_, de _Hallucinatorische Verwirrtheit_, de
    _Amencia_, n'uma palavra, de _confusão mental_ asthenica. E a mistura
    possivel dos symptomas agudos d'essa confusão com os symptomas chronicos
    da Paranoia, não significam, como pretende Schüle, a passagem ou
    _transição_ entre duas fórmas de uma mesma doença, mas a _coexistencia_
    de duas psychoses distinctas n'um unico doente.

    Duas palavras ainda sobre a Paranoia secundaria antes de fecharmos a
    historia dos trabalhos germanicos.

    Vimos quanto esta noção dominante nos inicios da psychiatria allemã, foi
    perdendo terreno á medida que se elevava a de Paranoia primitiva. O nome
    não chegou nunca a desapparecer, graças á tradição; mas o conceito de
    Paranoia secundaria foi posto em contraste como o de Paranoia primitiva.
    Esta seria uma doença; aquella, um _estado terminal_, apenas, da
    melancolia ou da mania, uma _étape_ d'estas psychoses na sua marcha para
    a extincção definitiva. Tal em Krafft-Ebing, por exemplo, nos apparece a
    Paranoia secundaria: um prefacio da demencia vesanica, uma situação
    mental pouco definida e transitoria, correspondendo ao que os
    psychiatras francezes denominaram em todos os tempos a _demencia
    incompleta_.

    E assim devia ser. Entre o formidavel processo da Paranoia primitiva,
    tão movimentado, tão independente, tão cheio de cambiantes evolutivas, e
    o estado predemencial, tão pallido que os seus symptomas não são já
    senão residuos de psychoses moribundas–pedras de um edificio em ruinas,
    taboas de um navio em naufragio–nenhuma approximação pathogenica ou
    nosologica era, com effeito, possivel.

    Mas comprehende o leitor que esta situação tenha variado a partir do
    momento em que o conceito da Paranoia primitiva foi remanuseado e os
    seus severos moldes partidos pelos iconoclastas, introductores da fórma
    aguda. Desde que não repugna admittir que da confusão mental se passe á
    Paranoia, menos repugnará crêr que a ella se trasite da mania e da
    melancolia. E, de facto, os auctores que admittem a fórma aguda da
    Paranoia, acceitam igualmente a secundaria.

    * * * * *

    Datam apenas de 1882 os trabalhos da psychiatria italiana sobre os
    delirios systematisados; são elles, porém, de um tão grande valor
    intrinseco e de uma tão alta originalidade, algumas vezes, que o seu
    logar na historia contemporanea está definitivamente marcado.

    A primeira memoria a citar sobre o assumpto é a de Buccola: _Sui delirii
    sistematisati_. Não tanto pela novidade das proprias idéas como pela
    clareza com que expõe e commenta as doutrinas germanicas, ainda então
    quasi desconhecidas fóra do paiz originario, é notavel este trabalho do
    mallogrado escriptor italiano.

    Na debatida questão da génese do delirio, Buccola hesita em affirmar com
    Krafft-Ebing a constante prioridade das idéas sobre as allucinações, do
    desvio conceptual sobre os erros sensoriaes. «A génese do delirio,
    escreve, não é em todos os casos nitidamente delimitada e não sabemos
    definitivamente se as allucinações precedem ou succedem sempre o
    desenvolvimento das idéas delirantes e se estes devem considerar-se
    tentativas de interpretação ou antes, á maneira de Samt, productos da
    vida psychica inconsciente»[1]. Quanto ao especial terreno sobre que
    assentam os delirios systematisados, é Buccola decisivo, affirmando com
    Weiss que elles traduzem uma invalidade mental; e este modo de vêr,
    apoia-o Buccola sobre o criterio etiologico, vista a preponderancia da
    hereditariedade na loucura systematisada, e ainda no prognostico, porque
    a doença é, maioria dos casos, estereotypada e insusceptivel de cura,
    comquanto capaz de remissões.

    [1] Buccola, _Sui delirii sistematisati_, in _Rivista di Freniatria_,
    vol. VII.

    O estudo de Buccola, que fizera na Allemanha o seu noviciado
    psychiatrico, foi para a sciencia italiana, adormecida sobre os
    conceitos francezes, a denuncía de um mundo novo a explorar. E desde
    logo, com effeito, um fecundo movimento de inquerito aos delirios
    systematisados surgiu e se affirmou por estudos de uma profundidade e
    originalidade imprevistas.

    Pondo de parte todos os trabalhos (e são numerosos) que se limitam, como
    o de Buccola, a expôr ou a commentar as idéas germanicas, faltaremos
    sómente dos que, pela novidade dos seus pontos de vista, implicam
    modificações evolutivas no conceito da Paranoia. N'esta ordem de idéas
    são a mencionar, sobretudo, as memorias de Tanzi e Riva e de Tonnini.

    O trabalho dos dois primeiros escriptores é dos mais importantes e, como
    vae vêr-se, dos mais originaes.

    Para estes auctores Paranoia e delirio systematisado são conceitos
    diferentes, noções que importa não confundir: o delirio systematisado é
    um syndroma clinico, um _grupo symptomatico_ apenas, ao passo que a
    Paranoia representa uma _constituição morbida_, que o atavismo explica.
    Exteriorisando-se as mais das vezes por um delirio systematisado, a
    Paranoia póde, todavia, existir sem elle; d'aqui a variedade que os
    auctores denominam _Paranoia indifferente_, isto é, desacompanhada de
    delirio.

    O que é então a Paranoia, segundo Tanzi e Riva? De dois modos a definem
    e fazem comprehender estes auctores: descriptivamente, pela menção dos
    seus symptomas, da sua etiologia e da sua marcha; pathogenicamente, pelo
    exame das suas origens.

    Descriptivamente definida, a Paranoia é para Tanzi e Riva «uma psychose
    funccional de fundo degenerativo, caracterisada por um particular desvio
    das mais elementares operações intellectuaes, não implicando nem uma
    gravissima decadencia nem uma desordem geral; que se acompanha quasi
    sempre de allucinações e idéas delirantes permanentes mais ou menos
    coordenadas em systema, mas independentes de qualquer causa occasional
    constatavel ou de qualquer condição morbida emotiva; que tem uma
    evolução nem sempre uniforme ou continua, mas essencialmente chronica; e
    que, em geral, não tende por si mesma para a demencia»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _La Paranoia,_ in _Rivista di Freniatria_, vol. x,
    pag. 293.

    A analyse d'esta definição, que a pathogenia tem de completar, permitte
    reconhecer, antes de tudo, a posição dos auctores em face das diversas
    doutrinas allemãs. Declarando a Paranoia uma psychose _degenerativa_, de
    marcha essencialmente _chronica e sem precedentes de emotividade
    morbida_, Tanzi e Riva excluem resolutamente do quadro da doença os
    delirios systematisados _secundarios_, que succedem á mania e á
    melancolia, e bem assim os _agudos_, admittidos pela escóla de Westphal.
    Constatando, além disso, a ausencia, na génese da psychose, quer de
    causas occasionaes apreciaveis, quer de perturbações morbidas de
    sentimento, os auctores affirmam a origem _inconsciente_ do desvio
    intellectual, que não póde tomar-se, porque é primitivo, á conta de
    interpretação de estados emotivos. Emfim, declarando que a Paranoia não
    implica uma desordem geral, mas ideativa, não tendendo por si mesmo para
    a demencia, Tanzi e Riva accentuam que ella consiste n'uma
    _degenerescencia intellectual_.

    Como se vê, é ao lado de Krafft-Ebing e em opposição a Schüle e a Mendel
    que os escriptores italianos se collocam. Mas no que elles se desviam de
    todos os psychiatras, assim franceses como allemães, é na affirmação da
    não essencialidade das idéas systematisadas na Paranoia; esta é a parte
    original e absolutamente imprevista da definição. Contrariamente ás
    idéas recebidas, o desvio ideativo que caracterisa a Paranoia não é
    sempre, segundo Tanzi e Riva, embora o seja na maioria dos casos, um
    delirio systematisado. É uma coisa diversa, em que pensaram Lombroso,
    creando a designação de _mattoide_, Maudsley, fallando de um
    _temperamento vesanico_, Moreau, traçando a zona indisdincta das
    _fronteiras da loucura_. O que é, pois? Um excesso de subjectivismo
    alterando fundamentalmente as relações do individuo com o mundo
    exterior, comprehendido o social, e tomando, n'este assumpto,
    radicalmente impossivel toda a justeza da critica. Lucido bastante para
    interpretar as coisas e os homens nas suas relações objectivas, o
    paranoico, uma vez em jogo a sua personalidade, vê tudo erradamente,
    como por interposta lente deformante. O Eu, medida de todas as coisas, é
    no paranoico um instrumento infiel e falso, porque vicia aquellas que o
    interessam, as que com elle directamente se relacionam; a
    _egocentricidade_ é, pois, o essencial _desvio_ e o incorrigivel _erro_
    do Eu paranoico. Accentuando-se de ordinario n'um delirio systematisado
    persecutorio, ambicioso ou erotico, elle póde ficar áquem, no dominio
    das idéas falsas, mas não absurdas, chimericas, mas não ainda
    inverosimeis ou repugnantes; d'aqui a Paranoia indifferente, que os
    auctores illustram de uma maneira magistral.

    D'onde procede esse desvio que nenhuma causa occasional explica? Se
    pensarmos que a evolução intellectual da humanidade se faz no sentido de
    um subjectivismo decrescente, isto é, de uma subordinação cada vez maior
    do Eu ao mundo exterior, de que somos apenas uma parcella, o excesso de
    subjectivismo apparecer-nos-ha como um retrocesso, uma regressão, e o
    paranoico, portanto, como um documento de atavismo.

    Tal é, na sua essencia, a doutrina de Tanzi e Riva a que cremos dever
    applicar a designação de _anthropologica_, porisso que, segundo ella, o
    paranoico é muito menos um _doente_, no sentido commum d'este termo, do
    que a revivescencia intellectual de velhos typos ancestraes da especie.

    «Não é em si mesma, escrevem Tanzi e Riva, mas em relação ao tempo em
    que se produz, que uma idéa póde considerar-se morbida; a pathologia do
    conceito delirante reside sobretudo no _anachronismo_» [1]. E, de facto,
    idéas e opiniões que hoje são delirantes, foram modos de vêr correntes
    em épocas mais ou menos afastadas. Mas não se conclua d'aqui que é
    paranoico todo o homem que n'um dado assumpto pensa como o fizeram
    remotos antepassados.

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 305.

    Que um negro, uma creança ou um inculto camponez tenham do Universo uma
    grosseira concepção anthropomorphica, nada mais natural; que a tenha,
    porém, um branco de maior idade e scientificamente educado, eis o que
    denuncía um desvio paranoico da ideação. Que um rude marinheiro
    analphabeto responsabilise o seu santo de um naufragio ou lhe agradeça
    com offerendas uma viagem feliz, não é caso para espanto; que faça o
    mesmo um almirante, eis o que revellaria uma ideação paranoica. As
    raças, as idades e as classes (que são raças sociaes) teem cada uma a
    sua psychologia; e é dentro d'ella e pelos principios d'ella que os
    conceitos teem de ser afferidos. Um homem tendo as crenças dos da sua
    raça, do seu paiz, da sua idade, da sua classe e do seu nivel cultural,
    não é um paranoico, por falsas que essas crenças sejam; para que possa
    fallar-se da Paranoia é preciso que uma _regressão_ ideativa se realise.

    Na parte critica do nosso trabalho insistiremos sobre este e outros
    pontos. Por agora resta-nos sómente resumir a documentação do atavismo
    paranoico, tal como a apresentam os dois illustres psychiatras.

    Tanzi e Riva fazem notar em primeira linha a crença profunda e
    inabalavel dos paranoicos nas suas concepções delirantes, mau grado
    todos os raciocinios que as demonstram falsas, mau grado a evidencia
    dos factos, que as contradicta, e a realidade das coisas, que as choca;
    essa crença, inaccessivel a argumentos, superior a controversias,
    resistente ás suggestões do mundo objectivo, é verdadeiramente uma
    _fé_–tão integral e tão pura como a das velhas almas religiosas em face
    dos dogmas e das doutrinas revelladas. De uma intensidade inversamente
    proporcional ao seu fundamento logico, a fé paranoica não encontra hoje
    equivalente a não ser nos povos barbaros ou nos simples de espirito.

    Um novo documento da natureza degenerativa e atavica da Paranoia
    encontra-se no proprio contheudo do delirio, sobretudo nas idéas de
    perseguição, que representam uma phase de _lucta_ incompativel com os
    tempos actuaes e apenas possivel e necessaria em épocas anteriores á
    constituição do direito e ao reconhecimento das garantias individuaes.

    Como importante caracter degenerativo e prova de que o paranoico
    representa um producto inferior, referem os auctores o conjuncto de
    anomalias _psycho-sexuaes_ que só nos imbecis se encontram com a mesma
    frequencia e fórma. Indo do onanismo ao _horror feminae_ por innumeras
    cambiantes, essas anomalias, se não produzem o effeito da impotencia
    material, tornam o paranoico inadequado ao amor e ao matrimonio. «A
    extracção forçada de esperma por machinas electricas, a copula
    imaginaria com pessoas reaes, os mysticos commercios carnaes com entes
    nebulosos e imaginarios representam outros tantos aspectos, escrevem os
    auctores, das condições de inferioridade sob o ponto de vista da
    existencia da especie, em que se despenha o paranoico muitas mais vezes
    do que qualquer outro alienado»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

    Emfim, ha na symptomatologia da Paranoia um grupo particular de factos
    de procedencia atavica evidente: taes são os que se designam pelas
    expressões syntheticas de _symbolismo_ e _allegorismo_. «Os complicados
    arabescos, as figuras allegoricas, os gestos e altitudes cabalisticas,
    as interpretações phantasticas de factos naturaes, os jogos de palavras,
    os neologismos, e o _argot_ individual que na Paranoia pullulam, dão ao
    delirio uma côr tão viva e tão grotesca, dizem os escriptores italianos,
    que o fazem reviver nas mais remotas phases da evolução historica da
    cultura. Lembram a escripta cuneifórme e hyerogliphica exprimindo
    material e figuradamente os conceitos abstractos, a conservação dos
    amuletos symbolisando as almas dos santos, a vivificação dos phenomenos
    naturaes, as evocações d'alemtumulo, os themas da alchimia medieval e da
    magia arabe, as cerimonias hyeraticas de velhos tempos, importadas do
    mysticismo oriental. Cada uma d'estas duas séries de factos,
    encontrando-se, de um lado, nos paranoicos, do outro, nos povos
    primitivos, exprime uma condição psychica commum»[1].

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, pag. 307.

    Tem a data de 1884 o trabalho eminentemente original que acabamos de
    resumir.

    A idéa de uma constituição paranoica, essencialmente degenerativa,
    recebe n'elle a consagração pathogenica. A Verrücktheit de Krafft-Ebing
    e da sua escóla é ainda um delirio systematisado, cuja primitividade,
    estabelecida pela clinica, não encontra uma clara interpretação; a
    Paranoia de Tanzi e Riva é pura e simplesmente uma degenerescencia
    intellectual, que a doutrina da evolução permitte comprehender. A
    Verrücktheit era com os allemães um conceito _medico_; a Paranoia, que
    d'elle deriva por natural desdobramento historico, tornou-se com os
    italianos, uma doutrina _anthropologica_.

    Mas não se esgotou com a memoria de Tanzi e Riva, a cujas idéas, seja
    dito de passagem, deram a sua adhesão Amadei, Tamburini, Morselli e
    outros, a fecundidade original da psychiatria italiana n'estes dominios.
    Tres annos depois, em 1887, surge o estudo de Tonnini sobre a _Paranoia
    secundaria_–um velho thema visto a uma nova luz. De facto, não é a
    primitiva concepção de Griesinger que Tonnini reedita: a Paranoia
    secundaria do auctor italiano não é Secundäre Verrücktheit do allemão,
    uma psychonevrose prefaciando uma demencia, um delirio systematisado
    feito dos residuos ideativos da mania e da melancolia; é antes uma fórma
    hybrida, participando ao mesmo tempo dos caracteres da psychonevrose e
    da degenerescencia.

    Demos, porém, a palavra ao escriptor italiano: «A Paranoia secundaria
    diz elle, é uma psychopatia que se affirna por delirio e caracter
    paranoico mais ou menos accentuados sobre um fundo de debilidade mental
    invasora, como terminação de uma psychonevrose que, desarranjando o
    equilibrio de um cerebro já de si invalido, reforça processo
    degenerativo, abreviando-lhe a evolução e concentrando n'um mesmo
    individuo os caracteres de um série pathologica»[1].

    [1] Tonnini, _La Paranoia Secundaria_ in _Rivista di Freniatria_, vol.
    XIII, pag. 61.

    Como d'esta definição se vê, a Paranoia secundaria implica uma inicial
    degenerescencia, uma invalidade mental primitiva, que a psychonevrose;
    mania ou melancolia, não faz senão aggravar e tornar manifestas. Sem a
    intervenção accidental da psychonevrose, a degenerescencia, menos
    avançada que na Paranoia primaria, não se accentuaria n'um delirio
    systematisado; dado, porém, o abalo maniaco ou melancolico, pronuncia-se
    o estado degenerativo por um complexo symptomatico especial em que ha
    concepções delirantes e tendencias para a demencia.

    «Estabelecido, diz Tonnini, que uma psychonevrose por recessivas
    evoluções morbidas produz a degenerescencia (Paranoia primaria) n'um ou
    mais individuos da especie, póde admittir-se que a Paranoia secundaria
    representa n'um só individuo o que faz a psychonevrose na especie. A
    Paranoia secundaria seria o resultado tardio (Paranoia tardia) de uma
    disposição precedente, apressado por uma doença mental qualquer, as mais
    das vezes de base affectiva. Segundo este conceito, a Paranoia
    secundaria não seria, como se pretende, uma psychonevrose que,
    caminhando para a demencia, deixa observar systematisadas as idéas
    falsas da mania ou da melancolia cessantes; ao contrario, a Paranoia
    secundaria offereceria um terreno degenerativo, naturalmente ligeiro em
    si mesmo, não chegado ainda ao de dar por maturidade propria o producto
    da Paranoia genuina; sobre este terreno, em si mesmo degenerado, a
    apparição de uma psychonevrose traria um profundo desequilibrio a um
    espirito já invalido, occasionando a manifestação de um processo com
    apparencias degenerativas, que por si só talvez se não accentuasse.
    Aconteceria, n'uma palavra, como nas fórmas de Paranoia illustradas por
    Leidesdorf, que se originam em graves doenças da infancia, em
    traumatismos, etc., e nas quaes, todavia, é necessario admittir uma
    predisposição, porque, na grande maioria dos casos, nem os traumatismos,
    nem as doenças infantis ou outras determinam ulteriormente a apparição
    da Paranoia. Por maioria de razão, uma doença mental como a mania ou a
    melancolia poderá determinar o apparecimento de uma doença affim,
    baixando os poderes de critica, introduzindo o elemento allucinatorio e
    guiando á demencia, que terá sempre o caracter paranoico. O exhaurimento
    cerebral psychonevrotico (demencia) n'um terreno mais ou menos
    degenerado produz o fructo hybrido da Paranoia secundaria, que não é a
    verdadeira demencia, mas tem alguma coisa da demencia e da Paranoia»[1].

    [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 60.

    Tal é a doutrina da Paranoia secundaria, segundo Tonnini,–profundamente
    diversa, repetimol-o, da theorisação de Griesinger.

    Vejamos agora como o alienista italiano documenta a sua tão original
    concepção.

    Fazendo da Paranoia secundaria uma fórma hybrida, Tonnini procura
    demonstrar que ella não é uma psychonevrose genuina e que não é tambem
    uma degenerescencia pura e simples, mas participa dos caracteres de uma
    e de outra.

    Que não é uma psychonevrose genuina, demonstram-no segundo o escriptor
    italiano, tres ordens de razões: a primeira, não faltar nunca ao delirio
    o ar extranho da Paranoia e os neologismos, que são seus habituaes
    companheiros; a segunda, ser ás vezes o delirio muito menos a
    continuação do que se gerou durante a mania ou a melancolia precedentes,
    do que um delirio novo procedente de disposições paranoicas, como se vê
    n'um caso, que o auctor publica, de delirio exaltado succedendo á
    melancolia; terceira, emfim, a impossibilidade muhas vezes constatada de
    fazer-se um diagnostico differencial entre a Paranoia secundaria e a
    Paranoia primaria, a não ser pela consulta dos anamnesticos.

    Que a Paranoia secundaria não é uma degenerescencia pura e simples,
    resulta das seguintes considerações: a primeira é a presença do elemento
    affectivo, de expansão ou depressão, que falta na Paranoia primaria,
    evidentemente degenerativa; a segunda é a marcha e terminação, que são
    diversas das observadas na Paranoia primaria; a terceira, emfim,
    refere-se á hereditariedade que é sempre menos pesada na Paranoia
    secundaria que na primaria.

    Â conclusão geral do trabalho de Tonnini é esta: «Não sendo uma
    psychonevrose genuina, nem uma pura degenerescencia, a Paranoia
    secundaria compendia e resume n'um mesmo individuo os elementos d'estes
    dois processos, Constitue um traço de união entre elles e demonstra que
    os estados morbidos, como todos os factos naturaes, se não sujeitam a
    uma rígida classificação, mas teem entre si relações variaveis, que
    podem verificar-se associadas n'um mesmo typo pathologico»[1].

    [1] Tonnini, _Loc. cit._, pag. 67.

    * * * * *

    Poderiamos, sem grave inconveniente, suspender n'este ponto a parte
    historica do nosso estudo, por isso que só a França, a Allemanha e a
    Italia teem no assumpto que nos occupa litteraturas psychiatricas
    originaes; completal-a-hemos, todavia, por uma ligeira noticia dos
    trabalhos inglezes, norte-americanos e russos.

    A psychiatria ingleza, orientada n'um sentido eminentemente analytico e,
    sobretudo, caracterisada pela investigação minuciosa dos symptomas e das
    causas, tem-se conservado quasi sempre alheia aos problemas de
    pathogenia que tão apaixonadamente sollicitam os paizes continentaes.

    A noção de _monomania_, com a significação que lhe davam Esquirol e os
    seus discipulos, foi propagada na Inglaterra por Prichard, que a definia
    nos seguintes termos: «A monomania ou loucura parcial é caracterisada
    por uma illusão particular ou erronea convicção do intendimento,
    determinando uma aberração do juizo; o monomaniaco é incapaz de pensar
    correctamente sobre objectos relacionados com a sua illusão especial,
    embora sobre outros assumptos não manifeste apreciaveis desordens do
    espirito»[1].

    [1] Prichard, _Treatise on Insanity_, 1833.

    Mercê dos escriptos classicos de Hack Tuke e Bucknill, o termo
    _monomania_, começou em 1858 a ser substituido pela expressão
    _delusional insanity_, hoje correntemente empregada para indicar os
    delirios systematisados. Mas a designação nova não implica uma
    pathogenia definida, porque o termo _delusion_ significa apenas
    _concepção falsa_ ou _idéa delirante_, sem referencia a origem. Segundo
    Tuke e Bucknill, a _delusional insanity_ poderia ser secundaria, como
    algum tempo pretendeu Griesinger. É o que manifestamente exprimem estas
    palavras: «A concepção falsa (_delusion_) é muitas vezes o ultimo
    symptoma na morbida successão dos phenomenos mentaes; ella póde ser, com
    effeito, o reflexo de uma emoção, e, embora estrictamente signifique
    desordem intellectual, póde ser o resultado e o mero symptoma de uma
    desordem de sentimentos. Na verdade, a loucura affectiva (_emocional
    insanity_) não raro termina por uma perturbação conceptual (_delusional
    disorder_)»[1]. Explanando esta passagem, que tem a data de 1879, os
    auctores apresentam como exemplos de _delusional insanity_ casos que
    poderiam entrar no grupo germanico da Paranoia secundaria.

    [1] H. Tuke and Bucknill, _A Manual of Psychological medicine_, 4.º ed.,
    pag. 204.

    Sob o ponto de vista pathogenico, Maudsley conservou-se fiel á tradicção
    dos seus predecessores inglezes, como o demonstram estas palavras da
    _Pathologia do Espirito_: «Comquanto a monomania intellectual succeda
    muitas vezes á mania aguda, nem sempre isto acontece; por vezes este
    desarranjo do espirito desenvolve-se primitivamente e de um modo
    progressivo, como exaggero de um defeito fundamental do caracter»[2].

    [2] Maudsley, _Pathologie de l'Ésprit_, trad. fr., pag. 441 (1883).

    O que em Maudsley se encontra de verdadeiramente notavel com relação ao
    assumpto que aqui versamos, é a descripção que elle faz, sob o nome de
    _nevrose vesanica_, da Paranoia sem delirio de Tanzi e Riva. Os
    portadores d'esta nevrose ou _temperamento louco_, de origem sempre
    hereditaria, são seres _originaes_ e _excentricos_, de um grande
    _egoismo_, de uma excessiva _vaidade_, seres _desequilibrados_, que,
    não delirando, constituem, todavia, alguma coisa de extranho no meio
    social a que se não subordinam, antes constantemente chocam.

    Em Clouston, cujas interessantes _Lições_ remontam a 1883 e tiveram nova
    edição em 1887, a _delusional insanity_ apparece como synonimo de
    _monomania_ ou _monopsychose_. Buscando as origens da doença, Clouston
    encontra-lhe quatro: a predisposição individual, a mania aguda, as
    intoxicações e traumatismos, e, por ultimo, as sensações falsas. Como se
    vê, a _delusional insanity_ é tanto um delirio systematisado primitivo
    como secundario, tanto essencial, como apenas symptomatico.

    O que em Clouston merece attenção é a sua maneira de definir a
    _delusion_ ou conceito delirante á maneira dos italianos, isto é,
    fazendo intervir o criterio evolutivo. «A educação, a idade, a classe e
    mesmo a raça, até um certo ponto, determinam se uma crença errada é ou
    não um conceito delirante»[1]. Assim, a noção morbida, a idéa
    pathologicamente falsa (_insane delusion_) deve definir-se «uma crença
    n'aquillo que seria inacreditavel para gente da mesma classe, educação e
    raça da pessoa que a expressa»[2].

    [1] Clouston, _Clinical lectures on mental diseases_, 2º ed., pag. 243.

    [2] Clouston, _Obr. cit._, pag. 244.

    Na America do Norte, Spitzka[3], servindo-se do termo _monomania_, expõe
    em 1883 a doutrina da Paranoia, tal como a comprehendem alguns
    alienistas allemães, assignalando-lhe uma origem primitiva e fazendo-a
    assentar sobre um fundo de fraqueza mental. Na classificação dos
    delirios, que divide em expansivos e depressivos, reconhece as
    variedades descriptas por Krafft-Ebing, excepto a processo-maniaca.

    [3] Spitzka, _A Manual of Insanity_, 1883.

    No mesmo anno, Hammond[4] occupa-se dos delirios systematisados, sem,
    todavia, se pronunciar sobre a sua pathogenia.

    [4] Hammond, _A Treatise on Insanity_, 1883.

    Não conhecemos, senão por ligeiras noticias de Tanzi e de Séglas, a
    litteratura russa da Paranoia. A julgar por essas noticias, não é ella
    nem mais abundante, nem mais original que a ingleza e a norte-americana.

    Parece que os mais importantes trabalhos são os de Rosenbach, em 1884, e
    de Greidenberg, em 1885.

    O primeiro d'estes auctores sustenta, como a maioria dos allemães, a
    génese expontanea dos delirios paranoicos, que teem por base a
    debilidade mental. As illusões e allucinações seriam secundarias e não
    primitivas na evolução d'estes delirios. As idéas de grandeza não
    derivariam, por um processo logico, das idéas de perseguição, mas seriam
    contemporaneas destas; de resto, o exaggero da personalidade, que as
    idéas ambiciosas põem em relevo, está já indicado nas idéas de
    perseguição.

    O segundo dos auctores citados reconhece uma Paranoia allucinatoria
    aguda, em que distingue duas variedades: uma hereditaria, e outra
    adquirida, asthenica. Esta seria a mais frequente, e terminar-se-hia
    quer pela cura, quer pela demencia, quer por um certo grau de
    enfraquecimento cerebral.

    SEGUNDA PARTE

    EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

    METHODO A SEGUIR

    Dados resultantes do estudo historico dos delirios systematisados–Exame
    critico dos conceitos clinicos de Delirio Chronico e de Verrücktheit
    aguda e secundaria–Determinação final do conceito anthropologico de
    Paranoia.

    Todo o extenso caminho ascensional até agora andado nos apparece, da
    altura attingida, como uma linha de ideação que, partindo do exame dos
    delirios systematisados, se dirige para o conhecimento da constituição
    intellectual dos delirantes.

    Nas phases iniciaes da sciencia e quando ainda um exclusivo criterio
    symptomatico a orienta, é cada delirio uma doença–que se chama
    melancolia, monomania intellectual, lypemania, delirio de perseguições
    ou megalomania, segundo as modalidades clinicas de _fixidez_, de
    _extensão_, de _contheudo_ ou de _marcha_ das idéas delirantes. Mais
    tarde, a preponderancia do criterio etiologico, imposto á psychiatria
    pelo genio incomparavel de Morel, modifica e alarga a visão do assumpto,
    fazendo pensar no terreno especial de que as concepções falsas emergem;
    não ha então tantas doenças distinctas quantos os delirios, mas, formada
    pela convergencia da noção symptomatica de delirio e do conceito causal
    de predisposição, uma só doença de variaveis aspectos clinicos,
    successivamente denominada loucura hypocondriaca, delirio chronico,
    loucura parcial, delusional insanity e Verrücktheit. Emfim, a tentativa
    de explicar pela doutrina geral da evolução psychica a natureza da
    predisposição delirante origina o conceito de Paranoia como expressão de
    um desvio regressivo, de uma constituição atavica da intelligencia.

    Analyse, synthese e interpretação pathogenica–taes foram, pois, na
    marcha historica do assumpto que nos occupa, as _étapes_ seguidas pelo
    espirito scientifico.

    Mas esta linha evolutiva, que abstractamente nos apparece rectilinea,
    foi na realidade irregular e ondulante. Conhecidos, á maneira de dois
    pontos, o primeiro e o ultimo termo das séries de doutrinas, traçamos
    entre elles a mais curta distancia, como se a filiação das idéas se
    houvesse dado n'um mesmo cerebro; na verdade, porém, as theorias
    nasceram, como vimos, em litteraturas diversas, independentes por vezes
    e accusando cada qual o genio particular e as tendencias especiaes da
    respectiva nacionalidade. Assim, por exemplo, quando ainda o pratico
    espirito francez se occupava em fazer pelas pennas de Lasègue e de
    Foville a minuciosa descripção clinica dos delirios systematisados de
    perseguição e de grandezas, já o cerebro allemão, que os tinha
    entrevisto, prematuramente lhes assignalava pela voz de Griesinger urna
    hypothetica pathogenia. Por outro lado, dentro do mesmo pais, potentes
    organisações intellectuaes quebraram por bruscos saltos de genio o
    parallelismo entre as evoluções logica e chronologica das idéas,
    misturando assim n'um dado momento, como vimos succeder em França com
    Morel, o espirito de analyse e a tendencia synthetisadora. Emfim, o
    inevitavel desejo de explicar, coevo da humanidade, indisciplinada e
    temerariamente semeou de fragmentarias notas pathogenicas o proprio
    periodo analytico do nosso thema, como se viu em Lasègue e em Foville,
    tentando filiar n'uma autoobservação consciente as idéas delirantes.

    É, pois, por um artificio do espirito que figuramos como perfeitamente
    definidas e succedendo-se rectilineamente as phases evolutivas da
    questão que nos occupa. Mas esse mesmo artificio, aliás necessario e
    legitimo, está indicando que a historia, não sendo aqui, como as
    sciencias exactas, uma simples exposição chronologica dos erros e
    illusões que precedem a conquista definitiva da verdade, mas uma
    complicada e suggestiva revista de opiniões, carece de ser completada
    pela critica. Já no que apenas parece uma núa e secca exhibição de
    doutrinas, o espirito critico intervem, procurando no labyrintho de
    contradictorias affirmações a filiação das idéas; é preciso, comtudo,
    que elle se affirme ainda mais larga e mais activamente, julgando as
    theorias e os pontos de vista individuaes ou de escóla em face dos
    factos clinicos e dos principios de psychologia normal e pathologica.

    Eis o que explica a necessidade d'esta segunda parte do nosso trabalho.

    Acceitando nos seus traços fundamentaes a doutrina anthropologica da
    Paranoia–inevitavel corollario da theoria geral da evolução
    psychica–tentaremos demonstrar, aqui, que ella explica todos os factos
    e synthetisa todas as verdades incompletas das doutrinas que a
    precederam; n'este sentido reforçaremos e ampliaremos com novos dados e
    novos pontos de vista a argumentação dos psychiatras italianos.

    Antes, porém, uma tarefa se nos impõe: a de examinar as questões do
    Delirio Chronico e das variedades aguda e secundaria da Verrücktheit,
    sobre as quaes são ainda hoje em França e na Allemanha tão vivos e
    accesos os debates como antes dos trabalhos italianos que, uma vez
    comprehendidos, deveriam tel-os, a meu vêr, definitivamente encerrado.

    I–O DELIRIO CHRONICO

    A etiologia; a marcha; o prognostico–Confronto com os delirios
    polymorphos–A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não e
    vulgar; a passagem á demencia é excepcional–O delirante chronico é um
    degenerado; importante observação pessoal–A prognose dos delirios
    polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico–Dois conceitos de
    Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.

    O delirio chronico de evolução systematica, tal como nas paginas,
    anteriores o descrevemos, não é no espirito de Magnan uma formula
    eschematica ou uma abstracta construcção destinada a fazer comprehender
    um certo grupo de factos, mas uma doutrina concreta que a observação não
    faria senão confirmar.

    Recordemos que duas circumstancias–uma d'ordem etiologica, outra de
    natureza symptomatico-evolutiva, caracterisam a psychose: a primeira
    consiste em que ella ataca na idade média da vida individuos até então
    perfeitamente normaes, embora predispostos; a segunda, era que ella
    segue na sua marcha quatro periodos distinctos, succedendo-se n'uma
    ordem invariavel–o de incubação, o de perseguições, o megalomano e o
    demencial.

    Pelo que respeita á primeira d'estas caracteristicas, diz Magnan: «O
    delirio chronico fere em geral na idade adulta individuos sãos de
    espirito, não tendo até então apresentado nenhuma perturbação
    intellectual, moral ou affectiva. Insisto sobre este facto que tem sua
    importancia, por isso que por esta particularidade os delirantes
    chronicos se separam immediatamente dos hereditarios degenerados, que
    desde a infancia apresentam perturbações que os fazem reconhecer»[1]. Em
    relação á marcha dos symptomas não é menos explicito o medico de
    Sant'Anna: «Estes periodos (incubação, delirio de perseguições,
    megalomania e demencia) succedem-se, diz elle, irrevogavelmente do mesmo
    modo, de sorte que póde excluir-se do delirio chronico todo o doente que
    _d'emblèe_ se torna perseguido ou megalomano, ou que, primeiro
    ambicioso, vem a ser depois perseguido»[2].

    [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 236.

    [2] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

    Os delirios systematisados que pela etiologia ou pela marcha se desviam
    dos severos moldes traçados, ou são meros symptomas de uma affecção
    mental definida ou, se essenciaes, traduzem e denunciam a
    degenerescencia psychica, merecendo n'este ultimo caso os nomes de
    _polymorphos_ ou _multiplos_, em attenção ao seu contheudo, de _delirios
    d'emblèe_, em vista da sua brusca apparição, ou ainda de _delirios
    degenerativos_, olhando á etiologia. Derivada d'estas, mas de uma alta
    importancia pratica, existe ainda, segundo Magnan, uma nova
    caracteristica differencial entre os delirios polymorphos e o Delirio
    Chronico: emquanto este é absolutamente incuravel, comportariam
    aquelles, na maioria dos casos, um prognostico discretamente favoravel,
    pois que, expressões de um desequilibrio mental, podem desapparecer,
    embora possam tambem recidivar.

    Estamos, como se vê, em face de uma doutrina clara, precisa, de
    contornos bem definidos e de uma estructura mathematicamente regular.
    Isto nos facilita a critica.

    É indiscutivel a existencia de doentes que, durante algum tempo
    inquietos, preoccupados e irritaveis, cahem a seguir no delirio de
    perseguições, de que passam, decorridos annos, para o de grandezas,
    acabando pela demencia. Até ao segundo d'estes quatro periodos da
    evolução morbida, não differem taes doentes dos perseguidos de Lasègue e
    de J. Falret, que tambem passam, antes de constituido e systematisado o
    delirio, por uma phase preparatoria de concentração e de inquietude
    mental; o que os separa d'estes é a ulterior passagem ao delirio
    ambicioso, já observada por Foville, e, por fim, á demencia. Ora, se
    esta passagem é, como pretende Magnan, fatal e necessaria, só o Delirio
    Chronico é nosographicamente legitimo: se, ao contrario, ella é fortuita
    e precaria, a legitimidade nosographica pertence ao Delirio de
    perseguições.

    O que diz a observação clinica? Vamos vêr que o seu depoimento está
    longe de ser favoravel a Magnan.

    Pelo que respeita á passagem do delirio de perseguições ao de grandezas,
    affirmou J. Falret que ella não só hão é constante, mas está longe de
    ser vulgar, pois apenas se realisa n'um terço dos casos; pelo seu lado,
    Krafft-Ebing assegura tambem que uma tal transição se observa sómente
    n'um terço dos casos de Verrücktheit, isto é, do conjuncto dos delirios
    systematisados de evolução chronica; e Christian pretende mesmo que
    nunca attingem a megalomania os perseguidos cujo delirio se alimenta
    exclusivamente de perturbações da sensibilidade genital. A longa
    experiencia d'estes alienistas garante a realidade das suas affirmações;
    de resto, são conhecidos em todos os velhos manicomios alguns casos de
    delirio de perseguição durando vinte, trinta e mais annos e terminando
    pela morte do doente, sem que em tão largo periodo tenham surgido idéas
    ambiciosas.

    Mas, se nos perseguidos a passagem ao delirio de grandezas está longe de
    ser constante, nos perseguidos-megalomanos a queda na demencia é um
    facto excepcional. Feriu, com effeito, em todos os tempos a attenção dos
    alienistas francezes a extrema resistencia dos delirantes systematicos á
    dissolução mental que é o termo vulgar das outras vesanias; e os
    observadores allemães e italianos consideram mesmo tão caracteristico
    este facto do não abaixamento de nivel intellectual na Verrücktheit e na
    Paranoia que, como vimos, o fazem intervir na propria definição da
    psychose. Por nossa parte, alguns casos conhecemos de paranoicos,
    perseguidos e perseguidos-megalomanos, tendo mais de vinte annos de
    delirio e mais de cincoenta de idade, em que nenhuma decadencia mental
    se observa. Um d'esses casos é um official reformado do exercito que
    conhecemos em delirio ha, pelo menos, vinte e dois annos, e que ha
    quatorze se encontra no manicomio do Conde de Ferreira; são tão
    inexcediveis as subtilezas da sua dialectica quanto cheias de finura e
    de ironia as suas criticas sobre os acontecimentos politicos, que elle
    segue e interpreta sob um criterio de perseguido-ambicioso. Muitos annos
    de delirio systematisado são impotentes, no dizer de grande numero de
    observadores, para provocar a demencia; e, se esta excepcionalmente
    apparece, é antes aos progressos da idade ou a uma psychonevrose
    intercorrente que deve attribuir-se.

    Resumindo: não é fatal, nem mesmo vulgar a passagem ao delirio ambicioso
    nos perseguidos que, aliás, incubaram o seu delirio; é excepcional a
    terminação pela demencia, quer dos perseguidos, quer dos megalomanos,
    quer, emfim, dos systematisados que passaram n'uma longa evolução
    vesanica pelas successivas phases persecutoria e ambiciosa.

    O perseguido-megalomano-demente é, pois, menos commum que o perseguido,
    tal como vem sendo descripto desde Lasègue e J. Falret; pelo que, fazer
    do Delirio Chronico um typo destinado a conter o Delirio de perseguição,
    seria inverter abusivamente as noções recebidas em nosologia, tornando
    _especie_ o que é apenas _variedade_.

    Examinada a questão do lado da marcha dos symptomas, encaremol-a do
    ponto de vista da etiologia.

    Como foi dito, o delirante chronico não é, no dizer de Magnan, um
    degenerado: póde ser um predisposto, mas não é um candidato á loucura;
    póde ter antecedentes hereditarios, pois que a hereditariedade radia
    sobre todas as doenças mentaes, mas não apresenta até á invasão do
    delirio o desequilibrio caracteristico dos degenerados. O delirio
    d'estes é sempre polymorpho, _d'emblèe_, frouxamente systematisado, não
    tendo a longa duração do delirio chronico, nem o seu córte regular em
    periodos de irrevogavel successão.

    Esta maneira de vêr, em radical opposição com as affirmações dos
    psychiatras allemães e italianos sobre a Verrücktheit e a Paranoia (em
    que o delirio chronico de Magnan, como todos os delirios systematisados,
    se acha contido) merece ser examinada.

    É evidente que uma critica profunda d'este novo aspecto da questão só
    póde fazer-se discutindo a noção da degenerescencia, que não é identica
    para todos os psychiatras, que não tem o mesmo alcance em todos os
    livros e que representa para o medico de Sant'Anna um grupo de factos
    muito diverso do que representa para Krafft-Ebing ou para Tanzi e Riva,
    por exemplo. Ulteriormente examinaremos este assumpto. Notemos, porém,
    desde já que J. Séglas combateu vivamente, em nome da observação
    clinica, a etiologia de Magnan, referindo casos de Delirio Chronico em
    doentes portadores de estygmas physicos da degenerescencia; que Legrain,
    discipulo de Magnan, admitte a possibilidade da evolução caracteristica
    do delirio chronico nos degenerados hereditarios; que Respaut, outro
    discipulo de Magnan, descreve um caso de delirio chronico n'um
    epileptico impulsivo; que Dericq considera aptos a realisarem o delirio
    chronico os proprios fracos de espirito (_degenerados inferiores_, na
    technologia da escóla de Sant'Anna); emfim, que Marandon de Montyel,
    acceitando a doutrina de Magnan emquanto á evolução do Delirio Chronico,
    se afasta resolutamente do mestre emquanto á etiologia, affirmando que
    grande numero de delirantes chronicos se fazem notar desde a infancia ou
    desde a juventude por anomalias de caracter, que Magnan reputa indicios
    seguros da degenerescencia e que não desdizem da pesada herança que
    muitas vezes incide sobre estes doentes.

    Por nossa parte, cremos dever apontar um caso clinico de observação
    pessoal que póde juntar-se aos de Séglas.

    Trata-se de um antigo empregado commercial, celibatario, tendo
    actualmente 45 annos de idade, e a quem já em outra publicação nos
    referimos. O periodo de incubação delirante, a que accidentalmeme
    assistimos, mercê das relações que então mantinhamos com um irmão,
    remonta a 1878; no anno immediato o delirio de perseguições achava-se
    installado, fazendo-se acompanhar de allucinações auditivas e provocando
    da parte do doente reacções violentas: chamavam-lhe, na rua e nos cafés,
    _pederasta, onanista, devasso_, ao que elle respondia aggredindo os
    suppostos insultadores. Refugiando-se successivamente em casas de
    amigos, em pequenos hoteis e em hospitaes particulares, o doente veiu,
    por fim, a dar entrada no manicomio do Conde de Ferreira, em abril de
    1883, apresentando então, de mistura com o delirio de perseguições,
    idéas ambiciosas que apenas exhibia em cartas e só um anno depois
    começou a exteriorisar oralmente: tinha descoberto um novo systema do
    mundo, pretendia reformar toda a sciencia astronomica e todo o systema
    social; as perseguições soffridas e a sequestração, _o mais infame de
    todos os crimes até hoje praticados_, vinham-lhe do Papa, que assim
    defendia os dogmas christãos, e do Rei, que defendia a ordem social
    existente. Lentamente, as idéas ambiciosas foram dominando o delirio de
    perseguições, que hoje se alimenta exclusivamente no prolongamento da
    sequestração; livre, este doente seria o typo perfeito do megalomano.

    Eis aqui um caso a que nada parece faltar do que Magnan exige para o
    diagnostico do Delirio Chronico: iniciada aos 30 annos n'um individuo
    apparentemente são, que era um bom guarda-livros, que sustentava a mãe,
    que mantinha regulares relações sociaes, que se governava
    financeiramente bem, a psychose atravessou, na successão assignalada por
    Magnan, os periodos de incubação, de perseguições e de megalomania, sem
    a presença episodica de idéas hypocondriacas, eroticas ou outras que
    podessem fazer pensar n'um delirio polymorpho. Pois bem; este doente é
    um degenerado incontestavel, ainda para os que acceitam a mais estreita
    noção da degenerescencia. A hereditariedade é n'elle convergente e das
    mais pesadas: o _pae_, prematuramente morto, foi um louco moral; a
    _mãe_, de uma fealdade pathologica, morreu em estado de demencia senil
    aos 70 annos; um _tio materno_ é disforme; um outro _tio_ materno, mal
    dotado de sentimentos de probidade, passa por ter feito uma fallencia
    fraudulenta; um _irmão_, prematuramente morto de tuberculose, foi um
    louco moral, dipsomano, bulimico e de uma vaidade exaggerada; emfim, uma
    _irmã_, louca moral e impulsiva, prostituiu-se. Na historia pregressa do
    nosso doente figura uma febre typhoide grave na puberdade.
    Apparentemente ponderado, elle foi sempre, no dizer dos seus intimos, de
    uma susceptibilidade excessiva, de um grande orgulho; entregava-se a
    leituras para que não tinha preparação e evitava o commercio das
    mulheres. Como estygmas physicos, apresenta o nosso doente _hypospadias_
    e uma notavel _asymetria facial_.

    Este caso, que em nossa propria experiencia é o mais nitido, senão é
    mesmo o unico de um delirio paranoico offerecendo a evolução precisa e
    irrevogavel da entidade de Magnan, longe de confirmar as idéas d'este
    psychiatra em materia de pathogenia, infirma-as eloquentemente.

    Encaremos agora a duração e prognose comparadas do Delirio Chronico e
    dos delirios polymorphos.

    Como foi dito, na doutrina de Magnan a demencia faz parte do Delirio
    Chronico a titulo de phase terminal da sua evolução; é dizer que a
    psychose se installa definitivamente e o seu prognostico é sempre
    infausto. Ao contrario, os delirios polymorphos teriam por habituaes
    sahidas a _cura_ e, menos vezes, a _demencia precoce_, seriam de uma
    duração limitada e comportariam, portanto, um prognostico discretamente
    benigno. Será isto absolutamente exacto? Responde negativamente a
    clinica. De facto, se muitas vezes se obtem a cura dos delirios
    multiformes e se, algumas outras, uma demencia vem precocemente fechar a
    sua evolução, não é menos verdade que ha, ao lado dos que assim
    terminam, um formidavel numero de casos de uma duração perpetua,
    tendendo, se tendem, para a demencia tão lentamente como o Delirio
    Chronico. Os proprios discipulos de Magnan o reconhecem; e Legrain não
    hesita em descrever delirios polymorphos ou degenerativos _de marcha
    essencialmente chronica_. É, de resto, o que a experiencia nos ensina:
    ou se fixem n'um pequeno numero de idéas ou percorram toda a gamma dos
    conceitos morbidos, ha degenerados que deliram perpetuamente. Como
    distinguil-os prognosticamente dos delirantes chronicos? O invariavel e
    tranquillisador _ça guérira_ de Magnan e dos seus discipulos em face dos
    delirios _d'emblèe_, reserva-nos por vezes decepções crueis; muitos
    casos conheço, por minha parte, em que _ça n'a jámais guéri_. De resto,
    as pretendidas curas dos delirios systematisados não são, as mais das
    vezes, senão apparentes, quer porque o doente esconde as suas concepções
    para obter a liberdade, o que não é excessivamente raro nos manicomios,
    quer porque, desapparecendo realmente as idéas morbidas, subsiste a
    disposição a creal-as de novo, isto é, subsiste a mentalidade
    paranoica–a verdadeira doença, no fundo.

    Que Magnan tenha podido descriminar nos delirios systematisados
    evoluções diversas e justificativas de sub-grupos clinicos do que em
    França se chama a Loucura Parcial e na Allemanha a Verrücktheit, é
    perfeitamente incontestavel; que elle tenha proseguido com rara
    sagacidade analytica estudos anteriores sobre a successão dos delirios
    n'um mesmo alienado, é tambem indiscutivel; mas que o Delirio Chronico,
    tal como nos ultimos annos o descreve, seja uma especie morbida e um
    grupo nosologico bastantemente differenciado–pela evolução, pela
    pathogenia e pelo prognostico–dos delirios systematicos dos
    degenerados, eis o que não póde acceitar-se.

    Fechariamos aqui a nossa analyse da pretendida psychose de Magnan, se
    não crêssemos dever insistir n'um ponto, só ao de leve tocado na parte
    historica d'esta monographia: que anteriormente á concepção actual do
    Delirio Chronico existiu no espirito de Magnan uma outra, a exposta por
    Gérente, mais conforme com a realidade clinica e mais proxima da
    Verrücktheit de Krafft-Ebing.

    É certo que, quando na Sociedade Medico-Psychologica Séglas punha em
    evidencia as contradições entre as duas doutrinas, citando trabalhos dos
    discipulos de Magnan, este se defendeu declinando a responsabilidade de
    taes trabalhos e cathegoricamente affirmando que aos respectivos
    auctores concedera sempre a mais inteira independencia. Ora, sem de modo
    algum pretendermos que o medico de Sant'Anna imponha os proprios pontos
    de vista aos seus discipulos, é licito acreditar que estes os acceitam
    e propagam nos seus escriptos. Não é só Gérente que n'uma these de 1883,
    escripta no serviço da admissão e feita de casos clinicos ahi colhidos,
    expõe, sob a designação de _Delirio Chronico_, uma doutrina que em
    pontos capitaes se oppõe á que Magnan apresentou em 1887 á Sociedade
    Medico-Psychologica e reeditou em 1893 no seu livro de _Lições
    Clinicas_. N'um trabalho publicado em 1884, Boucher procede como
    Gérente, chamando aos delirantes chronicos _predispostos mal
    equilibrados_, declarando que _toda a etiologia do Delirio Chronico
    reside na hereditariedade_, e constatando n'um caso de Delirio Chronico,
    diagnosticado pelo proprio mestre, anomalias de caracter degenerativo na
    evolução da infancia; e, n'um artigo publicado já em 1889, o meu collega
    Magalhães Lemos, que aliás viveu perto de dois annos na intimidade
    scientifica de Magnan, descreve como exemplar clinico _frustre_ de
    Delirio Chronico um caso que se iniciou por idéas ambiciosas de colorido
    erotico. E nenhum dos escriptores que acabamos de citar se declara em
    opposição com o mestre, antes crê cada um interpretal-o; nem descobrindo
    signaes de degenerescencia nos portadores do Delirio Chronico, nem
    achando possivel a inversão evolutiva das phases habituaes d'esta
    psychose, pensa qualquer d'elles afastar-se da mais pura orthodoxia
    d'escóla. Tendo seguido o ensino de Sant'Anna e conhecendo as idéas de
    Magnan, Bajenoff escrevia tambem em 1885 que o Delirio Chronico é o
    equivalente da Verrücktheit e da Paranoia.

    A inevitavel conclusão a tirar d'estes factos é que realmente no
    espirito de Magnan o conceito de Delirio Chronico se modificou a ponto
    de apparecer-nos duplo á distancia de alguns annos. Infelizmente, o
    actual não vale o antigo.

    Mas, porque passou Magnan da larga concepção de 1883 para a de hoje, tão
    estreita, tão geometrica e tão rígida que os factos se lhe não
    acommodam? Tornando a degenerescencia como synonimo de desequilibrio, o
    medico de Sant'Anna estabeleceu como dogma fundamental que o degenerado
    só póde delirar de um modo conforme a esse desequilibrio: o seu delirio
    tem de ser, quanto á génese, improvisado; quanto á marcha, irregular e
    descontinuo, ora remittente, ora intermittente; quanto ao contheudo,
    caleidoscopico e multiforme; quanto á duração, ephemero ou pelo menos
    curto, porque a mesma persistencia seria um equilibrio; emfim, quanto á
    associação das idéas, de uma frouxa systematisação, porque esta, quando
    completa, representa uma demorada concentração d'espirito, incompativel
    com a ideação salturaria do degenerado. Pertencem, pois, á
    degenerescencia os delirios _d'emblèe_, os _polymorphos_, os _agudos_ e
    _sub-agudos_ e, por fim, os que não revellam senão uma _fraca tendencia
    á systematisação_. Os não-degenerados só podem delirar de um modo
    diametralmente opposto: o seu delirio tem de ser preparado, incubado; de
    marchar por _étapes_ de irrevogavel successão; de durar a vida do
    doente; de circumscrever-se a um numero limitado de idéas; de ser,
    emfim, contínuo e francamente systematisado. O _Delirio Chronico_ é a
    antithese completa e integral do delirio dos degenerados e só n'estas
    condições póde subsistir em face da doutrina; o conceito de 1883
    dissociou-se, pois, não em vista dos factos, mas da theoria, passando o
    que n'elle havia de eschematico a beneficio do _Delirio Chronico_
    actual, e os casos _frustres,_–a grande, a formidavel massa dos casos
    clinicos, ao lote dos delirios dos degenerados.

    Mas, por outro lado, não sendo o desequilibrio mental senão a
    consequencia de uma grave tara ancestral ou, como diz Magnan, de uma
    _impregnação hereditaria_, o _Delirio Chronico_ só deve realisar-se em
    individuos normaes e válidos para que, ainda no ponto de vista da
    etiologia, elle realise o typo contrario ao dos delirios degenerativos.
    «Delirio chronico e degenerescencia, diz Magnan, oppõem-se totalmente».

    Tal é, a meu vêr, a génese da actual noção de _Delirio Chronico_.
    Tentando impôr-se em nome dos factos, como inducção clinica, ella
    procede realmente, por via deductiva, de uma doutrina presupposta da
    degenerescencia, que está longe, como adiante veremos, de poder
    acceitar-se sem restricções.

    II–A VERRÜCKTHEIT AGUDA

    Dois grupos de psychoses sob a mesma designação: a confusão mental e os
    delirios polymorphos–A Verrücktheit e os delirios incoherentes; critica
    das opiniões de Schüle–A Verrücktheit e os delirios systematisados de
    marcha aguda; critica das opiniões de Krafft-Ebing–Observação
    pessoal–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    Duas ordens de factos, a meu vêr inteiramente distinctos, se encontram
    englobados na Verrücktheit aguda: de um lado, delirios systematisados
    que sómente pela rapidez da sua marcha, pela curabilidade e, ás vezes,
    pelo excessivo predominio de allucinações differem da Verrücktheit
    chronica; do outro, delirios incoordenados, asystematicos e
    eminentemente sensoriaes que, no dizer mesmo de Mendel, de Schüle e de
    Cramer, não se descriminam bem, quer da mania, quer da melancolia
    estuporosa. É isto o que resulta da leitura attenta dos auctores que
    defendem a Verrücktheit aguda.

    Os primeiros d'estes delirios, não implicando nem uma obnubilação da
    consciencia, nem permanentes estados emocionaes de expansão ou
    depressão, separam-se nitidamente das psychonevroses; e, se bem que o
    predominio do elemento sensorial lhes imprime um caracter caleidoscopico
    e uma evolução irregular, é certo que elles manteem sempre aquella
    activa coordenação logica das idéas que constitue o _systema delirante_.
    Os segundos, pelo contrario, implicando a perda de lucidez e
    acompanhando-se de alterações affectivas, impõem-se pela anormal
    associação das idéas, que ora se precipitam e dissociam, como na mania,
    ora convergem na determinação de estados catatonicos, segundo a
    imprevista direcção das allucinações, sempre renovadas.

    Confundir estas duas cathegorias de delirios, sob pretexto de que é
    identico o seu contheudo e de que em ambas se realisa uma intervenção
    preponderante do elemento allucinatorio, é, ao que penso, cahir n'um
    erro grosseiro, porque os invocados elementos de analogia são
    infinitamente menos valiosos que os caracteres differenciaes. A
    identidade das idéas morbidas não é razão para que confundamos, por
    exemplo, os delirios de perseguição da melancolia e da Paranoia ou os
    delirios ambiciosos da paralysia geral e da mania; tambem o predominio
    de allucinações, ainda quando identicas, como as zoopsicas, não é razão
    para que não distingamos, por exemplo, os delirios alcoolico e
    hysterico. As idéas delirantes e as allucinações da Verrücktheit são as
    de todas as psychoses; fazer, pois, d'esses elementos um criterio
    diagnostico e nosographico seria regressar ao cahos de que a pathologia
    mental só conseguiu sahir por successivos esforços de analyse. Não são
    os symptomas, mas as suas origens pathogenicas, a sua coordenação e a
    sua marcha que no actual momento orientam a diagnose psychiatrica.

    Assim, o rigor scientifico exige que estudemos em separado os dois
    grupos de delirios, que alguns auctores allemães reunem sob a designação
    de Verrücktheit aguda.

    Comecemos pelos delirios systematicos.

    A psychiatria allemã, creando os termos de Verrücktheit e Wahnsinn para
    designar os delirios, teve sempre em vista accentuar differenças entre
    os que se impõem pela coordenação dos conceitos morbidos e os que se
    denunciam por um grau maior ou menor de incoherencia. Decerto, mudou cem
    vezes o valor d'estes termos, que teem uma historia tão complicada e tão
    longa como a da propria sciencia mental; decerto, a Verrücktheit d'hoje
    não é o delirio estereotypado dos cerebros enfraquecidos, descripto por
    Griesinger, como o Wahnsinn não é o delirio exaltado e optimista de que
    o mesmo auctor traçou um quadro clinico inteiramente analogo ao da
    monomania intellectual de Esquirol;–mas sempre, desde Griesinger até
    Westphal, os dois termos conservaram, através de todas as vicissitudes,
    um vestigio inapagavel dos primitivos significados. A confusão
    principiou sómente quando o professor de Vienna, creando a variedade
    aguda da Verrücktheit, integrou no quadro d'esta psychose delirios
    systematicos e até dissociados em que as allucinações desempenham um
    papel dominante. Será licito manter uma tal confusão?

    Já na parte historica d'este _Ensaio_ expozemos em detalhe não só os
    argumentos com que os adversarios de Westphal rejeitam da Verrücktheit o
    hallucinatorischer Wahnsinn, mas os motivos por que fazem d'este um
    grupo das psychonevroses. Não reeditaremos essa vigorosa critica;
    examinaremos, porém, os argumentos com que Schüle pretende justificar a
    opinião contraria.

    Não contesta este eminente psychiatra que entre os casos typicos ou,
    para me servir da sua propria linguagem, entre os casos extremos da
    Verrücktheit e do Wahnsinn existam realmente as profundas notas
    differenciaes apontadas por Fritsch e Krafft-Ebing, entre outros;
    sustenta, porém, que ha casos de transição em que ellas se esbatem,
    ficando então a descoberto a fundamental identidade dos dois processos.

    A confissão, por parte de Schüle, de que são justas as differenciações
    notadas pelos adversarios da escóla de Vienna entre a Verrücktheit e o
    Wahnsinn que n'ella se pretende incorporar a titulo de variedade aguda,
    é um facto importante e que deve registar-se, porque essas
    differenciações referem-se, como vimos, à coordenação dos symptomas, à
    etiologia, à marcha, à pathogenia, n'uma palavra, a quanto serve para
    definir uma entidade nosologica. A coordenação symptomatica, porque,
    enquanto na Verrücktheit as idéas delirantes formam systema e as
    allucinações occupam um logar secundario ou até nullo, no Wahnsinn o
    delirio é incoherente e os erros sensoriaes teem o primeiro plano; á
    etiologia, porque, emquanto a Verrücktheit se installa sem causa
    exterior apparente, o Wahnsinn reconhece como determinantes todas as
    causas capazes de provocarem uma asthenia profunda dos centros nervosos;
    á marcha, porque, tendo a Verrücktheit uma evolução essencialmente
    chronica, o Wahnsinn termina agudamente pela cura, pela demencia ou pela
    morte; á pathogenia, porque, emquanto a Verrücktheit se interpreta como
    um processo constitucional ou degenerativo, o Wahnsinn é uma doença
    accidental ou psychonevrotica. A estes multiplos elementos differenciaes
    outros se juntam ainda: ao passo que na Verrücktheit as allucinações,
    predominantemente auditivas, são determinadas pelo curso do delirio,
    dependendo o erethismo sensorial da absorvente fixidez das idéas, que
    provocam a apparição das imagens, no Wahnsinn succede que é o
    automatismo dos centros sensoriaes que determina as idéas delirantes,
    por esse facto variaveis, movediças, dissociadas; tambem, ao passo que
    na Verrücktheit o elemento affectivo não só é secundario, mas tende a
    apagar-se com os progressos mesmos da doença, no Wahnsinn, embora
    igualmente secundario pela génese, pois é determinado pelo contheudo das
    idéas, esse elemento representa um papel importante, mercê das vivas
    allucinações emergentes de todos os sentidos.

    Para diminuir o valor d'este quadro de differenciações nosologicas, ao
    mesmo tempo numerosas e profundas, argumenta o medico de Bade affirmando
    não só que na chronica evolução da Verrücktheit se observam phases
    agudas de Wahnsinn, mas que d'este se póde passar áquella, o que, a seu
    vêr, demonstra a identidade nosologica dos dois processos morbidos.

    Examinemos o valor d'estes argumentos.

    Quanto ao primeiro, sem de modo algum contestarmos a realidade clinica
    dos factos invocados por Schüle, pois mais de uma vez temos observado
    episodicos delirios asystematicos no curso da Paranoia, seja-nos
    permittido notar, na excellente companhia de Krafft-Ebing, de Fritsch,
    de Kraepelin e de Meynert, que esses factos comportam uma interpretação
    muito diversa da que lhes dá o celebre medico de Bade.

    Qualquer que seja a physionomia que apresentem, depressiva, expansiva ou
    mixta, esses delirios asystematicos podem conceber-se como não fazendo
    parte integrante da evolução da Verrücktheit, mas coexistindo com ella a
    titulo de complicações ou de intercorrencias psychonevroticas, tendo uma
    etiologia e uma marcha autonomas. Porque não? «Nenhuma razão há, dizem
    Tanzi e Riva, para crêr que o cerebro de um paranoico possa oppôr ás
    causas das doenças intercorrentes uma immunidade de que muitas vezes o
    individuo normal é incapaz, antes tudo conspira para nos fazer admittir
    que elle apresenta a essas causas uma resistencia menor»[1]. Assim
    pensamos tambem, recordando os casos de observação pessoal.

    [1] Tanzi e Riva, _Loc. cit._, vol. XII, pag. 417.

    Um d'estes, notavel entre todos, é o de um paranoico-originario, que já
    aos 17 annos se cria victima de tentativas de envenenamento e em quem
    sempre uma exaggerada autophilia se notou. Mas, nem as idéas de
    perseguição, nem a hyperbolica opinião dos seus meritos lhe embargaram o
    passo no curso de direito, que concluiu. Ridiculo e profundamente
    desequilibrado, de grande memoria e de pequena reflexão, desconfiado,
    phantasista e discursador, foi fazendo o seu caminho até delegado de
    procurador regio na India Portuguesa. Ahi, excessos de toda a ordem,
    juntos a uma febre biliosa, aggravaram-lhe o mal; regressando, muito
    fraco, á metropole, systematisava o seu delirio até ao ponto de viver só
    e de passar habitualmente a ovos e a agua, que elle proprio ia colher de
    noite ás fontes. Um dia, tendo chamado a casa um operario para lhe
    encadernar uns livros, foi por este traiçoeiramente aggredido, recebendo
    na cabeça um extenso e profundo traumatismo. A partir d'esse dia,
    allucinações auditivas, que até então parecia não terem existido,
    irromperam com extranha violencia; ao mesmo tempo apossou-se do doente
    um sentimento intenso de terror e de anciedade que o levou, poucos dias
    depois do traumatismo, a projectar-se de uma janella abaixo, fazendo uma
    luxação. Simultaneamente, illusões visuaes, confusão constante de
    pessoas, rejeição de alimentos e absoluta insomnia. Trazido ao hospital,
    persistiu algum tempo n'esta situação; rapidamente, porém, idéas de
    grandeza, se juntaram. O encadernador, tentando matal-o, foi apenas um
    instrumento de quem, por inveja do seu alto genio incomparavel, buscava
    desfazer-se d'elle. Tornou-se aggressivo então, fabricando uma nova
    religião, crendo-se superior a Christo, e começou a manifestar idéas
    eroticas e allucunações visuaes: masturbava-se, dizia obscenidades,
    proclamava as excellencias da pederastia, dos amores lesbicos, e via
    mulheres núas em attitudes lascivas. Mas, subitamente, derivou a idéas
    hypocondriacas e d'estas a um delirio de humildade, rojando-se no chão,
    beijando os pés dos companheiros, chorando, pedindo perdão a todos,
    rejeitando os alimentos n'um intuito de penitencia. Pouco a pouco
    resvallou no mutismo, a physionomia tornou-se-lhe parada, inexpressiva,
    contrahiu habitos immundos, apresentou, n'uma palavra, o quadro da
    demencia com accentuada desnutrição. Por mezes persistiu n'este estado,
    indifferente a sollicitações naturaes, deitado sobre bancos ou no chão
    da enfermaria, movendo-se como um automato, não respondendo a ninguem.
    Julguei-o então perdido e cheguei a consignar com segurança esta
    impressão clinica. Mas um dia, abruptamente, o doente dirige-se a mim,
    cumprimenta-me polidamente e diz-me que se sente, emfim, restabelecido,
    que deseja sahir, que quer escrever uma carta a um irmão para que venha
    buscado. Do pseudo-demente nada restava; a datar d'esse dia ficou o
    primitivo delirante, o perseguido-ambicioso quasi sem allucinações, que
    podia viver fóra do hospital e que eu, com effeito, deixei sahir algum
    tempo depois. Isto passou-se em 1884; de então até hoje fez o doente
    duas novas entradas no hospital, reproduzindo quasi sem variantes o
    quadro que vimos de esboçar. Conta-me um irmão que o aggravamento da
    doença se manifesta sempre por uma subita explosão de allucinações,
    succedendo a excessos venereos e alcoolicos.

    Como interpretar este caso? É evidente que os defensores da Verrücktheit
    aguda veriam n'elle um excellente exemplar d'esta fórma clinica; os que
    a combatem, porém, pensariam no hallucinatorischer Wahnsinn de
    Krafft-Ebing, na Amencia de Meynert, na Verwirrtheit de Fritsch, no
    Asteniche Delirium de Mayser, na confusão mental, emfim.

    Os primeiros invocariam, com Werner, o caracter egocentrico das
    concepções delirantes do nosso paranoico; os segundos poriam em
    evidencia o contraste entre um delirio de humildade e os delirios de
    perseguições e de grandezas, notariam a phase de estupidez ou demencia
    aguda que não pertence ao quadro da Verrücktheit, fariam valer o estado
    de anciedade, salientariam o phenomeno somatico da desnutrição,
    appellariam, emfim, para a etiologia asthenica do caso.

    Ora, emquanto no quadro clinico descripto tudo se reduz a uma acuidade
    maior dos delirios persecutorio e ambicioso, que a insistencia das
    allucinações explica de sobra, não seria difficil acceitar o diagnostico
    de Verrücktheit, pois que nem a systematisação dos conceitos se perdeu,
    nem o seu caracter egocentrico e autophilico deixou de fazer-se notar; e
    a mesma anciedade poderia acceitar-se como secundario symptoma de
    reacção em face dos erros sensoriaes.

    Mas é já muito difficil explicar n'esta ordem de idéas a phase de
    espirito que conduz o nosso doente a rojar-se no chão, a abater-se
    diante dos companheiros, a recusar os alimentos para se penitenciar e a
    pedir perdão de imaginarias culpas. Por outro lado, pensando na
    etiologia d'este caso, em que concorrem formidaveis elementos de
    esgotamento e de asthenia, é mais facil explicar por ella do que pela
    acuidade do delirio a demencia funccional que por mezes observei.
    Segundo a minha pratica pessoal, o onanismo abusivo seria frequentemente
    o responsavel de subitas invasões allucinatorias, acompanhadas de
    reacções emotivas de uma viva feição depressiva e anciosa em paranoicos
    averiguados. Assim, na interpretação do caso que citei, como de todos os
    de igual physionomia, julgo mais consentaneo com os dados da sciencia
    invocar uma complicação psychonevrotica (seja qual fôr o nome preferido
    para exprimil-a) do que alargar o quadro da Verrücktheit pela creação de
    uma obscura variedade aguda.

    Entretanto, comprehende-se que esta questão seja de certo modo
    secundaria para nós que, como Tanzi e Riva, dissociamos os conceitos de
    Paranoia e de Verrücktheit, vendo n'esta apenas uma habitual, mas não
    necessaria expressão symptomatica d'aquella.

    Que os delirios do paranoico sejam agudos ou chronicos; que se
    acompanhem ou não de allucinações; que conservem sempre ou percam por
    algum tempo a sua costumada systematisação–eis o que nos não preoccupa
    excessivamente, por isso que concebemos a Paranoia como uma constituição
    mental anterior a todos os delirios, sobrevivendo-lhes e podendo até
    existir independente d'elles.

    É tempo, porém, de examinarmos o segundo dos argumentos de Schüle em
    defeza da Verrücktheit aguda.

    Notando, como Westphal, que ha casos em que de um hallucinatorischer
    Wahnsinn se passa immediatamente e sem descontinuidade a um delirio
    systematisado, conclue o insigne psychiatra que a Verrücktheit offerece
    algumas vezes uma phase inicial aguda.

    Contesta Krafft-Ebing, como vimos em outro logar, os casos invocados por
    Schüle, proclamando que a transição do hallucinatorischer Wahnsinn á
    verdadeira Verrücktheit jámais se realisa. Por nossa parte nunca a
    observamos tambem; mas de modo nenhum nos sentimos dispostos, por isso
    só, a contestal-a. Em materia de facto, póde uma unica observação
    positiva ter mais alta significação que toda uma longa experiencia
    negativa; e é certo que não só muitos dos modernos alienistas affirmam
    ter observado casos analogos aos de Schüle, mas já em Delasiauve
    encontramos a affirmação clara de que a _confusão mental_ offerece na
    sua symptomatologia idéas morbidas que podem tornar-se o nucleo de um
    verdadeiro _delirio parcial_.

    Mas se nos não repugna acceitar a realidade dos casos em que Schüle
    baseia o controvertido thema da Verrücktheit aguda, cremos que elles
    podem interpretar-se de um outro modo. Porque não admittir, por exemplo,
    na comprehensão d'esses casos que os delirios asystematico sensorial e
    systematisado se succedem como factos morbidos distinctos, tendo cada
    qual uma etiologia privativa e uma evolução especial–nascendo o
    primeiro de causas asthenisantes e o segundo da maturidade degenerativa,
    marchando o primeiro para a extincção, e o segundo para a chronicidade?
    No cerebro eminentemente vulneravel do paranoico as causas depressivas e
    esgotantes provocariam a apparição de um confuso delirio sensorial, como
    outras determinariam a mania ou a melancolia; sómente, a psychonevrose,
    abalando esse cerebro maximamente predisposto, em vez de liquidar pela
    cura, apressaria a maturidade paranoica, isto é, o momento psychologico
    da eclosão de um delirio systematisado.

    Mas, ainda uma vez: desde que Paranoia e Verrücktheit não são conceitos
    equivalentes, a admissão de uma variedade aguda da segunda de modo
    nenhum infirma a manifesta chronicidade da primeira.

    Posto isto, consideremos o grupo dos delirios que, embora tendo uma
    evolução por vezes muito rapida, apparecendo sem preparação,
    acompanhando-se de multiplas allucinações e terminando pela cura,
    manteem constantemente um apreciavel grau de activa systematisação.

    Pertencem estes delirios ao quadro da Verrücktheit? Parece-nos que a
    resposta affirmativa se impõe. Com effeito, se a sua marcha contrasta
    frisantemente com a dos casos em que as concepções morbidas se
    perpetuam, cobrindo dezenas de annos, é certo que lhes não falta um
    unico dos caracteres essenciaes da Verrücktheit: nem a egocentricidade
    das idéas delirantes, hypocondriacas, eroticas, persecutorias ou
    ambiciosas, nem a coordenação d'ellas em systema, nem o predominio das
    allucinações auditivas, nem a origem essencialmente hereditaria. É,
    pois, a estes delirios, conhecidos em França pelos nomes de
    _polymorphos_ ou _d'emblèe_ que exclusivamente conviria, a meu vêr, a
    designação de Verrücktheit aguda.

    Os que, como Krafft-Ebing, não admittem esta fórma, são constrangidos,
    todavia, a fallar na rara _curabilidade_ da Verrücktheit e na sua marcha
    por vezes subaguda, o que, no fundo, é conceder aquillo que
    ostensivamente se nega. Reconhecer a legitimidade clinica da
    Verrücktheit aguda, no sentido em que acabamos de a definir, parece-nos,
    portanto, inevitavel.

    Por nossa parte hesitamos tanto menos em fazel-o quanto é certo que na
    Verrücktheit vemos apenas uma possivel manifestação da Paranoia.

    Quando entre os delirios systematisados (Verrücktheit) e a constituição
    mental (Paranoia), que elles revellam nos dominios intellectuaes, se
    estabelece uma perfeita equivalencia, o reconhecimento de uma variedade
    aguda e curavel dos primeiros implica uma perigosa negação da doutrina
    que faz da segunda uma doença de evolução essencialmente chronica e
    incuravel, uma degenerescencia, em summa. Mas, precisamente se
    encarregam os factos de pôr em relevo o lado fraco d'esta doutrina e a
    exactidão da que sustentamos com Tanzi e Riva. Os delirios
    systematisados podem revestir a fórma aguda e curar; o que é chronico,
    porém, e não cura jámais é a anomala organisação psychica de que elles
    não fazem senão traduzir a maxima intensidade ideativa. Póde ser aguda e
    curar a Verrücktheit; o que é chronico e não cura é a Paranoia.

    III–A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA

    Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
    interpretação pathogenica–A opinião de Tonnini; modificação
    introduzida–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    A extensão com que na parte historica d'este _Ensaio_ tratamos o velho
    thema da Verrücktheit secundaria, tão caro aos allemães, permitte-nos
    agora limitar muito as considerações de ordem critica a fazer sobre
    elle.

    Disse alguem que, a partir dos trabalhos de Sander e Snell, a pergunta:
    _Existirá uma Verrücktheit primaria?_ começou a ser substituida por esta
    outra: _Existirá uma Verrücktheit secundaria?_ E nós vimos, com effeito,
    que a extensão d'esta diminuiu sempre na medida em que augmentava a
    d'aquella. Entendamo-nos, porém: se os delirios systematisados que
    succedem á mania e á melancolia de longa duração, não merecem realmente
    um logar no quadro clinico da Verrücktheit, que é uma doença
    constitucional, mas no grupo das psychonevroses, de que são apenas
    estados terminaes prefaciando a loucura e revellando já, pela sua mesma
    inactiva e apagada coordenação, um enfraquecimento cerebral, é
    indiscutivel que a observação clinica nos permitte uma ou outra vez
    surprehender delirios persecutorios e ambiciosos vivamente
    systematisados, activos e tenazes, succedendo, todavia, a psychoses de
    manifestações maniacas, melancolicas e até mesmo apparentemente
    demenciaes. Raros, estes ultimos delirios systematisados não o são
    tanto, comtudo, que os não tenham observado psychiatras de todos os
    paizes. Como interpretal-os? Onde achar-lhes logar dentro das modernas
    classificações?

    A resposta parece-nos poder derivar-se da doutrina formulada por
    Tonnini: Estes delirios são paranoicos; e a psychonevrose que os
    precedeu, impotente em si mesma para os crear, provocou-os todavia,
    estimulando a peculiar actividade ideativa de um cerebro degenerescente.
    É possivel que, a não se realisar a incidencia perturbadora do elemento
    emocional implicado na psychonevrose, esse cerebro tivesse feito a sua
    evolução sem manifestações delirantes, comquanto houvessem de
    caracterisal-o sempre um exaggerado subjectivismo e uma apreciavel
    egocentricidade. Vulneravel, porém, elle não póde resistir ás causas que
    nos espiritos sãos determinam as psychoses; uma d'estas installou-se,
    portanto. O que deverá succeder a partir d'esse momento? Naturalmente,
    alguma coisa diversa do que costuma passar-se nos cerebros normaes: em
    vez de marchar para a cura ou para a demencia franca, a psychonevrose
    apressará aquella _maturidade degenerativa_ de que fallam Tanzi e Riva
    e que tem por expressão intellectual um delirio systematisado. Já em
    manifesto desequilibrio e já cançado pela passagem tormentosa da
    psychonevrose, o cerebro não poderá dar a este delirio secundario a
    forte seiva de que se alimentam os primitivos; entretanto, dar-lhe-ha
    ainda a força psychica precisa a uma evolução que póde ser longa e de
    certo modo movimentada. É n'este especial sentido que, a meu vêr, a
    Verrücktheit secundaria deve ser admittida.

    Note-se, porém, que dizemos Verrücktheit e não Paranoia, no que
    divergimos de Tonnini. E esta divergencia não é só de fórma, mas de
    fundo, não apenas de nomenclatura, mas até certo ponto de interpretação.
    Com effeito, se bem comprehendemos todo o pensamento do escriptor
    italiano, a psychonevrose sommar-se-hia com uma simples predisposição
    vesanica para determinar a Paranoia, que os delirios systematisados
    secundarios symptomatisam; ao contrario, eu penso que a Paranoia
    preexiste á psychonevrose, embora tendo uma fórma mitigada e revestindo
    até ao advento d'esta uma feição mal definida, um verdadeiro typo
    indifferente. A psychonevrose que, na interpretação de Tonnini,
    contribuiria essencialmente para a constituição da Paranoia, não faz, a
    meu vêr, mais do que accentual-a, provocando a Verrücktheit, isto é,
    imprimindo-lhe um definido typo delirante. Todas as degenerescencias
    teem graus intensivos ou de gravidade: na ordem das paranoicas a mais
    grave seria a que mais rapidamente chega á maturidade, a mais precoce, a
    que desde a puberdade se revella por delirios systematisados, isto é,
    pela _Verrücktheit originaria_; a menos grave seria a que só attinge a
    maturidade por virtude de um abalo emocional, a mais tardia, a que se
    manifesta pela _Verrücktheit secundaria_. Mas em qualquer dos dois
    casos, como cm todos, a anomala constituição cerebral que na essencia
    caracterisa a Paranoia, é congenita. E eis porque eu não hesito em
    acceitar uma _Verrücktheit secundaria_, como não hesitei em admittir uma
    _Verrücktheit aguda_, comquanto sustente a _primitividade_ e a
    _chronicidade_ essenciaes da Paranoia.

    IV–O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
    pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
    psychiatria franceza–A autoobservação e o raciocinio não representam um
    papel na génese dos delirios paranoicos–Depoimento dos factos–A
    primitividade dos delirios paranoicos, sua origem ideativa.

    Entre os erros concebidos a proposito da origem, sempre anciosamente
    procurada, dos delirios de perseguições e de grandezas, um ha que,
    embora contradictado pela experiencia, se divulgou, sobretudo em França,
    com manifesto prejuizo de uma sã pathogenia: refiro-me ao que faz
    intervir na génese d'estes delirios a autoobservação e o raciocinio do
    doente. Lasègue, affirmando que o perseguido, normal até ao momento da
    invasão da doença, annunciada por um vago, mas profundo mal-estar, se
    perscruta, se dobra sobre si mesmo, e acaba, não sem hesitações, por
    encontrar na hostilidade dos homens a interpretação dos seus
    soffrimentos, foi o creador d'esse erro funesto, que Foville generalisou
    mais tarde, fazendo proceder a megalomania da necessidade que o
    perseguido sente de explicar-se os motivos das acintosas miserias
    soffridas.

    Repetida como uma sorte de _cliché_ por successivas gerações de
    alienistas franceses, esta gratuita vista do espirito, que só Morel
    repudiou, insinua-se ainda nos livros contemporaneos; e assim é que,
    embora sem um só caso em apoio, Magnan, á maneira de Foville, enumera o
    _raciocinio_ entre os fundamentos possiveis da transição, no Delirio
    Chronico, da phase persecutoria á phase ambiciosa.

    Comecemos por examinar esta singular pathogenia em relação ao delirio de
    perseguições a que primeiro se applicou.

    Segundo ella, o perseguido, como um homem são, abruptamente assediado de
    obscuras emoções dolorosas, buscaria comprehendel-as, determinar-lhes as
    causas, fazendo conjecturas e construindo hypotheses, entre as quaes
    está a que, por successivas e mais ou menos demoradas exclusões, elle
    acceita como a melhor e mais explicativa: a de uma perseguição.

    A apparente nitidez d'esta pathogenia seduziu os espiritos; e, comtudo,
    ella é radicalmente falsa.

    Em primeiro logar, a observação clinica protesta contra, a normalidade
    do perseguido anteriormente á invasão do delirio, proclamando-o não só
    um predisposto, as mais das vezes hereditario, mas um verdadeiro
    candidato á loucura,

    Antes de imaginar o seu Delirio Chronico anti-degenerativo,
    releve-se-me a expressão, Magnan reclamava para os delirantes
    systematisados uma ancestralidade vesanica de duas gerações, pelo menos;
    e esta idéa, já antes emittida por Morel, é a que sempre dominou as
    psychiatrias allemã e italiana, accordes em acceitar como
    hereditariamente invalido o cerebro paranoico. Por outro lado, jámais se
    estudou de perto a vida predelirante de um perseguido sem que n'ella se
    encontrassem seguras manifestações de exaggerado subjectivismo, de
    autophilia, de egocentricidade, tornando difficil, melindroso e ás vezes
    chocante o commercio social d'este paranoico. E, como se tudo isto não
    fosse bastante para condemnar a ingenua supposição da normalidade de um
    espirito, que ámanhã fabricará, sem causas determinantes, um absurdo e
    tenacissimo delirio, surge não raro no perseguido a estygmatisação
    physica da degenerescencia.

    Em segundo logar, é absolutamente inexacto que o inicial symptoma da
    doença seja no perseguido, como a theoria inculca, um phenomeno obscuro
    de ordem sensivel, uma vaga e confusa emoção de que se encontre
    excluido, como nos prodromos de outras affecções, um elemento ideativo.
    A experiencia diz precisamente o contrario.

    Quando o perseguido começa, no periodo chamado de incubação do delirio,
    a isolar-se da familia e dos amigos, a evitar o convivio, a alterar os
    seus habitos de existencia, a irritar-se, se o censuram ou simplesmente
    o interrogam, fal-o já por desconfiança do meio, que reputa hostil. É
    certo que, a titulo de vaga, mas persistente emoção egocentrica, essa
    desconfiança, mitigada e ainda compativel com a vida social, o
    caracterisou sempre; agora, porém, ella tornou-se definido _sentimento_
    pela clara apparição no espirito de uma _idéa_ de hostilidade e de
    perigo. A inquirição perscrutadora do doente a tudo quanto o cerca, a
    procura minuciosa e subtil de provas palpaveis e evidentes da
    mal-querença dos outros, a eclosão, emfim, das illusões sensoriaes,
    tudo prova, irrecusavelmente, que a morbida sensibilidade do perseguido
    se exerce sob o dominio de um pensamento definido, de uma _idéa_ que a
    orienta, que lhe imprime uma direcção, que a conduz. A illusão auditiva,
    phenomeno prodromico dos mais precoces e do qual a allucinação ha de
    surgir, suppõe já um erethismo sensorial a que preside, consciente e
    nitida, embora ainda susceptivel de ulteriores desdobramentos, a _idéa_
    de uma hostilidade exterior. E é mesmo, é justamente porque essa
    idéa está presente no espirito e se lhe impõe que o perseguido
    paralogisticamente exhibe, como provas de uma mal-querença,
    interpretações aggressivas das palavras mais indifferentes, dos sons
    mais insignificativos, dos gestos e dos successos mais incaracteristicos;
    cahindo sinceramente n'uma petição de principio, o perseguido prova que
    no seu cerebro existe uma idéa que o tyrannisa, que o empolga, e que,
    tornada um centro de associações psychicas, lhe vicia o raciocinio.
    Que essa idéa, como todas, proceda de preexistentes emoções, eis o que
    não contestamos, porque tudo na ordem do pensamento directa ou
    indirectamente reponta do humus da sensibilidade; mas só depois que
    ella espontaneamente appareceu na consciencia é que o delirio se
    iniciou. Não é, pois, emotiva, mas ideativa a origem directa e
    immediata d'este.

    O que-se passa na melancolia esclarece, pelo contraste, a situação
    paranoica. Ali, com effeito, o phenomeno inicial é d'ordem emotiva, pois
    que se reduz a uma depressão consciente, que estados de cenesthesia
    morbida provocam: a tonalidade psychica baixa, o doente sente-se diverso
    do que fóra, a dôr moral invade-o, e é ao fim d'algum tempo d'esta
    situação anormal que o delirio surge, quer como tentativa de
    interpretação do novo modo de ser, quer como adequada expressão ideativa
    de um sentimento geral de impotencia. As idéas de crime, de peccado, de
    doença incuravel, de miseria, de incapacidade, de possessão, n'uma
    palavra, todas as idéas que formam o contheudo do delirio melancolico,
    são ulteriores á depressão dolorosa, que é o facto morbido primitivo.
    Essas idéas não procedem do inconsciente, não irrompem de obscuras
    emoções por ignorados e mysteriosos processos, mas succedem a um
    consciente sentimento de dôr, que tem as suas raizes em phenomenos
    somaticos apreciaveis. O melancolico sente-se mudado, o que é exacto, e
    torna-se porisso autoobservador, primeiro, e delirante depois; o
    perseguido, esse, sente mudado em relação a si o mundo exterior, o que é
    falso, o que presuppõe uma ideação anormal e, portanto, um começo de
    delirio, que a observação objectiva apenas ajudará a systematisar.
    Emquanto o melancolico, abatido e humilhado por um sentimento real de
    dôr, que é a expressão consciente de perturbações cenesthesicas, se
    concentra e se interroga, fazendo um delirio _secundario_, o perseguido,
    egocentrico e autophilico, partindo de uma idéa chimerica de
    hostilidade, abre os sentidos e observa o mundo externo, delirando
    _primitivamente_.

    A autoobservação e o raciocinio na génese do delirio de perseguições não
    passam de miragens do espirito. No perseguido a attenção é dirigida em
    sentido objectivo; e o raciocinio, longe de intervir na formação do
    delirio, é por elle radicalmente falseado sempre que se trata das
    relações entre o mundo exterior e o Eu. A verdade clinica é, pois,
    precisamente o contrario do que affirma a doutrina de Lasègue; a verdade
    é que o delirio surge á sua hora, como o fructo amadurece e o grão
    germina: espontaneamente, fatalmente.

    Vejamos agora o que se dá com o delirio ambicioso que succede ao de
    perseguições.

    Haverá n'este caso, como pretendia Foville e como á saciedade se tem
    repetido, uma transformação consciente e raciocinada?

    O que acabamos de dizer sobre a direcção exclusivamente objectiva da
    attenção do perseguido, faz desde já suppôr o contrario. A attitude
    reflexiva, que seria necessaria para indagar as causas de uma
    hostilidade do meio, não está nos habitos do perseguido; por outro lado
    ainda, não é de modo nenhum natural que se procurem as origens de um
    facto acreditado, como os dogmas, com a inabalavel fé, que dispensa
    interpretações e as rejeita mesmo.

    Mas as provas directas da falsidade clinica da doutrina de Foville
    abundam. Assim, a observação permitte affirmar que não só o perseguido
    nunca formúla a pergunta: _Porque me perseguem?_ mas que, interrogado
    n'este sentido, invariavelmente responde: _Não sei_. O absurdo de uma
    perseguição sem causas, de uma hostilidade immotivada não choca esta
    ordem de doentes; e é debalde que se tenta dirigir-lhes a attenção para
    o exame de um assumpto que parece não os interessar. Absorvidos pelas
    allucinações ou empenhados em conjurar os effeitos de uma aggressão
    implacavel, os perseguidos não sentem a necessidade de inquirir as
    razões d'ella; e todo o insistente convite n'este sentido serve apenas
    para os impacientar, quando os não leva a entrevêr no solicito
    observador um cumplice de imaginarios inimigos.

    Mas ha mais. Se o delirio ambicioso podesse installar-se a titulo de
    explicação de precedentes perseguições, nada seria mais facil do que
    provocal-o: bastaria suggerir ao perseguido os themas habituaes da
    megalomania, deixando-lhe a escolha. Por outros termos: se o raciocinio
    bastasse, como candidamente pretendia Foville, a operar a transformação
    de uma personalidade,–para fazer-se de um perseguido um megalomano
    seria necessario apenas dizer-lhe precocemente o que, segundo o auctor
    francez, elle se dirá um dia, isto é, que, não podendo haver
    perseguições sem causa, o encarniçamento dos seus inimigos deve
    naturalmente explicar-se quer pela inveja dos altos meritos pessoaes do
    doente, quer pelo interesse de supprimir um individuo destinado, como
    elle o é, talvez, a reinar, a dirigir um partido, a instituir uma
    religião, a reformar uma sociedade, a mudar a face de uma sciencia. Ora,
    a verdade é que suggestões d'esta ordem não só não abalam os perseguidos
    que, aliás, se tornarão mais tarde megalomanos, mas determinam n'elles
    ora uma franca hilaridade, ora indignados protestos. Repeti muitas
    vezes, no começo da minha carreira, experiencias d'esta natureza,
    conseguindo apenas provocar dos doentes contestações como estas: que não
    estão doidos para desconhecerem a sua situação; que não admittem
    zombarias; que as historias phantasticas são boas para entreter creanças
    e idiotas; que não é digno escarnecer de quem soffre.

    É, pois, radicalmente falso e absolutamente contrario aos dados da
    observação que o delirio de grandezas appareça como tentativa feita para
    explicar perseguições soffridas. A idéa ambiciosa, como a de
    hostilidade, surge no espirito de um modo espontaneo e inconsciente; do
    delirio de grandezas póde, pois, repetir-se o que foi dito do delirio de
    perseguições: que elle irrompe á sua hora, como o fructo amadurece e o
    grão germina.

    É só depois de installado por um processo a que são extranhos o
    raciocinio e a vontade, que o delirio de grandezas servirá para explicar
    o de perseguições, como este, por sua vez, servira ao doente para
    interpretar os factos da sua vida anterior. É só a partir do momento em
    que se crê excepcionalmente grande pelo genio, pelo nascimento ou pela
    fortuna que o paranoico principia a explicar-se as miserias supportadas.

    Note-se, porém, este facto curioso e imprevisto em face da theoria que
    criticamos: o delirio de grandezas, dando um solido ponto de apoio ás
    idéas de perseguição, que esclarece e interpreta,–bem longe de as
    radicar, tornando-as definitivamente preponderantes no espirito do
    paranoico, tende, pelo contrario, a diminuil-as e a subalternisal-as em
    proveito proprio.

    Tal é o irrecusavel depoimento da clinica, absolutamente incompativel,
    como se vê, com a theoria que faz dos delirios paranoicos resultados de
    um esforço da intelligencia para comprehender e interpretar vagos e
    obscuros estados emotivos. Se essa theoria prevalecesse, a autonomia
    nosographica do delirio systematisado de perseguições seria inteiramente
    chimerica; e todo o esforço de Lasègue para o destacar da melancolia
    delirante resultaria inane, pois que a pathogenia, a despeito de todas
    as possiveis differenciações symptomaticas, identificaria
    definitivamente as duas doenças.

    Tendo de voltar ainda a este assumpto, procuraremos então interpretar as
    hesitações dos perseguidos e megalomanos na exhibição dos respectivos
    delirios.

    Por mal comprehendido, esse facto contribuiu não pouco para acreditar a
    phantastica doutrina da génese consciente e reflexiva dos delirios
    systematisados. A hesitação, parecendo implicar a duvida, iria bem com a
    opinião que faz d'esses delirios _conjecturas_ de um Eu que se observa,
    _hypotheses_ de um espirito que se perscruta, buscando dar-se conta de
    accidentaes perturbações emotivas.

    Veremos opportunamente que a interpretação do facto é muito outra; que
    essas hesitações não são senão o resultado da lucta que se exerce entre
    idéas nascidas do inconsciente e o systema de conceitos formados pela
    educação e até um certo tempo impostos pelo meio social.

    De modo analogo explicaremos o facto, erroneamente interpretado pelos
    psychiatras francezes, da inquietação dos perseguidos no periodo inicial
    da doença.

    V–AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erro de Foville sobre as relações dos delirios systematisados com as
    allucinações; como se perpetuou na psychiatria franceza–Uma antiga idéa
    de Magnan, exposta por Legrain, sobre este assumpto; falsidade d'essa
    idéa–Primitividade da concepção sobre a allucinação nos delirios
    paranoicos–Uma rectificação de Magnan.

    Dada a extrema frequencia dos erros sensoriaes, sobretudo das
    allucinações auditivas, na loucura systematisada, tem-se perguntado se
    as perturbações da sensibilidade especial precedem as idéas delirantes,
    servindo-lhes de base e fornecendo-lhes o contheudo, ou se, pelo
    contrario, apenas lhes succedem como uma sorte de confirmação.

    Lasègue, sustentando que as allucinações auditivas, unicas, segundo
    elle, compativeis com o delirio de perseguições, não são nem o
    antecedente necessario, nem o consequente inevitavel d'esta vesania,
    estabeleceu claramente a independencia essencial dos erros conceptuaes e
    perceptivos na mais commum das fórmas delirantes da Paranoia.

    Retomando, porém, annos depois a questão, Foville admittiu para ella
    duas ordens de soluções, desigualmente frequentes: uma, relativamente
    rara, em que o delirio é primitivo e as allucinações secundarias; outra,
    muito commum e, no delirio de perseguições, constante, em que a relação
    inversa se realisa.

    «O delirio, dizia elle, póde ou principiar _d'emblèe_ pelos conceitos ou
    affectar primeiro as sensações e extender-se depois ás idéas de um modo
    secundario»[1]. E, analysando cada um d'estes casos, commentava: «N'este
    ultimo (primitividade das allucinações) as funcções puramente
    intellectuaes não são, desde o começo, intrinsecamente lesadas, antes
    continuam a executar-se segundo a logica. Como faz notar Delasiauve, a
    faculdade syllogistica persiste intacta: emquanto se exerce sobre dados
    exactos, o producto das suas operações é normal e sensato; quando, pelo
    contrario, se exerce sobre dados falsos, isto é, sobre sensações
    imaginarias ou mal interpretadas, sobre allucinações e illusões, o
    producto encontra-se forçosamente em contradicção com a realidade. O
    delirio das sensações tem por effeito engendrar o delirio dos conceitos,
    sem que a intelligencia seja em si mesmo lesada e sem que ella deixe de
    funccionar sãmente, quando não é induzida em erro. Tal é um dos modos de
    producção e, não hesitamos em crêl-o, o _mais vulgarmente observado_ da
    loucura parcial … Mas esta ordem na successão dos phenomenos morbidos,
    embora a _mais frequente_, não é constante. Acontece tambem _algumas
    vezes_ gue a perturbação começa por concepções erroneas, que succedem a
    uma idéa fixa na ausencia de qualquer allucinação. N'este caso ainda,
    faz-se ordinariamente uma propagação analoga á que indicamos ha pouco,
    mas em sentido inverso. Ao fim de certo tempo, as concepções delirantes
    transformam-se em sensações falsas, o delirio extende-se ás percepções;
    o doente torna-se allucinado, porque era já delirante, em vez de
    tornar-se, como ha pouco, delirante, porque era allucinado»[2].

    [1] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

    [2] Foville, _Obr. cit._, pag. 341.

    Ora, ao passo que o megalomano-perseguido seria as mais das vezes,
    segundo Foville, um delirante-allucinado, o perseguido-megalomano, pelo
    contrario, seria sempre um allucinado-delirante.

    Por muito singular que se nos affigure, este modo de vêr de Foville
    sobre a primitividade das allucinações na Paranoia persecutoria teve um
    exito só comparavel ao da sua theoria das origens reflexivas e
    raciocinadas do delirio ambicioso. Repetido em milhares de tiragens
    pelos alienistas francezes, este novo _cliché_ pathogenico perpetuou-se
    como o primeiro. Magnan, por exemplo, acceitava-o ainda em 1886 e
    dava-lhe curso nos trabalhos dos seus discipulos. Como Foville, o medico
    de Sant'Anna admittia que nos delirios systematisados a allucinação póde
    tanto ser um symptoma derivado da persistencia de conceitos falsos, como
    um phenomeno primitivo sobre que assenta e de que procede a ideação
    pathologica. O primeiro d'estes casos dar-se-hia nos _delirios
    d'emblèe_; o segundo no _Delirio Chronico_. Os degenerados, unicos
    capazes de fabricarem um delirio sem preparação, e de serem, portanto,
    megalomanos-perseguidos, entrariam no grupo dos delirantes-allucinados;
    os normaes, unicos a quem se consigna o Delirio Chronico e, portanto,
    perseguidos-megalomanos, seriam allucinados-delirantes.

    Eis como, interpretando o pensamento do mestre sobre as relações da
    allucinação com as idéas morbidas nos _delirios d'emblèe_ e no _Delirio
    Chronico_, se exprimia Legrain: «O mecanismo segundo o qual se produzem
    as allucinações, varia nos dois casos. No Delirio Chronico ellas são
    essencialmente primitivas; todo o delirio é construido sobre ellas, e se
    ellas não existissem, o delirio, que lhes é consecutivo, não existiria.
    Nos degenerados delirantes, quando existem, as allucinações formam-se de
    um outro modo. São symptomas contingentes da doença, não a sua base
    immutavel, pois que numerosos delirios degenerativos evolucionam sem
    allucinações. Quando estas complicam a scena morbida, é o proprio
    delirio que as _provoca_, as mais das vezes, em virtude do seguinte
    mecanismo: Todos os centros cerebraes se encontram em estado completo de
    erethismo; o cerebro anterior elabora as idéas delirantes e evoca as
    imagens nos centros posteriores; as imagens assim evocadas véem
    representar-se nos centros anteriores com uma vivacidade tal que são
    interpretadas como outras tantas realidades. Assim, a allucinação
    encontra a sua causa directa n'uma série de idéas delirantes que a fazem
    nascer, e produz-se como um verdadeiro reflexo. O caminho centripeto
    parte dos centros anteriores, em que é elaborada a idéa delirante, ganha
    as regiões posteriores do cortex, em que a imagem é evocada, depois
    volta aos centros anteriores, trazendo a imagem, que vem misturar-se ao
    delirio e se impõe como realidade … Muito outra é a allucinação no
    Delirio Chronico: nasce primitivamente, _sur place_, nas regiões
    posteriores do cortex, sem ser provocada. Uma lesão local, lentamente
    progressiva, a produz; ella é a expressão funccional de uma lesão
    anatomica. Partindo d'esse ponto, ganha as regiões anteriores, que
    surprehende realmente. O cerebro anterior, em plena posse do seu
    equilibrio, da sua ponderação, interpreta-a como um facto real e deduz
    d'ella conclusões logicas, que são as primeiras idéas delirantes. Vê-se
    então evolucionar um delirio absolutamente sistematisado, lançando uma
    perturbação na intelligencia intacta e ponderada, que reage com todas as
    suas energias. No degenerado, a adhesão no delirio é plena e inteira
    desde o começo; no delirante chronico ella não é senão lenta e
    progressiva, fazendo-se a systematisação pouco a pouco, mercê de
    persistentes allucinações»[1].

    [1] Legrain, _Du délire chez les dégénérés_, pag. 141.

    Se n'esta passagem de Legrain substituirmos as expressões de _cerebro
    anterior_ e _posterior_ pelas suas equivalentes antigas de
    _intelligencia_ e _sensibilidade especial_, reapparece-nos a citação
    precedente de Foville. Uma velha doutrina, pois, resurge sob roupagens
    novas.

    Será necessario affirmar n'esta altura do nosso trabalho que a
    primitividade das allucinações nos delirios paranoicos é ainda uma
    ficção, que o exame despreoccupado dos factos annulla e apaga?

    É incontestavel que, encarando de um modo geral as relações possiveis
    dos erros sensoriaes com os conceitos morbidos, são legitimos e a cada
    passo se realisam os casos enumerados por Foville: se ha delirios que
    provocam as allucinações, outros ha, que, ao contrario, as teem por base
    e ponto de partida. Isto é de tal modo reconhecido que os ultimos
    d'estes delirios teem na psychiatria contemporanea o nome consagrado de
    _allucinatorios_ ou _sensoriaes_ (Wahnsinn), que allude a um fundamento
    perceptivo, como os primeiros teem o de _systematisados_ (Verrücktheit),
    que inculca uma coordenação ideativa. Sómente, a experiencia clinica
    ensina que os deliros sensoriaes ou são absolutamente dissociados e
    dispersivos ou apenas attingem uma frouxa coordenação, ao passo que os
    delirios francamente systematisados podem, como o persecutorio na sua
    variedade litigante, evolucionar sem a intervenção de estados
    allucinatorios.

    De resto, o depoimento da clinica não seria difficil de prevêr.
    Allucinações nascidas _sur place_, sem uma idéa que as provoque e lhes
    forneça o contheudo, só podem ser, como aliás nota Legrain, autonomicos
    effeitos de um erethismo dos centros sensoriaes, anatomica ou
    funccionalmente compromettidos; mas, sendo assim, ou o cerebro anterior
    as corrige e nenhum delirio é então possivel, ou, perdido o _contrôle_
    normal, elle as acceita e delira, não n'um sentido determinado, mas em
    tantas direcções differentes quantas as allucinações, cujo contheudo
    nenhuma razão ha para não suppôr variavel e proteiforme como nos
    delirios sensoriaes das anemias, das febres, das intoxicações e das
    nevroses. Sem a direcção superior de um conceito ou, para fallarmos a
    linguagem de Magnan e Legrain, sem a intervenção provocadora do cerebro
    anterior, os centros sensoriaes, autonomisados e procedendo por conta
    propria e exclusiva, exportam, como nos sonhos, para as regiões
    superiores do cortex, os mais caleidoscopicos elementos de ideação; se,
    com materiaes d'esta natureza, um delirio tem de formar-se, elle não
    poderá ser senão, como o _hallucinatorischer Wahnsinn_ de Krafft-Ebing,
    alguma coisa de tormentoso e incoherente.

    Assim, nem _à posteriori_, isto é, tomando para base a clinica, nem _à
    priori_, isto é, partindo da doutrina da percepção, é licito acceitar a
    primitividade das allucinações nos deirios systematisados.

    Discutamos, entretanto, no terreno especial da Paranoia persecutoria a
    affirmação de Foville, retomada pela escóla de Sant'Anna.

    Fallar, como Legrain, de uma lesão anatomica dos centros sensoriaes no
    delirio de perseguições, é, evidentemente, fazer um abuso de linguagem,
    pois que jámais uma autopsia denunciou em paranoicos qualquer coisa de
    parecido com um desarranjo palpavel e visivel d'essas limitadas regiões
    do cortex. Perturbações d'ordem dynamica, alterações funccionaes,
    desequilibrios de movimento cellular, eis quanto o estado actual da
    physiologia permitte admittir. N'este sentido, o termo de _erethismo_,
    empregado por Legrain, parece-nos feliz. Mas provocado por que causa,
    esse erethismo?

    Não o diz o escriptor citado, e é lamentavel.

    Excluidas, naturalmente, as intoxicações e as asthenias cerebraes, que
    são as causas mais frequentes de estados allucinatorios, não vejo que
    nos fiquem para explicar a sobreexcitação funccional dos centros
    sensoriaes senão as idéas, delirantes; postas estas de parte, nada
    resta, a invocar na interpretação do phenomeno,–tão importante, aliás, e
    tão essencial, no dizer da escóla franceza, que n'elle repousa a doença
    inteira.

    Passemos, porém, ao de leve, sobre esta deficiencia de analyse e
    admittamos por um instante que uma causa, ainda não definida, vem
    provocar e determinar nos centros corticaes da sensibilidade especial um
    erethismo de que o cerebro anterior não partilha. O que nos diz a
    theoria da percepção que deveria succeder n'esta hypothese?
    Surprehendidas pelas extranhas sensações exportadas d'esses centros
    hyperfunccionantes, as regiões superiores da intelligencia entrariam com
    ellas em conflicto; e o resultado d'este, dada a integridade e
    normalidade d'essas regiões, a que incumbe a funcção suprema do
    _contrôle_ psychico, seria, indiscutivelmente, a correcção, a
    rectificação definitiva dos erros sensoriaes. É isto, como se sabe, o
    que acontece nos casos de illusões e allucinações em espiritos normaes.
    Fallar da integridade de uma razão, que constroe um delirio sobre
    percepções falsas, é um perfeito não-senso; admittir a normalidade de
    uma região de _contrôle_, que centros subordinados perturbam e vencem, é
    cahir n'uma grosseira contradicção. Por si sós, dil-o a experiencia
    clinica e ensina-o a theoria da percepção, os erros sensoriaes não
    falseiam os juizos, porque, para corrigir as illusões e allucinações,
    dispõe o cerebro de recursos, que vão desde a elementar contraprova da
    acção de um sentido pela dos outros até ao testemunho alheio e ao
    confronto dos dados perceptivos com o preexistente systema de conceitos
    e sentimentos, que é o fundo mesmo da personalidade sã.

    Se os erros sensoriaes não são corrigidos, mas acceites e elaborados
    como realidades objectivas, é que uma d'estas duas hypotheses se dá: ou
    o allucinado não empregou os recursos de rectificação e _contrôle_ da
    percepção exterior, porque, delirante já, viu nas allucinações uma
    confirmação dos seus conceitos; ou os empregou sem exito, porque o
    insistente depoimento dos centros sensoriaes em erethismo, acabou por
    vencer os argumentos da razão.

    Qual d'estas duas hypotheses se realisa no delirio de perseguições?
    Segundo o antigo ensino da escóla de Sant'Anna, de que Legrain é um
    interprete eminente, a primeira teria logar nos perseguidos _d'emblèe_,
    que são degenerados, e a segunda nos delirantes chronicos, que são
    normaes até á invasão da doença.

    É inutil repetir que não acceitamos esta distincção, e que a primeira
    das hypotheses formuladas é para nós a que tem logar em todos os casos
    não só de delerio de perseguições, mas dos outros delirios
    systematisados.

    Analysemos, comtudo, as affirmações de Legrain em relação ao Delirio
    Chronico.

    Estabelecendo com Magnan (como o fizera Lasègue para o perseguido) que o
    delirante chronico é um ser normal até á invasão da doença, Legrain
    compraz-se em vêr na incubação d'esta uma lucta da razão com os morbidos
    elementos invasores. Ao passo que o degenerado supportaria, por assim
    dizer, o seu delirio,–espontanea manifestação de um desequilibrio
    preexistente, o normal _fabrical-o-hia_ lentamente, hesitantemente e
    raciocinando sempre. É a velha doutrina. Mas como de um raciocinio só
    podem surgir conclusões falsas quando as premissas o são tambem,
    Legrain, á maneira de Delasiauve e de Foville, faz das illusões e
    allucinações, nascidas _sur place_ nos centros sensoriaes, o elemento
    morbido aggressivo e a premissa erronea de que o cerebro anterior
    deduzirá, emfim, o delirio.

    Acabamos de vêr, e toda a insistencia n'este ponto seria impertinente,
    que a incapacidade de corrigir percepções erradas implica deficiencia de
    senso critico e, portanto, insanidade mental, anormalidade psychica. Nem
    mesmo admittindo com Legrain que o cerebro reage contra a allucinação
    invasora com todas as suas energias, poderia evitar-se a conclusão, pois
    que a derrota denuncía a fraqueza e inferioridade d'essas energias.

    Mas será verdade, ao menos, que o perseguido reaja contra as illusões e
    allucinações incessantemente originadas nos centros sensoriaes
    sobreexcitados? De modo nenhum. Bem ao contrario do que Legrain
    pretende, as illusões e allucinações são para os perseguidos, como para
    todos os paranoicos, pontos de apoio e não de partida do delirio,
    confirmações e não elementos formativos d'elle, eccos dos erros
    conceptuaes e não o seu fundamento, n'uma palavra, precarios symptomas
    derivados e não phenomenos essenciaes e primitivos.

    A demonstração d'esta verdade clinica não será difficil, nem longa.

    Uma só passagem de Magnan a fará. Fallando do que se passa no chamado
    periodo de incubação do delirio persecutorio, escreve n'um dos seus
    ultimos trabalhos o eminente observador: «Os doentes experimentam um
    mal-estar, um descontentamento que não sabem explicar-se; tornam-se
    apprehensivos, inquietos, _desconfiados, crendo notar certas mudanças_
    na maneira de ser da familia e mesmo dos extranhos. Dormem mal, teem
    menos appetite, menos aptidão para o trabalho e para os negocios. N'esta
    época poderiam ser tomados por hypocondriacos. Pouco a pouco
    _parece-lhes que os observam_, que _os olham de travez_, que os
    _desprezam_; duvidam, hesitam, permanecem fluctuantes entre idéas
    variadas, acceites primeiro, repudiadas em seguida, admittidas pouco a
    pouco e dando logar, emfim, a interpretações delirantes … O doente
    persiste assim perturbado, inquieto, por vezes excitado, todo entregue
    ás _concepções penosas que principiam a assaltal-o_ e _indifferente a
    tudo o que não parece prender-se com o seu delirio_. Os grandes
    acontecimentos não o commovem, as perturbações politicas deixam-no
    indifferente, as perdas de dinheiro e as luctas de familia não o
    emocionam. Pelo contrario, factos insignificantes, mas que se relacionam
    com as suas preoccupações penosas, que as justificam, adquirem uma
    importancia extrema e provocam-lhe a colera. Se uma pessoa se esquece de
    o saudar, vê n'isto uma injuria voluntaria; se alguem tosse ou escarra
    ao pé d'elle, se diante d'elle uma janella ou uma porta se abrem, se-uma
    cadeira se desloca, reconhece outros tantos testemunhos de despreso. As
    provas de benevolencia e de afeição tornam-se zombarias, e o proprio
    silencio é uma offensa. O vago apaga-se pouco a pouco; á hesitação
    succede a certeza, e, fortificadas por todas estas provas, as suas
    convicções tornam-se inabalaveis. N'estas condições, o doente, sempre em
    guarda, espia, escuta, surprehende n'uma conversação uma phrase que se
    attribue–eis a interpretação delirante; ou se crê aggravado por uma
    palavra insignificante, mas cujo som apresenta alguma analogia com uma
    injuria grosseira e que elle confunde com esta–eis a illusão. Depois, a
    _idéa constante de uma perseguição_, a tensão incessante da
    intelligencia acabam por _despertar o signal representativo da idéa_, a
    imagem tonal; n'uma palavra, a allucinação auditiva produz-se»[1].

    [1] Magnan, _Obr. cit._, pag. 237.

    Não é possivel estabelecer de um modo mais preciso e mais eloquente a
    primitividade do delirio e a secundariedade da allucinação. Todo o
    commentario seria pallido, todo o retoque prejudicial a este quadro
    _d'après nature_.

    A questão de saber corno Magnan exprime em 1893 uma opinião
    diametralmente opposta á de Legrain, que em 1886 se dava como interprete
    da escóla de Sant'Anna, é secundaria para nós e sem interesse para a
    sciencia.

    Cremos que n'este caso, como no de Gérente, Magnan se contradicta a si
    proprio, fazendo do seu Delirio Chronico edições successivas e todas
    differentes.

    Felizmente, e é isto o que nos importa notar, a correcção introduzida
    ultimamente no capitulo das relações entre os erros perceptivos e
    conceptuaes, é conforme á verdade clinica.

    VI–AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

    A inquietação dos perseguidos e as hesitações de certos paranoicos na
    exhibição do delirio; como se explicam estes factos–A doutrina classica
    das obsessões; sua inexactidão–Idéas do auctor; inesperada confirmação
    d'ellas por J. Séglas–A obsessão é um delirio systematico abortado;
    este é uma obsessão progressiva–Demonstração; analyse dos factos–Como
    se fórma o Eu; estratificações systematisadas–A personalidade e as
    subpersonalidades; o atavismo.

    Se as idéas que formam o contheudo dos delirios paranoicos, não traduzem
    um esforço de reflexão exercendo-se sobre estados emotivos, nem
    reconhecem por causa os erros sensoriaes, como cremos ter provado, a
    conclusão se impõe de que ellas surgem na consciencia á maneira de
    obsessões.

    Comquanto sustentada por uma parte dos psychiatras allemães e italianos,
    esta affirmação está de tal modo em desaccordo com as radicadas
    tradicções da escóla franceza que não será sem vantagem discutil-a.
    Antes, porém, seja-me licito notar que, acceite a origem obsessiva dos
    delirios systematisados, dois factos, que os alienistas francezes não
    lograram explicar senão phantasiosamente e em contradicção com os dados
    mais positivos da observação clinica, recebem uma interpretação
    simplicissima: refiro-me á inquietação dos perseguidos quando o seu
    delirio aponta, e ás hesitações de grande numero de paranoicos na
    exhibição dos seus conceitos falsos.

    O primeiro d'estes factos, abusivamente comparado pelos psychiatras
    francezes ao vago mal-estar precursor das doenças graves, não é, em
    realidade, mais do que a natural reacção emotiva do Eu, subitamente
    empolgado por uma idéa penosa, que irrompe do inconsciente; longe de
    constituir, como a anciedade melancolica, uma situação primitiva de que
    surgirão os erros conceptuaes, é um estado secundario, um effeito mesmo
    da presença inesperada de uma idéa depressiva no campo da consciencia.

    Em que consiste, de facto, essa inquietação? Definitivamente e no
    fundo–em sentimentos e actos defensivos; ora, a organisação de uma
    defeza suppõe a idéa de um ataque, de uma hostilidade, de um perigo. Sem
    duvida, essa idéa só se terá transformado n'um conceito e recebido a sua
    inteira systematisação, quando se houver feito o reconhecimento do
    inimigo e das causas da aggressão; a partir, porém, do momento em que
    obsessivamente ella irrompe e se impõe ao espirito, a inquietação
    apparece como o grito de alarme da esphera emotiva do perseguido.

    Quanto ás hesitações, tantas vezes observadas, do paranoico na
    exteriorisação do seu delirio, qualquer que elle seja, nada mais facil
    que interpretal-as. Trata-se ainda, n'este caso, de um phenomeno
    secundario, inseparavel do primeiro. Surprehendendo a consciencia pelo
    contraste que faz com o systema de conceitos positivos recebidos da
    educação, a idéa delirante é para o Eu alguma coisa de extranho e de
    interposto que, tendo-lhe provocado uma forte reacção emotiva, irá ainda
    remodelar toda a sua precedente orientação pensante, não sem
    difficuldades e combates; a hesitação em affirmar o delirio é, pois, o
    resultado da novidade e extranhesa das idéas que o formam. Longe de ser,
    como se pretendeu, a duvida de um espirito que elabora conjecturas e
    procura cotejal-as com os actos, essa hesitação traduz o esforço penoso
    e vacillante de adaptação do Eu a uma nova ordem de idéas, que elle vê
    surgir e cuja origem desconhece. O paranoico não duvida, porque não
    critica. Como a victima de uma suggestão hypnotica activa não procura
    evitar o acto ordenado e imposto, ainda quando elle choca, ás suas
    habituaes inclinações, mas busca dar-lhe apparencias de espontaneo e
    querido, o paranoico, longe de tentar a correcção da sua idéa falsa,
    cuida em reforçal-a pela interpretação delirante dos factos.

    Mas ás vezes succede tambem que já o delirio se encontra systematisado e
    ainda o paranoico o occulta ou apenas o confia do papel, n'uma sorte de
    soliloquio. A razão d'este facto está em que o doente, reconhecendo,
    pelo que, em si proprio se passou no periodo presystematico, a
    extranheza do seu delirio e a formidavel antithese que elle faz com as
    idéas correntes, procura evitar as inuteis e irritantes discussões que
    provocaria, exhibindo-o. É o conhecido caso de alguns crentes que, em
    vez de propagarem a sua fé, penosamente conquistada em repetidas luctas
    interiores, se recolhem n'ella, evitando a controversia, sentindo uma
    sorte de pudor em desdobrar diante de profanos irreverentes o inabalavel
    systema das suas convicções religiosas.

    Mas eu prevejo uma objecção a esta doutrina. Como acceitar, dir-se-ha, a
    origem obsessiva dos delirios systematisados, se um dos caracteres das
    obsessões é justamente o de não serem integradas na consciencia, de
    subsistirem no Eu em lucta aberta com as disposições preexistentes,
    n'uma palavra, de não formarem systema?

    A resposta implica um exame de doutrinas a que vamos proceder.

    Westphal, definindo a obsessão _uma idéa que, sem precedencia de um
    estado emotivo ou passional, se impõe á consciencia do doente contra a
    sua vontade, impedindo o jogo normal do pensamento, em que se insinua, e
    sendo sempre reconhecida como anomala e extranha ao Eu_, foi um dos
    primeiros a proclamar a irreductivel systematisação da idéa obsessiva.

    Pelo seu lado, os auctores, que ulteriormente mais se occuparam das
    obsessões, insistiram sempre no facto de que ellas constituem na
    economia psychica uma sorte de _corpo extranho_, releve-se-me a
    expressão, para eliminar o qual, inutil, mas consciente e penosamente se
    esforça o Eu. Assim, Magnan, definindo a obsessão pathologica _um modo
    de actividade cerebral em que uma palavra, uma idéa, uma imagem se
    impõem ao espirito sem intervenção da vontade e com uma angustia
    dolorosa que a torna irresistivel_, conta, como Westphal, entre os
    caracteres pathognominicos d phenomeno (que para elle é sempre um
    syndroma da degenerescenda psychica), a _consciencia completa_ de um
    estado morbido. E.J. Falret, interpretando no Congresso Psychiatrico
    Internacional de 1892 as mesmas idéas, affirmou não só que as obsessões
    são _conscientes_ e _anciosas_, mas que se _não acompanham de
    allucinações_ e se _não transformam nunca em outras doenças mentaes_,
    embora algumas vezes e n'uma adiantada phase de evolução se possam
    _complicar_ de um delirio melancolico ou persecutorio. O assentimento do
    Congresso as conclusões do Relatorio de Falret foi como a consagração
    official da doutrina que faz da idéa obsessiva um facto insusceptivel da
    assimilação, um producto que o Eu considera sempre extranho, que a
    consciencia jámais incorpora, que a vontade combate e contra o qual a
    emotividade perpetuamente lança o seu grito de alarme.

    Será, porém, rigorosamente assim?

    Reconhecendo que a nossa experiencia é curta e a nossa auctoridade
    nulla, atrevemo-nos, comtudo, desde 1892; tendo por base uma solida
    convicção, a discutir alguns dos pontos essenciaes da doutrina classica.

    Assim, em conferencias publicas d'esse anno, a proposito de um caso
    medico-legal de impulsividade criminosa, sustentamos que a idéa
    obsessiva não póde ser, nem é na vida mental um elemento inerte, e que a
    sua actividade, como a de todo o phenomeno psychico, se mede pelo maior
    ou menor numero de factos da mesma ordem que ella evoca na consciencia,
    o que equivale a dizer–pelas mais ou menos extensas _systematisações_
    que provoca. Como cada atomo de um aggregado material, diziamos então,
    entra n'elle com uma certa affinidade, cada phenomeno psychico figura no
    Eu com uma dóse propria de força systematisante. E a idéa obsessiva,
    extranha á consciencia pelas suas origens confusas, não é essencialmente
    diversa dos outros factos psychicos, nascidos tambem em grande parte da
    cerebração inconsciente; surgindo, ella evoca, pois, pela sua mesma
    affinidade com esses factos, pela sua mesma força systematisante (de que
    as leis de associação não fazem senão constatar a existencia e denunciar
    parcialmente as orientações), idéas, emoções, desejos, impulsos, novas
    imagens mentaes, em summa.

    Longe de acompanhar-se, diziamos, de uma perfeita e _completa
    consciencia,_ a obsessão, representando um começo de _dissociação
    pessoal_, uma scisão do Eu por dois grupos antinomicos de
    systematisações psychicas, a normal e a obsessiva, implica uma
    _obnubilação da consciencia_ individual, pois que esta não póde
    comprehender-se senão como synthese de estados psychicos harmonicos e
    expressão da unidade do Eu.

    Este modo de vêr, seja dito de passagem, encontramol-o sustentado com
    profusão de argumentos psychologicos e clinicos nas excellentes _Lições
    sobre as doenças mentaes e nervosas_ de Séglas, publicadas em 1896. Este
    imprevisto encontro do nosso espirito com o do eminente psychiatra, sob
    ser-nos lisongeiro, depõe grandemente em favor da justeza das idéas que
    defendemos.

    A _angustia_ que acompanha os estados psychicos, diziamos nas mesmas
    conferencias, traduzindo a extranheza da consciencia em face da idéa
    imposta, está longe de ser um thenomeno invariavel, pois que, no fundo,
    elle depende da extensão maior ou menor que tomam as systematisações
    pathologicas em face das normaes. Ha estados em que toda a reacção
    emotiva se limita a uma passageira e leve inquietação de espirito;
    outros, em que surgem phenomenos criticos de anciedade, pronunciados,
    duradouros e graves. Procurando interpretar estes factos, Westphal
    collocou-os principalmente sob a dependencia do contheudo das obsessões,
    affirmando que, em igualdade de circumstancias, a idéa fixa de matar
    repugnará muito mais que a de pronunciar uma palavra inconveniente.
    Talvez seja assim; mas essa _igualdade de circumstancias_, reduzindo-se,
    no fundo, a uma identidade absoluta de disposições affectivas e moraes,
    não póde nunca affirmar-se com segurança em dois individuos ou n'um só
    em periodos diversos. Dizer que uma idéa obsessiva repugna, pelo seu
    contheudo, mais ou menos que uma outra, é dizer que as systematisações
    provocadas por cada uma valem diferentemente para o Eu. Mas porque? Em
    ultima analyse, porque as systematisações normaes com que ellas entram
    em conflicto na consciencia são diversas ou desigualmente organisadas. Á
    medida que a idéa obsessiva, quer por força propria, quer por frouxidão
    das suas antagonistas, alarga a esphera da sua systematisação, a
    dissociação do Eu progride, a extranheza da consciencia diminue e a
    _angustia_ reduz-se proporcionalmente. E o limite d'esta reducção, que
    theoricamente é zero, terá sido attingido, quando no campo da
    consciencia não existam systematisações que directa ou indirectamente
    não sejam provocadas pela idéa obsessiva.

    Mas, n'esta hypothese dois casos podem dar-se: ou as systematisações
    normaes readquirem, decorrido um certo tempo, a sua supremacia, ou, mais
    fracas, ellas se deixam vencer definitivamente pelas systematisações
    pathologicas. No primeiro caso, a consciencia individual restabelece-se,
    e da phase de derrota fica apenas a memoria confusa de uma sorte de
    estado secundario e de sonho,–o que tem permittido comparar as
    obsessões impulsivas a crises de epilepsia psychica; no segundo, um novo
    Eu se fórma, tendo por substracto associações pathologicas, isto é, um
    delirio systematisado.

    Tal foi, nos seus contornos, a doutrina que esboçamos em 1892 e
    exposemos ainda em conferencias sobre a Paranoia no começo de 96,
    contradictando os que pretendem achar contrastes irreductiveis entre
    obsessão e delirio. Insubsistentes no terreno da psychologia abstracta,
    esses contrastes não o são menos no campo da clinica, onde Tamburini,
    Stephani, Séglas, Catzras e outros demonstraram, contrariamente á
    cathegorica affirmação de J. Palret, que existem allucinações sensoriaes
    e psychomotoras exclusivamente determinadas pela persistencia de idéas
    obsessivas. Longe de serem antinomicos, a obsessão e o delirio
    approximam-se pela communidade de origem: a obsessão seria, na ordem de
    idéas que sustentamos, um começo de delirio systematisado, como este
    seria uma obsessão progressiva, desenvolvendo-se á custa de successivas
    associações. N'este sentido se interpreta sem esforço a expressão de
    _paranoia rudimentar_ por que Arnadt, Morselli e outros designam a
    obsessão.

    Mas, porque reputamos fundamentaes estas idéas, procuraremos dar-lhes
    aqui todo o desenvolvimento que ellas comportam.

    O phenomeno pathologico da obsessão tem, como nota Dallemagne, um
    representante physiologico no facto banal de uma idéa indifferente que,
    sem sabermos como, nos surge na consciencia, interrompendo
    disparatadamente o curso das nossas preoccupações e desapparecendo um
    instante depois. Não ha aqui, em verdade, nem angustia, nem
    irresistibilidade; ha, porém, o phenomeno da emergencia inexplicavel e
    extranha de uma imagem, que o jogo consciente das idéas não provocou. A
    systematisação não existe tambem: um momento presente na consciencia, a
    idéa desappareceu sem deixar n'ella um vestigio. Imaginemos, porém, que
    a idéa extranha pertence á cathegoria das impulsivas, e concedamos que o
    acto n'ella representado seja de natureza cruel: atirar, por exemplo, á
    linha férrea um companheiro de viagem. É evidente que o novo caso
    differe muito do anterior. Em primeiro logar, a idéa tem desde logo um
    começo de systematisação, por isso que mentalmente nos representamos uma
    scena complicada e os seus possiveis effeitos: imagens motoras, imagens
    sensoriaes, sentimentos, emoções, idéas de leis e principios moraes,
    idéas de sanção penal, tudo entra em jogo, tudo se grupa, em torno da
    idéa primitiva. A vontade lucta, como geralmente se diz, ou, como melhor
    deveria dizer-se, as systematisações normaes, mais ou menos organisadas
    e resistentes, repellem a systematisação anomala e intrusa. Esta,
    todavia, não desapparece sem vestigios; impossibilitada de tomar as
    reclamadas vias motoras externas, gastou-se na esphera emotiva,
    dando-nos um instante de inquietação, um sobresalto, um começo de
    angustia, traduzida, talvez, physicamente n'um subito pallor de face,
    n'uma agitação momentanea do pulso. Mas figuremos que a idéa se reproduz
    ainda, uma vez, duas, muitas vezes. A systematisação, que ella provocou
    no inicial momento, repete-se, avigora-se, organisa-se; a lucta das
    systematisações normaes antagonistas renova-se, e d'essa renovação
    deriva o prolongar-se na consciencia a presença de uma systematisação
    anomala, cada vez mais nitida e mais forte. As imagens motoras farão
    nascer o impulso; e este, se as systematisações normaes o não conseguem
    desviar n'um sentido diverso (a convulsão, o espasmo, o toque d'uma
    campainha de alarme, o grito de aviso) acabará por ser satisfeito,
    provocando uma _détente_, um allivio.

    Os caracteres da obsessão pathologica–origem invluntaria, angustia,
    irrisistibilidade, satisfação consecutiva, estão realisados, O que
    provocou a apparição d'estes caracteres? Em primeiro logar, as
    systematisações determinadas pela idéa obsessiva, em segundo, a lucta
    d'ellas com as systematisações normaes. Se a idéa obsessiva fosse
    incapaz de provocar systematisações, se fosse indifferente, ter-se-hia
    dissipado sem vestigios conscientes, como no caso que primeiro
    figuramos; se, por outro lado, uma forte lucta se não tivesse realisado
    entre antinomicos grupos ou systemas de factos psychicos, não existiria
    angustia concomitante, nem satisfação consecutiva. A obsessão deu-se,
    pois, á custa, de uma dissociação parcial e transitoria do Eu. Alarmada
    e impotente, a consciencia assistiu ao desdobramento de um acto reflexo;
    clara ao principio, ella obscureceu-se um instante–aquelle precisamente
    em que todo o vasto e harmonico systema de idéas, de affectos e
    impulsos, que constituem o Eu, se deixou vencer pelo systema antagonista
    creado pela idéa imposta.

    Que esta seja impulsiva, emotiva ou meramente abstracta, pouco importa,
    de resto; o quadro dos symptomas da obsessão é em todos os casos o
    mesmo, desde que se estabelece lucta entre systematisações pathologicas
    e normaes. É n'esta lucta que reside o caracter essencial da obsessão;
    tudo o mais é secundario e derivado.

    Imaginemos, por exemplo, que a idéa de matar surge no espirito de um
    criminoso-nato. Não encontrando em face d'ella, a offerecer-lhe
    resistencia, a longa série de systematisações que se comprehendem na
    designação synthetica de _senso moral_, essa-idéa exteriorisar-se-ha de
    um modo puramente reflexo e automatico; fallaremos, então, de impulso
    morbido, mas não será licito pronunciar o nome de obsessão.

    Figuremos ainda que uma idéa, embora não derivada do jogo normal e
    logico do pensamento, é de natureza a lisongear os nossos gostos, as
    nossas aspirações, os nossos desejos. Insubsistentes e chimericas, as
    systematisações, ás vezes complicadas e extensas, que ella gera ao
    irromper no nosso espirito, não provocam, todavia, uma lucta, é o estado
    de espirito assim creado não póde chamar-se obsessão. Tal é o caso da
    _réverie_, dos castellos no ar, de toda essa phantasiosa ideação em que,
    a despeito do testemunho contradictorio da realidade, nos deixamos
    apanhar involuntariamente. Quem, apenas remediado ou pobre, se não
    sentiu uma vez tomado, sem saber como ou porque, da idéa de opulencia, e
    não partiu d'ahi para o sonho dos palacios, das equipagens, da arte, da
    phylantropia? Comquanto anomalo e inutil, este estado de espirito não é
    obsessivo, porque não provoca urna _lucta_ de systematisações.

    Esta é, pois, repetimol-o, o signal, o seguro indicador da
    obsessão:–aquillo em que ella essencialmente consiste. Mas não poderá
    essa lucta, que de ordinario se renova, dando ás obsessões um caracter
    _intermittente_, cessar pela victoria definitiva das systematisações
    pathologicas, o que equivale a dizer–pela constituição de um delirio?
    Cremos que sim; e para comprehendel-o basta admittir que a idéa
    obsessiva é, na esphera inconsciente de que procede, um forte centro de
    systematisações organisadas, capazes não só de vencerem a resistencia
    das systematisações normaes, mas de as desviarem em proveito proprio.

    Já a victoria intermittente da obsessão sobre as systematisações
    normaes denuncía a existencia de ignoradas estratificações psychicas,
    tão extensas e importantes, comtudo, que podem por força propria ou por
    fraqueza das suas antagonistas, provocar uma dissociação do Eu e n'um
    dado instante occupar todo o campo da consciencia. Que se supponha maior
    a sua força e menor ao mesmo tempo a das systematisações normaes
    inhibitorias, e o triumpho será definitivo, porque toda a esphera
    consciente não conterá mais do que associações pathologicas. Teremos o
    delirio systematisado; e então, bem evidentemente, a dissociação do Eu,
    que na obsessão é passageira, tornar-se-ha definitiva, substituindo-se á
    personalidade normal vencida uma outra vencedora.

    Mas d'onde vem esta e como se formou? Eis o que a doutrina da evolução
    permitte explicar. Na sua lenta e progressiva constituição, a
    personalidade humana encontra-se successivamente representada por
    systematisações psychicas de uma complexidade crescente, isto é, por
    associações e inhibições cada vez mais extensas, traduzindo a acção do
    mundo sobre o Eu e a reacção d'este sobre o mundo. Cada nova
    systematisação formada, integrando elementos psychicos, é uma satisfação
    dada ás naturaes affinidades d'estes; cada nova inhibição realisada,
    dissociando elementos psychicos, provoca a formação de outras
    systematisações em que ellas vão achar novamente logar e novamente
    satisfazer uma affinidade propria. Assim se formam lentamente, mercê da
    hereditariedade, que capitalisa as conquistas do espirito, successivas
    estratificações systematicas de idéas, de emoções, de impulsos, n'uma
    palavra, successivas _tendencias_, que representam em momentos dados um
    espirito, um Eu, uma personalidade, emfim.

    As estratificações mais recentes são tambem as menos organisadas e as
    mais instaveis; os systemas de que ellas se compõem, contrariando em
    grande parte antigas e habituaes affinidades dos elementos psychicos,
    subsistem n'um equilibrio que só o tempo tornará estavel. Mas o tempo,
    quando se trata de evolução, não é a vida de um individuo, é a de
    gerações seguidas; é, pois, necessario para que a estabilidade psychica
    de uma personalidade se realise que a herança se faça sempre n'um mesmo
    sentido, que a orientação ou finalidade do espirito não seja perturbada.
    Se este facto se não dá, a estratificação mais antiga sobreleva a mais
    recente e atravez d'ella rompe total ou parcialmente. Cada personalidade
    é, pois, n'um dado momento a juxtaposição de subpersonalidades relegadas
    para o inconsciente, mas tenazes, persistentes, susceptiveis de uma
    integral ou parcial revivescencia. Por traz do _individuo_, que
    representa as ultimas acquisições de uma civilisação, está a _especie_,
    que representa todas as systematisações procedentes da acção lenta do
    meio, capitalisada pela herança.

    N'esta ordem de idéas, as obsessões e os delirios systematisados
    apparecem-nos _como resurreições parciaes e mais ou menos extensas de um
    Eu ancestral_. É da lucta que se estabelece entre este e o Eu de
    recente formação que derivam, de um lado, a _angustia_ que acompanha as
    obsessões e o allivio que lhes succede quando a _détente_ se realisa, do
    outro, a _inquietação_ dolorosa que faz cortejo aos delirios
    systematisados na sua phase inicial e a tranquillidade relativa que
    depois surge quando o paranoico definitivamente adquire uma convicção,
    uma crença, quando, na phrase justa dos alienistas francezes, elle sabe,
    emfim, _à quoi s'en tenir_.

    Mas como, repetimol-o, a lucta é tanto menos intensa quanto mais forte é
    o Eu ancestral e mais instavel o de recente formação, a _angustia
    obsessiva_ e a _inquietação paranoica_ podem reduzir-se a
    insignificantes proporções: tal é o caso dos impulsos nos criminosos
    habituaes e dos delirios _d'emblèe_ nos paranoicos originarios.

    VII–A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

    Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores–Causas
    de degenerescencia; opiniões diversas–A degenerescencia e a observação
    clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing–Necessidade de
    um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico–A definição de
    Morel; o seu defeito essencial–A noção do atavismo em psychiatria; as
    idéas de Magnan e a sua falta de fundamento–Ponto de vista de Tanzi e
    Riva; documentos justificativos–A Paranoia é uma degenerescencia.

    Tem ainda hoje nos livros da especialidade um caracter eminentemente
    obscuro e vago a noção da _degenerescencia_. Nada o prova melhor que o
    conjuncto de contradictorias opiniões sobre a sua mesma extensão e sobre
    as suas origens.

    Que psychopatas abrange a degenerescencia?

    Emquanto certos auctores, á maneira de Mendel, só consideram degenerados
    aquelles que, pela presença de estygmas physicos de uma extrema
    decadencia, profundamente se afastam do typo humano commum, outros ha
    que seguindo a tradição de Morel, descobrem a degenerescencia onde quer
    que surjam indicios de uma constitucional desharmonia de funcções
    psychicas, de um originario desequilibrio mental, ainda quando
    inteiramente compativel com a vida collectiva e mesmo com parciaes
    superioridades de intendimento.

    O terreno que pizam os primeiros tem tanto de seguro e incontroverso
    quanto de infecundo: reduzida a cobrir, o grupo dos idiotas, alguns
    loucos moraes, physicamente disformes, e um ou outro delirante precoce,
    somaticamente estygmatisado, a degenerescencia é um conceito inerte, sem
    valor em clinica e sem applicações em nosologia psychiatrica.
    Suggestivo, o ponto de vista dos segundos é, todavia, impreciso, como o
    revella a comparação dos auctores, pois que, os mesmos loucos são,
    segundo uns e deixam de ser, segundo outros, comprehendidos no grupo dos
    degenerados. Assim, emquanto para Magnan não são degenerados uns certos
    paranoicos, os delirantes chronicos, para Krafft-Ebing são-no todos,
    como vimos; assim, os intermittentes, que a grande maioria dos auctores
    allemães e italianos consideram como exemplares degenerativos, formam
    para Magnan um grupo de transição entre os degenerados e os
    psychonevroticos; assim, ainda, os obsessivos, que para o psychiatra
    francez são sempre degenerados, não passam aigumas vezes para Morselli
    de neurasthenicos vulgares.

    Este grave desaccordo sobre a extensão do conceito, repete-se desde que a
    questão etiologica se aborda.

    Que origens reconhece a degenerescencia?

    Ao passo que uns, como J. Falret, exclusivamente incriminam a
    hereditariedade na producção dos degenerados, outros responsabilisam,
    como Cotard, as doenças infantis, como Boucherau, as doenças do feto, ou
    ainda, como Christian, o estado mental dos paes no acto da procreação.
    Pelo seu lado, Magnan reconhece todas estas causas, considerando,
    todavia, preponderante e typica a hereditariedade,

    Ora, para se poder fallar da hereditariedade, como agente de psychoses
    degenerativas, quando se sabe que ella é a causa por excellencia de
    todas as doenças mentaes, seria necessario possuir-se um meio de
    determinar _à priori_ o momento em que ella deixa de ser uma simples
    _predisposição_ generica para tornar-se um factor especial de anomalias
    psychicas; por outros termos, seria necessario precisar onde começa o
    que Magnan denomina a _impregnação hereditaria_.

    Se isto fosse possivel, teriamos na etiologia um excellente criterio
    para separar as loucuras degenerativas das que o não são: todas as
    fórmas nosologicas exhibidas por loucos impregnados de herança
    pertenceriam ao primeiro grupo, como pertenceriam ao segundo as
    exteriorisadas por simples predispostos. A analyse clinica,
    denunciando-nos depois a symptomatologia e a marcha das psychoses dos
    dois grupos, dar-nos-hia meios de reconhecer as equivalencias
    hereditarias, se ellas existem, como pretendem Boucherau, Cotard e
    Christian. Nada mais simples: dado que uma psychose offerecesse os
    caracteres peculiares das hereditarias, seria um degenerado o seu
    portador; e, quando a herança morbida não podesse ser incriminada,
    outras causas teriam de invocar-se de _igual valor pathogenico_.

    Mas, precisamente succede que ninguem ainda determinou, nem _à priori_
    parece determinavel a tara hereditaria em que a _predisposição_ acaba e
    a _impregnação_ começa.

    Nem o _numero_ de psychoses ancestraes, nem a sua _convergencia_ nas
    duas linhas de progenitores constituem motivo sufficiente para affirmar
    a impregnação hereditaria e a degenerescencia de um louco, pois que a
    pratica nos depara ás vezes alienados que, tendo, aliás, uma pesada
    herança psychopatica n'uma das linhas directas ou mesmo uma herança
    convergente, exhibem fórmas nosologicas insusceptiveis de se
    distinguirem,–quer pelos symptomas, quer pela marcha, quer, emfim, pela
    terminação, das psychonevroses puras, isto é, das loucuras accidentaes,
    das loucuras dos simples predispostos.

    Em contraste com estes casos, outros apparecem de um caracter
    univocamente admittido como degenerativo, em que, todavia, a analyse
    clinica, até onde ella póde ser feita, não surprehende mais do que uma
    psychose em qualquer das linhas directas ou collateraes; isto succede,
    não raro, nos debeis e imbecis, procedentes de pae ou mãe alcoolicos.

    Dir-se-ha, talvez, que n'estas considerações abusivamente restringimos o
    papel e alcance da hereditariedade, fallando apenas de psychoses
    ancestraes, quando deveriamos com os auctores contemporaneos fallar
    tambem, pelo menos, das nevropatias.

    Mas quem não vê que n'este novo terreno o problema se complica sem se
    resolver? Que para a tara hereditaria de um louco contribuam sómente as
    psychoses ancestraes ou tambem as nevropatias, ou ainda, generalisando,
    as diatheses, é seguro que jámais se determinará _á priori_, onde a
    _predisposição_ termina e a _impregnação_ principia.

    Tacita ou explicitamente é isto reconhecido pelos proprios auctores que,
    á maneira de Magnan e de Krafft-Ebing, assignalam á degenerescencia uma
    pluralidade de causas. Buscando na observação clinica dos symptomas e na
    marcha das affecções mentaes os indicios da degenerescencia, é evidente
    que elles abandonam o exclusivo criterio etiologico.

    Mas se, d'este modo, uma fonte de divergencias cessa, outra, como vamos
    vêr, immediatamente surge.

    Que anomalias symptomaticas e evolutivas da mentalidade psychiatrica
    deverão ser consideradas como indicios ou estygmas de degenerescencia?

    A este proposito um evidente desaccordo recomeça. Não sendo as doenças
    mentaes em si mesmas senão anomalias do espirito, o problema posto é o
    de procurar a anormalidade no anormal. Com que criterio?

    Magnan não hesita em adoptar _o estado mental_ do louco antes da invasão
    da psychose. Ouçamos as suas proprias palavras: «O grande grupo dos
    predispostos simples, faz-se notar por um caracter essencial,
    invariavel, pathognomonico: até ao dia em que cahem na loucura, os
    doentes que o formam são julgados _normaes_; comparados aos individuos
    que nunca se tornam alienados, nenhuma differença apparente revellam. É
    que n'elles a predisposição não adquiriu ainda um grau sufficiente para
    se traduzir em caracteres especificos. Esta predisposição é latente e
    não produziu senão um resultado: fazer do cerebro um logar de menor
    resistencia e um terreno favoravel, crear uma situação em virtude da
    qual as causas de desorganisação do equilibrio intellectual terão uma
    influencia mais marcada do que em outros e uma acção mais duradoura e
    mais energica. O factor _predisposição_ é evidentemente muito variavel
    como importancia; o seu valor não póde apreciar-se, á falta de criterio
    proprio, a não ser entre dois casos extremos. Como quer que seja, a
    resistencia cerebral dos predispostos deve variar em razão inversa da
    importancia do factor _predisposição_ … N'uma outra grande divisão dos
    predispostos, collocamos os doentes cuja personalidade intellectual e
    moral é completamente transformada desde a base desde o nascimento pelo
    facto da aggravação progressiva do factor _predisposição_. Este grupo
    comprehende os predispostos com _degenerescencia_»[1].

    [1] Magnan et Legrain, _Les dégénérés_, pag. 58.

    Nada, como se vê, apparentemente mais claro: emquanto o simples
    predisposto é um ser _normal_ até á invasão da doença psychica, o
    degenerado é _ab ovo_ um ser anormal. Resta sómente determinar em que
    essa anormalidade consiste. Eis como Magnan se explica a este proposito:
    «Nos degenerados, a predisposição, qualquer que seja a sua natureza
    (hereditaria ou adquirida), produziu uma perturbação profunda das
    funcções psychicas. Desde a origem, desde o nascimento, fazem-se elles
    notar por anomalias quer do sentimento quer da intelligencia, dos
    instinctos e das inclinações, quer de todas estas espheras ao mesmo
    tempo. Adquiriram estygmas que os fazem reconhecer immediatamente e
    agrupar á parte. Além d'isso a tara degenerativa, de que são portadores,
    traduz-se muitas vezes por anomalias physicas, cuja significação vem
    junctar-se á das anomalias psychicas concomitantes. Todos estes estygmas
    são permanentes, nascem com o individuo e só com elle se extinguem. Em
    caso algum, estes doentes pensam, sentem ou actuam como os individuos de
    cerebro normal ou como os predispostos simples. Degenerados por
    accumulação de taras hereditarias, na quasi totalidade dos casos, podem
    sel-o, comtudo, algumas vezes pela intervenção de momentos etiologicos
    potentes, cuja acção desorganisadora se exerce sobretudo nas épocas da
    evolução cerebral, isto é, na primeira infancia: doenças agudas graves,
    taes como a variola, a escarlatina e a febre typhoide, acompanham-se de
    lesões cerebraes irreparaveis. Póde-se admittir ainda a acção
    degenerativa das doenças fetaes, dos traumatismos, n'uma palavra, de
    todas as causas sufficientemente fortes para lesar materialmente os
    centros nervosos ou para impedir o seu desenvolvimento. Mas, qualquer
    que seja a causa degenerativa, hereditaria ou adquirida, os productos
    são identicos, e entre si comparaveis; são portadores de caracteres
    clinicos proprios a fazel-os reconhecer em todos os casos, e
    significativos da tara hereditaria. Comparados aos seus ascendentes
    directos, differem d'elles totalmente no ponto de vista das aptidões
    cerebraes: encontram-se visivelmente n'uma situação mental inferior; são
    seres novos, anormaes, de mecanismo cerebral falseado. A sua situação
    mental define-se n'uma palavra: o equilibrio entre todas as funcções
    cerebraes acha-se destruido e não póde recuperar-se. Fóra mesmo dos
    casos de verdadeira alienação, esta falta de equilibrio é flagrante.
    Quando deliram, as suas concepções revestem caracteres pathognomonicos:
    surgem ás menores causas occasionaes, indicio de extrema instabilidade
    do equilibrio mental. Fóra das causas moraes, cuja influencia é aqui
    preponderante em razão da extrema emotividade particular d'estes
    individuos, os proprios momentos physiologicos–a puberdade, a
    menopause, os menstruos, a prenhez, são causas de perturbação cerebral.
    N'elles, as doenças geraes acompanham-se frequentemente de delirio; o
    cerebro tornou-se o _locus minimae resistentiae_. Os accessos delirantes
    não teem uma evolução propria: affectam todas as fórmas possiveis e
    substituem-se com a maior facilidade. A systematisação e a cohesão das
    concepções delirantes é muito fraca. Não existe nenhuma tendencia á
    systematisação progressiva. Emfim, os degenerados de maior tara são
    candidatos a uma demencia precoce, quer primitiva, quer
    post-delirante»[1].

    [1] Magnan et Legrain, _Obr. cit._, pag. 60 a 62.

    Como se infere d'estas passagens, que citamos _in extenso_, porque
    resumem toda a doutrina da Escóla de Sant'Anna sobre o assumpto, não ha
    verdadeiramente, como poderia parecer, um só criterio, _à posteriori_, o
    estado mental predelirante, para determinar a presença da
    degenerescencia, mas muitos. Ao lado, com effeito, de uma estygmatisação
    psychica, essencialmente consistindo n'um original e irreparavel
    desequilibrio de funcções cerebraes, apparece-nos a estygmatisação
    somatica, a feição polymorpha e a marcha irregular do delirio, e, ainda,
    a desproporção entre a causa occasional, que incide sobre o prediposto,
    e o effeito que ella produz.

    Ora, não é inteiramente facil conjugar entre si todos estes criterios.

    Se o degenerado é, como Magnan proclama, um _predisposto maximo_, e se o
    grau de predisposição é inversamente proporcional ao das causas
    occasionaes, porque não é degenerado o delirante chronico, no qual uma
    vesania irreparavel e perpetua surge as mais das vezes sem causa?
    Responderá Magnan que o delirante chronico é normal até á invasão da
    vesania. Mas quem não vê que, se o eminente alienista se não engana,
    affirmando tal, os seus dois criterios brigam? Por outro lado, como já
    vimos tambem, a estygmatisação physica apparece algumas vezes nos
    delirantes chronicos. Como conciliar, n'estes casos, o criterio das
    anomalias somaticas, indicando degenerescencia, com o da systematisação
    progressiva do delirio, que a exclue?

    Por outro lado, ainda, se o desequilibrio psychico é a principal
    caracteristica das degenerescencias, porque não considerar degenerados
    os hystericos e os epilepticos, tão profundamente desharmonicos sempre
    não manifestações da vida cerebral?

    O criterio clinico de Krafft-Ebing é mais extenso que o de Magnan. A
    presença de um estado de desequilibrio mental antes da invasão da
    doença, sendo para o psychiatra allemão de uma altissima importancia,
    não constitue; comtudo, como para o francez, um caracter essencial e
    imprescindivel do diagnostico da degenerescencia. Fazendo, com enfeito,
    a distincção entre os predispostos simples e os degenerados,
    Krafft-Ebing escreve: «Póde ser objecto de discussão saber se um
    individuo normal até ao apparecimento da psychose, mas procedente de
    geração psychopatica, deve collocar-se n'um ou n'outro grupo»[1]. O
    valor maior ou menor da causa occasional póde servir para dissipar as
    duvidas a este proposito, pois que um dos caracteres distinctivos das
    psychoses dos degenerados reside precisamente no facto da sua eclosão
    espontanea ou sob a influencia de minimos agentes provocadores. Este
    criterio, sobrelevando, na doutrina de Krafft-Ebing, o da presença de um
    desequilibrio mental anterior á psychose, alarga o ambito da
    degenerescencia, introduzindo ahi doenças, que Magnan excluiria sob
    pretexto da normalidade do individuo até á invasão d'ellas. Estão n'este
    caso, por exemplo, alguns delirios systematisados post-menopausicos.

    [1] Krafft-Ebing, _Trattato clinico pratico delle malattie mentali_,
    trad. It., vol. II, pag. 3.

    Krafft-Ebing separa-se ainda de Magnan, fazendo da periodicidade um dos
    signaes das psychoses degenerativas, no que é seguido por consideravel
    numero de psychiatras.

    Os confrontos e citações feitos bastam para mostrar como são numerosas
    as dissidencias dos auctores sobre a constituição nosologica do grupo
    dos degenerados.

    Concluiremos com Pierret que a _degenerescencia não é uma doutrina
    medica_ e que _deve reputar-se um crime ensinal-a?_. A nosso vêr, tem
    tanto de radical e temeraria, como de estreita, uma similhante opinião;
    proclamal-a, equivale a desconhecer que a maior parte dos progressos
    theoricos da psychiatria se devem precisamente á introducção d'esse
    conceito, que, ainda vago e controvertido, póde, comtudo, precisar-se.
    Porque, devemos notal-o, se as divergencias á hora actual são muitas,
    não são poucos, nem de insignificante valor no terreno da nosologia, os
    pontos sobre que se estabeleceu um definitivo accordo. O que a nós se
    nos affigura é que todas as difficuldades e todos os debates n'este
    assumpto procedem exclusivamente da falta de um ponto de vista geral e
    superior.

    Quer considerem a degenerescencia nas suas causas, quer nas suas
    manifestações clinicas, teem os alienistas contemporaneos tratado esta
    noção como se ella houvesse nascido no terreno da psychiatria e d'elle
    fosse tributaria, quando a verdade é que, referivel a todos os seres
    vivos, ella pertence á biologia, onde tem um significado que não é
    licito esquecer, e que, nos seus traços essenciaes, deverá subsistir,
    quaesquer que sejam as suas applicações.

    Isto viu lucidamente Morel, quando, ao trazer para a pathologia mental
    essa noção, subordinou o seu sentido psychiatrico ao anthropologico, e
    este ao da biologia. Infelizmente, o preconceito religioso não permittiu
    a este homem de genio fazer de um modo correcto essa subordinação, em si
    mesma necessaria e eminentemente philosophica.

    O que é, na sua inicial accepção biologica, a degenerescencia? O desvio
    pejorativo de um typo natural, a perda, no individuo, das qualidades
    caracteristicas da especie. Anthropologicamente considerada, a
    degenerescencia não póde, pois, significar senão a inferioridade do
    individuo em relação ao typo natural humano. Mas qual é esse typo? Foi a
    este proposito que na doutrina de Morel se insinuou o prejuizo
    theologico: esse typo, conservado nas tradições sagradas, teria sido o
    homem primitivo, paradisiaco depositario de todas as perfeições
    especificas, mas condemnado, _pelo grande facto da queda original_, a
    condições degradantes de lucta com a natureza.

    A conclusão a tirar d'este modo de vêr, seria que todos os homens são
    degenerados; e se, com gravissima offensa da logica, Morel a evitou, não
    foi senão introduzindo abusivamente a noção de _doença_ no conceito de
    degenerescencia, que define como _desvio morbido de um typo primitivo_.
    A que vem aqui o extranho qualificativo? Se existiu um typo humano
    especificamente perfeito, que as condições, para elle novas, de
    conflicto com o mundo começaram a degradar, é evidente que essas
    condições, pezando sobre os seus descendentes e imprimindo-lhes
    caracteres, que a hereditariedade transmitte, são causas para todos
    elles de mais ou menos extensos desvios. E estes, ou são sempre morbidos
    ou não o são nunca.

    Para escapar a esta conclusão, distinguiu Morel entre si essas causas
    degradativas, affirmando que umas se limitam a provocar variedades ou
    _raças_, emquanto outras conduzem a verdadeiras _monstruosidades_, de
    existencia felizmente limitada por uma maravilhosa e providencial
    esterilidade. D'estas duas ordens de desvios, só os ultimos
    constituiriam degenerescencias, segundo Morel.

    Faz dó vêr um homem de genio a debater-se contra phantasmas; e mais
    entristece reconhecer que os seus erros se transmittiram até nós,
    reapparecendo em trabalhos contemporaneos, como os de Magnan.

    Quem não vê que os iniciaes desvios de typo normal, qualquer que elle
    seja, podem, por condições imprevistas de cruzamento, progredir ou
    attenuar-se? E, sendo assim, quem não vê tambem que uma anomalia de
    ordem psychica ou moral póde tanto desvanecer-se nos descendentes como
    transmittir-se e accentuar-se até á monstruosidade? O proprio Morel,
    reconhecendo a tendencia da natureza á reconstituição do typo especifico
    normal, admittiu a _regeneração_ ao lado da _degenerescencia_. A
    monstruosidade não é, pois, a degenerescencia mesma, mas o seu termo, o
    seu limite, aquillo para que no processo degradativo se caminha, dadas
    infelizes condições geradoras.

    Mas, se o criterio de Morel foi falseado pela intervenção de um extranho
    elemento religioso, é certo que a sua maneira de atacar o problema é a
    unica legitima.

    É, com effeito, como um desvio do typo humano que a degenerescencia tem
    de ser definida em anthropologia. Sómente, esse typo tem de ser
    procurado, não nos dominios da tradição e para traz de nós, mas no
    terreno da previsão scientifica e para diante. Não sendo o homem
    primitivo da lenda, que a anthropologia reduziu ás humildes proporções
    de um animal apenas differenciado dos mamiferos superiores, esse typo é
    um ideal para que podemos suppôr que a humanidade caminha e de que, na
    sua evolução, procura incessantemente approximar-se.

    Mas como determinar-lhe os attributos sem cair nas incertezas da
    phantasia? Surprehendendo as linhas de evolução physica e psychica da
    nossa especie a partir d'esse remoto representante selvagem até hoje.
    Assim, para só fallarmos da evolução psychica, nota-se que,
    intellectualmente, o homem partiu da ideação theologica para attingir a
    scientifica, que, nos dominios do sentimento, derivou de um egoismo
    feroz para chegar a affectos altruistas, emfim, que, no campo da acção,
    procedeu de um automatismo impulsivo para conquistar a vontade.
    Conhecida esta orientação, está achado o meio de approximadamente
    constituir o typo, cujos regressivos desvios, sejam quaes forem as
    causas que os provoquem, constituem degenerescencias no sentido
    anthropologico do termo.

    Este sentido, porém, não é precisamente o da psychiatria.

    Anthropologicameme considerada, a loucura é sempre uma degenerescencia,
    porque em todas as suas multiplas fórmas implica um desvio regressivo,
    total ou parcial, extenso ou limitado, provisorio ou definitivo do typo
    que definimos.

    Psychiatricamente, porém, não é assim. Se o desvio é reparavel dentro da
    vida individual, se elle constitue um accidente ephemero, dependendo
    muito menos de uma falta inicial e congenita de resistencia do que da
    gravidade e continuidade das causas productoras, a loucura não se
    considera degenerativa; é-o, pelo contrario, se constitue um estado
    irreparavel, subsistente, espontaneo ou derivado de insignificantes
    causas e accusando, portanto, uma inferioridade constitucional.

    Mas já nas loucuras não degenerativas, nas psychonevroses, o germe da
    degenerescencia existe; cruzamentos infelizes o desenvolverão na
    descendencia, mercê da hereditariedade; e eis porque, podendo ter as
    mais variadas causas, as loucuras degenerativas teem sido chamadas
    _hereditarias_. Por outro lado, nas fórmas degenerativas menos graves, a
    regeneração é ainda possivel, mercê de cruzamentos felizes, pois que a
    hereditariedade tanto capitalisa as boas como as mas tendencias. Isto é
    dizer que a distincção psychiatrica das psychonevroses e das
    degenerescencias não tem nada de absoluta, desde que, em vez de
    considerarmos os casos extremos das duas escalas, fixamos os mais
    proximos.

    Dizer com Magnan que o _atavismo_ não implica degenerescencia, porque um
    typo regressivo seria _normal_, emquanto que um degenerado é um
    _doente_, que o primeiro, entregue a si, caminharia para diante, como
    fizeram os o contemporaneos da época por elle representada, ao passo que
    o segundo marcharia para a extincção pela infecundidade, é commetter um
    duplo erro: não comprehender que o atavismo humano é sempre parcial e
    incompleto, consistindo na revivescencia _d'algumas_ qualidades
    ancestraes, e não reconhecer que a regeneração aos degenerados
    superiores se torna, em certas condições, possivel. Pois é acaso fatal
    que a descendencia de um phobico ou de um impulsivo, que são para Magnan
    incontestaveis degenerados, venha a liquidar pela idiotia esteril?

    E esse phobico e esse impulsivo não são, pelo facto mesmo do seu
    _terror_ e do seu _automatismo_ indisciplinado, exemplares de atavismo
    parcial?

    Comprehende-se que, a não fazermos um livro do que deve ser apenas um
    final capitulo d'este _Ensaio_, nos cumpre suspender considerações, que
    o assumpto comporta, mas que se não prendem immediatamente com o nosso
    thema. O que acabamos de dizer sobre as degenerescencia em geral,
    conjugando-se com o que foi dito sobre o atavismo intellectual dos
    delirantes systematisados, justifica largamente a conclusão de que a
    Paranoia é uma degenerescencia.

    BIBLIOGRAPHIA

    TRABALHOS FRANCEZES:

    FOVILLE–_La folie avec prédominence du délire des grandeurs_;

    GARNIER–_Des idées de grandeur dans le délire de persécutions_;

    GÉRENTE–_Du délire chronique_;

    KÉRAVAL–_Des délires plus on moins coherents designés sons le nom de
    Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XXIX);

    LEGRAIN–_Du délire chez les dégénérés_;

    LASÈGUE–_Le délire de persécutions_;

    MAGNAN–_Le délire chronique à evolution systematique_;

    MAGNAN–_Leçons cliniques sur les maladies mentales_;

    MAGNAN ET LEGRAIN–_Les dégénérés_;

    RÉGIS–_Manuel pratique de médecine mentale_;

    SÉGLAS–_La Paranoia_ (Archives de Neurologie, vol. XIII).

    TRABALHOS ALLEMÃES:

    CRAMER–_Abgrenzung und Differencial Diagnose der Paranoia_ (Allg.
    Zeitschr. f. Psychiatrie, vol. II);

    FRITSCH–_Die Verwirrtheit_ (Jahbücher f. Psych., vol. II);

    KRAFFT-EBING–_Lehrbuch der Psychiatrie_;

    KRAEPELIN–_Compendium der Psychiatrie_;

    MEYNERT–_Klinische Vorlesüngen über die Psychiatrie_;

    MENDEL–_Paranoia_ (Real Encyclopedie);

    MERKLIN–_Studien über die primäre Verrücktheit_;

    SCHÜLE–_Klinische Psychiatrie_;

    SALGO–_Compendium der Psychiatrie_

    WERNER–_Die Paranoia_.

    TRABALHOS ITALIANOS:

    AMADEI E TONNINI–_La Paranoia e la sue forme_ (Archivio italiano per le
    malattie nervose, 83-84);

    BUCCOLA–_Sui delirii sistematisati_ (Rivista di Freniatria, vol. VIII);

    TANZI–_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. x);

    TANZI E RIVA–_La Paranoia_ (Rivista di Freniatria, vol. X, XI e XII);

    TONNINI–_La Paranoia secundaria_ (Rivista di Freniatria, vol. XIII).

    TRABALHOS INGLEZES E NORTE-AMERICANOS:

    CLOUSTON–_Clinical lectures on mental diseases_;

    HAMMOND–_A Treatise on insanity_;

    HAC TUKE AND BUCKNILL–_A Manual of Psychological medicine_;

    MAUDSLEY–_Pathlogy of Mind_;

    SPITZKA–_A Manual of Insanity_.

    INDICE

    PREFACIO

    PRIMEIRA PARTE

    HISTORIA DOS DELIRIOS SYSTEMATISADOS

    I–PHASE INICIAL

    De Areteo a Esquirol–Confusão dos delirios systematisados com a
    melancolia–A monomania intellectual e as suas fórmas depressiva e
    expansiva.

    II–PHASE ANALYTICA

    De Lasègue a J. Falret e de Griesinger a Snell e Sander–O delirio de
    perseguições; a megalomania; o delirio dos perseguidores; a Verrücktheit
    secundaria; a Verrücktheit originaria–Começo de interpretação
    pathogenica.

    III–PHASE SYNTHETICA

    De Morel a Magnan; de Westphal a Cramer; de Buccola a Tanzi e Riva–A
    loucura hypocondriaca; o delirio chronico; a loucura parcial; a
    Verrücktheit aguda e chronica; a Paranoia; a delusional
    insanity–Determinação pathogenica.

    SEGUNDA PARTE

    EXAME CRITICO DO CONCEITO DE PARANOIA

    I–O DELIRIO CHRONICO

    A etiologia; a marcha; o prognostico–Confronto com os delirios
    polymorphos–A passagem do periodo persecutorio ao ambicioso não é
    vulgar; a passagem á demencia é excepcional–O delirante chronico é um
    degenerado; importante observação pessoal–A prognose dos delirios
    polymorphos é muitas vezes a do Delirio Chronico–Dois conceitos de
    Delirio Chronico no espirito de Magnan; génese do segundo.

    II–A VERRÜCKTHEIT AGUDA

    Dois grupos de psychoses sob a mesma designação; a confusão mental e os
    delirios polymorphos–A Verrücktheit e os delirios incoherentes, critica
    das opiniões de Schüle–A Verrücktheit e os delirios systematisados de
    marcha aguda; a critica das opiniões de Krafft-Ebing–Observação
    pessoal–Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    III–A VERRÜCKTHEIT SECUNDARIA

    Os delirios systematisados que succedem ás psychonevroses; sua
    interpretação pathogenica–A opinião de Tonnini; modificação introduzida
    –Dissociação dos conceitos de Paranoia e Verrücktheit.

    IV–O RACIOCINIO E OS DELIRIOS PARANOICOS

    Erros doutrinarios de Lasègue e Foville sobre a interpretação
    pathogenica dos delirios systematisados; como se perpetuaram na
    psychiatria francesa–A autoobservação e o raciocinio não representam um
    papel na génese dos delirios paranoicos–Depoimento dos factos–A
    primitividade dos delirios paranoicos; sua origem ideativa.

    V–AS ALLUCINAÇÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS

    VI–AS OBSESSÕES E OS DELIRIOS PARANOICOS.

    VII–A PARANOIA E A DEGENERESCENCIA

    Extensão do conceito de degenerescencia; desaccordo dos auctores–Causas
    de degenerescencia; opiniões diversas–A degenerescencia e a observação
    clinica; modo de vêr de Magnan; opinião de Krafft-Ebing–Necessidade de
    um ponto de vista geral; seu caracter anthropologico–A definição de
    Morel; o seu defeito essencial–A noção do atavismo em psychiatria; as
    idéas de Magnan e a sua falta de fundamento–Ponto de vista de Tanzi e
    Riva; documentos justificativos–A Paranoia é uma degenerescencia.

    BIBLIOGRAPHIA

  • A Cidade e as Serras

    A Cidade e as Serras

    Aproximadamente 69.974 palavras.

    EÇA DE QUEIROZ

    A CIDADE E AS SERRAS

    PORTO

    LIVRARIA CHARDRON

    De Lello & Irmão, editores

    1901

    Todos os direitos reservados

    EÇA DE QUEIROZ

    A CIDADE E AS SERRAS

    PORTO

    LIVRARIA CHARDRON

    De Lello & Irmão, editores

    1901

    Todos os direitos reservados

    Pertence no Brazil o direito de propriedade d'esta obra ao cidadão
    Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia
    que lhe offerece a lei n.^o 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente
    deposito na Bibliotheca nacional, segundo a determinação do art. 13.^o
    da mesma Lei.

    _Porto–Imprensa Moderna_

    [Figura de Eça de Queirós]

    A CIDADE E AS SERRAS

    Obras do mesmo auctor:

    *Revista de Portugal.* 4 grossos volumes 12$000

    *As minas de Salomão.* 1 volume $600

    *Os Maias.* 2 grossos volumes 2$000

    *O crime do padre Amaro.* Terceira edição inteiramente refundida,
    recomposta, e differente na fórma e na acção da edição primitiva. 1 grosso
    volume 1$200

    *O primo Bazilio.* Quarta edição. 1 grosso volume 1$000

    *A Reliquia.* 1 grosso volume 1$000

    *O Mandarim.* Quarta edição. 1 volume $500

    *Correspondencia de Fradique Mendes.* 1 volume $600

    *A illustre casa de Ramires.* 1 volume 1$000

    A CIDADE E AS SERRAS

    I

    O meu amigo Jacintho nasceu n'um palacio, com cento e nove contos de
    renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e d'olival.

    No Alemtejo, pela Extremadura, atravez das duas Beiras, densas sebes
    ondulando por collina e valle, muros altos de boa pedra, ribeiras,
    estradas, delimitavam os campos d'esta velha familia agricola que já
    entulhava grão e plantava cepa em tempos d'el-rei D. Diniz. A sua quinta
    e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o
    Tua e o Tinhela, por cinco fartas legoas, todo o torrão lhe pagava fôro.
    E cerrados pinheiraes seus negrejavam desde Arga até ao mar d'Ancora.
    Mas o palacio onde Jacintho nascêra, e onde sempre habitára, era em
    Paris, nos Campos Elyseos, n.^o 202.

    Seu avô, aquelle gordissimo e riquissimo Jacintho a quem chamavam em
    Lisboa o _D. Galião_, descendo uma tarde pela travessa da Trabuqueta,
    rente d'um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou n'uma
    casca de laranja e desabou no lagedo. Da portinha da horta sahia n'esse
    momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e
    botas altas de picador, que, galhofando e com uma força facil, levantou
    o enorme Jacintho–até lhe apanhou a bengala de castão d'ouro que rolára
    para o lixo. Depois, demorando n'elle os olhos pestanudos e pretos:

    –Oh Jacintho Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas
    pedras?

    E Jacintho, aturdido e deslumbrado, reconheceu o snr. Infante D. Miguel!

    Desde essa tarde amou aquelle bom Infante como nunca amára, apesar de
    tão guloso, o seu ventre, e apesar de tão devoto o seu Deus! Na sala
    nobre da sua casa (á Pampulha) pendurou sobre os damascos o retrato do
    «seu Salvador», enfeitado de palmitos como um retabulo, e por baixo a
    bengala que as magnanimas mãos reaes tinham erguido do lixo. Emquanto o
    adoravel, desejado Infante penou no desterro de Vienna, o barrigudo
    senhor corria, sacudido na sua sege amarella, do botequim do Zé-Maria em
    Belem á botica do Placido nos Algibebes, a gemer as saudades do
    _anginho_, a tramar o regresso do _anginho_. No dia, entre todos
    bemdito, em que a _Perola_ appareceu á barra com o Messias, engrinaldou
    a Pampulha, ergueu no Caneiro um monumento de papelão e lona onde D.
    Miguel, tornado S. Miguel, branco, d'aureola e azas de Archanjo, furava
    de cima do seu corcel d'Alter o Dragão do Liberalismo, que se estorcia
    vomitando a Carta. Durante a guerra com o «outro, com o pedreiro livre»
    mandava recoveiros a Santo Thyrso, a S. Gens, levar ao Rei fiambres,
    caixas de dôce, garrafas do seu vinho de Tarrafal, e bolsas de retroz
    atochadas de peças que elle ensaboava para lhes avivar o ouro. E quando
    soube que o snr. D. Miguel, com dois velhos bahus amarrados sobre um
    macho, tomára o caminho de Sines e do final desterro–Jacintho _Galião_
    correu pela casa, fechou todas as janellas como n'um luto, berrando
    furiosamente:

    –Tambem cá não fico! tambem cá não fico!

    Não, não queria ficar na terra perversa d'onde partia, esbulhado e
    escorraçado, aquelle Rei de Portugal que levantava na rua os Jacinthos!
    Embarcou para França com a mulher, a snr.^a D. Angelina Fafes (da tão
    fallada casa dos Fafes da Avellan); com o filho, o 'Cinthinho, menino
    amarellinho, mollesinho, coberto de caróços e leicenços; com a aia e com
    o moleque. Nas costas da Cantabria o paquete encontrou tão rijos mares
    que a snr.^a D. Angelina, esguedelhada, de joelhos na enxerga do
    beliche, prometteu ao Senhor dos Passos d'Alcantara uma corôa
    d'espinhos, de ouro, com as gottas de sangue em rubis do Pegu. Em
    Bayonna, onde arribaram, 'Cinthinho teve ithericia. Na estrada
    d'Orleans, n'uma noite agreste, o eixo da berlinda em que jornadeavam
    partiu, e o nedio senhor, a delicada senhora da casa da Avellan, o
    menino, marcharam tres horas na chuva e na lama do exilio até uma
    aldeia, onde, depois de baterem como mendigos a portas mudas, dormiram
    nos bancos d'uma taberna. No «Hotel dos Santos Padres», em Paris,
    soffreram os terrores d'um fogo que rebentára na cavalhariça, sob o
    quarto de _D. Galião_, e o digno fidalgo, rebolando pelas escadas em
    camisa, até ao pateo, enterrou o pé nú numa lasca de vidro. Então ergueu
    amargamente ao céo o punho cabelludo, e rugiu:

    –Irra! É de mais!

    Logo n'essa semana, sem escolher, Jacintho _Galião_ comprou a um
    Principe polaco, que depois da tomada de Varsovia se mettera frade
    cartuxo, aquelle palacete dos Campos Elyseos, n.^o 202. E sob o pesado
    ouro dos seus estuques, entre as suas ramalhudas sedas se enconchou,
    descançando de tantas agitações, n'uma vida de pachorra e de boa mesa,
    com alguns companheiros d'emigração (o desembargador Nuno Velho, o conde
    de Rabacena, outros menores), até que morreu de indigestão, d'uma
    lampreia d'escabeche que lhe mandára o seu procurador em Monte-mór. Os
    amigos pensavam que a snr.^a D. Angelina Fafes voltaria ao reino. Mas a
    boa senhora temia a jornada, os mares, as caleças que racham. E não se
    queria separar do seu Confessor, nem do seu Medico, que tão bem lhe
    comprehendiam os escrupulos e a asthma.

    –Eu, por mim, aqui fico no 202 (declarára ella), ainda que me faz falta
    a boa agua d'Alcolena… O 'Cinthinho, esse, em crescendo, que decida.

    O 'Cinthinho crescèra. Era um moço mais esguio e livido que um cirio, de
    longos cabellos corredios, narigudo, silencioso, encafuado em roupas
    pretas, muito largas e bambas; de noite, sem dormir, por causa da tosse
    e de suffocações, errava em camisa com uma lamparina atravez do 202; e
    os creados na copa sempre lhe chamavam a _Sombra_. N'essa sua mudez e
    indecisão de sombra surdira, ao fim do luto do papá, o gosto muito vivo
    de tornear madeiras ao torno: depois, mais tarde, com a melada flôr dos
    seus vinte annos, brotou n'elle outro sentimento, de desejo e de pasmo,
    pela filha do desembargador Velho, uma menina redondinha como uma rôla,
    educada n'um convento de Paris, e tão habilidosa que esmaltava, dourava,
    concertava relogios e fabricava chapéos de feltro. No outomno de 1851,
    quando já se desfolhavam os castanheiros dos Campos Elyseos, o
    'Cinthinho cuspilhou sangue. O medico, acarinhando o queixo e com uma
    ruga seria na testa immensa, aconselhou que o menino abalasse para o
    golfo Juan ou para as tepidas areias d'Arcachon.

    'Cinthinho porém, no seu afèrro de sombra, não se quiz arredar da
    Therezinha Velho, de quem se tornára, atravez de Paris, a muda, tardônha
    sombra. Como uma sombra, casou; deu mais algumas voltas ao torno; cuspiu
    um resto de sangue; e passou, como uma sombra.

    Tres mezes e tres dias depois do seu enterro o meu Jacintho nasceu.

    * * * * *

    Desde o berço, onde a avó espalhava funcho e ambar para afugentar a
    _Sorte-Ruim_, Jacintho medrou com a segurança, a rijeza, a seiva rica
    d'um pinheiro das dunas.

    Não teve sarampo e não teve lombrigas. As Letras, a Taboada, o Latim
    entraram por elle tão facilmente como o sol por uma vidraça. Entre os
    camaradas, nos pateos dos collegios, erguendo a sua espada de lata e
    lançando um brado de commando, foi logo o vencedor, o Rei que se adula,
    e a quem se cede a fructa das merendas. Na edade em que se lê Balzac e
    Musset nunca atravessou os tormentos da sensibilidade;–nem crepusculos
    quentes o retiveram na solidão d'uma janella, padecendo d'um desejo sem
    fórma e sem nome. Todos os seus amigos (eramos tres, contando o seu
    velho escudeiro preto, o Grillo) lhe conservaram sempre amizades puras e
    certas–sem que jámais a participação do seu luxo as avivasse ou fossem
    desanimadas pelas evidencias do seu egoismo. Sem coração bastante forte
    para conceber um amor forte, e contente com esta incapacidade que o
    libertava, do amor só experimentou o mel–esse mel que o amor reserva
    aos que o recolhem, á maneira das abelhas, com ligeireza, mobilidade e
    cantando. Rijo, rico, indifferente ao Estado e ao Governo dos Homens,
    nunca lhe conhecemos outra ambição além de comprehender bem as Ideias
    Geraes; e a sua intelligencia, nos annos alegres de escólas e
    controversias, círculava dentro das Philosophias mais densas como enguia
    lustrosa na agua limpa d'um tanque. O seu valor, genuino, de fino
    quilate, nunca foi desconhecido, nem desapreciado; e toda a opinião, ou
    mera facecia que lançasse, logo encontrava uma aragem de sympathia e
    concordancia que a erguia, a mantinha emballada e rebrilhando nas
    alturas. Era servido pelas cousas com docilidade e carinho;–e não
    recordo que jamais lhe estalasse um botão da camisa, ou que um papel
    maliciosamente se escondesse dos seus olhos, ou que ante a sua
    vivacidade e pressa uma gaveta perfida emperrasse. Quando um dia, rindo
    com descrido riso da Fortuna e da sua Roda, comprou a um sachristão
    hespanhol um Decimo de Loteria, logo a Fortuna, ligeira e ridente sobre
    a sua Roda, correu n'um fulgor, para lhe trazer quatro centas mil
    pesetas. E no ceu as Nuvens, pejadas e lentas, se avistavam Jacintho sem
    guarda chuva, retinham com reverencia as suas aguas até que elle
    passasse… Ah! o ambar e o funcho da snr.^a D. Angelina tinham
    escorraçado do seu destino, bem triumphalmente e para sempre, a
    _Sorte-Ruim_! A amoravel avó (que eu conheci obesa, com barba) costumava
    citar um soneto natalicio do desembargador Nunes Velho contendo um verso
    de boa lição:

    Sabei, senhora, que esta Vida é um rio…

    Pois um rio de verão, manso, translucido, harmoniosamente estendido
    sobre uma areia macia e alva, por entre arvoredos fragrantes e ditosas
    aldeias, não offereceria áquelle que o descesse n'um barco de cedro, bem
    toldado e bem almofadado, com fructas e Champagne a refrescar em gelo,
    um Anjo governando ao leme, outros Anjos puxando á sirga, mais segurança
    e doçura do que a Vida offerecia ao meu amigo Jacintho.

    Por isso nós lhe chamavamos «o Principe da Gran-Ventura»!

    * * * * *

    Jacintho e eu, José Fernandes, ambos nos encontramos e acamaradamos em
    Paris, nas Escólas do Bairro Latino–para onde me mandára meu bom tio
    Affonso Fernandes Lorena de Noronha e Sande, quando aquelles malvados me
    riscaram da Universidade por eu ter esborrachado, n'uma tarde de
    procissão, na Sophia, a cara sordida do dr. Paes Pitta.

    Ora n'esse tempo Jacintho concebêra uma Ideia… Este Principe concebêra
    a Ideia de que «o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
    civilisado». E por homem civilisado o meu camarada entendia aquelle que,
    robustecendo a sua força pensante com todas as noções adquiridas desde
    Aristoteles, e multiplicando a potencia corporal dos seus orgãos com
    todos os mechanismos inventados desde Theramenes, creador da roda, se
    torna um magnifico Adão, quasí omnipotente, quasí omnisciente, e apto
    portanto a recolher dentro d'uma sociedade e nos limites do Progresso
    (tal como elle se comportava em 1875) todos os gozos e todos os
    proveitos que resultam de Saber e de Poder… Pelo menos assim Jacintho
    formulava copiosamente a sua Ideia, quando conversavamos de fins e
    destinos humanos, sorvendo bocks poeirentos, sob o toldo das cervejarias
    philosophicas, no Boulevard Saint-Michel.

    Este conceito de Jacintho impressionára os nossos camaradas de cenaculo,
    que tendo surgido para a vida intellectual, de 1866 a 1875, entre a
    batalha de Sadowa e a batalha de Sedan, e ouvindo constantemente, desde
    então, aos technicos e aos philosophos, que fôra a Espingarda-de-agulha
    que vencêra em Sadowa e fôra o Mestre-de-escóla quem vencêra em Sedan,
    estavam largamente preparados a acreditar que a felicidade dos
    individuos, como a das nações, se realisa pelo illimitado
    desenvolvimento da Mechanica e da Erudição. Um d'esses moços mesmo, o
    nosso inventivo Jorge Carlande, reduzíra a theoria de Jacintho, para lhe
    facilitar a circulação e lhe condensar o brilho, a uma fórma algebrica:

    Summa sciencia}
    X }= Summa felicidade
    Summa potencia}

    E durante dias, do Odeon á Sorbonna, foi louvada pela mocidade positiva
    a _Equação Metaphysica de Jacintho_.

    Para Jacintho, porém, o seu conceito não era meramente metaphysico e
    lançado pelo gozo elegante de exercer a razão especulativa:–mas
    constituia uma regra, toda de realidade e de utilidade, determinando a
    conducta, modalisando a vida. E já a esse tempo, em concordancia com o
    seu preceito–elle se surtira da _Pequena Encyclopedia dos Conhecimentos
    Universaes_ em setenta e cinco volumes e installára, sobre os telhados
    do 202, n'um mirante envidraçado, um telescopio. Justamente com esse
    telescopio me tornou elle palpavel a sua ideia, n'uma noite de agosto,
    de molle e dormente calor. Nos céos remotos lampejavam relampagos
    languidos. Pela Avenida dos Campos Elyseos, os fiacres rolavam para as
    frescuras do Bosque, lentos, abertos, cançados, transbordando de
    vestidos claros.

    –Aqui tens tu, Zé Fernandes, (começou Jacintho, encostado á janella do
    mirante) a theoria que me governa, bem comprovada. Com estes olhos que
    recebemos da Madre natureza, lestos e sãos, nós podemos apenas
    distinguir além, atravez da Avenida, n'aquella loja, uma vidraça
    alumiada. Mais nada! Se eu porém aos meus olhos juntar os dois vidros
    simples d'um binoculo de corridas, percebo, por traz da vidraça,
    presuntos, queijos, boiões de gelêa e caixas de ameixa sêcca. Concluo
    portanto que é uma mercearia. Obtive uma noção; tenho sobre ti, que com
    os olhos desarmados vês só o luzir da vidraça, uma vantagem positiva. Se
    agora, em vez d'estes vidros simples, eu usasse os do meu telescopio, de
    composição mais scientifica, poderia avistar além, no planeta Marte, os
    mares, as neves, os canaes, o recorte dos golphos, toda a geographia
    d'um astro que circula a milhares de leguas dos Campos Elyseos. É outra
    noção, e tremenda! Tens aqui pois o olho primitivo, o da Natureza,
    elevado pela Civilisação á sua maxima potencia de visão. E desde já,
    pelo lado do olho portanto, eu, civilisado, sou mais feliz que o
    incivilisado, porque descubro realidades do Universo que elle não
    suspeita e de que está privado. Applica esta prova a todos os orgãos e
    comprehendes o meu principio. Emquanto á intelligencia, e á felicidade
    que d'ella se tira pela incançavel accumulação das noções, só te peco
    que compares Renan e o Grillo… Claro é portanto que nos devemos cercar
    de Civilisação nas maximas proporções para gosar nas maximas proporções
    a vantagem de viver. Agora concordas, Zé Fernandes?

    Não me parecia irrecusavelmente certo que Renan fosse mais feliz que o
    Grillo; nem eu percebia que vantagem espiritual ou temporal se côlha em
    distinguir atravez do espaço manchas n'um astro, ou atravez da Avenida
    dos Campos Elyseos presuntos n'uma vidraça. Mas concordei, porque sou
    bom, e nunca desalojarei um espirito do conceito onde elle encontra
    segurança, disciplina e motivo de energia. Desabotoei o collete, e
    lançando um gesto para o lado dos cafés e das luzes:

    –Vamos então beber, nas maximas proporções, _brandy and soda_, com
    gelo!

    Por uma conclusão bem natural, a ideia de Civilisação, para Jacintho,
    não se separava da imagem de Cidade, d'uma enorme Cidade, com todos os
    seus vastos orgãos funccionando poderosamente. Nem este meu
    super-civilisado amigo comprehendia que longe de Armazens servidos por
    tres mil caixeiros; e de Mercados onde se despejam os vergeis e lezirias
    de trinta provincias; e de Bancos em que retine o ouro universal; e de
    Fabricas fumegando com ancia, inventando com ancia; e de Bibliothecas
    abarrotadas, a estalar, com a papelada dos seculos; e de fundas milhas
    de ruas, cortadas, por baixo e por cima, de fios de telegraphos, de fios
    de telephones, de canos de gazes, de canos de fezes; e da fila atroante
    dos omnibus, tramways, carroças, velocipedes, calhambeques, parelhas de
    luxo; e de dois milhões d'uma vaga humanidade, fervilhando, a offegar,
    atravez da Policia, na busca dura do pão ou sob a illusão do gozo–o
    homem do seculo XIX podesse saborear, plenamente, a delicia de viver!

    Quando Jacintho, no seu quarto do 202, com as varandas abertas sobre os
    lilazes, me desenrolava estas imagens, todo elle crescia, illuminado.
    Que creação augusta, a da Cidade! Só por ella, Zé-Fernandes, só por
    ella, póde o homem soberbamente affirmar a sua alma!…

    –Oh Jacintho, e a religião? Pois a religião não prova a alma?

    Elle encolhia os hombros. A religião! A religião é o desenvolvimento
    sumptuoso de um instincto rudimentar, commum a todos os brutos, o
    terror. Um cão lambendo a mão do dono, de quem lhe vem o osso ou o
    chicote, já constitue toscamente um devoto, o consciente devoto,
    prostrado em rezas ante o Deus que distribue o céo ou o inferno!… Mas
    o telephone! o phonographo!

    –Ahi tens tu, o phonographo!… Só o phonographo, Zé Fernandes, me faz
    verdadeiramente sentir a minha superioridade de sêr pensante e me separa
    do bicho. Acredita, não ha senão a Cidade, Zé Fernandes, não ha senão a
    Cidade!

    E depois (accrescentava) só a Cidade lhe dava a sensação, tão necessaria
    á vida como o calor, da solidariedade humana. E no 202, quando
    considerava em redor, nas densas massas do casario de Paris, dois
    milhões de sêres arquejando na obra da Civilisação (para manter na
    natureza o dominio dos Jacinthos!) sentia um socego, um conchego, só
    comparaveis ao do peregrino, que, ao atravessar o deserto, se ergue no
    seu dromedario, e avista a longa fila da caravana marchando, cheia de
    lumes e de armas…

    Eu murmurava, impressionado:

    –Caramba!

    Ao contrario no campo, entre a inconsciencia e a impassibilidade da
    Natureza, elle tremia com o terror da sua fragilidade e da sua solidão.
    Estava ahi como perdido n'um mundo que lhe não fosse fraternal; nenhum
    silvado encolheria os espinhos para que elle passasse; se gemesse com
    fome nenhuma arvore, por mais carregada, lhe estenderia o seu fructo na
    ponta compassiva d'um ramo. Depois, em meio da Natureza, elle assistia á
    subita e humilhante inutilisação de todas as suas faculdades superiores.
    De que servia, entre plantas e bichos–ser um Genio ou ser um Santo? As
    searas não comprehendem as _Georgicas_; e fôra necessario o socorro
    ancioso de Deus, e a inversão de todas as leis naturaes, e um violento
    milagre para que o lobo de Agubio não devorasse S. Francisco d'Assis,
    que lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava «meu irmão lobo»!
    Toda a intellectualidade, nos campos, se esterilisa, e só resta a
    bestialidade. N'esses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas unicas
    funcções se mantêm vivas, a nutritiva e a procreadora. Isolada, sem
    occupação, entre focinhos e raizes que não cessam de sugar e de pastar,
    suffocando no calido bafo da universal fecundação, a sua pobre alma toda
    se engelhava, se reduzia a uma migalha d'alma, uma fagulhasinha
    espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um naco de materia; e n'essa
    materia dois instinctos surdiam, imperiosos e pungentes, o de devorar e
    o de gerar. Ao cabo de uma semana rural, de todo o seu sêr tão
    nobremente composto só restava um estomago e por baixo um phallus! A
    alma? Sumida sob a besta. E necessitava correr, reentrar na Cidade,
    mergulhar nas ondas lustraes da Civilisação, para largar n'ellas a
    crosta vegetativa, e resurgir re-humanisado, de novo espiritual e
    Jacinthico!

    E estas requintadas metaphoras do meu amigo exprimiam sentimentos
    reaes–que eu testemunhei, que muito me divertiram, no unico passeio que
    fizemos ao campo, á bem amavel e bem sociavel floresta de Montmorency.
    Oh delicias d'entremez, Jacintho entre a Natureza! Logo que se afastava
    dos pavimentos de madeira, do macadam, qualquer chão que os seus pés
    calcassem o enchia de desconfiança e terror. Toda a relva, por mais
    crestada, lhe parecia reçumar uma humidade mortal. De sob cada torrão,
    da sombra de cada pedra, receava o assalto de lacraus, de viboras, de
    fórmas rastejantes e viscosas. No silencio do bosque sentia um lugubre
    despovoamento do Universo. Não tolerava a familiaridade dos galhos que
    lhe roçassem a manga ou a face. Saltar uma sebe era para elle um acto
    degradante que o retrogradava ao macaco inicial. Todas as flôres que não
    tivesse já encontrado em jardins, domesticadas por longos seculos de
    servidão ornamental, o inquietavam como venenosas. E considerava d'uma
    melancolia funambulesca certos modos e fórmas do Sêr inanimado, a pressa
    esperta e vã dos regatinhos, a careca dos rochedos, todas as contorsões
    do arvoredo e o seu resmungar solemne e tonto.

    Depois d'uma hora, n'aquelle honesto bosque de Montmorency, o meu pobre
    amigo abafava, apavorado, experimentando já esse lento mingoar e sumir
    d'alma que o tornava como um bicho entre bichos. Só desannuviou quando
    penetramos no lagêdo e no gaz de Paris–e a nossa vittoria quasi se
    despedaçou contra um omnibus retumbante, atulhado de cidadãos. Mandou
    descer pelos Boulevards, para dissipar, na sua grossa sociabilidade,
    aquella materialisação em que sentia a cabeça pesada e vaga como a d'um
    boi. E reclamou que eu o acompanhasse ao theatro das Variedades para
    sacudir, com os estribilhos da _Femme à Papa_, o rumor importuno que lhe
    ficára dos melros cantando nos choupos altos.

    Este delicioso Jacintho fizera então vinte e tres annos, e era um
    soberbo moço em quem reapparecêra a força dos velhos Jacinthos ruraes.
    Só pelo nariz, afilado, com narinas quasi transparentes, d'uma
    mobilidade inquieta, como se andasse fariscando perfumes, pertencia ás
    delicadezas do seculo XIX. O cabello ainda se conservava, ao modo das
    éras rudes, crespo e quasi lanigero: e o bigode, como o d'um Celta,
    cahia em fios sedosos, que elle necessitava aparar e frizar. Todo o seu
    fato, as espessas gravatas de setim escuro que uma perola prendia, as
    luvas de anta branca, o verniz das botas, vinham de Londres em caixotes
    de cedro; e usava sempre ao peito uma flôr, não natural, mas composta
    destramente pela sua ramalheteira com petalas de flôres dessemelhantes,
    cravo, azalea, orchidea ou tulipa, fundidas na mesma haste entre uma
    leve folhagem de funcho.

    * * * * *

    Em 1880, em Fevereiro, n'uma cinzenta e arripiada manhã de chuva, recebi
    uma carta de meu bom tio Affonso Fernandes, em que, depois de
    lamentações sobre os seus setenta annos, os seus males hemorroidaes, e a
    pesada gerencia dos seus bens «que pedia homem mais novo, com pernas
    mais rijas»–me ordenava que recolhesse á nossa casa de Guiães, no
    Douro! Encostado ao marmore partido do fogão, onde na véspera a minha
    Nini deixára um espartilho embrulhado no _Jornal dos Debates_, censurei
    severamente meu tio que assim cortava em botão, antes de desabrochar, a
    flôr do meu Saber Juridico. Depois n'um Post-Scriptum elle
    accrescentava–«O tempo aqui está lindo, o que se póde chamar de rosas,
    e tua santa tia muito se recommenda, que anda lá pela cozinha, porque
    vai hoje em trinta e seis annos que casámos, temos cá o abbade e o
    Quintaes a jantar, e ella quiz fazer uma sopa dourada».

    Deitando uma acha ao lume, pensei como devia estar boa a sopa dourada da
    tia Vicencia. Ha quantos annos não a provava, nem o leitão assado, nem o
    arroz de fôrno da nossa casa! Com o tempo assim tão lindo, já as mimosas
    do nosso pateo vergariam sob os seus grandes cachos amarellos. Um pedaço
    de céo azul, do azul de Guiães, que outro não ha tão lustroso e macio,
    entrou pelo quarto, alumiou, sobre a poida tristeza do tapete, relvas,
    ribeirinhos, malmequeres e flôres de trevo de que meus olhos andavam
    agoados. E, por entre as bambinellas de sarja, passou um ar fino e forte
    e cheiroso de serra e de pinheiral.

    Assobiando um _fado_ meigo tirei debaixo da cama a minha velha mala, e
    metti solicitamente entre calças e piugas um Tratado de Direito Civil,
    para aprender emfim, nos vagares da aldeia, estendido sob a faia, as
    leis que regem os homens. Depois, n'essa tarde, annunciei a Jacintho que
    partia para Guiães. O meu camarada recuou com um surdo gemido de espanto
    e piedade:

    –Para Guiães!… Oh Zé Fernandes, que horror!

    E toda essa semana me lembrou solicitamente confortos de que eu me
    deveria prover para que pudesse conservar, nos ermos silvestres, tão
    longe da Cidade, uma pouca d'alma dentro d'um pouco de corpo. «Leva uma
    poltrona! Leva a _Encyclopedia Geral_! Leva caixas de aspargos!…»

    Mas para o meu Jacintho, desde que assim me arrancavam da Cidade, eu era
    arbusto desarraigado que não reviverá. A magoa com que me acompanhou ao
    comboio conviria excellentemente ao meu funeral. E quando fechou sobre
    mim a portinhola, gravemente, supremamente, como se cerra uma grade de
    sepultura, eu quasi solucei–com saudades minhas.

    Cheguei a Guiães. Ainda restavam flôres nas mimosas do nosso pateo; comi
    com delicias a sopa dourada da tia Vicencia; de tamancos nos pés assisti
    á ceifa dos milhos. E assim de colheitas a lavras, crestando ao sol das
    eiras, caçando a perdiz nos matos geados, rachando a melancia fresca na
    poeira dos arraiaes, arranchando a magustos, serandando á candeia,
    atiçando fogueiras de S. João, enfeitando presepios de Natal, por alli
    me passaram docemente sete annos, tão atarefados que nunca logrei abrir
    o Tratado de Direito Civil, e tão singelos que apenas me recordo quando,
    em vésperas de S. Nicolau, o abbade cahiu da egua á porta do Braz das
    Córtes. De Jacintho só recebia raramente algumas linhas, escrevinhadas á
    pressa por entre o tumulto da Civilisação. Depois, n'um Setembro muito
    quente, ao lidar da vindima, meu bom tio Affonso Fernandes morreu, tão
    quietamente, Deus seja louvado por esta graça, como se cala um
    passarinho ao fim do seu bem cantado e bem voado dia. Acabei pela aldeia
    a roupa do luto. A minha afilhada Joanninha casou na matança do porco.
    Andaram obras no nosso telhado. Voltei a Paris.

    II

    Era de novo Fevereiro, e um fim de tarde arripiado e cinzento, quando eu
    desci os Campos Elyseos em demanda do 202. Adiante de mim caminhava,
    levemente curvado, um homem que, desde as botas rebrilhantes até ás abas
    recurvas do chapéo d'onde fugiam anneis d'um cabello crespo, reçumava
    elegancia e a familiaridade das coisas finas. Nas mãos, cruzadas atraz
    das costas, calçadas d'anta branca, sustentava uma bengala grossa com
    castão de crystal. E só quando elle parou ao portão do 202 reconheci o
    nariz afilado, os fios do bigode corredios e sedosos.

    –Oh Jacintho!

    –Oh Zé Fernandes!

    O abraço que nos enlaçou foi tão alvoroçado que o meu chapéo rolou na
    lama. E ambos murmuravamos, commovidos, entrando a grade:

    –Ha sete annos!…

    –Ha sete annos!…

    E, todavia, nada mudára durante esses sete annos no jardim do 202! Ainda
    entre as duas aleas bem areadas se arredondava uma relva, mais lisa e
    varrida que a lã d'um tapete. No meio o vaso corinthico esperava Abril
    para resplandecer com tulipas e depois Junho para transbordar de
    margaridas. E ao lado das escadas limiares, que uma vidraçaria toldava,
    as duas magras Deusas de pedra, do tempo de D. Galião, sustentavam as
    antigas lampadas de globos foscos, onde já silvava o gaz.

    Mas dentro, no peristillo, logo me surprehendeu um elevador installado
    por Jacintho–apesar do 202 ter sómente dois andares, e ligados por uma
    escadaria tão doce que nunca offendêra a asthma da snr.^a D. Angelina!
    Espaçoso, tapetado, elle offerecia, para aquella jornada de sete
    segundos, confortos numerosos, um divan, uma pelle d'urso, um roteiro
    das ruas de Paris, prateleiras gradeadas com charutos e livros. Na
    antecamara, onde desembarcamos, encontrei a temperatura macia e tepida
    d'uma tarde de Maio, em Guiães. Um creado, mais attento ao thermometro
    que um piloto á agulha, regulava destramente a bocca dourada do
    calorifero. E perfumadores entre palmeiras, como n'um terrasso santo de
    Benares, esparziam um vapor, aromatisando e salutarmente humedecendo
    aquelle ar delicado e superfino.

    Eu murmurei, nas profundidades do meu assombrado sêr:

    –Eis a civilisação!

    Jacintho empurrou uma porta, penetramos n'uma nave cheia de magestade e
    sombra, onde reconheci a Bibliotheca por tropeçar n'uma pilha monstruosa
    de livros novos. O meu amigo roçou de leve o dedo na parede: e uma corôa
    de lumes electricos, refulgindo entre os lavores do tecto, alumiou as
    estantes monumentaes, todas d'ebano. N'ellas repousavam mais de trinta
    mil volumes, encadernados em branco, em escarlate, em negro, com
    retoques d'ouro, hirtos na sua pompa e na sua auctoridade como doutores
    n'um concilio.

    Não contive a minha admiração:

    –Oh Jacintho! Que deposito!

    Elle murmurou, n'um sorriso descorado:

    –Ha que lêr, ha que lêr…

    Reparei então que o meu amigo emmagrecera: e que o nariz se lhe afilára
    mais entre duas rugas muito fundas, como as d'um comediante cançado. Os
    anneis do seu cabello lanigero rareavam sobre a testa, que perdera a
    antiga serenidade de marmore bem polido. Não frisava agora o bigode
    murcho, cahido em fios pensativos. Tambem notei que corcovava.

    Elle erguêra uma tapeçaria–entramos no seu gabinete de trabalho, que me
    inquietou. Sobre a espessura dos tapetes sombrios os nossos passos
    perderam logo o som, e como a realidade. O damasco das paredes, os
    divans, as madeiras, eram verdes, d'um verde profundo de folha de louro.
    Sêdas verdes envolviam as luzes electricas, dispersas em lampadas tão
    baixas que lembravam estrellas cahidas por cima das mesas, acabando de
    arrefecer e morrer: só uma rebrilhava, núa e clara, no alto d'uma
    estante quadrada, esguia, solitaria como uma torre n'uma planicie, e de
    que o lume parecia ser o pharol melancolico. Um biombo de laca verde,
    fresco verde de relva, resguardava a chaminé de marmore verde, verde de
    mar sombrio, onde esmoreciam as brazas d'uma lenha aromatica. E entre
    aquelles verdes reluzia, por sobre peanhas e pedestaes, toda uma
    Mechanica sumptuosa, apparelhos, laminas, rodas, tubos, engrenagens,
    hastes, friezas, rigidezas de metaes…

    Mas Jacintho batia nas almofadas do divan, onde se enterrára com um modo
    cançado que eu não lhe conhecia:

    –Para aqui, Zé Fernandes, para aqui! É necessario reatarmos estas
    nossas vidas, tão apartadas ha sete annos!… Em Guiães, sete annos! Que
    fizeste tu?

    –E tu, que tens feito, Jacintho?

    O meu amigo encolheu mollemente os hombros. Vivêra–cumprira com
    serenidade todas as funcções, as que pertencem á materia e as que
    pertencem ao espirito…

    –E accumulaste civilisação, Jacintho! Santo Deus… Está tremendo, o
    202!

    Elle espalhou em torno um olhar onde já não faiscava a antiga
    vivacidade:

    –Sim, ha confortos… Mas falta muito! A humanidade ainda está mal
    apetrechada, Zé Fernandes… E a vida conserva resistencias.

    Subitamente, a um canto, repicou a campainha do telephone. E emquanto o
    meu amigo, curvado sobre a placa, murmurava impaciente «_Está lá?–Está
    lá?_», examinei curiosamente, sobre a sua immensa mesa de trabalho, uma
    estranha e miuda legião de instrumentosinhos de nickel, d'aço, de cobre,
    de ferro, com gumes, com argolas, com tenazes, com ganchos, com dentes,
    expressivos todos, de utilidades misteriosas. Tomei um que tentei
    manejar–e logo uma ponta malevola me picou um dedo. N'esse instante
    rompeu d'outro canto um «tic-tic-tic» açodado, quasi ancioso. Jacintho
    acudiu, com a face no telephone:

    –Vê ahi o telegrapho!… Ao pé do divan. Uma tira de papel que deve
    estar a correr.

    E, com effeito, d'uma redôma de vidro posta n'uma columna, e contendo um
    apparelho esperto e diligente, escorria para o tapete, como uma tenia, a
    longa tira de papel com caracteres impressos, que eu, homem das serras,
    apanhei, maravilhado. A linha, traçada em azul, annunciava ao meu amigo
    Jacintho que a fragata russa _Azoff_ entrára em Marselha com avaria!

    Já elle abandonára o telephone. Desejei saber, inquieto, se o
    prejudicava directamente aquella avaria da _Azoff_.

    –Da _Azoff_?… A avaria? A mim?… Não! É uma noticia.

    Depois, consultando um relogio monumental que, ao fundo da Bibliotheca,
    marcava a hora de todas as Capitaes e o curso de todos os Planetas:

    –Eu preciso escrever uma carta, seis linhas… Tu esperas, não, Zé
    Fernandes? Tens ahi os jornaes de Paris, da noite; e os de Londres,
    d'esta manhã. As Illustrações além, n'aquella pasta de couro com
    ferragens.

    Mas eu preferi inventariar o gabinete, que dava á minha profanidade
    serrana todos os gostos d'uma iniciação. Aos lados da cadeira de
    Jacintho pendiam gordos tubos acusticos, por onde elle decerto soprava
    as suas ordens através do 202. Dos pés da mesa cordões tumidos e molles,
    colleando sobre o tapete, corriam para os recantos de sombra á maneira
    de cobras assustadas. Sobre uma banquinha, e reflectida no seu verniz
    como na agua d'um poço, pousava uma Machina-de-escrever: e adiante era
    uma immensa Machina-de-calcular, com fileiras de buracos d'onde
    espreitavam, esperando, numeros rigidos e de ferro. Depois parei em
    frente da estante que me preoccupava, assim solitaria, á maneira d'uma
    torre n'uma planicie, com o seu alto pharol. Toda uma das suas faces
    estava repleta de Diccionarios; a outra de Manuaes; a outra de Atlas; a
    ultima de Guias, e entre elles, abrindo um folio, encontrei o Guia das
    ruas de Samarkande. Que macissa torre de informação! Sobre prateleiras
    admirei apparelhos que não comprehendia:–um composto de laminas de
    gelatina, onde desmaiavam, meio-chupadas, as linhas d'uma carta, talvez
    amorosa; outro, que erguia sobre um pobre livro brochado, como para o
    decepar, um cutello funesto; outro avançando a bocca d'uma tuba, toda
    aberta para as vozes do invisivel. Cingidos aos umbraes, liados ás
    cimalhas, luziam arames, que fugiam através do tecto, para o espaço.
    Todos mergulhavam em forças universaes, todos transmittiam forças
    universaes. A Natureza convergia disciplinada ao serviço do meu amigo e
    entrára na sua domesticidade!…

    Jacintho atirou uma exclamação impaciente:

    –Oh, estas pennas electricas!… Que secca!

    Amarrotára com colera a carta começada–eu escapei, respirando, para a
    Bibliotheca. Que magestoso armazem dos productos do Raciocinio e da
    Imaginação! Alli jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto
    essenciaes a uma cultura humana. Logo á entrada notei, em ouro n'uma
    lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas.
    Avancei–e percorri, espantado, oito metros de Economia Politica. Depois
    avistei os Philosophos e os seus commentadores, que revestiam toda uma
    parede, desde as escólas Pre-socraticas até ás escólas Neo-pessimistas.
    N'aquellas pranchas se acastellavam mais de dois mil systemas–e que
    todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as
    doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em
    cima, resplandecia, n'uma pellica pura e alva. Para diante começavam as
    Historias Universaes. Mas ahi uma immensa pilha de livros brochados,
    cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante,
    como fresca terra d'alluvião tapando uma riba secular. Contornei essa
    collina, mergulhei na secção das Sciencias Naturaes, peregrinando, n'um
    assombro crescente, da Orographia para a Paleontologia, e da Morphologia
    para a Crystallographia. Essa estante rematava junto d'uma janella
    rasgada sobre os Campos Elyseos. Apartei as cortinas de velludo–e por
    traz descobri outra portentosa rima de volumes, todos de Historia
    Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos
    ultimos vidros, vedando, nas manhãs mais candidas, o ar e a luz do
    Senhor.

    Mas depois rebrilhava, em marroquins claros, a estante amavel dos
    Poetas. Como um repouso para o espirito esfalfado de todo aquelle saber
    positivo, Jacintho aconchegára ahi um recanto, com um divan e uma mesa
    de limoeiro, mais lustrosa que um fino esmalte, coberta de charutos, de
    cigarros d'Oriente, de tabaqueiras do seculo XVIII. Sobre um cofre de
    madeira lisa pousava ainda, esquecido, um prato de damascos seccos do
    Japão. Cedi á seducção das almofadas; trinquei um damasco, abri um
    volume; e senti estranhamente, ao lado, um zumbido, como de um insecto
    de azas harmoniosas. Sorri á idéa que fossem abelhas, compondo o seu mel
    n'aquelle massiço de versos em flôr. Depois percebi que o susurro remoto
    e dormente vinha do cofre de mogne, de parecer tão discreto. Arredei uma
    _Gazeta de França_; e descornitei um cordão que emergia de um orificio,
    escavado no cofre, e rematava n'um funil de marfim. Com curiosidade,
    encostei o funil a esta minha confiada orelha, afeita á singeleza dos
    rumores da serra. E logo uma Voz, muito mansa, mas muito dicidida,
    aproveitando a minha curiosidade para me invadir e se apoderar do meu
    entendimento, susurrou capciosamente:

    –…«E assim, pela disposição dos cubos diabolicos, eu chego a
    verificar os espaços hypermagicos!…»

    Pulei, com um berro.

    –Oh Jacintho, aqui ha um homem! Está aqui um homem a fallar dentro
    d'uma caixa!

    O meu camarada, habituado aos prodigios, não se alvoroçou:

    –É o Conferençophone… Exactamente como o Theatrophone; sómente
    applicado ás escólas e ás conferencias. Muito commodo!… Que diz o
    homem, Zé Fernandes?

    Eu considerava o cofre, ainda esgazeado:

    –Eu sei! Cubos diabolicos, espaços magicos, toda a sorte de horrores…

    Senti dentro o sorriso superior de Jacintho:

    –Ah, é o coronel Dorchas… Lições de Metaphysica Positiva sobre a
    Quarta Dimensão… Conjecturas, uma massada! Ouve lá, tu hoje jantas
    commigo e com uns amigos, Zé Fernandes?

    –Não, Jacintho… Estou ainda enfardelado pelo alfaiate da serra!

    E voltei ao gabinete mostrar ao meu camarada o jaquetão de flanella
    grossa, a gravata de pintinhas escarlates, com que ao domingo, em
    Guiães, visitava o Senhor. Mas Jacintho affirmou que esta simplicidade
    montesina interessaria os seus convidados, que eram dois artistas…
    Quem? O auctor do _Coração Triplo_, um Psychologo Feminista, d'agudeza
    transcendente, Mestre muito experimentado e muito consultado em
    Sciencias Sentimentaes; e Vorcan, um pintor mythico, que interpretára
    ethereamente, havia um anno, a symbolia rapsodica do cerco de Troia,
    n'uma vasta composição, _Helena Devastadora_…

    Eu coçava a barba:

    –Não, Jacintho, não… Eu venho de Guiães, das serras; preciso entrar
    em toda esta civilisacão, lentamente, com cautella, senão rebento. Logo
    na mesma tarde a electricidade, e o conferençophone, e os espaços
    hypermagicos e o feminista, e o ethereo, e a symbolia devastadora, é
    excessivo! Volto ámanhã.

    Jacintho dobrava vagarosamente a sua carta, onde mettera sem rebuço
    (como convinha á nossa fraternidade) duas violetas brancas tiradas do
    ramo que lhe floria o peito.

    –Ámanhã, Zé Fernandes, tu vens antes d'almoço, com as tuas malas dentro
    d'um fiacre, para te installares no 202, no teu quarto. No Hotel são
    embaraços, privações. Aqui tens o telephone, o teatrophone, livros…

    Acceitei logo, com simplicidade. E Jacintho, embocando um tubo acustico,
    murmurou:

    –Grillo!

    Da parede, recoberta de damasco, que subitamente e sem rumor se fendeu,
    surdio o seu velho escudeiro (aquelle moleque que viera com _D.
    Gallião_), que eu me alegrei de encontrar tão rijo, mais negro,
    reluzente e veneravel na sua tesa gravata, no seu collete branco de
    botões de ouro. Elle tambem estimou vêr de novo «o siô Fernandes». E,
    quando soube que eu occuparia o quarto do avô Jacintho, teve um claro
    sorriso de preto, em que envolveu o seu senhor, no contentamento de o
    sentir emfim reprovido d'uma familia.

    –Grillo, dizia Jacintho, esta carta a Madame de Oriol… Escuta!
    Telephona para casa dos Trèves que os espiritistas só estão livres no
    domingo… Escuta! Eu tomo uma douche antes de jantar, tepida, a 17.
    Fricção com malva-rosa.

    E cahindo pesadamente para cima do divan, com um bocejo arrastado e
    vago:

    –Pois é verdade, meu Zé Fernandes, aqui estamos, como ha sete annos,
    n'este velho Paris…

    Mas eu não me arredava da mesa, no desejo de completar a minha
    iniciação:

    –Oh Jacintho, para que servem todos estes instrumentosinhos? Houve já
    ahi um desavergonhado que me picou. Parecem perversos… São uteis?

    Jacintho esboçou, com languidez, um gesto que os
    sublimava.–Providenciaes, meu filho, absolutamente providenciaes, pela
    simplificação que dão ao trabalho! Assim… E apontou. Este arrancava as
    pennas velhas; o outro numerava rapidamente as paginas d'um manuscripto;
    aquell'outro, além, raspava emendas… E ainda os havia para collar
    estampilhas, imprimir datas, derreter lacres, cintar documentos…

    –Mas com effeito, accrescentou, é uma sécca. Com as molas, com os
    bicos, ás vezes magoam, ferem… Já me succedeu inutilisar cartas por as
    ter sujado com dedadas de sangue. É uma massada!

    Então, como o meu amigo espreitára novamente o relogio monumental, não
    lhe quiz retardar a consolação da douche e da malva-rosa.

    –Bem, Jacintho, já te revi, já me contentei… Agora até ámanhã, com as
    malas.

    –Que diabo, Zé Fernandes, espera um momento… Vamos pela sala de
    jantar. Talvez te tentes!

    E, através da Bibliotheca, penetramos na sala de jantar,–que me
    encantou pelo seu luxo sereno e fresco. Uma madeira branca, laccada,
    mais lustrosa e macia que setim, revestia as paredes, encaixilhando
    medalhões de damasco côr de morango, de morango muito maduro e esmagado:
    os aparadores, discretamente lavrados em florões e rocalhas,
    resplandeciam com a mesma lacca nevada: e damascos amorangados estofavam
    tambem as cadeiras, brancas, muito amplas, feitas para a lentidão de
    gulas delicadas, de gulas intellectuaes.

    –Viva o meu Principe! Sim senhor… Eis aqui um comedoiro muito
    comprehensivel e muito repousante, Jacintho!

    –Então janta, homem!

    Mas já eu me começava a inquietar, reparando que a cada talher
    correspondiam seis garfos, e todos de feitios astuciosos. E mais me
    impressionei quando Jacintho me desvendou que um era para as ostras,
    outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
    para as fructas, outro para o queijo! Simultaneamente, com uma
    sobriedade que louvaria Salomão, só dois copos, para dois vinhos:–um
    Bordeus rosado em infusas de crystal, e Champagne gelando dentro de
    baldes de prata. Todo um aparador porém vergava, sob o luxo redundante,
    quasi assustador d'aguas–aguas oxigenadas, aguas carbonatadas, aguas
    phosphatadas, aguas esterilisadas, aguas de saes, outras ainda, em
    garrafas bojudas, com tratados therapeuticos impressos em rotulos.

    –Santissimo nome de Deus, Jacintho! Então és ainda o mesmo tremendo
    bebedor d'agua, hein?… _Un aquatico_! como dizia o nosso poeta
    chileno, que andava a traduzir Klopstock.

    Elle derramou, por sobre toda aquella garrafaria encarapuçada em metal,
    um olhar desconsolado:

    –Não… É por causa das aguas da Cidade, contaminadas, atulhadas de
    microbios… Mas ainda não encontrei uma bôa agua que me convenha, que
    me satisfaça… Até soffro sêde.

    Desejei então conhecer o jantar do Psychologo e do Symbolista–traçado,
    ao lado dos talheres, em tinta vermelha, sobre laminas de marfim.
    Começava honradamente por ostras classicas, de Marennes. Depois
    apparecia uma sopa d'alcachofras e ovas de carpa…

    –É bom?

    Jacintho encolheu desinteressadamente os hombros:

    –Sim… Eu não tenho nunca appetite, já ha tempos… Já ha annos.

    Do outro prato só comprehendi que continha frangos e tubaras. Depois
    saboreariam aquelles senhores um filete de veado, macerado em Xerez, com
    gelêa de noz. E por sobremeza simplesmente laranjas geladas em ether.

    –Em ether, Jacintho?

    O meu amigo hesitou, esboçou com os dedos a ondulação d'um aroma que
    s'evola.

    –É novo… Parece que o ether desenvolve, faz afflorar a alma das
    fructas…

    Curvei a cabeça ignara, murmurei nas minhas profundidades:

    –Eis a Civilisação!

    E, descendo os Campos Elyseos, encolhido no paletot, a cogitar n'este
    prato symbolico, considerava a rudeza e atolado atrazo da minha Guiães,
    onde desde seculos a alma das laranjas permanece ignorada e
    desaproveitada dentro dos gomos sumarentos, por todos aquelles pomares
    que ensombram e perfumam o valle, da Roqueirinha a Sandofim! Agora
    porém, bemdito Deus, na convivencia de um tão grande iniciado como
    Jacintho, eu comprehenderia todas as finuras e todos os poderes da
    Civilisação.

    E, (melhor ainda para a minha ternura!) contemplaria a raridade d'um
    homem que, concebendo uma idéa da Vida, a realisa–e através d'ella e
    por ella recolhe a felicidade perfeita.

    Bem se affirmára este Jacintho, na verdade, como Principe da
    Gran-Ventura!

    III

    No 202, todas as manhãs, ás nove horas, depois do meu chocolate e ainda
    em chinelas, penetrava no quarto de Jacintho. Encontrava o meu amigo
    banhado, barbeado, friccionado, envolto n'um roupão branco de pello de
    cabra do Thibet, diante da sua mesa de toilette, toda de crystal, (por
    causa dos microbios) e atulhada com esses utensilios de tartaruga,
    marfim, prata, aço e madreperola que o homem do seculo XIX necessita
    para não desfeiar o conjuncto sumptuario da Civilisação e manter n'ella
    o seu Typo. As escovas sobretudo renovavam, cada dia, o meu regalo e o
    meu espanto–porque as havia largas como a roda massiça d'um carro
    sabino; estreitas e mais recurvas que o alfange d'um mouro; concavas, em
    fórma de telha aldeã; ponteagudas em feitio de folha de hera; rijas que
    nem cerdas de javali; macias que nem pennugem de rôla! De todas,
    fielmente, como amo que não desdenha nenhum servo, se utilisava o meu
    Jacintho. E assim, em face ao espelho emmoldurado de folhedos de prata,
    permanecia este Principe passando pellos sobre o seu pello durante
    quatorze minutos.

    No emtanto o Grillo e outro escudeiro, por traz dos biombos de Kioto, de
    sedas lavradas, manobravam, com pericia e vigor, os apparelhos do
    lavatorio–que era apenas um resumo das machinas monumentaes da Sala de
    Banho, a mais estremada maravilha do 202. N'estes marmores simplificados
    existiam unicamente dois jactos graduados desde _zero_ até _cem_; as
    duas duchas, fina e grossa, para a cabeça; a fonte esterilisada para os
    dentes; o repuxo borbulhante para a barba; e ainda botões discretos,
    que, roçados, desencadeavam esguichos, cascatas cantantes, ou um leve
    orvalho estival. D'esse recanto temeroso, onde delgados tubos mantinham
    em disciplina e servidão tantas aguas ferventes, tantas aguas violentas,
    sahia emfim o meu Jacintho enxugando as mãos a uma toalha de felpo, a
    uma toalha de linho, a outra de corda entrançada para restabelecer a
    circulação, a outra de sêda frouxa para repolir a pelle. Depois d'este
    rito derradeiro que lhe arrancava ora um suspiro, ora um bocejo,
    Jacintho, estendido n'um divan, folheava uma Agenda, onde se arrolavam,
    inscriptas pelo Grillo ou por elle, as occupações do seu dia, tão
    numerosas por vezes que cobriam duas laudas.

    Todas ellas se prendiam á sua sociabilidade, á sua civilisação muito
    complexa, ou a interesses que o meu Principe, n'esses sete annos, creára
    para viver em mais consciente communhão com todas as funcções da Cidade.
    (Jacintho com effeito era presidente do Club da _Espada e Alvo_;
    commanditario do Jornal o _Boulevard_; director da _Companhia dos
    Telephones de Constantinopla_; socio dos _Bazares unidos da Arte
    Espiritualista_; membro do _Comité de Iniciação das Religiões
    Esotericas_, etc.) Nenhuma d'estas occupações parecia porém aprazivel ao
    meu amigo–porque, apesar da mansidão e harmonia dos seus modos,
    frequentemente arremessava para o tapete, n'uma rebellião de homem
    livre, aquella Agenda que o escravisava. E n'uma d'essas manhãs (de
    vento e neve), apanhando eu o livro oppressivo, encadernado em pellica,
    de um carinhoso tom de rosa murcha–descobri que o meu Jacintho devia
    depois do almoço fazer uma visita na rua da Universidade, outra no
    Parque Monceau, outra entre os arvoredos remotos da Muette; assistir por
    fidelidade a uma votação no Club; acompanhar Madame d'Oriol a uma
    exposição de leques; escolher um presente de noivado para a sobrinha dos
    Trèves; comparecer no funeral do velho conde de Malville; presidir um
    tribunal de honra n'uma questão de roubalheira, entre cavalheiros, ao
    ecarté… E ainda se acavallavam outras indicações, escrivinhadas por
    Jacintho a lapis:–«Carroceiro–Five-oclock dos Ephrains–A pequena das
    _Variedades_–Levar a nota ao jornal…» Considerei o meu Principe.
    Estirado no divan, d'olhos miserrimamente cerrados, bocejava, n'um
    bocejo immenso e mudo.

    Mas os affazeres de Jacintho começavam logo no 202, cedo, depois do
    banho. Desde as oito horas a campainha do telephone repicava por elle,
    com impaciencia, quasi com colera, como por um escravo tardio. E mal
    enxugado, dentro do seu roupão de pello de cabra do Thibet ou de grossas
    pyjamas de pelucia côr d'ouro-velho, constantemente sahia ao corredor a
    cochichar com sujeitos tão apressados, que conservavam na mão o
    guarda-chuva pingando sobre o tapete. Um d'esses, sempre presente (e que
    pertencia decerto aos _Telephones de Constantinopla_), era
    temeroso–todo elle chupado, tisnado, com maus dentes, sobraçando uma
    enorme pasta sebenta, e dardejando, d'entre a alta gola d'uma pelissa
    poida, como da abertura d'um covil, dous olhinhos tôrvos e de rapina.
    Sem cessar, inexoravelmente, um escudeiro apparecia, com bilhetes n'uma
    salva… Depois eram fornecedores d'Industria e d'Arte; negociantes de
    cavallos, rubicundos e de paletot branco; inventores com grossos rolos
    de papel; alfarrabistas trazendo na algibeira uma edição «unica», quasi
    inverosimil, de Ulrich Zell ou do _Lapidanus_. Jacintho circulava
    estonteado pelo 202, rabiscando a carteira, repicando o telephone,
    desatando nervosamente pacotes, sacudindo ao passar algum embuscado que
    surdia das sombras da antecamara, estendia como um trabuco o seu
    memorial ou o seu catalogo!

    Ao meio dia, um tam-tam argentino e melancholico ressoava, chamando ao
    almoço. Com o _Figaro_ ou as _Novidades_ abertas sobre o prato, eu
    esperava sempre meia hora pelo meu Principe, que entrava n'uma rajada,
    consultando o relogio, exhalando com a face moída o seu queixume eterno:

    –Que massada! E depois uma noite abominavel, enrodilhada em sonhos…
    Tomei sulforal, chamei o Grillo para me esfregar com therebentina… Uma
    sécca!

    Espalhava pela mesa um olhar já farto. Nenhum prato, por mais engenhoso,
    o seduzia;–e, como através do seu tumulto matinal fumava incontaveis
    cigarretes que o resequiam, começava por se encharcar com um immenso
    copo d'agua oxygenada, ou carbonatada, ou gazoza, misturada d'um cognac
    raro, muito caro, horrendamente adocicado, de moscatel de Syracusa.
    Depois, á pressa, sem gosto, com a ponta incerta do garfo, picava aqui e
    além uma lasca de fiambre, uma febra de lagosta;–e reclamava
    impacientemente o café, um café de Moka, mandado cada mez por um feitor
    do Dedjah, fervido á turca, muito espesso, que elle remexia com um pau
    de canella!

    –E tu, Zé Fernandes, que vaes tu fazer?

    –Eu?

    Recostado na cadeira, com delicias, os dedos mettidos nas cavas do
    collete:

    –Vou vadiar, regaladamente, como um cão natural!

    O meu sollicito amigo, remexendo o café com o pau de canella, rebuscava
    através da numerosa Civilisação da Cidade uma occupação que me
    encantasse. Mas apenas suggeria uma Exposição, ou uma Conferencia, ou
    monumentos, ou passeios, logo encolhia os hombros desconsolados:

    –Por fim nem vale a pena, é uma sécca!

    Accendia outra das cigarretes russas, onde rebrilhava o seu nome,
    impresso a ouro na mortalha. Torcendo, n'uma pressa nervosa, os fios do
    bigode, ainda escutava, á porta da Bibliotheca, o seu procurador, o
    nedio e magestoso Laporte. E emfim, seguido d'um criado, que sobraçava
    um maço tremendo de jornaes para lhe abastecer o coupé, o Principe da
    Gran-Ventura mergulhava na Cidade.

    * * * * *

    Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo
    de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos
    depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes
    passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito
    querido de Jacintho–porque n'elles mais intensamente e mais
    minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha
    companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente
    destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr,
    porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença)
    descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o
    denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos
    trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua
    pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no
    meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa
    Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha
    claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que
    amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo
    borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções
    da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas
    e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos
    museus do seculo XIX»…

    –Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura
    d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas
    pelucias… Não vale a pena!

    Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me
    impressionava o seu horror pela Multidão–por certos effeitos da
    Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos».

    –Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras… Pois constituem o
    rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e
    petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e
    estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende
    n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de
    estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a
    immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura
    intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou
    pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão
    repulsiva… Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo,
    são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa!

    Tudo isto era especioso, talvez pueril–mas para mim revelava, n'aquelle
    chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma
    tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros
    de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda,
    erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as
    cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só
    ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo
    secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada,
    tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas…

    –Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro
    bazar!

    E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na
    fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são
    prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente
    catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas,
    bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre
    pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça…

    Jacintho murmurou, com a face arripiada:

    –É feio, é muito feio!

    E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:

    –Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que
    producção!

    Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi
    religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira
    sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com
    olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia
    retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas
    Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros,
    dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus
    Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu
    pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum
    elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois»
    constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava
    sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus
    astros, garantindo a eternidade da sua luz!

    Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao
    Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a
    minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas
    egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque,
    rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos,
    Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé,
    permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar
    através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque,
    e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos
    trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo
    tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,–o meu
    Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde
    só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo
    habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros»,
    ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com
    rodar rangente n'outra arrastada fila–e murmurava um nome. E assim fui
    conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo
    nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as
    bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no
    fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame
    Verghane; e o monoculo defumado do director do _Boulevard_; e o
    bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton
    de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e
    palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz,
    que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo
    da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado,
    esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque
    atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o
    binoculo sombrio do homem do _Boulevard_, e os bandòs furiosamente
    negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a
    barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera,
    super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de
    revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz,
    na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava
    ao cocheiro:

    –Para casa, depressa!

    E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das
    egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas
    tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á
    de Jacintho.

    Para o sondar eu denegria o Bosque:

    –Já não é tão divertido, perdeu o brilho!…

    Elle acudia, timidamente:

    –Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas…

    E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres.
    Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu
    roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas,
    com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a
    adornar para o serviço social da noite.

    E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos,
    n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e
    revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já
    tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois
    ao _Lohengrin_ na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata
    branca–quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se
    dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente,
    fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as
    luzes–e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e
    do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva
    que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como
    se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se
    agitassem, animadas por aquella rebellião da agua–ouvimos roncos surdos
    no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram
    faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa
    grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão,
    attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava
    policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo
    para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»

    Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do
    quarto, em ceroulas, livido:

    –Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!… Que impotencia, que
    impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos
    perfeitos, um processo novo…

    –E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!

    Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de
    manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma
    photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto
    maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua
    aquecia em seguras panellas–e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da
    Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no
    Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu
    branco cysne e as suas brancas armas–entallado, aperreado, cortado nos
    sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia
    estonteadoramente a flores de Nessari.

    * * * * *

    No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as
    trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as
    cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:

    –Vem no _Figaro_!

    Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos _Echos_, doze linhas, onde
    as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta
    publicidade, que tambem sorrí, deleitado.

    –E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo,
    rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber… «Está lá?
    Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes!

    O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o
    almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu
    Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só
    desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu
    prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o
    Grillo e eu:

    –É do Gran-Duque Casimiro… Ratão amavel! Coitado!

    Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu
    Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem
    boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro…» Murmurei tambem com
    deferencia:–«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão
    de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:

    –Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te
    telephona, te telegrapha, te…?

    –Diana?… Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!

    –Tua?

    –Minha, minha… Não! tenho um bocado.

    E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino
    orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma
    gamella publica–Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado
    no garfo:

    –Tu vens das serras… Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter
    cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris,
    n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os
    seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as
    suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é
    necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um
    syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado… Mas meramente
    por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto
    não chafurdo. Pobre Diana!… Dos hombros para baixo nem sei se tem a
    pelle côr de neve ou côr de limão.

    Arregalei um olho divertido:

    –Dos hombros para baixo?… E para cima?

    –Oh para cima tem pó d'arroz!… Mas é uma sécca! Sempre bilhetes,
    sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além
    das flores… Uma massada!

    E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado
    sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.

    Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um
    murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o
    charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os
    reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro,
    d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um
    lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade
    docemente chalrada:

    –É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me
    contive, quiz vêr os estragos… Uma inundação em Paris, nos
    Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no _Figaro!_ O que eu
    estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no
    Vesuvio… Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os
    tapetes… Estou morrendo por admirar as ruinas!

    Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle
    interesse, retomára risonhamente o charuto:

    –Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi
    hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos
    cahido uma parede!

    Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços
    d'uma inundação. O _Figaro_ contára… E era uma aventura deliciosa, uma
    casa escaldada nos Campos-Elyseos!

    Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á
    ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo
    tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo
    espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma,
    uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.

    Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol
    ainda louvava o _Figaro_ amavel, e confessava quanto tremera… Eu
    voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura
    por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida.
    Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri
    vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o
    nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da
    janella, folheando languidamente a _Revista do Seculo XIX_, tomei uma
    attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles
    reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava
    espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela
    mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta,
    ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.

    Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem
    forte–mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava
    harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo
    cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos
    olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do
    cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles
    negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de
    macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de
    Civilisação:–e pensava no secular trabalho e na cultura superior que
    necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já
    desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e
    d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de
    ante-murcho.

    No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim,
    chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle
    montão de telegrammas sobre a toalha.

    –Tudo esta manhã, por causa da inundação?… Ah, Jacintho é hoje o
    homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?

    Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a
    sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um _ah!_
    muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os
    seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre
    séria:

    –É brilhante!

    Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho,
    n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar,
    porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão!

    Jacintho exclamou com innocencia:

    –Sermão?… É já a estação dos sermões?

    Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê!
    pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De
    resto não se admirava–Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou
    o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia!
    d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a
    fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma
    brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se
    lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo,
    muito branco, muito forte!

    O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo
    negro. E Jacintho, rindo:

    –Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar
    almas…

    Ella acudiu:

    –Não! infelizmente o Père Granon não confessa!

    E de repente reconsiderou–aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era
    necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos
    nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato
    de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que
    ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que
    ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol
    apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:

    –Elegante, não é verdade?… É uma creação inteiramente nova de Madame
    Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.

    O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei
    o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema
    do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das
    plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava
    delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos!

    Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso
    que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.

    O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E
    bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se
    deslocasse um mundo:

    –Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e
    natural…

    –Em quê?

    Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida
    Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois,
    descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito
    longe, cançados e com pouca esperança:

    –Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!

    IV

    N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando
    Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.

    –Uma festa?…

    –Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso
    e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O
    Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do
    seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo
    tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir.
    Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo… Mas é uma massada
    amarga!

    Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com
    relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os
    Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas
    ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na
    Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza,
    com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico
    até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa
    da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a
    faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha
    bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de
    crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação
    de luxo e gosto, que eu murmurei:–«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!»
    Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante
    e minuciosa–sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades
    da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua
    fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas
    frigorificas. Oh, este 202!

    Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever
    a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o
    manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio,
    florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos,
    subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança
    d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas
    trevas, ganindo um _Aqui d'Elrei_! que tresandava a Guiães. Jacintho em
    cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva
    ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com
    lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um
    engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução
    outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo
    desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados
    castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma
    reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á
    ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O
    Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade
    se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na
    algibeira dous côtos de estearina.

    A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu
    quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca
    furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202
    refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam
    as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos
    Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses,
    arfavam, boliam com os pés venerandos!

    Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de
    Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que,
    acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza),
    percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa
    Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais
    magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no
    peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo
    sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso
    sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir
    d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga
    acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do
    Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os
    commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade
    penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente
    torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas
    aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a
    mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o
    «numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia
    demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os
    endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades
    adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e
    facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher,
    para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella
    offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou
    a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim
    (de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de
    «vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e
    lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae
    atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella
    nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda
    sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de
    que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E
    de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu
    enlevado sorriso murmurou:–«Prodigiosa, esta prensa electrica!…»

    Jacintho accudiu:

    –Não! Não! Esta é…

    Mas ella sorria, seguia… Madame de Treves não comprehendera nenhum
    apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma
    dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica
    ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a
    Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a
    Danjon a admiração que me penetrava.

    O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:

    –Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!… E depois como se
    janta bem em casa d'ella! Que café!… Mulher superior, meu caro senhor,
    verdadeiramente superior!

    Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da
    estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei
    a saudar o director do _Boulevard_ e o Psychologo-feminista, o auctor do
    _Coração Triple_, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no
    202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha
    presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e
    com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com
    effeito, celebravam o seu Romance, a _Couraça_, lançado n'essa semana
    entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um
    sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia
    postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão
    fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental!
    Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por
    «mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da
    _Couraça_, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de
    mais mel, murmurei com um leve assobio:–«uma delicia!»

    E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto
    collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente
    que dissecára todas aquellas almas da _Couraça_ com «algum cuidado»,
    sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a
    sangrar… E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um
    sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos
    bolsos:

    –No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um
    erro bem estranho, bem curioso!…

    O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz:

    –Um erro?

    Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!… Era
    attribuir á esplendida amorosa da _Couraça_, uma duqueza, e do gosto
    mais puro,–_um collete de setim preto_! Esse collete, assim preto, de
    setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se
    despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos
    bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era
    verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que
    se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um
    collete de setim preto?

    O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão
    suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em
    quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma
    dolorida–se põem em collete e saia branca!… De resto o director do
    _Boulevard_ condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme,
    aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda
    procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me
    não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi,
    mettendo os dedos pelo cabello:

    –Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae!

    O pobre mestre da _Couraça_ succumbira. Era a sua gloria de Doutor em
    Elegancias-Femininas desmantelada–e Paris suppondo que elle nunca vira
    uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então,
    passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o
    erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa:

    –Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!… Com
    effeito! é absurdo, um collete preto!… Mesmo por harmonia com o estado
    da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito
    desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines… É prodigioso
    como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas,
    bem documentadas!…

    Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por
    toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de
    artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas
    profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os
    tons… E gritou, com os braços estendidos para o director do
    _Boulevard_:

    –Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma _interview_, meu caro
    mestre! Mande um dos seus redactores… Ámanhã, ás dez horas! Fazemos
    uma _interview_, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz… Mande um dos
    seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar,
    bem alto, os serviços que o _Boulevard_ tem feito ás sciencias
    psychologicas e feministas!

    Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos
    Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se
    debatia e se recusava entre dous homens.

    Eram os dois homens de Madame de Treves–o marido, conde de Treves,
    descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu,
    David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem
    me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por
    «caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de
    limoeiro, comprehendi que se tramava a _Companhia das Esmeraldas da
    Birmania_, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os
    dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o
    nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado
    dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da
    Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face
    rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella
    como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já
    preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das
    _Mil e Uma noites_. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas
    convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma
    corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle
    acceitára a direcção por patriotismo…

    –De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser
    feito, n'um mundo superior, entre amigos…

    E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a
    sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava
    o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os
    Nagayers, os Bolsans, os Saccart…

    Jacintho franzia o nariz, enervado:

    –Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha
    esmeraldas?

    Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:

    –Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!… Ha sempre esmeraldas
    desde que haja accionistas!

    E eu admirava a grandeza d'aquella maxima–quando appareceu, esbaforido,
    desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle
    (Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia
    Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras,
    conhecia todos os enredos de Paris.

    –Já veio?… Já cá está o Gran-Duque?

    Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle?

    –Não poude… No sophá… Esfolou uma perna.

    –Oh!

    –Quasi nada… Cahiu do velocipede!

    Jacintho, logo interessado:

    –Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede?

    –Aprende. Nem tem velocipede!… Agora, na quaresma, é que se applicou
    mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no
    Bosque, zás, terra!… Perna esfolada. Aqui.

    E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão.
    Ephraim, brutal e serio, murmurou:–«Diabo! é no melhor sitio!» Mas
    Todelle nem o escutára, correndo para o director do _Boulevard_, que se
    avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um
    pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.

    Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de
    Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta
    neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado
    nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois
    botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do
    collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle,
    também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de
    cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta
    de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára
    certamente alguma historia de bom e grosso sal–porque deante do divan,
    de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de
    gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de
    periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso!
    divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade
    obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois
    de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das
    palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal:

    –Ha melhor, ha infinitamente melhor… Todos aqui conhecem Madame
    Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas…

    Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando
    Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no
    Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros,
    n'uma surda irritação:

    –Aria da Patti… Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além
    d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum
    trabalha!

    –Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a _Pauvre fille_… É mais
    de ceia! _Oh, la pauv', pauv', pauv'_…

    Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr
    de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo,
    resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o
    uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e
    d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido
    branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar.
    Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:–«Quem é?» Mas já o
    festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma
    familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço
    de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava
    gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado
    contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço,
    quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho
    (que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete,
    pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina
    era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú
    e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento
    ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente
    lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava,
    reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de
    Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella
    despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe
    liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:

    –O Gran-Duque vem, com certeza?

    –Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!

    –P'ra o peixe?…

    Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a
    marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo
    annunciava:

    –S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!

    Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como
    para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do _Boulevard_,
    o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a
    porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real.

    Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de
    barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou,
    com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos,
    quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho,
    veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em
    mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no
    hombro de Jacintho:

    –E o peixe?… Preparado pela receita que mandei, hein?

    Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.

    –Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que
    eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando
    deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao
    Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?»
    Em casa do Joseph!… Qual! não se janta! Hoje, por exemplo,
    gallinholas… Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola!

    Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela
    indignação:

    –Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em
    Paris!

    Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de
    Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o
    director do _Boulevard_, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia
    a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e
    torpe pelo barato.

    –No Paillard, todavia…–começou o Ephraim.

    –No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus!
    os Borgonhas são tão maus!…

    Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu
    lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para
    traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella
    faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas
    côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como
    uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do
    Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho:

    –Em communicação com o Alcazar?… O Theatrophone?

    –Certamente, meu senhor.

    Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte
    n'uma cançoneta nova, as _Casquettes_. Onze e meia! Era justamente a
    essa hora que ella cantava, no ultimo acto da _Revista
    Electrica_…–Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e
    quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um
    commando forte:

    –É ella! Chut! Venham ouvir!… É ella! Venham todos! Princeza de
    Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut…

    Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um
    provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se
    apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer
    immoveis para saborear _Les Casquettes_. E no salão côr de rosa murcha,
    na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu
    fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.

    No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o
    movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a
    mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes,
    a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada
    orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa.
    Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de
    monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta
    delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria
    um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio
    lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido.
    Mas cahiu logo sobre mim um _chut_ severo do Gran-Duque! Recuei para
    entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo
    da _Couraça_, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia
    o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado
    n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane
    arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação
    conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre
    uma sepultura.

    Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um
    silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo
    do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos
    canos das fezes,–pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua,
    que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e
    as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais
    lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe
    no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço,
    nuasinha e candida…

    Uma das senhoras murmurou:

    –Mas, não é a Gilberte!…

    E um dos homens:

    –Parece um cornetim…

    –Agora são palmas…

    –Não, é o Paulin!

    O Gran-Duque lançou um _chut_ feroz… No pateo da nossa casa ladravam
    os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me
    encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao
    hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o
    cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez
    das sebes altas, e o susurro dormente das levadas…

    Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o
    Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:

    –Não se ouve nada!… Só guinchos! E um zumbido! Que massada!… Pois é
    uma belleza, a cançoneta:

    Oh les casquettes,
    Oh les casque-e-e-tes!…

    Todos largaram os fios–proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo
    bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:

    –_Monseigneur est servi_!

    Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos
    de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de
    pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de
    desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos,
    Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para
    percorrer o _menu_–que approvou. E inclinando para mim a sua face de
    Apostolo obeso:

    –Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico…
    Hein?

    Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas
    classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os
    longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os
    escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho,
    que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma
    desconsolação risonha:

    –Que pena!… Só falta aqui um general e um bispo!

    Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas
    do meu Jacintho… Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais
    cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que
    orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um
    lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e
    muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que,
    com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella
    carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde,
    com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo
    peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella
    reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos
    alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades
    flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o
    prato vasio. E o alto lyrico do _Crepusculo Mystico_, passando a mão
    pelas barbas, rosnou com desdem:

    –Bella mulher… Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas!

    No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não
    possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!…

    –Para que, meu caro senhor?

    Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:

    –Para uma bomba de dynamite… Temos aqui um explendido ramalhete de
    flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de
    dynamite, atirada da porta!… Que bello fim de ceia, n'um fim de
    seculo!

    E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de
    Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina,
    seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o
    dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas
    almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de _crear_ estava
    esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de _destruir_!

    Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros.
    Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro
    cuidado–reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára
    como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe
    famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa!
    Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os
    escudeiros sumidos!

    Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de
    Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente
    do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores
    param–e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para
    traz d'uma pedra… Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira,
    n'esse descampado, agachada atraz da pedra–porque justamente o mordomo
    appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho,
    que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se
    entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com
    paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso:

    –Meus amigos, ha uma desgraça…

    Dornan pulou na cadeira:

    –Fogo?

    Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao
    subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado!

    O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como
    um esmalte mal posto:

    –Essa é forte!… Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que
    estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á
    mão, simplesmente? Encalhado… Quero vêr! Onde é a copa?

    E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que
    tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe.
    Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu
    não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre,
    emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe!

    O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde
    mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada.
    Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma
    larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda
    fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata,
    torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o
    Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos
    cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de
    bronze eterno.

    Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame
    Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que
    o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem,
    risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o
    Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes
    ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate,
    mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos
    afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação,
    quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas,
    ganindo:–«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os
    decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó
    d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o
    Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz
    bicudo e triste.

    De repente, Todelle teve uma idéa!

    –É muito simples… É pescar o peixe!

    O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o
    peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua
    colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica
    polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca
    miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a
    divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho.
    Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos.
    Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle,
    todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca
    se pescára com tão divino anzol!

    Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um
    cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho,
    com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço
    fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do
    _Boulevard_, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam,
    amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S.
    Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre
    luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os
    punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio
    sombrio de fera a quem arrancaram a posta.

    No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco
    agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não
    fisgava.

    –Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!…
    Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender.
    Agora… Qual! Que diabo! Não vae!

    Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só
    carpinteiros, com alavancas!… E todos, anciosamente, bradamos que se
    abandonasse o peixe!

    O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra
    mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu
    sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes
    arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou
    ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava
    o arranjo da sua copa… Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina
    intelligencia do conforto!

    S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de
    Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os
    escudeiros serviram o _Barão de Pauillac_, cordeiro das lezirias
    marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome
    sonoro e entra no Nobiliario de França.

    Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de
    Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma
    fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam
    na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime
    a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura
    insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o
    Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação,
    todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no
    emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane,
    que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a
    doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da
    sua festa.

    Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na
    antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar
    com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a
    enfiar–convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás
    suas terras da Dalmacia…

    –Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella
    caçada!

    E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta
    escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes,
    S. Alteza repisava, pegajoso:

    –Uma bella caçada… E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé
    Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O _Barão de Pauillac_,
    divino!… Creio que o devemos nomear Duque… O Senhor Duque de
    Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah!
    Ah!… Não venham fóra! Não se constipem!

    E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:

    –O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio,
    com môlho verde!

  • A Alma Nova

    A Alma Nova

    Aproximadamente 13.930 palavras.

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    Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    GUILHERME D'AZEVEDO

    A ALMA NOVA

    LISBOA

    TYPOGRAPHIA SOUSA & FILHO

    Rua do Norte, 145

    1874

    A ANTHERO DE QUENTAL

    A ANTHERO DE QUENTAL

    _Meu amigo.

    Este livro parece-me um pouco do nosso tempo. Sorrindo ou combatendo,
    fala da Humanidade e da Justiça, inspirando-se no mundo que nos rodeia.

    E porque julgo que elle segue na direcção nova dos espiritos, offereço-o
    a um obreiro honesto do pensamento: a uma alma lucida, moderna e
    generosa_.

    Dezembro de 1873.

    Guilherme d'Azevedo.

    I

    Eu poucas vezes canto os casos melancolicos,
    Os lethargos gentis, os extasis bucolicos
    E as desditas crueis do proprio coração;
    Mas não celebro o vicio e odeio o desalinho
    Da muza sem pudor que mostra no caminho
    A liga á multidão.

    A sagrada poesia, a peregrina eterna,
    Ouvi dizer que soffre uma affecção moderna,
    Uns fastios sem nome, uns tedios ideaes;
    Que ensaia, presumida, o gesto romanesco
    E, vaidosa de si, no collo eburneo e fresco,
    Põe crémes triviaes!

    Oh, pensam mal de ti, da tua castidade!
    Deslumbra-os o fulgor dos astros da cidade,
    Os falsos ouropeis das cortezãs gentis,
    E julgam já tocar-te as roçagantes vestes
    Ó deusa virginal das coleras celestes,
    Das graças juvenis!

    Retine a cançoneta alegre das bachantes,
    Saudadas nos wagons, nos caes, nos restaurantes,
    Visões d'olhar travesso e provocantes pés,
    E julgam já escutar a voz do paraiso,
    Amando o que ha de falso e torpe no sorriso
    Das musas dos cafés!

    Oh, tu não és, de certo, a virgem quebradiça
    Estiolada e gentil, que vem depois da missa
    Mostrar pela cidade o seu fino desdem,
    Nem a fada que sente um vaporoso tedio
    Emquanto vae sonhando um noivo rico e nédio
    Que a possa pagar bem!

    Nem posso mesmo crêr, archanjo, que tu sejas
    A menina gentil que ás portas das egrejas
    Emquanto a multidão galante adora a cruz,
    A bem do pobre enfermo á turba pede esmola
    Nas pompas ideaes da moda, que a consola
    Das magoas do Jesus!

    E nas horas de luta emquanto os povos choram
    E a guerra tudo mata e os reis tudo devoram,
    Não posso dizer bem se acaso tu serás
    A senhora que espalha os languidos fastios
    Nos pomposos salões, sorrindo a fazer fios
    Á viva luz do gaz!

    Tu és a apparição gentil, meia selvagem,
    D'olhar profundo e bom, de candida roupagem,
    De fronte immaculada e seios virginaes,
    Que desenha no espaço o limpido contorno
    E cinge na cabeça o virginal adorno
    De folhas naturaes.

    Tens a linha ideal das candidas figuras;
    As curvas divinaes; as tintas sãs e puras
    Da austera virgindade; as bellas correcções;
    E segues magestosa em teu longo caminho
    Deixando fluctuar a tunica de linho
    Ás frescas virações!

    Quando trava batalha a tua irmã Justiça
    Acodes ao combate e apontas sobre a liça
    Uma espada de luz ao Mal dominador:
    E pensas na belleza harmonica das cousas
    Sentindo que se move um mundo sob as louzas
    No germen d'uma flôr!

    N'um sorriso cruel, pungente d'ironia,
    Tambem sabes vibrar, serena, altiva e fria,
    O latego febril das grandes punições;
    E vendo-te sorrir, a geração doente,
    Sentir cuida, talvez, a nota decadente,
    Das morbidas canções!

    Oh, vôa sem cessar traçando nos teus hombros
    O manto constellado, ó deusa dos assombros,
    Até chegar um dia ás regiões de luz,
    Aonde, na poeira aurifera dos astros,
    Contricto, Satanaz enxugará de rastos,
    As chagas de Jesus!

    Logar á minha fada ó languidas senhoras!
    E vós que amaes do circo as noites tentadoras,
    Os fluctuantes véos, os gestos divinaes,
    Podeis vel-a passar n'um turbilhão fantastico,
    Voando no corcel febril, nervoso, elastico,
    Dos novos ideaes!

    II

    Eu vi passar, além, vogando sobre os mares
    O cadaver d'Ophelia: a espuma da voragem
    E as algas naturaes, serviam de roupagem
    Á triste apparição das noites seculares!

    Seguia tristemente ás regiões polares
    Nos limos das marés; e a rija cartilagem
    Sustinha-lhe tremendo aos halitos da aragem,
    No peito carcomido, uns grandes nenuphares!

    Oh! lembro-me que tu, minha alma, em certos dias
    Sorriste já, tambem, nas vagas harmonias
    Das cousas ideaes! mas hoje á luz mortiça

    Dos astros, caminhando; apenas as ruinas
    Das tuas creações fantasticas, divinas,
    De pasto vão servindo aos lyrios da justiça!

    III

    VELHA FARÇA

    Rufa ao longe um tambor. Dir-se-ia ser o arranco
    D'um mundo que desaba; ahi vae tudo em tropel!
    Vão ver passar na rua um velho saltimbanco
    E uma féra que dansa atada a um cordel.

    Ó funambulos vis, comediantes rotos,
    O vosso riso alvar agrada á multidão!
    E quando vós passaes o archanjo dos esgotos
    Atira-vos a flôr que mais encontra á mão!

    Lá vae tudo a correr: são as grotescas dansas
    D'uns velhos animaes que já foram crueis
    E agora vão soffrendo os risos das creanças
    E os apupos da turba a troco de dez réis.

    Conta um velho histrião, descabellado e pallido,
    Da féra sanguinaria o instincto vil e mau,
    E vae chicoteando um urso meio invalido
    Que lambe as mãos ao povo e faz jogo de páu.

    Depois inclina a face e obriga a que lh'a beije
    A fera legendaria olhada com pavor:
    E uma deosa gentil, vestida de bareje,
    Annuncia o prodigio a rufo de tambor!

    E as mães erguem ao collo uns filhos enfezados
    Que nunca tinham visto a luz dos ouropeis:
    E accresce á multidão a turba dos soldados,
    –Ao ilota da cidade o escravo dos quarteis.

    E o funambulo grita; impõe qual evangelho
    Á turba extasiada a grande narração.
    E sobre um cão enfermo um ourangotango velho
    Passeia nobremente os gestos de truão.

    Correi de toda a parte, aligeirae o passo,
    Deixae a grande lida e vinde á rua vêr
    As prendas d'uma fera, as galas d'um palhaço,
    E um archanjo que sua e pede de beber!

    A tua imagem tens ó povo legendario
    No comico festim que mal podes pagar,
    Pois tu ainda és no mundo o velho dromedario
    Que a vara do histrião nas praças faz dansar.

    IV

    GRAÇA POSTHUMA

    Depois da tua morte eu heide ver se arranco,
    N'uma noite serena, ao teu berço final,
    Um producto mimoso;–um grande lyrio branco
    Da alvura do teu collo eburneo e divinal!

    Aquella flôr suave, ó minha visão estherica,
    Debruçada gentil, na taça em que a puzer,
    Fazer-me-ha lembrar a graça cadaverica
    Do teu corpo franzino e ethereo de mulher!

    E mesmo conterá, de certo, alguma cousa
    Do que me traz submisso e prezo ao teu olhar:
    –Teu corpo a pouco e pouco irá fugindo á louza
    Depois tornado em lyrio á terra hade voltar!–

    E em longas noites, n'elle, eu beberei sosinho,
    Sonhando as convulsões d'uns lindos braços nús,
    A fragrancia que exhala a candidez do linho
    Em que hoje ondeias leve e onde os meus labios puz,

    –Saudando a boa mãe que faz com que eu te gose
    Depois do verme vil teu seio polluir,
    Mais pura no frescor de tal metamorphose
    Do que eras a scismar, do que eras a sorrir!

    Ó minha doce Ophelia! Os rapidos momentos
    Da vida, são crueis mas passam como um som!
    Um dia quando em fim dos velhos sedimentos
    Teu corpo renascer n'um lyrio immenso e bom,

    Talvez que eu durma já tambem sob os matizes
    Das flôres, ao sorrir das mil germinações,
    Dando um pasto fecundo ás tuas sãas raizes
    Depois de te sagrar as ultimas canções!

    V

    HISTORIA SIMPLES

    Havia um rapaz são, robusto, bom, valente,
    De espadua larga e rija; um ceifador gentil.
    Cavava todo o dia, andou sempre contente
    E a feria dava á mãe sem falta d'um ceitil.

    Elle amava a campina e os ceus largos, serenos.
    Aos domingos a mãe deixava-lhe uns dez reis.
    Deitava-se ao luar, dormindo sobre os fênos,
    Na fragrancia do trêvo, ao pé dos cães fieis.

    A mãe tinha de seu duas vaquitas mansas:
    N'um cerro agreste e vil alguns palmos de chão.
    E tinha ainda mais não sei quantas creanças
    Que andavam nuas sempre e sempre a pedir pão.

    O pae mal se sustinha ás vezes sobre as pernas:
    Era bebado e mau, batia na mulher;
    E á noite, ao scintillar dos vinhos nas tavernas,
    Cantava canções vis de a gente ensurdecer.

    Um dia uma senhora honesta da cidade,
    Esplendida, gentil, sabendo-se sorrir,
    Reparou no rapaz; achou-lhe propria a idade
    E fez-lhe um certo gesto:–o moço não quiz ir.

    Teve um assomo de raiva, então, sua excellencia.
    Ordenou-lhe que fosse: o moço disse,–irei!
    Despediu-se dos seus: devia obediencia
    Á senhora gentil que se chamava… a Lei!

    Pegou no velho alforge e no bordão nodozo
    E metteu-se a caminho. Os pobres dos irmãos
    Choravam á partida:–um quadro doloroso!
    A mãe louca de dôr torcia as magras mãos!

    Chegando no outro dia ao ponto onde o chamaram
    Primeiro foi medido e todos a final,
    Depois de bem revisto, á uma, concordaram
    Que ao serviço do rei convinha este animal!

    Aquell'outra senhora, astuta, grave, terna,
    –A ordem–jubilava em doces pulsações!
    Contava mais um servo, um filho, na cazerna,
    Gastando pouco mais:–uns cobres e uns feijões!…

    Agora quando passa o batalhão luzente
    Na rua, podeis ver o pobre cavador
    Com modos imbecis, marchar pesadamente
    –Heroe por conta alheia–ao rufo do tambor!

    Não sabe onde caminha entre as guerreiras hostes!
    Perguntem-lhe o que é patria e liberdade e lei!
    Caminha simplesmente ás ordens dos prebostes
    Que trazem no chicote a salvação do rei.

    E na pobre cabana ainda se conserva
    O mesmo quadro triste:–a lacrimosa mãe;
    Alguns pequenos nús rolando sobre a herva,
    E um ebrio que pragueja e não pensa em ninguem!–

    Mulher não chores mais: a quadra é pura e bella:
    Emquanto na campina alouram os trigaes,
    Teu filho guarda o mundo e a Deus faz sentinella:
    Receiam que Deus faça andar o mundo mais.

    Em breve elle virá de jubilo e d'assombro
    Encher tua alma, em fim, quando ámanhã voltar
    Com seu velho canudo, a trouxa posta ao hombro,
    Trazendo novamente a luz ao pobre lar.

    E tu perguntarás: o que é meu filho, é ouro!!
    A quantas guerras foste? ó ceus, como tu vens!
    –Mãe tome essa lata! esconda o meu thesouro
    E deixe-me ir dormir no fêno ao pé dos cães!

    VI

    Á meza do festim, cercada de formosas,
    O canto dos cristaes e o scintillar dos vinhos
    Saudavam juntamente os bellos desalinhos
    Das galantes vizões das ceias luminozas!

    Molhavam-se em champagne as pétalas das rozas!
    E em baixo, a nossos pés, em leves murmurinhos
    A gaze sobreposta á candidez dos linhos
    Erguia-se n'um mar de vagas caprichosas!

    Ali tudo era paz! Nem odios vis nem zelos!
    Os labios pois limpando ás rendas e aos cabellos
    Da menos trivial das fadas tentadoras,

    Eu brindo aos mortos!–disse: á legião sagrada
    Que foi á solidão, á eternidade, ao nada!
    –Ás almas e ao pudor d'estas gentis senhoras.

    VII

    OS SONHOS MORTOS

    Embora triste a noite, a vagabunda lua
    Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
    Igual a uma donzella ingenua e toda nua
    No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

    O mar tinha talvez scintillações funestas.
    A praia estava fria, as vagas davam ais;
    Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
    Fantasmas ao galope em monstros colossaes.

    E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
    Immerso no fulgor diaphano da luz,
    Juncando tristemente o solo ensanguentado
    Sinistra multidão de corpos semi-nus!

    Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
    Deposto em cada fronte um osculo brutal;
    E um ironico rizo ainda em muita boca
    Se abria, como a flôr fantastica do mal!

    E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
    Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
    Em sagrada nudez!… Cabeças decepadas!…
    Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!…

    E sobre a corrupção das brancas epidermes
    Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
    Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
    Da santa formosura os ultimos Romeus!

    Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
    Memoria das vizões que amaste com fervor
    Ahi as tens agora alimentando as ervas
    De novo dando á terra o que ella deu á flôr!

    São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
    Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
    Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
    Que em pasto dão seu corpo a novos corações!

    São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
    As chymeras gentis, os vagos ideaes,
    Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
    E que não podem já da terra erguer-se mais!

    VIII

    FALA A ORDEM

    Pequeno, d'onde vens cantando a Marselhesa;
    Da barricada infame, ou d'outra vil torpeza?

    Que esplendido porvir! Do nada apenas sahes
    Começas a morder as purpuras reaes
    Ó filho trivial da livida canalha!…
    E, vamos, deixa ver, guardaste uma navalha,?!
    Não tremas que eu bem vi! que trazes tu na mão?
    Intentas já limar as grades da prizão,

    Fazendo scintillar um ferro contra o solio
    Archanjo que adejaes nos fumos do petroleo?!…
    Mas, vamos abre a mão: não queiras que eu te dê.

    Bandido eu bem dizia!–a carta do A B C!…

    IX

    Ó lirios da cidade, ó corações doentes
    Das vagas affecções modernas e galantes;
    Eu sei que vós morreis aos sons agonisantes
    Das orchestras febris,–nos sonhos dissolventes!

    Sois os fructos gentis que balançaes pendentes
    Nas arvores da vida; e os pobres viajantes
    Famintos d'ideal, sorriem triumphantes
    Julgando-vos colher nas seivas innocentes!

    E tragam com fervor o pomo apetecido
    Que deve ter um mel oculto no tecido,
    –Um raio bom do sol que nos sorri tão alto;

    Mas vós que sois da moda um luminozo aborto,
    Como os fructos crueis das margens do mar morto
    Apenas conteis dentro uma porção d'asphalto!

    X

    MISERIA SANTA

    Entrando esta manhã n'um templo da cidade
    Aberto á multidão mas triste e quasi só,
    O ver ao desamparo a velha magestade
    N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.

    Restavam tão somente alguns dourados velhos
    Do passado esplendor, e foi-me facil ver
    Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
    Como cousa esquecida e impropria de se ler!

    A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
    Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
    Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
    Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;

    Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
    Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
    Tão velhos como o roto e desbotado manto
    Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!

    Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros
    Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
    Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
    Campeiam no fulgor de pompas theatraes.

    Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
    Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
    Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce,
    Proletarios do altar a quem ninguem sorri!

    E ao ver esta humildade,–eu tenho d'isto ás vezes,–
    Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões
    Que não passam de ser as filhas dos burguezes
    Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!

    XI

    ASTRO DA RUA

    Fazia hontem já tarde um nevoeiro espesso.
    –Que insonia em mim produz este humido vapor!–
    Eu vinha enfastiado, ou turvo, emfim confesso,
    Dos fumos do café, da luz e do rumor.

    Um fantastico véo cobria as longas praças;
    E o gaz ria atravez da grande cerração
    Que em lagrimas descia ao longo das vidraças
    E em flocos d'alva neve humedecia o chão.

    Eu mesmo achava em tudo um tom maravilhoso.
    Dispuz-me a crer no ceu a amar este ideal:
    Do subito eis que passa um astro radioso
    Luzindo-me atravez do magico cendal!

    Que vaga exhalaçao ó cousas vis que adoro!
    Que bello olhar de Deus, deixae-me assim dizer!
    Pelo sulco de luz julguei um meteóro,
    Pelo aroma subtil sonhei uma mulher!

    Passou porém, fugiu: no fim eis em resumo
    A sua breve historia! o sonho é sempre assim!
    Ha cousas que ao passar ainda deixam fumo:
    Aquella só deixava um vacuo dentro em mim.

    Archanjos caminhae, que eu espero o grande dia
    Da nossa atroz vingança, ó despotas do ceu!
    Nossa alma anda algemada á vossa tirannia
    Mas hade erguer-se a escrava…–Assim dizia eu

    E a mesma aparição de novo a deslumbrar-me!
    De novo a mesma aurora o espaço a illuminar!
    Agora pude vêl-a e posso recordar-me
    Dos abysmos de luz que havia em seu olhar.

    O astro vinha envolto em nuvens d'escumilha:
    De resto era uma fada, eu mais não sei dizer.
    Deixava atraz de si um aroma de baunilha
    D'um louco se abysmar d'um pobre enlouquecer!

    Quem quer que sejas tu, que sejam sempre bellos
    Teus ceus sem vendaval, teus dias sem revez!
    Feliz de quem poder beijar os teus cabellos
    E aos labios aquentar os teus pequenos pés!

    –Dizendo caminheí. Porém novo prodigio!
    Ainda a perseguir-me a mesma aparição
    E eu ainda sentia o lucido vestigio
    Que ha pouco em mim deixára a outra exhalação!

    Mas agora reparo, attento em sua chama!
    Que olhar tão insolente, o ceu não luz assim!
    Na gaze que ella arrasta ha um debrum de lama,
    Na face macerada uns traços de carmim!

    Oh! astro! emfim conheço a orbita que traça
    O teu curso veloz! bem sei onde tu vaes!
    Prosegue no teu giro em volta d'essa praça
    E Deus te dê mais luz e menos lamaçaes.

    XII

    Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
    Não tratem d'orações;
    Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
    Á moda das visões.

    Desejo vel-a então passar d'esta maneira
    Depois de tal revêz,
    Por entre a chama azul e tenue da poncheira
    No fumo dos cafés.

    Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,
    Monotonia azul;
    Não temam que ella vá no fogo das espheras
    Queimar o véu de tulle.

    Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
    A nuvem triste e vã,
    E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos
    As nevoas da manhãa!

    De noite ella virá com seus trajes singellos,
    Archanjo d'outros ceus,
    Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
    Dizer-nos mal de Deus.

    Contar-nos por que foge á doce transparencia
    Que o ceu formoso tem,
    Meiga filha gentil da mesma decadencia
    Que é nossa boa mãe.

    Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
    Em noites de luar,
    Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,
    Cingir-se n'um collar;

    De certo ella daria ao pallido comêta
    E á estrella trivial,
    A mesma adoração que dava á cançoneta
    Que amou até final!

    E á saida do circo, ao astro romanesco,
    Á noite iria, então,
    Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
    Do livido truão!

    Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
    Um hymno d'enfadar,
    Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
    Sem um que a possa amar!

    E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
    Do que ella amava mais:
    –A vida illuminada á luz dos restaurantes
    N'um sonho de cristaes!

    XIII

    AS VICTIMAS

    Eu vejo muita vez e raro já me assombro
    –Minha alma tanto afiz ás tristes commoções!–
    Na rua, junto a mim, passar hombro com hombro
    No transito penozo as longas procissões,

    De victimas da sorte e victimas do mundo!
    Umas boas, gentis, outras feias, crueis,
    Envoltas n'um sudario ou n'um burel immundo;
    Nas pompas theatraes, nas galas dos bordeis,

    Não são filhas do sonho ou creaçoes chymericas
    Da mente allucinada, ou vagos ideaes;
    São magros peitos nús, são faces cadavericas,
    São as tristes, as vís desolações carnaes.

    São pequenos sem pão que vão pedindo esmola
    Nas lamas encharcando os regelados pés:
    Que dormem nos portaes, que nunca vão á escóla
    –Flôres que enfeitarão a noite das galés!

    São aquellas gentis e pobres costureiras
    De peito comprimido; anemica expressão;
    Que passam a tossir, cansadas, com olheiras,
    Ganhando em todo o dia apenas um tostão,

    Curvadas a cozer o languido velludo,
    O irritante setim dos grandes enxovaes,
    Das princezas do Banco, herdeiras d'isto tudo;
    Depois indo morrer nos tristes hospitaes!

    São os pobres heroes que os seus irmãos combatem;
    Que morrem sob o pezo enorme dos canhões,
    E o cortejo de mães pedindo aos reis que as matem
    E os reis fazendo rir das suas maldições!

    São da lugubre noite umas flôres sem nome
    Batidas muito já dos grandes vendavaes,
    Que, por que sentem frio ou por que sentem fome,
    Derramam pelo seio aromas triviaes

    E fingem depois ser apparições divinas,
    Erguendo um pouco a saia, a fimbria sensual,
    Abrindo um vil leilão de beijos, nas esquinas,
    Aos apetites vís da multidão brutal!

    São mineiros sem luz; são velhos britadores,
    Que o contacto da pedra um dia endureceu,
    Queimados pelo sol, gelados nos horrores
    Do tumulo cruel que em vida os recebeu!

    São aquelles heroes, em fim, dos grandes sonhos,
    Que sentiram na terra as vastas corrupções
    E ás turbas apontando uns mundos mais risonhos
    Tentaram espedaçar os ultimos grilhões

    E que passam tambem um tanto contristados,
    Talvez cheios de tedio, ao verem que hoje, nós,
    Os deixamos seguir ainda apedrejados
    Não raro desprezando a sua augusta voz!

    E a grande multidão de martyres sublimes,
    De tristes semi-nús, constante a caminhar,
    Aos ceus erguendo as mãos, queixando-se dos crimes
    Dos despotas que aos pés não cessam de os calcar!

    A fila tenebroza, a procissão de victimas,
    Augmenta mais e mais; não deixa de crescer!
    E do estygma cruel das penas mais legitimas
    Em muita fronte bella um traço podeis ver!

    Caminhe muito embora: a sorte é sempre varia
    E a turba soffredora, ó grandes bem sabeis,
    Podia dividir a tunica cezarea
    Lançando aos que estão nús a purpura dos reis!

    XIV

    EVOCAÇÃO

    Levanta-te Romeu do tumulo em que dormes
    E vem sorrir de novo á boa, á eterna luz!
    De noite, ouço dizer que ha sombras desconformes
    E as noites do passado, oh, devem ser enormes
    Na atonia fatal das larvas e da cruz!

    Conchega gentilmente ao peito carcomido
    Os restos do teu manto:–assim, que bem que estás!

    Na terra hão de julgar-te um grande Aborrecido
    Que busca desdenhoso o centro do ruido
    Nas horas vis do tedio e das insonias más.

    O mundo transformou-se; aquelle fundo abysmo
    Do antigo amor fatal, fechou-se d'uma vez,
    E tu filho gentil do velho romantismo,
    Tu vens achar dormindo o rude prozaismo
    No berço onde sonhava a doce candidez!

    No entanto pódes crer; faz muito menos frio
    Á luz do novo sol; do gaz provocador;
    E o seculo apezar de gasto e doentio,
    Não pode já escutar o cantico sombrio
    Que fala de edeaes e cousas sem valor!

    Em paz deixa dormir a terna Julieta
    Que aos ceos ainda por ti levanta as brancas mãos;
    E em quanto por mim corre a tetrica ampulheta,
    Da muza alegre e vil da torpe cançoneta
    Saudemos a nudez a par dos bons pagãos!

    Nas praças, tu bem vês; a turba prazenteira
    Innunda-se na luz de mil constellacões!
    E os archanjos da rua assomam na poeira
    Que exhala o macadam, trazendo em cada olheira
    O astro creador das grandes sensações!

    E quando a cotovia á estrella matutina
    Mandar a saudação, lá fora, em pleno céo,
    Romeu tu beijarás, que é tua eterna sina,
    A trança da belleza anemica e franzina
    Que entre os fumos da festa, a amar, adormeceu!

    XV

    Boas noites coveiro: a tua enxada
    Não cessa ha tanto tempo de cavar?!
    Cavalleiro da morte, ó fronte desolada
    Não sentes a mão tremula e cançada
    De tanto trabalhar!

    Tu esperas hoje as legiões sombrias
    De mortos, que eu supponho ao longe ver?
    Os felizes caídos nas orgias
    E os tristes que além todos os dias
    O gelo vem colher?!

    Que immensa valla aberta! são medonhos
    Os risos d'essa boca infame, alvar!…
    Descansa dos teus dias enfadonhos!
    –Eu cavo a sepultura dos teus sonhos
    Não posso descançar!

    XVI

    FLOR DA MODA

    Alice, o turbilhão das salas elegantes,
    Começa a entristecer; ninguem sabe por quê!
    Aquella flôr doente amava muito d'antes
    As festas, o ruido, as cousas deslumbrantes,
    Agora é desolada e penso que descrê.

    Que tedio se abrigou na vaga transparencia
    D'um todo tão subtil, aerio, divinal.
    –Moderna creação da santa decadencia,
    Que alia gentilmente ás pompas da regencia
    Os indecisos tons d'um ar sentimental?!

    Archanjo por quem és! desvenda esse mysterio
    Das vagas oppressões da tua insomnia má,
    E diz-me o teu sonhar visão do baixo imperio,
    Vestal que amas o gaz e tens o fogo ethereo
    Na conta d'uma cousa um tanto usada já!

    No idylio pastoril das noites venturosas
    Não sonhas tu de certo, e raro o hão de sonhar
    N'um mundo todo nosso, as bellas desditosas
    Que em trinta annos de fogo as suas velhas rozas
    Nos grandes vendavaes sentiram desbotar!

    E quando a augusta voz do mar ou das florestas
    Abala o coração dos justos e dos bons,
    Bem sei que tu não vaes, fugindo ás grandes festas,

    No amor das castelãs scismar entre as giestas
    Com medo que te acorde a bulha dos wagons!

    Eu sei talvez teu mal! A febre que hoje sentes
    Abraza a geração de lyrios ideaes
    Que passam, como tu, galantes e doentes,
    D'um amor desordenado ás cousas dissolventes,
    Ás vozes da guitarra e aos cantos sensuaes!…

    E tem de os consumir a grande nostalgia
    D'um mundo mais á moda e menos trivial,
    Onde haja um grande caso, ao menos, cada dia
    E se possa esquecer a vil monotonia
    De tudo que nos cerca:–Alice eis o teu mal mal!

    No entanto eu sei que és boa: apenas das insomnias
    A febre, mãe cruel d'estranhas sensações,
    Na fria placidez do gaz e das bigonias
    Construe na tua mente as grandes babylonias
    D'um mundo extraordinario e monstro de visões!

    Tocou-te um mal galante: és tenue e caprichosa:
    És boa e fazes gala em que te julguem má.
    E sentes sobre tudo uns tedios côr de rosa
    E os extasis crueis d'uma mulher nervosa:
    –Se existe a mulher-flôr, tu és a flôr de chá!

    E chame-te o bom Deus ao foco aonde brilha
    Aquella eterna luz, amor dos immortaes,
    Que tu amortalhada em rendas e escumilha
    Achar deves, talvez, da moda, ó terna filha,
    O céo modesto um pouco e os anjos triviaes!

    XII

    Ó machinas febris! eu sinto a cada passo,
    Nos silvos que soltaes, aquelle canto immenso,
    Que a nova geração nos labios traz suspenso
    Como a estancia viril d'uma epopea d'aço!

    Emquanto o velho mundo arfando de cansaço
    Prostrado cae na luta; em fumo negro e denso
    Levanta-se a espiral d'esse moderno incenso
    Que offusca os deuses vãos, anuviando o espaço!

    Vós sois as creações fulgentes, fabulosas,
    Que, vibrantes, crueis, de lavas sequiosas,
    Mordeis o pedestal da velha Magestade!

    E as grandes combustões que sempre vos consomem
    Começam, n'um cadinho, a refundir o homem
    Fazendo resurgir mais larga a Humanidade!

    XVIII

    A CHRISTO

    Precisamos Jesus, se não te sentes velho,
    Que cinjas novamente o resplendor de luz
    E venhas explicar a letra do evangelho
    A muitos que hoje vês prostrados ante a cruz!

    Ainda não cessou, de todo, essa contenda
    Que um dia, ha muito já, tentaste debellar:
    E aquelles que são bons e adoram tua lenda
    Desejavam tambem ouvir-te hoje falar.

    Apenas resoasse o teu verbo indignado,
    O latego febril das grandes corrupções,
    Iria atraz de ti um mundo revoltado
    Que sente na consciencia a luz das redempções.

    E embora não houvesse, aqui, outra alma gemea
    Da tua, e tão ungida em balsamos dos céos,
    Havias d'encontrar essa alma de bohemia
    Que sonha uma justiça e sente em si um Deus!

    Mas não, não voltes cá: teu corpo combalido
    Não póde supportar os gelos da manhã.
    Precisavas de pão, d'abrigo e de vestido
    E a vida aqui é cara e longo o macadam!

    Terias d'encontrar, de certo, mil estorvos
    No mundo revolvido, e escuta-me Jesus:
    Se não fosses, em fim, comido pelos corvos
    Talvez te fuzilasse um cura Santa-Cruz!

    Serias apontado a dêdo, muitas vezes,
    Como um simples bandido, um agitador feroz,
    E haviam de esconder seus ouros os burguezes
    Apenas resoasse, ao longe, a tua voz!

    Depois vinhas achar a par do proletario,
    Ao pé do que se innunda em bagas de suor,
    Aquelle velho Pedro, agora millionario,
    E triste por pensar que já esteve melhor!

    E perto do ocio vil á sombra do qual medra
    O egoismo feroz que extingue o coração,
    Lutando todo o dia o britador de pedra
    A quem á noite espera, em casa, um negro pão;

    E uns pequenos sem côr; talvez cheios de fome,
    Com pouca luz no olhar; atrophiados, nús;
    Abrindo os olhos muito á codea que elle come
    E indo-se deitar sem roupas e sem luz!

    Assim deixa-te estar. O teu cadaver triste
    Recende uma fragrancia etherea e divinal,
    Emquanto o mundo segue e vae de lança em riste
    Sem treguas combatendo as legiões do Mal!

    Tu foste o paladino, o trovador sagrado,
    Que falaste do amor, da paz e do perdão,
    E o ferro que varou teu corpo lado a lado
    Comtudo inda reluz altivo em muita mão!

    Nós, hoje, quando em luta erguemos sobre a liça
    O gladio vingador das oppressões crueis,
    Soltamos, n'um sorriso, o nome da Justiça,
    E ha quem saiba morrer sem bençãos nem laureis!

    Descansa pois Jesus! Bem basta que tu sintas,
    N'esse velho sepulchro, o immenso vozear
    Dos mineiros sem luz, das legiões famintas,
    Que nunca, um dia só, deixaram de lutar,

    Mas que hão de em fim vencer, porque a suprema essencia
    A jorros cae do céo nas mãos dos Prometheus,
    E tanto vae subindo a vaga da consciencia
    Que um dia ha de abismar-se em nós o proprio Deus

    XIX

    Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o.
    Era em praia dezerta, em frente a um longo mar:
    Nos céos havia a nevoa, a mãe do Pezadêlo,
    E o vago, o incerto, o informe em tudo a oscillar!

    De subito surgiu, na praia, uma criança
    D'olhar profundo e bom, d'angelica expressão,
    E o mar contemplou com tanta confiança
    Que nem que visse n'elle o berço d'um irmão!

    Mas a vaga subindo, em cada extremo arranco
    Levando ia comsigo aquella flôr dos céos!
    E em breve só boiava um tenue vulto branco
    No mar onde fluctua o espirito de Deus!

    Mais tarde á beira-mar chegava a pura imagem
    Da mais casta mulher que em vida pude ver.
    Detinha-se distante:–a espuma da voragem
    Só meia extenuada aos pés lhe ia morrer!–

    O immenso mar, porém, crescia a cada instante
    Mais turvo e mais veloz! depois… Não quiz vêr mais.
    Ergui-me e caminhei de val em val errante
    Pensando tristemente em coisas ideaes!–

    Ao longe, muito além, na serra desviada
    De subito encontrei–ó estranha apparição–!
    Uma pobre velhita enferma e desolada
    Trazendo já no olhar a grande cerração!

    Que idéa me assaltou não sei dizel-o agora.
    Aonde iria o espectro, aquella sombra vãa?
    Iria aonde vae o que hontem foi aurora
    E aonde irão tambem as rosas d'ámanhãa?…

    Dos meus instantes bons, ó lucida chimera,
    Bem vês que os sonhos maus são faceis d'esquecer!
    Que importa a grande noite em plena primavera,
    Que importa o que tu foste, o que és, e o que has de ser!!

    XX

    O GRANDE TEMPLO

    Eu não trajo o burel do magro cenobita
    Nem me posso infligir crueis macerações;
    Mas não rio d'alguem que busca a paz bemdita
    No seio casto e bom das grandes solidões.

    Bem sei que ha na montanha aromas penetrantes
    E certas vibrações que podem fazer mal;
    Mas se é preciso Deus, direi que é melhor antes
    Amal-o com fervor no templo universal!

    Em quanto sobre o altar das serras azuladas
    Mil lampadas do céo derramam toda a luz,
    Nas velhas cathedraes, já meio arruinadas,
    O Tempo,–o grande verme!–até devora a cruz!

    Depois é facil vêr, por entre os arabescos
    Que a arte sensual traçou com tanto amor,
    Ás vezes, o sorrir dos Satyros grotescos
    Pungindo cruelmente a face do Senhor.

    Ou mais; podemos nós voar todos captivos
    Do sereno ideal, d'aquelle summo bem,
    Ao vermos tanta vez os Faunos mais lascivos
    Olhando de revez a virgem nossa mãe?!

    E ainda mil traições: as musicas, as flôres
    Os lindos seraphins voando todos nús;
    Da sêda que se arrasta os languidos rumores
    Do incenso as espiraes; os turbilhões de luz!

    Oh! visto haver de tudo; aromas e decotes,
    O vinho scintillante, a viva luz do gaz;
    Que a vossa rouca voz, pomposos sacerdotes,
    Não cante apenas Deus; que solte alguns _hurrahs_!

    O fumo d'essa festa, a mim, pouco me assusta.
    Se eu quero alguma vez fugir do pó, voar,
    Eu tenho o val profundo ou a floresta augusta,
    As montanhas, os céos, e o bello, o vasto mar!

    Da casta natureza ó templo gigantesco,
    Tu és mais amplo, sim; mais livre, muito mais!
    O meigo e doce olhar do Christo romanesco
    A multidão gentil não chama aos teus umbraes.

    XXI

    A UM CERTO HOMEM

    Agora és todo nosso: a rude voz da historia
    Já póde hoje falar
    E dar-te um balancete ás nodoas e á gloria
    Rei-sol de _boulevard_.

    Que dias d'esplendor! Porém como começa
    A noite e a podridão!
    Foi Deus que te mandou tambem para a Lambessa
    Da eterna punição!

    Enfarda a tua gloria e leva-a que é vergonha
    Que vejam ámanhã,
    Que até lhe depennou as aguias de Bolonha
    O abutre de Sedan!

    E visto que em redor nenhuma estrella brilha
    E a noite é longa e má,
    No caminho do opprobrio acende a cigarrilha
    E, cezar, ouve lá:

    Que altiva e bella a França! aquella Gallia ardente
    Que de Valmy levou,
    Descalça, quasi núa; a Marselheza em frente;
    Nossa alma até Moscow!

    Seus filhos teem a fouce: envergam rudes clamydes
    Depois, caminham sós;
    E em quanto ceifam reis acordam nas Pyramides
    A alma dos Pharaós!

    E vão cheios de fé, bandeira solta ao vento,
    Na gleba das nações,
    Convictos semeando o novo pensamento
    No sulco dos canhões!

    Mas tu chegas um dia: afogas-lhe a grandeza
    E quando a tens aos pés,
    Celebras a victoria aos hymnos de Thereza,
    A musa dos cafés!

    Banquetes dás ao crime; e os teus heroes d'esquína
    Ainda a afrontam mais,
    Tornando a _Marselheza_ em torpe Messalina
    D'um circo de chacaes!

    E sobre alguns montões de mortos ainda quentes,
    Emfim campeias, tu,
    Que déste á sagração das cousas dissolventes
    Um Petroneo-Sardou!

    Porém, quando ao colher ainda um beijo á Fama
    Um dia avanças mais,
    Teu carro triumphal trambolha-te na lama
    E então como tu saes!…

    Revolves-te no horror das vis, infectas ondas
    De lodo e podridão,
    E vaes de manto roto e vestes hediondas
    Buscar a escuridão!

    Em vez de reclinar a fronte ao sol ardente
    Da luta que sorri,
    Do fumo dos canhões fugiste, e de repente…
    Matou-te um bistori!…

    Que entrada a tua, então, na funebre morada,
    Pizando, incerto, o pó,
    Á luz d'uma _lanterna_, ao vir da encruzilhada,
    Sinistro, sujo e só!

    Das cinzas levantou-se um brado entre os jazigos
    Dos bons e dos leaes,
    Apenas descobriste a marca dos _castigos_
    Nas faces triviaes!

    E quando te assustava o olhar altivo d'Hoche
    E o gesto de Danton,
    Sorria-te na sombra o amor da Rigolboche
    Meu cezar-Benoiton!

    73–Janeiro.

    XXII

    Á HORA DO SILENCIO

    Eu quiz hontem sonhar, sentir como um romantico
    A doce embriaguez do pallido luar,
    Ouvindo em pleno azul passar o immenso cantico
    Dos astros no seu giro e em sua luta o mar!

    A cidade dormia o somno dos devassos;
    Aquelle somno turvo, infecto e sensual:
    E a lua, antiga fada, erguia nos espaços
    Tranquilla e sempre ingenua a fronte de vestal!

    E sobre a quietação das coisas vis e exoticas
    Sentiam-se as febrís, crueis respirações,
    Dos tristes hospitaes e das virgens clorothicas,
    Dos amantes fataes da febre e das paixões!

    A noite era em silencio, a athmosphera doce
    E ria a natureza aos beijos d'um bom Deus.
    De subito escutei, ao longe, o quer que fosse
    D'um canto que suppuz então baixar dos céos!

    Attento ao vago som, porém, a pouco e pouco
    Senti que era uma voz disforme e sensual,
    Soltando uma canção n'aquelle accento rouco
    Da triste inspiração alcoolica e brutal!…

    Ó terna vagabunda, enamorada lua!
    Emquanto ias assim, diaphana e sem véo,
    Uma triste mulher passava, então, na rua
    Cuspindo uma porção d'infamias para o céo!

    XXIII

    Eu quizera depois das lutas acabadas,
    Na paz dos vegetaes adormecer um dia
    E nunca mais volver da santa lethargia,
    Meu corpo dando em pasto ás plantas delicadas!

    Seria bello ouvir nas moutas perfumadas,
    Emquanto a mesma seiva em mim tambem corria,
    As sãas vegetações, em intima harmonia,
    Aos troncos enlaçando as lividas ossadas!

    Ó belleza fatal que ha tanto tempo gabo:
    Se eu volvesse depois feito em jasmins do Cabo,
    –Gentil metamorphose em que n'esta hora penso;–

    Tu, felina mulher com garras de veludo
    Havias de trazer meu espirito, comtudo,
    Envolto muita vez nas dobras do teu lenço!

    XXIV

    O VELHO CÃO

    Soltava hontem já tarde um velho cão felpudo
    Uns doloridos ais,
    Em frente d'um palacio altivo, bello e mudo,
    Cerrado aos vendavaes.

    Fazia pena ouvil-o, o misero mollosso
    Em seu triste chorar!
    Era quasi uma sombra: apenas pelle e osso
    E um vago, um doce olhar!…

    Eis a sorte cruel do pobre que não come,
    Dos miseros sem pão!
    Em paga ainda em cima os vae tragando a Fome,
    A negra apparição!

    Latia o cão faminto. O frio era mordente,
    Feroz, quasi voraz!
    E o pobre não sabia, em fim, que ha muita gente
    Que adora a santa paz.

    Ora perto vivia uma galante rosa,
    Etherea, virginal,
    Que tinha um lindo collo, amava, era nervosa
    E a quem fazia mal,

    Aquelle uivar sinistro; a ponto de em desmaios
    Pender a fronte ao chão!
    Saíram pois á rua impavidos lacaios
    E foram dar no cão.

    –Ha no mundo um rafeiro, um velho cão esfaimado,
    –O povo soffredor,
    Que ás vezes vae ganir, com fome, o seu bocado
    Ás portas d'um senhor.

    O resto é velha historia: ocioso é já dizer-vos
    O fim que ella ha de ter.
    A Ordem, só d'ouvil-o, alteram-se-lhe os nervos
    E manda-lhe bater!

    XXV

    AS VELHITAS

    Eu não professo muito o culto das ruinas.
    Prefiro uma officina ás velhas barbacãs;
    Das velhinhas, porém, mirradas, pequeninas,
    No entanto nunca insulto as prateadas cãns.

    Deixal-as caminhar, curvadas, vagarosas,
    Com seu bento rozario, os seus fofos beitões,
    A rirem-se de nós, crueis, maliciosas,
    Sagazes comentando as nossas illusões!

    Ah, velhitas sem côr! cabeças regeladas,
    Vulcões de que só resta a cinza e nada mais:
    Já fostes as visões; talvez as brancas fadas;
    Prendestes vossos pés nos humidos rosaes;

    Tivestes já no olhar os bons reflexos magicos
    Dos lagos ideaes cubertos de luar;
    As curvas sensuaes, os bellos dedos tragicos;
    As rosas más do inferno, os lyrios bons do altar!

    Pendestes já scismando as frontes melancolicas
    Nas varandas á noite, amantes dos Titães
    Do bello amor antigo! ó Marcias das bucolicas!
    E agora apenas sois as mães de nossas mães!

    Segui vosso caminho: as graciosas fadas,
    As bellas da cidade, anémicas, gentis,
    Sorriem-se, talvez, das fitas desbotadas,
    Dos provectos chapéos, das gallas que vestis!

    Oh! mostrando os trophéos das vossas velhas rosas,
    Dizei-lhes, a sorrir das futeis illusões,
    Que fostes já, tambem, galantes e nervosas
    Mas destes isso tudo a varios corações!

    Agora tendes pouco: apenas uns lamentos
    Sentidos contra nós; queixumes sem valor
    E ao mundo importam muito os vossos testamentos
    E importa muito pouco a vossa immensa dôr!

    Batei á grande porta: os bellos dias vossos
    Velhitas, bem sabeis, não podem voltar mais!
    Á terra ide levar, em fim, n'uns tristes ossos
    O residuo fatal das cousas virginaes!

    XXVI

    ÁS VISÕES

    Pois que visões! não cessa a rapida corrida
    E seja noite ou dia,
    Volteadoras crueis! vós sempre a toda a brida
    Na minha phantasia!

    Parti chymeras vãs! archanjos ou _madonnas_,
    Parti, que o mando eu,
    Como um bando fatal de velhas amasonas
    Que o circo aborreceu!

    Levae tudo comvosco: as settas mais a aljava;
    O angelico sorriso;
    E as azas d'escumilha em que eu voava
    Á noite, ao paraiso!

    Eu quero, em fim, dormir; passar as noites gratas
    Sentindo-me feliz,
    No somno machinal dos velhos acrobatas
    Depois das farças vis!

    Mais tarde hei de sorrir, ou escarnecer-me quasi,
    Lembrando-me–ó verdade!–
    Que onde eu suppunha aurora havia apenas gaze
    E uns traços d'alvaiade.

    Perdão se vos insulto! oh, não, vós sois do empyreo,
    D'aquelle meigo azul,
    Que a todos tem sorrido: a Christo no martyrio,
    Na dôr, ao rei de Thule;

    E quando vos apraz, nas azas transparentes,
    Mais alto ides por certo,
    Do que as deusas gentis, aerias, insolentes,
    Que vemos voar tão perto!

    No entanto podeis crer ó lucidos fantasmas
    Que o seculo, afinal,
    Occulta no esplendor não sei que vis miasmas
    Que fazem muito mal!

    E quando vós passaes, nas horas do mysterio
    D'estrellas revestidas,
    Bebemos nós, talvez, o aroma deleterio
    Das rosas corrompidas!

    Oh sim! parti depressa; erguei-vos d'este abysmo
    Archanjos ideaes,
    Deixando-nos colher a flôr do realismo
    Nas coisas triviaes!

    XXVII

    Melancolias do outono! Eu quando além descubro,
    Nas tristezas do campo, as filas mugidoras
    Dos vagarosos bois que voltam das lavouras,
    Compungem-me as crueis desolações d'outubro!

    Das orlas do poente, afogueado, rubro,
    Ó moribundo sol! com que poesia douras,
    As formas triviaes das cabecitas louras,
    Que, ás portas dos casaes, de bençãos tambem cubro!…

    Solta o canto final a orchestra da folhagem:
    São horas de partir; apresta-se a viagem,
    E as noites dos saraus hão de voltar mais bellas!

    Mas as vistas lançando ás regiões saudosas,
    Nos esforços crueis das tosses dolorosas,
    Em bandos vão partindo as tisicas donzellas!

    XXVIII

    O VELHO MUNDO

    Eu vejo em toda a terra um vasto cemiterio,
    A necrópole immensa, a campa dos colossos,
    Aonde em paz descansa o velho megatherio,
    Por entre a fauna morta, os carcomidos ossos!

    E os grandes leviathaãs dos primitivos mares;
    Os tremendos reptis, crueis, descommunaes,
    Celebram no silencio as nupcias singulares
    Dos seus residuos vis, com ricos mineraes!

    E os esqueletos nús dos lividos gigantes
    Abraçam-se melhor; conchegam-se na cova,
    Deixando um logar vago aos velhos elephantes
    Que vão fugindo á luz da natureza nova!

    Tambem no mundo interno as almas vão seguindo.
    Na corrente da vida, em mil circulações;
    E da consciencia humana o largo abysmo infindo
    Occulta, ha muito já, disformes creações!

    Ellas dormem na sombra immensa do passado
    Aonde em breve hão de ir nos trances doloridos,
    A velha Realeza e o trémulo Papado
    Sem forças descançar os corpos corrompidos.

    Depois virão mais tarde as gerações futuras
    E os dois espectros vãos da sombra hão de evocar,
    Bem como a nossa voz, as grandes creaturas
    Do mundo primitivo, obriga a despertar.

    E as crianças terão seus nomes de memoria,
    Como exemplo, na vida, a todos os momentos;
    E vel-os-eis de pé, nas paginas da historia,
    Grotescos, machinaes, pezados, somnolentos;

    Fazendo-nos pensar; d'espanto enchendo tudo;
    Soffrendo o riso alvar do ingenuo e do plebeu,
    Eguaes ao masthodonte armado para estudo
    E exposto ás irrisões nas salas d'um museu!

    XXIX

    Eis a velha cidade! a cortesã devassa,
    A velha imperatriz da inercia e da cubiça,
    Que da torpeza acorda e á pressa corre á missa!
    Baixando o olhar incerto em frente de quem passa!

    Ella estreita no seio a velha populaça,
    Nas vis dissoluções da lama e da preguiça,
    E nunca o santo impulso, o grito da Justiça,
    Lhe fez estremecer a fibra inerte e lassa!

    E póde receber o beijo e a bofetada
    Sem que sinta o rubor da colera sagrada
    Acender-lhe na face as duas rosas bellas!

    Sómente d'um sorriso alvar e deshonesto,
    Ás vezes, acompanha o provocante gesto
    Quando sôa a guitarra, á noite, nas viellas!

    XXX

    Á NOITE

    Eu gosto de velar a percorrer os mundos
    Ó noite dos bons canticos,
    Aos lividos clarões dos astros vagabundos
    Nos extasis romanticos,

    Emquanto a vil cidade, a cortesã devassa
    Dos falsos ouropeis,
    Com seus famintos cães, a sua lua baça
    E os seus negros bordeis,

    Resona torpemente aos beijos deleterios
    D'alguns velhos amantes;
    –Os longos hospitaes e os tristes cemiterios
    Que a afagam delirantes!

    Comtudo eu tambem sei que existe muito instante
    De gelos, em que tu,
    Feroz, cravas o dente agudo e penetrante
    No pobre seio nú!

    Que ha horas em que vens, nas humidas cidades,
    Nas choças, nos esgotos,
    Cuspir cynicamente as frias tempestades
    No seio vil dos rotos,

    Sem ter pena, sequer, da pobre mãe que passa
    Um dia sem ter pão,
    Nem d'essa esfarrapada e velha populaça
    Que rosna como um cão!…

    Mas em breve deixando as tenebrosas vestes,
    O manto dos horrores,
    E o gladio vingador das coleras celestes
    Ó noite dos amores,

    Retomas o tom puro e santo do mysterio
    Da pallida mulher
    Que vae colher, scismando, um lyrio ao cemiterio
    E ao campo um malmequer!

    Em horas de tormenta és a mulher colerica!
    Até cospes na cruz!
    E formam-te espiraes na coma athmospherica
    As viboras de luz!

    Porém no teu regaço, altivo, casto, enorme,
    Em doce e plena paz,
    É que a virtude sonha e que a desgraça dorme
    Depois das horas más,

    E em lucidos cristaes, ha scintillantes vinhos;
    Os casos mais galantes;
    As languidas canções; os bellos desalinhos
    E os gestos provocantes!…

    Ó filha do silencio! Aos puros alabastros
    Dos hombros ideaes,
    Se Deus arremessasse a quantidade d'astros
    Que em ti brilham a mais,

    As pallidas visões que passam doloridas,
    E um tanto contristadas,
    Haviam de surgir d'estrellas revestidas
    Em trajos d'alvoradas!

    Em ti cuida escutar uns sons inexprimiveis
    De languidas canções,
    O pobre sonhador de coisas impossiveis
    Que adora as solidões!

    E quando o resplendor de mundos luminosos
    Na tua fronte cinges,
    Os gatos sensuaes, electricos, nervosos
    Repouzam como esphinges;

    Emquanto as combustões dos lividos comêtas,
    Errantes e fataes,
    Comsomem lentamente as grandes borboletas
    Dos nossos ideaes!

    XXXI

    A VALLA

    Trazei mortos á valla; a hydra está com fome
    E deve ser-lhe longa a hora em que não come!
    Olhae como ella mostra aquelles que a vão ver,
    Inerte, sem pudor, de fauce escancarada,
    A amargura cruel da bocca desdentada
    Que pede de comer!

    Lançae ao monstro informe algum repasto novo!
    Trazei-lhe carne humana; arremeçae-lhe o povo.
    Tranzido pelo frio ou morto pelo sol!
    E visto haver na fera abysmos insondaveis
    Mandae-lhe as legiões dos grandes miseraveis
    Que morrem sem lençol!

    Eu quero vel-a farta, a lugubre panthera,
    Que, na sombra agachada, olhando em roda, espera
    A preza que lhe inveja a gula dos chacaes.
    Começa a ouvir-se ao longe a marcha vagarosa
    Da triste procissão cruel e dolorosa
    Que vem dos hospitaes.

    Um velho esquife chega: em duas taboas toscas
    Um pobre semi-nú coberto já de moscas,
    N'um riso deixa ver não sei que tons crueis!
    Emquanto nos sorria a luz das noites bellas,
    Talvez que elle varresse a lama das viellas
    E o lixo dos bordeis!…

    E poude, em fim, dormir no seio bom da morte!
    Apoz, como se fôra a livida consorte
    D'aquelle vil despojo, ás mesmas horas vem,
    Trazendo por sudario os seus vestidos rotos,
    Uma triste mulher caída nos esgotos
    Sem bençãos de ninguem!

    Devora-os ambos fera! Engole-os juntamente:
    Reune-os em consorcio e dá-os de presente
    Á larva que partilha as ancias do teu ser!
    Aguça o teu desejo!–A garra infecta lança
    Ao corpo tenro e nú d'uma gentil criança
    Que a mãe te vem trazer!

    Redobra d'appetite! Alonga-se a teu lado
    A fila tenebrosa! O espectro do soldado
    A par do que vergou cançado de cavar:
    E o mineiro sem luz, o martyr legendario;
    E amparando-se a custo ao velho proletario
    A flôr do lupanar!

    Mastiga a turba vil e alonga essa guela!
    Bem vês que vem chegando um corpo de donzella
    Que pela candidez recorda uma vestal!
    Voou-lhe, n'um sorriso, o derradeiro arranco
    E traz viçoso ainda um grande lyrio branco
    No seio virginal!

    Ó monstro sensual na sombra tripudia!
    Celebra no silencio a tenebrosa orgia,
    Que as Deusas vem chegando ao lubrico festim!
    N'um beijo os labios colla á frigida epiderme
    E o D. Juan da morte, o cavalheiro Verme,
    Que viva e gose emfim!

    Eu quero ver-te farta, em halitos profundos,
    Dormindo o somno vil dos animaes imundos,
    De ventre para o ar; serpente infecta e má!
    E ámanhã, na estação dos candidos amores,
    Veremos rebentar n'um tapete de flôres
    O lixo que em ti ha!

    E a santa mocidade; as languidas mulheres;
    Virão depois colher os gratos malmequeres,
    Pizando-te sem medo e cheias de desdem,
    Em danças sensuaes; o fato em desalinho;
    Compondo-te canções; regando-te de vinho;
    Sem pena de ninguem!

    E tu que és monstruosa, infame, vil, medonha;
    Que não mostras pudor; que não sentes vergonha;
    Que és a campa-monturo e não pódes ser mais;
    Cingida em fim, tambem, de rosas orvalhadas,
    Terás dado um perfume ás almas namoradas,
    E pasto aos animaes!

    XXXII

    Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos,
    Que ás vezes revoaes nas salas deslumbrantes,
    N'um grande mar de tulle, ethereas, fluctuantes.
    Aos suspiros fataes dos meigos violoncellos;

    Que bom que era sonhar nos pallidos castellos,
    Á noite, á beira mar, nas solidões distantes,
    Nos tempos em que a flôr dos timidos amantes
    Á lua confiava os intimos anhelos!…

    Agora sois gentis, despepticas, vistosas;
    Pagaes por alto preço as exquisitas rosas;
    Nos rapidos wagons correis o mundo em roda;

    Mas prostradas do baile, amarrotando a luva,
    Emquanto cae na rua a somnolenta chuva,
    Scismaes no Deus-Milhão,–no Creador da moda!

    XXXIII

    Eu vejo em tua bocca as pétalas vermelhas
    D'uma rosa de fogo aonde vão libar,
    O mel das illusões, quaes timidas abelhas,
    Uns velhos ideaes que em vão tento expulsar.

    Dizer-me pódes tu de que ovulo espontaneo,
    Tocado pelo sol, em mim poude nascer
    Este bando cruel que dentro do meu craneo
    Não faz ha muito já senão roer, roer?!

    Ás vezes vôa ao largo; ás serras, ás campinas;
    Remonta aos astros bons; torna a descer dos céos;
    E volta a demolir as trémulas ruinas
    Do templo onde crepita a luz dos dias meus!

    Ó grande flôr suave! e n'isto se resume
    A constante batalha, o sempiterno afan!
    Aspira a minha essencia ao teu grato perfume;
    Sossobra o dia d'hoje ao dia d'ámanhã!

    Oh, volvamos á terra; aos placidos logares,
    Aonde os hymeneus fecundos e reaes,
    Produzem, dia a dia, os fetos singulares
    E as sãs vegetações dos candidos rozaes!

    E o que ha d'ethereo em nós, que siga as breves phases
    D'um fluido transitorio, erguendo-se nos céos,
    Nas grandes expansões dos fugitivos gazes
    Onde em linguas de fogo ás vezes fala Deus.

    Forçoso é separar os dois rivaes antigos,
    Na batalha cruel que em nós se reproduz.
    Sorria o que é da terra aos vegetaes amigos;
    Rebrilhe o que é do céo nas refracções da luz!

    XXXIV

    NOS CAMPOS

    A fragrancia do trevo o das flôres selvagens
    Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
    Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos.
    O mundo era um altar; as serras grandes aras;
    E os canticos da paz corriam nas searas
    Em honra do bom Deus.

    No solemne silencio immersa ia minha alma
    Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
    Que sente germinar os frescos vegetaes.
    De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
    Detive-me um momento; olhei:–era o viatico!
    De noite a horas taes,

    Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
    Trazido pela mão d'um padre sem batina
    Roubado ás sensações d'um longo resonar?
    Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça
    O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
    Movia-se a rezar.

    Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
    Um pobre cavador, mordido pela febre,
    Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor;
    E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
    Tentavam-se esconder na velha saia rota
    Da mãe louca de dôr!

    A voz do sacerdote a custo resoava.
    A palavra d'amor que ali se precisava,
    Não posso dizer bem se acaso elle a soltou.
    Falava o Deus severo e forte dos castigos,
    Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos
    Um dia ajoelhou?

    Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
    Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos
    Latiam tristemente em volta do cazal:
    E o levita lançava áquella noite escura
    A benção derradeira, erguendo a mão segura,
    N'um gesto machinal!

    Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana,
    Sahia sem deixar da sãa verdade humana
    O balsamo suave, o dom consolador!
    Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
    Não era o que deixava ali, n'aquelle canto
    Sósinha a mesma dôr!

    Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
    Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
    Nas moitas dos rozaes, no movediço mar!
    O constellado azul dir-se-ía um sanctuario!
    Havia aquelle albergue apenas solitario,
    E frio o pobre lar!

    E o rude agonisante, o triste moribundo
    Que em breve ía partir; abandonar o mundo;
    Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem,
    Talvez ao presentir o fim da insana lida
    Soltasse maldicções, ainda, contra a vida
    E contra nós tambem!

    E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes
    Que lutam todo o dia e vão morrer contentes
    Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis;
    E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
    Que pela causa santa, em pé, nas barricadas,
    Se batem contra os reis!

    Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
    Que sagram toda a vida aos ideaes severos
    Da justiça e do bem; caíndo com valor,
    Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
    Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome,
    Varados pela dor!

    Ó pobres multidões! as grandes noites frias
    Não cessam de morder, famintas e sombrias,
    N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
    E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada,
    Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada,
    As petalas de luz!

    Eu quando porem lanço as vistas ao futuro
    E vejo dia a dia a despontar mais puro
    O grande sol da idéa, em rubidos clarões,
    Recordo-me que sois a productiva leiva
    Aonde já circula uma opulenta seiva,
    De grandes creações!

    XXXV

    O ULTIMO D. JUAN

    D'aquelle de quem falo, as socegadas lousas
    Podiam-vos contar as violações brutaes!
    A gula com que morde as mais sagradas cousas
    D'horror faz recuar os trémulos chacaes.

    Não descanta á viola, á noite, os seus enleios:
    Elle vive na sombra e eu sei também que vós,
    Gentis bellezas d'hoje, ó astros dos Passeios,
    Lhe não lançaes, a furto, a escada de retroz.

    Mas sede muito embora as virgens sem desejos,
    As monjas virginaes, uns pudicos dragões;
    Fechae o niveo collo aos vendavaes dos beijos,
    E ás noites de luar os vossos corações;

    Um dia hade chegar em que elle, informe, tosco,
    Sem garbo, sem pudor, grotesco, infame, vil;
    Nas grandes solidões irá dormir comvosco,
    Mordendo em cada seio o lyrio mais gentil!

    E o que elle adora muito ó virgens romanescas
    Não é o que abrigaes d'ethereo e virginal:
    Adora os corpos nus; as bellas carnes frescas;
    Deixando o resto a vós damnados do ideal!

    Não vive como nós de candidas mentiras:
    Não communga do amor esse illuzorio pão:
    Devora com fervor as pallidas Elviras
    E em muitos seios bons dá pasto ao coração!

    Tem palacios na sombra e fazem-lhe um thesouro
    Maior do que o dos reis; adora as solidões:
    Não uza d'espadim; não traz esporas d'ouro;
    Mas vive como os reis das grandes corrupções!

    Flôres sentimentaes! tremei do paladino,
    Do velho D. Juan, feroz conquistador,
    A quem da vossa bocca um halito divino,
    Em vida, faz fugir talvez cheio d'horror;

    Mas que um dia virá, na candida epiderme,
    Na sagrada nudez dos collos virginaes,
    Em hymnos de triumpho–o grande Cezar-Verme!–
    Colher o que ficou de tantos ideaes!

    XXXVI

    Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
    A aérea multidão de fadas quebradiças,
    Gentis apparições dos bailes e das missas,
    Desliza no fulgor das pompas seductoras.

    No arfar da cazimira ha frases tentadoras
    E maciezas taes nas languidas pelliças,
    Que as tristes commoções, decrepitas, mortiças,
    Resurgem do lethargo ó pallidas senhoras!

    E muitos hão de ter uns extasis divinos
    Ouvindo soluçar, á noite, aos violinos,
    A vaga introducção d'uma balada aerea;

    Em quanto, do futuro, ao toque da alvorada,
    Se escuta, a martellar na sua barricada,
    Sinistra rota e fria, a livida Miseria.

    XXXVII

    ANTIGO THEMA

    Passae larvas gentis na rua da cidade
    Aonde se atropella a turba folgazã;
    A noite é um tanto agreste e cheia d'humidade
    Mas o tedio mortal precisa a claridade
    Que em vosso olhar trazeis, vizões do macadam!

    Estatuas sem calor! vós sois das grandes vazas
    D'um corrompido mar as Deusas menos vis!
    Se á noite abandonaes, voando, as pobres casas,
    E vindes pela rua enlamear as azas,
    Quem sabe a fome occulta, as sedes que sentis!

    A pallida Miseria em seu triste cortejo
    Precisa as contracções de muitos hombros nús:
    E vós ides sorrindo ao lubrico desejo,
    Do carro da desgraça arremessando um beijo
    Que apenas é de lama em vez de ser de luz!

    Embora! caminhae deixando um grande rasto
    D'estranhas emoções, d'aromas sensuaes:
    E ao pobre que mendiga a pallidez d'um astro;
    Ao que sonha vizões e archanjos d'alabastro
    Fazei por despenhar nos longos tremedaes!

    Do velho idyllio, a muza, ha muito já que dorme,
    E o arroio em vão suspira e chora a nossos pés!
    A grande multidão,–a vaga, a onda enorme,
    Que oscilla sem cessar, e gira multiforme
    Ás corridas, ao circo, ao templo e aos cafés,

    Talvez ao presentir que tudo, emfim, declina,
    Adore a immensa luz, em vós, constellações,
    Que não baixaes do céo; que vindes d'uma esquina,
    Vagando no rumor da aérea musselina,
    Em plena bacchanal fingindo de vizões?

    Oh, sois do nosso tempo! A languida existencia
    De tedios se consome e sente febres más!
    Aspira ao que é bizarro: a uma exquisita essencia
    Que exhala aquella flôr que vem na decadencia
    E quando a toda a luz succede a luz do gaz!

    Do seculo a voz rude apenas diz–trabalha!–
    Ao poste vil amarra o lubrico ideal
    Que expira, emfim, talhando a funebre mortalha
    Na vossa trança gasta, ó muzas da canalha
    Que apenas revoaes do olimpo ao hospital!

    XXXVIII

    A MÃE

    Eu canto-vos, mulher, por que vos tenho visto
    Na palpebra vermelha a lagrima d'amôr,
    Que vem d'Eva a Maria–a doce mãe de Christo–
    Formando a stalactite immensa d'uma dôr!

    Oh, quantas vezes já n'aldeia miseravel
    Nas tristezas do campo, ás portas dos casaes,
    Vos tenho surprehendido, em extasi adoravel,
    Em quanto os filhos nús ao peito conchegaes!

    A fria noite chega. Os maus, de bocca cheia,
    Rebolam-se na terra: ainda pedem pão!
    Com elles repartis a vossa parca ceia;
    E vendo-os a dormir podeis sorrir então.

    D'inverno quasi sempre as noites são mordentes.
    Uivam lobos na serra: o vento uiva tambem:
    Mas elles vão dormindo os longos somnos quentes,
    Em quanto a vil insomnia opprime a pobre mãe!

    Tendes sustos crueis. Temendo que lhes caia
    A roupa que os abafa, aos pobres acudis;
    E aninhando-os melhor nas vossas velhas saias
    Podeis então dormir um tanto mais feliz.

    Mulher quanto é suave e longo esse poema
    Quanto é preciso ó mãe, no transito cruel,
    Que vossa alma estremeça e o vosso peito gema
    A fim de que em vós brilhe o mais alto laurel!

    Quem é que nunca viu, na rua, a cada passo,
    A pallida mulher que rompe a multidão,
    Trazendo agasalhado, um filho no regaço,
    E aos tombos, muita vez, um outro pela mão?!

    Nos frios do lagedo, ás vezes, pede esmola
    Ás portas dos cafés: ninguem a quer ouvir:
    E a ella qualquer codea a farta e a consola
    Comtanto que sem fome os filhos vão dormir!

    E em quanto á luz do gaz a turba prazenteira
    No fumo dos festins revoa em turbilhão,
    Quantos dramas crueis nas humidas trapeiras;
    Nos campos quantas mães sem roupas e sem pão?!

    E sempre a mesma lenda, a mesma historia antiga:
    Do palacio á cabana o vosso doce olhar,
    Nas insomnias crueis, na fome ou na fadiga,
    D'um raio creador o berço a illuminar!

    No entanto á doce mãe, se aquelle amor sem termo,
    Da moda traja agora os novos ouropeis,
    E o vosso coração já gasto e um pouco enfermo,
    Soffrendo se dilue nos ideaes crueis;

    Nas vagas pulsações d'umas recentes ancias,
    Se aquella santa flôr das grandes commoções,
    Apenas tem logar nas vossas elegancias.
    Como um enfeite de mimo amado nos salões;

    Na corrente fatal que ao longe arrasta os povos,
    Se o vosso grande affecto intenta erguer-se mais,
    Sonhando a sagração dos heroismos novos,
    Resplendente de luz; vistosa de metaes:

    Aos reflexos do gaz, ó mãe, abri passagem
    Por entre a saudação das alas cortezãs,
    Levando as seducções da vossa doce imagem
    Aos delirios da noite, ás ceias das manhãs!

    Surgi do canto obscuro aonde o casto seio
    Palpita ingenuo e bom na paz da solidão,
    E o vosso amor levae á opera e ao passeio
    A fim de que elle arranque um bravo á multidão!

    E eu heide rir ao ver que o peito onde um thesouro
    Maior do que nenhum podemos encontrar,
    Intenta seduzir pela medalha d'ouro
    Que aos pequenos heroes os reis costumam dar!

    XXXIX

    Archanjo vae-te embora: é tarde: em nossas casas
    Talvez alguem se afflija; é tão deserta a rua!…
    Tu deves sentir frio! Embuça-te nas asas;
    Dá saudades á lua.

    Um beijo em cada estrella!… Espera que eu sou louco!
    Sonhei devo pagar: perdão anjo dos céos!
    Agora tem cuidado; o céo escorrega um pouco:
    Boas noites adeus!

    XL

    SANTA SIMPLICIDADE

    Na serena missão de paz que tu cumpriste
    Ó suave Jesus, ó doce galileu,
    Que santa singeleza e que perfume triste
    Do teu casto perfil no mundo rescendeu!

    Havia no teu verbo aquella unção divina
    Que a velha harpa de Job soltou nas solidões,
    E o bello, o puro sol da antiga Palestina
    Suave contornou, de luz, tuas feições!

    Compunham-te o cortejo uns pobres pescadores
    Almas rectas e sãs; marchavas por teu pé,
    E sorrias falando aos rudes e aos pastores,
    Sentado nos portaes da pobre Nazareth.

    Da tua Galiléa os valles percorrias
    Levando um bom quinhão d'affecto a cada lar,
    E o grande olhar suave e terno das judias
    Turbaste muita vez, de certo, sem pensar!

    E mais simples na morte, apenas a tua alma
    Transpunha as regiões purissimas do sol,
    Tu que havias colhido a immorredoura palma
    Não tinhas para o corpo as gallas d'um lençol!

    Consola-te ó Jesus! Tu deves já ter visto
    Que sobre a terra, agora, ao teu nome fieis,
    Os que se dizem ser apostolos de Christo
    Não precisam trajar os infimos bureis.

    Não maceram seus pés! não vão pobres e rotos
    Envoltos na estamenha, apedrejados, sós,
    Nos desertos viver de mel e gafanhotos,
    Convertendo o gentio ao som da sua voz.

    Ante elles, ao contrario, alargam-se os batentes
    Dos palacios reaes, nas grandes recepções,
    E formam-lhes cortejo os coches reluzentes
    Atraz dos quaes se bate um trote d'esquadrões!

    Cobrindo-lhes, depois, d'insignias as roupetas,
    Afim d'honrar melhor a primitiva fé,
    Redobram-se ainda mais as velhas etiquetas;
    Polvilham-se melhor os homens da libré!

    E dão-se-lhes festins onde ha grandes baixellas,
    Fataes scintillações de vinhos e rubins,
    Gargantas ideaes, grandes espaduas bellas,
    Lampejos de cristaes, insidias de setins!

    Oh! temo bem Jesus que tantas pedrarias
    Façam peso de mais na barca do Senhor,
    Quando é certo que as mãos de Pedro um pouco frias
    Mal podem segurar o leme salvador!

    Por isso quando avisto o espaço que negreja
    E o mar que se encapella, eu temo que ámanhã
    Do fendido baixel da tua velha Egreja
    Apenas reste, á prôa, uma ficção pagã!

    XLI

    O velho Olimpo dorme o bom somno comprido
    Que prostra o lutador no fim d'uma batalha,
    E os Deuses d'outro tempo, em livida mortalha,
    Descançam no torpor d'um mundo corrompido.

    No puro céo christão, de estrellas revestido,
    No entanto ha muito já que chora e que trabalha,
    Por nós, o Christo bom sem que seu Pae lhe valha,
    A fim de ver, de todo, o mundo redimido!

    Justiça, traça o manto alvissimo e estrellado
    E senta-te, mulher, no throno abandonado
    Pelos vultos gentis de tantos Deuses velhos!

    Depois inda maior, mais pura e mais serena,
    No sangue de Jesus molhando a tua penna
    Explica a nova lei no fim dos evangelhos!

    XLII

    OS PALHAÇOS

    Heroes da gargalhada, ó nobres saltimbancos,
    Eu gosto do vossês,
    Por que amo as expansões dos grandes rizos francos
    E os gestos d'entremez,

    E prezo, sobretudo, as grandes ironias
    Das farças joviaes,
    Que em visagens crueis, imperturbaveis, frias,
    Á turba arremeçaes!

    Alegres histriões dos circos e das praças,
    Oh, sim, gosto de os ver
    Nas grandes contorsões, a rir, a dizer graças
    Do povo enlouquecer,

    Ungidos para a luta heroica, descambada,
    De giz e de carmim,
    Nas mimicas sem par, heroes da bofetada,
    Titães do trampolim!

    Correi, subi, voae n'um turbilhão fantastico
    Por entre as saudações
    Da turba que festeja o semi-deos elastico
    Nas grandes ascenções,

    E no curso veloz, vertiginoso, aerio,
    Fazei por disparar
    Na face trivial do mundo egoista e serio
    A gargalhada alvar!

    Depois mais perto ainda, a voltear no espaço,
    Pregae-lhe, se podeis,
    Um pontapé furtivo, ó lividos palhaços
    Lusentes como reis!

    Eu rio sempre ao ver aquella magestade,
    Os tragicos desdens,
    Com que nos divertis, cobertos d'alvaiade,
    A troco d'uns vintens!

    Mas rio ainda mais dos histriões burguezes
    Cobertos d'ouropeis
    Que tomam, n'este mundo, em longos entremezes,
    A serio os seus papeis.

    São elles, almas vãs, consciencias rebocadas,
    Que, em fim, merecem mais
    O comentario atroz das rijas gargalhadas
    Que ás vezes disparaes!

    Portanto é rir, é rir, hirsutos, grandes, lestos,
    Nas comicas funcções,
    Até fazer morrer, em desmanchados gestos,
    De riso as multidões!

    E eu que amo as expansões dos grandes risos francos
    E os gestos d'entremez,
    Deixae-me dizer isto ó nobres saltimbancos,
    Eu gosto de vossês!

    XLIII

    A HYDRA

    Ha muito que desceu das orientaes montanhas
    A hydra singular que espalha nas ardencias
    D'uma luta febril scintillações estranhas!

    Ella galga, rugindo, ás grandes eminencias,
    E emquanto vae soltando o silvo pelo espaço
    Engrossa á luz do sol na seiva das consciencias.

    Tem rijezas sem par, como de roscas d'aço
    E corre descrevendo em giros caprichosos
    Na leiva popular um indefinido traço.

    Prefere aos antros vis os focos luminosos
    E em mil voltas crueis aperta dia a dia,
    N'uma longa espiral, os thronos carunchosos.

    Passou pelo paiz da candida Utopia:
    Nos mythicos rosaes viveu d'um vago aroma
    Ao pallido fulgor da aurora que rompia.

    Mas hoje com valor em toda a parte assoma,
    E sem temer sequer a lugubre vizeira
    Ha muito que transpoz os porticos de Roma.

    E os Papas mais os Reis sentindo-a na carreira
    Do seu longo triumpho, um tanto apavorados,
    Trataram d'acender a livida fogueira.

    E ao galope lançando os esquadrões cerrados
    Começaram depois, na terra, a perseguil-a,
    A cumplice fatal dos lividos Pecados!

    Mas ella sem temor, nos cerberos tranquilla,
    Derrama cada vez mais bellos e fecundos
    Os intensos clarões da lucida pupilla,

    E emquanto a imprecação de tantos moribundos,
    Os despotas crueis, acolhem com desdem,
    A hydra immensa–a Idéa–a farejar nos mundos
    Ainda a garra adunca afia contra alguem!

    XLIV

    OS NOVOS LEVIATHÃS

    Dos antigos Titães, o mar,–fera indomavel,
    Agora verga o dorso ao peso colossal
    Dos novos leviathãs que em bando formidavel,
    Nas grandes explosões da colera insondavel,
    Já levam de vencida o abysmo e o vendaval!

    Elles seguem no mar, altivos no seu rumo,
    Em halitos de fogo, á nossa voz fieis,
    E como o combatente erguendo a lança a prumo,
    Era turbilhões rompendo, as flamulas de fumo
    Ostentam sem cessar correndo entre os parceis!

    Que sopro creador, que força omnipotente
    Os fez surgir do nada, os monstros colossaes?
    Ó novos leviathãs provindes tão somente
    Do fecundo hymeneu, d'este connubio ardente
    Do Genio e do Trabalho, amantes immortaes!

    Correis de mar em mar, altivos, triumphantes,
    Levando a toda a parte a vida, a nova luz,
    E as sereias gentis não fazem como d'antes,
    Ao som da sua voz, perder os navegantes;
    O dorso dos delfins, no mar, já não reluz!

    Ó alma antiga dorme inerte no regaço
    Dos velhos Deuses vãos, que o homem creador
    Agora ri de ti, prostrada de cansaço,
    Emquanto vae soprando em mil gigantes d'aço
    Outra alma inda mais larga,–o novo Deus-Vapor!

    XLV

    Sua alteza real o pequenino infante
    Matou, d'um tiro só, dois gamos na carreira:
    Um hymno mais ao céo, pois era a vez primeira
    Que sua alteza vinha á diversão galante!

    Ó vergontea gentil! quando um tropel distante
    De subito acordar os echos da clareira
    E uma preza cansada, em rolos de poeira,
    Varada, a vossos pés, caír agonisante,

    Acercai-vos então da pobre fera exangue
    Que estrebuxa de dôr n'um mar de lama e sangue
    Sem que um grito de dó nos corações acorde!

    No entanto não fiqueis na doce gloria absorto:
    O velho javali parece ás vezes morto
    Mas surge da agonia e os seus algozes morde!

    XLVI

    VERSOS A *

    Eu sou, mulher suave, aquelle antigo louco,
    O triste sonhador que o teu olhar cantou,
    E que hoje vae sentindo, o sonho, a pouco e pouco,
    Fugir como o luar d'um astro que expirou!

    Que morra, porque, emfim, bem longo elle tem sido
    E tempo é já, talvez, da Morte desposar
    O sonho que em minha alma entrou como um bandido
    E só da vida sae depois de me roubar!

    Eu devera amarral-o á braga do forçado,
    Como a Justiça faz aos despreziveis réos,
    E lançal-o depois á valla do passado
    Aonde o fulminasse a colera dos céos.

    Mas não; quero embalar-lhe os ultimos momentos
    Ao som d'uma canção das quadras juvenis,
    E amortalhar depois–em doces pensamentos–
    No manto da saudade, os seus restos gentis.

    E quando elle seguir ás regiões saudosas,
    Aonde todos nós iremos repousar,
    Ao esquife hei de atirar-lhe as derradeiras rosas
    Que dentro de minha alma houver por desfolhar!

    Ninguem profanará seus restos adorados,
    Que em paz irão dormir n'um fundo mausoleo;
    E quando alguma vez já hirtos, regelados,
    Acordem, por ventura, á luz que vem do céo;

    Em vão tu baterás, ó sonho, á fria porta
    Que em breve has de sentir fechada sobre ti,
    Porque a tua Memoria, emfim, já estará morta,
    E não te escutarei… porque também morri!

    XLVII

    Ó pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
    Agreste e pedregosa, aonde os companheiros
    Da luta, encontrareis, meus infimos guerreiros,
    Formando os batalhões da bellica avançada!

    E o trajo em desalinho, a face illuminada,
    Transponde, sem demora, os fossos derradeiros
    Que separam de nós os braços justiceiros
    Da serena Verdade, a Deusa idolatrada.

    Vencidos no combate, ou pouco ou nada importa.
    Ao chão vergae sem pena a faço semi-morta,
    Mordendo, inda a lutar, o pó da enorme liça:

    E tudo, emfim, esquecendo; os odios e os desprezos;
    Que d'entre vós alguns, ao menos, fiquem prezos
    Como fios de luz, ao manto da Justiça!

    FIM.

    APPENDICE

    Nas paginas que em seguida se leem acha-se tão bem determinada, com
    tanta eloquencia e tão profunda observação, a missão da poesia
    contemporanea, que não podemos resistir ao desejo de as trazer das
    folhas passageiras do jornal, aonde pela primeira vez viram a luz, para
    as paginas d'este livro, por ventura um pouco menos ephemeras.

    O autor das _Radiações da Noite_, intenta sobretudo mostrar que o seu
    espirito, correspondendo ás indicações da critica, procura inspirar-se,
    tanto quanto lhe é possivel, no mundo que o cerca, nos factos e nas
    acções do nosso tempo. Das _Radiações da Noite_ á _Alma Nova_
    poder-se-ha talvez notar um certo caminho andado na direcção em que vae
    seguindo a arte contemporanea.

    Do escripto como primitivamente foi publicado, entendemos, como o leitor
    tambem de certo comprehenderá, suprimir, hoje, a parte final em que o
    talentoso critico se referia, d'um modo demasiadamente lisongeiro, á
    individualidade litteraria do autor das _Radiações_.

    Guilherme d'Azevedo

    TENDENCIAS NOVAS DA POESIA CONTEMPORANEA

    a preposito das

    RADIAÇÕES DA NOITE

    do sr.

    Guilherme d'Azevedo

    O seculo XIX, cujos primeiros annos enflorou uma corôa poetica de
    esplendor incomparavel, tem mentido cruelmente ás esperanças da sua
    aurora. Envelhecendo, perdeu o dom do canto, ou, pelo menos, o
    sentimento que faz os cantores verdadeiros. Os Goethe, os Byron, os
    Lamartine, os Miczkawicz, os Hugo, os OEhlenschlaeger, não deixaram
    descendencia digna d'aquella poderosa geração. O romantismo foi um
    meteoro. O grande canto do seculo esvaeceu-se gradualmente n'um
    murmurio. A poesia contemporanea não tem unidade, e não tem sobre tudo o
    largo folego de inspiração, que caracterisa as verdadeiras épocas
    poeticas. O interesse do tempo dirige-se evidentemente para outro lado.
    No meio das preoccupações da actualidade, a poesia é como a canção de um
    conviva distraído que se affasta da sala do festim, e cuja voz se perde
    pouco a pouco no silencio da distancia e da noute.

    Depois do apparecimento do romantismo, a sua queda é o maior facto
    litterario, do seculo. Porém essa queda, que como facto todos
    reconhecem, mas cuja phenomenalidade poucos tentam explicar, será uma
    justa sentença lavrada pela razão publica, ou será uma condemnaçao
    arbitraria que deshonra o tribunal que a firma? Indicará para o espirito
    do nosso tempo um progresso ou uma decadencia? uma gloria ou um
    deslustre aos olhos da historia?

    Não hesito em responder. O romantismo foi justamente condemnado. O
    seculo, com um sentimento lucido da sua verdadeira missão, affastou-se
    d'aquelles que lhe fallavam uma linguagem, cujo brilho, cuja eloquencia,
    cuja sinceridade, por maiores que fossem, não podiam encobrir o falso do
    principio, que a inspirava. Essa missão é essencialmente positiva,
    social e racional, e o romantismo era essencialmente apaixonado,
    individual e subjectivo. Por mais que se virasse para o futuro, a sua
    alma pertencia ao passado; emquanto que o seculo, ainda nos momentos em
    que parece invocar o passado, é sempre para o futuro que caminha. No
    fundo, uma sociedade saída da revolução, e uma poesia que se inspirava
    das tradições da edade-media, contradiziam-se, negavam-se radicalmente.
    Um equivoco historico pôde por um momento estabelecer aquelle infundado
    accordo: no dia, porém, em que se conheceram, separaram-se.

    Ainda ha muita gente que _sente_, _chora_, _crê_, e _aspira_, á maneira
    dos grandes, melancolicos e apaixonados de 1820. Mas já nos não commovem
    como então, já não influem poderosamente no mundo que os rodeia. São
    vozes sem ecco. É quanto basta para que nada signifiquem,
    historicamente: tanto mais que aquellas vozes frouxas não teem já o
    timbre ardente de indomavel paixão, que nas outras nos commovia. A
    paixão d'estas é mais estudada na escola, do que saída do coração. Não é
    já como então, um convencimento violento dos direitos da propria
    loucura, que os inspira: são apenas os livros dos mestres: ora, não é
    nos bancos apertados da escola, mas no seio da livre natureza, que se
    criam os verdadeiros poetas.

    Os poetas da geração actual vêem-se pois, rasgado aquelle veo
    phantastico da _sentimentalidade_ d'outr'ora, em face d'uma sociedade,
    que elles não comprehendem, porque ella mesma a si se não comprehende
    bem, mas que os não quer escutar senão com a condição de lhe falarem
    d'aquillo que a interessa e a preoccupa, de se inspirarem da sua vida
    real e das suas verdadeiras aspirações. É d'esta situação anormal que
    resulta a incerteza, a anarchia, a fraqueza da poesia contemporanea. A
    idéa poetica acha-se confusa, embaraçada no meio de factos sociaes, que
    se não definem claramente: as fontes da inspiração correm escassas ou
    turvas. A antiga nascente, tão querida e conhecida, está quasi secca: a
    nova, já por ser nova, e depois por que só deixa rebentar, em cachões,
    uma agua turbida, cheia de elementos estranhos, assusta os que a ella se
    chegam pela primeira vez; os mais ousados inclinam-se um momento, tomam
    a medo um golle da bebida suspeita, e retiram-se furtivamente como se
    acabassem de fazer uma acção má.

    E todavia, é alli que é necessario beber, porque é alli, n'aquellas
    aguas rumorosas e confusas, que se conteem os elementos da inspiração
    real, os principios vitaes de que se nutre a sociedade, e de que tem por
    conseguinte de se alimentar tambem a poesia, sob pena de se tornar uma
    abstracção, um phantasma, uma puerilidade. O problema da evolução
    poetica na actualidade encerra-se todo n'isto.

    Mas aqui apresenta-se uma questão, que nos detem. Terá a sociedade
    contemporanea (essa sociedade, ao que dizem, positiva até ao mais
    desolador utilitarismo) na sua atmosphera suffocadora de industria, de
    lutas sociaes e de sciencia friamente analytica, condições de vida e
    desenvolvimento normal para a constituição delicada das castas musas,
    das musas melindrosas e scismativas? Não será uma sociedade
    essencialmente anti-poetica, esta nossa, um mundo rebelde a toda a
    idealidade? Por outras palavras; poderá haver poesia racional, positiva
    e social? Será um ser _poetico_ o homem do nosso tempo?

    Intendo que póde haver tal poesia; que a alma moderna, na sua titanica
    aspiração de verdade e justiça, é poetica, poetica essencialmente,
    d'aquella poesia forte e audaciosa dos mythos de Prometeu e Ajax; que ha
    uma fonte abundante de inspiração n'esta luta historica de nações, de
    classes e de idéas, que é a epopea e a tragedia viva do nosso seculo;
    que, finalmente, á maneira que os factos confusos da nossa epoca se
    forem desembrulhando, mais lucida e evidente se irá mostrando a
    idealidade sublime que n'esse chaos apparente se contém.

    E a idéa d'essa poesia nova não só existe, mas deve ser superior á idéa
    poetica das eras anteriores, porque corresponde a um periodo mais
    adiantado da consciencia humana, penetra com maior intensidade a
    natureza e o espirito, extrae o bello da propria realidade universal,
    não das visões de um subjectivismo inexperiente, e dá por base ao
    sentimento, em vez de sonhos e intuições quasi instinctivas, os factos
    luminosos da rasão.

    Os caracteres essenciaes d'essa poesia já hoje se podem indicar, e todos
    elles se consubstanciam n'uma palavra, que resume tambem as tendencias
    da nossa civilisação: o Humanismo. A inspiração social e naturalista vem
    substituir a sentimentalidade toda subjectiva e pessoal, ou o
    transcendentalismo contemplativo de outras idades poeticas. A poesia
    deixa de duvidar e scismar, para affirmar e combater; mostra-nos o
    interesse profundo e o valor ideal dos factos de cada dia; dá ás acções,
    que parecem triviaes, da vida ordinaria, um caracter, e significação
    universaes; e surrindo maternalmente para as creanças, as mulheres, os
    simples, caminha todavia armada no meio das lutas dos homens.

    Uma tal missão ninguem dirá que é mesquinha ou vulgar: ha n'isto com que
    tentar os mais altos engenhos, captivar os corações mais generosos. E,
    sobretudo, deve seduzir os espiritos verdadeiramente poeticos acharem-se
    em communicação directa e constante com o seu tempo, com as aspirações,
    os interesses, as crenças da sociedade que os rodêa, e de cuja vida
    vivem, como meio historico a que fatalmente pertencem.

    Certamente que essa evolução nova da poesia tem de ser lenta, como lenta
    é a evolução do edeal social, que a deve inspirar. Ha um certo receio, e
    uma certa incerteza. O novo assusta: o indistincto faz hesitar, mas
    insensivelmente, e fatalmente tambem, caminha-se n'aquella direcção. Os
    symptomas d'este movimento tornam-se cada dia mais accentuados. Em
    França e Allemanha, sobre tudo, paizes aonde as idéas e tendencias novas
    se pronunciam n'uma agitação crescente, podem já indicar-se exemplos bem
    significativos; em Allemanha ainda mais do que em França. Alli a poesia
    inspira-se resolutamente das lutas sociaes e religiosas do tempo, e
    abalança-se já, ainda que com incerta fortuna, ás grandes composições
    epicas, aonde se desenha uma sociedade, consubstanciada nos seus typos e
    paixões mais caracteristicas. Entre nós, ha apenas indicios tenues e
    raros, mas que, porisso mesmo, devemos recolher tanto mais
    cuidadosamente, quanto parecem provar que nem tudo está inteiramente
    morto no espirito portuguez, e nos animam a esperar com alguma confiança
    n'um melhor futuro.

    Anthero de Quental.

    NOTA

    Na revisão d'este livro escapou uma ou outra incorrecção que não
    mencionamos, e de que o leitor benevolo nos absolverá. A paginas 63,
    devemos porém notar, em especial, o 3.^o verso, que insidiosamente
    apparece mascarado em alexandrino puro, feição que de certo lhe não
    compete. Aos entendidos concedemos plena autorisacão para demolir o
    verso referido, reconstruindo-o depois como julgarem mais proprio.

    INDICE

    INDICE

    I–Eu poucas vezes canto os casos melancolicos
    II–Eu vi passar além vogando sobre os mares
    III–Velha farça
    IV–Graça posthuma
    V–Historia simples
    VI–A meza do festim cercada de formosas
    VII–Os sonhos mortos
    VIII–Falta a ordem
    IX–Ó lyrios da cidade, ó corações doentes
    X–Miseria santa
    XI–Astro da rua
    XII–Quando Martha morrer, depois do extremo arranco
    XIII–As victimas
    XIV–Evocacas
    XV–Boas noites, coveiro, a tua enxada
    XVI–Flor da moda
    XVII–Ó machinas febris, eu sinto a cada passo
    XVIII–A Christo
    XIX–Eu tive um sonho estranho: ouvi que vou dizel-o
    XX–O grande templo
    XXI–A um certo homem
    XXII–Á hora do silencio
    XXIII–Eu quizera depois das lutas acabadas
    XXIV–O velho cão
    XXV–As velhitas
    XXVI–As vizões
    XXVII–Melancolias d'outono! eu quando além descubro
    XXVIII–O velho mundo
    XXIX–Eis a velha cidade, a cortezã devassa
    XXX–Á noite
    XXXI–A valla
    XXXII–Ó vultos ideaes, fantasticos e bellos
    XXXIII–Eu vejo em tua boca as petalas vermelhas
    XXXIV–Nos campos
    XXXV–O ultimo D. Juan
    XXXVI–Formosuras do inverno! Ao sol das duas horas
    XXXVII–Antigo thema
    XXXVIII–A mãe
    XXXIX–Arcanjo vae-te embora, é tarde em nossas casas
    XL–Santa simplicidade
    XLI–O velho Olimpo dorme o bom somno profundo
    XLII–Os palhaços
    XLIII–A hydra
    XLIV–Os novos leviathãs
    XLV–Sua alteza real o pequenino infante
    XLVI–Versos a *
    XLVII–O pobres versos meus, lançae-vos pela estrada
    Appendice