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  • Contos para a infância

    Contos para a infância

    Aproximadamente 28.765 palavras.

    CONTOS PARA A INFANCIA

    ESCOLHIDOS DOS MELHORES AUCTORES POR GUERRA JUNQUEIRO

    LISBOA

    TYPOGRAPHIA UNIVERSAL DE THOMAZ QUINTINO ANTUNES, IMPRESSOR DA CASA REAL

    Rua dos Calafates, 110

    1877

    *A mãe*

    Estava uma mãe muito afflicta, sentada ao pé do berço do seu filho, com
    medo que lhe morresse. A creancinha pallida tinha os olhos fechados.
    Respírava com difficuldade, e ás vezes tão profundamente, que parecia
    gemer; mas a mãe causava ainda mais lastima do que o pequenino
    moribundo.

    N'isto bateram á porta, e entrou um pobre homem muito velho, embuçado
    n'uma manta d'arrieiro. Era no inverno. Lá fóra estava tudo coberto de
    neve e de gêlo, e o vento cortava como uma navalha.

    O pobre homem tremia de frio; a creança adormecêra por alguns instantes,
    e a mãe levantou-se a pôr ao lume uma caneca com cerveja. O velho
    começou a embalar a creança, e a mãe, pegando n'uma cadeira, sentou-se
    ao lado d'elle. E contemplando o seu filhinho doente, que respirava cada
    vez com mais difficuldade, pegou-lhe na mãosinha descarnada e disse para
    o velho:

    –Oh! Nosso Senhor não m'o hade levar! não é verdade?–

    E o velho, que era a Morte, meneou a cabeça d'uma maneira extranha, em
    ar de duvida. A mãe deixou pender a fronte para o chão, e as lagrimas
    corriam-lhe em fio pela cara. Sentiu-se estonteada com um grande peso de
    cabeça; estava sem dormir havia tres dias e tres noites. Passou
    ligeiramente pelo somno, durante um minuto, e despertou sobresaltada a
    tremer de frio.

    –Que é isto! exclamou, lançando á volta de si o olhar hallucinado. O
    berço estava vasio. O velho tinha-se ido embora, roubando-lhe a creança.

    * * * * *

    A pobre mãe saiu precipitadamente, gritando pelo filho. Encontrou uma
    mulher sentada no meio da neve, vestida de luto. «A Morte entrou-te em
    casa, disse-lhe ella. Via sair a correr levando teu filho. Anda mais
    depressa que o vento, e o que ella furta nunca o torna a entregar.»

    –Por onde foi ella? gritou a mãe. Dize-m'o pelo amor de Deus!»

    –Sei o caminho por onde ella foi, respondeu a mulher vestida de preto.
    Mas só t'o ensino, se me cantares primeiro todas as canções que cantavas
    ao teu filho. São lindas, e tens uma voz harmoniosa. Eu sou a Noite e
    muitas vezes t'as ouvi cantar, debulhada em lagrimas.

    –Cantar-t'as-hei todas, todas, mas logo, disse a mãe. Agora não me
    demores, porque quero encontrar o meu filho.–

    A Noite ficou silenciosa. A mãe então, desfeita em lagrimas, começou a
    cantar. Cantou muitas canções, mas as lagrimas foram mais do que as
    palavras.

    No fim disse-lhe a Noite: «Toma á direita, pela floresta escura de
    pinheiros. Foi por ahi que a Morte fugiu com o teu filho.»

    A mãe correu para a floresta; mas no meio dividia-se o caminho, e não
    sabia que direcção havia de seguir. Diante d'ella havia um mattagal,
    cheio de silvas, sem folhas nem flores, de cujos ramos pendia a neve
    cristallisada.

    * * * * *

    –Não viste a Morte que levava o meu filho?» perguntou-lhe a mãe.

    –Vi, respondeu o mattagal, mas não te ensino o caminho, senão com a
    condição de me aqueceres no teu seio, porque estou gelado.»

    E a mãe estreitou o mattagal contra o coração; os espinhos
    dilaceraram-lhe o peito, d'onde corria sangue. Mas o mattagal vestiu-se
    de folhas frescas e verdejantes, e cobriu-se de flores n'uma noite
    d'inverno frigidissima, tal é o calor febricitante do seio d'uma mãe
    angustiosa.

    E o mattagal ensinou-lhe o caminho que devia seguir. Foi andando,
    andando, até que chegou á margem d'um grande lago, onde não havia nem
    barcos, nem navios. Não estava sufficientemente gelado para se andar por
    elle, e era demasiadamente profundo para o passar a váo. Comtudo,
    querendo encontrar o seu filho, era necessario atravessal-o. No delirio
    do seu amor, atirou-se de bruços a ver se poderia beber toda a agua do
    lago. Era impossivel, mas lembrava-se que Deus, por compaixão, faria
    talvez um milagre.

    –Não! não és capaz de me esgotar, disse o lago. Socega, e entendamo-nos
    amigavelmente. Gosto de vêr perolas no fundo das minhas aguas, e os teus
    olhos são d'um brilho mais suave do que as perolas mais ricas que eu
    tenho possuido. Se queres, arranca-os das orbitas á força de chorar, e
    levar-te-hei á estufa grandiosa, que está do outro lado: essa estufa é a
    habitação da Morte; e as flores e as arvores que estão lá dentro, é ella
    quem as cultiva; cada flor e cada arvore é a vida d'uma creatura
    humana.»

    –Oh! o que não darei eu, para rehaver o meu filho!» disse a mãe. E
    apesar de ter já chorado tantas lagrimas, chorou com mais amargura do
    que nunca, e os seus olhos destacaram-se das orbitas e cairam no fundo
    do lago, transformando-se em duas perolas, como ainda as não teve no
    mundo uma rainha.

    O lago então ergueu-a, e com um movimento de ondulação depositou-a na
    outra margem, aonde havia um maravilhoso edificio, com mais d'uma legua
    de comprido. De longe não se sabia se era uma construcção artistica ou
    uma montanha com grutas e florestas. Mas a pobre mãe não podia ver nada;
    tinha dado os seus olhos.

    –Como heide eu reconhecer a Morte que me roubou o meu filho!» bradou
    ella desesperada.

    –A Morte ainda não chegou, respondeu-lhe uma boa velha, que andava d'um
    lado para o outro, inspeccionando a estufa e cuidando das plantas. Como
    vieste tu aqui parar? quem te ensinou o caminho?»

    –Deus auxiliou-me, respondeu ella. Deus é misericordioso. Compadece-te
    de mim, e dize-me onde está o meu filho.»

    –Eu não o conheço, e tu és cega, disse a velha. Ha aqui muitas plantas
    e muitas arvores, que murcharam esta noite: a Morte não tarda ahi para
    as tirar da estufa. Deves saber, que toda a creatura humana tem n'este
    sitio uma arvore ou uma flor, que representam a sua vida e que morrem
    com ella. Parecem plantas como quaesquer outras, mas tocando-lhes,
    sente-se bater um coração. Guia-te por isto, e talvez reconheças as
    pulsações do coração de teu filho. E que davas tu por eu te ensinar o
    que tens ainda de fazer?»

    –Já não tenho nada que te dar, disse a pobre mãe. Mas irei até ao fim
    do mundo buscar o que tu quizeres.–«Fóra d'aqui não preciso de nada,
    respondeu a velha. Dá-me os teus longos cabellos negros; tu sabes que
    são bellos, e agradam-me. Trocal-os-hei pelos meus cabellos
    brancos.»–Não pedes mais nada do que isso? disse a mãe. Ahi os tens,
    dou-t'os de boa vontade.»

    E arrancou os seus magnificos cabellos, que tinham sido outr'ora o seu
    orgulho de rapariga, recebendo em troca os cabellos curtos e
    inteiramente brancos da velha.

    Esta levou-a pela mão á grande estufa, onde crescia exhuberantemente uma
    vegetação maravilhosa.

    Viam-se debaixo de campanulas de cristal jacinthos mimosissimos ao lado
    de peonias inchadas e ordinarias. Havia tambem plantas aquaticas, umas
    cheias de seiva, outras meio murchas, e em cujas raizes se ennovelavam
    cobras asquerosas.

    Mais longe erguiam-se palmeiras soberbas, carvalhos e platanos
    frondosos; depois n'um outro sitio isolado havia canteiros de salsa,
    tomilho, ortelã e outras plantas humildes que representavam o genero de
    utilidade das pessoas que ellas symbolisavam.

    Havia ainda grandes arbustos em vasos demasiadamente estreitos, que
    pareciam rebentar; mas viam-se tambem floresitas insignificantes, em
    vasos de porcelana, na melhor terra, circumdadas de musgo, tratadas com
    esmero delicadissimo. Tudo isso representava a vida dos homens, que a
    essa hora existiam no mundo, desde a China até à Groenlandia.

    A velha queria mostrar-lhe todas estas cousas mysteriosas, mas a mãe
    impacientada pediu-lhe que a levasse ao sitio onde estavam as plantas
    pequeninas; tacteava-as, apalpava-as, para lhes sentir o bater do
    coração, e, depois de ter tocado em milhares d'ellas, reconheceu as
    pulsações do coração do seu filho.

    –É elle!» exclamou, lançando a mão a um açafroeiro, que, pendido sobre
    a terra, parecia completamente estiolado.

    –Não lhe toques, disse a velha. Fica n'este sitio; e quando a Morte
    vier, que não tarda, prohibe-lhe que arranque esta planta; ameaça-a de
    arrancar todas as flores que estão aqui. A Morte terá medo, porque tem
    de dar conta d'ellas a Deus. Nenhuma póde ser arrancada sem o seu
    consentimento.»

    N'isto sentiu-se um vento glacial, e a mãe adivinhou que era a Morte,
    que se approximava.

    –Como é què deste com o caminho? perguntou-lhe a Morte. Chegar ainda
    primeiro do que eu! Como o conseguiste?–«Sou mãe» respondeu ella.

    E a Morte estendeu a sua mão ganchosa para o pequenino açafroeiro.

    Mas a mãe protegia-o violentamente com ambas as mãos, tendo o cuidado de
    não ferir uma só das pequeninas petalas. Então a Morte soprou-lhe nas
    mãos, fazendo-lh'as cair inanimadas. O halito da Morte era mais frio do
    que os ventos enregelados do inverno.

    –Não pódes nada comigo!» disse a Morte.–Mas Deus tem mais força do que
    tu, respondeu a mãe.»–«É verdade, mas eu não faço senão aquillo que
    elle manda. Sou o seu jardineiro. Todas estas plantas, arvores e
    arbustos, quando começam a murchar, transplanto-as para outros jardins,
    um dos quaes é o grande jardim do Paraizo. São regiões desconhecidas;
    ninguém sabe o que se lá passa.»

    –Misericordia! misericordia! soluçou a mãe. Não me roubem o meu filho,
    agora que acabo de o encontrar!» Supplicava e gemia. A Morte
    conservava-se impassivel; agarrou então instantaneamente em duas flores
    lindissimas e disse á Morte: «Tu despresas-me, mas olha, vou arrancar,
    despedaçar não só esta, mas todas as flores que estão aqui!

    –Não as arranques, não as mates, bradou a Morte. Dizes que és
    desgraçada, e querias ir partir o coração de outra mãe!–«Outra mãe!»
    disse a pobre mulher, largando as flores immediatamente.–Toma, aqui
    tens os teus olhos, disse a Morte. Brilhavam tão suavemente que os tirei
    do lago. Não sabia que eram teus. Mette-os nas orbitas, e olha para o
    fundo d'este poço; vê o que ias destruir, se arrancasses estas flores.
    Verás passar nos reflexos da agua, como n'uma miragem, a sorte destinada
    a cada uma d'essas duas flores, e a que teria tido o teu filho, se
    porventura vivesse.»

    Debruçou-se no poço, e viu passar imagens de felicidade e alegria,
    quadros risonhos e deliciosos, e logo depois scenas terriveis de
    miseria, d'angustias e de desolação.

    –N'isto que eu vejo, disse a mãe afflictissima, não distingo qual era a
    sorte que Deus destinava ao meu filho.»

    –Não posso dizer-t'o, respondeu a Morte. Mas repito-te, em tudo isto
    que te appareceu viste o que no mundo havia de succeder ao teu filho.»

    A mãe desvairada, lançou-se de joelhos exclamando: Supplico-te, dize-me:
    era a sorte infeliz a que lhe estava reservada? Não é verdade! Falla!
    Não me respondes? Oh! na duvida, leva-o, leva-o, não vá elle soffrer
    desgraças tão horriveis. O meu querido filho! Quero-lho mais que á minha
    vida. As angustias que sejam para mim. Leva-o para o reino dos ceos.
    Esquece as minhas lagrimas, as minhas supplicas, esquece tudo o que fiz
    e tudo o que disse.»

    –Não te comprehendo, respondeu a Morte: Queres que te entregue o teu
    filho ou que o leve para a região desconhecida de que não posso
    fallar-te!» Então a mãe allucinada, convulsa, torcendo os braços,
    deitou-se de joelhos e dirigindo-se a Deus exclamou: «Não me ouças,
    Senhor, se reclamo no fundo do meu coração contra a tua vontade que é
    sempre justa! Não me attendas meu Deus!»

    E deixou cair a cabeça sobre o peito, mergulhada na sua agonia
    dilacerante.

    E a Morte arrancou o pequenino açafroeiro, e foi transplantal-o no
    jardim do paraiso.

    *O ouro*

    Era uma vez um rei, que, tendo achado no seu reino algumas minas d'ouro,
    empregou a maior parte dos vassallos a extrair o ouro d'essas minas; e o
    resultado foi que as terras ficaram por cultivar, e que houve uma grande
    fome no paiz.

    Mas a rainha, que era prudente e que amava o povo, mandou fabricar em
    segredo frangos, pombos, gallinhas e outras iguarias todas de ouro fino;
    e quando o rei quiz jantar mandou-lhe servir essas iguarias de ouro, com
    que elle ficou todo satisfeito, porque não comprehendeu ao principio
    qual era o sentido da rainha; mas, vendo que não lhe traziam mais nada
    de comer, começou a zangar-se. Pediu-lhe então a rainha, que visse bem
    que o ouro não era alimento, e que seria melhor empregar os seus
    vassallos em cultivar a terra, que nunca se cansa de produzir, do que
    trazel-os nas minas á busca do ouro, que não mata a fome nem a sede, e
    que não tem outro valor além da estimação que lhe é dada pelos homens,
    estimação que havia de converter-se em desprezo, logo que ouro
    apparecesse em abundancia.

    A rainha tinha juizo.

    *Doçura e bondade*

    Ha entre vós, meus filhos, indoles violentas, que não sabem dominar-se,
    e que são arrastadas pelas primeiras impressões. É uma pessima
    disposição, que é necessario corrigir; dá lugar a disputas, e a que se
    commettam acções, cujo arrependimento chega demasiadamente tarde.
    Citar-vos-hei dois exemplos de que fui testemunha.

    Um rapaz, sacudido violentamente na rua por um homem que vinha diante
    d'elle, volta-se e dá-lhe uma bofetada.

    –Oh! senhor! exclamou o outro, mal sabe a pena que vae ter! bateu n'um
    cego!»

    Um homem ainda novo montado n'um burro, atravessava uma aldeia, e uns
    camponezes grosseiros começaram a apupal-o e a bater no burro, para o
    fazer correr. O homem apeou-se, foi direito a elles, e, mostrando-lhes a
    sua perna aleijada, disse-lhes: «Se soubesseis que eu era coxo, não
    terieis sido tão covardes.»

    Os camponezes, envergonhados, córaram, afastando-se sem pronunciar uma
    palavra.

    Que vos parece estas duas lições? Estou convencido que aproveitaram a
    quem as recebeu.

    *O malmequer*

    Ouvi com attenção esta pequenina historia!

    No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que
    deveis ter visto muitas vezes. Ha na frente um jardimsinho com flores,
    rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do vallado, no
    meio da herva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a
    olhos vistos, graças ao sol, que repartia egualmente a sua luz tanto por
    elle como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bella
    manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes,
    parecia um sol em miniatura circumdado dos seus raios. Pouco se lhe dava
    que o vissem no meio da herva e não fizessem caso d'elle, pobre florinha
    insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do
    sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.

    N'esse dia o pequeno malmequer, apesar de ser n'uma segunda feira,
    sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Emquanto as creanças
    sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, elle, sentado na haste
    verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo
    o que sentia mysteriosamente, em silencio, julgava ouvil-o traduzido com
    admiravel nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso poz-se a
    olhar com uma especie de respeito, mas sem inveja, para essa avesinha
    feliz que cantava e voava.

    «Eu vejo e oiço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento
    acaricia-me. Oh! não tenho rasão de me queixar.»

    Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocraticas; quanto menos
    aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dalias inchavam-se para
    parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa.
    As tulipas brilhavam pela belleza das suas côres, pavoneando-se
    pretenciosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno
    malmequer, emquanto que o pobresinho admirava-as, exclamando: «como são
    ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visital-as. Graças a Deus,
    poderei assistir a este bello espectaculo.» E no mesmo instante a
    cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dalias e tulipas, mas para a
    relva, junto do pobre malmequer, que morto d'alegria não sabia o que
    havia de pensar.

    O passarinho poz-se a saltitar à roda d'elle, cantando: «Como a herva é
    macia! oh! que encantadora florinha, com um coração d'oiro, vestida de
    prata!»

    Não se póde fazer idéa da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com
    o bico, cantou outra vez diante d'elle, e perdeu-se depois no azul do
    firmamento. Durante mais d'um quarto d'hora não pôde o malmequer
    reprimir a sua commoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou
    para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que
    acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as
    tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e
    ponteagada manifestava o despeito. As dalias tinham a cabeça toda
    inchada. Se ellas podessem fallar, teriam dito coisas bem desagradaveis
    ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.

    Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma
    grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as
    uma a uma.

    «Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrivel; foram-se
    todas.»

    E emquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrára-se por
    ser simplesmente uma pequenina flor no meio da herva. Apreciando
    reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas,
    adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.

    No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao
    ar e á luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste,
    muitissimo triste. A pobre cotovia tinha boas rasões para se affligir:
    haviam-n'a agarrado e mettido n'uma gaiola, suspensa entre uma janella
    aberta. Cantava a alegria da liberdade, a belleza dos campos e as suas
    antigas viagens atravez do espaço illimitado.

    O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era
    difficil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe
    esquecer inteiramente as bellezas que o cercavam, o doce calor do sol e
    a alvura resplandecente das suas proprias folhas.

    N'isto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão
    uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as
    tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia comprehender o
    que desejavam.

    «Podemos arrancar d'aqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos
    rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.

    –«Arranca a flor, disse o outro.»

    A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-n'o era
    morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existencia, como no momento em
    que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.

    «Não; deixemol-a, disse o mais velho. Está ahi muito bem.»

    Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.

    O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu captiveiro, batia
    com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus
    desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.

    Passou-se assim toda a manhã.

    «Já não tenho agua, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me
    deixarem ao menos uma gota d'agua. A garganta queima-me, tenho uma febre
    terrivel, sinto-me abafada! Ai! Não ha remedio senão morrer, longe do
    sol explendido, longe da fresca verdura e de todas as magnificencias da
    creação!»

    Depois enterrou o bico na relva humida para se refrescar um pouco. Viu
    então o malmequer; fez-lhe um signal de cabeça amigavel, e disse-lhe,
    afagando-o: «Tambem tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo
    inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva,
    e a ti só por unica companhia. Cada pésinho de relva substitue para mim
    uma arvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorifera. Ah!
    como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!

    –Se eu podesse consolal-a! pensava o malmequer, incapaz de fazer o
    minimo movimento.

    Comtudo o perfume que elle exalava, tornou-se mais forte que de costume;
    a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a
    arrancar a herva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na
    flor.

    Caiu a noite; não estava ali ninguem, para trazer uma gotta d'agua á
    desditosa cotovia; Estendeu então as suas bellas azas, sacudindo-as
    convulsivamente, e poz-se a cantar uma cançãosinha melancolica; a sua
    cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e
    d'angustias cessou de bater. Vendo este triste espectaculo, o malmequer
    não pôde como na vespera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se
    para o chão, doente de tristeza.

    Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto,
    rebentaram-lhe as lagrimas e abriram uma cova. Metteram o cadaver dentro
    d'uma caixa vermelha, lindissima, fizeram-lhe um enterro de principe, e
    cobriram o tumulo com folhas de rosas.

    Pobre passarinho! Emquanto vivia e cantava, esqueceram-se d'elle e
    deixaram-n'o morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram
    e lhe fizeram honrarias pomposissimas.

    A relva e o malmequer lançaram-as para a poeira da estrada; d'aquelle
    que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguem se lembrou.

    *Não quero*

    Um dia, passando na estrada, ouvi dois rapazitos que fallavam muito
    alto: «Não, dizia um com voz energica, não quero.» Parei e
    perguntei-lhe:–O que é que tu não queres, meu rapaz?–«Não quero dizer
    á mamã que venho da escola, porque é mentira. Sei que me hade ralhar,
    mas antes quero que me ralhe do que mentir.»–E tens razão, disse-lhe
    eu. És um rapaz como se quer.» Apertei-lhe a mão, emquanto que o outro
    pequeno, que lhe aconselhava que se desculpasse mentindo, ia-se embora
    todo envergonhado.

    D'ahi a alguns mezes, passando pela mesma aldeia e tendo de fallar com o
    professor, entrei na escola, onde reconheci immediatamente os meus dois
    pequenos; o que não quiz mentir, sorria-me, emquanto que o outro,
    vendo-me, baixou os olhos. Ao despedir-me interroguei o mestre sobre os
    dois alumnos: Oh! disse-me elle, fallando do primeiro, è um magnifico
    estudante, um pouco teimoso, mas honrado, sincero, sempre prompto a
    confessar as suas faltas e o que é ainda melhor, a reparal-as. O outro
    pelo contrario, é mentiroso, covarde e incorrigivel.»–Não me espanto,
    disse eu, já tinha tirado o horóscopo d'estas duas creanças; e
    contei-lhe o que tinha ouvido.

    *Piloto*

    Piloto era o mais intelligente e o mais affectuoso dos cães, e o
    infatigavel companheiro dos brinquedos das creanças da quinta.

    Fazia gosto vel-o atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe
    lançava o mais longe que podia; pegava n'elle, mettia-o na bocca e
    trazia-o á margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã
    Joaninha.

    Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cançar nunca a paciencia do
    Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o
    assobio do creado da quinta chamava o fiel animal ás suas obrigações:
    partia então como um raio, para escoltar as vaccas, que levavam aos
    pastos, e impedil-as de entrar no lameiro do visinho.

    Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda
    da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse á noite a parede da
    quinta.

    Uma vez deu prova d'uma extraordinaria sagacidade; um jornaleiro, que se
    empregava muitas vezes em levar saccos de trigo da quinta para casa,
    tentou de noite roubar um sacco.

    Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade
    emquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou
    tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o
    largar.

    Era como se dissesse: «Onde vaes tu com o trigo de meu dono?»

    O ladrão quiz pôr então outra vez o sacco d'onde o tinha tirado; Piloto
    não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de
    manhã; o quinteiro foi dar com elle n'esta difficil posição,
    reprehendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não
    deshonrar.

    Mas o homem ficou com odio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a
    ausencia do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para
    elle sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até á
    margem do ribeiro.

    Atou uma grande pedra á outra extremidade da corda e levantando o animal
    atirou-o á agua; mas arrastado elle proprio com o peso e com o esforço,
    caiu tambem.

    Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o
    corajoso Piloto, obedecendo ao seu instincto de salvador e
    desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes
    e trazido para terra o seu mortal inimigo.

    Este, que estava quasi desmaiado, comprehendeu quando voltou a si, que o
    cão que elle tinha querido afogar, lhe salvára a vida.

    Teve vergonha de seu acto miseravel; e desde esse dia, violentou-se a si
    mesmo e combateu as suas más inclinações.

    O exemplo do cão corrigiu o homem.

    *O rico e o pobre*

    Martinho era um rapazito, que ganhava a sua vida a fazer recados; um
    dia, voltando d'uma aldeia muito distante da sua, achou-se cansado e
    deitou-se de baixo d'uma arvore, á porta d'uma estalagem, junto da
    estrada. Estava comendo um bocado de pão que tinha trazido para jantar,
    quando chegou uma bella carroagem em que vinha um fidalguinho, com o seu
    preceptor. O estalajadeiro correu immediatamente e perguntou aos
    viajantes se queriam apear-se, mas responderam-lhe que não tinham tempo,
    e pediram-lhe que lhes trouxesse um frango assado e uma garrafa de
    vinho.

    Martinho estava pasmado a olhar para elles; olhou depois para a sua
    codea de pão, para a sua velha jaqueta, para o seu chapeo todo roto, e
    suspirando exclamou baixinho: Oh! se eu fosse aquelle menino tão rico,
    em vez do desgraçado Martinho! que fortuna se elle estivesse aqui, e eu
    dentro d'aquella carruagem!» O preceptor ouviu casualmente o que dizia
    Martinho e repetiu-o ao seu alumno, que, lançando a cabeça fóra da
    carruagem, chamou Martinho com a mão.

    –Ficarias muito contente, não é verdade, meu rapaz, podendo trocar a
    minha sorte pela tua?»–Peço que me desculpe senhor, replicou Martinho
    córando, o que eu disse não foi por mal.»–Não estou zangado comtigo,
    replicou o fidalguinho, pelo contrario, desejo fazer a troca.»

    –Oh! está a divertir-se comigo! tornou Martinho, ninguem quereria estar
    no meu lugar, quanto mais um bello e rico menino como o senhor. Ando
    muitas leguas por dia, como pão secco e batatas, emquanto que o senhor
    anda n'uma carruagem, póde comer frangos e beber vinho.»–Pois bem,
    volveu o fidalguinho, se me queres dar tudo aquillo que tens e que eu
    não tenho, dou-te em troca de boa vontade tudo o que possuo.» Martinho
    ficou com os olhos espantados, sem saber o que havia de dizer; mas o
    preceptor continuou: «Acceitas a troca?»–Ora essa! exclamou Martinho,
    ainda m'o pergunta! Oh! como toda a gente d'aldeia vae ficar assombrada
    de me ver entrar n'esta bella carruagem!» E Martinho desatou a rir com a
    idéa da entrada triumphante na sua aldeia.

    O fidalguinho chamou os criados, que abriram a portinhola e o ajudaram a
    descer. Mas qual foi a surpreza de Martinho, vendo que elle tinha uma
    perna de pau e que a outra era tão fraca, que se via obrigado a andar em
    duas muletas: depois, olhando para elle de mais perto, Martinho observou
    que era muito pallido e que tinha cara de doente.

    Sorriu para o rapazito com ar benevolo, e disse-lhe:–Então sempre
    desejas trocar? Querias porventura, se podesses, deixar as tuas pernas
    valentes e as tuas faces córadas, pelo prazer de ter uma carruagem e
    andar bem vestido?»–Oh! não, por coisa nenhuma! replicou
    Martinho.–«Eu, disse o fidalguinho, de boa vontade seria pobre, se
    tivesse saude. Mas, como Deus quiz que fosse aleijado e doente, soffro
    os meus males com paciencia e faço por ser alegre, dando graças a Deus
    pelos bens que me concedeu na sua infinita misericordia.

    «Faze o mesmo, meu amiguinho, e lembra-te que, se és pobre e comes mal,
    tens força e saude, coisas que valem mais que uma carroagem, e que não
    podem comprar-se com dinheiro.

    *Como um camponez aprendeu o Padre Nosso*

    Tinha o coração duro, e não dava esmolas. Foi-se confessar uma vez, e o
    confessor deu-lhe por penitencia resar sete vezes o Padre Nosso.

    «Não o sei, e nunca o pude aprender, respondeu o aldeão.»

    «Pois n'esse caso, tornou o confessor, imponho-te por penitencia dar a
    credito um alqueire de trigo a todas as pessoas que t'o forem pedir da
    minha parte.»

    No dia seguinte de manhã apresentou-se o primeiro pobre.

    «Como te chamas? perguntou-lhe o camponez.

    «Padre–Nosso–Que–Estaes–No–Ceo, respondeu o pobre.»

    «E o teu appellido?»

    «Seja–Santificado–O–Vosso–Nome.»

    E o pobre foi-se embora com o seu alqueire de trigo.

    Ao outro dia chega segundo pobre.

    «Como te chamas?

    «Venha–A–Nós–O–Vosso–Reino.»

    «E o teu appellido?»

    «Seja–Feita–A–Vossa–Vontade.»

    E partiu com o seu alqueire de trigo.

    Veiu terceiro pobre.

    «Como te chamas?»

    «Assim–Na–Terra–Como–No–Ceo.»

    «E o teu appellido?»

    «Dae-nos–Hoje–O–Pão–Nosso–De–Cada–Dia.»

    E levou o seu alqueire.

    Vieram ainda dois pobres successivamente, e passou-se tudo da mesma
    forma até chegar ao _Amen_.

    Pouco tempo depois o confessor encontrou o aldeão.

    «Então já sabes o Padre Nosso?»

    «Não, sr. cura, sei só os nomes e appellidos dos pobres a quem emprestei
    o meu trigo.»

    «Quaes são? tornou o padre.»

    E o aldeão enumerou-lh'os a seguir, e pela ordem porque cada um se tinha
    apresentado.

    «Já vês, disse o confessor, que não era muito difficil aprender o Padre
    Nosso, porque já o sabes perfeitamente.»

    *O talisman*

    Dois habitantes da mesma cidade exerciam n'ella a mesma industria, mas
    com resultados bem diversos; um enriquecia-se e o outro arruinava-se, o
    que não era de espantar, porque o primeiro zelava os seus negocios com
    uma actividade infatigavel, emquanto que o segundo, entregue
    inteiramente aos seus prazeres, encarregava os estranhos da direcção da
    sua casa.

    «Explica-me, disse um dia este ultimo ao seu collega, qual é a razão
    porque a sorte nos trata de um modo tão differente? Vendemos as mesmas
    mercadorias, a minha loja está tão bem situada como a tua, e apezar
    d'isso, emquanto tu ganhas, eu não faço senão perder. E não é porque eu
    seja estroina; não bebo, nem jogo. Já tenho pensado algumas vezes se não
    terás tu por acaso algum precioso talisman.»

    «Effectivamente, respondeu o outro, herdei de meu pae um talisman de uma
    virtude incomparavel. Trago-o ao pescoço, e ando assim com elle todo o
    dia por toda a casa, do celleiro para a adega, e da adega para o
    celleiro. E o caso é que tudo me corre perfeitamente.»

    «Olé meu querido collega, empresta-me pelo amor de Deus essa reliquia
    preciosa de que tanto necessito; pódes ter a certeza de que t'a
    restituo.»

    «Pois vem buscal-a ámanhã de manhã.»

    Quando ao outro dia foi procurar o seu generoso concorrente,
    apresentou-lhe este uma avellã, através da qual tinha tinha passado um
    fio de seda.

    O nosso homem pòl-a immediatamente ao pescoço, e começou a correr toda a
    casa com o talisman. Observou então a completa desordem que por toda a
    parte ali havia. Na adega faltava-lhe vinho, cerveja e azeite; na
    cozinha o pão, a carne e os legumes; no celleiro, o milho, o trigo, o
    feijão; na estribaria, o feno e a aveia, roubados das manjadouras dos
    cavallos; viu, finalmente, como os seus livros e registros estavam mal
    escripturados; viu tudo isto, e que era necessário dar-lhe remedio,
    comprehendendo que o dono da casa nunca póde ser substituido por
    terceira pessoa na direcção dos seus negocios.

    Passados alguns dias foi entregar ao dono o precioso talisman,
    agradecendo-lhe duplamente, em primeiro logar, o seu bom conselho, e em
    segundo logar, a maneira delicada porque lh'o tinha dado.

    *A alma*

    «Mamã, nem todas as creanças que morrem vão para o Paraizo. O outro dia
    vi levar para o cemiterio um menino que tinha morrido; o seu papá e as
    suas duas irmãsinhas acompanhavam o caixão, e choravam tanto que me
    fazia pena. Iam a chorar porque aquelle menino tinha sido mau, não é
    verdade?»

    «Não; naturalmente foi sempre bom, e a sua alma, emquanto choravam seus
    paes e suas irmãs, já estava vivendo feliz no Paraizo.»

    «A alma? mamã; não sei o que é; não comprehendo bem.»

    «Maria, acabas de me dizer que tiveste pena de ver chorar as duas
    pequerruchas.»

    «Tive sim, mamã, tive muita pena.»

    «Ora bem, o que é que no teu corpo estava desconsolado e triste? eram os
    braços?»

    «Não, mamã.»

    «Eram as orelhas?»

    «Oh! não mamã, era _cá dentro_.»

    «Esse _lá dentro_, Maria, é a tua alma que se alegra ou se entristece,
    que te reprehende quando fazes o mal, e que está satisfeita quando
    praticas o bem.

    *Alberto*

    Alberto tinha seis annos. Era filho de um jardineiro. Via seu pae e seus
    irmãos, que eram activos e laboriosos, plantar arvores e fazer
    sementeiras, que nasciam, cresciam e davam fructo. Tinha visto um unico
    feijão produzir cem feijões e muitas vezes mais, e de uma talhada de
    batata nascerem quarenta batatas magnificas; sabia que a terra pagava
    com juros exorbitantes o que lhe emprestavam. Um dia achou uma libra no
    quarto do pae, e foi enterral-a immediatamente no seu jardimzinho. «Ha
    de nascer uma arvore, dizia elle comsigo, que dará libras como uma
    cerejeira dá cerejas, e irei entregal-as ao papá, que ficará muito
    contente.» Todas as manhãs ia ver se a libra tinha nascido, mas não
    rebentava nada. Entretanto o pae procurava a libra por toda a parte. Por
    fim perguntou ao Albertinho se a tinha visto.

    «Vi papá; achei-a e fui semeal-a.»

    «Como, semeal-a? doido! julgas talvez que vae nascer como uma couve?»

    «Mas, papá, ouvi dizer que o oiro se encontrava na terra.»

    «É verdade, mas não nasce como uma semente; o oiro não tem vida.»

    Desenterrou-se a libra, e Alberto foi castigado por dispor do que lhe
    não pertencia.

    Ha comtudo, meus filhos, uma maneira de semear o oiro, fazendo-lhe
    produzir os mais bellos fructos que existem no mundo. Quereis saber como
    é? é dando-o aos pobres. Faz-se no Paraizo a colheita d'essa sementeira.

    *A canção da cerejeira*

    Disse Deus na primavera: «Ponham a mesa ás lagartas!» E a cereijeira
    cobriu-se immediatamente de folhas, milhões de folhas, fresquinhas e
    verdejantes.

    A lagarta, que estava dormindo dentro de casa, acordou, espreguiçou-se,
    abriu a bocca, esfregou os olhos e poz-se a comer tranquillamente as
    folhinhas tenras, dizendo: «Não se póde a gente despegar d'ellas. Quem é
    que me arranjou este banquete?»

    Então Deus disse de novo: «Ponham a mesa ás abelhas!» E a cereijeira
    cobriu-se immediatamente de flores, milhões de flores delicadas e
    brancas.

    E a abelha matinal aos primeiros raios da aurora pousou sobre ellas,
    dizendo: «Vamos tomar o nosso café; e que chávenas tão bonitas em que o
    deitaram!»

    Provou com a linguita, exclamando: «Que deliciosa bebida! Não pouparam o
    assucar!»

    No verão disse Deus: «Ponham a mesa aos passarinhos!» E a cereijeira
    cobriu-se de mil fructos appetitosos e vermelhos.

    «Ah! ah! exclamaram os passarinhos, foi em boa occasião; temos appetite,
    e isto dar-nos-ha novas forças para podermos cantar uma nova canção.» No
    outono disse Deus: «Levantae a mesa, já estão satisfeitos.» E o vento
    frio das montanhas começou a soprar, e fez estremecer a arvore.

    As folhas tornaram-se amarellas e avermelhadas, cairam uma a uma, e o
    vento que as lançou ao chão erguia-as novamente, fazendo-as esvoaçar.

    Chegou o inverno e disse Deus: «Cobri o resto!» E os turbilhões dos
    ventos trouxeram a neve, sob cuja mortalha tudo dorme e descança.

    *Os gigantes da montanha e os anões da planicie*

    Era uma vez uma familia de gigantes, que viviam n'um castello na
    montanha: um dos gigantes tinha uma filha de seis annos, da altura d'um
    alamo. Era curiosa e andava com vontade de descer á planície a ver o que
    faziam lá em baixo os homens, que de cima do monte lhe pareciam anões.
    Um bello dia, em que seu pae o gigante tinha ido á caça e sua mãe estava
    dormindo, a joven giganta desatou a correr para um campo, onde os
    jornaleiros trabalhavam. Parou surprehendida a ver a charrua e os
    lavradores, coisas inteiramente novas para ella. «Oh! que lindos
    brinquedos!» exclamou. Abaixou-se e estendeu por terra o avental, que
    quasi que cubriu o campo. Lançou-lhe dentro os homens, os cavallos, a
    charrua; de dois passos tornou a subir a montanha, e entrou no castello,
    onde seu pae estava a jantar.

    –Que trazes ahi, minlia filha?» perguntou elle.

    –Olhe, disse ella, abrindo o avental, que lindos brinquedos. São os
    mais bonitos que tenho visto.»

    E pol-os em cima da mesa, a um e um,–os cavallos, a charrua e os
    trabalhadores, que estavam todos espantados, como formigas a quem
    tivessem transportado d'um formigueiro para um salão. A gigantinha
    poz-se a bater as palmas e a rir com uma alegria doida, mas o gigante
    fez-se serio e franziu o sobrolho. «Fizeste mal, disse-lhe elle. Isso
    não são brinquedos, mas coisas e pessoas que devem estimar-se e
    respeitar-se. Mette tudo isso com cuidado no teu avental, e põe-n'o
    immediatamente onde o achaste; porque fica sabendo que os gigantes da
    montanha, morreriam de fome, se os anões da planicie deixassem de lavrar
    a terra e de semear o trigo.

    *A creança, a anjo e flôr*

    Quando morre uma creança, desce um anjo do ceo, toma-a nos braços, e
    desdobrando as azas immaculadas, voa por cima de todos os sitios que
    ella amara durante a sua pequenina existencia; o anjo abaixa-se de
    quando em quando para colher flores, que leva a Deus, para que floresçam
    no paraiso ainda mais bellas do que tinham sido na terra. Deus recebe
    todas as flores, escolhe uma d'ellas, toca-a com os labios, e a flor
    escolhida, adquirindo voz immediatamente, começa a cantar os coros
    maviosos dos bem-aventurados. Ora escutae o que disse o anjo a uma
    creança morta, que o estava ouvindo como n'um sonho. Pairaram primeiro
    sobre a casa em que a creança brincára, e depois sobre jardins
    deliciosos, cobertos de flores.

    «Qual é a flor que desejas para plantar no paraiso?» perguntou o anjo.

    Havia n'esse jardim uma roseira que tinha sido direita, vigorosa,
    magnifica; mas quebraram-lhe o pé, e todos os seus ramos cheios de
    botõesinhos lindissimos pendiam estiolados para o chão.

    «Pobre roseira! disse a creança ao anjo; vamos buscal-a para que possa
    reflorir no paraiso.»

    O anjo foi buscal-a, e abraçou a creança. Colheram muitas flores
    brilhantes, boninas humildes e violetas silvestres.

    A colheita estava terminada, e comtudo não voavam ainda para Deus. Caiu
    a noite silenciosa, e a creança e o seu guia Divino andavam ainda por
    cima da grande cidade. Atravessaram uma das ruas mais estreitas, cheia
    de cacos de louça, de vidros partidos, de farrapos, de toda a casta de
    immundicie. Entre estes destroços distinguiu o anjo um vaso de flores
    com a terra pelo chão, onde pendiam as longas raizes d'uma flor dos
    campos, já murcha, e que parecia não poder reverdecer: tinham-n'a
    atirado para a rua como inutil e morta.

    «Vale a pena levantal-a disse o anjo; levemol-a, e pelo caminho, voando,
    te contarei a historia da florinha. Lá ao fundo, lá ao fundo, naquella
    rua estreita e tortuosa, morava um pequerrucho, uma creança miseravel e
    doente. Quando se sentia melhor, o mais que podia conseguir era passeiar
    com a ajuda das moletas ao longo de seu pequenino quarto. Em certos dias
    de verão os raios do sol visitavam-lhe a alcova, durante meia hora.
    Então a creança sentada á janella, aquecida pelo sol, sem o cansaço do
    andar, imaginava-se passeando; não conhecia da floresta, da fresca
    verdura da primavera, senão o ramo de faia, que uma vez o filho do
    visinho tinha colhido para elle. Suspendia por cima da cabeça o ramo
    verdejante, e, suppondo-se debaixo das arvores abrigadas do sol, sonhava
    com o doce canto dos passarinhos. Um dia o filho do visinho trouxe-lhe
    flores do campo, e por acaso entre ellas appareceu uma que tinha ainda
    raizes; o pequerrucho plantou-a n'um vaso, e pol-o á janella, junto da
    cama. A flor plantada por mão abençoada, cresceu, tornou-se grande, e
    todos os annos dava novas flores. Era o seu jardimzinho, o seu unico
    thesouro n'este mundo; regava-a, tratava-a, adorava-a; fazia-lhe
    aproveitar os raios do sol até ao ultimo. A flor apparecia-lhe em
    sonhos, porque era para elle que floria, que espalhava o seu aroma e
    ostentava as suas côres; quando se sentiu morrer foi para ella que se
    voltou.

    «Faz hoje um anno que esse pequerrucho habita no paraiso; a sua querida
    flor, esquecida á janella desde então, murchou, estiolou-se e
    atiraram-n'a à rua finalmente. E comtudo esta flor quasi secca é o
    thesouro do nosso ramilhete. Deu mais prazer e alegria do que todos os
    canteiros d'um jardim realengo.»

    «Como sabes tu isso?» perguntou a creança, que o anjo levava para o céo.

    –Sei-o, respondeu o anjo, porque era eu o pequenino doente que andava
    em moletas; como não havia de eu reconhecer a minha flor bem amada!»

    A creança abriu os olhos, e viu a radiosa figura do anjo quando entravam
    no céo onde tudo era alegria e felicidade. Deus pegou nas flores,
    levou-as ao coração, mas a que elle beijou foi a florinha silvestre,
    despresada e murcha: a flor adquiriu voz immediatamente, poz-se a cantar
    com as almas que rodeiam o Creador, umas junto d'elle, outras ao longe,
    formando circulos que vão augmentando successivamente, multiplicando-se
    até ao infinito, povoados de seres inteiramente felizes, cantando todos
    harmoniosamente–desde a creança abençoada até á humilde florinha do
    campo, levantada do lodo, d'entre os tristes despojos da rua sombria e
    tortuosa.

    *Presente por presente*

    Um grande fidalgo, que se tinha perdido n'uma floresta, foi dar de noite
    á choupana d'um pobre carvoeiro. Como este ainda não tinha chegado, foi
    a mulher que recebeu o importante personagem. Acolheu-o o melhor que
    pôde, desculpando-se da miseravel hospitalidade que lhe ia dar, porque
    eram batatas cosidas a unica cousa que lhe poderia offerecer; cama não a
    tinha, por conseguinte dormiria sobre a palha. Mas o estrangeiro estava
    morto de fome e de fadiga; as batatas souberam-lhe mais do que faisões,
    e dormiu melhor em cima da palha do que n'um leito de principes. Ao
    outro dia pela manhã disse isto mesmo á pobre mulher, gratificando-a ao
    despedir-se com uma moeda de ouro. Mas, como o desconhecido lhe tinha
    dito que a guardasse como uma pequena lembrança, a boa camponeza julgou
    que seria uma medalha, e sentiu que não tivesse um buraquito para a
    trazer ao pescoço. Quando o carvoeiro chegou a casa, contou-lhe logo o
    que lhe tinha acontecido, mostrando-lhe a moeda preciosa. O carvoeiro
    examinou os cunhos e o valor da moeda d'ouro, e disse para a mulher:

    «Esse forasteiro era nada mais nada menos do que o nosso principe!

    E o bom do homem não podia conter-se de alegria, por sua alteza ter
    achado as suas batatas melhores do que faisões.

    «É necessário confessar, disse elle com um ar triumphante, que não ha
    talvez no mundo um terreno mais favoravel do que este para a cultura das
    batatas; hei de lhe levar um cesto d'ellas, já que as acha tão boas.

    E partiu immediatamente para o palacio com uma provisão de batatas
    escolhidas.

    Os lacaios e as sentinellas ao principio não o queriam deixar entrar;
    mas insistiu energicamente, dizendo que não vinha pedir nada, e que pelo
    contrario vinha trazer alguma cousa.

    Foi, pois, introduzido na sala da audiencia.

    «Meu senhor, disse elle ao principe: Vossa alteza dignou-se recentemente
    pedir hospitalidade a minha mulher, e dar-lhe uma peça de ouro, em troca
    d'uma enxerga miseravel e d'um prato de batatas cosidas. Era pagar
    demasiadamente, apesar de serdes um principe muito rico e poderoso. Eis
    o motivo porque eu venho trazer ainda a vossa alteza um cestito das
    batatas, que vos souberam melhor do que os vossos faisões. Dignae-vos
    acceital-as, e, se nos fizerdes de novo a honra de ser nosso hospede, lá
    as encontrareis sempre ao vosso dispor.»

    A honrada simplicidade do camponez agradou ao principe, e, como estava
    n'um momento de bom humor, fez-lhe doação de uma quinta com trinta
    geiras de terra.

    Ora o carvoeiro tinha um irmão muito rico, mas invejoso e avarento, que,
    sabendo da fortuna do irmão mais novo, disse comsigo: «Porque não me ha
    de succeder a mim outro tanto? O principe gosta do meu cavallo, pelo
    qual lhe pedi sessenta libras, que elle me recusou. Vou-lhe fazer
    presente d'elle: se deu ao João uma quinta com trinta geiras de terra,
    simplesmente por um cesto de batatas, a mim com certeza me ha de
    recompensar ainda mais generosamente.»

    Tirou o cavallo da estrebaria e levou-o para defronte das portas do
    palacio; recommendou ao creado que o segurasse, e, atravessando com ar
    altivo as alas dos lacaios, penetrou na sala da audiencia.

    «Ouvi dizer, disse elle, que vossa alteza gosta do meu cavallo; não
    tenho querido trocal-o a dinheiro, mas dignae-vos permittir-me que vol-o
    offereça.»

    O principe viu immediatamente onde o nosso homem queria chegar, e disse
    comsigo: «Deixa estar, tratante, que te vou dar a paga que mereces:

    Depois dirigindo-se a elle:

    «Acceito a tua dadiva, mas não sei como agradecer-t'a condignamente. Oh!
    espera um pouco: Eis aqui um cesto de batatas mais saborosas do que
    faisões. Custaram-me trinta geiras de terra. Parece-me que é um bom
    preço para um cavallo, que eu poderia ter comprado por sessenta libras.»

    E entregando-lhe o cesto, mandou-o embora.

    *O pinheiro ambicioso*

    Era uma vez um pinheiro, que não estava contente com a sua sorte. «Oh!
    dizia elle, como são horrorosas estas linhas uniformes de agulhas
    verdes, que se estendem ao longo dos meus ramos! Sou um pouco mais
    orgulhoso que os meus visinhos, e sinto que fui feito para andar vestido
    de outro modo. Ah! se as minhas folhas fossem de oiro!»

    O Genio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o
    pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se,
    pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que,
    mais sensatos do que elle, não invejavam a sua rapida fortuna. Á noite
    passou por alli um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, metteu-as n'um
    sacco, e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés á cabeça.

    «Oh! disse elle, que doido que eu fui! não me tinha lembrado da cobiça
    dos homens. Fiquei completamente despido. Não ha agora em toda a
    floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro;
    o oiro attrae as ambições.

    Ah! se eu arranjasse um vestuario de vidro! Era deslumbrante, e o judeu
    avarento não me teria despido.»

    No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de vidro, que reluziam ao
    sol como pequeninos espelhos. Ficou outra vez todo contente e orgulhoso,
    fitando desdenhosamente os seus visinhos. Mas n'isto o ceo cobriu-se de
    nuvens, e o vento rugindo, estallando, quebrou com a sua aza negra as
    folhas de cristal.

    «Enganei-me ainda, disse o joven pinheiro, vendo por terra todo feito em
    pedaços o seu manto cristalino. O oiro e o vidro não servem para vestir
    as florestas. Se eu tivesse a folhagem assetinada das avelleiras, seria
    menos brilhante, mas viveria descansado.»

    Cumpriu-se o seu ultimo desejo, e, apesar de ter renunciado ás vaidades
    primitivas, julgava-se ainda assim mais bem vestido do que todos os
    outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e
    vendo as folhas acabadas de nascer, tenrinhas e frescas, comeram-lh'as
    todas sem deixar uma unica.

    O pobre pinheiro, envergonhado e arrependido, já queria voltar á sua
    fórma natural. Conseguiu ainda este favor, e nunca mais se queixou da
    sua sorte.

    *Perfeição das obras de Deus*

    _A filha_.–Oh! mamã quebrou-se-me a agulha.

    _A mãe_.–Vou-te dar outra.

    _A filha_.–Como se fazem as agulhas, mamã?

    _A mãe_.–Vê se adivinhas.

    _A filha_.–Nã sei, mamã.

    _A mãe_.–Conheces os metaes?

    _A filha_.–Conheço mamã; tenho lá dentro muitos bocadinhos dentro de
    uma caixa.

    _A mãe_.–Ora muito bem, dize-me lá, as agulhas são de pau, de pedra, de
    marmore?

    _A filha_.–Oh! não; são de metal; mas de que metal?

    _A mãe_.–Antes de perguntar qualquer coisa, vê sempre se a adivinhas
    primeiro.

    _A filha_.–Ora espere!… uma agulha é de metal: não é de prata, porque
    não é branca; não é de oiro, porque não é de um lindo amarello muito
    brilhante; não é de cobre, porque não é de um amarello muito feio, que
    cheira mal… Então é de ferro, mamã?

    _A mãe_.–Adivinhaste.

    _A filha_.–Mas, mamã, o ferro não é liso e brilhante como as agulhas.

    _A mãe_.–É que é primeiro polido e preparado de certo modo, e depois já
    se não chama ferro, é aço.

    _A filha_.–Bem, as agulhas são de aço. Agora quero adivinhar como é que
    as fazem.

    _A mãe_.–É impossivel, não és capaz d'isso; mas hei de levar-te a uma
    fabrica onde se fazem agulhas. Has de vel-as fazer, e has de gostar
    muito.

    _A filha_.–Tinha vontade de saber como se fazem todas as coisas de que
    nos servimos.

    _A mãe_.–Tens razão; é uma vergonha ignoral-o.

    _A filha_.–Mamã, deixe-me ver as suas agulhas.

    _A mãe_.–Olha, ahi tens o meu estojo.

    _A filha_.–Meu Deus! Que pequeninas algumas! Que lindas! São tão
    fininhas, tão fininhas!… Muita habilidade ha de ser necessaria para
    fazer uma coisinha tão delicada!

    _A mãe_.–Lembras-te de ver na feira um carrinho de marfim puxado por
    uma pulga, presa por uma cadeia de oiro?

    _A filha_.–Lembro, mamã; era tão bonito!

    _A mãe_.–Li n'um jornal allemão que um operario chamado Nerlinger fez
    um copo de um grão de pimenta, e que dentro d'este copo havia mais
    doze…

    _A filha_.–Que pequeninos deviam ser os doze copos para caberem n'um
    grão de pimenta!

    _A mãe_.–E ainda não é tudo; cada um d'esses copinhos tinha as bordas
    doiradas, e sustentava-se no pé.

    _A filha_.–Que vontade eu tinha de ver isso!

    _A mãe_.–Tens razão de te admirares da habilidade dos homens. É
    effectivamente espantoso, e deve saber-se, o modo porque se fabricam
    certas coisas; comtudo ainda ha outras obras mais dignas de admiração.

    _A filha_.–Quaes, mamã?

    _A mãe_.–Já t'o digo. (_Levanta-se_.)

    _A filha_.–Que quer, mamã?

    _A mãe_.–Quero que vejas o microscopio de teu papá.

    _A filha_.–Pois sim; eu gosto de olhar pelo microscopio.

    _A mãe_.–Este é magnifico, e augmenta prodigiosamente os objectos. Vaes
    ver a mais pequenina das minhas agulhas. Repara primeiro como é fina,
    lisa e brilhante… Agora olha; o que é que vês?

    _A filha_.–Meu Deus, que coisa tão feia! que agulha tão grosseira!

    _A mãe_.–Vês-lhe buracos, riscos, asperesas, não é verdade?

    _A filha_.–Parece um prego muito grande e muito mal feito.

    _A mãe_.–Pois todas essas imperfeições são verdadeiras, existem na
    agulha; a nossa vista, por ser muito fraca, é que não dá por ellas.

    _A filha_.–O operario que fez esta agulha ficaria envergonhado, se a
    visse ao microscopio.

    _A mãe_.–Tiremos a agulha, e vejamos outra coisa.

    _A filha_.–O quê, mamã?

    _A mãe_.–O aguilhãosinho de uma abelha.

    _A filha_.–Oh! que pequenino, que bonito!… Como é liso, como é
    brilhante!… Mas já sei que visto ao microscopio ha de acontecer o
    mesmo que com a agulha.

    _A mãe_.–Prompto: olha.

    _A filha_ (olhando).–É exquisito, mamã!

    _A mãe_.–Então?

    _A filha_.–Augmentou, augmentou como a agulha, mas não é áspero, pelo
    contrario, é perfeitamente liso… A agulha parecia que não tinha ponta,
    e o ferrãosinho da abelha tem uma ponta tão fina como um cabello. Porque
    será isto, mamã?

    _A mãe_.–É porque o operario que fez este aguilhão é muito mais habil
    do que o que fez a agulha.

    _A filha_.–Quem é esse operario tão habil?

    _A mãe_.–É o mesmo que fez o ceo, os astros, a terra, as plantas e as
    creaturas.

    _A filha_.–É Deus.

    _A mãe_.–Exactamente. Pois não é Deus que fez as abelhas e todos os
    animaes?

    _A filha_.–De certo.

    _A mãe_.–Foi elle por conseguinte que fez o aguilhão d'esta abelha; e
    ahi tens porque o aguilhão é superior á agulha: é obra de Deus. Mas
    continuemos a olhar pelo microscopio. Aqui está um pedacinho de
    musselina finissima. Olha pelo microscopio; o que é que vês?

    _A filha_.–Vejo uma rede grossa, desegual, muito mal feita.

    _A mãe_.–Aqui tens agora um pedacinho de renda delicadissima.

    _A filha_.–Essa estou bem certa que ha de ser linda, mesmo vista pelo
    microscopio.

    _A mãe_.–Então?

    _A filha_.–É horrorosa… Parece feita de pellos grosseiros com grandes
    buracos deseguaes.

    _A mãe_.–As obras do homem são todas assim.

    _A filha_.–Oh! mamã, vejamos agora as obras de Deus.

    _A mãe_.–Sabes o que é isto?

    _A filha_.–Sei, mamã, é um casulo de bicho de seda.

    _A mãe_.–Os fiosinhos que o compõem são muito finos, muito lisos; olha
    pelo microscopio a ver se te parecem deseguaes.

    _A filha_ (olhando pelo microscópio).–Não, mamã; os fios são todos
    eguaes, e o casulo é sempre muito liso, muito brilhante.

    _A mãe_.–É porque é obra de Deus. Examinemos outras coisas. O que ha
    sobre este papel?

    _A filha_.–Pontinhos feitos com tinta e manchasinhas redondas feitas
    também com tinta.

    _A mãe_.–Estes pontinhos e estas manchas parecem-te perfeitamente
    redondos?

    _A filha_.–Sim, mamã, perfeitamente redondos.

    _A mãe_.–Vê-os agora ao microscopio.

    _A filha_.–Oh! já não são redondos, são todos deseguaes.

    _A mãe_.–Tira o papel; vejamos a obra de Deus. É uma aza de borboleta;
    vês que está mosqueada de pequeninas manchas redondas; olha pelo
    microscopio; o que é que vês?

    _A filha_.–Vejo a mesma coisa que via sem o vidro, só com a differença
    que agora é maior. Que bellas que são as obras de Deus!

    _A mãe_.–Merece bem a pena estudal-as.

    _A filha_.–De certo. Farei sempre por isso, comparando-as com as obras
    dos homens.

    _A mãe_.–E sempre e em tudo has de encontrar defeitos nas obras do
    homem, emquanto que as obras de Deus, quanto mais se observam, mais
    perfeitas se acham. Deve isto fazer-nos meditar em duas coisas: a
    primeira é que Deus merece tanto a nossa admiração como o nosso amor; a
    segunda é que os homens orgulhosos são insensatos, porque não podem
    fazer nada perfeitamente bello, perfeitamente regular, e as suas obras
    mais primorosas são cheias de imperfeições, se as compararmos com as
    obras do Creador.

    *João e os seus camaradas*

    Era uma vez uma viuva com um filho unico. Ao cabo d'um inverno rigoroso,
    possuia apenas um gallo, e meio alqueire de farinha. João resolveu-se a
    correr mundo, á busca de fortuna. A mãe coseu o resto da farinha, matou
    o gallo, e disse-lhe:

    «O que é que preferes: metade d'esta merenda com a minha benção, ou toda
    com a minha maldição?»

    «Que pergunta! respondeu o pequeno. Nem por quantos thesouros ha no
    mundo eu quereria a tua maldição.»

    «Bem, meu filho, replicou a mãe carinhosamente. Leva tudo, e Deus te
    abençôe.»

    E partiu. Foi andando, andando, até que encontrou um jumento, que tinha
    caido n'um atoleiro, d'onde não podia sair.

    «Oh! João, exclamou o burro, tira-me d'aqui, que estou quasi a
    afogar-me.»

    «Espera, respondeu João.»

    E, formando uma ponte com pedras e ramos d'arvores, conseguiu tirar o
    quadrúpede do atoleiro.

    «Obrigado, disse-lhe elle, aproximando-se de João. Se te posso ser util,
    aqui me tens ao teu dispor. Aonde vaes tu?»

    –«Vou por esse mundo fóra, a ver se ganho a minha vida.»

    «Queres tu que eu te acompanhe?

    «Anda d'ahi.»

    E puzeram-se a caminho.

    Ao passarem por uma aldeia, viram um cão perseguido pelos rapazes da
    eschola, que lhe tinham atado ao rabo uma chocolateira velha. O pobre
    animal correu para João que o acariciou, e o jumento poz-se a ornear de
    tal maneira, que os rapazes com o medo deitaram todos a fugir.

    «Obrigado, disse o rafeiro a João. Se para alguma cousa te for
    prestavel, aqui me tens ás tuas ordens. Aonde vaes tu?»

    «Vou por esse mundo de Christo, a ver se ganho a minha vida.»

    «Queres que te acompanhe?»

    «Anda d'ahi.»

    Quando sairam da aldeia pararam junto d'uma fonte. O pequeno tirou a
    merenda do alforge, e repartiu-a com o cão. O burro pastou alguma erva
    que por ali havia. Emquanto jantavam, appareceu um gato esfaimado a miar
    lastimosamente.

    Coitado, exclamou João!» E deu-lhe uma asa do frango.

    –«Obrigado disse o gato. Oxalá que um dia eu te possa ser util. Aonde
    vaes tu?

    –«Procurar trabalho. Se queres, anda comnosco.»

    –De boa vontade.

    Os quatro viajantes puzeram-se a caminho. Ao cahir da tarde, ouviram um
    grito dilacerante, e viram uma raposa correndo a toda a brida com um
    gallo na bocca.

    «Agarra! agarra!» bradou o pequeno ao cão.

    E no mesmo instante o cão atirou-se atraz da rapoza, que, vendo-se em
    perigo, largou o gallo para correr melhor. O gallo saltando de contente
    disse a João:

    –«Obrigado. Salvas-te-me a vida. Nunca me esquecerei. Aonde vaes tu?»

    –Arranjar trabalho. Queres vir comnosco?

    –«De boa vontade.»

    –Então anda. Se te cançares, empoleira-te no jumento.»

    Os viajantes contínuaram a jornada com o seu novo companheiro.
    Sentiram-se todos fatigados e não avistavam á roda nem uma quinta, nem
    uma cabana.

    –«Paciencia, disse João, outra vez seremos mais felizes. Resignemo-nos
    hoje a dormir ao ar livre; além d'isso a noite está socegada, e a relva
    é macia.»

    Dito isto estendeu-se no chão; o jumento deitou-se ao lado d'elle, o cão
    e o gato aninharam-se entre as pernas do burro complacente, e o gallo
    empoleirou-se n'uma arvore.

    Dormiam todos um somno profundissimo, quando de repente o gallo começou
    a cantar.

    –«Que demonio! disse o jumento accordando todo zangado. Porque é que
    estás a gritar?»

    –«Porque já é dia, respondeu o gallo. Não vês ao longe a luz da
    madrugada, que vem rompendo?»

    –«Vejo uma luz, disse João, mas não é do sol, é d'uma lanterna.
    Provavelmente ha ali alguma casa, onde nos poderiamos recolher o resto
    da noite.»

    Foi acceita a proposta. Partiu a caravana; foi andando, andando, atravez
    dos campos, até que parou junto da casa do guarda d'um grande castelo,
    d'onde subiam gargalhadas, gritos confusos, cantos grosseiros e
    blasphemias horriveis.

    –Escutem, disse João; vamos devagarinho, muito devagarinho, a ver quem
    é que está lá dentro.»

    Eram seis ladrões armados de pistolas e de punhaes, que se banqueteavam
    alegremente, sentados a uma mesa principesca.

    –«Que bom assalto acabámos de dar, disse um d'elles, ao castello do
    conde, graças ao auxilio do seu porteiro. Que bom homem que é este
    porteiro. Á sua saude!»

    –«Á saúde do nosso amigo!» repetiram em coro todos os ladrões.

    E d'um trago despejaram os copos.

    João voltou-se para os companheiros, e disse-lhes em voz baixa:

    –«Uni-vos uns aos outros o melhor que puderdes, e, assim que vos der
    signal, rompei todos ao mesmo tempo n'uma gritaria diabolica.»

    O burro, levantando-se nas patas trazeiras, lançou as mãos ao peitoril
    d'uma janella, o cão trepou-lhe á cabeça, o gato á cabeça do cão e o
    gallo á cabeça do gato. João deu o signal, e estoirou à uma o ornear do
    jumento, os latidos do cão, o miar do gato e os gritos estridentes do
    gallo.

    –«Agora, bradou João, fingindo que commandava um destacamento, carregar
    armas! Dae-me cabo dos ladrões; fogo!»

    No mesmo instante o jumento quebrou a janella com as patas, zurrando
    cada vez mais; os ladrões atemorisados refugiaram-se no bosque, saindo
    precipitadamente por uma porta falsa.

    João e os seus companheiros penetraram na salla abandonada, comeram um
    excellente jantar, e deitaram-se em seguida–João n'uma cama, o burro na
    cavallariça, o cão n'uma esteira ao pé da porta, o gato junto do fogão e
    o gallo n'um poleiro.

    Ao principio os ladrões ficaram muito contentes, por se verem sãos e
    salvos na floresta. Mas depois, começaram a reflectir.

    –«Era bem melhor a minha cama, do que esta erva tão humida, disse um
    d'elles.»

    –«Tenho pena do frango que eu começava a saborear, disse um outro.»

    –«E que rico vinho aquelle! accrescentou o terceiro.»

    –«E o que é mais lamentavel, exclamou um quarto, é ficar-nos lá todo o
    dinheiro, que, com a ajuda do criado do conde, tinhamos tirado das
    gavetas.»

    –Vou ver se torno lá a entrar? disse o capitão.

    –Bravo! exclamaram os ladrões.

    E poz-se a caminho.

    Já não havia luz na casa; o capitão entrou ás apalpadellas, e dirigiu-se
    para o fogão; o gato saltou-lhe á cara e esfarrapou-lh'a com as garras.
    Soltou um grito doloroso, correu para a porta, mas infelizmente pisou o
    rabo do cão, que lhe deu uma grande dentada. Gritou de novo, e conseguiu
    por fim transpor o limiar da porta. Mas quando ia a sair, o gallo
    atirou-se a elle, rasgando-o com o bico e com as unhas.

    –Anda o diabo n'esta casa! exclamou o capitão, como poderei eu sair!»

    Julgou encontrar refugio na estrebaria; mas o burro atirou-lhe uma
    parelha de coices, que o deitou quasi morto ao meio do chão.

    Passado algum tempo veiu a si; apalpou o corpo, viu que não tinha nem
    pernas nem braços partidos, ergueu-se e tornou para a floresta.

    –Então? então?–perguntaram-lhe os camaradas assim que o viram.

    –Nada feito, exclamou elle. Mas antes de tudo arrangem-me uma cama para
    me deitar e cataplasmas de linhaça para pôr n'este corpo, que o trago
    n'um feixe. Não podeis imaginar o que soffri. Na cosinha fui assaltado
    por uma velha que estava a cardar lã, e arrumou-me na cara com o
    cedeiro, deixando-me n'este miseravel estado. Quando ia a sair a porta,
    um demonio d'um remendão atravessou-me as pernas com a sovella. Logo
    depois Satanaz em pessoa atirou-se a mim, despedaçando-me com as garras.
    Na estrebaria deram-me uma paulada que me ia matando. Se vocês me não
    acreditam, vão lá, e experimentem.»

    –Acreditamos, disseram os companheiros, vendo-lhe a cara e o corpo todo
    ensanguentado: Não seremos nós que lá tornaremos.»

    Pela manhã, João e os seus camaradas almoçaram ainda excellentemente, e
    partiram em seguida para restituir ao conde o dinheiro que os ladrões
    lhe tinham roubado. Metteram-n'o cuidadosamente dentro de dois saccos,
    com que carregou o jumento. Foram andando, andando, até que chegaram á
    porta do castello. Diante d'essa porta estava o malvado do porteiro, com
    uma libré esplendida, meias de seda, calções escarlates e cabello
    empoado.

    Olhou com ar de desprezo para a pequenina caravana, e disse a João.

    –Que vindes aqui buscar? Não ha lugar para os recolher, vão-se embora?»

    –Não queremos nada de ti, respondeu João. O dono do castello far-nos-ha
    um bom acolhimento.

    –Fóra d'aqui vagabundos, exclamou o porteiro enfurecido. Ponham-se a
    andar immediatamente, quando não atiro-lhes já ás pernas os meus cães de
    fila.»

    –Perdão, só um instante, replicou o gallo empoleirado na cabeça do
    jumento; não me poderias dizer quem é que abriu aos ladrões na noite
    passada a porta do castello?»

    O porteiro córou. O conde que estava á janella, disse-lhe:

    –Ó Bernabé, responde ao que esse gallo te acaba de perguntar.

    –Senhor, replicou Bernabé, este gallo é um miseravel. Não fui eu que
    abri a porta aos seis ladrões.

    –Como é então, meu velhaco, tornou o conde, que tu sabes que eram seis?

    Seja como for, disse João, aqui lhe trazemos o dinheiro roubado,
    pedindo-lhe unicamente que nos dê de jantar e nos recolha esta noite,
    porque vimos cançados do caminho.

    –Ficae certos que sereis bem tratados.

    O burro, o cão e o gallo, levaram-n'os para a quinta. O gato ficou na
    cosinha. E emquanto a João, o conde reconhecido, vestiu-o dos pés á
    cabeça com um vestuario magnifico, deu-lhe um relogio d'ouro, e
    disse-lhe:

    –Queres ficar comigo? És esperto e honrado, serás o meu intendente.»

    João acceitou a proposta, e mandou vir a sua velha mãe para o pé de si.
    Casou depois com uma linda rapariga, e viveu sempre felicissimo.

    *O rabequista*

    Em tempos muito remotos os habitantes d'uma grande cidade levantaram uma
    egreja magnifica a Santa Cecilia, padroeira dos musicos.

    As rosas mais vermelhas e os lyrios mais candidos enfeitavam o altar. O
    vestido da santa era de filagrana de prata e os sapatinhos eram d'oiro,
    feitos pelo melhor ourives que havia na cidade. A capella estava
    constantemente cheia de peregrinos e devotos. Uma vez foi lá em romaria
    um pobre rabequista, pallido, magro, escaveirado. Como a jornada tinha
    sido muito longa, estava cançado, e já no seu alforge não havia pão nem
    dinheiro no bolso para o comprar.

    Assim que entrou na capella, começou a tocar na sua rabeca com tal
    suavidade, com tanta expressão, que a santa ficou enternecida ao vel-o
    tão pobre e ao escutar aquella musica deliciosa. Quando terminou, Santa
    Cecilia abaixou-se, descalçou um dos seus ricos sapatos d'ouro, e deu-o
    ao pobre musico, que tonto d'alegria, dançando, cantando, chorando,
    correu á loja d'um ourives para lh'o vender. O ourives, reconhecendo o
    sapato da santa, prendeu o pobre rabequista e levou-o á presença do
    juiz. Instauraram-lhe processo, julgaram-n'o, e foi condemnado á morte.

    Chegára o dia da execução. Os sinos dobravam lastimosamente, e o cortejo
    poz-se em marcha ao som dos canticos dos frades, que ainda assim não
    chegavam a dominar os sons da rabeca do condemnado, que pedira, como
    ultima graça, o deixarem-lhe tocar na sua rabeca até ao ultimo momento.
    O cortejo chegou defronte da capella da santa, e quando pararam
    supplicou o triste desgraçado, que o levassem lá dentro para tocar a sua
    derradeira melodia.

    Os padres e os chefes da escolta consentiram, e o rabequista entrou,
    ajoelhou aos pés da santa, e debulhado em lagrimas começou a tocar.
    Então o povo, maravilhado e aterrado, viu Santa Cecilia curvar-se de
    novo, descalçar o outro sapato e mettel-o nas mãos do infeliz musico. Á
    vista d'este milagre, todos os assistentes, levaram em triumfo o
    rabequista, coroaram-n'o de flores, e os magistrados vieram solemnemente
    prestar-lhe as mais honrosas homenagens.

    *Os pecegos*

    Um lavrador que tinha quatro filhos trouxe-lhes um dia cinco pecegos
    magnificos. Os pequenos, que nunca tinham visto semelhantes fructos,
    extasiaram-se diante das suas côres e da fina penugem que os cubria. Á
    noite o pae perguntou-lhes:

    –Então comeram os pecegos?

    –Eu comi, disse o mais velho. Que bom que era! Guardei o caroço, e hei
    de plantal-o para nascer uma arvore.»

    –Fizeste bem, respondeu o pae, é bom ser economico e pensar no futuro.»

    –Eu, disse o mais novo, o meu pecego comi-o logo, e a mamã ainda me deu
    metade do que lhe tocou a ella. Era doce como mel.»

    –Ah! acudiu o pae, foste um pouco guloso, mas na tua edade não admira;
    espero que quando fores maior te has de corrigir.»

    –Pois eu cá, disse um terceiro, apanhei o caroço que o meu irmão deitou
    fóra, quebrei-o, e comi o que estava dentro, que era como uma noz. Vendi
    o meu pecego, e com o dinheiro hei de comprar coisas quando for á
    cidade.»

    O pae meneou a cabeça:

    –Foi uma idéa engenhosa, mas eu preferia menos calculo.

    –E tu, Eduardo, provaste o teu pecego?

    –Eu, meu pae, respondeu o pequeno, levei-o ao filho do nosso visinho,
    ao Jorge, que está coitadinho com febre. Elle não o queria, mas
    deixei-lh'o em cima da cama, e vim-me embora.

    –Ora bem, perguntou o pae, qual de vós é que empregou melhor o pecego
    que eu lhe dei?

    E os três pequenos disseram á uma:

    –Foi o mano Eduardo.

    Este no entanto não dizia palavra, e a mãe abraçou-o com os olhos
    arrazados de lagrimas.

    *A urna das lagrimas*

    Era uma vez uma viuva, que tinha uma filhinha muito linda, a quem
    adorava sobre todas as coisas. Não se separava d'ella um só momento; mas
    um dia a pobre pequerrucha começou a soffrer, adoeceu e morreu. A
    desditosa mãe, que tinha passado as noites e os dias, sem repousar um
    momento, á cabeceira da filha, julgou endoidecer de magua e de saudades.
    Não comia, não fazia senão chorar e lamentar-se. Uma noite em que estava
    acabrunhada, chorando no mesmo sitio em que a filha tinha morrido,
    abriu-se de repente a porta do quarto e viu-a apparecer a ella, a sua
    querida filha, sorrindo com uma expressão angelica e trazendo nas mãos
    uma urna, que vinha cheia até ás bordas.

    –«Oh! minha querida mãe, disse-lhe ella, não chores mais. Olha, o anjo
    das lagrimas recolheu as tuas n'esta urna. Se chorares mais,
    transbordará, e as tuas lagrimas correrão sobre mim, inquietando-me no
    tumulo e perturbando a minha felicidade no paraiso.

    A pequenina desappareceu, e a mãe não tornou a chorar para a não
    affligir.

    *Reconhecimento e ingratidão*

    Os vossos filhos serão para vós como vós tiverdes sido para vossos paes.
    E é natural. As creanças veem diariamente o que fazem seus paes, e
    imitam-n'os. Justifica-se d'esta maneira o proverbio que diz,–que a
    benção ou a maldição d'um pae cae sobre a cabeça de seus filhos,
    terminando sempre por se realisar. Citaremos dois exemplos, que merecem
    ser meditados.

    Um principe, passeando no campo, viu um pobre homem, que andava muito
    satisfeito, a lavrar a terra. Poz-se a conversar com elle. Depois
    d'algumas perguntas, soube que o campo não pertencia ao homem, mas que
    trabalhava n'elle mediante um salario de doze vintens por dia. O
    principe, que para as suas despezas d'administração e representação
    necessitava de quantias avultadas, custou-lhe ao principio a perceber,
    como se vivia com doze vintens diarios, andando-se ainda por cima
    satisfeito. Manifestou o seu espanto ao aldeão, que lhe respondeu:

    «Gasto diariamente comigo a terça parte d'essa quantia; outro terço é
    para pagar as minhas dividas; e o resto é para ir juntando algumas
    economias.»

    Era um novo enigma para o principe. Mas o alegre camponez explicou-lh'o
    d'este modo.

    «Reparto quanto ganho com os meus velhos paes, que já não podem
    trabalhar, e com os meus filhos, que ainda não teem força para isso. Aos
    primeiros pago-lhes o amor de que me deram tantas provas na minha
    infancia; e espero que os segundos não me abandonem, quando os annos
    tiverem pesado sobre mim.»

    O principe, ouvindo isto, quiz premiar o honrado camponez; encarregou-se
    da educação de seus filhos; e a benção que lhe deram os seus velhos
    paes, os seus filhos merecerem-a depois pela sua vez, rodeando
    egualmente a sua velhice de cuidados piedosos e da mais terna dedicação.

    Mas posso desgraçadamente citar-vos outro filho, que procedeu d'uma
    maneira tão indigna com seu velho pae doente e aleijado, que este teve
    de pedir que o levassem para o hospital da misericordia. O filho ingrato
    recebeu com alegria o desejo do infeliz velho, que n'essa mesma tarde
    foi conduzido ao hospital. Como este estabelecimento de caridade fosse
    muito pobre, decidiu-se o velho a mandar pedir a seu filho, como ultima
    esmola, um par de lençoes, para cobrir a palha que lhe servia de leito.
    O mau filho escolheu os lençoes mais usados, e disse ao seu pequeno, de
    dez annos d'edade, que os fosse levar _a esse velho rabujento_. Mas
    notou que a creança ao partir tinha escondido um dos lençoes a um canto,
    atraz da porta.

    Quando voltou perguntou-lhe o pae, porque fizera aquillo.

    «Foi, respondeu a creança desabridamente, para me servir mais tarde
    d'este lençol, quando pela minha vez te mandar tambem para o hospital.

    *O fato novo do sultão*

    Era uma vez um sultão, que dispendia em vestuario todo o seu rendimento.

    Quando passara revista ao exercito, quando ia aos passeios ou ao
    theatro, não tinha outro fim senão mostrar os seus fatos novos. Mudava
    de traje a todos os instantes, e como se diz d'um rei: Está no conselho;
    dizia-se d'elle: Está-se a vestir. A capital do seu reino era uma cidade
    muito alegre, graças á quantidade d'estrangeiros que por ali passavam;
    mas chegaram lá um dia dois larapios, que, dando-se por tecelões,
    disseram que sabiam fabricar o estofo mais rico que havia no mundo. Não
    só eram extraordinariamente bellos os desenhos e as cores, mas além
    d'isso os vestuarios feitos com esse estofo, possuiam uma qualidade
    maravilhosa: tornavam-se invisiveis para os idiotas e para todos
    aquelles que não exercessem bem o seu emprego.

    –São vestuarios impagaveis, disse comsigo o sultão; graças a elles,
    saberei distinguir os intelligentes dos tolos, e reconhecer a capacidade
    dos ministros. Preciso d'esse estofo!»

    E mandou em seguida adiantar aos dois charlatães uma quantia avultada,
    para que podessem começar os trabalhos immediatamente.

    Os homens levantaram com effeito dois teares, e fingiram que
    trabalhavam, apesar de não haver absolutamente nada nas lançadeiras.
    Requisitavam seda e oiro fino a todo o instante; mas guardavam tudo isso
    muito bem guardado, trabalhando até á meia noite com os teares vasios.

    –«Preciso saber se a obra vae adiantada».

    Mas tremia de medo ao lembrar-se que o estofo não podia ser visto pelos
    idiotas. E, apesar de ter confiança na sua intelligencia, achou prudente
    em todo o caso mandar alguem adiante.

    Todos os habitantes da cidade, conheciam a propriedade maravilhosa do
    estofo, e ardiam em desejos de verificar se seria exacto.

    –Vou mandar aos tecelões o meu velho ministro, pensou o sultão; tem um
    grande talento, e por isso ninguem póde melhor do que elle avaliar o
    estofo.

    O honrado ministro entrou na sala em que os dois impostores trabalhavam
    com os teares vasios.

    –Meu Deus! disse elle comsigo arregalando os olhos, não vejo
    absolutamente nada!» Mas no entanto calou-se. Os dois tecelões
    convidaram-n'o a aproximar-se, pedindo-lhe a sua opinião sobre os
    desenhos e as côres. Mostraram-lhe tudo, e o velho ministro olhava,
    olhava, mas não via nada, pela rasão simplicissima de nada lá existir.

    –Meu Deus! pensou elle, serei realmente estupido? É necessario que
    ninguém o saiba!… Ora esta! pois serei tolo realmente! Mas lá
    confessar que não vejo nada, isso é que eu não confesso.»

    –«Então que lhe parece?» perguntou um dos tecelões:

    –«Encantador, admiravel! respondeu o ministro, pondo os oculos. Este
    desenho… estas cores… magnifico!… Direi ao sultão que fiquei
    completamente satisfeito.»

    –«Muito agradecido, muito agradecido», disseram os tecelões; e
    mostraram-lhe cores e desenhos imaginarios, fazendo-lhe d'elles uma
    descripção minuciosa. O ministro ouviu attentamente, para ir depois
    repetir tudo ao sultão.

    Os impostores requisitavam cada vez mais seda, mais prata e mais oiro;
    precisavam-se quantidades enormes para este tecido. Mettiam tudo no
    bolso, é claro; o tear continuava vasio, e apesar d'isso trabalhavam
    sempre.

    Passado algum tempo, mandou o sultão um novo funccionario, homem
    honrado, a examinar o estofo, e ver quando estaria prompto. Aconteceu a
    este enviado o que tinha acontecido ao ministro: olhava, olhava e não
    via nada.

    –Não acha um tecido admiravel?» perguntaram os tratantes, mostrando o
    magnifico desenho e as bellas cores, que tinham apenas o inconveniente
    de não existir.

    –Mas que diabo! eu não sou tolo! dizia o homem comsigo. Pois não serei
    eu capaz de desempenhar o meu lugar? É exquisito! mas deixal-o, não o
    deixo eu.»

    Em seguida elogiou o estofo, significando-lhes toda a sua admiração pelo
    desenho e o bem combinado das cores.

    –É d'uma magnificencia incomparavel, disse elle ao sultão. E toda a
    cidade começou a fallar d'esse tecido extraordinario.

    Emfim o proprio sultão quiz vel-o emquanto estava no tear. Com um grande
    acompanhamento de pessoas distinctas, entre as quaes se contavam os dois
    honrados funccionarios, dirigiu-se para as officinas, em que os dois
    velhacos teciam continuamente, mas sem fios de seda, nem d'oiro, nem de
    especie alguma.

    –Não acha magnifico? disseram os dois honrados funccionarios. O desenho
    e as cores são dignos de vossa alteza.»

    E apontaram para o tear vasio, como se as outras pessoas que ali estavam
    podessem ver alguma cousa.

    –Que é isto! disse comsigo mesmo o sultão, não vejo nada! É horrível!
    serei eu tolo, incapaz de governar os meus, estados? Que desgraça que me
    acontece!» Depois de repente exclamou: «É magnifico! Testemunho-vos a
    minha satisfação.»

    E meneou a cabeça com um ar satisfeito, e olhou para o tear, sem se
    atrever a declarar a verdade. Todas as pessoas de seu sequito olharam do
    mesmo modo, uns atraz dos outros, mas sem ver cousa alguma, e no entanto
    repetiam como o sultão: «É magnifico!» Até lhe aconselharam a que se
    apresentasse com o fato novo no dia da grande procissão. «É magnifico! é
    encantador! é admirável!» exclamavam todas as bocas, e a satisfação era
    geral.

    Os dois impostores foram condecorados e receberam o titulo de fidalgos
    tecelões.

    Na vespera do dia da procissão passaram a noite em claro, trabalhando à
    luz de dezeseis velas. Finalmente fingiram tirar o estofo do tear,
    cortaram-o com umas grandes tesouras, coseram-o com uma agulha sem fio,
    e declararam, depois d'isto, que estava o vestuario concluido.

    O sultão com os seus ajudantes de campo foi examinal-o, e os impostores
    levantando um braço, como para sustentar alguma cousa, disseram:

    «Eis as calças, eis a casaca, eis o manto. Leve como uma teia d'aranha;
    ó a principal virtude d'este tecido.»

    –Decerto, respondiam os ajudantes de campo, sem ver coisa alguma.

    –Se vossa alteza se dignasse despir-se, disseram os larapios,
    provar-lhe-iamos o fato deante do espelho.»

    O sultão despiu-se, e os tratantes fingiram apresentar-lhe as calças,
    depois a casaca, depois o manto. O sultão tudo era voltar-se defronte do
    espelho.

    –Como lhe fica bem! que talhe elegante! exclamaram todos os cortezãos.
    Que desenho! que cores! que vestuário incomparavel!»

    Nisto entrou o grão-mestre de ceremonias.

    –Está á porta o docel sobre que vossa alteza deve assistir á procissão,
    disse elle.»

    –Bom! estou prompto, respondeu o sultão. Parece-me que não vou mal.»

    E voltou-se ainda uma vez deante do espelho, para ver bem o effeito do
    seu esplendor. Os camaristas que deviam levar a cauda do manto, não
    querendo confessar que não viam absolutamente nada, fingiam arregaçal-a.

    E, emquanto o sultão caminhava altivo sob um docel deslumbrante, toda a
    gente na rua e ás janellas exclamava: «Que vestuario magnifico! Que
    cauda tão graciosa! Que talhe elegante!» Ninguem queria dar a perceber,
    que não via nada, porque isso equivalia a confessar que se era tolo.
    Nunca os fatos do sultão tinham sido tão admirados.

    –Mas parece que vae em cuecas», observou um pequerrucho, ao collo do
    pae.

    –É a voz da innocencia, disse o pae.

    –Ha ali uma creança que diz que o sultão vae em cuecas.

    «Vae em cuecas! vae em cuecas!» exclamou o povo finalmente.

    O sultão ficou muito afflicto porque lhe pareceu que realmente era
    verdade. Entretanto tomou a energica resolução de ir até ao fim, e os
    camaristas submissos continuaram a levar com respeito a cauda
    imaginaria.

    *Boa sentença*

    Um homem rico, mas avarento, tinha perdido dentro d'um alforge uma
    quantia em oiro bastante avultada. Annunciou que daria cem mil réis
    d'alviçaras a quem lh'a trouxesse. Apresentou-se-lhe em casa um honrado
    camponez levando o alforge. O nosso homem contou o dinheiro, e disse:

    –Deviam ser oitocentos mil réis, que foi a quantia que eu perdi; no
    alforge encontro apenas setecentos; vejo, meu amigo, que recebeste
    adiantados os cem mil réis d'alviçaras: estamos pagos por conseguinte.»

    O bom camponez, que nem por sombras tocara no dinheiro, não podia nem
    devia contentar-se com semelhantes agradecimentos. Foram ter com o juiz,
    que, vendo a má fé do avarento, deu a seguinte sentença:

    –Um de vós perdeu oitocentos mil réis; o outro encontrou um alforge
    apenas com setecentos: Resulta d'ahi claramente que o dinheiro que o
    ultimo encontrou não póde ser o mesmo a que o primeiro se julga com
    direito. Por consequencia tu, meu bom homem, leva o dinheiro que
    encontraste, e guarda-o até que appareça o individuo que perdeu sómente
    setecentos mil réis. E tu, o unico conselho que passo a dar-te, é que
    tenhas paciencia até que appareça alguem que tenha achado os teus
    oitocentos mil réis.

    *Os animaes agradecidos*

    Um rei, que viajava nos seus estados, encontrou uma vez um homem a quem
    perguntou como se chamava, de d'onde era, e que officio tinha. Este
    respondeu:

    –«Senhor: eu sou um desgraçado, um miseravel; nasci no vosso reino, e
    chamo-me _Ingratidão_.»

    –«Se podesse contar com a tua fidelidade, disse o rei, tomava-te ao meu
    serviço.»

    O nosso homem prometteu ser fiel, e o rei ordenou-lhe que o seguisse.
    Desde que chegaram a palacio, deu taes provas de habilidade, mostrou-se
    tão esperto e tão solicito, que o rei affeiçoou-se-lhe de tal modo, que
    o nomeou seu intendente, confiando-lhe a administração da sua casa.
    Deslumbrado por uma fortuna tão rapida, o seu orgulho desde então não
    conheceu limites; maltratava os inferiores, e não tinha compaixão dos
    desventurados.

    Ora, na visinhança do palacio havia uma floresta cheia d'animaes
    selvagens e perigosissimos. O intendente mandou ahi fazer por toda a
    parte covas profundas, cobertas com folhas, de modo que as feras, caindo
    dentro, podessem ser agarradas. Um dia que o intendente atravessava a
    floresta, ia tão absorvido pelos seus pensamentos orgulhosos, que se
    precipitou elle mesmo dentro d'uma das covas.

    Passado um instante, caiu um leão dentro do mesmo poço; caiu depois um
    lobo e em seguida uma enorme serpente, de aspecto horroroso. O
    governador, ao ver-se em tão extraordinaria companhia, ficou tão
    horrorisado, que lhe embranqueceram os cabellos; e toda a esperança de
    salvação lhe parecia inteiramente perdida, porque por mais que gritasse,
    ninguem o vinha soccorrer.

    Esqueceu-nos dizer que havia na cidade um homem extremamente pobre,
    chamado Antonio, que todos os dias ia rachar lenha à floresta, para
    ganhar o pão necessario á sua mulher e aos seus filhos. Antonio tambem
    lá foi n'esse dia, como de costume, e poz-se a trabalhar não longe da
    cova em que caíra o intendente, cujos gritos d'afflicção não tardou a
    ouvir. O pobre rachador aproximou-se e perguntou, quem era que estava
    ali.

    –«Sou o governador do palacio do rei, e, se me tirares d'aqui, prometto
    encher-te de riquezas; estou em companhia d'um leão, d'um lobo e d'uma
    enorme serpente.»

    –«Eu, respondeu o lenhador, sou um miseravel jornaleiro, não tendo para
    sustentar a minha familia, mais que o producto do meu trabalho; bastava
    um dia perdido para me causar um grande desarranjo; vê lá pois, se
    cumpres a tua promessa?

    O intendente continuou:

    –«Pela fé que devo a Deus e a el-rei nosso senhor, juro-te que
    cumprirei a minha palavra.»

    Confiado n'isto o rachador de lenha foi à cidade, e voltou com uma corda
    muito comprida, que deixou correr dentro do abysmo. O leão atirou-se a
    ella, e suspendeu-se com uma tal energia que o lenheiro julgava que era
    o intendente.

    Quando chegou acima, o leão agradeceu ao seu salvador com a maior
    amabilidade, e foi-se embora à procura de jantar, porque tinha fome.

    Antonio deitou outra vez a corda ao fundo do poço, e, julgando tirar o
    governador, enganou-se, porque era o lobo; á terceira vez subiu a
    serpente; foi necessário fazer uma quarta tentativa, para sair o
    governador. Este não perdeu tempo em agradecimentos, e partiu a correr
    para o palacio. O jornaleiro voltou para casa, e contou à mulher tudo o
    que se tinha passado, não lhe esquecendo, é claro, as brilhantes
    promessas do intendente. No dia seguinte logo pela manhã, foi o pobre
    homem bater à porta do palacio. O porteiro perguntou-lhe o que queria.

    –«Faça-me o favor, respondeu o rachador de dizer a s.ex.ª o intendente
    que o homem com quem elle esteve hontem na floresta lhe deseja fallar.»

    O porteiro foi levar o recado, mas o intendente zangou-se, e exclamou:

    –«Vae dizer a esse homem, que eu não vi ninguem na floresta; que se
    ponha a andar, porque o não conheço.»

    O porteiro voltou, e repetiu o que o governador lhe tinha dito.

    O pobre homem tornou para casa mui descorçoado, e contou á mulher a
    odiosa perfidia de que tinha sido victima.

    A mulher disse-lhe:

    –«Tem paciencia; o sr. intendente estava hoje decerto muito occupado, e
    foi talvez por isso que te não pôde receber.»

    Estas palavras socegaram o rachador que outra vez nutriu esperanças.

    Na manhã seguinte, ainda muito cedo, bateu de novo á porta do palacio.
    Mas o intendente mandou-lhe dizer em termos asperos, que não tornasse
    ali a apparecer, quando não ver-se-hia obrigado a empregar meios
    violentos. A mulher ainda d'esta vez procurou consolal-o:

    –«Experimenta terceira e ultima vez, disse-lhe ella, talvez Deus o
    inspire melhor. E se assim não for, ainda que te custe, não penses mais
    n'isso.»

    No dia seguinte o bom do homem voltou á carga; e tendo o porteiro
    consentido á força de supplicas em annuncial-o ainda ao governador, este
    encolerisado atirou-se praguejando fóra do quarto, e crivou o pobre
    homem d'uma tal chuva de bengaladas, que o deixou quasi morto no meio do
    chão. A mulher d'elle, sabendo d'isto, correu immediatamente com um
    burro, poz-lhe em cima o marido, e levou-o para casa: As feridas
    levaram-lhe seis mezes a curar, estando sempre de cama, vendo-se
    obrigado a contrair dividas para pagar ao medico. Quando finalmente
    tinha recobrado algumas forças, voltou ao bosque segundo o costume para
    fazer alguma lenha. Apenas lá chegou, appareceu-lhe o leão, que elle
    tinha ajudado a sair do poço. O leão conduzia um burro diante de si, e
    este burro estava carregado de saccos cheios de preciosidades. O leão,
    vendo Antonio, parou e inclinou-se diante d'elle com um ar de respeitoso
    agradecimento. Depois d'isto continuou o seu caminho, fazendo-lhe signal
    de que ficasse com o jumento. Antonio doido d'alegria levou o animal
    para casa, abriu os saccos, e viu que estava rico.

    No dia seguinte, voltando de novo á floresta, appareceu-lhe o lobo, que
    o ajudou no seu trabalho, querendo provar-lhe d'esta maneira o quanto
    lhe era agradecido. Quando a tarefa estava concluida, e tinha carregado
    o burro com a lenha, viu vir ao seu encontro a serpente, que elle tinha
    tirado do fôjo, e que trazia na ponta da lingua uma pedra preciosa, em
    que brilhavam três côres,–o branco, o preto e o vermelho. Quando a
    serpente chegou ao pé do rachador de lenha, deixou cair a pedra junto
    d'elle, e depois dando um salto desappareceu no mattagal. Antonio
    levantou a pedra, examinou-a por todos os lados, para ver que
    propriedade ou virtude ella teria. Para isto foi ter com um velho,
    afamado pela sua habilidade em decifrar o que diziam os astros. Este,
    assim que viu a pedra, offereceu-lhe por ella uma grande quantia.
    Antonio respondeu-lhe que a não queria vender, mas simplesmente saber se
    seria boa.

    O velho respondeu:

    –«São três as virtudes d'esta pedra: abundancia continua, alegria
    imperturbavel e luz sem trevas. Se alguém t'a comprar por menos dinheiro
    do que vale, tornará immediatamente para a tua mão.»

    Antonio ficou muito contente com esta resposta, agradeceu ao velho da
    sciencia maravilhosa, e correu a contar á mulher a sua felicidade. Como
    se imagina, graças á virtude da famosa pedra, não lhe faltaram d'ahi em
    diante, nem honras nem riquezas.

    Tendo chegado aos ouvidos do rei a noticia d'estas prosperidades, mandou
    chamar Antonio, e mostrou-lhe desejos de adquirir o precioso talisman.

    Antonio, vendo que semelhante desejo era uma ordem, respondeu:

    –«Devo prevenir a vossa magestade de que, se esta pedra me não for paga
    pelo que vale, tornará ella mesma para o meu poder.»

    –«Hei de pagar-t'a bem, disse o rei.»

    E mandou-lhe dar trinta mil libras em oiro. No dia seguinte de manhã,
    Antonio achou outra vez a pedra em cima da mesa; e a mulher sabendo isto
    disse-lhe:

    –«Torna a leval-a ao rei immediatamente; não vá elle persuadir-se que
    lh'a furtaste.»

    O nosso homem seguiu este conselho, e, quando chegou á presença de sua
    magestade, pediu-lhe que lhe dissesse aonde tinha guardado a pedra
    preciosa.

    –«Mandei-a metter com todo o cuidado dentro d'um cofre de ferro,
    fechado com sete chaves, disse o rei.»

    Antonio mostrou-lhe então a joia preciosa, e o rei ficou
    extraordinariamente espantado, e quiz saber como elle tinha adquirido
    semelhante thesouro.

    Antonio contou-lhe tudo que tinha havido, a ingratidão do governador e o
    reconhecimento dos animaes ferozes. O rei indignado, mandou chamar o seu
    intendente, e disse-lhe:

    –«Homem preverso, com justo motivo te puzeram o nome de _Ingratidão_,
    porque és mais falso e mais perfido que os animaes ferozes, e pagaste
    com o mal o bem que te fizeram. Mas justiça será feita. Dou a Antonio as
    tuas honras e os teus bens, e a ti, hoje mesmo, o castigo de seres
    enforcado.»

    Admiraram todos a sentença do rei, e Antonio desempenhou as suas altas
    funcções com tanta sabedoria e bondade, que depois da morte do rei foi
    escolhido para o substituir, e reinou pacificamente durante longos annos
    gloriosos.

    *O ermitão*

    Um homem, animado pela mais ardente crença religiosa, deliberou
    retirar-se a uma gruta solitaria para se consagrar inteiramente ao
    trabalho da sua salvação. Jejuando sempre, orando, ciliciando-se, os
    seus pensamentos não se desviavam nunca da idéa de Deus. Depois de ter
    assim vivido durante muitos annos, uma noite lembrou-se de que já tinha
    merecido um logar glorioso no paraiso, e podia ser contado entre os
    santos mais notaveis.

    Na noite seguinte o anjo Gabriel appareceu-lhe, e disse-lhe:

    –Ha no mundo um pobre musico, que anda de porta em porta, tocando viola
    e cantando, e que mereceu mais do que tu as recompensas eternas.

    O ermitão, attonito, ao ouvir estas palavras, levantou-se, agarrou no
    seu bordão, foi em busca do musico e mal o encontrou disse-lhe:

    –Irmão, dize-me que boas obras fizeste, e por meio de que orações e
    penitencias te tornaste agradavel a Deus.

    –Ora, respondeu-lhe o musico, abaixando a cabeça, santo padre, não
    zombes de mim. Nunca fiz boas obras, e quanto a orações não as sei,
    pobre de mim, que sou um peccador. O que faço é andar de casa em casa a
    divertir os outros.»

    O austero ermitão continuou a insistir:

    –Estou certo que, no meio da tua existencia vagabunda, praticaste algum
    acto de virtude.»

    –Em verdade não poderia citar nem um só.»

    –Mas então como chegaste a este estado de pobreza? Tens vivido
    loucamente como os que exercem a tua profissão? Dissipaste frivolamente
    o teu patrimonio e o producto do teu officio?»

    –Não; mas um dia encontrei uma pobre mulher abandonada, cujo marido e
    filhos tinham sido condemnados á escravidão para pagar uma divida. Essa
    mulher era nova e bella, e queriam seduzil-a. Recolhi-a em minha casa,
    protegia-a em todos os perigos, dei-lhe tudo que possuia para resgatar a
    sua familia, e levei-a á cidade, onde ella devia encontrar-se com seu
    marido e com seus filhos. Mas quem não teria feito outro tanto?»

    A estas palavras o ermitão poz-se a chorar, e exclamou:

    –Nos meus setenta annos de solidão nunca pratiquei uma obra tão
    meritoria, e apezar disso chamo-me o homem de Deus, emquanto que tu não
    passas d'um pobre musico.»

    *Carlos Magno e o abade de S. Gall*

    Carlos Magno n'uma das suas frequentes viagens viu o abade de S. Gall,
    preguiçosamente reclinado sobre almofadas á porta da abadia, fresco,
    rosado, bem disposto. Carlos Magno adorava os homens energicos e
    activos, e o abade era indolente. Além d'isso o imperador tinha mais
    d'um motivo de queixa contra elle.

    –Bons dias, senhor abade. Ainda bem que o encontro. Tenho a submetter á
    sua esclarecida rasão tres perguntas, ás quaes terá a bondade de me
    responder d'aqui a tres mezes, contados dia a dia, em sessão solemne do
    nosso conselho imperial. Primeiro que tudo, desejo saber o meu valor em
    dinheiro; em segundo lugar, quanto tempo levaria a dar a volta ao mundo;
    em terceiro lugar, que estarei eu pensando no momento em que v.
    rev.^{ma} vier á minha presença, pensamento que deve ser um erro. Trate
    d'arranjar resposta satisfatoria a tudo, aliás deixa de ser abade de S.
    Gall, e tem de abandonar a abadia, montado n'um burro com a cara voltada
    para o rabo.»

    O abade não sabia a que santo se apegar. Mandou a todas as escolas, mas
    os doutores mais famosos pela sua sciencia, não lhe souberam dar
    resposta. No entanto os dias iam correndo, e a época fatal
    aproximava-se; já não faltava senão um mez, já não faltavam senão
    semanas, e afinal só dias. O abade, que n'outro tempo era gordo e
    anafado, estava magro como um esqueleto. Perdèra o somno e o appetite.
    Andava errante nos bosques lamentando a sua desgraça, quando se
    encontrou com o seu pastor.

    –Bons dias senhor abade. Parece que está mais magro! Está doente?»

    –Estou, meu caro Felix, estou muito doente.»

    –Oh! meu rico amigo, eu lhe darei alguma erva que o possa curar.»

    –Infelizmente não são ervas que eu preciso, mas resposta ás minhas tres
    perguntas.»

    –É então latim?»

    –Não, não é latim, senão os doutores tinham-me arranjado tudo.»

    –Visto que não é latim, queira v. rev.^{ma} dizer-me o que é: minha mãe
    era uma pobre de Christo, mas tinha resposta para tudo.»

    Quando o abade lhe formulou as tres perguntas, o pastor atirou com o
    barrete ao ar, e disse-lhe:

    –Se é apenas isso, eu me encarrego de responder por si, e v. rev.^{ma}
    póde continuar a engordar; mas para isso é necessario que eu vista o seu
    habito.»

    Quando chegou o dia, o pastor disfarçado com o habito do abade de S.
    Gall, foi introduzido na sala onde o imperador presidia o conselho
    imperial.

    –Então, senhor abade, parece que está mais magro, deu-lhe muito que
    pensar a chave do enigma? Vamos lá a ver a primeira pergunta: Quanto
    valho eu em dinheiro?»

    –Senhor, o filho de Deus Nosso Senhor Jesus Christo foi vendido por
    trinta dinheiros, sua magestade vale á justa vinte e nove, só um
    dinheiro menos.»

    –Bravo, senhor abade, a resposta é habil, e na realidade não posso
    deixar de me mostrar satisfeito. Mas vamos á segunda pergunta, não ha de
    ser tão facil dar a resposta. Vamos lá a ver: quanto tempo levaria eu a
    dar a volta ao mundo?»

    –Senhor, se vossa magestade se levantar ao romper do dia e poder seguir
    constantemente passo a passo o sol no seu giro, bastam-lhe vinte e
    quatro horas.»

    –Decididamente, v. rev.^{ma} é um grande finorio, e d'esta vez,
    confesso-me vencido; mas a terceira, não d'essas á que se responde com
    supposições. Quem lhe ha de dizer o que eu estou pensando, e como me ha
    de provar que este pensamento é um erro? Tem a palavra senhor abade.»

    –Senhor: Vossa magestade imagina que eu sou o abade de S. Gall; está
    enganado, porque eu sou o seu pastor.»

    –Mas então tu é que deves ser o abade de S. Gall, e desde já o ficas
    sendo.»

    –Não sei latim, mas, se vossa magestade quer fazer-me um favor,
    peco-lhe outra cousa.»

    –Não tens mais que fallar.»

    –Peço a vossa magestade que perdoe ao meu amigo.»

    Carlos Magno não era homem que faltasse á sua palavra.

    *A boneca*

    Deixe-me agora, leitor, contar-lhe uma historia–a historia d'uma
    boneca!

    Não ha muitos annos, mas ainda não era a cordoaria do Porto o ameno
    jardim, onde a infancia folga por entre macissos de flores e sob o
    sorriso do sol, sem que lhe ennegreça o espirito a vista dos dois
    monumentos, que a meu ver symbolisam as duas mais horriveis calamidades,
    que podem aniquillar um homem–o hospital e a cadeia!–ainda não ha
    muitos annos, repito, estava eu, uma noite, encostado a uma barraca da
    feira, divertindo-me a meu modo.

    Cançado das innumeras figuras, que tinha visto passar por aquella
    especie de lanterna magica, dispunha-me a dar por findo o espectaculo,
    quando novos personagens me chamaram a attenção.

    Eram os meus visinhos _ricos_.

    Aqui é preciso uma rapida explicação.

    Das famílias da minha visinhança, só conheço tres.

    Qual d'estas tres familias será mais feliz?…

    Pelo que tenho notado, não tem que invejar umas ás outras.

    São todas felizes; cada qual a seu modo.

    Vi, pois, chegar os meus visinhos _ricos_.

    Parou o carro, o creado saltou da almofada e veio, de chapéu na mão e
    dorso ligeiramente curvado, abrir a portinhola; o meu visinho saltou,
    tomou nos braços a filhinha e depol-a no chão, e offerecendo, em
    seguida, a mão á esposa, para a ajudar a apeiar, dirigiu-se com ella e
    com a menina para a barraca onde eu estava.

    Não havia ali segredo a surprehender.

    Havia um homem, exemplar como marido, rico, doido pela filha, e que
    parecia agradecer áquella formosa criança a manifestação de qualquer
    desejo.

    No fim de meia hora possuia a minha pequena, visinha com que fazer a
    felicidade de dez crianças menos abastadas.

    Tinha o necessario para montar completamente a casa d'uma boneca…
    _rica_.

    Faltava apenas a dona da casa–a boneca.

    Todo risos e attenções, o logista apresentou o que tinha de melhor.

    Depois de muita hesitação e de, já com os olhos, já com a voz, consultar
    a mamã, a gentil creança acabou por escolher uma magnifica boneca de
    dois palmos d'altura, com cabello em _bandeaux_ e olhos azues.

    Uma boneca como as outras: cabeça e collo de massa, corpo de pellica
    recheada, braços e pernas de páu.

    Uma vive na loja da casa, que habito. É uma tribu de crianças, que fazem
    o martyrio e a alegria da pobre mãe, e tem por chefe um honrado
    sapateiro.

    Alguns d'elles, se andassem limpos, seriam encantadores; assim, parecem
    anjos, caidos do céo sobre um monte de lama.

    São os meus visinhos _pobres_.

    A segunda compõe-se de marido, mulher e filha, e occupa a casa
    immediata.

    É como se costuma dizer, gente _que vae muito bem com a sua vida_.

    A filha que terá dez annos, tem d'estas faces rosadas, rijas e carnudas,
    cuja solidez a gente gosta de experimentar com o dedo, e que resistem à
    pressão.

    São os meus visinhos _remediados_.

    A terceira é a dos meus visinhos _ricos_.

    Casa nobre, jardim espaçoso, cavallos, creados, nome inscripto nas
    listas dos accionistas de todos os bancos e no rol dos credores do
    estado–nada falta áquella ditosa gente!

    Compõe-se egualmente de marido, mulher e filha.

    Que formosa criança!… Terá oito annos.

    Franzina e pallida, com os cabellos negros, os olhos grandes e
    scismadores, nunca lhe contemplo as pequeninas mãos de dedos compridos e
    esguios, terminados por unhas d'uma côr de rosa transparente, que não
    sinta antecipada inveja do feliz namorado–provavelmente ainda a
    crescer–que hade um dia ter o direito de lh'as cobrir de beijos.

    Feita a compra, o pai pagou, chamou o creado, e este mudou todas
    aquellas preciosidades de sobre o balcão da barraca para dentro do
    carro.

    A boneca teve a honra de ser transportada pela aristocratica criança.

    Saí d'ali, logo que o trem rodou, e fui fazendo até casa variadissimas
    considerações, suggeridas pela quasi indiferença, com que aquella menina
    recebèra brinquedos, que representavam um par de moedas.

    Que contraste com os olhares de cubiça, com que outras raparigas da
    mesma idade namoravam uma d'estas bonecas de cabeça de panno, horrivel
    artefacto portuguez, em que os olhos são representados por dois pontos
    de linha azul, o nariz por um alinhavo de retroz cor de rosa, a boca por
    outro de fio vermelho, e os cabellos por flocos de lã preta!

    Quando cheguei a casa, já na dos meus visinhos remediados não havia luz.

    Na dos meus visinhos _pobres_, o pai batia a sola, cantando ao som de
    tres assobios e duas campainhas de barro, com que os anjos, por lavar,
    provocavam os ralhos da mãe.

    Quando, no dia seguinte, cheguei á janella, seriam onze horas da manhã.

    Na rua agenciavam nova camada de immundicie os filhos do sapateiro; na
    casa immediata não se via ninguem–estava a pequena na mestra; no
    palacio, sentada n'um tapete estendido sobre a ampla pedra da varanda,
    divertia-se a minha pequena milionaria fazendo rodar, com auxilio d'uma
    linha, uma magnifica _caleche_ descoberta, puxada por cavallos brancos.

    Dentro da _caleche_ pavoneava-se a boneca opulentamente vestida.

    –«Ahi está a tua caricatura, minha feiticeira!…»–disse eu de mim
    para mim. «Ensaias nas bonecas o que vês no mundo a que pertences!…
    Estás a aprender a copiar… Sempre este mundo!…»

    Retirei-me da janella.

    Durante uma semana vi muitas vezes repetida a mesma scena.

    A boneca ostentava todos os dias novas galas, e havia dia em que se
    vestia tres e quatro vezes!

    Ao que eu, porém, achava mais graça, era ao respeito com que a dona a
    tratava!

    Chamava-lhe sr.ª D. Luiza; dava-lhe excellencia; sustentava finalmente
    com a boneca um d'estes dialogos de senhoras da alta sociedade, em que
    se falla de tudo, sem se dizer coisa alguma.

    Um dia,–estava eu de costas voltadas para a janella dos meus visinhos
    _ricos_–ouvi um grito de susto.

    Era devido a um accidente, a que está sujeito quem anda de carro.

    Voltára-se este, e a boneca caíra, ferindo a fronte na pedra da janella.

    O primeiro movimento da pequena foi beijar e prantear a victima; vendo,
    porém, que a ferida havia forçosamente de deixar cicatriz, e
    lembrando-se de que só lhe bastava querer, para que lhe dessem outra
    nova, agarrou-a pelos pés e ia atiral-a com despeito á rua, quando mais
    perto de mim bradou voz timida e suplicante:

    «Não atire!… Dê-m'a.»

    Era a minha pequena visinha da casa pegada, de quem eu não déra fé até
    então.

    Assim invocada, a menina _rica_ franziu levemente as sobrancelhas e
    lançou um olhar de rainha para o sitio d'onde vinha a supplica.

    Vendo uma criança, pouco mais ou menos da sua idade, serenou e,
    encolhendo os hombros, respondeu:

    –«Já não presta!… Está esmurrada!…»

    –É o mesmo!… Dá-m'a?…–bradou a outra, cujos olhos brilhavam de
    cubiça.

    –«Dou…»–volveu a rica, encolhendo novamente os hombros.

    E, caminhando para o canto da varanda, deixou cair a boneca nas mãos da
    visinha, que tremia, receiosa de que aquelle thesouro fosse
    despedaçar-se nas lages da rua.

    Fugiram ambas as pequenas a um tempo: a rica para exigir nova boneca; a
    outra, para mostrar á mãe a que ella ainda não podia acreditar, que
    fosse sua!

    Por espaço de mezes foi a boneca a principal occupação da nova dona.

    A pobre perdêra na troca. Ia longe o tempo em ella se vestia quatro
    vezes em quatro horas!… Já lhe não davam excellencia! Chamavam-lhe
    sr.ª D. Anna; fallavam-lhe de arranjos domesticos, do desmazello da
    creada, da missa das almas, de coisas finalmente, completamente
    estranhas para ella!

    E a desgraçada perdia as côres; os olhos tornavam-se-lhe cada vez menos
    azues; mas o que mais a desfigurava era a cicatriz, que de dia para dia
    se tornava mais escura: parecia uma nodoa, um estygma!

    Nos primeiros tempos, emquanto durou o vestido, que trouxera no corpo,
    ainda não poderia enganar olhos pouco conhecedores.

    Não tardou, porém, que arrebiques de máo gosto, fitas velhas, rendas
    amarelladas, chapéos impossiveis, viessem contrastar com a elegancia do
    vestido. Dava ares de se ter equipado ao acaso, na loja d'uma adeleira.

    Mas o vestido foi-se tornando velho; desappareceu o brilho, e com elle
    as ondulações do _moiré_, até que, um bello dia, vi a boneca vestida de
    cassa—no inverno!–chaile e manta na cabeça.

    Muito mal lhe ficava aquillo!… Áquella boneca custava-lhe de certo o
    vêr-se tão mal arranjada.

    Eu retirei-me da janella soltando um suspiro, e balbuciei:

    –É justo!… Cada qual segundo as suas posses.»

    Por esse tempo, entrei em relações com o meu visinho sapateiro.

    O honrado homem soubera, que eu me queixara da bulha, que os filhos
    faziam logo ao amanhecer, e aproveitàra a primeira occasião, para me
    pedir desculpa.

    Vendo-me conversar com o honrado pai, tinham-se os filhos animado a
    aproximar-se de nós e, desde então, nunca saio de casa nem entro, sem
    grave risco de soffrer as consequencias da sua travessa familiaridade.

    Entre os filhos do sapateiro, porém, ha uma pequenita d'onze annos, com
    quem sympathisei logo á primeira vista.

    Chama-se Maria.

    Por um d'estes acasos da Providencia, que parece ás vezes comprazer-se
    em crear contrastes, Maria destaca no meio de todos os irmãos.

    Acostumado ás travessuras e desalinho dos outros filhos do sapateiro,
    fiquei devéras pasmado quando o pai m'a apresentou.

    E bem verdade que elle conhecia o valor d'aquella criança, porque havia
    verdadeiro orgulho no olhar do pobre homem quando me disse: «Esta é a
    minha Maria!»

    E tinha razão!

    Não podia ser mais discreta do que já n'esse tempo era.

    –É quem vale á mãe!…–accrescentou o velho.»–Ali, onde a vê, faz o
    serviço d'uma mulher!… Ha seis mezes, quando a minha santa esteve
    doente–bem pensei que não arribasse!–a pequena era quem cosinhava e
    olhava pelos irmãos!… E caridade como ella tem!?… Olhe que aquella
    pequena esteve tres dias sem se deitar… ali… ao pé da mãe! Foi
    preciso eu obrigal-a, que ella não a queria deixar!…»

    E o desvanecido pai enxugou, com a manga da camisa, uma lagrima, que,
    havia muito, hesitava sobre se sim ou não se devia despenhar.

    Fazia gosto ver aquella pequena com o seu vestidinho de chita escura e a
    cabeça coberta por um lenço branco.

    Desde que o pai me deu tão boas informações da rapariga, nunca mais
    passei por defronte da porta da loja, sem dar pelo menos os bons dias á
    pequena.

    Uma vez recolhia eu para jantar, quando vi a Mariquitas, com uma boneca
    deitada nos joelhos.

    –Eu conheço aquella boneca!…–disse eu de mim para mim.

    E, não podendo resistir á curiosidade, bradei:

    –Ó Maricas!… Quem te deu a boneca?…

    Foi ali a menina da visinha!–respondeu a pequenita, córando de prazer.

    Era escusado dizer-m'o.

    Maria pegara na boneca e voltára-a de face para mim. Não podia
    duvidar… Era ella; lá estava a mancha, o estygma cada vez mais visivel
    na fronte.

    De tempos a tempos, nas raras horas de descanço, Maria entretinha-se com
    ella.

    –Quem te viu e quem te vê!…–pensava eu.

    Ás vezes, se Maria se descuidava e os irmãos lh'a podiam apanhar, que
    tratos que sofria a desgraçada!

    Roçada por aquellas mãos, de que um carvoeiro se envergonharia,
    empregada como pella, submettida a torturas, era, ainda assim,
    singularissimo o aspecto da triste!

    Dava ares d'uma duqueza que, por necessidade, houve sido levada a
    fraternisar com o povo.

    A misera mudára mais uma vez de nome!…

    De sr.ª D. Anna passara a ser sr.ª Rosinha e tratavam-n'a por vocemecê.

    Trajava vestido de chita, capote velho de panno verde e lenço na cabeça.

    Era um prazer para mim o escutar as conversas, que Maria sustentava com
    a boneca.

    Esta, umas vezes, representava o papel de mulher casada, e Maria,
    encarregando-se de perguntar e responder por ella, obrigava a pobre
    boneca a lastimar-se por estar tudo tão caro, por haver falta de
    trabalho, por ter os filhos doentes, todos os assumptos, finalmente, que
    mais familiares eram á pequena.

    Outra vezes passava a boneca a ser creada de servir. Reprehendiam-n'a,
    mandavam-n'a buscar agua á fonte, pagavam-lhe, regateando, a soldada, e
    acabavam por a despedir.

    Já o leitor vê que, apesar da bondade Maria, deixára de ser feliz.

    Iam longe os bons tempos em que ella, rica, morava no palacio visinho!

    Desmaiada de côres, quasi perdido o cabello, semi-apagados os olhos,
    desfeito o carmim dos labios, a boneca não promettia longa duração.

    Foi este pelo menos, o prognostico que fiz a ultima vez que a vi,
    tentando em vão agradar á ultima dona que o seu destino lhe dera.

    Coitada!… Bem longe estava de lhe imaginar o fim!

    Um dia chovia a cantaros!–o enxurro, mal cabendo nas valetas da rua,
    espadanava em cachão para cima dos passeios, arastando na passagem mil
    immundicies.

    Eu estava á porta de casa, esperando que a chuva cessasse, e olhava
    melancolicamente para a agua negra, que corria. Nisto ouvi um grito, que
    partia da loja do sapateiro. Voltei machinalmente o rosto… Um objecto,
    arremessado de dentro da loja, atravessou o espaço voando, e foi cair no
    leito do enxurro…

    Olhei… Era a boneca!…

    A misera, arrastada pela agua, vogou rua abaixo até esbarrar n'uma
    pedra; mas o redemoinho envolveu-a, e, depois de a fazer girar tres ou
    quatro vezes, obrigou-a a passar pelo estreito, traçado entre a pedra e
    o passeio, e a triste seguiu no fio da corrente, até ir sumir-se nas
    profundezas da primeira boca de lobo, que encontrou na passagem!

    Será pieguice, será o que o leitor quizer; mas, confesso-lhe, que me
    impressionou o fim da pobre boneca.

    Mal passou a chuva, desci o degrau da porta e, chegado á vidraça do
    sapateiro, perguntei com voz involuntariamente severa:

    –Porque deitaste fóra a boneca, Maricas!?

    –Não fui eu…–balbuciou a pequena, chorando.–Foi ali o Joaquim!…

    –E porque fizeste tu aquillo, Joaquim?…

    –Ora!…–respondeu o garoto com enfado.–Ora!… Estava velha… e
    feia!…

    Curvei a cabeça ante aquella razão, e segui o meu caminho.

    Pobre boneca!

    *Inconveniente da riqueza*

    Um dia Nosso Senhor Jesus Christo, viajando na Alsacia, foi
    surprehendido pela noite á entrada d'uma aldeia. Procurou d'um lado para
    outro uma casa, onde podesse pedir pousada, mas as portas estavam já
    todas fechadas, não se via nem um raio de luz atravez das janellas, tudo
    estava adormecido. Apenas no fim d'um beco se ouvia o barulho do mangual
    com que se bate o trigo, e n'esse sitio havia uma pequena luz. Nosso
    Senhor dirigiu-se para lá, chegou ao pé do muro d'uma quinta, e bateu á
    porta. Foi um camponez que lh'a veiu abrir.

    –Fazia favor, disse-lhe o bom Jesus, de me dar agasalho por esta noite?
    Não se havia de arrepender.»

    E accrescentou:

    –Visto que já todos estão deitados, para que é que você está ainda a
    trabalhar?»

    –Ora, respondeu o camponez, soube hontem á noite que ia ser perseguido
    por um credor desapiedado, se lhe não pagasse ámanhã o que lhe devo,
    portanto eu e meus filhos estamos a bater o pouco trigo que colhi, para
    o vender no mercado, e pagar a minha divida. Depois disto não nos fica
    nada, e não sei como havemos d'atravessar o inverno. Seja o que Deus
    quizer!»

    Ao dizer isto o camponez limpava o suor da testa, e passava a mão pelos
    olhos arrazados de lagrimas. O Senhor teve dó d'elle, e disse-lhe:

    –«Não desanimes. Quando te pedi hospitalidade, disse-te que não te
    havias d'arrepender de m'a ter dado. Vou provar-t'o.»

    Pegou na candeia, que estava suspensa n'uma das traves do celleiro, e
    approximou-a do trigo.

    –Que vae fazer? disseram assustados os trabalhadores, vae deitar fogo a
    tudo!»

    Mas no mesmo instante, da palha, que elles receiavam ver inflammar-se,
    de cada espiga, desceu uma chuva de grãos prodigiosa. Á vista d'um tal
    milagre os camponezes maravilhados cairam de joelhos.

    –Visto que foste caritativo, disse Jesus, visto que recebeste na tua
    pobreza o forasteiro que veiu ter comtigo como um pobre mendigo, serás
    recompensado. Foi Deus que entrou na tua fazenda, é Deus que te
    enriquece.»

    Dito isto desappareceu.

    E a chuva dos grãos não parou em toda a noite, e fez um monte tão alto
    como a egreja.

    O camponez pagou as suas dividas, comprou terras, e construiu uma bella
    casa. Era rico, e tornou-se orgulhoso e altivo com os pobres. Elle e
    seus filhos adquiriram costumes perdularios, tanto e tanto fizeram, que
    se arruinaram, e, como tinham sido maus nos tempos em que eram ricos,
    ninguem os ajudou na sua miseria. Uma noite o velho camponez, que bebera
    enormemente, entrou no celleiro, e, recordando-se do milagre que o
    enriquecêra, imaginou que tambem elle o poderia fazer. Agarrou na
    candeia, approximou-a d'um feixe de palha, communicou-se o fogo, ardeu a
    casa e tudo o que lhe restava, e passado tempo morreu na miseria mais
    absoluta.

    *Querer é poder*

    –Quem procura sempre encontra, diz um velho proverbio; quero ver por
    experiencia, disse um dia um rapaz, se esta maxima é verdadeira.

    Poz-se a caminho, e foi apresentar-se ao governador d'uma grande cidade.

    –Senhor, disse-lhe elle, ha muitos annos que vivo tranquillo e
    solitariamente, e a monotonia fatigou-me. Meu amo disse-me muitas
    vezes–_Quem procura sempre encontra_, e _quem porfia mata caça_. Tomei
    uma grande resolução. Quero casar com a filha do rei.

    O governador mandou-o embora, imaginando que era um doido.

    O rapaz voltou no dia seguinte, no outro e no outro, e assim durante uma
    semana, sempre com a mesma vontade inabalavel, até que o rei ouviu
    fallar o rapaz da sua louca pretensão. Surprehendido com uma idéa tão
    extravagante, e, querendo divertir-se, disse-lhe o rei:

    –Que um homem distincto pela gerarchia, pela coragem, pela sciencia,
    pensasse em casar com uma princeza, nada mais natural. Mas tu, quaes são
    os teus titulos? Para seres o marido de minha filha é necessario que te
    distingas por alguma qualidade especial ou por um acto de valor
    extraordinario. Ouve. Perdi ha muito tempo no rio um diamante d'um valor
    incalculavel. Aquelle que o encontrar obterá a mão de minha filha.

    O rapaz, contente com esta promessa, foi estabelecer-se nas margens do
    rio; logo de manhã começava a tirar agua com um balde pequeno, e
    deitava-a na areia, e, depois de ter assim trabalhado durante horas e
    horas, punha-se a resar.

    Os peixes inquietos ao verem tão grande tenacidade, e receiando que
    chegasse a esgotar o rio, reuniram-se em conselho.

    –Que quer este homem? perguntou o rei dos peixes.»

    –Encontrar um diamante que caiu ao rio.»

    –Então, respondeu o velho rei, sou d'opinião que lh'o entreguem, porque
    vejo qual é a tempera da vontade d'este rapaz; mais facil seria esgotar
    as ultimas gotas do rio, do que desistir da sua empreza.»

    Os peixes deitaram o diamante no balde do rapaz, que casou com a filha
    do rei.

    *Qual será rei?*

    Morreu uma vez um rei, deixando quatro filhos, e sem ter designado o
    successor. Reuniu-se a côrte, e decidiu-se que a corôa devia pertencer,
    não ao mais velho dos quatro filhos, mas sim ao mais digno.

    Resolveram além d'isso que o cadaver do rei fosse posto de pé contra um
    muro, e que o principe que acertasse melhor com uma flecha n'aquelle
    alvo, seria o escolhido para successor.

    Começou o mais velho. Esticou a corda do arco, apontou durante muito
    tempo, e a flecha foi atravessar a mão esquerda do defuncto. O principe
    soltou grito d'alegria, cuidando que seus irmãos atirariam peór, e que
    por conseguinte seria elle quem viria a reinar.

    O segundo acertou em cheio na cara do rei, soltando um grito ainda mais
    alegre do que o outro principe.

    O terceiro varou o coração de seu pae, e os seus gritos de triumpho
    quasi que chegavam ao céo, porque lhe parecia impossivel acertar melhor.

    Quando chegou a vez do quarto filho, tiveram de lhe metter nas mãos as
    flechas e o arco: mas, desde que olhou para o alvo, arrojou as armas
    longe de si, e desatou a chorar:

    –«Oh! meu pae! meu querido pae! exclamou elle, como poderei eu jámais
    consolar-me de ver o teu corpo crivado de flechas pela mão de teus
    proprios filhos!»

    Os grandes da côrte ouvindo isto proclamaram-n'o rei, como sendo o mais
    digno.

    *Os tres véos de Maria*

    O primeiro véo de Maria era d'um linho mais alvo do que a neve.
    Bordára-o com as suas mãos, e ornara-o com uma grinalda de flores de
    seda tão bem imitadas, que as abelhas, illudidas, vinham pousar-lhe em
    cima.

    Este véo branco só o trouxe uma vez, no dia da sua primeira communhão.

    O segundo véo de Maria era de lã negra. Principiou-o no mesmo dia em que
    sua mãe lhe morrêra, deixando-a sósinha, sem amparo, na casa triste e
    abandonada. Era bordado de perpetuas roxas, como as dos sepulchros de
    marmore, e os olhos de Maria tinham-n'o orvalhado com todas as suas
    lagrimas.

    O véo negro só o trouxe uma vez,–no dia em que se tornou esposa de
    Jesus no convento da Ave-Maria.

    O terceiro véo era feito d'um retalho do azul celeste, bordado
    d'estrellas, e perfumado com aromas suavissimos.

    Foi o seu anjo da guarda, que lh'o deu no mesmo dia em que ella entrou
    no paraizo.

    *Os pequenos no bosque*

    Um dia tres pequenos iam juntos para a escola, e disseram uns aos
    outros, que não havia nada no mundo mais aborrecido que estudar: «Vamos
    para o bosque que encontremos lá toda a especie de lindos bichinhos, que
    não fazem outra cousa senão brincar, e nós brincaremos com elles.»

    Foram logo, e passaram sem fazer caso ao pé da activa formiga e da
    abelha diligente. Mas o besoiro, que elles convidaram a vir patuscar,
    disse-lhes:

    –Brincar? Preciso construir com estas ervas uma ponte nova, porque a
    outra já não está solida.»

    –Eu, disse o rato, tenho que fazer as minhas provisões para o inverno.»

    –Eu, disse d'ali a pomba, tenho muitas cousas que levar para o meu
    ninho.»

    –Eu, disse a lebre, gostava bem de me ir divertir com vocês, mas ainda
    hoje não lavei o meu focinho. Antes de mais nada, tenho que fazer a
    minha _toilette_.»

    E tu, lindo regato, disseram os pequenos desertores, que passas o tempo
    a saltar e a tagarellar, tambem não queres brincar comnosco?»

    –Estes pequenos são tolos, disse o regato. Como? Vocês então imaginam
    que eu não tenho que fazer? De noite ou de dia, não descanço nem um
    momento. Tenho que dar de beber aos homens e aos animaes, ás colinas,
    aos valles, aos campos e aos jardins. Tenho que apagar os incendios,
    tenho que fazer mover as forjas, os moinhos, as serralherias. Nem hoje
    acabára, se lhes quizesse contar o que tenho que fazer. Não posso perder
    um instante. Adeus, adeus. Estou com muita pressa.»

    Os pequenos, desconcertados, puzeram-se a olhar para o ar, e viram um
    pintasilgo, em cima d'um ramo.

    –Olha! tu, que não tens nada que fazer, queres brincar comnosco?»

    –Nada que fazer? vocês estão a mangar comigo, disse o pintasilgo. Todo
    o dia tenho que apanhar moscas para comer. Tenho além d'isso que tomar
    parte no concerto dos passarinhos, tenho que alegrar o operario com o
    meu chilrear, e tenho que adormecer as creanças com uma outra cantiga,
    que á noite e de madrugada celebre a bondade do Creador. Ide-vos embora,
    preguiçosos, ide cumprir o vosso dever, e não tornem a vir incommodar os
    habitantes das florestas, que cada um tem a sua tarefa a desempenhar.»

    Os pequenos aproveitaram a lição, e comprehenderam que o prazer só é
    ligitimo, quando é a recompensa do trabalho.

    *O chapellinho encarnado*

    Era uma vez uma rapariguinha muito bonita e cheia de bondade, a quem sua
    mãe e sua avó adoravam extremosamente. A boa da avósinha, que passava o
    tempo a imaginar o que poderia agradar á neta, deu-lhe um dia um chapéo
    de veludo vermelho. A pequenita andava tão contente com o seu chapéo
    novo, que já não queria pôr outro, e começaram a chamar-lhe a menina do
    chapellinho encarnado.

    A mãe e a avó moravam em duas casas separadas por uma floresta de meia
    legua de comprido. Uma manhã a mãe disse à pequenita:

    –Tua avó está doente, e não pôde vir vêr-nos. Eu fiz estes doces, vae
    levar-lh os tu com esta garrafa de vinho. Toma cuidado não quebres a
    garrafa, não andes a correr, vae devagarinho e volta logo.»

    –Sim, mamã, respondeu ella, hei de fazer tudo como deseja.»

    Atou o seu avental, metteu n'um cestinho a garrafa e os doces, e poz-se
    a caminho. No meio da floresta um lobo aproximou-se d'ella. A pequenita,
    que nunca vira lobos, olhou para elle sem medo algum.

    –Bons dias, chapellinho encarnado.»

    –Bons dias, meu senhor, respondeu delicadamente a pequena.»

    –Onde vaes tão cedo?»

    –A casa da minha avó que está doente.»

    –E levas-lhe alguma cousa?»

    –Levo, sim senhor; levo-lhe uns bolos e uma garrafa de vinho para lhe
    dar forças.»

    Dize-me onde mora a tua, avó, que tambem a quero ir ver.»

    –É perto, aqui no fim da floresta. Ha ao pé uns carvalhos muito
    grandes, e no jardim ha muitas nozes.»

    –Ah! tu é que és uma bella noz, disse comsigo o lobo. Como eu gostava
    de te comer.» Depois continuou em voz alta:–Olha, que bonitas arvores e
    que lindos passarinhos. Como é bom passear nas florestas, e então que
    quantidade de plantas medicinaes que se encontram!»

    –O senhor, é com certeza um medico, respondeu a innocente pequenita,
    visto que conhece as ervas medicinaes. Talvez me podesse indicar alguma
    que fizesse bem a minha avó.»

    –Com certeza, minha filha, olha, aqui está uma, e esta tambem, e
    aquella.» Mas todas as plantas que o lobo indicava, eram plantas
    venenosas. A pobre creança, queria-as apanhar para as levar a sua avó.

    –Adeus, meu lindo chapellinho encarnado, estimei muito conhecer-te. Com
    grande pena minha, tenho de te deixar para ir ver um doente.»

    E poz-se a correr em direcção da casa da avó, emquanto que a pequerrucha
    se entretinha em apanhar as plantas que elle tinha indicado.

    Quando o lobo chegou á porta da velha, achou-a fechada e bateu, mas a
    avó não se podia levantar da cama, e perguntou: Quem está ahi?»

    –É o chapellinho encarnado, respondeu o lobo imitando a voz da
    pequerrucha. A mamã manda-te bolos e uma garrafa de vinho.»

    –Procura debaixo da porta disse a avó, que encontrarás a chave.»

    Encontrou-a, abriu a porta, enguliu d'uma bocada a pobre velha inteira,
    e depois, vestindo o fato que ella costumava usar, deitou-se na cama.

    Pouco depois entrou a pequenita, assustada e admirada d'encontrar a
    porta aberta, porque sabia o cuidado com que a avó a costumava ter
    fechada.

    O lobo tinha posto uma touca na cabeça, que lhe escondia uma parte do
    focinho, mas o que lhe ficava descoberto era horrivel.

    –Ai! avósinha, disse a creança, porque tens tu as orelhas tão grandes?»

    –É para te ouvir melhor, minha filha.»

    –E porque estás com uns olhos tão grandes?»

    –É para te vêr melhor.»

    –E para que estás com os braços tão grandes?»

    –É para te poder abraçar melhor.»

    –E Jesus! para que tens hoje uma bôca tão grande e uns dentes tão
    agudos?»

    –É para te comer melhor.» A estas palavras o lobo arremessou-se á pobre
    pequena, e enguliu-a. Como estava repleto, adormeceu, e começou a
    resonar muito alto. Um caçador que passava por acaso, perto da casa, e
    que ouviu aquelle barulho, disse comsigo: A pobre velha está com um
    pesadelo, está peor talvez, vou ver se precisa d'alguma cousa.» Entra, e
    vê o lobo estendido na cama.

    –Olá, meu menino, diz elle: ha muito tempo que te procuro.»

    Armou a sua espingarda, mas parando logo: Não, disse elle, não vejo a
    dona da casa. Talvez o lobo a engulisse viva. E em lugar de matar o
    animal com uma bala, pegou na sua faca de mato, e abriu-lhe
    cuidadosamente a barriga. Appareceu logo o chapellinho encarnado e
    saltou para o chão, gritando:

    –Ai! que sitio medonho onde eu estive fechada!

    A avó saiu também contentissima por ver outra vez a luz do dia.

    O lobo continuava a dormir profundamente, e o caçador metteu-lhe então
    duas grandes pedras na barriga, coseu tudo, e escondeu-se com a avó e a
    neta para verem o que se ia passar.

    Decorrido um instante o lobo accordou, e como tinha sede, levantou-se
    para ir beber ao lago. Ao andar ouvia as pedras baterem uma na outra, e
    não podia comprehender o que aquillo era; com o peso, caiu no lago, e
    affogou-se.

    O caçador tirou-lhe a pelle, comeu os bollos e bebeu o vinho com a velha
    e a sua neta. A velha sentia-se remoçar, e o chapellinho encarnado
    prometteu não tornar a passar na floresta, quando sua mãe lh'o
    prohibisse.

    *Os cinco sonhos*

    Andando um dia Carlos Magno á caça com uma comitiva numerosa, perseguiu
    um veado, que dava taes saltos, e corria por tal fórma, que, apesar da
    ligeireza do seu cavallo, o rei perdeu-lhe completamente a pista. Foi só
    então que viu que estava só, tendo a sua côrte ficado muito para traz;
    sentindo-se fatigado, entrou ao cair da noite n'uma choupana solitaria
    no meio da floresta. Em roda da lareira estavam deitados quatro ladrões.
    Os salteadores levantaram-se logo, como despertados pelo barulho da
    entrada do viajante; cada um d'elles tinha tido um sonho, que lhe
    quizeram logo contar.

    O primeiro que tomou a palavra exprimiu-se d'esta maneira:

    –No meu sonho, tirava eu o capacete d'ouro á pessoa que acaba de entrar
    aqui, e punha-o na minha cabeça.»

    –Eu, disse o outro, sonhei que vestia a sua couraça.»

    –E eu que estava pondo o seu manto.»

    –E eu, disse o quarto ladrão, para lhe fazer favor, passava em roda do
    meu pescoço aquella pesada cadeia d'ouro, da qual está pendurada a sua
    trompa de caça.»

    –Vejo bem, disse o imperador, que teem tenção de me roubar tudo, e
    mesmo a vida. Reconheço que estou em poder de vocês, e que toda e
    qualquer resistencia seria inutil. Não lhes peço senão uma cousa, é que
    me deixem tocar pela ultima vez na minha trompa de caça.»

    Os salteadores responderam que consentiam, visto que o ultimo pedido
    d'um moribundo deve ser respeitado.

    Carlos Magno levou á boca a sua magnifica trompa de marfim, e tirou
    d'ella sons tão fortes e sonoros, que em menos d'alguns minutos todos os
    seus companheiros de caça e a sua comitiva estavam ao pé d'elle.

    –Agora, disse o imperador, dirigindo-se aos salteadores, agora tambem
    eu devo contar o sonho que tive. Sonhei que vocês todos iam ser
    enforcados diante d'este casebre.»

    E o sonho realisou-se immediatamente.

    *A egreja do rei*

    Era uma vez um rei, que quiz levantar uma egreja magnifica em honra da
    Virgem, decretando que ninguem nos seus estados podesse contribuir para
    a obra, ainda mesmo com a mais pequena quantia. Quando o edificio se
    concluiu, enorme, soberbo, grandioso, mandou o rei gravar n'uma pedra do
    marmore uma inscripção em letras d'ouro, que dizia que só elle, e mais
    ninguem, tinha levado a cabo aquella obra monumental. Mas na noite
    seguinte o nome do rei foi apagado da inscripção, e substituido por o
    d'uma pobre mulhersinha do povo. O rei no dia seguinte tornou a mandar
    pôr o seu nome na inscripção, e de novo foi substituido pelo da pobre
    mulher; á terceira vez succedeu o mesmo. O rei, cheio de colera, ordenou
    então que lhe trouxessem a mulher á sua presença:

    –Prohibi a todos os meus vassallos, disse-lhe elle, que contribuissem
    fosse com o que fosse para a edificação d'esta egreja; vejo que não
    cumpriste as minhas ordens.»

    –«Senhor, respondeu a velhinha toda tremula, eu respeitei as vossas
    ordens, apesar da magua que sentia por não poder offerecer o meu
    pequenino obolo em honra da Virgem; mas julguei não desobedecer a vossa
    magestade, deixando por vezes de jantar para comprar um pouco de feno,
    que eu levava ás escondidas aos bois que conduziam as pedras destinadas
    à construcção da egreja.»

    –«O teu nome é mais digno do que o meu de figurar em letras d'ouro na
    inscripção do monumento, disse-lha o rei.»

    Mas na noite seguinte uma mão invisivel restabeleceu na lapide da egreja
    o nome do rei, que desde então lá se conserva ainda.

    *O valente soldado de chumbo*

    Era uma vez vinte e cinco soldados de chumbo, todos irmãos, por todos
    terem nascido da mesma colher de chumbo. Vêde-os: que attitude marcial,
    d'espingarda ao hombro, olhar fixo, e ricos uniformes azues e vermelhos!
    A primeira coisa que ouviram n'este mundo, quando se levantou a tampa da
    caixa em que elles estavam, foi este grito: «Olha soldados de chumbo!»
    que soltou um rapazito, batendo as palmas d'alegria. Tinham-lh'os dado
    de presente no dia dos annos, e o seu divertimento era formal-os sobre a
    mesa, em linha de batalha. Todos os soldados se pareciam
    maravilhosamente uns com os outros, excepto um, que tinha uma perna de
    menos, porque o tinham deitado na fôrma em ultimo lugar, e já não havia
    chumbo sufficiente. Apesar d'este defeito, os outros não estavam mais
    firmes nas duas pernas do que elle na sua unica, e é este o que
    precisamente nos interessa.

    Sobre a meza em que os nossos soldados estavam formados havia mil outros
    brinquedos, mas o mais bonito de todos, era um lindissimo castello de
    papel. Pelas suas pequeninas janellas via-se-lhe o interior dos salões.
    Á volta era circumdado d'uma floresta em miniatura, que se reflectia
    poeticamente n'um pedaço d'espelho que fingia um lago, onde nadavam
    pequeninos cysnes de cêra. Tudo isto era encantador, mas não tanto como
    uma menina que estava á porta, e que era tambem de papel, vestida com um
    lindo vestido de cassa, apertado com um cinto de fivela azul. A menina
    tinha os braços arqueados, porque era dançarina, e tinha uma perninha
    levantada a tal altura, que o soldado de chumbo não a podia ver, e
    imaginou que, como elle, não tinha senão uma perna.

    –Ali está a mulher que me convém, pensou elle, mas é uma grande
    fidalga. Mora n'um palacio, eu n'uma caixa em companhia de vinte e
    quatro camaradas, e não haveria cá lugar pura ella. No entantanto
    preciso conhecel-a.»

    Deitou-se atraz d'uma caixa de tabaco, e d'ali podia ver á sua vontade a
    elegante dançarina, que estava sempre n'um pé só, sem perder o
    equilibrio.

    Á noite todos os outros soldados foram mettidos na caixa, e as pessoas
    da casa foram deitar-se. Apenas os brinquedos perceberam isto, começaram
    a divertir-se, fizeram guerras, e a final deram um baile. Os soldados de
    chumbo mexiam-se, e remexiam-se na sua caixa, porque queriam lá ir; mas
    como haviam elles tirar a tampa? O quebra-nozes começou a dar cabriolas
    e saltos mortaes, o lapis traçou mil arabescos phantasticos n'uma louza,
    emfim o barulho tornou-se tal que o canario accordou, e poz-se a cantar.
    Os unicos que estavam quietos eram o soldado de chumbo e a
    dançarinasinha. Ella no bico do pé, e elle n'uma perna só, a
    espreital-a.

    Deu meia noite, e zás, a tampa da caixa de rapé levanta-se, e em lugar
    de rapé, saiu um feiticeirosinho preto. Era um brinquedo de surpreza.

    –Soldado de chumbo, disse o feiticeiro, trata de olhar para outro
    sitio.»

    Mas o soldado fez que não ouvia.

    –Espera até ámanhã, e verás o que te acontece, continuou o feiticeiro.»

    No dia seguinte, quando os pequenos se levantaram, puzeram o soldado de
    chumbo á janella, mas de repente ou por influencia do feiticeiro ou por
    causa do vento caiu á rua de cabeça para baixo. Que tombo! Ficou com a
    perna no ar, o peso do corpo todo sobre a barretina, e com a bayoneta
    enterrada entre duas lages.

    A creada e o rapazito foram lá abaixo procural-o, mas estiveram quasi a
    esmagal-o, sem darem por elle. Se o soldado tivesse gritado: «Cautella!»
    tel-o-íam achado, mas elle julgou que seria deshonrar a farda. A chuva
    começou a cair em torrentes, e tornou-se n'um verdadeiro diluvio. Depois
    do aguaceiro passaram dois garotos.

    –Olà! disse um d'elles, um soldado de chumbo por aqui! Vamos fazel-o
    navegar.»

    Construiram um barco d'um bocado de jornal velho, metteram o soldado de
    chumbo dentro, e obrigaram-n'o a descer pelo regato abaixo. Os dois
    garotos corriam ao lado, e davam grito de prazer. Que ondas! Santo Deus!
    Que força de corrente! Mas tambem tinha chovido tanto! O barco jogava
    d'uma maneira horrorosa, mas o soldado de chumbo conservava-se
    impassivel, com os olhos fixos e a espingarda ao hombro.

    De repente o barco foi levado para um cano, onde era tão grande a
    escuridão como na caixa dos soldados.

    –Onde irei eu parar? pensou elle. Foi o tratante do feiticeiro que me
    metteu n'estes trabalhos. Se, apesar de tudo, aquella linda menina
    estivesse no barco, não importava, ainda que a escuridão fosse duas
    vezes maior.»

    D'ali a pouco apresentou-se um enorme rato d'agua; era um habitante do
    cano.

    –Venha o teu passaporte.»

    Mas o soldado de chumbo não disse nada, e agarrou com mais força na
    espingarda. O barco continuava o seu caminho, e o rato perseguia-o,
    rangendo os dentes, e gritando ás palhas, e aos cavacos:–Façam-n'o
    parar, façam-n'o parar! Não pagou a passagem, não mostrou o passaporte.»

    Mas a corrente era cada vez maior, o soldado via já a luz do dia, e
    sentia ao mesmo tempo um barulho capaz d'assustar o homem mais valente.
    Havia na extremidade do cano uma queda d'agua tão perigosa para elle,
    como é para nós uma catarata. Aproximava-se d'ella cada vez mais, sem
    poder parar, com uma rapidez vertiginosa. O barco lançou-se sobre a
    queda d'agua, e o pobre soldado firmava-se o mais possivel, e ninguem se
    atreveria a dizer que o tinha visto fechar os olhos com o susto.

    O barco, depois de ter andado á roda durante muito tempo, encheu-se
    d'agua, e estava a ponto de naufragar. A agua já chegava ao pescoço do
    soldado, e o barco afundava-se cada vez mais. O papel desdobrou-se, e a
    agua passou por cima da cabeça do nosso heroe. N'esse momento supremo,
    pensou na gentil dançarinasinha, e pareceu-lhe ouvir uma voz que dizia:

    –Soldado: o perigo é enorme, a morte espera-te.»

    O papel rasgou-se, e o soldado passou atravez d'elle. N'esse momento foi
    devorado por um grande peixe.

    Lá é que era escuro, ainda mais que dentro do cano. E além d'isso, que
    talas em que elle estava mettido! Mas, sempre intrepido, o soldado
    estendeu-se ao comprido com a espingarda ao hombro.

    O peixe mexia-se e remexia-se, dava saltos de metter medo, até que emfim
    parou, e pareceu que o atravessava um relampago. Appareceu a luz do dia,
    e alguem exclamou:

    –Olha um soldado de chumbo!»

    O peixe tinha sido pescado, exposto na praça, vendido, e levado para a
    cosinha, e a cosinheira tinha-o aberto com uma enorme faca. Pegou no
    soldado de chumbo com dois dedos, e levou-o para a sala, onde toda a
    gente quiz admirar esse homem extraordinario, que tinha viajado na
    barriga d'um peixe. No entretanto o soldado não se sentia orgulhoso.
    Collocaram-n'o em cima da meza, e ali–tanto é verdade que acontecem
    cousas extraordinarias n'este mundo–achou-se na mesma sala, de cuja
    janella tinha caido. Reconheceu os pequenos e os brinquedos que estavam
    em cima da meza, o lindo palacio, e a adoravel dançarina sempre de perna
    no ar. O soldado de chumbo ficou tão commovido, que de boa vontade teria
    derramado lagrimas de chumbo, mas não era conveniente. Olhou para ella,
    ella olhou para elle, mas não disseram uma palavra um ao outro.

    De repente um dos pequenos pegou n'elle, e sem motivo algum deitou-o no
    fogão; eram obras do feiticeiro da caixa do rapé.

    O soldado de chumbo lá estava perfilado, allumiado por um clarão
    sinistro, e soffrendo um calor terrivel. Todas as côres lhe tinham
    desapparecido, sem que se podesse dizer, se era por causa das suas
    viagens, ou por causa dos seus desgostos. Continuava a olhar para a
    dançarina, que tambem olhava para elle. Sentia-se derreter, mas, sempre
    intrepido, conservava a espingarda ao hombro. De repente abriu-se uma
    porta, o vento arremeçou a dançarina ao fogão para junto do soldado, que
    desappareceu no meio das lavaredas. O soldado de chumbo, já não era mais
    que uma pequena massa informe.

    No dia seguinte, quando a creada veiu tirar a cinza, encontrou um
    objecto que tinha o feitio d'um pequeno coração de chumbo, e tudo o que
    restava da dançarina era a fivela do cinto azul que o lume tinha
    ennegrecido.

    *João Pateta*

    João era filho d'uma pobre viuva, bom rapaz, mas um pouco simplorio. A
    gente da aldeia chamava-lhe por brincadeira João Pateta. Um dia sua mãe
    mandou-o á feira comprar uma foice. Á volta, começou a andar com a foice
    á roda, de maneira que a foice caiu em cima d'uma ovelha, e matou-a.

    –Pateta, disse-lhe sua mãe, o que deverias ter feito era pôr a foice em
    um dos carros de palha ou de feno d'algum dos visinhos.»

    –Perdão, mãe, respondeu humildemente João, para a outra vez serei mais
    esperto.»

    Na semana seguinte mandaram-n'o comprar agulhas, recommendando-lhe que
    as não perdesse.

    –Fique descançada. E voltou todo orgulhoso.»

    –Então, João, onde estão as agulhas?»

    –Ah! estão em lugar seguro. Quando sahi da loja em que as comprei, ia a
    passar o carro do visinho carregado de palha; metti lá as agulhas, não
    podem estar em sitio melhor.»

    –De certo, estão em lugar de tal modo seguro, que não ha meio de as
    tornar a ver. Devias tel-as espetado no chapéo.»

    –Perdão, respondeu João, para a outra vez, heide ser mais esperto.»

    Na outra semana, por um dia de calor, João foi d'ali uma legua comprar
    uma pouca de manteiga. Lembrando-se do ultimo conselho de sua mãe, poz a
    manteiga dentro do chapéo e o chapéo na cabeça. Imagine-se o estado em
    que voltou para casa, com a cara a escorrer manteiga derretida.

    A mãe já tinha medo de o mandar fazer qualquer recado. No entanto um dia
    resolveu-se a mandal-o á feira vender duas gallinhas.

    –Ouve bem, não vendas pelo primeiro preço. Espera que te offereçam
    outro.»

    –Está entendido, respondeu João.»

    Foi para a feira. Um freguez chegou-se a elle.

    –Queres seis tostões por essas gallinhas?»

    –Ora adeus! minha mãe recommendou-me, que não acceitasse o primeiro
    preço, mas que esperasse o segundo.»

    –E tens muita rasão. Dou-te um cruzado.»

    –Está bem. Parece-me que tinha feito melhor em acceitar o primeiro,
    mas, como cumpro as ordens de minha mãe, ella não tem que me ralhar.»

    Depois d'isto, João foi condemnado a ficar em casa. Sua mãe sabia que
    mangavam com elle, e se riam d'ella. Uma manhã quiz fazer uma
    experiencia, e disse-lhe:

    –Vae vender este carneiro á feira. Mas não te deixes enganar. Não o
    entregues senão a quem te der o preço mais elevado.»

    –Está bem, agora entendo, e sei o que hei de fazer.»

    –Quanto queres por esse carneiro?

    –Minha mãe disse-me que o não vendesse senão pelo preço mais elevado.

    –Quatro mil réis?»

    –É o preço mais elevado?»

    –Pouco mais ou menos.»

    –É minha a lã e o carneiro, disse um rapaz que trepára a uma escada.

    –Quanto?»

    –Dez tostões:»

    –É menos, respondeu timidamente o João.»

    –Sim, mas vês até onde chega esta escada. Em toda a feira não ha um
    preço mais elevado.»

    –Tem rasão. É seu o carneiro.»

    Desde esse dia o João Pateta não tornou a ser encarregado de vender ou
    comprar cousa alguma.

    *Branca de Neve*

    Era uma vez uma rainha, que se lastimava por não ter filhos. Um dia
    d'inverno, emquanto bordava n'um bastidor d'ébano olhando de vez em
    quando pela janella, para ver cair os flocos de neve no chão,
    distrahida, picou-se n'um dedo e saiu uma gota de sangue.

    –Como eu desejaria ter uma filha, que tivesse uns beiços tão vermelhos
    como este sangue, uma pelle branca como esta neve, e uns cabellos negros
    como este ébano.»

    Algum tempo depois os seus desejos realisaram-se, e deu á luz uma filha,
    que tinha uma linda boca vermelha, cabellos negros e o corpo tão branco,
    que lhe chamavam Branca de Neve. Porém esta feliz mãe não gozou muito
    tempo da sua felicidade. Morreu, e o rei tornou a casar com uma mulher
    d'uma grande belleza, e d'um orgulho não menos extraordinario. Era tão
    formosa que se considerava a mulher mais perfeita do universo. Algumas
    vezes fechava-se no seu quarto, e collocando-se diante d'um espelho
    magico dizia-lhe:

    –Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
    mundo?»

    –És tu, respondia o espelho.»

    No entanto Branca de Neve crescia, e de dia para dia se tornava mais
    formosa. Tinha apenas sete annos, e já ninguem a podia ver sem ficar
    maravilhado. Um dia a orgulhosa rainha, sentando-se diante do seu
    espelho, disse-lhe:

    –Meu fiel espelho, responde-me: qual é a mulher mais linda que ha no
    mundo?»

    –Não és tu, não és tu. Branca de Neve é mais linda.»

    A estas palavras a orgulhosa rainha sentiu no coração uma dôr aguda,
    como uma punhalada, e ao mesmo tempo sentiu um odio mortal pela
    innocente Branca. Não podia socegar nem de dia, nem de noite. Para
    satisfazer o seu odio, chamou um creado, e disse-lhe:

    –Quero quo Branca desappareça. Conduze-a á floresta, mata-a, e, para me
    provar que as minhas ordens foram executadas pontualmente, traze-me o
    coração.»

    O creado levou Branca para o fundo da floresta, pegou n'uma faca, e
    dispunha-se a executar a ordem que recebera. A pobre creança chorava e
    lamentava-se, e pedia-lhe que a não matasse, porque ella não tinha feito
    mal a ninguem, e queria viver. O creado, commovido com aquellas
    lagrimas, não teve coragem, e abandonou-a na floresta, pensando que se
    as feras a devorassem a culpa não era d'elle, mas sim da rainha. Assim
    fez, e para mostrar o coração de Branca á rainha, matou um cabrito, e
    tirou-lhe o coração. A rainha ao ver aquelles despojos sangrentos ficou
    contentissima, e disse comsigo: Emfim, morreu a minha rival, e nenhuma
    mulher no mundo é tão bella como eu.

    A pobre Branca, abandonada na floresta, não tinha morrido, mas estava
    cheia de medo. Pela primeira vez na sua vida punha os pés nas pedras, e
    andava pelo meio do matto que lhe rasgava o vestido, e pela primeira vez
    tambem via animaes ferozes. Mas as feras não lhe faziam mal algum, o
    deixavam-n'a andar. No fim do dia tinha atravessado sete montanhas.

    Á noite chegou ao pé d'uma casinha muito pequenina. Estava morta de fome
    e de sede. Entrou na casa, onde tudo estava muito arranjado e muito
    limpo. Havia uma meza pequena, e sobre a meza, coberta com uma toalha de
    brancura irreprehensivel, sete pratos pequenos, sete garrafas pequenas,
    e ao longo da parede sete camas muito pequeninas. Branca comeu um pouco
    do que estava nos pratos, bebeu uma gota de vinho de cada copo,
    deitou-se na cama, resou, e adormeceu profundamente.

    Momentos depois os donos da casa entraram. Eram sete mineiros
    pequeninos, cada um com uma lanterna dependurada na cintura. Viram logo
    que tinham gente em casa. Um d'elles disse:

    –Quem comeu o meu pão?»

    E os outros successivamente:

    –Quem pegou no meu garfo?»

    –Quem comeu o meu caldo?»

    –Quem bebeu o meu vinho?»

    E emfim um d'elles:

    –Quem está ahi deitado na minha cama?»

    Reuniram-se todos á roda do pequeno leito em que dormia Branca. Á luz
    das lanternas viram o doce rosto da creança, que dormia tranquillamente,
    e affastaram-se sem fazer bulha, para a não accordar. Branca no dia
    seguinte de manhã ficou um pouco assustada, quando viu perto de si
    aquelles sete anões das montanhas. Mas elles disseram-lhe com brandura,
    que não tivesse medo, e perguntaram-lhe d'onde vinha, e como se chamava.
    Branca contou a sua triste historia, e os anões disseram-lhe:

    –Queres tu ficar comnosco, para tomar conta da nossa casa?»

    –Da melhor vontade, respondeu Branca, completamente socegada.»

    Começou logo o seu serviço, e continuou-o regularmente todos os dias.
    Limpava os moveis, e fazia o jantar. Os anões iam trabalhar para as
    minas d'ouro e de diamantes, e quando voltavam achavam tudo em ordem.

    Durante esse tempo a rainha andava satisfeita, quando pensava que já não
    tinha que receiar uma rival. Sentou-se outra vez diante do seu espelho,
    e disse-lhe:

    –Meu fiel espelho, não é verdade que eu sou agora a mulher mais linda
    que ha no mundo?»

    E o espelho respondeu:

    –Sim, nos teus palacios e nos teus castellos, mas Branca está nas sete
    montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

    Ouvindo esta resposta a orgulhosa rainha, sentiu de novo um golpe cruel,
    e determinou tornar a fazer desapparecer a innocente Branca. Mas de que
    modo? Uma manhã partiu desfarçada em vendedeira ambulante, com um cesto
    cheio d'objectos de phantasia. Foi direita às sete montanhas, e bateu á
    porta da casinha, gritando: «Quem quer comprar bonitas joias?»

    Os anões tinham recommendado a Branca que desconfiasse das caras
    estranhas, receando os emissarios da rainha, e ella tinha promettido ser
    prudente. Mas, quando viu as lindas cousas que a vendedeira tinha no
    cesto, esqueceu-se das suas promessas.

    –Veja este rico collar, minha menina, eu mesmo lh'o vou por ao
    pescoço.»

    Branca consentiu, e a rainha estrangulou-a, e foi-se embora. Quando os
    anões voltaram, viram a infeliz Branca estendida no chão e completamente
    inanimada. Arrancaram-lhe o collar, e deitaram-lhe nos labios algumas
    gotas d'um licor amarello. Branca começou a respirar, voltou a si pouco
    a pouco, e contou aos seus bons amigos o que lhe tinha acontecido.

    –Pódes estar certa, disseram-lhe elles, que essa vendedeira não era
    outra pessoa, senão a tua inimiga, a rainha. Toma cautella, não deixes
    entrar aqui ninguem, quando não estivermos em casa.»

    Ao entrar no seu palacio toda contente, collocou-se a rainha diante do
    espelho, e disse-lhe:

    –Meu fiel espelho: Qual é agora a mulher mais linda que ha no mundo?
    Responde.

    E o espelho respondeu:

    –És tu nos teus grandes palacios e nos teus castellos, mas Branca está
    nas sete montanhas, e Branca é mais linda do que tu.»

    A rainha enfureceu-se, e resolveu mais uma vez tentar aniquilar a
    infeliz Branca. Tornou-se a disfarçar em vendedeira. Chegou ás sete
    montanhas, e bateu á porta da cabana.

    –Quem quer comprar lindas joias? Branca veiu á janella, e respondeu:

    –Vá-se embora, aqui não entra ninguem.»

    –Tanto peor para si, respondeu a malvada, olhe este pente d'ouro. Já
    viu outro tão bonito?»

    Branca não poude resistir ao desejo de possuir aquella joia. Abriu a
    porta.

    –Oh! minha linda menina, deixe-me pôr-lh'o na cabeça.»

    Ao dizer isto enterrou-lhe na cabeça o pente, que estava envenenado, e
    Branca caiu morta.

    Á noite quando regressaram os anões, acharam-n'a pallida e fria.
    Tiraram-lhe o pente envenenado, reanimaram-n'a com a sua bebida, e
    tornaram a recommendar-lhe que fosse prudente.

    No entanto a cruel rainha voltava contentissima para o seu palacio.
    Apenas chegou, foi direita ao espelho, e fez-lhe a mesma pergunta, a que
    o espelho respondeu como antecedentemente.

    –Ah! é preciso que ella morra, ainda que para isso eu tenha de me
    sacrificar.

    Vestiu-se de camponeza com um cesto de maçãs. Entre ellas havia uma que
    estava envenenada d'um lado. Foi, e bateu á porta da cabana.»

    –Quem quer comprar fructa, quem quer comprar?»

    –Retire-se, disse Branca vendo-a pela janella, não deixo entrar
    ninguem, nem compro coisa alguma.»

    –Está bem, não faltará quem compre estas ricas maçãs. Mas por ser tão
    bonita, quero dar-lhe uma.»

    –Obrigada, não posso acceitar.»

    –Imagina que está envenenada. Olhe, eu vou comer um pedaço. Ah! que boa
    que é! Nunca provei nada assim. Ao pronunciar estas palavras, a traidora
    mordia no lado da maçã, que não estava envenenado. Branca deixou-se
    tentar, levou á boca o outro pedaço, e caiu fulminada.

    –Ahi tens, para castigo da tua formosura.»

    Quando chegou ao palacio a rainha foi direita ao espelho, e
    perguntou-lhe:

    –Meu fiel espelho, quem é agora a mulher mais linda?»

    E o espelho respondeu:

    –És tu, és tu.»

    –Até que emfim!»

    Os anões estavam inconsolaveis. Debalde tinham tentado reanimal-a com o
    licor d'ouro, e com outras bebidas ainda mais fortes. Branca continuava
    fria e inanimada. Choraram por ella durante tres dias, e os passarinhos
    da floresta choraram tambem. No entanto as boas avesinhas não podiam
    acreditar que ella estivesse morta, e vendo o seu rosto tão tranquillo,
    as suas faces tão frescas, parecia que estava a dormir. Não quizeram
    enterral-a. Metteram-n'a n'um caixão de cristal, e escreveram em cima.
    «Aqui jaz a filha d'um rei;» puzeram o caixão n'uma das sete montanhas,
    e um d'elles devia estar de guarda constantemente. Branca conservou-se
    assim durante muitos annos, sem que se notasse no seu rosto a mais
    pequena alteração.

    Um dia um formoso rapaz, filho d'um rei, tendo-se perdido ao andar á
    caça, viu o caixão, e pediu aos anões que lh'o cedessem, fosse por preço
    que fosse.

    –Somos muito ricos, e por nada d'este mundo venderemos este caixão, que
    é o nosso thesouro.»

    –Então dêem-m'o, já não posso viver sem contemplar este rosto de
    mulher. Guardal-o-hei na melhor salla do meu palacio. Peco-lhes que me
    façam isto.»

    Os anões, commovidos, consentiram. Quatro homens pegaram no caixão para
    o levarem. Um d'elles tropeçou n'uma raiz, e o caixão soffreu um
    balanço, que fez cair o bocado da maçã envenenada, que Branca não tinha
    engulido, e que lhe ficara na boca. Abriu logo os olhos, e resuscitou. O
    joven principe levou-a para o seu castello, e casou com ella. O
    casamento fez-se com grande pompa. O principe convidou todos os reis e
    rainhas dos differentes paizes, e entre ellas a rainha inimiga de
    Branca. Apenas acabou de vestir um rico vestido, que devia attrair todos
    os olhares, poz-se diante do espelho, e disse a rainha:

    –Meu fiel espelho, qual a mulher mais linda que ha do mundo?»

    E o espelho respondeu:

    –Branca é mais formosa que tu.

    A estas palavras a rainha estremeceu, e teve tal medo que os seus crimes
    fossem descobertos, que morreu de repente.

    Branca viveu muitos annos, adorada de todos, e no seu palacio de
    princesa não se esqueceu dos anões que tinham sido os seus bemfeitores.

    *A rapariguinha e os phosphoros*

    Que frio! a neve cahia, e a noite aproximava-se; era o ultimo de
    dezembro, vespera de Anno Bom. No meio d'este frio e d'esta escuridão
    passou na rua uma desgracada pequerrucha, com a cabeça descoberta e os
    pés descalços. É verdade que trazia sapatos ao sair de casa, mas
    tinham-lhe servido pouco tempo: eram uns grandes sapatos, que sua mãe já
    tinha usado, tão grandes, que a pequenita perdeu-os ao atravessar a rua
    a correr, entre duas carruagens. Um dos sapatos perdeu-o realmente;
    quanto ao outro fugiu-lhe com elle um garotito, com a intenção de fazer
    d'elle um terço para o seu primeiro filho.

    A pequenita caminhava com os pésinhos nús, arroxeados pelo frio; tinha
    no seu velho avental uma grande quantidade de phosphoros, e levava na
    mão um masso d'elles. O dia correra-lhe mal; não tinha havido
    compradores, e por isso não apurára cinco réis.

    Pobre pequerrucha! que frio e que fome! Os flocos de neve caiam-lhe nos
    longor cabellos loiros, adoravelmente annelados em volta do pescoço; mas
    pensava ella porventura nos seus cabellos annelados?

    As luzes brilhavam nas janellas, e sentia-se na rua o cheiro dos
    manjares; era a vespera de dia de Anno Bom: eis no que ella pensava.

    Deixou-se cair a um canto, entre dois muros. O frio enregelava-a cada
    vez mais, mas não se atrevia a voltar para casa: o pae bater-lhe-ia,
    porque não tinha vendido os seus phosphoros. Além d'isso em sua casa
    fazia tanto frio como na rua. Moravam debaixo de um telheiro que o vento
    atravessava, apezar de o terem calafetado com palha e farrapos. As suas
    mãosinhas já quasi que as não sentia. Ai! como um phosphorosinho acceso
    lhe faria bem! Se tirasse do masso apenas um, um unico, e accendendo-o
    aquecesse os dedos enregelados! Tirou um: _ritche_! como estoirou! como
    ardeu! Era uma chamma tepida e clara, como uma pequena lamparina. Que
    luz exquisita! Parecia-lhe estar sentada defronte de um enorme brazeiro
    de ferro, cujo lume magnifico aquecia tão suavemente, que era um regalo.

    A pequerrucha ia já a estender os pésitos para os aquecer tambem, quando
    a chamma se apagou repentinamente: achou-se sentada, tendo na mão uma
    pontita de phosphoro consumido.

    Accendeu segundo phosphoro, que ardeu, que brilhou, e o muro onde bateu
    a sua chamma tornou-se transparente como vidro. Olhando atravez d'esse
    muro, a pequerrucha viu uma sala com uma meza cobertta de uma toalha
    alvissima, deslumbrante de finas porcelanas, e sobre a qual uma gallinha
    assada com recheio de ameixas e de batatas fumegava exhalando um perfume
    delicioso. Oh surpreza! oh felicidade! De repente a gallinha saltou do
    prato, e caíu no chão ao pé da pequerrucha, com o garfo e a faca
    espetada no lombo. N'isto apagou-se o phosphoro, e viu apenas diante de
    si a parede fria e tenebrosa.

    Accendeu terceiro phosphoro, e achou-se immediatamente sentada debaixo
    de uma magnifica arvore do Natal; era ainda mais rica e maior do que a
    que tinha visto no anno passado atravez dos vidros de um armazem
    sumptuoso.

    Nos ramos verdes brilhavam centenares de balões accesos, e as estampas
    coloridas, como as que ha ás portas das lojas, pareciam sorrir-lhe.
    Quando ia agarral-as com as duas mãos, apagou-se o phosphoro; todos os
    balões da arvore do Natal começaram a subir, a subir, e viu então que se
    tinha enganado, porque eram estrellas. Caiu uma d'ellas, deixando no ceo
    um longo rasto de fogo.

    –É alguém que está a morrer, disse a pequerrucha; porque a sua avó, que
    lhe queria tanto, mas que já morrera, dissera-lhe muitas vezes: «Quando
    cae uma estrella, sobe para Deus uma alma.»

    Accendeu ainda outro phosphoro: deu uma grande luz, no meio da qual lhe
    appareceu sua avó, de pé, com um ar radioso e suavissimo.

    –Minha avó, exclamou a pequenita, leva-me comtigo. Eu sei que te vaes
    embora quando se apagar o phosphoro. Desapparecerás como a panella de
    ferro, a galinha assada, e a bella arvore do Natal.

    Accendeu o rosto do masso, porque não queria que sua avó lhe fugisse, e
    os phosphoros espalharam um clarão mais vivo que a luz do dia. Nunca sua
    avó tinha sido tão formosa. Poz ao colo a pequerruchinha, e ambas
    alegres, no meio d'este deslumbramento, voáram tão alto, tão alto, que
    já não tinha nem frio, nem fome, nem agonias: haviam chegado ao Paraiso.

    Mas quando rompeu a fria madrugada, encontráram a pequerrucha, entre os
    dois muros, ao canto, com as faces incendiadas, o sorriso nos labios…
    morta, morta de frio na ultima noite do anno. O dia de Anno Bom veiu
    alumiar o pequenino cadaver, sentado ali com os seus phosphoros, a que
    faltava um masso, que tinha ardido quasi inteiramente.–Quiz aquecer-se,
    disse um homem que passou.» E ninguem soube nunca as lindas coisas que
    ella tinha visto, e no meio de que esplendor tinha entrado com a sua
    velha avó no dia do Anno Novo.

    *O primeiro peccado de Margarida*

    Chamava-se Margarida, e estavam á espera d'ella no céo, porque Deus
    tinha dito:–É uma boa alma, e, como lá em baixo no mundo lhe póde
    acontecer alguma desgraça, vou trazel-a um d'estes dias para o paraiso.»

    Margarida era uma virgem candida, matinal como a aurora, fresca como
    ella; todos os dias ao acordar resava as orações, que sua mãe lhe tinha
    ensinado, e vestia-se depois na sua pequenina alcova. E, como não tinha
    joias preciosas nem ricos adornos, dispensava o espelho.

    Depois d'isto, para viver honradamente, punha-se a trabalhar.

    E, ao mesmo tempo cigarra e abelha, trabalhava cantando uma bella canção
    d'amor e de gloria, que já emballára muitos berços, e que podia
    sensibilisar uma alma innocente, sem lhe perturbar a limpidez.

    N'uma tarde de verão, estava ella sentada á porta de casa fiando linho,
    á hora em que as estrellas começam a apparecer, uma a uma no firmamento.

    Estava Margarida cantando a sua canção, quando passou por alli uma das
    suas visinhas, que ia a uma romaria, muito aceiada, com um vestido novo.
    Parou diante de Margarida, para que lhe admirasse os seus brincos e o
    collar d'ouro que levava ao pescoço; apertou-lhe a mão para que visse
    bem o annel que brilhava no seu dedo, e foi-se embora a rir, toda
    contente. E Margarida foi-a seguindo com um olhar d'inveja, o que
    inquietou no paraizo o seu anjo da guarda.

    O fio de linho já não passava tão rapidamente entre os dedos de
    Margarida, a roda cessára o seu barulho monotono, e o fuso caira-lhe das
    mãos.

    Ao cair o fuso despertou do extasi, abriu os olhos, e viu diante de si
    um cavalleiro magnificamente vestido, tendo na mão um gorro de velludo
    preto, com uma pluma vermelha, da côr do fogo. O cavalleiro saudou-a
    respeitosamente, e, com uma voz harmoniosa e galanteadora,
    perguntou-lhe:

    –Qual é o caminho da cidade?»

    Margarida estendeu a mão para lh'o indicar, e o forasteiro inclinando-se
    tirou do dedo um annel d'ouro com um diamante, que brilhava como uma
    estrella, e metteu-o no dedo de Margarida, que o achou mais bello do que
    o annel da sua companheira. O rosto do cavalleiro alumiou-se então com
    um sorriso estranho e diabolico.

    N'isto passou por ali um mendigo coberto de farrapos, parou diante de
    Margarida, e pediu-lhe uma esmola.

    Margarida tirou do dedo o annel, e offereceu-o ao pobre desgraçado.

    O cavalleiro então, soltando um grito de colera, ia lançar-se sobre
    Margarida, mas o mendigo–que era o seu anjo da guarda
    disfarçado–cobriu-a com as azas. E o cavalleiro, isto é Satanás, que
    tinha vindo para a tentar, recuou aniquilado diante do espirito celeste.

    *Um nome inscripto no céo*

    Era uma vez um pobre mendigo, que bateu á porta d'uma humilde cabana a
    pedir esmola, para poder continuar a sua viagem. Mas não vendo, nem
    ouvindo ninguem, abriu a porta de mansinho e entrou no casebre; viu
    então uma pobre velhinha muito doente, que lhe disse:

    –«Ai! não te posso dar nada, porque nada tenho.»

    E foi-se embora o mendigo, voltando d'ali a instantes, a bater á mesma
    porta.

    –Pelo amor de Deus! gritou a velhinha, já te disse que não tenho nada
    que te dar.»

    –Foi por isso que eu voltei–disse em voz baixa o mendigo.

    E, aproximando-se da velha carinhosamente, tirou do bolso, pondo-os em
    cima da meza, muitos bocados de pão e algumas moedas de dez réis, que
    lhe tinham dado depois de ter estado com a velha a primeira vez.

    –Aqui te fica isto, santinha–disse-lhe elle affectuosamente, indo-se
    embora sem que a pobre mulher tivesse tempo de lhe agradecer.»

    Não sabemos qual era o nome do mendigo; mas os anjos escrevel-o-hão no
    Paraizo, e mais tarde nós o viremos a saber.

    *O linho*

    O linho estava coberto de flores admiravelmente bellas, mais delicadas e
    transparentes do que azas de moscas. O sol espalhava os seus raios sobre
    elle, e as nuvens regavam-n'o, o que lhe causava tanto prazer, como o
    d'um filho quando a mãe o lava e lhe dá um beijo.

    –Segundo dizem sou bem bonito, murmurou o linho, estou muito crescido,
    e serei brevemente uma rica peça de panno. Sinto-me feliz. Não ha
    ninguem que seja mais feliz do que eu sou. Tenho saude e um bello
    futuro. A luz acaricia-me, e a chuva encanta-me e refresca-me. Sim, sou
    feliz, feliz a mais não poder ser!»

    –Como és ingenuo! disseram as silvas do vallado; tu não conheces o
    mundo, de que nós outras temos uma larga experiencia.»

    E rangendo lastimosamente, cantaram:

    –Cric, crac! cric, crac! crac!
    –Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

    –Não tão cedo como vocês imaginam, respondeu o linho; está uma bella
    manhã, o sol resplandece, e a chuva faz-me bem; sinto-me crescer e
    florir. Sou muitissimo feliz.»

    Mas um bello dia vieram uns homens que agarraram no linho pela
    cabelleira, arrancaram-n'o com raizes e tudo, e deram-lhe tratos de
    polé. Primeiro mergulharam-n'o em agua, como se o quizessem afogal-o, e
    depois metteram-n'o no lume para o assar. Que crueldade!

    –Não se póde ser mais feliz, pensou o linho de si para si; é necessario
    soffrer, o soffrimento é a mãe da experiencia.»

    Mas as coisas iam de mal para peor. Partiram-n'o, assedaram-n'o,
    cardaram-n'o, e elle sem comprehender o que lhe queriam. Depois,
    puzeram-n'o n'uma roca, e então perdeu a cabeça inteiramente.

    –Era feliz de mais, pensava o desgraçado linho no meio d'aquellas
    torturas; devemo-nos regosijar, mesmo com as felicidades perdidas.»

    E ainda estava dizendo–perdidas, e já o estavam a metter no tear e a
    transformal-o n'uma peça de panno.

    –Isto é extraordinario, nunca o imaginei; que boa sorte a minha, e que
    grandes tolas aquellas silvas quando cantavam:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

    Agora é que eu principio a viver. Padeci muito, é verdade, mas por isso
    tambem agora sou mais feliz do que nunca. Sinto-me tão forte, tão alto,
    tão macio! Ah! isto é bem melhor do que ser planta, mesmo florida,
    ninguem trata da gente, e não bebemos outra agua a não ser a da chuva.
    Agora é o contrario: que cuidados! As raparigas estendem-me todas as
    manhãs, e á noite tomo o meu banho com um regador. A creada do sr. cura
    fez um discurso a meu respeito, e provou perfeitamente que era eu a
    melhor peça da parochia. Não posso ser mais feliz.»

    Levaram o panno para casa, e entregaram-n'o ás thesouras. Cortaram-n'o e
    picaram-n'o com uma agulha. Não era lá muito agradavel, mas em
    compensação fizeram d'elle uma duzia de camizas magnificas.

    –Agora decididamente começo a valer alguma coisa. O meu destino é
    abençoado, porque sou util n'este mundo. É preciso isso para se viver em
    paz, e ser-se feliz. Somos hoje doze pedaços, é verdade, mas formamos um
    só grupo, uma duzia. Que incomparavel felicidade!

    O panno das camisas foi-se gastando com o tempo.

    –Tudo tem fim, murmurou elle. Eu estava disposto a durar ainda, mas não
    se fazem impossiveis.»

    E as camisas foram reduzidas a farrapos, a trapos, e imaginaram que era
    finalmente a sua morte, porque foram rasgados, amaçados, fervidos, sem
    adivinharem o que lhes queriam. Mas de repente transformaram-se em papel
    branco magnifico.

    –Oh que agradável surpreza! exclamou o papel, agora sou muito mais fino
    do que d'antes, e vão cobrir-me de letras. O que não escreverão em cima
    de mim! Tenho uma fortuna maravilhosa!»

    E escreveram n'elle as mais bellas historias, que foram lidas deante de
    numeros ouvintes, e os tornaram mais sabios e melhores.

    –Ora aqui está uma cousa muito superior a tudo que eu tinha imaginado,
    quando vivia na terra, coberto de flores. Como poderia eu imaginar que
    ainda havia de servir para alegrar e instruir os homens! Não sei
    explicar o que me está acontecendo, mas é verdade. Deus sabe
    perfeitamente que nunca fui ambicioso, e que nunca me queixei da minha
    sorte; foi Elle que gradualmente me elevou, até chegar á maior gloria.
    Cada vez que me lembro da cantiga das silvas: «Acabou-se, acabou-se»
    tudo pelo contrario se me apresenta debaixo do aspecto mais risonho. Vou
    viajar, percorrer o mundo inteiro, para que todos me possam ler e
    instruir-se. Antigamente eu estava carregado de florinhas azues; agora
    as minhas flores são os mais elevados pensamentos. Sinto-me feliz,
    immensamente feliz!»

    Mas o papel não foi viajar; entregaram-n'o ao typographo, e tudo que lá
    estava escripto, foi impresso para fazer um livro, milhares de livros,
    que recrearam e instruiram uma infinidade de pessoas. O nosso bocado de
    papel não teria prestado o mesmo serviço, ainda que desse a volta á roda
    do mundo. A meio caminho já estaria gasto.

    –É justo, disse o papel, não tinha pensado n'isso. Fico em casa, e vou
    ser considerado como um velho avô! fui eu que recebi as letras, as
    palavras cahiram directamente da pena sobre mim, fico no meu logar, e os
    livros vão por esse mundo fóra. A sua missão é realmente bella, e eu
    estou contente, e julgo-me feliz.

    O papel foi empacotado, e lançado para uma estante.

    –Depois do trabalho é agradável o descanço, pensou elle. É n'este
    isolamento que a gente aprende a conhecer-se. Só d'hoje em diante é que
    eu sei o que contenho, e conhecermo-nos a nós mesmo é a verdadeira
    perfeição. Que me irá ainda acontecer? Progredir, está claro.»

    Passados tempos, o papel foi atirado ao fogão para o queimarem, porque o
    que o não queriam vender ao merceeiro para embrulhar assucar. E todas as
    creanças da casa se pozeram á roda; queriam vel-o arder, e ver também,
    depois da lavareda, as milhares de faiscas vermelhas, que parecem fugir,
    e se apagam instantaneamente uma apoz outra. O masso inteiro de papel
    foi atirado ao lume. Oh! como elle ardia! Tornara-se n'uma grande
    chamma, que se erguia tão alto, tão alto como o linho nunca erguêra as
    suas flores azues; a peça de panno nunca tinha tido um brilho
    semilhante.

    Todas as letras, durante um segundo, se tornaram vermelhas: todas as
    palavras, todas as idèas desappareceram em linguas de fogo.

    –«Vou subir até ao sol;» dizia uma voz no meio da lavareda, que
    pareciam mil vozes reunidas n'uma só. A chamma saiu pela chaminé, e no
    meio d'ella volteavam pequeninos seres invisiveis para os olhos do
    homem. Eram tantos quantos tinham sido as flores que o linho tinha dado.
    Mais leves que a chamma, de quem eram filhos, quando ella se extinguiu,
    quando não restava do papel senão a cinza negra, ainda elles dançavam
    sobre essa cinza, e formavam, tocando-a, pequeninas scentelhas
    encarnadas.

    As creanças cantavam á roda da cinza inanimada:

    Cric, crac! cric, crac! crac!
    Acabou-se! acabou-se! acabou-se!

    Mas cada um dos pequeninos seres dizia: «Não, não se acabou; agora é que
    é o melhor da festa. Sei-o, e julgo-me feliz.»

    As creanças não poderam ouvir, nem comprehender estas palavras; mas
    tambem não era necessario, porque as creanças não devem saber tudo.

    FIM.

    *INDICE*

    A mãe
    O ouro
    Doçura e bondade
    O malmequer
    Não quero
    Piloto
    O rico e o pobre
    Como um camponez aprendeu o Padre Nosso
    O talisman
    A alma
    Alberto
    A canção da cerejeira
    Os gigantes da montanha e os anões da planície
    A creança, o anjo e flôr
    Presente por presente
    O pinheiro ambicioso
    Perfeição das obras de Deus
    João e os seus camaradas
    O rabequista
    Os pecegos
    A urna das lagrimas
    Reconhecimento e ingratidão
    O fato novo do sultão
    Boa sentença
    Os animaes agradecidos
    O ermitão
    Carlos Magno e o abade de S. Gall
    A boneca
    Inconveniente da riqueza
    Querer é poder
    Qual será rei?
    Os três véos de Maria
    Os pequenos no bosque
    O chapellinho encarnado
    Os cinco sonhos
    A egreja do rei
    O valente soldado de chumbo
    João Pateta
    Branca de Neve
    A rapariguinha e os phosphoros
    O primeiro peccado de Margarida
    Um nome inscripto no céo
    O linho

    [A propriedade d'este livro pertence no Brazil ao sr. Luiz d'Andrade,
    residente no Rio de Janeiro.]

  • Constituição politica da Monarchia portugueza

    Constituição politica da Monarchia portugueza

    Aproximadamente 7.595 palavras.

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    Team. The images of this book were kindly provided by the Biblioteca
    Nacional Digital (http://bnd.bn.pt).

    *CONSTITUIÇÃO POLITICA*

    DA

    MONARCHIA PORTUGUEZA.

    LISBOA

    NA IMPRENSA NACIONAL.

    1838.

    EDIÇÃO OFFICIAL.

    Dona Maria por Graça de Deos, e pela Constituição da Monarchia, Rainha
    de Portugal, e dos Algarves d'aquem e d'alem mar, em Africa Senhora de
    Guiné, e da Conquista, Navegação e Commercio da Ethiopia, Arabia, Persia
    e da India, etc. Faço saber a todos os Meus Subditos, que as Côrtes
    Geraes, Extraordinarias, e Constituintes decretaram, e Eu acceitei, e
    jurei a seguinte

    CONSTITUIÇÃO POLITICA

    DA

    MONARCHIA PORTUGUEZA.

    TITULO I.

    _Da Nação Portugueza, seu Territorio, Religião, Govêrno e Dynastia._

    CAPITULO UNICO.

    Artigo 1.º A Nação Portugueza é a associação politica de todos os
    Portuguezes.

    Art. 2.º O territorio portuguez comprehende:

    Na Europa, as Provincias de Tras-os-Montes, Minho, Beira, Estremadura,
    Alen-Tejo, o Reino do Algarve, e as Ilhas adjacentes da Madeira e
    Porto-Santo, e dos Açores;

    Na Africa Occidental, Bissau e Cacheu, o Forte de S. João Baptista
    d'Ajudá na Costa da Mina, Angola e Benguella e suas dependencias,
    Cabinda e Molembo, as Ilhas de Cabo-Verde, as de S. Thomé e Principe, e
    suas dependencias;

    Na Africa Oriental, Moçambique, Rios de Senna, Bahia de Lourenço
    Marques, Sofalla, Inhambane, Quelimane, e as Ilhas de Cabo-Delgado;

    Na Asia, Salsete, Bardez, Gôa, Damão, Diu, o estabelecimento de Macau, e
    as Ilhas de Timor e Solor.

    §. _unico_. A Nação não renuncía a qualquer outra porção de territorio a
    que tenha direito.

    Art. 3.º A Religião do Estado é a Catholica Apostolica Romana.

    Art. 4.º O govêrno da Nação Portugueza é Monarchico-hereditario e
    representativo.

    Art. 5.º A dynastia reinante é a da Serenissima Casa de Bragança,
    continuada na Pessoa da Senhora Dona Maria II, actual Rainha dos
    Portuguezes.

    TITULO II.

    _Dos Cidadãos Portuguezes_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 6.º São Cidadãos portuguezes:

    I. Os filhos de pae portuguez nascidos em territorio portuguez ou
    estrangeiro;

    II. Os filhos legitimos de mãe portugueza e pae estrangeiro, nascidos em
    territorio portuguez, se não declararem que preferem outra naturalidade;

    III. Os filhos illegitimos de mâe portugueza que nascerem em territorio
    portuguez, ou que havendo nascido em paiz estrangeiro, vierem
    estabelecer domicilio em qualquer parte da Monarchia;

    IV. Os expostos em territorio portuguez cujos paes forem desconhecidos;

    V. Os filhos de pae portuguez que tiver perdido a qualidade de Cidadão,
    uma vez que declarem, perante qualquer Camara Municipal, que querem ser
    Cidadãos portuguezes;

    VI. Os estrangeiros naturalizados;

    VII. Os libertos.

    Art. 7.º Perde os direitos de Cidadão portuguez:

    I. O que for condemnado no perdimento delles por sentença;

    II. O que se naturalizar em paiz estrangeiro;

    III. O que sem licença do Govêrno acceitar mercê lucrativa ou honorifica
    de qualquer govêrno estrangeiro.

    Art. 8.º Suspende-se o exercicio dos direitos politicos:

    I. Por incapacidade physica ou moral;

    II. Por sentença condemnatoria a prisão ou degrêdo, em quanto durarem os
    seus effeitos.

    TITULO III.

    _Dos direitos e garantias dos Portuguezes_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 9.º Ninguem póde ser obrigado a fazer ou deixar de fazer senão o
    que a lei ordena ou prohibe.

    Art. 10.º A lei é igual para todos.

    Art. 11.º Ninguém póde ser perseguido por motivos de Religião, com tanto
    que respeite a do Estado.

    Art. 12.º Todo o Cidadão póde conservar-se no Reino, ou sahir delle e
    levar comsigo os seus bens, uma vez que não infrinja os regulamentos de
    policia, e salvo o prejuizo público ou particular.

    Art. 13.º Todo o Cidadão póde communicar os seus pensamentos pela
    imprensa ou por qualquer outro modo, sem dependencia de censura prévia.

    §. 1.º A lei regulará o exercicio deste direito; e determinará o modo de
    fazer effectiva a responsabilidade pelos abusos nelle commettidos.

    §. 2.º Nos processos de liberdade de Imprensa, o conhecimento do facto e
    a qualificação do crime pertencerão exclusivamente aos Jurados.

    Art. 14.º Todos os Cidadãos tem o direito de se associar na conformidade
    das leis.

    §. 1.º São permittidas, sem dependencia de authorizaçâo prévia, as
    reuniões feitas tranquillamente e sem armas.

    §. 2.º Quando porém se reunirem em logar descuberto, os Cidadãos darão
    préviamente parte á authoridade competente.

    §. 3.º A fôrça armada não poderá ser empregada para dissolver qualquer
    reunião, sem preceder intimação da authoridade competente.

    §. 4.º Uma lei especial regulará, em quanto ao mais, o exercicio deste
    direito.

    Art. 15.º E' garantido o direito de petição. Todo o Cidadão póde, não só
    apresentar aos Podêres do Estado reclamações, queixas e petições sôbre
    objectos de interêsse público ou particular, mas tambem expôr quaesquer
    infracções da Constituição ou das leis, e requerer a effectiva
    responsabilidade dos infractores.

    Art. 16.º A casa do Cidadão é inviolavel,

    De noite sómente se poderá entrar nella:

    I. Por seu consentimento;

    II. Em caso de reclamação feita de dentro;

    III. Por necessidade de soccorro;

    IV. Para aboletamento de tropa feito por ordem da competente
    authoridade.

    De dia sómente se póde entrar na casa do Cidadão, nos casos e pelo modo
    que a lei determinar.

    Art. 17.º Ninguem póde ser preso sem culpa formada, excepto nos casos
    declarados na lei; e nestes, dentro de vinte e quatro horas contadas da
    entrada da prisão sendo em logar proximo da residencia da respectiva
    authoridade, e nos logares remotos dentro de um praso razoavel que a lei
    marcará, a respectiva authoridade, por uma nota por ella assignada, fará
    constar ao reo o motivo da prisão, os nomes dos accusadores e os das
    testemunhas havendo-as.

    §. 1.º Ainda com culpa formada, ninguem será conduzido á prisão ou nella
    conservado, se prestar fiança idonea nos casos em que a lei a admitte; e
    em geral, nos crimes que não tiverem maior pena que a de seis mezes de
    prisão ou destêrro, poderá o reo livrar-se sôlto.

    §. 2.º A' excepção de flagrante delicto, a prisão não póde ser executada
    senão por ordem escripta da authoridade competente. Se a ordem for
    arbitraria, a authoridade que a deu será punida na conformidade das
    leis.

    §. 3.º O que fica disposto ácerca da prisão sem culpa formada, não é
    applicavel ás Ordenanças Militares para a disciplina e recrutamento do
    Exército e Armada; nem comprehende os casos em que a lei determina a
    prisão de alguem por desobedecer á authoridade legítima, ou por não
    cumprir alguma obrigação dentro do praso determinado.

    Art. 18.º Ninguem será julgado senão pela authoridade competente, nem
    punido senão por lei anterior.

    Art. 19.º Nenhuma authoridade póde avocar as causas pendentes,
    sustá-las, ou fazer reviver os processos findos.

    Art. 20.º Ficam abolidos todos os privilegios que não forem
    essencialmente fundados em utilidade pública.

    §. _único_. A' excepção das causas que por sua natureza pertencerem a
    juizos particulares na conformidade das leis, não haverá fôro
    privilegiado nem commissões especiaes.

    Art. 21.º Ficam prohibidos os açoutes, a tortura, a marca de ferro, e
    todas as mais penas e tratos crueis.

    Art. 22.º Nenhuma pena passará da pessoa do delinquente: não haverá, em
    caso algum, confiscação de bens, nem a infamia dos reos se transmittirá
    aos parentes.

    Art. 23.º E' garantido o direito de propriedade. Com tudo, se o bem
    público, legalmente verificado, exigir o emprêgo ou damnificação de
    qualquer propriedade, será o proprietario préviamente indemnizado. Nos
    casos de extrema e urgente necessidade, poderá o proprietário ser
    indemnizado depois da expropriação ou damnificação.

    §. 1.º E' garantida a dívida nacional.

    §. 2.º E' irrevogavel a venda dos Bens Nacionaes feita na conformidade
    das leis.

    §. 3.º E' permittido todo o genero de trabalho, cultura, indústria e
    commércio, salvas as restricções da lei por utilidade pública.

    §. 4.º Garante-se aos inventores a propriedade de suas descubertas, e
    aos escriptores a de seus escriptos, pelo tempo e na forma que a lei
    determinar.

    Art. 24.º Ninguém é isento de contribuir, em proporção de seus haveres,
    para as despezas do Estado.

    Art. 25.º E' livre a todo o Cidadão resistir a qualquer ordem que
    manifestamente violar as garantias individuaes, se não estiverem
    legalmente suspensas.

    Art. 26.º Os empregados públicos são responsaveis por todo o abuso e
    omissão pessoal no exercicio de suas funcções, ou por não fazer
    effectiva a responsabilidade de seus subalternos. Haverá contra elles
    acção popular por subôrno, peita, peculato ou concussão.

    Art. 27.º O segredo das cartas é inviolavel.

    Art. 28.º A Constituição tambem garante:

    I. A instrucção primaria e gratuita;

    II. Estabelecimentos em que se ensinem as sciencias, lettras e artes;

    III. Os soccorros públicos;

    IV. A nobreza hereditaria e suas regalias puramente honorificas.

    Art. 29.º O ensino público é livre a todos os Cidadãos, com tanto que
    respondam, na conformidade da lei, pelo abuso deste direito.

    Art. 30.º Todo o Cidadão póde ser admittido aos cargos publicos, sem
    mais differença que a do talento, merito e virtudes.

    Art. 31.º E' garantido o direito a recompensas por serviços feitos ao
    Estado, na fórma das leis.

    Art. 32.º As garantias individuaes podem ser suspensas por acto do Podêr
    Legislativo, nos casos de rebellião ou invasão de inimigo, e por tempo
    certo e determinado.

    §. 1.º Se as Côrtes não estiverem reunidas, e se verificar algum dos
    casos acima mencionados, correndo a Patria perigo imminente, poderá o
    Govêrno decretar provisoriamente a suspensão das garantias.

    §. 2.º O Decreto da suspensão incluirá no mesmo contexto a convocação
    das Côrtes para se reunirem dentro de quarenta dias; sem o que, será
    nullo e de nenhum effeito.

    §. 3.º O Govêrno revogará immediatamente a suspensão das garantias por
    elle decretada logo que cesse a necessidade urgente que a motivou.

    §. 4.º A Lei ou Decreto que suspender as garantias designará
    expressamente as que ficam suspensas.

    §. 5.º Durante o período de eleições geraes para Deputados, em caso
    algum poderá o Govêrno suspender as garantias.

    §. 6.º Quando o Govêrno tiver suspendido as garantias, dará conta ás
    Côrtes, logo que se reunirem, do motivo da suspensão, e lhes apresentará
    um relatorio documentado das medidas de prevenção que por ésta occasião
    tiver tomado.

    TITULO IV

    _Dos Podêres Politicos_.

    *CAPITULO ÚNICO*.

    Art. 33.º A Soberania reside essencialmente em a Nação, da qual emanam
    todos os podêres politicos.

    Art. 34.º Os podêres politicos são o Legislativo, o Executivo e o
    Judiciario.

    §. 1.º O Podêr Legislativo compete ás Côrtes com a Sancção do Rei.

    §. 2.º O Executivo ao Rei, que o exerce pelos Ministros e Secretários
    d'Estado.

    §. 3.º O Judiciario aos Juizes e Jurados na conformidade da lei.

    Art. 35.º Os poderês politicos são essencialmente independentes: nenhum
    póde arrogar as attribuiçôes do outro.

    TITULO V.

    _Do Podêr Legislativo_.

    *CAPITULO PRIMEIRO*.

    _Das Côrtes e suas attribuições_.

    Art. 36.º As Côrtes compoem-se de duas Camaras: Camara de Senadores, e
    Camara de Deputados.

    Art. 37.º Compete ás Côrtes:

    I. Fazer as leis, interpretá-las, suspendê-las e revogá-las;

    II. Velar na observância da Constituição e das leis, e promover o bem
    geral da Nação;

    III. Tomar juramento ao Rei, Regente ou Regencia, e ao Principe Real;

    IV. Eleger o Regente nos casos em que a Constituição o prescreve; e
    marcar os limites da sua authoridade, ou elle seja electivo ou chamado
    pelo direito da successão;

    V. Reconhecer o Principe Real como successor da Corôa, na primeira
    reunião depois do seu nascimento, e approvar o plano de sua educação;

    VI. Nomear tutor ao Rei menor, não sendo vivo seu Pae ou Avô, ou não,
    lhe tendo sido nomeado em testamento;

    VII. Confirmar o tutor nomeado pelo Rei, se este abdicar ou sahir do
    Reino;

    VIII. Resolver as dúvidas que occorrerem sôbre a successão da Corôa;

    IX. Approvar, antes de serem ratificados, os tratados de alliança,
    subsidios, commércio, troca ou cessão de alguma porção de territorio
    portuguez ou de direito a ella;

    X. Fixar annualmente, sôbre proposta ou informação do Govêrno, as fôrças
    de terra e mar;

    XI. Conceder ou negar a entrada de fôrças estrangeiras de terra ou de
    mar;

    XII. Votar annualmente os impostos, e fixar a receita e despeza do
    Estado;

    XIII. Authorizar o Govêrno para contrahir emprestimos, estabelecendo ou
    approvando préviamente, excepto nos casos de urgencia, as condicções com
    que devem ser feitos;

    XIV. Estabelecer meios convenientes para o pagamento da dívida pública;

    XV. Regular a administração dos Bens Nacionaes, e decretar a sua
    alienação;

    XVI. Crear ou supprimir empregos, e estabelecerlhes ordenado;

    XVII. Determinar o valor, pêso, lei, inscripção, typo e denominação das
    moedas, assim como o padrão dos pesos e medidas.

    Art. 38.º Cada uma das Camaras, no princípio das sessões ordinarias,
    examinará se a Constituição e as leis tem sido observadas.

    Art. 39.º Cada uma das Camaras tem o direito de proceder, por meio de
    commissões de inquérito, ao exame de qualquer objecto de sua
    competencia.

    Art. 40.º Nenhuma das Camaras póde tomar resolução alguma sem que esteja
    presente a maioria da totalidade de seus membros.

    Art. 41.º Haverá em cada anno uma sessão ordinaria de Côrtes, que nunca
    poderá durar menos de tres meses: no caso de dissolução, os tres meses
    principiarão a contar-se da reunião da nova Camara dos Deputados.

    Art. 42.º A sessão de abertura será sempre celebrada no dia dois de
    Janeiro: e assim ésta como a de encerramento serão Reaes.

    §. _unico_. Tanto uma como outra se farão em Côrtes Geraes, reunidas
    ambas as Camaras, e ficando os Senadores á direita e os Deputados á
    esquerda.

    Art. 43.º Cada uma das Camaras elege o seu Presidente, Vice-Presidente e
    Secretarios.

    Art. 44.º As sessões de ambas as Camaras serão públicas, excepto nos
    casos em que o bem do Estado exigir que sejam secretas.

    Art. 45.º Na reunião de ambas as Camaras, o Presidente da Camara dos
    Senadores dirige os trabalhos.

    Art. 46.º Ninguem póde ser ao mesmo tempo membro de ambas as Camaras.

    Art. 47.º Os Senadores e os Deputados são invioláveis por suas opiniões
    e votos em Côrtes.

    Art. 48.º Nenhum Senador ou Deputado póde ser preso sem ordem da
    respectiva Camara, excepto nos casos de flagrante delicto.

    §. _unico_. Se algum Senador ou Deputado for pronunciado, o Juiz
    suspendendo todo o ulterior procedidimento, dará conta á respectiva
    Camara; a qual decidirá se o processo hade continuar, e se o Deputado ou
    Senador pronunciado deve ser ou não suspenso do exercicio de suas
    funcções.

    Art. 49.º Nenhum Senador ou Deputado, desde o dia em que a sua eleição
    constar na competente Secretaría d'Estado, póde acceitar, ou solicitar
    para si ou parente seu, pensão ou condecoração alguma, nem emprêgo
    provido pelo Govêrno, salvo se lhe competir por antiguidade ou escala na
    carreira da sua profissão.

    Art. 50.º Os Senadores e Deputados podem ser nomeados Ministros e
    Secretarios d'Estado, deixando immediatamente vagos os seus logares: mas
    desde logo se procederá a nova eleição, e se forem reeleitos, poderão
    cumular ambas as funcções.

    Art. 51.º Os Senadores e Deputados, durante o tempo das sessões, ficam
    inhibidos do exercício de qualquer emprêgo, excepto do de Ministro e
    Secretario d'Estado.

    §. _unico_. No intervallo das Sessões não irão exercer os seus empregos,
    nem poderão ser empregados pelo Govêrno quando isso os impossibilite de
    se reunirem no tempo da convocação das Côrtes Ordinarias.

    Art. 52.º Nos casos em que o bem do Estado exigir que algum Senador ou
    Deputado sáia das Côrtes para outro serviço, a respectiva Camara o
    poderá authorizar.

    *CAPITULO SEGUNDO*.

    _Da Camara dos Deputados_.

    Art. 53.º A Camara dos Deputados é electiva e triennal.

    Art. 54.º E' privativa da Camara dos Deputados a iniciativa:

    I. Sôbre impostos;

    II. Sôbre recrutamento.

    Art. 55.º Tambem principiará na Camara dos Deputados a discussão das
    propostas do Podêr Executivo.

    Art. 56.º E' privativa attribuição da mesma Camara decretar a accusação
    dos Ministros e Secretarios de Estado.

    Art. 57.º Os Deputados tem direito a um subsidio durante as sessões, e a
    serem, indemnizados pelas despezas de vinda e volta.

    §. _unico. Os Deputados das Provincias d'Asia e d'Africa que não tiverem
    domicilio no continente do Reino e ilhas adjacentes, vencerão tambem um
    subsidio no intervallo das sessões.

    *CAPITULO TERCEIRO*.

    _Da Camara dos Senadores_.

    Art. 58.º A Camara dos Senadores é electiva e temporaria.

    Art. 59.º O número dos Senadores será, pelo menos, igual á metade do
    número dos Deputados.

    Art. 60.º O Principe Real, logo que complete dezoito annos de idade, é
    Senador de direito; mas só tem voto aos vinte e cinco annos.

    Art. 61.º E' privativa attribuição da Camara dos Senadores:

    I. Conhecer dos delictos individuaes commettidos pelos membros da
    Familia Real, pelos Ministros e Secretarios d'Estado, e pelos Senadores
    e Deputados;

    II. Conhecer da responsabilidade dos Ministros e Secretarios d'Estado.

    §. _unico_. Nos crimes cuja accusação não pertencer á Camara dos
    Deputados, accusará o Procurador Geral da Corôa.

    Art. 62.º Todas as vezes que se houver de proceder a eleições geraes
    para Deputados, a Camara dos Senadores será renovada em a metade de seus
    membros. Se o número total dos Senadores for impar, sahirá a metade e
    mais um.

    §._unico_. Na primeira renovação do Senado decidirá a sorte os membros
    que devem sahir, e nas subsequentes a antiguidade da eleição de cada um.

    Art. 63.º As sessões da Camara dos Senadores começam e acabam ao mesmo
    tempo que as da Camara dos Deputados, excepto quando a Camara dos
    Senadores se constituir em Tribunal de Justiça.

    *CAPITULO QUARTO*.

    _Da proposição, discussão e promulgação das Leis_.

    Art. 64.º A proposição, discussão e approvação dos projectos de lei
    compete a cada uma das Camaras.

    §. _unico_. As propostas do Podêr Executivo, só depois de examinadas por
    uma commissâo da Camara dos Deputados, poderão ser convertidas em
    projectos de lei.

    Art. 65.º Os Ministros e Secretarios d'Estado podem tomar parte nas
    discussões das Camaras, mas sómente votarão naquella de que forem
    membros.

    Art. 66.º Os projectos de lei approvados em uma Camara serão remettidos
    á outra: se esta os não approvar, ficam rejeitados; se lhes fizer
    alterações, com ellas serão reenviados á Camara onde tiveram origem.

    Art. 67.º Quando a Camara em que teve origem o projecto não approvar as
    alterações, e permanecer todavia convencida da sua utilidade, deverá o
    projecto ser examinado por uma commissão mixta de igual número de
    Senadores e Deputados.

    §. 1.º Aquillo em que a commissão accordar, será considerado como novo
    projecto de lei, para haver de ser approvado ou rejeitado por cada uma
    das Camaras.

    §. 2.º A discussão do novo projecto começará na Camara em que teve
    origem o primeiro.

    Art. 68.º Quando ambas as Camaras concordarem em um projecto de lei,
    aquella que ultimamente o approvar, o reduzirá a Decreto, e o submetterá
    á Sanccão do Rei.

    Art. 69.º Os projectos de lei sobre impostos e recrutamento que forem
    alterados na Camara dos Senadores, voltarão á dos Deputados; e o que
    ésta deffinitivamente resolver, será reduzido a Decreto e apresentado á
    Sanccão Real.

    Art. 70.º Sanccionada a lei, será promulgada pela fórmula seguinte:

    "Dom (F….), por Graça de Deus e pela Constituição da Monarchia, Rei de
    Portugal e dos Algarves etc. Fazemos saber a todos os Nossos subditos
    que as Côrtes Gerais decretaram e Nós Sanccionámos a lei seguinte: (A
    integra da lei nas suas disposições somente). Mandâmos por tanto a todas
    as authoridades a quem o conhecimento e execução da referida lei
    pertencer, que a cumpram e guardem e façam cumprir e guardar tam
    inteiramente como nella se contêm. O Ministro e Secretario d'Estado de
    … (o da repartição competente) a faça imprimir, publicar e correr."

    *CAPITULO QUINTO*.

    _Das Eleições_.

    Art. 71.º A nomeação dos Senadores e Deputados é feita por eleição
    directa.

    Art. 72.º Tem direito de votar nestas eleições todos os Cidadãos
    portuguezes que estiverem no gôso de seus direitos civis e politicos,
    que tiverem vinte e cinco annos d idade, e uma renda líquida annual de
    oitenta mil réis proveniente de bens de raiz, commercio, capitães,
    indústria ou emprêgo.

    §. _unico_. Por indústria se intende tanto a das artes liberaes como a
    das fabrís.

    Art. 73.º São excluidos de votar:

    I. Os menores de vinte e cinco annos: o que não comprehende os officiaes
    do Exército e Armada de vinte e um annos; os casados da mesma idade, e
    os Bachareis formados e Clerigos de Ordens Sacras;

    II. Os Criados de servir: nos quaes senão comprehendem os guarda livros
    e caixeiros que por seus ordenados tiverem a renda annual de oitenta mil
    réis, os criados da Casa Real que não forem de gallão branco, e os
    administradores de fazendas ruraes e fábricas;

    III. Os libertos;

    IV. Os pronunciados pelo Jury;

    V. Os fallidos, em quanto não forem julgados do boa fé.

    Art. 74.º São habeis para ser eleitos Deputados todos os que podem
    votar, e que tiverem de renda annual quatrocentos mil réis, provenientes
    das mesmas fontes declaradas no Artigo 72.

    §. _unico_. Exceptuam-se os estrangeiros naturalizados.

    Art. 75.º São respectivamente inelegiveis:

    I. Os Magistrados administrativos nomeados pelo Rei, e os Secretarios
    geraes delles, nos seus respectivos districtos;

    II. Os Governadores geraes do Ultramar, nas suas provincias.

    III. Os Contadores geraes de Fazenda, nos seus districtos.

    IV. Os Arcebispos, Bispos, Vigarios capitulares e Governadores
    temporaes, nas suas dioceses;

    V. Os Parochos, nas suas freguezias;

    VI. Os Commandantes das Divisões Militares, nas suas divisões;

    VII. Os Governadores Militares das Praças de guerra, dentro das mesmas
    praças;

    VIII. Os Commandantes dos corpos de primeira linha, pelos militares
    debaixo do seu immediato commando;

    IX. Os Juizes de primeira-instancia e seus substitutos nas commarcas em
    que exercem jurisdicção;

    X.. Os Delegados do Procurador Regio nas commarcas em que exercem as
    suas funcções;

    XI. Os Juizes dos Tribunaes de segunda-instancia, e os Procuradores
    Regios junto a elles, nos districtos administrativos em que estiver a
    séde da sua Relação.

    §. _unico_. Não se comprehendem nesta exclusão os juizes do Tribunal
    commercial de segunda-instancia, nem os Conselheiros do Supremo Tribunal
    de Justiça.

    Art. 76.º A metade dos Deputados eleitos por qualquer círculo eleitoral,
    deverão ter naturalidade ou residencia d'um anno na provincia em que
    estiver collocada a capital do círculo: a outra ametade poderá ser
    livremente escolhida d'entre quaesquer Cidadãos portuguezes.

    §. _unico_. No círculo eleitoral que der número impar de Deputados,
    ametade e mais um deverá ter naturalidade ou residencia d'um anno na
    provinda da capital do círculo.

    Art. 77.º Só podem ser eleitos Senadores os que tiverem trinta e cinco
    annos de idade, e estiverem comprehendidos em alguma das seguintes
    cathegorias:

    I. Os proprietarios que tiverem de renda annual dois contos de réis;

    II. Os commerciantes e fabricantes, cujos lucros annuaes forem avaliados
    em quatro contos de réis;

    III. Os Arcebispos e Bispos com diocese no Reino e Provincias
    Ultramarinas;

    IV. Os Conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça;

    V. Os Lentes de Prima da Universidade de Coimbra, o Lente mais antigo da
    Eschola Polythechnica de Lisboa, e o da Academia Polythechnica do Porto;

    VI. Os Marechaes do Exército, Tenentes-Generaes e Marechaes de Campo;

    VII. Os Almirantes, Vice-Almirantes e Chefes de Esquadra;

    VIII. Os Embaixadores e os Enviados Extraordinarios Ministros
    Plenipotenciarios, com cinco annos de exercicio na carreira diplomatica.

    Art. 78.º Os elegiveis para Senadores podem ser eleitos por qualquer
    círculo eleitoral, posto que nelle não residam nem tenham naturalidade.

    Art. 79.º São applicaveis á eleição dos Senadores as exclusões
    declaradas no Artigo 75.

    TITULO VI

    _Do Podêr Executivo_.

    *CAPITULO PRIMERIO*.

    _Do Rei._.

    Art. 80.º O Rei é o Chefe do Podêr Executivo, e o exerce pelos Ministros
    e Secretarios d'Estado.

    Art. 81.º Compete ao Rei:

    I. Sanccionar e promulgar as leis;

    II. Convocar extraordinariamente as Cortes, prorogá-las e addiá-las;

    III. Dissolver a Camara dos Deputados quando assim o exigir a salvação
    do Estado.

    §. 1.º Dissolvida a Camara dos Deputados, será renovada a dos Senadores
    na fórma do Artigo 62.

    §. 2.º O Decreto da dissolução mandará necessariamente proceder a novas
    eleições dentro de trinta dias, e convocará as Côrtes para se reunirem
    dentro de noventa dias: sem o que, será nullo e de nenhum effeito.

    Art. 82.º Compete também ao Rei:

    I. Nomear e demittir livremente os Ministros e Secretarios d'Estado;

    II. Prover os empregos civis e militares na conformidade das Leis;

    III. Nomear os Embaixadores e mais agentes diplomaticos e commerciaes;

    IV. Nomear Bispos, e prover os Beneficios Ecclesiasticos;

    V. Nomear e remover os Commandantes da fôrça armada de terra e mar;

    VI. Suspender os Juizes segundo a lei;

    VII. Empregar a fôrça armada como intender mais conveniente ao bem do
    Estado;

    VIII. Conceder Cartas de naturalização, e privilegios exclusivos a favor
    da indústria, na conformidade das leis;

    IX. Conceder titulos, honras e distincçôes em recompensa de serviços
    feitos ao Estado, e propôr ás Côrtes as mercês pecuniarias que não
    estiverem determinadas por lei.

    X. Perdoar e minorar as penas aos delinquentes, na conformidade das
    leis;

    XI. Conceder amnistia em caso urgente, e quando o pedir a humanidade e o
    bem do Estado;

    XII. Conceder ou negar Beneplacito aos Decretos dos Concilios, Letras
    Pontificias e quaesquer Constituições Ecclesiasticas que se não
    opposerem á Constituição e ás Leis, devendo preceder approvação das
    Côrtes se contiverem disposições geraes;

    XIII. Declarar a guerra e fazer a paz, dando conta ás Côrtes dos motivos
    que para isso teve;

    XIV. Dirigir as negociações politicas com as Nações estrangeiras;

    XV. Fazer tratados de alliança, de subsidios e de commércio, e
    ratificá-los depois de approvados pelas Côrtes.

    Art. 83.º O Rei não póde:

    I. Impedir a eleição dos Deputados e Senadores;

    II. Oppôr-se á reunião das Côrtes no dia dois de Janeiro de cada anno;

    III. Nomear em tempo de paz Commandante em Chefe do Exército ou da
    Armada;

    IV. Commandar a força armada, ou nomear para Commandante em Chefe o
    Principe Real, ou os Infantes;

    V. Perdoar ou minorar as penas aos Ministros e Secretarios d'Estado por
    crimes commettidos no exercicio de suas funcções.

    Art. 84.º O Rei também não póde, sem consentimento das Côrtes:

    I. Ser ao mesmo tempo Chefe de outro Estado;

    II. Sahir do Reino de Portugal e Algarves: e se o fizer, intende-se que
    abdica.

    Art. 85.º A pessoa do Rei é inviolavel é sagrada; e não está sujeita a
    responsabilidade alguma.

    Art. 86.º Seus titulos são: Rei de Portugal e dos Algarves d'aquem e
    d'alem mar, em Africa Senhor de Guiné, e da Conquista, Navegação e
    Commércio da Ethiopia, Arabia, Persia e da India etc.; e tem o
    tratamento de Magestade Fidelissima.

    Art. 87.º O Rei antes de ser acclamado prestará nas mãos do Presidente
    da Camara dos Senadores, reunidas ambas as Camaras, o seguinte
    juramento: "Juro manter a Religião Catholica, Apostolica Romana, a
    integridade do Reino, observar e fazer observar a Constituição Politica
    da Nação Portugueza, e mais leis do Reino, e prover ao bem geral da
    Nação quanto em mim couber."

    *CAPITULO SEGUNDO*.

    _Da Familia Real e sua dotação_.

    Art. 88.º O Herdeiro presumptivo da Corôa tem o titulo de Principe Real,
    e o seu primogenito o de Principe da Beira: o tratamento de ambos é de
    Alteza Real. Todos os mais tem o titulo de Infantes e o tratamento de
    Alteza.

    Art. 89.º O Herdeiro presumptivo, completando dezoito annos de idade,
    prestará nas mãos do Presidente da Camara dos Senadores, reunidas ambas
    as Camaras, o seguinte juramento: "Juro manter a Religião Catholica
    Apostolica Romana, observar a Constituição Politica da Nação Portugueza,
    e ser obediente ás leis e ao Rei."

    Art. 90.º As Côrtes logo que o Rei succeder na Corôa, lhe assignarão, e
    á Rainha sua Esposa, uma dotação correspondente ao decoro de sua Alta
    Dignidade.

    Art. 91.º As Côrtes assignarão tambem alimentos ao Principe Real e aos
    Infantes depois de completarem sette annos.

    Art. 92.º Quando as Princezas ou Infantes houverem de casar, as Cortes
    lhes assignarão dote; e com a entrega delle cessarão os alimentos.

    Art. 93.º Aos Infantes que casarem e forem residir fóra do Reino, se
    entregará por uma vez somente, uma quantia determinada pelas Côrtes; com
    o que, cessarão os alimentos que percebiam.

    Art. 94.º A dotação, alimentos e dotes de que tratam os artigos
    antecedentes, serão pagos pelo Thesouro Público.

    Art. 95.º Os palacios e terrenos Reaes até agora possuidos pelo Rei,
    ficam pertencendo aos seus successores.

    *CAPITULO TERCEIRO*.

    _Da Successão da Corôa_.

    Art. 96.º A successão da Corôa segue a ordem regular de primogenitura e
    representação entre os legitimos descendentes da Rainha actual a Senhora
    Dona Maria II; preferindo sempre a linha anterior ás posteriores; na
    mesma linha, o grau mais proximo ao mais remoto; no mesmo grau, o sexo
    masculino ao femenino; e no mesmo sexo, a pessoa mais velha á mais nova.

    Art. 97.º Extinctas as linhas dos descendentes da Senhora Dona Maria II,
    passará a Coroa ás collateraes; e uma vez radicada a successão em uma
    linha, em quanto ésta durar, não entrará a immediata. Extinctas todas as
    linhas dos descendentes e collateraes, as Côrtes chamarão ao Throno
    pessoa natural destes Reinos; e desde então se regulará a nova successão
    pela ordem estabelecida no artigo 96.

    Art. 98.º A linha collateral do ex-Infante Dom Miguel e de toda a sua
    descendencia é perpetuamente excluida da successão.

    Art. 99.º Se a successão da Corôa recahir em femea, não poderá ésta
    casar senão com Portuguez, precedendo approvação das Côrtes. O Marido
    não terá parte no govêrno, e sómente se chamará Rei depois que tiver da
    Rainha filho ou filha.

    Art. 100.º Nenhum estrangeiro póde succeder na Corôa de Portugal.

    *CAPITULO QUARTO*.

    _Da Regencia na minoridade ou impedimento do Rei._.

    Art. 101.º O Rei é menor até á idade de dezoito annos completos.

    Art. 102.º Durante a minoridade as Côrtes conferirão a Regencia a uma só
    pessoa natural destes Reinos; a qual a exercerá até á maioridade do Rei.

    Art. 103.º Quando o Rei, por alguma causa physica ou moral reconhecida
    pelas Côrtes, se impossibilitar para governar, a Regencia será deferida
    ao immediato successor, se ja tiver completado dezoito annos.

    §. _unico_. Se o immediato successor não tiver completado dezoito annos,
    a Regencia será conferida pelo modo estabelecido no artigo 102.

    Art. 104.º Em quanto se não eleger Regente, governará o Reino uma
    Regencia provisoria, composta dos dous Ministros e Secretarios d'Estado
    mais velhos em idade, e presidida pela Rainha viuva; na falta della,
    pelo irmão mais velho do Rei defunto; e na falta de ambos, pelo
    Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

    Art. 105.º O Regente ou Regencia provisoria prestarão o juramento
    mencionado no Artigo 87, accrescentando a clausula de fidelidade ao Rei;
    e o Regente a de lhe entregar o govêrno logo que Elle chegue á
    maioridade ou cesse o impedimento.

    Art. 106.º A Regencia provisoria prestará juramento, não estando as
    Côrtes reunidas, perante a Camara Municipal da cidade ou villa em que se
    installar.

    Art. 107.º A Regencia provisoria somente despachará os negocios que não
    admittirem dilação; e não poderá nomear nem remover empregados publicos
    senão interinamente.

    Art. 108.º Os actos da Regencia e do Regente são expedidos em nome do
    Rei.

    Art. 109.º Nem a Regencia nem o Regente são responsaveis.

    Art. 110.º Nos casos em que a Constituição manda proceder á eleição de
    Regente, se a Regencia provisoria não decretar, dentro de tres dias, a
    reunião extraordinaria das Côrtes, a obrigação de as convocar incumbe
    successivamente aos ultimos Presidentes e Vice-Presidentes das Camaras
    dos Senadores e Deputados.

    §. _unico_. Se dentro de quinze dias a convocação não tiver sido feita
    por algum dos modos acima declarados, as Côrtes se reunirão no
    quadragessimo dia, sem dependencia de convocação.

    Art. 111.º Se a Camara dos Deputados tiver anteriormente sido
    dissolvida, e no Decreto da dissolução estiverem as novas Côrtes
    convocadas para epocha posterior ao quadragessimo dia contado da morte
    do Rei, os antigos Deputados e Senadores reasummem as suas funcções até
    á reunião dos que vierem substitui-los.

    Art. 112.º Durante a minoridade do Rei será seu tutor quem o Pae lhe
    tiver nomeado em testamento: na falta deste, a Rainha Mãe em quanto se
    conservar viuva; faltando ésta, as Côrtes nomearão para tutor pessoa
    idonea e natural destes Reinos.

    §. _unico_. Quando o Rei menor succeder na Corôa a sua Mãe, será tutor
    delle e dos Infantes o Rei seu Pae.

    Art. 113.º Nunca será tutor do Rei menor o seu immediato successor nem o
    Regente.

    Art. 114.º O successor da Corôa, durante a sua minoridade, não póde
    contrahir matrimonio sem consen-timento das Côrtes.

    *CAPITULO QUINTO*.

    _Do Ministerio_.

    Art. 115.º Todos os actos do Podêr Executivo com a assignatura do Rei,
    serão sempre referendados pelo Ministro e Secretario d'Estado
    competente, sem o que não terão effeito.

    Art. 116.º Os Ministros e Secretários d'Estado são principalmente
    responsáveis:

    I. Pela falta de observancia das leis;

    II. Pelo abuso do podêr que lhes é confiado;

    III. Por traição;

    IV. Por peita, suborno, peculato ou concussão;

    V. Pelo que obrarem contra a liberdade, segurança e propriedade dos
    Cidadãos;

    VI. Por dissipação ou mau uso dos bens publicos.

    Art. 117.º A ordem do Rei vocal ou escripta não salva aos Ministros da
    responsabilidade.

    Art. 118.º Os estrangeiros naturalizados não podem ser Ministros,

    *CAPITULO SEXTO*.

    _Da Fôrça armada_.

    Art. 119.º Todos os Portugueses são obrigados a pegar em armas para
    defender a Constituição do Estado, e a independencia e integridade do
    Reino.

    Art. 120.º O Exército e a Armada constituem a fôrça permanente do
    Estado.

    §. _unico_. Os Officiaes do Exército e da Armada somente podem ser
    privados das suas patentes por sentença proferida em Juizo competente.

    Art. 121.º A Guarda Nacional constitue parte da fôrça pública.

    §. 1.º A Guarda Nacional concorre, pelo modo que a lei determinar, para
    a eleição dos seus Officiaes; e fica sujeita ás authoridades civis,
    excepto nos casos designados pela lei.

    §. 2.º Uma lei especial regulará a composição, organização, disciplina e
    serviço da Guarda Nacional.

    Art. 122.º Toda a fôrça militar é essencialmente obediente: os corpos
    armados não podem deliberar.

    TITULO VII.

    _Do Podêr Judiciário_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 123.º O Poder Judiciário é exercido pelos Juizes e Jurados.

    §. 1.º Haverá Jurados assim no civei como no crime, nos casos e pelo
    modo que a lei determinar.

    §. 2.º Os Juizes de direito são nomeados pelo Rei, e os Juizes
    ordinários eleitos pelo povo.

    §. 3.º Nas causas civeis, e nas criminaes civilmente intentadas, poderão
    as partes nomear Juizes arbitros.

    Art. 124.º Haverá tambem Juizes de Paz que serão electivos.

    §. _unico_. Nenhum processo será levado a Juizo contencioso sem se haver
    intentado o meio de conciliação perante o Juiz de Paz, salvo nos casos
    que a lei exceptuar.

    Art. 125.º Haverá Relações para julgar as causas em segunda e última
    instancia.

    Art. 126.º Haverá um Supremo Tribunal de Justiça para conceder ou negar
    revistas e exercer as mais attribuições marcadas nas leis.

    Art. 127.º Os Juizes de Direito não podem ser privados do seu emprêgo
    senão por sentença.

    §. _unico_. Os Juizes de Direito de primeira instancia serão mudados de
    tres em tres annos de um para outro logar na forma que a lei ordenar.

    Art. 128.º As audiencias de todos os Tribunaes serão públicas, excepto
    nos casos declarados na lei.

    TITULO VIII.

    _Do Govêrno Administrativo e Municipal_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 129.º Haverá em cada Districto administrativo um Magistrado nomeado
    pelo Rei, uma Junta electiva, e um Conselho de Districto igualmente
    electivo: a lei designará as suas funcçôes respectivas.

    Art. 130.º Em cada Concelho uma Camara municipal, eleita directamente
    pelo pôvo, terá a administração económica do Municipio na conformidade
    das leis.

    Art. 131.º Alem dos Magistrados e Corpos electivos, designados nos
    Artigos 129.º e 130.º, haverá todos os mais que a Lei determinar.

    TITULO IX

    _Da Fazenda Nacional_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 132.º Os impostos são votados annualmente: as leis que os
    estabelecem somente obrigam por um anno, se não forem confirmadas.

    Art. 133.º As sommas votadas para qualquer despeza pública não poderão
    ser applicadas para outros fins senão por uma lei que authorize a
    transferencia.

    Art. 134.º A administração e arrecadação dos rendimentos do Estado
    pertence ao Thesouro-Público, salvo nos casos exceptuados pela Lei.

    Art. 135.º Haverá um Tribunal de Contas, cujos Membros serão eleitos
    pela Camara dos Deputados.

    §. 1.º Pertence ao Tribunal de Contas verificar e liquidar as contas da
    receita e despeza do Estado e as de todos os responsaveis para com o
    Thesouro Público.

    §. 2.º Uma lei especial regulará a sua organização e mais attribuições.

    Art. 136.º O Ministro e Secretario d'Estado dos Negócios da Fazenda
    apresentara á Camara dos Deputados, nos primeiros quinze dias de cada
    sessão annual, a conta geral da receita e despeza do anno economico
    findo, e o orçamento da receita e despeza do anno seguinte.

    TITULO X.

    _Das Provincias Ultramarinas_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 137.º As Provincias Ultramarinas poderão ser governadas por leis
    espeiaes segundo exigir a conveniencia de cada uma dellas.

    §. 1.º O Govêrno poderá, não estando reunidas as Côrtes, decretar em
    Conselho de Ministros as providencias indispensaveis para occorrer a
    alguma necessidade urgente de qualquer Provincia ultramarina.

    §. 2.º Igualmente poderá o Governador geral de uma Provincia ultramarina
    tomar, ouvido o Conselho de Govêrno, as providencias indispensaveis para
    acudir a necessidade tão urgente que não possa esperar pela decisão das
    Côrtes ou do Podêr executivo.

    §. 3.º Em ambos os casos o Govêrno submetterá ás Côrtes, logo que se
    reunirem, as providencias tomadas.

    TITULO XI.

    _Da Reforma da Constituição_.

    *CAPITULO UNICO*.

    Art. 138.º A Constituição só poderá ser alterada em virtude de proposta
    feita na Camara dos Deputados.

    Art. 139.º Se a proposta for approvada por ambas as Camaras, e
    sanccionada pelo Rei, será submettida á deliberação das Côrtes
    seguintes; e o que por ellas for approvado, será considerado como parte
    da Constituição, e nella incluído sem dependência de Sancção Real.

    ARTIGO TRANSITORIO.

    As Côrtes ordinárias que primeiro se reunirem depois de dissolvido o
    actual Congresso Constituinte, poderão decidir se a Camara dos Senadores
    ha de continuar a ser de simples eleição popular, ou se de futuro os
    Senadores hão de ser escolhidos pelo Rei sôbre lista triplice proposta
    pelos circulos eleitoraes.

    Lisboa e Palacio das Côrtes, em 20 de Março de 1838.

    José Caetano de Campos, _Deputado pela Divisão eleitoral de Trancoso_,
    Presidente.

    Alberto Carlos Cerqueira de Faria, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Coimbra_.

    Anselmo José Braamcamp, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    Antonio Bernardo da Costa Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Provinda Oriental dos Açôres_.

    Antonio Cabral de Sá Nogueira, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Setubal_.

    Antonio Cesar de Vasconcellos Corrêa, _Deputado pela Divisão eleitoral
    de Santarem_.

    Antonio Fernandes Coelho, _Deputado pela Divisão eleitoral do Porto_.

    Antonio Joaquim Barjona, _Deputado pela Divisão eleitoral de Coimbra_.

    Antonio Joaquim Duarte e Campos, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Evora_.

    Antonio José Pereira Leite, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Provincia Oriental dos Açôres_.

    Antonio José Pires Pereira de Vera, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Villa Real_.

    Antonio Manoel Lopes Vieira de Castro, _Deputado pela Divisão eleitoral
    de Guimarães_.

    Antonio Maria de Albuquerque, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Trancoso_.

    Balthasar Machado da Silva Salasar, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Barcellos_.

    Barão do Casal, _Deputado pela Divisão eleitoral de Alemquer_.

    Barão de Faro, _Deputado pela Divisão eleitoral de Faro_.

    Barão de Noronha, _Deputado pela Divisão eleitoral da Terceira_.

    Barão da Ribeira de Sabrosa, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa
    Real_.

    Basilio Cabral Teixeira de Queiroz, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Béja_.

    Bernardo Gorjão Henriques, _Deputado pela Divisão eleitoral de Thomar_.

    Caetano Xavier Pereira Brandão, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Aveiro_.

    Conde de Lumiares, _Deputado pela Divisão eleitoral de Setubal_.

    Francisco Antonio Pereira de Lemos, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Bragança_.

    Francisco José Barbosa Pereira Couceiro Marreca, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Vianna_.

    Francisco José Gomes da Motta, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa
    Real_.

    Francisco de Mont'Alverne, _Deputado pela Divisão eleitoral de Braga_.

    Francisco Soares Caldeira, _Deputado pela Divisão eleitoral de Leiria_.

    Francisco Fernando de Almeida Madeira, _Deputado pela Divisão eleitoral
    de Leiria_.

    João Alberto Pereira de Azevedo, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Leiria_.

    João Baptista d'Almeida Garrett, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Terceira_.

    João da Cunha Soutto Maior, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vianna_.

    João Gualberto de Pina Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Vizeu_.

    João Lopes de Moraes, _Deputado pela Divisão eleitoral de Arganil_.

    João Manoel Teixeira de Carvalho, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Braga_.

    João Pedro Soares Luna, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    João da Silveira de Lacerda Pinto Teixeira, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Villa Real_.

    João Victorino de Sousa Albuquerque, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Vizeu_.

    Joaquim de Oliveira Baptista, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Arganil_.

    Joaquim Pedro Judice Samora, _Deputado pela Divisão eleitoral de Faro_.

    Joaquim Placido Galvão Palma, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Portalegre_.

    Joaquim Pompilio da Motta Azevedo, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Lamego_.

    José da Costa Sousa Pinto Basto, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Feira_.

    João Soares de Albergaria Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Terceira_.

    José Estevão Coelho de Magalhães, _Deputado pela Divisão eleitoral
    d'Aveiro_.

    José Ferreira Pinto Basto, _Deputado pela Divisão eleitoral d'Aveiro_.

    José Ferreira Pinto Basto Junior, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Lisboa_.

    José Fortunato Ferreira de Castro, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Guimarães_.

    José Ignacio Pereira Derramado, _Deputado pela Divisão eleitoral
    d'Evora_.

    José Joaquim da Costa Pinto, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa
    Real_.

    José Joaquim da Silva Pereira, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Feira_.

    José Liberato Freire de Carvalho, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Lisboa_.

    José Lopes Monteiro, _Deputado pela Divisão eleitoral de Villa Real_.

    José Maria d'Andrade, _Deputado pela Divisão eleitoral de Béja_.

    José Mendes de Mattos, _Deputado pela Divisão eleitoral de Castello
    Branco_.

    José Ozorio de Castro Cabral e Albuquerque, _Deputado pela Dirisão
    eleitoral de Castello Branco_.

    José Pinto Pereira Borges, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vianna_.

    José Pinto Soares, _Deputado pela Divisão eleitoral de Penafiel_.

    José Placido Campeam, _Deputado pela Divisão eleitoral do Porto_.

    José da Silva Passos, _Deputado pela Divisão eleitoral de Porto_.

    José Teixeira Rebello, _Deputado pela Divisão eleitoral da Madeira_.

    Justino Antonio de Freitas, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Coimbra_.

    Leonel Tavares Cabral, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    Lourenço José Moniz, _Deputado pela Divisão eleitoral da Madeira_.

    Luiz Moreira Maia da Silva, _Deputado pela Divisão eleitoral da Feira_.

    Luiz Ribeiro de Sousa Saraiva, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Guarda_.

    Macario de Castro, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lamego_.

    Manoel Alves do Rio, _Deputado pela Divisão eleitoral de Lisboa_.

    Manoel Antonio de Vasconcellos, _Deputado pela Divisão eleitoral da
    Provincia Oriental dos Açôres_.

    Manoel Joaquim Rodrigues Ferreira, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Penafiel_.

    Manoel de Mascaranhas Zuzarte Lobo Coelho de Sande, _Deputado pela
    Divisão eleitoral de Faro_.

    Manoel dos Santos Cruz, _Deputado pela Divisão eleitoral de Santarem_.

    Manoel da Silva Passos, _Deputado pela Divisão eleitoral do Porto_.

    Manoel de Sousa Rebello de Vasconcellos Raivoso, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Thomar_.

    Manoel de Vasconcellos Pereira de Mello, _Deputado pela Divisão
    eleitoral de Lamego_.

    Manoel Vaz Eugenio Gomes, _Deputado pela Divisão eleitoral de Leiria_.

    Marino Miguel Franzini, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vianna_.

    Paulo Midosi, _Deputado pela Divisão eleitoral de Vizeu_.

    Pedro de Sande Salema, _Deputado pela Divisão eleitoral de Thomar_.

    Rodrigo Joaquim de Menezes, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Barcellos_.

    Rodrigo Machado da Silva Salasar, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Barcellos_.

    Roque Francisco Furtado de Mello, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Santarem_.

    Roque Joaquim Fernandes Thomaz, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Coimbra_.

    Theodorico José d'Abranches, _Deputado por Moçambique_.

    Valentim Marcellino dos Santos, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Bragança_.

    Venancio Bernardino de Ochôa, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Bragança_.

    Visconde de Beire, _Deputado pela Divisão eleitoral de Penafiel_.

    Visconde de Fonte Arcada, _Deputado pela Divisão eleitoral de Alemquer_.

    Antonio Joaquim Nunes de Vasconcellos, _Deputado pela Divisão eleitoral
    da Horta_, Secretario.

    Custodio Rebello de Carvalho, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Portalegre_, Secretario.

    Fernando Maria do Prado Pereira, _Deputado pela Divisão eleitoral de
    Alemquer_, Secretario.

    José Gomes d'Almeida Branquinho Feio, _Deputado pela Divisão eleitoral
    da Guarda_, Secretario.

    *ACCEITAÇÃO E JURAMENTO DA RAINHA*.

    ACCEITO, E JURO GUARDAR E FAZER GUARDAR A CONSTITUIÇÃO POLITICA DA
    MONARCHIA PORTUGUEZA, QUE ACABAM DE DECRETAR AS CÔRTES GERAES,
    EXTRAORDINARIAS, E CONSTITUINTES DA MESMA NAÇÃO.

    Paço das Côrtes em quatro d'Abril de mil oitocentos trinta e oito.

    *MARIA SEGUNDA* RAINHA COM GUARDA.

    Por tanto, Mando a todas as Authoridades, a quem o conhecimento e
    execução da referida Constituição Politica pertencer, que a cumpram e
    executem tão inteiramente como nella se contém. O Secretario d'Estado
    dos Negocios do Reino a faça imprimir, publicar, e correr. Dada no
    Palacio das Necessidades em quatro d'Abril de mil oitocentos trinta e
    oito.

    RAINHA com Guarda.

    _Antonio Fernandes Coelho._

    _Carta de Lei pela qual Vossa Magestade Manda cumprir e guardar
    inteiramente a Constituição Politica da Monarchia, que as Côrtes Geraes,
    Extraordinarias, e Constituintes acabam de decretar, na fórma acima
    declarada._

    Para Vossa Magestade vêr.

    _João de Roboredo a fez_.

    A folhas 78 verso do Livro 1.º das Cartas de Lei fica esta registada.
    Secretaria d'Estado dos Negocios do Reino em 4 d'Abril de 1838.

    _Antonio José Dique da Fonsêca Junior._

    INDICE DAS MATERIAS.

    TITULO I. _Da Nação Portuguesa, seu Territorio, Religião, Govêrno e
    Dinastya_ 3

    TITULO II. _Dos Cidadãos Portuguezes_ 4

    TITULO III. _Dos Direitos e garantias dos Portugueses_ 5

    TITULO IV. _Dos Podêres Politicos_ 9

    TITULO V. _Do Podêr Legislativo_ idem.

    TITULO VI. _Do Podêr Executivo_ 17

    TITULO VII. _Do Podêr Judiciario_ 23

    TITULO VIII. _Do Govêrno Administrativo e Municipal_ 24

    TITULO IX. _Da Fazenda Nacional_ idem.

    TITULO X. _Das Provincias Ultramarinas_ 25

    TITULO XI. _Da Reforma da Constituição_ 26
    _Acceitação, e Juramento da
    Rainha_ 31

    *DECRETO*.

    _Considerando os graves inconvenientes, que poderiam resultar da livre
    impressão do Codigo Constitucional: Hei por bem Determinar que a
    impressão e venda da nova Constituição da Monarchia, e as reimpressões,
    que della se fizerem, sejam privativas e exclusivas da Imprensa
    Nacional; e Ordeno que em todas as edições se estampe depois da integra
    da mesma Constituição o presente Decreto para conhecimento do Público, e
    para que ninguem possa allegar ignorancia, procedendo-se contra os
    infractores na conformidade das Leis respectivas. O Secretario d'Estado
    dos Negocios do Reino assim o tenha intendido e faça executar. Paço das
    Necessidades em quatro d'Abril de mil oitocentos trinta e oito._ =
    Rainha. = Antonio Fernandes Coelho.

  • Chronica d’El-Rei D. Affonso III

    Chronica d’El-Rei D. Affonso III

    Aproximadamente 19.331 palavras.

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    Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt).

    BIBLIOTHECA

    DE

    *Classicos Portuguezes*

    Proprietario e fundador

    _MELLO D'AZEVEDO_

    BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

    Proprietario e fundador–MELLO D'AZEVEDO

    (VOLUME LIV)

    CHRONICA

    D'EL-REI D. AFFONSO III

    POR

    RUY DE PINA

    ESCRIPTORIO

    147=RUA DOS RETROZEIROS=147

    LISBOA

    1907

    CHRONICA

    DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE

    D. AFFONSO III

    QUINTO REY DE PORTUGAL,

    COMPOSTA

    POR RUY DE PINA,

    Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.

    FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,

    Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

    OFFERECIDA

    A' MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY

    D. JOAOO V.

    NOSSO SENHOR.

    POR MIGUEL LOPES FERREYRA

    LISBOA OCCIDENTAL

    Na Officina FERREYRIANA.

    M.DCC.XXVIII.

    _Com todas as licenças necessarias_.

    SENHOR

    Continuando com a edição das Chronicas dos Senhores Reis de Portugal,
    gloriosos Predecessores de V. Magestade, continuo tambem na precisa
    obrigação de as offerecer a V. Magestade. Nesta do Senhor Rei D. Affonso
    III verá V. Magestade os caminhos que buscou a Providencia Divina para
    que empunhasse o Scetro um Principe, que para ter menos esperanças do
    trono se achava cazado em França, e verá V. Magestade a felicidade, com
    que soube estabelecer nos seus descendentes a Monarchia, que acrescentou
    com Estados novos, e que soube segurar com a total expulsão dos
    Africanos. Sirva-se V. Magestade de amparar o meu zelo com a sua Real
    benignidade, para que animado com tão soberano favor possa dar á luz as
    Chronicas que faltam. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos muitos
    annos como dezejamos.

    _Miguel Lopes Ferreira_

    AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

    *D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*

    Quinto Conde da Ericeira, do conselho de Sua Magestade, Sargento mór de
    Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados, Perpetuo
    Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Ancião, oitavo Senhor da
    Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa Christina de
    Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de Frazão, S. Payo
    de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S. Bertholameu de Covilhã todas
    na Ordem de Christo. Academico da Academia Real da Historia Portugueza,
    e um dos cinco Censores della.

    Meu Senhor aonde não chega a confiança propria, é necessario buscar o
    amparo alheio. É tão elevada a Magestade, que nem ainda obsequioso me
    atrevo a chegar a ella: e por esta cauza procuro o patrocinio de V.
    Excellencia para que com a sua pessoa consiga o que por mim não posso.
    Espero que V. Excellencia se digne de me fazer esta mercê, porque a
    continuação dos seus estudos, e a grande livraria que tem junto a sua
    erudição, justamente me desculpa para lhe pedir a protecção para um
    livro, que como de Historia da Patria precede a todos na lição, e porque
    sendo offerecido a Sua Magestade pela mão de V. Excellencia terá a
    acceitação que dezejo. Deus guarde a V. Excellencia muitos annos.

    Criado de V. Excellencia

    _Miguel Lopes Ferreira_

    *AMIGO LEITOR*

    Não me podes accuzar de falto de palavra, pois vês que te dou agora a
    Chronica del-Rei D. Affonso III que foi o Quinto Rei desta Monarchia. De
    serem breves as narrações das suas vidas, e summamente compendiadas as
    noticias dos seus governos, não tenho eu a culpa, tem-na os Chronistas
    que, ou não quizeram, ou não souberam. Tudo podia ser, porque a falta em
    semelhante materia procede umas vezes de não haver quem informe, e
    outras de não escreverem, o que todos sabem. Donde nasce que deste
    principio experimentamos o dano, porque desprezaram escrever o que era
    sabido, e desta sorte padecemos uma involuntaria ignorancia. Cazou este
    Principe em França donde esteve, e assistiu alguns annos, e sendo
    impossivel que não fizesse naquelle tempo acções dignas da sua pessoa,
    ou na paz, ou na guerra, tudo ficou sepultado em um profundo silencio,
    de que são reos os que escreveram primeiro. Ainda depois de nomeado
    Governador de Portugal, e ainda depois de ser Rei não houve aquelle
    cuidado nas penas dos Chronistas, que merecia a sua politica, que não
    foi nesta grande arte inferior aos maiores. Lê, e espera que brevemente
    te busque com a Chronica de seu filho o famoso Rei D. Diniz.

    _Vale._

    LICENÇAS

    DO

    SANTO OFFICIO

    Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e
    depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
    sem a qual não correrá. Lisboa Occidental o primeiro de Outubro de 1726.

    _Fr. Lancastre. Cunha. Teixeira. Silva. Cabedo._

    DO ORDINARIO

    Vista a informação, pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e
    depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
    sem a qual não correrá. Lisboa Occidental 4 de Outubro de 1726.

    _D. J. A. L._

    DO PAÇO

    _Approvação do Doutor Manuel de Azevedo Soares, Cavalleiro professo na
    Ordem de Christo, do Dezembargo de Sua Magestade, Desembargador da Casa
    da Supplicacão, Juiz dos Contos do Reino, e Caza, Academico da Academia
    Real da Historia Portugueza, &c._

    SENHOR

    Esta Chronica del-Rei D. Affonso III que pertende imprimir Miguel Lopes
    Ferreira assás recomendação tinha em o nome de seu Author para facilitar
    a licença que se pede: porque sendo Ruy de Pina Chronista de tão grande
    opinião, por ella só, ficavam approvadas as suas obras, sendo superfluos
    todos os encomios com que justamente se podiam encarecer.[1] Não falta
    com tudo quem affirme que nem todas as obras, que se divulgam por suas,
    o são. E se em alguma póde ter lugar a conjectura de que o não seja, é
    esta uma dellas ao que parece; porque sem passar do Capitulo terceiro,
    se encontra uma inverosimilidade, certamente muito alhea do entendimento
    de tão grande homem. Diz que sabendo a Condessa de Bolonha Mathilde, que
    seu marido era obedecido por Rei pacificamente, e não sabendo nada do
    seu cazamento, confiando, que se elle a visse, a trataria, e honraria
    como sua verdadeira mulher, aprestara Naos, e que bem acompanhada, e com
    um filho, que se disse ter do dito seu marido, se embarcara para este
    Reino, e chegando a Cascaes donde soubera logo, que elle estava em
    Friellas, e cazado com outra mulher, recebendo grande indignação, e
    tristesa, arrependida de ter vindo, especialmente depois de saber da
    condição da segunda mulher, tomando parecer, mandára dous Cavalleiros
    principais dos que trazia comsigo, para que participassem a El-Rei a sua
    vinda, e a sua queixa; e pela reposta, que trouxeram, se voltara para
    França, deixando o filho, segundo diziam uns, e que por certa lembrança
    achara, o havia levado comsigo, e que depois o mandara a este Reino, com
    outras mais circumstancias, que se referem no dito Capitulo. Não reparo
    em que faça menção de filho, e nem ainda que a Condeça tomasse a
    resolução de vir a este Reino sem premeditar as contingencias do
    successo, como se foi assim, lhe mostrou a experiencia, porque muitos
    Historiadores seguiram aquella tradição com circumstancias mais
    inverosimeis; cujo erro se acha novamente refutado com demonstrações, e
    authoridades evidentes, pelo eruditissimo Academico o P. D. Joseph
    Barbosa.[2] Reparo sómente em que se diga, que a Condeça não sabia nada
    do cazamento de seu marido, porque demais de se affirmar o contrario por
    muitos Historiadores, sendo aquelle cazamento tão escandaloso, e sendo a
    grandeza dos delinquentes, a que mais vulgariza os seus delictos,[3]
    como é crivel o ignorasse a Condeça; e mais por ser entre pessoas de tão
    alta jerarquia; com instrumentos de dote publicos, e havendo tão pouca
    distancia para a noticia, como de Portugal a França. Quando ainda os
    segredos dos Principes, mais reconditos, estão sugeitos á infidilidade
    dos mesmos a que se confiam,[4] se obrigava a um tal excesso, o seu
    affecto, sendo deste inseparavel a desconfiança,[5] como é verosimil, se
    lhe ocultase a sua offensa.[6] Disto sem duvida se origina o pouco
    credito, que tem muitas historias, porque devendo ser a verdade o seu
    essencial fundamento,[7] notando-se-lhes algum erro em parte
    regularmente perdem a fé de todo.[8] E ainda que pelo Historiador a que
    foram commettidas as memorias deste Monarcha na Real Academia, que V.
    Magestade instituio para que resuscitassem na memoria dos seculos
    futuros, aquelles heroes, que sendo na vida esclarecidos, os escureceu a
    morte, sepultando-os nas tenebrosas urnas de um ingrato esquecimento[9]
    se restituirá de todo á verdade aquelle successo, conforme a empresa da
    mesma Academia: com tudo sendo na opinião de Santo Augustinho util que
    se publiquem livros repetidos sobre a mesma materia, com diversidade de
    estylo,[10] ainda me parece se póde conceder a licença, que se pede,
    sendo V. Magestade servido, porque sempre ficará illesa a fama do Author
    da Historia, na opinião dos que o conhecem, distinguindo na obra o que
    póde ser parto do seu entendimento. Lisboa Occidental 20 de Julho de
    1727.

    _Manoel de Azevedo Soares_.

    Que se possa imprimir visto as licenças do Santo Officio, e Ordinario, e
    depois de impressa torne á mesa para se conferir, e taxar, e sem isso
    não correrá. Lisboa Occidental, 7 de Agosto de 1727.

    _Pereira. Oliveira. Teixeira._

    [Nota de rodapé 1: Super vacanci laboris est laudare conspicuos. Symach.
    I*. 3. Epistol. 48.]

    [Nota de rodapé 2: Catalog. Chronolog. das Rainhas de Portugal á n.
    241.]

    [Nota de rodapé 3: Dum in imis est quispiam, ejus quodam modo vitia
    delitescunt; cum vero ad dignitatis culmen ascendit in superficiem mox
    erumpunt, et quæ fuerant catenus inaudita jam per ora rumigeruli populi
    trita vulgantur S. Petr. Damian. Epist. 20 ad Cadol. Qui magno imperio
    præditi, in excelso ætatem agunt, eorum facta cuncti mortales novere.
    Salust.]

    [Nota de rodapé 4: Areana Regu ipsi predunt Satellites Gruterus.
    Florileg. c. 2]

    [Nota de rodapé 5: Vel alieni amoris æmulus, quod frequentissimum est in
    amore vitium. Guillielm. Castellus apud Textor. in Epithet.]

    [Nota de rodapé 6: Ita Zelotipus in omnes ahorum gressus assiduo
    intentus totidem suspicionum umbras producit, quoties illos è loco
    moveri animadvertunt Picinel. mund. Symbol. 1. 16. n. 66.]

    [Nota de rodapé 7: Non ostentationi, sed fidei, veritati que componitur
    Plinio Jun. 1. 6. Epist. 16. lux et evangelium veritatis Cassan. catal.
    glor. mund. p. 10. consid. 46.]

    [Nota de rodapé 8: Et si per currantur horum historicora scripta, tacite
    reperiuntur multa falso ab eis conscripta, quot fit, ut falsus in uno,
    in cæteris fide perdant. Menoch. cos. 112. v. 71. Paris. consil. 23. n.
    253.]

    [Nota de rodapé 9: Historia reru que gestarum descriptio, tubæ clangor,
    quo jam olim mortui velut e sepulcro excitati, in mediu producuntur.
    Nicetas. Quia hoc quotidianu, et vulgare est, multi famosi in vita, et
    clari post obitu, sunt incogniti, et obscuri. Petraca de prosper.
    fortun. Dialog. 117.]

    [Nota de rodapé 10: Utile esse plures libros a pluribus diverso stilo,
    de eisdem quæstionibus fieri, ut ad plurimos res ipsa perveniat ad alios
    quidem sic, ad alios vero sic. D. August. in quæstion. de Trinit. c. 3.]

    _Coronica do muito alto e esclarecido Principe D. Affonso III quinto Rei
    de Portugal_

    CAPITULO I

    _Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como accrecentou os
    Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque_

    Por falecimento del-Rei Dom Sancho deste nome o segundo, a que disseram
    Capello, porque delle não ficou herdeiro do Reino legitimo descendente,
    que o succedesse, foi alevantado, e obedecido por Rei na Cidade de
    Lisboa o Ifante Dom Affonso Conde de Bolonha, seu irmão, a que o Reino
    de Portugal por sucessão direitamente pertencia, em idade de trinta e
    oito annos na era de mil e duzentos e quarenta e sete, (1247) o qual
    era, filho legitimo del-Rei Dom Affonso o Segundo, irmão menor do dito
    Rei Dom Sancho, por cujos defeitos, e por não reger como devia elle veo
    de Bolonha a este Reino de Portugal, e o governou, e defendeo dous
    annos, não se chamando Rei, mas Procurador, e Defensor delle por mandado
    do Papa, como na Coronica del-Rei Dom Sancho claramente se disse, e
    depois que o dito Rei Dom Affonso Reinou durando os primeiros annos de
    seu Reinado, e antes de ter cazado a segunda vez com a Rainha Dona
    Breatiz, sua sobrinha, filha del-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de
    Castella, se intitulou sómente Rei de Portugal, e Conde de Bolonha, e
    trouxe seu Escudo com as sós Quinas sem a Orla, e bordadura dos
    Castellos, assi como os outros Reis de Portugal até este tempo
    trouxeram, segundo eu Coronista o vi nos sellos pendentes de algumas
    suas Cartas, que naquelle tempo passaram, e as achei na Torre do Tombo
    destes Reinos, de que por o officio sou Guarda-mór.

    Porque depois que com a dita Rainha Dona Breatriz lhe foram dadas as
    Villas, e Castellos do Reino do Algarve, elle foi o que primeiro se
    intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e poz na orla do dito Escudo, e
    Quinas os Castellos dourados em campo vermelho, que logo elle, e depois
    os outros Reis de Portugal que delle decenderam sempre atégora
    trouxeram, e esto afirmo assi por declaração da duvida, que por muitos
    sobre os ditos Castellos já ouvi mover, a saber, se são Castellos por
    esta rezão, que disse, ou pelos de Riba de Coa, que a este Reino
    creceram, ou se eram com folões, ou bandeiras, que se dizem as Armas do
    Condado de Bolonha, e assi disputar sobre o numero dos ditos Castellos,
    a que digo, e afirmo que não podem ser Castellos pelos de Riba de Coa,
    porque El-Rei Dom Diniz filho del-Rei Dom Affonso os ganhou, e houve
    depois que Reinou, como em sua Coronica se dirá, nem menos pareçam, que
    sejam por respeito das Armas de Bolonha, que por seu cazamento, posto
    que em sua vida as trouxesse, ellas não ficavam, nem podiam ficar depois
    de sua morte á Coroa Real do Reino de Portugal, quanto mais que a
    honestidade, e rezão contrariavam elle trazer em Portugal as Armas de
    Bolonha, por memoria da Condeça sua molher de que contra direito, e em
    desprezo della se apartou, e nunca depois a quiz ver, por onde é mui
    certo que sómente são pelos ditos Castellos do Reino do Algarve como
    disse.

    Os quais Castellos, posto que na primeira doação del-Rei de Castella
    ficam del-Rei Dom Affonso, seu genro a seus filhos, estão por numero
    certo, e assinados, nem por isso obrigam serem trazidos nas Armas por
    aquelle numero certo, porque naquelle tempo El-Rei de Castella lhe deu
    os mais que ganhasse, como ganhou sem os declarar, assi que estes
    Castellos são postos na Orla, não por numero certo, mas o que nella em
    boa proporção bem podesse caber, e porém El-Rei Dom Affonso logo como
    Reinou, e assi depois que a segunda vez cazou foi bom Rei, verdadeiro, e
    prudente, e de coração mui esforçado, e muito amigo da Justiça, por a
    qual a muitos mal feitores, que foram prezentes, e em seus crimes
    comprehendidos, deu suas devidas penas, com medo das quaes outros se
    foram da terra, e regeo bem o Reino com devida, e inteira equidade, e
    proveo o povo em inteira Justiça, e sua real Caza, e Fazenda com
    singular regra, e louvada ordenança, e fez muitas boas, e novas
    povoações em muitas partes do Reino, que eram despovoradas, e mandou
    lavrar, e aproveitar os termos de muitas Villas, e Castellos para
    repairo, e culto da terra, que dos tempos passados estava mui
    denificada, e quaes foram as obras dinas de memoria que fez além dos
    feitos grandes darmas de sua conquista do Algarve, no fim desta sua
    Coronica em soma particular estão declaradas.

    CAPITULO II

    _Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em França
    a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella_

    Este Rei Dom Affonso sendo casado com Dona Matildes Condessa de Bolonha
    em França, elle a leixou no dito Condado, e se veo a Portugal, como na
    Coronica del-Rei Dom Sancho seu irmão é declarado, e depois de sua vinda
    a poucos annos casou outra vez com a Rainha Dona Breatiz, filha bastarda
    del-Rei de Castella, a qual elle houve em Dona Mayor Guilhelme de
    Gosmão, sua manceba, a que foi muito afeiçoado, e a que fez mui firmes,
    e grandes doações de muitas Villas, Castellos, e rendas de Lugares no
    Reino de Castella, para depois de sua morte ficarem á dita Rainha D.
    Breatiz sua filha, e a seus filhos herdeiros para sempre, porque,
    segundo parece pelas palavras do testamento que o dito Rei Dom Affonso
    fez, elle antre todolos filhos, e filhas que teve, a esta Rainha Dona
    Breatiz, sua filha mostrou elle querer mór bem, e a que mais se devia
    por serviço e beneficios, e soccorros que della em suas tribulações mais
    que doutro algum tinha recebidos, e a que mais desejou galardoar, e dar
    muito do seu se pudera, o qual casamento del-Rei, e da Rainha Dona
    Breatiz, quando se concertou, e se fez foi assás maravilha dos homens
    que o sabiam, assi pela grandeza do dote delle, não sendo a Rainha filha
    legitima, como principalmente por casar em tempo, que a Condessa, sua
    primeira molher ainda era viva, e sobre este passo se acha por lembrança
    que um privado del-Rei Dom Affonso havendo este casamento por estranho,
    e muito contrairo a sua conciencia lhe disse que não fizera bem em casar
    com a rainha Dona Breatiz, pois sabia que era cazado com a Condessa de
    Bolonha, com quem já se muito contentára, e honrára de cazar, e que
    El-Rei lhe respondera, que se não espantasse do que tinha feito; porque
    ao outro dia ainda cazaria com outra molher, se com ella lhe dessem
    outra tanta terra, porque mais acrescentasse em Portugal.

    CAPITULO III

    _Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu marido a
    não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez_

    E passados alguns annos depois que El-Rei Dom Affonso partiu de Bolonha
    a Condessa sua molher, soube lá o falecimento del-Rei Dom Sancho, e assi
    como o Conde seu marido pacificamente era alevantado, e obedecido por
    Rei de Portugal, e não sabendo nada do cazamento del-Rei, e confiando
    que elle se a visse a trataria, e honraria como a verdadeira sua molher,
    que era, fez-se logo prestes, e em Naos bem aparelhadas, e de
    Cavalleiros, e nobre gente, e doutras gentes bem acompanhada, e com um
    seu filho, que se diz que tinha de seu marido, partio de sua terra, e
    veo ancorar ante a Villa de Cascais, cinco legoas de Lisboa, onde
    perguntando ella, e os seus por El-Rei onde era? Foi logo certificada
    que El-Rei estava em Frielas, duas legoas de Lisboa, cazado já com outra
    molher, com as quaes novas a Condessa recebeo muita torvação, e grande
    tristeza, e pezou-lhe muito de sua vinda, e assi aos de sua companhia,
    especialmente depois que soube o estado, e condição da segunda molher,
    que era filha del-Rei de Castella.

    E tendo concelho ácerca do que neste caso faria, acordaram, que antes de
    tudo era bem que fossem a El-Rei dous seus Cavalleiros principaes, que
    vinham com ella e delle eram bem conhecidos e a que por seus serviços,
    que nas guerras de França lhe tinham feitos, e por outros merecimentos,
    queria grande bem, e que estes lhe fizessem saber da vinda da Condessa,
    e assi o nojo, e espanto que por seu cazamento tinha com rezão recebido,
    e soubessem delle finalmente a detreminação de sua vontade. Estes
    Cavalleiros em chegando a El-Rei foram logo delle por seu conhecimento
    mui bem recebidos, mas depois que lhe propuzeram a Embaxada da Condessa
    com a graveza, e estranhamentos, que ella mandou, e disseram o mortal
    sentimento, e deshonra em que estava, e lhe pedia que por comprir sua
    bondade, e conciencia a recebesse no Reino, e tratasse por sua molher
    como merecia.

    El-Rei avendo-se delles por escandalizado, por ouzarem de lhe trazer em
    tal tempo tal mensagem com o rostro irado lhes disse, que de não
    perderem as vidas com suas cabeças cortadas os relevava naquella ora o
    grande bem que lhes queria, e os muitos serviços que lhe tinham feitos,
    e que porém não fizessem ante elle mais detença, antes que logo se
    tornassem á Condessa, e lhe dissessem que não saisse em seu Reino, mas
    que delle logo sem nenhuma delonga se partisse, e se tornasse para sua
    terra donde viera, que se o assi não fizesse elle teria com ella tal
    maneira de que lhe muito pezaria.

    Com esta reposta chea de tanta aspereza, e fóra de toda a humanidade, os
    Cavalleiros se tornaram para a Condessa, a qual maravilhada, e
    atemorizada da sem rezão, e indignação del-Rei, e das mais cousas, que
    elles em seu cazo mais passaram, e lhe contáram; mandou fazer prestes
    suas naos, e embarcou nellas, e se tornou para Bolonha, e o tempo que a
    Condessa veo a Cascais se diz, que ella trazia um filho seu, e del-Rei
    Dom Affonso, como já disse, cujo nome, vida, nem feitos não achei
    declaradamente escritos, porque uns dizem, que quando a Condessa se
    partio de Cascais, que o leixou em terra, para que o levassem a seu pai,
    dizendo que não quizesse Deos, que com ella tornasse cousa del-Rei, e
    por outra certa lembrança achei, que ella tornou a levar seu filho
    comsigo, e que depois o mandou a Portugal, onde El-Rei o mandou bem
    criar, e que saio muito bom Cavalleiro, e mui amado del-Rei, e dos
    Nobres do Reino, e que foi cazado com uma filha do Ifante Dom Pedro de
    Castella, que era a mais fermosa molher Despanha; mas qual era este
    Ifante Dom Pedro, e sua filha, e os nomes delles, e em que tempo
    cazaram, e que terra tiveram, e o que se delles fez depois eu o não
    soube.

    A Condessa como chegou á sua terra manifestou logo sua querella a seus
    parentes, que eram Nobres, e grandes homens no Reino de França, por cujo
    concelho, e ajuda, ella se enviou logo querelar ao Papa, que então era
    em França, noteficando-lhe largamente todo o que com seu marido passára
    no Reino de Portugal, pedindo a Sua Santidade que com suas Excommunhões,
    e Cençuras mandasse apartar El-Rei Dom Affonso seu marido, da Rainha
    Dona Breatiz, que como Christãos, não podiam cazar, como cazaram; e
    mandasse que recebesse a ella para ter a honra, dinidade, e terras que
    de direito, como sua verdadeira molher lhe pertencia. E o Papa
    maravilhado da novidade por seu Breve o enviou muito estranhar a El-Rei
    Dom Affonso, e lhe rogou, e amoestou com palavras catholicas, e mui
    honestas, que logo se apartasse do segundo cazamento, e quizesse estar
    pelo primeiro, conforme a justiça, e petição da Condessa, e porque
    El-Rei não satisfez com efeito aos mandados Apostolicos, o Papa enviou
    sua comissão ao Arcebispo de San-Tiago, porque lhe mandou que outra vez
    requeresse, e amoestasse El-Rei Dom Affonso ácerca de seu apartamento, e
    quando logo o não fizesse, que o citasse, e emprazasse, que a quatro
    mezes parecesse em pessoa perante elle em sua Côrte, para ser ouvido com
    a Condessa, e estar a todo comprimento de Justiça, e o Arcebispo fez
    inteiramente todo o que neste cazo o Papa lhe mandou, mas El-Rei não foi
    á citação em pessoa, mas cresse que mandaria seu Procurador por elle
    sobre este negocio. Foi na Corte do Papa ordenado processo, e foi por
    elle tanto procedido que em favor da Condessa, e contra El-Rei foi dada
    sentença do apartamento seu, e da Rainha Dona Breatiz, e porque não
    obedeceram a ella, foi pelo Papa posto antredito em todo o Reino que
    durou muitos annos, acabados os quaes andando a era em mil e duzentos
    sessenta e dous (1262), a Condessa de Bolonha Dona Matildes faleceo em
    França, por morte, que em Portugal foi logo sabida.

    CAPITULO IV

    _Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com El-Rei
    Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhos que della
    houvesse_

    Logo todos os Prelados, e Nobres homens, e povo do Reino enviaram
    sopricar ao Papa, e pedir-lhe que pois a dita Condessa era falecida
    mandasse alevantar o antredito que no Reino por muitos annos era posto,
    e quizesse dispenssar sobre o cazamento del-Rei com a Rainha Dona
    Breatiz, porque ambos como marido, e molher podessem licitamente viver,
    e ficassem lidimos os filhos, que já tinham havidos, e os que dahi por
    diante ouvessem, para com sua despensação poderem direitamente soceder
    no Reino de Portugal, depois da morte del-Rei seu padre, e assi quizesse
    revogar todalas doações que El-Rei Dom Sancho Capelo em fraude, e
    detrimento da Coroa de Portugal em suas necessidades tinha feitas ao
    Ifante Dom Affonso de Molina, e a outras quaesquer pessoas, por quam sem
    cauza, e contra direito eram, a que o Papa em todo logo satisfez, sobre
    que mandou passar suas Provisões Apostolicas, que vieram a este Reino, e
    estão em guarda na Torre do Tombo, sómente se acha que pela legitimação
    do Ifante Dom Diniz filho primeiro, e erdeiro, porque nacera em vida da
    Condessa de Bolonha, El-Rei Dom Affonso seu pai deu em especial, muita
    parte de seu thesouro.

    El-Rei Dom Affonso houve da Rainha Dona Breatiz sua molher estes filhos,
    a saber o Ifante Dom Diniz, que foi depois seu herdeiro, e sucessor, e
    nasceo em Lisboa dia de São Diniz, a nove dias de Outubro de mil
    duzentos sessenta e um annos (1261), e por a devação deste Santo, em
    cujo dia nasceu, elle mandou depois fazer o seu Moesteiro de São Diniz
    de Odivellas, onde se mandou sepultar, como em sua Coronica direi mais
    inteiramente. E ouve mais o Ifante Dom Affonso, que foi Principe mui
    honrado, e de grande estima, e teve neste Reino boas Villas, e
    Castellos, e terras, e foi cazado com Dona Violante, filha do Ifante Dom
    Manoel de Castella, e da Ifante Dona Costança Daragão, de que houve um
    filho barão, e tres filhas, que foram grandemente cazadas em Castella,
    de que na Coronica del-Rei Dom Diniz farei mais larga declaração; e
    assim houve mais El-Rei Dom Affonso da Rainha Dona Breatiz a Ifante Dona
    Branca, que sendo mui moça, foi recebida por Senhora do Moesteiro de
    Lorvão, assi como o fora a Rainha Dona Thareja, sua tia que nelle jaz, e
    o reformou, como já tenho dito, e depois do falecimento del-Rei Dom
    Affonso seu pai, ella foi recebida por Senhora das Olgas de Burgos, onde
    sem cazar faleceo, e ahi jás sepultada; e della porém se acha que um
    Cavalleiro dito o Carpiteiro houve um filho, que houve nome Dom João
    Nunes do Prado; e este foi Cavalleiro da Ordem de Calatrava, e depois
    foi Mestre della, quando Dom Garcia Lopes, que era Mestre, foi por seus
    desmerecimentos privado de Mestre.

    E com tudo esta Ifante Dona Branca foi Princeza de mui louvadas
    virtudes, e teve em Castella boa terra, e neste Reino boa fazenda,
    porque ella foi senhora de Montemór-o-Velho, por doação del-Rei seu pai,
    que em seu testamento lhe leixou mais dez mil livras, que são quatro mil
    cruzados, e assi foi senhora de Campo Maior, que El-Rei Dom Diniz seu
    irmão lhe deu em sua vida, e El-Rei Dom Affonso deste nome o Decimo de
    Castella, seu avô tambem lhe leixou em seu testamento muito dinheiro, e
    alguns dizem que ella jás em Lorvão, mas eu vi Cartas e Provisões, que
    ella nos derradeiros dias de sua vida passou para Portugal, feitas
    dentro no Moesteiro das Olgas de Burgos, onde tambem recolheo algumas
    filhas do Ifante Dom Affonso de Portugal seu irmão. E assi houve mais
    El-Rei Dom Affonso a Ifante Dona Costança sua filha, a qual a Rainha
    Dona Breatiz sua madre levou comsigo a Sevilha, quando foi ver El-Rei
    Dom Affonso seu pai, e lá faleceo, e foi trazida a Alcobaça, onde jás
    sepultada. E houve mais um filho bastardo, que houve nome Dom Fernando,
    que foi Cavalleiro da Ordem do Templo, e jás sepultado em S. Bras de
    Lisboa.

    CAPITULO V

    _Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este
    casamento_

    Pelo cazamento del-Rei Dom Affonso com a Rainha Dona Breatiz muitas
    Villas, e terras do Reino de Castella creceram, e se ajuntaram a este
    Reino de Portugal, e destas as que são na Comarca de Riba Dodiana, a
    saber Moura, Serpa, Mourão, Noudar, Olivença, Campo Maior, e Ouguela,
    direi na Coronica del-Rei Dom Diniz, porque em seu tempo elle por
    concordias, e por escambos as houve, e depois atégora sempre
    pacificamente, e sem contradição foram, e são pussuidas por a Coroa de
    Portugal, mas porque é claro, e mui notorio que por bem do dito
    cazamento, ainda creceram mais ao Reino de Portugal, o Reino do Algarve;
    de que este Rei Dom Affonso nova, e primeiramente se intitulou, e por
    cujo respeito em ladeo a borla dos Castellos ás Quinas de Portugal, como
    atraz já toquei, para dizer os principios que teve, para boa declaração
    dos que esto virem farei meu fundamento um pouco mais alto, que será
    verdadeiro, e breve, como se segue.

    El-Rei Dom Fernando de Castella deste nome o segundo, depois de ter
    pacificos os Reinos de Castello, e de Lião, que nelle a segunda vez se
    ajuntaram, ganhou dos Mouros a Cidade de Cordova, na era de mil e
    duzentos e trinta e cinco annos, (1235) na qual tomada foi com El-Rei
    Dom Fernando Dom Payo Correa, natural de Portugal, Mestre da Ordem
    Daviz, que é a de San-Tiago em Castella, por mui principal e de grande
    Caza, e mui esforçado guerreiro contra os imigos da Fé, e porque El-Rei
    Dom Fernando desejou muito de cobrar a Cidade de Sevilha, e assi a terra
    Dandaluzia, que toda era de Mouros, tornando-se para Castella leixou por
    Fronteiro contra ella Dom Payo Correa em São Lucar Dalbayda, e um Dom
    Rodrigo Alveres das Asturias, em Alcalá da Guardara, donde com muitas
    gentes que tinham, e com a guerra aturada, que faziam, poseram a Cidade
    de Sevilha em tanta estreiteza que o Rei della lhe deu gram soma de
    ouro, por tregoa de um anno, qua os ditos Freires lhe outorgaram, dentro
    do qual os Mouros com fundamento de se proverem por muitos annos,
    semearam todo o pão, e sementes que tinham de que esperavam haver
    novidades, com as quaes recolhidas lhes pareceo que se segurariam, e
    manteriam por vinte annos, ainda que nelles fossem guerreados, e
    cercados, o qual os ditos Fronteiros notificaram logo a El-Rei Dom
    Fernando, e o avizaram, que para ter esperança de cobrar em breve a
    Cidade antecipasse logo a guerra contra os Mouros, ou a colheita das
    ditas novidades para si mesmo, o qual logo El-Rei satisfez, e com grande
    poder, que ajuntou por mar, e por terra, veo cercar a Cidade, e depois
    de estar dezaseis mezes sobre ella, com cerco bem afrontado a tomou, ca
    se deu por partido, com segurança das vidas, e fazendas em dia de São
    Clemente, vinte e dous dias de Novembro, na era de mil duzentos quarenta
    e oito annos, (1248) treze annos depois da tomada de Cordova; e o dito
    Rei Dom Fernando, por mais segurança da terra, não sahio mais de
    Sevilha, e ahi faleceo no anno de mil duzentos e cincoenta e dous, tres
    annos e meio depois da tomada de Sevilha, e ahi jás sepultado.[1]

    E foi logo alevantado, e obedecido por Rei de Castella, e de Lião,
    El-Rei Dom Affonso seu filho, sogro deste Rei Dom Affonso Conde de
    Bolonha; e o meio tempo que houve antre a tomada de Cordova, e Sevilha,
    e em que o Mestre Dom Payo Correa, era Fronteiro em Andaluzia contra os
    Mouros, elle guerreando e correndo as terras dos imigos, que eram a sua
    frontaria conjuntos, entrou pela Lusitania junto do campo Dourique, que
    dentro era da conquista de Portugal, Reinando ainda Dom Sancho Capello,
    e por força de armas o dito Mestre tomou em desvairados tempos as Villas
    de Aljustrel, e de Mertola, que eram de Mouros, as quaes a requerimento
    do dito Rei Dom Sancho, e por mandado del-Rei Dom Fernando de Castella,
    seu primo com Irmão, foram entregues ao dito Rei Dom Sancho por
    pertencerem a Portugal, o qual por sua devação, e pelas almas de seu pae
    e de sua mãi segundo diz em sua doação, e assi por comprir ao dito
    Mestre Dom Payo Correa, que era seu servidor, as deu logo á Ordem de San
    Tiago, cujas hoje são.

    [Nota de rodapé 1: Está beatificado por Santo.]

    CAPITULO VI

    _Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de
    conquistar o Algarve, que era dos Mouros_

    Depois que o Mestre Dom Payo tomou estes logares da conquista de
    Portugal, até se ganhar o Algarve, passaram dous tempos em que reinaram
    dous reis de Castella, a saber o dito Rei D. Fernando, em cujo tempo o
    dito Mestre tomou primeiramente Tavilla, e Silves e alguns outros
    Lugares do Algarve, e apoz elle Reinou o sobredito Rei Dom Affonso seu
    filho, que reinando em Castella depois de fazer sua doação para sempre a
    El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha seu genro, e a Dom Diniz, seu filho
    se ganharam todolos outros Lugares do Algarve, em que tambem foi o dito
    Mestre como Vassallo, e Compadre, que era do dito Rei Dom Affonso Conde
    de Bolonha, e foi por esta maneira. Quando o Mestre Dom Payo Correa
    ganhou dos Mouros Aljustrel, como é dito, se acha, que estando ainda no
    dito Lugar, elle como bom Cavalleiro, e catholico guerreiro, desejando
    conquitar esta parte do Algarve, que confinava com Portugal, que toda
    era de Mouros, para saber se o poderia fazer, e como o faria, teve
    concelho com seus Cavalleiros, em que não achou conforme acordo, assi
    porque alguns contrariavam a empreza, e passagem da terra do Algarve,
    como porque era mui povorada, e os Mouros della tinham pelo mar seu
    grande soccorro e ajuda Dafrica.

    Mas o Mestre, cujo coração era já favorecido da vontade de Deos, prepoz
    entender na conquista, e não a leixar, e para esso falou apartado com
    Garcia Rodrigues, Mercador, que de contino tratava neste Algarve com os
    Christãos, e com os Mouros suas mercadorias, e secretamente lhe disse
    que seu desejo era com a ajuda de Deos, e por seu serviço cobrar dos
    Mouros esta terra do Algarve se podesse, para que então havia singular
    disposição pelo desvairo, e discordia em que sabia que estavam os Reis,
    e Senhores, que os senhoreavam, mas que o não commettia porque não
    sabia, nem tinha quem soubesse as entradas, e caminhos da terra, e por
    tanto lhe rogava pois elle esto tudo sabia que lhe dicesse seu parecer
    verdadeiro, como delle por Christão, e bom homem confiava. E Garcia
    Rodrigues, em que havia bom espirito, lhe deu para esso tão bom
    concelho, e tanto esforço, e tal aviamento, que o Mestre apartou logo
    alguns seus corredores por maneira dalmogavaria, para que fossem
    adiante, os quaes partiram Daljustrel, e passaram á terra pela Torre
    Dourique, e andaram de noite mui attentadamente por os Mouros não
    aventarem delles alguns sentimentos; e o primeiro Lugar a que chegaram
    foi á Torre Descoubar, que por estar despercebida, e sem algum receo de
    Christãos prouve a Deos, que sem muita força, nem perigo foi logo
    tomada, donde enviaram logo recado ao Mestre, o qual não com menos
    alegria, que pressa fez prestes seus Cavalleiros, que nas armas trazia
    assás costumados, e bem ensinados, com que logo partio, e com suas guias
    que levava, chegou á dita Torre, que era tomada, e dahi sem muita
    detença cobrou mais o Lugar Dalvor, que é antre Silves e Lagos, e destes
    Lugares ambos depois de serem de Christãos se fazia grande guerra aos
    Mouros, que estavam em Silves, e nos outros Lugares comarcãos.

    Sentindo-se os Mouros do Algarve mui perseguidos, e assás denificados do
    Mestre, elles sobre consultação, que antre si fizeram, lhe commetteram,
    que selle quizesse lhe dariam o Lugar de Cacella junto com Tavilla por
    os Lugares Destombar, e Alvor, que tinha tomados, e a conciração, que os
    Mouros tiveram foi dos Lugares tomados, por serem no meo do Reino, e
    mais juntos do Cabo de São Vicente, onde a terra era então mais povorada
    se podia fazer, e fazia mais dano, que de Cacella, que era mais no fim
    da terra, e principalmente junto com Tavilla, que por ser Lugar forte, e
    de grande povoração os Mouros, e visinhos, e moradores delle poderiam
    mais facilmente lançar os Christãos, do qual partido, e escambo prouve
    muito ao Mestre, que logo entregou aos Mouros os Lugares tomados, e
    cobrou para si Cacella, que era Lugar forte, e bom, onde se fez logo
    prestes, e sahio com suas gentes para ir cercar, e tomar Paderne.

    E como quer que até li os Mouros eram antre si em grandes desconcertos,
    como atraz se disse, porém á necessidade, e perigo em que a ida do
    Mestre os poz, os fez logo amigos, e concordes para com iguaes corações
    defenderem suas pessoas e terras, pelo qual sabendo os Mouros de Farão e
    Tavilla, e assi os dos outros Lugares de redor, como o Mestre era fóra
    de Cacella, para correr, e guerrear sua terra, avisaram tambem os de
    Loulé para que todos no dia seguinte tivessem ao Mestre o passo, e
    pelejassem com elle, os quaes ao outro dia sobre este acordo se
    ajuntaram, e partindo foram dormir contra a serra a um logar que dizem o
    desbarato, e deste ajuntamento, e acordo não sendo sabedor o Mestre
    passou de noite mui secretamente por Loulé sem ser sentido, seguindo seu
    caminho direito, que vem para Tavilla, porque as suas escutas que iam de
    diante sentiram os Mouros naquelle lugar onde jaziam, o Mestre não quiz
    mais abalar, e ali de noite se deteve, e ao outro dia, como foi manhã o
    Mestre com sua singular, e costumada destreza de guerra ordenou suas
    gentes em batalhas, e guiados de sua bandeira, que levavam tendida não
    andaram muitos passos que logo não houveram vista dos Mouros, que jaziam
    em um valle escuro, os quaes vendo a pouca gente dos Christãos em
    comparação da muita sua que tinham, foram mui alegres, ca tiveram grande
    esperança de haverem victoria.

    E o Mestre sem mais detença rijamente deu nelles, em que logo achou
    grande esforço, e mui perigosa resistencia, pelo qual antre todos se
    travou mui crua e bem ferida batalha, em que a victoria por grande
    espaço esteve em balança, mas em fim não podendo os Mouros já soffrer
    aos Christãos nem ás mortes, e feridas, que de suas mãos recebiam,
    volveram-lhe as costas, e com desacordada fogida, cada um procurou de
    salvar sua vida. Nesta batalha foram dos Mouros muitos mortos, e
    feridos, e os que escaparam acolheram-se a um Lugar, que chamam _o
    Furadoiro_, que vem donde foi esta peleja caminho da fonte que ora dizem
    do Bispo, e porém os Christãos por a qualidade da fronta não ficaram sem
    sua parte de dano, mas este não acho escrito quanto seria, sómente que o
    Mestre e os seus pelo grande trabalho, e muito cançasso da batalha não
    seguiram o alcanço dos Mouros, e se recolheram.

    CAPITULO VII

    _Do acordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram com
    elle batalha em que foram vencidos_

    Os Mouros de toda a terra, por este destroço, e desbarato, que houveram
    mostraram muito nojo, e grande tristeza, em especial os de Tavilla,
    porque tinham imigos tão fortes junto comsigo, os quaes naquella ora
    juntos em seu concelho diceram: «Estes christãos não temem, antes nos
    menos prezam, e não é sem rezão, porque ou por nossa muita fraqueza, ou
    por nossa grande dezaventura sempre somos delles vencidos, mas agora
    porque elles eram seguros, e despercebidos pela victoria, que hontem de
    nós houveram, cuidam já que não ha em nós esforço, nem acordo para nossa
    vingança, ajuntemo-nos outra vez, e sem medo os vamos commetter e sem
    duvida nós os desbarataremos, e com sua perda os lançaremos da terra,
    que é nossa».

    E no outro dia o Mestre, que destas consultas, e ardis, não foi nem
    podia ser avisado, partio do lugar, onde fora a batalha para Cacella, e
    vindo por seu caminho direito, que dizem _o Almargem_, junto do qual os
    Mouros estavam prestes com seu ardil de os saltearem, e o Mestre já não
    trazia toda sua gente, que salvou da peleja, porque alguma leixara no
    monte, em que agora é Crasto Marim, para dahi recolherem alguns seus,
    que passavam pela ribeira, e porém em chegando ao logar do Salto, onde
    os Mouros os esperavam, elles sahiram a elle tão de supito, e o
    commetteram com tantas gritas, e forças, que o poseram em muita
    torvação, e perigo, pela qual conveo ao Mestre e aos seus por força se
    recolherem a um monte alto, que é junto de Tavilla, a que depois
    chamaram _a Cabeça do Mestre_, donde pela fortaleza do lugar se
    defendiam dos Mouros milhor, e os ofendiam com mais sua aventagem.

    Mas comtudo elles não afrouxavam os Christãos, antes por todalas
    maneiras de fazer mal os combatiam, trabalhando com todas forças por
    lhes cobrar o monte, que os salvava, e com tanta fortalesa afrontavam o
    Mestre, que se não sobreviera a noite que os apartou elle, e os seus se
    despunham, e estavam em mortal perigo, e os Mouros apartados do combate
    lançaram-se ao pé do monte alongados da vista dos Christãos, logo com
    determinação de ao outro dia tornarem á peleja, mas elles neste primeiro
    proposito não perseveraram, porque praticando antre si sobre as gentes
    que ao Mestre logo viriam em seu socorro, e o perigo, que nesso corriam
    alevantaram-se, e foram-se tristes para os logares donde partiram, o que
    assi fizeram sem vista nem sabedoria do Mestre, o qual na noite passada
    já tinha avisada sua gente, que leixara em Cacella para que e viessem
    socorrer, como logo vieram com fundamento de dar batalha aos Mouros se o
    esperassem, quando soube que eram partidos alegre, e a seu salvo se foi
    para Cacella.

    CAPITULO VIII

    _Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que fundamento
    cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete Cavalleiros Martyres,
    e o Mestre tomou Tavilla_

    Os moradores de Tavilla, e assi os Mouros das outras Villas seus
    comarcãos, vendo-se perseguidos, e mal tratados do Mestre, por seus meos
    que antre si tiveram concordaram, que por quanto a este tempo estavam já
    cerca do mez de Junho em que haviam de recolher seus pães, e dahi a
    pouco se achegava o outro de seu alacil para secarem e aproveitarem suas
    passas, e fruitas, era bem de procurarem poer com o Mestre tregoas até o
    São Miguel de Setembro, que vinha, no qual tempo acabariam inteiramente
    de recolher suas novidades, e dahi por diante teriam milhor disposição
    para lhe fazer a guerra, e o lançar fóra da terra. Da qual tregoa que
    pelos Mouros foi requerida, e apontada prouve muito ao Mestre, e lha
    deu, de que fizeram suas certidões com fundamento, que não sómente neste
    tempo daria descanço aos seus dos muitos trabalhos que tinham passados,
    mas que ainda nelle se perceberia das mais gentes, que para o dezejado
    fim de sua empreza lhe eram neccessarias.

    E sendo por bem desta tregua os Christãos, e os Mouros de uma parte, e
    da outra seguros, D. Pedro Rodrigues, Commendador mór de San-Tiago, que
    era na companhia do Mestre dice aos outros Cavalleiros, que por seu
    desenfadamento, pois estavam em tregoa fossem com suas aves á caça ao
    lugar das Antas, que era terreno de Tavilla, e está dahi tres legoas. Ao
    que foi o Mestre como pessoa mui prudente, contrairo, dizendo-lhe que
    escusassem em tal tempo sua ida, porque os Mouros, por suas condições,
    não eram menos ciosos da terra que das molheres, e por esto com qualquer
    paixão destas sendo homens sem fé, e sem verdade lhe poderiam fazer
    dano, que custaria depois mui caro. A que o Commendador-mór tornou
    dizendo, que pois estavam com os Mouros em treguas delles tão desejadas
    e requeridas, que não havia rezão para elles se recearem, quanto mais
    que elles para segurar esse pejo iriam á caça de paz, e de guerra.

    Com esta confiança o Commendador, e cinco outros Cavalleiros com elle a
    cavallo se partiram de Cacella, e trazendo o caminho direito de Tavilla,
    passaram pela ponte, e entraram, e seguiram pelo meio da praça da Villa,
    e chegaram ás Antas, lugar da caça, que é uma legoa da Villa a cerca da
    ribeira, onde começaram de caçar, e haver prazer sem alguma maginação
    nem sospeita da morte, que se lhes aparelhava, porque os Mouros de
    Tavilla quando daquella maneira viram passar os Christãos, havendo que
    era em seu manifesto desprezo, receberam por esso grande dor, porque sua
    vista lhes fizera viva lembrança das mortes, e males, que delles já
    muitas vezes tinham recebidos, e diceram antre si: «Certamente os
    homens, que somos, que sofrem tanta mingua, e tanto desprezo quanto
    estes Christãos com soberba nos fazem são mais que mortos, e não tem
    siso, vergonha nem coração, assi passam por aqui os Christãos nossos
    imigos tão seguros como se fossemos bestas, e elles senhores da nossa
    Villa».

    Sobre as quaes palavras de murmuração se ajuntaram muitos com grande
    honra, e determinaram ir logo como foram com grande ira, e com passos
    mui apressados sobre os Christãos, os quaes andano á caça, quando viram
    tantos Mouros, ca a grande sua pressa, e alvoroço com que iam, em cazo
    que ainda fosse de longe logo presumiram a má, e indinada tenção, com
    que vinham, pelo qual leixadas as aves, e seu officio ocioso se
    ajuntaram, e diceram: «Claro é que estes Mouros vem sobre nós, e o
    principal remedio é o de Deos, que por sua piedade nos queira esforçar,
    e soccorrer, e apoz este concelho seja que nos percebamos, e esperemos
    como Cavalleiros qualquer afronta, que nos vier, e prazerá a Deos, que
    pois somos Christãos, que não sómente nos defenderemos, mas que com sua
    ajuda os venceremos, e quando a ventura for tão contraira que não
    possamos salvar as vidas, ao menos vínguemol-as primeiro com mortes
    destes, e hajamol-as por bem empregadas em seu serviço».

    Com esto enviaram logo ao Mestre um mensageiro com grande trigança
    pedindo lhe que os soccorresse, e com aquella pressa, e deligencia que
    em tão breve tempo foi possivel, e para elles em tanto se defenderem e
    pelejarem, fizeram um palanque de paos de figueiras velhas a que se
    recolheram, onde os mouros com muita furia os vieram logo commetter, em
    que acharam muito esforço, e grande resistencia, e não tão leves como
    elles cuidavam, e estando os Christãos nesta afronta acertou-se, que
    Gracia Rodrigues, o Mercador, com que o Mestre se aconcelhara na vinda
    do Algarve, como atraz dice, indo de Farão para Tavilla com suas cargas
    de mercadorias segundo costumava, quando vio o desassosego, e
    ajuntamento dos Mouros seguio o fio delles para saber o que era, e
    quando vio a peleja, e grande perigo em que os Christãos estavam, volveu
    rijamente onde deixara suas cargas, e dice aos seus servidores: «I vos e
    leixai essas arrecovas, e tomai essas mercadorias que partireis antre
    vós, ca se eu viver não me falecerá de que viva, e se morrer esso me
    basta, pois é em serviço de Deus».

    E com esto acabado, arremeteo, e se lançou ao palanque, e dentro delle
    se ajuntou com os Christãos, e que ajudou e esforçou quanto a um bom
    homem era possivel, onde por grande espaço se defenderam, e pelejaram,
    dando e recebendo muitas feridas, e assi eram afrontados, e por tantas
    partes combatidos, que um não podia dar fé do que o ouro fazia, e em fim
    por as forças dos Christãos serem já de grande trabalho vencidos, o seu
    palanque foi roto, e entrado, e elles todos sete por desfalecimento da
    virtude corporal cortados de mortaes feridas acabaram as vidas como
    Cavalleiros, e bons Christãos, o que não foi sem publica vingança de
    suas mortes, de que os corpos dos Mouros sem almas déram alli verdadeiro
    testemunho.

    Durando a peleja dos Christãos chegou seu recado ao Mestre que era em
    Cacella, donde com grande trigança logo partio com desejo de os
    soccorrer, porque bem sabia que os Cavalleiros eram taes, que sem medo,
    nem outro seu desfalecimento, ou haviam de viver, ou morrer, e seguiu o
    caminho porque elles vieram, e sem contradição, nem defeza dalguma
    pessoa entrou pela Villa, e praça della, e tão intento, e acezo ia no
    dezejo que levava de soccorrer aos Chrystãos, que passando por ella não
    lhe lembrou, que dessa vez livremente, e sem perigo a podia tomar se
    quizera, e quando chegou ás Antas, onde achou, e vio todolos seus
    Cavalleiros mortos, anojado e mui iroso por tão feio feito houve com os
    Mouros, que ainda topou mui crua peleja, onde matou tantos, que os ossos
    delles foram depois por longos tempos ali vistos em grande soma, e aos
    outros, que fogiram, foi seguindo o alcance fazendo nelles grande
    estrago até á Villa, cujas portas os Mouros acháram fechadas, porque os
    visinhos, e gentes que em ella ficaram, quando viram passar o Mestre ao
    soccorro dos Cavalleiros a que ia, bem entenderam qual seria sua
    determinação como soubesse parte do cazo.

    E por esso cerraram bem suas portas, que não quizeram abrir aos seus que
    vinham fogindo, e sómente lhe abriram um postigo pequeno, e escuro, que
    está contra a mouraria, sobre que deu o Mestre e os ferio tão rijo, e
    com tanta braveza, que não tendo elles acordo para se defenderem, nem de
    cerrar a porta entrou por ella o Mestre de volta com elles, e cobrou a
    Villa, e apoderou-se della dentro da qual, e fóra della o Mestre, e os
    seus fizeram nos Mouros grande estrago. E era neste tempo senhor de
    Tavilla Abenfalula, Mouro que não se sabe se morreo nestas pelejas, se
    ficou no lugar, como outros alguns ficaram. E esta batalha, e os
    Cavalleiros mortos, e a Villa tomada foi tudo a nove dias de Junho de
    mil e duzentos e quarenta e dous (1242). E o Mestre como de todo foi
    apoderado da Villa, e a leixou com boa segurança, com alguma gente
    darmas tornou ás Antas onde os Cavalleiros mortos jaziam, e chorando por
    elles muitas lagrimas, e dando grandes gemidos e tristes sospiros os
    mandou apartar dantre os corpos dos Mouros que elles mataram, e cheos
    todos de muito sangue das grandes feridas de que morreram, os fez levar
    á Villa, e na mesquita, que o Mestre fez consagrar em Egreja da
    Envocação de Nossa Senhora mandou logo fazer um grande Moimento de
    pedra, em que se pintaram sete Escudos, todos com as vieiras de
    San-Tiago, e nelles os seis Cavalleiros, e Gracia Rodrigues com elles
    foram todos sete sepultados, e seus nomes são estes, Pedro Rodrigues
    Commendador mór, Mem do Vale, Durão Vaz, Alvaro Gracia, Estevam Vaz,
    Beltram de Caya, e o Mercador Gracia Rodrigues, cujos corpos foram
    depois havidos em grande reverencia, e devação, e piedosamente não era
    sem cauza, porque como Martyres espargeram seu sangue, e como fieis
    Catholicos perderam as vidas pela Fé de Jesu Christo N. Senhor.

    CAPITULO IX

    _Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque
    partidos a leixou dos Mouros_

    O Mestre Dom Payo Correa por tomar Tavilla dos Mouros, como é dito, por
    ella ser Cabeça, e a principal cousa do Algarve, foi mui alegre, e deu
    por esso muitas graças a N. Senhor, e porque sentio que elle com sua
    graça, e ajuda nesta sua empreza sempre o favorecia, não quiz estar por
    longo tempo ocioso, mas fez prestes suas gentes, e depois de leixar
    Tavilla em boa guarda, e segurança, sahio della, e foi sobre Selir, e o
    tomou por força, e assi Alvor outra vez, dahi foi logo cercar Paderne,
    que era Castello mui forte, e tinha boa Comarca, que é antre Albofeira,
    e a Serra, e estando em cerco sobre elle apartou de si algumas gentes,
    que mandou ao termo de Silves, onde tomaram outra vez a Torre Destombar,
    que já fora sua, e Abenafaam, que era Rei daquella terra estava em
    Silves, quando soube que os Christãos tomaram Estombar, crendo que seria
    hi o Mestre, ajuntou tambem as mais gentes que pode, e sahio com
    proposito de vir sobre elle, e dar-lhe batalha. Da qual cousa sendo o
    Mestre logo avizado alevantou o cerco de sobre Paderne, e por caminho
    desviado se veio lançar sobre Silves, e o Rei Mouro indo para Estombar,
    como soube que na terra não havia outras gentes, salva as que tomaram, e
    defendiam, receando-o ser acommettido dalgum ardil do Mestre, fez logo
    volta com grande trigança sobre Silves, onde o Mestre lhe tinha feita
    cilada, que sabendo de certo recolhimento que o Rei Mouro havia de fazer
    lhe tomou todalas portas da Cidade, em cada uma das quaes pôs gentes
    assás que as guardasse, e El-Rei Abenafaam, quando ao recolher achou
    embargo, e resistencia em todalas portas, commetteo de por força entrar
    pela porta, que dizem _Dazoya_, que lhe pareceo mais despejada, que
    todalas outras, onde se encontrou com o Mestre, que de fóra tinha a
    guarda della.

    E em um campo junto da Villa em que está a Egreja de Santa Maria das
    Martes houveram ambos mui travada, e ferida peleja, em que o Mestre pola
    pouca gente que comsigo tinha se vio em grande pressa, porque os Mouros
    eram muitos, e mui juntos, e feriram-no mui rijamente, e punham todas
    suas forças por cobrar a entrada da porta, que o Mestre defendia, e
    procuravam os Mouros de se meter debaixo da Torre Dazoia que é saída em
    arcos para fóra, por tal que os Mouros de cima os defendessem, mas não o
    poderam fazer, e porque os Mouros de dentro quando viram o Rei Mouro á
    porta, e com grande avantagem de gente sobre o Mestre, sahiram alguns
    cuidando de o meter, e salvar por ella, e ao recolher, que quizeram
    fazer, foram dos Christãos tão apertados, que de volta se meteram com
    elles dentro na Cidade, e não sem crua peleja, e grande perda de homens
    de uma parte, e da outra, que ali ficaram mortos.

    E segundo se diz, mais Christãos morreram nesta entrada, que em outro
    Lugar do Algarve que se tomasse, e El-Rei Mouro vendo que a Cidade era
    já por aquella porta entrada, andou correndo a cavallo em torno della
    experimentando todolos lugares convenientes para sair, e quando não
    achou remedio quiz-se lançar por um postigo da treição do alcacer, que
    era seu apozentamento, onde morava, e porque o achou empedido commetteo
    outra porta em que tambem achou contradição, pelo qual já como
    desesperado da honra, e da vida ferio apressadamente seu cavalo das
    esporas, e fogio, e passando por um pego do rio afogou-se nelle, onde
    depois o acharam morto, e deste cazo accidental chamam áquelle Lugar _o
    pego de Benefaam_. Os Mouros que na Cidade ficaram vivos, se acolheram
    ao alcacer, e mostravam suas forças para o defender, mas o Mestre não o
    quiz combater, antes lhes deu segurança, que vivessem na Villa se
    quizessem, e aproveitassem suas Cidades, e com obediencia, e tributos
    lhe conhecessem aquelle Senhorio, que conheceram a El-Rei Mouro, e elles
    Mouros assi o concordaram, e foram do partido contentes, e esta maneira
    se diz que o Mestre sempre teve nos Lugares do Algarve, que tomou, cujos
    alcaceres não combateo, e deu segurança aos Mouros porque as Villas
    fossem milhor aproveitadas, e senão despovorassem, e não tardou muito
    que nesta cidade foi fundada Sé, e Egreja Catedral, e Bispo della a que
    foi dada toda a jurdição Ecclesiastica daquelle Reino.

    CAPITULO X

    _Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que
    houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do
    Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado_

    Tanto que o Mestre pôs em Silves suas gentes, que a guardassem, e
    defendessem, e a proveo das outras cousas que a ella eram necessarias,
    se partio, e tornou a poer o cerco que alevantara de sobre Paderne, e
    porque logo os Mouros se não quizeram dar a bom partido que lhe
    cometiam, elle os combateo, e por força tomou a Villa e o alcacere sem
    os receber a concordia, nem algum partido de piedade, antes por dous
    bons Cavalleiros que lhe ali mataram da Ordem, mandou que todolos Mouros
    da Villa andassem, como andaram á espada, e a gente desta Villa de
    Paderne, cujos grandes edeficios ainda parecem, alguns dizem, por sua má
    disposição se mudou depois á Villa de Albofeira, que o Mestre Daviz
    depois tomou como adiante vai, e atraz deixei apontado.

    Como a Conquista do Algarve que primeiramente fez D. Payo Correa Mestre
    de San-Tiago de Castella, por nação e linhagem Portuguez, foram em dous
    tempos, a saber, em tempo del-Rei D. Fernando de Castella, e depois em
    tempo del-Rei Dom Affonso seu filho, e agora declaro que os Lugares, que
    até qui se ganharam pelo dito Mestre foram em tempo del-Rei Dom
    Fernando, e antes da tomada, e cerco de Sevilha, porque claramente
    consta, que este Mestre de San-Tiago era com El-Rei ao tomar della, e
    para tal feito foi havido, e estimado por mui principal, e para feitos
    darmas mui asinado, e estes Lugares do Algarve estiveram da mão do
    Mestre á obediencia del-Rei Dom Fernando até o tempo del-Rei Dom Affonso
    seu filho, que como Reinou teve grande afeição ao dito Mestre, e lhe deu
    de si muita parte, e o mandou tornar ao Algarve, para nelle estar por
    segurança dos Lugares que ganhara, porque ainda nelles havia muitos dos
    Mouros. E neste tempo era já cazado este Rei Dom Affonso Conde de
    Bolonha com a Rainha Dona Breatiz, filha do dito Rei Dom Affonso de
    Castella, e a maneira porque depois seu marido, e ella houveram este
    Reino do Algarve é a seguinte.

    El-Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, sendo assi cazado com a filha
    del-Rei de Castella, sabendo que o Mestre de San-Tiago tinha ganhado dos
    Mouros as ditas Villas, e Lugares do Reino do Algarve, que eram da
    conquista, e Senhorio de Castella, e estavam pela parte do Campo
    Dourique mui conjuntos ao Reino de Portugal, e vendo que contra os
    Mouros Despanha já não tinham livre alguma propria conquista dezejando
    acrecentar em seu Reino, e em sua honra, e assi por ter em que servir a
    Deos em semelhante guerra piadosa, dezejou para si esta terra, sobre a
    qual falou com a Rainha Dona Breatiz sua molher, e sendo ambos em um
    dezejo e tenção conformes, ella por seu prazer, e por concelho de seu
    marido, foi logo a El-Rei D. Affonso de Castella, seu pai, que estava em
    Toledo, a qual elle recebeo com muita honra, e alegria, porque como
    aigumas vezes já dice sempre por palavras, e obras, elle mostrou que lhe
    tinha muito amor, e grande dezejo de lhe fazer bem, e havendo depois
    tempo, e lugar para o cazo conveniente, a Rainha com as palavras, e
    rezões que seu dezejo e necessidade lhe aprezentaram, dice a seu pai a
    cauza principal de sua ida, pedindo-lhe muito por mercê, em nome del-Rei
    seu marido, e seu, que désse a elles, e a seus netos, que cada dia
    creciam a Conquista do Reino do Algarve, e assi os Lugares, que por o
    Mestre de San-Tiago eram já nelle tomados, e porque o Reino de Portugal,
    que tinham, era para elles muito pequeno, e a este tempo o Ifante Dom
    Diniz, que a poz seu padre Reinou, e assi outros Ifantes seus filhos já
    eram nacidos, e os Lugares de riba Dodiana, e de riba de Coa, ainda não
    eram de Portugal; porque depois se houveram, como nesta Coronica, e na
    del-Rei Dom Diniz ao diante se dirá.

    Deste requerimento prouve muito a El-Rei Dom Affonso, que por Reaes
    condições que muitos lhe entrepetraram a vaidades, e desordenada cobiça
    de gloria foi o mais nobre Rei de Castella, e querendo em todo
    satisfazer á Rainha sua filha, lhe mandou logo passar sua Carta patente,
    e selada de seu selo de chumbo, por a qual fez solenne, e firme doação
    ao dito Rei Dom Affonso Conde de Bolonha, seu genro, e ao Ifante D.
    Diniz seu filho, e a todolos filhos, e filhas que delles decendessem
    para sempre do Reino do Algarve com seu inteiro Senhorio, e com todolos
    Lugares delles ganhados, e por ganhar, com tal condição que o sobredito
    Rei de Portugal, e seus filhos, fossem obrigados a dar de ajuda ao dito
    Rei Dom Affonso de Castella em sua vida sómente cincoenta Cavalleiros,
    quando lhos requeressem, contra todolos Reis Despanha, e além desta
    doação El-Rei de Castella mandou fazer outras Cartas para o Mestre Dom
    Payo Correa, e para outros grandes Cavalleiros, que com elle andavam no
    Algarve, porque lhe notificou esta doação, que tinha feita, e lhes
    mandou que a comprissem, e porque El-Rei Dom Affonso folgava com a
    vista, e conversação da Rainha sua filha pola grande afeição que a ella
    tinha não lhe deu lugar que logo se tornasse a Portugal como ella
    quizera, pelo qual elle mandou as sobreditas Provisões a El-Rei Dom
    Affonso seu marido, que como as recebeo alegre com tamanha, e tão
    honrada, e tão dezejada doação, notificou tudo ao Mestre Dom Payo
    Correa, a que desso prouve muito, porque tinham antre si muito
    conhecimento, e grande amizade.

    E El-Rei se intitulou logo de primeiramente Rei de Portugal, e do
    Algarve, e ao Escudo dos cinco Escudos de Portugal, que seu bisavô
    El-Rei Dom Affonso Anriques primeiro tomou, e trouxe elle por titolo, e
    posse deste Reino em adeo Orla, e borladura dos Castellos douro em campo
    vermelho, como depois até gora sempre os Reis de Portugal trouxeram, e
    trazem, segundo atraz brevemente dice.

    CAPITULO XI

    _Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o Algarve,
    tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o mestre D.
    Payo Correa_

    E por El-Rei Dom Affonso não estar ouciozo de fazer alguma parte
    verdadeira a tenção com que pedira esta terra, mandou com grande
    diligencia preceber a gente de seu Reino, com a qual junta, e para logo
    ir ao Algarve, elle a gram pressa se foi a Beja, e da hi a Almodovar do
    Campo Dourique, e passou a serra, pelas Cortiçadas, e da hi levou seu
    caminho direito para a Villa de Farão, que era do Senhorio de Miramolim,
    que era Rei de Marrocos, e tinha a Villa por elle um seu Alcaide mór,
    que chamavam Aloandro, que era seu Alxarife, outro Mouro principal dito
    Abombarram, aos quaes para sua segurança não faleciam dentro grandes
    percebimentos de muita gente, armas, e mantimentos, e mais no alcacer da
    Villa tinham uma fusta, que por um arco, que era feito no muro a
    lançavam ao mar quando queriam, e nella enviavam seus recados ao seu
    Rei, quando delle, e de suas ajudas tinham alguma necessidade, e por
    esta cauza, e porque a Villa era mui forte os Mouros della estavam muito
    esforçados, e com pouco medo dos Christãos, e o Mestre Dom Payo Correa,
    que por prazer del-Rei de Castella era já Vassallo del-Rei Dom Affonso
    de Portugal, sabendo de sua ida o foi com suas gentes aguardar na Villa
    de Selir antre Loulé, e Almodovar, e ali se viram, e o Mestre lhe fez
    sua devida reverencia, e acatamento, e El-Rei a elle muita honra, com
    sinaes de grande amor, porque eram Compadres, e dali com suas gentes
    concertadas foram logo cercar a Villa de Farão, sobre que pozeram fortes
    estancias, e repartiram seus ordenados combates por esta maneira, a
    saber, o primeiro combate tomou El-Rei para si no alcacer, e um lanço do
    muro da Villa até a porta, que agora dizem dos _Freires_, e o segundo
    combate do Mestre de San-Tiago com toda sua gente, foi desta porta dos
    Freires com outro lanço do muro até a porta da Villa, e ca um rico
    homem, e bom Cavalleiro, que havia nome Pedro Estaço, mandou El-Rei dar
    outro lanço do muro até uma terra que depois chamaram _de João de Buim_,
    e a este mesmo João de Buim, que era pessoa de grande estima, foi dado
    outro lanço desta sua terra até o alcacer, onde era o primeiro combate
    del-Rei.

    E além destes Capitães aqui nomeados, eram com El-Rei outros
    Cavalleiros, e pessoas mui principaes do Reino de Portugal, a saber, Dom
    Fernão Lopes, Prior do Esprital, e o Mestre Daviz, e o Chançarel Dom
    João Davinhão, e Mem Soares, e João Soares, e Egas Coelho, e outros, e
    por estes lugares, e lanços mandou El-Rei combater a Villa, ca tão
    aturadamente o fizeram, que de dia, e de noite nunca os combates, e
    afrontas cessavam, nem davam aos Mouros algum lugar, e repouzo, e porque
    perdessem a grande esperança, e ajuda, e socorro, que tinham no mar,
    El-Rei lha tirou; porque mandou sua frota de Navios grossos estar no
    mar, e assi ordenou que no canal do Rio se atraveçassem outros Navios
    fortes, e bem armados, e forrados de couros da banda do mar, por tal,
    que se por cazo algumas Galés de Mouros viessem contrairas, e entrassem
    no Rio, que ellas com fogo, ou com outros engenhos não denificassem os
    Navios dos Christãos, e desta maneira o Lugar ficou cercado em torno por
    mar, e por terra, pelo qual vendo os Mouros que o mar onde tinham o
    ponto principal de sua salvação e socorro era de todo impedido, e
    atalhado, e assi não podendo já sofrer os aficados, e perigosos combates
    que com grande seu dano sempre recebiam dos Christãos, e que posto que
    bem, e esforçadamente se defendessem, como faziam, não tinham emfim
    esperança de se salvarem, ouveram por bem commetter partido, a El-Rei
    para que sahiram de dentro os sobreditos Alcaides, e Alxarife, que na
    Villa eram dos Mouros as maiores cabiceiras.

    E andando elles nestre trato sem amostrarem aos do Arraial, que era
    acabado, El-Rei foi falando com elles até o alcacer, onde por concerto
    já antre elles praticado, e prometido, El-Rei foi delles recolhido no
    dito Castello com os que elle quiz, que seriam até dez Cavalleiros, e
    como El-Rei entrou, porque assi era corcordado, logo o alcacer foi livre
    de todolos Mouros que nelle estavam, e se recolheram para a Villa, e por
    mais segurança, o alcacer foi logo buscado e despejado por aquelles
    Cavalleiros del-Rei, de maneira, que dentro delle não ficaram dos Mouros
    salvo os sobreditos Alcaides, e Alxarife, e porque El-Rei por cumprir
    aos Mouros sua verdade, e para se fazer o trato com mais assecego não
    deu desta parte ao Mestre de San-Tiago, nem aos outros Cavalleiros, que
    tinham os combates, e estes achando menos El-Rei, e sabendo que era
    dentro no alcacer, não sendo certos de sua vida, e segurança, antes
    vendo, que contra sua vontade, e por seu mal o retinham, foram por esso
    anojados, e por esse cazo foi no arraial feito grande alvoroço com que
    (posposto todo o perigo) determinaram os Christãos combater a Villa, que
    sem embargo da resistencia, e setas, e pedras dos Mouros, que o
    contrariaram passaram, e ajuntaram-se com os Mouros, e as gentes do
    Mestre trouxeram logo muita lenha, e outros materiaes ás portas da Villa
    para com o fogo as queimaram, e entrarem por ellas, e por este dezavizo,
    de que não sabia a verdade morreram nestes cometimentos, que poderam ser
    escuzados muitos Mouros, e mais Christãos.

    El-Rei depois que ouvio os grandes rumores do arraial, e soube a causa
    delles, logo com grande trigança se sobio em uma torre, e dando-se a
    conhecer alçou o braço direito, e na mão amostrou a todos as chaves do
    alcacer, que já tinham a seu serviço, e com esso mandou o Mestre, e a
    todolos outros Capitães, que logo cessassem de seus combates, e porque
    já era em concerto com os Mouros, e assi o Alcaide Mouro Abembarram
    sahio do alcacer, e dice aos Mouros da Villa, que fossem seguros, e não
    fizessem algum mal aos de fóra, e com esto ficaram todos assossegados, e
    El-Rei mandou lançar pregões pelo raial que algum Christão não fizesse
    nojo aos Mouros, posto que antre os Christãos andassem, nem entrassem
    pelas portas da Villa; posto que abertas as achassem, salvo o Mestre, e
    outros Capitães, porque estes entrariam com aquelles, que quizessem, e
    que os outros Christãos estivessem sobre as portas dos combates, e
    estancias, que lhe foram ordenadas.

    E o concerto que El-Rei fez com os Mouros foi, que elles Mouros da Villa
    lhe fizessem, dessem e pagassem juntamente aquelle mesmo foro, e
    serviço, e todalas outras cousas, que faziam, e pagavam ao seu Rei
    Amiramolim, e que com elles ficassem todas suas cazas, vinhas, e Cidades
    assi como dantes as tinham, e que El-Rei os amparasse, e deffendesse
    assi de Mouros como de quaesquer outras gentes, e nações, que lhe mal, e
    nojos quizessem fazer, e que aquelles que para alguns Lugares de Mouros
    se quizessem ir, que livremente com todas suas cousas o podessem fazer,
    e andassem com El-Rei quando lhe comprisse, e que lhe fizesse por esso
    bem, e mercê. E por esta maneira cobrou El-Rei a Villa de Farão no mez
    de Janeiro de mil duzentos e setenta (1270).

    CAPITULO XII

    _Como El-Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e como a Aljasur tomou o
    Mestre de San Tiago, e o Mestre Daviz Albufeira, e da declaração que se
    fez deste nome Algarve, e dos Lugares que agora nelle cabem_

    Como El-Rei cobrou a Villa de Farão, como é dito, logo a poucos dias
    elle, e o Mestre foram com suas gentes cercar a Villa de Loulé, e sem
    prolongado cerco, ainda que fosse com dano dos Christãas em breve a
    cobrou; e porque o Mestre de San-Tiago trazia em sua companhia bons
    Cavalleiros, e mui esforçados, destes se acertavam, que nos combates das
    Villas, e pelejas dos Mouros que por sua bondade não receavam de
    commetter, muitos morriam, e havendo El-Rei desso piedade, e sentimento
    se diz, que em acabando de tomar esta Villa de Loulé dice ao Mestre, que
    lhe pezava muito de tão bons Cavalleiros como eram os seus, morrerem
    assi nestes combates, por quanto eram homens singulares, escolheitos, e
    que o Mestre lhe respondeo.

    «Senhor não vos anojeis das mortes destes, que acabaram suas vidas em
    seu proprio officio, e de tanto seu merecimento, pois é em serviço de
    Deos, e por honra, e louvor de sua Fé, e se o haveis, porque são
    Cavalleiros eu posso logo fazer outros tantos». E de Loulé cavalgou o
    Mestre, e correndo a terra dos imigos contra o Cabo, houve avizo certo
    que muitos Mouros juntos iam a via Daljazur, e uns dizem, que este
    ajuntamento faziam para com outros consultarem sobre o que fariam por
    Silves, e Tavilla, e os outros Lugares, que eram tomados, e outros
    affirmam que iam para uma voda para que eram convidados, e esta parece a
    cauza, e rezão mais conforme, porque os Mouros Daljazur sahiram a uma
    legoa a receber os do Cabo, e uns, e outros vinham mais de festa, que de
    guerra, ca muitos delles foram achados sem armas, e com elles saltou o
    Mestre de que matou, e cativou os que quiz, e alguns que se quizeram
    salvar na Villa para que foram fogindo perseguidos do Mestre não tiveram
    acordo de çarrar as portas, por quaes o Mestre entrou de volta com
    elles, e tomou o Lugar sem algum partido dos Mouros.

    E Dalbofeira se acha por mais certa opinião, que em tempo deste Rei foi
    tomada dos Mouros por o Mestre Daviz Dom Lourenço Affonso, e assi parece
    rezão, porque elle foi sempre, e é hoje da dita Ordem. E por estes
    lugares, que dos Mouros se tomaram se acabou de conquistar toda a terra,
    que nós os Portuguezes chamamos Algarve, mas para deste nome não virem
    duvidas, e confuzão aos que as Estorias antigas Dafrica, e Despanha
    lerem, é de saber, que Algarve é nome Arabico, e o Reino, e Senhorio,
    que os Mouros chamavam do Algarve era mui grande, e de grandes
    potencias, porque começava no Cabo de São Vicente, e seguia pela costa
    Despacha até Almiria, e pela banda Dafrica se estendia até Tremecem, em
    que entravam Fez, e Cepta, e Tangere, que diziam de Benamarim, porque os
    Lugares, que os Reis de Portugal até agora tem na parte do Algarve
    daquem már, que é em Hespanha são estes, a saber, Estombar, Alvor, Villa
    nova de Portimão, Cacella, Paderne, Tavilla, Farão, Loulé, Silves, e
    Albufeira, Aljazur, e Alcoutim, e Castro Marim, e Lagos, e destes alguns
    são Lugares novos, que em tempo dos Reis de Portugal novamente depois se
    fizeram, e reformaram.

    E destes Lugares do Algarve depois que os El-Rei Dom Affonso houve a seu
    poder, e Senhorio se acha, que com suas Galés, e outros muitos navios
    fez sempre de continuo crua guerra aos Mouros Dafrica, que em seus
    corpos e fazendas recebiam grandes danos e prezas, e El-Rei Dom Affonso
    por seu grande esforço, e bons feitos, tinha antre os Reis principais
    Christãos mui louvado nome, pelo qual se acha que o Papa por esta
    honrada fama del Rei lhe mandou por meo dum Frei Payo, Ministro da
    ministração dos Freires de San-Tiago rogando-lhe que em remissão de seus
    peccados, quizesse tomar a Cruz de Jesu Christo contra os Mouros dultra
    már, que tiranamente tinham a Caza Santa em desprezo da Fé, e da
    Religião e que El-Rei respodeo, que se El-Rei de França a esta conquista
    passasse em pessoa, que lhe prometia, que elle tambem com a sua
    passasse, salvo se alguma outra guerra, ou tamanha necessidade o
    impedisse, porque o não podesse fazer, e por esso ambos não foram,
    porque o derradeiro Rei de França, que por recobrar a Caza Santa passou
    a ultra már, foi El-Rei São Luis de França primo com irmão deste Dom
    Affonso de Portugal, filhos de duas Irmãs, quando levou comsigo a Rainha
    Dona Margarida sua molher, e elle, e dous Irmãos seus foram dos infieis
    prezos, e cativos na grande, e crua batalha, que ouveram com o gram
    Soldam, junto com Damiata do Egypto, como em outras partes já dice, o
    que foi muito antes do tempo deste requerimento do Papa, segundo está na
    Coronica de França, e em outras mais largamente se contem.

    CAPITULO XIII

    _Como o Reino do Algarve por divisões que houve foi posto em terçaria de
    Cavalleiros Portuguezes, e o que sobre esso se fez_

    Como El-Rei de Portugal foi em posse pacifica, o Mestre Dom Payo Correa
    se tornou a seu Mestrado, e deu conta a El-Rei Dom Affonso de Castella
    de todo o que era passado, o qual para mais firmeza, e maior seguridade
    das condições com que a El-Rei seu genro fizera sua doação do Algarve,
    houve por bem, que o dito seu genro as prometesse, e segurasse com
    menagem, e juramento em sua propria pessoa, para que o dito Rei Dom
    Affonso de Castella enviou a Portugal com seu poder abastante ao Ifante
    D. Luis seu irmão, que diceram de Pontes, filho del-Rei Dom Fernando, e
    da Rainha Dona Joana sua segunda molher, filha do Conde Dom Simão de
    Pontes, e sobrinha del-Rei Dom Luis de França, o qual álem de tomar
    del-Rei de Portugal todas as seguridades conforme as condições de sua
    doação, ainda o dito Ifante para maior seguridade, e mais honesta escuza
    del-Rei D. Affonso de Castella, para os de seu Reino, que o reprendiam,
    e acuzavam por tal doação, quiz que todas estas Villas e Castellos
    fossem, como foram logo entregues a João de Boim, e Pedro Annes, seu
    filho, Vassallos e naturaes del-Rei de Portugal, que eram pessoas de
    limpo e nobre sangue de grandes cazas, para que por elles os tivessem de
    fieldade com menagem de juramento que fizeram, que quando el-Rei de
    Portugal não comprisse a condição dos cincoenta Cavalleiros, que a
    El-Rei de Castella em sua vida havia de dar, que elles com suas pessoas,
    e com as ditas Villas e Castellos servissem a El-Rei de Castella, e
    comprissem inteiramente tudo o que El-Rei de Portugal era neste cazo
    obrigado a cumprir.

    E porque El-Rei de Portugal não foi desta terçaria do Reino do Algarve
    muito contente, e dice por outros desvairos que houve com Castella sobre
    partições, e termos dos Reinos, foram estes Reis desacordados de que
    El-Rei de Castella se sentia mais aggravado, mas por meo da Rainha Dona
    Breatiz, que como virtuosa, e prudente procurou logo antre elles boa
    paz, e concordia, vieram logo por Embaxadores a Portugal o dito Dom Payo
    Correa Mestre de San-Tiago, de que já dice, e Dom Martim Nunes, Mestre
    da Cavallaria do Templo nos tres Reinos Despanha, e Dom Affonso Garcia,
    Adiantado mór no Reino de Murcia, os quaes pozeram antre elles taes
    convenças, com que perderam todo o dezamor, e escandalo, que antre elles
    havia, e ficou assentado, que El-Rei de Portugal livremente, e para
    sempre despozesse de todalas terras, e Villas, e couzas do Algarve todo
    o que quizesse sem embargo de todalas outras promessas e condições que
    antre elles fossem postas, salvo da ajuda dos cincoenta Cavalleiros de
    que o não revelou, e com esto os Embaxadores se tornaram, e acharam
    El-Rei de Castella em Badalhouse, que logo enviou suas provizões ao dito
    João de Boim, e Pedro Anes seu filho, porque lhe mandou que entregassem
    a El-Rei Dom Affonso seu genro todalas Villas e Castellos do Algarve, e
    se elle fosse fallecido, que as entregassem a El-Rei Dom Diniz seu
    filho, e lhas alevantou com todalas crauzolas, e solenidade, e todo
    preito, e menagem, que por quaisquer obrigações, e couzas do Algarve
    tiveram feito a elle, ou a outrem em seu nome, e por Carta asselada
    feita em Badalhouse Mercoles dezaseis dias andados de Fevereiro da era
    de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e sobscrita por o Secretario
    Millão Paes, que por mandado del-Rei a fez escrever.

    CAPITULO XIV

    _Como El-Rei Dom Affonso de Castella quitou ao Ifante D. Diniz seu neto
    a obrigação do Algarve, e a soltou a Portugal levemente para sempre_

    E porque a este tempo o Ifante D. Diniz herdeiro filho del-Rei de
    Portugal, posto que fosse moço era já em idade para poder caminhar,
    El-Rei, e a Rainha seus padres acordaram de o enviar, como enviaram
    muito honradamente a Castella a visitar El-Rei Dom Affonso seu avô, para
    lhe ter em mercê a doação, e avenças passadas, e assi para lhe pedir
    relevamento das mais obrigações, e serviço dos cincoenta Cavalleiros, e
    assi com mui nobre companhia chegou a Sevilha onde achou El-Rei, que o
    recebeo, e agazalhou com muitas festas, e honras, e com sinaes de grande
    amor, a quem o Ifante Dom Diniz passados os comprimentos, e visitações,
    e bem ensinado da instrução, que levava pedio por mercê a El-Rei seu
    avô, que daquella obrigação dos cincoenta Cavalleiros, e assi de
    qualquer outra que tocasse ao Algarve, quizesse para sempre relevar a
    El-Rei Dom Affonso seu padre, e a elle, e aos que delle decendessem, na
    qual cousa segundo a Coronica de Castella conta, El-Rei esteve algum
    pouco suspenso, e com os grandes de seu Reino quiz poer o caso em
    Conselho, no qual por só Dom Nuno de Lara com rezões que pareciam
    onestas, e de bem de seus Reinos ouve alguma contradição, mas os outros,
    que logo conheceram a vontade del-Rei, que era satisfazer em todo a seu
    neto, todos lhe aprovaram, e louvaram, e sobre este assento andando o
    Ifante Dom Diniz com El-Rei seu avô foram a Jaem, donde houve por bem
    que o Ifante se tornasse, como tornou a Portugal, e lhe mandou dar uma
    carta que trouxe para El-Rei seu padre, escrita em pergaminho em
    palavras Castelhanas, e asselada de seu selo pendente das Armas de
    Castella, e de Lião, que tornadas fielmente em Portuguez por mim
    Coronista, que a propria Carta vi, diziam nesta maneira.

    «Saibam quantos esta Carta virem, como eu Dom Affonso pola graça de Deos
    Rei de Castella, e de Toledo, e de Lião, de Galiza, de Sevilha, de
    Cordova, de Murcia, e de Jaem, quito para sempre a vós Dom Affonso per
    essa mesma graça Rei de Portugal, e do Algarve, a menagem que fizestes a
    mim por carta, ou por cartas, e a Dom Luis meu irmão, em meu nome, para
    fazer a mim comprir os preitos, e posturas, e as convenças, que foram
    postas antre mim, e vós, e Dom Diniz, e os outros vossos filhos, e
    vossos herdeiros, por rezão dos cincoenta Cavalleiros, que a mim deviam
    ser feita em meus dias pelo Algarve, a qual ajuda, e os quaes preitos, e
    posturas, e menagens em qualquer maneira que fossem feitas assi por
    Cartas, como sem Cartas, eu quito para sempre a voz, e Dom Diniz, e aos
    outros vossos filhos, e herdeiros que nunca por esso a mim, nem a outrem
    por mim, vós nem elles, nem outrem por vós sejaes, nem sejam teudos de
    nhuma couza por rezão dos Castellos, nem da terra do Algarve, que vos
    dei, e outorguei, que se alguma Carta, ou Cartas parecer, ou parecerem
    sobre a menagem, ou menagens, ou sobre preitos, ou posturas, ou avenças,
    ou sobre o serviço, ou ajuda que a mim devesse ser feito, ou feita pelos
    Castellos, ou pola terra do Algarve, que desdaqui em diante nunca
    valham, e sejam quebrados, e de nhuma formidão, e renuncio, e quito todo
    o direito, e toda demanda, que eu haveria, ou haver poderia por esta
    Carta, ou por essas Cartas contra vós ou contra Dom Diniz, ou contra os
    outros vossos filhos, ou vossos herdeiros, ou contra os Cavalleiros que
    tivessem, ou tiveram os Castellos do Algarve em tal guiza, que nunca a
    mim essa Carta, ou Cartas possa nem possam preitar, nem a outrem por
    mim, nem a vós, nem Dom Diniz, nem a vossos filhos, nem a vosssos
    herdeiros, nem aos sobreditos Cavalleiros empecer, e em testemunho da
    sobredita couza, dou a vós sobredito Rei de Portugal e do Algarve esta
    minha Carta aberta asselada de meu selo de chumbo, que tenhais em
    testemunho, feita a Carta em Jaem por nosso mandado Sabbado sete dias do
    mez de Maio de mil e duzentos e sessenta e sete annos, e eu Milão Peres
    a fiz escrever».

    CAPITULO XV

    _Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para El-Rei
    D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser desobedecido, e
    como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se acrecentarem a
    Portugul os Lugares de riba Dodiana_

    Com esta Carta, e com grandes davidas que o Ifante D. Diniz recebeo
    del-Rei Dom Affonso seu avô se tornou a Portugal com que El-Rei seu
    padre foi muito alegre, e com elle veo o Mestre Dom Payo Correa, que
    depois de tornado a Castella não soube mais delle, nem o que depois fez,
    salvo que no fim de seus dias se recolheo á Villa de Ucles, que era
    Cabeça do Convento do seu Mestrado de San-Tiago em Castella, onde se diz
    que bem, e catolicamente acabou sua vida já velho a dés dias de
    Fevereiro de mil e duzentos setenta e cinco annos, (1275) e que mandou
    que morto o trouxessem a Tavilla, que elle ganhara dos Mouros, de que
    escondidamente foi ahi trazido, e sepultado na Egreja de Santa Maria
    antre o Altar mór, e a parede da Egreja.

    E passados depois alguns annos andando a era de mil duzentos e setenta e
    um, havendo contenda na jurdição do Imperio de Roma, que vagara por
    morte de Federico o segundo, que foi mao, e erege Emperador dos Romãos,
    e grande perseguidor das cousas da Santa Egreja, alguns Eleitores
    elegeram a Rodufo Conde de Cambra, irmão del-Rei de Inglaterra, e outros
    elegeram, e chamaram logo para o Imperio este Rei Dom Affonso de
    Castella, o qual mui poderoso de armas, e gentes, e assi mui abastado de
    riquezas, depois que leixou em Castella jurado por Rei, e seu sobcessor
    ao Ifante D. Fernando de Lacerda seu filho primogenito, logo passou em
    França esperando de ser logo no dito Imperio sem contradição confirmado
    por o Papa Gregorio decimo, ao tempo em Lião Sola nova de França fez
    Concilio geral, onde o dito Rei D. Affonso achou já eleito e confirmado
    o dito Rodufo com quem competia, e agravando-se desso ao Papa, que
    encontrou na Villa de Belicaudo em França junto com Avinhão, finalmente
    confortado de Sua Santidade, e rogado, que por se evitar cisma, e
    guerras antre os Christãos, que renunciasse o direito que no dito
    Imperio tinha, e elle o fez, e tornou-se em Espanha onde achou falecido
    de peste o dito Ifante Dom Fernando, seu filho maior, que por assossego
    da sobceção de Castella, e de Lião sobre que os Reis de França, e de
    Castella competiram, fora cazado com a Ifante Dona Branca filha del-Rei
    S. Luis a que pertencia ter direito nos ditos Reinos Despanha por ser
    filho da Rainha Dona Branca filha del-Rei Dom Affonso o noveno, que
    venceo a batalha das Navas de Toloza, e desta Ifante Dona Branca o dito
    Ifante Dom Fernando tinha já havido dous filhos, a saber Dom Affonso, e
    Dom Fernando de Lacerda, a que muito mais claramente dizem da guedelha,
    porque este apelido de Lacerda não é de alguma geração, nem memoria
    passada dos seus progenitores de uma parte, nem da outra, mas sómente
    lhe foi posto nome aventicio, porque o dito Ifante Dom Fernando, que
    primeiramente se chamou de Lacerda, quando naceo trouxe do ventre da
    Rainha Dona Violante Daragão sua madre uma guedelha de cabelos nos
    peitos a que chamam Lacerda, e este Dom Affonso por contrato do
    cazamento, e por direito comum pertencia mais a sobcessão de Castella
    que outro algum.

    Mas ao tempo que o dito Ifante Dom Fernando faleceo era tambem em
    Castella o Ifante Dom Sancho seu irmão lidimo, que a auzencia del-Rei
    Dom Affonso seu padre, e por morte do irmão tomou logo posse da
    governação, e defenção do Reino, em que trabalhou de ser como singular
    Principe, porque resistio com batalhas, e grandes forças aos Reis de
    Grada, e Marrocos, que entraram em Espanha, e não consentio que Dom
    Affonso de Lacerda seu sobrinho fosse jurado, nem obedecido por
    sobcessor de Castella, e El-Rei Dom Affonso em chegando de França,
    procurou logo que o dito Ifante Dom Sancho por todolos Estados do Reino
    fosse, como foi jurado, e havido por seu sobcessor, sem embargo doutro
    juramento, que ao dito Ifante Dom Fernando por si, e por seus filhos, e
    sobcessores era feito, e a Rainha Dona Violante molhar del-Rei Dom
    Affonso de Castella anojada por se denegar a sobcessão a seus netos, e
    principalmente a Dom Affonso o primeiro com receo que houve de os
    matarem em Castella, se foi com elles para El-Rei Dom James deste nome o
    primeiro, e dos Reis Daragão o decimo, que era padre della, donde enviou
    pedir a El-Rei Dom Affonso seu marido depois que veo de França, que pois
    elle por si ganhara dos Mouros o Reino de Murcia, que o désse ao Ifante
    Dom Affonso seu neto, com que para sua honra, e estado seria satisfeito,
    e renunciaria por esso todo o direito que tivesse na sobcessão de
    Castella, no que El-Rei levemente, e com san vontade consentia, mas o
    Ifante Dom Sancho em todo o contrariou, que com ameaças de morte, que
    fez não leixou ir ao Papa os Embaxadores que El-Rei seu padre sobre esso
    lhe mandava, dizendo que como o Ifante Dom Fernando seu irmão falecera,
    logo o Deos leixara por herdeiro de todolos Reinos, e couzas de que
    El-Rei seu padre era Rei, e Senhor.

    E querendo El-Rei por Cortes, e prazer dos povos remedear esta denegação
    do Ifante seu filho, e para que seu neto houvesse toda via o Reino de
    Murcia, fez ajuntar os procuradores dos Concelhos do Reino, a que o
    Ifante Dom Sancho requereo com muitas rezões, que faziam por elle, que
    por alguma maneira não consentissem no requerimento del-Rei, e assi
    descontente o Ifante antes de se tomar alguma concruzão, se foi para
    Cordova, e El-Rei depois de declarar aos povos as muitas cauzas, e
    razões porque de direito podia dar o Reino de Murcia a Dom Affonso seu
    neto, os Procuradores para no cabo responderem com madura deliberação,
    como elle requeria, pediram espaço dalgum tempo, para lhe tornarem
    reposta, os quaes sem lha darem se foram logo com medo ajuntar com o
    Ifante Dom Sancho em Cordova, onde sendo delle bem recebidos,
    concordaram, que por quanto em Valhadolid sobre este cazo se faria
    ajuntamento dos mais principaes Lugares, e grandes do Reino, elles dahi
    a certo tempo fossem, como foram ahi juntos, salvo os Concelhos
    Dandaluzia, que sempre tiveram com El-Rei Dom Affonso, os quaes assi
    juntos em Valhadolid era hi o Ifante Dom Sancho filho del-Rei, e o
    Ifante Dom João seu irmão, e o Ifante Dom Manoel seu tio, e Dom Lopo
    Senhor de Biscaya, e Dom Diogo seu irmão, e depois de muitas praticas, e
    apontamentos, que antre si fizeram leixaram todos a determinação da
    sentença ao dito Ifante Dom Manoel, o qual alevantado em pé, pronunciou
    a sentença, e dice, que por quanto El-Rei Dom Affonso seu irmão matara o
    Ifante Dom Fadrique tambem seu irmão, e a Dom Simão Rodrigues dos
    Cameyros seu sogro, e outros nobres do seu Reino sem cauza, que perdesse
    por esso a justiça, e porque se dezaforaram os Fidalgos, e os Concelhos
    com dano, e perda delles, que não comprissem suas Cartas, nem lhe
    pagassem os foros, e porque despertara a terra, e fizera más moedas, que
    não houvesse do Reino preitas, nem serviços, nem martineguas, nem moedas
    foreiras, e que dahi em diante o dito Ifante se podesse chamar Rei de
    Castella, e de Lião.

    E preguntados os Procuradores, e povos se aprovavam esta sentença,
    respondeo por todos um Diogo Affonso Alcaide mór de Toledo, que a todos
    parecia bem a determinação do Ifante Dom Manoel, por as rezões que
    dicera, e mais por a prodigalidade del-Rei Dom Affonso, que para o
    resgate do Emperador de Constantinopla dera das rendas de Castella
    cincoenta quintaes de prata, e mais por dar o Algarve a seu genro El-Rei
    Dom Affonso de Portugal, e lhe quitar ajuda, e o serviço dos cincoenta
    Cavalleiros em que era obrigado, e porém que lhe parecia couza honesta,
    se ao Ifante Dom Sancho assi bem parecesse, que elle em vida del-Rei seu
    Padre senão chamasse Rei, no que o Ifante consentio; e com esto a
    obediencia de todos os Lugares logo foi alevantada a El-Rei, salvo a de
    Sevilha, onde El-Rei se recolheo; e perseguido de muitas necessidades
    enviando rogar, e encomendar aos Prelados, e pessoas de auctoridade do
    Reino, que pozessem concordia, e boa paz antre elle, e seu filho, elles
    segundo alguns dizem o não fizeram, antes o contrariavam.

    Com esta tamanha necessidade enviou a pedir ajuda a El-Rei Dom Affonso
    seu genro, que por em tempo de tanta fortuna ser agardecido ás boas
    obras, e graças que delle tinha recebidas, lhe mandou trezentos
    Cavalleiros Portuguezes pagos á sua custa por muito tempo, que por
    honra, e serviço del-Rei o fizeram de maneira em Castella, que sua fama,
    e bom nome será sempre lembrada, e as Coronicas Despanha, que eu vi dão
    desso craro testemunho, e destes trezentos Cavalleiros de Portugal, que
    vieram, e andaram em serviço del-Rei Dom Affonso, creo que se tomou a
    opinião errada, que em alguns livros vi, em que tem, que a obrigação de
    que este Rei Dom Affonso relevou a El-Rei de Portugal seu genro, e a
    El-Rei Dom Diniz seu neto, era de trezentos Cavalleiros com que era
    obrigado de o ajudar, e servir quando lhe comprisse, a tal sentença, e
    opinião são errados, porque a obrigação, que El-Rei Dom Affonso, e
    Ifante Dom Diniz seu filho tomaram por a sobcessão do Algarve, do que
    foram relevados, era sómente de cincoenta Cavalleiros, que em vida
    del-Rei Dom Affonso de Castella, contra todolos Reis Despanha lhe haviam
    de dar, e a verdade desto eu Coronista verdadeiramente a vi nas proprias
    doações, quitações, e privilegios assellados, e auctorizados, que
    sobresso se concederam, os quais estão no Castello de Lisboa, na Torre
    do Tombo de Portugal, de que eu sou Guarda mór, e outros semelhantes
    deve haver nos Cartorios de Castella.

    E porém a guerra, e desavença antre El-Rei Dom Affonso de Castella, e o
    Ifante Dom Sancho seu filho durou muitos annos, nem cessou, salvo por
    morte del-Rei, em cuja vida padeceo muitas necessidades, e foi sempre
    perseguido de mui contrairas fortunas, por as quaes meteo por sua ajuda
    em Espanha Abençaf Rei de Marrocos, e seus filhos a que se diz, que
    antes de entrarem empenhou sua Coroa por sessenta mil dobras, o qual com
    grandes gentes, e poder de Mouros correo a terra dos Christãos, e sem
    aproveitarem ao dito Rei de Castella fazendo primeiro nellas muitos
    danos, e estragos se volveo em Africa, como na Coronica de Castella esto
    milhor, e com mais particularidade se declara.

    CAPITULO XVI

    _Do falecimento del-Rei D. Affonso de Portugal, como antes de seu
    falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro_

    A este tempo chegada a era de mil duzentos setenta e oito, (1278) El-Rei
    Dom Affonso de Portugal sendo já velho de setenta annos, e perseguido de
    dores, e paixões de velhice, por descançar em alguma parte dos
    trabalhos, e cuidados do Reino, ao Ifante Dom Diniz seu filho, que era
    de dezoito annos, e não era cazado, deu-lhe Caza em Lisboa a dezaseis
    dias de Junho do anno sobre dito, e de seu assentamento alem doutras
    couzas, lhe ordenou logo mais em dinheiros quarenta mil livras de moeda
    antiga, que valiam a respeito dos preços, e valor do ouro, e da prata
    dagora dezaseis mil cruzados, porque naquella tempo, segundo é bem
    verificado, uma livra valia vinte soldos, e duas livras e meia faziam
    cincoenta soldos, que valiam um maravedi douro, que no preço, e pezo
    eram os maravedis douro como agora são os cruzados, e ducados.

    E do dia que El-Rei deu assi Caza ao Ifante seu filho, e a nove mezes
    primeiros seguintes, tendo já feito em mui inteiro acordo seu solene
    Testamento, arrependido de seus peccados recebendo como bom Catholico, e
    fiel Christão todolos Sacramentos para bem de sua alma, em Lisboa a
    vinte dias de Março de mil e duzentos setenta e nove, (1279) acabou sua
    vida, e deu sua alma a Deos, em idade de setenta annos, dos quais Reino
    trinta e dous, e foi logo soterrado no Moesteiro de São Domingos de
    Lisboa, que elle novamente fez, e depois na era de mil e duzentos e
    oitenta e nove, foi tresladado seu corpo ao Moesteiro Dalcobaça, pela
    Rainha Dona Breatiz sua molher, que ficou viva, e se mandou depois
    enterrar com elle no dito Moesteiro Dalcobaça, onde ambos jazem.

    Este Rei Dom Affonso fez de novo o dito Moesteiro de S. Domingos de
    Lisboa, o qual começou aos tres annos primeiros depois que foi Rei, e o
    acabou em déz annos, e assi fez o Moesteiro de Santa Clara de Santarem,
    e povorou, e fez a Villa Destremoz, e reformou, e povorou a Villa de
    Beja, que dos tempos dos Mouros era de todo destroida, mas não fez a
    torre grande do Castello, por que esta fez seu filho, El-Rei Dom Diniz,
    e assi deu bons foraes a muitos Lugares do seu Reino, e em umas grandes
    fomes, que nelle houve em seu tempo, se acha que uzou de grande piedade
    com seus vassalos, a que proveo com devidos mantimentos, trazidos de
    muitas partes de fóra do Reino á custa de suas rendas, e a penhor das
    ricas joias de seu tesouro, e foi o primeiro que se intitulou Rei de
    Portugal, e do Algarve, e que primeiro por esta cauza poz a bordadura
    dos Castellos, como atraz é já dito.

    DEO GRATIAS

    INDEX

    DAS COUSAS NOTAVEIS

    *A*

    Abenafaam Rei mouro é vencido na batalha de Silves onde morreo afogado
    em um rio pag. 40 a 42

    Affonso III (D.) Onde, e quando foi levantado Rei de Portugal, pag. 16.
    Foi casado segunda vez com Dona Breatiz sua sobrinha, filha natural
    del-Rei D. Affonso X de Castella, pag. 17. Foi o primeiro que se
    intitulou Rei de Portugal e dos Algarves, e pôz no Escudo além das
    Quinas os Castellos, pag. 17. Foi muito amante da Justiça, e grande
    reedificador, pag. 18. Sendo casado com Dona Matildes, Condessa de
    Bolonha a deixou, e vindo a Portugal se recebeu com sua sobrinha Dona
    Breatiz, pag. 19. Não admitte a Embaixada dos Cavalleiros que vieram a
    Portugal com a Condessa Dona Matilde para que a recebesse em sua
    companhia, antes partem injuriados da sua presença, pag. 21.
    Estranha-lhe o Papa este procedimento, e lhe manda intimar censuras pelo
    Arcebispo de S. Tiago, e não cede da sua pertinacia pag. 23. Dos filhos
    que teve de Dona Breatriz, pag. 24. Amou muito a sua filha a Infanta
    Dona Branca a quem deu a Villa de Monte-mór-o-velho, e em testamento lhe
    deixou mais de dés mil livras, pag. 25. Das diversas terras que juntou á
    Corôa com o casamento de Dona Breatiz, pag. 26. Como alcançou o Reino do
    Algarve, e se intitulou Rei delle, pag. 45. Conquista gloriosamente a
    Villa de Faro, pag.^s 46 a 50. E' exhortado pelo Papa para conquistar a
    Terra Santa, pag. 53. Manda trezentos Cavalleiros em soccorro de seu
    sogro, que lho pedira por estar dessapossado do Reino, pag. 63. Em que
    dia e anno morreo, pag. 65. Onde foi enterrado, e para que parte foi
    tresladado o seu corpo, pag. 66. Edificios que fez, ibi.

    Affonso X (D.) De Castella, teve de Dona Mayor Guilhelme de Gusmão sua
    manceba e Dona Breatiz que cazou com D. Affonso III de Portugal, pag.
    19. Amou excessivamente a esta filha e lhe deu um grande dote quando se
    recebeo com aquelle Principe, ibi. Deixou a sua neta a Infanta Dona
    Branca, grande copia de dinheiro, pag. 26. Sucedeu nos reinos de
    Castella, e de Lião a seu Pae D. Fernando, pag. 28. Doa a El-Rei D.
    Affonso III o Reino do Algarve, e com que condições, pag. 45. Concede á
    petição de seu neto o Infante D. Diniz a izenção dos cincoenta
    Cavalleiros com que doara a seu pae o Reino do Algarve, pag. 56 e 57.
    Sendo eleito Emperador dos Romanos, parte a França para ser confirmado
    pelo Papa, e acha já de posse do Imperio a Rodulpho, e volta para
    Castella, pag.^s 59 e 60. Por ter morto seu irmão o Infante D. Fadrique,
    e a seu sogro D. Simão Rodrigues Cameiros é dessapossado do Reino por
    sentença de seu irmão o Infante D. Manuel, pag. 62. Pede soccorro a seu
    genro D. Affonso III para rebater esta violencia, e lho manda, pag. 63.

    Affonso (Infante D.) Filho de Affonso III de Portugal, e Dona Breatiz,
    casou com Dona Violante filha do Infante D. Manuel de Castella, e da
    Infanta Dona Constancia de Aragão, pag. 25.

    Affonso Garcia (D.) Adiantado-mór do Reino de Murcia, é mandado por
    Embaixador de Castella a pacificar ao seu Principe com D. Affonso III,
    pag. 55.

    Albofeira. E' conquistada esta Villa por D. Lourenço Affonso Mestre de
    Aviz, pag. 52.

    Algarve. Como foi conquistado por D. Payo Corrêa, e das gloriosas
    vitorias que alcançou dos Mouros, pag.^s 29 a 32. Com que condições foi
    doado por El-Rei de Castella a El-Rei D. Affonso III de Portugal, pag.
    45. Que terras comprehendia quando era possuido dos Mouros, e quaes
    sejam as que tem depois que o dominaram os Portuguezes, pag. 52.

    Aljustrel. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, e depois de ser entregue
    a D. Sancho II de Portugal, o deu este Principe á Ordem de San-Thiago,
    pag. 28 e 29.

    Aljuzur. Foi conquistado por D. Payo Corrêa, pag. 52.

    Alvaro Garcia. Cavalleiro de San-Thiago, é morto pelos Mouros em Tavira,
    e honorificamente sepultado, pag. 39.

    Alvor. E' couquistado por D. Payo Corrêa, pag. 40.

    Arcebispo de San-Thiago. E' mandado pelo Papa que admoestasse a D.
    Affonso III que largasse a Dona Breatiz por estar viva sua primeira
    mulher a Condessa Dona Matilde, e que repugnando o emprazasse para que
    em quatro mezes apparecesse pessoalmente na sua prezença, pag. 23.

    *B*

    Beja. Foi reformada, e povoada por D. Affonso III, pag. 60.

    Beltram de Caya, cavalleiro alentado é morto pelos Mouros em Tavira, e
    como foi honorificamente sepultado, pag. 39.

    Branca (Rainha Dona) filha del-Rei D. Affonso Noveno que venceo a
    batalha das Navas de Toloza, foi mãe de S. Luis Rei de França, pag. 60.

    Branca (Infanta Dona) filha de Affonso III de Portugal, e da Rainha Dona
    Breatiz se recolheo no Mosteiro de Lorvão, e foi Senhora das Olgas de
    Burgos onde sem cazar faleceo, pag. 25. Possuio grandes terras em
    Castella, como em Portugal, ibi.

    Branca (Infanta Dona) filha de S. Luis Rei de França, foi mulher do
    Infante D. Fernando de Lacerda, filho primogenito de D. Affonso X de
    Castella de quem teve dous filhos, pag. 60.

    Breatiz (Rainha Dona) filha natural de D. Affonso X de Castella, foi
    casada com seu tio D. Affonso III de Portugal, pag. 17 e 18. Mandou
    tresladar o corpo de seu marido para o Convento de Alcobaça, onde foi
    enterrada, pag. 66.

    *C*

    Campo Maior. Foi dada esta Villa por El-Rei D. Diniz a sua irmã a
    Infanta Dona Branca, pag. 24.

    Castellos. Os que se vêm no Escudo das Armas de Portugal, foram postos
    por D. Affonso III, quando lhe foi dado em dote o Algarve, e não por
    serem do Condado de Bolonha, pag. 17.

    Constança (Infanta Dona). Filha de D. Affonso III e Dona Breatiz, foi
    com sua mãi a Sevilha a ver seu pai, que assistia naquella Cidade, onde
    faleceo, e foi conduzida ao Convento de Alcobaça, e nelle está
    sepultada, pag. 26.

    Cordova. Quando foi esta cidade ganhada por El-Rei D. Fernando de
    Castella, pag. 26.

    *D*

    Infante D. Diniz. Foi filho primogenito de D. Affonso III de Portugal, e
    D. Breatiz, que depois sucedeo no Reino a seu pai, pag. 24. Onde e
    quando naceo, ibi. Edificou o Mosteiro de Odivelas onde está sepultado,
    ibi. Sendo Rei deu a sua irmã a Infanta Dona Branca a Villa de Campo
    Maior, pag. 24. Parte a Castella para pedir a seu avô D. Affonso X,
    exima ao Reino de Portugal da obrigação dos cincoenta Cavalleiros com
    que lhe doara o Algarve, e depois de algumas contradições o alcança,
    pag. 56. Em que dia e anno lhe fez casa seu pai, pag. 56. Edificou a
    Torre do Castello de Beja, ibi.

    Diogo Affonso. Alcaide-mòr de Toledo aprova em nome de todos os
    Procuradores que estavam juntos em Valhadolid a determinação do Infante
    D. Manoel com a qual dessapossou do Reino de Castella a seu irmão D.
    Affonso X, pag. 62.

    Duram Vaz. Cavalleiro insigne é morto pelos Mouros em Tavira, e como foi
    enterrado, pag. 39.

    *E*

    Estevão Vaz, Cavalleiro famoso morre em Tavira, e como foi
    honorificamente sepultado, pag. 39.

    Estremoz. Foi edificada esta Villa e povoada por D. Affonso III, pag.
    66.

    *F*

    Fadrique (Infante D.) Foi morto por seu irmão D. Affonso X de Castella,
    e por este motivo foi dessapossado do Reino por determinação de seu
    irmão o Infante D. Manoel, pag. 62.

    Faro. Como, e quando foi conquistada esta Villa por D. Affonso III, pag.
    47 a 50.

    Fernão Lopes (D.) Prior do Esprital assistio com D. Affonso III na
    conquista de Faro, pag. 48.

    Fernando (El-Rei D.) De Castella, quando tomou Cordova? pag. 27. Em que
    anno conquistou a cidade de Sevilha, pag. 28. Quando morreo. ibi.

    Fernando (D.) Filho natural del-Rei D. Affonso III, foi Cavalleiro da
    Ordem do Templo, e aonde está sepultado? pag. 26.

    Fernando de Lacerda (Infante D.) Filho primogenito de D. Affonso X de
    Castella, é jurado por sucessor da Coroa quando seu pai passou a França
    a coroar-se por Emperador dos Romanos, pag. 59. Foi cazado com Dona
    Branca filha de S. Luis Rei de França, ibi. Morreo de peste, pag. 60.
    Teve dous filhos, e como se chamaram, ibi. Porque tomou o appelido de
    _Lacerda_, ibi.

    *G*

    Gregorio X roga a D. Affonso X de Castella que por evitar algum scisma
    se recolha ao seu Reino, quando vinha a coroar-se Emperador dos Romanos
    por já estar de posse desta dignidade Rodulpho Conde de Cambra, irmão
    del-Rei de Inglaterra, pag. 60.

    Garcia Lopes (D.) Sendo privado de Mestre da Ordem de Calatrava lhe
    sucedeo João Nunes do Prado, pag. 24.

    Garcia Rodrigues. Deu os meios a D. Payo Correa para haver de conquistar
    o Algarve, pag. 30. Morre alentadamente em Tavira com mais seis
    companheiros acometidos por um grande numero de Mouros, pag. 37 e 38.

    *J*

    João de Avinhão (D.) Chançarel assistio com D. Affonso III na conquista
    de Faro, pag. 48.

    João de Boim. Assistio no lanço de um muro na tomada da Villa de Faro,
    que ao depois tomou o seu nome o lugar que tinha ocupado, pag. 48. Tomou
    entrega de todos os lugares do Algarve conquistados por ordem del-Rei de
    Castella para em seu nome os entregar a seu genro D. Affonso III, e
    quando se celebrou este ajuste, pag. 54.

    João Nunes do Prado, Cavalleiro da Ordem de Calatrava de que foi Mestre,
    foi reputado filho da Infanta D. Branca filha del-Rei Affonso III de
    Portugal, e de um Cavalleiro chamado o Carpiteiro, pag. 25.

    *L*

    Livra. Que valor tinha uma e duas e meia, pag. 65 Quarenta mil assinou
    para renda do Infante D. Diniz seu pai D. Affonso III, ibi.

    Loulé é conquistado por D. Affonso III pag. 50

    Lourenço Affonso (D.) Mestre de Aviz assiste com El-Rei D. Affonso III
    na conquista de Faro, pag. 48. Conquistou a Villa de Albufeira, pag. 52.

    Luis (São) Primo com irmão del-Rei D. Affonso III de Portugal foi o
    ultimo Rei de França que passou á conquista da Terra Santa, e que
    successo teve nesta empreza, pag. 53.

    Luis (Infante D.) é mandado por seu irmão D. Affonso X de Castella a
    Portugal a firmar as condições com que doara a seu genro D. Affonso III
    o Reino do Algarve, pag. 54. Quem foram os pais deste Infante, ibi.

    *M*

    Manoel (Infante D.) irmão de D. Affonso X de Castella pronuncia em
    Valhadolid sentença em presença de muitos Procuradores de Cidades contra
    este Principe, para que não lhe obedeçam os povos, se intitule Rei seu
    sobrinho D. Sancho, pag. 62.

    Martim Nunes (D.) Mestre da Cavallaria do Templo, veio por Embaxador de
    Castella a concordar o seu Principe com El-Rei D. Affonso III, pag. 55.

    Matilde, (Dona) Condessa de Bolonha sabendo que era morto D. Sancho II
    parte de França em uma Armada, e chegando a Cascaes não é admitiida por
    seu marido D. Affonso III por estar cazado com Dona Breatiz pag. 21.
    Volta para França, e se queixa ao Papa do procedimento de D. Affonso III
    o qual sendo advertido pela Pontifice a que largasse a Dona Breatiz, e
    não obedecendo se poz interdito em todo o Reino, pag. 23. Onde, e quando
    morreo esta Condessa, ibi.

    Mayor Guilhelme de Gusmão (Dona) foi manceba de D. Affonso X de
    Castella, de quem teve Dona Breatiz, que cazou com D. Affonso III de
    Portugal, pag. 19.

    Mem do Valle é morto pelos Mouros em Tavira, e de como foi
    honorificamente sepultado, pag. 39.

    Mertola. Foi conquistada por D. Payo Correa, e depois foi dada por D.
    Sancho II á Ordem de San-Tiago, pag. 28.

    Monte mór o Velho. Esta Villa foi doada por El-Rei D. Affonso III a sua
    filha a Infanta Dona Branca, pag. 25.

    Mosteiro. O de São Domingos de Lisboa, e de Santa Clara de Santarem,
    foram fundados por El-Rei D. Affonso III, pag. 66.

    *N*

    Nuno de Lara (D.) Oppõem-se com fortes razões a El-Rei D. Affonso de
    Castella, para que não conceda a seu netto o Infante D. Diniz a izenção
    dos cincoenta Cavalleiros com que lhe doava o Reino do Algarve, pag. 56.

    *O*

    Odivellas. Mosteiro de Religiosas Bernardas foi fundado pelo Infante D.
    Diniz onde está sepultado, pag. 25.

    *P*

    Paderne. E' conquistada esta Villa por D. Payo Correa, pag. 43.

    Papa. Admoesta a D. Affonso III que largue Dona Breatiz por estar viva
    sua primeira mulher, e não obedecendo interditou o Reino todo, pag. 22 e
    23. Por morte de Dona Matilde levanta o interdito, e dispensa em que os
    filhos que tivera D. Affonso III de Dona Breatiz vivendo Dona Matilde
    pudessem suceder no Reino, pag. 24. Pede por Fr. Payo Ministro dos
    Freyres de San-Tiago a El-Rei D. Affonso III que conquiste a Terra
    Santa, pag. 53.

    Payo, (Fr.) Ministro da ministração dos Freires de San-Tiago, é mandado
    pelo Papa para que exhorte a El-Rei D. Affonso III a conquistar a Terra
    Santa, pag. 53.

    Payo Correa, (D). Mestre da Ordem de San-Tiago assistio á Conquista de
    Cordova, e Sevilha com El-Rei D. Fernando de Castella, pag. 27 e 28.
    Conquistou as Villas de Aljustrel, e Mertola, pag. 28. Como conquistou o
    Algarve, e das vitorias que para este fim alcançou dos Mouros, pag. 29 a
    32. Toma Tavira com grande mortandade dos Mouros, pag. 39. Conquista
    Selir, e Alvor, pag. 40. Alcança uma famosa vitoria de Abenafaam em
    Silves, e conquista esta Cidade, pag. 40 e 41. Toma Paderne, pag. 43.
    Foi o principal instrumento para que El-Rei D. Affonso III tomasse as
    Villas de Faro, e Loulé, pag. 46 a 49. Veio por Embaxador del-Rei de
    Castella a concordar este Principe com D. Affonso III, pag. 55. Onde, e
    quando morreo, pag. 59. Onde está sepultado, ibi.

    Pedro Estaço. Defende um lanço do muro na tomada de Faro, pag. 47.

    Pedro Rodrigues, Commendador mór, é morto pelos Mouros em Tavira, e como
    foi enterrado, pag. 39.

    Portugal. Esteve interdito alguns annos pelo Pontifice, por não querer
    D. Affonso III deixar a Dona Breatiz sendo viva a sua primeira mulher
    Dona Matilde, pag. 23.

    *R*

    Rodulpho. Conde de Cambra irmão del-Rei de Inglaterra, é eleito por
    Emperador dos Romanos por alguns Eleitores, pag. 59.

    *S*

    Sancho II de Portugal deu á Ordem de San-Tiago as Villas de Aljustrel, e
    Mertola, pag. 29.

    Sancho (Infante D.) Filho legitimo de D. Affonso X de Castella toma
    posse do governo por morte de seu irmão D. Fernando de Lacerda, pag. 60.
    Foi valeroso Principe, ibi. E' jurado por sucessor do Reino, pag. 61.
    Convoca os Concelhos em Valhadolid para que não consintam que seu pai dê
    o Reino de Murcia a seu neto D. Affonso, e o consegue, pag. 62.

    Selir. E' conquistado por D. Payo Correa, pag, 40.

    Sevilha. Em que dia, e anno foi conquistada por El-Rei D. Fernando de
    Castella, pag. 28. Nesta Cidade morreo este Principe, e quando, ibi.

    Simão Rodrigues dos Cameiros, Sogro del-Rei de Castella D. Affonso X é
    morto por este Principe, cauza porque o desapossaram do Reino, pag. 62.

    Silves. Cidade no Algarve é conquistada por D. Payo Correa do poder dos
    Mouros, e como ficaram tributarios a Portugal, pag. 42.

    *T*

    Tavira. Em que dia, e anno foi tomada por Payo Correa com grande
    mortandade dos Mouros, pag. 39. Na Igreja de Santa Maria desta Villa
    está sepultado D. Payo Correa, pag. 59.

    *U*

    Ucles. E' cabeça do Convento do Mestrado de San-Tiago em Castella, pag.
    59. Neste lugar morreo D. Payo Correa, ibi.

    *V*

    Violante (Rainha Dona), mulher de D. Affonso X de Castella receosa de
    que matassem a seus netos, partio com elles para Aragão a amparar-se de
    seu pae El-Rei D. Jayme, pag. 6l. Pede a seu marido que dê a seu neto D.
    Affonso o Reino de Murcia, o que não alcançou, pag. 6l.

    Violante (Dona), filha do Infante D. Manoel de Castella, e da Infanta
    Dona Constança de Aragão, cazada com D. Affonso, filho de D. Affonso III
    de Portugal, e da Rainha Dona Breatiz, pag. 25.

    FIM

    INDICE DOS CAPITULOS

    I–Como se intitulou Rei de Portugal, e do Algarve, e como acrecentou os
    Castellos no Escudo das Armas Reaes, e a causa porque 16

    II–Como El-Rei D. Affonso sendo casado com a Condessa de Bolonha em
    França a leixou, e casou com a filha del-Rei de Castella 19

    III–Como a Condessa de Bolonha veio a Portugal, e como El-Rei seu
    marido a não quiz ver, e ella se tornou, e do que sobre esso fez 20

    IV–Como depois da morte da Condessa de Bolonha foi despensado com
    El-Rei Dom Affonso que cazasse com a Rainha D. Breatiz, e dos filhes que
    della houvesse 24

    V–Das terras e Lugares que se acrescentaram a Portugal por este
    casamento 26

    VI–Que fundamento houve para o Mestre Dom Payo Correa começar de
    conquistar o Algarve, que era dos Mouros 29

    VII–Do accordo que os Mouros fizeram contra o Mestre, e como houveram
    com elle batalha em que foram vencidos 33

    VIII–Como houve treguas antre os Christãos, e Mouros, e com que
    fundamento cada uns o outrogaram, e como foi a morte dos sete
    Cavalleiros Martyres, e o Mestre tomou Tavilla 35

    IX–Como o Mestre tomou Selir, e Alvor, e a Cidade de Silves, porque
    partidos a leixou aos Mouros 40

    X–Como o Mestre tornou a cercar Paderne, e o tomou, e do fundamento que
    houve para El-Rei D. Affonso de Portugal haver para si o Reino do
    Algarve, e se intitular delle, e com que obrigação lhe foi dado 43

    XI–Como El-Rei Dom Affonso de Portugal depois de lhe ser dado o
    Algarve, tomou aos Mouros a Villa de Farão, em que foi em sua ajuda o
    mestre D. Payo Correa 46

    XII–Como El-Rei D. Affonso cercou, e tomou Loulé, e como a Aljasur
    tomou o Mestre de San-Tiago, e o Mestre Daviz Albufeira, e da declaração
    que se fez deste nome Algarve, e dos Lugares que agora nelle cabem 51

    XIII–Como o Reino do Algarve por divizões que houve foi posto em
    terçaria de Cavalleiros Portuguezes, e o que sobre esso se fez 54

    XIV–Como El-Rei Dom Affonso de Castella quitou ao Ifante D. Diniz seu
    neto a obrigação do Algarve, e a soltou a Portugal levemente para sempre
    56

    XV–Da morte do mestre Dom Payo Correa, e das causas que houve para
    El-Rei D. Affonso de Castella, pai da Rainha de Portugal ser
    desobedecido, e como foi ajudado de Portugal, que foi fundamento para se
    acrecentarem a Portugal os Lugares de riba Dodiana 58

    XVI–Do falecimento del-Rei Dom Affonso de Portugal, como antes de seu
    falecimento deu Caza ao Ifante Dom Diniz seu filho herdeiro 65

    End of Project Gutenberg's Chronica d'El-Rei D. Affonso III, by Ruy de Pina

  • Chronica d’el rei D. Diniz (Vol. II)

    Chronica d’el rei D. Diniz (Vol. II)

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    Proprietario e fundador–Mello d'Azevedo

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    CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ

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    Proprietario e fundador

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    (VOLUME LXXI)

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    POR

    RUY DE PINA

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    _ESCRIPTORIO_

    147–Rua dos Retrozeiros–147

    LISBOA

    1912

    CAPITULO XIII

    _Como ElRei D. Diniz ordenou em Coimbra ho primeiro Estudo, que ouve em
    Portugal._

    ElRei D. Diniz assi como foi dotado de muitas boondades naturaaes, assi
    tambem nom lhe faleceram has outras virtudes em todo Reaes, cuja prova,
    e exemplo, saõ suas excellentes obras, & mui louvadas, ha todos
    mostrava, que foi Principe mui prudente, e de mui singular concelho, e
    na fala Portuguez de seu tempo asaaz copioso, e de muita graça, e
    tratava com grande humanidade ha todos aquelles, que com elle
    conversavão, e por esso era de todos mui amado especiaalmente, que todos
    seus cuidados eram honrar, e acrescentar mais sua teerra, e assi
    procurar que fosse abastada, e provida daquellas couzas porque seus
    vassallos, e naturaaes fossem mais nobres, e melhor ensinados, sobre ho
    quaal se diz que hum dia estando com os seus Prelados, e nobres homens
    em concelho, lembrandose com mostranças de sentimento, que seus Regnos
    careciam de Escolas, e Estudos de que outras teerras eram mui abastadas,
    lhes falou nesta maneira.

    «Aho boom Principe, que da maaõ de Deos aa muitos de reger sobre todo
    lhe conveem, que trabalhe, e cumpre que elle, e os seus subditos sobre
    todas as virtutudes abracem ha virtude da Justiça, e amem, e sigam os
    fruitos della, porque hos merecimentos sam taaes ante Deos, e de tanta
    estima, que nom soomente daa por elles neste mundo alegre, e pacifica
    vida em quanto duramos, mas ainda no outro pera alma nom nega ha gloria
    eterna, e bemaventurança pera sempre, certamente ho Rei em hos Regnos,
    que por graça de Deos lhe sam encomendados nom pode fazer melhores
    obras, nem officios de moor valor, que procurar que vivaõ nelles hos
    homens em fee, e justiça, e façam obras santas, justas, e onestas, e
    porque esto se nom póde assi beem conseguir, e aver efeito sem aver no
    Regno varoens em toda doutrina e ciencias divinas, e humanas beem
    ensinados, e concirando eu que meus Regnos pela Providencia, e boondade
    de Deos, nom soomente saõ asaaz providos de todolos mantimentos do maar,
    e teerra, mas abastados de onesta gente darmas, e de boom uzo, e
    exercicio dellas assi beem dezejo de todo meu coraçam, que tambeem aja
    avondança de homens leterados, e mui sabedores, e por esso propus em
    minha vontade por beem comum de meu Regno, e grande proveito de meus
    vassalos, e naturaaes, fazer nelle huum Estudo geraal, e muito honrado,
    onde todalas ciencias se leaõ, e que seja feito nesta Cidade de Coimbra,
    que hee no meio do Regno, e abastada das couzas necessarias, e asaaz
    temperada dos ares pera saude dos homens, e poreem ante que ho pozesse
    em obra volo quiz assi notificar pera me dizerdes vosso concelho, e
    parecer».

    Aho quaal todos responderam louvando muito sua tençam, pedindolhe por
    mercee, que obra tam sancta, e tam virtuoza, e de tanto proveito, e de
    tanto ennobrecimento de seus Regnos logo ha exequtasse. Pera ho quaal
    ElRei sopricou logo sobresso aho Papa Joaõ XXII que por suas Bullas lhe
    enviou has graças, e privilegios, que lhe foram pedidos, e fundou ho
    dicto Estudo cujos fundamentos parecem agora mui pequenos, e pera elle
    fez vir boons leterados doutras teerras pera que hos Rex dellas por
    mandado do Papa, e por requerimento delRei deram consentimento, hos
    quaaes por salairos ordenados leram nelle algum teempo, e elle foi ho
    primeiro Estudo, que ouve em Portugal, mas depois floreceo mais ho da
    Cidade de Lixboa, ha que ho de Coimbra se mudou, onde agora se leem
    todas has sete artes, e ciencias pubricamente, e saõ pagos hos Mestres
    por salairos dos Rex, que depois Regnaram em Portugal.

    CAPITULO XIV

    _Como foi feito em Portugal Mestre de San-Tiago izento da Ordem de Ucres
    de Castella._

    Hos Comendadores Cavalleiros, e Freires da Ordem de San-Tiago, que avia
    em Portugal atee este tempo delRei D. Diniz, todos eram sugeitos aho
    Mestre de San-Tiago de Castella, cujo Convento, e cabeça era Ucres, de
    quem por muitas vias, e maneiras recebiam individamente muitos aggravos,
    e opressoens, chamando-hos sem tempo, e sem necessidade ha Capitulo, e
    poendo nelles por leves cazos sentenças descomunhões, ha quaal couza
    sentio muito ElRei D. Diniz, e como era Principe que sempre dezejou, e
    procurou acrecentamento, e izençam de seus Regnos, e vassallos, enviou
    notificar todas estas couzas aho Papa Nicolao IV e supricou ha Sua
    Sãctidade, que desse licença, e autoridade pera que hos dictos Freires,
    e Comendadores de seus Regnos, podessem antre si eleger Mestre da sua
    Ordem, que de todo fosse izento do Mestre de Castella, ha que ho Papa
    deu poder asoluto, e carta de sentença, e em todo satisfez, e desso
    vieram ha este Regno suas Bullas inteiras, por virtude das quaaes
    elegeraõ por primeiro Mestre de San-Tiago de Portugal hum D. Lourenço
    Annes.

    Sobre ho quaal ho Mestre com favor delRei de Castella, como
    descontentes, e agravados de semelhante izençaõ supricaram aho Papa
    Celestino, que socedeo ha Nicolao IV e delle ouveram Rescrito sorreticio
    com crauzulas revocatorias daa concessoens passadas, annulando a eleiçam
    do Mestre de Portugal, e hos Juizes que foram dados por exequtores
    procediam por excomunhoens, e censuras contra ho Regno de Portugal, e
    requereram Prelados delle, que has fossem cõprir atee antredicto ahos
    quaaes procedimentos ElRei D. Diniz, e o dicto Mestre, e Freires de
    Portugal intrepuzeram suas apelaçoens, e devolveram ho feito aho mesmo
    Papa Celestino que mandando ha seus Leterados conhecer da cauza achouse
    ho Rescrito de Castella, nom seer verdadeiramente impetrado, e ho Papa
    Celestino aprovou ha sentença pela primeira concessaõ feita, dada pelo
    Papa Nicolao, seu antecessor, e que ho Mestre de San-Tiago de Portugal,
    e do Algarve nom reconhecesse superioridade salvo aho Papa, e ahos Rex
    que Regnassem nos Regnos de Portugal, sobre os quaaes letigios se
    fizeram por ElRei grandes despezas, e deste tempo ateegora, sempre ouve
    Mestre da Ordem de San-Tiago em Portugal, e no Algarve, cujo primeiro
    Convento foi logo em Alcacer do Sal, e depois se mudou ha Palmella onde
    agora estaa.

    CAPITULO XV

    _Do fundamento que teve ha Ordem do Templo de Salamaõ em Jerusalem, e
    como foi desfeita, e se fez ha Ordem de Christo._

    No anno de nosso Senhor Jesu Christo de mil cento e oito annos, sendo o
    Papa na Egreja de Deos Gelazio II, Regnando em Jerusalem Valdovino deste
    nome ho primeiro, e dos Rex de Jerusalem ho segundo, que socedeu ha seu
    irmaaõ Gudufre primeiro Rei se acha, que dous homens devotos dos quaes
    hum ouve nome Ugo de Payaõ, naturaal da cerqua de Troya, e outro ho Ficu
    Sancto homem Frances, estes com dezejos de servirem ha Deos leixados hos
    gostos, e doçuras de suas fazendas, e natureza, se foram aa Cidade Santa
    de Jerusalem pera nella viverem, e por sua defençaõ acabarem suas vidas,
    ahos quaaes o dicto Rei Valdovino porque conheceu que eram homens de
    boom esforço, e de singular devaçaõ, mandou dar huma pouzada dentro dos
    seus Paaços, que eram junto com ho Templo de nosso Senhor, e hos Conegos
    do dicto Templo lhe deraõ hum Altar, e Capella apartado pera que melhor,
    e mais quietamente comprissem suas devaçoens.

    E por suas boondades que por todos foram vistas, e experimentadas ElRei,
    e ho Patriarca, e assi hos Perlados, e nobre, e devota gente, que era em
    Jerusalem lhe mandavaõ abastadamente por esmola hos mantimentos, e
    provisam, & ho primeiro encargo que o Patriarca por pendença, e remissam
    de seus peccados lhe deu, foi que com ha gente devota, que se ha elles
    quizesse ajuntar, guardassem hos caminhos por onde hos Romeiros vinham a
    Jerusalem, porque dos muitos ladrões, e maalfeitores nom recebessem hos
    roubos, e danos, que muitas vezes recebiam, ho que elles quanto foi
    possivel fizeraõ, e continuaraõ com grande honra, trabalho, e muito
    cuidado atee nove annos, nos quaaes foram grandemente ajudados desmolas
    por ElRei, e por ho Patriarca, e por todalas outras naçoens, que eram em
    Jerusalem, e nestes annos nom fizeraõ alguma mudança dos Abitos
    seculares, cõ que primeiro vieraõ, mas aho anno decimo depois de sua
    chegada lhe foi dada Regra por o Papa Honorio II, ha quaal S. Bernaldo
    compoz, e lha deu com Abitos brancos por humildade, e nelles por defora
    huma Cruz vermelha por sinificaçaõ do sangue de Christo, e tomaraõ
    Religiaõ em que fizeraõ voto de castidade, e obediencia, e renunciaraõ
    pera sempre ho proprio.

    Hos quaaes antre todolos outros Cavalleiros, e calidades de Christaãos,
    que nas partes dultra maar pela Fee, e defensaõ da Teerra Sancta
    peleijavam estes sobre todos com mais devaçam, e esforço faziam com mais
    louvada avantagem, que por seus grandes merecimentos, e serviços, e fama
    eraõ assi celebrados, e estimados em todo ho mundo, que hos Rex,
    Principes, e Senhores de toda Christandade avendo nelles has ajudas, e
    esmolas por mui beem empregadas no fervor desta primitiva devaçaõ, e
    Religiaõ lhe deraõ em seus Regnos, e Senhorios grãdes teerras, Cidades,
    Villas, e Castellos, com muitas rendas, e possessoens. E nesta Ordem por
    sua grande devaçaõ fizeraõ muitas gentes profissam, e antre hos
    Cavalleiros avia outros Religiosos Freires sergentes, que traziaõ has
    mesmas Cruzes vermelhas, mas nos mantos avia antre elles deferença, e
    ordenaram antre si pendaõ, e bandeira, que diante elles levava nas
    batalhas seu Alferes, e era ametade de branquo, e ametade de preto, por
    senefiquaçam que na Fee sempre fossem limpos, castos, e humildosos, e
    firmes, e no meio della ha Cruz vermelha.

    E por serem do principio alojados junto com ho Templo, como atraas dice,
    por esso foram chamados Templarios, dos quaes ho Papa, e ho Patriarca
    fizeraõ alguns antre hos outros mais principaes, ha que chamaraõ logo
    Abbades Bentos, e depois foraõ dictos Mestres, e repartidos pelos
    Regnos, e Provincias da Christandade, de que soo em Jerusalem avia
    destar como estava ho Graõ Mestre delles ha que todos aviaõ dobedecer
    como obedeciaõ. Ha este chamavaõ ho Graõ Mestre do Templo de Salamaõ em
    Jerusalem, e no principio, e fundamento consta que hos Cavalleiros, e
    Freires viviaõ, e guardavaõ ha Religiaõ em muita profissaõ, e louvados
    costumes, por esso foraõ sempre em todos seus feitos muito vitoriosos, e
    bemaventurados, que por exemplo da verdadeira Fee, muitos delles com
    grande confiança, e constancia sofreraõ morte, Cruz, e martyrios,
    incomportaveis cativeiros, sem mostrarem alguma fraqueza dos corações,
    nem da fee que sustinham, e tam grande foi ha fama, e boom nome da
    Religiaõ, e disciplina Militar destes Cavalleiros da Ordem do Templo,
    que hos Rex Despanha, que naquelle tempo Regnavaõ, porque nella ainda
    avia grandes Regnos, e poderosos Rex Mouros por conquistar mandaram por
    elles ha ultra maar, e nas conquistas, e batalhas dos infieis por grãde
    ajuda hos trouxeram consigo, e assi por armas, boondade, e esforço
    respoderaõ sempre aa confiança que delles era conhecida, e por esso na
    mesma Espanha por os Rex, e Principes, e Senhores della, e doutras
    gentes particulares em seus testamentos elles foraõ erdados de muitas
    Villas, teerras, e grãdes rendas, has quaaes elles assi davaõ ha obras
    piedozas, e meritorias, e assi has repartiaõ pelos fieis Christaãos que
    craramente parecia que todo ho que lhe davaõ por esmola quesse era ho
    proprio, e verdadeiro patrimonio de Christo.

    Mas depois como nellas creceraõ grandes Senhorios, e grandes riquezas,
    logo segundo se delles diz, ha que muitos nom daõ verdadeira autoridade,
    ha cobiça ocupou nelles, e em sua Ordem ho galardam dos virtuosos
    merecimentos passados, porque has virtudes, e boondades em que eram
    professos converteraõ logo em todos seus contrairos, em que fizeraõ ho
    cõtrairo do que ante faziaõ, de maneira, que por autoridade do Papa se
    izentaraõ da obediencia do Patriarca de Jerusalem, e assi de todolos
    outros Prelados, ahos quaaes denegavaõ depois hos dizimos, primicias, e
    rendas com que no principio foraõ delles ajudados, e sustentados,
    trazendo-os em demandas, e legitios como se diz, que ho fizeraõ no Regno
    Daragam onde tiveram guerra contra has Egrejas Catredaes, e riquos
    homens daquelle Regno.

    CAPITULO XVI

    _Do principaal fundamento, e verdadeira causa pera esta Ordem dos
    Templarios seer destroida._

    Por morte do Papa Benedicto XI, que faleceu em Italia na Cidade de
    Perosa, antre hos Cardeaes, que eram prezentes ouve discordia na criaçaõ
    do futuro Sumo Pontifice porque huus queriaõ, que fosse Italiano, e
    outros procuravam que Frances fosse, Regnando entam em França El Rei
    Felippe a que por sobre nome diceraõ Fremozo, mas por suas obras de
    sobeja cobiça, e grande tirania, foi avido por asaas feio, e disforme, e
    por estucia, e engenho de Nicolao Cardeal Partenes, que era Varaõ
    astuto, e mui prudente, foi elegido por Papa, sendo auzente, e nom
    Cardeal D. Reymaõ, Arcebispo de Bordeos, e foi chamado Clemente V, na
    quaal criaçaõ hos Italianos consentiraõ porque este Arcebispo era grande
    imigo deste Rei de França, cuja parcialidade pareceu que seguia, ho
    quaal Rei por avizo do dicto Cardeal Partenes antes de seer pubricada ha
    eleiçaõ do dicto Arcebispo em huma Abbadia se foi com elle ha ver, e
    concertar secretamente, e conveio aho dicto Arcebispo pera seer Papa
    outorgar, e prometer tudo ho que ElRei de França lhe pedio, porque sem
    sua concordia, e amizade elle nom avia de seer elegido, e criado em
    Papa, segundo foi certificado, e ali lhe pedio ElRei seis cousas has
    quaaes ho Arcebispo cõ juramento sobre ho Sacramento da Ostia que fez, e
    com ha refens da hum seu irmaão, e dous sobrinhos que lhe deu, lhe
    prometeu de comprir logo como fosse Papa, das quaaes has cinquo logo
    declarou, e huma sem ha dizer reservou em si pera depois a asinar, e
    pedir quando lhe comprisse.

    E depois da creaçaõ do Papa hos Cardeaes do Conclave ho avisaraõ ha elle
    em Bordeos, e ali tomou o dicto nome de Clemente V, dõde tambem mandou
    ahos dictos Cardeaes, que eram em Italia que logo se viessem, como
    vieraõ ha Leaõ de França, onde avia de seer como foi coroado, e logo ali
    depois da sua coroaçaõ comprio com ElRei has cinquo cousas, que lhe
    prometera, e assi ha que nom quiz pedir e declarar ha reservou pera
    depois no anno de Christo de mil tresentos e sete annos. Ho Papa mudou
    sua Corte aa Cidade Pitansis, onde ElRei de França lhe pedio exequçaõ da
    sexta cousa que lhe pedira, e pera si reservara, ha quaal era que
    tirasse pera sempre do Catalogo, e numero dos Papas, ho Papa Bonifacio
    VIII seu predecessor, e como de Erege, o tredor lhe mandasse queimar ho
    corpo e hos ossos.

    E ha cauza desto era porque este Papa o tinha excommungado, e privado do
    Regno de França, e como de juro dado aho Emperador Dalemanha, e por
    vinguãça desso, ElRei de França manhosa, e encobertamente mandou prender
    o dicto Bonifacio na Cidade de Pavia em Italia, e dali foi levado ha
    Roma, onde logo faleceu, e por esta cauza ElRei de França, que ficava
    excommungado ha elle Papa de sua memoria tinha grande odio, e porém ho
    Papa Clemente com ha dezonestidade, e injustiça deste requerimento pelo
    juramento que tinha feito, e ha refens que tinha dados que corriaõ
    risquo de morte, foi muito torvado, e posto em pensamento, e avido
    sobresso concelho por ganhar tempo de dilaçaõ em que ha vontade delRei,
    por ventura se amanssaria, dilatou ha dicta exequçam da sexta promessa
    pera Concilio géral ha que convocou hos Principes, e Prelados pera a
    Cidade de…. que era fóra da jurdiçam delRei de França, pela quaal
    cauza, e por logo nom comprir, elle se mostrou do Papa muito aggravado.

    E durando has pendenças deste injusto, e torpe requerimento delRei, que
    ho Papa nunqua quiz outorgar, acõteceo que hum Prior de Monte Falcaõ de
    Toloza, que era desta Ordem, e Religiaõ dos Templarios homem perversso,
    e maao, que por seus erros, e grandes crimes jazia prezo em Pariz,
    condenado por sentença ha carcere perpetuo, e com elle outro chamado
    ….. homem cheio de todalas maldades, e traiçoens, hos quaes ambos por
    seerem de mui malinos espiritos, por tentarem algum caminho de sua
    deliberaçaõ notificaram, e certificaram ha certos officiaes delRei de
    Frãça, ho quaal sabiam seer Rei grande tirano, e sobre todolos homens
    mais cobiçoso, que ho Mestre, Cõmendadores, e Freires da Ordem do
    Templo, eram todos Ereges, e culpados em tam abominaveis crimes, que por
    inquiriçaõ logo se provariam por hos quaaes ha Ordem devia seer
    desfeita, e ElRei aver pera sua Coroa toda sua fazenda, que em França
    era muita.

    Ha quaal couza significada ha ElRei elle movido mais de cobiça, que por
    guardar verdade, nem fazer justiça requereo aho Papa, e ho inclinou
    maliciosamente, que desfizesse esta Ordem cheia de muitos erros, e
    offenssas que lhe apontou, ha que o Papa seguundo se diz, pelo afrouxar
    da promessa do Papa Bonifacio, com que ho apertava logo satisfez, porque
    sem fazer muito exame, nem ver has certas provas que se requeriam ácerca
    do que contra os Templarios se dizia, nem se guardar alguma ordem de
    direito juizo foram em França todos prezos, e seus beens tomados, e
    ElRei hos apropriou logo aa sua Coroa, e assi o notificou logo aho Papa,
    e mandou por suas Bullas que assi fizessem todolos outros Rex, e
    Principes Christaãos em cujos Regnos, e Senhorios avia a dicta Religião,
    e foi logo prezo em Paris ho Mestre do Templo, que era hum homem por
    linhagem, e autoridade de mui principaal devaçaõ, e avia nome Jacobo, e
    com elle sessenta nobres Cavalleiros da dicta Ordem, contra os quaaes
    por artigos formados se poz: «Que aho tempo de sua profissaõ que todos
    faziaõ secreta, cospiaõ em Christo Crucificado, e que indistintamente, e
    seem escuza, e com especialidades feias, e mui deshonestas, uzavam antre
    si do abominavel peccado de contra natura, e que juravam que justa, e
    injustamente sempre assi ajudariaõ, e conservariaõ a dicta Ordem, e que
    elles Templarios como tredores da Teerra, e Caza Sãcta foram cauza de se
    perder corrutos de dadivas pelos infieis».

    E sobre algumas provas de testemunhas falças, que sobresso foram dadas,
    ElRei mandou meter estes, e outros muitos ha mui asperos tormentos pera
    que com elles confeçassem hos delictos que dezejava pera logo aver has
    teerras que cobiçava. E porque alguns destes tudo esto navegaõ foraõ
    retornados ahos carceres em que longamente foram reteudos, e por se
    tomar delles ha concruzaõ que ElRei desejava, foram levados fora de
    Pariz, e postos aa vista de poovo em hum alto cadafalço de madeira nùs
    das carnes, e atados hos corpos ha senhos paaos, logo ha hum, e depois
    aho outro, lhe pozeram fogo ahos pees, e assi pouquo a pouquo, por
    todolos membros acima atee serem de todo queimados, dizendo ha cada hum
    alto, que se confeçasse seus erros que seriaõ perdoados, e livres com
    piedade, e mesiricordia, cujos amiguos, e partes movidos de sua
    compaixam hos conselhavaõ, e amoestavam, que por nom morrerem cõ tantas
    cruezas confeçassem por nom perecerem.

    Aho que muitos com medo das atormentadas mortes, que viaõ padecer,
    confessarão todolos maalles, e erros que lhes eram preguntados, aho que
    outros em que avia mais esforço nunqua quizeram obedecer, antes com
    muitas lagrimas, e grandes prantos que fizeraõ se escuzavaõ affirmando,
    que dos semelhantes crimes elles, e hos da Ordem eram de todo inocentes,
    e encomendando suas almas a Deos, e aa Virgem Maria sua madre eraõ
    contentes de acabar como acabavaõ em tormento de suas vidas, e destes
    fiquaram reservados, que nom foram aho pubrico tormento, ho dicto Jacobo
    Mestre da dieta Ordem em Frãça, e hum Ruy Dalfino seu parceiro, e Frey
    Ugo Paradi, e hum outro dos mais principaaes da Ordem, que jaa foraõ
    officiaaes da Caza delRei de França, hos quaaes foram levados aa Cidade
    de Liaõ onde ho Papa, e ElRei eraõ prezentes, ante hos quaaes hos
    sobredictos aconselhados de seus imigos por averem relevamento da
    prizaõ, e por salvarem has vidas, com mercee, e honra, que lhe foi
    prometida se diz, que confessaraõ alguns dos crimes, e malleficios que
    lhes eraõ postos.

    E porque ha cõfissaõ destes seendo pubrica parecia, que era prova
    sufficiente pera hos dictos artigos seerem verdadeiros, e beem provados,
    ho Papa ha requerimento delRei tornou ha enviar ha Pariz hos dictos
    prezos, onde quiz que pubricamente confeçassem ho que tinhaõ em secreto
    confessado, e por autoridade de Juizo enviou dous Cardeaes pera depois
    da dicta confissaõ darem ahos culpados alguma pendença piedosa, e
    condenarem ha dicta Ordem ha perdiçaõ, e destruiçaõ dos beens que tinha,
    hos quaaes prezos postos em outro pulpito mui alto aa vista dos Cardeaes
    e de muitos poovos, que eram juntos, foi perante elles lido, e pubricado
    em alta voz ho processo, que do dicto cazo era feito, em que era escrita
    ha confissaõ que os dictos prezos fizeraõ, ho quaal como foi acabado, ho
    dicto Mestre Jacobo como pessoa mais principaal alevantado em pee, e
    pedindo com grandes brados lugar de silencio se diz, que perante todos
    dice.

    «Que aquelles erros, e crimes porque foram perguntaados Deos sabia que
    elles nunqua hos cometeraõ, nem hos avia nelles, nem na sua Religiaõ,
    que sempre fora, e era mui sancta, e hos Freires della de mui honesta
    vida, e de mui limpa conversaçam, e crentes inteiramente na sancta Fee
    Catolica de Jesu Christo, mas que nem por esso deixava de confessar que
    era dino da crua morte, que se lhe aparelhava ha quaal elle com
    paciencia sofreria pois por temor delRei que era prezente, e com
    branduras do Papa elle malíciozamente, e com grãde mentira confeçara
    alguns dos dictos crimes, que nom devera.»

    E com esto sem ho acabarem beem douvir se deu toda via sentença contra
    elle, e hos Cardeaes, e hos outros Prelados se partiram, e logo se
    tornaram aho Papa, pelo quaal ho dicto Mestre, que era cõpadre delRei,
    com Frei Delfim seu companheiro foraõ levados ante hos Paaços Reaes de
    Pariz onde ElRei era presente, e ali dãdolhe pouquo ha pouquo ho fogo
    por maior tormento como deram ahos outros, foraõ de todo queimados, sem
    nunqua se quererem desdizer, antes no meio das maiores chamas se diz,
    que elles nunqua deixaraõ de cõfessar, e defender ha pureza de sua
    Religiaõ, e que na opiniaõ de todos como verdadeiros Martyres morreraõ,
    e por taaes se diz, que foraõ avidos, e reverenciados, e seus ossos de
    muitos guardados, mas Frei Ugo, e outro seu parceiro, e assi outros cõ
    elles com espãto, e temor de taõ cruas mortes confessaraõ hos dictos
    crimes contra ha dicta Religiaõ, por salvarem has vidas, que da li ha
    poucos dias por seus peccados vilmente perderaõ, ha quaal sentença de
    condenaçaõ cõtra ha dicta Ordem do Templo, Freires, e Cavalleiros della,
    soccedeo no mez de Dezembro do anno de mil trezentos e nove annos. No
    quaal tempo se compriam cento e quorenta e hum annos, que a dicta Ordem
    fora principiada do tempo do Papa Gelasio, como atraas fiqua.

    CAPITULO XVII

    _Como ho Papa, e ElRei de Frãça noteficaraõ ha ElRei D. Diniz esta
    condenação dos Templarios, e de sua Ordem._

    A qual condenaçaõ, e cauzas della, ho Papa fez saber por sua Bulla ha
    ElRei D. Diniz, e cõ mostranças de grande sentimento encomendou, que
    logo fizesse em seus Regnos prender todolos Freires da dicta Ordem, e
    hos remetece ahos Bispos, e Ordinarios, em cujos Bispados fossem prezos,
    pera delles tirarem inquirições, e sabeerem de seus delictos ha verdade,
    e averem justo castigo, e aquelles que confeçassem hos dictos crimes, e
    deles se arrependessem fossem a piedozo perdam recebidos, e assi tomasse
    todos seus beens, e teerras que tivessem, e sobre estivesse atee se
    derterminar no Concilio Geral ho que de todo se fizesse, ha quaal couza
    ElRei de Frãça noteficou ha ElRei de Castella, e ha ElRei D. Diniz, e
    lhes enviou ho treslado do processo, e sentença que contra elles foi
    dada, pedindolhes com razoens, que pareciam teer cor de justiça e
    onestidade que quizessem em seus Regnos inteiramente cõprir ho que lhe
    ho Papa encomendava, e elle nos seus tinha jaa feito, e com ha
    noteficação deste maal tam grande, e tam universaal, ElRei D. Diniz, e
    todolos de seu Regno foram mui maravilhados.

    E porque has cauzas, e fundamentos do Papa, e delRei de Frãça, porque
    inteiramente foi deste cazo informado vinhaõ postas em taal ordem, e
    assi clarificadas que pareciam mui verdadeiras, crendo ElRei D. Diniz
    que a dicta Ordem por esso nom escuzaria de seer desfeita, e hos beens
    della perdidos, e dados ha ontrem, antes de tudo mandou logo tomar toda
    ha fazenda, e Lugares da dicta ordem, e tudo teve em si, e na pessoa do
    Mestre, que avia nome Vasquo Fernandes, e nos Cavalleiros, e Freires da
    dicta Ordem nom se acha que ElRei, nem outrem fizessem alguma exequçam
    de mortes, prizoens, nem outra pena alguma, antes em muitas partes
    parece claro que muitos destes foraõ recolhidos aa nova Ordem de
    Christo, que se depois fez, como aho diante direi, e nella viveram beem,
    e onestamente como boons Religiosos, porque o dicto Vasquo Fernãdes,
    Mestre que era, foi recolhido aa Ordem de Christo, e lhe deram ha
    comenda de Castello novo em que viveo, e acabou.

    E porque como ha noteficaçaõ deste desfazimento logo geral, se dice que
    o Papa determinava atrebuir has teerras, e beens desta Ordem do Templo
    aa Ordem do Esprital de S. Johaõ de Jerusalem, e ha ElRei D. Diniz
    pareceo que seria grande inconveniente pera ho assecego, e obediencia de
    seus Regnos ho que assi por iguaal medida tocava ha Castella, enviou
    logo apõtar especificamente ha ElRei D. Fernando seu genro, que estava
    no cerquo sobre Algezira, hos pejos que ha elles, e ha estes Regnos
    nesta concessaõ, se aa Ordem de S. Johaõ se fizesse viria, e ambos por
    esso se concordaraõ por contrato jurado, com pena de déz mil marquos de
    prata, que seendo cazo que ho Papa quizesse dar, ou atrebuir estes beens
    dos Templarios ha quaalquer Ordem sem suas vontaades, e consentimento,
    que elles contra todos ho defendessem, e nom consentissem, e que hum sem
    ho outro cõ ho Papa, nem outro quaalqner se nom podesse sobre este cazo
    concordar, nem fazer avença, e concerto, por quaalquer maneira que fosse
    soo ha dicta pena, sobre fizeraõ contracto escrito, e aselado com
    juramentos, e menagens de sempre assi se comprir, e que ElRei Daragam se
    quizesse, como quiz, fosse nesta cõcordia, e chegouse ho tempo do dicto
    Concilio, que ho dicto Papa Clemente V atermou ahos Rex, e Principes
    Cristaãos pera determinaçaõ da Ordem do Templo, e de suas cousas, e assi
    pera sabeer ho que se determinaria acerqua do Papa Bonifacio VIII que
    ElRei de França requeria ha pagamento de sua memoria, e que seus ossos
    fossem queimados, ho quaal se celebrou na Cidade de Viena, na Provincia
    de Narbona, no mez de Outubro da era de mil trezentos e onze annos,
    (1311) que foram juntos grandes Rex, e Senhores, e assi Embaixadores, e
    Procuradores, e nelle primeiramente se determinou que ho requerimento,
    que ElRei de França fazia acerqua de se declarar por Erege ho dicto Papa
    Bonifacio, e seus ossos queimados, e sua memoria perdida, era injusto, e
    taal que por alguma maneira por muitas cauzas se nom devia comprir.

    Do que El-Rei de França se mostrou muito anojado, e aggravado do Papa, e
    no dicto Concilio foraõ pubricamente lidos hos dictos processos
    fulminados cõtra hos Templarios, e sua Ordem, pelo quaal depois de
    muitas amirações, e nom menos opiniens se confirmou ha sentença contra
    elles, ha saber que fossem todos prezos, e apresentados ha juizo da
    Sancta Egreja, e aquelles que se quizessem arrepender daquellas
    maaldades, e tornar ha devida pendença, nom fossem prezos, mas que lhe
    dessem algum remedio saudavel pera suas almas, e hos que pelo contrairo,
    fossem ostinados, fossem prezos, e de justo juizo punidos, e foi posto
    por Edito geral pera sempre, que dahi em diante alguem nom entrasse mais
    na dicta Ordem, e Religiam, nem trouxesse Abito della, nem sechamasse
    Templario e que todos seus beens, assi moveis como de rais, que tinham
    em toda Christandade fossem, como foram dados, e aplicados aa Ordem do
    Esprital de S. Johaõ, por seerem hos Cavalleiros della firmes, fieis, e
    constantes guerreiros pela Fee de Jesu Christo.

    Mas ha entrega destes beens nom foi inteiramente feita aa dicta Ordem de
    S. Johaõ; porque em muitas partes os Rex, e Senhores ouveraõ pera si
    muitas couzas, e dellas derão ha outras pessoas particulares, que sempre
    depois has tiveraõ, e logo na concessam destes beens, e fazendas foram
    tirados aquelles, que ha dicta Ordem do Templo tinha nos Regnos de
    Portugal, de Castella, e Aragão, cuja aplicaçaõ, e concessaõ, que pelos
    Embaixadores destes Rex foi com muitas cauzas, e razoens empedida em se
    nom dar, e fazer ha dicta aa Ordem de S. Johaõ. E mandou ho Papa, e
    Concilio juntamente que estes beens estivessem assi socrestados atee que
    ho Papa com maior deliberaçaõ, e mais resguardo tornasse aver has dictas
    couzas, e razoens que hos dictos Rex Despanha tinham alegados, e
    quizessem por si mais alegar, pera hos dictos beens nom seerem dados aa
    dicta Ordem de S. Johaõ, porque depois de todo beem visto, e examinado
    deteerminaria ho que fosse justiça.

    Hos Embaixadores delRei, D. Diniz, e DelRei de Castella nom partiram da
    Corte do Papa pera Hespanha, atee ho negocio dos da Ordem do Templo nom
    aver final concruzaõ. Ahos quaaes pelo Papa foi mandado, que finalmente
    apontassem hos fundamentos, que faziaõ, e rezoens que davam pera nom
    seerem com hos outros dados aa dicta Ordem de S. Johaõ, e dos
    fundamentos principaaes, e de moor sustancia, que foram apontados, ho
    primeiro foi: «Que quando hos Rex Despanha seus antecessores mandaram
    chamar hos Templarios pera ha guerra, e conquista dos infieis, que nella
    avia, tambeem chamaram, e vieram outro si da Ordem do Esprital, e de
    huns, e outros por uzarem beem de seus officios de Cavallaria, tinham
    dados em seus Regnos, e Senhorios muitas Villas e teerras, e rendas, com
    que cada Ordem tinha por si grande poder, has quaes todas juntas aa
    Ordem de S. Johaõ, ella teria dobrada potencia em cazo, que se dicesse
    que has da dicta Ordem refariam ha guerra contra hos imigos da fee, e no
    serviço delRei, e do Regno outra tanta gente quanta era ha dos
    Templarios quando serviam, esto diceram que seria quando hos da dicta
    Ordem de S. Johaõ quizessem, cujas vontades por suas grandes forças que
    teriam, se nom poderiam forçar, nem sojugar de que se seguiria outro tam
    impossivel, e grande inconveniente que nom convinha pera ho beem, e
    segurança dos Regnos, que quando estes do Esprital nom quizessem guardar
    divida lealdade elles segundo hos muitos Castellos, e Fortalezas que
    tinham nos estremos de seus Regnos teendo taal desposição, e poder
    poderiam meter na teerra, e alevantar no Regno outro novo, e contrairo
    Senhorio, com que tudo se lhe despedesse, e destroisse, e denegariam ha
    obediencia ahos Rex, e Prelados, como, e quando quizessem segundo em
    Aragam hos dictos Templarios em outros tempos por seu grande poder jaa
    fizeram.»

    E alem destas razoens apontaraõ hos dictos Embaixadores outras casi ha
    estas conformes que aqui são escuzadas. Durando ho quaal debate, e ante
    de se concruir ho dicto Papa Clemente V faleceu, e depois de sua morte
    ha dous annos, e tres mezes antre hos Cardeaes ouve discordia antre ha
    eleição do socessor, e cessando seus debates, e seendo conformes foi em
    eleição criado Papa seu sucessor, ho Papa Johaõ XXII no quaal tempo da
    dicta discordia, e vocaçam da Cadeira de S. Pedro, hos Embaixadores, e
    Procuradores dos Regnos se vieraõ ha Espanha, sem se tomar final assento
    sobre has couzas dos Templarios, que queriaõ, e no mesmo tempo antes da
    determinaçaõ ElRei D. Diniz ouve pera si todalas rendas dos beens, e
    propriedades delles, e hos converteo no que lhe pareceu serviço de Deos,
    e beem de seus Regnos, aho qual ho dicto Sancto Padre escreveo, que pera
    determinaçam desta couza, que ficara suspensa enviaasse ha elle seus
    Procuradores, hos quaaes logo enviou hum Pero Martins Conego de Coimbra,
    e Johaõ Lourenço de Monçaraas Cavalleiro, que eram pessoas de boom
    saber, e aacerca delRei de booa auctoridade.

    E chegaados ante ho Papa diceraõ ha Sua Santidade em sustancia, e ahos
    Cardeaes que eram presentes has rezoens, e cauzas acima apontadas pera
    hos beens, e fazendas dos Templarios nom virem aa Ordem de S. Johaõ, ha
    quaal se nom podia ajuntar, e encorporar seem grande perjuizo delRei, e
    do Regno de Portugal, e com esto diceraõ mais que pera Sua Santidade, e
    ho Sagrado Collegio dos Cardeaes mui claramente verem que ElRei D. Diniz
    nom contrariava taal concessão por alguma cobiça que tivesse daver hos
    beens, Lugares, e teerras dos dictos Templarios, mas que antes hos
    queria pera serviço de Deos, e defençaõ, e exalçamento de sua sancta
    Fee, que soubessem que ho dicto Rei tinha no seu Regno do Algarve hum
    Castello mui forte, que diziaõ Crasto Marim, que era na frontaria dos
    Mouros Despanha, e Dafriqua, na quaal Fortaleza se podia fazer novo
    Convento, e nova Religiaõ, em que entrassem novos Cavalleiros de Jesu
    Christo lidadores por defençaõ da sua sancta Fee, e por seu
    acrecentamento.

    Ho quaal Castello lhe aprazia tirar da Coroa de seu Regno, e dalo de
    todo por seu isento aa dicta nova Ordem que se fizesse em que averia
    muitos Cavalleiros de continoa, e forçosa resistencia contra hos imigos
    da Fee, e que estes beens dos Templarios dividamente se poderiaõ
    conceder, e apropriar, e porém pediam ha Sua Santidade em nome delRei D.
    Diniz, que assi ho quizesse outorgar, pelo quaal ho Papa, e Cardeaes
    vendo ha sancta tenção, e boom dezejo delRei aacerca do serviço de Deos,
    e de sua Fee, satisfez em todo ha suas onestas petiçoens, e ouve por
    beem de se fazer ha nova Ordem de Cavallaria de Christo, que agora hee,
    aa quaal hos dictos beens, e couzas dos dictos Templarios fossem pera
    sempre atrebuidas, e que hos Freires della fizessem sua profissaõ pela
    Regra, e Estatutos da Ordem de Calatrava, e que ho Abbade Dalcobaça, que
    pelo tempo fosse vizitasse esta Ordem; com outras mais crausulas, e
    folenidades que nas Bulas da nova instituiçaõ saõ conteudas, has quaaes
    hos dictos Procuradores trouxeram ha ElRei D. Diniz, que era na Villa de
    Santarem, com que foi mui alegre.

    E ali foi feita, estabelecida, e decrarada ha dicta nova Ordem de
    Christo, e foi logo della ho primeiro Mestre D. Frei Gil Martins, que
    então era Mestre Daviz, e foi esto feito, e celebrado na dicta Villa de
    Santarem no mez de Maio da era de mil trezentos e vinte annos, (1320)
    avendo jaa doze annos, que ha dicta Ordem do Templo era jaa destroida
    por cobiça do dicto Rei Felippe de França, ha cujas culpas Deos que hee
    em todo justo, nom tardou muito com justiça e pena, porque este Rei
    Felippe correndo monte ho cavallo em que corria arrastrando como touro
    ho matou, e delle ficaraõ tres filhos, e huma filha Dona Isabel, ha
    saber ho maior Felippe, e o segundo Luis, e ho menor Carlos, e ha filha
    Dona Isabel que cazou com ElRei D. Anrique Dingraterra, hos quaaes todos
    morreram sem delles ficar erdeiro de França, e ficou desta vez estinta
    ha geraçaõ dos Rex de França, que vieraõ de Ugo Capet.

    Nos quaaes annos que ha Ordem de Christo nom foi feita, El-Rei D. Diniz
    recolheo pera si has rendas da dicta Ordem do Templo como dice, e dellas
    ouve solene quitaçaõ dada, e outorgada pelo dicto novo Mestre de Christo
    fundada em razoens que pareciaõ asaas justas, e onestas, e por
    compensassaõ desso se deu aa dicta Ordem ho Castello de Crasto Marim,
    onde primeiramente foi ordenado ho Convento della, e depois se mudou aa
    Villa de Thomar, onde era ho Convento dos do Templo.

    Ha quaal Ordem de Christo por proprios Mestes, e com nomes de Mestres se
    governou, e regeo atee ho tempo do Ifante D. Anrique, filho legitimo
    delRei D. Johaõ deste nome ho primeiro de Portugal, que da dicta Ordem
    foi ho primeiro, e perpetuo administrador, ho quaal por sua singular
    devaçaõ, e grandeza de animo por nom seer cazado, nem teer filhos,
    acrecentou muito na dicta Ordem ha que procurou, que fossem dadas muitas
    rendas com jurdiçam do Espiritaal das Ilhas de Guinee, que elle
    primeiramente descobrio, e depois ha dicta Ordem em rendas, e comendas,
    e jurdiçoens, e em privilegios, e liberdades foi muito mais ennobrecida,
    e acrecentada em tempo delRei D. Manuel N. Senhor, que della tambem por
    autoridade Apostolica foi perpetuo Governador ha que creceram reçoens,
    edeficios, e excellentes Ornamentos, e novas comendas, e ha vintena das
    grandes riquezas das Indias, Arabia, Persia, que elle como Princepe
    virtuozo, e de grande animo, novamente mandou descobrir, e achou, como
    em sua Coronica mais propria, e largamente hee decrarado.

    CAPITULO XVIII

    _Da discordia, que ouve antre ElRei D. Dinis, e ho Ifante D. Affonso seu
    filho erdeiro, e has causas porque._

    Atraaz fica escrito has deficuldades, e trabalhos com que ElRei D. Diniz
    cazou o Ifante D. Affonso seu filho, com ha Ifante Dona Breatiz, filha
    delRei D. Sancho de Castella, e por lhe teer grande amor, e afeiçaõ como
    ha rezaõ requeria, lhe deu sua caza em Lixboa, com muitas, e graãdes
    festas, pera que de seus poovos ouve grandes ajudas, e assi se acha, que
    aalem de muitas Villas, e teerras, que tinha lhe ordenou mais de seu
    assentamento, em cada hum anno oitenta mil livras, que estimadas segundo
    ha valia da prata daquelle teempo, valiam da moeda dagora trinta e dous
    mil cruzados, ha rezaõ de duas livras, e meia hum cruzado, que hee
    verdadeira conta, e asaaz aprovada, como outras vezes jaa dice, e assi
    em todalas couzas, que occurriam se vio que ho honrava, e estimava
    muito, e tinha cuidado de lhe criar seus filhos, porque jaa atee este
    teempo elle ouvera ho Ifante D. Affonso, que menino faleceu em Penella,
    e assi ouve ho Ifante D. Diniz, que seu avoo ElRei D. Diniz com grande
    amor criava em sua caza, e nella faleceu moço, porque ElRei foi tam
    anojado, e triste que nom sabia, nem podia com nenhuma couza seer ledo,
    nem consolado, e em tanto estremo sentio ha morte deste seu neto, que ho
    Papa lhe escreveo sobresso hum Breve de consolaçam, cheio de muita
    prudencia, e graãdes confortos.

    E por estas cauzas aalem das outras obrigações naturaaes, e Reaaes que
    nelle avia, nom hee de duvidar, que ho Ifante D. Affonso devera sempre
    de amar, e obedecer sobre todos a ElRei D. Diniz seu padre, e assi lhe
    acatar por aver abençam de Deos, e ha sua, ho que em principio de sua
    idade, em seendo Ifante nom se acha seer assi, antes ho contrairo, cuja
    verdade, e declaraçam em cazo, que por sua graveza nom seja doce, nem
    gracioza couza pera ouvir, porém ha necessidade de sua Estoria, que
    escrevo obriga, e constrange ami que ho nom cale, principaalmente por
    mostrar, que hos lizongeiros, e maaldizentes antre hos padres, e hos
    filhos nunca ajam lugar, nem sejam ouvidos, que se estes nom foram
    cridos, nom ouvera tantas cauzas de desavença dantre ElRei, e seu filho,
    e assi pera que se saiba quam grande erro hee daar pena, e castigo ha
    algumas pessoas por quaalquer maal, que delles seja dicto posto que
    traga em si muita cor de verdade, atee elle sem paixaõ nom seer primeiro
    sabido, e justificado, e tambem porque nos erros, e graveza, que se vir
    nas desobediencias, e desacatamentos que ho Ifante teve ha ElRei seu
    padre se vejam, e resprandeçaõ mais craro has boondades, e merecimentos
    dos filhos, quando acerqua de seus padres usarem ho contrairo.

    E porque nestas desavenças delRei, e de seu filho ouve, e se passaraõ
    muitas, e mui largas couzas, que seriaõ mui longas pera escrever, eu
    dellas soomente apurarei brevemente has principaaes, e has que pera esta
    Estoria mais necessarias me parecerem. E segundo ho que acho, e pude
    comprender, tres rezoens ouve, e todas sem cauza, nem rezaõ, porque ho
    Ifante D. Affonso se moveo ha esta sua desobediencia contra seu padre,
    das quaaes ha primeira foi em Beja, por sentir que ElRei D. Diniz queria
    grande beem ha D. Affonso Sãches, e aho Conde D. Joaõ Affonso seus
    filhos naturaaes, hos quaaes segundo se acha nom serviam, nem catavaõ
    aho Ifante como elle desejava, e merecia, e deste conto nom era ho Conde
    D. Pedro tambem seu irmaão bastardo, e de todos hos bastardos ho mais
    velho, porque sempre seguio ha parte do Ifante, e por esso foi ha
    requerimento de D. Affonso Sanches desterrado de Portugal pera Castella,
    e todas suas teerras, e fazenda tomadas, e depois retornado, como aho
    diante se diraa, e ha segunda cauza foi ha grande cobiça, e desordenado
    desejo, que sempre teeve de aver, e cobrar pera si has riquezas, e
    tezouros delRei seu padre, e ha terceira por querer, que em toda maneira
    ElRei deixasse, e tirasse de si ha Justiça, e Governança do Regno, e
    livremente ha deixasse ha elle.

    E porém em algumas destas couzas nom avia cauza, nem rezaõ que pera ho
    Ifante nom fosse grande erro querellas, e muito mais procurallas, porque
    ElRei querer beem ha D. Affonso Sanches, e aho Conde D. Joaõ era grande
    rezaõ, e assi por seerem seus filhos, como por hos achar sempre em
    todolas couzas mui conformes aa sua vontade, e ha seu serviço mui
    obedientes, especialmente que ha afeiçaõ, que ElRei lhes mostrava nom
    empedia, nem mingoava ho do Ifanto seu filho, mas como ho amor, e
    senhorio sempre querem seer senhores, por esso saõ mui amiude mui cheios
    de ciumes, e sospeita, pelo quaal ho beem, que ElRei mostrava ahos
    outros seus filhos cauzava na vontade do Ifante mui duvidosa tençaõ, com
    que enganandose cuidava, que ElRei ho nom amava tanto, quanto devia, e
    por esso por todolas as maneiras, que podia trabalhava, e procurava de
    apartar, e desavir estes filhos delRei seu padre, assi como logo fez aho
    Conde D. Pedro seu irmaão, que era ho maior dos filhos bastardos, ho
    quaal por couzas craras, que lhe fez entender, ho tirou da obbediencia,
    e seu serviço delRei que antes andava, e ho recolheo pera si, porque
    favorecia sua parte, e dizer, e requerer que ho regimento da Justiça do
    Regno devia seer todo do Ifante, aho que ElRei contrariava com muitas
    rezoens asaaz justas, por as quaaes aconselhava ho filho, que o taal
    requerimento ouvesse por escuzado.

    E porque ho Ifante vio, que ElRei seu padre em nhuma parte destas lhe
    nom satisfazia, aconselhado, e induzido falsamente de hum Gomes Lourenço
    Vogado de Beja, filho de hum Carpinteiro, que depois foi Freire de
    San-Tiago, teve taaes meios, e inteligencias com a Rainha Dona Maria de
    Castella sua sogra, que ella enviou pedir ha ElRei D. Diniz, que por
    quanto desejava ver muito sua filha, e seu genro, e os Ifantes seus
    netos, que jaa tinha, ouvesse por beem que elles ha fossem ver ha
    Castella, e porque ElRei por secretos meios que laa trazia soube, e
    entendeu craramente, que has taaes vistas naõ eram pera algum beem, nem
    asecego seu, e de seu filho antes pera alguma torvaçaõ, e dano dambos, e
    do Regno, falou sobresso aho Ifante, e lhe rogou, e encomendou que por
    sua bençam escuzasse sua ida, ha quaal fosse certo, que ha elles, nem ha
    Portugal nom trazia proveito, antes era fundada, e requerida pera seu
    desserviço, e dano da teerra, e que abastava por principaal pera elle
    deixar de hir ha Castella, em cazo que outro nom ouvesse dezejar elle, e
    querer que nom fosse, ha que elle por aver sua bençaõ devia mais de
    obedecer que aa Rainha sua sogra.

    E com tudo esto, e com mais outras alegaçoens, e inconvenientes que
    ElRei lhe poz, ho Ifante nom desistio de seu proposito, e sem licença, e
    contra vontade delRei foi todavia, e levou ha Castella ha Ifante Dona
    Breatiz sua molher, e depois de consultarem em Cidad Rodrigo has couzas
    sobre que foram, que todas eraõ contra ho gosto, honra, e serviço
    delRei, ho Ifante se tornou ha Portugal, e nom se passaram muitos dias,
    que logo nom veio ha ElRei D. Diniz em nome da Rainha Dona Maria sogra
    do Ifante, hum Pero Rondel Ouvidor da Justiça em caza delRei D. Fernando
    de Castella, e da sua parte, aa sua grande instancia lhe requereo, e
    pedio que por algumas cauzas coradas, que apontou desse ho Regimento da
    Justiça aho Ifante D. Affonso seu filho. Do quaal requerimento ElRei cõ
    grandes estranhamentos se escuzou, maravilhandose muito da boondade, e
    prudencia da Rainha requerer taal couza, e taõ contraira ha toda rezaõ,
    e onestidade, porque elle quando em cazo de velhice, ou por outro
    empedimento que tivera, requerera aho Ifante seu filho pera tomar
    semelhante regimento, ainda elle como filho obediente seendo seu pai
    vivo, e em booa idade pera reger como era, se devera desso escuzar,
    quanto mais querer forçar ho que boom filho nunca fizera, e desta
    reposta delRei ha que ho Ifante era prezente, elle como aggravado, e mui
    anojado se despedio logo de seu pai, e foi sempre andar apartado delle.

    CAPITULO XIX

    _Das couzas que ho Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu
    irmaão, ou ho desterrar fóra do Regno._

    Porque ha maginaçam, e sospeita que o Ifante tinha do beem, que ElRei
    queria ha Affonso Sanches seu filho, ho trazia em muita door, e cuidado,
    para desto seer livre, elle cõtra ho que ha seu Real sangue, e Estado
    devia, fantaziou em sua memoria hum engano com que falsamente, e com
    algum achaque ho matasse, ou ElRei ho desterrasse do Regno, e esto fez,
    que ho Ifante falou secretamente com hum Pedro Guilhelme, e com outro
    Pero Gonçalves, que viviaõ com elle e em que se muito fiava, ahos quaaes
    mandou que fossem fóra da teerra, e de lá trouxessem escrituras com
    sinaaes, e mostranças de seerem pubricas, e mui autenticas, e
    verdadeiras, porque craramente se mostrasse, que elles de mandado do
    Ifante foram buscar, e acharaõ homens ha que ho dicto Affonso Sanches
    peitara porque trouxessem, e dessem peçonha aho Ifante D. Affonso, de
    que logo morresse. E estes passado algum tempo depois, que manhosamente
    partiram do Regno, tornaraõ ha elle, e trouxeram aho Ifante, que estava
    em Coimbra estromentos pubricos escritos em Castelhano, que perante hos
    Juizes da Cidade, foram logo pubricados, e tomados delles autorizados
    trelados, cuja sustancia era.

    «Que ahos trinta e hum dias do mez de Novembro da era de mil trezentos
    cincoenta e sete annos, ante ha porta de Sancta Maria de Magazella,
    presente Johaõ Pires, que aquelle anno fora Algoazil, e Diogo Dias, e
    Vasco Fernandes Alcaides, e Johaõ Preto, Tabaliam do Lugar, nove
    vaqueiros que vinhaõ por si nomeados, com outros vaqueiros de Ruy
    Sanches Davilla, trouxeram prezos aho dicto Lugar de Magazela cinco
    homens do Senhorio de Portugal, antre hos quaaes vinha hum acavallo, que
    parecia de rezão, e boom entendeer, e que hos dictos vaqueiros disseram,
    que no Lugar que dizem Aguama termo da Magazela, aquelle homem de
    cavallo com outros traziam prezo outro homem Portuguez, que tinha feiçaõ
    Descudeiro, ho quaal bradando dizia, homens do Senhorio de Castella
    acorreime, que Portuguezes me levam prezo pera em sua teerra me matarem,
    e que ha estes brados hos dictos vaqueiros acodiraõ, e querendo livrar
    ho prezo Portuguez daquelles Portuguezes que ho traziam, que o dicto
    homem de cavallo dicera apressadamente ahos seus de pee: «Matai este
    tredor porque nom fique com vida.» E que hum delles lhe dera huma
    lançada por hum braço, e que o de cavallo sobresso lhe arremessara ha
    lança que trazia, e ho atrevessara por detraaz atee hos peitos, e que os
    vaqueiros vendolhe fazer taal crime lançaram maão logo de quatro homens
    seus, e que ho de cavallo querendolhos tirar, e defender, hum dos
    vaqueiros arrancou hum dardo, e ho ferio, e ho Escudeiro quando vira hos
    seus homens prezos, dicera ahos vaqueiros, que nom tinham rezaõ de
    prenderem, nem fazerem maal ha elle, nem ahos seus, pois nom fizeraõ
    mais maal, que matar seu imigo, e que pera verem que elle demandava
    rezaõ, que ho deixassem, e que elle era contente de ir ha cavallo
    perante os Juizes de Maguazela, e que elles depois de ho ouvirem
    mandariam ho que fosse justiça.

    E que ante de irem pera ho dicto Lugar, que ho Cavalleiro rogou ahos
    vaqueiros, que pera certidão do que dizia, chegassem aaquelle lugar onde
    jazia ho ferido Portuguez, hos quaaes chegando ha elle ho Cavalleiro
    dicera aho ferido. «Amigo eu saão Pero Gonsalves, Escrivão do Ifante D.
    Affonso de Portugal, e voos sabeis beem ha maaldade, e treição que
    tendes feita, com Garcia Dalmuche, que eu fiz matar nas manchas Daragam
    por ambos buscardes, e ordenardes peçonha pera mataarem ho Ifante meu
    senhor, e agora lembrevos, que estais em tempo da rependimento, e de
    dizerdes ha verdade, por nom perderdes ha alma, pois jaa perdestes o
    corpo.» E que ho ferido respondera, que tudo era verdade, e que por esto
    elle tinha tratado, e buscado contra ho Ifante aquelles Portuguezes que
    ho traziaõ prezo, ho quaal logo falecera, e que sobre esto em chegando
    ahos Alguazis do lugar, ho dicto Pero Gonsalves mostrara huma carta
    aberta patente do Ifante, porque geraalmente fazia sabeer, que elle
    enviava ho dicto Pero Gonsalves contra alguns que procuravam de fazer
    maaos feitos contra elle, e que porem ho encomendava aas Justiças dos
    Lugares pera que lhe dessem ha ajuda, e favor, que elle requeresse, e
    aalem desto, que ho dicto Pero Gonsalves requeria mais ahos dictos
    Juizes, que perguntassem hos vaqueiros aacerqua do que ho Escudeiro
    morto em morrendo confeçara, hos quaaes diceram todo ho que atraaz hee
    escrito, e mais que ho dicto ferido em querendo morrer dicera.

    Eu naci em na maa hora antre todolos homens da teerra, de que saõ
    naturaal, e assi aquelle por cujo concelho esto fiz, porque certo hee
    que Garcia Dalmuche, e eu com outros buscamos, e compuzemos peçonha pera
    matar ho Ifante, mas quiz ha sua booa ventura, que por ella se nom obrou
    couza, que lhe danasse. E com tudo diceram, que ho Ifante se guardasse,
    e que perguntado ho ferido pelo nome daquelle do sangue do Infante por
    cujo concelho, e mandado esta peçonha se ordenava, que elle respondera,
    que pera que era perguntar ho que todo ho mundo sabia, e que mais nom
    deria, e com esto pedira confissam, e em lhe tirando ha lança, que tinha
    atravessada logo morrera, pelo quaal hos dictos Alguoazis, e Alcaide,
    visto esto mandaram que ho dicto Pero Gonsalves, e hos seus se fossem em
    booa ora, e livres, e lhe mandaram daar hos estromentos pubricos, com
    muitas testemunhas, que sobre esto pediram.»

    E depois que estes estromentos em Coimbra se pubricaraõ, de que todos
    foraõ hi espantados, ho Ifante mandou mostrar ho treslado delles ha seu
    padre, por Nuno Martins Barreto, e por Ruy Garcia do Cazal, e pedir-lhe
    que logo desse ha Affonso Sanches ha emenda, e castigo, que em tam feio
    cazo merecia. Do que ElRei foi asaaz maravilhado, e posto em mui tristes
    pensamentos, ainda que logo conheceo, que tudo eram manhozas envençoens,
    e maal compostas, e ahos messageiros do cazo, respondeu por maneira, que
    foraõ elles contentes, e sobresto ElRei enviou logo aho Ifante, Fernam
    Rodrigues Bugalho, e Lopo Esteves Dalvarengua, pessoas de que fiava,
    pelos quaaes lhe enviou certificar ho nojo, e tristeza que do cazo
    passado tinha recebido, ho quaal era de calidade, que fazendose contra
    ho mais pequeno vassallo seu, elle ho estranharia, e puniria mui
    gravemente, quanto mais contra elle seu filho, que elle amava de
    coração, e suas couzas assi lhe doiam, e tocavam como se fossem feitas,
    e ordenadas contra sua Reaal pessoa, e que fosse certo, que quaalquer
    seu irmaão lidimo, se ho tivera, que contra elle fizesse semelhante
    treiçam, que seem nhuma piedade lhe mandaria tirar ho coraçaõ pelas
    espadoas, como aho mais vil homem de sua teerra, e que porem ElRei lhe
    rogava, que hos proprios originaes de que vira hos treslados lhe
    quizesse mandar, que logo lhos tornaria, e porque por elles se queria
    beem informar pera sabeer ha verdade donde tanto maal nacera, e quaaes
    eraõ hos participantes nelle, pera tudo emmendar, e castigar com penas,
    e rigores que elle viria.

    Aho que ho Ifante respondeo, que se maravilhava muito delRei seu padre,
    hum feito tam craro, e de taal importancia querelo poor em vagarias, nas
    quaaes elle nom queria poor seu corpo, vida, e honra, porque se ElRei
    tivesse vontade de ho estranhar, e punir como lhe enviava dizer asaaz
    provado estava ho erro pera na exequçaõ delle nom procederem
    interlucutorias nem tantas delongas, e que jaa em cazos, que menos
    relevavaõ, e comprova que nom era tam abastante, mas por soo prosunçam
    lhe vira proceder contra muitos, e punillos, e que assi ho devia fazer
    neste cazo, e que hos originaes por seerem escritos em papel, e por se
    nom perderem tinha mui beem guardados antre duas tavoas, e que ha ElRei
    hos mostraria quando fosse necessario, e que porém, que sobresso mais se
    avia de fazer com mostranças da meaça.

    CAPITULO XX

    _Da diligencia que ElRei fez pera saber ha verdade dos estromentos de
    Maguazella._

    Com esta reposta do Ifante em que pareceo que elle se cerrava pera
    prefeitamente se nom saber ha verdade do cazo, que desejava, ElRei pera
    tirar de si sospeiçoens, e escrupulos da vontade, antes de tudo ouve por
    beem denviar, como enviou, por messageiro avizado com sua carta de rogo
    ahos do Concelho de Maguazella, encomendandolhes, que do cazo que nos
    estromemos era particularmente apontado, lhe mandassem dizer ha verdade,
    e que viesse por todos beem autorizada, hos quaaes juntos todos em seu
    consistorio maravilhados primeiramente de taal novidade, responderamlhe
    sustancialmente, que todalas couzas conteudas nos dictos estromentos nem
    soomente huma nom fora, nem era verdade, porque naquella Villa nom avia,
    nem nunca ouvera taaes homens, que fossem justiças, nem Tabalians, nem
    taaes vaqueiros, nem memoria de taal feito, como aquelle acontecesse em
    Maguazella, nem em seu termo, nem em toda aquella Comarqua, sobre que
    fizeram grandes deligencias de que enviaram ha ElRei D. Diniz suas
    certidoens asinadas por todos, e aseladas com ho selo do Concelho.

    E com esta reposta de Maguazella, em ha falcidade foi ho Ifante beem
    compreendido, e ElRei foi muito maravilhado, e recebeo grande nojo, que
    lhe pareceram começos, e fundamentos que ho Ifante lançava, e fazia pera
    descobertamente lhe desobedecer, e ho desservir, e pera alguma
    temperança, e resguardo desto ElRei fez ajuntar em sua Camara ha D.
    Johaõ Mendes de Briteiros, e Martim Affonso de Souza, e Gonçalo Anes de
    Berredo, seus sobrinhos, e D. Pedro Estaço Mestre de San-Tiago, e D. Gil
    Martins Mestre de Christo, e D. Vasquo Mestre Daviz, e Vasquo Pereira, e
    Vasquo Martins de Rezende, e outras pessoas nobres de sua Corte, e em
    Concelho, e perante elles todos fez leer ha carta, e titolo que hos de
    Maguazella lhe enviaram, e acabada de leer, ElRei perante todos logo
    dice.

    «Certo hee, que ha alguns pareceraa esta minha fala escuzada, pois ha
    faço com paixam, que nom posso dizer has muitas mercees, e grandes
    beneficios que tenho feitos aho Ifante meu filho, que apoz elles nom
    diga hos erros, e desobediencias, e desagradecimentos, que contra mi
    teem cometidos, e cada dia comete, e porém ha door, que tenho em minha
    alma, e ha sanha que encende ho meu coraçam, são tamanhas, que me forçam
    meu proprio sizo, pera que has nom possa encobrir, e dellas me fazem que
    vos diga algumas, aho menos pera saberdes minha fortuna, e minha
    desculpa, e sobresso procurardes, e dardes ha esto algum remedio, e
    concelho pois eu jaa nom sei, nem posso.

    Beem sabeis todos, quam honradamente, e com quanta prosperidade sempre
    criei ho Ifante, e quanto de coraçam sempre ho amei, e por este grande
    amor, que lhe tinha nom seendo inda em idade de seis annos, lhe dei caza
    apartada com muita teerra, e grande contia, e com boons e honrados
    vassalos, ho que hos Rex de Portugal meus antecessores, ha seus filhos
    erdeiros de tam pouca idade nunqua costumaram fazer, porque cazados, e
    em moores idades sempre andavam com seus padres em sua caza, atee que
    lhe apartavam has suas sem teerem vassalos, nem servidores proprios, e
    pera prova desto sabeis, que como quer que ElRei D. Affonso meu avoo,
    filho delRei D. Sancho sendo Ifante, fosse cazado com ha Ifante Dona
    Orraqua, e tivesse filhos, sempre porém andou em caza delRei seu padre,
    e se ElRei D. Affonso Conde de Bolonha ho fez ha mi, foi em tempo que eu
    avia jaa dezoito annos, e avia catorze que elle jazia em cama seem se
    poder soster e alevantar, de maneira que depois, que me apartou caza, e
    asinou teerra nom viveo mais que dezanove mezes, e quantos trabalhos,
    perigos, e despezas, eu com muitos de minha caza, e teerra passei, por
    se fazer seu cazamento com ha Ifante Dona Breatis sua molher, vós todos
    ho sabeis pois tambeem ho passastes comigo e ho conhecimento, que elle
    desto teem, e ho galardam que por esso me daa, sam nojos, e
    desobediencias que andando em minha caza, e fóra della sempre me fez, e
    que todas aqui nom diga algumas por minha satisfaçam seraa forçado, que
    ha aponte.

    Primeiramente despedindose de mi, e de meu serviço ho Conde D. Martim
    Gil pela contenda, que antre elle e Martim Sanches meu filho avia sobre
    partilha derança, por seerem ambos cazados com duas irmãas posto, que eu
    soubesse que o dicto meu filho fora maltratado, e deserdado contra
    direito, eu fui favoravel aho dicto Conde, por amor do Ifante meu filho
    por seer seu, aacusta do muito dinheiro meu que por composiçam, que dei
    ao dicto Affonso Sanches, hos concordei, e seendo ho Conde meu vassallo,
    e meu Alferes moor, e Mordomo do Ifante, que eram officios pera me teer
    muito em mercee, e avia por ello obrigaçam pera me lealmente sempre
    servir, elle antes, que se de mi espidisse, errando nesso ha lei de
    nobreza, e fidalguia, que como nobre devera guardar, se foi fazer
    vassallo delRei de Castella, e lhe fez preito, e menagem contra mi
    sopena de tredor, que toda sua vida ho servisse contra mi, quando elle
    mandasse, convocando pera si alguns homens honrados do meu Regno, pera
    que fossem contra meu serviço.

    E como quer, que ho Ifante desto fosse beem sabedor, nom estimou o
    grande dano, desserviço, e deshonra, que se desso podia seguir ha mi,
    que sam seu pai, e aa Coroa de meu Regno de que hee successor, mas antes
    por estos erros ho ama, e estima, e fia mais delle do que antes fazia, e
    ihe escreve cartas de grande favor, e lhe faas mercees como se ha mi, e
    ha elle has merecesse, ha quaal couza nom sei ha quem nom pareça muito
    estranha se nom ha elle, que sendo meu filho, e vassallo, e ha quem meus
    Regnos pertencem de direito ho aa por beem sem teer lembrança destas
    obrigaçoens polas quaaes de razam naturaal, e divina, devia querer maal,
    e desamar muito ha quem cõtra miuza de tanta treiçam. Tambem sabeis, que
    estando Affonso Sanches meu filho, concertado com Dona Isabel sobre
    escaibo de Medelim por Aguiar, e seendo dia antre elles certo, e asinado
    pera ho dicto concerto se fazer sopena de dous mil marquos de prata, e
    indo ha esso ho dicto Affonso Sanches por meu mandado, e consentimento
    ho Ifante saio ha elle com voos, e tençaõ de ho matar, posto que Ihe eu
    mandasse dizer por Johaõ Rodrigues de Vasconcellos, que o nom
    perseguisse, e ho deixasse, que hia por meu mandado, elle ho nom quiz
    fazer, e me mandou dizer, que ho que começar a havia de acabar, aho que
    eu por evitar tamanho maal como se aparelhava, aahi fóra em pessoa, e
    voos comigo, e porém nom se pacificou ho cazo seem ho dano que vistes.

    E outro si Vasquo Paaes Dazevedo, que em Castella contra mi, e meu
    serviço dice algumas couzas, que nom devia, querendose dellas alimpar
    perante mi, poz ha culpa de maao ha Martim Reimondo, e porque Affonso
    Martins Reimondo seu sobrinho, que era presente lhe dice que lhe poeria
    de praça has maãos, e ho corpo, por prova que seu tio nunqua taal
    dicera, e que lhe faria confessar, que nom dizia verdade, ho Ifante
    tomou a parte de Vasquo Paaes, e falou por elle palavras descompostas, e
    por Affonso Martins querer alimpar, e escuzar seu tio, hos do Ifante ho
    quizeraõ logo matar, e perante mi seem acatamento de minha pessoa ho
    fizeraõ, seem meu filho tornar a esso, como devera, consentindo em
    tamanha injuria, como ha mi era feita. E sabeis mais, que dous sabrinhos
    do Bispo de Lixboa confiando, e esforçandose como nom deviam, que pela
    parte que de mi dava, e booa vontade que tinha ha seu tio, poderiam por
    favor escapar de quaalquer crime, e maleficio que cometessem, e
    fizessem, elles sobre segurança mataram pubricamente no meio do dia, e
    da Cidade hum filho do nobre homem, e boom Cavalleiro Estevam Esteves, e
    por ha fieldade, e graveza do cazo seer taal hos mandei logo prender, e
    fazer pubricamente justiça, e de todos aquelles que foram em su ajuda, e
    por esso ho dicto Bispo com meu desamor, porque eu quiz fazer justiça,
    se foi ha Roma onde por todalas maneiras que pode procurou ho meu nojo,
    e desserviço do quaal ho Ifante perdeo toda suspeita, e ho teem por
    boom, e leaal servidor, e fia delle, e lhe faaz honra, e mercee, e ha
    todolos seus, sabeendo notoriamente que nisso me desserve, e anoja.

    E além destas couzas que dice, outras mais desta calidade teem ho Ifante
    contra mi feitas, que atee qui soportei, esperando que com crecimeto dos
    dias, e da honra, e estado que tinha se temperasse, e emendasse, porque
    com ha emenda desso, que em si fizesse refreasse ha mi que nom dicesse
    maal de pessoa de meu sangue, especiaalmente delle, que depois de minha
    morte aa esta teerra de soceder em meu lugar: mas porque vejo que elle
    cada dia, tira ho beem do beem, e acrecenta maal ha maal, ho descubro ha
    voos outros pera que nesso me deis concelho com remedio».

    Aho que cada hum dos Senhores, que eram prezentes, responderaõ com ha
    door, e tristeza que por esso tinha, e pera booa paaz, e concordia antre
    ElRei e ho Ifante, deram seu voto, e offereceram suas forças, e booa
    vontaade. Mas ho Ifante veendo que has couzas passadas pera morte, ou
    desterro de Affonso Sanches seu irmaão, nom tinham socedido aa sua
    vontade pera esprimentar se com ho poovo do Regno ho podia fazer,
    ordenou estando elle em Coimbra, e assi em Santarem onde ElRei era, que
    se dicesse como por muitos dos seus pubricamente se dizia, que ElRei com
    asinados, e selos seus, e de trinta, e duas Cidades, e Villas
    principaaes de seus Regnos, enviara cartas de certidaõ aho Papa porque
    lhe certificava, que ho Ifante D. Affonso por falecimento de sizo
    naturaal, e por outros grandes defeitos que tinha, nom era auto pera
    seer Rei, porque como parvo, e desmemoriado andava tirando, e comendo
    has aranhas das paredes, e que por esso pedia ha Sua Santidade por
    merecee, que lhe tirasse a socessaõ, e abilitasse ho dicto Affonso
    Sanches pera depois de sua morte Regnar, porque pera taal socessaõ era
    mui pertencente, e que elle das rendas do Regno mantivesse ho Ifante seu
    irmaão em sua vida.

    Das quaaes couzas sendo ElRei D. Diniz certificado, recebeo por ello
    grande pezar, e muito sentimento, e enviou logo Lourence Anes Redondo, e
    Pero Esteves seus vassallos aho Ifante, ha que diceram todo o passado,
    que os seus diziam, e ho nojo em que por esse ElRei estava, por
    difamarem seem cauza de sua boondade, e conciencia, e da lealdade, e
    boom nome das Cidades, e naturaaes de seus Regnos, e ho que desto mais
    sentia assi era que ho Ifante sabeendo que estas falcidades assi se
    diziam, nom has extranhar, e castigar com grandes penas, e muita
    aspereza, como taal cazo requeria, por onde parecia, que ellas naciam de
    toda sua vontade, e consentimento, mas que pera todos sabeerem
    craramente desso ha verdade, e que nunqua taal malicia, e treiçaõ por
    elle, nem pelos seus fora, nem soomente cuidada, que elle daria por esso
    taaes penas por dezafio, e reto posessem hos corpos, e has vidas,
    aaquelles que esto diziam, e asacavam, e que por suas bocas lhe fariam
    confessar que eram mui falsos, e tredores, e que pera mais abastança, e
    moor comprimento elle escrevera logo aho Papa em quem nom avia paixam
    dodio, temor, nem afeiçaõ, pera que por suas Bullas, e letras patentes,
    e com outorgua, e aprovaçam dos Cardeaes, enviassem desto testimunho, e
    dizer ha verdade. E esto passou na era de mil trezentos e vinte annos.
    Mas ho Ifante respondeo que taaes couzas nunqua ouvira, nem sabia dellas
    parte, e porém ElRei notificou tudo aas Cidades, e Villas de seus
    Regnos, que sobre esto enviaram logo pubricos estromentos de muita
    lealdade, afirmando cada hum que combateriam em campo ha quaaesquer que
    contra ElRei, e seu Regno taaes treições, e falcidades asacassem, porque
    nunqua passaraõ assi, nem elles por sua lealdade has consentiriam.

    CAPITULO XXI

    _Dalgumas couzas mais, que ho Ifante fez contra vontade, e serviço
    DelRei seu padre._

    Como ho Ifante andava posto em desobediencia, e com pouquo acatamento
    delRei, nom olhava has couzas de seu serviço, e da justiça com aquelle
    resguardo, que devia, pelo quaal ElRei era posto em grande cuidado, e
    muita pena, porque ho Ifante pera mais danamento de sua boondade
    soltamente trazia, e acolhia em sua casa muitos maalfeitores obrigados
    grandemente por seus crimes aa justiça, com que hos do Ifante tomavam
    grande ouzadia de fazerem ho maal que queriam, porque nom receavam pena,
    nem castigo dos maales que fizessem, nem ElRei podia delles tomar ha
    emenda, que mereciam, e antre estes era hum Estevão Gonçalves Leitaõ,
    vassallo do Ifante, e outro seu irmãao, e com outro em sua companhia,
    partiram de caza do Ifante seendo elle aallem do Douro, e foram teer oo
    caminho ha Estevaõ Fernandes Cavalleiro, e vassallo delRei, e ha Gonçalo
    Fernandes, vassallo de Fernaõ Sanches, e seem cauza ha ambos hos
    mataram, e acolheraõ-se aa caza do Ifante, que hos nom quiz entregar ha
    ElRei, que com grande instancia lhos mandou pedir pera delles fazer
    justiça. Outro si, hum Paio de Meira, e Johaõ Coelho vassallos do
    Ifante, hum de huma parte, e outro de outra, sem algum temor delRei, e
    de suas justiças, fizeram de Cavalleiros, e de outras muitas gentes, hum
    grande ajuntamento, e ambos ouveraõ peleja em que morreram muitos, antre
    hos quaaes foi Lopo Gomes Dabreu, que era hum dos melhores Cavalleiros,
    que avia em sua linhagem.

    Pelo quaal insulto, ElRei por seu meirinho hos mandou desterrar fóra do
    Regno, e elles foraõse logo pera Castella, mas dahi a pouquos dias se
    tornaram pera caza do Ifante, em que acharaõ boom acolhemento, e muita
    mercee. Outro si, hum Xeres Portel vivendo com o Ifante, com outro foi
    roubar ho Moesteiro do Marmellar de quanto tinha, e elles, e hos seus
    por força se lançaram aas molheres cazadas, e virgens, que acharam pela
    teerra, e quizeram matar ho Comendador do dicto Lugar se nom se
    escondera, e cheios de roubos, e de maleficios se foram pera casa do
    Ifante que hos emparou, e favoreceo. E assi depois Affonso Novaes, e Mem
    Martins Barreto, vassallos do Ifante, e seus moradores partiram de sua
    caza, e com homens de cavallo, e de pee armados, foram sem cauza matar
    D. Giraldo Bispo Devora, que era do Concelho delRei, e vivia com elle, e
    tambeem muitos homiziados, e maal feitores, que por seus homizidios, e
    fugidas de cadeas, e delitos andavam fóra do Regno, vinhaõse soltamente
    pera caza do Ifante de quem recebiam emparo, e merecee, hos quaaes em
    grande numero ali asinou, e hos cazos porque eram obrigados aa justiça,
    cuja mais particular declaraçam nom hee aqui necessaria.

    E posto que ElRei por muitas vezes, e por muitos com cauzas evidentes
    enviasse rogar, e mandasse estreitamente aho Ifante, que lançasse de sua
    casa hos taaes homens maalfeitores, e que dali em diante nom acolhesse
    outros semelhantes, elle ho nom queria fazer, antes insistia, e faria
    tudo contra vontade delRei, pela notificaçam, que ElRei fez aho Papa
    Johaõ XXII das desobediencias, e pouquo acatamento de que ho Ifante
    aacerqua delle uzava. E assi do que neste Regno falsamente se dizia, que
    ElRei asaquando defeitos do dicto Ifante lhe suplicara pela legitimaçam
    do dicto Affonso Sanches pera Regnar, e Sua Santidade em reposta desto
    enviou ha ElRei D. Diniz pera si, e assi a todolos Estados de seus
    Regnos, suas Bullas patentes, em que cõ palavras de padre boom, e
    piedozo se doe, e maravilha da discordia antre o pai, e ho filho, e assi
    afirma, e daa testemunho da verdade, que aquellas difamaçoens, elle como
    Vigairo indinho de Christo, que do Ceo decendeo por dar testemunho da
    verdade, afirmava seerem falsas, e que em seu tempo taaes requerimentos,
    e suplicaçoens nunqua lhe foram feitos, nem has provizoens de taal couza
    nom se concedaram, nem passaram em seu tempo, nem dos Papas Clemente V e
    Benito XI seus Predecessores, cujos registros pera moor justificaçam
    desto mandara com deligencia buscar, e porèm que ha todos por muitas, e
    booas cauzas, que apontou, encomendava que por serviço de Deos, e por
    boom asecego do Regno procurassem antre todos paaz, e amizade, e
    concordia, como era rezaõ, ha quaal Bulla ElRei por sua limpeza mandou
    mostrar aho Ifante, e assi publicar em sua caza, e por todolos Lugares
    principaaes do Regno, ha que hos poovos respondiam conformes aa verdade,
    de que se tiraram estormentos pera limpeza delRei, e do Regno.

    CAPITULO XXII

    _Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe aconteceo
    com ElRei no caminho._

    E estas Bullas autentiquas, que ho Papa enviou por certeza que has
    sospeitas do Ifante contra ElRei, e contra Affonso Sanches, nom eram
    verdadeiras, nom asocegaram ha vontade do Ifante pera deixar de ter
    odio, e desamor aho dicto Affonso Sanches, porque quando ho defamava, e
    queria matar, e desterrar, beem sabia que has cauzas, que contra elle
    punha, todas eram fingidas; nem abrandou de sua dureza pera com hos
    rogos do Papa seer obediente ha ElRei seu padre, como por Prégadores, e
    grandes homens em pubriquo, e em secreto lhe era dicto, antes continuava
    no que tinha começado, pelo quaal deixando ha Ifante sua molher em
    Coimbra, e com ella ho Conde D. Pedro seu irmaão, partio da i, e levando
    cõsiguo hos maalfeitores, e degradados, e outra gente armada, foi
    caminho de Leiria com fama de ir ha Lixboa em romaria a S. Vicente, mas
    ha verdadeira tençam de sua ida, era pera tomar, e teer Lixboa contra
    ElRei seu padre, e ElRei estando em Santarem, e seendo certifiquado da
    maneira em que ho Ifante ia, ouve taal atrevimento por grande seu
    desprezo, ca parecia nom aver algum temor, nem vergonha delle, nem de
    sua justiça, especiaalmente pelo Ifante vir com tantos omiziados tam
    junto delle, e como quer que ho seu primeiro movimento foi acodir logo
    ha esso com mais trigança, e moor aspereza, porém ouve por beem
    enviar-lhe primeiro dizer por Pero Esteves, e Gomes Anes seus vassallos,
    que lhe rogava lançasse fóra de sua companhia hos maalfeitores que
    levava, porque com elles mais parecia ir fazer almogavaria em teerra de
    imigos, que comprir com devaçaõ sua romaria em sua teerra propria.

    Aho que ho Ifante nom quiz satisfazer, e neste cazo estes mesageiros
    levaraõ provizoens porque em nome delRei ouveraõ hos dictos maalfeitores
    por degradados fóra do Regno, ho que com favor do Ifante nunqua quizeraõ
    fazer, e ha cazo ElRei por este cazo em muita sanha, moveo logo contra
    Lixboa, e ha Rainha Dona Isabel sua molher com elle, e indo jaa ho
    Ifante diante, em chegando ElRei aho Lumiar, que he huma legoa de
    Lixboa, soube que ho Ifante seendo avizado da ira delRei, com seu medo
    se partira pera ha Villa de Cintra, e ElRei dice contra hos seus.
    «Pareceme que ho Ifante meu filho, sabeendo quanto me anojava por elle
    trazer estes omiziados afastado oito legoas, que agora por me mais
    desprazer, e menos acatar se foi com elles, e hos tem comsigo nom mais
    de quatro, e porque são maales, que pera Deos, e pera ho mundo jaa se
    nom podem sofrer hee beem, que pera mais nom creccerem, vamos logo
    sobrestes homens, que saõ cauza desto, e trabalhemos polos aver».

    Pelo quaal ElRei mandou logo fazer prestes sua gente, que muito ante
    manhaã armados partiram, e foram contra ho lugar onde estava ho Ifante,
    e dice, que ElRei ordenou esto seer feito mui cedo, e secretamente,
    porque ha Rainha ho nom soubesse, e da sua ida nom avizasse ho Ifante.
    Mas ha Rainha maravilhada por sentir no Lugar tanta revolta, e veer
    tanta trigança, e rumores daparelhos darmas, e cavallos, como soube que
    era contra ho Ifante seu filho, foi posta em muita angustia por taal,
    que nom sabia que remedio pozesse, e porém se diz, que tantos homens
    mandou aho Ifante, e pera tantos Lugares, e com taal pressa que ante
    delRei chegar ha Cintra elle era jaa avizado de sua ida. E em tanto ha
    Rainha se socorria ha Deos, ha que em Missas, e orações com muitas
    lagrimas pedia guardasse ho Ifante da ira delRei seu padre, e por beem
    de todos hos pozesse em paaz, e amor.

    E como ElRei chegou ha Cintra onde era ho Ifante, elle como vio seu
    pendão, e suas gentes, armouse logo, e mandou armar hos seus, e
    pozeraõse contra ElRei em dous lugares com mostrança daspera peleja, ha
    quaal nom ouve, porque ho Ifante, e hos seus por quaalquer cauza, que
    fosse partiraõ dali, e nom esperaraõ ha ElRei. E esta se acha, que foi a
    primeira vez, que ho Ifante se armou contra ElRei seu padre pera com
    elle pelejar em cazo, que nom pelejasse. ElRei tomou por satisfaçaõ,
    partirse ho Ifante, e pera ho seguir nom deu lugar ha grande sanha, que
    contra elle tinha. ElRei partiose tambem de Cintra, e em chegando aa
    Aldea de Bemfiqua, soube que ho Ifante estava da i huma legoa em huma
    Aldea, que dizem Alvogas, de que ElRei foi muito mais anojado, porque
    lhe pareceo que ha soberba do Ifante, e seu desprezo contra elle, ia
    cada vez em maior crecimento, pelo quaal ElRei determinou de ir sobre ho
    Ifante ho quaal porque desta determinação foi logo avizado, tambem com
    hos seus maalfeitores, e com outras gentes com maao concelho esforçado,
    asentou logo em sua vontade esperar ElRei, e dar-lhe batalha, como se
    fora a hum imigo estranho.

    ElRei como soube ha maneira em que ho Ifante estava lhe mandou dizer:
    «Que pois ho diabo cujas carreiras elle seguia, ho punha em taal
    determinaçaõ contra elle, que era seu pai, e seu senhor, que esso nom
    era salvo pera lhe dar ho castigo, que por seus grandes erros merecia, e
    que por esso esperasse, e nom fogisse». Pelo quaal ho Ifante vendo, que
    por forças, e por rezaõ tinha contra ElRei, seu partido mais fraco, nom
    esperou El-Rei, e se tornou pera Coimbra, e ElRei ha Bemfica, e da i ha
    Santarem, e nom seem muitas lamentaçoens, e grandes maravilhas por ver
    seu filho tam seem razaõ contra si, seem nunqua querer amançar.

    CAPITULO XXIII

    _Como ho Ifante levou ha molher, e hos filhos ha Castella, e hos
    Lugares, que tomou ha ElRei seu padre._

    Como ho Ifante foi em Coimbra, logo levou sua molher, e filhos a
    Alcanizes, que hee em Castella, ho quaal tinha hum Fernam Martins
    Dafoncequa, e ali ha deixou acompanhada dalguns Escudeiros, e se tornou
    pera Coimbra, onde por suas cartas cheias de piedades, e palavras,
    promessas, e necessidades, que apontou logo fez chamamento de todos seus
    vassallos, e servidores dizendo, que o socorressem, porque ElRei queria
    vir sobrelle, e destroilo, ou matalo, sem causa. E ElRei que estava em
    Santarem quando soube ha mudança, que seu filho fizera da molher, e dos
    filhos pera Castella, e percebia seem cauza tantas gentes, era por esso
    cada vez mais anojado, porque como prudente sabia, que nom podia delle
    tomar vingança, que pera todos nom fosse mui periguoza, e porém
    pareceolhe que hos taaes ajuntamentos nom eram se nom pera ho Ifante vir
    sobre elle incitado de algum espirito diabolico ho tentar pera batalha,
    maravilhado de ho Ifante jaa nom cançar de seus odios, e perseguiçoens.

    Ha esto proveo, e atalhou com cartas geraaes, que logo enviou ha todalas
    Cidades, e Villas do Regno encomendandolhes, que se nom enganassem das
    palavras coradas, que ho Ifante mandava semear, com que hos enganasse, e
    desviasse de seu serviço, porque hos afagos, e promessas, que em suas
    cartas aas gentes fazia nom era pera com elles conquistar, nem guerrear
    se nom ha elle seu padre, e com esto mandou ElRei geraalmente pubriquar
    por tredores todos aquelles, que pera taal ajuntamento mais acodisseem
    aho Ifante, nem com elle andassem, ainda que fossem proprios seus
    vassallos, contra hos quaaes assi asperamente procederia, como contra
    aquelles, que cometessem treiçaõ contra ha Reaal pessoa de seu Rei e
    Senhor, e que da i por diante mandava ha todos seus Alcaides, e
    justiças, e ha todolos outros seus naturaaes que ha todos estes que
    desobedecessem seu mandado, matassem sem receo dalguma pena, que por
    esso ouvessem, e assi mandou, e defendeo que nom acolhessem ho Ifante,
    nem os seus nas Villas, e Castellos, nem lhes dessem mantimentos, nem
    outra couza alguma, antes assi ho esquivassem, e fizessem contra elles,
    como contra imigos delRei, e de seus Regnos, e desto se passaram muitas
    provizões, e cartas que foraõ enviadas, e pubriquadas por todo ho Regno.

    Mas ho Ifante nos Lugares onde se achava nom consentia daremse taaes
    cartas, nem serem feitas suas pubriquaçoens, nem obedecer ha couza que
    ElRei mandasse. E andando has couzas neste danamento, ElRei apartou de
    si ha Rainha, e ha mandou Alanquer, com fundamento de fazer seus
    negocios secretamente seem ho saber ha Rainha sua molher, de quem
    prezomia, que ho Ifante era logo avizado, e logo foi certifiquado, que
    hos da Villa de Leiria, deram nella entrada aho Ifante, e que tinha jaa
    ho Castello, e irado ElRei por este feito moveo, logo contra Leiria com
    tenção de queimar, e destroir todos aquelles, que foram em consentimento
    da entrada do Ifante, porque ha pena destes fosse ahos outros exemplo, e
    quando chegou ha Alcobaça jaa i achou muitos moradores de Leiria, que
    com medo de sua ira ali se acoutavaõ, como ha Caza sagrada, que lhes
    podia valer, hos quaaes posposto todo acatamento Daltares, e das
    sepulturas dos Rex seus avoos, ha que se abraçavam, mandou ElRei logo
    tirar, e estando pera irozamente delles mandar fazer crua justiça lhe
    chegou recado, que ho Ifante por força entrara ho alcacer de Santarem,
    ha que ElRei com grande pressa logo acodio e ho Ifante receozo delRei, e
    de sua ira, e poder que trazia, deixou ha Santarem, e se foi ha Torres
    Novas, onde se diz, que foi ho enterramento de Affonso Vaas Pemintel,
    que era seu Cavalleiro, ha que queria grande beem.

    E tanto que ElRei chegou ha Santarem, logo mandou ha Lourence Anes
    Redondo, que jaa estava no alcacer de Leiria, que logo dece passe, e
    matasse todos aquelles que deraõ entrada da Villa aho Ifante, em
    comprimento do quaal, decepou, e queimou nove homens dos melhores, e
    mais principaaes da Villa. ElRei mandou tornar aho Moesteiro Dalcobaça
    hos prezos, que da i levara pera justiçar, que depois de sua ira seer
    temperada, ouve por beem que lhes valesse ha Egreja, e mais Alcobaça, em
    que tinha singular devação. Ho Ifante nom menos perseguido, que
    desobediente, e contumaas partio de Torres Novas, e chegou ha Thomar,
    onde pera si, nem pera hos seus, e suas bestas nom achou algum genero de
    mantimentos, nem forragem, porque atee hos moinhos, e acenhas achou de
    suas ferramentas, e engenhos, de todo desconcertados, por taal que nom
    podessem moer mantimentos pera ho Ifante, e com esto elle se foi aho
    Castello da Villa, e seem ho poder tomar tomou por força todolos
    mantimentos, que nella achou, e da i se foi pera Coimbra.

    Da quaal se apoderou, e tomou ho Castello ho derradeiro dia de Dezembro
    de mil trezentos e vinte hum annos, (1321) e logo da i tomou ho Castello
    de Monte moor ho Velho, donde mandou dizer aho Conde D. Pedro seu
    irmaão, que andava em Castella desterrado, que se viesse aa Cidade do
    Porto, porque elle hia pera laa, e no caminho tomou ho Ifante ho
    Castello da Feira, que hee em teerra de Sancta Maria, de que era Alcaide
    por ElRei Gonçalo Rodrigues de Macedo e da i foi tomar ho Castello de
    Guaia, do quaal e assi do outro de Monte moor que jaa fora tomado, era
    Alcaide por ElRei Gonçalo Pires Ribeiro, e da i se foi aho Porto, e ho
    tomou, e ali chegou o Conde D. Pedro, que sempre andou em sua companhia,
    e da i se foi aa Villa de Guimaraens esforçado de hum Martim Anes de
    Briteiros, que fez crer aho Ifante que por inteligencias, que tinha
    dentro na Villa, lhe faria entregar, mas ho Ifante chegou ha ella, achou
    defensor dentro Mem Rodrigues de Vasconcelos, que era nobre homem, e
    boom Cavalleiro, e com elle boons Escudeiros, e outra gente da Villa, e
    com quanto foi pelo Ifante grandemente requerido com dadivas, e mercees,
    e ameaçado com morte, e outras penas pera que lhe entregassem ha Villa,
    e ho Castello, elle ho nom quiz fazer, dizendo que em quanto ElRei seu
    padre fosse vivo, ha quem tinha feito menagem, nom entregaria ha Villa,
    nem o Castello, se nom ha elle, e que atee sobresso morrer ho
    defenderia.

    Ho Ifante mandou combater ha Villa da quaal couza seendo ElRei avizado,
    ajuntou logo muitas gentes dos Concelhos da Estremadura, e das Ordens, e
    se veio lançar sobre Coimbra, que estava pelo Ifante, e nom entrou logo
    na cerqua, porque estava beem guardada, e lha defenderam, mas passou no
    alcacer, que estava acerqua de Saõ Lourenço. E avendo jaa dez dias que
    ho Ifante jazia em cerquo sobre Guimaraens, foi avizado, que ElRei tinha
    cerquada Coimbra, pelo quaal deixou ho cerquo da Villa, e se veio ha
    Coimbra pera ha socorrer, e com elle ho Conde D. Pedro, e ante que
    chegasse aa Cidade se preitejou com ElRei, que se alevantasse, como
    alevantou, e se fosse ha S. Martinho do Bispo, e ho Ifante chegou aa
    Cidade, e pouzou em Sancta Cruz, e ElRei porque ho Ifante dilatou ha
    concordia, que prometera, veio-se logo pera S. Francisquo donde se fez
    muito dano, e grande estrago no arrabalde, e nos olivaes, porque de huma
    parte, e da outra eram ali juntos hos mais dos Fidalgos, e gentes que
    avia em Portugal, e antre huns, e outros avia barreiras, e repairos, de
    que escaramuçavam, e pelejavam, em que de huma parte, e da outra com
    door de muitos, morria muita gente, porque hos pais seem vontade, e
    certa sabedoria matavam hos filhos, e hos filhos ahos pais, e huns
    irmaãos, e amigos ha outros seem alguma piedade, nem misericordia.

    CAPITULO XXIV

    _Como ElRei, e ho Ifante foram concordados por meio, e intercessaõ da
    Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que pera
    segurança desso se fizeram._

    E por esta discordia, que antre ElRei, e ho Ifante avia, ha Rainha Dona
    Isabel era triste, e anojada, e por aver antre elles booa paaz, e amor
    como era rezaõ fazia ha Deos, e mandava fazer muitas oraçoens, e
    devaçoens, e seendo certifiquada destas mortes, e maales tam grandes que
    desta desaventura se seguiam, ella de sua propria, e virtuoza vontade
    partio Dalanquer donde estava, e se veio ha Coimbra, e por si falou a
    todolos Senhores, que eram com ElRei, e com ho Ifante, e assi com ho
    Conde D. Pedro, e com elles por sua sancta intercessam banhada com
    piedozas lagrimas, asentou que era beem fazerse logo paaz, e concordia,
    e ha Rainha com ElRei, e com ho Ifante concordou, que ambos se partissem
    da li, e se fossem ha outros lugares, dõde por pessoas seem sospeita se
    veriam has couzas que ho Ifante requeria pera dellas lhe serem
    outorgadas aquellas que fossem de razam, e onestidade, e ElRei com
    prazer, e consentimento desto, se foi ha Leiria, e ha Rainha, e ho
    Ifante e se foram da i ha Pombal, e ali concertaram.

    Que ElRei desse aho Ifante Coimbra, e Monte moor com seus Castellos, e
    ha Fortaleza da See do Porto, porque ha Cidade ainda entam nom era
    cerquada, e por ellas fez ho Ifante menagem ha ElRei, pera de todas
    fazer guerra, e manter paaz, como elle mandasse, e assi acrecentou aho
    Ifante pera seu soportamento, mais contia de dinheiro, e panos aalem do
    que tinha, e ElRei perdoou aho Ifante, e ahos seus todo ho passado, e ho
    Ifante ahos delRei, e ha rogo do Ifante foi tambem perdoado ho Conde D.
    Pedro, que foi restituido ha todo ho que tinha, e lhe era tomado, e
    destas couzas mostrou ho Ifante seer mui ledo, e mui contente, e dice,
    que nom menos obrigava, e tanta alegria tomava das mercees, e
    acrecentamentos, que delRei seu padre entam recebia, como de seer seu
    filho, pera por ellas dahi em diante, beem, e leaalmente ho servir
    sempre seem algum nojo, nem escandalo. E sobresto lhe fez pobriqua, e
    solene menagem, e tomou por esso juramento dos Sanctos Evangelhos sobre
    que poz has maãos e no Altar de S. Martinho do Pombal prezente ha
    Rainha, e muitos Fidalgos, que sobpena de seer tredor, e de encorrer na
    maaldiçaõ de Deos, e na sua, dali em diante sempre ho servisse, e lhe
    fosse obediente assi como deve seer boom filho, e leal vassalo ha seu
    padre, e ha seu Senhor, e que da i em diante nom acolhesse mais nhuns
    maalfeitores, antes hos que podesse aver prenderia, e entregaria ha
    ElRei, e ha suas justiças, e hos que trazia lançaria fóra logo de sua
    caza, e de seu favor.

    E pera mais firmeza, e moor segurança rogou, e encomendou aho Conde D.
    Pedro seu irmaão, e ha Martim Anes de Souza, e ha Gonçale Anes de
    Briteiros, e Affonso Telles, e ha Gonçale Anes de Berredo, e ha Lopo
    Fernandes Pacheco, e ha Paio de Meira, todos riquos homens de Portugal,
    e ha outros nobres seus vassallos, que fizessem, como fizeram outro taal
    juramento, e menagem, como elle tinha feito, e ho Ifante tambem pedio aa
    Rainha por mercee, que pera maior, e mais seguro penhor desta concordia,
    e porque ElRei da i em diante mais descançasse sobre ello, que tambem
    ella quizesse fazer por elle este juramento, e menagem ha ElRei, e ella
    tambem assi ho fez, com cada hum dos outros. E outro si ElRei pera
    satisfaçam do Ifante, e de todos tambem fez no Altar da Capella de S.
    Simaõ de Leiria, solene juramento de nunqua falecer aho Ifante em alguma
    destas couzas, que lhe prometera, e outorgara. E foram estes juramentos
    feitos no mez de Maio, no anno de mil trezentos e vinte tres, (1323) e
    acabadas estas concordias de que todo Regno pareceo, que recebia muito
    prazer, e descanço, ElRei, e ha Rainha, e ho Ifante se foraõ ha
    Santarém, e da i ha Lixboa, onde todos estiveraõ atee Sancta Maria
    Dagosto, e da i ho Ifante se tornou pera as teerras, que ElRei lhe dera.

    CAPITULO XXV

    _De huma carta ao Papa Johaõ XXII aho Ifante D. Affonso filho delRei D.
    Diniz, sobre has dezavenças com seu pai._

    Destas dezavenças, e roturas, que avia antre ElRei, e seu filho, ante de
    assi seerem concordados, ho Papa por quaalquer maneira que fosse, foi
    muito inteiramente informado do que lhe muito pezou, porque tinha
    grande, e particular afeição ha ElRei D. Diniz, que ho avia em todo por
    Rei excellente, e por ha Sua Santidade parecer, que seus Sanctos
    conselhos, e booas amoestaçoens podiaõ nisto muito aproveitar, enviou
    sua carta de Bulla aho Ifante D. Affonso, cujo theor tirado por mi
    fielmente de Latim em lingoagem hee ho que se segue.

    JOANNE BISPO

    Servo dos servos de Deos

    «Aho amado em Christo filho D. Affonso enviamos este escrito de mais
    saaõ concelho, com muita torvaçam de nossa alma, mui ameude ouvimos como
    ho imigo semeador de odio, e enveja, por estorvar ho boom estado, e paaz
    do Regno, e seu louvado regimento com sua maaldade te poz em coraçaõ de
    te levantares contra teu pai, e como primeiramente soou em nossas
    orelhas taal fama de desobediencia, que por toda ha teerra hee jaa mui
    espargida, fez a noos grande nojo, e encheo de muita amargura nossa
    paternal afeiçam, e pois noos teemos nesta vida taal lugar, e poder
    porque aho Rei pacifico no dia do grande Juizo, avemos de dar conta das
    almas, aprazate, e nom te agraves se ha tua duramente por seu beem
    reprendermos, e porque ha palavra de Deos nom seja atada na nossa boca,
    e falemos com espirito de liberdade, por esso nom podemos encobrir
    tamanho maal como hee perseguir aquelle que te criou, e gerou, e
    estragares tam seem tento ha teerra (que atee espargeres por ella ho
    sangue) devias sempre defender, quem hee aquelle que seem grande
    torvaçaõ do epirito possa ouvir, que hum Rei tam nobre ha juizo do quaal
    hos Rex isentos doutras teerras com grande vontade se sometem, e
    obedecem a seu mandado, e concelho, seja por ti com injurias seem razam,
    e seem seus merecimentos tam anojado, e perseguido, e porem nom sabemos
    quaal couza agora digamos primeiro, ou quaal recontaremos por
    derradeiro, nem sabemos se choremos ho beem que perdes, ou se nos doamos
    do maal que fazes, dize em que te errou teu padre, ou de que ho
    reprendes, e que te nom fez de graças e beneficios que devesse fazer,
    cremos por sua confiança, que nhuma couza de erro te fez, mas afirmamos,
    que avondança de booa vontade, que te sempre mostrou, foi verdadeira
    cauza de lhe seeres tam desobediente, mas agora prouvesse ha Deos, que
    ainda melhor soubesses, e entendesses com melhor aviso, e esguardasses
    no que te compria de fazer, quem he aquelle que seem grande door, e
    tristeza possa recontar, que hos direitos, e obrigaçõens do parentesco
    antre aquelles, que sam conjuntos com tanta afinidade de sangue, sejam
    assi quebrantados, quem consentiraa seem amargozo coraçam, que ho filho
    ante do tempo, nom soomente queira abreviar hos annos de seu padre, mas
    ainda que com maliciosos cometimentos se trabalhe de hos acabar mais
    cedo, ho quaal tu sabe, que jaa mais vive por teu proveito, que pelo
    seu, porque qualquer couza de beem que faz, e ajunta jaa todo he pera
    ti, e com muitos trabalhos, e despezas afirmou e acrecentou seu Regno,
    porque tu depois de sua morte podesses viver nelle, grande, e poderoso,
    porque te trigas ante tempo por cobrares aquillo, que ha natureza ainda
    te nom quer dar? Nom sabes, que diz Salamaõ, que nom averraa ha bençam
    no fim dos dias, ho que aa erdade se atrigar primeiro que deve? Tu
    juntamente perdes ha alma, e ha fama por averes antes de tempo ho que
    depois aas de perder, e segues ho contrairo desto nom curando de tua
    propria saude.

    Has lex, e direitos de todalas naçoens mandam que hos filhos em
    quaalquer estado alto, e baxo sempre obedeçam ha seus padres, e hos
    amem. Pois dize, onde hee aqui ho amor, onde hee ha reverencia do filho
    aho padre, onde ha lei de natureza, onde finalmente he ho temor de Deos?
    Ha elle aprouvesse ora que soubesses quam alegre, e quam doce couza hee
    ho filho obedecer, e honrar ha seu padre, e quam maa, e desventurada hee
    ha desobediencia, e desprezo, que ho filho contra elle mostra, de
    maneira, que como se afasta de obedecer, logo nom parece filho. Nom
    sabes, que Felipo dos Emperadores ho primeiro Christaão, posto que desse
    ho regimento do Imperio ha seu filho delle em sua vida, lhe nom era
    menos obediente, que cada hum de seus Cavalleiros, e avia por grande
    prazer teer vivo seu pai, e lhe obedecer? E ho Emperador Decio, quiz em
    sua vida Coroar seu filho, e elle ho refuzou, dizendo: Receo tomar
    Coroa, e ho regimento do Imperio, que me pode esquecer cujo filho sam,
    pelo quaal mais quero nom seer Emperador, que reger, e seer dicto filho
    desobediente, Reja ho Imperio meu padre, e ho meu senhorio, de que me
    mais contento seja em sua vida sempre lhe obedecer.

    E muitos que ho contrairo desto uzaram perseguindo, e nom obedecendo ha
    seus padres, huns morreram maa morte, outros cairam em taal cativeiro de
    que nunqua sairam, porem meu filho muito amado rogote, que ames, e
    honres a teu padre, e toma aquillo, que a igualdade da natureza em seu
    tempo te ofrecer, e nom queiras aver por força destroido ho Regno, que
    teu aa de seer, beem sabemos que ho arroido da tempestade diaboliqua
    armou ho filho contra ho pai, e armou hum irmaão contra outro, alevantou
    hos sogeitos contra ho senhor, e porém hos beens, e fazendas em
    destroiçam, e hos corpos em estrago, e ho que hee mais amargo, que vos
    poz has almas em desesperaçam de sua saude, teu padre mostra, e chora
    has injurias, que por ti lhe sam feitas, e noos em especial avemos
    compaixam delle, quanto ha opiniam do poovo, elle hee por ti
    injustamente, e contra razaõ aggravado, e perseguido, que couza hee, que
    alguns maaldizentes que contigo vivem avorrecidos de Deos, busquando
    palavras prazenteiras, e maliciosas de suas lingoas por mordeduras
    peçonhentas, e concelhos enganozos sam ouzados de encher tuas orelhas de
    vento prazenteiro, e agradavel com que ho amor natural, que ha teu
    padre, e ha teu irmaão devias, hee todo corrompido, quaal he ho
    entendimento assi boom como rudo, que nom entenda quam maa, e quam
    nojoza couza hee andares armado contra teu padre, e ajuntares ha ti
    omiziados, e maalfeitores, com que te rebelas contra elle? Quaal couza
    hee mais contra ha Lei de Deos, e da natureza, que ho padre movido pela
    injuria de seu proprio filho, mover tambem armas contra elle? E que por
    outra couza nom dizistisses do que fazes, por esta ho devias fazer.

    Sabe, que tu nom combates has Villas, e Fortalezas dos imigos, nem
    ganhas teerra alhea, mas destrues ho Regno, que por direito te hee
    devido, ho quaal parece que nom queres, pois nom obedeces aaquelle, que
    te gerou. Ó obra merecedora de gram doesto! Ó mancebia mui dina de seer
    chorada! prouvesse ha Deos filho meu muito amado, que com lima de melhor
    razam tu esquaaldrinhasses todas estas couzas, mas certamente ho teu
    odoor filial jaa perdeo seu boom cheiro, antes hee jaa convertido em
    fedoranto, ha presença do padre injuriado, quem poderaa sofrer seem
    amargura, que hum irmaão por soo odio seem outra injuria se mova contra
    outro, ha procurarlhe com todas suas forças ha derradeira queda de sua
    morte, com sua infamia, e desonra tam pubriquada? Ha quem nom
    avorreceraa muito, que hos sogeitos sejam tam ouzados, que cortados hos
    noos, e rota ha preitezia de sua leaaldade, se trabalhem de someter, e
    derribar ha Reaal Alteza de seu senhor, que segundo por fama commum, e
    mui notoria fomos certifiquados, hos vassalos do mesmo Rei, por teu
    favor se alevantaram contra elle, querendo querer tam desonesto, que
    elle nom aja poderio sobre seus Regnos? Pois seendo desto tantas vezes
    combatido, que queres que nesto façamos, por ventura calarnos-emos e nom
    te daremos ho saaõ Concelho, que aas mister? Certamente nom.

    Antes esguardando todas estas couzas com mui afiquado desejo, como ha
    filho muito amado te rogamos, que ames, e honres teu padre, e lhe
    obedeças, e por esso teus dias seram longuos sobre ha terra, e esto por
    teu beem te dizemos, nom te aggraves, porque todo nosso dezejo, e tençam
    hee que vivas em paaz, e obediencia com elle, pelo quaal com humildozas
    preces, rogamos aho mui alto Deos, que sobre toda ha teerra senhorea, em
    cuja maão saão hos poderios dos homens, e hos direitos dos Regnos, que
    elle prestes, e beninamente queira esguardar sobre ti, e sobre hos
    moradores desses Regnos de guiza, que de voos aparte toda dezavença, e
    hos coraçoens de todos firme em booa concordia, e humildade, e noos de
    nossa parte devotamente pediremos aaquelle Senhor, cuja providencia em
    sua ordenança hee certa, e nom enganada, que em taal maneira esforce ha
    Reaal seda desse Regno, que aproveite assi, e ahos seus, e hos Reja de
    taal maneira, que vam pera saude perduravel com folgança de paaz.

    E se ho teu Reaal resplandor assi mostrado, nom quizer penssar, e
    obedecer ha esto que te avemos dicto, obedecendo em tudo ha teu padre,
    noos por ha que com toda ha afeiçam dezejamos paaz necessaria, e por
    taal que possamos trazer nosso dezejo ha boom efeito, em ha nossa
    vontade amoestamos filho logo ha ti sopena de excõmunham, e ha todolos
    outros de quaalquer estado que sejam assi pessoas Ecclesiasticas, como
    seculares, que torvam, ou anojaõ esse Rei, e seu Regno como nom devem,
    ou contra elle pobriqua, ou em secreto te dam ajuda, conselho, ou favor,
    daqui em diante se cavidem, e ho nom façam, porque em outra maneira
    ainda, que seja com grande door nossa, see certo que passados oito dias
    da pubriquaçam desta nossa carta, noos mandamos aho venerado irmaão
    Bispo Devora, que logo excommungue ha ti, e ha todos aquelles, que se ha
    ti chegarem, ainda que sejam Bispos, e quaaesquer outras maiores, e
    superiores pessoas, que torvem ha paaz de teu padre contiguo, seem
    embargo de quaaesquer privilegios que tenham, que desta nossa carta nom
    fizerem mençam, paaz, e asecego, venha ha ti e ha esses Regnos como
    dezejamos, por maneira, que hos perigos das almas sejam escuzados, e ha
    ti creça titulo de honra acerqua dos homens, e abastança de merecimentos
    ante Deos».

    Esta carta, ou Bulla do Papa foi dada aho Bispo Devora, que ha fizesse
    pubriquar aho Ifante estando ElRei em Lixboa, mas porque ha esse tempo
    ElRei estava jaa em alguma concordia com seu filho, nom foi pubriquada,
    mas depois em outras voltas, e desobediencias, que ho Ifante cometeu se
    pubriquou com que ha final paaz antre elles se comprio, como aho diante
    direi.

    CAPITULO XXVI

    _Como ha Rainha Dona Maria de Castella depois da morte delRei D.
    Fernando seu filho, teve vistas com ElRei D. Diniz, ha que trouxe ElRei
    D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram._

    ElRei D. Fernando de Castella, genro delRei D. Diniz faleceu de morte
    supitanea em Jaem emprazado de dous seus vassallos, que segundo se diz
    mandara injustamente matar, como atraaz brevemente toquei, e por sua
    morte fiquou seu sucessor, e erdeiro ho Ifante D. Affonso seu filho
    primogenito em idade de hum anno, e vinte e seis dias, ho quaal fiquou
    logo em poder da Rainha. Dona Constança sua madre, filha delRei D.
    Diniz, e tambem em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, e porque ha
    dicta Rainha Dona Constança da i ha pouquos annos logo faleceu, ho dicto
    Rei D. Affonso fiquou pricipaalmente em poder da dicta Rainha Dona Maria
    sua avoo, e sobre estas titurias deste Rei, ouve antre hos Ifantes, e
    grandes Senhores de Castella, grandes competencias, e muitas
    differenças, e discordias, de que se seguio muito maal, e estrago nos
    Regnos de Castella, e em fim se tomou por concruzam, que com ha dicta
    Rainha Dona Maria fossem juntamente tutores, como foram, ho Ifante D.
    Pedro, filho da dicta Rainha Dona Maria, e ho Ifante D. Johaõ tio
    delRei, filho que fora delRei D. Affonso Decimo, ho quaal Ifante D.
    Johaõ, que em outro tempo esteve em Portugal, e se chamava Rei de Liam
    durando sua titoria, e depois da morte da Rainha Dona Constança, Dona
    Maria confiando da muita verdade, e grande poder delRei D. Diniz, e assi
    na razam, que tinha daconcelhar, e ajudar ha ElRei D. Affonso seu neto,
    concertou em Guinaldo Lugar de Castella vistas com elle, aas quaaes
    contra vontade dos grandes de Castella trouxe ho dicto Rei D. Affonso
    seendo mui moço, e ali pratiquaram sobre hos desvairos de Castella, em
    fim dos quaaes ha Rainha lhe pedio, que se lembrasse delRei seu neto, e
    de seus Regnos, e que lhos ajudasse ha conservar, e defender polas
    grandes necessidades, que desso tinham.

    Aho que ElRei respondeo: «Que lhe agradecia muito taal confiança, e
    quando suas forças, poder, e sabeer pera esso lhe comprissem, que nunqua
    com tudo lhe faleceria, como pelas obras poderia ver.» E com esto
    concordado ha Rainha, e ElRei D. Diniz se tornaram pera Portugal, e
    sobre esto passado logo da i ha pouquos dias hos dictos Ifantes D.
    Pedro, e D. Johaõ tutores, e juntamente com grande poder entraraõ na
    Veiga de Grada, pera fazerem guerra ahos Mouros, onde seendo elles
    perseguidos ambos dafronta, e desmaio, e seem seer feridos morreram em
    huma soo hora, ha saber ho Ifante D. Pedro, e logo ho Ifante D. Johaõ,
    como atraaz brevemente jaa dice, e na Coronica de Castella mais
    compridamente se contem da quaal morte dos Ifantes como ElRei D. Diniz
    foi sabedor, mostrou receber por esso sentimento, porque eram boons
    Princepes, e com elle muito conjuntos em sangue, e logo enviou seus
    Embaixadores ha ElRei, e aa Rainha de Castella, ha notifiquarlhe, que da
    morte dos Ifantes, lhe pezava muito porque eram boons Cavalleiros, e
    aviam com elle tam grande divido, e que pois era chegado ho tempo em que
    lhe compria sua ajuda, e favor, que lhe tinha ofrecido, lhes pedia que
    lhe fizessem sabeer ho que delle lhes compria, e que fossem certos, que
    elle em pessoa, e com ajuda, e poder de seus Regnos, contra todos hos
    iria ajudar, e ElRei, e ha Rainha lhe responderaõ, que taal lembrança
    com taal vontade, e ofrecimento lhe gradeciaõ singularmente, que eraõ
    sinaaes com que ho cazo parecia, que lhes tinha grande amor, e que
    quando lhes comprisse ho enviariam requerer. E pera mais favor das
    couzas delRei D. Fernando, ElRei D. Diniz notifiquou aho Papa ho estado
    perigozo em que has couzas de Castella pela morte dos Ifantes estavam,
    pedindo ha Sua Santidade, que ho favorecesse certifiquandolhe com esso
    ha vontade com que estava pera em tudo ho ajudar, e defender, e ho Papa
    lhe respondeo, dandolhe muitas graças, e louvores por sua boondade, e
    manificencia por querer com tam boom dezejo encarregarse da defenssaõ, e
    emparo dos Regnos de seu neto.

    CAPITULO XXVII

    _Como ho Ifante D. Affonso se aparelhou pera pelejar com ho Ifante D.
    Felipe, que contrariava ho asecego de Castella, e como ho Ifante D.
    Felipe se foi._

    Por morte destes Ifantes, e tutores, que dice ElRei D. Affonso, fiquou
    inda em poder da Rainha Dona Maria sua avoo, pelo quaal D. Johaõ, que
    diceram o Torto, filho do Ifante D. Johaõ, que morreo na Veiga de Grada,
    e assi D. Johaõ Manuel, filho do Ifante D. Manuel, e ho Ifante D. Felipe
    tio delRei, filho da Rainha Dona Maria, todos tres tambem contenderaõ
    pera seer tutores delRei com ha Rainha, sobre que outro si ouve grandes
    discordias, debates, e partiçoens de que por seus desvairos, ha que se
    nom achava rezoado meio, que elles quizessem se seguiram outros muitos
    maalles, e danos ha Castella, porque cada hum sojugava, e mandava
    ausolutamente ha parte do Regno, que podia antre hos quaaes era ho
    Ifante D. Felipe, que seem outorga delRei, e do Regno, e por sua soo
    vontade, e cobiça procurava sojugar, e mandar sua parte do Regno, assi
    como fizera aa Cidade de Badalhouse, que tinha cerquada, com que sua
    teerra estragava de todo.

    E estando ElRei D. Diniz em Santarem, ElRei D. Affonso seu neto lhe
    enviou pedir que por quanto elle estava em Valhadolid donde ainda nom
    podia sahir, nem remediar por si ho maal, e danos, que ho Ifante D.
    Felipe fazia, que lhe rogava mui afiquadamente, que se lembrasse da
    ajuda, e defença que muitas vezes lhe prometera, e que em comprimento
    della mandasse dizer aho Ifante D. Felipe, que ceçasse, e se apartasse
    daquella teerra, e dos maalles que nella fazia. E quando por respeito
    delRei D. Diniz ho nom quizesse fazer, que entam ho fizesse por aquella
    Cidade, e por seus vizinhos, como em similhante cazo elle faria por
    outros seus naturaaes, que taal padecessem.

    Aho quaal ElRei D. Diniz respondeo, que mui degrado ho faria como elle
    por obra logo veria, pelo quaal escreveo com trigança aho Ifante D.
    Affonso seu filho, ha que quiz dar este cargo por moor autoridade, que
    elle mandasse, como mandou dizer aho Ifante D. Felipe, que por muitas
    cauzas, que lhe apontou, nom fizesse dano, nem maal ahos da Cidade de
    Badalhouse, e se alevantasse de sobre ella, e que se o fizesse, que lho
    gradecceria muito, e quando nom quizesse que elle em pessoa lho
    defenderia, e porque ho Ifante D. Felipe respondeo aho Ifante, mais duro
    que temperado, ElRei D. Diniz, que desta reposta foi avizado ouve della,
    e do Ifante D. Felipe grande desprazer, e mãdou logo ha todos seus
    vassalos, que com suas gentes, e armas se fossem pera ho Ifante seu
    filho, aho quaal se ajuntou grãde poder, cõ ho quaal moveo pera
    Badalhouse, e ho Ifante D. Felipe sabendo de sua ida, e do poder que
    levava, alevantouse forçado, e foi pera Sevilha, e ho Ifante D. Affonso
    chegou ha Elvas onde vio algumas duvidas, que antre hos da Villa, e
    Badalhouse sobre seus termos, e tomadias avia, e depois de hos
    concordar, se tornou pera Santarem onde era ElRei, e da i se foi pera
    Coimbra onde tinha sua molher, e asento de sua caza.

    CAPITULO XXVIII

    _Como ho Ifante D. Affonso requereo ha ElRei D. Diniz seu padre, que
    fizesse Cortes aas quaaes depais nom quiz vir._

    Avendo jaa hum anno, e sete mezes, que ha concordia antre ElRei, e ho
    Ifante era feita por algumas cauzas, e razoens, que alegou da minguoa de
    Justiça, e outros defeitos, que dizia aver no Regno, lhe pedio, que pera
    remedio de tudo fizesse, e quizesse fazer Cortes, has quaaes ElRei por
    nom aver dellas tanta necessidade quizera escuzar, em fim por satisfazer
    aho Ifante, e assi pera notifiquar ahos fidalgos, e poovos hos aggravos,
    e nojos, que do Ifante depois de suas avenças recebera, prouve-lhe
    fazelas em Lixboa pera onde chamou seus poovos, como em taal cazo hee
    costume, onde tambem foi ho Ifante, e ho dia em que se ouve de fazer ha
    fala pubriqua, e proposiçaõ costumada, ElRei mãdou dizer aho Ifante, que
    viesse aas Cortes pera nellas estar como ha elle em taal auto convinha,
    e ho Ifante se escuzou fazelo, e de tantas delongas, e sem razoens uzou
    aacerqua desso, que ElRei ouve por beem cometelas seem elle, e porque
    ElRei vio que ho Ifante em todo se desviava do que lhe tinha jurado, e
    prometido porque ho Conde D. Pedro seu filho, era pessoa de grãde
    credito aacerqua do Ifante, e tinha grande caza lhe dice: «Que se
    lembrasse da menagem, e juramento, que em Pombal fizera, e que hos nom
    quebrasse, nem fosse por algum respeito contra seu serviço». E esto lhe
    dise por alguns alevantamentos, que no Ifante jaa sentia. E ho Conde lhe
    respondeo: «Senhor, eu sei beem ho que sobresso devo fazer, e de mi se
    dee seguro, que nunqua vos venha nojo, nem desprazer, nem desserviço,
    porque bem conheço, que nom aa pessoa neste mundo ha que tam obrigado
    seja como ha voos». E sobresta segurança dice, que com sua licença se
    queria ir ha Santarem com ho Ifante, e que na jornada ho nom
    desserveria, e que logo se tornaria pera elle, e assi ho fez.

    CAPITULO XXIX

    _Como ho Ifante sobre huma vinda, que contra vontade delRei quisera
    fazer ha Lixboa, foram perto de pelejar, e porque ho leixaram de fazer._

    Passadas estas couzas, e has Cortes acabadas estando ainda ElRei D.
    Diniz em Lixboa foi certifiquado, que ho Ifante seu filho de Santarem
    onde estava queria i vir, e porque soube que nom vinha com sam propozito
    lhe mandou rogar, e encomendar por sua bençam, sobpena de maldiçam de
    Deos, e da sua, que por aquella vez escuzasse sua ida, e ho nom quizesse
    nesso anojar, pois sabia que taal ida ha elle nom relevava, e podia
    cauzar muito maal, e ho Ifante lhe enviou dizer, que nom sabia razaõ
    porque lhe pezasse sendo seu filho, que viesse ha Lixboa, onde elle
    estava pera ho ver, e servir, e que por esso nom avia de leixar dir. E
    desta determinaçam que ho Ifante tomou, pezou muito ha ElRei, e foi por
    esso contra elle acezo em grande sanha, e sabeendo que ho Ifante toda
    via proseguia seu caminho, e que era jaa no Lumiar, saio contra elle com
    suas gentes armadas, e em saindo, lhe mandou dizer, que logo se tornasse
    por beem, e quando nom que ho faria tornar por maal, e com seu pezar. E
    ho Ifante ho nom quiz fazer, antes abalou, e se poz junto com ElRei
    procurando todavia contra sua vontade entrar em Lixboa, e hos delRei
    concertandose por seu mandado pera lhe defender ha entrada, foram de
    huma parte, e da outra postas, e ordenadas suas azes pera batalha, e
    nellas alevantadas humas mesmas bandeiras das Quinas contrairas, e pera
    esso jaa toquadas trombetas, e anafins, que traziam em se começando
    alguma rotura antre hos homens baixos, alguns dambalas partes se diz,
    que morreram de pedras, e dardos, que se arremessavaõ.

    E com esta triste nova, que aa Rainha chegou, ella por escuzar com sua
    sancta pessoa outra maior rotura antre ho pai, e o filho, com grande
    pezar cavalgou em huma mula, e passando por meio das azes seem alguma
    pessoa ir diante, nem ha levar pela redea, nem tam pouquo esperar pela
    companhia, que ha ella por sua Reaal pessoa se devia, e seem medo dos
    muitos perigos ha que se oferecia, chegou logo aho Ifante seu filho, ha
    que estranhou ho cazo muito de taal vinda pois era contra vontade delRei
    seu padre, acuzando-o pela quebra da menagem que dera, e dos grandes
    juramentos que em Pombal ha Deos fizera, rogandolhe que se tornasse, e
    nom anojasse ha ElRei em tantas couzas, e aho menos ho fizesse por seu
    amor della que por elle, e por seu rogo tinha feitos hos juramentos, e
    prometimentos, que sabia, hos quaaes porposta ha conciencia, e
    honestidade hos via por elle de todo quebrados, e sobresto tornou logo
    ha ElRei cuja ira poz em taal temperança com que outra vez tratou avença
    antre elles.

    Donde se diz, que ho Ifante jaa sobre concordia com soo seis de cavallo
    veo falar ha ElRei, e pedirlhe perdam, dizendo, que lhe obedeceria em
    todo, como ha ElRei seu padre, e seu Senhor, e que ElRei lhe respondera,
    que ha elle nom agradecia sua taal obediencia, mas aaquelles seus boons,
    e naturaaes vassallos que com elle estavam, dizendolhe que se partisse
    se quizesse, e seria beem aconcelhado fazello, e que onde quer que fosse
    se mais lhe dezobedecesse laa ho iria tomar pela garganta. E com esto ho
    mandou ir ha Santarem, e ElRei se tornou ha Lixboa.

    CAPITULO XXX

    _Como has gentes delRei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem e do
    que se fez._

    Passados alguns dias depois deste alvoroço, ElRei se foi de Lixboa pera
    Santarem, e entrando no termo da Villa foi avizado no caminho, que hos
    moradores della por mandado do Ifante que i era, estavam pera ho nom
    acolher na Villa, mas ElRei com quanto avia entam grandes chuvas nom
    leixou por esso de continuar seu caminho, e foi pouzar ha humas cazas,
    que foram de Rodrigo Affonso Redondo, e hos seus se agazalharam em mui
    estreito lugar que hos do Ifante lhe leixaram, e sobre comer por
    razoens, que hos do Ifante ouveram com hos del-Rei, se alevantou hum
    grande, e perigoso aroido ha que ElRei, e ho Ifante acodiram em pessoas
    cada hum ha seu bando apartado, e porém depois de alguns mortos, e
    feridos dambalas partes foi procurada, e posta tregoa sobre ha tarde
    antre ElRei, e ho Ifante, e hos seus, e porque hos Cavalleiros, e nobres
    homens que se acharaõ nestas roturas, e pelejas, vendo ho grãde dano,
    que delles seem cauza se seguia, pediram ha ElRei por mercee, que por
    muitas cauzas, e razões mui urgentes, que lhe alegaram lhes desse
    licença pera entenderem finalmente em sua concordia com ho Ifante.

    Aho que ElRei respondeo mui aspero: nom querendo que sobre tantas
    paazes, e tantas concordias firmadas, e menagens taõ seem cauza
    quebradas se fizessem mais outras com tanta quebra, e desprezo, mas que
    queria castigar ho Ifante como merecia, e como faria ha hum seu imigo
    mortaal. E porém tanto aprofiaram aquelles Senhores com ElRei, e assi
    terçaram Affonso Sanches, e ho Conde D. Pedro seus filhos, que ElRei
    aprouve estar ha todo boom remedio, e aseceguo que antre elles se desse,
    pelo quaal se diz, que hos Cavalleiros, e Escudeiros que ElRei consigo
    ali tinha, eram por todos quorenta, e hos do Ifante trezentos e vinte, e
    huns destes se ajuntaraõ aho Moesteiro de S. Domingos das Donas, e hos
    outros em Sancta Maria de Marvilla, e estes escolheram vinte e coatro
    pessoas, homens de beem, e de conciencia, e de booa inclinaçam, ha
    saber, doze por parte delRei, e doze por parte do Ifante, que logo foram
    nomeados, hos quaaes determinassem, e compuzessem todolos debates, e
    contendas, que entam avia antre ElRei e ho Ifante, e que sua
    determinaçam, e composiçaõ fosse inteiramente guardada, e comprida, e
    fosse por maneira feita, que della nom se seguissem mais desvairos,
    segundo se logo apontaram, e nomearam outras pessoas, que tudo dentro de
    sessenta dias tornassem logo ha concordar em toda sua prosperidade, e
    qualquer dos delRei, e do Ifante que contrairo fosse, que pelo mesmo
    feito caisse em cazo de treiçam, e nom se de livrar se nom poendo seu
    corpo ha quatro Cavalleiros, que lho quizessem combater, e nom ho
    fazendo, que ficasse encartado, e quaalquer do povo ho podesse matar
    seem pena.

    E ali pedio ho Ifante ha ElRei, por grande mercee, que tirasse ha
    Affonso Sanches seu filho, ha teerra, e has quantias dos maravedis, que
    delle tinha, e assi ho officio de seu Mordomo, e ha Mem Rodrigues de
    Vasconcellos ho Meirinhado moor. Ha que ElRei respondeo: «Que lhe
    parecia couza muito contra razaõ, e seem justiça dar ha estes pena sem
    culpa, e fazerlhes maal tendolhe beem mercee merecida, e que fazendolho
    nom sabia, que conta daria desso ha Deos, e aho mundo, aho que por sua
    Reaal dinidade era obriguado», e porém por comprir, e asegurar ha
    vontade do Ifante seu filho prouvelhe outorgar todo o que quiz, e lhe
    pedio.

    E desta vez se partio Affonso Sanches pera Albuquerque cujo era, e
    fiquou vassallo delRei de Castella. E assi foram de huma parte, e da
    outra perdoados nesta concordia todos aquelles que serviram, e seguiram
    quaalquer partido, e assi que se fizesse entrega das couzas, que nas
    pelejas foram tomadas. E concordaram mais, que se ho Ifante D. Pedro
    filho do dicto Ifante D. Affonso, que jaa era nacido viesse em taal
    idade, que sahindo do mandado de seu padre quizesse vir contra ElRei D.
    Diniz seu avoo, que ho Ifante seu padre sempre fosse contra elle com
    ElRei seu padre, e seem elle. E assi concordaram, que fosse dado mais
    certa contia de dinheiro aho dicto Ifante D. Affonso, e que nunqua mais
    lhe podesse pedir, nem ElRei dar, e que pera segurança de todo se
    pozessem de cada parte dous Castellos, dos quaaes ho Ifante polla sua
    poz ho Castello de Gaya, e ho Castello da Feira, e ElRei ho Castello de
    Celorico da Beira, e ho de Faria.

    E foram assinados quatro Juizes logo nomeados pera determinaçaõ, seem
    revogaçaõ de todalas duvidas e debates que antre ElRei, e ho Ifante
    ouvesse, hos quaaes nom podessem estar, nem estivessem nos Lugares onde
    taaes Juizes se ouvessem de fazer, e que ha parte desobediente, e
    danifiquada hos Castellos da outra revel fossem logo entregues, e que ha
    parte desobediente pagasse mais duzentas livras de pena has quaaes
    repartissem hos Juizes, e Fidalgos do Regno antre si, e que hos
    Fidalgos, e nobres do Regno sob pena de treiçaõ hos fizessem pagar
    inteiramente ha quaalquer, que esta concordia quebrantasse, e com ha
    dicta pena logo elles se viessem, e servissem ha ElRei, ou aho Ifante
    quaalquer destes, que aas determinaçoens dos Juizes fosse obediente, e
    estas concordias, e convenças foram feitas em Santarem ha vinte e sinquo
    de Fevereiro do anno de mil trezentos e vinte e quatro (1324), hum anno
    antes da morte delRei, que se tornou ha Lixboa, e ho Ifante ha Coimbra.

    CAPITULO XXXI

    _Da morte delRei D. Diniz._

    Depois destas concordias acabadas, ElRei D. Diniz se foi ha Lisboa como
    dice, e da i ha hum anno se partio da dicta Cidade, e se tornou pera
    Santarem, e indo aacerqua do Lugar, que se diz Villa nova adoeceo de
    infirmidade, que consigo traaz todalas dores, e accidentes mortaaes de
    que se sentio mais maal tratado, e ho Ifante seu filho, que era em
    Leiria avizado desso por ha Rainha D. Isabel sua mãi, que era com ElRei
    ho veo logo vizitar, e concordaraõ de ho levarem ha Santarem em andas, e
    em colos de homens, e ha i jouve doente por algum tempo seem algum
    melhoramento, na quaal ha Rainha sempre foi prezente, e nas couzas de
    sua cura, e remedios era mais diligente, e humildoza que quaalquer outra
    simpres molher, que em semilhantes necessidades nom teem quem has
    escuze, e vendo ella que has afiquadas dores, e paixoens da doença
    delRei eram continuas, e pareciam mortaaes, duvidando da vida delRei
    estando em sua Camara, e prezente alguns, que i eram, dice ha todos
    nesta maneira.

    «Porque eu tenho grande esperança em Jesu Christo meu Senhor, e nom
    menos confiança na Glorioza Virgem sua Madre, e assi singular devaçam na
    Ordem, e Abito de Sancta Clara, assi como sempre ha tiveram aquelles de
    que descendo, sempre puz em minha vontade, que falecendo primeiro ElRei
    meu Senhor, e marido, eu acabar ha vida no dicto Abito, e por esso ho
    tenho feito, e aa muitos dias que comigo ho trago, e em minha arqua, por
    taal que se por ventura acontecesse delRei meu Senhor, primeiro que eu
    falecer, ho que Deos nom queira, eu vestisse logo ho dicto Abito por
    lembrança de minha tristeza, e por sinal de tamanha mudança destado, que
    eu mais nom devo teer, nem por fazer no dicto Abito profissam, nem
    obedecer ha alguma Ordem que nom hee minha tençam fazello.
    Especiaalmente porque eu por minha idade, e grandes infirmidades nom
    poderia soportar hos grandes encargos, e trabalhos da Relegiam, mas
    posto que eu esse Abito vista, e traga, por esso nom leixarei minha
    Caza, nem has Donas, e Donzelas, que comigo vivem, mas prazendo ha Deos,
    espero trazer estas, e tomar outras como filhas, e irmaãs, e cazallas, e
    aviallas com ho que eu poder de meus beens, e fazenda, porque como dice,
    eu proponho nom fazer profissaõ nesta Ordem, nem em outra alguma, nem
    tenho em alguma feito voto pubriquo solene, nem secreto, e esto digo
    porque em cazo, que no meu corpo vista ho dicto Abito, que minha alma
    fique livre pera de minha fazenda seem algum outro cargo, nem obrigaçam
    de Relegiam poder despoer livremente todo ho que por beem tiver, e assi
    ho tenho dicto, e decrarado muitas vezes aho Ifante D. Affonso meu
    filho, e ha Frei Johaõ meu Confessor».

    E com esto sendo ha doença delRei cada vez mais perigoza, e mortaal,
    teendo mui craro conhecimento, que hos dias de sua vida se acabavam,
    elle como Princepe virtuozo, prudente, e mui catolico, proveo seu
    testamento, que tinha feito com grande devaçam, e muito temor de Deos, e
    ho confirmou, no quaal mandou, que ho seu corpo se enterrasse no seu
    Moesteiro de S. Diniz Dodivellas da Ordem de Cistel, on de S. Bernardo,
    que elle de novo fundou, e dotou, no quaal entam avia oitenta Freiras de
    Cogula com voto de ençarramento, que nom teem has dos outros Moesteiros
    desta Ordem, e em que jaa tinha feita sua sepultura, e de sua fazenda,
    apartou no dicto testamento pera soos descargos de sua alma, trezentas e
    sinquoenta livras, que taxadas pelo preço dagora ha razam da valia da
    prata, e ouro, que daquelle tempo tinham ho valor, e preço, que agora
    teem hos ducados, e cruzados douro, como muitas vezes jaa dice, e esta
    soma mandou que logo se tirasse da torre do tezouro de Lixboa, que agora
    hee do Tombo em que tinha grandes tezouros, e se entregassem ha seus
    testamenteiros, de que ho principaal foi ha Rainha Dona Isabel sua
    molher, e ha estes mandou, que tivessem este dinheiro de sua maão no
    tezouro da See da dicta Cidade, de que cada hum tivesse sua chave pera
    nom aver embargo, nem estorvo quando delle quizessem despender, e
    comprir hos legados, e couzas, que ordenava, e leixou ha sua Capella
    toda aho dicto Moesteiro Dodivellas.

    E toda outra sua fazenda, e baixellas douro, e prata, joias, e colares,
    pedrarias, e panos aho Ifante D. Affonso seu filho erdeiro, e destes
    cento e corenta mil cruzados ordenou muitas, e grandes esmolas
    repartidas por todolos Moesteiros, e Espritaaes, e Cazas piedozas do
    Regno, e assi certa soma pera cazamentos de moças orfaãs, e pera criaçam
    de meninos engeitados, e tambem dellas ordenou, que hum Cavalleiro de
    booa vida, e vergonhosa estivesse em Jerusalem, e servisse por elle na
    guerra contra hos infieis dous annos, e pera esto ordenou tres mil
    livras, que eraõ mil e duzentos cruzados, e quando se nom achasse taal
    Cavalleiro, ou nom ouvesse desposiçam pera ir ha Ultra-maar, que este
    dinheiro se convertesse em vistir pobres, e envergonhados, e outro si
    ordenou, que outro boom homem de booa vida, fosse estar em Roma duas
    quarentenas, e que por elle andasse todalas Estaçoens em que ganham has
    Idulgencias plenarias, e ha este ordenou mil livras, e depois desto
    confeçando seus peccados com grande contriçaõ, e arrependimento delles,
    recebendo ho Corpo de N. Senhor, e todolos outros Sacramentos como Rei
    mui Catolico, e fiel Christaão acabou vida dando sua alma ha Deos em
    Santarem, ha sete dias de Janeiro do anno de mil trezentos e vinte
    sinquo, em idade de sessenta, e quatro annos, dos quaaes Regnou quorenta
    e seis.

    E ha Rainha que era prezente se apartou logo em huma Camara, e das maãos
    de humas Freiras seculares, que consigo trazia recebeo logo, e vestio ho
    Abito de Sancta Clara, que trazia feito, como jaa dice, e sendo nelle
    vestida ante de se fazer do corpo delRei alguma mudança, ella prezente
    muitas que ha ouviam, dice estas palavras: «Pois Deos por seu grande
    poder, e profundo Juizo ouve por beem, que ha morte delRei meu Senhor, e
    marido antepassasse ha minha, e seem a sua vida eu fiquo, e sam tanto
    como morta, e de razam eu jaa morri com elle, e por esso eu quis logo
    mudar hos vestidos, e trajos que vedes, que sam este Abito pardo cingido
    com esta corda, e este veeo branquo, que ponho sobre minha cabeça porque
    ha vida, que seem elle viver seja com doo, e tristeza pera sempre, e
    esto nom faço por seer Freira, nem teer feito algum voto, e obrigaçam de
    Religiam como teenho dicto, mas por minha humildade, porque nelle sirva
    a Deos, nas couzas em que ha sua graça me ajudar».

    E com esto acabado ho corpo delRei fiquou concertado, como devia, e com
    muitas tochas acezas, e acompanhado da mesma Rainha, e do Ifante D.
    Affonso seu filho, e do Conde D. Pedro, e D. Johaõ Affonso, e doutros
    Prelados, e riquos, e nobres homens do Regno, que ali eram juntos, e
    assi de muitos Clerigos, e Religiozos que com elle iaõ rezando, e
    encomendando sua alma ha Deos, foi levado aho dicto seu Moesteiro de S.
    Diniz Dodivellas, onde nom seem grandes prantos, e lamentaçoens foi
    metido em sua ordenada sepultura, e depois de seu enterramento, fiquou i
    ha Rainha por algum tempo comprindo seus legados, e fazendo outras
    muitas esmolas, devaçoens, e oraçoens, por beneficio, e descargos de sua
    alma. E da vida que depois esta Rainha, e como acabou, e quantos
    milagres fez Deos por seus rogos, e merecimentos, e onde jaas, direi na
    Coronica delRei D. Affonso seu filho, em cujo tempo, e Regnado ella
    depois faleceo, que foi onze annos depois da morte delRei D. Diniz, como
    se diraa.

    CAPITULO XXXII

    _Das obras, e couzas notaveis, que ElRei D. Diniz fez em sua vida._

    Has obras, e feiçoens, e couzas notaveis que este mui excellente Rei D.
    Diniz fez em toda sua vida aalem das que nesta Coronica tenho escritas,
    em cazo que por desvairados tempos has fizesse, e mandasse fazer, porque
    de certidam dos annos, e tempos em que semelhantes obras se fizeram,
    esta Estoria que delle escrevo, nem hos que ha lerem nom teem alguma
    final necessidade, e assi juntas se comprendem, e entendem melhor, por
    tanto has reservei pera este derradeiro capitolo, e has mais principaaes
    saõ estas, primeiramente elle fez muitas Lex, e Ordenaçoens em seu
    tempo, e deu boons foraaes ha muitos Lugares de seus Regnos, fez ho
    Estudo de Coimbra, que foi o primeiro de Portugal, e fez ho primeiro
    Mestre de San-Tiaguo izento de Castella, e ordenou primeiramente ha
    Ordem de Christo, e fez nella o primeiro Mestre, como jaa dice. Este Rei
    em seu tempo fez quasi de novo todalas Villas, e Castellos de riba
    Dodiana, ha saber: Serpa, Moura, Olivença, Campo maior, Ouguella, cujos
    alcaceres, e Castellos fez de fundamento com muitas despezas, e assi fez
    na dicta Comarqua dantre Tejo, e Odiana hos Castellos de Monforte, e
    Darronches, Portalegre, e Marvam, Alegrete, Castello Davide, Borba,
    Villa Viçoza, Arraiolos, Evora monte, Veiros, e ho Alandroal, Monçaraas,
    e Noudar, e acrescentou ho Castello de Jurumenha, e fez ho Redondo, e ho
    Assumar, e fez ha Torre, e Alcacer de Beja, e na Comarqua da Beira, e
    riba de Coa, fez de novo estes Castellos, ha saber, Avoo, que agora hee
    do Bispo de Coimbra, ho Sabugal, Alfaiates, Castel Rodriguo, Villar
    maior, Castel boom, Almeida, Castel melhor, Castel mendo, Sam Felizes
    dos Galegos, que tem agora Castella, e nom fez ho Castello de Monforte
    de riba de Coa, que tambeem lhe foi dado por estar em maa despoziçam da
    teerra, e sua força pera defençaõ do Regno, nom seer muito necessaria,
    fez mais Pinhel, e seu Castello, e nas Comarquas dantre Douro, e Minho,
    e Tralos montes fez estas Villas, e Fortalezas, ha saber, cerquou
    Guimaraães da cerqua, que agora teem, e Braga, e Miranda de Douro, e seu
    Castello, e Monçam, e Crasto Laboreiro, e povoou de novo, e fez hos
    Castellos de Vinhaes, e Villa frol, Alfandega, Mirandella, Freixo
    Despada Cinta, Villa nova de Cerveira, e fez de novo, e do primeiro
    fundamento Villa Real, que fazem numero de corenta, e coatro Villas,
    Castellos, e Fortalezas do Regno, de que algumas fez novamente, e outras
    reformou, e fez de novo hos Castellos, e assi fez outras muitas
    povoaçoens, assi como Muja, Salvateerra, Atalaia, Ceiceira, Montargil, e
    outras semilhantes, e fez ha rua nova de Lixboa, e assi ho Moesteiro de
    Sam Diniz Dodivellas em que jaas, ho quaal logo ha pouquos annos, que
    Regnou mandou começar, e em sua vida se acabou em dés annos, e foi logo
    dado aas molhores Monjas, pera que foi ordenado, porque ho Moesteiro de
    Sancta Clara de Coimbra fez, e dotou ha Rainha Dona Isabel sua molher, e
    nelle jaas, como aho diante direi.

    DEO GRATIAS

    INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS

    A

    Affonso III (El Rei D.) de Portugal, em que dia, e anno falleceo.
    Fez doação das Villas de Portalegre, e Marvão, e dos Castellos da
    Vide, e Arronches a seu filho o Infante D. Affonso.

    Affonso (D.) chamado o Casto filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão,
    não cazou mas morreo Religiozo Franciscano.

    Affonso (D.) Rei de Castella, Avô del-Rei D. Diniz de Portugal, fez
    doação a sua filha a Rainha Dona Beatriz, mãe do dito Rei D. Diniz,
    das Villas de Niebla, Serpa, Moura e Mourão.

    Affonso (Principe D.) Filho herdeiro del-Rei D. Diniz em que anno, e
    lugar naceo.
    Tendo sete annos, lhe nomeou seu pae officiaes para a sua caza.
    Em que parte se recebeo com a Infante Dona Beatriz.
    Discordias, que teve injustas com seu pai.
    Parte para Castella contra vontade de seu pai.
    Intenta matar a seu irmão Affonso Sanches, e quanto machinou para
    este fim.
    Continua em machinar novas falsidades contra seu irmão.
    He avizado pelo Papa João XXII, a que dezista do odio contra seu
    irmão, e não cessa de o perseguir.
    Intenta batalhar com seu pai, mas deziste deste intento.
    Toma os Castellos de Coimbra, Montemor e Feira, e a Cidade do Porto.
    Faz levantar o sitio que tinha posto a Badajoz o Infante D. Felippe.

    Affonso (Infante D.) Filho del-Rei D. Affonso III de Portugal, cazou
    com Dona Violante, filha do Infante D. Manoel, filho del-Rei D.
    Fernando II de Castella, e da Infante Dona Constança.
    Que filhos teve deste matrimonio.
    Deu-lhe seu pai as Villas de Portalegre, e Marvão, e os Castellos da
    Vide e Arronches.
    Differenças que teve com seu irmão El-Rei D. Diniz.
    Fez guerra a seu irmão, e mata a D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya,
    e a D. Diogo Lopes de Campos.
    Cede das contendas, que tinha com seu irmão por intervenção de sua
    cunhada Santa Izabel.
    Em que anno falleceo, e onde está enterrado.

    Affonso (Infante D.) Filho do Infante D. Affonso, e Dona Constança
    filha de D. Jaymes primeiro Rei de Aragão, e neto del-Rei D. Affonso
    III de Portugal, foi senhor de Leiria, e falleceu sem filhos.

    Affonso Pires de Gusmão, acompanhado de muitos Capitaens entra em
    Portugal onde obra algumas hostilidades, e priziona novecentos homens.

    Affonso Sanches (D.) Chamado de Albuquerque, foi filho natural del-Rei
    D. Diniz.
    Seu filho D. João Affonso de Albuquerque cazou com Dona Izabel,
    filha de D. Tello, e Dona Maria neta del-Rei D. Affonso III de
    Portugal.
    He notavelmente aborrecido por seu irmão o Principe D. Affonso.

    Arronches. O seu Castello, foi doado por El-Rei D. Affonsso III de
    Portugal a seu filho o Infante D. Affonso.
    He cercado por El-Rei D. Diniz.

    B

    Beatriz (Dona), mãe del-Rei D. Diniz, foi senhora das Villas de
    Niebla, Serpa, Moura, e Mourão por doação que dellas lhe fez seu pai
    D. Affonso Rei de Castella.

    Benedicto XI. Manda Nuncio para pacificar a El-Rei D. Fernando de
    Castella com El-Rei D. Jayme de Aragão, e o Infante D. Affonso de
    Lacerda.
    Insinua a El-Rei D. Diniz, que seja medianeiro nestas pazes.

    Branca (Dona). Filha de Pedro Annes de Portel, cazou com D. Pedro
    filho natural del-Rei D. Diniz.

    C

    Carlos, Irmão de S. Luiz Rei de França, recebe a investidura dos
    Reinos de Secilia, e Napoles do Papa Urbano IV, e vence na batalha de
    Benavente a Manfreu Rei de ambas as Secilias, na qual morreo.
    Cerca a Cidade de Messina, e levanta o sitio.
    Queixa-se ao Papa Martinho IV, da violencia com que o queria
    despojar de Secilia El-Rei D. Pedro de Aragão.
    Dezafia a este Rei para Bordeos.
    Morre em Messina.

    Celestino V. Confirma o privilegio concedido por seu Antecessor
    Niculao IV, de que se elegesse Mestre da Ordem de San-Thiago em
    Portugal independente do de Castella.

    Clemente V. Como foi eleito, e das promessas, que fez a ElRei Felippe
    de França chamado o Fermozo.

    Constança (Rainha Dona), Filha de Manfreu Rei de ambas Secilias,
    mulher delRei D. Pedro de Aragão, e mãe da Infante Dona Isabel, que
    cazou com El-Rei D. Diniz de Portugal.

    Constança (Dona), Filha de D. Jaymes Decimo Rei de Aragão, e a Rainha
    Dona Violante, cazou com o Infante de Castella D. Manoel, Avô da
    Infante Dona Constança, mulher que foi delRei D. Pedro I de Portugal.

    Constança (Dona). Filha delRei D. Diniz de Portugal, e a Rainha Santa
    Isabel, cazou com D. Fernando III de Castella.

    Constança (Dona). Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi
    cazada com Nuno Gonsalves de Lara de quem não teve geração.

    D

    Diniz (El-Rei D.) Em que tempo foi aclamado Rei e que idade tinha.
    Virtudes, e acções heroicas, que praticou.
    Hospedou magnificamente no seu Reino a pessoas muito grandes de
    Castella.
    Prendeo a João Nunes de Lara, senhor de Biscáya, e o soltou
    fazendo-lhe grandes mercês.
    Caza com a Infante Dona Isabel, filha delRei D. Pedro IV de Aragão,
    e que idade tinha quando se recebeo.
    Celebrão-se estes despozorios em Trancozo.
    Filhos legitimos, e naturaes que teve.
    Diferenças, que teve com seu irmão o Infante D. Affonso.
    Avista-se com ElRei D. Sancho de Castella, e ajusta com elle os
    cazamentos de seus filhos D. Affonso, e D. Constança.
    Ordena a seu irmão D. Affonso, que se não faça hostilidade alguma
    contra D. Sancho de Castella, e lhe não obedece.
    Manda cercar Arronches, Mourão e Portalegre, onde estava seu irmão.
    Por intervenção de sua espoza Santa Isabel se pacifica com seu
    irmão, e este lhe entrega as Villas e Castellos, que tinha em seu
    poder.
    Manda Embaixadores a ElRei de Castella D. Sancho porque lhe largue
    os Lugares, que lhe tem uzurpado.
    Por morte de D. Sancho manda novos Embaixadores a seu filho D.
    Fernando, e do que lhe disserão os Embaixadores, e de como se
    concertarão estes Principes.
    Prepara se com exercito para vingar a inconstancia das promessas
    delRei de Castella.
    Recebe por seu vassallo a D. Sancho de Ledesma, filho dos Infantes
    D. Pedro, e Dona Margarida, e lhe affirma copioza renda.
    Entra por Castella com exercito, onde faz muitas hostilidades.
    Toma o Castello de Medicina.
    He solicitado por El-Rei de Castella a que celebre com elle pazes, e
    assim o executa.
    Avista-se em Alcanizes com El Rei de Castella para ajustar as pazes,
    e os cazamentos mutuos de seus filhos, e de que modo se celebrou
    este acto.
    Parte de Alcanizes donde traz em sua companhia a Dona Beatriz, filha
    delRei D. Fernando de Castella, para molher de seu filho D.
    Affonso.
    Das pessoas que nomeou para officiaes da Caza que fez ao Principe
    seu filho.
    Escreve-lhe o Papa Benedicto XI para que seja medianeiro entre as
    discordias delRei de Castella, e o de Aragão.
    Parte a Castella acompanhado da Rainha Santa Isabel, e muitos
    Cavalleiros a compor as discordias, que havia entre os Reis de
    Castella e Aragão.
    Passa a Granada com Santa Isabel, onde é recebido magnificamente por
    ElRei D. Jaymes e a Rainha Dona Maria.
    He arbitro em Tarraçona entre as contendas que havia entre D.
    Fernando de Castella, e D. Jaymes de Aragão sobre o Reino de
    Murcia, e como os compoz.
    Voltando de Tarraçona é recebido por El-Rei de Castella e a Rainha
    Dona Maria, onde deu preciosas joias a D. Affonso de Lacerda.
    Firma pazes com os Reis de Castella e Aragão.
    Não aceita dés mil dobras de ouro a ElRei D. Jaymes de Aragão que
    lhe tinha emprestado.
    Dá muitas e preciosas joias á Rainha Dona Branca, mulher delRei de
    Aragão, e aos Senhores daquella Côrte.
    A meza de prata em que comia mandou dar a um Fidalgo que por
    esquecimento não tinha sido premiado como os outros.
    Que idade tinha, e em que anno fez esta jornada a Castella.
    Manda Martim Gonsalves de Souza seu Alferes mór com setecentos
    cavallos a ElRei D. Fernando para ajuda da guerra contra os mouros
    e lhe empresta dezasseis mil, e seis marcos de prata para o mesmo
    fim.
    Funda em Coimbra os primeiros estudos, que houve em Portugal, e como
    alcançou do Papa João XXII privilegios para elles.
    Izenta os Cavalleiros de San-Thiago da obediencia do Mestre de
    Castella, e institue Mestre em Portugal por Bulla de Niculao IV.
    Ajusta com D. Fernando de Castella os bens dos Templarios dos seus
    Reinos não fossem dados pelo Papa a outra Ordem.
    Representa por seus Embaixadores ao Papa João XXII não ser
    conveniente, que as rendas dos Templarios se dessem aos do
    Hospital de S. João.
    Institue a Ordem Militar de Jesus Christo a quem assina as rendas
    que erão dos Templarios.
    Assina para gasto de seu filho D. Affonso quando cazou com a Infante
    Dona Beatriz, alem de muitas Villas que lhe deu, outenta mil
    livras de prata.
    Sentimento que teve com a morte de seu neto o Infante D. Diniz.
    Relatão-se as discordias que teve com o Principe seu filho.
    Manda o processo que este Princepe tinha machinado para matar seu
    irmão D. Affonso Sanches, e acha ser falso.
    Pratica que fez na prezença dos seus vassalos quando descubrio ser
    falso tudo quanto tinha machinado o Princepe seu filho contra D.
    Affonso Sanches seu irmão.
    He buscado por seu filho para lhe dar batalha.
    Manda a Lourenço Annes Redondo, que mate a todos os que deram
    entrada em Santarem ao Princepe seu filho, e assim se executa.
    Por intervenção da Rainha Santa Isabel, se concerta com seu filhe D.
    Affonso.
    Avista-se em Guinaldo com a Rainha Dona Maria, e o que aqui passou.
    Significa aos Reis de Castella o sentimento que teve com a morte dos
    Infantes D. Pedro e D. João.
    Pede-lhe seu neto El-Rei D. Affonso de Castella os danos que fazia
    naquelle Reino seu tio o Infante D. Felippe, e o obriga a levantar
    o sitio de Badajoz.
    Celebra Côrtes em Lisboa, onde não assiste o Princepe D. Affonso seu
    filho.
    Sem embargo de que não queria que entrasse em Lisboa seu filho, este
    o executa com gente armada de que se seguirão muitas mortes.
    Em Santarem depois de uma grande contenda, se compõem com o
    Princepe.
    Legados que dispoz, antes de morrer.
    Em que lugar, dia e anno morreo.
    Foi levado a enterrar ao Mosteiro de S. Diniz de Odivellas que elle
    fundara.
    Das açoens heroicas que obrou, e das Villas, e Cidades que fundou, e
    reedificou.

    Diogo Garcia, Chanceller mór do sello da puridade delRei D. Diniz, e
    Mordomo mór da Rainha Dona Constança sua mulher assiste em Tarraçona com
    o mesmo Princepe para compor as discordias, que havia entre D. Fernando
    de Castella, e D. Jaymes de Aragão.

    F

    Filippe (El-Rei de França) chamado o Fermozo, como concorreu para ser
    Pontifice Clemente V a quem pedio que queimasse o corpo de Bonifacio
    VIII.
    Á sua instancia, extinguiu o Papa a Ordem dos Templarios.
    Morre desgraçadamente, e que filhos deixou.

    Felippe, (Ifante D.) Tio delRei de Castella, cerca a Badajoz, e é
    obrigado a levantar o sitio pelo Princepe D. Affonso, filho delRei D.
    Diniz.

    Fernando, (El-Rei D.) Terceiro de Castella, cazou com Dona Constança
    filha delRei D. Diniz, e Santa Isabel.
    Com que circunstancias, e conveniencias foi contratado este casamento.
    He requerido por El-Rei D. Diniz, que largue os Lugares, que lhe tinha
    uzurpado, e da pratica que lhe fizerão João Annes Redondo, e Mem
    Rodrigues Rebotim Embaixadores de Portugal.
    Recebe-se por palavras de prezente com a Infante Dona Constança, e da
    pratica que fez aos circunstantes.
    Sahe a receber a El-Rei D. Diniz com o Infante D. João na Villa de
    Coelhar.
    Pede soccorro a D. Diniz para continuar a guerra contra os Mouros, e
    lhe manda setecentos cavallos, e lhe empresta para a mesma empreza
    dezasseis mil, e seiscentos marcos de prata.
    Dá-lhe em caução deste emprestimo as Cidades de Badalhouse, Alconchel,
    e Brugilhos.
    Cerca Algezira, e levanta o sitio.
    Onde morreo, e de que idade.

    G

    Gibraltar foi tomado aos Mouros por João Nunes de Lara.

    Gil Martins, (D. Fr.) He eleito primeiro Mestre da Ordem militar de Jesu
    Christo, instituida por ElRei D. Diniz.

    Guimarães, o seu Castello é defendido por Mem Rodrigues de Vasconcellos,
    contra a invasão do Infante D. Affonso.

    H

    Henrique (Infante D.) Filho delRei D. João I de Portugal, foi perpetuo
    administrador da Ordem de Christo.

    Honorio II. Deu regra aos Templarios.

    I

    Isabel, (Rainha Santa) Filha de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão, sendo
    pretendida de muitos Princepes para espoza, é preferido entre todos
    ElRei D. Diniz de Portugal.
    Acompanhada do Bispo de Valença, e outros Cavalleiros, parte para
    Portugal, e como della se despedio seu pai.
    Sahe a recebella em Castella seu primo com irmão, o Infante D. Sancho,
    e das palavras, que lhe disse.
    Chega a Bragança, onde é cortejado pelo Infante D. Affonso irmão
    delRei D. Diniz, e outros Cavalleiros.
    Virtudes que praticou em toda a sua vida, e milagres que fez.
    Por sua intervenção, e deligencia, se ajustarão as discordias del-Rei
    D. Diniz com o Princepe seu filho.
    Segunda vez pacifica ao mesmo Princepe com seu pai.
    Por morte de seu Espozo se veste no habito de Santa Clara.
    Edifica o Convento desta Santa em Coimbra, e o dotou da sua fazenda, e
    nelle está sepultada.

    Isabel (D.) Filha do Infante D. Affonso de Portugal, e a Infante Dona
    Violante, foi casada com D. João o Torto, filho do Infante D. João
    chamado Rei de Lião.

    Isabel (D.) Filha de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha Dona
    Violante, cazou com o Princepe D. Felippe filho herdeiro de São Luiz Rei
    de França.

    J

    Jaymes (D.) Decimo Rei de Aragão, e avô paterno da Infante Dona Isabel,
    mulher de D. Diniz de Portugal como naceo, e a cauza porque lhe puzerão
    o nome de Jaime.
    Tomou segunda vez Valença de Aragão aos Mouros.
    Acabou a vida feito Monge.
    Cazou com Dona Lianor filha delRei D. Affonso Nono de Castella, e foi
    separado pela Igreja deste matrimonio.
    Casa segunda vez com Dona Violante, filha de D. André Rei de Ungria de
    quem teve muitos filhos.

    Jaimes, (D.) Rei de Malhorca, e Minorca, foi filho de D. Jaimes Decimo
    Rei de Aragão, e da Rainha Dona Violante.

    Jaimes, (D.) Filho de D. Pedro Undecimo Rei de Aragão a quem ficou o
    Reino de Secilia, foi depois Rei de Aragão.

    João XXII. Concede privilegios para os Estudos que em Coimbra instituio
    ElRei D. Diniz.
    Expede uma Bulla na qual consola a D. Diniz nas discordias que tinha
    com o Princepe seu filho.
    Escreve huma carta a este mesmo Princepe sobre as discordias, que
    tinha com seu pai.

    João, (D.) Infante de Castella sendo desterrado daquelle Reino, é
    recebido em Portugal por seu tio ElRei D. Diniz.

    João Affonso (D.) Foi filho natural delRei D. Diniz.

    João Nunes de Lara, Senhor de Biscaya, foi preso por ElRei D. Diniz a
    quem mandou soltar, e lhe fez grandes merces.
    Tomou Gibraltar aos Mouros.

    João Velho, com Vasquo Pires, e João Martins são mandados por
    Embaixadores a Aragão a ajustar o cazamento delRei D. Diniz com a
    Infante Dona Isabel filha de D. Pedro Rei de Aragão.

    L

    Lianor (Rainha Dona) Filha de Affonso Nono de Castella, irmã de Dona
    Urraqua Rainha de Portugal, casou com D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e
    é separada de seu marido pela Igreja.

    Lopo (D.) Conde, e Senhor de Biscaya, é morto em Alfaro pelo Infante D.
    Affonso irmão delRei D. Diniz.

    Lourenço Annes (D.) É eleito primeiro Mestre em Portugal dos Cavalleiros
    de San-Tiago.

    M

    Manfreu Rei de ambas Secilias de quem foi filho.
    Matou com veneno a seu pai, e irmão.
    É morto em a batalha junto de Benavente em Italia que lhe deu o
    Princepe Carlos, irmão de São Luiz Rei de França.

    Manoel (El-Rei D.) Foi perpetuo administrador da Ordem de Christo.

    Maria (Dona) Filha natural del-Rei D. Diniz, foi casada com D. João de
    Lacerda.

    Maria (Dona) Filha natural delRei D. Diniz, foi Freira no Mosteiro de
    Odivellas.

    Maria (Dona) Filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, foi cazada
    com D. Tello, Filho do Infante D. Affonso de Molina.

    Martim Gonçalves de Souza, Alferes mór delRei D. Diniz, é mandado por
    este Princepe com setecentos cavallos a ajudar a ElRei de Castella na
    guerra contra os Mouros.

    Mem Rodrigues de Vasconcellos, sustenta o Castello de Guimarães por D.
    Diniz contra a invasão do Princepe D. Affonso.

    Messina, cercada pelo Infante Carlos irmão de São Luis Rei de França, e
    levanta o sitio obrigado por D. Pedro Rei de Aragão.

    Mouros, ganhão as Fortalezas de Quesada, e Alcaudete com outros
    Castellos no arrebalde de Jaen.

    N

    Nicoleo IV concede a ElRei D. Diniz, que os Cavalleiros de San-Tiago se
    eximão da obediencia do Mestre de Castella.

    Nuno Gonçalves de Lara, filho de João Nunes de Lara, cazou com Dona
    Constança filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante.

    O

    Ordem Militar de Jesu Christo, quando foi instituida por ElRei D. Diniz,
    e quem foi o seu primeiro Mestre.

    Orraqua Vasques, é curada milagrosamente de um achaque pela Rainha Santa
    Isabel.

    P

    Pedro (D.) undecimo Rei de Aragão, foi filho de D. Jaimes, e a Rainha
    Dona Violante, e pai da Infante Santa Isabel.
    Com quem cazou.
    Recebe obediencia do Reino de Secilia.
    É desafiado para Bordeos pelo Infante D. Carlos irmão de São Luis Rei
    de França.
    É excommungado pelo Papa.
    Morreo violentamente sobre o cerco de Girona.
    Filhos que teve.
    Pratica que fez a sua filha quando partio para se receber com ElRei D.
    Diniz.

    Pedro, (D.) Filho natural delRei D. Diniz, cazou com Dona Branca filha
    de Pedro Annes Portel.

    Pedro, (D.) Conde de Barcellos filho natural delRei D. Diniz, foi o
    autor das linhagens de Portugal.

    S

    Sancho (El-Rei D.) de Castella ajusta com ElRei D. Diniz cazar seus
    filhos D. Fernando, e Dona Beatriz com os Infantes D. Affonso, e Dona
    Constança, filhos daquelle Princepe.
    Falta ás condições prometidas para estes despozorios.
    Manda uma armada sobre o Algarve com que fez muitas hostilidades.
    Manda por seu Embaixador o Bispo de Palença a tratar pazes com D.
    Diniz, e não conclue o que intenta.
    Em que lugar, e anno morreu.

    Sancho, (Infante D.) primo com irmão da Infante Dona Isabel, veio
    recebella a Castella quando vinha desposarse com ElRei D. Diniz de
    Portugal.

    Sancho (D.) Arcebispo de Toledo, e filho de D. Jaimes Decimo Rei de
    Aragão, e da Rainha Dona Violante, foi morto na batalha de Andaluzia
    contra os Mouros.

    Sancho de Ledesma, (D.) Filho dos Infantes D. Pedro, e Dona Margarida,
    descontente delRei de Castella, veio fazerse vassallo delRei D. Diniz, o
    qual lhe assinou uma grande renda.
    Volta para Castella.

    T

    Tello (D.) filho do Infante D. Affonso de Molina, cazou com Dona Maria,
    filha dos Infantes D. Affonso, e Dona Violante, e neto de Affonso III de
    Portugal.

    Templarios, quem forão os seus instituidores em Jerusalem, e que habitos
    trazião.
    Ações heroicas, e virtuozas que obravão.
    São extinctos violentamente por Clemente V á instancia de Felippe de
    França chamado o Fermozo.
    No Concilio celebrado em Vianna da Provincia de Narbona se promulgou a
    extenção desta Ordem.
    As rendas desta Ordem são applicadas á do Hospital de S. João.

    U

    Urbano IV. Dá a investidura dos Reinos da Secilia, e Napoles ao Princepe
    Carlos irmão de S. Luiz Rei de França.

    V

    Valdovino Rei de Jurusalem manda hospedar dentro do seu Palacio aos
    primeiros fundadores da Ordem do Templo.

    Vasco Fernandes, Mestre dos Templarios em Portugal quando se extinguiu
    esta Ordem.

    Violante (Dona) Filha de D. André Rei de Ungria, caza com D. Jaimes
    Decimo Rei de Aragão, de quem teve muitos filhos.

    Violante (Dona) filha de D. Jaimes Decimo Rei de Aragão, e da Rainha
    Dona Violante, cazou com D. Affonso Decimo de Castella avô delRei D.
    Diniz de Portugal.

    Violante (Dona) Filha de D. Pedro undecimo Rei de Aragão, cazou com
    ElRei Carlos irmão de São Luis Bispo de Toloza.

    Violante (Dona) Filha do Infante D. Manoel filho delRei D. Fernando de
    Castella, e da Infante Dona Constança foi cazada com o Infante D.
    Affonso filho de Affonso III, de Portugal, e que filhos teve.

    Fim da Chronica d'ElRei D. Diniz

    INDICE DOS CAPITULOS

    I–Como El-Rei D. Diniz sendo Ifante, foi levantado por Rei, e
    obedecido, e das virtudes que teve

    II–Como El-Rei D. Diniz cazou com Dona Isabel, filha del-Rei D. Pedro
    Daraguam, e da Rainha Dona Constança, e de suas grandes virtudes, e
    santidade

    III–Do Fundamento, e cousas, que ouve pera El-Rei D. Diniz aver algumas
    Villas, e Castellos de riba Dodiana, que forão de Castella

    IV–Dos filhos legitimos, que El Rei D. Diniz ouve da Rainha D. Isabel,
    e assi doutros bastardos

    V–Do desacordo, que ouve entre El-Rei D. Diniz, e o Ifante D. Affonso
    seu irmão

    VI–Do que succedeu do Casamento do Ifante D. Affonso, filho del-Rei D.
    Diniz, e do Ifante D. Fernando, filho del-Rei D. Sancho de Castella

    VII–Como El-Rei D. Diniz entrou em Castella, e da crua guerra, que de
    uma parte e da outra se fazia

    VIII–Dos grandes males, e danos que de um Reino a outro se faziam, e
    dalguns Luguares de Castella, que os Mouros tomaram

    IX–Da razam porque El-Rei D. Diniz desistio desta guerra, e se tornou a
    Portugal

    X–Dos casamentos, e Escaibos que depois da concordia se fizerão antre
    estes Rex em Alcanizes

    XI–Como El-Rei D. Fernando cazou com a Ifante Dona Constança, e o
    Ifante D. Affonso de Portugal com a Ifante Dona Beatriz de Castella, e
    das Menagens, que sobreesso se fizerão, e da decisão, que fez nas
    contendas que havia antre os Princepes Despanha, e da grandeza, e
    prudencia com que nella se ouve, e muitas mercees que fez

    XII–Das ajudas, que El Rei D. Fernando de Castella, ouve delRei D.
    Diniz, pera a guerra dos Mouros de Grada

    XIII–Como El-Rei D. Diniz ordenou em Coimbra o primeiro Estudo, que
    ouve em Portugal

    XIV–Como foi feito em Portugal Mestre de San-Tiago izento da Ordem de
    Ucres de Castella

    XV–Do fundamento que teve a Ordem do Templo de Salamão em Jerusalem, e
    como foi desfeita, e se fez a Ordem de Christo

    XVI–Do principaal fundamento, e verdadeira cauza pera esta Ordem dos
    Templarios ser destroida

    XVII–Como o Papa, e El-Rei de França notificarão a El Rei D. Diniz esta
    condenação dos Templarios, e de sua Ordem

    XVIII–Da discordia, que ouve antre El-Rei D. Diniz, e o Ifante D.
    Affonso seu filho herdeiro, e as cauzas porque

    XIX–Das couzas que o Ifante capitulou pera matar Affonso Sãches seu
    irmaão, ou o desterrar fóra do Regno

    XX–Da diligencia que El-Rei fez pera saber a verdade dos estromentos de
    Maguazella

    XXI–Dalgumas couzas mais, que o Ifante fez contra vontade, e serviço
    del-Rei seu padre

    XXII–Como o Ifante se partio de Coimbra pera Lixboa, e do que lhe
    aconteceo com El-Rei no Caminho

    XXIII–Como o Ifante levou a molher, e os filhos a Castella, e os
    Lugares, que tomou a El-Rei seu padre

    XXIV–Como El Rei, e o Ifante foram concordados por meio, e intercessão
    da Rainha Dona Isabel, e da maneira que nesso teve, e das menagens que
    pera segurança desso se fizerão

    XXV–De huma carta do Papa João XXII ao Ifante D. Affonso filho del-Rei
    D. Diniz, sobre as desavenças com seu pai

    XXVI–Como a Rainha Dona Maria de Castella depois da morte del-Rei D.
    Fernando seu filho, teve vistas com El-Rei D. Diniz, a que trouxe El-Rei
    D. Affonso menino neto dambos, e do que concertaram

    XXVII–Como o Ifante D. Affonso se apparelhou pera pelejar com o Ifante
    D. Felipe, que contrariava o asecego de Castella, e como o Ifante D.
    Felipe se foi

    XXVIII–Como o Ifante D. Affonso requereo a El-Rei D. Diniz seu padre,
    que fizesse Cortes ás quaes depois nom quiz vir

    XXIX–Como o Ifante sobre uma vinda, que contra vontade del-Rei quizera
    fazer a Lixboa, foram perto de pelejar, e porque o leixaram de fazer

    XXX–Como as gentes del-Rei, e do Ifante pelejaram sobresto em Santarem,
    e do que se fez

    XXXI–Da morte del-Rei D. Diniz

    XXXII–Das obras, e couzas notaveis, que El-Rei D. Diniz fez em sua vida

    CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ

    2 vol. 800 réis

  • Chronica d’el rei D. Diniz (Vol. I)

    Chronica d’el rei D. Diniz (Vol. I)

    Aproximadamente 21.475 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
    Proofreading Team at https://www.pgdp.net. Produced from
    images provided by Biblioteca Nacional Digital
    (http://bnd.bn.pt)

    Bibliotheca de Classicos Portuguezes

    Proprietario e fundador–Mello d'Azevedo

    (VOLUME LXXI)

    CHRONICA D'EL-REI D. DINIZ

    POR

    RUY DE PINA

    2.ª edição

    VOL I

    _ESCRIPTORIO_

    147–RUA DOS RETROZEIROS–147

    LISBOA

    1912

    BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

    Proprietario e fundador

    _MELLO D'AZEVEDO_

    CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE DOM DINIZ

    SEXTO REY DE PORTUGAL,

    COMPOSTA

    POR RUY DE PINA,

    Fidalgo da Casa Real, e Chronista Môr do Reyno.

    FIELMENTE COPIADA DO SEU ORIGINAL,

    Que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

    OFFERECIDA

    Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREY

    D. JOAÕ O V.

    NOSSO SENHOR.

    LISBOA OCCIDENTAL

    Na Officina FERREYRIANA.

    M.DCC.XXIX.

    _Com todas as licenças necessarias_.

    SENHOR

    Aos Augustissimos pés de V. Magestade chega a minha obrigaçaõ a
    offerecer-lhe a Chronica do senhor Rei D. Diniz seu duodecimo Avô. Esta,
    Senhor, he a Historia de hum dos mais gloriosos Principes, que teve a
    Monarchia Portugueza, porque se fez taõ conhecido pela sua prudencia,
    que dous grandes Reis o elegeraõ por arbitro, e Juiz das contendas, que
    lhe perturbavaõ a paz de seus Vassallos, e foi taõ venturoso, que
    mereceo ter por Espoza uma Matrona, que pela grandeza das suas virtudes,
    e dos seus milagres a veneramos hoje coroada no Ceo. Se me fora licito
    passar dos limites de uma Dedicatoria, bem podia mostrar ao mundo a
    semelhãça do Neto com o Avô, mas bastarmeha dizer, que aquella virtude
    verdadeiramente de Principe, qual he a liberalidade, sendo por ella tam
    celebrado El-Rei D. Diniz, V. Magestade a tem praticado de sorte, que o
    deixa infinitamente excedido. A Real Pessoa de V. Magestade guarde Deos
    como seus vassallos lhe dezejaõ.

    _Miguel Lopes Ferreira_

    AO EXCELLENTISSIMO SENHOR *D. FRANCISCO XAVIER DE MENEZES*

    Quarto Conde da Ericeira, do Conselho de Sua Magestade, Sargento mór
    de Batalha dos seus Exercitos, Deputado da Junta dos Tres Estados,
    Perpetuo Senhor da Villa da Ericeira, e Senhor da de Anciaõ, oitavo
    Senhor da Caza do Louriçal, Commendador das Commendas de Santa
    Christina de Sarzedello, de S. Cipriano de Angueira, S. Martinho de
    Frazaõ, S. Payo de Fragoas, de S. Pedro de Elvas, e de S.
    Bertholameu de Covilhã todas na Ordem de Christo, Academico da
    Academia Real da Historia Portugueza, e um dos cinco Censores della,
    &c.

    Meu Senhor, buscar o amparo de V. Excellencia he effeito da mais
    prudente rezaõ, porque na sua pessoa se achaõ todas aquellas
    circunstancias, que seguraõ a protecçaõ. He V. Excellencia taõ affavel,
    e taõ benigno para todos, que suavisa, e facilita com estes dotes
    aquelle justo temor que se acha nos que ao mesmo tempo, em que os anima
    o dezejo de conseguirem o que pretendem, os detem, e suspende a grandeza
    de quem procuraõ como valedor. Porém V. Excellencia de tal sorte he
    inclinado a favorecer aos que se valem do seu patrocinio, que lhes está
    offerecendo as occaziões de o occuparem, como se unicamente nacera para
    todos. Naõ fallo na excessiva generozidade, com que V. Excellencia faz
    publica para todo o genero de pessoas a sua copiozissima, e selectissima
    Livraria, beneficio, com que tem attrahido geralmente a todos. E porque
    eu Excellentissimo Senhor, sou hum daquelles que com mais frequencia, e
    com muita especialidade tenho recebido os favores de V. Excellencia tomo
    a confiança de lhe pedir queira pôr na Real presença de Sua Magestade
    esta Chronica delRei D. Diniz, porque desta sorte por meio de taõ
    illustre valedor ficará desculpado o meu atrevimento. A Excellentissima
    pessoa de V. Excellencia guarde Deos muitos annos.

    B. as mãos de V. Excellencia

    Seu criado

    _*Miguel Lopes Ferreira*_

    *PROLOGO*

    AMIGO LEITOR

    Aqui te dou na Chronica do Serenissimo Rei D. Diniz de Portugal outro
    argumento da palavra, que te empenhei quando te prometi dar impressas
    todas as Chronicas manuscriptas dos Reis deste Reino. Entre ellas era
    muito digna deste beneficio a delRei D. Diniz, porque sem duvida entre
    os Soberanos desta Monarchia mereceo elle hum lugar de maior distincçaõ.
    Aqui verás hum Principe taõ altamente respeitado, que pela sua grande
    prudencia foi o arbitro para o ajuste de pezadas contendas de dous
    Principes, o que conseguio com a dezejada felicidade, cujos documentos
    poderás ver na Sexta parte da Monarchia Lusitana, e em D. Diogo Jozè
    Dormes nos seus Discursos varios de Historia, impressos em Çaragoça em
    1683, em quarto a folhas 135. Pelo seu conselho foi taõ venerado, como
    temido pela sua espada; com a qual entrou taõ felizmente pelas terras
    inimigas, que mais parecia triunfante, que combatente. Foi taõ
    venturoso, que mereceo ser Espozo da Rainha Santa Isabel, sendo tantos
    os pretendentes daquella Princesa, que parece que lhes prognosticavaõ os
    corações, que havia de ser a gloria da Monarchia, que a tivesse por
    Soberana. Tudo isto he a materia desta Chronica, que se a naõ achares
    escrita em estillo elegante, naõ ponhas a culpa ao Author, põe-na ao
    tempo, que tudo desfigura com as suas necessarias mudanças, porque he
    certo que os Reis de Portugal, que elegeraõ ou a Fernaõ Lopes, ou a Ruy
    de Pina para Chronistas móres deste Reino, haviaõ de eleger a huns
    homens, que fossem merecedores de taõ authorizada occupação pelas suas
    letras, e pela sua elegancia.

    _Vale_.

    *LICENÇAS*

    DO SANTO OFFICIO

    Vistas as informações, pode-se imprimir a Chronica delRei D. Diniz, e
    depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
    sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 29 de Agosto de 1727.

    _Fr. Lancastre. Cunha. Silva. Cabedo_.

    DO ORDINARIO

    Vista a informação pode-se imprimir a Chronica de que se trata, e depois
    de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra, sem a
    qual naõ correrá. Lisboa Occidental 9 de Outubro de 1727.

    _D.J.A.L_.

    DO PAÇO

    SENHOR

    Já na cençura da Chronica delRei D. Affonso III que V. Magestade foi
    servido commeter-me, disse, que a maior recomendaçaõ para o prelo, era o
    nome de seu Author. Nesta delRei D. Diniz, e nas mais facilmente se
    distinguirá o que for parto do entendimento de taõ grande Chronista,
    pois de alguns escritos se duvida serem seus. E sendo quem os ler juis
    recto, ficará ao arbitrio da sua prudente critica o exame da verdade
    delle: sendo sempre muito util que se imprimaõ por ser a lição das
    Historias estudo da maior utilidade, porque nellas se achaõ todos os
    principios da verdade, da prudencia, e da sabedoria. Isto mesmo me
    parece quanto ás Historias delRei D. Affonso o IV e delRei D. Duarte em
    que concorrem os mesmos motivos, por naõ multiplicar cençuras. V.
    Magestade mandará o que for servido. Lisboa Occidental 25 de Outubro de
    1727.

    _Manoel de Azevedo Soares_.

    Que se possa imprimir, vistas as licenças do Santo Officio, e Ordinario,
    e depois de impressa tornará á Meza para se conferir, e taxar, e dar
    licença que corra sem a qual naõ correrá. Lisboa Occidental 15 de
    Novembro de 1727.

    _Pereira. Oliveira. Teixeira. Bonicho_.

    * * * * *

    Nec ut credatur omnibus numeris absolutü, aliud praeter nomé Authoris
    desideratur Augustinus de Castro apud. Sosors. incensur. Emblem.

    Librorü Judex statim quicunque voluerit erit Rulãd. de cõmisl. 1 p.l 1
    c. 13. Ex Dionisio Halicasnas. Rulãd. supr. c. 18. n. 5.

    _Coronica do muito alto, e esclarecido Principe Dom Diniz sexto Rei de
    Portugual_.

    *CAPITULO I*

    _Como ElRei D. Diniz sendo Ifante, foi levantado por Rei, e obedecido, e
    das virtudes que teve_.

    ElRei D. Affonso Conde que foi de Bolonha, faleceo em Lisboa ha vinte
    dias de Março do anno de mil e duzentos setenta e nove annos, (1279) em
    idade de setenta annos, como em sua Coronica jáa se dice, e por seu
    falecimento na mesma Cidade, e tempo foi loguo alevantado, e obedecido
    por Rei de Portugual, e do Alguarve ho Ifante D. Diniz seu filho legitimo
    maior, em idade de dezoito annos, avendo nove mezes, que sem ser cazado
    tinha jáa por ElRei sua caza apartada. Este foi do começo de seu Reinado
    atée ho fim delle sempre em todos seus feitos mui excellente, e por seu
    bom nome conhecido, e estimado por tal antre todolos Reis do mundo, que
    teve em perfeiçam tres virtudes, ha saber verdade, justiça, e nobreza,
    pelo qual hos homens que has tem, como elle teve, claramente sam avidos
    de humanos, por divinos, e de mortais por immortais; e porque cada uma
    destas elle fez com tal temperança, e assi sempre uzou, que em cada huma
    dellas mereceu de ser, e foi com rezam muito louvado, e na justiça foi o
    seu primeiro intento, e cuidado, e punições, da qual quiz loguo reparar
    alguns insultos, e desmandos, que dos tempos de seu padre, e avoo ainda
    avia no Reino, e principalmente em punir, e castigar ladrões, e
    malfeitores, que com merces, que dava, e deligencias, que fazia, aos que
    eram tomados punia com mortes, e grandes escarmentos, e a outros com seu
    temor, espantou, e desterrou da terra, especialmente hos que em
    quadrilhas em alguns ermos onde salteavam tomava, assi como na montanha
    que se diz de Açor, e na serra da Mendigua, e em Alpedris, que por suas
    culpas, e maleficios receberam em suas pessoas cruas penas, de que davam
    testemunho has muitas forcas do Reino que delles estavam cheas.

    Foi Principe de bom saber; porque amou ha justiça sobre todalas cousas,
    e por esso foi para todos mui justiçoso, e para si sobre todos
    justiçado, e sua justiça nom era sempre tam severa, que quando alguns
    casos, e tempos ho requeriam nom misturasse com ella muita misericordia,
    e piedade. Nunqua delle se achou que dicesse mentira, nem quebra de sua
    verdade, e defendeo, e favoreceo muito hos lavradores, ha que chamou
    nervos da terra, e do Reino, e teve grande cuidado dos pobres, e
    minguados, ha que sempre proveo com suas ajudas, e esmolas, e nas cousas
    de sua fazenda, e caza foi sobre todos ho mais provido, e solicito, com
    que deu maravilhoso exemplo, para que em seu Reino todos ho fizesem, por
    esso se fez Rei de grandes tezouros, porque has gentes do Reino foram
    tambem em seu tempo mui riquas, e fez muitas leis por bem, e regimento
    da terra, e todas sem alguma quebra por si sempre guardou, e mandou
    inteiramente guardar, e foi Principe tam liberal sem algum vicio de
    prodigo, que por todalas terras elle por sua grande nobreza foi de todos
    mui celebrado, e lembrado, e por ella muitos Senhores de Nações diversas
    vinham á sua Corte pelo ver, e elle assi hos honrava, e tratava, e com
    suas grandes dadivas assi os despedia que da fama, e esperança, com que
    ha elle vinham, nom se achavaõ enganados, e ha todolos outros Fidalguos,
    e Senhores Estrangeiros, que por alguns casos tinham de sua ajuda
    emparo, e soccorro alguma necessidade, elle nunqua em seu Reino lho
    negou, e ha todos recebia com muita honra, e fez grandes merces.

    E alguns destes foram ho Ifante D. Joaõ de Castella seu tio irmaõ da
    Rainha Dona Breatiz sua madre, e de D. Reymaõ de Cardona Daraguam, que
    desses Reinos de Castella, e Daraguam eram desterrados, e no de
    Portugual acolhidos, e tambem D. Joaõ Nunes de Lara, Senhor de Bisquaya,
    que ElRei D. Diniz teve prezo, e depois por grandeza ho soltou, e mandou
    poer em sua terra com muitas dadivas, e grandes merces que lhe fez, com
    que honradamente, e com muitos Cavalleiros ho soltou, e mandou poer em
    sua terra, como aho diante se dirá. Este Rei, porque sempre dezejou de
    fazer guerra ahos infiéis, e elle nom tinha terra, que jáa fosse de sua
    conquista trabalhava de lhe fazer continuadamente por maar com armadas,
    e frotas, que contra hos Mouros Dafriqua, e de Grada sempre trazia, e
    nunqua se acha que contra elles fizesse paz, nem lhe desse treguoas, e
    has mais cousas que em sua vida fez por acrescentar e enobrecer seu
    Reino, no cabo desta sua Coronica bremente ha somarei, porque
    verdadeiramente se saibaõ.

    *CAPITULO II*

    _Como ElRei D. Diniz cazou com Dona Isabel, filha delRei D. Pedro
    Daraguam, e da Rainha Dona Costança, e de suas grandes virtudes, e
    santidade_.

    Sendo ElRei D. Diniz de vinte annos, idade asáas conveniente para casar,
    foi aconselhado da Rainha Dona Breatiz sua madre, e assi requerido por
    parte do Reino de Portugual, que cazasse para teer esperança de lhe dar
    Deos erdeiro legitimo, que ho succedesse, e loguo lhe foi apontado na
    Ifante Dona Isabel Daraguam, que estava por cazar filha del Rei D. Pedro
    deste nome ho IV, e dos Reis Daraguam houndecimo, e da Rainha Dona
    Costança, filha de Manfreu Rei dambas has Cezilias, que fora filho do
    Emparador Federiquo, ha qual Ifante Dona Isabel por suas muitas
    bondades, e grande fremosura era nas Cortes dos Reis, e Principes
    Christãos muito louvada, e por esso se requeria delles grandes, e mui
    altos cazamentos, no que ElRei D. Pedro seu pai nom podia consentir
    vencido sóomente de grande affeiçam, que lhe tinha, com que nom podia
    padecer ha privaçam de sua santa conversaçam, e da graciosa prezença de
    sua vista, e sendo ElRei D. Diniz por estes respeitos della muito
    contente, estando em Estremoz no anno de mil duzentos oitenta e hum
    annos, (1281) avendo dous annos que jáa reinava, ordenou seus
    Embaixadores, e Procuradores para hirem requerer ha dita Ifante D.
    Isabel; Joaõ Velho, Vasquo Pires, e Joaõ Martins, homens de seu
    Concelho, e pessoas acerqua delle, de grande autoridade, e boa estima,
    hos quaes chegaram á Corte delRei Daraguam, que estava em Barcelona,
    onde sobre ho mesmo caso se acertaram outros Embaixadores delRei de
    Frãça, e delRei de Ingraterra, que para cazamentos de seus filhos
    erdeiros enviavam requerer a dita Ifante.

    Pelo que ElRei D. Pedro vendo que algumas destes Principes jáa se nom
    podia escuzar consirando, que com ho filhos delRei de Frãça, e de
    Ingraterra pelos muito conjunctos dividos de sangue, que com elles
    tinha, elle sem dispensação Apostoliqua a nom podia dividamente cazar, e
    que em caso que com cada hum delles cazasse nom saia de sua caza Rainha,
    mas Ifante, ouve por bem de outorgar, que cazasse com ElRei D. Diniz,
    porque sem mais longuas esperanças, ella fosse logo Rainha. Pelo qual ho
    dito Joaõ Velho, que dos sobreditos Procuradores era pessoa para esso
    especialmente deputada, recebeo ha dita Ifante por molher delRei D.
    Diniz, e depois de assinarem tempo certo em que avia de ser trazida, hos
    Embaixadores se tornaram ha Portugual, e porque antre hos grandes
    guostos, e muitos proveitos das Estorias, ha declaraçam verdadeira das
    linhagens, e descendencias dos Principes, e Senhores consegue ho mais
    pequeno, e vejo que hos Istoriquos, que dos Reis, e seus feitos, que
    eram prezentes escreveram elles, porque semilhantes declarações de
    gerações serem ha estes tempos rezentes pubriquas, e mui notorias, has
    calaram, e nom escreveram, e por esso aho diante por ha longura do
    tempo, e has fraquezas das memorias se cauzam duvidas, e confuzoens, que
    muito descontentam.

    Por tanto nom sóomente nom pareceo couza injusta mas mui necessaria
    declarar algum tanto de mais longe ha geraçam de que esta Rainha Dona
    Isabel descende, e com que geraçoens Reaes foi liada. Porque he de
    saber, que ElRei D. Pedro deste nome ho terceiro, e dos Reis Daraguam ho
    noveno, cazou com ha Rainha Dona Maria, filha de D. Guilhemo de
    Mompilher de que ouve hum filho, que ho socedeo dito D. James deste nome
    o primeiro, e dos Reis Daraguam ho decimo, este D. James, como nas
    Coronicas Daraguam se affirma, foi concebido ha caso, e seu nome posto
    por milagre, porque ElRei D. Pedro por sua natural condiçam, ou por seu
    vicio era muito dado ás molheres estranhas, e muito pouquo á Rainha sua
    molher, ha que por consentimento de hum Camareiro delRei escondida, e
    mui secretamente se lançou de noite na cama delRei em luguar de huma
    moça, com que elle tinha affeiçam, e aquella noite concebeo do marido, e
    conhecida por ElRei, que do caso foi enverguonhado, ella se nom quiz
    alevantar da cama atée ho outro dia mui claro em que de muitas gentes se
    fez alli vir conhecer, e daquelle proprio dia de que mandou tornar
    pubriquos testemunhos ha nove mezes pario hum filho, com que ElRei ouve
    muito prazer, e por devaçam, e mais segurança de sua vida, mandou loguo
    offerecer ho menino ha huma Egreja, e encomendallo ha Deos.

    Preguntando ElRei pelo Officio, ou Psalmos, que se rezevam aho entrar
    della, foi certifiquado, que a este tempo hos Sacerdotes cantavam _Te
    Deum laudamus_, e daquella primeira Egreja ho mandou levar ha outra
    segunda, onde pela mesma maneira soube, que aho entrar della com ho
    menino se dizia _Benedictus Dominus Deus Israel_, e sendo ambos pai, e
    mãi em consulta do nome, que lhe poriam, ha Rainha sua madre dice, que
    sua vontade, e devaçam era parindo filho, que ouvesse ho nome de cada
    hum dos doze Apostolos, e para esso mandou loguo fazer doze cadeas de
    cera por igual medida, e pezo, e em cada hua hum escrito, e em cada hum
    escrito ho nome de cada hu dos doze Apostolos, e com ellas juntas, e ha
    hum proprio momento acezas mandou dizer huma Missa solene do Espirito
    Santo, e no cabo della has candèas todas arderam, salvo ha que em nome
    de San-Tiaguo foi posta, que fiquou mais inteira, e por esso no seu nome
    de James, foi loguo cazado com ha Rainha Dona Lionor, filha delRei D.
    Affonso deste nome ho noveno de Castella, irmãa da Rainha Dona Orraqua
    de Portugual, de que ouve hum filho D. Affonso, que faleceo, e foram
    ambos depois pela Egreja apartados, e depois elle cazou com ha Rainha
    Dona Violante, filha que foi de D. André Rei Dumgria, de que ouve estes
    filhos ha saber: D. Pedro, que apoz elle Reinou em Araguam, e D. James,
    que foi Rei de Malhorqua, e Menorqua, e D. Sancho que foi Arcebispo de
    Toledo, e foi morto em huma batalha em Andaluzia, que ouve com hos
    Mouros, e Dona Costança, que foi cazada com ho Ifante D. Manoel de
    Castella avoo da Ifante D. Costança, molher, que foi delRei D. Pedro de
    Portugual, e D. Violante, que cazou com ElRei D. Affonso ho decimo de
    Castella, avoo delRei D. Diniz de Portugual, e Dona Isabel, que cazou
    com D. Filippe Rei de França, filho e erdeiro delRei S. Luís.

    E este Rei D. James foi ho que tomou segunda vez Valença Daraguam ahos
    Mouros por cerquo, e força, porque da primeira vez, que por ho Cide Ruy
    Dias foi tomada, elles Mouros no proprio tempo de sua morte ha tornaram
    ha cobrar, e atée este Rei ha tiveram. E este Rei D. James depois de
    muito velho, e nom podendo jáa sofrer ho pezo, e carreguo do regimento
    de seu Reino fez alevãtar, e obedecer por Rei aho Ifante D. Pedro seu
    filho, e elle meteose Monge no Moesteiro de Santa Cruz, de Monges
    branquos, onde jáas sepultado.

    Este Rei D. Pedro seu filho deste nome ho quarto, e dos Reis Daraguam ho
    onzeno, contra vontade de seu pai cazou cõ Dona Costança, filha delRei
    Manfreu, que foi dambas as Cezilias, filho bastardo de Federiquo II
    Emparador Dalamanha, e Rei de Cezilia, e de Napoles, que foi Erege, e
    máo homem, e cruel, e perseguidor da Egreja, assi como fora seu avoo, ho
    outro Federiquo, que diceraõ Barbarroxa, ho qual Emparador Federiquo II,
    sendo doente em Fruelmela Luguar do Reino Dapulha por consentimento de
    hum seu Camareiro foi afoguado, e morto por este seu filho Manfreu, que
    se chamava Principe de Tarento, para loguo aver como ouve, seus
    tezouros, que eram mai grandes, e esta abominavel maldade fez por tal
    que em algum testamento, que o pai podera fazer, nom despozesse de suas
    riquezas ho contrairo do que dezejava.

    E deste Emparador fiquou hum filho legitimo, que chamavam Conrado, que
    era em Alemanha, e vindo para Nopeles de Cezilia, que direitamente lhe
    pertencia tambem Manfreu seu irmaõ em hum pastel ho fez matar com
    peçonha, e deste Conrado fiquára hum filho menino erdeiro dito
    Conradino, que em mistura de certos prezentes, e joias tambem seu tio ho
    quizera matar cõ peçonha, mas ha Rainha mãi do menino como mui prudente,
    e receosa das manhas de Manfreu aprezentou em luguar do filho outro
    menino em tudo conforme, que por elle loguo morreo, ho qual Manfreu por
    morte de Conrado seu irmaõ com has muitas riquezas, que tinha occupou
    loguo, e ouve o Reino de Cezilia, que sendo sobre esso pelo Papa
    Alexandre escommunguado, e perseguido com exercito para que deixasse ho
    Reino, elle por sua ajuda meteo em Italia muitos Mouros de Tunes, e
    Dafriqua cõ que desbaratou ha gente do Papa, e fez em Italia grandes
    destroições, e levou della grandes despojos.

    Pelo qual ho Papa Urbano IV, enviou em França chamar ha Carlo irmaõ
    delRei S. Luis ha quem fez Alferes da Egreja, e lhe deu hos Reinos de
    Napoles, e de Cezilia, porque os cobrasse de Manfreu, que tiranamente
    hos usurpava, e Carlo ajuntou muita gente, e com ajuda do Papa ouve
    batalha com Manfreu junto de Benavente em Italia onde ho dito Manfreu
    foi morto, de que hos Reinos de Cezilia, e de Napoles fiquaram loguo
    pacifiquos ha Carlo, especialmente, que depois da morte de Manfreu
    tambem Carlo matou em outra batalha ho Conradino neto de Federiquo, ho
    que Manfreu quizera nas joias matar, porque com grande exercito veo
    contra Carlo para cobrar hos Reinos que dizia lhe pertencerem de
    direito, e na contenda foi morto, e sendo Carlo nessa posse dambos hos
    Reinos sobreveo, que por quãto hos Francezes tratavaõ has gentes de
    Cezilia com inhumanos roubos, e cruezas, e desprezos, desonestidades,
    dissoluções: elles todos de que ha Cidade de Palermo, foi ho principio,
    indinados contra hos Francezes sendo jáa para esso secretamente
    exortados, e favorecidos delRei D. Pedro Daraguam, em hum dia hos
    mataram todos, e para vinguança desta rebeliam, e mortindade dos seus,
    ElRei Carlo, que nom era em Cezilia ajudado de grandes potencias veo ha
    Cezillia, e cerquou estreitamente ha Cidade de Mecina, que loguo com has
    outras Cidades da Ilha enviaram pedir soccorro aho dito Rei D. Pedro, ha
    quem pediam amparo, e ajuda, e por esso lhe offereceram ha entregua do
    Reino, que diziam lhe pertencer direitamente pela Rainha D. Costança sua
    molher, filha do dito Rei Manfreu, de que nom fiquara outro erdeiro
    legitimo, que o socedesse.

    Por cujas preces, e requerimentos, commovido ElRei, D. Pedro,
    principalmente por cobrar o Reino de Cezilia, que lhofereciaõ, elle com
    grandes frotas veo loguo ha Palermo onde recebeo ha obediencia, e Coroa
    do Reino, e dahi ordenou loguo descerquar Mecina em cuja perda se ha
    perdesse, toda Cezilia se perdia, primeiro mandou requerer ha ElRei
    Carlo, que se partisse, e lhe deixasse seu Reino, que por sua molher
    direitamente lhe pertencia, ho que Carlo desprezou, como ha Embaixada, e
    requerimento de grande soberba, e porém com medo delRei D. Pedro, que
    pelo maar, era muito mais poderoso, receoso de lhe colher hos
    mantimentos para seu exercito, deixou ho cerquo de Macina, e se foi ha
    Calabria, e dahi mandou chamar ha Carlo Principe de Salerno, seu filho
    que era em França, ho qual com grande poder se ajuntou com seu pai em
    Roma, onde se queixaram delRei D. Pedro aho Papa Martinho IV da força, e
    danos de Cezilia feitos contra direito, dizendo que Carlo por armas, e
    em campo lhe faria conhecer seu erro, e tirania.

    Ha quem ElRei D. Pedro com escuzas coradas das couzas passadas se mandou
    defender em Roma por seus Embaixadores, hos quaes por guanharem tempo, e
    escuzarem ha ida dos Francezes sobre Cezilia, porque estavam muito
    poderosos concordáram em nome delRei D. Pedro por juramentos solenes,
    que ha contenda desse Reino se partisse por desafio dambos hos Reis em
    pessoas, e com cem Cavalleiros cada hum sôomente, e que fosse em
    Bordeos, que ha esse tempo era delRei Dingraterra, e que aho Rei
    vencedor fiquasse livremente, e sem contradiçam ho dito Reino de
    Cezilia, do que ElRei Carlo foi mui contente, para concordarem ho
    desafio, e ElRei D. Pedro deixou Guovernador, e como Rei de Cezilia
    ElRei D. James seu filho, e veose Araguam, e Carlo para regimento, e
    defençam deixou tambem seu filho Carlo Principe de Salerno, e passou em
    França, para cada hum com suas valias, que levavam por segurança do
    campo irem comprir ho desafio para que era assinado dia certo no mez de
    Junho, ho qual dia Carlo pareceo em Bordeos com hos seus Cavalleiros
    armados, deixando a huma jornada ElRei Felippe de França cõ grande seu
    exercito por segurador.

    Mas ElRei D. Pedro nom pareceo pubriquo em Bordeos, e porém se diz, que
    por nom quebrar ho juramento que fizera, se mostrou ahi a alguns em
    secreto, e que de como parecera tomou por sua escuza estormentos, se
    volveo ha seu Reino com grande pressa, e por este enguano de que ElRei
    de França, e Carlo seu tio, e ho Papa juntamente foram muito
    escandalisados, ho Papa escommungou ElRei D. Pedro, e deu contra elle
    Cruzada, e concedeo o Reino Daraguam com grande solenidade, e com grande
    doaçam ha Felippe Conde de Valois, segundo genito delRei Felippe de
    França, que cazou com huma neta delRei D. Carlo seu tio Principe de
    Salerno. E neste tempo antes de se executar ha Cruzada contra ElRei D.
    Pedro, hum Rogerio Delora, Almirante delRei D. Pedro com grande frota se
    foi á vista de Napoles, onde Carlo filho delRei Carlo fiquara por
    Guovernador, ho qual por seu mui riquo sangue de que descendia nom
    podendo sofrer has muitas injurias que do Almirante Daraguam em sua
    pessoa recebera, guiado mais do favor de seu esforço, que do verdadeiro
    sizo, nem dos preceitos de seu pai, que nom guardou, sahio com sua
    frota, que tambem consiguo tinha, e pelejou no maar com ho Almirante, ho
    qual por ser de si mesmo tam afouto, e nas pelejas do maar mui
    afortunado venceo, e prendeo Carlo com muitos homens de sua companhia, e
    prezo com hos seus, loguo foram levados ha Cezilia, e postos em carcere
    em Mecina.

    Aho qual infortunio de Carlo, ElRei Carlo seu pai querendo proverse se
    foi ha Guaieta, e porque com effeito nom podia seu dezejo satisfazer, de
    nojo adoeceo, e segundo se diz morreu de tristeza, pelo qual hos de
    Mecina, porque eram por este caso apertados pelo Papa com grandes
    escõmunhões, e antreditos sabendo ha morte delRei Carlo por mais sua
    vinguança se foram ahos carceres, onde estavam hos Francezes para hos
    matarem, e porque hos prezos eram homens, e bons Cavalleiros se poseram
    em defençam, e resistencia, e foram dos Cezilianos nos mesmos carceres
    mortos sem piedade, e queimados, e assi quizeram fazer aho Principe
    Carlo, se ha Rainha Dona Costança molher delRei D. Pedro, que ha esse
    tempo era em Cezilia lhe nom valera, porque estranhou fazerse tam crua
    justiça, sem mandado, nem autoridade delRei D. Pedro seu marido, dalli
    concordaram, que Carlo fosse levado prezo, como foi a Araguam, onde era,
    e avendo quatro annos, que ho dito Carlo era prezo depois da morte
    delRei D. Pedro, Reinando em Araguam ElRei D. Affonso seu filho, foi por
    meio delRei D. Duarte Dingraterra solto sobre ha refens, que Carlo deu
    de tres filhos seus legitimos, e sinquoenta Cavalleiros nobres do
    Condado de Proença, e pelas despezas trinta marquos de prata, com
    condiçaõ, que elle renunciase ho direito que tinha em Cezilia, e fizesse
    renunciar ha Carlo de Valois ho direito que ho Papa lhe dera em Araguam.

    E por esto, e por cazamentos que depois antre elles se fizeram fiquou
    ahos Reis Daraguam ho direito no Reino de Cezilia; como quer que sobre
    esta mesma contenda antes de se fazer ha mesma concordia ElRei Felippe
    de França, e este Rei D. Pedro Daraguam faleceram ambos sobre ho cerquo
    de Girona, ha saber, ElRei de França por doença, e ElRei D. Pedro por
    dezemparo, e treição dos seus, foi morto ha ferro, como nas Coronicas de
    Frãça, e Daraguam mais larguamente se decrara. E deste Rei D. Pedro
    Daraguam, e da Rainha Dona Costança sua molher fiquaram estes filhos, ha
    saber D. Affonso filho primeiro ha que disseraõ ho Casto, que apoz este
    Reinou, e sem cazar morreo Frade no abito de S. Francisquo, e D. James
    ha que fiquou ho Reino de Cezilia, depois que elle foi Rei Daraguam, e
    Dona Violante, que depois cazou com ElRei Carlo, irmam de S. Luis Bispo
    de Toloza, e Dona Isabel molher delRei D. Diniz de Portugual.

    E tornando ho processo aho fio de seu cazamento, que atraaz leixeei aho
    tempo, que este cazamento se fez em Araguam, eram grandes guerras, e
    differenças em Castella, antre ElRei D. Affonso ho decimo e ho Ifante D.
    Sancho, seu filho, cuja parte ElRei D. Pedro Daraguam favorecia, e
    siguia, e por este caso receando enviar sua filha por terra ha seu
    marido ElRei D. Diniz, ordenava que viesse por maar, mas por outros
    pejos que da vinda do maar se offereciam, ordenou de toda via vir por
    terra, e em sua companhia enviou ho Bispo de Valença, e muitos outros
    Cavalleiros dos milhores de sua terra, e lhe deu mui riquas joias douro,
    e de pedraria, e grande baixella de prata, e com ella veo tambem ElRei
    seu padre atée ho estremo de Castella, onde ante de se espedirem falaram
    ambos apartados por grande espaço, e em se espedindo ElRei della, elle
    com olhos cheos de mui saudosas lagrimas lhe dice.

    _Filha, Deos que te chamou pera este cazamento, e lhe prouve que de
    minha caza saisses Rainha, elle neste caminho te queira guardar, pera
    que nom recebas pejo, nem dano algum, e Deos que na terra onde nasceste
    te amou, e quis que de todos sempre fosses amada, enderessa tua vida, e
    teus feitos nessa pera onde vaaz de maneira que sempre faças couzas de
    seu santo serviço, e te dèe sempre avença, e boa concordia com teu
    marido_.

    E com esto soltando-a dos braços com que ha teve apertada, chorando lhe
    deitou ha bençam de Deos, e ha sua, e assi se despedio della com sinaes
    de muito saudoso, e como entrou em Castella, veo ha recebella aho
    caminho, ho dito Ifante D. Sancho, seu primo com irmão, porque fora
    filho da Rainha Dona Violante molher delRei D. Affonso de Castella, que
    era mãa delRei D. Pedro Daraguam, e do dito Ifante D. Sancho de que ha
    Rainha Dona Isabel, e todolos de sua companhia receberam muita honra, e
    boom trato, e ho Ifante lhe dice: _Senhora ElRei vosso padre meu tio, em
    minhas necessidades me fez sempre tanto favor, e me deu tam grandes
    ajudas, que por esso, e principalmente por quem vós sois, eu com boa
    vontade atèe Portugual fora com vosquo, mas por estas guerras em que
    ando, que hee necessario que sempre proveja com minha pessoa, ho nom
    posso aguora fazer, e peço-vos que desta culpa me releveis, e sabei que
    pera has cousas de vossa honra, e serviço sempre me achareis deligente,
    e muito aguardecido, mas eu enviarei com vosquo ho Ifante D. Jarnes meu
    irmaõ, que vos acompanhe_.

    E assi proseguiram sua viagem atée cheguarem ha Braguança, onde sua
    entrada fora concordada, e alli eram jáa, que esperavam por ella ho
    Ifante D. Affonso, irmaõ legitimo delRei D. Diniz, e ho Conde D.
    Guonçalo, cazado com Dona Lionor, tambem sua irmãa, filha bastarda
    delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e assi outros Perlados, e riquos
    homens do Reino de Potugual, e dalli se despedio delia ho Ifante D.
    James, e se tornou pera Castella, e ho Ifante D. Affonso, e hos
    Perlados, e Senhores de Portugual trouxerao ha Rainha ha Tranquozo, onde
    veo ElRei D. Diniz, e ha recebeo em pessoa, e depois de feitas suas
    benções ordenadas pela Egreja, fizeram alli vodas com mui grandes
    festas, e com mui grandes alegrias no mez Daguosto do anno de mil
    duzentos oitenta e dous annos,(1282.) pera ho que no campo de Tranquozo
    se fizeram grandes, e custozas cazas, e ElRei se partio dalli com ella,
    e lhe ordenou loguo caza, e deu seus officiaes, terras, e assentamento
    segundo ha sua honra, e estado compria.

    E esta Rainha Dona Isabel posto que por obediencia, e mandado delRei seu
    padre, e por necessidade de bem, e paz destes Reinos, fosse
    corporalmente cazada com ElRei D. Diniz ha que tinha grande amor, ella
    porém com todalas obras, e sinaes de mui Santa, nom leixava
    espiritualmente de ser cazada com Deos, ha quem com tanta abstinencia, e
    continuas orações sempre servia, e contemplava como sempre fizera, sendo
    donzella em caza delRei Daraguam seu padre, porque sendo cazada, por hum
    Breviairo por devoto costume, tinha por seu desenfadamento mais
    familiar, em todolos dias rezava todolas oras Canonicas, e depois desso
    tomava outros livros de couzas espirituaes, e devotas, e por elles lendo
    retraida muitas vezes com muitas lagrimas de devaçam ha viram chorar, e
    depois deste virtuoso officio, que cada dia ordenadamente tinha, por nom
    estar ocioza custumava por suas mãos lavrar, e fazer cousas douro, seda,
    e prata, e sobresso com suas donas, e donzellas praticava sempre em
    cousas devotas, e onestas, e porque sua fée fosse por obras mais
    prefeita, e de moormerecimento, ella ha moor parte de suas rendas dava
    secretamente ha pessoas miseraveis em que sabia, que avia verguonhozas
    necessidades, e ha estas era tam liberal, e piedoza, e com tam limpo
    coração, e tam graciozo rosto lhe dava ho seu, que por ella mui
    verdadeiramente se dizia, que das viuvas, e orfans era piiedoza madre; e
    ella foi sempre em todas suas averssidades, e descontentamentos, que lhe
    socediam, mui armada de paciencia, porque nella nunqua foi conhecida
    ira, nem sanha, huma ora mais que outra, e has vinguanças, que tomava
    dos males, e descontentamentos que dalguem recebia, eram graciosos
    perdões sem querer tomar per si, nem por outrem alguma outra emenda.

    Era em suas palavras mui mansa, e em suas obras mui conforme ha toda
    humildade, sem algum alevantamento de soberba, de maneira, que a graça
    do Espirito Santo, de que era aceza de todo, causava em sua alma hum
    louvado assosseguo, e grande devaçam, com que hos dias que ha Egreja
    mandava guardar ella sem quebra dalgum hos jejuava todos ha conduto, sem
    comer mais que huma sóo vez, e alem desso fazia jejuns de paõ, e aguoa
    todalas sestas feiras do anno, e Vesperas dos dias de N. Senhora, e
    sobresso em toda huma quarentena, que vem em cada hum anno de S. Joaõ
    Baptista, atèe Sãta Maria Dagosto, e atèe ho S. Miguel, e outra quoresma
    dos Anjos, que hee des ho dia de N. Senhora Dagosto, e assi de dia de
    todolos Santos atée Vespera de Natal nom comia, nem bebia se nom paõ, e
    aguoa huma sóo vez no dia, de maneira que fazia este tam aspero jejum
    has duas partes do anno, e assi teve outras muitas, e mui singulares
    virtudes, com que pareceo que venceo suas forças humanas, e por ellas
    aprouve ha N. Senhor fazer em sua vida muitos milagres, e depois de sua
    morte muitos mais, e dos de sua vida segundo achei por inquirições de
    testemunhas dinas de fée, e mui autorizadas foi, que em Lisboa ha veo
    ver huma dona do Moesteiro Dodivelas, que por huma apostemaçam, e
    inchaço que tinha no estamago, era muito doente, e desposta ha morte, e
    ha Rainha aho espedir della lha vio, e benzeo com ho sinal da Cruz com
    que no Moesteiro se achou loguo assi sam, como se daquelle mál nunqua
    fora toquada.

    E porque esta dona ha todos ho proviquava por milagre, ha Rainha ha
    mandou chamar, e reprendeo-à, e lhe mandou, que mais ho nom dicesse,
    porque se algum bem recebera nom fora de sua maõ, nem della, que era
    peccadora, mas sóo da virtude de Deos, que ho louvasse. E esta Rainha
    por sinal da sua humildade custumava em todas has sestas feiras da
    quoresma lavar por si hos pées ha doze homens, hos mais leprozos, que se
    podiaõ achar, e esto fazia assi secretamente que ElRei particularmente
    ho nom soubesse, e estando em Santarem depois, que hum dia fez este
    lavatorio, mandou dar bem de comer ahos pobres, como sempre fazia, e em
    se elles saindo escuzos do Paço acertouse, que hum porteiro com sanha
    deu ha hum cuidando que era outro homem, tal golpe na cabeça de que
    loguo cahio em terra asaaz ferido, e huma dona, que esto vio, recolheo
    ho pobre em sua caza onde loguo ha Rainha ho foi ver, e depois de ho
    curar por sua mam, e lhe dar dinheiro pera sua despeza se despedio, e
    aho outro dia que mandou saber de sua disposiçam acharaõ no de todo saõ.

    E na Semana Santa, na Quinta feira de Lava pées, em lavando ha treze
    molheres pobres enverguonhadas, huma dellas acertou, que tinha hum pée
    comesto de pragua, e dous dedos afistolados, que estavam para cair,
    depois que ha Rainha lhe lavou ho são, ella escondia ho doente, e
    escuzandose por seu mal de ho querer mostrar, forçada dos roguos, e
    despejos da Rainha, lho mostrou, e nom sóomente lho lavou mansamente,
    mas humildosamente lho beijou na propria chagua, e depois que ha todos
    deu de comer, e vestir, como tinha por costume, em se saindo do Paço
    aquella molher doente indo na companhia das outras se achou de todo sam.
    E huma Orraqua Vasques molher da Rainha, era de muitos tempos doente de
    tal dor, que cahia amortecida, e com tormentos, que lhe davaõ
    escassamente, e com difficuldade ha faziam retornar à vida, e sabendo ha
    Rainha, que has muitas meizinhas, e remedios dos Fisiquos lhe nom
    aproveitavam, ella no dia de sua paixam ha benzeo cõ ho sinal da Cruz, e
    aprouve ha Deos, que loguo acordou, e depois foi sempre em sua vida
    livre de taes acidentes. Estando ha Rainha era Alamquer muito doente de
    humores frios pera que hos Fisiquos por meizinha lhe mandavam beber
    vinho no puquaro porque bebia, ella ho nom quiz fazer, trazendolhe aguoa
    pera ella beber milagrosamente se tornou duas vezes vinho no puquaro
    porque bebia. Estes, e outros milagres muitos se achaõ, que N. Senhor
    pelos merecimentos desta Santa Rainha fez em soa vida, e muitos mais
    depois de sua morte, de que aho diante por sua devaçam, e louvor darei
    alguma particular, e breve conta.

    *CAPITULO III*

    _Do fundamento, e cousas, que ouve pera ElRei D. Diniz aver alguas
    Villas, e Castellos de riba Dodiana, que foraõ de Castella_.

    Aho tempo que ElRei D. Affonso Conde de Bolonha faleceo, e depois em
    alguns primeiros annos do Reinado delRei D. Diniz, ElRei D. Affonso de
    Castella, seu avoo atée hos derradeiros dias de sua vida, sempre foi
    perseguido de grandes guerras, e muitas necessidades, causadas pela
    errada desobediencia, e desleal alevantamento, que o Ifante D. Sãcho seu
    filho, e hos do Reino de Castella, e de Liam contra elle usavam, pelo
    qual ha Rainha D. Breatiz sua filha, como Rainha virtuosa, e aguardecida
    filha mui piedosa, e por lhe paguar em alguma maneira has dividas, que
    por obriguaçam Divina, e humana lhe devia, loguo como ElRei D. Diniz seu
    filho foi cazado, foi ha ElRei D. Affonso seu pai, que estava em
    Sevilha, pera em tantas suas aversidades, e infortunios, como padecia,
    ella ho soccorrer, e confortar, e aconselhar, sem o nunqua leixar atée
    ora da morte delRei, ha que ella foi prezente, e cuja testementeira
    principal com outro fiquou, e porque ella lhe soccorreo com todo ho
    dinheiro de sua fazenda, e com todolas joias de sua pessoa, e com
    todalas rendas, e gentes, que tinha, e podia aver de Portugual, pelo
    qual neste meio ElRei D. Affonso pelo grande amor, que tinha á Rainha
    sua filha, como jáa dice, e por lhe satisfazer has boas obras, que della
    recebera fez ha ella especial doaçam da Villa de Niebla, que hee em
    Andaluzia ha que chamam Reino, com todolos Castellos, e rendas que ha
    ella pertencem, e assi lhe fez mais doaçam das Villas de Serpa, Moura, e
    Mouram, Noudar, que saõ em riba Dodiana, por carta que foi dada em
    Sevilha quinta feira quatro dias de Março do anno de mil duzentos trinta
    e tres annos. (1233)

    E porque Moura, e Serpa, e Mouram eraõ da Ordem do Esprital de S. Joaõ
    de Castella ho dito Rei D. Affonso pera milhor, e mais livremente poder
    dar has ditas Villas á dita Rainha sua filha, por serem conjuntas aho
    dito Reino de Portugual ante algum tempo, que se fizesse ha dita doaçam
    elle por autoridade, que se ouve do Gram Mestre, e por consentimento do
    Prior, e Freires da dita Ordem em Castella fez com elles escaibo das
    ditas Villas pera lhe fiquarem livres, e por ellas deu em Castella pera
    fiquarem á dita Ordem pera sempre Touro, e ha Egreja de Santa Maria da
    Veiga, e hos direitos de Cairola e has Martineguas, e direitos de
    Guaronha, e de Feerne, e de Paralyves, com outros Luguares, e outras
    muitas rendas, e direitos, que saõ expressamente decrarados, ho qual
    escaibo ante da doaçam se fez por carta feita em Santo Estevam de
    Guormas, terça feira onze dias de Março de mil duzentos oitenta e hum
    annos (1281) sobescrita por Guarda de Toledo, Secratairo, ha qual doaçam
    destas Villas ElRei D. Affonso antes tres annos, que falecesse, fez á
    Rainha Dona Breatiz sua filha. Depois da morte delRei D. Affonso Conde
    de Bolonha seu marido, em Reinãdo ElRei D. Diniz, como atraas dice, e
    por virtude destas doações ElRei D. Diniz tinha aquerido ho direito
    destas Villas, que por El Rei D. Sancho de Castella seu tio, e por ElRei
    D. Fernando seu filho lhe foram empedidas, e embarguadas, como aho
    diante direi.

    *CAPITULO IV*

    _Dos filhos legitimos, que ElRei D. Diniz ouve da Rainha D. Isabel, e
    assi doutros bastardos_.

    ElRei D. Diniz sendo cazado com muito amor, e concordia com ha Rainha D.
    Isabel, ouve della estes filhos, ha saber, ha Rainha Dona Costança
    molher que foi delRei D. Fernando deste nome ho Terceiro de Castella, de
    que aho diante direi, e ho Ifante D. Affonso filho erdeiro delRei D.
    Diniz, que apoz elle Reinou, ho qual nasceo em Coimbra ha oito dias do
    mez de Fevereiro de mil duzentos e noventa, (1290) de que aho diante em
    sua propria Coronica farei inteira decraraçam. E alem destes filhos
    legitimos, ElRei D. Diniz sendo cazado, ouve doutras molheres com que
    teve afeiçam sete filhos, e filhas bastardos, cada hum dos quaes foi
    filho de huma madre, ha saber D. Affonso Sanches, que se chamou
    Dalbuquerque, ha que ElRei D. Diniz quiz grande bem, e por quem o Ifante
    D. Affonso foi com seu pai em grandes desvairos, como aho diante direi,
    e D. Pedro que foi depois cazado com Dona Branqua, filha de Pedre Annes
    de Portel, filho de D. Joaõ de Boim, e de Dona Costança Mendes, filha de
    D. Mem Guarcia de Souza, e outro D. Pedro, que depois foi Conde em
    Portugual, este foi ho que fez ho livro das linhagens Despanha, e foi
    singular homem, e D. Joaõ Affonso, e D. Fernam Sanches, e Dona Maria,
    que cazou com D. Joaõ de Lacerda, e outra Dona Maria, que foi Monia no
    Moesteiro Dodivellas.

    Hos quais filhos bastardos ElRei D. Diniz assi ouve, vencido da sobeja
    deleitaçam de sua propria carne, com que afastandose da Rainha sua
    molher nom lhe guardando ha inteira lei do matrimonio, seguia por
    indusimentos falsos, e máos, ha que se inclinava mais por sua vontade,
    do que sua dinidade Real, e por sua consciencia, e onestidade, sobresso
    devia, e por culpa, e peccado desso se diz, que em quanto ElRei D. Diniz
    se deu ha estes apetitos nom licitos, sempre decrinaram has cousas da
    justiça, que muito amou, e boa guovernança de sua caza, e fazenda, que
    sobre todos soia melhor ter, e ha Rainha posto, que neste tempo era em
    idade, e feições, e desposiçam pera ElRei se della muito contentar, e
    ella dever sentir hos taes apartamentos, e solturas delRei, porém se
    diz, que ella nom mostrava receber por esso paixam, nem escandalo algum,
    antes como esquecida, e nom toquada de dores, e paixões tam comuas ha
    molheres, nom perdia ha devaçam, e exercicio de rezar, e encomendarse ha
    Deos, e de partir alegremente com suas molheres em cousas honestas, e de
    serviço de Deos, e sobre esto fazia ho que parecia mais duro, e menos
    pera fazer, que era dar de vestir às amas, que criavam hos taes filhos
    delRei, e fazer, e procurar merces ahos aios, que hos ensinavam.

    E estas virtudes pera outras molheres nom costumadas, vendo-as fazer tam
    sem paixam á Rainha sendo mui moça, cauzavam ha todas mui grande
    maravilha, mas ElRei D. Diniz averguonhado destas suas fraquezas, e
    temendo ha Deos pór emenda de sua justiça, e assi por apaguar nodas, que
    tanto danavam ha limpeza de sua Real dinidade, e singular condiçam se
    apartou dellas inteiramente, e com grande serenidade se privou de todos
    estes defeitos, e se poz no direito, e verdadeiro caminho, que devia, e
    sempre atée sua morte ho seguio, e guardou.

    *CAPITULO V*

    _Do desacordo, que ouve antre ElRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso seu
    irmaõ_.

    ElRei D. Diniz tinha hum irmaõ lidimo ho Ifante D. Affonso, filhos ambos
    delRei D. Affonso Conde de Bolonha, e da Rainha Dona Breatiz, e ha este
    Ifante D. Affonso fez ElRei seu pai doaçam mui solene das Villas de
    Portalegre, e Marvam; e de Castello Davide, e Darronches, pera elle, e
    seus filhos lidimos, ho qual Ifante em vida delRei seu padre, foi cazado
    com ha Ifante Dona Violante, filha do Ifante D. Manuel, filho delRei D.
    Fernando II de Castella, e da Ifante Dona Costança, filha do primeiro D.
    James Rei Daraguam, e ouve della hum filho D. Affonso, que foi senhor de
    Leiria, e faleceo sem filhos, e ouve mais tres filhas, Dona Isabel, e
    Dona Costança, e Dona Maria, que todas cazaram grandemente em Castella,
    ha saber Dona Isabel cazou com D. Joaõ ho torto, filho do Ifante D.
    Joaõ, que se chamou Rei de Liam, que morreo na Veigua de Grada, e de
    Dona Maria sua molher, filha do Conde D. Lopo, senhor do Bisquaia, e
    Dona Costança cazou com D. Nuno Guonçalves de Lara, filho de D. Joaõ
    Nunes de Lara, ha que diceram ho Bom. Estes nom ouveram filhos, e Dona
    Maria cazou com D. Tello, filho do Ifante D. Affonso de Molina irmaõ da
    Rainha Dona Maria molher delRei D. Sancho, e ouveram Dona Isabel, que
    cazou com D. Joaõ Affonso Dalbuquerque neto delRei D. Diniz, filho de
    Affonso Sanches, seu filho bastardo.

    E avendo jáa sinquo annos, que ElRei D. Diniz era cazado, e sete que
    Reinava, ouve grande desacordo antre elle, e ho Ifante D. Affonso seu
    irmaõ, e ha cauza principal, era porque ElRei D. Diniz nom queria, nem
    nunqua quiz legitimar, e abilitar has filhas do Ifante D. Affonso pera
    erdarem suas Villas, e Castellos de Portugual depois de sua morte, sobre
    que ha Rainha Dona Isabel molher delRei D. Diniz, e ho Ifante D. Affonso
    seu filho erdeiro, sendo ha esso ambos conformes fizeram solenes
    protestações, e requerimetos pera esta abilitaçam, e legitimaçaõ nunqua
    se fazer por ElRei, nem pelo Papa, aleguando muitos inconvenientes se se
    fizesse, e ouvesse efeito, e ho principal era ha grande deminuiçam, e
    perda que seria do Reino, e Coroa de Portugual se has sobreditas Villas,
    e Castellos, estando no estremo de Portugual, passassem com suas filhas
    do Ifante, que eram cazadas com homens grandes, e poderosos de Castella,
    e ainda se diz, que avia receo do Ifante, que pubriquamente dizia, que
    ho Reino de Portugual lhe pertencia, porque nacera lidimo depois da
    morte da Condeça de Bolonha primeira molher delRei seu padre, e que
    ElRei D. Diniz ainda nacera em sua vida della, e nom podia erdar, mas
    com este defeito era jáa despensado pelo Papa, como na Coronica delRei
    D. Affonso, Conde de Bolonha jáa dice.

    E por esta deneguaçam em que ElRei D. Diniz se afirmou, ou por outra
    qualquer couza, o Ifante seu irmaõ nas cousas da paz, e da guerra lhe
    nom obedecia com has ditas Fortalezas assi como ElRei queria, e ho
    Ifante devia, pello qual ouve guerra antre ambos na era de mil duzentos
    noventa e sete, (1297) e ho Ifante D. Affonso com ajuda, e favor que
    seus genros com suas pessoas, e gentes de Castella lhe davam, fazia
    muito dano em Portugual, especialmente, que neste tempo Regnando jáa em
    Castella D. Sancho, filho delRei D. Affonso ho decimo, elle matou em
    Alfaro D. Lopo Conde, e senhor de Biscaya, e D. Dioguo Lopes de Campos,
    que eram pessoas mui principaes, e prendeo ho Ifante D. Johaõ, seu
    irmãao, cujo filho era D. Johaõ ho torto, cazado com D. Isabel, filha
    deste Ifante D. Affonso de Portugual, e pella morte destes senhores, e
    prizaõ do Ifante D. Johaõ, ouve contra ho dito Rei D. Sancho grandes
    guerras em Castella.

    E durando ellas ElRei D. Diniz, e ElRei D. Sancho teveram vistas em que
    por bem, e maior assesseguo de seus Regnos, concordaram cazamentos de
    seus filhos, que eram pequenos ha saber, que ho Ifante D. Affonso, filho
    maior delRei D. Diniz, cazasse com ha Ifante D. Breatiz, filha delRei D.
    Sancho, como depois cazou, e que ho Ifante D. Fernando, filho maior
    delRei D. Sancho cazasse com ha Ifante D. Costança, filha delRei D.
    Diniz; e sobre este concerto, que ha tempo certo se avia de fazer, e
    comprir com effeito como estes Principes, e Ifante fossem em idade, hos
    Rexs se tornaraõ ha seus Regnos, e hos genros do Ifante D. Affonso de
    Portugual, e suas gentes, que desobedeciam ha ElRei de Castella, se
    acolheram nos seus Castellos de Portugual, onde has terras, que eram de
    ElRei de Castella faziam muito dano. E porque ElRei D. Diniz era
    sobrinho delRei D. Sancho, irmaaõ de sua mãi ha Rainha D. Breatiz, e por
    pazes de cazamentos, estavam mui concordes, e amiguos, ho dito Rei de
    Castella enviou notifiquar estes danos, e guerra, que das Villas, e
    Castellos de Portugual seus naturaes lhe faziam, pedindolhe que ho
    passado quizesse castiguar, e ho futuro mais contra elle nom se fizesse,
    e se nom lhe desse loguar, que em seu Regno entraasse, e que elle com
    suas forças ho emendaria.

    Aho que ElRei D. Diniz respondeo, que de semehantes cousas lhe pezava
    muito, e que fosse certo que nom eram feitas por seu consentimento, e
    prazer, mas que loguo sem ser necessaria sua entrada, proveria como se
    mais contra elle nom fezesse. Pello qual ElRei D. Diniz encomendou, e
    mandou aho Ifante seu irmaaõ, que nom fezesse, nem consentisse que aho
    dito Rei D. Sancho, nem a suas terras, e vassallos, se fezesse guerra,
    nem dano das ditas Villas, e Castellos de Portugual, dos quaes elle era
    obriguado fazer guerra, e manter paaz, segundo elle lhe mandasse. Ha que
    ho Ifante D. Affonso nom quiz inteiramente obedecer assi por respeito de
    seus genros, ha que satisfazia, e aquolhia, como pella deneguaçam da
    legitimaçam de suas filhas, do que se mostrava muito agravado, dando por
    sua escuza ha nom ovedecer com hos Castellos contra sua vontade, que
    elle pellas cousas, e preroguativas de suas doações feitas por ElRei D.
    Affonso seu pai, era de semelhante obriguaçam, e serviço relevado.

    Pello que ElRei D. Diniz no anno de mil duzentos noventa e nove annos
    (1299) ajuntou suas gentes, e mandou loguo cerquar Arronhes, e Marvam, e
    ha elle Ifante seu irmaõ, cerquou em Portalegre, e porque ha este tempo
    Castella Davide, que era tambem do Ifante, era termo de Marvam, e Luguar
    entam mais cham que forte, por esso se nom cerquou, e durando este
    cerquo, em que de huma parte, e da outra, em ambos hos Regnos se fez
    danos asaas, entrevieram ha concerto delRei, e do Ifante ambos irmaaõs,
    hos Perlados, e Senhores principaes do Regno, e sobre todos ha Rainha D.
    Isabel, por cujo virtuoso meio ho Ifante D. Affonso entreguou has
    Villas, e Castellos ha Aires Cabral, que hos teve em fieldade, e com
    menagem atée que por elles deram aho dito Ifante has Villas de Sintra, e
    Dourem, com outros Luguares chãos na Comarqua de Lixboa, e antre has
    outras muitas, e mui singulares virtudes, que ouve na Rainha Dona Isabel
    em quanto viveo, foi procurar sempre paaz, e amizade de que se ella
    prezou muito, porque assi ho fazia antre ElRei, e seus vassallos, de que
    tirava todolos dias, e escandalos, e assi antre outro quaesquer
    particulares do Regno, e se por bem das semelhantes concordias compria
    pagua de dinheiro pera emenda dalgumas perdas, e danos ha que has partes
    por algum caso nom podiam comprir, ella porque amizade se nom
    desfezesse, de seu proprio tesouro has mandava, de maneira, que has
    certas bolsas de seu dinheiro nunqua foraõ arquas, nem cofres, mas hos
    ventres, vestidos, e necessidades dos pobres, e cousas piedosas, em que
    todo lançava, e alli tudo lhe crecia.

    E este irmaaõ legitimo delRei D. Diniz, e filho delRei D. Affonso Conde
    de Bolonha, e da Rainha Dona Breatiz, faleceo no anno de mil duzentos e
    noventa e nove annos, (1299) e jáas sepultado no Moesteiro de S.
    Dominguos de Lisboa, em hum Moimento de pedra, que estaa á porta do
    Coro, esto ponho por tirar opiniam, e erro, que muitos antiguos teveram
    e eu ho vi, que este que alli jazia, era ho filho que ElRei D. Affonso
    Conde de Bolonha ouve de Dona Matildes Condeça de Bolonha sua molher, ho
    que nom hee (segundo jáa tenho dito) porque esta hee ha verdade, qeu
    affirmo, e eu ha vi no proprio letreiro, que tem ho dito Moimento, e
    assi ho achei por outras escrituras asáas autentiquas.

    *CAPITULO VI*

    _Do que succedeo do cazamento do Ifante D. Affonso, filho delRei D.
    Diniz, e do Ifante D. Fernando, filho delRei D. Sancho de Castella_.

    No tempo, que hos ditos cazamentos antre estes Reis, e suas vistas se
    concordáram, foi logo acordado, e assentado pera moor firmeza do
    cazamento do Ifante D. Fernando com ha Infante Dona Costança, porque em
    algum tempo nom ouvesse causa, nem razam pera se leixar de fazer, que
    ElRei D. Sancho pozesse loguo, como poz em poder, e fieldade de
    Portugueses estas suas Cidades, Villas, e Castellos, ha saber,
    Badalhouce, Moura, Serpa, Caceres, Broguilhos, Acharces, Aguilar de
    Neiva, com tal condiçam, que se ElRei D. Sancho, e ha Rainha Dona Maria
    sua molher, ou aquella ha que ho Ifante D. Fernando tevesse em seu
    poder, nom comprissem, e fizessem fazer, ou ho mesmo Ifante aho tempo
    que era limitado, nom quizesse cazar com ha dita Ifante, que nestes
    casos hos ditos Portugueses, que hos ditos Castellos tinham, hos
    entreguassem loguo aho dito Rei de Portugual pera sempre de seu Reino, e
    Senhorio, e mais que depois do cazamento ser assi feito se ho dito
    Ifante D. Fernando leixasse ha Ifante Dona Costança sua molher, e lhe
    nom desse de suas arras des mil maravedìs douro, em que se concordaram,
    que neste caso tambem hos ditos Castellos de Castella se entreguassem ha
    Portugual.

    E por esta maneira ElRei D. Diniz poz em fieldade, e poder dos
    Castelhanos hos Castellos, e Cidades da Guarda, e Pinhel, pera que nom
    dando, e entreguando ha dita Ifante aho tempo concordado, que hos
    perdesse, e fossem pera sempre de Castella. Mas ElRei D. Sancho ho nom
    comprio assi; porque desejando de desfazer ho dito cazamento procurou
    contra sua verdade daver hos ditos Castellos da terceria, e ho que pior
    foi, que hos ouve, e tomou com mortes dalguns Alcaides Portugueses, do
    que ElRei D. Diniz foi mui anojado, porque de sua natural, e Real
    condiçam nunqua se achou, que dicesse mentira, assi sentio, e lhe doeo
    muito quebraremlhe tam honestamera te ha prometida verdade; e porque
    antre elles, era tambem concordado, que de pormeio ambos concordassem,
    procurassem, e paguassem has despensassoens Apostoliquas, que se
    requeriam por serem muito parentes.

    ElRei D. Diniz enviou loguo por sua parte querella aho Papa; mas ElRei
    D. Sancho mudou sua messagem em outra sustancia, porque enviou ha ElRei
    D. Felippe de França, requerendolhe huma sua filha pera ho Ifante D.
    Fernando, seu filho, antre hos quais ouve loguo prazer, e outorgua pera
    este cazamento se fazer. Ho que ElRei D. Sancho loguo fez saber ha ElRei
    D. Diniz sem asinar causa evidente porque ho fizera, e com esta
    confiança, e esforço de França, elle rompeo ha paaz, que tinha com
    Portugual, e mandou loguo sua frota de naos, gualés aho Alguarve, e
    nellas muita gente que por maar, e por terra fizeram grandes danos, assi
    nos Cristãos, como nos Mouros fóra daquelle Reino, de que levaram muitos
    cativos, e por elles de seus resguates, outra grande soma de dinheiro de
    Portugual, e assi entraram has gentes do Reino de Liam, e queimaram, e
    roubaram, e fezeram grandes danos com mortes de muitos do Reino de
    Portugual.

    ElRei D. Diniz maravilhado destas roturas, e sem razões delRei D.
    Sancho, desejando todavia com elle paaz, e por nom virem ha maiores
    danos, rompimentos, lhe enviou por algumas vezes requerer assi ha
    entregua de seus Luguares, que contra direito lhe tinha tomados, como
    emenda dos outros danos, e perdas e tomadias que em seus Reinos
    vassallos, e fazendas delles contra ho assento de sua paaz tinha
    recebidas, e assi que comprisse ho cazamento de seu filho com ha Ifante
    Dona Costança como tinha assentado, sobre ho que lhe enviou por seus
    embaixadores, e Procuradores ho Bispo de Lixboa, e Joaõ Simaõ Meirinho
    moor, que na Corte delRei D. Sancho andavaõ sem algum despacho detidos.

    E porque ho cazamento de França, que ElRei D. Sancho tinha por feito se
    desconcertou, e desesperou vendo que de necessidade lhe convinha
    concertarse com ElRei D. Diniz, assi no cazamento de sua filha, como em
    lhe fazer emenda dos males, danos passados, enviou ha elle por
    Embaixador D. Mauzinho Bispo de Palença, por ho qual lhe mandou dizer,
    que sua vontade era de todo concertarse com elle, e que pera esso
    enviasse seus apontamentos ahos ditos seus Embaixadores, que ainda eram
    em sua Corte, com hos quaes se concordariaõ como fosse razam, e ha seu
    contentamento. Aho que ElRei D. Diniz satisfez, mas hos ditos seus
    Embaixadores vendo, que ha concruzam delRei D. Sancho era de longuas, e
    de negações sem causa se tornaram sem duvida ha Portugual sem nhum
    despacho.

    E no tempo destas desavenças, e guerra antre ElRei D. Sancho, e ElRei D.
    Diniz, ho Ifante D. Joaõ seu tio, irmãao da Rainha Dona Breatiz sua
    madre, e D. Joaõ Affonso Dalbuquerque, neto delRei D. Diniz, filho de
    Affonso Sanches, seu filho bastardo, acertouse que entraraõ ha correr
    terra de Çamora com muita gente, que levavam com D. Joaõ Nunes de Lara,
    filho que foi de D. Nuno Guonçalves de Lara, que diceram ho Bom, ho qual
    era desavindo delRei D. Sancho, e tendo elle cõsiguo pouquos Cavalleiros
    pera peleja saio, e ho esperou, e na peleja que ouveram foi delles
    prezo, e trasido ha Portugual ha ElRei D. Dininz, ha quem ElRei D.
    Sancho, pello dito Bispo de Palença enviou pedir, que ho quizesse
    soltar, e enviarlho, porque elle ho queria recolher, e servirsse delle,
    e fazerlhe honra, e merce, especialmente tornarlhe suas terras, que lhe
    tinha tomadas, e nom por desleal, mas porque fora sempre ha serviço, e
    da parte delRei D. Affonso, com que ElRei D. Sancho seu filho teve
    guerra, como jáa dito hee.

    ElRei D. Diniz, como homem mui liberal sobre todolos Reis de seu tempo,
    enviou loguo com muitos Cavalleiros, e Fidalguos de sua caza, ho dito D.
    João Nunes ha Castella, ha que deu grandes dadivas, e fez muita merce, e
    D. Joaõ Nunes fiquou por vassallo delRei D. Diniz, e ha seu serviço, e
    ha sua boa vontade, e como homem boò, e aguardecido nunqua depois lho
    neguou, e por esso depois em Castella nom compriram com elle assi como
    lhe tinham prometido, e elle por esso se foi ha França, e de guerra
    tornou depois ha Castella, como aho diante direi. E tornando á Estoria
    ha ElRei D. Diniz, elle como vio que ElRei D. Sancho contra direito, e
    rezam lhe falecera de todo, e nom compria alguma cousa das muitas, que
    com elle concordára, bem entendo que nom queria com elle paaz, e amor,
    como por bem, e assesseguo de seus Reinos sempre desejara, e porém
    porque era Rei de grande coraçam, e que álem das perdas que recebera,
    ainda por estes casos recebia alguma quebra de sua grande honra, e boõ
    nome, determinou aparelhar loguo sua fazenda, e ho que lhe compria, e
    mandalo desafiar pera pubriqua guerra, e entrarlhe por sua terra, e
    della nom sair atée nom aver emenda, e em comprimento de todo ho que
    requeria, e de direito lhe era devido.

    Neste tempo ante dalguma destas cousas aver efeito, morreo ElRei D.
    Sancho estando na Cidade de Toledo, na era de mil duzentos noventa e
    sinquo, (1295) sendo ainda mãcebo. Ha causa de sua morte antecipada, e
    sua tam pouca vida muitos ha reportaram ha sentença da Lei de Deos, e
    pela desobediencia, e maao trato, que com desamor fezera ha ElRei D.
    Affonso seu pai, como atraas se dice, ElRei D. Sancho leixou á ora de
    sua morte por seus testamenteiros, e tutores de seu filho à Rainha Dona
    Maria sua molher, e ho Ifante D. Anrique seu tio, irmãao del-Rei D.
    Affonso seu padre, ho qual Ifante ha este tempo fora solto da prizam em
    que por muitos annos jouve em Italia, quãdo prezo por Carlo Rei de
    Napoles em Cesilia, na batalha em que Corradino seu competidor nos ditos
    Reinos foi morto, em cujo favor, e ajuda ho dito Ifante viera, e ha
    estes encomendou em seu testamento, que comprissem com ElRei D. Diniz ho
    que tinha concordado, assi no cazamento dos filhos, como na entregua das
    Villas de Moura, e Serpa, e dos outros Luguares que ha Portugal
    pertenciam.

    Depois do falecimento dei Rel D. Sancho, loguo ElRei D. Diniz mandou por
    seus messegeiros requerer ha ElRei D. Fernando, que novamente começara
    de Reinar, e assi à Rainha Dona Maria, e aho Ifante D. Anrique, seus
    tutores, que quizessem comprir hos cazamentos, e fazer ha entregua das
    Villas, segundo com ElRei D. Sancho seu pai estava concordado, e elle em
    seu testamento leixara aho tempo de sua morte. Aho que ElRei D. Fernando
    com acordo, e autoridade dos ditos tutores nom satisfez, segundo ElRei
    D. Diniz esperava, antes pelo contrairo, poendo ahos cazamentos
    entreposições de tempo, que tinham semelhança de denegações, e assi
    escuzas à entregua dos Luguares, chamandose Senhor delles em suas mesmas
    cartas, da reposta que enviou, de que ElRei D. Diniz se sentio mui
    escandalizado, e para determinadamente saber ho que por sua honra, e por
    sua justiça compria, tornou ha enviar ha ElRei D. Fernando João Anes
    Redondo, e Mem Rodrigues Rebotim, seus Cavalleiros, e pessoas
    principaes, hos quais estando presentes ha Rainha Dona Maria, e ho dito
    Ifante D. Anrique, e assi muitos Cavalleiros, pessoas principaaes do
    Conselho de Castella, elles pera justificaçam da causa delRei D. Diniz,
    e do Reino de Portugual diceram ha ElRei D. Fernando mui particularmente
    todalas ajudas que elle, e ElRei D. Affonso seu padre tinham feitas ha
    ElRei D. Sancho, e ha ElRei D. Affonso seu padre, e avoo do dito Rei D.
    Fernando, hos quais muitas vezes prometeram fazer entregua dos Luguares
    ha Portugual, mas ainda para acender mais mal com suas gentes por maar,
    e por terra lhe fizeram muitos danos em seus Reinos, e vassalos, sem ho
    quererem emendar podendo o fazer. Pello qual hos ditos Embaixadores,
    diceram contra ElRei D. Fernando.

    Senhor estas cousas que asima relatamos tam breves, sam mais
    inteiramente sabidas por certas, e verdadeiras por ha Rainha vossa
    madre, e por estes Senhores, que aqui estam presentes, e por ellas ElRei
    N. Senhor se maravilhou delRei D. Sancho vosso padre poer tardança, e
    escuza na emenda, e satisfaçam dellas, pois eram justas, e de razam, e
    porque ha tençam com que esto fazia elle ho nom entrepretava ha bem, por
    esso em sua vida ho mandou desafiar para entrar, e pór guerra em seus
    Regnos, e aver emenda do que justamente pedia, e depois de seu
    falecimento ElRei N. Senhor por algumas vezes vos enviou roguar como ha
    filho, e aconselhar como amiguo, que has cousas que por ElRei vosso
    padre lhe eram prometidas, vós lhas quisesses comprir, e assi receberdes
    sua filha ha Ifante Dona Costança por vossa molher, assi como antes fora
    concordado, vós na reposta que lhe enviastes em luguar de lhe mandardes
    entreguar hos ditos Castellos, e Luguares de que era forçado, vio nella
    que vos chamastes delles Senhor, e por esso hee muito anojado de vós, e
    de quem vos aconselhou muito escandalizado, e porque este escandalo, e
    agravo que de vós tem, nacem de taes cousas, razões, que por sua honra,
    e estado nom convem passarem sem justiça, e emenda, elle por nós
    finalmente, vos manda dizer huma cousa, que pella esperança que de vós
    tinha, e pellos grandes dividos que antre vós ha lhe he mui cara de
    fazer, e porém hee de sua honra, e serviço aconselhado que sem trespaço
    ha faça ha saber, que vós daqui em diante busqueis outro amiguo que
    ponhais em seu luguar, porque elle quererá com suas forças, e poder
    trabalhar de vos penhorar pera sua entregua nos Regnos de Castella, e
    Liam, e que vos pera esso envia engeitar vossa amizade, e como ha imiguo
    desafiar, pera que vos façais prestes, porque em sua vinda nom tardará
    muito.

    Destas razões, e desafio pubriquo, que estes Embaixadores de Portugual
    fezeram ha ElRei D. Fernando de Castella foraõ alguns, que eram
    presentes asaas maravilhados, e outros postos em desvairados
    pensamentos. E porém esperando hos ditos Embaixadores alguma reposta,
    porque lhaa nom deram se tornaram descontentes ha Portugual, onde ElRei
    D. Diniz dobrandose por esso has cousas de sua entrada em Castella,
    ajuntou loguo suas gentes, e com asaas poder se foi à sua Cidade da
    Guarda, pera dahi entrar loguo em Castella, maas antes que entrasse, veo
    hi ho Ifante D. Anrique tio, e tutor delRei D. Fernando, e sobre
    praticas, apontamentos, e concordias, que antre elles sobre estas cousas
    ouve, concertaram que ambos fossem dahi, como foram à Cidade Rodriguo,
    que hee em Castella, onde estavam ElRei D. Fernando, e ha Rainha Dona
    Maria sua madre, e alli outra vez todos se concordaram sobre ho
    cazamento, que atée certo tempo loguo limitado, se ouvesse de fazer.

    E assi foi despachada ha entregua de Serpa, e Moura, sobre que a Rainha,
    e Ifante em nome delRei D. Fernando passaram sua carta por hum Estevam
    Pires Adiantado moor do Regno de Liam, que era Alcaide, e tinha has
    ditas Villas de Serpa, e Moura pera que se entreguassem ha Johaõ
    Rodrigues Porteiro da Camara delRei D. Diniz, pera que este has
    entreguasse, como entreguou ha Coguominho, Cavalleiro delRei D. Diniz,
    porque elle poz loguo nellas por Alcaide huum Martim Botelho, e outro
    Lourenço Martins Guanço, que esta carta delRei D. Fernando passou em
    Cidade Rodriguo ha vinte Doutubro do anno de mil duzentos noventa e
    sinquo annos, (1295) aselada com tres selos pendentes, ha saber, ho
    delRei no meio, e ho da Rainha à maõ direita, e ho do Ifante D. Anrique
    à esquerda, e sobre esta concordia, que foi ifirmada com grandes, e
    solenes juramentos, ElRei D. Diniz se tornou pera dentro de seu Regno. E
    sendo depois cheguado ho tempo em que ElRei D. Fernando avia de receber
    por molher ha Ifante Dona Costança, e comprir outras cousas em que
    fiquaram em Cidade Rodriguo concertados, ElRei D. Diniz por seu
    messegeiro hos mandou requerer, porque elle tornou ha Portugual sem ha
    reposta, e concruzaõ que ElRei esperava entonces, e veo com palavras,
    que mostravam craros sinais de verdadeira denegaçam das cousas
    prometidas.

    ElRei D. Diniz anojado desso, com coraçam pera sua emenda, e vinguança
    mui cheo de sanha determinou sem mais tardar entrar loguo de guerra em
    Castella, e pera esso concertou, e apercebeo mui bem seus Castellos das
    frontarias, em que leixou bõos fronteiros, e ajuntou outra vez suas
    gentes pera mais poderoso entrar em Castella, e ajuntaremse com ElRei D.
    Diniz contra ho Ifante D. Fernando Rei de Castella, ho Ifante D. Pedro
    erdeiro Daraguam, que depois foi Rei, que era primo com irmaaõ da Rainha
    Dona Isabel de Portugual, e ho Ifante D. Johaõ, que cõtra ElRei D.
    Sancho se chamava Rei de Liam, e era filho delRei D. Affonso ho decimo
    avoo delRei D. Diniz, e D. Johaõ Nunes de Lara, aquelle, que sendo prezo
    em Portugual foi por ElRei D. Diniz enviado solto, e com grande honra
    enviado ha Castella, como atraas dice.

    E sendo jáa todos juntos no estremo da Comarqua da Beira pera entrar em
    Castella, veo ha ElRei D. Diniz ha Ifante Dona Margarida, molher que
    fora do Ifante D. Pedro, e com ella D. Sancho de Ledesma seu filho, e
    por descontentamentos, que tinha delRei D. Fernando pedio ha ElRei D.
    Diniz por mercee, que ho recebesse por vassallo, do que ha ElRei
    aprouve, e lhe poz loguo grande contia de dinheiro em seu ordenado, e
    lhe mandou que loguo se aparelhasse pera entrar com elle em seu serviço,
    e porque ho dito D. Sancho, que sóomente viera pera receber muito
    dinheiro que levou, ou por lhe cometerem outros partidos em que mais
    consentio elle, nom tornou ha servir ElRei D. Diníz, e com seu dinheiro
    se foi pera ElRei D. Fernando ho quaal como soube que ElRei tinha todas
    suas gentes percebidas pera entrar em Castella mandou logo perceber em
    Sevilha suas gualees, e frota que de guerra vieram aa costa de Portugal,
    e entraram no porto de Restelo, mea legua de Lixboa, onde tomaram naaos
    de Portugal carreguadas de mercadorias, e has levaram. E ho Almirante de
    Portugal que ha esse tempo estava em Lixboa por cobrar ha preza, e pera
    vinguança do maal que se fezera, armou logo com grande triguança outras
    gualees, e foi empoz da frota de Castella, que ainda alcançou no maar
    onde todos ouveraõ grande, e crua guerra, mas em fim ho Almirante de
    Portugal ficou vitorioso, e tomou ahos contrairos suas naaos, e gualees,
    e mais has que consiguo levavam, e trouxe tudo aho porto de Lixboa.

    *CAPITULO VII*

    _Como ElRei D. Diniz entrou em Castella, e da crua guerra, que de huuma
    parte e da outra se fazia_.

    ElRei D. Diniz com suas gentes beem ordenadas entrou por has Comarquas
    de Cidad Rodriguo, e de Ledesma, e na frontaria hos Portuguezes toamraõ
    por força em hum Castello, que dizem Torres, todolos contrairos, que
    nelle acharam, e dahi foi ElRei D. Diniz fazendo crua guerra sem alguma
    rezistencia nem contradiçam corenta leguoas por Castella atée ho Luguar
    de Simancas que hee duas leguoas de Valedolid, onde ElRei D. Fernando
    estava, e ha tençaõ de todos era que ElRei D. Diniz ho hia cerquar pera
    que repartiram suas estancias de que ha huuma parte davam ha ElRei D.
    Diniz, e ha outra cõ ha gente Daraguam davam ha D. Affonso de Lacerda,
    que era com elle contra ElRei D. Fernando, porque se chamava Rei de
    Castella por ser filho primeiro do Ifante D. Fernando de Lacerda, e neto
    delRei D. Affonso ho decimo, e ha outra parte davam aho Ifante D. Joham
    que se chamava Rei de Liam, e porém ho cerquo se nom poz; mas ElRei D.
    Diniz se tornou ha huu Castello de Medina que dizem Pasaldes, e
    tomaram-no sem resguardo, nem rezistencia, e sem reverencia entraram ha
    Egreja, e espedaçaram has Imagens dos Sãctos, e ha despojaram de todo ho
    que nella acharam, e com muita crueza mataram ahos que se nella
    acolheram, sem perdoarem alguua idade de machos, nem femeas.

    De que hos Castelhanos movidos primeiramente por sua crueza e depois por
    sua vinguança nos luguares e couzas semilhantes que pera exercitar sua
    sanha se lhes offereciam ho nom faziam menos porque na Comarqua, e
    frõtaria de Riba Dodiana alguus Capitaens, e senhores de Castella, dos
    quaes era D. Affonso Pires de Gusmam se ajuntaram nom pera dar batalha
    ha ElRei D. Diniz, mas pera entrar, como entraram em Portugual, onde
    entraram com muitas gentes Dandaluzia, e da sua frontaria, da quaal
    entrada mataram, e cativaram de Portugual muitos homens, e molheres,
    seem alguua piedade, e levaram grandes roubos da teerra.

    Aho encontro do quaal foi ho Mestre Davis com has gentes, que pode, e
    ouveram ambos mui dura peleija em que ouve muitas mortes, e danos dambas
    as partes, no fim da quaal ho Mestre foi vencido por has menos gentes,
    que tinha, e muitos dos seus foram mortos, e nove centos cativos, que
    vendiaõ, e resguatavam em Castella por mui pouquo preço, porque outro
    tanto se fazia de castelhanos cativos em Portugual, porque de huua
    parte, e da outra hos que se cativavam assi se vendiam como servos,
    ainda que se acha que hos Castelhanos nesta qualidade de crueza uzavaõ
    contra hos Portuguezes em mais estremo, e cõ menor piedade, porque ha
    todos se diz que hos punham em barreiras, e nellas mui cruamente hos
    matavam aas setadas; Pelo quaal hos corações de huus, e outros assi eram
    nesta guerra acezos em odio, e ira; que pareciam arder pera todos
    matarem, queimerem, e destroirem seem alguua piedade, nem temperança,
    como faziam.

    *CAPITULO VIII*

    _Dos grandes maales e danos que de hum Regno ha outro se faziam, e
    dalguns Luguares de Castella, que hos Mouros tomaram_.

    Hos periguos, danos, mortes, perseguiçoens, e trabalhos durando esta
    guerra eram tantos nos maares, e teerras dambos estes Regnos de
    Portugual, e Castella, em que huus ahos outros por odios e vinguanças se
    guerreavam, que por aspero jáa se nom podiam sofrer, por que a todolos
    Luguares que cheguavam ha que cerquas fortes nom defendiam, logo eram
    entrados, roubados, e destroidos de todo, e hos Castelhanos tornaram a
    cobrar ho Castello de Torres, que fora tomado na frontaria de Castella,
    e dos Portuguezes que ha guardavam nem fiquou nhum que ha ferro nom
    morresse, e com a nova desta crueza de que ElRei D. Diniz foi logo
    certifiquado com suas gentes em mui maior sanha, e pera mais destroiçam
    contra hos Luguares da Comarqua de Salamanca porque andava, porque nom
    valiam Egrejas, nem cazas sagradas, e piedozas ha alguus que se ha ellas
    acolhiam, porque nellas assi eram mortos, roubados, & cativos, como se
    foram outras quaesquer cazas profanas.

    E com certidaõ desta crua guerra de que ElRei de Grada foi certifiquado,
    porque era na terra dos Christãos, nom achou quem ho rezistir, entrou
    com maior esforço pela parte Dandaluzia, e assi guerrearam hos Mouros
    que por força guanháram ha fortaleza de Quesada, e Alcaudete, com tres
    outros Castellos, e entraram ho arrabalde de Jaem. E com estas tam
    danosas entradas de taes dous Rex contrairos em Castella, nem ElRei D.
    Fernando nem ha Rainha sua madre, nem hos do seu concelho abrandaram has
    vontades pera cõprir com ElRei D. Diniz ho que lhe tinham prometido,
    crendo que elle por necessidades que ocurriam, ou por grandes despezas
    que na guerra fazia has nom poderia tanto tempo sofrer, e se partiria da
    teerra, mas veendo ElRei D. Fernando, e ha Rainha Dona Maria, e ho
    Ifante D. Anrique seu Tutor, que esta maginaçam pelas obras, e
    continuaçam delRei D. Diniz cada vez mais crecia acordaram de dar ha
    Villa de Tarifa hos Mouros por sua, porque com suas pessoas, e poder hos
    viessem ajudar contra ElRei D. Diniz porque hos moradores Dandaluzia
    eram com entradas, dos infieis jáa taõ destroidos, que vendo ha entrada
    dos Mouros ho quizeram assi fazer.

    *CAPITULO IX.*

    _Da razam porque ElRei D. Diniz desistio desta guerra, e se tornou ha
    Portugal_.

    Avia hum anno, e tres mezes que esta guerra antre Castella, e Portugal
    durava tam crua antre hos Castelhanos, e Portugueses, no quaal tempo ha
    Rainha Dona Isabel, que estava em Portugal por seus Sanctos dezejos, e
    muitas virtudes com que nacera recebia desta discordia grande nojo, e
    muita tristeza, e pera que tantos maales com beem, e paaz de todo
    cessassem, de contino cõ devotas, e perseveradas lagrimas fazia suas
    oraçoens ha Deos, pera que cõ sua piedade hos remediasse, com segura
    paaz, pois elle por paaz, e salvaçam do mundo, aho mundo quizera vir, e
    com esto nom leixava hos outros meios, e interesses secretos que pera
    efeito desso ahos Rex, e ahos de seu Concelho sempre apontava, mas
    aprouve ha Deos que vendo ElRei D. Fernando, e seus Tutores, e hos do
    seu Concelho, e principaes senhores de Castella que ha destroiçam de sua
    teerra por armas, e guerra jáa se nom podia cobrar, nem vinguar, antes
    hia cada vez em pior, e mais dano acordaram por melhor tomar ho remedio
    da paaz, e satisfazer ha ElRei D. Diniz nas couzas que juntamente
    requeria, porque com esso outra se remedeasse, e compuzesse em
    asseceguo, como fez.

    Porque sobre este acordo loguo enviaram roguar, e pedir ha ElRei D.
    Diniz que andava guerreando Castella que leixasse ha guerra, e que ha
    paaz, e concordia se faria antre elles, como elle quizesse, e com esto
    foi mui contente, e confiou que compririam com elle, e poz loguo defeza
    que mais se nom fizesse guerra nem maal em Castella, e com esto em se
    tornando pera seu Regno veio loguo por riba de Coa, onde loguo por
    cerquos, e combates cobrou ha seu poder ho senhorio de todolos Lugares
    daquella Comarqua, que aguora sam de Portugal, porque eram de D. Sancho
    que se fizera seu vassallo, e de sua contia, e ordenado receberam ElRei
    muito dinheiro, com que depois ho desservio, como atraas dice, hos quaes
    Lugares nom eram entaõ taõ afortalezados como ElRei depois hos fez, e
    por elles se deu booa satisfaçam em Castella aho dito D. Sancho por taal
    que cõ elles fizesse, como fez outro Escaibo antre Portugal, e Castella,
    como aho diante direi.

    *CAPITULO X*

    _Dos casamentos, e Escaibos que depois da concordia se fezeraõ antre
    estes Rex em Alcanizes_.

    Como esta concordia antre hos Rex, e seus Regnos foi sobre seguranças
    apontada como dice, ElRei D. Fernando, e ha Rainha sua madre, e ho
    Ifante D. Anrique seu Tutor pera se tudo fazer com mais firmeza, e maior
    autoridade sendo feito por prazer, e consentimento de todolos do Regno,
    chamaram sobre este cazo ha Cortes geraaes que se logo fizeram em
    Çamora, onde por todolos Estados dambolos Regnos de Castella, e de Liam
    foi concordado que por ceçarem danos, perdas, e outros grandes
    inconvenientes que da guerra com Portugal se seguiam era beem que ha
    paaz se fizesse com outorgua dos cazamentos, e das outras couzas, que
    ElRei D. Diniz requeria segundo fora apontado, e concordado antre elle,
    e ElRei D. Sancho e sobre esso enviaram loguo Embaixadores, e Procurador
    ha ElRei D. Diniz que era em Coimbra Alonso Peres de Gusmam pera lhe
    certifiquarem ho que nas Cortes fora asentado, e pera has couzas loguo
    averem devido efeito concordaram vistas das pessoas Reaes no Luguar
    Dalcanizes, que hee em Castella, pera onde hos Rex loguo partiram, e se
    ajuntaram no mez de setembro de mil e duzentos e noventa e sette annos,
    (1297) e com ElRei de Castella foram ha Rainha Dona Maria sua madre, e
    ho Ifante D. Anrique seu Tutor, e defensor dos Regnos, e com elles hos
    Ifantes, e senhores que aho diante direi na Escritura do escaibo onde
    sam particularmente nomeados.

    E com ElRei D. Diniz foi ha Rainha Dona Isabel, sua molher que levou
    consiguo ha Ifante Dona Costança sua filha, e ho Ifante D. Affonso
    irmaaõ delRei, D. Diniz, e hos Bispos, e senhores que na carta do
    escaibo particularmete estaõ nomeados, e ho Ifante D. Affonso erdeiro
    ficou na Villa de Trancozo em Portugal hos quaaes todos juntos asentaram
    principalmete entre si, e seus Regnos, e senhorios ha paaz, e seguridade
    por corenta annos, nos quaes fossem verdadeiros amiguos damiguos, e
    imiguos de imiguos, e que todalas pessoas de qualquer estado, e condiçam
    que fossem que de hum Regno aho outro durando ho tempo da paaz fizessem
    guerra, dano, ou maal, que fossem loguo entregues aho Rei, e Regno
    danificados pera delles se fazer justiça inteira segundo fosse ha
    qualidade do crime, e porque ouveram por beem que hos cazamentos que se
    ali haviam de fazer nom se concertassem, nem fezessem atee que todalas
    entreguas e escaibos das Villas, e Laguares de hum Regno ha outro fossem
    feitos, e concordados, e como atraaz elles estaõ apontados. Foi loguo
    feita huma carta de concordia das ditas couzas cujo treslado de verbo a
    verbo tornado fielmente por mim Coronista de Castelhano em Portuguez de
    proprio original que vi, e jaaz no Tombo he que se segue.

    * * * * *

    Em nome de Deos amem, saibam quantos esta carta virem, e leer ouvirem
    que como fosse contenda sobre Villas, termos, e partimentos, posturas, e
    preitos antre nós D. Fernando pela graça de Deos Rei de Castella, e de
    Liam, e de Toledo, Dalgezira, Sevilha, e Cardova, e de Murcia, e Jaem, e
    do Alguarve, e senhor de Molina de huma parte, e D. Diniz pela mesma
    graça de Deos Rei de Portugual, e do Alguarve, da outra por razaõ destas
    contendas sobre ditas nacem antre nós muitas guerras, e omezios, e
    excessos em tal maneira que de nossas terras dambos foram muitas
    roubadas, queimadas, e estraguadas em que se feez hi muito pezar ha Deos
    nosso Senhor por morte de muitos homens, vendo, e guardando que se aho
    diante fossem destas guerras, e discordias que estavam nossas terras
    dambos em tempo, e ponto de se perder por nossos peccados, e de vir as
    mãaos dos imiguos da nossa fee, e em fim por apertar tam grande
    desserviço de Deos, e da Santa Egreja de Roma, nossa madre, e tam
    grandes danos, e perdas nossas, e da Christandade, por ajuntar paaz,
    amor, e grande serviço de Deos, e da Egreja de Roma ho sobredito Rei D.
    Fernando com Concelho, e outorguamento, e por autoridade da Rainha D.
    Maria minha madre, e do Ifante D. Anrique meu tio, e meu Tutor, e guarda
    dos meus Regnos, e dos Ifantes D. Pedro, e D. Felippe meus irmãaos, e de
    D. Dioguo de Faram Senhor de Biscaya, e de D. Sancho filho do Ifante D.
    Pedro, e D. Joham Bispo de Tuy, e D. Joham Fernandes Adiantado moor de
    Galiza, e D. Fernam Fernandes de Molina, e D. Pedro Ponce, e D. Guarcia
    Fernandes de Villa maior, e D. Affonso Peres de Gusmam, e D. Fernam
    Pires, Mestre Dalcantra, e D. Estevaõ Pires, e D. Telo Justiça moor da
    minha Caza, e doutros Ricos homens boons de meus Regnos, e da Irmãdade
    de Castella, e de Liam, e dos Concelhos destes Regnos, e de minha Corte.

    E eu ElRei D. Diniz, suso dito com cõcelho, e outorgua da Rainha D.
    Isabel, minha molher, e do Ifante D. Affonso meu irmãao, e D. Martinho
    Arcebispo de Braga, D. Joham Bispo de Lixboa, e D. Sancho Bispo do Porto
    e D. Vasco Bispo de Lameguo, e do Mestre do Templo Davis, e de D.
    Affonso meu mordomo móor, senhor Dalbuquerque, e de D. Martim Gil meu
    Alferes moor, e de D. Joham Rodrigues de Briteiros, e de D. Pedro Annes
    Portel, e de Lonrenço Soares de Valadares, e de Martim Affõso, e de
    Joham Fernãdes de Lima, e de Joham Mendes, e de Fernam Pires de Barboza
    meus ricos homens, e de Joham Simam meirinho moor, de minha caza, e dos
    Concelhos dos meus Regnos, e de minha Corte ouvemos acordo de nos
    avirmos, e fazermos avenças antre nós nesta maneira que se segue, a
    saber, que eu Rei D. Fernando sobredito entendendo, e conhecendo que hos
    Castellos, e Villas da terra Darronhes, e Darecena com todos seus
    termos, direitos, e pertenças que eram de direito do Regno de Portugual,
    e de seu Senhorio que hos ouve ElRei D. Affonso meu avoo delRei D.
    Affonso vosso padre contra sua vontade, sendo estes Luguares delRei D.
    Affonso, e que outro si os tiveram ElRei D. Sancho meu Padre, e eu, e
    por esso pus com vosquo em Cidade Rodriguo, que vos desse, e entreguasse
    has ditas Villas, e Castellos, ou escaibos por elles apaar dos vossos
    Regnos de que vós, vos paguasseis, de dia de Sam Miguel que passou da
    era de mil trezentos trinta e quatro annos (1334) atée seis mezes, e
    porque volo assi nom compria douvos por essas Villas, e Castellos, e
    pellos seus termos, e pellos frutos da quelles que ahi ouvemos meu avoo
    ElRei D. Affonso, e meu padre ElRei D. Sancho, e eu outro si atee ho dia
    doje, Olivença, e Campo maior, que sam apaar de Badajoz, e Sam Felizes
    dos Gualeguos com todolos seus termos, e direitos, e pertenças, e com
    todo senhorio, e jurdiçam Real, que ajades vós, e vosso socessores por
    erdamento para sempre assi ha possessam, como ha propriedade, e tiro de
    mim e do Senhorio de meus Regnos de Castella, e de Liam, hos ditos
    Luguares, e todo direito que eu ha hi hei de hos aver, e douvolo, e
    ponho-o em vós, e vossos sucessores, e no Senhorio de Portugual, pera
    sempre.

    Outro si meto no vosso Senhorio, e de vossos socessores do Regno de
    Portugual para sempre ho Luguar que dizem Ouguela, que hee junto de
    Campo maior acima dito, com todos seus termos direitos, e pertenças, e
    dou ha vós, e ha todos vossos socessores do Senhorio de Portugual toda
    ha jurdiçam direito, e Senhorio Real que eu tenho, e devo ter de direito
    no dito Luguar Douguela, e tiro de mi, e do Senhorio de Castella, e de
    Liam, e ponho em vós, e em todos vossos socessores, e no Senhorio do
    Regno de Portugual pera sempre salvo ho Senhorio direitos, e herdades, e
    Egrejas deste Luguar Douguela, que hos aja ho Bispo, e Egreja de Badajos
    atee que com elle faça que volas solte assi como deve. Todas estas
    couzas de suso dittas vos faço porque nos quiteis dos ditos Castellos, e
    Villas Darronches, e Darecena e de seus termos, e dos fruitos que dahi
    ouvemos ElRei D. Affonso meu avoo, e ElRei D. Sancho meu padre, e eu.

    Outro si eu ElRei D. Fernando entendendo, e conhecendo que vós tendes
    direito em alguns Luguares dos Castellos, e Villas do Sabugual, e
    Alfaiates, e de Castel Rodriguo e Villar maior, e de Castel bom, e
    Dalmeida, e de Castel milhor, e Monforte, e doutros Luguares de riba de
    Coa, hos quaaes vós Rei D. Diniz tendes aguora em vossa maão, e porque
    vòs vos partis, e tiraaes do direito que tinheis em Valença, e em
    Ferreira, e no Esparragual que agora tem ha Ordem Dalcantra em sua maão,
    e do direito que aviades em Aia monte, e em outros Luguares que aviades
    em Liam, e em Gualiza, e assi porque vós vos partis, e tiraaes das
    demandas que me vós fazieis por rezaõ dos termos que sam antre ho meu
    Senhorio, e ho vosso, por esso eu me parto, e tiro dos ditos Castellos,
    e Villas, e Luguares do Sabugual, e Alfaiates, e de Castel Rodriguo, e
    de Villar maior, e de Castel bom, e Dalmeida, e de Castel milhor, e de
    Monforte, e dos outros Luguares de Riba de Coa, que aguora vós tendes em
    vossa maão, com todos seus termos e pertenças, e partome de toda ha
    demanda que eu tenho ou poderia ter contra vós, ou contra vossos
    socessores por rezam destes Luguares sobreditos de Riba de Coa, e cada
    hum delles, e outro si me parto de todo direito, ou jurdiçam, ou
    Senhorio Real tambem na possessam como na propriedade como em outra
    maneira qualquer que ho eu ahi tenha, e ho tiro de mi todo, e de meus
    Senhorios e de meus socessores, e dos Senhorios dos Regnos de Castella,
    e de Liam, e ponho em vós, e em vossos socessores, e no Senhorio do
    Regno de Portugual pera sempre, e mando, e outorguo que se por ventura
    aa alguns privilegios ou cartas ou estromentos parecerem, que forem
    feitos antre hos Rex de Castella, e de Liam, e hos Rex de de Portugual
    sobre estes Luguares sobre ditos davenças, onde posturas, demarcaçoens,
    e em outra qualquer maneira sobre estes Luguares que sejam contra vós ou
    contra vossos socessores, ou em vosso dano, ou em dano do Senhorio de
    Portugal, que daqui em diante nom valham nem tenham ha menagem, e
    firmeza nem se possam ajudar dellas eu, nem meus socessores, has quaaes
    todas revogo pera sempre.

    E eu ElRei D. Dinis asima dito por Olivença, e por Campo maior, e por
    Sam Felizes dos Gualegos que me vòs dais, e por Ouguela, que meto em meu
    Senhorio segundo asima he dito, eu me parto, e tiro dos Castellos, e
    Villas Darronches, e Darecena, e de todos seus termos, e direitos, e de
    todas suas pertenças, e de toda ha demanda que eu tenho, ou poderia ter
    contra vós, ou contra vossos socessores por razam destes Luguares
    sobreditos, e de cada hum delles que ElRei D. Affonso vosso avoo, e
    ElRei D. Sancho vosso padre, e vós ouvestes, e recebestes, e destes
    Luguares dou ha vós, e ha vossos socessores todo direito, e jurdição, e
    Senhorio Real, que eu ei, e de direito poderia aver nesses Castellos, e
    Villas Darronches, e Darecena, por qualquer maneira que ho eu ahi
    ouvesse, e ho tiro do meu, e de meus socessores, e do Senhorio do Regno
    de Portugal, e ho ponho em vós, e em vossos socessores, e no Senhorio do
    Regno de Castella, e de Liam, pera sempre, outro si eu ElRei D. Diniz
    porque vós, vos tiraaes dos Castellos, e Villas do Sabugual, e
    Dalfaiates, e de Castel Rodriguo, e de Villar mayor, e de Castel bom, e
    Dalmeida, e de Castel milhor, e de Monforte, e doutros Luguares de Riba
    de Coa, com seus termos que eu aguora tenho em minha maaõ assi como
    asima hee dito, eu tambem me tiro, e aparto de todo direito, que eu ei
    em Valença, e em Ferreira, e no Esparragual, e em Aia monte, outro si me
    parto de todalas demandas que tenho, e poderia teer contra vòs, em
    todolos outros Luguares de todos vossos Regnos, e Senhorios em quaalquer
    maneira, outro si me parto de todalas demandas que eu tinha contra vós
    por razam dos termos que sam antre ho meu Senhorio, e ho vosso sobre que
    era contenda.

    Eu ElRei D. Fernando de suso dito por mi, e por todos meus socessores
    com concelho, e outorguamento, e autoridade da Rainha minha madre, e do
    Ifante D. Anrique, meu tio, e meu Tutor, e guarda de meus Regnos prometo
    ha booa fee, e juizo sobre estas couzas asima ditas, e cada huuma dellas
    pera sempre nunqua vir contra ellas por mi, nem por outrem defeito, nem
    de direito nem conselho, e se assi nom fizer que fique por perjuro, e
    por tredor como quem mata seu senhor, outra, e Castello, e nós Rainha, e
    ho Ifante D. Anrique asima dito outorguamos todas estas couzas, ou cada
    huuma dellas, e damos poder, e autoridade ha ElRei D. Fernando pera
    fazellas, e prometemos por booa fee por nós, e por ho dito Rei D.
    Fernando, e juramos sobre hos santos Evangelhos, sobre hos quaes pozemos
    nossas maãs, e fazemos menagem ha vós Rei D. Diniz, que ElRei D.
    Fernando, e nós tenhamos, e cumpramos, e guardemos, e façamos teer
    comprir, e guardar todalas couzas sobreditas, e cada huma dellas pera
    sempre, e de nunqua virmos contra ellas por nós, nem por outrem defeito,
    nem de direito, nem concelho, e se assi ho nom fizermos fiquemos
    perjuros, e tredores como quem mata senhor, ou trae Castello.

    E eu ElRei D. Diniz, por mi, e por ha Rainha Dona Isabel minha molher, e
    polo Ifante D. Affonso meu filho erdeiro, e por todolos meus vassallos,
    e socessores, prometo aa booa fee, e juro sobre hos Sanctos Evangelhos
    sobre que ponho minhas mãaos, e faço menagem ha voos Rei D. Fernando por
    voos, e por vossos socessores, e ha voos Rainha Dona Maria, e ha voos
    Ifante D. Anrique de teer, e guardar, e comprir todas estas couzas acima
    dictas, e cada huma dellas pera sempre, e nunqua vir contra ellas por
    mi, nem por outrem defeito, nem direito, nem conselho, e se assi nom
    fizer que fique por perjuro, e tredor como quem mata senhor, ou trae
    Castello. E porque todas estas couzas sejam mais firmes, e mais certas,
    e nom possam vir em duvida, fazemos desto fazer duas cartas em hum teor,
    que hee huma como outra seladas com nossos sellos de chumbo de noos
    ambos os Rex, e dos sellos das Rainhas sobredictas, e do Ifante D.
    Anrique, e em testemunho de verdade; das quaaes cartas cada hum de noos
    hos Rex ha de teer senhas: feita em Alcanizes quinta feira doze dias do
    mez de Setembro da era de mil duzentos noventa e sete annos (1297).

    E aalem deste escãibo geral se passaram outras cartas particulares pera
    hos Lugares que se aviaõ denetregar por virtude das quaes ElRei D. Diniz
    mandou tomar posses, que se fizeraõ solenemente com desnaturamentos dos
    vassallos, de Castella, tornando aho Senhorio de Portugal, de que ha
    estromentos na Torre do Tombo, e por estas Villas, & Castellos de Riba
    de Coa, que eraõ de D. Sancho sabeendo ElRei D. Fernando, que lhos avia
    de dar ha ElRei D. Diniz logo por acordo das Cortes de Çamora, deu ElRei
    por ellas em sua satisfaçaõ aho dicto D. Sancho, e ha Dona Margarida sua
    molher has Villas de Galisteu, e de Grada, e de Miranda em Castella, e
    porque destes escãibos poderia nacer duvida, porque Saõ Felizes dos
    Galegos nom hee oje de Portugal, assi como saõ Olivença, e Campo maior,
    e Ouguela, que com elles foraõ dados por Arronches, e Daracena, hee de
    saber, que ElRei D. Diniz ouve delles ha posse, como dos outros Lugares,
    e lhe fez ho Castello, e Alcacer, que teem, mas depois fez delle doaçaõ
    ha D. Affonso Sanches seu filho bastardo, e seu Mordomo moor, que por
    consentimento delRei seu padre, ho deu cõ mais certa soma de dinheiro ha
    D. Affonso de Molina por ametade Dalbuquerque, de que ho dicto Affonso
    Sanches foi Senhor, e porque ElRei D. Affonso ho Quarto, irmaão deste
    Affonso Sanches em vida delRei seu padre, teve cõ elle imizade, e
    competencia, logo como Regnou ho desterrou de Portugal, e se foi pera
    Castella, onde foi mais Senhor de Medelim, e doutras Villas, e se fez
    vassallo delRei D. Fernando, por onde Portugal perdeo Saõ Felizes, pella
    dicta doaçam delRei D. Diniz, e por este desterro de Affonso Sanches,
    nom ouve Albuquerque, como aho diante mais largamente se diraa.

    *CAPITULO XI*

    _Como ElRei D. Fernando cazou com a Ifante Dona Costança, e ho Ifante D.
    Affonso de Portugal com ha Ifante Dona Breatis de Castella, e das
    menagens, que sobresso se fizeraõ, e da decisaõ, que fez nas contendas
    que avia antre hos Principes Despanha, e da grandeza, e prudencia com
    que nella se ouve, e muitas mercees que fez_.

    Tanto que foraõ acabados hos dictos escãibos, e concordias, e todalas
    outras couzas sobre que antre hos Rex avia algumas duvidas, e debates,
    logo ElRei D. Fernando recebeo por palavras de prezente ha Ifante Dona
    Costança filha delRei D. Diniz, e pera ho dicto cazamento seer pera
    sempre mais firme, assi no espiritual, como no temporal, ho dicto Rei D.
    Fernando, e ha Rainha Dona Maria sua madre, juraram solenemente que ho
    dicto Rei nunqua por outra nhuma molher deixaria ha Ifante Dona
    Costança, salvo por sua morte, e esto fizeram, porque nom tinham avida
    dispensaçam do Papa, que por serem muito parentes, era necessaria, ha
    quaal logo procuraram, e ouveram, e em se acabando ho dicto recebimento,
    ElRei D. Fernando dice por si aho Ifante D. Anrique, e ahos outros
    Ifantes, e Senhores nomeados, que eraõ prezentes, nesta maneira.

    Porque deste cazamento, que Deos quis que fosse, eu sam muito honrado, e
    contente folgaria que por nhum cazo, salvo por morte antre noos ambos
    nunqua se desfizesse, ca vos rogo, encomendo, e mando, que pera maior
    firmeza, e segurança delle jureis aqui ahos Sanctos Evangelhos, e façais
    por voos preito, e menagem ha ElRei D. Diniz, que nunqua leixarei a
    Ifante Dona Costança sua filha, minha molher, e seendo cazo que eu ha
    queira leixar, ho que Deos nom mande, que voos me dessirvaes, sejaaes
    com vossas pessoas, teerras, e vassallos contra mi, e com tudo ajudeis,
    e sirvaes ha ElRei D. Diniz, e ha seus socessores atee que torne ha
    viver com ella, assi como com minha molher em toda sua vida, e se eu for
    vivo, que aalem desso cumpra inteiramente todalas couzas que antre noos
    aqui saõ postas, e concordadas, e pera esto melhor, e mais livremente ho
    poderdes fazer, eu dagora pera entaõ vos ei pera esso por desnaturados,
    e vos quito todolos preitos, e menagens, e juramentos, que tee ho dia
    doje como vassallos me tinheis feito pera quando eu nom comprir ho que
    disse, vos servirdes, e ajudardes ha ElRei D. Diniz, e ha seus
    socessores que vos para esso requererem.

    Hos quaes juramentos foraõ solenemente tomados, e assi has menagens
    dadas pera ho sobredicto por si ho comprirem, e manterem de que se
    tomáram estromentos publicos, que ElRei D. Diniz trouxe consigo ha
    Portugal, e outros taes de seus juramentos, e outros juramentos fizeram
    muitos outros grandes Senhores de Castella, que ha este tempo eram
    auzentes, e hos enviaram ha ElRei D. Diniz mui autenticos, porque assi
    foi concordado, mas de huns, nem doutros nom ouve necessidade, porque
    ElRei D. Fernando depois desto viveo beem, e honestamente, e com mais
    amor, e conformidade com ha dicta Rainha Dona Costança sua molher, e em
    seu poder faleceo. E assi hos Rex foraõ sempre depois em toda sua vida
    em muita paaz, e concordia, e sobre ha entrega dos dictos Lugares nom
    ouve, nem se seguio força feita por Castella, nem alguma resistencia.

    Acabadas estas couzas ElRei D. Fernando se partio Dalcanizes com ha
    Rainha sua molher, e ElRei D. Diniz trouxe logo pera Portugal consigo, e
    por Esposa do Ifante D. Affonso seu filho, ha Ifante Dona Breatis irmãa
    delRei D. Fernando, filha delRei D. Sancho, e da Rainha Dona Maria, ha
    quaal seendo ainda mui moça, andou mui honradamente em caza delRei D.
    Diniz, em quanto ambos eraõ soomente cazados por palavras de futuro,
    cujo prometimento se fez por elles em Coimbra na era de mil trezentos e
    sete annos onde ElRei Diniz deu logo aho Ifante seu filho, seendo em
    idade de sete annos, caza mui honrada, e de muitos vassallos, e de mui
    ricos homens, e de seu asentamento lhe deu grande contia de dinheiro, e
    muitos Lugares de sua jurdiçaõ, e pera teer pessoas de seu Concelho, e
    pera officiaes de sua caza, e fazenda lhe deu hos homens mais principaes
    que em seu Regno sentio, que eraõ melhores, e mais pertencentes asi,
    como foi D. Martinho Arcebispo de Braga, e ho Conde D. Martim Gil de
    Souza, Alferes moor, e assi outros escolhidos pera todolos outros
    officios. E aalem do ordenado de sua caza, que mui perfeitamente tinha,
    se acha que deu mais aho Ifante D. Affonso oito mil livras, que valiaõ
    do preço dagora ha tres mil e duzentos cruzados, de que pudesse fazer
    beem, e mercee de como quizesse.

    E depois ho dicto Ifante recebeo por palavras de prezente ha Ifante sua
    molher, e se fizeraõ suas festas, e vodas em Lixboa, e ElRei lhe deu
    Vianna, e Terena, e ho Castello Dourem, e ha teerra Darmamar junto de
    Lamego, e ha sua molher muitas teerras, e grandes joias, e riquezas,
    como aho diante se diraa.

    E posto que estes cazamentos, e booa concordia fosse feita antre estes
    Rex, nem por esso ElRei D. Fernando fiquou em paaz, que nom leixou de
    teer em seus Regnos guerras, e grandes deferenças, com ElRei D. James
    deste nome ho Segundo Rei Daragaõ irmaaõ da Rainha Dona Isabel, molher
    delRei D. Diniz por razaõ do Regno de Murcia, e com D. Affonso de
    Lacerda seu primo com irmaaõ, que tambem se chamava Rei de Castella, e
    com ho Ifante D. Joham seu tio, que se chamava Rei de Liam, hos quaaes
    eram ajudados, e favorecidos de muitos, e grandes Senhores de Castella,
    e de Liam, contra ho dicto Rei D. Fernando, que por teer no mesmo Regno
    tam grandes contrairos, padecia grandes afrontas, e era posto em muitas
    necessidades, nas quaaes se soccorreu muitas vezes ha ElRei D. Diniz seu
    sogro, com que se vio em Fonte guinaldo junto do Sabugal, e em
    Badalhouse, que com gentes darmas, e muito dinheiro de seu tezouro,
    durando suas guerras ho ajudou, e sosteve grandemente, atee que com
    todos hos dictos seus contrairos, e competidores ho poz por si em paaz,
    e asocego, como aho diante direi, porque nas derradeiras vistas, que
    tiveraõ em Badalhouse, que foi na era de mil trezentos e tres annos
    (1303) se acha por certa arrecadaçam da despeza do tezouro delRei D.
    Diniz, que elle deu de graça aho dicto Rei D. Fernando seu genro hum
    milhaõ de maravedis, que segundo ha valia, e conta das moedas faziaõ
    numero de sincoenta e sinco mil cruzados dos nossos, e mais lhe deu huma
    copa de huma esmeralda, que foi avaliada em doze mil e tantas dobras
    douro.

    E porque nom fiquem suspensas has cauzas, e fundamentos, que ouve pera
    antre estes Rex, e Senhores aver has guerras, e oompetencias que dice, e
    porque ha Estoria se entenda melhor, e nom fique confuza, farei dellas
    huma breve, e sustancial decraraçam. E primeiramente D. Affonso de
    Lacerda tinha guerra com ElRei D. Fernando ha quaal ficára começada do
    tempo delRei D. Sancho, porque D. Affonso era filho primeiro ligitimo do
    Ifante D. Fernando de Lacerda, e da Rainha Dona Branca filha delRei Saõ
    Luis de França, ho quaal Ifante seendo jurado por erdeiro dos Regnos de
    Castella, e de Liam, faleceo em vida delRei D. Affonso ho Decimo de
    Castelia seu pai teendo jaa filhos, ha saber este D. Affonso de Lacerda,
    e outro D. Fernando, dos quaaes D. Affonso era ho maior, assi por ser
    neto do dicto Rei D. Affonso, como por contrato do cazamento feito antre
    ElRei Saõ Luis de França, e ho dicto Rei seu avoo devera erdár hos
    Regnos de Castella, e de Liam, e por esta cauza ho dicto D. Affonso de
    Lacerda andando desterrado em Aragaõ, elle em vida delRei D. Sancho seu
    tio, em tempo deste Rei D. Fernando de Castella seu filho, se chamou, e
    intitulou Rei de Castella, e porque o titulo, e Regno de Liam elle hos
    deu aho Ifante D. Johaõ seu tio, pera que ho ajudasse, como logo direi.

    E porque ho dicto Rei D. Affonso de Castella seu avoo, lhe tinha dado ho
    Regno de Murcia, que elle ganhara ahos Mouros em que tambem por ElRei D.
    Sancho ouve cõtradiçaõ, como atraaz fica decrarado este dicto D. Affonso
    de Lacerda pera teer ajuda, e favor delRei D. James Daragaõ, que era seu
    tio, pera has couzas de Castella lhe deu ho direito, que tinha no Regno
    de Murcia, cõ toda sua Conquista, por beem do quaal assi durando ho
    tempo da titoria delRei D. Fernando em quanto foi moço ho dicto Rei D.
    James ouve, e conquistou ho dicto Regno de Murcia, que pertencia ha
    Castella, e ho nom quizera soltar aho dicto Rei D. Fernando, sobre que
    tinha guerra, ha quaal ElRei D. Diniz antre elles tambem concordou
    quando foi ha Aragam, como aho diante direi, e ho dicto Rei D. Fernando
    tinha mais guerra com ho Ifante D. Johaõ seu tio, irmaaõ delRei D.
    Sancho seu pai, ho quaal Ifante se chamava Rei de Liam com outorga, e
    consentimento do dicto D. Affonso de Lacerda seu sobrinho, que do dicto
    Regno, como Rei de Castella, e de Liam, lhe fizera doaçam, porque fosse
    em seu favor contra ElRei D. Fernando, e lhe ajudasse ha ganhar
    Castella.

    E ha este partido contra ElRei D. Fernando, e em ajuda do Ifante D.
    Johaõ favorecia, e ajudava muito D. Johaõ Nunes de Lara, que tinha
    grande teerra com muitas gentes, e Fortalezas, este era dezavindo, e
    fóra do serviço delRei D. Fernando, porque ha Rainha Dona Maria sua
    madre, e ho Ifante D. Anrique seu Tutor, nom compriaõ com elle has
    couzas, que ElRei D. Sãcho lhe prometera quãdo ElRei D. Diniz da prizaõ
    em que estava em Portugal ho enviou solto, e honrado ha Castella, como
    airaaz fica, e por esso elle deixando suas Fortalezas de Castella ha
    recado, se foi ha França, e depois tornandose pera Aragam, e Navarra,
    trouxe destes Regnos consigo muita gente, com que entrou em Castella, e
    fez nella muito dano especialmente na teerra de D. Johaõ Affonso
    Dalfaro, que era delRei D. Fernando, ha quaal teerra correo, e estragou
    por tres dias, no cabo dos quaaes ho dicto D. Johaõ Affonso com muita
    gente delRei que consigo tinha, veio buscar ho dicto Johaõ Nunes, ho
    quaal confiando dos Navarros, e Aragonezes ahos primeiros encontros lhe
    fogiraõ todos, e elle ficou soomente com vinte e seis Cavalleiros de sua
    caza, hos quaaes como boons, leaes, e esforçados morreraõ todos ante
    elle, e sendo muito ferido foi na batalha prezo.

    E por esso hos seus das muitas Fortalezas, que por elle tinhaõ em
    Castella nom leixaram sempre de fazer ha guerra como dantes faziam, pelo
    quaal na prizaõ onde ho dicto Johaõ Nunes jazia pera ser solto, ouve
    taal concordia, que elle desse como deu aho Ifante D. Anrique tutor, e
    defensor, por molher ha Dona Johana Nunes, ha que disseraõ Palombinha, e
    que elle Johaõ Nunes cazasse, como cazou com Dona Maria filha de D.
    Diogo Senhor de Biscaya, com grande acrescentamento de dinheiro, por
    contia aalem do que tinha. E tanto era ho poder, e valor deste Johaõ
    Nunes em Castella, que tanto que depois desta sua prizaõ, e desta sua
    concordia delRei D. Fernando, e delle foi feita, logo por ho Ifante D.
    Johaõ, e D. Affonso de Lacerda, que se chamava Rei de Castella, se foi
    logo pera Aragam, e consentio na concordia, que aho diante direi; e ho
    Ifante D. Johaõ por esso tambem leixou ho titulo de Rei de Liam, e
    quebrou hos selos de Rei que trazia, e veio beijar ha maõ ha ElRei D.
    Fernando, e ficou por seu Vassallo, e depois este Ifante D. Johaõ sendo
    Tutor delRei D. Affonso, filho deste Rei D. Fernando juntamente com ho
    Ifante D. Pedro, em huma ora por afronta, e sem feridas, ambos morreram
    na Veiga de Grada, e do dicto Ifante D. Johaõ ficou filho erdeiro D.
    Johaõ, ho que disseraõ ho torto, Senhor de Biscaya, de que atraaz dice.

    E feitas assi estas concordias cõ ho Ifante D. Johaõ, e cõ D. Johaõ
    Nunes, ainda ficavaõ ha ElRei D. Fernãdo duas arduas contendas por
    concordar de que se esperavaõ grãdes guerras, e muitos danos se nom se
    atalhassem, e huma era antre ElRei D. James Daragaõ sobre ho Regno de
    Murcia, e ha outra antre D. Affonso de Lacerda, sobre ho Regno de
    Castella como atraaz dice. E seendo neste tempo Prezidente na Egreja de
    Roma ho Papa Benedicto Undecimo, que era homem Sancto, que sobre todos
    mais desejou, e procurou ha paaz, e amizade dantre hos Rex, e Principes
    Chistãaos sabendo desta discordia, que antre estes Rex avia, lhe enviou
    hum Nuncio com seus Breves, encomendandolhe com tantas razoens, que
    dezistissem do maal da guerra, e escolhessem ho beem da paaz, e pera
    antre elles se beem fazer como devia se louvassem em algum boom Juiz,
    que antre elles comprisse, e concordasse suas contendas, e que Sua
    Santidade ajudaria ha comprir sua determinaçaõ.

    E hos Rex ambos de Castella, e Aragam obedecendo ahos concelhos, e
    mandados do Papa se concordaram, e enviaram dizer, que antre elles nom
    podia aver melhor Juiz, nem mais competente, que ElRei D. Diniz de
    Portugal, e pediam ha Sua Santidade, que pera elle ho fazer sem escuza,
    e com maior obrigaçaõ lho quizesse encomendar, porque aalem de ser Rei
    mui justo, e de mui craro juizo, tinha com elles ambos mui estreito
    devido, porque era sogro, e primo com irmaaõ delRei D. Fernando de
    Castella, cunhado, e primo delRei D. James Daragam, cazado cõ ha Rainha
    Dona Isabel sua irmãa. Da quaal couza prouve muito aho Papa, e ha
    encomendou com grande afeiçaõ ha ElRei D. Diniz, que por lhe obedecer, e
    fazer couza dina de taal Rei, e assi por has continuas presses da Rainha
    Dona Isabel sua molher com que lho pedia, aceitou ho juizo por sua
    parte, em que tambem entrou ha determinaçaõ, e concordia sobre ha
    contenda, que era antre ElRei D. Fernando, e ho Ifante D. Affonso de
    Lacerda, que trazia o sello, e armas direitas do Regno de Castella,
    sobre que ambos tinham guerra, acerca das quaaes couzas ante de se
    finalmente concordarem ho Ifante D. Johaõ, tio delRei D. Fernando, de
    que atraaz dice, foi como seu procurador ha ElRei D. James Daragam, e
    aho Ifante D. Affonso de Lacerda, e com elles praticou, e asentou hos
    Juizes, que aviam de seer, e has couzas particularmente sobre que ElRei
    D. Diniz avia com hos outros Juizes dentender, e dar sua sentença.

    E asentaraõ, que no que tocava ha ElRei D. Fernando com ElRei D. James
    sobre ho Regno de Murcia, fossem Juizes ElRei D. Diniz, e ho dicto
    Ifante D. Johaõ, e D. Ximeno Bispo de Çaragoça, e que na contenda, e
    diferença, que era antre hos dictos Rex D. Fernãdo e D. Affonso de
    Lacerda, fossem Juizes hos dictos Rex D. Diniz e D. James soomente sobre
    huns, e outros fizessem seus compromissos autorizados, e asellados de
    seus sellos de chumbo, ha saber ho delRei D. James Daragam feito ha
    vinte dias Dabril da era de mil trezentos e quatro annos,(1304) e pera
    segurança delle estar pela sentença que se desse, poz em ha refens hos
    Castellos de Arica, e de Verdejo, e de Gomir, e de Borja, e de Malom. E
    ho Compromisso delRei D. Fernando, foi ha tres de Maio da era de mil
    trezentos e quato annos.

    E com estes Castellos no dicto Compromisso logo assinados por ha refens,
    e seguranças de comprir qualquer sentença, e determinaçam, que pelos
    dictos Juizes se desse, ha saber Alfaro, Cerveira, Otoom, & Sancto
    Estevaõ, e Atença. E tanto que estes Compromissos foraõ concordados dos
    Rex de Castella, e Daragam, e assi ho Ifante D. Affonso de Lacerda ha
    que tocava, enviaram por seus Embaixadores pedir ha ElRei D. Diniz, que
    logo quizesse hir em pessoa por quanto has dictas contendas finalmente
    se aviaõ de sentenciar, e determinar pelos Juizes atee Sancta Maria
    Dagosto, do que ha ElRei D. Diniz muito aprouve, e se feez logo prestes,
    e se foi aa Cidade da Guarda, donde logo partio, e entrou em Castella
    por Cidade Rodrigo, no mes de Junho da dicta era, e levou consigo ha
    Rainha Dona Isabel sua molher, e ho Ifante D. Affonso seu irmaaõ, e D.
    Pedro seu filho, e ho Conde D. Johaõ Affonso, e Prelados, e Infançoens,
    e Cavalleiros em numero de mil pessoas, afora outras muitas gentes pera
    que feez prestes has gentes de seus Regnos, e na Guarda aprovou, e
    escolheo della ha que quiz, que foi muita, e mui honrada, e ha mais
    riqua, e concertada de suas pessoas, cavallos, arreios, e vestidos, que
    atee aquelle tempo em semelhante cazo se visse, e pera esta ida ouve
    ElRei D. Diniz grandes ajudas de dinheiro de seus poovos.

    Ante que ElRei partisse da Guarda, chegou ha elle Diogo Garcia de
    Toledo, Cavalleiro da Caza delRei D. Fernando, e com elle dous seus
    escudeiros com has fraldas das capas cheias de chaves daquellas Villas,
    e Castellos por onde ElRei D. Fernando foi certificado que seria a ida e
    vinda delRei D. Diniz, e nellas lhe fazer prestes has pouzadas,
    mantimentos, e couzas que ha elle, e ha suas gentes comprisse, e mais
    entregar-lhe aquellas chaves, que eram das Villas, e Castellos por onde
    avia de passar pera nellas pouzar, e fazer dellas livremente todo ho que
    quizesse, como de suas proprias. ElRei D. Diniz lhe dice, que ha ElRei
    D. Fernando elle lhe gradecia muito seu convite, e assi ho offerecimento
    de suas Villas, e Castellos, de que lhe rogava, que ho ouvesse todo por
    escuzado, e que por escuzar alguns boliços, e alevantamentos de suas
    gentes com has de Castella, elle nom esperava de pouzar em Villas, e
    povoaçoens, antes ho mais alongado dellas que podesse, pera que levava
    muitas, e booas tendas, em que se alojaria.

    E porèm ali por acordo de pessoas, que ho beem sabiaõ concordou todas as
    jornadas, e alojamentos, que faria, atee Aragaõ, e foi acordado, que
    Diogo Garcia, dous, ou tres dias sempre fosse, como foi diante pera lhe
    fazer trazer hos mantimentos, e couzas necessarias, que ElRei mandava ha
    todos pagar mui liberalmente, e por esso lhas traziaõ com booa graça, e
    em grande abastança, em que chegando ElRei D. Diniz aa Villa de Coelhar,
    que hee em Castella, ho veo receber ElRei D. Fernando, e com elle ho
    Ifante D. Johaõ, e outros muitos grandes, e Senhores de Castella, e
    depois de averem prazer, e consultarem antre si has couzas, que pediaõ,
    se partiraõ da li com fundamento de todos irem, como foram atee Soria, e
    foraõ apartados por dous caminhos, e nom muito afastados por rezaõ de
    huns, e outros averem melhor suas provizoens, e mantimentos, e de Soria
    donde ElRei de Castella se espedira delle, ElRei D. Diniz, e ha Rainha
    sua molher, e ho Ifante D. Johaõ de Castella passaram ha Grada, que hee
    do derradeiro Lugar de Castella, fronteiro Daraguam, onde com muitos, e
    nobres Cavalleiros, e Donas Daragam hos veio receber ElRei D. James, e
    ha Rainha Dona Branca, sua molher, e aho outro dia comeraõ todos com
    ElRei D. Diniz, que de baxellas douro, e de prata, e doutros Reaes
    comprimentos, hia tam abastado, e apercebido, como pera convite de
    tantos, e taaes Rex, e em seus proprios Regnos devidamente se requeria.

    Acabados hos convites ElRei, e ha Rainha Daragam se volverão ha
    Tarraçona, e ElRei D. Diniz, e a Rainha sua molher, e ho Ifante D. Johaõ
    aho outro dia se foraõ aa mesma Cidade onde era concordado, que pera
    determinação de seus debates todos aviaõ de seer juntos, salvo ElRei de
    Castella, que nom avia de seer prezente, porque ho dicto D. Johaõ seu
    tio por todas suas couzas hia por seu Procurador soficiente. Tanto que
    estes Rex, e Senhores foraõ juntos em Tarraçona ouvirão has partes, e
    seus Procuradores sobre has cousas, que ha cada hum tocava, ElRei D.
    Diniz, e ho Ifante D. Johaõ, e D. Ximeno, Bispo de Çaragoça Juizes
    arbitros, e deputados, que eraõ pera hos debates, e duvidas que avia
    antre ElRei D. Fernando de Castella, e ElRei D. James Daragam sobre ho
    Regno de Murcia.

    Ahos oito dias do mez Dagosto do dicto anno, deram sentença ha saber,
    que Cartagena, e Guadamir, e Alicante, e Acheche, com seu porto de maar,
    e com todos seus termos, e com todo ho que lhe pertencia, e podia
    pertencer, assi como Talha Agoa de Segura, antre ho Regno de Valença, e
    antre ho mais alto cabo do termo de Vilhena, tirando desto ha Cidade de
    Inice, e de Molina, e seus termos todos, e outros sobredictos Lugares
    ficassem, e fossem pera sempre DelRei Daragam, e de seu Senhorio, salvo,
    que Vilhena ficasse ha D. Johaõ Manuel, e que o Senhorio, e propriedade
    ficasse ha ElRei Daragam, e que ha Cidade de Murcia, e de Molina, e
    Monte Agudo, e Loreina, e Alfama, com todolos seus termos, e todolos
    outros Lugares, que saõ do Regno de Murcia, tirando hos sobredictos
    Lugares, ficassem ha ElRei de Castella, e que se soltassem prizioneiros
    de huma parte, e da outra, e assi quaaesquer arefens, e segurãças dadas
    por elles, e que este contrato jurasse ElRei D. Fernando em pessoa, e
    fizesse jurar, ha todolos Grãdes Senhores de seu Regno.

    E esta sentença com outras muitas crausulas, que aqui nom fazem aho
    propozito, foi dada no Lugar de Torrelhas, sentenceada junto de
    Tarraçona Sabado oito dias do mez Dagosto, da era de mil e trezentos
    annos. E aho pubricar da dicta sentença eraõ prezentes ho dicto Rei D.
    James Daragam por si, e por ElRei D. Fernando como seus Procuradores
    soficientes eraõ prezentes Fernaõ Gomes seu Chançarel, e Notairo moor do
    Regno de Toledo, e Diogo Garcia, seu Chançarel moor do Selo da puridade,
    e Mordomo da Rainha Dona Costança, sua molher, hos quaaes todos
    consentiram na dicta sentença, ha cuja pubricaçaõ eram em pessoas
    prezentes, Grandes Senhores do Regno de Portugal, e de Castella, e
    Daragam, e na dicta sentença saõ particularmente nomeados.

    E tanto que esta sentença foi pubricada, logo no mesmo dia, lugar, e
    anno, prezente has mesmas testemunhas, ElRei D. Diniz, e ElRei D. James
    sobre contenda, que era antre ElRei D. Fernando, e D. Affonso de
    Lacerda, que se chamava Rei de Castella por cõcordia dambos, deraõ, e
    pronunciaraõ outra sentença porque ho dicto D. Affonso de Lacerda
    ouvesse pera si no Regno de Castella livres pera sempre estas couzas, ha
    saber Alva de Tormes, e Bejar, e Vai de Arnajem, e Mançanares, e Alga
    boa, e hos montes Daguda de Magam, e Povoa da Çarça com seu Alfoz, e ha
    teerra de Lemos, e Robaina, que hee no Xarafe, e ametade Della, e
    Baldaia, e hos moinhos, e ha Ilha de Sibilla, que foraõ de D. Johaõ
    Mateus, e hos moinhos, e ha Cidade de Fornachuellos, que foraõ de Nuno
    Fernandes de Valdenebro, e Incasta, e hos moinhos de Cordova. E qne ho
    dicto D. Affonso de Lacerda, entregasse ha ElRei D. Fernando certos
    Castellos, que tinha de Castella, e que leixasse pêra sempre ho titulo,
    e selo, que tinha de Rei de Castella, com outras muitas seguranças de
    juramentos, e de Castellos, que ElRei D. Fernando poz em arefens atee
    trinta annos. E ha pubricaçaõ desta sentença ho dicto D. Affonso de
    Lacerda nom quis estar por vergonha em pessoa, posto qne nella
    consentio, e aprovou. Das quaaes sentenças hos dictos Juizes, mandaram
    passar suas cartas ha seladas de seus selos.

    E dadas ha cada huma das partes ha que tocava, e com estas concordias
    assi feitas toda Espanha cercada de Rex Christãaos della, ficou em paaz,
    e ha secego, e ElRei D. Diniz, e ElRei Daragam, com has Rainhas suas
    molheres se partiram logo de Tarraçona, e se vieram todos Aguda, onde
    ElRei de Castella com ha Rainha Dona Maria sua madre, hos estava
    esperando, e hos sairam ha receber grandemente, acompanhaados com todo
    seu Estado, e com ha maior honra, que então se pode fazer. E hos Rex
    comeraõ aquelle dia com ho dicto Rei D. Fernando, e has Rainhas Dona
    Isabel de Portugal, e Dona Branca Daragam, comeram com ha ditca Rainha
    Dona Maria de Castella, e alli veio D. Fernando de Lacerda, irmaão menor
    de D. Affonso de Lacerda, chamado por mandado delRei D. Diniz, e trazido
    Dalmaçaõ donde estava pelo Conde D. Pedro seu filho, onde estava, ElRei
    D. Diniz lhe deu grandes joias, e fez grande mercee, e assi ho fez ficar
    por vassallo delRei D. Fernando, que depois lhe fez muita honra, e
    acrecentamento, porque depois do morte do Ifante D. Anrique seu tio, e
    tutor cazou ha dicto D. Fernando com Dona Johana Nunes de Lara, que foi
    molher do Ifante, como atraaz se dice, com que ouve muita teerra, e
    grande fazenda, de que ouve filhos honrados.

    E alli em Aguda hos tres Rex Despanha, que eram juntos, e assi ho Ifante
    D. Johaõ por contrato feito firmáram todos quatro suas amizades, e
    lianças, pera dahi em diante elles, e seus sucessores serem pera sempre
    amigos de amigos, e imigos de imigos, e se por ventura alguum delles em
    sua vida, ou depois alguum, que delles descendesse fosse contra esta
    paaz, e amizade, e liança, que hos outros dous fossem contra elle, por
    guerra, ou por outra qualquer maneira lhe fazerem guardar, e cumprir
    esta postura, ha quaal queriam, que fosse confirmada pelo Papa com
    censuras, e penas de grandes excomunhoens, em que logo encorresse aquelle
    que ha quebrasse, e fosse contra ella, e que cada hum sem poder de
    procuraçaõ dos outros podesse por si empetrar, e aver esta confirmaçaõ
    do Papa.

    E com esta concordia feita, e acabada, hos Rex mui alegres, e contentes
    se despediram, ha saber ElRei Daragam pera Tarraçona, e ElRei D. Diniz
    pera Soria, onde esperou ElRei D. Fernando seu genro, e ambos dalli por
    desvairados caminhos, se vieraõ ha Valhadolid onde estava ha Rainha Dona
    Costança filha delRei D. Diniz e molher delRei D. Fernando.

    E porque nom passassem sem lembrança, e por honra, e louvor delRei D.
    Diniz has muitas grandezas, e grandes nobrezas de que nesta jornada em
    dous Regnos estranhos, e cõ tamanhos Rexuzou hee de saber por certa
    verdade que ElRei D. Diniz chegou ha Tarraçona ante de darem, e
    pronunciarem has dictas sentenças, ElRei D. James Daragam seu cunhado,
    pera ha guerra dos Mouros, e pera outras necessidades, que se lhe
    offereciam lhe pedio emprestados des mil dobras douro, dizendo, que por
    penhor da paga dellas, lhe faria quaesquer escrituras, e daria fieldade
    de quem quizesse atee pagar has dictas dobras, hos Castellos de seu
    Regno, que por beem tivesse, e lhe mandaria delles fazer preito, e
    menage; E ElRei lhe dice, que ho emprestimo das dees mil dobras era
    escuzado, mas que daquellas, e doutras tantas por que fossem vinte mil,
    lhe fazia graça, que pois elle has tinha, que era razam de lhas dar, e
    elle Rei Daragam de has receber delle, pois lhe compriaõ, e dellas tinha
    necessidade, has quaaes logo lhe mandou entregar.

    E aalem desso deu mais aa Rainha Dona Branca sua molher muitas, e mui
    ricas joias douro, e pedras preciozas. E assi ho fez ha todolos Senhores
    de sua Corte ha que tambem deu mui ricas joias douro, e prata, de suas
    baxellas, e muitos panos douro, e de seda, de que pera esso foi logo de
    seu Regno mui percebido. ElRei Daragam nom quiz nhuma couza, salvo que
    elle soo sem outro alguum, comeo algumas vezes com elle. Esta maneira
    teve ElRei D. Diniz com ElRei D. Fernando seu genro, aqui em Valhadolid
    se ajuntaram a si has Rainhas Dona Maria, e Dona Costança, ahos Ifantes
    D. Pedro, e D. Johaõ, deu mui grandes dadivas, em joias douro, e
    pedraria de grandes preços, e nom soomente ho fez assi ha todolos
    grandes Senhores, e nobres homens, que eraõ na Corte, mas ainda se acha,
    e lee por mui certa verdade, que ahos que eraõ auzentes lhas enviava por
    seus messageiros, e disto principaalmente foi ElRei D. Diniz muito
    louvado, e ficou delles louvado em perpetua memoria, que tamanhos Rex
    como eram ElRei de Castella, e ElRei Daragam, e has Rainhas suas
    molheres receberam delRei D. Diniz em seus Regnos, e proprias teerras
    tantas, e tam grandes graças, sendo elle tanto pera lhas dar ha elles,
    parecendo beem, e razaõ de ho receberem delle.

    E no cabo destas repartiçoens se acha, que hum Cavalleiro honrado, que
    era prezente de que por ventura a nobreza delRei D. Diniz es esquecera,
    se aggravou ha elle em pessoa com palavras, que pareciam de fidalguia,
    estando ElRei comendo em huma meza de prata, que comsigo trazia, ElRei
    com ho rostro mui alegre lha mãdou logo dar, porque era jaa ha peça
    menos principal de seu tezouro, que lhe ficara. E de Valhadolid ElRei D.
    Diniz, e ha Rainha Dona Isabel sua molher se despediram delRei, e das
    Rainhas, e Ifantes de Castella, e alegre, e muito honrado se tornou ha
    seu Regno de Portugal. E nesta jornada tardou da entrada de Junho do
    dicto anno de mil trezentos e quatro, em que entrou em Castella, e elle
    era ha este tempo de idade de quorenta e tres annos, e avia vinte e
    sinco annos, que Regnava.

    *CAPITULO XII*

    _Das ajudas, que ElRei D. Fernando de Castella, ouve delRei D. Diniz,
    pera ha guerra dos Mouros de Grada_.

    Posto que ElRei D. Fernando ficasse em paaz com ElRei Daragam, e com D.
    Affonso de Lacerda, como dicto hee, porém elle como era Rei Catholico, e
    de grande coração, ha quiz converter em guerra contra Mouros imigos da
    Fee, especiaalmente em conquistar, e cobrar ho Regno de Grada se
    podesse, e pera mais facilmente, e com menos trabalho ho poder fazer,
    dezejou em sua ajuda ha ElRei Daragam, aho quaal por seus Embaixadores
    convidou pera esta empreza, ho quaal ha aceitou, com taal condição, que
    elle pera ho Regno, e Senhorio Daragaõ ouvesse pera sempre ho Regno
    Dalmeiria, que estimaram seer ha setima parte do Regno de Grada, e com
    este partido antre elles concertado, ElRei D. Fernando estando em Alcalá
    de henares, ho fez saber ha ElRei D. Diniz seu sogro, e lhe pedio, que
    pera guerra ha elle tam justa, e de tam sancta memoria, e principalmente
    pera logo hir sobre Algezira, ho quizesse ajudar com alguumas gentes de
    seus Regnos, e emprestarlhe algum dinheiro de seu tezouro.

    Aho que ElRei D. Diniz louvando seu proposito, e confiança satisfez, que
    lhe enviou ho Coade D. Martim Gonçalves de Souza seu Alferes moor, cõ
    sete centos de cavallo beem aparelhados, e mais lhe emprestou dezaseis
    mil e seis centos marcos de prata, em penhor dos treze mil marcos delRei
    D. Fernando, e atee lhos pagar lhe deu ha Cidade de Badalhouce com seu
    alcacer, e com todolos Castellos, termos, rendas, e direitos Seculares,
    e Ecclesiasticos, que ha ella pertencem, e que ElRei nella avia, e que
    ElRei de Castella durando ho dicto empenhamento, nom lançasse na dicta
    Cidade, e seus Castellos, e termos, peitas, nem serviços, nem se fizesse
    justiça por elle, mas por ElRei D. Diniz, e por seus socessores, hos
    quaaes poriam Justiças, nem has gentes serviriaõ ninguem, nem na paaz
    com ElRei de Castella, mas com ho dicto Rei D. Diniz.

    Deste empenhamento em que se conteem muitas crauzulas, e solenidades, e
    seguranças se fez carta ha selada do selo de chumbo feito em Volhadolide
    ha tres dias de Julho da era de mil trezentos e nove annos, (1309) com
    outorga da Rainha Dona Costança, e da Ifante Dona Lionor, que era
    dambos, ha filha primeira, e pelos trezentos e seis marcos de prata, que
    ho dito Rei D. Fernondo deu ha penhor, aho dicto Rei D. Diniz, has
    Villas Dslcouchel, e Bragilhos com seus termos, rendas, Justiças, e
    serviço de gentes com todalas crauzulas, e solenidades da carta decima,
    porque ambas foram feitas em hum dia.

    E ElRei com seu poder junto, foi cercar Algezira, sobre que jouve hum
    teempo, e durando assi este cerco, D. Johaõ Nunes de Lara, que diceram
    ho Boom aquelle, que se fez vassallo delRei D. Diniz como atraaz dice,
    tomou principaalmente Gibaltar ahos Mouros. E tambeem no dicto cerco,
    foi aho dicto Rei de Castella noteficada ha destroiçam dos Templarios
    sobre que ElRei D. Diniz, e elle se concordaram como aho diante direi, e
    porque falleceram ha ElRei de Castella hos mantimentos pera has muitas
    gentes que tinha, alevantou ho cerco Dalgezira, e ha nom tomou desta
    vez, e tornouse pera Castella, e dahi ha pouco teempo ElRei D. Fernãdo
    de Castella avendo quinze annos, que Regnava, e seendo de idade de vinte
    e quatro annos faleceo em Jaem de morte supitania, e emprazado, seguundo
    fama, por dous Cavalleiros, que contra direito no Lugar de Mattos mandou
    matar, e no dia de sua morte se compriraõ hos trinta dias pera que elles
    ho emprazaram, e por sua morte ficou por seu erdeiro, e socessor ElRei
    D. Affonso seu filho, em idade de hum anno, e vinte dias, como aho
    diante se diraa.

    FIM DO PRIMEIRO VOLUME

    End of Project Gutenberg's Chronica d'el rei D. Diniz (Vol. I), by Rui de Pina

  • Chronica de el-rei D. Pedro I

    Chronica de el-rei D. Pedro I

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    BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

    * * * * *

    Director litterario

    _LUCIANO CORDEIRO_

    * * * * *

    Proprietario e fundador

    _MELLO D'AZEVEDO_

    BIBLIOTHECA DE CLASSICOS PORTUGUEZES

    *Director litterario–LUCIANO CORDEIRO*

    _Proprietario e fundador–MELLO D'AZEVEDO_

    * * * * *

    CHRONICA DE EL-REI D. PEDRO I

    POR

    _Fernão Lopes_

    ESCRIPTORIO

    _147, Rua dos Retrozeiros, 147_

    LISBOA

    1895

    LISBOA

    Impresso na Typ. do «Commercio de Portugal» _35, Rua Ivens, 41_

    1895

    *DUAS PALAVRAS*

    Realisando corajosamente a boa, a piedosa idea de republicar as
    chronicas impressas do–Pae da Historia Nacional,–como Herculano
    apellidou Fernão Lopes, Mello d'Azevedo, o editor d'esta modesta e
    patriotica bibliotheca podera, hoje, ainda! suprir qualquer explicação
    prefacial com as palavras do nosso grande historiador moderno, quando ha
    mais de meio seculo tracejava o perfil do encantador–«escripvam»–do
    bom Rei Dom Duarte:

    –«Tão raros, ou tão pouco lidos andam os antigos escriptores
    portuguezes que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que
    apenas de nome os conheçam, _e frequentes vezes nem de nome_.»

    Hoje, ainda!…

    Fernão Lopes é quasi exclusivamente conhecido de nome, e já agora
    arejemos toda a nossa idea, mais exactamente toda a nossa observação
    positiva e directa: nem de nome o conhece muito litterato gloriosamente
    emproado pelas novas camarilhas do elogio mutuo na fama e na faina da
    renovação da Historia e da Arte nacional… por estampilha francelha.

    Uma das causas da mingua, a bem dizer, absoluta, de vulgarisação dos
    nossos antigos escriptores, dos nossos melhores monumentos litterarios,
    da nossa historia, até, indicamol-a já n'outra publicação d'esta
    bibliotheca: é o espirito estreitamente, inconsequentemente monopolista
    dos eruditos ou dos que se querem dar ares de taes; é a superstição das
    reproducções mais ou menos arbitrariamente chamadas fieis, conservadoras
    de uma ortographia, de uma disposição typographica até, obsoleta,
    indigesta, inacessivel á leitura corrente, á assimilação immediata,
    actual, affectiva da multidão.

    Em volta d'esta causa ou concorrendo e emparelhando com ella, muitas
    outras se teem accumulado e subsistem, por tal maneira renitentes e
    acrescentadas, que póde affirmar-se, como facto incontestavel, que as
    palavras doridas de Herculano teem hoje, mais do que quando elle as
    escreveu,–ha 56 annos!–uma applicação perfeitamente exacta e justa.

    Conhecia-se mais, muito mais, então, Fernão Lopes, ou qualquer outro dos
    nossos antigos escriptores, do que hoje se conhecem e leem. Basta citar
    ou vêr o trabalho litterario d'esse tempo, comparando-o com o do nosso.

    Quando eu, e certamente muitos dos leitores, iniciámos a nossa vida
    intellectual, lia-se, estudava-se, explicava-se o Camões nas escolas.
    Naturalmente, insensivelmente iam penetrando nos nossos corações e nos
    nossos cerebros em formação as ideas e os sentimentos de honra, de
    intrepidez, de amor da Patria, com tantas outras lições generosas,
    estimulantes, grandes, que as bellas estrophes transvasam nos espiritos
    sãos e frescos. Lia-se tambem o Freire d'Andrade, um massador de grandes
    discursos e de grandes bombardadas rhetoricas, d'accordo, mas que nos
    encantava, que nos ensinava muitas cousas interessantes, que nos
    enlevava, que nos fazia pensar em grandes cousas: nas terriveis batalhas
    da vida, nos sacrificios e nos esforços valentes com que ellas se
    vencem.

    Um dia, era eu ainda um rapaselho, apanhei entre os velhos livros de meu
    pae:–que sabia de cór o Virgilio, o Camões, e que me recomendava o Tito
    Livio, o João de Barros, etc,–apanhei, pois, um volume, que nunca mais
    vi, e que era uma edição em 8.° da _Chronica de Dom Pedro_ por Fernão
    Lopes, exactamente a que vamos lêr agora.

    Devia ser a edição do Padre Pereira Bayão, do seculo 18.°, inferior á
    chamada da Academia sobre a qual é feita a nossa.

    Como eu li sofregamente, deliciosamente, o velho livro!

    Como me soube bem aquella prosa simples, ampla, forte–permittam-me a
    expressão;–aquelle _contar_ ingenuo, vivo, e ao mesmo tempo tão
    magestoso pela sincera e nobre lealdade do chronista–que não era um
    adulador Real, nem um _fingidor_ litterario!

    Chronista! Historiador é que póde francamente chamar-se-lhe.

    Foi a primeira revelação que tive de Fernão Lopes e só desejo que tão
    agradavel seja a dos que pela primeira vez travarem agora conhecimento
    com elle.

    Poderia dizer que a vão travar simultaneamente com outros escriptores,
    de que Fernão Lopes se serviu ou que se serviram d'elle, mas como já
    disse n'outra publicação, a nossa _Bibliotheca_ não pôde ainda entrar na
    tentativa das edições criticas e por isso estes pequenos prefacios não
    devem ensaiar essa feição que os levariam longe.

    Nem mesmo podemos dar do author mais do que uns breves traços dispersos
    que aliás se encontram facilmente em publicações muito accessiveis.

    Fernão Lopes nasceu não se sabe onde, ainda no seculo 14.°, parece, como
    diz Herculano, que pouco antes ou durante–«a gloriosa revolução de
    1380,»–sendo collocado por Dom João I, juncto d'algum ou d'alguns dos
    filhos. Em 1418 confiou-lhe o Rei de Boa Memoria, a guarda e
    serviço,–constituido então independente,–da–«torre do castello da
    cidade de Lisboa,»–a primitiva Torre do Tombo.

    Ali começou a fazer-se entre as–«escripturas»–dos velhos e modernos
    tempos, o grande historiador, a quem Dom Duarte por carta de 19 de março
    de 1434,–isto é por uma das suas primeiras iniciativas de Rei,
    dava–«carrego de poer em caronyca as estorias dos reys que antigamente
    em Portugal foram»,–com 6$000 reis de tença annual, uns escassos 60$000
    de hoje. No cargo o confirmou o cavalleiroso Affonso V por Carta de 5 de
    junho de 1449.

    Teve uma longa vida Fernão Lopes, sendo em 1455 substituido por Gomes
    Eannes de Azurara que, briosamente e sem favor, lhe chama:–homem de
    communal (descomunhal) sciencia e authoridade.»

    Fez-se a substituição–«por seu prazimento e por fazer a elle mercê como
    é rasom de se dar aos boõs servidores,»–sendo–«já tão velho e fraco
    que por si non podia bem servir»–e sobrevivendo ainda, 5 annos, pelo
    menos.

    Andaria nos 80.

    É uma complicada questão, a de ter Fernão Lopes escripto outras
    chronicas além das que teem logrado chegar, sob o seu nome, até nós, e a
    de se terem outros escriptores apropriado, mais ou menos de trabalhos
    d'elle. As conhecidas são a de Pedro I que vamos republicar, a de Dom
    Fernando, e a de João I. Como diz, justamente, Herculano:–«para a
    gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos»–estes tres monumentos.

    Mas que pena que não tenhamos d'elle a historia d'aquelle–«grande
    desvayro»–dos amores de Ignez de Castro e que a gentil figura nos
    apareça apenas como uma obsessão cruel do extraordinario monarcha que
    procurara já distrahir-se um pouco nos braços de Theresa Lourenço, a
    bemaventura mãe de Dom João I.

    _L. C_.

    Chronica do senhor rei D. Pedro I oitavo rei de Portugal

    *PROLOGO*

    Deixados os modos e definições da justiça, que, por desvairadas guisas,
    muitos em seus livros escrevem, sómente d'aquella para que o real
    poderio foi estabelecido, que é por serem os maus castigados e os bons
    viverem em paz, é nossa intenção, n'este prologo, muito curtamente
    falar, não como buscador de novas razões, por propria invenção achadas,
    mas como ajuntador, em um breve mólho, dos ditos de alguns que nos
    aprouveram. Á uma, por espertar os que ouvirem, que entendam parte do
    que fala a historia; á outra, por seguirmos inteiramente a ordem do
    nosso arrazoado, no primeiro prologo já tangida.

    E porquanto el-rei Dom Pedro, cujo reinado se segue, usou da justiça, de
    que a Deus mais praz que cousa boa que o rei possa fazer, segundo os
    santos escrevem, e alguns desejam saber que virtude é esta, e pois é
    necessaria ao rei, se o é assim ao povo: vós, n'aquelle estilo que o
    simplesmente apanhámos, o podeis lêr por esta maneira.

    Justiça é uma virtude, que é chamada toda virtude; assim que qualquer
    que é justo, este cumpre toda virtude; porque a justiça, assim como lei
    de Deus, defende que não forniques nem sejas gargantão, e isto
    guardando, se cumpre a virtude da castidade e da temperança, e assim
    podeis entender dos outros vicios e virtudes.

    Esta virtude é mui necessaria ao rei, e isso mesmo aos seus sujeitos,
    porque, havendo no rei virtude de justiça, fará leis por que todos vivam
    direitamente e em paz, e os seus sujeitos sendo justos, cumprirão as
    leis que elle puzer, e cumprindo-as não farão cousa injusta contra
    nenhum. E tal virtude, como esta, póde cada um ganhar por obra de bom
    entendimento, e ás vezes nascem alguns assim naturalmente a ella
    dispostos, que com grande zelo a executam, posto que a alguns vicios
    sejam inclinados.

    A razão por que esta virtude é necessaria nos subditos, é por cumprirem
    as leis do principe, que sempre devem de ser ordenadas para todo bem, e
    quem taes leis cumprir sempre bem obrará, cá as leis são regra do que os
    sujeitos hão de fazer, e são chamadas principe não animado, e o rei é
    principe animado, porque ellas representam, com vozes mortas, o que o
    rei diz por sua voz viva: e porém a justiça é muito necessaria, assim no
    povo como no rei, porque sem ella nenhuma cidade nem reino pode estar em
    socego. Assim, que o reino, onde todo o povo é mau, não se pode
    supportar muito tempo, porque, como a alma supporta o corpo e
    partindo-se d'elle, o corpo se perde, assim a justiça supporta os reinos
    e partindo-se d'elles perecem de todo.

    Ora, se a virtude da justiça é necessaria ao povo, muito mais o é ao
    rei; porque se a lei é regra do que se ha de fazer, muito mais o deve de
    ser o rei que a põe e o juiz que a ha de encaminhar, porque a lei é
    principe sem alma, como dissemos, e o principe é lei e regra da justiça
    com alma. Pois quanto a cousa com alma tem melhoria sobre outra sem
    alma, tanto o rei deve ter excellencia sobre as leis: cá o rei deve de
    ser de tanta justiça e direito, que cumpridamente dê ás leis a execução;
    de outra guisa, mostrar-se-hia seu reino cheio de boas leis e maus
    costumes, que era cousa torpe de vêr. Pois duvidar se o rei ha de ser
    justiçoso, não é outra cousa senão duvidar se a regra ha de ser direita,
    a qual, se em direitura desfalece, nenhuma cousa direita se pode por
    ella fazer.

    Outra razão por que a justiça é muito necessaria ao rei, assim é porque
    a justiça não tão sómente aformoseia os reis de virtude corporal, mas
    ainda espiritual, pois quanto a formosura do espirito tem avantagem da
    do corpo, tanta a justiça no rei é mais necessaria que outra formosura.

    A terceira razão se mostra da perfeição da bondade, porque então dizemos
    alguma cousa ser perfeita, quando fazer pode alguma semelhante a si, e
    portanto se chama uma cousa boa, quando sua bondade se pode estender a
    outros, ao menos, sequer por exemplo, e então se mostra, por pratica,
    quanto cada um é bom, quando é posto em senhorio.

    Porém, cumpre aos reis ser justiçosos por a todos seus sujeitos poder
    vir bem, e a nenhum o contrario, trabalhando que a justiça seja
    guardada, não sómente aos naturaes de seu reino, mas ainda aos de fóra
    d'elle, porque, negada a justiça a alguma pessoa, grande injuria é feita
    ao principe e a toda sua terra.

    D'esta virtude da justiça, que poucos acha que a queiram por hospeda,
    posto que rainha e senhora seja das outras virtudes, segundo diz Tullio,
    usou muito el-rei Dom Pedro, segundo vêr podem os que desejam de o
    saber, lendo parte de sua historia.

    E pois que elle, com bom desejo, por natural inclinação, refreou os
    males, regendo bem seu reino, ainda que outras minguas por elle
    passassem, de que penitencia podia fazer, de cuidar é, que houve o
    galardão da justiça, cuja folha e fructo é honrada fama n'este mundo e
    perduravel folgança no outro.

    *CAPITULO I*

    _Do reinado de el-rei Dom Pedro, oitavo rei de Portugal, e das condições
    que n'elle havia_.

    Morto el-rei D. Affonso, como haveis ouvido, reinou seu filho, o infante
    Dom Pedro, havendo então de sua idade trinta e sete annos e um mez e
    dezoito dias. E porque dos filhos que houve, e de quem, e por que guisa,
    já compridamente havemos falado, não cumpre aqui arrazoar outra vez; mas
    das manhas, e condições, e estados de cada um, diremos adiante, muito
    brevemente, onde convier falar de seus feitos.

    Este rei Dom Pedro era muito gago, e foi sempre grande caçador e
    monteiro, em sendo infante e depois que foi rei, trazendo grande casa de
    caçadores e moços de monte e de aves, e cães, de todas maneiras que para
    taes jogos eram pertencentes.

    Elle era muito viandeiro, sem ser comedor mais que outro homem, que suas
    salas eram de praça em todos logares por onde andava, fartas de vianda,
    em grande abastança.

    Elle foi grande criador de fidalgos de linhagem, porque n'aquelle tempo
    não se costumava ser vassalo, se não filho e neto ou bisneto de fidalgo
    de linhagem; e por usança haviam então a quantia que ora chamam
    maravidis, dar-se no berço, logo que o filho do fidalgo nascia, e a
    outro nenhum não.

    Este rei accrescentou muito nas quantias dos fidalgos, depois da morte
    de el-rei seu padre, cá não embargando que el-rei D. Affonso fosse
    comprido de ardimento e muitas bondades, tachavam-no, porém, de ser
    escasso, e apertamento de grandeza. E el-rei Dom Pedro era em dar mui
    ledo, em tanto, que muitas vezes dizia que lhe afrouxassem a cinta, que
    então usavam não mui apertada, porque se lhe alargasse o corpo por mais
    espaçosamente poder dar; dizendo que o dia que o rei não dava, não devia
    ser havido por rei.

    Era ainda de bom desembargo aos que lhe requeriam bem e mercê, e tal
    ordenança tinha n'isto, que nenhum era detido em sua casa por cousa que
    lhe requeresse.

    Amava muito de fazer justiça com direito. E assim como quem faz
    correição, andava pelo reino, e visitada uma parte não lhe esquecia de
    ir vêr a outra, em guisa que poucas vezes acabava um mez em cada logar
    de estada.

    Foi muito mantenedor de suas leis e grande executor das sentenças
    julgadas, e trabalhava-se quanto, podia das gentes não serem gastadas
    por azo de demandas e prolongados pleitos.

    E se a Escriptura affirma que, por o rei não fazer justiça, vem as
    tempestades e tribulações sobre o povo, não se póde assim dizer d'este,
    cá não achamos, em quanto reinou, que a nenhum perdoasse morte de alguma
    pessoa, nem que a merecesse por outra guisa, nem lh'a mudasse em tal
    pena por que pudesse escapar a vida.

    A toda gente era galardoador dos serviços que lhe fizessem, e não
    sómente dos que faziam a elle, mas dos que haviam feitos a seu padre, e
    nunca colheu a nenhum cousa que lhe seu padre desse, mas mantinha-a e
    accrescentava n'ella.

    Este rei não quiz casar: depois da morte de Dona Ignez, em sendo
    infante, nem depois que reinou, lhe prove receber mulher; mas houve
    amigas com que dormiu, e de nenhuma houve filhos, salvo de uma dona,
    natural de Galliza, que chamaram Dona Thereza, que pariu um filho que
    houve nome Dom João, que foi mestre de Aviz em Portugal e depois rei,
    como adiante ouvireis, o qual nasceu em Lisboa onze dias do mez de
    abril, ás tres horas depois do meio dia, no primeiro anno do seu
    reinado. E mandou o el-rei criar, em quanto foi pequeno, a Lourenço
    Martins da Praça, um dos honrados cidadãos d'essa cidade, que morava
    junto com a igreja cathedral onde chamam a praça dos Canos, e depois o
    deu, que o criasse, a Dom Nuno Freire de Andrade, mestre da Cavallaria
    da ordem de Christo.

    *CAPITULO II*

    _Como el rei de Castella mandou pelo corpo da rainha Dona Maria, sua
    madre, e da carta que enviou a el-rei de Portugal, seu tio_.

    N'esta sezão que el rei Dom Pedro começou de reinar, ordenou el-rei de
    Castella de enviar pelo corpo da rainha Dona Maria, sua madre, que se
    finara em Portugal vivendo ainda el-rei Dom Affonso, seu padre, como em
    alguns logares d'este livro faz menção; e fez saber por sua carta a
    el-rei Dom Pedro, seu tio, como havia vontade de a trasladar, para a pôr
    em Sevilha, na capella dos reis, com el-rei Dom Affonso, seu padre; e
    ordenou, para irem com o corpo da rainha, o arcebispo de Sevilha e
    outros prelados de seu reino, e dês-ahi mandou diante, para correger
    todas as cousas que cumpriam para o corpo ir honradamente, Gomes Peres,
    seu dispenseiro mór, ao qual o corpo havia de ser entregue, para ordenar
    tudo o que mister fazia á sua trasladacão, para quando os prelados
    viessem, que achassem tudo prestes e se partissem logo.

    A el-rei Dom Pedro prouve d'isto muito, e escreveu-lhe que mandasse por
    elle, quando por bem tivesse: e el-rei de Castella enviou logo aquelle
    seu dispenseiro, e foi-lhe entregue o corpo, na cidade de Evora onde
    jazia, para ordenar seus corregimentos, segundo a ordenança que lhe era
    dada. E quando o arcebispo, e os outros prelados e gentes vieram pelo
    corpo da rainha, trouxeram a el-rei Dom Pedro uma carta de el-rei de
    Castella, seu sobrinho, que dizia n'esta guisa.

    «Rei, tio. Nós, el-rei de Castella e de Leão, vos enviamos muito saudar
    como aquelle que muito prezamos e para que queriamos tanta vida e saude,
    com honra, como para nós mesmo.

    «Rei, fazemos-vos saber que vimos uma carta de crença que nos enviastes
    por Martim Vasques e Gonçalo Annes de Beja, vossos vassalos, e
    disseram-nos de vossa parte a crença que lhes mandastes.

    «E rei, tio, nossa tenção é de vos amar, e guardar sempre os bons
    dividos que comvosco havemos, e fazer sempre por vossa honra como por
    nossa mesma.

    «E porquanto a nosso serviço e vosso cumpria haverem de ser declaradas
    algumas cousas conteudas nas posturas que entre nós havemos de pôr,
    assim sobre casamentos de vossos filhos com nossas filhas, nós falámos
    com o dito Martim Vasques e Gonçalo Annes toda nossa tenção, e enviamos
    allá sobre isto João Fernandes de Melgarejo, chanceller do nosso sêllo
    da puridade, e rogamos-vos que o creaes do que vos da nossa parte
    disser.

    «Outro sim enviamos, para trazer o corpo da rainha, nossa madre, para a
    enterrar aqui em Sevilha, o arcebispo d'esta cidade e outros prelados de
    nossos reinos, e rogamos-vos que essas joias que ella deixou, que as
    mandeis dar ao dito João Fernandes, e nós agradecer-vol-o-hemos. Dada,
    etc.»

    El-rei Dom Pedro fez outorgar o corpo da rainha Dona Maria, sua irmã,
    áquelle embaixador de el-rei de Castella; e foi-lhe feita grande honra,
    assim por el-rei, como pelos prelados que por ella vinham. E muito
    acompanhada até ao extremo, e d'ahi até á cidade de Sevilha, a saiu
    el-rei seu filho a receber com muita clerezia e grandes senhores e
    fidalgos que ahi eram com el-rei. E feitas suas exequias mui
    honradamente, foi posto o seu corpo na capella dos reis, a cerca de
    el-rei Dom Affonso, seu marido, onde ora jaz.

    Sobre os casamentos dos filhos de el-rei Dom Pedro com as filhas de
    el-rei de Castella, por que João Fernandes era enviado, foram faladas
    muitas cousas com el-rei de Portugal, e não se accordando por então em
    algumas d'ellas, depois acertaram todas suas avenças, como adiante
    ouvireis.

    *CAPITULO III*

    _Das cartas que o papa, e el-rei da Aragão enviaram a el-rei de Portugal
    sobre a morte de el-rei, seu padre_.

    El-rei Dom Pedro escrevera ao papa, e a el-rei de Aragão, por novas,
    quando el-rei Dom Affonso morreu, como seu padre era morto, e elle
    alçado por rei em Portugal.

    E tendo cada um cuidado de lhe responder, chegaram lhe n'esta sezão suas
    respostas. E a letra do papa dizia assim:

    «Innocencio, bispo, servo dos servos de Deus, ao muito amado, em
    Christo, filho Dom Pedro, mui nobre rei de Portugal, saude e apostolical
    benção.

    Porquanto, muito amado filho, por tuas letras, e fama, fomos certificado
    como o mui claro, de nobre memoria, el-rei Dom Affonso teu padre, se
    finou d'este mundo, sua morte foi a nós, e é, mui grande nojo e
    tristeza. E não sem razão o devemos ser, quando em nosso coração
    cuidamos nas bondades e virtudes de que sua real alteza era muito
    ennobrecida, por cuja razão o muito amavamos, desejando-lhe que, entre
    todos os principes do mundo, o Senhor o accrescentasse, e estendesse seu
    real estado, com prolongamento de bem aventurados dias, nos quaes,
    acabando sua honrada velhice, a ti, seu primogenito filho, deixasse o
    regimento e successão do reino em firme concordia com teus visinhos.

    E pois assim é que o Senhor Deus, em cuja mão é o poderio de dar a cada
    um vida e morte, lhe prouve de piedosamente o levar d'este mundo, nós
    pômos fim e acabamento á nossa dôr e tristeza, consolando-nos n'este
    Senhor que dá e priva e tolhe, quando quer que lhe praz, no qual havemos
    firme esperança que nos altos ceus dará bom galardão e gloria á alma de
    el-rei, teu padre, pois, emquanto n'este mundo viveu, se trabalhou de o
    servir com bons merecimentos, e lhe aprouve com dignas virtudes.

    E assim, muito amado filho, piedosamente te consolamos, que te consoles
    no Senhor Deus, e consideres em tua vontade como succedes no regimento
    de teu padre, o qual, por exemplo da vida, se mostrou sempre ser fiel
    catholico.

    Porém, requeremos á tua real clareza, que sempre, com firme desejo,
    vivas em temor do Senhor Deus, honrando a sua santa igreja, e, sendo
    favoravel ás ecclesiasticas pessoas, as mantenhas sempre em seus
    direitos e liberdades; e que sejas amador e defensor das viuvas e dos
    orfãos, alçando os aggravos aos teus subditos, que lhes não seja feita
    injuria; e que, sem recebimento de alguma pessoa, sempre sejas honrador
    e amador da justiça, de guisa que, por tuas obras, sejas chamado por
    nome de rei que bem rege: e sei certo, se o assim fizeres, que sempre em
    teus dias viverás em paz e folgança, havendo Deus em tua ajuda, e a sua
    santa igreja te haverá em sua encommenda, sendo prestes para toda a tua
    honra e cumprimento de justas petições. Diante em Avinhão, etc.»

    N'outra carta, de el-rei de Aragão, eram conteudas estas razões:

    «Muito alto e mui nobre Dom Pedro, pela graça de Deus, rei de Portugal e
    do Algarve: Dom Pedro, por essa mesma graça, rei de Aragão, e de
    Valencia, e de Mayorca, e de Sardenha, e de Corsega, e conde de
    Barcelona e de Rossilhão, saude, como a rei que temos em logar de irmão,
    que muito amamos e prezamos, e de que muito fiamos, e para que queriamos
    muita honra e boa ventura, com tanta vida e saude como para nós mesmo.

    «Rei, irmão. Recebemos vossa letra, pela qual nos significastes a morte
    do mui alto e mui honrado el-rei Dom Affonso de Portugal, vosso padre, a
    que Deus perdoe. E por essa mesma nos fizestes saber que vós, assim como
    seu primogenito e herdeiro dos ditos reinos, ereis levantado por rei de
    Portugal. Das quaes novas, em verdade, Rei irmão, houvemos desprazer e
    prazer juntamente: desprazer da morte do dito rei, o qual sabiamos que
    nos amava como seu filho e nós a elle como a nosso muito amado padre;
    mas como da morte nenhuma pessoa seja isenta, e o dito rei seja saido da
    miseria d'este mundo, doendo-nos d'ella, se por nós alguma cousa pudesse
    ser feita, muito prestes eramos de o fazer, porém rogamos a Deus, em
    cuja mão é vida e morte de cada um, que receba sua alma com os seus
    santos no paraiso, fiando n'elle que o ha feito. Prazer outro sim
    houvemos mui grande, Rei irmão, quando soubemos que ereis alçado em rei
    de Portugal e do Algarve, pela successão herdeira a vós por direito
    pertencente, e crendo saber que, assim como nós tinhamos o dito rei em
    conta e logar de padre, assim entendemos de ter a vós em conta de nosso
    irmão, e fazer por vós toda cousa que seja honra e prazer vosso, e
    proveito de vosso senhorio, esperando certamente, de vós, que fareis
    semelhante por nós, e por nossos reinos e terras.

    E porquanto, irmão Rei, segundo é conteudo em vossa letra, vós desejaes
    saber o bom estado de nossa pessoa, e da rainha, e de nossos filhos, a
    prazer vosso vos significamos que somos todos sãos e em boa disposição
    de nossas pessoas, mercês a Deus: rogando-vos, mui caramente, que de
    vosso bom estado e real casa, nos certifiqueis por vossa carta, e sêde
    certo que nos fareis assignado prazer. D'ante em Saragoça, etc.»

    *CAPITULO IV*

    _Da maneira que el-rei D. Pedro tinha nos desembargos de sua casa_.

    Pois d'este rei achamos escripto que era muito amado de seu povo, pelo
    manter em direito e justiça, dês-ahi boa governança que em seu reino
    tinha, bem é que digamos de cada cousa um pouco, por vêrdes parte dos
    modos antigos.

    Na ordenança de todos os desembargos, tinha el-rei esta maneira: quantas
    petições lhe a elle davam, iam á mão de Gonçalo Vasques de Goes,
    escrivão da puridade, e elle as dava a um escrivão, qual lhe prazia, o
    qual tinha encargo de as repartir, e dar cada uma aos desembargadores a
    que pertenciam; e as petições que eram desembargos de commum curso,
    aquelles, por que deviam passar, mandavam logo fazer as cartas a seus
    escrivães, de guisa que n'aquelle dia, ou no outro seguinte, eram as
    partes desembargadas, e o escrivão que o assim não fazia, perdia a mercê
    de el-rei por ello.

    As outras petições, que eram de graça e mercê, que pertenciam á sua
    fazenda, fazia-as pôr em ementa a seu escrivão, e este escrevia por sua
    mão as petições que assim levava, cujas eram, e de que cousa, e este
    escripto ficava na mão do desembargador; e quando as depois desembargava
    com el-rei, se achava mais petições postas na ementa, que aquellas que
    lhe elle mandara pôr, visto o escripto que em seu poder ficava, por tal
    erro perdia a mercê de el-rei; e como aquella ementa era desembargada
    com el-rei, diziam os desembargadores a cada uma pessoa a mercê que lhe
    el-rei fazia, e mandavam a seus escrivães que lhe fizessem logo as
    cartas, e n'esse dia haviam de ser feitas, ou no outro o mais tardar,
    sob a pena que dissemos.

    E se ahi havia taes porfiosos que andavam mais após el-rei, afincando-o
    com outras petições depois que haviam desembargo de sim ou de não, ou
    moravam mais tempo na côrte, se era honrado pagava certa pena de
    dinheiro, e se pessoa refece davam-lhe vinte açoutes na praça, e
    mandavam-no para casa; e trazia el-rei inculcas que lhe soubessem parte
    de taes homens, por se cumprir n'elles sua ordenação.

    Por el-rei não ser annojado de vêr duas vezes as mercês que fazia, uma
    por ementa e outra por cartas, e por aquelles que o requeriam haverem
    mais toste seu desembargo, fazia-se d'esta guisa: quando el-rei
    outorgava algumas mercês a alguem, os que lhe haviam de dar desembargo
    escreviam logo na ementa, perante el-rei, a maneira como lh'as dava, e
    em cada um desembargo punha el-rei seu signal, e o chanceller estava
    presente, quando podia, para vêr como as el-rei desembargava. E tanto
    que os desembargadores tinham as cartas feitas e assignadas,
    mandavam-nas ao chanceller com o rol da ementa que el-rei assignara, por
    não pôr duvida em alguma d'ellas, e logo n'esse dia haviam de ser
    selladas, ou no outro até ao jantar.

    Se el-rei ia a monte ou á caça, em que durasse mais de quatro dias, por
    nenhuns serem detidos por elle, juntavam-se os que tinham as petições
    das graças e viam aquillo que cada um pedia, e se lhe parecia que não
    era bem de lh'o el-rei fazer, escreviam-lhe pelo meudo por qual razão, e
    as que viam que devia outorgar, punham-lhe isso mesmo por quê, e
    assignavam todos a ementa, e levava-a um d'elles a el-rei, por lhe dizer
    a razão que os movera a fazer ou não cada uma cousa; e d'esta guisa
    haviam as gentes bom desembargo, e el-rei era fóra de muito nojo e
    afincamento.

    Se alguns concelhos haviam de recadar com elle, mandava-lhe que
    enviassem em escripto cerrado e sellado, por um porteiro, tudo o que
    mister haviam, e logo lhe el-rei taxava que houvesse por dia quatro
    soldos, e mais não, e el-rei, visto o que lhe pediam, livrava-o logo,
    sem outra detença, como achava que era direito. E se tal cousa era que
    cumpria de esse concelho enviar a elle alguns bons homens, e entendidos,
    mandava el-rei que não enviassem mais de um, por fazer o concelho mais
    pouca despeza; e mandava que tal como este não houvesse por dia mais que
    vinte soldos.

    *CAPITULO V*

    _De algumas cousas que el-rei Dom Pedro ordenou por bem de justiça e
    prol de seu povo_.

    Assim como este rei Dom Pedro era amador de trigosa justiça n'aquelles
    que achado era que o mereciam, assim trabalhava que os feitos civeis não
    fossem prolongados, guardando a cada um seu direito cumpridamente.

    E porque achou que os procuradores prolongavam os feitos como não
    deviam, e davam azo de haver hi maliciosas demandas, e o peior, e muito
    de estranhar, que levavam de ambas as partes, ajudando um contra o
    outro, mandou que em sua casa, e todo o seu reino, não houvesse
    advogados nenhuns; e encommendou aos juizes e ouvidores que não fossem
    mais em favor de uma parte que outra; nem se movessem por nenhuma cobiça
    a tomar serviços alguns por que a justiça fosse vendida, mas que se
    trabalhassem cedo de livrar os feitos, de guisa que brevemente, e com
    direito, fossem desembargados, como cumpria. E sabendo que eram a ello
    negligentes, que lh'o estranharia nos corpos e haveres, e lhe faria
    pagar ás partes toda perda que por ello houvessem.

    Isto assim ordenado, soube el-rei, a cabo de pouco tempo, que um seu
    desembargador, de que elle muito fiava, chamado por nome mestre Gonçalo
    das Decretaes, levara peita de uma das partes que perante elle andavam a
    feito, pela qual julgou e deu sentença. E el-rei, sabendo isto, houve
    mui grande pezar, e deitou-o logo fora de sua mercê por sempre, e
    degradou elle e os filhos a dez leguas de onde quer que elle fosse:
    porém, diziam todos os que isto viram, que aquelle de que elle levara a
    peita tinha direito n'aquelle pleito.

    Então ordenou el-rei, e pôz defeza em sua casa e todo seu senhorio, que
    nenhum que tivesse poderio de fazer justiça, não filhasse peita nenhuma
    dos que houvessem pleitos perante elles; e se lhe fosse provado que a
    tomára, que morresse por ello, e perdesse os bens para a corôa do reino.
    E se taes juizes e officiaes tomassem serviços de quaesquer outros que
    perante elles não houvessem pleitos, que perdessem a sua mercê, salvo se
    fosse de homem que não houvesse demanda em todo seu senhorio, que aduz
    poderia ser achado. E mandou, ao corregedor da côrte e ouvidores, que
    não conhecessem de feitos nenhuns, salvo se fossem entre taes pessoas de
    que os juizes das terras não podessem fazer direito, senão quando lhe
    viessem por appellação ou aggravo.

    Sabendo, outrosim, el-rei, como alguns, que eram casados, deixavam suas
    mulheres e filhos que tinham, e tomavam barregãs, com que áparte faziam
    vivenda, e outros taes que com suas mulheres as tinham em casa: mandou,
    e pôz por lei, que qualquer casado que com barregã vivesse, ou a tivesse
    dentro em sua casa, se fosse fidalgo ou vassalo, que d'elle ou de outrem
    tivesse maravidis, que os perdesse, e segundo os estados das pessoas,
    assim ordenou as penas do dinheiro e degredo, até mandar que
    publicamente, pela terceira vez, elles e ellas por isto fossem
    açoutados. E quando diziam a el-rei que se aggravavam muitos de tal
    ordenança como esta, respondia elle que assim o entendia por serviço de
    Deus e seu, e prol d'elles todos. E esta ordenança mesma, e penas, pôz
    nas mulheres que barregãs fossem de clerigos de ordens sacras.

    Elle defendeu e mandou, em Lisboa, que nenhuma mulher de qualquer estado
    que fosse, não entrasse dentro no arrabalde dos mouros, de dia nem de
    noite, sob pena de ser enforcada. E mandou que qualquer judeu ou mouro,
    que depois de sol posto, fosse achado pela cidade, que com pregão
    publicamente fosse açoutado por ella.

    Falando el-rei um dia nos feitos da justiça, disse que vontade era, e
    fôra sempre de manter os povos de seu reino n'ella, e estremadamente
    fazer direito de si mesmo. E porquanto elle sentia que o mór aggravo que
    elle e seus filhos, e outros alguns de seu senhorio, faziam aos povos de
    sua terra, assim no tomar das viandas por preço mais baixo do que se
    vendiam, que porém elle mandava que nenhum de sua casa, nem dos
    infantes, nem d'outro nenhum que em sua mercê e reinos vivesse, que
    cargo tivesse de tomar aves, que não tomasse gallinhas, nem patos, nem
    cabritos, nem leitões, nem outras nenhumas cousas acostumadas de tomar,
    salvo compradas á vontade de seu dono; e sobre isto pôz pena de prisão,
    e dinheiros, ás honradas pessoas, e aos gallinheiros e pessoas vis,
    açoutados pelo logar hu as tomassem, e deitados fóra de sua mercê.

    Mandou mais aos estribeiros seus e de seus filhos, e a todos os de sua
    terra, que não mandassem a nenhum logar por palha doada, salvo se a
    houvesse de haver de fôro; mas que pelo azemel, que fosse por ella,
    mandasse pagar pela carga cavallar de palha, ou de restolho empalhado,
    três soldos e pela carga asnal, dois. E o azemel que por ella fosse, e a
    d'esta guisa não pagasse, que pela primeira vez fosse açoutado e
    talhadas as orelhas, e pela segunda fosse enforcado: e outra tal pena
    mandava dar ao lavrador que não empalhasse toda a palha que houvesse.

    E quando lhe diziam que punha mui grandes penas por mui pequenos
    excessos, dava resposta dizendo assim, que a pena que os homens mais
    receavam era a morte, e que se por esta se não cavidassem de mal fazer,
    que ás outras davam passada, e que boa cousa era enforcar um ou dois,
    pelos outros todos serem castigados, e que assim o entendia por serviço
    de Deus e prol de seu povo.

    Elle corregeu as medidas de pão de todo Portugal, e ordenou outras
    cousas por bom paramento e proveito de sua terra, das quaes não fazemos
    mais longo processo por não saber quanto prazeriam aos que as ouvissem.

    *CAPITULO VI*

    _Como el-rei mandou degolar dois seus criados, porque roubaram um judeu
    e o mataram_.

    Este rei Dom Pedro, emquanto viveu, usou muito de justiça sem affeição,
    tendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhum perdoava os erros que
    fazia, por criação nem bem querença que com elle houvesse. E se dizem
    que aquelle é bem aventurado rei que por si esquadrinha os males e
    forças que fazem aos pobres, e bem é este do conto de taes, cá elle era
    ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos
    viviam em paz. E era ainda tão zeloso de fazer justiça, especialmente
    dos que travessos eram, que perante si os mandava metter a tormento, e
    se confessar não queriam, elle se desvestia de seus reaes pannos, e por
    sua mão açoutava os malfeitores; e pelo que d'ello muito pasmavam seus
    conselheiros e outros alguns, annojava-se de os ouvir, e não o podiam,
    quitar d'ello por nenhuma guisa.

    Nenhum feito crime mandava que se desembargasse salvo perante elle, e se
    ouvia novas de algum ladrão ou malfeitor, alongado muito d'onde elle
    fosse, falava com algum seu de que se fiava, promettendo-lhe mercês por
    lh'o ir buscar, e mandava-lhe que não viesse ante elle até que todavia
    lh'o trouxesse á mão. E assim lh'os traziam presos do cabo do reino, e
    lh'os apresentavam hu quer que estava. E da mesa se levantava, se
    chegavam a tempo que elle comesse, por os fazer logo metter a tormento,
    e elle mesmo punha n'elles mão quando via que confessar não queriam,
    ferindo-os cruelmente até que confessavam.

    A todo logar onde el-rei ia, sempre acharieis prestes com um açoute o
    que de tal officio tinha encargo, em guisa que como a el-rei traziam
    algum malfeitor, e elle dizia:–chamem-me foão, que traga o
    açoute,–logo elle era prestes, sem outra tardança.

    E pois que escrevemos que foi justiçoso, por fazer direito em reger seu
    povo, bem é que ouçaes duas ou três cousas, por vêrdes o geito que
    n'isto tinha.

    Assim adveiu que pousando elle nos paços de Bellas, que elle fizera,
    dois seus escudeiros que gram tempo havia que com elle viviam, sendo
    ambos parceiros, houveram conselho que fossem roubar um judeu que pelos
    montes andava vendendo especiaria e outras cousas. E foi assim, de
    feito, que foram buscar aquella suja préa, e roubaram-no de tudo, e, o
    peior d'isto, foi morto por elles. Sua ventura, que lhe foi contraria,
    azou de tal guisa que foram logo presos e trazidos a el rei, alli hu
    pousava.

    El-rei, como os viu, tomou gram prazer por serem filhados, e começou-os
    de perguntar como fôra aquillo. Elles, pensando que longa criação e
    serviço que lhe feito haviam, o demovesse a ter algum geito com elles,
    não tal como tinha com outras pessoas, começaram de negar, dizendo que
    de tal cousa não sabiam parte.

    Elle, que sabia já de que guisa fôra, disse que não haviam por que mais
    negar, que ou confessassem como o mataram, senão, que a poder de crueis
    açoutes lhe faria dizer a verdade.

    Elles em negando viram que el-rei queria pôr em obra o que lhe por
    palavra dizia, confessaram tudo assim como fôra; e el-rei, sorrindo-se,
    disse que fizeram bem, que tomar queriam mister de ladrões e matar
    homens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro nos judeus, e depois
    viriam aos christãos.

    E em dizendo estas e outras palavras, passeava perante elles de uma
    parte á outra, e parece que lembrando-lhe a criação que n'elles fizera,
    e como os queria mandar matar, vinham-lhe as lagrimas aos olhos, por
    vezes. Depois, tornava asperamente contra elles, reprehendendo-os muito
    do que feito haviam. E assim andou por um grande espaço.

    Os que hi estavam, que aquesto viam, suspeitando mal de suas razões,
    afincavam-se muito a pedir mercê por elles, dizendo que por um judeu
    astroso não era bem morrerem taes homens, e que bem era de os castigar
    por degredo ou outra alguma pena, mas não mostrar contra aquelles que
    criara, pelo primeiro erro, tão grande crueza.

    El-rei, ouvindo todos, respondia sempre que dos judeus viriam depois aos
    christãos.

    Em fim d'estas e outras razões, mandou que os degolassem.

    E foi assim feito.

    *CAPITULO VII*

    _Como el-rei quizera metter um bispo a tormento porque dormia com uma
    mulher casada_.

    Não sómente usava el-rei de justiça contra aquelles que razão tinha,
    assim como leigos e semelhantes pessoas, mas assim ardia o coração
    d'elle de fazer justiça dos maus, que não queriam guardar sua
    jurisdicção, aos clerigos tambem, de ordens pequenas, como de maiores. E
    se lhe pediam que o mandasse entregar a seu vigario, dizia que o
    puzessem na forca e que assim o entregassem a Jesus Christo, que era seu
    Vigario, que fizesse d'elle direito no outro mundo. E elle por seu corpo
    os queria punir e atormentar, assim como quizera fazer a um bispo do
    Porto, na maneira que vos contaremos.

    Certo foi, e não o ponhaes em duvida, que el-rei, partindo de entre
    Douro e Minho, por vir á cidade do Porto, foi informado que o bispo
    d'esse lugar, que então tinha gram fama de fazenda e honra, dormia com
    uma mulher de um cidadão, dos bons que havia na dita cidade, e que elle
    não era ousado de tornar a ello, com espanto de ameaças de morte que lhe
    o bispo mandava pôr.

    El-rei, quando isto ouviu, por saber de que guisa era, não via o dia que
    estivesse com elle, para lh'o haver de perguntar.

    E logo, sem muita tardança, depois que chegou ao logar, e houve comido,
    mandou dizer ao bispo que fosse ao paço, que o havia mister por cousas
    de seu serviço. Falou com seus porteiros, que depois que o bispo
    entrasse na camara, lançassem todos fóra do paço, tambem os do bispo
    como quaesquer outros, e que ainda que alguns do conselho viessem, que
    não deixassem entrar nenhum dentro, mas que lhe dissessem que se fossem
    para as pousadas, cá elle tinha de fazer uma cousa em que não queria que
    fossem presentes.

    O bispo, como veiu, entrou na camara onde el-rei estava, e os porteiros
    fizeram logo ir todos os seus e os outros, em guisa que no paço não
    ficou nenhum, e foi livre de toda a gente.

    El-rei, como foi áparte com o bispo, desvestiu-se logo e ficou em uma
    saia de escarlata, e por sua mão tirou ao bispo todas as suas
    vestiduras, e começou de o requerer que lhe confessasse a verdade
    d'aquelle maleficio em que assim era culpado: e em lhe dizendo isto,
    tinha na mão um grande açoute para o brandir com elle.

    Os criados do bispo, quando no começo viram que os deitavam fóra, e isso
    mesmo os outros todos, e que nenhum não ousava lá de ir, pelo que sabiam
    que o bispo fazia, dês ahi juntando a isto a condição de el-rei e a
    maneira que em taes feitos tinha, logo suspeitaram que el-rei lhe queria
    jogar de algum mau jogo, e foram-se á pressa ao conde velho, e ao mestre
    de Christo Dom Nuno Freire, e a outros privados de seu conselho, que
    accorressem asinha ao bispo.

    E logo tostemente vieram a el-rei, e não ousaram de entrar na camara,
    por a defeza que el-rei tinha posta, se não fôra Gonçalo Vasques de
    Goes, seu escrivão da puridade, que disse que queria entrar por lhe
    mostrar cartas que sobrevieram de el-rei de Castella a gram pressa. E
    por tal azo e fingimento houveram entrada dentro na camara, e acharam
    el-rei com o bispo em rasões, da guisa que havemos dito, e não lh'o
    podiam já tirar das mãos. E começaram de dizer que fosse sua mercê de
    não pôr mão n'elle, cá por tal feito, não lhe guardando sua jurisdicção,
    haveria o papa sanha d'elle; demais, que o seu povo lhe chamava algoz,
    que por seu corpo justiçava os homens, o que não convinha a elle de
    fazer, por muito malfeitores que fossem.

    Com estas e outras rasões, arrefeceu el-rei de sua mui brava sanha, e o
    bispo se partiu de ante elle, com semblante triste e turvado coração.

    *CAPITULO VIII*

    _Como el-rei mandou capar um seu escudeiro, porque dormiu com uma mulher
    casada_.

    Era ainda el-rei Dom Pedro muito cioso, assim de mulheres de sua casa,
    como de seus officiaes e das outras todas do povo, e fazia grandes
    justiças em quaesquer que dormiam com mulheres casadas ou virgens, e
    isso mesmo com freiras.

    Onde aqueeceu que em sua casa havia um corregedor da côrte a que
    chamavam Lourenço Gonçalves, homem mui entendido e bem razoado cumpridor
    de todas as cousas que lhe el-rei mandava fazer, e não corrompido por
    nenhuns falsos offerecimentos que trasmudam os juizos dos homens. E
    porque o el-rei achava leal e bem verdadeiro, fiava d'elle muito, e
    queria-lhe grande bem.

    E era este corregedor muito honrado de sua casa e estado, e muito
    praceiro e de boa conversação, e seria então em meia idade. Sua mulher
    havia nome Catharina Tosse, briosa, louçã e muito aposta, de graciosas
    manhas e bem acostumada.

    Em esta sesão vivia com el-rei um bom escudeiro, e para muito, mancebo,
    e homem de prole, e n'aquelle tempo estremado em assignadas bondades,
    grande justador e cavalgador, grande monteiro e caçador, luctador e
    travador de grandes ligeirices, e de todas as manhas que se a bons
    homens requerem,–chamado por nome Affonso Madeira,–por a qual rasão o
    el-rei amava muito e lhe fazia bem gradas mercês.

    Este escudeiro se veiu a namorar de Catharina Tosse, e mal cuidados os
    perigos que lhe advir podiam de tal feito, tão ardentemente se lançou a
    lhe querer bem, que não podia perder d'ella vista e desejo: assim era
    traspassado do seu amor. Mas, porque lugar e tempo não concorriam para
    lhe fallar como elle queria, e por ter aso de a requerer ameude de seus
    deshonestos amores, firmou com o aposentador tão grande amisade que para
    onde quer que el-rei partia, ora fosse villa ou qualquer aldeia, sempre
    Affonso Madeira havia de ser aposentado junto, ou muito perto do
    corregedor. E havia já tempo que durava este aposentamento, sempre cerca
    um do outro; tendo bom geito e conversação com seu marido, por carecer
    de toda suspeita.

    Affonso Madeira tangia e cantava, afóra sua apostura e manhas boas já
    recontadas, de guisa que por aso de tal achegamento, com longa affeição
    e falas ameude, se gerou entre elles tal fructo, que veiu elle a
    acabamento de seus prolongados desejos.

    E porque semelhante feito não é da geração das cousas que se muito
    encobram, houve el-rei de saber parte de toda sua fazenda, e não houve
    d'ello menos sentido que se ella fora sua mulher ou filha. E como quer
    que o el-rei muito amasse, mais que se deve aqui de dizer, posta de
    parte toda bemquerença, mandou-o tomar dentro em sua camara, e
    mandou-lhe cortar aquelles membros que os homens em mór preço tem: de
    guisa que não ficou carne até aos ossos, que tudo não fosse corto. E
    pensaram Affonso Madeira, e guareceu, e engrossou em pernas e corpo, e
    viveu alguns annos engelhado do rosto e sem barbas, e morreu depois de
    sua natural morte.

    *CAPITULO IX*

    _Como el-rei mandou queimar a mulher de Affonso André, e de outras
    justiças que mandou fazer_.

    Quem ouviu semelhante justiça, do que el-rei fez na mulher de Affonso
    André, mercador honrado, morador em Lisboa, andando justando na rua
    nova, como era costume, quando os reis vinham ás cidades, que os
    mercadores e cidadãos justavam com os da côrte, por festa?

    Estando el-rei presente, e havendo informação certa que sua mulher lhe
    fazia maldade, entendeu que então era tempo de a achar e tomar em tal
    obra; e, por inculcas, muito escusamente foi ella tomada com quem a
    culpavam, e mandou-a queimar, e degolar a elle. E o marido, continuando
    a justa, quando cessou, soube d'isto parte, e foi-se a el-rei por se
    queixar do que lhe feito haviam. E el-rei, como o viu, antes que lhe
    elle fallasse, pediu-lhe a alviçara do que mandara fazer, dizendo que já
    o tinha vingado da aleivosa de sua mulher e do que lhe punha as cornas,
    e que melhor sabia elle quem ella era, que elle.

    Que diremos de Maria Roussada, mulher casada com seu marido, que dormira
    com ella por força (a que então chamavam roussar), por a qual cousa elle
    merecia morte? E tendo já d'ella filhos e filhas, viviam ambos em gram
    bemquerença, e ouvindo-a el-rei chamar por tal nome, perguntou por que
    lh'o chamavam, e soube da guisa como tudo fôra, e que se avieram que
    casassem ambos por tal feito não vir mais á praça: e el-rei, por cumprir
    justiça, mandou-o enforcar, e ia a mulher e os filhos carpindo traz
    elle.

    Não valeu, estando el-rei em Braga, rogo de quantos com elle andavam,
    que pudesse escapar a vida a Alvaro Rodrigues de Grade, um dos bons
    escudeiros de entre Douro e Minho, e bem aparentado, porque cortou os
    arcos de uma cuba de vinho a um pobre lavrador, que lhe logo el-rei não
    mandou cortar a cabeça, tanto que o soube.

    E porque o seu escrivão do thesouro recebeu onze libras e meia sem o
    thesoureiro, mandou-o enforcar, que lhe não poude valer o conde, nem
    Beatriz Dias, manceba d'el-rei, nem outro nenhum.

    E foram aquelle dia, com estes dois, onze mortos por justiça, entre
    ladroes e malfeitores.

    Não fique por dizer de um bom escudeiro, sobrinho de João Lourenco
    Bubal, privado d'el-rei e do seu conselho, alcaide mór de Lisboa, o qual
    escudeiro vivia em Aviz, honradamente e bem acompanhado. E foi a sua
    casa, por mandado do juiz, um porteiro, para o penhorar, e elle, por
    cumprir vontade, depenou-lhe a barba e deu-lhe uma punhada.

    O porteiro veiu-se a Abrantes, onde el-rei estava, e contou-lhe tudo
    como lhe adviera. El-rei, que o áparte ouvia, como acabou de falar,
    começou de dizer contra o corregedor que ahi estava:

    –Accorrei-me aqui, Lourenço Gonçalves, cá um homem me deu uma punhada
    no rosto, e me depennou a barba! O corregedor, e os que o ouviram,
    ficaram espantados por que o dizia. E mandou á pressa que lh'o
    trouxessem preso, e não lhe valesse nenhuma egreja. E foi assim feito, e
    trouxeram-lh'o a Abrantes, e alli o mandou degolar, e disse:–Dês que me
    este homem deu uma punhada e me depennou a barba, sempre me temi d'elle
    que me désse uma cutelada, mas já agora sou seguro que nunca m'a dará!

    Assim, que bem podem dizer d'este rei Dom Pedro, que não saíram em seu
    tempo certos os ditos de Solon, philosopho, e d'outros alguns, os quaes
    disseram que as leis e justiça eram taes como a teia da aranha, na qual
    os mosquitos pequenos, caindo, são retidos e morrem n'ella, e as moscas
    grandes e que são mais rijas, jazendo n'ella, rompem-n'a e vão-se: e
    assim diziam elles que as leis e justiça se não cumpriam senão nos
    pobres, mas os outros que tinham ajuda e accorro, caindo n'ella, rompiam
    n'a e escapavam.

    El-rei Dom Pedro era muito pelo contrario, cá nenhum, por rogo nem
    poderio, havia de escapar da pena merecida; de guisa que todos receiavam
    de passar seu mandado.

    *CAPITULO X*

    _Como el-rei mandava matar o almirante; e da carta que lhe enviou o
    duque e commum de Genova, rogando por elle_.

    El-Rei Dom Pedro queria gram mal a alcoviteiras e feiticeiras, de guisa
    que por as justiças que n'ellas fazia, mui poucas usavam de taes
    officios.

    E sendo elle na Beira, soube que uma, chamada por nome Helena,
    alcovitara ao almirante uma mulher, com que elle dormira, a que diziam
    Violante Vasques. E mandou logo el-rei queimar a alcoviteira, e ao
    almirante, Lançarote Pessanho, mandava cortar a cabeça.

    E pero os do seu conselho trabalhassem muito por o livrar de sua sanha,
    nunca o puderam com elle postar, emtanto que o almirante fugiu, e foi
    amorado, e partiu d'elle por longos tempos, perdidas suas contias e todo
    seu bem fazer e officio. E não sabendo remedio que sobre isto ter, houve
    accordo de mandar pedir ao duque e commum de Genova que escrevessem por
    elle a el rei, que fosse sua mercê de lhe perdoar.

    Os genovezes, vendo o recado do almirante, escreveram a el-rei que
    perdesse d'elle sanha, e a carta de Gabriel Adorno, duque de Genova, e
    dos anciãos do conselho d'essa cidade, dizia n'esta guisa:

    «Principe e senhor mui claro, de grande e real magestade. Esguardada a
    benignidade, muitas vezes se tempéra por mansidão o modo e rigor da
    justiça, e a piedosa consideração trabalha sempre de renovar as boas
    amisades antigas. E se boa cousa é tomar amisades e novas conhecenças,
    muito melhor é, segundo diz o sabedor, renovar e conservar as velhas,
    dizendo que o amigo novo não é egual nem semelhante ao de longo tempo.
    As quaes razões nos fazem haver fiusa na vossa grande alteza, que
    graciosamente haja de ouvir nossa humildosa supplicacão, a qual é esta,
    que a nós foi notificado como o nobre cavalleiro Dom Lançarote Pessanho,
    vosso almirante, filho em outro tempo do nobre barão Dom Manuel
    Pessanho, digno de boa memoria, nosso amigo e cidadão, haja caido em
    sanha da vossa real magestade, mais por inveja de alguns que d'elle bem
    não disseram, que por outras graves maldades que n'elle sejam achadas,
    segundo corre a commum fama que por razão bem parece; cá não é de querer
    que saia de regra de bons feitos quem é gerado e descende de padres que
    sempre foram ennobrecidos por virtuosos e bons costumes. E posto que
    errasse em alguma cousa, muito deve vossa discreta mansidão temperar o
    rigor da justiça, renovando por nobres beneficios a lealdade dos seus
    antecessores: a qual cousa nós esperando da vossa grande alteza, a ella
    humildosamente pedimos que, pelo que dito é, e nossos afincados rogos,
    tenhaes por bem tornar o dito almirante á graça primeira de seu bom
    estado. E por isto vossa real magestade haverá nós e nosso commum
    apparelhados, de ledo coração, a todas as cousas que lhe forem
    praziveis. Data, etc.»

    Não embargando esta carta, não podiam com el-rei que perdesse sanha do
    almirante; porém depois a alguns tempos, lhe perdoou el-rei, e foi
    tornado a sua mercê.

    *CAPITULO XI*

    _Das moedas que el-rei Dom Pedro fez, e da valia do oiro e da prata
    n'aquelle tempo_.

    Não se podem tão temperadamente dizer os louvoures de alguma pessoa, que
    aquelles, cujas linguas sempre têm costume de reprehender, não achem
    lugares a elles dispostos, em que ameude bem possam prasmar: e nós,
    porque dissemos d'este rei Dom Pedro que era grado e lêdo em dar, e não
    dizemos de algumas grandezas que dignas sejam de tanto louvor, poderá
    ser que nos prasmaram alguns, dizendo que não historiamos direitamente.
    E isto não é por nós bem não vermos que para autoridade de tão grande
    gabo não se acham ditos em sua igualdança; mas, por não desviar
    d'aquelles louvores que os antigos em suas obras encommendaram,
    contamol-o da guisa que o elles disseram.

    Bem achamos que nunca se anojava por lhe pedirem, e que mandava lavrar
    até cem marcos de prata, em taças e copas, para dar em janeiras, e
    dava-as cada anno, com outras joias, a quem lhe prazia.

    Accrescentou nas contias aos fidalgos e vassalos, como dissemos; cá o
    vassallo não havia antes de sua contia mais de setenta e cinco libras, e
    el-rei Dom Pedro lhe poz cento, que eram quinze dobras cruzadas, dobras
    mouriscas. E por esta contia havia de ter o vassalo cavallo recebondo e
    loriga com seu almofre, e á sua morte ficava o cavallo e loriga a
    el-rei, de luctuosa, e dava-o el-rei a quem sua mercê era: em guisa que
    com aquelle cavallo e armas, posta contia a outro vassalo, ficava sempre
    o conto dos vassalos certo, e não minguado.

    No tempo d'este rei, valia o marco da prata de liga dezenove libras, e a
    dobra mourisca tres libras e quinze soldos, e o escudo tres libras e
    dezesete soldos, e o moutão tres libras e dezenove soldos.

    Este rei Dom Pedro não mudou moeda por cubiça de temporal ganho; mas
    lavrou-se em seu tempo mui nobre moeda de oiro e prata sem outra
    mistura, a saber, dobras de bom oiro fino, de tamanho peso como as
    dobras cruzadas que faziam em Sevilha, que chamavam de Dona Branca. E
    estas dobras que el-rei Dom Pedro mandava lavrar, cincoenta d'ellas
    faziam um marco: e d'outras que lavravam, mais pequenas, levava o marco,
    cento; e de uma parte tinham quinas e da outra figura de homem com
    barbas nas faces e corôa na cabeça, assentado em uma cadeira, com uma
    espada na mão direita, e havia letras ao redor, por latim, que em
    linguagem diziam: _Pedro, rei de Portugal e do Algarve_, e da outra
    parte: _Deus, ajuda-me e faze-me excellente vencedor sobre meus
    inimigos_. E a maior dobra d'estas valia quatro libras e dois soldos, e
    a mais pequena quarenta e um soldo.

    Lavravam outra moeda de prata, que chamavam tornezes, que sessenta e
    cinco faziam um marco, de liga e peso dos reaes d'el-rei Dom Pedro de
    Castella, e outro tornez faziam, mais pequeno, de que o marco levava
    cento e trinta, e de um cabo tinha quinas, e do outro cabeça de homem
    com barbas grandes e corôa n'ella, e as letras, de ambas as partes, eram
    taes como as das dobras, e valia o tornez grande sete soldos e o pequeno
    tres soldos e meio, e chamavam a estas moedas dobra e meia dobra, e
    tornez e meio tornez.

    A outra moeda miuda eram dinheiros affonsins, da liga e valor que fizera
    el-rei Dom Affonso seu padre.

    E com estas moedas era o reino rico e abastado, e posto em grande
    abundancia. E os reis faziam grandes thesouros do que lhes sobejava de
    suas rendas, e, para os fazer e accrescentar n'elles, tinham esta
    maneira.

    *CAPITULO XII*

    _Da maneira que os reis tinham para fazer thesouros, e accrescentar
    n'elles_.

    Já vós ouvistes bem quanto os réis antigos fizeram por encurtar nas
    despezas suas e do reino, pondo ordenações em si e nos seus, por terem
    thesouros e serem abastados. Porque sendo o povo rico, diziam elles que
    o rei era rico, e o rei que thesouro tinha, sempre era prestes para
    defender seu reino e fazer guerra quando lhe cumprisse, sem aggravo e
    damno de seu povo, dizendo que nenhum era tão seguro de paz que pudesse
    carecer de fortuna não esperada.

    E para encaminharem de fazer thesouro, tinham todos esta maneira: em
    cada um anno eram os reis certificados, pelos védores de sua fazenda,
    das despezas todas que feitas haviam, assim em embaixadas como em todas
    as outras coisas, que lhe necessariamente convinham fazer, e diziam-lhe
    o que além d'isto sobejava de suas rendas e direitos, assim em dinheiros
    como em quaesquer coisas, e logo era ordenado que se comprasse d'elles
    certo oiro e prata para se pôr no castello de Lisboa, em uma torre, que
    para isto fôra feita, que chamavam a torre albarrã.

    Esta torre era mui forte, e não foi porém acabada. Estava em cima da
    porta do castelo, e alli punham o mais do thesouro que os reis juntavam
    em oiro e prata e moedas, e tinham as chaves d'ella, um guardião de São
    Francisco, e outra o prior de São Domingos, e a terceira um beneficiado
    da Sé d'essa cidade.

    E para juntarem este oiro e prata, tinham este modo: em todas as cidades
    e villas do reino que para isto eram azadas, tinham os reis seus
    cambadores, que compravam prata e oiro áquelles que o vender queriam, o
    qual não havia de comprar outrem senão elles, e acabado o anno, trazia
    cada um quanto comprara áquelles lugares onde havia de ser posto em
    thesouro: e haviam estes cambadores certa cousa de cada peça de oiro que
    compravam, e o que sobejava em moeda punham-no isso mesmo em deposito.

    Outra torre havia no castello de Santarem, em que outrosim estava mui
    gran thesouro de moeda e d'outras cousas, em tamanha quantidade, que
    ante a pontavam fortemente por não cair com o muito haver que n'ella
    punham.

    E d'esta guisa estava no Porto, e em Coimbra, e n'outros lugares.

    E posto alli, em cada um anno aquelle oiro, e prata, e moedas que assim
    ficavam, e que os reis mandavam comprar, quando o rei vinha a morrer, e
    prégavam d'elle e dos bens que fizera, dizendo como o reinara tantos
    annos e mantivera em direito e justiça, contavam-lhe mais por grande
    bondade, e louvando-o muito, diziam:–este rei, em tantos annos que
    reinou, poz nas torres do thesouro tanto oiro, e prata, e moedas. E
    quanto cada um rei n'ellas punha, tanto lh'o contavam por muito mór
    bondade.

    El-rei Dom Pedro, como reinou, pareceu a alguns que não tinha sentido de
    ordenar que accrescentassem no thesouro, que os antigos com grande
    cuidado começaram de guardar. E vendo isto um seu privado, que chamavam
    João Esteves, houve-o por grande mal, e propoz de lh'o dizer, e fallando
    el-rei com elle uma vez, em coisas de sabor, disse elle a el-rei em esta
    guisa:–Senhor, a mim parece, se vossa mercê fosse, que seria bem de
    proverdes vossa fazenda, e vêr o que se dispender póde, e, do que
    sobejar, encaminhardes como accrescenteis alguma cousa nos thesouros que
    vos ficaram de vosso padre e de vossos avós, para fazerdes o que os
    outros reis fizeram, e para terdes que dispender mais abundosamente se
    vos alguma necessidade viesse á mão, cá muito mais com vossa honra
    dispendereis vós accrescentando no thesouro que tendes, que gastar o que
    os outros reis deixaram, sem pôr n'elle nenhuma coisa.

    A estas e outras razões respondeu el-rei que dizia bem, e que lhe
    puzesse em escripto quanto era o que renderiam seus direitos, e a
    despeza que se d'ello fazia. A poucos dias trouxe o privado, em
    escripto, tudo aquillo que lhe el-rei dissera, e visto por ambos
    apartadamente, acharam que tiradas as despezas que os reis em costume
    tinham de fazer, que sómente no seu thesouro de Lisboa podia cada anno
    pôr na torre do castello até quinze mil dobras.

    E ordenou logo, como se puzesse cada anno, em oiro, e prata, e moedas,
    tudo o que sobejasse de suas rendas, nos lugares acostumados onde os
    reis punham seu haver; porém que dizia el-rei que não fazia pouco quem
    guardava o thesouro que lhe ficava de outrem e se mantinha nos direitos
    que havia de seu reino, sem fazendo aggravo ao povo, nem lhe tomando do
    seu nenhuma coisa. E ficaram todos por sua morte a el-rei Dom Fernando,
    seu filho, que os depois gastou como lhe prouve, segundo adiante
    ouvireis.

    *CAPITULO XIII*

    _Por que guisa el-rei Dom Pedro de Castella começou de juntar thesouro_.

    Por outra maneira juntou el-rei Dom Pedro de Castella mui grão thesouro,
    sem mudar moeda, nem lançar peitas ao povo: e vêde de que guisa foi,
    posto que fallemos dos feitos alheios.

    Assim, adverti que el-rei Dom Pedro estando na aldeia de Morales, que é
    uma legua de Toro, jogava um dia os dados com alguns de seus
    cavalleiros, e tinha-lhe um seu reposteiro-mór, a cerca d'elle, uns
    huchotes pequenos com alguma prata e dobras, que seria por todo até
    vinte mil: el-rei disse que aquelle era todo seu thesouro, e que mais
    não tinha.

    Aquelle dia, logo á noite, estando el-rei em sua camara, Dom Samuel
    Levi, seu thesoureiro-mór, lhe disse:–Senhor, hoje foi vossa mercê
    dizer, perante aquelles que aqui estavam, que vós não tinheis mais
    thesouro que vinte mil dobras, de que jogaveis, e com que tomaveis
    sabor. E isto, senhor, entendo que o dissestes contra mim, por me
    avergonhar, pois que sou vosso thesoureiro-mór, e não ponho melhor
    recado em vossa fazenda. Porém, senhor, vós sabeis bem que, posto que
    fosse eu vosso thesoureiro depois que vós reinastes até ora, que póde
    haver uns sete annos, sempre em vosso reino houve taes boliços por os
    quaes os recadadores de vossas rendas se atreveram a fazer coisas que
    não deviam, por guisa que eu não pude tomar d'ello conta socegadamente
    como era razão; mas ora se vossa mercê fôr de me mandardes entregar dois
    castellos, quaes eu disser, eu vos quero pôr n'elles, antes de muito
    tempo, thesouro com que bem possaes dizer que mais tendes juntas de
    vinte mil dobras.

    A el-rei prouve muito d'isto, e foram lhe entregues o alcaçar de
    Torjillo e o de Fita. Dom Samuel poz logo alli homens de que se fiava, e
    mandou cartas por todo o reino, a todos os que foram e eram recadadores
    das rendas de el-rei, des que elle começara de reinar até então, que
    viessem logo dar conta; e tomava-lh'a d'esta guisa. Por el-rei eram
    livrados a um cavalleiro, ou outro qualquer, certos mil maravedis de seu
    poimento, ou d'outra maneira, e Dom Samuel fazia vir perante si todos
    aquelles a que alguns dinheiros foram desembargados por aquelle a que
    tomava conta, e dava a cada um juramento, aos Evangelhos, quantos
    dinheiros receberam d'aquelle recadador por cada uma vez, e quantos lhe
    deixara por haver d'elle desembargo e não ser detido, e aquelle a que
    taes dinheiros foram livrados dizia que não houvera mais de tantos, e
    que os outros lhe déra, de peita, pelo desembargar, porque lhe faziam
    entender que d'outra guisa não poderia haver pagamento.

    Então, se o recadador não mostrasse lugar certo onde lhe todo fôra
    pagado, mandava Dom Samuel que a metade de quanto assim levara fosse
    para o thesouro d'el-rei, e a metade para aquelle que recebera tal
    engano.

    E todos os que taes livramentos houveram, eram mui contentes de dizer a
    verdade, por cobrar o que tinham perdido. E elle juntou, por esta guisa,
    antes de um anno, n'aquelles castellos, tão grande thesouro, que era
    estranha cousa de vêr.

    E este foi o começo do mui grão thesouro que el-rei Dom Pedro depois
    teve junto, segundo adiante contaremos.

    *CAPITULO XIV*

    _Como el-rei fez conde e armou cavalleiro João Affonso Tello, e da grão
    festa que lhe fez_.

    Em tres coisas assignadamente achamos, pela mór parte, que el-rei Dom
    Pedro de Portugal gastava seu tempo, a saber: em fazer justiça e
    desembargos do reino, e em monte e caça de que era mui querençoso, e em
    danças e festas segundo aquelle tempo, em que tomava grande sabor, que
    adur é agora para ser crido. E estas danças era a som de umas longas que
    então usavam, sem curando de outro instrumento posto que o hi houvesse:
    e se alguma vez lh'o queriam tanger, logo se enfadava d'elle e dizia que
    o dessem ao démo, e que lhe chamassem os trombeiros.

    Ora deixemos os jogos e festas que el-rei ordenava por desenfadamento,
    nas quaes, de dia e de noite, andava dançando por mui grande espaço; mas
    vêde se era bem saboroso jogo. Vinha el-rei em bateis de Almada para
    Lisboa, e saiam-no a receber os cidadãos, e todos os dos misteres, com
    danças e trebelhos, segundo então usavam, e elle saia dos bateis, e
    mettia-se na dança com elles, e assim ia até ao paço.

    Paraementes se foi bom sabor. Jazia el-rei em Lisboa uma noite na cama,
    e não lhe vinha somno para dormir, e fez levantar os mocos e quantos
    dormiam no paço, e mandou chamar João Matheus e Lourenço Palos, que
    trouxessem as trombas de prata, e fez accender tochas, e metteu-se pela
    villa em dança com os outros. As gentes que dormiam, saiam ás janellas,
    a vêr que festa era aquella, ou por que se fazia, e quando viram
    d'aquella guisa el-rei, tomaram prazer de o vêr assim lêdo. E andou
    el-rei assim grão parte da noite, e tornou-se ao paço em dança, e pediu
    vinho e fructa, e lancou-se a dormir.

    E não curando mais falar de taes jogos: ordenou el-rei de fazer conde e
    armar cavalleiro João Affonso Tello, irmão de Martim Affonso Tello, e
    fez-lhe a mór honra, em sua festa, que até áquelle tempo fora visto que
    rei nenhum fizesse a semelhante pessoa; cá el-rei mandou lavrar
    seiscentas arrobas de cêra, de que fizeram cinco mil cirios e tochas, e
    vieram de termo de Lisboa, onde el-rei então estava, cinco mil homens
    das vintenas para terem os ditos cirios. E quando o conde houve de velar
    suas armas, no mosteiro de São Domingos d'essa cidade, ordenou el-rei
    que dês aquelle mosteiro até aos seus paços, que é assaz grande espaço,
    estivessem quedos aquelles homens todos, cada um com seu cirio accesso,
    que davam todos mui grande lume, e el-rei, com muitos fidalgos e
    cavalleiros, andavam por entre elles dançando e tomando sabor, e assim
    dispenderam grão parte da noite.

    Em outro dia, estavam mui grandes tendas armadas no rocio, a cerca
    d'aquelle mosteiro, em que havia grandes montes de pão cosido, e, assáz
    de tinas cheias de vinho, e logo prestes por que bebessem, e fòra
    estavam ao fogo vaccas inteiras em espetos a assar, e quantos comer
    queriam d'aquella vianda, tinham-na muito prestes, e a nenhum não era
    vedada. E assim estiveram sempre em quanto durou a festa, na qual foram
    armados outros cavalleiros, cujos nomes não curamos dizer.

    *CAPITULO XV*

    _Das avenças que el-rei de Castella e el-rei Dom Pedro de Portugal
    firmaram entre si, e como lhe el-rei de Portugal prometteu de fazer
    ajuda contra Aragão_.

    Escrevem alguns louvando este rei Dom Pedro, dizendo que reinou em paz
    em quanto viveu, e fortuna não fez sem-razão de encaminhar o começo, e
    meio, e fim de seu mando, de viver em socego e folgada paz; cá elle, por
    morte de el-rei seu padre, achou o reino sem nenhuma briga por que
    houvesse de haver contenda com nenhum rei da Espanha, nem de outra
    provincia mais alongada.

    Dês ahi, como elle reinou, mandou logo Ayres Gomes da Silva e Gonçalo
    Annes de Beja, a el-rei de Castella, seu sobrinho, com recado, e de
    Castella veiu a elle, da parte de el-rei Dom Pedro, um cavalleiro, que
    chamavam Fernão Lopez de Estuñega. E tratou-se então, entre os reis, que
    fossem ambos verdadeiros e leaes amigos, e firmaram d'aquella vez suas
    amisades.

    Depois d'isto, a cabo de um anno, estando el-rei Dom Pedro em Evora,
    chegaram mensageiros de el-rei de Castella, a saber, Dom Samuel Levi,
    seu thesoureiro-mór, e Garcia Guterrez Tello, alguazil mór de Sevilha, e
    Gomes Fernandez de Soria, seu alcaide, e trataram, entre os reis ambos,
    muito mais perfeitas amisades que antes. E foi mais ordenado, entre
    elles, que o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, e herdeiro em
    Portugal, casasse com Dona Beatriz, filha do dito rei de Castella, e que
    se fizessem os desposorios, por seus procuradores, dês fevereiro meiado
    seguinte até ao primeiro dia de março que vinha, e as bodas logo no
    postumeiro dia de abril, e que el-rei de Castella desse á dita sua
    filha, em casamento, outro tanto haver quanto el-rei Dom Affonso de
    Portugal dera, com sua filha Dona Maria, a el-rei Dom Affonso seu padre,
    e que el-rei de Portugal desse á dita Dona Beatriz, em arrhas e doação,
    outro tanto quanto seu padre, el-rei Dom Affonso, déra a Dona Constança,
    quando com elle casára, e mais, que casasse Dona Constança, filha do
    dito rei Dom Pedro de Castella, com o infante Dom João, e a outra filha,
    que chamavam Dona Izabel, casasse com o infante Dom Diniz, e que os
    desposorios e casamentos d'estes fossem acabados d'ahi a seis annos, e
    que el-rei de Castella desse taes lugares a cada uma d'ellas, de que
    houvessem de renda noventa mil maravedis, e el-rei de Portugal, a cada
    um dos infantes, lugares que lhe rendessem cada anno dez mil libras de
    portuguezes; e que el-rei de Castella fosse seu amigo, e imigo de imigo,
    e que se ajudassem um ao outro por mar e por terra, cada vez que
    requerido fosse, e que el-rei de Castella não fizesse paz com el-rei de
    Aragão, contra quem lhe elle então requeria ajuda, sem lh'o fazer saber
    primeiro, nem com outro nenhum rei e senhor.

    Onde sabei, que esta ajuda, que el rei de Castella então pediu a el-rei
    Dom Pedro de Portugal, fôra já antes pedida por elle a el-rei Dom
    Affonso, seu padre, quando este rei Dom Pedro de Castella começou a
    guerra contra el-rei Dom Pedro de Aragão, que foi no postumeiro anno do
    reinado do dito rei Dom Affonso, segundo adiante vereis; a qual ajuda
    havia de ser gentes de cavallo por terra, e certas galés pelo mar.

    El-rei Dom Affonso respondeu a seu neto, que elle sabia bem e era certo
    das posturas e firmidões que foram feitas entre el-rei Dom Diniz, seu
    padre, e el-rei Dom Fernando, seu avó, e el-rei Dom Jayme de Aragão, as
    quaes todos tres firmaram por si e por todos seus successores, e havido
    accordo com todos os bons da casa de Portugal, que para ello foram
    juntos em conselho, achou el-rei Dom Affonso que lhe não podia fazer a
    dita ajuda, com aguisada razão: e vista tal resposta por el rei de
    Castella, cessou de lh'a mais requerer.

    Morto el-rei Dom Affonso de Portugal, e começando de reinar este rei Dom
    Pedro, seu filho, enviou-lhe o dito rei de Castella rogar que lhe
    quizesse fazer ajuda por mar e por terra em aquella guerra que então
    havia contra el-rei de Aragão; cá isso mesmo tinha elle em vontade de
    fazer a elle quando lhe cumpridoiro fosse.

    El-rei de Portugal respondeu a isto, que bem certo devia elle de ser dos
    bons e grandes dividos que sempre houvera entre os reis de Portugal e de
    Aragão, pelos quaes elle com razão aguisada poderia ser bem escusado de
    fazer nem dizer cousa que a elle e a sua terra fosse prejuizo, mórmente,
    que entre el-rei Dom Affonso, seu padre, e el-rei Dom Pedro de Aragão,
    que então era, foram firmadas posturas e amisades para se amarem e
    ajudarem, especialmente contra el-rei Dom Affonso, padre d'elle rei de
    Castella, e que isso mesmo fôra já a elle tratado, por vezes, depois que
    entre elles recrescera aquella discordia; mas, que não embargando estas
    rasões todas, que entendia que entre elles ambos havia tantos e tão bons
    dividos, e assim aguisadas rasões, por que cada um d'elles devia fazer,
    por honra e prol do outro, toda coisa que pudesse, e que elle assim o
    entendia de fazer, tambem em aquelle mister que então havia, como em
    todos os outros. E que para accrescentar na amisade e dividos que ambos
    haviam, que lhe prazia de o ajudar n'aquella guerra, que começada tinha,
    mas porquanto, a Deus graças, elle era abastante de muitas gentes, muito
    mais que el-rei de Aragão, e parte de suas galés eram perdidas, que
    melhor podia escusar a ajuda por terra que a do mar: e como quer que lhe
    esta mais custosa fosse, que lhe prazia de o ajudar com dez galés
    grossas, pagas por trez mezes, as quaes lhe faria bem prestes quando
    lh'as mandasse requerer.

    E foi assim de feito, que lhe fez ajuda por mar duas vezes, e duas por
    terra, de bons cavalleiros e bem corregidos, durando por longos tempos
    grande guerra, e muito crua, entre el-rei Dom Pedro de Castella e el-rei
    Dom Pedro de Aragão.

    Mas porque alguns, ouvindo aquisto, desejarão saber que guerra foi esta,
    ou porque se começou e durou tanto tempo, e nós falar d'isto podiamos
    bem escusar, por taes coisas serem feitos de Castella e não de Portugal,
    pero, não embargando isto, por satisfazer ao desejo d'estes, dês ahi
    porque nos parece que não havendo alguma noticia das crueldades e obras
    d'este rei Dom Pedro de Castella não podem bem vir em conhecimento, qual
    foi a razão porque elle depois fugiu de seu reino e se vinha a Portugal
    buscar ajuda e accorro, e como depois de sua morte muitos lugares de
    Castella se deram a el-rei Dom Fernando, e tomaram voz por elle: porém
    faremos de tudo um breve falamento, começando primeiro nas cousas que
    advieram em começo de seu reinado, vivendo ainda el-rei Dom Affonso de
    Portugal, seu avô, com as outras que se seguiram depois que reinou
    el-rei Dom Pedro, seu tio, das quaes nos parece que se em outro lugar
    melhor contar não podem que todas aqui juntamente, entremettendo seus
    feitos com a guerra, e primeiro, das cousas que fez antes que a
    começasse, por saberdes tudo, em certo, de que guisa foi.

    *CAPITULO XVI*

    _De algumas pessoas que el-rei D. Pedro de Castella mandou matar, e como
    casou com a rainha Dona Branca e a deixou_.

    Segundo testemunho de alguns, que seus feitos d'este rei de Castella
    escreveram, elle foi muito cumpridor de toda cousa que lhe sua natural e
    desordenada vontade requeria: em tanto que dizendo nós, pelo miudo, tudo
    o que feiamente se poderia ouvir de seus feitos, caíriamos em
    reprehensão, que não eramos escasso de contar os males alheios, mormente
    taes que são pregoeiros de má e vergonhosa fama, porém muito menos
    d'aquelles que achamos escriptos, dos principaes diremos, e mais não.

    Este rei foi muito arredado das manhas e condições que aos bons reis
    cumpre de haver, cá elle dizem que foi mui luxurioso, de guisa que
    quaesquer mulheres que lhe bem pareciam, posto que filhas-d'algo e
    mulheres de cavalleiros fossem, e isso mesmo donas de ordem ou de outro
    estado que não guardava mais umas que outras. Era muito cubiçoso do
    alheio por má e desordenada maneira, e não queria homem em seu conselho,
    salvo que lhe louvasse sua razão e quanto fazia. Matou muitas honradas
    pessoas, d'ellas sem razão por lhe darem bom conselho, e outras sem
    porque, e por ligeiras suspeitas, em tanto que muitos bons se afastavam
    d'elle muito anojados, por temor da morte: cá nenhum não era com elle
    seguro, posto que o bem servisse, e lhe elle muita mercê e honra
    fizesse. E deixados os achaques que a cada um punha por os matar,
    sómente, em breve, das mortes digamos, e mais não.

    No segundo anno de seu reinado foi morta D. Leonor Nunez de Gusman,
    manceba que fôra de el-rei seu padre, e madre do conde Dom Henrique, que
    depois foi rei; e posto que alguns digam que foi por mandado da rainha
    Dona Maria, sua madre, certo é que ella não mandaria fazer tal cousa sem
    consentimento de el-rei seu filho. E deu el-rei a sua madre todos os
    bens de Leonor Nunez.

    Mandou el-rei matar Garcia Lasso da Veiga, um grande fidalgo de Gastella
    e muito aparentado de genros e parentes e amigos, por suspeita que
    d'elle houve.

    Mandou matar tres homens bons da cidade de Burgos, a saber, Pero
    Fernandez de Medina, e João Fernandez, escrivão, e Affonso Garcia de
    Camargo.

    Idem, cercou Dom Affonso Fernandez Coronel, na villa de Aguilar, e
    entrou-o por força, e mandou-o matar, e Pero Coronel seu sobrinho, e
    João Gonçalvez d'Eça, e Pero Dias de Quesada, e Rodrigo Annes de Beema,
    e João Affonso Carrilho, mui bom cavalleiro.

    Mandou el-rei pedir a el-rei de França que lhe desse por mulher uma das
    filhas do duque de Bourbon seu primo, e de seis filhas que elle tinha,
    escolheram os mensageiros uma, que chamavam Dona Branca, moça de 18
    annos e bem formosa, e receberam-na em seu nome. E como el-rei Dom Pedro
    isto soube, mandou que lh'a trouxessem logo, e enviou el-rei de França
    com ella o visconde de Cardona e outros grandes cavalleiros de sua
    terra, que lh'a trouxeram mui honradamente; e deu-lhe com ella mui grão
    casamento em oiro e prata e outras riquezas, e foram então feitas as
    dobras que chamaram de Dona Branca, e os reaes de Castella de el-rei Dom
    Pedro.

    E emquanto os mensageiros foram tratar este casamento, tomou elle por
    manceba Maria de Padilha, que andava por donzella em casa de Dona Isabel
    de Menezes, filha de Dom Tello de Menezes, mulher de Dom João Affonso de
    Albuquerque, que a criava. E tal vontade poz el-rei n'ella, que já não
    curava de casar com Dona Branca quando veiu, tendo já da outra uma filha
    que chamavam Dona Beatriz.

    E por conselho de Dom João Affonso de Albuquerque, pero muito contra
    vontade d'el-rei, ordenou de fazer suas bôdas em Valhadolid, e foram
    feitas uma segunda feira. E logo á terça seguinte, como el-rei comeu, a
    cabo de uma hora, deixou sua mulher, que não valeu rogo nem lagrimas da
    rainha Dona Maria sua madre, nem da rainha de Aragão sua tia, que o
    pudessem ter que se não partisse, e levou tal andar que foi essa noite
    dormir á aldeia de Pajares, que são dezeseis leguas de Valhadolid, e em
    outro dia chegou a Montalban, onde estava Dona Maria de Padilha. E tinha
    el-rei, quando partiu, e alguns dos que com elle iam, mulas em certos
    lugares, pero não chegaram com elle mais de tres; e foi por isto grande
    alvoroço entre os senhores e fidalgos do reino que alli eram, e alguns
    foram logo partidos d'el-rei.

    Depois, por afincado conselho, tornou el-rei a Valhadolid e esteve com
    sua mulher dois dias, e nunca mais puderam com elle que alli
    assocegasse; e partiu-se e nunca a mais quiz vêr. E o visconde e
    cavalleiros, que com ella vieram, se partiram sem mais falar a el-rei.

    Sendo viva esta rainha Dona Branca, não havendo mais de um anno que
    el-rei com ella casara, pareceu-lhe bem Dona Joanna de Castro, filha de
    Dom Pedro de Castro, que chamaram da Guerra, mulher que fôra de Dom
    Dïego de Alfaro, e commetteu-lhe por outrem que casasse com elle. E ella
    não querendo, porque el-rei era casado, disse elle que tinha razões por
    que o não era: e mandou aos bispos de Avila e de Salamanca que
    pronunciassem que podia casar. E elles, com medo, disseram-no assim, e
    foram recebidos na villa de Qualhar, dentro na igreja, solemnemente,
    pelo bispo de Salamanca que os recebeu ambos. Em o outro dia partiu
    el-rei d'alli, e nunca mais viu esta Dona Joanna: e ella chamou-se
    sempre rainha, pero não prazia a el-rei d'ello.

    A rainha Dona Maria tomou comsigo sua nora e foi-se para Outerdesilhas,
    e dês-ahi mandou-a el-rei levar guardada a Revollo, que a não visse sua
    madre nem outro nenhum, e depois a teve presa em Medina-Sidonia e alli a
    mandou matar, sendo então a rainha com idade de vinte e cinco annos,
    muito sisuda e bem acostumada.

    E elle teve ordenado de mandar matar Alvaro Gonçalves Mourão, e Dom
    Alvaro Perez de Castro, irmão de Dona Ignez, madre de Dom João e de Dom
    Diniz, filhos de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então infante; e
    foram percebidos por Dona Maria de Padilha, que lh'o mandou dizer, e
    assim escaparam de morte.

    Mandou matar em Medina del Campo, um dia pela festa, em seu paço, Pero
    Rodriguez de Vilhegas, adiantado mór de Castella, e Sancho Rodriguez de
    Rojas; e foi morto um escudeiro de Pero Rodriguez.

    Mandou matar, em Toledo, vinte e dois homens bons, do commum, porque
    foram em conselho de se alçar a cidade de Toledo, por não matarem n'ella
    a rainha Dona Branca, segundo todos d'aquella vez cuidaram, entre os
    quaes mandava matar um ourives velho de oitenta annos; e um seu filho de
    dezoito annos, tendo-o para o matar, disse a el-rei que lhe pedia por
    mercê que antes mandasse matar a elle que seu padre, e el-rei mandou-o
    assim fazer: pero mais prouvera a todos que el-rei não mandara matar nem
    um nem outro.

    E mandou matar quatro cavalleiros bons d'essa cidade, a saber, Gonçalo
    Mendes, e Lopo de Vellasco, e Tello Gonçalves Palomeque, e Lopo
    Rodrigues, seu irmão.

    Quando entrou a villa de Toro, onde estava a rainha sua madre, saiu a
    rainha a elle, do alcaçar, por seu mandado, e mandou matar Dom Pero
    Esteves, que se chamava mestre de Calatrava, alli onde vinha junto com
    ella, e Rui Gonçalves de Castanheda que a trazia de braço, e Affonso
    Telles Giron, e Martim Affonso Tello, todos quatro a redor da rainha. E
    ella, quando os viu matar, tão a cerca de si, caiu em terra como morta,
    e levantaram-na, bradando e maldizendo seu filho, e a poucos dias lhe
    pediu que a mandasse a Portugal para el-rei seu padre, e assim o fez: e
    ahi morreu depois, segundo tendes ouvido.

    Mandou el-rei mais matar Gomes Manrique de Hornamella, e outros; e
    ordenou um torneio em Outerdesilhas, de cincoenta por cincoenta, por
    matar n'elle o mestre de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, que era
    no torneio. E el-rei não quiz descobrir este segredo a outrem, e porem
    não se fez aquelle dia.

    *CAPITULO XVII*

    _Como se começou o desvairo entre el-rei Dom Pedro de Castella e o conde
    Dom Henrique, seu irmão, o qual foi aso porque se o conde foi fóra do
    reino_.

    Pois havemos de fazer menção, ao diante, da guerra e grande desvairo que
    depois houve entre o conde Dom Henrique e el-rei Dom Pedro, seu irmão,
    necessario é que contemos primeiro como se começou sua desavença e de
    que guisa se elle partiu do reino: e isto, antes que entremos na guerra
    de Castella com el-rei de Aragão, em cuja ajuda elle depois veiu.

    Onde sabei que morto el-rei Dom Affonso sobre o cerco de Gibraltar, que
    foi na era de mil e trezentos e oitenta e oito annos, no mez de março, e
    tomando todos por seu rei o infante Dom Pedro seu primogenito filho,
    sendo então em idade de quinze annos, e estando na cidade de
    Sevilha,–partiram do arrayal com o corpo de el-rei, para o virem
    soterrar a Castella, muitos dos senhores e fidalgos que eram alli com
    elle, assim como o infante Dom Fernando, filho de el-rei de Aragão,
    marquez de Tortosa, sobrinho do dito rei Dom Affonso, filho da rainha
    Dona Leonor sua irmã, e Dom Henrique conde de Trastamara, e Dom
    Fradarique mestre de São Thiago, seu irmão, filhos de Leonor Nunez, e do
    dito rei Dom Affonso, e Dom João Affonso de Albuquerque, e outros
    senhores, e mestres, e ricos-homens. E passando o corpo de el-rei
    perante a villa de Medina Sidonia, que era de Leonor Nunez, ella se foi
    dentro ao lugar; porquanto Affonso Fernandez Coronel, que a tinha por
    ella, lhe disse que a não queria mais ter. E foi por esta entrada, que
    Leonor Nunez fez n'aquelle logar, mui grande murmurio entre os senhores
    e cavalleiros que levavam o corpo d'el-rei, cuidando que ella se punha
    alli em esforço dos filhos e parentes seus, que alli vinham.

    E Dom João Affonso de Albuquerque, quando viu aquella ficada que os
    filhos e parentes de Leonor Nunez faziam com ella n'aquelle logar, que
    era bem forte, tratou com alguns que o conde Dom Henrique e Dom
    Fradarique seu irmão, estivessem n'aquella villa como presos. E soube-o
    Leonor Nunez, e tomou mui grão medo. E trataram com ella, segurando-a
    Dom João Nunez de Lara que tinha sua filha esposada com Dom Tello, seu
    filho d'ella, cuidando ella que tal segurança fosse firme.

    E saiu-se do logar ella e seus filhos, e Dom Pedro Ponce de Leon, e Dom
    Fernão Perez Ponce seu irmão, mestre de Alcantara, e Dom Alvaro Perez de
    Guzman, e outros seus parentes, e houveram todos accordo de se apartar
    de el-rei, receando-se muito de irem a Sevilha, onde el-rei Dom Pedro
    estava, e serem presos. E logo n'esse dia que partiram de Medina, se
    foram a Moram, que é uma villa e castello bem forte a cerca de terra de
    mouros, e não segurando ainda de estar alli, foram-se para Aljazira, que
    tinha Dom Pero Ponce, e Dom Fradarique se tornou para a terra da ordem
    de São Thiago.

    A rainha Dona Maria, com seu filho el-rei Dom Pedro e todos os que eram
    em Sevilha, saíram fóra da cidade receber o corpo de el-rei, e foi-lhe
    feito mui honradamente tudo aquillo que cumpria, e soterrado na egreja
    de Santa Maria, na capella dos Reis.

    El-rei D. Pedro, sabendo a partida de seus irmãos e dos outros fidalgos,
    e como estavam em Aljazira, mandou saber secretariamente que maneira
    tinham, e achou que se apoderavam do logar o mais que podiam; e mandou
    lá galés armadas, e Guterre Fernandez de Toledo por capitão: e o conde
    D. Henrique, e os outros vendo que lhes não cumpria estar alli,
    tornaram-se para Moram, onde estava Dom Fernão Rodriguez Ponce.

    Em isto foi-se Dona Leonor Nunez a Sevilha, e posta de parte a segurança
    que lhe feita tinha, mandou-a el-rei guardar mui bem no alcaçar, e
    trataram depois, por parte de el-rei, com o conde Dom Henrique, e com os
    outros senhores, de guisa que se vieram todos a Sevilha para el-rei. E o
    conde ia vêr cada dia sua madre, com a qual estava Dona Joanna, filha de
    Dom João Manuel, sua esposa. E houveram accordo, a madre com o filho,
    que houvesse ajuntamento com sua esposa, por se não desfazer o casamento
    segundo rugiam; e fel-o assim, e pezou d'isto muito a el-rei, e á rainha
    sua madre, e a outros muitos, e por isto defendeu el-rei que a não fosse
    nenhum mais vêr: e levaram-na d'alli para Carmona, e o conde Dom
    Henrique fugiu para as Asturias, por quanto lhe disseram que o mandava
    el-rei prender. Depois foi levada Dona Leonor, sua mãe, a Talavera, e
    alli a mandou matar a rainha Dona Maria por Affonso Fernandez de Olmedo,
    seu escrivão, como já tendes ouvido.

    O conde Dom Henrique estando nas Asturias, ouviu como el-rei mandara
    matar sua madre, e depois Garcia Lasso, adiantado de Castella, e não
    ousou de estar alli, e foi-se a Portugal para el-rei Dom Affonso: e
    quando el-rei Dom Pedro fez vistas com seu avô em Cidade Rodrigo, como
    dissemos, rogou el-rei Dom Affonso a seu neto que perdoasse ao conde, e
    elle perdoou-lhe, e tornou-se o conde para as Asturias, cá não ousou de
    se ir para el-rei.

    E elle nas Asturias, soube el-rei como abastecia Gijon, e foi-se lá, e
    cercou o lugar, onde estava sua mulher Dona Joanna, cá elle não se
    atreveu de o esperar alli, e foi-se em tanto a uma montanha mui forte
    que dizem Montojo, e os de Gijon pleitearam com el-rei que perdoasse ao
    conde, e a el-rei prouve, e tornou-se.

    E quando el-rei houve de fazer suas bôdas em Valhadolid com Dona Branca,
    segundo contámos, chegou o conde Dom Henrique e Dom Tello seu irmão, e
    trazia o conde seiscentos homens de cavallo e mil e quinhentos de pé; e
    sendo em Cijalles, duas leguas d'onde el-rei estava, mandou-lhe dizer
    que não ousaria de entrar na villa, salvo com toda sua gente, porquanto
    se receava de alguns que eram na côrte. E el-rei mandou-o segurar: não
    se fiaram do seguro, e houveram de pelejar com el-rei, que sahiu a
    elles. Depois, foram de accordo com elle, e ficaram em sua mercê.

    Casou el-rei com Dona Branca, e deixou-a em outro dia, e foi-se para
    Dona Maria de Padilha. E d'essa idéia foi desavindo d'elle Dom João
    Affonso de Albuquerque que governava a casa d'el-rei. E tratou-se depois
    que Dom João Affonso estivesse em Portugal, se quizesse, e que seus
    castellos e bens, que havia em Castella, fossem seguros: prometteu-lh'o
    el-rei assim, e depois que Dom João Affonso foi em Portugal, cercou-lhe
    el-rei Medelin, e cobrou-o, e fel-o derribar, e depois cercou
    Albuquerque, e não o podendo tomar, partiu-se d'alli, e deixou por
    fronteiros, em Badalhouce, o conde Dom Henrique e o mestre de São Thiago
    Dom Fradarique, seu irmão.

    Partido el-rei d'alli, enviou o conde seu recado a Dom João Affonso, que
    fossem todos trez amigos, e entrassem por Castella, e a elle prouve
    muito, e firmaram seu preito de ser assim; e houveram Dom Fernando de
    Castro em sua ajuda, que estava em Galliza, e começaram de entrar por
    Castella, fazendo n'ella grande estrago.

    N'isto mandou el-rei Dom Pedro João Affonso de Henestrosa, seu
    camareiro-mór, a Arevalo onde estava a rainha Dona Branca, sua mulher,
    que a trouxesse ao alcançar de Toledo, e elle trazendo-a pela cidade,
    disse ella que queria ir primeiro fazer oração á igreja de Santa Maria,
    e dês-que foi dentro na igreja, não quiz mais sahir d'ella, receando-se
    de ser morta ou presa. João Affonso não se atreveu de a fazer sahir da
    igreja contra sua vontade, e tornou-se para el-rei. Os moradores de
    Toledo falando sobre isto, houveram piedade da rainha, e accordaram de a
    não deixar prender nem matar n'aquella cidade, e determinaram de pôr por
    ella os corpos, e quanto haviam. E mandaram primeiro por Dom Fradarique
    mestre de São Thiago, e colheram-no dentro com suas companhas, e mais
    enviaram suas cartas ao conde Dom Henrique, e a Dom João Affonso
    d'Abuquerque, e a Dom Fernando de Castro, fazendo-lhe saber sua
    intenção; e tiveram com Toledo, por parte da rainha, a cidade de
    Cardona, e Cuenca, e o bispado de Jaen e Talavera. Que cumpre dizer
    mais: os infantes Dom Fernando e Dom João, primos d'el-rei, e muitos
    senhores e cavalleiros, se partiram d'elle por ajudar a tenção dos
    outros, em guisa que não ficaram com el-rei mais de seiscentos de
    cavallo. E todos aquelles senhores lhe mandavam dizer que prestes eram
    para o servir e fazer seu mandado, com tanto que tomasse sua mulher, e
    vivesse com ella e não regesse o reino pelos parentes de Dona Maria de
    Padilha, nem os fizesse seus privados: e el-rei não quiz cair em tal
    preitesia.

    N'isto adoeceu Dom João Affonso de Albuquerque, e el-rei mandou
    encobertamente tratar com o physico, que pensava d'elle, que lhe faria
    mercês e que lhe desse com que morresse; e elle fel-o assim, segundo
    depois foi sabido; e os vassalos de Dom João Affonso prometteram de não
    enterrar o seu corpo até que esta demanda fosse acabada, e elle assim o
    mandou em seu testamento. E quando aquelles senhores ordenavam conselho
    sobre aquillo que lhes convinha fazer, falava em lugar de Dom João
    Affonso, Ruy Dias Cabeça-de-Vacca, que fôra seu mordomo-mór. E eram as
    gentes d'estes senhores todos até cinco mil de cavallo, e muita gente de
    pé.

    Acima vendo el-rei como perdia as gentes por esta guisa, houve conselho
    de se pôr em poder d'elles, na villa de Toro, e alli partiram elles logo
    os officios do reino e da casa d'el-rei entre si, de guisa que a el-rei
    não prouve; e então foram enterrar o corpo de Dom João Affonso, tendo
    que sua demanda era já acabada.

    El-rei sentindo-se como preso, segundo a maneira que com elle tinham,
    fingiu que queria ir á caça, e uma grande manhã cavalgou, e foi-se para
    Segovia, e foram-se os infantes para el-rei por suas preitesias, e
    começou-se de desfazer a companhia que se antes juntara. E o conde Dom
    Henrique, e Dom Tello e Dom Fradarique, seus irmãos, ficaram a uma
    parte, e seriam por todos até mil e duzentos de cavallo, e muitos homens
    de pé. E houveram entrada em Toledo, e foi el-rei á cidade, e cobrou-a,
    e elles deixaram-na, e foram-se.

    Depois lhes enviou rogar a rainha Dona Maria que se fossem para Toro,
    onde ella estava, receando-se del-rei, seu filho; e foram-se allá, e
    chegou ahi el-rei com suas gentes, e pelejaram nas barreiras, e não
    poude el-rei ahi assocegar por mingua d'agua, e partiu-se d'ahi.

    E depois que se el-rei foi, partiu-se o conde Dom Henrique para Galliza,
    uns diziam que para se ajuntar com Dom Fernando de Castro, outros
    affirmavam que o fazia o conde por não ser cercado. E quizera el-rei
    partir empoz elle, e depois houve em conselho de tomar primeiro a villa
    de Toro; e cercou-a outra vez, e tratou com Dom Fradarique, seu irmão, e
    do conde Dom Henrique, que ficava na villa por guarda, que se fosse para
    elle: e elle fel-o assim. E em outro dia cobrou el-rei a villa, por uma
    porta que lhe deram, e prendeu Dona Joanna, mulher do conde Dom
    Henrique, e fez matar alguns do lugar, e mais aquelles cavalleiros que
    foram mortos acerca da rainha sua madre, como dissemos.

    Quando o conde Dom Henrique soube como el-rei cobrara a villa de Toro, e
    matara aquelles cavalleiros que tinha por sua parte, e que o mestre Dom
    Fradarique, seu irmão, era já com el-rei de accordo, entendeu que lhe
    não cumpria mais aporfiar na guerra, nem estar mais tempo no reino e
    preitejou com el-rei, que lhe desse cartas de seguro para se ir para
    França: e a el-rei prouve disto, e deu-lh'as.

    E soube o conde como el-rei mandara ao infante Dom João e a Diego Perez
    Sarmento seu adiantado-mor, e a todos os outros cavalleiros e officiaes
    das comarcas por onde elle cuidava que o conde fosse, que lhe tivessem o
    caminho e o matassem; assim como depois matou todos os senhores e homens
    de estado que foram na companhia da demanda que se levantou contra elle
    por razão da rainha Dona Branca.

    E o conde partiu de Galliza, e foi pelas Asturias, por quanto por
    aquella comarca não havia mandamento d'el-rei, pensando elle pouco que
    fosse por alli, e passou trigosamente, e foi-se pela Biscaia, onde
    estava Dom Tello seu irmão, e d'ahi se passou por mar á Rochella, onde
    achou el-rei de França, que havia guerra com os inglezes, e tomou d'elle
    soldo.

    E d'esta guisa foi sua desavença com el-rei Dom Pedro seu irmão, e
    partida do reino de Castella, durando n'estas desavenças, todas que
    ouvistes n'este capitulo, passados de sete annos.

    *CAPITULO XVIII*

    _Como e por qual aso se começou a guerra entre Castella e Aragão_.

    Andando em sete annos que el-rei Dom Pedro de Castella reinava, na era
    de mil e trezentos e noventa e quatro, estando el-rei em Sevilha, mandou
    armar uma galé para ir folgar e vêr a pescaria que faziam nas covas das
    almadravas. E foi em uma galé a São Lucas de Barrameda, e achou ahi, no
    porto, dez galés de catalães e um lenho de que era capitão um cavalleiro
    aragonez, que diziam Mosse Frances de Emperellores, as quaes iam, por
    mandado de el-rei de Aragão, em ajuda de el-rei de França contra el-rei
    de Inglaterra.

    E entrando elle capitão n'aquelle porto por tomar refresco, achou ahi
    dois baixeis de plazentinos carregados de azeites, que iam para
    Alexandria, e tomou os, dizendo que eram navios de genovezes, com que os
    catalães haviam guerra então.

    El-rei lhe mandou dizer que pois aquelles baixeis estavam em seu porto,
    que os não quizesse tomar, ao menos por sua honra d'elle, pois estava de
    presente. E elle respondeu que aquellas gentes eram inimigos d'el-rei
    d'Aragão, e que os podia tomar de boa guerra. E el-rei lhe mandou dizer,
    outra vez, que fosse certo, se os deixar não quizesse, que mandaria
    prender em Sevilha todos os mercadores catalães que ahi eram, e
    tomar-lhes todos seus bens.

    O capitão das galés por tudo isto não o quiz fazer, e vendeu logo alli
    os baixeis por setecentas dobras, e foi-se seu caminho, sem mais falar a
    el-rei.

    E el-rei houve d'isto grande melancolia, e não sem razão, mas a vingança
    foi desarrazoada; porque assim como de pequena faisca se accende grande
    fogo, achando coisa disposta em que obre, assim el-rei Dom Pedro com
    destemperada sanha, por tomar d'aquillo vingança, moveu crua guerra
    contra Aragão, de sangue e fogo, por muitos annos, como ora brevemente
    ouvireis; cá elle mandou logo prender em Sevilha todos os mercadores
    catalães que ahi eram, e escrever lhes todos seus bens, e outro dia
    partiu-se á pressa por terra, e fel-os todos pôr em cadeias, e vender
    quanto lhes acharam.

    E mandou logo a el-rei de Aragão fazer-lhe queixume de Mosse Frances, da
    pouca honra e cortezia que n'elle achara, mandando-lh'o rogar por duas
    vezes, e que porém lhe requeria que lh'o entregasse para d'elle haver
    emenda, e anadiu mais que tirasse uma commenda que dera a Dom Pedro
    Moniz de Godoi, que era homem a que bem não queria, e se estas cousas
    fazer não quizesse, que fosse certo que lhe faria guerra.

    E el-rei de Aragão deu sua resposta, que lhe pesava do nojo que a el-rei
    fôra feito, e que como aquelle cavalleiro tornasse para seu reino, que
    elle o ouviria e faria justiça, de guisa que el-rei de Castella fosse
    contente; e que a commenda que havia dada a Dom Pedro Moniz, pois a
    el-rei não prazia d'ello, que cataria outra cousa de que lhe fizesse
    mercê, mas que até que al lhe désse, que lh'a não podia tirar sem grande
    sua mingua.

    O mensageiro, que bem sabia a vontade de el-rei Dom Pedro, não foi
    contente d'esta resposta, e desafiou o logo, e seu reino.

    El-rei de Aragão disse que el-rei de Castella não havia justa razão para
    fazer isto, e que o deixava em juizo de Deus, e mandou logo aperceber
    sua terra.

    *CAPITULO XIX*

    _Como el-rei de Castella entrou por Aragão e das cousas que fez n'este
    anno_.

    El-rei de Castella, emquanto mandou a Aragão o recado que haveis ouvido,
    antes que a resposta de lá viesse, com desejo de tomar vingança, mandou
    á pressa armar sete galés e seis naus; e metteu-se el-rei n'ellas,
    cuidando de achar na costa de Portugal aquelle cavalleiro, e chegou até
    Tavira, e soube que era passado, e tornou-se para Sevilha; e mandou
    el-rei as galés á ilha de Iviça, e começou-se a guerra por todas as
    partes.

    N'isto começou-se a era de mil trezentos e noventa e cinco, em cuja
    sesão morreu el-rei Dom Affonso de Portugal, a que este rei Dom Pedro,
    seu neto, mandara pedir ajuda para esta guerra, segundo antes havemos
    contado; e vendo el-rei de Aragão a não boa maneira que el-rei de
    Castella com elle queria ter, fel-o saber ao conde Dom Henrique e a
    alguns cavalleiros castelhanos que andavam em França por medo de el-rei
    Dom Pedro, e o conde com elles vieram-se para elle, e el-rei os recebeu
    mui bem e deu ao conde certos castellos em que tivesse suas gentes, e
    soldo para oitocentos de cavallo.

    El-rei de Castella, como isto soube, partiu de Sevilha e entrou por
    Aragão, e tomou alguns castellos, e tornou-se para Deça, uma sua villa
    na fronteira de Aragão; e acendia-se a guerra cada vez mais.

    E alli chegou a elle o cardeal Dom Guilhem, legado do papa Innocencio,
    para pôr avença entre elles, e não podendo fazer que cessasse a guerra
    de todo, por as cousas mui graves de outorgar que el-rei Dom Pedro
    requeria a el-rei de Aragão, fez entanto uma tregua de quinze dias, os
    quaes durando, tomou el-rei Dom Pedro a cidade de Taraçona. E o cardeal
    se aggravou contra el-rei, dizendo que emquanto elle fôra falar a el-rei
    de Aragão, durando ainda os dias da tregoa, tomara elle aquella cidade,
    e el-rei dizendo que já eram passados, e o cardeal dizendo que não,
    ficou o lugar por el-rei bem fornecido de gentes.

    E d'esta segunda vez que el-rei entrou em Aragão e tomou a cidade de
    Taraçona, se vieram para elle muitas gentes de seus reinos e alguns
    inglezes, em guisa que eram sete mil de cavallo e dois mil ginetes e
    muita gente de pé.

    E vendo o cardeal que não podia entre os reis tratar firme paz, ordenou
    que houvessem tregua por um anno, e foi apregoada uma segunda-feira, dez
    dias de maio d'esta era, e el-rei veiu-se então a Sevilha por mandar
    fazer galés, e encaminhar de fazer armada no anno seguinte, tanto que as
    treguas fossem saidas.

    N'este comenos, durando a tregua, tratou Pero Carrilho, que vivia com o
    conde Dom Henrique, suas avenças com el-rei Dom Pedro, que o herdasse em
    seu reino e que se viria para elle; e a el-rei prouve, e fel-o assim. E
    Pero Carrilho, desde que segurou por alguns dias, guisou como pudesse
    levar a condessa Dona Joanna, que estivera presa desde que el-rei tomara
    a villa de Toro, para o conde seu marido, e foi assim de feito que a
    levou.

    E d'esta guisa cobrou o conde sua mulher, e pesou muito a el-rei Dom
    Pedro quando soube que a assim levaram.

    *CAPITULO XX*

    _Como el-rei Dom Pedro fez matar o mestre de São Thiago Dom Fradarique,
    seu irmão, no alcaçar de Sevilha_.

    Se dizem que o que faz nojo a outrem escreve o que faz no pó, e o
    injuriado em pedra marmore, bem se cumpriu isto em el-rei Dom Pedro; cá
    elle movido por sobejo queixume contra seus irmãos e outros do reino,
    por aso da tenção que tomaram em favor da rainha Dona Branca e contra os
    parentes de Dona Maria de Padilha, segundo ouvistes (que já em tempo
    havia mais de trez annos, andando então a era em mil e trezentos e
    noventa e seis,) ordenou em Sevilha, alli onde estava, de matar o mestre
    de São Thiago Dom Fradarique, seu irmão, e mandou-o chamar onde vinha da
    guerra que fôra tomar a villa de Jumilha, que é no reino de Murcia, por
    lhe fazer serviço.

    E no dia que o mestre havia de chegar á cidade, chamou el-rei em sua
    camara o infante Dom João, seu primo, e tomou-lhe juramento sobre a Cruz
    e os Evangelhos, e descobriu-lhe como o queria matar, rogando-lhe que o
    ajudasse a fazer tal obra, e ter-lh'o-hia em serviço, e como fosse
    morto, que logo entendia de ir a Biscaia matar o outro irmão Dom Tello,
    e dar-lhe a elle as suas terras. O infante Dom João respondeu que lhe
    tinha em grande mercê querer fiar d'elle seus segredos, e que lhe prazia
    muito do que tinha ordenado, e era contente de o fazer assim.

    N'isto chegou Dom Fradarique, antes de comer, uma terça-feira, vinte e
    nove dias de maio, e como chegou de caminho foi logo vêr el-rei, que
    estava no alcaçar da cidade jogando as tabolas, e beijou-lhe a mão e
    muitos cavalleiros com elle. E el-rei o recebeu mui bem, mostrando-lhe
    boa vontade, e perguntou-lhe d'onde partira, e que pousadas tinha. O
    mestre disse que partira de Santilhana, que são d'alli cinco leguas, e
    que as pousadas cuidava que seriam boas. E el-rei, porque entraram
    muitos com o mestre, disse que se fosse aposentar, e depois se viria
    para elle.

    O mestre partiu-se, e foi vêr Dona Maria de Padilha e as sobrinhas, que
    estavam em outra parte dos paços, e d'alli se veiu ao curral onde
    deixara as bestas, e não achou ahi nenhuma, cá assim fora mandado aos
    porteiros.

    O mestre não sabendo se tornasse a el-rei, ou que fizesse, disse-lhe um
    seu cavalleiro, suspeitando mal de tal feito, que se saisse pelo postigo
    do curral, que estava aberto, cá lhe não minguaria besta se fosse fóra.
    Elle cuidando se o faria, vieram-lhe dizer que o chamava el-rei, e elle
    começou de tornar para el-rei, pero espantado, receando-se muito. E como
    ia entrando pelas portas dos paços e das camaras, assim ia cada vez mais
    desacompanhado, em guisa que quando chegou onde el-rei estava, não ia
    com elle salvo o mestre de Calatrava. E estiveram á porta ambos, e não
    lhes abriram; e pero lhe todas estas cousas apresentavam mensagem de
    morte, vendo-se sem culpa, tomava já em si quanto de esforço.

    N'isto abriram o postigo do paço onde el-rei estava, e el-rei disse a
    Pero Lopez de Padilha, seu bésteiro-mór, que prendesse o
    mestre.–Senhor, disse elle,–qual d'elles?–O mestre de São
    Thiago,–disse el-rei. E elle travou d'elle, dizendo:–Sêde preso!

    O mestre ficou espantado, e quando ouviu outra vez que el-rei dizia aos
    bésteiros da maça que o matassem, desenvolveu-se de Pero Lopez, que o
    tinha preso, e houve-se no curral; e quiz tirar a espada que tinha na
    cinta, e foi sua ventura que não poude, por aso do tabardo que tinha
    vestido, e andando muito rijo de uma parte á outra, não o podiam ferir
    os bésteiros com as maças, até que o houveram de ferir, e caiu em terra
    morto.

    El-rei, quando viu o mestre jazer em terra, saiu pelo alcaçar cuidando
    achar alguns dos seus para os matar, e não os achou, cá eram fugidos e
    escondidos. E achou no paço onde estava Dona Maria de Padilha, Sancho
    Diaz de Vilhegas, camareiro-mór do mestre, que se acolhera alli quando
    ouviu dizer que o matavam, e tomou Dona Beatriz, filha de el-rei, nos
    braços, cuidando por ella escapar da morte, e el-rei fez-lh'a tirar das
    mãos, e deu-lhe com uma brocha que trazia, e matou-o. E tornou-se onde
    jazia o mestre, e achou que não era bem morto, e fel-o matar a um seu
    moço da camara: d'ahi, foi-se assentar a comer.

    E mandou logo n'esse dia, pelo reino, que matassem estas pessoas, a
    saber: em Cordova, a Pero Cabrera, um cavalleiro que ahi morava, e um
    jurado que diziam Fernando Affonso de Gachete; e mandou matar Dom Lopo
    Sanchez de Vendano, commendador-mór de Castella; e mataram, em
    Salamanca, Affonso Jofre Tenorio; e em Toro, Affonso Perez Fermosilhe; e
    mataram, em Mora, Gonçalo Mendez de Toledo. E estes dizia el-rei que
    mandava matar porque foram da parte da rainha Dona Branca; e pero lhes
    el-rei havia já perdoado, não curando do que promettera, mandou a todos
    cortar as cabeças.

    *CAPITULO XXI*

    _Como el-rei partiu de Sevilha por tomar Dom Tello, seu irmão, para o
    matar; e como matou o infante Dom João, seu primo_.

    Estando el-rei ainda comendo, mandou chamar logo o infante Dom João, seu
    primo, e disse-lhe em segredo como, tanto que comesse, queria partir
    para Biscaia, por ir matar Dom Tello, seu irmão, e que se fosse com
    elle, e dar-lhe-ia o senhorio d'aquella terra.

    O infante, não embargando que estivesse casado com Dona Isabel, irmã da
    mulher do conde Dom Tello, prouve-lhe muito com taes novas, e beijou as
    mãos a el-rei por ello, cuidando pouco no que lhe elle tinha ordenado: e
    el rei partiu logo, e o infante com elle, e foi em sete dias em Aguilar
    do Campo, onde Dom Tello estava.

    E Dom Tello andava aquelle dia ao monte, e um seu escudeiro, quando viu
    el-rei foi-lh'o logo dizer, tossemente. E elle fugiu á pressa, e chegou
    a Bermeto uma sua villa ribeira do mar, e entrou em pinaças de
    pescadores, e foi-se para Bayona de Inglaterra.

    El-rei, cuidando de o tomar, seguiu o caminho por onde elle fôra, e
    aquelle dia que Dom Tello chegou a Bermeo e entrou no mar, esse dia
    chegou el-rei, e entrou em outros navios, cuidando de o alcançar. O mar
    era um pouco buliçoso, e el-rei anojou-se, e deixou de o seguir porque
    ia mui longe, e tornou-se em terra, e prendeu Dona Joanna, sua mulher.

    O infante Dom João, quando viu Dom Tello por esta guisa partido, disse a
    el-rei que bem sabia sua mercê como lhe dissera em Sevilha que queria
    matar Dom Tello, e dar-lhe a terra de Biscaia, que era sua, e que pois
    Dom Tello era fóra do reino sem sua graça, que fosse sua mercê de lh'a
    dar como lhe promettera. E el-rei disse que mandaria aos biscainhos que
    se ajuntassem, como haviam de costume, e que elle iria lá, e lhe
    mandaria que o tomassem por senhor. E o infante, com leda esperança de
    cobrar a terra, lhe beijou as mãos por isto, tendo-lh'o em grande mercê.

    Os biscainhos indo para se ajuntar onde haviam de costume, falou el-rei
    com os maiores d'elles, dizendo-lhes em segredo que respondessem, quando
    elle propuzesse para dar a terra a Dom João, que não queriam outro
    senhor salvo el-rei; e elles disseram que assim o fariam.

    Elles juntos, bem dez mil, propoz el-rei muitas razões por parte do
    infante seu primo, como a terra de Biscaia lhe pertencia por direito,
    por aso do casamento de sua mulher, e que lhes rogava e mandava que o
    tomassem por senhor: elles responderam que nunca tomariam outro senhor
    salvo el-rei de Castella, e que nenhum lhes fallasse em outra cousa. E
    el-rei disse então ao infante, que bem via as vontades d'aquelles
    homens, que o não queriam haver por senhor, porém, que elle iria a
    Bilbao, e que ainda tornaria outra vez a falar com elles que o tomassem
    por senhor. O infante começou de entender que isto era encoberta que el
    rei fazia, e teve-se por mal contente.

    El-rei em Bilbao, mandou em outro dia chamar o infante, e elle veiu, e
    entrou só na camara, e ficaram dois seus á porta; e os que sabiam parte
    de sua morte começaram de joguetear com elle, por lhe tomarem um pequeno
    cutello que trazia, e assim o fizeram; e Martim Lopez, camareiro-mór de
    el-rei, abraçou-se então com o infante, e um bésteiro deu-lhe com uma
    maça na cabeça, e dês-ahi outros, e caiu o infante morto: e foi isto uma
    terça-feira, havendo quinze dias que o mestre Dom Fradarique fôra morto
    em Sevilha. E el-rei mandou-o deitar na rua por uma janella da casa onde
    pousava, e disse aos biscainhos que estavam ahi juntos:–Vêdes ahi o
    vosso senhor de Biscaia, que vos demandava por seus?

    Isto feito, mandou logo el-rei João Fernandes de Hinestrosa que se fosse
    a Roa, onde estavam a rainha de Aragão, sua tia, madre do dito infante,
    e Dona Isabel, sua mulher, e que as prendesse ambas, não sabendo parte a
    madre do filho, nem a mulher do marido. E foram presas em um dia, e
    el-rei chegou no outro, e fez-lhes tomar quando tinham, e mandou-as
    presas a Castro Exariz; e d'alli partiu-se, e veiu-se a Burgos, onde
    esteve uns oito dias, e alli lhe trouxeram as cabeças d'aquelles que
    ouvistes que mandara matar pelo reino, quando o mestre Dom Fradarique
    foi morto.

    *CAPITULO XXII*

    _Como foi quebrada a tregua de um anno que havia entre os reis, e como
    el-rei Dom Pedro juntou armada por fazer guerra a Aragão_.

    Nós não dissemos a morte do mestre Dom Fradarique e do infante Dom João,
    da guisa que ora ouvistes, por nos prazer contar crueldades, mas
    puzemol-as um pouco assim compridas, mais que dos outros, porque eram
    notaveis pessoas, e vêrdes o geito que el-rei teve em os matar.

    Onde sabei, que por este aso não embargando que ainda durasse a tregua
    de um anno, que o cardeal puzera entre el-rei Dom Pedro e el-rei de
    Aragão, que tanto que o conde Dom Henrique soube como Dom Fradarique,
    seu irmão, era morto, e isso mesmo disseram ao infante Dom Fernando,
    marquez de Tortosa, da morte do infante Dom João, seu irmão, juntaram
    logo suas gentes, e entraram por Castella. E o conde entrou por terra de
    Soria, e chegou á villa de Seiron, e a rombou, e combateu o castello e
    alcaçar cuidando de o tomar, e tornou-se para Aragão; e o infante Dom
    Fernando entrou pelo reino de Murcia, e fez muito damno n'aquella terra.

    El-rei soube isto em Valhadolid, e pôz logo fronteiros contra Aragão, e
    veiu-se a Sevilha, e fez armar á pressa doze galés; e em as armando,
    chegaram seis galés de genovezes, que então haviam guerra com os
    catalães, e prouve muito a el-rei com ellas, e tomou-as a soldo, dando
    por mez a cada uma mil dobras cruzadas. E com estas dezoite galés chegou
    a uma villa, que chamam Guadamar, que era do infante Dom Fernando, e fez
    el-rei uma manhã, que eram dezesete dias de agosto, sair muita gente de
    todas as galés para combater a villa, e pero fosse bem cercada, tomou-a
    por força, e acolheram-se muitos ao castello.

    E estando o combatendo, á hora do meio dia, alçou-se um vento mui forte,
    que é travessia n'aquella terra, e como as galés estavam sem gente, deu
    com todas a travez á costa, que não escaparam mais de duas que jaziam
    dentro no mar, uma d'el-rei e outra dos genovezes. E ás dezeseis mandou
    el-rei pôr o fogo, porque se não podiam reparar: e dos remos, e outros
    apparelhos, não se salvou senão mui pouco, que pozeram em uma nau de
    Laredo, que ahi estava. E houve el-rei, e os patrões dos galés, bestas
    em que partiram d'alli, das gentes de Guterre Gomez de Toledo, que
    chegara ahi, elle e outros, com seiscentos de cavallo; e foi-se el-rei
    mui triste com este acontecimento, e todos os das galés de pé com elle,
    mui nojosos.

    E chegou el-rei a Murcia, e foram-se os genovezes para sua terra em
    navios de Cartagena, e el-rei mandou logo a Sevilha que fizessem á
    pressa galés. E em oito mezes foram feitas doze galés novas, e reparadas
    quinze d'outras que estavam nas tercenas; e fez fazer muitas armas e
    grande almazem, e mandou perceber todos os navios do reino que não
    fretassem para nenhuma parte.

    E partiu el-rei de Murcia, e foi-se á fronteira de Aragão, e ganhou
    alguns castellos, e tornou-se para Sevilha: e foi esta a quarta vez que
    el-rei Dom Pedre entrou em Aragão.

    *CAPITULO XXIII*

    _Como veiu o cardeal de Bolonha para fazer paz entre el-rei de Castella
    e el-rei de Aragão, e os não poude pôr de accordo_.

    Estando el-rei Dom Pedro assim em Sevilha, soube como Dom Guilhem,
    cardeal de Bolonha, era na villa de Almaçan, por tratar paz entre elle e
    el-rei de Aragão. E fez saber o cardeal a el-rei se lhe prazia de ir a
    Sevilha, onde elle estava, ou se aguardaria alli por elle, havendo de ir
    para aquella comarca.

    E el-rei era já partido de Sevilha para a fronteira de Aragão, quando
    lhe chegou este recado em Villa Real, e disse que lhe prazia muito com
    sua vinda, e que o aguardasse n'aquella villa, cá elle ia direitamente
    para ella. E foi assim que chegou ahi el-rei a poucos dias, e falou o
    cardeal a el-rei, presentes os do seu conselho, tudo o que lhe o papa
    enviava dizer, assim do nojo que tomava pela guerra em que eram elle e
    el-rei de Aragão, como do grão prazer que haveria se os visse postos em
    paz.

    El-rei respondeu que a guerra que elle havia com el-rei de Aragão era
    muito por sua culpa, e contou ao cardeal o que lhe adviera com o capitão
    de suas galés na foz de Barrameda de San Lucar, como já ouvistes, e como
    fizera saber tudo a el-rei de Aragão, e que nunca quizera tornar a ello
    como devia, e demais, que mandara a França por todos seus inimigos, para
    lhe fazer com elles guerra.

    O cardeal disse que queria ir falar a el-rei de Aragão sobre isto, e
    el-rei disse que lhe prazia, e que de boamente haveria com elle paz,
    fazendo el-rei de Aragão estas cousas: primeiramente, que lhe entregasse
    aquelle cavalleiro, para d'elle fazer justiça onde elle quizesse, e que
    lançasse fóra do reino o infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, seu
    irmão, e mais D. Henrique, conde de Trastamara, e todos os outros que
    vieram em ajuda da guerra, e que lhe desse os castellos de Oriola e
    Alicante, e outros logares que foram de Castella antigamente, e mais
    pelas despezas que fizera na guerra lhe tornasse quinhentos mil florins.

    O cardeal, pero lhe isto parecessem cousas desarrazoadas, disse que lhe
    prazia de tomar cargo de ir falar a el-rei de Aragão sobre ello; e
    chegou a Aragão e contou a el-rei, por miudo, todas as cousas que lhe
    el-rei dissera.

    El-rei de Aragão respondeu, dizendo assim:–Cardeal amigo, bem vêdes vós
    que se elle houvesse vontade de haver comigo paz, que me não demandaria
    taes cousas como me envia requerer; cá o cavalleiro não é direito que
    lh'o entregue para o matar, pois não fez por quê; mas isto quero fazer,
    mande-o accusar por direito, e se for achado que merece morte, eu lh'o
    quero entregar preso, que o mande matar em seu reino. Ao que diz que
    envie eu fóra de meu reino Dom Henrique, Dom Tello, e Dom Sancho, seus
    irmãos, pois são seus inimigos, digo que me praz, se ficar com elle de
    accordo, mas desterrar fóra do reino o infante Dom Fernando, meu
    legitimo irmão, isto me parece estranho de pedir. Os logares que me
    requere que lhe entregue, não tenho razão por quê, cá foram julgados a
    este reino por sentença de el-rei Dom Diniz de Portugal, e pelo infante
    Dom João de Castella, presentes muitos fidalgos de seu reino, e elle e
    eu temos cartas de como foram partidos. As despezas que fez na guerra
    não sou tido de lhe pagar, cá se não começou por minha vontade, antes me
    pezou muito, e peza, de haver entre mim e elle tal desvairo; mas tanto
    lhe farei, se houvermos paz, que havendo elle guerra com el-rei de
    Granada ou de Bellamarin, que o quero ajudar seis annos com dez galés
    armadas á minha custa quatro mezes cumpridos, e se mouros passarem, e
    lhe convier pôr a praça, que o ajude com meu corpo e gentes, e ser com
    elle no dia da batalha. De outra guisa, dizei que lhe requeiro, da parte
    de Deus, que me não queira fazer guerra, pois justa razão não tem, e se
    o de outra guisa fizer, deixo tudo na ordenança e justiça de Deus.

    Tornou o cardeal a el-rei de Castella, e contou-lhe isto que ouvistes, e
    el-rei começou-se de queixar, dizendo que el-rei de Aragão não prezava a
    guerra, nem se queria chegar para haver avença com elle, mas que d'esta
    vez provaria cada um para quanto era, porém, por elle entender que lhe
    prazia de haver paz, que elle se partia das outras cousas que demandava,
    e que lhe desse os cinco logares que lhe requeria, e que lançasse de seu
    reino seus irmãos e as gentes que eram com elles.

    O cardeal foi d'isto mui lêdo, tendo que pois se el-rei D. Pedro descia
    do que á primeira dissera, que poderia aproveitar n'este tratamento, e
    foi-se a Calatayud, onde el-rei de Aragão estava, e contou-lhe como
    el-rei, por bem de paz, requeria sómente estas duas cousas.

    El-rei de Aragão houve accordo com os do seu conselho, e disse que as
    gentes todas lançaria fóra mas que nenhuma villa nem castello não
    entendia de dar de seu reino, e que el-rei de Castella devia ser bem
    contente da primeira resposta.

    Quando o cardeal tornou com este recado, foi el-rei Dom Pedro mui
    sanhudo, dizendo que tudo eram razões, pelo estorvar da armada que fazer
    queria, e porém disse ao cardeal que lhe perdoasse, cá não entendia de
    falar mais n'isto, mas continuar sua guerra o mais que pudesse. Ao
    cardeal pezou muito de tal resposta, e não podendo mais fazer, cessou de
    falar em ello.

    El-rei Dom Pedro mui sanhudo, por tomar logo alguma vingança, passou por
    sentença contra o infante Dom Fernando, seu primo, e contra o conde Dom
    Henrique, e outros cavalleiros muitos, por a qual razão os perdeu então
    de todo ponto, e o peior d'isto: mandou matar a rainha Dona Leonor, sua
    tia, madre do dito infante Dom Fernando, e Dona Joanna de Lara, mulher
    de Dom Tello, seu irmão; nas quaes cousas cumpriu sua vontade, e não fez
    muito de seu serviço. E depois que mandou fazer estas e outras cousas,
    pôz seus fronteiros contra Aragão, e partiu de Almaçan, e veiu-se a
    Sevilha.

    *CAPITULO XXIV*

    _Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a el-rei de
    Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a Aragão_.

    Sendo el-rei de Castella em tal desaccordo com el-rei de Aragão, e tendo
    vontade de fazer grande armada contra seu reino em este anno de mil e
    trezentos e noventa e sete, pero assaz de frota tivesse, assim de naus
    como de galés, não foi d'isto ainda contente, e mandou dizer a el-rei de
    Portugal, seu tio, por João Fernandez de Hinestrosa, seu camareiro-mór,
    que lhe rogava que as dez galés, que lhe promettidas havia de dar em
    ajuda contra Aragão, que as mandasse fazer prestes, cá lhe eram muito
    cumpridoras.

    A el-rei prouve muito d'ello, e mandou logo armar de boas gentes dez
    galés e uma galeota, e o seu almirante Misser Lançarote em ellas.

    El-rei como soube que as dez galés de Portugal eram prestes, partiu de
    Sevilha no mez de abril meiado, com toda sua armada junta, a qual eram
    oitenta naus de castello d'avante, e vinte e oito galés suas, e duas
    galeotas e quatro lenhos, e mais tres galés d'el-rei de Granada, que lhe
    enviara em ajuda a seu requerimento.

    E esteve el-rei em Aljazira quinze dias, aguardando pelas galés de
    Portugal, e quando viu que não vinham, partiu para Cartagena, e alli
    esperou todas suas naus; e foi sobre Guadamar, e tomou a villa e o
    castello, e d'alli foi pela costa, combatendo alguns logares que tomar
    não poude, e chegou ao rio de Ebro, a cerca de Tortosa, cidade de
    Aragão, e alli chegaram as dez galés de Portugal, que lhe el-rei seu tio
    enviava em ajuda. E prouve muito a el-rei com ellas, e a todos os da
    frota, e tinha el-rei então, por todas, quarenta e uma galés, afóra as
    fustas pequenas.

    E partiu el-rei d'alli com toda armada e chegou a Barcelona, uma vespera
    de paschoa, onde estava el-rei de Aragão; e achou doze galés armadas, e
    não as poude tomar, cá se puzeram todas a travez, junto com a cidade, e
    d'alli as defendiam com muita bésteria e trons.

    E esteve el-rei ante Barcelona, com toda sua frota, tres dias, e d'alli
    se foi á ilha de Iviça, e cercou uma boa villa que ha assim nome; e
    tendo-a afincada com engenhos e bastidas, soube como el-rei de Aragão
    tinha armadas quarenta galés com que estava na ilha de Mayorca, e queria
    pelejar com elle.

    E el-rei de Castella, como isto soube, disse que lhe não cumpria estar
    mais em terra, nem curar de cerco d'aquelle logar, pois todo o feito da
    guerra havia de haver fim por aquella batalha, em que os reis haviam de
    ser por seus corpos. E fez logo recolher toda sua gente á frota, e
    metteu-se el-rei n'uma grande galé, que fôra dos mouros, que passava
    quarenta cavallos sob sota, e mandou fazer n'ella tres castellos de
    madeira, um na pôpa e outro na prôa, e um na metade, e pôz n'ella cento
    e sessenta homens d'armas e cento e vinte bésteiros. E partiu el-rei, de
    Iviça, com toda sua frota, e veiu-se a um logar que dizem Calpe, e alli
    ancoraram as naus e galés a cerca de terra, traz uma alta penha que ahi
    ha, de guisa que se não podiam ver, salvo de perto.

    As galés de Aragão appareceram d'alli á vella até duas leguas, pouco
    mais ou menos, dentro no mar, e eram quarenta sem outros navios, e não
    vinha el-rei n'ellas, cá os seus não quizeram, e ficou em Mayorca. Ellas
    não haviam vista da frota de Castella, por aso d'aquella grande penha
    que as amparava; e vinham todas á vella, n'esta ordenança: em meio
    d'ellas eram duas galés grossas, com castellos feitos de que pelejassem,
    e n'uma vinha o conde de Cardona, e n'outra Dom Bernardo de Cabrera,
    almirante de Aragão; e duas galés de guarda vinham diante por grão
    espaço das outras; e muitas gentes de pé e de cavallo, por terra, para
    as ajudarem se mister fizesse.

    As duas galés, que vinham diante, como houveram vista das naus e frota
    de Castella, calaram as vellas e tomaram os remos; as outras todas, como
    isto viram, fizeram logo por aquella guisa por se ordenarem á sua
    vontade; e sabendo parte das naus que ahi eram, de que houveram mui
    grande receio, não as ousaram de attender no mar, e logo essa tarde, á
    hora de vespera, se metteram todas no rio de Denia.

    El-rei Dom Pedro fez logo fazer todos os seus prestes, cuidando outro
    dia de haver batalha; e o mar era tão sem vento que se não podia
    aproveitar das naus; e havido seu conselho, em que eram desvairados
    accordos, determinou que pois a armada dos imigos jazia em tal rio, que
    por sua estreitura não podia pelejar com elles, que se fossem entanto
    para Alicante, por vêr se quereriam depois pelejar.

    E el-rei como d'alli partiu com a sua frota, e as galés de Aragão
    vieram-se lançar em Calpe, onde a frota de Castella jazera primeiro.

    *CAPITULO XXV*

    _Como se partiu o almirante de Portugal com as dez galés, e como el-rei
    Dom Pedro desarmou a frota; e de outras cousas_.

    Havendo seis dias que el-rei de Castella estava em Alicante, e vendo que
    a armada de Aragão não apparecia, partiu d'aquelle logar e veiu-se para
    Cartagena. E alli disse o almirante de Portugal a el-rei, que seu
    senhor, el-rei de Portugal, lhe mandára que estivesse com aquellas suas
    dez galés tres mezes, onde quer que o elle mandasse, e que pois os tres
    mezes eram já passados, que não ousaria mais de estar alli, nem passaria
    mandado de seu senhor.

    El-rei Dom Pedro, quando isto ouviu, pezou-lhe muito, cá não quizera que
    tão asinha partira, e não podendo fazer que se tivesse alli mais,
    deu-lhe licença que se fosse.

    E como se as galés de Portugal partiram, accordou el-rei de deixar a
    frota e ir-se por terra para Castella, e mandou as galés todas a
    Sevilha, e deu logar ás náus que se partissem, e elle veiu-se para
    Outerdesilhas, onde estava Dona Maria de Padilha, madre de seus filhos.

    As galés de Aragão, como souberam que el-rei de Castella desarmara a
    frota, desarmaram elles trinta galés suas, e deixaram dez que andassem
    pelo mar, por fazer damno a alguns navios de Portugal ou de Castella: e
    foi assim que o fizeram a alguns, mas poucos porém, e em pequenos
    navios.

    N'esta sesão, no mez de setembro, o conde Dom Henrique, e Dom Tello, seu
    irmão, e alguns fidalgos e cavalleiros de Aragão até oitocentos de
    cavallo, entraram por Castella por terra de Agreda, e Dom Fernando de
    Castro e João Fernandez de Hinestrosa, e outros, que estavam na
    fronteira da comarca de Almaçan, com uns mil e quinhentos de cavallo,
    sairam a elles. E foi de tal guisa que pelejaram a cerca de Moncayo. E
    foi vencido Dom Fernando de Castro, e morto João Fernandez de
    Hinestrosa, e outros bons fidalgos, e preso Inigo Lopez de Orosco, e
    outros.

    A el-rei Dom Pedro pezou d'isto muito, e seus inimigos cobraram grande
    esforço; e mandou n'este anno matar em Carmona, onde estavam presos, Dom
    João e Dom Pedro, seus irmãos, filhos d'el-rei Dom Affonso seu padre, e
    de Dona Leonor Nunez de Guzman: era Dom Pedro de quartoze annos, e Dom
    João de dezenove, moços innocentes que nunca lhe mal mereceram.

    E por aso d'estas mortes, e outras muitas que tendes ouvido, era el-rei
    Dom Pedro tão mal quisto de todos, e havendo d'elle tamanho medo, que
    por ligeira cousa se partiam d'elle, e se iam a Aragão para o conde Dom
    Henrique. Assim como fez Diego Perez Sarmento, e Pero Fernandez de
    Velasco, e outros, com muitas gentes que comsigo levaram; em tanto, que
    o conde disse a el-rei de Aragão que se quizesse ordenar uma boa
    companhia de gente, que elle entraria com elles por Castella, e que
    entendia de não achar quem lhe puzesse a praça: e quizera el-rei, de
    boamente, que se fizera, mas que levara o infante Dom Fernando, seu
    irmão, a capitania d'elles, e o conde Dom Henrique não quiz, e por tanto
    se não fez d'aquella vezada.

    *CAPITULO XXVI*

    _Como o cardeal de Bolonha quizera tratar paz entre os reis e não poude,
    e como as gentes d'el-rei Dom Pedro pelejaram com o conde e o
    desbarataram_.

    Tendo o cardeal de Bolonha, que andava em Aragão por avir estes reis,
    como el-rei Dom Pedro havia perdida parte de sua gente n'aquella batalha
    que houvera o conde Dom Henrique com Dom Fernando de Castro, e como se
    alguns cavalleiros partiam d'elle, e se iam para Aragão, teve que, por
    estas e outras razões, elle se chegaria a alguma boa avença para haver
    paz com el-rei de Aragão, e fez saber a ambos os reis se lhes prazeria
    de falar mais n'isto, e outorgou cada um que sim.

    O cardeal se veiu então para Tudella, que é do reino de Navarra, e
    chegou ahi Guterre Fernandez de Toledo por procurador d'el-rei de
    Castella, e Dom Bernardo de Cabrera, procurador d'el-rei de Aragão, e
    estiveram por dias, e não se avieram.

    El-rei Dom Pedro, como isto soube, partiu de Sevilha para Leon, por
    quanto lhe disseram que o conde Dom Henrique, e Dom Tello, e outros
    senhores de Aragão, se juntavam para entrar por Castella; e d'alli
    partiu, e veiu a Valhadolid, sabendo como já eram entradas aquellas
    gentes em seu reino, e mataram os judeus de Najara e d'outros logares, e
    roubavam as judiarias. E o conde chegou a Pancorvo e assocegou ahi
    alguns dias, e depois se partiu para Najara, e el-rei foi allá com seu
    poder, e pousou em um logar que chamam Acofra.

    E alli chegou a elle um clerigo de missa, natural de São Domingos da
    Calçada, e contou-lhe que São Domingos lhe dissera, em sonhos, que
    viesse a elle e lhe dissessé que fosse certo que não se guardando do
    conde Dom Henrique, que elle o havia de matar por sua mão. E el-rei
    cuidou que o clerigo lh'o dizia por induzimento, pero o clerigo dizia
    que não, e mandou-o queimar ante si.

    E partiu el-rei uma sexta-feira para Najara, onde o conde estava, e elle
    era fóra da villa com oitocentos de cavallo e dois mil homens de pé. E
    mandara pôr o conde, ante a villa, n'um outeiro, uma tenda e um pendão;
    e os d'el-rei que iam diante pelejaram com o conde e venceram-no, e
    tomaram a tenda e o pendão, e morreram ahi parte dos seus. E partiu-se
    el-rei, á tarde, para Acofra, onde tinha seu arrayal.

    E em outro dia, vindo para combater Najára, onde ficara o conde, achou
    no caminho um escudeiro que vinha fazendo pranto por um seu tio que lhe
    mataram, e el-rei houve-o por forte signal e não quiz lá ir, e tornou-se
    para São Domingos da Calçada.

    E d'ahi a dois dias lhe disseram que era partido o conde para Aragão,
    levando caminho de Navarra, e quizera-o el-rei seguir, e o cardeal lhe
    conselhou que o não fizesse, cá assaz abundava deixarem-lhe suas villas
    e irem-se. E el-rei mandou aos seus que estivessem quedos, e d'aquelle
    logar ordenou seus fronteiros para os logares onde cumpria, e veiu-se
    para Sevilha.

    Elle alli soube como um cavalleiro de Aragão, que chamavam Mateo
    Mercedi, andava no mar com quatro galés fazendo damno a castelhanos e a
    portuguezes, e fez armar cinco galés, e mandou n'ellas um seu bésteiro,
    que diziam Zorzo, natural de Tartaria, que fosse em busca d'aquelle
    corsario; e foi assim que o achou na costa da Berberia, onde pelejou com
    elle, e desbaratou-o e trouxe as galés e elle preso a Sevilha: e el-rei
    mandou-o matar, e muitos dos que vinham com elle.

    Mas ora deixemos el-rei em Sevilha, matando e prendendo quaes vos depois
    contaremos, e digamos algumas outras cousas que este anno aconteceram em
    Portugal, que nos parece que é bem que saibaes.

    *CAPITULO XXVII*

    _Como el-rei Dom Pedro de Portugal disse por Dona Ignez que fora sua
    mulher recebida, e da maneira que em ello teve_.

    Já tendes ouvido compridamente, onde falamos da morte de D. Ignez, a
    razão por que a el-rei Dom Affonso matou, e o grande desvairo que entre
    elle e este rei Dom Pedro, sendo então infante, houve por este aso. Ora,
    assim é, que emquanto Dona Ignez foi viva, nem depois da morte d'ella
    emquanto el-rei seu padre viveu, nem depois que elle reinou até este
    presente tempo, nunca el-rei Dom Pedro a nomeou por sua mulher; antes
    dizem que muitas vezes lhe enviava el-rei Dom Affonso perguntar se a
    recebera, e honral-a-ia como sua mulher, e elle respondia sempre que a
    não recebera, nem o era.

    E pousando el-rei, n'esta sesão, no logar de Cantanhede, no mez de
    junho, havendo já uns quatro annos que reinava, tendo ordenado de a
    publicar por mulher, estando ante elle Dom João Affonso conde de
    Barcellos, seu mordomo-mór, e Vasco Martins de Sousa, seu chanceller, e
    mestre Affonso das leis e João Esteves, privados, e Martim Vasques,
    senhor de Goes, e Gonçalo Mendes de Vasconcellos, e João Mendes, seu
    irmão, e Alvaro Pereira, e Gonçalo Pereira, e Diego Gomes, e Vasco Gomes
    de Abreu, e outros muitos que dizer não curamos, fez el-rei chamar um
    tabellião, e presentes todos, jurou aos Evangelhos, por elle
    corporalmente tangidos, que sendo elle infante, vivendo ainda el-rei seu
    padre, que estando elle em Bragança, podia haver uns sete annos, pouco
    mais ou menos, não se accordando do dia e mez, que elle recebera por sua
    mulher lidima, por palavras de presente, como manda a santa igreja, Dona
    Ignez de Castro, filha que foi de D. Pedro Fernandez de Castro, e que
    essa Dona Ignez recebera a elle por seu marido, por semelhaveis
    palavras, e que depois do dito recebimento a tivera sempre por sua
    mulher, até ao tempo de sua morte, vivendo ambos de commum, e fazendo-se
    maridança qual deviam.

    E disse então el-rei Dom Pedro, que porquanto este recebimento não fôra
    exemplado nem claramente sabido a todos os de seu senhorio, em vida do
    dito seu padre, por temor e receio que d'elle havia, que porém elle, por
    descarregar sua consciencia e dizer verdade, e não ser duvida a alguns,
    que do dito recebimento tinham não boa suspeita se fôra assim ou não:
    que elle dava de si fé e testemunho de verdade, que assim se passara de
    feito como dito havia, e mandou áquelle tabellião, que presente estava,
    que désse d'ello instrumentos a quaesquer pessoas que lh'os requeressem.
    E por então não se fez mais.

    *CAPITULO XXVIII*

    _Do testemunho que alguns deram no casamento de Dona Ignez, e das razões
    que sobre ello propoz o conde Dom João Affonso_.

    Passados trez dias que isto foi, chegaram a Coimbra Dom João Affonso
    conde de Barcellos, e Vasco Martins de Sousa, e mestre Affonso das leis,
    e no paço onde então liam de decretaes, sendo o estudo n'essa cidade,
    presente um tabellião, chamaram duas testemunhas, a saber, Dom Gil, que
    então era bispo da Guarda, e Estevam Lobato, criado d'el-rei, aos quaes
    disseram que, por juramento dos Evangelhos, dissessem a verdade do que
    sabiam em feito do casamento d'el-rei Dom Pedro com Dona Ignez. E
    perguntado cada um per si áparte, o bispo disse primeiramente, que
    andando elle com o dito senhor, e sendo então deão da Guarda, que
    n'aquelle tempo, sendo el-rei infante, e Dona Ignez com elle, pousavam
    na villa de Bragança, e que esse senhor o mandara chamar um dia á sua
    camara, sendo Dona Ignez presente, e que lhe dissera que a queria
    receber por sua mulher, e que logo, sem mais detença, o dito senhor
    puzera a mão nas suas d'elle, e isso mesmo a dita Dona Ignez, e que os
    recebera ambos por palavras de presente, como manda a santa igreja de
    Roma, e que os vira viver de commum até á morte d'essa Dona Ignez; e que
    isto poderia haver sete annos, pouco mais ou menos, mas que não se
    accordava do dia e mez em que fôra: e d'este feito não disse mais.

    Semelhavelmente foi perguntado Estevam Lobato, e disse que sendo el-rei
    infante e pousando em Bragança, que o mandara chamar á sua camara, e que
    lhe dissera que o mandara chamar porque sua vontade era de receber Dona
    Ignez, que presente estava, e que queria que fosse d'ello testemunha: e
    que o deão da Guarda, que já ahi estava, e outrem não, tomara o dito
    senhor por uma mão e ella por outra, e que então os recebera ambos por
    aquellas palavras que se costumam dizer em taes desposorios, e que os
    vira viver juntamente até ao tempo da morte d'ella; e que isto fôra em
    um primeiro dia de janeiro, podia haver sete annos, pouco mais ou menos.

    Tanto que estes foram perguntados e escripto seu dito, segundo ouvistes,
    fizeram logo juntar, que para isto já estavam presentes, Dom Lourenço,
    bispo de Lisboa, e Dom Affonso, bispo do Porto, e Dom João, bispo de
    Vizeu, e Dom Affonso, prior de Santa Cruz d'esse logar, e todos os
    fidalgos antes nomeados, com outros muitos que não dizemos, e os
    vigarios, e clerezia, e muito outro povo assim ecclesiastico como
    secular, que se para isto alli juntou. E feito silencio, a bem escutar,
    começou a dizer o conde Dom João Affonso:

    Amigos, deveis de saber que el-rei, nosso senhor que ora é, sendo
    infante, passa já de uns sete annos, estando então na villa de Bragança,
    sendo el-rei Dom Affonso, seu padre, vivo, recebeu por sua mulher
    lidima, por palavras de presente, Dona Ignez de Castro, filha que foi de
    Dom Pedro Fernandez de Castro, e ella isso mesmo recebeu a elle, e
    sempre a o dito senhor teve depois por sua mulher, fazendo-se maridança
    um ao outro, qual deviam, até ao tempo da sua morte. E porquanto estes
    recebimentos e casamento não foi exemplado a todos os do reino em vida
    do dito rei Dom Affonso, por medo e receio que seu filho d'elle havia,
    casando de tal guisa sem seu mandado e consentimento, porém agora
    el-rei, nosso senhor, por desencarregar sua alma e dizer verdade e não
    ser duvida a alguns que d'este casamento parte não sabiam se fôra assim
    ou não, fez juramento sobre os santos Evangelhos e deu de si fé e
    testemunho de verdade, que foi d'esta guisa que o eu digo, segundo
    vereis por um instrumento que d'isto tem feito Gonçalo Peres, tabellião,
    que aqui está; e mais vereis o dito do bispo da Guarda e de Estevam
    Lobato, que aqui estão, que foram presentes no dito casamento.

    Então lhe fez cumpridamente lêr todo o testemunho que ambos sobre ello
    deram.

    «E porque vontade d'el-rei, nosso senhor (disse elle) é que isto não
    seja mais encoberto, antes lhe praz que o saibam todos, por ser arredada
    grande duvida que sobre ello adiante poderia recrescer, porém me mandou
    que vos notificasse tudo isto, por tirar suspeita de vossos corações, e
    ser a todos claramente sabido. Mas porque não embargando tudo o que eu
    disse, e vos ora aqui foi lido e declarado, alguns poderão dizer que
    tudo isto não bastava se ahi dispensação não houve, por o grão divido
    que entre elles havia, sendo ella sobrinha d'el-rei nosso senhor, filha
    de seu primo coirmão, porém me mandou que vos certificasse de tudo, e
    vos mostrasse esta bulla que houve em sendo infante, em que o papa
    dispensou com elle, que pudesse casar com toda mulher, posto que lhe
    chegada fosse em parentesco, tanto e mais como Dona Ignez era a elle».

    Então publicaram perante todos uma letra do papa João XXII, que dizia em
    esta guisa:

    «João, bispo, servo dos servos de Deus. Ao muito amado, em Christo,
    filho infante Dom Pedro, primogenito do muito amado, em Christo nosso
    filho mui claro rei de Portugal e do Algarve Affonso, saude e
    apostolical benção. Se o rigor dos santos canones põe defeza e
    interdicto sobre a copula do matrimonial ajuntamento, querendo que se
    não faça entre aquelles que por algum divido de parentesco são
    conjunctos, por guarda da publica honestidade; aquelle porém que é ás
    vezes bispo de Roma, de poderio absoluto, em lugar de Deus dispensando,
    pode por especial graça pôr temperança sobre tal rigor. E porém nós,
    demovido ácerca de tua pessoa com especial favor, por algumas razões, de
    que ao diante esperamos paz e folgança n'esses reinos, querendo
    condescender a tuas preces e de el-rei Dom Affonso, teu padre, que por
    suas letras por ti a nós humildosamente supplicou, para casares com
    qualquer nobre mulher, devota á santa igreja de Roma, ainda que por
    linha transversa de uma parte no segundo grau e d'outra no terceiro,
    sejaes dividos e parentes, e isso mesmo ainda, que por razão de outras
    duas linhas collateraes, seja embargo de parentesco ou cunhadia entre
    vós no quarto grau, licitamente por matrimonio vos podeis ajuntar: nós,
    por apostolica auctoridade, de especial graça, tudo tiramos e removemos,
    dispensando comtigo e com aquella com que assim casares, de nosso
    apostolico poderio, que a geração que de vós ambos nascer ser legitima
    sem outro impedimento. Porém, nenhum homem seja ousado presumpçosamente
    contra esta nossa dispensasão ir, de outra guisa seja certo na ira e
    sanha do todo poderoso Deus, e dos bem aventurados São Pedro e São
    Paulo, apostolos, incorrer. D'ante em Avinhão, duodecimo Kalendas de
    março, do nosso pontificado anno nono.»

    Acabada de lêr assim esta letra, disse então o conde, presente elles
    todos, que elle por guarda e em nome dos infantes Dom João, e Dom Diniz,
    e Dona Beatriz, filhos que eram dos ditos senhores, queria tomar sendos
    instrumentos para cada um d'elles, e requereu ao tabellião que assim
    lh'os desse.

    Partiram-se então todos para as pousadas, não minguando a cada um
    razões, que fossem entre si falando sobre esta historia.

    *CAPITULO XXIX*

    _Razões contra isto, de alguns que ahi estavam, duvidando muito neste
    casamento_.

    Acabadas razões que ouvistes, ditas, presentes letrados e outro muito
    povo, aquelles que, de chão e simples entender eram, não esquadrinhando
    bem o tecimento de taes cousas, ligeiramente lhe deram fé, outorgando
    ser verdade tudo aquillo que alli ouviram. Outros, mais subtis de
    entender, letrados e bem discretos, que os termos de tal feito mui
    delgado investigaram, buscando se aquillo que ouviam podia ser verdade,
    ou pelo contrario, não receberam isto em seus entendimentos
    parecendo-lhe de tudo ser muito contra razão. Cá porque o crêr da cousa
    ouvida está na razão e não na vontade, porende o prudente homem que tal
    cousa ouve, que sua razão não quer conceber, logo se maravilha,
    duvidando muito. E porém, foram assaz, dos que alli estiveram, de tal
    historia não mui contentes, vendo que aquillo que lhe fôra proposto
    nenhum alicerce tinha de razão. E se alguns perguntar quizerem por que
    taes presumiam ser tudo fingido, as razões d'elles, que nos bem claras
    parecem, sejam resposta á sua pergunta, dizendo os que tinham a parte
    contraria, contra aquelles que defendiam ser tudo verdade, suas razões,
    n'esta maneira.

    Não quizeram consentir os antigos que nenhum razoado homem, sendo em sua
    saude e inteiro siso, se pudesse d'elle tanto assenhorear o
    esquecimento, que toda a cousa notavel passada, sempre d'ella não
    houvesse relembrança.

    Allegando, aquelle claro lume da philosophia, Aristoteles, em um breve
    tratado que d'isto compoz, o porque de todas causas presentes, ou que
    são por vir, não cumpre haver nenhuma memoria; ergo, das causas
    passadas, que já aconteceram, era necessaria a relembrança: dizendo que
    a memoria é dita, quando a imagem vista, ou ouvida, de alguma causa do
    homem, é sempre presente na virtude memorativa, e reminiscencia é,
    quando alguma causa, feita ou ouvida, saiu da virtude memorativa e
    depois torna a lembrar, por vêr outra semelhante causa.

    Assim como, se eu casei, ou me foi feita uma gram mercê, ou fui chamado
    a um gram conselho em um dia de paschoa ou janeiro, ou outro dia
    assignado do anno, e depois me vem a esquecer, não o tendo sempre
    presente na memoria:–vendo depois outra bôda, ou alguma das causas que
    me advieram, em semelhante dia, lembrar-me-ha então que casei em dia de
    paschoa, ou outra qualquer cousa que me adveiu, se vejo alguma cousa
    semelhante, ou m'a perguntarem. Porque convém que me lembre o dia e a
    cousa, posto que me esqueça o conto dos annos ou dos dias em que foi. Ou
    diziam que tornava ainda a lembrar por outra contraria maneira, assim
    como, se eu casei em dia de paschoa e depois de alguns annos morreu-me a
    mulher em outro dia tal,–ou houve gram prazer em dia de natal, e depois
    gram nojo em semelhante dia,–necesario é que me lembre o prazer
    primeiro, posto que me o conto dos dias esqueça, porque é cousa que não
    causa disposição na memoria. Porém, o dia assignado em que me tal cousa
    adveiu, nunca se tira, de todo o ponto, que depois não torne a lembrar
    cumpridamente, porque tal dia é da essencia da relembrança, e o processo
    do tempo, não. E porém, não é cousa que possa ser, estando homem em sua
    saude, que lhe cousa notavel esqueça, posto que lhe o conto dos dias
    esqueça, que é transitorio, e não da essencia do lembramento.

    Pois como pode cahir em entendimento de homem, diziam elles, que um
    casamento tão notavel como este, e que tantas razões tinha para ser
    lembrado, houvesse, em tão pequeno espaço, de esquecer, assim áquelle
    que o fez, como os que foram presentes, não lhe lembrando o dia nem o
    mez?

    Certamente, buscada a verdade d'este feito, a razão n'isto não consente;
    cá, deixadas as razões, que ahi havia, para se el-rei lembrar bem quando
    fôra, assim como a tomada de Dona Ignez e o grande desvairo que por tal
    azo houve com seu padre, dês-ahi o grande tempo que tardou antes que o
    fizesse, e a gram deliberação com que se moveu a o fazer, e o segredo em
    que o poz áquelles que dizem que foram presentes; deixando tudo isto,
    sómente por ser feito em dia de janeiro que é primeiro dia do anno,
    segundo disse Estevão Lobato, demais, festa tão assignada no paço do
    infante e por todo o reino, isto só era bastante assaz para ser lembrado
    o dia em que a recebera, posto que longo processo de annos houvesse.

    Outra razão notavam ainda a tudo o que ouviram parecer fingido, dizendo
    que, se el-rei dava em seu testemunho que, com temor e receio de seu
    padre, não ousara descobrir este casamento em sua vida d'elle, quem lhe
    tolhera, depois que el-rei morreu, que o logo não notificara, sendo em
    seu livre poder, pois lhe tanto prazia de ser sabido?

    E mais diziam, que este feito queria parecer semelhante a el-rei Dom
    Pedro de Castella, que posto que, elle mandasse matar Dona Branca, sua
    mulher, em quanto Dona Maria de Padilha foi viva, que elle tinha por sua
    manceba, nunca lhe nenhum ouviu dizer que ella fosse sua mulher, e
    depois que ella morreu, em umas côrtes que fez em Sevilha, alli
    declarou, perante todos, que primeiro casára com ella que com Dona
    Branca, nomeando quatro testemunhas que foram presentes, os quaes por
    juramento certificaram logo que assim fôra como elle dizia, e desde
    então mandou elle que lhe chamassem rainha, posto que já fosse morta, e
    aos filhos infantes; e fez logo a todos fazer menagem, a um filho que
    d'ella houvera, que chamavam Dom Affonso, que o tomassem por rei depoz
    sua morte.

    E porém diziam os que estas e outras razões secretamente entre si
    falavam, que a verdade não busca cantos, muito encoberta andava em taes
    feitos. Assim que, porque o entender é disposto sempre para obedecer á
    razão, muitos que então isto ouviram deixaram de crer o que antes criam,
    e pegaram-se a este arrazoado; mas nós, que não por determinar se foi
    assim ou não, como elles disseram, mas sómente por ajuntar em breve o
    que os antigos notaram em escripto, puzemos aqui parte de seu arrazoado,
    deixamos cargo, ao que isto lêr, que d'estas opiniões escolha qual
    quizer.

    *CAPITULO XXX*

    _Como os reis de Portugal e de Castella fizeram entre si avença, que
    entregassem, um ao outro, alguns que andavam seguros em seus reinos_.

    Porque o fructo principal da alma, que é a verdade, pela qual todas as
    cousas estão em sua firmeza,–e ella ha de ser clara, e não fingida,
    mórmente nos reis e senhores, em que mais resplandece qualquer virtude
    ou é feio o seu contrario,–houveram as gentes por mui grão mal, um
    muito de aborrecer escambo que este anno entre os reis de Portugal e
    Castella foi feito: em tanto que, posto que escripto achemos, de el-rei
    de Portugal, que a toda a gente era mantenedor de verdade, nossa tenção
    é não o louvar mais, pois contra seu juramento foi consentidor em tão
    feia cousa como esta.

    Onde assim adveiu, segundo dissemos, que na morte de Dona Ignez, que
    el-rei Dom Affonso pae de el-rei Dom Pedro de Portugal, sendo então
    infante, mandou matar em Coimbra, foram mui culpados pelo infante, Diogo
    Lopes Pacheco, e Pero Coelho, e Alvaro Gonçalves, seu meirinho-mór, e
    outros muitos que elle culpou; mas assignadamente contra estes tres teve
    o infante mui grande rancura. E fallando verdade, Alvaro Gonçalves e
    Pero Coelho eram n'isto assaz de culpados, mas Diogo Lopes, não, porque
    muitas vezes mandara perceber o infante, por Gonçalo Vasques, seu
    privado, que guardasse aquella mulher da sanha d'el-rei seu padre.

    Pero, depois de tudo isto, foi el-rei de accordo com o infante seu
    filho, e perdoou o infante a estes e a outros em que suspeitava, e isso
    mesmo perdoou el-rei, aos do infante, todo o queixume que d'elles havia,
    e foram, sobre isto, grandes juramentos e promessas feitas, como
    cumpridamente tendes ouvido: e viviam assim seguros, Diogo Lopes e os
    outros, no reino, em quanto el-rei Dom Affonso viveu.

    E sendo el-rei doente, em Lisboa, da dôr de que se então finou, fez
    chamar Diogo Lopes Pacheco e outros, e disse-lhe que elle sabia bem que
    o infante Dom Pedro, seu filho, lhe tinha má vontade, não embargando as
    juras e perdão que fizera, da guisa que elles bem sabiam; e que,
    porquanto se elle sentia mais chegado á morte que á vida, que lhes
    cumpria, de se pôrem em salvo fóra do reino, porque elle não estava já
    em tempo de os poder defender d'elle, se lhe algum nojo quizesse fazer.
    E elles se partiram logo de Lisboa, e se foram para Castella, andando
    então o infante Dom Pedro ao monte, além do Tejo, em uma ribeira que
    chamam de Canha, que são oito leguas da cidade: e el-rei de Castella os
    recebeu de bom geito, e haviam d'elle bem fazer, e mercê, vivendo em seu
    reino seguros e sem receio.

    E depois que o infante Dom Pedro reinou, deu sentença de traição contra
    elles, dizendo que fizeram contra elle, e contra seu estado, cousas que
    não deviam de fazer; e deu os bens de Pero Coelho a Vasco Martins de
    Sousa, rico-homem, e seu chanceller-mór, e os de Alvaro Gonçalves e
    Diogo Lopes a outras pessoas, como lhe prouve. E fez el-rei, em alguns
    d'estes bens, tantas e taes bemfeitorias, e outras repartio em tantas
    partes, que depois que elle morresse nunca os mais podessem haver
    aquelles cujos foram, nem tirar áquelles a que os assim dava.

    Semelhavelmente, fugiram de Castella, n'esta sesão, com temor de el-rei,
    que os mandava matar, Dom Pedro Nunez de Guzman, adeantado-mór da terra
    de Leão, e Mem Rodrigues Tenorio, e Fernão Godiel de Toledo, e Fernão
    Sanchez Calderon, e viviam em Portugal, na mercê de el-rei Dom Pedro,
    crendo não receber damno, tambem os portuguezes como os castelhanos,
    porque razoada fé lhes dera ousado acoutamento nas fraldas da segurança,
    a qual–não bem guardada pelos reis–fizeram calladamente uma tal
    avença, que el-rei de Portugal entregasse presos, a el-rei de Castella,
    os fidalgos que em seu reino viviam, e que elle, outrosim, lhe
    entregaria Diogo Lopes Pacheco, e os outros ambos que em Castella
    andavam. E ordenaram que fossem todos presos em um dia, por que a prisão
    de uns não fosse avisamento dos outros, e que aquelles que levassem
    presos os castelhanos até ao extremo do reino, recebessem os portuguezes
    que trouxessem de Castella.

    *CAPITULO XXXI*

    _Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram entregues os
    outros, e logo mortos cruelmente_.

    Feito aquelle tracto d'esta maneira, foram em Portugal presos os
    fidalgos que dissemos.

    E n'aquelle dia que o recado de el-rei de Castella chegou ao lugar, onde
    Diogo Lopes e os outros estavam, para haverem de ser presos, aconteceu
    que essa manhã muito cedo fôra Diogo Lopes á caça dos perdigões. E
    presos Pero Coelho e Alvaro Gonçalves, quando foram buscar Diogo Lopes,
    acharam que não era no logar, e que se fôra pela manhã á caça.

    Cerraram então as portas da villa, que nenhum lhe levasse recado para o
    perceber, e attendiam-no assim, estando para o tomar á vinda.

    Um pobre manco, que sempre em sua casa havia esmola quando Diogo Lopes
    comia, e com quem algumas vezes jogueteava, viu estas cousas como se
    passaram, e cuidou de o avisar no caminho antes que chegasse ao logar, e
    soube escusadamente contra qual parte Diogo Lopes fôra, e chegou ás
    guardas da porta que o deixassem sair fôra, e elles, de tal homem
    nenhuma cousa suspeitando, abrindo a porta o deixaram ir.

    Andou elle, quanto poude, por onde entendeu que Diogo Lopes viria, e
    achou-o já vir com seus escudeiros, mui desegurado das novas que lhe
    elle levava. E dizendo o pobre a Diogo Lopes que lhe queria falar,
    quizera-se elle escusar de o ouvir, como quem pouco suspeitava que lhe
    trazia tal recado.

    Afincando-se o pobre que o ouvisse, contou-lhe então áparte como uma
    guarda de el-rei de Castella, com muitas gentes, chegaram a seu paço
    para o prender, depois que os outros foram presos, e isso mesmo de que
    guisa as portas eram guardadas, por que nenhum saisse para o avisar.

    Diogo Lopes, como isto ouviu, bem lhe deu a vontade o que era, e medo de
    morte o fez torvar todo, e pôr em grão pensamento.

    E o pobre lhe disse, quando o assim viu:–Crê-de-me de conselho, e
    ser-vos-ha proveitoso: apartae-vos dos vossos, e vamos a um valle não
    longe d'aqui, e alli vos direi a maneira como vos ponhaes em salvo.

    Então disse Diogo Lopes aos seus que andassem por alli a perto caçando,
    cá elle só queria ir com aquelle pobre a um valle, onde lhe dizia que
    havia muitos perdigões.

    Fizeram-no assim, e foram-se ambos áquelle logar, e alli lhe disse o
    pobre, se escapar queria, que vestisse os seus saios rotos, e assim, de
    pé, andasse quanto podesse até á entrada que ia para Aragão, e que com
    os primeiros almocreves que achasse, se mettesse de soldada, e assim,
    com elles de volta, andasse seu caminho, e por esta guisa, ou em um
    habito de frade, se o depois haver pudesse, se puzesse em salvo no reino
    de Aragão, cá por força havia de ser buscado pela terra.

    Diogo Lopes tornou seu conselho, e foi-se de pé, d'aquella maneira, e o
    pobre não tornou logo para a villa. Os seus aguardaram por mui grande
    espaço; e vendo que não vinha, foram-no buscar contra onde elle fôra: e
    andando em sua busca, acharam a besta andar só, e cuidaram que caira
    d'ella, ou lhe fugira, e buscaram-no com maior cuidado.

    Foi a detença, em isto, tão grande, que se fazia já muito tarde, e vendo
    como o achar não podiam, levaram a besta e foram-se ao lugar, não
    sabendo que cuidassem em tal feito. E quando chegaram, e viram de que
    guisa o aguardavam, e souberam da prisão dos outros, ficaram mui
    espantados, e logo cuidaram que era fugido: e perguntados por elle,
    disseram que caçando só, se perdera d'elles, e que buscando-o acharam a
    besta e não a elle, e que n'aquillo foram detidos até áquellas horas, e
    que não sabiam que cuidassem, senão que jazia em algum logar morto. Os
    que cuidado tinham de o prender, foram-no buscar por desvairadas partes.
    E do que lhe adveiu no caminho, e como passou por Aragão, e se foi a
    França para o conde Dom Henrique, e de que guisa lhe fez roubar os
    campos de Avinhão, e de outras cousas que lhe advieram, não curamos de
    dizer mais, por não sair fóra de proposito.

    Quando el-rei de Castella soube que Diogo Lopes não fôra tomado, houve
    grão queixume e não poude mais fazer: então enviou Alvaro Gonçalves e
    Pero Coelho, bem presos e arrecadados, a el-rei de Portugal, seu tio,
    segundo era ordenado entres elles. E quando chegaram ao extremo, acharam
    ahi Mem Rodriguez Tenorio, e os outros castelhanos, que lhe el-rei Dom
    Pedro enviava. E alli dizia depois Diogo Lopes, falando n'esta historia,
    que se fizera o troco de burros por burros.

    E foram levados a Sevilha, onde el-rei então estava, aquelles fidalgos
    que já nomeámos, e alli os mandou el-rei matar a todos.

    A Portugal foram trazidos Alvaro Gonçalves e Pero Coelho, e chegaram a
    Santarem, onde el-rei era. El-rei, com prazer de sua vinda, porém mal
    magoado porque Diogo Lopes fugira, os saiu fóra a receber, e, sanha
    cruel, sem piedade os fez por sua mão metter a tormento, querendo que
    lhe confessassem quaes foram na morte de Dona Ignez culpados, e que era
    que seu padre tratava contra elle, quando andavam desavindos por azo da
    morte d'ella. E nenhum d'elles respondeu a taes perguntas cousa que a
    el-rei prouvesse.

    E el-rei, com queixume, dizem que deu um açoute no rosto a Pero Coelho,
    e elle se soltou então contra el-rei em deshonestas e feias palavras,
    chamando-lhe traidor, á fé perjuro, algoz e carniceiro dos homens. E
    el-rei, dizendo que lhe trouxessem cebola, vinagre, e azeite para o
    coelho, enfadou-se d'elles, e mandou-os matar.

    A maneira de sua morte, sendo dita pelo miudo, seria mui estranha e crua
    de contar, cá mandou tirar o coração pelos peitos a Pero Coelho, e a
    Alvaro Gonçalves pelas espaduas. E quaes palavras houve e aquelle que
    lh'o tirava, que tal officio havia pouco em costume, seria bem dorida
    cousa de ouvir. Emfim, mandou-os queimar. E tudo feito ante os paços
    onde elle pousava, de guisa que comendo olhava quanto mandava fazer.

    Muito perdeu el-rei de sua boa fama por tal escambo como este, o qual
    foi havido, em Portugal e em Castella, por mui grande mal, dizendo todos
    os bons que o ouviam, que os reis erravam mui muito indo contra suas
    verdades, pois que estes cavalleiros estavam, sobre segurança, acoutados
    em seus reinos.

    *CAPITULO XXXII*

    _De algumas cousas que el-rei Dom Pedro de Castella mandou fazer, e como
    fez paz com el-rei de Aragão entrando em seu reino_.

    Nós deixámos, antes d'isto, el-rei Dom Pedro de Castella em Sevilha,
    prendendo e matando como lhe vinha á vontade, e contámos a morte de
    alguns que depois matou, com outras cousas que se, em Portugal, em esta
    sesão passaram, no anno de trezentos e noventa e oito.

    E depois que se fez aquelle feio escambo dos cavalleiros de um reino ao
    outro, segundo ouvistes em seu logar, mandou el-rei Dom Pedro matar de
    mui cruel morte Dom Pero Nunez de Guzman, adiantado-mór da terra de
    Leão, que era um d'elles; e mandou matar Guterre Fernandez de Toledo,
    seu reposteiro-mór, e trouxeram-lhe a cabeça d'elle. E Gomez Carrilho,
    filho de Pero Rodriguez Carrilho, indo mui ledo em uma galé, em que
    el-rei fingiu que o mandava para lhe entregarem a villa de Aljazira,
    para estar ahi por fronteiro, e o patrão cortou-lhe a cabeça, que mandou
    a el-rei, e deitou-lhe o corpo ao mar, e foi presa a mulher e os filhos
    d'este Gomez Carrilho.

    E mandou matar um cavalleiro de Castella, que chamavam Diego Guterrez de
    Ceballos. E deitou fóra do reino Dom Vasco, arcebispo de Toledo, depois
    que matou seu irmão Guterre Fernandez, e mandou-lhe tomar quanto tinha,
    que sómente um livro não levou comsigo, nem outra roupa senão a que
    tinha vestida, e foi-se para Portugal, e morreu em Coimbra.

    Mandou prender Dom Samuel Levi, seu thesoureiro-mór, e grão privado do
    seu conselho, e quantos parentes tinha pelo reino, em um dia; e tomou a
    elle, e aos outros todos, quanta riqueza lhe achou, e foram-lhe dados
    grandes tormentos, e nas taracenas de Sevilha preso morreu.

    Em este anno, cuidou el-rei Dom Pedro haver guerra com el-rei Vermelho
    de Granada, que diziam que tinha a parte de el-rei de Aragão. Este rei
    Vermelho lançara rei Mafoma fóra do reino, mas logo fez preitesia com
    el-rei Dom Pedro, que o não turvasse com el-rei Mafoma seu inimigo, pero
    que houvesse el-rei gram sanha d'elle, porque lhe em tal tempo quizera
    fazer guerra.

    E isto assocegado, no mez de janeiro de tresentos e noventa e nove,
    foi-se el-rei a Almançan, com muitas companhas que comsigo levava, para
    entrar no reino de Aragão. E foram d'esta vez em sua ajuda seiscentos
    portuguezes, e ia por capitão d'elles o mestre de Aviz, Dom Martim de
    Avelal, bom fidalgo e muito honrado, e de que se todos tiveram por
    contentes. E ganhou el-rei de Castella, em Aragão, d'esta vez, alguns
    logares.

    E o cardeal de Bolonha, legado do papa, falou com el-rei que desse logar
    a se não espargir tanto sangue como estava prestes, cá el-rei de Aragão,
    com todo seu poder, estava disposto para pelejar com el-rei de Castella,
    cá via que por guerra guerreada não podia igualar com elle.

    E tinha el-rei de Castella, então, seis mil de cavallo e muita gente de
    pé. E receiando-se de el-rei Vermelho de Granada, que lhe diziam que
    tinha feito liga com el-rei de Aragão para lhe fazer guerra, se mais
    durasse aquella contenda, pela qual se desencaminharam muito seus
    feitos, fez paz com el-rei de Aragão, fingida e contra sua vontade; e
    foi que el-rei de Aragão enviasse fóra do reino o conde Dom Henrique, e
    Dom Tello, e Dom Sancho, seus irmãos, e os cavalleiros e escudeiros de
    Castella que com elles estavam em Aragão,–e que el-rei de Castella lhe
    tornasse todos os logares que lhe tomados tinha de seu reino, e d'ahi em
    diante fossem amigos. E foram d'isto feitas escripturas, e apregoada a
    paz no arrayal, e prouve d'isto muito a quantos alli eram, porque a
    guerra que faziam era muito contra sua vontade.

    *CAPITULO XXXIII*

    _De algumas entradas que el-rei este anno fez no reino de Granada, e
    como el-rei Vermelho se veiu pôr em seu poder, cuidando de ser seguro, e
    el-rei o mandou matar_.

    Como el-rei veiu de Aragão e chegou a Sevilha, juntou suas gentes por
    fazer guerra a el-rei Vermelho de Granada, dizendo que queria ajudar
    el-rei Mafoma, e que por seu azo fizera paz com Aragão contra sua
    vontade.

    E veiu-se para elle el-rei Mafoma, com quatrocentos de cavallo, e entrou
    em companha de el-rei. E chegou el-rei a Antequera e não a poude tomar,
    e tornou-se, e mandou entrar os seus na veiga de Granada, que eram seis
    mil de cavallo, e venceram os christãos duas pelejas, e foram dos mouros
    mortos e captivos, e foi preso o mestre de Calatrava, e Sancho Perez
    d'Ayala, e outros.

    E cuidando el-rei Vermelho que faria prazer a el-rei Dom Pedro, fez
    grande gasalhado ao mestre e aos outros, cuidando de amansar a vontade
    de el-rei; e soltou o mestre, e alguns cavalleiros dos outros, e deu-lhe
    de suas joias, e enviou-os a el-rei.

    Elle agradeceu-lhe mui pouco tão grande presente, mas a poucos dias fez
    outra entrada, e ganhou quatro logares de mouros, e pôz recado em elles,
    e tornou-se a Sevilha.

    Os mouros combateram um d'estes logares, que chamam Sagra, e furando o
    muro e entrando-o por força, preitejou-se Fernão del Gadilho, que o
    tinha, e foi posto em salvo, e veiu-se para el-rei: e el-rei mandou-o
    matar.

    E deu el-rei volta, outra vez, em Granada, e ganhou outros logares, e
    tornou-se a Sevilha.

    Os mouros aggravaram-se todos, dizendo a el-rei Vermelho que, por a
    contenda que elle havia com el-rei Mafoma, entrára já el-rei trez vezes
    na terra, e que se perdia o reino de Granada.

    El-rei houve d'isto receio, e vendo que não podia levar adiante aquillo
    que começara, houve conselho de se vir pôr em poder e mercê d'el-rei de
    Castella, e que el-rei, dês que o visse, haveria piedade d'elle, e teria
    com elle alguma boa maneira. E partiu logo de Granada, com quatro centos
    de cavallo e duzentos de pé, e chegaram ao alcaçar de Sevilha, onde
    el-rei estava, e fizeram-lhe grandes referencias, e el-rei os recebeu
    mui bem.

    Então lhe fallou um mouro por el-rei de Granada, dizendo entre outras
    cousas, que bem se poderia defender de el-rei Mafoma, que era seu
    contrario, mas d'elle, que era seu rei e senhor, não se podia defender,
    e que, havido conselho sobre isto, o melhor accordo que achara era
    pôr-se em seu poder e mercê, á qual pedia que tomasse aquelle feito em
    sua mão, e que o punha em seu juizo, e que, se sua vontade era de outra
    guisa, fosse sua mercê de mandar pôr, elle e os seus, além mar em terra
    de mouros.

    El-rei respondeu ao mouro que lhe prazia muito da vinda de el-rei e dos
    seus, e que, sobre a contenda d'el-rei Mafoma, elle teria em ello boa
    maneira como se livrasse.

    El-rei Vermelho, e os outros fizeram por isto grão reverencia a el-rei,
    tendo que seu feito estava bem, e foram-se mui alegres para as pousadas
    que lhe el-rei mandou dar na judiaria da cidade.

    A cubiça, que é raiz de todo mal, fez logo saber a el-rei como el-rei
    Vermelho trazia muito haver, em aljofar e pedras e joias, e houve grão
    desejo de cobrar tudo. E mandou ao mestre de São Thiago que o convidasse
    n'outro dia para a ceia, e os maiores honrados que com elle vinham: e
    foram cear com elle até cincoenta.

    Acabada a ceia, estando seguros e nenhum ainda levantado, chegou Martim
    Lopez, com homens armados, e prendeu el-rei e todos os outros. E foi
    logo buscado el-rei, e acharam-lhe tres pedras balaches mui nobres e mui
    grandes, e acharam a um mouro pequeno, em um correio, setecentas e
    trinta pedras balaches, e a um seu pagem cincoenta grãos de aljofar,
    grossos como avelãs esburgadas, e a outro moço, tanto aljofar, grado
    como hervanços, em que poderia haver uma oitava de alqueire, e aos
    outros, a quem achavam aljofar, a quem pedras, e tudo levaram a el-rei.

    E n'essa hora foram outros homens de armas á judiaria, e prenderam todos
    os outros mouros; e todas as dobras e joias, que lhe acharam, tudo
    levaram a el-rei.

    E foi el-rei levado preso, e todos os seus á taracena, e d'ahi a dois
    dias foi tirado a um campo, que dizem Tablada, elle e trinta e sete
    cavalleiros mouros, e alli os mandou el-rei matar todos. E foi el-rei
    Dom Pedro o primeiro que deu uma lançada a el-rei Vermelho, que estava
    em cima de um asno, vestido em uma saia de escarlata, e disse:–Toma,
    porque me fizeste fazer má preitesia com el-rei de Aragão.–E o mouro
    respondeu por sua aravia, dizendo:–Pequena cavalgada fizestes.

    E enviou el-rei Dom Pedro a cabeça de el-rei Vermelho, e dos outros
    trinta e sete, a el-rei Mafoma de Granada, e elle enviou-lhe alguns
    captivos.

    E posto que el-rei Dom Pedro dissesse muitas razões a colorar este
    feito, por mostrar que o fizera sem encargo de sua consciencia, todos os
    seus o tiveram por mui grão mal, e lhes prouvera muito de não ser assim.

    *CAPITULO XXXIV*

    _Das avenças que el-rei de Castella fez com el-rei de Aragão, entrando
    em seu reino, e como as depois não quiz guardar_.

    El-rei Dom Pedro, que vontade tinha de tornar outra vez á guerra de
    Aragão, dizendo que a paz que fizera fôra contra sua vontade, por receio
    de el-rei Vermelho, fez liga com el-rei de Navarra, que fossem amigos e
    se ajudassem, e mandou aos seus que se percebessem: e nenhum não pensava
    que fosse contra Aragão, com que havia paz.

    E encobertamente, antes que o el-rei soubesse, por lhe tomar algumas
    villas, em tanto entrou em Aragão, e tomou logo seis castellos, e cercou
    a villa de Calatayud. E tendo o cerco sobre ella, ganhou treze castellos
    d'essa comarca.

    El-rei de Aragão, que estava em cabo de seu reino, quando isto soube,
    ficou espantado, e mandou a Provença, onde andava o conde D. Henrique e
    seus irmãos e os outros fidalgos de Castella desterrados do reino,
    fazendo guerra, que o viessem ajudar, e que lhes daria grandes soldos e
    os herdadaria em seu reino.

    Em tanto foi assim afincada a villa de Calatayud, que a tomou el-rei Dom
    Pedro por preitesia, e deixou recado em ella, e tornou-se a Sevilha.

    E receiando-se d'el-rei de França, por a morte da rainha Dona Branca sua
    mulher, que mandara matar, fez então sua mui firme amisade com el-rei
    Duarte de Inglaterra, e com o principe de Galles, seu filho, que se
    ajudassem contra quaesquer outros. E entrou logo em Aragão, e chegou a
    Calatayud, que estava já por elle, e ganhou por ahi derredor sete
    logares.

    E quando entrou por força Carinana, mandou matar quantos no logar havia,
    que não ficou sómente um. E a razão por que dizem que os assim mandou
    todos matar, foi porque elle tendo-a cercada e não a podendo tomar,
    alçou o cerco de sobre ella, e os da villa, quando os viram assim
    partir, começaram de bradar do muro dizendo seus doestos e maldições,
    cada um como lhe prazia; e el-rei teve d'isto grande melancolia, e
    mandou tornar suas gentes sobre o logar, e tão rijamente lhe deu o
    combate que a entrou logo por força; e por isto mandou fazer aquella
    grande mortandade.

    E cercou mais a cidade de Tarraçona e tomou-a. E tendo-a cercada, chegou
    o mestre de São Thiago de Portugal, Dom Gil Fernandes de Carvalho, com
    quinhentos cavalleiros e escudeiros mui bem guisados, em sua ajuda, que
    lhe enviára el-rei Dom Pedro, seu tio. Entre os quaes ia Martim Vasques
    de de Goes, e Gonçalo Mendes de Vasconcellos, e Martim Affonso de Mello,
    e Alvaro Gonçalves de Moura, e Nuno Viegas, o velho, e Rui Vasques
    Ribeiro, e outros muitos e bons fidalgos.

    E d'alli partiu el-rei, e tomou Turiel e onze logares outros, e tomou
    mais a cidade de Segorbe, e a villa de Monvedro, e veiu-se á cidade de
    Valencia. E havendo uns oito dias que el-rei estava sobre ella, soube
    que el-rei de Aragão e o infante Dom Fernando, seu irmão, e o conde Dom
    Henrique, e Dom Tello, e Dom Sancho, e as outras gentes por que el-rei
    de Aragão mandara, eram todos juntos para vir pelejar com elle, e que
    seriam trez mil de cavallo.

    El-rei Dom Pedro, que vontade não havia de pelejar com elles, partiu-se
    de Valencia, e foi-se para Monvedro. E el-rei de Aragão chegou até duas
    leguas do logar, e poz sua batalha e não achou com quem pelejar, e
    tornou-se. E da ribeira de Monvedro viu el-rei Dom Pedro levar quatro
    galés suas a seis de Aragão, que as tomaram, e pesou-lhe muito d'ello.

    Alli se começaram de tratar avenças entre os reis de Aragão e de
    Castella, a saber, que casasse el-rei Dom Pedro com Dona Joanna, filha
    de el-rei de Aragão, e Dom João, primogenito de Aragão com Dona Beatriz,
    filha de el-rei Dom Pedro, e isto com certas condições. E alli onde se
    juntaram para firmar as avenças, foi requerido el-rei Dom Pedro, e disse
    que se não achava n'aquella preitesia, e que o não requeressem mais, e
    d'alli se veiu para Sevilha.

    E dizia el-rei Dom Pedro que, n'estes tractos, fôra fallado
    secretamente, que pois elle casava com filha de el-rei de Aragão, e
    tomava com elle tal divido, que matasse ou prendesse primeiro o infante
    Dom Fernando, seu irmão, e o conde Dom Henrique, que eram seus inimigos,
    e que pois o não fizera, que não curava de suas preitesias.

    E bem parece isto ser verdade, porque el-rei de Aragão, a poucos dias,
    mandava prender, depois que comeu, o infante Dom Fernando, seu irmão,
    que tivera convidado esse dia, porque diziam que se queria ir, com as
    gentes que tinha, para a guerra de França. E porque se não deu á prisão,
    foi logo morto, e Luiz Manuel, e Diogo Perez Sarmento com elle. E todos
    os do reino lh'o tiveram a mui grão mal, por ser seu irmão, e mui nobre
    senhor como era.

    E depois fez fala el-rei de Aragão com el-rei de Navarra, que matassem o
    conde Dom Henrique, e fingiram que falassem em um castello todos tres
    sobre outra cousa. E porque Dom João Ramires d'Arellano, camareiro de
    el-rei de Aragão, que o conde escolhera que tivesse o castello emquanto
    elles fallassem, não quiz consentir em ser feita tal morte, escapou o
    conde aquelle dia de não ser morto.

    *CAPITULO XXXV*

    _Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua frota de naus
    e galés, e das cousas que alli fez_.

    Partiu el-rei outra vez de Sevilha, em começo do anno de quatro centos e
    dois, aos quinze annos do seu reinado, e entrou em Aragão pelo reino de
    Valencia, e ganhou Alicante e outros logares. E chegando a cerca de
    Burriana, viu galés, e outros navios, que traziam mantimento a Valencia,
    de que estava mui minguada, e tornou-se do caminho por lhes dar torva, e
    poz seu arrayal onde chamam o Grao, na ribeira do mar, que é meia legua
    da cidade, e esperava cada dia sua frota, e galés de Portugal que lhe
    haviam de vir em ajuda, e todas estavam já em Cartagena, não havendo
    tempo com que partir.

    El-rei Dom Pedro, não sabendo novas de el-rei de Aragão, chegou um
    escudeiro a elle, e disse que el-rei de Aragão e o conde Dom Henrique,
    com todos os outros senhores e gentes, que poderiam ser tres mil de
    cavallo, afóra muitos homens de pé, vinham mui encobertamente por
    pelejar com elle, antes que d'alli partisse; e que vinham pelo mar, a
    geito d'elles, doze galés e outros navios com mantimentos, e que tres
    noites havia que não faziam fogo, por não serem descobertos, e que ao
    outro dia seriam com elle.

    El-rei, ouvindo isto, partiu logo d'alli e foi-se a Monvedro, que eram
    quatro leguas. Outro dia, grande manhã, chegou el-rei de Aragão, e
    pousaram todos entre Monvedro e o mar, uma legua da villa, e suas galés
    e naves a cerca, e foi acorrida a cidade por mar e por terra. E a cabo
    de doze dias chegou a frota de el-rei de Castella, que eram vinte galés
    suas e quarenta naus, e dez galés de Portugal, que lhe enviava seu tio
    em ajuda.

    A frota de Aragão, quando viu a de Castella, houve receio, e metteu-se
    no rio de Culhera. El-rei Dom Pedro entrou logo na frota, e foi-se pôr
    na bôca do rio, cuidando tomar as galés de Aragão. E estando alli,
    começou de ventar o levante, que é travessia n'aquelle logar, e
    mostrando o mar sua grande braveza, cuidaram todos que quebrassem suas
    galés em terra: e el-rei de Aragão, com todas suas gentes, aguardavam em
    terra por ellas, crendo todavia, por o vento que se esforçava cada vez
    mais, que de todo ponto eram perdidas. E a galé de el-rei perdera já
    tres calabres com suas ancoras, e sobre o quarto estava seu feito. Ao
    sol posto cessou a tormenta, e foi el-rei em mui grão perigo, e partiu
    d'alli deixando seus fronteiros, e tornou-se para Castella.

    El-rei de Aragão cercou Monvedro e não o poude tomar, e partiu d'alli, e
    foi-se andar por seu reino em tanto.

    E deu outra vez volta el-rei de Castella, e partiu de Sevilha, e entrou
    por Aragão, e tomou alguns logares. E os da villa de Orihuela, cuidando
    de ser cercados, fizeram-no saber a el-rei de Aragão, e veiu logo com
    seu poder, a duas leguas de onde el-rei de Castella estava, e
    abasteceu-a de viandas de que era minguada.

    E el-rei Dom Pedro não quiz pelejar com elle, mas esteve alguns dias por
    aquella terra, e tornou-se para Sevilha, e achou novas como as suas
    galés, que andavam pelo mar, tomaram cinco galés de Aragão, e foi-se
    logo a Cartagena, onde estavam, e mandou matar toda a gente d'ellas, que
    não escapou sómente um, salvo os que sabiam fazer remos, porque os houve
    mister.

    D'alli partiu el-rei Dom Pedro para Murcia, sabendo como el-rei de
    Aragão cercara Monvedro, e foi cercar a villa de Orihuela que dissemos,
    e ganhou a villa e o castello, e tornou-se para Sevilha. Os de Monvedro,
    afincados do cerco e sendo minguados muito de viandas, requeriam muito a
    mercê de el-rei que lhes accorresse; e el-rei, porque lhes não podia
    accorrer senão por batalha, não era ousado de o fazer, cá elle não
    queria pelejar com el-rei de Aragão, receiando-se dos seus, de que muito
    não fiava. E porém buscava outras maneiras de guerra e não por batalha,
    cá el-rei Dom Pedro por muitos que mandara matar, e pelos do reino que
    sabia que eram d'elle mal contentes e o desamavam, não se atrevia a pôr
    o campo.

    Os de Monvedro minguados de viandas, em guisa que já comiam as bestas e
    ratos, deram a el-rei de Aragão o logar por preitesia. E eram dentro,
    para o defender seiscentos homens de armas, afóra peões e bésteiros, e
    os mais d'elles ficaram com o conde Dom Henrique, por grande receio que
    haviam de el-rei, não embargando o accorrimento que d'elle haver não
    puderam.

    *CAPITULO XXXVI*

    _Como o conde Dom Henrique entrou por Castella com muitas companhas, e
    foi alçado por rei; e como el-rei Dom Pedro mandou desamparar todos os
    logares que em Aragão tinha filhados_.

    Monvedro ganhado por el-rei de Aragão, foi-se para Barcelona, e vieram
    alli alguns capitães das companhias por que elle mandava, e firmaram com
    elle de ser alli no fevereiro seguinte, para entrar em Castella com o
    conde Dom Henrique. El-rei Dom Pedro soube d'isto parte e foi-se a
    Burgos, onde mandára juntar suas gentes. Entanto aquelle e os capitães
    das companhias, eram juntos, e partiram de Saragoça para entrar em
    Castella.

    E vinham ahi capitães de Aragão, a saber, o conde de Denia, e Dom
    Filippe de Castro, e outros cavalleiros; e de França, Mosse Beltrão de
    Claquin, e o conde das Marchas, e o sr. de Bain, e o marechal de
    Andemar, marechal de França, e outros cavalleiros. E de Inglaterra,
    Mosse Boitro de Carvabai, Mosse Estacio, e Mosse Martim de Gorimai, e
    Mosse Guilhem Allinante, e Mosse João de Obrens, e muitos outros
    cavalleiros e homens de armas de Inglaterra, e de Guiana, e de Gasconha,
    e d'outras nações.

    E chegaram todos á viila de Alfaro, e não curaram d'ella, e foram outro
    dia a Calahorra, cidade não forte, e preitejaram-se os do logar com o
    conde, e acolheram-no dentro com aquellas gentes, as quaes alli foram
    certificadas como el-rei Dom Pedro estava em Burgos, e que não havia
    vontade de pelejar com elles. E houveram accordo, dizendo ao conde Dom
    Henrique que pois tanta boa gente era contente de o aguardar em esta
    cavalgada, que se chamasse rei de Castella.

    E elle, á primeira, começou-se de escusar de o fazer; dês-ahi, como é
    doce cousa reinar, antes de muitas palavras outorgou que lhe prazia, e
    foi alçado então por rei: e pediram-lhe, os que com elle vinham, grandes
    mercês e officios no reino, e elle mui de grado lhe outorgava tudo,
    dando o que ganhado tinha, e promettendo o que era por ganhar; cá em tal
    tempo assim lhe cumpria de o fazer. E foi isto no anno de mil e
    quatrocentos e quatro.

    Partiu d'alli el-rei Dom Henrique caminho de Burgos, onde era el-rei Dom
    Pedro, e chegou a Navarrete, o qual se lhe deu nem ousando de esperar
    combate, e foi combatida Briviesca, e tomou-a.

    El-rei Dom Pedro, sabendo tudo isto, sabbado de Ramos, bem pela manhã,
    mandou matar João Fernandez de Tovar, por queixume que houve de seu
    irmão, e, sem dizer cousa nenhuma aos seus, cavalgou por se partir logo.
    E vieram a elle os maiores da cidade, dizendo que os não deixasse, cá o
    conde era oito leguas d'alli: e não prestando nenhuma cousa suas razões,
    quitou-lhe a menagem, e partiu-se logo, e foram com elle alguns
    cavalleiros, e seiscentos mouros de cavallo, que andavam na guerra em
    sua ajuda, que lhe dava el-rei de Granada. E muitos dos seus ficaram em
    Burgos, a que prazia de tudo isto, e quem se d'elle partia não ousava de
    tornar mais a elle.

    E aquelle dia que el-rei d'alli partiu, mandou suas cartas a todos os
    que por elle tinham as fortalezas que em Aragão ganhara, que as
    desamparassem, e destruissem se pudessem, e se viessem para elle. E
    elles fizeram-no assim, mas muitos d'elles se foram para el-rei Dom
    Henrique, e aqui cessou então de todo a guerra de Aragão, a qual ia em
    onze annos que durava.

    Certamente perdera-se o reino de Aragão todo, se fortuna tão cedo não
    abreviara os annos da vida d'este rei Dom Pedro, cá onze vezes que elle
    em Aragão fez entrada, ganhou cincoenta e dois logares aqui contidos,
    afóra outros muitos que aqui não são nomeados. E chegou el-rei Dom Pedro
    a Toledo, e poz recado na cidade, e d'ahi partiu para Sevilha.

    Os de Burgos, vendo que se não poderiam defender de el-rei Dom Henrique,
    mandaram-lhe seus recados e receberam-no na cidade, e coroou-se alli por
    rei, e vieram a elle muitos procuradores das villas e cidades do reino,
    e receberam-no por senhor, em guisa que do dia da coroação a vinte e
    cinco dias, foi todo o reino a seu mandado: e elle recebia todos
    graciosamente, e a nenhum era negado cousa que pedisse. E deu el-rei Dom
    Henrique alli muitas terras áquelles senhores e cavalleiros que vinham
    com elle, assim estrangeiros como seus naturaes, e mandou a Aragão por
    sua mulher e filhos, e foi recebida honradamente.

    D'alli partiu e veiu-se a Toledo, e foi na cidade grande revolta se o
    receberiam ou não, porque a uns prazia que o recebessem, outros eram de
    todo em contrario; pero finalmente houveram accordo de o acolher em
    ella, e foi recebido com grande prazer.

    *CAPITULO XXXVII*

    _Como el-rei Dom Pedro de Castella enviara uma sua filha a Portugal, e
    como elle partiu de Sevilha com temor que houve dos da cidade_.

    El-rei Dom Pedro estando em Sevilha, soube novas d'estas cousas todas, e
    posto em grão pensamento, accordou com os seus de enviar pedir ajuda a
    el-rei de Portugal, seu tio. E por lhe dar mór cargo de se mover a lhe
    fazer tal ajuda, enviou-lhe dizer que bem sabia como era posto casamento
    da infante Dona Beatriz, sua filha, com o infante Dom Fernando seu
    primogenito filho, e que porém lhe mandava a dita infante e toda a
    quantia do haver que era posto de lhe dar ao tempo do casamento, e que
    essa Dona Beatriz ficasse herdeira dos reinos de Castella, e de Leão. E
    mandou-a logo de Sevilha, e com ella Martim Lopez de Trujillo, um homem
    de que elle muito fiava, e mais certa quantia de dobras que deixara a
    esta infante Dona Maria de Padilha, sua madre, com joias, e aljofar, e
    outras cousas.

    E partida Dona Beatriz de Sevilha para Portugal houve el-rei Dom Pedro
    novas como el-rei Dom Henrique caminhava de Toledo para Sevilha, e
    accordou de enviar pelo thesouro que tinha no castello de Almodovar, que
    era todo em moedas de prata e de oiro, e fez armar uma galé em que o
    poz, com todo o haver que tinha na cidade, e entregou a galé a Martim
    Yanhez, seu thesoureiro, e mandou-lhe que se fosse a Tavira, villa de
    Portugal no reino do Algarve, e que alli attendesse a galé, até que elle
    fosse. E tambem mandou carregar muitas azemolas de seus thesouros, e
    levou comsigo mui grande haver de oiro, e pedras, e aljofar assim do que
    tomara a el-rei Vermelho e aos seus, como de outro muito que tinha
    junto, e isso mesmo da prata toda a que poude levar.

    E el-rei estando assim para partir de Sevilha, disseram-lhe como os da
    cidade se alvoroçavam contra elle, e o queriam roubar alli onde estava:
    e com grão temor que houve, partiu-se logo para Portugal. E levou
    comsigo Dona Constança, e Dona Isabel, suas filhas, cá Dona Beatriz, a
    maior, havia já mandada, como dissemos. E iam com el-rei Dom Pedro,
    Martim Lopes de Cordova, mestre d'Alcantara, e Diogo Gomes de Catanheda,
    e Pero Fernandez Cabeça-de-vacca, e outros.

    E segundo alguns escrevem, como el-rei partiu de Sevilha, taes ahi
    houve, dos que iam com as azemolas do haver, que vendo como el-rei fugia
    do reino por aquella guisa, se tornavam para a cidade com o que levavam,
    e outras saiam do logar e lhe roubaram parte d'aquelle haver. E Misser
    Gil Boca-negra, seu almirante, que era genovez, armou em Sevilha uma
    galé e outros navios, e foi tomar a galé do haver, em que ia Martim
    Yanhez para Tavira, no rio Guadalquivir, cá ainda não era mais arredado.
    E era o haver, que ia em ella, trinta e seis quintaes de oiro, e outras
    muitas joias, de que el-rei Dom Henrique depois houve a maior parte.

    *CAPITULO XXXVIII*

    _De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu tio que era em seu
    reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer ajuda_.

    El Rei de Portugal, em esta sesão, pousava nos paços de Vallada, que são
    a cerca de uma villa que chamam Santarem, e era isto no mez de maio. E
    quando el-rei Dom Pedro, mandou sua filha Dona Beatriz, como anteagora
    ouvistes, para casar com o infante D. Fernando, por azo de haver melhor
    ajuda de el-rei seu tio, soaram primeiro novas em Vallada, onde pousava
    el-rei, que el-rei de Castella lhe mandava duas suas filhas, que estavam
    já nas Alcaçovas, que são d'alli vinte leguas; mas não sabiam dizer
    certamente porque as mandava a el-rei, nem em que intenção. El-rei de
    Portugal, que parte não sabia que el-rei seu sobrinho era em tal pressa
    posto, cuidando que as infantes vinham por outra maneira, porém que não
    era mais que aquella uma, mandava correger casas e camaras em seus
    paços, em que ellas bem podessem pousar.

    El-rei de Castella partiu de seu reino, e tão trigoso andar poz no
    caminho, sem se detendo em nenhum logar, que antes que sua filha
    chegasse onde el-rei de Portugal estava, a achou elle no caminho em que
    vinha. E chegou el-rei Dom Pedro a Serpa, e d'alli a Beja, e dês-ahi a
    Coruche, que eram vinte e uma leguas d'onde el-rei seu tio estava, e
    d'alli lhe fez saber como vinha, e a ajuda e accorrimento que lhe d'elle
    cumpria, e isso mesmo o casamento de sua filha com o infante Dom
    Fernando, seu filho.

    El-rei de Portugal, como isto soube, teve bem assaz em que cuidar, e
    mandou-lhe dizer que não fosse mais adiante, mas que estivesse alli até
    que visse seu recado. E mandou chamar o infante Dom Fernando seu filho,
    que não era ahi, e com elle e com seus privados houve conselho sobre
    este feito, e foi falado por alguns que o visse e acolhesse em seu
    reino, e que o ajudasse a cobrar sua terra. Dês-ahi, cuidando bem
    n'isto, acharam que o não podia el-rei fazer sem grandes trabalhos, e
    gasto, e mui grão damno de seu reino, e, o peior de tudo, não ter
    nenhumas azadas razões como tal feito podesse vir a acabamento, quejando
    cumpria, porque, el-rei Dom Henrique, seu irmão, tinha já toda Castella
    a seu mandar, salvo alguns logares, tão poucos, de que não era de fazer
    conta; e com isto haviam lhe grande odio todos os do reino, assim
    grandes como pequenos. De guisa que bem era de cuidar quanto todos
    fariam por cobrar em elle; pois quem houvesse de lançar fóra de Castella
    el-rei Dom Henrique e todos os da sua parte, assim por batalha como por
    guerra guerreada, grão poderio lhe convinha ter, e, não se fazendo
    segundo seu desejo, ficava ao depois em grande homisio e guerra com
    elle. Recebel-o outrosim em seu reino, e não trabalhar de o ajudar,
    era-lhe grande vergonha e prasmo; dês-ahi, vendo-o e falando-lhe, não se
    poderia escusar d'elle.

    Porém accordaram que o mais são conselho era que o não visse elle nem o
    infante seu filho, buscando algumas rasões coloradas por que parecesse
    que direitamente se escusava.

    Então foi a Coruche o conde Dom João Affonso Tello, onde el-rei de
    Castella estava esperando a resposta de seu tio, cuidando de ser
    aposentado em Santarem, e disse-lhe como el-rei vira seu recado, e
    soubera parte da sua vinda de que guisa era, e que elle de boa mente o
    recebera em seu reino e o ajudara a cobrar sua terra, como era razão e
    direito, mas que por então não estava em ponto de o poder fazer como
    cumpria, porque d'aquellas vezes que lhe elle fizera ajuda, assim por
    mar como por terra, os fidalgos de seu reino vieram d'elle e de suas
    gentes mui mal contentes e escandalisados; e que vinham em sua companha
    taes, com que alguns houveram razões, e que era por força haver entre
    elles grandes bandos e arruidos, o que a serviço d'ambos pouco cumpria.
    Além d'isto, que sabia bem como o infante Dom Fernando, seu filho, era
    sobrinho da rainha Dona Joanna, que então novamente entrara em Castella,
    irmã de sua madre Dona Constança, filha de Dom João Manuel, e que não
    entendia de postar com elle que lhe muito prouvesse de tal ajuda. E foi
    assim certamente, segundo alguns escrevem, que o infante deu grão torva,
    porém razoada, em este feito. Com estas e outras razões escusou o conde
    el-rei seu senhor, que elle áquelle tempo o não podia vêr, nem lhe fazer
    mais ajuda da que feita havia; e despediu-se d'elle, e foi-se para a
    pousada.

    *CAPITULO XXXIX*

    _Como el-rei de Castlla partiu de Coruche, e se foi de Portugal; e quaes
    enviaram em sua companha_.

    Não embargando as razões que dissemos, e outras muitas que faladas foram
    entre el-rei de Castella e o conde sobre o feito de seu negocio, bem
    entendeu el-rei Dom Pedro que o fim de todos seus ditos era não haver
    el-rei seu tio vontade de lhe dar acolhimento em seu reino, nem lhe
    fazer ajuda por nenhuma guisa: e houve d'isto tão grande queixume, que
    não poude com sua vontade que o logo não desse a entender por algum
    modo.

    E depois que o conde com elle falou, e se despediu e se foi para a
    pousada, ficou el-rei triste e melancolioso, e com torvado gesto tomou
    dobras, que tinha na mão, e deitou-as por cima de um alpendre das casas
    onde pousava. Um cavalleiro de sua companha, vendo isto que el-rei
    fazia, disse-lhe, como sorrindo, por que deitara assim aquellas dobras,
    cá melhor fôra dal-as a alguns dos seus, a que prestassem; e el-rei lhe
    respondeu dizendo: «não cureis d'isso, cá quem as semeia as virá depois
    colher»; dando a entender, se seus annos tão poucos não foram, que elle
    lhe fizera de bom talante guerra, por não achar então em elle ajuda nem
    acolhimento nenhum. E houve seu accordo de se ir a Albuquerque e deixar
    ahi as filhas e todas suas cargas; e chegando ao logar não o quizeram em
    elle acolher, antes se lançaram dentro alguns dos que iam em sua
    companha.

    E el-rei, vendo como seus feitos iam cada vez peior, mandou dizer a
    el-rei de Portugal, seu tio, que pois lhe outra ajuda fazer não queria,
    que lhe enviasse carta de seguro, por que podesse passar por seu reino:
    e isto fazia elle temendo-se do infante Dom Fernando de Portugal, por
    ser sobrinho da mulher de el-rei Dom Henrique, como dissemos.

    A el-rei de Portugal prouve muito, e enviou a elle o conde de Barcellos,
    que ouvistes, e Alvaro Peres de Castro, que se fossem com elle pelo
    reino, e o puzessem em salvo em Galliza. E elles se foram por elle, e
    começaram de andar seu caminho, e quando chegaram á Guarda, segundo
    alguns contam, disseram elles alli a el-rei que se queriam tornar e não
    podiam ir mais com elle, porquanto se receiavam do infante Dom Fernando,
    que os enviara ameaçar por irem assim em sua companha, e que el-rei lhes
    deu então seis mil dobras, e duas cintas de prata, e dois estoques, que
    se fossem com elle até Galliza. E se assim adveio por esta guisa, isto
    foi fingido que elles disseram, cá o infante não tinha razão de lhes tal
    cousa mandar dizer, pois, com seu accordo, fôra ordenado em conselho que
    o acompanhassem até fóra do reino. E dizem que chegaram com elle até
    Lamego, e mais não. E á partida lhe furtou o conde uma filha de el-rei
    Dom Henrique, seu irmão, que el-rei levava presa comsigo, de idade de
    quatorze annos, que chamavam Dona Leonor dos leões, porque el-rei Dom
    Pedro, por queixume que de seu padre havia, sendo esta moça em poder de
    sua ama, nada de mui poucos mezes, com grão crueldade a mandou tomar, e,
    esfaimados os leões que criava antes por um dia, no curral onde andavam
    mandou que lh'a lançassem em camisa, e foi assim feito como elle mandou.
    E os leões vieram, e chegaram-se a ella, e prouve a Deus que lhe não
    fizeram nenhum nojo, mas assim como se d'ella houvessem piedade, se
    chegavam a ella sem lhe fazerem outro mal. Foi isto dito a el-rei por
    alguns seus, e mandou-a el-rei tirar d'alli, e entregar áquelles que a
    criavam, e poz-se porém em ella tal guarda, que nunca seu padre a poude
    haver. E levava-a el-rei então comsigo, e o conde a trouxe a el-rei de
    Portugal, e depois foi entregue a el-rei Dom Henrique, seu padre.

    *CAPITULO XL*

    _Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo de São
    Thiago, e se foi para Inglaterra_.

    Partiu de Lamego el-rei de Castella, assaz desamparado e com mui pouca
    gente, cá não iam com elle mais que até duzentos de cavallo, e chegou a
    Monte-rei, uma villa de Galliza, e d'alli escreveu a Logronho, e a
    Soria, e a Samora, que tinham sua voz, que se esforçassem, cá elle lhes
    accorreria.

    E fez saber a el-rei de Navarra, e ao principe de Galles, como era em
    Galliza, e queria saber que esforço tinha em elles, e esperou alli o
    arcebispo de São Thiago, e Dom Fernando de Castro, seu alferes-mór e
    adiantado em terra de Leão e das Asturias, o qual antes d'isto viera a
    Galliza por seu mandado, e falou com todos os prelados, e cavalleiros, e
    escudeiros, e cidades, e villas, e fortalezas, de guisa que todos
    tiveram sua voz.

    E estiveram tres somanas, havendo conselho se era melhor ir-se a Samora,
    e d'ahi caminho de Logronho, pois el-rei Dom Henrique, com suas
    companhas, estava em Sevilha; ou ir-se a Bayona de Inglaterra catar seus
    accorros com o principe de Galles. E teve-se el-rei antes ao conselho da
    ida de Inglaterra, que tornar outra vez a seu reino, porque tão pouco se
    fiava nos que tinham voz por elle, como nos outros que não eram da sua
    parte.

    E partiu de Monte-rei, e foi ter o São João a São Thiago de Galliza, e
    alli houve accordo com os seus de matar o arcebispo, e tomar-lhe as
    fortalezas. E onde Dom Sueiro vinha seguro, a seu mandado, dia de São
    Pedro, que lhe mandara el-rei dizer que viesse ao conselho, entrando
    pela cidade foi morto á porta da igreja de São Thiago, por Fernão Perez
    Turrichão, e Gonçalo Gomez Gallinhato, e dois cavalleiros que lhe mal
    queriam, a que el-rei mandara que o matassem, e mataram mais Pero
    Alvarez, deão de São Thiago, homem mui letrado e bem sisudo, e el-rei o
    olhava de cima da igreja, como se tudo isto fazia. E tomou el-rei quanto
    haver o arcebispo tinha no castello da rocha, e deu as fortalezas a Dom
    Fernando de Castro, e fel-o conde de Trastamara, e de Lemos, e de
    Sarria, d'onde soía ser conde el-rei Dom Henrique, para elle e para
    todos seus herdeiros lidimamente nascidos.

    E Dom Alvaro Perez, seu irmão, e André Sanchez de Gres, que vinham vêr
    el-rei, quando souberam a morte do arcebispo, tornaram-se para suas
    terras com medo, e tomaram voz d'el-rei Dom Henrique.

    El-rei partiu d'alli, e foi-se para a Corunha, e n'aquelle logar lhe
    chegou recado do principe de Galles, que se fosse para o senhorio de
    Inglaterra, e que elle lhe ajudaria a cobrar o reino. E partiu el-rei da
    Corunha, e levou comsigo vinte e duas naus, e uma galé, e uma carraca, e
    deixou Dom Fernando de Castro em Galliza, e commetteu-lhe todo seu
    poderio, e el-rei ia na carraca com suas filhas todas tres, e o thesouro
    todo que comsigo levava, que eram trinta e seis mil dobras em oiro
    amoedado, porque todo o outro thesouro deixara na galé que Martim Yanhez
    havia de levar a Tavira, e levava muitas joias de oiro, e de aljofar, e
    de pedras de grão valor. E passou o mar, e chegou a Bayona, onde ia
    corregendo seus feitos, de que mais por ora dizer não queremos.

    *CAPITULO XLI*

    _Como el-rei Dom Henrique chegou a Sevilha, e da alliança que fez com
    el-rei de Portugal_.

    El-rei Dom Henrique partiu de Toledo, sabendo tudo o que adviera a
    el-rei Dom Pedro em Sevilha, e isso mesmo em Portugal, e como se fôra
    depois a Galliza. E chegou a Cordova, onde o receberam com grão prazer,
    e d'ahi levou caminho de Sevilha, sabendo que tinha voz por elle, onde
    foi recebido com tão grão festa que, pero el-rei chegou pela manhã a
    cerca do logar, passava de meio dia quando entrou em seu paço.

    E partiu el-rei com os seus, e com aquellas companhas que com elle
    vinham, em guisa que todos foram mui contentes, e mandou-os para suas
    terras; pero ficaram com elle Mosse Beltrão de Claquin, e outros
    senhores, com alguns inglezes e bretões, que eram todos companhias, até
    mil e quinhentas lanças.

    E esteve el-rei em Sevilha quatro mezes, e antes que d'alli partisse,
    escreveu a el-rei Dom Pedro de Portugal, como queria haver paz e amisade
    com elle, e que elle enviaria taes, ao extremo, de que fiava por seus
    procuradores, para tratarem avença entre elles, e que el-rei Dom Pedro
    mandasse ahi outros, que com seus feitos fossem concordados.

    E foi assim de feito, que enviou el-rei Dom Henrique Dom João, bispo de
    Badalhouce, e Diego Gomez de Toledo, cavalleiro, e el-rei de Portugal
    enviou Dom João, bispo de Evora, e Dom Alvaro Gonçalves, prior do
    Hospital; e juntaram-se todos na ribeira de Caya, no extremo dos reinos.

    E alli trataram, pelos ditos reis, que fossem fieis amigos um do outro,
    e houvessem paz e concordia, e que el-rei de Castella trabalhasse, a
    todo seu poder, que el-rei de Aragão fosse amigo de el-rei de Portugal
    pela guisa que o elle era, e que el-rei de Aragão deixasse vir para
    Portugal a infanta Dona Maria, filha do dito rei Dom Pedro, mulher que
    fôra do infante Dom Fernando, marquez de Tortosa, com todo o seu, ou
    viver na terra qual ella antes quizesse; e louvaram e approvaram as
    avenças que em outro tempo foram feitas em Agreda, entre el rei Dom
    Fernando e el-rei Dom Diniz, seus avós.

    Outrosim, Mafamede, rei de Granada, tratou logo amisade com el-rei Dom
    Henrique, e ficou por seu amigo.

    E partiu el-rei de Sevilha, e foi-se a Galliza, e cercou em Lugo Dom
    Fernando de Castro, que tinha voz de el-rei Dom Pedro, e não o poude
    tomar, e preitejou com el-rei, que se lhe el-rei Dom Pedro não
    accorresse até cinco mezes, que deixasse o reino e lhe entregasse todas
    as fortalezas, e se quizesse ficar em sua mercê, que lhe desse a villa
    de Castro Exarez, d'onde sua linhagem se chamava de Castro, e elle
    conde, depois que lh'a el-rei Dom Pedro dera, e que em este tempo não se
    fizesse guerra de uma parte á outra, a qual cousa lhe Dom Fernando mui
    mal teve.

    A el-rei Dom Henrique prouve d'isto, e tornou-se para Burgos, e alli
    ordenou côrtes, nas quaes foram juntos os maiores do reino; e certos da
    vinda que el-rei Dom Pedro queria fazer, lhe foi promettida ajuda para
    despeza da guerra, e offerecidos os corpos a seu serviço, como bem podia
    vêr. E el-rei, em tanto, mandava por gentes que lhe cada dia vinha, com
    que partia grandemente, e lhe fazia muita honra. E porque dos feitos
    d'estes reis ambos, mais não adveiu em tempo de el-rei Dom Pedro de
    Portugal, cessaremos de mais dizer d'elles, e em quanto elles juntam
    suas gentes para a batalha que depois ouvireis, contaremos nós outras
    cousas, segundo requer a ordenança d'esta obra. Mas antes que as
    digamos, ouvi isto que achamos escripto, a saber, que féria quinta,
    vinte e dois dias do mez de outubro d'esta presente era de Cesar de mil
    e quatrocentos e quatro annos, foi feito um movimento no céo, desde a
    meia noite para adiante, o qual foi por esta guisa: correram todas as
    estrellas do levante para o poente, e depois que todas foram juntas,
    começaram de correr umas cá e outras lá; dês-ahi deixaram-se estalar do
    céo tantas e tão espessas, que, depois que foram baixas no ar, pareciam
    grandes fogueiras, e que o céo e o ar ardia, e que a terra queria arder;
    e o céo parecia partido por muitas partes alli onde estrellas não
    estavam; e não havia homem que isto visse, que não fosse fortemente
    espantado; e era tamanho o medo, que quantos isto viam todos cuidavam de
    serem mortos, durando isto por mui grande espaço. E isto escrevemos por
    não haverdes por nova cousa quando outra tal acontecer, dês-ahi por
    relembrança das maravilhas que Deus faz.

    *CAPITULO XLII*

    _Como el-rei de Portugal enviou seus embaixadores a casa do principe de
    Galles, por se desculpar do que el-rei Dom Pedro dizia_.

    A grão melancolia que levou el-rei Dom Pedro de Castella do mau
    gasalhado que em Portugal achara, lhe fez que ás vezes não podia, em
    falando, que o não desse a entender com sanha, e algumas horas, estando
    com o principe, presente muitos, fazia queixume do mau acolhimento que
    achara em seu tio el-rei de Portugal, esperando d'elle receber o
    contrario, dizendo que o não havia tanto pelo seu, como das infantes
    suas filhas, as quaes lhe devera de agasalhar e receber em sua
    encommenda: e fallando em ello muito largamente, mostrava com isto
    geitos e semblante que de o vingar tinha grão desejo.

    E foi isto assim falado, e por taes palavras, que não minguou quem o
    escrevesse a el-rei de Portugal, o qual, conhecendo sua preversa
    condição, e prevendo o que advir podia, ordenou de se enviar desculpar
    presente o principe, mostrando que a culpa não fôra em elle, assim em
    seu recebimento, como em agasalhar suas filhas; e mandou allá o bispo de
    Evora, e Gomez Lourenço do Avelal, os quaes chegaram a Gasconha, onde
    el-rei e o principe por então estavam.

    Elles alli, ordenou o principe o dia e hora para dizerem sua embaixada,
    a qual, proposta ante elle, sendo el-rei presente, começaram de contar
    pelo miudo tudo o que em Portugal diziam alguns de que se ei-rei Dom
    Pedro agravava, fazendo queixume de el-rei seu tio, e que elles eram
    alli vindos para o mostrarem sem culpa, como a sua mercê bem podia vêr.

    El-rei de Castella respondeu a isto dizendo, que assim era como elles
    diziam, que elle se sentia por mui agravado d'elle, pelo não receber em
    seu reino e lhe dar acolhimento como era razão, sendo seu tio, irmão de
    sua madre, e que mór melancolia havia não dar gasalhado ás infantes suas
    filhas, que da aspereza que contra elle mostrara, porque se as el-rei
    seu tio tomara e lh'as tivera em sua terra guardadas, com alguns haveres
    que elle levava, onde era certo que estariam seguras, que elle ficara
    desempachado d'ellas, e então tornara a recobrar seu reino. Dizendo que
    muitos se alçaram contra elle, que o não fizeram se o viram presente,
    mas pelo empacho que tinha, das filhas, que lhe conviera de fugir com
    ellas, não tendo logar seguro onde as deixasse; porque áquelle tempo que
    as deixar quizera em algum castello de sua terra, em nenhum havia tanta
    fiusa por que ousasse de o fazer.

    Sobre isto correram tantas palavras entre el-rei Dom Pedro e os
    embaixadores, até que pediram por mercê, ao principe, que fizesse
    pergunta a el-rei, se áquelle tempo que elle escrevera a seu tio que era
    em seu reino, se lhe fizera saber por sua carta que lhe queria deixar
    suas filhas e o thesouro que comsigo trazia, segundo elle arrazoava
    presente elle. E o principe lh'o perguntou então, e elle disse que não
    ementara nenhuma cousa das filhas, nem do haver que levava comsigo.

    –Pois, disse o principe, nem vosso tio não era adivinho do que vós
    tinheis na vontade.

    Então fizeram recontamento ao principe das ajudas que de Portugal
    recebera, assim por mar como por terra, e como todos os senhores e
    fidalgos, que allá foram, vieram d'elle e dos seus mui mal contentes e
    escandalisados, e que esta fôra uma das razões por que o el-rei seu tio
    não quizera ter em sua terra, por se não levantarem, entre uns e os
    outros, bandos, e arruidos, e mortes.

    Arrazoaram tanto até que se enfadaram, e o principe, conhecendo de
    razão, disse que o não havia por culpado como antes; e na parte da nau e
    haveres, que lhe el-rei de Portugal enviava dizer que em Inglaterra eram
    retidos contra razão, que elle os faria logo desembargar, como seu amigo
    que era e queria ser. E assim o fez de feito, que em breves dias foram
    despachados.

    *CAPITULO XLIII*

    _Como Dom João, filho de el-rei Dom Pedro de Portugal, foi feito mestre
    de Aviz_.

    Vós ouvistes, no primeiro capitulo d'esta historia, como depois da morte
    de Dona Ignez, ei-rei sendo infante, nunca mais quiz casar, nem depois
    que reinou quiz receber mulher, mas houve um filho de uma dona, a que
    chamaram Dom João. D'este moço deu el-rei cargo a Dom Nuno Freire,
    mestre de Christus, que o criava e tinha em seu poder, e que criando-o
    elle assim, sendo em idade até sete annos, veiu-se a finar o mestre de
    Aviz, Dom Martim do Avelal.

    O mestre de Christus, como isto soube, foi-se logo a el-rei Dom Pedro,
    que então pousava na Chamusca, e pediu-lhe aquelle mestrado para o dito
    seu filho, que levava em sua companha, e el-rei foi mui ledo do
    requerimento, e muito mais ledo de lh'o outorgar.

    Então tomou o moço o mestre nos braços, e tendo-o em elles, lhe cingiu
    el-rei a espada e o armou cavalleiro, e beijou-o na boca, lançando-lhe a
    benção, dizendo que Deus o accrescentasse de bem em melhor, e lhe desse
    tanta honra em feitos de cavallaria, como déra a seus avós: a qual
    benção foi em elle bem cumprida, como adiante ouvireis.

    E disse então el-rei contra o mestre:

    –Tenha este moço isto por agora, cá sei que mais alto ha de montar, se
    este é o meu filho João de que me a mim algumas vezes falaram, como quer
    que eu queira antes que se cumprisse no infante Dom João, meu filho, que
    n'elle; cá a mim disseram que eu tenho um filho João, que ha de montar
    muito alto, e por que o reino de Portugal ha de haver mui grande honra.
    E porque eu não sei qual d'estes Joões ha de ser, nem o podem saber em
    certo, eu azarei como sempre acompanhem ambos estes meus filhos, pois
    que ambos são de um nome, e escolha Deus um d'elles para isto, qual sua
    mercê fôr. Como quer que muito me suspeita a vontade que este ha de ser,
    e outro nenhum não, porque eu sonhava uma noite o mais estranho sonho
    que vós vistes: a mim parecia, em dormindo, que eu via todo Portugal
    arder em fogo, de guisa que todo o reino parecia uma fogueira, e estando
    assim espantado vendo tal cousa, vinha este meu filho João, com uma vara
    na mão, e com ella apagava aquelle fogo todo. E eu contei isto a alguns
    que razão teem de entender em taes cousas, e disseram-me que não podia
    ser, salvo que alguns grandes feitos lhe haviam de sair de entre as
    mãos.

    Ora, assim adveiu depois, como dizemos, que, isto feito, tornou-se o
    mestre de Christus para a villa, e mandou seu recado aos commendadores
    da ordem de Aviz, que viessem logo alli, por haver de falar com elles
    cousas que eram de serviço de Deus e prol de sua ordem (e isto fazia o
    dito mestre porquanto a ordem de Aviz e a de Christus são ambas da ordem
    de São Bento), os quaes, por suas cartas e requerimento, vieram logo
    áquelle logar.

    O mestre falou então com o commendador-mór, e com Fernão Soares, e Vasco
    Peres, todo o que era vontade de el-rei, dês-ahi entrou com elles em
    cabido, segundo costume de sua ordem, e o commendador propoz ao mestre,
    em nome seu e dos commendadores, dizendo que elle bem sabia como seu
    senhor, o mestre de Aviz Dom Martim do Avelal, era finado, e que elles
    não tinham mestre que os houvesse de reger como cumpria a serviço de
    Deus, segundo sua ordem mandava, nem entendiam de eleger outro, senão
    aquelle que lhes elle desse; e que pois elle era de sua regra e o fazer
    podia, que lhe pediam por mercê, que por serviço de Deus e bem da dita
    ordem, lhes desse mestre que os houvesse de reger segundo sua regra
    mandava.

    O mestre respondeu que diziam mui bem, como bons cavalleiros e bem
    sisudos, e porque elle era tido de fazer e requerer toda causa que fosse
    serviço de Deus e prol de sua ordem, que porém queria tomar cargo de
    lhes dar mestre que os houvesse de reger segundo sua regra mandava, e
    que para ser seu mestre lhes dava Dom João, filho de el-rei Dom Pedro,
    que elle criava, que entendia que era tal senhor que os regeria como
    cumpria a serviço de Deus e prol de sua ordem.

    O commendador-mór, e os outros disseram então, que lhe tinham em grande
    mercê de lhes dar tão honrado senhor por seu mestre: e logo o dito Dom
    João foi chamado, e foram-lhe tirados os vestidos seculares, e lançado o
    habito da ordem de Aviz, e como lhe foi vestido, o commendador-mór e os
    outros lhe beijaram o mão por seu mestre e senhor. E isto assim feito,
    foi elle levado para a ordem de Aviz, de onde era mestre, e alli se
    criou alguns annos, até que começou de florescer em manhas, e bondades,
    e autos de cavallaria, segundo a historia adiante dirá, contando cada
    umas em seu logar.

    E se alguns quizerem dizer que os poucos annos de sua idade e não
    legitima nascença embargavam de não poder ser mestre, a taes se responde
    que o Papa dispensou com elle, que posto que provido fosse antes do
    tempo, e nado de não legitimo matrimonio, que seus bons costumes e
    honroso proveito que d'elle vinha á ordem, corrigia tudo isto, e que o
    confirmava em elle.

    *CAPITULO XLIV*

    _Como foi trasladada Dona Ignez para o mosteiro de Alcobaça, e da morte
    d'el-rei Dom Pedro_.

    Porque semelhante amor, qual el-rei Dom Pedro houve a Dona Ignez,
    raramente é achado em alguma pessoa, porém disseram os antigos que
    nenhum é tão verdadeiramente achado, como aquelle cuja morte não tira da
    memoria o grande espaço do tempo. E se algum disser que muitos foram já,
    que tanto e mais que elle amaram, assim como Adriana, e Dido, e outras
    que não nomeamos, segundo se lê em suas epistolas, responde-se que não
    falamos em amores compostos, os quaes alguns autores abastados de
    eloquencia, e florescentes em bem ditar, ordenaram segundo lhes prouve,
    dizendo em nome de taes pessoas razões que nunca nenhuma d'ellas cuidou;
    mas falamos d'aquelles amores que se contam e lêem nas historias, que
    seu fundamento teem sobre verdade.

    Esse verdadeiro amor houve el-rei Dom Pedro a Dona Ignez, como se d'ella
    namorou sendo casado e ainda infante, de guisa que, pero d'ella no
    começo perdesse vista e fala, sendo alongado, como ouvistes, que é o
    principal azo de se perder o amor, nunca cessava de lhe enviar recados,
    como em seu logar tendes ouvido. Quanto depois trabalhou pela haver, e o
    que fez por sua morte, e quaes justiças n'aquelles que em ella foram
    culpados, indo contra seu juramento, bem é testemunho do que nós
    dizemos.

    E sendo lembrado de lhe honrar seus ossos, pois lhe já mais fazer não
    podia, mandou fazer um moimento de alva pedra, todo mui subtilmente
    obrado, pondo elevada sobre a campa de cima a imagem d'ella, com corôa
    na cabeça, como se fôra rainha. E este moimento mandou pôr no mosteiro
    de Alcobaça, não á entrada, onde jazem os reis, mas dentro na egreja, á
    mão direita, a cerca da capella-mór.

    E fez trazer o seu corpo do mosteiro de Santa Clara de Coimbra, onde
    jazia, o mais honradamente que se fazer pode, cá ella vinha em umas
    andas, muito bem corrigidas para tal tempo, as quaes traziam grandes
    cavalleiros, acompanhadas de grandes fidalgos, e muita outra gente, e
    donas, e donzellas e muita clerezia.

    Pelo caminho estavam muitos homens com cirios nas mãos, de tal guisa
    ordenados, que sempre o seu corpo foi, por todo o caminho, por entre
    cirios accesos; e assim chegaram até ao dito mosteiro, que eram d'alli
    dezesete leguas, onde com muitas missas e grão solemnidade foi posto seu
    corpo n'aquelle moimento. E foi esta a mais honrada trasladação que até
    áquelle tempo em Portugal fôra vista.

    Semelhavelmente mandou el-rei fazer outro tal moimento, e tambem obrado,
    para si, e fêl-o pôr a cerca do seu d'ella, para quando acontecesse de
    morrer o deitarem n'elle.

    E estando el-rei em Estremoz, adoeceu de sua postremeira dôr, e jazendo
    doente, lembrou-se como, depois da morte de Alvaro Gonçalves e Pero
    Coelho, elle fôra certo que Diogo Lopes Pacheco não fôra em culpa da
    morte de Dona Ignez, e perdoou-lhe todo queixume que d'elle havia, e
    mandou que lhe entregassem todos seus bens: e assim o fez depois el-rei
    Dom Fernando, seu filho, que lh'os mandou entregar todos, e lhe alçou a
    sentença, que el-rei seu padre contra elle passára, quanto com direito
    poude.

    E mandou el-rei em seu testamento, que lhe tivessem em cada um anno,
    para sempre, no dito mosteiro, seis capellães que cantassem por elle
    cada dia uma missa officiada, e sairem sobre ella com cruz e agua benta.
    E el-rei Dom Fernando, seu filho, por se isto melhor cumprir, e se
    cantarem as ditas missas, deu depois ao dito mosteiro, em doação por
    sempre, o logar que chamam as Paredes, termo de Leiria, com todas as
    rendas e senhorio que n'elle havia.

    E deixou el-rei Dom Pedro, em seu testamento, certos legados, a saber: á
    infante Dona Beatriz, sua filha, para casamento, cem mil libras; e ao
    infante Dom João, seu filho, vinte mil libras; e ao infante Dom Diniz,
    outras vinte mil; e assim a outras pessoas.

    E morreu el-rei Dom Pedro uma segunda-feira de madrugada, dezoito dias
    de janeiro da era de mil e quatrocentos e cinco annos, havendo dez annos
    e sete mezes e vinte dias, que reinava, e quarenta e sete annos e nove
    mezes e oito dias de sua idade. E mandou-se levar áquelle mosteiro que
    dissemos, e lançar em seu moimento, que está junto com o de Dona Ignez.

    E porquanto o infante Dom Fernando, seu primogenito filho, não era então
    ahi, foi el-rei detido e não levado logo, até que o infante veiu; e á
    quarta-feira foi posto no moimento.

    E diziam as gentes, que taes dez annos nunca houve em Portugal, como
    estes que reinára el-rei Dom Pedro.

    * * * * *

    Fim da Chronica de El-rei D. Pedro I

    *INDEX*

    Duas palavras

    Chronica do Senhor Rei D. Pedro I, oitavo Rei de Portugal, Prologo

    Capitulo I–Do reinado de el-rei Dom Pedro, oitavo rei de Portugal, e
    das condições que n'elle havia.

    Capitulo II–Como el-rei de Castella mandou pelo corpo da rainha Dona
    Maria, sua madre, e da carta que enviou a el-rei de Portugal, seu tio.

    Capitulo III–Das cartas que o papa, e el-rei de Aragão enviaram a
    el-rei de Portugal sobre a morte de el-rei, seu padre.

    Capitulo IV–Da maneira que el-rei Dom Pedro tinha nos desembargos de
    sua casa.

    Capitulo V–De algumas cousas que el-rei Dom Pedro ordenou por bem de
    justiça e prol de seu povo.

    Capitulo VI–Como el-rei mandou degolar dois seus criados, porque
    roubaram um judeu e o mataram.

    Capitulo VII–Como el-rei quizera metter um bispo a tormento, porque
    dormia com uma mulher casada.

    Capitulo VIII–Como el-rei mandou capar um seu escudeiro, porque dormiu
    com uma mulher casada.

    Capitulo IX–Como el-rei mandou queimar a mulher de Affonso André, e de
    outras justiças que mandou fazer.

    Capitulo X–Como el-rei mandava matar o almirante; e da carta que lhe
    enviou o duque e commum de Genova, rogando por elle.

    Capitulo XI–Das moedas que el-rei Dom Pedro fez, e da valia do oiro e
    da prata n'aquelle tempo.

    Capitulo XII–Da maneira que os reis tinham para fazer thesouros, e
    accrescentar n'elles.

    Capitulo XIII–Por que guisa el-rei Dom Pedro de Castella começou de
    juntar thesouro.

    Capitulo XIV–Como el-rei fez conde e armou cavalleiro João Affonso
    Tello, e da grão festa que lhe fez.

    Capitulo XV–Das avenças que el-rei de Castella e el-rei Dom Pedro de
    Portugal firmaram entre si, e como lhe el-rei de Portugal prometteu de
    fazer ajuda contra Aragão.

    Capitulo XVI–De algumas pessoas que el-rei Dom Pedro de Castella mandou
    matar, e como casou com a rainha Dona Branca e a deixou.

    Capitulo XVII–Como se começou o desvairo entre el-rei Dom Pedro de
    Castella e o conde Dom Henrique, seu irmão, o qual foi aso porque se o
    conde foi fóra do reino.

    Capitulo XVIII–Como e por qual aso se começou a guerra entre Castella e
    Aragão.

    Capitulo XIX–Como el-rei de Castella entrou por Aragão e das cousas que
    fez n'este anno.

    Capitulo XX–Como el-rei Dom Pedro fez matar o mestre de São Thiago Dom
    Fradarique, seu irmão, no alcaçar de Sevilha.

    Capitulo XXI–Como el-rei partiu de Sevilha por tomar Dom Tello, seu
    irmão, para o matar; e como matou o infante Dom João, seu primo.

    Capitulo XXII–Como foi quebrada a tregua de um anno que havia entre os
    reis, e como el-rei Dom Pedro juntou armada por fazer guerra a Aragão.

    Capitulo XXIII–Como veiu o cardeal de Bolonha para fazer paz entre
    el-rei de Castella e el-rei de Aragão, e os não poude pôr de accordo.

    Capitulo XXIV–Como el-rei de Castella enviou pedir ajuda de galés a
    el-rei de Portugal, e como partiu com sua frota por fazer guerra a
    Aragão.

    Capitulo XXV–Como se partiu o almirante de Portugal com as dez galés, e
    como el-rei Dom Pedro desarmou a frota; e de outras cousas.

    Capitulo XXVI–Como o cardeal de Bolonha quizera tratar paz entre os
    reis e não poude, e como as gentes d'el-rei Dom Pedro pelejaram com o
    conde e o desbarataram.

    Capitulo XXVII–Como el-rei Dom Pedro de Portugal disse por Dona Ignez
    que fora sua mulher recebida, e da maneira que em ello teve.

    Capitulo XXVIII–Do testemunho que alguns deram no casamento de Dona
    Ignez, e das razões que sobre ello propoz o conde Dom João Affonso.

    Capitulo XXIX–Razões contra isto, de alguns que ahi estavam, duvidando
    muito n'este casamento.

    Capitulo XXX–Como os reis de Portugal e de Castella fizeram entre si
    avença, que entregassem, um ao outro, alguns que andavam seguros em seus
    reinos.

    Capitulo XXXI–Como Diogo Lopes Pacheco escapou de ser preso, e foram
    entregues os outros, e logo mortos cruelmente.

    Capitulo XXXII–De algumas cousas que el-rei Dom Pedro de Castella
    mandou fazer, e como fez paz com el-rei de Aragão entrando em seu reino.

    Capitulo XXXIII–De algumas entradas que el-rei este anno fez no reino
    de Granada, e como el-rei Vermelho se veiu pôr em seu poder, cuidando de
    ser seguro, e el-rei o mandou matar.

    Capitulo XXXIV–Das avenças que el-rei de Castella fez com el-rei de
    Aragão, entrando em seu reino, e como as depois não quiz guardar.

    Capitulo XXXV–Como el-rei Dom Pedro entrou outra vez em Aragão, com sua
    frota de naus e galés, e das cousas que alli fez.

    Capitulo XXXVI–Como o conde Dom Henrique entrou por Castella com muitas
    companhas, e foi alçado por rei; e como el-rei Dom Pedro mandou
    desamparar todos os logares que em Aragão tinha filhados.

    Capitulo XXXVII–Como el-rei Dom Pedro de Castella enviava uma sua filha
    a Portugal, e como elle partiu de Sevilha com temor que houve dos da
    cidade.

    Capitulo XXXVIII–De como el-rei Dom Pedro de Castella fez saber a seu
    tio que era em seu reino, e como se el-rei escusou de o vêr, e lhe fazer
    ajuda.

    Capitulo XXXIX–Como el-rei de Castella partiu de Coruche, e se foi de
    Portugal; e quaes enviaram em sua companha.

    Capitulo XL–Como el-rei Dom Pedro chegou a Galliza, e matou o arcebispo
    de São Thiago, e se foi para Inglaterra.

    Capitulo XLI–Como el-rei Dom Henrique chegou a Sevilha, e da alliança
    que fez com el-rei de Portugal.

    Capitulo XLII–Como el-rei de Portugal enviou seus embaixadores a casa
    do principe de Galles, por se desculpar do que el-rei Dom Pedro dizia.

    Capitulo XLIII–Como Dom João, filho de el-rei Dom Pedro de Portugal,
    foi feito mestre de Aviz.

    Capitulo XLIV–Como foi trasladada Dona Ignez para o mosteiro de
    Alcobaça, e da morte d'el-rei Dom Pedro.

    End of Project Gutenberg's Chronica de el-rei D. Pedro I, by Fernão Lopes

  • Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

    Chronica de el-rei D. Affonso Henriques

    Aproximadamente 50.393 palavras.

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    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    Bibliotheca de Classicos Portuguezes

    Proprietario e fundador–Mello d'Azevedo

    (VOLUME LI)

    Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

    POR

    DUARTE GALVÃO

    _ESCRIPTORIO_

    147–Rua dos Retrozeiros–147

    LISBOA

    1906

    Bibliotheca de Classicos Portuguezes

    Proprietario e fundador

    _Mello d'Azevedo_

    Bibliotheca de Classicos Portuguezes

    Proprietario e fundador–Mello d'Azevedo

    (VOLUME LI)

    Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques

    POR

    DUARTE GALVÃO

    _ESCRIPTORIO_

    147–Rua dos Retrozeiros–147

    LISBOA

    1906

    PROLOGO

    A Chronica de Duarte Galvão é a lenda de Affonso Henriques, do fundador
    de Portugal. O autor encontrou noticias, narrativas, tradições;
    agrupou-as, apurou-lhes a linguagem, e formou assim a Chronica que
    apresentou a D. Manoel. Mais tarde mudaram costumes, augmentaram
    convenções sociaes, cresceu a polidez cortezan, e a critica abafou o
    livro perigoso, inconveniente. Chegaram a chamar-lhe conjuncto de
    fabulas. As brigas com a mãi, a violencia feroz com o legado de Roma
    offendiam os bons costumes, as delicadas maneiras.

    Na Chronica ha lenda e tradição a par de narrativas baseadas em factos.
    As luctas com D. Affonso de Castella, as campanhas systematicas e
    porfiadas com os sarracenos, todo esse esforço enorme para augmentar o
    reino e garantir-lhe a independencia são factos averiguados.

    A bella tradição a respeito de Egas Moniz, a do cavalleiro Henrique e da
    palmeira que nasceu na sua cova, a lenda do corpo de S. Vicente,
    guardado pelo corvo, são lendas ou tradições antigas acreditadas já na
    funda edade media, justificadas pela escultura, pela epigraphia, ou por
    antiquissimos escriptos. A descripção do casamento de D. Mafalda, filha
    de D. Affonso Henriques, parece ter uma base verdadeira, algum escripto
    mui antigo que o chronista soube approveitar.

    É interessante attender á maneira como os historiadores trataram do
    fundador do reino; Duarte Galvão no começo do seculo XVI; Antonio
    Brandão no seculo XVII; Alexandre Herculano no meio do XIX. Os elementos
    de trabalho vão crescendo, e o entendimento humano apura-se; vê-se mais
    e melhor; a critica, a analyse profundam com maior liberdade. Não
    devemos esquecer que Duarte Galvão foi uma summidade no seu tempo.
    Antonio Brandão foi uma intelligencia superior. Herculano o intellectual
    maximo, energico trabalhador com intenso fermento artistico. A maneira
    como estes tres espiritos tratam o fundador, e o conjuncto de recursos
    que elles possuiam, constitue um motivo de estudo merecedor de attenção.

    Sobre Duarte Galvão é bem que se leia a noticia que vem publicada no
    dicionario da lingua portugueza, da Academia Real das Sciencias de
    Lisboa (Tomo 1.^o e unico. Lisboa, 1793. Catalogo de autores, pag.
    CXXVII).

    ==Galvão (Duarte) nasceu pelos annos de 1446, e faleceo em 1517
    «carregado (como diz João Pinto Ribeiro) (a)» de annos, de prudencia, «e
    de autoridade.» no mar da Arabia, na ilha de Camarão, indo de mandado
    del-Rei D. Manoel por Embaixador a David, Emperador e Rei dos Abexins.

    El-Rei D. João II. o enviou com grandes poderes por Embaixador a
    Maximiliano I. Emperador de Alemanha, seu primo coirmão, Rei naquelle
    tempo dos Romanos, e prezo em Burgos pelos Governadores da dita Cidade.
    E se bem o achasse já solto, quando chegou a Flandres, lhe fez todavia
    abalizados serviços, muito a contentamento do mesmo Rei. Segunda vez
    voltou por Embaixador a Alemanha, e conforme expressamente declara
    Damião de Goes, servio os dous Reis, D. João II. e D. Manoel «em muitas
    Embaixadas nas cortes dos Papas, e do Emperador Fedrique e Maximiliano,
    seu filho, e dos Reis de França e Inglaterra, e em outros muitos
    negocios, de que sempre deo boa conta.» O referido Goes já em outro
    lugar, a que se remette, havia tratado, como diz, «o demais das
    calidades e partes dignas de louvor, que nelle se dava.» Tendo sido os
    Priores Crasteiros de Santa Cruz de Coimbra, Chronistas do Reino desde o
    anno de 1145 por provisão del-Rei D. Affonso Henriques «até o tempo
    del-Rei D. Affonso V. o Prior mór de santa Cruz D. João Galvão, (assim o
    escreve o Chronista dos Conegos Regrantes de S. Agostinho) deo o officio
    de Chronista do Reino a seu irmão, Duarte Galvão, pelos annos de 1460,
    ainda que sobre isto houve grandes resistencias por parte dos Priores
    Crasteiros de Santa Cruz, e durou a demanda por muito tempo.» Por ordem
    del-Rei D. Manoel começou, mas não proseguio, as Chronicas dos Reis,
    seus predecessores, para cujo trabalho, e para cousas outras de _mór
    importancia foi homem por sua doutrina assás desperto e mui
    sufficiente_, conforme o reputa Rui de Pina.

    _Vir non minus aetate, quam prudentia, ac rerum usu gravissimus_ he elle
    qualificado por Damião de Goes. _Raro em sciencia e valor_ o denomina
    João Pinto Ribeiro; _homem douto_, Duarte Nunes do Leão. Publicou-se
    modernamente:

    _Chronica do muito alto, e muito esclarecido Principe D. Affonso
    Henriques, primeiro Rey de Portugal, composta por Duarte Galvão, Fidalgo
    da Casa Real, e Chronista Mór do Reino. Fielmente copiada do seu
    original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo. Offerecida
    á Magestade sempre Augusta del-Rey D. João V. nosso Senhor por Miguel
    Lopes Ferreyra. Lisboa Occidental, na Officina Ferreyriana M. DCC.
    XXVI._==fol.

    «Nesta Chronica, que Duarte Galvão _diz_, que fez de novo (são palavras
    de Damião de Goes) faltão muitas cousas, que não chegárão á sua
    noticia.» O Abbade Barboza traz o lugar citado, e com elle prova que
    Goes dissera, que Duarte Galvão a fizera de novo. Mas esta asserção,
    como se vê claramente, só pertence ao mesmo Galvão, a quem Goes a
    attribue. O qual porém nisto mesmo se enganou, visto que o referido
    Galvão no Prologo da sobredita Chronica, dirigido a el-Rei D. Manoel,
    assim lhe falla: «Pelo qual, Serenissimo Senhor, como quer que além da
    materia, me haja de ser trabalho e difficuldade ajuntar e supprir cousa
    de tantos tempos, desordenada e falecida, e para haver de _emendar
    escritos alhêos_, vejo que armo sobre mim juizos de muitos:» O que se
    ajusta melhor com o parecer de Barros, o qual escreve, que Duarte Galvão
    sómente lhe _apurára a lingoagem antiga em que estava escrita_.»

    «E quem quer que foi (prosegue o mesmo Barros) o compoedor della dará
    conta a Deos de macular a fama de tão illustres duas pessoas, como forão
    a Rainha Dona Tareja, e el-Rei D. Affonso Henriques, seu filho.» Acudio
    a isto com a merecida emenda o P. Fr. Antonio Brandão na terceira Parte
    da Monarchia Lusitana. André de Resende só diz que Duarte Galvão a
    escrevéra: porém Pedro de Mariz a declara expressamente recopilada de
    outra antiquissima por mandado del Rei D. Manoel. No mesmo engano de
    Goes, cahio depois Gaspar Estaço, dizendo assim:

    «Como escreve Duarte Galvão na Chronica del Rei D. Affonso Henriques,
    que elle compôz por mandado del Rei D. Manoel, a quem a dedicou: da qual
    elle não foi autor, senão apurador do antigo lingoage, em que andava,
    como diz João de Barros. Espantame dizer Duarte Galvão (no principio
    desta Chronica) que elle a fez de novo, porque o Chronista Fernão Lopes,
    Escrivão da Puridade, que foi do Infante Santo D. Fernando, e Guarda mór
    da Torre do Tombo fez todas as Chronicas dos Reis té seu tempo como
    prova Damião de Goes.» Rui de Pina, André de Resende, Duarte Nunes do
    Leão, e muitos outros de grande autoridade o dão por Autor da sobredita
    Chronica==.

    Nos manuscriptos da Bibliotheca Nacional de Lisboa encontro oito copias
    desta Chronica. A marcada B–12–8 tem no final a data 1568. Bello
    exemplar é a B–4–2 (n.^o 376), escripta no seculo XVI. Da mesma epoca
    a B–4–4 (n.^o 378). Ha tres copias do seculo XVII; uma destas foi
    doada pelo bispo de Beja, D. fr. Manoel do Cenaculo. Do seculo XVIII
    possue a Bibliotheca duas copias. A copia n.^o 841 offerece algumas
    notas e explicações do texto.

    Acho ainda um fragmento sob n.^o 8.169. Em todas estas copias acho os
    taes quatro capitulos riscados para a primeira edição. Parecem estes
    codices ter pertencido a particulares, não a institutos religiosos: não
    lhes vejo sellos ou ex-libris de conventos. A Chronica foi impressa em
    Lisboa em 1726, eliminados os celebres capitulos escandalosos.

    Antes d'isto a publicação da _Monarquia Lusitana_, pòde suppôr-se,
    tornára inutil a impressão ou publicação da chronica de Affonso
    Henriques por Duarte Galvão. Mas, talvez por causa dos taes capitulos
    continuaram a fazer-se copias; ainda, em pleno seculo XVIII, depois da
    impressão, se fizeram copias. Esta a razão de por todos os archivos se
    encontrarem copias manuscritas da chronica de Galvão.

    Os quatro capitulos foram publicados na Revista litteraria do Porto
    (1838, 2.^o vol. pag. 322). Ahi se fazem as observações seguintes.

    Quatro capitulos ineditos da Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte
    Galvão

    A Chronica de D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, foi estampada pela
    1.^a vez, em Lisboa no anno de 1726.

    «O original desta Chronica» diz Barboza, em sua Bibliotheca Lusitana,
    «se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo, da qual extrahio uma
    _copia fiel_ Miguel Lopes Ferreira, e a publicou em nossos tempos».

    A simples inspecção da mesma Chronica impressa denuncia a incorreção da
    asserção de que a copia fiel gozou da luz publica.

    No «Prologo ao Leitor» falla Miguel Lopes Ferreira do modo
    seguinte:–«Nesta historia se acham alguns pontos encontrados com a
    verdade, o que de nenhum modo se deve attribuir á malicia do Autor,
    senão a que naquelle tempo devia de ser esta a tradicção, que havia
    entre nós, mal fundada no principio, e peor continuada na boca dos que a
    passavão a outros, em que, como é natural, cada dia se vai desfigurando
    e perdendo sua fórma verdadeira. Estes descuidos emendou doutissimamente
    o Dr. Fr. Antonio Brandão, na 3.^a Parte da Monarchia Luzitana, porque
    examinou a verdade no segredo dos Cartorios em que estava sepultada.

    Algumas pessoas me aconselhavão que lhe fizesse notas, porém segui o
    parecer de outros, que assentárão, que como esta Chronica se imprimio
    para os que sabem, (Curiosa razão! Sómente os sabios devião lêr a
    Chronica; e não haveria ignorante que se quizesse instruir!) elles não
    ignorão pela lição de Fr. Antonio Brandão o que é tradição errada. Sahe
    pois a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques da sorte que a escreveu
    Duarte Galvão.»

    Enganou-se Miguel Lopes Ferreira. Não foi tão brando em sua qualificação
    dos «pontos encontrados com a verdade,» o Censor Regio por cuja alçada
    teve a Chronica de passar, nem seguia elle systema de cura tão leniente
    e delicado. São suas palavras:

    «Vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão,
    e que quer mandar imprimir Miguel Lopes Ferreira. De um louvo o zelo em
    fazer publicar as Chronicas dos nossos Reis, que tantos tempos ha que se
    conservão manuscriptas, e do outro não posso deixar de lhe não accusar a
    negligencia com que se houve na composição desta Chronica, porque parece
    que não fez exame algum para o que havia de escrever. Mas _como vejo
    riscado nella alguns capitulos_, e tudo vejo reformado pelo Dr. Fr.
    Antonio Brandão Chronista Mòr do Reino, no 3.^o Tomo da Monarchia
    Luzitana, bem se pode imprimir sem escrupulo»…

    A mutilação da Chronica foi portanto publicamente annunciada.

    Mas já não estava na mão de D. José Barbosa, ou de quem quer que foi que
    riscou esses capitulos, o privar a posteridade da gratificação de saber
    quaes esses effeitos da neglicencia e nenhum exame do Chronista, que
    El-Rei Dom Manoel encarregou de escrever a historia do Fundador da
    Monarchia Portugueza.

    Já em 1600 tinha Duarte Nunes de Leão impresso suas «Chronicas dos Reis
    de Portugal,» e na Vida e feitos de seu 1.^o Monarcha tinha elle
    dedicado um capitulo inteiro ao texto e á _refutação_ das fabulas da
    _Chronica velha_[1] de D. Affonso Henriques. Este texto encerra toda a
    substancia dos Capitulos que hoje publicamos em sua fórma original.

    Havia ainda outro autor em cujas obras (ineditas em 1726) tinha sido
    incorporada a materia dos Capitulos riscados. Fallamos de Christovão
    Rodrigues Acenheiro, que escreveo em 1535 um Summario das Chronicas dos
    Reis de Portugal, cuja publicação devemos á Academia Real das Sciencias
    de Lisboa. (Ineditos da Historia Portugueza, Tomo 5.^o–1824). Ahi
    encontramos esses impugnados feitos de D. Affonso Henriques, e
    encontramos de mais um juizo do Compilador sobre elles muito mais
    franco, muito mais claro, e muito menos mistico, do que aquelle que quiz
    idear Duarte Galvão. «Devem bem de notar os Reis e os Principes
    Christãos» diz Acenheiro, «estas façanhas do Cardeal e Bispo, e quanto
    devem pugnar pela honra de suas pessoas e Reino, quando com justiça e
    verdade o perseguem, como este Catholico Rei fazia e fez».

    Não é comtudo do nosso intento entrarmos na discussão da veracidade da
    narração do nosso Chronista, que muito longe nos levaria, e em empreza
    nos metteria para a qual não temos forças.

    Numerosas são as duvidas que obscurecem a historia dos começos da
    Monarquia. A illigitimidade do nascimento da Snr.^a D. Thereza, mãi de
    D. Affonso Henriques–seu casamento com D. Fernando Peres de Trava,
    Conde de Trastamara, que a seu proprio irmão D. Vermuim Peres, (com quem
    já era casada) a usurpou,[2]–suas desavenças com seu filho e guerras
    que contra elle suscitou,–a jornada que por causa do exito de uma
    destas D. Egas Moniz emprehendeu a Castella;–a prisão a que D. Affonso
    Henriques condemnou sua mãi e desavenças que por este respeito teve com
    o Papa:–todos estes são pontos que tão tenazmente se tem affirmado,
    como fortemente combatido.

    Todavia a um e outro ponto já a bem instituida critica tem feito devida
    justiça; e a illigitimidade do nascimento e segundo casamento de D.
    Thereza (pelas doutas Dissertações de Antonio Pereira de Figueiredo, no
    Tomo 9.^o das Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa–1825),
    assim como a jornada d'Egas Moniz (pela descripção de seu tumulo, como
    ainda hoje se vê em Paço de Souza, o que tambem devemos á mesma
    Academia) são pontos já reconhecidos como demonstrados. Mas tanto
    nestes, como nos assumptos que fazem o immediato objecto dos capitulos
    que ajuntamos, ha lugar para contestação, na qual não quizeramos aqui
    entrar: por não termos outros fins em vista além da integração do texto
    d'um dos nossos antigos Chronistas.

    Não podemos comtudo deixar de apontar a infelicidade de Duarte Nunes de
    Leão na formula de seus argumentos. De todos os factos contenciosos que
    temos indicado fórma elle uma cadêa, cuja mutua e necessaria dependencia
    julga intuitiva, e contentando-se com expor a falsidade das allegações
    d'um só facto, pertende d'ahi inferir a falsidade de todos; e deste modo
    d'argumentar conclue que a Snr.^a D. Thereza nunca fôra 2.^a vêz casada,
    nunca teve desavenças com seu filho, nunca suscitou o Rei de Castella
    contra elle, e que nem Egas Moniz fôra offerecer-se a este com a corda
    ao pescoço, nem D. Affonso Henriques prendêra sua mãi, nem o Papa tivera
    motivo algum para enviar um legado a Portugal. Mal estava Duarte Nunes
    se voltassemos o argumento contra si mesmo, e pela indubitabilidade do
    offerecido sacrificio do Ayo de nosso 1.^o Rei, corroborassemos a
    verdade de toda a narrativa de Galvão.

    Fraco arguente era o Licenciado. O alto nascimento e as nobilissimas
    allianças de sangue da Snr.^a D. Thereza erão para elle effectiva
    salva-guarda em abono da virtude da mesma Senhora; e comtudo, nessa
    mesma pagina, não acha elle absurdo em traspassar todo esse montão
    d'infamias á propria _irmã_ dessa mesma princêza, com quem igualava em
    nobreza!

    Algumas das suas razões não deixão de ter seu xiste. «O dito Snr. D.
    Affonso» (o 6.^o de Castella) «como Catholico Rei que era, quando lhe
    morria uma mulher, casava logo com outra»! E daqui funda elle motivo
    para se crer que D. Ximena Nunes de Gusmão (mãi de D. Thereza) fôra sua
    legitima esposa, que não concubina. Quanto ás circunstancias que
    poderião afiançar alguma exactidão em Duarte Galvão, contentar-nos-hemos
    com dizer que foi filho de um secretario de D. João 1.^o e de D. Affonso
    V, e irmão d'um Bispo de Coimbra, e Escrivão da paridade do ultimo
    citado monarcha. Elle mesmo foi Secretario de D. João 2.^o, e alem de
    Chronista-mor, foi encarregado de varias missões importantes. Temos
    portanto que nem relações nem occasião pessoal lhe faltárão para
    certificar-se do que era verdade.

    Sobre o Bispo _negro_ não deixa de parecer especiosa a explicação que
    offerece Fr. Joaquim de Santa Roza de Viterbo em seu Elucidario:–

    «Muitos monges forão tirados dos Mosteiros para encherem o lugar de
    Bispos: e como não depunhão o Habito Monachal, que era Preto, o Clero se
    compunha á imitação do seu Prelado. Deste tempo ficou na Sé de Coimbra a
    mal tramada Fabula do _Bispo Negro_. Este foi D. Bernardo, Francez de
    Nação, Monge de S. Bento, e Arcediago de Braga, feito por S. Giraldo, de
    quem escreveo elegantemente a vida. O Principe D. Affonso Henriques (a
    despeito de sua mãi, a Rainha D. Thereza, e todo o Clero e povo de
    Coimbra, que postulavão para Bispo daquella Sé o Arcediago da mesma _D.
    Tello_) o nomeou Bispo de Coimbra no anno de 1128. E como este monge
    nunca depôz o habito dos _Negros_ como então chamavão aos que
    professavão a Religião de S. Bento, e os Conegos da Sé de Coimbra
    vestião branco, em razão das grandes sobrepelizes que então uzavão; os
    mal affectos dizião que tinhão naquella Sé um _Bispo Negro_, para não
    dizerem com maior indecencia, e atrevimento, um Negro Bispo».

    Elucidario, Tomo 1.^o pagina 285.

    Mas esta explicação, recebida com cautella em quanto aos factos
    allegados, não deve ter-se senão em conta de conjectura.

    A copia dos Quatro Capitulos que aqui offerecemos ao publico foi tirada
    sobre um nitidissimo exemplar manuscripto em pergaminho da Chronica de
    Duarte Galvão que vimos em Santa Cruz de Coimbra, e que deve hoje
    existir na Bibliotheca Publica Portuense. Este exemplar era coetaneo dos
    tempos do Chronista-mor, e na encadernação e riqueza das iniciaes
    illuminadas, inculcava ter pertencido a pessoa ou repartição Real; e
    coincide, na discripção que fez Pedro de Mariz no Prologo á sua
    intentada edição da Chronica de D. Affonso 4.^o por Rui de Pina com os
    Codices que se guardavão na Torra do Tombo.

    A copia é verbal, mas não julgamos conveniente conservar a orthographia
    daquelles tempos.

    Acautelamos os menos versados contra muita copia espuria da Chronica de
    D. Affonso Henriques por Duarte Galvão, que se encontra nas Bibliothecas
    Manuscriptas. A maior parte são compilações.

    Igual advertencia fazemos em quanto ás copias que por ahi andão (e
    algumas de pessoas doutas) destes mesmos Capitulos==.

    Na presente edição os quatro capitulos entram na sua competente altura.

    _G. Pereira._

    CHRONICA DO MUITO ALTO, E MUITO ESCLARECIDO PRINCIPE D. AFFONSO
    HENRIQUES PRIMEIRO REY DE PORTUGAL,

    COMPOSTA POR DUARTE GALVAÕ,

    Fidalgo da Casa Real, e Chronista Mor do Reyno. Fielmente Copiada do Seu
    Original, que se conserva no Archivo Real da Torre do Tombo.

    OFFERECIDA

    Á MAGESTADE SEMPRE AUGUSTA DELREI D. JOAÕ V. NOSSO SENHOR

    POR MIGUEL LOPES FERREYRA

    LISBOA OCCIDENTAL, Na Officina FERREYRIANA.

    M. DCC. XXVI.

    _Com todas as licenças necessarias_.

    SENHOR

    Prostrado aos Reais pés de V. Magestade, lhe offereço a Chronica do
    Fundador da sua gloriosa Monarchia o Santo Rei D. Affonso Henriques
    decimo quinto Avô de V. Magestade, que ha mais de dous seculos escreveo
    Duarte Galvão, tão estimado dos Senhores Reis de Portugal, como dizem os
    grandes lugares, em que o occuparam, especialmente o Senhor Rei D.
    Manoel quinto Avô de V. Magestade, em cujo Reinado se vio com maior
    admiração a grande capacidade deste Chronista. Aceite V. Magestade com a
    sua Real, e costumada benignidade este meu pequeno obsequio, para que
    desta sórte animado possa continuar com a impressão das outras Chronicas
    dos Serenissimos Predecessores de V. Magestade. Deos guarde a V.
    Magestade muitos annos como desejamos, e havemos de mister.

    _Miguel Lopes Ferreira._

    AO EXCELLENTISSIMO SENHOR

    *FERNÃO TELLES DA SILVA*

    Marquez de Alegrete, dos conselhos de Estado, e guerra del-Rei Nosso
    Senhor, Gentil-homem de sua Camara, Vêdor de sua fazenda, Embaixador
    extraordinario á Corte de Vienna, ao Serenissimo Emperador Joseph, e
    Condutor da Serenissima Rainha Nossa Senhora a estes Reinos, Academico,
    e Censor da Academia Real da Historia Portuguesa, &c.

    Depois de ter resoluto dedicar esta Chronica del-Rei D. Affonso
    Henriques a El-Rei Nosso Senhor, não podia ter duvida em que fosse Vossa
    Excellencia quem lha offerecesse em meu nome. Se para se consultarem os
    Oraculos, se procuravam aquellas pessoas, que eram dedicadas aos Templos
    em que elles respondiam, justamente dezejo a protecção de Vossa
    Excellencia para um Oraculo tão Soberano, que o merece ser de todo o
    mundo. A proporção é o que mais se deve de procurar, e sendo assim, não
    póde Vossa Excellencia accuzar a confiança, com que lhe peço, offereça
    este livro a S. Magestade que Deos guarde, pois é para este fim um meio
    tão proporcionado, que o mesmo Principe elegeo a Vossa Excellencia para
    lhe assistir com a pessoa no seu Palacio, e com as prudentes
    experiencias do seu grande entendimento aos negocios mais importantes de
    toda a Monarchia. Deos guarde a Vossa Excellencia muitos annos como
    desejo.

    Criado de Vossa Excellencia

    _Miguel Lopes Ferreira_

    MIGUEL LOPES FERREIRA

    AO LEITOR

    Pela Chronica do primeiro Rei de Portugal começo a satisfazer a promessa
    de dar ao prelo todas as Chronicas dos nossos Reis, que até agora se
    conservavam manuscritas. Esta do fundador glorioso do Imperio Portuguez
    tem mais de dous seculos de antiguidade, porque seu Author Duarte Galvão
    falleceu na Ilha de Camarão a 9 de Junho do anno de mil e quinhentos e
    dezasete. A authoridade de quem a escreveu não é menor, porque o Pai
    deste Chronista foi Ruy Galvão, Secretario, e Escrivão da Puridade de
    El-Rei D. Affonso V. de Portugal, lugares tão grandes, e tão immediatos
    á Magestade, que suppõem illustre a quem os exercita. Duarte Galvão seu
    filho foi do Conselho dos Reis D. João o II e D. Manoel, Chronista Mór
    do Reino, Alcaide Mór de Leiria, doutissimo nas Letras humanas, e
    Embaixador a França, e Alemanha, e ultimamente ao Preste João, levando
    em sua companhia ao Embaixador Matheus, que da Corte do Abexim tinha
    passado á de Portugal, vencidas, e compostas as injustissimas duvidas da
    sua verdade. O irmão deste Chronista foi D. João Galvão, que depois dos
    maiores lugares da Congregação de Santa Cruz de Coimbra, sendo Bispo da
    mesma Cidade, lhe fez mercê El-Rei D. Affonso V do Titulo de Conde de
    Arganil, que até agora se conserva nos seus Successores, e desta Mitra
    passou para a de Braga. Nesta Historia se acham alguns pontos
    encontrados com a verdade, o que de nenhum modo se deve de attribuir a
    malicia do Author senão a que naquelle tempo devia de ser esta a
    tradição, que havia entre nós mal fundada no principio, e peior
    continuada na boca dos que a passavam a outros, em que como é natural,
    cada dia se vai desfigurando, e perdendo a sua fórma verdadeira. Estes
    descuidos emendou doutissimamente o Doutor Fr. Antonio Brandão na
    Terceira Parte da Monarchia Lusitana, porque examinou a verdade no
    segredo dos Cartorios, em que estava sepultada. Algumas pessoas me
    aconselhavam, que lhe fizesse notas, porém segui o parecer de outras,
    que assentáram, que como esta Chronica se imprimia para os que sabem,
    elles não ignoram pela lição de Fr. Antonio Brandão, o que é tradição
    errada. Sahe pois a Chronica de El-Rei D. Affonso Henriques da sórte que
    a escreveu Duarte Galvão, e lhe fiz o beneficio de lhe ordenar um Index
    para utilidade de todos. Agradeça o leitor o meu cuidado, que brevemente
    lhe darei impressas todas as mais Chronicas manuscritas dos nossos Reis,
    e entre ellas a de El-Rei D. João o II que escreveu Ruy de Pina, tão
    rara como desejada.

    _Vale._

    PROLOGO

    DO AUTHOR

    Dirigido ao Serenissimo, e Muito Poderoso Principe El-Rei D. Manoel
    nosso Senhor, sobre as vidas, e excellentes feitos dos Reis de Portugal,
    seus Antecessores, ordenados, e escritos por seu mandado, por Duarte
    Galvão Fidalgo da sua Casa, e do seu Conselho, no qual falla do grande
    louvor destos mesmos Reis de Portugal.

    Muito devem, Serenissimo Senhor, trabalhar os homens, por em sua vida
    obrarem virtudes, para que mereçam a Deos no outro mundo, e neste leixem
    de seu tempo memoria, não sómente, que viveram o que as animalias tem
    por igual comnosco; mas que bem, e louvadamente passaram sua vida, que é
    proprio do homem, o qual tendo a vida, em dias breve, com a virtude que
    obra, a faz longa, e durar mais des que morre, vivendo depois de morto
    no outro mundo, por gloria, e neste por exemplo assi, que para nós
    necessario nos é nossa virtuosa vida, e para os outros nossa virtuosa
    fama; esto como quer que convem a todos, muito mais cabe em os
    Principes, e Reis faze-lo, cuja maior excellencia de seu nome traz logo
    maior obrigação de seu carrego, que é serem Reis postos por Deos, para
    regedores principaes na terra sobre os outros homens para execução, e
    exemplo de toda perfeita virtude, mas pois que toda desposição para
    obrar virtudes por muito que naça com a pessoa não póde ser comprida,
    nem haver perfeição senão por ajuda, e graça Divinal. Grandes e
    perpetuos louvores devem ser dados a nosso Senhor, por todos os naturaes
    do Reino de Portugal, por tanto participar de sua graça, com os Reis
    vossos Antecessores, e com vossa Real pessoa, com tão clara mostrança de
    os querer honrar, e escolher para seu santo serviço, exalçamento da sua
    Santa Fé, de maneira, que para se mais mostrar que vinha delle, e por
    elle, segundo em seus grandes mysterios sempre neste mundo, até em si
    mesmo escolheo o menos, para fazer, ou desfazer o mais, e o baixo para
    se fazer conhecer por mais alto, lhe aprouve dar graça, e poder a vossos
    Antecessores por onde no Reino, e senhorio menos de outros que vemos na
    Christandade, alcançáram por suas louvadas famas, e obras, em todo o
    genero de louvor, e virtudes grande, e assinado merecimento para o outro
    mundo, e neste muita honra, fama, e proveito, para sua Real Coroa, e de
    seus Reinos, e esto então poucas idades, que se as contarmos parece mui
    pouco tempo, e segundo a grandeza de suas obras julgar-se-ha por
    infindo, querendo nosso Senhor que assi como no desejo, e fervor de
    serviço em especial de punhar pela Fé vossos Antecessores fossem sempre
    mui singulares, assi fosse singular antre os outros Principes nesta
    parte, e em outra seu louvor, remunerando-lhes nosso Senhor nisso seus
    grandes merecimentos como hoje em dia faz a vossa Real Alteza, segundo
    se grandemente manifesta no grande louvor, e não menos mysterio de
    vossas mui louvadas, e excellentes obras, as quais bem condradas
    concludem, e claramente mostram não menos, que vosso Divino nome ser
    Deos comnosco, e com o bem destes Reinos mais que de antes, dando-vos
    nellos para o diante como fruito mostrado, e prometido, no grande
    emflorecer de vossos Antecessores, escuza-me, Senhor, de ser, nem
    parecer adulação o que digo.

    Primeiramente vossa successão nestos Reinos por nosso Senhor tão
    claramente querida, e ordenada levando para si tantos, que vos nella
    precediam, segundo seus ocultos Juizos, porém sempre justos, e escuza-me
    o grande fervor, que logo poz em vosso virtuoso coração para seu
    serviço, em tirar Judeus, e Mouros destos Reinos por tal, que lançado
    fóra todo Judaico, e Mosometico culto, ficasse só o verdadeiro de sua
    Christã Religião, e escuza-me esso mesmo vossa perseverante devação, e
    cuidado, em proseguir, e obrar por mar, e terra, guerra contra Mouros,
    em as partes Dafrica, do que não satisfeito vosso manhanimo coração, e
    desejo, que sempre ha por menos o muito de tão santas emprezas, não
    leixou de mandar a Levante por mar Armada de mui nobre gente, maior do
    que des memoria de homens, sem Rei saio destes Reinos em soccorro da
    Christandade contra os Turcos, e por Capitão della D. João de Menezes
    Conde de Tarouca vosso Mordomo Mor, e Capitão da Cidade de Tanger, mui
    dino de semelhantes, e maiores encargos por sua singular cavalaria, e
    prudencia. Escuzo-me finalmente antes, e depois desto, a grande
    maravilha, e mysterio, do achamento, ou mais com verdade conquista das
    Indias; nunca esperado, nem cuidado pelas gentes, até que se vio feito
    por vosso mandado, e posto por obra, e assi descobrimento de minas,
    terras outras, mares, climas, polos, e gentes inconhitas, nunca de antes
    sabidas, nem de nós conversadas, o que nem aquelle grão Rei Alexandre
    Conquistador do mundo, nem Carthaginenses Senhores Dafrica, e grande
    parte Deuropa, nem Romãos, que todos os outros passaram em senhorio,
    poderam alcançar trabalhando-se desso, como se lê, nem esso mesmo fazer
    vossos Antecessores em sessenta annos com muitas mortes de gentes,
    grandes despezas, e continuadas diligencias, o que se fez, e comprio nos
    primeiros dous, e tres annos de vosso Reinado trigando-se (segundo
    parece) a Divina Clemencia a manifestar este grande mysterio, por elle
    em vosso tempo predestinado, pelo qual quiz que em tão breve espaço se
    fizesse de uma só viagem, e por os primeiros, que a esto mandastes,
    outro tanto caminho, para achar a India, como em sessenta annos estava
    feito, no que, Senhor, grandemente servistes a Deos, ganhaste perpetua
    honra, nobrecestes vosso Reino, obrigastes o mundo, fazendo que em muita
    parte não sabida, o mundo soubesse parte de si mesmo, e por conseguinte
    de seu Creador, e Redemptor, o qual por sua infinda piedade, e amor que
    sempre mostrou ao bem, e honra destos Reinos, ordenou, que por vossas
    mãos se supprisse pelo mundo outra quasi segunda Prégação dos Apostolos,
    para notificação de nossa Fé, renovada ás gentes, que apoz seus peccados
    depois de recebida perderam, e necessaria para outra, que a nunca
    houveram, e de necessidade hão de haver, segundo affirma Santo
    Agostinho, que em tempo dos Apostolos não foi prégada a Fé de Christo
    por todo o mundo, nem até seu tempo, quatro centos annos despois, dando
    logo em prova desso muitas gentes em Africa donde elle era, como pelos
    Cativos, que se de lá traziam era manifesto, e que em todo caso a dita
    universal manifestação havia de ser, para se comprir, o que nosso Senhor
    disse, que seu Evangelho havia de ser notificado por o mundo universo
    ante do fim, em testemunho a todalas gentes, segundo se ora assás
    confirma por vossa navegação e conquista o qual mysterio traz consigo
    grande mostra, e pronostico de ser, não sómente para convertimento de
    muitos infieis, mas ainda para desfazimento, e destruimento da
    Mahometica secta consirado bem, Deos seja louvado, os começos, e
    proseguimentos de seus maravilhosos effectos.

    Muitos outros louvores, Serenissimo Rei, apontaria de vossas mui
    singulares obras, e virtudes mui compridas, se tão facil me fosse
    poder-lhe dar cabo, quão facil me é achar-lhe começo, e se a elle não
    aprouvera faze-los mais sobidos, e manifestos por vossas obras, do que
    poderiam ser por minhas palavras, mas hi ficará tempo, e lugar para com
    sua graça se poderem dizer em vossa Chronica mais compridamente, com
    todo, Senhor, é-me forçado dizer ainda de vossas virtuosas obras uma
    necessaria á presente materia, a qual é, mandar-me V.A. mui
    afficadamente, que os notaveis feitos dos mui esclarecidos Reis vossos
    Antecessores, escritos, e postos por negligencia de Escritores, ou culpa
    dos tempos, não só em menos polida, mas ainda em desordenada, e acerca
    não achada memoria, os quizesse ordenar, e escrever, e quasi trespassar,
    e a mais honrados Jazigos, e sepulturas, como é meu desejo para vosso
    serviço, e na confiança que me nesso V. A. mostra muito para folgar, mas
    para nella presumir sufficiencia não mais de atrever, que quanto está
    conhecido, que tão grandes, e verdadeiros louvores participados de tanta
    graça Divinal, não pode nhum humano falecimento apouquenta-los, nem
    faze-los menos da verdade toda humana eloquencia, sem receo de nhum
    prasmo deve de folgar achar-se vencida de tão excellente materia, cujo
    mui estimado pezo mais é de culpar quem não queira, que quem não possa
    leva-lo; porque ainda não leixará de precalçar muito louvor, e
    contentamento quem de tão nobres, e louvados feitos fizer lembrança, que
    foram, posto que não abaste dinamente faze-la de quão louvados foram,
    pois a grandeza de seu louvor por elles mesmos milhor se póde estimar,
    que dizer. Escuzo aqui poder pela ventura parecer este carrego, e
    serviço menos da maneira, e estimação de meus serviços; porque certo
    amor, e vontade, sobeja não acha serviço minguado, nem devem de mais
    para os Principes, cujas causas por grandes que sejam, não devem tolher
    atrevimento, maiormente quando por algumas rezões necessarias a seu mais
    serviço se mandam, a quem sem ellas poderiam ser escusado mandar-se,
    assi que, Senhor, esto que me V.A. manda fazer se deve a meu juizo antre
    outras vossas louvadas obras muito estimar, e haver por outro quasi novo
    descobrimento, e renovação de cousa ácerca perdida, que tanto devia
    estar sã, e alumeada como cousa principal do mui devulgado bem, e honra
    que vossos Reinos tem, e logram, no que não menos, que em todas outras
    cousas esclarece vosso grande louvor, porque bem se mostra povoado de
    muitas virtudes, e não invejar as alheias, quem as dos outros muito ama,
    e assi as manda renovar, e apregoar, pelo qual, Serenissimo Senhor, como
    quer-que álem da grandeza da materia, me haja de ser trabalho, e
    difficuldade ajuntar, e supprir cousa de tantos tempos, desordenada, e
    falecida, e para haver de emendar escritos alheios, vejo que armo sobre
    mim juizos de muitos; porém pois V.A. o ha tanto por bem, e serviço seu,
    e de seus Antecessores, mui de vontade me puz a faze-lo, sendo certo,
    que haverei ante elle grado se não de sufficiencia, ao menos de
    obediencia, pois por comprir seu mandado, no que muito me não atrevo
    fazer, me não pude, nem soube negar.

    LICENÇAS

    DO SANTO OFFICIO

    Vistas as informações, pode-se imprimir (menos o riscado) a Chronica do
    Senhor Rei D. Affonso Henriques, que compoz Duarte Galvão, e depois de
    impressa tornará para se conferir, e dar licença para correr, sem a qual
    não correrá. Lisboa Occidental, 23 de Julho de 1726.

    _Rocha.–Fr. R. de Allencastre.–Cunha.–Teixeira.–Silva.–Cabedo._

    DO ORDINARIO

    _Approvação do Reverendissimo P. Mestre Fr. Joseph de Sousa, Religioso
    da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, Lente jubillado na Sagrada
    Theologia, Qualificador do Santo Officio, Prior que foi do Real Convento
    do Carmo de Lisboa Occidental, Vigario Provincial Apostolico, que foi da
    dita Provincia, Provincial, Commissario, Visitador Geral que foi da
    mesma Ordem nestes Reinos, &c_.

    Illustrissimo e Reverendissimo Senhor

    Li a Chronica do Invictissimo Monarca o Serenissimo Senhor D. Affonso
    Henriques, de santa e eterna memoria, famoso conquistador, e primeiro
    Rei de Portugal, a qual quer dar á estampa Miguel Lopes Ferreira,
    dignissimo do titulo de Vivicador das glorias de Portugal, pois que
    zeloso da fama Regia, por meio do Prelo intenta resuscitar as memorias
    daquelle seculo dourado, em que Portugal no berço da sua infancia, com
    maior fortuna, que a do valeroso Alcides no da sua meninisse, soube
    despedaçar innumeraveis Hydras Africanas, que em varios recontros,
    capitaneados por dezoito Reis, e um Emperador de Marrocos Almiramolim,
    em formidolosos exercitos intentaram cortar os venturosas progressos,
    com que ia sacudindo o forte jugo do perfido Mauritano. Mas a pezar
    sentidissimo de Mafoma, em tão perfiados recontros, e em tão sentidas
    batalhas, havendo em algumas quasi cem Mouros contra cada um só
    Portuguez, ficaram sempre os Mouros inteiramente destroçados, os seus
    Reis vergonhosamente vencidos, e só Portugal gloriosamente triumfante, e
    senhor pacifico não só das terras, que pela repartição dos Estados
    tocavam á sua Monarchia, mas de muitas, que pertenciam á de Hespanha,
    porque de umas, e outras, á força de forte braço, e duro ferro fez
    largar a iniqua, e injusta posse, que havia muitos seculos, desde a
    sempre lacrimosa perda de Hespanha, logravam os Agarenos: protegido
    sempre daquelle destemido Capitão, e valerosissimo Heroe D. Affonso
    Henriques, que efficazmente soccorrido da mão Omnipotente do Senhor dos
    exercitos, na miraculosa apparição do Campo de Ourique quando batalhou
    com cinco Reis Africanos, ficou seu valente braço revestido de uma
    fortaleza tão desmedidamente grande, que já vibrando a lança, nunca
    tirou bote, que não fosse inexoravel desizivo da morte, já empunhando a
    espada não descarregou golpe, que não fosse infeliz Parca da vida. E
    sendo tal o esforço de seu braço, que o manejo das Armas, não era menos
    o valor do seu coração para o exercicio das virtudes: porque foi
    constantissimo no da Justiça administrando-a, e fazendo-a guardar
    rigorosamente aos seus povos, sem que o continuo exercicio de Marte lhe
    embaraçasse as execuções de Nemesis, mas antes, que com a espada sempre
    empunhada representava um vivo simulacro da Justiça. No da Humildade foi
    singular, porque sem respeito aos sacros decoros da Magestade, familiar,
    e urbanissimamente com palavras, e obras, como a companheiros e amigos a
    todos os seus vassallos, tratava carinhoso, e careciava benigno. No da
    Liberalidade foi magnifico, porque quando nas campanhas, os ricos
    despojas das batalhas, (e não foram poucos) primeiro os enfardelavam os
    soldados, do que elle se redimisse com parte das coroas dos triunfos,
    porque até destes repartia seu nobre coração com os que o ajudavam a
    vencer; e quando na Corte, dos seus Erarios eram chaves mestras os
    merecimentos de seus vassallos. No da Misericordia foi insigne, porque
    não cabendo já nos limites de seu estado, lá se dilatou para o Hospital
    de Jerusalem com oitenta mil dinheiros de ouro (que nem tudo lhe
    consumiam as guerras consumindo-lhe as guerras muito) para emprego de
    que annual, e perpetuamente rendessem para sustento dos pobres, que
    nelle se alvergassem. No da Piedade foi magnanimo, como testemunham
    entre muitas Igrejas que fundou os Reais Mosteiros de S. Vicente de Fóra
    em Lisboa, o de Santa Cruz em Coimbra, e o de Alcobaça, aos quaes dotou
    de amplos Senhorios, e copiosissimos patrimonios. No da Religião, todo
    este livro é breve compendio dos vastos dominios que conquistou para as
    cearas da Igreja; instituindo de muitos delles o nobilissimo Bispado de
    Coimbra, e o Illustrissimo de Lisboa, que offereceu ao Romano Pontifice
    adiantando-se este tanto nos seus augmentos que não cabendo na esfera de
    sua propria grandeza se multiplicou em duas Sagradas Sedes, nas quaes,
    uma conservando o titulo de Archiepiscopal, que já tinha, se separou com
    a differença de Oriental por respeito do sitio que tem na Corte, e a
    outra com o distintivo de Occidental que é o sitio deste Reino a
    respeito do Mundo, se exalta com o especioso titulo de Patriarcal sendo
    a primeira que o logra em todo elle. Por ventura que tanta gloria lá
    tenha o seu proporcionado auspicio, no seu glorioso fundador, que tambem
    foi o primeiro em Portugal; mas sem questão, deve o seo glorioso
    augmento á Serenissima, Augustissima, Felicissima, e sempre Magnifica
    Magestade do Senhor Rei D. João o V no nome que somando na linha de
    todas suas acções sempre em tudo heroicas, em tudo excellentes, e
    magnanimas em tudo, o numero admiravel de todas as de seus
    gloriosissimos Progenitores se dignou illustra-las com a Real
    preheminencia de engrandecer a sua Corte com uma Santa Sé Patriarcal,
    realçando seus lustres com o feliz, e premeditado acerto de instituir
    por seu primeiro Patriarca ao Meritissimo, Illustrissimo, e
    Reverendissimo Senhor D. Thomás de Almeida da Nobilissima Casa de
    Avintes, Bispo que foi de Lamego, e Porto; e para que finalmente na sua
    Corte pela destas Igrejas Occidental, e Oriental constasse notoriamente
    o ardentissimo desejo, que rezide no seu religioso coração de que o nome
    da Divina Magestade, o Rei dos Reis, e Senhor dos Senhores seja sempre
    louvado desde o Oriente onde o Sol nasce, té o Occaso onde fenece: «A
    Solis ortu usque ad Occasum laudabile nomen Domine».

    Tão gloriosos progressos, tiveram o seu feliz principio nas acções do
    Serenissimo Senhor D. Affonso Henriques, que esta Chronica descreve, e é
    mais que justo, saiam a luz do mundo, que pertende dar-lhe este
    Restaurador das primitivas, e estupendas memorias de Portugal, para que
    por benificio da estampa resuscite no mundo um vivo modelo da Magestade,
    um elegante exemplo do valor, e um famoso trofeo da admiração. Este o
    meu parecer salv. semp. mel. Carmo de Lisboa Occidental 1 de Agosto de
    1726.

    _Fr. José de Sousa_.

    Vista a informação, póde-se imprimir a Chronica de que se trata, e
    depois de impressa tornará para se conferir, e dar licença que corra,
    sem a qual não correrá. Lisboa Occidental, 3 de Agosto de 1726.

    _D. F. Arcebispo de Lacedemonia_.

    DO PAÇO

    _Approvação do Reverendissimo P. Mestre D. José Barbosa, Clerigo Regular
    da Divina Providencia, Chronista da Serenissima Casa de Bragança, e
    Academico do Numero da Real Academia da Historia Portugueza, &c_.

    SENHOR

    Por Ordem de V. Magestade vi a Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques,
    que compoz Duarte Galvão, e que quer mandar imprimir Miguel Lopes
    Ferreira. De um louvo o zelo em fazer publicar as Chronicas dos nossos
    Reis, que tantos tempos ha que se conservam manuscritas, e do outro não
    posso deixar de lhe não occultar a negligencia com que se houve na
    composição desta Chronica, porque parece que não fez exame algum para o
    que havia de escrever. Mas como vejo riscados nella alguns Capitulos, e
    tudo vejo reformado pelo Doutor Frei Antonio Brandão Chronista mór deste
    Reino no 3.^o tomo da Monarchia Lusitana, bem se póde imprimir sem
    escrupulo. Vossa Magestade ordenará o que fôr servido. Nesta Casa de N.
    Senhora da Divina Providencia 12 de Agosto de 1726.

    _D. Jose Barbosa C.R._

    Que se possa imprimir vistas as licenças do S Officio, e Ordinario, e
    despois de impresso tornará á Mesa para se conferir, e taxar, que sem
    isso não correrá. Lisboa Occidental, 22 de Agosto de 1726.

    _Pereira.–Galvão.–Teixeira.–Bonicho._

    _Chronica do muito alto, e esclarecido princepe D. Affonso Anriques,
    primeiro Rei de Portugal_

    CAPITULO I

    _Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
    Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
    Condado com certas condições_.

    Começando de escrever das vidas, e mui excellentes feitos dinos de
    eterna memoria, dos mui esclarecidos Reis de Portugal, encomendo-me
    áquelle guiador de seus nobres, e virtuosos corações Espirito Santo, que
    assi participou com elles de sua infinda graça para as obras, me queira
    dar alguma para os escrever, e assentar em devida lembrança, por tal que
    não pareçam falecidas minhas palavras na grande excellencia de tão
    louvadas obras, de cujo louvor a primeira prova, e testemunho será o meu
    esforçado, e manifico Rei D. Affonso Anriques, primeiro Rei de Portugal,
    fundamento logo proprio, e necessario, por Deos ordenado para tão alto
    cume da gloria destes Reinos, como nelle edeficou, segundo que seu
    immenso louvor não menos se verá ao diante acrescentado, e conformado
    pelos Reis seus successores, os quaes, contando deste primeiro Rei, são
    por todos quatorze com o Serenissimo de todo louvor illustrado El-Rei D.
    Manuel N. Senhor, o qual vai em dez annos que ao presente Reina, anno do
    Senhor de mil e quinhentos e cinco.[3] Mas porque melhor se saiba o
    procedimento deste mui virtuoso Rei D. Affonso Anriques, é forçado
    recorrer algum tanto pelas Chronicas atraz, a El-Rei D. Affonso de
    Castella o Sexto, chamado Emperador, que tomou Toledo aos Mouros, dino
    de muito louvor em todo principalmente em guerrear os imigos da nossa
    Santa Fé Catholica, de que então a Espanha estava occupada, a cuja mui
    devulgada fama, movidos com mui devota cavalaria, grandes Senhores, e
    outras gentes Estrangeiras vinham busca-lo, para em sua companhia, por
    ser serviço de Deos, e salvação de suas almas, participarem de suas
    santas empresas, e trabalhos, antre os quaes vieram trez mui principaes
    senhores, a saber, o Conde D. Reymão de Tolosa, grande senhor em França,
    e o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença, e D. Anrique sobrinho deste
    Conde de Tolosa, filho segundo genito de uma sua irmã, e Del Rei
    Dungria, com quem era cazada, os quaes trez foram mui honradamente por
    El-Rei D. Affonso recebidos.

    Era este Conde D. Anrique mui discreto, e esforçado Cavaleiro, e não
    menos de todas outras bondades comprindo, trazia em seu Escudo de Armas
    campo branco sem outro nhum sinal, e andando sempre dedepois, na guerra
    dos Mouros com El-Rei D. Affonso, fez muitas, e assinadas cavalarias,
    por onde Del-Rei, e de todos os da terra era mui estimado, e querido, e
    assi o Conde de Tolosa seu tio, e o Conde de S. Gil de Proença, e tendo
    El-Rei assi delles contentamento querendo honra-los, e remunerar seus
    nobres feitos e trabalhos, que em sua companhia passaram na guerra
    contra os infieis, determinou de cazar trez filhas suas com elles, uma
    chamada Dona Urraca, cazou com o Conde D. Reimão de Tolosa, de que
    depois naceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado tambem Emperador,
    donde decendem tambem todos os Reis de Castella; outra Dona Elvira,
    cazou com o Conde D. Reymão de S. Gil, de Proença; outra chamada D.
    Tareja deu por molher a D. Anrique sobrinho do Conde de Tolosa,
    dando-lhe com ella em cazamento Coimbra, com toda a terra até o Castello
    de Lobeira, que é uma legua além de ponte Vedra, em Caliza, e com toda a
    terra de Vizeu, e Lamego, que seu pai El-Rei D. Fernando, e elle
    ganharam nas Comarcas da Beira. De todo o que lhe assi deu, fez Condado
    chamado o Condado de Portugal, com tal condição, que o Conde D. Anrique
    o servisse, e fosse ás suas Cortes, e chamados, e sendo caso que fosse
    doente, ou tivesse legitimo impedimento a não poder lá ir, lhe mandasse
    um dos mais principaes de sua terra a seu serviço com trezentos de
    cavalo, não havendo naquelle tempo mais naquella terra de Portugal. E
    ainda lhe assinou mais terra da que os Mouros possoiam, que a
    conquistasse, e tomando-a, a crescentasse em seu Condado, o que elle, e
    seus successores com muito esforço, e valentia por muito arriscados
    perigos e trabalhos depois fizeram, como ao diante se verá, e que não
    querendo o Conde D. Anrique cumprir assi esto, qualquer que fosse Rei de
    Castella pudesse tomar a terra ao dito Conde, e mais toda a outra que o
    dito Conde, e seus successores ganhassem, e fazer della o que lhe
    aprouvesse, como de cousa sua propria.

    CAPITULO II

    _Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
    donde se chamou Portugal_.

    Deste Conde D. Anrique, e Dona Tareja sua molher descendem todolos Reis
    de Portugal, que até agora foram, e a causa porque a terra se chamou
    Portugal, foi que antigamente sobre o Douro foi povoado o Castello de
    Gaya, e por aportarem ahi mercadores, e navios, e assi pescadores pelo
    Rio dentro ancorarem, e estenderem suas redes da outra parte para isso
    mais conveniente, se povoou outro lugar, que se chamou o Porto, que ora
    é Cidade mui principal, donde ajuntando estes dous nomes, foi chamado
    Portugal. E era então naquelle tempo costume, que todos os filhos dos
    Reis se chamavam Reis, e as filhas Rainhas, posto que fossem bastardos,
    e como quer que El-Rei D. Affonso de Castella, desse este Condado de
    Portugal, ao Conde D. Anrique, e a sua filha, e ella se chamasse Rainha;
    porém elle nunca se chamou Rei em sua vida, nem seu filho o Principe D.
    Affonso, até que houve uma grande batalha, e vencimento no Campo de
    Ourique, contra cinco Reis Mouros, onde foi alevantado por Rei de
    Portugal, cuja geração veio de Reis, assi da parte do pai, como da mãi,
    que segundo já dissemos este Rei D. Affonso Anriques primeiro Rei que
    foi de Portugal, era neto de El-Rei Dungria da parte do pai o Conde D.
    Anrique, que foi filho legitimo dEl-Rei Dungria, e da parte de sua mãi,
    era neto dEl-Rei D Affonso acima dito, filho de sua filha Dona Tareja,
    por onde se mais manifesta a esclarecida gloria dos Reis de Portugal,
    pela nosso Senhor de todolos cabos tanto a exalçar, que de Nobreza, e
    Realeza de sangue não menos, que de excellentes virtudes, fossem em
    tanto gráo illustrados.

    CAPITULO III

    _Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique, que
    foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo_.

    Depois que o Conde D. Anrique foi cazado com a Rainha D. Tareja, filha
    del-Rei de Castella como dito é, vindo ella a emprenhar, D. Egas Moniz
    mui esforçado e nobre Fidalgo, grande seu privado, que com elle viera da
    sua terra, e a quem tinha feito muita mercê, chegou ao Conde pedindo-lhe
    que qualquer filho, ou filha, que a Rainha parisse lho quizesse dar para
    o elle criar, e o Conde lho outrogou. Veio a Rainha a parir um filho
    grande, e fermoso, que não podia mais ser uma creatura, salvo, que naceo
    com as pernas tão encolheitas, que a parecer de Mestres, todos julgavam
    que nunca poderia ser são dellas. O seu nacimento foi no anno de nosso
    Senhor de mil noventa e quatro.

    Tanto que D. Egas Moniz soube que a Rainha parira, cavalgou á pressa, e
    veio-se a Guimarães onde o Conde estava, e pedio-lhe por mercê que lhe
    desse o filho que lhe nacera para o haver de criar, como lhe tinha
    prometido. O Conde lhe respondeo que não quizesse tomar tal carrego;
    porque o filho, que lhe Deos dera, nacera por seus peccados tolheito de
    modo, que todos tinham, que nunca guareceria, nem seria para homem. D.
    Egas quando esto ouvio pesou-lhe muito, e disse: «Senhor, antes cuido eu
    que por meus peccados aconteceo; mas pois a Deos aprouve de tal ser
    minha ventura, dai-me todavia vosso filho, quejando quer que seja»: E o
    Conde posto que tivesse grande pejo polo bem que a D. Egas Moniz queria,
    de o encarregar em semelhante criação, por causa da aleijão da criança,
    com tudo lha deu por lhe comprazer, e quando D. Egas vio a criança tão
    fermosa, e com tal aleijão, houve mui grão dó della, e confiando em
    Deos, que lhe poderia dar saude, a tomou, e fez criar, não com menos
    amor, e cuidado como se fora são.

    E jazendo D. Egas uma noite dormindo, sendo já o Menino de cinco annos,
    lhe appareceo nossa Senhora, e disse: «D. Egas dormes». Elle a esta voz,
    e visão acordando respondeo. «Senhora quem soes vós». Ella disse: «Eu
    sou a Virgem Maria, que te mando que vás a um tal lugar,», dando-lhe
    logo os sinaes delle, «e faze hi cavar, e acharás hi uma Egreja que em
    outro tempo foi começada em meu nome, e uma Imagem minha; faze correger
    a Imagem e a Igreja feita á minha honra; esto feito farás hi vigilia
    poendo o Menino que crias sobre o Altar, e sabe que guarecerá, e será
    são de todo, e não menos te trabalha da hiavante de o bem guardar, e
    criar como fazes; porque meu filho quer por elle destruir muitos imigos
    da Fé».

    Desaparecida esta vizão ficou mui consolado D. Egas Moniz, e alegre,
    como vassallo que com são, e verdadeiro amor amava seu Senhor, e suas
    cousas, e tanto que foi manhã levantou-se logo, e foi-se com gente
    áquelle lugar, que lhe fora dito, e mandando hi cavar achou aquela
    Egreja, e Imagem pondo em obra todas as cousas que lhe N. Senhora
    mandára. Á qual aprouve pela sua santa piedade, tanto que o Menino foi
    posto sobre o seu Altar, ser logo guarecido, e são das pernas de toda
    aleijão, como se nunca tivera nada della.

    Vendo D. Egas este tão grande milagre, foi muito o seu prazer, deu
    muitas graças, e louvores a Deos, e a Nossa Senhora sua Madre, criando,
    e guardando dahi avante com muito maior cuidado o Menino, cujo Aio foi
    sempre, até que seu pai morreo em Estorgua, sendo elle já de tal idade,
    que nas guerras, e fadigas supria os carregos de seu pai. E por causa
    deste milagre foi depois feito em esta Egreja com muita devação o
    Mosteiro de Carquare; e como quer que alguns contem seu nacimento ser
    ultra mar, e bautizado no Rio do Jordão, porém por mais verdade achei
    ser seu nacimento como disse.

    CAPITULO IV

    _Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a seu
    filho ante que falecesse_.

    Era este Conde D. Anrique mui nobre, e esforçado cavaleiro, muito amador
    da Justiça, e a temor de Deos mui chegado, e elle com grande devação fez
    a Sé de Coimbra, e de Braga, e do Porto, e de Vizeu, e Lamego, e pôz em
    ellas Bispos, que as houvessem de reger por mandado, e licença do Santo
    Padre. Em este tempo andando a era de Nosso Senhor de mil cento e trez,
    (1103) foi este Conde D. Anrique a ultra mar á Caza Santa de Jerusalem,
    conquistada havia quatro annos de Christãos, novamente pelo Duque
    Gudufre de Bulhão, quatro centos e noventa annos depois que em tempo de
    Mafamede, e do Araclio Emperador foi tomada a Christãos, e possuida de
    Mouros, e quando de lá veio trouxe este Conde muitas reliquias de
    Santos, entre as quaes foi um braço de S. Lucas Evangelista, que por
    filho del-Rei Dungria, e fama de sua grande bondade, e cavalarias lhe
    foi dado em Constantinopla, e a rogo de S. Giraldo que então era Bispo
    de Braga, deu parte delle á Sé da dita Cidade, o qual elle recebeo em
    mui grande dom, e o pôz com outras Reliquias da Egreja, e depois que
    assi o Conde D. Anrique veio de Jerusalem não lhe cessaram guerras com
    os Lionezes, e ganhou-lhes muita terra até chegar a Estorgua, a qual
    tendo tomada, e metida sob seu senhorio, dali os guerreou fazendo
    continuamente muitas cavalgadas pela terra estragando-lhes pães, e
    vinhas, matando, e prendendo muita gente delles, com que os pôz em tanto
    aperto, que se lhe não podiam defender, e lhes foi forçado
    preitejarem-se por esta guiza, que se El-Rei D. Affonso de Castella seu
    primo chamado Emperador, lhes não soccorresse até quatro mezes, elles
    lhe entregassem a Cidade de Lião com todas as rendas, e senhorio que
    El-Rei nella tinha. E tendo-a assi preitejada veio o Conde a doecer de
    modo, que bem conheceo não haver nelle vida. Pelo qual vendo-se elle em
    tal ponto chamou seu filho D. Affonso Anriques, e lhe fez uma falla
    muito de Cavaleiro entendido, e esforçado em esta maneira.

    «Filho esta hora derradeira que me Deos ordena para te haver de leixar
    com a vida deste mundo me faz, que te veja, e fale com dobrado amor, e
    sentido do nosso apartamento, e por esso assenta em teu coração minhas
    palavras como de pai a quem após estas já não has douvir outras. Deves
    filho de saber, que o poderio que o Senhor Deos neste mundo ordenou de
    alguns Princepes sobre outros sometidos a elles foi por tal, que os máos
    sejam constrangidos, e os bons vivam entre elles em paz, e assocego,
    porque conservação é dos bons, e pungimento dos máos, pelo qual filho
    more sempre em teu coração vontade de fazer justiça, virtude é que dura
    para sempre na vontade, e corações dos justos, e dá igualmente seu
    direito, que é o maior louvor, e merecimento que os Principes em seu
    regimento podem alcançar, que todo o governo, e bem commum consiste
    principalmente em duas cousas, a saber: em premio, e em pena; e assi
    como os bons pela justiça se fazem milhores recebendo premio, e galardão
    de suas boas obras, assi os máos vem a ser bons, ou a menos cessam de
    seus males com receo da pena, e por tanto faze filho sempre como hajam
    todos direito assi grandes como pequenos, e nunca por rogo, nem cobiça,
    nem outra nhuma afeição leixes de fazer justiça, que o dia que um só
    palmo a leixares de fazer logo no outro se arredará de teu coração uma
    braçada.

    «Trabalha-te muito de saber se os que tem teu carrego fazem justiça, e
    direito compridamente, e se a fizerem, faze-lhe compridamente bem, e
    mercê, e se o contrario, dá-lhe pena segundo seu merecimento, por os
    outros tomarem castigo, não consintas em modo algum, que os teus sejam
    soberbos, nem atrevidos em mal fazer, que perderás teu preço, e
    estimação se taes cousas não vedares; mas segue todavia justiça temendo,
    e amando muito a Deos, para que sejas dos teus amado, e temido, tendo
    Deos em tua ajuda, terás as gentes para teu serviço, e sem ella não ha
    poder, nem saber que te aproveite, de sua mão somos isso que somos, e o
    que temos não teriamos, se da sua mão, e bondade o não tivessemos, e
    portanto trabalha-te por conservar em seu serviço. O que tiveres, e de
    toda esta terra que te eu leixo Destorgua até Lião não percas della um
    palmo que eu a ganhei com grande fadiga e trabalho. Toma filho do meu
    coração um pouco; porque sejas esforçado, e sem medo: aos fidalgos sê
    companheiro, e dá-lhe dos teus dinheiros, e aos Conselhos faze
    gazalhado, e trata bem, e chama agora estes Destorgua, e mandarás que te
    façam logo menagem da Villa, e des que me levarem a enterrar logo te
    torna, e não a percas, e daqui conquistarás toda a outra terra adiante,
    ou manda-me com alguns meus vassalos, e teus que me vão enterrar a Santa
    Maria de Braga, que eu povoei. Tudo esto filho faze assi com a minha
    benção; porque sejas como filho de benção a serviço de Deos com muita
    honra prosperada».

    CAPITULO V

    _Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
    Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
    Dona Tareja_.

    Desta doença se veio a finar o Conde D. Anrique em Estorgua dous mezes,
    e cinco dias antes que o prazo de Lião fosse acabado. Seu finamento foi
    no anno de nosso Senhor de mil cento e doze, (1112) e tanto que elle
    faleceo logo seu filho D. Affonso Anriques ficando em idade de dezoito
    annos se fez chamar Principe, dando ordem como o corpo de seo pai fosse
    mui honradamente levado a Santa Maria de Braga onde se mandara lançar, e
    perguntou a seus vassallos se iria com elle a seu enterramento, ou se
    ficaria, e elles disseram que fosse com seu pai, e o honrasse, nem por
    isso temesse nada da terra, porque obrar virtude nunca deu a ninguem
    perda, e então se foi com seu pai; porque mais honradamente fosse
    enterrado, e em quanto assi foi com elle tomaram-lhe toda a terra de
    Lião que elle tinha por sua, e a terra de Galiza lhe ficou que lha não
    poderam tomar. Quando elle vio a terra tomada mandou desafiar a El-Rei
    D. Affonso de Castella chamado Emperador seu primo com irmão filho do
    Conde D. Reymão de Tolosa, e de Dona Urraca irmã de sua mãi a Rainha
    Dona Tareja, mas logo foram reconciliados, e amigos, e então se foi a
    Portugal, e não achou onde se acolhesse: porque toda a terra se alçara
    com sua mãi a qual cazou com D. Vermuy Paes de Trava, e depois D.
    Fernando Conde de Trastamara seu irmão delle lha tomou, e cazou com
    ella, e D. Vermuy Paes cazou depois com uma filha desta Rainha D.
    Tareja, e do Conde D. Anrique já finado, que elle tinha em sua casa, que
    chamavam Dona Tareja Anriques, e por este peccado foi feito em Galiza um
    Mosteiro chamado de Sobrado. Outra filha ficou do Conde D. Anrique, que
    havia nome D. Sancha que foi cazada com D. Fernão Mendes. Este Conde D.
    Fernando de Trastamara acima nomeado, era naquelle tempo o maior homem
    de Espanha que Rei não fosse, e por esta causa se alçou toda a terra ao
    Principe D. Affonso Anriques com sua mãi.

    CAPITULO VI

    _Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
    vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
    sua mãi com elle_.

    Quando o Principe D. Affonso Anriques vio que não tinha onde se acolher,
    e que sua mãi tão pouco delle curava, segundo mal peccado muitas vezes
    vemos as mãis com novos esposos se tornarem madrastas, trabalhou de lhe
    furtar dous Castellos: um delles foi Neiva, e o outro o Castello da
    Feira terra de Santa Maria, e destes dous Castellos fazia muita guerra a
    seu padrasto, tanto que vieram ambos á fala com a Rainha Dona Tareja de
    presente, e disse o Conde D. Fernando: «Principe não nos afadiguemos
    mais nesta contenda, mas ajuntemo-nos um dia em batalha, eu e vós quando
    quizerdes, e ou vós vos sahireis de Portugal, ou eu». Respondeu o
    Principe D. Affonso. «Não devia de aprazer a Deos tal cousa que vós me
    queirais deitar fóra da terra que meu pai ganhou». E acodio a Rainha sua
    mãi dizendo. «Minha é a terra, e será que meu pai ma deu, e ma leixou».
    Disse então o Conde D. Fernando a ella «Não andemos mais neste debate,
    ou vós vos ireis comigo para a Galiza, ou leixareis a terra a vosso
    filho, se mais poder que nós».

    Sobre esto se desafiaram para um dia certo, e vieram-se ájuntar em
    Guimarães em um lugar que chamam Santilanhas, elles estando prestes para
    peleijar disse a Rainha ao Conde seu marido: «Comvosco quero eu ir á
    batalha; porque tenhais mais rezão de fazer mais por meu amor, e
    trabalhai todavia muito por prender o Principe meu filho, que maior
    poder temos que elle».

    A batalha foi gravemente peleijada, e o Principe D. Affonso lançado do
    campo desbaratado, e indo elle assi uma legoa de Guimarães encontrou com
    D. Egas Moniz seu Aio, que o vinha ajudar, e ser com elle na batalha, e
    quando D. Egas o vio disse: «Que é esto Senhor, como vindes vós assi».
    Respondeo o Principe: «Venho mui desbaratado, que me venceu meu
    padrasto, e minha mãi, que hi era com elle». Disse então D. Egas: «Não
    fizestes bem, nem sizo dardes batalha sem mim, mas tornai, e eu
    comvosco, e espero em Deos, que a hi prendamos vosso padrasto, e vossa
    mãi, recolhei a vós toda vossa gente que vem fogindo, e tornemos a
    peleijar». Respondeo o Principe: «Praza a Deos que assi seja».

    Tornáram então á batalha, e venceram-no, e o Principe prendeu hi seu
    padrasto, e sua mãi, e quando se o Conde D. Fernando vio prezo, cuidou
    logo de ser morto, e fez preito, e menagem ao Principe de nunca mais
    entrar em Portugal, e o Principe o soltou e foi-se, uns dizem que para
    sua terra, outros, que para terra dultra mar, sem nunca mais tornar. O
    Principe D. Affonso poz então sua mãi em ferros e ella vendo se assi
    preza, disse. «Filho D. Affonso prendeste-me, e desherdaste-me da terra,
    e honra que me leixou meu pai, e quitaste-me de meu marido, a Deos pesso
    que prezo sejais vós assi como eu me vejo, e porque puzestes minhas
    pernas em ferros que vos ajudaram a trazer, e a criar com muitas dores
    em meu ventre, e fóra delle, com ferros sejam as vossas quebradas, a
    Deos praza que assi seja». E depois aconteceo a este Principe D. Affonso
    sendo já Rei, que lhe quebrou uma perna em sahindo pela porta de
    Badalhouce, e foi prezo del-Rei D. Fernando de Lião, como se ao diante
    dirá, dizendo todos, que lhe acontecêra por lho assi mal dizer sua mãi.

    CAPITULO VII

    _Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso de
    Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
    Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
    Rei Mouro cercar Coimbra_.

    Vendo assi Dona Tareja Rainha como o Principe D. Affonso seo filho a não
    queria soltar enviou seus recados o mais secreto que pôde a El-Rei D.
    Affonso de Castella chamado Emperador como El-Rei D. Affonso seu avô, em
    que lhe fazia queixume do Principe seu filho a ter preza dizendo que
    Portugal pertencia a elle de direito, e que assi por elle cobrar o que
    seu era, como pelo que devia á virtude em acudir por uma sua tia posta
    fóra de seu marido, e em prizão tão deshonesta lhe pedia, que a quizesse
    vir livrar, pois não tinha a quem com mais rezão se soccorresse, e lhe
    podesse valer. Quando El-Rei de Castella vio o recado de sua tia,
    aprouve-lhe muito com elle, e fez logo prestes suas gentes de Castella,
    e de Lião, e de Aragão, e de Galiza, e abalou com mui grande poder
    contra Portugal. Os Portuguezes desque souberam que El-Rei de Castella
    ajuntava seu poder para vir conquistar Portugal, e tirar sua tia da
    prizão, houveram todos seu acordo, que estivessem com o Principe D.
    Affonso Anriques, e o ajudarem contra elle, e então se vieram todos para
    o Principe mui guarnecidos de suas armas, e ajuntaram-se com elle em um
    lugar que chamam Val de Vez, entre Monção e Ponte de Lima, e ali
    esperaram El-Rei de Castella, o qual tanto que chegou logo uns e os
    outros ordenaram suas azes para a batalha, e dambas as partes foi grande
    peleija, e tão grande vencimento por parte do Principe D. Affonso, que
    El-Rei de Castella foi ferido na perna esquerda de duas lançadas, e
    sahio-se da batalha em um cavallo fogindo, acolhendo-se o mais que pode
    a Toledo, por haver medo de com este desbarato perder a Cidade, e
    prenderam-lhe na batalha sete Condes, e outros muitos Cavalleiros, e
    mataram-lhe os Portuguezes muita gente. E o Princepe D. Affonso se foi
    logo dalli levando comsigo sua mãi preza, e todos os lugares que se
    levantáram contra elle os tomou por força, e tratou asperamente os que
    os tinham.

    Emquanto elle assi andava na guerra com El-Rei de Castella, e com
    aquelles que tinham os Castellos por parte de sua mãi, El-Rei Achi Mouro
    veio guerrear Coimbra com grande multidão de Mouros que ao juizo de
    todos passariam de trezentos mil de pé, e teve-a cercada muitos dias
    combatendo-a mui rijamente, mas os da Cidade com grande esforço, e ajuda
    de Deos se defendiam mui bem matando muitos dos Mouros com setas, e
    pedras, e muitos delles morriam por fome, e pestelencia que no arraial
    havia. Aos da Cidade nunca lhes faleceo mantimentos em abastança em
    quanto estiveram cercados, e vendo os Mouros a Fortaleza da Cidade, e
    sentindo a abondança de mantimentos que dentro havia, e a mortandade da
    peste, e a fome do arraial, que cada dia viam, desesperaram de a tomar,
    e levantáram o cerco destruindo pães, vinhas, olivaes, e foram-se
    perdendo grande parte da gente que trouxeram, e tanto estava a Cidade
    abastada, que depois do cerco alevantado davam cinco quarteiros de trigo
    por um maravedi de ouro, e dous moros de vinho por outro maravedi, e
    valia o vinho pelo preço dantes do cerco, e este cerco se poz nove dias
    por andar de Junho no anno do Senhor de mil cento e dezasete (1117).

    CAPITULO VIII

    _Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
    Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
    lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco_.

    A cabo de pouco tempo, estando El-Rei D. Affonso de Castella chamado
    Emperador em Toledo sentindo muito seu desbarato, e vencimento que delle
    houve o Principe D. Affonso Anriques tendo elle que toda Espanha lhe
    havia de obedecer, e conhecer senhorio, determinou em mui secreto
    conselho tornar a Portugal, e ajuntada muita gente o mais dessimulada
    que pode, abalou para Galiza, e chegou de supito a Guimarães onde cercou
    o Principe D. Affonso, que dentro estava despercebido, nem a Vílla
    estava bastecida, que a poucos dias a tomára El-Rei de Castella se
    tivera o cerco, e sobre esto vendo D. Egas Moniz Aio do Principe o
    grande perigo em que seu Senhor estava, vestindo sua capa pelo trajo, e
    nome daquelle tempo, cavalgou secretamente um dia pela manhã cedo, sem
    levar ninguem comsigo, e foi-se ao arraial dos imigos. Cavalgara El-Rei,
    e andava alongado de redor da Villa, vendo por onde mais ligeiramente se
    poderia combater, e tomar, e chegando D. Egas a elle, fez-lhe sua
    reverencia, e beijou-lhe a mão; El Rei salvou-o perguntando-lhe a que
    vinha. Respondeo D. Egas que queria falar com elle; então se apartáram
    ambos, e perguntou-lhe D. Egas porque se viera lançar sobre aquella
    Villa? E El-Rei respondeo, que viera cercar D. Affonso Anriques seu
    primo porque lhe não queria conhecer senhorio, nem ir a suas Cortes como
    era rezão, e como lhe faziam em toda Espanha, que sua determinação era
    leva-lo prezo comsigo, e dar a terra a quem lhe conhecesse senhorio com
    ella.

    Respondeo entonces D. Egas, e disse: «Senhor não fostes bem aconselhado
    virdes aqui cercar esta Villa, porque o Principe vosso primo é tal
    Cavaleiro como vós bem sabeis, e tem comsigo dentro tanta gente, e tão
    boa afóra muita que tem pela terra muito a seu querer, e mandar, que
    grande será o poder, e muito mor a ventura de quem lhe forçar, e tomar a
    Villa, porque Senhor havei por certo, que destes movimentos das guerras
    que com vosso primo houvestes, elle foi sempre tão suspeitoso, e receado
    de vós, e se poz tanto a recado para semelhantes cazos, esperando cada
    dia de se ver nelles comvosco, como se ora vê, que toda sua terra e
    Fortalezas fez guarnecer, e abastecer grandemente, e assi as tem bem
    providas, e bastecidas, em especial esta Villa, em que a miudo está que
    a meu entender, outra mais gente da que está, dentro, se nella podesse
    caber teria abastança para muitos annos de cerco, pois estando vós tempo
    sobre ella, ainda que escuzado tendes meu conselho, poderia trazer
    trovação a vosso estado, assi dos de vosso Reino, como dos Mouros que
    tão vizinhos, e fronteiros tendes, e quanto ao que Senhor dizeis que
    vosso primo vos conheça senhorio, e vá a vossas Cortes, certo a mim
    parece rezão, e ainda Senhor, me parece mais, que se vos partirdes daqui
    para vossa terra, que não pareça que vosso primo por força, nem
    rendimento de medo o faz; eu acabarei com elle que vá a vossas Cortes
    onde vós quizerdes, e disto Senhor vos farei preito, e omenagem». Quando
    El-Rei de Catella esto ouvio, prouve-lhe muito de receber a omenagem de
    D. Egas Moniz a cerca dello, ficando-lhe de se partir ao outro dia, e
    depois de dada, e recebida a dita menagem D. Egas se tornou para a Villa
    mui callado como della saira, sem dar conta a ninguem do que viera
    fazer.

    CAPITULO IX

    _Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre Guimarãez,
    e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso fez D. Egas
    Moniz_.

    Ao dia seguinte levantou El-Rei de Castella o cerco, e se partio com
    toda sua Corte, como ficára a D. Egas Moniz, e o Principe D. Affonso vio
    partir El-Rei, e espantando-se muito porque não sabia a causa, perguntou
    a D. Egas Moniz que lhe parecia de tal alevantamento, e partida de
    El-Rei de Castella, porque entendia que era? D. Egas lhe contou então
    tudo o que era, e como a causa passára; ouvindo o Principe esto, houve
    grande pezar, e foi mui indinado dizendo que escolhera antes ser morto,
    que fazer semelhante, nem ir a suas Cortes. Disse D. Egas: «Senhor não
    haveis de que vos queixar, que no que eu fiz vos tenho feito muito
    serviço; porque El-Rei de Castella por força vos tomara, segundo
    estaveis desapercebido de mantimentos, e de todo o que para vossa
    defensa cumpria, assi que em todo o cazo foreis prezo, ou morto, e o
    senhorio de Portugal dado a outrem, de tudo esto eu vos livrei, e quanto
    á menagem que fiz a El-Rei de Castella não vos dê desso nada, que assi
    como o fiz sem vosso mandado, assi o livrarei sem vosso conselho com a
    graça de Deos».

    CAPITULO X

    _Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
    D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
    Guimarães_.

    Vindo o tempo do prazo em que o Principe D. Affonso Anriques havia de ir
    ás Cortes, que se faziam em Toledo, segundo a menagem que D. Egas fizera
    a El Rei de Castella, ordenou-se D. Egas de todo, e partio com sua
    molher, e filhos, e chegáram a Toledo, foram decer ao Paço onde El-Rei
    estava, e ali se despiram de todolos panos senão os de linho, e sua
    molher com um pelote mui ligeiro, trajo daquelle tempo, descalçaram-se
    todos, e pozeram senhos baraços nos pescoços, e assi entráram pelo Paço
    onde El-Rei estava com muitos Fidalgos, e Cavalleiros, e chegando a
    El-Rei pozeram-se todos assi como iam de joelhos ante elle, falou então
    D. Egas Moniz, e disse.

    «Senhor estando vós em Guimarães sobre o Principe vosso primo meu
    Senhor, eu vos fiz a omenagem que sabeis, a qual eu fiz por ver que sua
    pessoa e honra áquelle tempo corria grande risco de se perder por na
    Villa não haver mantimentos, nem percebimento algum para defensão, se
    lhe vós tivesseis o cerco, e eu porque o criei de seu nacimento, quando
    o vi em tamanho trabalho, e perigo, tomei de mim aquelle conselho, de me
    ir a vós, e fazer esso que fiz». Recontando dahi ávante perante todos
    cumpridamente o feito como passara, e em cabo de todo disse: «Por causa
    desto Senhor me venho presentar ante vós, e eis aqui estas mãos com que
    vos fiz a menagem, e a lingua com que vo-la disse, e demais vos trago
    aqui minha molher, e estes moços meus filhos para se vossa ira houver
    por maior minha culpa que a vingança do meu corpo só, por esta molher, e
    por estes moços a cuja fraqueza, e idade, a ira dos imigos soe
    apiedar-se, seja vossa indinação satisfeita, prestes Senhor vos trago
    tudo para esso, tomai se vos assi parece por culpa de um só vingança de
    muitos, do pai, da mãi, de seis filhos quejanda vossa mercê for, não me
    pezará que vossa sobeja vingança faça maior meu cumprimento, e que se
    diga em todo o tempo mais comprio D. Egas, do que errou».

    Desque D. Egas acabou de falar ficou El-Rei mui irado, e quizera
    manda-lo matar, dizendo que o havia enganado: mas os Fidalgos, e nobres
    que ahi estavam lhe disseram, que tal não fizesse, que não tinha rezão
    de lhe fazer nhum mal, porque D. Egas fizera todo seu dever como mui
    nobre, e leal vassallo, quejando elle era, e todos os Principes deviam
    de desejar ter muitos tais, que seu mesmo fora o engano de se deixar
    enganar, e que antes por seu bom nome tinha razão de lhe fazer muita
    honra, e mercê, e manda-lo em paz. El-Rei assocegado de sua sanha pelo
    que lhe diziam, conhecendo que era assi na verdade perdeo todo o
    despeito de D. Egas, e quitou-lhe a omenagem que lhe feito tinha, e
    depois de lhe fazer muitas mercês o mandou livremente elle, e sua
    molher, e filhos tornar para Portugal.

    CAPITULO XI

    _Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de Castella
    se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual apoz esto
    juntou gente, e foi tomar Leiria_.

    Desque D. Egas Moniz se assi partio del-Rei de Castella quite, e livre
    de sua menagem, e com sua graça veio caminho de Guimarães, e ante que
    ahi chegasse, o Princepe D. Affonso Anriques sabendo sua vinda o sahio a
    receber com toda sua Corte mui alegre como quem parecia que aquella ora
    cobrava de novo um tal servidor, e vassallo, como era D. Egas; porque
    sempre esperára que elle em Castella fosse morto, ou deshonrado para
    sempre, e tudo sómente por seu respeito, ou serviço, e assi quanto lhe
    estas cousas tinham dado pezar, lhe davam agora sobejo prazer com sua
    vinda em salvo. Quando D. Egas chegou ao Princepe quiz-lhe beijar as
    mãos, e o Principe as tirou a si, e abraçou-o mui de vontade com grande
    gazalhado parecendo-lhe com muita rezão que tal obra, e merecimento mais
    merecia ser recebida com mostrança de muita honra, e agradecimento que
    sobgeição, e assi vieram ambos fallando com muito prazer até Guimarães,
    onde depois dalguns dias o Princepe por se prover de não cair em outra
    tal mingua, e desastre de se ver cercado, e não apercebido como dantes,
    começou abastecer seus Castellos, e Villas de todalas cousas que para
    sua defenção lhe compriam, e em dar ordem a esto per si, e pelos seus,
    passáram alguns dias.

    E dahi veio-se a Coimbra onde lhe pareceo que estava mui de vago, e sem
    proveito, pois se não occupava em mais, que no que tinha mandado aos
    seus que fizessem pelo qual ajuntou alguma gente, e fez entrada na terra
    dos Mouros, e no primeiro lugar em que deu foi Leiria a qual combateo
    rijamente, e posto que o Castello fosse muito forte, e os Mouros o mui
    bem defendessem tomou-o por força, e os mais dos Mouros que ahi achou
    andáram á espada, e assi esta Villa tomada o Princepe a deu ao Prior de
    Santa Cruz de Coimbra, por ser homem em que elle tinha grande devação, e
    fez a elle, e ao Moesteiro doação della no temporal, e espritual, e o
    Prior lha teve em mui grande mercê; e pondo-lhe logo por Alcaide no
    Castello Paio Guoterres homem bom Fidalgo. E desque o Princepe D.
    Affonso Anriques assi tomou a Villa de Leiria, seguio mais sua entrada
    pela terra dos Mouros, e tomou Torres Novas, e então se tornou para
    Coimbra com muita honra, e vitoria, e os seus ricos, e abastados de
    despojos, e estas duas Villas foram tomadas no mez de Dezembro andando a
    era do Senhor em mil cento e dezasete annos (1117) de sua idade.

    CAPITULO XII

    _Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
    Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
    Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
    daquelle tempo_.

    Depois que o Principe D. Affonso Anriques tornou de ganhar Leiria, e
    Torres Novas, esteve em Coimbra alguns dias, e vendo que tinha suas
    terras, e Fortalezas mui providas, e postas em ordem do que lhe compria,
    e tambem que de Castella estava seguro de guerra por algumas rezões que
    a Estoria não declara, consirando elle, que não devia, nem podia milhor
    empregar o bem, e honra que seu pai, e elle ganháram, que em serviço de
    nosso Senhor de cuja mão a tinham récebido, e como não havia então nhum
    serviço de Deos mais necessario em Espanha occupada de Mouros, que serem
    guerreados, e lançados fóra della, segundo fora sempre seu proposito, e
    vontade, houve conselho com os seus de fazer guerra nas terras de
    Alentejo especialmente na Comarca do Campo Dourique, e esto por duas
    rezões, a primeira, porque a terra era mui povoada, e de poucas
    Fortalezas, em que os seus haveriam assaz mantimentos, e prezas; a
    segunda, e principal porque se El-Rei Ismar, que regia em Espanha toda a
    maior parte dos Mouros contra Ponente, viesse a peleijar com elle, e
    dando-lhe Deos delle o vencimento que esperava, toda a terra que se
    chama Estremadura, que era sob seu senhorio, não haveria poder de se lhe
    defender, e o Princepe D. Affonso tinha que iria acompanhado de tão boa
    gente, que era bastante para peleijar com elle.

    E tanto que juntou, e teve sua gente prestes, partio de Coimbra, e a
    poucas jornadas no Campo Dourique adoeceo á morte D. Egas Moniz seu Aio,
    e se finou, de cujo falecimento o Principe tomou pezar, e o sentio
    grandemente mostrando o menos pelo da gente, e feito a que ia. Cazo é a
    morte de bons vassallos, e servidores em que os Princepes sempre devem
    mostrar sentimento, por animarem mais os que ficam para seu serviço, e
    se mostrarem virtuosos, e bons, não sómente em vida, mas depois de
    mortos, porque as virtudes (onde ha virtude) auzentes devem de ser
    queridas, e lembradas. Então mandou o Princepe tornar com o corpo de D.
    Egas tantos dos seus, e taes pessoas com que podia ir honradamente.
    Mandou-se elle enterrar no Moesteiro do Paço de Souza, que elle mesmo
    fez, e o seu moimento está dentro da Capella que se chama do Corporal,
    ou dos Freguezes, e entre elle, e a parede não está se não um moimento
    baixo, esto se poz aqui para se saber onde jaz tão nobre, e honrado
    Cavalleiro.

    Elle fundou em sua vida dous Moesteiros, este do Paço, e o de S.
    Martinho de Cucujães áquem da Cidade do Porto, os quaes dotou de muitas
    possessões, e guarneceo de grandes ornamentos, no que é bem de notar, e
    seguir a muita devoção dos Cavalleiros daquelle tempo, que com todas
    suas presas, e trabalhos, e grandes, e continuas despezas, em guerra tão
    santa, e quasi do Reino a dentro sendo então o Reino mais pequeno, e
    menos rico, não se descuidáram por esso de todo o serviço de Deos,
    conhecendo que o serviço de Deos salva para o outro mundo, e acrescenta
    a cavallaria, e honra deste mundo, e por tanto vemos muitas Egrejas
    honradas, e grandes, e sumptuosos Moesteiros feitos daquelle tempo, e
    nhuns Paços, e cazarias maiores, e pompa sobeja, edeficadas, mas os
    passados segundo parece, fundavam-se mais em fazer, guarnecer moradas
    para as Almas, que para os corpos, lembrando-se sómente dos corpos o
    enterramento que delles havia de ser, mais que a vivenda, que havia
    deixar de ser.

    CAPITULO XIII

    _Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar, que
    com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
    sentaram seus arraiaes um á vista do outro_.

    Finado D. Egas, e mandado assi enterrar como dito é, o Princepe D.
    Affonso Anriques como quer que lhe muito pezasse do falecimento de tão
    honrado Cavalleiro, em quem tinha grande confiança; seguio avante o que
    ia fazer, por serviço de Deos, e partindo daquelle lugar, onde se D.
    Egas finara, passou o Tejo, e as charnecas mui grandes, e despovoadas
    que agora ainda hi ha, e então seriam maiores, e sahindo dellas começou
    a fazer grande guerra aos Mouros, correndo-lhe a terra, e tomando-lhe
    Villas, e lugares, e fazendo grandes cavalgadas, e havendo muitos
    vencimentos contra elles, do que tanto que El-Rei Ismar houve nova,
    mandou requerer toda a mourama dos lugares, e outras partes do redor,
    mandando seus alvites, que elles entre si hão por homens de santa vida,
    que fossem pregar, e requerer da parte de Mafamede, que acorressem á
    terra que estava em ponto de se perder, pelo qual houve El-Rei Ismar
    muita em sua ajuda de Mouros dáquem, e dalém mar, e outras gentes
    barbaras, que era infinda a multidão delles em tanta desigualança dos
    Christãos, que se ha por certo serem pouco menos de cento para um, entre
    os quaes vieram quatro Reis outros, cujos nomes não achamos escritos, e
    vieram com estas gentes molheres vezadas a peleijar como as Amazonas, o
    que foi sabido, e provado depois pelos mortos, que acharam no campo. O
    Princepe D. Affonso quando soube que El-Rei vinha com aquellas gentes,
    foi mui ledo, e moveo contra elle, com mui grande esforço, e vontade de
    servir a Deos em tal afronta, e andando suas jornadas veio a um lugar,
    que se hora chama Cabeças de Rei junto com Castro Verde, onde estava uma
    Ermida, e nella um Irmitão. Esto era a hora da Sexta, ali se viram as
    Ostes ambas, e o Princepe D. Affonso, e El-Rei Ismar sentáram seus
    arraiaes um á vista do outro, em vespera de Santiago, anno de N. Senhor
    de mil cento e trinta e nove (1139).

    CAPITULO XIV

    _Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao Principe
    D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que lhe o Princepe fez
    sobre esso_.

    Os Christãos que eram com o Principe, vendo a grande multidão dos Mouros
    sem conto, começaram de poer duvida em se haver de dar batalha pela mui
    grande desigualança, que havia delles aos Mouros. Então se foram ao
    Principe, e lhe disseram: «Senhor quem sua carga compassa póde com ella,
    e vós vedes bem a multidão de gente que El-Rei Ismar traz comsigo, e
    cuidardes de com tão pouca, como tendes peleijar com elle, é cousa fóra
    de toda a rezão, que ainda parece mais tentar a Deos, que sezuda
    valentia, nem se deve haver por serviço de Deos, antes por muito seu
    desserviço para tamanha aventura, e risco de uma só ora o senhorio de
    Portugal, ganhado em tantos de muitos dias, e annos, pelo qual Senhor, a
    todos parece, e não com mingoa de coração, e vontade que em nós nunca
    achastes, devesse ter modo por onde toda via se escuze esta batalha».
    Quando o Princepe D. Affonso ouvio aos seus esto, pezou-lhe muito, e
    posto que nelle só houvesse o esforço que a toda a Oste compria, lhe
    pareceo necessario fazer a todos uma falla, a qual depois de todos
    ajuntados, assi começou.

    «Meus bons vassallos, e amigos, muito vos deve lembrar a tenção e
    desejos com que partimos de Coimbra para servir a Deos, e punhar por sua
    santa Fé Catholica, contra estes seus imigos, e nossos, e ora estando
    nós já em vista dos que viemos buscar, será grande mingua, e ainda
    poder-se-ia mais azinha de Portugal seguir essa perda, não peleijando,
    que peleijando receaes se fogissemos ás batalhas a que nos Deos, e
    nossas vontades tão acerca trouxeram, que já nosso recolhimento não
    podia leixar de parecer fugida, ou ser desbarato. Deos por sua piedade
    nunca abrio mão dos que em elle esperam, nem para dar, ou tolher, a quem
    lhe praz vitoria, ha mister poder de mais, nem menos gente. Lembre-vos
    quantas vezes, e em quantos lugares, peleijaram nossos antecessores com
    estes imigos da Fé, e os venceram poucos, pois não é agora menos
    poderosa a mão do Senhor Deos para nos ajudar contra El-Rei Ismar, do
    que foi nos tempos passados para ajudar a elles, e assi outros muitos
    Princepes, e Senhores Christãos, em semelhantes casos, e tanto mais da
    ventagem de nossos imigos; deve nosso coração, e esforço quanto temos
    mais justas causas, e rezão de peleijar. Nós peleijamos por Deos, pela
    Fé, pela verdade, e estes arrenegados que vedes, peleijam contra Deos,
    pela falsidade. Nós por nossa terra, elles pela que nos tem tomada, e
    furtada, e querem furtar. Nós pelo sangue, e vingança de nossos
    Antecessores, elles por ainda cruelmente espargerem o nosso. Nós por
    poer nossos pais, nossas mãis, nossas pessoas, molheres, e filhos, com
    liberdade, elles a nós todos em seu cativeiro, a terra que hoje em dia
    tem, e pessuem em Africa, em Espanha, nossa foi, e a Christãos por
    nossos peccados a tomaram, e agora que Deos quer que a cobremos, com seu
    desfazimento, e destruição, não desfaleçamos a vontade do Senhor Deos, e
    a tamanho bem nosso; oh quanta mercê nos Deos faz Cavalleiros, e a
    quanto bem nos chegou, se lho bem conhecessemos, chegou-nos a um dia e
    feito tão glorioso, quanto Cavalleiros não poderiam, nem saberiam mais
    desejar. Chegou-nos a peleijarmos por elle, e por nós, peleija sua, e
    nossa contra cinco Reis Mouros imigos da sua Santa Fé, em que nos elle
    salvou, peleija em que mataremos, seguros de culpa, morreremos mais
    seguros de galardão, matando, ganharemos terra, e honra temporal,
    morrendo ganhamos o Ceo, e gloria eterna, matando tolhemos a vida a
    nossos imigos, e morrendo damos vida e gloria a nós para sempre, a quem
    se deve mais nossa vida que a Deos que no la deu, nem nosso sangue que a
    Christo, que o seu proprio por nós espargeo, nem que podemos fazer neste
    mundo por elle, que muito mais, o primeiro não fizesse por nós, elle
    sendo filho de Deos, se abaixou a fazer homem por nos fazer filhos de
    Deos, e nós filhos de homens, ainda por elle não faremos por onde filhos
    de Deos pareçamos? Elle padeceo por nós, só nu, e despido, sem galardão,
    e nós cubertos de armas, e acompanhados, e com galardão, muito maior que
    merecimento, receamos peleijar por quem assi por nós morreo, para que
    nos fez logo Deos, para que nos teve amor tão sobejo, que por remir tão
    ingratos servos, deu seu proprio filho, sendo logo (quanto assi por nós,
    e nós possamos fazer por elle) feito tudo só por nós, e para nós, que
    Deos nada lhe faz mister? Certo não é de homens, nem de Cavalleiros, e
    muito menos de Christãos, e mais nós Portuguezes recearmos trabalho, que
    nos sae em tanta gloria, nem morte que nos passa a vida para sempre
    segura da morte, pelo qual meus bons Cavalleiros tenhamos muita Fé, e
    muita Esperança, em N. Senhor, o dia de amenhã em que com sua graça
    venceremos a batalha, será de tanto prazer para nós, e nos aprezenta
    tanta gloria e honra para o outro mundo, e para este cuidando no premio,
    faz ligeiro o trabalho; não cureis de nhumas rezões, nem temores que a
    lembrança de Deos só, e de tanto bem nosso, no los deve lançar fóra de
    nossos corações. Hi-vos agora todos em boa hora a repouzar, e esperai
    com muito prazer, e descanço o dia damenhã, tão ledo, e de prazer, como
    nunca foi a Cavalleiros, tanto que amanhecer vamos logo com a ajuda de
    Deos, e sua graça ao que viemos fazer, que elle ha de ser comnosco como
    sempre o é com os seus, e elle por sua piedade no-lo dará feito, e
    vencido, em nossas mãos, e de manhã prazendo a elle acabareis de
    confirmar para sempre o bom nome, e louvor que os Portuguezes tem de
    saberem bem aguardar seu Senhor nas pressas, e perigos maiores, porque
    com a ajuda do Senhor Deos, eu espero tomar tal lugar na peleija, onde
    me faça mester vossas mãos, e ajuda».

    Quando os Portuguezes ouviram taes palavras, com tanto e tão confiado
    esforço do Principe, foram assi todos esforçados, e animados de um
    coração para servir a Deos, e a elle naquella batalha que pareceo ser
    trespassado em cada um o mesmo esforço, que no Princepe viam,
    responderam todos mui ledos, que pois elle queria, e lhe assi perecia,
    elles estavam mui prestes para fazer o que sempre fizeram aquelles donde
    elles decendiam.

    CAPITULO XV

    _Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso Anriques,
    posto na Cruz como padeceo por nós_.

    Quando foi contra a tarde depois que o Princepe fez poer as guardas em
    seu arraial, o Irmitão que estava na Irmida, que acima dissemos, veio a
    elle, e disse-lhe: «Princepe D. Affonso Deos te manda por mim dizer, que
    pela grande vontade e desejos que tens de o servir, quer que tu sejas
    ledo, e esforçado, elle te fará de menhã vencer El-Rei Ismar, e todos
    seus grandes poderes, e mais te manda por mim dizer, que quando ouvires
    tanger uma campainha que na Irmida está sairás fóra, e elle te
    apparecerá no Ceo, assi como padeceo pelos peccadores». (E já antes
    desto elle tinha feito, e dotado com grande devação o Moesteiro de Santa
    Cruz de Coimbra, á honra da morte e paixão que N. Senhor recebeo na
    Cruz, pelo qual é de crer que lhe quiz Deos assi apparecer, porque por
    onde cada um mais merece, por hi o mais honra, e alevanta) Des que se
    partio o Irmitão, o Princepe D. Affonso poz os giolhos em terra, e
    disse: «Oh bom Senhor Deos todo poderoso a que todalas creaturas
    obedecem, sogeitas a teu poder, e querer, a ti só conheço, e tenho em
    mercê os grandes bens e mercês que me tens feito, e fazes em me mandares
    prometer tão grande cousa, como esta, e tu Senhor sabes que por te
    servir, passei muita fadiga e trabalho contra estes teus imigos, com os
    quaes, por serem contra ti, eu não quero paz, nem os ter por amigos, e
    pois em quanto viver, me não heide partir de teu serviço á tua infinda
    piedade peço que me ajudes, e tenhas em tua santa guarda; porque o imigo
    da linhagem humanal não seja poderoso para torvar teu santo serviço, nem
    fazer que os meus feitos sejam ante ti aborrecidos».

    E desde que esto disse com outras muitas devotas palavras, encomendou-se
    a Deos, e á Virgem gloriosa sua Madre, acostou-se, e adormeceo, e quando
    foi uma hora, ante menhã tangeo-se a campa, como o Irmitão disséra, e
    então o Princepe saio-se fóra da sua tenda, e segundo elle mesmo disse,
    e dentro em sua Estoria se contem, vio Nosso Senhor em a Cruz no modo
    que disséra o Irmitão, e adorou-o mui devotamente com lagrimas de grande
    prazer, confortando-se, e animando-se com tal elevamento, e confirmação
    do Espirito Santo, que se afirma (tanto que vio N. Senhor) haver antre
    outras palavras falado alguma sobre coração, e espirito humano dizendo:
    «Senhor, aos Ereges, aos Ereges faz mister appareceres, que eu sem nhuma
    duvida creio, e espero em ti firmemente». Esto mesmo não é para leixar
    de crer, o que tambem se afirma que neste apparecimento foi o Princepe
    D. Affonso certificado por Deos de sempre Portugal haver de ser
    conservado em Reino, e o tempo, e caso, aquella ora sua virtude, e
    merecimentos eram taes para lho Deos prometer. E mais se afirma que por
    ser esta a vontade de N. Senhor confirmou-o depois um parceiro de S.
    Francisco homem santo, que veio a Portugal, do que nos tempos passados,
    e em nossos dias, Deos seja louvado, se vio muito grande mostra desto
    atégora, e será para sempre; tudo é para crer que N. Senhor queria, e
    faria a Princepe tão virtuoso, sobre que fundava Reino, e Reis tão
    virtuosos, para tanto seu serviço, e da santa Fé Catholica, e por suas
    cousas andarem por culpas dos tempos em mui falecida lembrança de
    escritura quiz Deos, segundo parece, que ficassem algumas em confirmada
    fama.

    CAPITULO XVI

    _Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes para
    peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei_.

    Tanto que N. Senhor desapareceo, o Principe mui cheio de prazer, e
    esforço, se veio para sua tenda, e fez-se armar, mandando dar ás
    trombetas, e atabales, e anafins, os do arraial foram logo todos
    levantados, e começaram-se de confessar, e ouvir suas Missas, e
    commungar encomendando-se todos a Deos, com grande devação, e alegria.
    Esto acabado partio o Princepe sua gente em quatro azes, na primeira
    meteo trezentos de cavallo, e tres mil homens de pé, e na reguarda fez
    outra az em que iam outros trezentos de cavallo, e tres mil de pé; uma
    das azes fez de duzentos de cavallo, e dous mil de pé, outra az fez de
    outros tantos, que eram por todos dez mil homens de pé, e mil de
    cavallo; na primeira az ia o Princepe com mui bons Cavalleiros, ia com
    elle D. Pero Paes Alferes que levava sua bandeira, e D. Diogo Gonçalves,
    que era grande rico homem; a reguarda foi encomendada a D. Lourenço
    Viegas, e a D. Gonçalo de Souza, e a az esquerda a Mem Moniz filho de D.
    Egas Moniz já finado, e a direita a seu irmão Martim Moniz.

    Não cessava o Princepe em ordenando as azes, e depois de ordenados,
    correndo por todos a anima-los, e esforça-los, chamando-os por seus
    nomes, trazendo-lhe á lembrança o que lhes tinha falado, e encomendado,
    e nelles cabia fazer, e assi desde que o Sol sahio, e ferio nas armas
    dos Christãos, maiormente indo acompanhados da graça de Deos
    resplandeciam e reluziam tão grandemente, que ainda que poucos fossem,
    não havia poder maior que os não temesse.

    Os Mouros tambem de seu cabo postos no campo, fizeram de si doze azes de
    gente mui grossa, assi de pé, como de cavallo, e quando os Senhores e
    grandes que estavam com o Principe viram as azes dos Mouros, e grande
    multidão delles sem conto, chegaram ao Principe, e disseram: «Senhor,
    nós vimos a vós que nos façais uma mercê, a qual será grande bem, e
    honra dos que aqui viverem, e aos que morrerem, e a todolos os de sua
    geração». O Princepe lhe respondeo que dissessem, que não havia cousa,
    que em seu poder fosse de fazer, que de boa vontade não fizesse, elles
    disseram: «Senhor, o que toda esta vossa gente vos pede é, que vós
    consintais que vos façam Rei, e assi haverão mais esforço para
    peleijar». Respondeo elle e disse:

    «Amigos seres irmãos, eu assaz tenho de honra, e senhorio antre vós, por
    sempre ser de vós mui bem servido, e guardado, e porque desto me
    contento muito, não me quero chamar Rei, nem se-lo, mas eu como vosso
    irmão, e companheiro, vos ajudarei com meu corpo contra estes infiels
    imigos da Fé, quanto mais que para o que dizeis o lugar, nem ora, não
    são convenientes, pelo qual para o feito em que estamos vós sede mui
    esforçados, e não temais nada, que o Senhor Jesu Christo, por cuja Fé
    somos aqui juntos, e prestes para peleijar, e esparger nosso sangue,
    como elle fez por nós, nos ajudará contra estes imigos, e os dará
    vencidos em nossas mãos, e o preciozo Apostolo Santiago cujo dia hoje é,
    será nosso Capitão, e valedor nesta batalha». Responderam elles todos:
    «Senhor praza a Deos que assi seja, e não menos o esperamos de sua
    graça, porém para elle ser milhor serviço de vós, e de nós neste feito,
    e em todos os outros adiante, é mui necessario que vos alcemos por Rei,
    e não deve uma só vontade vossa trovar a de todos que vo-lo tanto
    pedimos, e desejamos». O princepe vendo-se tão aficado delles, disse que
    pois assi era que fizessem o que lhes bem parecesse. Então todos o
    levantaram por Rei; bradando com grande prazer e alegria: «Real, Real,
    por El-Rei D. Affonso Anriques de Portugal». Anno de Christo de mil
    cento e trinta e nove (1139).

    CAPITULO XVII

    _Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de Portugal deu
    batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande vencimento
    della_.

    Feito esto El-Rei cavalgou logo em um cavallo grande, e fermoso, que lhe
    foi trazido cuberto de suas armas brancas, como dantes trazia, e os
    senhores Cavalleiros se tornaram cada um a suas azes, e lugares
    ordenados, e sem mais tardança, moveram contra os Mouros que já vinham
    contra elles. El-Rei quando vio ser tempo disse a D. Pero Paes seu
    Alferes que abalasse mais rijo com a bandeira, e toda sua az, o fez
    assi, e foram todos juntos ferir nos Mouros mui rijo, onde El-Rei que ia
    diante ferio um Mouro da lança, de tal sorte, e encontro, que deu logo
    com elle morto em terra, e rompendo a primeira az dos Mouros chegaram á
    segunda da gente mui grossa, e ali foi grande sem conto o poder dos
    Mouros, que tambem das outras azes carregaram sobre El-Rei. Então D.
    Lourenço Viegas, e D. Gonçalo de Souza que traziam a reguarda acodiram a
    El-Rei mui esforçadamente, e foi a peleija mui grande, e ferida de ambas
    as partes, esso mesmo Martim Moniz, e Mem Moniz irmãos, Capitães das
    azes entraram cada um de sua parte na batalha, como esforçados
    Cavalleiros que eram, fazendo grande matança nos Mouros.

    Todos o faziam muito bem: mas em especial El-Rei da ventagem que era mui
    grande de corpo, e de mui assinada valentia, de força grande, e coração
    muito maior, e gram cortador de espada, e por tanto seu peleijar onde se
    topava, antre todos era avantejado. Foi esta batalha tão bravamente
    peleijada, que durou até horas do meio dia, sem tomar fim, sendo o dia
    tão quente, e tanto pó naquelle tempo, que cada uma destas cousas com
    pouca mais afronta os devera cansar; mas N. Senhor que era com El-Rei D.
    Affonso tão esforçado Cavalleiro, e com os seus lhes deu esforço, como
    nem com nhuma destas cousas, nem com tanta multidão de Mouros
    afraquassem dando-lhe batalha, e de tudo tão grande vencimento, qual se
    não deu, de tão poucos, e tantos em batalha campal aprazados; foi assi
    vencido El-Rei Ismar, e os quatro Reis Mouros que vinham com elle, e
    mortos na peleija mui grande conto de Mouros, e muitas das molheres
    pelejadoras, que acima dissemos, nem da parte dos Christãos foi a
    vitoria sem perda grande, morreram muitos antre os quaes Martim Moniz
    Capitão da az direita, e D. Diogo Gonçalves, homens mui principaes.

    Não se espante ninguem, nem duvide do que em cima escrevo da grandeza
    deste vencimento, como já vi espantar alguns por mo assi ouvirem, quando
    Plutarco, e outros Authores Gregos, e assi Tito Livio com outros
    Latinos, concordando affirmam, e dizem a vitoria da batalha que Lucullo
    Lentullo Capitão de Roma houve em Asia contra El-Rei Tigrames ser a
    maior que o Sol nunca vio sendo os Romãos onze mil de pé, a fora a gente
    de cavallo, e os imigos duzentos e vinte mil de peleija, havendo-o logo
    com gente tão cobarda, e prestes para fogir, que sobre morrerem delles
    cem mil no desbarato, dos Romões sómente cinco morreram, e feridos não
    passaram de cento, donde se escreve, que os Romãos houveram vergonha, e
    se riram de si mesmos por tomarem armas para tão vil gente, da qual
    segundo affirma Tito Livio eram os vencedores quasi a vigessima parte, o
    que em mui maior gráo, e desigualança se deve estimar, e dizer desta
    vitoria del-Rei D. Affonso assi pelo muito mais numero de imigos, e
    menos dos Christãos, como pela valentia, e animosidade, e seita
    contraria dos infieis, e além desso vezados ás mesmas guerras nossas, e
    a muitas vitorias havidas contra nós, com que se tinham feito vencedores
    da Christandade, e senhoreado o mundo, nem des o tempo de Lucullo
    Lentullo para cá, não acho vitoria destas mais assinadas, que foram;
    porque desta del-Rei D. Affonso se devia julgar, nem dizer menos do que
    disse.

    CAPITULO XVIII

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida acrecentou em
    suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli acontecera, e da nova
    que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que ahi foram tomados_.

    Depois da batalha vencida esteve El-Rei D. Affonso tres dias no campo,
    como é de costume fazerem os Reis se forçados necessidade lhes não vem,
    e estando assi no campo, em lembrança da grande mercê que lhe Deos
    naquelle dia fizera acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que
    lhe alli acontecera, no Ceo, em Cruz. Poz sobre o campo que dantes no
    Escudo trazia, por Armas uma Cruz toda azul, partida em cinco Escudos,
    pelos cinco Reis que vencera, e meteo trinta dinheiros de prata em cada
    um dos Escudos em relembrança da morte e Paixão de Jesu Christo, vendido
    por trinta dinheiros, e os Reis de Portugal, que depois vieram, vendo
    que se não podiam meter tantos dinheiros em pequenos Escudos Darmas
    puzeram em cada um dos cinco Escudos cinco dinheiros em aspa, e assi
    contando por si cada uma carreira da Cruz do longo, e atravez metendo
    sempre no conto de ambas as vezes o Escudo da ametade, fazem trinta
    dinheiros, e desta maneira se trazem agora.

    Depois dos tres dias passados que El-Rei D. Affonso esteve no campo com
    mui grande honra, e grandes prezas de ouro, e prata, presioneiros, e
    gados tomados na batalha, tornou-se para Coimbra. Antre os prisioneiros
    era um bom quinhão de gente que chamavam Moçaraves, os quaes eram
    Christãos, que os Mouros tinham por cativos naquella terra, e quando
    El-Rei chegou a Coimbra o Prior de Santa Cruz o saio a receber, e
    disse-lhe: «Oh Senhor Rei, e vós outros nobres varões que sois filhos da
    Santa Madre Egreja, porque trazeis assi prezos, e cativos estes
    Christãos irmãos vossos como se fossem infieis, devendo-os de ter, e
    tratar como vós mesmos; ora vos peço senhor, pois são da Lei de Christo
    como nós, sejam soltos, e livres da prizão». E El-Rei que era muito
    sogeito a toda rezão, e virtude, de todo bom, e verdadeiro Christão,
    outorgou logo no que o Prior falou, e os mandou todos soltar, e livrar
    de cativeiro.

    Vinham entre estes Moçaraves dous homens de grande idade, e mui louvada
    vida, os quaes contáram a El-Rei como já estiveram no cabo da terra do
    Algarve que mais sae ao mar do Occidente, que naquelle lugar jazia o
    Corpo de S. Vicente, ao qual elles alli viram fazer muitos milagres.
    Quando El-Rei esto ouvio, tomou grande desejo de haver aquelle Santo
    Corpo em sua terra, mas pois me a Estoria trouxe a fazer menção de tão
    glorioso Martyre que em Portugal temos, parece-me erro passar assi por
    elle, sem dizer primeiro ao menos em soma como, e onde foi martyrizado,
    e seu Corpo guardado dos Christãos, e depois em seus lugares contarei
    como foi trazido áquelle Cabo, que se ora de seu nome chama Cabo de S.
    Vicente, onde por duas vezes foy buscado, e não se podendo achar da
    primeira, foi achado da segunda, e foi trazido á Cidade de Lisboa.

    CAPITULO XIX

    _Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e mandou
    matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
    Christo_.

    Foi S. Vicente natural da Cidade de Osqua, que ora é no Reino de Aragão,
    de nobre linhagem, de Fé, e virtude muito mais nobre. Foi discipulo do
    Martyre Papa Sixto I e praceiro muito como irmão de S. Lourenço, e sendo
    enviado a Espanha pelo Papa, chegou-se a S. Valerio Bispo de Valença, o
    qual por ser empachado na lingoa, em prégações, e muitos outros autos do
    serviço de Deos, cometia o carrego a S. Vicente. Era então Emperador de
    Roma Diocleciano gentio, que fez geralmente pelo mundo a decima
    persecução contra Christãos, que durou dez annos, e foi maior, e mais
    cruel, que nhuma feita antes, nem depois, e antre muitos emxuqutores,
    que a esso mandou por todalas Provincias, enviou Daciano em Espanha o
    qual estando em a Cidade de Valença, tanto que soube da vida de S.
    Valerio, e S. Vicente, e da doutrina de Christo, que ao povo prégavam,
    os fez trazer ante si, preguntando-lhes, e emquerendo com gram sanha, e
    ameaços pelas obras que faziam, e prégavam, e S. Valerio por ser já
    velho, e empachado da fala, como dito é, começou a responder manço, e de
    vagar.

    Disse então S. Vicente a S. Valerio: «Padre não cumpre aqui resposta que
    seja emcolheita, mas se mandardes eu responderei a este Juiz». S.
    Valerio respondeo: «Pras-me filho, que como sabes dias ha que te tenho
    minhas vezes cometido». Então S. Vicente respondeo, e falou a Daciano
    com tanto fervor, e constancia pela Fé de Christo, que Daciano mui irado
    o mandou fortemente atormentar mudando-lhe, e dobrando-lhe, (a fim de o
    tirar de Christo por muitos dias) os tormentos, taes, e tantos, quanto
    crueza sobeja muito podia sobejamente inventar e fazer, sem ficar nhum
    que se possa cuidar, os quaes por brevidade, dizer escuzo. Vendo-se
    Daciano com todos seus tormentos, perante todos vencido, e S. Vicente
    cada vez em elles mais vencedor, e glorificado, receando, que se por
    então morresse nos tormentos leixaria de si maior gloria, mandou que o
    lançassem em sua cama mui mole, e curar muito bem delle, para depois de
    convalecido lhe renovar novas dores, e chagas, e assi por continuação de
    tormentos faze-lo render; mas elle jazendo naquella preciosa, e não
    caridosa cama, deu a Alma a Deos, que como sua a levou para si, e a quiz
    haver por escuza de mais exames, nem provas de virtudes.

    Sabendo sua morte Daciano ainda então se não doeo delle, se não de sendo
    vivo lhe ser tolhido sua crueza, dizendo: «Pois em vivo o não venci,
    morto o vencerei, e desfarei». Mandou então lançar o Corpo ás aves, e
    animalias, que o comecem, onde houve pelos Anjos tão guardado, que nhuma
    lhe poz boca, antes de Corvos que al não buscavam, foi um visto
    guarda-lo, e defende-lo, o que sendo dito a Daciano, disse com a mesma
    sanha, e crueza dantes demais: «Se nem morto o poderei vencer». Então
    mandou atar uma grande mó ao Corpo, e lanca-lo no mar para debaixo do
    mar ser escondido, e desfeito, quem sobre a terra não pudéra; mas o
    Corpo de S. Vicente milagrosamente veio até á terra primeiro que o mesmo
    barco, que o foi deitar, e alli por sua revelação foi sabido e recolhido
    seu Corpo dalguns Christãos, que o devotamente enterraram, fazendo ahi
    sempre muitos milagres. Padeceo depois de N. Senhor duzentos e oitenta e
    sete annos (287). Deste Martyre precioso falam muitos Doutores, mui
    grandes louvores, antre os quaes diz delle Santo Agostinho: «Oh
    Bemaventurado Vicente, verdadeiramente venceste: venceo nas palavras,
    venceo nas penas, venceo queimado, venceo alagado, venceo vivo, venceo
    morto».

    CAPITULO XX

    _Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de S.
    Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo achar
    se tornou para Coimbra_.

    Contam as Estorias dos Arabigos, que andando a era dos Mouros, em cento
    e trinta e cinco annos, se levantou nas Espanhas um poderoso homem, a
    que chamavam Abdenamer, o qual começou a conquistar, e sobgigar por
    Espanha assi Mouros, como Christãos, não achando Santuario de Christãos,
    que não destruisse, nem ossos de Martyres, que não queimasse, e andando
    nesta conquista foi ter a Aragão, e a Valença, e os homens que tinham o
    Corpo do Martyre S. Vicente, quando souberam de sua vinda, e do que
    fazia ás Reliquias, e Corpos dos Santos, houveram seu acordo de fogirem
    com elle, para terra onde fosse guardado; aprouve a N. Senhor de os
    guiar áquelle Cabo chamado ora de S. Vicente, como acima se diz, para o
    seu Corpo alli ser enterrado, e escondido, e aquelles homens bons que o
    trouxeram, estiveram continuadamente com elle até que por alli chegou um
    Cavalleiro Mouro, que morava naquella terra dos Algarves, natural do
    Reino de Fês a que chamavam Albofacem, e contam as Estorias em como elle
    disse, que andando por alli de noite achára certos homens guardando
    aquelle Corpo, os quaes matara, e leixara o Corpo.

    El-Rei D. Affonso ouvindo o conteudo nesta Estoria com o que lhe tinham
    falado e affirmado os dous velhos Moçaraves de como estiveram no mesmo
    lugar, onde jazia o Corpo de S. Vicente, teve Conselho com os seus em
    que modo o poderiam haver, e acordaram que fizessem tregua com os
    Mouros, e por tempo certo. Ellas feitas El-Rei D. Affonso partio de
    Coimbra para aquelle lugar, com tanto desejo, e devação, que apagava em
    seu coração todo receio, trabalho, e perigo que nisto corria, e chegando
    lá fez buscar com grande deligencia o Corpo, e nunca o pode achar por N.
    Senhor ter ordenado, que o Jazigo deste glorioso Martyre fosse na Cidade
    de Lisboa onde agora jaz, a qual ainda então era de Mouros. Quando
    El-Rei D. Affonso vio que não podia achar este Santo Corpo, como quer
    que muito lhe pezasse, remeteu seu pezar á vontade de Deos, que por
    então parecia ser aquella, e dali tornou-se para Coimbra.

    CAPITULO XXI[4]

    _Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a El-Rei
    Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso passou
    com o Bispo_.

    Depois disto, estando El-Rei D. Affonso Henriques em Coimbra, sua Mãi se
    enviou muito querelar ao Santo Padre da prisão em que a tinha seu filho
    tantos tempos havia; e o Padre Santo teve aquella cousa por estranha e
    muito mal feita, e determinou de mandar a Portugal sobre isto o Bispo de
    Coimbra que então lá estava em Roma, dando-lhe cartas e grandes mandados
    para El-Rei D. Affonso que tirasse sua mãi da prisão, e não o querendo
    assim comprir fosse interdito posto em todo o reino.

    Partio-se o Bispo para Portugal, e veio a El Rei, ao qual depois de dar
    as letras do Santo Padre e dizer sua embaixada, El-Rei disse ao Bispo:
    «Que tinha o Santo Padre de fazer em elle ter sua mãi preza? Que fosse
    bem certo que nem por mandado do Papa nem d'outro nenhum elle em modo
    algum a soltaria, porque o havia assim por mais serviço de Deos e bem de
    seu Reino.» Quando o Bispo vio que outro recado não podia nem esperava
    achar em El-Rei, trabalhou-se de comprir o que o Santo Padre lhe tinha
    mandado, e então excummungou toda a terra e partiu-se de novo fugindo.

    Quando veio pela manhã disseram a El-Rei que era excommungado e toda sua
    terra, do que sendo mui irado se foi á Sé, e fez entrar todos os Conegos
    no Claustro em Cabido, e disse-lhes: «D'entre todos me dai um Bispo».
    Elles responderam todos: «Bispo temos; como vos daremos outro Bispo?»
    Disse El-Rei: «Esse, que vós dizeis nunca aqui será Bispo em todos meus
    dias; mas pois assim é, sahi-vos todos pela porta fora, e eu catarei
    quem faça Bispo». Elles sahiram-se, e El-Rei vindo pela Claustra vio vir
    um clerigo que era negro, e disse-lhe: «Como has nome?» O clerigo
    respondeu: «Hei nome Martins».–«E teu pai como se chamava».–Colleima
    disse elle. El-Rei perguntou-lhe: «És bom clerigo, ou sabes bem o
    officio da Igreja?» E elle respondeu: «Não ha ahi melhores dous na
    Hespanha, nem que o melhor saibão». Então disse El-Rei: «Tu serás Bispo
    Dom Colleima, e ordena logo como me digas Missa». «Senhor», disse elle
    «eu não sou ordenado como Bispo, para vo-la poder dizer». Acudio El-Rei:
    «Eu te ordeno como Bispo, que m'a possas dizer, e apparelha-te como logo
    m'a digas, senão eu te cortarei a cabeça com esta espada». E o clerigo,
    com medo, revestio-se para dizer Missa solemnemente como Bispo.

    Sabido este feito em Roma, cuidaram que El Rei era herege, e enviou-lhe
    o Papa um Cardeal que lhe ensinasse a fé.

    CAPITULO XXII

    _Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El-Rei D. Affonso
    Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados_.

    A novidade que esta cousa assim feita por El-Rei D. Affonso Henriques
    assim poderá parecer a quem quer que a ler e ouvir, como pareceu
    naquelle tempo, me faz haver por necessario, antes que mais por ella
    prosiga, fazer alguma salva deste caso por trazer comsigo mostra de
    exorbitancia. No que certo, assim como se não pode negar cousas de tal
    modo feitas serem fóra do que os homens devem, assim se não pode deixar
    de confessar o modo e maneira do Rei ser mui fóra dos outros homens; que
    o Rei não é Rei per si nem para si, e para obrar e se salvar, outro ha
    de ser o caminho do Rei, outro o do frade. E pois o coração do Rei é na
    mão de Deos e onde Deos quer o inclina, segundo diz a sagrada
    Escriptura, como se deve crer nem cuidar que Rei catholico e virtuoso
    faça nenhuma cousa similhante fora da vontade e querer de Deos, ainda
    que seja fóra da vontade e parecer dos homens? Que assim como Deos, sem
    nosso saber, nos leva muitas vezes por onde não queremos ao que mais
    devemos querer, assim é de cuidar que dispensa occultamente, sempre
    porem justamente, como se faça ás vezes o que parece que não deve ser,
    porque venhamos ao que elle quer e ordena que seja.

    Ordenava Deos e queria constituir e estabelecer Portugal reino para
    muito misterio de seu serviço, e exalçamento da santa fé; como elle seja
    louvado se manifestou e cada vez mais manifesta, no que com muita razão
    póde tambem entrar este feito d'El-Rei D. Affonso Henriques em fazer
    assim este bispo como figura já então prognosticada do grande misterio
    que só por mão de seus successores Nosso Senhor adiante ordenava, que as
    gentes tinctas das Ethiopias e Indias, e outras terras novamente por sua
    navegação e conquista achadas, viessem a entrar e ser mettidas na fé de
    Christo; e isto tanto pela ventura por Deos querido e figurado então
    neste um negro assi tomado e metido no seio da Santa Madre
    Igreja,–quanto agora a seu muito louvor se vê manifestado e comprido em
    mui e muitos outros, por mão dos successores de quem aquillo fêz. Assim
    que era El-Rei D. Affonso posto então nos começos destas cousas, tendo
    Castella por contraria e pelo seu respeito por ventura o Papa, e pois
    lhe Deus para isso tirava e desfazia os impedimentos, e chegava todos os
    bens e ajudas, como não creremos que dispensando com a ordem que deu
    geralmente entre os homens, inspirasse no coração de El-Rei D. Affonso
    que houvesse por bem fazer assim por então aquellas cousas, e as
    fizesse; quanto mais perseverando elle depois no preposito dellas sem
    mostrança d'arrependimento, como cousa que assim mais compria ao
    misterio que se de Portugal ordenava, que era constituir-se Reino, e
    constituido accrescentar-se, e accrescentado conservar-se, sem ter dever
    com impedimentos humanos contrarios a tal disposição e juiz divino?

    Tem a igreja por Santas, e faz festa a certas mulheres que se matarão,
    por em seus corpos não consentirem corrompimento, e ha por salvo Santo
    Sansão, que tambem se matou, e outros muitos comsigo; havendo a Igreja
    por certo que o virtuoso coração destes não podia obrar tamanho mal como
    é matar-se, senão pelo instincto de Deos inspirado. Quanto mais deve
    cuidar e crer em menos erro de Reis virtuosos por Deos mui ajudados e
    prosperados sendo pessoas publicas postas nos reinos para bem dos reinos
    por Deos, e nas mãos de Deus mais que nenhuns outros homens; e posto que
    por ventura se veja ou leia, que cousas assim feitas não carecerão neste
    mundo de alguma punição, é de cuidar que ordena Deos isso por que se
    conserve todavia proposito e exemplo do que geralmente mandou que se
    fizesse, maiormente não sendo as tribulações e penas deste mundo
    condenação para o outro, mas provação ou mezinha por de um muito bom rei
    fazerem ainda melhor, dando-lhe azo e cauza de mais lembrança e
    conhecimento de Deos e da virtude. Porque, como diz S. Gregorio, os
    males que neste mundo nos apressão para Deos nos empuxão; pelo qual os
    similhantes casos em principes Catholicos e virtuosos, como era El-Rei
    D. Affonso Henriques, não os queiramos assim ligeiramente julgar, que
    não remettamos o intrinseco delles áquelle Supremo Saber do Senhor Deos,
    por cuja providencia se não faz nada neste mundo sem causa, e assim não
    nos fará novidade nem espanto lê-los nem ouvi-los.

    CAPITULO XXIII

    _Como o papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a prisão de
    sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles se passou
    em Coimbra_.

    Quando as novas chegaram ao Santo Padre de como El-Rei D. Affonso
    Henriques não queria obedecer a suas cartas e mandados para soltar sua
    mãi, e fizera assim aquelle Bispo da maneira que se disse, o Santo
    Padre, e toda a Côrte, teve que elle era Herege, e propozeram de lhe
    enviar um Cardeal, que o ensinasse e mostrasse a fé, e corrigisse de
    quaesquer erros que tivesse. O qual veio pelas Côrtes dos Reis de
    Hespanha, que sahião a recebe-lo mui honradamente. E vindo já o Cardeal
    perto de Coimbra onde El-Rei estava, vieram alguns fidalgos a El-Rei e
    disserão-lhe: «Senhor, aqui vos vem um Cardeal de Roma por estardes em
    desprazer e descontentamento do Papa por este Bispo que fizestes.» Disse
    El-Rei. «Ainda me não arrependo.» Elles proseguindo mais avante pela
    nova do Cardeal, disseram: «Senhor, todos os Reis por cujas terras vem,
    segundo se diz, lhe fazem quanta honra podem, e provão para lhe beijarem
    a mão.» Disse então El-Rei: «Não sei Cardeal nem Papa que a Coimbra
    viesse, e me tendesse a mão para lh'a beijar em minha casa que lhe eu
    não cortasse o braço pelo cotovello com esta espada, e disto não podia
    escapar.»

    Estas palavras soube o Cardeal em chegando a Coimbra, e tomou grande
    receio, e El-Rei não quiz sahir fóra a recebê-lo. O que logo o Cardeal
    teve a máo sinal, e portanto em chegando se foi direito a Alcaçova onde
    El-Rei pousava. Alli o recebeo El-Rei mui bem e disse-lhe: «Pois,
    Cardeal, a que viestes a esta terra, ou que riquezas me trazeis de Roma
    para estas hostes que tão a miude faço de dia e de noute contra Mouros?
    Dom Cardeal amigo? Se vós por ventura me trazeis algo que me dês,
    dai-mo, e se me não trazeis nada, tornai-vos vossa via.» «Senhor,» disse
    o Cardeal: «Eu sou vindo a vós da parte do Santo Padre para vos ensinar
    a fé de Christo.» Respondeu então El-Rei: «Certo assim temos nós outros
    cá bons da fé nesta terra como vós lá em Roma, e portanto bem sabemos
    como o Filho de Deos encarnou na Virgem Maria e della nasceo, e isto por
    obra do Espirito Santo, e como morreo na cruz por remir a geração
    humanal e descendeu aos infernos, e ao terceiro dia resurgiu não mortal,
    e que o Padre e o Filho e o Espirito Santo são Tres Pessoas realmente
    distinctas em uma só essencia. Esta fé temos e cremos firmemente tão bem
    como vós lá em Roma; pelo qual não havemos por agora mister de vós outra
    doutrina nem ensino. Mas deem-vos agora essas cousas que houverdes
    mister, e de manhã, se Deos quizer, eu e vós fallaremos.»

    Foi-se então o Cardeal para a pousada, e mandou logo pôr cevada ás
    bêstas, e tanto que foi meia-noute mandou chamar todos os clerigos da
    cidade e excommungou a cidade e todo o Reino, e cavalgou, e foi-se da
    guisa que ante manhã andou duas legoas.

    CAPITULO XXIV

    _Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
    escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
    passou_.

    Levantou-se El-Rei ao outro dia pela manhã, e disse a seus cavalleiros:
    «Vamos ver o Cardeal.» Disseram elles: «Senhor, ante manhã se foi daqui,
    e deixou excommungado a vós e a toda vossa terra.» Disse assim El-Rei:
    «Sellem-me á pressa tal cavallo:» e cingio sua espada, e cavalgou a
    grande pressa quanto pode após elle. Seguião-o todos, mas elle, segundo
    era melancholico, não quiz esperar por ninguem, e foi alcançar o Cardeal
    em um lugar que chamão a Vimieira, a par de Poiares, caminho da Beira, e
    como chegou a elle lançou-lhe mão do cabeção, e com a outra tirou a
    espada, e alçou o braço com ella, dizendo: «Dá a cabeça, traidor,»
    querendo-lh'a cortar. Disserão quatro cavalleiros, que ahi chegarão com
    elle: «Senhor, por mercê não queiraes tal fazer, que se matardes este
    Cardeal cuidarão de todo em todo que sois herege.» Disse então El-Rei:
    «Por essa palavra que ora dissestes, vós lhe daes a cabeça; mas pois
    assim é, disse El-Rei, Dom Cardeal, ou vós desfazei quanto fizeste, ou
    cá vos ficará todavia a cabeça.» «Senhor» disse o Cardeal «não me
    queiraes fazer mal, e toda a cousa que vós quizerdes eu a farei de boa
    mente.» «O que eu quero que vós,» disse El-Rei «façaes, é que
    descommungaes quanto excommungastes, e que não leveis daqui ouro, nem
    prata, nem bestas senão tres que vos abastarão, e mais que me envieis
    uma letra de Roma que nunca eu nem Portugal em meus dias seja
    excommungado, que eu o ganhei com esta minha espada. E isto quero de vós
    por agora, e porem vós deixareis aqui este vosso sobrinho filho de vossa
    Irmã, em prenda até que a letra venha, e se ella até quatro mezes aqui
    não fôr que eu lhe corte a cabeça.» A tudo, disse o Cardeal que lhe
    aprazia, e assim ficou de fazer. Então lhe tomou El-Rei quanta prata e
    ouro lhe achou e bêstas, e não lhe deixando mais de tres que levasse, e
    disse-lhe: «Ora, Dom Cardeal, ide-vos ahi vosso caminho, que este é o
    serviço que eu de vós quero, e todavia venha a letra.» E isto acabado
    ante que se o Cardeal partisse tirou El-Rei a capa pelle, e despio-se
    todo e mostrou muitos signaes de feridas que tinha pelo corpo e disse:
    «Cardeal como eu sou herege bem se mostra por estes signaes, que eu
    houve estas em tal peleja e tal, e estas em tal cidade ou villa que
    tomei, e todas por serviço de Deos contra os inimigos de nossa fé; e
    para isto levar adiante vos tomo este ouro e prata, porque estou muito
    mingoado e me faz mister para mim e para os meus.» Foi-se então o
    Cardeal, e El-Rei tornou-se a Coimbra. Por estas muitas feridas que
    El-Rei assi mostrou ao Cardeal, se póde conhecer quanto maiores forão
    seus feitos e valentia do que se achão escriptos, porque em nenhum cabo
    faz a historia menção que fosse ferido nem uma só vez de tantas nem em
    que lugar.

    Mandou El-Rei logo um escudeiro á Corte de Roma a saber lá o mais
    encubertamente que pudesse que era o que o Papa e Cardeaes lá dizião
    delle por estas cousas que fazia. E o escudeiro partiu e andou de tal
    pressa que chegou primeiro que o Cardeal. A cabo de dias escreveu este
    escudeiro a El-Rei D. Affonso uma carta que elle mostrou e fez lêr a
    esses do seu Conselho, na qual dizia que quando o Cardeal chegára de
    Portugal, e o Papa soubéra como hia, lhe perguntou como passára com
    El-Rei D. Affonso; e o Cardeal lhe contou como lhe acontecera com elle,
    e como lhe ficára de lhe enviar a letra acima dita. O Papa lhe
    reprehendera muito por isto, dizendo que tal cousa como aquella lhe não
    pertencia, sómente á Sé apostolica, nem era dado a elle nem a outro
    nenhum prometter nem ficar por tal caso.–«Senhor Santo Padre!» disse o
    Cardeal: «Eu não digo letra, mas se a cadeira de S. Pedro fôra minha eu
    lh'a deixára e déra de boa mente por escapar de suas mãos; que se vós
    vireis sobre vós um cavalleiro, tão forte e tão espantoso como elle é,
    ter-vos uma mão no cabeção, e outra alçada para vos cortar a cabeça, e o
    seu cavallo não menos alvoraçado, ora com uma mão ora com outra cavando
    a terra, parecendo que já me fazia a cova, vós dereis a letra e o Papado
    por escapardes da morte; e portanto me não deveis de culpar.» Então lhe
    outorgou o Papa a letra na maneira que o Cardeal quiz, e mandou-a a
    El-Rei antes dos quatro mezes. E El-Rei lhe mandou seu sobrinho mui
    honradamente como compria dando-lhe muito. E por causa disto foi depois
    este Cardeal sempre tanto amigo d'El-Rei D. Affonso que todas as cousas
    que elle havia mister da Côrte lh'as fazia e acabava com o Papa.

    E fêz El-Rei D. Affonso em quanto viveo arcebispos e bispos em sua terra
    quaes elle quiz; e a carta que lhe enviou o seu escudeiro mandou ao seu
    escrivão que assentasse e escrevesse no livro das Historias.

    Ora torna a historia a El-Rei Ismar que veio a tomar Leiria.

    CAPITULO XXV

    _Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique veio
    tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e tomou
    Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar Leiria aos
    Mouros_.

    El-Rei Ismar, que foi vencido no Campo Dourique, por El-Rei D. Affonso
    Anriques como já dissemos, tendo sempre grande vontade em guerrear
    Christãos, em especial depois de haver aquelle grande desbarato, ajuntou
    muitas gentes, e veio-se a Santarem, e dali partio levando consigo a
    Euzari que era Alcaide da Villa, e correo a terra, até chegar a Leiria,
    a qual combateo tão fortemente, que entrou por força matando os mais dos
    Christãos que hi acharam, e levando cativo Paio Goterres, que o Prior de
    Santa Cruz ahi leixára por Alcaide, e depois de leixarem Mouros no
    Castello, e Villa, que a bem mantivessem, e guardassem, tornaram-se logo
    para suas terras, fazendo tudo esto com tanta preça, e trigança, que
    El-Rei D. Affonso estando em Coimbra não teve tempo para soccorrer, e
    vir á batalha com elles.

    Foi tomada Leiria del-Rei Ismar era de N. Senhor de mil cento e quorenta
    annos (1140). Quando o Prior de Santa Cruz a que chamavam Theotonio
    homem ante El-Rei muito estimado, vio tomada Leiria, que lhe El-Rei D.
    Affonso com muita devação, e vontade tinha dado, tomou em si grande
    pezar, e partindo-se do Moesteiro, foi-se a guerrear ás terras de
    Alentejo, que os Mouros pessuiam, onde tomou a Villa de Arronches, e em
    quanto assi o Prior lá andou guerreando, El-Rei D. Affonso tendo grande
    pezar por se assi tomar Leiria, ajuntou outra vez gente, e foi sobre
    ella, e Deos que sempre o ajudava em todos os seus feitos, lhe deu tão
    boa esquença, que por força a tornou a tomar, posto que os Mouros a mui
    bem defendessem. E esto foi quatro dias por andar de Fevereiro era do
    Senhor de mil cento e quorenta e cinco annos (1145) e porque vio o Prior
    a quem elle dantes dera a Villa lha não guardára bem, poz em ella, e no
    Castello tal guarda, como compria para sua defensão, que lha não
    podessem assi os Mouros outra vez ligeiramente tomar, e tornou-se a
    Coimbra.

    CAPITULO XXVI

    _Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz, e
    assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
    Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
    Anrique de Lara_.

    Acabo de dias, estando El-Rei D. Affonso em Coimbra chegou o Prior de
    Santa Cruz, e disse a El-Rei: «Senhor vós déstes a esta vossa Egreja a
    Villa de Leiria quando a tomastes aos Mouros, e com quanto eu fiz para
    ella ser guardada todo o que bem podia, e devia, porém por nossos
    peccados foi tomada de Mouros como se vio, pelo qual eu tomei tanto
    nojo, que me fez leixar o modo de meu viver ordenado, e tomar vida de
    andar em guerra, no que me ainda Deos ajudou tanto que tomei a Villa de
    Arronches, e ora Senhor somos aqui ante vós, eu, e meus amigos, o feito
    de Arronches, e Leiria todo pomos em vossas mãos». El-Rei havendo sobre
    esso concelho, e vendo como os negocios temporaes não convinham a tal
    Habito, e religião, maiormente em feitos de guerra, teve por bem que
    todo o espiritual destas Villas ambas, fosse de Santa Cruz, e o temporal
    ficasse sempre aos Reis de Portugal.

    Estando assi El-Rei D. Affonso com mui grande honra, e fama em Coimbra,
    foi-lhe cometido o cazamento com Dona Mofalda Anriques filha do Conde D.
    Anrique de Lara, e a elle aprouve-lhe muito de cazar com ella por estes
    respeitos, primeiramente por a Caza de Lara ser havida, por a mais alta
    linhagem de Espanha, esso mesmo porque em toda Espanha, não havia molher
    nhuma de linhagem de Reis a que elle não fosse mui chegado em
    parentesco, tambem por ella ser muito fermosa, e dotada de muitas
    virtudes, e bondades, e por tanto tomou mui grande contentamento deste
    cazamento, o qual foi feito em Coimbra, era de N. Senhor de mil cento e
    quorenta e seis annos (1146) havendo já sete annos que fora levantado
    por Rei, e fazendo cincoenta e dous annos de sua idade, e por se não
    achar escrito nada das cousas, que se neste cazamento fizeram, nem como
    foram, se não poz aqui mais, que sómente cazar El-Rei, e o tempo em que
    cazou, pelo qual passando por esto, falaremos, como se El-Rei moveo
    depois para tomar a Villa de Santarem.

    CAPITULO XXVII

    _Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
    Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou_.

    Ao tempo que os Mouros a que em Arabigo chamam Miçamidas entraram por
    Espanha, e destruiram a Cidade de Sevilha na era do Senhor de mil cento
    quorenta e sete annos (1147) estava El-Rei D. Affonso em Coimbra havendo
    já oito annos que depois de alçado por Rei reinava, o qual havia muito
    que tinha grande vontade, e desejos de tomar a Villa de Santarem a uma,
    por della se fazer muita guerra, a toda sua terra, a outra por ser a
    milhor Villa do Reino, pela nobreza, e abastança de seu assento, que da
    parte do Oriente a vista dos homens não se póde fartar de ver a
    fermosura dos campos mui chãos, abastados de muito pão, correndo por
    elles o grande, e mui nomeado Rio do Tejo, esso mesmo ao Occidente, e ao
    meio dia desfallece a vista dos olhos em o ver espaçoso, e ao Norte
    contra os Montes, grande avondança de vinhas, e olivaes, pelo qual
    falando muitas vezes El-Rei D. Affonso em seu deleitoso, e abastado
    assento em todalas cousas, chamava-lhe Paraiso deleitoso; era El-Rei mui
    magoado, e todo penoso em seu coração por a ver em poder de Mouros, e
    não poder toma-la, com quanto trabalho já tomára sobre ella, porque a
    Villa não era tão grande de manter, nem defender, aos que dentro
    estavam, nem tão pequena, que se pudesse furtar de poucos, álem desto,
    era mui forte de muro, e torres, e barreira da parte do Occidente a que
    os Mouros chamam Alfão, porque parecia deste cabo cham, em respeito do
    outro cerco que é sobre barrocas mui altas, e da parte do Oriente
    fizeram os Mouros carretar tanta terra aos Christãos que tinham cativos,
    com que encheram de fundo acima, e fizeram um oiteiro de tal altura, que
    lhe puzeram os Mouros nome Alarfa, que quer dizer couza ingreme, e
    temerosa, porque lançavam por alli os que eram condenados por sentença á
    morte, e iam os corpos mortos ter ao fundo á ribeira do Tejo, e da parte
    do Sul por rezão da propriedade da terra esbarrondada que seubre
    chamavam Alfange, que em Portuguez soa quebrada, e não se podia por alli
    haver entrada ao lugar, se não por recaios, e da parte do Norte não
    menos está afortalezado, pela grande altura do Monte que é pedregoso, e
    aspero, pelo qual assi pela grande Fortaleza da Villa, que por nhuma
    maneira de engenhos se podia combater, como pelo grande percebimento de
    muito boa gente, e mantimentos que dentro havia, não podia El-Rei D.
    Affonso haver modo de a tomar, nem remedio para tolher a grande guerra,
    que já de gram tempo desta Villa se fazia a Coimbra, e a outros seus
    lugares.

    Ajudava muito a Fortaleza da Villa, a defficuldade para se poder tomar a
    grandeza das aguas do Tejo, que por junto corre, porque quando lhe
    El-Rei punha guardas de uma parte, se passavam com seus gados para a
    outra, demais que estes campos eram tão cheos de pavez, e insoas, nem se
    podiam andar, se não por barcas em tempos certos: por onde a Villa era
    tão grave de filhar, que seu avô El-Rei D. Affonso de Castella nunca a
    pudera tomar, senão por fome, nem esto mesmo Cid Rei Mouro, nem
    Abderazaca que teve o senhorio della trinta e quatro annos, o que
    parecerá cousa muito de maravilhar quando se ouvir, que semilhante Villa
    foi tomada por El-Rei D. Affonso Anriques com tão pouca gente, e como
    quer que elle cuidasse muitas vezes em seu pensamento como a poderia
    tomar por força, ou por algum despercebimento, aquelles com que esta
    cousa comunicava, representavam-lhe sempre duvidas, de muito grande
    perigo, e receo.

    CAPITULO XXVIII

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
    Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
    teve com os seus para ir sobre ella_.

    Duvidoso El-Rei D. Affonso Anriques nesta maneira de poder tomar a nobre
    Villa de Santarem, assi pelas duvidas que punham esses com que falava,
    como pela grande deficuldade que desse mesmo feito parecia, com todo seu
    grande animo, que sempre em Deos esperava, e a nhumas deficuldades se
    rendia, determinou toda via de trabalhar sobre esso, e fazendo treguas
    com os Mouros, por certo tempo, mandou D. Mem Moniz sabedor de todo este
    negocio, e conselho lá, para que visse, por qual parte, se podia a Villa
    furtar, e entrar mais descançado, e seguramente, o qual indo lá, e
    assentando a tregua espiou todo mui bem, como homem mui avizado, e de
    grande engenho, e esforço que era, e da tornada falou com El-Rei em
    segredo fazendo-lhe o caso possivel, prometendo-lhe que elle seria o que
    fosse diante, e dos primeiros que no lugar entrassem, e poria a sua
    bandeira sobre o muro, e quebraria as fechaduras das portas, e assi o
    fez depois, porque era tão bom Cavalleiro, de sua pessoa, e para tanto,
    que para servir El-Rei, e cumprir sua Cavallaria, todalas cousas lhe
    pareciam mui ligeiras, e seguras de perigo.

    El-Rei foi mui ledo com seu recado, e esforço, porque entendia,
    fazendo-se como D. Mem Moniz dizia, a Villa poderia tomar, não sendo
    primeiro descuberto, e tanto lhe pareceo que cumpria ser feito com
    grande segredo, que não quiz falar esta cousa aos de seu Conselho, em
    seu Paço, receando-se de poder ser em algum modo ouvido, antes foi um
    dia a folgar ao campo chamado Arnado, e alli apartou D. Lourenço Viegas,
    e D. Gonçalo de Souza, e D. Pero Paes seu Alferes, e outros, e
    contou-lhes todo seu intento, e proposito do que queria fazer,
    mandou-lhes que o tivessem em mui grande segredo sobpena de morte, em
    tal guiza, que ninguem o podesse entender, em quanto alli estivessem,
    nem á partida, e o conselho acabado, tornou-se El-Rei para o Paço, e
    vindo pela rua da figueira velha chegando á Praça disse uma velha
    regateira contra as outras: «Quereis vós saber, o que El-Rei com
    aquelles seus companheiros falou» disseram ellas: «Que falou?» Falou
    disse ella, «como fossem furtar Santarem». El-Rei que passando ouvio
    tudo, e vendo todos aquelles com que falara esta cousa ir comsigo diante
    sem nunca se apartarem delle, foi assi maravilhando-se até o Paço, e
    como descavalgou chamou os todos, e disse-lhes: «Não atentastes no que
    disse aquella velha, certo se algum de vós se apartára de mim, eu
    cuidava que fora descuberto por elle, e lhe mandara por ello cortar a
    cabeça, sem o merecer».

    CAPITULO XXIX

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
    Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
    hora lhe foi revelado lá em França, onde estava_.

    Depois desto fez El-Rei prestes sómente os seus continuos de sua caza, e
    alguns poucos de Coimbra, com Gonçalo Gonçalves, e assi mantimentos que
    lhes abastassem, e ante que partisse foi-se ao Moesteiro de Santa Cruz a
    falar com aquelle devoto homem Prior do Moesteiro em que elle tinha
    grande e singular devação, e encomendou-lhe sua alma, e seu estado, assi
    como houvesse de partir deste mundo, dizendo-lhe todo o que tinha
    ordenado para ir fazer, e quando havia de ser, encomendando-lhe muito
    afincadamente que naquelle dia com seus amigos rogasse a Deos de vontade
    que o quizesse ajudar naquelle feito a que iam por seu serviço, e que
    esta couza tivesse em grande segredo. Então se partio El-Rei uma segunda
    feira não sabendo ninguem para onde iam; salvo aquelles a que o
    comunicara, e levaram o caminho tão revessado, e encuberto que os Mouros
    não houveram novas delles, e vieram aquelle dia poer as tendas em
    Alfasar, esta foi a sua primeira jornada, ao seguinte dia partiram, e
    foram dormir a Codornolos, e dali mandou El-Rei a Martim Mohaz que fosse
    dizer aos Mouros de Santarem que elle levantava a tregua da li em
    diante, e que a paz dantre si, e elles, fosse quebrada até tres dias,
    que segundo costume daquelle tempo, cada um podia engeitar a tregua a
    seu imigo quando lhe aprovesse, com tanto que lho fizesse primeiro
    saber. Martim Mohaz foi, e depois de comprir o mandado que levava,
    tornou á quarta feira a Aldeguas, onde El-Rei estava, o qual partio da
    li, e indo pela serra Dalvardos acertou-se que D. Pedro irmão bastardo
    del-Rei, que fora já em França, ia falando com elle dos muitos milagres,
    que naquella terra Deos fazia pelo Abbade S. Bernaldo que então era
    vivo, e como lhe Deos outorgava toda couza que lhe pedia.

    Então El-Rei movido a devação pelas couzas que lhe seu irmão assi
    contava, disse: «Eu á honra, e louvor de Deos, prometo que se me elle
    Santarem quizer dar, por sua piedade, e pelos rogos do Bemaventurado S.
    Bernaldo, que vós dizeis, e eu lhe dê toda esta terra para a sua Ordem
    quanta vejo daqui até o mar, e que faça um Moesteiro em que Frades da
    sua Ordem vivam a serviço de Deos, e porque ella seja mais acrecentada».
    E segundo conta a Lenda de S. Bernaldo, tanto que El-Rei fez este voto,
    logo lhe a elle foi revelado lá em França, onde estava esta promessa
    del-Rei, e como havia de tomar Santarem aos Mouros, e em como aquelle
    Moesteiro que El-Rei prometera de fazer seria mui nobre, e abastado de
    todalas couzas, segundo depois foi, e é agora um dos grandes, e ricos
    Moesteiros da sua Ordem que ha na Christandade.

    Tanto que o Abbade S. Bernaldo assi houve esta revelação mandou logo
    tanger a Cabido, e todos os Monges juntos, lhes contou o que lhe fora
    revelado, então todos cantando: «Te Deum Laudamus», foram á Egreja dar
    graças a Deos, e mandáram logo partir certos Monges para Portugal com
    livros da sua regra, e ordenança, e os que quizessem, viessem para alli,
    os quaes em se começando a obra do Moesteiro, vieram hi ter, e tomaram
    posse pela ordem da Doação que lhe El-Rei fizera, começando hi de viver,
    segundo sua Regra com muito acrecentamento, o qual a N. Senhor aprouve
    que fosse sempre depois, e agora neste tempo.

    CAPITULO XXX

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
    Santarem, e das rezões que disse a todos_.

    Na serra Dalvados, que acima dissemos, esteve El-Rei a quinta feira até
    noite, e dahi abalaram ao serão andando toda a noite, até a mata que
    está sobre Pernes, onde chegaram sexta feira amanhecente, então concirou
    El-Rei que era bem descobrir a todos seu desejo, e ao que iam, e fez-lhe
    uma falla nesta maneira: «Meus bons Cavalleiros, e amigos, mais
    verdadeiramente, que a outros nhuns se ha de chamar, bem sabeis quantos
    trabalhos, e fadigas comigo, e sem mi padecestes por azo desta Villa de
    que ácerca estamos, e quanta guerra, e males tem feitos á nossa Cidade
    de Coimbra, e a todo meu Reino por muito tempo, pelo qual detreminei de
    a vir com vosco escalar, e tomar, como em Deos espero, e ainda que
    parece necessario chamar mais gente para esso, e seja certo que me viera
    de mui boa vontade, porém não quiz, nem escolhi mais que vós soes, em
    que sempre puz, e ponho meus conselhos, e fadigas, e cuja lealdade, e
    valentia, em muitos perigos meus conhecida me deu sempre de vós, tal, e
    tão firme confiança, que com a graça de Deos, ei já por feito o que
    vimos a fazer, alem desto vejo em vossos gestos, e continencias não
    menos sentirdes, e dezejardes, esta couza que eu mesmo, o que me cauza
    tanto prazer, que já me não parece termos nisto mais pejo, que a detença
    deste dia, que passe azinha, para com a graça de N. Senhor nos irmos a
    noite seguinte apossentar dentro na Villa, e o que tenho cuidado para se
    esto mais ligeiramente fazer, escolham-se cento e vinte de nós, para dez
    esquadras partidos a cada uma doze, que logo no primeiro sobir, se achem
    não menos de dez sobre o muro, e assi se dobre cada vez o conto da
    gente.

    Os primeiros que sobirem alevantem logo minha bandeira, para esforço dos
    nossos, e esmaio dos imigos se espertarem do sono, e a poz esto quebrai
    as fechaduras das portas, e assi a volta, e estrondo, dos que pela porta
    entrarem, ajuntados com os de dentro esmaiarão mais os imigos, em cuja
    matança de homens sahidos do sono, uns, e desarmados, bem vedes quam
    pouco ha de fazer. Vós a nhuma pessoa não perdoeis, nem deis vida, nem a
    homem, nem a mulher, moço, nem velho, de qualquer idade, e qualidade,
    todos andem á espada, e esto fazei com grande e trigozo esforço, que
    Deos será ahi em nossa ajuda, para cada um de nós matar cento delles, e
    hoje, e á menhã fazem por nós oração geral o Prior, e todos os Conegos
    do Moesteiro de Santa Cruz, a que eu ante que partisse notifiquei o que
    vinhamos fazer, e assi tambem a Cleresia, com todo o povo, e por que
    lhes disse que tinha trato, e intelligencia na Villa, para nos dentro
    receberem, me perdoe Deos esta mentira, que ácinte lhe disse, porque lhe
    esforçasse os corações, e vontades; assi meus amigos vos esforçai, e
    peleijai como sempre fizestes, lembrando-vos o que fazeis por Deos, por
    mi, e por vós, por vossos filhos, e netos, hi serei eu, e me verei com
    vosco, que não póde haver afronta, nem perigo, que a viver, e morrer me
    aparte de vós, como vejo que fareis por mi».

    Ouviram todos a El-Rei, mui promptos, e animados, em seus corações, para
    ouzarem, e cometerem todo o que lhes falou, mas consirando elles antre
    si, a grande ardideza del-Rei, e o muito perigo a que se queria poer,
    apartaram-se com elle, e disseram. «Senhor vossa pessoa, não irá com
    nosco, que se formos vencidos, nossos imigos não haverão tanto louvor,
    nem que morramos delles, ou todos, não é muito de curar, salva vossa
    pessoa, e tirada de semelhante risco, cuja perda que Deos defenda seria
    perder-se Portugal, e leixando-vos nòs entrar em tamanho perigo, seria
    nossa linhagem sempre desdita, e prasmada, como filhos de tredores, que
    tendo tal Rei consentiram perde-lo». El-Rei respeitando o que lhe assi
    diziam, a muito amor respondeo-lhes com outro tanto, estas palavras: «Oh
    amigos, rogo a Deos se este anno, eu hei de viver sem vós tais
    Cavalleiros tomardes esta Villa de Santarem, a elle praza que antes eu
    desta vez em ella morra».

    CAPITULO XXXI

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
    Santarem, e dos sinais que pareceram_.

    Passado assi esto com outras muitas palavras, e praticas sobre o caso,
    aparelharam todo o que fazia mister, para tal obra, e leixando alli as
    tendas, e todo o al que traziam, cavalgaram em seus cavallos, e chegaram
    aos olivaes de Santarem, de noite. Esto era em vespora de S. Miguel de
    Maio sete dias andado do mez, na era de mil cento e quorenta e sete
    annos, (1147) e chegados alli viram um sinal, que lhes esforçou muito
    mais os corações; viram uma estrella grande ardente com grande raio
    correndo pelo Ceo, da parte da Serra, que alumiava a terra, e foi ferir
    no mar. Vendo esto disseram logo todos. _Senhor Deos todo poderoso a
    Villa é em vossas mãos_. Esso mesmo no dia que El-Rei mandou notificar
    aos Mouros o britamento das treguas, que acima dissemos aos da Villa,
    appareceo outro sinal mui espantoso pronostico de sua mortindade, que
    foi na terceira noite seguinte, viram no Ceo a horas do meio dia
    semelhança de um Touro ir por meio do Ceo, levando chamas de fogo
    acezas, desde o cabo até á cabeça. O que esses mais sabedores antre os
    Mouros, intrepetáram que Santarem haveria cedo Rei novo, e seria o filho
    del-Rei de Sevilha Mouro, cujo Santarem, e Lisboa, e parte da
    Estremadura era.

    Sendo já El-Rei com os seos perto da Villa, lançaram-se em um valle
    encuberto, e escuso, tão acerca do lugar, que ouviam falar as velas do
    muro, quando bradavam uns aos outros, e estiveram alli toda a noite, com
    os cavallos pelas redeas, vigiando com grande cuidado, do que ao dia
    seguinte esperavam de fazer, sem os Mouros delles haverem nhum
    sentimento.

    Em esta noite, e o dia seguinte o Prior de Santa Cruz de Coimbra, com
    grande devação ocupado em rogar a Deos por El-Rei, mandou fazer aos seus
    Conigos orações publicas, e particulares, e elle em seu orar mui
    devotamente dizia: «Senhor Deos todo poderoso, que sem combate, nem
    força humana fizeste cair os muros de Jericó, e a rogo, e voz de Jezoé,
    mandaste estar quedo o Sol de seu curço contra Guabaão, pesso á tua
    infinda bondade, que segundo tua grande misericordia queiras dar vitoria
    a El-Rei D. Affonso afadigado por te servir, dando-lhe Sol, e sombra que
    ajude sua tenção, e todo o azo como tome a Villa, que vai ganhar, para
    teu serviço, e livrar dos imigos que a tem com doesto de tua santa Fé, e
    por tal que a çuja seita de Mafamede seja lançada fóra della, e o teu
    santo nome seja sempre hi louvado.

    CAPITULO XXXII

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
    Santarem, e foi entrada, e tomada_.

    Desque veio a madrugada sobre o quarto dalva, quando elles entenderam
    que as velas estavam mais sosegadas, e sonorentas, e os da Villa mais
    desegurados, e entregues ao sono, partiram donde estavam, leixando
    naquelle valle os pajes com os cavallos, e tomaram o somideiro antre
    Motiraz, e a fonte Datamarma, a qual assi chamam em Arabigo, pelas aguas
    della, que são doces, e foram assi pelo meio do Vale, indo diante D. Mem
    Moniz que sabia bem as entradas, e saidas, e El-Rei mais atraz, e posto
    que por onde levaram tenção de escalar, achassem o contrario do que
    cuidavam, porém Deos a cujo poder não póde haver contrario, lhe tornou
    em bem este impedimento, por mostrar assi seu poder e ajuda, que no
    lugar porque haviam de entrar, e sobir, tinham por certo não haver ahi
    nhuma guarda, e acharam estar duas velas, postas em um cadafalço, feito
    de novo, que se espertavam um ao outro; e nisto, a rolda que andava pelo
    muro requerendo ás velas, chegou por hi, e falou-lhe, e os Christãos
    leixáram-se estar quedos, em um pão, que hi estava, até lhes parecer que
    as velas poderiam adormecer.

    E ao cabo de pouco abalou D. Mem Moniz trigozo com os seus pelo infesto,
    e foi por cima da caza de um oleiro, ao muro a poer a escada, em uma
    aste a fundo, e deu no telhado fazendo grande som; do que D. Mendo
    havendo grande pezar de pela ventura, espertarem as velas amergeu-se, e
    de hi a pouco fez assentar curvo, um mancebo, e por cima delle poz a
    escada mais entregue no muro por onde tanto que acima sobio logo
    levantou a bandeira del-Rei, que levava; subiram dous com elle, e não
    sendo ainda mais de tres sobre o muro, não leixaram as velas de acordar,
    e senti-los, e falou um delles com voz rouca, e dormente, como
    desvelado, e tresnoitado, e disse: _Menhu_ que quer dizer, _quem anda
    ahi_. Respondeo então D. Mendo por Aravia, que era dos da rolda, e
    tornava por lhe dizer cousas que compriam, que decesse abaixo; o Mouro
    tanto que deceo foi D. Mendo mui prestes a mata-lo, e cortou-lhe a
    cabeça, e deitou-a aos de fóra, para mais seu esforço, e seguro, e nesto
    a outra vela quando ouvio, e conheceo que eram Christãos, e não sendo
    ainda em cima do muro, mais que dez dos nossos, chegaram os da rolda
    correndo aos brados da vela que ouviram, e encontrando-se com os
    Christãos, vieram ás cutiladas bravamente os nossos por darem começo, e
    entrada ao porque iam, e os Mouros pola tolher, antes que o mal mais
    crecesse.

    D. Mendo nesta afronta bradou chamando em ajuda Santiago Patrão de
    Espanha; e El-Rei tambem do pé do muro, altas vozes acodio: «Santa Maria
    Virgem Bemaventurada, e glorioso Apostolo Santiago acorre-nos». Bradando
    aos seus, que eram em cima do muro. «Matai-os: andem á espada todos, que
    não fique nhum», e os que sobiram, apartaram-se logo pelo muro, em duas
    partes peleijando cada uma com os Mouros que vinham.

    Era já tamanha a volta, e arroido de ambas partes que se não podiam
    entender, El-Rei disse então aos seus mui apressado: «Façamos ajuda aos
    nossos, e tenhamo-nos á parte dextra se podermos sobir alfam, e Gonçalo
    Gonçalves com os seus a seextra, que filhe primeiro o caminho que do
    ceicego, que não possam os Mouros vir por lá, e tomar primeiro a entrada
    da porta, e assi atalhados se percam os nossos dentro á nossa mingua, e
    deshonra». Mas o Senhor Deos, que ajuda as obras de seu serviço lhes
    mudou em melhor, e mais seguro sua tenção, e fadiga, que onde se
    trabalhavam de entrar pelo muro, entraram pela porta, e de dez escadas
    que fizeram, duas sós abastaram para tudo, porque sobiram até vinte e
    cinco, os quaes correram mui prestes a quebrar as portas com um machado
    que lhes fora dado de fora, e britadas as fechaduras, e ambudes entrou
    El-Rei a pé com os seus, e poendo os giolhos em terra, antre as portas,
    com grande prazer, se encomendou, e deu muitas graças a Deos.

    Os Mouros acodiram todos alli peleijando mui rijamente, e vendo já
    dentro comsigo tanta gente desesperando de se poder alli ter,
    acolheram-se os mais delles a Alfam, mas pelo despercebimento em que se
    acharam foram logo entrados, e mui muitos delles homens, e molheres, e
    moços trazidos á espada de que foi o sangue tanto pelas ruas, que
    parecia serem alli mortos grande multidão de gados. Todos os que
    escaparam de não serem mortos na peleija, foram cativos com grandes, e
    ricos despojos que na Villa se acharam. Foram hi antre outros cativos,
    tres Cavalleiros principaes mui ricos de que El Rei houve fazenda de
    grande valia. Para o escalamento desta Villa foram escolhidos,
    primeiramente D. Mem Moniz Guarda mór del-Rei, e delle mui querido,
    filho de D. Egas Moniz, e D. Pedro Affonso irmão del-Rei bastardo, e D.
    Lourenço Viegas, e D. Pero Paes seu Alferes, e D. Gonçalo de Souza, e
    outros nobres homens.

    CAPITULO XXXIII

    _Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para Sevilha, e
    El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa Santarem_.

    Entrada, e tomada assi a Villa de Santarem, Auzary Alcaide mór della,
    escapou fugindo, com tres de cavallo consigo caminho de Sevilha, quanto
    mais pôde. Estava El Rei Mouro de Sevilha sobre a Torre do ouro chamada,
    e quando Auzary assomou vendo-o El-Rei vir, veio-lhe por sentido,
    segundo muitas vezes o coração sente dante mão, e advinha as cousas, que
    seria aquelle Auzary, e disse-o alli aos que com elle estavam; elles
    mostráram não cair em couza de tão longe enxergada, e tambem por desviar
    El-Rei do sentido de más novas antecipado; e disse então El-Rei: «Se
    aquelle que vem é Auzary, e chegando a aquelle porto derem agua aos
    cavallos: Santarem é tomado; e se não derem de beber, Santarem é
    cercado, e vem Auzary a gram pressa a demandar soccorro». Os de cavallo
    chegando ao porto deram agua de seu vagar, El-Rei carregou-se mais de
    sua prognostica, e chegando Auzary, contou-lhe como se tomára a Villa, e
    da grande mortindade que se nella fizera de que El-Rei de Sevilha, e
    todos os Mouros houveram grande pezar, não só pela perda desta Villa,
    mas de outras a que a perda desta dava cauza forçada.

    El-Rei D. Affonso desque tomou a Villa, poz nella seu Alcaide,
    leixando-a abastecida como compria, e tornou-se para Coimbra com muito
    prazer, onde contando á Rainha sua molher, e a outros muitos como lhe
    acontecera na tomada de Santarem, disse estas palavras: «Dou a Deos dos
    Ceos muitos louvores, ante cujos olhos todalas couzas são sabidas, e
    conhecidos; que não tenho agora a grande maravilha, serem pelo seu poder
    em outro tempo os muros de Jericó, como se lê derribados, nem estar
    quedo o Sol por rogo de Josué um dia todo, em comparação da piedade, e
    misericordia que lhe aprouve fazer comigo, em me dar um tão forte lugar
    tomado com tão pouca gente, pelo qual glorifico o seu Santo nome, e suas
    maravilhosas obras, as quaes renovando em nossos dias elle, quiz mostrar
    neste feito, tanto sobre poder humano, que qaando me eu vi ante as
    portas da Villa abertas, poendo meus giolhos em terra com muita devação,
    e prazer de minha alma, orei a elle palavras que me elle naquella hora,
    como todo o al, então deu no esprito quejandas agora não saberia dizer:
    mas dos ousados esforços, e cometimentos, que se na tomada da Villa
    fizeram, digam-no os que se alli acharam, porque não é em mi dize-lo».
    Esta Villa se chamava antigamente Cabilycrasto, e depois da morte de
    Santa Eyrea, lhe pozeram os Christãos nome de Santarem, que vem de Santa
    Eyrea Martyre que a ella veio ter.

    CAPITULO XXXIV

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a tomou,
    e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda_.

    Depois de tomado Santarem se foi El-Rei D. Affonso para Coimbra como se
    disse, e não para descançar, nem repousar seu coração, que nunca cessava
    de buscar afrontas, e louvadas impresas, em que Deos fosse servido, mas
    para o melhor ordenar, como em fresco, se milhor aproveitasse do
    vencimento, e tomada de Santarem, sabendo que nas guerras fama de uma
    vitoria aproveitada com tempo dá azo a muitas, pelo qual ajuntou logo
    seu poder para conquistar os lugares que ficavam na Estremadura de
    Santarem até o mar, em especial a Cidade de Lisboa, a qual tomou no modo
    que se segue.

    Chegando El-Rei a terra onde Lisboa está situada, pareceo-lhe milhor
    guerrear, e tomar as fortalezas ao redor della ante de cercar a Cidade
    por tal que quando viesse o cerco tivessem os seus menos trabalho nas
    forragens, e se podessem os seus mais ligeiramente sem outras guardas
    estender pela terra, e alli tomou logo o Castello de Mafora, e deu-o a
    D. Fernão Monteiro, o primeiro Mestre de Aviz que houve em Portugal, e
    apoz esto foi logo cercar Sintra, e tomou-a, mas se foi por força, se
    por preitesia não o achamos escrito, e sendo assi tomada, appareceo no
    mar uma frota de cento e oitenta velas, de gentes, que naquelle tempo
    moveram de Alemanha, e de Inglaterra, e de França, para guerrear os
    infieis por serviço de Deos, e vindo assi todos de mar em fóra demandar
    terra á rocha de Sintra.

    Estava El-Rei D. Affonso em cima do Castello, e seus principaes que com
    elle eram, e maravilhando-se do ajuntamento, e navegação de tão grande
    frota, mandou logo quatro Cavalleiros, a saber que gentes eram, e a
    causa de sua vinda, os quaes chegando a Cascaes já a frota toda pousava,
    vieram então a fallar, e preguntar-lhes que gentes eram? Elles
    responderam, que eram Christãos partidos de suas terras para virem
    guerrear por serviço de Deos os Mouros imigos de sua santa Fé. Nesta
    frota vinham muitos Condes, e outros grandes Senhores, mas a escritura
    não falla de seus nomes, mais que de quatro, um por nome Mossem Guilhem
    de longa espada, Conde de Lincoll de que se diz ser em seu tempo havido
    pelo milhor Cavalleiro, que sabiam em toda a Inglaterra, nem França, ao
    outro chamavam Childe Rolym, ao outro D. Liberche, ao outro D. Ligel.

    Sabendo El-Rei pelos que lá mandára como eram Christãos, e da tenção que
    traziam para servir a Deos, foi desso mui ledo, e bem se lhe poz no
    sentido que Deos fizera mover aquella gente, e aportar em sua terra, por
    lhe fazer tanta mercê, que a Cidade de Lisboa fosse tomada, e deu-lhe
    por ello em seu coração muitos louvores, pelo qual lhes enviou
    mensageiros, porque lhes mandou dizer como elle soubera os bons
    movimentos, e tenção de suas boas vontades, que traziam para servir a
    Deos, e que fossem bem certos que não sem misterio seu, e vontade, elles
    eram alli aportados trazendo-os N. Senhor a tal logar, onde o bem podiam
    servir, e comprir seus desejos, e devação, e não menos accrescentar suas
    honras para esse mundo, porque de alli donde elles estavam pouzados não
    mais de cinco leguas, estava uma cidade de Mouros mui guerreira das
    principaes de Espanha, de que por mar, e por terra se fazia muita
    guerra, e dano aos Christãos, a qual tinha mui fermoso porto, em que
    suas Náos, e muitas mais podiam mui seguramente estar ancoradas, e elles
    haver muitos mantimentos em abastança, e pois ao Senhor Deos aprouvera
    sem irem trabalhar mais longe, traze-los tão perto de tamanho azo, e
    oportunidade para o que vinham buscar, não leixassem esta empresa por
    Deos tão querida, e mostrada por outra nhuma creatura, e que elle como
    Rei que era da terra os ajudaria a esso com todas suas forças, como
    elles bem veriam.

    Andaram assim estes recados de uma parte, e da outra, até que vieram
    concertar de irem juntamente todos cercar a Cidade, á condição que sendo
    tomada, ametade fosse del-Rei, e a outra metade dos Estrangeiros, e
    assim logo El-Rei por terra, e a frota por mar foram poer cerco a
    Lisboa; El-Rei acentou seu arrayal da parte do Oriente, onde agora está
    o Moesteiro de S. Vicente de Fóra, e os Inglezes, e outras gentes
    tomaram a parte do Ponente, onde ora são os Martyres. Durou o cerco
    perto de cinco mezes, por a Cidade ser mui forte, de sitio, e cerca, e
    estarem dentro muitos Mouros, que a mui bem defendiam; fizeram-se neste
    cerco grandes escaramuças, e fortes combates, em que se matavam muitos
    Cavalleiros de uma parte, e da outra. Cada um arrayal dos Christãos,
    edeficou sua Egreja em que enterrassem os que alli morriam, e El-Rei D.
    Affonso fez a sua, onde depois foi edeficado o Moesteiro de S. Vicente á
    honra do Martyre S. Vicente, e os Estrangeiros edeficaram outra que ora
    é chamada Santa Maria dos Martyres. Estas Egrejas estão agora dentro dos
    muros da Cidade, desque a cercou El-Rei D. Fernando o noveno Rei de
    Portugal, como se adiante dirá, porque quando Lisboa esta vez foi tomada
    a Mouros, não era sua cerca maior, que quanto se ora vê, e chama cerca
    velha.

    Quando veio em dia dos Martyres S. Chrispino, e Chrispiniano, que é aos
    vinte e cinco dias do mez de Outubro, andando a era do Senhor em mil
    cento quorenta e sete annos, (1147) foi a Cidade mui rijamente, e com
    grande determinação combatida, dando o Senhor Deos tanta graça aos
    Christãos, que seu esforço, e gram devação de peleijar por seu serviço,
    passava pelas muitas feridas, e mortes, e todas outras grandes
    difficuldades, e perigos do combate, havendo elles todo por menos, pelo
    grande pezar que tinham em lhe parecer que todo seu trabalho seria
    debalde, e Deos não servido, se a Cidade se não tomasse, e assi com este
    fervor, e mui animosa determinação, poendo em fim o que os seus devotos
    corações tanto desejavam, entraram a Cidade por força.

    Entrou-se principalmente por a porta que ora chamam de Alfama, e de hi
    pelas outras portas, e depois de entrada foi dentro a peleija muito mais
    fera, que janda soe antre irados vencedores, e vencidos, desesperados,
    peleijando já os Mouros com estremada desesperação, e vontade de querer
    antes morrer antre as mortes de suas molheres, e perdimento de filhos,
    paes, parentes, e amigos, e assi os Christãos não com menos indinação
    por infieis entrados, e vencidos querendo ainda mais deter, e daninficar
    seu vencimento, nem se querendo dar por vencidos, por tanto foi tão
    grande a mortindade delles, e sobejo o conto dos que foram mortos, e
    trazidos a ferro, que é escuzado cuidar quão poucos ficáram.

    CAPITULO XXXV

    _Do que El Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade de
    Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes Estrangeiras_.

    Oesque a Cidade de Lisboa assi foi tomada por El-Rei D. Affonso
    Anriques, e aquelles Estrangeiros, com elle ajuntou logo El-Rei todos, e
    com grande procissão se foram á Mesquita onde ora está a Sé edeficada, e
    depois de limpa, e mundificada das abominaveis ceremonias que hi eram
    feitas da seita de Mafamede, os Clerigos, e Bispos revestidos, segundo
    sua ordem, com _Te Deum laudamus_, entraram nella, e assi foi
    consagrada, e instituida á honra e louvor da Virgem Maria, celebrando
    logo em ella os officios Divinos, nomeando-a por Sé Cathedral, se ao
    Santo Padre aprouvesse. Feito esto mandou El-Rei logo chamar Mossem
    Guilhem de longa espada, Childe Rolim, e D. Liberche, e D. Ligell, e
    outros Capitães, grandes, que eram na companhia dos Estrangeiros, e
    disse-lhes. «Amigos bem sabeis como concertámos se nos Deos desse a
    Cidade que a partissemos por meio, e pois a elle por sua piedade aprouve
    de a tomarmos, muitos louvores, e graças lhe sejam dadas, vós escolhei,
    e tomai Cavalleiros, e eu darei outros que vão partir a Cidade, e assi
    todalas cousas que dentro, e fóra della houver, e forem achadas.»

    Vendo esto aquelles Capitães, e gentes Estrangeiras tiveram a grande bem
    o que El Rei dizia, e responderam-lhe que haveriam sobre ello concelho,
    e lhe tornariam reposta. O concelho, e determinação delles foi, que pois
    partiram de suas terras, e foram alli vindos, só com tenção de servir a
    Deos, nem fora outro nenhum seu proposito, e vontade, não queriam haver
    Cidades, nem terras, nem outras riquezas, quanto mais não lhes parecendo
    cousa conveniente que tal Cidade fosse partida, nem manteuda com El Rei
    de por meio em sua terra, que abastava para elles leixarem-na em poder
    de Christãos como fora seu dezejo, e assi se foram a El-Rei, e lho
    disseram mui francamente, o que lhes elle muito agradeceo,
    offerecendo-se, que se alguns delles, e de suas gentes quizessem ficar
    em sua terra, elle lhe daria lugares para povoarem, e viverem em elles
    izentamente, e ás suas vontades. Depois desto partio El-Rei grandemente
    com os Capitães, e gentes que quizeram tornar para suas terras, e assi
    se espediram delle com muita sua graça, e os que ficáram para morarem na
    terra escolheram para sua povoração vivenda a Atouguia, e Lourinhã, e
    Arruda, e Villa-verde, e Villa-franca, que primeiro foi chamada
    Cornagoa, porque aquelles que a povoaram eram Ingrezes de Cornualha, e
    chamaram-na do nome de sua terra, e povoaram tambem a Azambuja, e
    pozeram-lhe este nome, porque estava alli um grande Azambujeiro, e os
    Ingrezes por em sua lingoa fazerem do mascolino, femenino, chamaram-lhe
    Azambuja. E segundo memoria dos edeficadores daquelle lugar, o senhor
    daquelles que a povoaram havia nome Rolim, não que por esso fosse Childe
    Rolim, o que em cima dissemos ser um dos grandes Senhores que naquella
    frota vinha, o qual não é de cuidar que ficasse em Portugal para povoar
    terra de novo, havendo tantas Villas, e lugares povoados, de que mais
    com rezão se devera partir com elle ficando na terra, mas é bem de crer,
    que fosse outro algum Capitão Fidalgo seu parente, com que folgassem de
    ficar, e seguir alguma daquella gente, segundo que desentão, e hoje em
    dia seus sucessores, bem mostráram sua cavallaria, e fidalguia com muita
    honra, e serviços feitos aos Reis, e Reino de Portugal, e outros alguns
    destas gentes povoaram Almada, e pela nomeação deste nome se mostra que
    foram muitos a povoa-la, e faze-la, ou por trabalho de suas pessoas, ou
    por contribuirem dinheiros para esso, porque o proprio nome seu em
    linguagem Ingreza é, vimadel, que quer dizer em Portuguez: _todos a
    fazemos_, e depois por tempo, que todalas cousas muda, corrompendo-se o
    nome, lhe chamáram Almadam, o que ainda vae ter a Almadee, que soa em
    Ingrez, todo feito, mas leixaremos aqui um pouco de proseguir a Estoria
    por contarmos de alguns milagres, que a N. Senhor aprouve de fazer por
    alguns Martyres, que no cerco, e entrada de Lisboa morreram, em especial
    de um Cavalleiro Alemão por nome Anrique, sendo muita razão, que os
    Justos sejam como diz a sagrada Escritura em memoria eterna, e de sua
    gloria por Deos manifestada, se faça louvada menção, pois se faz de seus
    temporaes feitos, cujos merecimentos por muito que neste mundo
    mereçamos, não chega á gloria, e louvor do premio, que no outro ante
    Deos se alcança.

    CAPITULO XXXVI

    _Dos milagres que Deos mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que morreo
    quando a Cidade de Lisboa foi entrada_.

    Acima se disse, como durando o cerco de Lisboa soterraram os mortos
    naquellas duas Egrejas, que nos reaes se fizeram para esso, e tomando-se
    a Cidade aconteceo dos que na entrada soterraram na Egraja que ora é
    chamada S. Vicente de Fóra, um nobre, e valente Cavalleiro Alemão
    chamado Anrique, comprido de bons, e virtuosos costumes, foi morto
    naquelle combate peleijando mui esforçadamente, e sendo assi enterrado
    naquelle lugar N. Senhor em cujos olhos é mui preciosa a morte dos seus
    Santos, e Bemaventurados aquelles, segundo elle disse, que no amor de
    Deos, quanto mais os que por seu amor morrem, fazia por este Cavalleiro
    Anrique muitos milagres de que alguns sómente por mostra brevemente
    diremos.

    Vinham na frota daquellas gentes Estrangeiras dous homens surdos, e
    mudos de seu nacimento, e indo um dia á sepultura daquelle Cavalleiro
    deitaram-se apar delle com grande devação, pedindo em suas vontades, que
    por seus merecimentos lhes empetrasse do Senhor Deos piedade, e
    misericordia para sua infermidade, elles jazendo assi adormeceram ambos,
    e appareceu-lhes logo em sonhos o Cavalleiro Anrique vestido em trajos
    de Romeiro, trazendo na mão um bordão de palma, e falou áquelles
    mancebos, dizendo-lhe: «Alevantai-vos folgai, e havei prazer, e hi ouvi,
    e falai, que pelos merecimentos meus, e destes Martyres, que aqui
    jazemos, ganhastes do Senhor Deos graça, a qual é com vosco». E dito
    esto desapareceo; elles então acordaram, e achando-se sãos de todo,
    ouvindo, e falando milagrosamente, e assi em voz e linguagem clara,
    começaram a contar a todo o povo o milagre que Deos em elles fizera
    pelos merecimentos deste Cavalleiro.

    E El-Rei D. Affonso, e todos os que hi estavam davam muitas graças, e
    louvores ao Senhor Deos, que taes maravilhas obra, como diz o Profeta,
    por honrar, e exaltar os seus Santos, e amigos. Era este Cavalleiro
    Anrique natural de uma Villa que se chama Bom composta na ribeira de
    Reina quatro leguas acima de Colonha, na qual eu fui, e estive dessas
    vezes, que áquellas partes fui enviado por Embaixador, vendo-a sempre
    com muita affeição, e saudosa lembrança deste Santo Cavalleiro Anrique.

    CAPITULO XXXVII

    _Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
    mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
    de Lisboa muito ferido morrera_.

    Logo a poucos dias que esto aconteceo veio a morrer um Escudeiro deste
    Cavalleiro Anrique de grandes feridas, que tambem houve na entrada da
    Cidade, e enterraram-no na mesma Egreja donde jazia seu senhor, e sendo
    alli soterrado, appareceo de noite o Cavalleiro Anrique a um homem muito
    velho, que servia aquella Egreja e havia nome Anrique como elle,
    dizendo-lhe: «Levanta-te, e vai ao lugar onde os Christãos enterraram o
    meu Escudeiro alongado de mim, toma o seu corpo, e vem enterra-lo aqui
    junto comigo, porque quem me seguio, e se ajuntou comigo na morte, não
    deve ser apartado na sepultura». Do que aquelle homem bom nada curou, e
    vindo-lhe outro tal segundo aparecimento, e amoestação tão pouco curou
    desso, como da primeira, então lhe appareceo a terceira vez o Cavalleiro
    Anrique mui irado, e com sembrante bravo, e queixoso ameaçando-o com
    palavras de grande medo, se logo não fosse comprir o que por tantas
    vezes lhe dissera, pelo qual aquelle bom velho cheio de temor se
    levantou logo de noite, e foi com candeias á sepultura onde jazia o
    Escudeiro, e desenterrou-o trazendo-o elle por si só e lhe fez uma cova
    a milhor que pode apar do Cavalleiro Anrique onde o enterrou, e quando
    veio pela menhã, achou-se o velho tão são, e sem cançasso do trabalho da
    noite passado, sendo impossivel por sua cançada idade pode-lo fazer,
    como se jouvera em sua cama folgando sem fazer nada, e contando ao outro
    dia todo assi como lhe acontecera, aos Prelados, e a todo o povo deram
    todos muitos louvores a N. Senhor.

    CAPITULO XXXVIII

    _Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos milagres que
    Deos por elle fazia_.

    Querendo ainda o Senhor Deos segundo a grande avondança de sua infinda
    benificencia, mostrar por mais maravilhas quanto lhe tinha aprazido, o
    serviço deste Cavalleiro Anrique, appareceo á cabeceira de sua sepultura
    uma palma semelhante áquella que trazem os Romeiros de Jerusalem em suas
    mãos; assi começou em verdecer, e deitar folhas, e crecer sobre a terra,
    em sua altura juxta. El-Rei, e todos vendo tão grande, e famoso milagre,
    louvaram muito a Deos, e quantos enfermos alli vinham tomar palma, e
    deitavam ao colo logo eram sãos a essa hora, de qualquer infermidade que
    tivessem, e outros a tomavam, e tostavam, e depois de moida bebiam della
    aquelle pó, e assi mesmo se achavam logo sãos das dores que tinham, e
    tanta foi a continuação da muita gente que vinha tomar daquella palma,
    que a pouco tempo não ficou nada della sobre a terra, até por não porem
    boa guarda nella, vieram alguns de noite, e a arrancaram de todo,
    levando o que ficava sobre a terra. Por estes milagres, e outros que N.
    Senhor aprouve de fazer pelos seus Santos Martyres, que alli morreram,
    tinha El-Rei nelles mui grande devação, que se sentia em si algum
    abalamento de doença deitava-se em oração sobre seus jazigos, e
    achava-se logo remediado.

    CAPITULO XXXIX

    _De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa Bispado, e
    quem foi o primeiro Bispo della_.

    Passado assi todo esto fez El-Rei juntar toda sua gente que com elle
    era, e disse-lhe: «Amigos meus eu até agora como vistes depois de tomada
    esta terra, e Cidade, me ocupei em ordenar, e destribuir os bens
    temporaes della, os quaes muitas vezes tem rezão, não em dignidade, nem
    em preiminencia, mas em ordem para se haver primeiro de entender nelles,
    que nos espirituaes, para que Deos seja assi mais ordenadamente servido,
    segundo requere a orde, e maneira das cousas deste mundo, e a fraqueza
    da condição humana sem o temporal não póde vagar no espiritual, agora é
    muita rezão que não tardemos mais de entender no espiritual, ordenemos,
    e elejamos quem nesta Cidade seja Bispo, e Pastor de nossas Almas, e
    regedor da Egreja Cathedral». Louvaram todos o que El-Rei dizia, e então
    foi eleito um homem virtuoso, que alli era, chamado Gilberto, de muito
    boa vida, e costumes, e leterado em Degredos, e a poz esto mandou El-Rei
    logo notificar ao Papa cumpridamente o cerco, e tomada de Lisboa, da
    eleição do Bispo, que por serviço de Deos novamente fizera, pedindo a
    Sua Santidade o quizesse confirmar. O Papa lhe outorgou todo esto, e
    outras mais cousas que lhe enviou pedir, dando-lhe grandes perdões,
    indulgencias para as Egrejas que tinha feitas. Tanto que este recado
    veio de Roma chamou El-Rei o Bispo Gilberto, e disse-lhe: «Bispo estas
    duas Egrejas, foram aqui edeficadas como sabeis, tendo nós ainda esta
    Cidade cercada para se nellas enterrarem os que morriam, pois a N.
    Senhor aprouve de vermo-lo, e podermo-lo fazer, eu quero dotalas
    começando primeiro no Moesteiro de S. Vicente de Fora». E então o dotou
    de muitas posseções, porque entendeo que poderiam bem, e sem mingoa
    viver, os que em elle houvessem de servir a Deus, e para os Povos terem
    mais azo, e devação de ajudar, e fazer o Moesteiro poz em elle grandes
    indulgencias, que lhe o Papa mandou, e assi tambem na Egreja de Santa
    Maria dos Martyres.

    CAPITULO XL

    _De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
    Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem_.

    E depois desto consirando El-Rei como o seu Moesteiro de S. Vicente de
    Fóra houvesse de ser milhor servido prepoz de poer em elle Capellães
    Clerigos onestos, e estando neste seu preposito, aconteceo chegar a
    Lisboa um Frade Flamengo de boa, e onesta vida, chamado Gualterio, e com
    elle quatro Frades seus companheiros, que vinham a buscar onde fizessem
    um Moesteiro da Ordem de que elles eram, para nelle viverem. El-Rei
    sabido de sua vida e preposito folgou muito, e mandou por elle
    dizendo-lhe como edeficara aquelle Moesteiro de S. Vicente, rogando-lhe
    que elle, e seus companheiros quizessem nelle viver, e estar por ser
    caza para esto mui conveniente, e para Deos hi delle ser servido;
    aprouve muito dello a Gualterio, e a seus companheiros, e foram-se logo
    para o Moesteiro.

    Queria muito este Prior Gualterio, que o Moesteiro fosse chamado da
    Ordem que elle era, e que El-Rei no Moesteiro não tivesse nhum especial
    poder, o que não querendo El-Rei consentir, se partio Gualterio com os
    seus compenheiros para onde vieram. El-Rei fez então Prior um Conego
    Estrangeiro, que havia nome Damer, o qual a cabo de poucos annos se foi
    tambem para sua terra, por onde parecendo a El-Rei que Religiosos assi
    vaguanãos, e fóra de Suprior, por muita devação que tragam, e presumam
    não hão graça para durar á ordem, e serviço de Deus, determinou de
    mandar ao Moesteiro do Banho que é da Ordem dos das sobrepelizes por um
    Conego que chamavam Guodinos, que fosse o Prior do Moesteiro, o qual
    assi Prior por suas virtudes foi eleito por Bispo de Lamego, e El-Rei
    então mandou por outro Conego a esse mesmo Moesteiro do Banho, que havia
    nome D. Mendo, e havendo oito annos que era Prior, se veio a finar; e a
    poz este houve outro Prior, que chamavam D. Paio, e foi o derradeiro
    Prior que em S. Vicente houve em tempo del Rei D. Affonso, e posto que
    estas cousas que dissemos fossem feitas por espaço de tempos, em vida
    del-Rei D. Affonso, nós contamo-las aqui juntas por pertencerem á tomada
    de Lisboa. Ora adiante diremos outras cousas que se fizeram logo
    seguintes á sua tomada.

    CAPITULO XLI

    _Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na Estremadura,
    e Alem do Tejo_.

    Depois de El-Rei D. Affonso Anriques ter tomado Lisboa como se já disse,
    logo naquelle anno seguinte andando a era de N. Senhor em mil e cento e
    quorenta e oito annos, (1148), foi El-Rei sobre Alanquer, e Obidos, e
    Torres Vedras, e sobre outros Castellos da Estremadura, que ainda eram
    de Mouros, durando em os tomar seis annos, e depois que os teve
    assentados, e assi toda a terra da Estremadura, ajuntou todas suas
    gentes, e passou-se a Alentejo, onde fez grande destruição em os Mouros,
    tomando-lhes Alcacere, Evora, Elvas, Moura, e Serpa, e outros lugares
    até chegar a Beja, o qual tendo-a cercada entrou grande poder de Mouros
    pela Comarca da Beira a fim de retraher, e fazer cessar o dano que
    El-Rei em elles fazia em Alentejo, e cercaram Trancozo, e depois de
    combatido e tomado por força destruiram o logar, e deixaram-no, matando
    muitos Christãos, e levando muitos delles cativos.

    El-Rei D. Affonso posto que lhe estas novas chegassem, não se quiz
    levantar do cerco, que tinha sobre Beja, antes a combateo então
    fortemente com engenhos, e artilharias, até que a tomou por força, e
    pelo despeito que tinha do mal que os Mouros fizeram em Trancozo, todos
    os Mouros de Beja andaram á espada, ficando mui poucos vivos. Foi Beja
    tomada na era do Senhor de mil cento e cincoenta e cinco annos (1155).
    Feita assi esta destruição nos Mouros, e havidas estas vitorias nas
    terras Dalentejo, leixou El-Rei Beja, e todolos outros Lugares mui
    bastecidos, e providos de Cavalleiros, e gente que os mui bem podassem
    defender, e guardar, e tornou-se para Coimbra com muita honra, e grande
    prazer, pelas mercês, e grandes vencimentos, que lhe N. Senhor Deos
    contra Mouros dera.

    CAPITULO XLII

    _Dos filhos que El-Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha Dona
    Mofalda_.

    Tanto que El-Rei D. Affonso chegou a Coimbra lhe foi logo commettido
    cazamento para sua filha Dona Mofalda; elle teve tres filhas, e um só
    filho, o filho houve nome D. Sancho, que herdou o Reino por falecimento
    de seu pai, e em sendo Ifante foi sempre mui bom e esforçado Cavalleiro,
    e valente, e depois que Reinou, não menos bom, virtuoso, e esforçado
    Rei, fazendo muitas cavallarias, e accrescentando seu Reino como em seu
    logar contaremos, e a primeira filha houve por nome Dona Mofalda, que
    foi cazada com D. Reymondo, filho do Conde D. Reymondo de Barcelona, e a
    outra chamada Dona Urraca, cazou com El-Rei D. Fernando de Lião; a
    terceira filha houve nome Dona Tareja. Esta foi cazada com D. Felippe
    Conde de Frandes, e sendo assi commettido a El-Rei D. Affonso o dito
    cazamento para sua filha Dona Mofalda, o vieram a concertar, que o Conde
    D. Reymondo de Barcelona viesse á Cidade de Tuye, que era del-Rei D.
    Affonso, e alli fizessem vistas antre si sobre este cazamento. Então se
    partio El-Rei para lá com muitos Senhores, Prelados, e Cavalleiros,
    levando comsigo a Rainha Sua mulher, e suas filhas. Chegáram a Tuye dez
    dias andados do mez de Janeiro; dahi a oito dias chegou o Conde D.
    Reymondo; fez-lhe El-Rei dar bairro, e pouzadas grandes, e boas para
    elle, e toda sua gente, que com elle vinha, a qual era muita, e mui
    luzida; vindo o Conde, El-Rei sahio-o a receber acompanhado de honrados
    Prelados, e outros Grandes do Reino, e Cavalleiros mui principaes; iam
    com elle D. João Arcebispo de Braga, D. Mendo Bispo de Lamego, D.
    Izidoro Bispo de Tuye, D. Pedro Conde das Asturias, o Conde D. Ramiro, e
    o Conde D. Vasco, D. Gonçalo de Souza, D. Pedro Paes seu Alferes, e
    outros muitos ricos homens, e Cavalleiros com muita gente. Quando o
    Conde chegou veio El-Rei para elle, e o recebeu com muita honra, e
    gazalhado, trazendo-o consigo até o Paço, alli descavalgáram, e se foram
    logo para onde estava a Rainha, e as Ifantes, e o Conde esso mesmo fez
    grande reverencia á Rainha, e suas filhas, de que foi mui bem recebido,
    e depois de fallarem alli um pouco tomou El-Rei o Conde, e levou-o para
    onde haviam de comer.

    Aquelle dia comeo o Conde com El-Rei em sala, elle, e todos os que com
    elles vinham, e assi a Rainha, e as Ifantes com suas Donas, e Donzelas,
    e desque acabáram de comer, vieram Jograes, e tangedores, e foram
    grandes danças. Isto acabado, havendo-se o Conde de ir colher a suas
    pouzadas se quizera alli despedir del-Rei, e elle não quiz, se não que
    se espedice só da Rainha, e suas filhas, e foi-se com elle até porta do
    Paço onde havia de cavalgar, e El-Rei tinha já ahi cavallo para ir com o
    Conde; mas o Conde não o quiz consentir em nhuma maneira; ficou então
    El-Rei, e todos os outros Senhores, e Cavalleiros da Corte, se foram com
    o Conde até sua pouzada. El Rei mandou a todos seus Officiaes, que
    dessem todas as cousas sem dinheiro, que o Conde houvesse mister, em
    quanto hi estivesse, e des aquelle dia em diante, começáram a fallar no
    trato do cazamento da Ifante, e do filho do Conde; estiveram em o
    concertar até dous dias por andar de Janeiro em que se fez o cazamento;
    no qual dia sendo hi juntos muitos Senhores, e Prelados, e Cavalleiros
    de uma parte e da outra, foi lida á Rainha, e Ifantes uma Procuração de
    D. Reymondo filho do dito Conde porque dava poder a seu Pai, que em seu
    nome podesse receber com elle a Ifante D. Mofalda filha del-Rei D.
    Affonso. E vista a Procuração, El-Rei tomou sua filha, e trouxe-a ante o
    Arcebispo de Braga, o qual tomou o Conde pela mão, e assi a Ifante, e
    então os recebeu, elle como Procurador de seu filho, e ella por si, como
    manda a Santa Madre Egreja de Roma, e esto feito, entregou El-Rei sua
    filha ao Conde, que a levasse consigo até onde houvessem de ser feitas
    as vodas, e o Arcebispo de Braga, e D. Martim Moniz, e assi Donas, e
    Donzelas foram em sua companhia della. Deu El-Rei ricas joias ao Conde,
    e aos seus fez mercês de modo que elle, e todos os que com elle vinham
    partiram mui contentes del-Rei. Partio-se assi o Conde, levando a Ifante
    consigo, e elle partido, El-Rei se tornou para Coimbra com toda sua
    gente, e Corte.

    CAPITULO XLIII

    _Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e venceo
    El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama_.

    Sempre despois deste cazamento El-Rei D. Affonso esteve, e andou por
    aquelles lugares, que ganhára aos Mouros, provendo-os das couzas, que
    lhe compriam para sua defenção, como fossem governados em justiça, e
    estando assi em Alcacer na era do Senhor de mil e cento e sessenta e
    cinco annos (1165) havendo já El-Rei setenta e um de sua idade, veio
    recado como Cezimbra estava mingoada de gente, que a tomaria se fosse
    sobre ella. A esta nova partio logo El-Rei de Alcacer com toda sua
    gente, e foi-a combater com tanta affronta, que ainda que a Villa, e
    Castello eram mui fórtes, filhou-a por força, e desque teve a Villa
    socegada, e posto nella quem a guardasse, determinou de ir ver Palmella,
    e o acento, e fortaleza della, levando consigo, sessenta bons
    Cavalleiros, e alguma gente de pé, e besteiros, e chegando a Palmella, e
    estando vendo-a, asomou El-Rei de Badalhouse com muita Mourama das
    frontarias daredor, em que havia quatro mil homens de cavallo, e
    sessenta mil de pé, e vinham ao longo sem ordem a gram pressa para
    soccorrer Cezimbra, descuidados de verem, nem acharem alli Christãos.
    Teve-se El-Rei traz um cabeço, e vendo os que eram com elle tanta gente,
    começáram de haver grande receio, e todos aconselhavam El-Rei que se
    acolhesse a seu araial o milhor que podesse, e delles diziam, que se
    puzesse em uma alta serra, que por hi vai, que se chama a serra
    Dazeitão, e tomassem em ella algum lugar fórte para se deffenderem, até
    ir recado aos do arraial.

    El-Rei com quanto vio o medo, e receio dos seus pela grande multidão dos
    Mouros; porém esforçando-se no poderio de Deos ser maior que o dos
    homens, no qual elle sempre esperando se achava vencedor, fallou aos
    seus em esta maneira: «Que esmaio é este amigos, ou que nova
    desconfiança do Senhor Deos, nem que vedes vós agora de novo, para tanta
    torvação; estes muitos, que vedes são os que vós muito menos, dos que
    ora soes, sempre vencestes, para esso ganhamos nós peleijando, e
    vencendo, á cincoenta annos, tanto merecimento, e honra ante Deos, e o
    Mundo, para todo em uma só hora, fugindo perdermos, certo que
    ouvindo-vos, o que ouço, se vos a todos não conhecera, podera mal
    cuidar, serdes os que comigo vencestes muitos mais, que estes imigos no
    campo Dourique, e em outros lugares, não ponhaes ante vós meus amigos,
    quantos mais são, que nós, mas quanto no poder, e querer de Deos, por
    quem peleijamos, são muito menos que nós; o medo, em que os Deos já poz
    para nós maiormente se dermos nelles de sobresalto, fará que lhes
    pareçamos muitos mais do que somos, e elles assi mesmos, menos muito, do
    que são, e tendo-nos Deos tantas vezes mostrado esta verdade, podeis
    ainda cuidar em nos devermos de retraher, nem fugir, Deos por nós sempre
    contra elles em honra, e vencimento, e nos queremos ora poer em
    deshonra, e nossos imigos em gloria, e esforço contra nós. Ora havei
    Cavalleiros, que mingua de fé, mingua de crença, nos encurta o esforço,
    mal concorda no coração de Christão esmaio com ardideza, mal no Christão
    desconfiança com fé, que inda que poucos sejamos, tambem de muitos,
    poucos são os que peleijam, não tem hoje estes nossos imigos em seus
    corações, cousa mais certa que topando-se no campo convosco, e comigo,
    haverem-se logo por vencidos, tanto que nos virem não ficará destroço,
    nem mortos, nem vencimentos passados, quantos contra elles houvemos, que
    como prezentes ante si não ponham, este de agora, que com a graça de
    Deos haveremos. Pelo qual meus bons Cavalleiros, não vos venham por
    sentido medos, de que nosso Senhor Deos sempre livrou, e mostrou o
    contrario, e pois por tantas, e tão milagrosas vitorias, que sobre nosso
    poder, por sua piedade nos deu, temos tão sabido nada ser a elle
    impossivel, não devemos nada temer, vamos logo com sua graça, que nos
    sempre acompanha ferir nos imigos. Eu quero hoje ser vosso pendão, e ver
    se me quereis seguir, e guardar como sempre fizestes, que pois Deus
    ordenou para mostrar mais seu gram poder, com tão poucos me aqui
    acertasse, eu determino por seu serviço, hoje neste dia, de vencedor, ou
    de morto me não partir do campo».

    Desque El-Rei acabou de fallar, vendo os seus em elle tão grande
    confiança, e determinação, todos mui esforçados com suas palavras, e
    esforço, disseram, que por muito mais dezigual que o cazo fosse, delles
    aos Mouros, pois elle seu corpo determinava poer a tal feito, elles lhes
    não faleceriam, e o seguiriam como sempre fizeram, dizendo que dessem
    logo nelles. Vinham já pelo infesto acima, a cerca, e não haviam mais
    que tardar. Abalou então El-Rei á pressa com grande coração, e esforço,
    e todos com elle, em se mostrando fez dar ás trombetas, e foram ferir
    nos primeiros tão rijamente, que logo muitos delles foram derribados,
    antre mortos, e feridos. Os Mouros achando-se salteados, e conhecendo,
    que aquelle era El-Rei D. Affonso, que tanto temiam, figurando-se-lhe,
    que seria muita mais gente, foi o medo em elles tão grande, que
    começaram logo a fugir, parecendo aos trazeiros, que os seus mesmos, que
    voltavam fugindo, eram imigos, como soi a fazer gente de medo cortada, e
    assi correndo o desmaio por elles, se puzeram todos em desbarate. Alguns
    contam, que se guardou El-Rei para de madrugada dar nelles, onde foram
    vistos pouzar, por ser ora, e tempo azado, para mais desmaio, e
    desbarato dos Mouros, e assi o fez, e os desbaratou. Como quer, que
    fosse feito, foi em que entrou saber de Cavallaria, com grande coração,
    e esforço ajudado por nosso Senhor, por cujo serviço se aventurava.
    Seguio El-Rei apoz os Mouros matando, e ferindo, e cativando muitos no
    alcance tomando-lhes a carriagem, e despojos grandes, de quanto traziam.
    Tanto que o desbarato foi acabado, mandou El-Rei dous Cavalleiros a
    grande pressa a Cezimbra a suas gentes, que lá ficaram, que logo fossem
    todos com elle, e foram ao outro dia todos e juntos, muito ledos, pela
    boa andança, que Deos dera a El-Rei, e não menos tristes, por se não
    acertarem com elle na batalha. Tanto que os de Palmella viram o
    desbarato dos seus Mouros, e os Christãos juntos contra si, tendo
    perdida a esperança do soccorro, preitejaram se com El-Rei, que os
    leixasse sahir em salvo, e lhes dariam a Villa, e a El Rei aprouve
    dello, e assi houve a Villa de Palmella.

    CAPITULO XLIV

    _Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e El-Rei D.
    Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El Rei D.
    Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada_.

    Sendo El-Rei D. Fernando de Lião casado com Dona Urraca, filha del-Rei
    D. Affonso Anriques como acima dissemos, veio a deixa-la, e apartar-se
    della por mandado do Papa, por serem parentes mui chegados, e cazarem
    sem dispensação, mas o modo como este apartamento foi feito, nem o que
    se fez desta Rainha Dona Urraca não achamos escrito, salvo, que houve
    della um filho chamado D. Affonso, que depois da morte de seu pai foi
    Rei de Lião. Tomando El-Rei D. Affonso deste feito grande pezar, pôs em
    sua vontade de ir cercar Badalhouse, que estava em poder de Mouros, por
    ser da Conquista del-Rei D. Fernando de Lião, e ajuntando suas gentes
    para esso foi poer cerco sobre a Villa, estragando-lhe pães, e vinhas, e
    fazendo-lhe tanto dano, e apresso, que veio a toma-la. Como quer que os
    Mouros se mui bem defendessem, El-Rei D. Fernando quando soube que
    El-Rei D. Affonso de Portugal tomára Badalhouse, enviou lhe a dizer por
    seus Mensageiros, que lha leixasse, pois sabia que era sua, e de seu
    Reino, e El-Rei D. Affonso lhe respondeo que lha não havia de leixar, e
    então o dezafiáram sobre esto, pelo qual El-Rei D. Fernando de Lião
    ajuntou logo seu poder, e veio contra El-Rei a Badalhouse, e vinha com
    elle D. Diogo o bom senhor de Biscaya, com cuja irmã chamada Dona Urraca
    Lopes filha do Conde de Navarra, foi depois cazado este Rei D. Fernando.
    Vinha tambem D. Fernando Rodriguez de Castro, sendo então ambos
    vassallos deste Rei D. Fernando de Lião, dezavindos del-Rei de Castella,
    e vindo já acerca disseram a El-Rei D. Affonso.

    «Senhor, aqui é El-Rei D. Fernando, e toda a sua oste. Pois assi é,
    disse El-Rei: Armemo-nos, e saiamos a elle ao campo, que pois nos vem
    buscar, bem é que nos achem lá fóra em campo comsigo». Então se armáram
    todos, e sahiram fóra da Villa, e nisto disseram a El-Rei D. Affonso
    como os seus se embaraçavam já com D. Diogo o bom, e com D. Fernando
    Rodriguez de Castro, que vinham na dianteira mui bons Cavalleiros, e
    El-Rei com este recado abalou rijo a cavallo, correndo por sahir fóra da
    Villa a chegar aos seus, e aconteceo, que o cabo do ferrolho não ficára
    bem colhido ao abrir das portas, e o cavallo, assi como ia correndo
    topou nelle com uma ilharga de guiza, que se ferio muito, e quebrou a
    perna esquerda del Rei, o qual não deixou por esto de chegar aos seus a
    ajuda-los, e nisto o cavallo que ia ferido, não podendo mais sofrer-se
    cahio com El-Rei em um senteal, sobre a mesma perna, e acabou-se de
    quebrar de todo, de modo que os seus não poderam mais levanta-lo, nem
    poer a cavallo, e então Fernão Rodriguez Castelhano, que o vio cair foi
    dizer a El-Rei D. Fernando: «Senhor ali jás El-Rei D. Affonso com uma
    perna quebrada, hi prende-lo, que mais sem trabalho vo-lo deu Deos nas
    mãos do que eu cuidava.»

    Chegou então El-Rei D. Fernando onde El-Rei jazia, e por os seus, que o
    viram cair, e se acertaram serem poucos, e os imigos muitos, houve de
    ser tomado, e prezo com estes que hi eram com elle; não se podendo
    valer, nem ser valido, e com os outros seus, que se colhiam á Villa,
    entráram os del-Rei D. Fernando de mistura, e devulgando-se já o
    dezastre del-Rei D. Affonso, foi a Villa nessa hora tomada, segundo logo
    tudo falece, como falece o Capitão. Levou assi El-Rei D. Fernando
    consigo a El-Rei D. Affonso para a Villa, e fez-lhe mui bem pençar da
    perna, e em quanto o teve em poder, assentando-o sempre a par de si,
    fazendo-lhe muita honra; despois veio apreitejar com elle, que lhe desse
    a terra da Corunha, que é do Minho, até o Castello da Lobeira, uma legoa
    álem de ponte Vedra, e porcima pelos chãos de Castella, aquella terra,
    que deram ao Conde D. Anrique seu pai, como no começo da Estoria se
    disse, fazendo-lhe tambem menagem, que tanto que em besta cavalgasse se
    tornasse a sua prizão; El Rei D. Affonso nem podendo al fazer disse que
    lhe prazia.

    Despois de entregar a terra, e Fortalezas, e fazer a dita menagem,
    El-Rei D. Fernando o soltou, e elle tornou para seu Reino, e sendo mui
    bem são da perna, nunca mais quiz cavalgar em besta, por não tornar a
    menagem, antes sempre depois andou em carro, como soiam andar os Reis
    antigamente, e logo no anno seguinte de mil e cento e sessenta e seis
    annos (1166), dia Dassenção, em Coimbra fez El-Rei como mui prudente, e
    discreto que era, fazer todos os Grandes, e Conselhos do Reino todo
    menagem a seu filho o Ifante D. Sancho, e este seu quebramento de perna,
    foi sempre atribuido ao que sua mãi lhe rogou, quando a poz em prizão,
    segundo atraz nesta Estoria se contem.

    CAPITULO XLV

    _Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar as
    maldições dos pais, e mãis aos filhos_.

    O pezar que me faz, e a todos fará vendo este dezastre del-Rei D.
    Affonso Anriques, me faz falar contra as maldições dos pais, e mãis, que
    ameude se lançam com pouco tento e resguardo, devendo-se escuzar com
    muito, vendo, e sabendo todos, que com nome de filhos nos reconciliou
    Deos para si, e com nome de Pai nosso, mandou que o adorassemos, com o
    nome em que se conclue, e encerra a maior obrigação e ajuntamento de
    reverencia, e amor que póde haver, antre nós, nem de nós para elle, por
    onde os filhos devem muito fazer por acatar sempre seus pais, e mãis,
    segundo por Deos lhe é distintamente mandada escuzar de os provocar a
    semilhantes maldições, antes recea-las muito, e teme las, por injustas
    que sejam, como se diz das excommunhões, que desprezando-as haverá por
    ventura lugar de obrar, como justas, e ajuntadas com outros males de que
    mal peccado andamos acompanhados descote, e ante Deos desmerecemos,
    porque tanto quiz Deos, que se guarde, e acate, a ordem que neste mundo
    ordenou, que elle mesmo sendo sem peccado justo Julgador, sofreo ter
    injustamente julgado, por injustos, e perversos julgadores, por terem na
    terra o cargo, e presidencias por elle ordenadas, o que tanto mais devem
    os filhos acatar, e sofrer a seus pais, e mãis, quanto a lei de justiça,
    e ordenança de Deos, lho devem ainda por grande obrigação de natural
    reverencia, e amor.

    E os pais muito mais de seu cabo devem a meu juizo escuzar semelhantes
    maldições, quanto mais idade, e entender tem, concirando que são homens,
    e pais de homens, e que elles poderiam já fazer outro tanto a seus pais,
    e mãis, maiormente que os erros dos filhos não podem ser tão danosos,
    que muito mais não sejam as maldições dos pais, lançando-se sempre por
    humano defeito da sanha vendicativa, a qual se decega em desenfriada
    ira, não procedesse, não haveria lugar contra o sobejo amor dos pais, e
    mãis, sendo sempre tamanho, que quanto mais com causa dizem ao filho:
    «Má morte te mate», vendo-lhe algum mal muito menos de morte se culpam,
    e matam por elle, e Deos manda, que das nossas injurias, e danos,
    leixemos a vingança a elle. Dessas pessoas lhe devemos mais leixar de
    que aos outros devemos tomar que são pais, e filhos, os quais toda a
    rezão obriga, que antre si mais se comportem, e hajam em suas cousas
    paciencia, pois Deos que as fez a quem se ainda mais nesso erra, ha com
    elles paciencia, e assi escuzaram os filhos a culpa tão crime como é
    desobediencia aos pais, de conhecimento tamanho para Deos como é aos
    filhos, que lhe deu, por benção, fazerem filhos de maldição, a qual por
    esto só tambem por injusta que fosse abastaria pela ventura, para
    fazerem por pena, e peccado do pai, penar o filho inocente neste mundo,
    em que bem podemos padecer por culpas, e peccados alheios, assi como
    filhos por pais, e servos por senhores; ainda que no outro não possamos,
    se não pelos proprios nossos, e da verdade deste caso prouvera a Deos
    que tiveramos em outra parte a prova, e exemplo mais longe, e
    estrangeiro, e não del-Rei D. Affonso, que sendo tão virtuoso, e todos
    seus feitos sempre com virtuosa tenção, e de serviço de Deos, não leixou
    maldição de mãi, mais madrasta que empecer a este Rei, na pessoa, na
    fazenda, e na honra, a filho tão virtuoso.

    CAPITULO XLVI

    _Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
    Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
    os desbaratou e venceo_.

    Estando assi El-Rei D. Affonso em seu Reino, andando em colos de homens,
    e outras horas em carros como já em cima dissemos, veio-se para
    Santarem, e correndo novas pela terra, do desastre do britamento da
    perna, e da preitezia e menajem que ficára com El-Rei D. Fernando de
    Lião por cuja causa, não cavalgava em cavallo, nem era de sua pessoa
    poderoso para fazer guerra como dantes, nem suas costumadas cavallarias,
    tomaram os Mouros ousadia, e esperança grande de se vingarem, e fazer
    grande danno a Portugal, pelo qual Albojame Rei de Sevilha, ajuntou
    grande multidão de Mouros, de toda Andaluzia, e de outras partes, e
    atravessando todo, antre Tejo e Odiana, matando, e estragando tudo por
    onde vinham, vieram cercar Santarem, onde El-Rei D. Affonso estava,
    destroindo-lhe toda a terra de redor. Saiam os Christãos ás barreiras a
    escaramuçar com elles, e de uma parte, e da outra morriam muitos.

    El Rei D. Affonso por não poder cavalgar a cavallo, e sair a elles era
    mui enojado em seu coração acostumado a vencer nos campos, e cercar, e
    não ser cercado, pelo qual determinando de sair fóra em carro, a lhes
    dar batalha, alguns dos seus lho contradisseram, e outros diziam que era
    bem ficar na Villa, e que elles sairiam a peleijar com os Mouros,
    concelhos ambos muito fóra do parecer del-Rei, e do seu grande animo, e
    por tanto lhe respondeo, e disse: «Amigos não cumpre agora ver se
    sairemos, ou não; mas é tempo de tomardes tal esforço para peleijar, que
    eu possa perante todos louvar os que o bem fizerem, e eu mesmo em pessoa
    vos ajudarei a esso contra os imigos, quanto em mim fôr como sempre fiz,
    e se pela ventura alguns tiverem receo, o que não cuido, fiquem na
    Villa, e não vão lá que eu não poderei sofrer já mais tanta vergonha.»
    Então acordaram que era bem sair fóra em toda maneira, e estando já
    prestes para um dia certo, e corregidos como deviam de ir, e de quaes
    havia El-Rei de ser guardado, aconteceo virem novas a El-Rei D. Affonso
    como El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, vinha com muita gente, o qual
    por ser Rei mui virtuoso, e mui chegado a Deos, como quer que se
    quitasse de sua filha, e sobre vence-lo parecesse ser rezão estar delle
    queixoso, por buscar azo de não cumprir a menagem que lhe tinha feito de
    tanto que cavalgasse em uma besta, acudir a sua Corte, não olhando nada
    desto, como soube, que El-Rei Albojame com grande poder tinha cercado
    El-Rei D. Affonso em Santarem ajuntou sua gente, e partio para o ajudar,
    e andando então a era do Senhor em mil e cento e setenta e um annos,
    (1171) assi que vindo recado certo a El-Rei D. Affonso Anriques de como
    El-Rei D. Fernando de Lião era acerca, e que em poucos dias seria com
    elle, foi em grande pensamento, cuidando que vinha contra elle por rezão
    da menagem a que não fora, e posto nesta duvida tanto mais, determinou
    de peleijar primeiro com os Mouros, e tambem os Mouros de sua parte
    quando souberam de sua vinda, crendo que vinha contra elles, em ajuda
    del-Rei D. Affonso seu sogro, determinaram levantar o cerco, e saio
    então El-Rei D. Affonso a elles, no modo que dantes tinha ordenado, e
    depois de muito peleijarem fez grande mortindade nelles, e desbarato, de
    muitos prezos, mortos, e feridos, e grandes e ricos despojos tomados.

    Assi se foram os Mouros destroçados fogindo quanto mais podiam. El-Rei
    D. Fernando quando soube que os Mouros eram desbaratados, e El-Rei D.
    Affonso descercado, não quiz ir mais adiante, posto que perto fosse, e
    esteve alli quedo tres dias, enviando dizer a El-Rei D. Affonso que
    tomasse prazer, e nada receasse delle, que não abalára, nem vinha a
    outra cousa, se não só por o descercar, e pois os Mouros já eram idos,
    que ficasse com a paz de Deus, e El-Rei D. Affonso lhe deu por ello
    muitas graças, e é que desque foi prezo na batalha que houve com este D.
    Fernando de Lião seu genro, nunca depois foi visto ledo, nem haver
    prazer como dantes, e quando lhe lembravam as cavallarias que dantes
    soia fazer contra Mouros, e quam temido era delles, não podia estar que
    mui enxergadamente se não entristecesse, mas porque deste tempo até que
    o Corpo de S. Vicente foi trazido a Lisboa, não achamos outra cousa que
    de contar seja, queremos aqui dizer como, e em que modo foi aqui
    trazido.

    CAPITULO XLVII

    _Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que o
    foram buscar_.

    Já antes desto, em seu lugar contamos como El-Rei D. Affonso Anriques
    foi por si com grande cuidado, e devação, buscar o Corpo de S. Vicente,
    e não o pôde achar havendo já vinte e seis annos que a Cidade de Lisboa
    era em poder de Christãos, tomada a Mouros, fez El-Rei Albojaque
    tregoas, com El-Rei D. Affonso Anriques por cinco annos, as quaes foram
    feitas quatro dias do mez de Maio era do Senhor de mil cento e setenta e
    trez annos, (1173) então, certos homens de Lisboa, com grande devação,
    vendo que já podiam ir seguros áquelle lugar onde o Corpo de Vicente
    jazia, fizeram prestes uma barca, com todo o que lhes fazia mister, e
    foram-se lá sem nhum impedimento, nem deficuldade, chegaram, e
    desembarcaram no mesmo lugar, onde postos em oração, mui devotamente a
    Deos pediam que lhes mostrasse onde jazia o Corpo daquelle glorioso
    Martyr; a poz esto começaram a cavar, e aprouve a N. Senhor que o
    acharam, e dando-lhe muitas graças e louvores, o tomaram com muito
    prazer, e devação, e puzeram-no dentro na barca, e logo Deos alli
    mostrou por elle um grande milagre, que um dos que iam na barca, em
    desenterrando aquelle santo Corpo, furtou um dos ossos, e tanto que o
    tomou, cegou logo de todo, pelo qual cortado de medo, e arrependimento
    tornou a poello donde o tomara, e neste ponto lhe foi restituida toda
    sua vista, e foi são como dantes, e tambem se deve atribuir aos grandes
    merecimentos deste Santo Martyr, que sendo sempre o mar alli alevantado,
    e perigoso, e reçafa muito grande, foi visto tão chão e manço fóra do
    acostumado ao embarcar do seu Corpo, como se fôra em qualquer outro
    lugar, onde nunca houvesse, nem podesse fazer ondas, e assi tornaram com
    muito prazer a salvamento.

    CAPITULO XLVIII

    _Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa_.

    Elles chegados ao porto da Cidade de Lisboa, não quizeram logo tirar
    fóra o Corpo do glorioso Martyr, com receo de lho tomarem por força, e
    aguardando a noite levaram-no escondidamente á Egreja de Santa Justa, o
    qual sendo logo sabido ao outro dia pela menhã, segundo Deos não quer
    sua gloria escondida, toda a Cidade corria para alli, e uns diziam que
    era bem de o poerem em S. Vicente de Fòra, e outros, que mais rezão era
    estar na Sé, e neste debate D. Gonçalo Viegas Adiantado mór de
    Cavallaria del-Rei, que era presente, vendo quão errada cousa era,
    arguir-se mal e arroido sobre cousa tão santa e devota, que mais com
    rezão deviam tolhe-lo, fez cessar o alvoroço da gente, e que esperassem
    até que o El-Rei soubesse, e mandasse o que sua mercê fosse nesso. D.
    Roberto Daião da Sé homem onesto, e de boa vida, foi o mais onesta e
    escuzamente que pode a D. Moniz Prior da Egreja de Santa Justa, e
    rogou-lhe mui afincadamente, que por honrar, e obrigar a Sé, que era a
    principal e mais dina Egreja da Cidade em que aquelle Santo Corpo mais
    honradamente, que em outra parte podia estar, lho quizesse dar, e a elle
    aprouve dar lho, e então os da Sé, com toda outra Clerezia mui ledos,
    foram por elle, e o levaram mui honradamente em procissão, acompanhado
    de toda a gente da Cidade dando todos muitas graças, e louvores a N.
    Senhor, e assi foi trazido, e posto na Sé, onde ora jaz. Os Conegos de
    S. Vicente vieram logo hi a pedir que lhe dessem das Reliquias daquelle
    santo Corpo, mas não lhe foram dadas.

    Quando El-Rei D. Affonso Anriques soube esto, segundo era devoto, chorou
    com prazer, louvando muito ao Senhor Deos, por querer em seus dias
    honrar seu Reino com tão preciosas Reliquias, mandando outra vez áquelle
    lugar donde o Corpo fora trazido, que vissem, e catassem bem, se ficara
    ainda lá alguma cousa delle. Foram lá, e feita toda diligencia, acharam
    ainda um pedaço do testo da cabeça, e pedaços pequenos desatandados do
    Ataude, o que todo trazido sem nada ficar, pozeram com o Corpo. E conta
    a Estoria, que depois que este santo Corpo alli foi na Sé, o Corvo o
    qual, segundo já dissemos, que foi visto guarda-lo quando foi deitado ás
    aves, e animalias veio sempre na barca com elle, e o acompanhou, e
    depois de posto na Sé, o viram muitas vezes sobre o seu Moimento, como
    quem o não queria desemparar, e outras oras se punha sobre o Altar mór,
    e assi andava voando pela Egreja, e aconteceo, que um moço chamado
    Joane, que servia na Egreja deu com uma pedra a este Corvo, e foi cousa
    milagrosa, que logo a essa hora foi tolheito, de todos seus membros, e
    então seu pai do moço quando vio tamanho pezar ao moço seu filho,
    lançou-se em oração de noite muito devotamente ante o Corpo de S.
    Vicente, e foi logo o moço são de todo, como dantes era; e da li nunca
    mais ninguem ouzou de fazer nojo áquelle Corvo, o qual foi hi visto por
    muitos tempos. El-Rei mandou escrever o dia, e era em que o Corpo deste
    glorioso Martyr veio a Lisboa, e foi aos quinze dias do mez de Setembro
    da sobredita era de mil e cento e setenta e tres annos (1173).

    CAPITULO XLIX

    _Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D. Sancho
    seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe sobre
    ello disse_.

    Depois que os cinco annos das tregoas que El-Rei D. Affonso fez com
    El-Rei Albojaque, como acima dissemos, foram acabados, que foi na era do
    Senhor de mil cento e setenta e oito annos, (1178) estando El-Rei D.
    Affonso Anriques em Coimbra, vendo que em toda sua terra era guerra
    cessada sem ter receo, salvo dantre Tejo, e Odiana, que pelo acabamento
    da tregoa cumpria ser bem defeza, e guardada, e que álem desto seria
    cousa honroza, se com a defenção della, se assás se ganharem mais alguns
    Lugares a Mouros, chamou seu filho o Ifante D. Sancho, e perante alguns
    do seu Concelho lhe disse assi: «Filho tu sabes bem quanto trabalho
    tenho passado na guerra com os Mouros, e pela tregoa que tinha com
    El-Rei Albojaque já ser acabada, hei por certo que os Mouros, não
    estarão quedos, e guerrearão esses Lugares que delles ganhei em
    Alentejo, donde recebem, e esperam de receber muito dano, e já me foi
    falado e requerido que entendesse na defensão delles, pelo qual eu
    cuidando como se esto milhor podia fazer de quantas cousas me vieram por
    sentido me pareceo, e parece milhor que tudo, que eu te mande lá em
    pessoa, e esto por duas rezões, a primeira, porque sabes que está meu
    cazo de não poder cavalgar em besta por não ir ás Cortes del-Rei D.
    Fernando, o que eu não fora por cousa que no mundo houvesse, que fazendo
    traria a ti, e a mim grande perda, e a todos os do Reino de Portugal; a
    segunda porque prazendo ao Senhor Deos depois de meus dias, tu hás de
    ter o carrego de reger, e defender este Reino, e pois te deu Deos
    entender, e corpo, e manhas para o poderes fazer, é bem que já agora
    commeces, e o faças.»

    Quando o Ifante ouvio esto a seu pai foi muito ledo, e beijou-lhe as
    mãos, dizendo: «Senhor, eu vos tenho em mui grande mercê esto, que me
    encarregais, e espero em a graça do Senhor Deos com os bons Senhores e
    Cavalleiros, de vosso Reino trabalhar como seu serviço, e vossa vontade,
    e mandado seja comprido; e pois Senhor se esta cousa ha de fazer seja
    vossa mercê querer que se faça logo; porque quanto mais cedo for tanto
    porei a terra em milhor estado, e defensão.» El-Rei respondeo que lhe
    prazia, que assi o mandava poer em obra, e ordenando logo quais, e
    quantos daquem do Tejo contra o Porto fossem chamados para haver de ir
    com o Ifante escrevendo que todos se ajuntassem em Coimbra a certo dia;
    esso mesmo fizeram ordenanças, e Regimentos que o Ifante havia de ter no
    feito da guerra, que havia de começar.

    CAPITULO L

    _Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
    gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
    no meio da Ponte se despediram todos del-Rei_.

    Despois de vindos todos os que eram chamados ao tempo que lhes foi
    assinado, fez El Rei fazer Alardo no campo que se chamava Arnado, de
    assás fermoza, e ataviada gente de armas, e de bésteiros, e piães, e
    outros todos com grande mostra de coração, e mui ledos para ir com o
    Ifante D. Sancho a fazerem por suas honras o que a cada um convinha em
    tal cazo, e desque o soldo foi pago, e elles todos prestes partiram de
    Coimbra no mez de Julho da sobredita era (1178). El Rei saio de seus
    Paços a pé, e veio até ponte, e o Ifante D. Sancho, e todolos outros
    Grandes com elle, e a outra gente passada da parte dálem, e chegando ao
    meio da ponte disse o Ifante a El-Rei: «Senhor esto e assaz de vossa
    vinda, não tome vossa mercê mais trabalho, mas lançai-nos vossa benção,
    e com a graça de Deos eu, e estes Senhores vossos Cavalleiros, e
    Vassalos, que aqui estamos, iremos fazer o que mandais, e a elle que
    sempre endereçou vossos feitos, e teve em sua boa guarda apraza de nos
    ajudar em tal modo que vosso coração seja ledo, e descançado.» Respondeo
    El-Rei: «Filho vós fazeis muito bem, mas crede que me é tão grave vossa
    partida, e destes Vassallos meus naturaes com que soia estar, e ter
    continos comigo, que ainda que vós, e elles fosseis a cavallo e eu
    sempre a pé, parece-me que não enfadaria, nem cansaria tanto, que muito
    mais não faça, como faz este apartamento; mas pois é forçado, pesso a N.
    Senhor em cujo serviço his vos ajude a todos, e vos haja em sua guarda
    de guiza, que por vós seja sua santa Fé acrecentada, e seus imigos
    lançados fóra da terra, que nossos antecessores ganharam». Esto assi
    passado, quantos ahi estavam foram beijar a mão a El-Rei, e se
    despediram delle. O Ifante foi o derradeiro que se delle despedio
    beijando-lhe as mãos. El-Rei lhe lançou sua benção, e se tornou para a
    Cidade, e elles cavalgaram todos, e se foram seu caminho.

    CAPITULO LI

    _Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
    guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
    os Mouros peleijasse_.

    Partidos dalli foram aquella noite pouzar a Penella, e alli disse o
    Ifante a todos que lhe parecia bem não irem juntos, e que para irem mais
    folgados, fosse cada um á sua vontade, por onde mais quizesse, porém que
    se juntassem com elle na Guoleguam. Aos tres dias andados do dito mez de
    Julho, e juntos hi todos como lhes era mandado, partiram dalli, e
    passando o Tejo se meteram todos em ordem, como quem entrava em terra a
    cada passo sospeita de imigos, andaram assi tanto por suas jornadas, que
    chegaram a Evora onde o Ifante foi bem recebido dos que hi moravam, e
    todos os seus que com elle iam. Esteve o Ifante em Evora alguns dias por
    sentir o que os Mouros queriam fazer por sua vinda, e tambem por dar
    folgado caminho aos seus. Este tempo que o Ifante hi esteve, os Mouros
    nunca fizeram entrada, nem intentaram cousa alguma, que de contar seja,
    pelo qual pareceo ao Ifante tempo de fazer o porque viera. Então mandou
    chamar alguns das frontarias ao redor, para irem com elle, e que todavia
    as Villas, e Lugares ficassem bem guardadas. De nhuma lhe acodiam
    tantos, como de Beja, o que causou ficar a Villa muito minguada de
    gente, que para sua defensão lhe fazia mister.

    O Ifante desque teve sua gente junta, abalou de Evora oito dias andados
    de Outubro da sobredita era de mil cento e setenta e oito annos, (1178)
    e foi seu caminho direito pelo Castello da Gineta, e dalli se começaram
    de estender os corredores, e outros homens de armas guerreando os
    Mouros, estragando-lhes a terra, e assi correo todo aquelle caminho,
    contra Sevilha, até que passou a Serra Morena. Quando os de Sevilha, e
    Andaluzia, souberam da vinda do Ifante D. Sancho tiveram-se por mui
    desonrados, porque depois que Espanha fora tomada, e Sevilha em poder de
    Mouros, nunca fora guerreada de Christãos, quanto mais ouzarem de chegar
    tão a cerca della, pelo qual houveram acordo de sair ao Ifante, e
    pozeram-se todos á saida do Inxarafe. Chegaram novas ao Ifante como os
    Mouros esperavam alli para peleijar com elle, do que foi mui ledo, dando
    muitas graças a Deos, por se achar a tempo, e ora que o podesse servir
    contra aquelles infieis seus imigos, mandou então chamar os Grandes, e
    outros principaes Cavalleiros de sua oste e disse-lhes: «Quero-vos
    amigos dar boas novas, com que muito deveis de folgar, como eu faço.
    Sabei que todo o poder de Sevilha, e terras de redor vos estão
    aguardando para peleijar com nosco, parece-me que muito nos mostra o
    Senhor Deos aprazer-lhe de nos dar em nossas mãos o porque viemos, cousa
    com que elle seja mui servido, e vós grandemente honrados, que por eu
    ser novo nestas cousas, e vós que comigo vindes Cavalleiros, em ellas
    tão provados, ainda agora esta honra ha de ser mais vossa que minha,
    pelo qual sede muito ledos, e com muito prazer ordenemos, como logo de
    menhã vamos a elles, e assi a ordenança que a nossa gente hade levar,
    que do mais hei por mui escuzado dizer-vos nada do que cada um hade
    fazer, nem meter-vos esforço para esso, conhecendo-vos que sois tais, e
    que sabeis tanto de honra, e cavallaria exercitados em muitas peleijas,
    e batalhas, e grandes vencimentos com El-Rei meu Senhor, e pai, que
    soies mais para dar desso ensino e esforço, que toma-lo de ninguem; hei
    por assás lembrar-vos, que ponhaes em vossos corações o mais que tudo
    vos ha-de lembrar, que peleijamos por defender, e acrecentar a Fé de N.
    Senhor Jesu Christo, o qual de sermos nada, fez de nós filhos, a elle
    que nos tanto amou, a elle em cujo serviço se não perde trabalho: nos
    encomendemos, elle que para havermos de servi-lo poz em nós o querer,
    nos cumpra o poder que façamos com sua graça de menhã, por onde corram
    de nós taes novas, que elle seja louvado, e meu Pai descançado, e vejam
    todos que para parecer eu seu filho, e vós seus Cavalleiros, e amigos,
    não faz mister ser elle presente». Com estas palavras do Ifante folgaram
    todos muito, e foram mui satisfeitos, respondendo: «Senhor, nós todos
    somos vossos, e por serviço de Deos e vosso faremos neste feito quanto
    em nós for, e vós podereis ver, de modo que Deos seja servido, e com sua
    ajuda vós ganheis muita honra para vós, e para nós, e desagora ordenai
    logo o que se em ella ha de fazer, porque hoje seja sabido de cada um em
    que lugar ha de ir, e estar».

    CAPITULO LII

    _Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
    esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve_.

    Esto assi passado, o Ifante se apartou logo com os principais para o
    haverem de fazer, e ordenáram de toda sua gente cinco azes, a primeira
    fosse a vangarda, e a outra apoz esta batalha do meio; e a terceira
    reguarda, e as outras duas azes o Ifante levava comsigo, dous mil e
    trezentos de cavallo, a fóra os corredores que agora chamam ginetes. O
    Ifante meteo na primeira az em que elle ia, seiscentos de cavallo. Eram
    hi com elle D. João Arcebispo de Braga, e o Conde D. Gonçalo, e D. Pero
    Paes Alferes, que então naquella ida servio o Ifante de seu officio, e
    D. Mem Moniz: a outra batalha segunda, foi encommendada a D. Gonçalo de
    Souza, com outros seiscentos de cavallo, a terceira, que era reguarda,
    com outros seiscentos a D. Lourenço Viegas, a az direita levava D. Pedro
    das Esturias, com duzentos e cincoenta de cavallo, e a esquerda o Conde
    D. Ramiro, com outros tantos, e os mais dos corredores com homens de pé
    pozeram tras a carruagem, que a houvessem de guardar, se alguns Mouros
    quizessem dar nella, e da gente de pé não lemos conto, nem repartição
    acabada, mais que de quatro mil, de que na avanguarda, onde o Ifante ia,
    foram metidos mil e quinhentos homens de pés. Ás azes foram dados dous
    mil, e os mais com a carruagem como dito é.

    Tanto que essa ordenança foi feita, o Ifante mandou a D. Pedro Paes, que
    fosse pela oste a encomendar a cada um o que havia de fazer, porque
    naquelle tempo o Alferes tinha aquelle carrego, e poder, que ora tem os
    Condestabres. Ao outro dia ante menhã, fez o Ifante dar ás trombetas,
    foram logo todos levantados mui prestemente, de si ordenáram suas azes,
    e onde cada um havia de ir, e estar. O Ifante fez mover sua bandeira, e
    assi todos os outros, e foram todos em ordem até chegarem aonde os
    Mouros estavam, e logo sem mais detença foram dar, e ferir em elles. Os
    Mouros receberam-nos mui esforçadamente; ao juntar houve logo muitos
    derribados, de uma parte, e da outra, e muitos cavallos andavam pelo
    campo sem senhores. Sobre a az do Ifante, que primeiro juntou com os
    Mouros carregaram tantos delles, que se não fora soccorrida, em modo
    algum se pudera sofrer, que vendo D. Gonçalo de Souza, e D. Lourenço
    Viegas o Ifante assi cercado, e encerrado antre tantos Mouros, foram a
    gram pressa a ferir nelles; tambem os Condes D. Pedro das Esturias, e D.
    Ramiro, Capitães das azes, e depois de as azes todas assi envoltas, e
    antre si mui feridas, partio-se a peleija em quatro, ou cinco partes mui
    brava em todolos cabos. Era para louvar a Deos, e folgar de ver o
    esforçado peleijar dos nossos, que por força fizeram juntar-se onde
    estava o pendão de Sevilha; e do Ifante, se acha escrito, que bem
    mostrava ser filho de seu pae, em ferir, assi de lança como de espada
    peleijando mui esforçadamente, onde quer que se acertava. Em esto vendo
    D. Pero Paes Alferes, os Mouros assi todos juntos com o pendão de
    Sevilha dando vozes a Mem Moniz, e a outros Senhores, remeteo ao Alferes
    que o tinha, e deu-lhe tais duas feridas de espada, que o desatinou, e
    leixando cair sua espada dependurada por uma cadea, para esso segundo
    parece custumada travou no Alferes, e como era forçoso deu com elle, e
    com o pendão em terra.

    Nesto os Mouros, que com algum esforço, ou vergonha de ver ainda o seu
    pendão levantado, sostinham a peleija, tanto que o viram derribado
    começaram todos a fugir, via da Cidade, e o Ifante e os seus apoz elles
    matando, e derribando quantos podiam, e ao entrar de Trianna foi tanta a
    pressa nos Mouros, que não poderam cerrar a porta, e os nossos entraram
    de volta com elles. Os Mouros que tinham já a ponte passada, por
    tornarem a soccorrer os que ficavam atraz, acalçados dos nossos, deram
    tanto empacho e torvação aos trazeiros, que tiveram os nossos grande e
    despejado tempo, e lugar, para fazer em elles grande matança, e em
    muitas partes se acha escrito haver sido tanta mortindade dos Mouros,
    feridos, e mortos no rio Guadalquibir, que suas aguas pareciam sangue,
    segundo o sangue tinge sempre mais de sua quantidade a agua em mostra
    muito maior. O Ifante feito este tão grande desbarato dos Mouros,
    tornou-se para onde elles tiveram seu arraial de ante sentado, no qual
    acharam prezas grandes, e ouro, e prata, e muitas joias, e cavallos, e
    outras cousas, as quaes repartio por esses Grandes, e Cavalleiros, e
    outra gente, como bem lhe pareceu sem tomar nada para si, do que todos
    foram delle mui contentes.

    CAPITULO LIII

    _Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e foi
    sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre ella_.

    Acha-se escrito, que ficando assi Beja falecida de gente para sua
    defenção, pela muita que della se fora com o Ifante D. Sancho mais que
    de outro nhum Lugar Dalentejo como acima dissemos, e ainda de esses que
    nella ficaram alguns com medo de a não poderem defender, se partiram
    della para outros lugares de Christãos, e os Mouros sabendo certo como a
    Villa estava para ligeiramente se poder tomar, pela mingua de gente que
    não tinha, ajuntaram-se dous mui principaes antre elles chamados um
    Alboacamesim, e outro Albouzil, e muitos Mouros que os seguiram, e
    chegaram a pôr cerco sobre ella. Os poucos Christãos que dentro estavam,
    corregeram a Villa o milhor que poderam, e poseram se a defende-la, e
    aprouve a N. Senhor, que com quanto os Mouros logo em chegando a
    combateram, e afrontaram mui rijamente, os nossos a defenderam com tanto
    esforço, que os imigos a não poderam tomar tão de ligeiro, como traziam
    por certo, e assi por sua multidão, e os defensores da Villa serem
    poucos, como por o Ifante ser com a outra gente mui alongado, para os
    haver de soccorrer, detreminaram toda via sentar arraial sobre a Villa,
    fazendo conta, que ainda que a não tomassem, logo em chegando a
    tomariam, em alguns poucos dias, que para esso teriam despaço, e
    começaram trazer, e fazer engenhos, e arteficios, que para tal cazo
    cumpria.

    Quando os de dentro da Villa viram a determinação, e assento dos Mouros,
    tomaram acordo de o fazerem saber ao Ifante, e mandaram um Escudeiro dos
    que na Villa estavam sabedor mui bem da terra, cavalgado em um especial
    cavallo, o qual como foi noite saio-se fóra da Villa com tal tento, e
    avizo, que não houve sentimento, nem torvação dos do arrayal, e a carta
    que levava era que os da Villa se encomendavam em sua mercê, e lhe
    pediam que lhes acorresse em tão grande fadiga e trabalho em que
    estavam; no qual entre tanto elles fariam quanto em si fosse, por toda
    via guardarem o que lhes encomendara. Passando assi estas cousas depois
    de vencida a batalha de Sevilha, o Ifante partio da li contra a terra,
    que ora em Castella chamam Algarve, fazendo muita destruição nos Mouros
    por toda aquella terra, e estando sobre Niebla, chegou o recado dos
    Cavalleiros de Beja, como aquelles Mouros a tinham cercada. O Ifante
    vista a carta chamou logo os do seu Concelho, e amostrou-lha, dizendo:
    _Amigos que vos parece desto, ou que devemos fazer_. E todos acordaram
    que para andarem correndo a terra, não era bem perder-se tal Villa, como
    era Beja. Então pareceo ser bem, que o Ifante tomasse de sua gente até
    mil e quatro centos de cavallo dos melhores emcavalgados para logo
    partirem com elle, e que toda a outra oste o seguisse, e tirassem de pôs
    elle o milhor que podessem direito a Beja.

    Esto assi detreminado, disse o Ifante a D. Pero Paes Alferes, que
    tomasse carrego dos que haviam de ficar e elle lhe respondeo: «Que cousa
    Senhor será irdes vós em algum lugar poer em a ventura a vosso corpo, em
    que me eu não ache a ter vossa bandeira, como ora em esta batalha, que
    vencestes de Sevilha, e outras muitas com vosso pai, até agora me sempre
    achei.» O Ifante lhe tornou a dizer, que elle fora desso mais ledo, mas
    pois seu cargo era guardar a oste, e rege-la, e governa-la, e nelle
    tanto confiava toda via quizesse ficar com ella. Então ficou D. Pero
    Paes com a gente, e deu de sua mão a bandeira a um seu sobrinho, por
    nome Sueiro Paes, mui bom Cavalleiro. Logo ao outro dia cedo, sem mais
    tardar partio o Ifante com aquelles mil e quatro centos de cavallo, a
    mais andar, e os Adais e Guias que comsigo levava, o levaram por tais
    Lugares, e caminhos, que os Mouro não poderam haver novas delles, e
    passaram pelo váo de Mertola, onde chamam as Asenhas. Os Mouros de
    Mertola, tinham escuitas no váo, e vieram dar novas á Villa, e porque o
    Ifante passava ao Serão, e a Villa era mui forte, não temeram os Mouros
    de Mertola, que aquella gente vinha sobre elles, mas que iam soccorrer a
    Beja, pelo qual mandaram logo a gram pressa homens de pé, e de cavallo
    fazer saber a Alboacamezim, e Albouzil, como pelo váo das Asenhas
    passara aquella noite muita gente, e que haviam por certo não ser outrem
    se não o Ifante D. Sancho.

    Havido este recado, foi muito grande alvoroço no arraial dos Mouros, e
    uns diziam que era bem que se fossem, e outros que era milhor
    aguardarem, e peleijarem com os Christãos. O Ifante tanto que veio aos
    chãos do Campo Dourique, disse aos seus, que se não trigassem a andar
    por chegarem mais folgados aos imigos, porque o caminho fora grande, e
    mao, e vinham trabalhados, e por causa desso não poderam chegar á vista
    dos imigos se não a ora de Terça. Tinham os Capitães dos arraiaes,
    especiais espias, e tanto que houveram avizo de Mertola, mandáram logo
    essa noite corredores a saber que gente era a que vinha, e se vinham
    para alli, se para outra parte. Os corredores dos Mouros amanheceram
    acerca de alguns do Ifante, que vinham adiantados, e prenderam um
    Escudeiro, que lhes contou todo como era, e tornáram logo á pressa com
    elle a seus Capitães, e sabida a verdade por elle, esses milhores do
    arraial, por escuzarem vergonha de não esperar, mostraram grande
    esforço, e tenção de quererem em todo cazo peleijar com os nossos, como
    quer que al tivessem na vontade, outros mostravam o contrario, pelo
    grande receio que tinham ao Ifante, e aos outros que vinham com elle,
    havendo que seriam assinados Cavalleiros, dobrava-lhes este medo o
    fresco desbarato, e mortindade de Sevilha, segundo, que a corações
    encontrados em receios, sempre se lhes agoura, e apresenta o peor. Este
    incerto alvoroço dos Mouros deu espaço para o Ifante poder chegar sem
    elles poderem al fazer, se não esperar, e sair-se fóra do arraial, tão
    acerca viam já o pó da gente dos Christãos.

    Quando o Ifante chegou estavam já os Mouros com suas azes prestes, e sem
    mais aguardar, disse logo o Ifante a Sueiro Paes, que abalasse rijo com
    a bandeira, e assi foram rijo ferir nos Mouros, e a peleija, esse espaço
    que durou, foi fortemente peleijada dambas as partes, e com mostra de
    haver mais de durar, mas aprouve a N. Senhor, que os Mouros não poderam
    sofrer o grande esforço, e combate dos nossos, e começáram a fugir, e
    foram delles muitos cativos, e mortos, antre os quais morreram hi os
    dous Capitães Alboacamezim, e Albouzil. O Ifante com o seu, e assi os da
    Villa houveram grandes prezas em aquelle desbarato, e o Ifante assentou
    seu arraial fóra da Villa, sem querer entrar nella, até que chegasse a
    outra gente sua, que elle mandára que o seguisse. Os da Villa sairam
    fóra, e trouxeram-lhe serviços desso que podiam. O Ifante os recebeo com
    muito prazer e agradecimento louvando-os muito do grande esforço, e
    bondade que tiveram em defender a Villa, sendo tão poucos.

    Foi esta peleija, e vencimento do cerco de Beja, em dia Dascenção de N.
    Senhor dezoito dias de Maio, do Nascimento de N. Senhor de mil cento e
    setenta e nove annos (1179). A cabo de tres dias, do desbarato dos
    Mouros, chegou D. Pero Paes com toda a oste que lhe ficou encarregada, e
    depois de chegados, foi o Ifante com certos Cavalleiros ver a Villa, e
    entrando pela porta vio ainda em cima estar as Armas de Almançor,
    mandou-as logo tirar, e poer as del-Rei seu pai. Mas ora deixará a
    Estoria de falar do Ifante D. Sancho, que ficou em Beja mui temido dos
    Mouros de toda aquella terra, e contará de uma entrada que El-Rei Guami
    Mouro, e um seu irmão fizeram em Portugal, e como foi desbaratado, e
    prezo em Porto de Mós, por um Cavalleiro, que havia nome D. Fuas
    Roupinho.

    CAPITULO LIV

    _Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D. Fuas
    Roupinho Alcaide do Castello_.

    Sabendo os Mouros de cima do Tejo, como o Ifante D. Sancho era em Beja,
    de socego, parecendo-lhes que com a occupação que lá teria, elles podiam
    a seu salvo fazer entrada em Portugal, um Rei daquella terra onde ora é
    Caceres, e Valença, que chamavam Guami, e um seu irmão com soma de gente
    das terras a redor, passou o Tejo, e correo toda a terra de Christãos,
    até chegar a Porto de Mós. Em aquelle tempo tinha o Lugar um Cavalleiro,
    que chamavam D. Fuas Roupinho, o qual quando soube que vinha aquelle
    Mouro sobre elle, saio-se do Castello, leixando em elle gente que o
    podesse defender, encomendando-lhes muito, que assi o fizessem, que elle
    se não saia se não para logo lhes soccorrer com mais gente. Saido elle
    meteo-se em cima da Serra, que chamam Amendiga, da parte donde nace o
    roio de Porto de Mós, fazendo esconder os seus, mandou logo a gram
    pressa a Alcaneide, e Santarem fazendo saber a vinda daquelles Mouros, e
    que lhe enviassem gente, porque com a ajuda de Deos esperava que havia
    haver delles honra, e vencimento. Acodiu-lhe logo bom quinhão de gente,
    e no dia que elles chegaram aonde estava D. Fuas Roupinho, chegou o
    mesmo Rei Guami com todas suas gentes sobre Porto de Mós, e vendo o
    Castello tão pequeno, fazendo conta que ligeiramente o tomaria, foram
    logo todos em chegando a combate-lo mui rijamente. Foi o combate tão
    profiado, que dureu até noite, dos Mouros foram muitos mortos, e
    feridos, e assi da parte dos Christãos houve danno assás, e durando o
    combate os que estavam na Serra com D. Fuas Roupinho, debatiam-se todos
    por ir soccorrer aos seus, e elle lhes disse.

    * * * * *

    «Amigos posto que nós aqui sejamos muitos, porém eu vos rogo, que vos
    rejais hoje neste cazo por mim, que segundo cuido, e espero prazerá a
    Deos que vossos desejos, e meus, eu vo-los darei compridos com muito
    prazer, e honra, antes que estes Mouros daqui vão, e vós sede certos,
    que os que eu leixei no Castello são taes, que se defenderão bem, ainda
    que creio que os Mouros de os ter em pouco, não cessarão do combate até
    que a noite os desparta, e esso é o que eu mais desejo, porque então do
    caminho e combate mais cançados se lançarão a repouzar, e dormir, e nós
    ante menhã daremos nelles, e os desbarataremos.»

    E assi lhes saio em todo, porque de madrugada deram nos Mouros entregues
    ao sono, e não menos em descuido de lhes tal acontecer, e porque o lugar
    onde os Mouros estavam ante o Rio e o Castello ser mui estreito, deu
    ainda mais azo para sendo assi cometidos se embaraçarem antre si, e
    desbaratarem, e serem mortos, e feridos muitos mais, sem se poderem
    remediar. Foi ahi prezo El Rei Guami, e seu irmão com elle, e outros
    muitos, os quais com cincoenta dos melhores D. Fuas Roupinho levou a
    El-Rei D. Affonso Anriques a Coimbra. El-Rei o recebeo com muito prazer
    e gazalhado, e mandou meter em prizão a El-Rei Guami, e todos os que com
    elle foram levados, e a D. Fuas, e aos que com elle iam, e foram na
    batalha fez grandes mercês, como cabe aos Principes fazer por serviços,
    e merecimentos, assinados como aquelle. Foi esta batalha de D. Fuas
    Roupinho, e El-Rei Guami, em Porto de Mós aos vinte dias do mez de Maio,
    era de mil cento e oitenta annos (1180).

    CAPITULO LV

    _Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
    tomou delles nove Galés_.

    Estando assi D. Fuas Roupinho com El-Rei em Coimbra, quando lhe levou
    aquelle Rei Mouro prezo, escreveram os de Lisboa a El-Rei como hi
    andavam nove Galés de Mouros, de que era Almirante um Mouro por nome
    João Ferreira Dalfamim, o qual fazia muita guerra e dando por aquella
    Costa, que fosse sua mercê manda-lo remediar. El Rei havendo este
    recado, chamou D. Fuas Roupinho, encomendou-lhe que fosse a Lisboa, e
    fizesse armar Galés, e que fosse elle por Capitão, para ir peleijar com
    os Mouros, se o esperassem; e deu-lhe logo cartas e mandados para seus
    officiais, que lhe dessem para ello todo o que lhe fizesse mister, e
    outra para a Cidade, de como o mandava lá para armar aquella frota, e
    por tanto fizessem todo o que acerca desso elle lhes requeresse. Tanto
    que D. Fuas foi despachado, espedio-se del-Rei, e partio-se para Lisboa,
    e como chegou deu a Carta del-Rei á Cidade, e as outras aos officiaes
    daquelle carrego, e logo á pressa se deu ordem para se armar a frota, e
    como foi prestes, D. Fuas entrou em ella, e partio volta do Cabo de
    Espichel, por haver novas que na paragem do rio de Setubal
    continuadamente, continuavam mais as Galés dos Mouros, e faziam sua
    guerra, as quais havendo lá nova da Armada que se fazia, vinham tambem
    contra Lisboa a sabe-lo, e trova-lo se podessem, e em dobrando o Cabo,
    houveram vista da frota dos Christãos, e sem mais detença se foram
    aferrar uns com outros, peleijando mui fortemente, e quiz N. Senhor que
    os Mouros foram desbaratados, e todas suas Galés tomadas. Esto foi na
    era já dita de mil cento e oitenta annos (1180) a quinze dias de Julho.
    Tornou-se então D. Fuas para Lisboa com grande vitoria e honra, com a
    qual como era rezão foi recebido.

    CAPITULO LVI

    _Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado del Rei
    D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os seus_.

    Tanto que D. Fuas Roupinho tornou a Lisboa, com este vencimento, segundo
    muitas vezes, pequena boa andança engana para dezaventura maior,
    escreveo logo a El-Rei D. Affonso a Coimbra da vitoria que houvera onde
    o mandára, e mais lhe fazia certo, que os da Cidade, e toda a terra ao
    redor estavam em grande reto, e vontade de entrar nas Fustas e Galés
    para irem fazer guerra aos Mouros, e se houvesse por seu serviço, elle
    os serviria nesso. E El-Rei lhe mandou dizer, que lho tinha muito em
    serviço, e que assi o fizesse, escrevendo á Cidade sobre esso, e visto o
    recado del-Rei armaram logo uma soma de Galés, e D. Fuas, foi Almirante,
    e foram correr a Costa do Algarve; mas de couza notavel, e para contar
    que hi fizessem nada achamos escrito, e então D. Fuas teve Conselho do
    que fariam, e acordáram ser bem ir sobre o porto de Cepta, e hi acharam
    Fustas de Armada de Mouros, e tomaram-nas, e assi outros Navios grandes
    com elles, e depois de estarem ahi dous dias ante Cepta, tornáram para
    Lisboa trazendo os Navios tomados comsigo, vindo com grande prazer e
    contentamento de suas prezas, e logo a poucos dias depois de chegados,
    com não menos alvoroço, sem tento, o que não consente rezão ser sempre
    ditozo, se fizeram prestes para tornarem lá.

    Os Mouros mui sentidos dos dannos feitos por D. Fuas, receando-se de
    mais adiante, mandáram sobre ello recado por toda a Mourisma da praia, e
    tambem das partes da Espanha, e ajuntáram cincoenta e quatro Galés, e D.
    Fuas não sabendo desto parte, entrou pelo Estreito dentro, e depois
    achou-se lá com Galés dos Mouros, e pela grande corrente lançaram-se as
    nossas Galés sobre a frota dos imigos, e não poderam os nossos al fazer,
    se não peleijarem com elles, e assi aferráram, e peleijaram muito
    espaço. Mas pela grande desigualança, e os Mouros serem muitos mais
    foram os nossos vencidos, e desbaratados, e mortos muitos, e antre elles
    o nobre D. Fuas Roupinho. Esta foi aos dezasete de Outubro da dita era
    de mil e cento e oitenta annos (1180).

    CAPITULO LVII

    _Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
    Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
    em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
    que veio a soccorrer seu filho_.

    Despois que o Ifante D. Sancho teve Beja corregida do que compria para
    sua defensão, leixando em ella fronteiros, e assi nos outros Lugares e
    Villas Dalentejo veio-se para Santarem com a gente que de continuo
    trazia comsigo, e alguma pouca mais, porque a outra ficava repartida
    pela frontaria dos Mouros, e estando assi o Ifante D. Sancho em Santarem
    Almiramolim Emperador antre os Mouros Rei de Marrocos, vendo o grande
    danno e estrago que os Mouros tinham recebido del-Rei D. Affonso
    Anriques, e do Ifante D. Sancho seu filho, e como de toda a terra se lhe
    mandavam desso cada vez mais agravar, foi movido a fazer guerra a
    Portugal, e juntou muitas gentes infieis, dáquem, e dalém mar, e segundo
    diz uma Chronica, que foi achada em Santa Cruz de Coimbra, não era em
    memoria até aquelle tempo que tanta gente de Mouros fosse junta para
    entrar em Portugal. Vinham com Almiramolim, El-Rei Albojaque de Sevilha,
    e El-Rei Albozady, e El-Rei de Grada, e El-Rei de Fês, e outros Reis
    Mouros, que por todos eram treze, cujos nomes se não acham escritos, e
    vieram pelas partes Dalentejo a entrar na Estremadura, passando o Tejo
    um Domingo, dia de S. João Bautista, sete dias por andar de Junho, era
    do Senhor de mil e cento e oitenta e quatro annos; os Mouros logo em
    esse dia foram sobre o Castello de Torres Novas, e destruiram-no, e á
    Segunda feira vieram poer seu arraial em um lugar que se chama o monte
    de Pompeo, e á Terça feira se ajuntáram todos na Redinha, e á Quarta
    feira, se vieram a Orta lagoa, e alli sentáram seu raial, e esta conta
    da entrada, e jornadas de Almiramolim se escreve assi na Coronica, como
    quer que um letreiro dos que estão no Convento de Thomar, desvaire algum
    tanto, e diz que foi Almiramolim cercar o Castello de Thomar o primeiro
    dia de Julho, e o teve cercado seis dias, e que trazia comsigo
    quatrocentos mil de cavallo, quinhentos mil de pé, poderia passado o
    Tejo de tanta multidão apartar-se muita gente, poer este cerco, e fazer
    outras corridas pela terra, e chegar elle a esto, e deixa-lo posto.

    O Ifante D. Sancho que estava em Santarem, como dissemos, não tendo
    comsigo gente, que com rezão podesse peleijar com tanta multidão de
    Mouros, meteo-se a correger a Villa o milhor que pode para se haver de
    defender, e segundo achamos escrito ainda então a maior parte de
    Santarem era arrevalde, nem havia ahi mais cerca que Alcaceva pela torra
    de Alfam, até Alfanja, o Ifante despois de correger os muros, e ordenar
    a defensão saio-se fóra ao arravalde, e tomou uma parte delle, para o
    abairreirar de cubas, e portas, e escudos, e fez palanques, e lugares em
    que podessem estar para defender, mandando derribar todas as casas de
    redor, e então repartio sua gente, e elle poz se com sua bandeira onde
    lhe pareceo haver de ser mór pressa, e ao outro dia pela menhã Quinta
    feira vinte e oito de Junho vespora de S. Pedro, e S. Paulo abalou
    Almiramolim com toda sua gente, e chegou a Santarem, segundo conta
    aquella Estoria achada em Santa Cruz, como já disse, e em chegando,
    tanto que soube que o Ifante o esperava assi naquelle palanque houve por
    desprezo, e fez logo dar ás trombetas, e mover toda sua gente, e
    combater o palanque.

    Foi o combate tão forte, que morreram e foram feridos muitos de uma
    parte e da outra, em quanto uns peleijavam, destroiam os outros todo o
    arravalde de fóra do palanque até torre Lavinha, por fazerem aos Mouros
    maior praça, e despejo, para combater. Tanto que veio a noite, que
    partio o combate, o Ifante poz guarda no palanque, e fez agazalhar e
    repousar outra gente, e pensar dos feridos, e esta mesma afronta
    sofreram os Christãos assi cinco dias arreio, porque os Mouros eram
    tantos, que mui folgadamente se renovavam cada vez muitos aos combates,
    desde pela menhã até noite; e segundo conta a dita Estoria, quando
    El-Rei D. Affonso soube que Almiramolim vinha sobre o Ifante seu filho,
    ajuntou a mais gente que pode, e abalou tanto á pressa, que aos tres
    dias desque o Almiramolim chegou a Santarem, foi El Rei a Porto de Mós.
    Os Mouros sabendo da vinda del-Rei D. Affonso não leixáram por esso
    seguir com maior afronta seus combates, cada dia, como antes faziam, e
    ao quinto dia foi o Ifante e os seus tão afincados dos Mouros, e postos
    em tanto aperto, que o palanque foi roto por algumas partes, e muitos
    dos Christãos mortos, e feridos, e o Ifante esso mesmo foi ferido, com
    todo mui esforçadamente se defenderam, e sostiveram aquelle dia, que não
    foram entrados, e já não tinham modo de defensão, se não desemparar o
    palanque, e acolher-se ácerca; mas o Senhor Deos, que é poderoso em
    todalas cousas, quando se os homens em ellas não sabem, nem podem valer,
    então acode elle com sua ajuda, porque se então mais conheça, e poz tal
    medo e receo nos Mouros, com a vinda e chegada del-Rei D. Affonso, que
    começaram a dezemparar os combates que faziam, e ir-se poucos a poucos,
    a mais andar, como desbaratados, como soi a muita gente de fazer, e
    desmandar-se, quando se menos póde reger, e os Christãos vendo os raiaes
    dos Mouros mover se, e partirem-se de onde estavam, saio gente de pé do
    Ifante contra elles, e os Mouros se afastáram para um Lugar, que se
    chama monte de Abbade, e nisto appareceo El-Rei D. Affonso com sua
    gente, de que o Ifante e os seus foram mui ledos, e pozeram-se logo
    todos a cavallo, e juntos com El-Rei déram nos Mouros, fazendo nelles
    grande estrago, e mortindade, de que morreram alguns dos Reis que alli
    vinham, e grande parte dos mais nobres Mouros, e foi alli ferido
    Almiramolim, e feito assi nelle, e nos seus tão grande desbarato.

    Tornou-se El-Rei, e o Ifante com grande vencimento, e prazer de todos os
    seus, e acháram no Arraial dos Mouros grandes despojos de ouro e prata,
    e tendas armadas, cavallos, e camellos, e outras muitas cousas com
    pressa da peleija deixadas. E com todo esto, e muitos Mouros cativos,
    entráram na Villa mui ledos, dando muitas graças e louvores a N. Senhor.
    Estos Mouros, que assi iam fugindo com quanto iam desbaratados, porém
    por ainda ficarem mui muitos de tanta multidão foram poer arraial acerca
    Dalanquer, e tiveram-na cercada alguns dias, combatendo-a rijamente sem
    lhe poderem empecer, e depois se alçaram dali, e foram-se a Aruda, e
    destruiram-na toda por terra, e dali se foram cercar Torres Vedras, e
    estiveram sobre ella onze dias, e vendo que a não podiam tomar, houveram
    Conselho de se ir volta de sua terra, achando que eram dos seus muitos
    mortos, e perdidos, e assi muitas riquezas que trouxeram, e então se
    partiram seu caminho, e passado o Tejo morreo o seu grande Emperador
    Almiramolim das muitas feridas que houve na batalha.

    CAPITULO LVIII

    _Como cazou Dona Tareja, filha del-Rei D. Affonso Anriques a derradeira,
    com D. Felippe Conde de Frandes_.

    Despois que a batalha assi foi feita, El-Rei D. Affonso Anriques esteve
    alguns dias em Santarem, partio se para Coimbra levando comsigo o
    Infante D. Sancho seu filho, e como quer que já tenhamos dito,
    juntamente que El-Rei D. Affonso teve tres filhas, e que uma dellas
    cazara com El-Rei D. Fernando de Lião, e outra com o Conde D. Reymon de
    Barcelona, e outra com D. Felippe Conde de Frandes, nesta era acima dita
    de mil e cento e oitenta e quatro annos, metendo-se antre o seu
    cazamento, e de suas Irmãs passante de vinte e cinco annos, em que
    parece, que ainda esta Dona Tareja não era nacida, ou havia pouco que
    nacera, mas como se veio tratar o seu cazamento, não achamos escrito
    cousa para dizer de certo, sómente que desta tornada del-Rei D. Affonso,
    de Santarem para Coimbra, mandou o Conde D. Felippe de Frandes, por Dona
    Tareja sua molher, e vieram por ella Cavalleiros, e Senhores muitos, e
    outra muito nobre gente, e bem luzida, e Náos mui bem guarnecidas, á
    Cidade do Porto, e tanto que El-Rei soube que elles hi eram, partio-se
    com sua filha para lá, levando comsigo desses grandes do Reino, e homens
    principais, e quando chegou os Senhores, e Cavalleiros, que vinham pela
    Ifante, sairam a El-Rei, e a ella de quem foram bem recebidos, e com
    muita honra agazalhados, perguntando-lhe El-Rei com muita afeição, e
    assi a Ifante por novas da saude, e disposição do Conde, e de seu
    estado, e depois desto entregou-lhes El-Rei sua filha muito
    honradamente, mandando com ella em outras Náos dos seus naturaes alguns
    Grandes do Reino, e pessoas principais, e asi Donas, e Donzellas de
    linhagem quantas compria, e esta Dona Tareja viveo com seu marido vinte
    e tres annos.

    CAPITULO LIX

    _De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
    louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
    escritas_.

    Vendo-me chegado haver de dar cabo aos mui nobres feitos del-Rei D.
    Affonso Anriques com sua morte, a qual nos bons sempre é temporam, por
    tarde que venha, tomo desso grande pezar, como se vivendo com elle o
    visse falecer. Tão conversado, e affeiçoado trazia o esprito na materia
    de suas excellencias! Depois de feito o cazamento acima dito, veio o
    nobre Rei adoecer logo ao anno seguinte, e faleceo dessa doença o
    Excellente Principe mui manhanimo igual a qualquer dos mui excellentes
    antigos em valentia de forças, e coração mui grande, nem que na
    Christandade houve outro, antes, nem depois delle mais temido dos
    Mouros, cujos mui notaveis feitos não é duvida acharem-se muito menos
    postos em escrito, do que foram por obra, ora fosse por culpa dos
    tempos, ora por mingoa dos Escritores, segundo em alguns passos dessa
    sua Estoria se pode assás comprehender, porque em ella se não faz menção
    de muitas cousas assinadas de sua pessoa, nem dos seus, assi como de D.
    Gualdino Paes, que foi Mestre do Templo de Christo, em Portugal, e fez o
    Castello de Thomar, e outras Fortalezas, e servio grandemente em seu
    tempo.

    Teve este muito esforçado Rei, em suas excellentes cavallarias, como por
    ellas se mostra, o animoso fervor, e ardente esforço de Julio Cesar, e a
    segurança mui confiada de Publio Cipião Africano, em tanto gráo, que
    todo o que estava por fazer, cometia como se o tivesse já feito, e o que
    mui deficil se acha sendo tão activo. Era cheio de muita fé e devação,
    sem a qual toda cavallaria no Christão, é deslouvada, e ainda muitas
    vezes danoza, e com rezão mal preparada, pelo qual este mui virtuoso
    Rei, tendo tamanha occupação de guerras tão santas, e meritorias, contra
    os infieis, que assás bastavam para muito merecer ante Deos, não leixou
    por esso de fazer muitas Egrejas, e Moesteiros mui sumptuosos, dotados
    de muita renda, e ornamentos com muito serviço e acrescentamento do
    culto Divino, de que hoje em dia são principaes o Moesteiro de Santa
    Cruz de Coimbra, e o Moesteiro de Alcobaça, leixando manifesto exemplo
    aos menos devotos, que occupação de servir a Deos em uma cousa, não
    tolhe por esso, mas antes dá graça e poder para muitas outras.

    E em uma Chronica achei, que elle começou a Ordem de Santiago, e deu ao
    Esprital de Jerusalem oitenta mil dinheiros de ouro para se comprar
    herança, e tanta renda, porque désse cada dia a todos os enfermos de
    enfermaria mantimento de pão, e vinho, para que o metessem cada dia em
    orações, e satisfez outras muitas cousas de caridade, e devação, foi mui
    amado, e temido dos seus. Houve, e venceo em pessoa muito grandes
    batalhas, e afrontas de peleijas, segundo se achou com muito poucos
    contra muitos; desbaratou em pessoa dous Emperadores, um Christão, e
    outro Mouro, e vinte Reis Mouros, com grandes poderes, e gentes, sendo
    elle muito menos. Primeiramente em Val de vez, antre Monção, e Ponte de
    Lima, venceo El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador. Depois no
    Campo Dourique venceo cinco Reis Mouros, com infinda Mourama, e junto
    com Palmela venceo El-Rei de Badalhouce Mouro, vindo com grande poder. E
    em Santarem Albojaque Rei de Sevilha, e apoz esto, Almiramolim
    Emperador, que se dizia antre os Mouros Rei de Marrocos, que trazia
    treze Reis Mouros comsigo, com novecentos mil homens, como dito é, não
    contando outros vencimentos grandes, que houve de Lugares, e Fortalezas,
    que tomou a Mouros, muitas, e mui grandes, e fortes: primeiramente na
    Estremadura, Santarem, Lisboa, e todas outras Fortalezas della, desde
    Lisboa até Coimbra, em Alentejo, tomou Cezimbra, Palmela, Alcacer,
    Evora, Elvas, Cerpa, Moura, Beja, e outras Fortalezas muitas, mui
    fortes, e grandes.

    CAPITULO LX

    _Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era em
    que se finou, e onde foi sepultado_.

    Na verdade El-Rei foi dino de grande louvor, e memoria de todos seus
    feitos, e que alguns escrevessem delle que em sua mancebia foi bravo, e
    esquivo, sobejo, certo a mim parece concirando bem tudo, que em nhum
    tempo teve cousa alguma, que sendo elle o primeiro Rei de Portugal, e no
    modo que o foi, lhe não fosse compridouro ser em tudo qual foi, assi
    para serviço de Deos, como para bem, e muita honra do seu Reino, e que
    se tal não fora, não sabemos que fora de Portugal, o que Deos seja
    louvado, agora é, porque como diz Aristoteles, o principio é mais, que o
    meio das cousas, porque muitas vezes ouvi dizer a meu irmão D. João
    Galvão, Arcebispo que foi de Braga, e Prior de Santa Cruz de Coimbra,
    Escrivão da Puridade del-Rei D. Affonso o Quinto, que Santa gloria haja,
    que segundo achava pelas cousas daquelle Moesteiro, e outras obras
    daquelle virtuoso Rei, elle o tinha por Santo, e por tal a seu parecer
    deve ser havido.

    Os annos, que neste mundo viveo ainda que se achem escritos em diversos
    modos, porém tirada a limpo com muita diligencia, a verdade desso, achei
    que viveo noventa e um annos; porque elle naceo na era de N. Senhor Jesu
    Christo de mil e noventa e quatro, cinco annos antes que a Caza Santa de
    Jerusalem fosse tomada aos Mouros pelo Duque Gudufre de Bulhão; e por
    morte de seu pai o Conde D. Anrique ficou elle de dezoito annos, e des
    então foi chamado Principe vinte e sete annos, e despois chamado Rei
    quorenta e seis annos, e sendo alçado Rei em idade de quorenta e cinco
    annos, que são assi por todos noventa e um annos, em que o Senhor Deos
    aprouve leva-lo para si, tres annos antes que a Caza Santa se tornasse a
    perder, e tomar de infieis, pelos peccados dos Christãos, tolhendo N.
    Senhor a este virtuoso Rei, que não visse tão grande pezar, quem lhe
    tanto mereceo empunhar pela sua Santa Fé.

    Finou-se aos seis dias do mez de Dezembro, era de N. Senhor Jesu Christo
    de mil cento e oitenta e cinco annos. Foi enterrado no Moesteiro de
    Santa Cruz de Coimbra que elle mandou fazer. Ainda que velho foi mui
    sentida sua morte, de seu filho, o Ifante D. Sancho, e de todos seus
    Cavalleiros e Vassallos, do Povo, do Reino de Portugal, e seu corpo
    enterrado com muita honra, e grandes obsequias, e sua Alma levada nas
    mãos dos Anjos, á gloria do Paraiso, onde todos sejamos. Amen. Tem de
    fóra da sepultura um letreiro de versos em latim, que diz, outro
    Alexandre jaz aqui, ou Julio outro.

    DEO GRATIAS

    INDEX DAS COUSAS NOTAVEIS

    A

    Abdenamer cativou em Espanha muitos Mouros, e Christãos, e abrazou muitos
    Santuarios.

    Achy Rei Mouro com trezentos mil Soldados cerca Coimbra, e levanta o cerco
    com grande perda.

    Affonso (D.) Rei de Lião foi filho de D. Fernando, e Dona Urraca filha
    del-Rei D. Affonso Anriques.

    Affonso de Castella (D.) chamado o Emperador caza sua filha Dona Tareja
    com o Conde D. Anrique.
    É vencido na batalha de Valdevez por D. Affonso Anriques.

    Affonso Anriques (D.) Quando naceo.
    É entregue a Egas Monis para ser seu Aio.
    É apresentado por este Fidalgo a N. Senhora a qual o livra da aleijão
    com que naceu.
    Acompanhou a seu pai defunto até o lugar onde o sepultáram.
    Dezafia a seu Primo el-Rei de Castella D. Affonso filho do Conde D.
    Reymão por lhe tomar Lião, mas logo se reconciliáram.
    Peleja com seu Padrasto, e é vencido.
    Torna Segunda vez a batalhar, e o vence, e prende juntamente com elle
    a sua Mãi.
    Alcança a batalha de Valdevez onde fica vencido D. Affonso de Castella
    chamado Emperador.
    É cercado em Guimarães por D. Affonso de Castella.
    De como levantou o cerco.
    Conquista Leiria, e Torres novas.
    Parte ao Alentejo para pelejar com os Mouros.
    Sentio muito a morte de Egas Monis.
    Busca a el-Rei Ismar, e assenta os arrayaes no lugar chamado Cabeças de
    Rei.
    É despersuadido pelos Soldados a não commetter a batalha do campo de
    Ourique, mas elle os anima para o conflito.
    Aparece-lhe Christo Senhor nosso, e lhe segura o bom successo da
    batalha.
    Antes da batalha é levantado Rei.
    Dá-se a batalha, e sae vitorioso.
    Depois d'esta vitoria acrecentou o escudo suas Armas.
    É informado do lugar onde está o Corpo de S. Vicente Martyr.
    Vai buscar este santo Corpo ao Cabo do seu nome, e o não acha.
    Toma Leiria aos Mouros.
    Faz doação a S. Theotonio de Leiria, e Arronches sómento no espiritual.
    Caza com Dona Mofalda.
    Intenta tomar Santarem.
    Manda por Martim Mohás levantar a tregoa com os Mouros de Santarem.
    Voto que fez a S. Bernardo se conquistasse Santarem.
    Pratica que fez aos Soldados para conquistar esta Villa.
    Escala esta Villa, e se fez Senhor della.
    De que modo rendeo a Deos as graças pela tomada desta Villa.
    Ordena cercar Lisboa.
    Exhorta aos estrangeiros que chegáram na Armada para a conquista de
    Lisboa.
    Conquista esta Cidade, e purifica a sua Mesquita.
    Determina fazer esta Cidade Bispado, e quem foi o seu primeiro Bispo.
    Nomeia o primeiro Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra, e quem foi?
    Conquista Alanquer, Obidos, Torres vedras, e Alcacere, Elvas, Moura, e
    Serpa.
    Dos filhos que teve.
    Recebe com grande pompa em Tuy ao Conde de Barcelona D. Reymondo, que
    vinha com procuração de seu filho a despozar-se com Dona Mofalda
    filha do mesmo Rei.
    Toma Cezimbra, e Palmella onde desbaratou os Mouros.
    Conquista Badalhouse.
    Contendas que teve com seu genro D. Fernando Rei de Lião, e sahindo a
    pelejar com elle quebra uma perna no ferrolho das portas de
    Badalhouse.
    Por causa deste desastre fica prisioneiro, e para recuperar a liberdade
    concede, e larga algumas terras, e Fortalezas a D. Fernando.
    Fez juramento a seu filho D. Sancho por successor da Coroa, e quando
    se celebrou este acto.
    Desbarata em Santarem a Albojame Rei de Sevilha, que a vinha cercar.
    Manda a seu filho D. Sancho a pelejar com os Mouros no Alentejo.
    Soccorre ao mesmo Infante, que estava em Santarem cercado por
    Almiramolim Emperador de Marrocos, e o desbarata.
    Acções illustres, que obrou.
    Annos, que viveo.
    Dia, e anno da sua morte, e onde está sepultado.

    Alanquer é conquistado por D. Affonso Anriques.

    Albojame Rei de Sevilha é desbaratado pertendendo tomar Santarem, por D.
    Affonso Anriques.
    Faz tregoas com o mesmo Rei por cinco annos.

    Alcacere é conquistado por D. Affonso Anriques.

    Almada, diversos nomes que teve.

    Almiramolim Emperador de Marrocos cerca em Santarem ao Infante D. Sancho,
    e é desbaratado.

    Arronches é tomado por São Theotonio Prior de Santa Cruz de Coimbra.

    Auzery Alcaide mór de Santarem foge para Sevilha quando se tomou a dita
    Villa.

    Azambuja porque cauza lhe puzeram este nome.

    B

    Badalhouse é tomado por D. Affonso Anriques.
    No ferrolho das suas portas quebrou o mesmo Rei uma perna, e por esta
    causa é prisioneiro por seu genro D. Fernando Rei de Lião, e recupera
    outra vez Badalhouse.

    Batalha de Santilhanas, nella foi prisioneiro por D. Affonso Anriques D.
    Fernando Conde de Trastamara juntamente com a Rainha Dona Tareja mãi do
    mesmo Rei.
    A de Valdevez, nella ficou destruido D. Affonso de Castella chamado
    Emperador.
    A do Campo de Ourique.
    A de junto de Palmella.
    A de Inxarafe alcançada pelo Infante D. Sancho.
    A de Beja alcançada pelo mesmo Infante.
    A de Santarem onde é destruido Almiramolim Emperador de Marrocos.

    Beja é conquistado por D. Affonso Anriques, e em que anno.
    É cercada pelos Mouros governados por Albocamesim, e Albouzil, e
    levantam o cerco derrotados pelo Infante D. Sancho.

    Bernardo (S.) Estando em França soube por illustração Divina o voto que
    fizera á sua Religião D. Affonso Anriques se conquistasse Santarem.

    C

    Cezimbra é conquistada por D. Affonso Anriques.

    Childe Rolim foi um dos principaes Cavalleiros que veio na Armada que
    ajudou conquistar Lisboa.
    Passou á Villa de Azambuja, que ficou a seus descendentes.

    Coimbra é cercada por Achy Rei Mouro, e levanta o sitio com grande perda.

    D

    Daciano Martyrizou a S. Vicente.

    D. Diogo Gonçalves morre valerosamente na batalha de Ourique.

    E

    Egas Moniz (D.) foi o aio del-Rei D. Affonso Anriques.
    Aparece-lhe de noute N. Senhora, e lhe manda leve a este Principe a um
    lugar, onde achará uma Igreja sua onde ficará livre da aleijão com
    que nacera, e assim sucedeo.
    Da maneira que fallou a El-Rei de Castella D. Affonso, e lhe fez
    levantar o cerco de Guimarães.
    Vai com sua mulher, e filhos apresentar se a El-Rei de Castella pela
    menagem que lhe tinha feito em Guimarães.
    É livremente despedido pelo dito Rei.
    É recebido com grande alegria por D. Affonso Anriques quando voltou de
    Castella.
    Da sua morte, e onde está enterrado.

    Elvas é conquistada por D. Affonso Anriques.

    Elvira (D.) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador casou
    com o Conde D. Reymão de S. Gil de Proença.

    Evora é conquistada por D. Affonso Anriques.

    F

    Felippe (D.) Conde de Frandes cazou com Dona Tareja filha terceira del-Rei
    D. Affonso Anriques.

    Fernando (D.) Conde de Trastamara cazou com D. Tareja viuva do Conde D.
    Anrique.
    Era o maior homem de Espanha, e por esta causa se levantou todo Portugal
    por elle contra El Rei D. Affonso Anriques.
    É prisioneiro na batalha de Santilhanas por El-Rei D. Affonso Anriques.

    Fernando (D.) Rei de Lião cazou com Dona Urraca filha de D. Affonso
    Anriques.
    Separa-se delle por ordem do Papa por serem parentes.
    Prisiona em Badalhouse a seu sogro D. Affonso Anriques.

    Fuas Roupinho (D.) desbarata os Mouros que cercavam Porto de Mós.
    Alcança uma victoria naval dos mesmos inimigos, e lhe toma nove Galés.
    Peleja segunda vez com os Mouros em o mar, onde foi desbaratado, e morto.

    G

    Gilberto foi o primeiro Bispo que teve Lisboa depois de ganhada aos Mouros.

    Gonçalo de Sousa (D.) valerosamente peleja na batalha de Ourique.
    Achou-se na conquista de Santarem.
    Acompanhou a D. Affonso Anriques quando foi a Tuy receber ao Conde de
    Barcelona D. Reymondo.
    Assistio na batalha de Inxarafe com o Infante D. Sancho governando a
    seiscentos homens de cavallo.

    Gonçalo Viegas (D.) adiantado mór da Cavallaria del-Rei, socega o tumulo
    que havia sobre o lugar onde se havia de collocar o Corpo de S. Vicente
    quando chegou a Lisboa.

    Gualterio frade Flamengo é nomeado primeiro Prior do Mosteiro de S.
    Vicente de Fóra por D. Affonso Anriques, e não permanece.

    Guimarães é cercada por El-Rei de Castella D. Affonso.
    Levanta o sitio por persuasão de D. Egas Moniz.

    Guodinos Conego Regrante, e Prior do Mosteiro de S. Vicente de Fóra é
    eleito Bispo de Lamego.

    I

    Inglezes que vieram na Armada para cercar Lisboa assentam o seu arrayal
    no logar donde está a Igreja Parochial dos Martyres.

    Ismar (El-Rei) com quatro Reis é vencido na batalha de Ourique sendo o
    numero dos inimigos muito superior ao dos Christãos.
    Toma Leiria.

    Izidoro (D.) Bispo de Tuy acompanhou a esta Cidade a El-Rei D. Affonso
    Anriques quando foi receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.

    J

    João (D.) Arcebispo de Braga recebe em Tuy a Dona Mofalda filha del-Rei
    D. Affonso Anriques com D. Reymondo filho do Conde de Barcellona
    assistindo este com procuração do filho.
    Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.

    L

    Leiria é conquistada por D. Affonso Anriques.
    É tomada por El-Rei Ismar.

    Lisboa é cercada por D. Affonso Anriques.
    Em que dia, e anno foi ganhada.
    Quem foi o primeiro Bispo, que teve depois de conquistada aos Mouros.

    Lourenço Viegas (D.) Peleja valerosamente na batalha de Ourique.
    Achou-se na conquista de Santarem.
    Assistio na batalha de Inxarafe governando seiscentos homens.

    M

    Martim Moniz filho de Egas Moniz Capitão de uma Az na batalha do Campo
    de Ourique peleja valerosamente.
    Morre na batalha.

    Mem Moniz filho de Egas Moniz era Capitão na batalha de Ourique.
    É mandado por D. Affonso Anriques a fazer tregoas com os Mouros de
    Santarem, e de como espiou a Villa, e do conselho que deu a El-Rei
    para poder ser conquistada.
    Acha-se na conquista de Santarem sendo já Guarda mór del-Rei.
    Assistio na batalha de Inxarafe D. Sancho.

    Mendo (D.) Bispo de Lamego acompanhou a El-Rei D. Affonso Anriques a Tuy
    onde recebeo a D. Reymondo Conde de Barcelona.

    Moçaraves são prisioneiros na batalha do Campo de Ourique os quaes
    informaram a El-Rei D. Affonso Anriques donde estava o Corpo do Martyr
    S. Vicente.

    Mofalda (D.) Filha do Conde D. Anrique de Lara caza com D. Affonso
    Anriques.

    Mofalda (D.) Filha del Rei D. Affonso Anriques caza com D. Reymondo
    filho do Conde de Barcelona, e quando, e como se fez este cazamento.

    Mossem Guilhem de longa espada, Conde de Lincoll foi um dos principaes
    Cavalleiros que vieram na Armada, que ajudou a tomar Lisboa.

    Mosteiro de S. Vicente de Fóra. Nelle, antes de ser fundado, pôs o seu
    arraial D. Affonso Anriques para conquistar Lisboa.
    Qual foi o seu primeiro Prior nomeado pelo mesmo Rei.

    Moura é conquistada por D. Affonso Anriques.

    O

    Obidos foi conquistado por D. Affonso Anriques.

    P

    Payo Guoterres é feito Alcaide do Castello de Leiria por S. Theotonio
    quando foi conquistado por D. Affonso Anriques.
    É prisioneiro no Castello de Leiria quando foi conquistado por El-Rei
    Ismar.

    Palmella é conquistada por El-Rei D. Affonso Anriques onde desbarata em
    uma batalha aos Mouros de Badajós.

    Pedro (D.) Conde das Asturias acompanha a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques
    quando foi receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.

    Pedro Affonso (D.) Irmão bastardo del-Rei D. Affonso Anriques se achou na
    conquista de Santarem.

    Pedro das Esturias (D.) governou na batalha, que se compunha de duzentos e
    cincoenta cavallos.

    Pero Paes (D.) Alferes de D. Affonso Anriques se achou na conquista de
    Santarem.
    Acompanha o mesmo Rei a Tuy quando foi receber ao Conde de Barcelona D.
    Reymondo.
    Assistio com o Infante D. Sancho na batalha de Inxarafe.

    Porto de Mós é cercado pelos Mouros, onde foram desbaratados por D. Fuas
    Roupinho.

    Portugal é dado em dote ao Conde D. Anrique por El-Rei de Castella D.
    Affonso chamado Emperador quando cazou com elle a sua filha Dona Tareja.
    Porque tomou este nome?

    R

    Ramiro (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
    a receber a D. Reymondo Conde de Barcelona.
    Assistio na batalha de Inxarafe governando a Az esquerda, que se
    compunha de duzentos e cincoenta cavallos.

    Reymondo (D.) Conde de Barcelona recebe com procuração de seu filho a Dona
    Mofalda filha del-Rei D. Affonso Anriques, e quando, e como se fez este
    cazamento.

    Roberto (D.) Daião da Sé de Lisboa faz que o Prior da Igreja de Santa
    Justa lhe conceda que o Corpo do Martyr S. Vicente seja collocado na Sé.

    S

    Sancha (D.) filha do Conde D. Anrique cazou com D. Fernão Mendes.

    Sancho (Infante D.) filho de D. Affonso Anriques em que dia e anno foi
    jurado em Coimbra.
    É mandado por seu pai ao Alentejo a peleijar com Mouros, e do alvoroço
    com que recebeo esta ordem, e o que executou.
    Alcança uma gloriosa vitoria dos Mouros em Sevilha.
    Alcança outra vitoria dos mesmos inimigos indo cercar Beja.
    É cercado dentro em Santarem por Almiramolim Emperador de Marrocos com
    quatrocentos mil cavallos, e quinhentos mil de pé, e sendo soccorrido
    por El-Rei seu pai é desbaratado com todo o exercito.

    Santarem, descreve-se a bondade do seu paiz, e como D. Affonso Anriques
    determinou conquista-la, e da difficuldade que havia para o conseguir.
    É escalada, e entrada por El-Rei D. Affonso Anriques.
    Porque tem este nome.
    É cercada por Albojame Rei de Sevilha, onde foi derrotado por D. Affonso
    Anriques.

    Serpa é conquistada por D. Affonso Anriques.

    Sinaes espantosos que appareceram em o Ceo de noute quando El-Rei D.
    Affonso Anriques quiz tomar Santarem.

    T

    Tareja (D.) caza com o Conde D. Anrique, e leva por dote a Portugal como
    Condado.
    Depois da morte do Conde D. Anrique cazou com D. Vermuy Paes de Trava,
    e depois com D. Fernando Conde de Trastamara Irmão de Vermuy Paes.
    É prisioneira na batalha de Santilhanas por seu filho D. Affonso
    Anriques.

    Tareja (D.) Filha terceira del-Rei D. Affonso Anriques cazou com D.
    Felippe Conde de Frandes.
    Como foi conduzida para aquelle Condado.

    Theotonio (S.) Prior de Santa Cruz conquista Arronches.
    Faz-lhe doação D. Affonso Anriques de Leiria, e Arronches sómente no
    Espiritual.
    Recebe do mesmo Rei Leiria assim no Espiritual, como no temporal, e
    lhe põe por Alcaide do Castello a Payo Guoterres.
    Faz oração com os seus Conegos pelo bom sucesso da conquista de
    Santarem.

    Thomar. O seu Castello é cercado por Almiramolim Emperador de Marrocos.

    Torres Novas. Quando foi conquistada por D. Affonso Anriques?
    O seu Castello foi destruido por Almiramolim Emperador de Marrocos.

    Torres Vedras foi conquistada por D. Affonso Anriques.

    Trancoso é tomado pelos Mouros, onde fizeram grande mortandade.

    U

    Urraca (D) filha del-Rei de Castella D. Affonso chamado o Emperador caza
    com o Conde D. Reymão de Tolofa.

    Urraca (D.) filha de D. Affonso Anriques cazou com D. Fernando Rei de
    Lião.

    Urraca Lopes (D.) filha do Conde de Navarra Irmã de D. Diogo o bom Senhor
    de Biscaya cazou com El-Rei de Lião D. Fernando.

    V

    Vasco (Conde D.) acompanhou a Tuy a El-Rei D. Affonso Anriques quando foi
    receber ao Conde de Barcelona D. Reymondo.

    Vermuy Paes de Trava (D.) cazou com a Rainha Dona Tareja viuva do Conde D.
    Anrique.
    Depois deixando-a cazou com uma filha da mesma Dona Tareja.

    Vicente (S.) donde era natural, e como foi martyrizado.
    O seu Corpo é trazido ao Cabo que agora tem o seu nome, e de como o foi
    buscar D. Affonso Anriques, e o não achou.
    Como foi achado o seu Corpo, e collocado na Sé de Lisboa.

    Villa franca foi chamada antigamente Cornagoa.

    TRASLADO DO JURAMENTO DEL-REI D. AFFONSO ANRIQUES

    O qual se conserva no Archivo do Real Mosteiro de Alcobaça

    Ego Alfonsus Portugalliae Rex, filius illustris Comitis Henrici, nepos
    magni Regis Alfonsi, coram vobis bonis viris, Episcopo Bracharensi, &
    Episcopo Colimbriensi, & Theotonio, reliquisque magnatibus officialibus
    vassalis Regni mei in hac Cruce aerea, & in hoc libro Sanctissimorum
    Euangeliorum juro cum tactu manuum mearum, quod ego miser peccator, vidi
    hisce oculis indignis verum Dominum nostrum JESUM Christum in Cruce
    extensum in hac forma. Ego eram cum mea hoste in terris ultra Tagum, in
    agro Auriquio, ut pugnarem cum Ismaele, & aliis quatuor Regibus Maurorum
    habentibus secum infinita millia, & gens mea timorata propter
    multitudinera, erat fatigata, & multum tristis, ia tantum, ut multi
    dicerent esse temeritatem inire bellum, & ego tristis de eo quod
    audiebam, caepi mecum cogitare, quid agerem, & habebam unum librum in
    meo papillione, in quo erat scriptum Testamentum antiquum, & Testamentum
    JESU Christi. Aperui illum, & legi victoriam Gedeonis, & dixi intra me:
    Tu seis Domine JESU Christe, quia pro tuo amore suscepi bellum istud
    contra tuos inimicos, & in manu tua est dare mihi, & meis fortitudinem,
    ut vincamus illos blasphemantes tuum nomen, & sic dicens dormivi supra
    librum, & videbam virum senem ad me venientem, dicentemque: Adefonse,
    confide, vinces enim, debellabisque Reges istos infideles, conteresque
    potentiam illorum, & Dominus noster ostendet se tibi. Dum haec video,
    accedit Joannes Ferdinandus de Sousa vassallus de meo cubiculo,
    dixitque: Surge domine mi. Adest homo fenex, vultque te alloqui.
    Ingrediatur, dixi, sic fidelis est. Ingressus ad me, agnovi esse illum,
    quem in visione videram, qui dixit mihi, domine, bono animo esto,
    vinces, & non vinceris. Dilectus es Domino, posuit enim super te, &
    super semen tuum post te oculos misericordiae fuae usque in sextam
    decimam generationem, in qua attenuabitur proles, sed in ipsa attenuata
    ipse respiciet, & videbit. Ipse me jubet indicare tibi, quod dum
    audieris sequenti nocte tintinnabulum Remisorii mei, in quo vixi
    sexaginta sex annis inter infideles, fervatus favore altissimi,
    egrediaris extra castra, solus sine arbitris, ostendere tibi pietatem
    suam multam. Parui, & reverenter in terra positus, & nuntium, &
    mittentem veneratus sum, & dum iu oratione positus sonitum expectarem,
    secunda noctis vigilia tintinnabulum audivi, & ense, & scuto armatus,
    egressus sum extra castra, vidique subito a parte dextra, orientem
    versus, micantem radium, & paulatim splendor crescebat in maius, & dum
    oculos ad illam partem efficaciter pono, ecce in ipso radio clarius sole
    signum Crucis aspicio, & JESUM Christum in eo crucifixum, & ex una, &
    altera parte multitudinem juvenum candidissimorum, quos Sanctos Angelos
    fuisse credo. Quam visionem dum video, deposito ense, & scuto,
    relictisque vestibus, & calceamentis, pronus in terram me projicio,
    lacrymisque abundè missis, caepi rogare pro confortatione vassalorum
    meorum, dixi que nihil turbatus. Quid tu ad me Domine? Credenti enim
    Fidem vis augere? Melius est ut te videant Infideles, & credant, quam
    ego, qui a fonte baptismatis te Deum verum Filium Virginis, & Patris
    Aeterni agnovi, & agnosco. Erat autem Crux mirae magnitudinis, & elevata
    a terra quasi decem cubitos. Dominus suavi vocis sono, quem indignae
    aures meae perceperunt, dixit mihi. Non ut tuam Fidem augerem hoc modo
    apparui tibi, fed ut corroborem co tuum in hoc conflitu, & initia Regni
    tui supra firmam petram stabilirem. Confide Alfonse, non folum enim hoc
    certamen vinces, sed omnes alios in quibus contra inimicos Crucis
    pugnaveris. Gentem tuam invenies alacrem ad bellum, & fortem, petentem,
    ut sub Regis nomine in hac pugna ingrediaris; nec dubites, sed quidquid
    petierint, liberè concede. Ego enim aedificator, & dissipator Imperiorum
    & Regnorum sum: volo enim in te, & in semine tuo Imperium mihi
    stabilire, ut deferatur nomen meum in exteras gentes; & ut agnoscant
    successores tui datorem Regni, insigne tuum ex pretio, quo ego humanum
    genus emi, & ex eo quo ego a Judaeis emptus sum, compones, & erit mihi
    Regnum sanctificatum, Fide purum, & pietate dilectum. Ego ut haec
    audivi, humi prostratus adoravi dicens: Quibus meritis, Domine, tantam
    mihi annuntias pietatem? Quidquid jubes faciam, & ut in mea prole, quam
    promittis oculos benignos pone, gentemque Portugallensem salvam custodi,
    & si contra eos aliquod paraveris malum, verte illum potius in me, & in
    successores meos, & populum quem tanquam unicum filium diligo, absolve.
    Annuens Dominus inquit: Non recedet ab eis, neque a te unquam
    misericordia mea, per illos enim paravi mihi messem multam, & elegi eos
    in messores meos in terris longinquis: haec dicens disparuit, & ego
    fiducia plenus, & dulcedine redii in castra, & quod taliter fuerit, juro
    ego Aldefonsus Rex per Sanctissima Jesu Christi Euangelia hisce manibus
    tacta. Idcirco praecipio successoribus meis in perpetuum futuris, ut
    scuta quinque in crucem partita, propter Crucem, & quinque vulnera
    Christi, in insigne ferant, & in unoquoque triginta argenteos, & super
    serpentem Moysis, ob Christi figuram, & hoc sit memoriale nostrum in
    generatione nostra: & si quis aliud attentaverit, a Domino sit
    maledictus, & cum Juda traditore in Infernum maceratus. Facta carta
    Colimb. III. Kalend. Novembris. Era M. C. LII.

    Ego Aldefonsus Rex Portugaliae

    _I. Colimb. Episcop.–I. Bracharens. Metropol.–T. Prior.–Ferdinandus
    Petri Curiae Dapif.–Petrus Pelag. Curiae Signifer.–Velascus
    Sancij.–Alfonsus Menen. praef. Ulis.–Gondisalvus de Sousa procur.
    Imn.–Pelagius Menen. procur. Visen.–Suer. Martin. procurar.
    Colimb.–Menendus Petri, pro Magistro Alberto Regis Cancellario_.

    _Cuja significação em Portuguez é a seguinte_

    Eu Affonso Rei de Portugal, filho do Conde Henrique, e neto do grande
    Rei D. Affonso, diante de vós Bispo de Braga, e Bispo de Coimbra, e
    Theotonio, e de todos os mais Vassallos de meu Reino, juro em esta Cruz
    de metal, e neste livro dos Santos Evangelhos, em que ponho minhas mãos,
    que eu miseravel peccador vi com estes olhos indignos a nosso Senhor
    JESU Christo estendido na Cruz, no modo seguinte. Eu estava com meu
    exercito nas terras de Alentejo, no Campo de Ourique, para dar batalha a
    Ismael, e outros quatro Reis Mouros, que tinham consigo infinitos
    milhares de homens, e minha gente temerosa de sua multidão, estava
    atribulada, e triste sobremaneira, em tanto que publicamente diziam
    alguns ser temeridade acommetter tal jornada. E eu enfadado do que
    ouvia, comecei a cuidar comigo, que faria; e como tivesse na minha tenda
    um livro em que estava escripto o Testamento Velho, e o de Jesu Christo,
    abri-o, e li nelle a vitoria de Gedeão, e disse entre mim mesmo. Mui bem
    sabeis vós, Senhor JESU Christo, que por amor vosso tomei sobre mim esta
    guerra contra vossos adversarios, em vossa mão está dar a mim, e aos
    meus fortaleza para vencer estes blasfemadores de vosso nome. Ditas
    estas palavras adormeci sobre o livro, e comecei a sonhar, que via um
    homem velho vir para onde eu estava, e que me dizia: Affonso, tem
    confiança, porque vencerás, e destruirás estes Reis infieis, e desfarás
    sua potencia, e o Senhor se te mostrará. Estando nesta visão, chegou
    João Fernandes de Sousa meu Camareiro dizendo-me: Acordai, senhor meu,
    porque está aqui um homem velho, que vos quer fallar. Entre (lhe
    respondi) se é Catholico: e tanto que entrou, conheci ser aquelle, que
    no sonho vira; o qual me disse: Senhor tende bom coração, vencereis, e
    não sereis vencido; sois amado do Senhor, porque sem duvida poz sobre
    vós, e sobre vossa geração depois de vossos dias os olhos de sua
    misericordia, até a decima sexta decendencia, na qual se diminuiria a
    successão, mas nella assim diminuida elle tornará a pôr os olhos e verá.
    Elle me manda dizer-vos, que quando na seguinte noite ouvirdes a
    campainha de minha Ermida, na qual vivo ha sessenta e seis annos,
    guardado no meio dos infieis, com o favor do mui Alto, saias fóra do
    Real sem nenhuns creados, porque vos quer mostrar sua grande piedade.
    Obedeci, e prostrado em terra com muita reverencia, venerei o
    Embaixador, e quem o mandava; e como posto em oração aguardasse o som,
    na segunda vela da noite ouvi a campainha, e armado com espada e rodela
    sahi fóra dos Reais, e subitamente vi a parte direita contra o Nacente,
    um raio resplandecente; e indo-se pouco, e pouco clarificando, cada hora
    se fazia maior; e pondo de proposito os olhos para aquella parte, vi de
    repente no proprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o Sol,
    e Jesu Christo Crucificado nella, e de uma e de outra parte, uma copia
    grande de mancebos resplandecentes, os quaes creio, que seriam os Santos
    Anjos. Vendo pois esta visão, pondo á parte o Escudo, e espada, e
    lançando em terra as roupas, e calçado me lancei de bruços, e desfeito
    em lagrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassallos, e disse
    sem nenhum temor. A que fim me apareceis Senhor? Quereis por ventura
    accrescentar fé a quem tem tanta? Melhor é por certo que vos vejam os
    inimigos, e cream em vós, que eu, que desde a fonte do Baptismo vos
    conheci por Deos verdadeiro, Filho da Virgem, e do Padre Eterno, e assim
    vos conheço agora. A Cruz era de maravilhosa grandeza, levantada da
    terra quasi dez covados. O Senhor com um tom de voz suave, que minhas
    orelhas indignas ouviram, me disse. Não te apareci deste modo para
    accrescentar tua fé, mas para fortalecer teu coração neste conflito, e
    fundar os principios de teu Reino sobre pedra firme. Confia Affonso,
    porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que
    pelejares contra os inimigos de minha Cruz. Acharás tua gente alegre, e
    esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com titulo de
    Rei. Não ponhas duvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede
    facilmente. Eu sou o fundador, e destruidor dos Reinos, e Imperios, e
    quero em ti, e teus decendentes fundar para mim um Imperio, por cujo
    meio seja meu nome publicado entre as Nações mais estranhas. E para que
    teus decendentes conheçam quem lhe dá o Reino, comporás o Escudo de tuas
    Armas do preço com que eu remi o genero humano, e daquelle porque fui
    comprado dos judeos, e ser-me-ha Reino santificado, puro na fé, e amado
    por minha piedade. Eu tanto que ouvi estas cousas, prostrado em terra o
    adorei dizendo: Porque meritos, Senhor, me mostrais tão grande
    misericordia? Ponde pois vossos benignos olhos nos successores que me
    prometeis, e guardai salva a gente Portugueza. E se acontecer, que
    tenhais contra ella algum castigo apparelhado, executai-o antes em mim,
    e em meus descendentes, e livrai este povo, que amo como a unico filho.
    Consentindo nisto o Senhor, disse: Não se apartará delles, nem de ti
    nunca minha misericordia, porque por sua via tenho apparelhadas grandes
    searas, e a elles escolhidos por meus segadores em terras mui remotas.
    Ditas estas palavras dezapareceu, e eu cheio de confiança, e suavidade
    me tornei para o Real. E que isto passasse na verdade, juro eu D.
    Affonso pelos Santos Evangelhos de JESU Christo tocados com estas mãos.
    E por tanto mando a meus decendentes, que para sempre succederem, que em
    honra da Cruz e cinco Chagas de JESU Christo tragam em seu Escudo cinco
    Escudos partidos em Cruz, e em cada um delles os trinta dinheiros, e por
    timbre a Serpente de Moysés, por ser figura de Christo, e este seja o
    tropheo de nossa geração. E se alguem intentar o contrario, seja maldito
    do Senhor, e atormentado no Inferno com Judas o treidor. Foi feita a
    presenta carta em Coimbra aos vinte e nove de Outubro, era de mil e
    cento e cincoenta e dous.

    Eu El-Rei D. Affonso.

    _João Metropolitano Bracharense.–João Bispo de Coimbra.–Theotonio
    Prior.–Fernão Peres Vedor da Casa.–Vasco Sanches.–Affonso Mendes
    Governador de Lisboa.–Gonçalo de Sousa Procurador de entre Douro e
    Minho.–Payo Mendes Procurador de Viseu.–Sueiro Martins Procurador de
    Coimbra.–Mem Peres o escreveu por Mestre Alberto Cancellario del-Rei_.

    Fim Da Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques

    INDICE DOS CAPITULOS

    I–Como El-Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador, casou sua filha
    Dona Tareja com o Conde D. Anrique, dando-lhe em casamento Portugal por
    Condado com certas condições.

    II–Do Tronco, e linhagem Real de que descendem os Reis de Portugal, e
    donde se chamou Portugal.

    III–Como D. Egas Moniz criou a D. Affonso filho do Conde D. Anrique,
    que foi são por milagre de N. Senhora da aleijão com que naceo.

    IV–Como o Conde D. Anrique adoeceo á morte, e das palavras que disse a
    seu filho ante que falecesse.

    V–Como D. Affonso Anriques tanto que seu pai faleceo se fez chamar
    Principe, e levando-o a enterrar se alçou em tanto a terra com sua mãi
    D. Tareja.

    VI–Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com seu padrasto, e foi
    vencido, e como tornando outra vez á batalha o venceo, e prendeo, e a
    sua mãi com elle.

    VII–Como o Principe D. Affonso Anriques peleijou com El-Rei D. Affonso
    de Castella, chamado Emperador como seu avô, e o venceo, e tomou as
    Fortalezas que estavam alçadas por sua mãi, e como andando nisto veio um
    Rei Mouro cercar Coimbra.

    VIII–Como El Rei D. Affonso de Castella chamado Emperador veio cercar o
    Principe D. Affonso Anriques seu primo a Guimarães, e como D. Egas Moniz
    lhe fallou, de modo que lhe fez levantar o cerco.

    IX–Como El-Rei D. Affonso de Castella levantou o cerco de sobre
    Guimarães, e do desprazer que o Principe D. Affonso teve, do que nisso
    fez D. Egas Moniz.

    X–Como D. Egas Moniz se foi apresentar com sua molher e filhos a El-Rei
    D. Affonso de Castella pela menagem que lhe feito tinha em o cerco de
    Guimarães.

    XI–Como D. Egas Moniz livremente despedido del-Rei D. Affonso de
    Castella se tornou a Portugal, e o sahio a receber o Principe, o qual
    apoz esto juntou gente, e foi tomar Leiria.

    XII–Como o Principe D. Affonso Anriques abalou com gente a guerrear aos
    Mouros a terras de Alentejo, e como no caminho adoeceo, e morreo D. Egas
    Moniz, e do seu enterramento, e da muita devação dos Cavalleiros
    daquelle tempo.

    XIII–Como o Principe D. Affonso passado o Tejo foi buscar El-Rei Ismar,
    que com quatro Reis, outros, e infinda Mourama vinha contra elle, e como
    sentaram seus arraiaes um á vista do outro.

    XIV–Como os Portuguezes vista a multidão dos Mouros requereram ao
    Principe D. Affonso que escuzasse a batalha, e da fala que o Principe
    fez sobre esso.

    XV–Como N. Senhor appareceo aquella noite ao Principe D. Affonso
    Anriques, posto na Cruz como padeceo por nós.

    XVI–Como o Principe D. Affonso Anriques depois de ordenar suas azes
    para peleijar com os Mouros no Campo Dourique foi levantado por Rei.

    XVII–Como o Principe D. Affonso depois de alevantado por Rei de
    Portugal deu batalha a cinco Reis Mouros no Campo Dourique, e do grande
    vencimento della.

    XVIII–Como El-Rei D. Affonso Anriques depois da batalha vencida
    acrecentou em suas Armas sinaes que mostrassem o que lhe alli
    acontecera, e da nova que houve do Corpo de S. Vicente por alguns que
    ahi foram tomados.

    XIX–Como Daciano veio a Espanha por mandado do Emperador de Roma, e
    mandou matar S. Vicente depois de muito atormentado por prégar a Fé de
    Christo.

    XX–Como o Corpo de S. Vicente foi trazido ao Cabo que se ora chama de
    S. Vicente, e como El-Rei D. Affonso o foi lá buscar, e não o podendo
    achar se tornou para Coimbra.

    XXI–Do recado e embaixada que o Papa mandou pelo Bispo de Coimbra a
    El-Rei Dom Affonso Henriques sobre a prisão de sua mãi, e o que nisso
    passou com o Bispo.

    XXII–Aqui falla Duarte Galvão autor como este feito d'El Rei D. Affonso
    Henriques, e outros similhantes, nos bons principes devem ser julgados.

    XXIII–Como o Papa mandou um Cardeal a D. Affonso Henriques sobre a
    prisão de sua mãi e sobre o Bispo que elle fizera, e do que entre elles
    se passou em Coimbra.

    XXIV–Como El-Rei D. Affonso Henriques sabendo a partida do Cardeal
    escondida, cavalgou a pós elle, e do que depois de alcançado com elle
    passou.

    XXV–Como depois desto El-Rei Ismar que foi vencido no campo Dourique
    veio tomar Leiria, e o Prior de Santa Cruz de Coimbra foi a Alentejo, e
    tomou Arronches, e como El-Rei D. Affonso tornou outra vez a tomar
    Leiria aos Mouros.

    XXVI–Como El-Rei D. Affonso tornou a dar Leiria ao Prior de Santa Cruz,
    e assi tambem Arronches, em todo o espiritual, ficando o temporal com os
    Reis de Portugal, e como El-Rei cazou com Dona Mofalda filha do conde D.
    Anrique de Lara.

    XXVII–Das bondades da Villa de Santarem, e seu termo, e como El-Rei D.
    Affonso propoz, e ordenou em sua vontade de a tomar, e a tomou.

    XXVIII–Como El-Rei D. Affonso Anriques fazendo tregoa com os Mouros de
    Santarem mandou lá a D. Mem Moniz a espiar a Villa, e do conselho que
    teve com os seus para ir sobre ella.

    XXIX–Como El-Rei D. Affonso Anriques partio com sua gente para ir tomar
    Santarem, e do voto que fez no caminho a S. Bernaldo, o qual naquella
    hora lhe foi revelado lá em França, onde estava.

    XXX–Como El-Rei D. Affonso Anriques descubrio aos seus que iam sobre
    Santarem, e das rezões que disse a todos.

    XXXI–Como El-Rei D. Affonso Anriques chegou de noite aos Olivaes de
    Santarem, e dos sinais que pareceram.

    XXXII–Como El-Rei D. Affonso Anriques e os seus escalaram a Villa de
    Santarem, e foi entrada, e tomada.

    XXXIII–Como Auzary Alcaide de Santarem, tomada a Villa, fugio para
    Sevilha, e El-Rei se tornou a Coimbra e donde se chamou a Villa
    Santarem.

    XXXIV–Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de ir cercar Lisboa, e a
    tomou, e das gentes Estrangeiras que para esso houve em sua ajuda.

    XXXV–Do que El-Rei D. Affonso Anriques fez depois de entrada a Cidade
    de Lisboa, e tomada, e do que falou, e passou com as gentes
    Estrangeiras.

    XXXVI–Dos milagres que Deus mostrou pelo Cavalleiro Anrique Alemão que
    morreo quando a Cidade de Lisboa foi entrada.

    XXXVII–Como o Cavalleiro Anrique appareceo em sonhos a um homem bom,
    mandando-lhe que soterrasse um seu Escudeiro apar delle, que na entrada
    de Lisboa muito ferido morrera.

    XXXVIII–Da palmeira que naceo na cova do Cavalleiro Anrique, e dos
    milagres que Deus por elle fazia.

    XXXIX–De como El Rei D. Affonso Anriques ordenou de fazer Lisboa
    Bispado, e quem foi o primeiro Bispo della.

    XL–De como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou Prior no Moesteiro de S.
    Vicente de Fóra, e quem foi primeiro Prior delle, e de que Ordem.

    XLI–Dos Lugares que El-Rei D. Affonso Anriques depois tomou na
    Estremadura, e Alem do Tejo.

    XLII–Dos filhos que El Rei D. Affonso houve, e como cazou sua filha
    Dona Mofalda.

    XLIII–Como El-Rei D. Affonso tomou Cezimbra, e Palmela, e peleijou, e
    venceo El Rei Mouro de Badalhouse com muita Mourama.

    XLIV–Do desvairo que sobreveio antre El-Rei D. Affonso Anriques e
    El-Rei D. Fernando de Lião seu genro, e como se quebrou a perna a El-Rei
    D. Affonso, e foi prezo del-Rei D. Fernando, por caso da perna quebrada.

    XLV–Em que fala, e amoesta Duarte Galvão Autor, quanto se devem escuzar
    as maldições dos pais, e mãis aos filhos.

    XLVI–Como os Mouros vieram com Albojame Rei de Sevilha cercar El-Rei D.
    Affonso Anriques em Santarem, e como El-Rei foi a peleijar com elles, e
    os desbaratou e venceo.

    XLVII–Como o Corpo de S. Vicente foi achado por uns devotos homens que
    o foram buscar.

    XLVIII–Como o Corpo de S. Vicente foi posto na Sé de Lisboa.

    XLIX–Como El-Rei D. Affonso Anriques ordenou de mandar o Ifante D.
    Sancho seu filho a Alentejo a guerrear os Mouros, e das rezões que lhe
    sobre ello disse.

    L–Do Alardo que El-Rei D. Affonso Anriques mandou fazer em Coimbra, da
    gente que mandava com o Ifante D. Sancho seu filho, e como em partindo
    no meio da Ponte se despediram todos del-Rei.

    LI–Das jornadas que o Ifante D. Sancho fez, e como partio de Evora
    guerreando os Mouros até Sevilha, onde fez falla aos seus ante que com
    os Mouros peleijasse.

    LII–Como o Ifante D. Sancho peleijou com os Mouros de Sevilha, e o
    esperaram ante a Cidade, e do grande vencimento que houve.

    LIII–Como os Mouros foram cercar Beja, e o Ifante D. Sancho o soube, e
    foi sobre elles a soccorre-la, e da batalha que com elles houve sobre
    ella.

    LIV–Como os Mouros cercaram Porto de Mós, e foram desbaratados por D.
    Fuas Roupinho Alcaide do Castello.

    LV–Como D. Fuas Roupinho peleijou no mar com os Mouros, e os venceo, e
    tomou delles nove Galés.

    LVI–Como D. Fuas Roupinho tornou outra vez sobre mar, por mandado
    del-Rei D. Affonso contra Mouros, e foi desbaratado, e morto elle, e os
    seus.

    LVII–Como Almiramolim, que Emperador de Marrocos se dizia, entrou em
    Portugal com muitas e inumeraveis gentes, e cercou o Ifante D. Sancho,
    em Santarem, e em fim foi vencido e desbaratado por El-Rei D. Affonso,
    que veio a soccorrer seu filho.

    LVIII–Como cazou Dona Tareja filha del-Rei D. Affonso Anriques a
    derradeira, com D. Felippe Conde de Frandes.

    LIX–De como veio adoecer El-Rei D. Affonso Anriques, e de seus grandes
    louvores, e cavallarias em soma brevemente tocadas mais que dinamente
    escritas.

    LX–Dos annos que El-Rei D. Affonso Anriques viveo, e do dia, mez, e era
    em que se finou, e onde foi sepultado.

    OBRAS PUBLICADAS

    I–Historia do Cerco de Diu, por _Lopo de Sousa Coutinho_, 1 volume. 400

    II–Historia do Cerco de Mazagão, por _Agostinho Gavy de Mendonça_, 1
    volume. 400

    III–Ethiopia Oriental, por _Fr. João dos Santos_, 2 grossos volumes.
    1$500

    IV–O Infante D. Pedro, chronica inédita por _Gaspar Dias de Landim_, 3
    volumes. 700

    V–Chronica d'El-Rei D. Pedro I, (o Cru ou Justiceiro) por _Fernão
    Lopes_, 1 volume. 400

    VI–Chronica d'El-Rei D. Fernando, por _Fernão Lopes_, 3 volumes. 1$200

    VII–Chronica d'El-Rei D. João I, por _Fernão Lopes_, 7 volumes. 2$800

    VIII–Chronica d'El-Rei D. João I, por _Gomes Eannes d'Azurara_, VOL. I,
    II e III (VIII, IX e X). 1$200

    IX–Dois Capitães da Índia, por _Luciano Cordeiro_, 1 volume. 400

    X–Arte da Caça de Altenaria, por _Diogo Fernandes Ferreira_, 2 volumes.
    800

    XI–Apologos Dialogaes, por _D. Francisco Manuel de Mello_, 3 volumes.
    1$200

    XII–Chronica d'El-Rei D. Duarte, por _Ruy de Pina_, 1 volume. 400

    XIII–Chronica d'El-Rei D. Affonso V, por _Ruy de Pina_, 3 volumes.
    1$200

    XIV–Chronica d'El-Rei D. João II, por _Garcia de Resende_, 3 volumes.
    1$500

    XV–Vida de D. Paulo de Lima Pereira, por _Diogo do Couto_, 1 volume.
    500

    XVI–Chronica d'El-Rei D. Sebastião, por _Fr. Bernardo da Cruz_, 2
    volumes. 1$000

    XVII–Jornada de Africa, por _Jeronymo de Mendoça_, 2 volumes. 800

    XVIII–Historia Tragico-Maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL I a
    X. 3$800

    XIX–Jornada de Antonio d'Albuquerque Coelho, por _João Tavares de
    Vellez Guerreiro_, 1 volume. 600

    XX–Chronica d'El-Rei D. Affonso Henriques, por _Duarte Galvão_, 1
    volume. 600

    EM PUBLICAÇÃO

    Historia Tragico-maritima, por _Bernardo Gomes de Brito_, VOL XI

    Cancioneiro Geral, por _Garcia de Resende_.

    NOTAS

    [1] Duarte Galvão morreu em 1517.

    [2] Ainda mais. D. Vermuim vendo seu irmão impossado de sua mulher,
    casou com uma filha d'esta e do Conde D. Henrique. Assim o diz o Conde
    D. Pedro (em seu Livro de Linhagens) e assim o repete Duarte Galvão. A
    este peccado, accrescentão, se deve a fundação do Mosteiro de Sobrado.

    [3] No anno de 1505 se escreveo esta Chronica.

    [4] Os capitulos XXI a XXIV da presente edição, foram os cortados na de
    1726.

  • Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco

    Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco

    Aproximadamente 407 palavras.

    Produced by Marcelo Barbão. HTML version by Al Haines.

    Carta da Companhia de Jesus para o seráfico São Francisco

    José de Anchieta

    Depois de tudo criado
    por conto, peso e medida,
    disse Deus: "Seja formado
    o homem, como treslado
    de nossa imagem subida".

    E criou
    a Adão, a quem dotou
    da semelhança divina.
    Mas foi tal sua morfina,
    que mui depressa borrou
    aquela imagem tão divina.

    Mas Cristo, Deus humanado,
    glorioso São Francisco,
    para limpar o treslado,
    que Adão tinha borrado,
    pondo o mundo em tanto risco,

    quis pintar,
    e consigo conformar
    a vós, de dentro e de fora,
    com graça tão singular,
    que vos podemos chamar
    homem novo, em quem Deus mora.

    Ó formoso patriarca,
    ó ilustre capitão
    da sagrada religião,
    dentro da qual, como em arca,
    se salva o povo cristão!

    Vós sois aquele varão
    cheio de justiça e fé
    e de toda perfeição,
    figurado, com razão,
    no justo e santo Noé.

    Noé fez a grande arca
    em que o homem racional,
    junto com o bruto animal,
    escapassem, como em barca,
    do dilúvio universal.

    Vós, por ordem divinal,
    na religião, que fizestes,
    a bons e maus recebestes,
    e livres d'água mortal,
    a Deus vivo os oferecestes.

    Vós sois o grande varão
    que de Deus fostes achado
    segundo seu coração,
    e no pai de Salomão
    altamente figurado.

    O qual, como desprezado
    por ser o filho menor,
    sendo de ovelhas pastor,
    apascentava seu gado
    com grã cuidado e amor.

    Davi, com grande vigor,
    um leão mui carniceiro
    e um urso roubador,
    com o gigante espantador
    matou, com ser ovelheiro.

    Este tal, por derradeiro,
    Deus o fez rei de Israel,
    salvando o povo fiel,
    por este grã cavaleiro,
    de toda a gente cruel.

    Vós vos tínheis por menor,
    tendo a todos por maiores,
    e maior dos pecadores,
    tendo-vos Deus por maior
    de todos seus servidores.

    Fez-vos pastor dos menores,
    uns dos quais foram cordeiros,
    mas mui fortes cavaleiros,
    outros, do gado pastores
    e guias, como carneiros.

    Concedeu-vos tal poder,
    que leão, urso e gigante
    matásseis, carne e Lucifer
    destruindo mui possante.

    Com tal capitão diante,
    aumentou-se a fé e lei
    da igreja militante,
    e vós, já na triunfante,
    sois coroado por rei.

    Trepando sem nenhum medo
    o príncipe Jônatas,
    com seu criado de trás,
    por um áspero penedo,
    alcançou vitória e paz,

    cometendo
    o exército tremendo
    dos inimigos, de repente.
    E, com ânimo valente,
    suas forças desfazendo,
    salvou toda sua gente.

  • Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro

    Breves instrucções aos correspondentes da Academia das Sciencias de Lisboa sobre as remessas dos pro

    Aproximadamente 8.396 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt), Rita
    Farinha, Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team.

    BREVES

    INSTRUCÇÕES

    AOS CORRESPONDENTES

    DA

    ACADEMIA DAS SCIENCIAS

    DE LISBOA

    SOBRE

    AS REMESSAS DOS PRODUCTOS,

    E

    NOTICIAS PERTENCENTES

    Á

    HISTORIA DA NATUREZA,

    PARA FORMAR HUM MUSEO NACIONAL.

    _Nisi utile est quod facimus, stulta est gloria_.

    LISBOA

    NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.

    ANNO M.DCC.LXXXI.

    _Com licença da Real Meza Censoria_.

    1781

    ADVERTENCIA.

    As relações, por mais exactas e completas que sejão, nunca chegão a
    dar-nos huma idéa tão perfeita das coisas, como a sua mesma presença:
    por esta causa se tem occupado os Sabios, particularmente neste seculo,
    em ajuntar com a protecção dos Principes os exemplares de varios
    individuos das diversas especies de Animaes, Vegetaes e Mineraes, que se
    encontrão em differentes paizes, para apresentarem do modo possivel á
    vista dos curiosos hum como compendio das principaes maravilhas da
    Natureza.

    Considerando pois a Academia das Sciencias de Lisboa, cujos trabalhos se
    encaminhão todos ao bem público, a grande utilidade, que de huma
    similhante Collecção, sendo bem ordenada, póde resultar para o
    adiantamento das Artes, Commercio, Manufacturas e todos os mais ramos da
    Economia; propoz-se o projecto de formar nesta Capital hum Museo
    Nacional, onde principalmente se ajuntem e conservem os productos, ao
    menos os mais notaveis, que se achão dentro do Reino e das suas
    Colonias.

    Como porém muitas vezes succede, que alguns dos exemplares,
    particularmente quando são remettidos de paizes distantes, chegão
    damnificados e por isso indignos de se guardarem nos Gabinetes, por não
    terem sido devidamente escolhidos, preparados e acondicionados; e como
    além disso nem todas as pessoas, que he necessario encarregar das
    remessas e das noticias que devem acompanhallas, se suppõem igualmente
    instruidas no melhor methodo de satisfazer as suas Commissões, julgou
    conveniente a mesma Academia apontar as seguintes Instrucções, pelas
    quaes poderáõ dirigir-se, os que dellas necessitarem.

    Adverte-se com tudo a cada hum dos Correspondentes e Commissarios, que,
    quando por alguns motivos, que occorrão, lhes não seja possivel
    satisfazer em tudo, satisfação ao menos em parte, e do melhor modo que
    poderem, ao que nestas Instrucções se recommenda, em quanto ao numero e
    perfeição dos exemplares que se pedem, e em quanto ao methodo de os
    preparar e remetter.

    BREVES INSTRUCÇÕES

    Sobre as remessas dos productos e noticias pertencentes á Historia da
    Natureza, para formar hum Museo Nacional.

    *§. I.*

    _Das remessas dos Animaes_.

    As remessas dos individuos do reino animal são as mais difficultosas
    pelas preparações, que he necessario fazer, a fim de impedir a
    corrupção, a que estão mais sujeitos, que os individuos dos outros dois
    reinos. E como estas preparações varião algum tanto conforme a variedade
    de algumas das especies animaes, exporemos separadamente as que são
    proprias de cada huma dellas.

    Mas primeiro que tudo he preciso advertir em geral, que os Animaes
    destinados para o Museo, devem ser apanhados de modo, que fiquem todos,
    sem exceição alguma, com a cabeça inteira; os quadrupedes com todas as
    unhas e dentes, e sem rotura consideravel na pelle; as aves com o bico e
    pés, e com todas as pennas; os peixes com todas as barbatanas e cauda;
    em huma palavra ao menos aquellas partes, de que se servem os
    Naturalistas para caracterizarem cada huma das especies, devem, depois
    de feita a preparação, ficar, quanto for possivel, no seu estado
    natural.

    _Dos Quadrupedes_.

    Como he impraticavel conservar sem corrupção por muito tempo com a carne
    os quadrupedes grandes, faz-se preciso esfollallos de modo que, cheia a
    sua pelle com alguma materia estranha, se lhes dê a mesma fórma
    exterior, que tinhão em quanto vivos.

    Para este effeito nos animaes quadrupedes de mediana grandeza far-se-ha
    na pelle ou huma incisão direita desde a parte mais inferior do ventre
    até o _anus_, ou duas incisões, cada huma das quaes principie no mesmo
    _anus_, e continue pela parte interior das coxas até á juntura destas
    com as pernas.

    Por esta abertura feita de qualquer dos dois modos, que parecer mais
    conveniente, depois de separada, com os dedos ou com algum instrumento
    accommodado, a pelle que rodea as duas coxas, se tiraráõ estas para
    fóra, cortando-as pelas articulações, que as unem com as pernas, cujos
    ossos se descarnaráõ, quanto for possivel.

    Depois se continuará a despegar a pelle das costas até chegar á cauda, a
    qual, se não se puder esfollar, se cortará pela juntura, que a une ao
    tronco.

    Feito isto, se voltará para a cabeça do animal a parte posterior da
    pelle, que já está separada do corpo; e puxando-a até ás espaduas, se
    fará nos braços o mesmo que se fez nas coxas, cortando-os pelas
    articulações das canellas; as quaes tambem se descarnaráõ da mesma sorte
    que as pernas.

    Continuar-se-ha a puxar a pelle até descobrir ametade da cabeça para a
    descarnar: separada esta do corpo pela sua juntura com o pescoço, se
    extrahirá toda a substancia do cérebro; e depois de bem limpa a
    cavidade, se encherá esta com estopa, ou algodão misturado com pedra
    hume calcinada em pó, ou com outras materias de cheiro astivo, como
    tabaco, pimenta, alcanfor, &c., ensopando primeiro tudo em oleo de
    therebentina.

    Com esta mesma composiçao, depois de se cortar a lingua pela sua raiz, e
    descarnar bem os queixos, se encherá a parte da goélla que restar pegada
    á cabeça.

    Tambem se arrancaráõ os olhos, de modo que se não rompão as palpebras; e
    depois de bem limpas e enxutas de toda a humidade as suas orbitas, se
    encheráõ com as mesmas materias que acabamos de apontar. Em lugar dos
    olhos arrancados se metteráõ outros artificiaes ou de vidro, ou de
    esmalte, ou de outra materia sólida, que imitem na figura e cores os
    naturaes; e quando isto se não possa fazer com a perfeição devida,
    remetta-se ao menos o seu desenho com as cores proprias, ou huma relação
    exacta, que suppra do melhor modo a sua falta.

    Depois de separada toda a pelle, deve raspar-se bem o interior della com
    algum instrumento de aço pouco affiado, para que a não rompa, e
    esfregar-se com sabão desfeito em agoa tepida, até que fique sem o menor
    resto de carne, sangue ou gordura, que possa ser principio de corrupção.
    Para acabar de seccar toda a sua humidade, se pulverizará a mesma parte
    interior da pelle com cal extincta ao ar, e reduzida a pó por si mesma,
    ou tambem com cal viva misturada com huma doze de greda, que baste a
    temperar a sua actividade. Esta pulverização póde repetir-se huma e mais
    vezes, até que se conheça que a pelle está inteiramente secca. E para
    extinguir todos os insectos, que possão causar algum damno ao cabello,
    será muito conveniente defumar as pelles já seccas com o vapor de
    enxofre inflammado; e se embrulharáõ logo em pannos bem tapados para
    evitar que outros infectos venhão de novo depositar nellas os seus óvos.

    Acabadas estas operações, encher-se-ha todo o espaço, que occupava o
    corpo do animal, com a mesma composição, com que se encheo a cavidade da
    cabeça, ou com outra equivalente que conste de materias molles e seccas,
    e de drogas antiputridas: e por meio de arames grossos á proporção da
    grandeza do animal, e dispostos pela parte de dentro, se dará ao
    pescoço, aos pés, á cauda e a todo o volume a sua postura natural.

    Composto em fim e limpo o cabelo de todas as nodoas de sangue ou
    gordura, que no tempo da preparação tiver contrahido, se accommodará a
    pelle assim preparada dentro do caixão em que ha de ser transportada,
    pondo-a e segurando-a, de modo que não balance; e tapando as juntas do
    caixão com tiras de papel ou de panno embebidas em drogas amargas e
    acres, para impedir que entre a humidade.

    Como este methodo de encher as pelles dos quadrupedes de mediana
    grandeza não póde praticar-se com os demaziadamente grandes, bastará que
    se remettao as suas pelles com a cabeça pegada, e com todas as unhas.
    Estas pelles devem preparar-se com todas as precauções que já apontámos:
    e quando estas não sejão bastantes para as seccar bem, e extinguir todos
    os infectos, se metteráõ pelo espaço de seis horas em fornos, cujo gráo
    de calor seja o maior que as pelles possão supportar, sem que se queime
    o cabello; depois do que se defumaráõ, como acima dissemos, com o vapor
    de enxofre inflammado; e se embrulharáõ cada embrulharão cada huma á
    parte em pannos bem tapados, introduzindo pelas suas dobras
    therebentina, e outras drogas de cheiro penetrante e sabor acre. Tudo o
    mais se fará, como fica dito das pelles dos outros quadrupedes.

    Mas, como só as pelles não bastão para dar huma idéa justa da fórma e
    postura do animal, recommenda-se aos Correspondentes, que mandem junto
    com ellas hum desenho, ou huma descripção exacta, ao menos daquelles,
    que não são vulgarmente conhecidos, ou que tem alguma coisa de
    extraordinario.

    Recommenda-se tambem aos mesmos Correspondentes, que, quando succeda
    receberem algumas pelles de animaes, remettidas de algum lugar distante
    da sua residencia, que não fossem logo depois de separadas do corpo
    devidamente preparadas, e nas quaes observem o mais leve indicio de
    corrupção principiada, as mettão promptamente e conservem pelo espaço de
    dois dias em algum licor espirituoso; e depois as sequem, e accommodem
    nos caixões pelo methodo acima exposto.

    Os quadrupedes pequenos, que não possão preparar-se, como os de mediana
    grandeza, se preparão facilmente deste modo. Por huma incisão pequena
    junto ao _anus_ se extrahiráõ todos os seus intestinos; e depois de bem
    limpa e enxuta a cavidade que fica, se encherá esta com estopa ou
    algodão misturado com os mesmos ingredientes, que acima dissemos.
    Arrancados os olhos com as advertencias já expostas, se metteráõ os
    corpos em agoa ardente por algum tempo, renovando-a ao menos huma vez.
    Depois se acamaráõ em vasos cheios de licor composto de tres partes de
    agoa pura e uma de espirito de vinho, no qual se tenha dissolvido huma
    boa porção de pedra hume calcinada. Os bocaes destes vasos, em que hão
    de ser remettidos os animaes, devem ser tapados, quanto for possivel,
    com tampas bem justas e betumadas com uma mistura de cêra e rezina; e os
    mesmos vasos accommodados nos caixões de modo que não quebrem, se forem
    de materia fragil, nem balancem com o movimento do transporte.

    Os esqueletos dos animaes, que tambem entraõ na classe das preciosidades
    que merecem hum lugar distinto nos Gabinetes, não precisaõ de
    preparações tão delicadas, para se remetterem sem perigo de corrupção.
    Basta que, depois de bem descarnados e limpos todos os ossos, se ponha
    um numero differente repetido nas duas extremidades, por onde se unem
    uns com os outros. Por meio desta numeração será facil armar novamente o
    esqueleto, para lhe dar a sua fórma natural.

    Os ossos de cada animal devem empacotar-se á parte, para não haver
    confusão; e accommodallos de sorte nos caixões, que se não quebrem no
    transporte.

    Como póde succeder que algumas vezes não haja toda a commodidade de se
    remetterem os esqueletos inteiros, como fica dito, nesse caso venhão ao
    menos as partes mais notaveis dos animaes pouco vulgares; e dos outros,
    aquellas partes que tenhão alguma coisa de extraordinario.

    _Das Aves_.

    O methodo de preparar as _aves_ grandes pouco differe, do que acima se
    expoz para os quadrupedes de mediana grandeza. Ainda que se póde
    principiar a operação por huma unica incisão feita no ventre desde o
    _anus_ até o osso do peito, he melhor que se facão duas de sorte que,
    nascendo ambas do _anus_, vá cada huma dellas correndo ao comprido das
    coxas até terminar no encontro da aza da mesma parte.

    Pegando no vertice do angulo, que fórmão no _anus_ as duas incisões, se
    irá separando pouco a pouco com os dedos, ou com algum instrumento
    accommodado, a pelle do ventre, e voltando-a para a parte da cabeça da
    ave até chegar aos encontros das azas.

    Despegada do mesmo modo a pelle que rodea as coxas, tiradas estas para
    fóra, e cortadas pelas suas junturas com as pernas, cujos ossos serão
    bem descarnados, se continuará a operação, separando de vagar a pelle
    das costas até chegar ao uropigio, o qual se cortará com huma tisoura
    pela articulação que o une ao corpo.

    Feito isto, se pegará na parte posterior já esfollada do corpo da avecom
    a mão esquerda, e com a direita se irá tirando com sentido, para que se
    não rompa, o resto da pelle, até chegar ás azas; as quaes se devem
    separar do tronco pelas suas articulações, descarnando, o mais que for
    possivel, os ossos que ficão pegados á pelle.

    Continuar-se-ha a puxar a pelle que veste o pescoço, até descobrir parte
    do cranio, o qual se cortará transversalmente hum pouco acima da sua
    união com o pescoço; separando deste modo do resto do corpo a cabeça
    junta com a pelle.

    Por esta abertura feita no cranio se extrahirá toda a substancia do
    cerebro; e se fará tudo o mais que pertence á preparação interior da
    cabeça, do mesmo modo que fica dito dos quadrupedes.

    Porém nas aves aquaticas, e outras de cabeça grande, cujo pescoço não he
    facil de se esfollar até descobrir o cranio, sem o perigo de romper a
    pelle, separar-se-ha da cabeça o pescoço pela ultima juntura; e depois
    de revirada a pelle, se fará a extracção do cerebro por hum buraco feito
    de proposito na parte superior do cranio, que corresponde ao padar.

    Antes de revirar a pelle se raspará levemente o interior della, para
    purificalla de todo o sangue e gordura; e se pulverizará com pós, que
    constem de huma parte de pedra hume queimada, outra de alcanfor, duas de
    solimão, duas de nitro puro, duas de flor de enxofre, quatro de pimenta,
    e outras quatro de tabaco.

    Para revirar facilmente a pelle, sem estragar as pennas, se terá feito
    passar antes da operação pelos narizes da ave hum fio comprido e forte,
    o qual servirá para puxar a cabeça fóra, e dar á pelle a sua situação
    natural.

    O methodo de encher as cavidades do corpo, da boca, e dos olhos he
    inteiramente o mesmo que nos quadrupedes. Basta só advertir, que esta
    preparação das aves requer mais alguma delicadeza, para que fique a sua
    pelle inteira, e todas as pennas limpas e direitas.

    Depois de bem concertadas as pennas, se envolveráõ estas aves em huma
    tira de panno, principiando pela cabeça; e se accommodaráõ entre
    materias molles e seccas ensopadas em oleo de therebentina dentro dos
    caixões, com todas as mais cautelas, que já dissemos.

    Este methodo de preparar as aves não he facil de praticar-se com algumas
    dellas, principalmente com as pequenas, por causa da delicadeza da sua
    pelle. Neste caso poderáõ enviar-se em vasos cheios de licor
    espirituoso, preparando tudo da mesma sorte, que se disse sobre a
    remessa dos quadrupedes pequenos; e tendo unicamente a advertencia de
    quebrar-lhes o osso do peito, para não ficarem com difformidade, e de as
    envolver, como acabamos de dizer das aves grandes, com tiras de panno,
    para se não descomporem as suas pennas.

    Se a distancia não for muito grande, quaesquer que sejão as aves,
    bastará que, depois de preparadas pelo ultimo methodo, que acabamos de
    expôr, se lancem de infusão pelo espaço de quinze dias em espirito de
    vinho bem forte, em que se tenha dissolvido huma boa porção de pedra
    hume e alcanfor. E sem outra maior preparação podem remetter-se com as
    cautelas já indicadas.

    Os _óvos_, que pela sua raridade devem remetter-se para ornato dos
    Gabinetes, depois de evacuada toda a sua substancia por hum pequeno
    buraco feito de proposito em hum dos seus pólos, ou em ambos, se for
    preciso, se acamaráõ em bocetas com algodão, ou outra materia molle e
    secca, para evitar o perigo de se quebrarem. Os que porém se mandão para
    fecundarem, antes de se metterem nos caixões, se cobriráõ bem de verniz
    pelo methodo sabido de _Reaumur_.

    Os _ninhos_, que pelo seu artificio forem dignos da curiosidade do
    naturalista, se accommodaráõ da mesma sorte, e com as mesmas precauções
    em bocetas bem tapadas. E para extinguir os insectos, que ordinariamente
    trazem, se metteráõ em hum forno, que só tenha o gráo de calor
    necessario para este effeito; tendo o cuidado de os envolver logo em
    pannos, para impedir novos insectos.

    _Dos reptís_.

    A preparação de todo o genero de _reptís_, _serpentes_, e _cobras_
    grandes, cuja pelle póde separar-se do corpo, he inteiramente a mesma,
    que a dos quadrupedes de mediana grandeza, tanto no que respeita ao modo
    de os vazar e tornar a encher de materias estranhas, como no que
    pertence ao modo de os accommodar nos caixões.

    Só deve advertir-se, que a incisão, por onde principião todas as mais
    operações, nos reptís, como o sardão e outros, deve fazer-se da parte do
    ventre ao menos desde o meio da cauda até o pescoço, conduzindo-a pelo
    interior das coxas e braços até ás suas articulações; e nas cobras
    grandes, como as giboias, se fará em todo o seu comprimento, por onde as
    escamas das costas se ajuntão com as do ventre. Estas se accommodaráõ
    nos caixões, enrolando-as espiralmente, como ellas muitas vezes fazem,
    em quanto vivas.

    Os reptís pequenos podem remetter-se em licores espirituosos, em que se
    tenha dissolvido bastante quantidade de pedra hume e alcanfor; e tendo o
    cuidado de renovar estes licores ao menos duas vezes antes da remessa.

    _Dos peixes_.

    Aquelles _peixes_, que os Naturalistas chamão _cetaceos_, e cujas pelles
    são tão fortes, como as dos quadrupedes, podem preparar-se do mesmo modo
    que estes; excepto que a incisão se deve fazer na parte inferior por
    todo o seu comprimento, para os evacuar com mais facilidade. Dos peixes,
    que forem demaziadamente grandes, bastará mandar as pelles seccas e
    preparadas, como dissemos dos quadrupedes.

    Se os peixes, que houverem de se mandar, forem chatos e delgados de
    sorte, que possão seccar-se bem, extrahidas com algum instrumento
    accommodado as suas entranhas, e lavada bem a cavidade que fica, se
    lançaráõ de infusão em agoa ardente pelo espaço de doze até quinze dias.
    Findos estes, se estenderá o peixe com o lado mais branco para baixo
    sobre huma lamina de vidro, ou de madeira bem liza; tendo particular
    cuidado, em que as barbas, cauda e barbatanas fiquem na sua situaçao
    natural: e para que estas á medida, que forem seccando, se não torção, e
    descomponhão; depois de concertadas, e em quanto estão humidas e com a
    sua cólla natural, se lhe pregaráõ pela parte de cima algumas tiras de
    papel, que serviráõ para as conservar sempre na mesma posição.

    Feito isto, se exporá ao calor do Sol, ou a hum vento forte; e passados
    quatro ou sinco dias, se despegará o peixe por meio de huma agulha de
    fardo, ou outro instrumento similhante, que mettendo-se entre o peixe e
    a lamina, se faça caminhar da cabeça até á cauda, para não desconcertar
    as barbatanas; o que succederia, conduzindo-se a agulha em sentido
    contrario.

    Voltando o peixe com a parte inferior para cima, se exporá segunda vez
    ao Sol ou ao vento, pelo tempo que for preciso. Repetindo isto, até que
    se conheça estar o peixe perfeitamente secco, se untará por fóra com bom
    verniz transparente, e se accommodará nos caixões com todas as cautelas
    já indicadas.

    Os peixes _escamosos_, que pela muita delicadeza da sua pelle não podem
    fer preparados como os _cetaceos_; nem tão pouco pela grande grossura da
    sua carne se podem seccar bem, como os chatos e delgados; se cortaráõ em
    duas partes, conduzindo o córte pelo embigo desde a cabeça até á cauda;
    e tendo o cuidado de que todas as barbatanas e a cauda fiquem inteiras e
    pegadas a huma das duas ametades. Esta ametade, que he a que se destina
    para se conservar, se alimpará da parte das escamas com o gume de huma
    faca, que a toque levemente, e corra desde a cabeça até á cauda; porque
    em sentido contrario arrancaria as escamas, em cujas cores e lustre
    consiste hum dos principaes merecimentos dos peixes escamosos.

    Com a mesma faca, ou outro qualquer instrumento accommodado, se irá
    despegando pouco a pouco toda a carne, até que fique só a pelle com a
    ametade da cabeça pegada. Desta se tirará o cerebro que restar, e todas
    as porções de ossos, que fórmão differentes separações no interior do
    cranio. Tambem se extrahirá toda a substancia do olho, cuja figura e
    cores se devem notar, como dissemos, para se supprir depois a sua falta
    com outro artificial. Se a cabeça do peixe for muito curva, se aplanará,
    pondo-lhe em cima algum pezo; com a advertencia que antes se deve metter
    por baixo e por cima da cabeça alguma materia molle.

    Esta meia pelle assim preparada se pegará pela parte interior com a sua
    mesma cólla natural a huma folha de papel; e sua porão as barbatanas e
    cauda na sua fórma e situação natural. Depois de bem secca se untará com
    verniz transparente, e se metterá no caixão com as precauções
    necessarias.

    Os peixes em fim, que ou pela sua pequenez, ou por outras causas, não
    poderem preparar-se por algum dos modos, que acabamos de expôr, se
    enviaráõ em vasos cheios de licores espirituosos, os quaes devem ser
    mais fortes, e renovar-se mais vezes antes da remessa, do que se requer
    para os outros animaes pequenos. He escusado repetirmos aqui tudo o
    mais, que já se disse, sobre este genero de remessas de animaes
    pequenos.

    _Dos animaes crustaceos_.

    Todos os animaes, a que os Naturalistas dão este nome, ou habitem no
    mar, ou nos rios, ou na terra, se preparão do mesmo modo, attendendo
    unicamente á sua grandeza; segundo a qual podemos dividillos, em quanto
    á sua preparação, em duas classes, de grandes, e pequenos. Estes, quando
    pela sua pequenez se não puderem evacuar de toda a sua substancia molle
    e corruptivel, ou quando não possão seccar-se sem detrimento sensivel da
    sua fórma e cores naturaes; accommodando primeiro sobre o ventre as suas
    pernas, e dispondo do melhor modo as suas antennas, para se não
    quebrarem, se embrulharáõ, cada hum á parte, em hum pequeno panno, que
    se envolverá com hum fio; e assim embrulhados se lançaráõ em espirito de
    vinho para se remetterem.

    Os crustaceos grandes podem mais facilmente evacuar-se; o que se fará,
    separando a casca, que cobre o corpo, da parte inferior, á qual ficão
    pegadas as pernas, e toda a substancia molle do animal. Esta se tirará
    toda do melhor modo possivel; ainda mesmo, a que está dentro das pernas,
    senão de todas, ao menos das mais grossas. Lavadas, e bem limpas todas
    as cavidades, que ficão depois de extrahida a substancia interior, se
    encheráõ com as mesmas materias, que já apontámos, fallando dos outros
    animaes. Antes de os encaixotar, devem expôr-se ao ar o tempo necessario
    para se seccarem bem. Depois de seccos se accommodaráõ em bocetas com
    todas as precauções precisas, para que cheguem inteiras todas as suas
    partes, ainda as mais delicadas. Para isso será conveniente, que cada
    hum destes animaes se embrulhe em hum panno, depois de postas na sua
    situação natural todas as pernas, e antennas; e que as bocetas, em que
    hão de ser remettidos, tenhão capacidade bastante, para não ser
    necessario dobrar estas partes mais faceis de quebrar-se.

    _Dos insectos_.

    No que pertence ao modo de preparar os _insectos_ destinados para o
    Museo, podemos considerallos, a pezar da sua prodigiosa variedade, como
    repartidos em tres classes, a cada huma das quaes compete huma
    preparação particular.

    Todos aquelles insectos, cujo corpo he cercado de huma casca dura, e
    assás forte para conservar depois de secca a sua fórma exterior, se
    metteráõ em fórnos, que só tenhão o gráo de calor necessario para
    dissipar toda a humidade interior, sem offensa das partes, que devem
    conservar-se inteiras. O calor do Sol, sendo muito activo, poderá
    supprir a falta de fórnos, principalmente nos Paizes quentes.

    As borboletas, e algumas especies de moscas, cujas azas imitão as das
    borboletas, tambem se preparão do mesmo modo, seccando-as ou em fórnos,
    ou ao calor do Sol. Porém, como todo o merecimento destes insectos
    consiste na delicadeza de suas azas, e na vivacidade e formosura de suas
    cores, as quaes unicamente nascem de hum pó brilhante que as cobre, e
    que he muito facil de despegar-se; he preciso mettellas, assim que se
    apanharem, entre duas folhas de papel com as azas bem estendidas; e
    assim mesmo se exporão ao calor, mudando de papeis até que estejão
    perfeitamente seccas, e em termos de se poderem encaixotar com as
    cautelas necessarias.

    Todos os outros insectos, que constão de huma substancia molle, e que
    depois de seccos perdem inteiramente a sua primeira figura, e as suas
    cores naturaes, só podem conservar-se em licores espirituosos pelo mesmo
    methodo, que já expuzemos sobre os quadrupedes pequenos.

    Não he preciso advertirmos, que a accommodação dos insectos nas bocetas
    requer hum cuidado particular, para se não quebrarem no transporte as
    suas partes mais delicadas, que são as principaes, de que se servem os
    Naturalistas para distinguir as diversas especies.

    _De outras producções pertencentes ao reino Animal_.

    Debaixo deste titulo comprehendemos todas as especies de animaes de
    conchas, e todas as mais producções, principalmente marinhas, que tem
    algum sentimento de vida, ainda que obscuro. As mais notaveis são as
    _Estrellas do mar_, em que se observão sinaes menos equivocos de
    sensibilidade.

    Estas, quando são pequenas, e de pouca grossura, depois de as metter
    alguns minutos ou em espirito de vinho, ou em agoa fervendo, para
    coagular a substancia interior, de que se compõem; se exporão pelo tempo
    necessario ao vento, até que fiquem perfeitamente seccas, e livres de
    corrupção. E cobrindo-as com algum verniz transparente, se encaixotaráõ
    com as cautelas já sabidas.

    Mas aquellas, que são maiores, e consideravelmente grossas, nunca
    poderáõ seccar-se de modo, que escapem de corrupção. Será preciso
    extrahir-lhe huma especie de carne, ou parenchyma, de que estão cheias;
    e depois seccar e envernizar as suas pelles, como fica dito.

    Para fazer com mais facilidade a extracção desta substancia interior, se
    fará no centro, onde se unem as pernas ou raios das estrellas marinhas,
    da parte das costas, huma incisão circular, mas incompleta, para que
    fique pegada ao resto do corpo esta porção de pelle, que se corta. Por
    este buraco se extrahirá por meio de algum instrumento de ferro curvo,
    que se introduza pelo interior de cada huma das pernas, toda a
    substancia corruptivel.

    Deve porém advertir-se, que, para ficarem depois de seccas na sua
    posição natural todas as estrellas marinhas, tanto as grandes como as
    pequenas, he preciso, que logo depois de apanhadas, e em quanto estão
    vivas, se ponhão com o ventre para baixo em cima de huma meza; pela qual
    ellas mesmas por si estenderáõ as suas pernas até ficarem na suas
    postura natural. Nesta mesma postura se deixaráõ por espaço de tres ou
    quatro dias, até se conhecer que estão mortas, para continuar as
    operações, que acabamos de expôr.

    Todos os animaes marinhos, que são guarnecidos de muitos espinhos
    agudos, delicados e duros, se preparão, extrahindo com hum arame curvo
    na ponta por huma abertura natural, que todos tem pela parte inferior, a
    substancia molle que está dentro da concha; cuja cavidade se lavará bem
    com agoa ardente; e depois de tudo estar perfeitamente secco, se
    accommodará cada huma destas peças na sua boceta com algodão, observando
    todas as mais cautelas necessarias, para que no transporte se não
    quebrem os seus espinhos.

    Todo o genero de conchas ou univalves, ou polyvalves são dignas de se
    conservarem nos Gabinetes. Não se devem mandar as que se apanhão nas
    costas do mar, que as ondas lanção em terra, as quaes com a contínua
    fricção da arêa ficão roçadas, e sem huma grande parte do seu
    merecimento natural. Por isso o mais seguro he mandar só aquellas, que
    se apanhão com o seu verme ainda vivo, o qual com hum alfinete, ou com
    hum arame facilmente se tira, depois de ter lançado a concha em agoa
    fervendo. Deste verme basta que se mande o desenho, se houver quem o
    faça: e para o fazer, se metterá a concha, em quanto o seu verme está
    vivo, em hum vaso cheio de agoa do mar, se ella for marinha, ou de agoa
    doce, se ella for fluvial; porque então sahe o verme todo fóra da
    concha, e dilata ao natural todas as suas partes de sorte que com muita
    facilidade se póde desenhar: nas conchas terrestres será preciso
    esperar, que o animal saha por si mesmo para se poder tirar o seu
    desenho.

    Depois de bem seccas as conchas, se embrulhará cada huma delias em hum
    pouco de algodão, segurando-o por fóra com hum fio; e se accommodaráõ
    com diversas camadas do mesmo algodão dentro das bocetas, em que devem
    remetter-se com todas as mais cautelas.

    Deve advertir-se a respeito de todas as producçóes do mar, que antes de
    as seccar, para se remetterem, he preciso lavallas em agoa doce; porque
    o sal marinho attrahe muito a humidade, de que póde originar-se
    corrupção.

    *§. II.*

    _Das remessas dos Vegetaes_.

    Como estas instrucções não tem por objecto formar hum Jardim Botanico;
    mas unicamente enriquecer hum Museo Nacional, seria superfluo apontarmos
    o methodo de transportar as arvores e plantas de Paizes Estrangeiros
    para as transplantar nos nossos terrenos; materia que tem sido
    admiravelmente tratada por muitos Naturalistas deste seculo; e que a
    Academia, se o julgar necessario, reduzirá a instrucções compendiosas em
    outro papel á parte. Por ora só se trata do modo mais facil de remetter
    as plantas seccas com todas as partes, que as caracterizão.

    Para este fim se colheráõ as plantas pequenas com raiz, tronco, folhas,
    flores e frutos. Das plantas, que não produzem no mesmo tempo as flores
    e os frutos, se colheráõ dois pés, cada qual tenha huma das duas coisas.
    Das arvores, arbustos e plantas maiores bastará colher hum ou dois dos
    ramos mais tenros com o seu fruto, e com as suas flores. Quando succeda
    não se poder enviar todas estas partes juntas, se enviaráõ separadas;
    com tanto que se declare, a que planta pertence cada huma dellas.

    Para se seccarem estes ramos, ou plantas inteiras, depois de se
    estenderem perfeitamente todas as suas folhas entre dois papeis pardos,
    se comprimiráõ em huma imprensa, ou debaixo de huma taboa carregada de
    pezos, mudando de papeis huma ou duas vezes no dia, até que esteja de
    todo extrahida a sua humidade. Para maior segurança, depois desta
    operação, será conveniente expôr por algum tempo ao calor do Sol estas
    plantas, quando se tirão a ultima vez da imprensa.

    Feito isto, se estenderáõ segunda vez os individuos de cada especie
    separadamente em diversos papeis, os quaes se acamaráõ em caixas de
    folha de Flandres, e na falta destas em bocetas bem tapadas do modo, que
    já se tem advertido sobre as outras remessas; não esquecendo introduzir
    dentro dellas algumas drogas de cheiro forte e penetrante, como
    alcanfor, ou tabaco de fumo.

    Ha algumas arvores, e ainda mesmo plantas pequenas, cujas folhas,
    frutos, e flores são tão espeços e succulentos, que não podem seccar-se
    pelo methodo exposto, sem que fiquem inteiramente desfigurados. Estes só
    podem conservar-se, e remetter-se em vasos cheios de agoa ardente com as
    cautelas já indicadas para outras remessas similhantes.

    Aquelles frutos, que pela sua natural dureza se podem conservar muito
    tempo sem corrupção, se colheráõ maduros, e se exporáõ algum tempo ao
    calor do Sol, para se acabar de evaporar algum resto de humidade; e
    depois se metteráõ nas caixas, em que devem enviar-se.

    Do mesmo modo se podem remetter algumas raizes _tuberculosas_, e que se
    conservão muito tempo sem corrupção, como o _gingibre_, _curcuma_,
    _amomum_, e outras. A estação mais favoravel de as tirar da terra nos
    paizes temperados he a da Primavera, ou os fins do Outono. Escolhendo-se
    as mais fortes, se porão em algum lugar enxuto á sombra até se evaporar
    a sua primeira humidade; e se metteráõ depois em caixões com arêa bem
    secca, para se remetterem.

    Todo o genero de plantas _bulbosas_, que ou pela sua dureza, ou pela
    casca, que as veste, se conservão com mais facilidade sem corrupção, se
    preparão da mesma sorte, que as raizes _tuberculosas_.

    Não se faz preciso advertir o methodo de enviar as diversas especies de
    balsamos, rezinas, gommas, e outras producções similhantes, que
    pertencem ao reino vegetal, ou sejão solidas ou líquidas; porque são bem
    conhecidas no commercio, e já a experiencia tem mostrado o melhor modo
    de fazer as suas remessas.

    Tambem merecem entrar nas collecções proprias de hum Museo as diversas
    cascas, que vestem os troncos das arvores, principalmente as que tem
    algum uso nas Artes; como tambem as amostras de madeiras, que se fazem
    notaveis, ou pelo polido, de que são susceptiveis, ou pela singular
    contextura de suas partes, ou pela variedade de suas cores, ou por outra
    qualquer qualidade, e particularmente pela utilidade, que dellas se póde
    tirar para as manufacturas, e usos da Sociedade. Este genero de peças he
    facil de remetter-se de modo, que cheguem sem damno ao lugar do seu
    destino.

    Tudo o que póde dizer-se sobre as remessas das _sementes_, se reduz a
    não as colher, senão depois de maduras; e a mettellas, estando bem
    enxutas, com musgo fresco, e pouco calcado, ou com arêa bem secca e
    miuda dentro dos caixões, em que se hão de remetter. As sementes grandes
    tambem se podem cobrir de cêra derretida em hum pouco de oleo de
    therebentina, tendo a cautela de deixar primeiro esfriar esta untura até
    o ponto, em que o calor não possa causar-lhe damno.

    Seja qual for o modo de preparar, e remetter as sementes, deve
    indispensavelmente advertir-se, que cada huma das diversas especies
    necessariamente ha de vir separada da outra, de forte que se não
    confundão. Não usando da mistura de musgo, ou arêa, podem remetter-se,
    para evitar esta confusão, cada huma das especies de sementes embrulhada
    á parte em hum papel encerado; observando na sua accommodação dentro das
    bocetas as precauções necessarias, para que cheguem inteiras.

    Como huma grande parte das sementes amadurece dentro de _capsulas_, em
    que mais facilmente se conservão, será conveniente, e não menos commodo
    mandar estas mesmas capsulas com a sua semente; accommodando-as nas
    bocetas do mesmo modo que fica dito.

    *§. III*

    _Das remessas dos Mineraes_.

    Os productos do reino mineral são os que menos cautelas requerem, para
    chegarem sem damno. A maior difficuldade consiste em conhecellos, e
    saber procurallos. No que respeita ás suas remessas, que he o unico
    objecto destas Instrucções, podemos dividillos em _terras_, _pedras_, e
    _fossís_.

    As diversas especies de terra podem remetter-se em pequenos saccos
    differentes; mandando maior quantidade daquella, em que se sentir algum
    sabor salino, ou cheiro, ou outra propriedade, que a faça notavel,
    principalmente pelo uso, que póde ter nas Artes.

    Das pedras, ou sejão de banco, ou vagas, devem mandar-se particularmente
    as que tiverem alguma raridade, ou pelos saes, que contenhão, ou pela
    sua côr, dureza, figura, transparencia, &c., como são os crystaes,
    agathas, marmores, congelações, amiantos, &c.

    As amostras de todo o genero de fossís, que puderem ajuntar-se, são
    dignas da curiosidade do Filosofo, e conseguintemente merecem ser
    conservadas em hum Museo. Por isso recommenda-se aos Correspondentes,
    que de todos os differentes metaes, ainda dos vulgares, de todo o genero
    de petrificações, crystallizações, bitumes fossís, lavas, pyrites, &c.
    remettão os exemplares, que lhes for possivel ajuntar.

    Todos estes exemplares de qualquer dos tres generos, de terras, pedras e
    fossís, devem remetter-se em caixões separados, podendo ser, para evitar
    confusão; e embrulhados á parte com numeros differentes, que
    correspondão aos numeros da relação, de que adiante fallaremos.

    Accommodar-se-hão nas caixas, ou bocetas de modo, que o movimento do
    transporte lhes não cause algum damno; e se observaráõ as mais cautelas
    necessarias, para que a humidade os não prejudique.

    Entre as diferentes e quasi infinitas especies de individuos, que a
    natureza produz no seio do mar, ha algumas, que fórmão em certo modo
    huma classe á parte; e que por essa mesma causa parece não devião
    confundir-se com as outras producções pertencentes aos tres reinos. Esta
    são as _Madreporas_, _Coraes_, _Lithofytos_, &c. que alguns illudidos
    com a fórma, exterior reduzirão á classe das plantas marinhas; e outros,
    attendendo á sua dureza, julgárão ser especie de pedras.

    Todas estas producções se fazem dignas da curiosidade dos Naturalistas,
    pela grande variedade da figura e disposição de seus ramos, e por outras
    particularidades não menos admiraveis. Por isso devem escolher-se as que
    forem mais inteiras, e tiverem maior numero de ramos. E, como muitas
    vezes sahem pegadas a pedaços de rócha, e entrelaçadas humas com outras,
    assim mesmo se devem remetter; porque estas circumstancias accidentaes
    são igualmente dignas da attenção do Filosofo.

    Como porém nenhuma destas substancias he sujeita a corrupção, basta que
    se accommodem nos caixões cercadas de materias molles, e seguras com
    travessas de madeira, para se não quebrarem com o movimento.

    Estas singulares producções não são mais, que huma collecção de pequenas
    casas habitadas por animaes do genero dos polypos, os quaes se
    multiplicão huns sobre os outros de hum modo analogo, ao modo com que
    crescem os ramos das plantas. Para haver estes animaes, e podellos
    enviar á parte, se metteráõ logo, apenas se tirarem do mar, as massas
    duras, que os contém, em vasos cheios da mesma agoa do mar, que seja bem
    pura. Passada huma hora pouco mais ou menos, com o soccorro de huma
    lente, se for necessario, se divisaráõ parte de cada hum dos animaes,
    fóra de suas pequenas grutas. Não se deixará escapar este momento; e com
    algum instrumento, ou com os mesmos dedos, se prenderá o animal; e
    arrancando-o precipitadamente do seu aposento, se lançará logo em
    espirito de vinho, que deve estar prompto, para que elle não tenha tempo
    de se contrahir, e perder a sua fórma natural antes de morrer. No mesmo
    espirito de vinho se podem conservar estes pequenos animaes, assim como
    todo o genero de polypos: e as suas remessas se farão do mesmo modo, e
    com as mesmas cautelas, que já se advertírão, fallando dos insectos.

    Ha outras producções marinhas além das sobreditas, que pela sua figura,
    miudeza, e flexibilidade de seus ramos se equivocão mais com as plantas.
    Os Botanistas lhes dão vulgarmente o nome de musgos marinhos, ou
    corallinas. Para as remetter, basta lavallas em agoa doce até depôrem
    todo o sal marinho; e depois de bem seccas accommodallas em bocetas em
    differentes papeis com todas as mais precauções já expostas sobre as
    remessas das plantas terrestres.

    Como porém estas mesmas corallinas pelas ultimas observações se tem
    conhecido constarem de pequenas casas, em que habitão animaes, da mesma
    sorte que as madreporas; far-se-ha tudo, o que acima advertimos, para
    separar, conservar, e enviar estes animaes. He preciso advertir, que
    devem remetter-se em vasos differentes os animaes, que se tirão de
    differentes substancias, para se não confundirem as suas especies, as
    quaes differem entre si conforme a differença das massas, em que se
    achão.

    Além de todas estas producções marinhas ha outras muitas, que não só tem
    a fórma exterior de plantas, mas que verdadeiramente o são, como o
    sargaço, e outras. Estas, como já advertimos, devem lavar-se primeiro em
    agoa doce; e depois de bem seccas, se encaixotaráõ, como as outras
    plantas, ou como as borboletas, se forem demaziadamente delicadas.

    As esponjas marinhas, cuja natureza ainda não he bastantemente conhecida
    por falta de observações, mas que facilmente se distinguem das outras
    especies pela sua fórma exterior, merecem tambem ser conservadas nos
    Gabinetes. Depois de lavadas em agoa doce, e estando bem enxutas e
    seccas, se accommodaráõ nos caixões com algodão, sargaço ou estopa, sem
    as comprimir muito; e observando as mais advertencias, que temos feito
    sobre a preparação exterior das caixas, em que se remettem os mais
    productos da natureza.

    Parece escusado dar instrucções sobre as remessas de algumas obras de
    artificio dos naturaes do paiz, como de seus vestidos, armas,
    instrumentos, &c.; porque todos conhecem, como estas e outras coisas
    similhantes devem remetter-se de sorte que cheguem bem condicionadas.
    Aquellas obras, que constarem de coisas meramente naturaes, e cujo unico
    artificio consista na sua diversa disposição, como são algumas carapuças
    e cinturas de pennas de diversas cores, de que usão alguns póvos da
    Africa e America, se remetteráõ com as cautelas, que deixamos apontadas
    sobre as remessas das mesmas producções naturaes, de que são compostas.

    Finalmente as instrucções antecedentes poderáõ accommodar-se a alguns
    productos, de que aqui se não faz menção, conhecida a sua natureza, e a
    classe a que pertencem.

    *§. IV.*

    _Das noticias pertencentes á Historia Natural_.

    As noticias, de que devem incumbir-se os Correspondentes da Academia, ou
    dizem relação immediata aos productos da natureza, que remettem para o
    Museo; ou tem por objecto as coisas mais notaveis e curiosas do terreno,
    em que se achão os ditos productos, e os costumes dos povos que o
    habitão.

    Em quanto á primeira parte, que he a mais indispensavel, recommenda-se
    aos mesmos Correspondentes, que dentro de cada hum dos caixões, ou
    bocetas mandem huma relação exacta de todas as coisas que contém.
    Suppondo que cada huma das especies vem accommodadas separadamente, e
    distintas com numeros diversos, na relação debaixo dos mesmos numeros
    respectivos se declarará 1.° o nome tanto indigeno, como estrangeiro da
    dita especie, e o nome com que a costumão distinguir os Naturalistas.
    2.° Notar-se-hão todas as suas qualidades mais attendiveis, e
    particularmente as menos conhecidas. A respeito dos animaes, que
    remette, expressará todos os factos constantes e uniformes, que
    distinguem mutuamente as differentes especies, como he tudo, o que
    pertence á sua geração, lugares que habitão, tempo de coito e de parto,
    instinto, artificios, alimentos, doenças, duração, &c.; mas com mais
    particularidade se demorará sobre as utilidades, que do uso delles póde
    resultar para a vida humana. Na relação das qualidades dos vegetaes
    declarará os lugares do seu nascimento, a estação propria da sua
    plantação, o tempo da sua frutificação, os usos, que a experiencia tiver
    mostrado se podem fazer delles para o alimento, para a medicina, e para
    todas as mais Artes. Entre as qualidades finalmente dos mineraes, de que
    mandar as amostras, não se esquecerá o Correspondente de expressar os
    lugares, em que se achão, a profundidade de seus veios, a natureza dos
    terrenos circumvizinhos, e os usos, que já tem no paiz, e os que podem
    ter na Sociedade.

    Se acaso se remetterem algumas obras de artificio dos naturaes do paiz,
    devem da mesma sorte vir numeradas, e acompanhadas de huma relação, em
    que se dê huma noticia circumstanciada dos seus nomes, e usos que lhes
    dão os mesmos póvos, que dellas se servem.

    Além destas relações particulares, que devem enviar-se dentro dos mesmos
    caixões das remessas, será conveniente que se mande á parte huma relação
    geral, que as comprehenda todas pela ordem dos tres reinos da Natureza.
    Desta deixará o Correspondente huma copia fiel na sua mão, para não
    remetter segunda vez exemplares da mesma especie, ou para remetter
    novamente os que se lhe pedirem.

    Estas noticias particulares, de que acabamos de fallar, só servem para
    dar a conhecer os exemplares que se remettem; e como não interessa menos
    conhecer o paiz que os produz, recommenda-se aos Correspondentes, que
    mandem tambem huma descripção Geografica delle, que comprehenda com a
    exacção possivel tudo o que tiverem observado, e lhes parecer mais digno
    da attenção de hum Filosofo. E para procederem sem confusão, podem
    ajuntar debaixo de differentes titulos as suas observações; separando v.
    g. as que pertencem á terra, as que pertencem ao ar, e as que pertencem
    á agoa.

    Para este effeito, depois de notarem a longitude e latitude do lugar a
    respeito do Ceo, o seu clima, as suas dimensões, a sua situação a
    respeito dos pontos cardeaes do mundo, a sua figura, &c., passaráõ a
    coisas mais particulares. 1.° Em quanto aos montes, devem declarar, se
    ha muitos, se poucos; se alguns delles são promontorios, e vulcanos;
    qual he a altura de cada hum, tanto a respeito dos valles vizinhos, como
    a respeito da superficie do mar; quaes as suas direcções, quaes as
    grossuras de seus bancos, e mais qualidades interiores, e exteriores.
    2.° Em quanto á natureza do terreno devem expôr, quaes são os animaes
    terrestres, volateis, e insectos de todas as especies, que nelle se
    produzem e habitão; quaes os vegetaveis, que nelle nascem; quaes os
    mineraes, que das suas entranhas se costumão, ou podem extrahir em maior
    abundancia; quaes finalmente são os usos, a que os habitantes do paiz
    applicão todos estes productos, e os que podem ter na Sociedade. 3.° Em
    quanto aos homens, descreveráõ a sua estatura e fórma exterior, o feitio
    do seu rosto, a sua força, e côr naturaes; e além de todas estas
    propriedades, notaráõ nas mulheres a sua fecundidade ou esterilidade, a
    facilidade ou difficuldade de seus partos; e finalmente as doenças
    communs aos dois sexos, apontando as causas, a que podem ser
    attribuidas. 4.° Em quanto á estructura interior do terreno, devem
    descrever as cavidades subterraneas, os crateres vulcanicos, as rimas,
    os veios metallicos, as diversas camas de differentes especies de
    terras, &c.

    No que pertence ao ar, devem os mesmos Correspondentes indicar 1.° em
    quanto ás suas qualidades, qual he o seu pezo especifico, qual a sua
    subtileza ou crassicie, qual a sua seccura ou humidade, quaes os seus
    gráos de calor ou de frio. 2.° Em quanto aos meteoros do ar, devem
    mostrar, as suas especies mais commuas, a ordem com que se succedem huns
    aos outros, e o tempo da sua duração; mas particularmente declararáõ,
    quaes são os ventos geraes e particulares, ou menos frequentes; qual em
    fim o numero, principio e duração das estaçoes, que pelo decurso do anno
    varião regular, ou irregularmente no paiz. 3.° Em quanto aos effeitos do
    mesmo ar, devem declarar-se as doenças tanto epidemicas, como
    ordinarias, a que estão mais commummente sujeitos os habitantes do paiz,
    e que trazem a sua origem da intemperança do ar.

    No que pertence á agoa, he preciso indicar 1.° em quanto ao mar, a sua
    profundidade, o pezo especifico de suas agoas recolhidas em diversas
    distancias e alturas; a differença do seu sabor, conforme a differença
    dos sitios; a variedade de peixes, insectos, plantas, e outras
    producções marinhas, que nelle se achão; o periodo de suas marés
    combinado com as variações da Lua, &c. 2.° Em quanto aos rios,
    descreveráõ os mais notaveis, declarando os seus nascentes, o seu curso,
    as suas inundações periodicas e extraordinarias, as suas fozes; os
    peixes, insectos e plantas que produzem; e finalmente as materias mais
    raras, que trazem comsigo as suas correntes dos sitios, por onde passão.
    3.° Além das fontes mais notaveis, e indispensavelmente todas as
    mineraes com huma exacta exposição das suas qualidades e virtudes,
    descreveráõ todos os lagos, sorvedouros, correntes subterraneas; &c. 4.°
    Se o paiz for vizinho ao mar, devem tirar hum desenho claro das suas
    costas; e declarar todas as variações, que nellas se observão nas
    diversas estações do anno. Por conclusão, todas as observações, que
    tiverem feito sobre o fysico do paiz, serão bem acceitas; principalmente
    aquellas, que possão de algum modo ser uteis para o augmento do
    commercio e das Artes.

    Para satisfazer a este importantissimo fim, que a Academia se propõe,
    não será menos conveniente, que os seus Correspondentes ajuntem ás
    noticias Geograficas do fysico do paiz todas as que puderem alcançar,
    depois de serios exames, relativas ao moral dos póvos que o habitão. E
    para observarem nesta relação a ordem, que em tudo he necessaria,
    poderáõ reduzir todas as noticias, que examinarem, a titulos diversos,
    preferindo sempre a divisão mais natural; v.g. Religião, Politica,
    Economica, Artes, Tradições, &c.

    Em quanto á Religião, devem expôr com toda a sinceridade 1.° as idéas
    geraes que dominão em todo o paiz sobre a natureza da Divindade, sobre
    as suas obras, e sobre o culto que lhe he devido; 2.° as seitas
    diversas, e os pontos em que differem humas das outras; e juntamente os
    effeitos, que costumão resultar da diversidade de sentimentos nesta
    materia; 3.° a fórma do seu culto, a simplicidade ou extravagancia de
    suas ceremonias, os seus casamentos, os seus lutos e funeraes, os seus
    sacrificios, e finalmente todas as suas superstições.

    Em quanto á Politica, devem explicar 1.° a fórma do seu governo; a
    qualidade de suas leis, se as tiverem; o modo de administrar a justiça
    na distribuição dos premios e castigos; o numero e qualidade das
    pessoas, em quem reside a authoridade suprema; 2.° a fórma de seus
    contratos, e os ritos, que costumão acompanhallos; 3.° as suas guerras,
    o modo de as fazer, as armas de que usão.

    Em quanto á Economica, devem referir 1.° a maneira de educar os filhos,
    a qualidade e fórma de suas habitações, os seus mais communs exercicios;
    2.° os seus alimentos, e o modo de os preparar, a materia e feitio de
    seus trajes; 3.° as propriedades da sua lingua, e fórma dos caracteres,
    se usarem de algum genero de escritura.

    Em quanto ás Artes, mostraráõ 1.° o estado da sua agricultura, os usos e
    defeitos de seus instrumentos de lavoura; 2.° o modo de fazerem as suas
    caças e pescas; 3.° as plantas, de que se servem para sustento, vestido,
    remedios, tintas, &c.; 4.° os animaes que empregão no trabalho, e em
    outros serviços domesticos; 5.° os mineraes que extrahem da terra, os
    usos a que os applicão, e o modo de os reduzir a esses mesmos usos; 6.°
    a perfeição ou imperfeição das artes, manufacturas, e de todo o genero
    de industria, e commercio que houver no paiz.

    Em quanto ás Tradições, devem examinar 1.° a sua origem, antiguidade,
    universalidade, probabilidade ou extravagancia; 2.° o modo de as
    conservar, e defender; 3.° se no paiz houver algum genero de monumento,
    se dará delle huma exacta descripção. Finalmente dar-se-ha huma idéa do
    melhor modo possivel dos costumes dos Póvos, cuja noticia possa influir
    de alguma sorte no Bem da Sociedade.

    FIM.

  • Bases da ortografia portuguesa

    Bases da ortografia portuguesa

    Aproximadamente 4.504 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading
    Team. The images for this file were generously made available by
    Biblioteca Nacional Digital (hhtp://bnd.bn.pt).

    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    POR

    A. R. GONÇALVES VIANNA
    Romanista

    G. DE VASCONCELLOS ABREU
    Orientalista

    LISBOA
    IMPRENSA NACIONAL
    1885

    _Impresso para circular gratuitamente_

    _OFERTA DOS AUTORES_

    Ex.^mo Sr.

    Para respondermos às perguntas que nos teem sido feitas acêrca da
    ortografia adoptada pelos editores técnicos da «+Enciclopédia de
    ciéncia, arte e literatura–Biblioteca de Portugal e Brasil[1]+» temos a
    honra de dirijir a V. Ex.ª esta circular, e rogamos-lhe que faça tão
    conhecidos, quanto em seu poder esteja, os fundamentos em que essa
    ortografia assenta.

    Os princípios que servem de base à reforma ortográfica iniciada por nós
    ambos e usada ha dois anos pelo segundo signatário desta circular, em
    escritos particulares e oficiais, e em artigos publicados em alguns
    papéis periódicos, são resultado de estudo consciencioso e larga
    discussão dos iniciadores. São princípios deduzidos ou antes expressão
    dos factos glotolójicos examinados com rigor; são todos demonstráveis, e
    de simplicidade tal que os poderá compreender a sã intelijéncia, aínda
    que para ela sejam estranhos os estudos de glotolojia.

    Vamos expô-los à apreciação pública desde já, e assim começará a
    preparar-se a crítica de todos os indivíduos, que, por se prezarem de
    Portugueses, não queiram que estranjeiros censurem não haver, para a
    nossa formosíssima lingua, ortografia científica e uniforme a que deva
    chamar-se +Ortografia Portuguesa+.

    No futuro Congresso que temos a peito convocar breve, essa crítica será
    o único juíz a que todos nós os Portugueses havemos de nos sujeitar para
    adopção de ortografia portuguesa e rejeição absoluta de toda ortografia
    individual, seja quem for seu autor.

    [1] Estão publicados: o 1.º vol. da Colecção científica «A Literatura
    e a Relijião dos Árias na Índia», por G. de Vasconcellos Abreu; e o
    1.º vol. da Colecção literária «Mágoas de Werther», romance traduzido
    do orijinal alemão, de J.W. von Goethe, por A. R. Gonçalves Vianna.

    O custo de cada volume é de 300 réis, brochura, 400 réis, cartonado.

    Estes volumes por serem os primeíros, e particularmente «Werther»,
    saíram com erros tipográficos que não devem ser levados à conta do
    sistema de ortografia.

    São editores técnicos A. R. Gonçalves Vianna, G. de Vasconcellos Abreu
    (a quem devem ser dirijidos os manuscritos e toda a correspondéncia),
    S. Consiglieri Pedroso, em Lisboa.

    São editores-impressores Guillard, Ailland & C.ª, em Paris.

    Todos nós, os que lemos, e mais aínda os que escrevemos para o público,
    sabemos quão diverjentes são as ortografias das várias Redacções e
    estabelecimentos tipográficos. Teem escritores +suas ortografias+
    próprias, como +as+ teem as imprensas particulares e as do Estado. E nas
    do Estado são diferentes +as ortografias+ da Imprensa Nacional e +as+ da
    Imprensa da Universidade–estes plurais são a expressão real de um
    facto, sem censura pessoal.

    Com a exposição que vamos fazer dos princípios mais jerais em que
    assenta a reforma ortográfica, por nós iniciada, temos em vista mostrar,
    a todo o país capaz de pensar e ler, que o nosso intuito é realizar uma
    das verdadeiras condições da vida nacional–existéncia de ortografia
    +uniforme e cientificamente sistemática+ a que deva chamar-se
    +Ortografia Portuguesa+.

    Sigamos dois bons exemplos a que largos anos deram ha muito já a sanção:
    o exemplo da Hispanha e o mais antigo da Itália. V. Ex.ª a quem
    dirijimos esta nossa exposição, honrar-nos ha dando-lhe a maior
    publicidade que puder; e por certo se julgará honrado se entender que
    com essa publicação presta bom serviço à pátria a quem devemos êste
    respeito.

    De V. Ex.ª

    +atentos veneradores+

    Lisboa, outubro de 1885.

    A. R. Gonçalves Vianna. G. de Vasoncellos Abreu.

    BASES

    DA

    ORTOGRAFIA PORTUGUESA

    I

    PRINCÍPIOS JERAIS DE TODA ORTOGRAFIA

    1.º Uma língua é um facto social; não depende do capricho de ninguém
    alterá-la fundamentalmente.

    2.º Como facto social é produto complexo, variável por evolução própria
    da sociedade cujas relações serve.

    3.º A ortografia é o sistema de escrita pelo qual é representada a
    língua dum povo ou duma nação num certo estado de evolução glotolójica.

    4.º Esta representação deve ser exacta para todo o povo, para toda a
    nação e portanto deve respeitar a filiação histórica.

    5.º É evidente, pois, que a ortografia não pode ser especial dum modo de
    falar, quer êste seja dum só indivíduo, quer duma província ou dialecto
    da língua.

    6.º Em virtude disto a ortografia não pode representar a pronunciação,
    que por certo não será una; ha de representar a enunciação, a qual é
    sempre comum ao povo, à nação que fala uma só língua como seu idioma
    próprio e exclusivo.

    7.º Na ortografia, por consecuéncia, não se pode fazer uso de sinais que
    indiquem pronúncia de uma qualquer letra vogal, excepto quando essa
    vogal careça de ser pronunciada com modulação especial para a distinção
    conveniente do emprêgo sintáctico do vocábulo, ou aínda (e menos vezes
    em português) para distinguir na grafia única modos diferentes de
    silabização.

    8.º Para se representar a enunciação carece-se de acentuar gráficamente
    o vocábulo, e a ortografia deve ser tal que, subordinada às leis de
    acentuação na língua falada, mostre para qualquer vocábulo a sua sílaba
    tónica a quem desconheça o vocábulo que lê.

    _Escólio_.–É evidente que a acentuação gráfica é inútil na língua
    escrita cuja constituição glotolójica a determina invariávelmente: tal o
    latim clássico e as línguas jermánicas.

    II

    PRINCÍPIOS PARTICULARES DA ORTOGRAFIA DA LÍNGUA PORTUGUESA

    O ensino ortográfico da língua portuguesa reduz-se, portanto, na
    prática, ao ensino de:

    I. Leis da acentuação nos vocábulos símplices e nos compostos.

    II. Valor histórico dos fonemas aínda proferidos e dos que já não se
    proferem; influéncia dêstes sôbre a modulação da vogal precedente.

    III. Conhecimento dos ditongos e sua dissolução.

    IV. Silabização.

    V. Homónimos e parónimos.

    VI. Função dos sufixos.

    VII. Composição dos vocábulos e formação da perífrase nos verbos, e uso
    das enclíticas.

    Diremos dêstes assuntos em outros tantos paragrafos, definindo, todavia,
    primeiro, o que entendemos por ortografia portuguesa.

    «ORTOGRAFIA PORTUGUESA» é o sistema de escrita ou grafia representante
    comum de todos os dialectos do português falado; a sua base é a história
    da linguajem portuguesa considerada como língua e como dialecto.

    Considerada como língua, estuda-se a linguajem portuguesa no ponto de
    vista de língua fundamental ou língua mãe, de que, por evolução própria,
    se teem derivado outros modos de falar no tempo e no espaço, depois de
    assentada a evolução glotolójica realizada em Portugal durante mais de
    um século já desde D. Dinis, e principalmente durante os reinados de D.
    Pedro I, D. Fernando I e D. João I.

    Considerada como dialecto, estuda-se a linguajem portuguesa como
    evolução glotolójica neo-latina ou románica.

    I–DA ACENTUAÇÃO

    1.º A acentuação marcada é tónica e não prosódica; não determina
    modulação da letra vogal, determina a sílaba elevada na enunciação do
    vocábulo.

    Esta sílaba é uma só e a mesma sílaba para cada vocábulo na língua
    portuguesa em todo o país, com excepções esporádicas mais ou menos
    justificadas. Exemplos: _hótel, hotel; bénção, benção_.

    _Escólio._–A acentuação gráfica é sempre a de vocábulo que faz
    excepção à regra jeral.

    2.º O sinal gráfico da acentuação tónica é por exceléncia o acento
    agudo. Marca, porém, êste acento:–vogal tónica aberta em parónimos:
    _fôsse, fósse; sêco, séco; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de
    _real_);–_i, u_ tónicos depois de outra vogal: _país_ (cf. _pais_),
    _reúne, moínho, ruím_;–a vogal _u_ tónica depois de _g_ em _gúe, gúi_
    (cf. 4.º): _argúe, argúi_.

    3.º Pode ser sinal gráfico da acentuação tónica o acento circunflexo, e
    o será especialmente nos casos em que no fonema tónico concorra
    modulação necessária de _ê, ô_, como fica exemplificado em o número
    precedente, e se vê mais dos seguintes exemplos: _fôrça_ (cf. _fórça_),
    _modêlo_ (cf. _modélo_), _sossêgo_ (cf. _sosségo_), _côres_ (cf.
    _córes_), _côr_ (cf. _cór_ em _de-cór_), _vêem_ (cf. _veem_, do verbo
    _vir_), _dê_ (cf. _de_), _dêsse_ (cf. _désse_), e aínda nos vocábulos
    sem parónimos, quando eles sejam esdrúxulos ou oxítonos terminados numa
    dessas vogais seguida ou não de _s_, tais: _pêssego, português, fôlego,
    mercê_.

    4.º O acento grave é diferencial: indica sempre a pronunciação
    alfabética própria da letra vogal alterável, isto é, susceptível de ter
    mais de uma pronunciação (_a, e, o_). Emprega-se na ortografia
    exclusivamente em tres circunstáncias:–na crase da preposição _a_ com o
    artigo feminino _a, a_ + _a_ (ambos átonos) = à;–na sílaba átona cuja
    vogal alterável haja de se proferir aberta e átona com a sua pronúncia
    alfabética, para que se distinga o vocábulo de outro seu parónimo, ex.:
    _crèdor_ (cf. _credor_), _prègar_ (cf. _pregar_);–no _u_ de prolacão
    _gùe, gùi_ quando se proferir átono (cf. 2.º): _argùir, agùentar,
    lingùística_.

    _Escólio._–Escrevemos _cue_ por _que_ (_qùe_), _cui_ por _qui_ (_qùi_);
    ex.: _consecuente, consecuéncia_.

    5.º Os vocábulos terminados em _a, o, e, as, os, es_, são jeralmente
    enunciados com acentuação na penúltima sílaba; logo não teem acentuação
    gráfica marcada. Cf. 2.º e corolário de 7.º _bis_.

    5.º _bis_. Todo vocábulo terminado em _a_ ou _as, o_ ou _os, e_ ou _es_,
    proferido com acentuação noutra sílaba que não seja a penúltima, tem a
    acentuação marcada na escrita. São innúmeros os exemplos; em toda esta
    exposição doutrinal os terá notado o leitor, pois que saltam à vista,
    sempre como excepção, as dições cuja grafia é acentuada.

    6.º Os vocábulos terminados em outra qualquer vogal (_i, u_), ou em
    vogal pura seguida de outra consoante que não seja _s_, e os plurais
    respectivos, são jeralmente proferidos com acento na última sílaba. Logo
    não teem acento gráfico.

    6.º _bis_. Todo vocábulo terminado dêste modo mas cuja acentuação se faz
    noutra sílaba tem o acento gráfico nessa sílaba. Ex.: _pedi, pedis;
    funil, 'funis; matiz; pénsil, pénseis; cascavel, cascaveis; peru,
    perus; Hindu, Hindus; Caramuru; tríbu, tríbus; Púru_.

    7.º Os vocábulos cuja última sílaba for em vogal nasal, ou em ditongo
    puro ou nasal, teem jeralmente a enunciação acentuada na sílaba final.
    Logo não se lhes marca o acento na escrita. Ex.: _marfim; irmã, irmãs;
    irmão, irmãos; marau, maraus; andai, andais; louvei, louveis; Simões;
    Magalhães_. Cf. 2.º paj. 7 e 13.

    7.º _bis_. Será, porém, marcada a acentuação dêsses vocábulos quando ela
    se faça noutra qualquer sílaba. Ex.: _órgão, Estêvão_.

    _Escólio_.–Para os contratos é absolutamente indispensável, como bem o
    viu o grande Ministro, distinguir os futuros dos pretéritos na 3.ª
    pessoa do plural, sem emprêgo do acento gráfico, fácil de esquecer ou de
    ser pôsto depois do contrato escrito e assinado, distinguir-se hão,
    pois: _jurarão, juraram (jurárão); venderão, venderam (vendêrão);
    prescindirão, prescindiram (prescindírão)_; etc.

    _Corolário_.–Por êste motivo o ditongo _ão_, final átono de verbos,
    escrever-se ha idénticamente com _am_; e, por analojia, se escreverá a
    sílaba final dos vocábulos terminados pelo ditongo átono _êe_ com a
    grafia _em_. A acentuação gráfica de tais vocábulos obedece ao princípio
    5.º Ex.: _honram, viajam, ordem, viajem, pôrem, alem_ (= _álem,_ v.
    _alar_).

    _N.B._ Pelo princípio 5.º _bis_ devemos escrever e escrevemos: _porém,
    ninguém, também, além_, etc.; deveríamos, todavia, usar da ortografia:
    _porêe, ninguêe, tambêe_, etc. Deixámos êste ponto para o Congresso.

    É aínda evidente que os plurais dêstes nomes seguem análogamente a regra
    dada para os plurais dos nomes em _a, o, e_; assim: _ordens, viajens,
    (_órdêes, viájêes_).

    8º Os vocábulos compostos teem na escrita a acentuação dos seus
    símplices respectivamente marcada em obediéncia aos princípios que ficam
    expostos.

    II–DOS FONEMAS E SUA REPRESENTAÇÃO POR LETRAS CONSOANTES

    Dois princípios absolutos determinam a exclusão de consoante inútil; e
    quatro ordens de outros factos decidem a adopção científica de
    representação de fonemas articulados. São estes factos:

    _a)_ valores dialectalmente confundidos: _ch_ (= _tch_), _ch_ (= _x_),
    _x; s, ç; s, z_.

    _b)_ valores próximos confundidos pela falta de observação da
    articulação: _s, x; g_(_a_), _g_(_ue, ui_); _g_(_e, i_), _j_; _c_(_a, o,
    u_), _qu_.

    _c)_ valor exclusivamente de influência do fonema articulado sôbre o
    fonema modulado precedente.

    _d)_ valores diferentes de um só símbolo gráfico: _x_, entre vogais.

    II _a_.–EXCLUSÃO DE LETRAS CONSOANTES

    1.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor de fonema
    próprio. São eles _th, ph, ch_, respectivamente por _t, f, q_(_u_),
    _c_(_a, o, u_), _c_; bem assim _y_=_i_.

    1.º _bis_. Póde manter-se _k=q_(_u_)=_c_(_a, o, u_) nas abreviaturas de
    _quilómetro_=_klm._, etc. Devemos, porém, escrever por extenso:
    _quilómetro_[1], _quilograma_, etc.

    2.º São banidos da escrita os símbolos gráficos sem valor. São eles as
    consoantes dobradas ou grupos de consoantes não proferidas e sem
    influéncia na modulação antecedente, nem necessidade por derivação
    manifesta de outro vocábulo existente em que haja de proferir-se cada
    uma das consoantes, como é _Ejipto_ de que se deriva _ejípcio_.

    Exemplos de símbolos sem valor próprio em português:

    _th_ = _t_.–_thermometro_ = _termómetro_; _ether_ = _éter_; _thio_ =
    _tio_.

    _ph_ = _f_.–_ethnographia_ = _etnografia_; _philtro_ = _filtro_.

    _ch_ = _q_(_u_).–_chimica_ = _química_; _machina_ = _máquina_;
    _chimera_ = _quimera_.

    _ch_ = _c_(_a, o_).–_chorographia_ = _corografia_; _mechanica_ =
    _mecánica_.

    _y_ = _i_.–_lyrio_ = _lírio_; _physica_ = _física_.

    Consoantes dobradas:–_agglomerar_ = _aglomerar_; _prometter_ =
    _prometer_; _commum_ = _comum_; _Philippe_ = _Filipe_.

    Grupo de consoantes:–_Christo_ = _Cristo_; _Demosthenes_ =
    _Demóstenes_; _Mattheus_ (que já se escreve, sem razão, Matheus) =
    _Mateus_; _schola_ = _escola_; _sciencia_ = _ciéncia_; _phthisica_ =
    _tísica_.

    Influência da consoante na modulação precedente:–Vejam-se exemplos em
    _c_, páj. 11.

    1.º _Escólio_.–Conservamos _n_ dobrado, _m_ dobrado, nos vocábulos
    derivados de outros, cuja inicial é _n_ ou _m_, por meio das
    prepositivas _in, em_, toda vez que a prepositiva significa _dentro_; e
    aínda nalguns poucos vocábulos em que _n_ ou _m_ influam na vogal _i_ ou
    _e_. A nasal da prepositiva _com_ só a conservamos, por êste motivo, em
    _connosco_. Escrevemos, pois: _immigrar, immerjir, emmalar, ennobrecer,
    innato_, etc.; _comoção, comum, comutar, conexo_, etc.

    2.º _Escólio_.–Mantemos as representações gráficas das palatais _ch,
    lh, nh_, emquanto não houver símbolo único para cada uma delas.

    [1] A ortografia _kilometro_ por _chilometro_ dá ocasião a traduzir-se
    «metro-de-burro» e não «mil-metros». Em grego _kíllos_ significa
    «burro», e _chílioi_ significa «mil». Porque razão, pois, havemos de
    escrever _cirurgia, chimera, kilo_, quando o _c_, o _ch_ e o _k_
    representam a mesma orijem _ch_, transcrição latina do χ,
    grego?

    3.º _Escólio_.–Só ao Congresso compete tratar da exclusão ou
    conservação da aspirante _h_.

    II _b_.–ADOPÇÃO DE LETRAS CONSOANTES

    _a)_–1.º Escrevem-se com _ch_ as sílabas que são proferidas com palatal
    dura, segundo os dialectos, explosiva ou contínua: _chave, chapeu,
    chuva_; etc. A etimolojia e as línguas conjéneres determinam que sigamos
    o exemplo dos nossos clássicos e de vários monumentos escritos usando-se
    da grafia _ch_.

    2.º Escrevem-se com _x_ (melhor seria _ẋ_) as sílabas cuja inicial
    palatal é dura contínua: _xacoco, xadrez, xarafim; enxárcia, enxada,
    enxêrga, enxérga, enxertia, enxaimel, enxame, enxúndia; rixa, roixo;_
    etc. Cf. _d)_.

    3.º Escrevem-se com _s_ as sílabas cuja final é sibilante dura palatal
    e, esporádicamente, sibilante dura dental: _mas; basta; foste; démos,
    dêmos; bosques; português, portugueses_; etc. A etimolojia, o dialecto
    transmontano e as línguas conjéneres determinam a grafia _s_.

    4.º Escrevem-se com _s_ inicial, ou com _ss_ entre vogais, as sílabas em
    que a sibilante dura é ou dental, ou supra-alveolar, conforme os
    dialectos: _saber, classe, diverso, sessão, conselho, sossêgo, sosségo_,
    etc. Determinação histórica e comparação.

    5.º Escrevem-se com _ç_, ou com _c_(_e, i_), inicial as sílabas em que a
    sibilante é dental dura, e só é supra-alveolar nas partes do país onde
    não ha outra sibilante dura inicial: _peço, ciéncia, concelho, poço,
    doçura, preço, çapato, çarça, cárcere_, etc. Determinação histórica e
    comparação.

    6.º Escrevem-se com _s_ entre duas vogais (uma final da sílaba a que
    pertence a sibilante, outra final da sílaba precedente) as sílabas em
    que a sibilante é branda dental ou, segundo o dialecto, supra-alveolar:
    _posição, coser_ (consuere), _precioso, preso_ (prehensum, cf. _prezo_),
    _preciso, pêso, péso_, etc. Determinação histórica e comparação.

    7.º Escrevem-se com _z_ inicial as sílabas em que a sibilante é dental
    branda em todo o país, à excepção daqueles pontos em que se não profere
    sibilante inicial senão supra-alveolar: _azêdo, azédo, azebre, razão,
    cozer, prezo_ (cf. _preso_), etc. Determinação histórica e comparação.

    8.º Escrevem-se com _z_ final os vocábulos que nos seus derivados são
    escritos com _c_ (_e, i_) correspondente à sibilante final deles. Assim
    o determina a etimolojia, evidente na derivação, e a pronúncia
    dialectal. Exemplos: _infeliz, infelicidade; símplez, símplices,
    simplicidade; ourívez, ourivezaria_; etc.

    _Corolário_.–Escrevem-se com _z_ infixo os diminutivos e aumentativos
    _zito, -zinho, -zão_, etc., e os sufixos (derivados do latino _-itia_)
    _-eza, -ez_; bem como os sufixos de verbos, _-izar_, e de nomes,
    _-ização_.

    _Escólio_.–Os plurais dos nomes diminutivos formam-se do tema do plural
    do nome fundamental e do plural do sufixo. Dão testemunho os dialectos.
    Assim, pois, escrevemos: _homemzinho, homemzinhos_, não _homensinhos;
    acçãozinha, acçõezinhas_, não _acçõesinhas; pãozinho, pãezinhos_, não
    _pãesinhos; mãozinha, mãozinhas; aneizinhos_; etc.

    _b)_–1.º Adoptámos, pelo que fica dito em _a)_ 3.º, a representação
    gráfica _s_ para a sibilante palatal dura final de sílaba, que muitas
    pessoas julgam ser absolutamente igual a _x_ (_ẋ_).

    2.º Por falta mais grave na observação se tem confundido as articulações
    _g_(_a_), _g_(_ue, ui_), _j_(_a_), _j_(_e, i_), e ainda _c_(_a_),
    _q_(_ue, ui_). Os pontos articulatórios são diferentes. No congresso
    trataremos estes assuntos. Carecemos de caracteres próprios para
    distinguir na escrita as articulações _j_(_a_), _g_(_e, i_), _j_(_o,
    u_), nas palavras _Jacob, Jeremias, José, Jesus, Jutlandia, Jerusalem,
    geme, gemer, gentes, gymnasio, Gil_; etc.; e é certo que não podemos,
    tão pouco, distinguir _Guilherme, guerra, garra, gume_, causando
    estranheza invencível a grafia _Geremias, Gesus_, e ficando aínda infiel
    _gemer, geral_, e sempre em contradição com uma pronúncia _Gèrusalém_ ou
    _Jerusalém_; tendo nós, pois, de escrever _Jeremias, Jesus_, adoptámos o
    símbolo _j_ para os fonemas articulados das sílabas _ja, jo, ju, ge,
    gi_, e por êste sistema gráfico evitamos também regra especial para a
    conjugação dos verbos em (_-ger, gir_) _-jer, -jir_.

    _Escólio_.–É evidente (pelo que fica dito em _b)_ 2.º) a necessidade
    aínda existente de mantermos o modo de escrever _gue, gui_, nas sílabas
    terminadas na vogal palatal _i_ ou _e_, precedida do fonema gutural
    brando, mostrando-se pelo acento grave sôbre o _u_ da prolação _gùe,
    gùi_, as silabizacões _gu-e, gu-i_, como fica dito em 4.º de páj. 7.

    _c)_ Conservamos todo sinal gráfico de fonema histórico, hoje nulo, cuja
    influéncia na vogal precedente é persistente: _acção, actor,
    predilecção, redacção, respectivo, trajectória, baptismo, concepção_; e
    aínda quando é facultativa a pronunciação, como em _carácter._

    _Escólio_.–Os fonemas _i, u_, não estão sujeitos a esta influéncia:
    _edito_ = _edicto_ (cf. _édito_); _corruto_ = _corrupto_; _corrução_ =
    _corrupção_.

    _d)_ Conservamos a grafia _x_ para representar os diferentes fonemas que
    de facto representa na língua portuguesa, porque não temos direito, nem
    Congresso nenhum, de impor pronúncia pela ortografia. O Congresso poderá
    assentar as bases para o dicionário ortoépico; e no tocante a pronúncia
    nada mais pode fazer–estabelece o padrão, dá a norma–para que se
    dilijenceie ler dum modo único o vocábulo escrito.

    Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar o vocábulo _exemplo_
    de uma das seguintes maneiras: _izemplo, isemplo, eizemplo, eisemplo,
    isjemplo_. Ninguém pode contestar o direito de se pronunciar _trouxe:
    trouẋe, trouce; extravagante: eistravagante, istravagante,
    'stravagante; fixo: fiẋo, ficso, ficço_.

    III–DOS DITONGOS

    Pelo que fica dito se vê qual a maneira por que indicamos a dissolução
    do ditongo. Não usamos da _diérese_, também chamada _ápices_, e mais
    jeralmente _trema_ ¨, que alguns gramáticos entre nós querem que se use
    na vogal prepositiva ou conjuntiva, e no _u_ das prolações, para neste
    caso mostrar que faz sinérese com a voz seguinte.

    O trema é sinal que nos veiu de países estranhos. Tem na escrita de
    línguas europeas significação insubstituível; que nas jermánicas é fórma
    abreviada de um _e_, e nesta significação únicamente o empregamos.

    IV–DA SILABIZAÇÃO

    Em quanto à sibalizacão devemos mencionar aqui apenas os tres seguintes
    princípios:

    1.º Dividem-se as sílabas, considerando os vocábulos como portugueses
    para êste efeito, sem que se atenda à derivação de língua estranha, nem
    à derivação dentro da própria língua: _ma-nus-cri-to, cons-pí-cu-o,
    obs-tá-cu-lo, ins-cre-ver, no-ro-es-te, nor-des-te, pla-nal-to,
    a-lhei-o, mai-or, mai-o-res_.

    2.º Conserva-se à sílaba a consoante que determina a modulação da sua
    vogal (paj. 11, _c)_): _ac-ção, fac-tor, cor-rec-to, bap-tis-mal_.

    3.º Na passajem de uma para outra linha empregamos em ambas as linhas o
    _traço de união_, tanto o próprio de vocábulos compostos cujos símplices
    se distingam na escrita entrepondo-se-lhes o _hífen_, como o próprio da
    ligação das vozes enclíticas às suas subordinantes: _porta–bandeira,
    guarda–fato, clara–boia; luso–brasileiro; deu–m'o, louva–lhe,
    démo'–lo, louva–o, louvá–lo, arrepender–se, domá–lo–ia_.

    V–DOS HOMÓNIMOS E PARÓNIMOS

    1.º Os homónimos confundem-se umas vezes na escrita do português como na
    sua pronúncia; exemplos: _cedo_ (verbo e advérbio); _conto_ (verbo e
    nome): _são_ (verbo e adjectivo). Outras vezes distinguem-se com
    exactidão na escrita, embora não se distingam em todas as pronúncias;
    exemplos: _vez, vês; cem, sem; coser, cozer; sessão, cessão; -passo,
    paço_,–parónimos no dialecto em que se faça diferença na articulação de
    _s_ para a de _ç_ e para a de _z_. Podem aínda os homónimos
    distinguir-se na escrita e não se distinguirem em pronúncia nenhuma:
    _houve, ouve; dê-se, dêsse_.

    _Escólio._–Distinguem-se na escrita, mas sem exactidão rigorosa: _hora,
    ora; heis, eis_; e por êrro de analojia falsa, _pelo_ cuja orijem é
    _per-lo_, que deu _pel lo_ e _pe'-lo_ homónimo, quando se pronuncie
    enfáticamente, de _pello_, que etimolójicamente só tem um _l_ e devemos
    escrever (como de facto se escreve nesta ortografia proposta) _pêlo_
    (cf. _pélo, pelo_).

    2.º Os parónimos são perfeitamente distintos na presente ortografia:
    _pelo, pêlo, pélo; para, pára; crê, cré; cesto, sexto_ (homónimos em
    Lisboa); _fôsse, fósse; fôrça, fórça; sessão, cessão, secção; coando,
    quando; quanto, canto; credor, crèdor; incómodo, incomodo; colhêr,
    colhér; contrato, contracto; alias, aliás; alem_ (verbo), _além; papeis_
    (verbo), _papéis; reis_ (pl. de _rei_), _réis_ (pl. de _real_); _bateis_
    (verbo), _batéis; caia, caía_; etc.

    VI–DOS SUFIXOS

    Conservamos toda a exactidão na ortografia dêstes elementos morfolójicos
    cuja função anda tão ignorada. Pululam os galicismos, os
    estranjeirismos, até na ortografia da nossa linguajem e na sua
    morfolojia, que não só em se introduzirem vocábulos novos
    desnecessários, e em se esquecer a sintaxe dela.

    É êrro escrever-se _civilisação_ por _civilização, organisar_ por
    _organizar; chapeleria_ por _chapelaria; cortez_ por _cortês_; etc.

    VII–DA COMPOSIÇÃO, DA PERÍFRASE, E DAS ENCLÍTICAS

    Dissemos o bastante acêrca do primeiro e terceiro dêstes pontos. Em
    quanto à perífrase, diremos que as linguajens perifrásticas dos verbos
    são diferenciadas em linguajens de perífrase consciente e perífrase
    inconsciente.

    É linguajem perifrástica consciente a formada com o presente do verbo
    _haver_. Escrevemo-la, pois, sem hífen de ligação: _descrevê-lo hei,
    louvá-la has, dar-lh'o ha, amar-nos hemos, unir-vos heis, receber-se
    hão_.

    É linguajem perifrástica inconsciente, com tmese evidente, a formada com
    um resto do pretérito imperfeito do verbo _haver: -ia_ = (hav)_ia, -ias_
    = (hav)_ias, -ia_ = (hav)_ia, -íamos_ = (hav)_íamos, -íeis_ =
    (hav)_íeis, -iam_ = (hav)_iam_. Escrevemos estas linguajens sem o _h_,
    perdido com os outros elementos de _hav-_, em todas as pessoas do
    pretérito imperfeito do verbo _haver_, que entra na perífrase. Exemplos:
    _descrevê-lo-ia, deixar-me-ias, aborrecê-la-ia, evitá-lo-íamos,
    comportar-vos-ieis, obedecer-lhe-iam_.

    III

    O NOSSO INTUITO

    Se quiséssemos entrar em minudéncias de linguajem e defender em todos os
    pontos a ortografia que iniciámos, teríamos de escrever um livro de
    grosso volume. Se o nosso intuito fôsse ensinar, publicaríamos um
    tratado. Mas é diferente o fim dêste escrito, que oferecemos
    gratuitamente aos nossos conterráneos, como testemunho de respeito pelas
    cousas da nossa pátria: _Damos razão da reforma iniciada e sujeitamos ao
    são critério as bases em que esta assenta_. Por êste motivo deixámos de
    tratar pontos de que o Congresso terá de se ocupar.

    Andam infelizmente esquecidas por alguns escritores regras de gramática,
    que, a serem lembradas, os não deixariam cometer erros imperdoáveis.
    Temos visto ortografar (e até pronunciar!!), _passeiando, passeiata,
    ideiou, receiará, feichara_, etc., em vez de _passeando, passeata,
    ideou, receará, fechara_, etc. É certo que a maioria dos leitores sabe
    que, por motivo de a acentuação tónica se fazer nas tres pessoas do
    singular e terceira do plural de todos os presentes dos verbos, como
    _idear, recear, passear_, etc., únicamente nessas fórmas pessoais
    aparece o ditongo _ei_ no radical: _passeio, passeias, passeia,
    passeamos, passeais, passeiam_;–passeava, passeavas_, etc.;–_passeei,
    passeaste_, etc.;–_passearei, passearás_, etc.;–_passearia_,
    etc.;–_passeia tu, passeie ele, passeemos nós, passeai vós, passeiem
    eles;–que eu passeie, que tu passeies, que ele passeie, que nós
    passeemos, que vós passeeis, que eles passeiem;–passear, passeando,
    passeado_. O radical português é _passe-_.

    É claro que tratar de assuntos como êste não é objecto de uma símplez
    circular. E se o leitor houver notado que usámos nela de modos de
    ortografar para que não encontra explicação nos princípos que ficam
    estabelecidos, atribua o facto a não caber a explicação suficiente nos
    princípios jerais. Cremos que as bases, como ficam postas, constituem
    método sem contradições:–se o Congresso fôr até suprimir (como julgamos
    que deve suprimir) as letras consoantes inúteis nos nomes próprios e nos
    de família, assinaremos sem dobrar as consoantes _nn, ll_ dos nossos
    nomes.

    Não nos preocupa uma idea preconcebida. Não nos domina um subjectivismo
    apaixonado. Desejamos que no país todo se una para discutir de boa fé
    quem tiver estudado o problema, e que êste se resolva estabelecendo-se
    ORTOGRAFIA PORTUGUESA.

    +ALGUNS OUTROS TRABALHOS PUBLICADOS PELOS MESMOS AUTORES+

    POR A. R. GONÇALVES VIANNA

    Estudos Glottologicos: Graphica e Phonetica. O livro da Escripta do
    Professor Faulmann.–Porto, 1881.

    Essai de Phonétique et de Phonologie de la Langue Portugaise d'après le
    dialecte de Lisbonne.–Paris, 1883.

    Études de Grammaire Portugaise.–Louvain, 1884.

    Mágoas de Werther (romance de J. W. von Goethe trasladado a
    português).–Paris, 1885.

    POR G. DE VASCONCELLOS ABREU

    Questions Védiques.–Paris, 1877.

    Sobre a Séde originaria da Gente Árica.–Coimbra, 1878.

    Investigação sobre o caracter da Civilisacão Árya-hindu.–Lisboa, 1878.

    Importância capital do sãoskrito como base da Glottologia árica e da
    Glottologia árica no ensino superior das lettras e da historia.–Lisboa,
    1878.

    Contribuições mythologicas.

    Grammatica da língua sãoskrita: Phonologia.–Lisboa, 1879.

    Fragmentos de uma tentativa de Estudo Scoliastico da Epopea Portugueza
    (publicados pelo 3.º Centenário de Camões; a 2.ª parte dêste trabalho
    foi traduzida em inglês pelo sr. Donald Fergusson, com o título
    «Buddhist Legends from Fragmentos … by G. de Vasconcellos Abreu.
    Translated with additional notes. Ceylon).–1880.–1884.

    O Reconhecimento de Chakuntalá (texto devanágrico e tradução portuguesa
    do Acto I do célebre drama de Xacuntalá do poeta Calidaça, segundo a
    recensão Bengali).–Lisboa, 1878.

    Manual para o Estudo do Sãoskrito clássico. Tomo I, Resumo
    Grammatical.–Lisboa, 1881-1882.

    De l'Origine probable des Toukhâres et leurs migrations à travers
    l'Asie.–Louvain. Lisbonne. (Memória acerca da orijem dos Teucros,
    apresentada ao Congresso antropolójico de Lisboa em 1880).

    A literatura e a relijião dos Árias na índia. Primeira Parte.–Paris,
    1885.