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  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1882-06 07)

    Aproximadamente 16.983 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO

    AS FARPAS

    _Chronica Mensal_

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    QUARTA SERIE N.º 1

    JUNHO A JULHO 1882

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição de poder,
    da escravidão dos partidos da veneração da rotina, do pedantismo das
    grandes personagens, das mystificações da politica, do fanatismo dos
    reformadores, da superstição d'este grande universo, e da adoração de
    mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A patria portuguesa e os quatro milhões d'egoismos de que ella
    consta–Presente estado das ideias–A religião–A politica–A moral–A
    arte–Sentido historico do centenario de Camões, sua influencia e seus
    resultados–Dois annos depois–A celebração do centenario do Marquez de
    Pombal considerada como symptoma psychologico–Do estadista em geral e
    do Marquez em particular–Addusem-se razões e testemunhos insuspeitos
    para o fim de provar que o estadista é um agente secundario entre os
    acceleradores do progresso, e que o Marquez de Pombal é um individuo
    secundario na classe dos estadistas–Buckle, Guizot, Bastiat, Begehot,
    Herbert Spencer, Wechniakoff, Auguste Comte, Michel Chevalier, e
    outros–Demonstra-se que o Marquez de Pombal exprime a negação de tudo
    aquillo que a liberdade affirma e que a democracia proclama–Coerção da
    agricultura, coerção da industria, coerção do commercio, coerção dos
    direitos civis, coerção do pensamento–Arruamento geral de todas as
    actividades nacionais pelo systema quadrangular da reedificação da
    Baixa.–Secularisação do jesuitismo na pessôa do mesmo Marquez–A
    estatua de Sebastião e o monumento do Terreiro do Paço–Parallelo do
    cavallo e do cavalleiro–Pede-se o esquecimento para um e uma charrua
    para o outro.

    * * * * *

    Asociedade portugueza n'este derradeiro quarteirão do seculo pode em
    rigor definir-se do seguinte modo:–Ajuntamento fortuito de quatro
    milhões d'egoismos explorando-se mutuamente e aborrecendo-se em commum.

    Chamar patria á porção de territorio em que uma tal aggregação se
    encontra seria abusar reprehensivelmente do direito que cada um tem de
    ser metaphorico. O espaço circumscripto pelo cordão aduaneiro, dentro do
    qual sujeitos acompanhados das suas chapelleiras e dos seus embrulhos ou
    tomaram já assento ou furam aos cotovelões uns pelo meio dos outros para
    arranjar logar nas bancadas, pode-se chamar um _omnibus_–e é
    exactamente o que é–mas não se pode chamar uma patria. A patria não é o
    sitio em que nos colloca o acaso do nascimento, á mão direita ou á mão
    esquerda de um guarda da alfandega, mas sim o conjunto humano a que nos
    liga solidariamente a convicção de um pensamento e de um destino commum.

    Já um sabio o disse: _Ubi veritas ibi patria._ A patria não é o solo, é
    a ideia.

    * * * * *

    Para que haja uma patria portugueza é preciso que exista uma ideia
    portugueza, vinculo da cohesão intellectual e da cohesão moral que
    constitue a nacionalidade de um povo.

    Sabem dizer-nos se viram para ahi esta ideia?…

    Nós temol-a procurado de aventura em aventura, de jornada em jornada,
    n'uma peregrinação de vinte annos atravez d'esta sociedade, como
    Ulysses, vagabundo atravez da Odyssea, em busca, do fumosinho tenue e
    amigo que adeje no horisonte por cima da primeira cabana d'Ithaca.

    As manifestações culminantes da mentalidade collectiva de um povo são: a
    Religião, a Politica, a Moral, a Arte. Vejamos rapidamente se em alguma
    d'estas espheras da nossa elaboração mental se revela a unidade de
    pensamento por meio da qual se affirma a existencia de uma nação.

    * * * * *

    Em religião os cidadãos portuguezes dividem-se, em uma infinidade de
    categorias diversas.

    Temos em primeiro logar os livres pensadores, que nunca pensaram, coisa
    alguma sobre este ponto, apesar da liberdade com que se dotaram para
    esse fim.

    Temos depois os indifferentes, que se subdividem pelos diversos graus de
    medo que têem ao Incognoscivel sempre que ha epidemias ou tremores de
    terra.

    Seguem-se os deistas, que acceitam Deus como entidade abstracta pela
    qual se explica a ordem do cosmos, no qual Deus figura como maquinista,
    e egualmente se explicam as justiças da historia, nas quaes o mesmo Deus
    se manifesta sob a forma de dedo,–o bem conbecido _dedo de Deus_.

    Veem depois os christãos, e por ultimo os catholicos. Estes separam-se
    uns dos outros por tantas diferenças de opiniões quantos são os
    individuos agremiados na Igreja. Ha os que crêem na infalibidade do papa
    e os que não crêem em tal infalibilidade; os que vão á missa e os que
    não vão á missa; os que se confessam de tudo, os que se não confessam
    senão de certas coisas, e os que de todo em todo se não confessam.

    Uns encabeçam a divindade no Senhor dos Passos da Graça e, com as suas
    opas roxas e suas cabelleiras anediadas pela bandolina do culto no
    bairro oriental, olham com despeito para os devotos afrancesados de
    Nossa Senhora de La Salette, divindade de chic suspeito ás devoções da
    Baixa.

    Os escolhidos do alto clero, que se gargarejam em suas tribulações com
    agua de Nossa Senhora de Lourdes, garantida verdardeiro João Maria
    Farina, da Gruta, sorriem de desdem pelos que ainda cuidam expurgar-se
    do peccado e clarificar-se para a protecção divina com a velha agua
    benta de mendigo de porta de Igreja, preparação de Santo Ignacio, hoje
    desprestigiada e choca.

    Aquelles proprios que são por um mesmo e unico santo lêem entre si
    dissidencias acrimoniosas de detalhe.

    Nós mesmos vimos ha trez annos, na volta da romagem de Nossa Senhora do
    Cabo, dois cirios, que vinham já de muito longe a rosnar,
    engalfinharem-se a final um no outro ao chegar a Cacilhas. Foi uma coisa
    feroz. Os clerigos cessaram interinamente de tomar pitadas para se
    desancarem uns aos outros com as tochas e com os cabos das lanternas,
    desalmadamente. A Senhora, do alto do seu andor pousado no chão, as mãos
    crusadas no seio, assistia ao debate com uma neutralidade fervorosa e
    commovedora. As sobrepellizes e as capas d'asperges, que regressavam do
    arraial enodoadas de vinho, de chapadas de melão e de areia vermelha,
    desfiavam-se pela fricção das bordoadas; nas cabeças quebradas atavam-se
    á pressa lenços eclesiasticos; e no theatro d'esta devoção ficou
    bastante sangue e muito rapé derramado pelos sacerdotes.

    Devemos mencionar ainda os philosophos espiritualistas, que em religião
    cultivam a _duvida_ com o mesmo ardôr de vesania com que alguns
    hollandezes maniacos cultivaram em tempo a tulipa.

    A duvida d'estes philosophos versa sobre os diferentes feitios que pode
    tomar pelo infinito fora a coisa a que elles, á força de não saberem o
    que seja, deram o nome de _eterna essência._

    Enquanto a gente vae em cada manhã tratar da sua vida, esses individuos
    vão duvidar na solidão, ou seja nas trevas de um quarto escuro em seus
    domicilios, ou seja á beira do oceano, chupados e amarellos como cidras,
    com os olhos esbugalhados para a banda do Bugio. É até onde a ociosidade
    pode levar meia duzia de vadios sem mais que faser! Tivessem elles em
    que cuidar e não haveria perigo que a _eterna essência,_ o _increado_, o
    _absoluto_ e todas as mais queixas de cabeça que os affligem
    continuassem a remoel-os. Officio para as costas, uma enxó e um formão
    para as mãos, com a obrigação de ganhar oito tostões por dia para
    sustentar mulher e filhos, e verão os philosophos como a cruel duvida se
    lhes desencasqueta que é um gosto, e lhes sae pela cabeça fora para a
    roupa suja com a primeira camisa que suarem a puxar pelo corpo para
    ganhar a vida, assim como até aqui teem puxado peio juizo para dar cabo
    d'ella.

    Em conclusão: ou seja como ponto de controversia, como motivo de briga
    ou como assumpto de teima, a religião em Portugal é um elemento de
    desunião, que não só perturba as relações sociaes mas destroe tambem
    muitas vezes a alliança da familia.

    * * * * *

    Passemos á politica.

    N'este campo não ha, ideia propriamente nacional,–é evidente.

    Perdendo a pouco e pouco a consciencia da sua tradição historica,
    Portugal, politicamente, não tem hoje papel na civilisação. Está
    desempregado. Figura no congresso das nações europeias como um paiz sem
    modo de vida. Perante o progresso não tem profissão. A missão que elle
    desempenhou na Renascença pela obra magnifica dos seus sabios, dos seus
    navegadores, dos seus commerciantes e dos seus artistas, as excellenles
    condições da sua situação geographica e a paz interior de que tem gosado
    emquanto a Hispanha se dilacera a si mesma nas eternas lutas
    intermitentes de desaggregação e de unificação das suas provincias,
    davam a Portugal o direito e o dever de assumir n'este seculo a
    preponderancia hegemonica dos estados peninsulares, a direcção
    espiritual da civilisação iberica. Em vez d'isso Portugal descansa
    desde o seculo XVI sobre os monumentos immortaes da sua passada energia
    e acha-se no movimento moderno da raça latina como uma nacionalidade com
    licença illimitada para tomar ares. Os seus filhos mais intelligenles e
    mais fortes, uns perseguidos, outros despresados, abandonaram-o aos
    reis, aos estadistas, aos padres, aos persevejos, ás moscas, e foram uns
    para os Paizes Baixos fundar e enriquecer a Hollanda e botar á luz
    Spinosa; outros foram para a America Austral fundar, agricultar e
    enriquecer o Brazil. O resto é o que ahi está ha dusentos annos sentado
    ao sol n'uma ponta de banco do mappa-mundi, a cabecear, a coçar os
    joelhos e a ouvir ranger o calabre á nora da coisa publica, puxada pelo
    governo, velho boi, d'olhos tapados, afeito ao cerco peguinhado do poço
    sem bica, tornando a deitar para baixo a agua que traz para cima, e não
    sabendo o proprio governo, nem sabendo ninguem por que ninguem se
    importa com isso, se é já o pau da nora que empurra de traz o animal ou
    se é ainda o animal que tira para deante o pau da nora.

    Os differentes partidos que ha muitos annos se succedcm no exercicio do
    poder teem por chefes dois ou tres individuos, cujas personalidades,
    absolutamente destituidas de ideias correlativas ou concomitantes,
    representam as duas ou trez phases por que successivamente vae passando
    e repassando em circulo sobre o mesmo carreiro a rotação governativa.

    Os personagens alludidos teem as intenções mais puras e mais honestas
    d'este mundo. Ter outras, deshonestas e impuras, dar-lhes-hia massada, e
    para ahi é que elles não vão.

    Diz-se tambem que são todos mais ou menos fortes n'essa arte, velha e
    atrasada, que se chama a eloquencia e que tem por objecto desfaser pela
    exageração artificial das palavras a justa proporção das coisas.

    São ainda–affirma-se geralmente–habeis parlamentares, o que quer dizer
    que possuem o talento de dominar as assembleias por meio de
    transigencias reciprocas e de concessões mutuas, rasoirando os
    parlamentos pelo nivel de uma mediocridade discreta, tão ôcca como
    estéril.

    Por baixo d'essas virtudes, que reconhecemos e veneramos, os homens que
    ha vinte annos se revezam no governo carecem das ideias geraes de que
    procede na sciencia o ponto de vista governativo. As assembleias das
    duas camaras, revezando-se ora para a direita ora para a esquerda, dão
    ou retiram a maioria dos votos a cada um d'aquelles senhores,
    consagrando-se exclusivamente a defendel-os ou a impugnal-os, sem
    portanto sahirem nunca da orbita dos principios que elles representam,
    principios a que não correspondem systemas diversos c que se distinguem
    apenas uns dos outros pelos signaes physionomicos dos estadistas que os
    teem no ventre, podendo-se dividir assim: principios governativos
    calvos, principios governativos d'olhos tortos e principios governativos
    de cabellos tingidos.

    Nestes esforços successivos das grandes massas intelligentes da nação
    vemos dessorarem-se gerações e gerações consecutivas de deputados,
    fortes temperamentos alguns, solidos provincianos de boa fé, que de trez
    em trez annos o parlamento recebe vivos e honrados do interior das
    provincias para trez annos depois lh'os devolver aniquilados para toda a
    especie d'iniciativa, corrompidos pelo habito de serem mandados,
    castrados na dignidade pela disciplina imposta pelos seus chefes, podres
    no caracter pela fermentação da intriga, indelevelmente marcados para
    toda a vida, pelo ferrete official, com uma pelintrice austera e
    miseravel, na figura, com uma côdea veneranda de solemnidade
    prudhommesca, estupida e impenetravel, no cerebro.

    É pela mais justa e pela mais completa comprehensão do seu destino
    social que tanto os individuos como os povos se disciplinam, se
    fortalecem e se aperfeiçoam. Em Portugal a incapacidade governativa
    produsiu, primeiro que tudo, este resultado funesto: fez perder ao paiz
    a noção historica do seu destino, cortou o fio da tradição nacional,
    lançando o espirito publico n'uma existencia d'accaso como a das tribus
    bohemias. Depois o predominio da incompetencia scientifica na direcção
    dos negocios dissolveu a pouco e pouco a liga que deveria estreitar a
    convergencia de todas as actividades para um fim commum, e pela
    separação dos interesses operou a separação das energias.

    É assim que em pleno seculo XIX, quando está exhuberantemente
    demonstrado que todos os factos do universo, assim na ordem physica como
    na ordem social, se encadeiam uns nos outros por leis imprescriptiveis
    de contiguidade e de correlação, nós vemos em Portugal exercer-se a
    acção do poder no estudo dos phenomenos tratando-os isoladamente, n'um
    ponto de vista fetichista, de preto botocudo, como se cada um d'esses
    phenomenos, regido por uma lei especial e divina, fosse a causa e o
    effeito de si proprio.

    Com mil exemplos se podia comprovar a affirmação que fazemos. Mas
    basta-nos um qualquer, tirado ao accaso do monte, para pôr essa
    affirmação em evidencia de facto.

    Veja-se como em cada legislatura se propõe e se discute uma das poucas
    questões graves de que o parlamento ainda se ocupa. Referimo-nos á coisa
    a que, no calão official em que tem degenerado a lingua patria, se
    chama–_a questão da fazenda_.

    Reunidas as camaras e aberto perante ellas o orçamento do Estado,
    começa-se invariavelmente por constatar, n'um tremolo elegiaco de
    symphonia funebre, que continua a existir o deficit. Cada um dos tres
    governos a quem a corôa alternadamente adjudica a mamadeira do systema
    encarrega-se de explicar aos tachigraphos essa occorrencia–aliás
    desagradavel, cumpre dizel-o–mas de que elle, governo em exercicio, não
    tem a culpa. A responsabilidade cabe ao governo transacto, bem conhecido
    pelos seus esbanjamentos e pela sua incuria.

    Para cada um d'esses tres governos sucessivamente encarregados de
    trazerem o deficit ao regaço da representação nacional, o governo que
    immediatamente o precedeu n'esse mesmo encargo é o ultimo dos imbecis.

    Tal é o conceito formidavel em que cada um dos referidos tres governos
    tem os outros dois!

    A corôa pela sua parte–e é este o mais augusto do todos os seus
    privilegios–é successivamente da opinião de todos os tres ministerios;
    e depois de haver retirado, com sincero nojo, a sua confiança aos
    imbecis do grupo n.º 1, n.º 2 e n.º 3, a corôa torna a restituir a
    citada confiança, com uma effusão de jubilo tão sincero como o nojo
    anterior, a cada um dos grupos de imbecis já referidos mas collocados
    chronologicamente em sentido inverso d'aquelle em que estavam, ou sejam,
    por sua ordem, os imbecis n.º 3, n.º 2 e n.º 1.

    Trocadas as descomposturas preliminares sobre a questão da fazenda,
    decide-se que é indispensavel, _ainda mais uma vez_, recorrer ao
    credito, e faz-se um novo emprestimo. No anno seguinte averigua-se por
    calculos cheios de engenho arithmetico que para pagar os encargos do
    emprestimo do anno anterior não ha outro remedio senão recorrer _ainda
    mais uma vez_ ao paiz, e cria-se um novo imposto.

    Fazem-se emprestimos para supprir o imposto, criam-se impostos para
    pagar os juros dos emprestimos, tornam-se a fazer emprestimos para
    atalhar os desvios do imposto para o pagamento dos juros, e n'este
    interessante circulo vicioso, mas ingenuo, o deficit–por uma extranha
    birra, admissivel n'um ser teimoso, mas inexplicavel n'um mero saldo
    negativo, em uma não existencia,–augmenta sempre atravez das
    contribuições intermittentes com que se destinam a extinguil-o já o
    emprestimo contrahido, já o imposto cobrado.

    Assim como os alforges dos antigos pobres das feiras e das extinctas
    ordens mendicantes, o deficit tem dois sacos, um para deante outro para
    traz, ambos destinados a receber o vacuo. N'um dos sacos mette-se a
    divida fluctuante, no outro mette-se a divida consolidada. De quando em
    quando ha um relampago de jubilo, porque parece por um momento que o
    alforge do deficit está vasio, isto é, que está sem vacuo dentro: é a
    divida, que se achava em estado de fluctuação no saco da frente, que
    passou no estado de consolidação para o saco de traz.

    A alegria fugaz mas intensa que provem da illusão d'esta gigajoga vale o
    dinheiro que custa, mas custa sempre alguma coisa, porque de todas as
    vezes que elles mexem na divida, seja para o que fôr, mesmo para a mudar
    de saco, ella cresce.

    Pela parte que lhe respeita o paiz espera. O quê? O momento em que pela
    boa razão de não haver mais coisa que se collecte, porque estará,
    collectado tudo, deixe de haver quem empreste por não haver mais quem
    pague.

    No emtanto o problema de augmentar a riqueza–unico meio de prover aos
    encargos–é considerado como absolutamente extranho á _questão da
    fazenda_. E todavia nem toda a gente ignora que a riqueza não augmenta
    senão pelo desenvolvimento progressivo do trabalho e que este se acha
    ligado aos progressos da industria.

    Ora emquanto á industria … Mas este novo ponto pode ficar para outra
    vez. O feliz encyclopedismo das inaptidões do estado proporciona-nos a
    facilidade de poder comprovar a sua incapacidade com um só facto
    qualquer, demonstrando que no paiz coliocado sob o patrocinio de um tal
    governo, não pode dar-se senão uma especie de cohesão politica:–a liga
    dos governados para o despreso convicto dos que governam.

    * * * * *

    Na moral estamos como na religião. Cada um tem a sua, feita á fórma do
    seu pé como as botas por medida, com a concavidade de uma cupola moldada
    á protuberancia de cada calo.

    Ha em primeiro logar as duas grandes circumscripçõcs–da moral publica e
    da moral privada, inteiramente diversas uma da outra. D'ahi a distincção
    casuistica entre a honestidade politica e a honestidade pessoal. Em
    virtude d'essa distincção o mesmo individuo pode, ser cumulativamente o
    mais honrado dos cavalheiros e o mais abalisado dos velhacos. Na
    politica ha carta branca para tudo: para mentir, para intrigar, para
    caluniar, para trahir, para furtar. No terreno politico o sujeito pode
    ser refalsado, impostor, venal, infiel, servil, covarde. Todos os
    vicios e todas as abjecções se acobertam com esta virtude absolutamente
    latitudinaria–a _fidelidade ao partido_. Está assentado e decidido para
    todos os effeitos que as nodoas da vida publica não distingem sobre o
    caracter pessoal. O cavalheiro que pela manhã leu nos jornaes, ou ouviu
    nas camaras, sem as combater e sem as refutar, as ultimas injurias que
    podem ferir o homem no que elle deve ter de mais caro no seu caracter ou
    no seu coração, na sua familia, na sua honra, na sua probidade, no seu
    pudor, no seu brio, vae á noite jantar regosijado e tranquillo na mais
    santa paz da consciencia no aconchego immaculado da familia, na estima
    inalteravel da amisade; e com a gravidade austera, convicta e bondosa,
    de um patriarcha, estende a mão suja das suspeitas mais torpes aos seus
    amigos, que lh'a apertam, e dá a beijar á sua filha, risonho e calmo, a
    face esbofeteada pelas accusações mais vergonhosas.

    Um dos principaes caracteriscos da integridade moral de uma pessoa está
    no accordo das ideias com as palavras e das palavras com as obras. Na
    intriga constitucional cujo vicio congenito é a pusilanimidade e a
    hypocrisia, esse accordo é uma chimera. No parlamento portuguez ninguem
    diz inteiramente, o que pensa, qualquer que seja a questão de que se
    trate. Os negocios om discussão são debatidos por dois aspectos
    radicalmente diversos, na sala e nos corredores da camara. Cá fóra
    diz-se a verdade. Lá dentro faz-se o discurso, o que é uma coisa
    inteiramente differente e ás vezes opposta. A eloquencia parlamentar é a
    instituição official da ficção sob a fórma litteraria de nenia, de
    cantata, de sermão, de estopada ou de descompostura.

    A influencia do regimen politico sobre a moralisação geral dos
    caracteres é profunda e fatal. A escola evolucionista tem demonstrado
    por meio de razões experimentaes que a faculdade a que geralmente se dá
    o nome de _consciencia_ se fórma pelo desenvolvimento de duas tendencias
    combinadas posto que apparentemente oppostas: a tendencia egoista e a
    tendencia sympathica. Depois da applicação da fecunda theoria biologica
    de Darwin ao estudo e á renovação das sciencias sociaes ficou
    perfeitamente estabelecido que a moral, cujo objecto é o equilibrio
    entre o instincto pessoal da conservação e o instincto social da
    sympathia, tem por base, mais ou menos remota, mais ou menos disfarçada,
    o interesse.

    Nota Spencer que aquelles que sempre tiveram saude são pouco
    compadecidos com as doenças dos outros. A piedade é a lembrança ou a
    imagem antecipada de um soffrimento, imagem que, produzida em nós pelo
    aspecto d'um soffrimento alheio, nos causa uma dôr analoga.

    O interesse assim definido é effectivamente a base de todas as moraes. A
    propria moral do Evangelho o que é senão a mais lucrativa das
    transacções entre o homem e o infinito?

    Em uma sociedade constituida as tendencias sympathicas estão portanto
    naturalmente em proporção e em harmonia com as tendencias egoistas
    determinadas pela constituição do meio.

    Um governo ignorante, vivendo na trapaça, no favoritismo eleitoral, no
    compadrio, nas dependencias aviltantes do dinheiro, fazendo carreira aos
    mediocres humilhados, empecendo o exito no mundo official ás
    inflexibilidades energicas e fecundas, dissolve a moral publica porque,
    corrompendo os interesses legitimos da communidade, abastarda
    correlativamente as sympathias dos individuos.

    Um momento depois, como os trez pedagogos comparecessem á real presença,
    enrolados á pressa nas togas do professorado, de barretes de dormir, com
    as competentes pennas de pato aparadas da vespera e mettidas atraz das
    orelhas, o rei disse-lhes:

    –Esse jumento que ahi está, (e estendendo o seu dedo magnimo, com um
    largo gesto antigo indicava o principe, vestido de general, de esporas e
    chapeu armado, que bocejava encostado ao sabre de seus antepassados)
    esse real jumento ignora completamente os deveres mais rudimentares de
    um principe para com a sua princesa. E é para isto que eu tenho tido
    aqui á engorda durante quinze annos tres burros de tres mestres!… Ora
    muito bem: vou deixar-vos a sós por espaço de cinco minutos com tão
    repulsivo idiota. Se ao cabo de cinco minutos, contados pelo relogio,
    elle não estiver ao facto d'aquillo que todo o homem de barbas na cara
    deve saber para não vir para aqui a estas horas _nanar_ n'uma cadeira,
    decapito-vos a todos trez esta noite como cação appropriada para
    fecundar os germens originaes da nossa inspiração artistica, trabalho de
    que apenas se encontram vestigios na obra de Garrett.

    Depois do terramoto, que subverteu muitos monumentos d'arte preciosos
    para a educação esthetica do povo, a dictadura grosseiramente utilitaria
    do marquez de Pombal, primeiramente, e o burguezismo liró do regimen
    constitucional, depois, deram á producção artistica da moderna epoca
    liberal o caracter pelintra, ao mesmo tempo pretencioso e chato, de
    padre catita, de jesuita amanuensado, de sargento victorioso, caracter
    que distingue a arte portugueza de 1830 para cá, e que deu o stylo de
    banbolina de paninho, de balaustre azul e branco, de festão de murta e
    d'areia encarnada, a que podemos chamar na historia da decoração–o
    _stylo furriel dos batalhões da carta_.

    Onde está ahi o artista em cuja obra se ache reflectida a influencia do
    antigo genio portuguez? Onde está o escriptor que se possa considerar o
    interprete legitimo do gosto, das ideias, das convicções dos sentimentos
    do publico?

    Os escriptores contemporaneos podem-se dividir em quatro grupos. O
    grupo academico official, o grupo dos convulsionarios, o grupo dos
    insubmissos e o grupo dos domesticados.

    Os escriptores do primeiro grupo são os velhos caturras coroados pelo
    laurel das commissões retribuidas, semsaborões emeritos acommodados pelo
    governo em confortaveis cadeiras de caixa, destinadas a receber para o
    Estado os fluxos da litteratura classica. Nunca ninguem no vasto publico
    pôde jamais apreciar a obra d'esses sabios, porque tudo quanto elles
    desassimilam em fórma de prosa passa em padiolas, circumdadas de
    respeito, dos prelos das typographias para o gorgulho dos archivos e só
    depois de se ter gorgulho compenetrado por espaço de muitos annos do
    teor d'essas producções é que ellas chegam ás casas particulares sob a
    fórma de involucro de generos alimenticios, como as salchichas, ou de
    simples aromas culinarios, como o cravo da India e o colorau picante.

    Os convulsionarios, que são os mais numerosos, denominam-se
    republicanos, e julgam-se auctorisados, sob esse estandarte de revolta,
    para se collocarem em berrata furibunda e em dessidencia enthusiasmada
    com tudo: com a monarchia, com a religião, com a grammatica, com os
    mesarios da freguezia das Chagas, com os verbos, com as hostias, com as
    luvas, com os breviarios, com a syntaxe, com o imposto, com o Senhor dos
    Passos, com o diccionario, com o codigo e com o senso commum. Nada
    escapa á dissencia fundamental d'estes escriptores terriveis. Estão em
    combate acerrimo com tudo. E com o resto estão em contradicção. São o
    _cliché_ negativo do mesmo estado mental de que o governo é a estampa
    vista em sentido inverso. São o estado posto de cabeça para baixo a
    andar nas mãos em vez de andar nos pés. São o conselheiro Arrobas virado
    pelo avesso, e invertido, com uma concavidade concernente a cada bossa,
    e com uma protuberancia relativa a cada buraco da sua natureza.

    Os insubmissos, desagremiados da massa, são dez ou doze solitarios
    apenas, que reagem ás correntes do movimento geral por meio d'algumas
    razões experimentaes postas em verso ou em prosa, e reduzidas a algumas
    paginas de poema, de romance ou d'historia.

    A honesta sinceridade d'estes escriptores, geralmente confundida com um
    cynismo de _pose_, com um charlatanismo de originalidade, é antipathica
    ao publico, que todavia os lê com uma certa avidez, impellido pela
    curiosidade que atrae a multidão gulosa do anormal para os livros
    d'elles, assim como para as barracas de feira em que se mostram vitellas
    com duas cabeças, das quaes uma de papelão; e meninas gordas com seis
    barrigas, todas postiças.

    Os domesticados representam o elemento inoffensivo e ameno das lettras a
    que chamaremos simplesmente _burguezas_ para as distinguirmos por uma
    _nuance_ das lettras consagradas, a que chamamos já _officiaes_.

    Os escriptores d'esta classe acceitam docilmente tudo quanto se acha em
    vigor no regimen vigente para não terem o incommodo de inventar nem o
    desgosto de se comprometterem com as familias particulares ou com os
    poderes publicos por meio de novas exhibições, aliás inuteis para a
    marcha regular do intellecto lusitano atravez dos meandros macadamisados
    da Baixa.

    Elles vão para as glorias da posteridade, assim como os gatos para as
    aventuras de telhado,–pelo cheiro uns dos outros. Quando lhes não
    fareja outro que tivesse passado primeiro, hesitam em sua marcha,
    tremem-lhes as pernas, e acocoram.

    Teem convicções profundas ácerca de tudo aquillo de que estavam
    profundamente convencidos os seus maiores, e a sua vocação, irresistivel
    e indomavel, é para fazer tudo o que já está feito.

    Em religião são catholicos apostolicos romanos; em politica são
    monarchicos liberaes; em philosophia são ecleticos da escola do grande
    Cousin; em litteratura são pelos modelos classicos modificados pelo
    estro dos grandes mestres pacatos da geração moderna, Mendes Leal,
    Thomaz Ribeiro, Possydonio da Silva e Brito Aranha; em _toilette_ são
    pelo afamado Keil; em theatro pela grande Emilia das Neves; e em
    culinaria pela lampreia d'ovos de fio com cidrão.

    Teem ás vezes graça, mas sempre fina, de luva branca, propria de
    cavalheiro culto, com uso de sala, dentro do campo da civilidade e nos
    limites da carta. Ha no vocabulario innumeras palavras, aliás
    perfeitamente boas e honradas, que elles morreriam mil vezes antes que
    ousassem escrevel-as. Por exemplo: Com relação ao logar em que a
    hypocrisia costuma receber os pontapés que o bom senso lhe applica,
    nenhum d'esses escriptores domesticados diria com simplicidade
    casta–_o trazeiro_. Porquê? Porque, pela muita pratica de salão que
    elles teem, sabem perfeitamente que as «madamas», ao ouvirem um tal
    vocabulo, immediatamente se retiram fugazes das assembleias tirando por
    conclusão do emprego d'esse substantivo masculino que o cavalheiro é
    cynico.

    Em compensação ha outros termos–os termos proprios de sociedade, que
    elles nunca empregam sem os ampliarem por meio de adminiculos
    decorativos. Quando escrevem _natal_, acrescentam sempre–_do
    Redemptor_, e para _cabeças_ dizem as _louras cabeças_, sempre que ellas
    sejam de creança; sendo de vitella, ainda que egualmente louras,
    retiram-lhes o adjectivo para o não sevandijarem com os contactos
    incivis do gado vacum.

    O publico derrete de justo enthusiasmo por estes escriptores mansos,
    que, á similhança dos elephantes ensinados, estendem a tromba para o
    regaço das familias, em procura do biscoito caseiro com que a gratidão
    humana folga sempre de remunerar os carinhos dos pachidermes doceis.

    Os nomes d'elles nunca se imprimem senão enrabichados a um epitheto
    obsequioso: o _sympathico_, o _festejado_, o _modesto_, o _cordato_, o
    _bom_. Apesar do quê, pouca gente os lê, por que esses bons rapazes de
    profissão, modestos por modo de vida, para o fim de evitarem o conflicto
    de opiniões contrarias, embiocam-se frequentemente de mais n'um genero
    de litteratura abstracta ou de litteratura retrospectiva, que é a mais
    anodina, a mais sôrna, a mais bestificante coisa por meio da qual um
    escriptor pode actuar sobre o somno dos seus contemporaneos.

    Se são profundas e insanaveis as nossas dissidencias religiosas, e as
    nossas dissidencias politicas, são ainda mais insanaveis e mais
    profundas as nossas dissidencias estheticas.

    Estamos tão separados uns dos outros pelas nossas convicções e pelas
    nossas crenças como estamos separados pelos nossos gostos. Os mesmos
    artistas, os nossos poetas, os nossos musicos, os nossos pintores
    detestam-se reciprocamente por odios figadaes, de folhetim e de escola.
    Estes odios, mal reprimidos nas conveniencias mutuas da camaradagem,
    rebentam de momento a momento, periodicamente, em brigas renhedissimas,
    que são um dos mais decisivos symptomas da decadencia e da dissolução do
    meio intellectual. Temos d'anno em anno como outras tantas vegetações
    do charco a _questão dos poetas_, a _questão aos jornalistas_, a
    _questão dos pintores_, a _questão dos musicos._

    Quando alguma d'essas questões se faz esperar no tempo dado á sua
    periodicidade, o burguez em espectativa exclama;–A canalha d'esta vez
    ainda se não pegou; é que está mais cara a vinhaça!

    * * * * *

    De cima abaixo, como vêem,–na religião, na politica, na moral, na
    arte–esphacelamento geral. For qualquer lado que se lhe pegue, a
    sociedade portugueza deixa um pedaço na mão que lhe loca. Tudo se
    desgruda, tudo se esbandalha no aggregado portuguez a que falta a
    cohesão da ideia portugueza.

    N'esta superfície sociai, inconsistente, mole, despolida, em que nem um
    só traço nitido adhere, só as nodoas se embebem, alastram e aprofundam
    como gotas d'oleo n'um papel passento.

    No espirito publico, inerte e extagnado como agua apodrecida no fundo de
    um poço, cada immoralidade que cae dentro abre circulos concentricos de
    vibrações mephiticas que se alargam do ponto ferido até á circumferencía
    do repositório.

    De cada vez que o Terreiro do Paço annuncia que toma de aluguel mais uma
    consciencia, o paiz todo, até á raia, põe escriptos.

    * * * * *

    Foi em face da situação cujas linhas mais proeminentes acabamos de
    esboçar que alguns homens de extranha boa fé se lembraram de promover ha
    dois annos a celebração nacional do centenario de Luiz de Camões.–_E'a
    prova do espelho posto á bocca do moribundo para o fim de vereficar se
    elle ainda respira ou não_–disseram então esses homens ingenuos. E, sem
    receio do terrivel sentido ironico que se poderia ligar ás suas palavras
    antigas, elles tomaram arrojadamente esta divisa:–_Vereis amor da
    patria não movido de premio vil_.

    Para se julgar imparcialmente da acção das _Farpas_ nos suceessos que
    narramos, é conveniente recordar uma pequena particularidade: O
    individuo que propoz, redigiu, explicou e defendeu perante a assembleia
    dos escriptores de Lisboa o programma do cortejo civico do jubileu
    camoneano, tal como elle se realisou depois de officialmente amputado,
    no dia 10 de junho de 1880, foi precisamente o mesmo bohemio que escreve
    eslas linhas.

    Este simples detalhe absolutamente insignificante e inutil á historia do
    centenario, é importante para a historia das _Farpas_. Por isso ellas,
    ainda que immodestamente, o registam.

    Foi essa a primeira vez–será provavelmente a ultima–que a redacção
    d'estes pequenos livros exorbitou da esphera especulativa da critica
    para a esphera da acção, levando directamente á rua uma ideia.

    Se algum dia a moralidade das _Farpas_ houver de ser julgada na opinião,
    este facto será fundamental no processo, por que é pelo accordo ou pelo
    desaccordo entre as ideias litterarias e os actos publicos de um
    escriptor que este deve ser definido para a absolvição ou para o
    desprezo dos seus similhantes.

    As _Farpas_ produziam gracejos periodicos desde o mez de maio de 1871.
    Nove annos de ironia persistente prostram de tristeza o temperamento
    mais solido. Rir de tudo ou de quasi tudo aquillo que todos os outros
    respeitam e veneram é fazer da alegria um exilio e da gargalhada um
    carcere.

    Não ser de nenhuma seita e de nenhum partido, de nenhum club, de nenhum
    gremio, de nenhum botequim e de nenhum estanco, não ter escola, nem
    irmandade, nem roda, nem correligionarios, nem companheiros, nem
    mestres, nem discipulos, nem adherentes, nem sequazes, nem amigos, é
    possuir a liberdade, é ter por amante a rude musa _aux fortes mamelles
    et aux durs appas_, cujo beijo clandestino e ardente põe no coração a
    marca dos fortes mas requeima nos beiços o riso dos engraçados.

    Alem da grande e amada tristeza, que já S. Paulo lastimava,–a tristeza
    de ser só,–na alma das _Farpas_ havia ainda, a melancolia da descrença
    sobre a efficacia dos seus meios artisticos, empregados para pôr
    verdades em evidencia.

    Onde ha uma corporação que se intitula _União e capricho_, onde ha outra
    que se chama a _Incrivel Almadense_, onde ha _Os prussianos do Seixal_ e
    a _A'vante incrivel canecense_, onde existe a _Academia dos Fenians_ e a
    sociedade de soccorros denominada _Parturiente funebre familiar_, onde
    um collegio de educação põe na taboleta _Novo methodo intuitivo_, onde
    um jornal de noticias toma o titulo de _Santo Antonio de Lisboa_, onde
    uma camara municipal propõe a substituição do nome de _Aldeia Galega_
    pelo de _Linda Aurora do Tejo_, onde uma loja de bebidas, alliando á
    beberoca barata o mais illustre nome da poesia contemporanea, se
    intitula _A Casa Garrett_, onde todas estas coisas se dão, assim como se
    dá a um homem o titulo de _Visconde do Marmeleiro,_ sem espanto, sem
    estranhesa, sem sobresalto, o povo perdeu a noção do ridiculo, e não ha
    já ironia que lhe faça mossa. As agudezas da arte não o penetram. É
    preciso uma broca.

    As _Farpas_ necessitavam de descançar movendo-se, vindo á praça publica,
    indagando se havia para ellas um logar entre a multidão, mostrando-se
    uma vez participantes no movimento do seu tempo.

    Quando a commissão dos escriptores reunida para celebrar o centenario,
    publicou o programma que nos encarregou de fazer, a cidade inteira riu
    durante trez dias com trez noites.

    –É a cerração da velha ou é o enterro do bacalhau?–perguntava-se aos
    chás de familia, nas casas particulares, nos botequins, nos paços dos
    nossos reis e nas estalagens.

    A nação inteira, congrassada no preito de uma ideia commum, representada
    n'uma enorme procissão civica, com os andores dos santos substituidos
    pelos symbolos e pelos tropheus do trabalho e da intelligencia do homem;
    reunidas pelo abraço da solidariedade patriotica todas as classes
    sociaes, que nunca até esse dia se haviam encontrado juntas em torno do
    mesmo interesse commum e da mesma sympathia reciproca; os estandartes de
    todas as profissões e os pendões de todos os partidos, os mais
    radicalmente oppostos e adversos, baixando-se juntos pelo mesmo impulso
    perante a honra e a gloria da patria; o rei á frente entre os
    socialistas mais intransigentes e entre os republicanos mais vermelhos,
    os cortezões e os officiaes d'officio, os sabios e os cavadores
    d'enchada, os juizes com as suas becas, os generaes com os seus
    uniformes, os doutores com os seus capellos, os campinos com os seus
    cavallos á redea, os pescadores, de pernas nuas e pés descalsos com uma
    vela em triumpho, os pastores, de tamancos com calções de pelle de
    cabra, abordoados aos cajados, os soldados com as bandeiras e as
    espingardas coroadas d'oliveira, os cidadãos, todos emfim, fraternisando
    n'um sentimento e n'uma ideia, era effectivamente o espectaculo mais
    proprio para fazer cocegas debaixo dos braças á nação e para desengonsar
    pela gargalhada as mandibulas do publico.

    Apesar d'isso porem o programma, depois de devidamente modificado pelo
    governo, como o pedia o decoro da corôa e a dignidade do exercito,
    cumpriu-se, e a procissão civica não foi inteiramente o _enterro do
    bacalhau_, como se predizia: foi apenas o _enterro da monarchia_.

    Nenhum outro facto a não ser a apotheose de Luiz de Camões, seria
    possivel invocar como tregoa das divergencias que nos desunem, para
    cohesão social do espirito portuguez.

    Em nenhuma outra, litteratura existe um poeta cuja personalidade se ache
    como a de Camões tão profundamente e tão indissoluvelmente ligada ao
    genio, á historia e ao destino do seu paiz. Os Luziadas são a patria
    portugueza affirmada na forma indestructivel e sagrada da arte, são a
    nacionalidade de um povo manifesta e comprovada por todos os seus
    direitos á vida historica, direitos immortalisados pela uncção de uma
    poesia eterna.

    A celebração solemne do centenario de um tal artista podia ser para a
    sociedade portugueza o que a leitura dos Luziadas foi para os grandes
    cidadãos nas crises de decadencia nacional,–um estimulo supremo de
    energia e de revivescencia patriotica.

    Repellindo com uma bossalidade grosseira, por meio de uma estupidez
    verdadeiramente cornea, esta occasião unica de revincular a tradição
    historica da alliança do rei com o povo, o governo monarchico lavrou o
    documento mais formal da sua incompetencia organica para continuar a
    dirigir os destinos do paiz. Este simples facto demonstra do modo mais
    evidente que as fontes do systema representativo que presentemente nos
    rege estão profundamente viciadas e insanavelmente corrompidas.

    Um ministerio que procede de tal forma, em opposição radical com o
    espirito da nação, e que depois disso continua a manter-se no poder com
    o beneplacito da camara, constitue a prova irrefutavel de que a
    soberania nacional é uma pura farça dentro de tal regimen, que a
    delegação dos poderes é uma mentira e que o chamado governo
    constitucional é uma fraude torpe, uma desfarçada usurpação hypocrita e
    cobarde.

    Ha poucos dias ainda um deputado proferiu em pleno parlamento a seguinte
    pbrase:

    _A camara aguarda as determinações do governo_. Este eloquente e
    arrojado tribuno do povo fallou bem. _Multa in paucis_. Toda a
    philosophia da representação nacional portugueza no presente momento
    historico se encerra n'essa synthese sublime e immorredoura:–«A camara
    aguarda as determinações do governo.»

    A subserviencia do soberano ao dominio de espiritos tão garantidamente
    nulos e tão perfeitamente chatos como os que o aconselharam no
    centenario de Camões prova-nos que o cerebro da dynastia se acha tocado
    pelas fatalidades atavicas inherentes a um organismo em torno de cuja
    massa encephalica gira sangue do snr D. João VI.

    * * * * *

    Das manifestações publicas a que deu origem o centenario de Camões
    parecia poder-se deduzir:

    _Primeiro_–Que o systema monarchico representativo vigente, corrompido
    pela viciação do suffragio, deixando de representar a soberania da
    nação, perdera por esse facto a rasão de ser,–o que de resto elle
    proprio mostrava comprehender, principiando a brilhar pela ausência além
    do muito que já brilhava pela inanidade.

    _Segundo_–Que o espirito do publico em Portugal estava adeante das
    instituições e que tinha portanto de as substituir ou de as despresar.

    _Terceiro_–Que o principio de associação, pelo desenvolvimento enorme
    que attingira no decurso dos ultimos annos, teria de ser tomado por base
    de toda a reforma por que houvesse de passar no paiz a ordem politica
    assim como a ordem social e a ordem economica.

    * * * * *

    Admittidas essas hypotheses, o progresso consistiria:

    _Primeiro_–Em minar systematicamente as instituições, approximando
    d'ellas subtilmente todos os reagentes que pudessem contribuir para as
    dissolver mais depressa: ideias, argumentos, logica, sabão e verdade.

    _Segundo_—Em educar o espirito publico por meio de bons livros e de
    bons jornaes, systematisando as ideias, coordenando as aspirações,
    elevando o gosto, e transformando assim a pouco e pouco a concorrencia
    de actividades desunidas em convergencia de forças combinadas.

    _Terceiro_–Em confederar as corporações de todos os trabalhadores
    associados—duzentos mil homens, mandando em cada anno os seus
    deputados a um congresso livre em que se defendessem os deveres das
    classes trabalhadoras, os seus direitos, os seus interesses, a sua
    situação perante a continuidade historica e perante a solidariedade
    social, o estado das suas relações economicas e moraes com a politica
    interior e com a politica exterior do paiz, fundamentando assim os
    alicerces de um novo regimen de liberdade efficiente, contraposto ao
    velho regimen de auctoridade inutil,–especie de iniciação pacifica e
    fecunda para o advento de uma verdadeira democracia, para um systema de
    _self-governement_ ou de federalismo economico á Proudhon.

    * * * * *

    Que é que se tem feito no espaço de dois annos decorridos desde o
    centenario até hoje para o fim de encaminhar as ideias no sentido
    d'essas soluções?

    * * * * *

    Fundou-se a associação dos escriptores com trezentos e cincoenta
    associados, dos quaes trezentos e quarenta, pelo menos, não são
    escriptores, porque se não póde com precisão technica dar esse nome aos
    individuos que por meio das letras não cultivam uma sciencia, uma
    philosophia ou uma arte. As letras só de per si são puramente um meio.
    Todo o pretendido escriptor que não tem dentro um sabio, um philosopho
    ou um artista, não é bem um escriptor, é um escrevente, e isto ainda na
    hypothese de que tenha orthographia e boa lettra. Faltando-lhe esses
    dois predicados nem escrevente é, é um esvasiador de tinteiros em prelos
    e de prelos em papel de impressão, o que verdadeiramente se deve chamar
    um _troca-tintas,_ apenas.

    N'esta associação dos escriptores começou um socio, professor de
    instrucção primaria, por annunciar um _curso de leitura para
    analphabetos._ Como epigramma a si mesmos devemos confessar que é este o
    mais espirituoso que os litteratos reunidos teem botado aos quatro
    ventos do seculo.

    Os snrs Consiglieri Pedroso, Adolpho Coelho e Joaquim de Vasconcellos
    teem feito na sociedade dos escriptores prelecções importantes sobre
    historia universal, sobre linguistica e sobre critica d'arte. Cremos
    porém que estes bellos e desinteressados serviços á sciencia tanto
    poderiam ser prestados por aquelles cavalheiros na sala da associção dos
    escriptores como na sociedade _Luz e Caridade_ ou na de _Maria Pia,
    Protectora dos Portuguezes,_–nova coisa que os do Porto abriram agora á
    gargalhada do mundo e á necessidade que os protegidos sentiam n'aquella
    cidade de jogar a bisca juntos sob a egide d'uma mesma princeza.

    Como corpo collectivo a associação dos escriptores tem evitado toda a
    especie de contacto com o movimento social ou com os interesses
    intellectuaes da classe por meio de um melindre de sensitiva e de uma
    pudicicia de vestal velha.

    Na qualidade de corporação registrada no governo civil e com estatutos
    approvados pelo governo, os escriptores teem apenas produzido
    luminarias, dois jantares, um passeio fluvial e algumas assembleias
    geraes.

    Em vista de tal esterilidade, os dramaturgos, bem avisados, separaram-se
    ultimamente da corporação e fizeram panella á parte.

    Estreitados por este novo vinculo e aguilhoados em suas imaginações pela
    paixão ardente das artes scenicas, os escriptores dramaticos não
    principiaram ainda a primeira peça feita em collaboração ou
    separadamente, mas vão já no quarto ou quinto jantar mensal comido de
    sucia. Bom appetite para o resto de carreira tão briosamente encetada é
    o que do fundo d'alma desejamos a estes espirituosos filhos de
    Melpomone.

    * * * * *

    Emquanto a livros destinados a lançar alguma luz sobre o atoleiro tem
    havido pouco tempo para os fazer. O snr Antonio de Serpa foi o que
    projectou mais clarão. Este notavel estadista fez o favor de nos revelar
    na sua ultima obra que um ministro em Portugal não tem tempo para tratar
    das questões. Todo o dia de um ministro é pequeno para parlamentar e
    para ouvir requerentes. Ainda bem que por este lado ao menos está o
    negocio liquidado. O livro do snr Antonio de Serpa, que foi ministro por
    muitos annos não deixa o menor vislumbre de incerteza sobre esse ponto.

    Ahi temos o portico da publica governação com os seus ministros
    dentro.–Truz truz truz!

    –Quem é?

    –Está em casa o governo?

    –Que lhe hade querer? Se é peditorio, pode entrar; se traz broblema, s.
    ex.ª sahiu n'este mesmissimo instante para palacio.

    Ficamos sabendo, em summa, e de uma bôa vez para sempre, que o governo
    se não ocupa das questões. E' inutil suggerir-lh'as, propôr-lh'as,
    explicar-lh'as, amenisar-lh'as, desfarçar-lh'as, impôr-lh'as,
    estender-lh'as na ponta de um cajado, ou mandar-lh'as a casa n'uma
    travessa com ramos de salsa á roda e com limão em cima. O governo o que
    não tem é tempo. Bem! não se lhe falla mais n'isso. O tudo é haver quem
    explique as coisas!

    Varios jornaes com tendencias mais ou menos revolucionarias appareceram,
    desappareceram ou permaneceram depois que o centenario de Camões se
    celebrou, mas em todos esses periodicos tem feito reconhecida falta
    alguem que serenamente nos dê dos phenomenos do tempo presente
    explicações tão cabaes como aquellas em que timbra o snr Antonio de
    Serpa.

    * * * * *

    Resta-nos do movimento emmergente da celebração do jubileu camoneano o
    congresso das associações confederadas.

    Para julgarmos do estado das ideias que vão ser debatidas n'esse
    parlamento, cuja realisação cumpre confessar que se deve principalmente
    á iniciativa e á tenacidade de um unico homem, o snr Theophilo Braga,
    para apreciarmos d'antemão a orientação mental e a systematisação de
    principios que as diferentes classes sociaes terão de revelar na
    reunião da dieta cooperativa a que nos referimos, a festa do centenario
    do marquez de Pombal, ultimamente celebrada, figura-se-nos ser um
    symptoma culminante e preciossimo.

    Antes porem de examinarmos como foi comprehendida pelo publico a
    importancia historica do marquez de Pombal sobre a civilisação
    portugueza, temos de indicar a traços largos a physionomia do heroe
    canonisado pelo enthusiasmo popular.

    * * * * *

    O marquez de Pombal é um estadista, um governante,–o que quer dizer–a
    mais pequena das coisas que um homem grande pode ser.

    Buckle…–pois que é bom citar auctordades extranbas sempre
    que se deseja adduzir opiniões desinteressadas e argumentos
    insuspeitos–Buckle, um dos primeiros escriptores modernos que fundou em
    bases positivas as leis da civilisação e do progresso, affirma, perante
    os factos evidentes superiores a toda a controversia, que todos os
    interesses da sociedade foram sempre na Inglaterra gravemente
    compromettidos por todas as tentativas que os legisladores fizeram para
    os auxiliar. Nenhuma grande reforma, quer legislativa quer executiva,
    foi jamais em paiz algum a obra d'aquelles que governam. Os governos
    constituidos não podem fazer em bem do progresso senão uma coisa:
    dar-lhe possibilidade. Os unicos serviços que um governo pode prestar á
    civilisação reduzem-se a manter a ordem, a impedir os fortes de opprimir
    os fracos e a tomar algumas precauções para o fim de assegurar a saude
    geral. Todo o governo que traspõe estes limites ultrapassa o mandato e é
    criminoso perante a historia.–Não somos nós que o dizemos é Bukle na
    sua _Introducção á historia da civilisaçâo em Inglaterra_.

    Guizot, apesar de todo o seu doutrinarismo, confessa que é
    effectivamente um erro grosseiro o acreditar no poder soberano da
    maquina politica.

    Bastiat diz: O Estado não é mais que uma grande ficção atravez da qual
    toda a gente se exforça por viver á custa de toda a gente.

    Bagehot, o illustre critico que mais exactamente soube adaptar as leis
    scientificas da evolução biologica aos estudos sociaes, pensa que a
    liberdade «é o poder que fortifica e desenvolve, é a luz e o calor do
    mundo politico. Se algum cesarismo conseguiu jamais patentear alguma
    originalidade de espirito, proveio isso de que soube appropriar-se dos
    resultados obtidos pela liberdade ou em tempos passados ou em paizes
    visinhos. Mas ainda em taes casos essa originalidade é frágil e pouco
    duradoura, e desaparece sempre dentro de um breve espaço de tempo,
    depois de experimentada por uma ou duas gerações, exactamente no momento
    em que principiaria a ser necessaria.»

    Herbert Spencer explica pela acção physica das martelladas sobre a bossa
    de uma chapa de ferro os effeitos produzidos sobre o complexo aggregado
    social por essa força accidental que se chama o governo. Para achatar a
    empola na chapa de ferro o empyrismo bate-lhe em cima com um martello: o
    resultado correspondente a este esforço é que a bolha recalcada para
    baixo cada vez incha mais para cima, e a lamina não somente se torna
    mais barriguda do que estava no ponto defeituoso mas contrae ainda
    defeitos novos e imprevistos começando a arrebitar pelas extremidades.
    E' como a d'este martello a acção dos governos sobre a reformação das
    sociedades.

    Referindo-se á inutilidade dos homens que governam com relação aos
    destinos dos que são governados, o mesmo Herbert Spencer escreve:

    «Adão Smith ao canto do seu fogão impoz ao mundo muito mais
    consideraveis mudanças do que qualquer primeiro ministro. Um general
    Thompson, que forja as armas necessarias para a guerra contra a lei dos
    cereaes, um Cobden e um Bright, que as aperfeiçoam e que se servem
    d'ellas, contribuem mais para a civilisaçãn do que qualquer
    porta-sceptro. O facto pode desagradar aos estadistas, mas é
    indiscutivel. Calculem-se todos os resultados adquiridos já pelo livre
    cambio, juntem-se-lhes os resultados muito maiores ainda que elle nos
    promette, não somente a nos, mas a todas as nações que adoptarem o nosso
    principio, e ver-se-ha que a revolução emprehendida por esses homens
    excede em grandeza tudo o que jamais fez um potentado. O snr Carlyle
    sabe-o bem: aquelles que preparam verdades novas e que as ensinam aos
    seus similhantes são em nossos dias os verdadeiros poderes, os
    _legisladores não reconhecidos_, os unicos reis. Os que se sentam nos
    thronos e os que compõem os gabinetes–toda a gente o sabe–são
    simplesmente os servos d'aquelles homens.»

    Muitos outros exemplos se poderiam acrescentar aos que são referidos por
    Spencer.

    Os mais complicados problemas sociaes, como o do augmento da riqueza, e
    o do augmento dos braços, são resolvidos no fundo de uma officina por
    simples trabalhadores.

    O metallurgista Bessemer por meio da fabricação do aço dota as nações
    civilisadas com uma economia de dinheiro que o _Scientific American_
    calcula sobre bases precisas, somente com relação á producção do aço
    bruto, na quantia de noventa mil contos por anno. Tomando em conta o
    excesso de duração, adquirido nos artefactos pela substituição do ferro
    pelo aço, e devido á invenção de Bessemer, a economia realisada pela Grã
    Bretanha unicamente, na duração dos rails dos caminhos de ferro,
    eleva-se a um rendimento de quinhentos e sessenta e cinco mil contos.
    Qual é a medida governativa que jamais produziu um tal resultado?

    Em 1781, no mesmo anno em que o marquez de Pombal exclamava: _Agora é
    que Portugal vae á vela_, Watt descobria a applicação do vapor. Decorreu
    apenas um seculo depois da invenção do vapor applicado ao movimento de
    uma arvore de rotação, e as ultimas estatiscas do snr Bresca mostramnos
    que, somente em França, a força productiva inventada por Watt se acha
    representada por um milhão e cem mil cavallos de vapor. Calculada em
    doze homens e meio a paridade de força de cada cavallo de vapor, temos
    quatorze milhões d'homens correspondentes ao milhão e cem mil cavallos.
    Esses vintes e oito milhões de braços d'aço, trabalhando mais do que
    outros tantos milhões de braços humanos, auguentam a força muscular da
    França, pela dadiva de um simples e modesto operario, em quantidade
    muito maior do que a força destruida nas guerras pelo imperador
    Napoleão.

    O problema scientifico, n'este momento em resolução, da transmissão da
    força pelos conductos pneumaticos e pelos fios electricos; põe a
    catarata do Niagara ao serviço do trabalho universal, e segundo uma
    memoria do snr Siemens apresentada recentemente ao _Iron and Steele
    Institute_, só a força do Niagara é superior á de todo o carvão que hoje
    se queima no globo, se todo elle fosse exclusivamente empregado em
    produzir trabalho.

    Os homens que mais reconhecida e decisiva influencia teem tido nas
    reformas economicas e sociaes do nosso tempo não são nunca os homens
    d'estado, mas sim os homens d'estudo, simples jornalistas como João
    Baptista Say e Carlos Dunoyer, um obscuro cirurgião como Quesnay, um
    modesto professor como Adão Smith.

    Aquillo que se chama propriamente um _governante_ não é mais que o resto
    anachronico de uma velha liturgia hoje extincta. O vulto grosseiro
    d'esse dictador que se chamou Sebastião José de Carvalho, levantado em
    triumpho como um symbolo de progresso e de liberdade, com a sua
    cabelleira de rabicho, com os seus autos do Tribunal da Inconfidencia e
    os seus cadernos da Intendencia da Policia debaixo dos braços, faz-nos o
    effeito de um velho monstro paleontologico, desenterrado das florestas
    carboniferas e reposto, com palha dentro, no meio do espanto da flora e
    da fauna do mundo moderno.

    Que significa uma similhante festa dos filhos da liberdade ao
    representante do despotismo? Que sentido absurdo se pode ligar no fim do
    seculo XIX a esta nova e inesperada _Declaração dos direitos do
    governo_, depois que a Revolução Franceza nos fez presente a todos nós
    da _Declaração dos direitos do homem_?

    Desde 1789 até hoje todos os esforços dos povos cultos teem tendido
    precisamente a enterrar o principio que nós resuscitamos com a apotheose
    solemne de um estadista. Todo o immenso trabalho da reconstituição
    social durante este seculo tem consistido para todos os homens livres em
    negar aquillo que a memoria do marquez de Pombal affirma, em eliminar a
    acção do estado sobre os actos dos individuos, reivindicando sobre os
    restos das velhas tyrannias auctoritarias todas as liberdades
    proclamadas pela Revolução, a liberdade de imprensa, a liberdade de
    cultos, a liberdade de ensino, a liberdade de associação, a liberdade de
    reunião, a liberdade de commercio, a liberdade de industria, a liberdade
    de trabalho.

    A personalidade de um estadista da escola do marquez de Pombal
    representa a negação expressa de todas essas liberdades, representa a
    revivescencia do antigo despotismo monarchico, a coerção do homem sobre
    o homem, quando o que todos nós pedimos desde Danton para cá, em nome da
    dignidade da especie, rehabilitada pela sciencia na posse de si mesma, é
    o livre exercicio da acção do homem sobre a natureza.

    Os unicos povos do globo que ainda hoje acceitam, não diremos com os
    regosijos de um triumpho, mas simplesmente sem discussão, sem protesto
    ou sem revolta, o principio da auctoridade representada pelo arbitrio de
    um individuo, são os selvagens; são os aschantis, cujo rei, herdeiro
    unico e forçado de todos os seus subditos, tem 3:333 mulheres e um
    numero proporcionado de filhos, com o direito de saque sobre toda a
    communidade; são os kafungas do Valle do Niger, onde ninguem se
    approxima do soberano senão com as mãos no chão e a cabeça arrastada na
    lama; são os abyssinios, que nascem todos escravos do rei seu dono: são
    os malanesios, cujo chefe tem o tratamento de _Deus_; são finalmente os
    cafres, os botocudos, os topinambas, os patangonios e os esquimaus.

    Na Europa já não ha d'isso.

    Com a emancipação intelectual dos governados acabou o prestigio dos
    governantes.

    A Hispanha, a Italia, a França, a Inglaterra, a Allemanha celebram com
    religiosa piedade filial os centenarios dos seus poetas, dos seus
    artistas, dos seus philosophos, dos seus paes espirituaes, dos seus
    bemfeitores. Em região nenhuma do mundo arroteada pela civilisação se
    celebra o culto do estadista, agente ephemero de estados sociaes
    transitorios, especie sempre brutal se triumpha das resistencias, sempre
    impura se se concilia com ellas, engenho destinado a condensar poder e a
    segregar leis, tão passageiras como o apparelho de que procedem, e todas
    más sempre que não teem por objecto a revogação d'outras que as
    precederam.

    A sciencia anthropologica confirma inteiramente o instincto popular no
    seu desdem pelas faculdades dos chamados homens d'estado. O snr
    Wechniakoff, emprehendendo recentemente n'uma obra de anthropologia
    psychologica a historia natural dos _grandes homens_, divide estes em
    tres grupos: os monotypicos, os polytipicos e os philosophos. No
    primeiro grupo entram as altas intelligencias monocordes como as dos
    poetas, dos pintores, dos musicos, dos engenheiros, dos astronomos, etc.
    O segundo grupo compõe-se dos espiritos de natureza multipla cuja
    actividade se exerce nos trabalhos mais variados, cujos resultados elles
    são todavia impotentes para coordenar em conjuncto. Pertencem a esta
    familia Haller, poeta, naturalista, physiologista, auctor de 576 obras e
    de 12:000 artigos bibliographicos; Humboldt, que aprendeu philologia
    aos setenta annos e publicou a ultima parte do _Cosmos_ dos oitenta e um
    aos oitenta e oito annos de idade; Bernardo Palissy, Plater, Alberti. O
    terceiro grupo, subdividido em grupo philosophico permanente e grupo
    philosophico transitorio, consta na primeira parte de individuos como
    Auguste Comte, Leibnitz, Lagrange, e na segunda de Newton, Grove, Daniel
    Bernouilli, etc.

    Em nenhuma d'essas categorias se comprehendem os estadistas, porque a
    anthropologia psychologica não acceita como grandes homens senão os
    creadôres da arte, da sciencia ou da philosophia.

    * * * * *

    Determinada a especie, passemos agora a examinar o individuo.

    Durante o seculo XVIII–diz Michel Chevalier–vemos successivamente
    passar na direcção dos negocios na maior parte dos Estados, ou seja como
    rei ou como primeiro ministro, um reformador applicado a destruir a
    supremacia da nobresa e do clero, com o fundamento de que a nobresa
    tendia a attribuir-se uma parte das prerogativas do governo em
    detrimento da realesa e por vantagem propria, emquanto o clero aspirava
    a dirigir a sociedade ficando elle, unicamente sujeito a um soberano
    extrangeiro que com uma triplice corôa na cabeça se considerava o rei
    dos reis. N'este presupposto era como senha dada e geralmente obedecida
    suscitar por meios mais ou menos artificiaes, á falta d'outros mais
    convenientemente entendidos e mais efficazes, o desenvolvimento da
    agricultura, do commercio e das manufacturas, afim de augmentar a
    riqueza dos povos e os recursos do Estado, de que o principe dispunha
    arbitrariamente. Parecia util espalhar a instrucção, porque ella
    contribue para formar uma opinião publica que pode contrabalançar a
    auctoridade do clero sobre os espiritos. Quanto ao mechanismo do governo
    punha-se completamente de parte a liberdade. A divisa era: O estado é o
    principe. Todos o pensavam com quanto o não proclamassem como Luiz XIV.
    Esta feição geral encontra-se em graus diversos, sob formas differentes
    e com accessorios appropriados aos logares e ás circumstancias em varios
    estados durante uma ou outra parte do seculo XVIII. No norte essa
    expressão é brilhante na côrte do grande Frederico e da grande
    Catharina; no centro da Europa na côrte de José II. No sul apparece em
    Pombal, e, em grau menor, nos dois hispanhoes rivaes um do outro
    Campomanes e Florida Blanca.

    D'esta exposição tão clara do systema geral de reformas governativas na
    Europa durante a primeira metade do seculo passado, exposição devida a
    uma auctoridade tão insuspeita como a do economista Michel Chevelier,
    deduz-se immediatamente que o talento politico do marquez de Pombal
    carece de originalidade.

    Esta circunstancia destroe em grande parte o intuito patriotico que
    geralmente se lhe alttribue de pretender, n'um ponto de vista nacional,
    reformar e reconstituir a sociedade portugueza dissolvida por duzentos
    annos de despotismo monarchico e catholico. O arrojado ministro do rei
    D. José era apenas um reformador de segunda mão. Como revolucionario a
    sua carreira é de pé posto no circulo feito em torno das realezas
    estremecidas por todos os dictadores que se haviam seguido a Richelieu
    no governo das monarchias modernas.

    As reformas de Pombal não são o producto puro de um talento pessoal mas
    sim os ultimos effeitos de uma corrente contagiosa de ideias, ao tempo
    d'elle quasi todas já envelhecidas e refutadas.

    O que elle representa na civilisação não é a personificação de um genio
    mas sim o advento de um novo poder, que o enfraquecimento das raças
    reinantes tornava necessario, que então apparecia pela primeira vez e
    que Auguste Comte denominou o _poder ministerial._

    Este facto exprime um consideravel progresso politico, de que Pombal é a
    funcção. O estabelecimento do poder ministerial é a reversão, ao valor,
    da auctoridade até ahi adstricta ao nascimento.

    Antes de assumir a dictadura em que o investiu o rei D. José, Pombal
    viajara, residira como embaixador na Inglaterra e na Austria, convivera
    com homens de espirito iniciados nas ideias da philosophia franceza, mas
    nem da revolução intellectual da França nem da revolução economica da
    Inglaterra elle comprehendeu o mechanismo. Unicamente os processos da
    politica austriaca, de uma meticulosidade italiana e de um rigor allemão
    o penetraram inteiramente.

    A imperatriz Maria Thereza, que envolvida nos mais altos negocios da
    politica internacional europeia funda _commissões de_ _castidade_ para
    salvaguardar as esposas das infidelidades maritaes, sem que todavia isso
    a empeça de escrever epistolas ternas a Madame de Pompadour, amante de
    Luiz XV, dá bem o modelo da politica pombalina, policiando tudo no reino
    desde os primeiros segredos da diplomacia até aos ultimos mysterios das
    alcovas.

    Na côrte de Vienna encontrou o marquez de Pombal, em elaboração, as
    ideias que pouco depois deviam constituir o programma politico do
    imperador José II, cuja impetuosidade de caracter Maria Thereza
    procurara conter em quanto viva e cujos projectos de reforma eram tão
    similhantes áquelles que o marquez realisou em parte como primeiro
    ministro na côrte de Lisboa.

    Abolição da escravidão, do direito de primogenitura, dos dizimos, da
    caça privilegiada; reconhecimento dos judeus e dos protestantes como
    cidadãos; todo o cidadão considerado capaz de alcançar qualquer emprego;
    suppressão dos conventos inuteis transformados em hospitaes e em
    estabelecimentos de instrucção; desenvolvimento das universidades e das
    academias; protecção das pautas á industria nacional: tal é a parte do
    programma de José II que o ministro portuguez procurou pôr em execução
    no seu paiz.

    Mas José II ia um pouco mais longe, e a declaração completa da sua
    politica ao subir ao throno, pouco mais ou menos pelo mesmo tempo em que
    Pombal cahia, mostra-nos que este não aprendera inteiramente a lição que
    as suas convivencias e os suas ligações austriacas lhe haviam
    ministrado.

    O imperador José II declarou que _reinar sobre homens livres era a sua
    unica paixão como rei_. Pombal, preoccupara-se pouco, com a liberdade
    conferida aos cidadãos que governara. Esta differença fundamental entre
    o reformador austriaco e o reformador portuguez reflecte-se na obra de
    cada um por meio dos effeitos mais expressivos.

    Assim, emquanto o marqucz de Pombal confere o tratamento de magestade ao
    _tribunal da Inquisição_ e funda o famoso e terrivel _tribunal da
    Inconfidencia_, José II substitue a todas as jurisdições, ecclesiasticas
    e feudaes, tribunaes civis de varias instancias emmergentes d'um unico
    tribunal supremo. Emquanto Pombal funda a Real Mesa Censoria, José II
    transfere para os membros das academias e das universidades a censura
    até então exercida pelo clero. Emquanto Pombal reserva para a corôa o
    direito de nomear e de demitir sem mais fórma de processo todos os
    funccionarios da nação, José II funda a lei dos concursos. Emquanto,
    finalmente, Pombal manda suppliciar n'um aulo de fé, com cincoenta e
    tres condemnados, o pobre cretino Malagrida na idade de setenta e tres
    annos, José II estabelece o principio da tolerancia, conferindo a toda a
    aggregação religiosa de tres mil almas, de qualquer seita que sejam, o
    direito de edificar um templo e de subsidiar um pastor.

    Nas praticas administrativas Pombal é da escola de Colbert, refutada em
    Inglaterra desde o meiado do seculo. O systema protector pombalino e o
    systema colbertista, de que elle é copia, dão em Portugal e em França
    resultados similhanies. Pombal que recebera da administração de D. João
    V um cofre em que nem havia com que pagar o enterro do rei, entrega a D.
    Maria I o erario com uns poucos de milhões, um exercito numeroso e uma
    boa esquadra. Colbert escrevia ao soberano em 1662: «Os rendimentos
    estavam redusidos a 21 milhões e ainda esses comidos por dois annos;
    hoje estão em 50 milhões. Então o rei pagava 20 milhões de juros; hoje
    não paga um _sou_.

    Então o rei, dependente dos financeiros, não podia fazer despesa alguma
    extraordinaria; hoje, depois da compra de Dunkerque, a Europa vê-o
    bastante rico para comprar o que quizer. Então não havia marinha; hoje
    vinte e quatro naus acabam de ser construidas, etc.»

    A prosperidade de um povo não póde porém ser aquilatada pelo dinheiro
    que o principe possue no erario á sua disposição, nem pelo numero das
    baionetas dos soldados ou das boccas de fogo dos navios que elle tenha á
    mão para fazer guerras. O Estado é um apparelho, não é uma
    individualidade. O Estado tem funcções e não tem mais coisa nenhuma, nem
    bens, nem crenças, nem opiniões.

    O Estado tem obrigação restricta de ser pobre, exactamente como tem
    obrigação de ser atheu. Onde o Estado enriquece, a communidadc está
    roubada, porque se lhe extorquiu mais em imposto do que se lhe deu em
    serviços, e as relações dos individuos com o Estado, tendo por base a
    troca, não podem ter por fim o lucro do mesmo Estado, representado pelo
    principe, pela côrte, pela nobreza ou por qualquer outra classe
    privilegiada.

    Quando o Estado se constitue protector torna-se objecto de uma
    superstição grosseira e perigosa. A fé posta na protecção do governo é
    uma derivação da fé no milagre. Essa fé dissolve todas as aptidões,
    todas as iniciativas, todas as forças de uma sociedade. Os que acreditam
    na acção providencial dos estadistas sobre os desenvolvimentos da
    riqueza, e da prosperidade dos povos perturbam tudo pela confusão dos
    poderes de que abdicam, delegando-os no governo. Os proletarios pedem a
    abolição dos direitos de importação dos cereaes e dos tecidos para terem
    o pão e o vestido mais barato; os cultivadores e os industriaes requerem
    direitos prohibitivos de concorrencia para venderem mais caro os
    productos da terra e os das fabricas; os operarios requerem augmento de
    salario; os patrões solicitam augmento de trabalho; e todo o accordo,
    desde que o Estado intervem, se torna impossivel entre aquelles que
    produzem e aquelles que consommem.

    Nenhuma das industrias que o marquez de Pombal fundou pela protecção lhe
    pôde sobreviver na liberdade. Todas as grandes companhias de industria
    ou de commercio fundadas por elle desappareceram sem o menor vestigio na
    prosperidade ou na riqueza, publica,–a companhia do Maranhão, a de
    Pernambuco, a dos Vinhos do Douro, a da pesca da baleia, a da pesca do
    atum. Todas as fabricas que elle montou cahiram successivamente umas
    depois das outras. A razão é que a industria não é um artigo de
    importação mas sim um ramo da sciencia applicada. O unico meio de
    suscitar industrias e de crear commercio é introduzir sciencia e dar
    liberdade.

    O vasto plano do marquez de Pombal tendente a uma completa e total
    reconstrucção social é, pela sua mesma natureza absoluta, a negação do
    seu talento politico. Tendo por fim condensar os esforços da progressão
    social, toda a politica efficaz tem necessariamente de ser tão lenta
    como essa progressão. O snr Oliveira Martins chama ao governo do marquez
    de Pombal um terramoto. Effectivamente o enorme conjuncto d'essas
    disposições legislativas e policiaes destinadas a refazer de um jacto
    uma civilisação, representam uma força tão poderosa e ao mesmo tempo tão
    irracional como o abalo de terra que em alguns minutos destroe uma
    cidade.

    O snr Dubost, apreciando na _Revue de Philosophie Positive_ as altas
    qualidades de Danton como homem de estado, diz que o caracter principal
    da sua politica consiste na necessidade que elle comprehendeu de
    renunciar deliberadamente a intentar a reconstrucção total da sociedade
    franceza, mantendo-sc energicamente em uma obra relativa, que deve
    consistir em permittir a elaboração dos elementos que por si mesmos hão
    de gradualmente produzir a reconstituição. Pombal desconhecia
    completamente essas leis fundamentaes da politica, que subordinam as
    funcções governativas á independencia do meio social, não permittindo
    medida alguma que a opinião não solicite, que a vontade publica não
    reclame.

    Condorcet na sua biographia de Turgot, de quem elle foi o amigo e o
    collaborador, diz: «Deve-se evitar na reforma das leis: 1.º tudo quanto
    possa perturbar a tranquillidade publica; 2.º tudo quanto produza
    grandes abalos no estado de um grande numero de cidadãos; 3.º tudo
    quanto encontre de frente preconceitos ou usos geralmente recebidos.
    Algumas vezes succede que uma lei não pode produzir todo o bem que
    promette ou não se pode pôr em execução porque a opinião lhe é adversa;
    n'esses casos _cumpre começar por mudar a opinião_.»

    Para o ministro do rei D. José não havia senão uma opinião–a d'lle, e o
    publico não era mais que uma grande massa passiva e bruta, que elle se
    julgava destinado a modelar sob vários aspectos mettendo-a em formas,
    como se faz aos pudins.

    Derivando todas as liberdades da pessoa do rei, elle recalcou sempre
    pelo terror todas as revindicações de independencia collectiva ou
    pessoal. Nunca nos estados modernos da Europa o despotismo assumia um
    caracter mais cruel, mais sanguinario mais implacavel que o do regimen
    pombalino em Portugal. Proudhon diz que a tyrania está sempre na rasão
    directa da grandeza da massa dominada. A administração do reinado de D.
    José é uma excepção a esta regra. Em tão pequena familia tão grande
    oppressão como aquella de que a sociedade portugueza deu o espectaculo
    durante o ultimo quarteirão do seculo XVIII foi o espanto e o horror do
    mundo civilisado.

    A tremenda catastrophe do terramoto lançara o panico, o horror, a
    confusão, o desequilibrio em todos os espiritos, em todas as relações
    sociaes, em todos os interesses economicos. A catastrophe nacional
    derivada d'essa revolução geologica prepara o advento da dominação
    pombalina, assim como o terror na revolução franceza prepara o advento
    da dominação napoleonica. Em França como em Portugal a sociedade havia
    perdido sob o golpe de uma desgraça esmagadora a faculdade de resistir.
    No meio do desfallecimento geral que por algum tempo se succedeu á
    violencia da crise, Pombal pretendeu reconstruir a sociedade perturbada
    exactamente pelo mesmo processo por que reconstruiu a cidade em ruinas:
    ao esquadro e á regua, como um pedreiro cabeçudo e valente, tomando a
    symetria pela ordem; sem respeito algum pela dignidade das ideias e dos
    sentimentos; sem a menor noção da elevação e da belleza moral; sem arte,
    sem graça, sem elegancia, sem gosto; n'uma feroz teimosia de omnipotente
    sapador, alinhando, razoirando, espalmando, achatando, estupidificando
    tudo. São os brutaes arruamentos quadrangulares da Baixa prolongados a
    toda a área da ordem social.

    De cima a baixo, de norte a sul, de este a oeste, tudo arruado! Para ali
    os algibebes, para ali os professores, os bacalhoeiros, os poetas e os
    capellistas; para acolá os retrozeiros, os latoeiros, os artistas e os
    philosophos. Para os sapateiros aqui estão as formas; para os
    philosophos aqui estão as ideias, para os retrozeiros aqui estão as
    linhas; para os artistas aqui está a natureza, a sensibilidade, o
    temperamento e a paixão.

    Elle só gisa, mede, talha, corta, almotaça, esposteja, aquartilha,
    taberneia, baldroca, amesinha e a apilula tudo,–o arroz, o vinho, a
    manteiga, o bacalhau, o briche, o oleo de ricino, o ensino publico e
    particular, as missas, a poesia, a architectura, a musica, a esculptura,
    a philosophia, a historia, a moral e a canella.

    A cada um o seu regulamento e o seu arruamento, com quatro forcas e com
    duas mas, direitas, parallelas rectilineas, vindo todas dar á grande
    praça central com a besta de bronze ao meio, sustentando em cima,
    vestido á romana com um sceptro na mão, um pulha inepto, de bronze para
    pensar, de cebo para resistir.

    Nos patibulos, que servem de signos geodesicos á triangulação do
    systema, nunca durante dez annos deixou de pernear alguem para recreio
    do principe e escarmento dos subditos.

    Toda a reclamação, ainda a mais moderada, contra medida promulgada pelo
    omnipotente ministro era considerada crime de lesa-magestade e d'alta
    traição.

    O supplicio dos Tavoras e do duque de Aveiro e o auto de fé do padre
    Malagrida são monstruosos de mais para que façamos d'elles argumentos de
    historia. A ferocidade levada a um tal requinte deixa de pertencer á
    critica; está fora da historia assim como está fora da humanidade: é uma
    reversão ao canibalismo, cujo estudo compete á psychologica pathologica.

    Explica-se geralmente pela necessidade politica de abater e de humilhar
    a nobreza esse processo caviloso e infame, em que o ministro de D. José
    é ao mesmo tempo juiz e parte, e em que os réus são julgados sem defeza
    e sem exame de provas sob a accusação de uma tentativa de regicidio, em
    que hoje se sabe achar-se completamente innocente a familia Tavora;
    assim como estava innocente o marquez de Gouveia, exhautorado do seu
    titulo, officialmente infamado e encarcerado nos carceres sem ar e sem
    luz do forte da Junqueira desde os dezoito annos de idade até os trinta
    e sete; assim como estavam innocentes o marquez d'Alorna, encarcerado
    no mesmo forte: a marqueza d'Alorna e as suas duas filhas, presas no
    convento de Chellas; D. Manoel de Sousa Calhariz, avô do duque de
    Palmella, encarcerado na Torre do Bugio, onde morreu; e a infeliz
    duqueza d'Aveiro, a qual, depois de sequestrados todos os seus bens,
    perseguida até o seu ulliino suspiro pelo ódio do marquez de Pombal,
    morreu no convento do Rato, servindo a cosinha das freiras como creada
    de pé descalço.

    Singular modo de aviltar uma classe, sagrando-a assim pelo martyrio!

    Decorreram mais de cem annos sobre a carnificina canibalesca de 13 de
    janeiro de 1757. Povoam ainda as nossas imaginações e vivem eternamente
    immortalisadas pelas nossas lagrimas as doces e legendarias figuras
    d'esses fidalgos: a marqueza de Tavora, de uma physionomia tão elevada e
    tão elegiaca, alta, magra, severa, envolta na sua longa capa alvadia,
    assistindo no patibulo á descripção do suplicio por que vae passar a sua
    familia, comprimindo no silencio da dignidade toda a explosão da dôr e
    dobrando, sem um grito, sobre o cepo, a cabeça coroada de cabellos
    brancos que o carrasco fere de um golpe de machado pela nuca, fazendo-a
    pender por um instante segura ao busto pela pelle da garganta. O altivo
    e marcial marquez de Tavora, macerado e encanecido, contemplando os
    cadaveres da sua mulher degolada, do seu filho com os ossos esmigalhados
    pelo masso de ferro que um momento depois lhe ha de bater no peito, em
    que elle crusa os braços, deixando rolar nas faces duas grossas lagrimas
    mudas e tragicas, unico protesto contra o holocausto necessario para
    desatranvacar dos empeços de familia o caminho que conduz á alcôca da
    amante do seu rei. O joven José Maria de Tavora, finalmente, com vinte e
    um annos de idade, bello, gentil e amado, vestido de veludo preto e
    meias de seda côr de perola, os cabellos annellados e louros presos por
    um laço de fita.

    E na saudade dolorosa que nos desperta esse quadro do pretendido
    aviltamento da aristocracia portugueza ninguem comprehende os tres
    plebeus creados do duque d'Aveiro, egualmente suppliciados por terem
    acompanhado seu amo na emboscada da Ajuda sem todavia haverem
    participado na aggressão ao principe.

    Esses tres innocentes, João Miguel, Braz José Romeiro e Manoel Alvares
    Ferreira, comparecem no patibulo por ordem do juiz supremo Sebastião
    José de Carvalho, em camisa e calções, de pernas nuas e pés descalsos,
    despresiveis e grotescos, despoetisados para a legenda sentimental da
    morte pelo julgador egualmente plebeu que, para se extrahir d'esta
    miséria truanesca da simples canalha, se condecora a si mesmo com o
    direito de morrer com meias de seda, encorporando-se alguns dias depois
    com o titulo de conde d'Oeiras na mesma nobreza que pretendia aviltar e
    destruir.

    É a isto que os apologistas de Sebastião chamam o nobre intuito
    democratico de elevar a plebe e de constituir a burguezia.

    Mais expressivo e mais concludente que este extranho methodo de
    egualisar as condições sociaes, é na historia da administração pombalina
    o systema geral de perseguição sanguinaria a toda a manifestação de
    liberdade affirmada, de castigo tremendo a toda a transgressão da lei
    escripta. Chega a não ser preciso desobedecer, basta não gostar
    completamente do regimen em vigor para ser immediatamente punido por
    isso. Em 1756 o marquez de Pombal decreta uma gratificação de 400 mil
    cruzados a todo o delator d'aquelles que disserem mal do seu governo.
    No mesmo anno como lhe desagrade não se sabe porque, o seu collega no
    ministerio Diogo de Mendonça Corte Real, manda-o sahir de Lisboa dentro
    de tres horas e prende-o na praça de Masagão até que, cedida essa praça
    aos marroquinos, é transportado para as Berlengas, onde morreu esquecido
    e abandonado. Similhante sorte teve o successor de Diogo de Mendonça,
    Thomé Joaquim da Costa, que o marquez enfastiado mandou, sem culpa
    formada como o outro, para o castello de Leiria, onde morreu. Em 1753,
    como a Mesa do Bem Commum representasse humildemente em nome dos
    commerciantes de Lisboa contra o privilegio exclusivo do commercio do
    Maranhão e do Grão Pará conferido a uma companhia, encarcera no
    Limoeiro, sem outra forma de processo, todos os commerciantes
    peticionarios e o advogado João Thomaz de Negreiro, redactor da petição.
    Este foi degradado por oito annos para Masagão. Todos os negociantes
    foram deportados por mais ou menos annos. Em 1757, em consequencia da
    assuada popular a que deram motivo os monstruosos vexames da Companhia
    dos Vinhos do Alto Douro, manda ao Porto a famosa alçada que enforca
    vinte e um homens e cinco mulheres e condemna a degredo, a confiscação e
    a multa 211 pessoas de ambos os sexos. Em 1776, para o fim de castigar
    alguns refractarios ao serviço militar refugiados na Trafaria, manda
    incendiar de noite as cabanas d'essa pobre aldeia de pescadores e espera
    n'um cinto de bayonetas caladas os desgraçados que fogem ás chammas
    espavoridos e cegos.

    Ninguém podia contar com a vida, nenhuma cabeça se considerava segura
    nos respectivos hombros. As cartas eram abertas e lidas n'uma repartição
    especial montada para esse fim. O tribunal da Inconfidencia e a
    Intendencia Geral da Policia devassavam todos os segredos. Era-se
    perseguido, preso, condemnado rapidamente, summariamente, sem appellação
    nem aggravo, por uma carta a um parente, por alguns versos, por uma
    palavra, por um sorriso, por uma simples suspeita. As prisões estavam
    cheias. No forte da Junqueira, a que verdadeiramente se pode chamar a
    Bastilha portugueza, morre o conde d'Obidos e o conde da Ribeira. O
    coronel Thomaz Luiz, accusado de haver recebido em sua casa, na
    provincia de Minas Geraes no Brazil, um jesuita secularisado, morre na
    força em Lisboa, provando-se mais tarde que nem o supposto crime de que
    o accusavam era verdadeiro. O diplomata Antonio Freire d'Andrade
    Encerrabodes, accusado de haver escripto em uma carta particular a um
    amigo uma phrase desagradavel para o marquez, é desterrado para a Costa
    d'Africa. O conde de S. Lourenço e o visconde de Villa Nova da Cerveira,
    unicamente por terem sido os familiares do Santo Officio encarregados
    por esse regio tribunal, reconhecido e auctorisado, de prenderem o
    intendente da policia, são sepultados o primeiro no forte da Junqueira,
    o segundo no castello de S. João da Foz, onde morreu. Na Junqueira
    estiveram ainda os tres filhos do conde d'Alvor, o letrado Francisco
    Xavier, mais tarde degredado para Angola; o desembargador Antonio da
    Costa Freire, que morreu no forte; e muitos outros.

    A disciplina militar do conde de Lippe lembra as arias do general Boum,
    em que a cada phrase corresponde um tiro. Os famosos artigos de guerra,
    em que os fusilamentos apparecem com tanta frequencia, como as virgulas,
    seriam dignos da musica de Offenbach, se não tivessem sido na realidade
    um opprobrio da dignidade humana. Pelas culpas mais leves o soldado era
    mettido ao tornilho, carregado d'armas, amarrado nu a uma espingarda e
    zurzído ás varadas ou moido ás pranchadas d'espadão.

    Na vida civil o mando fazia lei indiscutivel e absoluta, como na vida
    militar. Por occasião das famosas festas da inauguração da estatua
    equestre _ordenou-se_ aos ourives e aos particulares que cedessem as
    suas alfaias para servir á ceia dada á custa do povo pelo senado de
    Lisboa, cujos amigos comeram tresentas arrobas de doce em tres dias.

    Da historia geral das reformas emprehendidas pelo marquez de Pombal
    cumpre separar dois factos culminantes de especial importancia no
    progresso: a expulsão dos jesuitas e a reforma da instrucção publica.

    A extincção da Companhia de Jesus foi no marquez de Pombal, assim como
    nos demais reformadores regalistas da sua escola e do seu tempo, o
    resultado de um equivoco.

    Toda a gente sabe que a obediencia absoluta e cega é o fundamento da
    ordem instituida por Santo Ignacio de Loyola, assim como é o fundamento
    de todo o despotismo monarchico. O fim da Companhia de Jesus foi sempre
    desde a sua fundação até hoje oppôr ás ideias de livre exame, de
    discussão e de governo livre, a monarchia absoluta e o direito divino. O
    immenso e insubstituivel poder espiritual sobre o qual se fundamentava
    principalmente o poder temporal dos reis era o poder dos jesuitas. Sem
    elles as monarchias absolutas careciam de base no espirito c na
    consciencia dos povos. O marquez de Pombal tendo por unico intuito
    politico fortalecer e affirmar indestructivelmente e para todo o sempre
    o dominio absoluto do despotismo monarchico, errou portanto do modo mais
    pueril, como todos os estadistas monarchicos seus contemporaneos,
    minando por meio da perseguição aos jesuitas os alicerces da sua propria
    fundação. Nunca um espirito verdadeiramente superior e penetrante, como
    por exemplo o do snr de Bismarck, cahiria n'um tal desacerto.

    Imaginem, um architecto que depois de haver construido um palacio de
    marmore sobre estacas de madeira cravadas no fundo do oceano, rematasse
    a sua obra serrando as pilastras que a sustinham. Foi precisamente o que
    fez Pombal, construindo o mais solido regimen despotico sobre os
    principios da obediencia e do direito divino, e tirando-lhe em seguida
    debaixo o jesuita, que era o sustentaculo intellectual e moral d'esses
    mesmos principios.

    Auguste Comte, cujo alto e poderoso genio philosophico lança sempre uma
    tão intensa e viva luz sobre todos os problemas historicos em que põe a
    mão, escreve sobre a queda da Companhia de Jesus, facto que elle
    considera como o primeiro dos tres grandes agentes que dirigiram a crise
    revolucionaria do fim do seculo XVIII, as seguintes palavras: _A
    abolição da Ordem dos Jesuitas mostrou a decrepitude de um systema
    destruindo pelas suas proprias mãos o unico poder susceptivel de lhe
    retardar a queda_.

    A extincção da Companhia de Jesus é certamente um dos mais fundamentaes
    progressos adquiridos para a liberdade e para a civilisação moderna.
    Attribuir porem e agradecer essa acquisição liberal ao espirito do
    retrogrado e ferrenho ministro do snr D. José I é cahir n'um contrasenso
    tão absurdo como seria agradecer a destruição de uma machina infernal ao
    artifice que a construia e em cujas mãos ella rebentou por um erro de
    fabrico.

    A perfeição no modo consciente e raciocinado de eliminar do progresso a
    influencia jesuitica consistiria em destruir o jesuitismo mantendo pela
    tolerancia a independencia do jesuita. A prova manifesta de que o
    marquez de Pombal não tinha consciencia alguma do serviço que contra sua
    vontade prestou á liberdade está no facto evidente de que, em vez de
    atacar os principios da instituição que condemnava, ele não fez mais do
    que perseguir os homens que o serviam, expulsando-os do reino e
    sequestrando-lhes os bens, punindo-os e espoliando-os.

    Os jesuitas foram-se, mas o jesuitismo ficou. Ficou encarnado e vigente
    na pessoa do propio marquez de Pombal, o qual deante da liberdade não é
    mais do que um Loyola leigo, um Santo Ignacio de casaca de seda e
    espadim, um pouco mais limpo talvez, mas incomparavelmente menos grande
    do que o antigo, com menos piolhos mas com muito mais teias de aranha na
    cabeça.

    Expulsor dos Jesuitas, o marquez de Pombal fez do jesuitismo
    secularisado todo o seu programma de poder.

    Santo Ignacio tinha dito: «Se me parecer que o meu superior me prescreve
    ordens em opposição com a minha consciencia, acreditarei n'elle e não
    acreditarei em mim.» Na Constituição da ordem diz-se: «Pareceu-nos em
    Deus nosso Senhor que nenhuma disposição pode induzir obrigação de
    peccado mortal ou venial, a menos que o superior em nome de Jesus
    Christo ou em virtude de obediencia o não ordene.» Na _Medulla
    theologiae moralis_ o padre Busenhaum prescreve no tomo 4, capitulo V:
    _Quum finis est licitus, etiam media sunt licita_.

    Todo o systema governativo de Pombal assenta na pratica d'esses
    principios definidos pela companhia. Para elle todo o meio é licito
    quando lhe parece licito o fim, e, substituindo a invocação eclesiastica
    de _Nosso Senhor Jezus Christo_ pela formula civil de _El-Rey meu amo_,
    elle arvora a obediencia cega, irraciocinada, absolutamente bruta, em
    lei fundamental da nação, assim como era lei fundamental da ordem.

    A tão decantada reforma da instrucção publica não é mais de que uma das
    formas de jesuitismo applicado ao ensino.

    A instrucção primaria, cultivada sobre a cartilha de Padre Mestre
    Ignacio, continuou como estava subordinada á Igreja. Os mestres eram
    obrigados ao receber os ordenados no fim de cada mez a exhibir certidão
    do parocho attestando que o professor tinha ido á missa com todos os
    seus alumnos nos domingos e festas de guarda.

    Na instrucção superior a sciencia é escrupulosamente decilitrada pelo
    legislador a copinho por copinho como a geropiga do saber abodegada no
    casco por conta do lavrador. Nem o alumno póde beber nem o mestre póde
    propinar senão precisamente a doze e a qualidade de licor prescriptas no
    regulamento d'este monopolio. Os Estatutos da Universidade, são uma
    especie d'Estatutos da Companhia dos Vinhos do Alto Douro adstricta á
    cepa torta da intelligencia.

    Qual era o vicio capital do ensino jesuitico? Era a subordinação do
    phenomeno ao dogma, era a sujeição da observação, do exame, da
    experiencia e do raciocinio ao arbitrio da auctoridade imposta.

    O vicio organico da instrucção pombalina é precisamente o mesmo. Em toda
    essa legislação do ensino publico, o professor é seguido passo a passo
    atravez de todas as disciplinas que tem de leccionar. Elle não póde
    communicar uma só noção que previamente lhe não houvesse sido suggerida
    pelo legislador. O mestre, segundo Pombal, é uma pura machina de moer
    artigos de programmas com corda dada pelo Estado para o exercicio de
    cada anno lectivo.

    Que importa, para os resultados finaes de um tal modo de instruir, o
    maior ou menor numero de faculdades incluidas nas academias, o maior ou
    menor numero de disciplinas introduzidas nos programmas? Onde faltam os
    livres methodos experimentaes falta toda a especie de ordem positiva na
    coordenação das ideias, e diz o snr Herbert Spencer que quando não ha
    ordem na instrucção de um homem, quanto mais coisas elle souber tanto
    maior será a confusão do seu cerebro.

    A instrucção de um povo não pode nunca ser aquilatada pelo numero dos
    bachareis formados que as ordens religiosas ou os institutos officiaes
    derramam em cada anno sobre a massa da população, para o fim de a
    explorarem pela chicana juridica ou de a embalarem pelo palavrão
    dogmatico ou metaphysico.

    A verdadeira instrucção nacional tem por base a vulgarisação geral das
    ideias transmittidas pela maxima liberdade do pensamento, e tem por fim
    o emprego das faculdades intellectuaes de todos os cidadãos no exercicio
    dos seus direitos politicos e dos seus direitos civis.

    Quando a instrucção publica assenta pelo contrario em um campo de
    doutrina arbitraria imposta por um legislador em nome de um regimen
    politico, de uma escola philosophica ou de uma seita religiosa, ha uma
    coisa muito mais util do que ministrar essa instrucção, e é não
    ministrar instrucção nenhuma. A falsa instrucção é um veneno inoculado
    no homem. A simples ignorancia, pela sua parte, é uma das grandes forças
    do espirito. Se não fosse a santa ignorancia, pura e convicta, que
    resistiu pelo bom senso ás differentes epidemias eruditas de cada
    seculo, a escolastica e a metaphysica teriam dado cabo da humanidade.

    Concluindo pois, repetimos que o marquez de Pombal, expulsando os
    jesuitas e reformando os estudos, não extiguiu o jesuitismo,
    secularisou-o apenas, deslocando-o da ordem religiosa para a ordem
    civil, arrebatando-o aos padres para o encabeçar nos agiotas, nos
    desembargadores, nos generaes e nos doutores de capello.

    O jesuita é perfeitamente odioso e repulsivo pela acção sinistra que
    durante tresentos annos tem exercido sobre a immobilisação da
    intelligencia, sobre a depressão da dignidade do homem; mas o jesuita é
    pelo menos coherente e logico comsigo mesmo; sabe nitidamente o que
    quer, tem perfeitamente correlacionados os seus meios com os seus fins e
    vae ao seu destino preconcebido com uma exactidão geometrica, com uma
    firmeza implacavel; sem uma unica tergirversão de linha, sem um unico
    erro de calculo. O jesuita cae dentro dos seus proprios principios como
    na antiga tactica militar os generaes vencidos cahiam dentro do
    quadrado,–com todas, as baionetas voltadas para o inimigo.

    N'esta maneira de acabar ha um ar de grandeza que nos obriga a nós
    outros, revolucionarios vencedores n'este momento historico, a tirar o
    chapeu e a saudar a coherencia dos vencidos.

    Os estadistas da monarchia absoluta, com as suas leis, os seus exercitos
    e os seus principes, morrem feridos pelas suas proprias armas, morrem
    pela discordancia entre os fins propostos e os meios empregados, morrem
    por haverem abraçado, em vez da taboa de salvação em que fluctuariam, o
    trambolho de chumbo que os afunde.

    As catastrophes assim determinadas pela insufficiencia intellectual
    n'uma classe dirigente, tornam a derrota comica e a ruina grotesca.

    O historiador snr Henri Marlin pergunta:

    «O que é que faltou á companhia de Jesus para que ella conseguisse
    realisar os seus planos dictados pelo genio?» E o mesmo historiador
    responde: «Faltou-lhe a rectidão, faltou-lhe a franqueza, faltou-lhe o
    espirito verdadeiramente religioso, o qual unicamente podia restituir á
    natureza os seus direitos sem attentar contra as leis eternas do bem e
    da verdade.»

    O marquez de Pombal, expulsor dos jesuitas e successor d'elles, cahiu
    por modo mais ridiculo mas por eguaes causas. O que faltou no plano
    pombalino, concebido, como temos obrigação de o acreditar, no intuito do
    accelerar o progresso e a prosperidade da patria, foi a _rectidão,_ foi
    a _franqueza_, foi esse espirito de abnegação e de magnanimidade que na
    egreja se chama _religião_ e que na sociedade se chama a _justiça_.

    A sociedade portugueza refeita á bordoada pelo despotismo pombalino
    offerece o aspecto servil e vergonhoso de um Paraguay burguez,
    incondicionalmente aforado a uma burocracia tarimbeira governada por um
    dos mais antipathicos mandões que ainda viu o mundo.

    Solida natureza mesquinha mas atarracada, reforçada pelos quatro couros
    sobrepostos do merceeiro, do esbirro e do cabo d'esquadra, Sebastião de
    Carvalho–feliz nome onomatopico de que parece rever uma rigidez de
    cacete e uma espessura de baluarte–fez de Portugal á força de leis e de
    sentenças d'açoite, de sequestro, de prisão, de degredo e de morte, um
    paiz de seminaristas e de recrutas, subserviente, medroso, imbecil.

    Viu-se o que essa sociedade miseravel tinha dentro logo que por morte do
    dictador ella se julgou desafrontada e começou a desabotoar-se ao sol.

    O reinado de D. Maria I é todo a influencia pombalina virada com o
    dentro para fora e mostrando o miolo de que o reinado anterior fora a
    casca.

    Nunca a moral, a arte, o gosto, os caracteres, os costumes attingiram um
    mais sordido rebaixamento. Levantaram-se as calumnias mais torpes contra
    o ministro demittido e desgraçado, e uma alluvião de escriptos em prosa
    e em verso, da mais chilra insipidez, inundou as salas da aristocracia e
    da burguesia aristocratisada, onde as senhoras merendavam e resavam a
    novena aninhadas no chão, esconjurando o ante-christo desterrado em
    Pombal, entre as graçolas dos padres e dos bobos, n'uma athmosphera
    toireira e beata, cheirando a insenso, a estrume de cavallo, a ureia de
    batina e a ovos molles.

    O marquez não deixara um só homem de pulso, um unico amigo fiel e
    generoso que o deffendesse na adversidade. A monarchia a que elle
    submettera tudo, tornando-a absoluta, discricionaria e omnipotente,
    escorraçava-o e perseguia-o,–que é sempre assim que os reis pagam aos
    plebeus cuja força os assombra embora os mantenha e os sirva. O marquez
    de Pombal acabou como Colbert, o qual ao annunciarem-lhe, já moribundo,
    a visita de um enviado de Luiz XIV, recusou recebel-o exclamando: «Não
    me deixará esse homem acabar de morrer em paz? Se eu tivesse feito por
    Deus metade do que fiz por elle, estaria certo n'esta hora da salvação
    da minha alma, e assim não sei o que será de mim.»

    O governo pombalino, pelo terror que conseguiu inspirar e por meio do
    qual dobrou ao arbitrio do seu programma todas as energias nacionaes,
    produsiu em ultimo resultado esta catastropbe enorme–a obediencia
    geral.

    Toda a obediencia é uma diminuição de valor e de dignidade. Onde a
    liberdade existe não ha nunca obediencia, ha apenas accordo. A
    obediencia é dos fructos do despotismo o mais venenoso. O homem que
    obedece avilta-se; o povo que obedece deprava-se e dissolve-se.

    Os individuos que por occasião do centenario do marquez de Pombal se
    encarregaram de encarecer os louvores d'este estadista, não cessaram um
    momento de nos explicar que os actos d'elle se não podem julgar com
    justiça pelas nossas ideias d'hoje, mas pelas ideias do seu tempo; e
    insistem n'isso de um modo proprio para fazer recear que, á força de
    procurarmos ideias antigas, tenhamos talvez, para ser justos, de julgar
    este personagem sem ideias nenhumas.

    Se quizerem fazer o favor de nos conceder que Turgot foi um
    contemporaneo do marquez de Pombal–o que aliás a chronologia parece
    demonstrar com uma imparcialidade indiscutivel–nós permittir-nos-hemos
    contrapor algumas ideias do ministro de Luiz XVI ás do ministro de D.
    José, e o leitor julgará d'essa breve approximação de factos se o
    estado geral das ideias no fim do seculo XVIII é sufficiente para
    explicar o atraso das doutrinas economicas e dos principios moraes com
    que nos governou o marquez de Pombal.

    Turgot não crê na acção das monarchias absolutas sobre a felicidade dos
    povos, e ao mesmo tempo em que Pombal eternisa pelo bronze da estatua
    equestre o despotismo de D. José, o ministro francez diz a Luiz XVI: _La
    cause du mal, sire, vient de ce que votre nation n'a pas de
    constítution._ Na mesma epoca em que o ministro de D. José mandava
    anullar por apocrypho o livro de Velasco de Gouveia, no qual se
    ennunciava o principio da soberania nacional, e exautorava o presidente
    do Desembargo do Paço, Ignacio Alvares da Silva, por que elle exposera a
    doutrina de que a lei civil em materias de casamento só podia ser
    alterada pelas côrtes da nação, Turgot instiga o herdeiro de Luiz o
    Grande, o Rei Sol, a reconhecer os direitos do povo firmando com elle o
    pacto constitucional.

    Turgot punha acima da subserviencia dos thronos e da superstição dos
    altares a confiança no genio bemfazejo do homem. Foi n'essa convicção
    que elle escreveu sob um retrato de Franklin a epigraphe famosa, que
    sob o regimen pombalino o teria feito condemnar pelo Santo Officio ou
    pela Mesa Sensoria: _Eripiut coelo flumen sceptrumque tyrannis._

    A prosperidade nacional que Pombal procurou fundar no monopolio, na
    coerção e na tyrannia, procurou Turgot estabelecel-a na liberdade,
    _creando as municipalidades, separando a egreja do estado,_ decretando a
    _liberdade da terra_, (1773), a _liberdade, da industria e do
    commercio(1776)_, a _liberdade da razão_ (1777).

    Emquanto Pombal intentava cegamente firmar a monarchia absoluta nos
    excessos de rigor que deviam contribuir para a aniquilar mais depressa,
    Turgot previa pela tolerancia tudo quanto podia tornar progressiva a
    acção da realeza, poupando á humanidade os rios de sangue que ella havia
    de ter que derramar para chegar ao progresso apesar dos obstaculos que
    governos como o de Pombal lhe opposeram.

    Condorcet, que já citamos, diz na sua biographia de Turgot; «As leis que
    prepararam as mudanças necessarias podem ser differentes para os
    differentes povos, porque são feitas contra abusos e contra abusões que
    não teem nem a mesma origem nem os mesmos effeitos; mas as leis que, em
    seguida a essas, estabelecem a ordem mais util á sociedade devem ser as
    mesmas, pois que devem ser fundadas sobre a natureza do homem.»

    A differença capital entre o ministro de Luiz XVI e o de D. José é essa:
    que a politica d'um, fundando-se _no poder absoluto dos reis_, atrasava
    para muito tempo a liberdade do povo; a outra, fundando-se na _natureza
    do homem_, auxilia, quanto o póde auxilar um estadista, o progresso
    moral da humanidade.

    Voltaire, aos oitenta annos de idade, no momento em que Paris o
    acclamava e o cobria de corôas no meio do maior triumpho de que ainda
    foi objecto um homem d'espirito, apeou-se em publico da sua carruagem
    forrada de setim asul e cravejada de estrellas d'ouro, e dirigindo-se a
    Turgot perdido na multidão, cahiu de joelhos banhado em lagrimas aos pés
    d'elle, e disse-lhe: _Deixe-me ter a gloria de beijar a mão que assignou
    a salvação do povo_.

    A mão do marquez de Pombal, cheirando a sangue como a de Lady Mackbet,
    envenenaria os beiços que lhe tocassem. Por isso elle triumphante não
    teve nunca, como Turgot vencido pela intriga de Maria Antoinette, a
    consagração augusta do livre espirito da humanidade representado por
    Voltaire. Teve apenas as honras de um centenario contradictorio
    celebrado em nome da liberdade pelos representantes de todos aquelles
    que elle opprimiu em nome do despotismo: pela industria que paralysou
    deslocando-a da tradição historica e baseando-a em elementos exoticos e
    postiços; pelo commercio que entravou por meio dos monopolios; pela arte
    que abastardou tyrannisando-a pelo mais chato mau gosto; pela democracia
    que esmagou sob condemnações d'açoite, de carce, de deportação, de
    degredo e de morte; pela mocidade emfim, de cujas altas e
    desinteressadas aspirações elle foi a negação accintosa e brutal, porque
    o seu espirito d'odio, de cavilação e de mentira, era um espirito
    organicamente velho, mareado de nascença pelo vicio da senilidade
    ingenita.

    * * * * *

    Estamos cançados de ouvir dizer de todos os lados, por todos os oradores
    e por todos os articulistas da festa pombalina, que é absolutamente
    preciso, para nos pormos á altura de admirar com o devido respeito o
    vulto do marquez de Pombal, collocarmo-nos no _devido ponto de vista_.
    Em desconto dos erros que tenhamos commettido, cumpre-nos declarar,
    terminando, que ignoramos completamente qual é o tal ponto de vista em
    que é necessario que a gente se colloque.

    Para escrever estas linhas nós collocamo-nos simplesmente n'uma cadeira,
    em frente do vulto e de um caderno de papel. Visto n'essa situação
    tranquilla, a olho desarmado e sereno, o unico effeito que nos fez o
    vulto, apparamentado com o seu calção e meia, a sua grande casaca de
    seda, as suas fivelas, a sua luneta e o seu rabicho, foi o de se parecer
    com o dos chéchés. E é o que francamente te communicamos, na honrada
    sinceridade de bom homem para bom homem, ó leitor amigo.

    Emquanto á estatua do reformador, em que se falla como complemento do
    centenario a cuja celebração acabamos de assistir, ella seria, se a
    fizessem, o monumento funebre elevado á morte da democracia ou á do
    senso commum na sociedade portugueza. Mas não a farão nunca. E' já de
    mais a do Terreiro do Paço para consignar a estima d'este povo pelo
    charlatanismo dos seus tyrannos.

    O rei D. José é absolutamente indigno de estar posto por meio de uma
    peanha não só acima do nivel mas á simples altura de qualquer cidadão
    honrado. Mero heroe das alcovas dos outros, esse principe rufião está
    abaixo do proprio Luiz XV, de apodrecida memoria. Luiz XV teve um
    merecimento pelo menos no seu reinado, teve por amante a encantadora
    amiga de Diderot, Madame de Pompadour, a cuja ligação o rei de França
    deveu a honra de poder cear algumas vezes em _petit comité_ com alguns
    dos homens de espirito que escreveram a _Encyclopedia._ D. José nunca
    exerceu o seu donjuanismo senão entre beatas insipidas, mais pobres
    ainda de talento que de pudor.

    Quando chegar a hora da justiça não é a estatua do marquez de Pombal que
    se ha de erigir, é a de D. José que se ha de apear. No monumento do
    Terreiro do Paço o unico que merece continuar a contemplar Cacilhas é o
    cavallo. Cumpre rehabilitar, na estima que se lhe deve, o nobre e util
    animal, desaffrontando-o do cavalleiro, que nunca prestou para nada
    n'este mundo, e honrando-o em nome do trabalho honesto com o appenso de
    uma charrua.

    Lisboa 10 de junho de 1882.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-02 05)

    Aproximadamente 16.638 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ RAMALHO ORTIGÃO AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO II Fevereiro a Maio 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    Leis organicas das sociedades e disposições regulamentares dos estados:
    de como a sociedade as distingue para os effeitos da sancção penal. O
    caso da sr.ª D. Joanna Pereira e o do parocho de Travanca de Lagos–A
    gymnastica perante o parlamento. O dr. Schreber, o dr. Ponza, Rodolfi,
    Claude Bernard, Burq, Lacassagne e o sr. Vaz Preto. Reconstituição da
    raça humana pela gymnastica. Reconstituição da ideias parlamentares pela
    mesma gymnastica. Indicação de alguns exercicios para uso dos dignos
    pares–O ultimo milagre de Lourdes e a _Nação_. Mostra-se que o milagre
    não presta. Ensina-se à _Nação_ o que são milagres e prova-se-lhe que
    ella tem o demonio no ventre, mas que se lhe ha de tirar–A
    criminalidade em Lisboa e o _fadista_. Historia genealogica d'esse
    personagem desde o seculo XVI até a ultima facada no Bairro Alto–A
    ideia velha e a ideia nova.–Uma opinião de Tyndal ácerca dos atheus.
    Algumas ideias do carpinteiro Jacquenin ácerca das rasões porque crescem
    os trigos. De como o sr. conde do Rio Maior pelo modo como emendou a lei
    da instrucção primaria mostrou não ser aquelle philosopho nem aquelle
    carpinteiro–O _Primo Bazilio_. O caso pathologico e a obra d'arte. A
    educação burgueza e o realismo–A escola nacional dos poltrões. A
    covardia, instituição publica, etc.

    Tôdos os crimes, quaesquer que elles sejam, podem ser considerados como
    pertencendo a duas classes distinctas:

    1.º Crimes resultantes da infracção das leis organicas da sociedade;

    2.º Crimes resultantes da infracção das disposições regulamentares dos
    Estados.

    Emquanto as sociedades se não acham constituidas segundo o direito
    absoluto fundado em principios claramente definidos de moral positiva,
    isto é, emquanto as sociedades não attingem um desenvolvimento
    intellectual que lhes permitta conhecer todas as leis da sua
    organisação, distinguindo o que n'ellas é difinitivo e organico do que é
    convencional e contingente,–n'essas sociedades não podem dar-se senão
    os crimes da segunda d'aquellas classes. É assim que vemos nas
    civilisações antigas e hoje entre os selvagens serem considerados crimes
    ou deixarem de o ser, segundo os regulamentos especiaes das
    communidades, o roubo, a polygamia, o incesto, o homicidio, etc.

    Nas sociedades que attingiram a edade consciente, que entráram no
    periodo scientifico da sua evolução moral, como presentemente succede em
    toda a Europa, o incesto, a polygamia, o homicidio, o roubo, etc.,
    tomáram o caracter dos crimes incluidos na primeira das classes a que
    nos referimos, porque se comprehendeu que elles não violam unicamente um
    regulamento local e arbitrario, mas que ferem a sociedade nos centros da
    vida, dissolvendo no seu nucleo a aggregação que constitue o grande ser
    collectivo.

    * * * * *

    A sabedoria da legislação penal manifesta-se na mais justa e perfeita
    demarcação dos limites que separam essas duas ordens de crimes.

    Quanto mais uma sociedade progride tanto mais ella estreita os meios
    repressivos da infracção das suas leis organicas, e tanto mais afrouxa a
    punição imposta á contravenção dos seus estatutos regulamentares,
    distinguindo graduações na culpa segundo a importancia dos interesses
    feridos pela perpetração do delicto.

    É em virtude d'este criterio que são punidos com severidade,
    unanimemente exigida pela opinião, os attentados contra o interesse do
    commercio e contra o interesse da industria, porque estes dois
    interesses são considerados os mais importantes das sociedades modernas;
    ao passo que raramente deixam de ser amnistiados os crimes politicos,
    pela razão de que os governos se julgam impotentes para vibrarem
    arbitrariamente um castigo que nenhum interesse reclama e que por
    conseguinte a civilisação rejeita como um acto de prepotencia e de
    vingança.

    Os antigos attentados nefandos contra os poderes constituidos e contra a
    forma do governo, chamados temerosamente de lesa-magestade, deixaram ha
    muito de ser espiados na guilhotina e na forca, contentando-se os
    politicos em fulminal-os com a critica de Talleyrand: «São mais do que
    crimes, são verdadeiros erros!»

    Posto isto, vejamos qual é o estado da mentalidade portugueza afferido
    pelo criterio que ella applica ao julgamento dos crimes e ás respectivas
    sancções penaes.

    * * * * *

    Deram-se ultimamente dois casos profundamente caracteristicos: o caso de
    Joanna Pereira e o caso do parocho de Travanca de Lagos.

    No caso de Joanna Pereira vemos tres réos confessos e convictos de tres
    crimes: Joanna, de adulterio; Carlos, de tentativa contra o pudor por
    meio da chlorophormisação; o carroceiro, da remoção de um cadaver; todos
    tres cumplices e conniventes no crime de cada um.

    Como procede a sociedade? Não tomando conhecimento de nenhum d'estes
    attentados e despedindo os reos em paz!

    No caso do parocho de Travanca de Lagos, o reo é accusado de ter
    falsificado uma certidão de edade para o fim de salvar um mancebo do
    recrutamento militar. Como precede a sociadade? Condemnando o parocho a
    oito annos de degredo para a costa ds Africa!

    O primeiro caso é um triplice attentado contra a ordem social. A
    sociedade não só o não pune mas nem sequer o julga.

    O segundo é uma contravenção de um regulamento administrativo. A
    sociedade não só o julga mas pune-o com uma das maximas penas do codigo.

    * * * * *

    Não analysamos o procedimento havido com Joanna Pereira e os seus
    co-reos. Pomol-o simplesmente em parallelo com o procedimento havido com
    o parocho de Travanca de Lagos, e dizemos que a condemnação d'este é uma
    iniquiedade monstruosa.

    O crime do que é accusado o padre, condemnado por havel-o commettido a
    oito annos de degredo, é crime unicamente perante a letra de um
    regulamento de caracter não só transitorio mas arbitrario–o regulamento
    do serviço militar.

    O parocho foi condemnado por tentar salvar do serviço um recruta.
    Alterar um numero, escrever um algarismo por outro, só póde involver
    intenção criminosa quando d'esse acto proceda uma offensa de interesses.
    Viciar a data de uma letra ou de um contrato é indubitavelmente um grave
    crime, porque offende o interesse do commercio, ou o da industria, ou o
    da propriedade. Mas alterar a data de uma certidão de baptismo, para o
    facto de isemptar do serviço militar um cidadão, não é offender um
    interesse social; é o contrario d'isso: é servir o interesse que todas
    as sociedades teem em que deixe de haver militares.

    * * * * *

    O crime, no estado de pura tentativa, pelo qual o padre foi julgado o
    punido com degredo de oito annos, se se chegasse a realisar e se
    estendesse do caso particular de uma freguezia do reino a todos os casos
    analogos na Europa inteira, seria o mais assignalado dos beneficios á
    civilisação e á humanidade. Daria em resultado a eliminação do
    militarismo e da guerra.

    Os crimes pelos quaes Joanna Pereira e os seus collaboradores não foram
    punidos nem julgados, se se estendessem da casa da travessa da Oliveira
    ao resto da sociedade, dariam os seguintes effeitos:

    Os cadavares seriam propriedade dos carroceiros, o que acabaria, de uma
    vez para sempre, com o uso dos cemiterios e com a pratica de enterrar os
    mortos.

    Os Antonys teriam ao abrigo das leis, um desenlace inoffensivo para
    todos os seus dramas: _Resistia-me, chlorophormisei-a!_

    Finalmente, para o facto da selecção da especie, os maridos seriam
    substituidos pelos mestres de piano dados ao abuso das bebidas
    alcoolicas–o que tornaria o casamento inutil e a familia impossivel,
    convertendo aos pianos, reforçados pela aguardente, nos unicos
    instrumentos da perpetuidade da raça.

    * * * * *

    Expondo simplesmente os dois casos referidos e o modo como a sociedade
    os resolveu, achamos inutil accrescentar commentarios, e fazemos
    unicamente á sociedade os nossos cumprimentos.

    * * * * *

    Por occasião de se discutir no parlamento a reforma da instrucção
    primaria o digno par sr. Vaz Preto Geraldes votou contra a adopção da
    gymnastica nas escolas de raparigas, enunciando a opinião de que a
    gymnastica tinha um caracter immoral.

    S. ex.ª parece receiar que uma vez introduzida a gymnastica nos costumes
    do sexo feminino, as senhoras portuguezas comecem a estar nos bailes com
    pesos suspensos da bocca e a passearem no Chiado apoiadas sobre as mãos
    e de pernas para o ar. Isto effectivamente não seria bem visto. E
    comprehendemos que s. ex.ª sinta uma certa porção de rubor pensando que
    ao dirigir n'um salão as suas homenagens a uma dama esta poderá vir um
    dia a retribuir os cumprimentos de s. ex.ª aferrando-o pelos rins e
    obrigando-o a revirar duas vezes as pernas por cima da cabeça no espaço
    que medeia entre o tapete e o lustre.

    Cremos porém que os receios do sr. Manuel Vaz Preto procedem mais
    directamente de um nobre desdem votado por s. ex.ª a algumas habilidades
    da feira das Amoreiras do que propriamente do conhecimento cabal que s.
    ex.ª tenha da coisa que fóra das feiras se não chama a _sorte de forças_
    mas sim mais modestamente–_a hygiene do movimento no corpo humano_.

    * * * * *

    Um illustre medico allemão, o doutor Schreber, director do instituto
    orthopedico de Leipzig, e como tal perito no estudo das deformações do
    nosso esqueleto, affirma que grande parte das viciações na configuração
    dos ossos da bacia, viciações que inhabilitam muitas mulheres de serem
    mães, proveem dos habitos sedentarios que as raparigas contraem na
    escola e que só podem ser corrigidos na infancia pelos exercicios
    racionaes da gymnastica. Ora quer-nos parecer que qualquer mulher poderá
    chegar a ter bem conformados os ossos da bacia sem o sr. Vaz Preto
    correr um risco eminente de que essa mulher tome a bocca do estomago de
    s. ex.ª para alvo das suas predilecções pelo pugilato athletico.

    * * * * *

    O mesmo doutor Schreber assevera que é indispensavel introduzir o uso da
    gymnastica nas aulas do sexo feminino se se quizer evitar que muitas
    mulheres padeçam um desvio pathologico da columna vertebral extremamente
    frequente e resultante da posição forçada em que as raparigas se
    conservam durante as horas do trabalho nas escolas. Repugna-nos
    acreditar que o sexo feminino, que se destina a fazer a prancha em
    sociedade tomando para ponto de apoio o ventre do sr. Vaz Preto, esteja
    à espera de que lhe endireitem a espinha para passar immediatamente
    depois a operar sobre a região abdominal de s. ex.ª as experiencias
    dynamometricas, cuja perspectiva lança no animo pudibundo do digno
    procere um tão ligitimo horror.

    * * * * *

    A physiologia moderna tem mostrado que a saude não é mais que o justo e
    perfeito equilibrio das differentes forças inherentes ao nosso
    organismo. A hygiene tem provado com muitas observações e fundada nas
    mais repetidas experiencias que o excercicio regular e methodico de
    todos os nossos membros e de todos os nossos orgãos é o unico meio de
    manter o equilibrio a que acima nos referimos. A systematisação d'esse
    exercicio regular e methodico chama-se gymnastica.

    Da saude do corpo precede solidariamente a saude do espirito. Sabe-se
    hoje que todo o acto intellectual depende de uma dada circulação do
    sangue atravez da rede dos nervos encephalicos.

    Os medicos alienistas e todos os que teem estudado attentamente os
    phenomenos mentaes attestam que a estupidez, o talento, o genio, a
    loucura são outros tantos resultados do modo como o sangue circula, com
    mais ou menos vivacidade, mais ou menos abundantemente, no cerebro. Um
    apparelho do doutor Mosso, intitulado o plethysmographo, apparelho de
    que a psychologia experimental tem tirado as mais importantes
    revelações, demonstra que existem estreitas e precisas relações de causa
    para effeito entre as variações da circulação e os differentes graus de
    actividade cerebral. A abolição da memoria, a perversão das sensações,
    todos os casos de nevropathia cerebral são resultantes de uma falta de
    cadencia na vibração dos centros sensitivos causada por um embaraço da
    circulação sanguinea no encephalo. Na Italia estão-se curando as
    alienações mentaes pela transfusão do sangue. O medico Ponza, do Grande
    Hospital, e o doutor Rodolfi, do asylso de Brescia, relatam muitos casos
    de cura de alienados pela transfusão hypodermica.

    Pois bem: o meio efficaz de que a hygiene dispõe para activar e
    regularisar a circulação, de tanta importancia para a actividade
    central, é a gymnastica.

    O celebre hygienista Lacassagne diz: «Um exercicio muscular geral, feito
    em boas condições, produz os effeitos de uma transfusão de sangue.»

    * * * * *

    Ha estados morbidos cuja localisação no organismo escapa muitas vezes á
    indagação e á sagacidade dos clinicos. Está-se doente sem haver
    apparentemente perturbação alguma nas funcções physiologcas. O symptoma,
    frequentemente despercebido, d'esse deperecimento vital consiste na
    diminuição do noso peso com relação á unidade do nosso volume. A mais
    segura medida da saude é a densidade do corpo. Ha algum regimen proprio
    para tornar mais denso o corpo humano? Ha. É o regimen da gymnastica. O
    doutor Burq, seguindo durante seis mezes os exercicios da escola de
    gymnastica militar da Faisanderie, em França, constatou, pelas
    observações feitas dia a dia sobre os alumnos, que a gymnastica tem por
    effeito augmentar o peso e diminuir o volume, isto é acrescentar a
    densidade de 6 até 15% dentro dos primeiros tres ou quatro mezes de
    exercicio.

    * * * * *

    Em um paiz onde a tisica faz tão grande numero de victimas como em
    Portugal, é util accrescentar ainda que uma das propriedades da
    gymnastica é desenvolver a caixa toraxica e augmentar de 1/6 pela media
    a capacidade pulmonar, como foi verificado no dynamometro pelo mesmo
    doutor Burq.

    * * * * *

    A força muscular augmenta, como a capacidade pulmonar e como a
    densidade, n'uma proporção de 15% nos quatro primeiros mezes dos
    exercicios gymnasticos.

    * * * * *

    A hygiene de musculatura é um facto de primeira importancia para a saude
    desde que pelas experiencias de Claude Bernard sobre as propriedades dos
    tecidos vivos se reconheccu que a séde principal da combustão
    respiratoria é o musculo. Os differentes estados do musculo influem
    directamente na composição do sangue. O exercicio é portanto um poderoso
    modificador do sangue e como tal actúa em todas as forças do nosso
    organismo. Mas não ha senão uma especie de exercicio com propriedades
    hygienicas e therapeuticas: esse exercicio é a gymnastica.

    * * * * *

    Pedimos ao sr. Manuel Vaz Preto que nos faça o obsequio de considerar
    que só é um agente da saude o exercicio geral, regular e methodico, que
    constitue a gymnastica dos movimentos, chamada a gymnastica allemã. O
    doutor Sebreber demonstra que a unica occupação que sujeita quem a
    exerce a um exercicio inteiramente harmonico, é a occupação da
    jardinagem. Todo aquelle que não for jardineiro tem de appellar para um
    methodo especial de movimentos artificiaes que ponham no devido
    equilibrio as acquisições e os dispendios de cada um dos seus orgãos.

    * * * * *

    Taes são, resumidamente expostas, algumas das razões que militam em
    favor da gymnastica. Em contraposição a estes argumentos não sabemos
    senão de um: o pejo do sr. Vaz Preto. Dirigimos a s.ex.ª os nossos rogos
    mais fervorosos para que s.ex.ª não core diante da gymnastica, impedindo
    assim o paiz de pôr em pratica o melhor meio de regenerar a sua
    constituição atrophiada, de endireirar a espinha, de desenvolver os
    ossos, de activar as faculdades intellectuaes, de enriquecer o sangue,
    de reagir contra a hypocondria e contra a preguiça, contra a atonia dos
    nervos e dos musculos, contra a anemia, contra a chlorose, contra a
    gotta, contra as affecções pulmonares, contra as escrophulas, contra a
    obesidade e contra a idiotismo.

    * * * * *

    Muitos dignos pares, em cujo numero pedimos licença para incluir o mesmo
    sr. Vaz Preto, estão contaminados por enfermidades que a gynmastica
    previne e corrige. De modo que uma boa administração pedia que
    gymnastica não só fosse decretada para as escolas mas tambem para as
    duas casas do parlamento.

    Nas escolas americanas, em muitas escolas inglezas, allemãs, suecas, os
    exercicios intellectuaes interrompem-se umas poucas de vezes por dia
    para darem logar aos movimentos gymnasticos executados em commum por
    todos os alumnos. Uma recente estatistica, feita na Inglaterra, prova
    quanto estes exercicios são uteis não só ao desenvolvimento physico mas
    ao desenvolvimento intellectual, mostrando-nos que nas escolas em que se
    introduziu a gymnastica os alumnos aprendem mais e em menos tempo do que
    n'aquellas em que a gymnastica não existe.

    Na reforma da camara dos dignos pares, ultimamente convertida em lei,
    esqueceu uma disposição–precisamente a unica que teria alcance–um
    artigo que obrigasse ss.ex.'as a interromperem, por duas ou tres vezes
    em cada sessão, as suas locubrações legislativas, para fazerem
    gymnastica ao som de um orgão, como nas escolas americanas.

    O mesmo sr. presidente o nobre duque de Avila e Bolama deveria ser
    obrigado sob penas tremendas, a tomar parte n'estes exercicios. Por
    que–digamol-o francamente–o que é o _cachenez_ do nobre duque
    presidente senão o mais afflictivo dos casos pathologicos: o symptoma
    mais caracteristico de que s.ex.ª não tem gymnastica nos musculos do
    pescoço e nos que revestem o seu apparelho respiratorio? Em mome da
    felicidade do paiz, que tão estreitamente depende da preciosa saude do
    nobre duque, s.ex.ª deveria ser obrigado–obrigado a ferros, em nome
    d'el-rei–a suspender em cada dia os trabalhos parlamentares, a
    erguer-se magestosamente da sua cadeira, a tirar a sua gravata, a
    desabotoar o seu colleirinho e os seus suspensorios, e a proceder aos
    seguintes movimentos:

    Voltar vigorosamente a cabeça para a direita e para a esquerda (100
    vezes); fazer girar o pescoço, na sua maxima flexão, sobre o peito e
    sobre as espaduas (200 vezes); subir e descer energicamente os hombros
    (100 vezes); fazer o movimento de quem mede braças (100 vezes); tomar
    fortes e profundas aspirações de ar (25 vezes). Depois do quê, s.ex.ª
    reporia a sua gravata, abeooaria os seus suspensorios e recomeçaria a
    meditar sobre a felicidade da patria.

    No mesmo sr. Vaz Preto o que é verdadeiramente a revolta do seu pudor
    perante a adopção da gymnastica nas escolas senão o indicio de uma lesão
    mental concomitante e até certo ponto compensadora da obesidade? Pois
    não é sabido que jámais a excessiva nutrição deixa de ser acompanhada
    reflexamente pela excessiva pudicicia? Conviria portanto que, emquanto o
    sr. duque de Avila curasse o seu _cache-nez_ por meio dos excercicios
    indicados, o sr. Vaz Preto medicasse o seu pejo com os exercicios
    seguintes:

    Massagens no abdomen (5 minutos): acocorar-se (100 vezes); dobrar e
    tronco rotatoriamente sobre o estomago, sobre os quadris e sobre o rim
    (50 vezes); levantar cada uma das pernas para diante e para traz até o
    limite da sua elasticidade (50 vezes); fazer o movimento analogo ao de
    quem racha lenha (25 vezes); trotar no mesmo terreno (15 minutos).
    Depois do quê, s. ex.ª revestiria ameaçadoramente as suas calças e
    continuaria a demolir com a sua facundia a politica do gabinete.

    * * * * *

    Se porém a todas estas considerações for insensivel o sr. Vaz Preto,
    n'esse caso a sciencia, continuando a affirmar a importancia social da
    gymnastica, tem de usar com o pudor de s. ex.ª um expediente extremo:
    Velar-lhe a face!

    * * * * *

    A _Nação_ publicou um telegramma de Lourdes, em que se lhe diz: _O padre
    cego já vê, a paralytica já anda_.

    * * * * *

    Parece impossivel que uma folha religiosa como a _Nação_ désse cabimento
    nas suas columnas um milagre tão miseravel, tão safado, tão reles como
    esse! Com effeito! foi então para isso, para esse milagrotesito de
    cácárácá, para dar vista aos cegos e para fazer andar os paralyticos,
    foi para essa insignificancia, para essa miseria, para essa sovinice,
    que a sr.ª condessa de Sarmento organisou a sua romagem, que andou a
    reunir os padres cegos e as sujeitas paralyticas, e que unicamente para
    os fazer ver e para os fazer andar os levou tão longe?! … Ora muito
    obrigado! muito obrigado pelo seu favor!

    A sr.ª condessa de Sarmento e todos os devotos e devotas que
    collaboráram com s.ex.ª na bonita obra da peregrinação teem obrigação
    restricta de abrirem immediatamente uma subscripção para o fim de
    indemnisarem o padre ex-cego e a mulher ex-paralytica do incommodo que
    lhes deram. Porque nós–e a _Nação_ bem o sabe!–nós temos devoções
    locaes, temos devoções ahi da Baixa, que nos affirmam e affiançam, sob a
    auctoridade dos padres e dos pontifices, exactamente os mesmos
    resultados obtidos pela romagem.

    Pois quê! A agua de Lourdes ao pé da bica, na propria gruta, por conta e
    na presença da santa, não ha de dar mais effeitos no consumidor do que a
    agua de Lourdes exportada, expedida ao extrangeiro em vasilhas quantas
    vezes impuras, quantas vezes com más rolhas?!

    Não vimos nós ahi, ha dois annos, na Santa Casa da Misericordia, uma
    enferma paralytica, a qual desfechou a andar com a mesma facilidade com
    que anda a roda da mesma Santa Casa logo quo lhe chapinharam os membroa
    locomotores com agua das latas?!

    E a pobresinha de Christo desencaminhada pela sr.ª condessa do Sarmento
    para se metter ás estradas e para ir por ahi fóra em braços até Lourdes,
    chega lá e não obtem mais nada senão o que obteve a outra sem sair do
    largo de S. Roque?

    E ainda ousam dizer-nos–o que não póde ser senão por escarneo–que ella
    _andou!_? Olha a grande façanha–_andar!_ Mas, senhores, tendo tido
    trabalho de ir a Lourdes, o que essa mulher devia fazer, pelo menos, era
    correr, correr a sete pés, e trazer de lá para esse fim cinco pernas a
    maior do que as que levou!

    Outro tanto temos que dizer do cego. Unicamente para ver pelos olhos
    lesos, sem ir mais longe, tinha ahi o sr. Mascaró que lhe fazia o
    milagre no olho de cada lado n'um abrir e fechar do olho do lado
    opposto. Em Lourdes seria preciso, para sustentar os creditos da agua na
    sua devida altura, que o homem não só principiasse a ver pelos olhos mas
    que visse tambem por outros membros.

    Isso então já valeria mais a pena de se contar, e comprehenderiamos que
    a _Nação_ o publicasse em telegramma: «O padre cego appareceu-lhe um
    olho em cada buraco do nariz e está-lhe a vir outro na cova do ladrão,
    pelo qual já lê as suas rezas de costas na cama com o breviario por
    baixo do travesseiro. A paralytica já deitou seis pernas novas e está
    com dois grandes furunculos nos hombros: suppõe-se que sejam as azas a
    romper. Quando se lhe espremem os carnições bota pennas. Infinitos
    louvores sejam dados a Deus Nosso Senhor porque pela côr dos voadouros
    vemos que a paralytica nos sae pedrez!»

    Isso, sim senhor, isso seria um soffrivel milagre, ainda que de segunda
    ordem, porque os ha muitos maiores.

    * * * * *

    Da virtude dos escapularios, por exemplo, contam-se e authenticam-se
    coisas ao pé das quaes tudo quanto a agua de Lourdes tem feito é zero.

    O escapulario preserva o fiel de todos os males, preserva-o das doenças,
    das pestes, dos perigos da agua, dos incendios, do raio, das quedas, das
    balas, das sovas, etc. De tudo isto ha provas que não podemos pôr em
    duvida. No livro intitulado _Virtude miraculosa do Escapulario
    demonstrada por casos de proteção, de conversao e de curas miraculosas_,
    pelo revd.º padre Hugnet–_Saint-Dizer, Paris, Lyon, Bruxelles et
    Anvers_, 1869, todas essas virtudes se acham confirmadas com muitos
    exemplos.

    Pessoas que caem do alto de enormes torres ficam intactas: nem um botão
    dos suspensorios lhes rebenta, e se estavam lendo o seu jornal no alto
    das torres, como algumas vezes succede, veem lendo n'elle pelo ar
    emquanto caem e continúam a leitura em baixo, traçando a perna n'um
    estado do satisfação ineffavel.

    O sr. A. de L …, tendo entrado na insurreição do Var, com um
    escapulario ao pescoço, recebe vinte e nove tiros, apparecem-lhe no fato
    os vinte e nove furos das vinte e nove balas: elle no entanto fica
    illeso. «Não nos foi possivel matal-o: tivemos de desistir!» disse por
    essa occasião um gendarme. (Obra acima referida, pag. 21)

    No auge de um pavoroso incendio um devoto lembra-se de lançar ao meio
    das chammas o seu escapulario; o incendio immediatamente se extinguiu e
    o escapulario encontrou-se intacto. «Apenas, diz o padre Huguet na obra
    citada, se observou que elle cheirava um pouco a chamusco.» (Pag. 17.)

    Um soldado na batalha de Novara vê cair em torno d'elle todo o
    regimento, elle é o unico ser que sobrevive: examina-se o soldado e
    acha-se-lhe um escapulario mettido na bocca e um em cada braço. (Pag.
    20.)

    Um desgraçado, querendo suicidar-se, lança-se ao mar quatro vezes
    consecutivas, sempre debalde: o mar arroja-o á praia, recusando-se
    obstinadamente a submergil-o. O desgraçado recorda-se então que traz ao
    pescoço um escapulario, e atira-se ao mar pela quinta vez, tendo deixado
    o escapulario em terra. Foi sómente com esta condição que o mar se
    resolveu a dar cabo d'elle. (Pag. 15.)

    Além de livrar de todos os perigos, sem excepção, durante a vida, o
    escapulario livra completamente das penas eternas depois da morte.

    O abbade Guglielmi, auctor do livro intitulado _Collecção dos
    escapularios da Immaculada Conceição, do Rosario, do Carmello, etc._,
    diz terminantemente, a pag. 231, que os demonios se queixam no inferno,
    pela maneira mais amarga, do grande numero de almas que lhes são
    arrebatadas pelos escapularios. Parece que não ha dia em que um milhão
    de diabos não roguem esta praga medonha:–Que nós levemos os
    escapularios!

    As approvações pontificaes de todos os papas, desde João XXII até Pio
    IX, confirmam cabalmente os poderes attribuidos ao uso dos escapularios.

    O escapulario do Monte Carmello tem a propriedade especial de expedir
    para o ceo o penitente, quaesquer que tenham sido os peccados por elle
    perpetrados, no primeiro sabbado seguinte ao da sua morte. Facinora que
    arranje a morrer com o escapulario na sexta feira á meia noite, podem os
    facinoras seus companheiros esperal-o no purgatorio, que o hão de ver
    por um oculo!

    O uso do escapulario é extremamente commodo: não obriga a encargos de
    nenhuma especie, salva-nos independentemente da penitencia,
    da confissão e da communhão. Tambem não priva o penitente de qualquer
    prazer a que elle se queira dar n'este mundo. Assim o affirma o revd.º
    Guglielmi. O essencial é não o tirar nunca, nem mesmo _quando
    voluntariamente se vae peccar_: é o que mais particularmente prescreve o
    dito padre Guglielmi.

    De todos os escapularios o que mais se recommenda á eleição dos devotos
    é o do Sagrado Coração de Jesus, porque este escapulario nem sequer
    precisa de ser benzido. Basta, para dar todas as indulgencias, que elle
    seja feito pelo modelo approvado pelo nosso Santo Padre Pio IX, do modo
    seguinte: Sobre um pequeno retalho de lã branca–retalho quadrado ou
    oblongo, porque sendo redondo, oval ou polygono perde a
    virtude–applica-se um coração de flanella encarnada, bem talhado e
    cosido a pesponto, de modo que imite a corôa de espinhos acompanhada de
    algumas gotas de sangue bordadas a seda. Áparte, em uma tirinha de panno
    patente, borda-se a ponto de marca, linha encarnada, a inscripção
    sacramental: _Suspende! Está comigo o coração de Jesus_!

    Ora, podendo cada um em sua casa, no seio da sua familia, fazer um
    d'estes escapularios, deital-o ao pescoço e ficar livre, para a vida e
    para a morte, de todos os perigos, de todos os males; podendo cair do
    alto das torres, atirar-se ás voragens do fogo e do mar, e metter-se
    debaixo dos raios, sem mais risco do que teria deitado na sua cama, não
    fará a _Nação_ o favor de nos dizer para que ha de ir um homem a cascos
    de rolha beber uma agua, que, segundo a mesma _Nação_, o mais que faz é
    unicamente dar vista aos cegos e movimento aos paralyticos?

    Ha umas tantas coisas que a _Nação_ até devia ter vergonha de as dizer
    … O que a _Nação_ precisava era que lhe deitassem um bom escapulario a
    esse pescoço, para a _Nação_ ficar então sabendo o que são milagres!
    Porque a _Nação_ não sabe o que são milagres!

    Pôr o padre cego a ver e pôr a paralytica a andar não passa de uma
    habilidadesita mediocre, um bocadito de geito!

    Vir á feira unicamente com uma porcaria d'essas parece mesmo de
    proposito para fazer perder á gente o gosto pelas devoções …

    Emquanto a nós o que a _Nação_ tem é o espirito maligno no corpo do
    jornal! Cruzes, demonio!

    * * * * *

    Ha dois mezes que os periodicos annunciam quasi quotidianamente os casos
    de espancamento, de ferimentos e de roubos commettidos em Lisboa e seu
    termo. De quando em quando a policia, para o fim de dar uma especie de
    satisfação á sociedade pela frequencia de tantos crimes, prende um
    fadista. O que temos que perguntar é: Porque se não prendem os fadistas
    todos?

    * * * * *

    Em cidade nenhuma do mundo existe uma palavra de significação analoga a
    esta–o _fadista_.

    Ser fadista quer dizer: ser um criminoso tolerado, agremiado civilmente,
    constituindo uma classe. Pela sua genealogia social o fadista descende
    dos antigos espadachins plebeus que conquistavam, por meio de exame
    feito em valentia, o direito de cingirem a espada e de acompanharem com
    fidalgos bulhentos e tranca-ruas. No seculo passado existia ainda em
    toda a sua pureza esta raça de bravos de viella, sem officio nem
    beneficio, vivendo das esportulas da nobreza, apadrinhados por ella,
    frecheiros com as mulheres, soberbões e insolentes com os mesteiraes e
    com os mercadores, cobrindo as costas aos fidalgos nas excursões
    nocturnas em que estes se divertiam espancando os transeuntes, escalando
    os muros dos quintaes e dos conventos, desarmando as rondas e açoitando
    os corregedores e os esbirros ao fundo dos becos tenebrosos e
    adormecidos.

    Entre os alludidos fidalgos figurava como grão-mestre da ordem, como
    capitão da ala o serenissimo senhor infante D. Francisco, preclaro irmão
    do senhor rei D. João V, que Deus tenha em sua santa guarda. D'esse
    interessantissimo principe, cujas tropelias creáram, durante um seculo,
    em volta das suas terras do Infantado, em Queluz, uma legenda de terror,
    conta-se este bello feito historico, que basta para mostrar o genero dos
    divertimentos da sua roda: Vendo o augusto principe nas vergas de um
    navio um marinheiro que o saudava, quiz o infante experimentar, por ser
    mui curioso de balistica, se do logar onde estava poderia alcançar com
    um tiro aquelle homem que lhe fazia continencia meneando alegremente o
    seu gorro. Fazendo em seguida a mais cuidadosa pontaria, e desfechando
    sobre o alvo, teve sua alteza o summo gosto de ver que o marinheiro se
    despegára da verga, que dobára no ar por entre as enxarceas e caíra por
    fim estatalado no convez varado pela bala da serenissima escopeta. Com o
    que o sr. infante houve um accesso de jubilo, como nunca se lhe vira, e
    que sua alteza houve por bem desafogar batendo as palmas e dando muitos
    uivos e pinchos, inequivocos signaes de uma illimitada alegria. Mais
    tarde, com a illuminação de Lisboa, devida ao intendente Pina Manique, e
    com a creação da policia moderna, cessaram os recontros, as arruaças, os
    combates nocturnos da fidalguia com a villanagem lisboeta. Pela razão
    biologica de que toda a força organica que se não exerce se elimina, o
    antigo valentão plebeu deixou de ter valor mas continuou a conservar o
    espirito da façanha, da aventura, do amor illicito, da tavolagem e da
    vadiice, e tomou então o nome de–fadista.

    O fadista não trabalha nem possue capitaes que representem uma
    accumulação de trabalho anterior. Vive dos expedientes da exploração do
    seu proximo. Faz-se sustentar de ordinario por uma mulher publica, que
    elle espanca systematicamente. Não tem domicilio certo. Habita
    successivamente na taberna, na batota, no chinquilho, no bordel ou na
    esquadra da policia. Está inteiramente atrophiado pela ociosidade, pelas
    noitadas, pelo abuso do tabaco e do alcool. É um anemico, um covarde e
    um estupido. Tem tosse e tem febre; o seu peito é concavo, os braços são
    frageis, as pernas cambadas, as mãos finas e pallidas como as das
    mulberes, suadas, com as unhas crescidas, de vadio; os dedos queimados e
    enegrecidos pelo cigarro; a cabelleira fetida, enfarinhada de poeira e
    de caspa, reluzente de banha. A ferramenta do seu officio consta de uma
    guitarra e de um _santo christo_, que assim chamam technicamente a
    grande navalha de ponta e triplice calço na mola. É habitado por uma
    molestia secreta e por varios parasitas da epiderme. Um homem de
    constituição normal desconjuntar-lha-ia o esqueleto, arrombal-o-ia com
    um soco. Elle sente isso e é traiçoeiro pelo instincto do inferioridade.
    Não ataca de frente como o espadachim ou o pugilista, investe
    obliquamente, tergiversando, fugindo com o corpo, fazendo fintas com uma
    agilidade proveniente do seu unico exercicio muscular–as _escovinhas_.
    Não ha senão uma defesa para o modo como elle aggride: o tiro ou a
    bengala, quando esta seja manejada por um jogador extremamente dextro. A
    guitarra debaixo do braço substitue n'elle a espada á cinta, por meio da
    qual se acamaradavam com a nobreza os pimpões seus ascendentes do seculo
    XVI. É pela prenda de guitarrista que elle entra de gôrra com os
    fidalgos, acompanhando-os ainda hoje nas feiras, nas toiradas da
    Alhandra e da Aldeia Gallega, e uma ou outra vez nas ceias da Mouraria,
    onde depois da meia noite se vae comer o prado de _desfeita_, acepipe
    composto de bacalhau e grãos de bico polvilhados de vermelho por uma
    camada de colorau picante. Por effeito da tradição na orientação mental
    da sua classe elle procura ainda hoje como ha duzentas annos parecer-se
    e confundir-se pelo modo de trajar com os fidalgos ou com os que julga
    taes. A classe dos fidalgos que tresnoitam hoje pelas tabernas e pelos
    alcouces de Alfama, que são levantados bebedos dos becos mal afamados,
    que fallam em calão e que fazem troças no Colete Encarnado e na Perna de
    Pau, esta classe de fidalgos, dizemos, compõe-se hoje principalmente de
    jovens burguezes febricitantes, filhos de honestos lojistas ou de
    pacientes alfaiates, desencabrestados da rotina paterna pela educação do
    lyceu e do collegio nacional, escalavrados pelo alcoolismo e pelo
    mercurio, profundamente corrompidos, profundamente bestialisados. O
    fadista imita esses senhores na escolha que elles fazem dos seus trajes
    de pandega. Usa como elles a bota fina de tacão apiorrado ou o salto de
    prateleira, a calça estrangulada no joelho e apolainada até o bico do
    pé, a cinta, a jaleca do astrakan e o chapéo arremessado para a nuca
    pelo dedo pollegar, com o gesto classico do grande stylo canalha. A
    guitarra, seu instrumento de industria e de amor, dedilha-a elle com um
    desfastio impavido, deixando pender o cigarro do canto do beiço
    pegajoso, gretado e descaido; com um olho fechado ao fumo do tabaco e o
    outro aberto mas apagado, dormente, perdido no vago em uma contemplação
    imbecil; o tronco do corpo caído mollemente para cima do quadril; a
    perna encurvada com o bico do pé para fóra; o _cachucho_ da amante
    reluzindo na mão pallida e suja. Tambem canta, algumas vezes, apoiando a
    mão na ilharga, suspendendo o cigarro nos dedos, de cabeça alta,
    esticando as cordoveias do pescoço e entoando as melopeias do fado, em
    que se descrevem crimes, toiradas, amores obscenos e devoções religiosas
    á Virgem Maria, com uma voz soluçada, quebrada na larynge, acompanhada
    da expressão physionomica de uma sentimentalidade de enxovia, pelintra e
    miseravel.

    De resto o fadista não tem vislumbres de senso moral. Explica os seus
    meios de vida pelo premio tirado na cautela de pataco que lhe foi vista
    na algibeira cebosa do collete. Na batota concilia-se com o furto e com
    o roubo; na esquadra da policia concilia-se com a mentira; nas suas
    convivencias do bordel concilia-se com a infamia; e as condições
    especiaes em que ama e é amado acabam por dissolver n'elle os ultimos
    restos d'essa dignidade animal, para assim dizer anatomica, commum a
    todos os machos.

    * * * * *

    É da classe dos fadistas que saem para os tribunaes e para as cadeias os
    incorrigiveis da criminalidade.

    A proposito do direito de punir e do modo de applicar a pena dizia
    recentemente ainda um escriptor inglez, fundado nas informações de um
    inspector de cadeias, que todos os criminosos presos se podiam dividir
    em tres cathegorias. A primeira cathegoria é composta de individuos que
    verdadeiramente não deveriam ter entrado nunca na prisão. São lançados
    nas garras da lei por um accidente exterior ou por uma fraqueza de juizo
    ou de caracter, a qual não obsta a que elles tenham uma moralidade tão
    sã como a de qualquer de nós. Á segunda cathegoria pertencem individuos,
    mais numerosos que os primeiros, sem violentas tendencias moraes ou
    immoraes, susceptiveis de serem dirigidos pelas circumstancias e de se
    tornarem bons ou maus segundo a direcção que recebam. A terceira
    cathegoria, de um numero de condemnados felizmente restricto, é rebelde
    a toda a disciplina, insensivel a toda a bondade, surda a todos os
    conselhos. Para estes a cadeia é um logar improrio; seria preciso
    confinal-os em uma ilha deserta, onde o contagio mortal do seu exemplo
    não fizesse novas victimas. Segundo o alludido inspector das cadeias
    inglezas, que tinha viajado muito e estudado attentamente todos os
    grandes estabelecimetos penitenciarios do mundo, o Estado não teria
    senão proveito que tirar da maior somma de liberdade concedida aos
    presos da primeira d'essas cathegorias; aos presos da segunda classe
    conviria principalmente dar instracção; emquanto aos terceiros o melhor
    expediente seria a morte.

    É util reflectir n'estas palavras e considerar uma coisa:

    É ou não é da classe chamada fadista que procede a maxima parte dos
    criminosos que passam annualmente pelo banco da Boa Hora, e cuja
    incorrigibilidade é em muitos d'elles attestada por varios julgamentos
    repetidos?

    A historia do foro lisbonense nos ultimos tempos responde:

    É.

    N'este caso pergunta-se:

    Póde a sociedade, sem incorrer em uma responsabilidade tremenda,
    continuar a manter pelo desleixo, a existencia legalmente tolerada de
    uma cathegoria de individuos que ha tres seculos pervertem profundamente
    os nossos costumes populares, e de cujo gremio saem os criminosos que a
    justiça mais difficilmente corrige e mais raramente regenera?

    Não. Uma similhante tolerancia representa o mais grave dos attentados de
    que o Estado é cumplice perante a ordem moral. Porque, se a sociedade é
    irresponsavel da perversidade individual, não succede o mesmo, e a
    sociedade deixa de poder ser absolvida, logo que é ella que sustenta, ao
    abrigo das leis, a concordancia de todas as causas conhecidas e
    manifestas que produzem fatalmente um determinado numero de perversos.

    Dado o fadista, a sociedade não póde certamente evitar o criminoso. A
    sociedade porém póde evitar o fadista. Do que modo? Procedendo a um
    inquerito rigoroso sobre a vadiagem e supprimindo, quanto antes, a
    instituição concomitante que a justifica e a consagra:–a loteria.

    Desde que um cidadão deixe de poder explicar unicamente pelos
    supprimentos do jogo a posse legitima dos seus meios de subsistencia, o
    Estado tem o dever de o prender, não para encarcerar mas para coagir ao
    trabalho, matriculando-o em qualquer das officinas do governo: na
    cordoaria, na fabrica de polvora, no arsenal, na imprensa, etc.

    * * * * *

    O mais perigoso de todos os animaes vadios é o homem. Comparado com elle
    o cão, ainda quando damnado, póde-se considerar inoffensivo. E todavia a
    policia, que tem para o cão que ainda se não damnou as precauções da
    rede e da carroça, não tem para o vadio, em pleno exercicio do seu
    contagio, senão um expediente repressivo: o de lhe archivar a
    photographia no commisariado geral.

    Quer a policia um bom conselho, que resume tudo? Inverta os seus meios
    de garantir a segurança publica: tire o retrato aos cães e deite a rede
    aos fadistas.

    * * * * *

    Repentinamente, inesperadamente, sem ninguem saber porque, no principio
    do mez passado, os poetas portuguezes dividiram-se em duas legiões
    contrarias, arrojáram-se encarniçadamente uns sobre os outros,
    esmurráram-se, esguedelháram-se, cuspiram-se na face em odes,
    açoitáram-se medonhamente nas carnes a golpes de alexandrinos, e
    viram-se de parte a parte nodoas negras da pancadaria nas regiões
    lombares das musas.

    Mysterio sobre as causas que moveram tão crúa guerra entre duas escolas
    poeticas aliás tão pacatas que nem se sabia nos respectivos bairros que
    ellas existissem: a escola da _Idéa Velha_ e a escola da _Idéa Nova_!

    * * * * *

    Os da Idéa Velha dizem que não ha nada como a idéa d'elles. E fundam-se
    para isto em que é uma idéa solida, experimentada, garantida.

    O primeiro grande e inspirado poeta de segunda ordem que a manejou
    encontrou-a estirada ao comprido no seu caminho ha cerca de quarenta
    annos.

    Ergueu-a do chão como morta, chuchada, espipada, moída pelas pégadas de
    duas gerações, espalmada como uma pellicula pelo piso das alimarias e
    pelas rodas dos vehiculos que passaram na via, sobre o macadam
    enlameado. O primeiro, pela ordem chronologica, dos nossos grandes e
    inspirados poetas de segunda ordem, pegou na Idéa Velha por uma ponta e
    pol-a ao alto. Soprou-a, encheu-a, attestou-a, retesou-a de novo. Depois
    lavou-a, catou-a, cortou-lhe as unhas, penteou-a, metteu-lhe louro
    fresco na fronte, poz-lhe ao peito uma bonina de cera feita na Margotot
    e levou-a comsigo á sociedade, onde a receberam bem. Cercáram-a varios
    outros não menos grandes nem menos inspirados poetas de segunda ordem do
    que aquelle que a levantára do chão. Andou pelo braço de um e pelo braço
    de outro recebendo declarações de affecto e dadivas de amor. Mão tão
    dedicada quão firme cravou-lhe sobre a bonina de cera feita pela
    Margotot uma mariposa de tarlatana com as pequenas azas abertas, em
    spasmo, feita no Casademund. Levaram-a aos espectaculos, ás solemnidades
    publicas, ás casas particulares, e por toda a parte foi acolhida com
    agrado. Recitou aos pianos; escreveu endeixas nos albuns; collaborou na
    _Grinalda_ e no _Almanach de Lembranças_; dedicou versos á Lapa dos
    Esteios, á Stoltz e á Novello e ao funeral da senhora D. Maria II;
    concorreu com a sua pedrinha para o monumentosinho levantado a Ovidio e
    ás Graças nas notas da versão portugueza dos _Fastos_. Foi da Assembléa
    da Galocha, na rua Nova do Carmo, e do _Gremio_, que tomou o nome de
    _Litterario_ para a receber e cujos socios affirmáram, para lhe serem
    agradaveis, o seu amor á lettras deitando bigode e pera. Ella penetrou
    finalmente nas altas regiões officiaes. Foi aos paços dos nossos reis!
    De quando em quando observava-se que ella começava de repente a
    encolher, a chupar, a fazer pregas: ia-lhe saindo o vento com que fôra
    insuflada pelo genio dos maiores poetas portuguezes de segunda ordem, e
    era tragico e aterrador o seu aspecto, qual o de uma concertina que se
    fecha. Mas n'estes casos afflictivos vinha o canudo da publica opinião,
    e todos sopravam para dentro novo ar pelo dito canudo á Idéa Velha. O
    poder moderador, com a sua real corôa na cabeça e o seu real manto ás
    costas, era o primeiro a soprar, bochechudo, vermelho, heroico.
    Seguiam-se por ordem hierarchica os grandes do reino, alguns dos quaes,
    achando-se tão chupados e tão desfallecidos como a propria idéa que eram
    chamados a revificar com o seu alento, sorviam-a em vez de a bufar, e
    retiravam-se mais turgidos, mais tesos, mais grandiosos. Vinham depois
    as classes medias, que com a sentimentalidade que as caracterisa,
    choravam de ternura olhando para a fidalguia nobremente enfunados nos
    seus uniformes e lembrando-se de que ellas, miseras classes medias,
    tinham tido a honra de bufar à mesma idéa e pelo mesmo canudo que
    servira á primeira fidalguia d'estes reinos e ao augusto chefe do
    estado. O povo queria tambem soprar, mas os lojistas da Assembléa da
    Galocha e os empregados publicos do Gremio não o permitiam, e torcendo
    altivamente o bico das peras, diziam que a Idéa se não se podia pôr á
    mercê da populaça infrene e ignara. Vivendo assim á custa do sopro dos
    poderes legalmente constituidos e da burguezia, protegida pelos partidos
    conservadores e pela municipal, defendida pelos criticos do botequim do
    Martinho e pelos philosophos da carta constitucional da monarchia, a
    Idéa, definitivamente consagrada pelo applauso das grandes massas, deu
    entrada na Academia e no Instituto de Coimbra. Botaram-lhe ao pescoço a
    condecoração do lagarto. O sr. Mendes Leal votou-lhe a theorba,
    ajoelhou-se-lhe aos pés e propoz-lhe leval-a ás aras de Hymenen; ella
    porém, habituada a ser de todo o mundo, recusou a chamma ardente mas
    exclusiva do vate. Este, de pura dôr, pregou na parede um prego e
    suspendeu n'elle, por um laço de crepe, a theorba emmudecida e viuva.

    Nos ultimos annos a Idéa Velha desapparecera do bulicio do seculo e da
    communicação das gentes. Julgavam-a uns no Asylo, outros no Aljube.
    Algumas pessoas devotas tinham-lhe já resado por alma. Soube-se agora,
    com grande satisfação dos que a conheceram no galarim, que a Idéa Velha
    ainda está viva e que se occupa em andar a dias pelas casas particulares
    onde não ha outra idéa de dentro para o serviço da familia.

    * * * * *

    Os da Idéa Nova teem esta falha notavel: suppõem que a Idéa velha
    vigora, que domina, que reina ainda, que governa a consciencia humana,
    que prepondera nos destinos do mundo, E vêem-se moços honestos e
    engraçados, assumindo uma seriedade que faz arripiar os cabellos aos
    pathologistas, dispenderem o seu nervosismo precioso a combaterem, como
    se fosse uma força da natureza ou uma corrente da sociedade, aquillo que
    ha meio seculo não passa do um artificio convencional e de uma
    superfetação litteraria da banalidade e da insipidez ociosa, sem pega em
    nenhum dos interesses do espirito ou do coração do homem no tempo
    presente.

    * * * * *

    _O Primo Bazilio_, novo romance de Eça de Queiroz, é um phenomeno
    artistico revestindo um caso pathologico. Para bem se comprehender esta
    obra é preciso discriminar o que n'ella pertence á jurisdicção da arte e
    o que pertence aos dominios da pathologia social.

    * * * * *

    Eis a doença que este livro accusa:–A dissolução dos costumes
    burguezes.

    O mais caracteristico symptoma d'esse mal é a falsa educação. A educação
    burgueza tem um defeito fundamental: mantém na mulher a mais terrivel, a
    mais perigosa de todas as fraquezas, Esta fraqueza consiste no seguinte:
    No fundo mais intimo e mais secreto da sua existencia de artificio e de
    apparato a burgueza sente-se conscienciosamente mesquinha e reles. Vamos
    ver porquê.

    Porque na burguezia, na burguezia de Lisboa principalmente, ha uma
    desharmonia medonha, um contraste assombroso de desequilibrio entre a
    representação da vida exterior e o systema da vida intima.

    Basta olhar de fóra para as casas, basta considerar o aspecto exterior
    do templo para se fazer uma idéa do que póde ser dentro o culto d'essa
    religião–a familia!

    Comparem-se as nossas edificações urbanas, os casarões da
    baixa–rectangulares, batidos pelo sol mais ardente e pelos ventos mais
    asperos, desguarnecidos de venezianas, chatos, uniformes, rasos de toda
    a saliencia, de todo o ornato, como casernas ou como cadeias–com as
    graciosas construcções arabes da Andaluzia ou da Estremadura hispanhola,
    com o seu claustro interior, o poço de marmore ao centro do pateo, as
    galerias concentricas vestidas de trepadeiras em flor, abrindo sobre o
    pequeno jardim, que é o coração da casa. Comparem-se com as sabias
    edificações modernas do norte da Europa, da Inglaterra, da Allemanha, da
    Hollanda, da Dinamarca. Ponha-se a fachada de qualquer dos nossos
    predios do bairro central de Lisboa ao pé dos novos predios de esquina
    de rua no Hanover. As novas casas allemãs no stylo gothico francez,
    modificado segundo as exigencias da civilisação moderna, são obras
    primas de arte, inspiradas pela mais exacta comprehensão da hygiene, da
    moral, da estetica; são verdadeiros instrumentos auxiliares do melhor
    systema de educação. Construidos exteriormente de tijolos de tres côres,
    branca, côr de rosa e preta, ornados de pequenos eirados, de terraços
    cercados de hera, de estufas, de _logettes_, de aviarios em que se
    cantam os passaros, de balcões em que desabrocham as flores sempre
    frescas, esses predios, que teem a attractiva frescura exterior de
    outros tantos ramalhetes, são interiormente distribuidos do modo mais
    elegante, mais digno, mais acommodado aos deveres, aos respeitos, aos
    nobres prazeres da familia. A disposição mais escrupulosamente estudada
    do salão, da biblioteca, da casa de trabalho, da copa, do jardim, de
    todos os compartimentos interiores da risonha colmeia penetrada de boa
    luz e bom ar, permitte ás mulheres o saudavel prazer de girar na casa,
    activamente, n'uma grande variedade de aspectos pittorescos e alegres.

    As casas do centro do Lisboa, de uma uniformidade cellular monotona,
    parada como um olhar idiota, sem pateo, sem uma arvore, sem uma folha de
    verdura fresca e palpitante, tendo por amago o saguão sombrio e infecto,
    com a ultrajante pia no interior da cozinha ao lado do fogão por baixo
    das caçarolas, com alcovas sem luz, enodoadas pelas manchas dos canos
    rotos, inficionadas pelo cheiro nauseabundo do petroleo e da alfazema
    queimada, são os sepulchros da saude e da alegria.

    É n'essa serie de prateleiras, de gavetões de familias, que se chamam os
    _Arruamentos da Baixa_, que é educada a lisboeta.

    Uma senhora franceza, tendo viajado em toda a Europa e visitando
    recentemente Lisboa, communicava-nos esta profunda observação:

    «Noto um facto que me enche de perturbação e de horror–n'esta cidade
    não ha creanças.»

    Quizemos convencer do contrario essa senhora. Era em um dos primeiros
    bellos dias da presente primavera, de uma grande amenidade luminosa e
    balsamica, tinham chegado as andorinhas e as borboletas côr de palha,
    desabotoavam-se as rosas da Alexandria, appetecia desentorpecer os
    musculos na elasticidade de um bom exercicio, ouvir a agua, ver os
    musgos, passeiar ao sol. Fomos ao jardim da Estrella, ao da Patriarchal,
    ao de S. Pedro de Alcantara, ao do Campo de Sant'Anna, aos _squares_ do
    largo de Camões, da praça das Flores, do Aterro: lá encontramos
    effectivamente um pouco de sol, alguma relva, alguma agua, mas não
    encontramos uma unica creança, a cuja saude sua mãe se tivesse
    sacrificado por uma hora, abandonando n'esse breve espaço de tempo a sua
    preoccupação de magnificencia e vindo simplesmente com o seu trabalho ou
    com a sua leitura, de uma d'essas arvores, fazer crescer ao ar livre o
    seu filho, preparado para esse effeito com um bom banho e com um bibe
    fresco.

    Nos dias de bom tempo, emquanto a maioria das senhoras de Lisboa
    frequentam as lojas ou fazem visitas, onde é que estão as creanças? As
    creança estão dentro das casas que acima descrevemos–_a tomarem
    proposito. Tomar proposito_ é uma locução essencialmente local e
    intraduzivel, que quer dizer: aprender a não saber andar, a não saber
    rir, a estar quieto e a estar calado, a corromper os mais nobres
    instinctos da natureza humana, finalmente a dissimular e a mentir. A
    menina só principia a sair de casa depois de ter tomado o proposito
    indispensavel para não tagarellar imprudentemente, para não contar que
    houve favas para o jantar ou que o papá ralhou com a mamã. Haver favas
    para o jantar e ralharem o papá e a mamã é de resto tudo ou quasi tudo
    quanto se passa em casa, porque não ha interesses de espirito, nem ha
    instructivas occupações praticas. Falta o jardim, a grande escola da
    infancia onde os rapazes formam o caracter trepando ao alto das arvores,
    e as raparigas mondando os canteiros e protegendo os insectos e as
    flores. Tambem não ha biblioteca. Leem-se apenas as bisbilhotices do
    jornal e os romances das traducções baratas. Nenhuma especie de estudo.
    Nenhuma applicação intellectual. Ignorancia absoluta de todas as coisas
    da natureza e da vida. Aos sete annos a menina vae para o collegio, onde
    aprende o francez e o inglez. Esta educação completa-se em casa
    ensinando-se-lhe a tocar piano. Todas as prendas da sua educação são
    appendices de sua _toilette_: uma bonita letra, uma bonita pronuncia das
    linguas, e a _phantasia_, o bonito trecho de salão tocado no piano
    diante das visitas. Que sabe ella da arte, da sua natureza, da sua
    funcção sobre o nosso espirito? Que livros leu proprios para lhe
    suggerirem um alto ideal, para lhe darem o criterio artistico? Leu os
    jornaes noticiosos e as revistas de modas, os romances de Ponson du
    Terrail, de Xavier de Montepin, de Bellot, de Dumas filho. Não leu ou
    não entendeu nunca nenhum dos grandes educadores do espirito moderno,
    Michelet, Dickens, Andersen, Froebel.

    Não a interessa nenhum dos phenomenos da natureza, porque ignora
    completamente as leis que regem o universo e que determinam esses
    phenomenos.

    Não a distraem os interessantes cuidados do _ménage_, porque da casa,
    assim como da arte, assim como da natureza, o que aprendeu ella? Sem
    nenhumas noções da hygiene, nem da chimica alimentar, nem da historia
    das sciencias e das industrias que fornecem os instrumentos da
    actividade ou do conforto domestico, os graves arranjos da casa, tão
    moralisadores e tão attractivos, teem para ella o caracter de um mister
    gnobil, desprezível, adjudicado, com toda a porcaria que constitue a
    essencia da cozinha nacional, á discrição de uma criadagem villã, que
    retribue o desprezo de que é objeto traindo, maldizendo e roubando. Da
    casa o que ella sabe unicamente é que ha duas ou tres salas de apparato
    que se mostram ás pessoas de fóra; um quarto mais ou menos infecto, uma
    possilgueirinha mobilada pelo Gardé, em que ella dorme até ás dez ou
    onze horas; um criado que furta nas compras; uma cozinheira que dá
    respostadas; e uma latrina contendo um fogão em que por meio de varias
    borundangas cabalisticas e secretas consta que se fabrica a sopa.

    Na religião ella padece os mesmos descontentamentos vagos e confusos que
    a humilham na vida social. Devota, appetece as altas penitencias
    elegantes: as romagens á fonte de Lourdes; a oração em frente da gruta
    no meio de velhas princezas romanescas e beatas; os jubileus em S. Pedro
    de Roma; a contricção aos pés do summo pontifice, coberta de renda
    preta, entre os peregrinos da mais pura aristocracia, misturando ao fumo
    do incenso o perfume lascivo e penetrante do opoponax, emquanto os
    orgãos soluçam e o sol coado pelas vidraças coloridas se espelha nas
    couraças dos bellos guardas de bigodes torcidos e espadas
    desembainhadas. Presta ainda bastante consideração ás interessantes
    ceremonias da elegante religião nacional, como a do Mez de Maria na
    bonita igreja de S. Luiz, enramilhetada de brancas açucenas, fresquinha
    e graciosa, similhante a uma _bombonière_, ou como a da Semana Santa nos
    Inglezinhos, a cuja _petite entrée_ destinada aos intimos rodam os
    _coupés_ magnificos da piedade escolhida.

    Mas pelo Deus da sua convivencia habitual, pelo pobre Deus de gesso do
    seu _bènitier_ barato; pelo Deus da procissão do Carmo e da procissão da
    Saude, servido por padres barrigudos e oleosos, com as voltas sujas,
    arrotando mofetos atraz dos andores; por esse Deus um tanto caturra, um
    tanto carola, pelo Deus da Baixa em fim, ella não tem senão duvida ou
    desdem.

    Na moral as suas convicções baseiam-se em uma serie de principios
    theoricos, que ella viu sempre ou quasi sempre refutadas por uma serie
    contradictoria de interesses praticos, tirando esta conclusão: que o
    dever consiste na mais habil combinação que se possa fazer d'essas
    theorias e d'esses interesses para o fim de chegar a este ultimo
    resultado, ao qual tendem solidariamente todas as fraquezas das
    sociedades corruptas:–o socego.

    Aos dezessete ou dezoito annos ella entra no mundo, isto é, principia a
    ir aos bailes, a frequentar o theatro, a ler romances, a conversar com
    os homens. Percebe então vagamente que ha em alguma outra parte, n'outra
    região social, em outro bairro ou em outro paiz talvez, um mundo diverso
    do seu pequeno mundo insipido, ordinario, estupido: que nem todas as
    raparigas vivem como ella, pura boneca, no interesse exclusivo da moda e
    da _toilette_; com uma cabeça ôca; n'um quarto que não cheira bem; tendo
    um pae, automato de secretaria, de carteira ou de balcão, que pensa pela
    cabeça de um jornal barato e mal feito, e uma mãe que se enfastia
    medonhamente na sua bata e na sua ociosidade de cerebro, em revolta
    cntra o destroço dos annos e contra o preço crescente dos generos
    alimenticios, ralhando habitualmente com as criadas, ralhando com o
    aguadeiro, ralhando com o marido.

    Principia então a causar-lhe um tedio profundo, nauseante, a sua vida
    domestica: a casa de aluguel de que muda de anno em anno; o seu pequeno
    quarto sem tradições, sem historia, como o de uma estalagem; o saguão
    infecto, onde zumbem no verão as grandes moscas gordas e pesadas; a
    cozinha escura como uma exovia, deixando pender em esphacelamento as
    caçarolas gordurosas e as louças esbotenadas; a sala pretenciosa e
    inutil com os moveis angulosos e perfilados, o tapete com dois cavallos
    arabes defronte do sofá, a lythographia da mulher que sorri, o album dos
    retratos dos parentes com o seu ar endomingueirado e palerma, as flores
    de papel, as missangas, e o globo de vidro azul pendente de um cordão no
    meio dos cortinados.

    Ella tem um secreto ideal de grande elegancia, de alta distincção
    decorativa, o que quer que seja de superfino, de requintado, de exotico,
    similhante ao que viu no theatro ou ao que leu em um romance de
    Feuillet. E julga-se superior, predestinada para uma existencia mais
    nobre, incomprehendida no seu meio, que a envergonha. E nunca se refere
    á sua vida intima sem mentir. Mente ridiculamente a respeito das coisas
    mais simples, mais triviaes, e é para se dar um aspecto superior, para
    se encobrir do que é, que ella assim mente. Mente do modo mais miseravel
    a respeito dos criados que não tem, das visitas que não faz, da opera
    que não viu, dos livros que não lê, da modista a que não vae, dos banhos
    que não toma, dos jantares que não come, das dignidades, das distincções
    ou do luxo que não usa.

    Casada, procura finalmente realisar os seus sonhos de leitora de
    romances e de frequentadora dos dramas do theatro de D. Maria. Mas não
    lhe sae o que quer: não sabe organisar aprazivelmente a casa, não sabe
    tornar encantadora a familia.

    Humilhada, infeliz, começa a descorçoar a pouco e pouco da sua
    predestinação superior. Sente que ha na sua constituição moral uma falha
    da qual resulta o desequilibrio dos seus actos com as suas aspirações.
    Não se acha firme na posse da existencia. Falta-lhe essa tranquilla e
    serena harmonia que se chama a perfeita dignidade e que é o resultado da
    perfeita educação.

    Se n'esse estado de espirito um homem que ella tenha por eminentemente
    superior a notar e a seguir, por pouco que esse homem conheça o facil
    processo de revigorar uma abatida vaidade romantica, ella cairá com uma
    simplicidade tragica.

    O homem superior, segundo o criterio da mulher em taes condições, é o
    dandy. Porque o dandysmo é a unica fórma sob a qual a distincção se lhe
    apresenta como uma coisa perceptivel. O cerebro mais provido do nobres
    pensamentos terá para ella menos seducções do que uma cabeça bem
    penteada, de cabellos espessos, annellados, separados nitidamente por
    uma fina risca côr de rosa, perfumada de fresco. Nenhum encanto de
    espirito, nenhuma delicadeza de coração, nenhuma virtude de caracter
    exercerá sobre a imaginaçãoo d'ella a fascinação com que a subjuga a
    alta elegancia authenticada aos seus olhos pelo crevetismo precioso. O
    seu homem superior, o seu homem irresistivel, o seu homem fatal, será
    aquelle que usar no seu banho a mais fina perfumaria, o que houver
    jantado nos mais celebres restaurantes do _boulevard_, o que se vestir e
    se calçar nos primeiros fornecedores da Europa, o que mais se tiver
    desgastado do musculos e do cerebro nos altos vicios, o que mais
    segredos tiver para contar das suas intimidades no mundo especial cujas
    mulheres consomem por dia cem ou duzentos luizes em _foie gras_, em
    _Champagne Clicot_, e em _Cold-creame_.

    Se um tal homem, seccado, aborrecido, verdadeiramente estoirado nos
    refinamentos da sensualidade, habituado a raspar os seus sapatos nos
    tapetes de Smyrna dos _boudoirs_ forrados de setim, envoltos em renda de
    França, mobilados de sandalo fosco esculpido, cheirando ás penetrantes
    essencias de Lubin e á febre mal dissipada das devoradoras noitadas; se
    um tal homem, dizemos, se ajoelhar um dia aos pés d'ella, para lhe dizer
    obscenidades ao ouvido, as mesmas obscenidades que dizia ás outras,
    _amando-a_ finalmente, amando-a elle, apezar do que ella considera as
    suas inferioridades: apezar das suas meias com uma passagem, apezar do
    seu joelho desformado pela falta de circulação proveniente de um defeito
    caracteristico da sua raça, o defeito de não saber atar as ligas; apezar
    ainda do seu quarto cheirando a pia, dos seus sapatos mal feitos, do seu
    espartilho barato, da sua _toilette_ da Baixa, da sua pomada de botica e
    do seu halito de dyspeptica denunciando um pouco a cebola do refogado
    nacional … Se, apezar de tudo isso, tão desdenhoso, tão frio, tão
    gloriosamente corrupto, traçando a perna, descobrindo desleixadamente as
    suas meias de seda bordadas, torcendo no dedo os seus anneis inglezes,
    encasando no olho o seu monoculo, aproximando n'uma intimidade
    attenciosa e benevola as scintillações do seu correcto _plastron_ de
    Poole, e as exhalações frescas e aromaticas do seu bigode e do seu
    cabello frisado á Capoul, elle souber pedir, ella pela sua parte não
    saberá negar.

    * * * * *

    Tal é o caso de pathologia social, caso profundamente verdadeiro,
    medonho, tragico, sobre o qual Eça de Queiroz escreveu _O Primo
    Bazilio_, romance realista.

    Realista porque? Por isso mesmo que exprime uma convicção social, e é
    esse o caracteristico essencial da arte moderna. O romantismo não tinha
    senão convicções esteticas, e satisfazia assim as necessidades de
    espirito da sociedade que fez a Revolução, que caiu no Imperio, que
    supportou as guerras de Bonaparte, e cujos cerebros não pediam á arte de
    1830 senão uma coisa: serem acalmados e adormecidos. Os poetas então
    cultivaram o idyllio amoroso e fizeram poemas dos seus proprios estados
    de espirito; os romancistas e os dramaturgos inspiraram-se nas tradições
    gothicas da edade media e fizeram uma restauração litteraria e burgueza
    da cavallaria. De resto, nos artistas romanticos, perfeita emmancipação
    da forma mais profunda indifferença pela questões sociaes do seu tempo.
    Elles foram successivamente ou cumulativamente catholicos, pantheistas,
    atheus, monarchicos, realistas, imperialistas, republicanos, scepticos,
    phylanthropos.

    A sociedade actual deixou de ser uma sociedade que repousa. É uma
    sociedade que se reconstitue inteiramente e profundamente desde todas os
    pontos da sua peripheria até as mais reconditas intimidades do seu ser.
    Esta reconstituição não se está fazendo empyricamente pela revolução ou
    pela sentimentalidade, está-se fazendo scientificamente pela
    convergencia harmonica de todos os esforços intellectuaes sobre o mesmo
    problema. Comprehendeu-se que são solidarios todos os estudos, os do
    mundo inorganico e os do mundo organico; que são correlativas todas as
    leis desde a da indestructibilidade da materia até a da evolução social;
    que finalmente se não póde chegar ao conhecimento positivo de nenhum
    phenomeno, quer da natureza, quer da sociedade, sem conhecer
    integralmente a serie ou a sequencia de series em que elle é o elo que
    prende um phenomeno anterior a um phenomeno subsequente.

    N'esta liga de todos os espiritos para um fim commum, liga tão estreita,
    que cada nova lei, cada nova theoria, cada nova hypothese em qualquer
    dos ramos da sciencia se reflecte na direcção de todo o trabalho mental
    em qualquer das suas manifestações, dando por exemplo a theoria
    zoologica da adaptação ao meio um methodo novo na critica,–n'esta liga,
    dizemos, a arte não póde deixar de ter um papel diverso do que tinha ha
    trinta annos. Esse papel é-lhe imposto fatalmente pela nova orientação
    mental da sociedade. A arte moderna não póde já hoje basear-se em
    risonhas conjecturas abstractas, tem de assentar, para que nos interesse
    e para que tenha a importancia de um agente da civilisação, em factos de
    caracter scientifico, isto é: em factos que sejam a funcção de leis
    sociologicas. Queremos factos, não queremos exclamações: _Res non
    verba_.

    Foi da palavra _res_, tomada precisamente n'essa accepção litteral, que
    se tirou a designação _realismo_.

    Chamar realismo ao que é puramente grosseiro, ao que é descarado, ao que
    é torpe, é calumniar o dogma. Uma obra de arte póde conter o maximo
    numero de torpezas e de obscenidades e não deixar por isso de ser
    simplesmente lyrica.

    O _Primo Basilio_ é um romance realista porque é a representação de um
    facto social visto atravez de uma convicção scientifica. Luiza, a amante
    do primo Basilio, é a personificação tremenda da tendencia morbida de
    uma epoca. E é n'isso que consiste a alta moralidade do livro. O ser
    Luiza _castigada_ (para nos servirmos da velha formula que via a moral
    dos livros no premio que n'elles se concedia á virtude e no castigo com
    que n'elles se fulminava o vicio), o ser castigada por meio de uma morte
    afflictiva é um facto accessorio, que não conteria senão esta moral
    negativa, se d'elle se quizesse extrair uma moral:–que para evitar a
    morte por desgosto se deve attender no adulterio a que se queimem as
    cartas.

    A moral d'este livro não está em que a prima de Basilio morre depois da
    queda; está em que ella–_não podia deixar de cair_.

    Reconhecemos que esta moral é pouco accessivel á maior parte das
    comprehensões. Esse é o grande mal do livro, ou antes esse é o grande
    mal da litteratura de que o livro faz parte. O _Primo Basilio_ suppõe um
    estado de civilisação artistica e litteraria superior á que existe na
    sociedade portugueza. Suppõe manifestações parallelas nas applicações da
    philosophia, na moral, na arte da pintura, na arte das construcções, na
    hygiene, na politica, na pedagogia, na critica das instituições, na
    critica dos costumes, na propria critica da arte.

    Ora essas manifestações não existem por emquanto n'um estado de
    vulgarisação que determine uma corrente harmonica no sentido a que se
    dirige a arte tal como a comprehende, do modo mais elevado, o auctor do
    _Primo Basilio_. A sociedade portugueza não comprehendeu ainda de um
    modo collectivo e solidario, que é urgentemente indispensavel por todas
    as manifestações do pensamento proceder á reconstituição da educação
    burgueza.

    De sorte que o dizer-se, como n'esse livro, á mulher nossa
    contemporanea: «Eis–aqui está o modo pavorosamente simples como tu te
    rendes da maneira mais ignobil ao mais ignobil dos homens»,–parece um
    insulto áquellas que são as nossas amigas, algumas d'ellas as nossas
    companheiras de trabalho, as nossas mães, as nossas irmãs, as nossas
    filhas. Essa affirmação, porém, deixaria de ter um caracter
    apparentemente aggressivo se o artista podesse accrescentar:

    «Eu não sou um homem isolado no meio da sociedade a que pertenço. Sou
    uma parte d'essa legião de trabalhadores dedicados, profundamente
    honestos, que se sentem impellidos na obscuridade do seu estudo por esta
    ambição heroica:–tornar o mundo mas bello e a humanidade mais digna. Na
    minha qualidade de artista, a ti mulher que me lês, o mais que eu posso
    fazer é commover-te de um modo profundo, levantando para esse fim o
    problema que mais directamente prende com o que ha em ti mais sagrado,
    com a tua castidade, com a tua honra. O amor clandestino, que a arte
    romantica personificava aos teus olhos em figuras apaixonadas, de um
    alto vigor dramatico, de um relevo fascinante, offereço-t'o eu tal como
    elle hoje te ha de apparecer na vida real, na pessoa de um biltre
    asqueroso, bem vestido, correcto, pelintra no fundo, meio principe e
    meio forçado das galés, friamente calculador, sovina, absolutamente
    pôdre. E é esse o homem que tu, pobre rapariga honesta, de preconceito
    em preconceito, de erro em erro, és trazida, atravez de todos os
    elementos que constituem a falsa educação que te deram, a admirar e a
    proferir sobre todos. Se na sociedade a que tu pertences e a que eu
    pertenço ha uma religião, se ha uma politica, uma moral, uma sciencia,
    um jornalismo, uma critica, todos esses poderes mentaes harmonicamente e
    convergentemente estarão n'este momento–no momento em que eu tenho a
    concepção artistica do _Primo Basilio_–actuando sobre todas as
    influencias que te rodeiam para o fim de te darem da vida domestica, do
    amor, da familia, da dignidade, do dever, uma comprehensão nova, assento
    em factos verificaveis, geometrica, positiva, inabalavel. Á religião
    compete elevar e fortalecer positivamente a tua consciencia ou
    demittir-se da solução do teu problema. Á politica, emprehender a
    reforma das instituições em vista do teu aperfeiçoamente. Á moral,
    fazer-te comprehender a noção da justiça. Á sciencia, o determinar com a
    maior clareza as leis eternas do teu destino. Ao jornalismo, o fazer a
    applicação d'essas leis aos phenomenos sociaes de cada dia. Á critica,
    finalmente, o explicar-te a minha obra. A mim, porém, não me competia
    como artista senão uma coisa: depois de conceber espontaneamente a minha
    these, fazel-a viver na maxima elevação esthetica: porque meio? por meio
    da mais perfeita fórma que pode attingir a arte. Foi o que eu fiz.»

    Se com a natureza essencialmente artistica de Eça do Queiroz fosse
    compativel a humildade de uma explicação n'essas bases, o seu livro
    teria no leitor uma influencia de muito maior alcance moral. Mas um
    artista tem a obrigação de se não explicar,–o que seria invadir uma
    funcção alheia na justa divisão do trabalho intellectual moderno. Ha um
    gosto publico do qual precede uma critica official, assim como ha uma
    religião do Estado da qual procede uma hypocrisia publica. Ora assim
    como o philosopho deve ser indifferente á theologia, o artista deve ser
    indifferente á opinião. Mas esta independencia da philosophia e da arte,
    se por um lado é a condição essencial da sua missão perante a pura arte
    e perante a pura philosophia, por outro lado ella é a principal causa de
    ficarem por muitas vezes addiados os mais importantes problemas perante
    a comprehensão dos espiritos e a satisfação das consciencias.

    Taes foram as razões porque–ao terminar ha mez e meio a leitura do
    _Primo Bazilio_,–uma tão perfeita obra, que a consideramos como sendo
    uma d'aquellas que mais honram a humanidade e de que mais se deve
    gloriar uma litteratura–nós fizemos esta prophecia: Que este livro
    seria como um d'esses complicados instrumentos mechanicos destinados á
    observação dos mais delicados phenomenos da chimica, da optica ou da
    biologia, instrumentos inuteis–ás vezes perigosos–para todo aquelle
    que não tem a sciencia de os pôr em exercicio e de ver por elles a
    divina revelação de um novo mundo.

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_, publicando o retrato e a biographia do sr.
    Osborne Sampaio, tece-lhe o seguinte elogio:

    «Conta-se que estando ha dois annos em Cauterets, chegou um dia, depois
    de jantar, a uma janella e lembrando-se do admiravel panorama que se
    desfructa da sua casa de Lisboa, uma das melhor situadas,
    exclamou:–Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta!»

    * * * * *

    O _Diario Illustrado_ não ousa affirmar de um modo terminante que o sr.
    Sampaio tivesse effectivamente proferido aquellas memoraveis palavras; o
    _Diario Illustrado_ diz apenas: _Conta-se …_

    Ora este caso não se póde deixar assim envolvido na duvida. São
    historicas as palavras do sr. Sampaio ou são puramente uma legenda das
    montanhas, inventada pela imaginação supersticiosa dos pastores dos
    carneiros negros, ou pela tagarelice anecdotica dos mercadores da feira
    de Tarbes? Póde o _Diario Illustrado_ firmar com a sua palavra de honra
    a authenticidade d'aquellas expressões? Foi effectivamente o sr. Sampaio
    que as proferiu? Interroguemos gravemente as nossas reminiscencias! …
    Não seria antes algum dos outros heroes já celebres na historia da
    cordilheira dos Pyreneus? Não seria o paladino Rolando, sobrinho de
    Carlos Magno, marido de Alda a Bella, o que antes de morrer quebrou a
    Durindana na batalha de Roncesvalles? Não seria o proprio Carlos Magno?
    Não seria Sancho o Encerrado, ou seu genro Theobaldo, conde de
    Champagne? Não seria Plantade, o Astronomo, que morreu em extase diante
    da belleza da paizagem, entre os valles de Baréges e de Bagnère?

    Está o _Diario Illustrado_ no caso de sustentar, debaixo de jura, por
    tudo quanto ha para elle mais sagrado, com a dextra sobre a cabeça do
    sr. Carvalho Ratado, que foi indubitativamente o sr. Osborne Sampaio
    quem, depois de jantar, à janella da hospedaria, palitando talvez os
    dentes, na casta simplicidade dos grandes heroismos, enunciou aquelles
    dizeres?

    Esperamos, tranquillos mas resolutos, a resposta de _Diario Illustrado_.

    Porque, se se chegar a confirmar irrevocavelmente que existe, com
    effeito, no nosso seculo e em um dos nossos pateos, um homem assás
    convicto em suas crenças, assás profundo em suas vistas e assás firme em
    suas resoluções, para ter dito um dia, de tarde, ao acabar de
    jantar:–_Quem me dera já na minha casa do pateo do Pimenta_–; se tal
    phrase não é uma ficção, se ella existe realmente fóra do estado
    abstracto de suspeita destituida de fundamento,–o paiz não póde cruzar
    os braços, inerte. Seria indigno, porque nunca palavra tão lucida como a
    que o _Illustrado_ cita marcou a differença, toda favoravel á nossa
    patria, que distingue os Pyreneus e o Ferregial de Baixo!

    * * * * *

    Os regulamentos disciplinares da universidade de Coimbra teem dado
    ultimamente em resultado riscar um avultado numero de estudantes pelos
    seguites delictos, cada um dos quaes foi objecto de um processo
    especial:

    1.º Rir atraz da procissão dos Passos.

    2.º Ser testemunha de um duello abortado, proposto a um professor por um
    viajante.

    3.º Não ter dado pateada a um lente.

    4.º Parecer constrangido a dar lição.

    5.º Jogar o pugilato com um ou mais futricas nas ruas de Coimbra.

    * * * * *

    Os alumos condemnados pela perpetração dos delictos 1, 2, 3 e 4
    appellaram para o Poder Moderador, o qual lhes commutou a pena de
    expulsão temporaria em alguns dias de cadeia.

    Procedendo d'essa forma o Poder Moderador não tomou em consideraçãoa
    necessidade de fazer proceder á revisão da legislação academica. O Poder
    teve apenas em vista o _desgosto_ infligido pela sanção dos regulamentos
    universitarios ás familias dos alumnos condemnados:–No que o Poder
    mostrou ter um coração do excellente rapaz alliado a um cerebro de
    legislador mediocre.

    * * * * *

    Está pendente da confirmação regia, segundo nos consta, a pena imposta
    aos reus do crime n.º 5, julgados já segundo o direito commum e
    absolvidos pelos tribunaes civis.

    N'esta conjunctura perguntamos:

    É admissivel que sobre o mesmo facto recaia por esse modo o julgamente
    de dois tribunaes parallelos? Pode a sociedade tolerar que cidadãos de
    uma certa classe estejam sujeitos por uma legislação especial a serem
    julgados em dois foros distinctos, recebendo duas punições em vez de
    uma, se as duas sentenças forem conformes; ou sendo simultaneamente
    tidos por innocentes e tidos por culpados, se as duas sentenças forem
    contrarias?

    Responder-nos-hão que o tribunal academico julga de circumstancias
    especiaes que não são submettidas á apreciação dos tribunaes ordinarios?

    Mas n'esse caso o tribunal academico com relação ao crime de que se
    trata toma o caracter de um tribunal escolar ou de um tribunal de honra.

    Como tribunal escolar á Universidade cabe apenas decidir se o facto de
    sovar um futrica obsta a que se aprenda uma lição.

    Com tribunal de honra a Universidade precisa de não perder de vista que
    quando se trata d'algumas bofetadas ou d'alguns pontapés, o deshonrado
    não é propriamente quem os dá, é por via de regra quem os recebe.

    Se a Universidade insiste em julgar sob outro ponto de vista as questões
    d'esta ordem, a Universidade converte-se em uma escola de poltrões e de
    covardes, destinada a dissolver completamente os restos de virilidade
    que ainda possa haver na mocidade portugueza.

    Todo o homem que se não acha devidamente temperado na sua natureza
    physica e na sua natureza moral para o fim de resistir energicamente,
    com risco da sua propria vida, a uma offensa pessoal, é um homem
    corromido, sem o sentimento do respeito devido á dignidde da sua
    especie, atreito ás paixões mesquinhas, com manhas de reptil.

    * * * * *

    Se a Universidade tem o intento de educar os seus bachareis para
    sevandijas ou para freiras, a Universidade faz bem proseguindo no velho
    systema que tem por fim levar o estudante que queira concluir
    honrosamente os seus estudos a proceder diante diante das ameaças da
    força alheia por um d'estes dois modos: fugindo ou apanhando.

    Se porém a Universidade quer fazer verdadeiros homens e verdadeiros
    cidadãos, a universidade andaria melhor abstendo-se de uma vez para
    sempre da instauração de processos ridiculamente pueris, requerendo das
    côrtes a reforma dos seus regulamentos disciplinares, prescindindo de
    atrophiar no coração da mocidade com um regimen fradesco os sentimentos
    naturaes de valor e de brio, e pondo cobro ao passatempo indigno da
    velha troça academica por meio da instituição de exercicios viris,
    proprios de uma mocidade honesta e forte:–a gymnastica obrigatoria, a
    escola de tiro, a esgrima, a lucta, o insubstituivel _cricket_.

    * * * * *

    No paiz mais tradicionista e mais formalista do mundo,–no paiz em que
    Deus segundo Taine é um personagem official com os seus cortezãos e os
    seus aulicos,–no paiz em que tendo uma vez esquecido fallar da
    Providencia n'um discurso da corôa o chefe do estado fez novo discurso
    para prehencher essa omissão,–na velha, na religiosa, na solemne
    Inglaterra emfim, John Tyndal, proferindo recentemente a allocução
    presidencial do _Birmingham and Midland Institute_, disse as palavras
    seguintes:

    «Dir-me-hão que supponho um estado de cousas determinado pela influencia
    das religiões e comprehendendo os dogmas da theologia e a crença no
    livre arbitrio, um estado, em summa no qual uma maioria moralisada
    fiscalisa e disciplina pelo medo uma minoria immoral. Sendo perverso, e
    perverso sem esperança, o coração do homem, dir-me-hão que se fossem
    abolidas as sancções theologicas a raça inteira se modelaria por alguns
    exemplos de depravação individual. Tornar-nos-hiamos todos ladrões e
    assassinos. Porque é só o medo que nos refreia, e, se eliminassemos o
    medo, não conheceriamos mais do que o instincto natural e
    desconheceriamos o dever.

    «Tenho de responder que me recuso absolutamente a admittir similhantes
    conclusões. O scelerado não é em minha opinião a imagem da humanidade.
    _Bebamos e comamos porque temos de morrer ámanhã_ não é a consequencia
    ethica da regeição dos dogmas.

    «As doutrinas moraes dos atheus nossos conhecidos são taes que nenhum
    christão se envergonharia de as professar, e nenhum christão as censura
    senão desde que conhece a origem de que ellas procedem.

    «Reconheço de todo o coração e sou o primeiro a admirar a irradiação
    espiritual, se assim ouso exprimir-me, que a religião produz na vida de
    varias pessoas que conheço. Mas não posso tambem deixar de confessar que
    muitas vezes a relligião passa por estrondosas derrotas ao procurar
    produzir alguma coisa bella. O apostolo e o campeão da religião é
    frequentemente um simples tagarela, um pouco clown. Essas differenças
    procedem de distincções primordiaes de caracter que a religião é
    insufficiente para nivelar.

    «Dá uma verdadeira satisfação o sabermos que existam no nosso gremio
    homens a que os batalhadores do pulpito chamam _atheus ou materialistas_
    e cuja vida, não obstante, experimentada na pedra de toque de uma
    moralidade accessivel contrasta de um modo mais que favoravel com a vida
    d'aquelles que buscam aviltal-os com essa designação offensiva.

    «Quando digo _offensiva_ quero simplesmente alludir aos que empregam
    aquelles termos, não que eu pense que o _atheismo e o materialismo_,
    comparados a muitas noções sustentadas pelos jornaes religiosos, tenham
    em si um caracter offensivo.

    «Quando eu quizer achar um homem escrupuloso nos seus contratos, fiel á
    sua palavra e cuja regra moral se ache solidamente estabelecida; quando
    eu quizer achar um pae amante, um esposo fiel, um visinho honrado, um
    cidadão justo, procural-o-hei, com a certeza de o encontrar, entre esses
    atheus a quem acabo de me referir. Tenho-os conhecido tão firmes na
    morte como o tinham sido na vida. Ao expirar elles não esperavam a corôa
    celeste, e todavia lembravam-se tanto dos seos deveres e eram tão
    zelosos em os cumprir como se a sua vida futura dependesse do mais recto
    emprego dos seus ultimos momentos.»

    Em seguida Tyndal cita os exemplos de dois homens notaveis, um dos quaes
    é christão, o outro não.

    O christão é Faraday, que Tindal considera um modelo da associação da fé
    religiosa com a elevação moral. O seu caracter é o mais proximo da
    perfeição. A religião era-lhe necessaria: era a luz, ora a consolação
    dos seus dias. Era forte mas meigo, impetuoso mas docil; uma cortezia
    peregrina distinguia o seu commercio com os homens e com as mulheres, e,
    comquanto nascido do povo, a sua fina natureza era digna da mais
    delicada flor da cavalleria.

    O que não é christão chama-se Darwin. Não tem o ponto de vista
    theologico nem a commoção religiosa que constituiam um tão poderoso
    agente na vida de Faraday, e todavia Darwin tem a perfeição moral de
    Faraday. «O sr. Darwin, diz Tyndal, é uma natureza candida e simples, um
    caracter terno e forte, um espirito profundo e da mais alta moralidade;
    é o Abrahao dos homens da sciencia, sacrificador tão docil ás ordens da
    verdade como o patriarcha antigo ás ordens do seu Deus.»

    * * * * *

    Estas nobres palavras, inspiradas pelo mais profundo sentimento de
    verdade, de justiça e de amor, ditas por um homem da auctoridade moral
    de Tyndal, teem um caracter solemne, quasi sacerdotal. Deffinem
    exemplificadamente o dogma scientifico da virtude inherente á cultura da
    intelligencia humana e mostram experimentalmente a existencia de uma
    moral independente de toda a especulação theologica. Que fecunda these
    para ser exposta e defendida diante de um auditorio feminino no estado
    presente dos espiritos, em que as convicções do homem estão geralmente
    em contradição com as crenças da esposa e da filha, e em que tão
    necessario se torna portanto á harmonia moral da familia o principio
    fundamental da conciliação das consciencias!

    * * * * *

    Na reunião do ultimo congresso dos obreiros de Lyon um simples operario
    mechanico chamado Jacquemin, delegado de uma pequena aldeia da
    Haute-Saône, expõe com uma concisão profundamente lucida as causas que
    determinam a inferioridade mental dos trabalhadores do campo,
    tornando-os mais proprios do que quaesquer outros para serem
    escravisados pelos poderes clericaes.

    Depois de semeado o campo pelo lavrador, um segundo trabalho estranho
    aos esforços do obreiro começa lentamente a operar-se: os trigos
    crescem. Crescem em virtude de que lei?

    Tal é a pergunta que o lavrador faz a si proprio. Sabe-se como lhe
    respondem aquelles que são encarregados de o instruir e de o educar. A
    noção que elle recebe ácerca do modo como o trigo cresce torna-o
    fatalista e como tal facilmente susceptivel de se deixar dominar e
    embair. Qual é o meio de o emancipar? Jacquemin responde: O meio é
    ministrar-lhe a cultura intellectual de que elle carece. E o orador
    operario acrescenta:

    «Faz-se geralmente crêr ao lavrador europeu que as suas sementeiras se
    desenvolvem em resultado de uma força cuja paternidade vem de Isis, ou
    de Osiris, divindades que deixaram de reinar. A vontade do Isis fazia
    crescer n'outro tempo o trigo dos antigos egypcios. Agora é o deus de
    Mahomet que reina no Egypto. O trigo, pela sua parte, continua a
    amadurecer nas mesmas condições em que amadurecia n'outro tempo. A ruina
    dos successivos templos e das successivas religiões em nada tem alterado
    as leis da natureza. E todavia dá-se por toda a parte o mesmo estado de
    coisas: O indio crê que Brama intervem nos seus campos de arroz. O chim
    vê nos seus o grande Todo. Em outros sitios é Budha. Para os gregos e
    para os romanos era Ceres. Para uma parte da Asia é o grande Lama. Na
    Africa é a grande serpente, a grande cobra ou o grande espirito.

    «Tudo isto tem naturalmente produzido diversas corporações de
    sacerdotes. Dizei-lhes que se ponham de accordo uns com os outros? …
    Respondeis-me que é impossivel. É effectivamente impossivel, o que é de
    certo uma desgraça! Esse porém é o facto historico, que não podemos
    deixar de assignalar. Esse facto infunde uma grande tristeza, porque
    sobre as questões que elle suscita tem sido derramado o sangue de muitas
    gerações.

    «É a guerra, é a guerra de religiões. É tempo de lhe pôr um termo. É
    tempo de estabelecer em bases demonstradas e accessiveis a todos a
    legislação humana e a moral universal.»

    * * * * *

    Em Portugal os homens e as mulheres das cidades, os homens e as mulheres
    do campo acham-se inteiramente ao abrigo das suggestões de idéas e de
    principios que possam inferir-se das eloquentes palavras de Tyndal e de
    Jacquemin. Em Portugal todas as palavras que exprimem fortes e sinceras
    convicções de sciencia ou de simples bom senso são consideradas
    perigosas e banidas das discussões publicas.

    Debalde a historia da civilisação ingleza n'este seculo nos demonstra
    que a tolerancia absoluta na manifestação do pensamento é a primeira
    garantia da ordem na sociedade, que a maxima latitude na controversia
    das idéas mantem sempre os problemas dentro da esphera expeculativa,
    evitando assim que a orbita das applicações praticas seja invadida pelos
    principios que não foram d'ante mão sanccionadas na opinião e pelas
    reformas que ella não exigiu em nome de novas necessidades provenientes
    de um mais alto estado do espirito ou da consciencia publica. Tal é o
    methodo que tem preservado a sociedade ingleza das perturbações graves
    que a impaciencia dos reformadores, não experimentada na pedra de toque
    de uma discussão liberrima, lançou na vida pratica de outras nações,
    como succedeu em França depois do segundo imperio, que corrompia todos
    os debates intellectuaes, e em Hispanha depois do reinado de Isabel, que
    esmagava todas as tentativas publicas de livre raciocinio.

    Em Portugal essa importante lição tem sido absolutamente esteril.

    Quando as conferencias democraticas inauguradas na sala do Casino
    mostraram uma ligeira tendencia para produzir idéas, o governo sem
    nenhuma outra forma de processo supprimiu as conferencias.

    Quando depois d'isso alguns individuos suspeitos de atheismo resolveram
    manifestar posthumamente as suas idéas solicitando para os seus
    cadaveres o enterro civil, o governo interveiu ainda, restringindo por
    todos os meios ao seu alcance–meios tumultuarios, illegaes,
    vexatorios–a vontade do atheu menos perigoso que se conhece,–o atheu
    morto.

    Se nas escolas superiores se encontram professores benemeritos que
    expõem impunemente nas aulas das sciencias naturaes e das sciencias
    physicas algumas doutrinas positivas, experimentaes, estando por esse
    facto em desaccordo manifesto com os dogmas e com as concepções
    theologicas impostas ao espirito pela carta constitucional da monarchia,
    a impunidade d'esses professores, dizemos, não se deve attribuir á
    tolerancia philosophica do poder. Ella é simplesmente o
    resultado–n'este caso benefico–da indisciplina geral dos serviços
    publicos.

    Ha professores que affirmam principios scientificos, exactamente como ha
    professores que manteem no espirito da mocidade os erros mais
    vergonhosos e mais crassos alheios á doutrina dos programmas. Ha lentes
    que estão acima da lei pela mesma razão que ha outros que estão abaixo
    d'ella:–por falta de inspecção e de policia.

    Um facto recente dá-nos a prova mais cabal de que o estado não é
    solidario nos progressos scientificos da nação, e que estes se operam
    não sob o favor ou sob a tolerancia dos governos, mas sim apezar da
    intolerancia que elles assumem e dos meios correctivos de que elles se
    armam.

    Veja-se o modo como foi discutido e como foi emendado na camara dos
    dignos pares o ultimo projecto de lei sobre a instrucção primaria!

    Eis as palavras proferidas sobre este assumpto por um dos legisladores
    mais moços e mais instruidos d'aquelle sabio congresso:

    «_O sr. conde de Rio Maior_ (copiamos o extracto da sessão, publicado do
    _Jornal do Commercio_), _não é adversario do desenvolvimento da
    instrucção primaria, porque não deseja que continue a subsistir o estudo
    de ignorancia do nosso povo, onde a proporção dos que sabem ler é de 1
    para 25, emquanto na Allemanha, Hollanda, Belgica, etc., é de 1 para 6.
    Mas não deseja que se vote o estabelecimento do ensino obrigatorio.
    Prefere a liberdade do ensino, porque julga mais conveniente que os paes
    tenham a liberdade de darem aos filhos o ensino que lhes parecer mais
    proprio. Póde haver um individuo analphabeto mas que seja homem de ordem
    e temente a Deus, que não queira mandar o seu filho a uma escola cujo
    mestre ensine doutrinas perigosas. Lembra que nos tempos das nossas
    maiores glorias, embora a instrucção estivesse pouco diffundida, a nação
    portugueza attingiu um alto grau de prosperidade; não pretende dizer com
    isto que deixe de se derramar a instrucção, porque tambem é apostolo
    d'esta idéa, mas quer que essa instrucção seja ao mesmo tempo moral e
    religiosa.»_

    A affirmativa de que a nação portugueza attingiu um alto grau de
    prosperidde no tempo das nossas maiores glorias, _embora a instrucção
    estivesse pouco diffundida_, é um erro de historia que o nobre conde
    quiz commetter de certo intencionalmente para o fim de nos persuadir que
    não é pelo excesso de instrucção em s.ex.ª que a gloria e a prosperidade
    deixaram de nos sorrir. O sr. conde de Rio Maior não podia realmente
    ignorar que o periodo mais prospero e mais glorioso da nacionalidade
    portugueza, o periodo das nossas conquistas e dos nossos descobrimentos,
    foi tambem o periodo da nossa maior cultura intellectual.

    Esse periodo principia com o advento da dynastia de Aviz. Se o sr. conde
    quer achar a differença que distingue esse tempo do tempo actual,
    compare o mestre de Avis com qualquer dos soberanos da casa de Bragança.

    D. João I era ao mesmo tempo um cavalleiro, um phylosopho e um
    litterato. Teve a honra de hospedar na sua côrte o grande pintor
    Van-Dyck e edificou a Batalha, um monumento de arte mais efficaz elle só
    para formar a educação esthetica de um povo do que dez universidades e
    vinte academias. Hoje edifica-se a penitenciaria, e o ultimo dos
    artistas celebres que recentemente veiu a Portugal, o illustre pintor
    Palmarolli, hospedou-se em uma estalagem e apenas conheceu da côrte
    portugueza um dos seus fidalgos, que o chamou da janella do seu palacio,
    em Cascaes, para lhe comprar agulhas e alfinetes, por ter supposto, ao
    vel-o passar com uma caixa de tintas, que era um bufarinheiro.

    Dos filhos de D. João I um é o infante D. Duarte, o creador da primeira
    bibliotheca que existiu em Portugal, o eximio litterato auctor do _Leal
    Conselheiro_. Outro era o infante D. Pedro, o que viajou _as sete
    partidas do mundo_, auctor da _Vertuosa Bemfeitoria_ e um dos homens
    mais profundamente eruditos da Europa no seu tempo. Outro era D.
    Fernando, o captivo de Fez, o que teve por secretario Fernão Lopes. O
    ultimo finalmente e o maior era D. Henrique, o iniciador das nossas
    navegações, o fundador da chamada _Escola de Sagres_, o mais poderoso, o
    mais grave, o mais austero centro de estudo de que ainda foi objecto a
    sciencia do ceo e a sciencia do mar. Hoje o infante de Portugal é o
    senhor D. Augusto, conhecido de todos nós por o termos visto passar no
    Chiado e conhecido tambem n'um hotel de Loudres, onde o principe se
    hospedou juntamente com dois dos mais notaveis productos da arte
    nacional, que o acompanháram e que fizeram grande impressão na City,
    onde os tomáram por duas vaccas sem pernas. Eram os baús de sua alteza,
    feitos na rua dos Correeiros.

    Da escola de Sagres sairam Pedro Alvares Cabral, Vasco da Gama,
    Bartholomeu Dias, Fernando de Magalhães, Diogo Cão, Pedro da Covilhã,
    Gaspar Côrte Real, os mais intrepidos viajantes e os mais valorosos
    exploradores. Foi da influenzia d'elles e dos sabios que o infante D.
    Henrique e seus irmãos souberam attrair a Portugal, que procederam
    escriptores como Fernão Lopes, Gomes Annes de Azurára, Gil Vicente, João
    de Barros, Damião de Goes, Jeronymo Osorio, e Luiz de Camões, talvez o
    mais instruido e o mais sabio de todos os grandes poetas. Das escolas de
    hoje, a não ser por influencia de alguns professores precitos e
    apostatas que commetteram o sacrilegio de se libertarem do jugo
    official, saem apenas bachareis, que sabem quando muito bacharelar, e
    que vão para administradores de concelho ou para amanuenses de
    secretaria.

    No tempo da nossa prosperidade e da nossa gloria o povo era extremamente
    instruido. É certo que não sabia ler. Mas saber ler não constitue
    propriamente instrucção, mas sim um dos meios de instrucção. Ora o povo
    dispunha então de outros meios superiores á leitura. O marinheiro e o
    soldado educavam-se nas grandes viagens, os operarios educavam-se na
    confecção das mais bellas obras de arte, como o convento de Thomar, os
    Jeronymos, as capellas imperfeitas da Batalha, a torre de Belem. O povo
    de então não sabia ler os livros, mas sabia mais do que isso: sabia
    fazel-os. Foi o povo que ditou as narrativas sublimes da _Historia
    tragico maritima_, o mais admiravel, o mais bello, o mais dramatico, o
    mais commovedor, o mais eloquente livro de que se póde gloriar a
    litteratura de uma nação.

    A isso chama o sr. conde de Rio Maior achar-se pouco diffundida a
    instrucção! E conclue d'esse absurdo que um povo póde attingir a
    prosperidade sem sair da estupidez! Apezar d'esta singular theoria e das
    accumuladas contradições do seu texto, em que s. ex.ª ora é apostolo da
    instrucção, ora é apostolo da coisa contraria, o sr. conde de Rio Maior
    seria apenas inoffensivo. S. ex.ª, porém, conclue a sua notavel falla
    mandando para a mesa o seguinte additamento á lei que se estava
    discutindo:

    _O professor ou professora que no exercicio do magisterio primario
    ensinar ou inculcar doutrinas contrarias á religião catholica, á moral,
    á liberdade e á independencia patria será demittido nos termos d'este
    artigo, independente da acção criminal que deva ser intentada. Os paes,
    tutores ou pessoas encarregadas da sustentação e educação das creanças
    podem requerer collectivamente ou individualmante contra o professor ou
    professora que tiver commettido as faltas indicadas n'este artigo_.

    Eis ahi o que se não admitte, porque esta disposição legislativa
    proposta por s. ex.ª produz a fixação legal dos seus principios a
    respeito da instrucção, isto é: que deve haver instrucção e ao mesmo
    tempo que a não deve haver. Não é outra coisa senão eliminar a
    instrucção, depois de a ter decretado, o submettel-a por lei, sob pena
    de processo e demissão immediata do professor, aos principios da
    religião catholica. A Igreja abriu, n'este seculo principalmente, um tão
    profundo abysmo entre a concepção theologica e a explicação scientifica
    dos phenomenos do universo, que toda a conciliação é hoje impossivel
    entre o mestre e o padre. Não duvidamos que o christianismo possa ainda
    reassumir o seu antigo papel de sanccionador supremo de todas as grandes
    e definitivas conquistas do entendimento humano. O que é certo porém é
    que a direcção reaccionaria que elle tem recebido do pontificado romano
    desde a Reforma até hoje o inhabilita presentemente para realisar essa
    aspiração de todas as almas piedosas. Ou o Estado sustenta o padre ou
    sustenta o mestre. Constituir-se o defensor simultaneo d'esses dois
    interesses oppostos é impossivel. Pedimos licença ao sr. conde do Rio
    Maior para lh'o provar.

    Supponhamos que o alumno pergunta ao seu professor o que é o diluvio
    universal, que lhe pergunta qual é a idade da terra, que lhe pergunta o
    que é o homem pre-historico, o que são as florestas carboniferas, o que
    é o arco-iris, o que é o pára-raios, o que é transformação das especies,
    o que é a Torre de Babel, o que é o Eden; supponhamos que o alumno faz
    ao mestre qualquer das centenares perguntas d'este genero faceis de
    formular ácerca das affirmações da Biblia ou dos conhecimentos do homem.
    A essas perguntas o mestre não póde responder senão com o erro ou com a
    heresia. O sr. conde de Rio Maior e os dignos pares que adoptáram a sua
    emenda á lei da reforma da instrucção portugueza desejam que o mestre
    responda pelo erro.

    Mas isto é peior do que pôr de parte a sciencia; isto é, recebel-a para
    a contradizer e para a destruir; isto é converter a ignorancia publica
    em uma instituição do Estado.

    Diderot conta o caso do homem que procurava o seu caminho, á luz de uma
    lanterna, no meio da espessura tenebrosa de uma floresta. Alguem
    disse-lhe: Queres saber o meio de achar o caminho? eu t'o ensino … E
    apagou-lhe a lanterna.

    Quem foi que deixou no mundo esta lição?

    Foi o theologo.

    Um povo ignorante é um povo em trevas, cuja lanterna é a instrucção. O
    legislador portuguez que tomou o encargo de apagar a luz é o sr. conde
    de Rio Maior.

    * * * * *

    Notemos porém um facto consolador:

    O sr. conde de Rio Maior attesta sobre os theologos que o precederam uma
    sensivel diminuição de força. Elle mostra o ardor arrefecido e impotente
    de um velho sangue que se decompõe e se dessora. A idéa que elle tem no
    cerebro é uma idéa que se extingue.

    Ha cem annos s. ex.ª teria proposto o carcere, a tortura, a fogueira,
    para o mesmo crime para que hoje pede apenas, gaguejadamente, a demissão
    do professor e o processo pelos tribunaes civis.

    Inclinemo-nos diante de tão manifesta mansidão!

    Nos fins do seculo XVI o _pendão da santa doutrina_, um lugubre pendão
    negro, era levado pelas ruas de Lisboa, ao toque de uma campainha, por
    fr. Ignacio de Azevedo. Fr. Ignacio era então o professor idealisado
    pelo sr. conde de Rio Maior:_era o homem de ordem, temente a Deus_,
    argumentando a doutrina christã a este povo. Todas as mulheres e todas
    as creanças saiam ás portas a ajoelhar, sobre as immundicies, aos pés do
    tenebroso frade, que levava comsigo a sciencia ecclesiastica,
    amortalhada de negro, de cruz alçada, tangendo uma campainha, como quem
    leva um morto. Fr. Ignacio invadia as casas particulares, invadia os
    pateos da comedia, expulsava os comediantes, e subia elle mesmo ao
    tablado a explicar os differentes modos porque se pecca e os diversos
    methodos porque se mortificam os impetos da carne.

    Ainda no seculo passado Pina Manique obrigava os professores a levarem
    os estudantes á missa, do que colhiam nas sacristias uma certidão sobre
    a qual se pagavam mensalmente os respectivos ordenados.

    Hoje a parte disciplinar da nossa educação religiosa caiu com o pendão
    negro da santa doutrina. Resta a parte doutrinária, resta apenas a
    cartilha de Padre Mestre Ignacio.

    E é sobre essa cartilha solitária, em torno da qual caíram dissolvidas a
    uma por uma todas as energias sociaes que a mantinham na altura de uma
    instituição civil, é sobre a cartilha do Padre Mestre Ignacio, que um
    sabio legislador portuguez acompanhado de varios outros legisladores
    portuguezes egualmente sabios, procura reconstituir no anno de 1878 o
    ensino publico de uma nação!

    * * * * *

    Voltaire tinha uma prece fervorosa, que as _Farpas_ não cessam de elevar
    aos céus em todas as manhãs e em todas as tardes:

    _Meu Deus, tornae ridículos os nossos inimigos!_

    O modo como foi discutida na camara dos dignos pares a reforma da
    instrucção indica-nos que podemos por um momento deixar de repetir essa
    oração. Aproveitamos a pausa para ir a Paris accender, em nome das
    _Farpas_, um círio a Voltaire. Deus Nosso Senhor ouviu-o!

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1878-01)

    Aproximadamente 17.486 palavras.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL

    DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    TERCEIRA SERIE TOMO I Janeiro de 1878

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A romagem dos mortos. Raspail, Courbet, Victor Manuel, José de Alencar,
    Augusto Soromenho.–_A senhora portuense_ e _as Farpas_. O libello
    d'aquella dama. A nossa resposta. Não, a mulher portugueza não sabe
    fazer caldo e deve aprender a fazel-o, como se torna a demonstrar. A
    litteratura feminina e a cozinha de minha avó.–Da influencia dos hymnos
    sobre os cerebros coroados. Cumplicidades do telephonio.–Os cemiterios.
    A intervenção do sr. marquez d'Avila e a do sr. Luiz Jardim. A
    cabelleira e a formula de s. ex.ª Mostra-se que s. ex.ª não é o velho
    Tobias. O catholicismo e a carta. A liberdade de pensamento e o registro
    civil.–A ex'ma Camara Municipal do Porto ou a quem suas vezes fizer.–A
    situação politica. As ultimas sessões parlamentares. Alguns perfis. Os
    partidos. Os compadres. A jumentinha da publica governação.

    No breve espaço dos ultimos quinze dias a humanidade pagou á morte um
    pesado tributo. Escrevemos no meio de tumulos gloriosos e amados.
    Deixaram de existir, em França Raspail e Courbet; na Italia Victor
    Manuel, no Brazil José de Alencar; em Portugal Augusto Soromenho.

    Raspail, entre todos esses o maior, deixa na terra um immenso vacuo
    imprehenchivel. Desappareceu com elle uma das mais poderosas forças
    sociaes do mundo moderno, a porção mais fecunda e mais gloriosa da
    grande alma do povo.

    Ninguem como elle amou a humanidade e ninguem empregou tão vastas e tão
    profundas faculdades no culto do seu amor. Foi o maior contribuinte dos
    descobrimentos scientificos d'este seculo. Creou a chimica organica e
    póde-se dizer que creou tambem a physiologia botanica e a anathomia
    microscopica. Fundou a hygiene em bases novas, não como uma dependencia
    da medicina, mas como um desdobramento da sciencia social. Foi elle o
    que definiu pela primeira vez em fundamentos positivos o dogma do
    suffragio universal. Foi ainda elle o primeiro que proclamou no Hotel de
    Ville a Republica de 48.

    Este eximio cultor, acrescentador e reformador do todas as sciencias
    physicas, de todas as sciencias biologicas e de todas as sciencias
    socilaes, astronomo, chimico, physiologista, medico, archeologo,
    economista, era alem d'isso um delicado e valente escriptor. O seu genio
    profundo actuou efficazmente no desenvolvimento do estudo dos astros,
    das plantas, dos animaes, do homem, e bem assim na reforma do todas as
    instituições politicas e sociaes, na reforma administrativa, na reforma
    judiciaria, na reforma penitenciaria e na reforma penal. O seu altivo
    caracter de soberano plebeu tornou-o sempre irreconciliavel com todo o
    favor, com lodo o auxilio, com toda a collaboração official. Recusou
    todas as distinções honorificas, todos os cargos publicos, todos os
    diplomas scientificos ou litterarios. As suas observações astronomicas,
    os seus trabalhos de chimica, as suas applicações do microscopio ao
    estudo das celulas e dos tecidos fizerarn-se n'uma agua furtada humilde
    dos bairros baratos de Paris com os instrumentos mais rudimentares, no
    isolamento austero da independencia o do sacrificio.

    Esse intrepido filho do povo tinha a fibra de Galileu, de Giordano Bruno
    e do Bernardo Palissy.

    A academia franceza, commovida com uma tão exemplar grandeza d'alma,
    resolveu conferir-lhe em 1833 o premio Montyon, declarando-lhe pela boca
    do grande Geoffroy-Saint-Hilaire que ella o considerava como sendo o
    homem que mais serviços tinha prestado á sciencia e á humanidade.

    Guizot, então ministro da instrução publica, interveio na resolução da
    academia prohibindo que _o premio da virtude cahisse no cofre da
    rebelião_.[1] O chefe do partido conservador francez não podia esquecer
    que fôra esse mesmo sabio obscuro o despremiado o que no anno anterior,
    em plena Restauração, ousara fulminar a votação da lista civil com a
    phrase memoravel paga por elle com 500 francos de multa e 15 mezes de
    cadeia: «Deveria ser enterrado vivo debaixo das ruinas das Tulherias
    todo o cidadão que ousasse pedir á França 14 milhões para viver.»

    [Nota 1: Guizot, que recusou um premio a Raspail, recusou tambem uma
    cadeira no magisterio a Augusto Comte. O illustre historiador teve a
    desgraça de firmar com o seu nome a responsabilidade d'esses dois
    crimes, inconscientes, da politica nefasta que elle dirigia.]

    É que Raspail, a intelligencia sempre apta para organisar, foi
    egualmente o braço constantemente pronto para resistir.

    Portentosa existencia, que ficará na historia entre as mais bellas e
    mais estraordinarias legendas do genio do homem! Destinado por seu pae á
    carreira ecclesiastica, foi educado n'um seminario, começou por ser um
    theologo. Era porém de tal modo intenso e explosivo o seu amor de
    verdade e do progresso que, principiando por ensinar theologia aos
    dezenove annos, acabou por alcançar a gloria immarcessivel de ser
    condemnado aos oitenta,–aos oitenta annos de idade!–por abuso da
    liberdade de pensamento!

    O poder espiritual do mundo moderno era representado em França por uma
    trindade sacrosanta:–Victor Hugo, a força do sentimento; Raspail, a
    força do trabalho; Littré, a força da philosophia.

    D'esses tres anciãos o primeiro que desceu ao tumulo é o que mais
    fecundo exemplo nos podia legar, porque as virtudes que o assignalaram
    são d'aquellas que dependem mais da vontade que do entendimento. Esse
    exemplo de uma actividade sempre enthusiasta, juvenil e ardente, em
    nenhuma outra parte é mais precioso do que na sociedade portugueza, onde
    as idéas radicaes, que são as sentinelas avançadas da civilisação, tão
    raramente encontram servidores desinteressados que as mantenham; onde a
    mocidade mais vivaz e intelligente está defendendo no parlamento e no
    jornalismo as opiniões mais retrogradas, onde finalmente o futuro não
    tem partido.

    Possa a memoria do sublime Raspail alentar a perseverança e a firmeza no
    coração d'aquelles que, longe de todas as correntes officiaes se
    sacrificam heroicamente pelo estudo desprotegido, pelo trabalho talvez
    calumniado, talvez perseguido, ao amor e ao aperfeiçoamento dos seus
    similhantes!

    Que todos os que são moços e fortes se inclinem sobre esta campa onde
    repousa um triumpho, e reflictam, que é na pedra tumular de Raspail que
    deverão aguçar o fio das suas espadas todos aquelles que combatem pela
    consciencia e pela verdade!

    * * * * *

    Courbet foi um conspirador da esthetica, um rebelde ao despotismo de um
    idéal que elle tinha por condemnado solidariamente com as velhas
    instituições sociaes de que fazia parte. A sua vida foi consagrada a
    derrocar pela pintura a inspiração da antiga arte assim como derrocou
    pelo uso do poder executivo a columna da praça Vendôme. Louvavel
    empenho, porque Courbet considerava essa inspiração uma fonte envenenada
    para o trabalho artistico, assim como considerava essa columna um
    symbolo ultrajante para a dignidade humana.

    A demolição da columna, que toda a imprensa europea stygmatisou com
    palavras tão resentidas e acerbas, não poderá deixar de ser um dia
    olhada pela critica desapaixonada como a consequencia logica e fatal dos
    principios de justiça social constantemente professados pelo immortal
    artista.

    Courbet foi condemnado a pagar a reconstituição da columna. Breve porém
    soará a hora em que o nobre espirito francez deixe de considerar
    puerilmente que se deve ser

    _Fier d'être français
    Quand on regarde la colonne!_

    Paris, a cidade eterna da arte, a grande martyr, a grande pacificadora,
    comprehenderá em pouco tempo que é uma injuria ao seu bello destino na
    obra da conciliação humana a ostentação orgulhosa de um monumento que o
    distico diz ser: _levantado à gloria do grande exercito por Napoleão o
    Grande!!_

    Paris, qua vae na proxima exposição celebrar dentro do regimen
    republican a grande festa universal da industria e da paz, Paris cujo
    municipio acaba de votar 546 contos de réis para os seus
    estabelecimentos publicos de instrucção primaria ao anno corrente, Paris
    que ainda ultimamente consagrou cerca de 5 mil contos á reorganisação
    dos seus lyceus, não poderá manter em pé por muitos annos mais, em uma
    das suas praças publicas, um symbolo que contradiz todas as suas
    aspirações philosophicas e humanitarias, celebrando uma das maiores
    nodoas da civilisação: o triumpho cannibalesco do militarismo sobre os
    direitos do homem, a sujeição da França aos caprichos de um despota em
    cuja fronte as justiças da historia estamparam já o ferrete da ignommia.

    A legenda napoleonica esvahiu-se inteiramente das consciencias, e bastou
    um sopro de Michelet para apagar para todo sempre nas tradições marciaes
    da geração actual o sol de Austerlitz.

    Courbet morreu antes da poder ser reembolsado da importancia da multa a
    que o condemnaram como inconoclasta. Mas a posteridade o desaggravará,
    ratificando a sua obra, demolindo pela segunda vez a columna Vendôme e
    pondo no logar d'ella, em vez do genio das batalhas que lhe serve de
    remate, o genio da arte representado na estatua do grande pintor que na
    maneira de conceber e de executar a obra do espirito fundou a escola que
    será uma das glorias d'este seculo, e na maneira de usar do governo em
    que teve parte commetteu o erro sempre fatal em politica de antecipar na
    pratica dos seus actos a opinião do seu tempo.

    * * * * *

    Victor Manuel foi o homem forte por excellencia. Tinha o pulso athletico
    de Godofredo de Bulhões. Poderia como elle decepar de um só golpe da
    espada a cabeça de um boi ou o tronco de um reaccionario; commandou como
    elle uma cruzada,–a cruzada de Novara até Roma, como elle chegou a
    terra promettida; morreu moço como elle, como todos os heroes que tendo
    realisado na terra uma grande missão, se sentem de repente invadidos na
    alma pela tristeza immensa dos saciados. Teve a virtude symptomatica dos
    fortes–a colossal bondade. Ninguem abriu bocas mais fundas nas espadas
    dos seus adversarios; ninguem calcou a terra com sapatos mais fortes,
    mais intrepidos e mais bem ferrados, atraz dos tyrannos e dos cabritos,
    atraz das raposas e dos padres. Ninguem trepou com pulmões mais rijos ás
    altas cumiadas dos Appeninos e da liberdade. Ninguem sorriu com mais
    encanto e com mais prestigio á fadiga, ao perigo, ás mulheres e á morte.
    Era evidentemente um forte. E como a força é o maior de todos os
    attractivos humanos, ninguem conciliou como elle em torno de si tão
    contradictorias sympathias e tão heterogeneas affeições: foi o amigo do
    Papa e de Garibaldi, de Bismark e de Gambetta.

    Feliz homem!

    * * * * *

    A morte de José de Alencar, o auctor do _Guarany_ e de _Luciola_,
    representa uma das maiores perdas para a litteratura brazileira, tão
    notavel nos ultimos tempos pela cooperação dos seus poetas e dos seus
    pensadores.

    Na sociedade do Brazil, que o principio da escravidão desviou por tantos
    annos tenebrosos do seu destino e do seu desenvolvimento natural, a
    organisação moderna do trabalho livre é ao mesmo tempo a creação de um
    novo elemento social–o povo.

    José de Alencar, romancista, poeta, jornalista, tribuno, influenciando
    poderosamente o seu tempo pela penna e pela palavra, era a imagem
    synthetica d'esse poder que se chama a Plebe, que procede da lama, e
    decide da sorte dos imperios.

    Elle, que alcançára um dos mais luminosos logares entre os homens mais
    celebres e mais prestigiosos do seu tempo, sahira do esgoto da cidade,
    procedera da roda dos expostos.

    Esse engeitado era a personalisação mais gloriosa da soberania do
    trabalho, affirmando elle mesmo o seu direito, desembainhando no throno
    da arte a sua larga espada de justiça, vestindo a tunica e a dalmatica
    azul, calçando as esporas de ouro nos coturnos hordados de lizes, e
    fazendo-se ungir e sagrar pelas multidões como os antigos eleitos do
    senhor. E era a elle, como a todo o artista victorioso e triumphante,
    que se deveria dizer como Samuel ao rei Saul: «Deus te elegeu para
    reinar sobre a sua herança e para livrar os povos das mãos dos seus
    inimigos.»

    * * * * *

    Augusto Soromenho foi o mais infeliz dos trabalhadores. A doce
    consolação de cumprir um destino, consolação compensadora de tantas
    amarguras e de tantos sacrificios, não foi concedida na terra áquella
    natureza essencialmente desgraçada.

    Tinha um incomparavel poder de applicação e de estudo e ninguem possuia
    em Portugal uma provisão mais copiosa de noções e do factos. Foi o
    collaborador do Alexandre Herculano nas investigações da historia
    nacional, foi o seu melhor discipulo e o seu unico successor. Ninguem
    melhor do que elle conhecia as fontes e as correntes historicas dos
    nossos costumes e das nossas tradições. Era archeologo, diplomatico,
    jurista, bibliographo. Não havia inscripção truncada na epigraphia nem
    texto ambiguo nos codices que resistisse aos processos da sua sagacidade
    portentosa. A sua memoria phenomenal dava-lhe a omnipresença de quanto
    tinha lido no recolhimento de vinte annos de estudo fervoroso e
    incessante. Era um tomo de erudição vastissima, assombrosa, que ninguem
    consultava de balde em qualquer ponto da historia dos costumes; do
    direito, da politica, do governo, da economia, da arte, da litteratura e
    da lingua.

    Faltava-lhe porém no seu vasto e poderoso cerebro a faculdade da
    generalisação. Não sabia tirar dos factos as leis de que elles são a
    funcção. Não sabia correlacionar. Não tinha o poder creador. Por esse
    motivo a isolação suffocava a efficiencia da sua actividade. Era um
    instrumento, cujo machinismo precioso parava sem a impulsão de energias
    concomitantes e confluentes. Mas a sociabilidade litteraria a que elle
    estava condemnado a submetter-se para ser uma força na civilisação,
    repugnava ao seu temperamento de uma susceptibilidade intransigente
    aggravada por uma falsa educação.

    Essa capacidade tão prodigiosa de contensão, de investigação, de exame,
    de absorpção de idéas, estava na sua natureza alliada a um temperamento
    caprichoso e feminil. Extremamente lymphatico, tendo sido epileptico na
    infancia, não poderia fatalmente deixar de ser o que era: um
    sentimentalista. A sentimentalidade foi o cachopo de todas os naufragios
    da sua inquieta o attribulada existencia.

    A indifferença perante o conflicto é uma nobre virtude. Raros a possuem.
    O que succede com as naturezas vulgares é que a nossa resolução bôa,
    conscientemente reflectida, reforçada na mais legitima compenetração do
    dever, da dignidade, da honra, desmaia na conjunctura do conflicto que
    vae provocar entre amigos, entre companheiros, entre camaradas, e nós
    precisamos de reagir sobre nós mesmos com toda a força da nossa coragem
    para nos determinarmos a effectuar pela nossa iniciativa a explosão da
    crise irreconciliavel que presentimos latente, palpitante, dependente da
    palavra decisiva que por um dever de consciencia profundo e sagrado
    vamos lançar ao coração d'aquelles que nos rodeiam. Pois bem: essa
    virtude, tão rara, tão viril, de desmanchar implacavelmente prazeres
    para implantar controversias, essa virtude, dizemos, possuia-a Soromenho
    no estado de uma exageração pathologica. O conflicto na convivencia
    social não somente lhe não repugnava mas attrahia-o–como succede ás
    mulheres nervosas.

    Consideravam-o geralmente uma vibora. Elle era apenas uma creança. As
    suas violencias mais asperas procediam todas logicamente da sua
    sensibilidade doentiamente delicada. Ninguem teve a injuria mais pronta
    pela mesma rasão de que ninguem teve egualmente a compaixão mais facil.
    Ninguem proferiu improperios mais pungentes, mas tambem ninguem chorou
    lagrimas mais enternecidas. Os que o viram aggressivo e verberante nas
    sessões da Academia, nos conselhos do Lyceu Nacional e do Curso Superior
    de Lettras não conheceram senão metade d'essa physionomia tão
    caracteristicamente meridional nos traços moraes como nas fórmas
    physicas.

    Era preciso ouvil-o na intimidade da sua bibliotheca, no terceiro andar
    obscuro e modesto, conhecido de toda a mocidade estudiosa, terceiro
    andar a que tantas vezes subiram para fumar o cigarro democratico da
    camaradagem litteraria Lord Talbot, Lord Stanley, Gayangos, o conde de
    Brandebourg e tantos outros extrangeiros e viajantes illustres, para os
    quaes aquella humilde casa de litterato, tão hospitaleira e tão pobre,
    tinha altractivos que não podiam propornionar ás exigencias dos
    philosphos e dos principes, os mais brilhantes salões de Lisboa. Era
    preciso onvil-o ahi dissipar em bonhomia e em sensibilidade todo o
    nervosismo do seu coração com a mesma prodigalidade cem que nas
    assembléas officiaes acabara de dispender as violencias do seu cerebro
    imperfeitamente orientado.

    Quando alludia á sua encantadora aldeia natal nas margens do Ave, perto
    da Villa do Conde, as doces paizagens do Minho onde elle viajara
    alegremente a pé nos dias azues da sua mocidade; quando repetia o
    estribilho de uma saudosa cantiga, os versos melancolicos de uma lenda
    ou de um romance popular; quando narrava a volta de uma _esfolhada_
    nocturna, sob o luar, ouvindo o gotejar da agua no fundo da deveza o
    canto dos rouxinoes atravez da espessura negra dos pomares; quando
    descrevia as madrogradas da caça ás perdizes no monte de S. Felix, ou as
    outras madrugadas mais alegres ainda das romarias minhotas, em que os
    clarinetes amanhecem antes dos melros, fazendo dançar pelos caminhos as
    bellas raparigas louras; quando finalmente se referia aos companheiros,
    aos amigos, que deixara dispersos na vida, os seus olhos de arabe,
    negros, rasgados, contemplativos, marejavam-se-lhe de lagrimas, e a sua
    voz cheia, incisiva e dominante, que nunca tremia nem se velava no
    maximo arrebatamento da colera, embargava-se-lhe em soluços,
    estrangulada pela saudade ao recordar um companheiro da infancia, um bom
    sitio amado, uma velha canção querida.

    Banido da Academia, banido da Torre do Tombo, os dois unicos campos em
    que se podia exercer com proveito e com honra da patria a actividade da
    sua intelligencia, Augusto Soromenho foi enterrado vivo, e vivo foi
    sepultado n'este medonho tumulo–o despreso.

    Nos seus ultimos tempos trabalhava ainda. Trabalhou até o seu ultimo
    dia. Ha cerca de um anno padecia uma dôr sternalgica, symptomatica do
    aneurisma. Esta dôr lancinante, que o privava do movimento, forçando-o a
    parar de repente na rua, obrigou-o a interromper antes d'hontem de
    madrugada a leitura que estava fazendo desde a meia noite na sua
    biblioteca. Acudiu-lhe a sua familia, chamou-se á pressa um medico.
    Inutilmente. Elle estava morto.

    Seria mais que omisso, seria infame, que, tendo conhecido Augusto
    Soromenho desde a sua infancia, o que escreve estas linhas deixasse de
    acrescentar que a reputação tão frequentemente discutida d'esse
    traballhador desventurado foi sempre pura e immaculada aos olhos de quem
    o tratara intimamente durante o longo decurso de perto de trinta annos.
    O que faz este depoimento deseja para honra da humanidade que os Curcios
    e os Plutarcos encarregados de celebrar a vida e feitos dos Scipiões
    illustres e dos Catões celebres achem sempre nos seus heroes tantas
    qualidades desinteressadas e nobres para serem cobertas de rhetorica,
    quantas aquellas que em Augusto Soromenho foram deturpadas pela
    maledicencia.

    * * * * *

    Com esle titulo–_Ao sr. Ramalho Ortigão_–publicou o _Diario da Manhã_
    o folhetim seguinte:

    _Os exames no Lyceu Nacional–Os fins da educação–Um programma de
    ensino para o sexo feminino–Como se prepara a emancipação das
    mulheres–Duas catastrophes: o estado da litteratura feminina, e o
    estado da cosinha nacional–Grito afflictivo do paiz: menos odes e mais
    caldo_.

    Termina assim o summario do ultimo numero das _Farpas_. Qual de nós
    deixaria de ler com a maxima attenção um artigo escripto pelo sr.
    Ramalho, sobre assumptos de tanto interesse para o nosso sexo? nenhuma
    de certo. E para que se não diga com verdade que o grito afflictivo do
    paiz, do qual o sr. Ramalho se faz orgão, pedindo-nos caldo, não foi
    ouvido por uma só mulher portugueza, que, condoida, o soccorresse, venho
    por mim e em nome das senhoras portuenses, dar-lhe não só _caldo_, mas
    tambem _luz_, que o alumie nas suas investigações ácerca d'um assumpto,
    que é realmente grave–a dyspepsia nacional, que s. ex.ª attribue á
    nossa ignorancia culinaria, fazendo assim pesar sobre nós, tão tremenda
    responsabilidade.

    Se o assumpto de que se trata, não fosse realmente grave,
    contentar-nos-hiamos com o praser que nos dá sempre a leitura dos
    escriptos do sr. Ramalho, pela elegancia do seu estylo, e finura do seu
    espirito, e apenas diriamos, na nossa linguagem de cozinheiros: É pena
    que os escriptos do sr. Ramalho não sejam mais succulentos! são como os
    caldos feitos pelos cosinheiros francezes, de apparencia magnifica,
    depurados até á transparencia, muito aromatisados … mas sem
    substancia.

    Quer-nos porem parecer, apesar da ironia com que o sr. Ramalho falla
    sempre de nós, que não tem rasão para nos querer mal; e que como filho,
    esposo e irmão de senhoras portuguezas, e por isso quasi nosso irmão,
    deseja com certeza a nossa felicidade e se promptificaria da melhor
    vontade a fazer-nos um favor se lh'o pedissemos. Ouça-me pois.

    Não ensine á sr.ª D. Jeronyma, nem a mulher nenhuma portugueza, como se
    faz esse alambicado caldo francez, tão purificado, que por fim como o
    proprio sr. Ramalho confessa, deixa de ser um alimento. Se tem amor á
    sua patria, anime-nos, e aconselhe-nos a que continuemos a fazer os
    classicos caldos portuguezes, succulentos e compactos como os faziam
    nossas avós, e como nós todas ainda hoje sabemos fazer. Se o principal
    agente do temperamento d'um povo, do seu caracter e da formação das suas
    idéas, é, como s. ex.ª diz a sua alimentação, não esqueçamos que foi
    comendo esses caldos e quasi só com elles, que os energicos e valentes
    portuguezes contiveram sempre em respeito o poder de Castella, e que na
    Africa, e na Asia praticaram acções de tão prodigioso valor. E descendo
    á historia dos nossos dias, lembre-se que os vultos grandiosos dos
    lidadores da epopéa da liberdade, apesar de alimentados pelo caldo
    nacional e então infelizmente bem magro, mostraram em cem combates a sua
    heroica energia, e sua valorosa audacia, sem que o estomago se
    incommodasse com a dyspepsia nacional. É só com caldo, e com brôa que
    todos os dias se alimentam aqui centenares de homens do povo, que
    supportam, sem cansaço, nem fadiga, durante dez ou doze horas por dia,
    os mais rudes trabalhos; e comtudo não soffrem de dyspepsia. Será por
    terem _mulheres muito instruidas_, ou porque o _caldo que comem é
    preparado por cosinheiros de 5:000 francos_? deve ser por uma d'estas
    rasões, visto que é o sr. Ramalho quem nol-o affirma.

    A dyspepsia não é em Portugal uma doença nacional, é quasi privativa dos
    homens das classes elevadas–e quer que lhe digámos porque? Porque elles
    teem com raras excepções, uma mocidade dissipada; porque na idade dos
    quinze aos vinte annos, quando os rapazes inglezes e allemães fazem
    consistir o seu maior prazer em se exercitarem nos jogos athleticos, e
    todo o seu orgulho em serem vencedores n'uma corrida ou n'uma regata, os
    portuguezes vão descançar das lides do estudo nos bancos dos botequins e
    das tavernas, onde é considerado heroe aquelle que come e bebe mais
    brutalmente, e como deus o que engole successivamente vinte e um calices
    de licor ou cognac, o que na pittoresca phraseologia d'esses senhores se
    chama dar uma salva real! Desculpa-os porém o axioma do nosso codigo de
    educação: que é preciso dar muita cabeçada para vir a ser homem serio.

    Conhece o sr. Ramalho, bem melhor do que nós, todos os perigos porque
    passam os rapazes desde que se emancipam da tutella materna, até que
    chegam a ser homens. Estude o meio de os livrar d'esses perigos, e de
    lhes regenerar os costumes, e verá que, quando chegarem a ser chefes de
    familia, seu natural destino, não precisarão de encontrar na esposa o
    braço forte que lhes seja amparo, e terão o estomago são como em
    crianças, podendo digerir perfeitamente um caldo, mesmo quando elle não
    seja perfeitamente transparente, e até quando tenha seus vestigios de
    gordura. Faça isto que lhe pedimos, e todas nós bemdiremos o seu nome,
    pois d'este modo terá prestado um importantissimo serviço ao seu paiz.

    O seu programma para a educação das mulheres parece-nos excellente para
    a França, Inglaterra e outros paizes onde as meninas são educadas nos
    collegios, longe da familia; mas aqui onde em geral as creanças que os
    frequentam comem e dormem em casa, essa educação que nos habilita a ser
    boas _ménagéres_, já que o sr. Ramalho gosta de francezismos,
    recebemol-a nós todas com o exemplo e lição de nossas mães.

    Em Portugal onde todo o serviço domestico é geralmente feito em casa,
    todas nós sabemos como se lava, como se engomma, como se cozinha, como
    se faz doce, como se talha um vestido, etc. Mesmo as senhoras que não
    fazem esses serviços sabem como elles são feitos, pois desde crianças os
    viram fazer. O que não sabemos, lá isso não, é _differençar os
    differentes generos de mobilia e o seu estylo caracteristico nas epocas
    mais notaveis da arte ornamental_, etc. etc.; mas em quanto
    considerarmos, como até agora, a vontade, e o gosto do dono da casa, a
    suprema lei que nos rege na escolha de todos esses artigos em que nos
    falla, deixaremos esses conhecimentos aos cuidados dos nossos maridos.

    Em quanto á nossa educação moral, estamos convencidas que em paiz nenhum
    as mulheres são mais honestas, mais laboriosas, mais dedicadas, mais
    sobrias e economicas, mais submissas á vontade do marido que nós, e toda
    a eloquencia do sr. Ramalho não é capaz de abalar sequer a nossa
    convicção.

    Em França e em Inglaterra ha muitas mulheres–por
    profissão–enfermeiras, aqui não as ha senão nos hospitaes, e nem se
    lhes sente a falta, porque em toda a casa onde ha uma mulher, quer ella
    seja mãe, esposa, filha, irmã, ou mesmo criada, ha uma enfermeira
    sollicita, carinhosa e dedicada, cuja coragem nem sequer vacilla ante os
    horrores do contagio, que tantas vezes aniquilla o animo de homens
    energicos e audaciosos.

    Para sabermos fazer prodigios de economia não precisamos de nos alistar
    n'uma escola ingleza, e, se o não soubessemos, a primeira mulher do povo
    que interrogassemos n'ol-o ensinaria. Tambem em Portugal se póde
    sustentar uma familia com 18$000 réis por semana, mas n'essa familia–o
    chefe, que trabalha do nascer ao pôr do sol, sustenta-se comendo tres
    tigellas de caldo que lhe custam 10 réis cada uma, 20 réis de sardinhas,
    e 10 réis de brôa por dia: total 90 réis.

    Convença os homens, com a sua deslumbrante eloquencia, de que este
    alimento é muito sufficiente para lhes conservar robustas as forças
    vitaes, e verá como nós todas fazemos economias prodigiosas, e como uma
    casa deixará de ser uma _lôba_ para se transformar n'uma _burra_.

    Mas se considera como o ideal da perfeição na mulher, ser ella o _braço
    forte e escudo da familia_, tambem lhe podemos aqui apontar numerosos
    exemplos d'essas. As mulheres de Avintes passam os dias remando e
    guiando barcos no nosso Douro para ganhar o pão dos filhos, em quanto os
    maridos ficam em casa cosinhando: já vê que para qualquer de nós
    realizar o seu ideal basta casar em Avintes.

    A educação intellectual das mulheres, quando ellas se não dediquem a ser
    mestras, póde, e até deve, assim como a moral, receber, como complemento
    necessario, as liçoes dos homens de quem forem esposas. Assim
    reconhecendo no marido superioridade em tudo, até mesmo nos
    conhecimentos litterarios, ser-lhes-ha mais facil ter por ele esse
    respeito que a religião e a sociedade nos impõem como o primeiro dever
    da esposa.

    Em quanto á emancipação das mulheres, esse sonho dourado das senhoras
    inglezas–nós, menos profundas pensadoras, não o queremos.

    Entendemos que a naturesa, que nos obriga a soffrer cruciantes dores
    physicas para attingirmos o apogeo da nossa gloria–o ser mãe, nos
    ensina a todas, que a nossa missão na terra, é saber soffrer e amar, por
    isso beijamos com os olhos rasos de lagrimas de alegria o filho que
    acaba de nos fazer soffrer as dôres da maternidade, e abençoamos
    reconhecidas a mão que prende as nossas algemas de escravas, quando essa
    mão é a de um homem, em quem passados os enthusiasmos da paixão,
    encontramos as solidas virtudes que apreciamos e respeitamos.

    Regenerados os costumes dos homens, a familia portugueza, constituida
    como até agora, poderia ser apresentada como modelo ás nações mais
    civilizadas da Europa.

    Filhos ambos da mesma terra, e quasi da mesma idade, considero-me sua
    irmã e como tal deixe-me dar-lhe um conselho. Se eu tivesse a sua
    intelligencia, inquestionavelmente uma das mais brilhantes do paiz, essa
    sua robustez physica, a sua grande cabeça na qual o chapéo de Thiers ou
    de Bismark assentaria perfeitamente, dedicar-me-hia a escrever livros,
    que fossem mais uteis do que agradaveis, e deixaria aos palhaços dos
    circos o trabalho de fazer rir o publico.

    Em paga de todos os favores, que lhe peço, prometto fazer-lhe só um, mas
    esse importantissimo.

    Não dizer a nenhuma senhora portugueza com que caldo creseu e medrou o
    sr. Ramalho, senão julgal-o-hiam tão criminoso como quem maldiz dos
    seus.

    Sua

    _Irmã de Caridade_

    * * * * *

    Reproduzimos esse importante folhetim porque nos asseguram que
    effectivamente é escripto por uma senhora. Sob este ponto de vista elle
    é para nós de um valor inestimavel. Este folhetim é a mulher. Não somos
    já agora nós que tenhamos de dar-nos ao trabalho delicado e subtil de a
    retratar. É ella mesma que vem reproduzir-se n'estas paginas com n'um
    espelho. Esta imagem directa do vivo constitue a mais preciosa
    acquisição da nossa galeria. Não somos nós que a descrevemos, que a
    phantasiamos, deturpando-a talvez na pureza da sua linha por meio de um
    lapis suspeito de inhabilidade ou de má fé. Vêem que é ella mesma que
    apparece, que faz o favor de mostrar-se viva, a corpo inteiro, na sua
    prosa com atravez de um vidro. Queira approximar-se, meus senhores!
    queiram approximar-se! espreitem por este buraco e vejam-a!

    Ahi a teem! É assim que ella é. Não ha artificio, não ha preparo, não ha
    processo nenhum de stylo para a fazer melhor ou peor do que a realidade
    mesma. Reparem bem, meus senhores, que não é Proudhon que a descreve,
    não é Coubert que a pinta, não é Offenbach que a põe em musica. É ella
    mesma, ella em pessoa, que corre uma cortina e apparece.

    O que estaes contemplando é a obra da direcção mental que nós mesmos
    imprimimos ao nosso tempo, é o fructo legítimo e authentico da
    philosophia, da litteratura, da arte, da corrente geral de idéas que
    temos produzido e impulsionado: é a nossa mulher tal como nol-a fizeram
    os contactos da nossa convivencia–a escola, o jornal, o livro.
    Revêde-vos na vossa obra.

    Esse curioso ente representa a somma de vinte annos de poesia lyrica e
    de pó de arroz, de rhetorica e de _chic_, de doce d'ovos e de cuia, de
    recitação ao piano e de tacões Luiz XV, de collegio nacional e de
    _cold-cream_, de figurino e d'agua morna. Glorioso conjuncto.

    Vede que lucidez de razão! que firmeza de criterio! que contensão de
    raciocinio! Como se adivinha bem no poder d'essas faculdades
    intellectuaes a circulação facil e viva atravez da rede dos nervos
    encephalicos de um sangue opulento e forte! A mente sã que tão
    vigorosamente se affirma no curioso trecho litterario que acabaes de ler
    presume o organismo mais perfeito, o corpo mais denso, o musculo mais
    racionalmente exercitado por uma sabia hygiene. Pela sua forte maneira
    de pensar podeis ajuizar com segurança da sua forte maneira de viver.
    Vede e applaude! Aplaudi-a a ella pelo que aprendeu; applaudi-vos a vós
    mesmo pelo que lhe ensinastes.

    * * * * *

    Esta senhora, em nome de todas as outras senhoras, das quaes ella se diz
    interprete, dirigi-se ás _Farpas_ na pessoa do seu auctor.

    O que são as _Farpas_ com relação ás mulheres?

    As _Farpas_ são a publicação periodica–unica em Portugal–que em
    artigos consecutivos desde a sua apparição até hoje se tem
    constantemente consagrado por meio dos seus processos de critica á
    reconstituição dos costumes e á reorganisação da familia segundo o
    criterio porque se dirigem as sociedades modernas; ellas teem combatido
    violentamente o divorcio; teem despojado o adulterio da clamyde
    dramatica em que tantas vezes o envolve a poesia doentia, para o
    flagellarem pelo ridiculo na sua torpeza nua; teem honrado o casamento
    indissoluvel como sendo a mais sagrada das instituições perante a
    dignidade humana; teem fulminado o celibato como um aleijão physiologico
    e social; teem dado como base á emancipação da mulher a instrucção
    pratica, tão defficiente, e a alta cultura do espirito, tão
    negligentemente descurada na antiga educação; teem-lhe ensinado que é
    aprendendo desveladamente a ser util que ella descobrirá o segredo de
    ser verdadeiramente e eternamente amada; teem sollicitado a sua
    collaboração no estudo dos modernos problemas sociaes como factor
    indispensavel á fixação do nosso destino; teem pedido instantemente para
    ella a fundação de novas escolas de ensino especial e de ensino
    superior; teem-lhe dirigido constantemente durante cinco ou seis annos
    palavras graves, affectuosas, sinceras; teem-lhe fallado, como velhas
    amigas dedicadas, dos seus interesses mais caros: das bonecas das suas
    filhas, dos jantares de seu marido, dos arranjos da sua casa, da
    cosinha, do jardim, da adega, do armario das roupas brancas, do valor
    dos alimentos, da ordem, da economia domestica, etc.; teem-lhe feito
    presente de uma infinidade de theorias, de noções, de projectos, de
    systemas, de programmas completos, imperfeitamente concebidos–é
    claro–mas demonstrando uma dedicação excepcional, por isso que nenhuma
    das publicações periodicas que precederam esta se dirigiu jámais ás
    mulheres a não ser para lhes consagrar romances de uma moralidade
    suspeita ou versos de uma honestidade duvidosa.

    Depois de publicados cerca de quarenta volumes da colleção das _Farpas_
    uma senhora tem finalmente alguma cousa que dizer ao auctor, e manda-lhe
    o seguinte conselho como resumo da opinião collectiva de todas as damas
    portuguezas:

    «Que elle trate d'outro officio e deixe aos _palhaços dos circos_ o
    trabalho a que até aqui se tem dado de fazer rir os outros!»

    Este simples conselho é como um relampago, nas trevas do nosso espirito.
    Elle de per si só basta para nos convencer de que a educação das
    senhoras portuguezas não só é igual–como a auctora modestamente
    formula–á das primeiras mulheres extrangeiras, mas que póde mesmo
    considerar-se-lhe superior. Effectivamente madame Sand, madame de
    Girardin, Lady Morgan não tiveram nunca para dirigir a um escriptor
    qualquer–amigo ou adversario–uma palavra tão lucida, tão conceituosa,
    tão profunda e ao mesmo tempo tão finamente aristocratica, tão
    nobremente distincta como aquella com que somos honrados pelo criterio
    da nossa illustre compatriota. Sua excellencia entende que não somos
    mais que _um palhaço de circo_, opinião profundamente philosophica. É
    talvez isso mesmo o que todas as mulheres extrangeiras pensariam se nos
    lessem. É natural porem que ellas tivessem achado entre as suas perolas,
    entre as suas rendas, por baixo das suas luvas, no fundo de algum velho
    cofre perfumado, de alguma doce gaveta esquecida, entre as mimozas
    recordações perdidas da sua carteira ou do seu coração, um pequeno meio
    qualquer de não chamarem completamente palhaço com todas as suas cinco
    lettras e a sua respectiva cedilha, _p-a-l-h-a-ç-o_ a um homem a quem os
    seus maridos lhes houvessem permittido dirigir uma carta pela imprensa.

    Sua excellencia a illustre escriptora portuense tem da dignidade alheia
    e da sua propria dignidade uma comprehensão diversa, que não podemos
    deixar de attribuir com orgulho patriotico á influencia local da rua de
    Cedofeita sobre os requintes da delicadeza feminina.

    Não é menos original nem menos profundo o modo como a nossa distincta
    compatriota contesta a conveniencia de ensinar physiologia humana e
    chimica culinaria ás menínas portuguezas. Se sua excellencia tivesse
    effectivamente a instrução que nós pretendemos que se lhe deve dar; se
    sua excellencia houvesse comprehendido que a mais nobre missão da mulher
    é, como diz Michelet, a de alimentar o homem; se para nos provar que
    estava apta para cumprir no seio da sua familia essa missão, sua
    excellencia nos convencesse de que conhecia a synthese chimica da
    nutrição, a evolução cellular, a relação existente entre os phenomenos
    da nutrição e do desenvolvimento, do movimento e da combustão; se nos
    mostrasse que estava habilitada a distinguir os principios alimentares
    pelas suas classificações mais genericas, os que fornecem o calor e a
    força e os que ministram os alimentos reparadores; se nos revelasse que
    sabia dirigir technicamente um jantar, ou fazer pelo menos um simples
    caldo, por lhe terem passado pelos olhos, uma vez pelo menos, alguns dos
    eminentes trabalhos consagrados a este assumpto essencialmente vital
    pelo sr. Gautier, que fez um tratado de chimica applicada á hygiene,
    pelos srs. Moleschott e Geoffrey Saint-Hilaire nas suas cartas sobre as
    substancias alimentícias, pelo sr. Champouillon na sua _Hygiene
    alimentar_, pelo sr. Claude Bernard nas suas lições e conferencias, pelo
    sr. Bouchardat na sua memoria sobre a alimentação insuficiente, pelos
    srs. Liebig, Payen, Foussagrives, Gustave le Bon, Letheby, Marvaud,
    Michel Levy, Coulier, Lacassagne, Fleury, Motard, Wurtz, etc.; se sua
    excellencia possuisse finalmente–ainda que no estado da mais ligeira
    tintura–alguma das noções em que se basea a theoria da cosinha, que é
    um dos mais importantes factos da hygiene ou da physiologia applicada, o
    seu voto n'esse caso poderia ter discussão.

    A brilhante ausencia de ideias que sua excellencia manifesta sobre este
    assumpto dá ao seu voto um caracter irrevogavel, que não pode infundir
    nos adversarios senão admiração e respeito.

    É inutil que Smith por um lado e o doutor Byasson por outro se tenham
    dado ao trabalho de reconhecer por meio de experiencias feitas sobre o
    seu proprio organismo qual o dispendio de carbone e de azote em cada
    hora, já dormindo, já caminhando, já executando um trabalho mental ou
    muscular, para regular sobre este dispendio a ração alimentar de cada
    individuo. É inutil que o doutor Franckland e Payen tenham feito as
    analyses mais escrupulosas para nos darem um quadro do valor nutritivo
    dos diversos alimentos e da quantidade de força e de calor desenvolvida
    pela oxydação d'elles. É inutil que o doutor Chenu e o doutor Shimpton
    nos tenham mostrado pela comparação das estatísticas da salubridade nas
    campanhas da Criméa e da Italia o extraordinario poder da qualidade da
    alimentação sobre a saude e sobre a energia dos soldados. É inutil que
    pelo estudo de iguaes estatísticas com relação á alimentação de
    operarios empregados nas grandes industrias se tenha provado que da
    qualidade da alimentação resulta o augmento ou a diminuição de 20 a 30
    por cento no trabalho de cada homem. É inutil que Geoffrey Saint-Hilaire
    nos tenha dito: «Quantos factos na vida das nações attribuidos pelos
    historiadores a diversas causas complexas e cujo segredo reside
    simplesmente na cosinha das familias!». É inutil que toda a sciencia
    tenha provado que a maioria dos crimes e dos vicios se deve attribuir em
    cada sociedade ao seu regimen alimenticio; que o uso dos alimentos
    nervinos é uma necessidade inviolavel na rude concorrencia vital do
    nosso tempo; que é indispensavel perante a moral e perante a justiça
    melhorar a alimentação dos trabalhadores facilitando-lhes a acquisição
    dos alimentos plasticos e reparadores geralmente insufficientes na sua
    economia. É inutil que em todos os paizes civilisados os sabios, os
    philosophos, os estadistas procurem por todos os meios de vulgarisação e
    de associação chamar a attenção das mulheres para o estudo e para a
    resolução d'esse grave problema cuja sede é a cosinha. É inutil tudo
    quanto se tenha allegado e quanto possa allegar-se para convencer esta
    illustre senhora portuense da vantagem que resultaria para os seus
    similhantes do facto de ella aprender a fazer caldo um pouco menos
    empyricamente do que por tel-o visto fazer á cozinheira da sua avó.

    Sua excellencia tem para manter a inalteravel tradição sobre os methodos
    de deitar a carne á panella nas cosinhas da sua rua este argumento
    supremo: Foi com essa panella á frente que os portuguezes contiveram em
    respeito o poder de Castella e praticaram prodigios de valor Da Asia, na
    Africa e na Epopea da Liberdade. Segundo sua excellencia foi abraçados à
    travessa do cosido que nossos avós descobriram a India e que os paes de
    uns de nós resistiram aos paes dos outros durante o cerco do Porto. Os
    vencidos jantavam no _Bignon_ ou no _Café Anglais_.

    Em presença d'essa logica de ferro submettemo-nos humilhados e
    reverentes. Uma vez que as coisas se passaram como sua excellencia
    affirma, nada se nos offerece retorquir. Mantenha-se o _statu quo_ na
    perfeita educação da mulher portugueza. Continue sua excellencia
    imaginar que sabe cosinhar, que sabe lavar a roupa, que sabe talhar um
    vestido e que sabe tambem–ó legítimo orgulho!–_fazer doce_.–De mais a
    mais–notem–sua excellencia faz doce! Não! positivamente nada se nos
    offerece retorquir-lhe. Faz doce? Bem. Não precisa de saber mais nada.
    Ahi tem sua excellencia uma opinião que lhe garantirá «as solidas
    virtudes que seu marido desenvolver no lar domestico passados os
    enthusiasmos da paixão»:–sua excellencia gosta de assucar!

    Quem sabe se não será por um effeito do atavismo sobre a gula qae os
    meninos de quinze annos de quem sua excellencia nos falla vão beber
    licores para os botequins?

    As mães dos que amam os jogos athleticos e as proezas musculares teem
    ellas mesmas não a opinião do assucar mas sim a do _roast-beef_ e da
    agua fria; não fazem doce, fazem gymnastica, e não ensinam os filhos
    unicamente a comer marmelada, a ir á novena e a não metter os pés nas
    poças; ensinam-lhes o cricket, a natação e o _box_, dão-lhes desde a
    idade mais tenra os habitos mais viris, e, como sabem impedir que elles
    vão para os botequins, não costumam encarregar os criticos de lh'os ir
    lá buscar.

    * * * * *

    Sua excellencia não se recusa unicamente a aprender a fazer bom caldo
    segundo os preceitos de Liebig, que nós lhe aconselhamos suppondo que
    Liebig, um dos primeiros chimicos do mundo, sempre saberia um pouco mais
    d'isso do que o Antonio das Môças, celebre inculcador de cosinheiras,
    encarregado de ministrar as donas de casa portuenses as suas mestras da
    arte culinaria. Sua excellencia não só não quer fazer caldo em termos
    para seu marido, mas nem mesmo quer escolher a mobilia, comprar os
    pratos e os copos, determinar a differença de côr nos estofos do salão e
    da sala de jantar, tornar a casa alegre, ridente, aprasivel e digna,
    pagando assim em elegancia, em delicadeza e em bom gosto á sociedade
    conjugal um serviço igual áquelle que recebe d'ella em proteção, em
    trabalho e em força. Sua excellencia prefere _deixar todos esses
    conhecimentos aos cuidados do dono da casa_ (!) _cuja vontade considera
    a lei suprema, na escolha de todos os artigos!_

    Ficariamos na mais inquietadora duvida acerca das funcções que sua
    excellencia deseja exercer no lar domestico, se ella mesma não tivesse a
    bondade de nos explicar que a occupação para que se reserva é a de
    _abençoar agradecida a mão que prende as suas algemas de escrava_ (!)

    O que nos parece é que esse mister exclusivo de sua excellencia não
    promette uma existencia bem divertida em familia ao portador das suas
    algemas!

    Se fossemos seu marido declaramos que nos desquitariamos se sua
    excellencia recusasse aprender pelo menos, alem de abençoar os ferros, a
    jogar a bisca. O nosso temperamento não nos permittiria estar a dar-lhe
    constantemente o grilhão a abençoar; quereriamos ter a faculdade de
    poder dar-lhe tambem, de quando em quando, para variar, uma bôa rôlha.

    * * * * *

    O folhetim de sua excellencia termina com uma allusão pessoal à nossa
    robustez physica e ao caldo que nol-a creou. Sobre este ponto pedimos
    licença para ministrar alguns breves esclarecimentos biographicos:

    Eu–pois que é bom precisar a clareza dos numeros–eu, auctor d'estas
    linhas, não me creei no regimen dietetico do Chiado ou da Calçada dos
    Clerigos. Não, minha senhora: eu creei-me no caldo d'unto e na broa dos
    homens do campo. Estou prevendo que sua excellencia tirará d'este facto
    a conclusão maliciosa de que não tomei chá em pequeno. Que sua
    excellencia não hesite um momento em tirar tal conclsão! É até favor que
    me faz–para simplificar os dados do problema–o partir do principio de
    que não tomei ease chá.

    Agora o que tomei, foi o bom ar puro, saudavel e honesto da querida
    courella onde nasci e em que me creei. Entre os preciosos alimentos
    mineraes de que me nutria havia um principio de primeira importancia
    para o perfeito desenvolvimento do meu arcabouço:–o phosphato de cal,
    que eu ingeria em grandes dozes.

    A nossa casa, cercada d'arvores, no meio de campos, não tinha saguão,
    não tinha visinhas de cuia do retroz e de sapatos achichelados, não
    tinha pia.

    A vida que cercou a minha infancia era simples, rude, poderosa, como o
    grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha familia o
    primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingenuas creaturas que, sem
    terem lido nunca Proudhon ou Taine, sem conhecerem nenhuma das theorias
    dos modernos moralistas tinham todavia comprehendido e assimilado por um
    instincto cheio de lucidez, os dois principaes deveres de uma mulher:
    Primeiro ser saudavel; Segundo não ser conhecida. No interior da sua
    casa eram admiraveis exemplos de dignidade, de trabalho, d'ordem, de
    economia, de bom humor. Madrugavam como as cotovias e nunca o velho
    piano de cauda, que eu conheci ao canto da sala grande, deixou de se
    fechar de memoria d'homems ás 10 horas da noite, o mais tardar. Não se
    desprezavam de cultivar, ellas mesmas, os seus canteiros de tulipas e de
    cravos, e eu seria o primeiro dos artistas portuguezes se conseguisse um
    dia condensar n'um livro toda a somma de methodo, de ordem, de execução
    esthetica, de picante espirito pittoresco, de risonha graça, de que era
    modelo a incomparavel cosinha da minha avó,–aberta ao nivel do pateo
    defronte do poço, cheia das alegrias scintillantes do sol e do balsamico
    perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabellos de carvalho de
    cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira
    onde se espanejavam os capões; os tropheus ornamentaes dos instrumentos
    agricolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a
    masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do
    fumeiro suspensos do tecto; a comprida meza dos môços da lavoura tendo
    em cima a grande celha com a braçada verde dos frescos legumes picada
    com as pintas douradas das cenouras entre as avelumeio e gordas
    efflorescencias dos broculos; e no meio d'isso a intervenção periodica
    do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua
    escudela de batatas ou de caldo, em quanto os pardaes mais atrevidos iam
    sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.

    Esse conjuncto exhalava uma penetrante sensação de tepido aconchego, de
    suave alegria, de inalteravel paz; inspirava sentimentos praticos e
    honestos; era o complemento e o commentario vivo das velhas historias
    contadas á lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da
    familia; explicava o amor á, terra da patria pela dedicação ás quatro
    braças de solo cobertas por esse velho tecto.

    A cosinha de minha avó era finalmente uma profunda obra d'arte, da qual
    os mais bellos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da
    poesia domestica, não poderam dar-me jámais senão uma ideia desbotada e
    fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas litteratas tem
    havido em Portugal não pode senão fazer-me sorrir comparada á obra
    modesta de minha avó, que ella tirou n'um preciosa exemplar unico para a
    educaçao das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da
    saudade eterna dos seus netos.

    A minha robustez physica é o mais contraproducente dos argumentos que a
    minha contraditora podia adduzir em favor da sua doutrina. Diz Hahnmann
    que a fraqueza do homem principia sempre na fraqueza da mãe. A minha
    robustez devo-a eu a descender de uma vigorosa raça de mulheres, que os
    nobres cuidados da sua casa e da sua familia tiveram sempre ao abrigo
    das sentimentalidades enervantes e das publicidades burlescas: poucas
    vezes empallideceram nos bailes e não tiveram nunca de que corar aos
    folhetins dos periodicos.

    * * * * *

    Terminando, agradeço de novo os conselhos de sua excellencia a illustre
    escriptora minha patricia, mas peço licença para os não seguir.
    Continuarei a fazer rir os outros, o que me não impedirá de fazer tambem
    chorar alguns, uma ou outra vez, quando for preciso.

    * * * * *

    Por occasião da visita de el-rei á Escola Polytechnica funccionou o
    telephonio entre uma das salas da Escola e o Observatorio da Tapada.

    Approximando-se do novo apparelho transmissor dos sons, dizem os jornaes
    que sua magestade ouvira–um solo de cornetim!

    Houve primeiro duvida sobre se o fio ligava a Escola Polytechnica com o
    Observatorio Astronomico ou se a ligava com a phylarmonica _União e
    Capricho_. O solo era effcctivamente executado pelo Observatorio.
    Emquanto a astronomia tocava cornetim é natural que, em compensação, a
    arte musical se occupasse em determinar uma parallaxe.

    A unica cousa que extranhamos é que o Observatorio não observasse entre
    as suas peças de musica alguma coisa mais interessante para transmittir
    a el-rei do que o proprio hymno do mesmo augusto senhor.

    Que o Observatorio cultive a especialidade do cornetim, perfeitamente de
    accordo! mas que elle cultive igualmente a especialidade do hymno
    parece-nos um abuso que o principe não levará a bem.

    Reflectiu por acaso o Observatorio no que é o hymno para um cerebro
    coroado? Cremos que o Observatorio não desceu ainda com as suas
    conjecturas ao fundo d'esse abysmo. É horroroso.

    Para os cerebros coroados o hymno equivale a uma enfermidade monstruosa.
    O observatorio faz certamente ideia do que é ter zumbidos, não é
    verdade? Pois ter hymno é peor. É ter constantemente, durante toda a
    vida, em casa, na rua, em viagem, nas cidades, nas villas, nas aldeias,
    sobre as proprias aguas do mar, sempre, por toda a parte como doença
    chronica, como affecção incuravel do nervo acustico, a audiçao do mesmo
    trecho de musica!–O que deve levar paulatinamente á loucura.

    Que o Observatorio se compadeça do infeliz principe condemnado a tão
    incomportavel flagello! O Observatorio ha de ter conhecimento das
    contrariedades que amarguram a existencia; o Observatorio ha de ter
    faltas de dinheiro, ha de ter constipações, ha de ter dores de dentes,
    ha de ter calos. O principe tem tudo isto, e demais a mais tambem tem
    hymno. Poupemol-o ao desgosto de o fazer acompanhar pelo seu triste mal
    ás regiões da sciencia! Inflijamos-lhe o solo, visto que não ha outro
    remedio, mas perdoemos-lhe por esta vez o hynmo! Sejamos terriveis, mas
    sejamos justos! A providencia collocou-nos na mão o cornetim. O monarcha
    presta-nos submissamente o seu real ouvido. Não abusemos d'esse
    instrumento poderoso e d'essa orelha innocente! Compenetremo-nos da
    tremenda responsabilidade que pesa sobre nossas cabeças! Somos
    cornetistas, mas somos tambem astronomos … Toquemos o _Pirolito!_

    E a posteridade nos abençoará.

    * * * * *

    Ha tempos que na sociedada portugueza se notava esta grande falta: A
    hydra da reacção desapparecera da orbita dos conflictos do poder
    politico e do poder clerical. Os srs. ministros, reunindo-se em cada
    manhã nas secretarias do Terreiro do Paço, perguntavam angustiadamente
    uns aos outros:

    –Não viram por ahi a hydra?

    Ninguem a tinha visto por ali. Os joanetes do sr. Barros e Cunha
    entumeciam de impaciencia por não poderem esmagar o monstro; e o sr.
    Mexia, sem hydra que accommetter, sentia-se calvar de humilhação na sua
    dupla qualidade de ministro dos negocios ecclesiasticos e de preterito
    imperfeito do verbo Mexer.

    * * * * *

    N'esta conjunctura por tantos titulos dolorosa o sr. marquez d'Avila,
    presidente do conselho, tomou uma resolução heroica: determinou ser
    hydra do meio dia por deante. E principiou a accumular engenhosamente as
    suas funcções de bicha ultramontana com as suas funcções administrativas
    de homem de estado. Pela manhã s. ex.ª governa. De tarde s. ex.ª rabêa.

    Eis um dos resultados da dualidade que s. ex.ª se dignou de assumir para
    salvar a situação da falta da hydra:

    * * * * *

    O serviço dos enterramentos era feito em Lisboa na mais perfeita paz.
    Catholicos e não catholicos eram levados para o cemiterio municipal
    pelos seus respectivos padres ou simplesmente pelos seus amigos ou pelos
    seus parentes, e todos tinham o seu logar na cidads dos mortos como o
    haviam tido na cidade dos vivos. Pendia apenas d'esse facto uma pequena
    questão canonica que o sr. patriarcha de Lisboa resolveu do modo mais
    exemplarmente sensato, ordenando que, visto considerar-se o cemiterio
    como uma instituição municipal, os parochos benzessem as sepulturas dos
    que desejassem repousar em terreno sagrado, e não benzessem as
    d'aquelles que se contentassem com uma modesta cova simplesmente civil.
    Não tinha jámais de intervir a policia. O ministerio do reino estava a
    esse respeito completamente socegado em sua secretaria. Finalmente
    podia-se morrer em Lisboa só pelo gosto de ser tão tranquillamente
    enterrado.

    N'isto o sr. presidente do conselho sobrevem na sua fórma de hydra e
    determina em favor da morte catholica a creação de um muro similhante ao
    que o sr. Guillomin imaginou para abrigo da vida privada. A camara
    municipal de Lisboa reune-se para dar cumprimento á portaria de s.ex.ª e
    discutir o modo de levantar o muro. Propõem-se a tal respeito varios
    alvitres sobre os quaes predomina em ultima analyse o do sr. dr. Jardim.

    * * * * *

    Era previsto que o sr. Jardim seria o vencedor n'este pleito. Concorrem
    de facto n'essa cavalheiro todas as condições que se requisitam para o
    triumpho. Em primeiro logar, pelo lado physico, elle dispõe da primeira
    cabelleira do paiz. Em segundo logar, pelo lado intellectual, elle tem
    uma formula. A sua formula é esta: «…_O bucentauro do progresso
    rasgando os flancos da montanha_ …» Sempre que esse homem terrivel
    arroja para traz das orelhas a sua cabelleira e descarrega sobre os
    auditorios a sua formula, a victoria é d'elle. A sua existencia tem sido
    uma serie nunca interrompida de triumphos, alcançados pela sua
    cabelleira e pela sua formula. Foi pintando cheio de cabello e de ardor
    o _bucentauro do progresso rasgando os flancos da montanha_ que elle
    triumphou no quinto anno da sua formatura em direito, na defeza das suas
    theses de doutoramento, na exhibição das provas do seu concurso para
    lente da universidade, nas reuniões das associações operarias e
    phylarmonicas de Coimbra, nos conselhos fiscaes dos bancos hypothecario
    e de Lisboa e Açores, nas suas eternas prelecções sobre o terceiro
    estado, e finalmente na discussão do muro Guillomin da morte catholica
    ordenado por s. ex.ª a nobre hydra de Avila e Bolama.

    * * * * *

    Foi baseado nos seus principios de direito administrativo e de direito
    canonico extraidos do _bucentauro do progresso rasgando os flancos da
    montanha_, e ardendo em zelo pela sua alta comprehensão scientifica e
    philosophica do phenomeno social da religião e do facto biologico da
    morte,–comprehensão egualmente haurida do já alludido bucentauro
    rasgando os supracitados flancos,–que s.ex.ª o sr. doutor convenceu a
    vereação lisbonense a approvar não só a creação de um muro–o que à
    hydra parecerá sufficiente–mas a de quatro muros, o que ao bucentauro
    ainda parece pouco.

    O muro primitivo da hydra com os tres muros complementares do sr. Jardim
    fecharão o recinto destinado de ora avante aos enterramentos de todos
    aquelles que morrerem fóra do gremio da religião catholica apostolica
    romana.

    * * * * *

    Nós suppunhamos que o caracteristico religioso que distinge um catholico
    dos membros de qualquer das outras cinco mil seitas religiosas que
    cobrem a superficie da terra era um facto dos dominios exclusivos da
    consciencia: que esse caracter desapparecia no limiar do obscuro portico
    infinito onde pára a vida; que o cadaver deixava de ter uma religião,
    cessava de pertencer á igreja, para pertencer exclusivamente á chimica.
    Suppunhamos que o cemiterio, considerado não só pelo seu lado civil mas
    mas principalmente ainda pela intenção do seu instituto christão, era o
    campo sagrado do respeito, da tolerancia, do esquecimento de toda a
    discrepancia de idéas, de toda a offensa, de toda a injuria, a mansão
    eterna do perdão e do amor para todos aquelles que padeceram na terra as
    amarguras communs da grande humanidade coberta em toda a redondeza do
    orbe pela larga benção incondicional de Jesus.

    Estavamos grosseiramente illudidos. O cemiterio, o cemiterio de Lisboa,
    pelo menos, o dos Prazeres ou o do Alto de S. João, é puramente um
    recinto de caracter official, destinado á fermentação exclusiva das
    podridões privilegiadas.

    Um sr. conselheiro, por exemplo, que morre hydropico na sua cama, bem
    ungido pela liberalidade amiga do seu cura, bem chapinhado em agua benta
    pelo compadrio do seu prior, correcta e apparatosamente amortalhado, com
    as suas calças de galão de ouro duplamente retesadas pela inchação e
    pelas presilhas, com a sua farda vestida, a sua barba feita, a commenda
    no peito, o espadim ao lado, o chapéo armado aos pés, o cordão da ordem
    terceira de S. Francisco à cinta, vae legitimamente e no uso do mais
    sagrado direito para o cemiterio, a esperar na morte a trombeta da
    resurreição da carne, como esperou na vida a hora da sua repartição. No
    dia da chamada geral no valle de Josaphat elle porá na cabeça o seu
    chapéo de bicos e irá tomar o competente logar na gloria eterna, na
    bancada dos conselheiros, á mão direita de Deus Padre Todo Poderoso.

    Mas tu, miseravel canalha, tu, concebido no monturo e dado á luz no cano
    do esgoto, tu que não conheceste pae nem mãe, producto espontaneo da
    grande immundice anonyma, apparecido como a flor da febre á superficie
    do pantano, tu que não recebeste baptismo, nem confirmação, nem ordem,
    nem matrimonio, nenhum finalmente d'esses preciosos beneficios que abrem
    o céo e que a igreja confere por uma tarifa de preços superiores aos
    teus capitaes, tu, não tinhas no cemiterio de Lisboa senão um logar
    usurpado, roubado indignamente ás pessoas de bem. Estoiraste para um
    canto no enchurro em certa noite de inverno. Viveste e morreste fóra dos
    sacramentos da nossa Santa Madre Igreja. És como um cão. A tua natureza
    humana não é a da outra gente. A tua podridão não é a da cabelleira do
    sr. Jardim nem a do abafadoiro do sr. marquez de Avila. Tu és uma besta.
    És peior ainda: és um impio. Vão conceder-te agora um quintal para ires
    para debaixo a terra para a estrumeira execranda dos atheus. Muito favor
    te fazem estes bons senhores em te não remetterem ás equarissagens para
    o esfollal Ainda que, por outro lado, na equarissagem, esfolado,
    distillado, amanhado convenientemente, podias ainda ter o prazer de uma
    sobrevivencia industrial, util ao teu proximo. Os teus principios
    chimicos, o teu hydrogenio, o teu oxigenio, o teu carbono, o teu azote,
    poderiam achar uma applicação pratica e decente. Poderias aspirar na tua
    outra vida a abotoar com os teus ossos as calças do sr. marquez de Avila
    e o lustrar com as tuas banhas a cabelleira do sr. Jardim e de outros
    doutores da camara municipal e da igreja. Na estrumeira dos impios que
    te destinam nada mais serás do que um eterno objecto de execração e de
    horror para os teus concidadãos. Quando passarem por cima da tua cova os
    homens sérios, a quem está promettido o céo sob a palavra de honra do
    padre Marnoco e de outros ecclesiasticos, elles cuspirão sobre a tua
    dissolução infecta. As mães passarão de longe, correndo, com os seus
    filhos pela mão, fazendo-te figas. As velhas senhoras aristocraticas,
    entrevendo de passagem o teu cypreste agoirento, benzer-se-hão com as
    suas finas mãos pallidas e rezarão os esconjuros mais efficazes no fundo
    tepido dos seus ligeiros _coupés_. Assim com as abençoadas sepulturas
    dos santos fazem os benignos milagres, a tua sepultura dará os horrendos
    enguiços. E eu te affirmo que ainda havemos de vêr aquelles que eram
    cegos e que recuperaram a vista abraçando-se ás sagradas reliquias de um
    bom santo, perderam-a outra vez por a prostituirem affirmando-se nas
    vegetações malignas cujas raizes se tenham contaminado no teu humus
    preverso! Finalmente serás detestado, abominado, execrado, maldito,–cem
    mil vezes maldito pelos homens, pelas mulheres, pelas creanças, pela
    cidade inteira.

    E cuidas tu, miseravel, que poderás encontrar um dia na eterna justiça
    inviolavel a compensação d'este despreso systematisado, d'este rancor
    que é um regulamento municipal, d'este odio que é uma lei do reino? Como
    te enganas! O que tem de te succeder é irremissivelmente o seguinte:

    No dia do juizo final tu ouvirás na profundidade do teu estrume o
    canglor da enorme trombeta mais longa que a via lactea, soprada por um
    anjo que desde o principio do mundo terá estado a recolher no pulmão
    para os expellir n'esse instante, todos os estampidos da natureza, todos
    os bramidos do mar, todas as erupções dos vulcões, todas as quedas das
    catadupas, todos os estrondos reunidos do vendaval, do trovão e do raio.
    Não terás remedio senão acordar,–quer queiras, quer não–do teu pesado
    somno da materia bruta. Serás levado á revista do grande valle por dois
    ceruleos cherubins de pequenas azas luminosas suspensas nas espaduas
    como moxilasinhas feitas da pennugem do sol. Esses cherubins dir-te-hão
    com a sua doce voz pollida, affectuosa, mas vibrante: «Vocemecê ha de
    ter a bondade de passar ali para a mão esquerda de Deus Padre porque é
    condemnado.» Tentarás escapulir-te, safar-te para a podridão de que
    tinhas vindo. Appellarás para o juiz supremo. O arbitro da eterna
    justiça inquebrantavel cravará em ti os seus olhos. Tu o verás tambem a
    elle, com a sua longa barba que envolverá toda a terra, o seu bigode de
    interminaveis nuvens grisalhas, de cujas guias, ao contacto dos seus
    dedos, chisparão os raios na amplidão infinita. Ouvirás a sua grande
    voz, cujas sylabas cairão na tua alma, a uma por uma, mais pesadas que o
    Monte Branco e que o Nevado de Sorata. Elle dirá:–«Deram-lhe o
    baptismo? Não. Deram-lhe a confirmação? Não. Deram-lhe a penitencia?
    Não. Deram-lhe a absolvição da culpa? Não. Não lhe deram nada. O
    cherubim tem razão. Passe para a mão esquerda.» Então passarás para a
    esquerda. O teu anjo custodio abrirá um alçapão aos teus pés e gritará
    para baixo, para as profundidades do immenso vortice:–«Fogo eterno para
    um!» Depois do que, te tocára com um sopro. Tu despenhar-te-has cortando
    o espaço como um astro cadente, sem luz, similhante a uma estrella
    sombria feita de lama, até te submergires no tremendo abysmo, na punição
    eterna. E será por todos os seculos dos seculos, sem fim jámais.

    Eis ahi tens o que te espera, segundo a religião do dr. Jardim e outros.
    Religião bem diversa da do santo velho Tobias, que com as suas tremulas
    mãos decrepitas violava piedosamente as leis vigentes e enterrava elle
    mesmo os infelizes condemnados pelo rei da Assyria a ficarem insepultos!
    Bem diversa da d'aquelles christãos da igreja primitiva, que assombravam
    Tertulliano empregando mais perfumes para embalsamar os seus mortos do
    que os pagãos consumiam para celebrar os seus sacrificios; lavavam os
    cadaveres, envolviam-os em seda; vellavam-os durante tres dias antes do
    os conduzirem á sepultura, onde ao som dos hymnos e dos psalmos os
    collocavam estendidos com a face voltada para o nascer do sol. E não
    resumiam a caridade em enterrar unicamente os seus correligionarios: os
    primeiros christãos enterravam tambem, indistinctamente, todos os pagãos
    pobres e desamparados, todos os hereticos, todos os atheus, todos os
    impios. Para lhes merecer o amor bastava ser homem. Para lhes merecer o
    sacrificio bastava ser desgraçado. Por isso disia o imperdor Juliano que
    fôra a obra gratuita e incondicional de enterrar os mortos a que mais
    contribira para o estabelecimenlo e para a propagação do christianismo.

    * * * * *

    Agora, estabelecido o novo cemiterio, resta-nos vêr como s. ex.ª o
    ministro do reino resolverá os conflictos promovidos contra elle mesmo
    por s. ex.ª a hydra. E sobre este ponto temos algumas duvidas a que
    muito desejavamos que o sr. Jardim prestasse por um momento as suas
    esclarecidas madeixas e o seu profundo bucentauro, ou–porque o digamos
    n'outros termos–a attenção do seu genio. Eis um dos casos sobre que
    pretendemos consultar s. exª:

    * * * * *

    Imagine o sr. doutor que o seu reverente servo auctor d'estas linhas,
    não querendo enterrar-se de todo por uma só vez, resolvia enterrar-se
    por partes e dar á terra uma das suas pernas para a terra se ir
    entretendo.

    N'esta hypothese pergunta-se:

    Onde é que o sr. doutor determina que se sepulte a perna de que eu tenha
    o capricho de descartar-me?

    Estou prevendo que o bucentauro de s. ex.ª, attribuindo
    indifferentemente a qualquer das minhas pernas a paternidade do presente
    escripto, me prescreverá o logar destinado por s. ex.ª para os membros
    impios e locomotores.

    A isto porém replico a s. ex.ª que a minha perna quer se trate da
    direita, quer se trata da esquerda, é boa catholica apostolica romana.
    Tinha eu oito dias de idade, ex'mo sr. quando a acompanhei à pia
    baptismal, e ahi lhe foi perguntado pelo parocho da minha freguezia, em
    lingua latina, que ella a esse tempo ainda não tinha tido tempo de
    aprender, se queria baptisar-se, ao que meu padrinho respondeu _Volo_! E
    este volo era como se fosse a minha propria perna que houvesse aprendido
    as linguagens e que assim ousasse exprimir-se. Mas lhe perguntou o
    parocho se ella acreditava na communicação dos santos, na resurreição da
    carne e na vida eterna. Ao que ella respondeu, sempre pela boca do meu
    padrinho, que em tudo acreditava piamente e que era por isso que ali
    tinha ido com o seu respectivo pé e com o pequeno apendice que era o
    resto da minha exigua e innocente pessoa. Desde esse dia até hoje bem
    varias e bem extranhas aventuras se teem passado com a perna cujas
    crenças religiosas nos cabe discutir para averiguar o logar que lhe
    compete na funeral mansão. Ella porém, ex'mo. sr. doutor, apezar de
    todas as vicissitudes que tem atravessado na vida, nunca até hoje
    contradisse–que me conste–as declarações latinas feitas em seu nome
    por meu padrinho: _Volo, credo, abrenuntio_. Ella portanto é catholica,
    e tem direito á sepultura sagrada na terra e á bemaventurança no
    paraiso. O sr. Jardim não póde de modo alguma mandal-a para o cemiterio
    dos atheus.

    * * * * *

    Supponhamos agora que o sr. doutor determina que o logar que compete á
    funeral jazida de uma das minhas pernas é o cemiterio catholico. A essa
    resolução tenho egualmente de oppôr-me com os fundamentos seguintes:

    Uma vez nascida em Portugal, o baptismo, a confissão, a missa, a
    communhão, a pratica de todos os sacramentos e de todas as ceremonias
    não significa da parte da minha perna uma affirmação religiosa mas sim
    uma affirmação civil.

    Pelas leis do reino a religião catholica apostolica romana não é
    facultativa, é obrigatoria. A minha perna não póde entrar no estado sem
    ter previamente passado pela igreja. Na falta de um registro que
    substitua o assento baptimal para a consignação do nascimento, a minha
    perna nem sequer portugueza póde ser emquanto não fôr baptisada! Em todo
    o decurso da vida civil, ella não póde dar um só passo sem primeiramente
    demonstrar que é catholica. Sem a certidão de baptismo, primeiro, sem o
    attestado passado pelo parocho da frequencia de todos os demais
    sacramentos depois, ella não póde fazer exame de instrucção primaria;
    não póde matricular-se em nenhuma das escolas; não póde entrar no
    exercito, nem na armada, nem no professorado, nem no funccionalismo, nem
    na magistratura, nem na representação nacional. Não sendo catholica não
    póde ter nacionalidade, não póde ter profissão, não póde ter estado, não
    póde ter mulher, não póde ter filhos, não póde nem ao menos ter nome!

    A todas as portas da sociedade portugueza se pergunta á minha perna
    antes de a deixar penetrar, se ella é catholica, exactamente como se lhe
    pergunta se ella está isempta do recrutamento e se é vaccinada.

    Desde que veiu á luz em Portugal a minha perna, pelo simples facto de
    nascer, pertence irremissivilmente á igreja. Sem previa licença da
    igreja ella não póde dar um unico passo para dentro do estado ou para
    dentro da familia. Esta simples aspiração, tão modesta: ser filha de meu
    pae e de minha mãe–a minha perna está prohibida de a ter sem que a
    igreja diga que sim. Chega mesmo a ser impossivel o poder eu demonstrar
    de um modo juridico e authentico que a minha perna seja effectivamente
    minha emquanto a igreja não disser tambem que sim. De sorte que, quando
    eu ouso dizer _a minha perna_, sirvo-me de uma arrojada methaphora, que
    espero me seja relevada pelo sr. dr. Jardim. O que eu rigorosamente
    deveria dizer em linguagem litteral, para me referir á minha perna,
    era–a perna da igreja.

    Se estamos pois n'um paiz onde o estado priva absolutamente a minha
    perna da faculdade de escolher uma religião, chumbando-lhe elle mesmo o
    catholicismo no tornozello, como se chumba a grelheta n'um condemnado,
    recuso absolutamente ao sr. dr. Jardim e a todos os demais doutores o
    direito de affirmarem que a minha perna tenha ua religião. Pelo facto de
    ser baptisada, de ouvir missa, de se confessar ao menos uma vez cada
    anno, de commungar pela Paschoa da Resurreição, de jejuar á sexta feira,
    de acreditar na infallibilidade do papa, etc., a minha perna não está na
    religião, está apenas na lei civil, está na carta. Em quanto a crenças
    religiosas, o mais que se poderá dizer da minha perna, apezar de
    baptisada, de jejuada, de confessada, etc., é que ella é cartista.

    Como porém a creação das duas especies de cemiterios imaginados em
    Lisboa pelo sr. Jardim e pelo sr. marquez de Avila não póde ter por fim
    separar os cidadãos que obedecem á carta dos cidadãos que lhe não
    obedecem–o que seria absurdo por equivaler a acompanhar a mesma lei de
    dois regulamentos oppostos, um para o cumprimento d'ella e outro para a
    sua transgressão,–é claro que não póde ser unicamente pelo facto de
    estarem os restos de alguem dentro da lei civil que se lhes ha de
    designar a sepultura sagrada.

    Em conclusão final: Dada a coexistencia de dois cemiterios, um catholico
    outro não catholico para o fim de enterrar todo o mundo, a minha perna
    pela impossibilidade de se determinar rigorosamente se ella é
    effectivamente catholica ou se não é catholica, acha-se no caso especial
    de não poder ser mandada nem para um nem para outro d'esses cemiterios,
    e de ter de ficar insepulta em quanto o sr. dr. Jardim não mandar o
    contrario.

    Ora succede que todos os cidadãos portuguezes, sem excepção alguma, se
    encontram precisamente nas mesmas condições em que se acha a minha
    perna.

    Não se póde affirmar que alguem é catholico ou que o não é emquanto a
    creação do registro civil não assegurar a cada cidadão a livre faculdade
    de exercer ou não qualquer d'estes direitos: nascer sem padre, casar sem
    padre, morrer sem padre.

    * * * * *

    Excellentissima camara municipal da muito nobre, sempre leal e invicta
    cidade do Porto ou quem suas vezes fizer–Paços da Camara na Praça Nova,
    esquina do Laranjal

    Porto

    Excellentissima camara e minha boa senhora. É cheio dos maiores cuidados
    pela preciosa saude de v. ex.ª que lançamos mão da pena para, em nome de
    todos os forasteiros que foram a essa cidade por occasião da cerimonia
    inaugural da ponte sobre o Douro, dirigir a v. ex.ª algumas regras.

    Principiaremos por dar a v. ex.ª uma breve noticia da festa em que
    tomamos parte e em que v. ex.ª teve as suas razões para não se dignar de
    comparecer.

    Por convite da direcção da companhia dos caminhos de ferro portuguezes
    reunimo-nos na estação das Devezas no dia 4 do mez de novembro passado
    pelas 11 horas da manhã. Cerca de uma hora depois partiamos em um grande
    comboyo extraordinario e paravamos em frente do Porto, á entrada da nova
    ponte, na margem esquerda do rio. Maravilhoso espectaculo o que
    presenceamos desde Gaya até á estação de Campanhã e do qual procurarei,
    certamente debalde, dar uma longiqua ideia a v. ex.ª!

    Um delicioso dia de outomno, de um largo tom lacteo e ceruleo como o de
    uma perola azul, abraça amorosamente a natureza e banhava a paizagem
    n'uma luz vaporosa impregnada da frescura dos orvalhos e do aroma das
    violetas. A cidade fronteira desdobrava aos nossos olhos todos os seus
    encantos topographicos, desde a Foz, envolta na sua athmosphera
    maritima, salgada e humida, até os montes longínquos do lado opposto,
    levemente esfumados no horisonte sob as douradas pulverisações do sol.
    Viamos a ridente collina de Villar coberta de verdura e coroada pelo
    Palacio de cristal; os copados bosques do Candal e de Valle de Amores; o
    caes da Ribeira com a sua arcaria denegrida e o seu pittoresco mercado
    de velhas barracas alpendradas brunidas pelo sol; a ingreme ladeira da
    Corticeira; o parque das Fontainhas; a casaria emassada das freguezias
    da Se e do Bomfim, com os seus predios esguios, terminando quase em
    _pignon_ como na Hollanda: uns bem aprimados, tesos, vidrosos,
    reluzentes, forrados de faiança, outros barrigudos, sombrios enodoados,
    fazendo fincapé para não cambalearem como ebrios taciturnos; outros,
    ainda, pintados de branco, pintados de azul, pintados de côr de rosa,
    com chaminés bordadas e claras-boias phantasistas rematadas por
    trabalhosas ventoinhas, jocundos, satisfeitos de si, rindo pelas sacadas
    abertas ornadas de craveiros e de alecrins; depois, de valle em valle,
    os lindos suburbios de Riba Douro: o choupal do Areinho, as espessas e
    murmurosas frescuras das quintas de Quebrantões, da Oliveira, da
    freguezia de Avintes; a bahia do Freixo, onde o rio tem a configuração
    de um pequeno lago circular dominado por um elegante palacio Luiz XV, de
    torreões e eirados senhoriaes, cuja elegante escadaria exterior mergulha
    venezianamente na agua.

    Todas as eminencias que viam o ponto onde paramos para a celebração da
    ceremonia inaugural estava litteralmente cobertas de gente. Os montes
    proximos achavam-se completamente submergidos sob uma espessa vegetação
    humana. Em frente, todos os degraus da penedia, todos os socalcos, todos
    os jardins, todos os quintaes, todas as janellas, todos os muros, todos
    os telhados, todas as superficies, todos os contornos, todas as arestas,
    tinham um debrum de gente.–Enorme romagem nunca vista. A cidade do
    Porto em peso e 40 ou 60 mil peregrinos advindos de todas as regiões do
    paiz estavam ahi reunidos. Para que?

    Para celebrar um puro facto scientifico–a solução de um problema de
    mechanica. N'este simples facto, exm.ª camara, que symptoma! que
    phenomeno! que revolução!

    Ha bens poucos annos ainda só o fanatismo religioso tinha o poder de
    determinar as grandes romagens a S. Thiago de Campostella, a S. Torquato
    de Guimarães, á senhora da Nazareth, á senhora do Cabo. Os peregrinos
    iam então solicitar a intervenção milagrosa dos bons santos nos seus
    casos pathologicos, nas suas ambições pessoaes, nas suas questões
    domesticas: os paralyticos iam pedir movimento, os cegos iam pedir luz,
    os tristes iam pedir consolação, os turbulentos iam pedir paz, e os
    mendigos suspensos nas suas moletas, com o grande alforge ao pescoço, a
    longa barba cor de greda empastada no suor da jornada e no pó dos
    caminhos, iam simplesmente á beira das estradas pedir pão em troca de
    plangentes ladainhas e de arrastadas melopeas nazaes.

    Os peregrinos á ponte sobre o Douro não eram movidos por interesse algum
    pessoal.

    Esta romagem de novo genero exprime uma mentalidade nova; mostra que, se
    o nosso apparelho social mantem ainda por um lado os mesmos aspectos
    exteriores da sua velha structura, por outro lado elle annuncia já uma
    funccionalidade diversa.

    Um poder absolutamente novo, que não é o poder religioso nem o poder
    politico, com quanto não affirmado ainda nas instituições, revela-se já
    por este facto na comprehensão dos espiritos. Esse novo poder,
    irrevogavelmente destinado a substituir todos aquelles que sob diversos
    nomes teem gerido até hoje a direcção da sociedade, é na esphera
    espiritual a sciencia e na esphera temporal a industria.

    A ponte sobre o Douro é a mais bella e a mais perfeita expressão
    symbolica d'esse poder, ao qual o paiz inteiro acaba de prestar o culto
    mais unanime, o mais desinteressado, o mais convicto, o mais solemne de
    que ha exemplo na historia das manifestações do applauso publico. Era
    tão superiormente elevado o caracter d'esta grande festa da civilisação,
    que perante o objecto d'ella desappareceram como por encanto n'esse dia
    todas as incompatibilidades, todas as dissidencias, todas as distincções
    de gerachia, de seita e de partido, que dividem a sociedade portugueza.
    A direcção da companhiados caminhos de ferro teve o bom gosto de
    convidar para o banquete que se seguiu á solemnidade da inauguração os
    individuos representantes das opiniões mais extremas, o mundo official e
    o mundo dissidente, tudo o que ha mais retrogado e tudo o que ha mais
    progressivo, os mais ferrenhos conservadores e os mais ardentes
    revolucionarios. Estes personagens tão justamente surprehendidos de se
    acharem juntos pela primeira vez na sua vida, tomando parte em um almoço
    cujos convivas não tinham precisamente por fim devorarem-se uns aos
    outros e serem os bifes de si mesmos, confraternisaram do modo mais
    tolerante e mais affectuoso, porque, acima de todas as suas divergencias
    episodicas de opinião, havia um sentimento de attracção commum, de
    conciliação geral, em nome do qual ahi tinham convergido todos. E esse
    sentimento era o respeito do trabalho, d'essa immensa e irresistivel
    força anonyma, obscura, lenta, perseverante, que o seio das
    bibliothecas, das fabricas, dos laboratorios, dos gabinetes de estudo,
    vae dando em cada dia aos destinos humanos um novo impulso para o
    aperfeiçoamento e para a felicidade.

    Não foram os reis nem os exercitos nem os padres, mas não foram tambem
    os jacobinos nem os demagogos nem os atheus os que teem guiado e
    dirigido até hoje a humanidade na sua ascenção atravez da historia. Foi
    elle unicamente, foi o trabalho modestamente, obscuramente exercido nos
    remansos da paz, nos recolhimentos da applicação e do estudo o que
    determinou todas as conquistas, todas as victorias, todos os triumphos
    das sociedades.

    A ponte sobre o Douro symbolisa uma d'essas conquistas, uma d'essas
    victorias, um d'esses triumphos:–a conquista de perto de meio seculo de
    paz; a victoria, proporcional a esse periodo, da intelligencia do homem
    sobre as fatalidades da natureza, o triumpho finalmente do destino
    progressivo do nosso espirito sobre a immobilidade das nossas
    instituições.

    Ha cerca de quarenta annos apenas, ex.'ma camara, essas duas montanhas
    estreitamente enlaçadas agora por um abraço de ferro, eram separadas por
    um rio vermelho de sangue. Nos mesmos logares onde nós agora nos
    reunimos para regar o solo com o champagne das agapes modernas, os
    nossos paes e os nossos avós espingardeavam-se convictamente, decidindo
    com o sacrificio das suas vidas a questão de palacio a esse tempo
    debatida entre dois principes.

    A guerra com tal fundamento seria hoje insustentavel. É evidente que
    progredimos, e o facto de irmos ao Porto, desinteressadamente, aos
    milhares, celebrar um facto industrial, significa a mais eloquente
    affirmação d'esse progresso.

    A cidade do Porto que por muitas vezes tem recebido a visita dos seus
    principes, dos seus reis, dos seus generaes, dos seus mandões de toda a
    especie, teve pela primeira vez n'esse dia a visita do povo.

    Como foi que v. ex.ª, representante do municipio portuense recebem este
    seu novo hospede? Não lhe apparecendo!

    V. ex.ª, que tem dado a esse espinhaço os tratos mais violentos e mais
    irracionaes para conseguir encurvar-se e acocorar-se n'uma reverencia
    satisfatoriamente abjecta diante de todas as testas coroadas; v. ex.ª
    que tem desengonçado e desarticulado a rhetorica municipal debaixo dos
    pés da real familia; v. ex.ª que conserva ainda entre os ferros velhos
    do seu stylo declamatorio–ao mesmo tempo alambicado e labrego–_as
    chaves d'esse heroico baluarte_ depostas em cada anno por v.
    ex.ª–dizemos–não teve um dito, uma palavra, um gesto sequer, para
    agradecer a cincoenta mil viajantes a mais solemne e a mais
    extraordinaria manifestação de estima de que ainda foi objecto uma
    cidade por parte dos representantes de um paiz inteiro.

    Este simples facto basta para nos provar que v. ex.ª desconhece
    completamente qual é o espirito municipal das modernas sociedades
    democraticas, que v. ex.ª está cem annos atraz do seu tempo, e cem furos
    abaixo da missão em que foi investida pelos suffragios da população
    portuense, tão energica, tão intelligente e tão progressiva.

    É possivel que v. ex.ª tivesse tido que fazer n'esse dia que houvesse
    contrahido compromissos anteriores, que se achasse por ventura associada
    com alguma camara sua visinha para uma honesta merenda, para uma boa
    patuscada, para alguma das bem conhecidas _sapateiradas_, nas quaes todo
    o nosso ser se disgrega do mundo exterior para se abysmar no arroz do
    forno e na carne assada no espeto. Mas n'esse caso porque é que v. ex.ª
    nos não preveniu? Durante a ausencia de v. ex.ª, minha boa senhora, a
    sua cidade estava immunda. Se tivessemos sido contemplados com um aviso
    telegraphico nós, que fomos d'aqui unicamente com as nossas camizas,
    teriamos levado tambem as nossas vassouras nas malas e a nossa
    resignação para o desgosto de a não vermos no espirito.

    Acceite minha senhora a expressão dos nossos sentimentos, tão cordeaes
    como aquelles que v. ex.ª nos não exprimiu.

    * * * * *

    Dissemos no precedente volume d'estas chronicas que o sr. Fontes Pereira
    de Mello, doendo-lhe um dente, desmontara e abandonara nos prados, entre
    os deputados governamentaes e as boninas em flor, a jumentinha do poder.

    Eis o que ao depois occorreu:

    * * * * *

    A pacata bestinha da governação andou a monte por alguns mezes,
    choutando ao acaso, pungidas nos ilhaes pelos tacões do sr. Barros e
    Cunha e sobre a anca pela ponteira do guarda sol do mesmo illustre
    estadista e cavalleiro. Para onde é que s. ex.ª, coberto de zelo e de
    suor, queria com tanta violencia equestre encaminhar a onagra?

    –Para a senda da moralidade e da economia! bradava s. ex.ª com uma das
    mãos na redea e com a outra mão sobre a carta constitucional.

    Mas os burriqueiros experimentados no trilho peguinhado pela burrinha
    bambeavam dubitativamente a cabeça, e do alto das montanhas, com a mão
    aberta em viseira sobre os olhos, dilatando a vista ao futuro, diziam:

    –Não. Para onde elle vae é para a senda de Cacilhas á Cova da Piedade.

    E deixaram-o ir.

    * * * * *

    Como porem soasse o momento psychologico em que a asninha do governo,
    com a sella no ventre, considerou que ia de longada para muito longe da
    estrebaria, apertou-lhe as entranhas a nostalgia da cevada, e fitando a
    orelha, baixando a cabeça, cravando os olhos sinistros nos cascos
    deanteiros, arrojou ao firmamento ingrato duas parelhas de coices
    adiante dos quaes ascendeu da albarda para as alturas o vulto do grande
    homem. Depois do que elle baqueou no charco fronteiro, como se a
    perfidia das rãs o tivesse aferrado pelo coccix e attrahido ao
    abysmo,–sempre com uma das mãos na carta, mas já tem a outra mão na
    redea.

    * * * * *

    Cousa verdadeiramente admiravel de ver foi a velocidade com que a
    cavalgadurinha do Estado principiou então a dar terra para feijões,
    retrocedendo para casa e bebendo o espaço com o freio nos dentes e com a
    saudade da mangedoura na alma.–Tão poderoso e fecundo é o ascendente
    moral que exerce o principio sagrado da ração sobre as actividades
    officiaes!

    * * * * *

    Quando as boninas e os representantes da nação tornaram a ver a burrinha
    do poder no prado florido onde convalescia entre os idylios do ocio o
    dente do sr. Fontes, grande foi o ardor e a emulação entre os
    circumstantes que á porfia queriam segurar a asna. Coube essa gloria ao
    sr. José Dias Ferreira.

    Empolgando com mão dextra e firme a camba do freio á alimaria do poder,
    o sr. José Dias exclamou triumphante e glorioso:

    –A mim, rapazes!

    E gritando em coro: «Ave, José vencedor!»–os rapazes foram a elle.

    * * * * *

    Eis senão quando, que hão de ver os rapazes que a elle tinham ido e bem
    assim elle mesmo?

    Atonitos elles vêem–caso que os olhos se lhes recusam acreditar–que a
    burra já não está devoluta, que a albarda tem gente em cima!

    Effectivamente emquanto o sr. José Dias intrepido segurava a redea, o
    sr. Fontes veloz encavalgara o poder.

    * * * * *

    O primeiro acto do novo cavalleiro foi alijar dos alforges as provisões
    do governo que o precedera. S. ex.ª sacou os 150 contos de tijolo para a
    Penitenciaria e atirou-os para um lado. Sacou os vinte e quatro conegos,
    rochuchundos, atochadas como paios, e atirou-os para o outro lado. Tirou
    depois os quinze beneficiados com os seus competentes livros de côro e o
    seu devido rapé; tirou a cadeira de Sanskrito com o seu professor em
    cima; tirou a matta do Bussaco forrada de papel e enchumaçada de algodão
    para sua magestada passear; tirou o porto artificial de Leixões cheio de
    dourados bergantins e de ligeiras caravellas com os seus competentes
    nautas, obra de grande pacienca e curiosidade; mais tirou o _Times_; e,
    como ainda restasse o que quer que fosse no fundo dos alforges, foram
    estes virados com o de dentro para fóra, e appareceu por ultimo o sr.
    Venancio Deslandes, director da Imprensa Nacional e secretario da
    commissão da exposição de Paris. S. ex.ª trazia empunhada e aberta a
    delicada umbela de linho cru forrada de tafetá azul com a qual s. ex.ª
    abrigava dos raios solares desde o Terreiro do Paço até á rua do Duque
    de Bragança a fronte capitolina do ex-sr. presidente do conselho de
    ministros. O ar de s. ex.ª o sr. Deslandes era cheio de uma grave
    auctoridade, e á sombra do chapeu de sol de linho cru forrado de tafetá
    azul o seu rosto parecia envolto na aureola de uma competencia genial!

    Despejado o alforge o cavalleiro pediu um exemplar do codigo fundamental
    da monarchia, que metteu em uma das bolsas; depois, lembrando-se das
    causas que determinaram o partido regenerador a abster-se de governar
    durante alguns mezes e querendo obviar á repetição d'essa
    intermittencia, pediu o dentista Guerreiro e acondicionou-o na outra
    bolsa do alforge ministerial.

    Sorrindo em seguida e despedindo-se do sr. José Dias do alto da burra,
    enfiou a trote marcial provincias da publica administração em fóra.

    * * * * *

    E todos seguiram pressurosos o chibante cavalleiro. Tão sómente no mesmo
    logar em que sr. Fontes tivera estado a chumbar o seu dente foi visto
    nas ervas o sr. marquez d'Avila, acocorado na solidão, a chapinhar com
    arnica o seu galo.

    * * * * *

    Na semana seguinte áquella em que estes successos occorreram houve
    jantares de convite em todos os restaurantes de Lisboa. Estes banquetes
    eram o resultado de apostas feitas contra e a favor da victoria do sr.
    Fontes pelos _gentlemen_ do _turf_ politico.

    O sr. Fontes depois d'esse notavel triumpho ficou marcado gloriosamente
    como o _Gladiateur_, e ninguem mais tornará a apostar contra o nobre
    estadista sem a condição previa de que se sobrecarregue com mais alguns
    kilogrammas de chumbo o dente de s. ex.ª

    * * * * *

    Uma vista d'olhos a uma das ultimas sessões da camara dos senhores
    deputados:

    * * * * *

    Enorme concorrencia nas galerias. Senhoras, diplomatas, escriptores,
    funccionarios publicos, militares, operarios, enchem as tribunas desde
    os parapeitos até ao tecto.

    Na sala um sugeito, embrulhado no seu paletot, com a perna traçada sobre
    o joelho, preside somnolentamente como um dilettante enfastiado.

    Serve de secretario, lançando apontamentos a uma larga folha de papel um
    individuo que ha poucos mezes se chamava apenas Alfredo, mas que, em
    resultado de um lucto occorrido durante o ultimo interregno parlamentar,
    publicou nos jornaes que principiava a chamar-se em testemunho de
    dôr–Alfredo Angelino. S. ex.ª traja rigorosmente de negro.

    Em frente da presidencia alinham-se os srs. ministros devidamente
    encasados nos seus _fauteuils_. Não teem uma apparencia espirituosamente
    feliz, mas parecem refrigerados nas cadeiras do poder e olham o espaço
    com a expressão passiva e tão caracteristicamente pacata dos individuos
    calidos quando instalados em decocções emolientes de alfavaca de cobra.

    No meio do amphitheatro um digno sr. deputado, com uma das mãos sobre o
    coração, a outra mão alongada patheticamente no espaço, está orando.

    Em torno do tribuno agrupam-se em pé varios representantes da Nação.

    Uns roliços, atochados, vermelhos, semelham tympanites enformadas em
    amplas sobrecasacas pomposas. Sente–se que elles respiram com exforço.
    O abuso do feijão suffoca-os como o sangue de Danton suffocava
    Robespierre–São os empaturrados da coisa publica.

    Outros magros, defecados, pallidos, com as orelhas lívidas, os pés
    mettidos para dentro, as calças esbambeadas pelas joelheiras dos
    sedentarios, teem sorrisos que se parecem com as referidas calças e que
    descobrem mucoses desbotadas e dentes morbidos.–São os espinhelas
    cahidas do systema que felizmente nos rege.

    No fundo escuro da bancada sobresaem da côr sombria dos vestuarios de
    inverno duas mãos longas, pallidas, frias, magras, de um aspecto
    dramatico, boas para assignarem um decreto de proscripção ou uma
    sentença de morte. O dono utilisa-as em explorar o seu proprio nariz
    inoffensivamente, n'uma abstração magnanima.

    –Sr. presidente–diz o orador, e a sua voz é pungente, elegiaca,
    lacrimejante–Sr. presidente! onde não ha religião não ha dignidade.

    Um ecclesiastico, alto, magro, macilento, volve para o orador o seu
    estrabismo convergente, de mystico, e applaude-o com um grave meneio de
    cabeça.

    Este padre, de aspecto sombrio e inquisitorial, e aquelle orador de
    vinte e cinco a trinta annos, cheio de robustez, de saude, de mocidade,
    estão ambos de accordo sobre esse ponto: que a dignidade é uma
    resultante da religião. E todavia é a religião que obriga esse pallido
    mystico a conciliar-se com o celibato, a sequestrar-se na contemplação,
    a abandonar todos os bens terrenos pela posse dos fructos celestiaes, a
    submetter-se pela humilhação, pelo desprezo de si mesmo, a offerecer uma
    face quando o esbofetearem na outra, finalmente a padecer e a
    resignar-se. E é pelo contrario a dignidade que obriga esse rapaz
    sanguineo e robusto a caminhar na direcção opposta á d'esse anemico, a
    constituir a familia, a luctar, a não perder tempo em contemplações e em
    extasis, a ser pratico e positivo, a ter filhos gordos e camisas
    lavadas, a resistir finalmente e a triumphar na grande lucta pela vida
    moderna, em que as costelletas com batatas, as garrafas de Collares e as
    botas novas não caem do ceu cob a fórma de maná, caem unicamente do
    trabalho perseverante e rude sob a forma de riqueza. Elles porém estão
    ambos de accordo emquanto á alliança indissoluvel da dignidade de um e
    da religião do outro perante o principio transcendente da rhetorica
    constitucional.

    Diz mais o orador:

    –«Sr. presidente!–e a entonação do tribuno continua a ser lacrimosa e
    pathetica–li os sarcasmos de Voltaire, as ironias de Swift, as
    investigações de Renan, os de-esperos de Schopenhauer, Hartman
    inventando religiões para o futuro, Buchner divinisando a materia. Tudo
    isto porem não apagou na minha alma a doce esperança que n'ella lançaram
    aquellas palavras divinas, que dizem: Bemaventurados os que soffrem
    porque elles serão consolados».

    E muitas vozes enthusiasticas e convictas bradam de todos os lados da
    camara:–«Muito bem! muito bem!»

    Á morbida corrente intellectual do pessimismo allemão representado por
    Hartman e por Schopenhauer a Inglaterra oppõe o naturalissimo de Darwin
    e as poderosas systematisações de Spencer, a França oppõe o positivismo
    victorioso de Augusto Comte e de Littré. Em Portugal, onde estas
    questões não foram nunca ventiladas senão por pobres escriptores
    desconhecidos em periodicos tão desconhecidos como elles, a camara dos
    srs. deputados ouve pela primeira vez a solução official d'esse debate.
    Ao optimismo leibniziano, ao deismo kantiano, ao ideologismo hegeliano,
    ao inconscientismo de Hartman, ao pessimismo de Schopenhauer e de Julius
    Bahnsen, ao naturalismo de Darwin, ao positivismo de Spencer, de Stuart
    Mill e de Littré, a intellectualidade portugueza responde mostrando a
    alma virginal do sr. Manuel d'Assumpção. E a comprehensão mais perfeita
    dos destinos do universo fica de uma vez para sempre definida depois
    d'isto: a alma do nosso Manuel persiste inabalavel nas suas primitivas
    crenças. Que queria a philosophia moderna? A philosophia moderna não
    queria evidentemente senão uma coisa: apagar a esperança na alma d'este
    moço. Pois ficará sabendo que o não conseguiu. A camara dos deputados da
    nação portuguez esmaga toda a obra do entendimento moderno
    collocando-lhe em cima o sr. Assumpção e a esperança da sua alma, no
    meio dos applausos geraes de todo o parlamento.

    E, não obstante, querem dizer alguns que a politica não é mais do que a
    applicação da philosophia á direcção pratica das sociedades.

    A politica de Bismark é um grande poder social porque atraz d'elle está,
    como o peito pelo outro lado da couraça, a disciplina philosophica de
    Kant, de Hegel e de Hartman.

    Danton, a alma da Revolução, era na esphera executiva o instrumento da
    philosophia da Encyclopedia; e a primeira republica franceza baqueou
    precisamente no dia em que o principio philosophico que determinou o
    grande movimento cahiu com a cabeça de Danton, guilhotinado pela
    indisciplina mental.

    Foi ainda a anarchia das idéas, resultante da falta de um methodo
    philosophico, que comprometteu o destino da segunda republica em 1848.

    Finalmente para que a democracia se fundasse em França sobre bases
    definitivas foi preciso que Danton resuscitasse para gloria das ideias e
    para honra do espirito humano na pessoa de Gambetta, que é o filho
    triumphante da philosophia positiva do seculo XIX, assim como Danton é o
    filho damasiadamente precoce da philosophia do seculo passado.

    Na Italia o que é a politica actual, que libertou e unificou a grande
    peninsula, senão a somma das expeculações de uma longa serie de
    pensadores, desde Dante, o vidente, até esse taciturno Leopardi, que foi
    o alliado intellectual de Hartman assim como Victor Manuel foi o alliado
    politico do imperador Guilherme?

    Em todos os estados actualmente em dissolução qual é a causa do mal
    senão a perturbação da mentalidade pelo empyrismo da politica
    arbitraria? Será preciso citar a Turquia? Será preciso citar a Hispanha?

    Mas a Hispanha renasce em cada ida, em cada hora, com um assombroso
    vigor intellectual, que em poucos annos despedaçará todos os velhos
    preconceitos e todas as caducas instituições que embargarem a sua
    ascenção politica. O federalismo, forma definitiva da civilisação na
    peninsula iberica, está-se affirmando no paiz visinho de um modo que nos
    certifica da impossibilidade de um retrocesso. O federalismo perde a
    pouco e pouco o caracter de uma opinião partidaria. É um resultado
    philosophico, que em toda a Hispanha está sendo pacificmente revisto e
    contraprovado por todas as sciencias: pela mechanica, pela mesologia,
    pela climatologia, pela ethnologia, pela anthropologia, pela
    linguistica, pela historia. Quando esta idéa chegar ao cabo da sua
    elaboração especulativa, ella converter-se-ha em uma lei sociologica e
    actuará sobre o seu fito, irresistivelmente, como uma força da natureza.

    Quando por toda a parte a philosophia estabelece e dilata tão
    experimentalmente e tão evidentemente os seus dominios sobre o destino
    humano, a camara dos srs. deputados em Portugal applaude na sua grande
    maioria a condemnação da critica e do pensamento moderno; declara-se
    indissoluvelmente abraçada á theologia; e a todas as conquistas da
    sciencia no presente seculo ella oppõe triumphantemente a posse d'esta
    noção: «Bemaventurados os que soffrem porque elles serão consolados.»

    A ironia emudece de pasmo deante de um symptoma tão patente de
    esphacelamento cerebral.

    Estamos n'um congresso de legisladores ou estamos n'um seminario de
    caturras?–É unicamente o que perguntamos.

    * * * * *

    O medo como a camara pensa dá-nos a justa medida do modo como a camara
    governa. Ha muitos annos que ella não toma uma unica medida tendente a
    coordenar e a systhematisar harmonicamente os esforços da progressão
    social.

    A reforma da lei eleitoral, fonte da reconstituição politica, está por
    fazer.

    A liberdade religiosa não está regulamentada de modo que torne effectivo
    o principio em que se funda.

    A distribuição racional do imposto ainda não foi definida.

    Finalmente a organisação da instrucção publicia, esse elemento vital de
    uma sociedade em movimento, acha-se por enunciar. N'este ponto a mesma
    Turquia está muito adeante de nós.

    Os parlamentos, sem direcção mental, sem criterio scientifico, sem
    destino politico, esterelisam-se successivamente na phraseologia e
    dissolvem-se na banalidade.

    As crises parlamentares determinadas unicamente pelo conflicto dos
    personagens impacientes ou despeitados attrahem periodicamente ás
    camaras uma grande concorrencia de ouvintes que não recebem ahi senão as
    mais perigosas lições de cynismo e de immoralidade.

    Das duas coisas uma: ou o espirito publico está bastante corrompido para
    assimilar sem perturbção do seu organismo a entoxicação d'esses
    exemplos, e n'esse caso seria um paiz condemnado à dissolução; ou a
    burguezia, cumplice n'esta decadencia, tem ainda um resto de senso
    moral, e n'esse caso revoltar-se-ha e o actual regimen politico ha de
    cair como caiu em França o segundo imperio por effeito de um movimento
    similhante áquelle a que Luiz Veuillot chamou a _revolução do despreso_.

    Á similhança de um corpo morto o parlamento immobilisou-se por falta de
    circulação intellectual. Os partidos politicos são os centros nervosos
    do systema representativo. Atrophiados esses centros o systema cessa de
    funccionar. Ora qual é o estado dos partidos politicos em Portugal?

    * * * * *

    Ha um partido que está hoje no poder. É um partido conservador. É
    catholico, é monarchico, é auctoritario, é proteccionista, é
    militarista, é unitario. Quer um parlamento com duas camaras, uma
    electiva e outra hereditaria; quer uma igreja e uma religião do Estado;
    quer as alfandegas com as suas velhas pautas; quer um exercito
    permanente com os seus respectivos canhões Krupp e a sua competente pena
    de morte; quer as colonias com o seu antigo systema de direcção e de
    governo; quer ainda fazer o seu gancho de negocio e ter um estaleiro,
    uma fabrica de polvora, uma imprensa, uma fundição de typo, uma fabrica
    de cordas, uma photographa, etc.

    Ha por outro lado quatro ou cinco partidos que alternativamente se
    disgregam ou se unificam, conforme as necessidades da sua tactica, e que
    pelas suas idéas não formam realmente senão um partido unico: o partido
    opposicionista. Que differença ha entre este partido na opposição e o
    partido actualmente no governo? É revolucionario? Não: é egualmente
    conservador. É racionalista? Não: é egualmente catholico. É
    evolucionista? Não: é egualmente auctoritario. Quer a liberdade da
    industria e a liberdade do commercio? Não: quer egualmente a protecção
    das pautas. Quer egualmente o exercito com os seus generaes, e a
    universidade de Coimbra com os seus theologos; quer egualmenle a
    magistratura anarchica, a instrucção cahotica, o suffragio corrompido, o
    governo arbitrario. Tambem quer fazer de quando em quando para se
    distrahir o seu bico de obra, e procura manter para esse fim a imprensa,
    a photographia, a cordoaria, a fundição, etc.

    A unica opinião que a opposição diz ter e que ella accusa o governo de
    não professar é a opinião abstracta da economia, da ordem, da moralidade
    e do progresso. Como porém todos os governos, qualquer que seja o
    partido de que elles procedam, teem successivamente cahido do poder
    perante a accusação de não servirem o progresso, a moralidade, a ordem e
    a economia, devemos acreditar que, ou essas virtudes, que aliás não
    pódem constituir principios de programma, são communs a todos os
    partidos ou não são especiaes de partido nenhum.

    Os partidos portanto não se differençam senão pelos nomes dos individuos
    mais ou menos numerosos do que elles se compõem. N'esta ausencia
    completa de idéas contrapostas o governo em Portugal, versando
    constantemente sobre si proprio, dá-nos o espectaculo de um organismo
    vivo isolado na creação, alimentando-se na sua propria substancia e
    digerindo-se pouco e pouco a si mesmo.

    * * * * *

    Deixando de ser uma lucta de principios e de idéas a politica
    converte-se fatalmente em uma questão de compadres.

    O compadrio elevado á cathegoria de instituição nacional, domina tudo,
    corrompe tudo, dissolve tudo. Os partidos que não pódem conquistar o
    appoio da opinião pelas idéas que representam, procuram manter-se pelo
    appoio dos compadres que favorecem. É na proporção exacta do numero dos
    compadres que annualmente despacha e emprega, que um partido augmenta ou
    diminue de adeptos, progride ou retrograda na confiança da corôa e no
    favor da urna.

    O dogma fundamental do compadrio impõe-se por tal modo que transforma
    todas as outras noções moraes segundo o criterio de que elle é a
    expressão. Transforma a justiça, a honra, a probidade, a propria
    consciencia. Nenhum partido politico ousa violar o compadrio: seria
    commetter a mais vil e a mais nefanda das traições politicas!

    Despachando o compadre mais serviçal com exclusão do adversario mais
    competente todo o governo honesto julga praticar um acto de gratidão e
    de lealdade. E ninguem vê quanto ha de profundamente subversivo da ordem
    moral n'este simples facto tão vulgar, tão frequente, tão despercebido:
    a exclusão da competencia! Excluir a competencia, ou quando menos
    preteril-a, por um anno, por um mez, por um dia, por uma hora que seja,
    é commetter o attentado mais criminoso de que o Estado póde ser réo
    deante da sociedade. Esse attentado resume todas as violações do direito
    e todas as affrontas da justiça. É um roubo violento e descarado,
    aggravado com a offensa do merito, com a injuria da capacidade, com o
    insulto ao trabalho, com o escarneo á moral, com o ultrage ao dever.

    Na politica portugueza, que tem o seu calão como as mulheres publicas e
    como os ratoneiros, esse crime infame toma o nome dourado de
    _compromisso politico ou de acto de fidelidade partidaria_. E do
    ministro que o pratica e para o qual se deveria pedir a prisão
    correccional ou o degredo com trabalhos publicos, a opinião diz
    apenas:–É fiel aos seus correligionarios, sabe ser amigo, despachou o
    compadre, vou para o partido d'elle.

    O officio do governo é servir o paiz. Como porém o paiz, por effeito do
    machinismo eleitoral, é representado constantemente pelos compadres do
    governo, o officio do governo em ultima analyse não é mais do que servir
    o compadre. Está no seu destino. Graças aos elementos de corrupção de
    que o governo dispõe, o cidadão, não votando como cidadão mas votando
    como compadre, dá o primeiro impulso que põe em movimento toda a
    engrenagem do systema: elegendo o compadre é elle mesmo que funda a
    tyrannia absoluta e despotica do compadrio que depois o governa.

    A sociedade está á mercê do compadre. E se ha poder que possa
    contrabalançar alguma vez, em dadas conjuncturas, o poder do compadre,
    esse poder é unicamente–o da comadre.

    A aptidão provada, a capacidade, o talento, o trabalho, a firmesa no
    dever, a tenacidade no estudo, a mais alta comprehensão e o mais
    rigoroso cumprimento da solidariedade e da honra–palavras, palavras,
    unicamente palavras! Na esphera dos fattos, na ordem pratica, positiva,
    real; compadrice, comadrice–eis tudo.

    * * * * *

    Um unico remedio poderia reconstituir a politica portugueza, cuja
    decadencia é tanto mais lamentavel quanto é certo que a sociedade que
    ella tem por fim dirigir está na anarchia economica e tende para uma
    miseria que se tornaria inevitavel sem os supprimentos do Brazil. Esse
    remedio e a entrada no parlamento de um partido novo constituido de
    quatro ou cinco individuos de opiniões radicaes: republicanos,
    socialistas, federalistas, positivistas–o que quizerem–com tanto que
    sejam homens profundamente convictos e determinados á peleja de cada dia
    e de cada hora. Este pequeno partido, desde que tivesse um criterio
    philosophico, determinaria uma corrente de ideias de tal modo poderosa
    que obrigaria todos os conservadores a confederarem-se para lhe
    resistir, não já pela phraseologia e pela rhetorica mas pelo estudo
    reflectido e consciencioso de todos os problemas da civilisação. E das
    concessões mutuas e successivas, feitas, já ao principio da ordem pelos
    revolucionarios impacientes, já ao principio do progresso pelos
    conservadores retrogrados, resultaria para a sociedade o movimento
    actualmente paralysado no conflicto das pequenas paixões e dos
    mesquinhos interesses das mediocridades dirigentes e triumphantes.

    * * * * *

    Falhando o meio que propomos pela falta doa quatro homens que
    sollicitamos, resta-nos então adoptar o expediente ultimamente proposto
    pela municipalidade de Lisboa:–tratar o parlamentarisrao pela cal. Mas
    que quanto antes, n'esse caso, a municipalidade effectue o seu projecto:
    caiar o palacio das côrtes, branquear por fóra o parlamento–_dealbatum
    sepulchrum_!

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05 06)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-05 06)

    Aproximadamente 19.222 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team.

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO IX

    Maio a Junho 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A burra do Estado. Porque motivo o ministerio Fontes se deitou abaixo
    d'essa burra, e do mais que então passou. A queda do dente. Elogio do
    dente pelo sr. Assumpção. O dente embrulhado n'um papel. O dente aos pés
    do throno. O dente demittido. Pede-se um dente novo.–O drama _Leonor de
    Bragança_ e a caixa do Poder Moderador. Parallelo da peça do sr. Luiz de
    Campos e da do sr. Alfredo Ansúr. Os caracteres em cada uma das duas
    peças, a lingoagem, o stylo, a cortezania, a intenção moral. Conclusões
    do referido estudo: requisita-se para o sr. Ansúr a commenda do lagarto
    ou metade da caixa conferida pelo Poder ao sr. Campos.–As corridas de
    cavallos–O premio do Jockey-Club e o premio da Academia–O progresso em
    Lisboa durante o ultimo semestre. A sociedade affirma o seu movimento
    ascendente na civilisação por meio de dois novos estancos e de uma
    ourivesaria. Philosophia de uma vitrine de joias–A peregrinação a Roma.
    Os preparativos. A partida. A prescripção da _toilette_. A chegada a
    Lourdes. Aspecto pittoresco e elegante do milagre: o _restaurant_, o
    trem de Paris, as _parties fines_ sobre a relva, o Champagne e as
    bilhinhas da agoa. Em Roma. As offerendas. O dinheiro de S. Pedro. A
    applicação d'esta receita. O album dos peregrinos e o que n'elle se
    contém. A nossa allocução. O primeiro e o ultimo jubileu. Pio IX e
    Bonifacio VIII. A antiga fé. Os peregrinos em 1300. A fé actual e os
    peregrinos d'hoje. O conflicto da sciencia e da fé. O Deus de Darwin. Os
    novos poderes espirituaes. De como ninguem quer o ceu do Padre
    Marnoco–A primeira communhão de sua alteza o principe–A civilisação
    africana e as conferencias academicas. Uma conferencia que se não faz:
    _Da influencia do «sport» no caracter dos povos exploradores_.

    * * * * *

    Era em uma bella manhã do mez de março. A primavera, essa filha do amor
    e da brisa–como diria o sr. Antonio de Serpa se as conveniencias
    partidarias lhe permittissem ainda dedilhar a theorba sob o lyrico
    balcão de D. Mafalda–tinha estendido sobre as campinas o seu manto de
    esmeraldas. Nas estradas que convergem a Lisboa um alegre raio de luz
    animava a circulação da vida suburbana. Havia um novo tom festivo no
    chocalhar das recuas dos almocreves, no rodar das pesadas carroças da
    hortaliça de que se exhalam emanações appetitosas de cuentro e de
    pimpinella, no tic-tic do passo miudo e zeloso dos jumentos saloios
    ajoujados de bilhas de leite e de seirões de roupa lavada. A agua das
    regas rumorejava suavemente por baixo da macia verdura aveludada dos
    favaes. As cotovias cantavam na espessura das hortas. Pelos portões das
    quintas, de pateo ajardinado, sahia em calidas baforadas o perfume dos
    limoeiros. Por cima dos muros pintados de amarelo bracejavam sobre os
    caminhos as hastes dos pecegueiros em flôr. Uma aragem tepida e
    balsamica cahia do ceu azul e envolvia n'um doce torpor voluptuoso e
    suave os nervos dos lisboetas que madrugavam voltando de Cintra ou
    desembarcando na gare de Santa Apolonia.

    * * * * *

    Foi dominado por essas influencias do clima, da paizagem, dos aspectos da
    natureza, que o sr. Fontes Pereira de Mello deliberou deitar-se abaixo
    do governo, retirando-se ao diletantismo particular e abandonando aos
    que iam pela via a burrinha pacata e fiel do poder, que elle cavalgara
    em cinco annos de choito glorioso atravez das _diversas provincias da
    publica administração_.

    Somos informados de que s. ex.ª, reunindo os seus collegas do ministerio
    e os seus mais intimos amigos politicos, lhes fallara d'esta arte:

    Senhores! Achando-me esta manhã á janella do meu quarto, fazendo algumas
    considerações philosophicas e a barba, deliberei apear-me por algum
    tempo da azemola do poder.

    _Vozes de amigos intimos desapontados_.–Oh! oh! Não o cremos!… Não o
    podemos crer!… É um gracejo, um puro gracejo de s. ex.ª! Que a burra
    do poder venha á presença de s. ex.ª para que s. ex.ª a cavalgue! S.
    ex.ª não pode assim descer da burra! Seria altamente impolitico
    deixar-nos n'este momento com a burra devoluta nos braços! deixar-nos,
    para assim dizer, com a burra atravessada na garganta! Haja ao menos um
    pretexto, haja uma razão!

    _O sr. presidente proseguindo_: Quereis uma razão? Eu vol-a dou. Acho-me
    impossibilitado de proseguir provincias da publica administração além. Á
    força de meditar nos altos negocios do estado acaba de me cahir um
    dente…

    _Vozes_–Dê o dente para ordem do dia!

    _O sr. presidente (tirando o dente da algibeira e collocando-o na
    discussão)_–Ahi tendes o dente. Abri sobre elle os mais largos e
    rasgados debates, e julgae-o como vos approuver. É um queixal. Nada mais
    acrescento. Sobre este ponto considerações de melindre pessoal me
    inhibem de continuar. Farei apenas sentir aos meus amigos politicos e
    aos meus collegas do gabinete que nem a camara nem o paiz nem a corôa
    poderão, segundo penso, exigir da minha fidelidade partidaria que eu
    sacrifique á investigação dos negocios os dentes que o meu ardente
    patriotismo me impõe a obrigação de reservar para os inimigos da patria.
    Tenho dito.

    (_Vozes:_–Muito bem! Muito bem!)

    * * * * *

    O sr. Manuel da Assumpção, havida então venia para fallar, consta que
    estendera a dextra sobre o dente, e proferira com ardor e enthusiasmo as
    seguintes palavras:

    «Meus senhores! Este dente é a pagina mais gloriosa da nossa historia. É
    effectivamente um queixal, como s. ex.ª muito bem disse na sua phrase
    tersa, de uma energia e de uma concisão dignas de Tacito. Ha oito dias
    que os jornaes que nos guerreiam lançaram este dente na tela da
    discussão, procurando fazer acreditar ao paiz e ás nações extrangeiras,
    por meio de insinuações malevolas, que elle é canino. Mandando o dente
    para a meza o sr. presidente acaba de confundir de uma vez para sempre
    os seus adversarios. Queixal! Longa foi a tua carreira gloriosa.
    Enraizado no queixo de s. ex.ª atravessaste com elle as mais duras
    provações de uma carreira brilhante. Roeste o pão negro do ostrocismo.
    Atolaste-te na lampreia d'ovos das doces illusões. Mascaste a cabedella
    dos terriveis desenganos. Depois de cada um d'esses estadios na senda
    dos progressos materiaes e moraes, s. ex.ª, com mão decisiva,
    palitava-te. Um dia porém, á meza do orçamento, no grande banquete da
    civilisação, n'esse campo de batalha onde se travam os combates
    incruentes do progresso e onde o talher de s. ex.ª por muitas vezes
    fulgurou desembainhado ao sol das victorias, tu, depois de uma violenta
    refrega, com umas amendoas torradas de exercicios lindos, com uns
    biscoutos de gerencias anteriores, e com algumas outras verdades duras
    de tragar, appareceste furado. No dia seguinte s. ex.ª chamava ás armas
    a reserva e um dentista, e tu, ó dente, recebias como os bravos o
    baptismo do chumbo. A bala inimiga….

    _O sr. Presidente_–Tomo a liberdade de interromper o illustre deputado
    e meu nobre amigo para lhe fazer notar que o dente não recebeu o
    baptismo do chumbo sob a forma de bala, mas simplesmente sob a forma de
    pingo.

    _O orador_–Do mesmo modo então que um fundo de chaleira?

    _O sr. Presidente_–Precisamente do mesmo modo.

    _O orador_–Agradeço infinitamente a s. ex.ª a informação que acaba da
    prestar-me, e, se s. ex.ª m'o permitte prosigo, pondo de pane a piada
    relativa á bala do inimigo…

    Dente! cahiste alfim. A tua queda tem o caracter de um triumpho, pois
    não cahiste arrancado por uma opposição accintosa e malevola; cahiste
    porque tinhas os teus dias cheios e um pouco tambem porque estavas
    podre.

    Que mais queres, ó dente? que mais desejas? que mais ambicionas?…

    _O sr. Presidente_–Peço perdão para ainda uma vez interromper o
    illustre deputado, rogando-lhe que não tome por incivil o silencio do
    dente ás suas interrogações. O dente é hoje a primeira vez que apparece
    em publico separado dos seus companheiros, e deve-se ter em conta o
    justo acanhamento que a sua nova situação lhe infunde. Eu acho-me porém
    habilitado para satisfazer a curiosidade do illustre deputado em quanto
    ás ambições do dente logo que s. ex.ª o exija.

    _O orador_–Como deputado da maioria tenho a declarar ao sr. presidente
    que nunca dirijo ao governo, nem no seu conjuncto nem separadamente a
    nenhum dos seus queixaes pergunta alguma para que deseje resposta. As
    minhas interrogações são puramente rhetoricas. O silencio com que fui
    escutado pelo dente não sómente me não escandalisa mas antes pelo
    contrario me penhora como um testemunho de benevolencia a que não
    ousava aspirar.

    Concluindo, tenho a honra de propor que, depois de embrulhado
    respeitosamente em um papel, o dente seja levado ás plantas do poder
    moderador, para que sua magestade haja por bem resolver como lhe
    approuver esta passageira crise. Faço votos por que o sr. Presidente do
    conselho se apresse em pôr ao serviço da nação um novo dente.»

    * * * * *

    Approvada unanimemente a eloquente proposta do sr. Assumpção, o sr.
    Presidente do conselho recolheu-se a sua casa a tomar bochechos
    emolientes emquanto o resto do ministerio partia para o Paço a levar ao
    soberano o dente resignatario.

    Constou pelos jornaes quo apenas recebera o dente sua magestade se
    dirigira a casa do sr. presidente do conselho, com o qual teve uma
    entrevista de duas horas. Estas duas horas foram empregadas pela corôa
    em procurar reintegrar, pelas suas proprias mãos, o dente caído na
    maxilla do illustre estadista.

    Diz-se que a corôa, suando em bica, esgotára, para consolidar o dente
    caído no seu logar primitivo, todos os meios compativeis com as
    disposições do codigo fundamental da monarchia. Sua magestade tentára
    fixar o dente ao chefe do gabinete com obreias, com adhesivo, com lacre,
    com pez, com gomma arabica, com barbante, com alfinetes e com pregos.

    O dente reagiu a todas as reaes instancias: o excelso politico, em cujo
    queixo inferior elle se firmára durante cinco annos de gerencia
    governativa não queria mais a confiança da corôa, queria unicamente
    cosimento de malvas.

    O monarcha lavrou então o decreto mandando o seu antigo ministerio
    bochechar, e encarregou o sr. marquez de Avila e Bolama de reunir com os
    seus amigos o numero de dentes necessarios para formar uma gerencia
    duradoura e firme.

    D'este encargo se desempenhou o sr. marquez com o zelo que o
    caracterisa, e o actual ministerio nasceu.

    * * * * *

    Um dos nossos mais distinctos amadores, o sr. Luiz de Campos, acaba de
    dotar o theatro de D. Maria com um drama, cujo exito constitue o maior
    triumpho modernamente alcançado pelas letras portuguezas.

    Não só os jornaes todos consagraram a esta obra louvores emittidos com
    uma energia desusada, mas até a alta sociedade, de ordinario tão
    parcimoniosa de curiosidade dispendida com a arte, patrocinou com
    especial favor esta peça. O auctor teve a gloria de ver os seus finaes
    d'acto applaudidos do fundo dos primeiros camarotes pelas mãos mais
    aristocraticas. Nas situações patheticas do seu assumpto lagrimas
    illustres sulcaram o pó d'arroz com que se perfumam os brazões das mais
    nobres e distinctas familias. Finalmente no fim do espectaculo o Poder
    Moderador, que assistira á representação em companhia da sua familia,
    expediu um dos seus camareiros, o qual foi ao palco cumprimentar o
    laureado dramaturgo, pedir-lhe desculpa de lhe não pingar do alto do
    throno sobre o peito da casaca a commenda de S. Thiago, e entregar-lhe
    em vez das insignias d'essa ordem excelsa e em nome do referido Poder um
    cofre com uma pedra preciosa, que os jornaes do outro dia pela manhã
    almotaçaram em 1:500$000 réis.

    * * * * *

    O drama do sr. Luiz de Campos intitula-se _Leonar de Bragança_ e encerra
    a historia d'aquella desditosa, cuja mocidade e belleza feneceram de
    subito, surprehendidas no ventre por trez facadas com que a brindou seu
    esposo, o mui nobre e poderoso duque de Bragança, um dos antepassados do
    Poder que hoje nos rege, e ao qual, bem como á sua familia, acima
    tivemos a honra de reportar-nos submissa e respeitosamente.

    O pretexto sob o qual D. Jayme damnificou com instrumento perfurante o
    abdomen de sua mulher foram os amores d'esta com o pagem Antonio
    Alcoforado.

    Existiram effectivamente esses amores? Era a duqueza realmente culpada
    de uma fraqueza anormal pelos pagens? Era Alcoforado um honesto e leal
    servidor do principe D. Theodosio, ou era uma ratoeira vil de duquezas
    incautas?

    * * * * *

    Ha duas opiniões ácerca do modo de considerar no theatro a natureza
    d'este facto.

    Na sua _Leonor de Bragança_, escripta em prosa, o sr. Luiz de Campos
    entende que a duqueza é innocente. Na sua _Leonor de Bragança_, escripta
    em verso, o sr. Alfredo Ansúr julga a duqueza culpada.

    Os fados, que tão propicios foram á obra do festejado sr. Campos,
    trataram adversamente a obra não menos estimavel do malogrado sr. Ansúr.
    Julgamos do nosso dever protestar contra esta dura injustiça pondo em
    cotejo as duas composições a que deu origem a tragica aventura de
    Leonor.

    * * * * *

    No drama do sr. Luiz de Campos a culpa toda do nojoso sarrabulho
    perpetrado por D. Jayme está unicamente, segundo diz o sr. Campos, em
    _haver o pagem um coração_. O sr. Luiz de Campos emprega constantemente
    _haver_ em logar de _ter_, não só nos casos em que esse verbo é usado
    como auxiliar mas ainda quando se toma na accepção de possuir. Acatamos
    discretamente as rasões de pundonor e de dignidade que possam ter levado
    este cavalheiro a cortar as suas relações pessoaes com o verbo _ter_. O
    simples depoimento do verbo _haver_, conjugado com tanta lealdade,
    cravado no discurso com tanta firmeza como aquella que se admira em
    todas as locubrações litterarias d'este auctor, basta para nos convencer
    da innocencia de Leonor.

    Todos os encontros da duqueza com o pagem no decurso d'esta peça são de
    um caracter fortuito absolutamente illibado.

    A scena está vasia. Leonor tem por acaso de atravessar do segundo
    bastidor á esquerda para o segundo bastidor á direita exactamente no
    momento em que Alcoforado por egual acaso atravessa do segundo bastidor
    á direita para o segundo bastidor á esquerda. Elles veem ambos meditando
    no verbo _haver_, e descarregam um sobre o outro o objecto das suas
    cogitações pouco mais ou menos nos seguintes termos:

    _Duqueza_–Houveste alfim volvido?

    _Pagem_–Houve; e vós, senhora, que heis de determinar-me?

    _Duqueza_–Nada hei.

    _Pagem_–Hão, quiçá, offendido-vos outra vez?

    _Duqueza_–Não hão. Pagem, havereis de volver a casa do sr. D.
    Theodosio.

    _Pagem_–Visto que não heis de mim de, senhora minha, haja de se cumprir
    vossa vontade! Haverei força, haverei de havel-a… Manhã, ao toque de
    prima, serei partido. De nada mais heis mister?

    _Duqueza_–De nada mais hei, pagem; e a Deus prasa que jámais haja de
    haver! Idevos presto a D. Theodosio, consoante-vos hei di-lo pouco ha.

    _Pagem_–Em mim havei fé, minha senhora ama: eu me vou.

    _(Saem ambos, cada um por seu lado, meditabundos.)_

    A entrevista que dá causa á vingança do duque não a tem Alcoforado com a
    duqueza mas sim com uma das suas damas. Em toda a peça, finalmente, a
    duqueza, nem por carta, nem de viva voz, nem de simples ôlho, tem para
    Antonio uma palavra, um aceno, um gesto, em que se presinta de leve que
    seja a exhalação da perfidia.

    * * * * *

    O sr. Ansúr é menos complacente com os seus personagens, como vamos ver.

    BEATRIZ ANNES

    _Grande mal, grande mal, senhor Fernão!_

    FERNÃO RODRIGUES

    _Que mal?_

    BEATRIZ ANNES

    _Homem em casa._

    FERNÃO RODRIGUES

    _Com a aia?_

    BEATRIZ ANNES

    _Não._

    FERNÃO RODRIGUES

    _Com quem pois?_

    BEATRIZ ANNES

    _Com nossa ama._

    O fogoso e pittoresco sr. Ansúr vae mais longe ainda: colloca o pagem
    aos pés da duqueza e põe na bocca de um e outro estas palavras:

    PAGEM

    _Que enthusiasmo sinto! Arfa-me o seio
    Em vertigem de amor! Sinto a poesia
    Na mente distillar grata ambrosia.
    Ó senhora duqueza! Minha vida!
    Como vos amo!_

    LEONOR

    _Antonio! alma querida…_

    PAGEM

    _Longe de vós a vida é-me desterro…
    Perdoar-me-heis do coração este erro?_

    LEONOR

    _Sim._

    PAGEM

    _Sem vos escutar e sem vos ver
    Não podia, senhora, mais viver!
    Meu peito abrasa._

    LEONOR

    _Doce pensamento,
    Longe de ti é egual o meu tormento._

    E a duqueza prosegue exaltando-se n'uma gradação rhetorica perfeitamente
    calculada pelo sr. Ansúr até o ponto de lhe dizer o Alcoforado:

    _Calae-vos por piedade! Tende imperio
    Sobre a imaginação._

    Em outra scena da peça depois de uma entrevista secreta com o pagem, á
    hora da meia noite, a duqueza profere uma palavra physiologica, de um
    sentido decisivo:

    _Como evitar que o duque venha, e veja
    Aqui tua presença que me peja?_

    PAGEM

    _Meu Deus!_

    LEONOR

    _Jesus! esconde-te!_

    Ao que o pagem, com o temerario valor que só os altos sentimentos
    persuadem, replica energicamente:

    _Fujamos!_

    LEONOR

    _Por onde oh! ceus?_

    PAGEM

    _Por esta porta._

    LEONOR

    _Vamos._

    Sendo tanto a _Leonor de Bragança_ do sr. Luiz de Campos como a _Leonor
    de Bragança_ do sr. Alfredo Ansúr peças offerecidas pelos seus auctores
    a sua magestade el-rei o sr. D. Luiz I, é claro que ellas devem ser
    consideradas pela critica não como livres producções litterarias mas
    como especiaes mimos dedicados á familia de Bragança. Ora sob este ponto
    de vista–não hesitamos em dizel-o–a obra do sr. Ansúr parece-nos muito
    mais completa e perfeita que a do sr. Luiz de Campos.

    Pomos de parte a questão da investigação historica, que foi egualmente
    aprofundada pelos dois auctores. O sr. Luiz de Campos reforça-se com o
    testemunho dos documentos que manuseou: _A historia genealogica, As
    Decadas_ de Couto e de Barros, a _Chronica de D. Manuel_ por Damião de
    Goes e o _Auto de inquirição e devassa_ existente na Torre do Tombo. O
    sr. Alfredo Ansúr fortifica-se exactamente com os mesmos documentos por
    elle compulsados.

    Para suas excellencias, armados de eguaes argumentos pró e contra a
    duqueza, a escolha do papel que tem de lhe ser dado n'este drama é pois
    uma questão de gosto. O sr. Ansúr, emquanto a nós, escolheu melhor, e
    fez a sua magestade el-rei uma dadiva mais delicada.

    Segundo o sr. Ansúr o duque de Bragança D. Jayme é um cavalheiro infeliz
    em familia, ao qual succede–como muito bem diz Menelau na Bella
    Helena–uma fatalidade. O duque deteriora a região intestinal da
    duqueza, mas deteriora-a em legitimo desforço da sua dignidade offendida
    e ao abrigo das leis do reino.

    Segundo o sr. Luiz de Campos, dada a innocencia da esposa, o duque não
    passa de um sanguinario estupido, que envolve o seu brasão de familia e
    a futura tradição dynastica n'um ignobil e affrontoso chouriço de sangue
    innocente. O acto de mandar desossar pelo cosinheiro o pagem Alcoforado,
    com o mesmo facalhão com que se picam os bifes, é um facto indecente
    que, posto o criterio do sr. Luiz de Campos, estabelece um precedente
    que pode levar os servidores da casa de Bragança a não distinguirem
    inteiramente a differença que ha em ir para o paço e em ir para a
    salgadeira.

    Eliminada a circumstancia do adulterio o duque é um facinora vulgar sem
    nenhum apoio na jurisprudencia ou na legislação. Depois da leitura da
    peça do sr. Luiz de Campos, um jury sensato que houvesse de julgar D.
    Jayme, mandal-o-hia degradado por toda a vida para a Costa de Africa.
    Só assim se poria uma sociedade culta ao abrigo de um principe que faz
    das esposas e dos vassalos um consumo que se não justifica pelas
    necessidades ordinarias da vida exterior.

    * * * * *

    Parece-nos ser um serviço em extremo subalterno prestado a alguem o
    publicar a historia de um dos seus antepassados á luz de uma critica
    cujas derradeiras consequencias são, como no drama do sr. Campos, a
    condemnação do mesmo antepassado a um genero de glorificação e de
    apotheose que elle só pode remir com a prisão correcional perpetua.

    Na peça do sr. Ansúr o antepassado do alto personagem a quem elle a
    offerece e consagra apparece-nos satisfactoriamente levado ao crime por
    uma provocação cheia de solicitude e de cortezia. «Ha homem em casa. Com
    a creada? Não. Com a patrôa.» Este grito sublime de clareza e de
    concisão esparge no facto um raio de luz juridica e lança um immenso
    clarão de legalidade e de justiça sobre o chifarote brigantino destinado
    á perfuração das damas.

    Nada mais tocante do que a situação do duque ao receber o fatal
    desengano:

    _Horror! Infamia! Anathema! Vergonha!
    …………………………………
    Rompe-se-me do ser toda a harmonia,
    Passa-se-me na mente extranha orgia!
    Estalam-me no corpo algumas fibras!
    Meu pobre espirito, que assim te libras
    Do desespero na mortal esphera,
    Não te consumas tanto! Acalma! Espera!
    …………………………………..
    Mofina dor me roe, me despedaça!
    Emquanto descuidoso andara á caça,
    Tu deliravas… tu… oh! que villeza!_

    E depois dirigindo-se ao pagem:

    _Arrepende-te dos teus peccados
    Que os fios da tua vida estão contados!_

    PAGEM

    _Perdão! piedade!_

    DUQUE

    _Soffre com valor
    Que mais soffreu par nós o Redemptor!
    ……………………………….
    …………………….Alfim
    Com o manchil Domingos cortará
    A cabeça do pagem. Morrerá._

    A duqueza intervem com esta conceituosa
    mas intempestiva maxima:

    _Jamais decepes com manchil odioso
    A cabeça de um justo. É horroroso!_

    O duque não precisa que lhe ensinem a resposta…

    _Sabe mostrar do Barbadão de Veiros
    O descendente, como pune o ultraje,
    Que lhe fizeste, Leonor! Apage._

    Não são estes porém os unicos serviços prestados pelo sr. Ansúr á
    clareza justificativa dos factos e ao esplendor immarcessivel da casa de
    Bragança. A peça d'este benemerito cavalheiro abunda em conceitos e em
    noções preciosas para a historia da nossa monarchia. Quem é o luso que,
    presando-se de amar o rei e a patria, deixará de ler sem uma commoção
    profunda as seguintes palavras que o auctor põe na bocca da mãe de D.
    Manuel, por occasião do advento d'este monarcha ao regio solio?

    _Omnipotente Deus! quiz o destino
    Dar existencia ao throno manuelino!
    Quem predissera tal, filho cadete,
    Quando surgiste á luz em Alcochete?!_

    Temos por indigno e refece todo o cortezão que achando-se ao serviço da
    casa de Bragança se recusar a decorar os seguintes carmes em que o sr.
    Ansúr celebra os antigos privilegios heraldicos de tão distincta
    familia:

    _A não ser o real, não ha poder,
    Que possa hoje nos reinos exceder
    O de nosso senhor! Póde D. Jayme
    (Ó fóros brigantinos inspirae-me)
    Nas salas dos seus paços ter doceis
    E sitiaes nas egrejas dos fieis.
    Forrada com arminhos, rica, larga
    Vestir opa vermelha aberta á ilharga;
    Ante si leva estoque, segundo acho,
    Com o extremo voltado para baixo,
    Distinctivo dos reis, que é para cima._

    Faz gosto ler estas noticias e pensar a gente que pertence a um paiz em
    cujo throno se acha uma familia que antes de reinar tinha o direito de
    levar estoque para baixo, que ao reinar adquiriu o direito de levar
    estoque para cima, de sorte que póde hoje em dia (ó fóros brigantinos
    acudi-me), levar estoque simultaneamente para cima e para baixo!

    A unica coisa que se nos offerece reprehender na peça do sr. Ansúr, por
    innumeros titulos superior á do sr. Luiz de Campos, é que o auctor a não
    tivesse accrescentado com mais um acto, no qual, para completa
    rehabilitação da casa de Bragança, o duque D. Jayme nos apparecesse
    resgatando-se aos olhos do Omnipotente por meio das penitencias em que
    consumiu até o ultimo dia da sua taciturna viuvez. Nos paços de Villa
    Viçosa ainda hoje se mostra aos viajantes uma tina cavada no chão, a que
    se desce por quatro degraus, na qual é tradição geralmente crida que o
    nobre duque se mettia em agua, durante uma hora por dia, para desaggravo
    e remissão de suas culpas. O illustre heroe tão devéras se arrependeu
    que chegou a mortificar-se d'esta maneira insolita e sem
    precedentes–tomando banho!

    Seria um bello melhoramento na obra do sr. Ansúr que s. ex.ª a
    completasse com um breve epilogo, em que D. Jayme fosse visto amarrado
    pelo grilhão da penitencia a uma bacia, e ciliciado no vivo das suas
    carnes ultrajadas e viuvas pelo contacto expurgante de um sabão.

    * * * * *

    Postas estas considerações, não podemos deixar de perguntar: Porque
    motivo não caiu do alto da regia munificencia sobre o peito inspirado do
    sr. Ansúr o pingo da nobre ordem do lagarto, do merito artistico e
    litterario, pingo suspenso da real goteira sobre as boças poeticas do
    sr. Luiz de Campos? Não fez o sr. Ansúr um drama de assumpto brigantino
    como o do seu collega? Não tem o sr. Ansúr a precedencia n'esta creação
    litteraria? Não é a sua obra dedicada egualmente a el-rei? Não é ella
    escripta em bellas parelhas de versos de dez syllabas, em vez de o ser
    em prosa villôa como a do seu competidor?

    O sr. Luiz de Campos, não podendo pela sua qualidade de deputado receber
    mercês honorificas, teve de el-rei o presente de um cofre no valor acima
    referido de 1:500$000 réis.

    Não so dando com o sr. Ansúr a incompatibilidade annexa ao mandato
    popular, porque não se lhe confere a commenda da nobre ordem ou, quando
    menos, a sua equivalencia em cofre com pedra preciosa no valor de réis
    1:500$000?

    Grave e inexplicavel injustiça! Se a nossa debil voz póde chegar até ás
    orelhas da corôa, nós diremos ao augusto soberano:

    Senhor! A vossa protecção ás letras patrias não se tem até hoje
    desmarcado de uma reserva tão discreta como constitucional. Os
    dramaturgos que precederam Luiz de Campos e Alfredo Ansúr apenas teem
    colhido da regia liberalidade a graça de haverem possuido collocado em
    uma _avant-scène_, durante uma ou duas representações das suas peças, o
    vosso real perfil, que outros não possuem senão collocado nas moedas de
    5$000 réis, coisa miseravel e vil. Acabado o espectaculo vós enfiaes o
    vosso paletot, accendeis o vosso charuto, retomaes o vosso sceptro no
    bengaleiro, e ides para casa recolher as commoções da noite sob o
    agasalho da vossa corôa de dormir, de algodão branco com uma borla na
    ponta. O genio nacional não pôde ainda até hoje obter da vossa
    munificencia manifestações mais expressivas. Uma vez, porém, que
    deliberastes inaugurar a éra do galardão litterario, dae a Alfredo
    Ansúr a commenda que Luiz de Campos não pôde acceitar. Dae-lh'a quanto
    antes. Não espereis que á cabeceira do vosso leito se erga o espectro do
    remorso, e que, sob a figura do poeta menosprezado, elle vos brade nos
    silencios da noite:

    «Descendente de Barbadão! solta-me o lagarto! Larga o lagarto,
    Barbadão!»

    Se o throno for surdo ás nossas vozes, cairemos sobre o sr. Luiz de
    Campos, e com o manchil da justiça distribuitiva em punho
    cortar-lhe-hemos a dadiva regia ao meio!

    Que o sr. Ansúr nos diga para onde quer que se lhe mande a metade do
    brinde que lhe lhe compete.

    * * * * *

    Hoje, 7 de maio, corridas de cavallos no hippodromo de Belem.

    Um premio foi disputado por quatro cavallos, um foi disputado por tres,
    outro por dois, e o ultimo finalmente por um cavallo só. Este cavallo
    partiu correndo vertiginosamente atraz de si mesmo, e desenvolveu tal
    ardôr e tal velocidade que chegou á meta, no meio das ovações e dos
    applausos geraes, passando adiante de si proprio!

    Nota-se esta curiosa influencia do premio do governo, do premio de
    el-rei, e do premio do Club, sobre o desenvolvimento da raça
    cavallar:–quanto mais premios se distribuem menos cavallos ha.

    Se a instituição se mantem por dois ou tres annos mais, é-nos licito
    acariciar a esperança de que terminaremos por não haver cavallo nenhum,
    e teremos ainda o gosto de ver o primeiro dos _sportmen_ que figuram no
    programma da presente corrida, o ex.'mo sr. Galileo, acabar por
    percorrer a pista montado no seu telescopio.

    * * * * *

    E no entanto o campo das corridas é o mais bello sitio dos contornos de
    Lisboa, o mais aprazivel ponto de passeio de carruagem, a cavallo ou a
    pé nas tardes de verão, e é susceptivel de ser explorado pelo
    Jockey-Club com sufficiente lucro da associação e com grande vantagem do
    publico. Bastaria para utilisar e aformosear o campo circumdal-o por
    fora da pista com uma rua de arvores intermeadas de bancos de jardim;
    estabelecer no centro do hippodromo um jogo do _Cricket_ para os membros
    de um _Cricket-Club_ addido ao _Jockey-Club_; organisar um tiro ao alvo,
    um _Croquet_ para as senhoras, alguns jogos gymnasticos para o povo e
    para as creanças; promover nos domingos da primavera e de verão no
    recinto do campo pequenos certames agricolas e industriaes, concursos de
    vaccas, de carneiros, de gallinhas, de porcos gordos, exposições de
    flores, de fructas, de legumes, de queijos, de instrumentos de
    agricultura e de jardinagem, etc.

    Lisboa carece vergonhosamente de uma instituição d'este genero que reuna
    com as condições de recreio os desenvolvimentos de actividade e de
    educação. Visto que nem o governo nem a municipalidade se occupam d'essa
    questão, o _Jockey-Club_ prestaria um serviço relevante procurando
    resolvel-a.

    * * * * *

    Mas de modo algum pretendemos forçar o _Jockey-Club_ a acceitar esse
    encargo. O _Jockey-Club_ fará o que entender, e nós acharemos sempre que
    entendeu bem; a unica coisa que lhe rogamos é que reflicta no futuro que
    o espera continuando na senda assustadora em que principia a resvalar. O
    club achou ainda um meio de resolver o problema do concurso diante da
    simples unidade: queremos saber o que fará quando vier a apparecer a
    fracção, e a quem se dará o premio de el-rei, quando para o anno
    concorrer unicamente a disputal-o–um selim!

    * * * * *

    Ao mesmo passo que o _Jockey-Club_, sob a protecção de suas magestades o
    sr. D. Luiz e o sr. D. Fernando confere premios no valor de tres contos
    de réis annuaes ás bestas velozes, a Academia Real das Sciencias, sob a
    presidencia e sob a protecção dos mesmos augustos principes, confere
    apenas 50$000 réis de premio aos sabios extenuados.

    Um cavallo que percorre a galope uma distancia de mil e quinhentos
    metros ganha réis 1:500$000. Os sabios do paiz inteiro ganharão 50$000
    réis satisfazendo entre varios outros os seguintes pontos do programma
    da Academia para o anno de 1877:

    Em mechanica: Apresentar um trabalho sobre o movimento dos fluidos;
    achar o melhor systema de obras a eslabelecer nas margens do Tejo a fim
    de satisfazer simultaneamente as condições de salubridade, irrigação e
    segurança das propriedades adjacentes. Em physica: estudar a capacidade
    calorifica dos atomos nos corpos simples; indicar a construcção da pilha
    de effeito mais constante e mais propria para ser applicada á
    telegraphia; apresentar a synthese dos alcaloides organicos; estudar a
    composição chimica das principaes aguas sulfureas e alcalinas de
    Portugal. Nas sciencias historico-naturaes: Fazer a descripção
    ampelographica das principaes castas de uvas portuguezas e determinar o
    melhor processo para o fabrico dos vinhos genuinos; fazer um ensaio
    monographico da fauna portugueza. Nas sciencias medicas: Determinar as
    alterações da saude e as doenças devidas ás principaes industrias do
    paiz e indicar os meios efficazes de as prevenir; fazer um estudo
    critico do systema de esgoto e saneamento da capital, que satisfaça a
    todas as condições prescriptas pela hygiene, apresentando o modo da sua
    realisação; estudar a mortalidade de Lisboa, suas causas e meios de as
    attenuar. Em litteratura: Fazer um romance historico, fazer um poema,
    fazer um glossario das palavras e locuções hoje obsoletas ou antiquadas
    que se leem nos antigos cancioneiros portuguezes acompanhando esse
    vocabulario de observações linguisticas e philologicas. Nas sciencias
    economicas e administrativas: Memorias ácerca da descentralisação em
    Portugal e do melhor systema de circulação fiduciaria. Em historia e
    archeologia: Estudo ácerca do estado da sociedade portugueza ao tempo da
    morte de D. João V; determinar e caracterisar as relações artisticas de
    Portugal nos seculos XV e XVI no tocante á architectura, esculptura,
    pintura, musica e artes industriaes, indicando os meios officiaes e
    extra-officiaes que facilitaram essas relações pondo os resultados em
    parallelo com a historia da arte em geral, etc., etc., etc.

    * * * * *

    Se nós fossemos sabios preferiamos ao trabalho de responder a qualquer
    dos alludidos quesitos pela somma de 50$000 réis, o trabalho de
    percorrer á desfilada a pista do hipodromo de Belem–de graça.

    * * * * *

    Durante o semestre que finda este mez Lisboa não produziu nem um só
    livro util, nem uma só notavel obra d'arte na pintura, na musica, na
    poesia.

    Não se fez nem uma prelecção nem uma conferencia litteraria ou
    scientifica. A estação toda passou-se como a estação anterior, como as
    estações precedentes, sem que esta sociedade em marasmo désse um unico
    signal de vida intelligente.

    Lisboa é hoje a unica capital da Europa em que isto succede. Não
    queremos dar-lhe em parallelo Paris, Berlim, Bruxellas, Londres, S.
    Petersburgo, qualquer das grandes cidades da Italia ou da Hollanda.
    Apontaremos apenas Madrid, e não citaremos senão um dos seus institutos
    particulares, o _Atheneu_, sociedade da natureza do _Gremio Litterario_
    em Lisboa. No _Atheneu_ os cursos publicos, livres, gratuitos,
    abriram-se no mez de outubro, tendo havido desde o dia da abertura
    prelecções, conferencias ou debates em todas as noites. Teem-se
    ventilado as mais interessantes questões da philosophia e da sciencia
    social no ponto de vista de espiritos altamente cultos.

    Em Lisboa o progresso social, o movimento ascendente da civilisação
    manifestou-se unicamente pela apparição de tres estancos novos no
    Chiado e de uma ourivesaria no largo das Duas Egrejas. Como á falta de
    objecto para outros interesses mais elevados, nós occupavamos os nossos
    ocios encostando-nos ás humbreiras das tabacarias a ver dispersar-se no
    ar o fumo dos nossos charutos, as tabacarias comprehenderam que este
    estado geral dos espiritos deveria começar a fatigar os habitantes de
    Lisboa, e dotaram-os com sofás. Para o anno os estancos requintarão
    ainda as condições de commodidade e havemos de ver os estanqueiros
    sairem ao encontro dos desejos do publico com colchões. Chegaremos á
    Casa Havaneza, despir-nos-hemos, poremos a camisa de dormir e fumaremos
    os nossos _carvajales_ deitados em camas, á porta.

    * * * * *

    A ourivesaria do largo das Duas Egrejas teve o successo de uma
    instituição. Ella é como um templo ao luxo, como um altar ao deus Ouro,
    tal como o conceberiam, erigido com todo o esplendor do culto, os
    Pharaós da Rua dos Capellistas. A armação interior da loja é feita em
    Paris segundo os elegantes modelos das joalherias da rua de la Paix ou
    do Palais Royal. Armarios da mais verosimil imitação de ebano sobre um
    parquet brunido. Tecto de um azul idealisado, representando um trecho de
    ceu coberto de creme.

    Nas vitrines, de um só cristal immaculado, desdobram-se em degraus, como
    n'um throno de lausperenne, as prateleiras de veludo cor de cereja, de
    cuja suavidade macia e ardente destacam em vigoroso relevo as joias em
    exposição. A um lado pendem em meada as correntes de relogio exhibidas
    como o corpo de delicto de uma quadrilha de pick-pocket apanhados com o
    roubo. Suspensos nas extremidades das correntes pousam em baixo os
    breloques, n'um grande molho confuso, como se adornassem um collete
    monstro sobre o estomago collectivo e proeminente do capital.

    Nos logares mais proximos de quem olha estão os miudos objectos
    preciosos, as finas pedras raras, os olhos de gato castanhos e amarellos
    em pequenas elypses cujo grande eixo é indicado por uma linha que separa
    nitidamente as duas côres; as perolas negras de um tom profundo, que não
    é o preto, é o infinitamente escuro, como a noite; as perolas côr de
    rosa sobresaindo em cercaduras de brilhantes como capsulas cabalisticas
    feitas de substancias extraidas de uma cristalisação mimosa de beijos
    ternos e de perfumes castos.

    No segundo plano apparecem os ornamentos de mais vulto: os broches
    tremelusentes e vivos como esparrinhaduras de diamantes e de rubis
    chispando no ar; as flores imaginosas de petalas de aljofar ou de
    saphira, orvalhadas de pulverisações de esmeralda; os medalhões em
    camafeus preciosos sobre pedras de tres côres nos tres planos da
    esculptura; as eflorescencias phantasticas das onix, das granadas, das
    malaquites, das opalas; em raios como estrellas, em sobreposições como
    pinhas, listradas, rajadas, mosquetadas, affestoadas, zebradas com todas
    as scintillações do prisma.

    Mais longe offerecem-se os braceletes nos seus estojos côr de lilaz. Uns
    são fortes e duros como os violentos desejos, outros vaporosos e finos
    como aspirações platonicas. Nas suas variadas formas teem physionomias,
    revelam temperamentos. Ha-os lascivos e ardentes, colleados em quatro
    roscas de um ouro fulvo, terminando n'uma cabeça de cobra esmagada por
    um esbraseamento de rubi. Ha-os contemplativos e ingenuos, de uma côr
    limphatica, salpicados de frias e innocentes turquezas. Tambem os ha
    trasbordantes de uma vida farta e victoriosa, largos, rendilhados,
    superabundantes de cores, expansivos e triumphaes como orchestras,
    soprando hymnos de um enthusiasmo sanguineo, vermelho, despotico.

    Em outra vitrine está a exposição das pratas: os centros de mesa
    representando palmeiras, á sombra das quaes se empinam cavallos em
    pello, que deverão parecer relinchar de amor no meio das sobremesas,
    entre as frutas empilhadas geometricamente em pyramide sobre taças de
    filigrana e os gelados transparentes impregnados de luz, tremulos, côr
    de topasio; as bacias de mãos, de desenhos bysantinos _repoussés_; os
    jarros de forma etrusca; os assucareiros graves e concentrados como
    vasos de particulas sagradas; e os grossos bules barrigudos e polidos,
    nos quaes se espelham os rostos em caricatura monstruosa, com bochechas
    obscenas, narizes que incham como focinhos de vitela e bocas que riem
    até as nucas.

    * * * * *

    Ao accender das luzes, ás oito horas e pouco depois, magotes compactos
    de espectadores estacionam defronte da vitrine das joias. Demoram-se
    mais as mulheres: mulheres de amanuenses e de pequenos empregados,
    costureiras das modistas, que saem a essa hora das officinas quando não
    ha serão.

    Candieiros de gaz com fortes reflectores não só alumiam intensamente os
    objectos expostos nas vitrines, mas alumiam tambem pedaços de
    espectadores, em que se podem fazer exames minuciosos, de microscopio.

    As mulheres magras, pallidas, que olham, teem as faces oleosas da
    transpiração do trabalho de 14 horas em pequenos gabinetes abafados,
    cheios de exhalações mornas de roupa suja. Na mão esquerda o dedo que
    aponta para um colar de mil libras tem uma nodoa escura, esfarpada,
    produzida pelas picaduras da agulha, e o dedo polegar mostra uma unha
    curta atrophiada no habito de esmagar costuras. Os chapeus adornam-se
    com velhas flores em terceira mão, desbotadas e tristes; e das cuias,
    caidas sobre a mancha gordorosa que tem entre as espaduas a alpaca poida
    dos vestidos, sae um cheiro acido de cabellos humidos e embrulhados, em
    fermentação.

    Dentro da loja uma bella mulher risonha que se apeou de um coupé,
    embrulhada em fina renda branca, debruça-se no mostrador e aproxima da
    mão do caixeiro que lhe segura um brinco a polpa aveludada da sua orelha
    carnuda, sensual, de comilona feliz.

    Os espelhos dos angulos da sala e os que forram as vitrines reproduzem
    infinitamente para todas as direcções essa cabeça bonita envolta em
    renda, e mostrada ao mesmo tempo de todos os lados, de frente, de
    perfil, de tres quartos, acompanhada sempre da mão que enfia o brinco.

    As macilentas Margaridas de olhos pisados vão ver em cada noite esse
    espectaculo de tentação, em quanto na esquina fronteira, na Casa
    Havaneza, os Doutores Faustos accendem os seus charutos, e muitos
    diabinhos invisiveis volitam no ar dizendo segredos, deitando de fóra
    impudentemente as linguinhas de chamma e coçando os seus piqueninos
    chavelhos com freneticas contracções aduncas, como quem se sente
    inteiramente cheio de phosphoro e de alacridade.

    * * * * *

    A peregrinação a Roma foi promovida pelos chefes do partido clerical com
    um zelo fervoroso, que acabamos de ver coroado com o mais prospero
    exito.

    Suas excellencias annunciáram com a devida antecedencia a celebração do
    jubileu pontificio; facilitaram a romagem com esclarecimentos que fariam
    a gloria do _Guide Joanne_; conseguiram o estabelecimento de comboyos de
    recreio, ida e volta, preços reduzidos, de Lisboa a Roma, com escala por
    Nossa Senhora de Lourdes; deram os preços dos hoteis e dos restaurantes
    romanos, a regimen de peixe ou de carne, para as grandes bolsas, para as
    bolsas medias e para as pequenas bolsas; fixaram finalmente a
    _toilette_, explicando que as senhoras deveriam apresentar-se com
    vestidos de seda preta e véos de renda, e os homens de uniforme ou de
    casaca preta e gravata branca.

    Porque–suas excellencias o explicáram–o santissimo padre não recebe
    senão senhoras de rendas e homens de casaca. Os peregrinos vestidos de
    sacco e burel, as peregrinas cingidas pela estamenha e pela corda de
    esparto, não sobem a escada do Vaticano. Os pés privilegiados para
    pisarem os tapetes do Vigario de Christo na terra são os pés mimosos e
    aristocraticos, calçados em escarpins de setim ou de polimento. Os
    sapatos ferrados dos caminheiros plebeus, as sandalias espalmadas das
    peccadoras que não vem de passeiar em _victoria_ ou em caleche á
    Daumont, de volta do Corso ou do Pincio, mas que chegam das escabrosas
    veredas da miseria; as alpagartas dos penitentes que vieram trilhando
    abrolhos sangrentos no aclive da via dolorosa, são generos de calçado
    expulsos pelos enxota-cães, e expulsos com os respectivos pés, porque
    tambem se não entra descalço no Vaticano como se entra no templo em
    Jerusalem, ou na mesquita de Santa Sophia em Constantinopla.

    Facultados tão interessantes esclarecimentos muitas pessoas partiram a
    receber as bençãos paternaes offerecidas pelo pontifice ás rendas e ás
    casacas pretas do orbe christão.

    * * * * *

    Alguns episodios d'essa piedosa viagem são já do dominio da imprensa. Da
    estação do caminho de ferro de Braga sairam os romeiros entre
    acclamações sympathicas e vivas enthusiasticos á santa religião e ao
    summo pontifice Pio IX. Em compensação na gare do Porto foram os mesmos
    romeiros acolhidos aos gritos não menos enthusiasticos de «Fóra os
    hypocritas! fóra os patifes!» Por este ultimo successo damos a suas
    excellencias os nossos cordeaes parabens, porque suppomos que elles
    viajam com um fim de humildade e mortificação, e que lhes serão
    agradaveis todas as manifestações publicas tendentes a exacerbar-lhes o
    pungimento expurgante das duras penitencias.

    Em Lourdes, refere o telegramma de um sacerdote ao jornal _A Nação_, que
    á vista da gruta toda a romagem rompera em pranto e se prostrára em
    joelhos. Devemos crêr que esta prostração fosse passageira, não só
    porque um telegramma subsequente nos annuncia a chegada dos peregrinos á
    cidade eterna, mas ainda porque em Lourdes a belleza da paisagem, a
    exuberancia da vegetação, o rumor das aguas, as perspectivas sombrias e
    flexuosas da floresta, a clara alegria do restaurante, de gelosias
    abertas, de _stores_ desdobrados ao sol, com a sua grande taboleta _Á
    Notre Dame de Lourdes_, e os seus subtitulos em caracteres appetitosos
    _Diners à la carte et déjeuners à la fourchette,–gras et maigre_, tudo
    convida os espiritos ascetas a uma conciliação amavel com a carnalidade
    mundana.

    Além do aspecto das coisas, as exterioridades das pessoas contribuem
    tambem poderosamente para arrancar os adventicios ás attitudes
    prostradas e contemplativas.

    Os comboyos de Paris chegam e partem cheios de alegres _touristes_ de um
    e outro sexo.

    São graciosas peccadoras com adoraveis _toilettes_ de viagem; chapeus de
    grossa palha de fôrma aguda e aba estreita derrubada sobre os olhos,
    descobrindo a nuca, em que se enrolam as tranças loiras, e a nascença do
    cabello junto do pescoço, com os seus flocosinhos de pennugem crespa e
    doirada penetrada de luz; os vestidos decotados no collo em linhas
    quadradas como os colletes dos devotos bretões; as saias curtas deixando
    ver as meias de seda listradas de azul, e os sapatos de pelle de gamo
    atacados com correntes de aço, que telintam ao andar. Estas gentis
    romeiras abordoam-se a cajados rusticos comprados no _boulevard_ dos
    Italianos, trazem ao tiracollo os grandes rosarios de contas de madeira,
    grossas como bugalhos, terminando em uma cruz egualmente de madeira que
    chega á barra do vestido,–ornato local de um pittoresco picante.

    São os homens de nickerbockar de flanella alvadia e capacetes de sabugo
    envoltos em véos turcos, com uma flor de madresilva na _boutonière_,
    fazendo gelar o champagne e preparando debaixo das arvores os seus
    jantares em _partie fine_, emquanto padres solicitos vendem a agua
    milagrosa, ou aos copos á bica da gruta, ou em bilhinhas de lata
    devidamente lacradas e selladas authenticamente, facultando na igreja
    recantos reservados e escusos para as applicações em banhos parciaes, ou
    em compressas, a orgãos enfermos que as devotas desejem submeter á cura
    nos proprios logares benzidos e sagrados.

    * * * * *

    Em cem contos é calculada a somma dos donativos em dinheiro levada
    pelos peregrinos portuguezes ao Santo Padre.

    É valiosa na occasião presente essa contribuição, porque a historia do
    dinheiro de S. Pedro teve sob a gerencia do cardeal Antonelli episodios
    devastadores. Procurando ha annos o governo de Victor Manuel realisar
    uma operação bancaria destinada a equilibrar as finanças da Italia, o
    cardeal Antonelli, como fino rabula e zeloso ultramontano, concebeu o
    plano de um _coup de bourse_ destinado a combater as intenções do
    governo italiano provocando uma descida que impossibilitasse a emissão
    de novos fundos. Para este fim o astuto financeiro vendeu em massa, pela
    baixa, os titulos da divida italiana que a Santa Sé possuia e que
    representavam o dinheiro de S. Pedro. É porém perigoso, mesmo para um
    italiano, jogar as peras com outro italiano. Na Italia todo o homem
    habil deve estar preparado para encontrar um mais habil que o logre. Foi
    o que succedeu a Antonelli. O seu plano foi estrategicamente
    contraminado pelo governo de Victor Manuel, organisando-se um syndicado
    de banqueiros que despedaçou a armadilha do illustre cardeal.

    O dinheiro de S. Pedro convertido outra vez em metal pela operação
    malograda nos seus effeitos, foi então convertido em fundos turcos,
    operação arrojada mas tão lucrativa que promettia duplicar, em poucos
    annos, o capital empregado, a não ser que um caso, então imprevisto,
    prejudicasse o exito da transacção fazendo estalar no Oriente uma guerra
    inesperada.

    Foi, como se sabe, o que veiu a succeder desgraçadamente para os bens do
    Papa. De sorte que o dinheiro de S. Pedro, piedosamente accumulado pelos
    catholicos para o esplendor da Igreja, achou-se, pela mais estranha das
    coincidencias, consumido em polvora por uma potencia chamada ao fogo
    como perseguidora dos christãos!

    * * * * *

    Além dos donativos em dinheiro e dos presentes em objectos preciosos, os
    peregrinos levaram, para offerecer a Sua Santidade, um grande album, em
    que vae inserida uma declaração de principios assignada por todos os
    romeiros. Os jornaes que nos transmittem essa noticia não nos dão o
    texto do documento precioso. Não temos, portanto, a ventura de saber o
    que suas excellencias dizem. O que deveriam dizer era o seguinte:

    * * * * *

    Santissimo Padre

    Ha hoje quinhentos e setenta e sete annos que o primeira jubileu da
    Igreja Catholica Apostolica Romana foi celebrado por um dos
    predecessores de Vossa Santidade, o papa Bonifacio VIII.

    Esta solemnidade não tinha por fim, como o anno jubilario do Mosaismo,
    dar a liberdade aos escravos, fazer reverter os bens territoriaes aos
    seus primitivos possuidores, tornar o homem insoluvel de cincoenta em
    cincoenta annos, e ao cabo de cada um d'esses prazos reconstituir a
    familia nos seus primitivos direitos, operando periodicamente aquillo
    que hoje chamariamos a _liquidação social_, e a que o _Pentateuco_
    chamava simplesmente a–_santificação do quinquagesimo anno_.

    O papa Bonifacio, antigo rabula, (_quia primo advocatus_),
    preoccupava-se pouco com as interpretações do direito; promettendo a
    remissão dos peccados a todos os que viessem a Roma visitar, durante
    trinta dias, as igrejas dos apostolos, o seu fim unico era realisar um
    dos seus sonhos de decrepito allucinado: inaugarar o seculo XIV com uma
    solemnidade unica na historia–a reunião em Roma do genero humano
    prostrado aos seus pés, como perante o Deus vingador no dia do juizo
    final, no valle de Josaphat.

    N'esse tempo, Santissimo Padre, ainda no mundo existia a fé. O numero
    dos peregrinos que vieram a Roma foi tão grande, que chegaram a contar
    cem mil. Por fim não poderam ser arrolados. Cresciam monstruosamente
    como esses formigueiros da America do Sul que n'um mez minam os
    alicerces de um predio e aluem uma torre. Eram insufficientes para
    albergal-os as casas dos moradores, os hospicios, as ermidas, as
    igrejas. Acampavam nas ruas e nos campos suburbanos. A escassez dos
    alimentos e a _malaria_ produziam uma infinidade de doenças. Houve uma
    fome e quasi uma peste. A mortalidade era enorme. Uns não regressavam
    mais. Outros não conseguiam chegar ao termo da romagem, e extenuados de
    fadiga e de fraqueza, com os pés em sangue, morriam saudando de longe a
    sagrada collina.

    Com quanto o poder papal entrasse já então na phase de declinação que
    até os nossos dias devia progressivamente arrastal-o ao occaso,
    Bonifacio suppunha-se ainda o senhor e o arbitro do mundo. Por occasião
    da morte de Alberto d'Austria, tendo-se feito acclamar imperador Adolpho
    de Nassau, o papa Bonifacio tinha posto a corôa na cabeça, tinha
    brandido uma espada, e do alto do monte Aventino havia bradado: «Eu é
    que sou o Cesar! eu é que sou o imperador!»

    Era elle ainda que na bula _ausculta filii_ tinha escripto estas
    palavras supremas: «Deus collocou-nos, apezar de indigno, acima dos reis
    e acima dos reinos, impondo-nos o jugo da servidão apostolica _para
    arrancar, destruir, dispersar, dissipar, e para edificar e plantar em
    seu nome e segundo a sua doutrina_.»

    No dia do jubileu, para celebrar a ceremonia de bater com o malhete de
    prata e de desmoronar o muro com que se veda para esse fim uma das
    portas de S. Pedro, o Papa appareceu á multidão prostrada e atravessou
    pelo meio d'ella, vestindo as insignias imperiaes, levando adiante de si
    a espada e o sceptro sobre o globo do mundo, symbolo da monarquia
    universal, enquanto um arauto proclamava: «Aqui vão duas espadas.
    Pedro, eis o teu successor. Christo, eis o teu vigario.»

    Os peregrinos que haviam conseguido visitar os tumulos dos apostolos,
    cujas columnas são feitas com o bronze subtraído da abobada do Pantheon,
    os que haviam chegado a receber com a benção apostolica a absolvição das
    suas culpas, regressavam á familia encanecidos, alquebrados, assombrados
    para o resto dos seus dias, como os tocados de raio, pelos aspectos
    collossaes da tragica Roma, pela historia do seu passado, semi-vivo
    ainda nos monumentos destroncados da edade republicana e da edade
    imperial, pelas visões portentosas de um mundo extincto que lhes haviam
    apparecido como tremendos phantasmas, na arcaria dos aqueductos truncada
    a espaços como os elos partidos de um enorme grilhão estendido na vasta
    campina; nos banhos de Caracala; nas dispersas columnas corinthias; nos
    obeliscos egypcios; no Capitolio convertido em _Colina das cabras_; no
    _Forum_ transformado em _Campo das vaccas_; no Coliseu, finalmente, com
    as suas tres ordens de columnas doricas, jonicas e corinthias, monumento
    collossal, em que trabalharam doze mil captivos, em que cabiam cem mil
    espectadores e em que não há uma pedra que não corresponda a uma golfada
    de sangue de um gladiador ou de um martyr.

    Os peregrinos regressados n'um vago estado de somnambulismo, como
    aluados, haviam porém levado do jubileu uma consoladora lição: haviam
    desaprendido de viver, mas tinham-lhes ensinado a morrer tranquillos na
    esperança doce e firme da bemaventurança promettida. O que era porém o
    mundo, Santissimo Padre, n'esses tempos remotos e sombrios em que os
    homens eram isto?

    Em Paris e em Londres as casas eram feitas de madeira ou de lama
    endurecida, com tectos de canas. As ruas eram montões de immundicia em
    fermentação miasmatica. O uso de banhos tinha desapparecido. A amante de
    Petrarca tinha uma unica camisa. O poderoso arcebispo de Cantorbery e
    outros altos ecclesiasticos tinham piolhos. Os burguezes vestiam-se de
    couros mal curtidos, de um cheiro infecto. Os pobres cobriam-se de
    palha. Em muitos pontos das Ilhas Britanicas conta um papa do nome
    augusto de Vossa Santidade, Pio II, que não se conhecia a existencia do
    pão. Os trabalhadores dos campos comiam herva e cascas de arvores. E era
    já o seculo XV! No seculo XI, por occasião de uma fome, vendeu-se e
    comeu-se cosida carne humana. A medicina tinha passado de moda,
    desprestigiada pelos padres. Tinham-a substituido as penitencias, as
    promessas aos santos e as viagens ás ermidas. As reliquias faziam as
    vezes de pharmacias. As pestes afugentavam-se não com medidas
    sanitarias, mas com preces. Para curar os males da humanidade, conta
    Draper que varias abbadias possuiam a corôa de espinhos do Salvador;
    onze igrejas conservavam a lança que trespassou o sacratissimo lado; nas
    guerras santas os Templarios vendiam como panacéa universal garrafinhas
    de leite da Virgem Maria; em um mosteiro de Jerusalem guardava-se n'um
    relicario um dedo–do Espirito Santo. A chuva e o bom tempo
    determinavam-se com orações. Era egualmente com orações que se combatiam
    os eclypses e as trovoadas. O cometa de Halley foi exorcismado e
    enxotado do céo pelo papa Calixto III, que o amaldiçoou em nome de Deus.

    N'esse estado das coisas e n'esse estado dos espiritos um serviço
    enorme foi inconscientemente prestado pelo papado á civilisação e á
    humanidade. Das peregrinações á Roma pontificia sairam as duas maiores
    revoluções do mundo moral: do jubileu do principio do seculo XIV saiu
    Dante com a _Divina Comedia_ e a reconstituição do direito pelo
    sentimento: do jubileu do seculo XVI saiu Luthero com a _Reforma_ e com
    a liberdade do pensamento humano. _Alea jacta erat!_

    Desde então até hoje, Santissimo Padre, que serie enorme de revoluções
    successivas e incruentas, determinadas pelo livre espirito do homem,
    cortando lentamente a corrente tenebrosa das perseguições, boiando
    sempre progressiva e sempre victoriosa sobre o occeano de sangue e de
    puz com que a superstição ecclesiastica e o auctoritarismo monarchico
    procuram debalde afogar o advento da nova era! Os reis oppõem os seus
    exercitos; a igreja oppõe as suas excommunhões; o seu inferno, em que ha
    o ranger dos dentes por todos os seculos dos seculos sem fim; os seus
    carceres em que a lepra corroe até á medula os ossos dos condemnados; os
    seus tormentos, em que ha o fogo lento, a grelha, o forno rubro, o
    borzeguim que se descalça levando comsigo, palpitantes, todos os
    musculos e todos os nervos das pernas, a pua que fura as unhas e o torno
    que esmaga os ossos do craneo e faz rebentar o cerebro como um abcesso
    espremido.

    E tudo é em vão! A sciencia intemerata prosegue, inerme e candida, sem
    haver feito uma unica victima, sem uma só gota de sangue derramado, sem
    uma só lagrima vertida! E deante da branca visão benigna que se
    aproxima, o dogma espavorido recúa mais profundamente fulminado por um
    simples raciocinio humano de que nunca o foi a mais fraca das almas
    deante da colera implacavel e infinita dos deuses immortaes.

    Tudo quanto atravez de toda a historia moderna a auctoridade tem
    procurado conservar pela força se tem fatalmente destruido pelo tempo. O
    que a auctoridade e a força têem conseguido é unicamente atrazar o
    movimento intellectual, determinando os longos periodos estacionarios da
    humanidade. Pelo contrario tudo quanto a sciencia iniciou se transmittiu
    de idade em idade, se desenvolveu, se relacionou, se perpetuou. Nem uma
    unica semente lançada á terra pelo trabalho e pelo estudo deixou ainda
    de vingar e de frutificar em resultados decisivos de tolerancia, de
    paz, de liberdade e de justiça.

    Na astronomia, na physica e na chimica, na geologia, na meteorologia, na
    zoologia, na medecina, na philologia quantos descobrimentos novos! E
    cada novo descobrimento é uma conquista nos dominios da Igreja, dominios
    que ella successivamente cede na mesma proporção em que a sciencia
    caminha.

    É um novo diluvio aquelle de que a historia do pensamento humano nos
    offerece a imagem caudalosa e tremenda. A inundação espraia-se no vasto
    campo da theologia, e vemos ao longe, fugindo desgrenhadas, as ultimas
    superstições, medonhas como os grandes monstros pre-historicos que vão
    ser tragados pela vaga.

    Cançada de combater a theologia finalmente rende-se. Tendo perseguido
    Galileu, Giordano Bruno, Savanarola, Averroes, Luthero, tendo combatido
    todos os iniciadores de um novo systema do universo ou de uma nova
    comprehensão dos destinos do homem, a Igreja vê apparecer Darwin, e nem
    se quer tenta lutar!

    O transformismo, revelado por Lamarck, supitado um momento na Academia
    Franceza sob a auctoridade funesta de Cuvier, é finalmente definido e
    promulgado, e todo o immenso edificio theologico da creação do mundo e
    do homem cae aluido pela lei da adaptação e da seleção natural na luta
    pela existencia.

    Ás grandes revoluções nas sciencias physicas e naturaes succederam-se
    modificações equivalentes nas theorias e nas praxes da vida social, na
    economia, na administração, na politica, no sentimento, na critica, na
    poesia, na arte, na moral e na propria religião.

    Da philosophia zoologica de Darwin sae um Deus como religião alguma
    tinha até hoje tido o poder de concebel-o, o unico Deus compativel com a
    noção da sabedoria infinita. Segundo os systemas da creação anteriores
    ao transformismo, e adoptados pela Igreja, Deus era o auctor de um
    universo que elle successivamente revia e emendava, depois de cada um
    dos cataclismos que passavam por cima da sua obra, como passa uma
    esponja sobre uma operação incorrecta. Segundo a theoria darwiniana,
    experimentalmente demonstrada e contraprovada pelos mais sabios
    analysadores, Deus não revê, Deus não corrige, Deus não se emenda, Deus
    não se aperfeiçôa sendo assim perfectivel e portanto imperfeito, como
    fatalmente deveriamos admittir que o era acceitando a doutrina do
    Genesis e a critica paleontologica de Cuvier e de todos os adversarios
    de Lamarck de Goethe, de Darwin e de Haeckel.

    As especies extinctas não foram cortadas pelo Creador no livro da terra
    como por meio de um signal posto á margem na prova de uma segunda
    edição.

    Os orgãos rudimentares dos animaes, os orgãos que não têem funcção,
    deixaram de ser excrecencias de stylo inadvertidas pelo auctor ou
    empregadas por elle com um intuito de ornato rhetorico. Se o homem, por
    exemplo, tem em estado rudimentar e na atrophia de uma inercia de
    milhares de seculos, uma cauda indicada pelas suas vertebras falsas, se
    tem mamillas sem amamentar, se tem utero sem conceber, se tem um segundo
    estomago sem ruminar, escusamos já hoje de explicar estes factos por um
    descuido indolente ou por uma emphase premeditada na confecção do nosso
    organismo. A evolução genealogica de todos os seres e a sua procedencia
    de um tronco ancestral commum, descoberta e provada pela lei de Darwin,
    basta para nos explicar cabalmente todas as apparentes anomalias da
    creação sem quebra da infalibilidade suprema.

    Assim o Deus revelado ao mundo pelos modernos philosophos theistas é o
    unico Deus omnipotentemente sabio, o unico Deus verdadeiramente divino,
    porque não procede na obra da creação por emendas, revisões successivas,
    reedições augmentadas e correctas, como o Deus theologico: Elle cria a
    vida no atomo primitivo vogando na immensidade, deixa cair a cellula
    primordial nas profundidades fecundas do Mar Tenebroso e ordena-lhe que
    se desenvolva dentro de uma lei prefixa. Depois do quê não só não
    descansa, não só não revê, não só não modifica, mas nem sequer espera,
    porque infinito Elle mesmo, e prehenchendo o infinito no espaço e o
    infinito no tempo, possue em si proprio, completa, a infinita evolução.

    Surge finalmente invencivel na sociedade contemporanea um novo poder
    temporal, o poder da industria, e um novo poder espiritual–o poder da
    consciencia na comprehensão da solidariedade humana.

    Vae pois longe, dercorrida ha muitos annos a idade ingenua em que o
    genero humano acreditava na virtude das peregrinações aos santos
    logares!

    Compare Vossa Santidade a primeira e a segunda cruzada com esta que nós
    outros, portadores do album em que escrevemos estas linhas, acabamos de
    emprehender e de levar a cabo em comboyo de recreio de ida e volta, a
    preços reduzidos, guiados pelo padre Conceição Vieira, um sacrista, e
    pelo Pedro de Alcantara, um grotesco! E estes dois sujeitos são quanto
    pudemos obter como successores de Pedro Eremita e de Godofredo de
    Bulhões.

    Somos noventa e nove, de um paiz de quatro milhões de habitantes, o
    menos instruido de todo o orbe christão, aquelle em que por mais tempo
    vigorou, com detrimento do nosso senso commum e um pouco tambem da nossa
    pelle o despotismo da inquisição e do direito divino. Isto ainda assim
    não obsta porém a que deixassemos na patria tres milhões novecentos mil
    novecentos e um individuos que não quizeram vir, perdendo assim a
    indulgencia plenaria e deixando de resgatar as suas almas das penas
    eternas a troco da modica quantia de dezeseis libras, ida e volta, em
    segunda classe!

    Porque elles entendem–principalmente depois que o fogo do Santo
    Officio deixou de afervoral-os–que não é facil despir os peccados como
    se despe um collete de flanela, descalçar a culpa como se descalçam as
    chinellas de trazer no quarto, e pendurar a responsabilidade como se
    pendura a _robe de chambre_ para envergar a _toilette_ redemptora de uma
    viagem a Roma.

    Parece-lhes que o Diabo não é tão tolo como alguem o presume, e que, se
    elle tiver, por exemplo, a idéa de filar o padre Conceição Vieira ou o
    padre Marnoco para os referver no caldeirão destinado á classe
    ecclesiastica apanhada em peccado, não será porque os mesmos Conceição e
    Marnoco lhe digam que estão afivelando a chapeleira para ir buscar as
    indulgencias a Roma, que o Diabo crusará os braços e deixará escapar-lhe
    sob essa evasiva, aliás engenhosa, uma tão interessante presa.

    Estão profundamente convencidos–os herejes!–de que, acima da
    auctoridade dos pontifices, que teem o poder de resgatar as culpas e de
    franquear a entrada no reino dos céos, está um outro poder mais alto–o
    poder da incorruptivel consciencia, segundo o qual não é pelas romagens
    divertidas nem pelas orações authomaticas, nem pelas estereis
    penitencias, mas sim pela simples pratica do dever, austero e
    inilludivel, que cada um se affirma como verdadeiro justo.

    Acham ridiculo um céo em que tenha de sentar-se, glorioso e triumphal, á
    mão direita do Deus da Justiça, um padre Marnoco–simplesmente porque
    obteve as indulgencias no jubileu pontificio, em quanto á mão esquerda
    fique ardendo nos tormentos eternos um Lincoln, que pacificou a America,
    que deu a paz a tres milhões de negros e que, depois de uma vida toda
    consagrada á justiça e á abnegação, entrou finalmente na eternidade pela
    porta do martyrio, coberto com a benção da humanidade e com a benção da
    historia, mas sem a benção dos papas.

    Santissimo Padre! estas convicções profundas d'aquelles que não vieram a
    este jubileu, não podemos deixar de vos dizer n'este album,–como
    seríamos forçados a dizer-vol-o, se estivessemos aos vossos pés n'uma
    confissão geral, humildes e contrictos, batendo nos peitos,–estas
    convicções dos que não vieram são tambem no intimo das nossas almas as
    convicções de todos os que nos achamos aqui, quer chegados das
    occidentaes praias lusitanas, quer procedentes de qualquer outra região
    do globo.

    E a evidente prova de que a nossa fé está irremissivelmente apagada e
    precisa de se reconstituir em novas bases, é que, no tempo em que o papa
    era o imperador e o Cesar, no tempo em que elle brandia uma espada de
    justiça e de guerra, meio milhão de homens rojados aos seus pés estariam
    prontos a recomeçar as guerras santas ao seu minimo aceno.

    Hoje vós proclamaes que sois captivo, que sois ultrajado, espoliado,
    perseguido, e entre todos os que vos trazem offertas não ha um só que
    seja capaz de derramar o seu sangue para vos restituir a liberdade que
    dizeis perdida e o poder que dizeis violado! Beijamos devotamente o
    vosso pé sacrosanto; depois do quê, em vez de enristarmos uma lança,
    vimos para a rua com as mãos nos bolsos e um charuto nos beiços ver
    desfilar em pelotões marciaes os esveltos _bersaglieri_ da Italia
    unificada.

    Debalde nos dizeis que «os pedreiros livres atacam a religião e chamam
    os catholicos a combater.» Os pedreiros livres são bem lastimaveis se
    não teem mais nada que fazer do que chamar-nos ao combate! A verdade não
    se alimenta com sangue, alimenta-se com principios, e não necessita de
    victimas, necessita unicamente de razões: é precisamente n'isso que ella
    se distingue do erro e da mentira.

    Se os pedreiros livres querem por força combater, a resposta mais
    sensata ao seu convite aos catholicos é mandar-lhes um medico que os
    sangre e lhes prescreva os debilitantes. Que os senhores pedreiros
    tenham a bondade, antes de nos reptar ao combate, de experimentar a
    dieta!

    Emquanto á guerra, não! Oh! não! Esse é um privilegio dos reis. Hoje só
    os reis, e algum tanto tambem os diplomatas, é que fazem as guerras. Por
    uma razão muito simples: é que só elles as pódem fazer por um modo
    exclusivamente verbal,–mandando partir os seus exercitos.

    Quando os exercitos se lembrarem de mandar partir adeante os reis e os
    diplomaticos, teremos então firmada para todo sempre a paz geral.

    Concluindo pois, Santissirno Padre, dignae-vos de lançar-nos a vossa
    benção e de nos permittir que a transmittamos a todos os nossos
    concidadãos, que saberão devidamente presal-a sendo enviada por quem é,
    como vós, um ancião veneravel, cuja longa vida é para todos os que
    trabalham e para todos os que soffrem um nobre exemplo de constancia nos
    principios, de firmeza na luta e de resignação na derrota.

    * * * * *

    Sua alteza o principe real, herdeiro presumptivo da corôa, acaba de
    tomar a primeira communhão.

    Comparecendo pela primeira vez no tribunal da graça aprendeu sua alteza
    a theoria do resgate da culpa pela penitencia.

    A familia real e a côrte reuniram-se solemnemente no templo para verem
    ensinar a esse menino por que methodo facil os reis podem deixar na
    terra o oprobrio e enfiarem no entanto para o ceu o mais candido vôo,
    alados pelos anjos que, ao som da musica da real capella e ao signal da
    benção lançada pelo sacerdote, baixam aos reaes paços a pegarem ao collo
    nas almas dos principes devidamente desobrigados.

    Dizem todos os jornaes que foi extremamente edificante e commovente
    esse augusto espectaculo.

    * * * * *

    Para ministrar ao principe a sagrada eucharistia foi chamado
    expressamente do Porto o sr. bispo D. Americo.

    Parece-nos–comquanto não ouzemos dizel-o sem uma reserva profundamente
    timida–que sendo a communhão um acto puramente religioso, seria talvez
    mais consentaneo com a humildade christã que o sr. bispo D. Americo não
    fosse chamado, que se não fizesse da pratica de um sacramento uma
    distincção aristocratica, e que sua alteza commungasse simplesmente como
    os demais christãos na igreja da sua freguezia e pelas mãos do seu
    parocho.

    Poderão objectar-nos que, não comprehendendo as abluções do rito senão
    as pontas dos dedos no sacrificio da missa e sendo as _douches_
    applicadas unicamente aos sacerdotes pelo bico de um galheta, ha
    parochos que, por não ultrapassarem as prescripções liturgicas teem nas
    suas lobas tantas nodoas como botões, e não sómente cheiram
    penetranremente ao fumo do incenso e ao murrão dos cirios, mas cheiram
    tambem algum tanto a saes ammoniacaes e a uréa, d'onde poderia resultar
    que no banquete eucharistico a qualidade da baixella desgostasse o
    principe da pureza mystica do manjar.

    A essa objecção respondemos que seria mais economico e talvez mesmo mais
    efficaz para remedio do baixo clero que, em vez de só mandar vir o sr.
    D. Americo, deslocando-o dispendiosamente da sua diocese com os seus
    famulos e a sua mitra, se mandasse chamar simplesmente o sr. Cambournac.

    Porque–acreditem-o–não é com a presença do illustre e correcto bispo
    portuense, nitidamente barbeado, perfumado pelo uso de bons comesticos,
    com bellas meias de seda escrupulosamente esticadas por um destro _valet
    de chambre_, com fina roupa branca e lustrosas unhas esmeradamente
    limadas e polidas, não é com exemplos que deslumbram que se ha de obstar
    á decadencia das nossas batinas. Ellas em Portugal não querem por
    emquanto exemplos. O que ellas querem é directamente benzina.

    * * * * *

    Se, porém, se entende definitivamente que á mesa da communhão devamos
    nós os catholicos aproximar-nos por cathegorias e por classes, como á
    mesa dos paquetes, então pedímos uma tarifa para regularisação do
    serviço ecclesiastico. Que a Igreja nos diga definidamente quem são os
    passageiros da terceira classe que commungam na tolda com a marinhagem e
    quaes os escolhidos com direito a receberem a communhão á mesa do
    commandante!

    * * * * *

    Depois da ceremonia religiosa, accrescentam os jornaes, que fora servido
    no paço um opiparo almoço aos dignatarios da côrte e ao alto clero.
    Esperamos que o sr. patriarcha fazendo aos poderes temporaes o duro
    sacrificio de não cumprir o preceito jejuando, pozesse ao menos a
    condição de que a sua costelleta fosse de bacalhhau!

    * * * * *

    A narração feita pelo capitão Cameron da sua viagem no continente
    africano veio levantar em Portugal, entre alguns incidentes, a seguinte
    questão:

    O que devemos fazer para manter por meio de medidas civilisadoras o
    dominio das nossas colonias?

    Para isto ha uma unica resposta: Para dominar o que se deve fazer é
    crear faculdades dominantes.

    Quem tem força para dirigir manda; quem a não tem serve.

    A escola dos grandes exploradores e dos colonisadores é a escola da
    força nos individuos. Quando Stanley deu pela primeira vez conta em uma
    conferencia em Londres, da viagem que fizera em procura de Levingstone o
    argumento que mais convenceu o publico de que o conferente não era um
    simples phantasista foi a expressão energica da sua figura agigantada, a
    sua saude de Hercules e os fortes pulsos com que na gesticulação elle
    parecia estar outra vez abatendo e supplantando de novo aos olhos do
    auditorio os obstaculos com que dizia ter luctado.

    Deante de um retrato do capitão Cameron sentimos a mesma impressão, que
    explica o successo de uma empreza difficil e perigosa pela decisão e
    pela firmeza do que a emprehende. A physionomia um pouco espessa e dura
    de Cameron, o seu grosso pescoço solidamente plantado entre uns hombros
    athleticos são para a consideração de todos os inglezes os mais bellos
    attributos de raça, o mais apreciavel caracteristico de uma distincção
    privilegiada. Porque na educação ingleza a saude, o vigor muscular, a
    força physica são o objecto de um culto.

    Nos collegios Eton, Rugby, Harrow, os jogos athleticos, a pella, o
    exercicio do remo, a carreira, o _foot ball_, o _cricket_ occupam todos
    os dias algumas horas de applicação. Duas vezes por semana, quando
    menos, as aulas terminam ao meio dia para darem tempo aos exercicios
    physicos. As contendas entre os alumnos decidem-se ao pugilato, deante
    de testemunhas, com padrinhos que estabelecem as condições do combate,
    que amparam o vencido, que lhe refrescam com agua as contusões, porque
    estes encontros não terminam sem um ou outro ou ambos os contendores
    ficarem com um olho pisado, um dedo partido, ou um beiço esmurrado por
    um dos socos do adversario. Toda a creança que se exhime a liquidar n'um
    combate leal as suas pendencias de honra é despresada pelos seus
    camaradas e considerada como incapaz de vir a ser jámais um verdadeiro
    _gentleman_.

    Do collegio passam os alumnos creados n'este regimen durante a
    adolescencia para as universidades, onde a mocidade se desenvolve sob um
    regimen egual: conhecem-se as celebres regatas no Tamisa entre as
    equipagens das duas universidades de Oxford e de Cambridge. Os
    estudantes ricos exercitam-se e fortificam-se ainda montando a cavallo,
    caçando a raposa, governando a quatro. Para se tornarem vigorosos e
    dextros, creanças, moços, adultos, homens de quarenta e cincoenta annos,
    outros muito mais velhos, como por exemplo lord Palmerston, cumprem as
    mais severas prescripções hygienicas, submettem-se a uma alimentação
    especial, absteem-se de todo o excesso que prejudique o desenvolvimento
    systematico da musculatura. Os principaes divertimentos nacionaes são os
    exercicios de agilidade e de força. Ha _crickters_ que teem ido jogar
    partidas solemnes de Londres á Australia.

    Em Lisboa vivem dois inglezes que vão frequentemente a Cintra a pé,
    levam as suas espingardas, passam o dia a caçar nos Capuchos e
    regressam á noite sempre a pé. Tripulam uma pequena embarcação com a
    qual teem batido em muitas apostas todos os catraeiros do Caes do Sodré.
    Ha poucos dias foram ao Porto expressamente para regatar com o club
    d'aquella cidade. Foram vencidos pelos do Porto. Depois da regata havia
    uma partida de _cricket_. Um dos inglezes a que nos referimos
    sustentou-se no campo cinco horas consecutivas sem nunca sair do jogo.
    Dois officiaes a bordo de um dos navios da ultima esquadra que esteve no
    Tejo partem a pé de Lisboa, pela manhã, vão a Mafra, passeiam na mata,
    percorrem todo o enorme edificio do convento, almoçam um bife e voltam a
    pé a Lisboa, chegando a tempo de estarem em um jantar de convite, á hora
    fixada, lavados, perfumados, frescos, com os seus uniformes de _soirée_
    e uma rosa de Mafra na casa da farda.

    D'estes factos e de muitos outros equivalentes, que seria prolixo
    enumerar, deduz-se que o assumpto de uma conferencia, que não vemos por
    emquanto citada entre as que nos annuncia a Academia ácerca da
    civilisação africana, poderia intitular-se: _Da influencia do «sport» no
    caracter dos povos exploradores_.

    * * * * *

    A Academia póde muito bem civilisar a Africa pelo modo mais
    superiormente sabio na rua do Arco a Jesus, mas não seria talvez
    inteiramente ocioso o perguntar quem é que ha de ir levar aos interiores
    inhospitos da Africa as bases elementares d'essa civilisação. Não ha
    duvida que é possivel mas não é completamente inaccessivel a algumas
    objecções a hypothese de que os negros se queiram desde já civilisar a
    si mesmos e venham expressamente para esse fim á Academia escutar. Ao
    passo que, por outro lado, as prelecções dos illustres academicos não se
    distinguem das conferencias feitas em Paris e em Londres pelos viajantes
    extrangeiros unicamente no facto de encararem os assumptos por um ponto
    de vista contrario, distinguem-se ainda pela particularidade de que os
    srs. Cameron e Young fizeram as suas exposições depois de chegarem, e os
    srs. academicos, com excepção do sr. José Horta, fazem as suas um
    poucochinho antes de partirem. Isto em nada prejudica o valor real da
    doutrina academica, que de modo algum menospresamos. O que pretendemos
    simplesmente notificar é que talvez não seja facil encontrar-se de
    pronto quem vá traduzir em bunda ao gentio de Africa a prosa eloquente
    e vernacula dos civilisadores inamoviveis da metropole. Não é facil
    encontrar esses homens, porque a raça dos nossos antigos expedicionarios
    abastardou-se e extinguiu-se na molleza dissoluta dos costumes modernos.

    Folheem-se os velhos chronistas, examinem-se os retratos dos homens dos
    nossos descobrimentes e das nossas conquistas:

    Affonso de Albuquerque, aos sessenta e tres annos de idade, cercado dos
    desgostos mais profundos, arrosta durante cinco mezes com os estragos
    devastadores da terrivel dysenteria asiatica, porque–diz João de
    Barros–_como era fragueiro e pouco mimoso de sua pessoa só se lançava
    em cama, quando mais não podia_. Albuquerque que em saude reunia á força
    physica a grande força moral da alegria–_era homem de muitas graças e
    motes, e em algumas melancolias leves, no tempo de mandar, soltava
    muitas, que davam prazer a quem estava de fóra,_–assim tocado de morte
    por uma enfermidade que não perdôa nunca, reune conselho de capitães,
    nomeia o seu successor põe bôa ordem em todos os negocios da
    administração da India, escreve a el-rei a famosa carta, modelo de
    hombridade e de independencia, cujo autographo se conserva na Torre do
    Tombo, despede-se do rei de Ormuz, e faz-se ao mar em um dos seus
    navios, onde expira, tendo fulminado a incompatibilidade das monarchias
    com o direito por via da conhecida phrase: _mal com o rei por amor dos
    homens, mal com os homens por amor do rei_.

    O infante D. Henrique–segundo o mesmo João de Barros–_tinha largos e
    fortes membros acompanhados de carne: a côr da qual era branca e corada,
    em que bem mostrava a boa compleição dos humores. Tinha os cabellos
    algum tanto alevantados, e o acatamento_ (_por a gravidade de sua
    pessoa_) _um pouco temeroso a quem d'elle não tinha conhecimento._

    Do conde Duarte de Menezes, a quem D. Affonso V deu a capitania de
    Alacer-Ceguer, e que foi um dos heroes da Africa, diz Gomes Eanes de
    Azurara: «Foi este conde de baixa estatura de corpo, enformado em
    carnes, e de cabellos corredios, e graciosa presença, embargado na
    falla, e homem de grande e bom entendimento, pouco risonho nem
    festejador, tal que quasi do berço começou de ter auctoridade e
    representação de senhorio. Foi muito amador de verdade e de justiça,
    _mui temperado em comer, e beber, e dormir, e soffredor de grandes
    trabalhos, tanto que parecia que elle mesmo se deleitava em os haver,
    porque quando lhos a necessidade nom apresentava elle por si mesmo os
    buscava_. E segundo entender dos homens nem se desenfadava tanto em
    outra cousa, como nos feitos da cavallaria, como aquelle que quasi do
    berço usara o officio das armas.»

    Diriamos estar vendo colorida no stylo das nossas velhas chronicas a
    photographia moderna de um _sportman_ da Grã-Bretanha.

    Do mesmo Duarte de Menezes diz Schoeffer: «O poder que tinha sobre si
    mesmo, a sua gravidade natural, que raras vezes interrompia por um
    sorriso, e sobretudo o seu juizo são e a sua alta intelligencia
    tornavam-o _proprio para o commando_.»

    O infante D. Pedro, o que, segundo o proloquio popular, _viajou as sete
    partidas do mundo_, era alto e magro; diz Schoeffer que a suavidade do
    seu olhar abrandava a impressão de receio produzida pela sua estatura e
    pelo seu rosto fortemente carregado; «irado tinha um aspecto que
    infundia terror».

    Os corações eram de uma tempera inquebrantavel, hostil á
    sentimentalidade e á ternura. Em um combate no assedio de Alcacer,
    Martim de Tavora arranca do poder dos moiros a golpes de espada o seu
    fidagal inimigo Gonçalo Vaz Coutinho, verte para o conseguir o seu
    proprio sangue, arrisca eminentemente a sua vida, e quando Gonçalo Vaz
    lhe pergunta como viverão d'ahi em diante, Tavora responde-lhe
    duramente: «Como dantes.» E a inimisade dos dois continuou inabalavel.

    Os que eram dados ao galanteio das damas commoviam-as mais pela asperesa
    varonil do aspecto do que pela suavidade effeminada das formas.

    Na lenda dos doze que foram bater-se na corte de Londres pelas damas do
    Palacio, o Magriço diz á loura _miss_ que depois do combate ia
    deitar-lhe agua ás mãos: «Sabei, senhora, que as minhas mãos, segundo as
    tenho assim tão grosseiras e cabelludas, poderão ser-vos molestas e temo
    que vos causem desgosto.» Ao que a mimosa ingleza replica fazendo sentir
    ao calejado e cabelludo cavalleiro que a bella mão de um homem é a que
    denota pelo seu aspecto não dedicar-se ás caricias molles, mas sim aos
    fortes trabalhos que teem como fim a honra e como premio o amor.

    O Vasco da Gama era de um porte tão exforçado e valoroso, que o rei D.
    Manuel, hesitante na escolha do homem a quem devia entregar o commando
    da expedição projectada, vendo-o atravessar por acaso na sala em que ia
    sentar-se á mesa para jantar, determina que seja aquelle o que vá
    descobrir-lhe a India.

    O modo como o Gama esmaga a seu bordo a conspiração dos pilotos basta
    para provar que D. Manuel tinha o olho prescrutante que adivinha os
    homens pela cara. Sacudido pela tempestade temerosa no meio de empresa
    de tanto risco e de tamanha aventura, quando a guarnição desalentada e
    espavorida pede em todos os navios da frota que se arribe, que se
    regresse á patria, o Gama prende a um por um todos os pilotos cabeças do
    motim, carrega-os de ferros, encarcera-os no porão, intima-os a que lhe
    entreguem «quantas cousas tinham da arte de navegar» sob pena de os
    enforcar a todos, e havendo na mão as cartas que os deviam orientar na
    volta, lança tudo ao mar, exclamando: «Olhae que não tendes mais mestres
    nem pilotos nem quem vos ensine o caminho de hoje em diante. A Deus vos
    encommendae e pedi misericordia, e a mim de hoje ávante ninguem me diga
    que arribe; porque de mim sabei certo que, se não achar recado do que
    venho buscar, não voltarei nunca mais.»

    Ao que a guarnição se submetteu com a docilidade de quem não tinha senão
    dois caminhos que escolher n'aquella viagem:–o da India ou o da morte.

    O proprio Camões, o immortalisador das façanhas d'essa velha raça, era
    elle mesmo um forte, um destemido, um lord Byron da Renascença. Os seus
    costumes de audaz espadachim e de famigerado tranca-ruas crearam-lhe na
    India conflictos arriscados, de cujas ameaças elle sorria dizendo: que
    só era vulneravel pelas solas dos pés e que estas ninguem lh'as vira nem
    havia de ver.

    Em todas as altas figuras do nosso grande seculo se patenteia o typo
    expressivamente caracteristico de uma forte raça privilegiada, hoje
    extincta.

    A Europa sahia apenas do regimen feudal. Conservavam-se vivas no coração
    de todos os fidalgos as tradições da cavallaria. Os besteiros de conto
    eram apenas uma debil tentativa do que deviam vir a ser mais tarde os
    nossos exercitos permanentes.

    Os grandes vassalos defendiam os seus foros com numerosas lanças, e nos
    prasos em que não serviam o rei e a patria batendo-se com inimigos
    extrangeiros, adestravam a mão em sortidas e escaramuças intestinas.
    Quando não combatiam monteavam.

    Tinham a educação da guerra, a experiencia das aventuras arrojadas e das
    duras privações.

    Os divertimentos publicos eram ainda os jogos guerreiros: o _tavlado_,
    um exercicio de força, e as _canas_, um exercicio de destreza.

    * * * * *

    A moderna educação portugueza esterilisou a sociedade para o fim de
    gerar homens proprios para as lutas do trabalho nas regiões inclementes
    em que é preciso arrostar com a fadiga, com o sol tropical, com as
    febres dos rios podres.

    Os cidadãos que em Portugal recebem alguma cultura de espirito
    sacrificam-lhe de tal modo o seu desenvolvimento physico que não só não
    podem levar a sua influencia e a sua dominação intellectual ao interior
    da Africa, mas nem sequer a levam de Lisboa a Cascaes se lhes suprimirem
    as facilidades do rebocador ou do carrão.

    Sabemos que ha excepções, mas essas constituem uma vantagem pessoal de
    poucos individuos, e não uma feição do paiz.

    Na Inglaterra pelo contrario o _sport_ está na mesma alma da nação,
    completa o caracter do paiz.

    O principe de Galles readquiriu depois da sua ultima viagem a
    popularidade que antes d'ella tendia a fugir-lhe. O simples facto de ter
    penetrado na India e de ter caçado as feras a tiro com risco de vida é
    um dos seus mais poderosos titulos á estima publica. O _sport_ é na
    Inglaterra uma especie de religião. O inglez bem educado atravessa a
    Africa por fanatismo. Simplesmente para a ter atravessado, e para ter a
    gloria incomparavel de o poder referir ás sociedades sabias de
    geographia, de zoologia, de botanica, de meteorologia, de anthropologia,
    aos differentes clubs dos caminheiros da Inglaterra, da França e da
    Suissa, deixando a enorme distancia atraz de si os seus compatriotas de
    curto folego que apenas subiram ao Monte Branco ou percorreram a pé os
    Pyreneus.

    Ora sem esse fanatismo e sem esse enorme ecco na opinião e na
    popularidade não ha paiz que se possa medir com a empresa enorme de
    explorar e de civilisar as regiões salvagens. São insufficientes para
    esse fim todos os esforços do governo, das sociedades geographicas, das
    academias e de todas as agregações artificiaes de alguns individuos; é
    preciso que o grande impulso parta do genio collectivo do povo.

    * * * * *

    O povo pertuguez não está creado para esses movimentos energicos. Era
    uma raça audaz, enthusiasta e forte. Preverteram-a com duzentos annos de
    uma educação dogmatica e de uma disciplina fradesca.

    Estamos como o filho de um homem que herda um estaleiro em que o pae
    fazia navios e em que elle para sustentar a fabrica tem de brandir um
    machado e de talhar madeira durante dez horas por dia. Ora esse filho é
    um anemico, que não pode com a sua _badine_. O que ha de fazer?
    Restaurar a sua constituição ou vender o machado e ir tossir para o
    Martinho.

    * * * * *

    Contra os agentes da dissolução em que cahimos uma ou duas vozes em todo
    o paiz protestam–o que até o dia de hoje 15 de junho, ás 11 horas e
    meia da noite, tem sido completamente inutil. Deitam-se abaixo
    livrarias, enegrecem-se com prosa official resmas de papel da Abelheira,
    abrem-se conferencias publicas, organisam-se expedições,–tudo para dar
    a entender ao mundo que somos um povo forte. E no entanto o povo
    continua nas condições de abatimento em que estava, as quaes não podem
    tornal-o proprio para o dominio, mas sim para a servidão.

    Vimos já, ligeiramente esboçado, o quadro da educação inglesa. Vejamos o
    espectaculo correspondente na nossa organisação social.

    Olhem ao domingo e á quinta feira para um dos nossos collegios de
    educação em passeio na baixa. Uma fieira de pequenos macilentos e
    enfesados, encarreirados a dois de fundo, vestidos de preto ou com
    falsos uniformes de guarda-marinhas, vigiados por dois padres. Que
    differença dos collegiaes inglezes, com os seus chapeus de palha, a
    blusa de flanella, o calção curto, a meia de lã, correndo livremente nos
    campos, com os grossos sapatos cheios de lama, em plena liberdade,
    entregues a si mesmos, responsaveis pelos seus actos, conscientes do seu
    direito e do seu dever como pequenos republicos!

    Em Portugal um cão fraldiqueiro pode andar sem perigo pelas ruas,
    sabe-se governar, sabe-se dirigir, sabe morder, sabe voltar para casa;
    um joven racional de dez ou doze annos, dos quaes cinco de escola sob a
    pressão dos compendios do sr. João Felix, não aprendeu nada d'isso, e
    precisa de um padre ou d'um aguadeiro que o leve pela mão para
    atravessar a rua!

    Essa miseravel creatura tem uma mãe que o não deixa saltar para que não
    quebre as pernas, que o não deixa trepar para que não quebre a cabeça,
    que o não deixa metter-se na agua fria para que não se constipe. Era
    melhor que elle tivesse quebrado uma perna uma vez, que tivesse rachado
    a cabeça quatro, e que se tivesse constipado dezeseis, e houvesse
    aprendido assim a ser um principio d'homem, do que não ter passado por
    nenhum d'esses desares e ser unicamente um lamentavel boneco, medroso e
    covarde, que um gaiato, creado na lama da rua e tendo metade da edade
    que elle tem, pode impunemente encher de bofetadas nas duas faces e
    estofar de ponta-pés em todo o resto do corpo, servindo-se para isso dos
    membros que não quebrou, nem a trepar, nem a correr, nem a deitar-se de
    mergulho ao ribeiro, apezar dos perigos previstos pela mãe do molestado.

    O primeiro acto da vida civil d'esse sujeitinho consiste em metter
    empenhos para ser approvado em instrucção primaria.

    A primeira gloria da sua existencia consiste em se considerar tão
    importante personagem que sahiu approvado com dez valores, apezar de ter
    passado a metter os dedos pelo nariz e a explorar exclusivamente esse
    orgão todo o tempo destinado a aprofundar concomitantemente as doutrinas
    do sr. Felix.

    No anno seguinte começa a estudar as linguas e a fumar cigarros ás
    escondidas.

    Penetra finalmente na rhetorica e na leitura dos romances, em que passam
    visões de mulheres que o tornam cada vez mais amarelo.

    Chega da côr de uma cidra ao fim do curso dos lyceus, tendo, além de
    todos os preparatorios, mau halito, as pernas cambadas, a espinha
    torcida, algum tedio da vida e muita caspa.

    Matricula-se então na faculdade de direito na universidade de Coimbra e
    o primeiro effeito dos estudos superiores sobre a sua cabeça é
    augmentar-lhe a caspa.

    Depois a vida academica absorve-o e elle percorre toda a escala das
    nobres loucuras de uma mocidade espirituosa e vivaz: empenha as piugas,
    toca o fado, dá canelões nos caloiros, espanca os burguezes, faz algumas
    canções «grivoises», entorna o môlho das ceias pelo peito da batina, e
    regressa a Lisboa bacharel formado.

    Tem vinte annos e fez vinte exames. Para cada exame pediu protecção a
    tres individuos;–pediu protecção e pediu feriados; pediu humildemente,
    inclinado, arrastando a capa, retirando-se ás arrecúas como uma pêga
    assustada, sorrindo com um agrado pusilanime:–Sr. doutor, imploro
    submissamente a valiosa protecção de v. ex.ª!… Sr. doutor, criado de
    v. ex.ª!… Criado de v. ex.ª! ex.'mo sr. doutor…

    O espinhaço do bacharel traz feita de Coimbra a curva servil do
    pretendente do Terreiro do Paço.

    O que na universidade pedia, em Lisboa requer. É apenas a mudança de
    nome: «–Sr. ministro, imploro submissamente a protecção de v. ex.ª…
    Criado de v. ex.ª, sr. ministro… Ex.mo sr. ministro, humilde servo de
    v. ex.ª…» E sae ás arrecúas dos gabinetes dos ministros como saía dos
    gabinetes dos lentes, dando-se o ar lastimoso de um cão pelludo ao
    emergir da agua, com o seu velho sorriso deploravel, anediando a copa do
    chapéo com o canhão da sobrecasaca.

    Depois de ter cambado os tacões de cinco ou seis pares de botas nos
    passeios por baixo da arcada das secretarias, o bacharel alcança o que
    deseja. Um ministro despacha-o–para se ver livre d'elle. Consegue ser
    empregado publico ou candidato governamental por um circulo do
    continente ou do ultramar.

    Desde então as engrenagens do machinismo official apoderam-se d'elle
    para nunca mais o largarem. É um escravo. Perdeu a personalidade.
    Pertence á grande legião. Vae para onde ella for, diz o que ella disser,
    pensa o que ella pensar, dentro de limites intransitaveis, na distancia
    prefixa do cepo a que o amarraram.

    É assim que uma quantidade iunumeravel de individuos que formam a
    classe dirigente vivem d'este cuidado unico: O cuidado de se não
    comprometterem. Nunca mais dizem o que sentem. Nas suas idéas, nas suas
    opiniões, na sua linguagem, tudo é riscado pela pauta official. Se
    alguma vez do fundo do nojo que suscita esta dyspepsia moral lhes vem á
    bocca uma verdade, engolem-a para baixo como o caroço de uma fruta
    prohibida.

    Como pelo desdem do trabalho vivem n'uma estreiteza pecuniaria visinha
    da miseria, muitos se lançam á caça do casamento rico, e, vexando-se de
    ser tecelões ou ferreiros, não se vexam de casar por interesse, e
    acceitam para toda a vida a intimidade indissoluvel de uma mulher feia,
    estupida, malcreada, sem espirito de ordem, sem methodo, sem a dignidade
    do conforto e do aceio domestico,–a viva negação de todas as condições
    que tornam a casa feliz e a familia amavel.

    É d'esses consorcios sem idealidade e sem amor, contraidos fóra da mutua
    dedicação que completa o homem pelo seu par e cria o verdadeiro
    individuo social duplicadamente corajoso, digno e forte, que saem os
    filhos dissolutos, os jovens cynicos, desdenhosos das affeições
    honestas, hostis a todos os sentimentos de familia, cujos nobres
    encantos nunca aprenderam a conhecer e a estimar.

    D'esses consorcios procedem tambem as meninas futeis e pretenciosas,
    frageis entes inuteis, a que falta a condição essencial da nobreza e da
    dignidade da mulher–a comprehensão do _ménage_, o culto do santuario
    domestico. Ellas refugiam-se da convivencia antipathica da sua familia,
    constituida sem bases organicas, na religião, ou, para que o digamos no
    termo mais preciso, na _igrejice_, e na leitura dos romances
    sentimentaes. A _igrejice_ e o romance são os dois pólos da sua vida
    moral.

    Como qualquer d'essas meninas desconhece completamente a arte de
    cultivar e desenvolver os seus encantos de espirito e de caracter, um
    instincto de aperfeiçoamento, desencaminhado pela educação, leva-a ao
    cultivo do trapo como um fim de superioridade, e arroja-a no lastimavel
    fetichismo dissipador da moda.

    Ignora completamente todas as artes que constituem os elementos da
    felicidade conjugal e que só por uma grande pratica e por uma longa
    tradição se aprendem: a arte de se fazer bella pelo simples modo de atar
    uma fita, de pôr em si uma flor, pela maneira de coser, de caminhar, de
    se sentar n'um _fauteuil_, de pegar no talher, de estar á mesa; a arte
    de dirigir a cozinha, de organisar a alimentação, de extrair da sua
    chimica a alegria e a saude dos seus commensaes; a arte de arranjar a
    casa, de lhe dar physionomia, de a obrigar a mostrar talento, a exprimir
    idéas, a ter quasi conversação, fazendo respirar como coisas vivas nos
    armarios as pilhas perfumadas da roupa branca, sorrir nas prateleiras da
    casa de jantar o esmalte das loiças e o estanho reluzente das tampas das
    canecas, estenderem-nos os braços as cadeiras do salão, e
    solicitarem-nos a permanecer a côr dos cortinados, o tom dos estofos, o
    assumpto dos quadros, a collocação dos moveis, a graduação da luz, a
    frescura do ar, a nitidez geral do aceio e a sabia disposição dos livros
    e dos jornaes sobre o panno da mesa.

    A menina em similhantes condições de inutilidade raramente se casa, ou
    se desquita do marido se algum dia o vem a ter. As suas inclinações
    romanescas e doentias chamam-a para beata. De resto é essa talvez a sua
    melhor maneira de ter um fim, porque, emquanto a ser mãe, prohibe-lh'o
    physica e moralmente a accumulada estreiteza do coração e dos ossos.

    Taes são, no caracter dos individuos de um e outro sexo, os frutos da
    educação portugueza na classe mais preponderante da sociedade, aquella
    que fórma a opinião e determina as tendencias do espirito publico. Com
    similhante estado é irreconciliavel o genio explorador, a tendencia para
    as viagens entre póvos barbaros e finalmente o poder de dirigir e de
    dominar.

    * * * * *

    Como colonisadores temos apenas uma vantagem sobre os outros póvos
    europeus: a sobriedade, que permitte aos nossos operarios alimentarem-se
    com a simplicidade d'esses chins cuja concorrencia, pelo simples facto
    d'elles se satisfazerem não comendo senão arroz e não tendo outra
    baixella senão dois paus, faz tremer todos os trabalhadores do mundo.

    Mas esta grande virtude de raças inferiores, caracteristica
    principalmente dos nossos operarios do Minho e de Traz-os-Montes, é
    insufficiente para nos conservar o dominio de extensos territorios, que
    se não arroteiam para a civilisação senão pelo esforço combinado de
    altas faculdades administrativas que não temos, de uma grande robustez
    physica que tambem não temos, e de um enthusiasmo impulsivo e
    desinteressado, tirado de uma grande corrente nacional das mesmas idéas
    e das mesmas convicções, o qual egualmente nos falta.

    * * * * *

    Nenhum phenomeno mais expressivo da nossa anarchia administrativa e da
    nossa abdicação governamental do que o estado da nossa marinha.

    Em todo o paiz colonial e maritimo a industria da pesca é a escola em
    que se iniciam os marinheiros. A pesca é a infancia da marinha. A
    Hollanda comprehendeu admiravelmente essa verdade, e a industria
    piscatoria é desde muitos annos objecto dos cuidados e das attenções
    mais desveladas por parte do governo hollandez, cuja marinha é hoje
    florentissima. Essa marinha constituiu-a a Hollanda attraindo, com
    grande augmento de salarios, os pescadores biscaynhos que iam á pesca da
    baleia ao cabo de Finisterra.

    As pescarias no mar largo, como a da baleia e principalmente a do
    bacalhau, são particularmente favorecidas por todas as nações maritimas
    com grandes premios conferidos pelo estado. É na classe numerossima dos
    tripulantes de milhares de navios empregados nas chamadas _grandes
    pescas_ que se recrutam os marinheiros das armadas europêas.

    O governo francez protege, com grandes subsidios na armação dos navios e
    com avultados premios sobre o pescado importado, as suas pescas do
    bacalhau, cujo producto augmenta extraordinariamente os recursos
    alimenticios do paiz, elevando-se o seu valor em dinheiro á somma de 17
    milhões por anno. A pesca do bacalhau emprega em França 400 navios e 12
    mil marinheiros.

    Um facto bem notavel e digno de ser ponderado pelos legisladores
    portuguezes é que a prosperidade e o progresso da França teem sido
    marcado, como a temperatura em um termometro, pelo desenvolvimento ou
    pela estagnação das suas grandes pescas! No tempo da emancipação
    communal a pesca do bacalhau desenvolve-se enormemente; cae com a
    corrupção monarchica do regimen despotico; revive deante das medidas
    legisladas pela Revolução.

    Talvez o governo ignore as condições em que actualmente se tributa o sal
    que os pescadores francezes nos compram com destino ao seu bacalhau. Os
    navios francezes que veem ao nosso porto fornecer-se d'esse genero fazem
    fiscalisar o seu carregamento pelo respectivo consulado; o consul
    francez remette ao seu governo a nota dos moios de sal carregados em
    Lisboa e cujos direitos de importação em França são pagos no porto
    d'onde o navio partiu pelo proprietario responsavel por este imposto.
    D'este modo evita-se todo o contrabando na importação do sal: os
    direitos estão pagos na razão de 50 centimos por cem kilogrammas. Quando
    porém o navio que carregou em Lisboa volta a França com o sal empregado
    nos bacalhaus que pescou, o governo restitue-lhe os direitos
    anteriormente percebidos, não já na razão de 50 centimos por cada cem
    kilogrammas de sal, mas sim na de 13 francos por cada cem kil. de
    bacalhau. É assim que na questão de um simples imposto se revela o plano
    de um paiz para o qual a administração tem um fim de progresso.

    Portugal possue no mar dos Açores, segundo a asseveração de varios
    navegantes, um banco de bacalhau que muitos julgam superior ao da Terra
    Nova, o qual se diz descoberto por um portuguez Gaspar Côrte Real. E
    deixa morrer ao desamparo essa grande industria riquissima, a pesca de
    um peixe precioso em que tudo se transforma em riqueza: as linguas
    constituem um artigo especial presadissimo dos _gourmets_; dos
    intestinos faz-se o melhor adubo da terra; do figado extrae-se o oleo
    importantissimo para a industria e para a medicina; os ovos empregam-se
    com grande vantagem na pesca da sardinha.

    Apezar de Portugal ser um paiz privilegiado para a pesca do bacalhau,
    pelo valor e pela pericia dos seus pescadores, pela posse do melhor sal
    que se conhece para salgar o peixe e do melhor sol que ha para o secar,
    o nosso governo despresa este importantissimo ramo da actividade
    commercial, perdendo por esse mesmo facto a melhor escola pratica dos
    nossos marinheiros e dos nossos navegantes. A grande pesca tambem é para
    nós um symptoma da vitalidade nacional. Quando eramos fortes mandavamos
    cincoenta ou sessenta navios de pesca para a Terra Nova. Hoje pescamos
    na costa o carapau para o gato, servindo-nos de redes que deveriam ser
    prohibidas, despovoando as aguas de pequenos peixes insignificantes, que
    pelo contrario pesariam dois kilos e seriam um importante artigo
    alimenticio, se tivessemos estudado os nossos apparelhos de pesca e
    soubessemos legislar sobre a dimensão permittida ás malhas das redes. O
    governo portuguez nunca deu a este assumpto, base de toda a exploração
    colonial, um só instante de attenção.

    O parlamento nomeia em cada anno uma commissão de pescas, que ainda não
    serviu para mais nada se não para tributar o pescador. As especies de
    peixes que frequentam as nossas costas estão por estudar. A piscicultura
    não tem sido objecto de maiores disvellos que a ictyologia: nem uma só
    medida tomada pelo Estado para repovoar as aguas das nossas costas e dos
    nossos rios principaes; nenhum estudo feito sobre os botes e sobre os
    apparelhos empregados na pesca. Assim o pescador considera o Estado, que
    elle nunca viu representado senão pelo fisco, como um puro explorador.

    Na Povoa de Varzim ha um antigo quebra-mar destinado a formar um porto
    de abrigo, que nunca se concluiu. Todas as reclamações, todas as
    instancias feitas para este fim teem sido inuteis.

    Ha cerca de seis annos el-rei em pessoa visitou a Povoa acompanhado por
    um dos seus ministros, o sr. Avelino, o qual em nome do soberano
    prometteu aos pescadores que ia ser concluido o paredão. Até hoje ainda
    se não accrescentou uma pedra áquelle monumento unico do desleixo
    nacional!

    E todavia o espirito aventuroso dos nossos antigos navegantes, que o sr.
    marquez de Sousa Holstein acaba de procurar resuscitar com a sua
    eloquente e erudita conferencia ácerca da escola de Sagres, está ali
    vivo ao pé d'esse paredão em ruinas. Ha ahi tres mil homens que em cada
    dia jogam as suas vidas com a mesma coragem com que nós aqui em Lisboa
    jogamos as cartas. Os poveiros são os homens mais alentados e mais
    robustos que tem Portugal. É raro o que se enterra no cemiterio da
    freguezia. Morrem no mar, sob um céo de chumbo, estrangulados pela
    inclemencia das vagas, á vista da terra, ao alcance das vozes das suas
    mulheres e dos seus filhos, por lhes faltar o abrigo a que se destina o
    quebra-mar de conclusão em projecto! Não ha um que saiba ler. Habitam em
    terra um bairro infecto e miseravel. Os cações escalados, destinados á
    alimentação no inverno, secam pregados ás portas interiores das casas.
    Cheios de _vermine_, homens, mulheres e creanças, dormem no mesmo
    quarto, n'uma promiscuidade horrorosa. A terra da patria dá-lhes apenas
    um farol, que elles illuminam á sua custa, e um barco de salva-vidas,
    que elles mesmos tripulam. E é para isso que elles, desgraçados, quasi
    mendigos, pedindo esmola em bandos durante o inverno, pagam um imposto
    annual de cerca de seis contos de réis, integralmente devorados pelo
    fisco.

    Imagine-se como elles lhe hão de querer e como a hão de amar, á querida
    terra da patria!

    A unica vingança que esses generosos lobos do mar tiram do Estado, que
    tão vilmente os explora e os rouba, consiste em não darem nem um só
    homem para o recrutamento maritimo. Não ha meio algum de os obrigar a
    fornecer um recruta á armada. Preferem morrer mil vezes a servir taes
    amos.

    E eis ahi está o ultimo capitulo na provincia do Minho da historia,
    feita pelo sr. marquez de Sousa, da escola dos navegadores portuguezes
    fundada em Sagres pelo infante D. Henrique!

    Como a administração das nossas colonias depende directamente da
    organisação da nossa marinha, como a importancia da nossa marinha
    depende da organisação das nossas pescas, a Academia prestou á
    civilisação da Africa um serviço verdadeiro, não organisando
    conferencias, mas tomando uma deliberação mais obscura e todavia mil
    vezes mais importante: a de nomear o sr. Brito Capello, naturalista
    adjunto do museu zoologico, para ir estudar ao longo do nosso littoral a
    industria da pesca e de expôr os meios de a reorganisar.

    Comtudo a opinião, que tem de julgar os factos, tão esclarecida é, que
    applaudiu como um notavel beneficio patriotico a iniciativa das
    conferencias–um espectaculo de erudição, e não teve uma palavra de
    applauso para a missão do sr. Capello–o primeiro passo para atacar o
    mal na sua verdadeira origem!

    * * * * *

    Do estado verdadeiramente deploravel em que se acha a nossa força
    maritima póde-se ter uma idéa pela recente medida tomada pelo governo de
    convidar a servir na armada, mediante uma gratificação apregoada na
    folha official todas as praças de infanteria ou de caçadores que para
    esse fim se apresentem! O governo tem de um marinheiro esta
    comprehensão:–que elle se fabrica por meio do abono de quatrocentos
    réis por dia dados a um soldado de caçadores!

    Mas, a não ser que o façam ao acaso ou que se determinem por uma
    escolha baseada na côr dos olhos ou na fórma do nariz, que razões podiam
    ter levado o governo a alistar na arma de caçadores um dos seus
    recrutas? Suppomos que estas razões devem ser tiradas das condições em
    que foi educado o recruta; que o fizeram caçador porque habitava as
    montanhas, porque era um caminheiro, porque tinha a agilidade que dá a
    luta com os terrenos escabrosos nas visinhanças das serras. Ora, sendo
    assim, como querem sujeitar á vida sedentaria do mar e á familiaridade
    das ondas esse montanhez, que nunca pegou n'um remo, que chegou das
    Alturas de Barroso, do Marão ou da Serra da Estrella e que sente as
    pernas enferrujadas e o pulmão opprimido desde que não anda mais de uma
    legua por dia trepando saudosamente ás colinas que cercam o logar do seu
    quartel?

    Outro facto não menos expressivo é o que ha pouco tempo se deu com
    alguns guarda-marinhas do nosso conhecimento em estação em Loanda.

    Sabe-se que não ha plantas dos nossos portos da Africa, cuja navegação
    se faz por meio de cartas inglezas.

    Os jovens marinheiros a que nos referimos, impellidos por esta vergonha
    da nossa marinha, quizeram levantar a planta do porto de Loanda.
    Empregaram todos os esforços para obter os necessarios instrumentos, não
    puderam conseguir senão unicamente a offerta de um bote, unico elemento
    de trabalho que o governador se achava habilitado a pôr á disposição
    d'esses extravagantes. Elles comprehenderam então que não tinham senão
    uma coisa que consagrar aos destinos da patria; não era o talento, não
    era a dedicação, não era o trabalho; era unicamente a saude. E foram
    immolar o figado á administração nacional para bordo do seu navio, como
    patos de engorda pregados pelos pés á respectiva capoeira.

    Quando os nossos officiaes teem conseguido arruinar completamente as
    suas visceras na inanição official das nossas estações de Africa, voltam
    doentes á metropole e concluem a missão civilisadora que o paiz lhes
    incumbiu tomando as aguas alcalinas de Vidago.

    As aguas de Vidago são o fim supremo do seu destino militar.

    * * * * *

    Emquanto estas coisas se passam os inglezes, com um poder creador que
    faz muitas vezes o elogio das suas faculdades inventivas, acham em cada
    dia pretextos novos para intervirem com o _seu protectorado
    humanitario_ nos negocios do interior africano, e dilatam a pouco e
    pouco a sua occupação e o seu dominio manso sobre o nosso territorio.

    * * * * *

    Um dos incidentes que acompanham a questão suscitada pela viagem do
    capitão Cameron é a revelação feita por este viajante de que as
    auctoridades portuguezas no interior da Africa não obstam ao trafico dos
    escravos, que ainda ali vigora.

    Como é que nós respondemos á denuncia d'este facto? Respondemos negando
    a asseveração do sr. Cameron e fazendo protestos.

    Para decidirmos se um tal modo de retorquir nos podia ser ou não
    permittido, vejamos quem é o homem que nos acusa.

    Cameron é o segundo europeu depois de Levingstone que modernamente
    atravessou a Africa desde a costa oriental até a costa occidental,
    levado por um intuito exclusivamente scientifico. D'esta viagem, que
    durou quatro annos, trouxe o sr. Cameron o projecto de ligar a costa do
    oriente com a do occidente por meio da navegação fluvial, aproveitando
    as relações hydrographicas do rio Congo e do Zambese, o primeiro dos
    quaes desemboca de um lado no Zaire e o outro do lado opposto, ao sul de
    Moçambique.

    Durante esses quatro annos passados entre selvagens, o capitão Cameron
    parte de Bogamoyo em frente de Zanzibar, passa em Rehenneko, atravessa o
    paiz de Ounyanyembe, o paiz de Ugara, o Ujiji, o lago Tanganyika, o
    mercado de Nyaugwe, o estado de Urua, a Ponta do Lenho, desce as margens
    do Congo, toca em Benguela, chega finalmente a Loanda. Os companheiros
    de viagem que haviam saido de Inglaterra para o acompanharem–o doutor
    Dillon, Moffat sobrinho de Levingstone, o artilheiro Murphy, não podem
    seguil-o a mais do começo d'essa longa e perigosa expedição. Adoecem
    successivamente todos. Moffat morre em Bogamoyo. Em Ounyanyembe
    apparecem-lhe os homens de Levingstone trazendo o cadaver do explorador
    que o precedera. Então Murphy e Dillon, ambos gravemente enfermos,
    desistem de continuar essa immensa viagem e regressam com o corpo de
    Levingstone para Zanzibar. Dillon morre no caminho.

    Cameron, só, sem nenhum outro companheiro europeu, armado de uma
    clavina, seguido por uma escolta de negros, prosegue, caminhando
    atravez de regiões inexploradas e desconhecidas, sob um clima mortifero,
    deixando atraz de si, marcado com a morte dos seus camaradas e cada um
    dos primeiros estadios da sua portentosa peregrinação.

    Não sabemos quem era Cameron ao partir. Admittimos que saisse da
    Inglaterra com a educação commum de um simples tenente da armada
    britanica. Mas dizemos que uma viagem como a que elle fez, e nas
    condições em que a fez, basta para retemperar uma alma e para formar um
    caracter. Um tal homem não mente. N'elle a mentira seria a refutação de
    todos os principios do nosso aperfeiçoamento, seria a violação de todas
    as leis da natureza humana.

    Nada mais lastimosamente ridiculo do que a indignação patriotica de
    qualquer dos nossos politicos, chupando auctoritariamente um cigarro no
    Gremio ou á porta da Casa Havaneza, bombardeando a atmosphera com balas
    de fumo, e desmentindo o homem mais competente que hoje existe no mundo
    para nos informar do que se passa em Africa!

    O que Cameron disse ácerca da escravatura africana na conferencia feita
    em Londres foi o seguinte:

    «Cerca da linha de separação das bacias do Zambese e do Congo fomos
    retardados no primeiro acampamento por causa da caça aos escravos
    fugidos. Quando pela manhã me preparava para partir, chega um mensageiro
    dizendo-nos: _Não partaes; Kouaroumba vae chegar com os seus escravos_.
    Depois do meio dia chegou effectivamente Kouaroumba com uma fila de
    cincoenta ou sessenta infelizes mulheres, carregadas com a presa,
    trazendo algumas os seus filhos nos braços. Estas mulheres representavam
    pelo menos a ruina e a destruição de quarenta ou cincoenta aldeias e a
    matança d'aquelles dos seus habitantes masculinos que não conseguiram
    refugiar-se nos juncaes para ali viverem como podessem ou morrerem de
    fome. É para mim fóra de duvida que estas cincoenta ou sessenta escravas
    representam mais de 500 individuos mortos na defeza do seu lar ou
    acabando mais tarde de inanição. As mulheres a que me refiro vinham
    presas umas ás outras pela cinta por meio de cordas cuidadosamente
    atadas. Quando ellas affrouxavam na marcha, batiam-lhes
    desapiedadamente. Os traficantes portuguezes, negros ou mestiços são
    muito brutaes; os arabes pelo contrario tratam geralmente bem os
    escravos. Os negros caçados como estas mulheres no interior da Africa
    não são em geral levados para a costa. Vão para Sakaleton, onde por
    varios motivos a população é rara e são mui procurados os escravos. São
    vendidos por marfim, que os traficantes trazem para a costa.»

    Estas palavras são perfeitamente explicitas e terminantes.

    Persiste com todos os seus horrores no interior das nossas possessões da
    Africa o trafico dos escravos. Emquanto se não provar manifestamente o
    contrario esta é que é a verdade, verdade referida pelo sr. Cameron, já
    anteriormente ennunciada pelo viajante francez o sr. Jocolliot,
    confirmada pelo sr. Young, explorador inglez, e ultimamente, mesmo em
    Lisboa em uma carta publicada no _Progresso_ pelo sr. Pinheiro Bayão,
    que esteve por algum tempo em Africa empregado do Estado.

    Para factos d'esta ordem os protestos de toda a imprensa[1] e de todo o
    parlamento, por mais unanimes que elles sejam, não teem a natureza de
    uma refutação nem o caracter de uma resposta, são uma pura evasiva
    compacta.

    [Nota 1: Um unico periodico, de que tenhamos noticia, o _Seculo_, de
    Coimbra, tomou a defeza do capitão Cameron em um artigo poderosamente
    escripto pelo sr. Correia Barata.]

    A primeira noticia dada em Portugal da viagem de Cameron foi objecto de
    uma sabia exposição feita á primeira classe da Academia das Sciencias
    pelo fallecido naturalista o dr. Bernardino Antonio Gomes. O resultado
    d'essa exposição dos serviços prestados pelo viajante inglez á
    civilisação universal foi dirigir-se a Academia ao ainda então tenente
    Cameron, agradecendo-lhe em nome da sciencia e em nome de Portugal a
    contribuição valiosissima com que elle tinha cooperado para o progresso
    da sociedade humana.

    O governo, deliberando tomar officialmente conhecimento dos factos
    referidos pelo capitão Cameron, não tinha senão uma resposta que
    dar-lhe:–nomear uma commissão de inquerito que syndicasse
    rigorosamente da cumplicidade dos funccionarios portuguezes no
    menosprezo ou na contravenção das leis que aboliram a servidão.

    Em quanto á camara dos srs. deputados, parece-nos que ella teria
    procedido, pelo lado scientifico com mais logica, e pelo lado patriotico
    com mais tacto, se em vez das protestações que iniciou houvesse seguido
    o exemplo que lhe fôra dado pela Academia e agradecesse simplesmente ao
    sr. Cameron as informações que este lhe prestára.

    D'esse modo teria a camara dos sr. deputados evitado receber do _Times_
    a mais dura e humilhante lição que por via da penna de um jornalista se
    pode inflingir a uma sociedade.

    O preconceito do patriotismo é o mais funesto de todos os preconceitos
    sociaes sempre que elle nos leva a trahir a verdade. Manter na opinião
    publica a mentira é violar o progresso da humanidade pelo modo mais
    sacrilego e mais nefando. A decomposição em que se acha a governação e a
    politica em Portugal deve-se principalmente á fraqueza dissolvente dos
    caracteres publicos em testemunhar a verdade. Todo aquelle que por meio
    da sua palavra ou por meio da sua penna não tem o preciso valor para
    ennunciar a sua inteira opinião é um traidor da civilisação e um
    perigoso inimigo do genero humano. Não queremos para a nossa
    consciencia de escriptor o remorso d'essa voluntaria culpa, e é por isso
    que dizemos aos srs. deputados:

    A verdade, meus senhores, é o que vos disse o _Times_. «A questão, como
    diz o referido periodico, não é se Portugal prestou serviços á causa do
    progresso africano, nem se os estadistas foram estudiosamente polidos na
    sua linguagem tratando com uma nação alliada e amiga; a questão é se os
    factos são ou não são como recentes viajantes affirmaram que eram. Que o
    commercio da escravatura na Africa central seja feito mui largamente por
    negociantes portuguezes e sob a protecção da bandeira portugueza é
    accusação que pode ser refutada, não pela linguagem de uma indignação
    ficticia ou real, não por patrioticas reminiscencias, nem por uma
    referencia a cumprimentos diplomaticos, mas sim deixando-se de permittir
    que haja materia para que a accusação continue. Sabemos quanto Portugal
    tem feito no papel para acabar a escravatura, e conhecemos tambem o
    pouco effeito que as suas energicas declarações produziram.»

    Os quatro milhões de vozes de que o paiz inteiro pode dispor, a
    protestarem todas perante o universo, não poderão convencer um só homem
    de que a verdade seja differente do que é. A declamação n'este ponto é
    completamente inutil com outro qualquer fim que não seja um puro
    exercicio de eloquencia nacional.

    Por tal modo, meus senhores, não julgueis contribuir para a civilisação.
    Vós contribuis apenas para o _Peculio de Oradores_, do sr. João Felix.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01 02)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1877-01 02)

    Aproximadamente 17.801 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional de Lisboa, Portugal, Cláudia
    Ribeiro, Larry Bergey and the Online Distributed
    Proofreading Team

    [Illustration: EÇA DE QUEIROZ–RAMALHO ORTIGÃO–AS FARPAS]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    NOVA SERIE TOMO VIII

    Janeiro a Fevereiro 1877

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    Universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    A actual situação politica. Conceituosa parabola das moscas e das
    maselas. O partido revolucionario e o partido conservador. A funcção de
    um e outro d'estes partidos. Anarchia ou retrocesso. Extincção do
    partido revolucionario por falta de idéas. Mancommunação conservadora.
    Philosophica historia de uns almocreves e de um pipo de vinho. A
    profunda synthese do pipo do Estado.–As inundações. Crise
    meteorologica. Theoria da chuva. Os irrigamentos e as cheias. As
    civilisações e os rios. As previsões industriaes e economicas. O
    regimen das torrentes. A arborisação. Os diques provisorios. As fontes
    de Palissy. Crise economica. O Estado e o Inundado. Troca de
    correspondencias. Lisboa durante a crise: os salões, os espectaculos, a
    imprensa, o parlamento. Intervenção de sua magestade a rainha. A
    caridade como elemento de administração. Autopsia do anjo. De como este
    não baixou do ceu. Demonstra-se que saiu da arcada do Terreiro do Paço.
    A intervenção dos Prelados. As preces para mudar o tempo e os
    observatorios para o estudar. Os moinhos do Tibet e as cabaças dos
    Kalmuks. A intervenção da colonia portugueza no Brazil. O brazileiro
    que parte, e o brazileiro que chega. O patriotismo dos nostalgicos. A
    commissão de soccorros.–Um banquete militar. O que se passa dentro dos
    craneos sob a pressão das barretinas.–O centenario da Academia das
    Sciencias. A tradição academica. A Academia, berço da revolução e da
    liberdade. Ferreira Gordo, o abbade Correia da Serra, o padre Antonio
    Pereira, o duque de Lafões, academicos e jacobinos.–_O crime do Padre
    Amaro_ romance d'Eça de Queiroz.

    A situação politica…

    Mas, perdão–antes de encetarmos este assumpto, uma pequena historia:

    Era uma vez um velho burro. Fora madraço e manhoso. Não conquistára
    amigos porque os não merecia. Tinham-o lançado á margem no fim da vida.
    Principiou a viver ao acaso, pelos montes. Um dia achava-se defronte de
    um vallado, estacado ao sol sobre as suas quatro patas, inerte, immovel,
    olhando para um cardo secco com os seus grandes olhos redondos e
    encovados em orbitas esqueleticas, pensando nas vicissitudes da vida e
    procurando arrancar do seu cerebro, para se consolar, algumas idéas
    philosophicas.

    Passou por elle e deteve-se a contemplal-o um joven asno, no viço das
    illusões, cheio de amor e de zurros, de alegria e de coices. A vetusta
    ossada angulosa do ancião parecia furar-lhe a pelle resequída e aspera.
    Um espesso enxame de moscas cobria-lhe as mataduras do lombo e dava-lhe
    o aspecto de ter um albardão feito de zumbidos e d'asas sobre um fundo
    de missangas pretas e palpitantes,–coisa rabujosa á vista.

    –Sacode esse mosqueiro, disse-lhe o burro novo. Dar-se-ha o caso de
    que, á similhança do homem, deixasses tambem tu atrophiar o precioso
    musculo que ahi tens na face para por meio d'elle abanares a orelha e
    moveres a pelle?… Sacode-te, bestiaga!

    Ao que o lazarento, pausado, retorquiu:

    –Não sabes o que zurras, joven temerario! O destino de quem tem maselas
    é que o mosqueiro o cubra. As moscas que tu vês, e de que o meu cerro é
    a estalagem com mesa redonda, são moscas fartas, teem a mansidão
    abundante dos estomagos cheios. Se eu as sacudisse, viriam outras,–as
    famintas, de ferrões gulosos, que zinem como frechas, pousam como
    causticos, mordem como furunculos. As que tu vês prestam-me um serviço
    impagavel:–livram-me das que podem vir; são o meu xairel benigno e
    suave, o meu arnez, a minha couraça. Quando te chegar a idade de seres
    pasto de moscas (e breve te soará essa hora porque a mocidade é, como a
    herva, uma ephemera transição entre o alfobre da meninice e a palha da
    edade madura); quando te chegar o teu dia, lembra-te, asninho
    imprudente, d'este conselho amigo de um burro velho, que não aprende
    linguas, mas que tem a experiencia que vale tanto como o ouro: Nunca
    sacudas mosca desde que creares masela! Teme-te dos papos vasios das
    revoadas novas. Papos cheios não só não mordem mas até empacham!
    Comprehendeste, burrinho, a philosophia da minha inercia?

    Revertamos agora, como vinhamos dizendo, á situação politica.

    Em toda a sociedade em movimento ha dois unicos partidos: o partido
    conservador e o partido revolucionario.

    A funcção do partido revolucionario, qualquer que seja o seu
    nome–republicano, socialista, federalista, fourrierista, proudhonista,
    positivista, etc.–é transformar a ordem estabelecida, modificando as
    condições da civilisação no sentido de um mais rapido progresso.

    Para este fim o partido revolucionario agita constantemente por meio de
    idéas novas as opiniões preconcebidas.

    Como, porém, não está ainda definido o programma geral e harmonico da
    revolução, como a tendencia progressiva das multidões indisciplinadas se
    basea no sentimentalismo esteril ou no phantastico ideal methaphysico
    dos phraseadores eloquentes, succede que todo o esforço revolucionario
    representa para a sociedade um perigo de desordem, de incoherencia e de
    anarchia.

    A funcção do partido conservador é a manutenção da ordem contra todas as
    invasões que directa ou indirectamente ameacem a integridade da
    organisação existente. Em todas as velhas sociedades os governos são por
    essa rasão, os inimigos natos do progresso. A evolução progressiva da
    humanidade realisa-se, a despeito d'elles, pela elaboração irresistivel
    das idéas fora da esphera official, sob a acção das descobertas da
    sciencia ou das suggestões da arte. O mais que fazem os governos é
    submetterem-se ás transformações sociaes que a solução de cada novo
    problema resolvido pela sciencia impõe á existencia dos povos. Os
    governos, portanto, sempre que uma forte effervescencia intellectual não
    agita a sociedade e os não abala constantemente na eminencia do seu
    posto forçando-os a concessões successivas, tendem ao retrocesso.

    A civilisação não é na orbita politica senão o justo equilibrio das
    forças resultantes d'essas duas tendencias: a tendencia retrograda na
    ordem, a tendencia anarchica na revolução.

    Em Portugal o que succede?

    A vida intellectual é extremamente debil. A sciencia não tem cultores
    desinteressados e ardentes, a acção da arte sobre a aspiração dos
    espiritos é nulla.

    O resultado é que os partidos de opposição, não encontrando nos
    phenomenos da vida nacional a profunda expressão implacavel de novas
    necessidades a que os governos tenham de amoldar-se, acham-se
    naturalmente desarmados das grandes rasões que reptam os governos a
    progredir ou a abdicar.

    Em taes condições o partido revolucionario dentro da milicia politica,
    partido fabricado pelos proprios governos com a corrupção do
    suffragio,–sendo uma pura convenção, uma fixão constitucional, uma
    expressão rhetorica, sem raizes na consciencia e na vontade
    popular,–acabou por desapparecer inteiramente do nosso systema
    representativo. Ha muitos annos que a revolução não tem quem a
    represente no parlamento portuguez.

    Ha, todavia, uma maioria parlamentar e uma opposição composta de varios
    grupos dissidentes. Estes grupos são fragmentos dispersos do unico
    partido existente–o partido conservador–fragmentos cuja gravitação
    constitue o organismo do poder legislativo.

    Estes partidos, todos conservadores, não tendo principios proprios nem
    idéas fundamentaes que os distingam uns dos outros, sendo absolutamente
    indifferente para a ordem e para o progresso que governe um d'elles ou
    que governe qualquer dos outros, conchavaram-se todos e resolveram de
    commum accordo revesarem-se no podler e governarem alternadamente
    segundo o lado para que as despesas da rhetorica nos debates ou a força
    da corrupção na urna fizesse pesar a balança da regia escolha. Tal é o
    espectaculo recreativo que ha vinte annos nos esta dando a representação
    nacional.

    Imaginem meia duzia de almocreves sequiosos que acham na estrada um
    pipo de vinho. Como nenhum d'elles tem mais direito que os outros a
    beber do pipo, combina-se que cada um d'elles ponha a bocca ao espicho e
    beba em quanto os pontapés dos outros o não contundirem até o ponto de o
    obrigar a largar as mãos da vasilha para as apertar na parte ferida
    pelos pontapés applicados pela companhia que espera. É exactamente o que
    ha muito tempo tem sido feito pelos partidos portuguezes com relação ao
    usofructo do poder que elles acharam na estrada, perdido.

    Chegou finalmente a vez de pôr o pipo á bocca um partido
    excepcionalmente valoroso de sede e inconfundivel de fibra. Este partido
    não desemboca o pipo por mais que lhe façam. Protestações
    escandalisadas, de almocreves, retroam.

    –Este partido abusa!

    –Isto não vale!

    –Isto não é do jogo!

    –Elle esvasia o pipo!

    –Larga o pipo, pipa!

    –Larga o pipo, pimpão!

    –Larga o pipo, ladrão!

    E incitam-se uns aos outros até á ferocidade:

    –Chega-lhe rijo!

    –Mais! que lhe dôa bem!

    –Rebenta-me esse ôdre!

    –Racha-me esse tunel!

    –Ah! cão!

    O partido, porém, continua sempre a beber, e é insensivel a tudo: á dor,
    ao insulto, ao chasco, ao improperio, á graça pesada, á insinuação
    perfida e á alusão venenosa!

    Em vista de uma tal pertinacia, que nós mesmos somos forçados a taxar de
    irregular, os partidos em expectativa do pipo, confederam-se, ferem o
    pacto da Granja, constituem-se n'um só partido novo,–n'uma só bocca
    para o pipo. Fazem um programma, redigem um manifesto, vão de terra em
    terra pedindo ao paiz que intervenha. Precisamente lhes occorreu n'esse
    momento que o pipo tem dono! que é do paiz o pipo!

    Instado a intervir pelos pactuantes da Granja, pelos signatarios do
    manifesto, pelos auctores do novo programma, pelos oradores dos
    _meetings_ revolucionarios, pelos jornaes opposicionistas, o paiz
    responde-lhes:

    Lestes a historia do sabio burro lazarento contada pelas _Farpas_? Eu
    sou esse burro. Vós sois a revoada das novas moscas pretendendo
    expulsar a revoada velha. Ora, moscas por moscas–sendo meu destino que
    ellas sempre me cubram e me comam–prefiro as antigas moscas saciadas ás
    novas moscas famintas.

    Deixae-me em paz. E notae que eu nem sequer vos abano as orelhas,–que é
    para não bolir comigo!

    * * * * *

    Nuvens escuras, espessas, parecendo feitas da conjugação erea de
    Hymalaias de cinza e de Caucasos de cebo, toldam o céu, descem no espaço
    sobre as nossas cabeças, rolam pelos telhados com os idyllios felinos do
    mez de janeiro, cáem sobre os candieiros das ruas, espraiam-se pelo
    asphalto dos passeios, valsam nas ruas, envolvem os transeuntes em
    abraços aquosos que lhes atravessam o paletot, o collete de flanella e
    as articulações dos ossos; penetram em rodopio no interior das casas
    pelos resquicios das portas e das janellas, e na sua dança macraba as
    pardas e humidas filhas do ar cobrem de sofregos beijos molhados e
    bolorosos as lombadas dos livros, o liso marfim dos teclados, o marmore
    polido das chaminés, os cabellos que se desfrisam e as idéas que se
    dissolvem. Ao cabo de pouco tempo chove de toda a parte: chove do céu,
    chove das paredes e dos tectos das casas, das portas, da mobilia, dos
    castões das bengalas, dos _abat-jours_ dos candieiros, e dos barretes de
    dormir. Ha dois violentos temporaes com poucos dias de espaço entre um e
    outro. Trasbordam os rios. Inundam-se os campos. Desenraizam-se arvores.
    Desmoronam-se casas. Os rebanhos, os instrumentos agricolas, os generos
    em deposito nos celleiros, os viaductos e os rails das linhas fereas são
    arrebatados pela corrente das aguas. O curso ordinario dos negocios, o
    movimento das mercadorias e dos viajantes suspende-se. Alguns dos
    habitantes das regiões inundadas ficam na miseria e têem fome.

    * * * * *

    Ha por tanto duas crises: uma crise meteorologica e uma crise economica.

    * * * * *

    Sendo a crise economica um effeito da crise meteorologica, a questão
    fundamental no estudo d'essas duas crises é a questão da chuva.

    Esta questão acha-se definida e tem a sua theoria na sciencia.

    Assim como a agua sujeita a uma dada elevação de temperatura se evapora
    e se converte em ar, assim o ar sujeito a uma proporcional depressão
    athmospherica se transforma e se converte em agua. Os conhecimentos que
    já hoje se possuem da physica do globo permittem determinar os
    differentes tramites do processo seguido pela natureza para obter os
    resultados achados pela observação humana.

    Todo o vento (effeito da rotação da terra) humedecido pela impregnação
    aquatica do mar, encontrando na sua passagem um estorvo que o dilate na
    atmosphera, transforma-se em chuva, ou transforma-se em neve, segundo o
    gráu de arrefecimento, maior ou menor, resultante da altura a que o
    eleva no espaço o volume do estorvo interposto na sua corrente.

    Assim se explica o phenomeno da chuva, a existencia da neve nos
    pincaros de todas as altas montanhas, e o nascimento dos rios. D'estes,
    uns, como o Rhodano, o Rheno, o Danubio, são formados pela opposição das
    cordilheiras á corrente regular de certos ventos; outros, como o
    Mississipi e o Missouri, nascem do encontro das duas correntes
    atmosphericas oppostas, uma que sáe do golpho do Mexico, outra que parte
    dos Estados Unidos na direcção da Europa.

    Achando-se determinado que 200 metros de elevação acima do nível do mar
    dão 3 gráus de frio, é facil calcular, o frio que deve actuar no ar
    elevado ás alturas dos Alpes, dos Pyreneus, do Caucaso, e de descobrir
    assim as causas das geleiras, do mesmo modo se descobriu a origem das
    chuvas e a do nascimento dos rios.

    Possuida esta simples e clara noção, o homem adquiriu o poder de
    intervir no meteoro. Em 14 de novembro de 1854 uma tempestade medonha
    caíu sobre as esquadras franceza e ingleza, estacionadas no Mar Negro.
    Todos os navios das duas marinhas tiveram avarias desastrosas. Muitas
    embarcações de transporte naufragaram. O sr. Leverrier, director do
    observatorio de Paris, procedeu então a um inquerito sobre as
    perturbações atmosphericas d'esse dia, dirigindo circulares a todos os
    meteorographos do mundo. Duzentas e cincoenta respostas de differentes
    observatorios provaram que a onda atmospherica qua determinara a
    tempestade fôra presentida pelos observadores, e que a catastrophe teria
    sido evitada se o telegrapho, que caminha mais depressa do que a
    corrente do ar, houvesse feito passar de observatorio em observatorio a
    noticia do phenomeno.

    Antigamente faziam-se preces e penitencias para pedir chuva; hoje em dia
    a chuva não se pede, manda-se-lhe simplesmente que caia, e ella cáe
    precisamente no ponto que se lhe designa.

    Ha poucos annos ainda, no Baixo Egypto, não chovia nunca. Os celleiros
    eram construidos ao ar livre, a descoberto, sobre os telhados. Desde
    tempos immemoriaes que o vento secco do norte mantinha esse estado de
    coisas na referida região. Um dia, porém, a corrente septentrional chega
    á Alexandria e encontra uma certa difficuldade em passar com a rapidez
    do costume; detem-se um momento, retarda-se um instante: basta isso para
    que ella se dilate, para que se eleve no espaço, para que arrefeça na
    razão da altura a que subiu e para que, por-consequencia, se converta
    em chuva. D'onde viera esta poderosa resistencia á invasão do vento
    esteril? De uma revolução geologica na configuração do solo? Do encontro
    de um vento opposto? Da influencia calorifica da radiação solar? Não. A
    voz de preso dada ao vento norte, o encarceramento d'elle n'uma certa
    porção do espaço, a sua condemnação inilludivel a condensar-se e a ser
    chuva, fôra simplesmente a obra do homem, que vencera o vento plantando
    a arvore.

    As florestas que têem o poder de occasionar as chuvas por meio da sua
    interferencia na corrente dos ventos, possuem ainda a propriedade de
    lhes regular os effeitos impedindo os excessivos irrigamentos, e as
    inundações.

    Além de certos processos de cultura e de arborisação nos cabeços dos
    montes e nas encostas das colinas, ha outros meios de impedir os
    estragos das cheias,–dando aos rios um regimen torrencial, operando
    largos cortes transversaes nos declives do solo para regular a descida
    das aguas, construindo tubos de drenagem, etc.

    Quando um dique, como o de Vallada, se rompe por effeito de um
    repentino augmento no volume da agua no leito de um rio, ha meios
    praticos, prontos, expeditos, de construir diques provisorios. O sr.
    Babinet, nos seus estudos ácerca da chuva e do irrigamento da França,
    lembra para os casos analogos ao de Vallada a construcção de barreiras
    feitas com grandes caixas de ferro fundido similhantes ás que
    transportam a agua potavel nas navegações de longo curso. Estas caixas
    enchem-se com a mesma agua do rio e sobrepõem-se ou enfileiram-se de
    encontro á corrente até formarem um obstaculo de dimensões adquadas ao
    volume da agua que se tem por fim represar.

    O mesmo sr. Babinet suggere para o meio preventivo da arborisação o
    sabio alvitre, tão moralisador, de organisar regimentos de plantadores
    formados de corpos de veteranos, cujas praças encontrariam n'esse
    trabalho um suave emprego da sua actividade, que o Estado poderia
    utilisar remunerando-a com liberalidade superior á importancia mesquinha
    do soldo e proporcional ao serviço prestado por esses cidadãos, até hoje
    inuteis, á salubridade e á riqueza publica.

    Por occasião das ultimas inundações em França, das recentes inundações
    na Inglaterra, os meios apontados e muitos outros, descobertos pela
    sciencia no momento do perigo, em frente da catastrophe, têem sido
    objecto dos mais graves estudos por parte do governo, por parte da
    imprensa, por parte principalmente das corporações especiaes, dos
    meteorologistas, dos engenheiros hydrographos, dos de florestas, dos de
    pontes e calçadas, etc.

    Em Portugal deante do facto da inundação espraiada sobre as povoações do
    Ribatejo, e das margens do Guadiana, a questão principal, a questão
    summa, a questão technica, é posta completamente de parte, ou nem sequer
    chega a ser afastada: não concorre no problema, é como se não existisse!

    * * * * *

    Em face do desastre, dos nossos periodicos, do nosso parlamento, dos
    nossos proprios estabelecimentos de instrucção, irrompe um só grito
    enorme, consternado, lacrimoso, impotente, imbecil:–_Caridade!
    Caridade! Caridade!_

    Parece não se ter unicamente em vista achar um remedio, mas cumprir uma
    expiação que minore os castigos do Ceu!

    Um antigo proloquio egypcio dizia: _Chuva em Tebas, desgraça no Egypto_.
    A população portugueza não mostra ter da chuva uma comprehensão menos
    supersticiosa que a da tradição tebana. Estamos na metaphysica dos
    cataclismos incommensuraveis.

    Debalde a meteorologia–com quanto em estado rudimentar, não constituida
    ainda em sciencia sobre bases experimentaes e com processos
    deductivos,–nos annuncia, ainda assim, que não ha nos phenomenos do ar
    aberrações extraordinarias, inaccessiveis á previsão, mas sim
    uniformidades periodicas de successão, as quaes o estudo das ondas
    atmosphericas e da acção magnetica do globo, estudo dirigido
    harmonicamente em uma cinta de observatorios que cinja
    ininterrompidamente o globo, chegará por certo a poder um dia
    regulamentar systematicamente. Definir-se-ha o sentido scientifico do
    sonho symbolico das vaccas magras e das vaccas gordas, demonstrando-se
    como aos annos de estiagem e de fome succedem annos compensadores de
    irrigação e de abundancia.

    Debalde a historia nos mostra que foi das inundações dos grandes rios
    que saiu a iniciação dos grandes progressos humanos; que foi das
    inundações do Nilo que procedeu a civilisação do Egypto; das inundações
    do Hoang-Ho que procedeu a civilisação da China; das inundações do
    Euphrates, que procedeu a civilisação da Caldea, da Babilonia e da
    Syria. Povos na infancia, desprovidos das lições da experiencia,
    desarmados dos instrumentos da analyse moderna, souberam fundar a sua
    vida historica na previsão industrial e na previsão economica das cheias
    dos seus rios.

    Nós, portuguezes, em pleno seculo XIX, na posse dos mais importantes
    segredos da mechanica, da astronomia, da physica, da chimica, nós,
    filhos de Kepler, de Galileu, de Newton e de Francklin, nós,
    contemporaneos de Mayer, de Helmboltz, de Virchow, de Haeckel, de
    Humboldt, e de Wourtz, de Ampere, de Leverrier, nós, não sabemos tirar
    das inundações successivas de um rio que vem de annos a annos,
    periodicamente, contra nossa vontade, fertilisar os nossos campos,
    nenhuma das lições que a experiencia devia suggerir-nos para regularmos
    e utilisarmos em nosso proveito a acção violenta d'esse phenomeno!

    Ha perto de trezentos annos que um velho naturalista, um modesto
    oleiro, um simples, um santo, Bernardo Palissy, ensinou a construir as
    fontes artificiaes, fazendo passar as aguas da chuva atravez de um
    pequeno trato de terreno arborisado sobre um declive de cimento
    argiloso, terminando n'um muro de supporte que se corta no ponto em que
    se colloca a fonte e onde se deseja que a chuva, armazenada no inverno
    entre as raizes do pomar plantado na encosta de subsolo sedimentado,
    venha a correr no verão em bica de agua mineralisada e limpida. Ha
    trezentos annos que isto se ensinou. Em Portugal, onde a chuva
    torrencial é um facto de quasi todos os invernos, onde a falta de agua
    potavel é um facto de quasi todos os verões, ainda ninguem aprendeu a
    construir a fonte de Palissy!

    Em Lisboa cairam alguns muros e desabaram algumas casas. Se um ligeiro
    abalo de terra se tivesse seguido ás grandes chuvas é natural que muitos
    outros predios aluissem, porque a grave questão das edificações em
    Lisboa está absolutamente despresada e abandonada á rotina do velho
    systema adoptado pelo marquez de Pombal. Ora esse systema, aliás
    excellente no tempo da reedificação subsequente ao terremoto, é hoje
    imperfeito e perigoso. A canalisação da agua e as chaminés dos fogões de
    sala vieram modernamente alterar os dados do problema resolvido pela
    sabia administração pombalina. Os andaimes de madeira geralmente
    adoptados para sustentar os soalhos e os tectos ou apodrecem rapidamente
    ao contacto dos canos da agua que envolvem os predios ou se carbonisam
    por effeito do calor que lhes communicam os tubos das chaminés. A
    elasticidade que se tem em vista obter para evitar os desabamentos
    procedentes dos terremotos, substituindo os madeiramentos pela pedra, só
    poderia conseguir-se, sem perigo do apodrecimento ou da carbonisação,
    empregando nas construcções modernas o ferro em vez do pau. Esta
    modificação tão facil, tão economica, tão urgentemente exigida nos novos
    systemas de edificar, o nosso desleixo nacional não nol-a tem deixado
    ensaiar. De modo que a mesma previsão do perigo discorrida pelo unico
    homem que acordou em Portugal por occasião do grande tremor de terra com
    que á natureza benigna approuve tentar acordar-nos, essa mesma a nossa
    indolencia e a nossa incuria conseguiu converter dentro de poucos annos
    em mais uma causa de destruição e de aniquilamento!

    Do regimen torrencial dos rios, da arborisação das montanhas, dos côrtes
    transversaes das vertentes, da construcção dos tubos de drenagem, das
    applicações da draga, dos diques moveis organisados por meio das grandes
    caixas de ferro fundido, caixas que boiam na agua em quanto vasias e que
    um pequeno vapor munido do um cabo de reboque poderia conduzir aos
    centos sobre o Tejo para os pontos da margem que conviesse resguardar
    pelo pequeno espaço de tempo necessario para evitar o perigo, quasi
    momentaneo, das inundações, do emprego finalmente de qualquer dos muitos
    meios conhecidos para dominar as cheias ou para utilizar as chuvas,
    ninguem se occupa–nem o governo que assiste ao espectaculo commodamente
    sentado nos seus _fauteuils de orchestre_ e applica á marcha dos
    successos o seu binoculo de dilettanti correcto, imperturbavel, nem o
    parlamento, nem a imprensa, nem finalmente o paiz!

    * * * * *

    A crise economica não nos parece ter sido objecto de cuidados mais
    serios do que aquelles que cercaram a questão hydraulica. Ou é certo ou
    não é que a inundação do Tejo e os temporaes que concorreram com ella
    destruíram as casas, devastaram os campos, reduziram povoações inteiras
    á miseria e á fome. Se isto é uma pura invenção dos _reporters_
    sentimentaes, o diligente esforço humanitario empregado para arrancar da
    caridade o remedio supremo do grande mal é uma simples ostentação
    insensata e ridicula. Se são verdadeiras as informações que os jornaes
    vagamente nos transmittem das desgraças provenientes da inundação do
    Tejo e do Guadiana, n'esse caso a questão não se resolve pela caridade
    particular mas sim pela assistencia publica.

    Porque–reflictamos um momento–ou existe esse conjuncto harmonico de
    instituições solidarias e responsaveis chamado o Estado, ou não existe.

    Se não existe, em nome de que principio nos estão aqui a impôr o serviço
    militar, o exercito, as barreiras, as alfandegas, o funccionalismo e a
    lista civil?

    Se o Estado existe, o que é para elle o _lnundado?_ O _Inundado_ é o
    productor e é o contribuinte. Agricultando o seu campo, creando o
    cavallo, engordando o boi, creando o porco, tosquiando a ovelha,
    pisando a azeitona, podando a cepa, descaseando o sobreiro, o Inundado
    desde tempos immemoraveis que não faz mais do que estas duas coisas:
    produz e paga.

    Nós outros, habitantes do Chiado, assignantes de S. Carlos, socios do
    Gremio e do Club, frequentadores do Martinho e do Passeio Publico, nós,
    republicanos, regeneradores ou granjolas, commendadores de Christo e
    mesarios da confraria das Chagas, nós outros não produzimos e por
    conseguinte, em rigor, tambem não pagamos.

    Funcionnerios publicos, capitalistas, banqueiros, ministros, oradores,
    poetas lyricos, jogadores na bolsa, proprietarios de predios, vendedores
    de bilhetes de loteria, consumidores insaciaveis de charutos, de copos
    de cerveja, de dobrada com hervilhas e de bolos de especie,–nós,
    francamente, não produzimos coisa nenhuma qae signifique dinheiro, isto
    é, trabalho crystalisado, obra, ou, por outra, valor. Somos apenas–mais
    ou menos legitimamente–os usufrutuarios, os administradores officiosos
    ou officiaes do dinheiro dos outros.

    Portanto, como acima dissemos, nóa outros, como não produzimos, em
    rigor tambem não pagamos. Aquillo que alguns suppomos pagar é apenas uma
    parte que se nos deduz n'aquillo que recebemos. Quem em ultima analyse
    vem a pagar é unica e simplesmente o Inundado, queremos dizer o
    productor, o que planta o trigo, o bacelo, a oliveira e o sobro, o que
    cega a cevada e apanha a bolota, o que carda a ovelha, cria o boi, o
    cavallo, o porco e o carneiro, o que dá a cortiça, o mel, a cebola, o
    pão, o vinho, o azeite, o sal, o figo, a amendoa e as laranjas.

    É elle, o Inundado, quem até hoje tem pago o subsidio de S. Carlos, as
    carruagens dos ministros, os cavallos dos correios de secretaria, as
    purpuras dos nossos reis, as _toilettes_ das nossas dançarinas, os
    penachos do nosso exercito, a campainha e o copo d'agua dos nossos
    parlamentos, finalmente toda a despeza de administração, de pompa, de
    luxo e de força, cujo conjuncto constitue a coisa chamada o Estado.

    Como foi que o Estado resolveu o Inundado a pagar-lhe as suas contas? O
    Estado resolveu-o fazendo-lhe o seguinte discurso:

    Inundado! Você trabalha como um boi de nora, o que o não impede de ser
    um infeliz e um estupido. Eu sou o Estado. Proponho-me dar-lhe a
    felicidade material, intellectual e moral, cujos elementos lhe faltam, e
    que v. não sabe nem póde constituir sem mim. Você não sabe lêr nem
    escrever, você não sabe trabalhar, não sabe prevêr, não sabe economisar.
    Você não nem a escola rural, nem a biblioteca rural, nem a policia
    rural, nem o banco rural. Você não tem a granja modelo que lhe ensine os
    novos processos agricolas e lhe empreste as grandes machinas de
    trabalho. Você não tem arborisação nos seus montes nem canalisação nos
    seus rios. Para o dotar com todos esses instrumentos de aperfeiçoamento
    e de prosperidade, arranjei-lhe eu um systema, que se chama o systema
    monarchico-representativo, com uma carta, um rei, e doze homens, sendo
    seis ministros e seis correios a cavallo, um parlamento, composto de
    duas camaras, uma electiva e outra hereditaria. Quer você ou não quer a
    civilisação? Se a quer, aceite o meu systema e eleja um deputado que vá
    á minha camara electiva pedir por boca em seu nome tudo o que você
    appeteça. Em troca d'este enorme serviço que eu lhe presto ha de você
    resignar-se a pagar-me um imposto annual, que eu cá mandarei cobrar pelo
    escrivão de fazenda, e cuja importancia applicarei a regalal-o e a
    divertil-o summamente com um exercito, uma côrte, um sceptro, varias
    duzias de repartições publicas, um theatro, um _Diario das Camaras_, um
    arsenal, uma cordoaria, uma imprensa, etc., etc.

    O Inundado começou desde então a pagar e o estado começou a dispender.
    Ha perto de cincoenta annos que dura esta troca de serviços. O Inundado,
    porém, ainda até hoje não pôde obter nem a escola pratica, nem a
    bibliotheca, nem a granja, nem os novos instrumentos agricolas, nem as
    grandes machinas para a lavoura a vapor, nem a arborisação, nem os
    trabalhos hydraulicos no rio.

    Um bello dia, um temporal rebenta, as aguas das chuvas, sem florestas
    que as espongem, sem valas que sangrem a torrente, desabam de chofre no
    rio, este trasborda por cima de velhos diques em ruina, alaga as
    povoações, invade as casas, e deixa o Inundado entregue á nudez, á
    desolação e á fome.

    O Inundado pede então a alguem que em seu nome exponha ao Estado a
    situação em que elle se acha:

    * * * * *

    Excellentissimo Estado e meu amigo.–Ha cincoenta annos que para aqui me
    acho, tendo pago sempre a v. ex.'a quantia que combinámos quando v.
    ex.'a fez comigo o contracto de eu lhe mandar o imposto para Lisboa e de
    v. ex.'a me mandar para aqui a civilisação. Até á data d'esta nada
    recebi.

    Os deputados que para ahi tenho expedido á custa de muita intriga, de
    muito dinheiro, de muito copo de vinho e de bastantes bordoadas
    distribuidas com as listas á bocca da urna, nada remetteram para cá
    senão discursos cheios de exclamações e de erros de grammatica. Graças
    aos effeitos de quarenta annos de eloquencia sobre os trabalhos da terra
    e sobre as obras do rio, este cresceu repentinamente com as ultimas
    chuvas, invadiu-me a casa e levou-me tudo: moveis, roupas, generos,
    ferramentas.

    Acho-me na derradeira miseria.

    Antigamente, antes do contrato que v. ex.'a fez comigo e a que já
    alludi, o dinheiro que eu ganhava, em vez de o mandar para Lisboa,
    entregava-o aqui assim ao morgado, ao capitão-mór, e ao convento. Mas o
    morgado e o capitão-mór, se por um lado me arrancavam a pelle como v.
    ex.'a hoje faz, por outro lado eram meus amigos. Eram meus compadres,
    padrinhos dos meus filhos; davam-lhes as brôas e as amendoas pelas
    festas do anno, esperavam pelas rendas, punham os varapaus argolados dos
    seus moços e os d'elles proprios ao serviço da nossa causa, quebravam
    todos os ossos do corpo aos corregedores, aos alcaides, aos portageiros
    e aos almotacés, quando estes se faziam finos, matavam-nos de quando em
    quando a creação ou davam-nos chicotadas quando estavam bebados, mas em
    seu juizo eram bons homens e tinham sempre as portas e os braços abertos
    para nos acudirem, para nos protegerem e para nos ajudarem. Os frades
    resavam,–o que, se não nos fazia bem, tambem nos não fazia mal; e esta
    é a differença que distingue os frades dos seus successores, os
    deputados: o frade resava, os deputados intrigam. Além d'isso, os
    frades, se diziam asneiras, diziam as pelo menos em latim, o que sempre
    acho que lhes custaria mais do que dizel-as em portuguez rasteiro e
    agallegado como me dizem que os deputados fazem. Finalmente os frades,
    se de ordinario viviam á nossa custa, tambem nas occasiões de crise nos
    permittiam viver á custa d'elles, e o caldo da portaria era uma
    restituição.

    Quem até hoje não tem restituido a importancia de um vintem nem em
    dinheiro, nem em caldo, nem em presentes, nem em favores de nenhuma
    especie é v. ex.'a, meu nobre e illustre senhor.

    Tudo quanto tenho pago a v. ex.'a a titulo de imposto, v. ex.'a o tem
    gasto na verba recreios: exercito com as suas revistas e as suas
    paradas; corpo diplomatico; côrte; gratificações aos doze homens que
    representam o governo trotando sobre as pilecas de uns atraz das tipoias
    dos outros; governadores civis e secretarios geraes; desembargadores
    para Gôa e juizes para os Açores; repartições publicas; arsenaes;
    imprensa nacional; fabrica das cordas; etc.

    Portanto, achando-me eu hoje sem real em consequencia de uma desgraça de
    que v. ex.'a tem a principal culpa, quer-me parecer que não serei
    desarrazoado pedindo-lhe o favor de me abonar para as minhas
    necessidades mais urgentes uma pequenissima parte das sommas com que eu
    ha cincoenta annos tenho estado a custear uma galhofa para a qual nem
    sequer ao menos me teem convidado,

    D'este que é

    De v. ex.'a

    Humilde subdito e servo

    _O Inundado._

    A resposta do Estado a estas argumentações e a estas instancias é de tal
    modo recreativa, que pareceria inventada, se a sua authenticidade não
    fosse reconhecida, como é, de todo o mundo.

    O Estado respondeu:

    Meu caro Inundado.–A tua estimada carta veiu encontrar-me em uma
    situação bem critica para te poder servir, como desejava.

    Acho-me a braços com a resposta ao discurso da corôa, com a apparição
    dos granjolas e com a segarrega do Barros e Cunha. Falta-me tempo para
    me occupar de ti.

    Pedi a sua magestade a Rainha para te abrir uma subscripção. A rainha
    acceitou gostosa esta incumbencia. Vieram a Palacio todos os banqueiros
    e todos os capitalistas da cidade. Nomearam-se commissões de homens e
    commissões de senhoras para promover bazares de prendas, concertos de
    amadores e recitas de curiosos em teu beneficio.

    Dizes-me que não tens nada de comer. É pouco. Todavia espero que, com
    alguma economia, possas d'isso mesmo tirar alguns jantares, ainda que
    simples, com que te alimentes durante este mez e parte do que vem. Sê
    sobrio. Um bom caldo, um peixe, um assado, um prato de legumes e meia
    garrafa de vinho é quanto te deve bastar. Como não tens nada, resigna-te
    um pouco e abstem-te de champagne e de faisões dourados. Perdeste a
    casa, a mobilia e o fato. Vae para o hotel, enrola-te na tua robe de
    chambre e não saias por estes dias. Conserva-te no teu quarto, ao fogão,
    toma grogs e lê romances. Reveste-te de paciencia, já que não podes
    revestir-te de pano piloto, e espera.

    Tudo está preparado e em via de execução para te acudir. Eduardo Coelho
    e Rio de Carvalho escrevem o hymno e estão no segundo moteto. O nosso
    Luiz de Campos prepara versos. Prepararam egualmente versos o nosso
    Thomaz Ribeiro, o nosso Pinheiro Chagas, o nosso Fernando Caldeira, o
    nosso Forte Gato, e outros.

    É tal o movimento poetico e o consumo de rimas que escaceam já os
    consoantes para _rainha_; manda-me pelo telegrapho os que ahi tiveres
    disponiveis e mais proprios do alto estylo do que _tainha, morrinha,
    doninha, carapinha, picoinha, espinha, ventoinha, gallinha e mezinha_.
    Manda tambem para _Pia_ os que poderes obter, menos os que pareça
    conterem allusões irreverentes como _enguia, folia, tosquia, letria,
    azia, mania_ e _bacia_.

    Cada um ajusta ao pé o patim da caridade e guina para seu lado em
    arabescos cheios de phantasia e de elegancia: está-se n'um _skating
    rink_ de beneficencia para te accudir, meu grande maganão.

    Além dos que fazem versos e dos que fazem hymnos, ha sujeitos a quem os
    teus revezes–tão lastimados elles são!–têem feito espigar mazurkas e
    rebentar polkas… de pura dôr.

    Entre as modistas tem havido largas discussões para se decidir se a
    caridade se deve fazer com decote ou com vestido afogado. Para os actos
    de beneficencia diurna têem-se adoptado geralmente os vestidos de meia
    caridade, de veludo ou casimira, abotoados. Para os rasgos de
    beneficencia nocturna as _toilettes_ são sempre de grande-caridade, isto
    é: decotes quadrados guarnecidos de renda de Bruxellas, toda a cauda,
    luvas de dez botões, e diamantes.

    É indiscriptivel a animação ferverosa que reina em todos os salões para
    se tratar de ti. Triplicaram as _soirées_ n'este inverno e dança-se
    todas as noites com o expresso fim de te favorecer. Tocam-se os
    lanceiros e fazem-se discursos para te obsequiar.

    –Elle geme nas vascas da mais horrorosa agonia!… Chaine anglaise,
    minha senhora!

    –Mas nós havemos de arrancal-o das fauces da miseria… Sirva-me um
    gelado!

    –Arrancal-o-hemos, ainda que seja a ferros!… De fructa ou de leite,
    minha senhora?

    –Salvemol-o vivo ou morto!… De leite!

    Ás duas horas ceia, volante ou de bufete, serviço quente e frio, menu de
    Baltresquí.

    Um telegramma que chega:–O Inundado está com agua pela cinta.

    Um sujeito fugindo com um perú assado:–Vou levar-lhe uma boia!

    Uma menina gritando:

    –Não! Não! não o devo consentir! não consentirei jámais que o coração
    generoso d'aquelle que me deu o ser se sacrifique assim, principalmente
    por um inundado que só está em perigo–da cinta para baixo! Accudam ao
    papá! Subtraiam-lhe essa boia! Subtraiam-lh'a, que lhe vae fazer mal:
    elle já comeu uma!

    De rasgos d'estes poderia citar-te centenas.

    Restos de velhas edições de livros, de polkas, de almanacks, que o
    consumo do publico se recusou a tragar e que jaziam desde tempos remotos
    nos archivos de familia dos respectivos autores, acabam de te ser
    coasagrados e cáem sobre as subscripções abertas para te proteger como
    bençãos dos genios incomprehendidos e olvidados.

    A mesma infancia estudiosa abre nas aulas de instrucção primaria
    subscripções para te acudir, e meninos, que ainda não conseguiram
    penetrar no _quadro de honra_ como sufficientemente fortes em leitura,
    figuram nas resenhas dos jornaes como bemfeitores dos homens.

    Não sei realmente, querido Inundado, como poderás agradecer-nos tão
    reiterados e tão grandes beneficios! Como não sabes fazer mais nada,
    espero ao menos quo rezes por nós. Compenetra-te bem de quanto nos
    deves, e não te esqueças nunca, em primeiro logar de nos pagar as
    decimas, e em segumdo de nos encommendares a Deus em todas as tuas
    orações de manhã e de tarde para que o Altissimo vele constantemente
    pelos nossos preciosos e divertidos dias e nos dilate a vida pelos mais
    longos annos, como desejas e has mister.

    Não te assustes, por quem és, com esse passageiro incidente da agua pela
    cinta. Mantem-te em uma attitude serena e firme. As cheias bolindo-se
    com ellas ainda enchem mais. Ao passo que, abandonadas a si mesmas, as
    cheias aborrecem-se e esvasiam. Por tanto deixa obrar a natureza. Logo
    que o tempo enxugue e os terrenos sequem, socega que irei ver-te. Podes
    desde já preparar a foguetada, o vivorio, e o publico regosijo, para
    receberes quem é devéras,

    Teu amo e protector

    _O Estado_.

    _P. S._ O bom amigo Luiz de Campos recommenda-se-te muito e manda
    perguntar-te como gostas mais da caridade, se escripta á latina com _c
    a_, ou á grega com _c h a_.

    * * * * *

    Diz-se geralmente–e parece-nos util fixar este boato como um symptoma da
    epoca–que sua magestade a rainha fôra aconselhada e guiada em todos os
    tramites da sua intervenção a favor do Inundado por um personagem já
    hoje eminentemente poderoso, mas ao qual os recentes conselhos a sua
    magestade vão dar um novo grau de importancia culminante e unica na
    governação publica. Será perfeitamente legitima essa importancia. Se
    effectivamente houve um homem sufficientemente sagaz para se conservar
    na sombra e para suggerir a sua magestade a rainha a idéa profunda de
    apparecer ella, unica e exclusivamente, a debellar unma catastrophe
    publica, esse homem fez aos partidos conservadores em Portugal um
    servigo incomparavel e deu uma prova de pericia e de habilidade que
    nunca se egualou e que se não póde exceder.

    Como se sabe, os partidos conservadores não têem idéas, não podem e não
    devem tel-as; os que por excepção as produzem commettem um erro fatal e
    são victimas do seu proprio acto. Em todo o _statu quo_ toda a idéa nova
    é um rombo. Quem no poder tem idéas, afunde-o. Nos regimens
    conservadores, como o que vigora em Portugal desde muitos annos, as
    idéas são erupções revolucionarias extranhas á acção governativa. A
    missão dos que governam não é lançar na circulação essas idéas, mas sim
    e unicamente vigiar o systema, como se vigia a couraça de um monitor em
    batalha naval, e sempre que uma idéa penetre, rolhar o furo e
    disciplinar em seguida o elemento novo introduzido a bordo pelo
    projectil inimigo.

    Aos governos conservadores não se pedem por conseguinte idéas: pedem-se
    expedientes. Expedientes para quê? Para conservar. Como? Por todos os
    meios que produzam este resultado:–a consolidação do que está.

    É de dentro d'esta theoria, que encerra toda a sciencia de governar, que
    nós dizemos: os conselhos a sua magestade a rainha, se alguem
    effectivamente lh'os deu (cremos que sim e diremos já porque) são o acto
    mais sabio, porque esse acto faz recair no assumpto o expediente mais
    adequado e mais proficuo.

    Se o governo procurasse directamente estudar e resolver o problema da
    inundação, que succederia? A opposição contraditava-o. Na imprensa e na
    camara os partidos dissidentes discutiriam as medidas ministeriaes,
    controvertel-as-hiam, impugnal-as-hiam com argumentos, com sarcasmos,
    com insultos. Quem sabe se o governo assim batido tenazmente de bombordo
    e estibordo não acabaria por metter agua, iniciando um simulacro de
    alguma coisa parecida ainda que remotamente, com uma idéa?!

    Que aconteceu, porém, em vez d'isso?

    Sua magestade a rainha, disse-se, toma a iniciativa de todos os
    soccorros ás victimas da inundação. E sobre esta noticia publicada em
    grandes letras nos jornaes da manhã, o governo foi para a camara, cruzou
    os braços e esperou corajosamente que a representação nacional se
    manifestasse. Então a opposição em peso, composta dos srs. Barros e
    Cunha, Osorio de Vasconcellos e Pinheiro Chagas, pediu a palavra pela
    bocca dos seus oradores.

    O sr. Osorio de Vasconcellos disse:–«Partiu de alto a iniciativa;
    partiu de uma illustre senhora, de sua magestade a rainha. Pois
    congratulemo-nos com o paiz inteiro; congratulemo-nos com este
    sentimento homogeneo de caridade manifestado por todos os cidadãos sem
    distincção de classe e que veio em allivio e amparo da miseria, que é
    geral _(apoiados)_ do soffrimento que é grande; das amarguras que são
    immensas… O nosso paiz foi sempre reconhecido pelos impulsos da
    caridade… Se porventura do alto do Golgotha o Divino Mestre, etc.,
    etc.»

    O sr. Barros e Cunha:–«Mando para a mesa a seguinte proposta que espero
    seja desde já votada por acclamação: A camara prestando a caridosa
    iniciativa de que sua magestade a rainha houve por bem usar em beneficio
    das victimas das inundações a homenagem que lhe deve em nome do povo que
    representa, resolve que este voto seja lançado na acta das suas sessões,
    e que uma grande deputação deponha aos pés da augusta princeza o tributo
    do seu reconhecimento.»

    O sr. Pinheiro Chagas, (fallando comsigo mesmo)–«Trago tambem aqui uma
    proposta da mensagem a sua magestade, feita com tanto patriotismo como a
    de Barros e Cunha e com mais grammatica. Visto, porém, que a camara
    approvou a d'elle, vou pôr a minha em verso e levo-a para o Gymnasio.
    Tenho concluido.»

    E na camara dos srs. deputados, onde o governo poderia ter sido
    violentamente e perigosamente accusado pela sua cumplicidade nos
    effeitos da inundação, os unicos tres deputados da opposição que n'este
    dia se achavam na sala não tiveram voz senão para louvar a caridade,
    para citar o Golgotha e para convidar uma grande commissão a ir depôr
    nos degraus do solio os testemunhos mais humildes do reconhecimento
    popular!

    A imprensa toda, unanimemente, confessou que sua magestade a rainha era
    indubitavelmente um anjo, ao qual todos os noticiaristas deviam
    permittir-se a liberdade de mexer um pouco nas azas em signal de
    gratidão.

    Depois da imprensa e da camara dos deputados vieram as corporações todas
    com o seu obulo e o seu communicado aos jornaes. Os soldados, os
    empregados das repartições publicas, os carpinteiros, os serralheiros,
    os cocheiros, etc. collocaram a sua prosa apologetica sobre os voadouros
    angelicaes da santa princeza: versos, hymnos, valsas brilhantes,
    _speechs_, mensagens, missivas particulares, desenhos á penna, vivas,
    bordados a cabello e a missanga, hurrahs explosivos, tropheus
    emblematicos e pratos montados com figuras allegoricas, tudo concorreu
    n'esta immensa apotheose.

    E, se, depois de tudo isto, o dique de Vallada ficou no estado em que
    anteriormente estava, o throno dos nossos reis, pelo menos, acha-se mais
    firme que nunca no amor dos novos.

    Confessamos, pois, em vista de todos os factos, que o expediente de
    resolver a crise aconselhando sua magestade a rainha a intervir pela
    caridada revela o politico mais habil, o homem de estado mais profundo
    que o paiz podia desejar na sua situação presente.

    * * * * *

    O que nos leva a admittir que sua magestade foi aconselhada por um
    promotor das conveniencias politicas e não guiada por impulsos
    expontaneos é o exame das pequenas circumstancias que acompanharam a
    intervenção da Corôa e nas quaes se revela a mão burocratica do
    conselheiro de estado, mais habituado a manejar algarismos e a redigir
    programmas do que a imitar a graça engenhosa, a poetica delicadeza, o
    fino primor, o tacto subtil, exclusivamente feminino, que assignala os
    actos nativos de um coração de mulher. N'esses actos, quando legitimos e
    authenticos, ha uma especie de vinco mimoso, de perfume ideal, que os
    laboratorios officiaes não imitam senão por meio de falsificações
    baratas e reles.

    Por este lado, que já não é o lado politico mas sim o lado esthetico, o
    lado artistico, por este lado o vosso anjo da caridade, o anjo que vós,
    meus senhores, puzestes no vosso andor e passeastes em procissão de
    popularidade pelo paiz inteiro, tem os defeitos das ingenuas nas
    companhias de amadores dramaticos em que só representam homens: tem os
    pés chatos, a cinta grossa, e uma rouca voz de falsete, fingida e
    miseravel.

    Por baixo das candidas vestes do vosso anjo percebem-se os contornos
    grossos e rijos do um forte modelo masculino. Reparando-se um pouco na
    alva pennugem immaculada das brancas azas em que o sr. Luiz de Campos
    collocou os seus inspirados versos, reconhece-se com evidencia que essas
    azas prendem por articulações de couro a espaduas de porta-machado.

    Sua magestade a rainha, uma mulher, uma senhora, uma princeza, se vós a
    não bouvesseis violentado com os vossos conselhos, ella de per si só,
    teria representado a caridade por modo muito diverso. Guiada
    simplesmente pelo seu delicado instincto de mulher e pela sua perfeita
    educação de senhora, ella saberia ser util sem ser espectaculosa;
    far-se-hia amar sem se deixar applaudir; chegaria á dedicação absoluta
    de toda a sua alma pelos desgraçados e pelos humildes, sem passar por
    cima da arêa encarnada dos triumpos de rua, sem transpôr os arcos de
    murta das glorias de phylarmonica, sem se vulgarisar, finalmente, até o
    ponto de animar os poetas e os jornalistas a fazerem-lhe as mesmas
    _réclames_ com que se lisongeam as actrizes, tirando imagens
    sentimentaes e sonoras do _perfume dos seus cabellos_, das _pregas dos
    seus vestidos_, da _flexibilidade da sua estatura_, etc. Houve um
    folhetinista que chegou pelo desenfreamento do lyrismo a comparar sua
    magestade–a Magdalena!

    Nós protestamos contra similhantes invasões do enthusiasmo nos dominios
    da dignidade pessoal, e negamos á rhetorica monarchica o direito de
    lançar ás faces de uma digna mulher que passa levando o seu sceptro pela
    mão, as mesmas finesas que as bailarinas bonitas mandaram na vespera
    deitar fora com as camelias murchas.

    Este abuso iniquo e grosseiro fostes vós, conselheiros habeis nos
    manejos politicos mas imperitos nas questões do gosto,–que os
    promovestes e auctorisastes.

    Vós começastes por abusar da vossa influencia no espirito da soberana
    prefixando a quantia de um conto de reis como verba de subscripção.
    Quando a miseria é geral, quando as amarguras são immensas, como disse o
    proprio sr. Osorio de Vasconcellos, quando dos poderes publicos não
    baixa uma só medida para acudir a tanto infortunio, quando todo o
    remedio para tamanhos males se confia da liberalidade de uma rainha,
    como quereis vós que se acredite que essa rainha, em uma tal
    conjunctura, se tenha posto a contar pelos seus dedos magnanimos até
    achar o numero de libras que compense a miseria geral e a amargura
    immensa? Por que vibrações de piedade, por que processo de sentimento,
    por que logica de consternação, por que inducção de pezares, quereis vós
    que o alanceado coração de sua magestade tenha chegado de dor em dor, de
    lagrima em lagrima, á conta, que só vós podieis ter feito, de duzentas e
    vinte e duas libras em oiro e dez tostões em prata? Esta conta
    deploravel é de um estalajadeiro ou de um cambista. Uma princeza, não
    tendo aprendido pelas necessidades proprias qual é o valor do dinheiro,
    não sabe contal-o para as necessidades dos outros. Se vós lhe tivesseis
    dito simplesmente que para acudir a uma catastrophe nacional não havia
    nem uma só disposição da sciencia ou da lei e que todo o remedio para
    essa desgraça publica se esperava da influencia regia, a rainha,
    entregue ao impulso instinctivo do seu coração, não deixaria de
    contribuir para esse fim de um modo illimitado, sacrificando-se
    inteiramente e incondicionalmente á fatalidade da fome como teria de se
    sacrificar á fatalidade da guerra.

    Depois não vos occorreu que tudo quanto se dispendesse em pompas se
    cerceava em soccorros no producto dos espectaculos em beneficio das
    victimas da inundação. Sendo esses espectaculos dirigidos por uma
    senhora esqueceu-vos um ponto essencial que a toda a mulher occorreria:
    a prescripção da _toilette_. Como sois homens publicos e viveis
    permanentemente na ostentação e no apparato vós não podeis conceber
    quanto ha de inopportuno, de indelicado, de offensivo do bom gosto no
    aspecto de senhoras que se reunem para um fim de caridade cobertas de
    joias como para um certame de luxo. Se fosse effectivamente uma senhora
    quem tivesse a direcção d'esses actos de phylantropia, as joias teriam
    sido abolidas, o preço das luvas de baile teria sido applicado á
    subscripção para os pobres, e nas mãos nuas um annel de ferro mandado
    fazer pela commissão ornaria toda a pessoa que quizesse acceital-o em
    troca de um annel de oiro offerecido aos inundados. Em vez dos
    ramilhetes, de 15 ou 20 libras, offertados aos actores, aos musicos e
    aos poetas, uma mulher economisaria em favor dos pobres essa luxuosa
    despesa e manifestaria o seu agradecimento por um modo extremamente mais
    economico e mais expressivo como seria por exemplo, o offerecimento de
    uma pequena photographia de sua magestade com uma simples dedicatoria
    autographa.

    * * * * *

    Além da commissão de soccorros presidida nominalmente por sua magestade
    a rainha a unica corporação que em Portugal se occupou do problema das
    inundações foi a de suas excellencias os srs. bispos.

    Apenas constou que alguns dos nossos rios tinham trasbordado, em todos
    os bispados do reino se fizeram preces implorando da divina misericordia
    que os rios voltassem aos seus leitos.

    Este recurso piedoso lembra-nos que seria vantajoso para o fim de pôr em
    harmonia a meteorologia e a religião, crear barometros especiaes
    dedicados ás nossas circumscripções ecclesiasticas.

    Estes barometros, que os srs. parochos collocariam nas sacristias ao
    lado das folhinhas em que se prescreve a côr das vestimentas, teriam as
    indicações precisas para constituirem um formulario perpetuo sem o
    incommodo da intervenção dos srs. bispos por via das suas pastoraes.
    Bastaria que os aneroides _ad usum ecclesiae_ fossem um pouco mais
    desenvolvidos na indicação dos resultados da pressão atmospherica sobre
    os aspectos do tempo. Por exemplo:–78, _bom tempo fixo, faça preces a
    pedir chuva_;–74 _grande chuva, faça preces a pedir sol_;–73
    _tempestade, saia procissão e faça preces a pedir bom tempo_.

    N'este caso os observatorios astronomicos e meteorologicos poderão ser
    substituidos com vantagem pelas cabaças rotatorias dos Kalmuks ou pelos
    moinhos do Tibet. As cabaças, cheias de orações e agitadas polo vento,
    produzem a adoração perenne. Os moinhos são uma fabrica mecanica de
    preces continuas, de moagens devotas.

    É preciso que n'este ponto nos decidamos por uma das duas:–pela
    meteorologia ou pela prece. Se os estados atmosphericos se determinam
    nos templos é absolutamente inutil estudal-os nos observatorios. As duas
    coisas juntas refutam-se e destroem-se. Ou bem cabeças que pensem ou bem
    cabaças que rodem. Decidam!

    * * * * *

    O que escreve estas linhas, tendo sahido do Porto no dia 8 de janeiro,
    foi surprehendido pela tempestade e embargado pelas cheias, não podendo
    chegar a Lisboa senão oito dias depois d'aquelle em que partira do
    Porto. Foram seus companheiros de viagem alguns mancebos–quinze ou
    vinte–que emigravam para o Brasil e vinham do Minho tomar em Lisboa um
    dos paquetes da Mala Ingleza. Nas primeiras estações proximas de Gaya
    esses rapazes, descorados, surprehendidos, vestidos de cotim, tendo
    pendente do pescoço por um cordel a chave da caixa, apeavam e abraçavam
    nas gares os seus parentes que ahi tinham ido abençoal-os, dar-lhes os
    ultimos conselhos e as ultimas lagrimas. Havia um grande alarido de
    mulheres que choravam. Vozes soluçadas diziam: «Adeus! adeus talvez para
    sempre!» Abraços tenazes parecia não poderem deslaçar-se dos derradeiros
    abraços. Tangia a sineta para largar a locomotiva. Passageiros alegres,
    indifferentes, debruçados das portinholas, intervinham nos excessos da
    ternura, nas crises da saudade, com palavras recreativas, com
    commentarios facetos, com exclamações punidoras. Um aldeão já velho,
    magro, alto, beijava um pequeno emigrante, talvez seu neto, que se lhe
    abraçára ao pescoço; um jocoso soldado, trazendo a fardeta desabotoada e
    uma borracha ao tiracollo, gritou-lhe da carroagem:–«Ó labrego, larga o
    rapaz!» e accrescentou sentenciosamente este conceito:–«Beijos de
    homens são coices de burro!» O velho teve a coragem de sorrir com uma
    visagem dolorosa, de quem fingia resignar-se, e mettendo o rapaz na
    carroagem, á pressa, em voz baixa, envergonhada: «Deus Nosso Senhor te
    abençôe! Deus Nosso Senhor te abençôe e te dê boa sorte!»

    O comboyo batido pelas rajadas do vento e pelas torrentes da chuva não
    pôde, em consequencia dos rombos da estrada, passar de Pombal, onde
    chegou ás duas horas da noite. Os pequenos aldeões, trespassados de
    frio e talvez de fome, com as golas das jaquetas levantadas, os pés
    molhados nas suas chinelas de coiro cru, as mãos nas algibeiras das
    calças, adormeceram nas carroagens da terceira classe ou nas bancadas da
    estação. O comboyo demorou-se ahi tres ou quatro dias. Os emigrados,
    perdidos no meio da indifferença, desappareceram. Quando nós, no
    primeiro dia em que a estrada se tornou praticavel, proseguimos de
    Coimbra, onde ficaramos, até Santarem, não encontramos nenhum dos nossos
    pequenos companheiros. É provavel que tivessem continuado a pé, sob a
    tempestade, até chegarem a Lisboa, ao encontro da Mala Real Ingleza.
    Esses pequenos, obscuros, miseraveis passageiros, troçados, escarnecidos
    na sua dôr, cobertos de lagrimas e de lama nas suas esperanças de
    fortuna, eram os embriões da riqueza portugueza, eram o brasileiro ao
    deixar a patria.

    Outro companheiro d'esta nossa viagem atravez das inundações era um
    velho de sessenta e cinco a setenta annos. Traz apertado ao queixo, por
    baixo do chapeu, um lenço de seda e ás costas uma manta _couvre-pieds_,
    que elle abrocha no peito com uns fechos de prata e que lhe cae por
    traz até os calcanhares. Esta manta, de pano baetão, tem estampada a
    figura de um tigre, o que dá ao nosso companheiro, visto pelas costas,
    com o seu lenço na cabeça, os seus sócos, o seu chapeu de chuva, o
    aspecto de um Attila domesticado e doente. Viaja em companhia de uma sua
    prima, mais velha que elle, e de um pão de ló mais volumoso do que os
    dois primos juntos.

    Este sujeito conferiu-nos a honra de nos dar a provar o seu pão de ló e
    de nos contar a sua historia. Vinha de Felgueiras, terra da sua
    naturalidade, e trazia o pão de ló, que as chuvas avariaram, para um seu
    amigo, o sr. Azevedo, pharmaceutico na rua larga de S. Roque. Fôra em
    creança para o Brasil, reunira á força de trabalho e de economia uma
    modesta fortuna. Já na velhice liquidara todo o seu capital, voltara
    para Felgueiras, reedificara a pequena casa em que tinham morrido seus
    paes, adquirira algumas terras, empregara o seu capital na fundação de
    uma lavoura; comprara juntas de bois, assoldadara moços, mettera
    operarios e jornaleiros, plantara milhares de carvalhos e de
    castanheiros. As potencias eleitoraes de Felgueiras convidaram-o em nome
    de dois ou tres partidos do sitio a intervir com a sua influencia na
    politica local. Elle recusara-se. Queria acabar em paz os seus dias,
    contentando-se com a modesta gloria de restituir á terra em que nascera
    toda a sua fortuna convertida na verdadeira e unica riqueza nacional–a
    fertilisação do solo e o desenvolvimento do trabalho. Desde esse dia os
    partidos confederados de Felgueiras começaram a hostilisal-o como o
    inimigo commum de todos os partidos, o qual inimigo é em toda a parte–a
    imparcialidade. Enredaram-o em pequenas intrigas, empeceram-o,
    desgostaram-o em todos os seus projectos, em todas as suas aspirações.
    Elle, como velho trabalhador macerado, resistira. Um golpe inesperado
    acabara, porém, de o ferir no coração: dias antes da nossa viagem, na
    vespera do Natal, uma chusma de gatunos, arregimentados para esse fim,
    invadira a sua nascente propriedade e destruira inteiramente todas as
    suas arvores. Elle querelára, e vinha para Lisboa esperar que se lhe
    fizesse justiça. «Exijo–dizia elle–que me paguem indemnisação na
    medida da perda que esta offensa representa para um velho como eu, a
    quem pouco tempo já resta para esperar que as arvores cresçam. Venho
    para Lisboa até que os tribunaes decidam a minha sorte. Se não me
    fizerem justiça, irei fallar com o rei, e dir-lhe-hei: Meu senhor! Não
    tendo achado na patria meios de enriquecer, fui procural-os n'um paiz
    extranho. De regresso a Portugal no ultimo quartel da vida,
    repatriando-me com todo o dinheiro que pude adquirir e que vinha
    dispender entre os meus compatriotas, acho-me aqui vilipendiado, roubado
    e escarnecido. Lavrador por vocação e por velho geito adquirido, parto
    hoje pelo caminho de ferro para França, e plantarei a minha horta n'essa
    terra estimavel, onde os homens não teem rei nem os campos teem muros
    mas onde a nação da justiça baixou já dos dominios da intelligencia até
    penetrar nos costumes e ter a sua encarnação nas leis. Sirva-se portanto
    vossa magestade abater o meu nome no seu rol e contar com um subdito de
    menos[1].»

    [Nota 1: Textual.]

    Este homem representava a ultima faze da vida em que iam entrar os
    pequenos emigrados que perdemos de vista em Pombal. Aquelles eram o
    brasileiro ao partir; este era o brasileiro ao chegar.

    Entre aquella infancia despresada e esta velhice desprotegida, está o
    portuguez residindo e trabalhando no Brasil. Lá, esquecido do que
    passou na infancia, despreoccupado do que o espera na velhice, o
    portuguez desenvolve, como uma enfermidade nostalgica, o mais ardente
    patriotismo. Nas suas allucinações de exilado a patria apparece-lhe
    deslumbrante de todos os prestigios com que a saudade e o amor aureolam
    os seus idolos. Assim como elle proprio se aperfeiçôa em cada dia pelo
    trabalho, imagina que a patria se desenvolve proporcionalmente pelo
    progresso, e mede pelo esforço d'elle, muitas vezes sublime e heroico, o
    empenho com que estão concorrendo para a civilisação no paiz os seus
    homens de estado, os seus politicos, os seus industriaes, os seus
    escriptores e os seus artistas. Á similhança da colonia de que elle faz
    parte, suppõe a patria um grande todo confederado e harmonico com
    interesses solidarios, com intuitos communs, com fins determinados,
    tendo ideias, tendo principios, tendo sentimentos, sendo capaz de
    paixões profundas, de dedicações fortes, de sacrificios illimitados. E
    tem pela patria os mesmos affectos e as mesmas dedicações de que a
    suppõe susceptivel.

    Assim é que, chegando ao Rio de Janeiro a noticia das nossas inundações
    a colonia portugueza principia a mandar para a metropole milhares de
    libras por cada paquete.

    Os rios cahiram nos respectivos alveos, as terras enxugaram, as
    sementeiras começam a crescer, a lembrança da catastrophe principia a
    dissipar-se, e o dinheiro das subscripções do Brasil continua a chegar.
    Dentro de pouco tempo a commissão portugueza de soccorros aos inundados
    não saberá o destino que ha de dar ao dinheiro que amontôa.

    As crises do trabalho subsequentes ás inundações são transitorias e tão
    rapidas como as proprias inundações. Desde que a inundação cessa, o
    trabalho restabelece-se nas suas condições normaes. Os estragos causados
    pelas cheias não affectam os trabalhadores e os pobres, affectam
    unicamente os proprietarios. Ora estes poderiam acceitar um emprestimo
    proposto pelo governo, mas não podem receber um donativo feito pela
    caridade. Portanto, desde que o governo não acudiu aos pobres em tempo
    opportuno nem auxiliou os proprietarios pelo meio conveniente, todo o
    dinheiro accumulado pela caridade é inutil a todos: aos pobres porque
    não tem a opportunidade do tempo em quê, e aos ricos porque não tem a
    opportunidade do modo como.

    É por estas rasões que suppomos fazer um serviço á commissão de
    soccorros suggerindo-lhe um meio de applicar uma parte das sommas com
    que se acha a braços. Este meio é: dar em nome do paiz uma satisfação de
    honra aos portuguezes residentes no Brasil–1.° indemnisando os
    emigrantes minhotos sahidos do Porto nos comboyos dos dias 7 e 8 de
    janeiro pelos prejuizos provenientes de não haverem chegado a Lisboa a
    tempo de embarcarem nos paquetes de 8 e 10 do mesmo mez; 2.° fundando em
    Felgueiras uma policia rural que empeça a população indigena de destruir
    as propriedades fundadas pelos emigrados que chegam, por isso que na
    provincia do Minho, de que principalmente procedem os portuguezes
    residentes no Brasil, os unicos estragos recentes de que temos noticia e
    que acima referimos, procedem, não das inundações dos rios, mas da
    indisciplina dos homens.

    * * * * *

    Para servir de complemento á historia das inundações portuguezas, eis o
    que succedeu no Minho, junto de Villa Nova de Famalicão, com um pequeno
    riacho obscuro que ali passa.

    Havia-se ultimamente deliberado dotar a alludida corrente com o
    adminiculo de uma ponte. Como esta ponte, além de uma obra fluvial, era
    tambem um viaducto entre duas collinas e um atalho entre dois caminhos,
    todos os grandes proprietarios da região em que passava o ribeiro
    pretenderam ter a ponte á sua respectiva porta. N'este sentido ferveram
    os pedidos, os empenhos, as intrigas, as ameaças, as pressões dos votos,
    todos os meios finalmente que em Portugal movem e removem a tendencia
    das idéas, a direcção dos principios, os planos das estradas e os
    projectos das pontes.

    A obra fez-se finalmente sob a acção d'essas influencias e, como é
    costume, em satisfação do empenho mais preponderante. Era no verão, e
    tinha seccado o ribeiro. Vieram n'este inverno os grandes temporaes e as
    copiosas chuvas, o ribeiro encheu, trasbordou, correu pelos campos e
    pelos caminhos, passou por toda a parte, sómente não passou–por baixo
    da ponte!

    Enviamos os nossos parabens aos habitantes de Famalicão. A sua ponte é
    verdade que não representa completamente uma ponte, mas representa um
    symbolo monumental, que os habitantes não procurarão para atravessar o
    ribeiro, mas que todos os extrangeiros, todos os historiadores e todos
    os philosophos irão ver com admiração e respeito para se compenetrarem
    do legitimo espirito da politica e da administração na presente phase da
    civilisação portugueza.

    * * * * *

    Contam os periodicos que no dia de Natal sua magestade el-rei se dignára
    de brindar magnanimamente os soldados da sua real guarda,
    offerecendo-lhes em Palacio um banquete composto das iguarias mais finas
    e mais preciosas, taes como sopa de massa, boi cosido com chouriço,
    carne guisada com batatas e laranjas.

    No momento em que os briosos filhos de Marte, coroados com os louros da
    guerra e com as rosas da paz, libavam as taças da victoria, nas quaes, a
    um gesto da regia munificencia o _doutor roxo_ se repartira e
    prodigalisára na razão de dois decilitros por praça, o sr. capitão da
    companhia, penetrando na sala do festim e impondo silencio aos
    dithyrambos, ás canções bachicas e aos hymnos bellicos que o aspecto tão
    anachreontico quanto marcial da carne guisada com batatas jámais deixa
    de influir em mentes inflammadas e em animos generosos, proclamou d'esta
    arte:

    «Soldados! O principe, cujo pennacho branco vós tendes visto
    constantemente á vossa frente, conduzindo-nos ao fogo e guiando-vos ás
    victorias, o principe cuja espada invencivel vós tendes visto sempre no
    meio de vós, já relampagueando intemerata ao sol das batalhas, já
    embebendo-se sedenta no sangue inimigo, o principe, generoso e
    magnanimo, n'este dia consagrado ao ephemero repouso dos acampamentos,
    convoca a este festim guerreiro os seus amados companheiros d'armas. Uma
    coisa de que sua real magestade jámais se póde esquecer é a maneira como
    vos tem visto pelejar! Porque é mister dizer-vol-o: no maior ardor dos
    combates, no proprio momento em que mais absorto elle parece no afan de
    retalhar em postas os exercitos inimigos, nunca o principe vos perdeu de
    seu real olho!

    «Tudo elle viu, e nada do que obrastes lhe é occulto.

    «Viu-vos caminhar ávante para as hostes contrarias! Viu-vos quando, no
    meio do estrondo e do fumo das descargas, tomastes as bandeiras e os
    estandartes do outro campo! Viu-vos quando á chegada fatal da maldita
    cavallaria inimiga, formastes quadrado e a esperastes impavidamente e a
    pé firme, no posto da honra! Viu-vos depois cair a um por um feridos
    pelo peito como heroes! Viu-vos morder o pó! Viu-vos finalmente exhalar
    o ultimo suspiro, a vós todos, desde o primeiro ao ultimo, até nada mais
    se ver no logar onde estaveis senão um monte de cadaveres abraçados a um
    monte de bandeiras! Foi ainda o principe, piedoso e grande, quem,
    percorrendo o campo no dia seguinte á batalha, recolheu e enfrascou as
    vossas cinzas, restituindo-as elle proprio ás vossas viuvas, e
    dizendo-lhes entre suspiros e lagrimas: «Em cada um d'esses frascos,
    marcados com o numero da praça e da companhia, encontrareis uma pitada
    de tudo quanto vos resta d'esse punhado de bravos!»

    «Foi depois de todas essas provações–tão arduas!–que sua magestade
    deliberou reunir-vos n'este banquete sumptuoso.

    «Soldados! em testemunho de agradecimento a uma tão manifesta prova de
    consideração e de amor, peço-vos que ergaes as vossas taças, de dois
    decilitros cada, e que, antes de haurirdes o phalerno de Torres que
    ellas encerram, me acompanheis nos vivas que passo a entoar e com os
    quaes dou por finda esta allocução marcial. Viva sua magestade el-rei!
    Viva a real familia! Viva a carta constitucional da monarchia!»

    Nenhum soldado respondeu em discurso, como pede a etiqueta dos _toasts_,
    porque nenhum dispunha da fortaleza cerebral necessaria para criticar os
    seus proprios sentimentos, para os discernir e para os coordenar em
    palavras. De modo que se contentaram em dar vivas e beber, coçando nas
    cabeças essa especie de comichão produzida por todo o rude encontro de
    idéas contradictorias e confusas.

    Expressos sob a fórma litteraria, os sentimentos que o soldado revelou
    sob a fórma de coceira dariam o seguinte discurso:

    «Capitão! Ha alguns annos que eu fui agarrado á força na minha terra
    para vir para a tropa. A minha primeira idéa foi livrar-me comendo um
    dedo. Affiançaram-me, porém, que poderia egualmente livrar-me dizendo
    que tinha queixa de peito. Assim o disse, mas não me acreditaram, e cá
    fiquei ás ordens.

    «Desde que jurei bandeiras é raro o dia em que o capitão, o major, o
    tenente-coronel ou o proprio commandante me não fallam do meu ardor
    mavorcio, da minha firme e tremenda attitude diante do inimigo e dos
    meus louros cegados com a espada nos campos da batalha.

    «Eu devo dizer ao capitão, com toda a franqueza, que desde que estou na
    militança nunca tive _ardôr mavorcio_ nem d'outra qualquer especie, a
    não ser que o capitão se refira ao que senti nas orelhas quando na
    recruta me puchava por ellas o sargento instructor. Se é d'este ardôr
    que se trata, tive-o, e se o sargento o não teve ainda, ha de tel-o
    tambem se, quando eu largar a farda, elle continuar a conservar as
    orelhas, que eu, como livre paisano, lhe hei de então estender
    conscienciosamente desde a porta do quartel até á entrada da minha minha
    freguezia.

    «Emquanto ao inimigo declaro que o não conheço, e muito obrigado ficaria
    ao capitão se tivesse a bondade de m'o mostrar para que eu podesse
    desenferrujar estas inuteis pernas applicando-lhe sem perigo de offender
    a disciplina alguns dos pontapés que em observancia da mesma disciplina
    não tenho até hoje feito senão receber.

    «Quem é o inimigo? Não farão favor de me responder:–quem é o inimigo?

    «Julguei algum tempo que fosse um sujeito de casaco côr de pinhão, de
    gola levantada para cima, que ás vezes se mettia commigo nas guardas.
    Tinha resolvido atacal-o, quando vim a saber que era um simples curioso
    das artes da guerra.

    «Vejo todavia que não fazemos mais do que preparar-nos constantemente
    para resistir ao inimigo, o qual parece não implicar com mais ninguem
    senão connosco. Pelo menos ninguem o teme senão a tropa.

    «Ha familias, compostas unicamente de mulheres, que dormem sósinhas nas
    suas casas sem medo a ninguem; no quartel, cheio de homens, cada um dos
    quaes tem uma espingarda e uma bayoneta, é preciso pôr sentinellas a
    todas as portas, velam uns emquanto os outros dormem, e ha sempre gente
    armada até aos dentes, com os olhos arregalados nas trevas da noite,
    para que não nos surprehenda o inimigo!–Que é sempre com o que lhe
    dão:–com o inimigo!

    «Emquanto aos loiros segados nos campos das batalhas cumpre-me
    egualmente fazer sentir ao capitão que desde que estou no exercito ainda
    não seguei.

    «A minha vida tem consistido unica e exclusivamente em deitar todas as
    manhãs umas correias ás costas e em pôr uma tocha ao hombro para marchar
    ao som da musica ou para passear de sentinella á porta dos edificios
    publicos.

    «Pelo que diz respeito ao banquete opiparo para que sua real magestade
    me convidou, agradeço-o muito, confesso-me profundamente sensivel aos
    attractivos da real carne guizada e das fulgidas batatas da corôa.
    Todavia não posso esconder que o que principalmente me lisongeava seria
    que me fizessem a especial mercê de me mandar embora.

    «Apezar da excellencia das iguarias preciosas de que consta este
    banquete olympico, sou forçado a dizer que por mais de uma vez a esta
    meza o bocado se me tem enfardelado na bocca sem querer ir para baixo.
    Porque? Porque me sobe do coração e me aperta a guela a lembrança da
    minha aldeia, da alegre festa do Natal, n'este dia, ao pé do lar, no
    casal da minha velha… Chamo-lhe eu a minha velha! O capitão faz
    idéa… Fallo-lhe da minha mãe.

    «Hontem matava ella o porco, ou antes era eu que lh'o matava. Hoje
    tinhamos lombo assado á fogueira do lar, n'um espeto de loureiro. Que
    lombo aquelle, capitão! Com que vontade que eu principiava a jantar
    outra vez se fosse d'esse lombo que me déssem! E depois não era o rei
    que me convidava a mim,–o capitão ha de comprehender o effeito moral
    d'esta differença–era eu que poderia convidar o rei a comer no meu
    casal, d'aquillo que era meu, que eu proprio ganhara ou ajudara a ganhar
    com o meu trabalho, com a minha força, com o meu prestimo! Na minha
    aldeia eu era, mais ou menos, um dono de casa, um trabalhador, um
    cidadão, um homem. E dentro do meu quinteiro, como o meu pequeno rebanho
    e com o meu cajado, o rei era eu!

    «Aqui, que diabo! Aqui, francamente, capitão, que raio de diabo!

    «Aqui, que sou eu? Um monte de cisco, um molho de palha, um estafermo,
    um espantalho de botões de ouro fingido, de espingarda descarregada e de
    patrona vasia, para metter medo a outro estafermo, a outro espantalho, a
    outra abantesma de espingarda egualmente descarregada e de patrona
    egualmente vasia, o qual outro se chama o inimigo!

    «Dizem qae tambem sirvo para–manter a ordem. A ordem que eu mantenho é
    outra historia da carocha como a do inimigo que eu combato.

    «Na minha aldeia, onde nunca de memoria de homem appareceu o bico de uma
    bayoneta, todos vivem em harmonia e em paz. Aqui, onde a ordem é mantida
    por dez ou doze regimentos, ha desordens todos os dias e todos os annos
    ha revoltas. Revoltas de quem, meu capitão?–Dos sargentos!

    «Ora, se eu não sirvo para nada, se o inimigo, sendo outro que tal como
    eu, não serve tambem para coisa nenhuma, não acha o capitão, que o mais
    justo seria mandar-nos para nossas casas a ambos–ao inimigo e a mim?

    «Se como o capitão affirma, el-rei é meu amigo e pretende obsequiar-me,
    que sua real magestade cesse de esbanjar-se nos acepipes com que me
    cumula! Que me permitta estar na minha casa, como sua magestade está na
    d'elle com sua excellentissima esposa e com os seus interessantes
    filhos! Eu lhe protesto que não só dispensarei todos os seus favores,
    mas que poderei ainda fazer-lhe alguns, e me tornarei um cidadão
    independente, serviçal e util, em vez de me desfallecer para aqui,
    dentro d'este uniforme, coberto por esta barretina, inundado de
    ociosidade, comido de tedio[2], de nojo de mim mesmo, de todas as más
    molestias da alma e do corpo, perdido para o bem dos outros e não
    prognosticando grande coisa senão para o mal de mim mesmo. Nada mais
    accrescento porque está a cair o quarto e tenho de me ir deitar ao
    inimigo,–passeiando de sentinella á porta de palacio.»

    [Nota 2: No dia em que estas linhas foram escriptas suicidavam-se dois
    soldados, um de infanteria n.° 1, em Belem, outro de caçadores n.° 10,
    em Setubal.]

    Depois de coçado este discurso na cabeça dos soldados, terminou o
    banquete, retirando-se todos os convivas profundamente penhorados pela
    excellencia do serviço e pelas delicadas maneiras do sr. capitão.

    * * * * *

    Referem os jornaes que a Academia Real das Sciencias celebrará no mez de
    março do futuro anno de 1879 a festa do primeiro centenario da sua
    fundação.

    A primeira das rasões porque folgamos com esta noticia e que se inicia
    em Portugal uma tendencia nova no espirito das sociedades modernas:–a
    tendencia a reformar o calendario, substituindo as ephemerides
    ecclesiasticas pelas taboas historicas.

    Essa tendencia revela um progresso.

    A igreja tem, certamente, datas memoraveis que a civilisação ha de
    manter entre as grandes epocas da humanidade. Mas essas datas, por mais
    gloriosas que sejam, não bastam para prehencher os fastos da humanidade
    e para pautar o culto devido á lembrança dos grandes factos e á memoria
    dos grandes homens.

    Se a igreja tem os seus santos, os seus martyres, os seus doutores, a
    liberdade, a sciencia, o trabalho, a arte, teem tambem os seus, e a
    gratidão humana não deve menos aos segundos do que aos primeiros. O dia
    de S. Bernardino, a 20 de maio, é tambem o dia de Christovão Colombo. O
    dia de S. Luciano, a 8 de janeiro, é egualmente o dia Galileu. O dia 5
    de abril é o de Santo Adriano e é o de Danton e de Camille Desmoulins. O
    dia 23 do mesmo mez é o aniversario do nascimento de S. Jorge e é
    tambem o da morte de Shakespeare e de Cervantes.

    Nem toda a gente sabe, de pronto, sem consultar a collecção dos
    bolandistas ou o _Flos Sanctorum_ o que foram precisamente para o mundo
    e para Deus, Bernardino, Adriano ou Luciano. Ninguem todavia ignora o
    que a humanidade deve a Colombo, a Galileu, a Danton e a Shakespeare.

    Depois a circumstancia de ir para o ceu por uma decisão dos concilios
    nem sempre equivale a haver deixado na terra um exemplo que fortifique
    as almas para servirem ao mundo ou para servirem a Deus.

    Temos por exemplo que, segundo S. Lucas, capitulo XXII, versiculo 61, S.
    Pedro, convicto da divindade de Jesus, o renega por tres vezes no
    tribunal de Caiphaz. No tribunal da Inquisição, deante da fogueira que o
    vae devorar se não renegar o seu livro, Giordano Bruno prefere morrer a
    trahir a verdade. S. Pedro fundou a igreja christã; Giordano Bruno
    fundou uma nova teoria do Universo. Um é adorado como santo; o outro é
    condemnado como hereje. E todavia é com Bruno e não é com Pedro que
    todos nós, filhos do seculo ou filhos da religião, temos que aprender
    como se sustenta uma convicção ou como se defende uma crença.

    A iniciativa da Academia contribuirá poderosamente, de certo, para fazer
    entrar nos costumes a fecunda lição alliada ao culto dos grandes homens
    e á commemoração dos grandes feitos, ceremonias destinadas a tornarem-se
    as festas nacionaes de todos os povos civilisados.

    Ao centenario da Academia succeder-se-ha sem duvida o do apostolo da
    nacionalidade portugueza Camões, e o do martyr da liberdade de
    pensamento Damião de Goes.

    * * * * *

    A segunda rasão porque nos regosija a noticia que registamos é que a
    celebração do jubileu academico, pedindo a publicação de uma historia
    d'aquelle instituto, virá por meio d'esse documento recordar o papel
    brilhantissimo que teve na historia das idéas em Portugal essa
    corporação scientifica, e chamar talvez alguns dos actuaes academicos a
    reatarem a tradição gloriosa d'aquelles que os precederam na direcção
    intellectual do paiz.

    A Academia Real das Sciencias foi o foco da revolução e o berço da
    moderna liberdade em Portugal.

    Em um excellente livro do sr. Theophilo Braga, recentemente
    publicado–_Bocage, sua vida e epoca litteraria_–encontram-se os mais
    preciosos documentos para a nossa moderna historia litteraria,
    documentos até hoje ineditos e pacientemente colligidos por aquelle
    eminente escriptor, em cujas obras, as mais eruditas que em Portugal se
    teem feito, o publico não aprendeu ainda senão a calumniar o auctor.
    Entre esses documentos tirados a lume pelo sr. Theophilo Braga, acham-se
    as mais curiosas revelações para a historia dos nossos primeiros
    academicos.

    O duque de Lafões, o abbade José Correia da Serra, Joaquim José Ferreira
    Gordo, Antonio Pereira de Figueiredo, insignes na philosophia e nas
    sciencias naturaes, conhecidos e respeitados na Europa, estavam
    denunciados ao governo como jacobinos e eram espionados e perseguidos
    pela policia sob a direcção do intendente Pina Manique, o qual nas suas
    _contas para as secretarias_, manuscriptos conservados na Torre do
    Tombo, por differentes vezes se refere aos alludidos academicos,
    accusando-os como sectarios das idéas da Revolução franceza,
    relacionados com os homens da Convenção, iniciadores do movimento
    liberal em Portugal. A policia envolve-os na mesma suspeição com os
    livreiros francezes residentes em Lisboa, com os addidos á legação de
    França, com os frequentadores de botequins que se atrevem a ostentar nas
    tampas das suas caixas de rapé a figura da liberdade, com os populares
    finalmente que em certa noite vão debaixo das proprias janellas do paço
    entoar a canção do _Ça-ira_.

    Os cabeças d'este movimento de revolta contra o despotismo
    monarchico-catholico são designados pelo intendente Manique com o nome
    generico, ainda hoje em voga, de _philosophos modernos_. Os livros
    dirigidos de França á Academia sob o nome do duque de Lafões são
    sequestrados na alfandega.

    A publicação de qualquer escripto revolucionario por parte da Academia é
    impossivel sob a espionagem de Manique, mas a adhesão d'esta companhia
    ás idéas francezas é manifesta em muitas passagens dos registros
    policiaes.

    «Acha-se n'esta corte–diz o intendente Manique–nas casas da _Academia
    das sciencias_, ao Poço dos Negros, hospedado, segundo me dizem pelo
    _abbade Correia_, Broussonet, que foi medico de profissão em Paris, e
    depois secretario de Necar (É assim que Manique escreve o nome de
    Necker) e aquelle que se fez marcar quando na sessão da convenção
    Nacional, de que era tambem deputado, continuou o discurso que o
    sobredito Necar não acabou de recitar por lhe dar no meio d'este acto um
    deliquo; e ainda mais conhecido por ser um d'aquelles sanguinarios do
    partido de Robespierre na Convenção. Pela morte que este assassino
    soffreu, fugiu aquelle e aqui foi acolhido e introduzido ao _duque de
    Lafões_ na qualidade de agricultor, e hospedado nas casas da Academia
    das Sciencias, d'onde frequenta as casas do sobredito duque e do _abbade
    Correia_ que é amigo mui particular do ministro e consul da America do
    Norte e dos mais jacobinos que aqui se acham e de que tenha dado parte a
    v. ex.ª, e reputado por pedreiro livre.»

    Eguaes accusações pesam sobre Ferreira Gordo e sobre o auctor da
    _Recreação Philosophica_ o Padre Theodoro de Almeida, «com o qual,
    accrescenta Manique, o já alludido Broussonet fica algumas vezes na casa
    do Espirito Santo de Lisboa.»

    A Academia encerrava pois no seu gremio o fermento da revolução,
    levedada mais tarde em 1820, e da qual procedeu a reforma das nossas
    instituições em 1834 e a liberdade subsequente.

    A missão da Academia em Portugal não pode ainda hoje ser senão a mesma
    que era no fim do seculo passado.

    Não é no estado de indifferença, de egoismo e de ignorancia em que ainda
    hoje se acha o espirito portuguez que as Academias podem assumir, como
    queria Proudhon, a funcção moderadora dos trabalhos do pensamento e das
    creações da arte.

    A intervenção das academias como elemento official e conservador pode
    ser util e salutar em França ou em Hispanha, onde a temeridade
    impaciente e indisciplinada dos escriptores revolucionarios, actuando
    constantemente na opinião, pode perturbar a lei da continuidade
    historica e lançar a sociedade na anarchia. Ahi compete ás academias
    salvaguardar a ordem pelo ascendente moral.

    Em Portugal, porém, onde a revolução de modo algum ameaça partir da
    circumferencia para o centro movida pelas tendencias progressivas e
    invasoras dos espiritos, é absolutamente preciso, para que nos possamos
    considerar uma nação, que a revolução parta do centro para a periferia,
    que seja a Academia quem a enuncie e quem a propague, acolhendo no seu
    gremio as intelligencias mais avançadas, discutindo os problemas mais
    vivos da philosophia, aclarando todas as questões relativas aos maximos
    interesses do espirito, á religião, á politica, á esthetica, implantando
    finalmente a revolução na esphera intellectual para que d'ahi ella
    penetre nos costumes e se infunda nas instituições.

    Se o desempenho d'este papel, que lhe está marcado pela sua tradição, é
    incompativel com as ligações existentes entre a Academia, presidida pelo
    chefe do Estado, e o mesmo Estado, o que á Academia compete fazer é
    libertar-se d'essa dependencia e constituir-se em corporação livre. O
    poder espiritual, de que ella é a encarnação litteraria, não lhe procede
    de ser a hngida do Estado mas sim a da sciencia.

    Subsidiada pelos governos ou não subsidiada por elles, estabelecida em
    um palacio ou refugiada em um sotão, recrutando os seus membros entre os
    invalidos da popularidade ou entre os dispersos batalhadores vigorosos
    da controversia moderna, separando-se da sua tradição gloriosa, ou
    sendo-lhe fiel, a Academia acha-se destinada a ser d'estas duas coisas
    uma:–ou a força dirigente do futuro social, a cabeça do paiz, ou uma
    excrecencia apparatosa, um orgão atrophiado e inutil á civilisação.

    * * * * *

    Sendo os homens que escrevem ordinariamente superiores aos homens que
    lêem, a funcção da publicidade é predominar nos espiritos–ou seja
    lisonjeando-os, ou seja combatendo-os. Toda a obra litteraria dá um
    d'esses resultados; ou se adapta ás opiniões existentes e as consolida e
    reforça ou reage sobre ellas e as decompõe. Toda a litteratura ou é
    _conservadora_ ou é _revolucionaria_. Queremos dizer: ou transige
    passivamente com as condições do meio social ou se debate contra o
    obstaculo que a influencia d'esse meio lhe impõe.

    Sempre que a litteratura toma o caracter conservador tende a immobilisar
    a sociedade e a atrophiar o progresso. Foi o que succedeu nos seculos em
    que a litteratura não fez mais do que fortalecer as superstições que
    achou consagradas no seu caminho, prostrando a humanidade n'um marasmo
    de quinhentos annos embalados com o esteril rumor monotono das homilias
    e das legendas dos santos. Felizmente, desaprendendo quasi completamente
    de ler, a humanidade voltou a si. A litteratura havia sido para ella uma
    catacumba em que jazera sepultada pela credulidade, amortalhada pelo
    mysticismo. Guizot calcula em vinte e cinco mil as vidas de santos de
    que se compõe a bibliotheca bollandista, e são esses _acta sanctorum
    quotquot tote orbe coluntur_ que encerram a historia inteira da
    humanidade sob o regimen clerical em toda a Europa e em quasi todo o
    Oriente, desde o seculo VI até o seculo XII! Com razão conclue Buckle–o
    grande historiador da civilisação–que o maior dos estorvos do progresso
    tem sido a manutenção do erro pelo poder litterario.

    Nos tempos modernos, sob os dominios despoticos, em quanto a obra do
    pensamento foi disciplinada pela policia clerical e monarchica como
    succedeu em Portugal durante o imperio do Santo Officio, a litteratura
    deixou egualmente de ser o livre producto artistico e converteu-se n'um
    poder do Estado, o mais enervante para a imaginação, o mais dissolvente
    da intelligencia e da dignidade humana.

    Portanto: a primeira condição social para a existencia de uma
    litteratura compativel com o progresso é a liberdade.

    Todo o escriptor portuguez actual nasceu n'esse meio propicio. Todavia,
    por uma fatalidade physiologica, por um effeito da heriditariedade,
    falta-nos a orientação cerebral da independencia. O nosso espirito
    conserva o stygma servil, o signal da marca que, em muitas gerações que
    nos precederam, foi deixando a grilheta da oppressão mental. A nossa
    tendencia de escriptores é ainda hoje, geralmente, para lisonjear a
    rotina, para comprazer com o vulgo, para seguir as correntes da
    credulidade geral.

    A maior parte dos individuos que fazem um livro teem, nas precauções da
    forma, no rebuço das opiniões, na doblez do stylo, o ar miseravel de
    pedintes que solicitam venia para divertir inoffensivamente o
    respeitavel publico.

    Entre as aberrações eminentes d'essa tendencia geral, como por exemplo
    os srs. Anthero de Quental e Guerra Junqueiro na poesia, o sr. Theophilo
    Braga na historia e na critica, o sr. Oliveira Martins na economia
    politica, a Sr.ª D. Maria Amalia Vaz de Carvalho no
    folhetim,–apparece-nos o sr. Eça de Queiroz no romance. Na pequena
    litteratura portugueza destinada a ser um agente na evolução das ideias
    e dos costumes, um elo no grande encadeamento das causas e dos effeitos
    sociaes, _O crime do padre Amaro_, representa a obra mais profundamente
    caracteristica.

    Este livro foi recebido pela imprensa periodica com um silencio que pode
    parecer o resultado de um _mot d'ordre_. Cremos, para honra do
    jornalismo, que a razão do apparente despreso de que foi objecto este
    romance está no simples facto de que a critica se considerou
    incompetente para o julgar. A unica coisa de que temos de accusar a
    critica é de nos não haver dito isso mesmo. Em circumstancias analogas
    as _Farpas_ deram um exemplo de sinceridade que ficou esteril. Um dia
    escreviamos um artigo ácerca do adulterio; a logica arrastava-nos a
    deducções que nos não atreviamos a imprimir; publicámos o nosso artigo
    até o ponto em que o julgavamos compativel com os costumes e
    concluimol-o com a confissão franca de que nos achavamos coactos pelo
    publico. Quando tivemos medo confessamol-o. É verdade que omittimos uma
    opinião, mas, estudando os costumes, revelamos pelo menos um estado de
    espirito que elles determinavam e que seria um symptoma a ponderar pelos
    analysadores que se nos seguissem.

    _O crime do padre Amaro_ é effectivamente difficil de sentenciar porque
    constitue um caso novo, não previsto nas ordenações porque se regulam as
    audiencias geraes do folhetim e do noticiario.

    Essencialmente moderno este romance não é a narrativa de uma aventura ou
    de uma serie de aventuras á Lessage, á Dumas ou á Gaboriot, não é um
    estudo de sentimento á Rousseau, á Alfred de Musset ou á George Sand. É
    uma pintura de caracteres, mas não uma pintura á Balzac ou á Flaubert,
    porque este livro não é exclusivamente de nenhuma escola senão da escola
    de si mesmo, e é esse cunho profundamente pessoal qne lhe dá o caracter
    que o distingue como verdadeira obra d'arte.

    Ora uma exposição de caracteres se pertence á sphera da arte pelos
    processos da pintura, é um ramo da historia e está subordinado á
    sciencia pelas operações de critica e de relacionação. O officio do
    historiador é discernir no estudo das epocas e no estudo dos
    acontecimentos o seu caracter social. O officio do romancista é
    discernir no mesmo estudo das epocas e no mesmo estudo dos factos o seu
    caracter artistico. O methodo do historiador é o methodo do romancista.
    Não pode ser romancista um simples _observador_. Cada sciencia tem, como
    diz Littré, o seu methodo particular e caracteristico. A _observação_ é
    um methodo exclusivo da astronomia, para cujos phenomenos irreductiveis
    o astronomo não pode fazer mais que olhar. O chimico procede pela
    _experiencia_ e pela _analyse_. O biologo tem por methodo especial a
    _comparação_. O historiador, e por tanto o romancista, teem como
    instrumento particular a _filiação_, isto é, a producção dos estados
    sociaes uns pelos outros. Pintar um caracter é expor no personagem a
    figura moldada dentro do contorno delineado n'uma dada porção do espaço
    e do tempo por um certo estado social.

    Um caracter é um phenomeno historico, que se não comprehende senão
    emoldurado na convergencia de todos os factores que o produziram.

    É por isso que o romance de caracteres tem de ser uma exposição
    concentrica de todas as influencias que determinam um pensamento ou um
    acto;–influencias naturaes, o solo, o clima, os aspectos da paizagem, o
    sexo, a idade, o temperamento, a idiosyncrasia, a heriditariedade;
    influencias sociaes, as instituições, os costumes, a familia, a
    educação, a profissão.

    Comprehende-se a commoção de surpreza que produziu este livro, ao
    notar-se que a proposito da biographia de um padre em uma parochia da
    provincia elle suscitava as mais graves e melindrosas questões
    physiologicas e sociaes que podem envolver a igreja, o celibato, a
    sentimentalidade e o mysticismo, isto é, todos os pontos de controversia
    philosophica que o jornalismo exclue da discussão para se não pôr em
    conflicto com o assignante. Confessamos que n'este caso o melhor que
    tinha que fazer a critica jornalistica era effectivamente calar-se.

    Pela nossa parte, como é precisamente o conflicto que constitue o nosso
    programma, não temos rasão plausivel para abster-nos da apreciação
    d'este livro.

    A rasão da condemnação silenciosa, do escandalo branco, que envolveu a
    apparição do _Crime do padre Amaro_ está no simples facto de que elle é
    um _romance de caracter_. Esta simples designação explica tudo. O genero
    é novo e sem precedentes. Os livros do sr. Camillo Castello Branco são
    romances de sentimento. A obra de Julio Diniz pertence á litteratura de
    _tricot_ cultivada com ardor na Inglaterra pelas velhas _miss_. Apesar
    das suas qualidades de paizagista, do seu mimo descriptivo, da sua
    feminilidade ingenua e pittoresca, as novellas de Julio Diniz não teem
    alcance social, são meras narrativas de salão.

    O livro do sr. Eça de Queiroz offerece-nos o primeiro exemplo de uma
    obra d'arte suggerida pela consideração de um problema social.

    E todavia _O crime do padre Amaro_ não é de nenhum modo um livro de
    critica, é um livro de pura arte na mais alta accepção d'esta palavra.
    Nem na bocca do auctor nem na de nenhum dos seus personagens ha uma
    palavra declamativa ou didactica.

    Em uma pequena cidade de provincia, na Extremadura portugueza, o velho
    parocho morre, o novo parocho chega com o seu capote ecclesiastico e o
    seu bahu, apeia-se da diligencia de Chão de Maçãs, sobe aos quartos que
    lhe estão preparados, calça uns chinellos de ourelo, veste o casaco
    velho, e o drama principia, desdobra-se e termina de um folego,
    caminhando para o seu desfecho, recto, implacavel, como um traço riscado
    pela fatalidade atravez d'aquella estreita vida de provincia, com a sua
    intriga local, os seus personagens mesquinhos, os seus padres, as suas
    beatas, os seus tristes aspectos de coisas, sujos, tortuosos,
    compungidos, pretenciosos, miseraveis.

    D'este fundo sombrio, espesso, pesado como o tedio, a acção destaca-se
    luminosamente, e penetra-nos com a nitidez poderosa dos espectaculos
    vivos. É a vida mesma com toda a sua trivialidade real que n'essas
    paginas perpassa aos nossos olhos como aquellas florestas que andam no
    sonho de Machet.

    Nunca artista portuguez desenvolveu na sua obra maior poder de execução.

    O dialogo, trasbordante de verdade, é de um rigor psychologico, de um
    colorido flagrante e de uma energia de naturalidade que os primeiros
    stylistas francezes não conseguiram ainda egualar. A lingua portugueza,
    pela incomparavel variedade das suas construcções grammaticaes, pela
    inexgotavel abundancia dos seus idiotismos, pela bravura inculta do seu
    arranco plebeu, presta-se admiravelmente a estes prodigios de execução
    sempre que a não deturpa esse maneirismo requintado, esse culto da
    farragem e do euphemismo, que tem sido em Portugal a sarna epidemica do
    estylo erudito.

    O dialogo do sr. Eça de Queiroz, não porque o trabalhasse a
    preoccupação do purismo, mas em resultado do escrupulo com que foi
    arrancado da indole e da natureza dos personagens, é de tal modo genuino
    e tão accentuadamente portuguez, que o temos por intraduzivel.

    Ao lado do dialogo mais vivamente travado e das situações dramaticas
    mais profundamente sentidas, mais commoventemente narradas, o auctor
    compraz-se habitualmente em pintar, com frio cynismo, as ridentes
    paizagens em que scintillam as frescuras da manhã, os suaves occasos do
    outomno impregnados do rumor das aguas e do perfume dos prados, os
    tepidos interiores aconchegados e pacificos, todos os aspectos da
    natureza vegetativa, da natureza animal, da natureza morta. E nada mais
    profundamente real do que a impressão deduzida d'esse contraste entre a
    inclemente immobilidade das coisas e a devastação tempestuosa das
    supremas paixões no fundo da alma humana!

    O desenho dos caracteres e principalmente o das duas personagens
    principaes sobre que versa o drama, o padre Amaro e Amelia, é deduzido
    com o mais scientifico rigor da diagnose n'um caso de pathologia
    psychica.

    A infancia de Amaro em uma casa nobre, onde a mãe d'elle era criada de
    quarto. Os pequenos pormenores d'esse interior de familia, onde o
    catholicismo era um requinte heraldico, onde as meninas, acreditando em
    Deus como na omnipotente elegancia, tinham como culto dos destinos da
    alma a preoccupação da _toilette com que haviam de entrar no paraizo_. A
    creação de Amaro até aos doze annos n'essa convivencia mulheril,
    ajudando ás missas na capella, espanando os santos, aparando as hostias,
    dormindo entre as criadas, que lhe faziam cocegas, lhe chamavam
    _Padreca, Frei Lombrigas_, e o utilisavam nas suas intrigas para «fazer
    as queixas.» A sua mocidade no seminario, «abafando na estreitesa dos
    corredores, invejando todos os destinos ainda os mais humildes, o
    almocreve que via passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro
    que ia cantarolando ao aspero chiar das rodas, e até os mendigos
    errantes, apoiados ao seu cajado, com o seu alforge escuro!» Os seus
    primeiros alvoroços de adolescente ao pensar na mulher sobre os livros
    dogmaticos: «Que ser era esse que atravez de toda a theologia ora era
    collocado sobre o altar como a Rainha da Graça ora amaldiçoado com
    apostrophes barbaras? Que poder era o seu que a tragica legião dos
    santos, ora se arremessa ao seu encontro, n'uma paixão extactica,
    dando-lhe n'uma acclamação o profundo reino dos céus, ora vae fugindo
    diante d'ella como do universal inimigo com soluços de terror e com
    gritos de odio, e, escondendo-se, para a não vêr, nas thebaidas, nos
    claustros e nos sepulchros, vae alli morrendo do mal de a ter amado?
    Amaro sentia, sem as definir, estas perturbações, e julgava-se
    desgraçado e maldito.»

    Vemos, a dia por dia, crescer, constituir-se, formar-se esse homem,
    branco, lymphatico, molle, creado entre chumaços de mulheres ordinarias,
    e sobrepelizes de padres boçaes, no fartum das alcovas sujas e na sombra
    humida dos claustros musgosos. E prevê-se a quéda fatal d'essa natureza
    stagnada e paludosa, atravez da qual os desejos insaciados luzem como os
    olhos de um tigre.

    É egualmente bem assignalado o caracter de Amelia. A sua educação
    sentimental e devota é descripta a golpes de bisturi. Cada traço é uma
    incisão. Aos oito annos tinha ido para a escola. A mestra era uma
    velhita roliça e branca que fôra tacho das freiras de Santa Joanna em
    Aveiro; com os seus oculos redondos, junto da janella, empurrando a
    agulha, morria-se por descrever o convento, os seus terrores, as suas
    legendas, as suas peripecias; as perrices da escrivã sempre a escabichar
    os dentes furados; a madre rodeira preguiçosa e pacata, com uma
    pronuncia minhota; a mestra de canto-chão, admiradora de Bocage e que se
    dizia descendente dos Tavoras; a historia de uma freira que morrera de
    amor e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores,
    soltando gemidos dolorosos e chamando:–Augusto! Augusto!… Tinham-lhe
    ensinado o cathecismo e a doutrina: fallavam-lhe sempre dos castigos do
    céu; de tal sorte que Deus apparecia-lhe como um Ser que dá o
    soffrimento e a morte, e que é necessario abrandar resando e jejuando,
    ouvindo novenas e amando os padres. Era por isso toda cuidadosa e se ás
    vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitencia no outro
    dia porque temia que Deus lhe mandasse sessões ou a fizesse cair na
    escada.» Além da doutrina aprendera a tocar piano com um velho
    romanesco. Lêra livros de versos, fôra namorada durante uma estação de
    banhos por um estudante de Coimbra, que lhe fizera umas quadras. Estava
    pedida por um escrevente de tabellião, que se perturbava sob o seu olhar
    voluptuoso mas que ella não amava, sentindo em si «como um grande somno
    do coração.» Não tinha pae. Era sanguinea e forte, de grossos beiços
    levemente sombreados de pennugem negra. Ouvia missa todos os dias e
    confessava-se todas as semanas.–A mãe era protegida por um conego. Ella
    padecia tedios nevralgicos e inquietações hystericas.

    Todos os demais personagens, alguns d'elles apenas indicados por quatro
    palavras, que têem o poder de uma evocação, o conego Dias, o padre
    Natario, o padre Brito, o chantre, o coadjutor, o Libaninho, o tio
    Esguelha, o escrevente, o redactor da _Voz do Districto_, as senhoras
    Gançosos, a sr.ª D. Maria da Assumpção, a Joanneira,–vivem, têem uma
    physionomia, uma personalidade.

    O desenlace do drama, a morte de Amelia, a fuga do padre da quinta da
    Cortegaça, de noite, levando o filho escondido na capa; o seu terror ao
    sentir-se seguido, ao ouvir atraz de si no macadam as passadas surdas do
    escrevente, passadas commedidas pelas d'elle, acompanhando-o como o
    remorso, como o presentimento da catastrophe que se aproxima; o
    infanticidio perpetrado no escuro, com os pés no lodo, á beira do rio,
    escondido nos juncos como um animal ferido cercado pelos latidos
    raivosos da matilha; a sua retirada de Leiria ao outro dia, por uma
    serena tarde de outomno, de uma poetica serenidade ineffavel, partindo a
    cavallo no momento em que os sinos da sé começavam a soluçar o dobre de
    defuntos, emquanto um realejo toca na rua um trecho da _Norma_, e, de
    uma casa defronte, um pequerrucho seguro ao peitoril da janella pelo pae
    e pela mãe que riem, lhe diz adeus com a sua pequena mãosita
    papuda;–constituem paginas de uma concepção e de uma tonalidade
    tragica, profundamente elegiaca e solemne, que fica vibrando por muito
    tempo na memoria como o ecco funebre de um _dies irae_.

    Este livro misanthropicamente concebido, e executado com uma ironia
    mordente e com um humorismo repassado de lagrimas, deixa todavia no
    espirito uma forte impressão consoladora; é a obra de um grande artista,
    de um poderoso revelador de ideal; e como toda a idealisação perfeita,
    repousa-nos das nossas preoccupações pessoaes e egoistas,
    engrandece-nos, eleva-nos aos nossos proprios olhos, infunde-nos a fé,
    obriga-nos a crêr no sagrado desinteresse da arte, na divina
    immortalidade do bello.

    * * * * *

    Se depois da idéa que procurei dar-te d'este livro, tu, leitor me
    perguntares se o deves dar a ler á menina tua filha, eu respondo-te
    terminantemente que não. As meninas nunca lêem romances, quaesquer que
    elles sejam.

    Se o podem lêr as mulheres–é uma outra questão, á qual respondo que
    podem, ainda que com esta reserva–ás escondidas.

    Não que este livro seja immoral. A arte é absolutamente independente da
    moral, e não póde nunca nem servil-a nem prejudical-a.

    Quando para minha consolação e refrigerio eu me desvio da estrada em que
    succumbo de fadiga mordido pelo sol, e vou descançar um momento á sombra
    de uma arvore, não pergunto se essa arvore dá peras ou se dá pilritos,
    se da sua resina se póde extrair um balsamo ou um veneno, se dos seus
    filamentos se póde entrançar uma corda para o sino ou um baraço para a
    fôrca, se no seu tronco se podem serrar as pranchas para construir a
    arca ou para armar o patibulo. A unica coisa que lhe pergunto é se ella
    tem, para m'a dar, uma boa sombra fresca, macia, aromatica; e se a tem,
    eu, que n'esse momento não sou um negociante de productos alimenticios,
    nem um madareiro nem um chimico nem um engenheiro constructor, mas sim
    um caminheiro prostrado, eu declaro, não só em meu nome, mas em nome da
    sciencia, em nome da moral, em nome da religião, em nome do homem e em
    nome de Deus, que essa arvore é boa, é util, é necessaria–não pelos
    materiaes que ministra, não pelos fructos que produz, nem pelas
    substancias que segrega, mas unica e simplesmente por uma condição
    imponderavel e etherea, da qual em dada crise pode depender o meu
    destino inteiro e toda a minha vida; e essa condição é a de se interpôr
    no espaço entre mim e o ceu, e projectar sombra.

    Na esphera das multiplas vegetações do nosso espirito a sciencia e a
    philosophia fornecem as substancias alimenticias e ministram os
    materiaes das construcções; a arte é a arvore santa, a arvore da sombra
    para os peregrinos do pensamento.

    Schiller em uma das suas cartas, cujo texto não tenho presente, expôe
    uma theoria que pode resumir-se n'estes termos: «Se um critico em nome
    da moral processa o meu livro não pelo que eu n'elle escrevi mas pelas
    conclusões que elle critico lhe extrae, eu despreso esse julgamento. Se,
    porém, a critica me convencer de que, dado o assumpto qual eu o concebi,
    eu poderia executal-o por outro modo, eu n'esse caso submetto-me, não
    porque tenha errado contra a moral, mas porque errei contra a arte.

    Ora na execução do livro do sr. Eça de Queiroz ha na parte descriptiva
    dois ou tres pormenores que não quereriamos eliminados–com quanto isso
    fosse possivel sem quebra da verdade–mas que nos parece poderem ser
    referidos de um modo–não dizemos mais pudico–dizemos mais artistico.

    Ha em todos os grandes romancistas modernos, desde Balzac até o sr.
    Queiroz, uma tendencia de que o vulgo tem feito o attributo de uma
    escola, tendencia febril a demorarem sensualmente as analyses da torpeza
    e da podridão.

    O grande Eschylo dizia, censurando Euripides: «Elle deprimiu tudo
    aquillo em que pegou, eu enobreci tudo aquillo em que toquei; os homens
    saidos das minhas mãos respiram gladios e lanças, capacetes de
    pennachos brancos e escudos reforçados com sete couros.» Os artistas
    modernos não podem infelizmente inscrever nos seus brazões a nobre
    divisa do velho tragico. A sociedade actual não fornece á arte os
    grandes crimes que alimentaram o interesse da tragedia grega, porque as
    depravações contemporaneas não gravitam em torno do crime heroico mas
    sim em torno do vicio mesquinho e vergonhoso. Quem descreve os
    caracteres modernos tem fatalmente de operar na gangrena; o que nos não
    parece egualmente inevitavel é que o puz do tumor salpique a mão que o
    opera. Ora o que julgamos notar, por duas ou tres vezes como acima
    dissemos, na obra tão profundamente casta do sr. Eça de Queiroz é que os
    seus instrumentos anatomicos, tão bem acerados e tão finos, teem os
    cabos demasiadamente curtos.

    A dissecção–permitta o nosso amigo que lh'o observemos–tem tambem as
    suas leis de conveniencia e de elegancia. Além de que, para estudar um
    orgão é ocioso expôr aos olhos do amphitheatro toda a nudez do cadaver.
    Mesmo em anatomia o completo conjuncto é obsceno, porque é inutil.

    As damas da côrte tão _pointilleuse_ de Luiz XIV–ellas que
    representavam tudo quanto possamos conceber mais escrupuloso e mais
    exigente no decoro e no gosto–frequentavam, sem offensa do seu fragil
    melindre de estufa, os theatros anatomicos.

    «Á medida, diz Fontenelle, que Verney se tornava um homem á moda punha
    em moda a anathomia, a qual, encerrada até ahi nas escolas de medicina
    ou em Saint-Côme, ousou produzir-se na alta sociedade apresentada pela
    mão d'elle.» O tacto especial de Verney contém um exemplo que pode não
    ser inutil ao sr. Eça de Queiroz.

    As senhoras portuguezas não cursam os estudos scientificos. Não teem os
    menores principios de biologia, de anathomia e de physiologia,
    principios indispensaveis para entrar nos estudos mais complexos do
    homem como são na sciencia a historia e na arte o romance de caracter e
    a esculptura do nú.

    Por isso a falsa noção que ellas teem do pudor as torna incompativeis
    com muitas das mais preciosas convivencias intellectuaes.

    Uma noção social não pode, porém, ser modificada pelos escriptores ou
    pelas academias. Essa reforma é a obra collectiva e impessoal do
    progresso nos costumes e nas instituições.

    N'estas condições, deploraveis mas inamoviveis, maior deve ser a atenção
    do artista em limar–tanto quanto isto seja possivel sem detrimento da
    obra–os pequenos angulos subalternos que difficultem a adaptação d'ella
    aos costumes.

    Sob este ponto de vista _O crime do Padre Amaro_ está adeante do seu
    tempo. Como obra de arte é este um destino feliz, porque n'este caso ter
    de esperar é adquirir a certeza de sobreviver. Como obra de hygiene
    social lamentamos que elle não possa desde já actuar pela sua
    influencia no espirito d'este paiz onde o primeiro livro da educação
    moderna _La femme, le prêtre et la famille_ é ainda tido por um
    sacrilegio de Michelet, o impio!

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10 11)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-10 11)

    Aproximadamente 17.182 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS. R. ORTIGÃO. EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA, DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    3.º ANNO

    Outubro a Novembro de 1873

    VOLUME XX

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. Proudhon.

    SUMMARIO

    Regresso. Explicações–Historia de uns pés–Modos de morrer. Os
    Lovelaces do sepulchro. Os descamisados da cova–Epistola aos catholicos
    do Porto. A associação catholica, seus fins, seus meios, sua
    organisação, seu programma. O catholicismo. A egreja refugio da
    liberdade. As propagandas catholicas em França e na Italia. Manzoni,
    Rosmini, Balbo, Chateaubriand, Lamartine, o sr. conde de Samodães. Os
    padres portuguezes. O liberal, o reaccionario, o indifferente. O
    confissionario. As academias da rua da Picaria. A mulher christã. O
    partido liberal portuense e a infallibilidade do papa. O protestantismo
    do sr. Bismark. O seculo XVI. Theoria do scepticismo. A duvida na
    politica, na sciencia, na religião. A tolerancia–Festa veneziana nas
    aguas de Caparica–O aio de sua alteza. O que é o aio? O perfil do sr.
    Martens Ferrão. A corte, a mocidade, a aventura, os tações encarnados,
    as espadas dos paladinos. Semiramis, Cleopatra, Penelope e outras. A
    regencia. O beijo de Maria Laczinska. A bengala de Constancia de
    Arbes–As senhoras hispanholas e os faqueiros–O santo padre, o
    imperador Guilherme, o martyrio e as pastilhas de Voltaire. O conde de
    Chambord e o constitucionalismo. Saul, Pepino, Henrique IV. Historia
    philosophica dos pontapés nas monarchias modernas–Perfil do sr. D.
    Miguel de Bragança e influencia politica d'este rei, o seu typo
    physionomico, o seu temperamento, a sua popularidade. De como se
    fabricou o partido liberal portuguez. O João Sedvem, o José da Policia,
    o Telles Jordão e a idéa nova. De como o actual principe D. Miguel é
    anemico–O jornalismo, as idéas, os aguadeiros da opinião publica–O
    drama do Mexilhoeiro–A falta do elemento feminino nos banquetes
    patrioticos.

    Leitor querido–Depois de uma longa abstenção de tres mezes–os mezes do
    verão–_As Farpas_ voltam a apparecer no teu banquete ao mesmo tempo a
    que recomeçam a servir-se tambem as ostras.

    Á similhança dos mariscos, qu não é bom comerem-se nos mezes que não
    teem r, estas paginas condimentosas e estimulantes, se abusasses d'ellas
    no tempo quente, amigo, far-te-hian, talvez, furunculos.

    * * * * *

    Além de que, o verão tem influencias de expansibilidade que
    desconcentram a vida da esphera das suas condições normaes. É a epoca
    das viagens, dos banhos, das estações do campo. Abandona cada um o
    interior da sua casa, os seus habitos, as suas occupações, a sua
    hygiene, o seu trabalho. Fórma-se uma existencia interina, transitoria,
    supplementar. Está-se em uma casa alugada por dois mezes como hospede de
    uma noite n'uma estalagem. Não se reside; pernoita-se apenas, e
    passam-se os dias. Com a supensão do trabalho esterilisam-se tambem as
    idéas, porque todo o trabalho é uma fecundação da intelligencia. Assim
    todo o ser humano temporariamente transplantado da parte de solo, de
    atmosphera moral, em que ordinariamente exerce a sua actividade,
    emurchece. O portuguez, que sempre lê pouco, no verão então não lê nada.
    Achei-me por muitas vezes durante a estação finda a bordo dos pequenos
    vapores que fazem o transporte dos banhistas entre Lisboa e as praias.
    Os setenta minutos d'estas breves viagens eram o tempo consagrado por
    cada um para, por meio da leitura, pôr as suas idéas em relação com os
    interesses intellectuaes e moraes do resto do mundo. Fóra do convez dos
    vapores de Belem ninguem nas praias lê, ninguem tem comsigo um livro.
    Isto não é uma simples hypothese, é uma observação positiva. Em
    Pedroiços, por exemplo, a vida–toda de porta da rua–é transparente:
    vê-se o que cada um faz, quasi que tambem se vê todo quanto cada um
    sente e quanto cada um pensa. Pois bem, nas viagens dos vapores de
    Belem, unico lapso de tempo destinado pelos banhistas ao estudo,
    observámos durante o periodo de tres mezes consecutivos que ninguem lia
    senão almanachs, collecções de cantigas ou de charadas, e os periodicos
    de noticias. Que elementos para, a educação intellectual de alguns
    milhares de cabeças: darem mergulhos no Tejo, aprenderem nos livros que
    nasceu o dente do sizo ao sr. Alexandre Herculano, e saberem pelos
    jornaes que o sr. commendador Santos foi á Outra Banda em partida da
    recreio, com os seus amigos, comer um safio!

    * * * * *

    Não foram essas porém as rasões porque _As Farpas_ se callaram durante a
    estação calmosa. Os nossos motivos são inteiramente pessoaes. Nós
    adoecemos … Perdôa, leitor benevolo, estas perigosas tendencias de um
    convalescente para a autobiographia. Não, não foi um dente novo que nos
    esteve crescendo. Nós não temos, como o immortal historiador a que acima
    nos referimos, a honra de abrir estas linhas offerecendo á patria e á
    sr.ª D. Guiomar Torrezão mais um novo instrumento gloriosamente
    recemnascido para a trincadeira nacional.

    O nosso mal, foi simplesmente uma affecção na larynge. Apanhámos isto
    no Chiado. Tivemos na mucose da garganta as mesmas granulações que
    padecem os beduinos na mucose das palpebras por effeito do pó nas
    peregrinações do deserto. O Chiado pagou-nos o pessimo gosto burguez,
    especieiro, indigno, abominavel, de o frequentar, dando-nos esta doença
    climaterica e local. Os hospitaes de S. José e do Desterro dão as
    desyntherias e as gangrenas; os tanques do Passeio do Rocio dão as
    febres paludosas e intermittentes; o Limoeiro e a Casa de detenção das
    Monicas dão as viciações do sangue e as escrophulas; o Chiado e o
    deserto da Arabia dão as affecções granulosas da larynge e dos olhos.
    Cada um dá o que tem.

    A poeira do Chiado é uma especialidade curiosa, interessante, tão
    romanesca como a sombra da mancenilha. Esta poeira é fina, miuda, subtil
    como a _veloutine_ de Lubin. Ligeiramente tocada pela aza morna do vento
    leste, ensinua-se, entranha-se, penetra docemente, consoladoramente,
    profundamente–como a calumnia. Depois, uma vez inoculada, produz as
    ophtalmias e as esquinencias–as duas maiores enfermidades de Lisboa.
    Não é simplesmente formada pelas triturações da terra esta poeira. Não,
    porque o solo em Lisboa não é de terra. Aqui a terra tem sido de tal
    maneira misturada, falsificada, fingida, que, hoje, aquillo que
    primitivamente era a terra já não tem terra nenhuma. O solo de Lisboa é
    formado de sobreposições de estercos, de amalgamas de lixo, de restos
    pulverisados de fructas podres, de cães mortos e de papeis sujos.

    De todas estas misturas requeimadas pelo verão, carbonisadas pelo sol
    canicular, moidas sob as rodas dos trens e sob os pés pressurosos do sr.
    conselheiro Arrobas, resulta o pó envenenado da capital. Os papeis
    velhos de Lisboa, dejecções burocraticas ou litterarias dos bancos, dos
    cartorios, dos tribunaes, dos escriptorios dos negociantes, dos
    jornalistas, dos advogados, dos tabelliães e do sr. Melicio, são de tal
    maneira abundantes que todos os esgotos da cidade não bastam para os
    engulir. A brisa espalha esses papeis dilacerados pelas povoações
    suburbanas. A praia de Belem é uberrima de papeis sujos, e Pedrouços, a
    mansão burgueza das villegiaturas officiaes, parece-se no aspecto
    especial das suas immundicies com um corredor da secretaria das Obras
    Publicas destinado a projecto de nitreira modelo pelos disvellos
    agronomicos do sr. Rodrigo de Moraes Soares.

    De modo que a antiga expressão «_terra da patria_», com referencia a
    Lisboa e seus suburbios, é figura de rhetorica em demasia arrojada. A
    patria do lisboeta não tem terra, tem os agglomerados residuos das
    podridões e dos papeis velhos. O nauta vigilante, que do alto mar
    descobre no azul o ponto escuro e indeciso d'estas praias, procederá com
    louvavel exactidão e amor da verdade se em vez do grito poetico de
    «_terra! terra!_» começar a exclamar á vista de Lisboa: «Supedaneo de
    Melicio!»–ou–«Nitreira de Soares!»

    Victima nós mesmo em todo o nosso apparelho respiratorio d'essas
    influencias deleterias da geologia e da civilisação lisbonense, achamos
    prudente substituir–como fizemos–a convivencia do publico pela do
    gargarejo.

    * * * * *

    No theatro de D. Maria, o drama–_Idiota_.

    Suppoz-se pelos annuncios que _Idiota_ seria uma peça sem nome do
    auctor. Equivoco. Era um nome do auctor sem peça.

    No theatro de S. Carlos exhibição extraordinaria dos pés do sr.
    Barberat. A primeira vez que este cantor appareceu em scena os
    violinistas da orchestra suppozeram que elle se lhes tinha calçado–nas
    caixas das rebecas.

    Quando no dia da chegada elle poz á porta as suas botinas para engraxar,
    os creados do hotel cuidaram que elle rescindira a escriptura e se
    retirava, por se lhes figurar que o sr. Barberat tinha já no corredor as
    malas.

    Em algumas alfandegas os guardas do fisco, desconfiados d'elle, teem-lhe
    pedido as chaves dos pés!

    Nunca até hoje poderam dormir juntos os pés e elle. Emquanto elle está
    deitado de costas, os seus pés estão erguidos, ao fundo do leito,
    embuçados em capas, contemplando-o, firmes e silenciosos. Pela manhã os
    pés estão mortos de somno e de fadiga, e para que elles se deitem um
    momento, elle então, compadecido–levanta-se.

    Ou por que elle os não queira desasocegar de dia, lembrando-se de que
    teem de estar a pé de noite, ou porque elles mesmos se recusem
    obstinadamente a uma evolução a que debalde os teem querido algumas
    vezes violentar, o artista desistiu absolutamente de vestir as calças
    pelos pés e começou a vestil-as, como a camisa,–pela cabeça. Antes de
    chegar a esta prudente solução, o cantor, para conseguir vestir-se, era
    obrigado todas as manhãs ou a descoser as calças, ou a desmanchar os
    pés.

    Uma das coisas que mais vivamente picou a curiosidade do publico nas
    primeiras vezes em que este artista se mostrou em S. Carlos foi saber
    como elle poderia cantar n'um theatro pequeno para que podesse estar
    mais alguma coisa em scena além d'elle com os pés. O empresario acaba de
    confiar-nos a explicação d'esse segredo, que elle nos permitte enviar
    d'aqui como uma dadiva sua á justa anciedade das platéas. Mesmo porque o
    empresario attribue, com bastantes probabilidades de acerto, a esta
    preocupação do publico perante os pés phenomenaes do baixo a frieza
    desdenhosa com que nas primeiras noites se escutou o canto tão vivamente
    sentido, tão profundo e tão genial da Galetti.

    Pois bem, meus senhores, não pensem mais n'isso. Querem saber como elle
    cantava nos pequenos palcos?…

    Do mesmo modo que cantam os gallos–n'um pé só.

    * * * * *

    Á praia da Torre em Belem foi hontem arrojado pela maré o cadaver de um
    homem afogado Era ainda novo, robusto e forte. Estava vestido de panno
    azul. A jaqueta e o collete que vestia tinham botões de metal doirado
    com uma ancora em relevo. Na manga estava presa uma corôa tambem de
    metal. Tinha na algibeira um relogio e algumas moedas de prata
    portuguezas e brazileiras. As auctoridades da policia e da saude vieram
    á praia e olharam para o cadaver, como a lei manda. Depois do que,
    officialmente averiguado que estava ali effectivamente o cadaver de um
    afogado, pegaram nelle, atiraram-o ao fundo de uma cova aberta á pressa
    na praia, e cobriram-o com alguns metros de areia.

    Bem feita coisa!

    * * * * *

    Nem toda a gente vae para a sepultura com esta simplicidade de
    apparatos, a que podemos chamar o _enterro incivil_. Mas todos os cães
    se enterram por este modo, e não é por isso menos repousado o seu eterno
    somno. Além de que, é preciso que cada um se apresente na eternidade em
    condições que não desdigam da gerarchia em que viveu e do conceito em
    que o teve a sociedade e a opinião publica. Pretender o contrario é
    querer lograr a divina justiça sujeitando-a a illudir-se com o aspecto
    exterior dos mortos e a acolher com os mesmos cumprimentos na côrte do
    ceu o primeiro aguadeiro que chegue assim como o mais digno e
    respeitavel ministro de estado ou general de divisão que se
    apresente,–o que seria certamente para Deus um desgosto profundo. Logo:
    que cada qual morra como o que é e vá para o outro mundo como o que foi,
    para não pôr em equívocos a celestial etiqueta!

    * * * * *

    É um senhor conselheiro a pessoa que morre, na sua cama, victima da sua
    gotta? Vestem-se-lhe as suas calças de presilhas e galão de oiro, e a
    sua farda bordada; prega-se-lhe no peito a constellação das suas placas
    de diamantes, faz-se-lhe a barba, retinge-se-lhe o cabello, põe-se-lhe
    ao lado o espadim e as luvas brancas, o chapeu armado sobre o ventre e
    um pouco de carmim nas faces. E eil-o ahi está em toda a plenitude e em
    toda a magestade dos seus meios physicos e da sua importancia social. As
    pallidas Julietas dos sepulchros e as immodestas Rigolboches da tabida
    podridão e dos gulosos vermes do _chic_, que se acautelem d'esse maganão
    de bom gosto!

    Elle é poderoso: deixou na terra muitos necrologios e muitas missas, e
    vae optimamente recommendado pelo alto clero á especial protecção do
    Padre Eterno.

    * * * * *

    O que morre é pelo contrario um destes infimos e asquerosos animaes, de
    jaqueta de panno azul com botões de ancora, que andam a bordo dos navios
    sobre a agua do mar? Uma onda envolve-o no tombadilho e arroja-o ao
    abysmo inclemente? Suspende-se então por dois ou tres minutos a marcha
    da embarcação–um sólido paquete talvez, luxuoso, commodo, de uma forte
    companhia, em que tudo está seguro para os riscos da navegação, tudo
    menos a gente,–lança-se uma boia de salvação, arreia-se uma lancha com
    quatro homens, e alguns _gentlemen_ que sobem á tolda, tiram dos estojos
    de couro de Varsovia que trazem ao tiracollo os seus binoculos e
    assestam-os sobre o elemento. Apesar porém d'estas delicadas attenções,
    o bruto desagradecido desapparece. Dois ou tres dias depois, a maré, com
    nojo, cospe-o á praia da Torre juntamente com outras immundicies.

    Que queres tu d'aqui, meu estupido? Isto não é nenhuma selvagem ilha
    deserta e encantada, querida dos luares transcendentes de que fallam á
    phantasia as musicas de Bethowen e os versos do Ileine, e em que se
    figuram, sob uma luz de esmeralda, os bailados da opera.

    Aqui não ha os profundos paraizos aquaticos habitados pelas ondinas e
    pelas sereias de beijos deliciosos e gelados. Não ha os duendes das
    phantasticas florestas que te suspendam, sob o luar impregnado de
    calidos aromas e de nocturnas harmonias, nos berços aereos das magnolias
    e dos lilazes em flor, nem beneficas deidades transparentes que te
    cinjam nos seus doces braços e te levem n'uma festa nupcial para os seus
    leitos de algas, de coral e de perolas, no fundo dos dormentes lagos,
    sob as folhas dos nenufares.

    Não, isto aqui é uma praia decente e grave onde os senhores oficiaes de
    secretaria o os senhores desembargadores veem durante a villegiatura
    sentar-se pela fresquidão das tardes, com suas mulheres, contemplando
    austeros e recolhidos as babugens da vasante e o fronteiro panorama, tão
    magestoso e solemne, da Fonte da Pipa. É d'esta praia que o senhor
    commendador Santos e o senhor commendador Firmo e o senhor commendador
    Eloy teem partido em fina companhia de virtuosas damas, com honestas
    guitarras e casto peixe frito, a bordejar no Tejo. É aqui que a illustre
    e veneravel burguesia de Lisboa faz as suas estações balneatorias. É
    n'estas aguas que ella annualmente refresca e desemporcalha a sua gorda
    carne. É aqui que o mesmo poder moderador tem vindo, por vezes, com sua
    augusta e elegante consorte demolhar no argento o excelso e inviolavel
    systema nervoso da monarchia e da constituição.

    Portanto, ó immundo, tu que morreste afogado no oceano e te deixaste
    rolar para a praia da Torre, impertinente como o esqueleto de um goso
    morto de fome na Trafaria, tu, imbecil, se querias mais alguma
    consideração, mais algum respeito com os teus restos, fosses cahir a
    outra parte.

    Trazias algum dinheiro na algibeira, o sufficiente para te pagares o
    luxo de um padre e de uma cova, mas, realmente tu não tinhas aspecto de
    mereceres a pena de que alguem se occupasse por um minuto comtigo.

    Animal! se querias ser enterrado com respeito e commoção, se querias ter
    artigos nos jornaes e padres a cantarem-te o _De profundis_, porque foi
    que em vez de te afogares de jaqueta, te não afogaste com uma farda de
    almirante, ou de casaca preta e grã cruz dentro de um _coupé_ da
    companhia?!

    Deixaste por acaso na terra uma velha mãe desamparada, uma esposa
    lacrimosa, uma filha orphã, uma familia, a que seria doce ajoelhar sobre
    a tua sepultara ou plantar algumas flores sobre a terra que te cobrisse?
    Querias permittir-lhes essa extrema consolação? Deixasses-te ficar no
    Chiado ou no Terreiro do Paço, tornasses-te um dos elementos
    constituitivos da civilisação lisbonense, fizesses-te moço de recados,
    agiota ou empregado publico. Vive-se assim na corrupção, na usura, na
    humilhação ou na miseria, mas enfim morre-se bem, barato–e muito!

    * * * * *

    O _Jornal da Noite_ publica uma conta de despeza feita pelo presidente
    da republica dos Estados Unidos, Abrahão Lincoln, em um hotel de Albany.
    O illustre democrata e as pessoas do seu sequito pagaram a somma de um
    conto e alguns mil réis por uma hospedagem de menos de vinte e quatro
    horas.

    Este facto argumenta vivamente contra a opinião dos que acham as
    republicas mais baratas para os povos do que as monarchias.

    Effectivamente vemos que, ao passo que o presidente da republica da
    America do Norte faz um conto de réis de despeza em algumas horas em
    Albany e paga essa despeza, sua magestade o imperador da America do Sul
    dispende no Porto mil libras em quatro dias, e não as paga.

    É indubitavel pois que as monarchias são incomparavelmente mais baratas
    do que as republicas.

    Deve-se porém observar que, sob este ponto de vista, o descredito das
    democracias prodigas procede principalmente das estalagens exigentes.
    Porque está provado que sempre que um republicano em viagem pretende
    gastar tão pouco como um rei economico, os estalajadeiros fazem ao
    republicano o seguinte: sequestram-lhe a bagagem.

    * * * * *

    Parece-nos arriscado estabelecer entre os principes e os povos esta
    perigosa competencia de quem ha de pagar menos em viagem. Pois que,
    realmente, desde que as testas coroadas chegaram ao ideal de se
    apoderarem das contas e não pagarem nada, os povos só poderão desbancar
    os reis se, não pagando egualmente nada, começarem a estabelecer este
    uso: depois de se apoderarem das contas, apoderarem-se egualmente–das
    pratas.

    * * * * *

    _Primeira aos membros da Associação Catholica no Porto_

    Meus senhores e minhas senhoras.–Em nome da Nosso Senhor Jesus Christo
    e da Santa Madre Egreja Catholica Apostolica Romana, eu vos saúdo e vos
    desejo a divina graça. Como tenho obrigação de vos suppôr–taes como o
    dizeis–sinceros e dedicados servos de Deus, devotados a cumprir a sua
    lei e a divulgar a sua doutrina, mais vos desejo que nunca vos persigam
    os bens e as riquezas temporaes de que certamente vos despojastes para
    seguir a Jesus. Eu sei que o divino mestre, antes de mandar aos
    apostolos que o acompanhassem, lhes ordenou que deixassem as redes,
    fazendo-nos sentir por esta fórma que ninguem póde estar com Deus
    estando ao mesmo tempo com o mundo, e que para ter os bens do céo é a
    condição essencial–abandonar os da terra. Primeiro: _deixae as redes_;
    depois: _vinde commigo_.

    Amados irmãos, presumindo-vos pobres, desvalidos, tendo previamente dado
    o vosso pão aos que tinham fome e os vossos vestidos aos que tinham
    frio, eu desejo ainda sobre a vossa nudez a mortificação da vossa carne,
    a santa mortificação que raspa a vaidade e o orgulho e limpa o
    entendimento e a alma das lepras mundanaes.

    Que a graça de Nosso Senhor vos assista e que nada mais do que é
    temporal se vos pegue, porque n'este mundo tudo é esterco: _Omnia ut
    stercora_, como muito bem disse S. Paulo!

    Se vos não poderdes furtar aos contactos impuros do seculo, permitta o
    ceo que em todas as vossas relações com a sociedade todas as invectivas
    e todas as malquerenças pharisaicas vos punjam e vos espicassem o
    coração, assim como os chacaes famintos furam e rasgam no deserto as
    tendas dos piedosos peregrinos. Porque–bem o sabeis–só com as
    inimisades do mundo podereis merecer e lograr a amisade de
    Deus:_amicitia hujus mundi inimica est Dei_.

    Finalmente, meus senhores e minhas senhoras, resumindo os meus votos
    pelo molde mais consentaneo com as vossas aspirações, que o Senhor vos
    veja eternamente no ceu e vos aplane o caminho da promissão, tendo-vos
    tanto de sua mão que nunca sobre vós deixem de chover as dores e as
    ruinas, por isso que, como diz o psalmista, será pela somma das vossas
    penas contingentes, transitorias e mundanaes, que serão medidas as
    vossas alegrías celestiaes e eternas!–_Secundum multitudinem dolorum
    meorum in corde meo, consolationes tuae laectificaverunt animam meam._

    * * * * *

    Permittí-me agora que, antes de entrar em algumas breves considerações
    que a natureza do vosso instituto me suggere, eu me detenha um momento
    na simples contemplação do nome que lhe puzestes.

    Que razões poderiam levar-vos, beatissimos senhores, a denominardes
    _catholica_ a associação que fundastes, ahi no Porto, em certa casa da
    rua da Picaria? Que significa uma associação chamada _catholica_ no meio
    de uma sociedade egualmente catholica? Quem é que não é _catholico_ em
    Portugal? Não temos nós todos a mesma religião, que não é uma religião
    especial da rua da Picaria, mas sim a bem conhecida religião do paiz, a
    religião do estado, a religião famosa da carta? Ignoraes por acaso que
    nenhuma associação póde ser em Portugal senão isso–_catholica_?
    Ignoraes que não temos a liberdade dos cultos, a divergencia de
    religiões?…

    Ora, não havendo o mosaismo aqui no Chiado, não existindo o pantheismo
    no Rocio, nem o lutheranismo no Terreiro do Paço, nem o fetichismo no
    Arco do Bandeira, o que vem a ser um catholicismo da rua da Picaria na
    cidade do Porto? Terá cahido o Porto porventura no paganismo idolatra?
    Estará elle sacrificando a Jupiter a sua rica vacca cosida? Tel-o-hiam
    levado os seus representantes, os seus philosophos, os srs. Faria
    Guimarães e Pinto Bessa, ás vertiginosas regiões do livre exame, onde o
    espirito humano, abatido, fatigado, morde na solidão o fructo amargo da
    sciencia?…

    Não. Eu visitei o Porto ha pouco tempo. Cheguei ahi no dia 24 de junho.
    A cidade tinha o aspecto mais jubiloso e festival. Erguiam-se arcos
    triumphaes nas embocaduras das ruas, palpitavam á viração matutina
    bandeiras desfraldadas nas janellas das casas. Na rua de S. João os
    habitantes, de camisa lavada e barba feita, passavam com bandejas cheias
    de lanternas para luminarias, outros espetavam no chão mastros
    embandeirados; iam, vinham, fallavam alto, tinham gestos abundantes e
    felizes. As egrejas por onde passei estavam cheias até á porta de fieis
    que ouviam as primeiras missas. Os sinos repicavam em todas as torres, e
    os foguetes furavam o limpido azul da manhã.

    O Porto, onde n'esse dia devia celebrar-se um grande _meeting_ liberal,
    começava no emtanto–por festejar o S. João!

    Portanto, meus senhores, se vós vos denominaes catholicos, não é porque
    supponhaes que os outros o não são; é porque vos parece que o sabeis ser
    melhor do que os outros, e pretendeis que vos considerem como unicos
    catholicos perfeitos, catholicos affiançados, catholicos garantidos.

    Se é isto o que quereis dizer-nos com o titulo escolhido para a
    vossa associação, e não podeis querer dizer outra coisa,
    então–meditae-o–achaes-vos em peccado mortal de soberba, de jactancia,
    de presumpção de merecimentos.

    Localisando por esse modo a religião na rua da Picaria, vós lançaes
    tacitamente a suspeita de impiedade nas demais ruas da cidade da Virgem.

    Pois bem, que a Picaria o saiba: a viella do Ferraz tambem vae á missa,
    e Deus sabe se jejua ou não, ás sextas-feiras, a Ferraria de Cima!

    * * * * *

    Advirtamos agora como a associação catholica tem correspondido pela
    importancia dos seus actos á audaciosa escolha do seu titulo.

    Até o momento em que vós vos apoderastes do catholicismo para vos
    fechardes com elle na rua da Picaria, cabia ao catholicismo a gloria de
    ter inspirado as maiores obras produzidas pelo espirito humano.

    Foi esse pobre catholicismo, ainda então desprotegido do valioso
    patrocinio que n'este seculo lhe devia conceder a vossa associação, meus
    illustres senhores e minhas preclaras senhoras, foi elle, ainda
    desalbergado da rua da Picaria, o que na edade media fez brotar da
    imaginação dos povos o que ha mais bello nas artes, os maravilhosos
    poemas, as ternas legendas melancolicas, as portentosas cathedraes. Foi
    elle que levou Pedro Eremita e Godofredo de Bulhões a descerem o valle
    do Danubio e a seguirem o caminho de Attila. Foi elle que inspirou Tasso
    e Dante. Foi elle que produziu S. Thomaz, o _boi mudo de Sicilia_, o
    Aristoteles do christianismo–como lhe chamou Michelet–, o mais
    poderoso cerebro da egreja. Foi elle que creou em Hispanha desde o
    seculo XVI até o seculo XVII no meio da maior escravidão e do maior
    fanatismo, o mais brilhante grupo de artistas que tem visto o mundo:
    Velasquez, Murillo, Herrera, Zurbaran, Lope de Vega, Calderon,
    Cervantes, Tirso de Molina, Luiz de Leon. O profundo mysticismo de
    «Quixote» é um reflexo do poder da fé em todos esses espiritos. Calderon
    era official do santo officio e Lope de Vega desmaiava em extase ao
    dizer missa. O catholicismo inaugurou ainda a sociedade mais popular,
    mais accessivel, mais equalitaria. No meio da barreira levantada diante
    da plebe pelos privilegios do sangue, a egreja era o portico de todos
    os grandes talentos e de todas as elevadas ambições: o papa Urbano IV,
    filho de um sapateiro, edificava a egreja de Santo Urbano e expunha
    n'ella, bordado em uma rica tapessaria, o retrato de seu pae fazendo
    sapatos.

    Por outro lado o catholicismo deu-nos ainda a Saint-Barthelemy, a
    carnificina nacional dos christãos novos, a Inquisição, a guerra dos
    trinta annos, os monges bretões que envenenaram o calix de Abeilard e os
    dominicanos de Buon Convento que assassinaram Henrique VII, fazendo-lhe
    commungar o veneno na hostia consagrada.

    Protegido por vós, meus senhores, tutelado pela vossa sociedade
    propagandista da rua da Picaria, o catholicismo portuense tem-nos dado
    apenas:–como carnificina, quatro pranchadas nas espaduas de quatro
    patriotas á porta da Sé; como arte, a _Palavra_, um pobre jornal piegas,
    lacrimoso e beato, com pouca elevação, com pouco enthusiasmo, com pouca
    fé, e com alguns erros de grammatica.

    Ora realmente, meus senhores, para resultados tão mediocres não valia a
    pena de vos dardes o apparato de quem funda uma agencia para a
    Bemaventurança e nos fecha o ceu–n'um armazem de commissões.

    Em 1849 havia na Italia uma propaganda catholica, cujos membros todavia
    não chegaram nunca a aggremiar-se e a constituir-se em sociedade como os
    cavalheiros e as damas da rua da Picaria.

    O chefe da propaganda italiana era um dos espiritos mais rectos e mais
    benignos, era o doce e pacifico poeta Manzoni, recentemente fallecido.

    _I promessi Sposi_, o celebre romance tão conhecido, foi como o _Genio
    do Christianismo_, de Chateaubriand e como as odes religiosas de
    Lamartine, inspirado por essa reacção catholico-litteraria com que os
    romanticos de 1830 bateram as idéas philosophicas do seculo XVIII.

    Manzoni porém, servindo a causa catholica como propagandista, e abrindo
    um exemplo que se tornou escola de muitos escriptores e poetas
    italianos, Manzoni, em primeiro logar, escrevia para esse fim livros
    adoraveis,–e que vós, meus queridos senhores não resolvestes ainda
    começar a fazer na vossa officina religiosa da rua da Picaria. Em
    segundo logar Manzoni considerava a idéa religiosa como um elemento de
    emancipação e de regeneração para a Italia então opprimida e
    escravisada. Finalmente Manzoni não tinha por fim especial glorificar os
    padres, arregimental-os, armal-os, pôl-os em pé de guerra, como o está
    fazendo a associação catholica portuense. Pelo contrario, Manzoni sabia
    que os padres italianos do seu tempo eram, como Cantú os descreve tomado
    do mais santo horror: «glutões, avaros, estupidos e bandidos». O perfil
    ideal do padre Borromeu nos _Promessi Sposi_ não tinha pois a intenção
    de um retrato, era o estabelecimento de um novo nivel para a opinião,
    era um exemplo, era uma lição dada pelo modo delicado e brando com que o
    desgosto profundo inspirára a alma candida e honesta do piedoso
    escriptor.

    Feita assim, n'estas circumstancias, n'estas condições, por estes meios,
    eu comprehendo a propaganda catholica, e inclino-me respeitosamente
    diante dos que a servirem e a promoverem. Não me parece todavia que seja
    esse o caso da Associação catholica portuense, nem no que diz respeito
    aos fins que ella se propõe, nem no que toca aos meios que emprega para
    conseguir o seu fim.

    * * * * *

    Que pretende a associação catholica?

    Libertar a patria, chamal-a á independencia, fortificando com o
    sentimento religioso a fé patriotica, como fizeram Manzoni, Rosmini,
    Gioberti, Balbo e outros na Italia invadida pela dominação? Não, porque
    Portugal, é por emquanto independente e livre.

    Estabelecer a cathechese? Diffundir a moral? Regenerar os costumes? Não,
    porque, não sendo publicas as sessões da associação e não tomando parte
    n'ellas senão os mesmos associados, pessoas cujos costumes e cujas
    crenças religiosas foram d'antemão affiançados, estes acham-se
    satisfatoriamente moralisados e instruidos.

    Educar o clero, aprestando-o para uma influencia mais directa e mais
    proficua nos interesses da cidade ou nos interesses do ceu? Tambem não,
    pelas razões seguintes:

    Os padres portuguezes acham-se todos incluidos em uma d'estas tres
    classes:–os indifferentes, os liberaes e os reaccionarios.

    O padre indifferente vive obscuro e tranquillo no fundo de uma aldeia
    entre a sua lavoira e o seu campanario. Baptisa as creanças, confessa
    os adultos e absolve os que morrem. Se não forem todos para o ceu, a
    culpa não é d'elle. Cartilha e bons conselhos propina-lh'os todos os
    domingos depois da missa conventual; se os não tomarem para seu bem, lá
    se avirão com o demonio no outro mundo e cá na terra com o regedor. De
    resto elle cava a sua horta, é grande madrugador, deita-se com as
    gallinhas, diz a missa ao romper d'alva, caça a perdiz no inverno e
    pesca os barbos no verão. Além de um bocado de breviario, não lê senão
    um repertorio para estar ao facto das luas e saber quando convém
    alporcar as pereiras e semear os pepinos. Bom homem, rijo, satisfeito,
    sanguineo, infatigavel companheiro na caça e na mesa, se tentardes
    esgrimir com elle algumas idéas politicas ou religiosas, algumas
    subtilezas de critica, de controversia, terá tonturas, arregalará os
    olhos, ouvír-se-lhe-hão rugidos interiores e não sentirá senão um
    desejo: o de vos açular ás pernas os seus cães e cascar-vos pela cabeça
    com o seu grosso marmeleiro argolado.

    O padre liberal habita as cidades, lê os periodicos, intervém em
    eleições, frequenta os botequins e as casas de jogo, fuma cigarros, e
    protesta vigorosamente contra a reacção e contra o jesuitismo, trazendo
    os dedos amarellos e tomando medicamentos secretos.

    O padre reaccionario anda quasi sempre de loba; tem os olhos baixos, o
    passo miudo e commedido, o sorriso contrafeito como uma coisa azeda
    misturada com assucar; gordura fria e pallida, um tanto sinistra; mãos
    brancas, suadas, viscosas; pés moles, de pato, arrastando. O
    confissionario é para elle uma vocação, um destino, um prazer: é a sua
    arte. Algumas vezes mobila-o com certo luxo, introduz-lhe um sophá e
    abastece-o de viveres: uma lata de pão de ló e copos com geléa. É ahi
    que elle escuta, de olhos meio cerrados e mãos crusadas no peito, as
    confidencias secretas das mulheres, os casos encobertos ás mães e aos
    maridos, os inveterados vicios escondidos e os grandes crimes occultos,
    as obras e os pensamentos, os alvoroços da carne no meio da penitencia e
    da oração, as tentações do inimigo, os ardentes desejos diabolicos, os
    pungentes escrupulos de alcova, a grande tragedia intima dos mysticos e
    dos solitarios. Elle escuta, manda repetir, inquire, investiga, indaga,
    minucia por minucia, as circumstancias que aggravam e as circumstancias
    que attenuam; disseca o peccado, desfibra-o musculo por musculo, nervo
    por nervo, arteria por arteria; depois reconstitue-o, recompõe-o,
    inteira-o, evoca-o, fal-o resurgir nos olhos da penitente–para a
    moralisar com a enormidade do erro. A culpa, assim rediviva pelos
    retoques finos, dialecticos, incisivos do stylo theologico e casuistico
    dos commentadores do Decalogo, a culpa repintada com essa arte mais
    sabia, mais poderosamente minuciosa que a de todos os modernos
    romancistas psychologos dos vicios torpes e vergonhosos, cinge outra vez
    a peccadora, collêa-se estreitamente com ella como a serpente do Eden,
    envolve-a nas suas espiraes, penetra-a da sua essencia magnetica,
    communica-lhe a electricidade dos seus filtros. É então, n'esse momento
    terrivel de crise, nevralgico, histerico, allucinado, que elle critica
    friamente, com uma analyse perpendicular, dominadora, arbitra da
    commoção; e consola, aconselha, admoesta, subjuga, domina, e absolve ou
    condemna, elle, elle em nome do Creador, a fragil creatura desmaiada aos
    seus pés. O padre reaccionario faz parte da grande centralisação
    catholica, é uma das rodas do grande machinismo, vive no systema de
    partido como na obediencia e na regra de um instituto. Não pensa nem
    discute. O seu rumo está tomado; segue-o apezar de tudo, atravez de
    tudo, como um boi abre um rego, com os olhos tapados. Tem heranças de
    velhas devotas, avultadas esmolas de missa, frequentes presentes de
    confessadas. Vende agua de Nossa Senhora de Lourdes ou de La Salette.
    Cobra os dinheiros de S. Pedro e remette-os para Roma, assigna a
    _Nação_, e quasi sempre é rico.

    Dos padres d'estas tres categorias quaes são aquelles que a associação
    Catholica influe, aconselha ou dirige?

    O padre obscuro nem mesmo sabe que tal associação existe. O padre
    liberal é seu inimigo e adversario intransigente. Resta-lhe o padre
    ultramontano.

    Ora este ultimo padre é o ôvo de que a associação Catholica é a ave.
    Ella não o modifica, não o educa, não o adverte, não o illustra. Faz-lhe
    simplesmente isto: choca-o. Depois, quebrada a casca do sr. padre Couto,
    o sr. conde de Samodães apparece.

    * * * * *

    A associação Catholica celebra periodicamente reuniões, a que chama
    academias. Que se faz n'estas reuniões frequentadas por muitas senhoras
    da primeira sociedade portuense, o que ha de mais digno, de mais
    inviolavel e de mais sagrado?

    Relevem-nos este ponto de interrogação, que não tem de nenhum modo a
    impertinencia de uma pergunta e deve apenas ser considerado da nossa
    parte como um simples ponto de perturbação e de pasmo.

    Se os homens estivessem sós comprehendemos que as reuniões da associação
    Catholica fossem para elles um meio do repousarem suavemente das fadigas
    temporaes, dos enganos do mundo, das illusões e das vaidades do seculo.
    Concebemos perfeitamente que depois de terminados os seus negocios,
    assignada a sua correspondencia, pagas as suas lettras, despachadas as
    suas mercadorias, fechada a sua caixa, comido amplamente o seu jantar,
    saboreado o seu café e o seu _kumel_, elles encerrassem o seu dia
    juntando-se todos fradescamente, sem etiqueta, sem cerimonias de
    elegancia nem de _toilette_, e que, em seguida, descalçassem as botas e
    dissessem: «Ora dissertemos lá um bocado sobre a immortalidade da alma!»

    Mas, com senhoras, com senhoras elegantes e bellas, que hão de apear-se
    das suas carruagens, depôr os seus burnous no _vestiaire_ e penetrar no
    salão, sob o gaz, n'uma onda scintillante de setim e de renda, que farão
    os homens?

    Hão de se ter espalhado na athmosphera os perfumes da _toilette_, os
    murmurios dos vestidos, os reflexos das joias e as confusas palavras
    finas, magneticas, que susurram sob a palpitação dos leques. Suppomos
    que não ha orchestra nem piano, de modo que as pessoas devotas não
    poderão dirigir-se immediatamente ao sr. padre Couto para que as faça
    valsar; não estarão patentes os ultimos telegrammas dos successos de
    Hispanha; não haverá um serviço de gelados trazido em bandejas de prata
    por criados de calção curto: não se terá á mão um numero da
    _Illustração_ nem um album que se folheie …

    Estranha perplexidade!

    Tem um simples associado de abotoar as suas luvas, de adiantar um
    _fauteuil_, de se aproximar de um grupo e de lançar um assumpto pela
    seguinte fórmula: «Minha senhora, será vossencia assaz boa para querer
    fazer-me a honra de me dizer se já tem interlocutor para uma breve
    dissertação sobre os novissimos do homem?»

    Ou talvez que haja uma organisação parlamentar para a distribuição dos
    assumptos e para a ordem das discussões. E n'esse caso, reunido o
    claustro pleno, será o sr. conde de Samodães quem abrirá as sessões,
    persignando-se, tocando a sua campainha e dizendo:

    –«Dou a palavra ao relator da commissão encarregada de dar o seu
    parecer ácerca das Divinas Pessoas da Santissima Trindade. Meus senhores
    e minhas senhoras, está em discussão o Espirito Santo.»

    * * * * *

    Porque emfim, meus senhores, celebrando como catholicos as vossas
    academias religiosas, das duas coisas uma: ou vós estabeleceis a
    controversia e discutis os canones e os dogmas, ou não a estabeleceis e
    não os discutis.

    No primeiro caso usurpaes os poderes que só competem aos concilios,
    entregaes aos debates da razão as materias de obediencia e de fé e cahis
    no racionalismo heretico.

    No segundo caso, reunidos em nome de Deus, vós não tendes o direito de
    fazer senão uma coisa: elevar humildemente ao ceu os vossos espiritos e
    prostrar-vos na penitencia e na oração.

    Mas para os exercicios da oração e da penitencia vós tendes a egreja
    para rezar e a solidão no interior das vossas casas para meditar o
    arrependimento. Para similhantes effeitos congregar os fieis nos salões
    da rua da Picaria é desviar dos templos a corrente natural da devoção e
    arrancar do interior da familia o saudavel recolhimento dos propositos
    bons.

    Eu creio profundamente que entre vós existem homens dignos, honrados, de
    uma piedade limpida, com as mais rectas intenções de espirito e de
    consciencia. Acredito mesmo que essas almas, timoratas mas boas,
    constituem a grossa maioria dos vossos consocios. Por isso vos consagro,
    passando, esta palavra séria:

    Nada mais funesto para os costumes do que ensinar ás mulheres que ha
    instituições especiaes para o serviço de Deus, para a conquista do ceu,
    para a remissão da culpa. O posto digno da mulher christã é em sua casa
    ao pé dos seus filhos. Os exercicios espirituaes e as contemplações
    mysticas escurecem a alegria domestica, alvoroçam a virtude, perturbam a
    consciencia. Na sociedade actual a mulher pertence, integralmente, com
    toda a responsabilidade do seu destino, á missão sublime da regeneração
    do homem pela attracção do lar. Desviar sob qualquer pretexto que seja
    a attenção da mulher dos interesses da familia é commetter para com a
    moral um sacrilegio. A casa conjugal tambem é um templo, e a maternidade
    é uma religião.

    * * * * *

    Meus senhores, tenho procurado tanto quanto me tem sido possivel ser
    amavel comvosco, tomando para vos observar todos os pontos de vista.
    Olho-vos como christão, olho-vos como catholico romano, olho-vos como
    cidadão, olho-vos como simples espectador, como _dilettante_. De todos
    os modos vós me pareceis ou incongruentes, ou ridiculos, ou absurdos.

    Todavia, meus senhores, depois de tão exactas observações, eu não
    concluo que dissolvaes o vosso synodo e que vos retireis para vossas
    casas. Os senhores liberaes, que vos combatem, são egualmente
    incongruentes, egualmente absurdos e um pouco mais comicos do que vós, e
    os senhores liberaes tambem se não retiram.

    Elles dão morras ao papa, chefe supremo da religião catholica e todavia
    continuam a dizer-se catholicos. Odeiam e guerreiam os padres e no
    emtanto continuam a entregar as suas mulheres aos confissionarios e as
    suas filhas á cathechese. Insultam a theologia do vosso jornal a
    _Palavra_ mas não acceitam com elle a controversia porque não sabem
    theologia. Não lhes importa o irem para o inferno, mas não querem ir
    para o Carmo. O seu atheismo leva-os a quererem «esmagar o infame» como
    elles mesmos dizem, mas com a clausula de não molestarem com essa
    operação os calos do sr. Bento de Freitas, governador civil, ou do sr.
    Pinto Bessa, presidente da camara. Ultimamente vós festejaveis com um
    _Te Deum_ na egreja da Sé o anniversario de Pio IX: estaveis
    inteiramente no vosso direito e na logica dos vossos principios. Elles,
    em vez de combaterem com uma affirmação de sciencia a vossa protestação
    de fé, esperaram-vos á porta da egreja, deram vivas á liberdade, a
    Victor Manuel e a Garibaldi e alguns morras ao Papa infallivel. Foi com
    esta elevação de critica que analysaram o Concilio do Vaticano, consti.
    4.ª cap. IV _De infallibilitate romani pontificis magni_, a qual
    constituição nunca leram. A policia interveio, espancou varias pessoas,
    prendeu varias outras, e eis em resumo o que os periodicos liberaes
    chamam os conflictos da liberdade e da reacção religiosa na cidade do
    Porto!

    Profundas graças ao Altissimo, que não são inteiramente estas as
    circumstancias que determinaram as antigas crises do poder entre os
    burguezes do senado do Porto e os poderosos barões feudaes da Sé
    portuense ou do balio de Leça! Os srs. padre Rademaker e padre Couto não
    afivelaram os arnezes de aço dos antigos bispos e dos freires
    hospitalarios, não reuniram os seus sergentes e homens d'armas, não
    mandaram erguer as levadiças dos seus paços acastellados nem
    desembainharam as suas espadas famosas … Não, elles apenas entoaram a
    ladainha de todos os santos, e prometteram, não excursões armadas sobre
    os rebeldes dos seus feudos, mas sim jubileus e bençãos telegraphicas
    aos seus adeptos.

    Ora não vemos realmente em que estas coisas possam atterrar a liberdade
    e sobresaltar o paiz.

    É singular esta coincidencia:

    O clero catholico tem hoje em toda a Europa o papel sympathico. Os
    unicos paizes do mundo em que ainda se gosa a liberdade religiosa são os
    paizes catholicos. Na Russia, na Allemanha, temos o despotismo e a
    perseguição protestante. O sr. de Bismark prende, processa e desterra
    os sacerdotes catholicos. No novo imperio do rei Guilherme, o
    patriotismo reforça-se na religião do estado; a recente legislação
    allemã submette todos os casos de disciplina ecclesiastica e todas as
    deliberações episcopaes ao poder civil, e prohibe o clero sob as mais
    severas penas de cumprir preceitos que dimanem de qualquer auctoridade
    ecclesiastica estranha á nacionalidade allemã.

    Ferida violentamente na sua liberdade, perseguida pela força, a egreja
    catholica–quem o diria!–appella para as garantias espirituaes e quer a
    distincção dos poderes como salvaguarda da liberdade. Na Allemanha os
    ultramontanos mais ardentes fortificam-se nos seus ultimos
    entrincheiramentos pedindo como Cavour a egreja livre no estado livre. A
    tal estado chegou desprestigiado e abatido o antigo poder clerical!…
    Elle já não quer exercer a sua velha tyrannia, contenta-se em não
    supportar a perseguição; e, como todos os martyres, pede a liberdade
    como o extremo refugio das consciencias apavoradas.

    Violentamente ferida no coração, perseguida pela força, a egreja
    apresenta esse symptoma infallivel da sua suprema dôr–o grito das
    garantias espirituaes, o appello em ultima instancia para a distincção
    dos poderes.

    Pio IX, fortificado no Vaticano, como n'uma cidadella gloriosa,
    desmoronada e vencida, posto que respeitada, soffre as ultimas
    consequencias fataes da sua politica, e, indomavelmente pertinaz e
    corajoso, esse velho batalhador veneravel, despojado da sua corôa
    temporal, arroja aos vencedores o derradeiro desafio do seu despreso,
    arvorando impavidamente o dogma e metralhando com as excommunhões a
    opinião liberal em ultimo sacrificio a uma causa perdida.

    É curioso até o ponto de se tornar ligeiramente comico que seja este o
    momento escolhido pela burguezia portuense para começar a apontar-nos a
    egreja catholica como um perigo para a liberdade!

    No Porto os livres pensadores da calçada dos Clerigos principiam agora a
    receiar que os catholicos da rua da Picaria assoberbem e esmaguem sob a
    desmaiada e quasi esvahida legenda pontificia o poderoso mundo
    scientifico moderno.

    Pela sua parte vós, catholicos da Picaria, reunis as vossas mulheres e
    as vossas filhas, entoaes ladainhas e procuraes com preces e com
    penitencias desaggravar a divindade offendida com as invectivas dos
    periodicos liberaes–no que nos parece que confundis tambem um pouco a
    religião com a sacristia, e tomaes frequentemente o sr. padre Couto pelo
    Padre Eterno. É o vosso erro. No entanto ficae no vosso posto. A
    civilisação precisa de vós, não como elemento reconstituinte, mas como
    producto lachante. A sciencia estima-vos … como droga. O velho mundo
    invoca a vossa assistencia para o ajudar a morrer, para o enterrar. Para
    mim, que acabo de vos discutir como fazendo eu mesmo parte do meio
    burguez em que existis, vós sois certamente um absurdo. Perante a
    philosophia vós sois porém uma necessidade historica. Nos annaes do
    progresso transcendente do espirito humano o vosso nome ha de ficar como
    o curioso epitaphio de uma geração que se extinguiu ha tresentos annos.
    Porque a verdade é que vós representaes as idéas do seculo XVI.

    A associação catholica do Porto instituiu-se para quê? Vós mesmos o
    estaes dizendo todos os dias: Para salvaguardar a fé religiosa da
    corrente invasora do scepticismo moderno.

    Pois bem, meus senhores, foi esse mesmo scepticismo, cuja corrente vós
    pretendeis hoje reprimir ou recuar, o que produziu a grande revolução
    scientifica do seculo XVII e toda a civilisação subsequente até os
    nossos dias.

    O scepticismo é o estado de espirito que medeia entre a superstição e a
    tolerancia. Ha mais de um seculo que nenhum pensador grave se intromette
    na vossa controversia theologica. Ninguem vos combate, ninguem mesmo vos
    discute. O mundo novo está já na tolerancia, quando vós combateis ainda
    o scepticismo de que a tolerancia é o fructo!

    Duvidar, meus bons amigos, é exercer uma das mais poderosas e mais
    fecundas faculdades da razão humana. Para chegar á verdade não ha senão
    esse caminho: a duvida. Para chegar a Deus, que não é outra coisa senão
    a expressão theologica da verdade, o unico meio é tambem esse: a duvida.
    Primeiro que tudo duvida-se, depois aprende-se, por fim descobre-se. Tal
    é a marcha invariavel dos espiritos na sua grande ascensão do imperfeito
    para o absoluto.

    O mesmo christianismo não poderia nunca ter principiado a existir se não
    o tivesse precedido a duvida nas consciencias da antiguidade pagã.
    Antes de acreditar em Jesus Nazareno o homem teve que duvidar de Jupiter
    Capitolino. A tradicção christã é uma conquista do scepticismo antigo. A
    duvida foi a primeira e a mais augusta expressão da revelação divina.

    A duvida tem sido em todos os tempos a luz immortal e a guia suprema do
    entendimento humano. Foi a duvida quem levou Colombo ao novo mundo,
    Copernico e Newton á astronomia, Boyle e Pascal á hydrostatica, Galyleu
    á mecanica e Lavoisier á chimica.

    Se nas profundidades da nossa alma o scepticismo não tivesse existido
    sempre como uma indomavel força inextinguivel de perfectibilidade
    indefinida, a sciencia astronomica não viria occupar o logar da
    astrologia, a physica e a chimica não substituiriam a alchimia, e a
    imagem de Christo crucificado não succederia nos altares do Vaticano ás
    estatuas dos dois mil deuses da Roma antiga.

    Quereis a definição precisamente scientifica do scepticismo? Ouvi
    Buckle, o historiador da civilisação: scepticismo é a difficuldade de
    crer; de sorte que o scepticismo que se augmenta é a percepção
    augmentada da difficuldade de provar asserções, ou, n'outros termos, é
    a applicação augmentada e a diffusão augmentada das regras do raciocinio
    e das leis da evidencia. Esse sentimento de hesitação é em todo o campo
    do pensamento o preliminar invariavel de todas as revoluções
    intellectuaes por que tem passado o espirito humano; sem o scepticismo,
    progresso, mudança, civilisação, tudo seria impossivel. Na physica é
    elle o precursor necessario da sciencia; na politica o precursor da
    liberdade; na religião o precursor da tolerancia.

    Ora defendendo a integridade da fé, vós fazeis á philosophia este
    serviço relevante: suggeris a duvida, procuraes accordar a razão
    individual, a qual nunca em nenhum outro meio social se desenvolveu tão
    larga e tão arrojadamente, como no seio da egreja christã, a qual apezar
    de todos os seus erros e dos seus mesmos crimes, tem sido sempre o mais
    forte nucleo da vida moral e o mais alto objecto de todos os grandes
    desenvolvimentos da intelligencia e da vontade.

    De resto entendo que o Porto, esse feliz e arrojado industrial, vos deve
    ser especialmente grato e reconhecido, porque vós o dotastes com um
    estabelecimento que Lisboa ainda não possue–A associação catholica da
    rua da Picaria,–a qual, á similhança dos antigos moinhos do Tibet e das
    cabaças rotatorias dos Kalmuks, assegura á commodidade dos habitantes um
    systema permanente, uma especie de moagem mechanica, com motuo continuo,
    de adorações e de preces.

    * * * * *

    Algumas das familias que durante a estação finda se achavam a banhos de
    mar em Pedrouços, resolveram de uma vez fazer uma festa nocturna,
    mysteriosa, venesiana. Tomaram um vapor da carreira de Belem,
    illuminaram-o com balões de papel como as gondolas do canal da Zueca que
    deslisam em frente dos terrassos do palacio Barbarigo no primeiro acto
    da _Lucrecia_. Para que a commoção de todas as pessoas que tomaram parte
    n'esta scena fosse profunda e illimitada, os homens tinham-se
    apresentado todos vestidos como os tenores nas scenas de _barcarola_. O
    jubilo era indescriptivel.

    Reunida a bordo toda a sociedade, o vapor levantou ferro, e penetrou na
    treva, vibrante de aventura, saturado de drama, na direcção de
    Caparica.

    O Tejo porém estava grosso e picado, de modo que começou a dar ao vapor
    uns balanços intermittentes para um lado e para o outro como de quem
    escabacea com somno. Com isto principiaram a manifestar-se com uma
    insistencia progressiva os symptomas spasmodicos nos esophagos da
    assembléa. Os Mazaniellos, verdes como azebre, tristes como condemnados
    á morte, procurando sorrir á catastrophe com sorrisos dilacerados como
    os que apresentam os cotovellos rotos, enrolavam-se nas suas capas e
    prostravam-se como trôchos inuteis nos bancos da tolda. As senhoras
    punham os seus lenços na bocca, corriam a mão pela testa, cuspiam
    desconsoladamente no mar, e tinham ligeiros movimentos extaticos e
    doloridos como de quem está escutando no ar o rumor de uma angustia que
    chega.

    Então o sr. Mathias Ferrari, segundo lemos no _Diario de Noticias,_ «fez
    correr um abundante serviço de neve». Todos se serviram.

    Os effeitos foram taes que quando os criados repassaram com a segunda
    roda de sorvetes, todos os convivas, com as boccas ainda abertas,
    estremeceram de horror, porque cuidaram que esses segundos gelados eram
    outra vez–os primeiros.

    Então um homem forte, que tinha ido para bordo armado de um violão,
    tentando arrancar a companhia a uma consternação abatida e geral,
    começou, a dedilhar o instrumento e a entoar uma chacara. Mas, de
    repente, suspende-se, torce-se, arripiam-se-lhe os cabellos,
    encurva-se-lhe a espinha dorsal, cae-lhe o violão desfallecido nos
    braços das senhoras, e o resto da chacara destinada aos eccos nocturnos
    do oceano e recolhida pelos circumstantes n'uma bacia.

    Era immenso a bordo o desalento.

    Mathias Ferrari, descorçoado, abatido, já «não fazia correr os
    serviços.» Este grande confeiteiro, dominando inteiramente a situação
    com a profundidade da sua critica, comprehendera–e muito bem!–que a
    questão ali já não era de _fazer correr_, mas de _fazer parar_.

    Era alta noite quando o vapor abicou outra vez á praia de Belem,
    recolhendo-se todos perfeitissimamente satisfeitos pelo modo como se
    passara tão bello tempo. Apenas, para que desembarcassem, houve o
    pequeno trabalho de virar os que tinham assistido a esta festa, a mais
    brilhante talvez que se tem dado no Tejo, por que os convivas em virtude
    dos reiterados exforços que tinham feito no mar para puxar para fora o
    interior, succedera-lhes terem-o effectivamente conseguido, e haverem
    chegado todos a terra–pelo avesso.

    * * * * *

    Com a mais extranha commoção lemos ultimamente que fôra nomeado aio de
    sua alteza o principe real sua ex.ª o sr. Martens Ferrão, abalisado
    jurisconsulto e procurador geral da corôa.

    * * * * *

    É talvez uma bem perigosa temeridade da parte de prosaicos e obscuros
    burgueses como nós somos o atrevermo-nos a meditar um momento no que
    possam ser perante a educação e perante a sciencia as attribuições
    especiaes de um aio junto de um principe. Todavia–debalde procurariamos
    escondel-o–em presença de similhante assumpto, profunda e illimitada é
    a confusão do nosso espirito. Por isso que, por mais assignaladas que se
    nos representem as differenças que devem distinguir o alto e poderoso
    filho de um monarcha do mero filho de um fabricante de velas de cebo,
    nunca, por maiores que sejam na direcção do infinito os arrojos da nossa
    phantasia curiosa, nunca podemos chegar a alcançar, nem pelas
    presumpções mais vagas nem pelas mais remotas suspeitas nem pelas mais
    affastadas conjecturas, qual o emprego pratico e effectivo que possa dar
    um principe aos prestimos de um aio. Para satisfação de que
    necessidades, de que conveniencias ou de que simples formalidades, em
    que condições, em que circumstancias, em que especial momento da
    preciosa e augusta vida do real infante vae sua excellencia o aio á
    presença de sua alteza o principe?!… Nós o ignoramos.

    Porque, quando as ordens de sua alteza procedam das necessidades do seu
    espirito, das curiosidades da sua intelligencia, dos interesses da sua
    instrucção, sua alteza pedirá naturalmente algum dos seus mestres ou
    algum dos seus livros, e a sua alteza será então applicado um professor
    de linguas, um compendio do sr. João Felix ou um numero do _Diario de
    Noticias_. Quando os desejos manifestados por sua alteza dimanem das
    urgencias physicas da sua naturesa, das fatalidades animaes do seu
    organismo ou do seu temperamento, sua alteza pedirá o seu banho, o seu
    jantar, as suas pastilhas ou o seu escarrador; e então os camaristas de
    sua alteza, as suas aias e os seus escudeiros cumprirão os desejos de
    sua alteza.

    E não vemos, nem na ordem physica, nem na ordem moral, nem na ordem
    inlellectual das relações de sua alteza com o mundo externo, a
    necessidade, a conveniencia ou a plausibilidade da intervenção do aio.

    A não ser que a concorrencia d'esta legendaria entidade methaphysica se
    deva considerar nos reaes paços como um acepipe _hors d'oeuvre_ ou como
    um objecto supplementar de recreio, porque então comprehendemos de certo
    modo que ao serviço particular de sua alteza um camareiro exclame:

    «Está o _lunch_ na mesa: ha _galantine_, rabanetes e o sr. Martens
    Ferrão com salsa picada e manteiga fresca.» ou então: «Eis os brinquedos
    de sua alteza: aqui está a bola de guttapercha e a caixa com o sr.
    Martens Ferrão de engonsos.»

    * * * * *

    Se porém–e perdoe-se-nos esta hypothesese, sob a senhoreal e demievica
    palavra «aio», devemos entender a idéa perfeitamente logica, sensata,
    popular, de um preceptor pratico, de um mestre experimental, de um
    amigo, de um companheiro, n'esse caso notaremos com o mais profundo
    respeito a Sua Magestade a Rainha, dedicada mãe e primeira educadora do
    joven principe, que foi singularmente illudida a sua perspicacia
    elegendo o sr. Martens Ferrão como conselheiro official e privado de seu
    filho, como guia experimentado da candida existencia inexperiente do
    innocente alumno. E isto por uma razão que de nenhuma maneira desabona
    os altos merecimentos de sua excellencia o actual senhor procurador
    geral da corôa, antes pelo contrario os confirma e corrobora. Esta razão
    é que: o sr. Martens Ferrão, pela sua natureza, pela sua organisação,
    pelo seu temperamento, pelo seu caracter, pela sua biologia, é tão
    inexperiente, tão candido, tão ingenuo, tão innocente e tão puro como o
    proprio alumno que elle é chamado a aconselhar e a dirigir na difficil e
    complicada navegação da vida.

    Passando em tenros annos do regaço d'aquella que lhe deu o ser para os
    braços da austera jurisprudencia, que tinha de amamental-o para a
    sciencia e para a gloria, o sr. Martens Ferrão tem até hoje passado a
    sua vida _en nourrice_ em casa do Direito Publico.

    Os seus dias teem decorrido transcendentemente fora das condições
    historicas do tempo e do espaço. A sua existencia tem sido
    exclusivamente mystica e symbolica. Quando tem os seus impetos mais
    ferozes de extravagancia, de anarchia, de deboche, elle sae a passear
    pelas viçosas campinas da philosophia do direito e faz patuscadas
    orgiacas e escandalosas com as origens celticas do direito e com as
    liberdades municipaes do imperio romano. Depois o remorso apodera-se
    d'elle. No dia seguinte acorda pallido, abatido, com a lingua grossa: o
    espectro pavoroso e formidavel do sr. Batbie appareceu-lhe em sonhos, e
    elle ouviu vozes vingadoras que lhe bradavam das profundidades da noite
    e do arrependimento: «João Baptista, para onde deixaste o direito de
    punir? que fizeste do direito administrativo, João? que é do direito
    internacional, Baptista?!» Taes são os seus dias de mais desdem, de mais
    anormalidade, de mais sexo, de mais jogo e de mais champagne! tal é o
    seu despertar contricto para a legalidade, para a descentralisação
    districtal e para as reformas de administração! Tal, resumidamente, é
    elle! E quando dizemos _elle_, commettemos uma incerteza de
    concordancia, porque tão pura, tão transcendental, tão scientifica é a
    personalidade do sr. Martens Ferrão, que nada obsta a que a historia
    referindo-se a sua excellencia, em vez de dizer _elle_, diga–_ella_.
    Pela nossa parte, aguardando ácerca da resolução d'esse ponto as
    ulteriores disposições definitivas da posteridade, diremos por emquanto
    simplesmente _el_, sem a desinencia de genero, sob a respeitosa formula
    neutra.

    Como diziamos, pois, tal é–el.

    * * * * *

    Analysando, timidamente como o temos feito, a nomeação do sr. Martens
    Ferrão para aio do principe real–note-se bem isto–não é a sorte de sua
    alteza o que nos inspira receios sob a guarda de um tal guia … Ah! não!
    É pelo contrario o destino de sua excellencia o que nos inquieta sob a
    influencia de um tal companheiro. Por _elle_ podemos estar perfeitamente
    socegados. Mas _el_? o que será d'_el, el_ tão puro ou pura, tão
    candido ou candida, sob os impulsos da nova existencia que
    repentinamente vae no seu temeroso vertice arrebatal-o ou arrebatal-a?!

    Na vida da côrte, fina, scintillante, irritavel, cheia de factos, de
    commoções, de rasgos de espirito e de valor, de emboscadas, de
    surpresas, de malicias, de tentações, quantos perigos, quantos laços,
    quantas ratoeiras para a innocencia virginal, para a candida pureza
    inexperiente e inerme d'_el!_ …

    Os principes por effeito da sua vida reclusa, claustral, vigiada,
    monotona, amam naturalmente a escapada, o mysterio, a aventura, a
    innocente anormalidade. Apraz-lhes a sortida arriscada, a partida
    carnavalesca, o ruido dos festins secretos, a mascara inescrutavel, a
    longa capa dramatica e a espada ligeira e subtil dos paladinos;–o que
    se lhes deve relevar, porque é esse o unico despique dos principes para
    a secca official dos intrigantes, dos bajuladores, dos ambiciosos, dos
    sensaborões e dos hypocritas que ordinariamente os rodeiam. Estes porém
    não são ainda para _el_ os unicos perigos. Não é licito esconder que ha
    outros mais e muito mais temerosos. Pensemos nas influencias
    tempestuosas d'esse elemento, terrivel para a mocidade, que se chama–a
    mulher. Sentimos magoar com este promenor a pudicicia do sr. procurador
    geral da corôa, mas esta é a verdade que não devemos occultar aos olhos
    de sua excellencia. Diz Michelet, o casto, o austero Michelet, que em
    todo o tempo a mulher attrahiu o homem, assim como a vinha da Italia
    chamou os gaulezes, e a laranja da Sicilia chamou os normandos. Ellas
    chamam-nos, ó srs. procuradores geraes da corôa, ellas chamam-nos!
    Lembremo-nos da bella Helena, sr. Martens Ferrão, lembre-mo-nos de
    Semiramis, de Cleopatra, da casta Penelope, das Sabinas!

    Os principes não estão mais isemptos que os outros homens d'esta lei
    geral da humanidade, e os que vivem com elles–ponderemol-o bem–ficam
    sujeitos ás mesmas influencias que envolvem os reis.

    Guilherme VII, cuja fé religiosa era tão ardente que elle foi á Terra
    Santa com cem mil homens, o proprio Guilherme VII levou tambem na viagem
    do Santo Sepulchro a galante legião das suas amantes, e diz d'elle uma
    velha chronica que, bom trovador e bom cavalleiro d'armas, por muito
    tempo correra o mundo _para enganar as damas_. Tal é a raça de que elles
    sáem, ás vezes, quando não sáem peores que o mystico e piedoso
    Guilherme! Que a actual procuradoria geral da corôa emquanto é tempo o
    medite!

    De Francisco I, um dos mais sabios e dos mais uteis reis que tem tido o
    mundo, diz-se que ás bellas milanezas se deve a mais importante parte na
    perseverança com que elle combateu pela conquista da Italia.

    Sem fallarmos na cohorte das peccadoras, tão gentis como funestas, dos
    _boudoirs_ de Luiz XIV e da Regencia, recordemos ainda as dissolutas e
    ferozes mulheres da côrte de Carlos IX, Catharina de Medicis, Maria
    Touchet, e as grosseiras amantes torpes de Luiz XI, a Gigogne e a
    Passefilou … Oh! pudor! oh decoro! oh reforma administrativa!

    Suppondes que a educação, os exemplos salutares e os conselhos sabios
    possam preservar os principes dos perigos das suas ligações
    clandestinas? Mas quando assim pudesse ser, quantos outros riscos na
    propria convivencia legal das mulheres legitimas!

    Um dia Maria Laczinska, legitima mulher de Luiz XV, recusou um beijo ao
    rei com o fundamento de que este cheirava a vinho. Luiz, segundo a
    expressão pittoresca de um chronista das galanterias escandalosas do
    seculo passado, começava então _a tomar o gosto ao champagne_. O rei
    resolveu n'esse dia nefasto separar-se para sempre da rainha, e são
    sabidos os desgostos e as desgraças que o rompimento d'essas relações
    custou á felicidade da França e á moral da Europa. Que remorso para o
    aio de Luiz XV! Foi d'elle a culpa d'esse desastre. Se o aio do joven
    rei, em vez de começar _a tomar o gosto ao champagne_ juntamente com o
    seu alumno, fosse, como pelo contrario devia ser, um experimentado e
    antigo _soupeur_, conhecedor esperto de todas as ciladas armadas ao
    homem pela bebida e pelo amor, elle teria evitado o divorcio do rei.

    Tel-o-hia evitado, porque teria ensinado ao seu alumno, com a
    auctoridade da experiencia, que a intemperança nas ceias e o abuso no
    champagne produzem as hepatites, as predisposições para a apoplexia e
    para a gotta e a manifestação das areias no rim. Se o principe não
    obedecesse a estes conselhos e persistisse em ceiar, n'esse caso o seu
    aio lhe faria comprehender que depois de ter bebido champagne nenhum
    homem vae conversar com senhoras sem ter concluido a sua digestão e sem
    haver previamente lavado a bocca com um elixir dentifrico. Um pequeno
    passeio ao ar livre, uma gota de laudano ou uma pastilha, qualquer
    d'estas tres coisas ministrada opportunamente por um aio intelligente e
    dedicado, teria obstado ao rompimento das relações de Luiz XV com sua
    mulher e a todas as consequencias que d'ahi se seguiram.

    Algumas vezes succede ainda que, além de todos estes desgostos, d'estas
    decepções e d'estes remorsos, os aios, os validos, os intimos dos
    principes levam ainda por cima pancada das princezas. N'este ponto as
    chronicas são prodigas de eloquentes e salutares avisos. Constancia de
    Arles, por exemplo, mulher de Roberto Pio, tinha taes accessos furiosos
    de mau genio que um dia vasou um olho do seu proprio confessor
    batendo-lhe com uma bengala que tinha no castão um bico de passaro. Esta
    mesma bengala nem sempre se conteve perante a pessoa inviolavel e
    sagrada da real magestade, e por muitas vezes se ergueu sobre as cabeças
    dos amigos mais particulares do rei para nem sempre deixar inteiros
    esses craneos dedicados e fieis. Foi a mesma sobredita princeza a que de
    uma vez mandou matar por occasião de um passeio, aos proprios olhos do
    soberano, o ministro De Beauvais, que lhe desagradava, e que, de outra
    vez impoz para o outro mundo um cortezão antipathico, estafando-o com
    uma corrida que o obrigou a dar n'uma caçada.

    * * * * *

    Ora se a corôa tem por um lado a obrigação de escudar a infancia e a
    innocencia dos principes, não deve por outro lado sacrificar a
    inexperiencia inerme das instituições pondo os srs. procuradores geraes
    como barreira entre as tentações e as culpas, lançando emfim a alta
    magistratura ao pego tenebroso, ao Mexilhoeiro insondavel em que ha o
    espumar dos vinhos capitosos, o sussurrar das sedas, o arfar dos leques,
    os sorrisos tentadores e as bengalas de castão de bico.

    * * * * *

    Algumas das pessoas que tiveram a honra de serem admittidas a jantar com
    as senhoras hispanholas que ultimamente se acharam em uso de banhos de
    mar, e de emigração, em Lisboa pedem-nos a nossa intervenção para
    dirigirem áquellas senhoras, aliás tão distinctas e tão interessantes,
    uma pequena observação que os seus amigos mais dedicados se não atrevem
    a fazer-lhes directamente.

    Suas excellencias teem á mesa o terrivel habito de comerem o peixe com a
    faca, o que os admiradores mais enthusiastas do fino sal de espirito de
    suas excellencias e do seu poderoso encanto de maneiras, não podem
    abster-se de considerar como uma concorrencia temeraria feita por suas
    excellencias aos acrobatas dos jogos malabares, unicos entes que
    insistem em accumular os seus meritos pessoaes com o talento
    supplementar de metterem as facas pela bocca.

    … Sendo certo ainda assim que os malabares que temos visto
    entregarem-se a este exercicio, servem-se o seu rodovalho á parte, e
    comem as facas–sem peixe!

    Submettemos estas simples reflexões a suas excellencias, as quaes em
    seu delicado criterio decidirão se, attentos os graves cuidados que nos
    inspiram, devem ou não continuar a manter–na lista dos seus acepipes
    predilectos–os faqueiros.

    * * * * *

    Durante este mez, tão inquieto, tão palpitante de commoções, em toda a
    Europa, os principes com mão nervosa e febril cultivaram a epistola.

    O Santo Padre escreveu ao imperador da Alemanha, o imperador da Alemanha
    escreveu ao Santo Padre, o conde de Chambord escreveu ao deputado
    Rodez-Benavent, o sr.D. Miguel de Bragança escreveu ao sr. conde da
    Redinha, e a historia em geral e os redactores da _Nação_ espeialmente,
    escutaram com ardor o fremito d'essas pennas riscando a face do universo
    com letras um pouco menos correctas que as de Cicero, de Plinio o moço e
    de madame de Sevigné.

    * * * * *

    O Santo Padre pede ao imperador Guilherme que obste a que o governo da
    Alemanha persista na perseguição do clero catholico. O imperador
    Guilherme roga a Sua Santidade que impeça o clero catholico de proseguir
    na rebelião contra o governo da Alemanha.

    D'este modo o Papa deseja que se retire da scena o martyrio, a grande e
    bella apotheose da egreja triumphante, e lembra ao verdugo que sirva aos
    martyres o antigo fel das legendas gloriosas com o moderno assucar dos
    confortos policiaes.

    O imperador opina que amargo de mais é o proprio calix que o obrigam a
    tragar, e tirando da cabeça o seu ponderoso capacete bellico de ponta de
    pára-raios, e humilhando-se dentro das suas botas de couraceiro,
    elle–abatido, beato, lacrimoso–pede egualmente para as suas
    tribulações de christão as correspondentes e proporcionaes doçuras.

    E taes são os dois maximos guardas da fé, os dois summos representantes
    na Europa moderna dos dois grandes ramos em que se acha dividida a
    christandade!

    Oh! Voltaire compungir-se-hia, e, franzindo n'um sorriso bom os feixes
    malignos das suas sarcasticas rugas, elle, o caustico philosopho, o
    livre espirito, tirando benevolo dos bolsos da sua houppelande de
    veludo e martas a caixa das suas pastilhas, offereceria ás potestades
    chorosas os bombons sacrilegos dos salões de Mesdames du Deffant e de de
    Lambert.

    * * * * *

    A carta do conde de Chambord é o velho golpe astuto de Jarnac jogado ao
    constitucionalismo monarchico.

    O principe a quem a França offerecera a corôa burgueza de Luiz Filippe,
    pergunta-lhe o que exige d'elle a França, que papel lhe destina, para
    que missão o invoca.

    Vós, que estaes na liberdade, na democracia, na republica, cedeis ao
    invencivel appetite de acclamar um rei. Comprehendestes que é superior
    aos vossos meios repressivos e reorganisadores a perturbação corrompida
    da sociedade em que viveis. Duvidaes da vontade, da intelligencia, da
    força do vosso accordo collectivo. Quereis uma iniciativa individual,
    culminante, prestigiosa, predestinada para o mando, para o triumpho,
    para a gloria; quereis o monarcha eleito como Saul «para livrar o seu
    povo das mãos dos seus inimigos», segundo a formula primitiva do
    propheta Samuel.

    N'esse caso armae a vossa cathedral de Reims, convidae os vossos
    principes do seculo e da egreja, trazei a corôa real, a espada, as
    esporas, a dalmatica azul, as botinas de seda estrellada de lizes de
    oiro, entregae-nos o sceptro de Carlos Magno, e dae-nos as sete uncções
    de Pepino o Breve. Depois do que, nós haveremos por bem deliberar por
    quaes secretos caminhos nos apraz mandar-vos, segundo as vossas
    gerarchias, para a victoria, para a bemaventurança ou para a força.
    Emquanto vós, tranquillos, repousados, deixareis definitivamente de
    occupar-vos da coisa publica, e, sem ambições, sem principios, sem
    idéas, tereis a felicidade absoluta da besta no seu aprisco; _hoc erit
    jus regis qui vobis imperaturus est_.

    Se, em vez d'isto porém, o que desejaes ter é, não uma força omnipotente
    que vos governe, mas sim um instrumento politico que manejeis; se para
    me outorgardes a corôa, precisaes de me tirar a iniciativa, a
    personalidade, a dignidade de homem; se para que me julgueis inoffensivo
    é preciso que eu vos mostre ser pôdre; se as garantias que me pedis para
    que vos não domine são uma fraqueza, uma corrupção, uma inepcia que vos
    assegurem a facilidade de me dominardes a mim, então não: não vos
    convenho eu, o derradeiro dos Bourbons fundadores da monarchia absoluta
    nascida dos terrores da Liga e da Saint-Barthelemy, descendente e
    herdeiro de Henrique IV, o que teve a dupla coragem da força e da
    miseria, o que na tomada de Cahors se bateu nas ruas durante cinco dias
    consecutivos, ôlho a ôlho, dente a dente, braço a braço, o que de Dieppe
    escrevia alegremente a Sully que tinha todas as camisas despedaçadas e
    um gibão roto nos cotovellos!

    Camille Desmoulins conta que em 1790 o poder monarchico era representado
    em Londres por meio de um bailado expressivo como uma parabola. N'este
    baile a primeira figura era um rei que terminava a execução de um
    _entrechat_ cheio de garbo e de pompa alongando um pontapé ao fundo das
    costas do seu primeiro ministro; este transmittia o pontapé real ao
    segundo ministro, o qual o traspassava ao terceiro, seguindo-se a mais
    viva e espirituosa corrente de pontapés que se tem visto n'uma côrte,
    até que o personagem que apanhava em cheio no seu volumoso e amplo
    hemispherio posterior o ultimo pontapé era o paiz–que ficava com elle.

    Nas monarchias constitucionaes imaginou-se reconstituir, por meio da
    carta, essa graciosa dança, alterando porém a collocação do soberano ou
    a ordem dos pontapés, de maneira que ou o principe está em baixo e os
    pontapés vem de cima, ou o tyranno está em cima e os pontapés vão de
    baixo.

    Os povos monarchicos julgam-se felizes tendo cada pessoa ao lado de si
    alguem a quem transmittir o pontapé em giro atravez das instituições e
    da politica. A carta do conde de Chambord não é em resumo senão o
    testemunho de uma divergencia com a assembléa nacional sobre este ponto
    importante do bailado em ensaios: quem é que recebe o pontapé?

    A um paiz corrompido e a uma assembléa senil não occorre esta
    consideração tão simples: que quando se trata de um stygma de servilismo
    e de baixeza a questão não é poder transmittil-o, é não dever
    acceital-o. Organisar pela monarchia a responsabilidade dos que se
    corrompem é abdicar a faculdade de demittir a corrupção. Os reis quando
    não enodoam os povos, tambem não lhes tiram as nodoas que elles tenham.
    N'esses casos o que limpa um paiz não é a realesa. Quereis saber o que
    é? Pois bem! É a benzina!

    * * * * *

    A carta do sr. D. Miguel de Bragança ao sr. conde da Redinha é ao mesmo
    tempo o tocante documento da estima inviolavel de um amigo ausente, e o
    authentico manifesto politico de um principe proscripto.

    Sua alteza declara ao _seu paiz_ que quer ser o protector e o amigo de
    todos os portuguezes e que considera como sua mais elevada ambição e sua
    maior gloria–restaurar o throno pontificio. N'este simples traço
    encarna sua alteza a expressão politica da sua indole,–o que nos parece
    de uma moderação de intuitos demasiadamente modesta.

    Diriamos que sua alteza folga em confundir-se na obscura legião invalida
    dos tyranos burguezes, dos cezares bonacheirões, Neros de barrete de
    dormir, Caligulas dyspepticos, Eliogabalos em uso do pronto alivio e da
    revalenta arabica. A politica affirmada por sua alteza accusa uma
    visivel pobresa de sangue. Sua alteza é um anemico. Tal é o infortunio
    da nossa raça! Que degeneração!

    O pae do joven principe D. Miguel era sanguineo, esse. A sua
    extraordinaria força muscular era a admiração respeitosa, a maravilha
    profundamente inclinada do _sport_ lusitano de 1827. Nas redondezas do
    paço de Queluz, nas terras do Infantado, via-se ás vezes atravessar os
    campos, a pé, caçando acompanhado do seu falcoeiro, um homem de mais de
    meia estatura, de solidos hombros, faces morenas, barba rapada, mãos
    enormes, beiços sensuaes, grandes olhos negros, rasgados, peninsulares;
    vestia um casaco de baetão verde, calção preto, botas altas, de cava,
    com tações de prateleira e esporas de prata; usava um bonet azul, do
    prato largo, com vizeira. Este homem, que amava a convivencia dos
    plebeus, a quem dava largas esmolas de dinheiro e de conversação,
    comprazia-se em ensinar a lavrar os moços do campo: tomava na mão
    esquerda a rabiça de um arado, azorragava com a direita uma parelha de
    mulas, e abria no solo mais empedrado e mais endurecido, sob a poderosa
    pressão do seu pulso, um rego profundo, extenso de um kilometro, e recto
    como um risco passado a regoa por um tira-linhas. Suffocava um forte
    cavallo de Alter puchando-lhe a ponta da cilha com os dentes. Segurava
    pela bocca, que juntava e cerrava no punho, um sacco de sete alqueires
    do trigo, e lançava-o ao hombro, com uma só mão, erguendo o braço por
    cima da cabeça e conservando o corpo immovel, erecto e firme. Quando
    vinha de Queluz a Lisboa, galopando á desfilada, com uma vara debaixo da
    perna, entre os seus companheiros mais assiduos, João Sedvem, o picador,
    o José Verissimo, o da policia, a força de soldados de cavallaria que o
    acompanhava, ficava aos poucos pela estrada destroçada pela fadiga: elle
    nunca chegou senão só. No dia em que recebeu ao pé da mata, na Quinta
    Velha, onde estava caçando ao falção, por volta das duas horas da tarde,
    a noticia de ter entrado a barra de Lisboa a flotilha que apresou e
    levou para França todos os nossos vasos de guerra surtos no Tejo, elle
    veiu de Queluz a Belem, em menos de tres quartos de hora. Esse homem que
    tinha a grande popularidade que trazem comsigo as legendas da força e da
    destreza physica, era sua magestade el-rei o sr. D. Miguel I.

    O soberano tinha os defeitos do homem e as qualidades dos seus defeitos.
    A sua politica era apopletica simplesmente porque elle era plethorico.

    Esse principe, com o seu temperamento, o qual constituia, politicamente
    assim como physiologicamente, toda a sua personalidade, fez á liberdade
    e ás idéas modernas o mais relevante serviço: foi elle o que fabricou o
    partido liberal portuguez.

    Os constitucionaes foram uma invenção da policia do sr.D. Miguel. Elles
    não combatiam o direito divino, nem os privilegios da nobreza e do
    clero, nem o regime absoluto, nem a servidão popular; o que elles
    combatiam principalmente era o José Verissimo. Affirmavam-se os direitos
    do homem porque se tinha percebido que esses direitos prejudicavam os do
    João Sedvem. Os revolucionarios portuguezes não vieram da sciencia, não
    vieram do amor da justiça, das impaciencias da liberdade, dos contagios
    da Convenção, da revolta da dignidade humana. Não. Elles vieram
    simplesmente dos carceres, dos carceres em que o regime despotico
    recalcou de mais a força viva da nação. Os principios eram o pretexto
    sob o qual se vingavam as offensas feitas não ás idéas vigentes, mas aos
    interesses estabelecidos. As denuncias partiam dos lesados. A idéa
    exposta na organisação da Companhia dos vinhos preoccupava mais os
    espiritos em Portugal do que o principio representado em França pela
    existencia da Bastilha. Havia martyres da liberdade que nunca tinham
    amado a liberdade com devoção mais intensa que a do Sedvem e que não
    teriam posto duvidas irremissiveis em continuar a «dobrar a cerviz, ao
    jugo da tyrannia» como se dizia no stylo do tempo; sómente o que elles
    tinham recusado era emprestar algumas moedas ao José da Policia. Para a
    maior parte da gente a victoria da idéa liberal foi simplesmente a morte
    do Telles Jordão. Finalmente o sr. D. Miguel de Bragança, _primeiro_,
    foi o principe cuja força fez na monarchia portugueza o rombo por onde a
    liberdade appareceu. O sr.D. Miguel de Bragança, _segundo_,
    figura-se-nos pela sua expressiva carta ao sr. conde da Redinha, uma
    pessoa extremamente debilitada. Ser o protector e o amigo de todos os
    portugueses é enfraquecer-se diffundindo-se. Os antigos fortes
    concentravam-se.

    Pobres de nós! Como somos diversos de nossos paes! Os plethoricos,
    sangrados, legaram á geração que lhes succedeu a impotente anemia!

    * * * * *

    Acabamos de lêr um livro que foi publicado era Lisboa ha cerca de tres
    mezes e a respeito do qual ainda não ouvimos á critica uma palavra de
    menção. Foi abafado pelo silencio. Se lhe não dessem esse destino teria
    sido um livro escandaloso porque foi inteiramente concebido fóra da
    rotina, fóra da convenção, fóra do compadrio, por um espirito
    justo, esclarecido, honrado, fatalmente inclinado ao bem.
    Intitula-se–_Portugal e o socialismo_, e é escripto pelo sr. Oliveira
    Martins.

    A litteratura portugueza actual apresenta este notavel caracter:–o
    bysantinismo. Ella não é um documento historico, nem um documento moral
    do tempo em que vivemos. Não tem importancia na direcção dos espiritos,
    não tem influencia na formação dos caracteres, não tem validade no
    estabelecimento dos principios. Não dá nenhuma theoria á razão, não dá
    nenhuma lei á consciencia, não dá nenhuma norma á dignidade.

    A imitação, a convenção, o servilismo, o estreito espirito de seita, de
    partido, de escola, a ignorancia, a indolencia, a bajulação, a
    orthodoxia official puzeram a pouco e pouco as lettras portuguezas
    inteiramente fóra do seu objecto–a simples e pura verdade humana.

    O que actualmente se escreve não é absolutamente nada o que actualmente
    se pensa. Todas as grandes questões capitaes que preoccupam a sociedade,
    a litteratura ou as evita ou as falsea. Ou as evita porque as não sabe
    tratar, ou as falsea porque as trata com um espirito particular de
    interesse, hostil á sciencia e rebelde á arte.

    Entre tantos escriptores portuguezes que quotidianamente enegrecem em
    Portugal o innocente papel sobre o qual se orça a medida das nossas
    faculdades, onde está o homem cuja obra represente o precurso das idéas
    predominantes d'este seculo atravez d'esta sociedade? Onde está o
    artista, onde está o philosopho, onde está o poeta que tenha atacado de
    frente a solução desinteressada, independente, firme, clara, nitida, dos
    multiplos problemas que agitam o espirito, a consciencia, o coração do
    homem moderno no meio do sentimento, do temperamento, da religião e da
    politica da sociedade moderna?

    Será tal escriptor o sr. Alexandre Herculano, philosopho collaborador da
    sr.ª D. Guiomar Torresão no _Almanack das Senhoras_?

    Será o poeta sr. Nunes, deputado conservador, o mais arrojado dos vates
    que conhecemos dentro dos limites da carta constitucional e do systema
    representativo?

    Não nos parece.

    O sr. Oliveira Martins faz parte de um pequeno grupo de alguns
    trabalhadores obscuros, inteiramente penetrados da corrente scientifica
    do tempo actual, que teem procurado introduzir na litteratura as idéas
    correspondentes ás preoccupações, ás necessidades e aos interesses mais
    altos, mais legitimos e mais vitaes da sociedade em que vivem, fixando
    assim scientificamente algumas das bases do programma geral da revolução
    por meio da qual se vae transformando o mundo europeu.

    Esses humildes obreiros, aos quaes cabe a gloria de terem iniciado em
    Portugal quasi todos os grandes principios das civilisações modernas,
    não teem encontrado, como galardão dos seus estudos, da sua
    independencia e da sua andácia de pensadores, senão a surda guerra das
    maledicências, das calumnias e dos desdens, evantada pelo obscurantismo,
    pelo fanatismo, pela ignorancia. Accusam-os de attentarem contra a
    moral, contra a religião, contra a ordem, contra o patriotismo, e
    expulsaram-os vilmente e infamemente do respeito publico e da
    consideração social como jacobinos, como communistas, como incendiarios.

    * * * * *

    É do livro acima citado que extrahimos a seguinte pagina tão sensata,
    tão viva, tão humana:

    «Portugal não tem pauperismo. É por isso que entre nós se não levantaram
    ainda, nem se levantarão já, Nelsons ou Sydney Smiths para dizerem como
    em Inglaterra: «A pobreza é infame.» É por isso que a definição ingleza
    da fabrica–_manufactura de algodão e de pobres_–não pode servir-nos. O
    não attingirmos porém um termo tão elevado de preversão social não quer
    dizer que as classes trabalhadoras de todas as industrias vivas do paiz,
    extractivas e transformadoras, encontrem para cá das nossas fronteiras
    um modo de vida essencialmente differente. Não, a nossa organisação
    politica, semi-monarchica, semi-liberal, dá em resultado ser duplamente
    absurda, immoral, pauperisadora. Porque, como liberal, permitte a livre
    concorrencia do capital e do trabalho, aliena as funcções e
    propriedades collectivas, e, para corrigir as consequencias de
    distribuição viciosa que d'ahi resultam, mantem uma protecção
    anachronica, com as alfandegas, com a divida e com o imposto, protecção
    que recaindo afinal toda no consumo, vem ainda aggravar as condições do
    trabalhador pela elevação no preço das coisas. Acima da preversão
    economica devemos pôr a preversão moral. No pequeno mundo industrial de
    Lisboa, não contaste nunca, leitor, aos sabados o numero de ebrios que
    povôa as vielas escuras e nauseabundas, onde á crapula vem juntar-se a
    orgia das mulheres perdidas? Onde o prostibulo está em frente da
    taberna, ao lado o bilhar, e entre o bilhar, o prostibulo e a taberna,
    se funde a feria?

    A desordem e a immoralidade são contra a natureza. Se esses homens não
    fossem pobres seriam melhores. Se não tivessem de trabalhar doze horas
    para comer saberiam ler. Se tivessem pão e liberdade seriam paes de
    familia. Olhae as mulheres e as creanças. Termo medio a familia tem
    quatro pessoas; termo medio o salario é de 400 réis. O trabalhador
    recorre ao celibato, á prostituição, ás relações illicitas, d'onde
    resultam os infantecidios (tão frequentes em Portugal como na China) e a
    roda dos expostos. Quando um homem foi agarrado por esta engrenagem
    d'aço morreu. Ha muitos a quem uma certa energia de caracter ou uma
    constituição artistica e sentimental levaram ao casamento e á familia: é
    então que se encontram quatro pessoas com quatro tostões por dia. A
    industria offerece uma tentação diabolica: augmentar o salario
    destruindo a familia. N'esse momento a esposa e os filhos entram na
    _fabrica_ …»

    * * * * *

    A fabrica é para as mulheres e para as creanças o sepulchro do pudor, da
    honestidade e da saude. Emquanto as instituições sociaes não assegurarem
    á mulher o seu legitimo logar na familia é absolutamente preciso que,
    pelo menos a protejam na miseria fatal da fabrica. Porque nas fabricas
    portuguezas o que succede com a mulher é que, pela sua fraqueza e pela
    sua ignorancia, ella é no trabalho o escravo do homem. Ninguem entre nós
    tem lançado os olhos a esses desgraçados destinos obscuros.

    * * * * *

    Acostura que ainda ha pouco era o grande refugio das raparigas pobres
    desappareceu com a machina de cozer. A mulher não póde sustentar essa
    concorrencia, porque ella não póde, por maiores que sejam os esforços
    dar por suas mãos mais de 30 pontos por minuto: a machina dá 643 pontos
    no mesmo espaço de tempo. Para se empregar n'outros serviços precisaria
    de uma educação preparatoria pratica, para a qual são indispensaveis as
    escolas profissionaes que não existem em Portugal. Em França, na
    Inglaterra, na Allemanha e principalmente na Suecia, as mulheres
    habilitadas em cursos especiaes teem já muitos empregos uteis na
    industria e no commercio. Em 1871 havia na Suecia 4:055 mulheres
    empregadas no commercio e na industria. D'estas 2:675 dirigiam os seus
    proprios negocios. Quinhentas e quatro mulheres eram proprietarias de
    fabricas e de officinas. Além d'isto muitas outras se achavam empregadas
    nos bancos, nas caixas de soccorros, nas companhias de seguros, etc. com
    emolumentos annuaes variando de 800 a 5:000 rixdalers. No serviço dos
    correios, dos caminhos de ferro, dos telegraphos, a mulher alarga de dia
    para dia os seus dominios. A America, a Suecia, o Wurtemberg,
    offerecem-lhe sob esse ponto de vista as maiores facilidades.

    Em Darmstadt muitas mulheres se acham empregadas nas repartições de
    estatistica com optimos resultados para o serviço publico. Os cuidados
    aos doentes são um bello emprego para o trabalho das mulheres. Na
    Hollanda muitas teem sido auctorisadas a tirar diplomas de
    pharmaceuticos. A profissão medica tem-lhes sido permittida em diversos
    paizes. Na America, em S. Petersburgo, em Zurich, em Upsel e em varias
    outras universidades ha um consideravel numero de alumnos do sexo
    feminino estudando a medicina. Na Suecia estabeleceu-se pelo estado um
    fundo permanente de soccorros para as mulheres que seguem a carreira
    medica.

    A ultima exposição de Vienna veiu provar ainda quanto as mulheres se
    teem ultimamente occupado nas artes industriaes e nas bellas artes. Na
    exposição sueca vê-se no pavilhão dos productos da industria o perfeito
    exito com que as mulheres teem cultivado n'aquelle paiz a pintura, a
    gravura em madeira, a xylographia, a lythographia, a gravura em cobre, a
    photographia, a cartographia, a pintura em porcelana, a modelagem. Na
    Suecia concedeu-se-lhes accesso, como aos demais empregados, nos
    serviços dos telegraphos, dos correios e dos caminhos de ferro.
    Admittem-as como gravadoras na casa da moeda; muitas são empregadas nas
    academias, nas imprensas e n'outros estabelecimentos como xylographas,
    impressoras, compositoras, directoras de officina, etc.

    Na Suecia ha hoje immensas escolas sustentadas pelo governo, pelas
    communas e por associações particulares onde ensinam ás raparigas pobres
    todos os trabalhos femininos do «ménage». Ha escolas especiaes
    destinadas a formar creadas. Em Stockolmo ha escolas de remendagem onde
    as raparigas aprendem a concertar os seus fatos e a sua roupa branca com
    um acceio e uma arte inexcedivel. As meninas burguezas teem á sua
    disposição a escola industrial de Stockolmo, as escolas normaes reaes, o
    instituto central de gymnastica onde se formam mestras de gymnastica, a
    academia real de musica, a academia das bellas artes os estabelecimentos
    de instrucção das parteiras e a mesma universidade, onde se ministram
    subsidios a tres raparigas que estudam por conta do estado. Depois da
    Suecia devem-se citar os Paizes Baixos e a Austria. Em Vienna a
    municipalidade fundou em alguns bairros escolas industriaes nocturnas.
    Sociedades de senhoras estabeleceram escolas profissionaes de
    differentes especies. Ha uma sociedade especial encarregada de obter ás
    mulheres meios de subsistência (Frauenerwerb-Verein). Além das escolas
    preparatorias para a instrucção geral elementar e para a instrucção
    superior, estabeleceu a referida sociedade uma escola de costura, uma
    escola superior de trabalho com um curso de estudos que dura tres annos,
    uma escola de desenho industrial, uma escola de commercio, uma escola de
    linguas, um curso especial para as empregadas na telegraphia. Na
    Hollanda é na escola industrial de Amsterdam que se instrue a mocidade
    feminina não só nos trabalhos manuaes, taes como o bordado, costura á
    mão e á machina trabalhos de cartonagem e obras de palha, escripturação
    commercial, legislação commercial e pharmacia. Na Alemanha do norte e na
    Alemanha central ha egualmente muitas escolas industriaes fundadas por
    sociedades especiaes e por outras corporações para a educação das
    raparigas e das mulheres. Um fabricante de Munich fundou uma excellente
    escola de ensino commercial para as raparigas da classe burgueza e da
    classe operaria. As mulheres que sáem d'esta escola encontram
    immediatamente emprego nos bancos, ou nas casas de commercio.

    A Russia resolveu ultimamente facultar a matricula na escola de medicina
    de S. Petrsburgo ás mulheres habilitadas com determinados titulos de
    capacidade. Logo depois da promulgação d'esta lei, quatrocentas mulheres
    se apresentaram como candidatos á frequencia da alludida faculdade.

    * * * * *

    Sabem dizer-nos o que é que, sob este ponto de vista, se tem feito em
    Portugal? Esperamos que suas excellencias os senhores conservadores se
    dignarão responder-nos.

    * * * * *

    O sr. marquez de Vallada mandou correr este mez os reposteiros
    brasonados dos seus salões para inaugurar as soirées elegantes do
    presente inverno com um jantar _prié_.

    Assistiram todos os membros do gabinete e varios outros personagens
    illustres na politica e na burocracia. Sentia-se apenas uma falta n'essa
    reunião selecta: a ausência absoluta de senhoras no palacio do nobre
    fidalgo. Bem sabemos que um jantar não é precisamente como uma valsa
    para a qual a gente não ha de ir convidar a lagosta, nem dançar com o
    perú. Mas mesmo para o que é comer não basta apenas a comida. O sr.
    marquez sabe a este respeito a opinião de Savarin: o bruto pasta, o
    homem come, só o homem de espirito é que sabe comer. Ora uma duzia de
    barbatolas postos a mascar trufas uns diante dos outros em volta de uma
    mesa não nos parece que deem o espectaculo da espiritualidade mais fina.
    É preciso que concorram tambem as senhoras, com a _toilette_, com a fina
    pelle, com os perfumes, com as rendas, com as perolas, com as frescas
    risadas cristalinas, com os agudos ditos penetrantes, com a elevação
    finalmente, com a idealidade, com o espirito.

    * * * * *

    Atravessar a gente por entre duas filas de criados gordos e graves como
    embaixadores, indo por baixo dos lustres, pizando um tapete espesso,
    dando o braço a alguem, ou seguindo mesmo, atraz, sosinho, na turba dos
    obscuros, com a claque debaixo do braço; entrar na sala de jantar,
    tepida, fulgurante de luz; contemplar a mesa de um aspecto tropical pela
    natureza das fructas e pela fórma das flôres trasvasadas do plateau,
    procurarmos o nosso nome nos bilhetes que estão em cima dos guardanapos;
    sentarmo-nos ao dôce murmurio dos vestidos que se enfôfam ao nosso lado
    e dos talheres que telintam; desdobrar nos joelhos um amplo guardanapo,
    frio, lustroso e pesado, de linho de Irlanda; aconchegarmo-nos, unirmos
    os cotovellos ao corpo e inclinarmo-nos sobre o prato; metter na bocca a
    primeira colher do sopa, sentir estalar e derreter-se no dente o
    primeiro rabiolo, escorrendo no paladar o acre succo dos espinafres, em
    quanto a nossa visinha da esquerda mette a sua luva enrolada no copo do
    Madeira, e a nossa visinha da direita morde atrevidamente no pão
    deixando-nos vêr de lado todos os seus pequeninos dentes mais lindos que
    as suas perolas … isto é realmente acharmo-nos n'um dos momentos mais
    augustos que a civilisação e a elegencia concedem ao homem em paga dos
    sacrificios que elle lhes tem feito nos esmeros da educação e na alta
    cultura do espirito. É então que as mulheres, sómente as mulheres–ellas
    que vivem na graça e no mimo como os solitarios vivem no egoismo e no
    tedio–desenvolvem o talento especial de fazer romper os alados
    assumptos ligeiros e subtis, em torno dos quaes adejam as conversações,
    as phantasias, as replicas, os repentes, como doiradas abelhas famintas
    sobre um ramo de rosas.

    Se n'esses momentos os homens se acham sós, ou caem na bestialidade
    indolente e calada dos deuses de Epicuro, ou discutem, questionam,
    fallam alto, gritam, põem os cotovellos na mesa, fazem gestos, fazem
    bolas de pão, dão estalos com a lingua, limpam as unhas, e quebram
    palitos nos dedos–o que ha mais implicativo dos nervos e mais offensivo
    do gosto.

    * * * * *

    Consta-nos que pelas razões referidas o jantar do sr. marquez tocou um
    pouco no tetrico. O silencio era a principio tão solemne que apenas se
    ouvia confusamente o ruido da maioria parlamentar engolindo pelo
    esophago do ministerio e a ordem e a guarda municipal mastigando pela
    bocca do sr. barão do Zezere. Tinha-se ar de se estar n'uma sessão
    deliberativa e não n'uma festa; parece até que o sr. marquez de Avila, o
    illustre parlamentar, dirigindo-se a um criado, se mostrára gravemente
    preoccupado ao ponto de que, sendo a sua intenção pedir-lhe Sauterne,
    lhe pedira a palavra.

    Por fim parece que o dono da casa usara da fala para expôr o objecto
    d'aquella reunião, o qual, segundo referem os jornaes, foi:

    _Affirmar a adhesão do sr. marques de Vallada á monarchia_.

    * * * * *

    Achamos extremamente louvavel e digno de ser imitado por todos os
    fidalgos portuguezes o exemplo dado pelo sr. marquez de se sacrificarem
    pelo throno ao ponto de não hesitarem um momento, para o salvar, em
    irem … para a mesa!

    Os vossos avós, quando queriam dedicar-se ao esplendor da corôa iam
    bater-se em Arzilla, em Ormuz, em Ceuta, em Tanger, descobriam terras,
    venciam batalhas, conquistavam reinos.

    Quereis provar-nos que ainda guardaes nos vossos archivos as antigas
    cartas do roteiro dos mares? Que ainda tendes nas vossas panoplias as
    duras armaduras e as famosas lanças dos vossos maiores? Muito bem! Visto
    que não podeis refazer o que está já feito por elles, começae pelo menos
    a realisar o que elles tantas vezes omittiram: jantae!

    E a corôa verá, pela maneira como vos mostrardes aptos para comer,
    quanto sois capazes de amar.

    Assim como o Castro forte dizia que por cada pedra da fortaleza de Diu
    elle daria um filho, mostrae vós que por cada perna de perú trufado
    sereis capazes de dar um avô. E o soberano, jubiloso e grato,
    contemplando por cima da gloriosa terrina da historia contemporanea, os
    feitos valorosos dos vossos garfos invenciveis, apreciará os vossos
    titulos de immortalidade, discriminando, no ardor e na confusão das
    refregas, os que se lhe dedicam até ao pato com arroz, os que o
    estremecem até ao frango com hervilhas, os que o idolatram até ás
    salchichas com couve lombarda!

    * * * * *

    Mas por Deus, meus senhores, consenti que vol-o repitamos: Não excluaes
    dos agapes patrioticos com que preparaes a entranha para a communhão
    monarchica, o doce elemento feminino, o melhor encanto do triumpho, o
    mais alto premio do heroismo, o mais precioso complemento da gloria! Se
    a prosmicuidade dos sexos insuperavelmente vos repugna, que alguns de
    vós pelo menos se sacrifiquem ás conveniencias da arte, ás prescripções
    do bello, e salvem sequer as apparencias–vestindo-se de mulheres!

    Animo, senhores commandantes dos corpos! animo, senhores officiaes
    maiores! animo, senhores ministros de estado! É por ellas, que vos
    pedimos isto, pelas que tiveram sempre o seu logar nas nossas gloriosas
    tradicções dymnasticas! Lembrae-vos d'ellas, e ide lançar-vos aos pés da
    Aline! Lembrae-vos d'ellas, e consenti em decotardes os vossos hombros!
    Elanguescei, meus senhores, reclinae meigamente as frontes, cerrae
    levemente as palpebras, agitae um pouco os vossos leques, dae suspiros,
    ponde tações de setim escarlate, vinde de cuia! e, sobretudo–não o
    esqueçaes–trazei _tournure_ … Que vos custa trazer _tournure_? Uma
    coisa tão facil, que se traz como as patronas!

    É pelo throno, pelo mesmo throno de que vos declaraes adeptos, que vos
    supplicamos isto! é pelas vossas excelsas e augustas soberanas, não
    representadas no vosso banquete … Em nome de Mecia Lopes, meus
    senhores! Em nome de D. Urraca!

    * * * * *

    A imprensa de Lisboa não tem opinião. Aquelles dos seus membros que por
    excepção presentem as idéas proprias, vivas, originaes zumbindo-lhes
    importunamente no cerebro, enxotam-as como vespas venenosas. É que a
    missão do jornalismo portuguez não é ter idéas suas, é transmittir as
    idéas dos outros. Por tal razão em Lisboa o homem que pensa não é nunca
    o homem que escreve. O jornalista nunca se concentra, nunca se recolhe
    com o seu problema para o meditar, para o estudar, para o resolver.
    Nunca procura a verdade. Procura apenas a solução achada pelo publico,
    pelo publico d'elle, pelo seu partido politico, pelos consocios do seu
    club, pelos seus amigos, pelos seus protectores, pelos seus assignantes.
    Portanto trabalha na rua, debaixo da arcada do Terreiro do Paço, nos
    corredores ou nas tribunas de S. Bento, no Chiado, no Martinho, no
    Gremio. Como trabalha? Trabalha d'este modo: _informando-se_;–é o termo
    technico. Uma vez informado, o jornalista considera-se instruido. Desde
    que tem a informação recebida tem o jornal feito. O que elle vos escreve
    hoje–notae-o bem–é o que vós lhes dissestes hontem. O jornal não é uma
    fonte de critica, de analyse, de investigação. O jornal é o barril de
    transporte das idéas em circulação, das soluções previamente recebidas e
    approvadas pelo consenso publico. O jornalista é o aguadeiro submisso e
    fiel da opinião. Não a dirige, não a corrige, não a modifica, não a
    tempera. O unico serviço que lhe faz é este: transporta-a dos centros
    publicos aos domicilios particulares. O publico é a nascente, é o veio,
    é o manancial; a imprensa periodica é simplesmente–o cano.

    * * * * *

    Essa é a lei geral da conducta da publicidade em Portugal. Toda a
    transgressão d'essa lei é um eminente perigo para o que a commette. O
    leitor portuguez não quer que o seu livro ou o seu periodico o obriguem
    ás fadigas da discussão e da controversia com o seu proprio espirito. A
    conquista desinteressada e pura da verdade não tem attractivo algum para
    as suas faculdades. As curiosidades e os interesses especiaes da alma
    portugueza repastam-se no sentimento: a reflexão molesta-a. Entre tantos
    escriptores nacionaes nunca houve um pensador. Descartes, Spinosa, Kant
    seriam inteiramente impossiveis no seio d'esta sociedade, a que falta a
    respiração logo que a tirem da rotina. Não se lhes dá, aos leitores
    portuguezes, de verem a verdade, mas querem a verdade atravez da
    opinião. Ninguem pensa fóra das materias da ordem do dia. «Que ha de
    novo?» é a nossa pergunta de todas as manhãs. Esta phrase profundamente
    caracteristica quer dizer: «Dêem-me a senha e a contrasenha; digam-me em
    que pensam para eu saber o que hei do pensar.» O meu jornal vem bom ou
    vem mau segundo é ou não é em cada dia a expressão das minhas convicções
    baseadas em idéas preconcebidas na convivencia do publico. O criterio é
    substituido pelo _mot d'ordre_.

    Se n'um tal meio intellectual apparece um miseravel solitario, que não
    tem um partido, que não tem um centro, que não tem um _club_, que não
    tem sequer um botequim, mas que, não obstante, segue os successos do seu
    tempo e exprime a respeito d'elles uma opinião absolutamente individual,
    isto é–livre, sobre esse homem cáem todas as suspeitas, todas as
    presumpções malevolas que acompanham atravez de uma multidão apalavrada
    um intruso mysterioso e sinistro. Tal é a especie de acolhimento que por
    differentes vezes nos tem sido feito e que mais particularmente nos foi
    manifestado depois da publicação do nosso ultimo numero a proposito de
    dois artigos, um consagrado ao sr. Alexandre Herculano, outro destinado
    á casa de correcção installada no convento das Monicas.

    * * * * *

    Lemos alguns dos artigos que nos foram consagrados, e achamo-nos
    inteiramente edificados ácerca do nosso desacato ás instituições
    publicas e da nossa irreverencia com as glorias nacionaes.

    Sómente, meus senhores, uma coisa nos parece ter-vos esquecido, e é:
    demonstrar-nos que a reverencia das instituições e o respeito das
    celebridades gloriosas seja um instrumento de critica ou um meio de
    analyse. Porque nós–talvez o não tenhaes comprehendido bem–nós não
    somos propriamente os mestres de ceremonias da geração a que
    pertencemos. Não estamos aqui a leccionar mesuras nem a praticar
    experiencias sobre a variedade das curvas mais ou menos inclinadas a que
    se nos presta o espinhaço. Nós somos apenas uns simples chronistas do
    tempo que vamos atravessando. Somos os contribuintes especiaes do mez
    para a historia geral do seculo. Ora não será pondo-nos humildemente de
    cocoras no chão que nós veremos de mais alto as coisas e os homens. No
    exame e na apreciação dos factos o minimo vislumbre do respeito é um
    perigo da verdade. Michelet, demolindo no seu ultimo livro a legenda
    napoleonica filha da reverencia da historia pelo falso heroismo de
    Bonaparte, mostra-nos que a fascinação grosseira produzida pelo «heroe
    de Marengo e de Austerlitz» teria cahido perante o bom senso e perante a
    gargalhada, se a França não tivesse perdido, depois do Terror, o riso, a
    sua grande arma contra os tyrannos.

    O primeiro dever da critica diante dos grandes acontecimentos e dos
    grandes personagens é simplesmente o despreso ou a zombaria … Michelet
    diz mesmo «o sacrilegio» como instrumento da verdade! e aconselha-nos
    que imitemos como historiadores o exemplo de Renaud de Montauband
    pegando n'um tição para barbear Carlos Magno.

    * * * * *

    De resto, meus senhores, para que se mantenham na decencia do culto as
    tradições patrioticas, parece-nos inutil que nós nos occupemos d'isso.
    Lá estaes vós, diligentes e sollitos, para espanardes as teias da aranha
    aos velhos principios, para varrerdes as instituições veneraveis, e para
    conservardes em bom estado os heroes e os sabios, limpando-lhes as golas
    das sobrecasacas, engraxando-lhes os sapatos e pondo-lhes rapé novo no
    nariz.

    * * * * *

    Chegámos tarde para fallar da grande tragedia monumentosa do
    Mexilhoeiro. O paiz inteiro se pronunciou já sobre este caso, o maior da
    historia contemporanea. O facto tem sido largamente tratado em artigos
    de jornaes, em folhetins, em trechos de romance, em pias legendas, em
    dramas, em _te-deuns_ cantados em todas as cathedraes, em polkas
    expressivas, em missas rezadas em todas as egrejas, em felicitações de
    todos os municipios, em sentimentaes mazurkas.

    Uma só coisa nos parece que falta, e é a que propomos: um monumento que
    eternise tão alto successo, levando ás gerações vindouras esta lapide:

    AOS MOLHADOS
    POR UMA FRIA TARDE
    NO PEGO DO MEXILHOEIRO
    A GLORIA
    RECONHECE N'ESTE MONUMENTO
    OS IRREFRAGAVEIS DIREITOS
    DE TÃO ILLUSTRES VICTIMAS
    Á
    CONSTIPAÇÃO

    INDEX

    _Dos volumes d'esta chronica_

    PUBLICADOS ATÉ HOJE

    I–Maio………………. 1871

    II–Junho……………… »

    III–Julho……………… »

    IV–Agosto…………….. »

    V–Setembro…………… »

    VI–Outubro……………. »

    VII–Novembro…………… »

    VIII–Dezembro…………… »

    IX–Janeiro……………. 1872

    X–Fevereiro………….. »

    XI–Março……………… »

    XII–Abril……………… »

    XIII–Junho a julho………. »

    XIV–Julho a agosto……… »

    XV–Setembro a outubro….. »

    XVI–Novembro…………… »

    XVII–Dezembro…………… »

    XVIII–Janeiro a fevereiro…. 1873

    XIX–Março a abril………. »

    XX–Outubro a novembro….. »

    Nota. D'hora ávante cada um dos volumes d'esta publicação será marcado
    com o correspondente numero.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03 04)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-03 04)

    Aproximadamente 15.695 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS–R. ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Março a Abril de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de si mesmo.

    P.J. PROUDHON.

    SUMMARIO

    O sr. _Alexandre Herculano_, opusculista. Os semi-deuses e os rapazes.
    As armaduras e as flanellas. _A Voz do Propheta_, geremiada de salão. A
    biblia-cacete. Deus cartista. Reincidencia do milagre de Ourique. Os
    egressos e Pharaó. A censura dramatica. As conferencias democraticas. Os
    fins da arte e a bisca sueca. Em que o sr. Herculano se parece com
    Theodosio II. A tristeza chronica do grande homem e o pronto-alivio de
    Radway. A velhice e a arte. Os martyrios de vinheta. Spinosa,
    Campanella, Diderot e Proudhon. Victor Hugo, Michelet, Quinet, Raspail e
    Carl Marx. O sr. Herculano Salomão e nós o bôbo Marcullo.–João Felix
    Pereira, historiador. Os compendios da instrucção publica e as
    equarissages.–O sr. D. Fernando em Coimbra. Os rouxinoes do Mondego e
    seus principios politicos.–A casa de detenção nas Monicas. O edificio,
    as camaratas, o refeitorio, as officinas, a escola. A instrucção, a
    catechese, a hygiene, a moral. A direcção technica. A colonia
    penitenciaria de Meltray. Contrastes. Se é dado aos vadios rehabilitarem
    se fazendo-se dezembargadores ou coroneis–As curiosidades infantis da
    Republica Portugueza–_Duas palavras aos leitores das Farpas_, folheto
    brazileiro. O commercio, a instrucção e a industria no Brazil:
    testemunho insuspeito e juizo final. O sr. Mathias de Carvalho e a
    actriz Emilia Adelaide. A America e a rainha Fulvia, a lingua de Cicero
    e a nossa.–O alto dandysmo. As ultimas corridas no Campo Grande. O
    Sport e o Lagoia. Perfil do _high-life_. Os srs. De Lagrange, De Mouchy,
    Rothschild, Dudley Stuart. João Russo e Chico Perfeito. Hurrah! pelas
    tipoias vencedoras–Representação da comedia _Magdalena_. Os caracteres,
    os costumes, a peça. Conselhos amigaveis ás burguezas honestas.–Um anjo
    catholico e uma jovem deusa da Razão, typos da litteratura e da moda.–O
    leilão do espolio de sua magestade imperial.

    O sr. Alexandre Herculano acaba de publicar sob o titulo de _Opusculos_
    um livro em que, além de uma refutação erudictamente argumentada e
    inedita da portaria que suspendeu as conferencias democraticas do Casino
    Lisbonense, se encontram apenas reedições de algumas antigas obras do
    illustre escriptor.

    Reapparecendo assim na publicidade, reentrando na lucta das idéas novas
    com os velhos engenhos de guerra despendurados dos arsenaes de 1836 ou
    1843, sua excellencia lembra-nos demasiadamente o antiquario que sáe a
    combater forças vivas á frente das naturezas mortas do seu museu,
    formando em batalha contra os entes animados da creação os jacarés
    empalhados e os monstros em espirito de vinho da sua galeria curiosa.

    * * * * *

    Os discursos d'estas paginas antigas, a que sobejam por um lado os
    accessorios artificiaes da rhetorica e a que faltam por outro lado, com
    as opportunidades do momento em que foram concebidas, as condições de
    uma existencia necessaria e real, fazem-nos o effeito de armaduras
    primorosamente cinzeladas, mas suspensas em ripes de pinho, finos
    capacetes de viseiras caladas sobre caraças de papelão com verniz de
    cera côr de rosa e olhos de vidro.

    E causa-nos pena isto: que tantos apparatos de força e tão solidos
    instrumentos de guerra se prestem a desabar, com o estampido ridiculo
    dos louceiros que se quebram nas velhas farças, aos golpes de _stick_ do
    primeiro irreverente que passe trazendo na cabeça as exaltações de dois
    dedos de Proudhon e de um copo de Champagne!

    Serão injustos depois os que bradarem contra a decadencia, contra a
    corrupção, contra a irreligiosidade do seculo com o fundamento de que,
    n'estes contactos das antigas armas consistentes e das novas modas
    futeis, é o espesso arnez de Carlos Magno o que rende e a fina _veste
    Bênoiton_ a que triumpha.

    Ai! perdoae-nos … Nós preferimos ás impenetraveis armaduras dos vossos
    gigantes, que não servem hoje a ninguem e que não trazem ninguem dentro,
    a simples flanella vulgar, talhada por Pool para as fórmas exiguas dos
    macacos sabios da geração nova, dentro da qual flanella todavia se
    abotoam homens, pequenos e frageis, mas emfim mais ou menos vivos,
    graças ás capsulas ferruginosas e ao _Rob Lafecteur_, podendo
    impunemente, perante os minotauros de cartão, n'um rasgo de cancan,
    chegar-lhes com o bico do pé á ponta do nariz.

    Ao passo que, sobre estes fracos mortaes, que ainda não estoiraram de
    todo nos galopes da vida, as effigies dos antigos semi-deuses,
    inoffensivos e inuteis como estatuas de louça branca–na attitude
    classica dos Abrahões de jardim–suspendem os seus alphanges, como
    poleiros aereos, cuja immobilidade tem convidado ao somno quarenta
    gerações de pardaes!

    * * * * *

    Aqui temos nós, por exemplo, _A voz do propheta_, cem paginas sybilinas,
    em estylo emphatico, allegorico, confuso, tremendo.

    É uma especie de _Dies irae_–de salão.

    Cada periodo ronca lugubremente como um estertor de moribundo, imitado
    n'um figle.

    Em cada phrase ha um vacuo premeditado que lembra a orbita sem olho da
    caveira de um cyclope.

    A locução, pintada como uma actriz vestida do branco, com os cabellos
    desgrenhados, que se predispoz ao espelho para uma scena de delírio, tem
    tons cadavericos, produzidos por grossos riscos pretos sobre gesso
    esverdinhado e branco: ella passa mysteriosa e terrivel; não se sabe do
    onde vem nem para onde vae, nem quem busca, nem o que pretende–ella,
    desvairada, tambem o não sabe!–mas pisa o tablado a largos compassos
    tectricos, brandindo um punhal, olhos fixos e dedo descarnado e livido
    apontando o espaço. A orchestra, a golpes taciturnos e tremidos de
    rebeção, imita os rumores das tempestades. E os espectadores
    angustiados, presentindo que alguma coisa pavorosamente tragica vae
    occorrer, desdobram os seus lenços nas mãos abertas, aprontando-se para
    acolher aquella porção de sensibilidade oppressa de que a imperfeita
    natureza humana se desencarrega–ai de nós!–pelo nariz….

    O monologo porém termina; está volvida a ultima pagina da prosa
    melodramatica do sr. Herculano; elle, o propheta, principiou estas
    palavras:

    «O espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vae, e faze
    resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade. E eu
    obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos …»

    E conclue assim:

    «N'este momento a visão desappareceu, e achei-me banhado em suor frio e
    repassado de amargura. E por impossivel tinha que tão negro futuro
    houvesse nunca de verificar-se: mas subito ouvi muitas vozes que
    diziam:–Guerra á religião do Christo! Então cri na visão que o Senhor
    me enviava, e apagou-se-me na alma o ultimo clarão de esperança.»

    Ao terminarem a leitura, as turbas obscuras e humildes a quem o auctor
    se dirigira, e das quaes nós temos a honra de fazer parte, perguntam
    contristadas e attonitas:

    Mas, bom Deus, poder-se-ha saber por que altos motivos está s.ex.ª o
    propheta _banhado em suor frio_ e _repassado de amargura_?!

    Ser-nos-ha dado apreciar quaes as razões por que o digno socio de merito
    de Jeremias e da Academia Real das Sciencias, apagou dentro da sua alma
    o _ultimo clarão de esperança_?

    Sim! N'esta recente edição do seu opusculo, s.ex.ª o anjo, incumbido
    directamente por Deus de _fazer resoar palavras de terror_, explica
    satisfatoriamente o phenomeno pathologico da desesperança em sua alma e
    dos suores frios em seu corpo, por via de algumas laudas de introducção,
    destinadas a prehencher cabalmente os votos d'aquelles que tinham
    promettido aos deuses um propheta de cêra, se os deuses lhes
    consentissem penetrar o sentido da _Voz do propheta_.

    A explicação d'essa voz que diz ao povo «_que a sua hora extrema vae
    soar, que elle é maldito, que elle é empestado, que é pustulento e
    pôdre, vil e malvado, escoria, immundice e relé_»,–a explicação da voz
    que diz e rediz isto em 118 paginas de uma prophecia de exterminio e de
    morte para o povo e para o paiz, é que:

    A revolução de setembro triumphava com a democracia, o sr. Alexandre
    Herculano não acreditava na democracia, tinha-a pela «declamação
    interessada de engenhos superficiaes que pretendem jungir ao carro das
    proprias ambições _as turbas más, porque ignorantes, odientas, porque
    invejosas, espoliadoras, porque miseraveis_;» e Elle, o propheta, Elle,
    o anjo exterminador, Elle, o enviado de Deus ás gerações … Elle
    era–cartista!

    * * * * *

    Se o sr. Herculano escreveu isto, que parece uma blasphemia pavorosa «_O
    espirito de Deus passou pelo meu espirito e disse-me: vae, e faze,
    resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror_ …»–é que
    naturalmente Deus era tambem–cartista.

    E assim rompe um livro, tendo por base a mancommunação de um Deus e de
    um propheta, conchavados para espancarem patuleas a cacetadas de biblia
    e de rhetorica!

    * * * * *

    Permitta-se-nos dirigir uma pequena pergunta humilde ao grande
    historiador:

    Se s.ex.ª nos affirma que o espirito de Deus o tocou e lhe disse: _Vae_,
    o que acreditamos sob a palavra de s.ex.ª, como ousa s.ex.ª negar que o
    mesmo Deus tivesse egualmente apparecido a Affonso Henriques e lhe
    tivesse dito–_Vence_? Porque, em fim, a verdade é que o milagre que
    precedeu a victoria de Ourique é exactamente o mesmo que inspirou a _Voz
    do propheta_. Ao grande escriptor assim como ao grande rei Deus
    appareceu e fallou. Se um d'estes cavalheiros nega a visão de outro, não
    poderá a critica julgal-os suspeitos como officiaes do mesmo officio?
    Não será plausivel que cada um d'estes Joões Marias Farinas dos divinos
    cheiros queira para si o privilegio de ser o unico João Maria Farina,
    authentico e legitimo?

    * * * * *

    Mais encerra o sobredito livro dos Opusculos:

    Primeiro–Uma «consulta apresentada á Academia Real das Sciencias ácerca
    do estado dos archivos ecclesiasticos do reino e do direito do governo
    em relação aos documentos ainda n'elles existentes»–questão que se acha
    resolvida desde 1857. Tem essa actualidade.

    Segundo–«Os egressos, petição humilissima a favor de uma classe
    desgraçada.» Mais: «As freiras de Lorvão», especie de petição em favor
    da parte feminina da sobredita classe, acto philantropico que declarado
    hoje, quarenta annos depois da extincção das ordens religiosas, nos
    obriga a meditar nas razões por que o auctor não aproveitaria este
    ensejo para peticionar egualmente em favor das familias dos companheiros
    de Pharaó, victimas da terrivel catastrophe da passagem do Mar Vermelho.

    Terceiro–«Theatro, moral, censura», discurso em que o auctor propõe que
    a censura dramatica não seja eliminada mas sim substituida por «uma lei
    para o theatro em harmonia com a lei politica da nação»–especie de
    carta constitucional da monarchia da rua dos Condes e do Salitre. O sr.
    Herculano quer _um jurado especial encarregado de defender a moralidade,
    punindo com multas pecuniarias e com cadeia todo o delicto dramatico em
    offensa da moral_,–o que nos parece ser, sem a minima duvida, o
    restabelecimento puro da santissima inquisição, ou a renovação dos jogos
    da eloquencia, de Caligula, em que o vencido era lançado no Rhodano,
    sempre que não preferia apagar o seu discurso com a lingua.

    Quarto e ultimo–Uma _advertencia preliminar_, na qual o autor explica
    que compoz a sua obra _com o fim de_–matar o tédio das longas noites
    de inverno na solidão da sua granja. D'onde somos levados a deduzir que
    os fins da arte para o illustre solitario de Valle de Lobos–no inverno
    pelo menos–são simples parceiros de jogo, questão de passar tempo: para
    s.ex.ª a antiga coisa sagrada de Platão substitue–a bisca sueca. O fim
    moral retira-se, havendo uma perna para o _voltarete_.

    E nada mais se contém no ultimo livro recentemente publicado por aquelle
    que justamente se considera o primeiro dos escriptores portuguezes!

    * * * * *

    Esse livro que se não baseia em nenhuma das necessidades da sciencia, da
    razão ou do sentimento do mundo moderno, caminhando no ar como as
    pinturas chinezas em que não ha solo, é uma pessima obra. Vem de alto,
    firma-a um nome prestigioso, está escripta no estylo relimado a que
    Michelet chama a _indigente correcção de Malherbe_: tem portanto as
    condições da voga; é um exemplo funesto. Porque esse livro não instrue,
    nem ensina, nem esclarece, nem consola ninguem.

    Referindo-se ás conferencias do Casino repisa a velha questão catholica
    e esquiva-se á apreciação da theoria artistica, economica e scientifica
    da revolução, que essas conferencias propagavam.

    Na politica é auctoritario, conservador intransigente. Impõe-nos a
    carta, como Carlos IX impunha a missa a Henrique de Navarra e ao jovem
    Condé, depois da Saint-Barthelemy. Nega a revolução democratica com um
    desdem banal, como quem ignora ou finge ignorar que toda a revolução que
    se oppõe á corrupção e á miseria, filhas das instituições, não é uma
    theoria contingente mas sim uma lei fatal. Estava n'este ponto bem mais
    adiantado, do que s.exª nos quer mostrar que se acha, aquelle velho
    ministro francez que ha mais de cem annos exclamava: «_La légalité nous
    tue_».

    Na economia social, sem uma palavra para algum dos principios que
    constituem o systema de credito e a organisação industrial, preconisa as
    _caixas economicas_, escondendo que a questão de coarctar a miseria não
    é de estabelecer o _mealheiro_ mas sim de crear o trabalho.

    Na arte quer a manifestação do pensamento adstricta ás sentenças de um
    jury tirado da academia das sciencias, da escola polytechnica e de não
    sei que outros tribunaes regularisadores do direito da palavra,
    justificando assim aquella definição do sublime dada por Galiani: «a
    arte de dizer as coisas sem ir para a cadeia»; quando a verdade n'este
    ponto é que nada ha que mais avilte a intelligencia e o caracter do que
    o exercicio hypocrita, imposto pela legislação repressiva, de encobrir o
    pensamento ou de disfarçar a verdade.

    * * * * *

    No momento actual, quando a Europa inteira, grande martyr, se agita na
    polemica e no sangue, procurando nobremente e santamente resolver para a
    justiça o problema do destino dos povos, reconhecendo com Proudhon que a
    negação da sociedade feita em 93 implíca uma affirmação subsequente que
    ainda não está feita, e que, depois de desorganisados os privilegios,
    nos é hoje preciso organisar sólidamente e firmemente o trabalho na paz,
    no bem estar e na virtude,–n'este momento supremo, um dos mais graves
    em que se tem achado a humanidade, quando mais do que nunca se precisa
    para a verdade do concurso de todos os espiritos elevados e rectos–, um
    philosopho, um pensador educado nos severos estudos historicos, o mais
    auctorisado dos nossos escriptores, entretendo-se no seu gabinete a
    reconstituir antigos opusculos banaes e extinctos para passar o inverno,
    lembra um pouco o imperador Theodosio entregue ás especulações
    theologicas, e compondo symbolos no gyneceu, quando Genserico estava em
    Cartago e Attila nas margens do Danubio.

    * * * * *

    Diz-nos o sr. Alexandre Herculano que está velho, desilludido,
    desalentado …

    D'onde lhe veiu tanta amargura e tão singular abatimento, que nem os
    annos nem os desgostos justificam?

    Comprehende-se a tristeza d'aquelles que, consagrando a sua vida a uma
    grande obra, absorvendo-se n'ella, pertencendo-lhe integralmente, se
    acham repentinamente desacompanhados e sós ao verem a obra terminada.
    Michelet consumiu quarenta annos a escrever a historia da sua patria.
    «Pois bem, minha grande França, exclama elle, se foi preciso para achar
    a tua vida que um homem se tivesse entregado e passasse e repassasse
    tantas vezes o rio dos mortos, esse homem consola-se, agradece-te ainda,
    e o seu maior pesar é ter emfim do deixar-te.» Gibbon, tão frio e tão
    secco, não larga o seu livro sem uma commoção profundamente melancolica:
    «Pensei que acabava de despedirme do antigo e agradavel companheiro da
    minha vida.» Oh! sim, comprehende-se bem essa magoa profunda que absorve
    o homem ao cabo da missão a que elle se dera no mundo! Comprehende-se
    Alexandre morrendo de tristesa depois de conquistar a Asia, e Alarico
    depois de tomar Roma; comprehende-se Godofredo de Bulhões, com a sua
    herculea natureza que resistiu inalteravel ás fomes, ás sedes, ás
    pestes, ás guerras, a todas as tragedias da cruzada, sossobrando
    finalmente ao ter de embainhar a espada, e morrendo–por ter chegado!

    Mas não se comprehende definhando de tristesa em Valle de Lobos o sr.
    Herculano, porque elle não venceu, não conquistou, não concluiu a sua
    obra: abandonou-a apenas, retirou-se, foi-se embora.

    Como antigo litterato, historiador, romancista e poeta, s.ex.ª não se
    póde contristar. Deve consolal-o a vida rural, que elegeu em
    substituição da vida artistica.

    Se o não satisfaz a solução que deu ao seu destino, se no remanso da sua
    granja, na abundancia, no saudavel exercicio da lavoura, na familia, na
    saude, na paz, na consideração e no respeito publico, s.ex.ª se sente
    effectivamente velho, desalentado e triste, creia s.ex.ª então que não é
    o litterato que ainda soffre, é o agricultor que já começa a padecer. A
    padecer o que? Esta molestia:–a nostalgia da arte.

    * * * * *

    A tristeza não é nunca um estado de espirito normal no organismo de um
    homem são. A tristeza é um symptoma de enfermidade physica ou moral. A
    tristeza habitual quando se não cura com as pílulas de Radway e com as
    aguas mineraes, cura-se com uma acção boa. Se com isso não passa, é
    então uma lesão profunda e mortal.

    O homem que durante vinte annos viveu no trabalho intellectual, na
    applicação, no estudo, na poderosa contensão da arte, escrevendo,
    publicando, dilatando-se, repartindo-se pelos seus semelhantes,
    amassando e forneando para elles o divino pão da verdade, nunca mais
    póde sem perigo retirar-se d'esse meio.

    Nos serios trabalhos do espirito consagrados a uma idéa elevada ha uma
    luz vivificante e serena que não sómente allumia o operario, penetra-o
    tambem, alimenta-o, conforta-o. A sua obra não é inteiramente d'elle,
    elle pertence tambem á sua obra. Elle cria-a, torna-a viva, poderosa,
    immortal á força de amor, de verdade e de justiça; ella, generosa e
    grata, educa-o, aconselha-o, consola-o, fortifica-o. Os dias passam,
    tenebrosos ou limpidos, serenos ou revoltos no mundo externo; na
    immutavel região da arte ha a pacificação permanente. Embebido na doce
    mocidade eterna da sua obra, o verdadeiro artista, perfeitamente fiel ao
    trabalho, não sabe nunca se envelhece ou não.

    Veja o sr. Herculano aquelles que deixou nas lettras, ha alguns annos,
    muito mais edosos que elle! Como ainda hoje são novos!

    Quem guia, quem governa, quem encaminha hoje no mundo a grande marcha
    das idéas modernas a que o illustre agricultor de Santarem se oppõe, no
    seu recente livro de torna-viagem, com epigrammas cacheticos e vetustos?
    Veja-os s.ex.ª, escute-os, attenda-os: como teem os labios vermelhos, a
    voz clara e metallica, os cabellos loiros, os musculos fortes, o sangue
    vermelho, salgado e alegre! Reconhece-os?…

    São Victor Hugo, Michelet, Quinet, Thiers, Raspail e Karl Marx.

    Companheiros de infancia de s.ex.ª eil-os ahi ainda, na mais perfumada e
    viçosa flor da edade, entre os setenta e os noventa annos!

    * * * * *

    Quando uma vez se habitou o paiz luminoso da sciencia e da arte é
    impossivel o expatriamento para os frigidos climas sombrios dos
    interesses praticos e positivos. A mão que por vinte annos manejou uma
    penna, não poderá jámais ageitar-se á rabiça de um arado. Sequestrar-se
    á sciencia é roubar a sociedade. Para onde quer que te recolhas com a
    porção de luz e de verdade que tinhas no teu cerebro e que subtrahiste
    do thesouro commum da humanidade, para onde quer que te escondas, ó
    triste foragido, irá sempre comtigo, pungindo-te na parte mais nobre do
    teu ser não contaminada pelo egoismo, o remorso de uma acção má. Debalde
    procurarás justificar o plano da tua deserção com os desgostos que
    atravessaram a tua carreira. Desgostos, tu! o filho mimoso da tua
    patria! a unica gloria official da litteratura do teu paiz! tu sempre
    lido, sempre gloriado, sempre retribuido! Oh! como se rirão dos teus
    pretendidos desgostos todos aquelles que tiveram no mundo uma idéa, que
    se lhe consagraram, que viveram e que morreram por ella!

    Pobre homem sem fé! que pensarão do teu martyriosinho de album, da tua
    pequenina cruz de berloque, aquelles que realmente tiveram um martyrio e
    uma cruz, onde padeceram e morreram, resignados e austeros?!… Spinoza,
    que muitas vezes comeu hervas por não ter pão; Campanella preso vinte e
    sete annos, sendo cinco vezes julgado e soffrendo sete vezes a tortura;
    João Jacques dormindo n'um fosso por não ter outro asylo; Diderot
    desmaiando de fome; Proudhon, vivendo com um tostão por dia, caminhando
    oitenta leguas a pé para ir ver o seu amigo, só, odeado, perseguido,
    caminhando sem meias, com os pés nús embrulhados em palha dentro dos
    tamancos das suas montanhas do Jura!

    * * * * *

    Se o sr. Herculano, agricultor, está triste, volte a ser litterato,
    restitua-se á sua patria, á sua geração e ao seu tempo.

    Se definitivamente não quer ser mais um escriptor, poupe então a nossa
    sensibilidade ás repetições da historia dos seus desgostos. Como simples
    proprietario rural os jubilos ou as melancolias do sr. Herculano são
    absolutamente indifferentes á humanidade.

    Quando Quinet publicou a «Historia» das suas idéas, procurando dar sob
    uma fórma individual a historia moral da geração de que fez parte, á
    similhança do que parece ser intentado agora pelo sr. Herculano com a
    publicação dos seus opusculos, Quinet não obedecia ao desejo de servir
    um editor ou de entreter um inverno; Quinet, colligindo as suas idéas e
    recompondo o seu passado, arrancava da sua obra uma grande idéa, bella,
    radiante e fecunda: a coherencia, illuminando um caracter, e fazendo
    d'elle uma força moral.

    Quinet não vinha entristecer-nos com a sua melancolia nem contaminar-nos
    com o seu desalento.

    Se elle reconstituia e publicava os dispersos fragmentos obscuros de
    antigos trabalhos era exactamente porque d'esse agrupamento e d'essa
    reunião de idéas espalhadas pelas differentes edades e pelas diversas
    phases da sua vida sobresahia como um nobre exemplo o luminoso
    contentamento de uma alma perseverante e forte.

    Decepções, chimeras, enganos, o que vem a ser essas coisas? ignoro-o;
    ahi está a minha vida, dizia cele. O que uma vez amei, em cada dia me
    pareceu mais digno do amor; de dia para dia adiei a justiça mais santa,
    a liberdade mais bella, a palavra mais sagrada, a arte mais real, a
    realidade mais artista, a poesia mais verdadeira, a verdade mais
    poetica, a natureza mais divina, o divino mais natural. E se me sobrasse
    tempo para ir mais ao fundo d'aquillo que ignoro, sinto que as coisas
    que ainda me espantam acabariam por desapparecer. Onde a inquietação se
    apoderara de mim, o enygma se decifraria por si mesmo. Eu repousaria na
    luz.

    São os homens que podem extrahir do seu passado a lição que encerram
    essas formosas palavras os que teem direito de vir fallar-nos do seu
    passado. Os que não teem como lembrança dos seus dias decorridos senão o
    cansaço, o desalento, a indifferença o o desdem, podem fazer um serviço
    maior do que escrevel-o; é calal-o.

    * * * * *

    Concluindo não pediremos ao sr. Herculano que nos perdôe a ousada
    franqueza com que lhe fallamos. S.ex.ª sabe que a unica irreverencia
    criminosa diante de urna verdade que se possue consiste unicamente em
    esconder essa verdade. Que ella provenha do mais obscuro dos miseraveis
    ou da mais alta e mais competente das actividades, que importa? É
    preciso abate-a ou deixal-a passar. S.ex.ª conhece o dialogo asiatico de
    Salomão e de Marculf. Salomão é o grande rei, dotado de todos os dons,
    bello, omnipotente e sabio; Marculf é um villão-ruim, um rustico
    insolente e bestial. No emtanto as subtilezas populares do bobo
    esfarrapado embaraçam e humilham no seu throno o poderoso e sabio rei.
    Isto prova que a magnanima auctoridade e a sacrosanta lei escripta podem
    não perder tudo em escutar um simples, roto e despresivel raciocinio
    plebeu.

    Bem sabemos que não somos nós que temos as finas subtilezas ironicas do
    bobo Marculf. Mas egualmente é certo que por outro lado o sr. Herculano
    tambem não é inteiramente o filho de David, rei de Israel, o que
    escreveu o _Cantico dos canticos_ e edificou o templo.

    * * * * *

    Ao passo que o sr. Alexandre Herculano, historiador, publica opusculos, o
    sr. João Felix Pereira, opusculista, publica historia.–É a logica do
    absurdo.

    * * * * *

    A recente obra de Felix é um resumo de historia romana traduzido do
    latim. As primeiras linhas d'esta versão bastam para dar aos leitores
    uma, idéa da obra.

    _O imperio romano, menor do que o qual em seo principio, ou maior por
    seo augmento em todo o mundo, de quase nenhum a memoria humana pode
    recordar-se, tem principio de Romulo; o qual filho de Rhea Silvia,
    virgem vestal, e, quanto se julgou, de Marte, foi dado á luz com seo
    ermão Remo, d'um só parto. Elle como andasse roubando entre pastores,
    chegando á edade de dezoito annos, fundou uma pequena cidade no monte
    Palatino_ …

    Tal é Eutropio–traduzido para Felix. Não faltaria agora senão uma
    coisa: traduzil-o de Felix para Portuguez–se por ventura houvesse
    alguem no mundo que fosse capaz de advinhar perante a lingua de Felix,
    qual a grammatica com que se rege Felix, medico, engenheiro civil,
    agronomo, e auctor de opusculos para instrucção da mocidade!

    Não, francamente, ó Felix, vós, que tendes tantos officios–medico,
    engenheiro civil e agronomo–vós, que sois na sciencia o mesmo que são
    na musica os homens dos sete instrumentos, que fazem uma orchestra
    batendo com todas as partes do corpo, vós que egualmente sois medico com
    a bocca do estomago, engenheiro civil com os cotovellos, agronomo com o
    nariz e escriptor publico com os calcanhares, porque não deixaes vós de
    ser, pelo menos, um preceptor da infancia, um escriptor das escolas?!…

    Em primeiro logar isso descançaria um pouco o vosso corpo, ó habilidoso
    João, ó feliz Felix.

    Em segundo logar pouparieis á infancia o desgosto de desaprender a sua
    lingoa lendo nas aulas os vossos escriptos, os quaes a benemerita Junta
    Consultiva da Instrucção Publica não deixa nunca de approvar, servindo
    assim na primeira communhão dos que estudam, em vez das sagradas
    particulas da sciencia, os estercos nauseabundos e venenosos das vossas
    equarissages litterarias.

    A verdade, encyclopedico Felix, é que vós escreveis muito peior do que
    fallam os botucudos do rio Mucury e os Pelles Vermelhas, no interior dos
    sertões.

    A verdade é que ninguem vos entende.

    Se nós houvessemos de ir estudar os rudimentos da historia romana
    prefeririamos ao trabalho de interpretar o vosso compendio ir
    directamente estudar a geographia antiga, a ethnologia, a geologia, a
    linguistica, a archeologia, todas as primitivas fontes da historia;
    ser-nos-ia mais facil, mais rudimentar, do que analysar e reduzir á
    grammatica qualquer dos vossos periodos, ir á Asia Menor estudar as
    epigraphes funerarias sobre as ruinas do templo de Herodes Atticus,
    interpretar e comparar os textos da escripta hieroglyphica, hierotica e
    demotica, os documentos originaes bysantinos e orientaes, e as
    inscripções babylonicas e assyrias gravadas nas estatuas, nos
    baixo-relevos, nos cylindros e nos amuletos … Tudo isso, ó João, antes,
    mil vezes antes, do que procurar entender-vos!

    * * * * *

    Se porém o nosso conselho vos não apraz, se quereis absolutamente
    continuar a escrever compendios, em vez de seguirdes outro officio, não
    nos afflijaes pelo menos, continuando a declarar-nos em cada uma de
    vossas obras que continuaes sempre a ser medico, agronomo e engenheiro
    civil! Se tudo isso vos não serve para ganhardes honradamente a vossa
    vida sem vergonhas da grammatica dos vossos paes e do senso commum dos
    vossos avós, então ponde unicamente nos vossos livros:

    POR JOÃO FELIX BIMANE DA ORDEM DOS PRIMATAS SEGUNDO DARWIN E LAMARCK

    * * * * *

    O _Tribuno Popular_, folha democratica de Coimbra, referindo-se em um
    notavel artigo á recente viagem áquella cidade do S.M. o sr. D.
    Fernando, escreve estas linhas:

    _«N'este intervallo a sr.ª condessa de Edlla, e o sr. infante duque de
    Coimbra, acompanhados pelo sr. visconde do Seiçal e João José de Mello,
    emprehendiam um passeio notavelmente pittoresco. Dirigiram-se ao caes,
    entraram n'um pequeno barco, e seguiram rio acima, admirando estas
    formosissimas margens, então realçadas pela luz do luar, e animadas pela
    orchestra de mil rouxinoes que de ambas as margens pareciam advinharem
    os espectadores nocturnos que os escutavam.»_

    Poderosos ceos! Que teriam feito os rouxinoes para que se entendesse que
    elles tinham advinhado «os espectadores nocturnos que os escutavam?!»

    Cantaram o hymno da carta? Deram vivas á real familia? Perguntaram por
    Melicio?…

    Por Deus! que o _Tribuno Popular_ nol-o diga! Queremos pedir para o
    peito d'esses passarinhos a commenda de S. Thiago.

    Emquanto aos srs. viscondes do Seiçal e João José de Mello, estamos
    certos de que não deixaram ficar a côrte endividada com a patriotica
    manifestação dos rouxinoes do Choupal. Sim, ss.ex.'as seguramente
    responderam aos rouxinoes, desentranhando-se por sua parte nos mais
    ternos pios, nos mais vigorosos gorgeios … Oh! nós conhecemos a fidalga
    bizarria de ss.ex.'as, Pela parte que nos toca não podemos deixar tambem
    de mandar um garganteado reconhecido ás avesinhas do Mondego. Ora pois:
    _có, có ró, có!_ por Lisboa agradecida.

    * * * * *

    Sempre que em cada anno se celebra na cadeia do Limoeiro a ceremonia da
    communhão aos presos, o senhor procurador regio convida a imprensa a
    assistir a essa solemnidade, e a imprensa publica no dia immediato que a
    cadeia está no maior aceio e que o senhor procurador regio é digno dos
    maiores elogios. Porque? Porque commungaram os presos.

    * * * * *

    Ha dias lemos que a casa de detenção da comarca de Lisboa estabelecida
    no antigo convento das Monicas estava no dito «maior aceio» e que o
    mesmo procurador regio era digno dos referidos «maiores elogios.» Razão:
    Tinham commungado os presos.

    * * * * *

    Ora é bom que o publico saiba de quando em quando o que são as prisões
    portuguezas–quando os presos não commungam.

    Nós visitámos a casa de detenção–antes da oitava da Paschoa. Eis o que
    vimos:

    * * * * *

    Um predio frio, humido, abafado, sem ar e sem luz, espessas paredes e
    pequenas janellas, a clausura mais estreita, mais escura, mais humilde.
    Era no inverno. As paredes rebocadas de novo tinham grandes manchas
    humidas, esverdeadas. O sol não penetrava em parte alguma do edificio.
    Uma impressão de bolor e um ar em que se sentiam, resfriadas e fixas, as
    exhalações peculiares da miseria, a atmosphera das enxovias
    deshabitadas, as reminiscencias olphaticas dos cheiros emanados das
    vasilhas de lata em que houve caldo e dos vestidos quentes dos mendigos
    que apanharam chuva.

    Era um domingo. Os rapazes detidos no estabelecimento, na promiscuidade
    de todas as edades desde os seis annos até aos dezeseis, estavam juntos
    em um estreito pateo interior, na sombra–porque tambem ali não chegava
    o sol–frios, com as mãos nos bolsos, encostados aos muros, sentados ou
    deitados no chão. Ninguem os vigiava. Elles porém estavam quietos–como
    um rebanho no curral. Alguns tinham escrophulas. Outros tinham os olhos
    doentes e os cantos da bocca feridos. Eram todos magros, pallidos,
    anemicos, tristes.

    Perguntamos-lhes por que esperavam. Não esperavam nada. Estavam ali. Que
    faziam? Coisa nenhuma. Porque não cultivavam a quinta annexa ao
    edificio, metade da qual estava cheia de hervas inuteis? Porque os não
    deixavam: havia um hortelão. Porque não iam pelo menos passeiar na
    quinta? Porque era prohibido. Não havia uma gymnastica? Não a havia. Não
    havia de todos esses regimentos da guarnição de Lisboa um musico que aos
    domingos lhes ensinasse rudimentos de musica para que tivessem uma
    charanga? Não havia. Hão havia, pelo menos, um cabo de esquadra que os
    fizesse marchar ao som de um tambor e lhes ensinasse o exercicio
    militar? Não havia. Não havia, emfim, terra que remover, pedra que
    acarretar, lenha que partir, um pau sequer espetado no chão para
    treparem n'elle, uma escada de mão posta ali para subirem e descerem
    por ella, uma occasião, um motivo, um pretexto, uma desculpa qualquer
    para que esses infelizes pequenos se bolissem, se movessem, tivessem
    alguma distracção, fizessem algum exercicio? Nada, absolutamente nada.
    As lages do pateo interior da casa, pouco menos estreito que um saguão,
    coberto de sombra e de frio e sobre as lages os pequenos. Era assim que
    passavam os domingos.

    * * * * *

    Nos dias de semana trabalham em officinas terreas, sem soalho,
    extremamente humidas, no mesmo pateo em que jazem nos domingos. Uns são
    alfaiates, outros sapateiros, outros esparteiros. Ha sobre isto uma
    escola de instrucção primaria. Não aprendem mais nada. Nada mais se lhes
    ensina.

    Este instituto tem uma missão especialmente moralisadora. Não ensina
    moral.

    Tem por fim punir e evitar as contravenções da lei. Não ensina a lei.

    Tem a obrigação restricta da catechese. Não ha na prisão um padre, um
    capellão, um perceptor.

    Aos domingos um sacerdote diz missa e retira-se. Por essa razão entre as
    attribuições dos chaveiros lemos esta disposição: «Obrigará os presos a
    benzerem-se.»

    Teem duas refeições por dia. Ao almoço arroz e feijões. Ao jantar
    feijões e arroz.

    Carne fresca ou salgada, de boi, de carneiro ou de porco nunca comem.
    Nunca bebem vinho.

    O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. Isto precisa de ser dito
    duas vezes. O rancho é fornecido pela cosinha do Limoeiro. É o _menu_ da
    enxovia. Se é mau na cadeia, imagine-se o que poderá ser na casa de
    correcção!

    * * * * *

    Dormem, aos grupos de oito, em camaratas, onde ha, em cada uma, oito
    camas e uma latrina.

    Na camarata não ha luz. A porta é fechada por fora á chave.

    Não ha vigilancia alguma durante todo o espaço de tempo que decorre
    dentro d'aquellas podridões, desde que anoitece até que rompe o sol.
    Apenas, fora do corredor que dá passagem para os dormitorios, dorme um
    guarda no seu quarto. Este guarda teve a bondade de nos dizer que,
    sempre que havia desordens nas camaratas, elle intervinha com o rigor da
    sua auctoridade por isso que, concluiu elle, _quem dá o pão dá o
    ensino_.

    Cremos piamente que este guarda está convencido de que quem dá o pão em
    Portugal á infancia criminosa é elle. O ensino pelo menos é exclusivo de
    sua mercê.

    * * * * *

    A direcção geral da prisão está confiada a um homem que não sabemos quem
    é, nem quem foi, nem quem poderá vir a ser. O que sabemos, e isso nos
    basta, é que esse director ganha–cinco tostões por dia!

    * * * * *

    Eis a physionomia da casa de detenção da comarca de Lisboa, contornada a
    traços mathematicos, sem commentarios, sem emphase, sem exclamações
    doloridas ou sentimentaes, nenhum toque artificial de luz ou de sombra
    que possa alterar a exacção rectilinea do quadro!

    Para isto não ha pedir reorganisação ou reforma. Não se trata de uma
    velha instituição apodrecida pelos annos. É uma creação nova, que tem
    apenas alguns mezes de existencia. Dá a medida exacta das forças de
    sciencia, de civilisação e de moral que o paiz se acha officialmente
    habilitado para dispender, no dia de hoje, em favor do progresso. Não se
    póde por em quanto pedir mais nada ao paiz! Eis a sua mais recente prova
    de capacidade! Eis tudo quanto elle sabe do direito criminal, da hygiene
    physica e moral das prisões, das modernas colonias penitenciarias, da
    educação intellectual, da educação moral, da educação religiosa, dos
    deveres phylantropicos do Estado, da missão paternal do poder para com
    os orphãos, da organisação do trabalho infantil, de todas as questões
    finalmente ligadas á creação de um estabelecimento penal da ordem
    d'aquelle a que nos referimos.

    O povo, tranquillo e satisfeito, lê as folhas baratas cheias de elogios
    estolidos ás mais viciadas e perniciosas instituições do paiz, e
    julga-se fielmente levado para a mystica terra da promissão pelos homens
    que o governam e pelos homens que o instruem. De todo o tempo esteve na
    tendencia popular esta profunda fé na simplicidade ignorante. Os
    primeiros cruzados que foram á Terra Santa queriam ter por guias uma
    cabra e um pato; os Sabinos baixaram das suas montanhas conduzidos por
    um picanço; Cadmus foi á Beotia levado por uma vacca. Em Portugal João
    Felix, no livro; Melicio, no jornal; e o sr. procurador regio na casa
    das Monicas, dirigem os espiritos e guiam as consciencias para o ideal.
    A opinião obedece-lhes.

    * * * * *

    Vemos em uma conta official que nas obras feitas no convento das Monicas
    para adaptar o edificio ao fim a que elle hoje se destina, se gastaram
    seis contos de réis. Junte-se esta quantia á de quinze contos, preço
    minimo porque poderia ser vendido o convento e quinta annexa e ter-se-ha
    mais que o sufficiente para fundar em qualquer baldio da Extremadura ou
    do Alemtejo uma exemplar colonia agricola penitenciaria.

    Seis contos de réis, só em obras n'um edificio torto, absolutamente
    impossivel de adaptação ás necessidades do trabalho, da educação e da
    hygiene!…

    Mas é um desperdicio, que revela a ignorancia mais crassa em similhantes
    assumptos. Na magnifica colonia agricola de Mettray, perto de Tours, em
    França, as creanças presas estão divididas por edades e repartidas por
    casas inteiramente separadas e independentes. Cada uma d'estas casas,
    de 12 metros sobre 6,66, consta de um pavimento terreo e de dois
    andares. Na sala do rez do chão está estabelecida a officina. Em cada um
    dos dois andares ha uma sala, que serve successivamente de dormitorio,
    de refeitorio, de sala de estudo, de sala de recreação nos dias de
    chuva, e em caso de necessidade de escola. Dois travessões presos ao
    muro por uma dobradiça em uma das suas extremidades estão levantados ao
    longo da parede dos dois lados da porta de entrada. Quer-se preparar o
    refeitorio, a classe, a sala de estudo? Descem-se estes dois travessões
    e suspendem-se no muro fronteiro, ficando assim firmes, na altura de uma
    mesa, aos dois lados da porta, e a todo o comprimento da sala; em
    seguida descem-se das paredes lateraes pranchas de madeira fixadas
    n'ellas por meio de dobradiças como os travessões; estas pranchas presas
    ao muro por um lado prendem-se pelo lado opposto ao travessão por meio
    de uma cavilha; e estão promptas as mesas. Os bancos levam-se da
    officina. Se se quer armar o dormitorio, em vez das pranchas com que se
    formam as mezas, descem-se dos muros as macas em que se fazem as camas.
    Ao fundo de cada um d'estes dormitorios ha um quarto aberto para a sala
    em que dorme o chefe da secção, secundado pelo contra-mestre. Os
    contra-mestres estão alternadamente de quarto no dormitorio, de modo que
    durante a noite passeia constantemente um guarda no espaço que medeia
    entre os dois travessões de que fallámos.

    Cada um d'estes pequenos predios contendo quarenta e tres pessoas,
    custou, incluida toda a mobilia, um relogio, toda a roupa de camas, e
    toda a loiça de lavatorio e limpeza, 8:300 francos, isto é: 1:494$000
    réis.

    Tres dos predios descriptos seriam muito mais que o sufficiente para
    recolher todos os presos actualmente existentes na casa de detenção das
    Monicas.

    Temos portanto que em Lisboa se gastam seis contos unicamente em reparos
    n'um velho edificio monstruoso, quando em Tours se funda para 120 presos
    um estabelecimento completo, se construe um edificio modelo, provido
    inteiramente de louça, de roupa e de mobilia, por menos de quatro contos
    e quinhentos mil réis!

    * * * * *

    Em quanto ao regime e á organisação interna do estabelecimento
    portuguez quasi tudo o que existe é erro.

    Os presos não cultivam a quinta. Deviam cultival-a. Formar-se-hiam assim
    hortelões e jardineiros.

    Não cosinham, não tecem o estofo dos seus vestidos, não cozem o pão das
    suas rações, não fazem a mobilia das suas casas. Tudo isso deveriam
    aprender. Era facil, era economico, era moralisador, dava aos presos
    novas aptidões, ensinando-os a padeiros, a tec-lões e a cosinheiros,–as
    noções mais essenciaes á vida.

    Não aprendem musica. Deviam aprendel-a. Uma charanga á frente de cem
    rapazes em marcha faz d'elles cem homens.

    Não teem uma bomba de incendios. Deviam tel-a, deviam saber manobrar com
    ella. Devia-se conceder como um premio aos de melhor procedimento,
    levarem a bomba aos incendios, permittindo-se por este modo aos
    condemnados a faculdade de se rehabilitarem sacrificando a sua vida
    pelos seus similhantes.

    Não ha uma mulher dentro da prisão. É uma enorme falta para as
    desgraçadas creanças de oito a doze annos. A cozinha, a lavanderia, a
    enfermaria, a rouparia, coisas que alli não existem senão nominalmente,
    deveriam organisar-se de um modo effectivo com o trabalho dos presos e
    sob a direcção das irmãs da caridade portuguezas, que encontrariam assim
    um emprego elevado e digno do seu tempo.

    Só as mulheres sabem aconselhar as creanças, convencel-as da virtude; e
    cumprir esta missão é mais bello e é mais meritorio perante a sociedade
    e perante Deus do que mendigar por entre velhas fidalgas devotas,
    embiocadas e inuteis, o pão de cada dia.

    Os presos isolados no carcere celular estão na mais absoluta ociosidade
    fechados n'um quarto escuro. Não ha nada que mais desmoralise, que mais
    definhe e que mais corrompa. N'estes casos os rapazes deveriam ser
    obrigados a rachar lenha ou a britar pedra–os exercicios mais saudaveis
    para os musculos de quem está parado.

    Finalmente a casa de detenção das Monicas não é sómente a negação do que
    devia ser, é mais do que isso, é a affirmação contradictoria de todos os
    principios oppostos aos principios verdadeiros.

    Tal qual está constituido este estabelecimento, temol-o por um foco de
    apodrecimentos humanos, um seminario de vicios torpes e secretos, um
    curso accelerado de preparatorios infalliveis para o Limoeiro, para o
    hospital, ou para o cemiterio.

    * * * * *

    Uma derradeira observação:

    A maior parte dos presos detidos na prisão correcional das Monicas são
    cumplices do crime de vadiagem.

    Ora sendo aquelles presos todos menores, não tendo uma familia, não
    tendo um officio, não sabendo ler nem escrever, com que direito os pune
    por não trabalharem o Estado, que lhes não dá trabalho?

    Que quer o estado que sejam esses pequenos para não serem vadios?

    Quer que sejam medicos, tenentes coroneis, conselheiros do tribunal de
    contas, escriptores publicos, capitalistas ou banqueiros?

    Vamos! respondam-nos! Estamos interrogando sob o caracter mais digno de
    attenção e de respeito de que se pode alguem revestir. Somos n'este
    momento os interpretes inviolaveis e sagrados da infancia orphã,
    desvalida e desamparada. Fallamos em nome de um pequeno que não quer ir
    para a prisão das Monicas comer os feijões frios do Limoeiro, no que
    está inteiramente no seu direito. É um innocente.

    Todavia ninguem o chama para fazer artigos nos jornaes, ninguem o quer
    para commandar a Municipal, ninguem o incumbe de tratar uma molestia, de
    deffender uma causa, de montar uma fabrica ou de construir um navio.
    Nenhuma viuva rica lhe offerece a sua mão de esposa. Os agiotas quando
    elle passa levantam as bengalas e rangem os dentes. Não tem uma ponta de
    trabalho nem um bocado de pão. Finalmente é um vadio. Agora o que elle
    deseja saber é o seguinte:

    O que é que o Estado lhe dá licença que seja desde o momento em que lhe
    prohibe ser o que é.

    Espera-se resposta.

    * * * * *

    A _Republica Portugueza_, jornal de Coimbra, exproba-nos a indifferença
    que temos pela questão politica e pela forma do governo em Portugal, e
    dirige-nos as seguintes textuaes perguntas:

    1.ª «A redacção das _Farpas_ quer a resolução do problema economico,
    quer que se preoccupem os animos com a questão social; mas sempre
    quereriamos saber como isso se podia realisar, quando a formula politica
    é insufficiente para garantir o direito?»

    2.ª «O problema social em sua maior amplitude é a realisação pratica da
    justiça, e sendo a fórma do governo o meio adquado á sua realisação em
    uma dada epoca, como poderá haver quem imagine a resolução dos
    principios da justiça actual em uma fórma de governo de ha dois
    seculos?»

    * * * * *

    Temos a honra de responder á _Republica Portugueza_:

    1.º Aquillo que a _Republica Portugueza_ chama a _formula politica_ não
    é insufficiente em Portugal para garantir o direito que cada um tem de
    estudar e resolver o problema social; essa questão póde-se tratar, com
    todas as garantias da liberdade, nos livros, nos jornaes, nas camaras,
    no governo; a unica razão que obsta a que isto se faça é apenas a
    incapacidade intellectual ou moral dos que tinham obrigação de fazel-o.
    Depois de estabelecida e firmada a liberdade politica aproximadamente
    perfeita como ella existe em Portugal, a sociedade nada mais tem que
    pedir ao principio politico; a sua obrigação é organisar as suas forças
    industriaes e economicas e o seu systema moral para conseguir, dentro da
    liberdade que tem, duas coisas de que carece: riqueza e virtude. Dada a
    liberdade, a questão politica nada mais tem que dar ao povo; se elle
    pede ainda á fórma de governo o remedio da sua corrupção e da sua
    miseria, isso não prova senão uma triste coisa: é que o povo não está na
    Revolução, está apenas na inepcia.

    2.º A resolução dos principios da justiça cabe em todas as formas de
    governo. Turgot, ministro de Luiz XVI, no tempo da monarchia feudal
    queria exactamente isso: a resolução dos principios da justiça. Sabe a
    _Republica Portugueza_ quem foi que impediu Turgot? Foi o povo. Não
    somos nós que o dizemos. Proudhon, cuja auctoridade suppomos que a
    _Republica Portugueza_ não terá por suspeita, exprime-se n'estes termos:

    «Esse reformador rigorista, traido pelo povo, queria todavia a
    _revolução_–tomada de alto, feita sem estrepito, consumada quasi sem
    revolucionarios.»

    Ora aqui tem a _Republica Portugueza_ como ha quem imagine, a solução
    dos actuaes principios revolucionarios em uma forma de governo de ha
    dois seculos. Quem teve a petulancia de imaginar isso, sem a previa
    licença da _Republica Portugueza_, foi Proudhon.

    * * * * *

    Depois de nos fazer as suas perguntas, a _Republica_ tem a bondade de
    nos dar os seus conselhos. As perguntas satisfizemos-lh'as. Os conselhos
    não lh'os acceitamos. A ingenuidade pueril das interrogativas que a
    folha conimbricense nos dirige, annulla a competencia das admoestações
    que nos faz.

    * * * * *

    O folheto brazileiro intitulado _Duas palavras aos leitores das Farpas_,
    ultimamente publicado e distribuido em Lisboa a milhares de exemplares,
    tem por objecto contestar por meio dos processos aliás mais urbanos e
    mais comedidos, a verdade dos factos que asseverámos ácerca da sociedade
    e da civilisação do Brazil em um artigo consagrado á emigração
    portugueza para aquelle imperio.

    Se o escriptor brazileiro a quem temos a honra de responder tivesse
    conseguido o poder alliar o alto espirito de amor patriotico, de que se
    diz dominado, com a prudencia de discutir simplesmente o criterio das
    nossas conclusões e não a verdade dos factos em que ellas se baseiam,
    nós não teriamos duvida em estender affectuosamente o nosso silencio aos
    pés triumphantes d'este sympathico patriota.

    Como, exactamente pelo contrario,

    São as nossas illações o que no dito libello se não contesta, e é a
    verdade dos factos citados o que se combate, denunciando-nos como
    fabricadores de aleives historicos phantasiados com o fim expresso de
    ridicularisar o grande imperio,–o que se parece demasiadamente a nossos
    olhos com a denegação da nossa probidade e com a suspeita de que
    mentimos,

    Soffrerá o auctor do folheto citado que nos permittamos fazer-lhe
    sentir, em algumas linhas rapidas, que as _Farpas_ não são inteiramente
    uma creação poetica e phantasista.

    Não, nós não temos o distincto prazer artistico de ser _As fabulas de
    Florian_, nem tão pouco os _Contos de Perrault_.

    * * * * *

    Examinemos a qualidade dos argumentos com que o opusculo a que nos
    referimos tem a bonhomia de suppôr que nos desdiz. Tomemos tres dos
    pontos mais importantes para a civilisação do Brazil: _A producção e o
    commercio, a instrucção publica, o trabalho e a industria_.

    * * * * *

    Emquanto á producção e ao commercio nega o auctor que o valor annual das
    substancias alimenticias importadas pelo Brazil seja, como nós
    affirmamos, equivalente ao da quarta parte da sua exportação. Para este
    fim dá-nos a estatistica da importação das substancias alimenticias
    durante os ultimos annos, attesta que ella é inferior e não equivalente
    á quarta parte do valor exportado; com tal fundamento accusa-nos de
    fabricarmos puras invenções; e depois de tres paginas de recriminações
    acerbas, conclue assim:

    «Não quererão decerto considerar como substancias alimenticias o vinho,
    o chá, o café, o azeite, as bebidas espirituosas e fermentadas etc.,
    porque essas sim talvez reunidas áquellas (peixes, carnes, farinhas,
    manteiga e sal) dessem essa tal quarta parte da exportação.»

    Quer isto dizer:

    O Brazil não tem duvida em nos convencer de tudo o que se pretenda a
    respeito do estado em que se acham as suas forças productivas, bem como
    a proporção existente entre a exportação e a importação no seu
    mercado–com uma simples condição–e é: que se lhe concedam alguns
    pontos de partido na arithmetica do seu calculo. Trata-se, por exemplo,
    da importação de substancias alimenticias no valor de trinta mil contos
    annuaes; deseja o Brazil, afim de nos convencer de que illudimos a
    verdade, que a dita importação seja apenas de dez mil contos … Nada
    mais simples! O Brazil vae juntando successivamente as suas parcellas de
    substancias alimenticias importadas até chegar á prefixada somma dos dez
    mil contos. D'essa quantia para cima o Brazil começa a considerar as
    substancias alimenticias, como não sendo–substancias alimenticias.

    Registrou a importação do sal, da manteiga, da farinha, dos peixes e
    das carnes, e achou dez mil contos; faltava-lhe, é verdade, registrar
    ainda o vinho, o chá, o azeite, as bebidas fermentadas, o vinagre, as
    fructas, os legumes etc; o Brazil porém espera que nós consideremos
    estas coisas como não sendo generos alimenticios. Elle pede-nos isto,
    espera isto de nós, e, para nos convencer de que estamos no erro mais
    vil e mais torpe, elle não quer outras armas! não precisa senão d'isto:
    que se lhe admitta que o vinho não é senão, por exemplo, simples
    _producto de gutta-percha!_ o chá, o azeite, o vinagre, a cerveja …
    puros _tecidos de algodão!_ os queijos, os alhos, as cebolas, os figos,
    as passas … mera _perfumaria!_

    * * * * *

    Pelo que respeita á instrucção publica, diz-nos que o numero dos que
    sabem ler não está, como nós dissemos, na proporção de 1 para 90
    habitantes, mas sim na de 1 para 68. Sómente na estatistica official de
    que se extráe esse dado, o governo brazileiro não conta, como homens que
    habitam o Brazil, os escravos, cujo numero pode todavia ser calculado em
    cerca de tres milhões, não diremos de habitantes, mas, emfim, de
    cabeças. O auctor accrescenta ainda, para nos convencer dos progressos
    da instrucção no Brazil que as escolas de instrucção primaria que ali
    existem são na proporção de–1 para 3:021 habitantes _livres_; além do
    que ha ainda no Rio de Janeiro varias corporações scientificas e
    sociedades sabias, entre as quaes _As duas palavras aos leitores das
    Farpas_ nos citam as seguintes: _associação commercial, sociedade
    musical de beneficencia, sociedade auxiliadora da industria, associação
    typographica, instituto pharmaceutico_, e finalmente a famosa
    _associação dos guardas livros, sociedade jockey-club, tendo por fim
    promover o melhoramento da raça cavallar_.

    É realmente indigno, em vista de similhantes factos, que alguem se
    tivesse lembrado, como nós, de deplorar a defficiencia da illustração no
    Brazil, onde ha uma escola para cada 3:021 habitantes _livres_, e vinte
    _sociedades sabias!_

    Que nos perdoem os grandes propagadores da sciencia, que nós
    desconheciamos antes da publicação d'este folheto! Que nos perdoem os
    senhores musicos, os senhores typographos, os senhores pharmaceuticos, e
    sobretudo suas senhorias os senhores guarda-livros do _jockey-club_,
    encarregados do melhoramento da raça cavalar!

    No tocante á industria, aos dados da estatistica official que nós
    publicamos e dos quaes se deduz que tal ramo da actividade humana é
    quasi nullo no Brazil, oppõe o nosso contendor as seguintes animadoras
    palavras extrahidas de um _Retrospecto commercial de 1872_, publicado no
    _Jornal do Commercio_:

    «Em quanto a emigração nos não trouxer levas sobre levas de operarios e
    de artistas, a industria manufactureira conservar-se ha como que
    apertada em um circulo estreito.»

    Logo: nós inventamos os factos para «achincalhar» o imperio. A
    estatistica official da qual copiamos que em 1859 o numero dos
    industriaes brazileiros era apenas o da quinta parte dos industriaes
    extrangeiros residentes no Brazil, é falsa. A verdade suprema ácerca da
    industria indigena na America brazileira é que: É enorme e poderosissima
    a força expansiva do seu desenvolvimento. E tanto que, segundo os seus
    mais enthusiastas apologistas, ella vive «como que apertada em um
    circulo estreito.»

    Do que tão clara e positivamente expuzemos ácerca da organisação
    viciosissima das differentes colonias agricolas no Brazil, das
    atrocidades pavorosas da feitoria do Mucury, dos textos tão expressivos
    que sobre este ponto reproduzimos dos relatorios enviados aos governos
    da Suissa e da Alemanha pelos seus delegados no Brazil os srs. Tschudi e
    Avé-Lallemant, acha bem o auctor das _Duas palavras aos leitores das
    Farpas_ não discutir nem contestar palavra nenhuma. Diz-nos apenas que
    pediu sobre esse assumpto, o mais importante do nosso artigo,
    informações officiaes, que publicará logo que lhe cheguem do Rio de
    Janeiro.

    Se espera esclarecimentos que desmintam os factos que nós referimos, não
    os terá nunca. A verdade é unicamente o que dissemos. As _Farpas_ não
    fizeram mais do que historiar realistamente, sem declamações e sem
    objurgatorias, as causas que levaram a Suissa e a Baviera a prohibirem a
    emigração para o Brazil, e a proclamarem officialmente como catastrophe
    a colonisação agricola do solo brazileiro por trabalhadores europeus.

    Em refutação do que affirmamos sobre a frequencia dos casos de alienação
    mental no Rio de Janeiro, diz-nos a obra que analysamos e estamos
    transcrevendo nas suas mais importantes partes, que apenas consta ao seu
    auctor um facto isolado em abono da nossa affirmativa, sendo certo por
    outro lado, segundo elle mesmo assevera, que no Rio de Janeiro existe um
    hospital de doudos sumptuosissimo e talvez no seu genero o primeiro
    estabelecimento do mundo.

    Ora, para aniquilar inteiramente a opinião de que é grandissimo o numero
    de alienados no Rio de Janeiro, não basta dizer-se-nos que um vastissimo
    e monumental hospicio de doudos existe n'aquella côrte; importaria
    certificar tambem que as pessoas que enchem esse edificio estão–em
    pleno uso das suas faculdades.

    O que no entanto se nos não põe em duvida é que esse hospital está
    muitas vezes cheio. Pois bem, n'esses casos, um nosso compatriota
    alienado,–como a colonia portugueza não possue estabelecimento especial
    para o receber–é recolhido na cadeia.

    Lembra-nos que, ha cêrca de um anno, lêmos em um jornal a noticia de um
    d'estes casos; o portuguez doudo, recolhido na cadeia por falta de outro
    asylo estava á disposição do nosso vice-consul na Praia Grande. Este
    facto basta para nos indicar qual é a praxe seguida com os portuguezes
    pobres atacados de alienação mental. É natural que existam mais casos da
    natureza do que citamos; nós desconhecemol-os, porque nunca tivemos a
    vantagem de visitar o Brazil, não recebemos informações nem suggestões
    de ninguem que ali esteja ou tivesse estado: os nossos conhecimentos a
    respeito do imperio americano são o resultado da leitura dos poucos
    documentos officiaes publicados em Portugal e dos escriptos de alguns
    viajantes suissos, allemães e francezes. Se não adoptamos, em vez do
    testemunho d'estes viajantes o que nos podessem ministrar escriptores
    brazileiros, a razão é unicamente que os publicistas do Brazil, tão
    sonoros na poesia, são inteiramente mudos na critica que nos instrua do
    estado da civilisação na sua patria.

    * * * * *

    Tocaremos tambem o ponto em que o auctor do opusculo brazileiro
    contraria a nossa opinião ácerca da inanidade diplomatica do sr. Mathias
    de Carvalho, actual ministro portuguez junto de S.M. o imperador do
    Brazil, com o fundamento de que este funccionario tem sabido sempre no
    seu cargo captivar inteiramente os applausos da nossa colonia.

    Se um diplomata deve ser julgado pelos seus actos em serviço do paiz que
    representa e não pelos applausos que o seu publico lhe confere, o actual
    ministro portuguez no Brazil é uma pessoa extremamente sympathica, mas
    inutil. Conseguiu um tratado de extradicção, cuja historia se acha
    resumida nas seguintes datas que extrahimos do _Livro Branco_: Em 7 de
    junho de 1859–começa a negociação o encarregado de negocios interino no
    Rio de Janeiro. No fim do mesmo anno–prosegue o sr. Mathias de
    Carvalho. Em dezembro de 1871–principia negociações para um egual
    tratado o encarregado de negocios do governo hispanhol. Em abril de
    1872–terminam as negociações com a Hespanha. Em junho de 1872–é
    assignado o tratado com Portugal. O diplomata hispanhol consegue em
    quatro mezes o que o ministro de Portugal só pôde alcançar em tres
    annos! E ainda se não fez nem o tratado de commercio nem a convenção
    postal, nem a convenção litteraria!

    Se, pelo contrario, não são os actos do funccionario, mas sim os
    applausos do publico que determinam os merecimentos do diplomata, n'esse
    caso achamos preferivel ao sr. Mathias de Carvalho–a sr.ª Emilia
    Adelaide.

    * * * * *

    Por ultimo declaramos ao auctor do folheto intitulado _Duas palavras aos
    leitores das Farpas_, aos leitores das _Farpas_, e ao mundo, o seguinte:

    1.º Nem um só, nem um unico facto asseveramos a respeito do Brazil, que
    antes de nós não tivesse sido clara e positivamente affirmado na
    imprensa da Alemanha, da Suissa e da França, por differentes viajantes,
    entre os quaes citamos especialmente como fonte de todas as nossas
    informações os srs. Adolphe Dacier, Waldemar Schultz, Elisée Reclus,
    Tschudi e Avé-Lallemant. Os leitores decidirão quaes affirmações merecem
    mais fé: se as que são feitas pelos viajantes citados, em livros
    propriamente scientificos devidamente assignados, e em relatorios
    especiaes apresentados pelos auctores aos governos dos seus respectivos
    paizes; se as que nos são propinadas no libello intitulado _Duas
    palavras aos leitores das Farpas_, por um patriota brazileiro … e
    anonymo!

    2.º Não estamos resolvidos a subordinar a opinião de que nos acharmos
    convencidos, nem á vontade, nem aos conselhos, nem ás ameaças de
    ninguem. Se Deus não fosse a absoluta verdade, a verdade estaria acima
    de Deus. Como querem então que a prostremos debaixo dos _syllabus_ do
    Catete ou das _bulas_ da rua do Ouvidor?!

    * * * * *

    Se porém, apezar de tudo isto, a joven America brazileira se parece
    tanto com a rainha Fulvia que lhe seja absolutamente preciso para a sua
    felicidade varar-nos a lingua com o seu prego de oiro, como fez a Cicero
    a mulher de Marco Antonio, que a America se não incommode a escrever
    para isso mais folhetos. Venha o prego. Aqui está a lingua.

    * * * * *

    As «corridas» do Campo Grande–Extraordinario successo de dandysmo!

    Não assistimos, mas lemos que esteve o _high-life_, o famoso
    _high-life_, com o qual temos sempre o infortunio de nos desencontrar!

    Estamos todavia d'aqui a vêl-o, a imaginal-o, rico, elegante, bello, no
    Campo Grande, em volta do lago–o _high-life_ …

    A aristocracia nos seus _landeaux_, com enormes cocheiros gordos, de
    barrigas de pernas phenomenaes e bizarras.

    A alta finança em carroagens de posta com os senhores na almofada, e os
    creados, recamados de galões de ouro, dentro da berlinda, immoveis,
    empoados, descobertos, com os tricornes na mão.

    Os diplomatas, nedios, sorrindo na doce bestialidade espirituosa de quem
    sente no paladar os succos perfumados de uma aza de codorniz _truffada,_
    repimpados em _daumonts,_ com uma _carvajal_ nos beiços e uma marta
    zibelina debaixo dos pés.

    A galanteria, com as suas representantes de cabellos côr de manteiga e a
    pelle especial dos estranhos climas do _cold-cream,_ da decocção indiana
    aromatica e tonica, e da balneação mucilaginosa do leite de morangos e
    de _ess-bouquet,_ dentro dos seus _broughams_ ou em pequeninos coupés de
    flecha e oito molas, levando ao lado no logar devoluto da carroagem um
    ramalhete de cem francos ou um microscopico _kings' charles,_
    descendente, aperfeiçoado em pequenez, da cadellinha que Henrique III
    trazia mettida na manga …

    Depois os picadores, de librés verdes, os batedores de encarnado, os
    postilhões, as _victorias_, as _americanas_, os _poney-chaises_ … os
    _grooms_ em finos cavallos inglezes, nervosos, descarnados, de olhos
    scintillantes e ventas altas, abertas, redondas, frementes. Os
    _sportmen_ em _breaks_ ou em _dog-cart_….

    Sente-se o fluxo e o refluxo do grande luxo, a maresia da elegancia.
    Respira-se entre as arvores um ar empregnado de fina perfumaria, como
    n'um salão. Vae-se a passo por causa da agglomeração das carroagens e
    dos cavallos. De quando em quando succede mesmo que os cocheiros se
    empinam de repente para traz, e que se é obrigado a parar.

    Ouve-se então o respirar dos cavallos, o ranger dos arreios e os finos
    ditos que partem do fundo dos _coupés_.

    De carroagem para carroagem trocam-se as palavras que fazem estremecer,
    e encontram-se os olhares que fazem scismar.

    Por baixo dos guardas-soes de seda branca mostram-se as cabeças loiras
    das mulheres, que estão de costas para nós, deixando vêr a nascença dos
    seus cabellos penteados para a nuca, tocados de sol, luminosos como fios
    de ambar. Cada mulher que passa traz comsigo a excitação particular do
    seu genero de belleza. Umas reveem as finuras do amor moderno,
    calculado, scientifico. Outras inclinadas para traz, dormentes,
    languidas, obrigam a phantasiar as caricias orientaes.

    As sedas, cingindo a curva do peito e caindo em pregas quebradas de
    reflexos, as sedas da moda, de tons verdes aquaticos, dão ás mulheres
    esveltas a côr das visões dos lagos, das heroinas das legendas druidicas
    e dos cantos de Ossian.

    Sob a palpitação dos leques sentem-se estremecer no espaço correntes
    aerias de volupluosidade indefinida.

    Pela estreitesa das testas, pela espessura dos beiços, pela carne
    polpuda das pequenas orelhas, pelas frias expressões do olhar indagador
    e critico, percebe-se porém que essas delicadas creaturas que passam,
    ondulantes e harmoniosas como sereias, teem o bom gosto pratico de
    preferirem aos suspiros de Fingal e de outros bardos os camarotes na
    opera, os fofos _coupés_, os quentes _cachemires_, e os finos jantares.

    Pela qual razão vae cada um pensando vagamente em se lançar nas
    finanças, no jogo doa fundos, nas grandes companhias, nos emprestimos ao
    governo, nos bancos, no dinheiro em fim, no vasto dinheiro, no profundo
    dinheiro illimitado …

    E em quanto as carroagens esperam ou rodam em volta de nós, os
    cavalleiros passam, e as _toilettes_ scintillam, a pobre natureza ao
    longe, nas collinas, parece envergonhada na sombra das suas arvores, na
    humildade dos seus limos e dos seus musgos, porque ella é verdade que
    tem os altos montes e os fundos mares, tem o Niagara e o Etna, mas não
    tem os braceletes de Sampere, as luvas de oito botões, e as rendas de
    Malines!

    Tal é o perfil das «corridas»; tal é o _high-life_.

    Dizem as folhas que elle esteve no Campo Grande, e nós piamente o
    crêmos.–Pelo que, d'aqui enviamos os nossos parabens ao _Collete
    Encarnado_.

    Não se inscreveram no Derby lisbonense os Hamilton, nem os Lagrange, nem
    os Rothschild, nem os Mouchy, nem os Dudley Stuart. Inscreveram-se
    apenas, com os seus trens, o João Russo e o Chico Perfeito, cocheiros da
    praça…. _Alea jacta est!_

    Elles partem nos seus fiacres, ao trote.–_Montjoie et Saint-Denis!_

    O Russo venceu o Chico com a distancia do comprimento de uma pileca.
    _Hurrah!_

    * * * * *

    Muito devemos esperar, para a civilisação e para o dandysmo, da boa
    estreia d'estes hyppicos torneios especialmente destinados a apurarem em
    Portugal a famosa, a incomparavel, a unica raça … das tipoias!

    Parabéus a todo o _Sport_ europeu, e ao nosso defunto Lagoia!

    * * * * *

    Hontem no theatro de D. Maria–primeira representação da _Magdalena_,
    especie de _Dalila_, de Octave Feuillet, localisada entre o Arco do
    Bandeira e o da Rua Augusta, como presente malicioso de Pinheiro Chagas
    ás curiosidades do _chic_, na Baixa.

    * * * * *

    N'este drama ha tres typos principaes:

    _O amante_–Um Hamlet de aldeia, um Conrado, um cavalleiro negro–de
    Figueiró dos Vinhos. Dandy melancholico, como um Satanaz em uso de
    figados de bacalhau. Um Alcibiades quebrado. Um pallido cherubim
    portador de uma paixão e de uma tenia. Typo lamartiniano, o anjo caturra
    da velha ode, a personalisação do antigo amor lyrico–sob os symptomas
    lancinantes e urgentissimos da colica.

    _A noiva_–Menina educada no convento. Creada com doces de freiras e com
    livros de versos. Organisação de ovos de fio e de romances baratos. Amor
    e dispepsia. Pouco cerebro e muita cuia. Não faz saborosos coscorões,
    não deita alvas teias de linho nem gordas ninhadas de perus como sua
    mãe, casta e sabia Penelope. Ella corta a serena tradicção burgueza e
    rural da familia. Despresa com ascos as conservas do lombo de porco em
    vinho e alhos. Cultiva a orthographia e a arte poetica com mais
    disvello, mas menos proveito que aquelle que sua mãe tira do cultivo
    modesto das alfaces, das finas hervas, dos primores horticolas. Não ama
    finalmente senão uma coisa–o talento!… Pobre rapariga! desditosa
    burgueza! que esteril e que perigosa idolatria a tua! O _talento!… a
    divina inspiração!… o supremo encanto!.._ Coitada! se acreditas
    n'isso, estás perdida. A tua imaginação doente entregar-te-ha submissa,
    humilhada, ridicula, ao primeiro noticiarista de _soirées_ que te
    appareça, á primeira _bas-bleu_ que te escreva cartas, ou á primeira
    actriz que te beije e abrace. O talento!… Mas não ha nada
    verdadeiramente respeitavel senão o trabalho, a abnegação, a
    perseverança, o sacrificio e a virtude. O talento é uma simples
    fanfarronada. O talento é uma invenção dos bohemios para substituirem a
    _toilette_ e a roupa branca. O talento é um falso titulo clandestino de
    apresentação, fabricado por aquelles que não teem titulos legitimos para
    que a sociedade os receba. Fazer-se passar como «tendo talento» é um
    meio de cada um se eximir a que lhe perguntem se «tem caracter.» O
    talento finalmente é o seguinte typo d'esta peça:

    _A amante do noivo_–Uma actriz que foi educada no convento com a noiva
    o que, passados annos, a noiva recebe em sua casa com reconhecimento,
    com adoração, com enthusiasmo, apezar da actriz não ser senão uma
    _lorette_; uma artista _aux camelias_; grande genio de _petit-lieu_;
    celebridade baptisada com _Champagne_, entre rapazes, depois das ceias,
    em gabinetes reservados. Um martyrio, se quizerem, mas um martyrio que
    exige um bracelete e uma nota do banco para se estender na sua cruz. Uma
    paixão, se isso lhes apraz, mas uma paixão Rigolboche, que se concilia
    com o _cancan_, que adopta a arte para canalisar o vicio, que nunca
    chega ao fel do seu calix por que o tem sempre cheio de Malaga ou de
    _pale-ale;_ que pede uma mortalha, mas talhada por Worth, á Rabagas, com
    rendas de vinte libras o metro. Uma Magdalena emfim, mas uma Magdalena
    penetrada do peccado moderno, barato, para todo o mundo, cheirando aos
    sitios publicos, ao tabaco de fumo, á cerveja azeda e ao gaz
    extravasado.

    _O drama_. O noivo acha que _Tant-de-charmes_ é mil vezes mais
    interessante do que _La-vertu-même_. Por tanto o noivo abandona a noiva
    virtuosa e corre atraz da amante impudente. A burgueza abandonada vae
    então chorar aos pés da comica. Esta resolve devolver-lhe o noivo com
    tanto mais vontade quanto é certo que o noivo é a semsaboria toda d'este
    mundo na figura insignificante de um provinciano piegas, em primeira mão
    de conquista, que desmaia de puro amor ao declarar a sua chamma,–de
    sorte que é preciso gastar tanto com elle em sal ammoniaco para lhe
    restituir os sentidos quanto elle gasta em rhetorica para os fazer
    perder aos outros.

    O noivo pois regressa para a noiva. A actriz faz uma phrase. E o panno
    cáe.

    * * * * *

    Ha n'esta peça uma personagem secundaria, sem acção nenhuma no enredo e
    no desenlace, para a qual nos parece um bom serviço á moral o chamarmos
    a attenção do publico. É uma burgueza que apparece no segundo acto em
    casa da noiva, onde está hospedada a actriz. Essa pessoa, de notavel
    juizo, que diz coisas justas a respeito das creadas e dos arranjos da
    casa, apenas sabe que ha na reunião para que a convidaram uma mulher
    cujos appelidos e cujos diamantes não se sabe d'onde procedem, toma sem
    mais cogitações o braço de seu marido, deseja á dona da casa o juizo que
    lhe falta, e retira-se em pleno escandalo.

    O publico ri, e tanto na scena como na sala é um pouco apupada esta
    _ménagére,_ que se declara abertamente incompativel, dentro do mesmo
    recinto e debaixo dos mesmos tectos, com uma actriz _cocodette_.

    Pois bem: é essa mulher que se vae embora–notae-o bem, minhas queridas
    burguezas!–é essa mulher que se vae embora, a que ahi, deante de vós,
    está dando o unico exemplo que deveis seguir. Todas as demais pessoas
    d'esta peça teem o lyrismo, a eloquencia, a convenção litteraria; só
    esta é que inteiramente possue a verdade e o juizo.

    O que todas vós tendes que fazer perante a concorrencia e o cotejo a que
    vos queiram sujeitar com as mulheres artistas, celebridades no mundo do
    theatro ou no _demi-monde_, é tomardes o braço dos vossos maridos e
    sairdes com elles.

    Os maridos portuguezes estão pessimamente educados; foram creados com
    as operas de Verdi, com os romances de Chateaubriand, com as poesias de
    Lamartine e de Musset; teem o systema nervoso exaltado, a imaginação
    plethorica, o temperamento irritado, e o juizo das coisas praticas
    derrancado ou extincto.

    As creaturas artificiaes, morbidas, irritantes pelos poderosos
    contrastes do desvergonhamento da alma e das finas delicadezas da pelle,
    serão sempre as que dominarão os homens corruptos e que os levarão
    comsigo. Ellas teem um prestigio de vicios triumphantes, de elegantes
    indolencias, de altos desdens, de serenas voluptuosidades perennes, com
    que vós, mulheres honestas, dignas, impeccaveis, não podereis nunca
    luctar.

    Vós tendes o sentimento real que ri em grossas gargalhadas ou que incha
    as palpebras e engrossa a pelle com o correr das lagrimas: ellas teem a
    sentimentalidade correcta dos pasteis de Latour ou das porcelanas de
    Saxe–inalteravel mimo de galeria ou de étagère.

    Vós tendes a forma das vossas mãos um poueo affastada do ideal de
    Praxiteles pelos habitos honestos da vida activa, do trabalho; algumas
    vezes a ponta do vosso dedo está picada pelo bico da agulha: ellas teem
    as mãos finas, afiladas, pallidas, transparentes, que obrigam a sonhar
    estranhas caricias e que são o resultado de quinze annos de ociosidade
    estupida de serralho, de chloroses e de massas de amendoas.

    Vós tendes uma passagem de miudos e pacientes pontos n'um dos vincos do
    setim dos vossos sapatos: ellas teem uns sapatos por noite e umas luvas
    por dia.

    Finalmente vós sois a probidade e o decoro. Ellas são a dissipação e o
    vicio.

    Ora os homens educados pela sociedade, por si proprios, e em grande
    parte por vós mesmas, minhas senhoras, nas corrupções litterarias e
    poeticas, nos falsos ideaes epidemicos do sentimentalismo, da
    melancolia, da paixão, dos amores fataes, os homens assim educados,
    quando lhes acorda o temperamento e a imaginação, começam–por enjoar a
    virtude.

    Não queiraes reagir. Vede bem. A lucta humilha-vos e deshonra-vos.
    Evitae-a. O espirituoso drama do nosso amigo Pinheiro Chagas é um grande
    aviso, maior talvez do que o auctor suppunha: As _Magdalenas_ não sobem
    as escadas das casas em que ha mulheres honestas.

    E então os direitos do talento? E as rehabilitações pelo amor?…

    Oh! meus senhores, mas desde 1830 que os romancistas e os dramaturgos
    pouco mais teem feito do que procurar convencer a sociedade d'esses
    direitos e d'essas rehabilitações, ao passo que a sociedade tem
    constantemente e invariavelmente refutado sempre os romancistas e os
    dramaturgos!

    Não lhes parece que vae sendo tempo de darmos a velha questão por
    discutida?…

    * * * * *

    Não! não é para que nos tragam o premio da austeridade e da virtude! Não
    somos nós os que fugimos para a Thebaida, a flagellar o nosso pobre
    corpo, ao aspecto das peccadoras espirituosas a cujos pés passou a sua
    vida, em extase, a geração litteraria que nos precedeu. Sómente para que
    levemos a essas damas a visita da arte, achamos de bom gosto deixar
    arejar um pouco os tapetes em que estiveram por tanto tempo prostrados
    os nossos antecessores.

    * * * * *

    Chegamos do palacio das Janellas Verdes. Vimos de assistir ao leilão do
    espolio de sua magestade a imperatriz, ultimamente fallecida.

    Grandes salões enormes, altos, quadrados, angulosos,–á marquez de
    Pombal.

    Nas salas de honra, estofos de damasco e moveis do primeiro imperio, no
    estylo chato, _parvennu_, pretencioso, mas rico, do seculo de Bonaparte,
    esse Luiz XIV de caserna.

    Mesas, sophás, tremós, de fórmas rectangulares, riscados pela regoa,
    guarnecidos de columnas parallelas, de capiteis de bronze.–O que quer
    que seja de fortaleza, de baluarte, de ariete, de escudo, e de templo do
    genio!

    As guarnições de chaminé, as taças, os candelabros, os lustres–tudo
    bronze, macisso, pesado.

    As pendulas doiradas são rematadas pela aguia imperial ou por assumptos
    de fria inspiração bucolica bebida com assucar e agua de flôr de laranja
    na contrafeita natureza dos parques de Versailles delineados a cordel.

    Uma multidão compacta, plebeia, suada, conservando os chapeus na cabeça
    e os cigarros nos beiços, cuspindo nas alcatifas, limpando com o dedo
    molhado em saliva o pó das tellas e das estatuetas, ou apoiando a sola
    da bota nas almofadas das poltronas para tomar notas sobre o joelho,
    enche os salões e vae deitando os lanços.

    O pregoeiro–_Uma mesa offerecida pelo imperador Napoleão I, o grande!_

    Um adelo–_Ponha lá uma libra por ter sido d'esse sujeito … e, em fim,
    porque é de mosaico!_

    Os licitantes animavam-se, os preços subiam, os objectos em praça eram
    rapidamente adjudicados ao maior lanço, e tudo quanto enchia aquellas
    regias salas ia successivamente passando para o povo que as invadia.

    Não era sómente um leilão aquillo, era uma liquidação pronta e solemne
    dos ultimos restos de um imperio extincto, de um cesarismo arruinado e
    fallido, de um mundo inteiramente acabado e desfeito.–Extranho
    espectaculo, de tal modo significativo que era quasi doloroso!

    * * * * *

    Passa-se aos aposentos particulares da imperatriz.

    Lá fóra, nos salões, revelava-se uma epoca poderosa.

    Aqui transparece apenas uma individualidade feminil, delicada e modesta.

    N'estes quartos em que a viuva de D. Pedro IV se conservou por tantos
    annos recolhida e occulta n'uma clausura inviolavel, sente-se
    perfeitamente a sua personalidade em todos os detalhes da existencia.
    Nenhum aspecto de luxo, de pretenção ou de apparato. O chão é coberto
    com simples esteiras; todos os cortinados são de cassa branca, e todos
    os estofos de chita em pequenos ramos de flôres sobre fundos pallidos.
    Os aposentos estão cheios de étagères de todas as fórmas, com todas as
    disposições. Pequenas bibliothecas e pequenos armarios, dispostos por
    toda a parte. Uma infinidade de mezinhas de escripta, de leitura, de
    costura ou de bordado. Cadeiras de todos os formatos e das mais diversas
    proporções, sem nenhum estylo, sem genero artistico, sem época, sem o
    minimo lavor, sem concessão alguma á elegancia ou á simetria–uma
    visivel exigencia da vida sedentaria e doente, a necessidade physica de
    mudar a todo o momento de posição, para deslocar a sua dôr, para
    motivar o seu pequeno exercicio e povoar por si mesma, com as suas
    diversas attitudes a sua solidão. Defronte das janellas ha pequenos
    biombos de chita franzida para impedir as correntes de ar, formando uma
    especie de kiosques, subdivisões minimas de abrigo e de recolhimento. Ha
    muitas estantes de leitura, mezas de desenho ao crayon ou á aquarella, e
    uma caixa cheia de lapis aparados, de diversas côres e de differentes
    numeros. Uma grande secretária, larga pesada, lisa, e defronte d'ella
    uma enorme poltrona ingleza, estofada de carneira escura, usada, tendo
    aos pés uma almofada esfarpada e gasta. Era a cadeira em que a
    imperatriz se sentava ordinariamente, e que se vê em todos os seus
    ultimos retratos. Sobre uma mesa apparece um Christo, antigo,
    marchetado, trazido de Jerusalem, deante do qual, por muitas vezes,
    decerto, se ajoelhou a imperatriz. Ao lado d'esta sagrada imagem e como
    diversão á gravidade do seu dolorido e pallido aspecto encontrámos
    dentro de uma caixa aberta um instrumento de uso demasiadamente intimo
    de Sua Magestade, o qual objecto suppunhamos que não era licito expôr em
    publico senão como accessorio da scena triumphal do ultimo acto do
    _Malade imaginaire_, ou como vinheta illustrativa nas obras de Avicena:
    ao lado do aphorismo, _Medicamen clister nobile est_.

    E aqui suscita-se-nos o meditar, diante d'esta caixa aberta, quaes serão
    os principios politicos de suas excellencias os executores
    testamentarios da fallecida soberana.

    Porque, realmente, não nos occorre como os possamos classificar….

    Se são republicanos, democratas, socialistas, suas excellencias deveriam
    saber que nunca se abrem as caixas reservadas da _toilette_ de uma
    senhora.

    Se são monarchicos, deveriam comprehender que n'estes tempos de
    discussão implacavel é perigoso para o prestigio das testas coroadas
    denunciar aos povos, por via de uma imprudencia de suas excellencias,
    que se os soberanos que os governam estão por um lado tanto acima
    d'elles pelo direito divino, não são por outro lado mais que seus
    simples eguaes pelo direito therapeutico, e que finalmente pode ser um
    novo e terrivel argumento inesperado em favor da egualdade dos homens–a
    constipação intestinal dos principes!

    * * * * *

    O pregoeiro do leilão é acompanhado pelo sr. barão de S. George, consul
    da Suecia e representante de Sua Magestade a rainha, irmã da imperatriz
    fallecida.

    O sr. consul faz a historia de alguns objectos postos em praça, garante
    a sua authenticidade historica, e encarece com tocantes discursos o
    valor de cada coisa.

    S.ex.ª o sr. barão, delegado de sua magestade a rainha da Suecia, em
    beneficio da qual se faz a venda em hasta publica do espolio de sua
    irmã, attesta-nos que tal cama é a mesma em que dormia na sua tão breve
    mocidade sua alteza serenisssima a princeza do Brazil; tal chavena
    aquella por que Sua Magestade bebia os seus remedios; taes bonecos os
    mesmos com que a infeliz infanta D. Amelia brincava em pequenina, e que
    sua mãe conservava como um piedoso penhor de saudade!

    * * * * *

    Graças a todos estes preciosos esclarecimentos, amavelmente dados por
    s.ex.ª o consul á multidão dos licítantes, dos adelos, dos ferro-velhos
    e dos cabeças de pau, Sua Magestade a rainha da Suecia terá a doce
    consolação–tão sensivel ás almas sublimes–de receber duzentas libras a
    maior da somma em que haviam sido avaliados os saudosos e queridos
    despojos d'aquella que duas vezes fôra na terra sua irmã–como mulher e
    como rainha!

    * * * * *

    Oh! como deverá ser bom e suave, na ultima estação da vida, quando os
    rheumatismos rangem nas frias articulações da nossa velha ossada,
    embrulharmo-nos tremulos na purpura real, no alto do nosso
    throno,–tendo aos nossos pés os nossos vassallos inclinados e a nossa
    cova aberta,–fitar serenamente no espaço a branca apparição d'aquella
    que amamos no mundo e que nos espera entre as estrellas nas esfumadas
    sombras do crepusculo, e podermos então exclamar em nossa consciencia:

    «Sim, ella morreu … mas abençoado sejas tu, nas alturas infinitas, ó
    Deus meu e dos meus exercitos, pois quizestes permittir que aquelle
    objecto que lhe pertenceu e que ella tinha occulto por detraz de uma
    cortina no seu quarto de lavatorio fosse venturosamente arrematado–por
    trez mil e seiscentos!»

    * * * * *

    SCENAS DE RELIGIÃO.–Lemos no _Diario Illustrado_ o seguinte:

    «Em additamento á noticia que ontem démos da saida processional do
    Senhor aos entrevados da freguezia de Santa Justa e Rufina, somos hoje
    informados que a interessante filhinha do sr. Marcos Maria Fernandes e
    D. Maria Cecilia da Conceição Almeida Fernandes, proprietarios do
    acreditado estabelecimento de modista de chapeus e vestidos na travessa
    de Santa Justa n.º 81, vae tambem n'essa procissão, distribuindo esmolas
    aos enfermos pobres, que receberem o Viatico, sendo vestida a custa e
    por generoso e espontaneo offerecimento de seu pae, que é irmão do
    Santissimo d'aquella freguezia.

    «Leva a gentil menina, symbolo de caridade, vestido de faille azul
    claro, com outro de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras, e
    um manto branco preso na cabeça por um diadema do pedraria e semeado de
    estrellas de oiro de lindo effeito.

    «Esta devoção do sr. Fernandes, que ha quatro annos successivos tem
    levado a sua filhinha vestida de anjo n'aquelle acto religioso, offerece
    no presente anno uma novidade elegante, e que decerto será do mais
    apurado bom gosto, se attendermos ao extremo paternal do sr. Fernandes,
    e ao esmero e apuro de todos os trabalhos do seu estabelecimento, onde é
    variadissimo e primoroso o sortimento de tudo quanto respeita a enfeites
    de senhora.»

    * * * * *

    Ó dôce Jesus, eterna bondade simples e infinita como o Céo! aqui tendes
    como elles a comprehendem, na freguezia de Santa Justa e Rufina, a
    caridade, a pobre e modesta caridade, que vós mandastes definir por S.
    Paulo com aquella palavra tão inspirada e tão bella.–O amor dos
    corações puros e das consciencias boas!

    Elles entendem-a agora assim: vestida de faille azul claro, com segundo
    vestido de tulle branco aventalado adiante, com finas pedras e um manto
    branco preso na cabeça por um diadema de estrellas de oiro de lindo
    effeito!

    Comparae, ó Jesus, a descripção dos vossos antigos anjos feita por Santo
    Ignacio–_incorporeas mentes_–com esta descripção que o _Diario
    Illustrado_ nos apresenta dos vossos anjos modernos!

    Que dirão os cherubins, os seraphins e os archanjos, que dirão Miguel,
    Raphael e Gabriel, elles nus, sem mais _toilette_ que as suas longas
    azas candidas, ao verem junto de si nas chorêas sidereas o novo
    anjo–Almeida Fernandes?!

    Como ficarão vexados e humilhados no Céo–os outros–quando o cherubim
    Almeida lhes apparecer com as tranças torcidas a ferro, com vermelhão
    nos beiços, e o seu _vestido aventalado adiante_, e contar que foi o
    papá Fernandes quem o arranjou assim para elle representar diante dos
    homem a imagem da caridade!

    Oh! mas realmente, é um bom quinau dado pelo sr. Fernandes no Creador!
    Lição terrivel de elegancia e de _chic_ ministrada a todo o reino dos
    Céos pela Travessa de Santa Justa! Nem a Baixa calcula talvez a grande
    importancia que isto vae dar ao estabelecimento do sr. Fernandes–no
    Empireo!

    Pela nossa parte não nos maravilhará extraordinariamente que o sr.
    Fernandes, proseguindo nas suas conquistas sobre o territorio divino,
    acabe por ajuntar ao seu estabelecimento de modas uma succursal da
    côrte celeste, e que depois de converter a sua familia em anjos de
    tulle, elle mesmo acabe por apparecer aos seus freguezes transfigurado
    em Deus … de filó!

    E então, para nos entendermos com s.s.ª sobre os objectos do seu
    commercio, teremos, ao entrar na sua loja, de nos ajoelharmos, de
    batermos no peito e de exclamarmos com attricção verdadeira:

    Eu peccador me confesso a Fernandes todo poderoso de que preciso de um
    par de ceroulas de linho de Irlanda, e por tanto lhe dirijo humildemente
    minhas fervorosas preces para que desça das alturas e venha a nós–para
    nos tomar medida. _Amen_!

    * * * * *

    Acabamos de ver como os burguezes conservadores entendem a caridade no
    catholicismo. Vamos ver agora como é que os operarios socialistas
    entendem os principios do direito perante a revolução.

    Ao passo que o _Diario Illustrado_, folha monarchica e catholica, nos
    apresenta a religião na menina Almeida Fernandes, o _Pensamento Social_,
    periodico revolucionario, expõe-nos, na menina Palmira da Conceição, os
    direitos do povo.

    O _Pensamento Social_ diz assim:

    «Teve logar a annunciada sessão da propaganda na associação do trabalho
    nacional. Estiveram presentes cêrca de 60 companheiras, frequentando a
    sala durante a sessão proximamente 700 companheiros. Presidiu uma
    companheira, mantendo-se uma assembléa tão numerosa na melhor ordem.
    Deu-se n'esta sessão um facto que sensibilisou toda a assembléa; uma
    companheira, que tem apenas nove annos de edade, como que sensibilisada
    pelas aspirações da razão e da justiça, em plena assembléa pediu a
    palavra e pronunciou a seguinte oração, que leu:

    «Companheiros e companheiras.–Declaro-lhes que cada vez que tenho de
    entrar em assumptos de tal natureza, arrasam-se-me os olhos de agua e
    cobre-se-me o coração de uma nuvem negra; comtudo não posso deixar de
    levantar a minha debil voz para dirigir duas palavras ás nossas
    companheiras e companheiros da fabrica de fiação e tecidos lisbonenses.
    Companheiros e companheiras: dirijo-vos os meus sinceros sentimentos,
    porque tendo sido bem conhecedora das injustiças que se estão fazendo ás
    nossas companheiras, e com especialidade ás menores, porque não só são
    castigadas com o seu diminuto salario, como tambem as maltratam com
    pancada.

    «Ai companheiros e companheiras, não posso deixar de curvar o joelho e
    pedir ao meu Deus, se estamos em peccado mortal: perdoae-nos. Mas não,
    que já vou vendo raiar a aurora; continuemos sempre a empregar todos os
    nossos esforços para que um dia breve estejam reunidos nas nossas dignas
    associações todos os que vivem do trabalho. Conseguido isto, o que não é
    muito difficil, e empregando todos a nossa vontade, poderemos dizer que
    não estamos em peccado mortal, e tambem poderemos dizer que se acabaram
    os castigos embrutecedores. Peço pois a todos os companheiros e
    companheiras que empreguemos toda a nossa vontade, energia e dedicação
    para podermos alcançar o nosso triumpho, que é a emancipação de todos os
    trabalhadores, isto é, todos os direitos e deveres sociaes. Depois os
    nossos vindouros nos cobrirão de bençãos por lhes termos creado tão bom
    dote. Não querendo entreter-vos mais termino pedindo que vos não
    esqueçaes dos nossos companheiros grevistas.–_Palmira da Conceição_.»

    * * * * *

    Esta creança de nove annos de edade que nos declara _que os olhos se lhe
    arrasam de agua e o coração se lhe cobre de uma nuvem negra sempre que
    lhe tem succedido ter de entrar em assumptos de tal natureza_, é uma
    verdadeira menina benta, um phenomeno! Diremos mesmo: é um milagre, é
    uma pequena nossa senhora apparecida–da fabrica lisbonense de fiação e
    tecidos!

    Ella é a destinada pelo povo a substituir, como futura deusa da razão, o
    actual anjo Almeida Fernandes–nas festividades populares.

    * * * * *

    Ha pequenas differenças:

    O anjo Almeida traz-nos a religião e a caridade. A deusa Palmira é a
    portadora da _emancipação dos trabalhadores, dos direitos e deveres
    sociaes._

    O anjo adeja sobre as ruas pacatas da Baixa. A deusa surge no bairro
    inquieto de Alcantara.

    O anjo caminha gravemente–enfunado, crespo de folhos e de rendas, como
    um peru armado–a passos cadenciados pelas harmonias da phylarmonica
    _Alumnos de Minerva_, dando a mão a Fernandes, seu pae carinhoso,e
    espargindo petalas de rosas, de dentro de um cesto de casquinha, sobre o
    mundo velho.

    A deusa vem ao collo de um _companheiro_ membro da _Fraternidade
    Operaria_ e clarinete na mesma phylarmonica que bufou, talvez, o mais
    convicto e consciencioso _hymno da carta_, atraz da angelica vergontea
    de Fernandes. A deusa alliando em sua joven personalidade a innocencia
    da edade que tem com a aspiração philosophica da classe a que pertence,
    mette um dedo no nariz e aponta com o outro o destino do proletariado na
    futura organisação social.

    O anjo é a religião de barejes, de talagarças e de retalhos de bobinet.

    A deusa é a justiça de figuras de rhetorica, de discursos de associação
    e de erros de prosodia.

    O burguez, contente com o seu meio de reacção, distribue ao anjo
    confeitos e rebuçados de avenca. O operario, satisfeito com o seu plano
    de resistencia e de revolução, solicito, assôa a deusa.

    Ora, francamente, não nos parece que estes sejam os methodos mais
    efficazes que possam escolher os srs. burguezes e os srs. operarios.

    Não será com o seu anjo de vestido «ventalado», com veu branco e
    pedrarias de lindo effeito, que a burguezia impedirá a passagem á
    corrente das idéas novas que a assoberbam e intimidam.

    Não será tambem com a sua oradora de nove annos, _inspirada pela razão e
    pela justiça_, que o proletariado conseguirá convencer-nos da seriedade
    dos seus direitos ao predominio das sociedades futuras.

    O trabalho–bem o sabemos–é uma coisa augusta e sagrada. O
    commercio–desculpem-nos os senhores proletarios–é tão sagrado como o
    trabalho. O commerciante que compra a cada um dos que produzem as suas
    obras, levando-lhes, em troca dos objectos que fabricam os objectos que
    consomem, faz á sociedade, por meio do estabelecimento do mercado, um
    serviço tão relevante e tão legitimo como o da producção da mercadoria.

    O pae da menina Palmira que faz um chale quando ninguem quer chales e o
    pae da menina Fernandes que lh'o compra logo, para o vender depois
    quando lh'o pedirem, são dois cidadãos egualmente uteis e respeitaveis.
    Se o pae do anjo é puramente ridiculo vestindo a sua filha como uma
    boneca de _vitrine_ e encarregando o _Diario Illustrado_ de lh'a
    apregoar como um symbolo de caridade, o pae da deusa é injusto, é
    ignorante, é perigoso, e é egualmente ridiculo, ensinando á sua filha,
    para que ella as leia em publico, palavras ôcas de falsa razão e de mal
    entendida justiça, tão enthusiasticamente preconisadas pelo _Pensamento
    Social_, orgão das classes operarias.

    * * * * *

    Já que fallamos no _Pensamento Social_ notemos que nem sempre nos parece
    perfeitamente logico este jornal.

    Succede que elle guerreia o burguez, o _infame burguez_, e não cessa
    nunca de glorificar o operario. É a sua missão. Tem o seu partido. Nada
    temos que objectar.

    Quando se deu, porém, a _grève_ dos surradores, succedeu o seguinte:

    Os operarios tinham escolhido para apresentarem as suas propostas a
    phase da curtição em que os coiros não poderiam ser abandonados sem que
    apodrecessem nos seus tanques. Por este modo os patrões ou tinham de
    ceder á _grève_ ou correr o risco eminente de um grande prejuizo. Que
    fizeram os patrões? Não acceitaram as propostas dos grevistas,
    associaram-se todos, despediram os operarios, e foram em seguida, elles
    mesmos, acompanhados de suas mulheres e de seus filhos, de fabrica em
    fabrica, levantar os cortumes.

    Ora é singular que fosse exactamente este momento solemne da existencia
    dos patrões curtidores o que o _Pensamento Social_ escolheu para os
    flagellar com as suas ironias e os seus sarcasmos! A verdade é que
    exactamente n'esse momento é que os burguezes curtidores deixavam de ser
    burguezes para serem operarios. Parecia-nos que n'esta conjunctura o
    _Pensamento Social_ não deveria fazer senão o que nós fariamos no seu
    caso: tirar o chapeu e inclinar-se respeitosamente perante a coragem
    trabalhadora e digna dos seus altivos e honrados inimigos.

    * * * * *

    Os operarios na sua inquietação de candidatos á prosperidade baseada na
    justiça e na virtude, vão mal encarreirados dirigindo o seu movimento de
    revolução contra os pequenos burguezes que nunca lhes fizeram mal nenhum
    e que os srs. operarios injustamente odeiam ou desprezam. Os pequenos
    burguezes–deveriam lembrar-se d'isto os srs. operarios–são na actual
    organisação social, os alliados naturaes de todos os que trabalham e
    padecem. Os srs. operarios fariam bem se, em logar de encarregarem a
    menina Palmira de discretear nos seus congressos, traduzissem n'elles em
    voz alta esta pagina do seu amigo Proudhon:

    «Vós, burguezes, fostes em todo o tempo os mais intrepidos, os mais
    habeis dos revolucionarios. Sois vós que desde o terceiro seculo da era
    christã, por meio das vossas federações municipaes, estendestes a
    mortalha sobre o imperio dos romanos nas Gallias. Sem os barbaros que
    vieram mudar a face das coisas, a republica, constituida por vós, teria
    governado a edade media. Fostes vós que, mais tarde, oppondo a communa
    ao castello, o rei aos grandes vassallos, vencestes o feudalismo. Sois
    vós em fim que ha oitenta annos, tendes proclamado umas depois das
    outras todas as idéas revolucionarias, liberdade de cultos, liberdade de
    imprensa, liberdade de associação, liberdade de commercio e de
    industria; vós que pelas vossas sabias constituições fizestes justiça ao
    altar e ao throno; vós que estabelecestes sobre bases indestructiveis a
    egualdade perante a lei, a garantia legislativa, a publicidade das
    contas do estado, a subordinação do governo ao paiz, a soberania da
    opinião. Fostes vós, sós, que fundastes os principios e lançastes os
    fundamentos da revolução no seculo XIX. Nenhuma das coisas que se tentou
    sem vós, viveu; nenhuma d'aquellas que vós emprehendestes falhou. Diante
    da burguezia o despotismo tem curvado a cabeça: o soldado feliz, o
    ungido legitimo, o rei cidadão, desde que teem tido o infortunio de vos
    desagradar, teem desfilado diante de vós como phantasmas.»

    * * * * *

    Lemos em alguns periodicos que o sr. prior da freguezia da Encarnação
    acaba de furar as orelhas de uma santa que tinha na sua egreja para lhe
    pôr brincos.

    Parece-nos que este senhor ecclesiastico abusa das suas relações com as
    santas a ponto de proceder com ellas de um modo como não desejaria
    talvez que ellas procedessem com s.ex.ª …

    Como quer porém que seja, e admittindo-se mesmo que o sr. prior tenha o
    maior prazer d'este mundo em que lhe façam furos no corpo, entendemos
    que sua excellencia introduz no culto uma reforma arrojada, posto que
    extremamente simplificativa, substituindo as antigas manifestações de
    reverencia e de respeito devidas ás sagradas imagens–as genuflexões, o
    incenso, a missa cantada, a novena e o panegyrico–pela verruma!

    Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
    lavrar entre elles o receio que o sr. prior, adoptando definitivamente o
    seu novo systema liturgico, resolva de repente, um bello dia–em vez de
    pregar-lhes sermões–principiar a pregar-lhes pregos!

    Isto infunde nos fieis um certo desalento, porque começa naturalmente a
    lavrar entre elles o receio de que o sr. prior, adoptando
    definitivamente o seu novo systema liturgico, resolva de repente, um
    bello dia–em vez de pregar-lhes sermões–principiar a pregar-lhes
    pregos!

    Pede-se aos srs. assignantes das provincias o obsequio do mandarem
    satisfazer a importancia das suas assignaturas em divida, por meio de
    estampilhas ou do vales do correio. Correspondencia á calçada doa
    Caetanos, 30, Lisboa.

  • As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01 02)

    As Farpas Chronica Mensal da Politica, das Letras e dos Costumes (1873-01 02)

    Aproximadamente 16.329 palavras.

    [Illustration: AS FARPAS–R. ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ]

    RAMALHO ORTIGÃO–EÇA DE QUEIROZ

    AS FARPAS

    CHRONICA MENSAL DA POLITICA DAS LETRAS E DOS COSTUMES

    2.º ANNO

    Janeiro a Fevereiro de 1873

    Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder,
    da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das
    sciencias, da admiração das grandes personagens, das mystificações da
    politica, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande
    universo, e da adoração de mim mesmo.

    P.J. PROUDHON

    SUMMARIO

    As idéas no parlamento e a immobilidade egypcia. O discurso da corôa. Os
    partidos. As fórmas do governo. Governo livre e governo despotico.
    Republica ou monarchia? A nossa questão, e o nosso voto. Qual é o
    governo que nos espera. As maiorias e as opposições. Perfil da sociedade
    portugueza. O descontentamento geral. A nossa intelligencia, a nossa
    virtude, o nosso direito á liberdade–Reforma do exercito e dos
    estribos–As conspirações, as revoltas e as opiniões do parlamento–O
    enterro da senhora duqueza de Bragança.–Um conselho á força
    armada.–Prova-se que a camara dos deputados não tem amolecimento
    cerebral. Uma figura de rhetorica. O ex-rei Amadeu e varios outros
    personagens historicos inclusivamente o sr. Arrobas, com uma palavra
    sobre as botas de s.ex.ª–Resposta áquelle que jurou assassinar-me.–Os
    srs bispos do ultramar–O redactor do _Espectro_ e o ministro do reino.
    A inviolabilidade domestica. A calumnia. A publicidade–Joseph Prudhome
    e Pickuick.

    Toda a animação parlamentar, toda a vida representativa no mez corrente
    se resumiu no seguinte: a discussão da resposta ao discurso da corôa.
    Esta discussão partindo de um ponto–a approvação do projecto–, para
    findar exactamente no mesmo ponto de que partiu–a approvação do dito
    projecto–, é verdadeiramente a imagem constitucional da kneph dos
    egypcios, a velha serpente com o rabo na bocca, o symbolo desolador da
    immobilidade oriental.

    Tanta palavra dispendida, tanto tempo empregado, tanto dinheiro perdido,
    tantos suores, tantos gritos, tantos copos de agua desbaratados para se
    assentar nos termos em que o rei tem de cumprimentar o paiz e em quo o
    paiz tem de responder aos cumprimentos do rei!

    Como se, não havendo principios nenhuns de politica interna que
    affirmar, não havendo nenhuns factos de politica externa que expender, o
    que um rei tem que dizer ao povo e o que o povo tem que responder ao rei
    podesse, sem o mais criminoso abuso das prolixidades rhetoricas,
    alargar-se d'estes termos.

    _Discurso da corôa_: «Meus senhores, Deus lhes dê muitos bons dias!»

    _Resposta ao discurso da corôa_: «Senhor! Deus lhe dê os mesmos!»

    Tudo mais é emphatico, é ôco, é ridiculo–e é immoral.

    * * * * *

    Ha um mez inteiro que os srs. deputados, sob o pretexto de accordarem na
    collocação de um adverbio ou no significado de um adjectivo para a
    confecção de um periodo banal, se discutem a si proprios; chamam-se
    reciprocamente _desordeiros, calumniadores e ineptos_; e documentam e
    provam entre uns e outros, de partido para partido, que são
    effectivamente _desordeiros, conspiradores, calumniadores e ineptos_.

    As galerias enchem-se. Enchem-se de uma multidão desoccupada e ociosa,
    que não vae á camara levada pelas curiosidades scientificas, nem pelos
    interesses patrioticos. Vae apenas disfructar os contendores, rir-se
    d'elles, apupal-os no fundo da sua consciencia, e–o que é peior que
    tudo–preverter-se e desmoralisar-se no contacto da corrupção. Vão vêr a
    maledicencia dilacerar as reputações, como as féras nos circos romanos
    dilaceravam os martyres, e aprender no exemplo dos novos gladiadores do
    decoro a desprezar a honra diante do insulto, assim como nas antigas
    luctas do gladio se aprendia a desprezar a vida diante da peleja.

    Durante este mez as galerias do parlamento estiveram sempre cheias,
    segundo asseveram os jornaes. Encheram-as empregados publicos que
    desertaram as suas repartições, litteratos ambiciosos que abandonaram os
    seus livros, burguezes enfastiados que deixaram o seu trabalho,
    operarios em _grève_ que foram aprender a discursar nos seus comicios,
    pretendentes de empregos publicos, que foram examinar os pôdres por
    onde poderão romper os seus empenhos. E toda esta multidão perigosa, que
    precisaria de ouvir palavras de moralisação, de trabalho, de dignidade,
    assiste durante um mez inteiro aos exercicios de uma oratoria rasteira,
    sem elevação moral, sem correcção artistica, cheia de arrebatamentos
    estudados ao espelho, de improvisos ensaiados em familia, de coleras
    sobreposse, de indignações requentadas, de despeitos fingidos. Depois da
    lucta os athletas, com os colleirinhos abatidos e sujos pelas
    distillações do suor e das tinturas indeleveis, apertam-se entre si as
    suas pobres mãos inoffensivas e inuteis, e fazem-se gestos amigaveis,
    surriadas de bom humôr, piscam-se o olho, deitam-se a lingua de fóra,
    riem todos, e saem juntos de braço dado, amigos e inimigos, como velhos
    rabulas amaveis e cynicos, que vão comer juntos o jantar que ganharam
    descompondo-se em serviço da parte, que ficou na cadeia.

    E eis ahi no mais alto das instituições a escola publica em que o povo
    tem de aprender a ser digno e honrado!

    * * * * *

    Tome-se sobre o discurso de cada deputado a somma das affirmativas e
    negativas que fizeram em todos os principios geraes da politica e da
    administração: vêr-se-ha pela exposição integral das verbas
    correspondentes ás opiniões de cada partido e de cada individuo, que
    todos affirmaram e que todos negaram exactamente as mesmas coisas.

    Toda a questão é pessoal. Á porta os correios de secretaria, com os seus
    cavallos á rédea, esperam tranquillos. A divergencia versa sobre os
    nomes dos individuos atraz dos quaes esses correios teem de trotar d'ali
    para o Terreiro do Paço e do Terreiro do Paço para a Ajuda. Periclitam
    constantemente os abusos. É forçoso deslocal-os. Trata-se de saber de
    quem é a vez de os passear com uma pasta encarnada dentro de um _coupé_
    da Companhia.

    Quantos insultos, quantos improperios, quantos copos de agua, quantos
    erros de grammatica se não poderiam poupar ao pudor do paiz, dando
    definitivamente á companhia das carroagens este simples recado:

    «Os partidos são cinco–regeneradores, historicos, reformistas,
    avilistas e constituintes: que os _coupés_ do ministerio parem
    revesadamente de tres em tres mezes ás portas de cada um d'esses
    senhores, e quando o poder moderador quizer saber quem são os individuos
    que hão de levar-lhe o despacho em cada trimestre, que o poder moderador
    se digne de o mandar saber á inscripção patente na cocheira respectiva.»

    Os srs. correios de secretaria seguiriam as carroagens ministeriaes, os
    srs. deputados votariam calados.

    Um philosopho americano conta que nas ilhas Sandwich ha a superstição do
    que a força de um inimigo morto passa para aquelle que o venceu; em
    Portugal ha egual superstição com as successões do governo: a camara é
    sempre da opinião do que está no poder. Portanto, com a lei que
    propomos, acabariam as dissoluções e cessariam as discordias.

    Pela primeira vez ouvimos n'esta legislatura lançar-se ao debate e
    discutir-se a palavra Republica. Vimos que a fórma do governo
    republicano tem no seio do parlamento defensores e adversarios, havendo
    todavia um ponto em que uns e outros se acham inteiramente concordes, e
    é: que o povo portuguez não está por emquanto nem bastante educado nem
    bastante instruido para poder sem grandes perigos acceitar a republica.

    Pela nossa parte não somos monarchicos nem somos republicanos. A fórma
    constituitiva do poder não nos importa. O problema politico
    interessa-nos pouco. E n'este ponto achamo-nos inteiramente com o nosso
    tempo e com a sociedade actual. A questão grave que hoje preoccupa os
    povos não é de como se ha de distribuir o poder, é de como se ha de
    distribuir a riqueza. As classes que mais se agitam, as que por toda a
    parte amedrontam os manutensores da ordem, as que hão de revolver e
    fixar os destinos das sociedades futuras, não querem empolgar os
    symbolos do governo, querem simplesmente adquirir os instrumentos do
    trabalho; querem a terra e querem o capital. O problema moderno é o
    problema economico. Os reis estão sendo postos ou depostos por toda a
    parte sem perturbação e sem abalo. Porque? Porque ninguem se interessa
    em que elles se deixem ficar ou em que elles se vão embora. Voltaire
    defendia as monarchias com a razão de que preferia servir um leão que
    tivesse nascido mais forte que elle, a ser devorado por cem ratos da sua
    especie. Isto era no seculo XVIII, no tempo de Luiz XIV e de Frederico,
    em que nas monarchias havia o leão e não havia os ratos. No
    constitucionalismo moderno temos apenas os ratos que nos devoram. O leão
    é uma pacifica féra embalsamada, inoffensivo ornato de _ètagére_, que os
    ratos trazem comsigo debaixo do braço e que lhes serve apenas de
    pretexto para elles adoptarem esta fórma engenhosa e delicada de nos
    declararem que lhes appetece roer:–«Meus senhores, o leão pede
    viveres.»

    Se a religião da liberdade, da egualdade e da fraternidade nos não
    obrigasse a considerar as sociedades e a respeital-as como
    fundamentalmente autonomas, isto é, independentes de todo o dominio, o
    governo que nós considerariamos o mais perfeito seria o que mais se
    aproximasse d'aquelle que até hoje tem dirigido os destinos da egreja
    catholica. O poder supremo nas mãos de um papa infallivel, arbitro
    absoluto da verdade e da justiça, que não póde enganar nem ser enganado;
    o dominio e o governo firmado na obediencia passiva de todos os subditos
    e na inclinação dada interiormente ás vontades, abrangendo toda a
    esphera da iniciativa humana desde os actos até os pensamentos; tendo
    por policia a inquisição, o mais completo e o mais perfeito de todos
    quantos tribunaes se teem creado para cohibir as infracções da lei,
    tribunal que ataca o mal no seu germen, dentro da consciencia, e não
    depois de já declarado em perturbações effectivas, de modo que nem no
    fundo mais recondito da alma é possivel um esconderijo para a anarchia!
    Tal seria o bello ideal do governo, considerado como salva-guarda do
    socego e da ordem.

    Hoje porém:

    Como os governos não podem já ser considerados debaixo d'esse ponto de
    vista auctoritario e ordeiro dos partidos conservadores;

    Como todas as sociedades tendem conjunctamente para se governarem a si
    mesmas;

    Como em toda a Europa, excepto na Russia, as monarchias absolutas se
    transformaram em monarchias parlamentares, retomando assim os governados
    a maior parte dos poderes delegados nos governantes;

    Como dentro em pouco tempo, precisamente, _fatalmente_, todos os povos
    impedirão que subsistam outros poderes que não sejam aquelles que por
    via da eleição representem a vontade popular:

    Segue-se que a differença essencial das fórmas actuaes de governo não
    póde, como ainda ultimamente disse em um notavel livro o sr. Passy,
    considerar-se senão como unicamente dependente da maior ou menor parte
    de poder que ellas asseguram ao povo.

    Vejamos pois agora qual é a differença que existe entre uma republica e
    uma monarchia parlamentar.

    A republica é o governo do povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo
    por chefe do poder executivo–um presidente eleito.

    A monarchia parlamentar, como ella existe em Portugal, é o governo do
    povo pelos seus mandatarios eleitos, tendo por chefe do poder
    executivo–um rei hereditario.

    O sr. Duvergier de Hauranne, em um estudo consagrado á apreciação da
    republica conservadora que actualmente existe em França, diz que uma
    monarchia constitucional, com um rei que não governa, com ministros
    responsaveis e uma camara electiva sujeita sempre aos riscos de uma
    dissolução, é um dos regimes parlamentares que mais garantias oferecem á
    liberdade. Todavia, observa ainda o publicista a quem nos referimos,
    para o estabelecimento da monarchia é preciso a dynastia, isto é: a
    tradição. Quando a dynastia cae, desapparecendo ou cortando-se a
    tradição como em França e em Hespanha, nada mais perigoso do que
    suscitar ruins ambições, chamando um principe para cabide de uma corôa.
    N'este caso o unico systema que não offerece gravíssimos perigos e
    grandes complicações intestinas e internacionaes é a republica. Ter a
    monarchia com todos os foros democraticos e derribal-a por um escrupulo
    de nome é grande imprudencia. Não ter a monarchia e tentar
    reconstituil-a sobre a cabeça do primeiro forasteiro é falta de valor e
    de juizo para governar.

    Nos livros mais recentes consagrados aos estudos politicos e á indagação
    das razões porque os povos perdem, conquistam ou conservam a liberdade,
    nas obras modernas de Lewis, Brougham, Lorenz-Sten, Glinka, Mill,
    Bagebot, Prévost-Paradol, não se acha differença entre republica e
    monarchia representativa.

    A eleição ou a heriditariedade do chefe do poder executivo não alteram
    de nenhum modo as condições da compatibilidade da liberdade com a
    politica. A fórma do governo na egreja–o mais despotico governo de
    quantos se possam imaginar–é a fórma republicana. O papa é um
    presidente eleito.

    O poder popular não periga na coexistencia dos reis. Era Roma o imperio
    funda-se esmagando os patricios. Na moderna Europa as realezas
    affirmam-se despedaçando as resistencias dos senhores feudaes. Os
    soberanos procuram sempre na alliança do povo o appoio do mais forte.
    Perante as hostilidades do clero e da nobreza Napoleão I dizia
    ameaçadoramente: «Se lhes solto o povo estracinho-os n'um abrir e fechar
    d'olhos.» Napoleão III contava nas suas confissões feitas no desterro
    que fôra sempre socialista. A _Internacional_ tem origem em uma
    expedição de operarios mandados a Londres á custa do segundo imperio
    para estudarem na exposição internacional de 1862 os melhoramentos que a
    França poderia introduzir na organisação do trabalho.

    A republica pela sua parte tem sobre a monarchia uma poderosa
    vantagem–a qual ordinariamente se lhe attribue como o seu maior
    defeito:–a republica suscita as grandes ambições, que o
    constitucionalismo restringe e até certo ponto avilta. Ora é exactamente
    nas grandes ambições que se geram as grandes capacidades.

    Isto porém são caracteristicos especiaes que, reunidos a muitos outros
    que seria facil adduzir, podem em dadas circumstancias determinar a
    escolha em favor do regime monarchico ou do regime republicano. Com
    relação á liberdade os dois systemas não soffrem evidentemente
    distincção: um e outro affirmam um governo livre.

    A differença que existe entre governos livres e governos que o não são,
    é:

    Que em certos paizes a vontade que dirige os negocios publicos é em
    verdade a do soberano; n'outros paizes é a da nação.

    Resta-nos ver em qual d'essas duas cathegorias nós nos achamos.

    Portugal é indubitavelmente governado pelos seus eleitos. O rei não tem
    a minima ingerencia na direcção dos negocios. O unico acto de iniciativa
    pessoal que temos visto praticar ao soberano consiste exclusivamente em
    dar habitos de Christo a alguns cantores extrangeiros. Os cantores
    guardam d'estas distincções conferidas pela corôa uma saudosa lembrança.
    Lemos, por exemplo, em um jornal de hoje que o baritono Cotogni mandara
    a Sua Magestade uma photographia, em que o artista conseguiu fazer
    reproduzir a sua pessoa na plenitude fascinadora de todos os seus meios
    physicos. Um habito de Christo que se dá, uma photographia com
    pretenções a gentil que se recebe, e estão quites a arte e a monarchia.
    Ninguem dirá que por tão innocentes commercios de affeição el-rei
    manifeste o intuito partidario–de lançar-se nos braços de um valido. Os
    unicos convivas extra-officiaes do principe–os tenores e os baritonos
    de _primo-cartello_–estão fóra de toda e qualquer suspeita malevola que
    não seja–a de desafinarem.

    Temos portanto que a mais perfeita soberania representativa na gerencia
    de todos os negocios do estado existe effectivamente desassombrada e
    livre sob a monarchia portugueza.

    Se depois d'isto o deputado sr. Rodrigues de Freitas e os seus
    correligionarios politicos, bem como todos os demais srs. deputados, nos
    dizem que a republica–com ser o mais perfeito dos governos segundo uns,
    ou ser um imperfeito governo segundo outros–não póde por emquanto
    existir em Portugal, porque o povo carece ainda da instrucção precisa
    para tomar o governo de si mesmo, hão de permittir os illustres
    deputados que nós tiremos d'esse seu argumento todas as conclusões que
    elle encerra….

    E que digamos a suas excellencias:

    Que, se um povo carece de capacidade para sustentar uma republica, é
    egualmente incapaz de supportar um regime constitucional. Porque a
    verdade, que ninguem nos poderá contestar, é esta: que nós estamos sendo
    governados ha muitos annos, unica e exclusivamente, pelos poderes
    eleitos.

    Ora, se o povo não póde exercer suffragio para a eleição do governo sob
    o regime republicano, como é que póde achar-se habilitado para eleger o
    governo sob o regime monarchico? Em um e outro caso temos exactamente o
    mesmo processo, a mesma operação electiva, os mesmos dados na
    constituição dos poderes, as mesmas consequencias no uso do mandato, os
    mesmos resultados no exercicio do governo. A grande responsabilidade
    eleitoral da delegação do poder é exactamente a mesma na republica e na
    monarchia parlamentar.

    Falta-nos a capacidade intelectual para o governo electivo da
    republica?! Quem é então que tem a posse exclusiva d'essa capacidade no
    regime parlamentar da monarchia? Como é que, passando do systema
    monarchico para o systema republicano, nos desapparece ámanhã perante o
    exercicio do suffragio a capacidade que temos hoje perante o mesmo
    exercicio? Quem é que pensa entre a organisação parlamenlar do governo
    portuguez?

    Segundo os srs. deputados democratas, alguns dos quaes confessam ter a
    republica pelo mais perfeito e mais cabal dos governos, quem hoje pensa
    por suas excellencias e pelo povo que os elegeu é sua magestade el-rei!
    Pelo que suas excellencias nos dizem, o soberano não é o poder
    moderador, é o poder-pensante. Quando a corôa cahir ao rei, cae-lhes
    tambem a elles o cerebro. A camara electiva, a filha do povo, a
    representante dos nossos interesses e dos nossos direitos, a responsavel
    da força e da lei, assim o declara! Ella só é digna, só é autonoma, só é
    independente e pensante–emquanto houver um rei. No momento em que o
    monarcha descer do throno, ella será inepta. Animaes do Apocalypse, os
    srs. deputados só fallam agora pela sugestão divina imposta pelo
    sceptro. A tribuna, essa tribuna que ahi está, se um dia o rei lhe
    voltar as costas, recusará com pudor o copo d'agua oratorio, e
    pedirá–herva.

    * * * * *

    Será falso o argumento da incapacidade do paiz, com que os srs.
    deputados combatem a opportunidade da republica em Portugal? Não é. Se a
    camara que ahi temos diante dos nossos olhos é a expressão legitima do
    suffragio popular, o argumento é verdadeiro: o paiz é incapaz. Sómente
    as consequencias que esse argumento encerra não ferem sómente o direito
    á republica, ferem tambem o direito á liberdade. A logica não póde parar
    onde á casuistica dos rabulas apraz que ella pare: a logica ha de ir até
    onde o senso commum a possa acompanhar, e a logica leva o juizo, a boa
    fé e a verdade a declararem abertamente o seguinte: Se a camara electiva
    que acaba de occupar-se da discussão d'estes principios dá
    effectivamente a medida legal e authentica da moral, da virtude e da
    capacidade publica, então a questão do governo não póde versar entre uma
    republica e uma monarchia democratica e parlamentar. A questão é mais
    complexa e mais elevada. A questão, srs. deputados, é se vossas
    excellencias, teem ou não teem a capacidade precisa para serem os
    representantes de um povo independente. A questão é de eleição ou de
    não eleição; é de governo livre ou de governo despotico. Se os legitimos
    representantes do povo prestam, nós teremos a liberdade com qualquer dos
    dois governos livres–republica democratica ou monarchia parlamentar. Se
    os legitimos representantes do povo não prestam, teremos–a anarchia na
    republica, e teremos–a escravidão na monarchia.

    * * * * *

    Ora a representação nacional ha muito tempo que está sendo em Portugal
    uma farça ridicula para a sciencia e uma vergonha publica para o
    patriotismo. A camara é de uma ignorancia encyclopedica. Erra e insulta,
    e não se esclarece nem se desaffronta,–o que prova que não tem sciencia
    e que parece não ter caracter.

    Poderiamos confirmar com muitos exemplos tirados dos ultimos debates
    parlamentares a verdade d'essa asserção, que poderá ser tida por
    arrojada, mas não por duvidosa. Não particularisamos esses factos porque
    elles envolvem nomes de homens, e nós, que não temos duvida em deixar
    cahir sobre as pessoas o ridiculo, temos repugnancia em deixar pesar
    sobre ellas a vergonha. A critica, se a levassemos até ahi,
    tornar-se-hia uma execução do alta justiça, porque o ridiculo lava-se
    na rehabilitação com que nos retemperam os actos sérios, a vergonha
    quando mancha o caracter faz num nodoa corrosiva e indelevel. As
    _Farpas_ ferem apenas. O ferrete imprime-se com o ferro em brasa. Por
    essa razão preferimos adoptar n'este assumpto a generalidade impessoal.

    Faltam á camara as idéas politicas e faltam-lhe os principios moraes.
    D'aqui resulta uma perturbação insanavel, um mal sem cura. É a
    corrupção, é a gangrena, é a paralysação senil affectando o jogo de todo
    o machinismo constitucional.

    Temos o socego interior e temos a paz no extrangeiro; gozamos da
    liberdade politica e da liberdade individual, e não obstante no paiz
    todo ha um surdo descontentamento geral.

    Todos os espiritos que se applicam ao estudo dos caracteristicos que
    prenunciam as evoluções da liberdade, comprehendem, tanto em Portugal
    como já hoje fóra de Portugal, que está eminente sobre nós uma d'essas
    grandes transformações politicas que apparecem nos paizes livres sempre
    que todas as questões que serviam para delimitar o campo dos
    differentes partidos se acham liquidadas, e que o progresso não inspira
    a creação de novas questões que sirvam de base para novos partidos.

    Em Portugal os partidos acabaram ha muitos annos. Não existem
    divergencias de opinião sobre qualquer principio capital que interesse o
    paiz inteiro. Como o interesse do paiz desappareceu, a urna fica
    entregue ao arbitrio da auctoridade, e os círculos eleitoraes
    convertem-se em burgos podres. Os regedores com os cabos de policia
    elegem a maioria, os grandes proprietarios com os seus caseiros e os
    seus amigos votam as opposições. A vontade popular é muda e passiva, o
    que quer dizer que as fomes intimas da vida nacional estão obstruidas ou
    seccas.

    Os governos não se sustentam no poder porque faltando-lhes uma opposição
    perfeitamente e fortemente constituida e assignalada, como a que separa
    na Inglaterra os _tories_ e os _whigs_, não podem tambem contar com uma
    maioria consistente e robusta. Para manter os apoios oscillantes o
    governo acode submissamente ás exigencias dos pequenos corrilhos,
    promette, desdiz, cede, transige, compra, troca, vende, intriga, e cae
    de fadiga, apupado e corrido.

    Ha dez annos temos tido assim quarenta ministerios. Os ex-ministros
    constituem pequenas dynastias de pretendentes constantemente ávidos do
    poder. Estes pretendentes quando não teem forças necessarias para
    alcançar o governo procuram formar no paiz, por meio da sua influencia
    burocratica, o partido que não teem na camara, e distribuem pelos seus
    amigos os empregos publicos que arrancam ao gabinete ameaçando-o com
    crises de seis votos sempre dependentes do descontentamento ou da
    satisfação pessoal dos pequenos chefes dos pequenos bandos.

    O paiz inteiro vive n'uma miseria baixa, n'uma pobresa degradante, sem a
    altivez, sem o brio dos pobres valentes, que nunca dobram a espinha nem
    estendem a mão. Vejam-se no exercito os filhos do povo: nem a educação
    militar consegue dar-lhes pelo menos a attitude exterior da dignidade e
    da força, o passo firme, a cabeça alta, o porte determinado e energico
    que caracterisam logo no primeiro aspecto physico os fortes cidadãos dos
    paizes em que se sabe guardar e manter a liberdade!

    A classe operaria faz _grèves_, no que está inteiramente no seu
    direito, mas faz tambem litteratura jornalistica e oratoria
    sentimental,–o que ridicularisa o trabalho, humilha a austeridade do
    direito e leza a legitimidade dos interesses, obrigando os
    obreiros–jornalistas e oradores–a pedirem mais descanços para
    discretearem, em vez de pedirem mais obra para fazerem.

    O commercio está arruinado. A lavoura está decadente. A propriedade está
    hypothecada.

    Só prosperam, só se procriam, só se reproduzem indefinidamente as
    instituições de jogo e de usura, as casas de penhores e os bancos!

    Os bancos são os logares de perdição em que os paizes pobres e
    ambiciosos se arruinam trocando a sua pequena riqueza real por uma maior
    riqueza contingente e fictícia, abdicando o trabalho e creando o jogo,
    dando dinheiro e recebendo papeis.

    A mocidade vive nas antecamaras do estado como os antigos poetas do
    seculo passado nas salas de jantar dos fidalgos ricos. Os velhos são
    agiotas ou servidores do estado. Os moços são bachareis e querem
    bacharelar ácerca da coisa publica e á custa da mesma coisa ácerca da
    qual bacharelam. Dizem-se republicanos, democratas, socialistas, fallam
    muito na organisação systematica do trabalho e nos destinos das classes
    laboriosas, mas não nos dão em si proprios o exemplo de que o primeiro
    dever de todo o cidadão que se quer prezar de democrata e de livre é
    elle proprio bastar para si mesmo, prover pela sua iniciativa a todas as
    suas necessidades, _descentralisar-se_, trabalhar só, viver de si, que é
    o unico meio de não ser explorado e de não explorar ninguem, affirmar-se
    finalmente na unica fórma da independencia poderosa e legitima, na unica
    dignidade verdadeira e segura–o trabalho pessoal e livre. A mocidade
    tem a mais elevada comprehensão dos destinos sociaes, da moral e da
    justiça. Unicamente a mocidade tem um defeito que ha de esterilisar a
    sua iniciativa: ella pensa, mas não trabalha. Assim, se pela sua razão
    ella caminha para a conquista ideal das coisas justas; pelas
    necessidades da vida ella fica fatalmente na orbita subalterna das
    simples coisas conquistadas. Antes de traçarmos o etinerario luminoso da
    nossa alma pelas espheras transcendentes, temos obrigação de aprender a
    sustentar a nossa besta na viagem. Proudhon tinha razão, mas tambem
    tinha um officio. E era depois de ganhar livremente o seu pão como
    typographo ou como caixeiro que elle ganhava livremente como philosopho
    e como critico as consciencias dos outros pela justiça.

    * * * * *

    A raça portugueza foi lentamente e surdamente corrompida pelo antigo
    despotismo monarchico, pela soberba intrepida e bulhenta dos fidalgos,
    pelo oiro das conquistas e principalmente pelo monasticismo. Fizemo-nos
    ociosos, vaidosos, pusilanimes, supersticiosos e fanaticos. A
    religião–mais clerical que divina–penetrando-nos completamente,
    dando-nos uma lei infallivel para a consciencia, prohibindo-nos pensar,
    assegurando-nos a bemaventurança com o facil remedio do arrependimento,
    lavando-nos de todos os crimes por meio da simples confissão d'elles,
    lançou-nos na inercia passiva a respeito do problema dos nossos destinos
    mais elevados. Ensinaram-nos a explicar a culpa pela tentação do demonio
    e a considerarmo-nos innocentes pela absolvição dos confessores. Com
    similhante theoria o dever e a responsabilidade desapparecem. A
    consciencia cae na immobilidade. As altas relações verdadeiramente
    religiosas do homem com Deus desapparecem na intervenção do clerigo que
    se encarrega de todas as accommodações com o céo. Quando um povo assim
    delega inteiramente nos seus padres o cuidado de salvarem por elle a
    eternidade da sua alma, como querem que esse povo tenha para dirigir o
    que é temporal e contingente o valor, a dignidade, o sentimento de
    responsabilidade e de iniciativa que não teve para guardar por si mesmo
    o que era divino e eterno? Quem não tem força para recusar o dominio da
    sua consciencia aos padres tambem a não póde ter para disputar a sua
    liberdade aos despotas. O fanatismo prostra.

    Depois a alliança com que o clero tem estreitado a idéa do bem com a do
    interesse espiritual e com a do sentimentalismo religioso abastardéa a
    noção pura da justiça. Se Kant deu á moral o logar da verdadeira
    elevação que lhe compete dentro da alma humana, foi precisamente porque
    conseguiu separal-a do sentimento qua a enerva e do interesse que a
    rebaixa.

    * * * * *

    Os esforços que fizemos para conquistar a liberdade que hoje temos não
    bastaram para regenerar as nossas almas do aviltamento em que por muito
    tempo estiveram. Tinha-nos ficado, como um defeito nativo, a dobra
    servil. A nossa vocação expecial fôra por muitos annos–sermos victimas;
    faltaram-nos repentinamente os algozes, não aprendemos a ser mais nada,
    e ficamos n'uma desoccupação desconsolada e abatida. A guerra de que nos
    proveiu a constituição deu-nos apenas uma vitalidade febril e
    passageira. Logo que deixamos de discutir os principios da liberdade que
    então nos puzemos, não tornamos a fazer mais nada senão servir os
    interesses pessoaes e a ambição dos individuos.

    Do regime que não temos sabido manter consistente e válido restam-nos
    apenas hoje os beneficios que elle, depois de corrompido, faculta ás
    mediocridades ambiciosas, ao patronato, á intriga, á pusilanimidade, á
    baixeza. Temos do constitucionalismo–esgotado–tudo o que elle tinha da
    mau na lia: a nobilitação dos _parvenus_, a falsa aristocracia, a falsa
    grandeza, a falsa virtude, o falso talento, o funccionalismo exuberante,
    a arrogancia burgueza, o reinado da usura, a ruina do trabalho, a
    sophismação dos principios, a decadencia da arte, a depravação do gosto,
    a queda dos caracteres e dos espiritos para o futil, para o ordinario,
    para o reles, para o chinfrim … Vêde a camara dos deputados: não é só a
    precisão na idéa, a firmeza nos principios e a nobresa na palavra o que
    a ella lhe falta, falta-lhe tambem a dignidade do porte, faltam-lhe as
    maneiras, falta-lhe a toilette, e é quasi tão ridicula pelos seus
    discursos como pelas suas gravatas; sente-se a má companhia, revela-se o
    _mauvais lieu_ no simples aspecto chulo dos Ciceros pimpões.

    Sem os partidos fortes, unico motor capaz de imprimir um jogo tão
    regular ás engrenagens do regime constitucional como o que existe na
    Belgica e na Inglaterra, achamo-nos quasi no estado atomistico de Hegel,
    na desaggregação, em virtude da qual cada molecula social, entregue por
    sua desgraça á liberdade quasi absoluta, volteia ás cegas em busca de um
    novo centro de attracção. É a mesma situação em que ha pouco tempo ainda
    se achava a Hispanha e em que está ainda hoje a Italia. Na Italia porém
    a grande obra da unificação deu á vida nacional um forte impulso
    saudavel de energia patriotica. Portugal não esteve talvez nunca tão
    perto como hoje da pilha que o ha de estremecer e abalar.

    * * * * *

    O fallarmos tanto em republica depois que em Hispanha se aclamou a
    republica demonstra a leviandade de quem se preoccupa de escolher um
    nome de conducta no momento em que deveria antes pensar em descobrir uma
    norma de proceder. A republica hispanhola foi uma transformação
    necessaria, mas arriscada e perigosa. O que a prudencia nos aconselha é
    que nos preparemos para que a aproximação de uma transformação qualquer
    não seja para nós um irremediavel perigo.

    Querem manter a ordem? Aqui teem um meio bem simples, bem pronto: Deixem
    immediatamente de manter os abusos.

    Querem governar bem? Lembrem-se do que dizia Washington: A probidade é a
    melhor politica.

    Sejam virtuosos os que não podem ser instruidos. A intelligencia só
    longamente se adquire, a virtude penetra-nos de pronto, porque a justiça
    é um axioma, é uma evidencia, não demanda estudos preleminares nem
    reflexões subsequentes, é o principio e é o fim de si mesma.

    Catão, escrevendo a seu filho, definia assim o perfeito orador
    politico: Um homem de bem que sabe fallar. Ora quando se não possa ser
    inteiramente o ideal de Catão, ignore-se como se falla, mas saiba-se
    como se é homem de bem.

    Ter, como alguns ou quasi todos os srs. deputados, uma opinião na camara
    e uma opinião differente nos corredores de S. Bento, ter ainda além
    d'isto uma opinião para o Chiado e outra para a cova em que se reune o
    partido,–isto não é digno nem honesto. Ter sobre um principio vital de
    governação ou de politica uma opinião firme, convicta, inabalavel, é
    possuir, ao mesmo tempo e por esse simples facto, a força com que essa
    opinião se deffende e se mantem. Não ter opinião ou ter uma opinião
    oscillante e mutavel é comprometter inteiramente os principios pela
    falta da virtude.

    Porque sem a virtude não poderá nunca existir a democracia.

    Em nenhum paiz do mundo os homens politicos são individualmente mais
    probos que em Portugal; em poucos paizes do mundo elles procedem
    publicamente de um modo mais adquado para deixar em duvida a consciencia
    que cada um tem do dever e da honra. Luiz Filippe era tambem um dos
    homens pessoalmente mais honrados que teem cingido uma corôa, e todavia
    poucos reis espalharam em volta do seu reinado mais elementos de
    corrupção. Foi d'esse bom homem que se creou a phrase proudhouniana de
    que elle dominou pelo despreso, assim como dominaram–Cesar e Bonaparte
    pela admiração, Sylla e Robespierre pelo terror.

    Triste reinado aquelle em que o socego e a paz publica se baseam no
    desdem publico! Debaixo d'essa ataraxia superficial do povo está a
    gangrena e a dissolução latente do estado.

    Quer-se a virtude publica, a virtude official, a virtude parlamentar, a
    virtude de Montesquieu, que é a mola indispensavel de todo o estado
    popular, e que consiste resumidamente em preferir–o dever á
    conveniencia, o direito á força, a justiça á popularidade e ao exito.

    De sciencia basta a precisa para se entender que o verdadeiro interesse
    de todos reside no respeito da justiça para cada um, e que é n'essa
    comprehensão e n'esse culto da justiça que verdadeiramente se baseia a
    liberdade.

    Lincoln, o maior homem que tem produzido a democracia não tinha estudos
    nem letras. Tinha apenas a fé. Acreditava na immortalidade da sua alma,
    acreditava em Deus e acreditava na justiça–a imagem immortal da
    perfeição absoluta. E tão pouco bastou para que esse obscuro plebeu
    entrasse na gloria, assignalando-se immortalmente com os dois maiores
    actos que a homem algum foi ainda permittido commetter–dar a liberdade
    aos negros e dar a paz á America.

    * * * * *

    Leitor amigo, se queres sinceramente contribuir nos teus meios para
    fortificar a tua patria, dá-lhe modestamente, na pequena orbita da tua
    influencia, entre os teus parentes e os teus amigos, aquillo que ella
    mais precisa de ter para sua defesa dentro da casa de cada cidadão; não
    se trata da força do teu braço, trata-se da rectidão do teu juizo: sê
    prudente e justo.

    No caminho em que nos puzeram aquelles por quem nos temos deixado
    conduzir nós não vamos livremente para a escolha da fórma de um governo
    livre; vamos submissamente para a sujeição voluntaria dos dominios
    despoticos. Para que esses poderes nos subjuguem, basta simplesmente que
    nos invada a anarchia que nos está batendo á porta. Na perturbação
    geral, no conflicto, no perigo da fazenda e da vida, o egoismo
    sacrificará sem nenhuma disputa a liberdade. Porque a liberdade, por
    mais bella que ella seja, é na existencia uma circumstancia; a ordem é a
    condição essencial–intrinseca–da vida, a garantia do trabalho e a
    segurança do pão. Quem poderá calcular o numero de liberdades que nós
    sacrificaremos á ordem no momento em que a desordem começar a
    facultar-nos o direito ao governo, com a suppressão do direito ao
    jantar?… É das profundidades demagogicas que saem sempre á periferia
    social os tyrannos. Já Aristoteles dizia que o despota começa no
    demagogo; assim nasceram Pisistrato em Athenas, Dinys em Siracusa,
    Theagenes em Megara.

    O nosso profundo mal está na nossa profunda indifferença. Aos que
    ignoram os perigos d'esta enfermidade social lembraremos que quando
    Napoleão desembarcou no golpho Juan não foi a força dos que o defendiam
    que o reconduziu ao throno, foi a inercia dos que o não atacaram.

    Ora as apathias, querido leitor sensato, curam-se pelos regimes
    constituintes. Os meios revulsivos aggravam a prostração e produzem o
    desfallecimento e a morte.

    Quando o principio vital da auctoridade se acha ameaçado sob a sua
    forma politica–no governo–, a primeira obrigação do povo é manter esse
    principio sob a sua forma philosophica–na razão.

    * * * * *

    O exercito portuguez acaba de ser dotado com um melhoramento que o
    colloca nas condições de rivalisar vantajosamente com as forças mais
    intelligentemente armadas e equipadas da Europa….

    A cavallaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de
    ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros
    gabinetes de repouso suspensos de uns loros–coisa tão confortavel que
    as familias que teem d'estes estribos dispensam-se de ter fogão, e
    depois de jantar, no inverno, quando a neve cae, essas familias vão ler
    o jornal e tomar o café–para os estribos.

    O acto de profunda estrategia e alto valor militar de que procedeu
    acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os
    desde hoje e para todo sempre invenciveis.

    Porque até aqui havia uma consideração que impallidecia os espiritos
    dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes
    soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a
    artilheria varria os esquadrões e os corseis offegantes, relinchando,
    com o pello hirto e os ilhaes rasgados pelas esporas, galopavam
    freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metalicas,
    scintillantes e asperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos
    nossos soldados acontecia então esta catastrophe pavorosa–molhavam os
    pés!

    De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira
    branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéos de chuva
    abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca
    saiam das ambulancias, um parlamentario ia para o inimigo, e nós
    pediamos treguas de algumas horas para que a nossa cavallaria–mudasse
    de piugas.

    * * * * *

    Agora não. Agora, com os novos estribos de sola, podemos estar certos de
    que, para todos os effeitos do valor, da disciplina militar, da arte e
    do amor da guerra, a nossa cavallaria poderá sempre contar com este
    infallivel penhor do cumprimento do dever e do despreso da vida–ter os
    pés quentes!

    Sómente pede a equidade que, uma vez que a cavallaria tem estribos de
    sola, a infanteria seja egualmente dotada–com galochas de borracha.

    Depois do que,–adoptadas estas disposições tão temerosas e aguerridas e
    estabelecido em campanha o uso terrivel das palmilhas impremiaveis, do
    sapato de ourello e do cobertor de papa–tendo o exercito os seus pés
    quentes diffinitivamente garantidos pelas instituições–elle será feroz!

    * * * * *

    Foi submettido á votação da camara dos srs. deputados a seguinte moção
    de ordem apresentada pelo sr. Barros e Cunha, deputado por Silves, ao
    qual no passado numero das _Farpas_ chamámos erradamente _deputado por
    Tavira_.

    Que nos perdôe s.ex.ª–e Tavira!

    Eis a moção:

    «A camara dos deputados affirma que são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições liberaes, de respeito e affeição á
    dynastia constitucional, e que a nação fará os ultimos sacrificios para
    manter a independencia do reino contra quaesquer perigos que possam
    ameaçal-a, e passa á ordem do dia.»

    Procedendo-se em seguida a uma votação nominal disseram _approvo_ todos
    os srs. deputados.

    * * * * *

    O sr. Barros e Cunha tinha motivado a sua moção com esta phrase:

    «Parece-me conveniente que nos pontos da Europa aonde tenha chegado a
    noticia de que n'esta terra houve uma conspiração tremenda contra a sua
    independencia, possa haver a certeza de que a representação nacional
    está ao lado d'essa independencia, da ordem e da dynastia
    constitucional.»

    Ora como o sr. Barros e Cunha entende e a camara approva que o simples
    juramento de fidelidade prestado pelos srs. deputados bem como a alta
    qualificação procedente do seu mandato não são bastante parte para
    garantir nos differentes _pontos da Europa_ a incumplicidade de suas
    ex.'as nos crimes commettidos no paiz, achamos bom que o mesmo sr.
    Barros e Cunha repita e faça votar a sua moção a cada delicto novo que
    apparecer.

    E só assim suas excellencias se poderão considerar regosijadoramente
    illibados.

    * * * * *

    Logo na sessão immediata áquella em que foi approvada a moção a que nos
    referimos, declarou o deputado sr. Francisco de Albuquerque «que tinha
    desapparecido das estações officiaes, sem que se podesse saber do seu
    destino o espolio de José Antonio, criado de servir, fallecido em Lisboa
    ha dois annos.»

    Depois de tão grave accusação levantada no mesmo seio do parlamento, não
    tendo nem o sr. presidente nem o governo restituido immediatamente ao
    queixoso o espolio de José Antonio, ou nós não entendemos bem o espirito
    da moção do sr. Barros e Cunha ou era outra vez o momento de sua ex.ª
    illucidar os _pontos da Europa_ sob a sua innocencia e a dos seus
    collegas, mandando para a mesa a seguinte moção:

    «A camara dos deputados affirma que não foi ella que furtou o espolio do
    criado de servir José Antonio, porque ella tem muito menos amor aos
    espolios dos criados do que ás instituições liberaes, á monarchia e á
    independencia, e passa á ordem do dia.»

    Porque o sr. Barros e Cunha abriu este precedente:

    Que á dignidade da camara cumpre justificar-se perante certos pontos da
    Europa dos crimes que não praticou, assoar-se, e passar á ordem do dia.

    * * * * *

    Mais declarou o dito sr. Francisco de Albuquerque «que na estrada de
    Gouvêa a Mangualde falta a parte que se comprehende entre a ponte de
    Palhés e a villa de Mangualde.»

    Projecto de moção offerecido ao sr. Barros e Cunha:

    «A camara, tendo mostrado os forros das algibeiras e tendo-se
    desabotoado para evidenciar que se não apropriou da estada de Mangualde,
    passa á ordem do dia–e a abotoar-se.»

    * * * * *

    Entre as moções que propômos e aquella que o sr. Barros e Cunha adoptou
    ha apenas uma differença: é que as nossas, posto o principio de sua
    ex.ª, são logicas, são racionaes, baseam-se na verdade, referem-se a
    crimes cujos reus se não conhecem e em que a camara é innocente: por
    tanto a justificação é cabida. A do sr. Barros e Cunha refere-se a
    crimes, cujos cumplices estão processados–d'aqui, inutil–e affirma o
    que não é–pelo que: falsa. Logo é uma justificação absurda.

    * * * * *

    Affirma a dita moção o que não é: vamos demonstral-o. O sr. Barros e
    Cunha e a camara asseguram que _são inabalaveis no povo portuguez os
    sentimentos de amor ás instituições, de respeito e affeição á dynastia_.

    No entanto por outro lado o mesmo sr. Barros e Cunha e a camara affirmam
    que o povo conspira e que suas excellencias mesmo teem conspirado–não
    certamente em favor das instituições vigentes nem da dynastia reinante.

    O sr. Barros e Cunha disse textualmente, poucos dias depois da sua
    moção:

    «Eu vou fazer uma confissão á camara; eu sinceramente acredito em
    tentativas permanentes contra a independencia do paiz, contra as
    instituições e contra a dynastia … Esses perigos não posso occultar á
    camara que existem … Extranho que o poder moderador não convocasse a
    camara … pelo duplo perigo que podia correr a dynastia, a liberdade e
    as instituições.»

    Ora é este paiz, em que _a dynastia, a liberdade e as instituições
    correm perigo, em que são permanentes as tentativas contra a
    independencia, contra as instituições e contra a monarchia_, que a
    camara assegura ser _inabalavel nos seus sentimentos de amor ás
    instituições, de respeito e affeição á dynastia_!

    O partido reformista affirma que quando era poder luctava contra
    conspirações continuadas.

    O partido historico caiu victima de uma conspiração.

    O partido regenerador abafa uma conspiração. O sr. Teixeira de
    Vasconcellos disse ha dias: «_N'este ponto_ (as conspirações) _chegou-se
    ao mais a que se podia chegar_.»

    Effectivamente, depois de tudo isto, chegou-se a este ponto: de todos os
    partidos se reunirem e votarem unanimemente–que ninguem conspira!

    * * * * *

    Sublime patria! vae, prosegue magestosa e olympica no teu destino
    luminoso! Nada mais te queremos. Detivemos-te apenas para isto, para te
    espetar, aqui assim, por cima, no alto da cuia, como um gancho, o sr.
    Barros e Cunha. Sobre a fronte das figuras immortaes costumam os
    artistas collocar uma estrella; sobre a tua cabeça, ó patria, o sr.
    Barros e Cunha, assim fixado como um symbolo, lembrará aos vindouros a
    pombinha branca, de assucar–tão casta!–das lampreias d'ovos.

    * * * * *

    Esta manhã Lisboa vestida do mais rigoroso lucto via passar um cortejo
    funebre. O povo estava em alas nas ruas. As janellas cheias de senhoras.
    Toda a gente conservava o chapéo na cabeça. Conversava-se, ria-se,
    faziam-se grandes gestos, havia mesmo um movimento desusado de
    conversação, de interesse e de _verve_. Os officiaes cumprimentavam as
    senhoras com o sorriso e com a espada. Os soldados conversavam com o
    povo. E, de parte a parte, tomando-se para assumpto o enterro,
    trocavam-se ponderações alegres, chistosas, _grivoises_, entre os que
    estavam com os cigarros nos beiços e os que passavam com as armas em
    funeral.

    Ao mesmo tempo, em um coche puxado por oito cavallos e coberto com um
    longo panno preto, precedido de outro coche em que era levada a corôa
    imperial envolta em crepe, dizem que ía indo para a derradeira morada,
    entre as musicas funebres dos regimentos em fórma e os chistes das
    multidões indifferentes, o cadaver da senhora duqueza de Bragança.

    Dizia-se fallando-se d'ella:

    «Deixou pouco.»

    «Que fez ella ao que tinha?»

    «Que miseravel! que mesquinha!»

    E um jornal catholico escreveu:

    «O testamento da senhora duqueza de Bragança lembra a sorte grande em
    cautellas de vinte e cinco.»

    Nós pensámos então nas distincções da stirpe e do sangue que fazem os
    homens deseguaes.

    Entre nós, os plebeus, quando as nossas mães deixam de existir, nós
    acompanhamol-as á sepultura, silenciosos e recolhidos, lembrando-nos um
    pouco dos carinhos que lhes merecemos, dos dôces conselhos que ellas nos
    deram, das boas palavras desinteressadas e amigas que lhes escutamos.

    Nas nossas aldeias, quando ao fim da tarde um enterro passa nos campos,
    levado por quatro homens, seguido do prior com sobrepeliz, atravessando
    silenciosamente as cearas, e fazendo dobrar as espigas dos trigos e as
    flôres encarnadas das papoulas que salpicam as messes, as raparigas que
    passam ajoelham-se e persignam-se e os trabalhadores tiram o chapéo,
    suspendem o trabalho e pensam um momento n'aquelle para quem principiou
    o descanço eterno.

    E se alguem se ri das mulheres que nós levamos á sepultura, consideramos
    que esses insultam a memoria d'aquelles que nós amamos, e punimos por
    nossas proprias mãos esse aggravo, punimol-o a varapau nas
    encrusilhadas, á faca nas esquinas das ruas, e á espada nos duellos.

    As imperatrizes–coitadas!–teem de resignar-se á sua triste condição de
    imperatrizes: passar a vida entre gente mediocre, mercenaria,
    interesseira, aduladora e estupida; passar na morte entre as alas
    ostentosas de curiosos e mal creados. Vivas, ellas teem a sua liberdade
    de entes racionaes e os seus affectos e dedicações de mulher
    escravisados á formalidade, á etiqueta, ás praxes; moribundas cerca-as
    ainda a pompa que estabelece um diapasão ao arranco, uma melodia ao
    soluço e um gesto nobre ás agonias; e finalmente nem depois de mortas
    lhes é dado esperar que se lhes respeite o direito, para qualquer outro
    ente indiscutivel, de legarem como quizerem e a quem quizerem o seu
    triste dinheiro, o qual nenhum de nós quereria ter ganhado em
    similhantes condições e com eguaes amarguras!

    Parece-nos que é levar um pouco longe de mais a modestia democratica o
    suppôrmo-nos tão pouca coisa, que aquelles que reinaram tenham que
    descer tanto para que os consideremos nossos eguaes! É crear uma nova
    gerarchia para os soberanos o estabelecer que perante o respeito que
    devemos a todos os nossos similhantes que morrem, os principes tenham de
    considerar-se menos que quaesquer outros.

    * * * * *

    É certo que o _Diario do Governo_ ordenou que tomassemos luto de dois
    mezes pela princesa fallecida. Como porém quando chegar a nossa vez de
    sermos levados para o cemiterio, nos custará admittir que a
    circumstancia de consagrar umas calças pretas á nossa morte auctorise
    alguem a imprimir chocarrices ácerca das nossas ultimas vontades, nós
    proporiamos antes, como tributo ao fallecimento da senhora duqueza de
    Bragança, que nos revestissemos um pouco menos de luto pela princesa
    illustre que desappareceu da lista civil, e um pouco mais de respeito
    pela mulher digna e virtuosa que morreu.

    * * * * *

    Por occasião dos disturbios populares com que a resistencia aos impostos
    perturbou a ordem em Tavira, o commandante da força armada, chamado a
    reprimir a desordem, sendo desobedecido e insultado pela multidão
    insurgida, carregou os revoltosos, resultando ficarem alguns d'estes
    feridos e dois mortos.

    Ora com as revoltas portuguezas estava estabelecido pelo uso, pelo
    programma, pela mesma natureza d'ellas, que não morria ninguem, que
    ninguem era ferido.

    Em todos os grandes ajuntamentos é vulgar moverem-se disputas,
    levantarem-se resistencias, fazerem-se ameaças e trocarem-se mesmo
    algumas bengaladas. Succede isto em toda a parte, nos toiros, nos bailes
    de mascaras, nos theatros, nos circos, nos fogos de artificio, nas
    illuminações publicas e até nas egrejas. Só onde nunca similhante coisa
    acontecia era nas revoltas! Nas revoltas tudo era contentamento,
    satisfação e paz! A bem conhecida e temerosa _idra da anarchia_ era
    recebida em Portugal como uma d'essas doces e benevolas pessoas de cujos
    sorrisos se suspendem as promessas dos salões confortaveis, dos verdes
    jardins balsamicos, das alegres partidas da _croquet_ e do bom chá
    preto. Quando ás multidões portuguezas se annuncia «s.ex.ª a idra», as
    multidões portuguezas abrem alas, sorrindo, e a anarchia comprimentando
    a um e outro lado, agitando o leque, mergulhando-se na roda do vestido
    para fazer mesuras, passa, para ir lançar o grito de sedição–ao piano.

    Ora como as coisas em Tavira se não passaram precisamente por este modo
    usual, que fez o illustre o pacifico sr. delegado do ministerio publico
    perante o procedimento extranho do commandante da força armada, que
    desembainhara a sua espada e carregara ingenuamente a revolta? O sr.
    delegado querelou do commandante da força armada. Querelou por que
    delicto? _«Por abuso de defesa»_.

    Oh! esta phrase do ministerio publico é boa, é bem symptomatica, é
    caracteristica, é genial! Um militar incumbido de manter a ordem, tendo
    atacado a desordem, querelado pelo ministerio publico–por _abuso de
    defeza_.

    * * * * *

    Pois que! Julgava então o exercito que o estado lhe dava as suas
    clavinas, as suas bayonetas e os seus sabres para que elle, uma vez
    armado, se servisse das armas! Não! nunca! Defenda-se, mas _não abuse_.
    Defenda-se, mas não arme as bayonetas nem carregue as espingardas, nem
    desembainhe as espadas. Defenda-se, simplesmente, como a delicadesa o
    pede, como o pede o brio, o valor, a disciplina militar:
    contemporisando, levando-nos por bem, lisongeando-nos, distraindo-nos.
    Quantas vezes a gente se revolta por _spleen_, por tedio, por vapores,
    por sympathias gastricas! Quantas vezes não dizemos nós pela manhã,
    espreguiçando-nos e mostrando ao espelho uma lingua ensaburrada: «Meu
    Deus, que farei hoje? irei almoçar com Dolores, cortarei a cabeça ao
    rei, ou tomarei bismutho?» E assim é que frequentemente faz a gente
    barricadas por não ter mais nada que fazer. Por tanto que n'estes
    momentos o exercito procure distrahir o povo enfastiado; que lhe toque
    musicas, que lhe recite versos, que lhe mostre photographias, que lhe
    diga assim:–«A proposito; se fossemos tomar bither? ou se comessemos
    uma enxova com um copo de cognac para nos raspar o esophago? Anda! vem
    d'ahi, bom povo, jogaremos os dominós!»

    E se o povo ainda assim resistir–diacho … então, que o exercito fuja!

    Mas se foge, o conselho de guerra fuzila-o …

    Mas se não foge, o ministerio publico querela-o …

    Por consequencia o melhor de tudo é que o exercito tome uma deliberação
    energica e heroica: Que o exercito se vá deitar! Não ha impedimento
    nenhum para isto. Sim, podes ir deitar-te, ó exercito. Adeus. Boa noite.
    Melicio vela!

    * * * * *

    A camara dos dignos deputados, não tendo tido em nenhuma questão
    politica interna nem uma theoria, nem uma idéa, nem um dito, nem um
    gesto sequer, que accusasse a intelligencia, o espirito, a penetração, a
    vivacidade, resolveu aproveitar um incidente da politica extrangeira
    para provar ao paiz que não estava no periodo imbecil dos amolecimentos
    de cerebro, e, referindo-se á abdicação do rei Amadeu, a camara, por
    meio de um esforço extraordinario, botou ao mundo–uma figura de
    rhetorica. Depois do quê, o mundo, sensibilisado com tamanho dispendio
    de força, teve pela sua parte vontade de botar á camara–uma funda.

    * * * * *

    Consta que todos os partidos se alliaram para tão alta manifestação
    patriotica. Todos entenderam que importava apoiar sem restricções o
    governo n'esta importantissima questão physiologica. Antes mesmo de
    entrar na grave questão da fazenda a camara achou pois indispensavel
    provar ao paiz ao cabo de um mez de trabalhos parlamentares este
    phenomeno previo: que ella não era demente. Produziram-se varios
    alvitres tendentes a dar ao publico o convencimento cabal d'essa
    verdade obscura. Occorreu: advinhar uma charada, conjugar um verbo,
    ouvir o sr. Melicio ácerca da immortalidade da alma ou obrigar o sr.
    Barros e Cunha em nome do credito das instituições a dizer a taboada.
    Por fim preferiu-se na vasta região do saber humano o campo da
    rhetorica, e resolveu-se fazer estalar uma figura.

    O dia do grande espectaculo, da terrivel prova chegou. As galerias
    encheram-se. O aspecto da camara era recolhido e solemne: ella estava
    sentada nos seus logares, tinha a mão mettida na abertura do collete e a
    barba feita. Havia um silencio palpitante e commovido. Então um sr.
    deputado, com voz pausada e firme disse:

    «Sr. presidente chegou esta manhã a Lisboa, depois de ter
    espontaneamente e livremente abdicado a corôa do visinho reino, aquelle
    a quem verdadeiramente podemos chamar …»

    Era o momento! ia partir a figura! O orador deteve-se um instante,
    bamboou a cabeça, puxou o catarrho das commoções supremas, tomou na
    bocca um golo de agua, e fincando o queixo no peito recolheu-se por um
    momento com a figura e com o bochecho para dentro da sua gravata. A
    multidão immovel escutava. O silencio era tal que se ouvia crescerem os
    tortulhos na lama das botas do sr. Arrobas, repentinamente aquecidas por
    um raio de enthusiasmo fecundo e creador!

    O orador, immergindo de dentro da gravata e proseguindo–«Aquelle a quem
    verdadeiramente podemos chamar»–_O sol no occaso!_ (Prolongados
    apoiados de todos os lados da camara e do banco dos srs. ministros.
    Vozes: Muito bem! muito bem!)

    * * * * *

    Tal foi a notavel figura oratoria que a camara resolveu dar á luz na
    presente legislatura como testemunho insuspeito e irrecusavel dos altos
    quilates do seu espirito e da comprehensão profunda em que ella se acha
    das terriveis e mysteriosas relações que podem prender no terreno da
    eloquencia parlamentar a queda dos reis e os phenomenos meteorologicos.

    Sim, ó principe infeliz e sympathico, cavalleiro e bravo, que acabas de
    provar ao mundo que, a respeito da tua vida, sabes egualmente
    arriscal-a e dirigil-a; que allias singularmente o valor e o senso
    commum…. O valor com que entraste na Hispanha, alegre, destemida e
    vermelha, como a capa que palpita á viração do circo, encobrindo uma
    espada, no braço nervoso e astuto de um toureiro … O senso commum com
    que finalmente trocaste a Hispanha irrequieta e fremente pelos tepidos
    vales da tua patria, nos suburbios tranquillos de Sorrento e de Almafi,
    á beira dos golphos innundados de azul …

    Sim, ó principe, aprende n'essa figura rhetorica que Portugal te envia,
    a affinidade estreita que une para identicos destinos os codigos das
    monarchias e as folhinhas de algibeira! Tu que abdicaste, o que és tu?
    Escuta-o, ó principe! Tu és–_o sol no occaso_. Teu augusto avô, que
    tambem abdicou, é o chefe d'essa dynastia planetaria; teu avô é _Sol no
    occaso_ I; tu és _Sol no occaso_ II; teu filho primogenito é sua alteza
    _Sol no occaso_ presumptivo. Que em sua altissima guarda vos tenham os
    deuses immortaes, os deuses–guarda-soes! Que tão augusta dynastia se
    prolongue por muitos e dilatados annos, até que a posteridade possa
    ainda reconhecer e honrar o mui alto o poderoso _Sol no occaso_ XIX,
    por feliz antonomasia ditada pelo refrigerio dos povos _O entre nuvens
    com brisa fresca!_

    * * * * *

    Tal foi o effeito de religioso acatamento que a desencerração do tão
    vehemente quanto audacioso e brilhante tropo produziu no animo de toda a
    camara, que nenhum dos oradores que se occuparam no parlamento da ultima
    evolução politica da Hispanha tornou a dar ao rei abdicado outro nome
    que não fosse esse. Sómente: como a vivida imaginação, como a fervida
    phantasia peninsular de cada um, conseguiu retocar por variegadas côres
    proprias tão engenhosa imagem! Assim vemos que durante a sessão a que
    nos referimos, sua alteza o principe Amadeu foi consecutivamente
    modificado em sua nativa e originaria designação pelas maneiras
    seguintes:

    Sol no occaso … como ha bem pouco disse n'esta casa uma eloquente e
    inspirada voz!

    Sol no occaso … qual lhe chamou momentos ha no recinto d'esta erudicta
    assembléa, labio tão selecto como attico!

    Sol no occaso … só me é licito empregar a phrase penetrante que não
    ha muito ouvi cair ali assim da bocca do disserto orador, meu illustre
    amigo! (indicando o sr. Barros e Cunha).

    Sol no occaso … segundo calorosa e convictamente aqui tem sido dito
    por todas as boccas excepto pela do fecundo e espontaneo orador, meu
    immortal amigo, o sr. Jayme Moniz!

    (O sr. Jayme Moniz erguendo-se, collocando uma mão sobre o coração e
    estendendo a outra energicamente no espaço, profere um inspirado
    monosylabo, que não foi ouvido na mesa dos tachigraphos).

    Sol no occaso … direi pela segunda vez, se a camara permitte que
    comecemos a repetir aquillo que todos e cada um dos oradores teem já …

    (Muitas vozes: _Repita-se! repita-se!_ O sr. presidente: _Deu a hora_.
    Vozes: _Muito bem! muito bem!_ Todos os oradores se cumprimentam uns aos
    outros. O jubilo é geral. O sr. Barros e Cunha, dando para a meza alguns
    d'aquelles passos que antigamente eram um menuete da corte e que hoje
    são o andar de s.ex.ª, tira o _Times_ do bolso e vão fallar, uma idéa
    porém lhe occorre, elle detem-se, toma rapidamente notas para uma
    interpellação; seus pequenos olhos, contentes por saberem fingir-se
    malignos, rebolem; e o ministerio, pallido, treme olhando Barros,
    emquanto sobre o craneo d'este, eburneo e lustroso como o castão de uma
    badine, os derradeiros raios do sol atravessando as gelosias desenham
    luminosamente–uma pauta. O sr. Arrobas, festivo, vae a pôr na cabeça a
    mesa da presidencia, julgando-a o seu chapeu. O sr. Lobo d'Avila, muito
    commovido chora no seio do seu ex-correligionario politico e sempre
    amigo fiel, Melicio–o fagueiro. E o sympathico sr. padre Boavida
    desapparece como um relampago, levado da sala em triumpho, ao collo de
    um desconhecido).

    * * * * *

    _Áquelle que jurou assassinar-me_

    Meu senhor–Tendo recebido do Rio de Janeiro, pelo ultimo paquete, a sua
    obsequiosa carta, o sendo ella anonyma, tomo a liberdade de lhe dirigir
    a minha resposta por meio d'estas obscuras paginas, as quaes vejo com
    prazer que merecem ao meu amigo a benevolencia de as ler. Como não
    posso fixar por outro modo a pessoa a quem tenho a honra de me dirigir,
    consinta que eu transcreva a parte mais importante das suas presadas
    regras. Eu respondo á pessoa que me escreveu isto:

    «Tiveste a ousadia de insultar com tuas estupidas _Farpas_ o monarcha
    sobre cuja cabeça repousa a corôa immaculada do imperio da Santa Cruz?
    Tu tiveste essa ousadia, gallego, pois bem juro-te que no dia…… de
    …… d'este anno 1873 hei de comparecer em tua casa ás dez horas da
    manhã e ahi far-te-hei saltar os miolos com uma bala. Espera-me, não
    fujas, que é desnecessário! Has de cair em meu poder mais tarde ou mais
    cedo, embora para isso consuma toda a minha fortuna.»

    Omitto n'este extracto o dia e o mez–os quaes o meu amigo fixa com a
    mais amavel pontualidade–porque, sendo um negocio inteiramente
    particular o da pequena operação que se me projecta fazer, julgo
    indiscreto que a policia se lembre de o vir testemunhar; basta-nos um
    desenhista que esboce a scena para os jornaes illustrados que houverem
    de occupar-se do caso.

    Chegada a hora que se me aprasa para o fim da minha vida, é bem claro
    que entre: nós ambos, se não poderão trocar explicações previas …
    Porque, comprehende bem, que se o meu caro commettesse a inconveniencia
    de me repintar prolixamente todos os pormenores do modo como projecta
    pregar-me o cerebro n'um muro, eu poderia não achar de um prazer divino
    o passeio patriitico da sua bala atravez do meu craneo, e em summa, n'um
    momento irreflectido, nervoso, animal, de instincto, cortar a questão
    atirando com o meu amigo do alto do meu terceiro andar á rua.

    Releve-me portanto que lhe escreva algumas das coisas que sentiria não
    poder referir-lhe no momento da nossa futura entrevista. O prazo que me
    assignala, se por um lado o podemos considerar curto como limite para
    viver; é felizmente assás longo como tempo para conversar.

    Meu amigo–Sem falsa modestia e sem fingida humildade, francamente,
    sinceramente, eis aqui a respeito da morte que me promette a minha
    opinião:

    Eu não mereço o fim apparatoso e dramatico preparado ao meu pequeno e
    obscuro destino sobre a face da terra. Sem que eu seja absolutamente de
    uma mysantropia que obscureça a fama de Young ou que faça uma
    concorrencia perigosa á reputação de Job, ainda assim por entre as
    convidas e cordiaes risadas que me inspiram os parvos, confesso-lhe que
    me não entreluz a vida tão iriada de côr de rosa e de azul, que o meu
    empenho do a gozar por mais algum anno obrigue uma pessoa, tão rica como
    o meu amigo denota ser, a _consumir a sua fortuna toda_ á espera do
    momento em que eu me ache resolvido a arriscar-me pelo prazer de
    conhecer a amavel pessoa que me procura. Ha de até produzir admiração no
    Brazil–onde custa tudo tão caro!–o barato que ha de sair ao meu amigo
    o seu encontro comigo. A modicidade do meu preço chega a este ponto de
    barateza que nem costumo levar nada–por me achar em casa!

    Resisto á morte unicamente por duas razões, das quaes a segunda é que me
    apraz a lucta; resisto-lhe, mas não lhe fujo, porque é meu parecer que a
    vida não vale os incommodos afflictivos que todas as retiradas trazem
    ordinariamente comsigo.

    Ora, deste modo, uma vez admittida a morte como o termo logico e fatal
    da vida, a bala fecha tão concisamente um destino como o ponto final
    fecha o discurso.

    Demais conveiu-se n'esta falsa opinião, toda favoravel á memoria dos
    assassinados: que só ás victimas do homicidio se concede o prestigio com
    que se premeiam os martyres, e que só temos por assassinados aquelles
    que entram na posteridade pelo bello portico por onde desappareceram,
    violentamente mortos pelos tiros ou pelas punhaladas, o politico Lincoln
    e o jornalista Courrier.

    Ninguem commemora nos registos brilhantes do martyrio aquellas que,
    dentro da sua mina, emquanto cá fóra uma bala amiga fixava o encephalo
    de outros mais felizes n'uma luminosa pagina de historia, succumbiam
    obscuramente de desalento ou de cansaço na galeria tenebrosa dos
    trabalhos forçados da imaginação e da intelligencia!

    Ai! não é unicamente por meio de um golpe de punhal applicado ao
    coração, ou por meio de um tiro disparado n'um ouvido, que podemos
    mandar um homem para o tumulo. Quantos para lá vão caminhando, menos
    pallidos que Antony, menos desgrenhados que o principe Hamlet,–tão
    correctos que parecem philosophos ou tão pobres que parecem
    felizes,–irremissivelmente deportados da vida pelos decretos surdos e
    implacaveis da desgraça!

    No fim de contas, sem monopolisarmos em favor do ninguem o interesse que
    inspiram os destinos dramaticos, quem é que não tem o seu mal, o mal que
    o ha de matar, burguezmente levado mais ou menos sobre o coração, como
    uma carta de amor, como um memorial, como um bilhete da loteria?!

    Quer que lhe diga tudo? Ha certo tempo que eu me não sentia
    completamente bem. De quando em quando, de repente, enrouquecia,
    affrontava-me a digestão, tinha palpitações, tinha o pulso nervoso,
    sentia a displicencia, a melancholia.

    Antes de ter a sua carta, sabe o que eu suppunha que tinha?…

    Vermes!

    O meu amigo apparece-me do Brazil como uma revelação pathologica. A sua
    existencia risca inteiramente das minhas apprehensões a suspeita que eu
    começava a nutrir–de uma solitaria. Sei agora, com aquella viva alegria
    com que a gente acompanha a explicação achada aos grandes mysterios
    aziaticos, que o que eu tenho é–o meu amigo. Considero-o já como uma
    parte integrante e interessantissima da minha economia. Trago-o comigo
    como um abcesso, levo-o para toda a parte como um defluxo. O meu amigo é
    a minha enfermidade incuravel, é a minha morte para d'aqui a poucos
    mezes, e todavia–como é commodo isto!–o meu amigo não me obriga a
    tossir, nem a gargarejar, nem a trazer a uma bota cortada com dois
    golpes em cruz, nem usar uma bambinella sobre um olho. Como o meu amigo
    é leve! Não me doe, não me affronta, não me dá crescimentos, nem
    vertigens, nem gazes, nem rugidos, nem picadas lancinantes no ventre!

    Não o lanceto, não o espremo, não o aparo, não lhe propino o _pronto
    allivio_ nem lhe ministro aguas de Vidago!

    E por fim morro, acabo exactamente como qualquer outro, retiro do mundo
    o pequeno material que fornecia á critica, á maledicencia, ao despeito
    de muitos que me odeiam e á estima talvez de alguns poucos que por
    ventura me amam … vou descansar para debaixo dos cyprestes–bastante
    para debaixo! e depois de ter repartido o meu espirito com os homens,
    que me mandaram embora, repartirei o meu corpo com os bons bichos da
    terra, que me não expulsarão nunca–elles!–da sua convivencia gulosa,
    mas discreta.

    A unica differença entre mim e a grande maioria dos que morrem será–que
    elles terão soffrido os tramites lentos e dolorosos das enfermidades
    mortaes, uns terão tido um tumor no cerebro, um amolecimento na espinha,
    um scirrho no estomago; eu terei apenas tido–o meu amigo! o meu amigo
    que até o momento da crise final se patenteará levissimamente, com o
    caracter mais benigno porque se pode manifestar um amigo:–ausente!

    Espalhada a noticia da minha morte, os benevolos rumores sympathicos
    zumbirão como doiradas abelhas sobre a minha memoria.

    –Coitado! ainda hontem o vi passar com umas luvas amarellas!

    –Sabem … era aquelle com quem nós embirravamos …

    –O que trazia o bigode assim?…

    –Esse mesmo!

    –Pois, senhor, tenho pena! Dá-me cá lume …

    E algumas outras coisas doces e impereciveis.

    E do meu amigo dirão apenas:

    «A fera, tendo bebido o sangue da victima, retirou-se.»

    Não, o bello papel que me destina no drama que imaginou nunca lh'o
    agradecerei bastante! Unicamente o ser immolado áquillo que o meu amigo
    tão eloquentemente chama _a corôa immaculada do imperio de Santa Cruz_,
    isso apenas, é que me parece um tanto violento. Quando Sua Magestade
    Imperial esteve em Lisboa pediu varias cabeças de porco, mas não me
    consta que entre essas cabeças Sua Magestade tivesse especialisado
    designadamente a minha … Ora, se Sua Magestade se não pronunciou agora
    directamente a meu respeito, o meu amigo é talvez demasiado solicito com
    os appetites do principe, servindo-me ao imperial banquete–com feijão
    branco.

    * * * * *

    Na camara dos pares alguns prelados da egreja portugueza convidaram com
    encarecidas instancias o governo a alargar as missões no ultramar,
    promovendo a fundação de seminários de instrucção ecclesiastica, onde os
    soldados de Jesus possam adestrar-se no uso do gladio chammejante e
    civilisador com que se vence para a fé o gentio ignorante e idolatra.

    Sem desapprovarmos os meios propostos pelos dignos prelados para o fim
    de recolher ao aprisco as ovelhas tresmalhadas do armento christão,
    perguntaremos apenas se a salvação das almas rudes espalhadas pelos
    sertões dos dominios portugueses não lucraria tambem alguma coisa em que
    os dignos prelados, despachados para aquellas possessões fossem occupar
    nas suas dioceses os unicos logares que convém á missão edificante e
    redemptora dos representantes de Christo o dos alumnos de Paulo. Porque,
    emfim, não será precisamente porque suas excellencias passeiam no velho
    mundo sceptico uma pequena cruz suspensa de um cordão verde, nem porque
    na camara dos pares do reino suas excellencias lavram finamente algumas
    figuras de rhetorica sentimental e lacrimosa, que alguns pobres negros
    selvagens, confiados aos cuidados espirituaes de suas excellenecas,
    encontrarão nas nossas dioceses devolutas quem os console e quem os
    instrua. Que por tanto nos queiram permittir os senhores prelados do
    ultramar, oradores em S. Bento, que, propondo-nos nós dar á eloquencia
    de suas excellencias o seu natural e legitimo destino, lhes digamos–com
    o vate:

    _Aos infieis, senhores, aos infieis!_

    * * * * *

    D'entre as palavras ultimamente proferidas nos debates parlamentares
    resalta com o relevo poderoso com que se accusam as fortes
    individualidades uma phrase singularmente cortante, rispida, sincera do
    ministro do reino.

    O sr. Antonio Rodrigues Sampaio, offerecendo á camara, do seu logar de
    ministro da corôa um volume do _Espectro_, disse «que se honrava mais de
    ter feito aquelle livro do que de sentar-se n'aquelle logar, e que, se a
    camara achasse as duas coisas incompativeis, elle abandonaria a sua
    pasta para ir adoptar o seu livro.»

    O sr. Sampaio, actual ministro do reino, tem sido ultimamente muito mais
    aggredido na camara e na imprensa pelo seu antigo denodo de democrata e
    pela sua _verve_ de pamphletario, do que pelos seus erros e desmandos
    de membro do actual gabinete.

    É facil guerra a que se faz a um escriptor no momento traiçoeiro em que
    elle não dispõe nem da sua liberdade nem da sua penna para as
    represalias terriveis do talento injuriado. Não ha nada mais commodo
    para as pessoas fracas ou ineptas do que acharem opportunidade de
    poderem determinar como um crime a iniciativa dos fortes. A incapacidade
    colloca-se assim na logica que leva a consideral-a–pelos effeitos
    passivos da sua inanidade–como uma especie de virtude.

    O processo d'aquelle que por uma causa qualquer–boa ou má, justa ou
    iniqua–arriscou a sua vida em cima de uma barricada, não póde todavia
    ser instaurado assim, pelas toupeiras que estavam inuteis e tremulas no
    fundo dos seus buracos emquanto o accusado, combatendo, fazia estremecer
    o chão.

    Elle injuriou a rainha? Pois seja assim. Injuriar uma rainha, quando
    ella tem na sua maxima força o poder e o mando, quando ella tem a ordem
    guardada pelas baionetas dos seus regimentos em armas, injurial-a em um
    papel publico, quando na praça publica estão carregadas as espingardas
    que cobriram a «lei das rolhas», injuriar, então, era servir uma idéa,
    era fazer uma resistencia e era cumprir um sacrificio.

    Fallam-nos na honra inviolavel da mulher honrada. Mas perdão … Quantas
    mulheres honradas teem sido diffamadas na impunidade das confidencias
    amigaveis, com a hypocrisia das reticencias, com a fatuidade dos
    sorrisos, com a malevolencia das allusões?

    Quantas reputações puras teem alguns demolido pelos effeitos corrosivos
    de uma nodoa, que ficou para sempre indelevel, e que elles, a rir, entre
    amigos, fumando um _carrajal_, no Aterro ou no Chiado, cuspiram
    desenfadadamente sobre a honra de uma mulher que passava?!

    Vamos, com franqueza, meus dignos, meus graves senhores: não é verdade
    que muitas vezes teem os senhores mesmos feito esta acção torpe e
    covarde, não declarando-a n'um livro, lançando-a na discussão e
    respondendo por ella, mas fazendo-a passar surdamente, como um boato de
    salão, como uma curiosidade galante, como uma chronica de moda, lançada
    de bocca em bocca, infamemente, a coberto da responsabilidade, da
    contestação, da policia correccional, do veredictum do publico, e das
    bengalas particulares?! Pois bem! é a isso que se chama diffamar. Isso é
    que é atacar e destruir o principio da inviolabilidade da honra
    domestica.

    A publicidade é como a lança de Télepho que sarava as mesmas feridas que
    fazia. Se a senhora D. Maria II tem de passar á historia com o nome de
    _virtuosa_, a consagração d'esse epitheto provem-lhe da discussão
    publica da sua virtude.

    Infelizmente a senhora D. Maria II não resumia na sua personalidade a
    reputação total das senhoras portuguesas e nem todas estas poderão como
    a victima do _Espectro_, sair gloriosamente da galeria das calumniadas!
    As martyres da surda maledicencia obscura e irresponsavel essas é que
    ficam para sempre na suspeita ou na ignominia.

    Preferir a paternidade de um pamphleto escripto com o desinteresse da
    paixão e do talento á triste gloria burgueza e constitucional de
    ministro portuguez é ter um sentimento elevado e é dar um exemplo justo.
    Porque em verdade ser apenas um ministro–unico estado social que nos
    dispensa de sermos alguma outra coisa–não é propriamente um destino.
    Para que uma existencia actue assignaladamente nas relações dos homens e
    marque o signal da sua passagem é preciso que ella se affirme
    eminentemente ou na justiça ou no sentimento ou na arte–pela coragem,
    pelo sacrificio ou pelo talento–que são as tres maximas constellações
    do trabalho, constituindo a familia, a obra ou o combate.

    Aquelle que fez um livro, em que se debateram todas as idéas e todos os
    interesses do seu tempo e da sua sociedade, movendo os espiritos,
    inclinando as vontades, influindo nas consciencias, esse é o homem que
    viveu.

    Ter gerido uma pasta no constitucionalismo portuguez é unicamente ter
    passado no mundo.

    O governo em Portugal é apenas o capitolio das mediocridades
    venturosas–com um ganso,–o sr. Jayme Moniz.

    * * * * *

    Durante o espaço da tempo a cuja chronica este volume se refere sairam á
    luz alguns novos jornaes. D'estes conhecemos tres: a _Regeneração_, a
    _Patria_ e a _Republica_. Estes tres jornaes, como a maior parte dos
    periodicos portuguezes são–anonymos.

    * * * * *

    Ora eis aqui uma coisa que nunca podemos comprehender na legislação por
    que se regula o direito de escrever e a liberdade de pensar:–que possa
    alguem por qualquer razão que seja dispensar-se de assignar o que
    escreve! O maior abuso da liberdade de imprensa e ao mesmo tempo o unico
    que a lei portugueza não só não pune, mas auctorisa e regula é
    este:–não assignar.

    Ha apenas em Portugal um só periodico politico em que cada artigo é
    assignado pelo jornalista que o fez. Este periodico é o _Diario da
    Tarde_, folha portuense, onde cada um dos redactores não só acceita mas
    declara acceitar todos os dias, por meio da sua assignatura, a
    responsabilidade completa de toda a infracção commettida, bem como os
    effeiios de todas as resistencias, de todas as controversias, de todas
    as antipathias que tenha podido suscitar.

    Esta coisa tão simples, para a qual muitos outros escriptores
    portuguezes teem o preciso valor e a necessaria independencia, ninguem
    mais a tem adoptado como condição imprescriptivel do direito que cada um
    tem de emittir pela publicidade o seu pensamento.

    * * * * *

    A primeira razão por que se não assigna é esta:

    A empresa do jornal, servindo-se d'elle para qualquer fim que seja,
    convem-lhe sempre absorver na sua exclusiva personalidade todos os meios
    de influencia, todos os instrumentos de trabalho que fazem mover a sua
    machina. Para que isto se consiga toma-se necessario estabelecer como
    lei fundamental da efficacia do apparelho jornal: que o que escreve se
    eclipse inteiramente por detraz do que paga. Isto é apenas uma das
    muitas explorações fataes da intelligencia e do trabalho pelo dinheiro.
    N'este caso os resultados são graves para os interesses do espirito, da
    dignidade e da razão.

    Por um lado o escriptor, acobertado e escondido sempre no anonymo,
    perde insensivelmente a comprehensão da coherencia em que se basea a
    firmeza dos seus principios e a logica do seu systema moral. Começa por
    transigir com a opinião alheia e acaba por abdicar a sua perante as
    necessidades e as indicações da empresa. De resto, como não é
    _responsavel_, como no fim de contas ninguem o conhece, o auctor
    resigna-sel É assim que se fazem os escriptores indignos, porque na
    imprensa é indigno de collocar uma palavra todo aquelle que não tem uma
    opinião. O escriptor «de manivela» é um escandalo para a razão e uma
    catastrophe para a justiça.

    Por outro lado o empresario de jornal, conseguindo sustental-o pelo
    apoio do seu partido ou pelo ganho proveniente dos seus annuncios, póde
    sem vexame pôr ao trabalho litterario o seu aguadeiro no logar da
    entidade anonyma da sua redacção. E assim os periodicos enchem-se
    naturalmente com a collaboração gratuita ou barata dos _troisièmes
    dessous_ da intelligencia e do estudo. D'aqui a progressiva decadencia
    que se observa no jornalismo portuguez, e a fatalidade d'este resultado:
    quanto mais se lê peor se escreve.

    Ha outros casos em que o escriptor, apezar de inteiramente livre para
    assignar ou para não assignar, não assigna. Isto então importa
    immediatamente a condemnação da competencia moral do quem assim procede.

    Se se entende que é tal a inutilidade da coisa escripta, que da
    publicação d'ella não virá consequencia nenhuma, então não se escreva.
    Na imprensa tudo quanto é inutil é nocivo. Supprimam, ao povo que lê
    durante dez minutos por dia, todas as banalidades e todas as inepcias
    que elle absorve n'esse tempo, e o povo começará a instruir-se nos seus
    dez minutos de leitura. Tudo o que a educação do povo não recebe do
    jornal rouba-o o jornal á educação do povo.

    Se o escripto lançado ao publico envolve uma responsabilidade, é preciso
    que a tome exactamente aquelle que lançou esse escripto; se elle encerra
    apenas uma idéa, o publico a quem ella se offerece tem direito de saber
    quem é aquelle que lh'a envia. Eu exijo o nome do que manipula as drogas
    que sou chamado a engulir, porque a verdade é esta: que, por melhor que
    me pareça uma limonada de citrato de magnezia ou uma fatia de
    _galantine_, suspeito de uma e da outra se me disserem que a _galantine_
    foi feita pelo sr. Jara, boticario, e a magnezia pelo sr, Colombe,
    salchicheiro.

    Ora uns tantos sujeitos que todas as manhãs vem jurar-me nas suas
    respectivas gazetas que são muito republicanos, muito monarchicos, muito
    socialistas ou muito auctoritarios–tudo isto com a expressa condição de
    que nunca hei de saber quem elles são–dão-me exactamente aquelle
    receio:–medicarem-me com paio de perú, ou servirem-me jantares de
    magnezia.

    * * * * *

    Tinhamos já Melicio, o _José Prudhomme_ constitucionalismo portuguez.
    Agora ultimamente surgiu Barros e Cunha, o _Pickuick_ do systema
    representativo nacional.

    Estes dois marcos levantados um ao lado do outro constituem um portico,
    abalisam uma época, enquadram um seculo.

    Os Tacitos e os Livios do futuro dirão da politica actual:

    «Como fossem mortos Manuel Mendes Enxundia e Bertoldinho, appareceram
    sobre a face da terra Melicio e Barros e Cunha, e tendo estes
    determinado que a luz se fizesse, e batendo cada um d'elles em sua
    respectiva nuca uma palmada magica, de cada uma de suas boccas rompeu
    para o seculo attonito uma torcida,–e a luz foi feita. Os homens, os
    principios, as instituições, toda a caravana longa e lenta de uma
    geração que passa, ia indo, caminhando no tempo, emquanto elles dois, na
    frente, deitando sempre torcida, allumiavam. Se este seculo immortal não
    isempto de pequenas sombras intermittentes que algumas vezes–ai de
    nós!–o empanaram e entenebreceram, é porque elles–o discreto Pickuick
    e o profundo Prudhomme luzitanos, obedecendo á lei fatal de que nem
    mesmo são isemptos os mais portentosos luminares, de quando em quando se
    detinham,–geniaes, assombrosos e tremendos–para se espevitarem.»

    * * * * *

    O que estes dois grandes homens, verdadeiramente monumentaes e eternos,
    teem feito para o movimento geral das idéas e para a affirmação
    historica do progresso, não fazemos nós mais do que balbucial-o. A
    posteridade, dominando o grande conjuncto dos successos é que ha de
    fazer a devida justiça, inteira e completa, á iniciativa de Barros e de
    Melicio. O ponto de vista nimiamente estreito e exiguo dos
    contemporaneos não permitte á simples chronica o descriminar todas as
    guitas complicadas, todos os torcidos arames, por meio dos quaes o
    historiador averiguará como todos os factos e todas as idéas do tempo
    actual se ligavam reconditamente ao impulso magnetico d'estes dois
    varões extraordinarios!

    No futuro se verá como pelo mero jogo das correntes electricas que
    vibram a opinião se explicam os grandes effeitos no paiz produzidos
    pelas pequeninas causas nestes dois personagens. Constatar-se-ha
    scientificamente este phenomeno para muitos de nós despercebido:–Barros
    ter sêde e o paiz pedir capilé! Melicio comer pevide de abobora e o
    estado deitar a tenia! Barros em camisa tirar debaixo do travesseiro o
    barrete de algodão branco–casto symbolo dos sonhos immaculados–e a
    nação ter somno! Melicio ter dores cruciantes nos calos, e a opinião
    publica, descalçando-se, arrojar as botas ás faces da hypocrisia!

    Agora mesmo n'este momento, quando as agitações da Hispanha commovem os
    espiritos patrioticos, quando as negras apprehensões ibericas ensombram
    as alegrías da Baixa e seus innocentes jogos–outrora tão puros!–quando
    se espera o accordo das grandes potencias para a fixação dos nossos
    destinos nacionaes, poucos se lembrarão talvez que ha muito tempo que
    esta questão foi cortada pela penna fulminante de Melicio em uma
    correspondencia que o _Commercio do Porto_ se resignou a publicar nas
    suas columnas, por não haver na cidade um templo de Jano em cujas portas
    ella se gravasse em letras de oiro! Não se tratava ainda então de
    nacionalidades nem de aggregações, fallava-se apenas da configuração do
    solo e dizia-se em um documento hispanhol–a _Peninsula Iberica_, ao que
    Melicio respondeu com um terrivel brado: «Peninsula iberica, não!
    nunca!»

    Bem feita coisa da parte do excelso patriota! Pavorosa lição á
    geographia–e á canalha!

    Peninsula iberica, tu! tu reles pedaço da superficie solida do globo
    cercada de agua por todos os lados excepto por um, pelo qual ficas
    unida ao continente! Tu, só por isso, seres uma das peninsulas, a
    Peninsula Iberica?… Não, nunca o serás. Sê tudo o que quizeres menos
    isso. Sê nuvem, sê parteira, sê questão da fazenda, sê compota de
    pecego. Mas peninsula!… Olha quem! Querias-te fazer peninsula, minha
    tola?… Não! ainda cá ha um homem para te dar nas ventas para traz, ó
    perra vil!

    E depois de vibrado por Melicio este golpe tão fundo na questão iberica,
    os lusos appellam ainda para as potencias, e já se não lembram do que
    devem a Melicio! Ah! ingratos! ah! ladrões!

    Fallaes na alliança da Inglaterra, no favor do sr. Thiers, na
    benevolencia do imperador Guilherme … Pudera! aquelle que acabou com as
    peninsulas ainda cá está vivo para chegar a roupa ao corpo aos
    congressos … Boa duvida! Não que elle ainda a tem, á cabeceira da cama,
    a sua bengala invencivel, a bengala dos seus avós, a mesma bengala com
    cujo castão Certorius batia nos dentes ao namorar aquella que foi mais
    tarde a virtuosa mãe de seus filhos!

    Aproxima-se a conquista? adianta-se a invasão?… Que venham! Cada fita
    de ceroulas que cinge os artelhos de Melicio será uma barreira! Cada
    botão de seu collete um obuz! Cada um dos seus calos um baluarte–de
    ôlho de perdiz!

    Se o extrangeiro vier, nós, tranquillos, atirar-lhe-hemos com Melicio–o
    extracto de peste concentrado e fulminante dos inimigos da patria–e das
    peninsulas!

    * * * * *

    Agora–Barros.

    Este publicou o seu relatorio sobre a emigração portugueza para o
    Brazil–grande obra a que promettemos consagrar estudos criticos
    consecutivos durante um anno! N'este livro o immortal philosopho explica
    o facto da emigração e justifica-o por um modo que põe o alludido
    phenomeno social para todo sempre fóra de controversia e de discussão.

    Como o explica, como o justifica elle?

    Meu Deus! por um argumento bem simples, e que todavia ainda não houvera
    occorrido a ninguem …–Pelo precedente das andorinhas!

    * * * * *

    Sempre que nós temos tido a immerecida honra da poder contemplar com
    attenção e respeito a configuração pyramidal da cabeça do grande homem,
    sempre que temos attentado, recolhidos e mudos, no seu bello craneo,
    magestosamente elevado no occipicio, como se elle usasse uma cuia–por
    dentro,–nós temos dito do varão illustre, como Chenier de si mesmo:

    «Elle tem alguma coisa na cabeça!»

    Oh! sim, elle tinha n'ella a theoria das andorinhas, esquecida ao mais
    excentrico e original dos nossos compatriotas, o cavalheiro Machado, o
    celebre amigo dos passaros, um dos mais interessantes perfis da galeria
    parisiense de Champfleury!

    Achar o precedente das andorinhas como justificação dos emigrantes é ter
    um verdadeiro rasgo de genio. Mas o genio não surge de repente, o genio
    é a paciencia, como disse Buffon. Consideremos, ó criticos, quantos
    trabalhos, quantos estudos, quantas dôres não teriam precedido no
    intellecto do grande politico a laboríosa gestação da sua lei immortal!

    Ponderemos o sabio, absorto, contemplativo, extatico, considerando
    simultaneamente em suas intimas correlações e consanguineas affinidades
    o povo–e o passarinho!

    Elle, o philosopho, sabe bem o que é a miseria no proletariado, elle
    conhece de certo _Ginx's Baby_, o monstruoso producto humano das falsas
    civilisações, elle tem lido certamente Malthus, e queremos que lhe
    arranquem já um dente da bocca, ao grande homem, se elle não tiver do
    pauperismo, da fome, do salario e dos systemas ideaes de Fourier, de
    Owen, de Saint-Simon e de Proudhon, uma comprehensão tão perfeita como a
    que lhe assiste a respeito das unhas dos seus proprios dedos!

    Previamente armado de tão solidos principios e de tão profundos estudos,
    como seria bello o poder vel-o depois, na obra, no momento augusto e
    sacrosanto em que a idéa lhe veiu!…

    Estamos em que não poderia deixar de ter sido–no campo! O sabio no
    bosque, meditando, qual pastorinho de cordeiros brancos nas paizagens de
    lyrio e rosa pintadas por Wateau no setim dos leques Luiz XV! Seria ao
    toque poetico das ave-marias, como se permittiria dizer um serralheiro
    portuguez em _grève_. O ar embalsamado pelos perfumes da baunilha e dos
    laranjaes em flôr, os zagaes tangendo frautas ou dançando na relva com
    suas pastoras, e ao longe, por entre o fumosinho que ondeia sobre o
    tecto das cabanas, ao longe, na quebrada do monte, voejando em torno do
    corucheu da velha ermida em ruinas— ellas, as duas, as mysticas
    amantes do philosopho, as ternas balisas de seu scismar–a andorinha e a
    questão social–batendo a aza, abrindo o biquinho e rasgando juntas as
    amplidões do azul em phantasticos arabescos….

    E então seria que no espirito apocalyptico do mestre, na mente do
    magnanimo doutor em extase, de repente, como um estalo, como um abcesso
    que rebenta, como um inchaço que estoira, lhe veiu a idéa de que a
    andorinha poetica explicava satisfactoriamente o operario faminto, e que
    evidentemente nada mais semelhante diante dos olhos da sciencia a um
    carpinteiro com mulher e oito creanças ganhando tres tostões por dia, do
    que a avezinha innocente que esvoaça em torno de gothico balção, ou
    paira no vergel, bebendo a perola matutina do orvalho no calice da rosa!

    Como tudo isto é grande e ao mesmo tempo lindo da parte do sr. Barros e
    Cunha! Como é bem _Paulo e Virgínia_! bem _Menino da mata e seu cão
    Piloto_! bem puro cheiro de alfazema! bem legitima pomada alvíssima!

    * * * * *

    Não se detiveram porém ahi os serviços prestados ao mundo pelo grande
    homem no breve decurso de tempo a que esta chronica se refere.

    Mais dotou elle a sua patria com a idéa de uma economia, cujo alcance
    profundo obrigou s.ex.ª o prelado viziense a arrojar de si com desalento
    e desdem o facalhão legendario com que a s.ex.ª aprouve arrancar a
    manteiga dos 15 por cento do pão dos empregados publicos, em que ella se
    comia, e dos escriptos reformistas, em que ella se embrulhava!

    O Mirabeau de Olhão, ponderando que cada navio que entrava no Tejo
    recebia successivamente em tres botes tres visitas–a do porto, a da
    saude e da alfandega–cogitou um momento e teve esta idéa enorme:

    Que em vez de se gastarem tres botes para tres visitas, fossem as tres
    visitas n'um só bote!

    E foi o que o fogoso tribuno immediatamente propoz ao governo em um
    discurso verdadeiramente maravilboso de lucidez e de profundidade.

    * * * * *

    Se a politica não aproveitar esta proposta do sabio, que a arte pelo
    menos se encarregue de immortalisar para eterno exemplo e lição dos
    homens o acto de arrojada iniciativa e sublime denodo do cidadão
    portentoso que pretendeu economisar á patria–dois botes!

    Que em nossos dias ainda nos seja dado ver em tela ou em estatua, o
    Pickuick de Silves, regressando das côrtes do seu paiz, austero e
    simples como Cincinato, detendo-se á porta do seu tegurio e pedindo a
    extranhos que lhe tirem do bolso das calças a chave do trinco, por que
    elle, o sublime martyr da patria, está impossibilitado de abrir
    pessoalmente a porta do seu albergue, por trazer debaixo de cada braço
    para o sagrado recolhimento da vida intima os dois botes arrancados por
    elle com mão firme ás luctas acerbas do funccionalismo no reino dos seus
    maiores!

    O que sobretudo pedimos á posteridade é que não vá confundir este
    heroe–sr. Barros e Cunha–com este outro–sr. Barros e Sá. Porque–ó
    ilusão!–elles dois parecem-se fatalmente tanto um com outro, como se
    parecem–dois coelhos,–dois porta-machados–ou dois pretos.

    * * * * *

    No mundo civilisado está-se tratando n'este momento de fazer isto–um
    caminho de ferro de 1:600 leguas, de Nijni-Nowogorod a Pekin.

    Uma vez alinhavada sobre o solo do nosso velho continente essa enorme
    fita de ferro, nós poderemos ir do Aterro á capital da China em menos de
    um mez, estendendo-nos n'um «fauteuil», abrindo um livro, accendendo um
    charuto e tendo apenas o trabalho de nos vestirmos e de nos despirmos
    algumas vezes, porque atravessaremos as mais diversas latitudes, as mais
    extranhas regiões, os mais oppostos climas, com as suas novas paizagens,
    novos ceus, novas floras e novas faunas.

    Passaremos por Madrid, por Paris, por S. Petersburgo e por Moscow.

    Veremos Nijni-Nowogorod, com as suas gregas cathedraes de cupolas de
    oiro e a sua feira de Makariev, na qual se juntam quatrocentas mil
    pessoas.

    Deixaremos o nosso bilhete de visita em Kazan, a tartara, rebolindo-se
    nos profundos ruidos do seu commercio com a Siberia, com a Boukharia e
    com a Russia européa.

    Visitaremos Perm, os seus numerosos lagos o os seus grandes rebanhos
    felpudos de merinos e de martas famosas, d'aquellas martas de que o Czar
    deu á Patti uma capa, no valor de cem mil francos!

    Apearemos para aquecer os pés em Tobolsk, a capital da Siberia, onde o
    thermometro desce a 45 graus abaixo de zero, e onde os rios estão
    gelados nove mezes por anno.

    Descançaremos em Irkoutsk, em cujas espessas florestas se refugiaram os
    Strelitz.

    Respiraremos um momento em Ourga, a dos sete mil sacerdotes, ou em
    Kiakhta, já na fronteira chineza, onde descançam de ordinario as
    caravanas do chá….

    E tocaremos a final em Pekin, onde, se não soubermos fazer mais nada,
    comeremos ninhos de andorinhas–uma especie de letria insipida, cara
    como um d'aquelles molhos de Luculo feitos de perolas delidas!–mas se
    soubermos o mantchou e o chinez, cujo alphabeto tem apenas 36:785
    letras, poderemos fazer exame no «grande tribunal da historia e
    litteratura», do celeste imperio, sermos approvados mandarins e usarmos
    no chapeu o botão de ouro que distingue os litteratos dos demais
    subditos do grande Filho do Ceu.

    E tudo isto em menos do trinta dias, com menos de quinhentas libras, no
    espaço de um romance de Michel Levy, de uma garrafa de absintho e de uma
    caixa de «brevas», sobre as azas ardentes do monstro chamado o _Trem
    expresso_–o heroe do poeta Campoamor–, que devora o espaço e o tempo,
    fazendo-os rolar em redemoinhos em volta do seu rastro, emquanto elle
    galga os abysmos, bebe os desertos, penetra as cordilheiras, e fura por
    baixo do Cenis ou do Atlas, como uma bala por um tubo!

    E assim poderá a civilisação, por desfastio, verter amanhã a rua dos
    Fanqueiros nos jardins do grão-mogol Alemguir, do mesmo modo como
    atravez de um funil se póde passar um liquido asqueroso e infecto de um
    barril immundo para um fino cristal facetado!

    * * * * *

    A camara dos srs. deputados….

    Oh! nós não podemos resolver-nos a separarmo-nos da camara dos srs.
    deputados, que foi, durante este ultimo lapso de tempo, o nosso
    encanto, a nossa delicia, o afago mimoso da nossa vida! Entre ella, que
    se vae fechar, e este livrinho, que vae chegar ao seu fim–nós estamos
    como o pagem namorado que á porta dos paços do rei Arthur, ao primeiro
    cantico da cotovia, tem sellado o cavallo que escarva o chão e remorde o
    freio, emquanto apoiada ao balção rendilhado a bella, a linda princeza
    apaixonada, envolve o cavalleiro matinal n'um longo olhar de amor, e
    permanece commovida e pallida para lhe enviar, quando elle fôr
    desapparecer na volta do caminho, o seu derradeiro beijo, com aquelle
    aceno–tão profundamente triste para os que partem–de um lenço branco
    que palpita, ao longe!

    E nós, como o pagem, como o menestrel, como o bardo, voltando a cabeça,
    abrimos da mão as redeas e as clinas do ginete, descemos o pé do
    estribo, e vimos dizer ainda á amada lacrimosa uma palavra terna….

    A camara pois–diziamos–querendo collocar-se ao par do que a
    civilisação pratíca de mais arrojado á distancia de alguns centos de
    leguas de S. Bento, decidiu egualmente, á similhança da maravilha
    realisada pela abertura do caminho de ferro de Moscow a Pekin, operar
    um phenomeno–mais modesto, é verdade, mas não menos portentoso:

    Pegar n'uma garrafa e metter-lhe dentro um cantaro, um caneco, um
    barril, uma pipa ou um tonel!

    E, consultando-se sobre a capacidade que lhe assistia para resolver este
    problema, a camara reconheceu que poderia desempenhal-o. E mandou para a
    camara dos Pares, devidamente estudada, meditada, escripta, impressa e
    revista, a celebre e immortal lei–_do engarrafamento das vasilhas_, na
    qual lei se lê textualmente no artigo 2.º o seguinte:

    «Ficam tambem auctorisadas as camaras municipaes, nos termos do artigo
    antecedente, a lançar taxas sobre o engarrafamento do quaesquer
    vasilhas.»

    Do qual textual artigo 2.º da precitada lei se deixa claramente ver que
    a camara–intemerata e altiva–se acha habilitada para proceder á face
    da Europa a este milagre:

    _Engarrafar vasilhas_.

    * * * * *

    E com isto, ó camara, adeus! Tu vaes regressar em breve da scena
    parlamentar–onde boiaste por algum tempo, impertinente e inutil, como
    uma mosca caida sobre uma taça de creme–para o refugio inviolavel da
    vida intima. Vae em paz, amiga; volta aos cuidados bucolicos e simples
    das tuas couves, á guarda intelligente e pacifica do teu gallinheiro,
    aos succos do teu lombo de porco, á frescura do teu bragal, aos teus
    bons lençoes duradouros e fartos, recolhidos na grande arca e fortemente
    perfumados com os doces cheiros nativos do linho, do feno e da maçã
    camoeza!

    Vae, ó camara, e se queres um bom conselho, ouve-o: não tornes cá!

    Para se viver no grande meio sempre ruidoso, sempre agitado, sempre
    coberto de luz de um foco civilisador, é preciso que se tenha uma
    d'estas coisas: um nome, uma fortuna, um talento, uma aptidão; que se
    seja uma causa de actividade ou um instrumento de trabalho: um operario,
    um capitalista ou um sabio.

    Ora nenhuma d'aquellas coisas tu tens, e nada d'isto tu és.

    Profundamente mediocre, o teu destino é seres profundamente obscura.

    Uma coisa extremamente difficil, que não conseguirás nunca, é fazer
    leis; mas ha outra coisa muito facil, para que tu estás superiormente
    habilitada e a que deves de todo em todo consagrar-te,–é não as fazer.

    Não fazer leis, ó camara, eis a tua especialidade! cultiva-a, e serás
    grande.

    Não fizeste nada, não sabes fazer coisa alguma, não representas nenhuma
    grande coisa que antes de ti se fizesse? Não é verdade isto?! Pois bem,
    no mundo moderno, na sociedade actual, quem está n'esse caso só tem um
    meio de não ser ridiculo:–é ficar em casa.

    Cá fóra quem não domina e governa a critica tem de sujeitar-se a ser
    trinchado por ella…. Fica pois em casa, tranquilla no teu rapé e no
    teu voltarete.

    Não queiras parecer-te com estes jovens burguezes que se arruinam, que
    se encanalham, que se desgraçam voluntariamente para se darem nos salões
    um falso ar de homens do mundo com que só elles se enganam. Chamam-se a
    si mesmos os «janotas», põem a gravata branca e a casaca preta como a
    outra gente, frisam-se um pouco mais do que os outros, acompanham-se das
    suas mulheres ou das suas irmãs, de vestidos de bareje barata e de
    narizes que, se se vendessem, custariam ainda mais barato do que as
    barejes…. Correm de sala em sala, julgam-se no mais alto mundo, e
    cerceiam no boi do jantar os excessos de despeza a que os obriga a sua
    triste representação–de remendos brancos em pano preto! Não sabem, não
    veem que os homens verdadeiramente distinctos e as mulheres
    verdadeiramente elegantes não acceitam senão com repulsão os contactos
    das suas mãos vermelhas e suadas, não lhes dando senão despreso–porque
    elles não teem nascimento, nem dinheiro, nem ar, nem _toilette_, nem
    orthographia, nem mão de redea!

    O que estes são–na elegancia, não queiras tu, ó camara, voltar a sel-o,
    como o foste–na politica! Não tornes cá.

    Adeus. Vae com Nossa Senhora. Se te não abraçamos, se te não damos um
    beijo, desculpa…. É que nós temos razões para desconfiar,–pelas tuas
    moções d'ordem, pelos teus projectos de lei e pelos teus
    discursos,–que tu usas _patchouly_ e comes alho.

  • Amor de Perdição Memorias d’uma familia

    Amor de Perdição Memorias d’uma familia

    Aproximadamente 50.604 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    AMOR DE PERDIÇÃO.

    AMOR DE PERDIÇÃO

    (MEMORIAS D'UMA FAMILIA).

    ROMANCE

    POR

    CAMILLO CASTELLO BRANCO.

    * * * * *

    Quem viu jámais vida amorosa, que não a visse afogada nas lagrimas do
    desastre ou do arrependimento?

    D. Francisco Manoel, (_Epanaphora amorosa_).

    * * * * *

    PORTO

    EM CASA DE N. MORÉ–EDITOR,

    PRAÇA DE D. PEDRO.

    A mesma casa em Coimbra, Rua da Calçada.

    Casa de Commissões em Paris, 2 bis, Rua d'Arcole.

    1862.

    PORTO: 1862–TYP. DE SEBASTIÃO JOSÉ PEREIRA.

    Rua do Almada, 641.

    AO ILLUSTRISSIMO E EXCELENTISSIMO SENHOR

    *ANTONIO MARIA DE FONTES PEREIRA DE MELLO*

    DEDICA

    O Author.

    _Ill.^mo e Ex.^mo Snr.

    Ha de pensar muita gente que V. Ex.^a não dá valor algum a este livro,
    que a minha gratidão lhe dedica, porque muita gente está persuadida que
    ministros do estado não lêem novellas. É um engano. Uma vez ouvi eu um
    collega de V. Ex.^a discorrer no parlamento ácerca de caminhos de ferro.
    Com tanto engenho o fazia, de tantas flôres matizára aquella árida
    materia, que me deleitou ouvil-o. Na noite d'esse dia encontrei o
    collega de V. Ex.^a a lêr a Fanny, aquella Fanny, que sabia tanto de
    caminhos de ferro como eu.

    Que V. Ex.^a tem romances na sua bibliotheca, é convicção minha. Que lá
    tem alguns, que não leu porque o tempo lhe falece, e outros porque não
    merecem tempo, também o creio. Dê V. Ex.^a, no lote dos segundos, um
    logar a este livro, e terá assim V. Ex.^a significado que o recebe e
    aprecia, por levar em si o nome do mais agradecido e respeitador criado
    de V. Ex.^a

    Na cadêa da Relação do Porto,

    aos 26 de Setembro de 1861.

    Camillo Castello Branco_.

    PREFACIO.

    Folheando os livros de antigos assentamentos, no cartorio das cadêas da
    Relação do Porto, li, no das entradas dos presos desde 1803 a 1805, a
    folhas 232, o seguinte:

    _Simão Antonio Botelho, que assim disse chamar-se, ser solteiro, e
    estudante na Universidade de Coimbra, natural da cidade de Lisboa,
    e assistente na occasião de sua prisão na cidade de Vizeu, idade de
    dezoito annos, filho de Domingos José Correia Botelho e de D. Rita
    Preciosa Caldeirão Castello-Branco, estatura ordinaria, cara
    redonda, olhos castanhos, cabello e barba preta, vestido com
    jaqueta de baetão azul, collête de fustão pintado e calça de panno
    pedrez. E fiz este assento, que assignei.

    Filippe Moreira Dias_.

    Á margem esquerda d'este assento está escripto:

    _Foi para a India em 17 de Março de 1807_.

    Não será fiar demasiadamente na sensibilidade do leitor, se cuido que o
    degredo de um moço de dezoito annos lhe havia de fazer dó.

    Dezoito annos! O arrebol dourado e escarlate da manhã da vida! As
    louçanias do coração que ainda não sonha em fructos, e todo se embalsama
    no perfume das flôres! Dezoito annos! O amor d'aquella idade! A passagem
    do seio da familia, dos braços de mãe, dos beijos das irmãs para as
    caricias mais dôces da virgem, que se lhe abre ao lado como flôr da
    mesma sazão e dos mesmos aromas, e á mesma hora da vida! Dezoito
    annos!… E degradado da patria, do amor, e da familia! Nunca mais o ceo
    de Portugal, nem liberdade, nem irmãos, nem mãe, nem rehabilitação, nem
    dignidade, nem um amigo!… É triste!

    O leitor de certo se compungia; e a leitora se lhe dissessem, em menos
    de uma linha, a historia d'aquelles dezoito annos, choraria! Pois não? A
    olhos enchutos poderia ouvil-a a mulher, a creatura mais bem formada das
    branduras da piedade, a que por vezes traz comsigo do ceo um reflexo da
    divina misericordia, essa, a minha leitora, a carinhosa amiga de todos
    os infelizes não choraria se lhe dissessem que o pobre moço perdêra
    honra, rehabilitação, patria, liberdade, irmãs, mãe, tudo, por amor da
    primeira mulher que o despertou do seu dormir de innocentes desejos?!

    Chorava, chorava! Assim eu lhe soubesse dizer o doloroso sobresalto que
    me causaram aquellas linhas, de proposito procuradas, e lidas com
    amargura e respeito e, ao mesmo tempo, odio. Odio, sim… A tempo verão
    se é perdoavel o odio, ou se antes me não fôra melhor abrir mão desde já
    de uma historia que me póde acarear enojos dos frios julgadores do
    coração, e das sentenças que eu aqui lavrar contra a falsa virtude de
    homens, feitos barbaros, em nome de sua honra.

    * * * * *

    AMOR DE PERDIÇÃO.

    PRIMEIRA PARTE.

    I.

    Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Menezes, fidalgo de
    linhagem, e um dos mais antigos solarengos de Villa Real de
    Traz-os-Montes, era, em 1779, juiz de fóra de Cascaes, e n'esse mesmo
    anno casara com uma dama do paço, D. Rita Thereza Margarida Preciosa da
    Veiga Caldeirão Castello-Branco, filha d'um capitão de cavallos, e neta
    de outro, Antonio de Azevedo Castello-Branco Pereira da Silva, tão
    notavel por sua jerarchia, como por um, n'aquelle tempo, precioso livro
    ácerca da Arte da Guerra.

    Dez annos de enamorado mal succedido consumira em Lisboa o bacharel
    provinciano. Para se fazer amar da formosa dama de D. Maria I
    minguavam-lhe dotes physicos: Domingos Botelho era extremamente feio.
    Para se inculcar como partido conveniente a uma filha segunda,
    faltavam-lhe bens de fortuna: os haveres d'elle não excediam a trinta
    mil cruzados em propriedades no Douro. Os dotes de espirito não o
    recommendavam tambem: era alcançadissimo de intelligencia, e grangeara
    entre os seus condiscipulos da universidade o epitheto de «brocas» com
    que ainda hoje os seus descendentes em Villa Real são conhecidos. Bem ou
    mal derivado, o epitheto _brocas_ vem de _brôa_. Entenderam os
    academicos que a rudeza do seu condiscipulo procedia do muito pão de
    milho que elle digeria na sua terra.

    Domingos Botelho devia ter uma vocação qualquer; e tinha: era excellenle
    flautista; foi a primeira flauta do seu tempo; e a tocar flauta se
    sustentou dois annos em Coimbra, durante os quaes seu pae lhe suspendeu
    as mesadas, porque os rendimentos da casa não bastavam a livrar outro
    filho de um crime de morte[1].

    Formara-se Domingos Botelho em 1767, e fôra para Lisboa lêr no
    desembargo do paço, iniciação banal dos que aspiravam á carreira da
    magistratura. Já Fernão Botelho, pae do bacharel, fôra bem acceite em
    Lisboa, e mórmente ao duque de Aveiro, cuja estima lhe teve a cabeça em
    risco, na tentativa regicida de 1758. O provinciano sahiu das masmorras
    da Junqueira illibado da infamante nodoa, e bem-quisto mesmo do conde de
    Oeiras, porque tomara parte na prova que este fizera do primor de sua
    genealogia sobre a dos Pintos Coelhos do Bomjardim do Porto: pleito
    ridiculo, mas estrondoso, movido pela recusa que o fidalgo portuense
    fizera de sua filha ao filho de Sebastião José de Carvalho.

    As artes com que o bacharel flautista vingou insinuar-se na estima de D.
    Maria I e Pedro III não as sei eu. É tradição que o homem fazia rir a
    rainha com as suas facecias, e por ventura com os tregeitos de que
    tirava o melhor do seu espirito. O certo é que Domingos Botelho
    frequentava o paço, e recebia do bolsinho da soberana uma farta pensão,
    com a qual o aspirante a juiz de fóra se esqueceu de si, do futuro, e do
    ministro da justiça, que muito rogado fiara das suas letras o encargo de
    juiz de fóra de Cascaes.

    Já está dito que elle se atreveu aos amores do paço, não poetando como
    Luiz de Camões ou Bernardim Ribeiro; mas namorando na sua prosa
    provinciana, e captando a bem-querença da rainha para amollecer as
    durezas da dama. Devia de ser, a final, feliz o «doutor bexiga»–que
    assim era na côrte conhecido–para se não desconcertar a discordia em
    que andam rixados o talento e a felicidade. Domingos Botelho casou com
    D. Rita Preciosa. Rita era uma formosura que ainda aos cincoenta annos
    se podia presar de o ser. E não tinha outro dote, se não é dote uma
    serie de avoengos, uns bispos, outros generaes, e entre estes o que
    morrêra frigido em caldeirão de não sei que terra da mourisma; gloria,
    na verdade, um pouco ardente; mas de tal monta que os descendentes do
    general frito se assignaram _Caldeirões_.

    A dama do paço não foi ditosa com o marido. Molestavam-na saudades da
    côrte, das pompas das camaras reaes, e dos amores de sua feição e molde,
    que immolou ao capricho da rainha. Este desgostoso viver, porém, não
    impeceu a reproduzirem-se em dois filhos e quatro meninas. O mais velho
    era Manoel, o segundo Simão; das meninas uma era Maria, a segunda Anna,
    e a ultima tinha o nome de sua mãe, e alguns traços da belleza d'ella.

    O juiz de fóra de Cascaes, solicitando logar de mais graduado banco,
    demorava em Lisboa, na freguezia da Ajuda em 1784. N'este anno é que
    nasceu Simão, o penultimo de seus filhos. Conseguiu elle, sempre
    blandiciado da fortuna, transferencia para Villa Real, sua ambição
    suprema.

    A distancia de uma legua de Villa Real estava a nobreza da villa
    esperando o seu conterraneo. Cada familia tinha a sua liteira com o
    brasão da casa. A dos Correias de Mesquita era a mais antiquada no
    feitio, e as librés dos criados as mais surradas e traçadas que
    figuravam na comitiva.

    D. Rita, avistando o prestito das liteiras, ajustou ao olho direito a
    sua grande luneta de oiro, e disse:

    –Ó Menezes, aquillo que é?!

    –São os nossos amigos e parentes que veem esperar-nos.

    –Em que seculo estamos nós n'esta montanha?–tornou a dama do paço.

    –Em que seculo?! o seculo tanto é dezoito aqui como em Lisboa.

    –Ah! sim? Cuidei que o tempo parára aqui no seculo doze.

    O marido achou que devia rir-se do chiste, que o não lisonjeára
    grandemente.

    Fernão Botelho, pae do juiz de fóra, sahiu á frente do prestito para dar
    a mão á nora, que apeava da liteira, e conduzil-a á de casa. D. Rita,
    antes de vêr a cara de seu sogro, contemplou-lhe a olho armado as
    fivelas de aço, e a bolsa do rabicho. Dizia ella depois que os fidalgos
    de Villa Real eram muito menos limpos que os carvoeiros de Lisboa. Antes
    de entrar na liteira avoenga de seu marido, perguntou, com a mais
    refalsada seriedade, se não haveria risco em ir dentro d'aquella
    antiguidade. Fernão Botelho asseverou a sua nora que a sua liteira não
    tinha ainda cem annos, e que os machos não excediam a trinta.

    O modo altivo como ella recebeu as cortezias da nobreza–velha nobreza
    que para alli viera em tempo de D. Diniz, fundador da villa–fez que o
    mais novo do prestito, que ainda vivia ha doze annos, me dissesse a mim:
    «Sabiamos que ella era dama da Senhora D. Maria I; porém, da soberba com
    que nos tractou, ficamos pensando que seria ella a propria rainha.»
    Repicaram os sinos da terra quando a comitiva assomou á Senhora de
    Almudena. D. Rita disse ao marido que a recepção dos sinos era a mais
    estrondosa e barata.

    Apearam á porta da velha casa de Fernão Botelho. A aia do paço relanceou
    os olhos pela fachada do edificio, e disse de si para si: «É uma bonita
    vivenda para quem foi criada em Mafra e Cintra, na Bemposta e Queluz.»

    Decorridos alguns dias, D. Rita disse ao marido que tinha mêdo de ser
    devorada das ratasanas; que aquella casa era um covil de feras; que os
    tectos estavam a desabar; que as paredes não resistiriam ao inverno; que
    os preceitos de uniformidade conjugal não obrigavam a morrer de frio uma
    esposa delicada e affeita ás almofadas do palacio dos reis.

    Domingos Botelho conformou-se com a estremecida consorte, e começou a
    fabrica de um palacete. Escassamente lhe chegavam os recursos para os
    alicerces: escreveu á rainha, e obteve generoso subsidio com que ultimou
    a casa. As varandas das janellas foram a ultima dadiva que a real viuva
    fez á sua dama. Quer-nos parecer que a dadiva é um testemunho até agora
    inedito da demencia de D. Maria I.

    Domingos Botelho mandara esculpir em Lisboa a pedra de armas; D. Rita,
    porém, teimara que no escudo se abrisse um emblema das suas; mas era
    tarde, porque já a obra tinha vindo do esculptor, e o magistrado não
    podia com segunda despeza, nem queria desgostar seu pae, orgulhoso de
    seu brasão. Resultou d'aqui ficar a casa sem armas, e D. Rita
    victoriosa[2].

    O juiz de fóra tinha alli parentella illustre. O aprumo da fidalga
    dobrou-se até aos grandes da provincia, ou antes houve por bem
    levantal-os até ella. D. Rita tinha uma côrte de primos, uns que se
    contentavam de serem primos, outros que invejavam a sorte do marido. O
    mais audacioso não ousava fital-a de rosto, quando o ella remirava com a
    luneta em geito de tanta altivez e zombaria, que não será estranha
    figura dizer que a luneta de Rita Preciosa era a mais vigilante
    sentinella da sua virtude.

    Domingos Botelho desconfiava da efficacia dos merecimentos proprios para
    cabalmente encher o coração de sua mulher. Inquietava-o o ciume; mas
    suffocava os suspiros, receando que Rita se désse por injuriada da
    suspeita. E razão era que se offendesse. A neta do general frigido no
    caldeirão sarraceno ria dos primos, que, por amor d'ella, arriçavam e
    empoavam as cabelleiras com um desgracioso esmero, ou cavalleavam
    estrepitosamente na calçada os seus ginetes, fingindo que os picadores
    da provincia não desconheciam as graças hippicas do marquez de Marialva.

    Não o cuidava assim, porém, o juiz de fóra. O intriguista que lhe trazia
    o espirito em ancias era o seu espelho. Via-se sinceramente feio, e
    conhecia Rita cada vez mais em flôr, e mais enfadada no trato intimo.
    Nenhum exemplo da historia antiga, exemplo de amor sem quebra entre o
    esposo deforme e a esposa linda, lhe occorria. Um só lhe mortificava a
    memoria, e esse, com quanto fosse da fabula, era-lhe avêsso, e vinha a
    ser o casamento de Venus e Vulcano. Lembravam-lhe as rêdes que o
    ferreiro coixo fabricára para apanhar os deuses adulteros, e
    assombrava-se da paciencia d'aquelle marido. Entre si, dizia elle, que,
    erguido o véo da perfidia, nem se queixaria a Jupiter, nem armaria
    ratoeiras aos primos. A par do bacamarte de Luiz Botelho, que varára em
    terra o alferes, estava uma fileira de bacamartes em que o juiz de fóra
    era entendido com muito superior intelligencia á que revelava na
    comprehensão do Digesto e das Ordenações do Reino.

    Este viver de sobresaltos durou seis annos, ou mais seria. O juiz de
    fóra empenhára os seus amigos na transferencia, e conseguiu mais do que
    ambicionava: foi nomeado provedor para Lamego. Rita Preciosa deixou
    saudades em Villa Real, e duradoura memoria da sua soberba, formosura e
    graças de espirito. O marido tambem deixou anecdotas que ainda agora se
    repetem. Duas contarei sómente para não enfadar. Acontecèra um lavrador
    mandar-lhe o presenle de uma vitella, e mandar com ella a vacca para se
    não desgarrar a filha. Domingos Botelho mandou recolher á loja a vitella
    e a vacca, dizendo que quem dava a filha dava a mãe. Outra vez, deu-se o
    caso de lhe mandarem um presente de pasteis em rica salva de prata. O
    juiz de fóra repartiu os pasteis pelos meninos, e mandou guardar a
    salva, dizendo que receberia como escarneo um presente de dôces, que
    valiam dez patacões, sendo que naturalmente os pasteis tinham vindo como
    ornato da bandeja. E assim é que ainda hoje, em Villa Real, quando se dá
    um caso analogo de ficar alguem com o conteúdo e continente, diz a gente
    da terra: «Aquelle é como o doutor brocas.»

    Não tenho assumpto de tradição com que possa deter-me em miudezas da
    vida do provedor em Lamego. Escassamente sei que D. Rita aborrecia a
    comarca, e ameaçava o marido de ir com os seus cinco filhos para Lisboa,
    se elle não sahisse d'aquella intratavel terra. Parece que a fidalguia
    de Lamego, em todo o tempo orgulhosa d'uma antiguidade, que principia na
    acclamação de Almacave, desdenhou a philaucia da dama do paço, e
    esmerilhou certas vergonteas pôdres do tronco dos Botelhos Correias de
    Mesquita, desprimorando-lhe as sãs com o facto de elle ter vivido dois
    annos em Coimbra tocando flauta.

    Em 1801 achamos Domingos José Correia Botelho de Mesquita corregedor em
    Vizeu.

    Manoel, o mais velho de seus filhos, tem vinte e dois annos, e frequenta
    o segundo anno juridico. Simão, que tem quinze, estuda humanidades em
    Coimbra. As tres meninas são o prazer e a vida toda do coração de sua
    mãe.

    O filho mais velho escreveu a seu pae queixando-se de não poder viver
    com seu irmão, temeroso do genio sanguinario d'elle. Conta que a cada
    passo se vê ameaçado na vida, porque Simão emprega em pistolas o
    dinheiro dos livros, e convive com os mais famosos perturbadores da
    academia, e corre de noite as ruas insultando os habitantes e
    provocando-os á luta com assuadas. O corregedor admira a bravura de seu
    filho Simão, e diz á consternada mãe que o rapaz é a figura e o genio de
    seu bisavô Paulo Botelho Correia, o mais valente fidalgo que déra
    Traz-os-Montes.

    Manoel, cada vez mais aterrado das arremettidas de Simão, sáe de Coimbra
    antes de ferias, e vai a Vizeu queixar-se, e pedir que lhe dê seu pae
    outro destino. D. Rita quer que seu filho seja cadete de cavallaria. De
    Vizeu parte para Bragança Manoel Botelho, e justifica-se nobre dos
    quatro costados para ser cadete.

    No entanto Simão recolhe a Vizeu com os seus exames feitos e approvados.
    O pae maravilha-se do talento do filho, e desculpa-o da extravagancia
    por amor do talento. Pede-lhe explicações do seu mau viver com Manoel, e
    elle responde que seu irmão o quer forçar a viver monasticamente.

    Os quinze annos de Simão tem apparencias de vinte. É forte de
    compleição; bello homem com as feições de sua mãe, e a corpolencia
    d'ella; mas de todo avêsso em genio. Na plebe de Vizeu é que elle
    escolhe amigos e companheiros. Se D. Rita lhe censura a indigna eleição
    que faz, Simão zomba das genealogias, e mórmente do general Caldeirão
    que morreu frito. Isto bastou para elle grangear a mal-querença de sua
    mãe. O corregedor via as coisas pelos olhos de sua mulher, e tomou parte
    no desgosto d'ella, e na aversão ao filho. As irmãs temiam-no, tirante
    Rita, a mais nova, com quem elle brincava puerilmente, e a quem
    obedecia, se lhe ella pedia, com meiguices de criança, que não andasse
    com pessoas mecanicas.

    Finalisavam as ferias, quando o corregedor teve um grave dissabor. Um de
    seus criados tinha ido levar a beber os machos, e por descuido ou
    proposito deixou quebrar algumas vasilhas que estavam á vez no parapeito
    do chafariz. Os donos das vazilhas conjuraram contra o criado, e
    espancaram-no. Simão passava n'esse ensejo; e, armado d'um fueiro que
    descravou d'um carro, partiu muitas cabeças, e rematou o tragico
    espectaculo pela farça de quebrar todos os cantaros. O povoleu intacto
    fugira espavorido, que ninguem se atrevia ao filho do corregedor; os
    feridos, porém, incorporaram-se e foram clamar justiça á porta do
    magistrado.

    Domingos Botelho bramia contra o filho, e ordenava ao meirinho geral que
    o prendesse á sua ordem. D. Rita, não menos irritada, mas irritada como
    mãe, mandou, por portas travessas, dinheiro ao filho para que, sem
    detença, fugisse para Coimbra, e esperasse lá o perdão do pae.

    O corregedor, quando soube o expediente de sua mulher, fingiu-se
    zangado, e prometteu fazel-o capturar em Coimbra. Como, porém, D. Rita
    lhe chamasse brutal nas suas vinganças, e estupido juiz d'uma rapaziada,
    o magistrado desenrugou a severidade postiça da testa, e confessou
    tacitamente que era brutal e estupido juiz.

    II.

    Simão Botelho levou de Vizeu para Coimbra as arrogantes convicções da
    sua valentia. Se recordava os chibantes pormenores da derrota em que
    pozera trinta aguadeiros, o som cavo das pancadas, a queda atordoada
    d'este, o levantar-se d'aquelle ensanguentado, a bordoada que abrangia
    tres a um tempo, a que afocinhava dois, a gritaria de todos, e o
    estrepito dos cantaros a final, Simão deliciava-se n'estas lembranças,
    como ainda não vi n'algum drama, em que o veterano de cem batalhas
    relembra os lourós de cada uma, e esmorece, a final, estafado de
    espantar, quando não é de estafar, os ouvintes.

    O academico, porém, com os seus enthusiasmos era incomparavelmente muito
    mais prejudicial e perigoso que o mata-mouros de tragedia. As
    recordações esporeavam-no a façanhas novas, e n'aquelle tempo a academia
    dava azo a ellas. A mocidade estudiosa, em grande parte, sympathisava
    com as balbuciantes theorias da liberdade, mais por presentimento que
    por estudo. Os apostolos da revolução franceza não tinham podido fazer
    reboar o trovão dos seus clamores n'este canto do mundo; mas os livros
    dos encyclopedistas, as fontes onde a geração seguinte bebêra a peçonha
    que sahiu no sangue de noventa e tres, não eram de todo ignorados. As
    doutrinas da regeneração social pela guilhotina tinham alguns timidos
    sectarios em Portugal, e esses de vêr é que deviam pertencer á geração
    nova. Além de que, o rancor a Inglaterra lavrava nas entranhas das
    classes manufactureiras, e o desprender-se do jugo aviltador de
    estranhos, apertado, desde o principio do seculo anterior, com as sôgas
    de ruinosos e perfidos tractados, estava no animo de muitos e bons
    portuguezes que se queriam antes alliançados com a França, Estes eram os
    pensadores reflexivos; os sectarios da academia, porém, exprimiam mais a
    paixão da novidade que as doutrinas do raciocinio.

    No anno anterior de 1800 sahira Antonio de Araujo de Azevedo, depois
    conde da Barca, a negociar em Madrid e Paris a neutralidade de Portugal.
    Rejeitaram-lhe as potencias alliadas as propostas, tendo-lhe em conta de
    nada os dezeseis milhões que o diplomata offerecia ao primeiro consul.
    Sem delongas, foi o territorio portuguez infestado pelos exercitos de
    Hespanha e França. As nossas tropas, commandadas pelo duque de Lafões,
    não chegaram a travar a lucta desigual, porque, a esse tempo, Luiz Pinto
    de Sousa, mais tarde visconde de Balsemão, negociara ignominiosa paz em
    Badajoz, com cedencia de Olivença á Hespanha, exclusão de inglezes dos
    nossos portos, e indemnisação de alguns milhões á França.

    Estes successos tinham irritado contra Napoleão os animos d'aquelles que
    odiavam o aventureiro, e para outros deram causa a congratularem-se do
    rompimento com Inglaterra. Entre os d'esta parcialidade, na convulsiva e
    irriquieta academia, era voto de grande monta Simão Botelho, apesar dos
    seus imberbes dezeseis annos. Mirabeau, Danton, Robespierre, Desmoulins,
    e muitos outros algozes e martyres do grande açougue, eram nomes de
    soada musical aos ouvidos de Simão. Diffamal-os na sua presença era
    affrontarem-no a elle, e bofetada certa, e pistolas engatilhadas á cara
    do diffamador. O filho do corregedor de Vizeu defendia que Portugal
    devia regenerar-se n'um baptismo de sangue, para que a hydra dos
    tyrannos não erguesse mais uma das suas mil cabeças sob a clava do
    Hercules popular.

    Estes discursos, arremêdo d'alguma clandestina objurgatoria de
    Saint-Just, afugentavam da sua communhão aquelles mesmos que o tinham
    applaudido em mais racionaes principios de liberdade. Simão Botelho
    tornou-se odioso aos condiscipulos que, para se salvarem pela infamia, o
    delataram ao bispo-conde, reitor da universidade.

    Um dia proclamava o demagogo academico na praça de Sansão aos poucos
    ouvintes que lhe restaram fieis, uns por mêdo, outros por analogia de
    boças. O discurso ia no mais acrisolado da ideia regicida, quando uma
    escolta de verdeaes lhe aguou a escandecencia. Quiz o orador resistir,
    aperrando as pistolas, mas de sobra sabiam os braços musculosos da
    cohorte do bispo-conde com quem as haviam. O jacobino, desarmado e
    cerrado entre a escolta dos archeiros, foi levado ao carcere academico,
    d'onde sahiu, seis mezes depois, a grandes instancias dos amigos de seu
    pae e dos parentes de D. Rita Preciosa.

    Perdido o anno lectivo, foi para Vizeu Simão. O corregedor repelliu-o da
    sua presença com ameaças de o expulsar de casa. A mãe, mais levada do
    dever que do coração, intercedeu pelo filho, e conseguiu sental-o á mesa
    commum.

    No espaço de tres mezes fez-se maravilhosa mudança nos costumes de
    Simão. As companhias da ralé despresou-as. Sahia de casa raras vezes, ou
    só, ou com a irmã mais nova, sua predilecta. O campo, as arvores, e os
    sitios mais sombrios e êrmos eram o seu recreio. Nas dôces noites de
    estio demorava-se por fora até ao repontar da alva; e aquelles que assim
    o viam admiravam-lhe o ar scismador e o recolhimento que o sequestrava
    da vida vulgar. Em casa encerrava-se no seu quarto, e sahia quando o
    chamavam para a mesa.

    D. Rita pasmava da transfiguração, e o marido, bem convencido d'ella, ao
    fim de cinco mezes consentiu que seu filho lhe dirigisse a palavra.

    Simão Botelho amava. Ahi está uma palavra unica, explicando o que
    parecia absurda reforma aos dezesete annos.

    Amava Simão uma sua visinha, menina de quinze annos, rica herdeira,
    regularmente bonita e bem nascida. Da janella do seu quarto é que elle a
    vira a primeira vez para amal-a sempre. Não ficara ella incolume da
    ferida que fizera no coração do visinho: amou-o tambem, e com mais
    seriedade que a usual nos seus annos.

    Os poetas cansam-nos a paciencia a fallarem do amor da mulher aos quinze
    annos, como paixão perigosa, unica, e inflexivel. Alguns prosadores de
    romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze annos é uma
    brincadeira; é a ultima manifestação do amor ás bonecas; é a tentativa
    da avesinha que ensaia o vôo fóra do ninho, sempre com os olhos fitos na
    ave mãe que a está da fronde proxima chamando: tanto sabe a primeira o
    que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.

    Thereza de Albuquerque devia ser, por ventura, uma excepção no seu amor.

    O magistrado e sua familia eram odiosos ao pae de Thereza, por motivos
    de litigios em que Domingos Botelho lhe deu sentenças contra. Afóra
    isso, ainda no anno anterior dois criados de Thadeu de Albuquerque
    tinham sido feridos na celebrada pancadaria da fonte. Salta aos olhos
    que o amor de Thereza, declinando de si o dever de obtemperar e
    sacrificar-se ao justo azedume de seu pae, era verdadeiro e forte.

    E este amor era singularmente discreto e cauteloso. Viram-se e
    fallaram-se tres mezes, sem darem rebate á visinhança, e nem sequer
    suspeitas ás duas familias. O destino, que ambos se promettiam, era o
    mais honesto: elle ia formar-se para poder sustental-a, se não tivessem
    outros recursos; ella esperava que seu velho pae fallecesse para,
    senhora sua, lhe dar com o coração o seu grande patrimonio. Espanta
    discrição tamanha na indole de Simão Botelho, e na presumivel ignorancia
    de Thereza em coisas materiaes da vida, como são um patrimonio!

    Na vespera da sua ida para Coimbra, estava Simão Botelho despedindo-se
    da suspirosa menina, quando subitamente ella foi arrancada da janella. O
    allucinado moço ouviu gemidos d'aquella voz que, um momento antes,
    soluçava commovida por lagrimas de saudade. Subiu-lhe o sangue á cabeça;
    contorceu-se no seu quarto como o tigre contra as grades inflexiveis da
    jaula. Teve tentações de se matar, na impotencia de soccorrêl-a. As
    restantes horas d'aquella noite passou-as em raivas e projectos de
    vingança. Com o amanhecer esfriou-lhe o sangue, e renasceu a esperança
    com os calculos.

    Quando o chamaram para partir para Coimbra, lançou-se do leito de tal
    modo desfigurado, que sua mãe, avisada do rosto amargurado d'elle, foi
    ao quarto interrogal-o e despersuadil-o de ir era quanto assim estivesse
    febril. Simão, porém, entre mil projectos, achara melhor o de ir para
    Coimbra, e esperar lá noticias de Thereza, e vir a Vizeu occultamente
    fallar com ella. Ajuizadamente discorrêra elle, que a sua demora
    aggravaria a situação de Thereza.

    Descêra o academico ao páteo, depois de abraçar a mãe e irmãs, e beijar
    a mão do pae, que para esta hora reservara uma admoestação severa, a
    ponto de lhe asseverar que de todo o abandonaria se elle recahisse em
    novas extravagancias. Quando mettia o pé no estribo, viu a seu lado uma
    velha mendiga, estendendo-lhe a mão aberta, como quem pede esmola, e, na
    palma da mão, um pequeno papel. Sobresaltou-se o moço; e, a poucos
    passos distante de sua casa, leu estas linhas:

    «Meu pae diz que me vai encerrar n'um convento, por tua causa. Soffrerei
    tudo por amor de ti. Não me esqueças tu, e achar-me-has no convento, ou
    no ceo, sempre tua do coração, e sempre leal. Parte para Coimbra. Lá
    irão dar as minhas cartas; e na primeira te direi em que nome has de
    responder á tua pobre Thereza.»

    A mudança do estudante maravilhou a academia. Se o não viam nas aulas,
    em parte nenhuma o viam. Das antigas relações restavam-lhe apenas as dos
    condiscipulos sensatos que o aconselhavam para bem, e o visitaram no
    carcere de seis mezes, dando-lhe alentos e recursos, que seu pae lhe não
    dava, e sua mãe escassamente suppria. Estudava com fervor, como quem já
    d'alli formava as bases do futuro renome e da posição por elle merecida,
    bastante a sustentar dignamente a esposa. A ninguem confiava o seu
    segredo, senão ás cartas que enviava a Thereza, longas cartas em que
    folgava o espirito da canceira da sciencia. A apaixonada menina
    escrevia-lhe a miudo, e já dizia que a ameaça do convento fôra mero
    terror de que já não tinha mêdo, porque seu pae não podia viver sem
    ella.

    Isto afervorou-lhe para mais o amor ao estudo. Simão, chamado em pontos
    difficeis das materias do primeiro anno, tal conta deu de si, que os
    lentes e os condiscipulos o houveram como primeiro premiado.

    A este tempo, Manoel Botelho, cadete em Bragança, destacado no Porto,
    licenciou-se para estudar na universidade as mathematicas. Animou-o a
    noticia do reviramento que se déra em seu irmão. Foi viver com elle;
    achou-o quieto; mas alheado n'uma ideia que o tornava misanthropo e
    intratavel n'outro genero. Pouco tempo conviveram, sendo a causa da
    separação um desgraçado amor de Manoel Botelho a uma açoriana casada com
    um academico. A esposa apaixonada perdeu-se nas illusões do cego amante.
    Deixou o marido, e fugiu com elle para Lisboa, e d'ahi para Hespanha. Em
    outro relanço d'esta narrativa darei conta do remate d'este episodio.

    No mez de Fevereiro de 1803 recebeu Simão Botelho uma carta de Thereza.
    No seguinte capitulo se diz minuciosamente a peripecia que forçára a
    filha de Thadeu de Albuquerque a escrever aquella carta de pungentissima
    surpreza para o academico, convertido aos deveres, á honra, á sociedade
    e a Deus pelo amor.

    III.

    O pae de Thereza não embicaria na impureza do sangue do corregedor, se o
    ajustarem-se os dois filhos em casamento se compadecesse com o odio de
    um e o desprêso do outro. O magistrado mofava do rancor do seu visinho,
    e o visinho malsinava de venalidade a reputação do magistrado. Este
    sabia da injuriosa vingança em que o outro se ia despicando; fingia-se
    invulneravel á detracção; mas de dia para dia se lhe azedava a bilis; e
    é de crêr que, se o não contivessem considerações de familia, soffreria
    menos, desabafando pela bôca d'um bacamarte, arma da predilecção dos
    Botelhos Correias de Mesquita. Era obra sobrehumana o reconciliarem-se.
    Rita, a filha mais nova, estava um dia na janella do quarto de Simão, e
    viu a visinha rente com os vidros e a testa apoiada nas mãos. Sabia
    Thereza que era aquella menina a mais querida irmã de Simão, e a que
    mais semelhança de parecer tinha com elle. Sahiu da sua artificial
    indifferença, e respondeu ao reparo de Rita, fazendo-lhe com a mão um
    gesto e sorrindo para ella. A filha do corregedor sorriu tambem, mas
    fugiu logo da janella, porque sua mãe tinha prohibido ás filhas de
    trocarem vistas com pessoa d'aquella casa.

    No dia seguinte á mesma hora, levada da sympathia que lhe causára
    aquelle sorriso e aceno, tornou Rita á janella, e lá viu Thereza com os
    olhos fitos na sua, como se a estivesse esperando. Sorriram-se com
    resguardo, afastando-se, a um tempo, do peitoril das janellas; e assim,
    ambas de pé, no interior dos quartos, se estavam contemplando. Como a
    rua era estreita, podiam ouvir-se fallando baixo. Thereza, mais pelo
    movimento dos labios que por palavras, perguntou a Rita se era sua
    amiga. A menina respondeu com um gesto affirmativo, e fugiu,
    acenando-lhe um adeus. Estes rapidos instantes de se vêrem repetiram-se
    successivos dias, até que, perdido o maior mêdo de ambas, ousaram
    demorar-se em palestras a meia voz. Thereza fallava de Simão, contava á
    menina de onze annos o segredo do seu amor, e dizia-lhe que ella havia
    de ser ainda sua irmã, recommendando-lhe muito que não dissesse nada á
    sua familia.

    N'uma d'essas conversações, Rita descuidara-se, e levantou de modo a voz
    que foi ouvida d'uma irmã, que a foi logo accusar ao pae. O corregedor
    chamou Rita, e forçou-a pelo terror a contar tudo que ouvira á visinha.
    Tanta foi sua cólera, que, sem attender ás razões da esposa, que viera
    espavorida dos gritos d'elle, correu ao quarto de Simão, e viu ainda
    Thereza á janella.

    Ólé!–disse elle á pállida menina–Não tenha a confiança de pôr olhos em
    pessoa de minha casa. Se quer casar, case com um sapateiro, que é um
    digno genro de seu pae.

    Thereza não ouviu o remate da brutal apostrophe: tinha fugido aturdida e
    envergonhada. Porém, como o desabrido ministro ficasse bramindo no
    quarto, e Thadeu de Albuquerque sahisse a uma janella, a cólera
    d'aquelle redobrou, e a torrente das injurias, longo tempo represada,
    bateu no rosto do visinho, que não ousou replicar-lhe.

    Thadeu interrogou sua fllha, e acreditou que foi causa á sanha de
    Domingos Botelho estarem as duas meninas praticando innocentemente, por
    tregeitos, em coisas de sua idade. Desculpou o velho a criancice de
    Thereza, admoestando-a a que não voltasse áquella janella.

    Esta mansidão do fidalgo, cujo natural era bravio, tem a sua explicação
    no projecto de casar em breve a filha com seu primo Balthazar Coutinho,
    de Castro-d'Aire, senhor de casa, e egualmenle nobre da mesma prosapia.
    Cuidava o velho, presumpçoso conhecedor do coração das mulheres, que a
    brandura seria o mais seguro expediente para levar a filha ao
    esquecimento d'aquelle pueril amor a Simão. Era maxima sua que o amor,
    aos quinze annos, carece de consistencia para sobreviver a uma ausencia
    de seis mezes. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As
    excepções tem sido o ludibrio dos mais assizados pensadores, tanto no
    especulativo como na sciencia positiva. Não era muito que Thadeu de
    Albuquerque fosse enganado em coisas de amor e coração de mulher, cujas
    variantes são tantas e tão caprichosas, que eu não sei se alguma maxima
    póde ser-nos guia, a não ser esta: «Em cada mulher, quatro mulheres
    incomprehensiveis, pensando alternadamente como se hão de desmentir umas
    ás outras.» Isto é o mais seguro; mas não é infallivel. Ahi está Thereza
    que parece ser unica em si. Dir-se-ha que as tres da conta, que diz a
    sentença, não podem coexistir com a quarta, aos quinze annos? Tambem o
    penso assim, posto que a fixidez, a constancia d'aquelle amor, funda em
    causa independente do coração: é porque Thereza não vai á sociedade, não
    tem um altar em cada noite na sala, não provou o incenso d'outros
    galans, nem teve ainda uma hora de comparar a imagem amada, desluzida
    pela ausencia, com a imagem amante, amor nos olhos que a fitam, e amor
    nas palavras que a convencem de que ha um coração para cada homem, e uma
    só mocidade para cada mulher. Quem me diz a mim que Thereza teria em si
    as quatro mulheres da maxima, se o vapor de quatro incensorios lhe
    estonteasse o espirito? Não é facil, nem preciso decidir; e vamos ao
    conto.

    Ácerca de Simão Botelho, nunca diante de sua filha Thadeu de Albuquerque
    proferiu palavra, nem antes nem depois do disparate do corregedor. O que
    elle fez logo foi chamar a Vizeu o sobrinho de Castro d'Aire, e
    prevenil-o do seu designio, para que elle em face de Thereza procedesse
    como convinha a um enamorado de feição, que mutuamente se apaixonassem e
    promettessem auspicioso futuro ao casamento.

    Por parte de Balthazar Coutinho a paixão inflammou-se tão depressa,
    quanto o coração de Thereza se congelou de terror e repugnancia. O
    morgado de Castro-d'Aire, attribuindo a frieza de sua prima a modestia,
    a innocencia e acanhamento, lisonjeou-se do virginal melindre d'aquella
    alma, e saboreou de antemão o prazer de uma lenta, mas segura conquista.
    Verdade é que Balthazar nunca se explicara de modo que Thereza lhe désse
    resposta decisiva; um dia, porém, instigado por seu tio, affoitou-se o
    ditoso noivo a fallar assim á melancólica menina:

    –É tempo de lhe abrir o meu coração, prima. Está bem disposta a
    ouvir-me?

    —Eu estou sempre bem disposta a ouvil-o, primo Balthazar.

    A desplicencia enfadosa d'esta resposta abalou algum tanto as convicções
    do fidalgo, respeito á innocencia, modestia e acanhamento de sua prima.
    Ainda assim quiz elle no momento persuadir-se que a boa vontade não
    poderia exprimir-se d'outro modo, e continuou:

    –Os nossos corações penso eu que estão unidos; agora é preciso que as
    nossas casas se unam.

    Thereza impallideceu, e baixou os olhos.

    –Acaso lhe diria eu alguma coisa desagradavel?!–proseguiu Balthazar,
    rebatido pela desfiguração de Thereza.

    –Disse-me o que é impossível fazer-se–respondeu ella sem turvação–O
    primo engana-se: os nossos corações não estão unidos. Sou muito sua
    amiga, mas nunca pensei em ser sua esposa, nem me lembrou que o primo
    pensava em tal.

    –Quer dizer que me aborrece, prima Thereza?–atalhou corrido o morgado.

    –Não, senhor: já lhe disse que o estimava muito, e por isso mesmo não
    devo ser esposa d'um amigo a quem não posso amar. A infelicidade não
    seria só minha…

    –Muito bem… Posso eu saber–tornou com refalsado sorriso o
    primo–quem é que me disputa o coração de minha prima?

    –Que lucra em o saber?

    –Lucro saber, pelo menos, que a minha prima ama outro homem… é
    exacto?

    –É.

    –E com tamanha paixão que desobedece a seu pae?

    –Não desobedeço: o coração é mais forte que a submissa vontade de uma
    filha. Desobedeceria, se casasse contra a vontade de meu pae; mas eu não
    disse ao primo Balthazar que casava; disse-lhe unicamente que amava.

    –Sabe a prima que eu estou espantado do seu modo de dizer!… quem
    pensaria que os seus dezeseis annos estavam tão abundantes de
    palavras!…

    –Não são só palavras, primo–retorquiu Thereza com gravidade–são
    sentimentos que merecem a sua estima, por serem verdadeiros. Se lhe eu
    mentisse ficaria mais bem vista de meu primo?

    –Não, prima Thereza; fez bem em dizer a verdade, e de a dizer em tudo.
    Ora, olhe, não duvída declarar quem é o ditoso mortal da sua
    preferencia?

    –Que lhe faz saber isso?

    –Muito, prima: todos temos a nossa vaidade, e eu folgaria muito de me
    vêr vencido por quem tivesse merecimentos que eu não tenho aos seus
    olhos. Tem a bondade de me dizer o seu segredo, como o diria a seu primo
    Balthazar, se o tivesse em conta do seu amigo intimo?

    –N'essa conta é que eu o não posso já ter…–respondeu Thereza,
    sorrindo e contando, como elle, as syllabas das palavras.

    –Pois nem para amigo me quer?!

    –O primo não me perdoa a sinceridade que eu tive, e será de hoje em
    diante meu inimigo.

    –Pelo contrario…–tornou elle com mal rebuçada ironia–muito pelo
    contrario… Eu lhe provarei que sou seu amigo, se alguma vez a vir
    casada com algum miseravel indigno de si.

    –Casada!…–interrompeu ella; mas Balthazar cortou-lhe logo a réplica
    d'este modo:

    –Casada com algum famoso ébrio ou jogador de páo, valentão de
    aguadeiros, e distincto cavalheiro que passa os annos lectivos
    encarcerado nas cadêas de Coimbra…

    Visivel é que Balthazar Coutinho estava senhor do segredo de Thereza.
    Seu tio, naturalmente, lhe communicara a criancice da prima, talvez
    antes de destinar-lh'a esposa.

    Ouvira Thereza o tom sarcastico d'aquellas palavras, e erguêra-se
    respondendo assim com altivez:

    –Não tem mais que me diga, primo Balthazar?

    –Tenho, prima: queira sentar-se algum tempo mais. Não cuide agora que
    está fallando com o namorado infeliz: convença-se de que falla com o seu
    mais proximo parente e mais sincero amigo, e mais decidido guarda da sua
    dignidade e fortuna. Eu sabia que minha prima, contra a expressa vontade
    de seu pae, uma ou outra vez conversára da janella com o filho do
    corregedor. Não dei valor ao successo, e tomei-o como criancice. Como eu
    frequentasse o meu ultimo anno em Coimbra, ha dois annos conheci de
    sobra Simão Botelho. Quando vim e me contaram a sua affeição ao
    academico, pasmei da boa fé da priminha; depois entendi que a sua mesma
    innocencia devia ser o seu anjo custodio. Agora, como seu amigo,
    cumpunjo-me de a vêr ainda fascinada pela perversidade do seu visinho.
    Não se recorda de ter visto Simão Botelho sociando com a infima
    vilanagem d'esta terra? Não viu os seus criados com as cabeças quebradas
    pelo tal varredor de feiras? Não lhe constou que elle, em Coimbra,
    abarrotado de vinho, andava pelas ruas armado como um salteador de
    estradas, proclamando á canalha a guerra aos nobres, e aos reis, e á
    religião de nossos paes? A prima ignoraria isto por ventura?

    –Ignorava parte d'isso, e não me afflige o sabêl-o. Desde que conheci
    Simão, não me consta que elle tenha dado o menor desgosto á sua familia,
    nem ouço fallar mal d'elle.

    –E está por isso persuadida de que Simão deve ao seu amor a reforma de
    costumes?

    –Não sei, nem penso n'isso–replicou com enfado Thereza.

    –Não se zangue, prima. Vou-lhe dizer as minhas ultimas palavras: eu hei
    de, em quanto viver, trabalhar para salval-a das garras de Simão
    Botelho. Se seu pae lhe faltar, fico eu. Se as leis a não defenderem dos
    ataques do seu demonio, eu farei vêr ao valentão que a victoria sobre os
    aguadeiros não o poupa ao desgosto de ser levado a pontapés para fóra da
    casa de meu tio Thadeu d'Albuquerque.

    –Então o primo quer-me governar?–atalhou ella com desabrida irritação.

    –Quero-a dirigir em quanto a sua razão precisar de auxilio. Tenha
    juizo, e eu serei indifferente ao seu destino. Não a enfado mais, prima
    Thereza.

    Balthazar Coutinho foi d'ali procurar seu tio, e contou-lhe o essencial
    do dialogo. Thadeu, atonito da coragem da filha, e ferido no coração e
    direitos paternaes, correu ao quarto d'ella, disposto a espancal-a.
    Reteve-o Balthazar, reflexionando-lhe que a violencia prejudicaria muito
    a crise, sendo coisa de esperar que Thereza fugisse de casa. Refreou o
    pae a sua ira, e meditou. Horas depois chamou sua filha, mandou-a sentar
    ao pé de si, e em termos serenos e gesto bem composto, lhe disse que era
    sua vontade casal-a com o primo; porém que elle já sabia que a vontade
    de sua filha não era essa. Ajuntou que a não violentaria; mas tambem não
    consentiria que ella, sovando aos pés o pundonor de seu pae, se désse de
    coração ao filho do seu maior inimigo. Disse mais que estava a resvalar
    na sepultura, e mais depressa desceria a ella, perdendo o amor da filha,
    que elle já considerava morta. Terminou perguntando a Thereza, se ella
    duvidava entrar n'um convento, e ahi esperar que seu pae morresse, para
    depois ser desgraçada á sua vontade.

    Thereza respondeu, chorando, que entraria n'um convento, se essa era a
    vontade de seu pae; porém que se não privasse elle de a ter em sua
    companhia, nem a privasse a ella dos seus affectos, por mèdo de que sua
    filha praticasse alguma acção indigna, ou lhe desobedecesse no que era
    virtude obedecer. Prometteu-lhe julgar-se morta para todos os homens,
    menos para seu pae.

    Thadeu ouviu-a, e não lhe replicou.

    IV.

    O coração de Thereza estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao
    coração!

    Para finos entendedores, o dialogo do anterior capitulo definiu a filha
    de Thadeu de Albuquerque. É mulher varonil, tem força de caracter,
    orgulho fortalecido pelo amor, despêgo das vulgares apprehensões, se são
    apprehensões a renuncia que uma filha faz de sua vontade ás
    imprevidentes e caprichosas vontades de seu pae. Diz boa gente que não,
    e eu abundo sempre no voto da gente boa. Não será aleive attribuir-lhe
    uma pouca de astucia, ou hypocrisia, se quizerem; perspicacia seria mais
    correcto dizer. Thereza adivinha que a lealdade tropeça a cada passo na
    estrada real da vida, e que os melhores fins se attingem por atalhos
    onde não cabem a franqueza e a sinceridade. Estes ardis são raros na
    idade inexperta de Thereza; mas a mulher do romance quasi nunca é
    trivial, e esta, de que resam os meus apontamentos, não o era. A mim me
    basta para crêr em sua distincção a celebridade que ella veio a ganhar á
    conta da desgraça.

    Da carta que ella escreveu a Simão Botelho, contando as scenas
    descriptas, a critica deduz que a menina de Vizeu contemporisava com o
    pae, pondo a mira no futuro, sem passar pelo dissabor do convento, nem
    romper com o velho em manifesta desobediencia. Na narrativa que fez ao
    academico omittiu ella as ameaças do primo Balthazar, clausula que, a
    ser transmittida, arrebataria de Coimbra o moço, em que sobejavam brios
    e ferocidade para mantêl-os.

    Mas não é esta ainda a carta que surprendeu Simão Botelho.

    Parecia bonançoso o ceo de Thereza. Seu pae não fallava em claustro, nem
    em casamento. Balthazar Coutinho voltára ao seu solar de Castro-d'Aire.
    A tranquilla menina dava semanalmente estas boas novas a Simão, e este,
    alliando ás venturas do coração as riquezas do espirito, estudava
    incessantemente, e desvelava as noites arquitectando o seu edifício de
    futura gloria.

    Ao romper d'alva, d'um domingo de Junho de 1803, foi Thereza chamada
    para ir com seu pae á primeira missa da igreja parochial. Vestiu-se a
    menina assustada, e encontrou o velho na ante-camara a recebêl-a com
    muito agrado, perguntando-lhe se ella se erguia de bons humores para dar
    ao author de seus dias um resto de velhice feliz. O silencio de Thereza
    era interrogador.

    –Vais hoje dar a mão de esposa a teu primo Ballhazar, minha filha. É
    preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pae. Logo que
    déres este passo difficil, conhecerás que a tua felicidade é d'aquellas
    que precisam ser impostas pela violencia. Mas repara, minha querida
    filha, que a violencia de um pae é sempre amor. Amor tem sido a minha
    condescendencia e brandura para comtigo. Outro teria subjugado a tua
    desobediencia com maus tractos, com os rigores do convento, e talvez com
    o desfalque do teu grande patrimonio. Eu, não. Esperei que o tempo te
    aclarasse a razão, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabolico
    prestigio do maldito, que acordou o teu innocente coração. Não te
    consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexão
    fizesse mal ao fervor de boa filha com que tu vais abraçar teu pae, e
    agradecer-lhe a sisudez com que elle respeitou o teu genio, velando
    sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.

    Thereza não desfitou os olhos do pae; mas tão abstrahida estava, que
    escassamente lhe ouviu as primeiras palavras, e nada das ultimas.

    –Não me respondes, Thereza?!- tornou Thadeu, tomando-lhe caridosamente
    as mãos.

    –Que hei-de eu responder-lhe, meu pae?–balbuciou ella.

    –Dás-me o que te peço? enches de contentamento os poucos dias que me
    restam?

    –E será o pae feliz com o meu sacrificio?

    –Não digas sacrificio, Thereza… A'manhã a estas horas verás que
    transfiguração se fez na tua alma. Teu primo é um composto de todas as
    virtudes; nem a qualidade de ser um gentil moço lhe falta, como se a
    riqueza, a sciencia e as virtudes não bastassem a formar um marido
    excellente.

    –E elle quer-me, depois de eu me ter negado?–disse ella com amargura
    ironica.

    –Se elle está apaixonado, filha!… e tem bastante confiança em si para
    crêr que tu has de amal-o muito!…

    –E não será mais certo odial-o eu sempre!? Eu agora mesmo o abomino
    como nunca pensei que se podesse abominar! Meu pae…–continuou ella,
    chorando, com as mãos erguidas–mate-me; mas não me force a casar com
    meu primo! E' escusada a violencia, porque eu não caso!..

    Thadeu mudou de aspecto, e disse irado:

    –Hás de casar! Quero que cases! Quero!… Quando não, amaldiçoada serás
    para sempre, Thereza! Morrerás n'um convento! Esta casa irá para teu
    primo! Nenhum infame ha de aqui pôr um pé nas alcatifas de meus avós. Se
    és uma alma vil, não me pertences, não és minha filha, não podes herdar
    appellidos honrosos, que foram pela primeira vez insultados pelo pae
    d'esse miseravel que tu amas! Maldita sejas! Entra n'esse quarto, e
    espera que d'ahi te arranquem para outro, onde não verás um raio de sol.

    Thereza ergueu-se sem lagrimas, e entrou serenamente no seu quarto.
    Thadeu de Albuquerque foi encontrar seu sobrinho, e disse-lhe:

    –Não te posso dar minha filha, porque já não tenho filha. A miseravel,
    a quem dei este nome, perdeu-se para nós e para ella.

    Balthazar, que, a juizo de seu tio, era um composto de excellencias,
    tinha apenas uma quebra: a absoluta carencia de brios. Malograda a
    tentativa do seu amor de emboscada, tornou para a terra o primo de
    Thereza, dizendo ao velho que elle o livraria do assedio em que Simão
    Botelho lhe tinha o coração da filha. Não approvou a reclusão no
    convento, discorrendo sobre as hypotheses infamantes que a opinião
    publica inventaria. Aconselhou que a deixasse estar em casa, e esperasse
    que o filho do corregedor viesse de Coimbra.

    Ponderaram no animo do velho as razões de Balthazar. Thereza
    maravilhou-se da quietação inesperada de seu pae, e desconfiou da
    incoherencia. Escreveu a Simão. Nada lhe escondeu do succedido; nem as
    ameaças de Balthazar por delicadeza supprimiu. Rematava communicando-lhe
    as suas suspeitas de alguma nova traça de violencia melhor agourada.

    O academico, chegando ao periodo das ameaças, já não tinha clara luz nos
    olhos para decifrar o restante da carta. Tremia sezões, e as artérias
    frontaes arfavam-lhe entumecidas. Não era sobresalto do coração
    apaixonado: era a indole soberba que lhe escaldava o sangue. Ir d'ali a
    Castro-d'Aire, e apunhalar o primo de Thereza na sua propria casa, foi o
    primeiro conselho, que lhe segredou a furia do odio. N'este proposito
    sahiu, alugou cavallo, e recolheu a vestir-se de jornada. Já preparado,
    a cada minuto de espera assomava-se em frenesis. O cavallo demorou-se
    meia hora, e o seu bom anjo, n'este espaço, vestido com as galas com que
    elle vestia na imaginação Thereza, deu-lhe rebates de saudade d'aquelles
    tempos e ainda das horas d'aquelle mesmo dia, em que scismava na
    felicidade que o amor lhe promettia, se a elle procurasse no caminho do
    trabalho e da honra. Contemplou os seus livros com tanto affecto, como
    se em cada um estivesse uma pagina da historia do seu coração. Nenhuma
    d'aquellas paginas tinha elle lido, sem que a imagem de Thereza lhe
    apparecesse a fortalecêl-o para vencer os tédios da continuada
    applicaçao, e os impetos d'um natural inquieto e ancioso de commoções
    desusadas. «E ha de tudo acabar assim?»–pensava elle, com a face entre
    as mãos, encostado á sua banca de estudo.–«Ainda ha pouco eu era tão
    feliz!…»–«Feliz!»–repetiu elle erguendo-se de golpe–«quem póde ser
    feliz com a deshonra d'uma ameaça impune!… Mas eu perco-a! Nunca mais
    hei de vêl-a… Fugirei como um assassino, e meu pae será o meu primeiro
    inimigo, e ella mesma ha de horrorisar-se da minha vingança… A ameaça
    só ella a ouviu; e, se eu tivesse sido aviltado no conceito de Thereza,
    pelos insultos do miseravel, talvez que ella os não repetisse…»

    Simão Botelho releu a carta duas vezes, e á terceira leitura achou menos
    affrontosas as bravatas do fidalgo cioso. As linhas finaes desmentiam
    formalmente a suspeita do aviltamento, com que o seu orgulho o
    atormentava: eram expressões ternas, supplicas ao seu amor como
    recompensa dos passados e futuros desgostos, visões encantadoras do
    futuro, novos juramentos de constancia, e sentidas phrases de saudade.

    Quando o arreeiro bateu á porta, Simão Botelho já não pensava em matar o
    homem de Castro-d'Aire; mas resolvêra ir a Vizeu, entrar de noite,
    esconder-se e vêr Thereza. Faltava-lhe, porém, casa de confiança onde se
    occultasse. Nas estalagens, seria logo descoberto. Perguntou ao arreeiro
    se conhecia alguma casa em Vizeu onde elle podesse estar escondido uma
    noite ou duas, sem receio de ser denunciado. O arreeiro respondeu que
    tinha a um quarto de legua de Vizeu um primo ferrador; e não conhecia em
    Vizeu senão os estalajadeiros. Simão achou de aproveitar o parentesco do
    homem, e logo d'alli o presenteou com uma jaqueta de pelles e uma faxa
    de sêda escarlate, á conta de maiores valores promettidos, se elle o bem
    servisse n'uma empreza amorosa.

    No dia seguinte chegou o academico a casa do ferrador. O arreeiro deu
    conta ao seu parente do que vinha tratado com o estudante.

    Foi Simão Botelho cautelosamente hospedado, e o arreeiro abalou no mesmo
    ponto para Vizeu, com uma carta destinada a uma mendiga, que morava no
    mais impraticavel bêcco da terra. A mendiga informou-se miudamente da
    pessoa que enviava a carta, e sahiu, mandando esperar o caminheiro.
    Pouco depois, voltou ella com a resposta, e o arreeiro partiu a galope.

    Era a resposta um grito de alegria. Thereza não reflectiu, respondendo a
    Simão, que n'aquella noite se festejavam os annos de seu pae, e se
    reuniam em casa os parentes. Disse-lhe que ás onze horas em ponto ella
    iria ao quintal, e lhe abriria a porta.

    Não esperava tanto o academico. O que elle pedia era fallar-lhe da rua
    para a janella do seu quarto, e receava impossivel este prazer, que elle
    avaliava o maximo. Apertar-lhe a mão, sentir-lhe o halito, abraçal-a
    talvez, commetter a ousadia de um beijo, estas esperanças, tão além de
    suas modestas e honestas ambições, egualmente o enlevavam e assustavam.
    Enlevo e susto em corações que se estreiam na comedia humana, são
    sentimentos congeniaes.

    Á hora da partida, Simão tremia, e a si mesmo pedia contas da timidez,
    sem saber que os encantos da vida, os mais angelicos momentos da alma,
    são esses lances de mysterioso alvoroço que aos mais ricos de coração
    succedem em todas as sasões da vida, e a todos os homens, uma vez ao
    menos.

    Ás onze horas em ponto estava Simão encostado á porta do quintal, e a
    distancia convencionada o arreeiro com o cavallo á rédea. A toada da
    musica, que vinha das salas remotas alvoroçava-o, porque a festa em casa
    de Thadeu de Albuquerque o surprendêra. No longo termo de tres annos
    nunca elle ouvira musica n'aquella casa. Se elle soubesse o dia
    natalicio de Thereza, espantára-se menos da estranha alegria d'aquellas
    salas, sempre fechadas, como em dias de mortuorio. Simão imaginou
    desvairadaraente as chimeras que voejam, ora negras, ora translucidas em
    redor da phantasia apaixonada. Não ha balisa racional para as bellas,
    nem para as horrorosas ilusões, quando o amor as inventa. Simão Botelho,
    com o ouvido collado á fechadura, ouvia apenas o som das flautas, e as
    pancadas do coração sobresaltado.

    V

    Balthazar Cominho estava na sala, simulando vingativa indifferença por
    sua prima. As irmãs do fidalgo e a de mais parentela da casa não
    deixavam respirar Thereza. Moças e velhas, todas á uma, se repetiam,
    aconselhando-a a reconciliar-se com seu primo, e dar a seu pae a alegria
    que o pobre velho tanto rogava a Deus, antes de fechar os olhos.
    Replicava Thereza que não queria mal a seu primo, nem sequer eslava
    sentida d'elle; que era sua amiga, e sêl-o-ia sempre em quanto lhe elle
    deixasse livre o coração.

    O velho esperava muito d'aquella noitada de festa. Alguns parentes,
    presumidos de prudentes, lhe tinham dito que seria proveitoso regalar a
    filha com os prazeres congruentes á sua idade, dando-lhe ensejo a que
    ella repartisse o espirito, concentrado n'um só ponto, por diversões em
    que a natural vaidade se preoccupa, e a força do amor contrariado se vai
    a pouco e pouco quebrantando. Aconselharam-lhe as reuniões amiudadas, já
    em sua casa, já na dos seus parentes, para d'este modo Thereza se
    mostrar a muitos, ser cortejada de todos, e ter em opinião de menos
    valia o unico homem com quem fallava, e a quem julgava superior a todos.
    O fidalgo accedeu, mas com difficuldade; porque tinha lá um systema seu
    de ajuizar das mulheres, e porque vivêra trinta annos de vida libertina
    e dispendiosa, e se estava agora saboreando na economia e na quietação.
    Os annos de Thereza eram pela primeira vez festejados com estrondo. A
    morgada viu então o que era o minuete da côrte, e certos jogos de
    prendas com que os intervallos n'aquelles tempos, se aligeiravam em
    delicias, sem fadiga do corpo, nem desagrado da moral.

    Mas, de agitada que estava, Thereza não compartia do gôso dos seus
    hospedes. Desde que soaram as dez horas d'aquella noite, a rainha da
    festa parecia tão alheada das finezas com que senhoras e homens á
    competência a lisonjeavam, que Balthazar Coutinho deu fé do dessocêgo de
    sua prima, e teve a modestia de imaginar que ella se offendêra da
    indifferença d'elle. Generoso até ao perdão, o morgado de Castro-d'Aire,
    compondo o rosto com gesto grave e melancolico, dirigiu-se a Thereza, e
    pediu-lhe desculpa da frieza que elle disse ser como a das montanhas,
    que tem vulcões por dentro e neve por fóra. Thereza teve a sinceridade
    de responder que não tinha reparado na frieza de seu primo, e chamou
    para junto d'ella uma menina, para evitar que a montanha se abrisse em
    vulcões. Pouco depois ergueu-se, e sahiu da sala.

    Eram dez horas e tres quartos. Thereza corrêra ao fundo do quintal,
    abrira a porta, e, como não visse alguem, tornou de corrida para a sala.
    No momento, porém, de subir a escada que ligava o jardim á casa,
    Balthazar Coutinho, que a espiava desde que ella sahiu da sala, chegou a
    uma das janellas sobre o jardim, bem longe de imaginar que a via.
    Retirou-se, e entrou com Thereza na sala, ao mesmo tempo, por diversas
    portas. Decorridos alguns minutos, a menina sahiu outra vez, e o primo
    tambem. Thereza ouviu, a distancia, o estrepito d'um cavallo, quando
    passou ao patamar da escada. Balthazar tambem o ouviu, e notou que sua
    prima, receosa de ser vista e conhecida pela alvura do vestido, levava
    uma capa ou chaile que a envolvia toda. O de Castro-d'Aire fez pé atraz
    para não ser visto. Thereza, porém, n'um relance de olhar temeroso,
    ainda víra um vulto retirar-se. Teve mêdo, e retrocedeu a largar a capa,
    e entrou na sala, offegante de cansaço e pallida de mêdo.

    –Que tens, minha filha?–disse-lhe o pae–Já duas vezes sahisteda sala,
    e vens tão alvoroçada! Tens algum incommodo, Thereza?

    –Tenho uma dôr: preciso de ir respirar de vez em quando… Nada é, meu
    pae.

    Thadeu acreditou, e disse a toda a gente que a sua filha tinha uma dôr;
    só o não disse a seu sobrinho, porque o não encontrou, e soube que elle
    tinha sahido.

    Tambem Thereza dera pela ausencia do primo, e fingiu que o ia procurar,
    resolução de que o velho gostou muito. Desceu ella ao jardim, correu á
    porta, onde a esperava Simão, abriu-a, e com a voz cortada pela
    anciedade, apenas disse:

    –Vai-te embora: vem ámanhã ás mesmas horas… Vai, vai!

    Simão, quando isto ouvia, tinha os olhos, fitos n'um vulto, que se
    approximava d'elle, rente com o muro do quintal. O arreeiro, que
    primeiro o vira, dera um signal, e entalara as rédeas do cavallo entre
    umas pedras, para ficar desembaraçado, se o estudante se não podésse
    haver com o inimigo.

    Simão Botelho não se moveu do local, e Balthazar Coutinho parou na
    distancia de seis passos. O arreeiro tinha lentamente avançado a meio
    caminho do patrão, quando lhe este disse que não se aproximasse. E,
    caminhando para o vulto, aperrou duas pistolas, e disse-lhe:

    –Isto aqui não é caminho. Que quer?

    O fidalgo não respondeu.

    –Parece-me que lhe abro a bôca com uma bala!–tornou Simão.

    –Que lhe importa o senhor quem está?!–disse Balthazar–Se eu tiver um
    segredo, como o senhor parece que tem o seu n'estes sitios, sou obrigado
    a confessar-lh'o?!

    Simão reflectiu, e replicou:

    –Este muro pertence a uma casa onde mora uma só família, e uma só
    mulher.

    –Estão n'essa casa mais de quarenta mulheres esta noite–redarguiu o
    primo de Thereza–Se o cavalheiro espera uma, eu posso esperar outra.

    –Quem é o senhor?–tornou com arrogancia o filho do corregedor.

    –Não conheço a pessoa que me interroga, nem quero conhecer. Fiquemos
    cada um com o nosso incognito. Boas noites.

    Balthazar Coutinho retrocedeu, dizendo entre si: «que partido tem uma
    espada contra dois homens e duas pistolas?»

    Simão Botelho cavalgou, e partiu para casa do hospitaleiro ferrador.

    O sobrinho de Thadeu de Albuquerque entrou na sala, sem denunciar
    levemente alteração de animo. Viu que Thereza o observava de revez, e
    soube dissimular-se de modo que a socegou. A pobre menina, cansada de
    commoções, viu com prazer erguer-se para sahir a primeira familia, que
    deu rebate ás outras, menos ao de Castro-d'Aire e suas irmãs, que
    ficaram hospedados em casa de seu tio, com tenção de se demorarem oito
    dias em Vizeu.

    Velou Thereza o restante da noite, escrevendo a Simao a detida historia
    dos seus terrores, e pedindo-lhe perdão de o ella não ter advertido do
    baile, por fcar doida de alegria com a sua vinda. No tocante ao plano de
    se encontrarem na seguinte noite não havia alteração na carta. Isto
    espantou o academico. A seu vêr, o vulto era Balthazar Coutinho, e o pae
    de Thereza devia ser avisado n'aquella mesma noite.

    Respondeu elle contando a historia do incidente com o encapelado;
    receando, porém, assustar Thereza e gorar a entrevista, escreveu nova
    carta, em que não transluzia mêdo de ser atacado, nem sequer receio de
    marear-lhe a fama. Quiz parecer a Simão Botelho que este era o digno
    porte de um amante corajoso.

    Passou o estudante aquelíe dia contando as longas horas, e meditando
    instantes nos funestos resultados que podia ter a sua temeraria ida, se
    Balthazar Coutinho era aquelle homem, que reservára para melhor relance
    a vingança da provocação insolente. Mas de si para si tinha elle que
    pensar em tal era mais covardia que prudencia.

    O ferrador tinha uma filha, moça de vinte e quatro annos, e formas
    bonitas, e um rosto bello e triste. Notou Simão os reparos em que ella
    se demorava a contemplal-o, e perguntou-lhe a causa d'aquelle olhar
    melancolico com que ella o fitava. Marianna corou, abriu um sorriso
    triste, o respondeu:

    –Não sei o que me adivinha o coração a respeito de v. s.^a Alguma
    desgraça está para lhe succeder.

    –A menina não dizia isso–replicou Simão–sem saber alguma coisa da
    minha vida.

    –Alguma coisa sei…–tornou ella.

    –Ouviu contar ao arreeiro?

    –Não, senhor. E' que meu pae conhece o paesinho de v. s.^a, e tambem
    conhece o senhor. E ha bocadinho que eu ouvi estar meu pae a dizer a meu
    tio, que é o arreeiro que veio com v. s.^a, que tinha suas razões para
    saber que alguma desgraça lhe estava para acontecer…

    –Porque?

    –Pr'amor d'uma fidalga de Vizeu, que tem um primo em Castro-d'Aire.

    Simão espantou-se da publicidade do seu segredo, e ia colher pormenores
    do que elle julgava mysterio entre duas familias, quando o mestre
    ferrador João da Cruz entrou no sobrado, onde o precedente dialogo se
    passára. A môça, como ouvisse os passos do pae, sahira lestamente por
    outra porta.

    –Com sua licença–disse mestre João.

    Dizendo, fechou por dentro ambas as portas, e sentou-se sobre uma arca.

    –Ora, meu fidalgo–continuou elle, descendo as mangas arregaçadas da
    camiza, e apertando-as com difficuldade nos grossos pulsos, como quem
    sabe as exigencias da ceremonia–ha de desculpar que eu viesse assim em
    mangas de camiza; mas não dei com a jaqueta…

    –Está muito bem, senhor João–atalhou o academico.

    –Pois, senhor, eu devo um favor a seu pae, e um favor d'aquella casta.
    Uma vez armou-se aqui á minha porta uma desordem, a trôco d'um couce que
    um macho d'um almocreve deu n'uma egua, que eu estava ferrando, e em tão
    hoa hora foi, que lhe partiu rente o jarrête por aqui, salvo tal logar.

    João da Cruz mostrou na sua perna o ponto por onde fôra fracturada a da
    egua, e continuou:

    –Eu tinha alli á mão o martello, e não me tive que não pregasse com
    elle na cabeça do macho, que foi logo para a terra. O recoveiro de
    Carção, que era chibante, deitou as unhas a um bacamarte, que trazia
    entre uma carga, e desfechou comigo, sem mais tirte, nem garte. O' alma
    damnada!–disse-lhe eu–pois tu vês que o teu macho me aleijou esta
    egua, que custou vinte peças a seu dono, e que eu tenho de pagar, e
    dás-me um tiro por eu te atordoar o macho!?

    –E o tiro acertou-lhe?–atalhou Simão.

    –Acertou; mas saberá v. s.^a que me não matou; deu-me aqui por este
    braço esquerdo com dois quartos. E vai eu, entro em casa, vou á
    cabeceira da cama, e trago uma clavina, e desfecho-lh'a na táboa do
    peito. O almocreve cahiu como um tôrdo, e não tugiu nem mugiu.
    Prenderam-me, e fui para Vizeu e já lá estava ha tres annos, no anno em
    que o paesinho de v. s.^a veio corregedor. Andava muita gente a
    trabalhar contra mim, e todos me diziam que eu ia pernear na forca.
    Estava lá na enxovia comigo um prêso a cumprir sentença, e disse-me elle
    que o senhor corregedor tinha muita devoção com as sete dôres de Nossa
    Senhora. Uma vez que elle ia passando com a familia para a missa,
    disse-lhe eu «senhor Corregedor, peço a v. s.^a pelas sete dôres de
    Maria Santissima, que me mande ir á sua presença, para eu explicar a
    minha culpa a v.s.^a». O paesinho de v. s.^a chamou o meirinho geral, e
    mandou tomar o meu nome. Ao outro dia fui chamado ao senhor Corregedor,
    e contei-lhe tudo, mostrando-lhe ainda as cicatrizes do braço. Seu pae
    ouviu-me, e disse-me. «Vai-te embora, que eu farei o que podér.» O caso
    é, meu fidalgo, que eu sahi absolvido, quando muita gente dizia que eu
    havia de ser inforcado á minha porta. Faz favor de me dizer se eu não
    devo andar com a cara onde o seu paesinho põe os pés!?

    –Tem o senhor João motivo para lhe ser grato, não ha duvida nenhuma.

    –Agora faz favor de ouvir o mais. Eu antes de ser ferrador, fui criado
    de farda em casa do fidalgo de Castro-d'Aire, que é o senhor Balthazar.
    Conhece-o v. s.^a? Ora, se conhece!…

    –Conheço de nome.

    –Foi elle que me abonou dez moedas de ouro para me estabelecer; mas
    paguei-lh'as, Deus louvado. Ha de haver seis mezes que elle me mandou
    chamar a Vizeu, e me disse que tinha trinta peças para me dar, se eu lhe
    fizesse um serviço. «O que v. s.^a quizer, fidalgo.» E vai elle disse-me
    que queria que eu tirasse a vida a um homem. Isto boliu cá por dentro
    comigo, porque, a fallar a verdade, um homem que mata outro n'um apêrto
    não é um matador de officio, acho eu, não é assim?

    –De certo…–respondeu Simão, adivinhando o remate da historia–quem
    era o homem que elle queria morto?

    –Era v. s.^a… Ó homem!–disse o ferrador com espanto–O senhor nem
    sequer mudou de côr!

    –Eu não mudo nunca de côr, senhor João–disse o academico.

    –Estou pasmado!

    –E vm.^ce não acceitou a incumbencia, pelo que vejo–tornou Simão.

    –Não, senhor; e então logo que elle me disse quem era, a minha vontade
    era pregar-lhe com a cabeça n'uma esquina.

    –E elle disse-lhe a razão porque me mandava matar?

    –Não, meu fidalgo; eu lhe conto. Na semana adiante, quando soube que o
    senhor Balthazar (raios o partam!) tinha sabido de Vizeu, fui fallar com
    o senhor Corregedor, e contei-lhe tudo o que se passára. O senhor
    corregedor esteve a scismar um pouquinho, e disse-me, e v. s.^a ha de
    perdoar por eu lhe dizer o que seu pae me disse tal e qual.

    –Diga.

    –Seu pae começou a esfregar o nariz, e disse-me: «Eu sei o que é isso.
    Se aquelle bréjeiro de meu filho Simão tivesse honra, não olharia para a
    prima d'esse assassino. Cuida o patife que eu consentia que meu filho se
    ligasse a uma filha de Thadeu de Albuquerque!..» Ainda disse mais coisas
    que me não lembram; mas eu fiquei sabendo tudo. Ora aqui tem o que
    houve. Agora, appareceu-me aqui v. s.^a, e a noite passada foi a Vizeu.
    Perdoará a minha confiança; mas v. s.^a foi fallar com a tal menina: e
    eu estive vai não vai a seguil-o; mas como ia meu cunhado, que é homem
    para tres, fiquei descançado. Elle contou-me um encontro que v. s.^a
    teve á porta do quintal da menina. Se lá torna, senhor Simão, vá
    preparado para alguma coisa de maior. Eu bem sei que v. s.^a não é
    medroso; mas d'uma traição ninguem se livra. Se quer que eu vá também,
    estou ás suas ordens; e a clavina que deu policia ao almocreve ainda
    alli está, e dá fogo debaixo d'agua, como diz o outro. Mas, se v. s.^a
    dá licença que eu lhe diga a minha opinião, o melhor é não andar n'essas
    encamizadas. Se quer casar com ella, vá pedir a seu pae licença, e deixe
    o resto cá por minha conta; ponto é que ella queira, que eu, n'um abrir
    e fechar d'olhos, atiro com ella para cima d'uma égua de chupêta, que
    alli tenho, e o pae e mais o primo ficam a vêr navios.

    –Obrigado, meu amigo–disse Simão–Aproveitarei os seus bons serviços,
    quando me forem necessarios. Á noite hei de ir, como fui a noite
    passada, a Vizeu. Se houver novidade, então veremos o que se ha de
    fazer. Conto comsigo, e creia que tem em mim um amigo.

    Mestre João da Cruz não replicou. D'alli foi examinar miudamente a
    fecharia da clavina, e entender-se com o cunhado sobre cautelas
    necessarias, em quanto descarregava a arma, e a carregava de novo com
    uns balotes especiaes que elle denominava «amendoas de pimpões».

    N'este intervallo, Marianna, a filha do ferrador, entrou no sobrado, e
    disse com meiguice a Simão Botelho:

    –Então sempre é certo ir?

    –Vou, porque não hei de ir?

    –Pois Nossa Senhora vá na sua companhia–tornou ella, sahindo logo para
    esconder as lagrimas.

    VI.

    Ás dez horas e meia da noite d'aquelle dia, tres vultos convergiram para
    o local, raro frequentado, em que se abria a porta do quintal de Thadeu
    de Albuquerque. Alli se detiveram alguns minutos discutindo e
    gesticulando. Dos tres havia um, cujas palavras eram ouvidas em silencio
    e sem replica pelos outros: Dizia elle a um dos dois:

    –Não convém que estejas perto d'esta porta. Se o homem apparecesse aqui
    morto, as suspeitas cahiam logo sobre mim ou meu tio. Afastem-se um do
    outro, e tenham o ouvido applicado ao tropel do cavallo. Depois apressem
    o passo, até o encontrarem de modo que os tiros sejam dados longe
    d'aqui.

    –Mas…–atalhou um–quem nos diz que elle veio hontem a cavallo, e
    hoje vem a pé?

    –E' verdade! – accrescentou o outro.

    –Se elle vier a pé, eu lhes darei aviso para o seguirem depois até o
    terem a geito de tiro, mas longe d'aqui, percebem vocês?–disse
    Balthazar Coutinho.

    –Sim, senhor; mas se elle sáe de casa do pae, e entra sem nos dar
    tempo?

    –Tenho a certeza de que não está em casa do pae, já lh'o disse. Basta
    de palavriado. Vão esconder-se atraz da igreja, e não adormeçam.

    Debandou o grupo, e Balthazar ficou alguns momentos encostado ao muro.
    Soaram os tres quartos depois das dez. O de Castro-d'Aire collou o
    ouvido á porta, e retirou-se acceleradamente, ouvindo o rumor da
    folhagem sêcca que Thereza vinha pizando.

    Apenas Balthazar, cosido com o muro, desapparecêra, um vulto assomou do
    outro lado a passo rapido. Não parou: foi direito a todos os pontos onde
    uma sombra podia figurar um homem. Rodeou a igreja que estava a duzentos
    passos de distancia. Viu os dois vultos direitos com o recanto que
    formava a juncção da capella mór, e sobre o qual cabiam as sombras da
    torre. Fitou-os de passagem, e suspeitou; não os conheceu; mas elles
    disseram entre si, depois que elle desapparecêra:

    –É o João da Cruz, ferrador, ou o diabo por elle!…

    –Que fará a esta hora por aqui?!

    –Eu sei!

    –Não desconfias que elle entre n'isto?

    –Ágora! Se entrasse, era por nós. Não sabes que elle foi mochila do
    nosso amo?

    –E tambem sei que pôz a loja com dinheiro do nosso amo.

    –Pois então que mêdo tens?

    –Não ha mêdo; mas tambem sei que foi o corregedor que o livrou da
    forca…

    –Isso que tem! O corregedor não se importa com isto, nem sabe que o
    filho cá está…

    –Assim será; mas não estou muito contente… Elle é homem dos diabos…

    –Deixal-o ser… tanto entram as balas n'elle como n'outro…

    A discussão continuou sobre varias conjecturas. De tudo o que elles
    disseram uma coisa era certissima: ser o vulto o João da Cruz, ferrador.

    Teria este dado trezentos passos, quando os criados de Balthazar ouviram
    o remoto tropel de cavalgadura. Ao tempo que elles sahiam do seu
    escondrijo, sabia João da Cruz á frente do cavalleiro. Simão aperrou as
    pistolas, e o arreeiro uma clavina.

    –Não ha novidade–disse o ferrador–mas saiba v. s.^a que já podia
    estar em baixo do cavallo com quatro zagalotes no peito.

    O arreeiro reconheceu o cunhado, e disse:

    –És tu, João?

    –Sou eu. Vim primeiro que tu.

    Simão estendeu a mão ao ferrador, e disse commovido:

    —Dê cá a sua mão; quero sentir na minha a mão de urn homem honrado.

    –Nas occasiões é que se conhecem os homens–redarguiu o ferrador.–Ora
    vamos… não ha tempo para fallatorio. O senhor doutor tem uma espera.

    –Tenho?–disse Simão.

    –Atraz da igreja estão dois homens que eu não pude conhecer; mas não se
    me dava de jurar que são criados do senhor Balthazar. Salte abaixo do
    cavallo, que ha de haver mostarda. Eu disse-lhe que não viesse; mas v.
    s.^a veio, e agora é andar com a cara para a frente.

    –Olhe que eu não tremo, mestre João–disse o filho do corregedor.

    –Bem sei que não; mas, á vista do inimigo, veremos.

    Simão tinha apeado. O ferrador tomou as rédeas do cavallo, recuou alguns
    passos na rua, e foi prendêl-o á argola da parede de uma estalagem.

    Voltou, e disse a Simão que o seguisse a elle e ao cunhado na distancia
    de vinte passos; e que, se os visse parar perto do quintal de
    Albuquerque, não passasse do ponto d'onde os visse.

    Quiz o academico protestar contra um plano, que o humilhava como
    protegido pela defeza dos dois homens; o ferrador, porém, não admittiu a
    réplica.

    –Faça o que eu lhe digo, fidalgo–disse elle com energia.

    João da Cruz e o cunhado, espiando todas as esquinas, chegaram de fronte
    do quintal de Thereza, e viram um vulto a sumir-se no angulo da parede.

    –Vamos sobre elles–disse o ferrador–que lá passaram para o adro da
    igreja; n'este entrementes, o doutor chega á porta do quintal e entra;
    depois voltaremos para lhe guardar a sahida.

    N'este proposito, moveram-se apressados, e Simão Botelho caminhou com as
    pistolas aperradas na direcção da porta.

    Em frente do muro do jardim de Thereza havia uma cascalheira escarpada,
    que se esplainava depois n'uma alamêda sombria.

    Os dois criados de Balthazar, quando o tropel do cavallo parou,
    recordaram as ordens do amo, no caso de vir a pé Simão. Buscaram sitio
    azado para o espreitarem na sahida, e entraram na alamêda quando o
    academico chegava á porta do quintal.

    –Agora está seguro–disse um.

    –Se lá não ficar dentro….–respondeu o outro, vendo-o entrar, e
    fechar-se a porta.

    –Mas além vem dois homens…–disse o mais assustado, olhando para a
    outra entrada da alamêda.

    –E vem direitos a nós… aperra lá a clavina…

    O melhor é retirarmos. Nós estamos á espera de outro, e não d'estes.
    Vamos embora d'aqui…

    Este não esperou convencer o companheiro: desceu a ribanceira do
    cascalho. O mais intrepido teve tambem a prudencia de todos os
    assassinos assalariados: seguiu o assustadiço, e deu-lhe razão, quando
    ouviu após de si os passos velozes dos perseguidores. Sahiu-lhes o amo
    de frente, quando dobravam a esquina do quintal, e disse-lhes:

    –Vocês a que fogem, seus poltrões?

    Os homens pararam de envergonhados, aperrando os bacamartes.

    João da Cruz e o arreeiro appareceram, e Balthazar caminhou para elles,
    bradando:

    –Alto ahi!

    O ferrador disse ao cunhado:

    –Falla-lhe tu, que eu não quero que elle me conheça.

    –Quem manda fazer alto?–disse o arreeiro.

    –São tres clavinas–respondeu Balthazar.

    –Olha se os demoras a dar tempo que o doutor saia–disse João da Cruz
    ao ouvido do arreeiro.

    –Pois nós cá estamos parados–replicou o criado de Simão.–Que nos
    querem vocês?

    –Quero saber o que tem que fazer n'este sitio.

    –E vocês que fazem por cá?

    –Não admitto perguntas–disse o de Castro-d'Aire, aventurando alguns
    passos vacilantes para a frente.–Quero saber quem são.

    Mestre João disse ao ouvido do cunhado:

    –Diz-lhe que se dá mais um passo que o arrebentas.

    O arreeiro repetiu a clausula, e Balthazar parou.

    Um dos criados d'este chamou-o ao lado para lhe dizer que aquelle dos
    dois, que não fallava, parecia ser o João da Cruz. O morgado duvidou, e
    quiz esclarecer-se; mas o ferrador ouvira as palavras do criado, e disse
    ao cunhado:

    –Vem comigo, que elles conhecem-me.

    Dizendo, voltou as costas ao grupo, e caminhou ao longo do quintal de
    Thadeu de Albuquerque. Os criados de Balthazar, gloriosos da retirada,
    como de uma derrota certa, apressaram o passo na cola dos suppostos
    fugitivos. O morgado ainda lhes disse que os não seguissem; mas elles,
    momentos antes covardes, queriam desforrar-se agora, correndo após o
    inimigo tanto quanto lhe tinham fugido antes.

    Simão Botelho ouvira os passos ligeiros dos seus homens, e, compellido
    pelo susto de Thereza, abrira a porta do quintal, sem saber ainda quem
    elles fossem. João da Cruz, com ar galhofeiro, já quando os
    perseguidores se viam, disse ao filho do corregedor, se estava ajustado
    o casamento, que não havia panno para mangas.

    Simão entendeu o perigo, apertou convulsamente a mão de Thereza, e
    retirou-se. Queria elle reconhecer os dois vultos parados a distancia;
    mas João da Cruz, com o tom imperioso de quem obriga á submissão, disse
    ao filho do corregedor:

    –Vá por onde veio, e não olhe para traz.

    Simão foi indo até encontrar o cavallo. Montou, e esperou os dois
    inalteraveis guardas que o seguiam a passo vagaroso. Maravilhara-os o
    subito desapparecimento dos criados de Balthazar, e recearam-se de
    alguma espera fóra da cidade. O ferrador conhecia o atalho que podia
    levar os da emboscada ao caminho, e revelou o seu receio a Simão,
    dizendo-lhe que picasse a toda a brida, que elle e o cunhado lá iriam
    ter. O academico recebeu com enfado a advertencia, admoestando-os a que
    o não tivessem em tão vil preço. E acintemente soffreou as rédeas, para
    não forçar os homens a aligeirar o passo.

    –Vá como quizer–disse mestre João–que nós vamos por fóra do caminho.

    E subiram a uma rampa de olivaes, para tornarem a descer encubertos por
    moitas de giestas, cozendo-se aos torcicolos d'uma parede parallela com
    a estrada.

    –O atalho vai acolá onde a serra faz aquelle cotovêllo–disse o
    ferrador ao cunhado–hão de alli passar, ou já passaram. A estrada vai
    mesmo na quebrada d'aquelle outeirinho. Os homens é d'alli que lhe vão
    atirar, encobertos pelos sobreiros. Vamos depressa…

    E um pouco descobertos, e outro curvados á sombra das devêzas, chegaram
    a um vallado d'onde ouviram os passos dos dois homens que atravessavam o
    pontilhão de um córrego.

    –Já não vamos a tempo–disse afflicto o João da Cruz–os homens vão
    atirar-lhe, porque o cavallo trupa cá muito atraz.

    E corriam já sem temor de serem vistos, porque os outros tinham dobrado
    o outeiro, em cujo valle corria a estrada.

    –Os homens vão atirar-lhe…–disse o ferrador.

    –Gritemos d'aqui ao doutor que não vá p'ra diante.

    –Já não é tempo… Ou o matem ou não matem, quando voltarem são nossos.

    Tinham já passado o pontilhão, e subiam a ladeira, quando ouviram dois
    tiros.

    –Arriba!–exclamou João da Cruz–que não vão elles metter-se á estrada,
    se mataram o fidalgo.

    Tinham vencido a chã, esbofados e anciados, com as clavinas aperradas.
    Os criados de Balthazar, ao invez da conjectura do ferrador, retrocediam
    pelo mesmo atalho, suppondo que os companheiros de Simão iam adiante
    batendo os pontos azados á emboscada, ou se tinham retardado.

    –Elles ahi vem!–disse o arreeiro.

    –Nós cá estamos–respondeu o ferrador, sentando-se, a coberto de um
    cômoro.–Senta-te também que eu não estou p'ra correr atraz d'elles.

    Os assassinos, a dez passos, viram de frente erguerem-se os dois vultos,
    e ladearam cada qual para seu lado, um galgando os sucalcos de uma
    vinha, o outro atirando-se a uns silveiraes.

    –Atira ao da esquerda!–disse João da Cruz.

    Foram simultaneas as explosões. A pontaria do ferrador fez logo um
    cadaver. Os balotes do arreeiro não estremaram o outro entre o carrascal
    onde se embrenhára.

    A este tempo assomava Simão no tezo d'onde lhe tinham atirado, e corria
    ao ponto onde ouvira os segundos tiros.

    –É v. s.^a, fidalgo?–bradou o ferrador.

    –Sou.

    –Não o mataram?

    –Creio que não–respondeu Simão.

    –Este desalmado deixou fugir o melro–tornou João da Cruz–mas o meu lá
    está a pernear na vinha. Sempre lhe quero vêr as trombas…

    O ferrador desceu os três socalcos da vinha, e curvou-se sobre o
    cadaver, dizendo:

    –Alma de cantaro, se eu tivesse duas clavinas não ias sósinho para o
    inferno!

    –Anda d'ahi!–disse o arreeiro–deixa lá esse diabo, que o senhor
    doutor está ferido n'um hombro. Vamos depressa, que está o sangue a
    escorrer-lhe.

    –Eu vi duas cabeças a espreitarem-me de cima de uma ribanceira, e
    cuidei que eram vocês–disse Simão, em quanto o ferrador, com a destreza
    de habil cirurgião, lho enfaixava o braço ferido com lenços.–Parei o
    cavallo, e disse: «Ólé! ha novidade?» Logo que me não responderam,
    saltei para terra; mas ainda eu tinha um pé no estribo quando me fizeram
    fogo. Quiz saltar á ribanceira, mas não pude romper o matto. Dei uma
    volta grande para achar subida, e foi então que dei fé de estar
    ferido…

    –Isto é uma arranhadura–disse João da Cruz–olhe que eu sei d'isto,
    fidalgo! Estou affeito a curar muitas feridas.

    –Nos burros, mestre João?–disse o ferido, sorrindo.

    –E nos christãos tambem, senhor doutor. Olhe que houve em Portugal um
    rei que não queria outro medico senão um alveitar. Hei de mostrar-lhe o
    meu corpo que está uma rêde de facadas, e nunca fui ao cirurgião. Com
    ceroto e vinagre sou capaz de ir resuscitar aquelle alma do diabo que
    alli está a escutar a cavallaria.

    N'isto ouviu-se um leve rumor de folhagem no matagal para onde tinha
    saltado o companheiro do morto.

    João da Cruz, como galgo de fino olfacto, fitou a orelha e resmungou:

    –Querem vocês vêr que ellas se armam!… Dar-se-ha caso que o outro
    ainda esteja por alli a tremer maleitas!…

    O rumor continuou, e logo um bando de passaros rompeu d'entre a folhagem
    chilreando.

    –O homem está alli!–tornou o ferrador.–Passe-me cá uma pistola,
    senhor Simão!

    Correu mestre João, e ao mesmo tempo uma grande rostilhada se fez entre
    as moitas de codêços e urzes.

    –Elle estrinça lenha como um porco do monte!–exclamou o ferrador.–Ó
    cunhado, bate este matto com alguns penedos; quero vêr sahir o javali da
    moita!…

    Para o outro lado da bouça estava um plaino cultivado. Simão, rodeando a
    sebe, conseguira saltar ao campo por sobre a pedra d'um agueiro.

    –Tenha lá mão, mestre; não vá você atirar-me!–bradou Simão ao
    ferrador.

    –Pois o fidalgo já ahi anda!?. Então está fechado o cêrco. Eu cá vou
    fazer de furão. Se este nos escapa, não ha nada seguro n'este mundo!

    Não se enganaram. O criado de Balthazar Coutinho, quando se atirára
    desamparado á brenha, desnocára um joelho, e cahira atordoado. O
    arreeiro não examinou o effeito do tiro, porque atirara á ventura, e
    achava natural que o fugitivo se não molestasse. Quando volveu a si do
    aturdimento da queda, o homem arrastou-se lentamente até encontrar um
    cerrado de arvores silvestres, em que pernoitava a passarinhada. Como os
    melros cacarejassem esvoaçando, o criado de Balthazar retrocedeu para o
    mato, cuidando que ahi escaparia; mas o arreeiro jogava enormes calhaus
    em todas as direcções, e alguns acertavam mais que as balas do seu
    bacamarte. João da Cruz tirou do bolço da jaqueta um podão, e começou a
    cortar a selva de carvalhas novas e giestaes que se emmaranhavam em
    redor do escondrijo. Já cansado, porém, e vendo o pouco luzimento do
    trabalho, disse ao arreeiro:

    –Petisca lume, vai alli dentro buscar um pouco de restolho sêcco, e
    vamos pegar fogo ao mato, que este ladrão ha de morrer assado.

    O perseguido, quando tal ouviu, tirou do maior perigo coragem para
    fugir, rompendo a espessura e saltando a parede da tapada para o campo
    de restolho em que o arreeiro andava apanhando palha, e Simão esperava o
    desfecho da montaria. Correram a um tempo o arreeiro e o academico sobre
    elle. O fugitivo, sentindo-se alcançado, lançou-se de joelhos e mãos
    erguidas, pedindo perdão, e dizendo que o amo o obrigára áquella
    desgraça. Já a coronha do bacamarte do arreeiro lhe ia direita ao peito,
    quando Simão lhe reteve o braço.

    –Não se bate assim n'um homem!–disse o moço–Levanta-te, rapaz!

    –Eu não posso, senhor. Tenho uma perna quebrada, e estou aleijado para
    a minha vida.

    N'este comenos chegou o ferrador, e exclamou:

    –Pois este tratante ainda está vivo!

    E correu sobre elle com o podão.

    –Não mate o homem, senhor João!–disse o filho do corregedor.

    –Que o não mate! essa é de cabo de esquadra! Com que então o fidalgo
    quer pagar-me com a forca o favor de o acompanhar… eim?

    –Com a forca!?–atalhou Simão.

    –Podéra não! Quer que este homem fique para ir contar a historia? Acha
    bonito? Lá v. s.^a, como é filho de ministro, não terá perigo; mas eu,
    que sou ferrador, posso contar que d'esta vez tenho o baraço no pescoço.
    Não me faz geito o negocio. Deixe-me cá com o homem…

    –Não o mate, senhor João; peço-lhe eu que o deixe ir. Uma testemunha
    não nos póde fazer mal.

    –O quê?–redarguiu o ferrador–v. s.^a saberá muito, mas de justiça não
    sabe nada, e ha de perdoar o meu atrevimento. Basta uma só testemunha
    para guiar a justiça na devassa. Ás duas por tres, uma testemunha de
    vista, e quatro de ouvir dizer, com o fidalgo de Castro-d'Aire a mexer
    os pausinhos, é forca certa, como dois e dois serem quatro.

    –Eu não digo nada; não me matem, que eu nem torno a ir para
    Castro-d'Aire–exclamou o homem.

    –Deixe-o ficar, João da Cruz… vamos embora…

    –Isso!–acudiu o ferrador–chame-me João da Cruz, para este maroto
    ficar bem certo de que sou o João da Cruz!… Com effeito, não sei o que
    me parece v. s.^a querer deixar com vida um alma do diabo que lhe deu um
    tiro para o matar!

    –Pois sim, tem você razão; mas eu não sei castigar miseraveis que me
    não resistem.

    –E se elle o tivesse matado, castigava-o? Responda a isto, senhor
    doutor!

    –Vamos embora–tornou Simão–deixemos para ahi esse miseravel.

    Mestre João scismou alguns momentos, coçando a cabeça, e resmungou com
    descontentamento:

    –Vamos lá… Quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre.

    Tinham já sahido do plaino e saltado a tapada, e iam descendo para a
    estrada, quando o ferrador exclamou:

    –Lá me ficou a minha clavina encostada á sebe. Vão indo, que eu venho
    já.

    O arreeiro conduzia o cavallo, que pacificamente estivera tozando a
    relva das paredes marginaes da estrada, quando Simão ouviu gritos.
    Conjecturou com certeza o que era.

    –O João lá está a fazer justiça!–disse o arreeiro. Deixál-o lá, meu
    amo, que elle é homem que sabe o que faz.

    João da Cruz appareceu d'ahi a pouco, limpando com fentos o podão
    ensanguentado.

    –Você é cruel, senhor João!–disse o academico.

    –Não sou cruel–disse o ferrador–o fidalgo está enganado comigo; é que
    diz lá o dictado, morrer por morrer, morra meu pae que é mais velho.
    Tanto faz matar um como dois. Quando se está com a mão na massa, tanto
    faz amassar um alqueire como tres. As obras devem ser acabadas, ou então
    o melhor é não se metter a gente n'ellas. Agora, levo a minha
    consciencia socegada.

    A justiça que prove, se quizer; mas não ha de ser por que lh'o digam
    aquelles dois que eu mandei de presente ao diabo.

    Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrependimento de se
    ter ligado com tal homem.

    VII.

    O ferimento de Simão Botelho era melindroso de mais para obedecer
    promptamente ao curativo do ferrador, enfronhado em aphorismos de
    alveitaria. A bala passára-lhe de revez a porção muscular do braço
    esquerdo; mas algum vaso importante rompêra, que não bastavam compressas
    a vedar-lhe o sangue. Horas depois de ferido, o academico deitou-se
    febril, deixando-se medicar pelo ferrador. O arreeiro partiu para
    Coimbra, encarregado de espalhar a noticia de ter ficado no Porto Simão
    Botelho.

    Mais que as dôres e os receios da amputação, o mortificava a ancia de
    saber novas de Thereza. João da Cruz estava sempre de sobre-rolda,
    precavido contra algum procedimento judicial por suspeitas d'elle. As
    pessoas que vinham de feirar na cidade contavam todas que dois homens
    tinham apparecido mortos, e constava serem criados d'um fidalgo de
    Gastro-d'Aire. Ninguem, porém, ouvira imputar o assassinio a
    determinadas pessoas.

    Na tarde d'esse dia recebeu Simão a seguinte carta de Thereza:

    «Deus permitia que tenhas chegado sem perigo a casa d'essa boa gente. Eu
    não sei o que se passa, mas ha coisa mysteriosa que eu não posso
    adivinhar. Meu pae tem estado toda a manhã fechado com o primo, e a mim
    não me deixa sahir do quarto. Mandou-me tirar o tinteiro; mas eu
    felizmente estava prevenida com outro. Nossa Senhora quiz que a pobre
    viesse pedir esmola debaixo da janella do meu quarto; senão eu nem tinha
    modo de lhe dar signal para ella esperar esta carta. Não sei o que ella
    me disse. Fallou-me em criados mortos; mas eu não pude entender… Tua
    mana Rita está-me acenando por traz dos vidros do teu quarto…

    Disse-me tua mana que os moços de meu primo tinham apparecido mortos
    perto da estrada. Agora já sei tudo. Estive para lhe dizer que tu ahi
    estás; mas não me deram tempo. Meu pae de hora a hora dá passeios no
    corredor, e solta uns ais muito altos.

    Ó meu querido Simão, que será feito de ti?… Estarás tu ferido? Serei
    eu a causa da tua morte?

    Diz-me o que souberes. Eu já não peço a Deus senão a tua vida. Foge
    d'esses sitios; vai para Coimbra, e espera que o tempo melhore a nossa
    situação.

    Tem confiança n'esta desgraçada, que é digna da tua dedicação…. Chega
    a pobre: não quero demoral-a mais… Perguntei-lhe se se dizia de ti
    alguma coisa, e ella respondeu que não. Deus o queira.»

    Respondeu Simão a querer tranquillisar o animo de Thereza. Do seu
    ferimento fallava tão de passagem, que dava a suppôr que nem o curativo
    era necessario. Promettia partir para Coimbra logo que o podesse fazer
    sem receio de Thereza soffrer na sua ausencia. Animava-a a chamal-o,
    assim que as ameaças de convento passassem a ser realisadas.

    Entretanto Balthazar Coutinho, chamado ás authoridades judiciarias para
    esclarecer a devassa instaurada, respondeu que effectivamente os homens
    mortos eram seus criados, de quem elle e sua familia se acompanhára de
    Castro-d'Aire. Accrescentou que não sabia que elles tivessem inimigos em
    Vizeu, nem tinha contra alguem as mais leves presumpções.

    Os mais proximos visinhos da localidade, onde os cadaveres tinham
    apparecido, apenas depunham que, alta noite, tinham ouvido dois tiros ao
    mesmo tempo, e outro, pouco depois. Um apenas adiantava coisa que não
    podia alumiar a justiça, e vinha a ser que o mato, nas visinhanças do
    local, fôra chapotado. N'esta escuridade a justiça não podia dar passo
    algum.

    Thadeu de Albuquerque era connivente no attentado contra a vida de Simão
    Botelho. Fôra seu o alvitre, quando o sobrinho denunciou a causa das
    sahidas frequentes de Thereza, na noite do baile. Tanto ao velho como ao
    morgado convinha apagar algum indicio que podesse envolvêl-os no
    mysterio d'aquellas duas mortes. Os criados não mereciam a pena d'um
    desforço que implicasse o desdouro de seus amos. Provas contra Simão
    Botelho não podiam adduzil-as. Áquella hora o suppunham elles a caminho
    de Coimbra, ou refugiado em casa de seu pae. Restava-lhes ainda a
    esperança de que elle tivesse sido ferido, e fosse acabar longe do local
    em que o tinham assaltado.

    Em quanto a Thereza, resolveu Albuquerque encerral-a n'um convento do
    Porto, e escolheu Monchique, onde era prioreza uma sua proxima parenta.
    Escreveu á prelada para lhe preparar aposentos, e ao seu procurador para
    negociar as licenças ecclesiasticas para a entrada. Todavia, receando o
    velho algum incidente no espaço de tempo que medeava até se conseguirem
    as licenças, resolveu não ter comsigo Thereza, e solicitou a retenção
    temporaria d'ella n'um convento de Vizeu.

    Acabára Thereza de lêr e esconder no seio a resposta de Simão Botelho,
    que a pobre lhe enviára ao escurecer, pendente de uma linha, quando o
    pae entrou no seu quarto, e a mandou vestir-se. A menina obedeceu,
    tomando uma capa e um lenço.

    –Vista-se como quem é: lembre-se que ainda tem os meus
    appellidos–disse com severidade o velho.

    –Cuidei que não era preciso vestir-me melhor para sahir á
    noite…–disse Thereza.

    –E a senhora sabe para onde vai?

    –Não sei… meu pae.

    –Então vista-se, e não me dê leis.

    –Mas, meu pae, attenda-me um momento.

    –Diga.

    –Se a sua ideia é obrigar-me a casar com meu primo…

    –E d'ahi?

    –De certo não caso; morro, e morro contente; mas não caso.

    –Nem elle a quer. A senhora é indigna de Balthazar Coutinho. Um homem
    do meu sangue não aceita para esposa uma mulher que falla de noite aos
    amantes nos quintaes. Vista-se depressa, que vai para um convento.

    –Promptamente, meu pae. Esse destino lh'o pedi eu muitas vezes.

    –Não quero reflexões. D'aqui a pouco appareça-me vestida. Suas primas
    esperam-a para a acompanharem.

    Quando se viu sósinha, Thereza debulhou-se em lagrimas, e quiz escrever
    a Simão. Áquella hora quem lhe levaria a carta? Appellou para o retabulo
    da Virgem, que ella fizera confidente do seu amor. Pediu-lhe de joelhos
    que a protegesse, e désse forças a Simão para resistir ao golpe, e
    guardar-lhe constancia através dos trabalhos que succedessem. Depois
    vestiu-se, comprimindo contra o seio um embrulho em que levava o
    tinteiro, o papel, e o massête das cartas de Simão. Sahiu do seu quarto,
    relanceando os olhos lagrimosos para o painel da Virgem, e encontrando o
    pae, pediu-lhe licença para levar comsigo aquella devota imagem.

    –Lá irá ter–respondeu elle.–Se tivesse tanta vergonha como devoção,
    seria mais feliz do que ha de ser.

    Uma das primas, irmãs de Balthazar, chamou-a de parte, e segredou-lhe:

    –Ó menina! estava ainda na tua mão dares remedio á desordem d'esta
    casa…

    –Qual remedio?!–perguntou Thereza com artificial seriedade.

    –Diz a teu pae que não duvidas casar com o mano Balthazar.

    –O primo Balthazar não me quer–replicou ella, sorrindo.

    –Quem te disse isso, Therezinha?

    –Disse-m'o meu pae.

    –Deixa fallar teu pae, que está desatinado com o amor que te tem.
    Queres tu que eu lhe falle?

    –Para que?

    –Para se remediar d'este modo a desgraça de todos nós.

    –Estás a brincar, prima!–redarguiu Thereza.–Eu hei de ser tua
    cunhada, quando não tiver coração. Teu mano tem a certeza de que eu amo
    outro homem. Queria viver para elle; mas se quizerem que eu morra por
    elle, abençoarei todos os meus algozes. Pódes dizer isto ao primo
    Balthazar, e diz-lh'o antes que te esqueça.

    –Então, vamos?!–disse o velho.

    –Estou prompta, meu pae.

    Abriu-se a portaria do mosteiro. Thereza entrou sem uma lagrima. Beijou
    a mão de seu pae, que elle não ousou recusar-lhe na presença das
    freiras. Abraçou suas primas, com semblante de regosijo; e, ao fechar-se
    a porta, exclamou, com grande espanto das monjas:

    –Estou mais livre que nunca. A liberdade do coração é tudo.

    As freiras olharam-se entre si, como se ouvissem na palavra «coração»
    uma heresia, uma blasphemia proferida na casa do Senhor.

    –Que diz a menina?!–perguntou a prioreza, fitando-a por cima dos
    oculos, e apanhando no lenço escarlate a distillação do esturrinho.

    –Disse eu que me sentia aqui muito bem, minha senhora.

    –Não diga minha senhora–atalhou a escrivã.

    –Como hei de dizer?

    –Diga «nossa madre prioreza.»

    –Pois sim, nossa madre prioreza, disse eu que me sentia aqui muito bem.

    –Mas quem vem para estas casas de Deus não vem para se sentir
    bem–tornou a nossa madre prioreza.

    –Não?!–disse Thereza com sincera admiração.

    –Quem para aqui vem, menina, ha de mortificar o espirito, e deixar lá
    fóra as paixões mundanas. Ora pois! Aqui está a nossa madre mestra de
    noviças, a quem compete encaminhal-a e dirigil-a.

    Thereza não redarguiu: fez um gesto de respeito á mestra de noviças, e
    seguiu o caminho que a prelada lhe ia indicando.

    A nossa madre entrou nos seus aposentos, e disse a Thereza que era sua
    hospeda em quanto alli estivesse; e ajuntou que não sabia se seu pae
    escolheria aquelle convento ou outro.

    –Que importa que seja um ou outro?–disse Thereza.

    –É conforme. Seu pae póde querer que a menina professe em ordem rica
    das bentas ou bernardas.

    –Professe!–exclamou Thereza.–Eu não quero ser freira aqui, nem
    n'outra parte.

    –A senhora ha de ser o que seu pae quizer que seja.

    –Freira!? a isso não póde ninguem obrigar-me!–recalcitrou Thereza.

    –Isso assim é–retorquiu a prioreza–mas como a menina tem de noviciado
    um anno, sobra-lhe tempo para se habituar a esta vida, e verá que não ha
    vida mais descansada para o corpo, nem mais saudavel para a alma.

    –Mas a nossa madre–tornou Thereza, sorrindo, como se a ironia lhe
    fosse habitual–já disse que a estas casas ninguem vem para se sentir
    bem…

    –É um modo de fallar, menina. Todos temos as nossas mortificações e
    obrigações de côro e de serviços para que nem sempre o espirito está bem
    disposto. Ora vês-a-hi. Mas em comparação do que lá vai pelo mundo, o
    convento é um paraizo. Aqui não ha paixões nem cuidados que tirem o
    somno, nem a vontade de comer, bemdito seja o Senhor! Vivemos umas com
    as outras, como Deus com os anjos. O que uma quer, querem todas. Más
    linguas é coisa que a menina não ha de achar aqui, nem intriguistas, nem
    murmurações de soalheiro. Emfim, Deus fará o que fôr servido. Eu vou á
    cosinha buscar a ceia da menina, e já volto. Aqui a deixo com a senhora
    madre organista, que é uma pomba, e com a nossa mestra de noviças, que
    sabe dizer melhor que eu o que é a virtude n'estas santas casas.

    Apenas a prioreza voltou costas, disse a organista á mestra de noviças:

    –Que grande impostora!

    –E que estupida!–acudiu a outra.–A menina não se fie n'esta
    trapalhona, e veja se seu pae lhe dá outra companhia em quanto cá
    estiver, que a prioreza é a maior intriguista do convento. Depois que
    fez sessenta annos, falla das paixões do mundo como quem as conhece por
    dentro e por fóra. Em quanto foi nova, era a freira que mais escandalos
    dava na casa; depois de velha era a mais ridicula, porque ainda queria
    amar e ser amada; agora, que está decrepita, anda sempre este mostrengo
    a fazer missões, e a curar indigestões.

    Thereza, apesar de sua dôr, não pôde reprimir uma risada, lembrando-se
    da _vida de Deus com anjos_ que as esposas do Senhor alli viviam, no
    dizer da madre prioreza.

    Pouco depois entrou a prelada com a ceia, e sahiram as duas freiras.

    –Que lhe pareceram as duas religiosas que ficaram com a menina?–disse
    ella a Thereza.

    –Pareceram-me muito bem.

    A velha distendeu os beiços matizados de meandros de esturrinho liquido,
    e regougou:

    –_Hum!_… está feito, está feito!… Ainda não são das peores; mas, se
    fossem melhores, não se perdia nada… Ora vamos a isto, menina; aqui
    tem duas pernas de gallinha, e um caldo que o podem comer os anjos.

    –Eu não cômo nada, minha senhora–disse Thereza.

    –Ora essa! não come nada!? Ha de comer; sem comer ninguem resiste.
    Paixões!… que as leve o porco-sujo!… As mulheres é que ficam
    logradas, e elles não tem que perder!… Que eu cá de mim, até ao
    presente, Deus louvado, não sei o que sejam paixões; mas quem tem
    cincoenta e cinco annos de convento, tem muita experiencia do que vê
    penar ás outras doidibanas. E para não ir mais longe, estas duas, que
    d'aqui sahiram, tem pagado bem o seu tributo á asneira, Deus me perdôe
    se pécco. A organista tem já os seus quarenta bons, e ainda vai ao
    locutorio derreter-se em finezas; a outra, apesar de ser mestra de
    noviças á falta d'outra que quizesse sêl-o, se eu lhe não andasse com o
    olho em cima, estragava-me as raparigas…

    Este edificante discurso de caridade foi interrompido pela madre escrivã
    que vinha, palitando os dentes, pedir á prelada um copinho de certo
    vinho estomacal com que todas as noites era brindada.

    –Estava eu a dizer a esta menina as peças que são a organista e a
    mestra–disse a prioreza.

    –Oh! são para o que lhe eu prestar! Lá foram ambas para a cella da
    porteira. A esta hora está a menina a ser cortada por aquellas linguas,
    que não perdoam a ninguem.

    –Vaes tu vêr se ouves alguma coisa, minha flôr?–disse a prelada.

    A escrivã, contente da missão, foi imperceptivelmente ao longo dos
    dormitorios até parar a uma porta que não vedava o ruido estridente das
    risadas.

    No entanto dizia a prelada a Thereza:

    –Esta escrivã não é má rapariga: só tem o defeito de se tomar da
    pinguleta; depois não ha quem a ature. Tem uma boa tença, mas gasta tudo
    em vinho, e tem occasiões de entrar no côro a fazer _ss_, que é mesmo
    uma desgraça. Não tem outro defeito; é uma alma lavada, e amiga da sua
    amiga. É verdade que ás vezes… (aqui a prelada ergueu-se a escutar nos
    dormitorios, e fechou por dentro a porta) é verdade que, ás vezes,
    quando anda azuratada, dá por paus e por pedras, e descobre os defeitos
    das suas amigas. A mim já ella me assacou um aleive, dizendo que eu,
    quando sahia a ares, não ia só a ares, e andava por lá a fazer o que
    fazem as outras. Forte pouca vergonha! Lá que outra fallasse, vá; mas
    ella, que tem sempre uns namorados pandilhas que bebem com ella na
    grade, isso lá me custa; mas, emfim, não ha ninguem perfeito!… Boa
    rapariga é ella… Se não fosse aquelle maldito vicio…

    Como tocasse ao côro n'esta occasião, a veneranda prioreza bebeu o
    segundo calice do vinho estomacal, e disse a Thereza que a esperasse um
    quarto de hora, que ella ia ao côro, e pouco se demoraria. Tinha ella
    sahido, quando a escrivã entrou a tempo que Thereza, com as mãos abertas
    sobre a face, dizia em si: «Um convento, meu Deus! isto é que é um
    convento!»

    –Está sósinha?–disse a escrivã.

    –Estou, minha senhora.

    –Pois aquella grosseira vai-se embora, e deixa uma hospeda sósinha? Bem
    se vê que é filha de funileiro!… Pois tinha tempo de ter prática do
    mundo, que tem andado por lá que farte… Pois eu havia de ir ao côro;
    mas não vou para lhe fazer companhia, menina.

    –Vá, vá, minha senhora, que eu fico bem sósinha–disse Thereza, com a
    esperança de poder desafogar em lagrimas a sua afflicção.

    –Não vou, não!… A menina aqui estarrecia de mêdo; mas a prelada não
    tarda ahi. Ella, se póde escapar-se do côro, não pára lá muito tempo. A
    apostar que ella lhe esteve a fallar mal de mim?

    –Não, minha senhora, pelo contrario…

    –Ora diga a verdade, menina! Eu sei que esta cegonha não falla bem de
    ninguem. Para ella tudo são libertinas e bebadas.

    –Nada, não, minha senhora; nada me disse a respeito d'alguma freira.

    –E se disse, deixal-a dizer. Ella o vinho não o bebe, suga-o, é uma
    esponja viva. Em quanto a libertinagem, tomára eu tantos mil cruzados
    como de amantes ella tem tido! Faz lá uma pequena ideia, menina!…

    A escrivã bebeu um calice de vinho da sua prelada, e continuou:

    –Faz lá uma pequena ideia! Ella é velhissima como a sé. Quando eu
    professei já ella era velha como agora, com pouca differença. Ora, eu
    sou freira ha vinte e seis annos; calcule a menina quantas arrobas de
    esturrinho ella tem atulhado n'aquelles narizes! Pois olhe, quer me
    creia, quer não, tenho-lhe conhecido mais de uma duzia de chichisbeos,
    não fallando no padre capellão, que esse ainda agora lhe fornece a
    garrafeira, á nossa custa, entende-se. É uma dissipadora dos rendimentos
    da casa. Eu, que sou escrivã, é que sei o que ella rouba. Eu tenho
    immensa pena de vêr a menina hospedada em casa d'esta hypocrita. Não se
    deixe levar das imposturices d'ella, meu anjinho. Eu sei que seu pae lhe
    mandou fallar, e a encarregou de a não deixar escrever, nem receber
    cartas; mas olhe, minha filha, se quizer escrever, eu dou-lhe tinteiro,
    papel, obreias e o meu quarto, se para lá quizer ir escrever. Se tem
    alguem que lhe escreva, diga-lhe que mande as cartas em meu nome; eu
    chamo-me Dionizia da Immaculada Conceição.

    –Muito agradecida, minha senhora–disse Thereza, animada pelo
    offerecimento.–Quem me déra poder mandar um recado a uma pobre que mora
    no bêcco do…

    –O que quizer, menina. Eu mando lá logo que fôr dia. Esteja descansada.
    Não se fie de alguem, senão de mim. Olhe que a mestra de noviças e a
    organista são duas falsas. Não lhe dê trela, que, se as admitte á sua
    confiança, está perdida. Ahi vem a lêsma… Fallemos n'outra coisa…

    A prelada vinha entrando, e a escrivã proseguiu assim:

    –Não ha, não ha nada mais agradavel que a vida do convento, quando se
    tem a fortuna de ter uma prelada como a nossa… Ai! eras tu, menina?
    Olha, se estivessemos a fallar mal de ti!

    –Eu sei que tu nunca fallas mal de mim–disse a prelada, piscando o
    olho a Thereza.–Ahi está essa menina que diga o que eu lhe estive a
    dizer das tuas boas qualidades…

    –Pois o que eu disse de ti–respondeu soror Dionizia da Immaculada
    Conceição–não precisas de perguntar, porque felizmente ouviste o que eu
    estava dizendo. Oxalá que se podesse dizer o mesmo das outras que
    deshonram a casa, e trazem aqui tudo intrigado n'uma meada, que é mesmo
    coisa de peccado.

    –Então não vaes ao côro, nini?–tornou a prioreza.

    –Já agora é tarde… Tu absolves-me da falta, sim?

    –Absolvo, absolvo; mas dou-te como penitencia beberes um copinho…

    –Do estomacal?

    –Podéra…

    Dionizia cumpriu a penitencia, e sahiu para, dizia ella, deixar a
    prelada na sua hora de oração.

    Não delongaremos esta amostra do evangelico e exemplar viver do
    convento, onde Thadeu de Albuquerque mandára sua filha a respirar o
    purissimo ar dos anjos, em quanto se lhe preparava crysol, mais
    depurador dos sedimentos do vicio, no convento de Monchique.

    Encheu-se o coração de Thereza de amargura e nojo n'aquellas duas horas
    de vida conventual. Ignorava ella que o mundo tinha d'aquillo. Ouvira
    fallar dos mosteiros como de um refugio da virtude, da innocencia e das
    esperanças immorredoiras. Algumas cartas lêra de sua tia, prelada em
    Monchique, e por ellas formára conceito do que devia ser uma santa.
    D'aquellas mesmas dominicanas, em cuja casa estava, ouvira dizer ás
    velhas e devotas fidalgas de Vizeu virtudes, maravilhas de caridade, e
    até milagres. Que desillusão tão triste e ao mesmo tempo que ancia de
    fugir d'alli!

    A cama de D. Thereza estava na mesma cella da prioreza em alcova
    separada, com cortinas de cassa.

    Quando a prelada lhe disse que podia deitar-se querendo, perguntou-lhe a
    menina se poderia escrever a seu pae. A freira respondeu que no dia
    seguinte o faria, posto que o senhor Albuquerque ordenasse que sua filha
    não escrevesse: assim mesmo, ajuntou ella, que lh'o não prohibiria, se
    tivesse tinteiro e papel na cella.

    Thereza deitou-se, e a prelada ajoelhou diante d'um oratorio, rezando a
    corôa a meia voz. Se o murmurio da oração infadasse a hospeda, não teria
    ella muita razão de queixa, por que a devota monja ao segundo
    _Padre-Nosso_ cabeceava de modo que já não atinou com a primeira
    _Áve-Maria_. Levantou-se, cambaleando uma mesura ás imagens do
    sanctuario, foi deitar-se, e pegou a ressonar.

    Thereza afastou subtilmente as cortinas do seu quarto, e tirou de entre
    o seu fato o tinteiro de tarraxa e o papel.

    A lampada do oratorio lançava um froixo raio sobre a cadeira, em que
    Thereza pozera os seus vestidos. Desceu da cama, ajoelhou ao pé da
    cadeira, e escreveu a Simão, relatando-lhe miudamente os successos
    d'aquelle dia. A carta rematava assim:

    «Não receies nada por mim, Simão. Todos estes trabalhos me parecem
    leves, se os comparo ao que tens padecido por amor de mim. A desgraça
    não abala a minha firmeza, nem deve intimidar os teus projectos. São
    alguns dias de tempestade, e mais nada. Qualquer nova resolução que meu
    pae tome, dir-t'a-hei logo podendo, ou quando podér. A falta das minhas
    noticias deves attribuil-a sempre ao impossivel. Ama-me assim
    desgraçada, porque me parece que os desgraçados são os que mais precisam
    de amor e de conforto. Vou vêr se posso esquecer-me dormindo. Como isto
    é triste, meu querido amigo!… Adeus.»

    VIII.

    Marianna, a filha de João da Cruz, quando viu seu pae pensar a chaga do
    braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da
    fraqueza da moça, e o academico achou estranha sensibilidade em mulher
    affeita a curar as feridas com que seu pae vinha laureado de todas as
    feiras e romarias.

    –Não ha ainda um anno que me fizeram tres buracos na cabeça, quando eu
    fui á Senhora dos Remedios a Lamego, e foi ella que me tosqueou e rapou
    o casco á navalha–disse o ferrador.–Pelo que vejo o sangue do fidalgo
    deu volta ao estomago da rapariga!… Estamos então bem aviados! Eu
    tenho cá a minha vida, e queria que ella fosse a enfermeira do meu
    doente…. És ou não és, rapariga?–disse elle á filha, quando ella
    abriu os olhos, com rosto de corrida da sua fraqueza.

    –Serei com muito gosto, se o pae quizer.

    –Pois então, moça, se hás de ir costurar para a varanda, vem aqui para
    a beira do senhor Simão. Dá-lhe caldos a miudo; e trata-lhe da ferida;
    vinagre e mais vinagre, quando ella estiver assim a modo de roixa.
    Conversa com elle, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que
    não é bom quando se está fraco do miôlo. E v. s.^a não tenha aquellas de
    ceremonia, nem me diga a Marianna–a menina isto, a menina aquillo.
    É–rapariga dá cá um caldo; rapariga, lava-me o braço, dá cá as
    compressas–e nada de politicas. Ella está aqui como sua criada, porque
    eu já lhe disse que, se não fosse o pae de v. s.^a, já ella ha muito
    tempo que andava por ahi ás esmolas, ou peor ainda. É verdade que eu
    podia deixar-lhe uns bensinhos, ganhos alli a suar na bigorna ha dez
    annos, afóra uns quatrocentos mil reis que herdei de minha mãe, que Deus
    haja; mas v. s.^a bem sabe que, se eu fosse á forca ou pela barra fóra,
    vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas.

    –Se vocemecê tem uma casinha soffrivel–atalhou Simão–póde, querendo,
    casar a sua filha n'uma boa casa de lavoira.

    –Assim ella quizesse. Maridos não lhe faltam; até o alferes da igreja a
    queria, se eu lhe fizesse doação de tudo, que pouco é, mas ainda vale
    quatro mil cruzados bons; o caso é que a moça não tem querido casar, e
    eu, a fallar a verdade, sou só e mais ella, e tambem não tenho grande
    vontade de ficar sem esta companhia, para quem trabalho como moiro. Se
    não fosse ella, fidalgo, muita asneira tinha eu feito! Quando vou ás
    feiras ou romarias, se a levo comigo, não bato, nem apanho; indo
    sósinho, é desordem certa. A rapariga já conhece quando a pinga me sobe
    ao capacete do alambique, pucha-me pela jaqueta, e por bons modos põe-me
    fóra do arraial. Se alguem me chama para beber mais um quartilho, ella
    não me deixa ir, e eu acho graça á obediencia com que me deixo guiar
    pela moça, que me pede que não vá por alma da mãe. Eu cá, em ella me
    pedindo por alma da minha santa mulher, já não sei de que freguezia sou.

    Marianna ouvia o pae, escondendo meio rosto no seu alvissimo avental de
    linho. Simão estava-se gosando na simpleza d'aquelle quadro rustico, mas
    sublime de poesia e naturalidade.

    João da Cruz foi chamado para ferrar um cavallo, e despediu-se n'estes
    termos:

    –Tenho dito, rapariga; aqui te entrego o nosso doente: trata-o como
    quem é, e como se fosse teu irmão ou marido.

    O rosto de Marianna acerejou-se quando aquella ultima palavra sahiu,
    natural como todas, da bôca de seu pae.

    A moça ficou encostada ao batente da alcova de Simão.

    –Não foi nada boa esta praga que lhe cahiu em casa, Marianna!–disse o
    academico–Fazerem-na enfermeira d'um doente, e privarem-na talvez de ir
    costurar na sua varanda, e conversar com as pessoas que passam….

    –Que se me dá a mim d'isso!–respondeu ella, sacudindo o avental, e
    baixando o coz ao logar da cintura com infantil graça.

    –Sente-se, Marianna; seu pae disse-lhe que se sentasse… Vá buscar a
    sua costura, e dê-me d'alli uma folha de papel e um lapis que está na
    carteira.

    –Mas o pae tambem me disse que o não deixasse escrever…–replicou
    ella, sorrindo.

    –Pouco, não faz mal. Eu escrevo apenas algumas linhas.

    –Veja lá o que faz…–tornou ella, dando-lhe o papel e o lapis–Olhe
    se alguma carta se perde, e se descobre tudo…

    –Tudo, o quê, Marianna? Pois sabe alguma coisa?!

    –Era preciso que eu fosse tola. Eu não lhe disse já que sabia da sua
    amizade a uma menina fidalga da cidade?

    –Disse; mas que tem isso?

    –Aconteceu o que eu receava. V. s.^a está ahi ferido, e toda a gente
    falla n'uns homens que appareceram mortos.

    –Que tenho eu com os homens que appareceram mortos?

    –Para que está a fingir-se de novas?! Pois eu não sei que esses homens
    eram criados do primo da tal senhora? Parece que v. s.^a desconfia de
    mim, e está a querer guardar um segredo que eu tomára que ninguem
    soubesse, para que meu pae e o senhor Simão não tenham alguns maiores
    trabalhos…

    –Tem razão, Marianna, eu não devia esconder de si o mau encontro que
    tivemos…

    –E Deus queira que seja o ultimo!… Tanto tenho pedido ao Senhor dos
    Passos que lhe dê remedio a essa paixão!… O peor futuro eu que ainda
    está por passar…

    –Não, menina, isto acaba assim: eu vou para Coimbra, logo que esteja
    bom, e a menina da cidade fica em sua casa.

    –Se assim fôr, já prometti dois arrateis de cêra ao Senhor dos Passos;
    mas não me diz o coração que v. s.^a faça o que diz…

    -Muito agradecido lhe estou-disse Simão commovido–pelo bem que me
    deseja. Não sei o que lhe fiz para lhe merecer a sua amizade.

    –Basta vêr o que seu paesinho fez pelo meu–disse ella, limpando as
    lagrimas.–O que seria de mim, se me elle faltasse, e se fosse á forca
    como toda a gente dizia!… Eu era ainda muito nova quando elle estava
    na enxovia. Teria treze annos; mas estava resolvida a atirar-me ao poço,
    se elle fosse condemnado á morte. Se o degradassem, então ia com elle,
    ia morrer onde elle fosse morrer. Não ha dia nenhum que eu não peça a
    Deus que dê a seu pae tantos prazeres como estrellas tem o ceo. Fui de
    proposito á cidade para beijar os pés a sua mãesinha, e vi suas manas, e
    uma, que era a mais nova, deu-me uma saia de lapim, que eu ainda alli
    tenho guardada como uma reliquia. Depois, cada vez que ia á feira, dava
    uma grande volta para vêr se acertava de encontrar a senhora D. Ritinha
    á janella; e muitas vezes vi o senhor Simão. E talvez não saiba que eu
    estava a beber na fonte, quando v. s.^a, ha dois para tres annos, deu
    muita pancada nos criados, que era mesmo um reboliço que parecia o fim
    do mundo. Eu vim contar ao pae, e elle até cahiu ao chão a dar risadas
    como um doido… Depois nunca mais o vi senão quando v. s.^a entrou com
    o tio de Coimbra; mas já sabia que vinha para esta desgraça, porque
    tinha tido um sonho, em que via muito sangue, e eu estava a chorar,
    porque via uma pessoa muito minha amiga a cahir n'uma cova muito
    funda…

    –Isso são sonhos, Marianna…

    –São sonhos, são; mas eu nunca sonhei nada que não acontecesse. Quando
    meu pae matou o almocreve, tinha eu sonhado que o via a dar um tiro
    n'outro homem; antes de minha mãe morrer, acordei eu a chorar por ella,
    e mais ainda viveu dois mezes… A gente da cidade ri-se dos sonhos; mas
    Deus sabe o que isto é… Ahi vem meu pae… Senhor dos Passos! não vá
    ser alguma má nova!…

    João da Cruz entrou com uma carta que recebêra da pobre do costume. Em
    quanto Simão leu a carta escripta do convento, Marianna fitou os seus
    grandes olhos azues no rosto do academico, e a cada contracção da fronte
    d'elle, angustiava-se-lhe a ella o coração. Não teve mão da sua ancia, e
    perguntou:

    –É noticia má!

    –Tu és muito atrevida, rapariga!–disse João da Cruz.

    –Não é, não–atalhou o estudante.–Não é má a noticia, Marianna. Senhor
    João, deixe-me ter na sua filha uma amiga, que os desgraçados é que
    sabem avaliar os amigos.

    –Isso é verdade; mas eu não me atrevia a perguntar o que a carta diz.

    –Nem eu perguntei, meu pae; foi porque me pareceu que o senhor Simão
    estava afflicto quando lia.

    –E não se enganou–tornou o doente, voltando-se para o ferrador.–O pae
    arrastou Thereza ao convento.

    –Sempre é patife d'uma vez!–disse o ferrador, fazendo com os braços
    instinctivamente um movimento de quem aperta entre as mãos um pescoço.
    N'este lance um observador perspicaz veria luzir nos olhos de Marianna
    um clarão de innocente alegria.

    Simão sentou-se, e escreveu sobre uma cadeira, que Thereza
    espontaneamente lhe chegou, dizendo:

    –Em quanto escreve, vou olhar pelo caldinho, que está a ferver.

    «É necessário arrancar-te d'ahi–dizia a carta de Simão.–Esse convento
    ha de ter uma evasiva. Procura-a, e diz-me a noite e a hora em que devo
    esperar-te. Se não podéres fugir, essas portas hão de abrir-se diante da
    minha cólera. Se d'ahi te mandarem para outro convento mais longe,
    avisa-me, que eu irei sósinho, ou acompanhado, roubar-te ao caminho. É
    indispensavel que te refaças de animo para te não assustarem os arrojos
    da minha paixão. És minha; não sei de que me serve a vida se a não
    sacrificar a salvar-te. Creio em ti, Thereza, creio. Ser-me-has fiel na
    vida e na morte. Não soffras com paciencia; lucta com heroismo. A
    submissão é uma ignominia, quando o poder paternal é uma affronta.
    Escreve-me a toda a hora que possas. Eu estou quasi bom. Diz-me uma
    palavra, chama-me, e eu sentirei que a perda do sangue não diminue as
    forças do coração.»

    Simão pediu a sua carteira, tirou dinheiro em prata, deu-o ao ferrador,
    e recommendou-lhe que o entregasse á pobre com a carta.

    Depois ficou relendo a de Thereza, e recordando-se da resposta que déra.

    Mestre João foi á cosinha, e disse a Marianna:

    –Desconfio d'uma coisa, rapariga.

    –Que é, meu pae?

    –O nosso doente está sem dinheiro.

    –Porquê? o pae como sabe isso?

    –É que elle pediu-me a carteira para tirar dinheiro, e ella pezava
    tanto como uma bexiga de porco cheia de vento. Isto bole-me cá por
    dentro! Queria offerecer-lhe dinheiro, e não sei como ha de ser…

    –Eu pensarei n'isso, meu pae–disse Marianna reflectindo.

    –Pois sim; cogita lá tu, que tens melhores ideias que eu.

    –E se o pae não quizer bolir nos seus quatrocentos, eu tenho aquelle
    dinheiro dos meus bezerros; são onze moedas d'ouro menos um quarto.

    –Pois fallaremos: pensa tu no modo de elle aceitar sem _remorsos_.

    Remorsos, na linguagem pouco castigada de mestre João, era synonimo de
    _escrupulos_ ou _repugnancia_.

    Foi Marianna levar o caldo a Simão, que lh'o rejeitou como distrahido em
    profundo scismar.

    –Pois não toma o caldinho?–disse ella com tristeza.

    –Não posso, não tenho vontade, menina; será logo. Deixe-me sósinho
    algum tempo; vá, vá; não passe o seu tempo ao pé d'um doente aborrecido.

    –Não me quer aqui? irei, e voltarei quando v. s.^a chamar.

    Dissera isto Marianna com os olhos a reverem lagrimas.

    Simão notou as lagrimas, e pensou um momento na dedicação da môça; mas
    não lhe disse palavra alguma.

    E ficou pensando na sua espinhosa situação. Deviam de occorrer-lhe
    ideias afflictivas, que os romancistas raras vezes attribuem aos seus
    heroes. No romance todas as crises se explicam, menos a crise ignobil da
    falta de dinheiro. Entendem os novellistas que a materia é baixa e
    plebea. O estylo vai de má vontade para coisas razas. Balzac falla muito
    em dinheiro; mas dinheiro a milhões: não conheço, nos cincoenta livros
    que tenho d'elle, um galã n'um entre-acto da sua tragedia a scismar no
    modo de arranjar uma quantia com que pague ao alfaiate, ou se
    desembarace das rêdes que um usurario lhe lança, desde a casa do juiz de
    paz a todas as esquinas, d'onde o assaltam o capital e juro de oitenta
    por cento. D'isto é que os mestres em romances se escapam sempre. Bem
    sabem elles que o interesse do leitor se gela a passo igual que o heroe
    se encolhe nas proporções d'estes heroesinhos de botequim, de quem o
    leitor dinheiroso foge por instincto, e o outro foge tambem, porque não
    tem que fazer com elle. A coisa é vilmente prosaica, de todo o meu
    coração o confesso. Não é bonito o deixar a gente vulgarisar-se o seu
    heroe a ponto de pensar na falta de dinheiro, um momento depois que
    escreveu á mulher estremecida uma carta, como aquella de Simão Botelho.
    Quem a lêsse diria que o rapaz tinha postadas, em differentes estações
    das estradas do paiz, carroças e folgadas parelhas de mulas, para
    transportarem a Paris, a Veneza, ou ao Japão a bella fugitiva! As
    estradas, n'aquelle tempo, deviam ser boas para isso; mas não tenho a
    certeza de que houvessem estradas para o Japão. Agora creio que ha,
    porque me dizem que ha tudo.

    Pois eu já lhes fiz saber, leitores, pela bôca de mestre João, que o
    filho do corregedor não tinha dinheiro. Agora lhes digo que era em
    dinheiro que elle scismava quando Marianna lhe trouxe o caldo rejeitado.

    A meu vêr, deviam attribulal-o estes pensamentos:

    Como pagaria a hospitalidade de João da Cruz?

    Com que agradeceria os desvelos de Marianna?

    Se Thereza fugisse, com que recursos proveria á subsistencia de ambos!

    Ora, Simão Botelho sahira de Coimbra com a sua mesada, que não era
    grande, e quasi lh'a absorvêra o aluguel da cavalgadura, e a groseta
    generosa que déra ao arreeiro, a quem devia o conhecimento do prestante
    ferrador.

    As reliquias d'esse dinheiro déra-as elle á portadora da carta n'aquelle
    dia. Má situação!

    Lembrou-se de escrever á mãe. Que lhe diria elle? Como explicaria a sua
    residencia n'aquella casa? D'este modo não iria elle dar indicios da
    morte mysteriosa dos dois criados de Balthazar Coutinho?

    Além de que, sobejamente sabia elle que sua mãe o não amava; e, a
    mandar-lhe algum dinheiro em segredo, seria escassamente o necessario
    para a jornada até Coimbra. Péssima situação!

    Cansado de pensar, favoreceu-o a providencia dos infelizes com um somno
    profundo.

    E Marianna entrára pé ante pé na sala, e ouvindo-lhe a respiração alta,
    aventurou-se a entrar na alcova. Lançou-lhe um lenço de cassa sobre o
    rosto, em roda do qual zumbia um enxame de moscas. Viu a carteira sobre
    uma banqueta que adornava o quarto, pegou d'ella, e sahiu pé ante pé.
    Abriu a carteira, viu papeis, que não soube lêr, e n'um dos
    repartimentos duas moedas de seis vintens. Foi restituir a carteira ao
    seu logar, e tomou d'um cabide as calças, collête, e jaqueta á
    hespanhola, do hospede. Examinou os bolsos, e não encontrou um ceitil.

    Retirou-se para um canto escuro do sobrado, e meditou. Esteve meia hora
    assim, e meditava angustiada a nobre rapariga. Depois ergueu-se de
    golpe, e conversou longo tempo com o pae. João da Cruz escutou-a,
    contrariou-a; mas ia de vencida sempre pelas replicas da filha; até que,
    a final, disse:

    –Farei o que dizes, Marianna. Dá-me cá o teu dinheiro, que não vou
    agora levantar a pedra da lareira para bolir no caixote dos quatrocentos
    mil reis. Tanto faz um como outro: teu é elle todo.

    Marianna deu-se pressa em ir á arca, d'onde tirou uma bolsa de linho com
    dinheiro em prata, e alguns cordões, anneis e arrecadas. Guardou o seu
    oiro n'uma boceta, e deu a bolsa ao pae.

    João da Cruz apparelhou a egoa, e sahiu. Marianna foi para a sala do
    doente.

    Acordou Simão.

    –Não sabe!?–exclamou ella com semblante entre alegre e assustado,
    perfeitamente contrafeito.

    –Que é, Marianna?

    –Sua mãesinha sabe que v. s.^a aqui está.

    –Sabe?! isso é impossivel! quem lh'o disse?

    –Não sei; o que sei é que ella mandou chamar meu pae.

    –Isso espanta-me!… E não me escreveu?

    –Não, senhor!… Agora me lembro que talvez ella soubesse que o senhor
    aqui esteve, e cuide que já não está, e por isso lhe não escreveu…
    Poderá ser?

    –Poderá; mas quem lh'o diria!? Se isto se sabe, então podem suspeitar
    da morte dos homens.

    –Póde ser que não; e ainda que desconfiem, não ha testemunhas. O pae
    disse que não tinha mêdo nenhum. O que fôr, soará. Não esteja agora a
    scismar n'isso… Vou-lhe buscar o caldinho, sim?

    –Vá, se quer, Marianna. O ceu deparou-me em si a amizade de uma irmã.

    Não achou a moça na sua alegre alma palavras em resposta á doçura que o
    rosto do mancebo exprimira.

    Veio com o «caldinho» diminuitivo que a rhetorica d'uma linguagem meiga
    approva; mas contra o qual protestava a larga e funda malga branca, a
    par da travessa com meia gallinha loira de gorda.

    –Tanta coisa!–exclamou, sorrindo, Simão.

    –Coma o que podér–disse ella córando.–Eu bem sei que os senhores da
    cidade não comem em malgas tamanhas, mas eu não tinha outra mais
    pequena, e coma sem nojo, que esta nunca serviu, que a fui eu comprar á
    loja, por pensar que v. s.^a não quizera hontem comer por se atrigar da
    outra.

    –Não, Marianna, não seja injusta, eu não comi hontem pela mesma razão
    que não cômo agora: não tinha, nem tenho vontade.

    –Mas coma por eu lhe pedir… Perdôe o meu atrevimento… Faça de conta
    que é uma sua irmã que lhe pede. Ainda agora me disse…

    –Que o ceu me dava em si a amizade d'uma irmã…

    –Pois ahi está…

    Simão achou tão necessario á sua conservação o sacrificio, como ao
    contentamento da carinhosa Marianna. Passou-lhe na mente, sem sombra de
    vaidade, a conjectura de que era amado d'aquella dôce creatura. Entre si
    disse que seria uma crueza mostrar-se conhecedor de tal affeição, quando
    não tinha alma para lh'a premiar, nem para lhe mentir. Assim mesmo, bem
    longe de se affligir, lisongeavam-o os desvelos da gentil moça. Ninguem
    sente em si o pêso do amor que inspira e não comparte. Nas maximas
    afflicções, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda
    sentir-se amado quem já não póde achar no amor diversão das penas, nem
    soldar o ultimo fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do
    coração humano, seja o que fôr, no amor, que nos dão, é que nós
    graduamos o que valemos em nossa consciencia.

    Não desprazia, portanto, o amor de Marianna ao amante apaixonado de
    Thereza. Isto será culpa no severo tribunal das minhas leitoras; mas, se
    me deixam ter opinião, a culpa de Simão Botelho está na fraca natureza,
    que é toda galas no ceu, no mar, e na terra, é toda incoherencias,
    absurdezas, e vicios no homem, rei da creação chamado!

    IX.

    Duas horas se detivera João da Cruz fóra de casa. Chegou quando a
    curiosidade do estudante era já soffrimento.

    –Estará seu pae prêso?!–dissera elle a Marianna.

    –Não m'o diz o coração, e o meu coração nunca me engana–respondêra
    ella.

    E Simão replicára:

    –E que lhe diz o coração a meu respeito, Marianna? Os meus trabalhos
    ficarão aqui?

    –Vou-lhe dizer a verdade, senhor Simão… mas não digo…

    –Diga, que lh'o peço, porque tenho fé no bom anjo que falla em sua
    alma. Diga…

    –Pois sim… O meu coração diz-me que os seus trabalhos ainda estão no
    comêço…

    Simão ouviu-a attentamente, e não respondeu. Assombrou-lhe o animo esta
    ideia torva, e affrontosa á singela rapariga:–«Pensará ella em me
    desviar de Thereza para se fazer amar?»

    Pensava assim, quando chegou o ferrador.

    –Aqui estou de volta–disse elle com semblante festivo–Sua mãe
    mandou-me chamar…

    –Já sei… E como soube ella que eu estava aqui?

    –Ella sabia que o fidalgo estivera cá; mas cuidava que v. s.^a já tinha
    ido para Coimbra. Quem lh'o disse não sei, nem perguntei; porque a uma
    pessoa de respeito não se fazem perguntas, dizia meu pae. Dizia ella que
    sabia o fim a que o senhor viera esconder-se aqui. Ralhou alguma coisa;
    mas eu, cá como pude, accommodei-a, e não ha novidade. Perguntou-me o
    que estava o menino fazendo aqui depois que a fidalguinha fôra para o
    convento. Disse-lhe que v. s.^a estava adoentado d'uma quéda que dera do
    cavallo abaixo. Tornou ella a perguntar se o senhor tinha dinheiro; e eu
    disse que não sabia. E vai ella foi dentro, e voltou d'ahi a pouco com
    este embrulho, para eu lhe entregar. Ahi o tem tal e qual; não sei
    quanto é.

    –E não me escreveu?

    –Disse que não podia ir á escrivaninha, porque estava lá o senhor
    corregedor–respondeu com firmeza mestre João–e tambem me recommendou
    que não lhe escrevesse v. s.^a, senão de Coimbra, porque, se seu pae
    soubesse que o menino cá estava, ia tudo razo lá em casa. Ora ahi está.

    –E não lhe fallou nos criados de Balthazar?

    –Nem um pio!.. Lá na cidade ninguem já fallava n'isso hoje.

    –E que lhe disse da senhora D. Thereza?

    –Nada, senão que ella fôra para o convento. Agora, deixe-me ir amantar
    a egua, que está a escorrer em fio. Ó rapariga, traz-me cá a manta.

    Em quanto Simão contava onze moedas menos um quartinho, maravilhado da
    estranha liberalidade, Marianna, abraçando o pae no repartimento visinho
    da casa, exclamava:

    –Arranjou muito bem a mentira!…

    –Ó rapariga, quem mentiu foste tu! Aquillo lá o arranjaste tu com essa
    tua cabecinha! Mas a coisa sahiu ao pintar, heim? Elle comeu-a que nem
    confeitos! Anda lá, que ficaste sem os bezerros; mas lá virá tempo em
    que elle te dê bois a troco dos bezerros.

    –Eu não fiz isto por interesse, meu pae…–atalhou ella resentida.

    –Olha o milagre! isso sei eu; mas, como diz lá o dictado, quem semeia
    colhe.

    Marianna quedou pensativa, e dizendo entre si:–Ainda bem, que elle não
    póde pensar de mim o que meu pae pensa. Deus sabe que não tenho
    esperanças nenhumas interesseiras no que fiz.

    Simão chamou o ferrador, e disse-lhe:

    –Meu caro João, se eu não tivesse dinheiro, aceitava sem repugnancia os
    seus favores, e creio que vocemecê m'os faria sem esperança de ganhar
    com elles; mas como recebi esta quantia, ha de consentir que eu lhe dê
    parte d'ella para os meus alimentos. Motivos de gratidão a dividas, que
    se não pagam, ainda me ficam muitos para nunca me esquecer de si, e da
    sua boa filha. Tome este dinheiro.

    –As contas fazem-se no fim–respondeu o ferrador, retirando a mão–e
    ninguem nos ha de ouvir, se Deus quizer. Precisando eu de dinheiro cá
    venho. Por ora, ainda está a capoeira cheia de gallinhas, e o pão
    coze-se todas as semanas.

    –Mas aceite–instou Simão–e dê-lhe a applicação que quizer.

    –Em minha casa ninguem dá leis senão eu–replicou o mestre João, com
    simulado enfadamento–Guarde lá o seu dinheiro, fidalgo, e não fallemos
    mais n'isso, se quer que o negocio vá direito até ao fim. _E
    victo-serio_!

    Nos cinco subsequentes dias recebeu Simão regularmente cartas de
    Thereza, umas resignadas e confortadoras, outras escriptas na violencia
    exasperada da saudade. Em uma dizia:

    «Meu pae deve saber que estás ahi, e em quanto ahi estiveres, de certo
    me não tira do convento. Seria bom que fosses para Coimbra, e
    deixassemos esquecer a meu pae os ultimos acontecimentos. Senão, meu
    querido esposo, nem elle me dá liberdade, nem eu sei como hei de fugir
    d'este inferno. Não fazes ideia do que é um convento! Se eu podesse
    fazer do meu coração sacrificio a Deus, teria de procurar uma atmosphera
    menos viciosa que esta. Creio que em toda a parte se póde orar e ser
    virtuosa, menos n'este convento.»

    N'outra carta exprimia-se assim: «Não me desampares, Simão, não vás para
    Coimbra. Eu receio que meu pae me queira mudar d'este convento para
    outro mais rigoroso. Uma freira me disse que eu não ficava aqui; outra
    positivamente me affirmou que o pae diligenceia a minha ida para um
    convento do Porto. Sobre tudo, o que me aterra, mas não me dobra, é
    saber eu que o intento do pae é fazer-me professar. Por mais que imagine
    violencias e tyrannias, nenhuma vejo capaz de me arrancar os votos. Eu
    não posso professar sem ser noviça um anno, e ir a perguntas tres vezes;
    hei de responder sempre que não. Se eu podesse fugir d'aqui!… Hontem
    fui á cêrca, e vi lá uma porta de carro que dá para o caminho. Soube que
    algumas vezes aquella porta se abre para entrarem carros de lenha; mas
    infelizmente não se torna a abrir até ao principio do inverno. Se não
    poder antes, meu Simão, fugirei n'esse tempo.»

    Tiveram entretanto bom e prompto exito as diligencias de Thadeu de
    Albuquerque. A prelada de Monchique, religiosa de summas virtudes,
    cuidando que a filha de seu primo muito de sua devoção e amor a Deus, se
    recolhia ao mosteiro, preparou-lhe casa e congratulou-se com a sobrinha
    de tão piedosa resolução. A carta congratulatoria não a recebeu Thereza,
    porque viera á mão de seu pae. Continha ella reflexões tendentes a
    desvanecêl-a do proposito, se algum desgosto passageiro a impellia á
    imprudencia de procurar um refugio onde as paixões se exacerbavam mais.

    Tomadas todas as precauções, Thadeu de Albuquerque fez avisar sua filha
    de que sua tia de Monchique a queria ter em sua companhia algum tempo, e
    que a partida teria logar na madrugada do seguinte dia.

    Thereza, quando recebeu a surprendente nova, já tinha enviado a carta
    d'aquelle dia a Simão. Em sua afflictiva perplexidade, resolveu fazer-se
    doente, e tão febril estava das commoções, que dispensava o artificio. O
    velho não queria transigir com a doença; mas o medico do mosteiro reagiu
    contra a deshumanidade do pae e da prioreza interessada na violencia.
    Quiz Thereza n'essa noite escrever a Simão; mas a criada da prelada,
    obedecendo ás suspeitas da ama, não desamparou a cabeceira do leito da
    enferma. Era causa a esta espionagem ter dito a escrivã, n'nma hora de
    má digestão d'aquelle vinho estomacal, que Thereza passava as noites em
    oração mental, e tinha correspondencia com um anjo do céu por
    intervenção d'uma mendiga. Algumas religiosas tinham visto a mendiga no
    páteo do convento esperando a esmola de Thereza; mas cuidaram que era
    aquella pobre uma devoção da menina. As palavras ironicas da escrivã
    foram commentadas, e a mendiga recebeu ordem de sahir da portaria.
    Thereza, n'um impeto de angustia, quando tal soube, correu a uma
    janella, e chamou a pobre, que se retirava assustada, e lançou-lhe ao
    pateo um bilhete com estas palavras: «É impossivel a nossa
    correspondencia. Vou ser tirada d'aqui para outro convento. Espera em
    Coimbra noticias minhas.» Isto foi rapidamente ao conhecimento da
    prioreza, e logo, ás ordens d'ella, partiu o hortelão no encalço da
    pobre. O hortelão seguiu-a até fóra de portas, espancou-a, tirou-lhe o
    bilhete, e foi do convento apresental-o a Thadeu de Albuquerque. A
    mendiga não retrocedeu; caminhou a casa do ferrador, e contou a Simão o
    acontecido.

    Simão lançou-se fóra do leito, e chamou João da Cruz. N'aquelle aperto
    queria ouvir uma voz, queria poder chamar amigo a um homem, que lhe
    estendesse mão capaz de apertar o cabo d'um punhal. O ferrador ouviu a
    historia, e deu o seu voto: «esperar até vêr». Simão repelliu a
    prudencial frieza do confidente, e disse que partia para Vizeu
    immediatamente.

    Marianna estava alli; ouvira a confidencia, e achára acertada a opinião
    de seu pae. Vendo, porém, a impaciencia do hospede, pediu licença para
    fallar onde não era chamada, e disse:

    –Se o senhor Simão quer, eu vou á cidade, e procuro no convento a
    Brito, que é uma rapariga minha conhecida, moça d'uma freira, e dou-lhe
    uma carta sua para entregar á fidalga.

    –Isso é possivel, Marianna?!–exclamou Simão, a ponto de abraçar a
    moça.

    –Pois então!–disse o ferrador–o que póde fazer-se, faz-se. Vai-te
    vestir, rapariga, que eu vou botar o albardão á égua.

    Simão sentou-se a escrever. Tão embaralhadas lhe acudiam as ideias, que
    não atinava a formar o designio mais proveitoso á situação de ambos. Ao
    cabo de longa vacillação, disse a Thereza que fugisse á hora do dia,
    quando a porta estivesse aberta, ou violentasse a porteira a abrir-lh'a.
    Dizia-lhe que marcasse ella a hora do dia seguinte em que elle a devia
    esperar, com cavalgaduras para a fuga. Em recurso extremo, promettia
    assaltar com homens armados o mosteiro, ou incendial-o para se abrirem
    as portas. Este programma era o mais parecido com o espirito do
    academico: em vivo fogo estava aquella pobre cabeça! Fechada a carta,
    começou a passear em torcicolos, como se obedecesse a desencontrados
    impulsos. Encravava as unhas na cabeça, e arrancava os cabellos n'ellas.
    Marrava como cego contra as paredes, e sentava-se um momento para
    erguer-se de mais furioso impeto. Machinalmente aferrava das pistolas, e
    sacudia os braços vertiginosos. Abria a carta para relêl-a, e estava a
    ponto de rasgal-a, cuidando que iria tarde, ou não lhe chegaria ás mãos.
    N'este conflicto de contrarios projectos, entrou Marianna, e muito
    allucinado devia de estar Simão para lhe não dar fé das lagrimas.

    O que tu soffrias, nobre coração de mulher pura! Se o que fazes por esse
    moço é gratidão ao homem que salvou a vida de teu pae, que rara virtude
    a tua! Se o amas, se por lhe dar allivio ás dôres, tu mesma lhe
    desempeces o caminho por onde te elle ha de fugir para sempre, que nome
    darei á tua virtude! que anjo te fadou o coração para a santidade d'um
    obscuro martyrio!

    –Estou prompta, disse Marianna.

    –Aqui tem a carta, minha boa amiga. Faça muito por não vir sem
    resposta–disse Simão, dando-lhe com a carta um embrulho de dinheiro.

    –E o dinheiro também é para a senhora?–disse ella.

    –Não, é para si, Marianna: compre um annel.

    Marianna tomou a carta, e voltou rapidamente as costas, para que Simão
    lhe não visse o gesto de despeito, se não desprêso.

    O academico não ousou insistir, vendo-a apressar-se na descida para o
    quinteiro, onde o ferrador enfreava a egua.

    –Não lhe chegues muito com a vara–disse João da Cruz a Marianna, que,
    d'um pulo, se assentou no albardão, coberto d'uma colxa escarlate.–Tu
    vaes amarella como cidra, moça!–exclamou elle reparando na pallidez da
    moça–Tu que tens?

    –Nada; que hei de eu ter?! dê-me cá a vara, meu pae.

    A egua partiu a galope, e o ferrador, no meio da estrada, a rever-se na
    filha e na egua, dizia em soliloquio, que Simão ouvira:

    –Vales tu mais, rapariga, que quantas fidalgas tem Vizeu! Pela mais
    pintada não dava eu a minha egua; e, se cá viesse o Mira-Molim de
    Marrocos pedir-me a filha, os diabos me levem se eu lh'a dava! Isto é
    que são mulheres, e o mais é uma historia!

    X.

    Apeou Marianna defronte do mosteiro, e foi á portaria chamar a sua amiga
    Brito.

    –Que boa moça!–disse o padre capellão, que estava no raro lateral da
    porta, praticando com a prioreza, ácerca da salvação das almas, e d'umas
    ancoretas de vinho do Pinhão, que elle recebêra n'aquelle dia, e do qual
    já tinha engarrafado um almude para tonisar o estomago da prelada.

    –Que boa moça!–tornou elle, com um olho n'ella e outro no raro, onde a
    ciumosa prioreza se estava remordendo.

    –Deixe lá a moça, e diga quando ha de ir a servente buscar o vinho.

    –Quando quizer, senhora prioreza; mas repare bem nos olhos, no feitio,
    n'aquelle todo da rapariga!

    –Pois repare o senhor padre João–replicou a freira–que eu tenho mais
    que fazer.

    E retirou-se com o coração mal-ferido, e o queixo superior escorrendo
    lagrimas… de simonte.

    –D'onde é vocemecê?–disse brandamente o padre capellão.

    –Sou da aldeia–respondeu Marianna.

    –Isso vejo eu; mas de que aldeia é?

    –Não me confesso agora.

    –Mas não faria mal se se confessasse a mim, menina, que sou padre.

    –Bem vejo.

    –Que mau genio tem!…

    –É isto que vê.

    –Quem procura cá no convento?

    –Já disse lá para dentro quem procuro.

    –Marianna! és tu?! Anda cá!

    A moça fez uma cortezia de cabeça ao padre capellão, e foi ao locutorio
    d'onde vinha aquella voz.

    –Eu queria fallar comtigo em particular, Joaquina–disse Marianna.

    –Eu vou vêr se arranjo uma grade: espera ahi.

    O padre tinha sahido do pateo, e Marianna, em quanto esperava, examinou,
    uma a uma, as janellas do mosteiro. N'uma das janellas, através das
    rexas de ferro, viu ella uma senhora sem habito.

    –Será aquella?–perguntou Marianna ao seu coração, que palpitava–Se eu
    fosse amada como ella!…

    –Sobe aquellas escadinhas, Marianna, e entra na primeira porta do
    corredor, que eu lá vou–disse Joaquina.

    Marianna deu alguns passos, olhou novamente para a janella onde vira a
    senhora sem habito, e repetiu ainda:

    –Se eu fosse amada como ella!…

    Mal entrou na grade, disse á sua amiga:

    –Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, alva como leite,
    que estava alli agora n'uma janella?

    –Seria alguma noviça, que ha duas cá muito lindas.

    –Mas ella não tinha vestimenta nenhuma de freira.

    –Ah! já sei: é a D. Therezinha Albuquerque.

    –Então não me enganei–disse Marianna, pensativa.

    –Pois tu conhecel-a?

    –Não; mas por amor d'ella é que eu cá vim fallar comtigo.

    –Então que é?! Que tens tu com a fidalga?

    –Eu, cá por mim, nada; mas conheço uma pessoa que lhe quer muito.

    –O filho do corregedor?

    –Esse mesmo.

    –Mas esse está em Coimbra.

    –Não sei se está, nem se não. Fazes-me tu um favor?

    –Se eu poder…

    –Pódes… Eu queria fallar com ella.

    –Ó dianho! isso não sei se poderá ser, porque a trazem as freiras
    debaixo d'olho, e ella vai-se embora ámanhã.

    –Para onde vai?

    –Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os bahus
    já estão preparados, e ella está morta por sahir. E tu que lhe queres?

    –Não t'o posso dizer, porque não sei… Queria dar-lhe um papel… Faz
    com que ella cá venha, que eu dou-te chita para um vestido.

    –Como tu estás rica, Marianna!…–atalhou, rindo, Joaquina–Eu não
    quero a tua chita, rapariga. Se eu podér dizer-lhe que venha, sem que
    alguem me ouça, digo-lh'o. E agora é boa maré, porque tocou ao côro….
    Deixa-me lá ir.

    Joaquina sahiu-se bem da difficil commissão. Thereza estava sósinha,
    absorvida a scismar com os olhos fitos no ponto onde vira Marianna.

    –A menina faz favor de vir comigo depressinha?–disse-lhe a criada.

    Seguiu-a Thereza, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:

    –O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se
    perguntarem por v. ex.^a, digo-lhe que a menina está no mirante.

    A voz de Marianna tremia, quando D. Thereza lhe perguntou quem era.

    –Sou uma portadora d'esta carta para v. ex.^a

    –É de Simão!–exclamou Thereza.

    –Sim, minha senhora.

    –A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

    –Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguem
    me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de
    Monchique do Porto. Que se não afflija, porque eu sou sempre a mesma.
    Que não venha cá, porque seria inutil, e muito perigoso. Que vá vêr-me
    ao Porto, que eu hei de arranjar modo de lhe fallar. Diga-lhe isto, sim?

    –Sim, minha senhora.

    –Não se esqueça, não? Vir cá por modo nenhum. É impossivel fugir, e vou
    muito acompanhada. Vai o primo Balthazar e as minhas primas, e meu pae,
    e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho
    é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

    Joaquina disse fóra da porta:

    –Menina! olhe que a prioreza anda lá por dentro a procural-a.

    –Adeus, adeus–disse Thereza sobresaltada.–Tome lá esta lembrança como
    prova da minha gratidão.

    E tirou do dedo um annel de ouro, que offereceu a Marianna.

    –Não aceito, minha senhora.

    –Porque não aceita?

    –Porque não fiz algum favor a v. ex.^a. A receber alguma paga ha de ser
    de quem me cá mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja
    feliz.

    Sahiu Thereza, e Joaquina entrou na grade.

    –Já te vaes embora, Marianna?

    –Vou, que é pressa; um dia virei conversar comtigo muito. Adeus,
    Joaquina.

    –Pois não me contas o que isto é? O amor da fidalga está perto d'aqui?
    Conta, que eu não digo nada, rapariga!…

    –Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquininha.

    Marianna, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga,
    e, se alguma vez se distrahia d'este exercicio de memoria, era para
    pensar nas feições da amada do seu hospede, e dizer, como em segredo, ao
    seu coração: «Não lhe bastava ser fidalga e rica; e, além de tudo, linda
    como nunca vi outra!» E o coração da pobre moça, avergando ao que a
    consciencia lhe ia dizendo, chorava.

    Simão, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do
    caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.

    Ao descobrir Marianna, desceu ao quinteiro, despresando cautelas, e
    esquecido já do ferimento cuja crise de perigo peorára n'aquelle dia,
    que era o oitavo depois do tiro.

    A filha do ferrador deu o recado, sem alteração de palavra. Simão
    escutára-a placidamente até ao ponto em que lhe ella disse que o primo
    Balthazar a acompanhava ao Porto.

    –O primo Balthazar!…–murmurou elle com um sorriso sinistro–sempre
    este primo Balthazar cavando a sua sepultura e a minha!…

    –A sua, fidalgo?!–exclamou João da Cruz–morra elle, que o levem
    trinta milhões de diabos! mas v. s.^a ha de viver em quanto eu fôr João.
    Deixe-a ir para o Porto, que não tem perigo no convento. D'hora a hora
    Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, está por lá algum tempo,
    e ás duas por tres, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha
    engrampa-o, e é sua como dois e dois serem quatro.

    –Eu hei de vêl-a antes de partir para Coimbra–disse Simão.

    –Olhe que ella recommendou-me muito que não fosse lá–acudiu Marianna.

    –Por causa do primo?–tornou o academico ironicamente.

    –Acho que sim, e por talvez não servir de nada lá ir v. s.^a–respondeu
    timidamente a moça.

    –Lá se quer–bradou mestre João–a mulher vai-se-lhe tirar ao caminho.
    Não tem mais que dizer.

    –Meu pae! não metta este senhor em maiores trabalhos!–disse Marianna.

    –Não tem duvida, menina–atalhou Simão–eu é que não quero metter
    ninguem em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ella seja, hei
    de eu luctar sósinho.

    João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se
    ennobrecia, disse:

    –Senhor Simão, v. s.^a não sabe nada do mundo. Não metta sósinho a
    cabeça aos trabalhos, que elles, como o outro que diz, quando pegam de
    ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rustico;
    mas, a bem dizer, estou n'aquella d'aquelle que dizia que o mal dos seus
    burrinhos o fizera alveitar. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem
    com ellas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ella seja filha do
    rei, não se ha de um homem botar a perder. Mulheres ha tantas como a
    praga, e são como as rãs no charco, que mergulha uma, e apparecem quatro
    á tona d'agua. Um homem rico e fidalgo como v. s.^a, onde quer topa uma
    com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o olho. Deixe-a
    ir com Deus ou com a breca, que ella, se tiver de ser sua, á mão lhe ha
    de vir dar, e tanto faz andar p'ra traz como p'ra diante, é dictado dos
    antigos. Olhe que isto não é mêdo, fidalgo; tome sentido, que João da
    Cruz sabe o que é pôr dois homens d'uma feita a olhar o sete-estrello,
    mas não sabe o que é mêdo. Se o senhor quer sahir á estrada e tirar a
    tal pessoa ao pae, ao primo, e a um regimento, se fôr necessario, eu vou
    montar na egua, e d'aqui a tres horas estou de volta com quatro homens,
    que são quatro dragões.

    Simão fitára os olhos chammejantes nos do ferrador, e Marianna
    exclamára, ajuntando as mãos sobre o seio:

    –Meu pae! não lhe dê esses conselhos!…

    –Cala-te ahí, rapariga!–disse mestre João–vai tirar o albardão á
    egua, amanta-a, e bota-lhe sêcco. Não és aqui chamada.

    –Não vá afflicta, senhora Marianna–disse Simão á moça, que se retirava
    amargurada.–Eu não aproveito algum dos conselhos de seu pae. Ouço-o com
    boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a
    honra e o coração me aconselhar.

    Ao anoitecer, Simão, como estivesse sósinho, escreveu uma longa carta,
    da qual extractamos os seguintes periodos:

    «Considero-te perdida, Thereza. O sol de ámanhã póde ser que eu o não
    veja. Tudo, em volta de mim, tem uma côr de morte. Parece que o frio da
    minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.

    Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se
    conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as
    contrariedades me não privavam de ti. Só o receio de perder-te me mata.
    O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de
    mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ella.

    Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um
    inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Thereza;
    mas não haverá ahi um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho
    ciumes de todas as tuas horas. Has de pensar com muita saudade no teu
    esposo do ceu, e nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para vêres ao
    pé de ti o miseravel que nos matou a realidade de tantas esperanças
    formosas.

    Tu verás esta carta quando eu já estiver n'um outro mundo, esperando as
    orações das tuas lagrimas. As orações! Admiro-me d'esta faisca de fé que
    me alumia nas minhas trévas!… Tu déras-me com o amor a religião,
    Thereza. Ainda creio; não se apaga a luz que é tua; mas a providencia
    divina desamparou-me.

    Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a
    uma sombra, a razão por que me attrahiste a um abysmo. Escutarás com
    gloria a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.

    Á hora em que leres esta carta…………»

    Não o deixaram continuar as lagrimas, nem depois a presença de Marianna.
    Vinha ella pôr a mesa para a ceia, e quando desdobrava a toalha, disse
    em voz abafada, como se a si mesma sómente o dissesse:

    –É a ultima vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa!

    –Porque diz isso, Marianna?

    –Porque m'o diz o coração.

    D'esta vez o academico ponderou supersticiosamente os dictames do
    coração da moça, e com o silencio meditativo deu-lhe a ella a evidencia
    anticipada do vaticinio.

    Quando voltou com a travessa da gallinha, vinha chorando a filha de João
    da Cruz.

    –Chora com pena de mim, Marianna?–disse Simão enternecido.

    –Choro, porque me parece que o não tornarei a vêr; ou, se o vir, será
    de modo que oxalá que eu morresse antes de o vêr.

    –Não será, talvez, assim, minha amiga…

    –V. s.^a não me faz-uma coisa que eu lhe peço?…

    –Veremos o que pede, menina.

    –Não saia esta noite, nem ámanhã.

    –Pede o impossivel, Marianna. Hei de sahir, porque me mataria se não
    sahisse.

    –Então perdôe a minha ousadia. Deus o tenha de sua mão.

    A rapariga foi contar ao pae as intenções do academico. Acudiu logo
    mestre João combatendo a ideia da sahida, com encarecer os perigos do
    ferimento. Depois, como não conseguisse dissuadil-o, resolveu
    acompanhal-o. Simão agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decisão. O
    ferrador não cedia do proposito, e estava já preparando a clavina, e
    arreçoando com medida dobrada a egua–para o que désse e viesse–dizia
    elle, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvêra não ir
    a Vizeu, e seguir Thereza ao Porto, passados os dias da convalescença.
    Facilmente o acreditou João da Cruz; mas Marianna, submissa sempre ao
    que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança, e disse ao pae que
    vigiasse o fidalgo.

    Ás onze horas da noite ergueu-se o academico, e escutou o movimento
    interior da casa: não ouviu o mais ligeiro ruido, a não ser o rangido da
    egua na manjedoura. Escorvou de polvora nova as duas pistolas. Escreveu
    um bilhete subscriptado a João da Cruz, e ajuntou-o á carta que
    escrevêra a Thereza. Abriu as portadas da janella do seu quarto, e
    passou d'alli para a varanda de pau, da qual o salto á estrada era sem
    risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral á
    porta da varanda, se abriu, e a voz de Marianna lhe disse:

    –Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na
    sua companhia.

    O academico parou, e ouviu voz intima que lhe dizia: «O teu anjo da
    guarda falla pela bôca d'aquella mulher, que não tem mais intelligencia
    que a do coração alumiado pelo seu amor.»

    –Dê um abraço em seu pae, Marianna–disse-lhe Simão–e adeus… até
    logo, ou….

    –Até ao juizo final…–atalhou ella.

    –O destino ha de cumprir-se… Seja o que o ceu quizer.

    Tinha Simão desapparecido nas trevas, quando Marianna accendeu a lampada
    do sanctuario, e ajoelhou orando com o fervor das lagrimas.

    Era uma hora, e estava Simão defronte do convento, contemplando uma a
    uma as janellas. Em nenhuma vira clarão de luz; luz só a do lampadario
    do Sacramento se coava baça e pallida na vidraça d'uma fresta do templo.
    Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu, ali immovel, as quatro
    horas. Das mil visões, que lhe relancearam no atribulado espirito, a que
    mais a miudo se repetia era a de Marianna supplicante com as mãos
    postas; mas, ao mesmo tempo, cria elle ouvir os gemidos de Thereza,
    torturada pela saudade, pedindo ao ceu que a salvasse das mãos de seus
    algozes. O vulto de Thadeu de Albuquerque, arrastando a filha a um
    convento, não lhe afogueava a sêde de vingança; mas cada vez que lhe
    acudia á mente a imagem odiosa de Balthazar Coutinho, instinctivamente
    as mãos do academico se asseguravam da existencia das pistolas.

    Ás quatro horas e um quarto acordou a natureza toda em hymnos e
    acclamações ao radiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do
    mosteiro melodias interrompidas pelo toque solemne das Ave-Marias na
    torre. O horisonte passára, de escarlate a alvacento. A purpura da
    aurora, como lavareda enorme, desfizera-se em particulas de luz, que
    ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planicies e nas
    varzeas, como se o anjo do Senhor, á voz de Deus, viesse desenrolando
    aos olhos da creatura as maravilhas do repontar d'um dia estivo.

    E nenhuma d'estas galas do ceu e da terra enlevava os olhos do moço
    poeta!

    Ás quatro horas e meia ouviu Simão o tinido de liteiras, dirigindo-se
    áquelle ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira
    ao convento.

    Pararam as liteiras vasias na portaria, e logo depois chegaram tres
    senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irmãs de Balthazar,
    acompanhadas de dois mochilas com as mulas á rédea. As damas foram
    sentar-se nos bancos de pedra, lateraes á portaria. Em seguida abriu-se
    a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as tres senhoras entraram.

    Momentos depois viu Simão chegar á portaria Thadeu de Albuquerque
    encostado ao braço de Balthazar Coutinho. O velho denotava quebranto e
    desfallecimento a espaços. O de Castro-d'Aire, bem composto de figura e
    caprichosamente vestido á castelhana, gesticulava com o aprumo de quem
    dá as suas irrefutaveis razões, e consola tomando a riso a dôr alheia.

    –Nada de lamurias, meu tio!–dizia elle–Desgraça seria vêl-a casada!
    Eu prometto-lhe antes de um anno restituir-lh'a curada. Um anno de
    convento é um optimo vomitorio do coração. Não ha nada como isso para
    limpar o sarro do vicio em corações de meninas creadas á discrição. Se
    meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediencia cega, têl-a-ia agora
    submissa, e ella não se julgaria authorisada a escolher marido.

    –Era uma filha unica, Balthazar!–dizia o velho, soluçando.

    –Pois por isso mesmo–replicou o sobrinho–Se tivesse outra, ser-lhe-ia
    menos sensivel a perda, e menos funesta a desobediencia. Faria a sua
    casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licença regia
    para desherdar a primogenita. Assim, agora não lhe vejo outro remedio
    senão empregar o cauterio á chaga; com emplastros é que não se faz nada.

    Abriu-se novamente a portaria, e sahiram as tres senhoras, e após ellas
    Thereza.

    Thadeu enchugou as lagrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que
    não ergueu do chão os olhos.

    –Thereza…–disse o velho.

    –Aqui estou, senhor–respondeu a filha, sem o encarar.

    –Ainda é tempo–tornou Albuquerque.

    –Tempo de quê?

    –Tempo de seres boa filha.

    –Não me accusa a consciencia de o não ser.

    –Ainda mais?!… Queres ir para tua casa, e esqueceres o maldito que
    nos faz a todos desgraçados?

    –Não, meu pae. O meu destino é o convento. Esquecêl-o nem por morte.
    Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.

    Thereza, circumvagando os olhos, viu Balthazar, e estremeceu,
    exclamando:

    –Nem aqui!

    –Falla comigo, prima Thereza?–disse Balthazar, risonho.

    –Comsigo fallo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença?

    –Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha
    eu ha dias, dignos de acompanharem a minha prima; mas esses houve ahi um
    assassino que m'os matou. Á falta d'elles, sou eu que me offereço.

    –Dispenso-o da delicadeza–atalhou Thereza com vehemencia.

    –Eu é que me não dispenso de a servir, á falta dos meus dois fieis
    criados, que um scelerado me matou.

    –Assim devia ser–tornou ella tambem ironica–porque os covardes
    escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.

    –Ainda se não fizeram as contas finaes…, minha querida
    prima–redarguiu o morgado.

    Este dialogo correu rapidamente, em quanto Thadeu de Albuquerque
    cortejava a prioreza e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas
    de Balthazar, tinham sahido do atrio do convento, e deram de rosto em
    Simão Botelho, encostado á esquina da rua fronteira.

    Thereza viu-o…. adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:

    –Simão!…

    O filho do corregedor não se moveu.

    Balthazar, espavorido do encontro, fitando os olhos n'elle, duvidava
    ainda.

    –É crivel que esse infame aqui viesse!–exclamou o de Castro-d'Aire.

    Simão deu alguns passos, e disse placidamente:

    –_Infame…_ eu! e porquê?

    –Infame, e infame assassino!–replicou Balthazar–Já fóra da minha
    presença!

    –É parvo este homem!–disse o academico–Eu não discuto com s. s.^a…
    Minha senhora–disse elle a Thereza com a voz commovida e o semblante
    alterado unicamente dos affectos do coração–Soffra com resignação, da
    qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a
    violencia, e bem póde ser que a meio caminho do seu calvario a
    misericordia divina lhe redobre as forças.

    –Que diz este patife?!–exclamou Thadeu.

    –Vem aqui insultal-o, meu tio!–respondeu Balthazar–Tem a petulancia
    de se apresentar a sua filha a confortal-a na sua malvadez! Isto é de
    mais! Olhe que eu esmago-o aqui, su villão!

    –Villão é o desgraçado, que me ameaça, sem ousar avançar para mim um
    passo–redarguiu o filho do corregedor.

    –Eu não o tenho feito–exclamou enfurecidamente Balthazar–por entender
    que me avilto, castigando-o, na presença de criados de meu tio, que tu
    pódes suppôr meus defensores, canalha!

    –Se assim é–tornou Simão, sorrindo–espero nunca me encontrar de rosto
    com s. s.^a. Reputo-o tão covarde, tão sem dignidade, que o hei de
    mandar azorragar pelo primeiro ganha-pão das esquinas.

    Balthazar Coutinho lançou-se de impeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a
    garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as
    damas chegaram a interpôr-se entre os dois, Balthazar tinha o alto do
    craneo aberto por uma bala, que lhe entrára na fronte. Vacillou um
    segundo, e cahiu desamparado aos pés de Thereza.

    Thadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados
    rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola.
    Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao
    homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara,
    correu da rua fronteira, e se collocou, de bacamarte aperrado, á beira
    de Simão. Estacaram os homens.

    –Fuja, que a égua está ao cabo da rua–disse o ferrador ao seu hospede.

    –Não fujo… Salve-se, e depressa–respondeu Simão.

    –Fuja, que se ajunta o povo, e não tardam ahi soldados.

    –Já lhe disse que não fujo–replicou o amante de Thereza, com os olhos
    postos n'ella, que cahira desfallecida sobre as escadas da igreja.

    –Está perdido!–tornou João da Cruz.

    –Já o estava. Vá-se embora, meu amigo, por sua filha lh'o rogo. Olhe
    que póde ser-me util; fuja…

    Abriam-se todas as portas e janellas, quando o ferrador se lançou na
    fuga, até cavalgar a egua.

    Um dos visinhos do mosteiro, que, em razão de seu officio, primeiro
    sahiu á rua, era o meirinho geral.

    –Prendam-no, prendam-no, que é um matador!–exclamava Thadeu de
    Albuquerque.

    –Qual?–perguntou o meirinho geral.

    –Sou eu–respondeu o filho do corregedor.

    –V. s.^a!–disse o meirinho espantado; e, approximando-se, accrescentou
    a meia voz–venha, que eu deixo-o fugir.

    –Eu não fujo–tornou Simão.–Estou prêso. Aqui tem as minhas armas.

    E entregou as pistolas.

    Thadeu de Albuquerque, quando se recobrou do spasmo, fez transportar a
    filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao
    Porto.

    As irmãs de Balthazar seguiram o cadaver de seu irmão para casa do tio.

    SEGUNDA PARTE.

    I.

    O corregedor acordara com o grande reboliço que ia na casa, e perguntou
    á esposa, que elle suppunha tambem desperta na camara immediata, que
    bulha era aquella. Como ninguem lhe respondesse, sacudiu freneticamente
    a campainha, e berrou ao mesmo tempo, aterrado pela hypothese de
    incendio na casa. Quando D. Rita acudiu, já elle estava enfiando os
    calções ás avessas.

    –Que estrondo é este? quem é que grita?–exclamou Domingos Botelho.

    –Quem grita mais é o senhor–respondeu D. Rita.

    –Sou eu!? Mas quem é que chora?

    –São suas filhas.

    –E porquê? Diga n'uma palavra.

    –Pois sim, direi: o Simão matou um homem.

    –Em Coimbra?… E fazem tanta bulha por isso!

    –Não foi em Coimbra, foi em Vizeu–tornou D. Rita.

    –A senhora manga comigo?! Pois o rapaz está em Coimbra, e mata em
    Vizeu! Ahi está um caso para que as ordenações do reino não
    providenciaram.

    –Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada de hoje
    Balthazar Coutinho, sobrinho do Thadeu de Albuquerque.

    Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto.

    –Foi prêso?–perguntou o corregedor.

    –Está em casa do juiz de fóra.

    –Mande-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e porque foi essa
    morte?!… Mande-me chamar o meirinho, sem demora.

    –Porque se não veste o senhor, e vai a casa do juiz?

    –Que vou eu fazer a casa do juiz?

    –Saber de seu filho como isto foi.

    –Eu não sou pae: sou corregedor. Não me incumbe a mim interrogal-o,
    Senhora D. Rita, eu não quero ouvir choradeiras; diga ás meninas que se
    calem, ou que vão chorar no quintal.

    O meirinho chamado relatou miudamente o que sabia, e disse ter-se
    verificado que o amor á filha do Albuquerque fôra causa d'aquelle
    desastre.

    Domingos Botelho, ouvida a historia, disse ao meirinho:

    –O juiz de fóra que cumpra as leis. Se elle não fôr rigoroso, eu o
    obrigarei a sêl-o.

    Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido:

    –Que significa esse modo de fallar de seu filho?

    –Significa que sou corregedor d'esta comarca, e que não protejo
    assassinos por ciumes, e ciumes da filha de um homem, que eu detesto. Eu
    antes queria vêr mil vezes morto Simão, que ligado a essa familia.
    Escrevi-lhe muitas vezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se
    alguem me désse a certeza de que elle tinha correspondencia com tal
    mulher. Não ha de querer a senhora que eu vá sacrificar a minha
    integridade a um filho desobediente, e de mais a mais homicida.

    D. Rita, algum tanto por affecto maternal e bastante por espirito de
    contradicção, contendeu largo espaço; mas desistiu, obrigada pela
    insolita pertinacia e cólera do marido. Tão iracundo e aspero em
    palavras nunca o ella vira. Quando lhe elle disse: «Senhora, em coisas
    de pouca monta o seu dominio era toleravel; em questões de honra, o seu
    dominio acabou: Deixe-me!»–D. Rita, quando tal ouviu, e reparou na
    physionomia de Domingos Botelho, sentiu-se mulher, e retirou-se.

    A ponto foi isto de entrar o juiz de fóra na sala de espera. O
    corregedor foi recebel-o, não com o semblante affectuoso de quem vai
    agradecer a delicadeza e implorar indulgencia, senão que de carrancudo
    que ia, mais parecêra ir elle reprehender o juiz por vir n'aquella
    visita dar a crer que a balança da justiça na sua mão tremia algumas
    vezes.

    –Começo por dar a v. s.^a os pezames–disse o juiz de fóra–da desgraça
    de seu filho.

    –Obrigado a v. s.^a Sei tudo. Está instaurado o processo?

    –Não podia deixar eu de acceitar a querella.

    –Se a não acceitasse, obrigal-o-ia eu ao cumprimento dos seus deveres.

    –A situação do senhor Simão Botelho é pessima. Confessa tudo. Diz que
    matou o algoz da mulher que elle amava…

    –Fez muito bem–interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada secca
    e rouca.

    –Perguntei-lhe se foi em defeza, e fiz-lhe signal que respondesse
    affirmativamente. Respondeu que não; que, a defender-se, o faria com a
    ponta da bota, e não com um tiro. Busquei todos os modos honestos de o
    levar a dar algumas respostas, que denotassem allucinação ou demencia;
    elle, porém, responde e replíca com tanta egualdade e presença de
    espirito, que é impossivel suppor que o assassinio não foi perpetrado
    muito intencionalmente e de claro juizo. Aqui tem v. s.^a uma
    especialissima e triste posição. Queria valer-lhe, e não posso.

    –E eu não posso nem quero, senhor doutor juiz de fóra. Está na cadêa?

    –Ainda não: está em minha casa. Venho saber se v. s.^a determina que
    lhe seja preparada com decencia a prisão.

    –Eu não determino nada. Faça de conta que o prêso Simão não tem aqui
    parente algum.

    –Mas, senhor doutor corregedor–disse o juiz de fóra com tristeza e
    compuncção–v. s.^a é pae.

    –Sou um magistrado.

    –É demasiada a severidade, perdôe-me a reflexão que é amiga. Lá está a
    lei para o castigar; não o castigue v. ex.^a com o seu odio. A desgraça
    quebranta o odio de estranhos, quanto mais o affectuoso resentimento de
    um pae!

    –Eu não odeio, senhor doutor; desconheço esse homem em que me falla.
    Cumpra os seus deveres, que lh'o ordena o corregedor, e o amigo mais
    tarde lhe agradecerá a delicadeza.

    Sahiu o juiz de fóra, e foi encontrar Simão na mesma serenidade em que o
    deixára.

    –Venho de fallar com seu pae;–disse o juiz–encontrei-o mais irado do
    que era natural calcular. Penso que por em quanto naaa póde esperar da
    influencia ou patrocinio d'elle.

    –Isso que importa?–respondeu socegadamente Simão.

    –Importa muito, senhor Botelho. Se seu pae quizesse, haveria meios de
    mais tarde lhe adoçar a sentença.

    –Que me importa a mim a sentença?–replicou o filho do corregedor.

    –Pelo que vejo não lhe importa ao senhor ir a uma forca?

    –Não, senhor.

    –Que diz, senhor Simão!–redarguiu espantado o interrogador.

    –Digo que o meu coração é indifferente ao destino da minha cabeça.

    –E sabe que seu pae não lhe dá mesmo protecção, a protecção das
    primeiras necessidades na cadêa?

    –Não sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou morrer no
    patibulo?

    –Porque não escreve a sua mãe? Peça-lhe que…

    –Que hei de eu pedir a minha mãe?–atalhou Simão.

    –Peca-lhe, que amacie a cólera de seu pae, senão o senhor Botelho não
    tem quem o alimente.

    –V. s.^a está-me julgando um miseravel, a quem dá cuidado saber onde ha
    de almoçar hoje. Penso que não incumbem ao senhor juiz de fóra essas
    miudezas de estomago.

    –De certo não–redarguiu irritado o juiz—Faça o que quizer.

    E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o réo, dispensando o aguazil
    de pedir força para acompanhal-o.

    O carcereiro recebeu respeitosamente o prêso, e alojou-o n'um dos
    quartos melhores do carcere; mas nú e desprovido de tudo o carcere.

    Um outro prêso emprestou-lhe uma cadeira de pau. Simão sentou-se, cruzou
    os braços, e meditou.

    Pouco depois, um criado de seu pae conduziu-lhe o almoço, dizendo-lhe
    que sua mãe lh'o mandava a occultas, e entregando-lhe uma carta d'ella,
    cujo conteúdo importa saber. Simão, antes de tocar no almoço, cujo cabaz
    estava-no pavimento, leu o seguinte:

    «Desgraçado, que estás perdido!

    Eu não te posso valer, porque teu pae está inexoravel. A occultas d'elle
    é que te mando o almoço, e não sei se poderei mandar-te o jantar!

    Que destino o teu! Oxalá que tivesses morrido ao nascer!

    Morto me disseram que tinhas nascido; mas o teu fatal destino não quiz
    largar a victima [3].

    Para que sahiste de Coimbra? a que vieste, infeliz? Agora sei que tens
    vivido fóra de Coimbra ha quinze dias, e nunca tiveste uma palavra que
    dissesses a tua mãe!…»

    Simão suspendeu a leitura, e disse entre si:

    –Como se intende isto?! Pois minha mãe não mandou chamar João da Cruz!
    E não foi ella quem me mandou o dinheiro?

    –Olhe que o almoço arrefece, menino!–disse o criado.

    Simão continuou a ler, sem ouvir o criado:

    «Deves estar sem dinheiro; e eu desgraçadamente não posso hoje enviar-te
    um pinto. Teu irmão Manoel, desde que fugiu para Hespanha, absorve-me
    todas as economias. Veremos, passado algum tempo, o que posso fazer; mas
    receio bem que teu pae saia de Vizeu, e nos leve para Villa Real, para
    abandonar de todo o teu julgamento á severidade das leis.

    Meu pobre Simão! Onde estarias tu escondido quinze dias?! Hoje mesmo é
    que teu pae teve carta d'um lente, participando-lhe a tua falta nas
    aulas, e sahida para o Porto, segundo dizia o arreeiro que te
    acompanhou.

    Não posso mais. Teu pae já espancou a Ritinha, por ella querer ir á
    cadêa.

    Conta com o pouco valor de tua pobre mãe ao pé d'um homem infurecido
    como está teu pae.»

    Simão Botelho reflectiu alguns minutos, e convenceu-se de que o dinheiro
    recebido era de João da Cruz. Quando sahiu com o espirito d'esta
    meditação, tinha os olhos marejados de lagrimas.

    –Não chore, menino;–disse o criado–os trabalhos são para os homens, e
    Deus ha de fazer tudo pelo melhor. Almoce, senhor Simão.

    –Leva o almoço–disse elle.

    –Pois não quer almoçar?!

    –Não. Nem voltes aqui. Eu não tenho familia. Não quero absolutamente
    nada da casa de meus paes. Diz a minha mãe que eu estou socegado, bem
    alojado, e feliz, e orgulhoso da minha sorte. Vai-te embora já.

    O criado sahiu, e disse ao carcereiro que o seu infeliz amo estava
    doudo. D. Rita achou provavel a suspeita do servo e viu a evidencia da
    loucura nas palavras do filho.

    Quando o o carcereiro voltou ao quarto de Simão, entrou acompanhado
    d'uma rapariga camponeza: era Marianna. A filha de João da Cruz que, até
    áquelle momento não apertava sequer a mão do hospede, correu a elle com
    os braços abertos, e o rosto banhado de lagrimas. O carcereiro
    retirou-se, dizendo comsigo: «Esta é bem mais bonita que a fidalga!»

    –Não quero ver lagrimas, Marianna–disse Simão–Aqui, se alguem deve
    chorar sou eu; mas lagrimas dignas de mim, lagrimas de gratidão aos
    favores que tenho recebido de si e de seu pae. Acabo de saber que minha
    mãe nunca me mandou dinheiro algum. Era de seu pae aquelle dinheiro, que
    recebi.

    Marianna escondeu o rosto no avental com que enxugava o pranto.

    –Seu pae teve algum perigo?–tornou Simão em voz só perceptivel d'ella.

    –Não, senhor.

    –Está em casa?

    –Está; e parece furioso. Queria vir aqui; mas eu não o deixei.

    –Perseguiu-o alguem?

    –Não, senhor.

    –Diga-lhe que não se assuste, e vá depressa socegal-o.

    –Eu não posso ir sem fazer o que elle me disse. Eu vou sahir, e volto
    d'aqui a pouco.

    –Mande-me comprar uma banca, uma cadeira, e um tinteiro e papel–disse
    Simão, dando-lhe dinheiro.

    –Ha de vir logo tudo; já cá podia estar; mas o pae disse-me que não
    comprasse nada sem saber se sua familia lhe mandava o necessario.

    –Eu não tenho familia, Marianna. Tome o dinheiro.

    –Não recebo dinheiro, sem licença de meu pae. Para essas compras trouxe
    eu de mais. E a sua ferida como estará?

    –Ainda agora me lembro que tenho uma ferida!–disse Simão,
    sorrindo–Deve estar boa, que não me dóe…. Soube alguma coisa da D.
    Thereza?

    –Soube que foi para o Porto. Estavam alli a contar que o pae a mandára
    metter sem sentidos na liteira, e está muito povo á porta do fidalgo.

    –Está bom, Marianna… Não ha desgraçado sem amparo. Vá, pense no seu
    hospede, seja o seu anjo de misericordia.

    Saltaram de novo as lagrimas dos olhos da moça; e por entre soluços,
    estas palavras:

    –Tenha paciencia. Não ha de morrer ao desamparo. Faça de conta que lhe
    appareceu hoje uma irmã.

    E, dizendo, tirou das amplas algibeiras um embrulho de biscoutos e uma
    garrafa de licor de canella, que depôz sobre a cadeira.

    –Mau almoço é; mas não achei outra coisa prompta–disse ella, e sahiu
    apressada, como para poupar ao infeliz palavras de gratidão.

    II.

    O corregedor, n'esse mesmo dia, ordenou que se preparassem mulher e
    filhas para no dia immediato sahirem de Vizeu, com tudo que podesse ser
    transportado em cavalgaduras.

    Vou transcrever a singela e dorida reminiscencia d'uma senhora d'aquella
    familia, como a tenho em carta, recebida ha mezes:

    «Já lá vão cincoenta e sete annos, e ainda me lembro, como se fossem
    hontem passados os tristes acontecimentos da minha mocidade. Não sei
    como é que tenho hoje mais clara a memoria das coisas da infancia.
    Parece-me que, há trinta annos, me não lembravam com tantas
    circumstancias e promenores.

    Quando a mãe disse a mim e a minhas irmãs que preparassemos os nossos
    bahus, rompemos todas n'um chôro, que irritou a ira do pae. As manas,
    como mais velhas ou mais affeitas ao castigo, calaram-se logo: eu,
    porém, que só uma vez e unicamente por causa de Simão, tinha sido
    castigada, continuei a chorar, e tive o innocente valor de pedir ao pae
    que me deixasse ir vêr o mano á cadêa antes de sahirmos de Vizeu.

    Então fui castigada pela segunda vez e asperamente.

    O criado, que levou o jantar á cadêa, voltou com elle e contou-nos que
    Simão já tinha alguns moveis no seu quarto, e estava jantando com
    exterior socegado. Áquella hora todos os sinos de Vizeu estavam dobrando
    a finados por alma de Balthazar.

    Ao pé d'elle, disse o criado que estava uma formosa rapariga da aldeia,
    triste e coberta de lagrimas. Apontando-a ao criado que a observava,
    disse Simão:–A minha família é esta.

    No dia seguinte, ao romper da manhã, partimos para Villa Real. A mãe
    chorava sempre; o pae, encolerisado por isso, sahiu da liteira em que
    vinha com ella, fez que eu passasse para o seu logar, e fez toda a
    jornada na minha cavalgadura.

    Logo que chegamos a Villa Real, eram tão frequentes as desordens em
    casa, á conta do Simão, que meu pae abandonou a familia, e foi sósinho
    para a quinta de Montezellos. A mãe quiz tambem abandonar-nos, e ir para
    os primos de Lisboa, a fim de solicitar o livramento do mano. Mas o pae,
    que fizera uma espantosa mudança de genio, quando tal soube, ameaçou
    minha mãe de a obrigar judicialmente a não sahir da casa de seu marido e
    filhas.

    Escrevia a mãe a Simão, e não recebia resposta. Pensava ella que o filho
    não respondia: annos depois vimos entre os papeis de meu pae todas as
    cartas que ella escrevêra. Ja se vê que o pae as fazia tirar no correio.

    Uma senhora de Vizeu escreveu á mãe, louvando-a pelo muito amor e
    caridade com que ella acudia ás necessidades de seu infeliz filho. Esta
    carta foi-lhe entregue por um almocreve, senão teria o destino das
    outras. Espantou-se minha mãe do conceito em que a tinha a sua amiga, e
    confessou lhe que não o tinha soccorrido, porque o filho rejeitára o
    pouco que ella quizera fazer em seu bem. A isto respondeu a senhora de
    Vizeu que uma rapariga, filha d'um ferrador, estava vivendo nas
    visinhanças da cadêa, e cuidava do prêso com abundancia e limpeza, e a
    todos dizia que ali estava por ordem e á custa da senhora D. Rita
    Preciosa. Accrescentava a amiga de minha mãe, que algumas vezes mandára
    chamar a bella moça e lhe quizera dar alguns cosinhados mais exquisitos
    para Simão, os quaes ella rejeitava, dizendo que o senhor Simão não
    aceitava nada.

    De tempos a tempos recebiamos estas novas, sempre tristes, porque, na
    ausencia de meu pae, conspiraram, como era de esperar, quasi todas as
    pessoas distinctas de Vizeu contra o meu desgraçado irmão.

    A mãe escrevia aos seus parentes da capital, implorando graça regia para
    o filho; mas aquellas cartas não sahiam do correio, e iam dar todas á
    mão de meu pae.

    E que fazia este, entretanto, na quinta, sem familia, sem gloria, nem
    recompensa alguma a tantas faltas? Rodeado de jornaleiros, cultivava
    aquelle grande montado, onde ainda hoje por entre os tojos e urzes que
    voltaram com o abandono, se podem vêr reliquias das cêpas plantadas por
    elle. A mãe escrevia-lhe lastimando o filho; meu pae apenas respondia
    que a justiça não era uma brincadeira, e que na antiguidade os proprios
    paes condemnavam os filhos criminosos.

    Teve minha mãe a affoiteza de se lhe apresentar um dia, pedindo licença
    para ir a Vizeu. Meu inexoravel pae negou-lh'a, e invectivou-a
    furiosamente.

    Passados sete mezes, soubemos que Simão tinha sido condemnado a morrer
    na forca, levantada no local onde fizera a morte. Fecharam-se as
    janellas por oito dias; vestimos todas de lucto, e minha mãe cahiu
    doente.

    Quando se isto soube em Villa Real, todas as pessoas illustres da terra
    foram a Montezellos, a fim de obrigarem brandamente o pae a empregar o
    seu valimento na salvação do filho condemnado. De Lisboa vieram alguns
    parentes protestar contra a infamia que tamanha ignominia faria recahir
    sobre a familia. Meu pae a todos respondia com estas palavras: «A forca
    não foi inventada somente para os que não sabem o nome do seu avô. A
    ignominia das familias são as más acções. A justiça não infama senão
    aquelle que castiga.»

    Tinhamos nós um tio-avô muito velho e venerando, chamado Antonio da
    Veiga. Foi este quem fez o milagre, e foi assim. Apresentou-se a meu pae
    e disse-lhe: Guardou-me Deus a vida até aos oitenta e tres annos.
    Poderei viver mais dous ou tres? Isto nem já é vida; mas foi-o, e
    honrada, e sem mancha até agora, e já agora ha de assim acabar; meus
    olhos não hão de vêr a deshonra de sua familia. Domingos Botelho, ou tu
    me promettes aqui de salvar teu filho da forca, ou eu na tua presença me
    mato.–E dizendo isto, apontava ao pescoço uma navalha de barba. Meu pae
    teve-lhe mão do braço, e disse que Simão não seria enforcado.

    No dia seguinte, foi meu pae para o Porto, onde tinha muitos amigos na
    Relação, e de lá para Lisboa[4].

    Em principio de Março de 1805 soube minha mãe com grande prazer que
    Simão fôra removido para as cadêas da Relação do Porto, vencendo os
    grandes obstaculos que oppozera a essa mudança dos queixosos, que eram
    Thadeu de Albuquerque, e as irmãs do morto.

    Depois……»

    Suspendemos aqui o extracto da carta, para não anticiparmos a narrativa
    de successos, que importa, em respeito á arte, atar no fio cortado.

    Simão Botelho vira imperturbavel chegar o dia do julgamento. Sentou-se
    no banco dos homicidas sem patrono, nem testemunhas de defeza. Ás
    perguntas respondeu com o mesmo animo frio d'aquellas respostas ao
    interrogatorio do juiz. Obrigado a explicar a causa do crime, deu-a com
    toda a lealdade sem articular o nome de Thereza Clementina de
    Albuquerque. Quando o advogado da accusação proferiu aquelle nome, Simão
    Botelho ergueu-se de golpe, e exclamou:

    –Que vem aqui fazer o nome de uma senhora a este antro de infamia e
    sangue? Que miseravel accusador está ahi, que não sabe com a confissão
    do réo provar a necessidade do carrasco sem enlamear a reputação d'uma
    mulher? A minha accusação está feita: eu a fiz: agora a lei que falle, e
    cale-se o villão que não sabe accusar sem infamar.

    O juiz impôz-lhe silencio. Simão sentou-se, murmurando:

    –Miseraveis todos!

    Ouviu o réo a sentença de morte natural para sempre na forca arvorada no
    local do delicto. E ao mesmo tempo sahiram d'entre a multidão uns gritos
    dilacerantes. Simão voltou a face para as turbas, e disse:

    –Ides ter um bello espectaculo, senhores! A forca é a unica festa do
    povo! Levai d'ahi essa pobre mulher que chora: essa é a creatura unica
    para quem o meu supplicio não será um passatempo.

    Marianna foi transportada em braços á sua casinha, na visinhança da
    cadêa. Os robustos braços que a levaram eram os de seu pae.

    Simão Botelho, quando, em toda a agilidade e força dos dezoito annos, ia
    do tribunal ao carcere, ouviu algumas vozes que se alternavam d'este
    modo:

    –Quando vai elle a padecer?

    –É bem feito! vai pagar pelos innocentes que o pae mandou enforcar.

    –Queria apanhar a morgada á força de balas!

    –Não que estes fidalgos cuidam que não é mais senão matar!…

    –Matasse elle um pobre, e tu verias como elle estava em casa!

    –Tambem é verdade!

    –E como elle vai de cara no ar!

    –Deixa ir, que não tarda quem lh'a faça cahir ao chão!…

    –Dizem que o carrasco já vem pelo caminho.

    –Já chegou de noite, e trazia dous cutélos n'uma coifa.

    –Tu viste-o?

    –Não; mas disse a minha comadre que lh'o dissera a visinha do cunhado
    da irmã, e que o carrasco está escondido n'uma enxovia.

    –Tu has de levar os teus pequenos a vêr o padecente?

    –Podéra não! Estes exemplos não se devem perder.

    –Eu cá de mim já vi enforcar tres, que me lembre, todos por matadores.

    –Por isso tu ha dois annos não atiraste com a vida do Amaro Lampreia a
    casa do diabo!…

    –Assim foi; mas, se eu o não matasse, matava-me elle.

    –Então de que voga o exemplo?!

    –Eu sei cá de que voga? O frei Anselmo dos franciscanos é que préga aos
    paes que levem os filhos a vêrem os enforcados.

    –Isso ha de ser para o não esfolarem a elle, quando elle nos esfola com
    os peditorios.

    Tão desassombrado ia o espirito de Simão, que algumas vezes lhe esvoaçou
    nos labios ura sorriso, desafiado pela philosophia do povo, ácerca da
    forca.

    Recolhido ao seu quarto, foi intimado para appellar dentro do prazo
    legal. Respondeu que não appellava, que estava contente da sua sorte, e
    de boas avenças com a justiça.

    Perguntou por Marianna, e o carcereiro lhe disse que a mandava chamar.
    Veio João da Cruz, e a chorar se lastimou de perder a filha, porque a
    via delirante a fallar em forca, e a pedir que a matassem primeiro.
    Agudissima foi então a dôr do academico ao comprehender, como se
    instantaneamente lhe fulgurasse a verdade, que Marianna o amava até
    morrer. Por momentos se lhe esvaiu do coração a imagem de Thereza, se é
    possivel assim pensal-o. Vêl-a-ia por ventura como um anjo redemido em
    serena contemplação do seu creador; e veria Marianna como o symbolo da
    tortura, morrendo a pedaços, sem instantes de amor remunerado que lhe
    dessem a gloria do martyrio. Uma, morrendo amada; outra, agonisando, sem
    ter ouvido a palavra «amor» dos labios que escassamente balbuciavam
    frias palavras de gratidão.

    E chorou então aquelle homem de ferro. Chorou lagrimas que valiam bem as
    amarguras de Marianna.

    –Cuide de sua filha, senhor Cruz!–disse Simão com fervente supplica ao
    ferrador.–Deixe-me a mim, que estou vigoroso e bom. Vá consolar essa
    creatura, que nasceu debaixo da minha má estrella. Tire-a de Vizeu:
    leve-a para sua casa. Salve-a, para que n'este mundo fiquem duas irmãs
    que me chorem. Os favores que me tem feito, já agora dispensa-os a
    brevidade da minha vida. D'aqui a dias mandam-me recolher ao oratorio:
    bom será que sua filha ignore.

    De volta, João da Cruz achou a filha prostrada no pavimento, ferida no
    rosto, chorando e rindo, demente em summa. Levou-a amarrada para sua
    casa, e deixou a cargo d'outra pessoa a sustentação do condemnado.

    Terribilissimas foram então as horas solitarias do infeliz. Até áquelle
    dia, Marianna, bem quista do carcereiro e protegida pela amiga de D.
    Rita Preciosa, tinha franca entrada no carcere a toda a hora do dia, e
    raras horas deixava sósinho o prêso. Costurava, em quanto elle escrevia,
    ou cuidava do amanho e limpeza do quarto. Se Simão estava no leito
    doente ou prostrado, Marianna, que tivera alguns principios de escripta,
    sentava-se á banca, e escrevia cem vezes o nome _Simão_, que muitas
    vezes as lagrimas diliam. E isto assim, durante sete mezes, sem nunca
    proferir nem ouvir a palavra amor. Isto assim, depois das vigilias
    nocturnas, ora em preces, ora em trabalho, ora no caminho de sua casa,
    onde ia visitar o pae a deshoras.

    Nunca mais o prêso, na perspectiva da forca, viu entrar aquella doce
    creatura o limiar da ferrada porta, que lhe graduava o ar medido e
    calculado para que as honras da asphyxia as gozasse o cordel do
    patibulo. Nunca mais!

    E, quando elle avocava a imagem de Thereza, um capricho dos olhos
    quebrantados lhe affigurava a visão de Marianna ao par da outra. E
    lagrimosas via as duas. Saltava então do leito, fincava os dedos nos
    espêssos ferros da janella, e pensava em partir o craneo contra as
    grades.

    Não o sostinha a esperança na terra nem no ceu. Raio de luz divina
    jámais penetrou no seu ergastulo. O anjo da piedade incarnára n'aquella
    creatura celestial, que enlouquecêra, ou voltara para o ceu com o
    espirito d'ella. O que o salvava do suicidio não era, pois, esperança em
    Deus, nem nos homens: era este pensamento: «A final, _covarde_! Que
    bravura é morrer quando não ha esperança de vida!? A forca é um
    triumpho, quando se encontra ao cabo do caminho da honra!»

    III.

    E Thereza?

    Perguntam a tempo, minhas senhoras, e não me hei de queixar se me
    arguirem de a ter esquecido e sacrificado a incidentes de menos porte.

    Esquecido, não. Muito ha que me reluz e voeja, alada como o ideal
    cherubim dos santos, n'esta minha quasi escuridade[5], aquella ave do
    ceu, como a pedir-me que lhe cubra de flores o rastilho de sangue que
    ella deixou na terra. Mais lagrimas que sangue deixaste, ó filha da
    amargura! Flores são tuas lagrimas, e do ceu me diz se os perfumes
    d'ellas não valem mais aos pés do teu Deus que as preces de muita
    devota, que morre canonisada, e cujo cheiro de santidade não passa do
    olfacto hypocrita ou estupido dos mortaes.

    Thereza Clementina bem a viram transportada da escadaria do templo, onde
    cabira, á liteira que a conduziu ao Porto. Recobrando o alento, viu
    defronte de si uma criada, que lhe dizia banaes e frias expressões de
    allivio. Se alguma criada de seu pae lhe era amiga, de certo não
    aquella, acintemente escolhida pelo velho. Nem ao menos a confiança para
    a expansão em gritos restava á affligida menina.

    Perguntava-se a si mesma Thereza se aquella horrorosa situação, seria um
    sonho! Sentia-se de novo fallecer de forças, e voltava á vida, sacudida
    pela consciencia da sua desgraça. Condoeu-se a criada, e incitou-a a
    respirar, chorando com ella, e dizendo-lhe:

    –Póde fallar, menina, que ninguem nos segue.

    –Ninguem?!

    –As suas primas ficaram: apenas vem os dois lacaios.

    –E meu pae não?

    –Não, fidalga… Póde chorar e fallar á sua vontade.

    –E eu vou para o Porto?

    –Vamos, sim, minha senhora.

    –E tu viste tudo como foi, Constança?

    –Desgraçadamente vi….

    –Como foi? conta-me tudo.

    –A menina bem sabe que seu primo morreu.

    –Morreu?! Vi-o cahir quasi aos meus pés; mas….

    –Morreu logo, e depois quizeram os criados, á voz de seu pae, prender o
    senhor Simão; mas elle com outra pistola….

    –E fugiu?–atalhou Thereza com vehemencia e alegria.

    –A final foi elle que se deu á prisão.

    –Está prêso?!

    E suffocada pelos soluços, com o rosto no lenço, não ouvia as palavras
    confortadoras de Constança.

    Serenado algum tanto o violento accesso de gemidos e choro, Thereza
    suggeriu á criada o louco plano de a deixar fugir da primeira estalagem
    onde pousassem, para ella ir a Vizeu dar o ultimo adeus a Simão.

    A criada a custo a despersuadiu do intento, pintando-lhe os novos
    perigos que ia accumular á desgraça do seu amante, e animando-a com a
    esperança de livrar-se Simão do crime, com a influencia do pae, apesar
    da perseguição do fidalgo.

    Calaram lentamente estas razões no espirito de Thereza, apesar dos
    estorvos do coração.

    Chorosa, doente, a revezes desfallecida, foi Thereza vencendo a
    distancia que a separava de Monchique, onde chegou ao quinto dia de
    jornada.

    A prelada já estava sabedora dos successos, por emissarios que se
    adiantaram ao moroso caminhar da liteira.

    Foi Thereza recebida com brandura por sua tia, posto que as
    recommendações de Thadeu de Albuquerque eram clausura rigorosa, e
    absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse.

    Ouviu a prelada da bôca de sua sobrinha a fiel historia dos
    acontecimentos, e mostrou-lhe uma a uma as cartas de Simão Botelho.
    Choraram abraçadas; mas a prelada, enxugadas as lagrimas de mulher ao
    fogo da austeridade religiosa, fallou e aconselhou como freira, e freira
    que ciliciava o corpo com as rozetas, e o coração com as privações
    tormentosas de quarenta annos.

    Thereza carecia de forças para a rebellião. Deixou a sua tia a santa
    vaidade de exorcismar o demonio das paixões, e deu um sorriso ao anjo da
    morte, que, de permeio ao seu amor e á esperança, lhe interpunha a aza
    negra, que tão de luz refulgente rebrilha ás vezes em corações
    infelizes.

    Quiz Thereza escrever.

    –A quem, minha filha?–perguntou a prelada.

    Não respondeu Thereza.

    –Escrever-lhe para que?–tornou a religiosa–Cuidas tu, menina, que as
    tuas cartas lhe chegam á mão? Que vaes tu fazer senão redobrar a ira de
    teu pae contra ti e contra o infeliz prêso! Se o amas, como creio,
    apesar de tudo, cuida em salval-o. Se não ouves a minha razão, finge-te
    esquecida. Se pódes violentar a tua dôr, dissimula, faz muito por que a
    teu pae chegue a noticia de que lhe serás obediente em tudo, se elle
    tiver piedade do teu pobre amigo.

    Não recalcitrou Thereza. Deu outro sorriso ao anjo da morte, e pediu-lhe
    que a envolvesse a ella, e ao seu amor, e á sua esperança, de todo, na
    negrura de suas azas.

    De mez a mez recebia a abbadessa de Monchique uma carta de seu primo.
    Eram estas cartas um respiradouro da vingança. Em todas dizia o velho
    que o assassino iria ao patibulo irremediavelmente. A sobrinha não via
    as cartas; mas reparava nas lagrimas da compassiva freira.

    A debil compleição de Thereza deprecia acceleradamente. A sciencia
    condemnou-a a morte breve. D'isto foi informado Thadeu de Albuquerque, e
    respondeu: «Que a não desejava morta; mas, se Deus a levasse, morreria
    mais tranquillo, e com a sua honra sem mancha.» Era assim immaculada a
    honra do fidalgo de Vizeu!… a HONRA, que dizem proceder em linha recta
    da virtude de Socrates, da virtude de Jesus Christo, e da virtude de
    milhões de martyres, que se deram ás garras das feras, quando predicavam
    a caridade e o perdão aos homens!

    Quantas caricias inventou a sympathia e a piedade, todos, por ministerio
    das religiosas exemplares de Monchique, aporfiaram em refrigerar o
    ardor, que consumia rapidamente a reclusa. Inutil tudo. Thereza
    reconhecia com lagrimas a compaixão, e ao mesmo tempo alegrava-se,
    tirando das caricias a certeza de que os médicos a julgavam incuravel.

    Alguma freira inadvertida lhe disse um dia que uma sua amiga do convento
    dos Remedios de Lamego lhe dissera que Simão tinha sido condemnado á
    morte.

    Thereza estremeceu e murmurou, sem forças já para a exclamação:

    –E eu vivo ainda!

    Depois orou, e chorou; mas os habitos da sua vida em paroxismos
    continuaram inalteraveis.

    Perguntou á senhora, que lhe dera a noticia, se a sua amiga do convento
    dos Remedios lhe faria a esmola de fazer chegar ás mãos de Simão uma
    carta. Promptificou-se a freira, depois que ouviu o parecer da prelada.
    Entendeu esta religiosa que o derradeiro colloquio entre dous moribundos
    não podia damnifical-os na vida temporal nem na vida eterna.

    Esta é a carta, que leu Simão, quinze dias depois do seu julgamento:

    «Simão, meu esposo. Sei tudo… Está comnosco a morte. Olha que te
    escrevo sem lagrimas. A minha agonia começou ha sete mezes. Deus é bom,
    que me poupou ao crime. Ouvi a noticia da tua proxima morte, e então
    soube por que estou morrendo hora a hora. Aqui está o nosso fim,
    Simão!.. Olha as nossas esperanças! Quando tu me dizias os teus sonhos
    de felicidade, e eu te dizia os meus!… Que mal fariam a Deus os nossos
    innocentes desejos!… Porque não merecemos nós o que tanta gente
    tem!… Assim acabaria tudo, Simão? Não posso crêl-o! A eternidade
    apresenta-se-me tenebrosa, porque a esperança era a luz, que me guiava
    de ti para a fé. Mas não póde findar assim o nosso destino. Vê se podes
    segurar o ultimo fio da tua vida a uma esperança qualquer. Ver-nos-hemos
    n'um outro mundo, Simão? Terei eu merecido a Deus contemplar-te? Eu
    rezo, supplíco; mas desfalleço na fé, quando me lembram as ultimas
    agonias do teu martyrio. As minhas são suaves, quasi que as não sinto.
    Não deve custar a morte a quem tiver o coração tranquillo. O peor é a
    saudade, saudade d'aquellas esperanças que tu achavas no meu coração
    adivinhando as tuas. Não importa, se nada ha além d'esta vida. Ao menos,
    morrer é esquecer. Se tu podesses viver agora, de que te serviria? Eu
    tambem estou condemnada, e sem remedio. Segue-me, Simão! não tenhas
    saudades da vida, não tenhas, ainda que a razão te diga que podias ser
    feliz se me não tivesses encontrado no caminho por onde te levei á
    morte… E que morte, meu Deus!… Aceita-a! não te arrependas. Se houve
    crime, a justiça de Deus te perdoará pelas angustias que tens de soffrer
    no carcere… e nos ultimos dias, e na presença da…»

    Thereza ia escrever uma palavra, quando a penna lhe cahiu da mão, e uma
    convulsão lhe vibrou todo o corpo por largo espaço. Não escreveu a
    palavra; mas a ideia de _forca_ parou-lhe a vida. A freira entrou na
    cella a pedir-lhe a carta, porque o correio ia partir. Thereza,
    indicando-lh'a, disse:

    –Leia, se quizer, e feche-a, por caridade, que eu não posso.

    Nos tres dias seguintes Thereza não sahiu do leito. A cada hora, as
    religiosas assistentes esperavam que ella fechasse os olhos.

    –Custa muito morrer!–dizia algumas vezes a enferma.

    Não faltavam piedosos discursos a divertirem-lhe o espírito do mundo.

    Thereza ouvia-os, e dizia com ancia:

    –Mas a esperança do ceu, sem elle!… que é o ceu, meu Deus?

    E o apostolico capellão do mosteiro não sabia dizer se os bens do ceu
    tinham commum com os do mundo as delicias que falsamente na terra se
    chamam assim.

    Aquellas subtilezas espirituaes, que vem com algumas especies de tisica,
    assim á maneira dos ultimos lampejos da vital flamma, tinha-as a
    enferma, quando acontecia fallarem-lhe as religiosas na bemaventurança.
    Ás vezes, se o capellão, convidado pela lucidez de Thereza, entrava os
    dominios da philosophia, tratando como problema a immortalidade da alma,
    a inculta senhora argumentava em breves termos, mas com razões tão
    claras a favor da união eterna das almas, já d'este mundo esposas, que o
    padre ficava em duvida se seria heretico contestar uma clausula não
    inscripta em algum dos quatro evangelhos.

    Maravilhava-se já a medicina da pertinacia d'aquella vida. Tinha a
    abbadessa escripto a seu primo Thadeu, apressurando-o a ir vêr o anjo ao
    despedir-se da terra. O velho, tocado de piedade, e por ventura de amor
    paternal, deliberou tirar do convento a filha na esperança de salval-a
    ainda. Uma forte razão accrescia áquella: era a mudança do condemnado
    para os carceres do Porto. Deu-se pressa, pois, o fidalgo, e chegou ao
    Porto a tempo que a religiosa, amiga da outra de Lamego, entregava á
    doente esta carta de Simão:

    «Não me fujas ainda, Thereza. Já não vejo a forca, nem a morte. Meu pae
    protege-me, e a salvação é possivel. Prende ao coração os ultimos fios
    da tua vida. Prolonga a tua agonia, em quanto eu te disser que espero.
    Ámanhã vou para as cadêas do Porto, e hei de ali esperar a absolvição ou
    commutação da sentença. A vida é tudo. Posso amar-te no degredo. Em toda
    a parte ha ceu, e flores, e Deus. Se viveres, um dia serás livre; a
    pedra do sepulcro é que nunca se levanta. Vive, Thereza, vive! Ha dias
    lembrava-me que as tuas lagrimas lavariam da minha face as nódoas do
    sangue do enforcado. Esse pesadêlo atroz passou. Agora, n'este inferno
    respira-se; o esparto do carrasco já me não aperta em sonhos a garganta.
    Já fito os olhos no ceu, e reconheço a providencia dos infelizes. Hontem
    vi as nossas estrellas, aquellas dos nossos segredos nas noites da
    ausencia. Volvi á vida, e tenho o coração cheio de esperanças. Não
    morras, filha da minha alma!»

    Ia alta a noite, quando Thereza, sentada no seu leito, leu esta carta.
    Chamou a criada para ajudal-a a vestir. Mandou abrir a janella do seu
    quarto, e encostou a face ás rexas de ferro. Esta janella olhava para o
    mar; e o mar era n'essa noite uma immensa flamma de prata; e a lua
    esplendidissima eclipsava o fulgor d'umas estrellas, que Thereza
    procurava no ceu.

    –São aquellas!–exclamou ella.

    –Aquellas quê, minha senhora?–disse Constança.

    –As minhas estrellas!… pallidas como eu… A vida! ai! a
    vida!–clamou ella, erguendo-se, e passando pela fronte as mãos
    cadavericas–Quero viver! Deixai-me viver, ó Senhor!

    –Ha de viver, menina! ha de viver, que Deus é piedoso!–disse a
    criada–mas não tome o ar da noite. Este nevoeiro do rio faz-lhe grande
    mal.

    –Deixa-me, deixa-me, que tudo isto é viver… Não vejo o ceu ha tanto
    tempo! Sinto-me resuscitar aqui, Constança! Porque não tenho eu
    respirado todas as noites este ar?! Eu poderei viver alguns annos?
    poderei, minha Constança? Pede tu, pede muito á minha Virgem Santissima!
    Vamos orar ambas!… Vamos, que o Simão não morre… O meu Simão vive e
    quer que eu viva. Está no Porto amanhã; e talvez já esteja…

    –Quem, minha senhora?!

    –Simão, o Simão vem para o Porto.

    A criada julgou que sua ama delirava; mas não a contrariou.

    –Teve carta d'elle a fidalga?–tornou ella, cuidando que assim lhe
    alimentava aquelle instante de febril contentamento.

    –Tive… queres ouvir?… eu leio…

    E leu a carta, com grande pasmo de Constança, que se convenceu.

    Agora vamos rezar, sim?… Tu não és inimiga d'elle, não? Olha,
    Constança, se eu casar com elle, tu vaes para a nossa companhia. Verás
    como és feliz. Queres ir, não queres?

    –Sim, minha senhora, vou; mas elle conseguirá livrar-se da morte?

    –Livra; tu verás que livra; o pae d'elle ha de livral-o… e a Virgem
    Santissima é que nos ha de unir. Mas se eu morro… se eu morro, meu
    Deus!

    E com as mãos convuísamente enlaçadas sobre o seio, Thereza archejava em
    pranto.

    –Se eu não tenho já forças!… todos dizem que eu morro, e o medico já
    nem me receita!… Então melhor me fôra ter acabado antes d'esta hora!
    Morrer com esperanças, ó mãe de Deus!…

    E ajoelhou ante o retabulo devoto, que trouxera do seu quarto de Vizeu,
    ao qual sua mãe e avó já tinham orado, e em cujo rosto compassivo os
    olhos das duas senhoras moribundas tinham fixado os seus ultimos raios
    de luz.

    IV.

    Annunciára-se Thadeu de Albuquerque na portaria de Monchique, ao dia
    seguinte dos anteriores successos.

    Sua prima, primeira senhora que lhe sahiu ao locutorio, vinha enxugando
    lagrimas de alegria.

    –Não cuide que eu choro de afflicta, meu primo–disse ella–O nosso
    anjo, se Deus quizer, pode salvar-se. Logo de manhã a vi a passear por
    seu pé nos dormitorios. Que differença de semblante ella tem hoje! Isto,
    meu primo, é milagre de duas santas, que temos inteiras na claustra, e
    com as quaes algumas perfeitas creaturas d'esta casa se apegaram. Se as
    melhoras continuarem assim, temos Thereza; o ceu consente que esteja
    entre nós aquelle anjo mais alguns annos…

    –Muito folgo com o que me diz, minha boa prima–atalhou o fidalgo–A
    minha resolução é leval-a já para Vizeu, e lá se restabelecerá com os
    ares patrios, que são muito mais sadios que os do Porto.

    –É ainda cêdo para tão longa e custosa jornada, meu primo. Não vá o
    senhor cuidar que ella está capaz de se metter ao caminho. Lembre-se que
    ainda hontem pensamos em encontral-a hoje morta. Deixe-a estar mais
    alguns mezes; e depois não digo que a não leve; mas por em quanto não
    consinto semelhante imprudencia.

    –Maior imprudencia–replicou o velho–é conserval-a no Porto, onde a
    estas horas deve estar o malvado matador de meu sobrinho. Talvez não
    saiba a prima?… Pois é verdade: o patife do corregedor sahiu a campo
    em defeza d'elle, e conseguiu que o tribunal da Relação lhe aceitasse a
    appellação da sentença, passado o prazo da lei; e, não contente com
    isto, fez que o filho fosse removido para as cadêas do Porto. Eu agora
    trabalho para que a sentença seja confirmada, e espero conseguil-o; mas,
    em quanto o assassino aqui estiver, não quero que minha filha esteja no
    Porto.

    –O primo é pae, e eu sou apenas uma parenta—disse a
    abbadessa–cumpra-se a sua vontade. Quer vêr a menina, não é assim?

    –Quero, se é possível.

    –Pois bem, em quanto eu vou chamal-a, queira entrar na primeira grade á
    sua mão direita, que Thereza lá vai ter.

    Avisada Thereza de que seu pae a esperava, instantaneamente a côr sadia,
    que alegrava as senhoras religiosas, se demudou na lividez costumada.
    Quiz a tia, vendo-a assim, que ella não sahisse do seu quarto, e
    encarregava-se de espaçar a visita do pae.

    –Tem de ser–disse Thereza–Eu vou, minha tia.

    O pae, ao vêl-a, estremeceu e enfiou. Esperava mudança, mas não tamanha.
    Pensou que a não conheceria, sem o prevenirem de que ia vêr sua filha.

    –Como eu te encontro, Thereza!–exclamou elle commovido–Por que me não
    disseste ha mais tempo o teu estado?

    Thereza sorriu-se, e disse:

    –Eu não estou tão mal como as minhas amigas imaginam.

    –Terás tu forças para ir comigo para Vizeu?

    –Não, meu pae; não tenho mesmo forças para lhe dizer em poucas palavras
    que não torno a Vizeu.

    –Porque não?! Se a tua saude depender d'isso!…

    –A minha saude depende do contrario. Aqui viverei ou morrerei.

    –Não é tanto assim, Thereza–replicou Thadeu com simulada brandura–Se
    eu entender que estes ares são nocivos á tua saude, has de ir, porque é
    obrigação minha conduzir e corrigir a tua má sina.

    –Está corrigida, meu pae. A morte emenda todos os erros da vida.

    –Bem sei: mas eu quero-te viva, e portanto recobra forças para o
    caminho. Logo que tiveres meio dia de jornada, verás como a saude volta
    como por milagre.

    –Não vou, meu pae.

    –Não vaes?!–exclamou irritado o velho, lançando ás grades as mãos
    trementes de ira.

    –Separam-nos esses ferros a que meu pae se encosta, e para sempre nos
    separam.

    –E as leis? cuidas tu que eu não tenho direitos legitimos para te
    obrigar a sahir do convento? Não sabes que tens apenas dezoito annos?

    –Sei que tenho dezoito annos; as leis não sei quaes são, nem me
    incommoda a minha ignorancia. Se póde ser que mão violenta venha
    arrancar-me d'aqui, convença-se meu pae de que essa mão ha de encontrar
    um cadaver. Depois o que quizerem de mim. Em quanto, porém, eu podér
    dizer que não vou, juro-lhe que não vou, meu pae.

    –Sei o que é!–bramiu o velho–Já sabes que o assassino está no Porto?

    –Sei, sim, senhor.

    –Ainda o dizes sem vergonha, nem horror de ti mesma! Ainda…

    –Meu pae–interrompeu Thereza–não posso continuar a ouvil-o, porque me
    sinto mal. Dê-me licença… e vingue-se como podér. A minha gloria
    n'este longo martyrio seria uma forca levantada a par da do assassino.

    Thereza sahiu da grade, deu alguns passos na direcção da sua cella, e
    encostou-se esvaída á parede. Correram a amparal-a sua tia e criada; mas
    ella, afastando-as suavemente de si, murmurou:

    –Não é preciso… Estou boa… Estes golpes dão vida, minha tia.

    E caminhou sósinha a passos vacillantes.

    Thadeu batia á porta do mosteiro com irrisorio enfurecimento pancadas,
    umas após outras, com grande mêdo da porteira e outras madres,
    espantadas do insolito desproposito.

    –Que é isso, primo?–disse a prelada com severidade.

    –Quero cá fóra Thereza.

    –Como fóra? Quem ha de lançal-a fóra?!

    –A senhora, que não póde aqui reter uma filha contra a vontade de seu
    pae.

    –Isso assim é; mas tenha prudencia, primo.

    –Não ha prudencia, nem meia prudencia. Quero minha filha cá fóra.

    –Pois ella não quer ir?

    –Não, senhora.

    –Então espere que por bons modos a convençamos a sahir, porque não
    havemos trazer-lh'a a rastos.

    –Eu vou buscal-a, sendo preciso–redarguiu em crescente
    furia.–Abram-me estas portas, que eu a trarei!

    –Estas portas não se abrem assim, meu primo, sem licença superior. A
    Regra do mosteiro não póde ser quebrantada para servir uma paixão
    rancorosa. Tranquillise-se, senhor! Vá descançar d'esse frenesi, e venha
    n'outra hora combinar comigo o que fôr digno de todos nós.

    –Tenho entendido!–exclamou o velho, gesticulando contra o ralo do
    locutorio–Conspiram todas contra mim! Ora descancem, que eu lhes darei
    uma boa lição. Fique a senhora abbadessa sabendo que eu não quero que
    minha filha receba mais cartas do matador, percebeu?

    –Eu creio que Thereza nunca recebeu cartas de matadores, nem supponho
    que as receba d'ora em diante.

    –Não sei se sabe, nem senão. Eu vigiarei o convento. A criada, que está
    com ella, ponham-na fóra, percebeu?

    –Porquê?–redarguiu a prelada com enfado.

    –Porque a encarreguei de me avisar de tudo, e ella nada me tem contado.

    –Se não tinha que lhe dizer, senhor!

    –Não me conte historias, prima! A criada quero vêl-a sahir do convento,
    e já!

    –Eu não lhe posso fazer a vontade, porque não faço injustiças. Se v.
    s.^a quizer que sua filha tenha outra criada, mande-lh'a; mas a que ella
    tem, logo que deixe de a servir, ha muitas senhoras n'esta casa que a
    desejam, e ella mesma deseja aqui ficar.

    –Tenho entendido!—bradou elle–querem-me matar! Pois não matam;
    primeiro ha de o diabo dar um estoiro!

    Thadeu de Albuquerque sahiu em corcovos do atrio do mosteiro. Era
    hedionda aquella raiva que lhe contrahia as faces incorreadas, revendo
    suor e sangue aos olhos acovados.

    Apresentou-se ao intendente da policia, pedindo providencias para que se
    lhe entregasse sua filha. O intendente respondeu que não solicitava
    competentemente taes providencias. Instou para que o carcereiro da cadêa
    não deixasse sahir alguma carta de um assassino, vindo da comarca de
    Vizeu, por nome Simão Botelho. O intendente disse que não podia, sem
    motivos concernentes a devassas, obstar a que o prêso escrevesse a quem
    quer que fosse.

    Reduplicada a furia, foi d'ali ao corregedor do Porto, com os mesmos
    requerimentos em tom arrogante. O corregedor, particular amigo de
    Domingos Botelho, despediu com enfado o importuno, dizendo-lhe que a
    velhice sem juizo era coisa tão de riso como de lastima. Esteve então a
    pique de perder-se a cabeça de Thadeu de Albuquerque. Andava e desandava
    as ruas do Porto, sem atinar com uma sahida digna da sua prosapia e
    vingança. No dia seguinte bateu á porta d'alguns desembargadores, e
    achava-os mais inclinados á clemencia, que á justiça, a respeito de
    Simão Botelho. Um d'elles, amigo de infancia de D. Rita Preciosa, e
    implorado por ella, fallou assim ao sanhudo fidalgo:

    –Em pouco está o ser homicida, senhor Albuquerque. Quantas mortes teria
    v. s.^a hoje feito, se alguns adversarios se oppozessem á sua cólera?
    Esse infeliz moço, contra quem o senhor solicita desvariadas violencias,
    conserva a honra na altura da sua immensa desgraça. Abandonou-o o pae,
    deixando-o condemnar á forca; e elle da sua extrema degradação nunca fez
    sahir um grito supplicante de misericordia. Um estranho lhe esmolou a
    subsistencia de oito mezes de carcere, e elle aceitou a esmola, que era
    honra para si e para quem lh'a dava. Hoje fui eu vêr esse desgraçado
    filho de uma senhora que conheci no paço, sentada ao lado dos reis.
    Achei-o vestido de baetão e panno pedrez. Perguntei-lhe se assim estava
    desprovido de fato. Respondeu-me que se vestira á proporção dos seus
    meios, e que devia á caridade d'um ferrador aquellas calças e jaqueta.
    Repliquei-lhe eu que escrevesse a seu pae para o vestir decentemente.
    Disse-me que não pedia nada a quem consentiu que os delictos de seu
    coração e da sua dignidade e do pundonor do seu nome fossem expiados
    n'um patibulo. Ha grandeza n'este homem de dezoito annos, senhor
    Albuquerque. Se v. s.^a tivesse consentido que sua filha amasse Simão
    Botelho Castello-Branco, teria poupado a vida ao homem sem honra que se
    lhe atravessou com insultos e offensas corporaes de tal affronta, que
    deshonrado ficaria Simão se as não repellisse como homem de alma e
    brios. Se v. s.^a se não tivesse opposto ás honestissimas e innocentes
    affeições de sua filha, a justiça não teria mandado arvorar uma forca,
    nem a vida de seu sobrinho teria sido immolada aos seus caprichos de mau
    pae. E se sua filha casasse com o filho do corregedor de Vizeu, pensa
    acaso v. s.^a que os seus brasões soffriam desdouro? Não sei de que
    seculo data a nobreza do senhor Thadeu de Albuquerque; mas do brasão de
    D. Rita Thereza Margarida Preciosa Caldeirão Castello-Branco posso
    dar-lhe informações sobre as paginas das mais veridicas e illustres
    genealogias do reino. Por parte de seu pae, Simão Botelho tem do melhor
    sangue de Traz-os-Montes, e não se temerá de entrar em competencias com
    o dos Albuquerques de Vizeu, que não é de certo o dos _Albuquerques
    terriveis_ de que resa Luiz de Camões…

    Offendido até ao amago pela derradeira ironia, Thadeu ergueu-se de
    impeto, tomou o chapéo e a enorme bengala de castão d'ouro, e fez a
    cortezia da despedida.

    –São amargas as verdades, não é assim?–disse-lhe, sorrindo, o
    desembargador Mourão Mosqueira.

    –V. ex.^a lá sabe o que diz, e eu cá sei no que hei de ficar–respondeu
    com tom ironico o fidalgo, alanceado na sua honra, e na dos seus quinze
    avós.

    O desembargador retorquiu:

    –Fique no que quizer; mas vá na certeza, se isso lhe serve d'alguma
    coisa, que Simão Botelho não vai á forca.

    –Veremos…–resmoneou o velho.

    V.

    São treze dias corridos do mez de Março de 1805.

    Está Simão n'um quarto de malta das cadêas da Relação. Um catre de
    táboas, um colchão de embarque, uma banca e cadeira de pinho, e um
    pequeno pacote de roupa, collocado no logar do travesseiro, são a sua
    mobilia. Sobre a mesa tem um caixote de pau preto, que contém as cartas
    de Thereza, ramilhetes sêccos, os seus manuscriptos do carcere de Vizeu,
    e um avental de Marianna, o ultimo com que ella enxugára lagrimas, e
    arrancára de si no primeiro instante de demencia.

    Simão relê as cartas de Thereza, abre os envoltorios de papel que
    encerram as flôres resequidas, contempla o avental de linho, procurando
    os visiveis vestigios das lagrimas. Depois encosta a face e o peito aos
    ferros da sua janella, e avista os horisontes boleados pelas serras de
    Vallongo e Gralheira, e cortados pelas ribas pittorescas de Gaya, do
    Candal, de Oliveira, e do mosteiro da serra do Pilar. É um dia lindo.
    Reflectem-se do azul do ceu os mil matizes da primavera. Tem aromas o
    ar, e a viração, fugitiva dos jardins, derrama no ether as urnas que
    roubou aos canteiros. Aquella indefinida alegria, que parece reluzir nas
    legiões de espiritos, que se geram ao sol de Março, rejubila a natureza,
    que toda pompas de luz e flôres se está namorando do calor que a vai
    fecundando.

    Dia de amor e de esperanças era aquelle que o Senhor mandava á choça
    encravada na garganta da serra, ao palacio esplendoroso que reverberava
    ao sol os seus espiraculos, ao opulento que passeava as suas molles
    equipagens, bafejado pelo respiro acre das çarças, e ao mendigo que
    desentorpecia os membros encostado ás columnas dos templos.

    E Simão Botelho, fugindo a claridade da luz, e o voejar das aves,
    meditando, chorava e escrevia assim as suas meditações:

    «O pão do trabalho de cada dia, e o teu seio para repousar uma hora a
    face, pura de manchas. Não pedi mais ao ceu.

    Achei-me homem aos dezeseis annos. Vi a virtude á luz do teu amor.
    Cuidei que era santa a paixão que absorvia todas as outras, ou as
    depurava com o seu fogo sagrado.

    Nunca os meus pensamentos foram denegridos por um desejo, que eu não
    possa confessar alto diante de todo o mundo. Diz tu, Thereza, se os meus
    labios profanaram a pureza de teus ouvidos. Pergunta a Deus quando quiz
    eu fazer do meu amor o teu opprobrio.

    Nunca, Thereza! Nunca, ó mundo que me condemnas!

    Se teu pae quizesse que eu me arrastasse a seus pés para te merecer,
    beijar-lh'os-ia. Se tu me mandasses morrer para te não privar de ser
    feliz com outro homem, morreria, Thereza!

    Mas tu eras sósinha e infeliz, e eu cuidei que o teu algoz não devia
    sobreviver-te. Eis-me aqui homicida, e sem remorsos. A insania do crime
    aturde a consciencia; não a minha, que se não temia das escadas da
    forca, nos dias em que o meu despertar era sempre o estrebuxamento da
    suffocação.

    Eu esperava a cada hora o chamamento para o oratorio, e dizia comigo:
    Fallarei a Jesus Christo.

    Sem pavor, premeditava nas setenta horas d'essa agonia moral, e antevia
    consolações que o crime não ousa esperar sem injuria da justiça de Deus.

    Mas chorava por ti, Thereza! O travor do meu calix tinha sobre a sua
    amargura as mil amarguras das tuas lagrimas.

    Gemias aos meus ouvidos, martyr! Vêr-me-ias sacudido nas convulsões da
    morte, em teus delirios. A mesma morte tem terror da suprema desgraça.
    Tarde morrerias. A minha imagem, em vez de te acenar com a sua palma de
    martyrio, te seria um fantasma levantado das táboas d'um cadafalso.

    Que morte a tua, ó minha santa amiga!»

    E proseguiu até ao momento em que João da Cruz, com ordem do intendente
    geral da policia, entrou no quarto.

    –Aqui!–exclamou Simão, abraçando-o–E Marianna? deixou-a sósinha?!
    morta, talvez?!

    –Nem sósinha, nem morta, fidalgo! O diabo nem sempre está atraz da
    porta… Marianna voltou ao seu juizo.

    –Falla a verdade, senhor João?

    –Podéra mentir!… Aquillo foi coisa de bruxaria em quanto a mim…
    Sangrias, sedenhos, agua fria na cabeça, e exorcismos do missionario,
    não lhe digo nada, a rapariga está escorreita, e assim que tiver um
    todonada de forças bota-se ao caminho.

    –Bemdito seja Deus!–exclamou Simão.

    –_Amen_–accrescentou o ferrador–Então que arranjo é este de casa? Que
    breca de tarimba é esta?! Quer-se aqui uma cama de gente, e alguma coisa
    em que um christão se possa sentar.

    –Isto assim está excellente.

    –Bem vejo… E de barriga? como vamos nós de barriga?

    –Ainda tenho dinheiro, meu amigo.

    –Ha de ter muito, não tem duvida: mas eu tenho mais, e v. s.^a tem
    ordem franca. Veja lá esse papel.

    Simão leu uma carta de D. Rita Preciosa, escripta ao ferrador, em que o
    authorisava a soccorrer seu filho com as necessarias despezas,
    promptificando-se a pagar todas as ordens que lhe fossem apresentadas
    com a sua assignatura.

    –É justo–disse Simão, restituindo a carta–porque eu devo ter uma
    legitima.

    –Então já vê que não tem mais que pedir por bôca. Eu vou comprar-lhe
    arranjos…

    –Abra-me o seu nobre coração para outro serviço mais valioso–atalhou o
    prêso.

    –Diga lá, fidalgo.

    Simão pediu-lhe a entrega de uma carta em Monchique a Thereza de
    Albuquerque.

    –O berzabum parece-me que as arma!–disse o ferrador–Venha de lá a
    carta. O pae d'ella está cá, já sabia?

    –Não.

    –Pois está; e, se o diabo o traz á minha beira, não sei se lhe darei
    com a cabeça n'uma esquina. Já me lembrou de o esperar no caminho, e
    pendural-o pelo gasnete no galho d'um sobreiro… A carta tem resposta?

    –Se lh'a derem, meu bom amigo.

    Chegou o ferrador a Monehique, a tempo que um official de justiça, dois
    medicos, e Thadeu de Albuquerque entravam no páteo do convento.

    Fallou o aguazil á prelada, exigindo em nome do juiz de fóra, que dois
    medicos entrassem no convento a examinar a doente D. Thereza Clementina
    de Albuquerque, a requerimento de seu pae.

    Perguntou a prelada aos medicos se elles tinham a necessaria licença
    ecclesiastica para entrarem em Monchique. Á resposta negativa redarguiu
    a abbadessa que as portas do convento não se abriam. Disseram os medicos
    de Thadeu de Albuquerque que era aquelle o estylo dos mosteiros, e não
    houve que redarguir á rigorosa prelada.

    Sahiram, e o ferrador só então reflectiu no modo de entregar a carta, A
    primeira ideia pareceu-lhe a melhor. Chegou ao ralo, e disse:

    –Ó senhora freira!

    –Que quer vocemecê?–disse a prelada.

    –A senhora faz favor de dizer á senhora D. Therezinha de Vizeu, que
    está aqui o pae d'aquella rapariga da aldeia, que ella sabe?

    –E quem é vocemecê?

    –Sou o pae da tal rapariga que ella sabe.

    –Já sei!–exclamou de dentro a voz de Thereza, correndo ao locutorio.

    A prelada retirou-se a um lado, e disse:

    –Vê lá o que fazes, minha filha…

    –A sua filha escreveu-me?–disse Thereza a João da Cruz.

    –Sim, senhora, aqui está a carta.

    E depositou na roda a carta, em que a abbadessa reparou, e disse
    sorrindo:

    –Muito engenhoso é o amor, Therezinha… Permitta Deus que as noticias
    da rapariga da aldeia te alegrem o coração; mas olha, filhinha, não
    cuides que a tua velha tia é menos esperta que o _pae da rapariga da
    aldeia_.

    Thereza respondeu com beijos ás jovialidades carinhosas da santa
    senhora, e sumiu-se a lêr a carta, e a responder-lhe. Entregando a
    resposta, disse ella ao ferrador:

    –Não vê ahi sentada n'aquella escadinha uma pobre?

    –Vejo, sim, senhora, e conheço-a. Como diabo veio aqui parar esta
    mulher? Cuidei que depois da esfrega, que lhe deu o hortelão, a
    pobresita não tinha pernas que a cá trouxessem! A mulher pelos modos tem
    fibras d'aquella casta!

    –Falle baixo–tornou Thereza–Pois olhe… quando trouxer as cartas,
    entregue-lh'as a ella, sim? Eu já a mandei á cadêa; mas não a deixaram
    lá entrar.

    –Bem está, e o arranjo não é mau assim. Fique com Deus, menina.

    Esta boa nova alegrou Simão. A Providencia divina apiedára-se d'elle
    n'aquelle dia. O restaurar-se o juizo de Marianna, e a possibilidade de
    corresponder-se com Thereza, eram as maximas alegrias, que podiam baixar
    do ceu ao seu cerrado infortunio.

    Exaltára-se Simão em graças a Deus, na presença de João da Cruz, que
    arrumava no quarto uns moveis que comprára em segunda mão, quando este,
    suspendendo o trabalho, exclamou:

    –Então vou-lhe dizer outra coisa, que não tinha tenção de lhe dizer,
    para o apanhar de _súpeto_.

    –Que é?

    –A minha Marianna veio comigo, e ficou na estalagem, porque não se
    podia bolir com dôres; mas ámanhã ella cá está para lhe fazer a cozinha
    e varrer a casa.

    Simão, reconcentrando o indefinivel sentimento que esta noticia lhe
    causára, disse com melancolica pausa:

    –É pois certo que a minha má estrella arrasta a sua desgraçada filha a
    todos os meus abysmos! Pobre anjo de caridade, que digna tu és do ceu!

    –Que está o senhor ahi a prégar?–interrompeu o ferrador–Parece que
    ficou a modo de tristonho com a noticia!…

    –Senhor João–tornou solemnemente o prêso–não deixe aqui a sua querida
    filha, Deixe-m'a vêr, traga-a comsigo uma vez a esta casa; mas não a
    deixe cá, porque eu não posso tolher o destino de Marianna. Como ha de
    ella viver no Porto, sósinha, sem conhecer ninguem, bella como ella é, e
    perseguida como tem de ser!?…

    –Perseguida! _Tó carocha_! Não que ella é mesmo de se lhe dar de que a
    persigam!… Que vão para lá, mas que deixem as ventas em casa. Meu
    amigo, as mulheres são como as pêras verdes; um homem apalpa-as, e, se o
    dedo acha duro, deixa-as, e não as come. É como é. A rapariga sáe á mãe.
    Minha mulher, que Deus haja, quando eu lhe andava rentando, dei-lhe um
    dia um beliscão n'uma perna. E vai ella põe-se direita comigo, e deu-me
    dois cascudos nas trombas, que ainda agora os sinto. A Marianna!…
    aquillo é da pelle de satanaz! Pergunte o senhor, se algum dia fallar
    com aquelle fidalguinho Mendes de Vizeu, a troçada que elle levou com as
    rédeas da egua, só por lhe bolir na chinela, quando ella estava em cima
    da burra!

    Simão sorriu ao rasgado panegyrico da bravura da moça, e orgulhou-se
    secretamente dos brandos affagos com que o ella desvelára em oito mezes
    de quasi continuada convivencia.

    –E vocemecê ha de privar-se da companhia de sua filha?–insistiu o
    prêso.

    –Eu lá me arranjarei como podér. Tenho um cunhada velha, e levo-a para
    mim para me arranjar o caldo. E v. s.^a pouco tempo aqui estará…. O
    senhor corregedor lá anda a tratar de o pôr na rua, e que o senhor sáe
    cá para mim são favas contadas. E assim com'assim, vou dizer-lhe tudo
    d'uma feita: a rapariga, se eu a não deixasse vir para o Porto, dava um
    estoiro como uma castanha. Olhe que eu não sou tolo, fidalgo. Que ella
    tem paixão d'alma por v. s.^a isso é tão certo como eu ser; João. É a
    sua sina; que hei de eu fazer-lhe? Deixál-a, que pelo senhor Simão não
    lhe ha de vir mal, ou então já não ha honra n'este mundo.

    Simão lançou-se aos braços do ferrador, exclamando:

    –Podésse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!

    –Qual marido!…–disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras
    lagrimas que Simão lhe vira–Eu nunca me lembrei d'isso, nem ella!… Eu
    sei que sou um ferrador, e ella sabe que póde ser sua criada, e mais
    nada, senhor Simão; mas, sabe que mais, eu não desejo que os meus amigos
    sejam desgraçados como havia de ser o senhor se casasse com a pobre
    rapariga! Não fallemos n'isto, que eu por milagre choro; mas quando pego
    a chorar sou um chafariz… Vamos ao arranjo: a mesa deve aqui ficar; a
    commoda ali; duas cadeiras d'este lado, e duas d'aquelle. A barra acolá.
    O bahu debaixo da cama. A bacia e a bilha da agua sobre esta coisa, que
    não sei como se chama. Os lençoes e o mais bragal tem-os lá a rapariga.
    Ámanhã é que o quarto ha de ficar que nem uma capella. Olhe que a
    Marianna já me disse que comprasse duas aquellas… como se chamam
    aquellas invasilhas de pôr ramos?

    –Jarras.

    –É como diz, duas jarras para flôres; mas eu não sei onde se vende
    isso. Agora vou buscar o jantar, que a moça ha de cuidar que me não
    deixam sahir da cadêa. Ainda lhe não disse que não me deixaram cá entrar
    hontem á tarde; mas eu, como trouxe uma cartinha de sua mãe para um
    senhor desembargador, fui onde a elle, e hoje de manhã já lá tinha na
    estalagem a ordem do senhor intendente geral da policia. Até logo.

    VI.

    Um incidente agora me occorre, não muito concertado com o seguimento da
    historia, mas a proposito vindo para demonstrar uma face da indole do
    ex-corregedor de Vizeu, já então exonerado do cargo.

    Sabido é que Manoel Botelho, o primogenito, voltando a frequentar
    mathematicas em Coimbra, fugira d'ali para Hespanha com uma dama desleal
    a seu marido, estudante açoriano que cursava medicina.

    Um anno demorára na Corunha Manoel Botelho com a fugitiva,
    alimentando-se dos recursos que sua mãe, extremosa por elle, lhe
    remettia vendendo a pouco e pouco as suas joias, e privando as filhas
    dos adornos proprios dos annos e da qualidade.

    Seccaram-se estas fontes, e não restavam outras. D. Rita disse a final
    ao filho que deixára de soccorrer Simão por não ter meios; e agora das
    escassas economias que fazia, nada podia enviar-lhe, porque estava em
    obrigação de pagar os alimentos de Simão á pessoa que por compaixão
    lh'os déra em Vizeu, e lh'os estava dando no Porto. Ajuntava ella, para
    consolação do filho, que viesse elle para Villa Real, e trouxesse
    comsigo a infeliz senhora; que fosse elle para casa, e a deixasse a ella
    n'uma estalagem até se lhe arranjar habitação; que o ensejo era
    opportuno, por estar na quinta de Montezellos o pae, quasi divorciado da
    familia.

    Voltou pelo Minho Manoel Botelho, e chegou com a dama ao Porto quinze
    dias depois que Simão entrára no carcere.

    Já n'outro ponto deixamos dito que nunca os dois irmãos se deram nem
    estimaram; mas o infortunio de Simão remia as culpas do genio fatal que
    o orphanára de pae e mãe, e só da irmã Rita lhe deixára uma lembrança
    saudosa.

    Foi Manoel á cadêa, e abrindo os braços ao irmão, teve um glacial
    acolhimento.

    Perguntou-lhe Manoel a historia do seu desastre.

    –Consta do processo–respondeu Simão.

    –E tem esperanças de liberdade?–replicou Manoel.

    –Não penso n'isso.

    –Eu pouco posso offerecer-lhe, porque vou para casa forçado pela falta
    de recursos; mas, se precisa de roupa, repartirei comsigo da minha.

    –Não preciso nada. Esmolas só as recebo d'aquella mulher.

    Já Manoel tinha reparado em Marianna, e da belleza da moça inferira
    conclusões para formar falsos juizos.

    –E quem é esta menina?–tornou Manoel.

    –É um anjo… Não lhe sei dizer mais nada.

    Marianna sorriu-se, e disse:

    –Sou uma criada do senhor Simão, e de v. s.^a

    –É cá do Porto?

    –Não, meu senhor, sou dos arrabaldes de Vizeu.

    –E tem feito sempre companhia a meu mano?

    Simão atalhou assim á resposta balbuciante de Marianna:

    –A sua curiosidade incommoda-me, mano Manoel.

    –Cuidei que não era offensiva–replicou o outro, tomando o
    chapéo.–Quer alguma coisa para a mãe?

    –Nada.

    Estando Manoel Botelho, na tarde d'esse dia, fechando as malas para
    seguir jornada para Villa Real, foi visitado pelo desembargador Mourão
    Mosqueira, e pelo corregedor do crime.

    –Devemos á espionagem da policia–disse o corregedor–a novidade de
    estar n'esta estalagem; um filho do meu antigo amigo, condiscipulo e
    collega Domingos Correia Botelho. Aqui vimos dar-lhe um abraço, e
    offerecer o nosso prestimo. Esta senhora é sua esposa?–continuou o
    magistrado, reparando na açoriana.

    –Não é minha esposa…–balbuciou Manoel–é… minha irmã.

    –Sua irmã!…–disse Mosqueira–qual das tres? Ha cinco annos que as vi
    em Vizeu, e grande mudança fez esta senhora, que não me recordo das suas
    feições absolutamente coisa nenhuma! É a senhora D. Anna Amalia?

    –Justamente–disse Manoel.

    –Bella, lhe affirmo eu que está, minha senhora; mas fez-se um rosto
    muito outro do que era!…

    –Vieram vêr o infeliz Simão?–atalhou o corregedor.

    –Sim, senhor… viemos vêr meu pobre irmão.

    –Foi um raio que cahiu na familia aquelle rapaz!…– ajuntou
    Mosqueira–mas póde estar na certeza que a sentença não se executa; diga
    a sua mãe que m'o ouviu da minha bôca. O meu tribunal está preparado
    para lhe minorar a pena em dez annos de degredo para a India, e seu pae,
    segundo me disse na passagem para Villa Real, já preparou as coisas na
    supplicação e no desembargo do paço, não obstante o morto lá ter
    parentes poderosos nas duas instancias. Quizeramos absolvêl-o, e
    restituil-o á sua família; mas tanto é impossível. Simão matou, e
    confessa soberbamente que matou. Não consente mesmo que se diga que em
    defeza o fez. É um doido desgraçado com sentimentos nobilissimos! Chovem
    cartas de empenho a favor do Albuquerque. Pedem a cabeça do pobre rapaz
    com uma sem-ceremonia que indigna o animo.

    –E essa menina que foi a causa da desgraça?–perguntou Manoel.

    –Isso é uma heroina!–respondeu o corregedor do crime–Davam-na já por
    morta quando Simão chegou aqui. Desde que soube das probabilidades da
    commutação da pena, deu um pontapé na morte, e está salva, segundo me
    disse o medico.

    –Conhece-a muito bem, minha senhora?–disse o desembargador á dama,
    supposta irmã de Manoel.

    –Muito bem–respondeu ella, relanceando os olhos ao amante.

    –Dizem que é formosissima!

    –De certo–acudiu Manoel–é formosissima.

    –Muito bem–disse o corregedor, erguendo-se.–Leve este abraço ao pae,
    e diga-lhe que o condiscipulo cá está leal e dedicado como sempre. Eu
    tenho de lhe escrever brevemente.

    –E outro abraço a sua virtuosa mãe–acerescentou o desembargador.

    –Vou desconfiado!–disse o Mosqueira ao collega–Manoel Botelho tinha,
    ha coisa d'um anno, fugido para Hespanha com uma senhora casada. Aquella
    mulher, que vimos, não é irmã d'elle.

    –Pois se nos mentiu é mariola, por nos obrigar a cortejar uma
    concubina!… Eu me informarei…–disse o corregedor, offendido no seu
    austero pundonor.

    E no proximo correio, escrevendo a Domingos Botelho, dizia no periodo
    final: «Tive o gosto de conhecer teu filho Manoel, e uma de tuas filhas;
    por elle te mandei um abraço, e por ella te mandaria outro, se fosse
    modo ensinarem velhos a meninas bonitas como se dão os abraços nos
    paes.»

    Estava já Manoel em casa de seus avós, e cuidava em trastejar uma
    modesta casa para a açoriana, auxiliado por sua bondosa e indulgente
    mãe. O pae fôra informado da vinda, e dissera que não queria vêr o
    filho, avisando-o de que era considerado desertor de cavallaria seis,
    desde que abandonára os estudos, onde estava com licença.

    Recebeu depois a carta do corregedor do crime, e mandou immediata e
    secretamente devassar se em Villa Real estava a senhora que indicava a
    carta. A espionagem deu-a como certa na estalagem, em quanto Manoel
    Botelho cuidava nos adornos de uma casa. Escreveu o magistrado ao juiz
    de fóra, e este mandou chamar á sua presença a mulher suspeita, e ouviu
    d'ella a sua historia sincera e lagrimosamente contada. Condoeu-se o
    juiz, e revelou ao collega as suas averiguações. Domingos Botelho foi a
    Villa Real, e hospedou-se em casa do juiz de fóra, onde a senhora foi
    novamente chamada, sendo que ao mesmo tempo o general da provinda
    lavrava ordem de prisão para o cadete desertor de cavallaria de
    Bragança.

    A açoriana, em vez do juiz, encontrou um feio homem, de carrancuda
    sombra, e apparencias de intenções sinistras.

    –Eu sou pae de Manoel–disse Domingos Botelho–Sei a historia da
    senhora. O infame é elle. V. s.^a é a victima. O castigo da senhora
    principiou desde o momento em que a sua consciencia lhe disse que
    praticou uma acção indigna. Se a consciencia lh'o não disse ainda, ella
    lh'o dirá. D'onde é?

    –Da ilha do Fayal–respondeu tremula a dama.

    –Tem familia?

    –Tenho mãe e irmãs.

    –Sua mãe aceital-a-ia se a senhora lhe pedisse abrigo?

    –Creio que sim.

    –Sabe que Manoel é um desertor, que a estas horas está prêso ou
    fugitivo?

    –Não sabia…

    –Quer isto dizer que a senhora não tem protecção de alguem.

    A pobre mulher soluçava, abafada por ancias, e debulhada em lagrimas.

    –Porque não vai para sua mãe?

    –Não tenho recursos alguns–respondeu ella.

    –Quer partir hoje mesmo? Á porta da estalagem encontrará uma liteira, e
    uma criada para acompanhal-a até ao Porto. Lá entregará uma carta. A
    pessoa a quem escrevo lhe cuidará da passagem para Lisboa. Em Lisboa
    outra pessoa a levará a bordo da primeira embarcação que sahir para os
    Açores. Estamos combinados? Aceita?

    –E beijo as mãos de v. s.^a… Uma desgraçada como eu não podia esperar
    tanta caridade.

    Poucas horas depois a esposa do medico….

    –Que tinha morrido de paixão e vergonha, talvez!–exclama uma leitora
    sensivel.

    Não, minha senhora; o estudante continuava n'esse anno a frequentar a
    Universidade; e como tinha já vasta instrucção em pathologia, poupou-se
    á morte da vergonha, que é uma morte inventada pelo visconde de A.
    Garrett no _Fr. Luiz de Souza_, e á morte de paixão, que é outra morte
    inventada pelos namorados nas cartas despeitosas, e que não pega nos
    maridos a quem o seculo dotou d'uns longes de philosophia, philosophia
    grega e romana, porque bem sabem que os philosophos da antiguidade davam
    por mimo as mulheres aos seus amigos, quando os seus amigos por favor
    lh'as não tiravam. E esta philosophia, hoje então…[6] Pois o medico
    não morreu, nem sequer desmedrou, ou levou _r_ significativo de
    preoccupação do animo insensivel ás amenidades da therapeutica.

    A esposa, inquestionavelmente muito mais alquebrada e valetudinaria que
    seu esposo, lavada em pranto, morta de saudades, sem futuro, sem
    esperanças, sem voz humana que a consolasse, entrou na liteira, e chegou
    ao Porto, onde procurou o corregedor do crime para entregar-lhe uma
    carta do doutor Domingos Botelho. Um periodo d'esta carta dizia assim:

    «Déste-me noticia d'uma filha, que eu não conhecia, nem reconheço. A mãe
    d'esta senhora está no Fayal, para onde ella vai. Cuida tu, ou manda
    cuidar no seu transporte para Lisboa, e encarrega ali alguem de correr
    com a passagem d'ella para os Açores no primeiro navio. A mim me darás
    conta das despezas. Meu filho Manoel teve ao menos a virtude de não
    matar ninguem para se constituir amante. Do modo como correm os tempos,
    muito virtuoso é um rapaz que não mata o marido da mulher que ama. Vê se
    consegues do general, que está ahi, perdão para o rapaz, que é desertor
    de cavallaria seis, e me consta que está escondido em casa de um
    parente. Em quanto a Simão, creio que não é possivel salval-o do degredo
    temporario… É uma lança em Africa livral-o da forca. Em Lisboa
    movem-se grandes potencias contra o desgraçado, e eu estou malvisto do
    intendente geral por abandonar o logar… etc.»

    Partiu para Lisboa a açoriana, e d'ali para a sua terra, e para o abrigo
    de sua mãe, que a julgára morta, e lhe deu annos de vida, se não ditosa,
    socegada e desilludida de chimeras.

    Manoel Botelho, obtido o perdão pela preponderancia do corregedor do
    crime, mudou de regimento para Lisboa, e ahi permaneceu até que,
    fallecido seu pae, pediu a baixa, e voltou á provincia.

    VII.

    João da Cruz, no dia 4 de Agosto de 1805, sentou-se á mesa com triste
    aspecto e nenhum appetite do almoço.

    –Não comes, João?–disse-lhe a cunhada.

    –Não passa d'aqui o bocado–respondeu elle, pondo o dedo nos
    gorgomilos.

    –Que tens tu?

    –Tenho saudades da rapariga… Dava agora tudo quanto tenho para a vêr
    aqui ao pé de mim com aquelles olhos que pareciam ir direitos aos
    desgostos que um homem tem no seu interior. Mal hajam as desgraças da
    minha vida que m'a fizeram perder, Deus sabe se para pouco, se para
    sempre!… Se eu não tivesse dado o tiro no almocreve, não vinha a ficar
    em obrigação ao corregedor, e não se me dava que o filho vivesse ou
    morresse…

    –Mas se tens saudades–atalhou a senhora Josefa–manda buscar a
    rapariga, tem-l'a cá algum tempo, e torna depois para onde ao senhor
    Simão.

    –Isso não é d'homem que põe navalha na cara, Josefa. O rapaz, se ella
    lhe falta, morre de pasmo dentro d'aquelles ferros. Isto é venêta que me
    deu hoje… Sabes que mais? leve a breca o dinheiro: ámanhã vou ao
    Porto.

    –Pois isso é o que tu deves fazer.

    –Está dito! Quem cá ficar que o ganhe. Vão-se os anneis e fiquem os
    dedos. Por ora tem-se resistido a tudo com o meu braço. A rapariga, se
    ficar com menos, lá se avenha. Assim o quer, assim o tenha.

    Reanimou-se a physionomia do mestre ferrador, e como que os impeços da
    garganta se iam removendo á medida que planisava a sua ida ao Porto.

    Acabára de almoçar, e ficára scismatico, encostado á mesa do escano.

    –Ainda estás malucando?!–tornou Josefa.

    –Parece coisa do demonio, mulher!… A rapariga estará doente ou morta?

    –Anjo bento da Santíssima Trindade!–exclamou a cunhada, erguendo as
    mãos–que dizes tu, João!

    –Estou cá por dentro negro como aquella sartã!

    –Isso é flato, homem! vai tomar ar, trabalha um poucaxinho para
    espaireceres.

    João da Cruz passou ao coberto onde tinha o armario da ferragem e a
    bigorna, e começou a atarracar cravos.

    Alguns conhecidos tinham passado, palavreando com elle consoante
    costumavam, e achavam-no taciturno e nada para graças.

    –Que tens tu, João?–dizia um.

    –Não tenho nada. Vai á tua vida, e deixa-me, que não estou para lérias.

    Outro parava e dizia:

    –Guarde-o Deus, senhor João.

    –E a vocemecê tambem. Que novidade ha?

    –Não sei nada.

    –Pois então vá com nossa Senhora, que eu estou cá de candeias ás
    avessas.

    O ferrador largava o martello; sentava-se aos poucos no tronco, e coçava
    a cabeça com frenesi. Depois recomeçava novamente, e tão alheado o
    fazia, que estragava o cravo, ou martellava os dedos.

    –Isto é coisa do diabo!–exclamou elle; e foi á cosinha procurar a
    pichorra, que emborcou como qualquer elegante de paixões ethereas se
    aturde com absyntho–Hei de afogar-te, coisa má, que me estás apertando
    a alma!–continuou o ferrador, sacudindo os braços, e batendo o pé no
    soalho.

    Voltou ao coberto a tempo que um viandante ia passando sobre a sua
    possante mula. Envolvia-se o cavalleiro n'um amplo capote á moda
    hespanhola, sem embargo da calma que fazia. Viam-se-lhe as botas de
    coiro cru com esporas amarellas afiveladas, e o chapéo derrubado sobre
    os olhos.

    –Ora viva!–disse o passageiro.

    –Viva!–respondeu mestre João, relanceando os olhos pelas quatro patas
    da mula, a vêr se tinha obra em que entreter o espirito–A mula é de
    ropia e chibança!

    –Não é má. Vocemecê é que é o senhor João da Cruz?

    –Para o servir.

    –Venho aqui pagar-lhe uma divida.

    –A mim? o senhor não me deve nada que eu saiba.

    –Não sou eu que devo; é meu pae, e elle foi que me encarregou de lhe
    pagar.

    –E quem é seu pae?

    –Meu pae era um recoveiro de Garção, chamado Bento Machado.

    Proferida metade d'estas palavras, o cavalleiro afastou rapidamente as
    bandas do capote, e desfechou um bacamarte no peito do ferrador. O
    ferido recuou, exclamando:

    –Mataram-me!… Marianna, não te vejo mais!…

    O assassino teria dado cincoenta passos a todo o galope da espantada
    mula, quando João da Cruz, debruçado sobre o banco, arrancava o ultimo
    suspiro com a cara posta no chão, d'onde apontára ao peito do almocreve
    dez annos antes.

    Os caminheiros, que perpassaram pelo cavalleiro inadvertidamente,
    ajuntaram-se em redor do cadaver. Josefa acudiu ao estrondo do tiro e já
    não ouviu as ultimas palavras de seu cunhado. Quiz transportal-o para
    dentro, e correr a chamar cirurgião; mas um cirurgião estava no
    ajuntamento, e declarou morto o homem.

    –Quem o matou?–exclamavam trinta vozes a um tempo.

    N'esse mesmo dia vieram justiças de Vizeu lavrar auto e devassar: nenhum
    indicio lhes deu o fio do mysterioso assassinio. O escrivão dos orphãos
    inventariou os objectos encontrados, e fechou as portas quando os sinos
    corriam o derradeiro dobre ao cahir da lousa sobre João da Cruz.

    Deus terá descontado, nos instinctos sanguinarios do teu temperamento, a
    nobreza de tua alma! Pensando nas incoherencias da tua indole, homem que
    me explicas a providencia, assombra-me as caprichosas antítheses que a
    mão de Deus infunde em alentos na creatura. Dorme o teu somno infinito,
    se nenhum outro tribunal te cita a responder pelas vidas que tiraste, e
    pelo uso que fizeste da tua. Mas se ha estancia de castigo e de
    misericordia, as lagrimas de tua filha terão sido, na presença do Juiz
    Supremo, os teus merecimentos.

    Fez Josefa escrever a Marianna, noticiando-lhe a morte de seu pae, mas
    sobrescriptou a carta a Simão Botelho, para maior segurança. Estava
    Marianna no quarto do prêso, quando a carta lhe foi entregue.

    –Não conheço a letra, Marianna… E a obreia é preta…

    Marianna examinou o sobrescripto, e empallideceu.

    –Eu conheço a letra–disse ella–é do Joaquim da loja.

    –Abra depressa, senhor Simão… Meu pae morreria?

    –Que lembrança! Pois não teve ha tres dias carta d'elle? E não lhe
    disse que estava bom?

    –Isso que tem?… Veja quem assigna.

    Simão buscou a assignatura, e disse:

    –_Josefa Maria_… É sua tia que lhe escreve.

    –Leia… leia… que diz ella?

    O prêso lia mentalmente, e Marianna instou:

    –Leia alto, por quem é, senhor Simão, que estou a tremer… e v. s.^a
    descora… que é, meu Deus?

    Simão deixou cahir a carta, e sentou-se prostrado de animo. Marianna
    correu a levantar a carta, e elle, tomando-lhe a mão, murmurou:

    –Pobre amigo!… choremol-o ambos… choremol-o, Marianna, que o
    amavamos como filhos…

    –Pois morreu?–bradou ella.

    –Morreu… mataram-no!…

    A moça expediu um grito estridulo, e foi com o rosto contra os ferros
    das grades. Simão inclinou-a para o seio, e disse-lhe com muita ternura
    e vehemencia:

    –Marianna, lembre-se que é o meu amparo. Lembre-se de que as ultimas
    palavras de seu pae deviam ser a recommendar-lhe o desgraçado que recebe
    das suas mãos bemfeitoras o pão da vida. Marianna, minha querida irmã,
    vença a dôr que póde matal-a, e vença-a por amor de mim. Ouve-me, amiga
    da minha alma?

    Marianna exclamou:

    –Deixe-me chorar, por caridade!… Ai! meu Deus, se eu torno a
    endoidecer!

    –Que seria de mim!–atalhou Simão–A quem deixaria Marianna o seu nobre
    coração para me suavisar este martyrio? Quem me levaria ao desterro uma
    palavra amiga que me animasse a crêr em Deus!… Não ha de enlouquecer,
    Marianna, porque eu sei que me estima, que me ama, e que affrontará com
    coragem a maior desgraça, que ainda póde suggerir-me o inferno! Chore,
    minha irmã, chore; mas veja-me através das suas lagrimas!

    VIII.

    Marianna, decorridos dias, foi a Vizeu recolher a herança paterna. Em
    proporção com o seu nascimento bem dotada a deixára o laborioso
    ferrador. Afóra os campos, cujo rendimento bastaria á sustentação
    d'ella, Marianna levantou a lage conhecida da lareira, e achou os
    quatrocentos mil réis com que João da Cruz contava para alimentar as
    regalias da sua decrepitude inerte. Vendeu Marianna as terras, e deixou
    a casa a sua tia, que nascêra n'ella, e onde seu pae casára.

    Liquidada a herança tornou para o Porto, e depositou o seu cabedal nas
    mãos de Simão Botelho, dizendo que receava ser roubada na casinha em que
    vivia, fronteira á Relação, na rua de S. Bento.

    –Porque vendeu as suas terras, Marianna?–perguntou o prêso.

    –Vendi-as, porque não faço tenção de lá voltar.

    –Não faz?… Para onde ha de ir Marianna, indo eu degredado? Fica no
    Porto?

    –Não, senhor, não fico–balbuciou ella como admirada d'esta pergunta, á
    qual o seu coração julgava ter respondido de muito.

    –Pois então!

    –Vou para o degredo, se v. s.^a me quizer na sua companhia.

    Fingindo-se surprendido, Simão seria ridiculo aos seus proprios olhos.

    –Esperava essa resposta, Marianna, e sabia que me não dava outra. Mas
    sabe o que é o degredo, minha amiga?

    –Tenho ouvido dizer muitas vezes o que é, senhor Simão… É uma terra
    mais quente que a nossa; mas tambem lá ha pão, e vive-se…

    –E morre-se abrazado ao sol doentio d'aquelle ceu, morre-se de saudades
    da patria, morre-se muitas vezes dos maus tratos dos governadores das
    galés, que tem um condemnado na conta de féra.

    –Não ha de ser tanto assim. Eu tenho perguntado muito por isso á mulher
    d'um prêso que cumpriu dez annos de sentença na India, e viveu muito bem
    em uma terra chamada Solor, onde teve uma loja; e, se não fossem as
    saudades, diz ella que não vinha, porque lhe corria melhor por lá a vida
    que por cá. Eu, se fôr por vontade do senhor Simão, vou pôr uma lojinha
    tambem. Verá como eu amenho a vida. Affeita ao calor estou eu; v. s.^a
    não está; mas não ha de ter precisão, se Deus quizer, de andar ao tempo.

    –E supponha, Marianna, que eu morro apenas chegar ao degredo?

    –Não fallemos n'isso, senhor Simão…

    –Fallemos, minha amiga, porque eu hei de sentir á hora da morte a
    pesar-me na alma a responsabilidade do seu destino… Se eu morrer?

    –Se o senhor morrer, eu saberei morrer tambem.

    –Ninguem morre quando quer, Marianna…

    –Oh! se morre!… e vive tambem quando quer… Não m'o disse já a
    senhora D. Thereza?

    –Que lhe disse ella?

    –Que estava a passar quando v. s.^a chegou ao Porto, e que a sua
    chegada lhe dera vida. Pois ha muita gente assim, senhor Simão… E mais
    a fidalga é fraquinha, e eu sou mulher do campo, vezada a todos os
    trabalhos; e, se fosse preciso metter uma lanceta no braço e deixar
    correr o sangue até morrer, fazia-o como quem o diz.

    –Oiça-me, Marianna, que espera de mim?

    –Que hei de eu esperar!… Porque me diz isso o senhor Simão?

    –Os sacrificios que Marianna tem feito e quer fazer por mim só podiam
    ter uma paga, embora m'os não faça esperando recompensa. Abre-me o seu
    coração, Marianna?

    –Que quer que eu lhe diga?

    –Conhece a minha vida tão bem como eu, não é verdade?

    –Conheço, e que tem isso?

    –Sabe que eu estou ligado pela vida e pela morte áquella desgraçada
    senhora?

    –E d'ahi? quem lhe diz menos d'isso?!

    –Os sentimentos do coração só os posso agradecer com amizade.

    –E eu já lhe pedi mais alguma coisa, senhor Simão?!

    –Nada me pediu, Marianna; mas obriga-me tanto, que me faz mais infeliz
    o pêso da obrigação.

    Marianna não respondeu, chorou.

    –E porque chora?–tornou Simão carinhosamente.

    –Isso é ingratidão…. e eu não mereço que me diga que o faço infeliz.

    –Não me comprehendeu… Sou infeliz por não poder fazêl-a minha mulher.
    Eu queria que Marianna podésse dizer: «Sacrifiquei-me por meu marido; no
    dia em que o vi ferido em casa de meu pae, velei as noites ao seu lado;
    quando a desgraça o encerrou entre ferros, dei-lhe o pão, que nem seus
    ricos paes lhe davam; quando o vi sentenciado á forca, endoideci; quando
    a luz da minha razão me tornou n'um raio de compaixão divina, corri ao
    segundo carcere, alimentei-o, vesti-o, e adornei-lhe as paredes nuas do
    seu antro; quando o desterraram, acompanhei-o, fiz-me a patria d'aquelle
    pobre coração, trabalhei á luz do sol homicida para elle se resguardar
    do clima, do trabalho, e do desamparo, que o matariam…»

    O espirito de Marianna não podia altear-se á expressão do prêso; mas o
    coração sinil, esse adivinhava-lhe as ideias. E a pobre moça sorria e
    chorava a um tempo. Simão continuou:

    –Tem vinte e seis annos, Marianna. Viva, que esta sua existencia não
    póde ser senão um supplicio occulto. Viva, que não deve dar tudo a quem
    lhe não póde restituir senão as lagrimas que lhe eu tenho custado. O
    tempo do meu desterro não póde estar longe; esperar outro melhor destino
    seria uma loucura. Se eu ficasse na patria, livre ou prêso, pediria a
    minha irmã que completasse a obra generosa da sua compaixão, esperando
    que eu lhe désse a ultima palavra da minha vida. Mas não vá comigo á
    África ou á India, que sei que voltará sósinha á pátria depois que eu
    fechar os olhos. Se o meu degredo fôr temporario, e a morte me guardar
    para maiores naufragios, voltarei á patria um dia. E preciso que
    Marianna aqui esteja para eu poder dizer que venho para a minha familia,
    que tenho aqui uma alma extremosa que me espera. Se a encontrar com
    marido e filhos, a sua familia será a a minha. Se a vir livre e só, irei
    para a companhia de minha irmã. Que me responde, Marianna?

    A filha de João da Cruz, erguendo o olhos do pavimento, disse:

    –Eu verei o que hei de fazer quando o senhor Simão partir para o
    degredo….

    –Pense desde já, Marianna.

    –Não tenho que pensar… A minha tenção está feita…

    –Falle, minha amiga, diga qual é a sua tenção.

    Marianna hesitou alguns segundos, e respondeu serenamente:

    –Quando eu vir que não lhe sou precisa, acabo com a vida. Cuida que eu
    ponho muito em me matar? Não tenho pae, não tenho ninguem, a minha vida
    não faz falta a pessoa nenhuma. O senhor Simão póde viver sem mim?
    paciencia!… eu é que não posso…

    Sosteve o complemento da ideia como quem se peja d'uma ousadia. O prêso
    apertou-a nos braços estremecidamente, e disse:

    –Irá, irá comigo, minha irmã. Pense muito no infortunio de nós ambos
    d'ora em diante, que elle é commum, é um veneno que havemos de tragar
    unidos, e lá teremos uma sepultura de terra tão pesada como a da patria.

    Desde este dia, um secreto jubilo endoidecia o coração de Marianna. Não
    inventemos maravilhas de abnegação. Era de mulher o coração de Marianna.
    Amava como a fantasia se compraz de idear o amor d'uns anjos que batem
    as azas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se
    fazerem vêr e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha
    ciumes de Thereza, não ciumes que se refrigeram na expansão ou no
    despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos labios,
    porque os olhos se abriam promptos em lagrimas para apagal-a. Sonhava
    com as delicias do desterro, porque voz humana alguma não iria lá gemer
    á cabeceira do desgraçado. Se a forçassem a resignar a sua ingloria
    missão de irmã d'aquelle homem, resignal-a-ia, dizendo: «Ninguem o amará
    como eu; ninguém lhe adoçará as penas tão desinteresseiramente como o eu
    fiz.»

    E, comtudo, nunca vacillou em aceitar da mão de Thereza ou da mendiga as
    cartas para Simão. A cada vinco de dôr que a leitura d'aquellas cartas
    sulcava na fronte do prêso, Marianna, que o espreitava disfarçada,
    tremia em todas as fibras do seu coração, e dizia entre si: «para que ha
    de aquella senhora amargurar-lhe a vida!»

    E amargurava acerbamente a desditosa menina!

    Resurgiram n'aquella alma esperanças, que não deviam durar além do tempo
    necessario para que a desillusão lhe acrisolasse o infortunio. Imaginara
    ella a liberdade, o perdão, o casamento, a ventura, a corôa do seu
    martyrio. As suas amigas matizavam-lhe a tela da fantasia, umas porque
    não conheciam a atroz realidade das coisas, outras porque fiavam em
    demasia nas orações das virtuosas do mosteiro. Se os vaticinios das
    prophetisas se realisassem, Simão sahiria da cadêa, Thadeu de
    Albuquerque morreria de velhice e de raiva, o casamento seria um acto
    indisputavel, e o ceu dos desgraçados principiaria n'este mundo.

    Porém Simão Botelho, ao cabo de cinco mezes de carcere, já sabia o seu
    destino, e achára util prevenir Thereza, para não succumbir ao
    inevitavel golpe da separação. Bem queria elle alumiar com esperanças a
    perspectiva negra do degredo; mas froixos e frios eram os allivios em
    que não era parte a convicção nem o sentimento. Thereza não podia sequer
    illudir-se, porque tinha no peito um despertador que a estava acordando
    sempre para a hora final, embora o semblante enganasse a condolencia dos
    estranhos.

    E então era o expandir-se em lastimas nas cartas que escrevia ao seu
    amigo; invocações a Deus, e sacrilegas apostrophes ao destino; branduras
    de paciencia e impetos de cólera contra o pae; o afferro á vida que lhe
    foge, e súpplicas á morte, que a não livra das torturas da alma e do
    corpo.

    No termo de sete mezes o tribunal de segunda instancia commutou a pena
    ultima em dez annos de degredo para a India. Thadeu de Albuquerque
    acompanhou a Lisboa a appellação, e offereceu a sua casa a quem
    mantivesse de pé a forca de Simão Botelho. O pae do condemnado, segundo
    o assustador aviso que seu filho Manoel lhe dera, foi para Lisboa luctar
    com o dinheiro e as ponderosas influencias que Thadeu de Albuquerque
    grangeára na casa da supplicação e no desembargo do paço. Venceu
    Domingos Botelho, e instigado mais do seu capricho, que do amor
    paternal, alcançou do principe regente a graça de cumprir o condemnado a
    sua sentença na prisão de Villa Real.

    Quando intimaram a Simão Botelho a decisão do recurso e a graça do
    regente, o prêso respondeu que não aceitava a graça; que queria a
    liberdade do degredo; que protestaria perante os poderes judiciarios
    contra um favor que não implorára, e que reputava mais atroz que a
    morte.

    Domingos Botelho, avisado da rejeição do filho, respondeu que fizesse
    elle a sua vontade; mas que a sua victoria d'elle, sobre os protectores
    e os corrompidos pelo ouro do fidalgo de Vizeu, estava plenamente
    obtida.

    Foi aviso ao intendente geral da policia, e o nome de Simão Botelho foi
    inscripto no catalogo dos degredados para a India.

    IX.

    A verdade é algumas vezes o escolho de um romance.

    Na vida real, recebemol-a como ella sáe dos encontrados acasos, ou da
    logica implacavel das coisas; mas, na novella, custa-nos a soffrer que o
    author, se inventa, não invente melhor; e, se copía, não minta por amor
    da arte.

    Um romance, que estriba na verdade o seu merecimento, é frio, é
    impertinente, é uma coisa que não sacode os nervos, nem tira a gente,
    sequer uma temporada, em quanto elle nos lembra, d'este jogo de nora,
    cujos alcatruzes somos, uns a subir, outros a descer, movidos pela
    manivella do egoismo.

    A verdade! se ella é feia, para que offerecêl-a em paineis ao publico!?

    A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de
    ferro, que o prendem ao barro d'onde sahiu, ou pezam n'elle e o
    submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergil-o,
    retratal-o, e dal-o á venda!?

    Os reparos são de quem tem o juizo no seu logar; mas eu que perdi o meu
    a estudar a verdade, já agora a desforra que tenho é pintal-a, como ella
    é, feia e repugnante.

    A desgraça afervora ou quebranta o amor?

    Isso é que eu submetto á decisão do leitor intelligente. Factos e não
    theses é que eu trago para aqui. O pintor retrata uns olhos, e não
    explica as funcções opticas do apparelho visual.

    Ao cabo de dezenove mezes de carcere, Simão Botelho almejava um raio de
    sol, uma lufada de ar não coada por ferros, o pavimento do ceu, que o da
    abobada do seu cubiculo pesava-lhe sobre o peito.

    Ancia de viver era a sua; não era já ancia de amar.

    Seis mezes de sobresaltos diante da forca deviam distender-lhe as fibras
    do coração; e o coração, para o amor, quer-se forte e tenso de uma certa
    rijeza, que se ganha com o bom sangue, com os anceios das esperanças, e
    com as alegrias que o enchem e reforçam para os revezes.

    Cahiu a forca pavorosa aos olhas de Simão; mas os pulsos ficaram em
    ferros, o pulmão ao ar mortal das cadêas, o espirito intanguido na
    glacial estupidez d'umas paredes salitrosas, e d'um pavimento, que resôa
    os derradeiros passos do ultimo padecente, e d'um tecto que filtra a
    morte a gottas d'agua.

    O que é o coração, o coração dos dezoito annos, o coração sem remorsos,
    o espirito anhelante de glorias, ao cabo de dezoito mezes de estagnação
    da vida?

    O coração é a viscera, ferida de paralysia, a primeira que fallece
    suffocada pelas rebelliões da alma que se identifica á natureza, e a
    quer, e se devora na ancia d'ella, e se estorce nas agonias da
    amputação, para as quaes a saudade da felicidade extincta é um cauterio
    em braza, e o amor que leva ao abysmo pelo caminho da sonhada
    felicidade, não é sequer um refrigerio.

    Ao deslaçar da garganta a corda da justiça, Simão Botelho teve uma hora
    de desafôgo, como que sentia o patibulo lascar entre os seus braços, e
    então convidou o coração da mulher, que o perdêra, a assistir ás
    segundas nupcias da sua vida com a esperança.

    Depois, a passo igual, a esperança fugia-lhe para as areias da Asia, e o
    coração intumecia-se de fel, o amor afogava-se n'elle, morte inevitavel,
    quando não ha abertura por onde a esperança entre a luzir na escuridão
    intima.

    Esperança, para Simão Botelho, qual?

    A India, a humilhação, a miseria, a indigencia.

    E os anhelos d'aquella alma tinham mirado a ambições de um nome. Para a
    felicidade do amor invidava as forças do talento; mas, além do amor,
    estava a gloria, o renome, e a vã immortalidade, que só não é demencia
    nas grandes almas, e nos genios que se presentem viver nas gerações
    vindouras, e se preluzem n'ellas. Mas grinaldas de amor a escorrerem
    sangue dos espinhos, essas instillam veneno corrosivo no pensamento,
    apagam no seio a faisca das nobres affoitezas, apoucam a ideia que
    abrangêra mundos, e paralysam de mortal spasmo os estos do coração.

    Assim te sentias tu, infeliz, quando dezoito mezes de carcere, com o
    patibulo ou o degredo na linha do teu porvir, te haviam matado o melhor
    da alma.

    A ti mesmo perguntavas pelo teu passado, e o coração, se ousava
    responder, retrahia-se recriminado pelos dictames da razão.

    D'além, d'aquelle convento onde outra existencia agonisava, gementes
    queixas te vinham espremer fel na chaga; e tu, que não sabias, nem
    podias consolar, pedias palavras ao anjo da compaixão para ella, e
    recebias as do demonio do desespêro para ti.

    Os dez annos de ferros, era que lhe quizeram minorar a pena, eram-lhe
    mais horrorosos que o patibulo. E aceital-o-ias, por ventura, se amasse
    o ceu, onde Thereza bebia o ar, que nos pulmões se lhe formava em
    peçonha? Creio:–antes a masmorra, onde póde ouvir-se o som abafado de
    uma voz amiga; antes os paroxismos de dez annos sobre as lages humidas
    d'uma enxovia, se, na hora extrema, a ultima faisca da paixão, ao
    bruxolear para morrer, nos alumia o caminho do ceu por onde o anjo do
    amor desditoso se levantou a dar conta de si a Deus, e a pedir a alma do
    que ficou.

    Thereza pedira a Simão Botelho que aceitasse dez annos de cadêa, e
    esperasse ahi a sua redempção por ella.

    «Dez annos!–dizia-lhe a inclausurada de Monchique–Em dez annos terá
    morrido meu pae, e eu serei tua esposa, e irei pedir ao rei que te
    perdôe, se não tiveres cumprido a sentença. Se vaes ao degredo, para
    sempre te perdi, Simão, porque morrerás, ou não acharás memoria de mim
    quando voltares.»

    Como a pobre se illudia nas horas em que as debeis forças de sua vida se
    lhe concentravam no coração!

    As ancias, a lividez, o deperecimento tinham voltado. O sangue, que
    creára novo, já lhe sahia em golfadas com a tosse.

    Se por amor ou piedade o condemnado aceitasse os ferrolhos tres mil
    seiscentas e cincoenta vezes corridos sobre as suas longas noites
    solitarias, nem assim Thereza sosteria a pedra sepulcral que a vergava
    d'hora a hora.

    «Não esperes nada, martyr–escrevia-lhe elle.–A lucta com a desgraça é
    inutil, e eu não posso já luctar. Foi um atroz engano o nosso encontro.
    Não temos nada n'este mundo. Caminhemos ao encontro da morte… Ha um
    segredo que só no sepulcro se sabe. Vêr-nos-hemos?

    Vou. Abomino a patria, abomino a minha familia, todo este solo está aos
    meus olhos coberto de forcas, e quantos homens fallam a minha lingua,
    creio que os ouço vociferar as imprecações do carrasco. Em Portugal, nem
    a liberdade com a opulencia; nem já agora a realisação da esperanças que
    me dava o teu amor, Thereza!

    Esquece-te de mim, e adormece no seio do nada. Eu quero morrer, mas não
    aqui. Apague-se a luz de meus olhos; mas a luz do ceu, quero-a! quero
    vêr o ceu no meu ultimo olhar.

    Não me peças que aceite dez annos de prisão. Tu não sabes o que é a
    liberdade captiva dez annos! Não comprehendes a tortura dos meus vinte
    mezes. A voz unica que tenho ouvido é a da mulher piedosa que me esmola
    o pão de cada dia, e a do aguazil que veio dar-me a sarcastica boa-nova
    de uma graça real que me commuta o morrer instantaneo da forca pelas
    agonias de dez annos de carcere.

    Salva-te, se pódes, Thereza. Renuncia ao prestigio d'um grande
    desgraçado. Se teu pae te chama, vai. Se tem de renascer para ti uma
    aurora de paz, vive para a felicidade d'esse dia. E senão, morre,
    Thereza, morre, que a felicidade é a morte, é o desfazerem-se em pó as
    fibras laceradas pela dôr, é o esquecimento que salva das injurias a
    memoria dos padecentes.»

    As palavras unicas de Thereza, em resposta áquella carta, significativa
    da turvação do infeliz, foram estas: «Morrerei, Simão, morrerei. Perdôa
    tu ao meu destino… Perdi-te… bem sabes que sorte eu queria dar-te…
    e morro, porque não posso, nem poderei jámais resgatar-te. Se pódes,
    vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares.
    Consolar-te-ha o meu espirito… Estou tranquilla… Vejo a aurora da
    paz… Adeus até ao ceu, Simão.»

    Seguiram-se a esta carta muitos dias de terrível taciturnidade. Simão
    Botelho não respondia ás perguntas de Marianna. Dil-o-ieis arrobado nas
    voluptuosas angustias do seu proprio aniquilamento. A creatura, posta
    por Deus ao lado d'aquelles dezoito annos tão attribulados, chorava; mas
    as lagrimas, se Simão as via, tiravam-no da mudez socegada para impetos
    de afflicção, que a final o extenuavam á força de convulsões.

    Decorreram seis mezes ainda.

    E Thereza vivia, dizendo ás suas consternadas companheiras, que sabia ao
    certo o dia do seu trespasse.

    Duas primaveras vira Simão Botelho pelas grades do seu carcere. A
    terceira já inflorava as hortas, e esverdeava as florestas do Candal.

    Era em Março de 1807.

    No dia 10 d'esse mez recebeu o condemnado intimação para sahir na
    primeira embarcação que levava ancora do Douro para a India. N'esse
    tempo vinham aqui os navios buscar os degredados, e recebiam em Lisboa
    os que tinham igual destino.

    Nenhum estorvo impedia o embarque de Marianna, que se apresentou ao
    corregedor do crime como criada do degredado, com passagem paga por seu
    amo.

    –E a passagem vale-a bem!–disse o galhofeiro magistrado.

    Simão assistiu no encaixotar de sua bagagem, n'uma quietação terrivel,
    como se ignorasse o seu destino.

    Quiz muitas vezes escrever a derradeira carta á moribunda Thereza, e nem
    signaes de lagrimas podia já enviar-lhe no papel.

    –Que trevas, meu Deus!–exclamava elle, e arrancava a mãos cheias os
    cabellos–Dai-me lagrimas, Senhor! deixai-me chorar, ou matai-me, que
    este soffrimento é insupportavel!

    Marianna contemplava estarrecida estes e outros lances de loucura, ou os
    não menos medonhos da lethargia.

    –E Thereza!–bradava elle, surgindo subitamente do seu spasmo–E
    aquella infeliz menina, que eu matei! Não hei de vêl-a mais, nunca mais!
    Ninguem me levará ao degredo a noticia da sua morte! E quando a eu
    chamar para que me veja morrer digno d'ella, quem te dirá que eu morri,
    ó martyr!

    X.

    A 17 de Março de 1807 sahiu dos carceres da Relação Simão Antonio
    Botelho, e embarcou no caes da Ribeira, com setenta e cinco
    companheiros. O filho do ex-corregedor de Vizeu, a pedido do
    desembargador Mourão Mosqueira, e por ordem do regedor das justiças, não
    ia amarrado com cordas ao braço d'algum companheiro. Desceu da cadêa ao
    embarque, ao lado de um meirinho, e seguido de Marianna, que vigiava os
    caixões da bagagem. O magistrado, fiel amigo de D. Rita Preciosa, foi a
    bordo da nau, e recommendou ao commandante que distinguisse o degredado
    Simão, consentindo-o na tolda, e sentando-o á sua mesa. Chamou Simão de
    parte, e deu-lhe um cartuxo de dinheiro em ouro, que sua mãe lhe
    enviava. Simão Botelho aceitou o dinheiro, e na presença de Mourão
    Mosqueira pediu ao commandante que fizesse distribuir pelos seus
    companheiros de degredo o dinheiro que lhe dava.

    –É demente o senhor Simão?!–disse o desembargador.

    –Tenho a demencia da dignidade: por amor da minha dignidade me perdi:
    quero agora vêr a que extremo de infortunio ella póde levar os seus
    amantes. A caridade só me não humilha, quando parte do coração e não do
    dever. Não conheço a pessoa, que me remetteu este dinheiro.

    –É sua mãe–tornou Mosqueira.

    –Não tenho mãe. Quer v. ex.^a remetter-lhe esta esmola rejeitada?

    –Não, senhor.

    –Então, senhor commandante, cumpra o que lhe peço, ou eu atiro com isto
    ao rio.

    O commandante aceitou o dinheiro, e o desembargador sahiu de bordo como
    espantado da sinistra condição do moço.

    –Onde é Monchique?–pergutou Simão a Marianna.

    –É acolá, senhor Simão–respondeu, indicando-lhe o mosteiro, que se
    debruça sobre a margem do Douro, em Miragaya.

    Cruzou os braços Simão, e viu através do gradeamento do mirante um
    vulto.

    Era Thereza.

    Na vespera recebêra ella o adeus de Simão, e respondêra enviando-lhe a
    trança dos seus cabellos.

    Ao anoitecer d'aquelle dia, pediu Thereza os sacramentos, e commungou á
    grade do côro, onde se foi amparando á sua criada. Parte das horas da
    noite passou-as sentada ao pé do sanctuario de sua tia, que toda a noite
    orou. Algumas vezes pediu que a levassem á janella que se abria para o
    mar, e não sentia ali a frialdade da viração. Conversava serenamente com
    as freiras, e despedira-se de todas, uma a uma, indo, por seu pé, ás
    cellas das senhoras entrevadas, para lhes dar o beijo da despedida.

    Todas cuidavam em reanimal-a, e Thereza sorria, sem responder aos
    piedosos artificios com que as boas almas a si mesmas queriam simular
    esperanças. Ao abrir da manhã, Thereza leu uma a uma as cartas de Simão
    Botelho. As que tinham sido escriptas nas margens do Mondego,
    enterneciam-na a copiosas lagrimas. Eram hymnos á felicidade prevista:
    eram tudo que mais formoso póde dar o coração humano, quando a poesia da
    paixão dá côr ao pensamento, e uma formosa e inspirativa natureza lhe
    empresta os seus esmaltes. Então lhe acudiam vivas reminiscencias
    d'aquelles dias: a sua alegria doida, as suas dôces tristezas,
    esperanças a desvanecerem saudades, os mudos colloquios com a irmã
    querida de Simão, o ceu aromatico que se lhe ampliava á aspiração
    sôfrega de vagos desejos, tudo, emfim, que lembra a desgraçados.

    Emmassou depois as cartas, e cintou-as com fitas de sêda desenlaçadas de
    raminhos de flôres murchas, que Simão, dois annos antes, lhe atirára da
    sua janella ao quarto d'ella.

    As petalas das flôres soltas quasi todas se desfizeram, e Thereza,
    contemplando-as, disse: «Como a minha vida…» e chorou, beijando os
    calices desfolhados das primeiras que recebêra.

    Deu as cartas a Constança, e encarregou-a de uma ordem, a respeito
    d'ellas, que logo veremos cumprida.

    Depois foi orar, e esteve ajoelhada meia hora, com meio corpo reclinado
    sobre uma cadeira. Erguendo-se, quasi tirada pela violencia, aceitou uma
    chicara de caldo, e murmurou com um sorriso: «Para a viagem…»

    Ás nove horas da manhã pediu a Constança que a acompanhasse ao mirante
    e, sentando-se em ancias mortaes, nunca mais desfitou os olhos da nau,
    que já estava de verga alta, esperando a leva dos degredados.

    Quando viu, a dois a dois, entrarem amarrados, no tombadilho, os
    condemnados, Thereza teve um breve accidente, em que a já froixa
    claridade dos olhos se lhe apagou, e as mãos convulsas pareciam querer
    aferrar a luz fugitiva.

    Foi então que Simão Botelho a viu.

    E ao mesmo tempo atracou á nau um bote, em que vinha a pobre de Vizeu
    chamando Simão. Foi elle ao portaló, e estendendo o braço á mendiga,
    recebeu o pacotinho das suas cartas. Reconheceu elle que a primeira não
    era sua, pela lizura do papel; mas não a abriu.

    Ouviu-se a voz de levar ancora, e largar amarras. Simão encostou-se á
    amurada da nau, com os olhos fitos no mirante.

    Viu agitar-se um lenço, e elle respondeu com o seu áquelle aceno. Desceu
    a nau ao mar, e passou fronteira ao convento. Distinctamente Simão viu
    um rosto e uns braços suspensos das rêxas de ferro; mas não era de
    Thereza aquelle rosto: seria antes um cadaver que subiu da claustra ao
    mirante, com os ossos da cara inçados ainda das herpes da sepultura.

    –É Thereza?–perguntou Simão a Marianna.

    –É, senhor, é ella–disse n'um afogado gemido a generosa creatura,
    ouvindo o seu coração dizer-lhe que a alma do condemnado iria breve no
    seguimento d'aquella por quem se perdêra.

    De repente aquietou o lenço que se agitava no mirante, e avistou Simão
    um movimento impetuoso de alguns braços, e o desapparecimento de Thereza
    e do vulto de Constança, que elle entre-vira mais tarde.

    A nau parou de fronte de Sobreiras. Uma nuvem no horisonte da barra, e o
    subito encapellamento das ondas, causára a suspensão por ordem do
    commandante. Em seguida, velejou da Foz uma catraia, com o piloto mór,
    que mandava lançar ferro, até novas ordens. Mais tarde, deferiu-se a
    sahida para o dia seguinte.

    E, no entanto, Simão Botelho, como o cadaver embalsamado, cujos olhos
    reluzentes se cravam n'um ponto immoveis, lá tinha os seus immersos na
    interior escuridade do miradouro. Nenhum signal de vida, e as horas
    passaram até que o derradeiro raio do sol se apagou nas grades do
    mosteiro.

    Ao escurecer voltou de terra o commandante, e contemplou, com os olhos
    embaciados de lagrimas, o desterrado, que contemplava as primeiras
    estrellas, eminentes ao mirante.

    –Procura-a no ceu?–disse o nauta.

    –Se a procuro no ceu!–repetiu machinalmente Simão.

    –Sim!… no ceu deve ella estar.

    –Quem, senhor?

    –Thereza.

    –Thereza!… Morreu?!

    –Morreu, álem, no mirante, d'onde lhe estava acenando.

    Simão curvou-se sobre a amurada, e fitou os olhos na torrente. O
    commandante lançou-lhe os braços e disse:

    –Coragem, grande desgraçado, coragem! os homens do mar crêem em Deus!
    Espere que o ceu se abra para si pelas supplicas d'aquelle anjo!

    Marianna estava um passo atraz de Simão, e tinha as mãos erguidas.

    –Acabou-se tudo!…–murmurou Simão– Eis-me livre… para a morte…
    Senhor commandante–continuou elie energicamente–eu não me suicido.
    Póde deixar-me.

    –Peço-lhe que se recolha á camara. O seu beliche está ao pé do meu.

    –É obrigatorio recolher-me?

    –Para v. s.^a não ha obrigações; ha rogos: peço-lh'o não mando.

    –Vou, e agradeço a compaixão.

    Marianna seguiu-o com aquelle olhar quebrado e mavioso do jáo, quando o
    poeta desembarcava, segundo a ideia apaixonada do cantor de Camões.

    Encarou n'ella Simão, e disse ao commandante:

    –E esta infeliz?

    –Que o siga…–respondeu o compassivo homem do mar, que cria em Deus.

    Simão recolheu-se ao beliche, e o commandante sentou-se em frente
    d'elle, e Marianna ficou no escuro da camera a chorar.

    –Falle, senhor Simão!–disse o commandante–desafogue e chore.

    –Chorei, senhor!

    –Eu não tinha imaginado uma angustia igual á sua. A invenção humana não
    creou ainda um quadro tão atroz. Arripiam-se-me os cabellos, e tenho
    visto espectaculos horriveis na terra e no mar.

    Acintemente, o commandante estava provocando Simão ao desabafo. Não
    respondia o degredado. Ouvia os soluços de Marianna, e tinha os olhos
    postos no masso das cartas, que pozera sobre uma banqueta.

    O capitão proseguiu:

    –Quando em Miragaya me contaram a morte d'aquella senhora, pedi a uma
    pessoa relacionada no convento, que me levasse a ouvir d'alguma freira a
    triste historia. Uma religiosa m'a contou; mas eram mais os gemidos que
    as palavras. Soube que ella, quando desciamos na altura do Oiro,
    proferira em alta voz: «Simão, adeus até á eternidade!» e cahiu nos
    braços d'uma criada. A criada gritou, e outras foram ao mirante, e a
    trouxeram meia-morta para baixo, ou morta, melhor direi, que nenhuma
    palavra mais lhe ouviram. Depois contaram-me o que ella penára em dois
    annos e nove mezes n'aquelle mosteiro. O amor que ella lhe tinha, e as
    mil mortes que ella ali padeceu, de cada vez que a esperança lhe morria,
    Que desgraçada menina, e que desgraçado moço o senhor é!

    –Por pouco tempo…– disse Simão, como se o dissesse a si proprio, ou
    a propria imaginação o estivesse dialogando comsigo.

    –Creio, creio, por pouco tempo–proseguiu o capitão;–mas se os amigos
    podessem salval-o, senhor, eu dar-lh'os-ia na India mais fieis que em
    Portugal. Prometto-lhe, sob minha palavra de honra, alcançar do visorei
    a sua residência em Gôa. Prometto segurar-lhe um decente principio de
    vida, e as commodidades que fazem a existencia tão saudavel como ella é
    na Asia. Não o intimide a ideia do degredo, senhor Simão. Viva, faça por
    vencer-se, e será feliz!

    –O seu silencio, por piedade, senhor…–atalhou o degredado.

    –Bem sei que é cêdo ainda para planisar futuros. Desculpe á sympathia,
    que me inspira, a indiscrição. Mas aceite um amigo n'esta hora
    atribulada.

    –Aceito, e preciso d'elle…. Marianna!–chamou Simão–Venha aqui, se
    este cavalheiro o permitte.

    Marianna entrou no quarto.

    –Esta mulher tem sido a minha providencia–disse Simão–Porque ella me
    valeu, não senti a fome em dois annos e nove mezes de carcere. Tudo que
    tinha vendeu para me sustentar e vestir. Aqui vai comigo esta creatura.
    Seja respeitavel aos seus olhos, senhor, porque ella é tão pura como a
    verdade o deve ser nos labios d'um moribundo. Se eu morrer, senhor
    commandante, aceite o legado de a amparar com a sua caridade como se
    ella fosse minha irmã. Se ella quizer voltar á patria, seja o seu
    protector na passagem.–E estendendo-lhe a mão, disse com
    transporte:–Promette-me isto, senhor?

    –Juro-lh'o.

    O commandante, obrigado a subir ao tombadilho, deixou Simão com
    Marianna.

    –Estou tranquillo pelo seu futuro, minha amiga.

    –Eu já o estava, senhor Simão–respondeu ella.

    Não se trocaram palavra por largo espaço. Simão apoiou a face sobre a
    mesa, e apertou com as mãos as fontes archejantes. Marianna, de pé, ao
    lado d'elle, fitava os olhos na luz mortiça da lampada oscillante, e
    scismava, como elle, na morte.

    E o nordeste sibilava, como um gemido, nas gáveas da nau.

    CONCLUSÃO.

    Ás onze horas da noite o commandante recolhêra-se n'um beliche de
    passageiro, e Marianna, sentada no pavimento, com o rosto sobre os
    joelhos, parecia sucumbir ao quebranto das trabalhosas e afflictivas
    horas d'aquelle dia.

    Simão Botelho velava prostrado no camarote, com os braços cruzados sobre
    o peito, e os olhos fitos na luz que balançava, pendente d'um arame. O
    ouvido têl-o-ia talvez attento ao assovio da ventania: devia de soar-lhe
    como um ai plangente aquelle silvo agudo, voz unica no silencio da terra
    e do ceu.

    Á meia noite estendeu Simão o braço tremulo ao masso das cartas que
    Thereza lhe enviára, e contemplou um pouco a que estava ao de cima, que
    era d'ella. Rompeu a obreia, e dispôz-se no camarote para alcançar o
    baço clarão da lampada.

    Dizia assim a carta:

    «É já o meu espirito que te falla, Simão. A tua amiga morreu. A tua
    pobre Thereza, á hora em que leres esta carta, se me Deus não engana,
    está em descanso.

    Eu devia poupar-te a esta ultima tortura; não devia escrever-te; mas
    perdôa á tua esposa do ceu a culpa pela consolação que sinto em
    conversar comtigo a esta hora, hora final da noite da minha vida.

    Quem te diria que eu morri, se não fosse eu mesma, Simão? D'aqui a pouco
    perderás da vista este mosteiro; correrás milhares de leguas, e não
    acharás, em parte alguma do mundo, voz humana que te diga: «A infeliz
    espera-te n'outro mundo, e pede ao Senhor que te resgate.»

    Se te podesses illudir, meu amigo, quererias antes pensar que eu ficava
    com vida e com esperança de vêr-te na volta do degredo? Assim póde ser,
    mas ainda agora, n'este solemne momento, me domina a vontade de fazer-te
    sentir que eu não podia viver. Parece que a mesma infelicidade tem ás
    vezes vaidade de mostrar que o é, até não podêl-o ser mais! Quero que
    digas: Está morta, e morreu quando lhe eu tirei a ultima esperança.

    Isto não é queixar-me, Simão, não é. Talvez que eu podesse alguns dias
    resistir á morte, se tu ficasses; mas, d'um modo ou d'outro, era
    inevitavel fechar os olhos quando se rompesse o ultimo fio, este ultimo
    que se está partindo, e eu mesma o oiço partir.

    Não vão estas palavras accrescentar a tua pena. Deus me livre de ajuntar
    um remorso injusto á tua saudade.

    Se eu podesse ainda vêr-te feliz n'este mundo; se Deus permittisse á
    minha alma esta visão!… _Feliz_, tu, meu pobre condemnado!… Sem o
    querer, o meu amor agora te fazia injuria, julgando-te capaz de
    felicidade! Tu morrerás de saudade, se o clima do desterro te não matar
    ainda antes de succumbires á dôr do espirito.

    A vida era bella, era, Simão, se a tivessemos como tu m'a pintavas nas
    tuas cartas, que li ha pouco. Estou vendo a casinha que tu descrevias
    defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves. A tua imaginação
    passeava comigo ás margens do Mondego, á hora pensativa do escurecer.
    Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
    mudez do coração ao teu silencio, e animada por teu sorriso inclinava a
    face ao teu seio, como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas
    cartas; e parece que cessa o despedaçar da agonia em quanto a alma se
    esta recordando. N'outra carta me fallavas em triumphos e glorias e
    immortalidade do teu nome. Também eu ia após da tua aspiração, ou
    adiante d'ella, porque o maior quinhão dos teus prazeres de espirito
    queria eu que fosse meu. Era criança ha tres annos, Simão, e já entendia
    os teus anhelos de gloria, e imaginava-os realisados como obra minha, se
    me tu dizias, como disseste muitas vezes, que não serias nada sem o
    estimulo do meu amor.

    Ó Simão, de que ceu tão lindo cahimos! Á hora que te escrevo estás tu
    para entrar na nau dos degredados, e eu na sepultura.

    Que importa morrer, se não podemos jámais ter n'esta vida a nossa
    esperança de ha tres annos?! Poderias tu com a desesperança e com a
    vida, Simão? Eu não podia. Os instantes do dormir eram os escassos
    beneficios que Deus me concedia; a morte é mais que uma necessidade, é
    uma misericordia divina, uma bemaventurança para mim.

    E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio? Onde irás tu
    aviventar o coração que a desgraça te esmagou, sem poder esmagar a
    imagem d'esta docil mulher, que seguiu cegamente a estrella da tua
    malfadada sorte?

    Tu nunca hás de amar, não, meu esposo? Terias pejo de ti mesmo, se uma
    vez visses passar rapidamente a minha imagem por diante dos teus olhos
    enxutos? Soffre, soffre ao coração da tua amiga estas derradeiras
    perguntas, a que tu responderás, no alto mar, quando esta carta lêres.

    Rompe a manhã. Vou vêr a minha ultima aurora… a ultima dos meus
    dezoito annos!

    Abençoado sejas, Simão! Deus te proteja, e te livre d'uma agonia longa.
    Todas as minhas angustias lhe offereço em desconto das tuas culpas. Se
    algumas impaciencias a justiça divina me condemna, offerece tu a Deus,
    meu amigo, os teus padecimentos para que eu seja perdoada.

    Adeus; á luz da eternidade parece-me que já te vejo, Simão.»

    Erguei-se Simão Botelho, olhou em redor de si, e fitou com spasmo
    Marianna, que levantava a cabeça ao menor movimento d'elle.

    –Que tem, senhor Simão?–disse ella, erguendo-se.

    –Estava aqui, Marianna?… não se vai deitar?!

    –Não vou: o commandante deu-me licença de ficar aqui.

    –Mas ha de assim passar a noite?! Rogo-lhe que vá, porque não é
    necessario o seu sacrificio.

    –Se o não incommodo, deixe-me aqui estar, senhor Simão.

    –Esteja, minha amiga, esteja… Poderei subir ao convez?

    –Quer ir ao convez, senhor Botelho?–disse o commandante lançando-se do
    beliche.

    –Queria, senhor commandante.

    –Iremos juntos.

    Simão ajuntou a carta de Thereza ao maço das suas, e subiu cambaleando.
    No convéz sentou-se n'um monte de cordame, e contemplou o mirante de
    Monchique, que avultava negro ao sopé da serra penhascosa em que
    actualmente vai a rua da Restauração.

    O capitão passeava da prôa á ré; mas com o ouvido fito aos movimentos do
    degredado. Receára elle o proposito do suicidio, porque Marianna lhe
    incutira semelhante suspeita. Queria o maritimo fallar-lhe palavras
    consoladoras, mas pensava comsigo: «O que ha de dizer-se a um homem que
    soffre assim?» E parava junto d'elle algumas vezes, como para
    desviar-lhe o espirito d'aquelle mirante.

    –Eu não me suicido!–exclamou abruptamente Simão Botelho–Se a sua
    generosidade, senhor capitão, se interessa em que eu viva, póde dormir
    descansado a sua noite, que eu não me suicido.

    –Mas mereço-lhe eu a condescendencia de descer comigo á camara?

    –Irei; mas eu lá soffro mais, senhor.

    Não replicou o commandante, e continuou a passear no convez, apesar das
    rajadas de vento.

    Marianna estava agachada, entre os pacotes da carga, a pouca distancia
    de Simão. O commandante viu-a, fallou-lhe, e retirou-se.

    Ás tres horas da manhã Simão Botelho segurou entre as mãos a testa que
    se lhe abria abrazada pela febre.

    Não pôde ter-se sentado, e deixou cahir meio corpo. A cabeça, ao
    declinar, pousou no seio de Marianna.

    –O anjo da compaixão sempre comigo!–murmurou elle–Thereza foi muito
    mais desgraçada…

    –Quer descer ao camarote?–disse ella.

    –Não poderei… Ampare-me, minha irmã.

    Deu alguns passos para o alçapão, e olhou ainda para o mirante. Desceu a
    ingreme escada, apegando-se ás cordas. Lançou-se sobre o colchão, e
    pediu agua, que bebeu insaciavelmente. Seguiu-se a febre, o
    estorcimento, e as ancias, com intervallos de delirio.

    De manhã veio a bordo um facultativo, por convite do capitão. Examinando
    o condemnado, disse que era «maligna» a doença, e que bem podia ser que
    elle achasse a sepultura no caminho da India.

    Marianna ouviu o prognostico, e não chorou.

    Ás onze horas sahiu barra fóra a nau. Ás ancias da doença accresceram as
    do enjoo. A pedido do commandante, Simão bebia remedios, que bolsava
    logo, revoltos pelas contracções do vomito.

    Ao segundo dia de viagem Marianna disse a Simão:

    –Se o meu irmão morrer, que hei de eu fazer áquellas cartas que vão na
    caixa?

    Pasmosa serenidade a d'esta pergunta!

    –Se eu morrer no mar–disse elle–Marianna atire ao mar todos os meus
    papeis; todos; e estas cartas que estão debaixo do meu travesseiro
    tambem.

    Passada uma ancia, que lhe embargara a voz, Simão continuou:

    –Se eu morrer, que tenciona fazer, Marianna!

    –Morrerei, senhor Simão.

    –Morrerá?!.. Tanta gente desgraçada que eu fiz!…

    A febre augmentava. Os symptomas da morte eram visiveis aos olhos do
    capitão, que tinha sobeja experiencia de vêr morrerem centenares de
    condemnados, feridos da febre no mar, e desprovidos de algum
    medicamento.

    Ao quarto dia, quando a nau se movia ronceira defronte de Cascaes,
    sobreveio tormenta subita. O navio fez-se ao largo muitas milhas, e
    perdido o rumo de Lisboa, navegou desnorteado para o sul. Ao sexto dia
    de navegação incerta, por entre espêssas brumas, partiu-se o leme
    defronte de Gibraltar. E, em seguida ao desastre, aplacaram as refegas,
    desencapellaram-se as ondas, e nasceu, com a aurora do dia seguinte, um
    formoso dia de primavera. Era o dia 27 de Março, o nono da enfermidade
    de Simão Botelho.

    Marianna tinha envilhecido. O commandante, encarando n'ella, exclamou:

    –Parece que volta da India com os dez annos de trabalhos já
    passados!…

    –Já acabados… de certo…–disse ella.

    Ao anoitecer d'esse dia o condemnado delirou pela ultima vez, e dizia
    assim no seu delirio:

    «A casinha, defronte de Coimbra, cercada de arvores, flôres e aves.
    Passeavas comigo á margem do Mondego, á hora pensativa do escurecer.
    Estrellava-se o ceu, e a lua abrilhantava a agua. Eu respondia com a
    mudez do coração ao teu silencio, e, animada por teu sorriso, inclinava
    a face ao teu seio como se fosse o de minha mãe… De que ceu tão lindo
    cahimos… A tua amiga morreu… A tua pobre
    Thereza………………………..

    E que farias tu da vida sem a tua companheira de martyrio?… Onde irás
    tu aviventar o coração que a desgraça te esmagou… Rompe a manhã… Vou
    vêr a minha ultima aurora… a ultima dos meus dezoitos annos. Offerece
    a Deus os teus padecimentos para que eu seja perdoada… Marianna…»

    Marianna collou os ouvidos aos labios roixos do moribundo, quando cuidou
    ouvir o seu nome.

    «Tu virás ter comnosco; ser-te-hemos irmãos no ceu… O mais puro anjo
    serás tu… se és d'este mundo, irmã; se és d'este mundo, Marianna…»

    A transição do delirio para a lethargia completa era o annuncio
    infallivel do trespasse.

    Ao romper da manhã apagára-se a lampada. Marianna sahira a pedir luz, e
    ouvira um gemido estorturoso. Voltando ás escuras, com os braços
    estendidos para tactear a face do agonisante, encontrou a mão convulsa,
    que lhe apertou uma das suas, e relaxou de subito a pressão dos dedos.

    Entrou o commandante com uma lampada, e approximou-lh'a da respiração,
    que não embaciou levemente o vidro.

    –Está morto!…– disse elle.

    Marianna curvou-se sobre o cadaver, e beijou-lhe a face. Era o primeiro
    beijo. Ajoelhou depois ao pé do camarote com as mãos erguidas, e não
    orava nem chorava.

    Algumas horas depois, o commandante disse a Marianna:

    –Agora é tempo de dar sepultura ao nosso venturoso amigo … É ventura
    morrer quando se vem a este mundo com tal estrella… Passe a senhora
    Marianna ali para a camara, que vai ser levado d'aqui o defuncto.

    Marianna tirou o masso das cartas debaixo do travesseiro, e foi a uma
    caixa buscar os papeis de Simão. Atou o rolo no avental, que elle tinha
    d'aquellas lagrimas d'ella choradas no dia da sua demencia, e cingiu o
    embrulho á cintura.

    Foi o cadaver envolto n'um lençol, e transportado ao convez.

    Marianna seguiu-o.

    Do porão da nau foi trazida uma pedra, que um marujo lhe atou ás pernas
    com um pedaço de cabo. O commandante contemplava a scena triste com os
    olhos humidos, e os soldados, que guarneciam a nau, tão funeral respeito
    os acurvava, que insensivelmente se descobriram.

    Marianna estava, no entanto, encostada ao flanco da nau, e parecia
    estupidamente encarar aquelles empuxões, que o marujo dava ao cadaver
    para segurar a pedra na cintura.

    Dois homens ergueram o cadaver ao alto sobre a amurada. Deram-lhe o
    balanço para o arremessarem longe. E antes que o baque do morto se
    fizesse ouvir na agua, todos viram, e ninguém já pôde segurar Marianna,
    que se atirára ao mar.

    Á voz do commandante desamarraram rapidamente o bote, e saltaram homens
    para salvar Marianna.

    Salval-a!…

    Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir á morte, mas para
    abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços. O
    commandante olhou para o sitio d'onde Marianna se atirára, e viu,
    enleado no cordame, o avental, e á flor d'agua um rolo de papeis que os
    marujos recolheram na lancha. Eram, como sabem, a correspondencia de
    Thereza e Simão.

    * * * * *

    Da familia de Simão Botelho vive ainda, em Villa Real de Traz-os-Montes,
    a senhora D. Rita Emilia da Veiga Castello Branco, a irmã predilecta
    d'elle. A ultima pessoa fallecida, ha vinte e seis annos, foi Manoel
    Botelho, pae do author d'este livro.

    FIM.

    * * * * *

    [1] Ha vinte annos que eu ouvi d'um coevo do facto a historia do
    assassinio assim contada: Era em quinta Feira santa. Marcos Botelho,
    irmão de Domingos, estava na festa de endoenças, em S. Francísco,
    defrontando com uma dama, namorada sua, e desleal dama que ella era.
    N'outro ponto da igreja estava, apontado em olhos e coração á mesma
    mulher, um alferes de infanteria. Marcos enfreou o seu ciume até ao
    final do officio da paixão. Á sahida do templo encarou no militar, e
    provocou-o. O alferes tirou da espada, e o fidalgo do espadim. Terçaram
    as armas longo tempo sem desaire nem sangue. Amigos de ambos tinham
    conseguido aplacal-os, quando Luiz Botelho, outro irmão de Marcos,
    desfechou uma clavina no peito do alferes, e alli á entrada da «rua do
    Jogo da Bola» o derribou morto. O homicida foi livre por graça regia.

    [2] É a casa-palacete da «rua da Piedade», hoje pertencente ao doutor
    Antonio Girardo Monteiro.

    [3] Esclarece este dizer de D. Rita a certidão de idade de Simão, a qual
    tenho presente, e é extrahida por Herculano Henrique Garcia Camillo
    Galhardo, reitor da real Igreja da Senhora da Ajuda, do livro 14, a
    folhas 159 v. Reza assim:

    «Aos dois dias do mez de maio de 1784, pôz os santos oleos o reverendo
    padre cura João Domingues Chaves a Simão, o qual foi _baptisado em casa
    em perigo de vida_ pelo Reverendo Frei Antonio de S. Pelagio, etc.»

    [4] N'alguns papeis que possuimos do corregedor de Vizeu achamos esta
    carta: «Meu amigo, collega e senhor. Entregará, ao portador d'esta, que
    é o senhor padre Manoel de Oliveira, as cincoenta moedas em que lhe
    fallei na sua passagem para Lisboa. A appellação de seu filho está a meu
    cuidado, e está segura, apesar das grandes forças contrarias. Seu
    amigo–O desembargador _Antonio José Dias Mourão Mosqueira_. Porto 11 de
    fevereiro de 1805.–Sobrescripto: Ill.^mo Snr. D.^or Domingos José
    Correia Botelho de Mesquita e Menezes.–Lisboa.»

    (_Nota do auctor_).

    [5] Este romance foi escripto n'um dos cubiculos-carceres da Relação do
    Porto, a uma luz coada por entre ferros, e abafada pelas sombras das
    abobadas. Anno da Graça de 1861.

    [6] _Hoje então!…_ Vou-lhes contar um lance memorando d'um philosopho
    da actualidade, lance unico pelo qual eu fiquei conhecendo a pessoa.
    Hoje (21 de Setembro de 1861) estava eu no escriptorio do illustre
    advogado Joaquim Marcellino de Mattos, e um cliente entrou contando o
    seguinte:–«Senhor doutor, eu sou um lojista da rua de ***; e fui
    roubado em oitocentos mil reis por minha mulher, que fugiu com um amante
    para Vianna. Venho saber se posso querelar, e receber o meu dinheiro.»
    –Póde querelar, respondeu o advogado, se tiver testemunhas. O senhor
    quer querelar por adulterio?–Responde o queixoso: «O que eu quero é o
    meu dinheiro.»–Mas, redargue o consultor, o senhor póde querelar de
    ambos, d'ella por adultera, e d'elle como receptador do furto.–«E
    receberei o meu dinheiro?»–Conforme. Eu sei cá se elle tem o seu
    dinheiro?! O que sei é que não póde pronuncial-a a ella como
    ladra.–«Mas os meus oitocentos mil reis?!»–Ah! o senhor não se lhe dá
    que sua mulher fuja e não volte?–«Não, senhor doutor, que a leve o
    diabo; o que eu quero é o meu dinheiro.»–Pois querele d'ambos, o
    veremos depois.–«Mas não é certo receber eu o meu dinheiro?!»–Certo
    não é; veremos se depois de pronunciado as authoridades administrativas
    capturam o ladrão com o seu dinheiro.–«E, se elle o não tiver
    já?–redargue o marido consternado.»–Se o não tiver já, o senhor
    vinga-se na querela por adulterio.–«E gasta-se alguma coisa?»–Gasta,
    sim; mas vinga-se.–«O que eu queria era o meu dinheiro, senhor doutor:
    a mulher deixal-a ir, que tem cincoenta annos.»–Cincoenta
    annos!–acudiu o doutor–o senhor está vingado do amante. Vá para casa,
    deixe-se de querelas, que o mais desgraçado é elle.

    Encadernação N.° 2465

    FAUSTO FERNANDES

    ENCADERNOU

    Patio de D. Fradique, 1–LISBOA

    End of Project Gutenberg's Amor de Perdição, by Camillo Castello Branco

  • A Relíquia

    A Relíquia

    Aproximadamente 85.218 palavras.

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    A RELIQUIA

    *A Reliquia*

    Decidi compôr, nos vagares d'este verão, na minha quinta do _Mosteiro_
    (antigo solar dos condes de Landoso) as memorias da minha Vida–que
    n'este seculo, tão consumido pelas incertezas da Intelligencia e tão
    angustiado pelos tormentos do Dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu
    cunhado Chrispim, uma lição lucida e forte.

    Em 1875, nas vesperas de Santo Antonio, uma desillusão de incomparavel
    amargura abalou o meu sêr: por esse tempo minha tia D. Patrocinio das
    Neves mandou-me do Campo de Sant'Anna, onde moravamos, em romagem a
    Jerusalem: dentro d'essas santas muralhas, n'um dia abrazado do mez de
    Nizam, sendo Poncius Pilatus procurador da Judêa, Elius Lamma legado
    imperial da Syria e J. Kaiapha Summo Pontifice testemunhei,
    miraculosamente, escandalosos successos: depois voltei–e uma grande
    mudança se fez nos meus bens e na minha moral.

    São estes casos–espaçados e altos n'uma existencia de bacharel como, em
    campo de herva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e
    murmurio–que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, emquanto
    no meu telhado voam as andorinhas, e as moitas de cravos vermelhos
    perfumam o meu pomar.

    Esta jornada á terra do Egypto e á Palestina permanecerá sempre como a
    gloria superior da minha carreira; e bem desejaria que d'ella ficasse
    nas Lettras, para a Posteridade, um monumento airoso e macisso. Mas
    hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituaes, pretendi que as
    paginas intimas em que a relembro se não assemelhassem a um _Guia
    Pittoresco do Oriente_. Por isso (apesar das solicitações da vaidade)
    supprimi n'este manuscripto succulentas, resplandecentes narrativas de
    Ruinas e de Costumes…

    De resto esse paiz do Evangelho, que tanto fascina a humanidade
    sensivel, é bem menos interessante que o meu sêcco e paterno Alemtejo:
    nem me parece que as terras favorecidas por uma presença Messianica
    ganhem jámais em graça ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os
    Lugares Santos da India em que o Budha viveu–arvoredos de Migadaia,
    outeiros de Veluvana, ou esse dôce valle de Rajagria por onde se
    alongavam os olhos adoraveis do Mestre perfeito quando um fogo rebentou
    nos juncaes, e Elle ensinou, em singela parabola, como a Ignorancia é
    uma fogueira que devora o homem–alimentada pelas enganosas sensações de
    Vida que os sentidos recebem das enganosas apparencias do Mundo. Tambem
    não visitei a caverna d'Hira, nem os devotos areaes entre Meca e Medina
    que tantas vezes trilhou Mahomet, o Propheta Excellente, lento e
    pensativo sobre o seu dromedario. Mas, desde as figueiras de Bethania
    até ás aguas caladas de Galilêa, conheço bem os sitios onde habitou esse
    outro Intermediario divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem
    chamamos Jesus-Nosso-Senhor:–e só n'elles achei bruteza, seccura,
    sordidez, soledade e entulho.

    Jerusalem é uma villa turca, com viellas andrajosas, acaçapada entre
    muralhas côr de lôdo, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.

    O Jordão, fio d'agua barrento e pêco que se arrasta entre areaes, nem
    póde ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do
    _Mosteiro_, banha as raizes dos meus amieiros: e todavia vêde! estas
    meigas aguas portuguezas não correram jámais entre os joelhos d'um
    Messias, nem jámais as roçaram as azas dos anjos, armados e rutilantes,
    trazendo do céo á terra as ameaças do Altissimo!

    Entretanto como ha espiritos insaciaveis que, lendo d'uma jornada pelas
    terras da Escriptura, anhelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao
    preço da cerveja–eu recommendo a obra copiosa e luminosa do meu
    companheiro de romagem, o allemão Topsius, doutor pela Universidade de
    Bonn e membro do _Instituto Imperial de Excavações Historicas_. São sete
    volumes _in-quarto_, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo
    fino e profundo–Jerusalem Passeada e Commentada.

    Em cada pagina d'esse solido Itinerario o douto Topsius falla de mim,
    com admiração e com saudade. Denomina-me sempre o _illustre fidalgo
    lusitano_; e a fidalguia do seu camarada, que elle faz remontar aos
    Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de delicioso orgulho. Além
    d'isso o esclarecido Topsius aproveita-me, através d'esses repletos
    volumes, para pendurar ficticiamente, nos meus labios e no meu craneo,
    dizeres e juizos ensopados de beata e babosa credulidade–que elle logo
    rebate e derroca com sagacidade e facundia! Diz, por exemplo:–«Diante
    de tal ruina, do tempo da Cruzada de Godofredo, o illustre fidalgo
    lusitano pretendia que Nosso Senhor, indo um dia com a Santa
    Veronica…»–E logo alastra a tremenda, turgida argumentação com que me
    deliu. Como porém as arengas que me attribue não são inferiores em sabio
    chorume e arrogancia theologica ás de Bossuet, eu não denunciei n'uma
    nota á _Gazeta de Colonia_–por que tortuoso artificio a afiada razão da
    Germania se enfeita assim de triumphos sobre a romba fé do Meio-Dia.

    Ha porém um ponto de Jerusalem Passeada que não posso deixar sem
    energica contestação. É quando o doutissimo Topsius allude a dois
    embrulhos de papel, que me acompanharam e me occuparam, na minha
    peregrinação, desde as viellas de Alexandria até ás quebradas do
    Carmello. N'aquella fórma rotunda que caracterisa a sua eloquencia
    universitaria, o dr. Topsius diz:–«O illustre fidalgo lusitano
    transportava alli restos dos seus antepassados, recolhidos por elle,
    antes de deixar o sólo sacro da patria, no seu velho solar torreado!…»
    Maneira de dizer singularmente fallaz e censuravel! Porque faz suppôr á
    Allemanha erudita que eu viajava pelas terras do Evangelho–trazendo
    embrulhados n'um papel pardo os ossos dos meus avós!

    Nenhuma outra imputação me poderia tanto desaprazer e desconvir. Não por
    me denunciar á Egreja como um profanador leviano de sepulturas
    domesticas: menos me pezam a mim, commendador e proprietario, as
    fulminações da Egreja–que as folhas sêccas que ás vezes cahem sobre o
    meu guardasol de cima d'um ramo morto: nem realmente a Egreja, depois de
    ter embolsado os seus emolumentos por enterrar um mólho d'ossos, se
    importa que elles para sempre jazam resguardados sob a rigida paz d'um
    marmore eterno, ou que andem chocalhados nas dobras molles d'um papel
    pardo. Mas a afirmação de Topsius desacredita-me perante a Burguezia
    Liberal:–e só da Burguezia Liberal, omnipresente e omnipotente, se
    alcançam, n'estes tempos de semitismo e de capitalismo, as coisas boas
    da vida, desde os empregos nos bancos até ás commendas da Conceição. Eu
    tenho filhos, tenho ambições. Ora a Burguezia Liberal aprecia, recolhe,
    assimila com alacridade um cavalheiro ornado de avoengos e solares: é o
    vinho precioso e velho que vai apurar o vinho novo e crú: mas com razão
    detesta o bacharel, filho d'algo, que passeie por diante d'ella,
    enfunado e têso, com as mãos carregadas de ossos de antepassados–como
    um sarcasmo mudo aos antepassados e aos ossos que a ella lhe faltam.

    Por isso intímo o meu douto Topsius (que com seus penetrantes oculos viu
    formar os meus embrulhos, já na terra do Egypto, já na terra de Canaan)
    a que na edição segunda de Jerusalem Passeada, sacudindo pudicos
    escrupulos de Academico e estreitos desdens de Philosopho, divulgue á
    Allemanha scientifica e á Allemanha sentimental qual era o recheio que
    continham esses papeis pardos–tão francamente como eu o revelo aos meus
    concidadãos n'estas paginas de repouso e de ferias, onde a Realidade
    sempre vive, ora embaraçada e tropeçando nas pesadas roupagens da
    Historia, ora mais livre e saltando sob a caraça vistosa da Farça!

    I

    Meu avô foi o padre Rufino da Conceição, licenciado em theologia, author
    de uma devota _Vida de Santa Philomena_, e prior da Amendoeirinha. Meu
    pai, afilhado de Nossa Senhora da Assumpção, chamava-se Rufino da
    Assumpção Raposo–e vivia em Evora com a minha avó, Philomena Raposo,
    por alcunha a «Repolhuda,» doceira na rua do Lagar dos Dizimos. O papá
    tinha um emprego no correio, e escrevia por gosto no _Pharol do
    Alemtejo_.

    Em 1853, um ecclesiastico illustre, D. Gaspar de Lorena, bispo de
    Chorazin (que é em Galilêa), veio passae o S. João a Evora, a casa do
    conego Pitta, onde o papá muitas vezes á noite costumava ir tocar
    violão. Por cortezia com os dois sacerdotes, o papá publicou no _Pharol_
    uma chronica, laboriosamente respigada no _Peculio de Prégadores_,
    felicitando Evora «pela dita d'abrigar em seus muros o insigne prelado
    D. Gaspar, lume fulgente da Igreja, e preclarissima torre de santidade.»
    O bispo de Chorazin recortou este pedaço do _Pharol_ para o metter entre
    as folhas do seu Breviario; e tudo no papá lhe começou a agradar, até o
    aceio da sua roupa branca, até a graça chorosa com que elle cantava,
    acompanhando-se no violão, a xacara do conde Ordonho. Mas quando soube
    que este Rufino da Assumpção, tão moreno e sympathico, era o afilhado
    carnal do seu velho Rufino da Conceição, camarada de estudos no bom
    Seminario de S. José e nas veredas theologicas da Universidade, a sua
    affeição pelo papá tornou-se extremosa. Antes de partir de Evora deu-lhe
    um relogio de prata; e, por influencia d'elle, o papá, depois de
    arrastar alguns mezes a sua madraçaria pela alfandega do Porto, como
    aspirante, foi nomeado, escandalosamente, director da alfandega de
    Vianna.

    As macieiras cobriam-se de flôr quando o papá chegou ás veigas suaves
    d'Entre-Minho-e-Lima; e logo n'esse julho conheceu um cavalheiro de
    Lisboa, o commendador G. Godinho, que estava passando o verão com duas
    sobrinhas, junto ao rio, n'uma quinta chamada o _Mosteiro_, antigo solar
    dos condes de Lindoso. A mais velha d'estas senhoras, D. Maria do
    Patrocinio, usava oculos escuros, e vinha todas as manhãs da quinta á
    cidade, n'um burrinho, com o criado de farda, ouvir missa a Sant'Anna. A
    outra, D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa, sabia de cór os
    versos do _Amor e Melancolia_, e passava horas, á beira da agua, entre a
    sombra dos amieiros, rojando o vestido branco pelas relvas, a fazer
    raminhos silvestres.

    O papá começou a frequentar o _Mosteiro_. Um guarda da alfandega
    levava-lhe o violão; e emquanto o commendador e outro amigo da casa, o
    Margaride, doutor delegado, se embebiam n'uma partida de gamão, e D.
    Maria do Patrocinio rezava em cima o terço–o papá, na varanda, ao lado
    de D. Rosa, defronte da lua, redonda e branca sobre o rio, fazia gemer
    no silencio os bordões e dizia as tristezas do conde Ordonho. Outras
    vezes jogava elle a partida de gamão: D. Rosa, sentava-se então ao pé do
    titi, com uma flôr nos cabellos, um livro cahido no regaço; e o papá,
    chocalhando os dados, sentia a caricia promettedora dos seus olhos
    pestanudos.

    Casaram. Eu nasci n'uma tarde de sexta-feira de Paixão; e a mamã morreu,
    ao estalarem, na manhã alegre, os foguetes da Alleluia. Jaz, coberta de
    goivos, no cemiterio de Vianna, n'uma rua junto ao muro, humida da
    sombra dos chorões, onde ella gostava de ir passear nas tardes de verão,
    vestida de branco, com a sua cadellinha felpuda que se chamava
    _Traviata_.

    O commendador e D. Maria não voltaram ao _Mosteiro_. Eu cresci, tive o
    sarampo; o papá engordava; e o seu violão dormia, esquecido ao canto da
    sala, dentro d'um sacco de baeta verde. N'um julho de grande calor, a
    minha criada Gervasia vestiu-me o fato pesado de velludilho preto; o
    papá poz um fumo no chapéo de palha; era o luto do commendador G.
    Godinho a quem o papá muitas vezes chamava, por entre dentes,
    «malandro.»

    Depois, n'uma noite de entrudo, o papá morreu de repente, com uma
    apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa, mascarado
    d'urso, para ir ao baile das senhoras Macedos.

    Eu fazia então sete annos; e lembro-me de ter visto, ao outro dia, no
    nosso pateo, uma senhora alta e gorda, com uma mantilha rica de renda
    negra, a soluçar diante das manchas de sangue do papá, que ninguem
    lavára, e já tinham seccado nas lages. Á porta uma velha esperava,
    rezando, encolhida no seu mantéo de baetilha.

    As janellas da frente da casa foram fechadas; no corredor escuro, sobre
    um banco, um candieiro de latão ficou dando a sua luzinha de capella,
    fumarenta e mortal. Ventava e chovia. Pela vidraça da cozinha, emquanto
    a Marianna, choramigando, abanava o fogareiro, eu vi passar no largo da
    Senhora da Agonia, o homem que trazia ás costas o caixão do papá. No
    alto frio do monte a capellinha da Senhora, com a sua cruz negra,
    parecia mais triste ainda, branca e nua, entre os pinheiros, quasi a
    sumir-se na nevoa; e adiante, onde estão as rochas, gemia e rolava, sem
    descontinuar, um grande mar d'inverno.

    Á noite, no quarto de engommar, a minha criada Gervasia sentou-me no
    chão, embrulhado n'um saiote. De quando em quando, rangiam no corredor
    as botas do João, guarda da alfandega, que andava a defumar com
    alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão de ló. Adormeci: e
    logo achei-me a caminhar á beira d'um rio claro, onde os choupos, já
    muito velhos, pareciam, ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia
    andando um homem nú, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos,
    que era Jesus, Nosso Senhor.

    Passados dias, acordaram-me, n'uma madrugada em que a janella do meu
    quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenuncio de
    coisa santa. Ao lado da cama, um sujeito risonho e gordo fazia-me
    cocegas nos pés com ternura e chamava-me _bréjeirote_. A Gervasia
    disse-me que era o snr. Mathias, que me ia levar para muito longe, para
    casa da tia Patrocinio: e o snr. Mathias, com a sua pitada suspensa,
    olhava espantado para as meias rôtas que me calçára a Gervasia.
    Embrulharam-me no chale-manta cinzento do papá; o João, guarda da
    alfandega, trouxe-me ao collo até á porta da rua, onde estava uma
    liteira com cortinas d'oleado.

    Começámos então a caminhar por compridas estradas. Mesmo adormecido, eu
    sentia as lentas campainhas dos machos: e o snr. Mathias, defronte de
    mim, fazia-me de vez em quando uma festinha na cara, e dizia: «Ora cá
    vamos.» Uma tarde, ao escurecer, parámos de repente n'um sitio ermo,
    onde havia um lamaçal; o liteireiro, furioso, praguejava, sacudindo o
    archote acceso. Em redor, dolente e negro, rumorejava um pinheiral. O
    snr. Mathias, enfiado, tirou o relogio da algibeira e escondeu-o no cano
    da bota.

    Uma noite, atravessámos uma cidade onde os candieiros da rua tinham uma
    luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira, da fórma d'uma tulipa
    aberta. Na estalagem em que apeámos, o criado, chamado Gonçalves,
    conhecia o snr. Mathias: e depois de nos trazer os bifes, ficou
    familiarmente encostado á mesa, de guardanapo ao hombro, contando coisas
    do snr. barão, e da ingleza do snr. barão. Quando recolhiamos ao quarto,
    alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma
    senhora, grande e branca, com um rumor forte de sêdas claras, espalhando
    um aroma d'almiscar. Era a ingleza do snr. barão. No meu leito de ferro,
    desperto pelo barulho das seges, eu pensava n'ella, rezando Ave-Marias.
    Nunca roçára corpo tão bello, d'um perfume tão penetrante: ella era
    cheia de graça, o Senhor estava com ella, e passava, bemdita entre as
    mulheres, com um rumor de sêdas claras…

    Depois, partimos n'um grande coche que tinha as armas do rei, e rolava a
    direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de quatro cavallos
    gordos. O snr. Mathias, de chinelas nos pés e tomando a sua pitada,
    dizia-me, aqui e além, o nome d'uma povoação aninhada em torno d'uma
    velha igreja, na frescura d'um valle. Ao entardecer, por vezes, n'uma
    encosta, as janellas d'uma calma vivenda faiscavam com um fulgor d'ouro
    novo. O coche passava; a casa ficava adormecendo entre as arvores;
    através dos vidros embaciados eu via luzir a estrella de Venus. Alta
    noite tocava uma corneta; e entravamos, atroando as calçadas, n'uma
    villa adormecida. Defronte do portão da estalagem moviam-se
    silenciosamente lanternas mortiças. Em cima, n'uma sala aconchegada, com
    a mesa cheia de talheres, fumegavam as terrinas; os passageiros,
    arripiados, bocejavam, tirando as luvas grossas de lã; e eu comia o meu
    caldo de gallinha, estremunhado e sem vontade, ao lado do snr. Mathias,
    que conhecia sempre algum moço, perguntava pelo doutor delegado, ou
    queria saber como iam as obras da camara.

    Emfim, n'um domingo de manhã, estando a choviscar, chegámos a um
    casarão, n'um largo cheio de lama. O snr. Mathias disse-me que era
    Lisboa; e, abafando-me no meu chale-manta, sentou-me n'um banco, ao
    fundo d'uma sala humida, onde havia bagagens e grandes balanças de
    ferro. Um sino lento tocava á missa; diante da porta passou uma
    companhia de soldados, com as armas sob as capas d'oleado. Um homem
    carregou os nossos bahús, entrámos n'uma sege, eu adormeci sobre o
    hombro do snr. Mathias. Quando elle me poz no chão, estavamos n'um pateo
    triste, lageado de pedrinha miuda, com assentos pintados de preto: e na
    escada uma moça gorda cochichava com um homem d'opa escarlate, que
    trazia ao collo o mealheiro das Almas.

    Era a Vicencia, a criada da tia Patrocinio. O snr. Mathias subiu os
    degraus conversando com ella, e levando-me ternamente pela mão. N'uma
    sala forrada de papel escuro, encontrámos uma senhora muito alta, muito
    secca, vestida de preto, com um grilhão d'ouro no peito; um lenço rôxo,
    amarrado no queixo, cahia-lhe n'um bioco lugubre sobre a testa; e no
    fundo d'essa sombra negrejavam dois oculos defumados. Por traz d'ella,
    na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dôres olhava para mim, com o
    peito trespassado d'espadas.

    –Esta é a titi, disse-me o snr. Mathias. É necessario gostar muito da
    titi… É necessario dizer sempre que _sim_ á titi!

    Lentamente, a custo, ella baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu
    senti um beijo vago, d'uma frialdade de pedra: e logo a titi recuou,
    enojada.

    –Credo, Vicencia! Que horror! Acho que lhe puzeram azeite no cabello!

    Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ella,
    murmurei:

    –Sim, titi.

    Então o snr. Mathias gabou o meu genio, o meu proposito na liteira, a
    limpeza com que eu comia a minha sopa á mesa das estalagens.

    –Está bem, rosnou a titi seccamente. Era o que faltava, portar-se mal,
    sabendo o que eu faço por elle… Vá, Vicencia, leve-o lá para dentro…
    Lave-lhe essa ramella, veja se elle sabe fazer o signal da cruz…

    O snr. Mathias deu-me dois beijos repenicados. A Vicencia levou-me para
    a cozinha.

    Á noite vestiram-me o meu fato de velludilho; e a Vicencia, séria,
    d'avental lavado, trouxe-me pela mão a uma sala em que pendiam cortinas
    de damasco escarlate, e os pés das mesas eram dourados como as columnas
    d'um altar. A titi estava sentada no meio do canapé, vestida de sêda
    preta, toucada de rendas pretas, com os dedos resplandecentes de anneis.
    Ao lado, em cadeiras tambem douradas, conversavam dois ecclesiasticos.
    Um, risonho e nedio, de cabellinho encaracolado e já branco, abriu os
    braços para mim, paternalmente. O outro, moreno e triste, rosnou só
    «boas noites.» E da mesa, onde folheava um grande livro de estampas, um
    homemzinho, de cara rapada e collarinhos enormes, comprimentou,
    atarantado, deixando escorregar a luneta do nariz.

    Cada um d'elles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste
    perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava _Tedrico_. O outro,
    amoravel, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as
    syllabas e dissesse _The-o-do-ri-co_. Depois acharam-me parecido com a
    mamã, nos olhos. A titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu
    não tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes collarinhos fechou o
    livro, fechou a luneta, e timidamente quiz saber se eu trazia saudades
    de Vianna. Eu murmurei, atordoado:

    –Sim, titi.

    Então o padre mais idoso e nedio chegou-me para os joelhos,
    recommendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre
    obediente á titi…

    –O Theodorico não tem ninguem senão a titi… É necessario dizer sempre
    que _sim_ á titi…

    Eu repeti, encolhido:

    –Sim, titi.

    A titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da bocca. Depois disse-me
    que voltasse para a cozinha, para a Vicencia, sempre a seguir pelo
    corredor…

    –E quando passar pelo oratorio, onde está a luz e a cortina verde,
    ajoelhe, faça o seu signalzinho da cruz…

    Não fiz o signal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratorio da titi
    deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de sêda rôxa, com
    paineis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do
    Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos
    de marfim e de madeira, com aureolas lustrosas, viviam n'um bosque de
    violetas e de camelias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar
    duas salvas nobres de prata, encostadas á parede, em repouso, como
    broqueis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um docel,
    Nosso Senhor Jesus Christo era todo d'ouro, e reluzia.

    Cheguei-me devagar até junto da almofada de velludo verde, pousada
    diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da titi. Ergui para Jesus
    crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no céo os
    anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de
    ouro, cravejados talvez de pedras: o seu brilho formava a luz do dia; e
    as estrellas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo
    através dos véos negros, em que os embrulhava á noite, para dormirem, o
    carinho beato dos homens.

    Depois do chá, a Vicencia foi-me deitar n'uma alcovinha pegada ao seu
    quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as mãos, ergueu-me a face
    para o céo. E dictou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saude da
    titi, pelo repouso da mamã, e por alma d'um commendador que fôra muito
    bom, muito santo, e muito rico, e que se chamava Godinho.

    * * * * *

    Apenas completei nove annos, a titi mandou-me fazer camisas, um fato de
    pano preto, e collocou-me, como interno, no collegio dos Isidoros, então
    em Santa Isabel.

    Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz Chrispim,
    mais crescido que eu, filho da firma Telles, Chrispim & C.^a, donos da
    fabrica do fiação á Pampulha. O Chrispim ajudava á missa aos domingos;
    e, de joelhos, com os seus cabellos compridos e louros, lembrava a
    suavidade d'um anjo. Ás vezes agarrava-me no corredor e marcava-me a
    face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; á noite, na
    sala, d'estudo, á mesa onde folheavamos os somnolentos diccionarios,
    passava-me bilhetinhos a lapis, chamando-me _seu idolatrado_ o
    promettendo-me caixinhas de pennas d'aço…

    Á quinta-feira era o desagradavel dia de lavarmos os pés. E tres vezes
    por semana o sebento padre Soares, vinha, de palito na bocca,
    interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor.

    –Ora depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de Caiphás… Olá, o
    da pontinha do banco, quem era Caiphás?… Emende! Emende adiante!…
    Tambem não! Irra, cabeçudos! Era um judeu o dos peores… Ora diz que,
    lá n'um sitio muito feio da Judêa, ha uma arvore toda d'espinhos, que é
    mesmo d'arripiar…

    A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e d'estalo, fechavamos a
    cartilha.

    O tristonho pateo de recreio, areado com saibro, cheirava mal por causa
    da visinhança das latrinas; e o regalo para os mais crescidos era tirar
    uma fumaça do cigarro, ás escondidas, n'uma sala terrea onde aos
    domingos o mestre de dansa, o velho Cavinetti, frisado e de sapatinhos
    decotados, nos ensinava mazurkas.

    Cada mez a Vicencia, de capote e lenço, me vinha buscar depois da missa,
    para ir passar um domingo com a titi. Isidoro Junior, antes de eu sair,
    examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia
    d'elle, dava-me uma ensaboadella furiosa, chamando-me baixo _sebento_.
    Depois trazia-me até á porta, fazia-me uma caricia, tratava-me de seu
    _querido amiguinho_, e mandava pela Vicencia os seus respeitos á snr.^a
    D. Patrocinio das Neves.

    Nós moravamos no Campo de Sant'Anna. Ao descer o Chiado, eu parava n'uma
    loja de estampas, diante do languido quadro d'uma mulher loura, com os
    peitos nús, recostada n'uma pelle de tigre, e sustentando na ponta dos
    dedos, mais finos que os do Chrispim, um pesado fio de perolas. A
    claridade d'aquella nudez fazia-me pensar na ingleza do snr. barão: e
    esse aroma, que tanto me perturbára no corredor da estalagem,
    respirava-o outra vez, finamente espalhado, na rua cheia de sol, pelas
    sêdas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e
    graves.

    A titi, em casa, estendia-me a mão a beijar: e toda a manhã eu ficava
    folheando volumes do _Panorama Universal_, na saleta d'ella, onde havia
    um sofá de riscadinho, um armario rico de pau preto, e lithographias
    coloridas, com ternas passagens da vida purissima do seu favorito santo,
    o patriarcha S. José. A titi, de lenço rôxo carregado para a testa,
    sentada á janella por dentro dos vidros, com os pés embrulhados n'uma
    manta, examinava solicitamente um grande caderno de contas.

    Ás tres horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do lenço
    começava a perguntar-me doutrina. Dizendo o _Credo_, desfiando os
    _Mandamentos_, com os olhos baixos, eu sentia o seu cheiro acre e
    adocicado a rapé e a formiga.

    Aos domingos vinham jantar comnosco os dois ecclesiasticos. O de
    cabellinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador da titi:
    dava-me abraços risonhos; convidava-me a declinar _arbor arboris, currus
    curri_; proclamava-me com affecto «talentaço.» E o outro ecclesiastico
    elogiava o collegio dos Isidoros, formosissimo estabelecimento de
    educação, como não havia nem na Belgica. Esse chamava-se padre Pinheiro.
    Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por
    diante d'um espelho, deitava a lingua de fóra, e alli se esquecia a
    estical-a, a estudal-a, desconfiado e aterrado.

    Ao jantar o padre Casimiro gostava de vêr o meu appetite.

    –Vai mais um bocadinho da vitellinha guisada? Rapazes querem-se alegres
    e bem comidos!…

    E padre Pinheiro, palpando o estomago:

    –Felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitella!

    Elle e a titi fallavam então de doenças. Padre Casimiro, córadinho, com
    o guardanapo atado ao pescoço, o prato cheio, o copo cheio, sorria
    beatificamente.

    Quando, na praça, entre as arvores, começavam a luzir os candieiros de
    gaz, a Vicencia punha o seu chale velho de xadrez e ia levar-me ao
    collegio. A essa hora, nos domingos, chegava o sujeitinho de cara rapada
    e vastos collarinhos, que era o snr. José Justino, secretario da
    confraria de S. José, e tabellião da titi, com cartorio a S. Paulo. No
    pateo, tirando já o seu paletot, fazia-me uma festa no queixo, e
    perguntava á Vicencia pela saude da snr.^a D. Patrocinio. Subia; nós
    fechavamos o pesado portão. E eu respirava consoladamente–porque me
    entristecia aquelle casarão com os seus damascos vermelhos, os santos
    innumeraveis, e o cheirinho a capella.

    Pelo caminho a Vicencia fallava-me da titi, que a trouxera, havia seis
    annos, da Misericordia. Assim eu fui sabendo que ella padecia do figado;
    tinha sempre muito dinheiro em ouro n'uma bolsa de sêda verde; e o
    commendador Godinho, tio d'ella e da minha mamã, deixára-lhe duzentos
    contos em predios, em papeis, e a quinta do _Mosteiro_ ao pé de Vianna,
    e pratas e louças da India… Que rica que era a titi! Era necessario
    ser bom, agradar sempre á titi!

    Á porta do collegio a Vicencia dizia «Adeus, amorzinho,» e dava-me um
    grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraçado ao travesseiro, eu
    pensava na Vicencia, e nos braços que lhe vira arregaçados, gordos e
    brancos como leite. E assim, foi nascendo no meu coração, pudicamente,
    uma paixão pela Vicencia.

    Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio _lambisgoia_.
    Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um
    murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Chrispim sahira dos
    Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela
    Vicencia desappareceu um dia, insensivelmente, como uma flôr que se
    perde na rua.

    E os annos assim foram passando: pelas vesperas de Natal accendia-se um
    brazeiro no refeitorio, eu envergava o meu casacão forrado de baeta e
    ornado d'uma gola d'astrakan; depois chegavam as andorinhas aos beiraes
    do nosso telhado, e no oratorio da titi, em lugar de camelias, vinham
    braçadas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés d'ouro de Jesus;
    depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava á titi
    um gigo d'uvas da sua quinta de Torres… Eu comecei a estudar
    rhetorica.

    * * * * *

    Um dia o nosso bom procurador disse-me que eu não voltaria mais para os
    Isidoros, indo acabar os meus preparatorios em Coimbra, na casa do dr.
    Rôxo, lente de Theologia. Fizeram-me roupa branca. A titi deu-me n'um
    papel a oração que eu diariamente devia rezar a S. Luiz Gonzaga,
    padroeiro da mocidade estudiosa, para que elle conservasse em meu corpo
    a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O padre
    Casimiro foi-me levar á cidade graciosa onde dormita Minerva.

    Detestei logo o dr. Rôxo. Em sua casa soffri vida dura e claustral; e
    foi um ineffavel gosto quando, no meu primeiro anno de Direito, o
    desagradavel ecclesiastico morreu miseravelmente d'um anthraz. Passei
    então para a divertida hospedagem das Pimentas–e conheci logo, sem
    moderação, todas as independencias, e as fortes delicias da vida. Nunca
    mais rosnei a delambida oração a S. Luiz Gonzaga, nem dobrei o meu
    joelho viril diante de imagem benta que usasse aureola na nuca;
    embebedei-me com alarido nas Camellas; affirmei a minha robustez
    esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carne com
    saborosos amores no Terreiro da Herva; vadiei ao luar, ganindo fados;
    usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho
    a alcunha de _Raposão_. Todos os quinze dias porém escrevia á titi, na
    minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a
    severidade dos meus estudos, o recato dos meus habitos, as copiosas
    rezas e os rigidos jejuns, os sermões de que me nutria, os dôces
    desaggravos ao Coração de Jesus á tarde, na Sé, e as novenas com que
    consolava a minha alma em Santa-Cruz no remanso dos dias feriados…

    Os mezes de verão em Lisboa eram depois dolorosos. Não podia sahir,
    mesmo a espontar o cabello, sem implorar da titi uma licença servil. Não
    ousava fumar ao café. Devia recolher virginalmente á noitinha: e antes
    de me deitar tinha de rezar com a velha um longo terço no oratorio. Eu
    proprio me condemnára a esta detestavel devoção!

    –Tu lá nos estudos costumas fazer o teu terço? perguntára-me, com
    seccura, a titi.

    E eu, sorrindo abjectamente:

    –Ora essa! É que nem posso adormecer sem ter rezado o meu rico
    terço!…

    Aos domingos continuavam as partidas. O padre Pinheiro, mais triste,
    queixava-se agora do coração, e um pouco tambem da bexiga. E havia outro
    commensal, velho amigo do commendador Godinho, fiel visita das Neves, o
    Margaride, o que fôra delegado em Vianna, depois juiz em Mangualde. Rico
    por morte de seu mano Abel, secretario da Camara Patriarchal, o doutor
    aposentára-se, farto dos autos, e vivia em ocio, lendo os periodicos,
    n'um predio seu na Praça da Figueira. Como conhecêra o papá, e muitas
    vezes o acompanhará ao _Mosteiro_, tratou-me logo com authoridade e por
    _você_.

    Era um homem corpulento e solemne, já calvo, com um carão livido, onde
    destacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carvão. Raras
    vezes penetrava na sala da titi sem atirar, logo da porta, uma noticia
    pavorosa. «Então, não sabem? Um incendio medonho, na Baixa!» Apenas uma
    fumaraça n'uma chaminé. Mas o bom Margaride, em novo, n'um sombrio
    accesso d'imaginação, compuzera duas tragedias; e d'ahi lhe ficára este
    gosto morbido d'exagerar e d'impressionar. «Ninguem como eu, dizia elle,
    saborêa o grandioso…»

    E, sempre que aterrava a titi e os sacerdotes, sorvia gravemente uma
    pitada.

    Eu gostava do dr. Margaride. Camarada do papá em Vianna, muitas vezes
    lhe ouvira cantar, ao violão, a xacara do conde Ordonho. Tardes inteiras
    vagueára com elle poeticamente, pela beira da agua, no _Mosteiro_,
    quando a mamã fazia raminhos silvestres á sombra dos amieiros. E
    mandou-me as amendoas mal eu nasci, á noitinha, em sexta-feira de
    Paixão. Além d'isso, mesmo na minha presença, elle gabava francamente á
    titi o meu intellecto, e a circumspecção dos meus modos.

    –O nosso Theodorico, D. Patrocinio, é moço para deleitar uma tia… V.
    exc.^a, minha rica senhora, tem aqui um Telemaco!

    Eu córava, modesto.

    Ora foi justamente passeando com elle no Rocio, n'um dia d'agosto, que
    eu conheci um parente nosso, afastado, primo do commendador G. Godinho.
    O dr. Margaride apresentou-m'o, dizendo apenas:–«o Xavier, teu primo,
    moço de grandes dotes.» Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que
    fôra galante e desbaratára furiosamente trinta contos, herdados de seu
    pai, dono d'uma cordoaria em Alcantara. O commendador G. Godinho, mezes
    antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade á
    secretaria da Justiça, com vinte mil reis por mez. E o Xavier agora
    vivia com uma hespanhola chamada Carmen, e tres filhos d'ella, n'um
    casebre da rua da Fé.

    Eu fui lá n'um domingo. Quasi não havia moveis; a bacia da cara, a
    unica, estava entalada no fundo rôto da palhinha d'uma cadeira. O Xavier
    toda a manhã deitára escarros de sangue pela bocca. E a Carmen,
    despenteada, em chinelas, arrastando uma bata de fustão manchada de
    vinho, embalava sorumbaticamente pelo quarto uma criança embrulhada n'um
    trapo e com a cabecinha coberta de feridas.

    Immediatamente o Xavier, tratando-me por _tu_, fallou-me da tia
    Patrocinio… Era a sua esperança, n'aquella sombria miseria, a tia
    Patrocinio! Serva de Jesus, proprietaria de tantos predios, ella não
    podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se alli n'aquelle casebre,
    sem lençoes, sem tabaco, com os filhos em redor, esfarrapados, a chorar
    por pão. Que custava á tia Patrocinio estabelecer-lhe, como já fizera o
    Estado, uma mesadinha de vinte mil reis?

    –Tu é que lhe devias fallar, Theodorico! Tu é que lhe devias dizer…
    Olha essas crianças. Nem meias teem… Anda cá, Rodrigo, dize aqui ao
    tio Theodorico. Que comeste hoje ao almoço?… Um bocado de pão
    d'hontem! E sem manteiga, sem mais nada! E aqui está a nossa vida,
    Theodorico! Olha que é duro, menino!

    Enternecido, prometti fallar á titi.

    Fallar á titi! Eu nem ousaria contar á titi que conhecia o Xavier, e que
    entrava n'esse casebre impuro onde havia uma hespanhola, emmagrecida no
    peccado.

    E para que elles não percebessem o meu ignobil terror da titi, não
    voltei á rua da Fé.

    No meado de setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora, soube pelo
    dr. Barroso que o primo Xavier, quasi a morrer, me queria fallar em
    segredo.

    Fui lá, de tarde, contrariado. Na escada cheirava a febre. A Concha, na
    cozinha, conversava por entre soluços com outra hespanhola, magrita, de
    mantilha preta e corpetesinho triste de setim côr de cereja. Os
    pequenos, no chão, rapavam um tacho d'açorda. E na alcova o Xavier,
    enrodilhado n'um cobertor, com a bacia da cara ao lado, cheia de
    escarros de sangue, tossia, despedaçadamente:

    –És tu, rapaz?

    –Então que é isso, Xavier?

    Elle exprimiu, n'um termo obsceno, que estava perdido. E estirando-se de
    costas, com um brilho secco nos olhos, fallou-me logo da titi.
    Escrevera-lhe uma carta linda, de rachar o coração: a fera não
    respondera. E, agora, ia mandar para o _Jornal de Noticias_ um annuncio,
    a pedir uma esmola, assignando «Xavier Godinho, primo do rico
    commendador G. Godinho.» Queria vêr se D. Patrocinio das Neves deixaria
    um parente, um Godinho, mendigar assim, publicamente, na pagina d'um
    jornal.

    –Mas é necessario que tu me ajudes, rapaz, que a enterneças! Quando
    ella lêr o annuncio, conta-lhe esta miseria! Desperta-lhe o brio.
    Dize-lhe que é uma vergonha vêr morrer ao abandono um parente, um
    Godinho. Dize-lhe que já se rosna! Olha, se hoje pude tomar um caldo, é
    que essa rapariga, a Lolita, que está em casa da Benta Bexigosa, nos
    trouxe ahi quatro corôas… Vê tu a que eu cheguei!

    Ergui-me, commovido.

    –Conta commigo, Xavier.

    –Olha, se tens ahi cinco tostões que te não façam falta, dá-os á
    Concha.

    Dei-lh'os a elle: e sahi, jurando-lhe que ia fallar á titi,
    solemnemente, em nome dos Godinhos e em nome de Jesus!

    Depois do almoço, ao outro dia, a titi, de palito na bocca, e vagarosa,
    desdobrou o _Jornal de Noticias_. E decerto achou logo o annuncio do
    Xavier, porque ficou longo tempo fitando o canto da terceira pagina onde
    elle negrejava, afflictivo, vergonhoso, medonho.

    Então pareceu-me vêr, voltados para mim, lá do fundo nú do casebre, os
    olhos afflictos do Xavier; a face amarella da Concha, lavada de
    lagrimas; as pobres mãosinhas dos pequenos, magras, á espera da côdea de
    pão… E todos aquelles desgraçados anciavam pelas palavras que eu ia
    lançar á titi, fortes, tocantes, que os deviam salvar, e dar-lhes o
    primeiro pedaço de carne d'aquelle verão de miseria. Abri os labios. Mas
    já a titi, recostando-se na cadeira, rosnava com um sorrisinho feroz:

    –Que se aguente… É o que succede a quem não tem temor de Deus e se
    mette com bebedas… Não tivesse comido tudo em relaxações… Cá para
    mim, homem perdido com saias, homem que anda atraz de saias, acabou…
    Não tem o perdão de Deus, nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que
    tambem Nosso Senhor Jesus Christo padeceu!

    Baixei a cabeça, murmurei:

    –E ainda nós não padecemos bastante… Tem a titi razão. Que se não
    mettesse com saias!

    Ella ergueu-se, deu as graças ao Senhor. Eu fui para o meu quarto,
    fechei-me lá, a tremer, sentindo ainda regeladas e ameaçadoras, as
    palavras da titi, para quem os homens «acabavam quando se mettiam com
    saias.» Tambem eu me mettera com saias, em Coimbra, no Terreiro da
    Herva! Alli, no meu bahú, tinha eu documentos do meu peccado, a
    photographia da Thereza dos Quinze, uma fita de sêda, e uma carta
    d'ella, a mais dôce, em que me chamava «unico affecto da sua alma» e me
    pedia dezoito tostões! Eu cosera essas reliquias dentro do fôrro d'um
    collete de pano, receando as incessantes rebuscas da titi, por entre a
    minha roupa intima. Mas lá estavam, no bahú de que ella guardava a
    chave, dentro do collete, fazendo uma dureza de cartão que qualquer dia
    poderiam palpar os seus dedos desconfiados… E eu acabava logo para a
    titi!

    Abri devagarinho o bahú, descosi o fôrro, tirei a carta deliciosa da
    Thereza, a fita que conservára o aroma da sua pelle, e a sua
    photographia, de mantilha. Na pedra da varanda, sem piedade, queimei
    tudo, amabilidades e feições: e sacudi desesperadamente para o saguão as
    cinzas da minha ternura.

    N'essa semana não ousei voltar á rua da Fé. Depois, um dia que
    choviscava, fui lá, ao escurecer, encolhido sob o meu guarda-chuva. Um
    visinho, vendo-me espreitar de longe as janellas negras e mortas do
    casebre, disse-me que o snr. Godinho, coitado, fôra para o hospital
    n'uma maca.

    Desci, triste, ao comprido das grades do Passeio. E, no crepusculo
    humido, tendo roçado bruscamente por outro guarda-chuva, ouvi de repente
    o meu nome de Coimbra, lançado com alegria.

    –Oh, Raposão!

    Era o Silverio, por alcunha o _Rinchão_, meu condiscipulo, e companheiro
    de casa das Pimentas. Estivera passando esse mez no Alemtejo, com seu
    tio, ricaço illustre, o barão d'Alconchel. E agora, de volta, ia vêr uma
    Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, n'uma casa côr de
    rosa, com roseirinhas á varanda.

    –Queres tu vir cá um bocado, ó Raposão? Está lá outra rapariga bonita,
    a Adelia… Tu não conheces a Adelia? Então que diabo, vem vêr a
    Adelia… É um mulherão!

    Era, um domingo, noite de partida da titi; eu devia recolher
    religiosamente ás oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinchão fallou
    da brancura dos braços da Adelia: e eu comecei a caminhar ao lado do
    Rinchão, enfiando as luvas pretas.

    Munidos d'um cartucho de pasteis e de uma garrafa de Madeira,
    encontrámos a Ernestina a coser um elastico nas suas botinas de duraque.
    E a Adelia, estendida no sofá, de chambre e em saia branca, com os
    chinelos cahidos no tapete, fumava um cigarro languido. Eu sentei-me ao
    lado d'ella, commovido e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos.
    Só quando o Silverio e Ernestina correram dentro á cozinha, abraçados, a
    buscar copos para o Madeira, ousei perguntar á Adelia, córando:

    –Então a menina d'onde é?

    Era de Lamego. E eu, novamente acanhado, só pude gaguejar que era
    tristonho aquelle tempo de chuva. Ella pediu-me outro cigarro,
    cortezmente, dizendo-me–o _cavalheiro_. Apreciei estes modos. As mangas
    largas do seu roupão, escorregando descobriam braços tão brancos e
    macios que entre elles a Morte mesma deveria ser deleitosa.

    Fui eu que lhe offereci o prato onde a Ernestina collocára os pasteis.
    Ella quiz saber o meu nome. Tinha um sobrinho que tambem se chamava
    Theodorico; e isto foi como um fio subtil e forte que veio, do seu
    coração, enrodilhar-se no meu.

    –Porque é que o cavalheiro não põe o guarda-chuva alli a um canto?
    disse-me ella, rindo.

    O brilho picante dos seus dentinhos miudos fez desabrochar dentro em mim
    uma flôr de madrigal.

    –É para não me tirar d'aqui d'ao pé da menina nem um instantinho que
    seja.

    Ella fez-me uma cocega lenta no pescoço. Eu, aboborado de gôzo, bebi o
    resto do Madeira que ella deixára no calice.

    A Ernestina, poetica, e cantando o _fado_, aninhou-se nos joelhos do
    Rinchão. Então a Adelia, revirando-se languidamente, puxou-me a face–e
    os meus labios encontraram os seus no beijo mais sério, mais sentido,
    mais profundo que até ahi abalára o meu sêr.

    N'esse dôce instante, um relogio medonho, com o mostrador fingindo uma
    face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o marmore d'uma mesa do
    mogno, d'entre dois vasos sem flôres, começou a dar dez, horas, fanhoso,
    ironico, pachorrento.

    Jesus! era a hora do chá em casa da titi! Com que terror eu trepei,
    esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as viellas escuras e
    infindaveis que levam ao Campo de Sant'Anna! Em casa, nem tirei as botas
    enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo, lá ao fundo, no sofá de
    damasco, os oculos da titi, mais negros, assanhados, esperando por mim e
    fuzilando. Ainda balbuciei:

    –Titi…

    Mas já ella gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos.

    –Relaxações em minha casa não admitto! Quem quizer viver aqui ha de
    estar ás horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, emquanto eu
    fôr viva! E quem não lhe agradar, rua!

    Sob a rajada estridente da indignação da snr.^a D. Patrocinio, padre
    Pinheiro e o tabellião Justino tinham dobrado a cabeça embaçados. O dr.
    Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu
    pesado relogio d'ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como
    sacerdote, como procurador, influente e suave.

    –D. Patrocinio tem razão, tem muita razão em querer ordem em casa…
    Mas talvez o nosso Theodorico se tivesse demorado um pouco mais no
    Martinho, a ouvir fallar d'estudos, de compendios…

    Exclamei amargamente:

    –Nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No
    convento da Encarnação! É verdade, encontrei um condiscipulo meu, que ia
    lá buscar a irmã. Hoje era festa, a irmã tinha ido passar o dia com uma
    tia, uma commendadeira… Estivemos á espera, a passear no pateo… A
    irmã vai casar, elle andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do
    apaixonada que ella está… Eu morto por me safar, mas com ceremonia do
    rapaz, que é sobrinho do barão d'Alconchel… E elle zás, zás, a fallar
    da irmã, e do namoro, e das cartas…

    A tia Patrocinio uivou de furor.

    –Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa
    para o pateo d'uma casa de religião! Cala-te, alma perdida, que até
    devias ter vergonha!… E fique entendendo! Para outra vez que venha a
    estas horas, não me entra em casa! Fica na rua, como um cão…

    Então o dr. Margaride estendeu a mão pacificadora e solemne:

    –Está tudo explicado! O nosso Theodorico foi imprudente, mas o sitio
    onde esteve é respeitavel… E eu conheço o barão d'Alconchel. É um
    cavalheiro da maior circumspecção, e um dos mais abastados do
    Alemtejo… Talvez mesmo um dos mais ricos proprietarios de Portugal…
    O mais rico, direi!… Mesmo lá fóra não haverá fortuna territorial que
    lhe exceda. Nem que se lhe compare!… Só em porcos! Só em cortiça!
    Centenares de contos! milhões!

    Erguera-se; o seu vozeirão empolado rolava serras d'ouro. E o bom
    Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura:

    –Tome o seu chásinho, Theodorico, vá tomando o seu chásinho. E creia
    que a tia não deseja senão o seu bem…

    Puxei, com a mão a tremer, a minha chavena de chá: e, remexendo
    desfallecidamente o fundo d'assucar, pensava em abandonar para sempre a
    casa d'aquella velha medonha que assim, me ultrajava diante da
    Magistratura e da Igreja, sem consideração pela barba que me começava a
    nascer, forte, respeitavel e negra.

    Mas, aos domingos, o chá era servido nas pratas do commendador G.
    Godinho. Eu via-as, macissas e resplandecentes, diante de mim: o grande
    bule terminando em bico de pato; o assucareiro cuja aza tinha a fórma
    d'uma cobra assanhada; e o paliteiro gentil em figura de macho trotando
    sob os seus alforges. E tudo pertencia á titi. Que rica que era a titi!
    Era necessario ser bom, agradar sempre á titi!…

    Por isso, mais tarde, quando ella penetrou no oratorio para cumprir o
    terço, já eu lá estava, de rojos, gemendo, martellando o peito, e
    supplicando ao Christo de ouro que me perdoasse ter offendido a titi.

    * * * * *

    Um dia emfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor mettidas
    n'um canudo de lata. A titi examinou-as reverente, achando um sabor
    ecclesiastico ás linhas em latim, ás paramentosas fitas vermelhas, e ao
    sêllo dentro do seu relicario.

    –Está bom, disse ella, estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves, vê
    não lhe faltes…

    Corri logo ao oratorio, com o canudo na mão, agradecer ao Christo de
    ouro o meu glorioso grau de bacharel.

    Na manhã seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba, que agora
    tinha cerrada e negra, o padre Casimiro entrou-me pelo quarto, risonho e
    a esfregar as mãos.

    –Boa nova vos trago aqui, snr. doutor Theodorico!…

    E depois de me acariciar, segundo o seu affectuoso costume, com
    palmadinhas dôces nos rins, o santo procurador revelou-me que a titi,
    satisfeita commigo, decidira comprar-me um cavallo para eu dar honestos
    passeios, e espairecer por Lisboa.

    –Um cavallo! Oh, padre Casimiro!

    Um cavallo. E além d'isso, não querendo que seu sobrinho, já barbado, já
    letrado, soffresse um vexame, por lhe faltar ás vezes um troco para
    deitar na salva de Nossa Senhora do Rosario, a titi estabelecia-me uma
    mezada de tres moedas.

    Abracei com calor o padre Casimiro. E desejei saber se a amoravel
    intenção da titi era que eu não tivesse outra occupação além de cavalgar
    por Lisboa, e lançar pratinhas na salva de Nossa Senhora.

    –Olhe, Theodorico, eu parece-me que a titi não quer que você tenha
    outro mister senão temer a Deus… O que lhe digo é que o amigo vai
    passal-a boa e regalada… E agora, ande, vá-lhe lá dentro agradecer, e
    diga-lhe uma coisinha mimosa.

    Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos piedosos do patriarcha
    S. José, a titi, sentada a um canto do sofá de riscadinho, fazia meia,
    com um chale de Tonkin pelos hombros.

    –Titi, murmurei eu encolhido, venho aqui agradecer…

    –Está bom, vai com Deus.

    Então, devotamente, beijei-lhe a franja do chale. A titi gostou. Eu fui
    com Deus.

    Começou d'ahi, farta e regalada, a minha existencia de sobrinho da
    snr.^a D. Patrocinio das Neves. Ás oito horas, pontualmente, vestido de
    preto, ia com a titi á igreja de Sant'Anna, ouvir a missa do padre
    Pinheiro. Depois d'almoço, tendo pedido licença á titi, e rezadas no
    oratorio tres _Gloria Patri_ contra as tentações, sahia a cavallo, de
    calça clara. Quasi sempre a titi me dava alguma incumbencia beata:
    passar em S. Domingos, e dizer a oração pelos tres santos martyres do
    Japão; entrar na Conceição Velha, e fazer o acto de desaggravo pelo
    Sagrado Coração de Jesus…

    E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava de dar estes ternos
    recados que ella mandava a casa do Senhor.

    Mas era este o momento desagradavel do meu dia: ás vezes, ao sahir,
    surrateiro, do portão da igreja, topava com algum condiscipulo
    republicano, dos que me acompanhavam em Coimbra, nas tardes de
    procissão, chasqueando o Senhor da Cana Verde.

    –Oh, Raposão! pois tu agora…

    Eu negava, vexado:

    –Ora essa! Não me faltava mais nada! Sou mesmo lá de carolices… Qual!
    entrei aqui por causa d'uma rapariga… Adeus, tenho a egua á espera.

    Montava–e de luva preta, a perna bem collada á sella, um botãosinho de
    camelia no peito, ia caracolando, em ocio e luxo, até ao largo do
    Loreto. Outras vezes deixava a egua no Arco do Bandeira, e gozava uma
    manhã regalada no bilhar do Montanha.

    Antes do jantar, em chinelas, no oratorio com a titi, eu fazia a
    jaculatoria a S. José, aio de Jesus, custodio de Maria e amorosissimo
    patriarcha. Á mesa, adornada apenas por compoteiras de doce de calda em
    torno d'uma travessa d'aletria, eu contava á titi o meu passeio, as
    igrejas em que me deleitára, e quaes os altares alumiados. A Vicencia
    escutava com devoção, perfilada no seu lugar costumado, entre as duas
    janellas, onde um retrato de nosso santo padre Pio IX enchia a tira de
    parede verde, tendo por baixo, pendente d'um cordão, um velho oculo
    d'alcance, reliquia do commendador G. Godinho. Depois do café a titi,
    lentamente, cruzava os braços; e o seu carão sumia-se, dormente e
    pesado, na sombra do lenço rôxo.

    Eu ia enfiar as botas; e, authorisado agora por ella a recrear-me fóra
    de casa até ás nove e meia, corria ao fim da rua da Magdalena, ao pé do
    largo dos Caldas. Ahi, com resguardo, encolhido na gola do meu
    sobretudo, cosido com o muro, como se o candieiro de gaz que alli havia
    fosse o olho inexoravel da titi–penetrava sofregamente na escadinha da
    Adelia…

    Sim, da Adelia! Porque nunca mais me esquecera, desde a noite em que o
    _Rinchão_ me levou ao Salitre, o beijo que ella me dera, languida e
    branca, sobre o sofá. Em Coimbra procurára mesmo fazer-lhe versos: e
    esse amor dentro do meu peito foi no ultimo anno de Universidade, no
    anno de Direito ecclesiastico, como um maravilhoso lirio que ninguem via
    e que perfumava a minha vida… Apenas a titi me estabeleceu a mezada
    das tres moedas, corri em triumpho ao Salitre; lá havia as roseirinhas á
    janella, mas a Adelia já lá não estava. E foi ainda o prestante
    _Rinchão_ que me mostrou esse primeiro andar, junto ao largo dos Caldas,
    onde ella agora vivia patrocinada por Eleuterio Serra, da firma Serra
    Brito & C.^a, com loja de fazendas e moelas na Conceição Velha.
    Mandei-lhe uma carta ardente e séria, pondo reverentemente no alto:
    «Minha senhora.» Ella respondeu, com dignidade:–«O cavalheiro póde vir
    aqui ao meio dia.» Levei-lhe uma caixinha de pastilhas de chocolate,
    atada com uma fita de sêda azul: pizando commovido a esteira nova da
    sala, eu antevia, pela engommada brancura das bambinellas, a frescura
    das suas saias; e o rigido alinho dos moveis revelava-me a rectidão dos
    seus sentimentos. Ella entrou, um pouco constipada, com um chale
    vermelho pelos hombros. Reconheceu logo o amigo do _Rinchão_; fallou da
    Ernestina, com severidade, chamando-lhe «porcalhona.» E a sua voz
    enrouquecida, o seu defluxo, davam-me o desejo de a curar nos meus
    braços, d'um longo dia d'agasalho e somnolencia, sob o peso dos
    cobertores, na penumbra molle da sua alcova. Depois ella quiz saber se
    eu era empregado ou estava no commercio… Eu contei-lhe com orgulho a
    riqueza da titi, os seus predios, as suas pratas. Disse-lhe, com as suas
    mãos grossas presas nas minhas:

    –Se a titi agora rebentasse, eu é que lhe punha á menina uma casa chic!

    Ella murmurou, banhando-me todo na negra doçura do seu olhar:

    –Ora! o cavalheiro, se apanhasse o bago, não se importava mais commigo!

    Ajoelhei sobre a esteira, tremulo, esmagando o peito contra os seus
    joelhos, offertando-me como uma rez; ella abriu o seu chale, aceitou-me
    misericordiosamente.

    Agora, á noitinha (emquanto Eleuterio, no club da rua Nova do Carmo,
    jogava a manilha) eu tinha alli na alcova da Adelia a radiante festa da
    minha vida. Levára para lá um par de chinelas–era o eleito do seu seio.
    Ás nove e meia, despenteada, envolta á pressa n'um roupão de flanella,
    com os pés nús, acompanhava-me pela escadinha de traz, colhendo em cada
    degrau, nos meus labios, um beijo lento e saudoso.

    –Adeus, Délinha!

    –Agasalha-te, riquinho!

    E eu recolhia devagar ao campo de Sant'Anna, ruminando o meu gozo!

    O verão passou, languidamente. Os primeiros ventos d'outono levaram as
    andorinhas e as folhagens do campo de Sant'Anna: e logo n'esse outubro,
    de repente, a minha vida se tornou mais facil, mais larga. A titi
    mandára-me fazer uma casaca; e eu estreei-a, com permissão d'ella, indo
    ouvir a S. Carlos o _Poliuto_–opera que o dr. Margaride recommendára,
    como «repassada de sentimentos religiosos e cheia de elevada lição.» Fui
    com elle, de luvas brancas, frizado. Depois, no outro dia, ao almoço,
    contei á titi o devoto enredo, os idolos derrubados, os canticos, as
    fidalgas que estavam nos camarotes, e de que lindo velludo vestia a
    rainha.

    –E sabe quem me veio fallar, titi? O barão d'Alconchel, o ricaço, tio
    d'aquelle rapaz que foi meu condiscipulo. Veio apertar-me a mão, esteve
    um bocado commigo no salão… Tratou-me com muita consideração.

    A titi gostou d'esta consideração.

    Depois, tristemente, como um moralista magoado, queixei-me do nedio
    decote d'uma senhora immodesta, núa nos braços, núa no peito, mostrando
    toda essa carne, esplendida e irreligiosa, que é a desolação do justo e
    a angustia da Igreja.

    –Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a titi, estava com nojo!

    A titi gostou d'este nojo.

    E passados dias, depois do café, quando eu me dirigia, ainda de
    chinelas, ao oratorio, a fazer uma curta petição ás chagas do nosso
    Christo d'ouro–a titi, já de braços cruzados e somnolenta, disse-me
    d'entre a sombra do lenço:

    –Está bom, se queres, volta hoje a S. Carlos… E lá quando te
    appetecer, não te acanhes, tens licença, pódes ir gozar um bocado de
    musica… Agora que estás um homem, e que parece que tens proposito, não
    me importa que fiques fóra, até ás onze ou onze e meia… Em todo o caso
    a essa hora quero estar já de porta fechada, e tudo prompto, para
    começarmos o terço.

    Ella não viu o triumphante lampejar dos meus olhos. Eu murmurei,
    requebrado, a babar-me de gosto devoto:

    –Lá o terço, titi, lá o meu querido terço não perdia eu, nem pelo maior
    divertimento… Nem que el-rei me convidasse para um chásinho no paço!

    Corri, delirante, a enfiar a casaca. E este foi o começo d'essa anhelada
    liberdade que eu conquistára laboriosamente, vergando o espinhaço diante
    da titi, macerando o peito diante de Jesus! Liberdade bem vinda, agora
    que Eleuterio Serra partira para Paris, fazer os seus fornecimentos, e
    deixára a Adelia só, solta, bella, mais jovial, mais fogosa!

    Sim, decerto, eu ganhára a confiança da titi com os meus modos pontuaes,
    sisudos, servis e beatos! Mas o que a levára a alargar assim, com
    generosidade, as minhas horas de honesto recreio, fôra (como ella disse
    confidencialmente ao padre Casimiro) a certeza de que eu «me portava com
    religião e não andava atraz de saias.»

    Porque para a tia Patrocinio todas as acções humanas, passadas por fóra
    dos portaes das igrejas, consistiam em _andar atraz de calças_ ou _andar
    atraz de saias_:–e ambos estes dôces impulsos naturaes lhe eram
    igualmente odiosos!

    Donzella, e velha, e resequida como um galho de sarmento; não tendo
    jámais provado na livida pelle senão os bigodes do commendador G.
    Godinho, paternaes e grisalhos; resmungando incessantemente, diante de
    Christo nú, essas jaculatorias das _Horas de piedade_, soluçantes de
    amor divino–a titi entranhára-se, pouco a pouco, d'um rancor invejoso e
    amargo a todas as fórmas e a todas as graças do amor humano.

    E não lhe bastava reprovar o amor como coisa profana: a snr.^a D.
    Patrocinio das Neves fazia uma carantonha, e varria-o como coisa suja.
    Um moço grave, amando sériamente, era para ella «uma porcaria!» Quando
    sabia d'uma senhora que tivera um filho, cuspia para o lado,
    rosnava–«que nojo!» E quasi achava a Natureza obscena por ter creado
    dois sexos.

    Rica, apreciando o conforto, nunca quizera em casa um escudeiro–para
    que não houvesse na cozinha, nos corredores, _saias a roçar com calças_.
    E apesar de irem embranquecendo os cabellos da Vicencia, de ser
    decrepita e gaga a cozinheira, de não ter dentes a outra criada chamada
    Eusebia, andava-lhes sempre remexendo desesperadamente nos bahús, e até
    na palha dos enxergões, a vêr se descobria photographia d'homem, carta
    d'homem, rasto d'homem, cheiro d'homem.

    Todas as recreações moças; um passeio gentil com senhoras, em burrinhos;
    um botão de rosa orvalhado offerecido na ponta dos dedos; uma decorosa
    contradança em jucundo dia de Paschoa; outras alegrias, ainda mais
    candidas, pareciam á titi perversas, cheias de sujidade, e chamava-lhes
    _relaxações_. Diante d'ella já os sisudos amigos da casa não ousavam
    mencionar d'essas emoventes historias, lidas nas gazetas, e em que
    transparecem motivos d'amor–porque isso a escandalisava como o
    desbragamento de uma nudez.

    –Padre Pinheiro! gritou ella um dia furiosa, com os oculos chammejantes
    para o desventuroso ecclesiastico, ao ouvil-o narrar d'uma criada que em
    França atirára o filho á sentina. Padre Pinheiro! Faça favor de me
    respeitar… Não é lá pela latrina! É pela outra porcaria!

    Mas era ella propria que sem cessar alludia a desvarios e a peccados da
    Carne–para os vituperar, com odio: atirava então o novello de linha
    para cima da mesa, espetando-lhe raivosamente as agulhas de meia–como
    se trespassasse alli, tornando-o para sempre frio, o vasto e inquieto
    coração dos homens. E quasi todos os dias, com os dentes rilhados,
    repetia (referindo-se a mim) que se uma pessoa do seu sangue, e que
    comesse o seu pão, andasse atraz de saias, ou se désse a relaxações,
    havia d'ir para a rua, escorraçado a vassoura, como um cão.

    Por isso agora as minhas precauções eram tão apuradas que, para evitar
    me ficasse na roupa ou na pelle o delicioso cheiro da Adelia, eu trazia
    na algibeira bocados soltos d'incenso. Antes de galgar a triste
    escadaria de casa, penetrava subtilmente na cavalhariça deserta, ao
    fundo do pateo; queimava no tampo d'uma barrica vazia um pedaço da
    devota resina; e alli me demorava, expondo ao aroma purificador as abas
    do jaquetão e as minhas barbas viris… Depois subia; e tinha a
    satisfação de vêr logo a titi farejar, regalada:

    –Jesus, que rico cheirinho a igreja!

    Modesto, e com um suspiro, eu murmurava:

    –Sou eu, titi…

    Além d'isso, para melhor a persuadir «da minha indifferença por saias,»
    colloquei um dia, no soalho do corredor, como perdida, uma carta com
    sêllo–certo que a religiosa D. Patrocinio, minha senhora e tia, a
    abriria logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era escripta por mim a um
    condiscipulo d'Arrayollos; e dizia, em letra nobre, estas cousas
    edificantes: «Saberás que fiquei de mal com o Simões, o de philosophia,
    por elle me ter convidado a ir a uma casa deshonesta. Não admitto
    d'estas offensas. Tu lembras-te bem como já em Coimbra eu detestava taes
    relaxações. E parece-me ser uma grandissima cavalgadura aquelle que, por
    causa d'uma distracção que é _fogo-viste-linguiça_, se arrisca a penar,
    por todos os seculos e seculos, amen, nas fogueiras de Satanaz, salvo
    seja! Ora n'uma d'essas refinadissimas asneiras não é capaz de cahir o
    teu do C.–_Raposo_.»

    A titi leu, a titi gostou. E agora eu vestia a minha casaca, dizia-lhe
    que ia ouvir a _Norma_, beijava com unção os ossos dos seus dedos;–e
    corria, ao largo dos Caldas, á alcova da Adelia, a afundar-me
    perdidamente nas beatitudes do Peccado. Alli, á meia luz que dava
    através da porta envidraçada o candieiro de petroline da sala, os
    cortinados de cambraia e as saias dependuradas tomavam brancuras
    celestes de nuvem; o cheiro dos pós d'arroz excedia em doçura o olor dos
    junquilhos mysticos; eu estava no céo, eu era S. Theodorico; e sobre os
    hombros nús da minha amada desenrolavam-se as madeixas do seu cabello
    negro, forte e duro como a cauda d'um corcel de guerra.

    N'uma d'essas noites, eu sahia d'uma confeitaria do Rocio, de comprar
    trouxas d'ovos para levar á minha Adelia–quando encontrei o dr.
    Margaride que me annunciou, depois do seu abraço paternal, que ia a S.
    Carlos vêr o _Propheta_.

    –E você, vejo-o de casaca, naturalmente tambem vem…

    Fiquei varado. Com effeito vestira a casaca, dissera á titi que ia gozar
    o _Propheta_, opera de tanta virtude como uma santa instrumental
    d'igreja… E agora tinha de soffrer o _Propheta_, deveras, entalado
    n'uma cadeira da Geral, roçando o joelho do douto magistrado–em vez de
    preguiçar n'um colchão amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer o
    seu docinho d'ovos.

    –Sim, com effeito, tambem eu ia d'aqui para o _Propheta_, murmurei
    aniquilado. Diz que é uma musicasinha de muita virtude… A titi gostou
    muito que eu viesse.

    Com o meu inutil cartucho de trouxas d'ovos, lá fui subindo,
    melancolicamente, ao lado do dr. Margaride, a rua Nova do Carmo.

    Occupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca e com
    tons d'ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria da Adelia, e no
    desalinho das suas saias–quando reparei que d'uma friza ao lado uma
    senhora loura e madura, uma Ceres outonal, vestida de sêda côr de palha,
    voltava para mim, a cada dôce arcada das rebecas, os seus olhos claros e
    sérios.

    Perguntei logo ao dr. Margaride se conhecia aquella dama «que eu
    costumava encontrar ás sextas na igreja da Graça, visitando o Senhor dos
    Passos, com uma devoção, um fervor…»

    –O sujeito que está por traz, a abrir a bocca, é o visconde de Souto
    Santos. E ella ou é a mulher, a viscondessa de Souto Santos, ou a
    cunhada, a viscondessa de Villar-o-Velho…

    Á sahida, a viscondessa (de Souto Santos ou de Villar-o-Velho) ficou um
    momento á porta esperando a sua carruagem, embrulhada n'uma capa branca
    que uma pennugem orlava, delicadamente; a sua cabeça pareceu-me mais
    altiva, incapaz de rolar, tonta e pallida, n'um travesseiro d'amor; a
    cauda côr de palha alastrava-se sobre as lages; era esplendida, era
    viscondessa; e outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos
    claros e sérios.

    A noite estava estrellada. E, descendo o Chiado em silencio ao lado do
    dr. Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da titi fosse meu e
    dourasse a minha pessoa, eu poderia então conhecer uma viscondessa de
    Souto Santos ou de Villar-o-Velho, não na sua friza, mas na minha
    alcova, já cahida a grande capa branca, despidas já as sêdas côr de
    palha, alva só do brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os
    meus braços… Ai, quando chegaria a hora, dôce entre todas, de morrer a
    titi?

    –Quer você vir tomar o seu chá ao Martinho? perguntou-me o dr.
    Margaride ao desembocarmos no Rocio. Não sei se você conhece a torrada
    do Martinho… É a melhor torrada de Lisboa.

    No Martinho, já silencioso, o gaz ia adormecendo entre os espelhos
    baços; e havia apenas n'uma mesa do fundo um moço triste, com a cabeça
    enterrada entre os punhos diante d'um capilé.

    O Margaride encommendou o chá–e vendo-me olhar com inquietação os
    ponteiros do relogio, affirmou-me que eu chegaria a casa ainda a horas
    de fazer a minha tocante devoção com a titi.

    –A titi agora, disse eu, não se importa que eu esteja até mais tarde…
    A titi agora louvado seja Deus, tem mais confiança em mim.

    –E você merece-o… Faz-lhe a vontade, é sisudo… Ella pouco a pouco
    tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro…

    Então lembrei-me da velha affeição que ligava o dr. Margaride ao padre
    Casimiro, procurador da tia Patrocinio e seu zeloso confessor. E,
    arrebatando a opportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu coração ao
    magistrado, largamente, como a um pai.

    –É verdade, a titi tem-me amizade… Mas acredite v. exc.^a, dr.
    Margaride, que o meu futuro inquieta-me ás vezes… Olhe que tenho
    pensado mesmo em ir a um concurso para delegado. Até já indaguei se
    seria difficil entrar como despachante na alfandega. Porque emfim a titi
    é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, unico parente, unico
    herdeiro; mas…

    E olhei anciosamente para o dr. Margaride, que, pelo loquaz padre
    Casimiro, conhecia talvez o testamento da titi… O silencio grave em
    que elle ficou, com as mãos cruzadas sobre a mesa, pareceu-me sinistro:
    e n'esse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e
    felicitando o magistrado por o vêr melhor do seu catarrho.

    –Deliciosa torrada! murmurou o doutor.

    –Excellente torrada! suspirei eu cortezmente.

    De vez em quando o dr. Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a
    face, os dedos; e recomeçava a mastigar devagar, com delicadeza e com
    religião.

    Eu arrisquei outra palavra timida.

    –A titi, é verdade, tem-me amizade…

    –A titi tem-lhe amizade, atalhou com a bocca cheia o magistrado, e você
    é o seu unico parente… Mas a questão é outra, Theodorico. É que você
    tem um rival.

    –Rebento-o! gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chammas,
    esmurrando o marmore da mesa.

    O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o dr.
    Margaride reprovou com severidade a minha violencia.

    –Essa expressão é impropria d'um cavalheiro, e d'um moço comedido. Em
    geral não se rebenta ninguem… E além d'isso o seu rival não é outro,
    Theodorico, senão Nosso Senhor Jesus Christo!

    Nosso Senhor Jesus Christo? E só comprehendi, quando o esclarecido
    jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a titi, ainda no ultimo
    anno da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e
    predios, a Irmandades da sua sympathia e a padres da sua devoção.

    –Estou perdido! murmurei.

    Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o moço triste
    diante do seu capilé. E pareceu-me que elle se assemelhava a mim como um
    irmão, que era eu proprio, Theodorico, já desherdado, sordido, com as
    botas cambadas, vindo alli ruminar as dôres da minha vida, á noite,
    diante d'um capilé.

    Mas o dr. Margaride acabára a torrada. E estendendo regaladamente as
    pernas, consolou-me, de palito na bocca, affavel e perspicaz.

    –Nem tudo está perdido, Theodorico. Não me parece que esteja tudo
    perdido… É possivel que a senhora sua tia tenha mudado d'idéa… Você
    é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ella…
    Tudo isto influe. Que é necessario dizel-o, o rival é forte!

    Eu gemi:

    –É d'arromba!

    –É forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito… Jesus Christo
    padeceu por nós, é religião do Estado, não ha senão curvar a cabeça…
    Olhe, quer você a minha opinião? Pois ahi a tem, franca e sem rebuço,
    para lhe servir de guia… Você vem a herdar tudo, se D. Patrocinio, sua
    tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como
    deixal-a á Santa Madre Igreja…

    O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, já abafado no seu
    paletot, ainda me disse baixinho:

    –Com franqueza, que tal, a torrada?

    –Não ha melhor torrada em Lisboa, dr. Margaride.

    Elle apertou-me a mão com affecto–e separamo-nos, quando estava dando a
    meia noite no velho relogio do Carmo.

    Estugando o passo pela rua Nova da Palma, eu sentia agora bem
    claramente, bem, amargamente, o erro da minha vida… Sim, o erro!
    Porque até ahi, essa minha devoção complicada, com que eu procurára
    agradar á titi e ao seu ouro, fôra sempre regular, mas nunca fôra
    fervente. Que importava murmurar com correcção o terço diante de Nossa
    Senhora do Rosario? Diante de Nossa Senhora em todas as suas
    encarnações, e bem em evidencia para commover a titi, eu devia mostrar
    habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo
    pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilicios… Até ahi a titi
    podia dizer com approvação: «É exemplar.» Era-me preciso, para herdar,
    que ella exclamasse um dia, babada, de mãos postas: «É santo!»

    Sim! eu devia identificar-me tanto com as coisas ecclesiasticas e
    submergir me n'ellas de tal sorte, que a titi, pouco a pouco, não
    podesse distinguir-me claramente d'esse conjunto rançoso de cruzes,
    imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era
    para ella a Religião e o Céo; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar
    dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já
    salpicada d'estrellas, e diaphana como a tunica de bem-aventurança.
    Então, evidentemente, ella testaria em meu favor–certa que testava em
    favor de Christo e da sua dôce Madre Igreja!

    Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho
    de Maria, a aprazivel fortuna do commendador G. Godinho. Pois quê! Não
    bastavam ao Senhor os seus thesouros incontaveis; as sombrias cathedraes
    de marmore que atulham a terra e a entristecem; as inscripções, os
    papeis de credito que a piedade humana constantemente averba em seu
    nome; as pás d'ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos pés
    trespassados de pregos; as alfaias, os calices, e os botões de punho de
    diamantes que elle usa na camisa, na sua igreja da Graça? E ainda
    voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e
    uns insipidos predios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos,
    fugitivos haveres–tu, ó filho do Carpinteiro, mostrando á titi a chaga
    que por ella recebeste, uma tarde, n'uma cidade barbara da Asia, e eu
    adorando essa chaga, com tanto ruido e tanto fausto, que a titi não
    possa saber onde está o merito, se em ti que morreste por nos amar de
    mais, se em mim que quero morrer por não te saber amar bastante!…
    Assim pensava, olhando de través o céo, no silencio da rua de S. Lazaro.

    Quando cheguei a casa, senti que a titi estava no oratorio, sósinha, a
    rezar. Enfiei para o meu quarto, surrateiramente; descalcei-me; despi a
    casaca; esguedelhei o cabello; atirei-me de joelhos para o soalho–e fui
    assim, de rastos, pelo corredor, gemendo, carpindo, esmurrando o peito,
    clamando desoladamente por Jesus, meu Senhor…

    Ao ouvir, no silencio da casa, estas lugubres lamentações de arrastada
    penitencia, a titi veio á porta do oratorio, espavorida.

    –Que é isso, Theodorico, filho, que tens tu?…

    Abati-me sobre o soalho, aos soluços, desfallecido de paixão divina.

    –Desculpe, titi… Estava no theatro com o dr. Margaride, estivemos
    ambos a tomar chá, a conversar da titi… E vai de repente, ao voltar
    para casa, alli na rua Nova da Palma, começo a pensar que havia de
    morrer, e na salvação da minha alma, e em tudo o que Nosso Senhor
    padeceu por nós, e dá-me uma vontade de chorar… Emfim, a titi faz
    favor, deixa-me aqui um bocadinho só, no oratorio, para alliviar…

    Muda, impressionada, ella accendeu reverentemente, uma a uma, todas as
    velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem de S. José, favorito
    da sua alma, para que fosse elle o primeiro a receber a ardente rajada
    de preces que ia escapar-se, em tumulto, do meu coração cheio e ancioso.
    Deixou-me entrar, de rastos. Depois, em silencio, desappareceu, cerrando
    o reposteiro com recato. E eu alli fiquei, sentado na almofada da titi,
    coçando os joelhos, suspirando alto–e pensando na viscondessa de Souto
    Santos ou de Villar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe atiraria por
    aquelles hombros maduros e succulentos, se a podesse ter só um instante,
    alli mesmo que fosse, no oratorio, aos pés de ouro de Jesus, meu
    Salvador!

    * * * * *

    Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o
    bacalhau das sextas-feiras não fosse uma sufficiente mortificação,
    n'esses dias, diante da titi, bebia asceticamente um copo d'agua e
    trincava uma côdea de pão: o bacalhau comia-o á noite, de cebolada, com
    bifes á ingleza, em casa da minha Adelia. No meu guarda-roupa, n'esse
    duro inverno, houve apenas um paletot velho, tão renunciado me quiz
    mostrar aos culpados regalos da carne; mas orgulhava-me de ter lá,
    purificando os cheviottes profanos, a minha opa rôxa de irmão do Senhor
    dos Passos, e o devoto habito cinzento da Ordem Terceira de S.
    Francisco. Sobre a commoda ardia uma lamparina perennal diante da
    lithographia colorida de Nossa Senhora do Patrocinio: eu punha todos os
    dias rosas dentro d'um copo, para lhe perfumar o ar em redor; e a titi,
    quando vinha remexer nas minhas gavetas, ficava a olhar a sua padroeira,
    desvanecida, sem saber se era á Virgem, ou se era a ella,
    indirectamente, que eu dedicava aquelle preito da luz e o louvor dos
    aromas. Nas paredes dependurei as imagens dos santos mais excelsos, como
    galeria d'antepassados espirituaes de quem tirava o constante exemplo
    das difficeis virtudes; mas não houve de resto no céo santo, por mais
    obscuro, a quem eu não offertasse um cheiroso ramalhete de Padre-Nossos
    em flôr. Fui eu que fiz conhecer á titi S. Telesforo, Santa Secundina, o
    beato Antonio Estronconio, Santa Restituta, Santa Umbulina, irmã do grão
    S. Bernardo, e a nossa dilecta e suavissima patricia Santa Basilissa,
    que é solemnisada juntamente com S. Hypacio, n'esse festivo dia d'agosto
    em que embarcam os cirios para a Atalaya.

    Prodigiosa foi então a minha actividade devota! Ia a matinas, ia a
    vesperas. Jámais falhei igreja ou ermida onde se fizesse a adoração ao
    Sagrado Coração de Jesus. Em todas as exposições do Santissimo eu lá
    estava, de rojos. Partilhava sofregamente de todos os desaggravos ao
    Sacramento. Novenas em que eu rezei contam-se pelos lumes do céo. E o
    Septenario das Dôres era um dos meus dôces cuidados.

    Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido, eu ia
    á missa das sete a Sant'Anna, e á missa das nove da igreja de S. José, e
    á missa do meio dia na ermida da Oliveirinha. Descansava um instante a
    uma esquina, de ripanço debaixo do braço, chupando á pressa o cigarro:
    depois voava ao Santissirno exposto na parochial de Santa Engracia, á
    devoção do Terço no convento de Santa Joanna, á benção do Sacramento na
    capella de Nossa Senhora ás Picôas, á novena das Chagas de Christo, na
    sua igreja, com musica. Tomava então a tipoia do _Pingalho_, e ainda
    visitava, ao acaso, de fugida, os Martyres e S. Domingos, a igreja do
    convento do Desagravo e a igreja da Visitação das Selesias, a capella de
    Monserrate ás Amoreiras e a Gloria ao Cardal da Graça, as Flamengas e as
    Albertas, a Pena, o Rato, a Sé!

    Á noite, em casa da Adelia, estava tão derreado, mono e molle ao canto
    do sofá,–que ella atirava-me murros pelos hombros, e gritava, furiosa:

    –Esperta, morcão!

    Ai de mim! Um dia veio, porém, em que a Adelia, em vez de me chamar
    _morcão_, quando, esfalfado no serviço do Senhor, eu mal podia ajudal-a
    a desatacar o collete–passou, sempre que os meus labios insaciaveis se
    collavam de mais ao seu collo, a empurrar-me, a chamar-me _carraça_…
    Foi isto pelas alegres vesperas de Santo Antonio, ao apparecerem os
    primeiros manjaricões, no quinto mez da minha devoção perfeita.

    A Adelia começára a andar pensativa e distrahida. Tinha ás vezes, quando
    eu lhe fallava, um modo de dizer «hein?», com o olhar incerto e
    disperso, que era um tormento para o meu coração. Depois um dia deixou
    de me fazer a caricia melhor, que eu mais appetecia–a penetrante e a
    regaladora beijoca na orelha.

    Sim, decerto permanecia terna… Ainda dobrava maternalmente o meu
    paletot; ainda me chamava _riquinho_; ainda me acompanhava ao patamar em
    camisa, dando, ao descollar do nosso abraço, esse lento suspiro que era
    para mim a mais preciosa evidencia da sua paixão;–mas já me não
    favorecia com a beijoquinha na orelha.

    Quando eu entrava abrazado–encontrava-a por vestir, por pentear, molle,
    estremunhada e com olheiras. Estendia-me a mãosinha desamoravel,
    bocejava, colhia preguiçosamente a viola: e emquanto eu, a um canto,
    chupando cigarros mudos, esperava que se abrisse a portinha envidraçada
    da alcova que dava para o céo–a deshumana Adelia, estirada no sofá, de
    chinelas cahidas, beliscava os bordões, murmurando, por entre longos
    _ais_, cantigas de estranha saudade…

    N'um arranco de ternura, eu ia ajoelhar-me á beira do seu peito. E lá
    vinha logo a dura, a regelada palavra:

    –Está quieto, carraça!

    E recusava-me sempre o seu carinho. Dizia-me: «não posso, estou com
    azia.» Dizia-me: «adeus, tenho a dôr na ilharga.»

    Eu sacudia os joelhos, recolhia ao Campo de Sant'Anna–espoliado,
    miserrimo, chorando na escuridão da minha alma pelos tempos ineffaveis
    em que ella me chamava _morcão_!

    Uma noite de julho, macia como um velludo preto e pespontada
    d'estrellas, chegando mais cedo a casa d'ella, encontrei a portinha
    aberta. O candieiro de petroline, pousado no soalho do patamar, enchia a
    escada de luz;–e dei com a Adelia, em saia branca, fallando a um rapaz
    de bigodinho louro, embrulhado pelintramente n'uma capa á hespanhola.
    Ella empallideceu, elle encolheu–quando eu surgi, grande e barbudo, com
    a minha bengala na mão. Depois a Adelia, sorrindo, sem perturbação, vera
    e limpida, apresentou-me «seu sobrinho Adelino.» Era filho da mana
    Ricardina, a que vivia em Vizeu, e irmão do Theodoriquinho… Tirando o
    chapéo, apertei na palma larga e leal os dedos fugidios do snr. Adelino:

    –Estimo muito conhecel-o, cavalheiro. Sua mamã, seu mano, bons?

    N'essa noite a Adelia, resplandecente, tornou a chamar-me _morcão_,
    restituiu-me o beijinho na orelha. E toda essa semana foi deliciosa como
    a d'um noivado. O verão ardia; e começára na Conceição Velha a novena de
    S. Joaquim. Eu sahia de casa á hora repousante em que se regam as ruas,
    mais contente que os passaros chalrando nas arvores do campo de
    Sant'Anna. Na salinha clara, com todas as cadeiras cobertas de fustão
    branco, encontrava a minha Adelia de chambre, fresca de se ter lavado,
    cheirando a agua de colonia, e aos lindos cravos vermelhos que a
    toucavam; e depois das manhãs calorosas, nada havia mais idyllico, mais
    dôce que as nossas merendas de morangos na cozinha, ao ar da janella,
    contemplando bocadinhos verdes de quintaes e ceroulas humildes a seccar
    em cordas… Ora uma tarde que assim nos apraziamos, ella pediu-me oito
    libras.

    Oito libras!… Descendo á noite a rua da Magdalena, eu ruminava quem
    m'as poderia emprestar sem juro e rasgadamente. O bom Casimiro estava em
    Torres, o prestante _Rinchão_ estava em Paris… E pensava já no padre
    Pinheiro (cujas dôres de rins eu lamentava sempre com affecto) quando
    avistei a escapar-se, todo encolhido, todo surrateiro, d'uma d'essas
    viellas impuras onde Venus Mercenaria arrasta os seus chinelos–o José
    Justino, o nosso José Justino, o piedoso secretario da confraria de S.
    José, o virtuosissimo tabellião da titi!…

    Gritei logo: «boas noites, Justininho!» E regressei ao Campo de
    Sant'Anna, tranquillo, gozando já a repenicada beijoca que me daria a
    Délinha, quando eu risonho lhe estendesse na mão as oito rodellas
    d'ouro. Ao outro dia cedo, corri ao cartorio do Justino, a S. Paulo,
    contei-lhe a pranteada historia d'um condiscipulo meu, tisico,
    miseravel, arquejando sobre uma enxerga, n'uma fetida casa d'hospedes,
    ao pé do largo dos Caldas.

    –É uma desgraça, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho… Eu é que
    o ajudo: mas, que diabo, estou a tinir… Faço-lhe companhia, é o que
    posso; leio-lhe orações, e _Exercicios da vida christã_. Hontem á noite
    vinha eu de lá… E acredite você, Justino, que nem gósto d'andar por
    aquellas ruas, tão tarde… Jesus, que ruas que indecencia, que
    immoralidade!… Aquelles beccos d'escadinhas, hein?… Eu hontem bem
    percebi que você ia horrorisado: eu tambem… De sorte que esta manhã
    estava no oratorio da titi, a rezar pelo meu condiscipulo, a pedir a
    Nosso Senhor que o ajudasse e que lhe désse algum dinheiro, e vai
    pareceu-me ouvir uma voz lá de cima da cruz a dizer: «entende-te com o
    Justino, falla ao nosso Justininho, elle que te dê oito libras para o
    rapaz…» Fiquei tão agradecido a Nosso Senhor! De modo que aqui venho,
    Justino, por ordem d'Elle.

    O Justino escutava-me, branco como os seus collarinhos, dando estalinhos
    tristes nos dedos;–depois, em silencio, estendeu-me uma a uma sobre a
    carteira as oito moedas d'ouro. Assim eu servi a minha Adelia.

    Fugaz foi porém a minha gloria!

    D'ahi a dias estando no Montanha, regalado, a gozar uma carapinhada–o
    criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira e de chale, a snr.^a
    Marianna, esperava por mim á esquina… Santo Deus! A Marianna era a
    criada da Adelia. E corri, a tremer, certo de que a minha bem-amada
    ficára soffrendo da sua abominavel dôr na sua branca ilharga. Pensei
    mesmo em começar o Rosario das dezoito apparições de Nossa Senhora de
    Lourdes, que a titi considera efficacissimo em casos de pontada ou de
    touros tresmalhados…

    –Ha novidade, Marianna?

    Ella levou-me para dentro d'um pateo onde cheirava mal; e ahi, com os
    olhos vermelhos, destraçando furiosamente o chale, rouca ainda da bulha
    que tivera com a Adelia, rompeu a contar-me coisas torpes, execrandas,
    sordidas. A Adelia enganava-me! O snr. Adelino não era sobrinho: era o
    querido, o _chulo_. Apenas eu sahia, elle entrava: a Adelia
    dependurava-se-lhe do pescoço, n'um delirio; e chamavam-me então o
    _carraça_, o _carola_, o _bode_, vituperios mais negros, cuspindo sobre
    o meu retrato. As oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de
    verão; e ainda sobrára para irem á feira de Belem, em tipoia descoberta,
    e de guitarra… A Adelia adorava-o com pieguice e com furor:
    cortava-lhe os callos; e os suspiros da sua impaciencia, quando elle
    tardava, lembravam o bramar das cervas, nos mattos quentes, em maio!…
    Duvidava eu? Queria uma evidencia? Que fosse n'essa noite, tarde, depois
    da uma hora, bater á portinha da Adelia!

    Livido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me suffocava vinha
    do canto escuro do pateo–se das immundicies que borbulhavam da bocca da
    Marianna, como d'um cano d'esgoto rebentado. Limpei o suor, murmurei, a
    desfallecer:

    –Está bom Marianna, obrigadinho, eu verei, vá com Deus…

    Cheguei a casa tão sombrio, tão murcho, que a titi perguntou-me, com um
    risinho, se eu «malhára abaixo da egoa.»

    –Da egoa?… Não, titi, credo! Estive na igreja da Graça…

    –É que vens tão enfiado, assim com as pernas molles… E então o Senhor
    hoje estava bonito?

    –Ai, titi, estava rico!… Mas não sei porquê, pareceu-me tão
    tristinho, tão tristinho… Até eu disse ao padre Eugenio: «Ó Eugeninho,
    o Senhor hoje tem desgosto!» E disse-me elle: «Que quer você, amigo? É
    que vê por esse mundo tanta patifaria!» E olhe que vê, titi! Vê muita
    ingratidão, muita falsidade, muita traição!

    Rugia, enfurecido: e cerrára o punho como para o deixar cahir, punidor e
    terrivel, sobre a vasta perfidia humana. Mas contive-me, abotoei devagar
    a quinzena, recalquei um soluço.

    –Pois é verdade, titi… Fez-me tanta impressão aquella tristeza do
    Senhor que fiquei assim um bocado amarfanhado… E de mais a mais tenho
    tido um desgosto: está um condiscipulo meu muito mal, coitadinho, a
    espichar…

    E outra vez, como diante do Justino (aproveitando reminiscencias do
    Xavier e da rua da Fé), estirei a carcassa d'um condiscipulo sobre a
    podridão d'uma enxerga. Disse as bacias de sangue, disse a falta de
    caldos… Que miseria, titi, que miseria! E então um moço tão
    respeitador das coisas santas, que escrevia tão bem na _Nação_!…

    –Desgraças, murmurou a tia Patrocinio, meneando as agulhas da meia.

    –É verdade, desgraças, titi. Ora como elle não tem familia e a gente da
    casa é desleixada, nós os condiscipulos é que vamos por turnos
    servir-lhe d'enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E queria então que a titi
    me désse licença para eu ficar fóra, até cerca das duas horas… Depois
    vem outro rapaz, muito instruido, que é deputado.

    A tia Patrocinio permittiu:–e até se offereceu para pedir ao patriarcha
    S. José que fosse preparando ao meu condiscipulo uma morte somnolenta e
    ditosa…

    –Isso é que era um grande favor, titi! Elle chama-se Macieira… O
    Macieira vesgo. É para S. José saber.

    Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na molleza do luar de
    julho. E por cada rua me acompanharam sempre, fluctuantes e
    transparentes, duas figuras, uma em camisa, outra de capa á hespanhola,
    enroscadas, beijando-se furiosamente–e só desligando os beiços pisados
    para rirem alto de mim e para me chamarem _carola_.

    Cheguei ao Rocio quando batia uma hora no relogio do Carmo. Ainda fumei
    um cigarro, indeciso, por debaixo das arvores. Depois voltei os passos
    para a casa da Adelia, vagaroso, e com medo. Na sua janella vi uma luz
    enlanguecida e dormente. Agarrei a grossa aldraba da porta,–mas hesitei
    com terror da certeza que vinha buscar, terminante e irreparavel… Meu
    Deus! Talvez a Marianna, por vingança, calumniasse a minha Adelia! Ainda
    na vespera ella me chamára _riquinho_, com tanto ardor! Não seria mais
    sensato e mais proveitoso acreditar n'ella, tolerar-lhe um fugitivo
    transporte pelo snr. Adelino, e continuar a receber egoistamente o meu
    beijinho na orelha?

    Mas então á idéa lacerante de que ella tambem beijava na orelha o snr.
    Adelino, e que o snr. Adelino também dizia _ai! ai!_ como
    eu–assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo e a murros,
    alli, n'esses degraus onde tantas vezes arrulhára a suavidade dos nossos
    adeuses. E bati na porta com um punho bestial como se fosse já sobre o
    seu fragil, ingrato peito.

    Senti correr desabridamente o fecho da vidraça. Ella surgiu em camisa,
    com os seus bellos cabellos revoltos:

    –Quem é o bruto?

    –Sou eu, abre.

    Reconheceu-me–a luz dentro desappareceu; e foi como se aquella torcida
    de candieiro, apagando-se, deixasse tambem a minha alma em escuridão,
    fria para sempre e vazia. Senti-me regeladamente só, viuvo, sem
    occupação e sem lar. Do meio da rua olhava as janellas negras, e
    murmurava: «ai, que eu rebento!»

    Outra vez a camisa da Adelia alvejou na varanda.

    –Não posso abrir, que ceei tarde e estou com somno!

    –Abre! gritei erguendo os braços desesperados. Abre ou nunca mais cá
    volto!…

    –Pois á fava, e recados á tia.

    –Fica-te, bebeda!

    Tendo-lhe atirado, como uma pedrada, este urro severo, desci a rua muito
    teso, muito digno. Mas á esquina aluí de dôr, para cima d'um portal, a
    soluçar, escoado em pranto, delido.

    Pesada foi então ao meu coração a lenta melancolia dos dias d'estio…
    Tendo contado á titi que andava a escrever dois artigos, piamente
    destinados ao _Almanach da Immaculada Conceição_ para 1878, encerrava-me
    no quarto, toda a manhã, emquanto faiscavam ao sol as pedras da minha
    varanda. Ahi, arrastando as chinelas sobre o soalho regado, remoía,
    entre suspiros, recordações da Adelia; ou diante do espelho contemplava
    o lugar macio da orelha em que ella costumava dar-me o beijo… Depois
    sentia um ruido de vidraça–e o seu perfido, o seu affrontoso brado «á
    fava!» Então, perdido, esguedelhado, machucava o travesseiro com os
    murros que não podia vibrar ao peito magro do snr. Adelino.

    Á tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas cada
    janella aberta ás aragens da tarde, cada cortina de cassa engommada me
    lembrava a intimidade da alcovinha da Adelia; n'um simples par de meias,
    esticado na vitrina de uma loja, eu revia com saudade a perfeição da sua
    perna; tudo o que era luminoso me suggeria o seu olhar; e até o sorvete
    de morango, no Martinho, me fazia repassar nos labios o adocicado e
    gostoso sabor dos seus beijos.

    Á noite, depois do chá, refugiava-me no oratorio, como n'uma fortaleza
    de santidade, embebia os meus olhos no corpo de ouro de Jesus, pregado
    na sua linda cruz de pau preto. Mas então o brilho fulvo do metal
    precioso ia, pouco a pouco, embaciando, tomava uma alva côr de carne,
    quente e tenra; a magreza de Messias triste, mostrando os ossos,
    arredondava-se em fórmas divinamente cheias e bellas; por entre a corôa
    d'espinhos, desenrolavam-se lascivos anneis de cabellos crespos e
    negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos, direitos,
    dois esplendidos seios de mulher, com um botãosinho de rosa na ponta;–e
    era ella, a minha Adelia, que assim estava no alto da cruz, núa,
    soberba, risonha, victoriosa, profanando o altar, com os braços abertos
    para mim!

    Eu não via n'isto uma tentação do Demonio–antes me parecia uma graça do
    Senhor. Comecei mesmo a misturar aos textos das minhas rezas as queixas
    do meu amor. O céo é talvez grato: e esses innumeraveis santos, a quem
    eu prodigalisára Novenas e Coroinhas, desejariam talvez recompensar a
    minha amabilidade restituindo-me as caricias que me roubára o homem
    cruel da capa á hespanhola. Puz mais flôres sobre a commoda diante de
    Nossa Senhora do Patrocinio; contei-lhe as angustias do meu coração. Por
    traz do limpido vidro do seu caixilho, com os olhos baixos e magoados,
    ella foi a confidente do tormento da minha carne; e todas as noites, em
    ceroulas, antes de me deitar, eu lhe segredava, com ardor:

    –Ó minha querida Senhora do Patrocinio, faze que a Adelinha goste outra
    vez de mim!

    Depois utilisei o valimento da titi com os santos seus amigos–o
    amorosissimo e perdoador S. José, S. Luiz Gonzaga, tão benevolo para a
    juventude. Pedia-lhe que fizesse uma Petição por certa necessidade
    minha, secreta e toda pura. Ella accedia, com alacridade; e eu,
    espreitando pelo reposteiro do oratorio, regalava-me de vêr a rigida
    senhora, de joelhos, de contas na mão, em supplicas aos Patriarchas
    castissimos para que a Adelia me désse outra vez a beijoquinha na
    orelha.

    Uma noite, cedo, foi experimentar se o céo escutára tão valiosas preces.
    Cheguei á porta da Adelia; e bati, tremendo todo, uma argoladinha
    humilde. O snr. Adelino assomou á janella, em mangas de camisa.

    –Sou eu, snr. Adelino, murmurei abjectamente e tirando o chapéo. Queria
    fallar á Adeliasinha.

    Elle rosnou para dentro, para a alcova, o meu nome. Creio mesmo que
    disse _o carola_. E lá do fundo, d'entre os cortinados, onde eu a
    presentia toda desalinhada e formosa, a minha Adelia gritou com furor:

    –Atira-lhe para cima dos lombos o balde da agua suja!

    Fugi.

    * * * * *

    No fim de setembro, o _Rinchão_ chegou de Paris: e um domingo, á
    noitinha, á volta da Novena de S. Caetano, entrando no Martinho,
    encontrei-o, rodeado de rapazes, contando ruidosamente os seus feitos
    d'amor e de gentil audacia em Paris. Tristonho, puxei um banco e fiquei
    a ouvir o _Rinchão_. Com uma ferradura de rubis na gravata, o monoculo
    pendente d'uma fita larga, uma rosa amarella no peito, o _Rinchão_
    impressionava, quando por entre o fumo do charuto esboçava traços do seu
    prestigio: «Uma noite no Caffé de la Paix, estando eu a cear com a Cora,
    com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um principe…» O que o
    _Rinchão_ tinha visto! o que o _Rinchão_ tinha gozado! Uma condessa
    italiana, delirante, parenta do Papa, e chamada _Popotte_, amára-o,
    levára-o aos Campos-Elyseos na sua victoria–cujo velho brazão eram dois
    chavelhos encruzados. Jantára em restaurantes onde a luz vinha de
    serpentinas d'ouro, e os criados, macilentos e graves, lhe chamavam
    respeitosamente _Mr. le Comte_. E o _Acazar_, com festões de gaz entre
    as arvores, e a Paulina cantando, de braços nús, o _Chouriço de
    Marselha_–revelára-lhe a verdade, a grandeza da civilisação.

    –Viste Victor Hugo? perguntou um rapaz de lunetas pretas, que roía as
    unhas.

    –Não, nunca andava cá na roda chic!

    Toda essa semana, então, a idéa de vêr Paris brilhou incessantemente no
    meu espirito, tentadora e cheia de suaves promessas… E era menos o
    appetite d'esses gozos do Orgulho e da Carne com que se abarrotára o
    _Rinchão_, que a anciedade de deixar Lisboa, onde igrejas e lojas, claro
    rio e claro céo, só me lembravam a Adelia, o homem amargo de capa á
    hespanhola, o beijo na orelha perdido para sempre… Ah! se a titi
    abrisse a sua bolsa de sêda verde, me deixasse mergulhar dentro as mãos,
    colher ouro, e partir para Paris!…

    Mas, para a snr.^a D. Patrocinio, Paris era uma região ascorosa, cheia
    de mentira, cheia de gula–onde um povo sem santos, com as mãos
    maculadas do sangue dos seus arcebispos, está perpetuamente, ou brilhe o
    sol, ou luza o gaz, commettendo uma _relaxação_. Como ousaria eu mostrar
    á titi o desejo immodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva
    moral?…

    Logo no domingo porém, jantando no Campo de Sant'Anna os amigos
    dilectos, aconteceu fallar-se, ao cozido, d'um sabio condiscipulo do
    padre Casimiro que recentemente deixára a quietação da sua cella no
    Varatojo, para ir esposar, entre foguetes, a trabalhosa Sé de Lamego. O
    nosso modesto Casimiro não comprehendia esta cubiça d'uma mitra,
    cravejada de pedras vãs: para elle a plenitude d'uma vida ecclesiastica
    era estar assim aos sessenta annos, são e sereno, sem saudades e sem
    temores, comendo o arrozinho do forno da snr.^a D. Patrocinio das
    Neves…

    –Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitavel senhora, que este seu
    arroz está um primor!… E a ambição de ter sempre um arroz d'estes, e
    amigos que o apreciem, parece-me a mais legitima e a melhor para uma
    alma justa…

    E assim se veio a discursar das acertadas ambições que, sem aggravo do
    Senhor, cada um podia nutrir no seu coração. A do tabellião Justino era
    uma quintasinha no Minho, com roseiras e com parreiras, onde elle
    pudesse acabar a velhice, em mangas de camisa, e quietinho.

    –Olhe, Justino, disse a titi, uma coisa que lhe havia de fazer falta
    era a sua missa na Conceição Velha… Quando a gente se acostuma a uma
    missinha, não ha outra que console… A mim, se me tirassem a de
    Sant'Anna, parece-me que começava a definhar…

    Era o padre Pinheiro que a celebrava; a titi, enternecida, collocou-lhe
    no prato outra aza de gallinha;–e padre Pinheiro revelou tambem a
    ambição que o pungia. Era elevada e santa. Queria vêr o Papa restaurado
    n'esse throno forte e fecundo em que resplandecera Leão X…

    –Se ao menos houvesse mais caridade com elle! exclamou a titi. Mas o
    Santissimo Padre, o vigariosinho de Nosso Senhor, assim n'uma masmorra,
    em farrapos, sobre palha… É de Caipházes, é de judeus!

    Bebeu um gole da sua agua morna, e recolheu-se ao retiro da sua alma–a
    rezar a Ave-Maria que sempre offertava pela saude do Pontifice e pelo
    termo do seu captiveiro.

    O dr. Margaride consolou-a. Não acreditava que o Pontifice dormisse
    sobre palhas. Viajantes esclarecidos afiançavam-lhe até que o Santo
    Padre, querendo, podia ter carruagem.

    –Não é tudo; está longe de ser tudo o que compete a quem usa a tiára;
    mas uma carruagem, minha senhora, é uma grandissima commodidade…

    Então o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (já que todos patenteavam
    as suas ambições) qual era a do douto, do eminente dr. Margaride.

    –Diga lá a sua, dr. Margaride, diga lá a sua! clamaram todos, com
    affecto.

    Elle sorria, grave.

    –Deixe-me v. exc.^a primeiro, D. Patrocinio, minha senhora, servir-me
    d'essa lingua guizada, que marcha para nós e que me parece preciosa.

    Depois de fornecido, o veneravel magistrado confessou que appetecia ser
    Par do Reino. Não por alarde de honras, nem pelo luxo da farda; mas para
    defender o principio sacro da authoridade…

    –Só por isto, acrescentou com energia. Porque desejava tambem, antes de
    morrer, poder dar, se v. exc.^a, D. Patrocinio, me permitte a expressão,
    uma cacheirada mortal no atheismo e na anarchia. E dava-lh'a!

    Todos declararam fervorosamente o dr. Margaride digno d'esses fastigios
    sociaes. Elle agradeceu, seriissimo. Depois volveu para mim a face
    magestosa e livida:

    –E o nosso Theodorico? O nosso Theodorico ainda não nos disse qual era
    a sua ambição.

    Córei: e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as suas
    serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas, as espumas do
    seu champagne–fascinante, embriagante, e adormentando toda a dôr… Mas
    baixei os olhos; e affirmei que só aspirava a rezar as minhas corôas, ao
    lado da titi, com proveito e com descanso…

    O dr. Margaride porém pousára o talher, insistia. Não lhe parecia um
    desapego de Deus, nem uma ingratidão com a titi, que eu, intelligente,
    saudavel, bom cavalleiro e bacharel, nutrisse uma honesta cubiça…

    –Nutro! exclamei então decidido como aquelle que arremessa um dardo.
    Nutro, dr. Margaride. Gostava muito de vêr Paris.

    –Cruzes! gritou a snr.^a D. Patrocinio, horrorisada. Ir a Paris!…

    –Para vêr as igrejas, titi!

    –Não é necessario ir tão longe para vêr bonitas igrejas, replicou ella,
    rispidamente. E lá em festas com orgão, e um Santissimo armado com luxo,
    e uma rica procissão na rua, e boas vozes, e respeito, e imagens de dar
    gosto, ninguem bate cá os nossos portuguezes!…

    Calei-me, esmagado. E o esclarecido dr. Margaride applaudiu o
    patriotismo ecclesiastico da titi. Decerto, não era n'uma republica sem
    Deus, que se deviam procurar as magnificencias do culto…

    –Não, minha senhora, lá para saborear coisas grandiosas da nossa santa
    religião, se eu tivesse vagares, não era a Paris que ia… Sabe v.
    exc.^a onde eu ia, snr.^a D. Maria do Patrocinio?

    –O nosso doutor, lembrou o padre Pinheiro, corria direito a Roma…

    –Upa, padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!

    Upa? Nem o bom Pinheiro, nem a titi comprehendiam o que houvesse de
    superior a Roma pontifical! O dr. Margaride então ergueu solemnemente as
    sobrancelhas, densas e negras como ebano.

    –Ia á Terra Santa, D. Patrocinio! Ia á Palestina, minha senhora! Ia vêr
    Jerusalem e o Jordão! Queria eu tambem estar um momento, de pé, sobre o
    Golgotha, como Chateaubriand, com o meu chapéo na mão, a meditar, a
    embeber-me, a dizer «salvè!» E havia de trazer apontamentos, minha
    senhora, havia de publicar impressões historicas. Ora ahi tem v. exc.^a
    onde eu ia… Ia a Sião!

    Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um recolhimento
    reverente a esta evocação da terra sagrada onde padeceu o Senhor. Eu
    parecia-me vêr lá muito longe, na Arabia, ao fim de arquejantes dias de
    jornada sobre o dorso d'um camêlo, um montão de ruinas em torno d'uma
    cruz; um rio sinistro corre ao lado entre oliveiras; o céo arqueia-se
    mudo e triste como a abobada d'um tumulo. Assim devia ser Jerusalem.

    –Linda viagem! murmurou o nosso Casimiro, pensativo.

    –Sem contar, rosnou padre Pinheiro, baixo e como ciciando uma oração,
    que Nosso Senhor Jesus Christo vê com grande apreço, e muito agradece,
    essas visitas ao seu Santo Sepulchro.

    –Até quem lá vai, disse o Justino, tem perdão de peccados. Não é
    verdade, Pinheiro? Eu assim li no _Panorama_… Vem-se de lá limpinho de
    tudo!

    Padre Pinheiro (tendo recusado, com mágoa, a couve-flôr, que considerava
    indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia á Terra Santa, n'uma devota
    peregrinação, recebia sobre o marmore do Santo Sepulchro, das mãos do
    Patriarcha de Jerusalem, e pagando os rituaes emolumentos, as suas
    Indulgencias Plenarias…

    –Não só para si, segundo tenho ouvido dizer, acrescentou o instruido
    ecclesiastico, mas para uma pessoa querida de familia, piedosa, e
    comprovadamente impedida de fazer a jornada… Pagando, já se vê,
    emolumentos dobrados.

    –Por exemplo! exclamou o dr. Margaride inspirado, batendo-me com força
    nas costas. Assim para uma boa titi, uma titi adorada, uma titi que tem
    sido um anjo, toda virtude, toda generosidade!…

    –Pagando, já se vê, insistiu padre Pinheiro, os emolumentos dobrados!

    A titi não dizia nada; os seus oculos, girando do Sacerdote para o
    Magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando mais com o
    clarão interior d'uma idéa: um pouco de sangue subira á sua face
    esverdinhada. A Vicencia offereceu o arroz dôce. Nós rezamos as graças.

    Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente.
    Nunca a titi me deixaria visitar a terra immunda de França: e aqui
    ficaria enclausurado n'esta Lisboa onde tudo me era tortura, e as mais
    rumorosas ruas me aggravavam o ermo do meu coração, e até a pureza do
    fino céo de estio me recordava a torva perfidia d'essa que fôra para mim
    estrella e Rainha da Graça… Depois, n'esse dia, ao jantar, a titi
    parecera-me mais rija, solida ainda, duradoura, e por longos annos dona
    da bolsa de sêda verde, dos predios e dos contos do commendador G.
    Godinho… Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a odiosa
    velha o fastiento terço, de beijar o pé do Senhor dos Passos, sujo de
    tanta bocca fidalga, de palmilhar novenas, e de magoar os joelhos diante
    do corpo d'um Deus, magro e cheio de feridas? Oh vida entre todas
    amargurosa! E já não tinha, para me consolar do enfadonho serviço de
    Jesus, os macios braços da Adelia…

    * * * * *

    De manhã, apparelhada a egoa, e já d'esporas, fui saber se minha titi
    tinha algum pio recado para S. Roque, por ser esse seu milagroso dia. Na
    saleta votada ás glorias de S. José, a titi, ao canto do sofá, com o
    chale de Tonkin cahido dos hombros, examinava o seu grande caderno de
    contas, aberto sobre os joelhos; e, defronte, calado, com as mãos
    cruzadas atraz das costas, o bom Casimiro sorria pensativamente ás
    flôres do tapete.

    –Ora venha cá, venha cá! disse elle, mal eu assomei curvando o
    espinhaço. Ouça lá a novidade! Que você é uma joia, respeitador de
    velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua tia. Chegue-se cá, venha
    de lá esse abraço!

    Sorri, inquieto. A titi enrolava o seu caderno.

    –Theodorico! começou ella, cruzando os braços, impertigada. Theodorico!
    tenho estado aqui a consultar com o snr. padre Casimiro. E estou
    decidida a que alguem que me pertença, e que seja do meu sangue, vá
    fazer por minha intenção uma peregrinação á Terra Santa…

    –Hein, felizão! murmurou Casimiro, resplandecendo.

    –Assim, proseguiu a titi, está entendido e ficas sabendo que vaes a
    Jerusalem e a todos os divinos lugares. Escusas de me agradecer, é para
    meu gosto, e para honrar o tumulo de Jesus Christo, já que eu lá não
    posso ir… Como, louvado seja Nosso Senhor, não me faltam os meios, has
    de fazer a viagem com todas as commodidades; e para não estar com mais
    duvidas, e pela pressa d'agradar a Nosso Senhor, ainda has de partir
    n'este mez… Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o snr. padre
    Casimiro. Obrigado, não quero nada para o snr. S. Roque: já me entendi
    com elle.

    Balbuciei: «Muito agradecido, titi; adeusinho, padre Casimiro.» E segui
    pelo corredor, atordoado.

    No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este rosto e estas
    barbas, onde em breve pousaria o pó do Jerusalem… Depois, cahi sobre o
    leito.

    –Olha que tremenda espiga!

    Ir a Jerusalem! E onde era Jerusalem? Recorri ao bahú que continha os
    meus compendios e a minha roupa velha; tirei o Atlas, e com elle aberto
    sobre a commoda, diante da Senhora do Patrocinio, comecei a procurar
    Jerusalem lá para o lado onde vivem os Infieis, ondulam as escuras
    caravanas, e uma pouca d'agua n'um poço é como um dom precioso do
    Senhor.

    O meu dedo errante sentia já o cansaço d'uma longa jornada: e parei á
    beira tortuosa d'um rio que devia ser o devoto Jordão. Era o Danubio. E
    de repente o nome de Jerusalem surgiu, negro, n'uma vasta solidão
    branca, sem nomes, sem linhas, toda de arêas, nua, junto ao mar. Alli
    estava Jerusalem. Meu Deus! Que remoto, que ermo, que triste!

    Mas então comecei a considerar que, para chegar a esse sólo de
    penitencia, tinha d'atravessar regiões amaveis, femininas e cheias de
    festa. Era primeiro essa bella Andaluzia, terra de Maria Santissima,
    perfumada de flôr de laranjeira, onde as mulheres só com metter dois
    cravos no cabello, e traçando um chale escarlate, amansam o coração mais
    rebelde, _bendita sêa su gracia_! Era adiante Napoles–e as suas ruas
    escuras, quentes, com retabulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os
    corredores d'um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grecia: desde a
    aula de Rhetorica ella apparecera-me sempre como um bosque sacro de
    loureiros onde alvejam frontões de templos, e, nos lugares de sombra em
    que arrulham as pombas, Venus de repente surge, côr de luz e côr de
    rosa, offerecendo a todo o labio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus
    seios immortaes. Venus já não vivia na Grecia; mas as mulheres tinham
    conservado lá o esplendor da sua fórma e o encanto do seu impudor…
    Jesus! o que eu podia gozar! Um clarão sulcou-me a alma. E gritei, com
    um murro sobre o Atlas, que fez estremecer a castissima Senhora do
    Patrocinio e todas as estrellas da sua corôa:

    –Caramba, vou fartar o bandulho!

    Sim, fartal-o! E mesmo, receando que a titi, por avareza do seu ouro ou
    desconfiança da minha piedade, renunciasse á idéa d'esta peregrinação
    tão promettedora de gozos–resolvi ligal-a supernaturalmente por uma
    ordem divina. Fui ao oratorio; desmanchei o cabello, como se por entre
    elle tivesse passado um sopro celeste; e corri ao quarto da titi,
    esgazeado, com os braços a tremer no ar.

    –Ó titi! pois não quer saber? Estava agora no oratorio, a rezar de
    satisfação, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso Senhor, de
    cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer: «Fazes bem, Theodorico,
    fazes bem em ir visitar o meu Santo Sepulchro… E estou muito contente
    com tua tia… Tua tia é das minhas!…»

    Ella juntou as mãos, n'um fogoso transporte d'amor:

    –Louvado seja o seu santissimo nome!… Pois disse isso? Ai, era bem
    capaz, que Nosso Senhor sabe que é para o honrar que eu lá te mando…
    Louvado seja outra vez o seu santissimo nome! Louvado seja em Terra e
    Céo! Anda, filho, vai, reza-lhe… Não te fartes, não te fartes!

    Eu ia, murmurando uma Ave-Maria. Ella correu ainda á porta, n'uma
    effusão de sympathia:

    –E olha, Theodorico, vê lá a respeito de roupa branca… Talvez te
    sejam necessarias mais ceroulas… Encommenda, filho, encommenda, que
    graças a Nossa Senhora do Rosario tenho posses, e quero que vás com
    decencia e te apresentes bem lá na sepulturasinha de Deus!…

    Encommendei: e, tendo comprado um _Guia do Oriente_ e um capacete de
    cortiça, informei-me, sobre o modo mais deleitoso de chegar a Jerusalem,
    com Benjamim Sarrosa & C.^a, judeu sagaz, que ia todos os annos, de
    turbante, comprar bois a Marrocos. Benjamim marcou-me, miudamente, n'um
    papel, o meu grandioso itinerario. Embarcaria no _Malaga_, vapor da casa
    Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, n'um mar
    sempre azul, á velha terra do Egypto. Ahi um repouso sensual na festiva
    Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe a costa religiosa da
    Syria, aportaria a Jaffa, a de verdejantes pomares; e de lá, seguindo
    uma estrada macadamisada, ao chouto d'uma egoa dôce, veria, ao fim d'um
    dia e ao fim d'uma noite, surgirem, negras entre collinas tristes, as
    muralhas de Jerusalem!

    –Diabo, Benjamim… Parece-me muito mar, muito paquete. Então nem um
    bocadinho de Hespanha? Ó menino, olhe que eu quero refastelar-me.

    –Refastela-se em Alexandria. Tem lá tudo. Tem o bilhar, tem a tipoia,
    tem a batota, tem a mulherinha… Tudo do bom. É lá que você se
    refastela!