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  • O cancioneiro portuguez da Vaticana

    O cancioneiro portuguez da Vaticana

    Aproximadamente 12.370 palavras.

    THEOPHILO BRAGA.

    O Cancioneiro portuguez da Vaticana
    e suas relações com outros Cancioneiros dos seculos XIII e XIV.

    (Zeitschrift für Romanische Philologie, 1877)

    O apparecimento do Cancioneiro portuguez da Bibliotheca do Vaticano,
    que encerra quasi toda a poesia lyrica do fim da edade media em
    Portugal, veiu mais uma vez provar a superioridade da iniciativa
    individual sobre a estabilidade inerte das instituições collectivas
    que apenas apresentam o vigor do prestigio official; desde 1847 que a
    Academia real das Sciencias de Lisboa deixava jazer no pó do archivo
    de Roma este importante documento nacional, e foram sempre ficticios
    os esforços para obter uma copia d'elle, que de ha muito devera ter
    sido reproduzida no corpo dos _Scriptores_, que forma uma das partes
    dos _Portugaliae Monumenta historica_. No emtanto, no estrangeiro o
    interesse scientifico muitas vezes se havia occupado do passado
    historico de Portugal, e foi a esta corrente que obedeceu o illustre
    philologo romanista Ernesto Monaci coadjuvado pelo activo e
    intelligente editor Max Niemeyer, restituindo a este paiz o texto
    diplomatico do mais precioso dos seus documentos litterarios. Ao
    terminar do modo mais consciensioso a sua empreza, escreve Monaci:
    "voglia il cielo che tornato il libro in Portogallo, diventi presto
    oggetto di studj novelli. È solo nella fonte delle tradizioni patrie
    che lo spirito di una nazione si ringagliardisce." (Canz. port., p.
    XVIII.) Infelizmente na litteratura portugueza ainda se não
    comprehendeu esta verdade salutar, e por isso o talento desbarata-se
    em architectar phantasmagorias de cerebros doentes ou em fazer
    traducções de romances dissolutos. Acceitando a responsabilidade das
    palavras do editor do Cancioneiro da Vaticana dirigidas a esta nação,
    cabia primeiro do que a todos á Academia real das Sciencias de Lisboa
    responder pela seguinte forma:

    1°. Publicar o texto critico e litterario restituido sobre a lição
    diplomatica em grande parte illegivel fóra de Portugal.

    2°. Acompanhar esse texto com todos os dados bibliographicos de que se
    possa alcançar noticia, para sobre elles basear a historia externa da
    formação do Cancioneiro.

    3°. Acompanhal-o de um bom glossario das palavras empregadas na dicção
    provençalesca da poesia palaciana.

    4°. Por ultimo organisar um vasto quadro da historia litteraria de
    Portugal no periodo dos nossos trovadores, deduzido dos abundantes
    factos historicos que fornece o Cancioneiro da Vaticana.

    É para isto que existem as Academias nos paizes civilisados, que os
    governos as subsidiam, e que os seus membros têm o fôro de sabios. Em
    quanto a Academia real das Sciencias de Lisboa não cumpre este seu
    dever, cumpre-nos dar uma noticia d'este Cancioneiro, longos seculos
    perdido pelas bibliothecas estrangeiras.

    N'este codice se encontram as nossas origens litterarias, e as
    relações intimas que filiam a litteratura portugueza no grupo das
    litteraturas romanicas da edade media da Europa; aqui se acham
    representadas as duas correntes da inspiração popular e palaciana ou
    erudita, bem como os costumes intimos de uma sociedade que nos é
    desconhecida, mas d'onde proviemos; os successos historicos aí têm a
    sua nota accentuada; os nomes que figuram nas lendas genealogicas e
    nos feitos de armas no periodo da constituição da nossa nacionalidade
    aí se encontram assignando os mais saborosos cantares consagrados ás
    damas da côrte, que serviam. Finalmente, ali está o documento mais
    vasto em que a lingua portugueza se manifesta no seu esforço para de
    inconsistente dialecto romanico se tornar uma lingua escripta com uma
    grammatica fixa. Um livro assim, onde se acha representado o melhor da
    nossa antiga poesia durante os seculos XIII e XIV, é a joia de uma
    bibliotheca. Como nos mostraremos gratos ao estrangeiro que assim vem
    augmentar os nossos thezouros historicos e restituir-nos o fio perdido
    da nossa tradição nacional? Estudando-o.

    A primeira questão que o Cancioneiro portuguez do Vaticano sugere é
    determinar as suas relações com os antigos cancioneiros provençaes
    portuguezes em grande parte perdidos; esta circumstancia complica o
    problema critico, e por isso importa bem determinar aproximadamente o
    numero d'essos cancioneiros para se fazer o processo de filiação. Tal
    é o intuito d'este nosso primeiro estudo, bastante restricto, por que
    determinar o valor historico do Cancioneiro pelas correntes
    litterarias n'elle representadas, pela allusão aos grandes successos,
    pelo uso de dadas formas poeticas, pelas personalidades dos principaes
    trovadores e pelo estado da lingua portugueza, é uma exploração de tal
    forma vasta, que qualquer d'estas questões excede as proporções de uma
    noticia. Começamos pela critica externa do Cancioneiro, enumerando
    todos os cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV que
    contribuiram para a sua formação, procurando ao mesmo tempo o nexo que
    existiria entre elles, e pelas divergencias de texto quaes as
    collecções que se perderam sem chegarem a ser conhecidas.

    1. O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos.

    No testamento do Conde D. Pedro, feito em Lalim em 30 de Março de
    1350, se lê esta clausula: "Item, mando o meu _Livro das Cantigas_ a
    el rei de Castella". Interpretando esta clausula, Varnhagem quiz por
    ella attribuir o Cancioneiro da Ajuda ao Conde de Barcellos,
    imprimindo-o em 1849 n'esse presupposto, com o titulo de _Trovas e
    Cantares… ou antes mui provavelmente o Livro das Cantigas do Conde
    de Barcellos_. Esta hypothese cedo caiu diante da evidencia dos
    factos; mas além d'este primeiro erro, existe n'esta affirmacão um
    outro, que é o julgar o _Livro das Cantigas_ formado de canções
    unicamente compostas pelo Conde de Barcellos. Era antigamente vulgar
    terem os principes cancioneiro seu, como objecto sumptuario, isto é,
    uma collecção contendo as melhores poesias de seu tempo; sabendo-se a
    tendencia compiladora e erudita do Conde Dom Pedro, e a sua amisade
    com a aristocracia portugueza e gallega por causa do seu _Nobiliario_,
    é mais no espirito da historia litteraria a hypothese, que o _Livro
    das Cantigas_ era seu pelo facto material da propriedade ou da
    colleccionação, e que este titulo designa um cancioneiro contendo
    composições de diversos trovadores. Vamos fundamentar esta hypothese:
    Primeiramente, o Conde D. Pedro, pelas canções que d'elle restam na
    collecção do Vaticano, era um mediocre trovador, e d'elle diz Affonso
    XI, a quem elle deixara em testamento _o seu Livro das Cantigas:_

    Pois se de quant'el tem errado
    _serve Dom Pedro_, nem lhi dá em grado.

    Alludia á inferioridade das canções de Bernal de Bonaval, que serviam
    ao gosto do Conde Dom Pedro. Em segundo logar, pelo Nobiliario se vê
    quanto o Conde era versado nas tradições bretans que adoptava como
    factos historicos; e no indice do Cancioneiro de Angelo Colocci se
    acham enumeradas como começo d'esse codice: "1. Elis o baço, duque de
    Sansonha, quando passou na Gram Bretanha, qual ora chamam Ingraterra,
    al tempo del Rey Arthur ad combater com Tristano por que lhi avia
    occiso o padre em uma batalha. E andando um dia em sa busca foi por
    Giososa Guarda ú era a reyna Isouda de Corualha, e enamorou-se ali
    elle, e fez por ella aquesta lais, o qual lais poemos aqui, porque era
    o melhor que fora feito.–2. Quatro donzellas, a Morouet de Irlanda,
    al tempo del rei Arthur.–3. Dom Tristan enamorado.–4. Dom
    Tristan.–5. D. Tristam para Genebra".

    Por este conteúdo do começo do Cancioneiro que pertenceu a Colocci, e
    por que no codice da Vaticana mais de uma vez se citam as formas
    poeticas bretãs dos _lais_, podemos concluir que esses cinco Lais
    pertenceriam ao _Livro das Cantigas_, o qual foi encorporado em uma
    grande collecção formando talvez a parte que vae até as canções de
    el-rei D. Diniz que eram tambem um cancioneiro avulso. Por este mesmo
    codice de Angelo Colocci, de que resta o indice, achamos que antes da
    parte que constitue a colecção de el-rei D. Diniz, estavam colligidas
    varias canções de Dom Affonso Sanches, bastardo do rei, as canções de
    Dom Affonso rei de Leão, as de D. Affonso XI de Castella, e depois
    d'estar as do proprio Conde de Barcellos, que são ao todo nove, e
    tambem as de seu irmão el rei D. Affonso IV. Não era qualquer
    compilador ocioso que poderia satisfazer a sua curiosidade obtendo
    d'estes principes e monarchas as canções mais ou menos pessoaes; o
    Conde de Barcellos estava em uma posição especial, sabia metrificar,
    era estimado na côrte de D. Diniz e na de Affonso XI, e tendo passado
    algum tempo em Hesphanha de lá podia trazer canções de varios
    trovadores que nunca estiveram em Portugal. Por tanto o seu _Livro das
    Cantigas_ fôra formado n'estas condições particulares, e o apreço que
    se lhe ligava é que o fez com que o deixasse em testamento ao elegante
    trovador Affonso XI de Castella. A posse de um livro de cantigas era
    quasi um titulo nobiliarchico; na canção 76 da Vaticana, feita á
    maneira de sirvente por Affonso XI contra o Dayão de Calez, diz que
    elle tinha um _Livro de Sons_, por meio do qual seduzia todas as
    mulheres. Foi tambem pelo seu gosto pela poesia provençalesca que o
    Conde de Barcellos manteve a sympathia de D. Affonso IV, filho
    legitimo de D. Diniz, e por isso em uma canção de louvor é chamado o
    _rimante d'el-Rei_. Por tudo isto é mais crível que o _Livro das
    Cantigas_ do Conde fosse o primeiro nucleo com que se formou por
    juxta-posição o grande cancioneiro portuguez, do qual um dos
    apographos é o codice da Vaticana; dizemos por juxta-posição, por que
    se lhe segue o de el-rei Dom Diniz, e porque muitas canções de codice
    de Roma se acham aí mesmo repetidas, indicação inevitavel de terem
    sido colligidas de fontes diversas. Quando o Conde Dom Pedro falleceu
    já era morto Affonso XI, e isto explica como poderia extraviar-se em
    Castella esse _Livro das Cantigas_, e como Pero Gonçalves de Mendoza
    viria a obter a copia que se guardava em um grande volume em casa de
    D. Mecia de Cisneros, e pela primeira vez citada por seu neto, o
    Marquez de Santillana.

    2. Livro das Trovas de El-rei Dom Diniz

    O corpo das canções de el-rei Dom Diniz occupava uma grande parte do
    codice de Dona Mecia de Cisneros; occupava tambem uma parte importante
    no apographo de Colocci, bem como no codice da Vaticana. O modo como
    esta grande quantidade de canções de el-rei Dom Diniz entrou em uma
    vasta compilação explica-se naturalmente, por isso que pelo catalogo
    dos livros de uso de el rei Dom Duarte acha-se citado o _Livro das
    Trovas de el-rei Dom Diniz_, do qual se pode inferir terem existido
    varias copias, por que o numero das canções varia entre as enumeradas
    no indice de Colocci e as contidas no codice da Vaticana, contando
    este ultimo cincoenta e uma canções a mais. Alem d'isso, na parte do
    codice que encerra as canções de D. Diniz, a canção 116 acha-se
    repetida outra vez sob o numero 174 com variantes e differente
    disposição de estrophes, o que denota que essa parte foi compilada de
    copias secundarias, mas classificadas, como vemos pelo titulo das
    _Cantigas de Amigo_ dado a um certo genero de canções, especialmente
    de imitação popular. É provavel que os autographos que serviam para os
    traslados nitidos dos amanuenses fossem por vezes aproveitados por
    outros compiladores; de el-rei Dom Diniz andava tambem um codice
    poetico em poder dos Freires de Christo de Christo de Thomar. Os
    muitos jograes da Galiza, de Castella e de Leão, que frequentavam a
    côrte de Dom Diniz, tambem colligiriam esses corpos de canções de
    _Serranilha_ e de _Mal-dizer_ que os privados dos monarchas trovaram,
    e que elles decoravam para cantarem de officio. Os jograes formaram
    collecções dos melhores cantares para recitarem ou acompanharem á
    citola, pelo que recebiam dinheiro; o costume de ter jograes de
    _Segrel_ ao serviço da casa real levava tambem a formar estes pequenos
    cancioneiros escolhidos.

    3. O Cancioneiro da Ajuda (ou do Collegio dos Nobres).

    O facto de se encontrarem _cincoenta e seis_ canções communs ao Codice
    da Ajuda e ao da Vaticana, torna indispensavel o resumir aqui o que se
    sabe da historia externa do Cancioneiro da Ajuda. As suas folhas são
    de pergaminho, a duas columnas, com pauta para a musica das canções
    que se deveria escrever em seguida, e com varias vinhetas separando os
    diversos grupos de canções de cada trovador e com letras historiadas.
    O cancioneiro está truncado, pois que começa na folha 41, e não existe
    o final, não só por incuria dos possuidores, que o baralharam
    encadernando-o tumultuariamente com o Nobiliario, grudando algumas
    folhas ás capas, mas tambem por que o estado da copia, sem assignatura
    ou designação dos trovadores, letras historiadas incompletas, e falta
    de notação musical, nos revelam que o codice não foi dado por acabado.
    Esta collecção começou-se ainda no reinado de D. Diniz, por que
    juntando-se as folhas lê-se escripto no córte d'ellas: _Rei Dom
    Diniz_, e d'isto tambem se pode deduzir, que se não perderam muitas
    folhas do principio e do fim. D'este codice foram encontradas mais 24
    folhas avulsas na Bibliotheca de Evora, e é tradição corrente que na
    de Coimbra existiam algumas outras tambem.

    A inspecção do Codice da Ajuda, confrontado com outros Codices
    europeus, mostra-nos que elle pertencia indubitavelmente a diversos
    trovadores; Varnhagem notou que existiam dezaseis vinhetas
    imperfeitamente coloridas, que estão desenhadas junto ás canções 2,
    36, 37, 149, 157, 170, 173, 184, 190, 231, 233, 249, 253, 255, 259 e
    fragmento _h_. (Notas ás _Trovas e Cantares_, p. 348.)

    Alem d'este vestigio paleographico, o confronto com o Codice da
    Vaticana levou a achar os seguintes trovadores, communs aos dois
    Cancioneiros: Pero Barroso, Affonso Lopes Baião, Mem Rodrigues
    Tenoyro, João de Guilhade Estevam Froyam, João Vasques, Fernão Velho,
    Ayres Vaz, D. João de Aboim, Pero Gomes Charrinho, Ruy Fernandes,
    Fernam Padrom, Pero da Ponte, Vasco Rodrigo de Calvelo, Pero Solaz,
    Pero d'Armêa, e João de Gaia. Todos estes nomes são de fidalgos
    grandes privados de el-rei D. Diniz, e alguns já figuram em doações de
    D. Affonso III, como D. João de Aboim e Affonso Lopes Baião; Mem
    Rodrigues Tenoyro vivia na côrte de D. Affonso IV, e foi entregue a
    Pedro cruel em troca dos assassinos de Inez de Castro.[1] A parte não
    assignada e que não se encontra no Cancioneiro da Vaticana será por
    ventura o corpo das canções escriptas durante o tempo em que a côrte
    de D. Affonso III esteve fixa em Santarem. Alem d'isso a parte commum
    tem a particularidade de conservar a mesma ordem nas canções, e ao
    mesmo tempo as variantes mais fundamentaes n'essas lições. D'aqui se
    conclue, que já existia um Cancioneiro formado, d'onde este da Ajuda
    estava sendo trasladado, mas que d'esse cancioneiro existiam
    differentes copias formadas, não directamente sobre elle, mas por meio
    dos cancioneiros particulares que o constituiram. A parte não commum
    ao codice de Roma, prova nos tambem que alguns d'esses cancioneiros
    parciaes se perderam, ou eram já tão raros que não chegaram a ser
    encorporados na collecção. Admittida a hypothese de que o Cancioneiro
    da Ajuda, pelo facto de ter pertencido a el-rei D. Diniz e de andar
    encadernado junto do Nobiliario do Conde D. Pedro, fosse o proprio
    _Livro das Cantigas_, como primeiro quiz Varnhagem, o facto de
    apparecerem aí outros trovadores prova-nos a nossa hypothese, que o
    Conde D. Pedro compilara sob esse titulo as canções dos trovadores
    seus contemporaneos. O numero de vinhetas imperfeitamente coloridas do
    cancioneiro da Ajuda são dezaseis; isto leva a inferir que esse codice
    era formado de dezeseis corpos de canções que pertenciam a dezassete
    trovadores. De facto a coincidencia aqui é pasmosa: o numero dos
    trovadores communs ao Cancioneiro da Ajuda e da Vaticana é de
    dezesete! Note-se que este numero é o que se perfaz com os nomes de
    _Fernam Padrom, João de Gaya, e Pero d'Armêa_, que achámos alem
    d'aquelles que primeiro descobriu Varnhagem. D'este numero se tira a
    conclusão que o Cancioneiro da Ajuda pertence exclusivamente a esses
    dezessete trovadores, e que as cincoenta e seis canções communs ao
    Codice da Ajuda eram as que andavam por cancioneiros parciaes, como as
    mais conhecidas, e pelas variantes que appresentam, as mais repetidas.
    Alem d'isso, pode suppor-se que o Cancioneiro da Ajuda não foi
    acabado, por que o estylo _limosino_ em que está escripto, passou de
    moda, preferindo-se os _Cantares d'amigo_, as _serranilhas_, as
    _pastorellas_, os _lais_ e as _sirventes_, mudança de gosto
    proveniente da grande affluencia de jograes gallegos, leonezes e
    castelhanos á côrte de Dom Diniz; e sob o gosto da côrte de Dom
    Affonso IV prevaleceram tambem as canções e musicas bretans, cuja
    corrente parece ainda reflectida no Cancioneiro da Ajuda, em um
    remotissimo vestigio, no fragmento de canção em que se lê a palavra
    _guarvaya_, com que o trovador allude aos seus infelices amores. Nas
    _Leges Wallice_, XXIII, I, encontra-se o dom das nupcias, _kyvarus_,
    que se pagava ao cantor da côrte: "Penkered (musicus primarius) debet
    habere mercedes de filiabus poetarum sibi subditorum; habebit quoque
    munera nuptiarum, id est _kyvarus neythans_, á feminibus nuper datis,
    scilicet XXIIIIor denarios."[2] A connexão historica e a interpretação
    litteral mostram que a _guarvaya_ do trovador portuguez é o mesmo
    facto ou costume bretão _kyvarus_; a verificação pelos processos da
    alteração phonetica pertence para outro logar. Em todo o caso este
    vestigio é um dos nexos mais intimos que se pode achar com o codice
    perdido de Colocci, em que estavam já colligidos alguns _lais_
    bretãos.

    A musica do Cancioneiro da Ajuda tambem foi abandonada, por que foram
    substituidos nos costumes outros instrumentos e outras tonadilhas; no
    poema francez de Bertrand Du Guesclin, fala-se de cantores bretãos na
    côrte de D. Pedro I de Portugal. Foi já n'esta nova corrente poetica e
    com o fervor que ella despertara que se começou a formar o vasto
    cancioneiro, de cuja existencia se sabe por quatro apographos. Crêmos
    que o compilador que trasladou ou organisou o texto authentico d'onde
    saíu o apographo do Vaticano, não soube da existencia do Cancioneiro
    da Ajuda, apezar das cincoenta e seis canções communs a ambos. Este
    facto será mais amplamente explicado.

    4. O Cancioneiro de Dona Mecia de Cisneros.

    Na sua _Carta ao Condestavel de Portugal_, escripta antes de 1449, o
    Marquez de Santillana, no § XV, diz que se recordava de ter visto,
    quando era bastante menino, em poder de sua avó Dona Mecia de
    Cisneros, entre outros livros, um grande volume de cantigas…. O
    Marquez de Santillana nasceu em 1398, e sua avó Dona Mecia, na
    companhia da qual passou a sua infancia, morreu em Dezembro de 1418,
    em Palencia. Em primeiro logar "o _grande volume de Cantigas_, e
    _outros livros_" citados na carta, existiam em casa de D. Mecia de
    Cisneros por que provinham de Garcilasso de la Vega, e de Pero
    Gonzales de Mendoza, como claramente o affirma Amador de los Rios:
    "passo su infancia en casa Doña Mencia de Cisneros, su abuela, donde
    hubo de aficionar-se à la lectura de los poetas en los codices que
    poseyeron Garcilasso de de la Vega y Pero Gonzales de Mendoza…"[3]
    Garcilasso de la Vega, bisavó do Marquez, morrera em 1351, e esta
    data, e as suas relações de parentesco com a aristocracia portugueza
    explicam como a elle ou a Pedro Gonzales de Mendoza chegou o volume
    das cantigas. Portanto esse grande cancioneiro não existia em Hespanha
    antes poucos annos de 1351 e foi pouco antes de 1418 que o joven
    Marquez de Santillana o consultou. Pedro Gonzales de Mendoza era
    tambem poeta do côrte de Don Pedro e de Don Enrique (Amador de los
    Rios, _op.cit._, p. 623), e isto mostra o interesse que o levaria pelo
    seu lado a conservar o grande cancioneiro portuguez.

    A descripção que faz o Marquez de Santillana d'esse codice, coincide
    com o que existe na Bibliotheca do Vaticano em copia do seculo XVI:
    _"un grande volume de Cantigas serranas e dizeres portuguezes e
    gallegos"_. São ao todo mil duzentas e cinco cantigas compostas no
    genero descripto por Santillana, e os poetas são em grande numero
    galegos. Em seguida accrescenta: _"dos quaes a maior parte eram do rei
    D. Diniz de Portugal"_. Effectivamente o trovador que mais canções
    appresenta no codice da Vatícana é el-rei D. Diniz, cujas composições
    estão compiladas entre o numero 80 e 208, sendo ao todo cento e vinte
    nove. Accrescenta mais o Marquez de Santillana: _"cujas obras aquelles
    que as liam, louvavam de invenções subtis, e de graciosas e doces
    palavras"_. Esta affirmação, sobendo-se que o Marquez escreve sobre
    uma recordação da sua infancia, não podia resultar se não dos gabos
    ouvidos a Pero Gonzales de Mendoza, poeta do Cancioneiro de Baena,
    gabos que fizeram com que o livro se conservasse em casa de D. Mecia
    de Cisneros, e d'onde se tirara por ventura essa outra copia que hóje
    existe em poder de um grande de Hespanha, segundo uma affirmação de
    Varnhagem. N'esta mesma carta ao Condestavel de Portugal, allude o
    Marquez aos talentos poeticos de seu avô e cita varias das suas
    composições: _"E Pero Gonzales de Mendoza, meu avô, fez boas
    canções"_. Crêmos que por esta via é que o cancioneiro foi copiado
    para Castella, copiado dizemos nós porque se conforma com um grande
    cancioneiro já organisado, de que o de Roma é um apographo terciario.
    O Marquez de Santillana cita de memoria os principaes trovadores que
    vira transcriptos n'essa vasta collecção: "Havia outras (sc. canções)
    de _Joham Soares de Paiva_, o qual se diz que morrera em Galiza por
    amores de uma infanta de Portugal; e de outro _Ferrant Gonçalves de
    Senabria"_. Pela referencia a estes dois trovadores se vê qual o
    estado do cancioneiro manuscripto ou volume de Cantigas de D. Mecia de
    Cisneros. No apographo da Vaticana se acha uma canção de _João Soares
    de Paiva_, quasi no fim da collecção, (n°. 937) ao passo que no
    cancioneiro que pertenceu a Colocci e de que apenas resta o indice dos
    trovadores (cod. vat. n°. 3217) se acha logo sob o numero 23 o nome de
    _João Soares de Paiva_ com sete canções successivas. Em seguida a este
    trovador cita _Ferrant Gonçalves de Senabria_, porem no Codice de
    Colocci acha-se sob o numero 384 citado _Gonçalves de Seaura_ com dez
    canções a seguir. Isto concorda com a phrase do Marquez, referindo-se
    a essas canções: "Havia outras….." O motivo d'esta referencia
    especial seria por ter este trovador o apellido de _Gonçalves_, de seu
    avô, e por isso ainda pertencente á sua linhagem. No Codice da
    Vaticana agora publicado, acha-se um fragmento de canções de _Fernão
    Gonçalvis_, e só sob o numero 338 outra canção de _Fernão Gonçalves de
    Seavra_, a qual corresponde segundo Monaci ao numero 737 do Codice
    perdido de Colocci.

    Portanto, o Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros era completo pelo que
    se deduz da citação d'estes dois trovadores, cujas obras se achavam
    antes da folha 42 do actual Codice Vaticano, na qual começa. No
    Cancioneiro de Colocci, em vez de _cento e vinte nove_ canções, el-rei
    Dom Diniz é representado com _setenta e outo;_ mas ainda assim era uma
    grande collecção para o Marquez poder dizer d'ella em relação ao
    volume das Cantigas _uma maior parte_. Em seguida a estas preciosas
    referencias cita tambem na sua carta _Vasco Peres de Camões_, poeta do
    Cancioneiro de Baena e contemporaneo de Pedro Gonçalves de Mendoza por
    cuja via seria conhecido em casa de Dona Mecia de Cisneros, e pelos
    eruditos que tinham o cuidado da educação do Marquez. Por ultimo,
    infere-se que o Codice de D. Mecia era uma copia castelhana, por que
    transcreve o nome de _Fernão_ em _Ferrant_, e o de _Seavra_ em
    _Senabria_, o que se não pode attribuir a vicio de ortographia do
    Marquez de Santillana. Estes topicos bastam para considerar a copia de
    D. Mecia mais proxima do texto autographo do que a da Vaticana.

    5. Cancioneiro de Angelo Colocci. (_Catalogo di Autori portoghesi
    compilato da Angelo Colocci sopra un antico Canzoniere oggi ignoto._
    Ms. 3217 da Bibl. Vat.)

    O illustre editor Ernesto Monaci ao estudar o manuscripto do
    Cancioneiro da Bibliotheca do Vaticano, n°. 4803, pelas referencias do
    texto e paginação de um outro codice ali intercalladas, reconheceu que
    deveriam ter existido duas fontes para este apographo. Nas suas
    investigações na opulenta Bibliotheca do Vaticano teve a felicidade de
    descobrir o Catalogo dos Trovadores portuguezes no manuscripto 3217, o
    qual combina na maior parte com o dos Trovadores do Cancioneiro n°.
    4803, sendo as emendas d'este ultimo codice da mesma letra do indice
    escripto pelo philologo Angelo Colocci, erudito italiano do seculo
    XVI. É certo que o Cancioneiro da Vaticana pertenceu primeiramente a
    Colocci antes de vir a ser propriedade da Bibliotheca vaticana;
    Colocci era um d'esses distinctos eruditos italianos do fim do seculo
    XV, que colligiram manuscriptos de todos os paizes e cuja opulencia se
    distinguia pela formação de ricas livrarias, taes como Leão X, Bembo,
    Orsini, e outros tantos. Colocci morreu em 1549, tendo a sua livraria
    soffrido bastante no saque de Roma pelo Condestavel de Bourbon em
    1527. Por tanto, entre estas duas datas é que se teria perdido esse
    grande cancioneiro, do qual apenas resta o _Catalogo dos Autores
    portuguezes_, e que a Bibliotheca do Vaticano adquirira o cancioneiro
    n°. 4803, apographo de um outro perdido, mas emendado pela mão de
    Colocci sobre o exemplar hoje representado unicamente pelo indice.

    Antes de examinar qual a riqueza da Livraria de Colocci em
    manuscriptos portuguezes, surge a questão mais difficil de resolver:
    Como vieram estes varios cancioneiros portuguezes para as Livrarias
    italianas?

    Sabe-se que os pontifices mais instruidos mandavam procurar em todos
    os paizes os mais preciosos manuscriptos; de Leão X escreve Ginguené:
    "Não poupava despezas nem rodeios junto das potencias estrangeiras
    para fazer procurar nos paizes mais remotos e até nos estados do norte
    _livros antigos ainda ineditos_."[4] O modo como estes rodeios eram
    efficazes, explica-se pela prohibição de certos livros e pela
    instituição da censura, que já no século XV se exercia em Hespanha e
    em Portugal, como vêmos pelo _Leal Conselheiro_ de El-rei D. Duarte.
    Os livros eram entregues á auctoridade ecclesiastica para serem
    examinados, e sob qualquer pretexto de escrupulo não eram mais
    restituidos. Basta vêr a quantidade de canções obscenas e irreligiosas
    que o Cancioneiro portuguez da Vaticana encerra para se conhecer como
    veiu a caír na mão da auctoridade ecclesiastica e como sob ordem
    superior esse _livro antigo ainda inedito_ foi remettido para Roma.
    Alem d'isto, a paixão pela Renascença da antiguidade, que começou no
    seculo XV, fez com que nos diversos paizes decaísse repentinamente o
    amor pelos seu monumentos nacionaes. D'esta falta de amor pelo proprio
    passado proveiu para Portugal a perda de muitos manuscriptos, como o
    da novella _Amadis de Gaula_, de muitos cancioneiros manuaes, como
    relata Faria e Sousa, pelo que dizia o Dr. João de Barros no principio
    do seculo XVI, que estas cousas se secavam nas nossas mãos. D'esta
    falta de estima pelos monumentos nacionaes, veiu o dispersarem-se
    pelas bibliothecas da Europa muitos thezouros da nossa litteratura,
    como se prova pela existencia da _Demanda do santo Greal_ na
    bibliotheca de Vienna, dos livros de Valentim Fernandes na bibliotheca
    de Munich, do _Leal Conselheiro_ de D. Duarte, _Chronica de Guivé_ de
    Azurara, e _Historia geral de Hespanha_ na bibliotheca de Paris, do
    _Roteiro_ de D. João de Castro no Museu britanico, e do _Cancioneiro
    do Conde de Marialva_, da _Satyra de infelice vida_ do Condestavel de
    Portugal em Madrid. A saida do grande Cancioneiro de Portugal pertence
    a esta forte corrente de dispersão. No fim do seculo XV alguns
    portuguezes eruditos se distinguiam na Europa pelas suas riquezas
    litterarias; em uma _Memória sobre as relações que existiam
    antigamente entre os flamengos de Flandres, especialmente os de Bruges
    e os Portuguezes_, cita-se: "João Vasques, natural de Portugal,
    mordomo de D. Isabel de Portugal, Duqueza de Borgonha:–Vasques
    possuía uma Bibliotheca, ou pelo menos diversos manuscriptos de
    valor."[5] Entre esses livros figuravam _Histoire de Troie la grant_,
    e alguns tinham as armas de Portugal na encadernação, como o velino
    _Horae beatae Mariae Virginis_. Tambem no seculo XV figuravam no
    estrangeiro os eruditos Diogo Affonso de Mangaancha, Vasco Fernandes
    de Lucena, Achilles Estaço, e outros muitos amadores bibliophilos.
    Cuidava-se em comprar livros impressos, por meio das Feitorias
    portuguezas, mas os manuscriptos sobre tudo os da litteratura medieval
    perdiam-se com a mais censuravel incuria. Sabe-se por uma carta de
    João Rodrigues de Sá dirigida a Damião de Goes, que el-rei D. Affonso
    V mandou vir de Italia Frei Justo, a quem fez bispo de Ceuta, com o
    fim de escrever em latim a historia dos antigos reis de Portugal, e
    que todos os documentos que lhe foram entregues se perderam na sua
    mão, por ter repentinamente fallecido da peste. É natural que estes
    subsidios historicos constassem tambem de varios cancioneiros, por que
    a poesia fôra um facto importante nas côrtes de D. Affonso III, D.
    Diniz e D. Affonso IV; alem d'isso o espolio d'este bispo italiano
    seria arrecadado pela auctoridade ecclesiastica e remettido para Roma.
    Por todos estes factos parece justificar-se a hypothese de existir na
    bibliotheca do Vaticano, antes do saque de Roma em 1527, um d'esses
    cancioneiros portuguezes, e que d'aí se dispersaram por essa causa: "A
    bibliotheca do Vaticano, tão liberalmente enriquecida por Leão X, foi
    saqueada; os livros mais preciosos foram preza de um furor ignorante e
    barbaro, como os da bibliotheca dos Medicis em Florença."[6] Pelo
    codice 4803, publicado por Monaci, se vê que este Cancioneiro foi
    copiado de um outro cancioneiro ja bastante truncado, como observou o
    critico editor pelas siglas antigas: _"Manca da fol. II infino a fol.
    43"_; e na pagina 10: _"Fol. 97 desunt multa"_; e pela ultima pagina,
    na qual se vê que ficou interrompida a copia.

    Alem d'esta deducção, tira-se uma outra, isto é, que o Codice 4803 foi
    comparado por Colocci com um outro mais rico e completo do qual só
    resta agora o _catalogo dos trovadores_. Os biographos de Colocci
    tambem consignam o facto de parte da sua opulenta bibliotheca ter sido
    destruida no saque de Roma, em 1527. Este philologo italiano possuia
    um decidido gosto pela poesia vulgar italiana, e conhecia a
    importancia do estudo das litteraturas novolatinas, como se vê pelo
    interesse com que procurava as Canções de Foulques de Marseille, e
    pela posse de varios codices com os titulos _Libro spagnolo di
    Romanze_, e _De varie Romanze volgare_, por ventura alguns d'elles
    provenientes da acquisição de manuscriptos das collecções de Bembo e
    de Orsini; seria algum d'estes livros o Cancioneiro da Vaticana, ou
    esse outro cancioneiro de que apenas resta o catalogo dos auctores.
    N'este catalogo precioso descoberto por Monaci, sob o numero 44–
    _Bonifaz de Jenoa_ segue-se esta referencia a manuscriptos de Bembo:
    _"vide bembo Ms. bonifazio Calvo de Genoa."_ E sob o numero 456–_il
    Rey don Affonso de Leon_, segue-se esta nota: _"bembo, dice di Ragona,
    figlio di Berenghieri."_ A variante do Codice de Bembo _di Ragona_
    seria _d'Aragone_ em vez de _Leon_, isto é, um dos codices parciaes d'
    onde se formou o grande cancioneiro parece fixar-se por esta
    circumstancia. Sob este mesmo numero segue-se: _"Alia lectio i
    Portugal, rey Don Sancho deponit."_ Quer esta observação de Colocci
    significar, que este rei D. Affonso em outro codice é citado como rey
    de Portugal, o que depoz D. Sancho, facto que caracterisa el-rei Dom
    Affonso III, que depoz seu irmão D. Sancho II. N'este caso este
    monarcha tambem fôra trovador, o Colocci possuia algum cancioneiro
    parcial. No mesmo Indice dos Trovadores, sob o numero 467 onde se
    continha as canções de El-rei Dom Affonso rei de Castella e de Leão,
    accrescenta-se: _"vide nel mio lemosino"_, no qual se attribuem as
    mesmas cantigas de preferencia ao rei de Leão, isto é, em harmonia com
    o titulo _di Ragona_, do numero 456. Em uma outra nota que o illustre
    Monaci achou no Codice n°. 4817, de letra d'este erudito, se acha a
    seguinte referencia a um codice portuguez: _"Messer Octaviano di
    messer barbarino, ha il_ libro di portoghesi, _quel da_ Ribera _l'ha
    lassato."_ Sabendo-se pela bibliographia, que o manuscripto da _Menina
    e Moça_ de Bernardim Ribeiro, foi na primeira metade do seculo XVI
    levado para a Italia, imprimindo-se em Ferrara em 1544, cinco annos
    antes da morte de Colocci, parece que a phrase _quel_ (libro) _da
    Ribera_ se refere a esta novella portugueza. Seria por este tempo que
    o cancioneiro portuguez se tornou conhecido em Roma, como dá noticia
    Duarte Nunes de Leão, nas palavras _"que em Roma se achou"_, mas sem
    dizer que já pertencia á Bibliotheca do Vaticano. A epoca em que este
    codice entrou n'esta rica bibliotheca pode fixar-se depois de anno de
    1600, por que os livros e manuscriptos de Colocci foram adquiridos
    pelo erudito Fulvio Orsini, que os deixou em testamento á Vaticana.[7]
    Esta é a opinião de Monaci; não concordamos porém com a sua
    interpretação do trecho de Duarte Nunes de Leão quando este escriptor
    portuguez diz: "segundo vimos por um cancioneiro seu, que em Roma se
    achou, em tempo de el-rei Dom João III…" deduzindo que Nunes de Leão
    chegara _a vêr_ esse cancioneiro; em primeiro logar, Nunes de Leão
    refere-se a um _Cancioneiro seu_, isto é unicamente de el-rei Dom
    Diniz, e não geral, como o de que resta noticia pelo Indice de Colocci
    e pelo apographo da Vaticana; isto já é uma prova da informação vaga
    do chronista, e alem d'isso a phrase _segundo vimos_, significa: como
    se prova, como se deduz. Nunes de Leão conhecia o codice das canções
    de D. Diniz que no principio de século XVII se guardava na Torre do
    Tombo, como elle diz: _"e per outro que está na Torre do Tombo…"_ ou
    talvez pelo que pertencia aos Freires de Christo, de Thomar. Vivendo
    no meado do seculo XVII, já o cancioneiro grande havia sido recebido
    na Bibliotheca do Vaticano e poderia ter noticia da existencia do
    Codice; porém o chronista refere-se principalmente a um _Cancioneiro
    de Dom Diniz_, e as referencias de Sá de Miranda, de Ferreira e de
    Camões são unicamente aos talentos poeticos de D. Diniz. Como chegou a
    Portugal noticia do apparecimento em Roma? Sá de Miranda demorou-se na
    sua viagem á Italia, entre 1521 e 1526, e conviveu com os principaes
    eruditos italianos, Lactancio Tolomei e João Ruscula, e dava-se tambem
    por parente da casa dos Colonas; é possível que, regressando a
    Portugal en 1526, quando havia já cinco annos que D. João III reinava,
    désse a noticia da descoberta de um cancioneiro em Roma, quando
    visitara as principaes livrarias; o facto dos poetas da eschola
    italiana alludirem ao talento poetico de D. Diniz, leva a induzir esta
    noticia como communicada pelo que trouxe a Portugal esse novo gosto
    litterario.

    Em 1527 foi o saque de Roma, e a livraria de Colocci tambem soffreu
    com essa devastação; por ventura algum dos cancioneiros acima citados
    se perdeu, ou foi talvez adquirido algum d'entre os livros roubados
    por esta occasião da Vaticana. É de presumir que o _Libro di
    Portoghesi_ fosse o Cancioneiro de que só resta o Indice, e sendo
    assim, perder-se-hia em poder de Messer Octaviano de messer Barbarino;
    se o libro _da Ribera_ é o manuscripto de Bernardim Ribeiro, impresso
    mais tarde em Ferrara, então pode fixar-se a perda do Cancioneiro
    n'esse mesmo anno em que morreu Colocci. O inventario dos seus livros,
    feito a 27 de Outobro de 1558, nove annos depois da sua morte,
    explica-nos como os livros que estavam emprestados ficaram perdidos.
    Pelo Indice d'este Cancioneiro, achado por Monaci, vê-se que elle
    constava de mil seiscentas e setenta e cinco canções, mais quatro
    centas e setenta, omissas no apographo da Vaticana, hoje publicado.

    6. Il Canzoniere portoghese della Bibliotheca Vaticana, n°. 4803.
    Messo a stampa de Ernesto Monaci. Halle, 1875.

    Desde 1847, que o brasileiro Lopes de Moura publicou em Paris um
    excerpto do grande Cancioneiro portuguez da Vaticana, contendo as
    canções de el-rei Dom Diniz. Como se veiu a conhecer a existencia
    d'este precioso codice em Roma? Desde o principio do seculo XVII que
    elle entrara na Bibliotheca do Vaticano pela doação dos livros de
    Fulvio Orsini; no seculo XVIII, segundo Varnhagem, era citado por um
    bibliophilo hespanhol junto com outros codices de poesias catalans e
    valencianas; o facto de existir com encadernação moderna e com a
    insignia papal de Pio VII (1800–1823) explica-se pela reparação e ao
    mesmo tempo pelo interesse que houve em conservar o cancioneiro
    formado de cadernos differentes e incompletos, e escriptos com tinta
    corrosiva que o pulverisa. Wolf, por intervenção do slavista Kopitar,
    mandou fazer as primeiras investigações no Vaticano para descobrir
    este codice de que tinha vago conhecimento pela vaga allusão de Nunes
    de Leão; foram infructuosas as tentativas; o visconde da Carreira,
    embaixador em Roma, avisado por um franciscano (por ventura o P.
    Roquete, como se sabe pelo prologo da edição de Moura) conseguiu a
    copia da parte publicada em Paris por Aillaud. Desde 1847 até hoje,
    nunca o governo portuguez, nem a Academia real das Sciencias
    comprehenderam o valor d'este monumento. A reproducção das nossas
    riquezas litterarias têm sido sempre feita por estrangeiros, e a
    publicação d'este importantissimo cancioneiro foi agora realisada por
    um rapaz desajudado de subsidios academicos, mas animado pelo amor da
    sciencia. A edição feita em Halle, appresenta todo o rigor
    diplomatico, de modo que os erros do copista italiano do seculo XVI
    podem restituir-se á leitura do portuguez do codice primitivo; apesar
    d'este subsidio, Monaci tentou com um seguro tino critico uma tabella
    dos principaes erros systematicos, e um indice das necessarias
    restituições que se podem fazer em cada canção; em fim, tudo quanto é
    preciso para a intelligencia do texto, existe ali. Monaci conservou a
    disposição do manuscripto na reproducção typographica, já a uma ou a
    duas columnas, com todos os vestigios das differentes numerações e
    siglas referentes a outros codices analogos e mais antigos. Pelo seu
    prologo, de uma precisão rigorosa, se vê toda a historia externa do
    Cancioneiro. O Codice da Vaticana está em papel de linho, com trez
    marcas de agua differentes, tal como se empregava nas edições do
    Varisco; a letra é italiana, tal como a dos documentos do fim do
    seculo XV e principio do seculo XVI, proveniente de dois copistas, um
    que escreveu as poesias, algumas rubricas e notas, outro a maior parte
    dos nomes, as numerações e algumas postillas, contando ao todo 210
    folhas. Da descripção d'este cancioneiro conclue-se, pelo estado em
    que se acha, que outro ou outros cancioneiros foram n'elle copiados ou
    confrontados. A primeira nota que se depara ao abril-o é: "_Manca da
    fol. IJ a fol. 43_;" isto quer dizer, que o cancioneiro foi copiado de
    um outro codice que já se achava assim fragmentado, mas que mais tarde
    foi confrontado com outro que estava completo, como veremos na relação
    com o Indice de Colocci.

    Ao começar o texto acha-se outra referencia: "_A fogli 90_" e segue-se
    a canção de Fernão Gonçalves, o que parece significar, que n'este
    cancioneiro existia outra disposição das poesias á qual se refere este
    numero, que continúa a cotar successivamente outras canções,
    entremeiando-se com numeros romanos, que parecem estabelecer
    referencia a outro cancioneiro. Separemos estas duas ordens de
    numeros, por onde deduzimos o confronto com dois cancioneiros; para se
    localisar melhor a referencia que era de folhas e verso, indicaremos a
    numeração actual das canções: Fol. 91 (canc. 8), 92 (canç. 11); _Fol.
    97 desunt multa_ (canç. 43 fine); junto da canção 61, vem a sigla
    _Desunt_; junto da 63 vem _car_. 106; junto da canção 299: _"Fol. 141
    Al vo"_ (del volumen?); junto da canção 507 vem: "173 _a tergo"_ e
    algumas canções com dois nomes de auctores, como _Martin Campina_ ou
    _Pero Meogo_, como forme a attribuição de um ou outro texto (canc.
    796.). Por fim termina com esta outra rubrica: _"A fol. 290 è
    cominciata una Rubrica e non è finita di copiare"_. Tudo isto prova,
    que se fez o confronto d'este apographo existente cum um codice mais
    completo, seguindo-se o confronto até á folha 300 d'esse codice
    perdido.

    O confronto do Codice por meio da numeração romana não prosegue até ao
    fim; apenas se acha LXXXVJ junto da canção 4; LXXXVIIJ junto da Canção
    14; LXXXVIIIJ junto da canção 26 _fine;_ XCVJ junto da canção 39 a 45;
    XCVIIJ coincide com a referencia anterior, junto da canção 49; XCVIIIJ
    á canção 55; CXII á 62; CXIIIJ á canção 70; CXVIJ á canção 77. Esta
    numeração romana adianta-se aqui mais do que a arabe, signal de que
    havia divergencia entre os dois codices que serviam para confrontação
    com o apographo publicado. É certo porem, que a numeração romana
    termina antes do corpo das canções de el-rei Dom Diniz, d'onde se
    poderá inferir, que até esta parte contribuiu um cancioneiro parcial,
    e que de Dom Diniz só entrava no que era numerado em algarismos. Que
    existiam diversos cancioneiros, pelas mesmas canções d'este codice se
    pode conhecer, como pela canção de D. Affonso de Castella (canç. 76)
    em que allude ao _Livro dos Sons_, que era um cancioneiro com que o
    Dayão de Cales seduzia as mulheres. Na sua edição Monaci deixou
    apontados em um indice fundamental todas as canções repetidas no
    cancioneiro, ou aquellas que mutuamente se plagiavam. Da sua
    comparação se podem tirar poderosas inducções, para se estabelecer
    quantos pequenos cancioneiros haviam servido para formarem o
    cancioneiro grande, do qual o apographo publicado é uma copia. É o que
    vamos tentar.

    _Pequenos Cancioneiros que entraram na formação do Cancioneiro da
    Vaticano_.–A canção 4, de _Sancho Sanches_, apparece repetida com
    mais duas estrophes e assignada por _Pero da Ponte_, sob o numero 569;
    a 2ª e 3ª strophes da versão de Pero da Ponte, faltam na canção de
    Sancho Sanches. As strophes communs têm as seguintes variantes:

    _Sazom foi já_, que me teve em desdem (n°. 4)
    _Tal sazom foi_, que me teve em desdem (nº. 569).

    _Que com'é mais j'agora_ seu amor (n°. 4)
    _Quando me mays forçava_ seu amor. (n°. 569).

    E ora _já_ que pes'a mha senhor (n°. 4)
    E ora _mal_ que pes'a mha senhor (n°. 569).

    Evidentemente estas duas canções foram colligidas de dois cancioneiros
    parciaes, e elles mesmos escriptos em grande parte de memoria.

    A canção 13, de Mem Rodrigues Tenoyro, têm apenas uma estrophe, mas
    repete-se sob o numero 319 com o nome do mesmo trovador e com mais
    duas estrophes que a completam. Deve attribuir-se essa divergencia ao
    ter sido colligida de dois cancioneiros, formado por diversos
    collecctores.

    A canção 29, assignada por João de Guilhade, repete-se sob o numero 38
    com o nome do trovador Stevam Froyam; existem entre ellas leves
    variantes, mas como estão immensamente deturpadas, só pelos dois
    textos se reconstruem. Por este facto se vê, que houve compilação de
    dois cancioneiros, e que o copista mal percebia a letra e fazia
    selecção das canções.

    A canção 116 e 174, do cancioneiro de Dom Diniz, são uma e mesma,
    havendo entre estes dois numeros _variantes_, e sobretudo a 2ª e 3ª
    estrophe alternadas. Não proviria isto dos originaes, escriptos por
    esmerados copistas, que se guardaram na Bibliotheca de el-rei Dom
    Duarte; este facto prova-nos, que o corpo das canções de Dom Diniz,
    que na collecção Vaticana occupa dos n.'os 80 até 208 proveiu de
    copias avulsas de differentes palacianos, e talvez do proprio Conde D.
    Pedro.

    A canção 241, do trovador Payo Soares, apparece com o numero 413
    repetida sob o nome de Affonso Eanes de Coton (Cordu); tem apenas uma
    rapida variante ortographica, mas tanto o facto da repetição, como o
    da attribuição a dois trovadores differentes accusam duas colleções
    parciaes.

    A canções 457 e 469 pertencem a Ayres Nunes Clerigo e são uma unica,
    com a differença que as trez strophes de que constam, tem os versos
    baralhados sem systema; o que se explica pelo caracter jogralesco,
    isto é, que foram duas vezes colligidas no tempo em que eram cantadas
    a caprixo de Ayres Nunes ou de qualquer outro jogral, que as sabia de
    cór; ou então, que provieram de dois cancioneiros onde as duas canções
    se differenciavam pela razão acima indicada.

    A sirvente 472 de Martim Moxa apparece sob o numero 1036, em nome de
    Lourenço, jograr de Sarria, com variantes fundamentaes, que provam
    compilação de dois cancioneiros diversos. O caracter sirventesco fez
    talvez que varios jograes regeitassem a paternidade d'essa canção que
    verbera os privados da côrte de D. Affonso III.

    O numero 613 e 639 são uma mesma canção de João Ayres, burguez de
    Santiago; abundam as variantes entre estas duas composições, signal de
    que provieram de duas copias resultantes da monomania dos cancioneiros
    particulares. E sob o nome d'este mesmo trovador andam as duas canções
    repetidas 634 e 138, tendo esta ultima alem das variantes mais uma
    estrophe e um Cabo.

    Em nome do jogral João Servando apparecem repetidas as canções 738 e
    749 com variantes fundamentaes entre si:

    Ora vou a Sam Servando,
    donas, fazer romaria,
    e nom me leixam com elas
    hir, cá logo alá hiria
    por que vem hy meu amigo. (738)

    Donas vam a Sam Servando
    muytas hoje em romaria,
    mais nom quiz oje mha madre
    que foss' eu hi este dia
    por que vem hy meu amigo. (749)

    As outras variantes nas demais strophes são menos reparaveis, mas no
    numero 738 ha uma strophe a mais. A pequena distancia a que ficam uma
    da outra estas canções, provam-nos que o copista italiano transcreveu
    materialmente uma compilação já formada; e por tanto tudo quanto se
    pode concluir sobre estas canções identicas liga-se á formação d'esse
    cancioneiro perdido d'onde se trasladou o codice da Vaticana.

    Dois casos especiaes se davam n'essa formação do antigo cancioneiro:
    1° ou as canções se attribuiam na repetição a dois trovadores
    differentes taes como Sancho Sanches e Pero da Ponte, João de Guilhade
    e Stevam Froyam, Pay Soares e Affonso Eanes do Cotom, Martim Moxa e
    Lourenco Jograr; 2° ou se repetiam em nome do mesmo trovador, como Mem
    Rodrigues Tenoyro, el-rei D. Diniz, Ayres Nunes Clerigo, João Ayres, e
    João Servando. Para o primeiro caso conclue-se que contribuiram para a
    formação do grande cancioneiro pequenos cancioneiros trasladados de
    cantares dispersos, por curiosidade, ou tambem apanhados na corrente
    oral, porque um só collector notaria os plagiatos. Para o segundo caso
    poderiam os jograes terem contribuido com os seus cadernos de cantos e
    assim com lições differentes de um mesmo texto que se alterava pelas
    continuadas repetições.

    De todo este confronto se conhece a necessidade de estabelecer por
    todos os meios possiveis ás relações entre este apographo da Vaticana
    e os dois cancioneiros de Colocci, perdido, e o da Ajuda.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro de Angelo
    Colocci_.–Antes de Monaci haver descoberto no Ms. n°. 3217 o Indice
    do Cancioneiro perdido do erudito quinhentista italiano Angelo
    Colocci, ja elle determinara pela forma por que está escripto o
    Cancioneiro da Vaticana, que deveria ter existido um original mais
    antigo e mais completo. A descoberta do Indice veiu authenticar a
    existencia d'esse Cancioneiro perdido e explicar pela letra do proprio
    Colocci, quem é que tinha feito o confronto. O illustre Monaci
    comprehendeu logo quanto util seria para a critica o comparar a lista
    dos trovadores do Cancioneiro perdido com a dos trovadores do
    Cancioneiro existente (Appendice I, p. XIX a XXIV); por uma simples
    inspecção fica o leitor habilitado a conhecer as profundas relações
    entre os dois cancioneiros; o de Colocci continha mil seis centas e
    setenta e cinco canções, e o da Vaticana contem mil duzentas e cinco,
    isto é, quatrocentas e setenta canções a menos, por ventura as que
    occupavam até a _fol_. 90. O numero das canções de cada trovador pode
    tambem ser confrontado, porque no Codice de Colocci as canções de
    Colocci eram numeradas por algarismos e cada nome de trovador é
    precedido pelo numero que limita as canções do antecedente. Assim,
    como já acima vimos, as canções de D. Diniz são no Codice da Vaticana
    cincoenta e uma a mais do que no de Colocci. Apezar d'isso as notas
    _desunt multa_ provam-nos que o Cancioneiro de Colocci era muito mais
    rico, como se vê pelos nomes dos seguintes trovadores que faltam no da
    Vaticana:

    Diego Moniz, que tinha ali uma canção; Pero Paes Bazoco, com sete
    canções; João Velaz, Dom Juano; Pero Rodrigues de Palmeyra; Dom
    Rodrigo Dias dos Conveyros; Ayres Soares; Osorio Annes; Nuno Fernandes
    de Mira-Peixe; Fernam Figueiredo de Lemos; Dom Gil Sanches; Ruy Gomes
    o Freyre; João Soares Fomesso; Nuno Eanes Cerzeo; Pero Velho de
    Taveirós; Pay Soares de Taveirós; Fernam Garcia Esgaravunha, do qual
    existiam dezessete canções; João Coelho; Pero Montaldo; duas canções
    do trovador genovez Bonifacio Calvo; o Conde D. Gonçalo Garcia; Dom
    Garcia Mendes de Eixo; El rei Dom Affonso IV, filho de el-rei D.
    Diniz, com quatro canções. No Codice de Colocci, as canções de D.
    Diniz não estavam em um corpo isolado, apresentando mais quatro
    composições destacadas no fim do cancioneiro. Esta parte tambem é
    omissa no Cancioneiro da Vaticana, por que aí se encontram outra vez
    trovadores dos supracitados, como João Garcia, D. Fernam Garcia
    Esgaravunha, Pero Mastaldo, Gil Peres Conde, Dom Ruy Gomes de
    Briteiros, Fernam Soares de Quiñones, etc. Pelo confronto do Indice de
    Colocci se conhece, que embora se sigam ao texto do Cancioneiro da
    Vaticana quatorze folhas em branco, nem por isso ficou muito distante
    do fim, por que só deixaram de ser copiadas algumas sirventes de
    Julião Bolseyro. D' este confronto se conclue: 1°. que o codice d'onde
    se extraíu a copia da Vaticana differia no numero das canções e na sua
    disposição do de Colocci; 2º. que as relações mutuas accusam fontes
    communs, mas colleccionação arbitraria no agrupamento dos differentes
    cancioneiros parciaes.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o Cancioneiro da Ajuda_. —
    Lopes de Moura foi o primeiro que encontrou na collecção da Vaticana a
    canção de João Vasques, _Muyt'ando triste no meu coraçom_, que existe
    anonyma no Cancioneiro da Ajuda. Logo depois, Varnhagem achou mais
    quarenta e nove canções communs aos dois codices, e nós mesmo ainda
    viemos a encontrar mais seis canções repetidas. São ao todo cincoenta
    e seis canções communs, facto importante para estabelecer as relações,
    que existiram entre os dois cancioneiros. Em primeiro logar, o
    Cancioneiro da Vaticana foi já copiado de um codice truncado, como por
    exemplo: a canção 43 tem a rubrica final: _"Fol.97 desunt multa"_ e a
    canção seguinte está truncada no principio; porem estas canções de
    João Vasques completam-se pelo Cancioneiro da Ajuda, canção n°. 272 e
    273 (ed. _Trovas e Cantares_). Isto prova, que embora o Cancioneiro da
    Ajuda esteja truncado e por seu turno se complete com algumas canções
    do codice de Roma (_y_, das _Trovas_ == n°. 38, _Canc. da Vat._) ambos
    provieram de fontes differentes, porque tambem nas cincoenta e seis
    canções communs existem notaveis variantes:

    _Nostro senhor_, que lhe bom prez foi dar. (Vatic.)
    _Deus_ que lhe _mui_ bom _parecer_ foi dar. (Ajuda)

    N'esta variante o original do codice vaticano mostra-se mais archaico
    na linguagem. Na canção 46, de Fernão Velho (no codice da Ajuda, n°.
    92) no primeiro verso da 2ª strophe vem uma variante que denota erro
    do copista portuguez conservado inconscientemente pelo antigo copista
    italiano:

    E _mha_ senhor fremosa de bom _parecer_ (Vatic.)
    E _mia_ senhor fremosa de bom _prez._ (Ajud.)

    _Prez_ é uma contracção de _preço_, e d'aqui resultou que o copista
    portuguez traduziu inconscientemente; como organisado no paço, o
    Cancioneiro da Ajuda seria formado directamente da contribuição dos
    muitos trovadores que o frequentavam; o Cancioneiro de Roma era já
    derivado de um apographo secundario, truncado no principio, meio e
    fim, e em certos pontos mais archaico.

    Na canção 47 da Vaticana (93 da Ajuda) pertencente a Fernão Velho,
    vem:

    Quant' eu, _mha senhor, de vós_ receei… (Vatic.)
    Quant' eu _de vós, mia senhor_ receei (Ajud.)

    E vos dix'o _mui_ grand'amor que ei (Vatic.)
    E vos dix'o grande amor que _vós_ ei (Ajud.)

    A canção 48 da Vaticana, apesar das imperfeições da copia italiana,
    pode ser reconstruida pelo typo strophico, porem a nº. 94 da Ajuda
    ficou incompleta:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_

    E mal dia naci, senhor, E mal dia naci, senhor,
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou; pois que m'eu d'u vos sodes, vou;
    Ca mui bem sou sabedor ca mui bem som sabedor
    Que morrerei u nom jaz al; que morrerey hu nom ey al;
    Pois que m'eu d'u vós sodes, vou. poys que m'eu d'u vos sodes, vou,
    …………. pois que de vos ei a partir _por mal._

    …………. E logo hu m'eu de vós partir
    …………. morrerey se me deus nom val.

    A canção 53 da Vaticana (Ajuda, nº. 99), tem uma strophe mais
    imperfeita do que no codice da Ajuda; mas en compensação tem o _Cabo_,
    que falta no codice portuguez:

    _Ajuda: Vaticana:_

    Meus amigos, muito me praz…. Meus amigos muyto mi praz _d'amor._
    Cá bem pode partir da mayor Ca bem me pode partir da mayor
    Coita de quantas eu oy falar, coyta de quantas eu oy falar,
    De que eu fuy muyt'_y_ a soffredor; do que eu fuy muyt'ha sofredor
    Esto sabe deus, que me foy mostrar _e sabe deus hu a vi bem falar_
    Uma dona que eu vi bem falar e parecer, por meu mal, eu o sey.
    E parecer por meu mal, e o sei.
    …………. Ca poys m'elles nom querem emparar
    …………. e me no seu poder querem leixar,
    …………. nunca por outra emparado serey.

    A canção 395, de Payo Gomes Charrinho, repetida no cancioneiro da
    Ajuda, n°. 276, tambem revela duas fontes diversas:

    e nom lh'ousey mays _d'atanto_ dizer (Vatic.)
    e nom lh'ousey mais _d'aquesto_ dizer. (Ajud.)

    nem _er cuidey_ que tam bem parecia (Vatic.)
    nem _cuidava_ que tambem parecia (Ajud.)

    mays _quand'_eu vi o seu bom parecer (Vatic.)
    mais _u_ eu vi o seu bom parecer. (Ajud.)

    No codice da Vaticana tem esta canção apenas trez estrophes; porem no
    da Ajuda termina com uma quarta:

    E por esto bem consellaria
    quantos oyrem-no seu bem falar
    nom a vejam, e podem-se guardar
    melhor ca m'end'eu guardei, que morria,
    e dixe mal, mais fez-me deus aver
    tal ventura, quando a fui veer
    que nunca dix'o que dizer queria. (Ajuda)

    Evidentemente as alterações de linguagem não foram do copista
    italiano, porque, comparativamente, a expletiva _er_ é mais archaica;
    e por tanto a omissão da 4ª strophe não foi casual, mas resultante do
    estado d'outra fonte.

    A canção 400, da Vaticana, tambem de Payo Gomes Charrinho, tem leves
    variantes na canção 278 da Ajuda, mas importantissimas omissões; assim
    no Codice de Roma, falta na primeira strophe o verso:

    me quer matar e guaria melhor (Vat.)

    e tambem faltam duas strophes completas com o seu Cabo.

    A canção 428, ainda de Charrinho, tambem no Codice da Ajuda, n°. 285
    offerece leves variantes; porem no Codice da Vaticana alternam-se a
    segunda com a terceira strophe, e falta este Cabo da lição da Ajuda:

    E entend'eu cá me quer a tal bem
    em que nom perde, nem gaano en rem.

    A canções 485, 486 e 487 da Vaticana, do trovador Ruy Fernandes,
    acham-se nos pequenos fragmentos legiveis nas folhas do Cancioneiro da
    Ajuda, que serviram de guardas á encadernação do Nobiliario; esses
    fragmentos, seguindo a edição do Varnhagem são _m, n, o_; ainda assim
    se conhece por elles que existiam divergencias entre os dois codices:

    _Ajuda, (m):_ _Vaticana_, n°. 485:
    A _guisa_ de vos elevar a _forza_ de vos elevar
    Por mia morte nom _aver_. por mha morte nom _aduzer_.

    _Ibid., (n):_ _Ibid._, n°. 486:
    _Amigos_, começa o meu mal. _Ora_ começa o meu mal.

    As canções de Fernão Padrom, n'os. 563, 564, 565, a que achámos as
    analogas nos numeros 126, 127 e 128 do codice da Ajuda, tambem
    apresentam variantes.

    As canções n°. 566, 567, 568, 569 e 570, que andam em nome de Pero da
    Ponte no codice da Vaticana e apparecem anonymas no Cancioneiro da
    Ajuda, n'os. 112, 113, 114, 115 e 116 não appresentam mais variantes
    que a simples modificação ortographica em _mha_ e _mia_, que poderia
    provir das differentes epocas das copias. Esta conformidade entre o
    texto da Vaticana e o da Ajuda, leva-nos a concluir que pequenos
    cancioneiros entraram na coordenação de um grande cancioneiro, e que
    as canções mais conformes são aquellas que andaram em menor numero de
    copias antes de se agruparem na collecção geral.

    Já com relação ás Canções de Vasco Rodrigues de Calvelo, apparecem
    variantes e deturpações que não provêm do copista do seculo XVI, mas
    de codices diversos ja corruptos; a canção 580 comparada com a 265 da
    Ajuda tem uma lição menos pura, incompleta, mas differente:

    _Lição da Ajuda: Lição da Vaticana:_
    Per uma dona que quero gram bem ….. que quero gram bem.

    Com'a mim _fez_; ca des _que eu_ naci Como a mim _faz_; que des _quando_ naci
    nunca vi ome _en_ tal coita _viver_ nunca vi ome tal coita _sofrer_
    como eu _vivo_ por melhor bem querer como eu _sofro_ por melhor bem querer

    Com'_a mim fez muy_ coitado d'amor Com'el _faz mim muy_ coitado d'amor.

    A lição da Ajuda termina com este Cabo, que falta no codice da
    Vaticana:

    Com'a mim fez, e nunca me quiz dar
    Bem d'essa dona, que me fez amar.

    A canção 581, tambem de Vasco Rodrigues de Calvelo, sob a designação
    _e_ da lição da Ajuda (ed. _Trov. e Cant._) alem das mutuas variantes,
    tem a 2ª e 3ª a strophes alternadas:

    E se _soubess'_em qual coyta d'amor (Vatic.)
    Se _lh'eu dissess'_em qual coita d'amor (Ajud.)

    per nulha guisa, _pero m'_ey _sabor_ (Vatic.)
    Per nulha guisa, _ca_ ey _gram pavor._ (Ajud.)

    De mais no Codice de Roma falta este Cabo:

    Mais de tod'esto nora lhi dig'eu rem,
    Nem lh'o direy, cá lhe pesará bem.

    Na Canção 582, do mesmo trovador, ha esta divergencia:

    E rogo _sempre_ por mha morte a deus (Vatic.)
    Et rogo _muito_ por mia morte a deus (Ajud.)

    Na Canção 584, tambem de Calvelos, falta esta terceira estrophe, que
    vem no codice da Ajuda:

    Como vós quiserdes será
    De me fazerdes mal e bem
    E pois é tod'em vosso sen
    Fazed'o que quizerdes já…

    A canção 677, de Pero de Armêa, acha-se imitada no codice da Ajuda,
    nº. 56, por forma que a da Vaticana apresenta um caracter de maior
    vulgarisação, e por isso de proveniencia jogralesca:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Muitos me veem preguntar, Muytos me veem preguntar,
    mia senhor, a quem quero bem; senhor, que lhes diga eu quem
    e nom lhes queró end'eu falar est a dona que eu quero bem
    com medo de vos pesar en, e com pavor de vos pesar
    nem quer'a verdade dizer, nom lhis ouso dizer per rem,
    mais jur'e faço lhes creer senhor, que vos quero bem.
    mentira, por vos lhe negar.

    Duas canções de Pedro Solás, confrontadas com as do codice da Ajuda,
    acabam de separar definitivamente estes dois cancioneiros:

    _Lição da Ajuda_ (nº. 123): _Lição da Vaticana_ (nº. 824):

    Nom est a de Nogueira _E_ nom est a de Nogueira
    A freira, que _mi poder tem;_ a freira que _eu quero bem,_
    Mays _est_ outra _a_ fremosa mays outra mais fremosa
    A que me _quer'eu mayor bem;_ _e_ a que _mim em poder tem;_
    E moyro-m'eu pola freira e moir-m'eu pola freira
    Mais nom pola de Nogueira. mais nom pola de Nogueira.
    ………………………………………………………….

    Se eu a _freira visse o dia _E_ se eu _aquella freyra
    O dia que eu quizesse_ hum dia veer podesse_
    Nom ha coita no mundo nom ha coita no mundo
    Nem _mingua_ que houvesse nem _pesar_ que _eu_ ouvesse
    E moiro-me … e moyro-me …

    _Se m' ela mi amasse _E seu aquella freyra
    Muy gram dereito faria, veer podess'um dia
    Cá lher quer'eu mui gram bem nenhuã coita do mundo
    E punh'y mais cada dia;_ nem pesar nom averia_
    E moiro-me … e moyro-me …

    Estas duas variantes são elaborações differentes do mesmo trovador em
    epocas diversas, e por tanto os dois cancioneiros provêm
    effectivamente de duas fontes. A canção 825 da Vaticana, que se acha
    sob o numero 124 do Codice da Ajuda, apenas tem a terceira e quarta
    estrophes alternadas. O ultimo paradigma entre estes dois
    cancioneiros, apresenta uma composição (1061 da Vaticana, 253 da
    Ajuda) que pertence a João de Gaya, escudeiro da côrte de D. Affonso
    IV, por onde se fixa não só a epoca da colleccionação do codice de
    Lisboa, mas em que a fonte do Codice de Roma nos apparece mais
    completa:

    _Lição da Ajuda:_ _Lição da Vaticana:_

    Conselho, e quer-_se_ matar Conselho e quer-me matar.
    E assi me tormenta amor
    de tal coyta, que nunca par
    ouv'outr'ome, a meu cuydar,
    assy morrerey pecador,
    e, senhor, muyto me praz en
    que prazer tomades por en
    non no dev'eu arrecear.

    E bem o _podedes fazer_ E bem o _devedes saber_, etc.

    Por todos estes factos se vê, que umas vezes o Codice de Roma é omisso
    com relação ao de Lisboa, o que se poderia impensadamente attribuir a
    incuria do copista; esta hypothese não pode ter logar, porque o
    Cancioneiro da Ajuda por muitissimas vezes apresenta eguaes omissões.
    Por tanto essas cincoenta e seis canções communs aos dois codices,
    entraram n'essas respectivas collecções provindo de codices parciaes e
    de differente epoca.

    _Relações do Cancioneiro da Vaticana com o apographo actualmente
    possuido por um Grande de Hespanha_. — No _Cancioneirinho de Trovas
    antigas_, Varnhagem dá noticia no prologo, de ter encontrado em 1857
    na Livraria de um fidalgo hespanhol um antigo cancioneiro portuguez,
    que, pela canções de el-rei D. Diniz que elle continha, lhe suscitou o
    procurar as analogias que teria com o Cancioneiro da Vaticana n°.
    4803; tirou copia do citado Cancioneiro, e em 1858 procedeu em Roma ao
    confronto do codice madrileno com o da Vaticana. Começavam ambas as
    copias com a trova de _Fernão Gonçalves_, seguindo-se-lhe as duas
    canções de _Pero Barroso;_ ambos os codices combinam nos mesmos nomes
    de trovadores, na ordem das canções, e em geral nos erros dos
    copistas. Poder-se-ha concluir que estes dois apographos se derivam
    ambos do mesmo original? Não; apezar de Varnhagem não ser mais
    explicito na descripção do codice madrileno e guardar no mysterio o
    nome do possuidor, comtudo pelas cincoenta composições do
    _Cancioneirinho_ se descobrem profundas _variantes_, que se não podem
    attribuir a erro de leitura, ainda assim tão frequente em Varnhagem.

    Copiamos aqui essas variantes, para que se conclua pela existencia de
    um outro codice mais antigo, tambem perdido. Na canção II, a strophe
    3ª _(Cancioneirinho)_ acha-se assim:

    Os cavalleiros e cidadãos
    d'aqueste rey aviam dizer
    e se deviam com sas mãos poer
    outrosi donas e escudeiros
    que perderam a tam bem senhor
    de quem poss'eu dizer, sem pavor,
    que não ficou dal nos christãos.

    Pelo codice de Roma vê-se a strophe construida da outro modo:

    Os cavalleiros e cidadãos
    que d' este rey aviam dinheiros
    e outrosi donas e escudeiros,
    matar se deviam por sas mãos … (Canç. n°. 708.)

    Na canção VI, a strophe segunda e terceira _(Cancioneirinho)_ estão
    incompletas e interpolladas d'esta forma:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E as aves que voavam E as aves que voavam
    Quando sayam canções quando saya _l'alvor_
    Todas d'amor cantavam todas de amor cantavam
    Pelos ramos d'arredor; pelos ramos d'arredor;

    Mais eu sei tal que escrevesse mais nom sei tal que _i estevesse_
    Que em al cuidar podesse que em al cuidar podesse
    Se nom todo em amor. se nom todo em amor.

    Em pero dix'a gram medo: _Aly stive eu muy quedo
    quis falar e nom ousey_
    em pero dix'a gram medo:
    — Mha senhor, falar-vos-ey — Mha senhor, falar-vos-ey
    Hum pouco, se m' ascuitardes um pouco, se m'ascuitardes
    Mais aqui nom estarey. _e ir-m'ey quando mandardes_
    mais aqui nom estarei.

    (Canc. nº. 554.)

    Pela lição da Vaticana, onde se vêem as duas strophes completas se
    infere que o defeito no _Cancioneirinho_ provem de um texto imperfeito
    e differente, porventura tirado do apographo hespanhol.

    Na canção XV _(Cancioneirinho)_ vem uma strophe imperfeita, porque é
    formada com duas, que lhe alteram o typo:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    E foi-las aguardar E fui-las aguardar
    E nom a pude ver; e nom o pude achar
    e moiro-me d'amor. e moiro-me d'amor!
    E fui-las atender,
    e nom no pude veer
    E moiro-me d'amor.

    A canção XVII do _Cancioneirinho_ tem só trez strophes; na lição do
    Codice da Vaticana, ha mais esta:

    Estas doas mui belas
    el m'as deu, ay donzelas,
    nom vol-as negarey;
    mas cintas das fivelas
    eu nom as cingirei.

    Com certeza esta deficiencia proveiu do apographo madrileno. Na canção
    XXI, a strophe 4ª está interpollada, e segundo a lição da Vaticana é
    que se conhece a proveniencia de outro codice:

    _Cancioneirinho:_ _Codice da Vaticana:_

    Cá novas me disserom Ca novas me disserom
    Que vem o meu amigo ca vem o meu amado
    C'and'eu mui leda. e and' eu mui leda,
    poys migu'é tal mandado;
    _E cuido sempre no meu coraçom poys migu'é tal mandado
    Pois nom cuid'al, des que vos vi, que vem o meu amado.
    Se nom en meu amigo,
    E d'amor sei que nulh'ome tem,_
    Pois migo é, tal _mandades;_
    Que vem o meu amado.

    Os versos sublinhados do _Cancioneirinho_, são visivelmente d'outra
    canção, porque tem outro typo strophico, e essa interpolação não se
    pode attribuir a erro de leitura de Varnhagem.

    Na canção XXV, ha uma 4ª strophe, que é repetição da 1ª; na lição da
    Vaticana não existe esta forma; evidentemente o editor do
    _Cancioneirinho_ seguiu aqui o codice madrileno.

    Na canção XLV falta esta strophe, que pela lição do texto da Vaticana
    se vê que é a segunda:

    Nom ja em al d'esto som sabedor
    de m'algum tempo quizera leixar
    e leix'e juro nom a ir matar
    mays poys la matam, serey sofredor
    sempre de coyt'em quant'eu viver,
    cá sol y cuido no seu parecer
    ey muyto mais d'outra rem desejar.

    Na canção XLVI, falta esta 4ª strophe da lição da Vaticana:

    Por en na sazom em que m'eu queixey
    a deus, hu perdi quanto desejei
    oy mais poss'en coraçom deus loar;
    e por que me poz em tal cobro que ey
    por senhor a melhor de quantas sey
    eu, que poz tanto bem que nom ha par.

    A canção XLVIII encerra a prova definitiva de que o codice madrileno
    serviu de base da edição do _Cancioneirinho_, e que esse codice
    proveiu de uma fonte diversa do da Vaticana; aí se acham essas duas
    strophes, que faltam no codice de Roma:

    O que se foi comendo dos murtinhos
    E a sa terra foi bever os vinhos,
    Nom vem al Maio.

    O que da guerra se foi com espanto
    E a sa terra se foi armar manto
    Nom vem al Maio.

    Por outro lado no codice madrileno tambem faltam cinco strophes, por
    que são omissas no _Cancioneirinho:_

    O que da guerra se foi com'emigo
    pero nom veo quand'a preyto sigo
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou a _aquilom_
    e vendid'é sempr'a traiçom
    nom vem al Maio.

    O que tragia o pendou sen oyto,
    e a sa gente nom dava pam coyto,
    nom vem al Maio.

    E no final da canção:

    O que tragia pendom de cadarço
    macar nom veo no mez de Março,
    nom vem al Maio.

    O que da guerra foy por recaùdo
    macar em Burgos fez pintar escudo,
    nom vem al Maio.

    Indubitavelmente o codice madrileno provém de uma outra fonte, por que
    tem omissões e accrescentamentos, que o differenciam do Codice da
    Vaticana; mas a ordem das canções e os nomes dos trovadores, communs
    aos dois, provam-nos que ambos foram copiados de cancioneiros já
    organisados dos quaes um era já apographo. A circumstancia de
    começarem ambos pela trova de _Fernão Gonçalves_, e de se lêr no
    codice do Roma a nota: _"Manca da fol. ij in fino a fol. 43"_
    provam-nos que o original primitivo já andava truncado e é isto o que
    dá a mais alta importancia ao Indice de Colocci do Cancioneiro perdido
    que era a cópia mais antiga, por que o monumento diplomatico estava
    ainda completo. Monaci não desconheceu o valor das variantes do
    _Cancioneirinho_.

    Depois de toda esta discussão sobre os diminutos vestigios que restam
    de alguns cancioneiros portuguezes dos seculos XIII e XIV, a
    aproximação de numerosos factos secundarios, e as inducções que se
    formam sobre elles, exigem uma recapitulação clara para que se possam
    tirar a limpo algumas conclusões geraes. Representamos os cancioneiros
    que são conhecidos por letras maiusculas, e aquelles cuja existencia
    se pode inferir pelas variantes são notados por letras minusculas; com
    estes signaes formaremos uma tentativa de filiação de todos esses
    cancioneiros em um schema, que poderá, ser modificado á medida que se
    descobrirem novos subsidios:

    A.] _O Livro das Cantigas do Conde de Barcellos_,–citado no seu
    testamento, e deixado a Affonso XI, tambem trovador. Tendo em vista o
    genio compilador do Conde e o andar ligado ao seu Nobiliario o Codice
    da Ajuda, cancioneiro de varios auctores, pode-se inferir que o _Livro
    das Cantigas_ não era exclusivamente do Conde, mas sim uma compilação
    sua. No Cancioneiro da Vaticana encontram-se canções do Conde, de
    Affonso XI e grupos de canções do Codice da Ajuda em numero de
    cincoenta e seis assignadas por fidalgos da côrte de D. Diniz.

    B.] _O Cancioneiro de D. Diniz (Livro das Trovas de Elrei Dom Diniz;_
    existiu separado em volume pelo que se sabe pelo Catalogo dos Livros
    de Uso de el-rei Dom Duarte. Foi encorporado no codice da Vaticana
    depois da canção 79. B¹.] Outro, dos Freires de Christo de Thomar.

    C.] _O Cancioneiro da Ajuda_, começa em folhas 41, a parte anterior
    está perdida e o final não chegou a ser terminado. Isto explica as
    pequenas relações com o Codice de Roma.–As 24 canções achadas na
    Bibliotheca de Evora e as guardas da encadernação do Nobiliario provam
    o muito que se perdeu d'este cancioneiro. Não se chegou a escrever a
    musica das canções, nem a inscrever-lhes os nomes dos auctores que as
    assignavam, e por isso conclue-se que não chegou a servir para a
    collecção de Roma, que é assignada. Não chegaram a entrar n'elle
    canções de el-rei D. Diniz, e portanto entre este e o Cancioneiro de
    Roma pode fixar-se a existencia de outro cancioneiro hoje
    desconhecido.

    D.] _O Cancioneiro de D. Mecia de Cisneros_, grande volume de cantigas
    visto pelo Marquez de Santillana, que o descreve; já continha o
    cancioneiro de D. Diniz, e os trovadores do Codice de Roma citados
    pelo Marquez. Seria a primeira compilação geral, feita mesmo em
    Hespanha?

    E.] _O apographo de Colocci_, perdido talvez pela occasião do saque de
    Roma em 1527, e do qual só se conserva o Indice dos Autores. Tinha
    intimas relações com o codice de D. Mecia. No principio apresentava
    varios _lais_ no gosto bretão e pelos _Nobiliarios_, vemos que o Conde
    Dom Pedro se refere ás tradições bretãs, e tambem el-rei Dom Diniz.
    Seria esta parte assimilada do _Livro das Cantigas_ do Conde de
    Barcellos?

    F.] _Cancioneiro da Vaticana, nº_. 4803; este é menos completo do que
    o antecedente, o que prova que foi copiado de outra fonte. Colocci por
    sua letra o emendou pelo codice hoje perdido. Tem este cancioneiro 56
    canções similhantes no Cancioneiro da Ajuda, com variantes notaveis,
    signal que ambos os Codices se derivam de duas fontes diversas. Tem
    uma parte relativa a successos da côrte de Dom Affonso IV, que provem
    de cancioneiros extranhos e posteriores ao Cancioneiro da Ajuda. A
    ordem dos trovadores não é a mesma do Indice de Colocci.

    G.] _Copia ms. de um Grande de Hespanha_.–Em cincoenta canções
    reproduzidas por Varnhagem acham-se variantes fundamentaes com
    relações á lição do codice de Roma, signal de que a copia alludida
    provém de uma fonte extranha e de epoca differente.

    Os cancioneiros desconhecidos, mas intermediarios aos supracitados são
    hypotheticamente:

    a, b.] Cancioneiros anteriores ás collecções da côrte de D. Diniz, com
    que se formou e, d'onde se trasladou o Cancioneiro da Ajuda, como se
    justifica pelas variantes dos 56 canções reproduzidas no de Roma.

    c.] Cancioneiro perdido, d'onde se não chegou a copiar nem a musica
    das canções nem o nome dos trovadores para o Cancioneiro da Ajuda.

    d.] Cancioneiro onde se encorporaram o _Livro das Cantigas_ e
    _Cancioneiro de D. Diniz_, o que justifica as differenças entre o
    Codice de Dona Mecia e o de Colocci.

    e.] Cancioneiro perdido, cuja existencia se induz das variantes entre
    o Cancioneiro da Vaticana, o de Colocci e o do grande de Hespanha.

    Eis por tanto a nossa tentativa de schema de filiação dos cancioneiros
    portuguezes dos seculos XIII e XIV:

    a b
    ——-/
    c
    C ABB¹
    ———/
    D d
    /———
    E e
    -/
    G F

    É provavel que esta connexão ache contradictores, porém aí ficam todos
    os elementos que pudemos agrupar, para que outros estabeleçam uma
    filiação mais verosímil. Só depois de estudada a historia externa do
    Cancioneiro da Vaticana é que se pode entrar com desassombro no
    desenho da grande epoca litteraria que elle representa. Bem o
    desejaramos fazel-o diante dos que estudam as producções do fim da
    edade media, para reconstruirmos de novo o livro dos _Trovadores
    galecio-portugueses_, escripto antes da posse de tamanhas riquezas. Á
    medida que em Portugal fôr renascendo o amor pela tradição nacional, o
    nome de Ernesto Monaci figurará como de um benemerito, que restituiu a
    este paiz um dos mais bellos monumentos do seu passado historico.

    [1] Fernão Lopes, _Chron. de D. Pedro_ I, cap. 31.
    [2] _Leges Wallice,_ p. 779, 861.
    [3] _Obras del Marquez de Santillana,_ p. XX.
    [4] _Hist. litter. de l'Italie,_ t.IV, p.17.
    [5] _Op. cit_, p.8.
    [6] _Ginguené, Hist. litt_, t. IV, p. 41.
    [7] _Tiraboschi, Storia della Letteratura italiana_, t. VII, 246.

  • Noções elementares de archeologia

    Noções elementares de archeologia

    Aproximadamente 49.550 palavras.

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    NOÇÕES ELEMENTARES

    DE

    ARCHEOLOGIA

    OBRA ILLUSTRADA COM 324 GRAVURAS

    E

    UMA INTRODUCÇÃO

    Do Sr.

    I. DE VILHENA BARBOSA

    Socio Effectivo da Academia Real das Sciencias

    DEDICADA Á MEMORIA DO ILLUSTRE ARCHEOLOGO

    MR. A. DE CAUMONT

    por

    JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA

    Architecto da Casa Real, Socio correspondente do Instituto de França,
    Honorario do Instituto Real dos Architectos Britannicos, da Sociedade
    Franceza de Archeologia, da Sociedade Central dos Architectos de Paris,
    correspondente da Academia Real de S. Fernando, fundador do Museu de
    Archeologia em Lisboa, etc. etc. etc.

    MEDALHA DO CONGRESSO ARCHEOLOGICO DE LOCHES
    CONFERIDA NA SUA SESSÃO DE JUNHO DE 1869

    LISBOA

    LALLEMANT FRÈRES

    6, Rua do Thesouro Velho, 6

    1878

    A SUA ALTEZA REAL

    O SERENISSIMO PRINCIPE

    *D. Carlos Fernando Pedro d'Alcantara*

    DUQUE DE BRAGANÇA

    *Com a mais respeitosa homenagem*

    O. D. C.

    *O humilde auctor d'este compendio*

    JOAQUIM POSSIDONIO NARCISO DA SILVA.

    INTRODUCÇÃO

    I

    Não conheceram os povos da antiguidade a archeologia, pelo menos como
    uma sciencia. Foi ignorada dos proprios gregos e romanos, não obstante a
    sua brilhante civilisacão, e apezar dos primeiros lhe terem creado o
    nome, composto de dois vocabulos seus: _archaios_, que quer dizer
    antigo, e _logos_ discurso. E tanto a desconheciam, confundindo-a com a
    historia, que alguns escriptores gregos e israelitas do principio da era
    christã, deram o nome de archeologia a obras que tratavam simplesmente
    da historia de povos, embora desde tempos remotos, ou que se occupavam
    de antiguidades, mas limitando-se a descreverem os monumentos, sem
    entrarem nas apreciações e conjecturas, que levam o archeologo ao
    conhecimento do viver dos povos da antiguidade.

    Os generaes romanos, quando voltavam d'essas emprezas guerreiras que
    accrescentavam ao imperio novas provincias, traziam mil objectos
    preciosos, variadissimas manifestações da arte e da industria dos
    vencidos, curiosos utensilios e ricos ornamentos em marmore, bronze,
    prata e oiro, obra de diversos povos, e differentes seculos. Pois os
    romanos applaudiam e apreciavam essas preciosidades, que vinham
    enriquecer a sua capital, constituindo-a um verdadeiro museu
    archeologico, apreciavam-n'as, repito, sómente como despojos arrebatados
    aos vencidos pelas suas aguias triumphantes, como tropheus de victorias,
    que glorificavam o seu nome, e estendiam o seu poderio.

    Nem os vasos sagrados do templo de Jerusalem, preciosos pela materia e
    ricos de tradições antiquissimas; nem os obeliscos do Egypto, padrões de
    tão remotas eras; nem as famosas estatuas da Grecia, sublimes creacões
    do genio humano em uma das quadras mais notaveis da historia geral da
    civilisacão; nem estes, nem outros objectos archeologicos e primores
    d'arte, que eram transportados a Roma a todo o momento, nos tempos da
    sua grandeza, faziam meditar os romanos sobre as extinctas civilisações,
    que muitos d'esses objectos recordavam, com o intuito de devassarem os
    mysterios da vida d'essas nações, sumidas nos abysmos do passado.

    Pausanias, geographo e historiador grego que, nas suas longas viagens,
    visitou a maior parte do mundo então conhecido, vindo depois estabelecer
    a sua residencia em Roma, no anno 170 do nascimento de Christo, escreveu
    a _Descripção da Grecia_, na qual trata com minuciosidade de todos os
    seus monumentos. Porém limita-se a descrevel-os como historiographo, sem
    os estudar e apreciar como archeologo.

    Baqueou o imperio romano ao duro embate dos barbaros do norte; e o mesmo
    tufão, que o varreu da face da terra, apagou aquelle facho
    resplandecente, que irradiava a luz da civilisacão para todas as regiões
    do orbe antigo, onde chegavam as armas da soberba Roma.

    Succederam-se, portanto, a tamanho explendor as mais crassas trevas da
    ignorancia e da barbaridade, em que a Europa esteve mergulhada durante
    seculos, até que emfim raiou a aurora da regeneração social, renascendo
    as letras e as artes. Foi então que surgiram os primeiros ensaios da
    archeologia. Dante e Petrarca, os illustres iniciadores da litteratura
    moderna, foram tambem os creadores da sciencia archeologica, precedendo
    a todos os sabios na investigação dos manuscriptos antigos, no
    descobrimento e decifração de velhas inscripções, e no estudo das
    moedas, em que o segundo se occupou.

    Não tardaram a ter imitadores que procurassem desvendar, sob o pó dos
    seculos, os mysterios da historia. A descoberta de algumas pinturas
    antigas, em excavações casuaes, quando os espiritos já começavam a
    raciocinar sobre a theoria da arte, e quando já se principiava a
    apreciar os monumentos da antiguidade como annaes do viver das gerações
    passadas, foi um novo incentivo para os estudiosos, e um raio de luz nos
    escurissimos caminhos da nova sciencia.

    Uma coincidencia feliz veio dar maior impulso e mais auctoridade aos
    estudos archeologicos.

    Miguel Angelo Buounarotti e Raphael Sanzio d'Urbino assombravam Roma e a
    Europa culta com os explendores do seu talento na pintura, na esculptura
    e na architectura, quando Felix de Fredi descobriu n'aquella cidade, em
    1506, entre as ruinas das Thermas de Tito, o famoso grupo de Laocoonte e
    seus dois filhos envolvidos pelas serpentes. Enlevados n'este grande
    primor da esculptura antiga, aquelles dois eximios artistas procuraram
    com desvelada applicacão descobrir o nome do auctor d'esta maravilha da
    arte, e a era em que foi executada. Caminhando de investigação em
    investigação visitaram e estudaram attentamente as grandes ruinas da
    architectura grega e romana, os restos preciosos da sua admiravel
    esculptura e as inscripções lapidares.

    Estes estudos foram tão applaudidos, e tão reconhecidas as suas
    vantagens, que não tardou a fundar-se em Florença, sob o governo dos
    Médicis, a primeira escola publica d'antiguidades.

    Tal foi o começo da archeologia.

    II

    O exemplo de Miguel Angelo e de Raphael, teve imitadores pouco depois em
    França, Allemanha, e outras nações, onde alguns homens estudiosos, não
    cultores das artes, mas apreciadores das suas obras, se occuparam de
    investigações archeologicas, posto que em geral restrictas á numismatica
    e á epigraphia.

    Este segundo periodo da nova sciencia, que é denominado dos
    _antiquarios_, abrange os fins do seculo XVI, todo o XVII e a primeira
    metade do XVIII.

    Portugal não foi indifferente a este progresso. Poderia dizer que n'este
    passo, como em muitos outros, se antecipou ás mais nações, pois que no
    principio da segunda metade do século XV, D. Affonso, marquez de
    Valença, filho primogenito de D. Affonso I, duque de Bragança, indo
    acompanhar a Italia e Allemanha a imperatriz D. Leonor, filha d'el-rei
    D. Duarte, e esposa do imperador d'Allemanha Frederico III, comprou e
    reuniu durante a sua longa viagem muitos objectos d'antiguidade e de
    historia natural, com os quaes, na sua volta á patria, organisou um
    museu, que seu pae augmentou com varios cippos, lapidas e fragmentos
    d'archeologia romana, descobertos no Alemtejo. Foi este o primeiro
    museu, que se creou n'este reino, e creio que precedeu a todos os que se
    crearam na Europa.

    Todavia, apezar d'este estimulo, o estudo d'antiguidades só teve
    principio entre nós passado um seculo; e foi de fóra que então nos veio
    o incentivo.

    Graças ás intimas relações do nosso paiz com as principaes potencias
    maritimas da Europa, desde a entrada do seculo XVI, estabelecidas pelos
    descobrimentos e conquistas dos portuguezes, que fizeram de Lisboa o
    emporio das mercadorias do Oriente, o movimento scientifico, que lavrava
    n'aquellas nações, não se demorava muito em se fazer sentir entre nós.
    Porém no caso de que trato abreviou esse periodo, sem duvida, a viagem
    de um nosso compatriota, que alcançou nas letras nome illustre. André de
    Rezende, depois de ter cursado a universidade de Salamanca, e de ter
    tomado capello em theologia, levado do desejo de se instruir, percorreu
    a França e os Paizes Baixos, demorando-se em Paris e em Bruxellas. O
    trato que teve n'estas cidades com alguns sabios, suscitou-lhe o amor
    dos estudos archeologicos. Regressando á patria entregou-se com ardor e
    perseverança a esses estudos, colligindo alguns cippos e outras lapidas
    com inscripções romanas, que collocou no jardim da casa em que habitava
    na cidade d'Evora, investigando e decifrando um grande numero de
    monumentos epigraphicos do nosso paiz, e compondo por fim varias obras,
    em que dava conta d'essas locubrações predilectas. Duas viram a luz da
    imprensa, com o titulo de: _Historia das antiguidades d'Evora_,
    publicada em 1553; e _Libri quatuor de antiquitatibus Lusitàniæ_,
    impressa em 1593, vinte annos depois da sua morte. D'entre as que deixou
    manuscriptas sobre o mesmo genero d'assumptos, citarei: _Monumenta,
    romanorum in Lusitanis urbibus_.

    Assim começaram estes estudos em Portugal; e do mesmo modo continuaram
    n'esse seculo e no seguinte, restrictos todavia á época do dominio
    romano.

    As nações que percorriam as vias do progresso com passo firme e resoluto
    mostraram-se empenhadas no desenvolvimento dos estudos archeologicos,
    desde o meiado do seculo XVII, fundando academias ou escolas, onde se
    ensinava ou discursava sobre antiguidades.

    Então os adeptos da nova sciencia, sequiosos de emoções e buscando
    alargar a área dos seus estudos, visitam a Grecia, exploram o solo,
    desenterram soberbos monumentos, escrevem e publicam em muitos livros os
    resultados das suas investigações.

    Illustraram-se n'esta cruzada scientifica, principalmente, Jacob Span, e
    Bernardo de Montfaucon, francezes, e Wheler, João Augusto Ernesti, João
    Jorge Groevinus, Gronovius, allemães. Todavia nos seus vastos
    repositorios de memorias e dissertações, posto que tratem mais
    particularmente das antiguidades gregas e romanas, já se occupam de
    todas as partes da archeologia.

    III

    Este impulso fez-se sentir em o nosso paiz nos fins do primeiro quartel
    do seculo XVIII. Fundando-se em Lisboa no anno de 1720, a academia real
    de Historia Portugueza, foi-lhe commettido, juntamente com a tarefa de
    escrever a historia de Portugal, o encargo de velar pela conservação dos
    monumentos nacionaes, obstando a que se destruissem, ou fossem levados
    para fóra do reino, os objectos d'antiguidade, já descobertos, ou que
    viessem a descobrir-se. Fundaram-se em Lisboa alguns museus de
    antiguidades, sendo um no proprio edificio da academia (o palacio dos
    duques de Bragança, na rua do Thesouro Velho), e os outros particulares.
    Entre as muitas obras volumosas, escriptas pelos academicos, e impressas
    por ordem da academia, contam-se algumas consagradas exclusivamente a
    antiguidades nacionaes.

    Em geral os espiritos, que se dedicavam a este genero de litteratura,
    continuavam a concentrar todas as suas attenções nos monumentos romanos,
    de que havia então bastante copia no reino, e que estavam por
    conseguinte muito ligados com a nossa historia. Entretanto houve
    academicos que, saindo fóra d'esse apertado circulo, encetaram estudos
    inteiramente novos no paiz. Martinho de Mendonça e Pina, em 1733, leu em
    uma sessão d'aquella academia uma memoria sobre os _rudes altares_ a que
    chamam _antas_ em Portugal. Este estudo publicado nas _Memorias da
    Academia_, foi o primeiro trabalho litterario, que se fez entre nós
    relativamente a monumentos prehistoricos.

    IV

    Na segunda metade d'esse mesmo seculo teve começo o terceiro periodo da
    archeologia, no qual obteve os fóros de verdadeira sciencia. Abriu esse
    periodo um dos mais talentosos e perseverantes filhos da Allemanha. João
    Joaquim Winckelmann, nascido em 1717, e fallecido em 1768, que se elevou
    pelo seu saber, de uma posição social muito humilde, a vice-reitor da
    universidade de Halle, e a bibliothecario do Vaticano, foi o fundador da
    esthetica moderna, e o creador do estudo philosophico e consciencioso da
    arte antiga. Entre muitas obras, que lhe grangearam subida honra,
    sobresae a _Historia da Arte_, que immortalisou o seu nome. N'esta obra
    magistral, que dividiu em 6 livros, estabeleceu e sellou de um modo
    incontroverso a alliança das artes com a archeologia, marcando a esta,
    como norma e alvo a que deve mirar, seguir escrupulomente sob todos os
    aspectos, pela apreciação do trabalho humano nas artes e na industria, o
    desenvolvimento da civilisação nos seculos passados; e estabelecendo ao
    mesmo tempo o methodo racional e claro para alcançar esse fim.

    Teve grande importancia esta obra, não só por dilatar os horisontes da
    nova sciencia, e abrir amplas vias aos seus cultores; mas tambem por
    diffundir o gosto dos estudos archeologicos, graças á elegancia do seu
    estylo, á lucidez dos seus argumentos, e sobretudo ao enthusiasmo com
    que falla dos grandes primores da arte antiga, e dos evplendores da
    civilisação grega e romana. D'essa benefica influencia originaram-se
    alguns dos mais ricos museus de antiguidades, que hoje existem, e muitas
    collecções partiticulares valiosas, que promoveram e facilitaram o
    estudo.

    Seguindo ousadamente os passos do erudito auctor da _Historia da Arte_,
    assignalaram-se após elle outros archeologos por distinctos serviços
    prestados á sciencia. O conde de Caylus classifica por ordem
    chronologica os monumentos das differentes edades, e penetra o segredo
    que produziu a maior parte das artes. O archeologo italiano Morcelli
    cria um systema regular para a classificação das inscripções, conforme o
    assumpto de que tratam, e para o estudo d'ellas, segundo o seu estylo. O
    celebre numismata padre Eckhel, jesuita allemão, coordena methodicamente
    a sciencia das medalhas; á qual o douto dinamarquez Rask accrescentou a
    ordem alphabetica. O sabio philologo e antiquario padre Passeri,
    italiano, que organisou o rico museu do grã-duque de Toscana, explica a
    um numeroso auditorio sob o portico de Lanzi, em Florença, com mais
    proficiencia do que o fizera Demspter, no seculo antecedente, os idiomas
    e os monumentos da Italia, anteriores á fundação de Roma.

    O descobrimento das ruinas de Herculanum deixára ajuizar de alguns usos
    e costumes dos romanos ainda mal conhecidos. Porém quando em 1755 se
    começou a levantar a espessa mortalha, que envolveu Pompeia em seu leito
    de morte durante 17 seculos, fazendo surgir do sepulchro uma cidade
    romana com as suas praças, ruas e casas guarnecidas e adereçadas
    interiormente, como na hora fatal em que as cinzas do Vesuvio a
    sepultaram no anno 79 da era christã, revelou-se aos olhos absortos dos
    antiquarios a vida publica e privada do povo romano com todos os seus
    usos e costumes, pois que só então foi bem conhecida uma infinidade de
    coisas e circumstancias, que eram inteiramente ignoradas.

    Accentuando-se cada vez mais os progressos da archeologia, o abbade
    Barthelemy, francez, reedifica a Grecia de Pericles, e Jorge Zoega,
    antiquario dinamarquez, começa a erguer o veu que occultava á sciencia o
    antigo Egypto. Napoleão Bonaparte emprehende a conquista d'este paiz, e
    as aguias francezas triumphantes abrem ignotos caminhos á archeologia, e
    patenteiam-lhe um immenso thesouro de preciosas reliquias da mais remota
    antiguidade. Vivant-Denon reproduz com o seu lapis habil e delicado, os
    soberbos monumentos do imperio dos Pharaós, e copía com escrupulosa
    exactidão, dos muros ennegrecidos pelo embate de tantos seculos, esses
    mysteriosos caracteres, que encerram, sob mil fórmas emblematicas, senão
    os annaes, a vida intellectual do antigo povo egypcio.

    D'entre um grande numero de sabios, que illustram a archeologia com os
    seus escriptos, Champolion descobre o alphabeto dos hieroglyphicos, e
    assim preenche uma lacuna de seculos, que a historia tinha deixado no
    esquecimento. Millin funda em 1792 o jornal _Magasin Encyclopedique_,
    por meio do qual derrama e popularisa os estudos archeologicos; publíca
    varias obras importantes sobre esta sciencia, e um _Diccionario de
    Bellas Artes_. Raoul-Rochette enriquece a litteratura franceza com o seu
    excellente _Curso d'Archeologia_, e entre outras publicações não menos
    interessantes, que fazem conhecidos e devidamente apreciados alguns
    sabios inglezes, italianos e allemães, Mr. A. du Caumont facilita e
    popularisa o estudo d'esta sciencia com seu precioso _Abecedario ou
    rudimentos da archeologia_.

    Os livros d'estes homens, de espirito elevado, dão um grande incitamento
    ás investigações archeologicas; e as descobertas dos testemunhos
    authenticos da existencia do homem na remotissima época quaternaria,
    trouxeram ao campo das discussões scientificas a origem da especie
    humana, e o seu viver nos tempos prehistoricos. Colleccionaram-se e
    patentearam-se ao publico os utensilios e instrumentos de que usaram os
    homens na sua idade primitiva, e que se iam descobrindo em excavacões
    casuaes ou feitas expressamente com esse intuito. E não tardou a
    reconhecer-se a conveniencia de se reunirem em congresso os homens que
    nos differentes paizes se dedicavam a estes estudos, para que da
    exposição das suas investigações, e das discussões de uma assembléa tão
    competente e auctorisada, se projectasse luz nas trevas d'esse remoto
    passado.

    Coube a mr. Desor, distincto naturalista, a honra de ser o primeiro a
    apresentar a idéa de um congresso internacional de archeologia
    prehistorica. Este pensamento enunciado em Paris, foi abraçado com
    enthusiasmo; porém antes que podésse ser realisado na terra, onde tivera
    origem, antecipou-se a Italia a encetar estas controversias.

    No outono de 1865 a sociedade das sciencias naturaes, reunida em
    Spezzia, occupou-se dos tempos prehistoricos. No anno seguinte reunem-se
    os archeologos de differentes paizes em Neufchatel, na Suissa, celebram
    o primeiro congresso internacional de archeologia prehistorica; tratam
    largamente do assumpto; ajustam e lançam as bases para a convocação do
    segundo congresso, que dá principio ás suas sessões em Paris, no anno de
    1867, ao mesmo tempo que se abre n'essa cidade a grande exposição
    universal, com uma secção intitulada _Historia do trabalho humano_, onde
    figuram productos variadissimos da industria humana de todos os paizes
    do globo, e de todas as épocas até ás primitivas da humanidade.

    Desde então entrou a archeologia em um periodo de verdadeira actividade
    scientifica, protegida pelos governos das nações mais cultas,
    reconhecida a sua importancia e justamente apreciada por todas as
    pessoas illustradas, qualquer que seja o rumo dos seus conhecimentos.

    V

    Portugal não tem tomado a parte activa, que lhe cumpria tomar, como paiz
    civilisado, e a quem tanto deve a moderna civilisação, n'aquelle
    movimento scientifico. Todavia, não se póde dizer que lhe tenha ficado
    estranho.

    Varias memorias, publicadas pela academia real das sciencias de Lisboa,
    provam que esta corporação se occupou, desde a sua instituição, de
    assumptos archeologicos, relativos á historia do paiz. Além disso
    n'estes últimos annos tem havido entre nós não poucos escriptores que se
    tem dedicado aos estudos archeologicos, e d'entre estes, alguns zelosos
    investigadores do que diz respeito aos tempos prehistoricos.

    Temos sido muito descuidados na formação de museus archeologicos, e é
    uma vergonha que não tenhamos um unico estabelecimento d'este genero,
    digno de ser exposto aos olhos dos estrangeiros illustrados que visitam
    o nosso paiz. E maior vergonha é que não exista, podendo e devendo
    existir, independentemente do recurso ás excavacões muito dispendiosas.
    Era bastante para constituir um museu de objectos archeologicos e
    artisticos, muito rico e variado, os milhares de objectos, producto do
    trabalho humano, em diffrentes edades, de remotas eras, em oiro, prata,
    bronze, vidro, barro e pedra, descobertos nas provincias do reino,
    sobretudo na Estremadura, Alemtejo e Algarve, desde o seculo XV, em
    excavacões casuaes, e muitos objectos preciosos e alfaias dos extinctos
    conventos.

    Por iniciativa, e póde dizer-se por unico esforço do sr. J. Possidonio
    Narciso da Silva, fundador e presidente da real associação dos
    architectos e archeologos portuguezes, deu começo esta associação no
    edificio da egreja gothica e arruinada do extincto convento do Carmo,
    onde se acha estabelecida, a um museu archeologico. Carece, porém, de
    muitas condições para preencher os fins a que são destinadas similhantes
    collecções, sendo uma das principaes, a organisação scientifica e
    chronologica, e conveniente collocação dos objectos alli reunidos. Devo
    accrescentar, porém, que achando-se alli todos os objectos accumulados e
    apertados por falta absoluta d'espaço; aquella organisação e conveniente
    collocação estão dependentes de uma obra importante e despendiosa; a
    cobertura das naves da egreja.

    Guardam-se em differentes estabelecimentos publicos de Lisboa, Porto e
    Evora, diversidade de objectos archeologicos e artisticos, que se
    estivessem reunidos formariam uma collecção mui curiosa, e de certa
    importancia. Tambem são dignas de menção as collecções de fosseis,
    instrumentos e utensilios prehistoricos da secção geologica, no edificio
    do extincto convento de Jesus.

    * * * * *

    Pois que fui mais prolixo do que desejava no quadro historico, que fica
    traçado, procurarei ser conciso nas noções geraes da sciencia
    archeologica, noções que mr. Du Caumont julgou desnecessario explicar
    n'este livro.

    A archeologia é a sciencia que tendo por fim, como o indica o seu nome,
    o estudo da antiguidade, nos ensina a conhecer o viver dos povos antigos
    por meio do exame e apreciação dos monumentos, que nos deixaram, e de
    todos os objectos, que d'elles nos restam como manifestação do seu
    engenho e do seu trabalho.

    A historia narra os successos, indica-lhes as causas, e aponta-lhes as
    consequencias. Julga do caracter e indole dos povos, e dos individuos
    que mais se assignalaram; e trata dos monumentos, como provas que
    mostram o seu desenvolvimento intellectual e industrial, e tambem como
    testemunha d'aquelles successos.

    A archeologia examina attentamente todos os productos materiaes, que os
    antigos povos nos legaram, e d'esse estudo minucioso, comparativo e
    philosophico, faz resaltar o conhecimento das idéas, da religião, dos
    usos e costumes, do desenvolvimento industrial e artistico, emfim do
    viver dos povos, aos quaes esses productos pertenciam.

    Portanto a archeologia faz importantes serviços á historia, não só
    esclarecendo-a, com a luz que derrama onde tudo é trevas, mas tambem
    completando-a com uma infinidade de noções e de objectos reaes, que nos
    apresentam um quadro verdadeiro da vida intima dos povos da antiguidade,
    que sem os esforços dos archeologos seriam ignorados ou apenas
    conhecidos superficialmente.

    A archeologia divide-se em tres partes, que a seu turno se subdividem:
    1.^a _litteraria_–2.^a _artistica_–3.^a _usual_. Comprehende a
    primeira toda a sorte de monumentos em que ha inscripções, quaesquer que
    sejam os seus caracteres e a materia que os contenha. Subdivide-se em
    _paleographia_, _diplomatica_ e _epigraphia_. A _paleographia_ ensina a
    decifrar as antigas escripturas em pergaminho ou em outra substancia com
    caracteres alphabeticos, ou ediographicos, ou signaes emblematicos, como
    os hyeroglyphicos dos egypcios, ou outros convencionaes. A _diplomatica_
    indica o modo de conhecer, pelos caracteres internos e externos, a
    authenticidade dos documentos. A _epigraphia_ trata da interpretação das
    inscripções gravadas em pedra, em metal, ou em qualquer outra materia.

    A _archeologia artistica_ trata de todos os monumentos da antiguidade,
    taes como edificios religiosos, civis e militares, e todos os generos de
    obras d'arte.

    Subdivide-se em _archeologia monumental_, que diz respeito ás obras
    d'architectura, d'esculptura e de pintura; em _iconographia_, que é o
    estudo dos bustos e dos retratos dos personagens historicos; em
    _numismatica_, ramo consagrado ao exame das moedas e medalhas; em
    _glyptographia_, que trata das pedras gravadas, representando quaesquer
    figuras; e, finalmente, em _archeologia usual_, que abrange toda a
    qualidade de alfaias, utensilios e instrumentos sagrados, domesticos,
    militares, funerarios, etc.

    São estas as divisões scientificas da archeologia. Porém, considerada
    relativamente ás grandes épocas da vida da humanidade, póde dividir-se
    em _archeologia prehistorica_, dedicada ao estudo das edades primitivas
    do homem, das quaes não restam memorias escriptas, nem gravadas, nem
    tradicionaes, existindo por unicos vestigios da sua passagem na terra
    alguns rudes monumentos, e utensilios e instrumentos não menos toscos e
    grosseiros, encontrados em escavações: em _archeologia dos antigos
    imperios orientaes_; em _archeologia classica_, ou _greco-romana_; e em
    _archeologia christã_, que comprehende o periodo desde o nascimento de
    Christo até á renascença das artes e letras.

    Emfim a archeologia é uma sciencia tão lata e complexa, que ainda
    precisa, para satisfazer cabalmente a sua importante missão,
    soccorrer-se a outras sciencias accessorias como são a _linguistica_, a
    _paleontologia_, a _geologia_, a _anthropologia_, e a _ethnologia_.

    J. DE VILHENA BARBOSA.

    PROLOGO

    N'este seculo, em que a civilisação tem caminhado progressivamente nas
    principaes nações, não podia esquecer por mais tempo um estudo que
    consiste em investigar o modo como começára a existencia da raça humana
    desde o berço até o seu simultaneo desenvolvimento, não só dos objectos
    necessarios para a defeza exterior, como em relação aos usos domesticos
    e habitações: conseguindo-se por este curioso estudo formar juizo seguro
    ácerca da existencia interior do viver e dos costumes dos primitivos
    habitantes da terra.

    Depois do cataclismo que passou o planeta em que existiram, e das lutas
    encarniçadas e continuas das differentes raças, as quaes se disputavam
    tenazmente a posse do territorio mais fertil e mais ameno, tendo muitas
    d'essas raças já desapparecido do mundo por inteiramente destruidas, e
    em outros se tenham confundido os elementos das suas respectivas
    nacionalidades, pois que nenhum d'elles nos deixou a historia escripta
    d'esses tempos remotos; a sua existencia rude e aventurosa não lhes
    proporcionavam o poderem cultivar a intelligencia, nem suavisar os
    costumes, para se dedicarem ao aperfeiçoamento intellectual: portanto,
    só pelos vestigios da sua imperfeita industria, os quaes se acham
    encerrados entre as camadas successivas da terra, só por diversos
    fragmentos, elles nos poderam revelar a sua vida social, e nos mostraram
    o grau de sua nascente civilisação. Assim formulâmos a historia, ainda
    que incompleta nos primitivos tempos da terra habitada, e descobrindo os
    segredos d'essa existencia, saberemos quaes foram os esforços da
    intelligencia humana desde o seu alvorecer.

    Quando os romanos se impozeram aos outros povos, e em repetidas
    conquistas ampliaram o seu dominio no antigo mundo, invadiram o
    territorio d'essas raças indigenas, e depois de renhidas batalhas o
    povo-rei subjugou-as, hasteando entre ellas a aguia romana; porém
    n'essas épocas já havia historiadores que nos deixaram as narrações de
    taes feitos: assim o estudo d'esses acontecimentos, não é tão difficil,
    porque não precisâmos de ir inteiramente á crusta terraquea pedir-lhe os
    seus segredos.

    A invasão dos barbaros do Norte veiu depois desapossar os romanos de
    suas conquistas, e a destruição que ella causou foi total, e de tal
    modo, que aos actos do elemento da parte mais feroz d'essas hordas se
    ficou chamando _vandalismo_. Se um cataclismo terrestre havia, pois,
    feito desapparecer antes os vestigios dos povos mais antigos do mundo,
    os barbaros do Norte não foram menos prejudiciaes por aniquilarem a
    civilisacão que os romanos haviam plantado na Europa.

    Todos conhecem a decadencia do Baixo-Imperio: as guerras continuas; o
    desprezo e o esquecimento da instrucção; até que appareceu um homem de
    animo forte e de intelligencia superior, que, apoderando-se do poder,
    formou um novo imperio, e pela sua sabedoria e por suas victorias
    alcançou a gloria de haver feito reviver o explendor da civilisação na
    Europa.

    A idade media foi fecunda em acontecimentos, que prepararam os povos
    para aguardarem uma era, em que os seus direitos e a sua civilisação
    triumphassem das arbitrariedades e dos vexames que soffriam; depois
    surgiu o renascimento das lettras e das artes, que foi o prenuncio da
    nova civilisação.

    Fica, portanto, reconhecida a necessidade de um estudo especial dos
    fragmentos e das ruinas dos antigos para formarmos, como já dissemos,
    justa idéa dos usos, costumes e crenças dos primeiros habitantes do
    mundo, e principalmente dos que existiram na Europa, muito mais
    interessante para nós, por vivermos no territorio occupado por elles.
    Poderemos d'este modo dirigir os nossos especiaes estudos para a
    Lusitania, e entrar nas mais minuciosas investigações com respeito aos
    tumulos, ás fortificações, aos templos, aos ornatos, ás habitações, a
    tudo emfim que determina e constitue a sciencia da archeologia, com a
    qual supprimos a falta da historia escripta.

    Foram os allemães, os inglezes e os francezes os primeiros que trataram
    d'essas curiosas investigações; e os sabios que se dedicaram a taes e
    tão uteis estudos, principalmente Mr. de Caumont, e outros, que
    publicaram obras de grande merito, são dignos da nossa admiração e do
    nosso reconhecimento, porque, procurando as origens da industria humana,
    nos revelaram interessantes conhecimentos, que não só serviram para
    coordenar a historia das épocas mais remotas, mas tambem para estimular
    o desejo de conservar as antiguidades que estavam dispersas e
    desprezadas, attestando ignorancia e incuria.

    Em Portugal nunca se pensara n'este ramo de instrucção, posto que em
    alvará de 14 de agosto de 1721 se ordenasse que se fossem colligindo as
    informações indispensaveis e se adquirissem objectos antigos, que
    facilitassem o estudo da archeologia, porém ficou em letra morta; e
    tanto assim que só em 1864 se organisou o primeiro museu archeologico,
    por iniciativa da pessoa que escreve estas linhas, fazendo o governo
    para esse fim a concessão das ruinas da monumental egreja gothica do
    Carmo, de Lisboa, onde tambem depois estabelecemos em annos successivos
    um curso ácerca da historia geral da architectura.

    Como quer que seja, a sciencia da archeologia não fôra cultivada entre
    nós methodicamente, e por isso não deve estranhar-se que não apparecesse
    até hoje, em Portugal, alguma obra elementar que auxiliasse o seu
    estudo. Para supprir tal falta, ousamos nós mandar imprimir um resumido
    trabalho, que comprehende a descripção dos objectos antigos, desde a
    edade de pedra até ao seculo XVII, tomando para norma a notavel obra do
    sr. de Caumont, o qual, além de distinguir-nos com a sua apreciavel
    amisade, nos auctorisou a servirmo-nos dos seus admiraveis trabalhos; e
    já que nos é licito honrar-lhe aqui a memoria gloriosa, sejam estas
    paginas consagradas ao illustre fundador da sciencia archeologica em
    França, como levantado a um dos testemunhos da nossa veneração.

    No volume, que vamos publicar, e cujos fundamentos lançámos haverá sete
    annos, estão illustrados corn gravuras numerosas, mais de 300 no texto,
    as passagens em que se tornava indispensavel esse meio de observação;
    seguindo, quanto possivel, a obra do sr. de Caumont, como já indicámos,
    procuramos ao mesmo tempo amplial-a com as explicações das antiguidades
    encontradas em Portugal, interessando assim ainda mais os nossos
    compatriotas.

    Suppomos que este livro poderá ser tambem de proveito nas nossas
    escolas, onde é tão geralmente reconhecida a necessidade de livros
    especiaes, que fallem aos alumnos de assumptos que são hoje do dominio
    de uma educação liberal; assim se tornarão adeptos do estudo e da
    sciencia archeologica, que lhe fornece as primeiras bases, para que
    sejam outros tantos propagandistas da conservação da nossa arte e das
    nossas preciosidades archeologicas.

    Apezar de ser trabalho complexo e difficil, não só para a nossa limitada
    intelligencia, mas tambem pelos escassos recursos de que podemos dispor
    para uma publicação d'esta ordem, o nosso vivo desejo de divulgar o
    gosto pela archeologia, de satisfazer ao constante empenho em estimular
    o estudo d'esta sciencia indispensavel para bem avaliar a historia da
    arte em Portugal, sirva comtudo de attenuante ás faltas que houvessemos
    de commetter. E tambem, digamol-o, ficam aqui os cimentos de obra mais
    perfeita e de maior tomo para os que possam lançar-lhe hombros mais
    robustos e intelligencia mais apurada. Os que prezam o trabalho e amem o
    estudo relevem a nossa ousadia, e deitem-a á conta da boa vontade e da
    sinceridade com que sempre tentámos bem servir a patria.

    17 de Maio de 1877.

    NOÇÕES ELEMENTARES DE ARCHEOLOGIA

    * * * * *

    CAPITULO I

    *Tempos prehistoricos*

    Chamaram _prehistoricos_ aos tempos antigos de que não existe historia
    escripta.

    Desde os tempos mais remotos, apparece um longo periodo sem historia
    escripta, nem elementos positivos, durante o qual tentamos encontrar o
    progresso e o desenvolvimento da humanidade, unicamente por vestigios
    mais ou menos incompletos.

    O archeologo tem que tomar a penna do historiador e procurar deduzir
    algumas _probabilidades historicas_, com observação escrupulosa dos
    factos averiguados. Os antiquarios modernos têem-se dedicado com
    entranhado amor a este genero de investigações.

    Estabeleceram na historia pertencente á existencia do homem, _anterior
    ás épocas conhecidas_, tres grandes phases, ou estancias, a saber:

    Idade de Pedra
    Idade de Bronze
    Idade de Ferro

    A fundição, ou reducção dos metaes, é uma operação difficil, que foi de
    certo por muito tempo desconhecida: os povos atrazados na civilisação
    deviam fabricar os objectos de que tivessem necessidade para a propria
    defensa e para a caça, assim como para os usos communs da vida,
    empregando pedras rijas, como é o silex (pedreneira), os ossos dos
    animaes, ou a madeira.

    O extraordinario numero de descobrimentos feitos nos diversos paizes,
    principalmente em França, na Suissa, na Inglaterra, e na Dinamarca,
    confirmou esta supposição.

    As collecções dos museus contém quantidade consideravel de pontas de
    frechas, facas, machados, feitas com pedreneira e em rocha rija: grande
    numero de instrumentos de osso, ou de pedra, se tem achado em
    differentes partes, e esses instrumentos conservam-se quasi intactos
    dentro do solo, onde estavam occultos. O periodo secular em que os
    metaes não estavam ainda em uso recebeu, pois, a denominação de _idade
    de pedra_.

    As melhores qualidades de rochas para fabricar os instrumentos
    cortantes, eram o silex (pedreneira), _felds-pathicas_, o _petrosilex_
    verde, e algumas variedades de _porphyro_; porém o silex tem sido, como
    parece, a pedra mais constantemente empregada, e talvez a mais facil de
    preparar a forma requerida.

    Seguramente, se dermos com certa precaução uma martellada sobre um
    fragmento de silex, de forma alongada, esse silex estalará, e a pedra
    que se desligue tomará logo a forma conoidal; ficará chata de um dos
    lados, mostrando do outro uma aresta viva. Podiam-se fazer por este
    modo facas de pederneira, de que em diversas localidades se tem
    encontrado centenares de modelos.

    [Figura 1]

    Fazendo-se estalar esta qualidade de pedra repetidas vezes com certa
    habilidade, podem-se fabricar machados, pontas para flechas e outros
    instrumentos do genero d'aquelles de que apresentamos os desenhos n'esta
    pagina.

    Os objectos pertencentes á _idade de pedra_ e á _idade de bronze_ tem
    sido encontrados, principalmente nos _tumulos_, nas cidades _lacustres_,
    em algumas _cavernas_, antigamente habitadas.

    Examinemos os depósitos que indicamos, porque nos offerecerão, segundo
    recentes explorações, matéria variada e curiosa para o nosso estudo.

    *Tumulos*

    Os tumulos ou sepulchros, compõem-se d'um recinto central formado de
    pedras de rocha de grande dimensão, no qual se entra geralmente por um
    corredor de egual construcção, estando tudo encerrado em immenso montão
    de pedras e terra.

    Quer fosse porque estivesse com imperfeição o recinto central encerrado
    no meio do outeirinho factício; quer, o que parece mais natural, porque
    se servissem _da terra_ ou _das pedras dos tumulos_ em época posterior,
    muitas vezes foram encontrados os pedregulhos que formam a parte central
    sem a terra que os cobria e quasi completamente separados; então n'este
    caso chamavam-se Antas (dolmen).[1]

    [Figura 2: Vista exterior de um tumulo]

    Os defuntos eram depositados com os seus corpos inteiros e em geral
    apresentavam-os _sentados_ e encostados nas paredes do recinto central,
    tendo junto de si os machados e outras armas de pederneira; algumas
    vezes vasos de barro toscamente fabricados, e outros objectos de uso
    commum.

    Veja-se o desenho n.^o 2, de um tumulo completo; o n.^o 3, um tumulo
    aberto com dolmen; o n.^o 4, um dolmen completamente desguarnecido; e o
    n.^o 5, a perfeita Anta de Guitamães, em Vianna do Castello.

    [Figura 3: Vista interior de um tumulo]

    [Figura 4: Dolmen central de um tumulo]

    Varios antiquarios tinham tomado os dolmens desguarnecidos de tumulos
    por _altares druidicos_, porém ao presente esta ideia está quasi
    desprezada, por falta de provas positivas.

    O cobre com liga que lhe dá maior rijeza, foi empregado depois da
    pederneira, ou conjunctamente com ella, quando os nossos antepassados
    aperfeiçoaram esta industria e conheceram o modo de derreter os metaes.

    [Figura 5: Anta de Guitamães (Minho)]

    Os principaes objectos de bronze, foram os _machados_, as _pontas das
    lanças_, as _espadas_, os _punhaes_, as _facas_, os _anzoes_, as
    _fouces_, os _alfinetes_, os _anneis_, os _braceletes;_ estes objectos
    fundidos, muitas vezes com formas elegantes, apresentavam em todos os
    paizes o mesmo feitio, tanto na Dinamarca como em França, e na
    Inglaterra; e isso nos convence de que os typos tradicionaes, talvez
    imitados do mundo antigo pelas nações civilisadas, e trazidos para a
    Europa occidental em época que não se pode fixar, foram reproduzidos sem
    alteração, em moldes apropriados.

    [Figura 6: Fachada do Dolmen de Bournan]

    [Figura 7: Plano do Dolmen de Bournan]

    Esta época importante da historia dos progressos da humanidade rasgou
    bom horisonte no prolongado periodo prehistorico: d'ahi proveio a
    denominação de _idade de bronze_. O difficil era saber-se, por inducção,
    quando e como o bronze apparecera nos paizes septentrionaes.

    Ha annos, o sr. Worsaæ e os antiquarios dinamarquezes publicaram que
    os tumulos da idade de pedra continham compartimentos centraes, conforme
    descrevemos; nos quaes se depositavam os cadaveres sentados, com os
    joelhos juntos á barba e os braços cruzados no peito; em quanto os
    tumulos da idade de bronze não apresentavam esse compartimento
    reservado, sendo construidos com grandes pedras e os outeirinhos,
    compostos de terra e de pequenas pedras, não encerravam cadaveres, mas
    tamsomente as cinzas dos finados, depositadas em vasos de barro; muitas
    vezes appareciam acompanhados de objectos de bronze e ás vezes de ouro.
    Inferia-se d'estas differenças, que os instrumentos de bronze haviam
    sido trazidos por uma raça que invadira, absorvera e talvez aniquillara
    a indigena; raça que teria costumes diversos, armas superiores e
    civilisação mais adiantada que a subjugada.

    Acceitando-se este facto, a idade de bronze seria inaugurada na Europa
    occidental por um povo conquistador em época desconhecida.

    Os objectos de barro não nos guiam suficientemente n'esta exploração. Os
    que foram achados com os instrumentos de bronze são de fabrico
    grosseiro, mal cosidos, e por seu feitio, ornatos e as substancias que
    os compõem, simelham-se muito com os vasos de barro achados nos
    sepulchros que encerravam unicamente objectos de pedra. N'esses diversos
    tumulos raramente se viam vasos com azas; á forma dos gargalos parecia
    não ser conhecida, nem o seu uso; consistindo apenas a ornamentação em
    linhas em direcções diversas; ou ponteado concavo, ou emmoldurado em
    xadrez.

    Além d'isso, a pederneira era ainda de uso geral na idade de bronze, e
    muitas vezes se tem encontrado objectos de pedra e instrumentos de
    bronze nos mesmos tumulos; facto que poderia explicar-se admittindo-se
    que servira successivamente para sepultura em differentes povos.

    Acharem-se cinzas no logar dos cadaveres sentados, pareceu sufficiente
    caracteristico da idade de bronze, pois que nos tumulos, que encerravam
    objectos de metal, havia poucos exemplos de se fazer enterramento na
    posição _sentado_, e essa pratica caracterisa a idade de pedra.

    Tem-se, comtudo, encontrado na mesma sepultura esqueletos sentados na
    proporção de 20 por cento, talvez como demonstração, segundo o sr.
    Lubbock, dos ultimos representantes das gerações passadas que tivessem
    apego aos antigos usos.

    *Habitações lacustres*

    Precisamos de expôr, em primeiro logar, o que se entende por cidades
    _lacustres_.

    Ha annos notava-se em muitos lagos da Suissa, abaixo do nivel natural
    das aguas, estacarias em grupos consideraveis; o dr. Keller, de Zurich,
    socio da sociedade de archeologia franceza, estudou com attenção esses
    vestigios, que por grandissima diminuição das aguas ficaram visiveis; e
    declarou depois, que os primeiros habitantes da Suissa estabeleciam por
    vezes as suas casas em cima da agua, como praticavam algumas tribus da
    antiguidade, e até como fazem ainda alguns povos modernos. Tal
    descobrimento causou sensação entre os antiquarios; muitos observadores
    se dedicaram depois com grande solicitude a explorar o fundo dos lagos,
    nos logares das cidades lacustres indicadas pela presença da estacaria.
    Estas investigações foram proficuas. Poderam-se tirar, servindo-se de
    dragas, grande numero de fragmentos de objectos de barro, e outros
    utensilios, os quaes, comparados com os que foram encontrados nos
    tumulos, reconheceu-se pertencerem tambem a identica civilisação.

    Varias outras estancias lacustres foram depois descobertas na Suissa;
    contaram-se até 32 no lago de Constance; 46 no de Neufchâtel; além das
    que se viram nos de Genebra, de Inkwill, de Pffikon, de Luissel etc.,
    etc. Ainda que nem todas pertençam á idade de bronze ou de pedra, e que
    muitas pareçam ser do tempo da idade de _ferro_, e do periodo romano,
    todavia o maior numero é das idades de pedra e de bronze.

    Os museus de Lausanna, de Genebra, de Neufchâtel e outros, tem
    collecções completas dos objectos chamados _lacustraes_, por causa de
    terem sido conservados por séculos debaixo das aguas.

    Os habitantes das cidades lacustraes achavam sem duvida recursos
    alimentícios na pesca, mas estabeleceram as suas habitações sobre a agua
    para se collocarem ao abrigo dos ataques das feras, ou dos roubos das
    tribus visinhas. Era facil separar inteiramente essas povoações fluviaes
    levantando para isso as pontes, que lhes serviam para communicarem com
    as margens.

    Segundo o estudo das ossadas dos animaes recolhidos pela draga, e de
    diversos fragmentos, conheceu-se que então já havia seis especies de
    animaes domesticados que deviam servir para o alimento dos habitantes; e
    entre essas, encontraram-se restos de veados, bois, de duas formas,
    porcos, cães, cabras e cavallos, notando-se porém que havia poucos
    vestigios do cavallo e da cabra.

    *Cavernas*

    As excavações dirigidas por varios geologos em diversas localidades,
    deram em resultado encontrar-se nas cavernas consideravel numero de
    objectos devidos á industria das raças primitivas, incluindo as da época
    do diluvio, assim como os machados de pederneira, toscamente fabricados,
    e outros instrumentos de silex e osso, e em parte envolvidos com ossadas
    de animaes giganteos, que já hoje não se encontram.

    Os objectos de silex e osso, pela maior parte, parece pertencerem á
    idade de pedra, e provirem das epocas mais remotas da humanidade. Mas
    deve notar-se que sempre apparecem misturados com esses utensilios do
    homem, restos de animaes, que se não encontram hoje, e que pertencem á
    formação do terreno _quaternario_, considerado até então como anterior
    ao apparecimento do homem.

    O descobrimento de uma queixada humana no saibro do Moulin-Quignon,
    proximo de Abbeville, na França, veio estratigraphicamente confirmar
    taes conjecturas e indicações. Embora isto seja do dominio da geologia e
    da paleontologia, os factos novamente averiguados são de summo
    interesse, pois que comprehendem a idéa de indeterminada e espantosa
    antiguidade em que o homem vivia no estado quasi selvagem: não é
    difficil acreditar que assim acontecesse, quando pensarmos na situação
    actual dos povos de Africa central, dos naturaes da America, quando foi
    descoberta, e dos habitantes das ilhas da Oceania. O homem que vive
    isolado, sem communicação com os povos mais adiantados que elle, poderá
    ficar muito tempo no mesmo grau de civilisação; como aconteceu em o
    nosso continente antigo, em quanto os romanos levavam o luxo até o
    extremo, havia então em o Norte, onde já chegam hoje os caminhos de
    ferro, povos semi-selvagens que não tinham participado em cousa alguma
    dos progressos do povo rei; e comtudo deviam depois repartir entre si os
    seus despojos e gosar da sua civilisação.

    Podemos, portanto, admittir que houve por longos annos na Europa, nas
    margens dos rios, uma raça de caçadores e pescadores, e que nos bosques
    existiam o _mammouth_, _o rhinoceronte_, animaes que podiam resistir á
    baixa temperatura que n'essa época era propria em nossa região.
    Julga-se, com fundamento, que tal raça de homens vivia como succede hoje
    entre alguns esquimaus, e como os laponios viveram seculos antes.
    Acrescentaremos que a flora fossil parece mostrar que as modificações
    occorridas na forma por effeito das mudanças climatericas, tiveram os
    seus equivalentes no mundo vegetal antigo.

    Os principaes monumentos dos tempos prehistoricos são, conjuntamente com
    os tumulos, dos quaes já tratamos:

    Os _peulvans_ ou pedras cravadas na terra;

    Os monumentos compostos com pedras similhantes, taes como os
    _alinhamentos_;

    Os circulos formados de pedras, e os recintos simplesmente de terra.

    As pedras oscillantes são pedras de extraordinario peso sobrepostas a
    outras e collocadas em equilibrio, mas que ao menor impulso se fazem
    mover: existem algumas em França, porém na Inglaterra o maior numero. No
    Alemtejo, proximo de Alter do Chão, ha uma d'esta qualidade.

    *Pedras erguidas*

    [Figura 8: Pedras Erguidas]

    As pedras erguidas[2] que se designam egualmente com os nomes de
    _Menhirs_, _Peulvans_, _Pedras cravadas_, etc., são pedras toscas de
    forma esguia ou conica implantadas verticalmente na terra, como se
    collocam os marcos. A sua altura varia desde 2 a 6 metros, ou mais; ás
    vezes estão cravadas de maneira que a extremidade menos grossa fica para
    baixo, e a mais volumosa para cima, como se estivessem sustentadas n'um
    pião. Outras estão simplesmente postas no solo, em logar de serem
    cravadas na terra, porém, é preciso não confundir estas pedras com
    vários pedregulhos _erraticos_, ou que se encontram em posição vertical
    e podem estar assim naturalmente collocados.

    [Figura 9: Alinhamentos de pedra era Ardeven]

    _Alinhamentos_.–Os alinhamentos são formados de pedras esguias. As
    pedras, alinhadas com mais ou menos regularidade, mais ou menos
    intervallos entre si, formam algumas vezes uma única fileira. Umas
    tambem se encontram postas em duas, tres, quatro ou maior numero,
    conservando-se em linhas parallelas. Estas especies de avenidas
    pedregosas são delineadas commummente na direcção de Leste a Oeste, ou
    do Norte a Sul.

    Outras vezes as pedras são substituidas por trincheiras ou fossos de
    terra. Tem-se encontrado em algumas partes, posto que raramente,
    terrados parallelos na direcção de Leste a Oeste, e do Norte a Sul, que
    apresentam, em quanto á disposição, muita analogia com os alinhamentos
    de pedras e parece terem tido o mesmo destino.

    Os alinhamentos de pedras mais notaveis e mais vastos que se conhecem em
    França, são os de _Karnac_, de _Ardeven_, e de _Penmarch_. Compõem-se de
    mais de 1:200 pedras toscas em 11 filas parallelas com 763 toezas de
    comprimento, e 47 de largura. As mais elevadas tem 18 a 20 pés, e as
    mais pequenas 4 a 5. Ha entre ellas algumas de volume tão extraordinario
    que lhes avaliam o pezo em 70 a 80 milheiros.

    Os alinhamentos de _Ardeven_ estão dispostos regularmente em filas
    parallelas, tambem na direcção do Norte para o Sul, e no espaço de 3
    kilometros de extensão.

    *Circulos*

    Outra combinação de pedras erguidas toma a forma de circulos, que têem
    sido designados pelo nome de _cromlecks_.[3]

    [Figura 10: Circulo de pedras]

    Os maiores d'estes circulos existem em Inglaterra; um d'elles, o vasto
    circulo de Avebury, em Wiltshire, está totalmente destruido; porém ainda
    houve quem o visse quasi completo por 1713; compunha-se de 660 pedras, e
    achava-se situado no meio de uma planicie, ficando-lhe o terreno em
    declive de todos os lados, como pode vêr-se na gravura junta.

    [Figura 11: Restauração do monumento d'Avebury.]

    O circulo exterior era formado de 100 pedras de 15 a 16 pés de altura,
    collocadas a 27 pés umas das outras; tinha perto de 1:300 pés de
    diametro, e via-se cercado de profundo fôsso, contornado exteriormente
    por larga trincheira de terra.

    Este grande circulo continha dois circulos mais pequenos, compostos cada
    um de dois renques concentricos de _peulvans_, do qual um tinha 30
    pedras, apresentando um diametro de 466 pés; e o outro 12 pedras, com o
    diâmetro de 186 pés.

    O monumento de Stone-Henge[4] está situado a 6 milhas de Salisbury, em
    uma eminencia, na proximidade da qual se encontram muitos _tumulos_; é
    composto de 4 circulos concentricos, dos quaes os dois maiores são
    circulares, em quanto os outros dois mostram a forma um tanto elliptica.

    [Figura 12: Vista de Stone-Henge, proximo de Salisbury]

    O circulo exterior tinha quasi 97 pés de diâmetro; e compunha-se
    primitivamente de 30 pedras erguidas com altura de 10 a 12 pés,
    collocadas a 1 metro de distancia umas das outras; estas 30 pedras
    sustentavam egual numero de impostas ou pedras collocadas
    horizontalmente que se ligavam nas extremidades e formavam d'este modo
    uma especie de balustrada tosca.

    O segundo circulo ficava a 9 pés do precedente, era formado de 29 pedras
    esguias sem impostas, e por metade da grandeza das do circulo exterior:
    apenas 19 estavam erguidas haverá 38 annos.

    O terceiro circulo, a 13 pés do precedente, apresentava uma illipse
    tendo o pequeno eixo 52 pés, e o maior quasi 55; formado por
    _trilithos_[5] de grande dimensão, o mais elevado, dos quaes tinha 22
    pés de altura.

    Finalmente, o circulo central tambem um pouco elliptico, compunha-se de
    20 _peulvans_ com a altura de quasi 6 pés.

    [Figura 13: Disposição dos renques de pedras em Stone-Henge]

    Na extremidade oriental do oval, dentro do ultimo circulo, havia uma
    pedra medindo 16 pés de comprimento e 4 de largura, posta em plano na
    terra, e que se suppõe serviria de altar.

    As pedras esguias que compunham estes quatro circulos eram quasi todas
    mais largas na base que no vertice; tinham sido cravadas em cavidades
    abertas em rocha de natureza graphite, e havia o cuidado de as
    consolidarem calcando-as com fragmentos de pederneira em volta das
    cavidades.

    Um largo fôsso de 30 pés, collocado entre duas trincheiras, formava o
    quinto recinto circular á roda das pedras do circulo exterior.

    A Dinamarca, a Noruega e a Suecia, conteem certo numero de _cromlecks_,
    quasi todos circulares ou ellipticos, apresentando geralmente uma pedra
    no centro, que se suppõe ter servido de altar.[6]

    Acredita-se que estes monumentos nem sempre foram usados nas ceremonias
    religiosas.[7] Na infancia dos povos, os logares consagrados ao culto
    deviam servir tambem para tribunal de justiça, assim como para ponto de
    reunião dos conselhos patriarchaes ou de notaveis, que tratavam dos
    interesses da nação, das eleições, das inaugurações, etc.

    Em o Norte, os nobres reuniam-se antigamente dentro de recintos
    circulares formados de pedras, para elegerem os seus principes, até a
    promulgação da Bulla de Ouro pelo imperador Carlos IV, em 1356. O
    circulo de pedras, no qual Eric foi proclamado rei da Suecia, existe
    ainda proximo de Upsal; uma grande pedra toma o centro, como em outros
    recintos d'aquelle paiz. Outrotanto se praticava na Irlanda e na
    Escossia.

    Taes são os principaes monumentos de pedra dos tempos prehistoricos.
    Accrescentemos que o vulgo lhes attribue origens fabulosas, como obra de
    um ente colossal chamado _Gargantua_; que a tradicção os tem indicado
    como encerrando preciosos thesouros; abrigos de fadas, de almas do outro
    mundo, e dos espiritos que as acompanham!

    *Recintos formados com terra*

    Estes recintos consistem em um _vallum_ de terra, ás vezes misturada de
    seixos, circumdando extensões mais ou menos consideraveis e cujas formas
    são mui variadas. Poder-se-hia attribuir essa especie de claustros á
    outra época do que a que corresponde aos tempos prehistoricos, se não
    houvesse tumulos encerrados no _vallum_, ou levantados proximo d'elles,
    o que faz suppôr que serão contemporaneos.

    *Architectura dos tempos prehistoricos*

    Pouco sabemos acerca de qual seria a architectura anterior ao dominio
    dos romanos. Presume-se porém que nas primitivas construcções
    empregariam a madeira e o barro.

    As habitações eram circulares, construidas com madeiras e vimes
    enlaçados.

    No interior faziam as divisões com terra; o telhado formavam-n'o de
    ripas de carvalho ligadas com massa de argila e palha cortada, conforme
    os vestigios encontrados na Gallia, na Bretanha, na Germania, em
    Hespanha e Portugal.

    De investigações feitas em França e na Inglaterra, conheceu-se que
    muitas habitações dos celtas tinham antes a forma oval do que redonda, e
    algumas vezes rectangular; mostravam alicerces de pedra secca, e muitas
    eram construidas em nivel inferior ao solo que as circumdavam, quer
    fosse para se resguardarem dos rigores do clima, ou quer para não darem
    ás paredes altura consideravel.

    Estas casas estavam em relação com a simplicidade dos costumes; deviam
    ter um só andar, e apresentavam uma só abertura, que servia de porta e
    janella.

    Em todas a forma era egual, mas as dimensões divergiam. O numero e a
    grandeza das casas deviam corresponder á cathegoria e opulencia dos
    possuidores.

    Os gaulezes abastados tinham sempre junto de si séquito para o qual
    necessitavam de grandes habitações. Escolhiam portanto o terreno para
    ellas nos bosques e perto dos rios, ou em eminencias, afim de servirem
    egualmente de fortalezas para a propria defensa.

    *Utensilios e instrumentos diversos*

    Em época, que não podemos determinar, os nossos antepassados souberam,
    que o estanho combinado com o cobre produzia uma liga mais rija e mais
    pesada que estes dois metaes separados; as analyses que o celebre
    mineralogista Clarke repetidas vezes fez em Inglaterra, e aquellas que
    se fizeram em França, demonstraram que sobre 100 partes quasi todos os
    bronzes antigos contem 12 de estanho e 88 de cobre; porém que esta
    proporção não é constante, e que a quantidade de estanho ou de chumbo
    combinada com o cobre, varia ás vezes desde 4 até 15 por 100.

    Mr. Clarke verificou que os antigos bronzes descobertos na Grecia, no
    Egypto e em algumas partes da Asia,[8] continham a mesma quantidade de
    estanho (88 e 12): sendo esta a proporção necessaria para se obter o
    _maximum_ de densidade resultante d'estes dois metaes.

    Os machados de bronze, que tem sido encontrados em grandissimo numero em
    toda a parte e que se vêem em quasi todas as collecções,[9] apresentam
    entre si differenças notaveis; os typos que damos são os mais
    conhecidos. Estes machados teem um olhal nos lados, e existem de
    diversos tamanhos; as faces lateraes são de feitio de uma folha
    lanceolada sobre o comprido, na qual se vê o vestigio da juncção das
    duas peças do molde em que o instrumento foi vasado.

    Em Portugal descobriu-se um muito singular, não só por suas grandes
    dimensões, mas por ter _dois olhaes_, o que o torna raro no seu genero.

    [Figura 14a]

    [Figura 14b]

    [Figura 14c]

    [Figura 14d]

    Estes machados deviam encavar-se de duas maneiras: n'uns, o cabo entrava
    de espiga n'uma cavidade central _a_, _b_; n'outros, dar-se-lhe-hia a
    forma de palmeta para entrar nos dois lados do instrumento no logar
    preparado _c_; algumas vezes as bordas delgadas e salientes que formavam
    a parte ôcca ficavam reviradas sobre si, por modo a formar uma especie
    de calha _d_, apropriada para conservar a parte encavada.

    *Moldes para machados*

    Os machados de bronze foram sem duvida fundidos em moldes compostos de
    duas peças symetricas, pouco mais ou menos como os que ainda hoje são
    empregados na fundição das colheres de estanho.

    [Figura 15: Molde aberto]

    [Figura 16: Molde fechado]

    É provavel que alguns d'estes moldes fossem de terra ou de pedra; porém
    o maior numero dos que se conservam nos museus são de bronze, fundidos
    egualmente como os machados.

    O primeiro molde para machados celticos que chamou a attenção dos sabios
    foi descoberto na Inglaterra em 1779. Encontraram-se depois em muitas
    partes da França, principalmente na Normandia.

    Estes moldes compôem-se de duas peças ôccas, que se podem juntar e unir
    sem se desconcertar, por meio de uma parte saliente chamada _macho_ que
    está na virola do molde de uma das peças, e se encaixa na fenda
    praticada na virola da outra peça.

    _Espadas de bronze_.–As espadas de bronze compõem-se de lamina e cabo
    (punho). São de folhas direitas, chatas, mas reforçadas no centro da
    lamina, e ás vezes ainda com bojo no espaço comprehendido nos dois
    terços da folha. Cortam dos dois lados e tem ponta aguda.

    A largura de lamina quasi sempre é de pollegada e meia ou duas
    pollegadas na parte mais larga, sendo a sua maior grossura de um quarto
    de pollegada.

    No punho ainda algumas tem os pregos de bronze que haviam servido para
    segurar a guarnição.

    As espadas eram tambem fundidas, e o metal identico ao empregado nos
    machados.

    [Figura 17]

    _Punhaes de bronze_.–Estas armas parecem-se com as espadas, exceptuando
    a lamina que é mais curta. O comprimento de alguns é de 10 a 14
    pollegadas, e a largura da folha de 2 a 21/2 pollegadas na base.

    _Pontas de lança_.–Juntamente com as armas que descrevemos,
    encontram-se de vez em quando pontas de lanças e objectos que foram
    considerados como especies de virolas ou ferragens para guarnecer a
    parte inferior da hastea.

    _Rodeias ou collares (torques)_.–Affirmam alguns historiadores que os
    gaulezes traziam collares ou _torques_, como tambem braceletes e argolas
    nos braços.

    [Figura 18]

    O collar era egualmente usado pelos gregos e romanos, e outros povos;
    talvez não haja outro ornamento de uso mais antigo, nem mais geral.

    Deve-se distinguir entre os _torques_; em primeiro logar, os que são
    formados de muitas peças encadeadas e enfiadas em especie de rosarios de
    perolas grossas de ambar, de azeviche, de vidro colorido, etc., como se
    encontraram dentro de alguns _tumulos_; e depois as cadeias, cujos elos
    são de ouro ou bronze. Em segundo logar, os _torques_, compostos de uma
    unica peça de metal (ouro, bronze, etc.) arqueada de maneira a formar
    circulo do diametro mais ou menos consideravel, e muitas vezes com
    lavores. Em muitos _torques_ as duas extremidades da peça metalica não
    estão soldadas, porém o metal offerece bastante flexibilidade para
    facilitar mettel-as nos punhos, podendo-se unir ou abrir,
    independentemente do fecho; outros _torques_ não apresentam nenhuma
    d'estas formas.

    [Figura 19]

    Appareceram tambem chapas de ouro bastante delgadas com feitio de
    meias-luas, porém cujas pontas estavam arqueadas de modo a formarem
    circulo quasi perfeito. Vêem-se, aos lados e nas extremidades de algumas
    d'estas peças, festões e molduras.

    [Figura 20]

    O pequeno intervallo que separa as duas pontas do crescente não nos faz
    suppôr que este enfeite servisse para se trazer em volta do collo;
    provavelmente ficava suspenso por uma corrente.

    Alguns instrumentos achados por varias vezes nos sepulchros, ou junto
    dos dolmens, em França e mais frequentemente na Irlanda, consistiam em
    hastea de ouro arqueada tendo nas duas extremidades um disco, em alguns
    chato, em outros levemente concavo.

    [Figura 21]

    Ignora-se absolutamente para que uso seriam destinados.

    Finalmente, o objecto seguinte, uma especie de _gargantilha_ formada de
    uma folha de ouro mui delgada, foi achado em França em diversas
    localidades.

    [Figura 22: Collar de ouro descoberto em França]

    As _moedas_ chamadas _celticas_ são provavelmente em parte
    contemporaneas dos ornamentos ou enfeites que descrevemos acima.

    *Objectos de barro*

    São tanto mais difficeis de se distinguirem os _objectos de barro
    celticos_, com excepção dos que se tem encontrado nos _tumulos_, quanto
    em algumas partes estão muitas vezes misturados com outros similhantes
    aos do tempo dos romanos; visto que os mesmos sitios foram habitados
    antes e depois da conquista de Cezar na Peninsula.

    [Figura 23]

    Os objectos de barro descobertos nos _tumulos_, são formados de terra
    preta, mal preparada e com pequenos seixos, o que produziu massa pouco
    solida. Os seus fragmentos são frageis, e não foram cozidos
    sufficientemente; a parte quebrada não mostra arestas vivas, mas sempre
    cheias de cavidades. As superficies d'essas peças, tanto na parte
    interna, como na externa, tem côr quasi egual á do ferro ferrugento;
    porém na parte interna é de negro carregado. Expostas á acção do lume
    tomam exteriormente a côr avermelhada do tijolo; em quanto no interior
    ficam negras, e mais frageis depois d'esta operação.

    [Figura 24: Vasos achados nos tumulos de Inglaterra, Hollanda e outros
    paizes]

    Esses vasos não parece terem sido feitos com auxilio do torno, e não
    apresentam nenhum moldado ou borda; foram unicamente alisados na parte
    exterior com um objecto qualquer, que lhes deu lustro irregularmente, de
    maneira que mostram na superficie altos e baixos, mais ou menos lisos,
    conforme vai indicado na gravura junta.

    Os que foram encontrados nas cidades _lacustras_, mostram inteira
    similhança e caracter no fabrico. A massa não está solidamente ligada,
    por ter algumas partes de pederneira; a côr é preta ou cinzento escuro.
    Esta massa tem pouca consistencia; quando está secca quebra-se
    facilmente, e pode-se desfazer entre os dedos; se a molharmos,
    dar-nos-ha a apparencia de bocados de cortiça velha que estivesse por
    muito tempo exposta á chuva. As suas formas indicam a infancia da arte,
    excepto os fragmentos onde se descobre o uso do torno; os demais
    pertenceram a objectos que parece foram vasados em moldes e polidos á
    mão, ou lavrados com algum instrumento. Reconhece-se na superficie
    exterior de alguns fragmentos o trabalho de uma especie de plaina. Os
    ornamentos compôem-se de filetes imperfeitos, e em pequenos riscos junto
    á borda do orificio.

    [Figura 25: Outros vasos achados nos tumulos]

    Entre os objectos de arte que enumeramos, só vemos os instrumentos cuja
    materia unicamente podia resistir á acção do tempo; os moveis de madeira
    que teriam as habitações gaulezas não conseguiram chegar até os nossos
    dias. Os lagos de certo conservaram-nos muitos objectos, e até pedaços
    de tecidos que recentemente nos esclareceram alguns pontos relativos á
    industria d'esses povos, antes da occupação do territorio da Gallia
    pelos romanos, porém são ainda dados incompletos para se formar cabal
    idéa do estado da industria.

    Terminamos este rapido esboço, apresentando o quadro synoptico das
    antiguidades que servem de assumpto ao primeiro capitulo.

    *MAPPA SYNOPTICO DAS ANTIGUIDADES PREHISTORICAS*

    +———————————–+—————————————+
    | | |
    | *Nomes especificos* | *Caracteres* |
    | | |
    | | |
    | {conicos |Outeirinhos artificiaes de forma, e |
    |_Tumulos_ { |de dimensões differentes, compostos de |
    | {ovaes |pedra e de terra, com _dolmens_ no |
    | |centro. |
    | | |
    | {erguidas |De forma esguia. Firmadas verticalmente|
    | { |na terra como se fossem marcos. |
    |_Pedras_ { | |
    | {assentes |De forma indeterminada. Simplesmente |
    | { |collocadas sobre o solo sem estarem |
    | |cravadas no chão. |
    | | |
    |_Trilithos_ |Duas pedras verticaes sustendo outra |
    | |horisontalmente. |
    | { | |
    | {simples |Uma mesa de pedra collocada sobre |
    | { |pedras postas de cutello, em numero |
    | { |de 3, 4 ou 6. |
    |_Dolmens_ { | |
    | {compostos |Grande mesa de pedra composta de |
    | { |muitos pedaços, sendo, pelo menos, 6 o |
    | { |numero dos pontos de apoio. |
    | | |
    | |_Nota_. Os mais collossaes d'estes |
    | |dolmens formam galeria ficando abertos |
    | |n'uma das extremidades; costumam ser |
    | |designados de _avenidas cobertas_. |
    | | |
    | {simples |Um ou dois renques de pedras em linha |
    | { |recta. |
    |_Alinhamentos_ { | |
    | {compostos |Quatro, cinco e algumas vezes até onze |
    | { |ou doze renques de pedras formando |
    | { |avenidas parallelas. |
    | | |
    |_Pedras postas em grupo_ |Accumulação de pedras, sem ordem, |
    | |mais ou menos consideravel. |
    | | |
    | {simples |Composto d'um só renque de pedras |
    |_Circulos formados { |cravadas ou assentes. |
    |com pedras_ {compostos | |
    | { |Formados de muitos renques de pedras. |
    | | |
    |_Recintos cercados de terra, ou de |De diversas formas. |
    |pedras_. | |
    | | |
    | H { | |
    | A { Vestigios de casas |Logar de cabanas redondas, ovaes, |
    |L B { |algumas vezes rectangulares, indicadas |
    |O I { |por alicerces de pedra tosca sem |
    |G D T { |argamassa ou tão sómente pelo |
    |A E A { |abaixamento do solo. |
    |R Ç { | |
    |E Õ { Subterraneas |Galerias e casas cortadas na rocha. |
    |S E { |Excavações diversas. |
    | S { | |
    | | |
    | { { Punhaes e facas |Um pedaço de silex cortado de maneira |
    | { { |a apresentar uma folha aguda, com dois |
    | { { |gumes, e armado d'um cabo. |
    | { { |Folha de silex sem cabo. |
    | { { | |
    | { { { para frechas|Pequenos dardos, dos quaes o |
    | { { { |comprimento varia desde meia pollegada |
    | { E { _Pontas_ { |até duas |
    | { { { | |
    | I { M { {para rojões |Dardos quasi similhantes aos |
    | N { { { |precedentes, porem mais sobre o |
    | S { { { |comprido. |
    | T { { | |
    | R { P { Martellos |Peça quer redonda dos dois lados, quer |
    | U { E { |d'um lado sómente. |
    | M { D { | |
    | E { R { Pedras para fundas |Redondas ou ovoides, de 2 a 3 polegadas|
    | N { A { |de diametro. |
    | T { { | |
    | O { { Machados |Convexos para o centro, cortados em |
    | S { { |aresta viva nos bordos, acabando de um |
    | { { |lado em ponta romba, e de outro em |
    | { { |gume, o qual descreve uma porção de |
    | { { |ellipse. |
    | D { | |
    | I { { Machados |De formas diversas similhando-se mais |
    | V { { |ou menos a uma cunha. |
    | E { { | |
    | R { E { Fôrmas para machados |São duas peças symetricas, que depois |
    | S { M { |de reunidas a parte ôcca mostra o |
    | O { { |feitio do machado. |
    | S { { | |
    | { B { Espadas |Folhas direitas, chatas, de dois gumes,|
    | { R { |acabando em ponta. |
    | { O { | |
    | { N { Punhaes |Quasi similhante ás espadas na forma, |
    | { Z { |porém com menor comprimento. |
    | { E { | |
    | { { Cabeças de rojões |De forma lanceolada tendo um |
    | { { |engrossamento no meio. |
    | | |
    | { compostas de peças |Correntes metallicas.–Perolas de pedra|
    | { |de côr-alambre, formando rosario. |
    |_Torques_{ | |
    | { de uma só peça |Argolas metallicas mais ou menos |
    | { |grossas muitas vezes com |
    | { |lavrados.–Chapas do feitio de meia |
    | { |lua. |
    | | |
    |Ornamentos diversos |Em bronze e em ouro, com lavrados. |
    | | |
    |Louça de barro |Muito fragil, mal cozida, composta de |
    | |terra preta mal preparada e cheia de |
    | |pequeninos seixos. |
    | | |
    |Moedas |Em ouro, em prata e em bronze. |
    +———————————–+—————————————+

    CAPITULO II

    *Era gallo-romana*

    Entreapparece-nos um dos mais amplos horisontes da historia dos povos
    occidentaes na conquista do imperador romano Cesar. Nos _Commentarios_
    d'este grande general temos perfeita idéa do estado da Gallia na época
    da conquista; conhecem-se tanto os grandes factos que consumou, quanto
    se inferem as consequencias que d'elles advieram á civilisação.

    Cesar encontrou a Gallia dividida em tres nações principaes: os Belgas,
    os Celtas e os Aquitanios.

    O imperador Augusto, que pretendeu organisar o governo regular nos
    paizes conquistados, formou tres novas provincias d'essas tres regiões.

    Segundo esta divisão, foram desannexados e encorporados na Aquitania 14
    povos da Celtica; além de dois que passaram do Norte para a Belgica.
    Assim ficou modificado o territorio dos primitivos povos d'esta parte da
    Europa.

    *Vias de communicação*

    Começaremos a nossa revista dos monumentos da grande época romana,
    descrevendo as vias publicas ou as grandes estradas; tanto mais que
    foram as primeiras obras que o povo rei executou e de que nos deixou
    vestigios.

    As cidades e as estancias eram accessiveis por meio de estradas solidas,
    ou calçadas. Nos intervallos que separavam estes estabelecimentos uns
    dos outros, é que principalmente se encontravam vestigios das vias
    romanas. Seguiam em geral linhas rectas, excepto quando obstaculos
    naturaes, como as montanhas, os barrancos profundos, as lagôas, se
    oppunham a isso, e prolongavam-se tanto quanto possivel nas planicies,
    afim de evitar os terrenos pantanosos.

    Além das estradas principaes, que communicavam uma cidade com outra,
    havia os caminhos vicinaes, _viae vicinales_, que conduziam ás aldeias,
    e estabeleciam relações entre estas e as cidades. Não eram alinhados
    como as primeiras, nem feitos com egual esmero.

    Nas estradas mais bem executadas, a primeira camada, ou a mais funda,
    compunha-se de pedras collocadas em raso, ás vezes assentes com
    argamassa, mas em geral postas simplesmente umas sobre as outras: era o
    que chamavam _statumen_. Em algumas vias, as pedras do _statumen_ eram
    postas de cutello e com inclinação, como explicaremos quando fallarmos
    das paredes construidas em espinha de peixe.

    A largura ordinaria das vias romanas era de 15 a 20 pés. As bordas das
    partes alteadas não se conservam em muitas localidades; arruinaram-se
    por modo que não apresentam hoje sufficiente largura para um carro poder
    passar; e em certos pontos aproximam-se mais de um fôsso, que de uma
    estrada.

    Os caminhos romanos atravessavam os rios sobre pontes, e vaus calçados.
    Em grande numero de localidades, encontram-se os alicerces das pontes,
    ou dos vaus, debaixo da agua, seguindo a directriz das antigas vias. Em
    certos casos o trilho era estabelecido sobre travessas de madeira.

    _Columnas itinerarias_.–Os caminhos romanos eram divididos por marcos
    situados em espaços regulares, e com inscripções que indicavam o numero
    de leguas ou de milhas, comprehendido entre as diversas povoações.

    As capitaes serviam de ponto central para marcar as distancias em todo o
    territorio.

    _Os marcos milliares_ tinham 5 a 6 pés de altura; eram de fórma
    cylindrica; chamavam-se milliares, _milliaria_, ou simplesmente
    _lapidas_.

    D'aqui provem as phrases tão frequentes nos auctores antigos, _ad
    primum_, _secundum_, _tertium lapidem_, a primeira, a segunda e a
    terceira pedra, ou só _ad primum_, _secundum_, _tertium_, etc. ficando
    subentendido _lapidem_ ou _milliarium_.

    A segunda camada, chamada _ruderatio_, era formada de pedras britadas de
    dimensão menor que as anteriores.

    A terceira camada, _nucleus_, compunha-se, ora de cal misturada com
    fragmentos de telha pisados, ora de areia misturada com argila.

    [Figura 26: Columna milliar que existe em França]

    Seixos inteiros, apertados uns contra os outros, ou postos simplesmente
    em leito de areia grossa, _glarea_, formavam a quarta e ultima camada,
    chamada _summa crusta_.

    Era excepcionalmente nas cidades, aldeias ou nos paizes pantanosos, que
    formavam a _summa crusta_ com calçada de pedras cubicas ou polygonaes
    irregulares.

    Em geral, serviam-se para estes trabalhos dos materiaes que encontravam
    na localidade, ou a pequena distancia; sómente os mandavam buscar mais
    longe quando eram de má qualidade no terreno das obras.

    Em muitas partes, as vias antigas foram alteadas do solo, e um _agger_
    servia de base á calçada. Estes _caminhos alteados_ conservam ainda o
    seu nivel superior em espaços muito extensos, e são faceis de
    reconhecer.

    As estradas antigas eram tambem cavadas, como se as preparassem para o
    leito de um rio. As excavações em algumas partes podiam ser consequencia
    do uso prolongado de viandantes e vechiculos; porém, em outras, foi
    visivelmente praticado com o fim de tornar mais suaves as subidas muito
    ingremes.

    [Figura 27: Torre de Pirelonge]

    O uso das columnas milliares data do anno 183 antes da era christã. Foi
    determinado em lei proposta por C.S. Graccho, e depois ampliada ás
    provincias do imperio.

    As inscripções collocadas n'estas columnas foram primitivamente
    laconicas; indicavam apenas o numero de milhas comprehendidas de uma a
    outra localidade. Augusto foi o primeiro que mandou gravar os seus nomes
    e qualificações nos marcos levantados por sua ordem, e os successores
    seguiram-lhe o exemplo.

    _Pyramides_.–As vias romanas não eram sómente guarnecidas pelas
    columnas itinerarias; aos seus lados viam-se tambem torres massiças, ou
    pyramides, ora circulares, ora quadradas.[10]

    Consideravam-se essas pyramides como tumulos; mas a maior parte parecia
    terem sido levantadas para ornar os caminhos, ou antes dedicadas a
    Mercurio, como deus protector das estradas, das artes, e do commercio.
    Em algumas d'ellas abriam especies de nichos que deviam receber a
    estatua de Deus.

    Formavam-se taes construcções de bases quadradas de alvenaria, que
    sustentavam uma serie de grandes pedras de cantaria; o remate
    apresentava a configuração conica, tendo a superficie coberta de
    entalhos sobrepostos, representando folhas de arvores em camadas. A
    torre de Pirelonge, em França, de 74 pés de altura, é um especimen
    d'este genero.

    _Mansão_.–Encontravam-se nas estradas mansões, ou pousadas, mais
    especialmente destinadas para o serviço dos correios, e para os que
    viajavam com auctorisação do imperador. Eram administradas por uns
    funccionarios chamados _mancipes_, cathegoria pouco mais ou menos egual
    á dos nossos directores do correio. Os logares das mudas de menor
    importancia e situadas com pequenos intervallos, chamavam-se _mutações_.
    Denominavam-se emfim _diversoria_ as casas construidas ao longo das
    estradas, quer pertencessem a proprietarios que hospedavam ahi os seus
    amigos, quer recebessem viajantes como os nossos hospedeiros.

    As principaes estradas romanas tinham a classificação de _publicas_ ou
    _militares_, _consulares_ ou _pretorianas_, e os caminhos menos
    frequentados designavam-se com os nomes de _particulares_, _agrarios_ ou
    _vicinaes_.

    *Architectura*

    Os romanos imitavam na sua architectura os Etruscos e os Gregos, porém
    foram menos cuidadosos na pureza das formas, do que no aspecto
    grandioso; e preferiram á formosura monumental o effeito da apparencia e
    da utilidade; portanto, procuravam sempre adpotar um systema que lhes
    desse logar a utilisar nas obras publicas o trabalho dos soldados, e
    dos escravos, dirigidos sómente por limitado numero de architectos ou
    engenheiros. Comprehendiam que era poderoso meio de dominação dotar o
    paiz vencido com os monumentos que não possuissem, introduzir em toda a
    parte a civilisação, transmittindo aos subordinados as vantagens, as
    instituições e os estabelecimentos uteis, dos quaes estavam até então
    privados.

    [Figura 28: Pequeno aparelho, e de espinha como está construido o
    monumento romano de Theséo]

    Em logar, pois, de empregar, como os Gregos, materiaes de extraordinaria
    dimensão, e por consequencia difficies de se ajustarem, preferiam, salvo
    em casos excepcionaes, pôr em obra materiaes de pequena dimensão,
    alvenaria, tijolos reunidos entre si por abundante argamassa.

    Um grande facto architectonico, como foi a adopção da abobada cylindrica
    composta de peças em forma de cunhas, fez com que pudessem afastar-se do
    systema da edificação grega, no qual dominavam as architraves e os
    apoios verticaes. Com a abobada e as arcadas de volta perfeita, de que
    os romanos tiravam tão vantajoso resultado, effectuaram-se notaveis
    construcções, que não se deveram nunca ao genio dos gregos.

    _Pequeno apparelho_.–As paredes de pequeno apparelho, o modo de
    construir mais habitualmente empregado, tem as faces formadas de pedras
    symetricas, quasi quadradas, e cuja face não tem mais de 3 a 4
    pollegadas e raras vezes de 5 a 6. O centro da parede mostra um massiço
    de alvenaria irregular feito com pedra miuda imbebido de cimento.

    Notam-se em varias construcções, de pequeno apparelho, zonas horisontaes
    e continuas de grandes tijolos, destinados a sustentar o nivel das
    pedras pequenas do refôrço da alvenaria. Estas zonas compôem-se
    geralmente de dois ou tres, e tambem de cinco, seis ou sete fileiras de
    tijolos separados por camadas de cimento, cuja espessura é quasi egual á
    dos tijolos.

    Os romanos dispozeram tambem as pedras com o feitio de folhas de fetos,
    ou em espinhas, como se vê na gravura da pagina anterior.

    A argamassa era sempre applicada com grande espessura entre as pedras e
    nenhuma das quaes estava em contacto immediato, mas de certo modo
    imbebidas no cimento.

    As dimensões dos tijolos variavam muito para poder indicar-se
    absolutamente a mais usual; comtudo era entre 14 a 15 pollegadas de
    comprimento por 8 a 10 de largura; mas havia maiores, e até alguns mui
    pequenos.

    _Apparelho reticular_.–Os architectos romanos empregavam egualmente a
    _obra articulada_, ou alvenaria em forma de malhas, differente do
    pequeno apparelho ordinario, por que as pedras do revestimento eram
    cortadas com esmero, de tamanhos eguaes, e collocadas de modo que as
    juntas apresentavam linhas diagonaes, simelhando uma rede. Este genero
    de reforço de alvenaria empregavam-no geralmente como ornamento, pois
    não se encontra applicado exclusivamente, mas quasi sempre combinado e
    intercalado com o pequeno apparelho.

    [Figura 29]

    As paredes do grande apparelho encontram-se nos mais importantes e
    grandiosos edificios, como os templos, os arcos de triumpho, os
    theatros, etc.

    _Argamassa e cimento_.–As argamassas dos romanos compunham-se de cal
    viva e de areia, e frequentemente de tijolo pizado, em proporções
    variaveis, e que seria difficil determinar. A presença do tijolo pisado
    distingue-se de quasi todas as que depois foram empregadas. Todavia
    encontram-se tambem argamassas romanas que não contem nenhuma parcella
    de tijolo, assim como não apresenta nenhum caracter particular.

    _Ordens_.–chama-se _Ordem_ a combinação de diversas partes salientes
    dispostas, com proporções fixas, para compôr um conjuncto regular e
    harmonico de ornamentação das fachadas dos edificios importantes.

    Divide-se uma ordem de architectura em tres partes, ou membros, que são
    pedestal–columna–e um entablamento. Cada membro divide-se em tres
    partes d'este modo:

    { Base.
    Primeiro membro ou pedestal { Soco.
    { Cornija.

    { Base.
    Segundo membro ou columna { Fuste.
    { Capitel.

    { Architrave.
    Terceiro membro ou entablamento { Friso.
    { Cornija.

    Os romanos empregavam cinco ordens:

    A Toscana.
    A Dorica.
    A Jonica.
    A Corinthia.
    A Composita.

    A Dorica, a Jonica e a Corinthia, eram de origem grega.

    A Toscana e a Composita nasceram na Italia.

    É por isso que se designam algumas vezes as tres primeiras sob a
    denominação _ordens gregas_, e as duas outras sob a de _ordem latina_.

    Nas ordens Toscana, Dorica, Jonica e Corinthia, a columna tem proporções
    differentes; as da Corinthia e Composita são eguaes.

    Eis o quadro d'estas proporções conforme o architecto Vignola, que é o
    auctor mais seguido pela simplicidade das subdivisões:

    A altura da { Toscana, de 7 vezes. } Do diametro
    columna vem a { Dorica, de 8 idem. } inferior, isto é
    ser para a { Jonica, de 9 idem. } a grossura tomada
    ordem: { Corinthia, de 10 idem. } no fuste junto da
    { Composita, de 10 idem. } base.

    Portanto, as quatro primeiras ordens differem nas proporções; a da
    quinta ordem são eguaes ás da quarta. Os pedestaes e os entablamentos
    differem tambem nas quatro primeiras ordens.

    Em geral, o pedestal tem o _terço_ da altura da columna, e o
    entablamento a _quarta_ parte, conforme o auctor citado.

    O modulo é medida convencional que serve de escala para desenhar as
    ordens; é sempre a metade do diametro inferior do fuste da columna, o
    qual se divide em 12 partes para as tres primeiras ordens, e em 18
    partes para as duas ultimas.

    { A menos elevada e a mais simples das cinco
    Toscana { ordens.
    { Cornija sem modilhões, nem denticulos.

    { Modilhões, denticulos ou mutulos na cornija,
    { triglyphos no friso, gottas na architrave.
    Dorica { Capitel da mesma forma que o da Toscana, porém
    { um pouco mais ornado, caneluras ou estrias
    { no fuste.

    { Capitel com volutas, cornija ornada de
    Jonica { denticulos.
    { Architrave dividida em três platebandas ou faixas.

    [Figura 30: Fachada d'um templo Dorico]

    [Figura 31: Dorico]

    [Figura 32: Jonico]

    [Figura 33: Corinthio]

    { Capitel ornado de dois renques de folhas de
    { acantho e dezeseis volutas.–Dois renques de
    Corinthia { denticulos e um de modilhões na cornija.–Architrave
    { dividida em tres platebandas ou faixas
    { por baguetas ornadas de molduras.

    { Capitel imitando o das Ordens Corinthia e
    Composita { Jonica.–Cornija com denticulos.–Duas platebandas
    { ou faixas na architrave.

    [Figura 34: Portico da Ordem Toscana]

    As columnas não são sempre applicadas para decoração dos edificios;
    substituem-se ás vezes por pilastras, que, sem ter o aspecto gracioso
    das columnas, produzem não obstante um effeito agradavel á vista. As
    _pilastras_ tem em geral pouca saliencia, não excedendo a mais da metade
    da largura; e não se lhes diminue o diametro da parte superior do fuste,
    como acontece ás columnas.

    Eis a disposição de um _portico_ da ordem Toscana: quando se collocam
    muitas ordens de columnas ou pilastras em um edificio, é preciso que as
    Ordens mais delicadas fiquem sobrepostas ás mais solidas: portanto, não
    se collocam nunca as columnas Toscanas sobre as columnas Jonicas, e se o
    architecto empregar a Jonica, ou a Corinthia, seguirá a regra de
    sobrepôr a segunda á primeira.

    Não julguemos que a architectura antiga está representada pelas _cinco
    ordens_ classificadas e regularisadas pelos insignes architectos
    italianos do _Renascimento das artes_. Ficaremos muito surprehendidos
    quando, examinando os restos da architectura romana existentes nas
    antigas cidades, particularmente na Italia, e n'este paiz em especial
    Roma, virmos que não differem, quasi em parte alguma, na _rigorosa
    similhança_, as cinco celebres Ordens desenhadas e medidas por Vignola,
    Palladio, Serlio, Scamozzi e outros architectos illustres. Pelo
    contrario, os typos principaes da architectura antiga apresentam
    infinita variedade, que augmenta nos edificios cuja data se aproxima dos
    ultimos tempos do imperio, a tal ponto que vem a ser realmente mui
    difficil determinar a Ordem a que pertencem taes ou taes entablamentos,
    capiteis, bases, columnas, etc.

    Os capiteis, principalmente, apresentam diversidade de formas e
    ornamentações, que será baldada a classificação rigorosa; mostram
    todavia na composição riqueza e delicadeza de cinzel, sobejamente
    notaveis; observando-se pelo conhecimento dos effeitos pittorescos,
    produzidos no claro-escuro, o esmero do trabalho. As partes em relevo
    são conservadas com acerto e habilmente executadas.

    Os architectos modernos, creando typos unicos sob a denominação de cada
    uma das Ordens; desejando subordinar tudo a esses typos, privaram-se de
    produzir combinações graciosas, em quanto os artistas do estylo romano,
    engenhosos e fecundos, tiravam partido da liberdade de composição,
    enriquecendo a architectura em que reproduziam as formas, não punham
    peias á imaginação, e evitavam executar obras monotonas, pobres e sem
    attractivos, como succede em muitas presentemente levantadas.

    Os edificios publicos e muitas casas particulares eram durante a
    dominação romana, revestidas de marmore, ou de cimento e cal; e algumas
    tinham mosaicos, e aqueciam-n'as por meio dos hypocaustos.

    Os _mosaicos_[11] antigos, dos quaes se tem encontrado repetidamente
    fragmentos em localidades hoje inhabitaveis, compõem-se de pequeninas
    peças cubicas imbebidas em especie de massa e assentes em cimento
    misturado com tijolo moido.

    [Figura 35]

    Estas pequenas peças de diversas cores eram combinadas de maneira que
    formavam differentes desenhos. Alguns mosaicos representavam combates de
    animaes e outras scenas.

    A mais importante descoberta feita em Portugal foi a que fizemos perto
    de Leiria, em 1874, de um mosaico de cinco côres e com difficeis
    combinações de linhas geometricas, pertencente a uma _villa rustica
    romana_.

    _Hypocaustos_.–Os hypocaustos, estabelecidos no pavimento terreo das
    habitações romanas, eram empregados como os caloriferos modernos.

    Para formarmos idéa exacta do hypocausto, é preciso figurarmos um
    sobrado levantado quasi a 2 pés acima do solo, e sustentado sobre
    pequenos pilares A de egual altura, distantes uns dos outros 1 pé, por
    meio dos quaes o calor circulava e aquecia por egual o piso que cobria
    esta especie de subterraneo. Os pilares dos hypocaustos eram geralmente
    quadrados, compostos de tijolos de 7, e 8 ou 10 pollegadas de
    comprimento, uns sobre os outros, com o intervallo de uma camada de
    argamassa.

    [Figura 36]

    Os pilares do hypocausto recebiam grandes tijolos de 18 a 20 pollegadas
    em quadrado B, formando a base do pavimento das habitações.

    Em muitas localidades, os tijolos eram sobrepostos de modo que
    apresentavam o cimo menos largo que a base.

    O calorico não ficava concentrado no subterraneo onde estava o
    hypocausto: circulava nos pontos mais elevados, e entrava egualmente em
    todas as partes da atmosphera das salas, passando dor tubos quadrados de
    barro cozido 4 e 5, introduzidos na grossura da parede, 3 e 3, gravura
    de pag. 46 [fig. 37], um dos quaes, em posição vertical, penetrava no
    hypocausto, emquanto outros, collocados horisontalmente, circumdavam os
    aposentos.

    O lume que aquecia o hypocausto era acêso n'um forno posto em pequenos
    pateos ou vestibulos proximos do hypocausto.

    _Embutidos e ornamentos_.–O marmore foi frequentemente empregado para a
    decoração das paredes.

    Em geral, os architectos romanos souberam tirar grande partido dos
    materiaes que fornecia o paiz em que se faziam as obras.

    Não era raro vêr entrar em combinação os materiaes indigenas com os
    exoticos mais preciosos, taes como o porphyro, os marmores cipolino, os
    ophitos, etc., etc.

    O uso de pintar as paredes era tão geral que as simples construcções em
    taipa e os tectos revestidos de barro tambem recebiam essa ornamentação.
    A pintura era applicada sobre delgado guarnecimento de cal.

    Os methodos usados pelos romanos para a pintura das paredes são-nos
    imperfeitamente conhecidos. Comtudo, um d'elles consistia em applicar
    com a broxa cera colorida e derretida, estendendo-se ainda quente nas
    paredes.

    [Figura 37: Tubos verticaes (4 e 5) para circular o calor, mettidos nas
    paredes]

    A cêra não era empregada só, mas misturavam-n'a com azeite para a tornar
    mais liquida: todavia, a maior parte d'essas pinturas parece ter sido
    assente a frio, e a sua adherencia seria produzida, talvez, por uma
    especie de colla que lhe ajuntavam.

    As paredes e os tectos eram tambem em algumas habitações revestidos de
    mosaicos de vidro preto, azul, branco, verde escuro, etc., decorações
    que se encontravam em muitas salas de banhos.

    Plinio diz-nos que empregavam o vidro nos mosaicos das abobadas e das
    paredes, advertindo que este uso era recente, comparativamente com o dos
    mosaicos de pedra ou barro cozido. Achâmos na _villa rustica romana_,
    descoberta por nós em Leiria, duas casas com mosaicos d'este ultimo
    modo, e outra de argila cozida.

    _Telhas e telhados_.–Os telhados das casas romanas eram formados de
    telhas chatas de grande dimensão, mais compridas que largas com um
    resalto sobre os dois lados: assim como havia telhas curvas similhantes
    ás dos telhados modernos.[12] As primeiras adaptavam-se umas ás outras
    pelas extremidades que não tinham resalto; as segundas ligavam-se entre
    si no sentido da inclinação do telhado, ficando em fiadas parallelas as
    telhas chatas e para cobrir as juntas e evitar a infiltração das aguas
    da chuva.

    Os fragmentos das telhas com resalto tem resistido quatorze seculos á
    acção destruidora dos elementos, e das pancadas do arado; encontram-se
    espalhados e enterrados em grande quantidade em quasi todos os logares
    onde existiram construcções romanas.

    Em fim, estes restos são o melhor indicio para o reconhecimento das
    regiões antigamente occupadas pelos romanos.

    *Pontes*

    As pontes, obra de tamanha utilidade, tornam-se mui notaveis pelas suas
    ousadas dimensões. Existem presentemente poucos vestigios d'ellas: o
    maior numero ficou destruido, pela força das correntes, ou reconstruido
    em diversas épocas e alterado na primitiva construcção. Podemos apenas
    citar poucas das compostas na época romana.

    Nas pontes, como em outros monumentos gallo-romanos e luso-romanos,
    empregou-se o grande apparelho, e muitas vezes de alvenaria com
    argamassa (_empleton_) revestido de pequenas pedras symetricas (_opus
    incertum_).

    [Figura 38: A ponte de S. Chamas, e as suas duas portas monumentaes]

    Quando usavam os materiaes de grande dimensão, as pedras ficavam prezas
    umas ás outras com os cancros de ferro ou de bronze, e algumas vezes com
    malhetes de madeira de oliveira, previamente secca no forno.

    Nas pontes construidas com pequeno apparelho a boa qualidade da
    argamassa dava-lhes tal solidez, que os pegões que sustentavam os arcos
    não soffreram depois nenhuma alteração.

    Os pegões apresentavam algumas vezes, do lado da corrente, uma parte
    saliente triangular, para cortar assim a força da agua; e se o rio tinha
    demasiada extensão, acontecia então dividil-o em muitos braços, afim de
    construir a ponte em secções. D'este modo corrigia-se a rapidez dos rios
    pela divisão das aguas, e tornava-se menos difficil a construcção das
    pontes. Na idade media foram imitadas.

    As pontes construidas com mais esmero e regularidade eram ás vezes
    verdadeiros monumentos, que serviam tambem para aformoseamento. Algumas
    tinham portas monumentaes ou arcos de triumpho.

    _Pontes de madeira_.–Tratámos das pontes de pedra, porque só estas
    poderiam subsistir até os nossos dias; mas, durante o dominio dos
    romanos, tinham elles egualmente grande numero de pontes construidas de
    madeira.

    Passava-se tambem os rios servindo-se de barcos de passagem, com
    jangadas sustentadas em odres ou tonneis vazios, como é usado ainda hoje
    em casos urgentes. Havia tambem pontes firmadas em barcos, como se vê
    figurado na columna de Trajano em Roma.

    _Muralhas e caes_.–Os caes ou as grandes muralhas de supporte,
    construidas nas margens dos rios, vinham ligar-se ás pontes, quando
    estas existiam nas cidades.

    *Aqueductos*

    Os aqueductos, pela sua consideravel extensão e a importancia das ruinas
    que se conhecem em differentes pontos, offerecem interesse especial.

    Os romanos, como todas as nações civilisadas, gastavam grande
    quantidade de agua para os usos domesticos; sendo muito escrupulosos na
    boa qualidade da agua, embora a fossem buscar a grandes distancias para
    os centros da povoação, empregando para esse fim canaes ou aqueductos.

    [Figura 39: Restauração de um aqueduto em siphão]

    Os aqueductos antigos que ainda existem, como os que possue a Italia, e
    os vêmos em outras partes, apresentam os canos de alvenaria feitos com
    mais ou menos solidez, e mais ou menos cuidadosamente betumados.
    Serviam-se geralmente das pedras de pequenas dimensões, embebidas na
    argamassa. Os canos, sendo proporcionados ao volume de agua que deviam
    levar, eram formados com abobada em volta perfeita, se ás vezes cobertos
    com grandes lageas assentes e sobrepostas sem cimento.

    Para se obter o nivel das encostas que se encontravam na juncção dos
    encanamentos, faziam-n'os passar então sobre arcos mais ou menos
    elevados, que reuniam os dois lados do valle; outras vezes
    sobrepunham-se dois ou tres renques de arcos, com receio de que a
    demasiada altura dos pilares lhes diminuisse a solidez.

    Quando o valle era muito profundo, para por este meio poder firmar-se o
    encanamento do aqueducto em nivel conveniente, conduziam a agua em tubos
    de chumbo que subiam até o cume da collina opposta, onde a agua pudesse
    seguir a sua corrente natural, conforme Vitruvio descreve mui claramente
    no seu 8.^o livro de architectura.

    [Figura 40: Canal subterraneo do aqueducto]

    [Figura 41: Canal de aqueducto sustentado sobre arcadas]

    [Figura 42: Vista geral da ponte do Gard]

    Para evitar trabalhos sempre difficies e dispendiosos, faziam seguir aos
    encanamentos subterrâneos, rodeios, ou sinuosidades, e por esta maneira
    as aguas podiam transpôr grandes espaços sem encontrarem encostas, e sem
    ficarem impedidas pelos obstáculos das montanhas.

    Os aqueductos eram todavia mais communs soterrados, e só apparentes nos
    valles, onde necessariamente os canos passavam sobre paredões ou
    arcarias.

    Os encanamentos que distribuiam as aguas nas fontes para os banhos e
    para outros estabelecimentos publicos e particulares das cidades
    gallo-romanas, eram feitos de chumbo ou barro. Saiam de um reservatório
    commum, ou castello de agua, _castellum_, como se vê um em Évora, do
    tempo de Sertorio.

    A primeira gravura da pag. 51 [fig. 40], mostra o encanamento do
    aqueducto de Fréjo, um dos mais extensos que subsistem, tal qual se
    apresenta á vista quando se mantém subterraneo, ou collocado nas
    encostas das collinas, fig. 41. Este exemplo explica todo o systema
    empregado pelos engenheiros romanos.

    Os aqueductos seguem a construcção egual das obras de arte executadas
    nos caminhos de ferro, transpôem como ellas os valles sobre viaductos, e
    atravessam as montanhas por meio de vallas ou tUneis.

    Pontes e aqueductos serviam para transpôr os valles, e alguns tinham 90
    arcos. A ponte do Gard, em França, era formada de três renques de
    arcadas sobrepostas, servia para o transito e o ultimo conduzia a agua á
    cidade, correndo na extensão de 41:000 metros. Indica a gravura da
    pagina anterior a sua construcção.

    O numero dos aqueductos era extraordinario; não só se encontravam nas
    proximidades das grandes povoações, mas tambem das pequenas, e até junto
    das casas de campo de limitada apparencia.

    *Cloacas*

    As _cloacas_ constituiam outra especie de aqueductos subterraneos para
    receber as aguas inuteis, ou para as aguas da chuva e immundicies.

    Em Roma, estendiam-n'as por toda a cidade, e subdividiam-n'as em muitos
    ramaes que vinham desaguar no Tibre. O principal cano de despejo, com o
    qual os outros communicavam era chamado _cloaca maxima_. Tinha abobadas
    elevadas construidas com grande solidez, por debaixo das quaes se
    passava em barcos[13].

    *Praças publicas*

    _O forum_ era geralmente uma praça onde se reuniam as assembléas do
    povo, onde se administrava a justiça e onde se tratavam os negocios
    publicos. Estava em certas partes rodeado de _porticos_, edificios e
    lojas.

    Nas cidades de importancia secundaria, onde os porticos não eram
    repetidos como em Roma, achavam-se principalmente perto dos monumentos
    publicos, taes como os theatros, as thermas, os palacios, os templos,
    etc. etc.; collocavam muitas vezes os porticos do _forum_, por detraz da
    scena dos theatros, afim de que, conforme diz Vitruvio, quando
    inopinadamente chovesse durante o espectaculo, o povo pudesse abrigar-se
    ali.

    A forma das praças, ou _fora_, era a do quadrilongo. Vitruvio affirma
    que devia ter um terço em comprimento, a mais de um lado que de outro.

    *Basilicas*

    A palavra _basilica_, significa _casa real_: designava em Roma um
    edificio sumptuoso dentro do qual os magistrados faziam justiça, por
    isso a distinguiam do _forum_, onde as sessões eram celebradas ao ar
    livre. As basilicas tinham tambem a fórma de um quadrilongo.

    Parte dos porticos, interiormente decorados, ficava occupada pelos
    commerciantes: portanto, estes edificios eram ao mesmo tempo destinados
    aos negocios forenses, e uma especie de praça de commercio.

    Em quanto á disposição das basilicas as primitivas egrejas christãs
    transmittiram-nos a imitação, e conservaram o nome. As basilicas
    consistiam pois em vasto recinto, tres vezes mais comprido que largo,
    dividido em renques de columnas formando muitas naves. Não ha a certeza
    de que as basilicas fossem rodeadas de paredes por todos os lados;
    julga-se que algumas eram abertas, pelo menos de um lado, para dar mais
    facil accesso ao povo, e para que as galerias communicassem melhor com a
    praça publica.

    Não se pode duvidar de que não tivessem existido basilicas nas cidades
    gallo-romanas; porém seria difficil indicar o sitio que occupariam,
    porque desappareceram completamente os vestigios.

    *Arcos de triumpho e portas monumentaes*

    Os _arcos de triumpho_, porticos levantados á entrada das cidades, no
    logar da passagem publica, perto dos _forums_, diante dos templos, e na
    cabeça das pontes, etc. etc.; afim de indicar a memoria de uma victoria,
    de um grande serviço prestado ao imperio, e algumas vezes sem outro
    intuito mais que o de aformosear as cidades onde se erigiam.

    [Figura 43: Arco de triumpho]

    Dá-se tambem esta denominação ás portas das cidades antigas, que
    apresentavam uma disposição quasi similhante á dos arcos de triumpho.
    Estes, porém, eram monumentos isolados, formando um só corpo, e não se
    ligavam ás construções das trincheiras ou muralhas.

    Era o contrario do que succedia nas _portas da cidade_, as quaes não
    obstante patentearem por vezes nas fachadas grande magnificencia,
    todavia as extremidades lateraes ficavam encravadas nas muralhas dos
    recintos fortificados, formando-lhes assim o accessorio ou a
    ornamentação.

    [Figura 44: Portas de Santo André em Autun]

    Entre as portas, a disposição mais seguida era a que a gravura
    apresenta, copiada da de Santo André de _Autun_, em França.

    *Templos*

    Duas formas eram consagradas para estes edificios religiosos, a
    quadrilonga e a circular. Seguiam mais geralmente a primeira. Os
    _templos_ receberam differentes denominações, conforme a disposição das
    columnas que os decoravam; distinguindo-se pela seguinte maneira:

    Os templos com pilastras–Os _prostylos_, fig. 45.–Os _amphiprostylos_,
    fig. 46.–Os_ peripteros_, fig. 47.–O _monoptero_, fig. 48.–Os
    _pseudo-peripterios_, fig. 49.–Os _hypetheros_, fig. 50.–Os
    _monopteros_.

    [Figura 47: Periptero quadrado]

    [Figura 48: Periptero redondo]

    [Figura 45: Prostylos]

    [Figura 49: Pseudo-Periptero]

    [Figura 50: Hypethreos]

    [Figura 46: Amphiprostylos]

    Os primeiros não tinham senão pilastras nos cunhaes da frente, e só uma
    columna de cada lado da porta.

    Os templos _prostylos_ apresentavam quatro columnas na face exterior, e
    não tinham nenhuma aos lados, nem na parte posterior.

    Nos templos _peripteros_, as columnas rodeavam completamente o edificio;
    sendo em o numero de seis nas fachadas anterior e posterior.

    Nos templos _pseudo-peripteros_ differençavam-se dos antecedentes em que
    as columnas estavam embebidas nas paredes lateraes e na parede do fundo,
    em logar de ficarem separadas.

    Duplo renque de columnas rodeava os templos dipteros, oito das quaes
    ornavam a fachada.

    Finalmente, o templo _monoptero_ apresentava simplesmente a cupula
    sustentada sobre columnas dispostas em circumferencia; e o santuario não
    era fechado.

    Resulta pois, do que fica exposto, que em todos os templos, excepto nos
    monopteros, havia uma parte fechada que era o santuario; em muitos
    templos, corriam em roda d'esse santuario galerias abertas, como especie
    de porticos para a ornamentação externa do edificio. A parte encerrada
    era designada sob o nome de _cella_ ou _nau_. Ahi collocavam a estatua
    da divindade, em honra da qual o templo fôra erigido.

    Na frente da _cella_, e por detraz das columnas da fachada, estava o
    _pronaus_ ou vestibulo, no qual abriam a porta da entrada; á extremidade
    opposta do templo dava-se-lhe o nome de _posticum_. Algumas vezes
    reservavam, na parte posterior da _cella_, um quarto A destinado a
    guardar o thesouro do templo, e que se designava sob o nome de
    _opisthodomos_.

    As columnas eram sempre em numero par nas fachadas dos templos; e
    conforme que se contava quatro, seis, oito ou dez, os templos tomavam a
    denominação de _tetrastylos_ (4 columnas), _hexastylos_ (6 columnas),
    _octostylos_ (8 columnas), ou _decastylos_ (10 columnas).

    Finalmente, certos templos eram rodeados de uma cerca _peribobos_ ou
    antecedidos de pateo fechado, e ornados com portico, á roda do qual
    estavam os aposentos dos sacerdotes.

    A estatua da divindade, feita de bronze, marmore, ou pedra, collocava-se
    no fundo da _cella_, em pedestal um pouco mais elevado que o altar, e
    fazia face á porta da entrada. Em geral, os templos ficavam voltados
    para o oriente.

    [Figura 51: Fachada da Casa Quadrada de Nimes]

    Não se deve julgar que os templos fossem muito vastos; alguns d'elles
    tinham até pequenissimas dimensões, e isso explica-se facilmente pelo
    conhecimento dos usos religiosos antigos, porque o exercicio do culto
    era individual; cada um tinha dias proprios para o sacrificio, em
    quanto, no christianismo, o exercicio do culto é collectivo.

    O templo _pseudo-periptero_ hexastylo ha em Nimes (França), da ordem
    corinthia, o qual serve actualmente para museu de archeologia. A gravura
    mostra as suas bellas proporções e belleza.

    As dimensões e a disposição do _templo de Diana_, em Evora,
    apresenta-nos outro exemplo d'esta ordem de edificios do antigo
    paganismo, que felizmente se conserva em Portugal nas suas magestosas
    ruinas, como se vê na presente gravura.

    [Figura 52: Templo de Diana, em Evora]

    Os templos rectangulares ficavam dispostos como indica a gravura da pag.
    60 [fig. 53], rodeados de porticos; no meio d'elles havia o logar da
    cella e dentro o pedestal para a divindade.

    Os templos circulares dividiam-se em duas classes: a primeira chamada
    _monoptero_, compunha-se sómente de recinto formado por columnas
    collocadas em pedestal commum, _stylobato_; o segundo _periptero_,
    apresentava uma _cella_ á roda da qual havia columnas, pousada
    egualmente sobre um _stylobato_, com degraus para ganhar a altura do
    pedestal, e dar entrada para o templo.

    Fragmentos achados dos templos antigos, fizeram vêr que as suas
    esculpturas tinham sido pintadas de branco e amarello com traços
    encarnados, para dar mais relevo aos contornos.

    Não só havia templos nas cidades, mas tambem nos campos. Alguns d'estes
    eram de grande veneração, pois que serviam de deposito aos mais ricos
    thesouros, principalmente os dedicados a Mercurio.

  • Marilia de Dirceo

    Marilia de Dirceo

    Aproximadamente 21.475 palavras.

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    MARILIA DE DIRCEO.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    PRIMEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro,
    Que viva de guardar alheio gado,
    De tosco trato, de expressões grosseiro,
    Dos frios gelos, e dos sóes queimado.
    Tenho proprio casal, e nelle assisto;
    Dá-me vinho, legume, fruta, azeite,
    Das brancas ovelhinas tiro o leite,
    E mais as finas lãs, de que me visto.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Eu vi o meu semblante n'uma fonte,
    Dos annos inda não está cortado:
    Os Pastores, que habitão este monte,
    Respeitão o poder do meu cajado.
    Com tal destreza toco a sanfoninha,
    Que inveja até me tem o proprio Alceste:
    Ao som della concerto a voz celeste;
    Nem canto letra que não seja minha.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Mas tendo tantos dotes da ventura,
    Só aprêço lhes dou, gentil Pastora,
    Depois que o teu affecto me segura,
    Que queres do que tenho ser Senhora.
    He bom, minha Marilia, he bom ser dono
    De hum rebanho, que cubra monte, e prado
    Porém, gentil Pastora, o teu agrado
    Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Os teus olhos espalhão luz divina,
    A quem a luz do Sol em vão se atreve:
    Papoila, ou rosa delicada, e fina,
    Te cobre as faces, que são côr da neve.
    Os teus cabellos são huns fios d'ouro;
    Teu lindo corpo balsamos vapora.
    Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora,
    Para gloria de Amor igual Thesouro.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Leve-me a sementeira muito embora
    O rio sobre os campos levantado:
    Acabe, acabe a peste matadora,
    Sem deixar huma rez, o nedeo gado.
    Já destes bens, Marilia, não preciso:
    Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta,
    Para viver feliz, Marilia, basta
    Que os olhos movas, e me dês hum riso.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Hirás a divertir-te na floresta,
    Sustentada, Marilia, no meu braço;
    Aqui descançarei a quente sésta,
    Dormindo num leve somno em teu regaço:
    Era quanto a luta jogão os Pastores,
    E emparelhados correm nas campinas,
    Toucarei teus cabellos de boninas,
    Nos troncos gravarei os teus louvores.
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    Depois que nos ferir a mão da Morte
    Ou seja neste monte, ou n'outra serra,
    Nossos corpos terão, terão a sorte
    De consumir os dous a mesma terra.
    Na campa, rodeada de cyprestes,
    Leráõ estas palavras os Pastores:
    "Quem quizer ser feliz nos seus amores,
    Siga os exemplos que nos derão estes"
    Graças, Marilia bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA II.

    Pintão, Marilia, os Poetas
    A hum menino vendado,
    Com huma aljava de settas,
    Arco empunhado na mão:
    Ligeiras azas nos hombros,
    O tenro corpo despido;
    E de Amor, ou de Cupido
    São os nomes que lhe dão.

    Porém eu, Marilia, nego,
    Que assim seja Amor; pois elle
    Nem he moço, nem he cégo,
    Nem settas, nem azas tem,
    Ora pois, eu vou formar-lhe
    Hum retrato mais perfeito,
    Que elle já ferio meu peito;
    Por isso o conheço bem.

    Os seus compridos cabellos;
    Que sobre as costas ondeão,
    São que os de Apollo mais bellos;
    Mas de loura côr não são.
    Tem a côr da negra noite;
    E com o branco do rosto
    Fazem, Marilia, hum composto
    Da mais formosa união.

    Tem redonda, e lisa testa;
    Arqueadas sobrancelhas;
    A voz meiga, a vista honesta,
    E seus olhos são huns sóes,
    Aqui vence Amor ao Ceo,
    Que no dia luminoso
    O Ceo tem hum Sol formoso,
    E o travesso Amor tem dous.

    Na sua face mimosa,
    Marilia, estão misturadas
    Purpureas folhas de rosa,
    Brancas folhas de jasmim.
    Dos rubins mais preciosos
    Os seus beiços são formados;
    Os seus dentes delicados
    São pedaços de marfim.

    Mal vi seu rosto perfeito
    Dei logo hum suspiro, e elle
    Conheceo haver-me feito
    Estrago no coração.
    Punha em mim os olhos, quando
    Entendia eu não olhava:
    Vendo que o via, baixava
    A modesta vista ao chão.

    Chamei-lhe hum dia formoso;
    Elle ouvindo os seus louvores
    Com hum modo desdenhoso,
    Se surrio, e não fallou.
    Pintei-lhe outra vez o estado,
    Em que estava esta alma posta;
    Não me deo tambem resposta,
    Constrangeo-se, e suspirou.

    Conheço os signaes, e logo
    Animado da esperança,
    Busco dar hum desaffogo
    Ao cansado coração.
    Pégo em seus dedos nevados,
    E querendo dar-lhe hum beijo,
    Cubrio-se todo de pejo,
    E fugio-me com a mão.

    Tu, Marilia, agora vendo
    De Amor o lindo retrato,
    Comtigo estarás dizendo,
    Que he este o retrato teu.
    Sim, Marilia, a copia he tua,
    Que Cupido he Deos supposto:
    Se ha Cupido he só teu rosto,
    Que elle foi quem me venceo.

    LYRA III.

    De amar, minha Marilia, a formosura
    Não se podem livrar humanos peitos.
    Adorão os Heróes, e os mesmos brutos
    Aos grilhões de Cupido estão sujeitos.
    Quem, Marilia, despreza huma belleza,
    A luz da razão precisa,
    E se tem discurso, pisa
    A Lei, que lhe ditou a Natureza.

    Cupido entrou no Ceo. O grande Jove
    Huma vez se mudou em chuva de ouro:
    Outras vezes tomou as varias fórmas
    De General de Thebas, velha, e touro,
    O proprio Deos da Guerra deshumano
    Não viveo de amor illeso;
    Quiz a Venus, e foi prezo
    Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

    Se amar huma belleza se desculpa
    Em quem ao proprio Ceo, e terra move;
    Qual he a minha gloria, pois igualo,
    Ou excedo no amor ao mesmo Jove?
    Amou o Pai dos Deoses Soberano
    Hum semblante peregrino:
    Eu adoro o teu divino,
    O teu divino rosto, e sou humano.

    LYRA IV.

    Marilia, teus olhos
    São réos, e culpados,
    Que soffra, e que beije
    Os ferros pezados
    De injusto Senhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mal vi o teu rosto,
    O sangue gelou-se,
    A lingoa prendeo-se,
    Tremi, e mudou-se
    Das faces a côr.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    A vista furtiva,
    O risco imperfeito,
    Fizerão a chaga,
    Que abriste no peito
    Mais funda, e maior.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Dispuz-me a servir-te;
    Levava o teu gado
    Á fonte mais clara,
    Á vargem, e prado
    De relva melhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se vinha da herdade,
    Trazia nos ninhos
    As aves nascidas,
    Abrindo os biquinhos
    De fome ou temor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se alguem te louvava
    De gosto me enchia;
    Mas sempre o ciume
    No rosto accendia
    Hum vivo calor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Se estavas alegre,
    Dirceo se alegrava;
    Se estavas sentida,
    Dirceo suspirava
    Á força da dor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Fallando com Laura,
    Marilia dizia;
    Surria-se aquella,
    E eu conhecia
    O erro de amor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Movida, Marilia,
    De tanta ternura,
    Nos braços me déste,
    Da tua fé pura
    Hum doce penhor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu mesma disseste
    Que tudo podia
    Mudar de figura;
    Mas nunca seria
    Teu peito traidor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Tu já te mudaste;
    E a Olaia frondoza,
    Aonde escreveste
    A jura horrorosa,
    Tem todo o vigor.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    Mas eu te desculpo,
    Que o fado tyranno
    Te obriga a deixar-me;
    Pois busca o meu damno
    Da sorte, que for.
    Marilia, escuta
    Hum triste Pastor.

    LYRA V.

    A caso são estes
    Os sitios formosos,
    Aonde passava
    Os annos gostosos?
    São estes os prados,
    Aonde brincava,
    Em quanto pastava
    O manso rebanho,
    Que Alceo me deixou?
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Daquelle penhasco
    Hum rio cahia,
    Ao som do sussurro
    Que vezes dormia!
    Agora não cobrem
    Espumas nevadas
    As pedras quebradas:
    Parece que o rio
    O curso voltou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Meus versos alegre
    Aqui repetia:
    O Eco as palavras
    Tres vezes dizia.
    Se chamo por elle
    Já não me responde;
    Parece se esconde,
    Cansado de dar-me
    Os ais que lhe dou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.
    Aqui hum regato
    Corria sereno,
    Por marg[~e]s cobertas
    De flores, e feno:
    Á esquerda se erguia
    Hum bosque fechado;
    E o tempo apressado,
    Que nada respeita,
    Já tudo mudou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Mas como discorro?
    Acaso podia
    Já tudo mudar-se
    No espaço de hum dia?
    Existem as fontes,
    E os freixos copados;
    Dão flores os prados,
    E corre a cascata,
    Que nunca seccou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    Minha alma, que tinha
    Liberta a vontade,
    Agora já sente
    Amor, e saudade.
    Os sitios formosos,
    Que já me agradárão,
    Ah! não se mudárão!
    Mudárão-se os olhos,
    De triste que estou.
    São estes os sitios?
    São estes; mas eu
    O mesmo não sou.
    Marilia, tu chamas?
    Espera que eu vou.

    LYRA VI.

    Oh! quanto póde em nós a varia Estrella!
    Que diversos que são os genios nossos!
    Qual solta a branca vélla,
    E affronta sobre o pinho os mares grossos.
    Qual cinge com a malha o peito duro;
    E marchando na frente das cohortes,
    Faz a toare voar, cahir o muro.

    O sordido avarento em vão trabalha,
    Que possa o filho entrar no seu Thesouro.
    Aqui fechado estende
    Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro.
    Sacode o jogador da copo os dados;
    E n'uma noite só, que ao somno rouba,
    Perde o resto dos bens do pai herdados.

    O que da voráz gulla o vicio adora
    Da lauta meza os prazeres fia.
    E o terno Alceste chora
    Ao som dos versos a que o genio o guia.
    O sabio Gallileo toma o compasso,
    E sem voar ao Ceo, calcula, e mede
    Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

    Em quanto pois, Marilia, a varia gente,
    Se deixa conduzir do proprio gosto;
    Passo as horas contente
    Notando as graças do teu lindo rosto.
    Sem cansar-me a saber se o Sol se móve,
    Ou se a terra voltea, assim conheço.
    Aonde chega a mão do grande Jove.

    Noto, gentil Marilia, os teus cabellos;
    E noto as faces de Jasmins, e rosas:
    Noto os teus olhos bellos;
    Os brancos dentes, e as feições mimosas.
    Quem fez huma obra tão perfeita, e linda,
    Minha bella Marilia, tambem póde
    Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.

    LYRA VII.

    Vou retratar a Marilia,
    A Marilia meus amores;
    Porém como, se eu não vejo
    Quem me empreste as finas cores!
    Dar-mas a terra não póde;
    Não que a sua côr mimosa
    Vence o lyrio, vence a rosa:
    O jasmim, e as outras flores.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Mas não se esmoreça logo;
    Busquemos hum pouco mais;
    Nos mares talvez se encontrem
    Cores que sejão iguaes.
    Porém não, que em parallelo
    Da minha Ninfa adorada
    Perolas não valem nada,
    Não valem nada os coraes.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traze-me as tintas do Ceo.

    Só no Ceo achar se podem
    Taes bellezas, como aquellas,
    Que Marilia tem nos olhos,
    E que tem nas faces bellas.
    Mas ás faces graciosas,
    Aos negros olhos, que matão,
    Não imitão, não retratão
    Nem Auroras, nem Estrellas.
    Ah soccorre, Amor, soccorre
    Ao mais grato empenho meu!
    Vôa sobre os Astros, vôa,
    Traz-me as tintas do Ceo.

    Entremos, Amor, entremos,
    Entremos na mesma Esfera.
    Venha Pallas, Venha Juno,
    Venha a Deosa de Cithera.
    Porém não, que se Marilia
    No certame antigo entrasse,
    Bem que a Paris não peitasse,
    A todas as tres vencera.
    Vai-te, Amor, em vão soccorres
    Ao mais grato empenho meu:
    Para formar-lhe o retrato
    Não bastão tintas do Ceo.

    LYRA VIII.

    Marilia, de que te queixas?
    De que te roube Dirceo
    O sincero coração?
    Não te deo tambem o seu?
    E tu, Marilia, primeiro
    Não lhe lançaste o grilhão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Em torno das castas pombas
    Não rulão ternos pombinhos?
    E rulão, Marilia, em vão?
    Não se afagão c'os biquinhos?
    E a provas de mais ternura
    Não os arrasta a paixão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria, ter izenção?

    Já viste, minha Marilia,
    Avezinhas, que não fação
    Os seus ninhos no verão?
    Aquellas com quem se enlação
    Não vão cantar-lhe defronte
    Do molle pouzo em que estão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    Se os peixes, Marilia, gerão
    Nos bravos mares, e rios,
    Tudo effeitos de Amor são.
    Amão os brutos impios,
    A serpente venenosa,
    A Onça, o Tigre, o Leão.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izenção?

    As grandes Deosas do Ceo,
    Sentem a setta tyranna
    Da amorosa inclinação.
    Diana, com ser Diana,
    Não se abrasa, não suspira
    Pelo amor de Endymão?
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Queria ter izençao?

    Desiste, Marilia bella,
    De huma queixa sustentada
    Só na altiva opinião.
    Esta chamma he inspirada
    Pelo Ceo; pois nella assenta
    A nossa conservação.
    Todos amão: só Marilia
    Desta Lei da Natureza
    Não deve ter izenção.

    LYRA IX.

    Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo,
    Porém não me venceo a mão armada
    De ferro, e de furor:
    Huma alma sobre todas elevada
    Não cede a outra força que não seja
    Á tenra mão de Amor.

    Arrastem pois os outros muito embora
    Cadêas nas bigornas trabalhadas
    Com pezados martellos:
    Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas
    Com duros ferros não, com fios d'ouro,
    Que são os teus cabellos.

    Occulto nos teus meigos vivos olhos
    Cupido a tudo faz tyranna guerra:
    Sacode a setta ardente;
    E sendo despedida cá da terra,
    As nuvens rompe, chega ao alto Impirio,
    E chega ainda quente.

    As abelhas nas azas suspendidas
    Tirão, Marilia, os succos saborosos
    Das orvalhadas flores:
    Pendentes dos teus beiços graciosos
    Ambrosias chupão, chupão mil feitiços
    Nunca fartos Amores.

    O vento quando parte em largas fitas
    As folhas, que menêa com brandura;
    A fonte crystallina,
    Que sobre as pedras cáe de immensa altura;
    Não fórma hum som tão doce, como fórma
    A tua voz divina.

    Em torno dos teus peitos, que palpitão;
    Exalão mil suspiros desvelados
    Enchames de desejos;
    Se encontrão os teus olhos descuidados,
    Por mais que se atropelem, voão, chegão,
    E dão furtivos beijos.

    O Cisne, quando corta o manso lago,
    Erguendo as brancas azas, e o pescoço;
    A Náo que ao longe passa,
    Quando o vento lhe infuna o panno grosso;
    O teu garbo não tem, minha Marilia,
    Não tem a tua graça.

    Estimem pois os mais a liberdade:
    Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo
    Á mão de Amor impia:
    Honro a virtude, e os teus dotes amo:
    Tambem o grande Achilles veste a saia
    Tambem Alcides fia.

    LYRA X.

    Se existe hum peito,
    Que izento viva
    Da chamma activa,
    Que accende Amor.
    Ah! não habite
    Neste montado;
    Fuja apressado
    Do vil traidor.

    Corra, que o Impio
    Aqui se esconde:
    Não sei aonde;
    Mas sei o que vi.
    Traz novas settas,
    Arco robusto;
    Tremi de susto;
    Em vão fugi.

    Eu vou mostrar-vos,
    Tristes mortaes,
    Quantos signaes
    O Impio tem.
    Oh! como he justo,
    Que todo o humano
    Hum tal tyranno
    Conheça bem!

    No corpo ainda
    Menino existe:
    Mas quem resiste
    Ao braço seu?
    Ao negro Inferno
    Levou a guerra:
    Vencêo a terra,
    Vencêo o Ceo.

    Já mais se cobrem
    Seus membros bellos;
    E os seus cabellos
    Que lindos são!
    Vendados olhos,
    Que tudo alcanção,
    E já mais lanção
    A setta em vão.

    As suas faces
    São côr da neve;
    E a bocca breve
    Só rizos tem.
    Mas, ah! respira
    Negros venenos,
    Que nem ao menos
    Os olhos vem.

    Aljava grande
    Dependurada,
    Sempre atacada
    De bons farpões.
    Fere com estas
    Agudas lanças,
    Pombinhas mansas,
    Bravos leões.

    Se a setta falta
    Tem outra prompta,
    Que a dura ponta
    Já mais torcêo.
    Ninguem resiste
    Aos golpes della:
    Marilia bella
    Foi quem lha dêo.

    Ah! não sustente
    Dura peleija,
    O que deseja
    Ser vencedor.
    Fuja, e não olhe,
    Que só fugindo
    De hum rosto lindo,
    Se vence Amor.

    LYRA XI.

    Naõ toques, minha Musa, não, não toques
    Na sonorosa Lyra,
    Que ás almas, como a minha, namoradas
    Doces Canções inspira:
    Assopra no clarim, que apenas sôa
    Enche de assombro a terra;
    Naquelle, a cujo som cantou Homero,
    Cantou Virgilio a Guerra.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Eu já não vejo as graças, de que fórma
    Cupido o seu thesouro:
    Vivos olhos, e faces côr da neve,
    Com crespos fios de ouro;
    Meus olhos só vem gramas, e loureiros;
    Vem carvalhos, e palmas;
    Vem os ramos honrosos, que destinguem
    As vencedoras almas.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de Amor.

    Cantemos o Heróe, que já no berço
    As Serpes despedaça;
    Que fere os Cácos, que destronca as Hidras,
    Mais os leões que abraça.
    Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra
    Dos Tritães, e Tyféos,
    Que arrancão as montanhas, e atrevidos
    Levão armas aos Ceos.

    Busquemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Deixemos as ternas
    Fadigas de amor.

    Anima pois, ó Musa, o instrumento,
    Que a voz tambem levanto;
    Porém tu déste muito assima o ponto,
    Dirceo não póde tanto:
    Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste;
    Eu já, eu já te sigo.
    Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_,
    E só _Marilia_ digo.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Feres as cordas d'ouro? Ah! sim, agora
    Meu canto já se afina;
    E a huma voz, parece que ao som dellas
    Se faz tambem divina.
    O mesmo que cercou de muro a Thebas
    Não canta assim tão terno;
    Nem póde competir comigo aquelle,
    Que desce ao negro Inferno.

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior,
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    Mal repito _Marilia_, as doces aves
    Mostrão signaes de espanto,
    Erguem os collos, voltão as cabeças,
    Parão o ledo canto;
    Move-se o tronco, o vento se suspende
    Pasma o gado, e não come:
    Quanto podem meus versos! Quanto póde
    Só de Marilia o nome!

    Deixemos, ó Musa,
    Empreza maior;
    Só posso seguir-te
    Cantando de Amor.

    LYRA XII.

    Topei hum dia
    Ao Deos vendado,
    Que descuidado
    Não tinha as settas
    Na impia mão.
    Mal o conheço,
    Me sóbe logo
    Ao rosto o fogo,
    Que a raiva accende
    No coração.

    _Morre, Tyranno,
    Morre, inimigo_!
    Mal isto digo,
    Raivoso o apérto
    Nos braços meus.
    Tanto que o moço
    Sente apertar-se,
    Para salvar-se
    Tambem me aperta
    Nos braços seus.

    O leve corpo
    Ao ar levanto,
    Ah! e com quanto
    Impulso o trago
    Do ar ao chão!
    Poude suster-se
    A vez primeira;
    Mas á terceira
    Nos pés, que alarga,
    Se firma em vão.

    Mal o derrubo,
    Ferro aguçado
    No já cançado
    Peito, que arqueja,
    Mil golpes deo.
    Suou seu corpo;
    Tremêo gemendo;
    E á côr perdendo,
    Batêo as azas;
    Em fim morreo.

    Qual bravo Alcides,
    Que a hirsuta pelle
    Vestio daquelle
    Grenhoso bruto,
    A quem matou.
    Para que próve
    A empreza honrada,
    C'o a mão manchada
    Recolho as settas,
    Que me deixou.

    Ouvio Marilia
    Que Amor gritava,
    E como estava
    Vizinha ao sitio
    Valer-lhe vem.
    Mas quando chega
    Espavorida,
    Nem já de vida
    O féro monstro
    Indicio tem.

    Então Marilia,
    Que o vê de perto
    De pó cuberto,
    E todo involto
    No sangue seu;
    As mãos aperta
    No peito brando,
    E afflicta dando
    Hum ai, os olhos
    Levanta ao Ceo.

    Chega-se a elle
    Compadecida;
    Lava a ferida
    C'o pranto amargo,
    Que deramou.
    Então o monstro
    Dando hum suspiro,
    Fazendo hum gyro
    C'o a baça vista,
    Resuscitou.

    Respira a Deosa;
    E vem o gosto
    Fazer no rosto
    O mesmo effeito,
    Que fez a dôr.
    Que louca idéa
    Foi a que tive!
    Em quanto vive
    Marilia bella,
    Não morre Amor.

    LYRA XIII.

    Oh! quantos riscos,
    Marilia bella,
    Não atropella
    Quem cégo arrasta
    Grilhões de Amor!
    Hum peito forte,
    De acordo falto,
    Zomba do assalto
    Do vil traidor.

    O amante de Hero
    Da luz guiado,
    C'o peito ousado
    Na escura noite
    Rompia o mar,
    Se o Helesponto
    Se encapellava,
    Ah! não deixava
    De lhe ir fallar.

    Do cantor Thracio
    A heroicidade
    Esta verdade,
    Minha Marilia,
    Prova tambem.
    Cheio de esfôrço
    Vai ao Cocyto
    Buscar afflito
    Seu doce bem.

    Que acção tão grande
    Nunca intentada!
    Ao pé da entrada
    Já tudo assusta
    O coração!
    Pendentes rochas,
    Campos adustos,
    Que nem arbustos
    Nem hervas dão.

    Na funda fralda
    De calvo monte,
    Corre Acheronte,
    Rio de ardente
    Mortal licor.
    Tem o barqueiro
    Testa enrugada,
    Vista inflammada,
    Que mete horror.

    Que seguranças!
    Que fechaduras!
    As portas duras
    Não são de lenhos;
    De ferro são.
    Por tres gargantas,
    Quando alguem bate,
    Raivoso late
    O negro cão.

    Dentro da cova
    Soão lamentos;
    E que tormentos
    Não mostra aos olhos
    A escassa luz!
    Minos a pena
    Manda se intime
    Igual ao crime,
    Que alli conduz.

    Grande penedo
    Este carrega;
    E apenas chega
    Do monte ao cume,
    O faz rolar.
    A pedra sempre
    Ao valle desce,
    Sem que elle cesse
    De a ir buscar.

    Nas limpas aguas
    Habita aquelle:
    Por cima delle
    Verdejão ramos,
    Que pomos dão.
    Debalde a bocca
    Molhar pertende;
    De balde estende
    Faminta mão.

    Tem outro o peito
    Despedaçado:
    Monstro esfaimado
    Já mais descança
    De lho roêr.
    A rôxa carne,
    Que o abutre come,
    Não se consome,
    Torna a crescer.

    Mas bem que tudo
    Pavor inspira,
    Tocando a lyra
    Desce ao Averno
    O bom Cantor.
    Não se entorpece
    A lingua, e braço;
    Não treme o passo,
    Não perde a côr.

    Ah! tambem quanto
    Dirceo obrára,
    Se precisára,
    Marilia bella,
    Do esforço seu!
    Rompêra os mares
    C'o peito terno,
    Fôra ao Inferno,
    Subíra ao Ceo.

    Aos dois amantes
    De Thracia, e Abydo
    Não deo Cupido
    Do que aos mais todos
    Maior valor.
    Por seus vassallos
    Forças reparte,
    Como lhes parte
    Os gráos de Amor.

    LYRA XIV.

    Minha bella Marilia, tudo passa;
    A sorte deste mundo he mal segura;
    Se vem depois dos males a ventura,
    Vem depois dos prazeres a desgraça.
    Estão os mesmos Deoses
    Sujeitos ao poder do impio Fado:
    Apollo já fugio do Ceo brilhante,
    Já foi Pastor de gado.

    A devorante mão da negra Morte
    Acaba de roubar o bem, que temos;
    Até na triste campa não podemos
    Zombar do braço da inconstante sorte.
    Qual fica no sepulchro,
    Que seus a vós erguêrão, descançando:
    Qual no campo, e lhe arranca os frios casos
    Ferro do torto arado.

    Ah! em quanto os Destinos impiedosos
    Não voltão contra nós a face irada,
    Façamos, sim façamos, doce amada,
    Os nossos breves dias mais ditosos.
    Hum coração que frouxo
    A grata posse de seu bem difere,
    A si, Marilia, a si proprio rouba,
    E a si proprio fere.

    Ornemos nossas testas com as flores,
    E façamos de feno hum brando leito,
    Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito,
    Gozemos do prazer de sãos Amores.
    Sobre as nossas cabeças,
    Sem que o possão deter, o tempo corre;
    E para nós o tempo, que se passa,
    Tambem, Marilia, morre.

    Com os annos, Marilia, o gôsto falta,
    E se entorpece o corpo já cançado;
    Triste o velho cordeiro está deitado,
    E o leve filho sempre alegre salta.
    A mesma formosura
    He dote, que só goza a mocidade:
    Rugão-se as faces, o cabello alveja,
    Mal chega a longa idade.

    Que havemos d'esperar, Marilia bella?
    Que vão passando os florecentes dias?
    As glorias, que vem tarde, já vem frias;
    E póde em fim mudar-se a nossa estrella.
    Ah! não, minha Marilia,
    Aproveite-se o tempo, antes que faça
    O estrago de roubar ao corpo as forças,
    E ao semblante a graça.

    LYRA XV.

    A minha bella Marilia
    Tem de seu hum bom thesouro,
    Não he, doce Alceo, formado
    Do buscado
    Metal louro.
    He feito de huns alvos dentes,
    He feito de huns olhos bellos,
    De humas faces graciosas,
    De crespos, finos cabellos;
    E de outras graças maiores,
    Que a natureza lhe dêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Eu posso romper os montes,
    Dar ás correntes desvios,
    Pôr cercados espaçosos
    Nos caudosos
    Turvos rios.
    Posso emendar a ventura
    Ganhando astuto a riqueza;
    Mas, ah! charo Alceo, quem póde
    Ganhar huma só belleza
    Das bellezas, que Marilia
    No seu thesouro metêo?
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Da sorte, que vive o rico
    Entre o fausto alegremente,
    Vive o guardador de gado
    Apoucado,
    Mas contente.
    Beije pois torpe avarento
    As arcas de barras chêas:
    Eu não beijo os vís thesouros;
    Beijo as douradas cadêas,
    Beijo as settas, beijo as armas
    Com que o cego Amor vencêo:
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    Ama Apollo o fero Marte,
    Ama, Alceo, o mesmo Jove:
    Não he, não, a vã riqueza,
    Sim belleza,
    Quem os move.
    Posto ao lado de Marilia
    Mais que mortal me contemplo:
    Deixo os bens, que aos homens cegão,
    Sigo dos Deoses o exemplo:
    Amo virtudes, e dotes;
    Amo em fim, prezado Alceo,
    Bens, que valem sobre a terra,
    E que tem valor no Ceo.

    LYRA XVI.

    Eu, Glauceste, não duvido
    Ser a tua Eulina amada
    Pastora formosa,
    Pastora engraçada.
    Vejo a sua côr de rosa,
    Vejo o seu olhar divino,
    Vejo os seus purpùreos beiços,
    Vejo o peito crystallino;
    Nem ha cousa, que assemelhe
    Ao crespo cabello louro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Vale hum immenso thesouro!

    Ella vence muito, e muito
    Á laranjeira copada,
    Estando de flores,
    E frutos ornada.
    He, Glauceste, os teus Amores;
    E nem por outra Pastora,
    Que menos dotes tivera,
    Ou que menos bella fôra,
    O meu Glauceste cançára
    As divinas cordas de ouro.
    Ah! que a tua Eulina vale,
    Val hum immenso thesouro!

    Sim, Eulina he huma Deosa;
    Mas anîma a formosura
    De huma alma de féra,
    Ou inda mais dura.
    Ah! quando Alceo pondéra
    Que o seu Glauceste suspira,
    Perde, perde o soffrimento,
    E qual enfermo delira!
    Tenha embora brancas faces,
    Meigos olhos, fios de ouro,
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    O fuzil, que imita a cobra,
    Tambem aos olhos he bello;
    Mas quando alumêa,
    Tu tremes de velo.
    Que importa se mostre chêa
    De mil bellezas a ingrata?
    Não se julga formosura
    A formosura, que mata.
    Evita, Glauceste, evita
    O teu estrago, e desdouro;
    A tua Eulina não vale,
    Não vale immenso thesouro.

    A minha Marilia quanto
    Á natureza não deve!
    Tem divino rosto,
    E tem mãos de neve.
    Se mostro na face o gôsto,
    Ri-se Marilia contente:
    Se canto, canta comigo;
    E apenas triste me sente,
    Limpa os olhos com as tranças
    Do fino cabello louro.
    A minha Marilia vale,
    Vale hum immenso thesouro.

    LYRA XVII.

    Minha Marilia,
    Tu enfadada?
    Que mão ousada
    Perturbar póde
    A paz sagrada
    Do peito teu?

    Porém que muito
    Que irado esteja
    O teu semblante
    Tambem troveja
    O Claro Ceo.

    Eu sei, Marilia,
    Que outra Pastora
    A toda a hora,
    Em toda a parte,
    Céga namora
    Ao teu Pastor.

    Ha sempre fumo
    Aonde ha fogo;
    Assim, Marilia,
    Ha zelos, logo
    Que existe amor.

    Olha, Marilia,
    Na fonte pura
    A tua alvura,
    A tua bocca,
    E a compostura
    Das mais feições.
    Quem tem teu rosto,
    Ah! não receia,
    Que terno amante
    Solte a cadeia,
    Quebre os grilhões.

    Não anda Laura
    Nestas campinas
    Sem as boninas
    No seu cabello,
    Sem pelles finas
    No seu jubão.

    Porém que importa?
    O rico aceio
    Não dá, Marilia,
    Ao rosto feio
    A perfeição.

    LYRA XVIII.

    Não ves aquelle velho respeitavel,
    Que á moleta encostado,
    Apenas mal se move, e mal se arrasta?
    Oh quanto estrago não lhe fez o tempo?
    O tempo arrebatado,
    Que o mesmo bronze gasta.

    Enrugárão-se as faces, e perdêrão
    Seus olhos a viveza;
    Voltou-se o seu cabello em branca neve:
    Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo;
    Nem tem huma belleza
    Das bellezas que teve.

    Assim tambem serei, minha Marilia
    Daqui a poucos annos;
    Que o impio tempo para todos corre.
    Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos.
    Ah! sentirei os damnos,
    Que evita só quem morre.

    Mas sempre passarei huma velhice
    Muito menos penoza.
    Não trarei a moleta carregada:
    Descançarei o já vergado corpo
    Na tua mão piedoza,
    Na tua mão nevada.

    As frias tardes em que negra nuvem
    Os chuveiros não lance,
    Irei comtigo ao prado florescente:
    Aqui me buscarás hum sitio ameno,
    Onde os membros descance,
    E ao brando Sol me aquente.

    Apenas me sentar, então movendo
    Os olhos por aquella
    Vistoza parte, que ficar fronteira;
    Apontando direi: _Alli fallámos,
    Alli, ó minha bella,
    Te vi a vez primeira_.

    Verteráõ os meus olhos duas fontes,
    Nascidas de alegria:
    Farão teus olhos ternos outro tanto:
    Então darei, Marilia, frios beijos,
    Na mão formosa, e pia,
    Que me limpar o pranto.

    Assim irá, Marilia, docemente
    Meu corpo supportando
    Do tempo deshumano a dura guerra.
    Contente morrerei, por ser Marilia
    Quem sentida chorando,
    Meus baços olhos cerra.

    LYRA XIX.

    Em quanto pasta alegre o manso gado,
    Minha bella Marilia, nos sentemos
    Á sombra deste cedro levantado.
    Hum pouco meditemos
    Na regular belleza,
    Que em tudo quanto vive, nos descobre
    A sabia Natureza.

    Attende, como aquella vaca preta
    O novilhino seu dos mais separa,
    E o lambe, em quanto chupa a liza teta.
    Attende mais, ó chara,
    Como a ruiva cadella
    Supporta que lhe morda o filho o corpo;
    E salte em cima della.

    Repara, como cheia de ternura
    Entre as azas ao filho essa ave aquenta:
    Como aquella esgravata a terra dura,
    E os seus assim sustenta;
    Como se encoleriza,
    E salta sem receio a todo o vulto,
    Que junto delles piza.

    Que gosto não terá a esposa amante
    Quando der ao filhinho o peito brando,
    E reflectir então no seu semblante!
    Quando, Marilia, quando
    Disser comigo: _he esta
    De teu querido pai a mesma barba,
    A mesma bocca, e testa_.

    Que gosto não terá a mãi, que toca,
    Quando o tem nos seus braços, c'o dedinho
    Nas faces graciosas, e na bocca
    Do innocente filhinho!
    Quando, Marilia bella,
    O tenro infante já com risos mudos
    Começa a conhecê-la!

    Que prazer não terão os pais ao verem
    Com as mãis hum dos filhos abraçados;
    Jogar outros a luta, outros correrem
    Nos cordeiros montados!
    Que estado de ventura!
    Que até naquillo, que de pezo serve,
    Inspira Amor doçura.

    LYRA XX.

    Em huma frondosa
    Roseira se abria
    Hum negro botão.
    Marilia adorada
    O pê lhe torcia
    Com a branca mão.

    Nas folhas viçosas
    Á abelha inraivada
    O corpo escondêo.
    Tocou-lhe Marilia,
    Na mão descuidada
    A fera mordêo.

    A penas lhe morde,
    Marilia gritando,
    C'o dedo fugio.
    Amor, que nos bosques
    Estava brincando,
    Aos ais acudio.

    Mal vio a rotura,
    E o sangue espargido,
    Que a Deoza mostrou;
    Rizonho beijando
    O dedo offendido,
    Assim lhe fallou.

    _Se tu for tão pouco
    O pranto desatas,
    Ah! dá-me attençaõ;
    E como daquelle,
    Que feres, e matas,
    Naõ tens compaixaõ_?

    LYRA XXI.

    Não sei, Marilia, que tenho,
    Depois que vi o teu rosto;
    Pois quanto não he Marilia,
    Já não posso ver com gosto.
    Noutra idade me alegrava,
    Até quando conversava
    Com o mais rude vaqueiro:
    Hoje, ó bella, me aborrece
    Inda o trato lizongeiro
    Do mais discreto pastor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de amor?

    Sáio da minha cabana
    Sem reparar no que faço;
    Busco o sitio aonde moras,
    Suspendo defronte o passo.
    Fito os olhos na janella,
    Aonde, Marilia bella,
    Tu chegas ao fim do dia;
    Se alguem passa, e te saúda,
    Bem que seja cortezia,
    Se accende na face a côr.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se estou, Marilia, comtigo,
    Não tenho hum leve cuidado;
    Nem me lembra, se são horas
    De levar á fonte o gado.

    Se vivo de ti distante,
    Ao minuto, ao breve instante,
    Finge hum dia o meu desgosto:
    Já mais, Pastora, te vejo
    Que em teu semblante composto
    Não veja graça maior.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Aonde já com o juizo;
    Marilia, tão perturbado,
    Que no mesmo aberto sulco
    Metto de novo o arado.
    Aqui no centêo pégo,
    Noutra parte em vão o cégo:
    Se alguem comigo conversa,
    Ou não respondo, ou respondo
    Noutra coiza tão diversa,
    Que nexo tão tem menor.
    Que effeitos são os que sinto!
    Serão effeitos de Amor?

    Se geme o bufo agoureiro
    Só Marilia me desvella:
    Enche-se o peito de magoa,
    E não sei a causa della.
    Mal durmo, Marilia, sonho,
    Que féro leão medonho
    Te devora nos meus braços:
    Gella-se o sangue nas veias.
    E sólto do somno os laços
    Á força da immensa dor.
    Ah! que os effeitos que sinto
    Só são effeitos de Amor.

    LYRA XXII.

    Muito embora, Marilia, muito embora
    Outra belleza, que não seja a tua,
    Com a vermelha roda, a seis puxada,
    Faça tremer a rua.

    As paredes da salla aonde habita
    Adorne a seda, e o tremó dourado;
    Pendão largas cortinas, penda o lustre
    Do této apainelado.

    Tu não habitarás Palacios grandes,
    Nem andarás nos coches voadores;
    Porém terás hum Vate, que te preze,
    Que cance os teus louvores.

    O tempo não respeita a formosura;
    E da palida morte a mão tyranna
    Arraza os edificios dos Augustos,
    E arraza a vil choupana.

    Que bellezas, Marilia, florecerão
    De quem nem se quer temos a memoria?
    Só podem conservar hum nome eterno
    Os versos, ou a historia.

    Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha,
    Por mais que qualquer dellas fosse linda,
    Já não sabia o mundo, se existirão
    Nem Laura, nem Clorinda.

    He melhor, minha bella, ser lembrada
    Por quantos hão de vir sabios humanos,
    Que ter urcos, ter coches, e thesouros,
    Que morrem com os annos.

    LYRA XXIII.

    N'um sitio ameno
    Cheio de rosas,
    De brancos lyrios,
    Murtas viçosas;

    Dos seus amores
    Na companhia
    Dirceo passava
    Alegre o dia.

    Em tom de graça,
    Ao terno amante
    Manda Marilia
    Que toque, e cante.

    Péga na lyra,
    Sem que a tempere,
    A voz levanta,
    E as cordas fere.

    C'os doces pontos
    A mão atina,
    E a voz iguala
    A voz divina.

    Ella, que teve
    De rir-se a idéa,
    Nem move os olhos
    De assombro chêa.

    Então Cupido
    Apparecendo,
    Á bella falla
    Assim dizendo:

    _Do teu amado
    A lyra fias,
    Só porque delle
    Zombando rias_?

    _Quando n'um peito
    Assento faço,
    Do peito subo
    Á lingoa, e braço_.

    _Nem creias que outro
    Estylo tome,
    Sendo eu o mestre,
    A acção teu nome_.

    LYRA XXIV.

    Encheo, minha Marilia, o grande Jove
    De immensos animaes de toda a especie
    As terras, mais os ares,
    O grande espaço dos salobros rios,
    Dos negros, fundos mares.
    Para sua defeza,
    A todos dêo as armas, que convinha;
    Á sabia Natureza.

    Dêo as azas aos passaros ligeiros;
    Dêo ao peixe escamoso as barbatanas:
    Dêo veneno á serpente,
    Ao membrudo Elefante a enorme tromba,
    E ao Javali o dente.
    Coube ao leão a garra:
    Com leve pé saltando o servo foge;
    E o bravo touro marra.

    Ao homem dêo as armas do discurso
    Que valem muito mais que as outras armas:
    Dêo-lhe dedos ligeiros,
    Que podem converter em seu serviço
    Os ferros, e os madeiros;
    Que tecem fortes laços,
    E forjão raios com que aos brutos cortão
    Os vôos, mais os passos.

    Ás timidas donzellas pertencerão
    Outras armas, que tem dobrada força:
    Dêo-lhes a Natureza
    Além do entendimento, além dos braços
    As armas da belleza.
    Só ella ao Ceo se atreve,
    Só ella mudar póde o gello em fogo,
    Mudar o fogo em neve.

    Eu vejo, eu vejo ser a formosura
    Quem arrancou da mão de Coriolano
    A cortadora espada.
    Vejo que foi de Helena o lindo rosto
    Quem pôz em campo armada
    Toda a força de Grecia.
    E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma,
    Só foi, só foi Lucrecia.

    Se podem lindos rostos, mal suspirão,
    O braço desarmar do mesmo Achilles;
    Se estes rostos irados
    Podem soprar o fogo da descordia
    Em póvos alliados;
    Hes arbitra da terra;
    Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo
    A paz, e a dura guerra.

    LYRA XXV.

    O cego Cupido hum dia
    Com os seus Genios fallava,
    Do modo que lhe restava
    De captivar a Dirceo.
    Depois de larga disputa,
    Hum dos Genios mais sagazes
    Este conselho lhe dêo:

    As settas mais aguçadas,
    Como se em roxa batessem,
    Dão nos seus peitos, e descem
    Todas quebradas ao chão.
    Só as graças de Marilia
    Podem vencer hum tão duro,
    Tão izento coração.

    A fortuna desta empreza
    Consiste em armar-se o laço,
    Sem que sinta ser o braço,
    Que lho prepara, de Amor.
    Que elle vive como as aves,
    Que já deixárão as pennas
    No visco do Caçador.

    Na força deste conselho
    O raivoso Deos socega,
    E á tropa a honra entrega
    De o fazer executar.
    Todos pertendem ganhá-la,
    Batem as azas ligeiros,
    E vão as armas buscar.

    Os primeiros se occultárão
    Da Deosa nos olhos bellos;
    Qual se enlaçou nos cabellos;
    Qual ás faces se prendêo.
    Hum amorinho cansado
    Cahio dos labios ao seio,
    E nos peitos se escondêo.

    Outro Genio mais astuto
    Este novo ardil alcança,
    Muda-se n'uma criança
    De divino parecer.
    Esconde as azas, e a venda;
    Esconde as settas, e quanto
    Póde dá-lo a conhecer.

    Ella que vê hum menino
    Todo de graças cuberto,
    Tão risonho, e tão esperto
    Alli sózinho brincar.
    A elle endireita os passos;
    Finge Amor ter medo, e a Deosa
    Mais se empenha em lhe pegar.

    Ella corria chamando;
    Elle fugia, e chorava:
    Assim forão onde estava
    O descuidado Pastor.
    Este, mal vio a belleza,
    E o gentil menino, entende
    A malicia do traidor.

    Põe as mãos sobre os ouvidos,
    Cerra os olhos, e constante
    Não quer ver o seu semblante,
    Não o quer ouvir fallar.
    Qual Ulysses n'outra idade
    Para illudir as Serêas
    Mandou tambores tocar.

    Cupido, que a empreza via,
    Julga o intento frustrado,
    E de raiva transportado
    O corpo no chão lançou.
    Traçou a lingoa nos dentes;
    Mettêo as unas no rosto,
    E os cabellos arrancou.

    O Genio, que se escondia
    Entre os peitos da Pastora,
    Erguêo a cabeça fóra,
    E o successo conhecêo.
    Deixa o socego em que estava,
    E vai ligeiro metter-se
    No peito do bom Dirceo.

    Apenas c'o brando peito
    Lhe tocou a neve fria,
    Com o calor que trazia
    Lhe abrazou o coração.
    Dá o Pastor hum suspiro,
    Abre os seus olhos, e sólta
    Do apertado ouvido a mão.

    Logo que virão os Genios
    Ao triste Pastor disposto
    Para ver o lindo rosto,
    Para as palavras ouvir.
    Cada hum as armas toma,
    Cada hum com ellas busca
    Seu terno peito ferir.

    Com os cabellos da Deosa
    Lhe fórma hum Cupido laços,
    Que lhe segurão os braços,
    Como se fossem grilhões.
    O Pastor já não resiste;
    Antes beija satisfeito
    As suas doces prizões.

    LYRA XXVI.

    O destro Cupido hum dia
    Extrahio mimosas cores
    De frescos lyros, e rosas,
    De jasmins, e de outras flores.

    Com as mais delgadas pennas
    Usa de huma, e de outra tinta,
    E nos angulos do cobre
    A quatro bellezas pinta.

    Por fazer pensar a todos
    No seu lizo centro escreve
    Hum letreiro, que pergunta:
    _Este espaço a quem se deve_?

    Venus, que vio a pintura,
    E lêo a letra engenhosa,
    Pôz por baixo: _Eu delle cedo;
    Dê-se a Marilia formosa_.

    LYRA XXVII.

    Alexandre, Marilia, qual o rio
    Que engrossando no Inverno tudo arraza;
    Na frente das cohortes
    Cérca, vence, abraza
    As Cidades mais fortes.
    Foi na gloria das armas o primeiro,
    Morrêo na flor dos annos, e já tinha
    Vencido o mundo inteiro.

    Mas este bom Soldado, cujo nome
    Não ha poder algum, que não abata,
    Foi, Marilia, sómente
    Hum ditozo pirata,
    Hum salteador valente.
    Se não tem huma fama baixa, e escura;
    Foi por se pôr ao lado da injustiça
    A insolente ventura.

    O grande Cesar, cujo nome vôa,
    Á sua mesma Patria a fé quebranta;
    Na mão a espada toma,
    Opprime-lhe a garganta,
    Dá Senhores a Roma.
    Consegue ser heróe por hum delicto;
    Se acaso não vencesse então seria
    Hum vil traidor proscripto.

    O ser heróe, Marilia, não consiste
    Em queimar os Imperios: move a guerra,
    Espalha o sangue humano,
    E despovoa a terra
    Tambem o máo tyranno.
    Consiste o ser heróe em viver justo:
    E tanto póde ser heróe o pobre,
    Como o maior Augusto.

    Eu he que sou heróe, Marilia bella,
    Seguindo da virtude a honroza estrada.
    Ganhei, ganhei hum throno.
    Ah! não manchei a espada,
    Não a roubei ao dono.
    Ergui-o no teu peito, e nos teus braços:
    E valem muito mais que o mundo inteiro
    Huns tão ditosos laços.

    Aos barbaros, injustos vencedores
    Atormentão remorsos, e cuidados;
    Nem descanção seguros
    Nos Palacios cercados
    De tropa, e de altos muros.
    E a quantos nos não mostra a sabia historia
    A quem mudou o fado em negro opprobrio
    A mal ganhada gloria?

    Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo
    Nos braços do descanço, e mais do gosto:
    Quando estou acordado,
    Contemplo no teu rosto
    De graças adornado;
    Se durmo logo sonho, e alli te vejo.
    Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe
    A mais o meu desejo.

    LYRA XXVIII.

    Cupido tirando
    Dos hombros a aljava,
    N'um campo de flores
    Contente brincava.

    E o corpo tenrinho
    Depois enfadado,
    Incauto reclina
    Na relva do prado.

    Marilia formosa,
    Que ao Deos conhecia,
    Occulta espreitava
    Quanto elle fazia.

    Mal julga que dorme
    Se chega contente,
    As armas lhe furta,
    E o Deos a não sente.

    Os Faunos, mal virão
    As armas roubadas,
    Sahirão das grutas
    Soltando rizadas.

    Acorda Cupido,
    E a causa sabendo,
    A quantos o insultão
    Responde, dizendo:

    _Temieis as settas
    Nas minhas mãos cruas?
    Vereis o que podem
    Agora nas suas_.

    LYRA XXIX.

    O tyranno Amor risonho
    Me apparece, e me convida
    Para que seu jugo acceite;
    E quer que eu passe em deleite
    O resto da triste vida.

    _O sonoro Anacreonte_
    (Astuto o moço dizia)
    _Já perto da morte estava,
    Inda de amores cantava;
    Por isso alegre vivia_.

    _Aos negros, duros pezares
    Não resiste hum peito fraco,
    Se Amor o não fortalece:
    O mesmo Jove carece
    De Cupido, e mais de Baccho_.

    Eu lhe respondo: _Perjuro
    Nada creio ao que dizes;
    Porque já te fui sujeito,
    Inda conservo no peito
    Estas frescas cicatrizes_.

    Amor, vendo que da offerta
    Algum apreço não faço,
    Me diz affoito que trate
    De ir com elle a combate
    Peito a peito, braço a braço.

    Vou buscar as minhas armas;
    Cinjo primeiro que tudo
    O brilhante arnêz, e á pressa
    Ponho hum elmo na cabeça,
    Tomo a lança, e o grosso escudo.

    Mal no Campo me apresento,
    Marilia (oh Ceos!) me apparece:
    Logo os olhos me fita,
    O meu coração palpita,
    A minha mão desfallece.

    Então me diz o tyranno:
    _Confessa louco o teu erro;
    Contra as armas da belleza
    Não vale a externa defeza.
    Dessa armadura de ferro_.

    LYRA XXX.

    Junto a huma clara fonte
    A mãi de Amor se sentou:
    Encostou na mão o rosto,
    No leve somno pegou.

    Cupido, que a vio de longe,
    Contente ao lugar corrêo;
    Cuidando que era Marilia
    Na face hum beijo lhe dêo.

    Acorda Venus irada:
    Amor a conhece; e então
    Da ousadia, que teve,
    Assim lhe pede o perdão:

    _Foi facil, ó Mãe formosa,
    Foi facil o engano meu;
    Que o semblante de Marilia
    He todo o semblante teu_.

    LYRA XXXI.

    Minha Marilia,
    Se tens belleza,
    Da natureza
    He hum favor.
    Mas se aos vindouros
    Teu nome passa,
    He só por graça
    Do Deos de amor,
    Que terno inflamma
    A mente, o peito
    Do teu Pastor.

    Em vão se virão
    Perlas mimosas,
    Jasmins, e rosas
    No rosto teu.
    Em vão terias
    Essas estrellas,
    E as tranças bellas
    Que o Ceo te dêo;
    Se em doce verso
    Não as cantasse
    O bom Dirceo.

    O voraz tempo
    Ligeiro corre:
    Com elle morre
    A perfeição.
    Essa, que o Egypto
    Sábia modera,
    De Marco impera
    No coração;
    Mas já Octavio
    Não sente a força
    Do seu grilhão.

    Ah! vem, ó bella,
    E o teu querido
    Ao Deos Cupido
    Louvores dar;
    Pois faz que todos
    Com igual sorte
    Do tempo, e morte
    Possão zombar:
    Tu por formosa,
    E elle, Marilia,
    Por te cantar.

    Mas ai! Marilia,
    Que de hum amante,
    Por mais que cante,
    Gloria não vem!
    Amor se pinta
    Menino, e cego:
    No doce emprêgo
    Do charo bem
    Não vê defeitos,
    E augmenta, quantas
    Bellezas tem.

    Nenhum dos Vates,
    Em teu conceito,
    Nutrio no peito
    Nescia paixão?
    Todas aquellas,
    Que vês cantadas,
    Forão dotadas
    De perfeição?
    Forão queridas;
    Porém formosas
    Talvez que não.

    Porém que importa
    Não valha nada
    Seres cantada
    Do teu Dirceo?
    Tu tens, Marilia,
    Cantor celeste;
    O meu Glauceste
    A voz ergueo;
    Irá teu nome
    Aos fins da Terra,
    E ao mesmo Ceo.

    Quando nas azas
    Do leve vento
    Ao Firmamento
    Teu nome for:
    Mostrando Jove
    Graça extremosa,
    Mudando a Esposa
    De inveja a côr;
    De todos ha-de,
    Voltando o rosto,
    Sorrir-se Amor.

    Ah! não se manche
    Teu brando peito
    Do vil defeito
    Da ingratidão:
    Os versos beija,
    Gentil Pastora,
    A penna adora,
    Respeita a mão,
    A mão discreta,
    Que te segura
    A duração.

    LYRA XXXII.

    N'uma noite socegado
    Velhos papeis revolvia,
    E por ver de que tratavão
    Hum por hum a todos lia.

    Erão copias emendadas
    De quantos versos melhores
    Eu compuz na tenra idade
    A meus diversos amores.

    Aqui leio justas queixas
    Contra a ventura formadas,
    Leio excessos mal acceitos,
    Doces promessas quebradas.

    Vendo sem razões tamanhas
    Eu exclamo transportado:
    _Que finezas tão mal feitas!
    Que tempo tão mal passado_!

    Junto pois n'hum grande monte
    Os soltos papeis, e logo,
    Porque reliquias não fiquem,
    Os intento pôr no fogo.

    Então vejo que o Deos cego
    Com semblante carregado
    Assim me falla, e crimina
    O meu intento acertado.

    _Queres queimar esses versos?
    Dize, Pastor attrevido,
    Essas Lyras não te forão
    Inspiradas por Cupido_?

    _Achas que de taes amores
    Não deve existir memoria?
    Sepultando esses triunfos,
    Não roubas a minha gloria_?

    Disse Amor; e mal se calla,
    Nos seus hombros a mão pondo,
    Com hum semblante sereno
    Assim á queixa respondo:

    _Depois, Amor, de me dares
    A minha Marilia bella,
    Devo guardar humas Lyras,
    Que não são em honra della_?

    _E que importa, Amor, que importa
    Que a estes papeis destrua;
    Se he tua esta maõ; que os rasga,
    Se a chamma, que os queima, he tua_?

    Apenas Amor me escuta
    Manda que os lance nas brazas;
    E ergue a chamma c'o vento,
    Que formou batendo as azas.

    LYRA XXXIII.

    Péga na lyra sonora,
    Péga meu charo Glauceste;
    E ferindo as cordas de ouro,
    Mostra aos rusticos Pastores
    A formosura celeste
    De Marilia, meus amores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Que concurso, meu Glauceste,
    Que concurso tão ditoso!
    Tu és digno de cantares
    O seu semblante divino;
    E o teu canto sonoroso
    Tambem do seu rosto he dino.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares ao vivo
    As suas faces mimosas,
    A discreta Natureza
    Que providencia não teve!
    Creou no jardim as rosas,
    Fez o lyro, e fez a neve.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    A pintar as negras tranças
    Peço que mais te desvelles:
    Pinta chusmas de amorinhos
    Pelos seus fios trepando;
    Huns tecendo cordas delles,
    Outros com elles brincando.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Para pintares, Glauceste,
    Os seus beiços graciosos,
    Entre as flores tens o cravo,
    Entre as pedras a granada;
    E para os olhos formosos,
    A estrella da madrugada.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Mal retratares do rosto
    Quanto julgares preciso,
    Não dês a cópia por feita;
    Passa a outros dotes, passa,
    Pinta da vista, e do riso
    A modestia, mais a graça.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta o garbo de seu rosto
    Com expressões delicadas;
    Os seus pés, quando passeão,
    Pizando ternos amores;
    E as mesmas plantas calcadas
    Brotando viçosas flores.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Pinta mais, prezado amigo,
    Hum terno amante beijando
    Suas douradas cadeias;
    E em doce pranto desfeito,
    Ao monte, e valle ensinando
    O nome, que tem no peito.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    Nem suspendas o teu canto,
    Inda que, Pastor, se veja
    Que a minha bocca suspira,
    Que se banha em pranto o rosto;
    Que os outros chorão de inveja,
    E chora Dirceo de gosto.
    Ah, pinta, pinta
    A minha bella!
    E em nada a cópia
    Se affaste della.

    FIM DA 1.^a PARTE.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    SEGUNDA PARTE.

    LISBOA: 1824.

    Na Typ. de J.F.M. de Campos.

    MARILIA DE DIRCEO

    LYRA I.

    Já não cínjo de loiro a minha testa,
    Nem sonoras Canções o Deos me inspira:
    Ah! que nem me resta
    Huma já quebrada,
    Mal sonora Lyra!

    Mas neste mesmo estado em que me vejo,
    Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te:
    Cumpro o seu desejo;
    E ao que resta supra
    A paixão, e a arte.

    A fumaça, Marilia, da candêa,
    Que a molhada parede ou çuja, ou pinta;
    Bem que tosca, e fêa,
    Agora me póde
    Ministrar a tinta.

    Aos mais preparos o discurso apronta:
    Elle me diz, que faça no pé de huma
    Má laranja ponta,
    E delle me sirva
    Em lugar de pluma.

    Perder as uteis horas não, não devo
    Verás, Marilia, huma idéa nova:
    Sim, eu já te escrevo,
    Do que esta alma dita
    Quanto amor approva.

    Quem vive no regaço da ventura,
    Nada obra em te adorar, que assombro faça:
    Mostra mais ternura
    Quem te estima, e morre
    Nas mãos da desgraça.

    Nesta cruel masmorra tenebrosa
    Ainda vendo estou teus olhos bellos,
    A testa formosa,
    Os dentes nevados,
    Os negros cabellos.

    Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda
    A chusma dos Cupidos, que pendentes
    Dessa bôcca linda,
    Nos ares espalhão
    Suspiros ardentes.

    Se alguem me perguntar onde eu te vejo,
    Responderei–no peito–que huns Amores
    De casto desejo
    Aqui te pintárão,
    E são bons Pintores.

    Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora
    Teu Retrato fizerão, e tão forte,
    Que entendo, que agora
    Só póde apagallo
    O pulso da Morte.

    Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo!
    Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro.
    Ah! dá-lhes hum beijo,
    E diz-me que valem
    Mais que letras de oiro.

    LYRA II.

    Esprema a vil calumnia muito embora
    Entre as mãos denegridas, e insolentes
    Os venenos das plantas,
    E das bravas serpentes.

    Chovão raios e raios, no meu rosto
    Não has-de ver, Marilia, o modo escrito;
    O medo perturbado,
    Que infunde o vil delicto.

    Pódem muito conheço, pódem muito,
    As Furias infernaes, que Pluto move;
    Mas póde mais que todas
    Hum dedo só de Jove.

    Este Deos convertêo em flor mimosa;
    A quem seu nome derão, a Narciso,
    Fêz d' muitos os Astros,
    Qu' inda no Ceo diviso.

    Elle póde livrar-me das injurias
    Do nescio, do atrevido ingrato povo;
    Em nova flor mudar me,
    Mudar-me em Astro novo.

    Porém se os justos Céos por fins occultos
    Em tão tyranno mal me não soccorrem,
    Verás então, que os sabios,
    Bem como vivem, morrem.

    Eu tenho hum coração maior que o mundo.
    Tu, formosa Marilia, bem o sabes:
    Hum coração, e basta,
    Onde tu mesma cabes.

    LYRA III.

    Succede, Marilia bella,
    Á medonha noite o dia:
    A estação chuvosa e fria,
    Á quente secca estação.
    Muda-se a sorte dos tempos;
    Só a rainha sorte não?

    Os troncos, nas Primaveras,
    Brotão em flores viçosos;
    Nos Invernos escabrosos
    Largão as folhas no chão.
    Muda-se a sorte dos troncos;
    Só a minha sorte não?

    Aos brutos, Marilia, cortão
    Armadas redes os passos;
    Rompem depois os seus laços,
    Fogem da dura prisão.
    Muda-se a sorte dos brutos;
    Só a minha sorte não?

    Nenhum dos homens conserva
    Alegre sempre o seu rosto;
    Depois das penas vem gosto,
    Depois do gosto afflicção.
    Muda-se a sorte dos homens;
    Só a minha sorte não?

    Aos altos Deoses movêrão
    Soberbos Gigantes guerra;
    No mais tempo o Ceo, e a Terra
    Lhes tributa adoração.
    Muda-se a sorte dos Deoses;
    Só a minha sorte não?

    Hade, Marilia, mudar-se
    Do destino a inclemencia:
    Tenho por mim a innocencia,
    Tenho por mim a razão.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    O tempo, ó bella, que gasta
    Os troncos, pedras, e o cobre,
    O véo rompe, com que encobre
    Á verdade a vil traição.
    Muda-se a sorte de tudo;
    Só a minha sorte não?

    Qual eu sou verá o mundo,
    Mais me dará do que eu tinha,
    Tornarei a ver-te minha.
    Que feliz consolação!
    Não ha de tudo mudar-se,
    Só a minha sorte não.

    LYRA IV.

    Já, já me vai, Marilia, branquejando
    Loiro cabello, que circúla a testa.
    Este mesmo, que alveja, vai cahindo,
    E pouco já me resta.

    As faces vão perdendo as vivas côres,
    E vão-se sobre os ossos enrugando,
    Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
    Tudo se vai mudando.

    Se quero levantar-me, as costas vergão;
    As forças dos meus membros já se gastão,
    Vou a dar pela casa huns curtos passos,
    Pesão-me os pés, e arrastão.

    Se algum dia me vires desta sorte,
    Vê que assim me não pôz a mão dos annos:
    Os trabalhos, Marilia, os sentimentos,
    Fazem os meus danos.

    Mal te vir me dará em poucos dias,
    A minha mocidade o doce gosto;
    Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se,
    Voltar a côr ao rosto.

    No calmoso Verão as plantas seccão,
    Na Primavera, que aos mortaes encanta,
    Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho,
    Verdeja logo a planta.

    A doença deforma a quem padece;
    Mas logo que a doença fez seu termo,
    Torna, Marilia, a ser quem era d'antes,
    O definhado enfermo.

    Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta,
    No meio da desgraça, que me altera:
    Eu tambem te supponho qual saude,
    Ou qual a Primavera.

    Se dão esses teus meigos, vivos olhos
    Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores;
    Que effeitos não farão, em quem por elles
    Sempre morrêo de amores?

    LYRA V.

    Os mares, minha bella, não se movem;
    O brando Norte assopra, nem diviso
    Huma nuvem sequer na Esfera toda,
    O destro Nauta aqui não he preciso;
    Eu só conduzo a náo, eu só modéro
    Do seu governo a roda.

    Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla,
    Rasga-se a véla, o mastaréo se parte!
    Qualquer varão prudente aqui já teme
    Não tenho a necessaria força, e arte.
    Corra o sabio Piloto, corra, e venha
    Reger o duro leme.

    Como succede á náo no mar, succede
    Aos homens na ventura, e na desgraça:
    Basta ao feliz não ter total demencia,
    Mas quem de venturoso a triste passa,
    Deve entregar o leme do discurso
    Nas mãos da sã prudencia.

    Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem;
    E esta alma, em tanta pena consternada,
    Nem sabe aonde possa achar conforto.
    Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada,
    Toma o leme da náo, marêa o panno,
    Vai-a salvar no porto.

    Mas ouço já de Amor as sabias vozes:
    Elle me diz que soffra se não morro;
    E perco então se morro huns doces laços.
    Não quero já, Marilia, mais soccorro,
    Oh ditoso soffrer, que lucrar póde
    A gloria dos teus braços.

    LYRA VI.

    De que te queixas,
    Lingua importuna?
    De que a Fortuna
    Roubar-te queira,
    O que te deu?
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Levou, Marilia,
    A impia sorte
    Catoens á morte;
    Nem sepultura
    Lhes concedeu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A outros muitos,
    Que vís nascêrão,
    Nem merecêrão,
    A grandes thronos
    A impia ergueu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Espalha a cega
    Sobre os humanos
    Os bens, e os damnos;
    E a quem se devão
    Nunca escolheu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    A quanto he justo,
    Já mais se dobra;
    Nem igual obra
    C'os mesmos Deoses
    Do cáro Ceo.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Sóbe ao Ceo Venus
    N'hum carro ufano;
    E cahe Vulcano
    Da pura esfera,
    Em que nasceu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    Mas não me rouba,
    Bem que se mude,
    Honra, e virtude:
    Que o mais he della,
    Mas isto he meu.
    Este foi sempre
    O genio seu.

    LYRA VII.

    Meu prezado Glauceste,
    Se fazes o conceito,
    Que bem que réo abrigo
    A candida virtude no meu peito.
    Se julgas, digo, que mereço ainda
    Da tua mão soccorro;
    Ah! vem dar-m'o agora,
    Agora sim que morro.

    Não quero, que montado
    No Pegaso fogoso,
    Venhas com dura lança
    Ao monstro infame traspassar raivoso.
    Deixa que viva a perfida calumnia,
    E forge o meu tormento:
    Com menos, meu Glauceste,
    Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada,
    E toca hum pouco nella:
    Levanta a vóz celeste
    Em parte que te escute a minha bella;
    Enche todo o contorno de alegria;
    Não soffras, que o desgosto
    Affogue em pranto amargo
    O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste,
    Que hum bom Cantor havia,
    Que os brutos amansava;
    Que os troncos, e os penedos attrahia.
    De outro destro Cantor tambem affirma;
    A sábia Antiguidade,
    Que as muralhas erguêra
    De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere;
    O som delgado, e terno
    Ao Rei Plutão abranda,
    E o deixa que penetre o fundo Averno.
    Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste;
    Na lyra, e mais no canto:
    Podes fazer prodigios;
    Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes:
    Que mais, que mais esperas?
    Consola hum peito afflito;
    Que he menos inda, que domar as féras.
    Com isto me darás no meu tormento
    Hum doce lenitivo,
    Que em quanto a bella vive,
    Tambem, Glauceste, vivo.

    LYRA VIII.

    Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen,
    A quem o nome derão de Fortuna,
    Pega-me pelo braço,
    E com voz importuna
    Me diz que mova o passo;
    Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra,
    Quanto o destino manda,
    Que ella obre sobre a terra.

    Que coizas portentosas nelle encontro!
    Eu vejo a pobre fundação de Roma,
    Vejo-a queimar Carthago;
    Vejo que as gentes doma;
    E vejo o seu estrago.
    Lá florece o poder do Assyrio Povo:
    Aqui os Medos crescem
    E os perde hum braço novo.

    Então me diz a Deosa: _E que pertendes?
    Todas estas Medalhas vêr agora?
    Ah! não, não sejas louco!
    Espaço de annos fôra
    Para isto ainda pouco.
    Deixo estranhos successos; vem comigo,
    Verás quanto inda deve
    Acontecer comtigo_.

    Levou-me aonde estava a minha historia,
    Que toda me explicou com medo, e arte.
    _Tirei-te libras de oiro_
    Me diz, _e quero dar-te
    Todo aquelle thesoiro.
    Não suspira por bens hum peito nobre_:
    Sevéro lhe respondo.
    _Vivo affeito a ser pobre_.

    Aqui me enruga a Deosa irada a testa;
    E fica sem fallar hum breve espaço.
    _Alegra, alegra o rosto_,
    Prosegue, _alli te faço
    Restituir o posto_.
    Respondo com ar de mofa, e tom sereno.
    _Conheço-te, Fortuna,
    Posso morrer pequeno_.

    _Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_.
    Então me banho todo de alegria
    _Cuidei_, me torna a cega,
    _Que essa alma não queria
    Nem esta mesma entrega.
    He esse o bem_, respondo, _que me move;
    Mas este bem he santo,
    Vem só da mão de Jove_.

    Queria mais fallar; eu insoffrido
    Desta maneira rompo os seus accentos:
    _Basta, Fortuna, basta;
    Estes breves momentos
    Lá noutras coizas gasta;
    Da minha sorte nada mais contemplo_.
    E chamando Marilia
    Suspiro, e deixo o Templo.

    LYRA IX.

    A estas horas
    Eu procurava
    Os meus Amores;
    Tinhão-me inveja
    Os mais Pastores.

    A porta abria,
    Inda esfregando
    Os olhos bellos,
    Sem flor, nem fitta
    Nos seus cabellos:

    Ah! que assim mesmo
    Sem compostura,
    He mais formosa,
    Que a estrella d'alva;
    Que a fresca rosa.

    Mal eu a via,
    Hum ar mais leve,
    (Que doce effeito!)
    Já respirava
    Meu terno peito.

    Do cerco apenas
    Soltava o gado,
    Eu lhe amimava
    Aquella ovelha
    Que mais amava.

    Dava-lhe sempre
    No rio, e fonte,
    No prado, e selva,
    Agua mais clara,
    Mais branda relva.

    No cóllo a punha,
    Então brincando
    A mim a unia;
    Mil coizas ternas
    Aqui dizia.

    Marilia vendo
    Que eu só com ella
    He que fallava;
    Ria-se a furto,
    E disfarçava.

    Desta maneira
    Nos castos peitos,
    De dia, em dia
    A nossa chamma
    Mais se accendia.

    Ah! quantas vezes
    No chão sentado,
    Eu lhe lavrava
    As finas rócas,
    Em que fiava?

    Da mesma sorte
    Que á sua amada,
    Que está no ninho,
    Fronteiro canta
    O passarinho.

    Na quente sésta,
    Della defronte,
    Eu me entretinha
    Movendo o ferro
    Da sanfoninha.

    Ella por dar-me
    De ouvir o gosto,
    Mais se chegava:
    Então vaidoso
    Assim cantava:

    Não ha Pastora,
    Que chegar possa
    Á minha bella;
    Nem quem me iguale
    Tambem na estrella:

    Se Amor concede
    Que eu me recline
    No branco peito,
    Eu não invejo
    De Jove o leito:

    Ornão seu peito
    As sãs virtudes,
    Que nos namorão;
    No seu semblante
    As Graças morão.

    Assim vivia:
    Hoje em suspiros
    O canto mudo:
    Assim, Marilia,
    Se acaba tudo.

    LYRA X.

    Arde o velho barril, arde a cabeça,
    Em honra de João na larga rua;
    O credulo Mortal agora indaga,
    Qual seja a sorte sua?

    Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue,
    E nella orvalhe o Ceo de madrugada,
    Para ver se rebentão novas folhas,
    Aonde foi queimada.

    Tambem não tenho hum ovo, que despeje
    Dentro de hum cópo d'agua, e possa nella
    Fingir Palacios grandes, altas Torres,
    E huma Náo á véla.

    Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido
    Que na boca hum bochecho d'agoa tome,
    E atráz de qualquer porta attento esteja,
    Até ouvir hum nome.

    Que o nome, que primeiro ouvir, he esse
    O nome, que ha de ter a minha amada:
    Pode verdade ser, se fôr mentira,
    Tambem não custa nada.

    Vou tudo executar, e de repente
    Ouvi dizer o nome de Filena:
    Despejo logo a boca: ah! não sei como
    Não morro alli de pena!

    Apparece Cupido: então soltando
    Em ar de zombaria huma risada.
    E que tal, me pergunta, esteve a peça?
    Não foi bem pregada?

    Eu já te disse, que Marilia he tua:
    Tu fazes do meu dito tanta conta,
    Que vais acreditar, o que te ensina
    Velha mulher já tonta.

    Humilde lhe respondo: quem debaixo
    Do açoite da Fortuna afflito geme,
    Nas mesmas coisas, que só são brinquedos,
    Se agoirão males, teme.

    LYRA XI.

    Se acaso não estou no fundo Averno
    Padece, ó minha bella, sim padece
    O peito amante, e terno,
    As afflições tyrannas, que os Preceitos
    Arbîtra Rhadamantho em justa pena
    Dos barbaros delictos.

    As Furias infernaes, rangendo os dentes
    Com a mão descarnada não me applicão
    As raivosas serpentes.
    Mas cercão-me outros monstros mais irados:
    Mordem-me sem cessar as bravas serpes
    De mil, e mil cuidados.

    Eu não gasto, Marilia, a vida toda
    Em lançar o penedo da montanha;
    Ou em mover a roda.
    Mas tenho ainda mais cruel tormento:
    Por coisas que me affligem, roda, e gyra
    Cançado pensamento.

    Com retorcidas unhas agarrado
    Ás tepidas entranhas não me come
    Hum abutre esfaimado.
    Mas sinto de outro monstro a crueldade:
    Devora o coração, que mal palpita,
    O abutre da saudade.

    Não vejo os pomos, nem as aguas vejo,
    Que de mim se retirão, quando busco
    Fartar o meu desejo;
    Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato,
    Que lograr-te não possa, estando vendo
    Nesta alma o teu retrato.

    Estou no Inferno, estou, Marilia bella;
    E n'huma coisa só he mais humana
    A minha dura estrella:
    Huns não podem mover do Inferno os passos;
    Eu pertendo vôar, e vôar cedo
    Á gloria dos teus braços.

    LYRA XII.

    Ah, Marilia, que tormento
    Não tens de sentir saudosa!
    Não podem ver os teus olhos
    A campina deleitosa,
    Nem a tua mesma Aldêa,
    Que tyrannos não proponhão
    Á inda inquieta idéa
    Huma imagem de afflição.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando levares, Marilia,
    Teu ledo rebanho ao prado
    Tu dirás: aqui trazia
    Dirceo tambem o seu gado.
    Verás os sitios ditosos
    Onde, Marilia, te dava,
    Doces beijos amorosos
    Nos dedos da branca mão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando á janella sahires
    Sem quereres, descuidada,
    Tu verás, Marilia, a minha
    E minha pobre morada.
    Tu dirás então comtigo:
    Alli Dirceo esperava
    Para me levar comsigo:
    E alli soffreo a prisão.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando vires igualmente
    Do caro Glauceste a choça,
    Onde alegre se juntavão
    Os pouco da escolha nossa,
    Pondo os olhos na varanda
    Tu dirás, de mágoa chêa:
    Todo o congresso alli anda,
    Só o meu Amado não.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    Quando passar pela rua
    O meu companheiro honrado,
    Sem que me vejas com elle
    Caminhar emparelhado,
    Tu dirás: não foi tyranna
    Sómente comigo a sorte;
    Tambem cortou deshumana
    A mais fiel união.
    Mandarás aos surdos Deoses
    Novos suspiros em vão.

    N'uma masmorra mettido
    Eu não vejo imagens destas,
    Imagens, que são por certo
    A quem adora funestas.
    Mas se existem separadas
    Dos inchados rôxos olhos,
    Estão, que he mais, retratadas
    No fundo do coração.
    Tambem mando aos surdos Deoses
    Tristes suspiros em vão.

    LYRA XIII.

    Ves, Marilia, hum cordeiro
    De flores enramado,
    Como alegre caminha
    A ser sacrificado?
    O Povo para o Templo já concorre:
    A Pyra sacro-santa já se accende:
    O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vês agora o novilho,
    A quem segura o laço:
    No chão as mãos especa:
    Nem quer mover hum passo:
    Não conhece que sahe de hum máo terreno;
    Que o forte pulso, que a seguir o arrasta,
    O conduz a viver n'um campo ameno.

    Ignora o bruto, como
    Lhe dispomos a sorte:
    Hum vai forçado á vida,
    Vai outro alegre á morte,
    Nós temos, minha bella, igual demencia:
    Não sabemos os fins, com que nos move
    A sábia, occulta Mão da Providencia.

    De Jacob ao bom filho
    Os máos matar quizerão:
    De conselho mudárão,
    Como escravo o vendêrão:
    José não corre a ser hum servo afflito:
    Vai subindo os degráos, por onde chega
    A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino
    Hoje, ó bella, me prende,
    Só porque nisto de outros
    Mais damnos me defende?
    Póde inda raiar hum claro dia.
    Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro;
    E beijo a santa mão, que assim me guia.

    LYRA XIV.

    Alma digna de mil Avós Augustos!
    Tu sentes, tu soluças
    Ao ver cahir os justos;
    Honras as santas leis da Humanidade:
    E aos teus exemplos deve
    Gravar com letras de oiro no seu Templo
    A candida Amizade.

    Não he, não he de Heróe huma alma forte,
    Que vê com rosto enchuto
    No seu igual a morte.
    Não he tambem de Heróe hum peito duro,
    Que a sua gloria firma,
    Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo,
    Nem legião, nem muro.

    Oh! quanto ousado Chefe me namora,
    Quando vê a cabeça
    Do bom Pompeo, e chora!
    He grande para mim, quem move os passos,
    E de Dario aos filhos,
    Que como escravos seus tratar podéra,
    Recebe nos seus braços.

    Se alcança Eneas, Capitão piedoso,
    Entre os Heróes do Mundo
    Hum nome glorioso,
    Não he, porque levanta huma cidade;
    He sim, porque nos hombros
    Salvou do incendio ao Pai a quem detinha
    A mão da branca idade.

    Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira;
    Eu mesmo, sim, da morte
    Aos hombros o remira:
    Inda por elle muito mais obrára:
    E se nada servisse,
    Fizera então, Amigo, o que fizeste,
    Gemêra, e suspirára.

    Oh! quanto são duraveis as cadêas
    De huma amizade, quando
    Se dão iguaes idéas!
    Se a pezar dos estorvos se sustinha
    Nossa união sincera,
    Foi por ser a minha alma igual á tua,
    E a tua igual á minha.

    Se, ó caro Amigo, te merece tanto,
    Lá lhe fica a sua alma,
    Limpa-lhe o terno pranto.
    De quem eu fallo, és tu, Marilia bella.
    Ah! sim, honrado Amigo,
    Se enxugar não poderes os seus olhos;
    Prantêa então com ella.

    LYRA XV.

    Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro;
    Fui honrado Pastor da tua Aldêa;
    Vestia finas lãns, e tinha sempre
    A minha chóça do preciso chêa.
    Tirarão-me o casal, e o manso gado,
    Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

    Para ter, que te dar, he que eu queria
    De mór rebanho ainda ser o dono;
    Prezava o teu semblante, os teus cabellos
    Ainda muito mais que hum grande Throno.
    Agora que te offerte já não vejo
    Além de hum puro amor, de hum são desejo.

    Se o rio levantado me causava
    Levando a sementeira prejuiso,
    Eu alegre ficava apenas via
    Na tua breve boca hum ar de riso.
    Tudo agora perdi; nem tenho o gosto
    De ver-te ao menos compassivo o rosto.

    Propunha-me dormir no teu regaço
    As quentes horas da comprida sésta,
    Escrever teus louvores nos olmeiros,
    Toucar-te de papoilas na floresta.
    Julgou o justo Ceo, que não covinha
    Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

    Ah, minha bella, se a Fortuna volta,
    Se o bem que já perdi alcanço, e provo;
    Por essas brancas mãos, por essas faces
    Te juro renascer hum homem novo;
    Romper a nuvem que os meus olhos cerra,
    Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

    Fiadas comprarei as ovelhinhas,
    Que pagarei dos poucos do meu ganho;
    E dentro em pouco tempo nos veremos
    Senhores outra vez de hum bom rebanho.
    Para o contagio lhe não dar sobeja
    Que as affague Marilia, ou só que as veja.

    Se não tivermos lans, e pelles finas,
    Podem mui bem cobrir as carnes nossas
    As pelles dos cordeiros mal cortidas,
    E os pannos feitos com as lans mais grossas.
    Mas ao menos será o teu vestido
    Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

    Nós iremos pescar na quente sésta
    Com canas, e com cêstos os peixinhos:
    Nós iremos caçar nas manhãs frias
    Com a vara envisgada os passarinhos;
    Para nos divertir faremos quanto
    Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

    Nas noites de serão nos sentaremos
    C'os filhos se os tivermos á fogueira;
    Entre as falsas historias, que contares,
    Lhes contarás a minha verdadeira:
    Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto
    Ainda o rosto banharei de pranto.

    Quando passarmos juntos pela rua
    Nos mostraráõ c'o dedo os mais Pastores,
    Dizendo huns para os outros: olha os nossos
    Exemplos da desgraça, e sãos amores.
    Contentes viviremos desta sorte,
    Até que chegue a hum dos dois a morte.

    LYRA XVI.

    Vejo, Marilia,
    Que o nédeo gado
    Anda disperso
    No monte, e prado;
    Que assim succede
    Ao desgraçado,
    Que a perder chega
    O seu Pastor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Tambem conheço,
    Que os Pegureiros,
    Que apascentavão
    Os meus cordeiros,
    Darão suspiros
    E verdadeiros;
    Porque perdêrão
    Hum pai no amor.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Eu mais alcanço;
    Que a minha herdade
    Estando eu prezo,
    Soffrer não ha-de
    Nem a charrua,
    E nem a grade;
    Que a mão lhe falta
    Do Lavrador.
    Mas inda soffro
    A viva dôr.

    Mas quando sobe
    Á minha idéa,
    Que tu ficaste
    Lá nessa Aldêa.
    De mil cuidados
    E mágoa cheia;
    Das paixões minhas
    Não sou senhor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    A quanto chega
    A pena forte!
    Peza-me a vida,
    Desejo a morte,
    A Jove accuso,
    Maldigo a sorte,
    Trato a Cupido
    Por hum traidor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    Mas este excesso
    Perdão merece,
    E delle Jove
    Se compadece;
    Que Jove, ó bella,
    Mui bem conhece,
    Aonde chega
    Paixão de amor.
    Eu já não soffro
    A viva dôr.

    LYRA XVII.

    Dirceo te deixa, ó bella,
    De padecer cançado:
    Frio suor já banha
    Seu rosto descórado;
    O sangue já não gyra pela vêa,
    Seus pulsos já não batem;
    E a clara luz dos olhos se bacêa:
    A lagrima sentida já lhe corre;
    Já pára a convulsão, suspira, e morre.

    Seu espirito chega
    Onde se pune o erro:
    Late o cão, e se lhe abrem
    Grossos portões de ferro.
    Aos severos Juizes se apresenta;
    E com sentidas vozes
    Toda a sua tragedia representa:
    Enche-se de ternura, e novo espanto
    O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca,
    E a pedra não despede;
    Outro já não se lembra
    Da fome, e mais da sede:
    Descança o curvo bico, e a garra impia
    Negro abutre esfaimado:
    Nem a roca medonha a Parca fia,
    Até as mesmas Furias inclementes
    Deixão cahir das unhas as serpentes.

    Já votão os Juizes;
    E o Rei Plutão lhe ordena
    Deixe o sitio, em que ficão
    Almas dignas de pena.
    Já sahe do escuro Reino, e da memoria
    Lhe passa tudo quanto
    Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria.
    Só, bem que o gosto as turvas agoas tome,
    Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra já nos Elysios
    Campinas venturosas,
    Que mansos rios cortão,
    Que cobrem sempre as rosas.
    Escuta o canto das sonoras aves,
    E bebe as agoas puras,
    Que o mel, e de que o leite mais suaves.
    Aqui, diz elle, espero a minha bella,
    Aqui contente viverei com ella.

    Aqui… porém aonde
    Me leva a dôr activa?
    He illusão desta alma.
    Jove inda quer que eu viva.
    Eu devo sim gosar teus doces laços;
    E em paga dos meus males
    Devo morrer, Marilia, nos teus braços.
    Então eu passarei ao Reino amigo;
    E tu irás despois lá ter comigo.

    LYRA XVIII.

    Não mólho, Marilia,
    De pranto a masmorra
    Que o terno Cupido
    Não vôe, e não corra,
    A hilo apanhar.
    Estende-o nas azas
    Sobre elle suspira,
    Por fim se retira,
    E vai-to levar.

    Se o moço não mente,
    Aos tristes gemidos,
    Aos ais lastimosos
    Não guardes unidos,
    Marilia, c'os teus:
    As lagrimas nossas
    No seio amontôa
    Fórma azas, e vôa,
    Vai pô-las nos Ceos.

    A Deosa formosa,
    Que amava aos Troianos,
    Livra-los querendo
    De riscos, e damnos
    A Jove buscou.
    As aguas, que o rosto
    Da Deosa banhárão,
    A Jove abrandárão,
    E assim os salvou.

    Confia-te, ó bella,
    Confia-te em Jove;
    Ainda se abranda,
    Ainda se move
    Com ancias de amor.
    O pranto de Venus,
    Que obrou no Pai tanto,
    Não tem que o teu pranto
    Apreço maior.

    LYRA XIX.

    Nesta triste masmorra,
    De hum semivivo corpo sepultura,
    Inda, Marilia, adoro
    A tua formosura.
    Amor na minha idéa te retrata,
    Busca extremoso, que eu assim resista
    Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero,
    Então mais vivamente te diviso:
    Vejo o teu rosto, e escuto
    A tua voz, e riso.
    Movo ligeiro para o vulto os passos:
    Eu beijo a tibia luz em vez de face;
    E aperto sobre o peito em vão os braços.

    Conheço a illusão minha;
    A violencia da mágoa não supporto;
    Foge-me a vista, e caio
    Não sei se vivo, ou morto.
    Enternece-se Amor de estrago tanto;
    Reclina-me no peito, e com mão terna
    Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento
    Por largo espaço a imagem de hum defunto,
    Movo os membros, suspiro,
    E onde estou pergunto.
    Conheço então que Amor me tem comsigo;
    Ergo a cabeça, que inda mal sustento,
    E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso,
    Procura o sitio em que Marilia móra,
    Pinta-lhe o meu estrago,
    E vê, Amor, se chora.
    Se as lagrimas verter a dôr a arrasta,
    Huma dellas me traze sobre as pennas,
    E para allivio meu só isto basta.

    LYRA XX.

    E me visses com teus olhos
    Nesta masmorra mettido;
    De mil idéas funestas,
    E cuidados combatido:
    Qual seria, ó minha bella,
    Qual seria o teu pezar?

    Á força da dôr cedêra;
    E nem estaria vivo,
    Se o menino Deos vendado,
    Extremoso, e compassivo,
    Com o nome de Marilia
    Não me viesse animar.

    Deixo a cama ao romper d'alva;
    O meio dia tem dado,
    E o cabello inda flutua
    Pelas costas desgrenhado.
    Não tenho valor, não tenho;
    Nem para de mim cuidar.

    Diz-me Cupido: E Marilia;
    Não estima esse cabello?
    Se o deixas perder de todo
    Não se ha de enfadar ao vêllo?
    Suspiro pego no pente,
    Vou logo o cabello atar.

    Vem hum taboleiro entrando
    De varios manjares cheio,
    Põe-se na meza a toalha,
    E eu pensativo passeio:
    De todo o comer esfria,
    Sem nelle poder tocar.

    Eu entendo que matar-te,
    Diz Amor, te tens proposto;
    Fazes bem: terá Marilia
    Desgosto sobre desgosto.
    Qual enfermo c'o remedio
    Me afflijo, mas vou jantar.

    Chegão as horas Marilia,
    Em que o Sol já se tem posto,
    Vem-me á memoria que nellas
    Via á janella o teu rosto:
    Reclino na mão a face
    E entro de novo a chorar.

    Diz-me Cupido: Já basta,
    Já basta, Dirceo, de pranto;
    Em obsequio de Marilia
    Vai erguer teu doce canto.
    Pendem as fontes dos olhos,
    Mas eu sempre vou cantar.

    Vem o Forçado accender-me
    A velha çuja candêa;
    Fica, Marilia, a masmorra
    Inda mais triste, e mais fêa.
    Nem mais canto, nem mais posso
    Huma só palavra dar.

    Diz-me Cupido: São horas
    De escrever-se o que está feito;
    Do azeite, e da fumaça
    Huma nova tinta ageito,
    Tomo o páo, que penna finge,
    Vou as Lyras copiar.

    Sem que chegue o leve sono
    Canta o Gallo a vez terceira;
    Eu digo ao Amor; que fico
    Sem deitar-me a noite inteira:
    Faço mimos, e promessas
    Para elle me acompanhar.

    Elle diz que em dormir cuide,
    Que hei-de ver Marilia em sonho;
    Não respondo huma palavra,
    A dura cama componho,
    Apago a triste candêa,
    E vou-me logo deitar.

    Como póde a taes cuidados
    Risistir, ó minha Bella,
    Quem não tem de Amor a graça?
    Se eu que vivo á sombra della
    Inda vivo desta sorte,
    Sempre triste a suspirar?

    LYRA XXI.

    Que diversas que são, Marilia, as horas
    Que passo na masmorra immunda, e fêa,
    Dessas horas felizes, já passadas
    Na tua patria Aldêa.

    Então eu me ajuntava com Glauceste;
    E á sombra de alto Cédro na Campina
    Eu versos te compunha, e elle os compunha
    Á sua cara Eulina.

    Cada qual o seu canto aos Astros leva;
    De exceder hum ao outro qualquer trata
    O ecco agora diz: _Marilia terna_;
    E logo: _Eulina ingrata_.

    Deixão os mesmos Sátyros as grutas:
    Hum para nós ligeiro move os passos;
    Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta
    C'os pés em mil pedaços.

    Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece
    Da ternissima Marilia a formosura.
    E aonde, clama o outro, quer Eulina
    Achar maior ventura?

    Nenhum Pastor cuidava do rebanho,
    Em quanto em nós durava esta porfia.
    E ella, ó minha amada, só findava
    Depois de acabar-se o dia.

    Á noite te escrevia na cabana
    Os versos, que de tarde havia feito;
    Mal tos dava, e os lias, os guardavas
    No casto, e branco peito.

    Beijando os dedos dessa mão formosa,
    Banhados com as lagrimas do gosto,
    Jurava não cantar mais outras graças
    Que as graças do teu rosto.

    Ainda não quebrei o juramento.
    Eu agora, Marilia, não as canto;
    Mas inda vale mais que os doces versos
    A voz do triste pranto.

    LYRA XXII.

    Por morto, Marilia,
    Aqui me reputo:
    Mil vezes escuto
    O som do arrastado,
    E duro grilhão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    A chave lá sôa
    Na porta segura:
    Abre-se a escura,
    Infame masmorra
    Da minha prizão.
    Mas, ah! que não treme;
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Eu vejo, Marilia,
    A mil innocentes
    Nas Cruzes pendentes,
    Por falsos delictos,
    Que os homens lhes dão.
    Mas, ah! que não treme,
    Não treme de susto
    O meu coração.

    Se penso que posso
    Perder o gozar-te
    A gloria de dar-te
    Abraços honestos,
    E beijos na mão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    Repára, Marilia,
    O quanto he mais forte
    Ainda que a morte,
    N'um peito esforçado
    De amor a paixão.
    Marilia, já treme,
    Já treme de susto
    O meu coração.

    LYRA XXIII.

    Não praguejes, Marilia, não praguejes
    A justiceira mão que lança os ferros:
    Não traz de balde a vingadora espada;
    Deve punir os erros.

    Virtudes de Juiz, virtudes de homem
    As mãos se derão, e em seu peito morão.
    Mandão prender ao Réo austera a boca,
    Porém seus olhos chorão.

    Se á innocencia denigre a vil calumnia
    Que culpa aquelle tem que applica a penna.
    Não he o Julgador, he o processo,
    E a lei quem nos condemna.

    Só no Averno os Juizes não recebem
    Accusação, nem prova de outro humano;
    Aqui todos confessão suas culpas,
    Não póde haver engano.

    Eu vejo as Furias affligindo aos tristes:
    Huma o fogo chega, outra as serpes move;
    Todos maldizem sim a sua estrella,
    Nenhum accusa a Jove.

    Eu tambem inda adoro ao grande Chefe,
    Bem que a prizão me dá que eu não mereço.
    Qual eu sou, minha bella, não me trata,
    Trata-me qual pareço.

    Quem suspira, Marilia, quando pune
    Ao vassallo que julga delinquente;
    Que gosto não terá podendo dar-lhe
    As honras de innocente?

    LYRA XXIV.

    Eu vou, Marilia, vou brigar co' as feras:
    Huma soltárão, eu lhe sinto os passos,
    Aqui aqui a espero
    Nestes despidos braços.
    He hum malhado tigre; a mim já corre,
    Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas,
    Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

    Vem agora hum Leão: sacode a grenha,
    Com faminta paixão a mim se lança;
    Venha embora, que o pulso
    Ainda não se cança.
    Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira,
    O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão,
    Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

    Mas que vejo, Marilia! tu te assustas?
    Entendes que os destinos inhumanos
    Expoem a minha vida
    No cêrco dos Romanos?
    Com ursos, e com onças eu não luto.
    Luto c'o bravo monstro que me accusa;
    Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

    Embora contra mim raivoso esgrima
    Da vil calumnia a cortadora espada;
    Huma alma, qual eu tenho,
    Não se recêa a nada.
    Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia,
    Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito
    Co' as armas invenciveis da innocencia.

    Ah, quando imaginar, que vingativo
    Mando que desça ao Tartaro profundo
    Hei-de com mão honrada
    Erguer-lhe o corpo immundo.
    Eu então lhe direi: Infame, indîno,
    Obras como costuma o vil humano;
    Faço o que faz hum coraçao divino.

    LYRA XXV.

    Minha Marilia,
    O passarinho,
    A quem roubárão
    Ovos, e ninho,
    Mil vezes pousa
    No seu raminho,
    Piando finge
    Que anda a chorar.
    Mas logo vôa
    Pela espessura,
    Nem mais procura
    Este lugar.

    Se acaso a vacca
    Perde a vitéla,
    Tambem nos mostra,
    Que se desvéla,
    O pasto deixa,
    Muge por ella,
    Até na estrada
    A vem buscar.
    Em poucos dias,
    Ao que parece,
    Della se esquece,
    E vai pastar.

    O voraz Tempo,
    Que o ferro come,
    Que aos mesmos Reinos
    Devora o nome,
    Tambem, Marilia,
    Tambem consome
    Dentro do peito
    Qualquer pezar.
    Ah só não póde
    Ao meu tormento
    Por hum momento
    Allivio dar.

    Tambem, ó bella,
    Não ha quem viva
    Instantes breves
    Na chamma activa;
    Derrete ao bronze
    Sendo excessiva
    Ao mesmo seixo
    Faz estalar.
    Mas do amianto
    A fêbra dura
    Na chamma atura
    Sem se queimar.

    Tambem, Marilia,
    Não ha quem negue,
    Que bem que o fogo
    Nos oleos pegue,
    Que bem que em lingoas
    Ás nuvens chegue,
    Á força d'agoa
    Se ha de apagar.
    Se a negra pedra
    Nós accendemos,
    Com agoa a vemos
    Mais s'inflammar.

    O meu discurso,
    Marilia, he resto:
    A pena iguala
    Ao meu affecto.
    O amor que nutro
    Ao teu aspecto,
    E o teu semblante
    He singular.
    Ah! nem o tempo,
    Nem inda a morte
    A dôr tão forte
    Pode acabar.

    LYRA XXVI.

    Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza,
    C'o bordão apalpa, e aos que vem pergunta;
    Ainda se despenha muitas vezes,
    E dois remedios junta.

    De ser céga a Fortuna eu não me queixo;
    Sim me queixo de que má céga seja
    Céga que nem pergunta, nem apalpa,
    He porque errar deseja.

    A quem gastar não sabe, nem se anima,
    Entrega as grossas chaves de hum thesoiro;
    E lança na miseria a quem conhece
    Para que serve o oiro.

    A quem fere, a quem rouba, a infame deixa
    Que a traz do vicio em liberdade corra,
    Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime
    N'esta vil masmorra.

    Mas ah! minha Marilia, que esta queixa
    Co' a sólida razão se não coaduna,
    Como me queixo da Fortuna tanto,
    Se sei não ha Fortuna?

    Os Fados, os Destinos, essa Deosa
    Que os Sábios fingem que huma roda move
    He só a occulta mão da Providencia,
    A sábia mão de Jove.

    Nós he que somos cegos, que não vemos;
    A que fins nos conduz por estes modos;
    Por torcidas estradas, ruins varedas
    Caminha ao bem de todos.

    Alegre-se o perverso com as ditas;
    C'o seu merecimento o virtuoso;
    Parecer desgraçado, ó minha bella,
    He muito mais honroso.

    LYRA XXVII.

    A minha amada
    He mais formosa
    Que branco lyrio,
    Dobrada rosa,
    Que o cinnamomo,
    Quando matiza
    Co' a folha a flor.
    Venus não chega
    Ao meu Amor.

    Vasta campina
    De trigo chêa,
    Quando na sésta
    C'o vento ondêa,
    Ao seu cabello
    Quando flutua
    Não he igual.
    Tem a côr negra:
    Mas quanto val!

    Os astros, que andão
    Na esfera pura,
    Quando scintilão
    Na noite escura,
    Não são humanos,
    Tão lindos, como
    Seus olhos são.
    Que ao Sol excedem
    Na luz que dão.

    Ás brancas faces,
    Ah! não se atreve
    Jasmis de Italia,
    Nem inda a neve,
    Quando a desata
    O Sol brilhante
    Com seu calôr.
    São neve, e causão
    No peito ardôr.

    Na breve boca
    Vejo enlaçadas
    As finas per'las
    Com as granadas;
    A par dos beiços
    Rubins da India
    Tem preço vil.
    Nelles se agarrão
    Amores mil.

    Se não lhe désse
    Compadecido
    Tanto soccorro
    O Deos Cupido;
    Se não vivêra
    Huma esperança
    No peito seu;
    Já morto estava
    O bom Dirceo.

    Vê quanto póde
    Teu bello rosto;
    E de goza-lo
    O vivo gosto!
    Que sobmergido
    Em hum tormento
    Quasi infernal,
    Porqu' inda espero
    Resisto ao mal.

    LYRA XXVIII.

    Deten-te, vil humano,
    Não espremas cicutas
    Para fazer-me damno.
    O çumo que ellas dão he pouco forte,
    Procura outras bebidas,
    Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo,
    Ajunta ahi venenos,
    Que nunca visse o mundo;
    Traze o negro licôr, que tem nos dentes,
    Nos dentes retorcidos
    As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado,
    Que pôz a Natureza,
    Dentro no Mar salgado,
    Não se abala no meio da tormenta,
    Bem que huma onda, e outra onda
    Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra
    Ás robustas raizes,
    Buscando o centro, afferra,
    Não teme ao furacão mais violento;
    E menos se se deixa
    Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rócha, ó bella,
    Que açoita o Sul que brama,
    E o Mar, que se encapella:
    Não temas que do rosto a côr se mude:
    Vence as róchas, e os troncos
    A sólida Virtude.

    A maior desventura
    He sempre a que nos lança
    No horror da sepultura:
    O cobarde a morrer tambem caminha;
    Com que males não póde
    Huma alma como a minha?

    LYRA XXIX.

    Eu descubro procurar-me
    Gentil mancebo, e loiro,
    Trazia a testa adornada
    Com folhas de verde loiro.
    Vejo ser o Pai das Musas,
    E me entrega a lyra d'oiro.

    Já basta, me diz, ó filho,
    Já basta de sentimento;
    O cançado peixe exige
    Hum breve contentamento.
    Louva a formosa Marilia
    Ao som do meu instrumento.

    Firo as cordas; mas que importa?
    A dôr não socega em tanto.
    Ergo a voz, então reparo
    Que quanto mais corre o pranto
    He mais doce, e mais sonoro
    Meu terno, e saudoso canto.

    Apollo fitou os olhos
    Na mão, que regía o braço;
    E depois de estar suspenso,
    De me houvir hum largo espaço;
    Assim diz: _o Deos Cupido
    Faz inda mais do que eu faço_.

    _Eu te dou a minha lyra,
    Louva, louva a tua Bella;
    Porém vê que ta concedo
    Com condição, e cautella_…
    Eu lhe corto a voz, dizendo,
    Que só canto em honra della.

    LYRA XXX.

    O pai das Musas,
    O Pastor loiro
    Deo-me, Marilia,
    Para cantar-te
    A lyra de oiro.

    As cordas firo,
    O brando vento
    Teus dotes leva
    Nas brancas azas
    Ao firmamento.

    O teu cabello
    Vale hum thesoiro;
    Hum só me adorna
    A sabia frente
    Melhor que o loiro.

    Nesses teus olhos
    Amor assiste;
    Delles faz guerra;
    Ninguem lhe foge;
    Ninguem resiste.

    Algumas vezes
    Eu o diviso
    Tão bem occulto
    Nas lindas cóvas,
    Que faz teu riso.

    Nesses teus peitos
    Tem os seus ninhos
    Destros Amores,
    Nelles se gerão
    Os Cupidinhos.

    Vences a Venus,
    Quando com arte
    As armas toma,
    Porque mais prenda
    Ao fero Marte.

    Eu produzia
    Estas idéas,
    Quando, Marilia;
    O som escuto
    Das vis cadêas.

    Dou hum suspiro.
    Corre o meu pranto;
    E inda bebendo
    Lagrimas tristes,
    De novo canto.

    Sou da constancia
    Hum vivo exemplo.
    E vós, ó ferros,
    Honrareis inda
    De Amor o Templo.

    LYRA XXXI.

    Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía,
    Quanto de meu gosava
    N'um só funesto dia.

    Honras de maioral, manada grossa,
    Fertil, extensa herdade,
    Bem reparada chóça.

    Metteo-me nesta infame sepultura,
    Que he sepulcro sem honras,
    Breve masmorra, escura.

    Aqui, ó minha Amada, nem consigo,
    Venha outro desgraçado
    Sentir tambem comigo.

    Mas se esta companhia não mereço;
    Os Deoses me dão outra,
    Inda de mais apreço.

    Não he, não, illusão o que te digo;
    Tu mesma me acompanhas;
    Peno, mas he comtigo.

    Não vejo as tuas faces graciosas,
    Os teus soltos cabellos,
    As tuas mãos mimosas.

    Se eu as visse, infeliz me não dissera,
    Bem que subira ao Porto,
    Bem que na Cruz pendêra.

    Não ouço as tuas vozes magoadas,
    Com ardentes suspiros
    Ás vezes mal formadas.

    Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas;
    Huma por hum beijo,
    E choro então sobre ellas.

    Tu me dizes que siga o meu destino;
    Que o teu amor na ausencia
    Será leal, e fino.

    De novo a carta ao coração aperto,
    De novo a molha o pranto
    Que de ternura verto.

    Ah! leve muito embora o duro Fado;
    A tudo quanto tenho
    Com meu suor ganhado.

    Eu juro, que do roubo nem me queixe,
    Com tanto, ó minha cara,
    Que este só bem me deixe.

    Que males voluntarios não subírão,
    Os que te amão, sómente
    Porque menos te ouvírão?

    Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga;
    Que eu tenho aquella gloria,
    Que a mil felizes nega.

    LYRA XXXII.

    Se o vasto mar se encapella,
    E na rócha em flor rebenta,
    Grossa náo, q' não tem léme,
    Em vão sustentar-se intenta;
    Até que naufraga, e corre
    Á discrição da tormenta.

    Quem não tem huma Belleza,
    Em que ponha o seu cuidado,
    Se o Ceo se cobre de nuvens,
    E se assopra o vento irado,
    Não tem forças que resistão
    Ao impulso do seu fado.

    Nesta sombria masmorra,
    Aonde, Marilia, vivo,
    Encosto na mão o rosto,
    Fico ás vezes pensativo.
    Ah! que imagens tão funestas
    Me finge o pezar activo.

    Parece que vejo a honra,
    Marilia, toda enlutada,
    A face de hum pai rugosa,
    N'um mar de pranto banhada,
    Os amigos mascilentos,
    E a familia consternada.

    Quero voltar os meus olhos
    Para outro diverso lado,
    Vejo n'uã grande Praça
    Hum Theatro levantado.
    Vejo as Cruzes, vejo os Potros,
    Vejo o Alfanje afiado.

    Hum frio suor me cobre,
    Lação-se os membros, suspiro,
    Busco allivio ás minhas ancias,
    Não o descubro, deliro.
    Já, meu Bem, já me parece,
    Que nas mãos da morte espiro.

    Vem-me então ao pensamento
    A tua testa nevada,
    Os teus meigos, vivos olhos,
    A tua face rosada,
    Os teus dentes crystallinos,
    A tua boca engraçada.

    Qual, Marilia, a estrella d'alva,
    Que a negra noite affugenta,
    Qual o Sol, que a nevoa espalha
    Apenas a terra aquenta,
    Ou qual Iris, que o Ceo limpa,
    Quando se vê na tormenta.

    Assim, Marilia, desterro
    Triste illusão, e demencia;
    Faz de novo o seu officio,
    A razão, e a prudencia;
    E firmo esperanças doces
    Sobre a candida innocencia.

    Restauro as forças perdidas,
    Sóbe a viva côr ao rosto;
    Gyra o sangue pela vêa,
    E bate o pulso composto.
    Vê, Marilia, o quanto póde
    Contra os meus males teu rosto.

    FIM.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR

    F.A.G.

    TERCEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Impressão Regia. Anno 1812.

    _Com licença_.

    _Vende-se na loja da Gazeta_.

    AO LEITOR.

    A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo
    tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira
    parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo
    Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que
    tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma
    terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de
    outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos
    intelligente.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Convidou-me a vêr seu Templo
    O cego Cupido hum dia;
    Encheo-se de gosto o peito,
    Fiz deste Deos hum conceito
    Como delle não fazia.

    Aqui vejo descorados
    Os ternissimos amantes
    Entre as cadêas gemerem;
    Vejo nas piras arderem
    As entranhas palpitantes.

    _A quem ama quanto avista_,
    (Diz Cupido) _não aterra:
    Quem quer cingir o loureiro,
    Tambem vai soffrer primeiro
    Todo o trabalho da guerra_.

    _Com tudo que te dilates
    Neste sitio não convenho;
    Deixa a estancia lastimosa,
    Vem vêr a Salla formosa,
    Aonde o meu Solio tenho_.

    Entro n'outro grande Templo:
    Que perspectiva tão grata!
    Tudo quanto nelle vejo
    Passa além do meu desejo,
    E o discurso me arrebata.

    He de marmore, e de jaspe
    O soberbo frontespicio:
    He todo por dentro d'ouro,
    E a hum tão rico tesouro
    Inda excede o artificio.

    As janellas não se adornão
    De sedas de finas côres:
    Em lugar de cortinados
    Estão prezos, e enlaçados
    Fastões de mimosas flores.

    Em torno da Salla Augusta
    Ardem dourados brazeiros;
    Queimão rezinas, que estalão,
    E postas em fumo exalão
    Da Panchaya os gratos cheiros.

    Ao pé do Throno os seus Genios
    Alegres hymnos entoão:
    Danção as Graças formosas;
    E aqui as horas gostosas
    Em vêz de correrem, vôão.

    Estão sobre o pavimento,
    Igualmente reclinados
    Nos collos de seus amores,
    Os grandes Reis, e Pastores
    De frescas rosas coroados.

    Mal o acôrdo restauro,
    (Me diz, o Moço risonho:)
    _Como ainda não reparas
    Em tantas cousas tão raras,
    De que este Templo componho_?

    _Sabes a historia de Jove?
    Aqui tens o manso Touro;
    Tens o Cisne decantado;
    A Velha em que foi mudado,
    Com a grossa chuva d'ouro_.

    _Applica, Dirceo, agora
    Os olhos para esta parte:
    Aqui tens o verde Louro,
    Que inda estima o Pastor louro,
    E a Rede, que enlaça a Marte_.

    _Vês este Arco destramente
    De branco marfim ornado?
    Á Casta Deosa servia,
    E o perdêo quando dormia
    Do gentil Pastor ao lado_.

    _Vês esta Lyra? com ella
    Tira Orpheo ao bem querido
    Dos infernos aonde estava.
    Vês este Faról? guiava
    Ao meu nadador de Abydo_.

    _Vês estas duas Espadas
    Ainda de sangue cheias?
    A Thysbe, e a Dido matárão;
    E os fortes pulsos armárão
    De Pyramo, e mais de Eneas_.

    _Sabes quem vai no Navio,
    Que nesse mar se levanta?
    He Theseo. Vês esse Pomo?
    He de Cydippe, assim como
    São aquelles de Atalanta_.

    _Vê agora estes retratos,
    Que destros pinceis fizerão:
    Ah! que pinturas divinas!
    Todos são das Heroinas,
    Que mais victorias me dérão_.

    _Repara nesse semblante,
    He o semblante de Helena:
    Lá se avista a Grega Armada,
    E aqui de Troya abrazada
    Se mostra a funesta scena_.

    _Vês est'outra_ formosura?
    _He a bella Deidamía_;
    _Lá_ tem Achilles ao lado,
    _De huma saia disfarçado
    Como com ella vivia_.

    _Cleópatra he quem se segue:
    Alli tens lançando a linha
    Marco Antonio socegado,
    Ao tempo em que Augusto irado,
    Com armada mão caminha_.

    _Aqui Hermes se figura:
    Vê hum Sabio dos maiores,
    Qual infame delinquente,
    Ir desterrado sómente
    Por contar os seus louvores_.

    _Este he de Omphale o retrato:
    Aqui tens (quem o diria!)
    Ao grande Hercules sentado
    Com as mais damas no estrado,
    Onde em seu obsequio fia_.

    _Anda agora a est'outra parte:
    Conheces, Dirceo, aquella_?
    Onde váes? (lhe digo:) explica,
    Que belleza aqui nos fica,
    Sem fazeres caso della?

    Ergo os olhos ponho a vista
    Na imagem não explicada,
    Ó quanto he digna de appreço!
    Mal exclamo assim, conheço
    Ser a minha doce amada.

    O coração pelos olhos
    Em terno pranto sahia,
    E no meu peito saltava:
    Disfarçado Amor, olhava
    Para mim a furto, e ria.

    Depois de passado tempo,
    A mim se chega, e me aballa;
    Desperto de tanto assombro:
    Elle bate no meu hombro,
    E assim affavel me falla.

    _Sim, caro Dirceo, he esta
    A divina formosura,
    Que te destina Cupido;
    Aqui tens o laço urdido
    Da tua immortal ventura_.

    _O Numen, Dirceo, o Numen
    Que aos trabalhos de hum humano
    Desta sorte felicita,
    Não he, como se accredita,
    Não he hum Numen tyranno_.

    _Olha se a cega Fortuna
    De tudo quanto se cria,
    Ou nos mares, ou na terra,
    Em o seu thesouro encerra
    Outro bem de mais valia_?

    _Lizas faces côr de rosa,
    Brancos dentes, olhos bellos,
    Grossos beiços encarnados,
    Pescoço, e peitos nevados,
    Negros e finos cabellos_;

    _Não vale mais, que cingires
    Co' braço de sangue immundo
    Na cabeça o verde louro?
    Do que teres montes d'ouro?
    Do que dares leis ao mundo_?

    _Ah! ensina, sim ensina
    Ao vil mortal atrevido,
    E ao peito que adora terno,
    Que tem para hum Inferno,
    Para o outro hum Ceo, Cupido_.

    Ao resto Amor me convida;
    Eu chorando a mão lhe beijo:
    E lhe digo, Amor, perdôa
    Não seguir-te; pois não vôa
    A vêr mais o meu dezejo.

    LYRA II.

    Em vão do amado
    Filho que foge,
    Venus quer hoje
    Noticias ter.

    Sagaz, e astuto
    Elle se esconde
    Em parte aonde
    Ninguem o vê.

    Dos signaes dados
    Bem se conhece,
    Que elle aborrece
    A Mãi que tem.

    Se os seus defeitos
    Ella publíca,
    Razão lhe fica
    De se offender.

    Foge o Menino,
    E disfarçado
    Vive abrigado
    N'uma cruel.

    Com mil caricias
    A impia o trata;
    Nem o desata
    Do peito seu.

    Se a semelhança
    Sempre amor gera,
    Deve huma fera
    Outra accolher.

    Ah! se o teu nome,
    Marilia, calo,
    Que de ti fallo
    Bem pódes crer.

    LYRA III.

    Tu não verás, Marilia, cem captivos
    Tirarem o cascalho, e a rica terra,
    Ou dos cercos dos rios caudelosos,
    Ou da minada Serra.

    Não verás separar ao habil negro
    Do pezado esmeril a grossa arêa;
    E já brilharem os granetes de ouro,
    No fundo da batêa.

    Não verás derrubar os virgens matos,
    Queimar as capoeiras inda novas,
    Servir de adubo á terra a fertil cinza,
    Lançar os grãos nas cóvas.

    Não verás enrolar negros pacotes
    Das secas folhas do cheiroso fumo;
    Nem espremer entre as dentadas rodas
    Da doce cana o sumo.

    Verás em cima da espaçosa meza
    Altos volumes de enredados feitos;
    Ver-me-has folhear os grandes livros,
    E decidir os pleitos.

    Em quanto revolver os meus Consultos,
    Tu me farás gostosa companhia
    Lendo os fastos da sabia, mestra Historia,
    Os Cantos da Poesia.

    Lerás em alta Voz a imagem bella;
    Eu vendo que lhe dás o justo appreço;
    Gostoso tornarei a lêr de novo
    O cansado processo.

    Se encontrares louvada huma belleza,
    Marilia, não lhe envejes a ventura,
    Que tens quem leve á mais remota idade
    A tua formosura.

    LYRA IV.

    Amor por acaso
    A hum pouso chegava,
    Aonde accolhida
    A Morte se achava.

    Risonhos, e alegres
    Os braços se dérão,
    E as armas unidas
    N'um sitio pozerão.

    De emprezas tamanhas
    Cansados já vinhão,
    E em larga conversa
    A noite entretinhão.

    Hum conta que ha pouco
    A seta aguçada
    Em huma belleza
    Deixára empregada.

    Diz outro que as flexas
    Cravára no peito
    De hum grande, que teve
    O Mundo sujeito.

    Em quanto das forças
    Cada hum persumia,
    Seus membros já laços
    O somno rendia.

    Dormindo tranquillos
    A noite passárão,
    E inda antes da Aurora
    Com ancia acordárão.

    _He tempo que o leito
    Deixemos, ó Morte_;
    Amor, já erguido
    Fallou desta sorte.

    _He tempo_, em resposta
    A morte repete,
    _Que á nossa fadiga
    Dormir não compete_.

    _As armas colhamos,
    Voltemos ao giro:
    Cada hum a seu gosto
    Empregue o seu tiro_.

    Vão inda c'os olhos
    Em somno turbados,
    Ao sitio em que os ferros
    Estão pendurados.

    Amor para as setas
    Da morte se enclina:
    De amor logo a Morte
    C'o as flexas atina.

    Oh golpes tyrannos!
    Oh mãos homicidas!
    São tiros da Morte
    De Amor as feridas.

    De hum sonho, que pinto,
    Marilia conhece,
    Se amor, ou se morte
    Este alma padece.

    LYRA V.

    Eu não sou, minha Nize, pegureiro,
    Que viva de guardar alhêo gado;
    Nem sou pastor grosseiro
    Dos frios gêlos, e do Sol queimado,
    Que veste as pardas lãs do seu cordeiro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    A Cresso não igualo no thesouro:
    Mas deo-me a Sorte com que honrado viva.
    Não cinjo corôa d'ouro;
    Mas Póvos mando, e na testa altiva
    Verdeja a Corôa do Sagrado Louro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Maldito seja aquelle, que só trata
    De contar escondido a vil riqueza!
    Que cego se arrebata
    Em buscar nos Avós a vã nobreza,
    Com que aos mais homens seus iguaes abata.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    As fortunas que em torno de mim vejo,
    Por falsos bens que enganão não reputo;
    Mas antes mais desejo,
    Não para me voltar soberbo em bruto
    Por vêr-me grande quando a mão te beijo.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    Pela Ninfa que jaz vertida em Louro,
    O grande Deos Apollo não delira?
    Jove mudado em Touro,
    E já mudado em Velha não suspira?
    Seguir aos Deoses nunca foi desdouro.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella.

    Pertendão Hanibaes honrar a Historia,
    E cinjão com a mão de sangue chêa
    Os louros da victoria.
    Eu revolvo os teus dons na minha idéa:
    Só dons que vem do Ceo são minha gloria.
    Graças, ó Nize bella,
    Graças á minha Estrella!

    LYRA VI.

    _Traducção_.

    Amor que seus passos
    Ligeiro movia,
    Por mil embaraços
    Que hum bosque tecia.

    Nos hombros me acena
    Com brando raminho;
    E logo me ordena
    Que siga o caminho.

    Por entre a espessura
    Do bosque me avanço:
    E a traz da ventura
    Incauto me lanço.

    Já tinha calcado
    Os montes mais duros:
    C'o peito rasgado
    Os rios escuros.

    Eis que huma serpente
    A lingua vibrando,
    Me crava o seu dente,
    Me deixa espirando.

    Então surprendida
    Da dôr que a traspassa,
    Minha alma ferida
    Aos beiços se passa.

    As iras detesta
    Amor isto vendo,
    E as azas na testa
    Me bate dizendo:

    _Tu choras, tu gemes
    Da Serpe tocado,
    E o braço não temes
    De hum Numen irado_?

    LYRA VII.

    Tu, formosa Marilia, já fizeste
    Com teus olhos ditosas as campinas,
    Do turvo Ribeirão em que nasceste:
    Deixa, Marilia, agora
    As já lavradas terras;
    Anda affoita romper os grossos mares,
    Anda encher de alegria estranhas terras.
    Ah! que por ti suspírão
    Os meus saudosos lares.

    Não corres como Sapho sem ventura
    Em seguimento de hum cruel ingrato,
    Que não sede aos encantos da ternura:
    Segues a hum fino amante,
    Que a perder-te morria.
    Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella;
    Tu já foste no Sul a minha guia.
    Ah! deves ser no Norte
    Também a minha Estrella.

    Verás ao Deos Neptuno socegado
    Aplainar co' tridente as crespas ondas;
    Ficar como dormindo o mar salgado.
    Verás, verás d' alheta
    Soprar o brando vento,
    Mover-se o léme, disrinzar-se o linho,
    Seguirem os Delfins o movimento,
    Que leva na carreira
    O empavezado pinho.

    Verás como o Leão na prôa arfando
    Converte em branca espuma as negras ondas
    E as talha, e corta com murmurio brando.
    Verás, verás Marilia
    Da janella dourada,
    Que huma comprida estrada representa
    A linfa cristalina, que pizada
    Pela poupa que foge
    Em borbotões rebenta.

    Bruto peixe verás de corpo immenso,
    Tornar ao torto anzol depois de o terem
    Pela rasgada boca ao ar suspenso:
    Os pequenos peixinhos
    Quaes passaros voarem:
    De toninhas verás o mar coalhado,
    Ora surgirem, ora mergulharem,
    Fingindo ao longe as ondas
    Que fórma o vento irado.

    Verás que o grande monstro se apresenta
    Hum repuxo formando com as aguas,
    Que ao ar espalha da robusta venta.
    Verás em fim, Marilia,
    As nuvens levantadas
    Humas de côr azul, ou mais escuras,
    Outras de côr de rosa, ou prateadas
    Fazerem no Orizonte
    Mil diversas figuras.

    Mal chegares á foz do claro Téjo,
    Apenas elle vir o teu semblante
    Dará no léme do baixel hum beijo.
    Eu lhe direi vaidoso:
    Não trago, não comigo
    Nem pedras de valor, nem montes d'ouro,
    Roubei as aureas Minas, e consigo
    Trazer para os teus cofres
    Este maior Thesouro.

    LYRA VIII.

    Em cima dos viventes fatigados
    As verdes dormideiras espremia,
    Os mentirosos sonhos me cercavão.
    Na vaga fantasia
    Ao vivo me pintavão
    As glorias, que disperto
    Meu coração pedia.

    Eu vou, eu vou subindo a Náo possante
    Nos braços conduzindo a minha bella;
    Voltêa a grande roda, e a grossa amarra
    Se enlêa em torno della:
    Já ponho a prôa á barra,
    Já cáhe ao som do apito
    Ora huma, ora outra véla.

    Os arvoredos já se não distinguem:
    A longa praia ao longe não branqueija;
    E já se vão sumindo os altos montes.
    Já não ha que se veja
    Nos claros Orizontes,
    Que não sejão vapores,
    Que Ceo, e mar não seja.

    Parece vão correndo as negras ondas,
    E o pinho qual rochedo estar parado:
    Ergue-se a onda, vem á Náo direita
    E quebra no costado:
    O Navio se deita,
    E ella finge a ladeira
    Sahindo do outro lado.

    Vejo nadarem os brilhantes peixes;
    Cahir do Láes a linha, que os engana:
    Hum dourado no anzol está pendente,
    Soffre morte tyranna;
    Entre tanto que a sente
    Ao tombadilho açoita
    A cauda, e a barbatana.

    Sobre as ondas descubro huma Carroça
    De formosas conchinhas enfeitada;
    Delfins a movem, e vem Thetis nella:
    Na popa está parada:
    Nem póde a Deosa bella
    Tirar os brandos olhos
    Da minha doce amada.

    Nas costas dos Golfinhos vem montados
    Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia
    Co' rouco som dos buzios retorcidos.
    Recrêa, sim recrêa
    Meus attentos ouvidos
    O canto sonoroso
    Da musica Serêa.

    Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro;
    Descobre arrumação, e grita terra:
    Á murada caminha alegre a gente;
    Alguns entendem que erra:
    Pelo immovel sómente
    Conheço não ser nuvem,
    Sim o cume de alta serra.

    De Mafra já descubro as grandes torres;
    (E que nova alegria me arrebata!)
    De Cascaes a muleta já vem perto,
    Já de abordar-nos trata:
    Já o piloro esperto
    Inda debaixo manda
    Soltar mezena, e gata.

    Eu vou entrando na espaçosa barra:
    A grossa artilheria já me atrôa.
    Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira.
    Já corre pela prôa
    Huma amarra ligeira;
    E a Náo já fica surta
    Diante da grã Lisboa.

    Agora, agora sim, agora espero
    Renovar da amizade antigos laços:
    Eu vejo ao velho Pai, que lentamente
    Arrasta a mim os passos:
    Ah como vem contente!
    De longe mal me avista
    Já vem abrindo os braços.

    Dóbro os joelhos pelos pés o aperto,
    E manda que dos pés ao peito passe:
    Marilia quanto eu fiz fazer intenta;
    Antes que os pés lhe abrace
    Nos braços a sustenta;
    Dá-lhe de filha o nome,
    Beija-lhe a branca face.

    Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo,
    Conheço não estar no claro Tejo.
    Abro os olhos, procuro a minha amada,
    E nem se quer a vejo.
    Venha a hora affortunada,
    Em que não fique em sonhos
    Tão ardente desejo.

    _A huma despedida_.

    Chegou-se o dia mais triste,
    Que o dia da morte fêa:
    Cahi do throno Dircéa,
    Do throno dos braços teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Impio Fado, que não pôde
    Os doces laços quebrar-me,
    Por vingança quer levar-me
    Distante dos olhos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, e vou sem vêr-te,
    Que neste fatal instante,
    Ha de ser o teu semblante
    Mui funesto aos olhos meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E crês, Dircéa, que devem
    Vêr meus olhos penduradas
    Tristes lagrimas salgadas
    Correrem dos olhos teus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    De teus olhos engraçados,
    Que podérão piedosos,
    De tristes em venturosos
    Converter os dias meus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos divinos,
    Que ternos, e socegados,
    Enchem de flores os prados,
    Enchem de luzes os Ceos?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos em fim,
    Que domão Tigres valentes?
    Que nem rigidas Serpentes
    Resistem aos tiros seus?
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Da maneira que serião
    Em não vêr-te criminosos
    Em quanto forão ditosos,
    Agora serião réos.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, Dircéa bella,
    Rasgando os ares cinzentos;
    Virão nas azas dos ventos
    Buscar-te os suspiros meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Talvez, Dircéa adorada,
    Que os duros Fados me neguem
    A gloria de que elles cheguem
    Aos ternos ouvidos teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    Mas se ditosos chegarem,
    Pois os sólto a teu respeito;
    Dá-lhes abrigo no peito,
    Junta-os c'os suspiros teus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    E quando tornar a vêr-te
    Ajuntando rosto, a rosto,
    Entre os que dérmos de gosto;
    Restitue-me então os meus.
    Ah! não posso, não, não posso
    Dizer-te meu bem adeos.

    CANÇÃO.

    Dês que vi, formosa Elvira,
    Os teus divinos cabellos,
    Esses vivos olhos bellos,
    Que invéja dos astros são,
    Foi-se, Elvira, foi-se embora
    Toda a paz do coração.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Em quanto, Elvira, se occulta
    A meus olhos teu semblante,
    Hum minuto, hum breve instante
    Parece que fim não tem.
    Se alcanço de vêr-te a gloria,
    Então vôa o tempo bem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando te ris por acaso
    Para outro qualquer sugeito,
    Estala dentro do peito
    De ciume o coração:
    Se me pões os olhos julgo
    Que zombas de mim então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando ha brinco na floresta,
    E a divina Olaia canta,
    O mesmo gado levanta
    A cabeça para ouvir.
    Só por mais que Alceo forceje
    Não póde o prazer fingir.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando levo á clara fonte
    O rebanho do meu gado,
    Cáhe-me da mão o cajado,
    E com ella á testa vou:
    Fico pasmado, e ignoro
    O lugar aonde estou.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando vou segar o trigo,
    (Olha bem como ando cego.)
    N'uma parte nelle pego,
    Metto n'outra a fouce em vão;
    Dos que vem alguns se riem,
    Outros mostrão compaixão.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando me deito no colmo,
    Sempre sonho que te vejo,
    Que te fallo, e que te beijo
    A branca nevada mão.
    Acórdo, Pastora, e foges:
    Eu fico mais triste então.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando alguem meu mal pergunta,
    Bem que seja a vez primeira,
    Rompo ainda que não queira
    O segredo sem saber.
    O teu nome, Elvira, digo,
    Quando devo o seu dizer.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Fujo ao trato dos pastores,
    Para hum bosque me retiro;
    Com desafogo suspiro,
    E chamo por ti meu bem.
    Os valles que se enternecem
    Chamão-te ao longe tambem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Quando escuto o triste mocho
    A gemer no meu telhado,
    Qualquer mal excogitado
    Não me deve algum temor:
    Só receio que me agoure
    Máo successo ao meu amor.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    Os pastores que me avistão
    Com o dedo já me apontão,
    E á roda do fogo contão
    Da maneira que me vem.
    Sou o exemplo dos amantes
    Que esta nossa Aldêa tem.
    E talvez, talvez que Elvira
    Nem se lembre de que Alceo,
    Se suspira,
    Se delira,
    He só por motivo seu.

    SONETO I.

    He gentil, he prendada a minha Altéa;
    As graças, a modestia do seu rosto
    Inspírão no meu peito maior gosto,
    Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

    Mas vendo o lindo gesto de Dircéa
    A nova sugeição me vejo exposto;
    Ah! que he mais engraçado, mais composto,
    Que a pura Esfera de mil astros chêa.

    Prender as duas com grilhões estreitos
    He huma acção (ó Deoses!) inconstante,
    Indigna de sinceros, nobres peitos.

    Cupido, se tens dó de hum triste amante,
    Ou fórma de Lorino dous sugeitos,
    Ou fórma desses dous hum só semblante.

    SONETO II.

    N'um fertil campo do soberbo Douro,
    Dormindo sobre a relva descançava,
    Quando vi que a Fortuna me mostrava
    Com alegre semblante o seu Thesouro.

    De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro
    Com pedras de valor o chão curvava;
    Aqui hum sceptro, alli hum trono estava,
    Pendião coroas mil de grama, e louro.

    _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura:
    De quantos bens te exponho qual te agrada,
    Pois benigna os concedo, vai, procura_.

    Escolhi, acordei, e não vi nada:
    Commigo assentei logo que a ventura
    Nunca chega a passar de ser sonhada.

    SONETO III.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Accreditei as vozes, cri, Ormia,
    Que a tua singeleza igualaria
    Á tua mais que angelica apparencia.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia;
    Ao menos conheci que não devia,
    Pôr nas mãos de huma externa galhardia
    O prazer, o socego, e a innocencia.

    Enganei-me, Cruel, com teu semblante,
    E nada me admiro de faltares,
    Que esse teu sexo nunca foi constante.

    Mas tu perdestes mais em me enganares;
    Que tu não acharás hum firme amante,
    E eu posso de traidoras ter milhares.

    SONETO IV.

    Ainda que de Laura esteja ausente,
    Ha de a chama durar no peito amante;
    Que existe retratado o seu semblante,
    Se não nos olhos meus, na minha mente.

    Mil vezes finjo vêla, e eternamente
    Abraço a sombra vã; só nesse instante
    Conheço que ella está de mim distante,
    Que tudo he illusão que esta alma sente.

    Talvez que ao bem de a vêr Amor resista;
    Porque minha paixão, que aos Ceos he grata,
    Por innocente assim melhor persista:

    Pois quando só na idéa ma retrata,
    Debuxa os dotes com que prende vista,
    Esconde as obras com que offende ingrata.

    SONETO V.

    Ao Templo do Destino fui levado:
    Sobre o Altar hum Cofre se firmava,
    Em cujo seio cada qual buscava
    Tremendo annuncio do futuro estado.

    Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado!
    Com quanta causa o coração pulsava:
    Este duro Decreto escrito estava,
    Com negra tinta pela mão do Fado.

    _Adore Polidoro a bella Ormia,
    Sem della conseguir a recompensa,
    Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

    Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença
    Tres vezes o levando á boca impía,
    Jurou comprir á risca a tal sentença.

    SONETO VI.

    Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria,
    Que os muros banha a Lusitana Athenas,
    Mostra-me as desmaiadas assucenas
    Do rosto que me occupa a fantasia.

    Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia
    Ceder de amor ás lastimosas scenas;
    Q'entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas
    Renove a saudosa idolatria.

    Solto do véo mortal, oh Feliz Astro,
    Une ao cadaver a truncada testa,
    Levanta o bello cólo de alabastro:

    Huma alma grande junto a ti protesta
    Fazer a gloria da defunta Castro;
    A illustre Neta vez: Maria he esta.

    _Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D.
    Maria José de Eça e Bourbon_.

    SONETO VII.

    Quantas vezes Lidora me dizia,
    Ao terno peito minha mão levando,
    Conjurem-se em meu mal os Astros, quando
    Achares no meu peito aleivosia.

    Então que não chorasse lhe pedia,
    Por firme seu amor acreditando;
    Ah! que em movendo os olhos suspirando
    Ao mais acautellado enganaria.

    Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora
    Mostrou que era mulher: a natureza
    Só por não se mudar a fez traidora.

    Não, não darei mais cultos á belleza,
    Que depois de faltar á fé, Lidora,
    Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

    SONETO VIII.

    O Numen Tutelar da Monarquia,
    Que fez do grande Henrique a invicta espada,
    Procurou dos Destinos a morada,
    Por consultar a idade que viria.

    A mil, e mil heróes descriptos via,
    Que exaltão de Furtado a estirpe honrada,
    E na serie, que adora dilatada,
    O nome de Francisco descobria.

    Contempla huma por h[~u]a as letras d'ouro,
    Este penhor, que o tempo não consome,
    Promette ao Reino seu maior thesouro.

    Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome
    De lhe buscar sequer mais outro agoiro,
    O sitio beija, e lhe mostra o nome.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena,
    Francisco Furtado de Mendonça_.

    SONETO IX.

    Nascer no berço da maior grandeza,
    De palmas, e de louros rodeado,
    Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado,
    Que illusrra desde longe a natureza.

    Se porém muito mais se adora, e preza
    O dom que o nobre sangue trás herdado
    Pela propria virtude sustentado,
    Feliz o objecto da presente empreza.

    De mil Heróes no Téjo vencedores
    Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria
    Faz immortal de seus Progenitores.

    Eu leio em vaticinio a sua historia;
    Une Francisco a par de seus maiores
    Ao herdado explendor a propria gloria.

    _Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

    SONETO X.

    Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora
    Por quem mil vezes fé me foi jurada;
    Que vos detem (ó Ceos!) que castigada
    Ainda não deixais tão vil traidora?

    Não haja piedade: sinta agora
    A dita sem remedio em mal trocada;
    Pois se assim não succede, fica ousada
    Para ser outra vez enganadora.

    Vingai, ó justos Ceos…, mas ah! [~q] digo?
    Que maltrateis Lidora? o sentimento
    Privou-me do discurso, eu me desdigo.

    Não, não vibreis o raio violento;
    Pois sei que a compaixão do seu castigo,
    Hade augmentar depois o meu tormento.

    SONETO XI.

    A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado,
    Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo:
    A Deos doce rabil, neste alto freixo
    Te fica ao meu destino consagrado.

    Se te for meu successo perguntado,
    Não declares rabil de quem me queixo;
    Não quero que se saiba vive Aleixo
    Por causa de huma infame desterrado.

    Se vires a Pastor desconhecido,
    Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora,
    Atalha os damnos, que outros tem sentido.

    Habita nesta Aldêa huma Pastora
    De rosto bello, coração fingido,
    Humas vezes cruel, e as mais traidora.

    SONETO XII.

    Com pezadas cadeias maniatado,
    Ás vozes da razão insurdecido,
    Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido
    Me vi de amor nas trévas sepultado.

    Alli aliviava o meu cuidado
    Cõ dar de quando em quando algum gemido:
    Ah tempo! que sómente reflectido
    Me fazes entre as ditas desgraçado.

    Assim vivia, quando a falsidade
    De Laura me tornou n'um breve dia
    Quanto a razão não pôde em longa idade.

    Quebrei o vil grilhão que me opprimia:
    Ó feliz de quem gosa a liberdade!
    Bem que venha por mãos da aleivosia.

    SONETO XIII.

    Obrei quanto o discurso me guiava;
    Ouvi os Sabios quando errar temia:
    Aos bons no gabinete o peito abria;
    Na rua a todos como iguaes honrava.

    Julgando os crimes nunca voto dava
    Mais duro, ou pio do que a Lei pedia;
    Mas podendo salvar o justo ria,
    E devendo punir ao réo chorava.

    Nem forão, Villa Rica, os meus intentos
    Metter em ferreo cofre copia d'ouro,
    Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

    Outras são as venturas que me agouro:
    Ganhei saudades, adquiri affectos,
    Vou fazer destes bens melhor thesouro.

    _Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi
    despaçhado para Desembargador da Bahia_.

    SONETO XIV.

    Quando o torcido buço derramava
    Terror no aspecto ao Portuguez sisudo,
    Quando sem pó, nem oleo o pente agudo
    Duro intonso o cabello em laço atava.

    Quando contra os Irmãos o braço armava
    O forte Nuno oppondo escudo, a escudo;
    Quando a palavra que perfere a tudo
    Com a barba arrancada João firmava.

    Quando a mulher á sombra do marido
    Tremer se via: quando a Lei prudente
    Zelava o sexo do civil ruido;

    Feliz então, então só innocente
    Era de Luso o Reino: oh bem perdido!
    Ditosa condição, ditosa gente!

    SONETO XV.

    Sombras illustres dos varões famosos,
    Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia;
    Vós que do Elysio na região sombria
    Respiraes entre os Zefiros mimosos.

    Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos
    Louros cingis, que egregia companhia
    Fazeis aos Mazzarinos, eu queria
    Adorar vossos vultos magestosos.

    Vós fizesteis da vossa Patria a gloria;
    Por vós hoje he feliz a humanidade:
    Que dignos sois de huma immortal historia!

    Cesce, cesse porém vossa vaidade;
    Que basta a escurecer vossa memoria
    Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando
    a Universidade de Coimbra_.

    SONETO XVI.

    As molles azas a bater começa
    Entre as palhas o tenro passarinho,
    E largos dias por deixar o ninho
    Se cança, se fadiga, se arremeça.

    H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa,
    Já se firma no pé, já no biquinho,
    Nas folhas se tem, passa ao raminho
    Té que a penna se esforce, e se endureça.

    Quando emfim he capaz de movimento
    Deixa os arbustos vaga pelos ares,
    E sobre as altas faias toma assento:

    Estes sejão, Salicio, os exemplares
    Em que a vossa virtude anime o alento,
    Porque hum dia da Fama honre os Altares.

    _Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

    ODE.

    Se entre as louras arêas
    Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido
    Ás Regiões alheas
    Manda que em doce metro reppetido
    Hoje o teu Nome leve,
    Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

    Vejo a sordida inveja
    De ira morder-se, e as serpes sacudindo
    Por se tragar forceja:
    De pejo, e de vergonha em vão cobrindo
    Co' as frias mãos o rosto,
    Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vós, Genios fortunados,
    Que do Templo da Gloria honrais a estancia,
    Os meritos sagrados
    Cantai do bom Ministro: He a constancia,
    A sabia fortaleza
    He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares
    Da Idumeya consulto; o bravo Noto
    Os tormentosos ares
    Não podem mais dobralos: zomba immoto,
    Nem ás ondas tem medo
    Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua
    Em meio foi dos perfidos rumores;
    A verdade, que nua
    Derramava em teu rosto as vivas côres,
    Sobre as aras decentes
    Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo,
    A rectidão do espirito; elevada
    Ao gráo mais rico, e bello,
    Essa virtude, que nos traz provada
    Em meio dos Thesouros
    A sã virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece
    Sabio Ministro da victoria ao lado;
    Athenas, que me offerece
    No seu público Erario accreditado
    Aristides, o Justo,
    Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa
    Negra calumnia o seu desterro tenta;
    A virtude preciosa
    Contra o fero Themistocles sustenta.
    Não ha força que baste,
    Não ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo,
    Feliz tambem de Themis a ballança;
    De hum modo raro, e novo
    Nas tuas mãos eu vejo, que descança:
    Aos premios, ao castigo
    Se reparte sem queixa o braço amigo.

    Ah! sinta a nossa idade
    De hum sangue illustre, de hum talento raro
    A próvida igualdade!
    Melhor do que nos marmores de Pharo,
    Em memoria nos vindouros
    T'ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

    _Imitando o sonho de Scipião_.

    ODE.

    Já vou tocando, ó Licio,
    De Lustros dez o fatigado termo;
    E já meu corpo enfermo
    Se avisinha da morte ao duro officio:
    Que cedo o meu destino me promette
    Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente
    A ver os Manes dos Avós amados;
    Que bem aventurados,
    Se outro mundo tratarão, se outra gente!
    Não virão elles, como eu triste vejo,
    O velho mando peiorar sem pejo.

    Passárão da innocencia
    Pela candida estrada os pés levando;
    Inda a fera violencia
    Não corrompia da Justiça o mando;
    Praticava-se a próvida igualdade
    Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura fé do Amigo,
    Renovava de Orestes a memoria:
    Commum era o perigo,
    Reciproca tambem a pena, a gloria:
    Que traições, e que enganos tem disposto
    Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se vê mudado
    Nesta idade fatal em que de ferro
    O Idolo adorado
    Torpemente protege o crime, o erro:
    Como de susto, e de vergonha cheia
    Se retira de nós a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laços
    Deve ao pezo gemer, ó mundo cego?
    Rotos em mil pedaços
    Os teus grilhões a pendurar já chego;
    Não mais os teus encantos me deleitem,
    Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas
    Já me finjo habitar! Os brandos ares,
    Que tu Zefiro, animas
    Que prazeres me inspirão! Dos pezares,
    Das magoas, do desgosto, e do tormento
    Aqui não sôa o tragico lamento.

    Sôlto do mortal manto
    Cuido que o centro dos Elysios piso!
    Oh quanto he bella, quanto
    A margem deste Lago! Em fresco riso
    Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora,
    Aqui saudão a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia,
    Que encheste as noites, e esgotaste os dias,
    Da humana intelligencia,
    Agora sei quam longe te desvias!
    Este o seio da luz, aonde tudo
    Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

    O número, a distancia
    Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro:
    Noto a eterna constancia
    Do Planeta da Luz; observo o giro
    Da Terra, que regula a varia face
    Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira
    Já marco de Saturno, Marte, ou Jove,
    Da esfera derradeira
    Contemplo a força, que os mais Orbes move;
    A harmonia me encanta acorde, e rara,
    Que de Samos o Sabio já notára.

    Aqui se patentêa
    Dos errados systemas o conceito;
    E longe a minha idéa
    De vacilar, já firma o mais perfeito.
    Quem senão tu, ó Genio, sobre humano
    Libertar me podéra deste engano!

    De Massinissa o Paço
    De Carthago ao Heróe tal scena pinta:
    Ao soberbo ameaço
    Da Fortuna, elle vê clara, e distincta,
    Qual o meu Genio me retrata agora,
    A bella Patria, onde o descanço mora.

    He este, ó Licio, he este
    Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno,
    Aonde em paz celeste
    Não respira da inveja o atroz veneno:
    E aonde livres da infeliz mudança
    Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

    Que doce companhia
    Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse
    O momento que hum dia
    Tão gostosa união nos lavra, e tece!
    Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas,
    Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves
    Alli as breves horas gastaremos;
    Nem já nos serão graves
    Na lembrança os trabalhos que aqui temos;
    Nem da pezada humanidade nossa
    Pena haverá, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos
    Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte;
    Tu, que a meta dos annos
    Firmas, descendo de teu mando a morte,
    Dilata os dias do meu Licio, em quanto,
    Douto me instrue, e me entertem seu canto.

    FIM

    End of Project Gutenberg's Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga

  • Luar de Janeiro

    Luar de Janeiro

    Aproximadamente 6.229 palavras.

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    Augusto Gil

    Luar de Janeiro

    [Figura: Olhos Olhae a Direito]

    Luar de Janeiro

    AUGUSTO GIL

    *Luar de Janeiro*

    LISBOA

    1909

    Edição da empreza d'A Lanterna–Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

    Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

    Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
    sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
    de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
    existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

    Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
    subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
    estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
    latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
    conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
    encontrou–já não quero como artista, porque a esse as influencias
    ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações–mas
    na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
    retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
    caturra,–ou um simples.

    Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

    Adeante.

    Novembro de (1)909.

    O auctor

    De la musique encore et toujours

    * * * * *

    Que ton vers soit la bonne aventure
    Éparse au vent crispé du matin
    Qui va fleurant la menthe et le thym,
    _Et tout le reste est litterature_.

    Verlaine

    Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
    savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
    tête-à-tête–et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
    Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
    faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
    page, celle que ce livre encore annonce et ordone–_tu sais, tu
    comprends et tu pardonnes_…

    Charles Morice.

    _A Coelho de Carvalho_

    _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
    claridade dos seus talentos.

    Luar de janeiro,
    Fria claridade

    Á luz delle foi talvez
    Que primeiro
    A bocca dum português
    Disse a palavra saudade…

    Luar de platina,
    Luar que allumia
    Mas que não aquece,
    Photographia
    D'alegre menina
    Que ha muitos annos já… envelhecesse.

    Luar de janeiro,
    O gelo tornado
    Luminosidade…
    Rosa sem cheiro,
    Amor passado
    De que ficasse apenas a amizade…

    Luar das nevadas,
    Algido e lindo,
    Janellas fechadas,
    Fechadas as portas
    E elle fulgindo,
    Limpido e lindo,
    Como boquinhas de creanças mortas,
    Na morte geladas
    –E ainda sorrindo…

    Luar de janeiro,
    Luzente candeia
    De quem não tem nada,
    –Nem o calor dum brazeiro,
    Nem pão duro para a ceia,
    Nem uma pobre morada…

    Luar dos poetas e dos miseraveis,
    Como se um laço estreito nos unisse,
    São similhaveis
    O nosso mau destino e o que tens…

    De nós, da nossa dôr, a turba–ri-se
    –E a ti, sagrado ladram-te os cães!

    [Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
    d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
    pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
    Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
    Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
    Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
    do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
    vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
    Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
    eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

    O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]

    SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

    _A João Barreira_

    «Em Evora vi um menino…
    …Que a dois annos não chegava
    …Era de maravilhar»…

    Garcia de Rezende. _Miscellanea._

    Num convento solitario
    D'Evora, cidade clara,
    Claro celleiro de pão,
    Existe uma imagem rara
    Obra dum imaginario
    Dos tempos que já lá vão…

    É um menino Jesus,
    De bochechinha brunida
    Côr de maçã camoeza,
    Mas no seu rosto transluz
    Uma expressão dolorida
    Que enche a gente de tristeza…

    De tantissimas imagens
    Nenhuma vi que mais prenda,
    Que maior ternura expanda,
    Com suas calças de renda,
    Seu vestido de ramagens,
    –E corôa posta á banda…

    Gordo, nedio, bem trajado,
    Deveria ser feliz,
    Deveria estar sorrindo;
    Mas o seu olhar maguado,
    Tão maguado, tão lindo,
    Que não o é, bem n'o diz…

    Se não fosse por ser Deus
    E o seu poder infinito
    Ter sempre que o demonstrar,
    Cá na terra e lá nos ceus,
    Estenderia o beicito
    –E desatava a chorar!…

    Corre o tempo descuidado,
    Passa uma hora, outra hora,
    Atraz desta outras se vão
    E, quem o vê, encantado,
    Sem se poder ir embora
    Numa perpetua attração…

    Eu entrei com sol a pino.
    Pouco depois da chegada
    (Pouco a mim me pareceu)
    Deixei de ver o Menino…
    Não era a vista cançada,
    –Foi a noite que desceu…

    Mesmo assim lá ficaria
    Absorto em muda prece
    De quem mal sabe rezar,
    Se o sacristão não viesse,
    Com rodas de Senhoria,
    Dizer-me que ia fechar…

    Pudesse tel-o trazido
    E não fosse eu rico, apenas
    De phantasias, d'esp'ranças,
    Punha-o num nicho florido
    Por sobre as camas pequenas
    Dum hospital de creanças…

    Dum hospital modelar
    Sustentado por meus bens,
    Entre olaias e roseiras,
    Cheio de sol, cheio d'ar,
    E em que as boas enfermeiras
    –Seriam as proprias mães…

    A mais ampla enfermaria
    Desse escolhido local
    De bondade e soffrimento
    –Era o fundo natural
    Da funda melancolia
    Do Menino do convento…

    BALLADA DA NEVE

    Il pleure dans mon coeur
    Comme il pleut sur la ville.

    Verlaine

    _A Vicente Arnoso_

    Batem leve, levemente
    Como quem chama por mim…
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é certamente
    E a chuva não bate assim…

    É talvez a ventania;
    Mas ha pouco, ha poucochinho,
    Nem uma agulha bolia
    Na quieta melancolia
    Dos pinheiros do caminho…

    Quem bate assim levemente
    Com tão estranha leveza
    Que mal se ouve, mal se sente?…
    Não é chuva, nem é gente,
    Nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve cahia
    Do azul cinzento do ceu
    Branca e leve, branca e fria…
    –Ha quanto tempo a não via!
    E que saudades, Deus meu!

    Olho-a atravez da vidraça.
    Poz tudo da côr do linho.
    Passa gente e quando passa
    Os passos imprime e traça
    Na brancura do caminho…

    Fico olhando esses signaes
    Da pobre gente que avança
    E noto, por entre os mais,
    Os traços miniaturais
    Duns pézitos de creança…

    E descalcinhos, doridos…
    A neve deixa inda vel-os
    Primeiro bem definidos,
    –Depois em sulcos compridos,
    Porque não podia erguel-os!…

    Que quem já é peccador
    Soffra tormentos, emfim!
    Mas as creanças, Senhor,
    Porque lhes daes tanta dôr?!…
    Porque padecem assim?!…

    E uma infinita tristeza
    Uma funda turbação
    Entra em mim, fica em mim prêsa.
    Cae neve na natureza…
    –E cae no meu coração.

    TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

    _A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha

    Oh Desgraça! vae-te embora,
    Que esta linda criancinha
    Andou no meu ventre e agora
    Trago-a nos braços. É minha!…

    Do berço, segue-me os passos;
    Onde eu vou, seus olhos vão…
    E quando a aperto nos braços
    –Abraço o meu coração.

    Quando o seu chôro receio,
    Embalo-a, faço que acceite
    A alegria do meu seio
    Na brancura do meu leite…

    E quando assim não descança,
    Que tristezas me consomem!
    –Mas antes chore em creança
    Que depois, quando fôr homem…

    Se ao dal-o ao mundo soffri
    Tormentos, ancias mortaes,
    Desgraça, vae-te d'aqui,
    O que pretendes tu mais?!

    Bate as azas, mas ao voares,
    Não me apagues esta estrella.
    Se alguem d'aqui precisares,
    –Aqui me tens, em vez della!

    Tocam ás ave-marias.
    Foi-se o sol. Não vem a lua.
    Luzinha que me allumias,
    Que sorte será a tua?…

    Riquezas tenhas tão grandes,
    E tal bondade tambem,
    Que ao redor d'onde tu andes
    Não fique pobre ninguem.

    Que a todos chegue a ventura:
    Toda a bocca tenha pão,
    Toda a nudez cobertura,
    Toda a dôr, consolação…

    Mas se o oiro é mau caminho,
    –Antes tu venhas a ser
    O pobre mais pobrezinho
    De quantos pobres houver.

    Iremos por esses montes
    Altos e azues, como os céus…
    Que onde ha fructos e onde ha fontes,
    –Está a meza de Deus!

    E, quando a neve cahir
    E as seivas adormecerem,
    Iremos então pedir…
    (Acceitar o que nos derem!)

    Andaremos á mercê
    Dos genios bons, e dos falsos,
    Leguas e leguas a pé,
    Rotinhos, magros, descalços…

    E onde houver urzes e tojos,
    Pedras que rasgam a pelle,
    Porei o corpo de rôjos
    –Passarás por cima delle!

    Dorme, dorme, meu menino,
    Foi-se o sol. Nasceu a lua.
    Qual será o teu destino?
    Que sorte será a tua?…

    Se um crime tens de fazer,
    Antes fique vago um throno,
    Antes um palacio a arder,
    –Do que uma enxada sem dono…

    Se, porém, no teu destino,
    Ha tão cruentos signaes,
    Dorme, dorme, meu menino,
    –Não tornes a acordar mais!

    O NOSSO LAR

    _A Antonio Arroyo_

    «Sonhar a vida é apenas entretel-a.
    Partamos della para nós, senão
    Lá vae o coração para uma estrella
    E fica a gente sem o coração!»

    _GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_

    Quem vir–como eu os vejo–decorrer
    Annos e annos duma vida rasa
    Em miseraveis quartos d'aluguer,

    Frios no inverno e no estío em braza,
    –A um amôr sonhado de mulher
    Allía sempre o sonho duma casa…

    O aspecto duma casa raro mente,
    A côr, as linhas duma frontaria
    Dão logo a perceber nitidamente,

    Melhor do que um vizinho o contaria,
    O genio e a indole da gente
    Que nella tem o lar, a moradia.

    Vejam esses _cottages_ tanto em moda
    Entre os inglezes e os capitalistas,
    Com grades no jardim, a toda a roda…

    Impenetraveis ás alheias vistas…
    Não abrem nunca uma janella toda…
    São mudos, graves, individualistas.

    E aquelles caixotões de pedra e cal
    Que surgem ao formar-se um bairro novo,
    No constante engordar da Capital,

    (O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)
    –Não mostram bem, com o seu ar banal,
    A falta de caracter deste povo?

    Quando uma santa e pobre rapariga,
    Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
    E a cujo coração o meu se liga,

    Puder chegar a ser minha mulher,
    Eu quero então que a nossa casa diga
    Bondade e alegria de viver.

    Terá um só andar. Grandes alturas
    Causam vertigens, trazem ambições.
    Os sonhos de riqueza e d'aventuras

    Enchem as almas de desillusões.
    A f'licidade vem ás creaturas
    Da pacificação dos corações.

    As portas sem degraus. Que sejam rentes
    Da terra. Portas largas e rasgadas,
    Convidativas, francas, attrahentes;

    Ao rez da terra, para as aleijadas
    e os tropegos velhinhos indigentes
    Se não cançarem a subir escadas…

    Amplas janellas para a natureza.
    Que o sol na sua clara irradiação
    Dissipe atravez dellas a tristeza;

    Amplas–e baixas. Quem precise pão,
    E o vir da rua sobre a nossa meza,
    Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

    Ao lado um horto e um jardim fragrante,
    Sem grades aguçadas para o céu.
    A grade é agressiva, hostilisante,

    E sempre a impressão cruel me deu
    Dum dono que bradasse ao caminhante:
    –Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

    Sem gradeamento. Um murosito apenas
    Revestido de rosas de toucar,
    De ariolas, de glicinias, de verbenas.

    Muro d'onde os que forem a passar
    Vejam lilazes, cravos, assucenas…
    –E a paz, a doce paz do nosso lar.

    O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

    _Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_

    I

    Escrevo em testamento este poema
    Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
    O brilho rutilante duma gemma
    Achada nos farrapos dum mendigo…

    Ao vesperal crepusculo da vida
    E sob o olhar da morte é que o componho;
    Erguendo assim, por minha despedida,
    O ultimo escalão dum alto sonho.

    Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
    Hade attingir a cúpula dos céus,
    Direi ao mundo os derradeiros versos,
    Porei o coração nas mãos de Deus!

    E as mãos de Deus que os astros têm guiado
    Como se leve pluma cada um fôra,
    Hão de o sentir pesar, sollicitado
    Pelo logar da terra onde ella móra…

    II

    …Sei lá pintar!
    Se eu soubesse pintar, era pintor.

    _Guedes Teixeira_

    Na mais alta cidade portuguêsa
    Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
    A mais santa, a mais cheia de pureza
    Das moças deste lindo Portugal.

    Os seus olhos são tristes e suggerem
    Todo um passado de resignação.
    São tristes, certamente por não verem
    O rosto incomparavel onde estão…

    A voz é clara como as assucenas
    E dolorida, candida, modesta.
    É dolorida, porque sente penas
    D'abandonar a sua bocca honesta…

    O riso, que é em nótulas delidas
    Vibra em seus labios tão rapidamente
    Como um beijo d'amor, ás escondidas,
    Na curva duma estrada em que vem gente…

    A mão della, uma vez, poisou na minha;
    Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
    Que era o seu proprio coração que eu tinha
    A palpitar dentro da minha mão…

    Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
    O sol abraza os longes da paizagem,
    A sombra que em sua frente vae seguindo
    É a luz–a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

    Se passa, acalma os corações maguados
    Como outr'ora as parabolas de Christo
    Acalmavam a dôr aos desgraçados.
    Acalma os corações?! Não… não é isto.

    As estrophes d'amor, a quem o sinta,
    Dão um trabalho cheio de tormento;
    O tenebroso liquido da tinta
    Apaga, rouba a côr ao sentimento.

    Quiz celebrar dum modo original
    As finas graças do seu corpo. Errei-as.
    Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
    Palavras! Sois a nevoa das ideias…

    MELODIA CONFIDENCIAL

    (De Albert Samain)

    _A L.C._

    Num andamento
    Discreto, lento,
    Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

    Vamos vogando
    No lago brando
    E sem limites do silencio amigo…

    O ultimo e cavo
    Accorde do cravo
    Ficou vibrando exclamativamente.

    E, em espiral
    Ascencional,
    Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

    Na alcatifa macia
    Entrou na agonia
    Uma rosa sedenta e abandonada,

    E a ambos nos invade
    A mistica vontade
    D'entrar na morte, no não ser, no nada…

    Com seu docel vermelho
    Forrado d'oiro velho,
    Que evoca velhas eras d'esplendor,

    O leito pesado,
    Como um deus concentrado,
    Remembra obscuramente o nosso amor…

    Na atmosphera morna
    O teu corpo entorna
    Um perfume subtil, sensual, complexo,

    Aroma inapagavel,
    Philtro informulavel
    Gerado á chama clara do teu sexo.

    Teus olhos silentes
    E transparentes
    Teem, no fundo, verdes melancolicos,

    E as brazas do fogão,
    Já quasi extinctas, dão
    Clarões hypnotisantes e symbolicos…

    Amêmo-nos assim
    Com um amor sem fim,
    Verdadeiro na carne e nas ideias;

    P'los dedos enlaçados
    Sejamos penetrados
    D'amor, até ás mais miudinhas veias.

    Em extasis intensos
    Quedemo-nos suspensos
    Por sobre a terra ironica e brutal

    Sem nada saber,
    Sem nada ver,
    –Numa vida isolada e musical…

    Não fales. Não?
    Ou se o fizer's, então
    Que seja de vagar, muito baixinho,

    Numa toada, leve
    Como o halito breve
    Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…

    O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

    _A Columbano_

    La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
    de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
    pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)

    Sahira Santo Antonio do convento,
    A dar o seu passeio costumado
    E a decorar, num tom rezado e lento,
    Um candido sermão sobre o peccado.

    Andando, andando sempre, repetia
    O divino sermão piedoso e brando,
    E nem notou que a tarde esmorecia,
    Que vinha a noite placida baixando…

    E andando, andando, viu-se num outeiro,
    Com arvores e casas espalhadas,
    Que ficava distante do mosteiro
    Uma legua das fartas, das puxadas.

    Surprehendido por se vêr tão longe,
    E fraco por haver andado tanto,
    Sentou-se a descançar o bom do monge,
    Com a resignação de quem é santo…

    O luar, um luar clarissimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade
    O Menino Jesus baixou do céu,
    Poz-se a brincar com o capuz do frade.

    Perto, uma bica d'agua murmurante
    Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
    Os rouxinoes ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, illuminava mais.

    De braço dado, para a fonte, vinha
    Um par de noivos todo satisfeito.
    Ella trazia ao hombro a cantarinha,
    Elle trazia… o coração no peito.

    Sem suspeitarem de que alguem os visse,
    Trocaram beijos ao luar tranquillo.
    O menino, porém, ouviu e disse:
    –Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

    O santo, erguendo a manga de burel
    Para tapar o noivo e a namorada,
    Mentiu numa voz doce como o mel:
    –Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

    Uma risada limpida, sonora,
    Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
    –Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
    –Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

    –Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo Antonio de Lisboa
    Calou-se embaraçado, mas por fim,

    Córado como as véstes dos cardeaes,
    Achou esta sahida redemptora:
    –Se o Menino Jesus pregunta mais,
    …Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

    Voltando-lhe a carinha contra a luz
    E contra aquelle amôr sem casamento,
    Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
    São horas…
    –E abalaram p'r'ó convento.

    UM GRÃO DE INCENSO

    _A Lourenço Cayolla_

    Entraste com ar cançado
    Numa egreja fria e triste.
    Ajoelhei-me ao teu lado
    –E nem ao menos me viste…

    Ficaste a rezar alli,
    Naquella immensa tristeza.
    Rezei tambem, mas a ti,
    –Que aos anjos tambem se reza…

    Ficaste a rezar até
    Manhã dentro, manhã alta.
    Como é que tens tanta fé
    –E a caridade te falta?…

    A MÁSCARA

    _A Santos Tavares_

    Por acaso, parou na minha frente,
    De _loup_ e dóminó de seda negra,
    Uma mulher d'olhar resplandecente
    E mento breve de figura grega.

    Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

    E os seus olhos doirados reluziram
    Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
    Aguçados e frios, das bainhas.

    –Máscara, quem és tu?

    –E tu quem és?…

    –Um homem que te viu e te deseja…

    E um riso vago, de desdem talvez,
    Floriu na sua bocca de cereja.

    Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

    Em vibrações entrecortadas, sêccas,
    Tiniam taças irisadas, cheias.
    E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
    Vibrava nas arcadas das rebecas.

    Levei-a para o vão duma janella.
    –Máscara, quem és tu?

    –Para que insistes?…

    Outro riso subiu da bocca della
    Aos olhos enigmaticos e tristes.

    E descobriu a face. No capuz
    Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

    Que differente porém do que eu supuz!

    A gente nunca deve entrar com luz
    Nos divinos recantos do misterio…

    IN PROMPTUM PASTORAL

    _A Amadeu de Freitas_

    «Muito vence quem se vence
    Muito diz quem não diz tudo,
    Porque a um discreto pertence
    A tempo fazer-se mudo.»

    (_Copla do Infante D. Luiz_.)

    Sob este céu creador
    De manhã vergiliana,
    Apetece ser pastor
    E tocar frauta de cana;

    Não, pastor d'autos d'amor,
    D'eclogas frias e velhas,
    Mas verdadeiro pastor
    De verdadeiras ovelhas…

    Não conhecer o talento
    Nem nada do que se ensina.
    Esta dôr do entendimento
    É peor do que se imagina…

    Guiar o meu coração
    Num ingenuo christianismo.
    Esta civilisação
    É cheia de pessimismo…

    Comer pão negro, pão duro,
    Beber o leite das peáras.
    Pão de centeio é escuro,
    –Mas põe as almas ás claras…

    Amar alguma pastora
    Com palavras e com obras.
    Estas senhoras d'agora
    São mais falsas do que as cóbras…

    E vêr crear com carinho,
    Com cuidados infinitos,
    Á companheira, um filhinho…
    E ás ovelhas, borreguitos…

    MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES

    I

    _A Celestino Steffanina_

    Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
    tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).

    Semeador de iniquidades,
    Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
    O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
    Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…

    Oh minha vista o que é que foi que viste
    Cá neste mundo impiedoso e rudo?

    _Que só a vaidade existe_
    –Em todos nós, e em tudo!…

    II

    _A Israel Anahory_

    Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
    palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
    escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).

    Palavras são palavras… Nada dizem.
    Teias d'aranha que jámais impedem
    Que as ideias se escapem e deslizem…

    Nescios os homens são quando procedem
    Como quem a verdade sempre traja
    E nunca della se encontrou despido…

    Difficil é… o que mais simples haja
    –Quanto mais o que fôr mais escondido!…

    Para que uma verdade vá julgar,
    Para que um sentimento vá sentir,
    Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
    E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

    Mas por fim
    Nem assim…

    O mais profundo pensamento
    É sempre insubsistente e aerio,
    Por que a todo o momento
    –Se perde no misterio…

    III

    _A José Barbosa_

    Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
    mesmo que o que se hade fazer.

    Que é o que foi?
    –O mesmo que hade ser…

    A vida é como o passo egual dum boi
    Que vem dos campos ao anoitecer;
    Com o seu lento e resignado aspeito,
    Andou um passo, e logo um outro dá.

    _Tudo quanto foi feito
    De novo se fará_…

    IV

    _A Ladislau Patricio_

    Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
    e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)

    O sabio tem os olhos da razão
    Além desses que tu na fronte levas,
    Oh nescio que sem guia e sem bordão
    Vaes pela vida a caminhar nas trevas…

    (_E d'ahi? E depois?
    Se surge um incidente,
    Fere indistinctamente
    Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_…)

    V

    _A Adelaide Gil, minha irmã_

    Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
    terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).

    Mas o que é, afinal, a perfeição?
    Como é que tudo, oh sabios, evolue
    _Se as coisas todas caminhando vão
    Para um egual e unico logar,
    Se o pó que as constitue
    Em pó se hade tornar_?

    VI

    _A Eduardo Graça_

    Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
    segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).

    Socega, coração attribulado,
    De toda a dôr se apaga todo o traço.
    Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
    _O seu tempo e tambem o seu espaço_…

    E queira Deus, coração,
    Que esta hora de anciedade
    E de pranto e d'afflicção
    –Nunca te cause saudade!…

    A CANÇÃO DAS PERDIDAS

    _A Vianna da Motta_

    I

    Quem por amôr se perdeu
    Não chore, não tenha pena.
    Uma das santas do céu
    –É Maria Magdalena…

    II

    Minha mãe foi o que eu sou.
    Eu sou o que tantas são.
    Que triste herança te dou,
    Filha do meu coração!

    III

    Meu pae foi para o degredo
    Era eu inda pequena.
    Se não morresse tão cedo,
    Morria agora–de pena…

    IV

    E ha no mundo quem afronte
    Uma mulher quando cae!
    Nasce agua limpa na fonte,
    Quem a suja é quem lá vae…

    V

    Aquelle que me roubou
    A virtude de donzella
    Se outra honra lhe não dou,
    –É porque só tive aquella!…

    VI

    Nós temos o mesmo fado,
    Oh fonte d'agua cantante,
    Quem te quer, pára um boccado.
    Quem não quer, pássa adeante…

    VII

    O meu amôr, por amal-o,
    Poz-me o peito numa chaga:
    Deu-me facadas. Deixal-o.
    Mas ao menos não me paga!

    VIII

    Nem toda a agua do mar
    Por estes olhos chorada
    Daria bem a mostrar
    O que eu sou de desgraçada!

    IX

    Como querem vêr contente
    Este paiz desgraçado,
    Se dão só livros á gente
    Nas escolas do peccado…

    X

    Dormia o meu coração
    Cançado de fingimento.
    Bateste-me, e vae então
    Acordou nesse momento.

    XI

    Se aquillo que a gente sente,
    Cá dentro, tivesse vóz,
    Muita gente… toda a gente
    Teria pena de nós!

    CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL

    «Um mover d'olhos brando e piedoso
    Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
    Quasi forçado; um doce e humilde gesto
    De qualquer alegria duvidoso

    * * * * *

    Um encolhido ousar; uma brandura,
    Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
    Um longo e obediente soffrimento.

    * * * * *

    Camões

    Num quente e perturbante fim de tarde,
    Cujo magnetico e profundo enlevo
    Ainda agora em mim crepita e arde,
    Como se fosse a tarde em que te escrevo,

    Ergui os olhos distrahidamente,
    A ver se já brilhava alguma estrella
    No concavo do céu opalescente
    –E vi, numa varanda, os olhos della…

    Do episodio que acabo de contar-te
    Tão simples, tão banal, que dá vontade,
    Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
    De lhe roubar um pouco de verdade,

    Foi que este amor espiritual nasceu,
    Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
    Repara, amigo, como olhando o céu
    A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

    Mas quem podia então adivinhal-o?
    O olhar dessa mulher era tão lindo
    Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
    Descera a noite. A lua ia subindo…

    Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
    Dava em toda a varanda. Assim, eu via
    As fórmas portuguêsas do seu rosto
    Nitidamente, como á luz do dia.

    E cá dentro de mim senti nascer
    A dúvida, a incerteza, a hesitação
    Sobre o que mais desejaria ser:
    Se o noivo della, se o primeiro irmão…

    Uma estrella cadente reluziu
    Por sobre as torres da vizinha egreja,
    Pensei commigo: Deus o decidiu:
    É minha noiva que Elle quer que seja.

    Não dizia ventura, mas desgraça,
    A claridade do signal aereo.
    (Na mesma direcção da egreja, passa
    A rua que vae dar ao cemiterio…)

    Porém, como querendo agradecer-me
    A decisão que attribuira a Deus,
    Inclinou-se de leve para ver-me
    E os doces olhos demorou nos meus.

    Sob a caricia desse olhar cinzento,
    Que ao abaixar-se parecia negro,
    O coração que me batia lento,
    Mudou o andamento para alegro.

    Uma hora decorreu. Outras passaram.
    Passaram, foram-se; e naquelle enleio
    Que tempo os nossos olhos conversaram!…
    Estava a noite já em mais de meio.

    Vinha dos montes uma brisa ardente.
    O céu ganhára tons d'azul cobalto.
    O luar cahia silenciosamente.
    Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

    Arrependidos, ou então, cançados
    De se fitarem com demora em mim,
    Os seus olhos piedosos e sagrados
    Ao dialogo d'amor puzeram fim.

    Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
    Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
    Como se foram duas borboletas
    Voando para duas assucenas.

    Ergueu-se. O busto delicado e fino
    Tinha os suaves, religiosos traços
    Da Virgem num altar. Só o Menino
    Faltava na doçura dos seus braços…

    Num olhar impregnado de candura,
    Disse-me adeus e recolheu. Depois…
    A luminosa noite fez-se escura.
    Calaram-se na sombra os rouxinoes.

    Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
    A madrugada sem que o conseguisse.
    Quem um sonho tão limpido sonhára,
    Inutil se tornava que dormisse…

    Annos felizes neste amor gastei.
    Vieram em seguida as horas más.
    O que nellas soffri, o que passei,
    Um dia, noutra carta, o saberás.

    MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

    Dez da manhã. Vento da
    serra. Tres graus negativos

    _Mãos frias, coração quente_!
    Quanta vez isto dizias
    Com o teu ar sorridente,
    Apertando-me as mãos frias…

    Agora decerto o tenho
    Num brazeiro, num vulcão.
    O frio é tanto, é tamanho
    Que a penna cae-me da mão…

    Q'ria dizer-te o que penso
    E o que faço e premedito,
    Mas posso lá ser extenso
    Com este frio maldito!

    Tu perdoas certamente,
    Tu não te zangas, pois não?
    _Mãos frias, coração quente_
    –Lá diz o velho rifão…

    NOIVA

    _A João da Silva_

    «Anda a dôr dissimulada
    Mas ella dará seu fruito.»

    Crisfal

    «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

    (_Trecho duma carta_)

    Tive noticias hoje a teu respeito:
    «Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
    E o coração tranquillo no meu peito
    –Continuou a bater como batia…

    Surpreso duma tal serenidade,
    Todo eu, intimamente, me sondava:
    Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
    –E nem ciumes, nem saudade achava…

    Saudades, não; que o teu amor antigo
    Guardam-no as cinzas (neste coração)
    Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
    Que após centenas d'annos deram pão…

    Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
    A lei antiga como o proprio mundo
    De que o prazer mal chega, já morreu,
    E só a dôr nas almas cava fundo?

    Causei-te longas horas d'amargura,
    Não consegues voltar a ser feliz;
    A chaga que te abri não terá cura,
    E se curar–lá fica a cicatriz.

    Á luz dum juramento que trahiste
    Tu has de vêr-me toda a vida pois.
    Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
    E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

    Ciumes tambem não, por te venderes.
    Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
    Não descerias tanto entre as mulheres,
    Seria mais humano o teu peccado.

    Porém, embora a tua falta aponte,
    P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
    O sol desapparece no horisonte
    –E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

    Póde a desgraça erguer em frente a mim
    Altas montanhas d'elevados cumes.
    O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
    Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

    Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
    Em claras noites de luar silente,
    Ouvir vibrar alguma voz, cantando
    Os versos que te fiz devotamente.

    Versos para te ungirem os ouvidos
    E os labios d'anemica e de santa,
    Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
    Que o povo humilde os acolheu e os canta.

    Então, se te olhar bem, logo adivinha…
    Logo sombriamente se convence
    De que a tua alma se fundiu na minha
    –E apenas o teu corpo lhe pertence.

    DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

    _Á Leo_

    Ao charco mais escuso e mais immundo
    Chega uma hora no correr do dia
    Em que um raio de sol, claro e jocundo,
    O visita, o alegra, o alumía;

    Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
    Nesta contínua e intérmina agonia,
    Nem tenho uma hora só dessa alegria
    Que chega ás coisas infimas do mundo!…

    Deus meu, acaso a roda do destino
    A movimentam vossas mãos leaes
    Num aceno impulsivo e repentino,

    Sem que na cega turbulencia a domem?!
    Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
    Olhae que é–_o coração dum homem_!…

    JOANNINHA

    _A Mayer Garção_

    Descance de quando em quando…
    Passar assim toda a tarde
    Sempre bordando, bordando,
    Sem que um momento desista,
    Até faz pena! Não lhe arde
    Nem se lhe perturba a vista?…

    Descance de quando em quando…
    Erga os olhos do bordado
    E veja quem vae passando.
    O trabalho alegra a gente,
    Mas assim, tão aturado,
    –Não lhe faz bem certamente.

    Erga a carinha tranquilla,
    Erga esse rosto tão lindo
    E veja os moços da villa
    A passarem por aqui,
    Uns descendo, outros subindo,
    –E todos d'olhos em si…

    Descance de quando em quando
    E veja se escolhe algum;
    Já é tempo d'ir pensando
    Em casar. Não é assim?…
    Se não lhe agrada nenhum,
    –Diga se gosta de mim.

    Desde os começos do outono
    Que eu a trago no sentido,
    Não como, não tenho sono,
    Tudo me dá ralação?
    Quer-me para seu marido?
    –Diga que sim ou que não…

    QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

    _A Cassianno Neves_

    Bocca talhada em milagrosas linhas,
    A luz augmenta com o seu falar.

    Esta manhã um bando de andorinhas
    Ia-se embora, atravessava o mar.

    Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
    Um adeus suave que ella lhes dissera,

    –E suspenderam todas a viagem,
    Julgando que voltára a primavera…

    A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

    Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
    disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
    realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra
    em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
    machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
    theatraes.

    … O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
    na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
    lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_

    _A Manuel Penteado_

    Buscava em algum assunto adrede
    A versos que inculcassem novidade,
    Quando uma intensa e irreprimivel sêde
    Me fez voltar do sonho á realidade.

    E pedi agua (já se vê) que veio
    Consoante é d'uzo cá por entre o povo
    Num pucaro de barro ingenuo e feio,
    Servindo-lhe de salva um prato côvo.

    Bebi o liquido dum trago só;
    E dito o «Deus te pague» habitual,
    Subi de novo a escada de Jacob
    No heroico intuito de escalar o ideal…

    Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
    Que os rios erguem pela madrugada;
    O olhar destingue-a, quando está distante,
    E da que nos rodeia–não vê nada…

    De que serve afinal tentar a gente
    Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
    Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
    Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

    A agua vinda neste vaso fragil
    Que um ignorado artista modelou
    Num gesto–já mechanisado e agil–
    Á força d'imitar o que encontrou,

    É um assunto cheio de belleza,
    Cheio de claro e alto ensinamento.
    Assim na branda fala portuguêsa
    O désse eu, como o tenho em pensamento!…

    A agua é como a esp'rança
    Que a tudo se sujeita…
    Onde quer que se deita
    Lá fica humildemente acommodada,
    Seja a concha da mão duma creança,
    Ou a taça lendaria da ballada…

    Tanto sacia
    Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
    (Que um só valia
    O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
    Como a que se toma
    Na argilla porosa,
    Alegre trabalho dum simples oleiro…

    E é
    Até
    Bem mais saborosa
    No barro suarento
    Deixado á janella,
    Que num opulento
    Copo lavrado
    Que seja pertença de rica baixella
    E sonho gentil, cinzel phantasista
    Dalgum grande artista
    Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

    Bichos humanos, féras em pé,
    Sêde bondosos como a agua o é…

    No luzente alcantil da magnitude,
    Ou no áspero declive da pobreza,
    Nunca cerreis o espirito á virtude,
    Nunca fecheis os olhos á belleza.
    Que todo o coração,
    Desde o sabio de genio ao cavador,
    Seja o Calix de paz e de perdão
    Contendo a agua limpida e lustral
    Dum irmanado e perpetuo amôr…

    Agua que limpe a mácula do mal
    E mitigue a miseria, a ancia, a magua
    Desta cruenta e impiedosa guerra
    Em que tantas creaturas se consomem.

    Nem só da agua
    Que vem da terra
    Tem sêde o homem…

    Nasce uma fonte
    Rumurejante
    Na encosta dum monte;

    E mal que do seio
    Da terra brotou,
    Logo o seu veio
    Transparente
    E diligente
    Buscou e achou
    Mais baixo logar…

    E sempre descendo,
    E sempre a cantar,
    Vae andando,
    Galgando,
    Vencendo,
    (Ou tenta vencer…)
    Folha, raíz, areia, o que tolher
    A sua descida…

    Ao brotar da dura frágoa
    –É uma lagrima d'agua…

    Mas esse humilde fiozinho,
    Que um destino bom impelle,
    Encontra pelo caminho
    Um outro que é como elle…

    Reunem-se, fundem-se os dois,
    Proseguem de companhia,
    E fica dupla depois
    A força que os leva e guia…

    Junta-se aos dois um terceiro,
    Outros confluindo vão,
    E o regato é já ribeiro
    E o ribeiro é rio então…

    E nada agora o domina
    Ao fiozinho da fonte.
    Entre collina e collina,
    Ou entre um monte e outro monte,

    Caminha sem descançar,
    Circula atravez do mundo
    –Até á beira do mar
    Omnipotente e profundo…

    Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
    A vaidade é uma amante enganadora)
    Que o mais alto de vós se humilhe e desça
    Como se humilde e pobre sempre fôra…

    E que os demais desçam tambem de todo
    O orgulho e mando sobre escravas gentes
    Até ao valle, de lagrimas e lôdo
    Onde a miseria brada e range os dentes.

    E como as aguas que se vão juntando
    E juntas, e cantando, vão descendo,
    Reuni o choro derramado, quando
    Atravessardes esse valle horrendo.

    E o atoleiro que se havia feito
    No val, dantesco, pútrido, sombrio,
    Mudar-se-ha no irrigante leito
    Dum fertilisador e claro rio;

    E o rio, andando, andando, hade alargar
    –Com biliões de lagrimas vertidas–
    Num infinito e luminoso mar
    De novas e amplas e cantantes vidas!

    Outubro de 1909.

    INDICE

    Prefacio
    Dedicatoria
    Luar de Janeiro
    Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
    Ballada da Neve
    Toada para as mães acalentarem os filhos
    O nosso lar
    O que o fogo poupou dum poemeto queimado
    Melodia confidencial
    O passeio de Santo Antonio
    Um grão de incenso
    A máscara
    In promptum pastoral
    Meditações sobre themas do Ecclesiastes
    A canção das perdidas
    Carta a um rapaz sentimental
    Mãos frias coração quente
    Noiva
    De profundis clamavi ad te domine
    Joanninha
    Quando as andorinhas partiam
    A parábola do pucaro d'agua

    Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
    Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

  • Livro de Máguas

    Livro de Máguas

    Aproximadamente 3.482 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
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    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    FLORBELA ESPANCA

    Livro de Máguas

    MCMXIX

    LIVRO DE MÁGUAS

    FLORBELA ESPANCA

    LIVRO DE MÁGUAS

    MCMXIX

    _A meu Pai_

    Ao meu melhor amigo

    Á querida Alma irmã da minha,

    _Ao meu Irmão_

    Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
    É um punhado infantil de areia resequida,
    Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa…

    Eugénio de Castro.

    Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

    Verlaine.

    *Êste livro*…

    ÊSTE LIVRO…

    Êste livro é de máguas. Desgraçados
    Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
    Sòmente a vossa dor de Torturados
    Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo…

    Este livro é p'ra vós, Abençoados
    Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
    Bíblia de tristes… Ó Desventurados,
    Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!

    Livro de Máguas… Dôres… Ansiedades!
    Livro de Sombras… Névoas… e Saudades!
    Vai pelo mundo… (Trouxe-o no meu seio…)

    Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
    Chorae comigo a minha imensa mágua,
    Lendo o meu livro só de máguas cheio!…

    *Vaidade*

    VAIDADE

    Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguem cá neste mundo…
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a terra anda curvada!

    E quando mais no ceu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho…
    E não sou nada!…

    *Eu*…

    EU…

    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada… a dolorida…

    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!…

    Sou aquela que passa e ninguem vê…
    Sou a que chamam triste sem o sêr…
    Sou a que chora sem saber porquê…

    Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
    Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
    E que nunca na vida me encontrou!

    *Castelã da Tristêsa*

    CASTELÃ DA TRISTÊSA

    Altiva e couraçada de desdem,
    Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
    Passa por êle a luz de todo o amôr….
    E nunca em meu castelo entrou alguem!

    Castelã da Tristêsa, vês?… A quem?!…
    –E o meu olhar é interrogadôr–
    Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
    Chora o silêncio… nada… ninguem vem…

    Castelã da Tristêsa, porque choras
    Lendo, toda de branco, um livro de oras,
    Á sombra rendilhada dos vitrais?…

    Á noite, debruçada p'las ameias,
    Porque rezas baixinho?… Porque anseias?…
    Que sonho afagam tuas mãos reais?…

    *Tortura*

    TORTURA

    Tirar dentro do peito a Emoção,
    A lucida Verdade, o Sentimento!
    –E ser, depois de vir do coração,
    Um punhado de cinza esparso ao vento!…

    Sonhar um verso d'alto pensamento,
    E puro como um rythmo d'oração!
    –E ser, depois de vir do coração,
    O pó, o nada, o sonho dum momento!…

    São assim ôcos, rudes, os meus versos:
    Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
    Com que eu iludo os outros, com que minto!

    Quem me déra encontrar o verso puro,
    O verso altivo e forte, extranho e duro,
    Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

    *Lágrimas ocultas*

    LÁGRIMAS OCULTAS

    Se me ponho a scismar em outras éras
    Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
    Parece-me que foi noutras esféras,
    Parece-me que foi numa outra vida…

    E a minha triste bôca dolorida
    Que dantes tinha o rir das primavéras,
    Esbate as linhas graves e severas
    E cae num abandôno de esquecida!

    E fico, pensativa, olhando o vago…
    Toma a brandura plácida dum lago
    O meu rôsto de monja de marfim…

    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguem as vê brotar dentro da alma!
    Ninguem as vê cair dentro de mim!

    *Torre de névoa*

    TORRE DE NÉVOA

    Subi ao alto, á minha Torre esguia,
    Feita de fumo, névoas e luar,
    E puz-me, comovida, a conversar
    Com os poetas mortos, todo o dia.

    Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
    Dos versos que são meus, do meu sonhar,
    E todos os poetas, a chorar,
    Responderam-me então: «Que fantasia,

    Creança doida e crente! Nós tambêm
    Tivemos ilusões, como ninguem,
    E tudo nos fugiu, tudo morreu!…»

    Calaram-se os poetas, tristemente…
    E é desde então que eu choro amargamente
    Na minha Torre esguia junto ao Ceu!…

    *A minha Dôr*

    A MINHA DÔR

    _A Você_

    A minha Dôr é um convento ideal
    Cheio de claustros, sombras, arcarias,
    Aonde a pedra em convulsões sombrias
    Tem linhas dum requinte escultural.

    Os sinos teem dobres d'agonias
    Ao gemer, comovidos, o seu mal…
    E todos teem sons de funeral
    Ao bater horas, no correr dos dias…

    A minha Dôr é um convento. Ha lírios
    Dum roxo macerado de martírios,
    Tão belos como nunca os viu alguem!

    Nesse triste convento aonde eu móro,
    Noites e dias reso e grito e chóro!
    E ninguem ouve… ninguem vê… ninguem…

    *Dizêres íntimos*

    DIZÊRES INTIMOS

    É tão triste morrer na minha idade!
    E vou ver os meus olhos, penitentes
    Vestidinhos de rôxo, como crentes
    Do soturno convento da Saudade!

    E logo vou olhar (com que ansiedade!…)
    As minhas mãos esguias, languescentes,
    De brancos dedos, uns bébés doentes
    Que hão de morrer em plena mocidade!

    E ser-se novo é ter-se o Paraiso,
    É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
    Aonde tudo é luz e graça e riso!

    E os meus vinte e tres anos… (Sou tão nova!)
    Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!…»
    Responde a minha Dôr: «Que linda a cova!»

    *As minhas Ilusões*

    AS MINHAS ILUSÕES

    Hora sagrada dum entardecer
    D'Outono, á beira mar, côr de safira.
    Sôa no ar uma invisivel lira…
    O sol é um doente a enlanguescer…

    A vaga estende os braços a suster,
    Numa dôr de revolta cheia de ira,
    A doirada cabeça que delira
    Num último suspiro, a estremecer!

    O sol morreu… e veste luto o mar…
    E eu vejo a urna d'oiro, a baloiçar,
    Á flôr das ondas, num lençol d'espuma!

    As minhas Ilusões, dôce tesoiro,
    Tambem as vi levar em urna d'oiro,
    No Mar da Vida, assim… uma por uma…

    *Neurastenia*

    NEURASTENIA

    Sinto hoje a alma cheia de tristesa!
    Um sino dobra em mim, Ave Marias!
    Lá fôra, a chuva, brancas mãos esguias,
    Faz na vidraça rendas de Venesa…

    O vento desgrenhado, chora e resa
    Por alma dos que estão nas agonias!
    E flocos de neve, aves brancas, frias,
    Batem as azas pela Natureza…

    Chuva… tenho tristesa! Mas porquê?!
    Vento… tenho saudades! Mas de quê?!
    Ó neve que destino triste o nosso!

    Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
    Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
    Digam isto que sinto que eu não posso!!…

    *Pequenina*

    PEQUENINA

    _Á Maria Helena Falcão Risques_

    És pequenina e ris… A bôca breve
    É um pequeno idílio côr de rosa…
    Haste de lírio frágil e mimosa!
    Cofre de beijos feito sonho e neve!

    Dôce quimera que a nossa alma deve
    Ao Ceu que assim te fez tão graciosa!
    Que nesta vida amarga e tormentosa
    Te fez nascer como um perfume leve!

    O ver o teu olhar faz bem á gente…
    E cheira e sabe, a nossa bôca, a flôres
    Quando o teu nome diz, suavemente…

    Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
    Que ela afaste de ti aquelas dôres
    Que fizeram de mim isto que sou!

    *A Maior Tortura*

    A MAIOR TORTURA

    _A um grande poeta de Portugal_

    Na vida, para mim, não ha deleite.
    Ando a chorar convulsa noite e dia…
    E não tenho uma sombra fugidía
    Onde poise a cabeça, onde me deite!

    E nem flôr de lilaz tenho que enfeite
    A minha atroz, imensa nostalgia!…
    A minha pobre Mãe tão branca e fria
    Deu-me a beber a Magua no seu leite!

    Poeta, eu sou um cardo despresado,
    A urze que se pisa sob os pés.
    Sou, como tu, um riso desgraçado!

    Mas a minha tortura inda é maior:
    Não ser poeta assim como tu és,
    Para gritar num verso a minha Dôr!…

    *A Flôr do Sonho*

    A FLÔR DO SONHO

    A Flôr do Sonho alvissima, divina
    Miraculosamente abriu em mim,
    Como se uma magnolia de setim
    Fosse florir num muro todo em ruina.

    Pende em meio seio a haste branda e fina
    E não posso entender como é que, emfim,
    Essa tão rara flôr abriu assim!…
    Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

    Ó Flôr que em mim nascêste sem abrolhos,
    Que tem que sejam tristes os meus olhos
    Se eles são tristes pelo amôr de ti?!…

    Desde que em mim nascêste em noite calma,
    Voou ao longe a aza da minh'alma
    E nunca, nunca mais eu me entendi…

    *Noite de Saudade*

    NOITE DE SAUDADE

    A Noite vem poisando devagar
    Sobre a terra que inunda de amargura…
    E nem sequer a benção do luar
    A quiz tornar divinamente pura…

    Ninguem vem atraz dela a acompanhar
    A sua dôr que é cheia de tortura…
    E eu oiço a Noite imensa soluçar!
    E eu oiço soluçar a Noite escura!

    Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!
    É que, talvez, ó Noite, em ti existe
    Uma Saudade egual á que eu contenho!

    Saudade que eu nem sei donde me vem…
    Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguem!…
    Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

    *Angustia*

    ANGUSTIA

    Tortura do pensar! Triste lamento!
    Quem nos déra calar a tua voz!
    Quem nos déra cá dentro, muito a sós,
    Estrangular a hidra num momento!

    E não se quer pensar!… E o pensamento
    Sempre a morder-nos bem, dentro de nós…
    Qu'rer apagar no Ceu–Ó sonho atroz!–
    O brilho duma estrela, com o vento!…

    E não se apaga, não… nada se apaga!
    Vem sempre rastejando como a vaga…
    Vem sempre perguntando. «O que te resta?…»

    Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
    Ser pedaço de gelo, ser granito,
    Ser rugido de tigre na floresta!

    *Amiga*

    AMIGA

    Deixa-me ser a tua amiga, Amôr;
    A tua amiga só, já que não queres
    Que pelo teu amôr seja a melhor
    A mais triste de todas as mulheres.

    Que só, de ti, me venha mágua e dôr
    O que me importa a mim?! O que quiséres
    É sempre um sonho bom! Seja o que fôr
    Bemdito sejas tu por m'o dizêres!

    Beija-me as mãos, Amôr, devagarinho…
    Como se os dois nascessemos irmãos,
    Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

    Beija-mas bem!… Que fantasia louca
    Guardar assim, fechados, nestas mãos,
    Os beijos que sonhei p'rá minha bôca!…

    *Desejos vãos*

    DESEJOS VÃOS

    Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
    Que ri e canta, a vastidão imensa!
    Eu qu'ria ser a pedra que não pensa,
    A Pedra do caminho, rude e forte!

    Eu qu'ria ser o Sol, a luz intensa,
    O bem do que é humilde e não tem sorte!
    Eu qu'ria ser a arvore tôsca e densa
    Que ri do mundo vão e até da morte!

    Mas o Mar tambêm chora de tristesa…
    As Arvores tambêm, como quem resa,
    Abrem, aos Ceus, os braços, como um crente!

    E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
    Tem lágrimas de sangue na agonia!
    E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

    *Peor velhice*

    PEOR VELHICE

    Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
    Dum riso são andou na minha bôca!
    Gritando que me acudam, em voz rouca,
    Eu, naufraga da Vida, ando a morrer!

    A Vida que ao nascer enfeita e touca
    D'alvas rosas, a fronte da mulher,
    Na minha fronte mística de louca
    Martírios só poisou a emurchecer!

    E dizem que sou nova… A mocidade
    Estará só, então, na nossa idade,
    Ou está em nós e em nosso peito mora?!…

    Tenho a peor velhice, a que é mais triste,
    Aquela onde nem sequer existe
    Lembrança de ter sido nova… outróra…

    *A um livro*

    A UM LIVRO

    No silêncio de cinzas do meu Ser
    Agita-se uma sombra de cypreste.
    Sombra roubada ao livro que ando a ler,
    A esse livro de máguas que me deste.

    Extranho livro aquele que escreveste
    Artista da saudade e do sofrer!
    Extranho livro aquele em que puzéste
    Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

    Leio-o e folhêio, assim, toda a minh'alma!
    O livro que me déste é meu e psalma
    As orações que choro e rio e canto!…

    Poeta egual a mim, ai quem me déra
    Dizer o que tu dizes!… Quem soubéra
    Velar a minha Dôr desse teu manto!…

    *Alma perdida*

    ALMA PERDIDA

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguem que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dôr, suavemente…
    Talvez sejas a alma, alma doente
    D'alguem que quiz amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste… e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguem é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa á noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!…

    *De joelhos*

    DE JOELHOS

    «Bendita seja a Mãe que te gerou.»
    Bendito o leite que te fez crescer.
    Bendito o berço aonde te embalou
    A tua ama, p'ra te adormecer!

    Bendita essa canção que acalentou
    Da tua vida o dôce alvorecer…
    Bendita seja a lua que inundou
    De luz, a terra, só para te vêr…

    Benditos sejam todos que te amarem,
    As que em volta de ti ajoelharem,
    Numa grande paixão fervente e louca!

    E se mais que eu, um dia, te quiser
    Alguem, bendita seja essa Mulher,
    Bendito seja o beijo dessa bôca!!

    *Languidez*

    LANGUIDEZ

    Tardes da minha terra, dôce encanto,
    Tardes duma puresa d'açucenas,
    Tardes de sonho, as tardes de novenas,
    Tardes de Portugal, as tardes d'Anto.

    Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
    Horas benditas, leves como pênas,
    Horas de fumo e cinza, horas serênas,
    Minhas horas de dôr em que eu sou santo!

    Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,
    Que poisam sôbre duas violetas,
    Azas leves cançadas de voar…

    E a minha bôca tem uns beijos mudos…
    E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
    Traçam gestos de sonho pelo ar…

    *Para quê?!*

    PARA QUÊ?!

    Tudo é vaidade neste mundo vão…
    Tudo é tristesa; tudo é pó, é nada!
    E mal desponta em nós a madrugada,
    Vem logo a noite encher o coração!

    Até o amôr nos mente, essa canção
    Que o nosso peito ri á gargalhada,
    Flôr que é nascida e logo desfolhada,
    Pétalas que se pisam pelo chão!…

    Beijos d'amôr! P'ra quê?!… Tristes vaidades!
    Sonhos que logo são realidades,
    Que nos deixam a alma como morta!

    Só acredita neles quem é louca!
    Beijos d'amor que vão de bôca em bôca,
    Como pobres que vão de porta em porta!…

    *Ao vento*

    AO VENTO

    O vento passa a rir, torna a passar,
    Em gargalhadas asp'ras de demente;
    E esta minh'alma trágica e doente
    Não sabe se ha de rir, se ha de chorar!

    Vento de voz tristonha, voz plangente,
    Vento que ris de mim, sempre a troçar,
    Vento que ris do mundo e do amar,
    A tua voz tortura toda a gente!…

    Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
    Desabafa essa dôr a sós comigo,
    E não rias assim!… Ó vento, chóra!

    Que eu bem conheço, amigo, êsse fadário
    Do nosso peito ser como um Calvario,
    E a gente andar a rir p'la vida fóra!!…

    *Tédio*

    TÉDIO

    Passo pálida e triste. Oiço dizer
    «Que branca que ela é! Parece morta!»
    E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
    Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

    Que diga o mundo e a gente o que quizer!
    –O que é que isso me faz?… O que me importa?…
    O frio que trago dentro gela e corta
    Tudo que é sonho e graça na mulher!

    O que é que isso me importa?! Essa tristesa
    É menos dôr intensa que friesa,
    É um tédio profundo de viver!

    E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
    O mesmo lago plácido, dormente…
    E os dias, sempre os mesmos, a correr…

    *A minha Tragédia*

    A MINHA TRAGÉDIA

    Tenho ódio á luz e raiva á claridade
    Do sol, alegre, quente, na subida.
    Parece que a minh'alma é perseguida
    Por um carrasco cheio de maldade!

    Ó minha vã, inutil mocidade
    Trazes-me embriagada, entontecida!…
    Duns beijos que me déste, noutra vida,
    Trago em meus lábios rôxos, a saudade!…

    Eu não gosto do sol, eu tenho medo
    Que me leiam nos olhos o segrêdo
    De não amar ninguem, de ser assim!

    Gosto da Noite imensa, triste, preta,
    Como esta extranha e doida borboleta
    Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…

    *Sem remédio*

    SEM REMÉDIO

    Aqueles que me teem muito amôr
    Não sabem o que sinto e o que sou…
    Não sabem que passou, um dia, a Dôr,
    Á minha porta e, nesse dia, entrou.

    E é desde então que eu sinto êste pavôr,
    Este frio que anda em mim, e que gelou
    O que de bom me deu Nosso Senhor!
    Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

    Sinto os passos da Dôr, essa cadência
    Que é já tortura infinda, que é demência!
    Que é já vontade doida de gritar!

    E é sempre a mesma mágua, o mesmo tédio,
    A mesma angústia funda, sem remédio,
    Andando atraz de mim, sem me largar!…

    *Mais triste*

    MAIS TRISTE

    É triste, diz a gente, a vastidão
    Do Mar imenso! E aquela voz fatal
    Com que êle fala, agita o nosso mal!
    E a Noite é triste como a Extrema Unção!

    É triste e dilacera o coração
    Um poente do nosso Portugal!
    E não veem que eu sou… eu… afinal,
    A coisa mais maguada das que o são?!…

    Poentes d'agonia trago-os eu
    Dentro de mim e tudo quanto é meu
    É um triste poente d'amargura!

    E a vastidão do Mar, toda essa agua
    Trago-a dentro de mim num Mar de Mágua!
    E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

    *Velhinha*

    VELHINHA

    Se os que me viram já cheia de graça
    Olharem bem de frente para mim,
    Talvez, cheios de dôr, digam assim:
    «Já ela é velha! Como o tempo passa!…»

    Não sei rir e cantar por mais que faça!
    Ó minhas mãos talhadas em marfim,
    Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
    Deixem correr a vida até ao fim!

    Tenho vinte e tres anos! Sou velhinha!
    Tenho cabelos brancos e sou crente…
    Já murmuro orações… falo sòsinha…

    E o bando côr de rosa dos carinhos
    Que tu me fazes, olho-os indulgente,
    Como se fosse um bando de nètinhos…

    *Em busca do Amôr*

    EM BUSCA DO AMOR

    O meu Destino disse-me a chorar:
    «Pela estrada da Vida vae andando;
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amôr que has de êncontrar.»

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando…
    E noite e dia, á chuva e ao luar,
    Fuí sempre caminhando e perguntando…

    Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,
    Viste o Amôr acaso em teu caminho?»
    E o velho estremeceu… olhou… e riu…

    Agora pela estrada, já cançados
    Voltam todos p'ra traz, desanimados…
    E eu paro a murmurar: Ninguem o viu!…»

    *Impossivel*

    IMPOSSIVEL

    Disseram-me hoje, assim, ao vêr-me triste:
    «Parece Sexta Feira de Paixão.
    Sempre a scismar, scismar, d'olhos no chão,
    Sempre a pensar na dôr que não existe…

    O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
    Faça por 'star contente! Pois então?!…»
    Quando se sofre o que se diz é vão…
    Meu coração, tudo, calado ouviste…

    Os meus males ninguem mos adivinha…
    A minha Dôr não fala, anda sòsinha…
    Dissesse ela o que sente! Ai quem me déra!…

    Os males d'Anto toda a gente os sabe!
    Os meus… ninguem… A minha Dôr não cabe
    Nos cem milhões de versos que eu fizéra!…

    ÍNDICE

    Êste livro
    Vaidade
    Eu…
    Castelã da Tristesa
    Tortura
    Lágrimas ocultas
    Torre de névoa
    A minha dôr
    Dizêres íntimos
    As minhas ilusões
    Neurastenia
    Pequenina
    A maior tortura
    A flôr do sonho
    Noite de saudade
    Angustia
    Amiga
    Desejos vãos
    Peor velhice
    A um livro
    Alma perdida
    De joelhos
    Languidez
    Para quê?!
    Ao vento
    Tédio
    A minha tragédia
    Sem remédio
    Mais triste
    Velhinha
    Em busca do amôr
    Impossivel

    ACABOU-SE DE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO
    NO MÊS DE JUNHO DE 1919 NA
    TIPOGRAFIA MAURICIO, RUA
    DO SALITRE, 102-A
    LISBOA

  • Marilia de Dirceo

    Marilia de Dirceo

    Aproximadamente 21.475 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was produced from images generously made available by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    MARILIA DE DIRCEO.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    PRIMEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Typ. de J.F.M. de Campos. 1824.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Eu, Marilia, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado, De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóes queimado. Tenho proprio casal, e nelle assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite, Das brancas ovelhinas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Eu vi o meu semblante n’uma fonte, Dos annos inda não está cortado: Os Pastores, que habitão este monte, Respeitão o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o proprio Alceste: Ao som della concerto a voz celeste; Nem canto letra que não seja minha. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Mas tendo tantos dotes da ventura, Só aprêço lhes dou, gentil Pastora, Depois que o teu affecto me segura, Que queres do que tenho ser Senhora. He bom, minha Marilia, he bom ser dono De hum rebanho, que cubra monte, e prado Porém, gentil Pastora, o teu agrado Vale mais [~q] h[~u] rebanho, e mais [~q] h[~u] throno. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Os teus olhos espalhão luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve: Papoila, ou rosa delicada, e fina, Te cobre as faces, que são côr da neve. Os teus cabellos são huns fios d’ouro; Teu lindo corpo balsamos vapora. Ah! não, não fez o Ceo, gentil Pastora, Para gloria de Amor igual Thesouro. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Leve-me a sementeira muito embora O rio sobre os campos levantado: Acabe, acabe a peste matadora, Sem deixar huma rez, o nedeo gado. Já destes bens, Marilia, não preciso: Nem me céga a paixão, que o mundo arrasta, Para viver feliz, Marilia, basta Que os olhos movas, e me dês hum riso. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Hirás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marilia, no meu braço; Aqui descançarei a quente sésta, Dormindo num leve somno em teu regaço: Era quanto a luta jogão os Pastores, E emparelhados correm nas campinas, Toucarei teus cabellos de boninas, Nos troncos gravarei os teus louvores. Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    Depois que nos ferir a mão da Morte Ou seja neste monte, ou n’outra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dous a mesma terra. Na campa, rodeada de cyprestes, Leráõ estas palavras os Pastores: “Quem quizer ser feliz nos seus amores, Siga os exemplos que nos derão estes” Graças, Marilia bella, Graças á minha Estrella!

    LYRA II.

    Pintão, Marilia, os Poetas A hum menino vendado, Com huma aljava de settas, Arco empunhado na mão: Ligeiras azas nos hombros, O tenro corpo despido; E de Amor, ou de Cupido São os nomes que lhe dão.

    Porém eu, Marilia, nego, Que assim seja Amor; pois elle Nem he moço, nem he cégo, Nem settas, nem azas tem, Ora pois, eu vou formar-lhe Hum retrato mais perfeito, Que elle já ferio meu peito; Por isso o conheço bem.

    Os seus compridos cabellos; Que sobre as costas ondeão, São que os de Apollo mais bellos; Mas de loura côr não são. Tem a côr da negra noite; E com o branco do rosto Fazem, Marilia, hum composto Da mais formosa união.

    Tem redonda, e lisa testa; Arqueadas sobrancelhas; A voz meiga, a vista honesta, E seus olhos são huns sóes, Aqui vence Amor ao Ceo, Que no dia luminoso O Ceo tem hum Sol formoso, E o travesso Amor tem dous.

    Na sua face mimosa, Marilia, estão misturadas Purpureas folhas de rosa, Brancas folhas de jasmim. Dos rubins mais preciosos Os seus beiços são formados; Os seus dentes delicados São pedaços de marfim.

    Mal vi seu rosto perfeito Dei logo hum suspiro, e elle Conheceo haver-me feito Estrago no coração. Punha em mim os olhos, quando Entendia eu não olhava: Vendo que o via, baixava A modesta vista ao chão.

    Chamei-lhe hum dia formoso; Elle ouvindo os seus louvores Com hum modo desdenhoso, Se surrio, e não fallou. Pintei-lhe outra vez o estado, Em que estava esta alma posta; Não me deo tambem resposta, Constrangeo-se, e suspirou.

    Conheço os signaes, e logo Animado da esperança, Busco dar hum desaffogo Ao cansado coração. Pégo em seus dedos nevados, E querendo dar-lhe hum beijo, Cubrio-se todo de pejo, E fugio-me com a mão.

    Tu, Marilia, agora vendo De Amor o lindo retrato, Comtigo estarás dizendo, Que he este o retrato teu. Sim, Marilia, a copia he tua, Que Cupido he Deos supposto: Se ha Cupido he só teu rosto, Que elle foi quem me venceo.

    LYRA III.

    De amar, minha Marilia, a formosura Não se podem livrar humanos peitos. Adorão os Heróes, e os mesmos brutos Aos grilhões de Cupido estão sujeitos. Quem, Marilia, despreza huma belleza, A luz da razão precisa, E se tem discurso, pisa A Lei, que lhe ditou a Natureza.

    Cupido entrou no Ceo. O grande Jove Huma vez se mudou em chuva de ouro: Outras vezes tomou as varias fórmas De General de Thebas, velha, e touro, O proprio Deos da Guerra deshumano Não viveo de amor illeso; Quiz a Venus, e foi prezo Na rede, que lhe armou o Deos Vulcano.

    Se amar huma belleza se desculpa Em quem ao proprio Ceo, e terra move; Qual he a minha gloria, pois igualo, Ou excedo no amor ao mesmo Jove? Amou o Pai dos Deoses Soberano Hum semblante peregrino: Eu adoro o teu divino, O teu divino rosto, e sou humano.

    LYRA IV.

    Marilia, teus olhos São réos, e culpados, Que soffra, e que beije Os ferros pezados De injusto Senhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Mal vi o teu rosto, O sangue gelou-se, A lingoa prendeo-se, Tremi, e mudou-se Das faces a côr. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    A vista furtiva, O risco imperfeito, Fizerão a chaga, Que abriste no peito Mais funda, e maior. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Dispuz-me a servir-te; Levava o teu gado Á fonte mais clara, Á vargem, e prado De relva melhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Se vinha da herdade, Trazia nos ninhos As aves nascidas, Abrindo os biquinhos De fome ou temor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Se alguem te louvava De gosto me enchia; Mas sempre o ciume No rosto accendia Hum vivo calor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Se estavas alegre, Dirceo se alegrava; Se estavas sentida, Dirceo suspirava Á força da dor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Fallando com Laura, Marilia dizia; Surria-se aquella, E eu conhecia O erro de amor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Movida, Marilia, De tanta ternura, Nos braços me déste, Da tua fé pura Hum doce penhor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Tu mesma disseste Que tudo podia Mudar de figura; Mas nunca seria Teu peito traidor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Tu já te mudaste; E a Olaia frondoza, Aonde escreveste A jura horrorosa, Tem todo o vigor. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    Mas eu te desculpo, Que o fado tyranno Te obriga a deixar-me; Pois busca o meu damno Da sorte, que for. Marilia, escuta Hum triste Pastor.

    LYRA V.

    A caso são estes Os sitios formosos, Aonde passava Os annos gostosos? São estes os prados, Aonde brincava, Em quanto pastava O manso rebanho, Que Alceo me deixou? São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Daquelle penhasco Hum rio cahia, Ao som do sussurro Que vezes dormia! Agora não cobrem Espumas nevadas As pedras quebradas: Parece que o rio O curso voltou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Meus versos alegre Aqui repetia: O Eco as palavras Tres vezes dizia. Se chamo por elle Já não me responde; Parece se esconde, Cansado de dar-me Os ais que lhe dou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou. Aqui hum regato Corria sereno, Por marg[~e]s cobertas De flores, e feno: Á esquerda se erguia Hum bosque fechado; E o tempo apressado, Que nada respeita, Já tudo mudou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Mas como discorro? Acaso podia Já tudo mudar-se No espaço de hum dia? Existem as fontes, E os freixos copados; Dão flores os prados, E corre a cascata, Que nunca seccou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    Minha alma, que tinha Liberta a vontade, Agora já sente Amor, e saudade. Os sitios formosos, Que já me agradárão, Ah! não se mudárão! Mudárão-se os olhos, De triste que estou. São estes os sitios? São estes; mas eu O mesmo não sou. Marilia, tu chamas? Espera que eu vou.

    LYRA VI.

    Oh! quanto póde em nós a varia Estrella! Que diversos que são os genios nossos! Qual solta a branca vélla, E affronta sobre o pinho os mares grossos. Qual cinge com a malha o peito duro; E marchando na frente das cohortes, Faz a toare voar, cahir o muro.

    O sordido avarento em vão trabalha, Que possa o filho entrar no seu Thesouro. Aqui fechado estende Sobre a taboa, que verga, as barras de ouro. Sacode o jogador da copo os dados; E n’uma noite só, que ao somno rouba, Perde o resto dos bens do pai herdados.

    O que da voráz gulla o vicio adora Da lauta meza os prazeres fia. E o terno Alceste chora Ao som dos versos a que o genio o guia. O sabio Gallileo toma o compasso, E sem voar ao Ceo, calcula, e mede Das Estrellas, e Sol o immenso espaço.

    Em quanto pois, Marilia, a varia gente, Se deixa conduzir do proprio gosto; Passo as horas contente Notando as graças do teu lindo rosto. Sem cansar-me a saber se o Sol se móve, Ou se a terra voltea, assim conheço. Aonde chega a mão do grande Jove.

    Noto, gentil Marilia, os teus cabellos; E noto as faces de Jasmins, e rosas: Noto os teus olhos bellos; Os brancos dentes, e as feições mimosas. Quem fez huma obra tão perfeita, e linda, Minha bella Marilia, tambem póde Fazer os Ceos, e mais, se ha mais ainda.

    LYRA VII.

    Vou retratar a Marilia, A Marilia meus amores; Porém como, se eu não vejo Quem me empreste as finas cores! Dar-mas a terra não póde; Não que a sua côr mimosa Vence o lyrio, vence a rosa: O jasmim, e as outras flores. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traze-me as tintas do Ceo.

    Mas não se esmoreça logo; Busquemos hum pouco mais; Nos mares talvez se encontrem Cores que sejão iguaes. Porém não, que em parallelo Da minha Ninfa adorada Perolas não valem nada, Não valem nada os coraes. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traze-me as tintas do Ceo.

    Só no Ceo achar se podem Taes bellezas, como aquellas, Que Marilia tem nos olhos, E que tem nas faces bellas. Mas ás faces graciosas, Aos negros olhos, que matão, Não imitão, não retratão Nem Auroras, nem Estrellas. Ah soccorre, Amor, soccorre Ao mais grato empenho meu! Vôa sobre os Astros, vôa, Traz-me as tintas do Ceo.

    Entremos, Amor, entremos, Entremos na mesma Esfera. Venha Pallas, Venha Juno, Venha a Deosa de Cithera. Porém não, que se Marilia No certame antigo entrasse, Bem que a Paris não peitasse, A todas as tres vencera. Vai-te, Amor, em vão soccorres Ao mais grato empenho meu: Para formar-lhe o retrato Não bastão tintas do Ceo.

    LYRA VIII.

    Marilia, de que te queixas? De que te roube Dirceo O sincero coração? Não te deo tambem o seu? E tu, Marilia, primeiro Não lhe lançaste o grilhão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?

    Em torno das castas pombas Não rulão ternos pombinhos? E rulão, Marilia, em vão? Não se afagão c’os biquinhos? E a provas de mais ternura Não os arrasta a paixão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria, ter izenção?

    Já viste, minha Marilia, Avezinhas, que não fação Os seus ninhos no verão? Aquellas com quem se enlação Não vão cantar-lhe defronte Do molle pouzo em que estão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?

    Se os peixes, Marilia, gerão Nos bravos mares, e rios, Tudo effeitos de Amor são. Amão os brutos impios, A serpente venenosa, A Onça, o Tigre, o Leão. Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izenção?

    As grandes Deosas do Ceo, Sentem a setta tyranna Da amorosa inclinação. Diana, com ser Diana, Não se abrasa, não suspira Pelo amor de Endymão? Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Queria ter izençao?

    Desiste, Marilia bella, De huma queixa sustentada Só na altiva opinião. Esta chamma he inspirada Pelo Ceo; pois nella assenta A nossa conservação. Todos amão: só Marilia Desta Lei da Natureza Não deve ter izenção.

    LYRA IX.

    Eu sou, gentil Marilia, eu sou captivo, Porém não me venceo a mão armada De ferro, e de furor: Huma alma sobre todas elevada Não cede a outra força que não seja Á tenra mão de Amor.

    Arrastem pois os outros muito embora Cadêas nas bigornas trabalhadas Com pezados martellos: Eu tenho as minhas mãos ao carro atadas Com duros ferros não, com fios d’ouro, Que são os teus cabellos.

    Occulto nos teus meigos vivos olhos Cupido a tudo faz tyranna guerra: Sacode a setta ardente; E sendo despedida cá da terra, As nuvens rompe, chega ao alto Impirio, E chega ainda quente.

    As abelhas nas azas suspendidas Tirão, Marilia, os succos saborosos Das orvalhadas flores: Pendentes dos teus beiços graciosos Ambrosias chupão, chupão mil feitiços Nunca fartos Amores.

    O vento quando parte em largas fitas As folhas, que menêa com brandura; A fonte crystallina, Que sobre as pedras cáe de immensa altura; Não fórma hum som tão doce, como fórma A tua voz divina.

    Em torno dos teus peitos, que palpitão; Exalão mil suspiros desvelados Enchames de desejos; Se encontrão os teus olhos descuidados, Por mais que se atropelem, voão, chegão, E dão furtivos beijos.

    O Cisne, quando corta o manso lago, Erguendo as brancas azas, e o pescoço; A Náo que ao longe passa, Quando o vento lhe infuna o panno grosso; O teu garbo não tem, minha Marilia, Não tem a tua graça.

    Estimem pois os mais a liberdade: Eu prézo o captiveiro: sim, nem chamo Á mão de Amor impia: Honro a virtude, e os teus dotes amo: Tambem o grande Achilles veste a saia Tambem Alcides fia.

    LYRA X.

    Se existe hum peito, Que izento viva Da chamma activa, Que accende Amor. Ah! não habite Neste montado; Fuja apressado Do vil traidor.

    Corra, que o Impio Aqui se esconde: Não sei aonde; Mas sei o que vi. Traz novas settas, Arco robusto; Tremi de susto; Em vão fugi.

    Eu vou mostrar-vos, Tristes mortaes, Quantos signaes O Impio tem. Oh! como he justo, Que todo o humano Hum tal tyranno Conheça bem!

    No corpo ainda Menino existe: Mas quem resiste Ao braço seu? Ao negro Inferno Levou a guerra: Vencêo a terra, Vencêo o Ceo.

    Já mais se cobrem Seus membros bellos; E os seus cabellos Que lindos são! Vendados olhos, Que tudo alcanção, E já mais lanção A setta em vão.

    As suas faces São côr da neve; E a bocca breve Só rizos tem. Mas, ah! respira Negros venenos, Que nem ao menos Os olhos vem.

    Aljava grande Dependurada, Sempre atacada De bons farpões. Fere com estas Agudas lanças, Pombinhas mansas, Bravos leões.

    Se a setta falta Tem outra prompta, Que a dura ponta Já mais torcêo. Ninguem resiste Aos golpes della: Marilia bella Foi quem lha dêo.

    Ah! não sustente Dura peleija, O que deseja Ser vencedor. Fuja, e não olhe, Que só fugindo De hum rosto lindo, Se vence Amor.

    LYRA XI.

    Naõ toques, minha Musa, não, não toques Na sonorosa Lyra, Que ás almas, como a minha, namoradas Doces Canções inspira: Assopra no clarim, que apenas sôa Enche de assombro a terra; Naquelle, a cujo som cantou Homero, Cantou Virgilio a Guerra.

    Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.

    Eu já não vejo as graças, de que fórma Cupido o seu thesouro: Vivos olhos, e faces côr da neve, Com crespos fios de ouro; Meus olhos só vem gramas, e loureiros; Vem carvalhos, e palmas; Vem os ramos honrosos, que destinguem As vencedoras almas.

    Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de Amor.

    Cantemos o Heróe, que já no berço As Serpes despedaça; Que fere os Cácos, que destronca as Hidras, Mais os leões que abraça. Cantemos, se isto he pouco, a dura guerra Dos Tritães, e Tyféos, Que arrancão as montanhas, e atrevidos Levão armas aos Ceos.

    Busquemos, ó Musa, Empreza maior; Deixemos as ternas Fadigas de amor.

    Anima pois, ó Musa, o instrumento, Que a voz tambem levanto; Porém tu déste muito assima o ponto, Dirceo não póde tanto: Abaixa, minha Musa, o tom, que ergueste; Eu já, eu já te sigo. Mas, ah! vou a dizer _Heróe_, e _Guerra_, E só _Marilia_ digo.

    Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.

    Feres as cordas d’ouro? Ah! sim, agora Meu canto já se afina; E a huma voz, parece que ao som dellas Se faz tambem divina. O mesmo que cercou de muro a Thebas Não canta assim tão terno; Nem póde competir comigo aquelle, Que desce ao negro Inferno.

    Deixemos, ó Musa, Empreza maior, Só posso seguir-te Cantando de Amor.

    Mal repito _Marilia_, as doces aves Mostrão signaes de espanto, Erguem os collos, voltão as cabeças, Parão o ledo canto; Move-se o tronco, o vento se suspende Pasma o gado, e não come: Quanto podem meus versos! Quanto póde Só de Marilia o nome!

    Deixemos, ó Musa, Empreza maior; Só posso seguir-te Cantando de Amor.

    LYRA XII.

    Topei hum dia Ao Deos vendado, Que descuidado Não tinha as settas Na impia mão. Mal o conheço, Me sóbe logo Ao rosto o fogo, Que a raiva accende No coração.

    _Morre, Tyranno, Morre, inimigo_! Mal isto digo, Raivoso o apérto Nos braços meus. Tanto que o moço Sente apertar-se, Para salvar-se Tambem me aperta Nos braços seus.

    O leve corpo Ao ar levanto, Ah! e com quanto Impulso o trago Do ar ao chão! Poude suster-se A vez primeira; Mas á terceira Nos pés, que alarga, Se firma em vão.

    Mal o derrubo, Ferro aguçado No já cançado Peito, que arqueja, Mil golpes deo. Suou seu corpo; Tremêo gemendo; E á côr perdendo, Batêo as azas; Em fim morreo.

    Qual bravo Alcides, Que a hirsuta pelle Vestio daquelle Grenhoso bruto, A quem matou. Para que próve A empreza honrada, C’o a mão manchada Recolho as settas, Que me deixou.

    Ouvio Marilia Que Amor gritava, E como estava Vizinha ao sitio Valer-lhe vem. Mas quando chega Espavorida, Nem já de vida O féro monstro Indicio tem.

    Então Marilia, Que o vê de perto De pó cuberto, E todo involto No sangue seu; As mãos aperta No peito brando, E afflicta dando Hum ai, os olhos Levanta ao Ceo.

    Chega-se a elle Compadecida; Lava a ferida C’o pranto amargo, Que deramou. Então o monstro Dando hum suspiro, Fazendo hum gyro C’o a baça vista, Resuscitou.

    Respira a Deosa; E vem o gosto Fazer no rosto O mesmo effeito, Que fez a dôr. Que louca idéa Foi a que tive! Em quanto vive Marilia bella, Não morre Amor.

    LYRA XIII.

    Oh! quantos riscos, Marilia bella, Não atropella Quem cégo arrasta Grilhões de Amor! Hum peito forte, De acordo falto, Zomba do assalto Do vil traidor.

    O amante de Hero Da luz guiado, C’o peito ousado Na escura noite Rompia o mar, Se o Helesponto Se encapellava, Ah! não deixava De lhe ir fallar.

    Do cantor Thracio A heroicidade Esta verdade, Minha Marilia, Prova tambem. Cheio de esfôrço Vai ao Cocyto Buscar afflito Seu doce bem.

    Que acção tão grande Nunca intentada! Ao pé da entrada Já tudo assusta O coração! Pendentes rochas, Campos adustos, Que nem arbustos Nem hervas dão.

    Na funda fralda De calvo monte, Corre Acheronte, Rio de ardente Mortal licor. Tem o barqueiro Testa enrugada, Vista inflammada, Que mete horror.

    Que seguranças! Que fechaduras! As portas duras Não são de lenhos; De ferro são. Por tres gargantas, Quando alguem bate, Raivoso late O negro cão.

    Dentro da cova Soão lamentos; E que tormentos Não mostra aos olhos A escassa luz! Minos a pena Manda se intime Igual ao crime, Que alli conduz.

    Grande penedo Este carrega; E apenas chega Do monte ao cume, O faz rolar. A pedra sempre Ao valle desce, Sem que elle cesse De a ir buscar.

    Nas limpas aguas Habita aquelle: Por cima delle Verdejão ramos, Que pomos dão. Debalde a bocca Molhar pertende; De balde estende Faminta mão.

    Tem outro o peito Despedaçado: Monstro esfaimado Já mais descança De lho roêr. A rôxa carne, Que o abutre come, Não se consome, Torna a crescer.

    Mas bem que tudo Pavor inspira, Tocando a lyra Desce ao Averno O bom Cantor. Não se entorpece A lingua, e braço; Não treme o passo, Não perde a côr.

    Ah! tambem quanto Dirceo obrára, Se precisára, Marilia bella, Do esforço seu! Rompêra os mares C’o peito terno, Fôra ao Inferno, Subíra ao Ceo.

    Aos dois amantes De Thracia, e Abydo Não deo Cupido Do que aos mais todos Maior valor. Por seus vassallos Forças reparte, Como lhes parte Os gráos de Amor.

    LYRA XIV.

    Minha bella Marilia, tudo passa; A sorte deste mundo he mal segura; Se vem depois dos males a ventura, Vem depois dos prazeres a desgraça. Estão os mesmos Deoses Sujeitos ao poder do impio Fado: Apollo já fugio do Ceo brilhante, Já foi Pastor de gado.

    A devorante mão da negra Morte Acaba de roubar o bem, que temos; Até na triste campa não podemos Zombar do braço da inconstante sorte. Qual fica no sepulchro, Que seus a vós erguêrão, descançando: Qual no campo, e lhe arranca os frios casos Ferro do torto arado.

    Ah! em quanto os Destinos impiedosos Não voltão contra nós a face irada, Façamos, sim façamos, doce amada, Os nossos breves dias mais ditosos. Hum coração que frouxo A grata posse de seu bem difere, A si, Marilia, a si proprio rouba, E a si proprio fere.

    Ornemos nossas testas com as flores, E façamos de feno hum brando leito, Prendamo-nos, Marilia, em laço estreito, Gozemos do prazer de sãos Amores. Sobre as nossas cabeças, Sem que o possão deter, o tempo corre; E para nós o tempo, que se passa, Tambem, Marilia, morre.

    Com os annos, Marilia, o gôsto falta, E se entorpece o corpo já cançado; Triste o velho cordeiro está deitado, E o leve filho sempre alegre salta. A mesma formosura He dote, que só goza a mocidade: Rugão-se as faces, o cabello alveja, Mal chega a longa idade.

    Que havemos d’esperar, Marilia bella? Que vão passando os florecentes dias? As glorias, que vem tarde, já vem frias; E póde em fim mudar-se a nossa estrella. Ah! não, minha Marilia, Aproveite-se o tempo, antes que faça O estrago de roubar ao corpo as forças, E ao semblante a graça.

    LYRA XV.

    A minha bella Marilia Tem de seu hum bom thesouro, Não he, doce Alceo, formado Do buscado Metal louro. He feito de huns alvos dentes, He feito de huns olhos bellos, De humas faces graciosas, De crespos, finos cabellos; E de outras graças maiores, Que a natureza lhe dêo: Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    Eu posso romper os montes, Dar ás correntes desvios, Pôr cercados espaçosos Nos caudosos Turvos rios. Posso emendar a ventura Ganhando astuto a riqueza; Mas, ah! charo Alceo, quem póde Ganhar huma só belleza Das bellezas, que Marilia No seu thesouro metêo? Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    Da sorte, que vive o rico Entre o fausto alegremente, Vive o guardador de gado Apoucado, Mas contente. Beije pois torpe avarento As arcas de barras chêas: Eu não beijo os vís thesouros; Beijo as douradas cadêas, Beijo as settas, beijo as armas Com que o cego Amor vencêo: Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    Ama Apollo o fero Marte, Ama, Alceo, o mesmo Jove: Não he, não, a vã riqueza, Sim belleza, Quem os move. Posto ao lado de Marilia Mais que mortal me contemplo: Deixo os bens, que aos homens cegão, Sigo dos Deoses o exemplo: Amo virtudes, e dotes; Amo em fim, prezado Alceo, Bens, que valem sobre a terra, E que tem valor no Ceo.

    LYRA XVI.

    Eu, Glauceste, não duvido Ser a tua Eulina amada Pastora formosa, Pastora engraçada. Vejo a sua côr de rosa, Vejo o seu olhar divino, Vejo os seus purpùreos beiços, Vejo o peito crystallino; Nem ha cousa, que assemelhe Ao crespo cabello louro. Ah! que a tua Eulina vale, Vale hum immenso thesouro!

    Ella vence muito, e muito Á laranjeira copada, Estando de flores, E frutos ornada. He, Glauceste, os teus Amores; E nem por outra Pastora, Que menos dotes tivera, Ou que menos bella fôra, O meu Glauceste cançára As divinas cordas de ouro. Ah! que a tua Eulina vale, Val hum immenso thesouro!

    Sim, Eulina he huma Deosa; Mas anîma a formosura De huma alma de féra, Ou inda mais dura. Ah! quando Alceo pondéra Que o seu Glauceste suspira, Perde, perde o soffrimento, E qual enfermo delira! Tenha embora brancas faces, Meigos olhos, fios de ouro, A tua Eulina não vale, Não vale immenso thesouro.

    O fuzil, que imita a cobra, Tambem aos olhos he bello; Mas quando alumêa, Tu tremes de velo. Que importa se mostre chêa De mil bellezas a ingrata? Não se julga formosura A formosura, que mata. Evita, Glauceste, evita O teu estrago, e desdouro; A tua Eulina não vale, Não vale immenso thesouro.

    A minha Marilia quanto Á natureza não deve! Tem divino rosto, E tem mãos de neve. Se mostro na face o gôsto, Ri-se Marilia contente: Se canto, canta comigo; E apenas triste me sente, Limpa os olhos com as tranças Do fino cabello louro. A minha Marilia vale, Vale hum immenso thesouro.

    LYRA XVII.

    Minha Marilia, Tu enfadada? Que mão ousada Perturbar póde A paz sagrada Do peito teu?

    Porém que muito Que irado esteja O teu semblante Tambem troveja O Claro Ceo.

    Eu sei, Marilia, Que outra Pastora A toda a hora, Em toda a parte, Céga namora Ao teu Pastor.

    Ha sempre fumo Aonde ha fogo; Assim, Marilia, Ha zelos, logo Que existe amor.

    Olha, Marilia, Na fonte pura A tua alvura, A tua bocca, E a compostura Das mais feições. Quem tem teu rosto, Ah! não receia, Que terno amante Solte a cadeia, Quebre os grilhões.

    Não anda Laura Nestas campinas Sem as boninas No seu cabello, Sem pelles finas No seu jubão.

    Porém que importa? O rico aceio Não dá, Marilia, Ao rosto feio A perfeição.

    LYRA XVIII.

    Não ves aquelle velho respeitavel, Que á moleta encostado, Apenas mal se move, e mal se arrasta? Oh quanto estrago não lhe fez o tempo? O tempo arrebatado, Que o mesmo bronze gasta.

    Enrugárão-se as faces, e perdêrão Seus olhos a viveza; Voltou-se o seu cabello em branca neve: Já lhe treme a cabeça, a mão, o queixo; Nem tem huma belleza Das bellezas que teve.

    Assim tambem serei, minha Marilia Daqui a poucos annos; Que o impio tempo para todos corre. Os dentes cahiráõ, e os meus cabellos. Ah! sentirei os damnos, Que evita só quem morre.

    Mas sempre passarei huma velhice Muito menos penoza. Não trarei a moleta carregada: Descançarei o já vergado corpo Na tua mão piedoza, Na tua mão nevada.

    As frias tardes em que negra nuvem Os chuveiros não lance, Irei comtigo ao prado florescente: Aqui me buscarás hum sitio ameno, Onde os membros descance, E ao brando Sol me aquente.

    Apenas me sentar, então movendo Os olhos por aquella Vistoza parte, que ficar fronteira; Apontando direi: _Alli fallámos, Alli, ó minha bella, Te vi a vez primeira_.

    Verteráõ os meus olhos duas fontes, Nascidas de alegria: Farão teus olhos ternos outro tanto: Então darei, Marilia, frios beijos, Na mão formosa, e pia, Que me limpar o pranto.

    Assim irá, Marilia, docemente Meu corpo supportando Do tempo deshumano a dura guerra. Contente morrerei, por ser Marilia Quem sentida chorando, Meus baços olhos cerra.

    LYRA XIX.

    Em quanto pasta alegre o manso gado, Minha bella Marilia, nos sentemos Á sombra deste cedro levantado. Hum pouco meditemos Na regular belleza, Que em tudo quanto vive, nos descobre A sabia Natureza.

    Attende, como aquella vaca preta O novilhino seu dos mais separa, E o lambe, em quanto chupa a liza teta. Attende mais, ó chara, Como a ruiva cadella Supporta que lhe morda o filho o corpo; E salte em cima della.

    Repara, como cheia de ternura Entre as azas ao filho essa ave aquenta: Como aquella esgravata a terra dura, E os seus assim sustenta; Como se encoleriza, E salta sem receio a todo o vulto, Que junto delles piza.

    Que gosto não terá a esposa amante Quando der ao filhinho o peito brando, E reflectir então no seu semblante! Quando, Marilia, quando Disser comigo: _he esta De teu querido pai a mesma barba, A mesma bocca, e testa_.

    Que gosto não terá a mãi, que toca, Quando o tem nos seus braços, c’o dedinho Nas faces graciosas, e na bocca Do innocente filhinho! Quando, Marilia bella, O tenro infante já com risos mudos Começa a conhecê-la!

    Que prazer não terão os pais ao verem Com as mãis hum dos filhos abraçados; Jogar outros a luta, outros correrem Nos cordeiros montados! Que estado de ventura! Que até naquillo, que de pezo serve, Inspira Amor doçura.

    LYRA XX.

    Em huma frondosa Roseira se abria Hum negro botão. Marilia adorada O pê lhe torcia Com a branca mão.

    Nas folhas viçosas Á abelha inraivada O corpo escondêo. Tocou-lhe Marilia, Na mão descuidada A fera mordêo.

    A penas lhe morde, Marilia gritando, C’o dedo fugio. Amor, que nos bosques Estava brincando, Aos ais acudio.

    Mal vio a rotura, E o sangue espargido, Que a Deoza mostrou; Rizonho beijando O dedo offendido, Assim lhe fallou.

    _Se tu for tão pouco O pranto desatas, Ah! dá-me attençaõ; E como daquelle, Que feres, e matas, Naõ tens compaixaõ_?

    LYRA XXI.

    Não sei, Marilia, que tenho, Depois que vi o teu rosto; Pois quanto não he Marilia, Já não posso ver com gosto. Noutra idade me alegrava, Até quando conversava Com o mais rude vaqueiro: Hoje, ó bella, me aborrece Inda o trato lizongeiro Do mais discreto pastor. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de amor?

    Sáio da minha cabana Sem reparar no que faço; Busco o sitio aonde moras, Suspendo defronte o passo. Fito os olhos na janella, Aonde, Marilia bella, Tu chegas ao fim do dia; Se alguem passa, e te saúda, Bem que seja cortezia, Se accende na face a côr. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

    Se estou, Marilia, comtigo, Não tenho hum leve cuidado; Nem me lembra, se são horas De levar á fonte o gado.

    Se vivo de ti distante, Ao minuto, ao breve instante, Finge hum dia o meu desgosto: Já mais, Pastora, te vejo Que em teu semblante composto Não veja graça maior. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

    Aonde já com o juizo; Marilia, tão perturbado, Que no mesmo aberto sulco Metto de novo o arado. Aqui no centêo pégo, Noutra parte em vão o cégo: Se alguem comigo conversa, Ou não respondo, ou respondo Noutra coiza tão diversa, Que nexo tão tem menor. Que effeitos são os que sinto! Serão effeitos de Amor?

    Se geme o bufo agoureiro Só Marilia me desvella: Enche-se o peito de magoa, E não sei a causa della. Mal durmo, Marilia, sonho, Que féro leão medonho Te devora nos meus braços: Gella-se o sangue nas veias. E sólto do somno os laços Á força da immensa dor. Ah! que os effeitos que sinto Só são effeitos de Amor.

    LYRA XXII.

    Muito embora, Marilia, muito embora Outra belleza, que não seja a tua, Com a vermelha roda, a seis puxada, Faça tremer a rua.

    As paredes da salla aonde habita Adorne a seda, e o tremó dourado; Pendão largas cortinas, penda o lustre Do této apainelado.

    Tu não habitarás Palacios grandes, Nem andarás nos coches voadores; Porém terás hum Vate, que te preze, Que cance os teus louvores.

    O tempo não respeita a formosura; E da palida morte a mão tyranna Arraza os edificios dos Augustos, E arraza a vil choupana.

    Que bellezas, Marilia, florecerão De quem nem se quer temos a memoria? Só podem conservar hum nome eterno Os versos, ou a historia.

    Se não houvesse Tasso, nem Petrarcha, Por mais que qualquer dellas fosse linda, Já não sabia o mundo, se existirão Nem Laura, nem Clorinda.

    He melhor, minha bella, ser lembrada Por quantos hão de vir sabios humanos, Que ter urcos, ter coches, e thesouros, Que morrem com os annos.

    LYRA XXIII.

    N’um sitio ameno Cheio de rosas, De brancos lyrios, Murtas viçosas;

    Dos seus amores Na companhia Dirceo passava Alegre o dia.

    Em tom de graça, Ao terno amante Manda Marilia Que toque, e cante.

    Péga na lyra, Sem que a tempere, A voz levanta, E as cordas fere.

    C’os doces pontos A mão atina, E a voz iguala A voz divina.

    Ella, que teve De rir-se a idéa, Nem move os olhos De assombro chêa.

    Então Cupido Apparecendo, Á bella falla Assim dizendo:

    _Do teu amado A lyra fias, Só porque delle Zombando rias_?

    _Quando n’um peito Assento faço, Do peito subo Á lingoa, e braço_.

    _Nem creias que outro Estylo tome, Sendo eu o mestre, A acção teu nome_.

    LYRA XXIV.

    Encheo, minha Marilia, o grande Jove De immensos animaes de toda a especie As terras, mais os ares, O grande espaço dos salobros rios, Dos negros, fundos mares. Para sua defeza, A todos dêo as armas, que convinha; Á sabia Natureza.

    Dêo as azas aos passaros ligeiros; Dêo ao peixe escamoso as barbatanas: Dêo veneno á serpente, Ao membrudo Elefante a enorme tromba, E ao Javali o dente. Coube ao leão a garra: Com leve pé saltando o servo foge; E o bravo touro marra.

    Ao homem dêo as armas do discurso Que valem muito mais que as outras armas: Dêo-lhe dedos ligeiros, Que podem converter em seu serviço Os ferros, e os madeiros; Que tecem fortes laços, E forjão raios com que aos brutos cortão Os vôos, mais os passos.

    Ás timidas donzellas pertencerão Outras armas, que tem dobrada força: Dêo-lhes a Natureza Além do entendimento, além dos braços As armas da belleza. Só ella ao Ceo se atreve, Só ella mudar póde o gello em fogo, Mudar o fogo em neve.

    Eu vejo, eu vejo ser a formosura Quem arrancou da mão de Coriolano A cortadora espada. Vejo que foi de Helena o lindo rosto Quem pôz em campo armada Toda a força de Grecia. E quem tirou o Sceptro aos Reis de Roma, Só foi, só foi Lucrecia.

    Se podem lindos rostos, mal suspirão, O braço desarmar do mesmo Achilles; Se estes rostos irados Podem soprar o fogo da descordia Em póvos alliados; Hes arbitra da terra; Tu pódes dar, Marilia, a todo o mundo A paz, e a dura guerra.

    LYRA XXV.

    O cego Cupido hum dia Com os seus Genios fallava, Do modo que lhe restava De captivar a Dirceo. Depois de larga disputa, Hum dos Genios mais sagazes Este conselho lhe dêo:

    As settas mais aguçadas, Como se em roxa batessem, Dão nos seus peitos, e descem Todas quebradas ao chão. Só as graças de Marilia Podem vencer hum tão duro, Tão izento coração.

    A fortuna desta empreza Consiste em armar-se o laço, Sem que sinta ser o braço, Que lho prepara, de Amor. Que elle vive como as aves, Que já deixárão as pennas No visco do Caçador.

    Na força deste conselho O raivoso Deos socega, E á tropa a honra entrega De o fazer executar. Todos pertendem ganhá-la, Batem as azas ligeiros, E vão as armas buscar.

    Os primeiros se occultárão Da Deosa nos olhos bellos; Qual se enlaçou nos cabellos; Qual ás faces se prendêo. Hum amorinho cansado Cahio dos labios ao seio, E nos peitos se escondêo.

    Outro Genio mais astuto Este novo ardil alcança, Muda-se n’uma criança De divino parecer. Esconde as azas, e a venda; Esconde as settas, e quanto Póde dá-lo a conhecer.

    Ella que vê hum menino Todo de graças cuberto, Tão risonho, e tão esperto Alli sózinho brincar. A elle endireita os passos; Finge Amor ter medo, e a Deosa Mais se empenha em lhe pegar.

    Ella corria chamando; Elle fugia, e chorava: Assim forão onde estava O descuidado Pastor. Este, mal vio a belleza, E o gentil menino, entende A malicia do traidor.

    Põe as mãos sobre os ouvidos, Cerra os olhos, e constante Não quer ver o seu semblante, Não o quer ouvir fallar. Qual Ulysses n’outra idade Para illudir as Serêas Mandou tambores tocar.

    Cupido, que a empreza via, Julga o intento frustrado, E de raiva transportado O corpo no chão lançou. Traçou a lingoa nos dentes; Mettêo as unas no rosto, E os cabellos arrancou.

    O Genio, que se escondia Entre os peitos da Pastora, Erguêo a cabeça fóra, E o successo conhecêo. Deixa o socego em que estava, E vai ligeiro metter-se No peito do bom Dirceo.

    Apenas c’o brando peito Lhe tocou a neve fria, Com o calor que trazia Lhe abrazou o coração. Dá o Pastor hum suspiro, Abre os seus olhos, e sólta Do apertado ouvido a mão.

    Logo que virão os Genios Ao triste Pastor disposto Para ver o lindo rosto, Para as palavras ouvir. Cada hum as armas toma, Cada hum com ellas busca Seu terno peito ferir.

    Com os cabellos da Deosa Lhe fórma hum Cupido laços, Que lhe segurão os braços, Como se fossem grilhões. O Pastor já não resiste; Antes beija satisfeito As suas doces prizões.

    LYRA XXVI.

    O destro Cupido hum dia Extrahio mimosas cores De frescos lyros, e rosas, De jasmins, e de outras flores.

    Com as mais delgadas pennas Usa de huma, e de outra tinta, E nos angulos do cobre A quatro bellezas pinta.

    Por fazer pensar a todos No seu lizo centro escreve Hum letreiro, que pergunta: _Este espaço a quem se deve_?

    Venus, que vio a pintura, E lêo a letra engenhosa, Pôz por baixo: _Eu delle cedo; Dê-se a Marilia formosa_.

    LYRA XXVII.

    Alexandre, Marilia, qual o rio Que engrossando no Inverno tudo arraza; Na frente das cohortes Cérca, vence, abraza As Cidades mais fortes. Foi na gloria das armas o primeiro, Morrêo na flor dos annos, e já tinha Vencido o mundo inteiro.

    Mas este bom Soldado, cujo nome Não ha poder algum, que não abata, Foi, Marilia, sómente Hum ditozo pirata, Hum salteador valente. Se não tem huma fama baixa, e escura; Foi por se pôr ao lado da injustiça A insolente ventura.

    O grande Cesar, cujo nome vôa, Á sua mesma Patria a fé quebranta; Na mão a espada toma, Opprime-lhe a garganta, Dá Senhores a Roma. Consegue ser heróe por hum delicto; Se acaso não vencesse então seria Hum vil traidor proscripto.

    O ser heróe, Marilia, não consiste Em queimar os Imperios: move a guerra, Espalha o sangue humano, E despovoa a terra Tambem o máo tyranno. Consiste o ser heróe em viver justo: E tanto póde ser heróe o pobre, Como o maior Augusto.

    Eu he que sou heróe, Marilia bella, Seguindo da virtude a honroza estrada. Ganhei, ganhei hum throno. Ah! não manchei a espada, Não a roubei ao dono. Ergui-o no teu peito, e nos teus braços: E valem muito mais que o mundo inteiro Huns tão ditosos laços.

    Aos barbaros, injustos vencedores Atormentão remorsos, e cuidados; Nem descanção seguros Nos Palacios cercados De tropa, e de altos muros. E a quantos nos não mostra a sabia historia A quem mudou o fado em negro opprobrio A mal ganhada gloria?

    Eu vivo, minha bella, sim, eu vivo Nos braços do descanço, e mais do gosto: Quando estou acordado, Contemplo no teu rosto De graças adornado; Se durmo logo sonho, e alli te vejo. Ah! nem desperto, nem dormindo sóbe A mais o meu desejo.

    LYRA XXVIII.

    Cupido tirando Dos hombros a aljava, N’um campo de flores Contente brincava.

    E o corpo tenrinho Depois enfadado, Incauto reclina Na relva do prado.

    Marilia formosa, Que ao Deos conhecia, Occulta espreitava Quanto elle fazia.

    Mal julga que dorme Se chega contente, As armas lhe furta, E o Deos a não sente.

    Os Faunos, mal virão As armas roubadas, Sahirão das grutas Soltando rizadas.

    Acorda Cupido, E a causa sabendo, A quantos o insultão Responde, dizendo:

    _Temieis as settas Nas minhas mãos cruas? Vereis o que podem Agora nas suas_.

    LYRA XXIX.

    O tyranno Amor risonho Me apparece, e me convida Para que seu jugo acceite; E quer que eu passe em deleite O resto da triste vida.

    _O sonoro Anacreonte_ (Astuto o moço dizia) _Já perto da morte estava, Inda de amores cantava; Por isso alegre vivia_.

    _Aos negros, duros pezares Não resiste hum peito fraco, Se Amor o não fortalece: O mesmo Jove carece De Cupido, e mais de Baccho_.

    Eu lhe respondo: _Perjuro Nada creio ao que dizes; Porque já te fui sujeito, Inda conservo no peito Estas frescas cicatrizes_.

    Amor, vendo que da offerta Algum apreço não faço, Me diz affoito que trate De ir com elle a combate Peito a peito, braço a braço.

    Vou buscar as minhas armas; Cinjo primeiro que tudo O brilhante arnêz, e á pressa Ponho hum elmo na cabeça, Tomo a lança, e o grosso escudo.

    Mal no Campo me apresento, Marilia (oh Ceos!) me apparece: Logo os olhos me fita, O meu coração palpita, A minha mão desfallece.

    Então me diz o tyranno: _Confessa louco o teu erro; Contra as armas da belleza Não vale a externa defeza. Dessa armadura de ferro_.

    LYRA XXX.

    Junto a huma clara fonte A mãi de Amor se sentou: Encostou na mão o rosto, No leve somno pegou.

    Cupido, que a vio de longe, Contente ao lugar corrêo; Cuidando que era Marilia Na face hum beijo lhe dêo.

    Acorda Venus irada: Amor a conhece; e então Da ousadia, que teve, Assim lhe pede o perdão:

    _Foi facil, ó Mãe formosa, Foi facil o engano meu; Que o semblante de Marilia He todo o semblante teu_.

    LYRA XXXI.

    Minha Marilia, Se tens belleza, Da natureza He hum favor. Mas se aos vindouros Teu nome passa, He só por graça Do Deos de amor, Que terno inflamma A mente, o peito Do teu Pastor.

    Em vão se virão Perlas mimosas, Jasmins, e rosas No rosto teu. Em vão terias Essas estrellas, E as tranças bellas Que o Ceo te dêo; Se em doce verso Não as cantasse O bom Dirceo.

    O voraz tempo Ligeiro corre: Com elle morre A perfeição. Essa, que o Egypto Sábia modera, De Marco impera No coração; Mas já Octavio Não sente a força Do seu grilhão.

    Ah! vem, ó bella, E o teu querido Ao Deos Cupido Louvores dar; Pois faz que todos Com igual sorte Do tempo, e morte Possão zombar: Tu por formosa, E elle, Marilia, Por te cantar.

    Mas ai! Marilia, Que de hum amante, Por mais que cante, Gloria não vem! Amor se pinta Menino, e cego: No doce emprêgo Do charo bem Não vê defeitos, E augmenta, quantas Bellezas tem.

    Nenhum dos Vates, Em teu conceito, Nutrio no peito Nescia paixão? Todas aquellas, Que vês cantadas, Forão dotadas De perfeição? Forão queridas; Porém formosas Talvez que não.

    Porém que importa Não valha nada Seres cantada Do teu Dirceo? Tu tens, Marilia, Cantor celeste; O meu Glauceste A voz ergueo; Irá teu nome Aos fins da Terra, E ao mesmo Ceo.

    Quando nas azas Do leve vento Ao Firmamento Teu nome for: Mostrando Jove Graça extremosa, Mudando a Esposa De inveja a côr; De todos ha-de, Voltando o rosto, Sorrir-se Amor.

    Ah! não se manche Teu brando peito Do vil defeito Da ingratidão: Os versos beija, Gentil Pastora, A penna adora, Respeita a mão, A mão discreta, Que te segura A duração.

    LYRA XXXII.

    N’uma noite socegado Velhos papeis revolvia, E por ver de que tratavão Hum por hum a todos lia.

    Erão copias emendadas De quantos versos melhores Eu compuz na tenra idade A meus diversos amores.

    Aqui leio justas queixas Contra a ventura formadas, Leio excessos mal acceitos, Doces promessas quebradas.

    Vendo sem razões tamanhas Eu exclamo transportado: _Que finezas tão mal feitas! Que tempo tão mal passado_!

    Junto pois n’hum grande monte Os soltos papeis, e logo, Porque reliquias não fiquem, Os intento pôr no fogo.

    Então vejo que o Deos cego Com semblante carregado Assim me falla, e crimina O meu intento acertado.

    _Queres queimar esses versos? Dize, Pastor attrevido, Essas Lyras não te forão Inspiradas por Cupido_?

    _Achas que de taes amores Não deve existir memoria? Sepultando esses triunfos, Não roubas a minha gloria_?

    Disse Amor; e mal se calla, Nos seus hombros a mão pondo, Com hum semblante sereno Assim á queixa respondo:

    _Depois, Amor, de me dares A minha Marilia bella, Devo guardar humas Lyras, Que não são em honra della_?

    _E que importa, Amor, que importa Que a estes papeis destrua; Se he tua esta maõ; que os rasga, Se a chamma, que os queima, he tua_?

    Apenas Amor me escuta Manda que os lance nas brazas; E ergue a chamma c’o vento, Que formou batendo as azas.

    LYRA XXXIII.

    Péga na lyra sonora, Péga meu charo Glauceste; E ferindo as cordas de ouro, Mostra aos rusticos Pastores A formosura celeste De Marilia, meus amores. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Que concurso, meu Glauceste, Que concurso tão ditoso! Tu és digno de cantares O seu semblante divino; E o teu canto sonoroso Tambem do seu rosto he dino. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Para pintares ao vivo As suas faces mimosas, A discreta Natureza Que providencia não teve! Creou no jardim as rosas, Fez o lyro, e fez a neve. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    A pintar as negras tranças Peço que mais te desvelles: Pinta chusmas de amorinhos Pelos seus fios trepando; Huns tecendo cordas delles, Outros com elles brincando. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Para pintares, Glauceste, Os seus beiços graciosos, Entre as flores tens o cravo, Entre as pedras a granada; E para os olhos formosos, A estrella da madrugada. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Mal retratares do rosto Quanto julgares preciso, Não dês a cópia por feita; Passa a outros dotes, passa, Pinta da vista, e do riso A modestia, mais a graça. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Pinta o garbo de seu rosto Com expressões delicadas; Os seus pés, quando passeão, Pizando ternos amores; E as mesmas plantas calcadas Brotando viçosas flores. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Pinta mais, prezado amigo, Hum terno amante beijando Suas douradas cadeias; E em doce pranto desfeito, Ao monte, e valle ensinando O nome, que tem no peito. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    Nem suspendas o teu canto, Inda que, Pastor, se veja Que a minha bocca suspira, Que se banha em pranto o rosto; Que os outros chorão de inveja, E chora Dirceo de gosto. Ah, pinta, pinta A minha bella! E em nada a cópia Se affaste della.

    FIM DA 1.^a PARTE.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR T.A.G.

    SEGUNDA PARTE.

    LISBOA: 1824.

    Na Typ. de J.F.M. de Campos.

    MARILIA DE DIRCEO

    LYRA I.

    Já não cínjo de loiro a minha testa, Nem sonoras Canções o Deos me inspira: Ah! que nem me resta Huma já quebrada, Mal sonora Lyra!

    Mas neste mesmo estado em que me vejo, Pede, Marilia, Amor que vá cantar-te: Cumpro o seu desejo; E ao que resta supra A paixão, e a arte.

    A fumaça, Marilia, da candêa, Que a molhada parede ou çuja, ou pinta; Bem que tosca, e fêa, Agora me póde Ministrar a tinta.

    Aos mais preparos o discurso apronta: Elle me diz, que faça no pé de huma Má laranja ponta, E delle me sirva Em lugar de pluma.

    Perder as uteis horas não, não devo Verás, Marilia, huma idéa nova: Sim, eu já te escrevo, Do que esta alma dita Quanto amor approva.

    Quem vive no regaço da ventura, Nada obra em te adorar, que assombro faça: Mostra mais ternura Quem te estima, e morre Nas mãos da desgraça.

    Nesta cruel masmorra tenebrosa Ainda vendo estou teus olhos bellos, A testa formosa, Os dentes nevados, Os negros cabellos.

    Vejo, Marilia, sim, e vejo ainda A chusma dos Cupidos, que pendentes Dessa bôcca linda, Nos ares espalhão Suspiros ardentes.

    Se alguem me perguntar onde eu te vejo, Responderei–no peito–que huns Amores De casto desejo Aqui te pintárão, E são bons Pintores.

    Mal meus olhos te virão, ah! nessa hora Teu Retrato fizerão, e tão forte, Que entendo, que agora Só póde apagallo O pulso da Morte.

    Isto escrevia, quando, ó Céos, que pejo! Descubro a lêr-me os versos o Deos loiro. Ah! dá-lhes hum beijo, E diz-me que valem Mais que letras de oiro.

    LYRA II.

    Esprema a vil calumnia muito embora Entre as mãos denegridas, e insolentes Os venenos das plantas, E das bravas serpentes.

    Chovão raios e raios, no meu rosto Não has-de ver, Marilia, o modo escrito; O medo perturbado, Que infunde o vil delicto.

    Pódem muito conheço, pódem muito, As Furias infernaes, que Pluto move; Mas póde mais que todas Hum dedo só de Jove.

    Este Deos convertêo em flor mimosa; A quem seu nome derão, a Narciso, Fêz d’ muitos os Astros, Qu’ inda no Ceo diviso.

    Elle póde livrar-me das injurias Do nescio, do atrevido ingrato povo; Em nova flor mudar me, Mudar-me em Astro novo.

    Porém se os justos Céos por fins occultos Em tão tyranno mal me não soccorrem, Verás então, que os sabios, Bem como vivem, morrem.

    Eu tenho hum coração maior que o mundo. Tu, formosa Marilia, bem o sabes: Hum coração, e basta, Onde tu mesma cabes.

    LYRA III.

    Succede, Marilia bella, Á medonha noite o dia: A estação chuvosa e fria, Á quente secca estação. Muda-se a sorte dos tempos; Só a rainha sorte não?

    Os troncos, nas Primaveras, Brotão em flores viçosos; Nos Invernos escabrosos Largão as folhas no chão. Muda-se a sorte dos troncos; Só a minha sorte não?

    Aos brutos, Marilia, cortão Armadas redes os passos; Rompem depois os seus laços, Fogem da dura prisão. Muda-se a sorte dos brutos; Só a minha sorte não?

    Nenhum dos homens conserva Alegre sempre o seu rosto; Depois das penas vem gosto, Depois do gosto afflicção. Muda-se a sorte dos homens; Só a minha sorte não?

    Aos altos Deoses movêrão Soberbos Gigantes guerra; No mais tempo o Ceo, e a Terra Lhes tributa adoração. Muda-se a sorte dos Deoses; Só a minha sorte não?

    Hade, Marilia, mudar-se Do destino a inclemencia: Tenho por mim a innocencia, Tenho por mim a razão. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

    O tempo, ó bella, que gasta Os troncos, pedras, e o cobre, O véo rompe, com que encobre Á verdade a vil traição. Muda-se a sorte de tudo; Só a minha sorte não?

    Qual eu sou verá o mundo, Mais me dará do que eu tinha, Tornarei a ver-te minha. Que feliz consolação! Não ha de tudo mudar-se, Só a minha sorte não.

    LYRA IV.

    Já, já me vai, Marilia, branquejando Loiro cabello, que circúla a testa. Este mesmo, que alveja, vai cahindo, E pouco já me resta.

    As faces vão perdendo as vivas côres, E vão-se sobre os ossos enrugando, Vai fugindo a viveza dos meus olhos; Tudo se vai mudando.

    Se quero levantar-me, as costas vergão; As forças dos meus membros já se gastão, Vou a dar pela casa huns curtos passos, Pesão-me os pés, e arrastão.

    Se algum dia me vires desta sorte, Vê que assim me não pôz a mão dos annos: Os trabalhos, Marilia, os sentimentos, Fazem os meus danos.

    Mal te vir me dará em poucos dias, A minha mocidade o doce gosto; Verás burnir-se a pelle, o corpo encher-se, Voltar a côr ao rosto.

    No calmoso Verão as plantas seccão, Na Primavera, que aos mortaes encanta, Apenas cahe do Ceo o fresco orvalho, Verdeja logo a planta.

    A doença deforma a quem padece; Mas logo que a doença fez seu termo, Torna, Marilia, a ser quem era d’antes, O definhado enfermo.

    Suppo[~e]-me qual doente, ou qual a planta, No meio da desgraça, que me altera: Eu tambem te supponho qual saude, Ou qual a Primavera.

    Se dão esses teus meigos, vivos olhos Aos mesmos Astros luz, e vida ás flores; Que effeitos não farão, em quem por elles Sempre morrêo de amores?

    LYRA V.

    Os mares, minha bella, não se movem; O brando Norte assopra, nem diviso Huma nuvem sequer na Esfera toda, O destro Nauta aqui não he preciso; Eu só conduzo a náo, eu só modéro Do seu governo a roda.

    Mas ah! que o Sul carrega, o mar se empolla, Rasga-se a véla, o mastaréo se parte! Qualquer varão prudente aqui já teme Não tenho a necessaria força, e arte. Corra o sabio Piloto, corra, e venha Reger o duro leme.

    Como succede á náo no mar, succede Aos homens na ventura, e na desgraça: Basta ao feliz não ter total demencia, Mas quem de venturoso a triste passa, Deve entregar o leme do discurso Nas mãos da sã prudencia.

    Todo o Ceo se cubrio, os raios chovem; E esta alma, em tanta pena consternada, Nem sabe aonde possa achar conforto. Ah, não, não tardes, vem, Marilia amada, Toma o leme da náo, marêa o panno, Vai-a salvar no porto.

    Mas ouço já de Amor as sabias vozes: Elle me diz que soffra se não morro; E perco então se morro huns doces laços. Não quero já, Marilia, mais soccorro, Oh ditoso soffrer, que lucrar póde A gloria dos teus braços.

    LYRA VI.

    De que te queixas, Lingua importuna? De que a Fortuna Roubar-te queira, O que te deu? Este foi sempre O genio seu.

    Levou, Marilia, A impia sorte Catoens á morte; Nem sepultura Lhes concedeu. Este foi sempre O genio seu.

    A outros muitos, Que vís nascêrão, Nem merecêrão, A grandes thronos A impia ergueu. Este foi sempre O genio seu.

    Espalha a cega Sobre os humanos Os bens, e os damnos; E a quem se devão Nunca escolheu. Este foi sempre O genio seu.

    A quanto he justo, Já mais se dobra; Nem igual obra C’os mesmos Deoses Do cáro Ceo. Este foi sempre O genio seu.

    Sóbe ao Ceo Venus N’hum carro ufano; E cahe Vulcano Da pura esfera, Em que nasceu. Este foi sempre O genio seu.

    Mas não me rouba, Bem que se mude, Honra, e virtude: Que o mais he della, Mas isto he meu. Este foi sempre O genio seu.

    LYRA VII.

    Meu prezado Glauceste, Se fazes o conceito, Que bem que réo abrigo A candida virtude no meu peito. Se julgas, digo, que mereço ainda Da tua mão soccorro; Ah! vem dar-m’o agora, Agora sim que morro.

    Não quero, que montado No Pegaso fogoso, Venhas com dura lança Ao monstro infame traspassar raivoso. Deixa que viva a perfida calumnia, E forge o meu tormento: Com menos, meu Glauceste, Com menos me contento.

    Toma a lyra doirada, E toca hum pouco nella: Levanta a vóz celeste Em parte que te escute a minha bella; Enche todo o contorno de alegria; Não soffras, que o desgosto Affogue em pranto amargo O seu divino rosto.

    Eu sei, eu sei, Glauceste, Que hum bom Cantor havia, Que os brutos amansava; Que os troncos, e os penedos attrahia. De outro destro Cantor tambem affirma; A sábia Antiguidade, Que as muralhas erguêra De huma grande Cidade.

    Orfeo as cordas fere; O som delgado, e terno Ao Rei Plutão abranda, E o deixa que penetre o fundo Averno. Ah, tu a nenhum cedes, nem Glauceste; Na lyra, e mais no canto: Podes fazer prodigios; Obrar ou mais, ou tanto.

    Levanta pois as vozes: Que mais, que mais esperas? Consola hum peito afflito; Que he menos inda, que domar as féras. Com isto me darás no meu tormento Hum doce lenitivo, Que em quanto a bella vive, Tambem, Glauceste, vivo.

    LYRA VIII.

    Eu vejo, ó minha bella, aquelle Numen, A quem o nome derão de Fortuna, Pega-me pelo braço, E com voz importuna Me diz que mova o passo; Que entre no grande Templo, em [~q] se encerra, Quanto o destino manda, Que ella obre sobre a terra.

    Que coizas portentosas nelle encontro! Eu vejo a pobre fundação de Roma, Vejo-a queimar Carthago; Vejo que as gentes doma; E vejo o seu estrago. Lá florece o poder do Assyrio Povo: Aqui os Medos crescem E os perde hum braço novo.

    Então me diz a Deosa: _E que pertendes? Todas estas Medalhas vêr agora? Ah! não, não sejas louco! Espaço de annos fôra Para isto ainda pouco. Deixo estranhos successos; vem comigo, Verás quanto inda deve Acontecer comtigo_.

    Levou-me aonde estava a minha historia, Que toda me explicou com medo, e arte. _Tirei-te libras de oiro_ Me diz, _e quero dar-te Todo aquelle thesoiro. Não suspira por bens hum peito nobre_: Sevéro lhe respondo. _Vivo affeito a ser pobre_.

    Aqui me enruga a Deosa irada a testa; E fica sem fallar hum breve espaço. _Alegra, alegra o rosto_, Prosegue, _alli te faço Restituir o posto_. Respondo com ar de mofa, e tom sereno. _Conheço-te, Fortuna, Posso morrer pequeno_.

    _Aqui te dou_, me diz, _a tua amada_. Então me banho todo de alegria _Cuidei_, me torna a cega, _Que essa alma não queria Nem esta mesma entrega. He esse o bem_, respondo, _que me move; Mas este bem he santo, Vem só da mão de Jove_.

    Queria mais fallar; eu insoffrido Desta maneira rompo os seus accentos: _Basta, Fortuna, basta; Estes breves momentos Lá noutras coizas gasta; Da minha sorte nada mais contemplo_. E chamando Marilia Suspiro, e deixo o Templo.

    LYRA IX.

    A estas horas Eu procurava Os meus Amores; Tinhão-me inveja Os mais Pastores.

    A porta abria, Inda esfregando Os olhos bellos, Sem flor, nem fitta Nos seus cabellos:

    Ah! que assim mesmo Sem compostura, He mais formosa, Que a estrella d’alva; Que a fresca rosa.

    Mal eu a via, Hum ar mais leve, (Que doce effeito!) Já respirava Meu terno peito.

    Do cerco apenas Soltava o gado, Eu lhe amimava Aquella ovelha Que mais amava.

    Dava-lhe sempre No rio, e fonte, No prado, e selva, Agua mais clara, Mais branda relva.

    No cóllo a punha, Então brincando A mim a unia; Mil coizas ternas Aqui dizia.

    Marilia vendo Que eu só com ella He que fallava; Ria-se a furto, E disfarçava.

    Desta maneira Nos castos peitos, De dia, em dia A nossa chamma Mais se accendia.

    Ah! quantas vezes No chão sentado, Eu lhe lavrava As finas rócas, Em que fiava?

    Da mesma sorte Que á sua amada, Que está no ninho, Fronteiro canta O passarinho.

    Na quente sésta, Della defronte, Eu me entretinha Movendo o ferro Da sanfoninha.

    Ella por dar-me De ouvir o gosto, Mais se chegava: Então vaidoso Assim cantava:

    Não ha Pastora, Que chegar possa Á minha bella; Nem quem me iguale Tambem na estrella:

    Se Amor concede Que eu me recline No branco peito, Eu não invejo De Jove o leito:

    Ornão seu peito As sãs virtudes, Que nos namorão; No seu semblante As Graças morão.

    Assim vivia: Hoje em suspiros O canto mudo: Assim, Marilia, Se acaba tudo.

    LYRA X.

    Arde o velho barril, arde a cabeça, Em honra de João na larga rua; O credulo Mortal agora indaga, Qual seja a sorte sua?

    Eu não tenho alcaxofra, que á luz chegue, E nella orvalhe o Ceo de madrugada, Para ver se rebentão novas folhas, Aonde foi queimada.

    Tambem não tenho hum ovo, que despeje Dentro de hum cópo d’agua, e possa nella Fingir Palacios grandes, altas Torres, E huma Náo á véla.

    Mas, ah! em bem me lembre: eu tenho ouvido Que na boca hum bochecho d’agoa tome, E atráz de qualquer porta attento esteja, Até ouvir hum nome.

    Que o nome, que primeiro ouvir, he esse O nome, que ha de ter a minha amada: Pode verdade ser, se fôr mentira, Tambem não custa nada.

    Vou tudo executar, e de repente Ouvi dizer o nome de Filena: Despejo logo a boca: ah! não sei como Não morro alli de pena!

    Apparece Cupido: então soltando Em ar de zombaria huma risada. E que tal, me pergunta, esteve a peça? Não foi bem pregada?

    Eu já te disse, que Marilia he tua: Tu fazes do meu dito tanta conta, Que vais acreditar, o que te ensina Velha mulher já tonta.

    Humilde lhe respondo: quem debaixo Do açoite da Fortuna afflito geme, Nas mesmas coisas, que só são brinquedos, Se agoirão males, teme.

    LYRA XI.

    Se acaso não estou no fundo Averno Padece, ó minha bella, sim padece O peito amante, e terno, As afflições tyrannas, que os Preceitos Arbîtra Rhadamantho em justa pena Dos barbaros delictos.

    As Furias infernaes, rangendo os dentes Com a mão descarnada não me applicão As raivosas serpentes. Mas cercão-me outros monstros mais irados: Mordem-me sem cessar as bravas serpes De mil, e mil cuidados.

    Eu não gasto, Marilia, a vida toda Em lançar o penedo da montanha; Ou em mover a roda. Mas tenho ainda mais cruel tormento: Por coisas que me affligem, roda, e gyra Cançado pensamento.

    Com retorcidas unhas agarrado Ás tepidas entranhas não me come Hum abutre esfaimado. Mas sinto de outro monstro a crueldade: Devora o coração, que mal palpita, O abutre da saudade.

    Não vejo os pomos, nem as aguas vejo, Que de mim se retirão, quando busco Fartar o meu desejo; Mas quer, Marilia, o meu destino ingrato, Que lograr-te não possa, estando vendo Nesta alma o teu retrato.

    Estou no Inferno, estou, Marilia bella; E n’huma coisa só he mais humana A minha dura estrella: Huns não podem mover do Inferno os passos; Eu pertendo vôar, e vôar cedo Á gloria dos teus braços.

    LYRA XII.

    Ah, Marilia, que tormento Não tens de sentir saudosa! Não podem ver os teus olhos A campina deleitosa, Nem a tua mesma Aldêa, Que tyrannos não proponhão Á inda inquieta idéa Huma imagem de afflição. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando levares, Marilia, Teu ledo rebanho ao prado Tu dirás: aqui trazia Dirceo tambem o seu gado. Verás os sitios ditosos Onde, Marilia, te dava, Doces beijos amorosos Nos dedos da branca mão. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando á janella sahires Sem quereres, descuidada, Tu verás, Marilia, a minha E minha pobre morada. Tu dirás então comtigo: Alli Dirceo esperava Para me levar comsigo: E alli soffreo a prisão. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando vires igualmente Do caro Glauceste a choça, Onde alegre se juntavão Os pouco da escolha nossa, Pondo os olhos na varanda Tu dirás, de mágoa chêa: Todo o congresso alli anda, Só o meu Amado não. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    Quando passar pela rua O meu companheiro honrado, Sem que me vejas com elle Caminhar emparelhado, Tu dirás: não foi tyranna Sómente comigo a sorte; Tambem cortou deshumana A mais fiel união. Mandarás aos surdos Deoses Novos suspiros em vão.

    N’uma masmorra mettido Eu não vejo imagens destas, Imagens, que são por certo A quem adora funestas. Mas se existem separadas Dos inchados rôxos olhos, Estão, que he mais, retratadas No fundo do coração. Tambem mando aos surdos Deoses Tristes suspiros em vão.

    LYRA XIII.

    Ves, Marilia, hum cordeiro De flores enramado, Como alegre caminha A ser sacrificado? O Povo para o Templo já concorre: A Pyra sacro-santa já se accende: O Ministro o fere, elle bala, e morre.

    Vês agora o novilho, A quem segura o laço: No chão as mãos especa: Nem quer mover hum passo: Não conhece que sahe de hum máo terreno; Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, O conduz a viver n’um campo ameno.

    Ignora o bruto, como Lhe dispomos a sorte: Hum vai forçado á vida, Vai outro alegre á morte, Nós temos, minha bella, igual demencia: Não sabemos os fins, com que nos move A sábia, occulta Mão da Providencia.

    De Jacob ao bom filho Os máos matar quizerão: De conselho mudárão, Como escravo o vendêrão: José não corre a ser hum servo afflito: Vai subindo os degráos, por onde chega A ser hum quasi Rei no grande Egypto.

    Quem sabe se o Destino Hoje, ó bella, me prende, Só porque nisto de outros Mais damnos me defende? Póde inda raiar hum claro dia. Mas quer raie, quer não, ao Ceo adoro; E beijo a santa mão, que assim me guia.

    LYRA XIV.

    Alma digna de mil Avós Augustos! Tu sentes, tu soluças Ao ver cahir os justos; Honras as santas leis da Humanidade: E aos teus exemplos deve Gravar com letras de oiro no seu Templo A candida Amizade.

    Não he, não he de Heróe huma alma forte, Que vê com rosto enchuto No seu igual a morte. Não he tambem de Heróe hum peito duro, Que a sua gloria firma, Em que lhe não resiste ao ferro, e fogo, Nem legião, nem muro.

    Oh! quanto ousado Chefe me namora, Quando vê a cabeça Do bom Pompeo, e chora! He grande para mim, quem move os passos, E de Dario aos filhos, Que como escravos seus tratar podéra, Recebe nos seus braços.

    Se alcança Eneas, Capitão piedoso, Entre os Heróes do Mundo Hum nome glorioso, Não he, porque levanta huma cidade; He sim, porque nos hombros Salvou do incendio ao Pai a quem detinha A mão da branca idade.

    Ah! se ao meu contrario entre as chãmas vira; Eu mesmo, sim, da morte Aos hombros o remira: Inda por elle muito mais obrára: E se nada servisse, Fizera então, Amigo, o que fizeste, Gemêra, e suspirára.

    Oh! quanto são duraveis as cadêas De huma amizade, quando Se dão iguaes idéas! Se a pezar dos estorvos se sustinha Nossa união sincera, Foi por ser a minha alma igual á tua, E a tua igual á minha.

    Se, ó caro Amigo, te merece tanto, Lá lhe fica a sua alma, Limpa-lhe o terno pranto. De quem eu fallo, és tu, Marilia bella. Ah! sim, honrado Amigo, Se enxugar não poderes os seus olhos; Prantêa então com ella.

    LYRA XV.

    Eu, Marilia, não fui nenhum Vaqueiro; Fui honrado Pastor da tua Aldêa; Vestia finas lãns, e tinha sempre A minha chóça do preciso chêa. Tirarão-me o casal, e o manso gado, Nem tenho a que me encoste hum só cajado.

    Para ter, que te dar, he que eu queria De mór rebanho ainda ser o dono; Prezava o teu semblante, os teus cabellos Ainda muito mais que hum grande Throno. Agora que te offerte já não vejo Além de hum puro amor, de hum são desejo.

    Se o rio levantado me causava Levando a sementeira prejuiso, Eu alegre ficava apenas via Na tua breve boca hum ar de riso. Tudo agora perdi; nem tenho o gosto De ver-te ao menos compassivo o rosto.

    Propunha-me dormir no teu regaço As quentes horas da comprida sésta, Escrever teus louvores nos olmeiros, Toucar-te de papoilas na floresta. Julgou o justo Ceo, que não covinha Que a tanto gráo subisse a gloria minha.

    Ah, minha bella, se a Fortuna volta, Se o bem que já perdi alcanço, e provo; Por essas brancas mãos, por essas faces Te juro renascer hum homem novo; Romper a nuvem que os meus olhos cerra, Amar no Ceo a Jove, e ati na terra.

    Fiadas comprarei as ovelhinhas, Que pagarei dos poucos do meu ganho; E dentro em pouco tempo nos veremos Senhores outra vez de hum bom rebanho. Para o contagio lhe não dar sobeja Que as affague Marilia, ou só que as veja.

    Se não tivermos lans, e pelles finas, Podem mui bem cobrir as carnes nossas As pelles dos cordeiros mal cortidas, E os pannos feitos com as lans mais grossas. Mas ao menos será o teu vestido Por mãos de Amor, por minhas mãos cozido.

    Nós iremos pescar na quente sésta Com canas, e com cêstos os peixinhos: Nós iremos caçar nas manhãs frias Com a vara envisgada os passarinhos; Para nos divertir faremos quanto Reputa o varão sabio, honesto, e santo.

    Nas noites de serão nos sentaremos C’os filhos se os tivermos á fogueira; Entre as falsas historias, que contares, Lhes contarás a minha verdadeira: Pasmados te ouviráõ; eu entre tanto Ainda o rosto banharei de pranto.

    Quando passarmos juntos pela rua Nos mostraráõ c’o dedo os mais Pastores, Dizendo huns para os outros: olha os nossos Exemplos da desgraça, e sãos amores. Contentes viviremos desta sorte, Até que chegue a hum dos dois a morte.

    LYRA XVI.

    Vejo, Marilia, Que o nédeo gado Anda disperso No monte, e prado; Que assim succede Ao desgraçado, Que a perder chega O seu Pastor. Mas inda soffro A viva dôr.

    Tambem conheço, Que os Pegureiros, Que apascentavão Os meus cordeiros, Darão suspiros E verdadeiros; Porque perdêrão Hum pai no amor. Mas inda soffro A viva dôr.

    Eu mais alcanço; Que a minha herdade Estando eu prezo, Soffrer não ha-de Nem a charrua, E nem a grade; Que a mão lhe falta Do Lavrador. Mas inda soffro A viva dôr.

    Mas quando sobe Á minha idéa, Que tu ficaste Lá nessa Aldêa. De mil cuidados E mágoa cheia; Das paixões minhas Não sou senhor. Eu já não soffro A viva dôr.

    A quanto chega A pena forte! Peza-me a vida, Desejo a morte, A Jove accuso, Maldigo a sorte, Trato a Cupido Por hum traidor. Eu já não soffro A viva dôr.

    Mas este excesso Perdão merece, E delle Jove Se compadece; Que Jove, ó bella, Mui bem conhece, Aonde chega Paixão de amor. Eu já não soffro A viva dôr.

    LYRA XVII.

    Dirceo te deixa, ó bella, De padecer cançado: Frio suor já banha Seu rosto descórado; O sangue já não gyra pela vêa, Seus pulsos já não batem; E a clara luz dos olhos se bacêa: A lagrima sentida já lhe corre; Já pára a convulsão, suspira, e morre.

    Seu espirito chega Onde se pune o erro: Late o cão, e se lhe abrem Grossos portões de ferro. Aos severos Juizes se apresenta; E com sentidas vozes Toda a sua tragedia representa: Enche-se de ternura, e novo espanto O mesmo inexoravel Rhadamantho.

    Abre hum pasmado a boca, E a pedra não despede; Outro já não se lembra Da fome, e mais da sede: Descança o curvo bico, e a garra impia Negro abutre esfaimado: Nem a roca medonha a Parca fia, Até as mesmas Furias inclementes Deixão cahir das unhas as serpentes.

    Já votão os Juizes; E o Rei Plutão lhe ordena Deixe o sitio, em que ficão Almas dignas de pena. Já sahe do escuro Reino, e da memoria Lhe passa tudo quanto Ou póde dar-lhe mágoa, ou dar-lhe gloria. Só, bem que o gosto as turvas agoas tome, Inda, Marilia, inda diz teu nome.

    Entra já nos Elysios Campinas venturosas, Que mansos rios cortão, Que cobrem sempre as rosas. Escuta o canto das sonoras aves, E bebe as agoas puras, Que o mel, e de que o leite mais suaves. Aqui, diz elle, espero a minha bella, Aqui contente viverei com ella.

    Aqui… porém aonde Me leva a dôr activa? He illusão desta alma. Jove inda quer que eu viva. Eu devo sim gosar teus doces laços; E em paga dos meus males Devo morrer, Marilia, nos teus braços. Então eu passarei ao Reino amigo; E tu irás despois lá ter comigo.

    LYRA XVIII.

    Não mólho, Marilia, De pranto a masmorra Que o terno Cupido Não vôe, e não corra, A hilo apanhar. Estende-o nas azas Sobre elle suspira, Por fim se retira, E vai-to levar.

    Se o moço não mente, Aos tristes gemidos, Aos ais lastimosos Não guardes unidos, Marilia, c’os teus: As lagrimas nossas No seio amontôa Fórma azas, e vôa, Vai pô-las nos Ceos.

    A Deosa formosa, Que amava aos Troianos, Livra-los querendo De riscos, e damnos A Jove buscou. As aguas, que o rosto Da Deosa banhárão, A Jove abrandárão, E assim os salvou.

    Confia-te, ó bella, Confia-te em Jove; Ainda se abranda, Ainda se move Com ancias de amor. O pranto de Venus, Que obrou no Pai tanto, Não tem que o teu pranto Apreço maior.

    LYRA XIX.

    Nesta triste masmorra, De hum semivivo corpo sepultura, Inda, Marilia, adoro A tua formosura. Amor na minha idéa te retrata, Busca extremoso, que eu assim resista Á dôr immensa, que me cerca, e mata.

    Quando em meu mal pondero, Então mais vivamente te diviso: Vejo o teu rosto, e escuto A tua voz, e riso. Movo ligeiro para o vulto os passos: Eu beijo a tibia luz em vez de face; E aperto sobre o peito em vão os braços.

    Conheço a illusão minha; A violencia da mágoa não supporto; Foge-me a vista, e caio Não sei se vivo, ou morto. Enternece-se Amor de estrago tanto; Reclina-me no peito, e com mão terna Me limpa os olhos do salgado pranto.

    Despois que represento Por largo espaço a imagem de hum defunto, Movo os membros, suspiro, E onde estou pergunto. Conheço então que Amor me tem comsigo; Ergo a cabeça, que inda mal sustento, E com doente voz assim lhe digo.

    Se queres ser piedoso, Procura o sitio em que Marilia móra, Pinta-lhe o meu estrago, E vê, Amor, se chora. Se as lagrimas verter a dôr a arrasta, Huma dellas me traze sobre as pennas, E para allivio meu só isto basta.

    LYRA XX.

    E me visses com teus olhos Nesta masmorra mettido; De mil idéas funestas, E cuidados combatido: Qual seria, ó minha bella, Qual seria o teu pezar?

    Á força da dôr cedêra; E nem estaria vivo, Se o menino Deos vendado, Extremoso, e compassivo, Com o nome de Marilia Não me viesse animar.

    Deixo a cama ao romper d’alva; O meio dia tem dado, E o cabello inda flutua Pelas costas desgrenhado. Não tenho valor, não tenho; Nem para de mim cuidar.

    Diz-me Cupido: E Marilia; Não estima esse cabello? Se o deixas perder de todo Não se ha de enfadar ao vêllo? Suspiro pego no pente, Vou logo o cabello atar.

    Vem hum taboleiro entrando De varios manjares cheio, Põe-se na meza a toalha, E eu pensativo passeio: De todo o comer esfria, Sem nelle poder tocar.

    Eu entendo que matar-te, Diz Amor, te tens proposto; Fazes bem: terá Marilia Desgosto sobre desgosto. Qual enfermo c’o remedio Me afflijo, mas vou jantar.

    Chegão as horas Marilia, Em que o Sol já se tem posto, Vem-me á memoria que nellas Via á janella o teu rosto: Reclino na mão a face E entro de novo a chorar.

    Diz-me Cupido: Já basta, Já basta, Dirceo, de pranto; Em obsequio de Marilia Vai erguer teu doce canto. Pendem as fontes dos olhos, Mas eu sempre vou cantar.

    Vem o Forçado accender-me A velha çuja candêa; Fica, Marilia, a masmorra Inda mais triste, e mais fêa. Nem mais canto, nem mais posso Huma só palavra dar.

    Diz-me Cupido: São horas De escrever-se o que está feito; Do azeite, e da fumaça Huma nova tinta ageito, Tomo o páo, que penna finge, Vou as Lyras copiar.

    Sem que chegue o leve sono Canta o Gallo a vez terceira; Eu digo ao Amor; que fico Sem deitar-me a noite inteira: Faço mimos, e promessas Para elle me acompanhar.

    Elle diz que em dormir cuide, Que hei-de ver Marilia em sonho; Não respondo huma palavra, A dura cama componho, Apago a triste candêa, E vou-me logo deitar.

    Como póde a taes cuidados Risistir, ó minha Bella, Quem não tem de Amor a graça? Se eu que vivo á sombra della Inda vivo desta sorte, Sempre triste a suspirar?

    LYRA XXI.

    Que diversas que são, Marilia, as horas Que passo na masmorra immunda, e fêa, Dessas horas felizes, já passadas Na tua patria Aldêa.

    Então eu me ajuntava com Glauceste; E á sombra de alto Cédro na Campina Eu versos te compunha, e elle os compunha Á sua cara Eulina.

    Cada qual o seu canto aos Astros leva; De exceder hum ao outro qualquer trata O ecco agora diz: _Marilia terna_; E logo: _Eulina ingrata_.

    Deixão os mesmos Sátyros as grutas: Hum para nós ligeiro move os passos; Ouve-nos de mais perto, e faz a flauta C’os pés em mil pedaços.

    Dirceo (clama hum Pastor,) ah! bem merece Da ternissima Marilia a formosura. E aonde, clama o outro, quer Eulina Achar maior ventura?

    Nenhum Pastor cuidava do rebanho, Em quanto em nós durava esta porfia. E ella, ó minha amada, só findava Depois de acabar-se o dia.

    Á noite te escrevia na cabana Os versos, que de tarde havia feito; Mal tos dava, e os lias, os guardavas No casto, e branco peito.

    Beijando os dedos dessa mão formosa, Banhados com as lagrimas do gosto, Jurava não cantar mais outras graças Que as graças do teu rosto.

    Ainda não quebrei o juramento. Eu agora, Marilia, não as canto; Mas inda vale mais que os doces versos A voz do triste pranto.

    LYRA XXII.

    Por morto, Marilia, Aqui me reputo: Mil vezes escuto O som do arrastado, E duro grilhão. Mas, ah! que não treme, Não treme de susto O meu coração.

    A chave lá sôa Na porta segura: Abre-se a escura, Infame masmorra Da minha prizão. Mas, ah! que não treme; Não treme de susto O meu coração.

    Eu vejo, Marilia, A mil innocentes Nas Cruzes pendentes, Por falsos delictos, Que os homens lhes dão. Mas, ah! que não treme, Não treme de susto O meu coração.

    Se penso que posso Perder o gozar-te A gloria de dar-te Abraços honestos, E beijos na mão. Marilia, já treme, Já treme de susto O meu coração.

    Repára, Marilia, O quanto he mais forte Ainda que a morte, N’um peito esforçado De amor a paixão. Marilia, já treme, Já treme de susto O meu coração.

    LYRA XXIII.

    Não praguejes, Marilia, não praguejes A justiceira mão que lança os ferros: Não traz de balde a vingadora espada; Deve punir os erros.

    Virtudes de Juiz, virtudes de homem As mãos se derão, e em seu peito morão. Mandão prender ao Réo austera a boca, Porém seus olhos chorão.

    Se á innocencia denigre a vil calumnia Que culpa aquelle tem que applica a penna. Não he o Julgador, he o processo, E a lei quem nos condemna.

    Só no Averno os Juizes não recebem Accusação, nem prova de outro humano; Aqui todos confessão suas culpas, Não póde haver engano.

    Eu vejo as Furias affligindo aos tristes: Huma o fogo chega, outra as serpes move; Todos maldizem sim a sua estrella, Nenhum accusa a Jove.

    Eu tambem inda adoro ao grande Chefe, Bem que a prizão me dá que eu não mereço. Qual eu sou, minha bella, não me trata, Trata-me qual pareço.

    Quem suspira, Marilia, quando pune Ao vassallo que julga delinquente; Que gosto não terá podendo dar-lhe As honras de innocente?

    LYRA XXIV.

    Eu vou, Marilia, vou brigar co’ as feras: Huma soltárão, eu lhe sinto os passos, Aqui aqui a espero Nestes despidos braços. He hum malhado tigre; a mim já corre, Ao peito o aperto, estalão-lhe as costelas, Desfallece, cahe, urra, treme, e morre.

    Vem agora hum Leão: sacode a grenha, Com faminta paixão a mim se lança; Venha embora, que o pulso Ainda não se cança. Opprimo-lhe a garganta, a lingua estira, O corpo lhe fraquêa, os olhos inchão, Açoita o chão convulso, arqueja, e espira.

    Mas que vejo, Marilia! tu te assustas? Entendes que os destinos inhumanos Expoem a minha vida No cêrco dos Romanos? Com ursos, e com onças eu não luto. Luto c’o bravo monstro que me accusa; Que os tigres, e leões mais féro, e bruto.

    Embora contra mim raivoso esgrima Da vil calumnia a cortadora espada; Huma alma, qual eu tenho, Não se recêa a nada. Eu hei-de, sim, punir-lhe a insolencia, Pizar-lhe o negro cóllo, abrir-lhe o peito Co’ as armas invenciveis da innocencia.

    Ah, quando imaginar, que vingativo Mando que desça ao Tartaro profundo Hei-de com mão honrada Erguer-lhe o corpo immundo. Eu então lhe direi: Infame, indîno, Obras como costuma o vil humano; Faço o que faz hum coraçao divino.

    LYRA XXV.

    Minha Marilia, O passarinho, A quem roubárão Ovos, e ninho, Mil vezes pousa No seu raminho, Piando finge Que anda a chorar. Mas logo vôa Pela espessura, Nem mais procura Este lugar.

    Se acaso a vacca Perde a vitéla, Tambem nos mostra, Que se desvéla, O pasto deixa, Muge por ella, Até na estrada A vem buscar. Em poucos dias, Ao que parece, Della se esquece, E vai pastar.

    O voraz Tempo, Que o ferro come, Que aos mesmos Reinos Devora o nome, Tambem, Marilia, Tambem consome Dentro do peito Qualquer pezar. Ah só não póde Ao meu tormento Por hum momento Allivio dar.

    Tambem, ó bella, Não ha quem viva Instantes breves Na chamma activa; Derrete ao bronze Sendo excessiva Ao mesmo seixo Faz estalar. Mas do amianto A fêbra dura Na chamma atura Sem se queimar.

    Tambem, Marilia, Não ha quem negue, Que bem que o fogo Nos oleos pegue, Que bem que em lingoas Ás nuvens chegue, Á força d’agoa Se ha de apagar. Se a negra pedra Nós accendemos, Com agoa a vemos Mais s’inflammar.

    O meu discurso, Marilia, he resto: A pena iguala Ao meu affecto. O amor que nutro Ao teu aspecto, E o teu semblante He singular. Ah! nem o tempo, Nem inda a morte A dôr tão forte Pode acabar.

    LYRA XXVI.

    Aquelle, a quem fêz cégo a Natureza, C’o bordão apalpa, e aos que vem pergunta; Ainda se despenha muitas vezes, E dois remedios junta.

    De ser céga a Fortuna eu não me queixo; Sim me queixo de que má céga seja Céga que nem pergunta, nem apalpa, He porque errar deseja.

    A quem gastar não sabe, nem se anima, Entrega as grossas chaves de hum thesoiro; E lança na miseria a quem conhece Para que serve o oiro.

    A quem fere, a quem rouba, a infame deixa Que a traz do vicio em liberdade corra, Eu honro as leis do Imperio, ella me opprime N’esta vil masmorra.

    Mas ah! minha Marilia, que esta queixa Co’ a sólida razão se não coaduna, Como me queixo da Fortuna tanto, Se sei não ha Fortuna?

    Os Fados, os Destinos, essa Deosa Que os Sábios fingem que huma roda move He só a occulta mão da Providencia, A sábia mão de Jove.

    Nós he que somos cegos, que não vemos; A que fins nos conduz por estes modos; Por torcidas estradas, ruins varedas Caminha ao bem de todos.

    Alegre-se o perverso com as ditas; C’o seu merecimento o virtuoso; Parecer desgraçado, ó minha bella, He muito mais honroso.

    LYRA XXVII.

    A minha amada He mais formosa Que branco lyrio, Dobrada rosa, Que o cinnamomo, Quando matiza Co’ a folha a flor. Venus não chega Ao meu Amor.

    Vasta campina De trigo chêa, Quando na sésta C’o vento ondêa, Ao seu cabello Quando flutua Não he igual. Tem a côr negra: Mas quanto val!

    Os astros, que andão Na esfera pura, Quando scintilão Na noite escura, Não são humanos, Tão lindos, como Seus olhos são. Que ao Sol excedem Na luz que dão.

    Ás brancas faces, Ah! não se atreve Jasmis de Italia, Nem inda a neve, Quando a desata O Sol brilhante Com seu calôr. São neve, e causão No peito ardôr.

    Na breve boca Vejo enlaçadas As finas per’las Com as granadas; A par dos beiços Rubins da India Tem preço vil. Nelles se agarrão Amores mil.

    Se não lhe désse Compadecido Tanto soccorro O Deos Cupido; Se não vivêra Huma esperança No peito seu; Já morto estava O bom Dirceo.

    Vê quanto póde Teu bello rosto; E de goza-lo O vivo gosto! Que sobmergido Em hum tormento Quasi infernal, Porqu’ inda espero Resisto ao mal.

    LYRA XXVIII.

    Deten-te, vil humano, Não espremas cicutas Para fazer-me damno. O çumo que ellas dão he pouco forte, Procura outras bebidas, Que apressem mais a morte.

    Desce ao Reino profundo, Ajunta ahi venenos, Que nunca visse o mundo; Traze o negro licôr, que tem nos dentes, Nos dentes retorcidos As raivosas serpentes.

    Cachopo levantado, Que pôz a Natureza, Dentro no Mar salgado, Não se abala no meio da tormenta, Bem que huma onda, e outra onda Sobre elle em flor rebenta.

    Arvore, que na terra Ás robustas raizes, Buscando o centro, afferra, Não teme ao furacão mais violento; E menos se se deixa Vergar do rijo vento.

    Sou tronco, e rócha, ó bella, Que açoita o Sul que brama, E o Mar, que se encapella: Não temas que do rosto a côr se mude: Vence as róchas, e os troncos A sólida Virtude.

    A maior desventura He sempre a que nos lança No horror da sepultura: O cobarde a morrer tambem caminha; Com que males não póde Huma alma como a minha?

    LYRA XXIX.

    Eu descubro procurar-me Gentil mancebo, e loiro, Trazia a testa adornada Com folhas de verde loiro. Vejo ser o Pai das Musas, E me entrega a lyra d’oiro.

    Já basta, me diz, ó filho, Já basta de sentimento; O cançado peixe exige Hum breve contentamento. Louva a formosa Marilia Ao som do meu instrumento.

    Firo as cordas; mas que importa? A dôr não socega em tanto. Ergo a voz, então reparo Que quanto mais corre o pranto He mais doce, e mais sonoro Meu terno, e saudoso canto.

    Apollo fitou os olhos Na mão, que regía o braço; E depois de estar suspenso, De me houvir hum largo espaço; Assim diz: _o Deos Cupido Faz inda mais do que eu faço_.

    _Eu te dou a minha lyra, Louva, louva a tua Bella; Porém vê que ta concedo Com condição, e cautella_… Eu lhe corto a voz, dizendo, Que só canto em honra della.

    LYRA XXX.

    O pai das Musas, O Pastor loiro Deo-me, Marilia, Para cantar-te A lyra de oiro.

    As cordas firo, O brando vento Teus dotes leva Nas brancas azas Ao firmamento.

    O teu cabello Vale hum thesoiro; Hum só me adorna A sabia frente Melhor que o loiro.

    Nesses teus olhos Amor assiste; Delles faz guerra; Ninguem lhe foge; Ninguem resiste.

    Algumas vezes Eu o diviso Tão bem occulto Nas lindas cóvas, Que faz teu riso.

    Nesses teus peitos Tem os seus ninhos Destros Amores, Nelles se gerão Os Cupidinhos.

    Vences a Venus, Quando com arte As armas toma, Porque mais prenda Ao fero Marte.

    Eu produzia Estas idéas, Quando, Marilia; O som escuto Das vis cadêas.

    Dou hum suspiro. Corre o meu pranto; E inda bebendo Lagrimas tristes, De novo canto.

    Sou da constancia Hum vivo exemplo. E vós, ó ferros, Honrareis inda De Amor o Templo.

    LYRA XXXI.

    Roubou-me, ó minha Amada, a sorte impía, Quanto de meu gosava N’um só funesto dia.

    Honras de maioral, manada grossa, Fertil, extensa herdade, Bem reparada chóça.

    Metteo-me nesta infame sepultura, Que he sepulcro sem honras, Breve masmorra, escura.

    Aqui, ó minha Amada, nem consigo, Venha outro desgraçado Sentir tambem comigo.

    Mas se esta companhia não mereço; Os Deoses me dão outra, Inda de mais apreço.

    Não he, não, illusão o que te digo; Tu mesma me acompanhas; Peno, mas he comtigo.

    Não vejo as tuas faces graciosas, Os teus soltos cabellos, As tuas mãos mimosas.

    Se eu as visse, infeliz me não dissera, Bem que subira ao Porto, Bem que na Cruz pendêra.

    Não ouço as tuas vozes magoadas, Com ardentes suspiros Ás vezes mal formadas.

    Mas vejo, ó cara, as tuas letras bellas; Huma por hum beijo, E choro então sobre ellas.

    Tu me dizes que siga o meu destino; Que o teu amor na ausencia Será leal, e fino.

    De novo a carta ao coração aperto, De novo a molha o pranto Que de ternura verto.

    Ah! leve muito embora o duro Fado; A tudo quanto tenho Com meu suor ganhado.

    Eu juro, que do roubo nem me queixe, Com tanto, ó minha cara, Que este só bem me deixe.

    Que males voluntarios não subírão, Os que te amão, sómente Porque menos te ouvírão?

    Dê pois aos mais seus bens a Deosa céga; Que eu tenho aquella gloria, Que a mil felizes nega.

    LYRA XXXII.

    Se o vasto mar se encapella, E na rócha em flor rebenta, Grossa náo, q’ não tem léme, Em vão sustentar-se intenta; Até que naufraga, e corre Á discrição da tormenta.

    Quem não tem huma Belleza, Em que ponha o seu cuidado, Se o Ceo se cobre de nuvens, E se assopra o vento irado, Não tem forças que resistão Ao impulso do seu fado.

    Nesta sombria masmorra, Aonde, Marilia, vivo, Encosto na mão o rosto, Fico ás vezes pensativo. Ah! que imagens tão funestas Me finge o pezar activo.

    Parece que vejo a honra, Marilia, toda enlutada, A face de hum pai rugosa, N’um mar de pranto banhada, Os amigos mascilentos, E a familia consternada.

    Quero voltar os meus olhos Para outro diverso lado, Vejo n’uã grande Praça Hum Theatro levantado. Vejo as Cruzes, vejo os Potros, Vejo o Alfanje afiado.

    Hum frio suor me cobre, Lação-se os membros, suspiro, Busco allivio ás minhas ancias, Não o descubro, deliro. Já, meu Bem, já me parece, Que nas mãos da morte espiro.

    Vem-me então ao pensamento A tua testa nevada, Os teus meigos, vivos olhos, A tua face rosada, Os teus dentes crystallinos, A tua boca engraçada.

    Qual, Marilia, a estrella d’alva, Que a negra noite affugenta, Qual o Sol, que a nevoa espalha Apenas a terra aquenta, Ou qual Iris, que o Ceo limpa, Quando se vê na tormenta.

    Assim, Marilia, desterro Triste illusão, e demencia; Faz de novo o seu officio, A razão, e a prudencia; E firmo esperanças doces Sobre a candida innocencia.

    Restauro as forças perdidas, Sóbe a viva côr ao rosto; Gyra o sangue pela vêa, E bate o pulso composto. Vê, Marilia, o quanto póde Contra os meus males teu rosto.

    FIM.

    MARILIA DE DIRCEO.

    POR

    F.A.G.

    TERCEIRA PARTE.

    LISBOA:

    Na Impressão Regia. Anno 1812.

    _Com licença_.

    _Vende-se na loja da Gazeta_.

    AO LEITOR.

    A geral acceitação, que a primeira, e segunda parte da Marilia de Dirceo tem devido ao Público, animou ao seu Editor a dar á luz huma terceira parte da dita Obra, a que fez juntar outras diversas Rimas do mesmo Author, que lhe fazem honra, e que abonão assás a distincta opinião que tem adquirido naquelle genero de Poesia. Adverte o Editor, que huma terceira parte da dita Marilia de Dirceo ha tempos publicada, he Obra de outro engenho, o que facilmente conhecerá ainda o Leitor menos intelligente.

    MARILIA DE DIRCEO.

    LYRA I.

    Convidou-me a vêr seu Templo O cego Cupido hum dia; Encheo-se de gosto o peito, Fiz deste Deos hum conceito Como delle não fazia.

    Aqui vejo descorados Os ternissimos amantes Entre as cadêas gemerem; Vejo nas piras arderem As entranhas palpitantes.

    _A quem ama quanto avista_, (Diz Cupido) _não aterra: Quem quer cingir o loureiro, Tambem vai soffrer primeiro Todo o trabalho da guerra_.

    _Com tudo que te dilates Neste sitio não convenho; Deixa a estancia lastimosa, Vem vêr a Salla formosa, Aonde o meu Solio tenho_.

    Entro n’outro grande Templo: Que perspectiva tão grata! Tudo quanto nelle vejo Passa além do meu desejo, E o discurso me arrebata.

    He de marmore, e de jaspe O soberbo frontespicio: He todo por dentro d’ouro, E a hum tão rico tesouro Inda excede o artificio.

    As janellas não se adornão De sedas de finas côres: Em lugar de cortinados Estão prezos, e enlaçados Fastões de mimosas flores.

    Em torno da Salla Augusta Ardem dourados brazeiros; Queimão rezinas, que estalão, E postas em fumo exalão Da Panchaya os gratos cheiros.

    Ao pé do Throno os seus Genios Alegres hymnos entoão: Danção as Graças formosas; E aqui as horas gostosas Em vêz de correrem, vôão.

    Estão sobre o pavimento, Igualmente reclinados Nos collos de seus amores, Os grandes Reis, e Pastores De frescas rosas coroados.

    Mal o acôrdo restauro, (Me diz, o Moço risonho:) _Como ainda não reparas Em tantas cousas tão raras, De que este Templo componho_?

    _Sabes a historia de Jove? Aqui tens o manso Touro; Tens o Cisne decantado; A Velha em que foi mudado, Com a grossa chuva d’ouro_.

    _Applica, Dirceo, agora Os olhos para esta parte: Aqui tens o verde Louro, Que inda estima o Pastor louro, E a Rede, que enlaça a Marte_.

    _Vês este Arco destramente De branco marfim ornado? Á Casta Deosa servia, E o perdêo quando dormia Do gentil Pastor ao lado_.

    _Vês esta Lyra? com ella Tira Orpheo ao bem querido Dos infernos aonde estava. Vês este Faról? guiava Ao meu nadador de Abydo_.

    _Vês estas duas Espadas Ainda de sangue cheias? A Thysbe, e a Dido matárão; E os fortes pulsos armárão De Pyramo, e mais de Eneas_.

    _Sabes quem vai no Navio, Que nesse mar se levanta? He Theseo. Vês esse Pomo? He de Cydippe, assim como São aquelles de Atalanta_.

    _Vê agora estes retratos, Que destros pinceis fizerão: Ah! que pinturas divinas! Todos são das Heroinas, Que mais victorias me dérão_.

    _Repara nesse semblante, He o semblante de Helena: Lá se avista a Grega Armada, E aqui de Troya abrazada Se mostra a funesta scena_.

    _Vês est’outra_ formosura? _He a bella Deidamía_; _Lá_ tem Achilles ao lado, _De huma saia disfarçado Como com ella vivia_.

    _Cleópatra he quem se segue: Alli tens lançando a linha Marco Antonio socegado, Ao tempo em que Augusto irado, Com armada mão caminha_.

    _Aqui Hermes se figura: Vê hum Sabio dos maiores, Qual infame delinquente, Ir desterrado sómente Por contar os seus louvores_.

    _Este he de Omphale o retrato: Aqui tens (quem o diria!) Ao grande Hercules sentado Com as mais damas no estrado, Onde em seu obsequio fia_.

    _Anda agora a est’outra parte: Conheces, Dirceo, aquella_? Onde váes? (lhe digo:) explica, Que belleza aqui nos fica, Sem fazeres caso della?

    Ergo os olhos ponho a vista Na imagem não explicada, Ó quanto he digna de appreço! Mal exclamo assim, conheço Ser a minha doce amada.

    O coração pelos olhos Em terno pranto sahia, E no meu peito saltava: Disfarçado Amor, olhava Para mim a furto, e ria.

    Depois de passado tempo, A mim se chega, e me aballa; Desperto de tanto assombro: Elle bate no meu hombro, E assim affavel me falla.

    _Sim, caro Dirceo, he esta A divina formosura, Que te destina Cupido; Aqui tens o laço urdido Da tua immortal ventura_.

    _O Numen, Dirceo, o Numen Que aos trabalhos de hum humano Desta sorte felicita, Não he, como se accredita, Não he hum Numen tyranno_.

    _Olha se a cega Fortuna De tudo quanto se cria, Ou nos mares, ou na terra, Em o seu thesouro encerra Outro bem de mais valia_?

    _Lizas faces côr de rosa, Brancos dentes, olhos bellos, Grossos beiços encarnados, Pescoço, e peitos nevados, Negros e finos cabellos_;

    _Não vale mais, que cingires Co’ braço de sangue immundo Na cabeça o verde louro? Do que teres montes d’ouro? Do que dares leis ao mundo_?

    _Ah! ensina, sim ensina Ao vil mortal atrevido, E ao peito que adora terno, Que tem para hum Inferno, Para o outro hum Ceo, Cupido_.

    Ao resto Amor me convida; Eu chorando a mão lhe beijo: E lhe digo, Amor, perdôa Não seguir-te; pois não vôa A vêr mais o meu dezejo.

    LYRA II.

    Em vão do amado Filho que foge, Venus quer hoje Noticias ter.

    Sagaz, e astuto Elle se esconde Em parte aonde Ninguem o vê.

    Dos signaes dados Bem se conhece, Que elle aborrece A Mãi que tem.

    Se os seus defeitos Ella publíca, Razão lhe fica De se offender.

    Foge o Menino, E disfarçado Vive abrigado N’uma cruel.

    Com mil caricias A impia o trata; Nem o desata Do peito seu.

    Se a semelhança Sempre amor gera, Deve huma fera Outra accolher.

    Ah! se o teu nome, Marilia, calo, Que de ti fallo Bem pódes crer.

    LYRA III.

    Tu não verás, Marilia, cem captivos Tirarem o cascalho, e a rica terra, Ou dos cercos dos rios caudelosos, Ou da minada Serra.

    Não verás separar ao habil negro Do pezado esmeril a grossa arêa; E já brilharem os granetes de ouro, No fundo da batêa.

    Não verás derrubar os virgens matos, Queimar as capoeiras inda novas, Servir de adubo á terra a fertil cinza, Lançar os grãos nas cóvas.

    Não verás enrolar negros pacotes Das secas folhas do cheiroso fumo; Nem espremer entre as dentadas rodas Da doce cana o sumo.

    Verás em cima da espaçosa meza Altos volumes de enredados feitos; Ver-me-has folhear os grandes livros, E decidir os pleitos.

    Em quanto revolver os meus Consultos, Tu me farás gostosa companhia Lendo os fastos da sabia, mestra Historia, Os Cantos da Poesia.

    Lerás em alta Voz a imagem bella; Eu vendo que lhe dás o justo appreço; Gostoso tornarei a lêr de novo O cansado processo.

    Se encontrares louvada huma belleza, Marilia, não lhe envejes a ventura, Que tens quem leve á mais remota idade A tua formosura.

    LYRA IV.

    Amor por acaso A hum pouso chegava, Aonde accolhida A Morte se achava.

    Risonhos, e alegres Os braços se dérão, E as armas unidas N’um sitio pozerão.

    De emprezas tamanhas Cansados já vinhão, E em larga conversa A noite entretinhão.

    Hum conta que ha pouco A seta aguçada Em huma belleza Deixára empregada.

    Diz outro que as flexas Cravára no peito De hum grande, que teve O Mundo sujeito.

    Em quanto das forças Cada hum persumia, Seus membros já laços O somno rendia.

    Dormindo tranquillos A noite passárão, E inda antes da Aurora Com ancia acordárão.

    _He tempo que o leito Deixemos, ó Morte_; Amor, já erguido Fallou desta sorte.

    _He tempo_, em resposta A morte repete, _Que á nossa fadiga Dormir não compete_.

    _As armas colhamos, Voltemos ao giro: Cada hum a seu gosto Empregue o seu tiro_.

    Vão inda c’os olhos Em somno turbados, Ao sitio em que os ferros Estão pendurados.

    Amor para as setas Da morte se enclina: De amor logo a Morte C’o as flexas atina.

    Oh golpes tyrannos! Oh mãos homicidas! São tiros da Morte De Amor as feridas.

    De hum sonho, que pinto, Marilia conhece, Se amor, ou se morte Este alma padece.

    LYRA V.

    Eu não sou, minha Nize, pegureiro, Que viva de guardar alhêo gado; Nem sou pastor grosseiro Dos frios gêlos, e do Sol queimado, Que veste as pardas lãs do seu cordeiro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    A Cresso não igualo no thesouro: Mas deo-me a Sorte com que honrado viva. Não cinjo corôa d’ouro; Mas Póvos mando, e na testa altiva Verdeja a Corôa do Sagrado Louro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    Maldito seja aquelle, que só trata De contar escondido a vil riqueza! Que cego se arrebata Em buscar nos Avós a vã nobreza, Com que aos mais homens seus iguaes abata. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    As fortunas que em torno de mim vejo, Por falsos bens que enganão não reputo; Mas antes mais desejo, Não para me voltar soberbo em bruto Por vêr-me grande quando a mão te beijo. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    Pela Ninfa que jaz vertida em Louro, O grande Deos Apollo não delira? Jove mudado em Touro, E já mudado em Velha não suspira? Seguir aos Deoses nunca foi desdouro. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella.

    Pertendão Hanibaes honrar a Historia, E cinjão com a mão de sangue chêa Os louros da victoria. Eu revolvo os teus dons na minha idéa: Só dons que vem do Ceo são minha gloria. Graças, ó Nize bella, Graças á minha Estrella!

    LYRA VI.

    _Traducção_.

    Amor que seus passos Ligeiro movia, Por mil embaraços Que hum bosque tecia.

    Nos hombros me acena Com brando raminho; E logo me ordena Que siga o caminho.

    Por entre a espessura Do bosque me avanço: E a traz da ventura Incauto me lanço.

    Já tinha calcado Os montes mais duros: C’o peito rasgado Os rios escuros.

    Eis que huma serpente A lingua vibrando, Me crava o seu dente, Me deixa espirando.

    Então surprendida Da dôr que a traspassa, Minha alma ferida Aos beiços se passa.

    As iras detesta Amor isto vendo, E as azas na testa Me bate dizendo:

    _Tu choras, tu gemes Da Serpe tocado, E o braço não temes De hum Numen irado_?

    LYRA VII.

    Tu, formosa Marilia, já fizeste Com teus olhos ditosas as campinas, Do turvo Ribeirão em que nasceste: Deixa, Marilia, agora As já lavradas terras; Anda affoita romper os grossos mares, Anda encher de alegria estranhas terras. Ah! que por ti suspírão Os meus saudosos lares.

    Não corres como Sapho sem ventura Em seguimento de hum cruel ingrato, Que não sede aos encantos da ternura: Segues a hum fino amante, Que a perder-te morria. Quebra os grilhões do sangue, e vem, ó bella; Tu já foste no Sul a minha guia. Ah! deves ser no Norte Também a minha Estrella.

    Verás ao Deos Neptuno socegado Aplainar co’ tridente as crespas ondas; Ficar como dormindo o mar salgado. Verás, verás d’ alheta Soprar o brando vento, Mover-se o léme, disrinzar-se o linho, Seguirem os Delfins o movimento, Que leva na carreira O empavezado pinho.

    Verás como o Leão na prôa arfando Converte em branca espuma as negras ondas E as talha, e corta com murmurio brando. Verás, verás Marilia Da janella dourada, Que huma comprida estrada representa A linfa cristalina, que pizada Pela poupa que foge Em borbotões rebenta.

    Bruto peixe verás de corpo immenso, Tornar ao torto anzol depois de o terem Pela rasgada boca ao ar suspenso: Os pequenos peixinhos Quaes passaros voarem: De toninhas verás o mar coalhado, Ora surgirem, ora mergulharem, Fingindo ao longe as ondas Que fórma o vento irado.

    Verás que o grande monstro se apresenta Hum repuxo formando com as aguas, Que ao ar espalha da robusta venta. Verás em fim, Marilia, As nuvens levantadas Humas de côr azul, ou mais escuras, Outras de côr de rosa, ou prateadas Fazerem no Orizonte Mil diversas figuras.

    Mal chegares á foz do claro Téjo, Apenas elle vir o teu semblante Dará no léme do baixel hum beijo. Eu lhe direi vaidoso: Não trago, não comigo Nem pedras de valor, nem montes d’ouro, Roubei as aureas Minas, e consigo Trazer para os teus cofres Este maior Thesouro.

    LYRA VIII.

    Em cima dos viventes fatigados As verdes dormideiras espremia, Os mentirosos sonhos me cercavão. Na vaga fantasia Ao vivo me pintavão As glorias, que disperto Meu coração pedia.

    Eu vou, eu vou subindo a Náo possante Nos braços conduzindo a minha bella; Voltêa a grande roda, e a grossa amarra Se enlêa em torno della: Já ponho a prôa á barra, Já cáhe ao som do apito Ora huma, ora outra véla.

    Os arvoredos já se não distinguem: A longa praia ao longe não branqueija; E já se vão sumindo os altos montes. Já não ha que se veja Nos claros Orizontes, Que não sejão vapores, Que Ceo, e mar não seja.

    Parece vão correndo as negras ondas, E o pinho qual rochedo estar parado: Ergue-se a onda, vem á Náo direita E quebra no costado: O Navio se deita, E ella finge a ladeira Sahindo do outro lado.

    Vejo nadarem os brilhantes peixes; Cahir do Láes a linha, que os engana: Hum dourado no anzol está pendente, Soffre morte tyranna; Entre tanto que a sente Ao tombadilho açoita A cauda, e a barbatana.

    Sobre as ondas descubro huma Carroça De formosas conchinhas enfeitada; Delfins a movem, e vem Thetis nella: Na popa está parada: Nem póde a Deosa bella Tirar os brandos olhos Da minha doce amada.

    Nas costas dos Golfinhos vem montados Os nûz Tritões, deixando a Esfera cheia Co’ rouco som dos buzios retorcidos. Recrêa, sim recrêa Meus attentos ouvidos O canto sonoroso Da musica Serêa.

    Já sóbe ao grande mastro o bom gageiro; Descobre arrumação, e grita terra: Á murada caminha alegre a gente; Alguns entendem que erra: Pelo immovel sómente Conheço não ser nuvem, Sim o cume de alta serra.

    De Mafra já descubro as grandes torres; (E que nova alegria me arrebata!) De Cascaes a muleta já vem perto, Já de abordar-nos trata: Já o piloro esperto Inda debaixo manda Soltar mezena, e gata.

    Eu vou entrando na espaçosa barra: A grossa artilheria já me atrôa. Lá ficão Paço de Arcos, e a Junqueira. Já corre pela prôa Huma amarra ligeira; E a Náo já fica surta Diante da grã Lisboa.

    Agora, agora sim, agora espero Renovar da amizade antigos laços: Eu vejo ao velho Pai, que lentamente Arrasta a mim os passos: Ah como vem contente! De longe mal me avista Já vem abrindo os braços.

    Dóbro os joelhos pelos pés o aperto, E manda que dos pés ao peito passe: Marilia quanto eu fiz fazer intenta; Antes que os pés lhe abrace Nos braços a sustenta; Dá-lhe de filha o nome, Beija-lhe a branca face.

    Vou a descer a escada (ó Ceos!) acórdo, Conheço não estar no claro Tejo. Abro os olhos, procuro a minha amada, E nem se quer a vejo. Venha a hora affortunada, Em que não fique em sonhos Tão ardente desejo.

    _A huma despedida_.

    Chegou-se o dia mais triste, Que o dia da morte fêa: Cahi do throno Dircéa, Do throno dos braços teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Impio Fado, que não pôde Os doces laços quebrar-me, Por vingança quer levar-me Distante dos olhos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, e vou sem vêr-te, Que neste fatal instante, Ha de ser o teu semblante Mui funesto aos olhos meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    E crês, Dircéa, que devem Vêr meus olhos penduradas Tristes lagrimas salgadas Correrem dos olhos teus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    De teus olhos engraçados, Que podérão piedosos, De tristes em venturosos Converter os dias meus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos divinos, Que ternos, e socegados, Enchem de flores os prados, Enchem de luzes os Ceos? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Desses teus olhos em fim, Que domão Tigres valentes? Que nem rigidas Serpentes Resistem aos tiros seus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Da maneira que serião Em não vêr-te criminosos Em quanto forão ditosos, Agora serião réos. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Parto em fim, Dircéa bella, Rasgando os ares cinzentos; Virão nas azas dos ventos Buscar-te os suspiros meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Talvez, Dircéa adorada, Que os duros Fados me neguem A gloria de que elles cheguem Aos ternos ouvidos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    Mas se ditosos chegarem, Pois os sólto a teu respeito; Dá-lhes abrigo no peito, Junta-os c’os suspiros teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    E quando tornar a vêr-te Ajuntando rosto, a rosto, Entre os que dérmos de gosto; Restitue-me então os meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te meu bem adeos.

    CANÇÃO.

    Dês que vi, formosa Elvira, Os teus divinos cabellos, Esses vivos olhos bellos, Que invéja dos astros são, Foi-se, Elvira, foi-se embora Toda a paz do coração. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Em quanto, Elvira, se occulta A meus olhos teu semblante, Hum minuto, hum breve instante Parece que fim não tem. Se alcanço de vêr-te a gloria, Então vôa o tempo bem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando te ris por acaso Para outro qualquer sugeito, Estala dentro do peito De ciume o coração: Se me pões os olhos julgo Que zombas de mim então. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando ha brinco na floresta, E a divina Olaia canta, O mesmo gado levanta A cabeça para ouvir. Só por mais que Alceo forceje Não póde o prazer fingir. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando levo á clara fonte O rebanho do meu gado, Cáhe-me da mão o cajado, E com ella á testa vou: Fico pasmado, e ignoro O lugar aonde estou. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando vou segar o trigo, (Olha bem como ando cego.) N’uma parte nelle pego, Metto n’outra a fouce em vão; Dos que vem alguns se riem, Outros mostrão compaixão. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando me deito no colmo, Sempre sonho que te vejo, Que te fallo, e que te beijo A branca nevada mão. Acórdo, Pastora, e foges: Eu fico mais triste então. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando alguem meu mal pergunta, Bem que seja a vez primeira, Rompo ainda que não queira O segredo sem saber. O teu nome, Elvira, digo, Quando devo o seu dizer. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Fujo ao trato dos pastores, Para hum bosque me retiro; Com desafogo suspiro, E chamo por ti meu bem. Os valles que se enternecem Chamão-te ao longe tambem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Quando escuto o triste mocho A gemer no meu telhado, Qualquer mal excogitado Não me deve algum temor: Só receio que me agoure Máo successo ao meu amor. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    Os pastores que me avistão Com o dedo já me apontão, E á roda do fogo contão Da maneira que me vem. Sou o exemplo dos amantes Que esta nossa Aldêa tem. E talvez, talvez que Elvira Nem se lembre de que Alceo, Se suspira, Se delira, He só por motivo seu.

    SONETO I.

    He gentil, he prendada a minha Altéa; As graças, a modestia do seu rosto Inspírão no meu peito maior gosto, Que vêr o proprio trigo quando ondêa.

    Mas vendo o lindo gesto de Dircéa A nova sugeição me vejo exposto; Ah! que he mais engraçado, mais composto, Que a pura Esfera de mil astros chêa.

    Prender as duas com grilhões estreitos He huma acção (ó Deoses!) inconstante, Indigna de sinceros, nobres peitos.

    Cupido, se tens dó de hum triste amante, Ou fórma de Lorino dous sugeitos, Ou fórma desses dous hum só semblante.

    SONETO II.

    N’um fertil campo do soberbo Douro, Dormindo sobre a relva descançava, Quando vi que a Fortuna me mostrava Com alegre semblante o seu Thesouro.

    De huma parte h[~u] montão de prata, e ouro Com pedras de valor o chão curvava; Aqui hum sceptro, alli hum trono estava, Pendião coroas mil de grama, e louro.

    _Acabou-se_ (diz-me então) _a desventura: De quantos bens te exponho qual te agrada, Pois benigna os concedo, vai, procura_.

    Escolhi, acordei, e não vi nada: Commigo assentei logo que a ventura Nunca chega a passar de ser sonhada.

    SONETO III.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia; Accreditei as vozes, cri, Ormia, Que a tua singeleza igualaria Á tua mais que angelica apparencia.

    Enganei-me, enganei-me, paciencia; Ao menos conheci que não devia, Pôr nas mãos de huma externa galhardia O prazer, o socego, e a innocencia.

    Enganei-me, Cruel, com teu semblante, E nada me admiro de faltares, Que esse teu sexo nunca foi constante.

    Mas tu perdestes mais em me enganares; Que tu não acharás hum firme amante, E eu posso de traidoras ter milhares.

    SONETO IV.

    Ainda que de Laura esteja ausente, Ha de a chama durar no peito amante; Que existe retratado o seu semblante, Se não nos olhos meus, na minha mente.

    Mil vezes finjo vêla, e eternamente Abraço a sombra vã; só nesse instante Conheço que ella está de mim distante, Que tudo he illusão que esta alma sente.

    Talvez que ao bem de a vêr Amor resista; Porque minha paixão, que aos Ceos he grata, Por innocente assim melhor persista:

    Pois quando só na idéa ma retrata, Debuxa os dotes com que prende vista, Esconde as obras com que offende ingrata.

    SONETO V.

    Ao Templo do Destino fui levado: Sobre o Altar hum Cofre se firmava, Em cujo seio cada qual buscava Tremendo annuncio do futuro estado.

    Tiro hum papel, e leio: Ceo Sagrado! Com quanta causa o coração pulsava: Este duro Decreto escrito estava, Com negra tinta pela mão do Fado.

    _Adore Polidoro a bella Ormia, Sem della conseguir a recompensa, Nem quebrar-lhe os grilhões a tyrannia_.

    Das mãos, Amor mo arranca, e sem detença Tres vezes o levando á boca impía, Jurou comprir á risca a tal sentença.

    SONETO VI.

    Ergue-te, ó Pedra, e desde a margem fria, Que os muros banha a Lusitana Athenas, Mostra-me as desmaiadas assucenas Do rosto que me occupa a fantasia.

    Deixa [~q] eu beije a mão, [~q] pôde hum dia Ceder de amor ás lastimosas scenas; Q’entre as ancias, a dôr, a mágoa, as penas Renove a saudosa idolatria.

    Solto do véo mortal, oh Feliz Astro, Une ao cadaver a truncada testa, Levanta o bello cólo de alabastro:

    Huma alma grande junto a ti protesta Fazer a gloria da defunta Castro; A illustre Neta vez: Maria he esta.

    _Á Illustrissima e Excellentissima Senhora Condessa de Cavalleiros, D. Maria José de Eça e Bourbon_.

    SONETO VII.

    Quantas vezes Lidora me dizia, Ao terno peito minha mão levando, Conjurem-se em meu mal os Astros, quando Achares no meu peito aleivosia.

    Então que não chorasse lhe pedia, Por firme seu amor acreditando; Ah! que em movendo os olhos suspirando Ao mais acautellado enganaria.

    Hum anno assim viveo: ó Ceos! agora Mostrou que era mulher: a natureza Só por não se mudar a fez traidora.

    Não, não darei mais cultos á belleza, Que depois de faltar á fé, Lidora, Nem creio que nas Deosas ha firmeza.

    SONETO VIII.

    O Numen Tutelar da Monarquia, Que fez do grande Henrique a invicta espada, Procurou dos Destinos a morada, Por consultar a idade que viria.

    A mil, e mil heróes descriptos via, Que exaltão de Furtado a estirpe honrada, E na serie, que adora dilatada, O nome de Francisco descobria.

    Contempla huma por h[~u]a as letras d’ouro, Este penhor, que o tempo não consome, Promette ao Reino seu maior thesouro.

    Prosta-se o Genio: e sem [~q] a empreza tome De lhe buscar sequer mais outro agoiro, O sitio beija, e lhe mostra o nome.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Visconde de Barbacena, Francisco Furtado de Mendonça_.

    SONETO IX.

    Nascer no berço da maior grandeza, De palmas, e de louros rodeado, Deve-se aos grandes Pais, ao Tronco honrado, Que illusrra desde longe a natureza.

    Se porém muito mais se adora, e preza O dom que o nobre sangue trás herdado Pela propria virtude sustentado, Feliz o objecto da presente empreza.

    De mil Heróes no Téjo vencedores Hum ramo nasce, hum ramo que a memoria Faz immortal de seus Progenitores.

    Eu leio em vaticinio a sua historia; Une Francisco a par de seus maiores Ao herdado explendor a propria gloria.

    _Ao mesmo excellentissimo Visconde_.

    SONETO X.

    Mudou-se em fim Lidora, essa Lidora Por quem mil vezes fé me foi jurada; Que vos detem (ó Ceos!) que castigada Ainda não deixais tão vil traidora?

    Não haja piedade: sinta agora A dita sem remedio em mal trocada; Pois se assim não succede, fica ousada Para ser outra vez enganadora.

    Vingai, ó justos Ceos…, mas ah! [~q] digo? Que maltrateis Lidora? o sentimento Privou-me do discurso, eu me desdigo.

    Não, não vibreis o raio violento; Pois sei que a compaixão do seu castigo, Hade augmentar depois o meu tormento.

    SONETO XI.

    A Deos cabana, a Deos; a Deos, ó gado, Albina ingrata, a Deos, em paz te deixo: A Deos doce rabil, neste alto freixo Te fica ao meu destino consagrado.

    Se te for meu successo perguntado, Não declares rabil de quem me queixo; Não quero que se saiba vive Aleixo Por causa de huma infame desterrado.

    Se vires a Pastor desconhecido, Lhe dize então piedoso: Ah! vaite embora, Atalha os damnos, que outros tem sentido.

    Habita nesta Aldêa huma Pastora De rosto bello, coração fingido, Humas vezes cruel, e as mais traidora.

    SONETO XII.

    Com pezadas cadeias maniatado, Ás vozes da razão insurdecido, Dos Ceos, de mim, dos homens esquecido Me vi de amor nas trévas sepultado.

    Alli aliviava o meu cuidado Cõ dar de quando em quando algum gemido: Ah tempo! que sómente reflectido Me fazes entre as ditas desgraçado.

    Assim vivia, quando a falsidade De Laura me tornou n’um breve dia Quanto a razão não pôde em longa idade.

    Quebrei o vil grilhão que me opprimia: Ó feliz de quem gosa a liberdade! Bem que venha por mãos da aleivosia.

    SONETO XIII.

    Obrei quanto o discurso me guiava; Ouvi os Sabios quando errar temia: Aos bons no gabinete o peito abria; Na rua a todos como iguaes honrava.

    Julgando os crimes nunca voto dava Mais duro, ou pio do que a Lei pedia; Mas podendo salvar o justo ria, E devendo punir ao réo chorava.

    Nem forão, Villa Rica, os meus intentos Metter em ferreo cofre copia d’ouro, Que chegue aos filhos, e que passe aos netos.

    Outras são as venturas que me agouro: Ganhei saudades, adquiri affectos, Vou fazer destes bens melhor thesouro.

    _Feito quando o Author acabou o Lugar de Ouvidor de Villa Rica, e foi despaçhado para Desembargador da Bahia_.

    SONETO XIV.

    Quando o torcido buço derramava Terror no aspecto ao Portuguez sisudo, Quando sem pó, nem oleo o pente agudo Duro intonso o cabello em laço atava.

    Quando contra os Irmãos o braço armava O forte Nuno oppondo escudo, a escudo; Quando a palavra que perfere a tudo Com a barba arrancada João firmava.

    Quando a mulher á sombra do marido Tremer se via: quando a Lei prudente Zelava o sexo do civil ruido;

    Feliz então, então só innocente Era de Luso o Reino: oh bem perdido! Ditosa condição, ditosa gente!

    SONETO XV.

    Sombras illustres dos varões famosos, Que á Grecia, e Roma destes Leis hum dia; Vós que do Elysio na região sombria Respiraes entre os Zefiros mimosos.

    Grande Licurgo, ó tu Solon, [~q] honrosos Louros cingis, que egregia companhia Fazeis aos Mazzarinos, eu queria Adorar vossos vultos magestosos.

    Vós fizesteis da vossa Patria a gloria; Por vós hoje he feliz a humanidade: Que dignos sois de huma immortal historia!

    Cesce, cesse porém vossa vaidade; Que basta a escurecer vossa memoria Hum Carvalho, que adora a nossa idade.

    _Ao Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Marquez de Pombal reformando a Universidade de Coimbra_.

    SONETO XVI.

    As molles azas a bater começa Entre as palhas o tenro passarinho, E largos dias por deixar o ninho Se cança, se fadiga, se arremeça.

    H[~u] impulso, outro impulso é vão se apresa, Já se firma no pé, já no biquinho, Nas folhas se tem, passa ao raminho Té que a penna se esforce, e se endureça.

    Quando emfim he capaz de movimento Deixa os arbustos vaga pelos ares, E sobre as altas faias toma assento:

    Estes sejão, Salicio, os exemplares Em que a vossa virtude anime o alento, Porque hum dia da Fama honre os Altares.

    _Ao Illustrissimo Senhor Luiz Beltrão de Gouvea_.

    ODE.

    Se entre as louras arêas Do meu Jaquitinhonha, hum Genio erguido Ás Regiões alheas Manda que em doce metro reppetido Hoje o teu Nome leve, Tanto á virtude, meu Beltrão, se deve.

    Vejo a sordida inveja De ira morder-se, e as serpes sacudindo Por se tragar forceja: De pejo, e de vergonha em vão cobrindo Co’ as frias mãos o rosto, Geme a calumnia no mortal desgosto.

    Vós, Genios fortunados, Que do Templo da Gloria honrais a estancia, Os meritos sagrados Cantai do bom Ministro: He a constancia, A sabia fortaleza He quem o guia na maior empreza.

    Se os rigidos palmares Da Idumeya consulto; o bravo Noto Os tormentosos ares Não podem mais dobralos: zomba immoto, Nem ás ondas tem medo Sobranceiro ao Egeo, firme penedo.

    Tal a constancia tua Em meio foi dos perfidos rumores; A verdade, que nua Derramava em teu rosto as vivas côres, Sobre as aras decentes Vio por triunfo mil trofeos pendentes.

    A vigilancia, o zelo, A rectidão do espirito; elevada Ao gráo mais rico, e bello, Essa virtude, que nos traz provada Em meio dos Thesouros A sã virtude, que enobrece os Louros:

    Tudo, tudo apparece Sabio Ministro da victoria ao lado; Athenas, que me offerece No seu público Erario accreditado Aristides, o Justo, Em ti acena o seu modelo augusto.

    Mil vezes orgulhosa Negra calumnia o seu desterro tenta; A virtude preciosa Contra o fero Themistocles sustenta. Não ha força que baste, Não ha poder que o peito lhe contraste.

    Feliz o Rei, o Povo, Feliz tambem de Themis a ballança; De hum modo raro, e novo Nas tuas mãos eu vejo, que descança: Aos premios, ao castigo Se reparte sem queixa o braço amigo.

    Ah! sinta a nossa idade De hum sangue illustre, de hum talento raro A próvida igualdade! Melhor do que nos marmores de Pharo, Em memoria nos vindouros T’ergue o Serro h[~u] Padrão nos seus Thesouros.

    _Imitando o sonho de Scipião_.

    ODE.

    Já vou tocando, ó Licio, De Lustros dez o fatigado termo; E já meu corpo enfermo Se avisinha da morte ao duro officio: Que cedo o meu destino me promette Calcar as sombras do medonho Lethe!

    Eu descerei contente A ver os Manes dos Avós amados; Que bem aventurados, Se outro mundo tratarão, se outra gente! Não virão elles, como eu triste vejo, O velho mando peiorar sem pejo.

    Passárão da innocencia Pela candida estrada os pés levando; Inda a fera violencia Não corrompia da Justiça o mando; Praticava-se a próvida igualdade Entre a Santa Virtude, e a vil maldade.

    A pura fé do Amigo, Renovava de Orestes a memoria: Commum era o perigo, Reciproca tambem a pena, a gloria: Que traições, e que enganos tem disposto Em nossos dias hum fingido rosto!

    Tudo se vê mudado Nesta idade fatal em que de ferro O Idolo adorado Torpemente protege o crime, o erro: Como de susto, e de vergonha cheia Se retira de nós a bella Astrea!

    Ah! E quem de teus laços Deve ao pezo gemer, ó mundo cego? Rotos em mil pedaços Os teus grilhões a pendurar já chego; Não mais os teus encantos me deleitem, Estes miseros restos se aproveitem.

    Que differentes climas Já me finjo habitar! Os brandos ares, Que tu Zefiro, animas Que prazeres me inspirão! Dos pezares, Das magoas, do desgosto, e do tormento Aqui não sôa o tragico lamento.

    Sôlto do mortal manto Cuido que o centro dos Elysios piso! Oh quanto he bella, quanto A margem deste Lago! Em fresco riso Lirios, e rosas, quaes não colhe Flora, Aqui saudão a perpetua Aurora.

    Adoravel sciencia, Que encheste as noites, e esgotaste os dias, Da humana intelligencia, Agora sei quam longe te desvias! Este o seio da luz, aonde tudo Sem fadiga se alcança, e sem estudo!

    O número, a distancia Dos Orbes Celestiaes já sabio admiro: Noto a eterna constancia Do Planeta da Luz; observo o giro Da Terra, que regula a varia face Com que a proxima Lua, ou morre, ou nasce.

    Certa, e firme a carreira Já marco de Saturno, Marte, ou Jove, Da esfera derradeira Contemplo a força, que os mais Orbes move; A harmonia me encanta acorde, e rara, Que de Samos o Sabio já notára.

    Aqui se patentêa Dos errados systemas o conceito; E longe a minha idéa De vacilar, já firma o mais perfeito. Quem senão tu, ó Genio, sobre humano Libertar me podéra deste engano!

    De Massinissa o Paço De Carthago ao Heróe tal scena pinta: Ao soberbo ameaço Da Fortuna, elle vê clara, e distincta, Qual o meu Genio me retrata agora, A bella Patria, onde o descanço mora.

    He este, ó Licio, he este Sem dúvida, o Paiz bello, e sereno, Aonde em paz celeste Não respira da inveja o atroz veneno: E aonde livres da infeliz mudança Descança o teu, e o meu bom Pai descança.

    Que doce companhia Deveremos fazer-lhes? Ah se apresse O momento que hum dia Tão gostosa união nos lavra, e tece! Cheguemos a beijar as Mãos Sagradas, Que enchem de gloria as immortais Moradas.

    Em praticas suaves Alli as breves horas gastaremos; Nem já nos serão graves Na lembrança os trabalhos que aqui temos; Nem da pezada humanidade nossa Pena haverá, que atormentar-nos possa.

    Mas tu, que dos humanos Reges, ó Grande Deos, a dubia sorte; Tu, que a meta dos annos Firmas, descendo de teu mando a morte, Dilata os dias do meu Licio, em quanto, Douto me instrue, e me entertem seu canto.

    FIM

    End of Project Gutenberg’s Marilia de Dirceo, by Tomás António Gonzaga

  • Luar de Janeiro

    Luar de Janeiro

    Aproximadamente 6.229 palavras.

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    Augusto Gil

    Luar de Janeiro

    [Figura: Olhos Olhae a Direito]

    Luar de Janeiro

    AUGUSTO GIL

    *Luar de Janeiro*

    LISBOA

    1909

    Edição da empreza d'A Lanterna–Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

    Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

    Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
    sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
    de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
    existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

    Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
    subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
    estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
    latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
    conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
    encontrou–já não quero como artista, porque a esse as influencias
    ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações–mas
    na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
    retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
    caturra,–ou um simples.

    Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

    Adeante.

    Novembro de (1)909.

    O auctor

    De la musique encore et toujours

    * * * * *

    Que ton vers soit la bonne aventure
    Éparse au vent crispé du matin
    Qui va fleurant la menthe et le thym,
    _Et tout le reste est litterature_.

    Verlaine

    Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
    savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
    tête-à-tête–et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
    Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
    faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
    page, celle que ce livre encore annonce et ordone–_tu sais, tu
    comprends et tu pardonnes_…

    Charles Morice.

    _A Coelho de Carvalho_

    _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
    claridade dos seus talentos.

    Luar de janeiro,
    Fria claridade

    Á luz delle foi talvez
    Que primeiro
    A bocca dum português
    Disse a palavra saudade…

    Luar de platina,
    Luar que allumia
    Mas que não aquece,
    Photographia
    D'alegre menina
    Que ha muitos annos já… envelhecesse.

    Luar de janeiro,
    O gelo tornado
    Luminosidade…
    Rosa sem cheiro,
    Amor passado
    De que ficasse apenas a amizade…

    Luar das nevadas,
    Algido e lindo,
    Janellas fechadas,
    Fechadas as portas
    E elle fulgindo,
    Limpido e lindo,
    Como boquinhas de creanças mortas,
    Na morte geladas
    –E ainda sorrindo…

    Luar de janeiro,
    Luzente candeia
    De quem não tem nada,
    –Nem o calor dum brazeiro,
    Nem pão duro para a ceia,
    Nem uma pobre morada…

    Luar dos poetas e dos miseraveis,
    Como se um laço estreito nos unisse,
    São similhaveis
    O nosso mau destino e o que tens…

    De nós, da nossa dôr, a turba–ri-se
    –E a ti, sagrado ladram-te os cães!

    [Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
    d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
    pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
    Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
    Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
    Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
    do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
    vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
    Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
    eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

    O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]

    SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

    _A João Barreira_

    «Em Evora vi um menino…
    …Que a dois annos não chegava
    …Era de maravilhar»…

    Garcia de Rezende. _Miscellanea._

    Num convento solitario
    D'Evora, cidade clara,
    Claro celleiro de pão,
    Existe uma imagem rara
    Obra dum imaginario
    Dos tempos que já lá vão…

    É um menino Jesus,
    De bochechinha brunida
    Côr de maçã camoeza,
    Mas no seu rosto transluz
    Uma expressão dolorida
    Que enche a gente de tristeza…

    De tantissimas imagens
    Nenhuma vi que mais prenda,
    Que maior ternura expanda,
    Com suas calças de renda,
    Seu vestido de ramagens,
    –E corôa posta á banda…

    Gordo, nedio, bem trajado,
    Deveria ser feliz,
    Deveria estar sorrindo;
    Mas o seu olhar maguado,
    Tão maguado, tão lindo,
    Que não o é, bem n'o diz…

    Se não fosse por ser Deus
    E o seu poder infinito
    Ter sempre que o demonstrar,
    Cá na terra e lá nos ceus,
    Estenderia o beicito
    –E desatava a chorar!…

    Corre o tempo descuidado,
    Passa uma hora, outra hora,
    Atraz desta outras se vão
    E, quem o vê, encantado,
    Sem se poder ir embora
    Numa perpetua attração…

    Eu entrei com sol a pino.
    Pouco depois da chegada
    (Pouco a mim me pareceu)
    Deixei de ver o Menino…
    Não era a vista cançada,
    –Foi a noite que desceu…

    Mesmo assim lá ficaria
    Absorto em muda prece
    De quem mal sabe rezar,
    Se o sacristão não viesse,
    Com rodas de Senhoria,
    Dizer-me que ia fechar…

    Pudesse tel-o trazido
    E não fosse eu rico, apenas
    De phantasias, d'esp'ranças,
    Punha-o num nicho florido
    Por sobre as camas pequenas
    Dum hospital de creanças…

    Dum hospital modelar
    Sustentado por meus bens,
    Entre olaias e roseiras,
    Cheio de sol, cheio d'ar,
    E em que as boas enfermeiras
    –Seriam as proprias mães…

    A mais ampla enfermaria
    Desse escolhido local
    De bondade e soffrimento
    –Era o fundo natural
    Da funda melancolia
    Do Menino do convento…

    BALLADA DA NEVE

    Il pleure dans mon coeur
    Comme il pleut sur la ville.

    Verlaine

    _A Vicente Arnoso_

    Batem leve, levemente
    Como quem chama por mim…
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é certamente
    E a chuva não bate assim…

    É talvez a ventania;
    Mas ha pouco, ha poucochinho,
    Nem uma agulha bolia
    Na quieta melancolia
    Dos pinheiros do caminho…

    Quem bate assim levemente
    Com tão estranha leveza
    Que mal se ouve, mal se sente?…
    Não é chuva, nem é gente,
    Nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve cahia
    Do azul cinzento do ceu
    Branca e leve, branca e fria…
    –Ha quanto tempo a não via!
    E que saudades, Deus meu!

    Olho-a atravez da vidraça.
    Poz tudo da côr do linho.
    Passa gente e quando passa
    Os passos imprime e traça
    Na brancura do caminho…

    Fico olhando esses signaes
    Da pobre gente que avança
    E noto, por entre os mais,
    Os traços miniaturais
    Duns pézitos de creança…

    E descalcinhos, doridos…
    A neve deixa inda vel-os
    Primeiro bem definidos,
    –Depois em sulcos compridos,
    Porque não podia erguel-os!…

    Que quem já é peccador
    Soffra tormentos, emfim!
    Mas as creanças, Senhor,
    Porque lhes daes tanta dôr?!…
    Porque padecem assim?!…

    E uma infinita tristeza
    Uma funda turbação
    Entra em mim, fica em mim prêsa.
    Cae neve na natureza…
    –E cae no meu coração.

    TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

    _A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha

    Oh Desgraça! vae-te embora,
    Que esta linda criancinha
    Andou no meu ventre e agora
    Trago-a nos braços. É minha!…

    Do berço, segue-me os passos;
    Onde eu vou, seus olhos vão…
    E quando a aperto nos braços
    –Abraço o meu coração.

    Quando o seu chôro receio,
    Embalo-a, faço que acceite
    A alegria do meu seio
    Na brancura do meu leite…

    E quando assim não descança,
    Que tristezas me consomem!
    –Mas antes chore em creança
    Que depois, quando fôr homem…

    Se ao dal-o ao mundo soffri
    Tormentos, ancias mortaes,
    Desgraça, vae-te d'aqui,
    O que pretendes tu mais?!

    Bate as azas, mas ao voares,
    Não me apagues esta estrella.
    Se alguem d'aqui precisares,
    –Aqui me tens, em vez della!

    Tocam ás ave-marias.
    Foi-se o sol. Não vem a lua.
    Luzinha que me allumias,
    Que sorte será a tua?…

    Riquezas tenhas tão grandes,
    E tal bondade tambem,
    Que ao redor d'onde tu andes
    Não fique pobre ninguem.

    Que a todos chegue a ventura:
    Toda a bocca tenha pão,
    Toda a nudez cobertura,
    Toda a dôr, consolação…

    Mas se o oiro é mau caminho,
    –Antes tu venhas a ser
    O pobre mais pobrezinho
    De quantos pobres houver.

    Iremos por esses montes
    Altos e azues, como os céus…
    Que onde ha fructos e onde ha fontes,
    –Está a meza de Deus!

    E, quando a neve cahir
    E as seivas adormecerem,
    Iremos então pedir…
    (Acceitar o que nos derem!)

    Andaremos á mercê
    Dos genios bons, e dos falsos,
    Leguas e leguas a pé,
    Rotinhos, magros, descalços…

    E onde houver urzes e tojos,
    Pedras que rasgam a pelle,
    Porei o corpo de rôjos
    –Passarás por cima delle!

    Dorme, dorme, meu menino,
    Foi-se o sol. Nasceu a lua.
    Qual será o teu destino?
    Que sorte será a tua?…

    Se um crime tens de fazer,
    Antes fique vago um throno,
    Antes um palacio a arder,
    –Do que uma enxada sem dono…

    Se, porém, no teu destino,
    Ha tão cruentos signaes,
    Dorme, dorme, meu menino,
    –Não tornes a acordar mais!

    O NOSSO LAR

    _A Antonio Arroyo_

    «Sonhar a vida é apenas entretel-a.
    Partamos della para nós, senão
    Lá vae o coração para uma estrella
    E fica a gente sem o coração!»

    _GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_

    Quem vir–como eu os vejo–decorrer
    Annos e annos duma vida rasa
    Em miseraveis quartos d'aluguer,

    Frios no inverno e no estío em braza,
    –A um amôr sonhado de mulher
    Allía sempre o sonho duma casa…

    O aspecto duma casa raro mente,
    A côr, as linhas duma frontaria
    Dão logo a perceber nitidamente,

    Melhor do que um vizinho o contaria,
    O genio e a indole da gente
    Que nella tem o lar, a moradia.

    Vejam esses _cottages_ tanto em moda
    Entre os inglezes e os capitalistas,
    Com grades no jardim, a toda a roda…

    Impenetraveis ás alheias vistas…
    Não abrem nunca uma janella toda…
    São mudos, graves, individualistas.

    E aquelles caixotões de pedra e cal
    Que surgem ao formar-se um bairro novo,
    No constante engordar da Capital,

    (O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)
    –Não mostram bem, com o seu ar banal,
    A falta de caracter deste povo?

    Quando uma santa e pobre rapariga,
    Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
    E a cujo coração o meu se liga,

    Puder chegar a ser minha mulher,
    Eu quero então que a nossa casa diga
    Bondade e alegria de viver.

    Terá um só andar. Grandes alturas
    Causam vertigens, trazem ambições.
    Os sonhos de riqueza e d'aventuras

    Enchem as almas de desillusões.
    A f'licidade vem ás creaturas
    Da pacificação dos corações.

    As portas sem degraus. Que sejam rentes
    Da terra. Portas largas e rasgadas,
    Convidativas, francas, attrahentes;

    Ao rez da terra, para as aleijadas
    e os tropegos velhinhos indigentes
    Se não cançarem a subir escadas…

    Amplas janellas para a natureza.
    Que o sol na sua clara irradiação
    Dissipe atravez dellas a tristeza;

    Amplas–e baixas. Quem precise pão,
    E o vir da rua sobre a nossa meza,
    Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

    Ao lado um horto e um jardim fragrante,
    Sem grades aguçadas para o céu.
    A grade é agressiva, hostilisante,

    E sempre a impressão cruel me deu
    Dum dono que bradasse ao caminhante:
    –Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

    Sem gradeamento. Um murosito apenas
    Revestido de rosas de toucar,
    De ariolas, de glicinias, de verbenas.

    Muro d'onde os que forem a passar
    Vejam lilazes, cravos, assucenas…
    –E a paz, a doce paz do nosso lar.

    O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

    _Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_

    I

    Escrevo em testamento este poema
    Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
    O brilho rutilante duma gemma
    Achada nos farrapos dum mendigo…

    Ao vesperal crepusculo da vida
    E sob o olhar da morte é que o componho;
    Erguendo assim, por minha despedida,
    O ultimo escalão dum alto sonho.

    Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
    Hade attingir a cúpula dos céus,
    Direi ao mundo os derradeiros versos,
    Porei o coração nas mãos de Deus!

    E as mãos de Deus que os astros têm guiado
    Como se leve pluma cada um fôra,
    Hão de o sentir pesar, sollicitado
    Pelo logar da terra onde ella móra…

    II

    …Sei lá pintar!
    Se eu soubesse pintar, era pintor.

    _Guedes Teixeira_

    Na mais alta cidade portuguêsa
    Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
    A mais santa, a mais cheia de pureza
    Das moças deste lindo Portugal.

    Os seus olhos são tristes e suggerem
    Todo um passado de resignação.
    São tristes, certamente por não verem
    O rosto incomparavel onde estão…

    A voz é clara como as assucenas
    E dolorida, candida, modesta.
    É dolorida, porque sente penas
    D'abandonar a sua bocca honesta…

    O riso, que é em nótulas delidas
    Vibra em seus labios tão rapidamente
    Como um beijo d'amor, ás escondidas,
    Na curva duma estrada em que vem gente…

    A mão della, uma vez, poisou na minha;
    Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
    Que era o seu proprio coração que eu tinha
    A palpitar dentro da minha mão…

    Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
    O sol abraza os longes da paizagem,
    A sombra que em sua frente vae seguindo
    É a luz–a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

    Se passa, acalma os corações maguados
    Como outr'ora as parabolas de Christo
    Acalmavam a dôr aos desgraçados.
    Acalma os corações?! Não… não é isto.

    As estrophes d'amor, a quem o sinta,
    Dão um trabalho cheio de tormento;
    O tenebroso liquido da tinta
    Apaga, rouba a côr ao sentimento.

    Quiz celebrar dum modo original
    As finas graças do seu corpo. Errei-as.
    Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
    Palavras! Sois a nevoa das ideias…

    MELODIA CONFIDENCIAL

    (De Albert Samain)

    _A L.C._

    Num andamento
    Discreto, lento,
    Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

    Vamos vogando
    No lago brando
    E sem limites do silencio amigo…

    O ultimo e cavo
    Accorde do cravo
    Ficou vibrando exclamativamente.

    E, em espiral
    Ascencional,
    Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

    Na alcatifa macia
    Entrou na agonia
    Uma rosa sedenta e abandonada,

    E a ambos nos invade
    A mistica vontade
    D'entrar na morte, no não ser, no nada…

    Com seu docel vermelho
    Forrado d'oiro velho,
    Que evoca velhas eras d'esplendor,

    O leito pesado,
    Como um deus concentrado,
    Remembra obscuramente o nosso amor…

    Na atmosphera morna
    O teu corpo entorna
    Um perfume subtil, sensual, complexo,

    Aroma inapagavel,
    Philtro informulavel
    Gerado á chama clara do teu sexo.

    Teus olhos silentes
    E transparentes
    Teem, no fundo, verdes melancolicos,

    E as brazas do fogão,
    Já quasi extinctas, dão
    Clarões hypnotisantes e symbolicos…

    Amêmo-nos assim
    Com um amor sem fim,
    Verdadeiro na carne e nas ideias;

    P'los dedos enlaçados
    Sejamos penetrados
    D'amor, até ás mais miudinhas veias.

    Em extasis intensos
    Quedemo-nos suspensos
    Por sobre a terra ironica e brutal

    Sem nada saber,
    Sem nada ver,
    –Numa vida isolada e musical…

    Não fales. Não?
    Ou se o fizer's, então
    Que seja de vagar, muito baixinho,

    Numa toada, leve
    Como o halito breve
    Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…

    O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

    _A Columbano_

    La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
    de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
    pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)

    Sahira Santo Antonio do convento,
    A dar o seu passeio costumado
    E a decorar, num tom rezado e lento,
    Um candido sermão sobre o peccado.

    Andando, andando sempre, repetia
    O divino sermão piedoso e brando,
    E nem notou que a tarde esmorecia,
    Que vinha a noite placida baixando…

    E andando, andando, viu-se num outeiro,
    Com arvores e casas espalhadas,
    Que ficava distante do mosteiro
    Uma legua das fartas, das puxadas.

    Surprehendido por se vêr tão longe,
    E fraco por haver andado tanto,
    Sentou-se a descançar o bom do monge,
    Com a resignação de quem é santo…

    O luar, um luar clarissimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade
    O Menino Jesus baixou do céu,
    Poz-se a brincar com o capuz do frade.

    Perto, uma bica d'agua murmurante
    Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
    Os rouxinoes ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, illuminava mais.

    De braço dado, para a fonte, vinha
    Um par de noivos todo satisfeito.
    Ella trazia ao hombro a cantarinha,
    Elle trazia… o coração no peito.

    Sem suspeitarem de que alguem os visse,
    Trocaram beijos ao luar tranquillo.
    O menino, porém, ouviu e disse:
    –Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

    O santo, erguendo a manga de burel
    Para tapar o noivo e a namorada,
    Mentiu numa voz doce como o mel:
    –Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

    Uma risada limpida, sonora,
    Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
    –Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
    –Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

    –Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo Antonio de Lisboa
    Calou-se embaraçado, mas por fim,

    Córado como as véstes dos cardeaes,
    Achou esta sahida redemptora:
    –Se o Menino Jesus pregunta mais,
    …Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

    Voltando-lhe a carinha contra a luz
    E contra aquelle amôr sem casamento,
    Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
    São horas…
    –E abalaram p'r'ó convento.

    UM GRÃO DE INCENSO

    _A Lourenço Cayolla_

    Entraste com ar cançado
    Numa egreja fria e triste.
    Ajoelhei-me ao teu lado
    –E nem ao menos me viste…

    Ficaste a rezar alli,
    Naquella immensa tristeza.
    Rezei tambem, mas a ti,
    –Que aos anjos tambem se reza…

    Ficaste a rezar até
    Manhã dentro, manhã alta.
    Como é que tens tanta fé
    –E a caridade te falta?…

    A MÁSCARA

    _A Santos Tavares_

    Por acaso, parou na minha frente,
    De _loup_ e dóminó de seda negra,
    Uma mulher d'olhar resplandecente
    E mento breve de figura grega.

    Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

    E os seus olhos doirados reluziram
    Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
    Aguçados e frios, das bainhas.

    –Máscara, quem és tu?

    –E tu quem és?…

    –Um homem que te viu e te deseja…

    E um riso vago, de desdem talvez,
    Floriu na sua bocca de cereja.

    Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

    Em vibrações entrecortadas, sêccas,
    Tiniam taças irisadas, cheias.
    E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
    Vibrava nas arcadas das rebecas.

    Levei-a para o vão duma janella.
    –Máscara, quem és tu?

    –Para que insistes?…

    Outro riso subiu da bocca della
    Aos olhos enigmaticos e tristes.

    E descobriu a face. No capuz
    Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

    Que differente porém do que eu supuz!

    A gente nunca deve entrar com luz
    Nos divinos recantos do misterio…

    IN PROMPTUM PASTORAL

    _A Amadeu de Freitas_

    «Muito vence quem se vence
    Muito diz quem não diz tudo,
    Porque a um discreto pertence
    A tempo fazer-se mudo.»

    (_Copla do Infante D. Luiz_.)

    Sob este céu creador
    De manhã vergiliana,
    Apetece ser pastor
    E tocar frauta de cana;

    Não, pastor d'autos d'amor,
    D'eclogas frias e velhas,
    Mas verdadeiro pastor
    De verdadeiras ovelhas…

    Não conhecer o talento
    Nem nada do que se ensina.
    Esta dôr do entendimento
    É peor do que se imagina…

    Guiar o meu coração
    Num ingenuo christianismo.
    Esta civilisação
    É cheia de pessimismo…

    Comer pão negro, pão duro,
    Beber o leite das peáras.
    Pão de centeio é escuro,
    –Mas põe as almas ás claras…

    Amar alguma pastora
    Com palavras e com obras.
    Estas senhoras d'agora
    São mais falsas do que as cóbras…

    E vêr crear com carinho,
    Com cuidados infinitos,
    Á companheira, um filhinho…
    E ás ovelhas, borreguitos…

    MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES

    I

    _A Celestino Steffanina_

    Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
    tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).

    Semeador de iniquidades,
    Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
    O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
    Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…

    Oh minha vista o que é que foi que viste
    Cá neste mundo impiedoso e rudo?

    _Que só a vaidade existe_
    –Em todos nós, e em tudo!…

    II

    _A Israel Anahory_

    Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
    palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
    escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).

    Palavras são palavras… Nada dizem.
    Teias d'aranha que jámais impedem
    Que as ideias se escapem e deslizem…

    Nescios os homens são quando procedem
    Como quem a verdade sempre traja
    E nunca della se encontrou despido…

    Difficil é… o que mais simples haja
    –Quanto mais o que fôr mais escondido!…

    Para que uma verdade vá julgar,
    Para que um sentimento vá sentir,
    Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
    E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

    Mas por fim
    Nem assim…

    O mais profundo pensamento
    É sempre insubsistente e aerio,
    Por que a todo o momento
    –Se perde no misterio…

    III

    _A José Barbosa_

    Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
    mesmo que o que se hade fazer.

    Que é o que foi?
    –O mesmo que hade ser…

    A vida é como o passo egual dum boi
    Que vem dos campos ao anoitecer;
    Com o seu lento e resignado aspeito,
    Andou um passo, e logo um outro dá.

    _Tudo quanto foi feito
    De novo se fará_…

    IV

    _A Ladislau Patricio_

    Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
    e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)

    O sabio tem os olhos da razão
    Além desses que tu na fronte levas,
    Oh nescio que sem guia e sem bordão
    Vaes pela vida a caminhar nas trevas…

    (_E d'ahi? E depois?
    Se surge um incidente,
    Fere indistinctamente
    Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_…)

    V

    _A Adelaide Gil, minha irmã_

    Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
    terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).

    Mas o que é, afinal, a perfeição?
    Como é que tudo, oh sabios, evolue
    _Se as coisas todas caminhando vão
    Para um egual e unico logar,
    Se o pó que as constitue
    Em pó se hade tornar_?

    VI

    _A Eduardo Graça_

    Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
    segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).

    Socega, coração attribulado,
    De toda a dôr se apaga todo o traço.
    Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
    _O seu tempo e tambem o seu espaço_…

    E queira Deus, coração,
    Que esta hora de anciedade
    E de pranto e d'afflicção
    –Nunca te cause saudade!…

    A CANÇÃO DAS PERDIDAS

    _A Vianna da Motta_

    I

    Quem por amôr se perdeu
    Não chore, não tenha pena.
    Uma das santas do céu
    –É Maria Magdalena…

    II

    Minha mãe foi o que eu sou.
    Eu sou o que tantas são.
    Que triste herança te dou,
    Filha do meu coração!

    III

    Meu pae foi para o degredo
    Era eu inda pequena.
    Se não morresse tão cedo,
    Morria agora–de pena…

    IV

    E ha no mundo quem afronte
    Uma mulher quando cae!
    Nasce agua limpa na fonte,
    Quem a suja é quem lá vae…

    V

    Aquelle que me roubou
    A virtude de donzella
    Se outra honra lhe não dou,
    –É porque só tive aquella!…

    VI

    Nós temos o mesmo fado,
    Oh fonte d'agua cantante,
    Quem te quer, pára um boccado.
    Quem não quer, pássa adeante…

    VII

    O meu amôr, por amal-o,
    Poz-me o peito numa chaga:
    Deu-me facadas. Deixal-o.
    Mas ao menos não me paga!

    VIII

    Nem toda a agua do mar
    Por estes olhos chorada
    Daria bem a mostrar
    O que eu sou de desgraçada!

    IX

    Como querem vêr contente
    Este paiz desgraçado,
    Se dão só livros á gente
    Nas escolas do peccado…

    X

    Dormia o meu coração
    Cançado de fingimento.
    Bateste-me, e vae então
    Acordou nesse momento.

    XI

    Se aquillo que a gente sente,
    Cá dentro, tivesse vóz,
    Muita gente… toda a gente
    Teria pena de nós!

    CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL

    «Um mover d'olhos brando e piedoso
    Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
    Quasi forçado; um doce e humilde gesto
    De qualquer alegria duvidoso

    * * * * *

    Um encolhido ousar; uma brandura,
    Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
    Um longo e obediente soffrimento.

    * * * * *

    Camões

    Num quente e perturbante fim de tarde,
    Cujo magnetico e profundo enlevo
    Ainda agora em mim crepita e arde,
    Como se fosse a tarde em que te escrevo,

    Ergui os olhos distrahidamente,
    A ver se já brilhava alguma estrella
    No concavo do céu opalescente
    –E vi, numa varanda, os olhos della…

    Do episodio que acabo de contar-te
    Tão simples, tão banal, que dá vontade,
    Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
    De lhe roubar um pouco de verdade,

    Foi que este amor espiritual nasceu,
    Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
    Repara, amigo, como olhando o céu
    A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

    Mas quem podia então adivinhal-o?
    O olhar dessa mulher era tão lindo
    Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
    Descera a noite. A lua ia subindo…

    Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
    Dava em toda a varanda. Assim, eu via
    As fórmas portuguêsas do seu rosto
    Nitidamente, como á luz do dia.

    E cá dentro de mim senti nascer
    A dúvida, a incerteza, a hesitação
    Sobre o que mais desejaria ser:
    Se o noivo della, se o primeiro irmão…

    Uma estrella cadente reluziu
    Por sobre as torres da vizinha egreja,
    Pensei commigo: Deus o decidiu:
    É minha noiva que Elle quer que seja.

    Não dizia ventura, mas desgraça,
    A claridade do signal aereo.
    (Na mesma direcção da egreja, passa
    A rua que vae dar ao cemiterio…)

    Porém, como querendo agradecer-me
    A decisão que attribuira a Deus,
    Inclinou-se de leve para ver-me
    E os doces olhos demorou nos meus.

    Sob a caricia desse olhar cinzento,
    Que ao abaixar-se parecia negro,
    O coração que me batia lento,
    Mudou o andamento para alegro.

    Uma hora decorreu. Outras passaram.
    Passaram, foram-se; e naquelle enleio
    Que tempo os nossos olhos conversaram!…
    Estava a noite já em mais de meio.

    Vinha dos montes uma brisa ardente.
    O céu ganhára tons d'azul cobalto.
    O luar cahia silenciosamente.
    Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

    Arrependidos, ou então, cançados
    De se fitarem com demora em mim,
    Os seus olhos piedosos e sagrados
    Ao dialogo d'amor puzeram fim.

    Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
    Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
    Como se foram duas borboletas
    Voando para duas assucenas.

    Ergueu-se. O busto delicado e fino
    Tinha os suaves, religiosos traços
    Da Virgem num altar. Só o Menino
    Faltava na doçura dos seus braços…

    Num olhar impregnado de candura,
    Disse-me adeus e recolheu. Depois…
    A luminosa noite fez-se escura.
    Calaram-se na sombra os rouxinoes.

    Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
    A madrugada sem que o conseguisse.
    Quem um sonho tão limpido sonhára,
    Inutil se tornava que dormisse…

    Annos felizes neste amor gastei.
    Vieram em seguida as horas más.
    O que nellas soffri, o que passei,
    Um dia, noutra carta, o saberás.

    MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

    Dez da manhã. Vento da
    serra. Tres graus negativos

    _Mãos frias, coração quente_!
    Quanta vez isto dizias
    Com o teu ar sorridente,
    Apertando-me as mãos frias…

    Agora decerto o tenho
    Num brazeiro, num vulcão.
    O frio é tanto, é tamanho
    Que a penna cae-me da mão…

    Q'ria dizer-te o que penso
    E o que faço e premedito,
    Mas posso lá ser extenso
    Com este frio maldito!

    Tu perdoas certamente,
    Tu não te zangas, pois não?
    _Mãos frias, coração quente_
    –Lá diz o velho rifão…

    NOIVA

    _A João da Silva_

    «Anda a dôr dissimulada
    Mas ella dará seu fruito.»

    Crisfal

    «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

    (_Trecho duma carta_)

    Tive noticias hoje a teu respeito:
    «Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
    E o coração tranquillo no meu peito
    –Continuou a bater como batia…

    Surpreso duma tal serenidade,
    Todo eu, intimamente, me sondava:
    Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
    –E nem ciumes, nem saudade achava…

    Saudades, não; que o teu amor antigo
    Guardam-no as cinzas (neste coração)
    Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
    Que após centenas d'annos deram pão…

    Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
    A lei antiga como o proprio mundo
    De que o prazer mal chega, já morreu,
    E só a dôr nas almas cava fundo?

    Causei-te longas horas d'amargura,
    Não consegues voltar a ser feliz;
    A chaga que te abri não terá cura,
    E se curar–lá fica a cicatriz.

    Á luz dum juramento que trahiste
    Tu has de vêr-me toda a vida pois.
    Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
    E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

    Ciumes tambem não, por te venderes.
    Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
    Não descerias tanto entre as mulheres,
    Seria mais humano o teu peccado.

    Porém, embora a tua falta aponte,
    P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
    O sol desapparece no horisonte
    –E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

    Póde a desgraça erguer em frente a mim
    Altas montanhas d'elevados cumes.
    O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
    Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

    Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
    Em claras noites de luar silente,
    Ouvir vibrar alguma voz, cantando
    Os versos que te fiz devotamente.

    Versos para te ungirem os ouvidos
    E os labios d'anemica e de santa,
    Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
    Que o povo humilde os acolheu e os canta.

    Então, se te olhar bem, logo adivinha…
    Logo sombriamente se convence
    De que a tua alma se fundiu na minha
    –E apenas o teu corpo lhe pertence.

    DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

    _Á Leo_

    Ao charco mais escuso e mais immundo
    Chega uma hora no correr do dia
    Em que um raio de sol, claro e jocundo,
    O visita, o alegra, o alumía;

    Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
    Nesta contínua e intérmina agonia,
    Nem tenho uma hora só dessa alegria
    Que chega ás coisas infimas do mundo!…

    Deus meu, acaso a roda do destino
    A movimentam vossas mãos leaes
    Num aceno impulsivo e repentino,

    Sem que na cega turbulencia a domem?!
    Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
    Olhae que é–_o coração dum homem_!…

    JOANNINHA

    _A Mayer Garção_

    Descance de quando em quando…
    Passar assim toda a tarde
    Sempre bordando, bordando,
    Sem que um momento desista,
    Até faz pena! Não lhe arde
    Nem se lhe perturba a vista?…

    Descance de quando em quando…
    Erga os olhos do bordado
    E veja quem vae passando.
    O trabalho alegra a gente,
    Mas assim, tão aturado,
    –Não lhe faz bem certamente.

    Erga a carinha tranquilla,
    Erga esse rosto tão lindo
    E veja os moços da villa
    A passarem por aqui,
    Uns descendo, outros subindo,
    –E todos d'olhos em si…

    Descance de quando em quando
    E veja se escolhe algum;
    Já é tempo d'ir pensando
    Em casar. Não é assim?…
    Se não lhe agrada nenhum,
    –Diga se gosta de mim.

    Desde os começos do outono
    Que eu a trago no sentido,
    Não como, não tenho sono,
    Tudo me dá ralação?
    Quer-me para seu marido?
    –Diga que sim ou que não…

    QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

    _A Cassianno Neves_

    Bocca talhada em milagrosas linhas,
    A luz augmenta com o seu falar.

    Esta manhã um bando de andorinhas
    Ia-se embora, atravessava o mar.

    Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
    Um adeus suave que ella lhes dissera,

    –E suspenderam todas a viagem,
    Julgando que voltára a primavera…

    A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

    Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
    disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
    realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra
    em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
    machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
    theatraes.

    … O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
    na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
    lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_

    _A Manuel Penteado_

    Buscava em algum assunto adrede
    A versos que inculcassem novidade,
    Quando uma intensa e irreprimivel sêde
    Me fez voltar do sonho á realidade.

    E pedi agua (já se vê) que veio
    Consoante é d'uzo cá por entre o povo
    Num pucaro de barro ingenuo e feio,
    Servindo-lhe de salva um prato côvo.

    Bebi o liquido dum trago só;
    E dito o «Deus te pague» habitual,
    Subi de novo a escada de Jacob
    No heroico intuito de escalar o ideal…

    Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
    Que os rios erguem pela madrugada;
    O olhar destingue-a, quando está distante,
    E da que nos rodeia–não vê nada…

    De que serve afinal tentar a gente
    Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
    Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
    Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

    A agua vinda neste vaso fragil
    Que um ignorado artista modelou
    Num gesto–já mechanisado e agil–
    Á força d'imitar o que encontrou,

    É um assunto cheio de belleza,
    Cheio de claro e alto ensinamento.
    Assim na branda fala portuguêsa
    O désse eu, como o tenho em pensamento!…

    A agua é como a esp'rança
    Que a tudo se sujeita…
    Onde quer que se deita
    Lá fica humildemente acommodada,
    Seja a concha da mão duma creança,
    Ou a taça lendaria da ballada…

    Tanto sacia
    Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
    (Que um só valia
    O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
    Como a que se toma
    Na argilla porosa,
    Alegre trabalho dum simples oleiro…

    E é
    Até
    Bem mais saborosa
    No barro suarento
    Deixado á janella,
    Que num opulento
    Copo lavrado
    Que seja pertença de rica baixella
    E sonho gentil, cinzel phantasista
    Dalgum grande artista
    Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

    Bichos humanos, féras em pé,
    Sêde bondosos como a agua o é…

    No luzente alcantil da magnitude,
    Ou no áspero declive da pobreza,
    Nunca cerreis o espirito á virtude,
    Nunca fecheis os olhos á belleza.
    Que todo o coração,
    Desde o sabio de genio ao cavador,
    Seja o Calix de paz e de perdão
    Contendo a agua limpida e lustral
    Dum irmanado e perpetuo amôr…

    Agua que limpe a mácula do mal
    E mitigue a miseria, a ancia, a magua
    Desta cruenta e impiedosa guerra
    Em que tantas creaturas se consomem.

    Nem só da agua
    Que vem da terra
    Tem sêde o homem…

    Nasce uma fonte
    Rumurejante
    Na encosta dum monte;

    E mal que do seio
    Da terra brotou,
    Logo o seu veio
    Transparente
    E diligente
    Buscou e achou
    Mais baixo logar…

    E sempre descendo,
    E sempre a cantar,
    Vae andando,
    Galgando,
    Vencendo,
    (Ou tenta vencer…)
    Folha, raíz, areia, o que tolher
    A sua descida…

    Ao brotar da dura frágoa
    –É uma lagrima d'agua…

    Mas esse humilde fiozinho,
    Que um destino bom impelle,
    Encontra pelo caminho
    Um outro que é como elle…

    Reunem-se, fundem-se os dois,
    Proseguem de companhia,
    E fica dupla depois
    A força que os leva e guia…

    Junta-se aos dois um terceiro,
    Outros confluindo vão,
    E o regato é já ribeiro
    E o ribeiro é rio então…

    E nada agora o domina
    Ao fiozinho da fonte.
    Entre collina e collina,
    Ou entre um monte e outro monte,

    Caminha sem descançar,
    Circula atravez do mundo
    –Até á beira do mar
    Omnipotente e profundo…

    Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
    A vaidade é uma amante enganadora)
    Que o mais alto de vós se humilhe e desça
    Como se humilde e pobre sempre fôra…

    E que os demais desçam tambem de todo
    O orgulho e mando sobre escravas gentes
    Até ao valle, de lagrimas e lôdo
    Onde a miseria brada e range os dentes.

    E como as aguas que se vão juntando
    E juntas, e cantando, vão descendo,
    Reuni o choro derramado, quando
    Atravessardes esse valle horrendo.

    E o atoleiro que se havia feito
    No val, dantesco, pútrido, sombrio,
    Mudar-se-ha no irrigante leito
    Dum fertilisador e claro rio;

    E o rio, andando, andando, hade alargar
    –Com biliões de lagrimas vertidas–
    Num infinito e luminoso mar
    De novas e amplas e cantantes vidas!

    Outubro de 1909.

    INDICE

    Prefacio
    Dedicatoria
    Luar de Janeiro
    Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
    Ballada da Neve
    Toada para as mães acalentarem os filhos
    O nosso lar
    O que o fogo poupou dum poemeto queimado
    Melodia confidencial
    O passeio de Santo Antonio
    Um grão de incenso
    A máscara
    In promptum pastoral
    Meditações sobre themas do Ecclesiastes
    A canção das perdidas
    Carta a um rapaz sentimental
    Mãos frias coração quente
    Noiva
    De profundis clamavi ad te domine
    Joanninha
    Quando as andorinhas partiam
    A parábola do pucaro d'agua

    Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
    Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

  • Livro de Máguas

    Livro de Máguas

    Aproximadamente 3.482 palavras.

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    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    FLORBELA ESPANCA

    Livro de Máguas

    MCMXIX

    LIVRO DE MÁGUAS

    FLORBELA ESPANCA

    LIVRO DE MÁGUAS

    MCMXIX

    _A meu Pai_

    Ao meu melhor amigo

    Á querida Alma irmã da minha,

    _Ao meu Irmão_

    Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
    É um punhado infantil de areia resequida,
    Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa…

    Eugénio de Castro.

    Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

    Verlaine.

    *Êste livro*…

    ÊSTE LIVRO…

    Êste livro é de máguas. Desgraçados
    Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
    Sòmente a vossa dor de Torturados
    Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo…

    Este livro é p'ra vós, Abençoados
    Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
    Bíblia de tristes… Ó Desventurados,
    Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!

    Livro de Máguas… Dôres… Ansiedades!
    Livro de Sombras… Névoas… e Saudades!
    Vai pelo mundo… (Trouxe-o no meu seio…)

    Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
    Chorae comigo a minha imensa mágua,
    Lendo o meu livro só de máguas cheio!…

    *Vaidade*

    VAIDADE

    Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguem cá neste mundo…
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a terra anda curvada!

    E quando mais no ceu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho…
    E não sou nada!…

    *Eu*…

    EU…

    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada… a dolorida…

    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!…

    Sou aquela que passa e ninguem vê…
    Sou a que chamam triste sem o sêr…
    Sou a que chora sem saber porquê…

    Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
    Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
    E que nunca na vida me encontrou!

    *Castelã da Tristêsa*

    CASTELÃ DA TRISTÊSA

    Altiva e couraçada de desdem,
    Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
    Passa por êle a luz de todo o amôr….
    E nunca em meu castelo entrou alguem!

    Castelã da Tristêsa, vês?… A quem?!…
    –E o meu olhar é interrogadôr–
    Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
    Chora o silêncio… nada… ninguem vem…

    Castelã da Tristêsa, porque choras
    Lendo, toda de branco, um livro de oras,
    Á sombra rendilhada dos vitrais?…

    Á noite, debruçada p'las ameias,
    Porque rezas baixinho?… Porque anseias?…
    Que sonho afagam tuas mãos reais?…

    *Tortura*

    TORTURA

    Tirar dentro do peito a Emoção,
    A lucida Verdade, o Sentimento!
    –E ser, depois de vir do coração,
    Um punhado de cinza esparso ao vento!…

    Sonhar um verso d'alto pensamento,
    E puro como um rythmo d'oração!
    –E ser, depois de vir do coração,
    O pó, o nada, o sonho dum momento!…

    São assim ôcos, rudes, os meus versos:
    Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
    Com que eu iludo os outros, com que minto!

    Quem me déra encontrar o verso puro,
    O verso altivo e forte, extranho e duro,
    Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

    *Lágrimas ocultas*

    LÁGRIMAS OCULTAS

    Se me ponho a scismar em outras éras
    Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
    Parece-me que foi noutras esféras,
    Parece-me que foi numa outra vida…

    E a minha triste bôca dolorida
    Que dantes tinha o rir das primavéras,
    Esbate as linhas graves e severas
    E cae num abandôno de esquecida!

    E fico, pensativa, olhando o vago…
    Toma a brandura plácida dum lago
    O meu rôsto de monja de marfim…

    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguem as vê brotar dentro da alma!
    Ninguem as vê cair dentro de mim!

    *Torre de névoa*

    TORRE DE NÉVOA

    Subi ao alto, á minha Torre esguia,
    Feita de fumo, névoas e luar,
    E puz-me, comovida, a conversar
    Com os poetas mortos, todo o dia.

    Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
    Dos versos que são meus, do meu sonhar,
    E todos os poetas, a chorar,
    Responderam-me então: «Que fantasia,

    Creança doida e crente! Nós tambêm
    Tivemos ilusões, como ninguem,
    E tudo nos fugiu, tudo morreu!…»

    Calaram-se os poetas, tristemente…
    E é desde então que eu choro amargamente
    Na minha Torre esguia junto ao Ceu!…

    *A minha Dôr*

    A MINHA DÔR

    _A Você_

    A minha Dôr é um convento ideal
    Cheio de claustros, sombras, arcarias,
    Aonde a pedra em convulsões sombrias
    Tem linhas dum requinte escultural.

    Os sinos teem dobres d'agonias
    Ao gemer, comovidos, o seu mal…
    E todos teem sons de funeral
    Ao bater horas, no correr dos dias…

    A minha Dôr é um convento. Ha lírios
    Dum roxo macerado de martírios,
    Tão belos como nunca os viu alguem!

    Nesse triste convento aonde eu móro,
    Noites e dias reso e grito e chóro!
    E ninguem ouve… ninguem vê… ninguem…

    *Dizêres íntimos*

    DIZÊRES INTIMOS

    É tão triste morrer na minha idade!
    E vou ver os meus olhos, penitentes
    Vestidinhos de rôxo, como crentes
    Do soturno convento da Saudade!

    E logo vou olhar (com que ansiedade!…)
    As minhas mãos esguias, languescentes,
    De brancos dedos, uns bébés doentes
    Que hão de morrer em plena mocidade!

    E ser-se novo é ter-se o Paraiso,
    É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
    Aonde tudo é luz e graça e riso!

    E os meus vinte e tres anos… (Sou tão nova!)
    Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!…»
    Responde a minha Dôr: «Que linda a cova!»

    *As minhas Ilusões*

    AS MINHAS ILUSÕES

    Hora sagrada dum entardecer
    D'Outono, á beira mar, côr de safira.
    Sôa no ar uma invisivel lira…
    O sol é um doente a enlanguescer…

    A vaga estende os braços a suster,
    Numa dôr de revolta cheia de ira,
    A doirada cabeça que delira
    Num último suspiro, a estremecer!

    O sol morreu… e veste luto o mar…
    E eu vejo a urna d'oiro, a baloiçar,
    Á flôr das ondas, num lençol d'espuma!

    As minhas Ilusões, dôce tesoiro,
    Tambem as vi levar em urna d'oiro,
    No Mar da Vida, assim… uma por uma…

    *Neurastenia*

    NEURASTENIA

    Sinto hoje a alma cheia de tristesa!
    Um sino dobra em mim, Ave Marias!
    Lá fôra, a chuva, brancas mãos esguias,
    Faz na vidraça rendas de Venesa…

    O vento desgrenhado, chora e resa
    Por alma dos que estão nas agonias!
    E flocos de neve, aves brancas, frias,
    Batem as azas pela Natureza…

    Chuva… tenho tristesa! Mas porquê?!
    Vento… tenho saudades! Mas de quê?!
    Ó neve que destino triste o nosso!

    Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
    Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
    Digam isto que sinto que eu não posso!!…

    *Pequenina*

    PEQUENINA

    _Á Maria Helena Falcão Risques_

    És pequenina e ris… A bôca breve
    É um pequeno idílio côr de rosa…
    Haste de lírio frágil e mimosa!
    Cofre de beijos feito sonho e neve!

    Dôce quimera que a nossa alma deve
    Ao Ceu que assim te fez tão graciosa!
    Que nesta vida amarga e tormentosa
    Te fez nascer como um perfume leve!

    O ver o teu olhar faz bem á gente…
    E cheira e sabe, a nossa bôca, a flôres
    Quando o teu nome diz, suavemente…

    Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
    Que ela afaste de ti aquelas dôres
    Que fizeram de mim isto que sou!

    *A Maior Tortura*

    A MAIOR TORTURA

    _A um grande poeta de Portugal_

    Na vida, para mim, não ha deleite.
    Ando a chorar convulsa noite e dia…
    E não tenho uma sombra fugidía
    Onde poise a cabeça, onde me deite!

    E nem flôr de lilaz tenho que enfeite
    A minha atroz, imensa nostalgia!…
    A minha pobre Mãe tão branca e fria
    Deu-me a beber a Magua no seu leite!

    Poeta, eu sou um cardo despresado,
    A urze que se pisa sob os pés.
    Sou, como tu, um riso desgraçado!

    Mas a minha tortura inda é maior:
    Não ser poeta assim como tu és,
    Para gritar num verso a minha Dôr!…

    *A Flôr do Sonho*

    A FLÔR DO SONHO

    A Flôr do Sonho alvissima, divina
    Miraculosamente abriu em mim,
    Como se uma magnolia de setim
    Fosse florir num muro todo em ruina.

    Pende em meio seio a haste branda e fina
    E não posso entender como é que, emfim,
    Essa tão rara flôr abriu assim!…
    Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

    Ó Flôr que em mim nascêste sem abrolhos,
    Que tem que sejam tristes os meus olhos
    Se eles são tristes pelo amôr de ti?!…

    Desde que em mim nascêste em noite calma,
    Voou ao longe a aza da minh'alma
    E nunca, nunca mais eu me entendi…

    *Noite de Saudade*

    NOITE DE SAUDADE

    A Noite vem poisando devagar
    Sobre a terra que inunda de amargura…
    E nem sequer a benção do luar
    A quiz tornar divinamente pura…

    Ninguem vem atraz dela a acompanhar
    A sua dôr que é cheia de tortura…
    E eu oiço a Noite imensa soluçar!
    E eu oiço soluçar a Noite escura!

    Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!
    É que, talvez, ó Noite, em ti existe
    Uma Saudade egual á que eu contenho!

    Saudade que eu nem sei donde me vem…
    Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguem!…
    Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

    *Angustia*

    ANGUSTIA

    Tortura do pensar! Triste lamento!
    Quem nos déra calar a tua voz!
    Quem nos déra cá dentro, muito a sós,
    Estrangular a hidra num momento!

    E não se quer pensar!… E o pensamento
    Sempre a morder-nos bem, dentro de nós…
    Qu'rer apagar no Ceu–Ó sonho atroz!–
    O brilho duma estrela, com o vento!…

    E não se apaga, não… nada se apaga!
    Vem sempre rastejando como a vaga…
    Vem sempre perguntando. «O que te resta?…»

    Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
    Ser pedaço de gelo, ser granito,
    Ser rugido de tigre na floresta!

    *Amiga*

    AMIGA

    Deixa-me ser a tua amiga, Amôr;
    A tua amiga só, já que não queres
    Que pelo teu amôr seja a melhor
    A mais triste de todas as mulheres.

    Que só, de ti, me venha mágua e dôr
    O que me importa a mim?! O que quiséres
    É sempre um sonho bom! Seja o que fôr
    Bemdito sejas tu por m'o dizêres!

    Beija-me as mãos, Amôr, devagarinho…
    Como se os dois nascessemos irmãos,
    Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

    Beija-mas bem!… Que fantasia louca
    Guardar assim, fechados, nestas mãos,
    Os beijos que sonhei p'rá minha bôca!…

    *Desejos vãos*

    DESEJOS VÃOS

    Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
    Que ri e canta, a vastidão imensa!
    Eu qu'ria ser a pedra que não pensa,
    A Pedra do caminho, rude e forte!

    Eu qu'ria ser o Sol, a luz intensa,
    O bem do que é humilde e não tem sorte!
    Eu qu'ria ser a arvore tôsca e densa
    Que ri do mundo vão e até da morte!

    Mas o Mar tambêm chora de tristesa…
    As Arvores tambêm, como quem resa,
    Abrem, aos Ceus, os braços, como um crente!

    E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
    Tem lágrimas de sangue na agonia!
    E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

    *Peor velhice*

    PEOR VELHICE

    Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
    Dum riso são andou na minha bôca!
    Gritando que me acudam, em voz rouca,
    Eu, naufraga da Vida, ando a morrer!

    A Vida que ao nascer enfeita e touca
    D'alvas rosas, a fronte da mulher,
    Na minha fronte mística de louca
    Martírios só poisou a emurchecer!

    E dizem que sou nova… A mocidade
    Estará só, então, na nossa idade,
    Ou está em nós e em nosso peito mora?!…

    Tenho a peor velhice, a que é mais triste,
    Aquela onde nem sequer existe
    Lembrança de ter sido nova… outróra…

    *A um livro*

    A UM LIVRO

    No silêncio de cinzas do meu Ser
    Agita-se uma sombra de cypreste.
    Sombra roubada ao livro que ando a ler,
    A esse livro de máguas que me deste.

    Extranho livro aquele que escreveste
    Artista da saudade e do sofrer!
    Extranho livro aquele em que puzéste
    Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

    Leio-o e folhêio, assim, toda a minh'alma!
    O livro que me déste é meu e psalma
    As orações que choro e rio e canto!…

    Poeta egual a mim, ai quem me déra
    Dizer o que tu dizes!… Quem soubéra
    Velar a minha Dôr desse teu manto!…

    *Alma perdida*

    ALMA PERDIDA

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguem que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dôr, suavemente…
    Talvez sejas a alma, alma doente
    D'alguem que quiz amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste… e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguem é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa á noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!…

    *De joelhos*

    DE JOELHOS

    «Bendita seja a Mãe que te gerou.»
    Bendito o leite que te fez crescer.
    Bendito o berço aonde te embalou
    A tua ama, p'ra te adormecer!

    Bendita essa canção que acalentou
    Da tua vida o dôce alvorecer…
    Bendita seja a lua que inundou
    De luz, a terra, só para te vêr…

    Benditos sejam todos que te amarem,
    As que em volta de ti ajoelharem,
    Numa grande paixão fervente e louca!

    E se mais que eu, um dia, te quiser
    Alguem, bendita seja essa Mulher,
    Bendito seja o beijo dessa bôca!!

    *Languidez*

    LANGUIDEZ

    Tardes da minha terra, dôce encanto,
    Tardes duma puresa d'açucenas,
    Tardes de sonho, as tardes de novenas,
    Tardes de Portugal, as tardes d'Anto.

    Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
    Horas benditas, leves como pênas,
    Horas de fumo e cinza, horas serênas,
    Minhas horas de dôr em que eu sou santo!

    Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,
    Que poisam sôbre duas violetas,
    Azas leves cançadas de voar…

    E a minha bôca tem uns beijos mudos…
    E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
    Traçam gestos de sonho pelo ar…

    *Para quê?!*

    PARA QUÊ?!

    Tudo é vaidade neste mundo vão…
    Tudo é tristesa; tudo é pó, é nada!
    E mal desponta em nós a madrugada,
    Vem logo a noite encher o coração!

    Até o amôr nos mente, essa canção
    Que o nosso peito ri á gargalhada,
    Flôr que é nascida e logo desfolhada,
    Pétalas que se pisam pelo chão!…

    Beijos d'amôr! P'ra quê?!… Tristes vaidades!
    Sonhos que logo são realidades,
    Que nos deixam a alma como morta!

    Só acredita neles quem é louca!
    Beijos d'amor que vão de bôca em bôca,
    Como pobres que vão de porta em porta!…

    *Ao vento*

    AO VENTO

    O vento passa a rir, torna a passar,
    Em gargalhadas asp'ras de demente;
    E esta minh'alma trágica e doente
    Não sabe se ha de rir, se ha de chorar!

    Vento de voz tristonha, voz plangente,
    Vento que ris de mim, sempre a troçar,
    Vento que ris do mundo e do amar,
    A tua voz tortura toda a gente!…

    Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
    Desabafa essa dôr a sós comigo,
    E não rias assim!… Ó vento, chóra!

    Que eu bem conheço, amigo, êsse fadário
    Do nosso peito ser como um Calvario,
    E a gente andar a rir p'la vida fóra!!…

    *Tédio*

    TÉDIO

    Passo pálida e triste. Oiço dizer
    «Que branca que ela é! Parece morta!»
    E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
    Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

    Que diga o mundo e a gente o que quizer!
    –O que é que isso me faz?… O que me importa?…
    O frio que trago dentro gela e corta
    Tudo que é sonho e graça na mulher!

    O que é que isso me importa?! Essa tristesa
    É menos dôr intensa que friesa,
    É um tédio profundo de viver!

    E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
    O mesmo lago plácido, dormente…
    E os dias, sempre os mesmos, a correr…

    *A minha Tragédia*

    A MINHA TRAGÉDIA

    Tenho ódio á luz e raiva á claridade
    Do sol, alegre, quente, na subida.
    Parece que a minh'alma é perseguida
    Por um carrasco cheio de maldade!

    Ó minha vã, inutil mocidade
    Trazes-me embriagada, entontecida!…
    Duns beijos que me déste, noutra vida,
    Trago em meus lábios rôxos, a saudade!…

    Eu não gosto do sol, eu tenho medo
    Que me leiam nos olhos o segrêdo
    De não amar ninguem, de ser assim!

    Gosto da Noite imensa, triste, preta,
    Como esta extranha e doida borboleta
    Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…

    *Sem remédio*

    SEM REMÉDIO

    Aqueles que me teem muito amôr
    Não sabem o que sinto e o que sou…
    Não sabem que passou, um dia, a Dôr,
    Á minha porta e, nesse dia, entrou.

    E é desde então que eu sinto êste pavôr,
    Este frio que anda em mim, e que gelou
    O que de bom me deu Nosso Senhor!
    Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

    Sinto os passos da Dôr, essa cadência
    Que é já tortura infinda, que é demência!
    Que é já vontade doida de gritar!

    E é sempre a mesma mágua, o mesmo tédio,
    A mesma angústia funda, sem remédio,
    Andando atraz de mim, sem me largar!…

    *Mais triste*

    MAIS TRISTE

    É triste, diz a gente, a vastidão
    Do Mar imenso! E aquela voz fatal
    Com que êle fala, agita o nosso mal!
    E a Noite é triste como a Extrema Unção!

    É triste e dilacera o coração
    Um poente do nosso Portugal!
    E não veem que eu sou… eu… afinal,
    A coisa mais maguada das que o são?!…

    Poentes d'agonia trago-os eu
    Dentro de mim e tudo quanto é meu
    É um triste poente d'amargura!

    E a vastidão do Mar, toda essa agua
    Trago-a dentro de mim num Mar de Mágua!
    E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

    *Velhinha*

    VELHINHA

    Se os que me viram já cheia de graça
    Olharem bem de frente para mim,
    Talvez, cheios de dôr, digam assim:
    «Já ela é velha! Como o tempo passa!…»

    Não sei rir e cantar por mais que faça!
    Ó minhas mãos talhadas em marfim,
    Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
    Deixem correr a vida até ao fim!

    Tenho vinte e tres anos! Sou velhinha!
    Tenho cabelos brancos e sou crente…
    Já murmuro orações… falo sòsinha…

    E o bando côr de rosa dos carinhos
    Que tu me fazes, olho-os indulgente,
    Como se fosse um bando de nètinhos…

    *Em busca do Amôr*

    EM BUSCA DO AMOR

    O meu Destino disse-me a chorar:
    «Pela estrada da Vida vae andando;
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amôr que has de êncontrar.»

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando…
    E noite e dia, á chuva e ao luar,
    Fuí sempre caminhando e perguntando…

    Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,
    Viste o Amôr acaso em teu caminho?»
    E o velho estremeceu… olhou… e riu…

    Agora pela estrada, já cançados
    Voltam todos p'ra traz, desanimados…
    E eu paro a murmurar: Ninguem o viu!…»

    *Impossivel*

    IMPOSSIVEL

    Disseram-me hoje, assim, ao vêr-me triste:
    «Parece Sexta Feira de Paixão.
    Sempre a scismar, scismar, d'olhos no chão,
    Sempre a pensar na dôr que não existe…

    O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
    Faça por 'star contente! Pois então?!…»
    Quando se sofre o que se diz é vão…
    Meu coração, tudo, calado ouviste…

    Os meus males ninguem mos adivinha…
    A minha Dôr não fala, anda sòsinha…
    Dissesse ela o que sente! Ai quem me déra!…

    Os males d'Anto toda a gente os sabe!
    Os meus… ninguem… A minha Dôr não cabe
    Nos cem milhões de versos que eu fizéra!…

    ÍNDICE

    Êste livro
    Vaidade
    Eu…
    Castelã da Tristesa
    Tortura
    Lágrimas ocultas
    Torre de névoa
    A minha dôr
    Dizêres íntimos
    As minhas ilusões
    Neurastenia
    Pequenina
    A maior tortura
    A flôr do sonho
    Noite de saudade
    Angustia
    Amiga
    Desejos vãos
    Peor velhice
    A um livro
    Alma perdida
    De joelhos
    Languidez
    Para quê?!
    Ao vento
    Tédio
    A minha tragédia
    Sem remédio
    Mais triste
    Velhinha
    Em busca do amôr
    Impossivel

    ACABOU-SE DE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO
    NO MÊS DE JUNHO DE 1919 NA
    TIPOGRAFIA MAURICIO, RUA
    DO SALITRE, 102-A
    LISBOA

  • Lendas e Narrativas (Tomo II)

    Lendas e Narrativas (Tomo II)

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    LENDAS E NARRATIVAS (Tomo II)

    A DAMA-PÉ-DE-CABRA

    RIMANCE DE UM JOGRAL

    SECULO XI

    TROVA PRIMEIRA.

    1

    Vós os que não crêdes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas
    tropelias de Satanás, assentae-vos aqui ao lar, bem junctos ao
    pé de mim, e contar-vos-hei a historia de D. Diogo Lopes, senhor
    de Biscaia.

    E não me digam no fim:–"não póde ser."–Pois eu sei cá inventar
    cousas destas? Se a conto é porque a li n'um livro muito velho,
    quasi tão velho como o nosso Portugal. E o auctor do livro velho
    leu-a algures, ou ouviu-a contar, que é o mesmo, a algum jogral
    em seus cantares.

    É uma tradição veneranda; e quem descrê das tradições lá irá para
    onde o pague.

    Juro-vos que se me negaes esta certissima historia sois dez vezes
    mais descridos do que S. Thomé antes de ser grande sancto. E
    não sei se eu estarei de animo de perdoar-vos, como Cbristo lhe
    perdoou.

    Silencio profundissimo; porque vou principiar.

    2

    D. Diogo Lopes era um infatigavel monteiro: neves da serra no
    inverno, soes dos estevaes no verão, noites e madrugadas, d'isso
    se ria elle.

    Pela manhan cedo de um dia sereno estava D. Diogo em sua armada,
    em monte selvoso e agreste, esperando um porco montez, que, batido
    pelos caçadores, devia saír naquella assomada.

    Eis senão quando começa a ouvir cantar ao longe: era um lindo,
    lindo cantar.

    Alevantou os olhos para uma penha que lhe ficava fronteira: sobre
    ella estava assentada uma formosa dama; era a dama quem cantava.

    O porco fica desta vez livre e quite; porque D. Diogo Lopes não
    corre, voa para o penhasco.

    "Quem sois vós, senhora tão gentil; quem sois, que logo me
    captivastes?"

    "Sou de tão alta linhagem como tu; porque venho do semel de reis,
    como tu, senhor de Biscaia."

    "Se já sabeis quem eu seja, offereço-vos a minha mão, e com ella
    as minhas terras e vassallos."

    "Guarda as tuas terras, D. Diogo Lopes, que poucas são para seguires
    tuas montarias; para o desporto e folgança de bom cavalleiro que
    és. Guarda os teus vassallos, senhor de Biscaia, que poucos são
    elles para te baterem a caça."

    "Que dote, pois, gentil dama, vos posso eu offerecer digno de
    vós e de mim; que se a vossa belleza é divina, eu sou em toda
    a Hespanha o rico homem mais abastado?"

    "Rico-homem, rico-homem, o que eu te acceitára em arrhas cousa
    é de pouca valia; mas apesar d'isso não creio que m'o concedas;
    porque é um legado de tua mãe, a rica-dona de Biscaia."

    "E se eu te amasse mais que a minha mãe, porque não te cederia
    qualquer dos seus muitos legados?"

    "Então se queres ver-me sempre ao pé de ti não jures que farás
    o que dizes, mas dá-me d'isso a tua palavra."

    "A la fé de cavalleiro, não darei uma, darei milhentas palavras."

    "Pois sabe que para eu ser tua é preciso esqueceres-te de uma
    cousa que a boa rica-dona te ensinava em pequenino, e que estando
    para morrer ainda te recordava."

    "De quê, de quê, donzella?"–acudiu o cavalleiro com os olhos
    faiscantes.–"De nunca dar treguas á mourisma, nem perdoar aos
    cães de Mafamede? Sou bom christão. Guai de ti e de mim se és
    dessa raça damnada!"

    "Não é isso, dom cavalleiro,"–interrompeu a donzella a rir.–"O
    de que eu quero que te esqueças é do signal da cruz: o que eu
    quero que me promettas é que nunca mais has-de persignar-te."

    "Isso é outra cousa:"–replicou D. Diogo, que nos folgares e
    devassidões perdêra o caminho do céu. E poz-se um pouco a scismar.

    E scismando dizia comsigo:–"De que servem benzeduras? Matarei
    mais duzentos mouros e darei uma herdade a Sanctiago. Ella por
    ella. Um presente ao apostolo e duzentas cabeças de agarenos
    valem bem um grosso peccado."

    E erguendo os olhos para a dama, que sorria com ternura,
    exclamou:–"Seja assim: está dicto. Vá, com seiscentos diabos."

    E levando a bella dama nos braços, cavalgou na mula em que viera
    montado.

    Só quando á noite no seu castello pôde considerar miudamente
    as fórmas nuas da airosa dama, notou que tinha os pés forcados
    como os de cabra.

    3

    Dirá agora alguem:–"Era por certo o demonio que entrou em casa
    de D. Diogo Lopes. O que lá não iria!"–Pois sabei que não ía
    nada.

    Por annos a dama e o cavalleiro viveram em boa paz e união. Dous
    argumentos vivos havia d'isso: D. Inigo Guerra e D. Sol, enlevo
    ambos de seu pae.

    Um dia pela tarde D. Diogo voltou de montear: trazia um javali
    grande, muito grande. A mesa estava posta. Mandou conduzi-lo á
    casa onde comia, para se regalar de ver a excellente prêa que
    havia preado.

    Seu filho assentou-se ao pé delle: ao pé da mãe D. Sol; e começaram
    alegremente seu jantar.

    "Boa montaria, D. Diogo,"–dizia sua mulher.–"Foi uma boa e limpa
    caçada."

    "Pelas tripas de Judas!"–respondeu o barão.–"Que ha bem cinco
    annos não colho urso ou porco montez que este valha!"

    Depois, enchendo de vinho o seu pichel de prata mui rico e lavrado,
    virou-o de golpe á saude de todos os ricos homens fragueiros e
    monteadores.

    E a comer e a beber durou até a noite o jantar.

    4

    Ora deveis de saber que o senhor de Biscaia tinha um alão a que
    muito queria, raivoso no travar das feras, manso com seu dono,
    e até com os servos de casa.

    A nobre mulher de D. Diogo tinha uma podenga preta como azeviche,
    esperta e ligeira que mais não havia dizer, e della não menos
    presada.

    O alão estava gravemente assentado no chão defronte de D. Diogo
    Lopes, com as largas orelhas pendentes e os olhos semi-cerrados,
    como quem dormitava.

    A podenga negra, essa corria pelo aposento viva e inquieta, pulando
    como um diabrete: o pello liso e macio reluzia-lhe com um reflexo
    avermelhado.

    O barão, depois da saude _urbi et orbi_ feita aos monteiros, esgotava
    um kirie comprido de saudes particulares, e a cada nome uma taça.

    Estava como cumpria a um rico-homem illustre, que nada mais tinha
    que fazer neste mundo senão dormir, beber, comer e caçar.

    E o alão cabeceava como um abbade velho em seu côro, e a podenga
    saltava.

    O senhor de Biscaia pegou então de um pedaço de osso com sua
    carne e medula, e atirando-a ao alão gritou-lhe:–"Silvano, toma
    lá tu, que és fragueiro: leve o diabo a podenga, que não sabe
    senão correr e retouçar."

    O canzarrão abriu os olhos, rosnou, poz a pata sobre o osso, e
    abrindo a bôca, mostrou os dentes anavalhados. Era como um rir
    deslavado.

    Mas logo soltou um uivo, e cahiu, perneando meio-morto: a podenga
    de um pulo lhe saltára á garganta, e o alão agonisava.

    "Pelas barbas de D. From, meu bisavô!"–exclamou D. Diogo, pondo-se
    em pé tremulo de colera e de vinho.–"A perra maldicta matou-me
    o melhor alão da matilha; mas juro que hei-de escorcha-la."

    E virando com o pé o cão moribundo, mirava as largas feridas do
    nobre animal, que espirava.

    "A la fé que nunca tal vi! Virgem bemdicta! Aqui anda cousa de
    Belzebuth."–E dizendo e fazendo, benzia-se e persignava-se.

    "Ui!"–gritou sua mulher como se a houveram queimado. O barão
    olhou para ella: viu-a com os olhos brilhantes, as faces negras,
    a bôca torcida e os cabellos eriçados:

    E ía-se alevantando, alevantando ao ar com a pobre D. Sol sobraçada
    debaixo do braço esquerdo: o direito estendia-o por cima da mesa
    para seu filho D. Inigo de Biscaia.

    E aquelle braço crescia alongando-se para o mesquinho, que de
    medo não ousava bolir nem falar.

    E a mão da dama era preta e luzidia como o pello da podenga,
    e as unhas tinham-se-lhe estendido bom meio palmo, e recurvado
    em garras.

    "Jesus, sancto nome de Deus!"–bradou D. Diogo, a quem o terror
    dissipára as fumaças do vinho. E travando de seu filho com a
    esquerda, fez no ar com a direita uma e outra vez o signal da
    cruz.

    E sua mulher deu um grande gemido, e largou o braço de Inigo
    Guerra, que já tinha seguro, e continuando a subir ao alto, saiu
    por uma grande fresta, levando a filhinha que muito chorava.

    Desde esse dia não houve saber mais nem da mãe nem da filha. A
    podenga negra, essa sumiu-se por tal arte, que ninguem no castello
    lhe tornou a pôr a vista em cima.

    D. Diogo Lopes viveu muito tempo triste e aborrído, porque já
    não se atrevia a montear. Lembrou-se, porém, um dia de espairecer
    sua tristura, e em vez de ir á caça dos cerdos, ursos e zevras,
    sair á caça de mouros.

    Mandou, pois, levantar o pendão, desenferrujar e polir a caldeira,
    e provar seus arnezes. Entregou a Inigo Guerra, que já era mancebo
    e cavalleiro, o governo de seus castellos, e partiu com lustrosa
    mesnada de homens d'armas para a hoste d'el rei Ramiro, que ía
    em arrancada contra a mourisma de Hespanha.

    Por muito tempo não houve delle, em Biscaia, nem novas nem
    mensageiros.

    * * * * *

    TROVA SEGUNDA.

    1

    Era um dia ao anoitecer: D. Inigo estava á mesa, mas não podia
    ceiar, que grandes desmaios lhe vinham ao coração. Um pagem muito
    mimoso e privado, que em pé diante delle esperava seu mandar,
    disse então para D. Inigo:–"Senhor, porque não comeis?"

    "Que hei-de eu comer, Brearte, se meu senhor D. Diogo está captivo
    de mouros, segundo resam as cartas que ora delle são vindas?"

    "Mas seu resgate não é a vossa mofina: dez mil peões e mil
    cavalleiros tendes na mesnada de Biscaia: vamos correr terras
    dos mouros: serão os captivos resgate de vosso pae."

    "O perro d'elrei de Leão fez sua paz com os cães de Toledo: e
    são elles que tem preado meu pae. Os alcaides e potestades do
    rei tredo e vil não deixariam passar a boa hoste de Biscaia."

    "Quereis vós, senhor, um conselho, e não vos custará nem mealha?"

    "Dize, dize lá, Brearte."

    "Porque não ides á serra procurar vossa mãe? Segundo ouço contar
    aos velhos ella é grande fada."

    "Que dizes tu, Brearte? Sabes quem é minha mãe, e que casta é
    de fada?"

    "Grandes historias tenho ouvido do que se passou certa noite
    n'este castello: ereis vós pequenino, e eu ainda não era nado.
    Os porquês d'estas historias, isso Deus é que o sabe."

    "Pois dir-t'os-hei eu agora. Chega-te para cá, Brearte."

    O pagem olhou de roda de si quasi sem o querer, e chegou-se para
    seu amo: era a obediencia, e ainda mais um certo arripio de medo,
    que o fazia chegar.

    "Vês tu, Brearte, aquella fresta entaipada? Foi por alli que
    minha mãe fugiu. Como e porquê, aposto que já t'o hão contado?"

    "Senhor, sim! Levou vossa irman comsigo…"

    "Responder só ao que pergunto! Sei isso. Agora cal-te."

    O pagem poz os olhos no chão, de vergonha; que era humildoso e
    de boa raça.

    2

    E o cavalleiro começou o seu narrar:

    "Desde aquelle dia maldicto meu pae poz-se a scismar: e scismava
    e amesquinhava-se, perguntando a todos os monteiros velhos se
    porventura tinham lembrança de haverem no seu tempo encontrado
    nas brenhas alguns medos ou feiticeiras. Aqui foi um não acabar
    de historias de bruxas e de almas penadas.

    Havia muitos annos que meu senhor pae se não confessava: alguns
    havia tambem que estava viuvo sem ter enviuvado.

    Certo domingo pela manhan nasceu o dia, alegre como se fôra de
    paschoa; e meu senhor D. Diogo acordou carrancudo e triste como
    costumava.

    Os sinos do mosteiro, lá em baixo no valle, tangiam tão lindamente
    que era um céu aberto. Elle poz-se a ouvi-los, e sentiu uma saudade
    que o fez chorar.

    "Irei ter com o abbade:"–disse elle lá comsigo:–"quero-me confessar.
    Quem sabe se esta tristura ainda é tentação de Satanás?"

    O abbade era um velhinho, sancto, sancto, que não o havia mais.

    Foi a elle que se confessou meu pae. Depois de dizer _mea culpa_,
    contou-lhe ponto por ponto a historia do seu noivado.

    "Ui! filho,"–bradou o frade–"fizeste maridança com uma alma penada!"

    "Alma penada, não sei:"–tornou D. Diogo;–"mas era cousa do diabo."

    "Era alma em pena: digo-t'o eu, filho:"–replicou o abbade.–"Sei
    a historia dessa mulher das serras. Está escripta ha mais de cem
    annos na ultima folha de um sanctoral godo do nosso mosteiro.
    Desmaios que te vem ao coração pouco me espantam. Mais que ancias
    e desmaios costumam roer lá por dentro os pobres excommungados."

    "Então estou eu excommungado?"

    "Dos pés até á cabeça; por dentro e por fóra; que não ha que dizer
    mais nada."

    E meu pae, a primeira vez na sua vida, chorava pelas barbas abaixo.

    O bom do abbade amimou-o como a uma creança, consolou-o como
    a um malaventurado. Depois poz-se a contar a historia da dama
    das penhas, que é minha mãe … Deus me salve!

    E deu-lhe por penitencia ir guerrear os perros sarracenos por
    tantos annos quantos vivêra em peccado, matando tantos delles
    quantos dias nesses annos tinham corrido. Na conta não entravam as
    sextas-feiras, dia da paixão de Christo, em que seria irreverência
    trosquiar a vil relé de agarenos, cousa neste mundo mui indecente
    e escusada.

    Ora a historia da formosa dama das serras, de verbo ad verbum
    como estava na folha branca do sanctoral, resava assim, segundo
    lembranças do abbade.

    3

    No tempo dos reis godos–bom tempo era esse!–havia em Biscaia um
    conde, senhor de um castello posto em montanha fragosa, cercado
    pelas encostas e quebradas de larguissimo soveral. No soveral
    havia todo o genero de caça, e Argimiro o Negro (assim se chamava
    o rico-homem) gostava, como todos os nobres barões de Hespanha,
    principalmente de tres cousas boas; da guerra, do vinho e das
    damas; mas ainda mais do que de tudo isso, gostava de montear.

    Dama, possuia-a formosa, que era linda a condessa; vinho, não
    havia melhor adega que a sua; caça, era cousa que na selva não
    faltava.

    Seu pae, que fôra caçador e fragueiro, quando estava para morrer,
    chamou-o e disse-lhe:–"Has-de jurar-me uma cousa que não te custará nada."

    Argimiro jurou que faria o que seu pae e senhor lhe ordenasse.

    "É que nunca mates fera em cama e com cria, seja urso, javalí,
    ou veado. Se assim o fizeres, Argimiro, nunca nas tuas selvas
    e devezas faltará em que exercites o mais nobre mister de um
    fidalgo. Além d'isso, se tu souberas o que um dia me aconteceu…
    Escuta-me, que é um horrendo caso…."

    O velho não pôde acabar; porque a morte lhe cravou n'este momento
    as garras. Murmurou algumas palavras inintelligiveis: revirou
    os olhos, e feneceu. Deus seja com a sua alma!

    Tinham passado annos: certo dia chegou ao castello do conde um
    mensageiro d'elrei Wamba. Chamava-o elrei a Toledo para o acompanhar
    com sua mesnada contra o rebelde Paulo. Os outros nobres-homens
    das cercanias eram como elle chamados.

    Antes, porém, de partirem junctaram-se todos no castello de Argimiro
    para fazerem uma grande montaria com mais de cem alãos, sabujos,
    e lebreus, cincoenta monteiros, e moços de bésta sem conto. Era
    uma vistosa caçada.

    Saíram no quarto d'alva: correram valles e montes; bateram bosques
    e matos. Era, comtudo, meio dia e ainda não haviam alevantado
    porco, urso, zebra ou veado. Blasphemavam de sanha os cavalleiros,
    praguejavam, e depennavam as barbas.

    Argimiro, que por longa experiencia conhecia os sitios mais profundos
    da espessura, sentiu lá por dentro uma tentação do diabo.

    "Os meus hospedes, pensava elle, não partirão sem beberem alguns
    cangirões de vinho sobre uma ou duas peças de caça. Juro-o por
    alma de meu pae."

    E seguido de alguns monteiros com suas trélas de cães, affastou-se
    da companhia, e deu a andar, a andar, até que se lançou por um
    valle abaixo.

    O valle era escuro e triste: corria pelo meio uma ribeira fria
    e malassombrada. As bordas da ribeira eram penhascosas e faziam
    muitas quebradas.

    Argimiro chegou á primeira volta do rio: parou, poz-se a olhar
    de roda, e achou o que procurava. Abria-se uma caverna na encosta
    fragosa, que descia até a estreita senda da margem por onde o
    cavalleiro caminhava. Argimiro entrou na bôca da cova, e a um
    acêno entraram após elle monteiros, moços de bésta, alãos, sabujos
    e lebreus, fazendo grande matinada.

    Era o covil de um onagro: a fera deu um gemido, e deixando as
    suas crias, estendeu-se no chão, e abaixou a cabeça como quem
    supplicava.

    "A ella!"–gritou Argimiro; mas gritou voltando a cara.

    A matilha saltou no pobre animal; que soltou outro gemido, e cahiu
    todo ensanguentado.

    Uma voz soou então nos ouvidos do conde, e dizia:–"Orphãos ficaram
    os cachorrinhos do onagro: mas pelo onagro tu ficarás deshonrado."

    "Quem ousa aqui falar agouros?"–gritou o rico-homem, olhando iroso
    para os monteiros. Todos guardavam silencio: mas todos estavam
    pallidos.

    Argimiro pensou um momento: depois saindo da cova, murmurou:–"Vá
    com mil Satanases!"

    E com alegres toques de buzina e latidos da matilha fez conduzir
    ao castello a prêa que tinha preado.[1]

    E tomando o seu girifalte prima em punho, ordenou aos monteiros
    fossem dizer aos nobres caçadores, que dentro de duas horas
    voltassem, porque achariam em seu paço comida bem aparelhada.

    Depois, seguido dos falcoeiros, começou a encaminhar-se para o
    solar, lançando nebris e falcões, e ajuntando caça de volateria,
    que a havia por aquelles montes mui basta.

    4

    Dobrava a campa da torre de menagem no castello do conde Argimiro:
    dobrava pela linda condessa, que seu nobre marido havia matado.

    Andas cubertas de dó a levam a enterrar ao mosteiro vizinho:
    os frades vão atraz das andas cantando as orações dos finados:
    após os frades vae o rico-homem vestido de grossa estamenha,
    cingido com uma corda, e rasgando pelas sarças e pedras os pés
    que leva descalços.

    Porque matou elle sua mulher, e porque ía elle descalço?

    Eis o que a esse respeito refere a lenda escripta na folha branca
    do sanctoral.

    5

    Dous annos duraram guerras d'elrei Wamba: foram guerras mui de
    contar.

    E por lá andou o rico-bomem com seus bucellarios, que assim se
    diziam então acostados e homens d'armas. Fez estrondosas façanhas
    e cavallarias; mas voltou cuberto de cicatrizes, deixando por
    campos de batalha gasta e consumida a sua valente mesnada.

    E atravessando de Toledo para Biscaia seguia-o apenas um velho
    escudeiro. Velho e cheio de cans e rugas tambem elle era, não
    de annos, mas de penas e de trabalhos.

    Caminhava triste e feroz no aspecto; porque do seu castello lhe
    eram vindas novas d'entristecer e raivar.

    E cavalgando noite e dia por montes e charnecas, por bosques e
    por jardías, imaginava no modo por que descobriria se eram falsas
    ou verdadeiras essas novas de mau peccado.

    6

    No solar do conde Argimiro, um anno depois da sua partida, ainda
    tudo dava mostras da magua e saudade da condessa: as salas estavam
    forradas de negro; de negro eram os trajos della; nos pateos
    interiores dos paços crescêra a herva, de modo que se podia ceifar:
    as reixas e as gelosias das janellas não se haviam tornado a
    abrir: descantes dos servos e servas, sons de psalterios e harpas
    tinham deixado de soar.

    Mas ao cabo do segundo anno tudo apparecia mudado: as colgaduras
    eram de prata e matiz; brancos e vermelhos os trajos da bella
    condessa; pelas janellas do paço restrugia o ruído da musica e
    dos saraus; e o solar de Argimiro estava por dentro e por fóra
    alindado.

    Um antigo villico do nobre conde fôra quem destas mudanças o
    avisára. Doíam-lhe tantos folgares e contentamentos; doía-lhe a
    honra de seu senhor, pelo que elle via e pelo que se murmurava.

    Eis-aqui como se passára o caso:

    7

    Longe do condado do illustre barão Argimiro o Negro, para as
    bandas de Galliza, vivia um nobre gardingo–como quem dissesse
    infanção–gentil homem e mancebo, chamado Astrigildo o Alvo.

    Contava vinte e cinco annos; os sonhos das suas noites eram de
    formosas damas; eram de amores e deleites; mas ao romper da manhan
    todos elles se desfaziam, que ao saír ao campo não via senão
    pastoras tostadas do sol e das neves, e as servas grosseiras do
    seu solar.

    Destas estava elle farto. Mais de cinco tinha enganado com palavras;
    mais de dez comprado com ouro; mais de outras dez, como nobre e
    senhor que era, brutamente violado.

    Com vinte e cinco annos, já no livro da justiça divina se lhe
    haviam escripto mais de vinte e cinco grandes maldades.

    Uma noite sonhou Astrigildo que corria serras e valles com a
    rapidez do vento, montado em onagro silvestre, e que, depois de
    correr muito, chegava alta noite a um solar, onde pedia agasalho:

    E que formosa dama o recebia, e que em poucos instantes um do
    outro se enamorava.

    Acordou sobresaltado; e durante o dia inteiro não pensou em outra
    cousa senão na formosa dama que víra nos sonhos da madrugada.

    Tres noites se repetia o sonho: tres dias o mancebo scismava.
    Encostado á varanda de um eirado, na tarde do terceiro dia, olhava
    triste para as montanhas do norte, que via lá no horisonte como
    nuvens pardacentas. O sol começou a descer no poente, e ainda
    elle estava embebido em seu melancholico scismar.

    Por acaso volveu então os olhos para o terreiro que lhe ficava
    por baixo: um onagro da floresta estava ahi deitado como se fosse
    manso jumento: era inteiramente semelhante áquelle com que havia
    sonhado.

    Sonhos de tres noites a fio não mentem: Astrigildo desceu á pressa
    ao terreiro: o onagro quieto deixou-se enfrear e selar; e a Deus e
    á ventura, o mancebo cavalgou nelle e deitou pela encosta abaixo.

    Cumpria-se tudo á risca: o onagro não corria, voava.

    Mas o ceu começou de toldar-se com o anoitecer: a escuridão cresceu
    e desfechou em vento, trovões, chuva e raios. O mancebo começava
    a perder o tino, e o onagro dobrava a carreira, e bufava
    violentamente. Parou, emfim, a horas mortas. Sem saber como,
    Astrigildo achou-se junto das barreiras de um solar acastellado.

    Tocou a sua buzina, que deu um som prolongado e trémulo, porque
    elle tremia de susto e de frio. Apenas cessou de tocar, a ponte
    levadiça desceu, muitos escudeiros saíram a recebe-lo entre tochas,
    e as salas dos paços illuminaram-se.

    Era que tambem a condessa tinha por tres noites sonhado!

    * * * * *

    8

    A clepsidra marca a hora de sexta nocturna, e ainda dura o sarau
    no solar do conde de Biscaia; porque a nobre condessa e o gentil
    Astrigildo assistem ás danças e jogos dos libertos e servos,
    que para elles espairecerem folgam lá na sala d'armas. Mas n'um
    aposento baixo do solar um homem está em pé com um punhal na
    mão, olhar furibundo, e o cabello eriçado, parecendo escutar
    longinqua toada.

    Outro homem está diante delle dizendo-lhe:–Senhor, ainda não é
    tempo para punir o grande peccado. Quando elles se recolherem,
    aquella luz que vêdes acolá ha-de apagar-se: subi então, e achareis
    desempedido o caminho secreto para a camara, que é a mesma do
    vosso noivado."

    E o que falava saiu, e d'ahi a pouco a luz apagou-se, e o homem
    dos cabellos hirtos e do olhar esgazeado subiu por uma ingreme
    e tenebrosa escada.

    * * * * *

    9

    Quando pela manhan cedo o conde Argimiro do seu balcão principal
    ordenava que levassem o corpo da condessa a um mosteiro de Donas,
    que elle fundára para ahi ter seu moimento, elle e os de sua
    casa, e dizia aos homens de armas que arrastassem o cadaver de
    Astrigildo, e o despenhassem de um grande barrocal abaixo, viu
    um onagro silvestre deitado a um canto do pateo.

    "Um onagro assim manso é cousa que nunca vi:–disse elle ao villico,
    que estava alli ao pé.–Como veio aqui este onagro?"

    O villico ía a responder, quando se ouviu uma voz: dir-se-hia
    que era o ar que falava.

    "Foi nelle que veio Astrigildo: será elle que o levará. Por ti
    ficaram orphãos os filhinhos do onagro, mas por via do onagro
    ficaste, oh conde, deshonrado. Foste crú com as pobres feras:
    Deus acaba de vinga-las."

    "Misericordia!–bradou Argimiro, porque naquelle momento se lembrou
    da maldicta caçada.

    Neste momento os homens do conde saíam com o cadaver sangrento
    do mancebo: o onagro, apenas o viu, saltou como um leão no meio
    da turba, que fez fugir, e segurando com os dentes o morto,
    arrastou-o para fóra do castello, e, como se tivesse em si uma
    legião de demonios, foi precipitar-se com elle do barrocal abaixo.

    Era por isso que o conde ía cingido de corda e descalço após os
    frades e a tumba. Queria fazer penitencia no mosteiro por haver
    quebrado o juramento que tinha feito a seu pae.

    As almas da condessa e do gardingo cahiram de chofre no inferno
    por terem deixado a vida em adulterio, que é peccado mortal.

    Desde esse tempo as duas miseraveis almas teem apparecido a muita
    gente nos desvios da Biscaia: ella vestida de branco e vermelho,
    assentada nas penhas cantando lindas toadas: elle retouçando
    ahi perto, na figura de um onagro.

    Tal foi a historia que o velho abbade contou a meu pae, e que
    elle me relatou a mim antes de ír cumprir sua penitencia nessa
    guerra de mouros que lhe foi tão fatal."

    Assim concluiu Inigo Guerra. Brearte, o pagem Brearte, sentia
    os cabellos arripiarem-se-lhe. Por largo tempo ficou immovel
    defronte de seu senhor: ambos elles em silencio. O moço rico-homem
    não podia engulir bocado.

    Tirou por fim da escarcela a carta de D. Diogo para a tornar a
    ler. As miserias e lastimas que ahi recontava eram taes, que D.
    Inigo sentiu o pranto gotejar-lhe abundante pelas faces abaixo.

    Então ergueu-se da mesa para se ír deitar. Nem o barão nem o
    pagem pregaram olho toda a noite; este de medroso, aquelle de
    desconsolado.

    E nos ouvidos de Inigo Guerra soavam contínuo as palavras de
    Brearte:–Porque não ides á serra procurar vossa mãe?–Só por
    encantamento seria de feito possível tirar das unhas dos mouros
    o nobre senhor de Biscaia.

    Rompeu, finalmente, a alvorada.

    * * * * *

    TROVA TERCEIRA

    1

    Mensageiros após mensageiros, cartas sobre cartas são vindos
    de Toledo a Inigo Guerra. Elrei de Leão resgatava todos os dias
    seus cavalleiros por cavalleiros mouros; mas não tinha wali ou
    kaid captivo, que podesse dar em troca por tão nobre senhor como
    o senhor de Biscaia.

    E muitos dos redemidos eram das bandas das serras: e estes, trazendo
    as mensagens, contavam ainda mais lastimas do velho D. Diogo
    Lopes, do que, se é possível, essas de que resavam as cartas.

    "Á porta do aguião em Toledo–diziam elles–tem a mourisma um
    grande campo todo mui bem apalancado: aqui fazem grandes festas,
    guinolas, e touros nos dias dos seus perros sanctos, segundo
    lá lhos prégam e determinam khatibs e ulemás.

    "Gaiolas de bestas-feras muitas ha ahí, cousa mui de vêr e pasmar:
    os tigres e leões não as rompem; rompê-las mãos de homens, fôra
    pequice sómente o imagina-lo.

    "N'uma destas prisões, quasi nú, com adovas de pés e mãos, está
    o illustre rico-homem, que já foi capitão de grandes e lustrosas
    mesnadas."

    "Cortezes costumam ser mouros com seus captivos fidalgos. Fazem
    esta perraria a D. Diogo Lopes, porque já são passados tres annos,
    e não ha vêr seu resgate."

    E os peregrinos que vinham do captiveiro e relatavam taes cousas,
    bem ceados e agasalhados no castello, iam-se no outro dia com
    Deus, levando provída a escarcela, e em boa e sancta paz.

    Quem não ficava em paz era D. Inigo:–"Porque não vaes tu á
    serra?"–dizia-lhe uma voz ao ouvido.–"Porque não ides procurar
    vossa mãe?"–repetia-lhe o pagem Brearte.

    Que lhe havia de fazer? Uma noite inteira levou em claro a pensar
    nisso. Pela manhan, a Deus e á sorte, ei-lo que emfim se resolve
    a tentar a aventura, bem que de seu mau grado.

    Benzeu-se vinte vezes, para não ter lá de persignar-se. Resou
    o _Pater_, a _Ave_, e o _Credo_; porque não sabia se em breve essas
    orações seriam cousa de recordar-se.

    E seguido de um mastim seu predilecto, a pé e com um venábulo
    na mão, foi-se através das brenhas por uma vereda que dizia para
    os pincaros tristes e ermos, onde era tradição que a linda dama
    linha apparecido a seu pae.

    2

    Trinam os rouxinoes nos balseiros, murmuram ao longe as aguas
    dos regatos; ramalha a folhagem brandamente com a viração da
    manhan: vae uma linda madrugada.

    E Inigo Guerra galga manso e manso os carris empinados, trepa
    de barrocal em barrocal, e apesar de seu muito esforço, sente
    bater-lhe o coração com ancia desacostumada.

    Onde as matas faziam alguma clareira, ou as penhas alguma chapada,
    D. Inigo parava um pouco tomando o folego, e pondo-se a escutar.

    Muito havia que andava embrenhado: o sol ía alto, e o dia calmoso:
    ao canto do rouxinol seguira o piar da cigarra.

    E encontrou uma fonte que rebentava de rochedo negro, e saltando
    de aresta em aresta vinha cahir em almacega tosca, onde o sol
    parecia dançar no bolir das ondasinhas, que fazia o despenho
    da cascata.

    D. Inigo assentou-se á sombra da rocha, e tirando a sua monteira
    matou a sêde que trazia, e poz-se a lavar o rosto e a cabeça
    do suor e pó, que não lhe faltava.

    O mastim, depois de beber, deitou-se ao pé delle, e com a lingua
    pendente arquejava de cansado.

    De repente o cão poz-se em pé, e arremetteu com um grande ladro.

    D. Inigo volveu os olhos: um jumento silvestre pascia na orla
    da clareira juncto de um frondoso carvalho.

    "Tarik!–gritou o mancebo–Tarik!"–Mas Tarik ía avante e não
    escutava.

    "Ai, deixa-o correr, meu filho! Não é para o teu mastim levar
    a melhor desse onagro."

    Isto dizia uma voz que, lá em cima no alto da penha, começou de
    soar.

    Olhou: linda mulher estava ahi assentada, e com um gesto amoroso
    e um sorriso d'anjo para elle se inclinava.

    "Minha mãe! minha mãe!–bradou Inigo Guerra alevantando-se: e
    lá comsigo dizia:

    –Vade retro! Sancto Hermenegildo me valha!"

    E como molhára a cabeça, sentiu que os cabellos se lhe iam alçando
    de arripiados.

    "Filho, na bôca palavras dôces; no coração palavras damnadas.
    Mas que importa, se és meu filho? Dize o que queres de mim, que
    será tudo feito a teu talante e vontade."

    O moço cavalleiro nem acertava a falar com medo. Já a este tempo
    Tarik gemia uivando debaixo dos pés do onagro.

    "Captivo está de mouros ha annos meu pae D. Diogo Lopes:–disse
    por fim titubeando.–Quizera me ensinasseis, senhora, o modo
    como hei-de salva-lo."

    "Seu mal, tão bem como tu, eu sei. Se podesse ter-lhe-hia accorrido,
    sem que viesses requere-lo; mas o velho tyranno do ceu quer que
    elle pene tantos annos quantos viveu com a … com a que sandeus
    chamam Dama Pé-de-Cabra."

    "Não blasphemeis contra Deus, minha mãe, que é enorme
    culpa:–interrompeu o mancebo cada vez mais horrorisado.

    "Culpa?! Não ha para mim innocencia nem culpa:–replicou a dama
    rindo ás gargalhadas.

    Era um rir de dorminte, triste e medonho. Se o diabo ri, como
    aquelle deve de ser o rir do diabo.

    O cavalleiro não pôde dizer mais palavra.

    "Inigo!–proseguiu ella–falta um anno para cumprir-se o captiveiro
    do nobre senhor de Biscaia. Um anno passa depressa: mais depressa
    eu t'o farei passar. Vês tu aquelle valente onagro? Quando uma
    noite acordando o achares ao pé de ti, manso como um cordeiro,
    cavalga nelle sem susto, que te levará a Toledo, onde livrarás
    teu pae.–E bradando accrescentou:–Estás por isto, Pardalo?"

    O onagro fitou as orelhas, e em signal de approvação começou a
    azurrar; começou por onde ás vezes academias acabam.[2]

    Depois a dama poz-se a cantar uma cantiga de bruxas, acompanhando-se
    de um psalterio, de que tirava mui estranhas toadas:

    Pelo cabo da vassoura,
    Pela corda da polé,
    Pela vibora que vê,
    Pela Sura e pela Toura.

    Pela vara do condão,
    Pelo panno da peneira,
    Pela velha feiticeira,
    Do finado pela mão,

    Pelo bode rei da festa,
    Pelo capo inteiriçado,
    Pelo infante dessangrado
    Que a bruxa chupou á sésta;

    Pelo craneo alvo e lustroso
    Em que sangue se libou,
    E do irmão, que irmão matou,
    Pelo arranco doloroso;

    Pelo nome de mysterio
    Que em palavras se não diz
    Vinde já precitos vis;
    Vinde ouvir o meu psalterio!

    E dançae-me aqui na terra
    Uma dança doudejante,
    Que entonteça n'um instante
    O meu filho Inigo Guerra.

    Que elle durma um anno inteiro,
    Como em somno de uma hora,
    Juncto á fonte que alli chora,
    Sobre a relva deste outeiro.

    Emquanto a dama cantava estas cantigas, o mancebo sentia um
    quebramento nos membros que crescia cada vez mais, e que o obrigou
    a assentar-se.

    E logo, logo, ouviu-se um ruido abafado como de trovões e de
    ventanias engolfando-se em covoadas: depois o céu começou de
    toldar-se, e cada vez era mais cris, até que, emfim, apenas uma
    luz de crepusculo o allumiava.

    E a mansa almacega refervia, e os penedos rachavam, e as arvores
    torciam-se, e os ares sibilavam.

    E das bolhas da agua da fonte, e das fendas dos rochedos, e d'entre
    as ramas dos robles, e da vastidão do ar via-se descer, subir,
    romper, saltar … o quê?–Cousa muito espantavel.

    Eram mil e mil braços sem corpos, negros como carvão, tendo nos
    cotos uma aza, e na mão cada um uma especie de facho.

    Como a palha que o tufão levanta na eira, aquella multidão de
    candeias cruzava-se, revolvia-se, unia-se, separava-se, remoinhava,
    mas sempre com certa cadencia, como que dançando a compasso.

    A D. Inigo andava a cabeça á roda: as luzes pareciam-lhe azues,
    verdes, e vermelhas, mas corria-lhe pelos membros uma languidez
    tão suave, que não teve animo para fazer o signal da cruz, e
    afugentar aquelle bando de Satanazes.

    E sentia-se esvaecer, e pouco a pouco adormecia, e d'alli a pouco
    roncava.

    Entretanto no castello tinham dado pela sua falta. Esperaram-no
    até a noite; esperaram-no uma semana, um mez, um anno, e não o
    viam voltar. O pobre Brearte correu por muito tempo a serra;
    mas o sitio em que o cavalleiro jazia, isso é que não havia lá
    chegar.

    3

    Inigo acordou alta noite: tinha dormido algumas horas; ao menos
    elle assim o cria. Olhou para o céu, viu estrellas: apalpou ao
    redor, achou terra: escutou, ouviu ramalhar as arvores.

    Pouco a pouco é que se foi recordando do que passára com sua
    malaventurada mãe; porque a principio não se lembrava de nada.

    Pareceu-lhe então ouvir respirar ali perto: affirmou a vista:
    era o onagro Pardalo.

    "Já agora meio enfeitiçado estou eu–pensou elle:–corramos o
    resto da aventura, a vêr se posso salvar meu pae."

    E pondo-se em pé encaminhou-se para o valente animal, que já
    estava enfreado e sellado: cujos eram os arreios, isso sabia-o
    o diabo.

    Hesitou, todavia, um momento: tinha seus escrupulos–a boas horas
    vinham elles–de cavalgar naquelle corredor infernal.

    Então ouviu nos ares uma voz vibrada, que cantava mui entoado:
    era a voz da terrivel Dama Pé-de-Cabra:

    Cavalga, meu cavalleiro,
    No alentado corredor;
    Vae salvar o bom senhor;
    Vae quebrar seu captiveiro.

    Pardalo, não comerás
    Nem cevada nem aveia,
    Não terás jantar nem ceia,
    Rijo e leve voltarás.

    Nem açoute nem espora
    Requer elle, oh cavalleiro!
    Corre, corre bem ligeiro,
    Noite e dia a toda a hora.

    Freio ou sella não lhe tires,
    Não lhe fales, não o ferres,
    Na carreira não te aterres,
    Para traz nunca te vires.

    Upa! firme!–ávante, ávante!
    Breve, breve, a bom correr!
    Um minuto não perder,
    Bem que o gallo ainda não cante.

    "Vá!–gritou Inigo Guerra com uma especie de phrenesi, que nelle
    produzíra aquelle cantar estranho; e d'um pulo cavalgou no quedo
    onagro.

    Mas apenas se firmou na sella, pst!–ei-lo que parte!

    4

    Postoque em paz com os christãos, os mouros de Toledo tem pelas
    torres, cubelos e adarves seus atalaias e vigias, e nos montes
    que dizem para a fronteira de Leão seus fachos e almenaras.

    Mas se o rei leonez soubesse como descuidosa jaz Toledo: como ao
    anoitecer se deixam dormir vigias, se deixam de accender fachos,
    quebraria seus juramentos, e faria contra aquellas partes uma
    repentina arrancada.

    Salvo ter de ir depois ao seu confessor dizer _confiteor Deo_, e
    _peccavi_; porque o quebrar juramento, ainda que seja a cães descridos,
    dizem ser feio peccado.

    Era a hora do luscofusco: ao sol posto os de Toledo, mirando
    para a banda do norte, viram lá muito ao longe vir correndo uma
    nuvem negra, ondeando e fazendo voltas no céu, como a estrada
    as fazia na terra por entre os montes: dir-se-hia que vinha
    embriagada.

    Era primeiro um pontinho; depois crescêra e crescêra: quando
    anoiteceu estava já perto e cubria um grande espaço.

    O almuhaden, subindo á torre da mesquita, chamava os crentes de
    Malamede para a oração da tarde.

    Mas com a sua voz esganiçada misturou-se o estourar dos trovões:
    era como um tiple e um baixo.

    E passou um tufão de vento, que embrenhando-se e remoinhando
    nas barbas longas e brancas do almuhaden, lhe fustigou com ellas
    a cara.

    Começou então a cahir uma corda de chuva, que nem moços nem velhos
    se lembravam de ter visto cousa semelhante em nenhuma parte.

    Aqui verieis os esculcas a aninharem-se nas guaritas das torres;
    os roldas e sobre-roldas a fugirem pelos adarves; os facheiros
    a sumirem-se debaixo das almenaras: os hadjis a acolherem-se ás
    mesquitas molhados até os ossos; as velhas, que tinham saído ao
    vozear do almuhaden, levadas pelas torrentes das ruas tortuosas
    e estreitas, bradando por Mafoma e por Allah. E a agua cahindo
    cada vez mais!

    Dous unicos movimentos fazem então os moradores de Toledo: uns
    fogem, outros agacham-se. E a agua cahindo cada vez mais!

    O pavor quebra todos os animos: os cacizes esconjuram a procella:
    os faquires penitentes gritam que se acaba o mundo, e que lhes
    deixe os seus haveres aquelle que quizer salvar-se. E a agua
    cahindo cada vez mais!

    A salvação de Toledo foi não se terem fechado suas portas: se
    assim não succedesse, dentro do recincto dos muros morria toda
    a mourisma affogada.

    5

    Na prisão estava D. Diogo encostado ás grades de ferro. O pobre
    velho entretinha-se a ouvir aquelle medonho chover; porque a
    noite era comprida, e elle não tinha que fazer mais nada.

    Mas como o terreiro ante a sua gaiola de feras era rodeado de
    muros, a chuva não podia escoar-se toda, e vinha crescendo de
    modo que já elle sentia os pés molhados.

    E tambem começou a ter medo de morrer, apesar da sua miseria.
    Bem sabia D. Diogo que a morte é a maior dellas todas; que não
    era o senhor de Biscaia atheu, philosopho, nem parvo.

    Mas lá divisa um vulto alvacento, que saltou por cima do palanque;
    e sente ao mesmo tempo no meio do terreiro–plash!–

    E ouviu uma voz que dizia:–Nobre senhor D. Diogo, onde é que
    vós vos achaes!"–

    "Que vejo e ouço?!–exclamou o velho.–Um trajo que não alveja,
    não é trajo d'ismaelita; uma voz que não fala algaravia, não é
    d'infiel; um salto de tal altura não é de cavalleiro do mundo.
    Por vossa fé dizei-me, sois anjo, ou sois Sanctiago?"

    "Meu pae, meu pae!–acudiu o cavalleiro–já não conheceis a fala
    de Inigo? Sou eu que venho salvar-vos."

    E D. Inigo descavalgou, e travando das grossas reixas tentava
    allui-las: a agua dava-lhe já pelos artelhos, e elle não fazia
    nada.

    Cheio de afflicção o mancebo quiz invocar o nome de Jesus; mas
    lembrou-se de como alli viera, e o bento nome expirou-lhe nos
    labios.

    Todavia Pardalo pareceu adivinhar o seu intimo pensamento; porque
    soltou um gemido agudo e prompto, como se o houvessem tocado
    com um ferro em braza.

    E empurrando com a cabeça D. Inigo, voltou a anca para a grade.

    Pan!–foi o som que se ouviu. Com um só couce a reixa estava
    no chão, e as hombreiras de pedra tinham voado em mil rachas.
    Quer m'o creiam quer não, di-lo a historia: eu com isto não perco
    nem ganho.

    D. Diogo, esse ficou-o crendo; porque uma lasca de pedra bateu-lhe
    nos dous ultimos dentes que tinha, e metteu-lh'os pela goela
    abaixo. Por isso elle com a dôr não podia dizer palavra.

    Seu filho fê-lo cavalgar ante si, e cavalgando após elle,
    bradou:–Meu pae, estaes salvo!"

    E Pardalo de um pulo galgou de novo o palanque. Pois tinha bons
    quinze palmos!

    Pela manhan não havia signal de chuva; o ar estava limpo e sereno,
    e quando os mouros foram vêr o que succedêra a D. Diogo Lopes,
    não lhe acharam sequer o rasto.

    6

    D. Inigo e seu pae, o velho senhor de Biscaia, passam as portas
    de Toledo com a rapidez da frecha: n'um abrir e fechar d'olhos
    ficam-lhe para traz muros, torres, barbacans e atalaias. A batega
    vae diminuindo: rasgam-se as nuvens, e vêem-se já reluzir algumas
    estrellas, que parecem outros tantos olhos com que o céu espreita
    através do negrume o que se passa cá em baixo.

    A estrada, pelas descidas e subidas dos recostos, converteu-se
    em leito de torrente, nos plainos converteu-se em lago.

    Mas pelos lagos e torrentes o valente onagro rompia ávante, bufando
    como um damnado.

    Não subiram bem um monte, já descem pelo outro recosto abaixo;
    ainda bem não chegaram a uma clareira, já sentem em profunda
    floresta gotejarem-lhes em cima os ramos agitados das arvores.

    Pouco mais é de meia-noite, e os topos nevados do Vindio recortam
    o chão estrellado do céu já limpo, semelhantes aos dentes de uma
    serra gigante capaz de dividir cêrceo o hemispherio austral do
    hemispherio boreal.

    E Pardalo investe sempre em galope desfeito com as montanhas
    disformes, e desce aos valles temerosos, e cada vez mais ligeiro,
    como o seu nome o indica, parece menos quadrupede que passaro.

    Mas que ruido é esse que sobreleva ao do vento? Que é isso que,
    lá ao longe, ora alveja ora reluz nas trevas, como uma alcateia de
    lobos involtos em sudarios brancos, com os olhos só descobertos,
    e despregando em fio pelo fundo do valle abaixo?

    É um rio caudal e furioso, com o seu manto de escuma, e com as
    escamas angulosas de seu dorso eriçado, onde batem e chispam
    os raios das estrellas em mil reflexos quebrados.

    Negreja sobre o rio uma ponte, ao meio desta um vulto esguio.–"Será
    um marco, uma estatua?"–pensaram os cavalleiros. Pinheiro não
    póde ser: não consta que em taes sitios nasçam.

    Pardalo ria-se de rios; pontes, fazia tanto cabedal dellas como
    de um retraço de palha. Todavia, bem que podesse de um pulo salvar
    vinte ribeiras como aquella, foi-se direito á ponte; porque não
    era animal que fizesse africas escusadas.

    Semelhante a relampago se arrojou o onagro áquelle passo estreito…
    Mas, tá!… Ei-lo que de repente pára.

    E tremia como varas verdes, e arquejava com violencia: os dous
    cavalleiros olharam.

    O vulto esguio era um cruzeiro de pedra alevantado a meia ponte:
    por isso Pardalo emperrava.

    Então d'entre uns altos choupos, que da margem d'além se meneavam,
    um pouco mais abaixo daquelle sitio, ouviu-se uma voz fadigosa
    e trémula que cantava:

    Para traz, para traz, a galgar.
    Já!
    De redor, de redor vem passar
    Cá!
    Que não ha nada aqui que te empeça!
    Buz,
    Nem palavra, vós dous! Fugi dessa
    Cruz!

    "Sancto nome de Christo!"–exclamou D. Diogo benzendo-se ao escutar
    aquella voz que bem conhecia, mas que depois de tantos annos
    não esperava alli ouvir, porque seu filho não lhe dissera que
    meio achára para o salvar.

    Apenas o grito do velho soou, assim elle como D. Inigo foram
    bater contra o poyal do cruzeiro, onde ficaram de bruços, involtos
    em lodo. O onagro ao sacudi-los de si soltára um rugido de
    besta-fera. Sentiram então um cheiro intoleravel de enxofre e
    de carvão de pedra inglez, que logo se percebia ser cousa de
    Satanaz.

    E ouviram como um trovão subterraneo; e a ponte balançava como
    se as entranhas da terra se despedaçassem.

    Apesar do seu grande terror, e de clamar pela Virgem Santissima,
    D. Inigo abriu um cantinho do olho para vêr o que se passava.

    Nós os homens costumâmos dizer que as mulheres são curiosas. Nós
    é que o somos. Mentimos como uns desalmados.

    Que veria o cavalleiro? Um fojo aberto bem proximo delle sobre
    a ponte, e que depois rompia pela agua.

    E depois pelo leito do rio; e depois pela terra dentro, dentro;
    e depois pelo tecto do inferno, que outra cousa não podia ser
    um fogo muito vermelho que reverberava daquella profundidade.

    Tanto era assim, que ainda lá viu passar de relance um demonio
    com um desconforme espeto nas mãos em que levava um judeu empalado.

    E Pardalo descia remoinhando por esse boqueirão, como uma penna
    cahindo em dia sereno do alto de uma torre abaixo.

    Aquella vista fez perder os sentidos a D. Inigo, que, indo tambem
    a chamar por Jesus, achou que não podia proferir este nome sagrado.

    De terror tanto o velho como o moço ficaram alli em desmaio.

    Quando tornaram a si, com o romper do sol claro, conheceram o
    sitio em que se achavam. Era a ponte proxima á aldêa de Nusturio,
    no alto da qual campeava o castello construido por D. From o
    saxonio, avoengo de D. Diogo Lopes, e primeiro senhor de Biscaia.

    Nenhum vestigio restava do que alli se passára; os dous, moídos
    e cheios de lodo e pisaduras, foram-se arrastando como poderam
    até encontrar alguns villãos, a quem se deram a conhecer, e que
    os levaram a casa.

    Festas que em Nusturio se fizeram por sua vinda, cousa é que não
    vos direi; porque não tarda a hora de ceiar, resar, e deitar.

    7

    D. Diogo pouco tempo viveu: todos os dias ouvia missa; todas
    as semanas se confessava. D. Inigo, porém, nunca mais entrou na
    igreja, nunca mais resou, e não fazia senão ir á serra caçar.

    Quando tinha de partir para as guerras de Leão viam-no subir á
    montanha armado de todas as peças, e voltar de lá montado n'um
    agigantado onagro.

    E o seu nome retumbou em toda a Hespanha; porque não houve batalha
    em que entrasse que se perdesse, e nunca em nenhum recontro foi
    ferido ou derribado.

    Diziam á bôca pequena em Nusturio que o illustre barão tinha pacto
    com Belzebuth. Olhem que era grande milagre!

    Meio precíto era elle por sua mãe; não tinha que vender senão
    a outra metade da alma.

    Por oitenta por cento de lucro ne recibo de um egresso a dá ahi
    inteira ao démo qualquer onzeneiro, e crê ter feito uma limpa
    veniaga.

    Fosse como fosse, Inigo Guerra morreu velho: o que a historia
    não conta é o que então se passou no castello. Como não quero
    improvisar mentiras, por isso não direi mais nada.

    Mas a misericordia de Deus é grande. Á cautela resem por elle
    um _Pater_ e um _Ave_. Se não lhe aproveitar, seja por mim. Amen.

    * * * * *

    [1] Um jumento silvestre não seria mui delicado manjar
    para mesa moderna; mas o uso da carne asinina na idade média
    era vulgar: ainda em muitos dos nossos foraes apparece marcado
    entre as portagens o quanto devia pagar este genero de vianda.

    [2] O Diccionario da Academia, que ficou interrompido
    no fim da letra A, acaba na palavra _azurrar_.

    O BISPO NEGRO

    (1130)

    1

    Houve tempo em que a sé abandonada de Coimbra era formosa; houve
    tempo em que essas pedras, ora tisnadas pelos annos, eram ainda
    pallidas, como as margens areentas do Mondego[1]. Então o luar,
    batendo nos lanços dos seus muros, dava um reflexo de luz suavissima,
    mais rica de saudade que os proprios raios daquelle planeta guardador
    dos segredos de tantas almas, que crêem existir nelle, e só nelle,
    uma intelligencia que as perceba.

    Então aquellas ameias e torres não haviam sido tocadas das mãos
    de homens, desde que os seus edificadores as tinham collocado sobre
    as alturas; e todavia já então ninguém sabia se esses edificadores
    eram da nobre raça goda, se da dos nobres conquistadores arabes.

    Mas, quer filha dos valentes do norte, quer dos pugnacissimos
    sarracenos, ella era formosa na sua singella grandeza entre as
    outras sés das Hespanhas. Ahi succedeu o que ora ouvireis contar.

    2

    Aproximava-se o meiado do duodecimo seculo. O principe de Portugal
    Affonso Henriques depois de uma revolução feliz, tinha arrancado
    o poder das mãos de sua mãe. Se a historia se contenta com o
    triste espectaculo de um filho condemnando ao exilio aquella que
    o gerou, a tradição carrega as tinctas do quadro, pintando-nos
    a desditosa viuva do conde Henrique arrastando grilhões no fundo
    de um calabouço. A historia conta-nos o facto; a tradição os
    costumes. A historia é verdadeira, a tradição verosimil; e o
    verosimil é o que importa ao que busca as lendas da patria.

    Em uma das torres do velho alcacer de Coimbra, encostado entre
    duas ameias, a horas que o sol fugia do horisonte, o principe
    conversava com Lourenço Viegas o Espadeiro, e com elle dispunha
    meios e apurava traças para guerrear a mourisma.

    E lançou casualmente os olhos para o caminho que guiava ao alcacer,
    e viu o bispo D. Bernardo, que, montado em sua nedia mula, cavalgava
    apressado pela encosta acima.

    "Vêdes vós–disse elle ao Espadeiro–o nosso leal D. Bernardo,
    que para cá se encaminha? Negocio grave por certo o faz sair a
    taes deshoras da crasta da sua sé. Desçamos á sala d'armas e
    vejamos o que elle quer."–E desceram.

    Grandes lampadarios ardiam já na sala d'armas do alcacer de Coimbra,
    pendurados de cadeias de ferro chumbadas nos fechos dos arcos de
    volta de ferradura, que sustentavam os tectos de grossa cantaria.
    Pelos feixes de columnas delgadas, entre si separadas, mas ligadas
    nos fustes por uma base commum, pendiam corpos de armas, que
    reverberavam a luz das lampadas, e pareciam cavalleiros armados,
    que em silencio guardavam aquelle amplo aposento. Alguns homens
    de mesnada faziam retumbar as abobadas, passeando de um para
    outro lado.

    Uma portinha, que ficava em um angulo da quadra, abriu-se, e
    d'ella saíram o principe e Lourenço Viegas, que desciam da torre:
    quasi ao mesmo tempo assomou no grande portal de entrada o vulto
    veneravel e solemne do bispo D. Bernardo.

    "Guarde-vos Deus, bispo de Coimbra! Que mui urgente negocio vos
    traz aqui esta noite?–disse o principe a D. Bernardo.

    "Más novas, senhor. Trazem-me aqui a mim letras do papa, que ora
    recebi."

    "E que quer de vós o papa?"

    "Que de sua parte vos ordene solteis vossa mãe…"

    "Nem pelo papa, nem por ninguem o farei."

    "E manda-me que vos declare excommungado, se não quizerdes cumprir
    seu mandado."

    "E vós que intentaes fazer?"

    "Obedecer ao successor de S. Pedro."

    "Quê? D. Bernardo amaldiçoaria aquelle a quem deve o bago pontifical;
    aquelle que o alevantou do nada? Vós, bispo de Coimbra,
    excommungarieis o vosso principe, porque elle não quer pôr a
    risco a liberdade desta terra remida das oppressões do senhor
    de Trava, e do jugo do rei de Leão; desta terra que é só minha
    e dos cavalleiros portuguezes?"

    "Tudo vos devo, senhor,–atalhou o bispo–salvo minha alma que
    pertence a Deus, minha fé que devo a Christo, e a minha obediencia
    que guardarei ao papa."

    "D. Bernardo! D. Bernardo!–disse o principe suffocado em
    colera–lembrae-vos de que affronta que se me fizesse, nunca ficou
    sem paga!"

    "Quereis, senhor infante, soltar vossa mãe?"

    "Não! Mil vezes não!"

    "Guardae-vos!"

    E o bispo saíu sem dizer mais palavra. Affonso Henriques ficou
    pensativo por algum tempo; depois falou em voz baixa com Lourenço
    Viegas o Espadeiro, e encaminhou-se para a sua camara. D'ahi a
    pouco o alcacer de Coimbra jazia, como o resto da cidade, no
    mais profundo silencio.

    3

    Pela alvorada, muito antes de romper o sol no dia seguinte, Lourenço
    Viegas passeava com o principe na sala d'armas do paço mourisco.

    "Se eu proprio o vi, montado na sua boa mula, ir lá muito ao longe,
    caminho da terra de Sancta Maria[2]! Na porta da sé estava pregado
    um pergaminho com larga escriptura, que, segundo me affirmou um
    clerigo velho que ahi chegára quando eu olhava para aquella carta,
    era o que elles chamam o interdicto.–Isto dizia o Espadeiro,
    olhando para todos os lados, como quem receiava que alguem o
    ouvisse.

    "Que receias, Lourenço Viegas? Dei a Coimbra um bispo que me
    excommunga, porque assim o quiz o papa: dar-lhe-hei outro que
    me absolva, porque assim o quero eu. Vem comigo á sé. Bispo D.
    Bernardo, tarde será o arrepender-te da tua ousadia!"

    D'alli a pouco as portas da sé estavam abertas, porque o sol
    era nado, e o principe, acompanhado de Lourenço Viegas e de dous
    pagens, atravessava a igreja, e dirigia-se á crasta, onde ao
    som de campa tangida tinha mandado ajunctar o cabido, com pena
    de morte para o que ahi faltasse.

    4

    Solemne era o espectaculo que apresentava a crasta da sé de Coimbra.
    O sol dava com todo o brilho de manhan purissima por entre os
    pilares que sustinham as abobadas dos cubertos, que cercavam o
    pateo interior. Ao longo desses cubertos caminhavam os conegos
    com passos lentos, e as largas roupas ondeavam-lhes ao bafo suave
    do vento matutino. No topo da crasta estava o principe em pé,
    encostado ao punho da espada, e um pouco atras delle Lourenço
    Viegas e os dous pagens. Os conegos íam chegando, e formavam
    um semicirculo a pouca distancia d'elrei, em cuja cervilheira
    de malha de ferro ferviam buliçosos os raios do sol.

    Toda a clerezia da sé estava alli apinhada, e o principe, sem
    dar palavra e com os olhos fitos no chão, parecia involto em
    fundo pensar. O silencio era completo.

    Por fim Affonso Henriques ergueu o rosto carrancudo e ameaçador,
    e disse:

    "Conegos da sé de Coimbra, sabeis a que vem aqui o infante de
    Portugal?"

    Ninguem respondeu palavra.

    "Se o não sabeis, dir-vo-lo-hei eu,–proseguiu o principe:–vem
    assistir á eleição do bispo de Coimbra."

    "Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição–disse o mais
    velho e auctorisado dos conegos que estavam presentes, e que
    era o _adayão_.

    "Amen:–responderam os outros.

    "Esse que vós dizeis;–bradou o infante, cheio de colera–esse
    jamais o será. Tirar-me quiz elle o nome de filho de Deus; eu
    lhe tirarei o nome de seu vigario. Juro que nunca em meus dias
    porá D. Bernardo pés em Coimbra: nunca mais da cadeira episcopal
    ensinará um rebelde a fé das sanctas escripturas! Elegei outro:
    eu approvarei vossa escolha."

    "Senhor, bispo havemos. Não cabe ahi nova eleição:–repetiu o
    adayão.

    "Amen:"–responderam os mais.

    O furor de Affonso Henriques subiu de ponto com esta
    resistencia:–"Pois bem!"–disse elle, com a voz presa na garganta,
    depois de um olhar terrivel que lançou pela assembléa, e de alguns
    momentos de silencio.–"Pois bem! Saí d'aqui, gente orgulhosa e
    má! Saí, vos digo eu. Alguem por vós elegerá um bispo…"

    Os conegos, fazendo profundas reverencias, encaminharam-se para
    as suas cellas, ao longo das arcarias da crasta.

    Entre os que alli se achavam, um negro, vestido de habitos clericaes,
    tinha estado encostado a um dos pilares, observando aquella scena:
    os seus cabellos revoltos contrastavam pela alvura com a pretidão
    da tez. Quando o principe falava, elle sorria-se e meneava a
    cabeça como quem approvava o dicto. Os conegos começavam a
    retirar-se, e o negro ía apoz elles. Affonso Henriques fez-lhe
    um signal com a mão. O negro voltou para trás.

    "Como has nome?"–perguntou-lhe o principe.

    "Senhor, hei nome Çolleima.[3]"

    "És bom clerigo?[4]"

    "Na companhia não ha dous que sejam melhores."

    "Bispo serás, D. Çolleima. Vae tomar teus guisamentos, que hoje
    me cantarás missa."

    O clerigo recuou: naquella face tisnada viu-se uma contracção
    de susto.

    "Missa não vos cantarei eu, senhor:–respondeu o negro com voz
    trémula;–que para tal auto não tenho as ordens requeridas."

    "D. Çolleima, repara bem no que te digo! Sou eu que te mando
    vás vestir as vestiduras de missa. Escolhe: ou hoje tu subirás
    os degraus do altar-mór da sé de Coimbra, ou a cabeça te descerá
    de cima dos hombros, e rolará pelas lageas deste pavimento."

    O clerigo curvou a fronte.

    "_Kirie-eleyson … Kirie-eleyson … Kirie-eleyson!_"–garganteava
    d'ahi a pouco D. Çolleima, revestido dos habitos episcopaes,
    juncto ao altar da capella-mór. O infante Affonso Henriques, o
    Espadeiro e os dous pagens, de joelhos, ouviam missa com profunda
    devoção.

    5

    Era noite. Em uma das salas mouriscas dos nobres paços de Coimbra
    havia grande sarau. Donas e donzellas, assentadas ao redor do
    aposento, ouviam os trovadores repetindo ao som da viola e em
    tom monotono suas magoadas endechas, ou folgavam e riam com os
    arremedilhos satyricos dos truões e farcistas. Os cavalleiros em
    pé, ou falavam de aventuras amorosas, de justas e de bofordos,
    ou de fossados e lides por terras de mouros fronteiros. Para um
    dos lados, porém, entre um labyrintho de columnas, que davam
    saída para uma galeria exterior, quatro personagens pareciam
    entretidas em negocio mais grave do que os prazeres de noite de
    folguedo o permittiam. Eram estas personagens Affonso Henriques,
    Gonçalo Mendes da Maia, Lourenço Viegas, e Gonçalo de Sousa o
    Bom. Os gestos dos quatro cavalleiros davam mostras de que elles
    estavam vivamente agitados.

    "É o que affirma, senhor, o mensageiro–dizia Gonçalo de Sousa–que
    me enviou o abbade do mosteiro de Tibães, onde o cardeal dormiu
    uma noite para não entrar em Braga. Dizem que o papa o envia
    a vós, porque vos suppõe hereje. Em todas as partes por onde
    o legado passou, em França e em Hespanha, vinham a lhe beijar
    a mão reis, principes e senhores: a eleição de D. Çolleima não
    póde por certo ir ávante…"

    "Irá, irá!–respondeu o principe em voz tão alta que as suas
    palavras reboaram pelas abobadas do vasto aposento.–Que o legado
    tenha tento em si! Não sei eu se haveria ahi cardeal, ou
    apostolico[5] que me estendesse a mão para eu lh'a beijar, que
    pelo cotovello lh'a não cortasse fóra a minha boa espada. Que
    me importam a mim vilezas dos outros reis e senhores? Vilezas,
    não as farei eu!"

    Isto foi o que se ouviu daquella conversação: os tres cavalleiros
    falaram com o principe ainda por muito tempo: mas em voz tão
    baixa, que ninguem percebeu mais nada.

    6

    Dous dias depois o legado do papa chegava a Coimbra: mas o bom
    do cardeal tremia em cima da sua nedia mula, como se maleitas
    o houveram tomado. As palavras do infante tinham sido ouvidas
    por muitos, e alguem as havia repetido ao legado.

    Todavia, apenas passou a porta da cidade, revestindo-se de animo,
    encaminhou-se direito ao alcacer real.

    O principe saíu a recebe-lo acompanhado de senhores e cavalleiros.
    Com modos cortezes guiou-o á sala de seu conselho, e ahi se passou
    o que ora ouvireis contar.

    O infante estava assentado em uma cadeira de espaldas: diante
    delle o legado em um assento raso, posto em cima de um estrado
    mais elevado: os senhores e cavalleiros cercavam o filho do conde
    Henrique.

    "Dom cardeal,–começou o principe–que viestes vós fazer a minha
    terra? Posto que de Roma só mal me tenha vindo, creio me trazeis
    agora algum ouro, que de seus grandes haveres me manda o senhor
    papa para estas hostes que faço, e com que guerreio noite e dia
    os infiéis da frontaria. Se isto trazeis, acceitar-vo-lo-hei:
    depois, desembaraçadamente podeis seguir vossa viagem."

    No animo do legado a colera sobrepujou o temor, quando ouviu as
    palavras do principe, que eram de amargo escarneo.

    "Não a trazer-vos riquezas,–atalhou elle–mas a ensinar-vos a fé
    vim eu; que della parece vos esquecestes, tractando violentamente
    o bispo D. Bernardo, e pondo em seu logar um bispo sagrado com
    vossas manoplas, victoriado só por vós com palavras blasphemas
    e maldictas…"

    "Calae-vos, dom cardeal,–gritou Affonso Henriques–que mentís
    pela gorja! Ensinar-me a fé?! Tão bem em Portugal como em Roma
    sabemos que Christo nasceu da Virgem; tão certo como vós outros
    romãos cremos na sancta Trindade. Se a outra cousa vindes, ámanhan
    vos ouvirei: hoje podeis-vos ir."

    E ergueu-se: os olhos chammejavam-lhe de furor. Toda a ousadia
    do legado desappareceu como fumo, e, sem atinar com resposta,
    saíu do alcacer.

    7

    O gallo tinha cantado tres vezes: pelo arrebol da manhan o cardeal
    partia aforradamente de Coimbra, cujos habitantes dormiam ainda
    repousadamente.

    O principe foi um dos que despertaram mais tarde. Os sinos
    harmoniosos da sé costumavam acorda-lo tocando ás ave-marias:
    mas naquelle dia ficaram mudos; e quando elle se ergueu havia
    mais de uma hora que o sol subia para o alto dos ceus da banda
    do oriente.

    "Misericordia! misericordia!"–gritavam devotamente homens e mulheres
    á porta do alcacer, com alarido infernal. O principe ouviu aquelle
    ruido.

    "Que vozes são estas que soam?"–perguntou elle a um pagem.

    O pagem respondeu-lhe chorando:

    "Senhor, o cardeal excommungou esta noite a cidade, e partiu:
    as igrejas estão fechadas; os sinos já não ha quem os toque;
    os clerigos fecham-se em suas pousadas. A maldicção do sancto
    padre de Roma cahiu sobre nossas cabeças."

    Outra vez soou á porta do alcacer:–Misericordia! Misericordia!"

    "Que enfreiem e selem um cavallo de batalha. Pagem, que enfreiem
    e selem o meu melhor corredor!"

    Isto dizia o principe, encaminhando-se para a sala d'armas. Ahi
    envergou á pressa um saio de malha, e pegou em um montante, que
    apenas dous portuguezes dos de hoje valeriam a alevantar do chão.
    O pagem tinha saído, e d'alli a pouco o melhor cavallo de batalha
    que havia em Coimbra tropeava e rinchava á porta do alcacer.

    8

    Um clerigo velho, montado em uma alentada mula branca, vindo de
    Coimbra seguia o caminho da Vimieira, e de instante a instante
    espicaçava os ilhaes da cavalgadura com seus acicates de prata:
    em duas outras mulas íam ao lado delle dous mancebos com caras
    e meneios de beatos, vestidos de opas e tonsurados, mostrando
    em seu porte e idade que aprendiam ainda as pueris ou ouviam
    as grammaticaes[6]. Eram o cardeal, que se ía a Roma, e dous
    sobrinhos seus que o haviam acompanhado.

    Entretanto o principe partíra de Coimbra sósinho. Quando pela
    manhan Gonçalo de Sousa e Lourenço Viegas o procuraram em seus
    paços, souberam que era partido após o legado. Temendo o caracter
    violento de Affonso Henriques, os dous cavalleiros seguiram-lhe
    a pista á redea solta, e íam já muito longe quando viram o pó
    que elle levantava correndo ao longo da estrada, e o scintillar
    do sol batendo-lhe de chapa na cervilheira semelhante ao dorso
    de um crocodilo.

    Os dous fidalgos esporearam com mais força os ginetes e breve
    alcançaram o infante.

    "Senhor, senhor, aonde ides sem vossos leaes cavalleiros, tão
    cedo e açodadamente?"

    "Vou pedir ao legado do papa que se amercêe de mim…"

    A estas palavras os cavalleiros transpunham uma assomada que
    encobria o caminho: pela encosta abaixo ía o cardeal com os dous
    mancebos das opas e cabellos tonsurados.

    "Oh!..–disse o principe. Esta unica interjeição lhe fugiu da
    bôca; mas que discurso houvera ahi que a igualasse? Era o rugido
    de prazer do tigre, no momento em que salta do fojo sobre a prêa
    descuidada.

    "_Memento mei, Domine, secundùm magnam misericordiam tuam!_"–resou
    o cardeal em voz baixa e trémula, quando ouvindo o tropear dos
    cavallos, voltou os olhos, e conheceu Affonso Henriques.

    Em um instante este o havia alcançado. Ao perpassar por elle,
    travou-lhe do cabeção do vestido, e em um relance ergueu o montante:
    felizmente os dous cavalleiros arrancaram as espadas, e cruzaram-nas
    debaixo do golpe que já descia sobre a cabeça do legado: os tres
    ferros feriram fogo; mas a pancada deu em vão, aliás o craneo
    do pobre clerigo teria ido fazer mais de quatro redemoinhos nos
    ares.

    "Senhor, que vos perdeis, e nos perdeis, ferindo o ungido de
    Deus:"–gritaram os dous fidalgos com vozes afflictas.

    "Principe"–disse o velho chorando–"não me faças mal; que estou
    á tua mercê!"–Os dous mancebos tambem choravam.

    Affonso Henriques deixou descahir o montante, e ficou em silencio
    alguns momentos.

    "Estás á minha mercê:–disse elle por fim.–Pois bem! Viverás, se
    desfizeres o mal que causaste. Que seja alevantada a excommunhão
    lançada sobre Coimbra, e jura-me em nome do apostolico, que nunca
    mais em meus dias será posto interdicto nesta terra portugueza,
    conquistada aos mouros por preço de tanto sangue. Em refens deste
    pacto ficarão teus sobrinhos. Se no fim de quatro mezes de Roma
    não vierem letras de bençam, tem tu por certo que as cabeças
    lhes voarão de cima dos hombros. Apraz-te este contracto?"

    "Senhor, sim!–respondeu o legado com voz sumida.

    "Juras?"

    "Juro."

    "Mancebos, acompanhae-me,"

    Dizendo isto, o infante fez um aceno aos sobrinhos do legado,
    que com muitas lagrymas se despediu delles, e sósinho seguiu
    o caminho da terra de Sancta Maria.

    D'ahi a quatro mezes D. Colleima dizia missa pontifical na
    capella-mór da sé de Coimbra, e os sinos da cidade repicavam
    alegremente. Tinham chegado letras de bençam de Roma; e os sobrinhos
    do cardeal, montados em boas mulas, íam cantando devotamente pelo
    caminho da Vimieira o psalmo que começa:

    _In exitu Israel de Ægypto._

    Conta-se, todavia, que o papa levára a mal no principio, o pacto
    feito pelo legado; mas que por fim tivera dó do pobre velho,
    que muitas vezes lhe dizia:

    "Se tu, sancto padre, víras sobre ti um cavalleiro tão bravo
    ter-te pelo cabeção, e a espada nua para te cortar a cabeça; e
    seu cavallo tão feroz arranhar a terra, que já te fazia a cova
    para te enterrar, não sómente deras as letras, mas o papado e
    a cadeira apostolical."

    * * * * *

    NOTA

    A lenda precedente é tirada das chronicas de Acenheiro, rol de
    mentiras e disparates publicado pela nossa Academia, que teria
    procedido mais judiciosamente em deixa-las no pó das bibliothecas,
    onde haviam jazido em paz por quasi tres seculos. A mesma lenda
    tinha sido inserida pouco anteriormente na chronica de Affonso
    Henriques por Duarte Galvão, formando a substancia de quatro
    capitulos, que foram supprimidos na edição deste auctor, e que
    mereceram da parte do academico D. Francisco de S. Luiz uma _grave_
    refutação. Toda a narrativa da prisão de D. Theresa, das tentativas
    _opposicionistas_ do bispo de Coimbra, da eleição do bispo negro,
    da vinda do cardeal, e da sua fuga contrastam a historia daquella
    epocha. A tradição é falsa a todas as luzes: mas tambem é certo
    que ella se originou de algum acto de violencia praticado nesse
    reinado contra algum cardeal legado. Um historiador coevo, e, posto
    que estrangeiro, bem informado geralmente ácerca dos successos do
    nosso paiz, o inglez Rogerio de Hoveden, narra um facto acontecido
    em Portugal, que, pela analogia que tem com o conto do bispo
    negro, mostra a origem da fabula. A narrativa do chronista está
    indicando que o acontecimento fizera certo ruído na Europa, e a
    propria confusão de datas e de individuos, que apparece no texto
    de Hoveden, mostra que o successo era anterior e andava já alterado
    na tradição. O que é certo é que o achar-se esta conservada fóra
    de Portugal desde o seculo duodecimo por um escriptor que Ruy
    de Pina e Acenheiro não leram (porque só foi publicado no seculo
    decimo-setimo) prova que ella remonta entre nós, por maioria de
    razão, tambem ao seculo duodecimo, embora desfigurada como já a
    vemos no chronista inglez. Eis a notavel passagem a que alludimos,
    e que se lê a pag. 640 da edição de Hoveden, por Savile:

    "No _mesmo anno_ (1187) o cardeal _Jacintho_, então legado em toda
    a Hespanha, depôs muitos prelados _(abbates)_ ou por culpas delles
    ou por impeto proprio, e como quizesse depôr o bispo de Coimbra,
    o rei _Affonso_ (Henriques) não consentiu que elle fosse deposto,
    e mandou ao dicto cardeal que saísse da sua terra, quando não
    cortar-lhe-hia um pé."

    * * * * *

    [1] A sé velha de Coimbra é no todo, ou na maxima parte
    uma edificação dos fins do seculo duodecimo; mas acceitámos aqui
    a tradição que lhe attribue uma remotissima antiguidade.

    [2] Hoje Terra da Feira, proxima do Porto, na estrada
    de Coimbra.

    [3] É notavel coincidencia a seguinte: Em 1088 _um
    presbytero, por nome Zoleima,_ fez uma doação _á sé de Coimbra_.
    Desta doação se lembra Fr. Antonio Brandão M. L. P. 3.ª L. 8.º
    Cap. 5.º pag. 13 col. 2.ª in fine.

    [4] _Clerigo_ naquella epocha não significava só o
    ecclesiastico revestido do sacerdocio, mas sim qualquer individuo
    empregado no serviço do culto. D'ahi a frequente menção nos
    documentos, de _clerigos casados_.

    [5] Papa.

    [6] Estudos menores ou preparatorios. Assim parece se
    chamavam na idade média. _Darin lernt ich puerilia,_ diz Hans Sachs
    no seu _Lebensbeschreibung_, e o bispo do Porto, D. Pedro Affonso,
    affirma de seu predecessor D. João Gomes: _erat bonus homo, et
    sinè aliqua malitia, sed jura aliqua non audiverat, immò nec
    grammaticalia, quod est plus_.

    A MORTE DO LIDADOR

    (1170)

    1

    "Pagens! que arreiem o meu ginete murzello; e vós dae-me o meu
    lorigão de malha de ferro, e a minha boa toledana. Senhores
    cavalleiros, hoje contam-se noventa e cinco annos que recebi o
    baptismo, oitenta que visto armas, setenta que sou cavalleiro, e
    quero celebrar tal dia fazendo uma entrada por terras da frontaria
    dos mouros."

    Isto dizia na sala de armas do castello de Béja Gonçalo Mendes
    da Maia, a quem, pelas muitas batalhas que pelejára, e por seu
    valor indomavel chamavam o Lidador. Affonso Henriques, depois do
    infeliz successo de Badajoz, e feitas pazes com elrei de Leão,
    o nomeára fronteiro da cidade de Béja, de pouco conquistada aos
    mouros. Os quatro Viegas, filhos do bom velho Egas Moniz, estavam
    com elle, e outros muitos cavalleiros afamados, entre os quaes
    D. Ligel de Flandres, e Mem Moniz, tio dos quatro Viegas.

    "A la fé–disse Mem Moniz—que a festa de vossos annos, senhor
    Gonçalo Mendes, será mais de mancebo cavalleiro, que de capitão
    encanecido e prudente. Deu-vos elrei esta frontaria de Béja para
    bem a haverdes de guardar, e não sei eu se arriscado é saír hoje
    á campanha, que dizem os escutas, chegados ao romper d'alva,
    que o famoso Almoleimar corre por estes arredores com dez vezes
    mais lanças do que todas as que estão encostadas nos lanceiros
    desta sala de armas."

    "Voto a Christo–atalhou o Lidador–que não cria eu que o senhor
    rei me houvesse posto nesta torre de Béja para estar assentado á
    lareira da chaminé, como uma velha dona, a espreitar de quando
    em quando por uma séteira, se cavalleiros mouros vinham correr
    té a barbacan, para lhes cerrar as portas, e ladrar-lhes do cimo
    da torre da menagem, como usam os villãos. Quem achar que são
    duros de mais os arnezes dos infiéis póde ficar-se aqui."

    "Bem dicto! bem dicto!"–clamaram, dando grandes risadas, os
    cavalleiros mancebos.

    "Por minha boa espada!"–gritou Mem Moniz, atirando com o
    guante-ferrado ás lageas do pavimento–"que mente pela gorja quem
    disser que eu ficarei aqui, havendo dentro de dez leguas em redor
    lide com mouros. Senhor Gonçalo Mendes, podeis montar em vosso
    ginete, e veremos qual das nossas lanças bate primeiro em adarga
    mourisca."

    "A cavallo, a cavallo!"–gritou outra vez a chusma, com grande
    alarido.

    D'alli a pouco ouvia-se o retumbar dos sapatos de ferro de muitos
    cavalleiros descendo os degraus de marmore da torre de Béja,
    e passados alguns instantes soava só o tropear dos cavallos
    atravessando a ponte levadiça das fortificações exteriores, que
    davam para a banda da campanha, por onde costumava apparecer
    a mourisma.

    2

    Era um dia do mez de Julho, duas horas depois da alvorada, e
    tudo estava em grande silencio dentro da cerca de Béja: batia o
    sol nas pedras esbranquiçadas dos muros e torres que a defendiam:
    ao longe, pelas immensas campinas, que avizinham o teso, sobre
    que a povoação está assentada, viam-se ondear as searas maduras,
    cultivadas por mãos de agarenos para seus novos senhores christãos.
    Regados por lagrymas de escravos tinham sido esses campos quando
    em formoso dia de inverno os sulcou o ferro do arado; por lagrymas
    de servos seriam outra vez humedecidos, quando no mez de Agosto
    a paveia, cerceada pela fouce, pendesse sobre a mão do ceifeiro:
    chôro de amargura havia ahi, como cinco seculos antes o houvera:
    então de christãos conquistados, hoje de mouros vencidos. A cruz
    basteava-se outra vez sobre o crescente quebrado; os corucheus
    das mesquitas convertiam-se em campanarios de sés, e a voz do
    almuhaden trocava-se por toada de sinos, que chamavam á oração
    entendida por Deus. Era esta a resposta dada pela raça goda aos
    filhos d'Africa e do Oriente, que diziam mostrando os alfanges:–"é
    nossa a terra de Hespanha."–O dicto do arabe foi desmentido; mas a
    resposta gastou oito seculos a escrever-se: Pelaio entalhou com a
    espada a primeira palavra della nos cerros das Asturias; a ultima
    gravaram-na Fernando e Isabel com os pelouros de suas bombardas
    nos pannos das muralhas da formosa Granada: e a esta escriptura,
    estampada em alcantis de montanhas, em campos de batalha, nos
    portaes e torres dos templos, nos lanços dos muros das cidades
    e castellos, accrescentou no fim a mão da providencia:–"assim
    para todo o sempre!"

    Nesta lucta de vinte gerações andavam lidando as gentes do Alemtejo.
    O servo mouro olhava todos os dias para o horisonte, onde se
    enxergavam as serranias do Algarve: de lá esperava elle salvação,
    ou ao menos vingança; ao menos um dia de combate, e corpos de
    christãos estirados na veiga para pasto dos açores bravios. A
    vista do sangue enxugava-lhes por algumas horas as lagrymas,
    embora os valentes d'Africa houvessem de fugir vencidos; embora
    as aves de rapina tivessem tambem abundante ceva em cadaveres
    de seus irmãos! E este ameno dia de julho devia ser um desses
    dias porque suspirava o servo ismaelita.

    Almoleimar descêra com seus cavalleiros ás campinas de Béja.
    Pelas horas mortas da noite viam-se as almenáras das suas atalaias
    nos pincaros das serras remotas, semelhantes ás luzinhas, que
    em descampados e tremedaes accendem as bruxas em noites de seus
    folguedos; bem longe éstavam as almenáras, mas bem perto sentiam
    os escutas o resfolegar e o tropear de cavallos, e o ranger de
    folhas seccas, e o tinir a espaços de alfange batendo em ferro
    de canelleira, ou de coxote. Ao romper d'alva os cavalleiros
    do Lidador saíam mais de dous tiros de bésta alem das velhas
    muralhas de Béja; tudo, porém, estava em silencio, e só aqui e
    alli as searas calcadas davam rebate de que por aquelles sitios
    tinham vagueado almogaures mouros, como o leão do deserto rodeia
    pelo quarto de modorra as habitações dos pastores alem das encostas
    do Atlas.

    No dia em que Gonçalo Mendes da Maia, o velho fronteiro de Béja,
    cumpria os noventa e cinco annos, ninguem saíra, pelo arrebol da
    manhan, a correr o campo; e, todavia, nunca tão de perto chegára
    Almoleimar; porque uma frecha fôra pregada á mão em um grosso
    carvalho, que sombreava uma fonte, a pouco mais de tiro de funda
    dos muros do castello. Era que nesse dia deviam ir mais longe os
    cavalleiros christãos: o Lidador pedíra aos pagens o seu lorigão
    de malha de ferro, e a sua boa toledana.

    3

    Trinta fidalgos, flor da cavallaria, corriam á redea solta pelas
    campinas de Béja; trinta, não mais, eram elles; mas orçavam por
    trezentos os homens d'armas, escudeiros e pagens que os acompanhavam.
    Entre todos avultava em robustez e grandeza de membros o Lidador,
    cujas barbas brancas lhe ondeavam como frocos de neve sobre o
    peitoral da cota d'armas, e o terrivel Lourenço Viegas, a quem
    pelos espantosos golpes da sua espada chamavam o Espadeiro. Era
    formoso espectaculo e esvoaçar dos balsões e signas, fóra de suas
    fundas, e soltos ao vento, o scintillar das cervilheiras, as
    cores variegadas das cotas, e as ondas de pó, que se alevantavam
    debaixo dos pés dos ginetes, como as alevanta o bulcão de Deus,
    varrendo a face da campina resequida, em tarde ardente de verão.

    Ao largo, muito ao largo, dos muros de Béja vai a atrevida cavalgada
    em demanda dos mouros; e no horisonte não se vêem senão os topos
    pardo-azulados das serras do Algarve, que parece fugirem tanto
    quanto os cavalleiros caminham. Nem um pendão mourisco, nem um
    albornoz branco alveja ao longe sobre um cavallo murzello. Os
    corredores christãos volteiam na frente da linha dos cavalleiros,
    correm, cruzam para um e outro lado, embrenham-se nos matos, e
    transpõem-nos em breve; entram pelos cannaviaes dos ribeiros;
    apparecem, somem-se, tornam a saír ao claro: mas no meio de tal
    lidar apenas se ouve o trote compassado dos ginetes, e o grito
    monotono da cigarra, pousada nos raminhos da giesteira.

    A terra que pisam é já de mouros; é já além da frontaria. Se
    olhos de cavalleiros portuguezes soubessem olhar para trás indo
    em som de guerra, os que para trás de si os volvessem a custo
    enxergariam Béja. Bastos pinhaes começavam já a cobrir mais ondeado
    territorio, cujos outeirinhos aqui e alli se alteavam suaves como
    seio de virgem em viço de mocidade. Pelas faces tostadas dos
    cavalleiros cobertos de pó corria o suor em bagas, e os ginetes
    alagavam de escuma as redes de ferro acaireladas de ouro, que
    os defendiam. A um signal do Lidador a cavalgada parou; era
    necessario repousar, que o sol ía no zenith e abrazava a terra:
    descavalgaram todos á sombra de um azinhal, e sem desenfrear os
    ginetes deixaram-nos pascer alguma relva, que crescia nas bordas
    de um arroio vizinho.

    Tinha passado meia hora: por mandado do velho Fronteiro de Béja
    um almogavar montou a cavallo, e aproximou-se á rédea solta de
    uma selva extensa, que corria á mão direita: pouco, porém, correu;
    uma frecha despedida dos bosques sibilou no ar: o almogavar gritou
    por Jesus: a frecha tinha-se-lhe embebido no lado: o cavallo
    parou de repente, e elle, erguendo os braços ao ar com as mãos
    abertas, cahiu de bruços, tombando para o chão, e o ginete partiu
    desenfreado através das veigas, e desappareceu na selva. O almogavar
    dormia o ultimo somno dos valentes em terra de inimigos, e os
    cavalleiros da frontaria de Béja viram o seu trance do repousar
    eterno.

    "A cavallo! a cavallo!"–bradou a uma voz toda a lustrosa companhia
    do Lidador; e o tinido dos guantes ferrados, batendo na cobertura
    de malha dos ginetes, soou unisono, quando todos os cavalleiros
    cavalgaram de um pulo: e os ginetes rincharam de prazer, como
    aspirando os combates.

    Uma grita medonha troou ao mesmo tempo além do pinhal da
    direita.–"Allah! Almoleimar!"–era o que dizia a grita.

    Enfileirados em uma longa linha, os cavalleiros arabes saíram á
    rédea solta de trás da escura selva que os encubria: o seu numero
    excedia cinco vezes o dos soldados da cruz: as suas armaduras
    lisas e polidas contrastavam com a rudeza das dos christãos,
    apenas defendidos por pesadas cervilheiras de ferro, e por grossas
    cotas de malha do mesmo metal: mas as lanças destes eram mais
    robustas, e as suas espadas mais volumosas do que as cimitarras
    mouriscas. A rudeza e a força da raça gothico-romana íam ainda
    mais uma vez provar-se com a destreza e com a perícia arabes.

    4

    Como uma longa fita de muitas côres, recamada de fios d'ouro, e
    reflectindo ao longe mil accidentes de luz, a extensa e profunda
    linha dos cavalleiros mouros sobresaía na veiga entre as searas
    pallidas que cubriam o campo: defronte delles os trinta cavalleiros
    portuguezes, com trezentos homens d'armas, pagens, e escudeiros
    cubertos dos seus escuros involtorios, e lanças em riste, esperavam
    o brado de accommetter. Quem visse aquelle punhado de christãos,
    diante da copia d'infiéis que os esperavam, diria que, não com
    brios de cavalleiros, mas com fervor de martyres, se offereciam
    a desesperado trance. Porém, não pensava assim Almoleimar, nem os
    seus soldados, que bem conheciam a têmpera das espadas e lanças
    portuguezas, e a rijeza dos braços que as meneavam. De um contra
    dez devia ser o eminente combate; mas se havia ahi algum coraçâo
    que batesse descompassado, algumas faces descoradas, não era
    entre os companheiros do Lidador que tal coração batia ou que
    taes faces descoravam.

    Pouco a pouco a planura que separava as duas hostes tinha-se
    embebido debaixo dos pés dos cavallos, como no torculo se embebe
    a folha de papel saindo para o outro lado convertida em estampa
    primorosa. As lanças iam feitas: o Lidador bradára Sanctiago; e
    o nome de Allah soára em um só grito por toda a fileira mourisca.

    Encontraram-se! Duas muralhas fronteiras, balouçadas por violento
    terremoto, desabando, não fariam mais ruido, ao bater em pedaços
    uma contra a outra, que este recontro de infiéis e christãos: as
    lanças topando em cheio nos escudos tiravam delles um som profundo,
    que se misturava com o estalar das que voavam despedaçadas. Do
    primeiro encontro muitos cavalleiros vieram ao chão: um mouro
    robusto foi derribado por Mem Moniz, que lhe falsou as armas,
    e traspassou o peito com o ferro de sua grossa lança.

    Deixando-a depois cahir, o velho desembainhou a espada, e gritou
    ao Lidador, que perto delle estava:

    "Senhor Gonçalo Mendes, alli tendes, no peito daquelle perro,
    aberta a séteira por onde eu, velha dona assentada á lareira,
    costumo vigiar a chegada de inimigos, para lhes ladrar como alcateia
    de villãos do cimo da torre de menagem."

    O Lidador não lhe pôde responder. Quando Mem Moniz proferia as
    ultimas palavras, elle topára em cheio com o terrivel Almoleimar.
    As lanças dos dous contendores haviam-se feito pedaços, e o alfange
    do mouro cruzou-se com a boa toledana do Fronteiro de Béja.

    Como duas torres de sete seculos, cujo cimento o tempo petrificou,
    os dous capitães inimigos estavam um defronte do outro, firmes
    em seus possantes cavallos: as faces pallidas e enrugadas do
    Lidador tinham ganhado a immobilidade que dá, nos grandes perigos,
    o habito de os affrontar: mas no rosto de Almoleimar divisavam-se
    todos os signaes de um valor colerico e impetuoso. Cerrando os
    dentes com força, descarregou um golpe tremendo sobre o seu
    adversario: o Lidador recebeu-o no escudo, onde o alfange se
    embebeu inteiro, e procurou ferir Almoleimar entre o fraldão e
    a couraça; mas a pancada falhou, e a espada desceu, faiscando,
    pelo coxote do mouro, que já desencravára o alfange. Tal foi a
    primeira saudação dos dous cavalleiros inimigos.

    "Brando é o teu escudo, velho infiel; mais bem temperado é o
    metal do meu arnez. Veremos agora se na tua touca de ferro se
    embotam os fios deste alfange."

    Isto disse Almoleimar, dando uma risada; e a cimitarra bateu
    em cima da cervilheira do Lidador com a mesma violencia com que
    bate no fundo do valle penedo desconforme desprendido do pincaro
    da montanha.

    O Fronteiro vacillou, deu um gemido, e os braços ficaram-lhe
    pendentes: a espada ter-lhe-hia cahido no chão, se não estivesse
    presa ao punho do cavalleiro por uma cadeia de ferro: o ginete,
    sentindo as redeas frouxas, fugiu um bom pedaço pela campanha
    a todo o galope.

    Mas o Lidador tornou a si: uma forte soffreada avisou o ginete
    de que seu senhor não morrêra. Á redea solta lá volta o Fronteiro
    de Béja; escorre-lhe o sangue, involto em escuma, pelos cantos
    da bôca: traz os olhos torvos de ira: ai de Almoleimar!

    Semelhante ao vento de Deus, Gonçalo Mendes da Maia passou por
    entre christãos e mouros: os dous contendores viram-se, e, como
    o leão e o tigre, correram um para o outro: as espadas reluziram
    no ar: mas o golpe do Lidador era simulado, e o ferro, mudando
    de movimento no ar, foi bater de ponta no gorjal de Almoleimar,
    que cedeu á violenta estocada; e o sangue, saindo ás golfadas,
    cortou a ultima maldicção do agareno.

    Mas a espada deste tambem não errára o golpe: vibrada com ancia,
    colhêra pelo hombro esquerdo o velho Fronteiro, e, rompendo a
    grossa malha do lorigão, penetrára na carne até o osso; e ainda
    mais uma vez a mesma terra bebeu nobre sangue godo misturado
    com sangue arabe.

    "Perro maldicto! Sabe lá no inferno que a espada de Gonçalo Mendes
    é mais rija que a sua cervilheira."

    E, dizendo isto, o Lidador cahiu amortecido: um dos seus homens
    de armas voou a soccorre-lo; mas o ultimo golpe d'Almoleimar
    fôra o brado da sepultura para o fronteiro de Béja: os ossos do
    hombro do bom velho estavam como triturados, e as carnes rasgadas
    pendiam-lhe para um e outro lado involtas nas malhas descosidas
    do lorigão.

    5

    Entretanto os mouros íam de vencida: Mem Moniz, D. Ligel, Godinho
    Fafes, Gomes Mendes Gedeão, e os outros cavalleiros daquella
    lustrosa companhia tinham practicado maravilhosas façanhas. Mas
    entre todos tornava-se notavel o Espadeiro. Com um pesado montante
    nas mãos, cuberto de pó, suor e sangue, pelejava a pé; que o
    seu agigantado ginete cahíra morto de muitos tiros de frecha e
    lançadas. De roda delle não se viam senão cadaveres e membros
    destroncados, por cima dos quaes trepavam, para logo recuarem
    ou baquearem no chão, os mais ousados cavalleiros arabes. Como
    um promontorio de escarpados alcantis, Lourenço Viegas estava
    immovel e sobranceiro no meio do embate daquellas vagas de
    pelejadores, que vinham desfazer-se contra o terrivel montante
    do filho de Egas Moniz.

    Quando o Fronteiro cahiu, o grosso dos mouros fugia já para alem
    do pinhal; mas os mais valentes pelejavam ainda á roda do seu
    capitão mal ferido. O Lidador tinha sido posto em cima d'umas andas,
    feitas de troncos e franças de arvores; e quatro escudeiros, que
    restavam vivos dos dez que comsigo trouxera, o haviam transportado
    para a caga da cavalgada. O tinir dos golpes era já mui frouxo,
    e sumia-se no som dos gemidos, pragas, e lamentos, que soltavam
    os feridos derramados pela veiga ensanguentada. Se os mouros,
    porém, levavam, fugindo, vergonha e damno, a victoria não saíra
    barata aos portuguezes. Viam perigosamente ferido o seu velho
    capitão, e tinham perdido alguns cavalleiros de conta, e a maior
    parte dos homens de armas, escudeiros e pagens.

    Foi n'este ponto, que ao longe se viu erguer uma nuvem de pó,
    que voava rapida para o logar da peleja: mais perto, aquelle
    turbilhão rareou, vomitando do seio um basto esquadrão de arabes;
    os mouros que fugiam, deram volta e gritaram:

    "Ali-Abu-Hassan! Só Deus é Deus, e Mohammed o seu propheta!"

    Era, com effeito, Ali-Abu-Hassan, rei de Tangere, que estava
    com seu exercito sobre Mertola, e que viera com mil cavalleiros
    em soccorro de Almoleimar.

    6

    Cansados do largo combater, reduzidos a menos de metade em numero,
    e cubertos de feridas, os cavalleiros de Christo invocaram o seu
    nome, e fizeram o signal da cruz. O Lidador perguntou com voz
    fraca a um pagem, que estava ao pé das andas, que nova revolta
    era aquella.

    "Os mouros foram soccorridos por um grosso esquadrão:–respondeu
    tristemente o pagem.–A Virgem Maria nos acuda, que os senhores
    cavalleiros parece recuarem já."

    O Lidador cerrou os dentes com força, e levou a mão á cincta.
    Buscava a sua boa toledana.

    "Pagem, quero um cavallo. Onde está a minha espada?

    "Aqui a tenho, senhor. Mas estaes tão quebrado de forças!…."

    "Silencio! A espada, e um bom ginete."

    O pagem deu-lhe a espada, e foi pelo campo buscar um ginete,
    dos muitos que andavam já sem dono. Quando voltou com elle, o
    Lidador, pallido e cuberto de sangue, estava em pé, e dizia,
    falando comsigo:

    "Por Sanctiago, que não morrerei como villão de Behetria, onde
    entrou cavalgada de mouros!"

    E o pagem ajudou-o a montar a cavallo.

    Ei-lo vae o velho Fronteiro de Béja! Semelhava um espectro erguido
    de pouco em campo de finados: debaixo de muitos pannos involtos
    no braço e hombro esquerdo levava a propria morte; nos fios da
    espada, que a mão direita mal sustinha, levava porventura ainda
    a morte de muitos outros!

    7

    Para onde mais travada e accesa andava a peleja se encaminhou
    o Lidador. Os christãos affrouxavam diante daquella multidão
    d'infiéis, entre os quaes mal se enxergavam as cruzes vermelhas
    pintadas nas cimeiras dos portuguezes. Dous cavalleiros, porém, com
    vulto feroz, os olhos turvados de colera, e as armaduras crivadas
    de golpes, sustinham todo o peso da batalha. Eram estes o Espadeiro
    e Mem Moniz. Quando o Fronteiro assim os viu offerecidos a certa
    morte, algumas lagrymas lhe cahiram pelas faces, e esporeando
    o ginete, com a espada erguida abriu caminho por entre infiéis
    e christãos, e chegou aonde os dous, cada um com seu montante
    nas mãos, faziam larga praça no meio dos inimigos.

    "Bem vindo, Gonçalo Mendes!–disse Mem Moniz.–Quizeste assistir
    comnosco a esta festa de morte? Vergonha era, de feito, que
    estivesses fazendo teu passamento, com todo o repouso, deitado
    lá na çaga, em quanto eu, velha dona, espreito os mouros com
    meu sobrinho juncto desta lareira…."

    "Implacaveis sois vós outros, cavalleiros de Riba-Douro,"–respondeu
    o Lidador em voz sumida,–"que não perdoaes uma palavra sem malicia.
    Lembra-te Mem Moniz de que bem depressa estaremos todos diante
    do justo juiz."

    "Velhos sois; bem o mostraes!"–acudiu o Espadeiro.–"Não cureis de
    vans porfias, mas de morrer como valentes. Demos nestes perros,
    que não ousam chegar-se a nós. Ávante, e Sanctiago!"

    "Ávante, e Sanctiago!"–responderam Gonçalo Mendes e Mem Moniz:
    e os tres cavalleiros deram rijamente nos mouros.

    8

    Quem hoje ouvir recontar os bravos golpes que no mez de Julho
    de 1170 se deram na veiga da frontaria de Béja, nota-los-ha de
    fabulas sonhadas; porque nós homens corruptos e enfraquecidos
    por ocios e prazeres de vida afeminada, medimos por nosso animo
    e forças as forças e o animo dos bons cavalleiros portuguezes
    do seculo doze; e todavia esses golpes ainda soam através das
    eras nas tradições e chronicas, tanto christans como agarenas.

    Depois de deixar assignadas muitas armaduras mouriscas, o Lidador
    vibrára pela ultima vez a espada, e abríra o elmo e o craneo
    de um cavalleiro arabe. O violento abalo que soffreu, fez-lhe
    rebentar em torrentes o sangue da ferida, que recebêra das mãos de
    Almoleimar, e cerrando os olhos, cahiu morto ao pé do Espadeiro,
    de Mem Moniz, e de Affonso Hermigues de Bayão, que com elles se
    ajunctára. Repousou finalmente Gonçalo Mendes da Maia de oitenta
    annos de combates!

    Já a este tempo christãos e mouros se haviam descido dos cavallos,
    e pelejavam a pé. Traziam-se assim á vontade, e recrescia a crueza
    da batalha. Entre os cavalleiros de Béja espalhou-se logo a nova da
    morte do seu capitão, e não houve ahi olhos que ficassem enxutos.
    O despeito do proprio Mem Moniz deu logar á dor, e o velho de
    Riba-Douro exclamou entre soluços:

    "Gonçalo Mendes, és morto! Nós todos quantos aqui somos, não
    tardará que te sigamos; mas ao menos, nem tu nem nós ficaremos
    sem vingança!"

    "Vingança!"–bradou o Espadeiro, com voz rouca, e rangendo os
    dentes. Deu alguns passos, e viu-se o seu montante reluzir como
    uma centelha em céu procelloso.

    Era Ali-Abu-Hassan: Lourenço Viegas o conhecêra pelo timbre real
    do morrião.

    9

    Se já vivestes vida de combates em cidade sitiada, tereis visto
    muitas vezes um vulto negro, que em linha diagonal corta os ares,
    sussurrando e gemendo. Rapido, como um pensamento criminoso em
    alma honesta, elle chegou das nuvens á terra, antes que vos
    lembrasseis do seu nome. Se encontrou na passagem angulo de torre
    secular, o marmore converte-se em pó; se atravessou pelas ramas
    de arvore basta e frondosa, a folha mais virente e fragil, o
    raminho mais tenro é dividido, como se com cutelo subtilissimo
    mão de homem lhe houvera cerceado attentamente uma parte: e,
    todavia, não é um ferro açacalado: é um globo de ferro; é a bomba,
    que passa, como a maldicção de Deus. Depois, debaixo della o
    chão achata-se, e a terra espadana aos ares; e como agitada,
    despedaçada por cem mil demonios, aquella machina do inferno
    estoura, e de roda della ha um zumbir sinistro: são mil fragmentos;
    são mil mortes que se derramam ao longe. Então faz-se um grande
    silencio, e após o silencio vêem-se corpos destroncados, poças
    de sangue, arcabuzes quebrados, e ouve-se o gemer dos feridos
    e o estertor de moribundos….

    Tal desceu o montante do Espadeiro, bôto já de milhares de golpes,
    que o cavalleiro tinha descarregado. O elmo de Ali-Abu-Hassan
    faiscou, voando em pedaços pelos ares, e o ferro christão,
    esmigalhando o craneo do infiél, abriu-o até os dentes.
    Ali-Abu-Hassan cahiu.

    "Lidador! Lidador!"–disse Lourenço Viegas, com voz comprimida.
    As lagrymas misturavam-se-lhe nas faces com o suor, o pó, e o
    sangue do agareno, de que ficou coberto. Não pôde dizer mais
    nada.

    Tão espantoso golpe aterrou os mouros: os portuguezes seriam já
    apenas sessenta entre cavalleiros e homens d'armas; mas pelejavam
    como desesperados, e resolvidos a morrer. Mais de mil inimigos
    juncavam o campo de involta com os christãos. A morte de
    Ali-Abu-Hassan foi o signal da fugida.

    Os portuguezes, senhores do campo, celebravam com prantos a victoria.
    Poucos havia que não estivessem feridos; nenhum que não tivesse
    as armas falsadas e rotas. O Lidador e os demais cavalleiros de
    grande conta, que naquella jornada tinham acabado, atravessados em
    cima de ginetes foram conduzidos a Béja. Após aquelle tristissimo
    prestito íam os cavalleiros a passo lento, e um sacerdote templario,
    que fôra na cavalgada, com a espada cheia de sangue mettida na
    bainha, psalmeava em voz baixa aquellas palavras do livro da
    Sabedoria:

    "_Justorum autem animæ in manu Dei sunt, et non tanget illos tormentum
    mortis._"

    * * * * *

    O PAROCHO DA ALDEIA

    (1825)

    PROLOGO.

    Como a philosophia é triste e arida! Ás vezes, na primavera,
    o vento norte atira-se pelas encostas, tombando dos visos da
    serra, como se uma intelligencia vivesse n'elle, intelligencia
    de maldade e destruição. De noite e de dia os troncos das arvores
    torcem-se e gemem, as ramas açoutam-nos, e despedaçam-se involtas
    nos braços longos e flexiveis da ventania: o demonio do septentrião
    sibilla no meio dellas um zumbido entre de lamento e d'escarneo.
    Debalde o bosque estende saudoso por um momento os seus mais altos
    raminhos para o sol que se vae alevantando no oriente: a rajada
    despega de novo da cumiada da montanha; o bosque curva-se para o
    meio-dia; e galgando por cima daquellas mil frontes inclinadas
    das plantas gigantes, das rainhas magestosas da vegetação, os
    turbilhões da atmosphera agitada rolam pela planicie coberta
    já de relva entresachada das primeiras florinhas. Então, relva
    e florinhas murcham-se esmagadas pelas mãos da procella, que
    tudo alcançam, fustigam e desbaratam. Os carvalhos frondosos e
    as boninas rasteiras, com a fronte pendida para a terra, como
    outros tantos symbolos do desalento, não ousam ergue-la para o
    céu. É que, rugindo, a rajada cahe da montanha em perenne catadura.
    Ás vezes, como por brinco infernal, o vento finge adormecer um
    instante, e depois remoinha e apruma os topos das arvores e as
    corolas das flores, mas é para logo as vergar com mais força,
    e apupar com o silvo insolente aquella rapida esperança, que
    se desvaneceu tão breve.

    E quando o vento acalma é para saltar ao ponente ou ao sul. A
    rajada já não silva da montanha: uma bafagem tepida vem da banda
    do mar; mas o ceu está toldado e o ar humido: o dia passa
    melancholico e pesado sobre a bonina que a nortada açoutou: ella
    não pôde saudar o sol no oriente: está pendida e murcha como a
    ventania a deixára. A noite vem encontra-la n'uma especie de
    torpor, que é existir, mas que não é vegetar, e ainda menos viver.

    Como a florinha do campo a alma por onde passou a procella da
    philosophia, esse turbilhão transitorio de doutrinas, de systemas,
    de opiniões, de argumentos, pende desanimada e triste; e na claridade
    baça do septicismo, que torna pesada e fria a atmosphera da
    intelligencia, não póde aquecer-se aos raios esplendidos do sol
    de uma crença viva.

    Com Kant o universo é uma duvida: com Locke é duvida o nosso
    espirito: e n'um destes abysmos vem precipitar-se todas as
    philosophias.

    A arvore da sciencia, transplantada do Eden, trouxe comsigo a
    dor, a condemnação e a morte: mas a sua peior peçonha guardou-se
    para o presente: foi o scepticismo.

    Feliz a intelligencia vulgar e rude, que segue os caminhos da vida
    com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além
    da morte, sem que um momento vacille, sem que um momento a luz se
    apague ou a esperança se desvaneça! Para ella não ha abraçar-se
    com a cruz em impeto de agonia, e clamar a Jesus:–"Creio, creio,
    oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque
    eras humilde e virtuoso; porque filho da raça soffredora e austera
    chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo,
    tão puro enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque
    até a hora do expirar na ignominia, até a hora da grande prova,
    nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno!
    porque tu só nos explicaste o mysterio desta associação monstruosa
    da saude e do ouro, do poderio e dos crimes a um lado; a da
    enfermidade e da pobreza, da servidão e da innocencia a outro;
    porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além
    do sepulchro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste
    revelar a consolação á extrema miseria sem horisonte, e os terrores
    á completa felicidade sem termo na vida, collocando no logar do
    destino a providencia, e do nada a immortalidade! Creio, creio,
    oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossivel
    humano; a victoria da tua doutrina severa contra a philosophia e
    o paganismo um milagre; a gloria do teu nome de suppliciado maior
    que todas as glorias das mais altas e virtuosas intelligencias
    do mundo. Mas foste, na verdade, um Deus?"

    Não, o animo vulgar que nunca vacillou na fé, que nunca discutiu
    o Verbo, nunca julgou o Christo, possuido do insensato orgulho
    da sciencia, esse não sabe a dolorosa oração do que pede a Deus
    o crer; ignora quanto fel encerra a interrupção contínua de cada
    phrase, de cada palavra daquelle tormentoso orar; ignora o que
    é atirar-se aos pés da cruz por um impulso quasi phrenetico do
    coração, sentir a voz gelida, pesada, cruel do entendimento dizer-lhe
    tranquillamente–_quem sabe!_"–e cahir desanimado no lethargo da
    duvida, d'onde muitas vezes bem tarde se alevanta o espirito,
    opprimido e quebrado, porque nelle pelejaram horas largas o instincto
    religioso e o demonio implacavel a que chamam sciencia.

    A sociedade é bem injusta quando ás faces do desgraçado, que
    assim lucta comsigo mesmo, sacode o lodo da injuria, dizendo-lhe:
    –hypocrita!–porque escondeu aos que o rodeiam, não as certezas,
    que não as tem, mas as duvidas terriveis da intelligencia, e lhes
    revelou só as inspirações, os desejos, as saudades do coração!
    –Hypocrita?! Tanto como o que, havendo-se transviado da estrada
    e cahido em fojo profundo, dorido, coberto de pisaduras e feridas,
    e ensanguentando as mãos e o rosto nas urzes do despenhadeiro,
    lidasse por saír delle e voltar ao caminho suave e plano, e bradasse
    aos que visse ao longe:–"não vos affasteis para aqui!"–Hypocritas
    são aquelles que mentem aos que os escutam; que simulam a paz do
    descrer tranquillo, quando vae lá dentro o tumultuar das incertezas.
    Como Satanaz elles dizem que o inferno é o ceu; dizem que a
    irreligiosidade tem o segredo do repouso e da ventura, quando o que
    ella dá é inquietação e desesperança.

    Feliz a alma vulgar e rude que crê, e nem sequer sabe que a duvida
    existe no mundo! Está certa de que além da morte ha vida; conhece
    as suas condições; conhece-as como lh'as ensinaram, como conhece
    as condições dos corpos. Para ella as noites não tem os pesadellos
    monstruosos, nem os dias as meditações febris em que o sceptico
    involuntario se debate na orla do possivel, que toca por um lado
    nas solidões do nada, por outro na immensidade de Deus.

    Mas ainda mais feliz a intelligencia superior ás do vulgo, aquella
    que a Providencia destinou á missão do poeta, nos annos da infancia
    e da juventude, antes que o arido bafo da sciencia a queimasse
    passando por cima della! Nesse espirito e nessa idade a religião
    não está só nos preceitos e nos dogmas; está na natureza inteira.
    A alegria de Deus, o aspirar das fragrancias celestes, a toada
    suavissima dos hymnos dos anjos, descem a ella nos raios do sol
    quando nasce e quando desapparece; tremulam no espelhar-se da
    lua nas aguas; misturam-se no cicio das arvores; entretecem-se
    com os mil gemidos da noite; vivem nas affeições domesticas, e
    sanctificam o primeiro bater do coração pelo amor. Tudo então é
    viçoso e puro, porque a alma poetica lhe empresta viço e pureza.
    As harmonias moldadas, na virilidade, pelas leis das linguas e das
    escholas, são apenas um eccho frouxo desses canticos da meninice
    e da primeira mocidade, que se evaporam sem se escreverem, que
    são um oceano de delicias ineffaveis em que se embala mollemente
    a imaginação e o sentir do homem, a quem o mundo ha-de chamar
    poeta. Nessa epocha da vida elle não abstrahe do real para salvar
    verdadeira e intacta a sua idealidade: faz mais; derrama esta,
    que é a seiva intima do seu viver, pelo universo, e converte-o
    n'uma cousa formosa, sancta, ideal, que o mundo está bem longe
    de ser.

    Depois vem outra epocha da vida, em que a felicidade é mentida,
    mas ainda é felicidade, posto que já eivada de vaga inquietação, de
    ambições desregradas, de esperanças mesquinhas e contradictorias.
    São os annos qnc precedem e seguem immediatamente os vinte.

    Abrem-se ante nós os caminhos do mundo como uma conquista. Gloria
    d'artistas, poderio, opulencia, acções generosas e grandes, amor
    sem termo, amizade sem perfidias, vida multiplicada indefinidamente
    pela infinidade de affectos; que ha, emfim, que não sonhemos nessa
    epocha de fervente loucura? A innocencia morreu, a poesia intima
    e crente desbaratou-se, o sentimento religioso esmoreceu; mas
    ficam os deleites dos sentidos, que nos embriagam; os applausos
    das multidões aos nossos hymnos descorados, que ellas ainda julgam
    energicos e brilhantes; applausos que nos desvairam: fica-nos
    uma philosophia orgulhosa e insensata, que se crê profunda, uma
    sciencia superficial, que se crê completa, pela qual dormimos
    tranquillos sobre a negação de todas as idéas mysticas, e de
    todas as lembranças de Deus.

    Desta idade em diante é que chega o desfazer das illusões, até
    das illusões do orgulho. A poesia suave e pura da infancia e da
    puberdade passou: passa também o iris das paixões férvidas, das
    ambições insaciaveis, da crença na propria energia. Começa então
    o pardo crepusculo deste scepticismo, que, semelhante a herpes
    lentos, vae lavrando por todas as nossas opiniões e affectos, e
    os prostra e subjuga. Desde essa epocha a vida tem largas horas
    de tedio, em que o existir é uma carga pesada, porque nos falta
    um alicerce em que possamos firmar-nos; porque fluctuamos sobre
    as nevoas densas do duvidar de tudo.

    O materialismo incredulo já tirou das phases espirituaes dos
    altos engenhos argumento contra a immortalidade. Com a sua logica
    miope persuadiu-se de que via as enfermidades e a decadencia da
    alma acompanharem as enfermidades e a decadencia do corpo; que
    via o entendimento cachetico esmorecer com a decrepidez; quiz
    que elle na morte ficasse perdido e annullado entre as cinzas
    da sepultura. Se o materialismo soubesse que a vida das summas
    intelligencias é a poesia, e que essa vida segue a ordem inversa
    do desinvolvimento physico; se conhecesse que a energia intima
    tem o seu apogeu nos annos debeis da infancia, e começa a
    desvanecer-se quando os orgãos se fortalecem, elle não teria
    achado a explicação do phenomeno nas suas tristes doutrinas.
    Nos destinos eternos dos homens iria encontrar a razão desse
    facto, que então veria á sua luz verdadeira. Os olhos da alma
    vão-se pouco a pouco ennevoando no meio das trevas do mundo:
    nesta atmosphera grosseira e corrupta ella resfolga a custo, e
    com o diminuir dos alentos diminuem-se-lhe successivamente os
    brios: cada dia lhe desfolha um affecto, lhe discute uma crença,
    lhe mata uma esperança, lhe traz um desengano cruel. Entre o
    espirito e o mundo partiram-se um a um todos os laços. Vós crêdes
    que a mente se definha, e ella apenas dormita para despertar
    vigorosa ao sol da eternidade, que rompe atrás do sepulchro.

    Tomae-me esse octogenario tonto que foi um alto engenho: cavae
    no deserto do seu coração gasto e frio, e arrancae-me de lá uma
    daquellas paixões que ardem até o ultimo instante da existencia:
    vibrae uma corda das que lhe davam na idade viril um som estridente:
    dizei-lhe:–"teu filho querido foi arrastado ao tribunal como
    criminoso; espera-o o supplicio se não houver uma voz eloquente
    que o defenda: se ella se erguer será salvo; e tu foste na mocidade
    o mais eloquente dos homens!"–Dizei-lhe isto, e vereis esse
    engenho, que crêdes moribundo, atirar-se como um tigre ao meio
    dos juizes, e achar toda a energia dos vinte e cinco annos para
    defender aquella vida que a natureza ligou á sua pelas harmonias
    mysteriosas da paternidade. Se as palavras, se o orgão extenuado
    da linguagem não podér exprimir o pensamento daquella alma remoçada
    subitamente, o gesto, o olhar, os meneios substituirão a lingua, e
    se cansados e debeis não bastarem á violencia da idéa, o espirito
    despedaçará o quasi cadaver, e despedindo-se da terra provará
    que, se dormitava, não se extinguia, e que, despertando, partia
    o vaso fragil que já não o podia conter.

    Tal é o destino da intelligencia neste breve desterro: dous dias
    conserva as recordações verdadeiras e puras da sua origem immortal:
    outros dous alumia-se ao fogo fatuo das paixões e esperanças:
    o resto delles revolve-se na lucta tormentosa das idéas, dos
    affectos, dos desenganos: depois vem o dormitar da velhice, e
    a regeneração da morte.

    Eu, que já vou áquem do marco, onde começa o terceiro periodo da
    vida humana, a sós ás vezes com as minhas recordações infantis,
    ponho-me a comparar o aspecto prosaico e triste, que tem actualmente
    para mim o universo, com as fórmas suaves e poeticas em que elle
    me apparecia involto nesses tempos dourados. É uma comparação
    amarga; mas a saudade que encerra consola do seu amargor.

    Hoje a lua no crescente alevanta-se ao anoitecer de um dia sereno
    do estio, e estende o manto de lhama de prata sobre a face levemente
    crespa das aguas: os seus raios, transparecendo por entre o
    verdenegro das copas do arvoredo, que se balouçam somnolentas,
    descem tremulos sobre o chão pardo, e mosqueam-lhe a superficie
    como um dorso de panthera. A viração tenuissima da tarde passa
    e murmura um cicio quasi imperceptivel na folhagem. Em volta do
    circulo alvacento que o luar esparge no ceu, scintillam algumas
    estrellas no azul do firmamento, que parece o leito recamado de
    saphyras em que se reclina a rainha da noite.

    Ha quinze ou vinte annos uma tal noite tinha para mim um sem
    numero de mysteriosas harmonias, que eu não sabia explicar, mas
    que sabia sentir. Agora sei dizer-vos o que é a lua, a sua luz
    refracta, a noite, a viração, o vulto das aguas encrespadas, as
    estrellas, e as solidões do espaço; mas o que eu já não sei é
    verter lagrymas de ineffavel contentamento, que se me escoavam
    tepidas pelas faces ao contemplar as harmonias immateriaes e
    intimas, que vagavam pela atmosphera tranquilla, como uns echos
    longinquos de harpa angelica, tombando de astro em astro até
    se derramarem na terra.

  • Lendas e Narrativas (Tomo I)

    Lendas e Narrativas (Tomo I)

    Aproximadamente 58.402 palavras.

    Produced by João Miguel Neves and PG Distributed
    Proofreaders from images and OCR'd files of the National
    Digital Library project from the National Library of
    Portugal.

    This e-text is transcribed from the 1858 2nd edition of Lendas e
    Narrativas (Tomo I).

    LENDAS E NARRATIVAS (Tomo I)

    ADVERTENCIA

    A Advertência que precedia a anterior edição, e que adiante vae
    repetida, explica sobejamente porque as primeiras tentativas de um
    género de escriptos, que só muito tarde foi cultivado em Portugal,
    se publicaram em volumes, quando talvez não devessem sair das
    columnas dos jornaes, onde viram a luz publica. Considerámo-los
    então, e considerâmo-los agora apenas como balisas no campo da
    nossa historia litteraria, balisas que nos parecem ainda mais
    toscas actualmente; porque ao passo que a reflexão e o tempo
    nos amaduram o espirito, os defeitos de composição e de estylo
    cada vez se vão avolumando mais aos olhos da nossa consciência
    retrospectiva. Reputando-os, todavia, hoje como ha oito annos,
    simples marcos milliarios, a presente edição absolve-se pelos
    mesmos títulos porque devia ser absolvida a edição anterior.

    Esperávamos, e dissemo-lo sinceramente, que estas desadornadas
    tentativas esqueceriam em breve offuscadas pelas brilhantes
    composições que começavam a avultar no caminho que havíamos aberto.
    O publico enleodeu de outro modo. Sem deixar de apreciar o melhor,
    não esqueceu estes mal delineados esboços, que ficaram na sua
    memória como nos ficam para a saudade os dias do nosso balbuciar
    infantil.

    Quinze a vinte annos são decorridos desde que se deu um passo,
    bem que débil, decisivo, para quebrar as tradições do Alivio
    de Tristo e do Feliz Independente, tyrannos que reinavam sem
    émulos e sem conspirações na provincia do romance português.
    Nestes quinze ou vinte annos creou-se uma litteratura e póde
    dizer-se que não ha anno que não lhe traga um progresso. Desde
    as Lendas e Narrativas até o livro Onde está a Felicidade? que
    vasto espaço transposto! E todavia, apesar do immenso talento
    que se revela nas mais recentes composições, quem sabe se entre
    os nomes que despontam apenas nos horisontes litterarios, não
    virá em breve algum que offusque os que nos deixaram para nós
    somente um bem modesto logar?

    Oxalá que assim seja. Os que nos venceram n'esta lucta gloriosa
    saberão resignar-se como nós nos resignámos.

    Ajuda, maio de 1858.

    ADVERTENCIA DA PRIMEIRA EDIÇÃO

    Os breves romances e narrativas contidos neste volume foram
    impressos, em epochas mais ou menos remotas, nas duas publicações
    periodicas o Panorama e a Illustração, bem como o foram nestes
    ou em outros jornaes os que tem de formar o segundo volume das
    Lendas e Narrativas, colleccão que, se trabalhos mais arduos o
    consentirem, será continuada com alguns outros, apenas esboçados
    ou ineditos no todo ou em parte, que ainda restam entre os
    manuscriptos do auctor. Corrigindo-os e publicando-os de novo,
    para se ajunctarem a composições mais extensas e menos imperfeitas,
    que já viram a luz publica em volumes separados, elle quiz apenas
    preservar do esquecimento, a que por via de regra são condemnados
    mais cedo ou mais tarde os escriptos inseridos nas columnas das
    publicações periodicas, as primeiras tentativas do romance historico
    que se fizeram na lingua portuguesa. Monumentos dos esforços
    do auctor para introduzir na litteratura nacional um genero
    amplamente cultivado, nestes nossos tempos, em todos os paizes
    da Europa, é este o principal, ou talvez o unico merecimento
    delles; o titulo de que podem valer-se para não serem entregues
    de todo ao esquecimento. À singeleza da invenção, a pouca firmeza
    nos contornos de alguns caractéres, o menos bem travado do dialogo,
    imperfeições que nem sempre foi possivel remediar nesta nova
    edição, revelam a mão inexperiente. Na historia dos progressos
    litterarios de Portugal, desde que a liberdade politica trouxe
    a liberdade do pensamento, e que o engenho pôde apparecer á luz
    do dia sem os anginhos de uma censura tão absurda na sua indole,
    como estupida na sua applicação e esterilisadora nos seus effeitos;
    nessa historia, dizemos, esta nova edição deve ser julgada
    principalmente com attenção ao seu motivo, á prioridade das
    composições nella insertas, e á precisão em que, ao escreve-las,
    o auctor se via de crear a substancia e a fórma; porque para o
    seu trabalho faltavam absolutamente os modelos domesticos.

    A critica para ser justa não ha-de, porém, attender só a essas
    circumstancias: ha-de considerar também os resultados destas
    tentativas, que, a principio, é licito suppôr inspiraram outras
    analogas, como por exemplo os "Irmãos Carvajales" e "O que foram
    Portuguezes" do Sr. Mendes Leal, e gradualmente incitaram a maioria
    dos grandes talentos da nossa litteratura a emprehenderem composições
    analogas de mais largas dimensões, e melhor delineadas e vestidas.
    Todos conhecem o "Arco de Sanct'Anna", cujo ultimo volume acaba
    de imprimir o primeiro poeta português deste seculo, o "Um ano na
    Côrte" do Sr. Corvo, cuja publicação se aproxima do seu termo, e
    o "Odio Velho Não Cansa" do Sr. Rebello da Silva, ensaio que, se
    as eloquencias parvoas e semsabores dos dicursos academicos não
    tivessem tornado indecentes as allusões mythologicas, se poderia
    comparar ao combate com o leão de Citheron, que revelou á Grecia
    no moço Hercules o futuro semideus; porque no Odio Velho começa
    a manifestar-se o auctor da "Mocidade de D. João V", romance de
    que já se imprimiram algumas paginas admiraveis, mas que na parte
    inedita, que é quasi tudo, nos promete um emulo de Walter-Scott.
    Emfim o "Conde de Castella" do Sr. Oliveira Marreca, vasta concepção,
    posto que ainda incompleta, foi porventura inspirado pelo exemplo
    destas fracas tentativas, e das que, em dimensões maiores, o
    auctor emprehendeu no Eurico e no Monge de Cister. Caracter grave
    e austero, dignos dos tempos antigos, e que a providencia collocou
    em meio de uma sociedade gasta e definhada por muitos generos
    de corrupções, como uma condemnação muda; homem sobre tudo de
    sciencia e consciencia, o Sr. Marreca trouxe estes seus dotes
    eminentes para o campo do romance historico, onde ninguem, talvez,
    como elle poderia fazer a Portugal o serviço que DuMonteil fez
    á França, isto é, popularisar o estudo daquela parte da vida
    publica e privada dos seculos semi-barbaros, que não cabe no
    quadro da historia social e politica.

    Taes foram, entre outros, os mais importantes resultados da
    introduccão do genero. No meio deste amplo desenvolvimento de uma
    literatura nova no paiz, o auctor das seguintes paginas merecerá
    talvez desculpa de recordar que estes ensaios, inferiores ás
    publicações que se lhe seguiram, foram a sementinha d'onde proveio
    a floresta. Seja-lhe pois licito consolar-se na sua inferioridade
    com haver precedido na ordem dos tempos aquelles que, na affeição
    do publico, devem provavelmente faze-lo esquecer. Persuadido de
    ter por isso direito á indulgencia, resolveu-se a transportar
    para o livro aquillo que, considerado em si, não mereceria talvez
    sair nunca das columnas do fugitivo jornal, salvando assim, não
    escriptos cuja apreciação exija largas paginas na historia
    litteraria, mas um marco humilde e tosco, que, nesta especie de
    litteratura, indique o ponto d'onde se partiu.

    O ALCAIDE DE SANTARÉM (950–961)

    I

    O guadamellato é uma ribeira que, descendo das solidões mais
    agras da Serra Morena, vem através de um territorio montanhoso
    e selvatico desaguar no Guadalquivir pela margem direita, pouco
    acima de Cordova. Houve tempo em que nestes desvios habitou uma
    população numerosa: foi nas eras do dominio sarraceno em Hespanha.
    Desde o governo do amir Abul-Khatar o districto de Cordova fôra
    distribuido ás tribus árabes do Yemen e da Syria, as mais nobres
    e mais numerosas entre todas as raças da Africa e da Asia, que
    tinham vindo residir na Peninsula por occasião da conquista ou
    depois della. As familias que se estabeleceram naquellas encoslas
    meridionaes das longas serranias chamadas pelos antigos Montes
    Marianos, conservaram por mais tempo os hábitos erradios dos
    povos pastores. Assim no meiado decimo seculo, posto que esse
    districto fosse assás povoado, o seu aspecto assemelhava-se ao
    de um deserto; porque nem se descortinavam por aquelles cabeços e
    valles vestigios alguns de cultura, nem alvejava um unico edificio
    no meio das collinas rasgadas irregularmente pelos algares das
    torrentes, ou cubertas de selvas bravias e escuras. Apenas um
    ou outro dia se enxergava na extrema de algum almargem virente a
    tenda branca do pegureiro, que no dia seguinte não se encontraria
    alli, se porventura se buscasse.

    Havia, comtudo, povoações fixas naquelles ermos; havia habitações
    humanas, porém não de vivos. Os arabes collocavam os cemiterios
    nos logares mais saudosos dessas solidões, nos pendores meridionaes
    dos outeiros, onde o sol, ao pôr-se, estirasse de soslaio os seus
    ultimos raios pelas lagens lisas das campas, por entre os raminhos
    floridos das sarças açoutadas do vento. Era alli que, depois
    do vaguear incessante de muitos annos, elles vinham deitar-se
    mansamente uns ao pé dos outros, para dormirem o longo somno
    sacudido sobre as suas palpebras das asas do anjo Azrael.

    A raça arabe, inquieta, vagabunda e livre, como nenhuma outra
    familia humana, gostava de espalhar na terra aquelles padrões,
    mais ou menos sumptuosos, do captiveiro e immobilidade da morte,
    talvez para avivar mais o sentimento da sua independencia illimitada
    durante a vida.

    No recosto de um teso, elevado no extremo de extensa gandra que
    subia das margens do Guadamellato para o nordeste, estava assentado
    um desses cemiterios pertencente á tribu Yemenita dos Beni-Homair.
    Subindo pelo riu, viam-se alvejar ao longe as pedras das sepulturas
    como um vasto estendal, e tres unicas palmeiras, plantadas na corôa
    do outeiro, lhe tinham feito dar o nome de cemiterio de al-tamarah.
    Transpondo o cabeço para o lado oriental, encontrava-se um desses
    brincos da natureza, que nem sempre a sciencia sabe explicar:
    era um cubo de granito de desconforme dimensão, que parecia ter
    sido posto alli pelos esforços de centenares d'homens, porque
    nada o prendia ao solo. Do cimo desta especie de atalaia natural
    descortinavam-se para todos os lados vastos horisontes.

    Era um dia á tarde: o sol descia rapidamente, e já as sombras
    principiavam do lado de léste a empastar a paisagem ao longe em
    negrumes confusos. Assentado na borda do rochedo quadrangular
    um arabe dos Beni-Homair, armado da sua comprida lança, volvia
    olhos attentos, ora para o lado do norte, ora para o de oeste:
    depois sacudia a cabeça com um signal negativo, inclinando-se
    para o lado opposto da grande pedra. Quatro sarracenos estavam
    alli tambem assentados em diversas posturas e em silencio, o
    qual só era interrompido por algumas palavras rapidas, dirigidas
    ao da lança, e a que elle respondia sempre do mesmo modo com o
    seu menear de cabeça.

    "Al-barr,"–disse por fim um dos sarracenos cujo trajo e gestos
    indicavam uma grande superioridade sobre os outros–"parece que
    o kaid de Chantoryu[1] esqueceu a sua injuria como o wali de
    Zarkosta[2] a sua ambição d'independencia; e até os partidários
    de Hafsun, esses guerreiros tenazes, tantas vezes vencidos por
    meu pae, não podem acreditar que Abdallah realise as promessas
    que me induziste a fazer-lhes."

    "Amir-al-melek[3],"–replicou Al-barr–"ainda não é tarde: os
    mensageiros podem ter sido retidos por algum successo imprevisto.
    Não creias que a ambição e a vingança adormeçam tão facilmente
    no coração humano. Dize, Al-athar, não te juraram elles pela
    sancta Kaaba[4] que os enviados com a noticia da sua revolta e
    da entrada dos christãos chegariam hoje a este logar aprazado,
    antes do anoitocer?"

    "Juraram–respondeu Al-athar–; mas que fé merecem homens que
    não duvidam de quebrar as promessas solemnes feitas ao kalifa,
    e além d'isso de abrir o caminho aos infiéis para derramarem o
    sangue dos crentes? Amir, nestas negras tramas tenho-te servido
    lealmente; porque a ti devo quanto sou; mas oxalá que falhassem
    as esperanças que pões nos tens occultos alliados. Oxalá não
    tivesse de tingir o sangue as ruas de Korthoba, e não houvera
    de ser o suppedaneo do throno que ambicionas o tumulo de teu
    irmão!"

    Al-athar cobriu a cara com as mãos, como se quizesse esconder a
    sua amargura. Abdallah parecia commovido por duas paixões oppostas.
    Depois de se conservar algum tempo em silencio, exclamou:

    "Se os mensageiros dos revoltosos não chegarem até o anoitecer,
    não falemos mais n'isso. Meu irmão Al-hakem acaba de ser reconhecido
    successor do kalifado: eu próprio o acceitei por futuro senhor
    poucas horas antes de vir ter comvosco. Se o destino assim o
    quer, faça-se a vontade de Deus! Al-barr, imagina que os teus
    sonhos ambiciosos e os meus foram uma kassidéh[5] que não soubeste
    acabar, como aquella que debalde tentaste repetir na presença
    dos embaixadores do Frandjat[6], e que foi causa de cahires no
    desagrado de meu pae e de Al-hakem, e de conceberes esse odio
    que alimentas contra elles, o mais terrível odio deste mundo,
    o do amor próprio offendido."

    Ahmed Al-athar e o outro arabe sorriram ao ouvirem estas palavras
    de Abdallah. Os olhos, porém, de Al-barr faiscaram de colera.

    "Pagas mal, Abdallah,–disse elle com a voz presa garganta–os
    riscos que tenho corrido para te obter a herança do mais bello
    e poderoso império do Islam. Pagas com allusões affrontosas aos
    que jogam a cabeça com o algoz para te pôr na tua uma corôa. És
    filho de teu pae! … Não importa. Só te direi que é já tarde
    para o arrependimento. Pensas acaso que uma conspiração sabida
    de tantos ficará occulta? No ponto a que chegaste, retrocedendo
    é que has-de encontrar o abysmo!"

    No rosto de Abdallah pintava-se o descontentamento e a incerteza.
    Ahmed ia a falar, talvez para ver de novo se divertia o príncipe
    da arriscada empresa de disputar a coroa a seu irmão Al-hakem. Um
    grito, porém, de atalaia o interrompeu. Ligeiro como relampago
    um vulto saíra do cemitério, galgára o cabeço, e se aproximára
    sem ser sentido: vinha involto n'um albornoz escuro, cujo capuz
    quasi lhe encobria as feições, vendo-se-lhe apenas a barba negra
    e revolta. Os quatro sarracenos puseram-se em pé de um pulo, e
    arrancaram as espadas.

    Ao ver aquelle movimento, o que chegára não fez mais do que estender
    para elles a mão direita e com a esquerda recuar o capuz do albornoz:
    então as espadas abaixaram-se como se uma corrente electrica
    tivesse adormecido os braços dos quairo sarracenos. Al-barr
    exclamára:–"Muulin[7] o propheta! Muulin o sancto!…"

    "Muulin o peccador:–interrompeu o novo personagem–Muulin, o
    pobre fakih[8] penitente e quasi cego de chorar as proprias culpas
    e as culpas dos homens, mas a quem Deus por isso illumina ás
    vezes os olhos da alma para antever o futuro ou ler no fundo
    dos corações. Li no vosso, homens de sangue, homens de ambição!
    Sereis satisfeitos! O senhor pesou na balança dos destinos a ti,
    Abdallah, e a teu irmão Al-hakem. Elle foi achado mais leve. A
    ti o throno; a elle o sepulchro. Está escripto. Vae; não pares
    na carreira, que não te é dado parar! Volta a Kortheba. Entra no
    teu palacio Merwan; é o palacio dos kalifas da tua dynastia. Não
    foi sem mysterio que teu pae t'o deu por morada. Sobe ao sotam[9]
    da torre. Ahi acharás cartas do kaid de Chantarya, e dellas verás
    que nem elle, nem o wali de Zarkosta, nem os Beni-Hafsun faltam
    ao que te juraram!"

    "Sancto fakih–replicou Abdallab, crédulo como todos os musulmanos
    daquelles tempos de fé viva, e visivelmente perturbado–creio o
    que dizes, porque nada para ti é occulto. O passado, o presente,
    o futuro domina-los com a tua intelligencia sublime. Asseguras-me
    o triumpho; mas o perdão do crime podes tu assegura-lo?"

    "Verme, que te crês livre!–atalhou com voz solemne o fakih.–Verme,
    cujos passos, cuja vontade mesma, não são mais do que frageis
    instrumentos nas mãos do destino, e que te crês auctor de um
    crime! Quando a frecha despedida do arco fere mortalmente o
    guerreiro, pede ella acaso a Deus perdão do seu peccado? Atomo
    varrido pela colera de cima contra outro atomo, que vaes aniquilar,
    pergunta antes se nos thesouros do Misericordioso ha perdão para
    o orgulho insensato!"

    Fez então uma pausa. A noite descia rapida. Ao lusco-fusco ainda
    se viu sair da manga do albornoz um braço felpudo e mirrado, que
    apontava para as bandas de Cordova. Nesta postura a figura do
    fakih fascinava. Coando pelos lábios as syllabas, elle repeliu
    tres vezes:

    "Para Merwan!"

    Abdallah abaixou a cabeça, e partiu vagarosamente, sem olhar
    para traz. Os outros sarracenos seguiram-no. El-Muulin ficou só.

    Mas quem era este homem? Todos o conheciam em Cordova; se vivesseis,
    porém, naquella epocha e o perguntasseis nessa cidade de mais
    de um milhão de habitantes, ninguem vo-lo saberia dizer. Era
    um mysterio a sua patria, a sua raça, donde viera. Passava a
    vida pelos cemiterios ou nas mesquitas. Para elle o ardor da
    canicula, a neve ou as chuvas do inverno eram como se não existissem.
    Raras vezes se via que não fosse lavado em lagrymas. Fugia das
    mulheres como de um objecto de horror. O que, porém, o tornava
    geralmente respeitado, ou antes temido, era o dom de prophecia, o
    qual ninguem lhe disputava. Mas era um propheta terrivel, porque
    as suas predicções recahiam unicamente sobre futuros males. No
    mesmo dia em que nas fronteiras do imperio os christãos faziam
    alguma correria, ou destruiam alguma povoação, elle annunciava
    publicamente o successo nas praças de Cordova: qualquer membro
    da familia numerosa dos Beni-Umeyyas cahia debaixo do punhal de
    um assassino desconhecido, na mais remota provincia do imperio,
    ainda das do Moghreb ou Mauritania, na mesma hora, no mesmo instante
    ás vezes, elle o pranteava redobrando os seus choros habituaes.
    O terror que inspirava era tal, que no meio do maior tumulto
    popular a sua presença bastava para tudo caír em mortal silencio.
    A imaginação exaltada do povo tinha feito delle um sancto, sancto
    como o islamismo os concebia; isto é, um homem cujas palavras
    e aspecto gelavam de terror.

    Ao passar por elle, Al-barr apertou-lhe a mão, dizendo-lhe em
    voz quasi imperceptivel:

    "Salvaste-me!"

    O fakih deixou-o affastar, e fazendo um gesto de profundo despreso,
    murmurou:

    "Eu?! Eu teu cumplice, miseravel?!"

    Depois, alevantando ambas as mãos abertas para o ar, começou
    a agitar os dedos rapidamente, e rindo com um rir sem vontade,
    exclamou:

    "Pobres titeres!"

    Quando se fartou de representar com os dedos a idéa de escarneo
    que lhe sorria lá dentro, dirigiu-se, ao longo do cemiterio,
    tambem para as bandas de Cordova, mas por diverso atalho.

    [1] Santarem.

    [2] Governador do Districto de Saragoça.

    [3] Principe real.

    [4] O famoso templo de Mekka.

    [5] Poema de trinta versos, muito usado entre os arabes,
    e que correspondia de certo muilo ás nossas odes.

    [6] Os reinos christãos além dos Pyreneus.

    [7] Muulin significa o triste.

    [8] Fakih ou faquir, especie de frade mendicante entre
    os musulmanos.

    [9] Sotuko–o andar mais alto. Os nossos escriptores
    tomavam esta palavra n'um sentido evidentemente errado, servindo-se
    delia para indicar o aposento inferior ou térreo.

    II

    Nos paços de Azzahrat, o magnifico alcaçar dos kalifas de Cordova,
    ha muitas horas que cessou o estrepito de uma grande festa. O
    luar de noite serena d'abril bate pelos jardins que se dilatam
    desde o alcaçar até o Guad-al-kébir, e alveja tremulo pelas fitas
    cinzentas dos caminbos tortuosos, em que parecem enredados os
    bosquesinhos de arbustos, os macissos de arvores silvestres, as
    veigas de flores, os vergeis embalsamados, onde a larangeira, o
    limoeiro, e as demais arvores fructiferas, trazidas da Persia, da
    Syria e do Cathay, espalham os aromas variados das suas flores.
    Lá ao longe Cordova, a capital da Hespanha mussulmana, repousa
    da lida diurna, porque sabe que Abdu-r-rahman III, o illustre
    kalifa, véla pela segurança do imperio. A vasta cidade repousa
    profundamente; e o ruído mal distincto que parece revoar por
    cima della, é apenas o respiro lento dos seus largos pulmões,
    o bater regular das suas robustas arterias. Das almadenas de
    seiscentas mesquitas não soa uma unica voz de almuhaden, e os
    sinos das igrejas mosarabes guardam tambem silencio. As ruas,
    as praças, os azokes, ou mercados, estão desertos. Sómente o
    murmurio das novecentas fontes ou banhos publicos, destinados
    ás abluções dos crentes, ajuda o zumbido nocturno da sumptuosa
    rival de Bagdad.

    Que festa fôra essa que expirára algumas horas antes de nascer
    a lua, e de tingir com a brancura pallida de sua luz aquelles
    dois vultos enormes de Azzahrat e de Cordova, que olhavam um
    para o outro, a cinco milhas de distancia, como dois phantasmas
    gigantes involtos em largos sudarios? Na manhan do dia que findára,
    Al-hakem, o filho mais velho de Abdu-r-rahman, fôra associado ao
    throno. Os walis, wasires e khatehs da monarchia dos Beni-Umeyyas
    tinham vindo reconhece-lo Wali-al-ahdi; isto é, futuro kalifa
    do Andalús e do Moghreb. Era uma idéa affagada longamente pelo
    velho principe dos crentes que se realisára, e o jubilo de
    Abdu-r-rahman se havia espraiado n'uma dessas festas, por assim
    dizer fabulosas, que só sabia dar no seculo decimo a côrte mais
    polida da Europa, e talvez do mundo, a do soberano sarraceno
    de Hespanha.

    O palacio Merwan, juncto dos muros de Cordova, distingue-se á
    claridade duvidosa da noite pelas suas fórmas macissas e
    rectangulares, e a sua côr tisnada, bafo dos seculos que entristece
    e sanctifica os monumentos, contrasta com a das cupulas aereas e
    douradas dos edificios, com a das almadenas esguias e leves das
    mesquitas, e com a dos campanarios christãos, cuja tez docemente
    pallida suavisa ainda mais o brando raio de luar que se quebra
    naquelles estreitos pannos de pedra branca, d'onde não se reflecte,
    mas cabe na terra preguiçoso e dormente. Como Azzahrat e como
    Cordova, calado e apparentemente tranquillo, o palacio Merwan,
    a antiga morada dos primeiros kalifas, suscita idéas sinistras,
    emquanto o aspecto da cidade e da villa imperial unicamente inspiram
    um sentimento de quietação e paz. Não é só a negridão das suas vastas
    muralhas a que produz essa apertura do coração que experimenta
    quem o considera assim solitario e carrancudo; é tambem o clarão
    avermelhado que resumbra da mais alta das raras frestas abertas
    na face exterior da sua torre albarran, a maior de todas as que
    o cercam, a que atalaia a campanha. Aquella luz, no ponto mais
    elevado do grande e escuro vulto da torre, é como um olho de
    demonio, que contempla colerico a paz profunda do imperio, e que
    espera ancioso o dia em que renasçam as luctas e as devastações
    de que por mais de dois seculos fôra theatro o solo ensanguentado
    de Hespanha.

    Alguem véla, talvez, no paço de Merwan. No de Azzahrat, posto que
    nenhuma luz bruxulêe nos centenares de varandas, de miradouros,
    de porticos, de balcões, que lhe arrendam o immenso circuito,
    alguem véla por certo.

    A sala denominada do Kalifa, a mais espaçosa entre tantos aposentos
    quantos encerra aquelle rei dos edificios, devêra a estas horas
    mortas estar deserta, e não o está. Dois lampadarios de muitos
    lumes pendem dos artesões primorosamente lavrados, que, cruzando-se
    em angulos rectos, servem de moldura ao almofadado de azul e
    ouro, que reveste as paredes e o tecto. A agua de fonte perenne
    murmura cahindo n'um tanque de marmore construido no centro do
    aposento, e no topo da sala ergue-se o throno de Abdu-r-rahman,
    alcatifado dos mais ricos tapetes do paiz de Fars. Abdu-r-rahman
    está ahi sósinho. O kalifa passeia de um para outro lado, com
    olhar inquieto, e de instante a instante pára e escuta, como
    se esperasse ouvir um ruído longinquo. No seu gesto e meneios
    pinta-se a mais viva anciedade; porque o unico ruído que lhe
    fere os ouvidos é o dos proprios passos sobre o xadrez variegado,
    que fórma o pavimento da immensa quadra. Passado algum tempo,
    uma porta, escondida entre os brocados que forram os lados do
    throno, abre-se lentamente, e um novo personagem apparece. No rosto
    de Abdu-r-rahman, que o vê aproximar, pinta-se uma inquietação
    ainda mais viva.

    O recem-chegado offerecia notavel contraste no seu gesto e vestiduras
    com as pompas do logar em que se introduzia, e com o aspecto
    magestoso de Abdu-r-rahman, ainda bello apesar dos annos e das
    cans que começavam a misturar-se-lhe na longa e espessa barba
    negra. Os pés do que entrára apenas faziam um rumor sumido no
    chão de marmore. Vinha descalço. A sua aljarabia ou tunica era
    de lan grosseiramente tecida, o cincto uma corda de esparto.
    Divisava-se-lhe, porém, no despejo do andar e na firmeza dos
    movimentos que nenhum espanto produzia nelle aquella magnificencia.
    Não era velho; e todavia a sua tez tostada pelas injurias do tempo
    estava sulcada de rugas, e uma orla vermelha circulava-lhe os
    olhos, negros, encovados e reluzentes. Chegando ao pé do kalifa,
    que ficára immovel, cruzou os braços e poz-se a contempla-lo
    calado. Abdu-r-rahman foi o primeiro em romper o silencio:

    "Tardaste muito, e foste menos pontual do que costumas, quando
    annuncias a tua vinda a hora fixa, Al-muulin! Uma visita tua
    é sempre triste como o teu nome. Nunca entraste a occultas em
    Azzahrat senão para me saciares de amargura; mas apesar disso eu
    não deixarei de abençoar a tua presença, porque Algafir–dizem-no
    todos e eu o creio–é um homem de Deus. Que vens annunciar-me,
    ou que pretendes de mim?"

    "Amir-al-muminin[1], que póde pretender de ti um homem cujos
    dias se passam á sombra dos tumulos pelos cemiterios, e a cujas
    noites de oração basta por abrigo o portico de um templo; cujos
    olhos tem queimado o chôro, e que não esquece um instante que tudo
    neste desterro, a dôr e o goso, a morte e a vida, está escripto
    lá em cima? Que venho annunciar-te?!… O mal; porque só mal ha
    na terra para o homem, que vive como tu, como eu, como todos,
    entre o appetite e o rancor; entre o mundo e Eblis; isto é, entre
    os seus eternos e implacaveis inimigos!"

    "Vens, pois, annunciar-me uma desventura?!… Cumpra-se a vontade
    de Deus. Tenho reinado perto de quarenta annos, sempre poderoso,
    vencedor e respeitado; todas as minhas ambições tem sido satisfeitas,
    todos os meus desejos preenchidos; e todavia nesta longa carreira
    de gloria e prosperidade só fui inteiramente feliz quatorze dias
    da minha vida[2]. Pensava que este fosse o decimo quinto. Devo
    acaso apaga-lo do registo em que conservo a memoria delles, e
    em que já o tinha escripto?"

    "Pódes apaga-lo:–replicou o rude fakih–pódes, até, rasgar
    todas as folhas brancas que restam no livro. Kalifa! vês estas
    faces sulcadas pelas lagrymas? vês estas palpebras requeimadas
    por ellas? Duro é o teu coração, mais que o meu, se em breve as
    tuas palpebras e as tuas faces não estão semelhantes ás minhas."

    O sangue tingiu o rosto alvo e suavemente pallido de Abdu-r-rahman:
    os seus olhos serenos como o ceu, que imitavam na côr, tomaram a
    terrivel expressão que elle costumava dar-lhes no revolver dos
    combates, olhar esse que só por si fazia recuar os inimigos. O
    fakih não se moveu, e poz-se a olhar também para elle fito.

    "Al-muulin, o herdeiro dos Beni-Umeyyas póde chorar arrependido
    de seus erros diante de Deus; mas quem disser que ha neste mundo
    desventura capaz de lhe arrancar uma lagryma, diz-lhe elle que
    mentiu!"

    Os cantos da bôca de Al-gafir encresparam-se com um quasi
    imperceptivel sorriso. Houve um largo espaço de silencio.
    Abdu-r-rahman não o interrompeu: o fakih proseguiu:

    "Amir-al-muminin, qual de teus dous filhos amas tu mais? Al-hakem,
    o successor do throno, o bom e generoso Al-hakem, ou Abdallah,
    o sabio e guerreiro Abdallah, o idolo do povo de Korthoba?"

    "Oh,–replicou o kalifa sorrindo–já sei o que me queres dizer.
    Devias prever que a nova viria tarde, e que eu havia de sabe-lo…
    Os christãos passaram a um tempo as fronteiras do norte e do
    oriente. Meu velho tio Al-mod-dhafer já depoz a espada victoriosa,
    e crês necessario expôr a vida de um delles aos golpes dos infiéis.
    Vens prophetisar-me a morte do que partir. Não é isto? Fakih,
    creio em ti, que és acceito ao Senhor; mas ainda creio mais na
    estrella dos Beni-Umeyyas. Se eu amasse um mais do que outro
    não hesitaria na escolha: fôra esse que eu mandára, não á morte,
    mas ao triumpho. Se, porém, essas são as tuas previsões, e ellas
    tem de realisar-se, Deus é grande! Que melhor leito de morte
    posso eu desejar a meus filhos do que um campo de batalha em
    al-djihed[3] contra os infiéis?"

    Al-gafir escutou Abdu-r-rahman sem o menor signal d'impaciencia.
    Quando elle acabou de falar repetiu tranquillamente a pergunta:

    "Kalifa, qual amas tu mais dos teus dous filhos?"

    "Quando a imagem pura e sancta do meu bom Al-hakem se me representa
    no espirito, amo mais Al-hakem: quando com os olhos da alma vejo
    o nobre e altivo gesto, a fronte vasta e intelligente do meu
    Abdallah, amo-o mais a elle. Como te posso eu, pois, responder,
    fakih?"

    "E todavia é necessário que escolhas, hoje mesmo, neste momento,
    entre um e outro. Um delles deve morrer na próxima noite,
    obscuramente, nestes paços, aqui mesmo talvez, sem gloria, debaixo
    do cutello do algoz, ou do punhal do assassino."

    Abdu-r-rahman recuára ao ouvir estas palavras: o suor começou
    a descer-lhe em bagas da fronte. Bem que tivesse mostrado uma
    firmeza fingida, sentíra apertar-se-lhe o coração desde que o
    fakih começára a falar. A reputação d'illuminado de que gosava
    Al-muulin, o caracter supersticioso do kalifa, e mais que tudo o
    haverem-se verificado todas as negras prophecias que n'um longo
    decurso de annos elle lhe fizera, tudo contribuia para atterrar
    o principe dos crentes. Com voz trémula replicou:

    "Deus é grande e justo. Que lhe fiz eu para me condemnar no fim
    da vida a perpetua afflicção, a ver correr o sangue de meus filhos
    queridos ás mãos da deshonra ou da perfidia?"

    "Deus é grande e justo,–interrompeu o fakih.–Acaso nunca fizeste
    correr injustamente o sangue? Nunca por odio brutal despedaçaste
    de dôr nenhum coração de pae, de irmão, de amigo?"

    Al-muulin tinha carregado na palavra irmão com um accento singular.
    Abdu-r-rahman, possuido de mal refreiado susto, não attentou por
    isso.

    "Posso eu acreditar uma tão estranha, direi antes tão incrivel
    prophecía–exclamou elle por fim–sem que me expliques o modo
    por que se deve realisar esse terrivel successo; e como ha-de o
    ferro do assassino ou do algoz vir dentro dos muros de Azzahrat
    verter o sangue de um dos filhos do kalifa de Korthoba, cujo nome,
    seja-me licito dize-lo, é o terror dos christãos, e a gloria do
    islamismo?"

    Al-muulin tomou um ar imperioso e solemne, estendeu a mão para
    o throno, e disse:

    "Assenta-te, kalifa, no teu throno, e escuta-me, porque em nome
    da futura sorte do Andalus, da paz e da prosperidade do imperio,
    e das vidas e do repouso dos mussulmanos eu venho denunciar-te um
    grande crime. Que punas, que perdoes, esse crime tem de custar-te
    um filho. Successor do propheta, iman[4] da divina religião do
    Koran, escuta-me, porque é obrigação tua ouvir-me."

    O tom inspirado com que Al-muulin falava, a hora de alta noite, o
    negro mysterio que encerravam as palavras do fakih tinham subjugado
    a alma profundamente religiosa de Abdu-r-rahman. Machinalmenlte
    subiu ao throno, encruzou-se em cima da pilha de coxins em que
    elle rematava, e encostando ao punho o rosto demudado, disse
    com voz presa:–"Pódes falar, Suleyman-ibn-Abd-al-gafir!"

    Tomando então uma postura humilde, e cruzando os braços sobre
    o peito, Al-gafir o triste começou da seguinte maneira a sua
    narrativa.

    [1] Principe dos crentes, titulo correspondente ao de
    kalifa.

    [2] Historico

    [3] Guerra-sancta

    [4] Pontifice. Os kalifas reuniam em si o summo imperio,
    e o summo pontificado.

    III

    "Kalifa!–começou Al-muulin–tu és grande; tu és poderoso. Não
    sabes o que é a affronta ou a injustiça cruel que esmaga o coração
    nobre e energico, se este não póde repelli-la, e sem demora, com
    o mal ou com a affronta, vinga-la á luz do sol! Tu não sabes o
    que então se passa na alma desse homem, que por todo o desaggravo
    deixa fugir alguma lagryma furtiva, e até, ás vezes, é obrigado
    a beijar a mão que o feriu nos seus mais sanctos affectos. Não
    sabes o que isto é; porque todos os teus inimigos tem cahido
    diante do alfange do almogaure, ou deixado tombar a cabeça de
    cima do cêpo do algoz. Ignoras por isso o que é o odio; o que
    são essas solidões tenebrosas, por onde o resentimento, que não
    póde vir ao gesto, se dilata e vive á espera do dia da vingança.
    Dir-to-hei eu. Nessa noite immensa, em que se involve o coração
    chagado, ha uma luz sanguinolenta que vem do inferno, e que allumia
    o espirito vagabundo. Ha ahi terriveis sonhos, em que o mais
    rude e ignorante descobre sempre um meio de desaggravo. Imagina
    como será facil aos altos entendimentos o encontra-lo! É por
    isso que a vingança, que parecia morta e esquecida, apparece ás
    vezes inesperada, tremenda, irresistivel, e morde-nos surgindo
    debaixo dos pés como a vibora, ou despedaça-nos como o leão pulando
    d'entre os juncaes. Que lhe importa a ella a magestade do throno,
    a sanctidade do templo, a paz domestica, o ouro do rico, o ferro
    do guerreiro? Mediu as distancias, calculou as difficuldades,
    meditou no silencio, e riu-se de tudo isso!"

    E Al-gafir o triste desatou a rir ferozmente, Abdu-r-rahman olhava
    para elle espantado.

    "Mas–proseguiu o fakih–ás vezes Deus suscita um dos seus servos,
    um dos seus servos de animo tenaz e forte, possuido tambem de
    alguma idéa occulta e profunda, que se alevante, e rompa a trama
    urdida nas trévas. Este homem no caso presente sou eu. Para bem?
    Para mal?–Não sei; mas sou! Sou eu que, venho revelar-te como se
    prepara a ruina do teu throno, e a destruição da tua dynastia."

    "A ruina do meu throno?–gritou Abdur-r-rahman pondo-se em pé e
    levando a mão ao punho da espada.–Quem, a não ser algum louco,
    imagina que o throno dos Beni-Umeyyas póde, não digo desconjunctar-se,
    mas apenas vacilar debaixo dos pés de Abdu-r-rahman? Quando, porém,
    falarás enfim claro, Al-muulin?"

    E a colera e o despeito faiscavam-lhe nos olhos. Com a sua habitual
    impassibilidade o fakih proseguiu:

    "Esqueces-te, kalifa, da tua reputação de prudencia e longanimidade.
    Pelo propheta! Deixa divagar um velho tonto como eu … Não!…
    Tens razão … Basta! O raio que fulmina o cedro desce rapido do
    céu. Quero ser como elle … Amanhan a estas horas o teu filho
    Abdallah ter-te-ha já privado da corôa para a cingir na propria
    fronte, e o teu successor Al-hakem terá perecido sob um punhal
    d'assassino. Ainda te encolerisas? Foi acaso demasiado extensa
    a minha narrativa?"

    "Infame!–exclamou Abdu-r-rahman–Hypocrita, que me tens enganado!
    Tu ousas calumniar o meu Abdallah? Sangue! Sangue ha-de correr,
    mas é o teu. Crias que com essas visagens d'inspirado, com esses
    trajos de penitencia, com essa linguagem dos sanctos poderias
    quebrar a affeição mais pura, a de um pae? Enganas-te, Al-gafir!
    A minha reputação de prudente, verás que era bem merecida."

    Dizendo isto o kalifa ergueu as mãos como quem ia a bater as
    palmas. Al-muulin interrompeu-o rapidamente, mas sem mostrar o
    menor indicio de perturbação ou terror.

    "Não chames ainda os eunuchos; porque assim é que dás provas
    de que não a merecias. Conheces que me seria impossivel fugir.
    Para matar ou morrer sempre é tempo. Escuta, pois, o infame, o
    hypocrita até o fim. Acreditarias tu na palavra do teu nobre e
    altivo Abdallah? Bem sabes que elle é incapaz de mentir a seu
    amado pae, a quem deseja longa vida e todas as prosperidades
    possiveis."

    O fakih desatára de novo n'um rir trémulo e hediondo. Metteu
    a mão no peitilho da aljarabia e tirou uma a uma muitas tiras
    de pergaminho: pô-las sobre a cabeça e entregou-as ao kalifa,
    que começou a lêr com avidez. A pouco e pouco Abdu-r-rahman foi
    empallidecendo, as pernas vergaram-lhe, e por fim deixou-se cahir
    sobre os coxins do throno, e cobrindo a cara com as mãos,
    murmurou:–"Meu Deus! porque te mereci isto!"

    Al-muulin fitára nelle um olhar de girifalte, e nos labios
    vagueava-lhe um riso sardonico e quasi imperceptivel.

    Os pergaminhos eram varias cartas dirigidas por Abdallah aos
    rebeldes das fronteiras do oriente, os Beni-Hafsun, e a diversos
    cheiks berebéres, dos que se haviam domiciliado na Hespanha,
    conhecidos pelo seu pouco affecto aos Beni-Umeyyas. O mais
    importante, porém, de tudo era uma extensa correspondencia com
    Umeyya-ibn-Ishak, guerreiro celebre e antigo alcaide de Santarem,
    que por graves offensas passára ao serviço dos christãos de Oviedo
    e Asturias com muitos cavalleiros illustres da sua clientela.
    Esta correspondencia era completa de parte a parte. Por ella se
    via que Abdallah contava não só com os recursos dos mussulmanos
    seus parciaes, mas tambem com importantes soccorros dos infiéis
    por intervenção de Umeyya. A revolução devia rebentar em Cordova
    pela morte de Al-hakem e pela deposição de Abdu-r-rahman. Uma parte
    da guarda do alcaçar de Azzahrat estava comprada. Al-barr, que
    figurava muito nestas cartas, seria o hadjeb ou primeiro ministro
    do novo kalifa. Alli se liam, emfim, os nomes dos principaes
    personagens implicados na revolta, e todas as circumstancias
    desta eram explicadas ao antigo alcaide de Santarém com aquella
    individuação que nas suas cartas elle constantemente exigia.
    Al-muulin falára verdade: Abdu-r-rahman via despregar diante de
    si a longa teia da conspiração, escripta com letras de sangue
    pela mão de seu proprio filho.

    Durante algum tempo o kalifa conservou-se como a estatua da dôr
    na postura que tomára. O fakih olhava fito para elle com uma
    especie de cruel complacencia. Al-muulin foi o primeiro que rompeu
    o silencio: o principe Beni-Umeyya, esse parecia ter perdido o
    sentimento da vida.

    "É tarde:–disse o fakih.–Chegará em breve a manhan. Chama os
    eunuchos. Ao romper do sol a minha cabeça pregada nas portas
    de Azzahrat deve dar testemunho da promptidão da tua justiça.
    Elevei ao throno de Deus a ultima oração, e estou apparelhado
    para morrer, eu o hypocrita, eu o infame, que pretendia lançar
    sementes de odio entre ti e teu virtuoso filho. Kalifa, quando
    a justiça espera não são boas horas para meditar ou dormir."

    Al-gafir retomava a sua habitual linguagem sempre ironica e
    insolente, e ao redor dos labios vagueava-lhe de novo o riso mal
    reprimido.

    A voz do fakih despertou Abdu-r-rahman das suas tenebrosas
    cogitações. Poz-se em pé. As lagrymas haviam corrido por aquellas
    faces, mas estavam enxutas. A procella de paixões encontradas
    tumultuava lá dentro; mas o gesto do principe dos crentes recobrára
    apparente serenidade. Descendo do throno pegou na mão mirrada
    de Al-muulin, e apertando-a entre as suas, disse:

    "Homem que guias teus passos pelo caminho do céu; homem acceito
    ao propheta, perdoa as injurias de um insensato! Cria ser superior
    á fraqueza humana. Enganava-me! Foi um momento que passou. Possas
    tu esquece-lo! Agora estou tranquillo … bem tranquillo …
    Abdallah, o traidor que era meu filho, não concebeu tão atroz
    designio. Alguém lh'o inspirou: alguem verteu naquelle animo
    soberbo as vans e criminosas esperanças de subir ao throno por
    cima do meu cadaver e do de Al-hakem. Não desejo sabe-lo para
    o absolver; porque elle já não póde evitar o destino fatal que
    o aguarda. Morrerá; que antes de ser pae fui kalifa, e Deus
    confiou-me no Andalus a espada da suprema justiça. Morrerá; mas
    hão-de acompanha-lo todos os que o precipitaram no abysmo."

    "Ainda ha pouco te disse–replicou Al-gafir–o que pôde inventar o
    ódio que é obrigado a esconder-se debaixo do manto da indifferença,
    e até da submissão. Al-barr, o orgulhoso Al-barr, que tu offendeste
    no seu amor proprio de poeta, e que expulsaste de Azzahrat como um
    homem sem engenho nem saber, quiz provar-te que ao menos possuia o
    talento de conspirador. Foi elle que preparou este terrivel successo.
    Has-de confessar que se houve com destreza. Só n'uma cousa não:
    em pretender associar-me aos seus designios. Associar-me? …
    não digo bem … fazer-me seu instrumento … A mim! … Queria
    que eu te apontasse ao povo como um impio pelas tuas allianças
    com os amires infiéis do Frandjat. Fingi estar por tudo; e chegou
    a confiar plenamente na minha lealdade. Tomei a meu cargo as
    mensagens aos rebeldes do oriente e a Umeyya-ibn-Ishak, o alliado
    dos christãos, o antigo kaid de Chantaryin. Foi assim que pude
    colligir estas provas de conspiração. Loucos! as suas esperanças
    eram a miragem do deserto… Dos seus alliados apenas os de Zarkosta
    e das montanhas de Al-kibla não foram um sonho. As cartas de
    Umeyya, as promessas do amir nazareno de Djalikia[1], tudo era
    feito por mim. Como eu enganei Al-barr, que bem conhece a letra
    de Umeyya, esse é um segredo que depois de tantas revelações, tu
    deixarás, kalifa, que eu guarde para mim … Oh, os insensatos!
    os insensatos!"

    E desatou a rir.

    A noite tinha-se aproximado do seu fim. A revolução, que ameaçava
    trazer á Hespanha mussulmana todos os horrores da guerra civil,
    devia rebentar dentro de poucas horas, talvez. Era necessário
    afoga-la em sangue. O longo habito de reinar, juncto ao caracter
    energico de Abdu-r-rahman, fazia com que nestas crises elle
    desenvolvesse de um modo admiravel todos os recursos que o genio
    amestrado pela experiencia lhe suggeria. Recalcando no fundo do
    coração a cruel lembrança de que era um filho que ia sacrificar
    á paz e á segurança do império, o kalifa despediu Al-muulin, e
    mandando immediatamente reunir o divan deu largas instrucções
    ao chefe da guarda dos slavos. Ao romper da manhan todos os
    conspiradores que residiam em Cordova estavam presos, e muitos
    mensageiros tinham partido levando as ordens de Ahdu-r-rahman
    aos walis das provincias e aos generaes das fronteiras. Apesar
    das lagrymas e rogos do generoso Al-hakem, que luctou tenazmente
    por salvar a vida de seu irmão, o kalifa mostrou-se inflexivel.
    A cabeça de Abdallah cahiu aos pés do algoz na propria camara do
    principe no palacio Merwan. Al-barr, suicidando-se na masmorra
    em que o tinham lançado, evitou assim o supplicio.

    O dia immediato á noite em que se passou a scena entre Abdu-r-rahman
    e Al-gafir, que tentamos descrever, foi um dia de sangue para
    Cordova, e de lucto para muitas das mais illustres famílias.

    [1] Os árabes designavam os reis de Oviedo e Leão pelo
    titulo de reis de Galliza.

    IV

    Era pelo fim da tarde. N'uma alcova do palacio de Azzahrat via-se
    reclinado um velho sobre as almofadas persas de um vasto almatrah,
    ou camilha. Os seus ricos trajos, orlados de pelles alvissimas,
    faziam sobre-saír as feições enrugadas, a pallidez do rosto, o
    encovado dos olhos, que lhe davam ao gesto todas as características
    do de um cadaver. Pela immobilidade dir-se-hia que era uma destas
    mumias que se encontram pelas catacumbas do Egypto, apertadas
    entre as cem voltas das suas faixas mortuarias, e inteiriçadas
    dentro dos sarcophagos de pedra. Um unico signal revelava a vida
    néssa grande ruina de um homem grande; era o movimento da barba
    longa e ponteaguda que se lhe estendia como um cone de neve tombado
    sobre o peitilho da tunica de precioso tiraz. Abdu-r-rahman, o
    illustre kalifa dos mussulmanos do occidente, jazia ahi e falava
    com outro velho, que, em pé defronte delle, o escutava attentamente;
    mas a sua voz saia tão fraca e lenta, que, apesar do silencio
    que reinava no aposento, só na curta distancia a que estava o
    outro velho se poderiam perceber as palavras do kalifa.

    O seu interlocutor é uma personagem que o leitor conhecerá apenas
    reparar no modo por que está trajado. A sua vestidura é uma aljarabia
    de burel cingida de uma corda de esparto. Ha muitos annos que
    nisto cifrou todos os commodos que acceita á civilisação. Está
    descalço, e a grenha hirsuta e já grisalha cahe-lhe sobre os
    hombros em madeixas revoltas e emmaranhadas. A sua tez não é
    pallida, os seus olhos não perderam o brilho, como a tez e como
    os olhos de Abdu-r-rahman. Naquella, coriacea e crestada, domina
    a côr mixta de verdenegro e amarello do ventre de um crocodilo;
    nestes, cada vez que os volve, fulgura a centelha de paixões
    ardentes, que lhe sussurram dentro d'alma como a lava prestes a
    jorrar do volcão que ainda parece dormir. É Al-muulin, o sancto
    fakih, que vimos salvar, onze annos antes, o kalifa e o imperio
    da intentada revolução de Abdallah.

    Tinham de feito passado onze annos desde os terriveis successos
    acontecidos naquella noite em que Al-muulin descobríra a conspiração
    que se urdia, e desde então nunca mais se víra Abdu-r-rahman
    sorrir. O sangue de tantos mussulmanos vertido pelo ferro do
    algoz, e sobretudo o sangue de seu proprio filho descêra como
    a maldicção do propheta sobre a cabeça do principe dos crentes.
    Entregue a melancholia profunda, nem as novas de victorias, nem
    a certeza do estado florescente imperio o podiam distrahir della
    senão momentaneamente. Encerrado durante os ultimos tempos da
    vida no palacio de Azzahrat, a maravilha d'Hespanha, abandonára
    os cuidados do governo ao seu successor Al-hakem. Os gracejos da
    escrava Nuirat-eddia, a conversação instructiva da bella Ayecha,
    e as poesias de Mozna e de Sofyia eram o unico allivio que adoçava
    a existencia aborrida do velho leão do islamismo. Mas apenas
    Al-gafir o triste se apresentava perante o kalifa, elle fazia
    retirar todos, e ficava encerrado horas e horas com este homem,
    tão temido quanto venerado do povo pela austeridade das suas
    doutrinas, prégadas com a palavra, mas ainda mais com o exemplo.
    Abdu-r-rahman parecia inteiramente dominado pelo rude fakih, e,
    ao vê-lo, qualquer poderia ler no gesto do velho principe os
    sentimentos oppostos do terror e do affecto, como se metade da
    sua alma o arrastasse irresistivelmente para aquelle homem, e a
    outra metade o repellisse com repugnancia invencivel. O mysterio
    que havia entre ambos ninguem o podia entender.

    E todavia a explicação era bem simples: estava no caracter
    extremamente religioso do kalifa, na sua velhice e no seu passado
    de principe absoluto, situação em que são faceis grandes virtudes
    e grandes crimes. Habituado á lisonja, a linguagem aspera e
    altivamente sincera de Al-muulin tivera a principio o attractivo de
    ser para elle inaudita; depois a reputação de virtude de Al-gafir,
    a crença de que era um propheta, a maneira por que, para o salvar
    e ao imperio, arrostára com a sua colera, e provára desprezar
    completamente a vida, tudo isto fizera com que Abdu-r-rahman
    visse nelle, como o mais credulo dos seus subditos, um bomem
    predestinado, um verdadeiro sancto. Sentindo avizinhar a morte,
    Abdu-r-rahman tinha sempre diante dos olhos que esse fakih era
    como o anjo que devia conduzi-lo pelos caminhos da salvação até o
    throno de Deus. Cifrava-se nelle a esperança de um futuro incerto,
    que não podia tardar, e assim o espirito do monarcha, enfraquecido
    pelos annos, estudava anciosamente a minima palavra, o menor gesto
    de Al-muulin; prendia-se ao monge mussulmano como a hera antiga ao
    carvalho, em cujo tronco se alimenta, se ampara, e vae trepando
    para o ceu. Mas, ás vezes, Al-gafir repugnava-lhe. No meio das
    expansões mais sinceras, dos mais ardentes vôos de uma piedade
    profunda, de uma confiança inteira na misericordia divina, o Fakih
    fitava de repente nelle os olhos scintilantes, e com sorriso
    diabolico vibrava uma phrase ironica, insolente e desanimadora,
    que ía gelar no coração do kalifa as consolações da piedade, e
    despertar remorsos e terrores, ou completa desesperação. Era um
    jogo terrivel em que se deleitava Al-muulin, como o tigre com o
    palpitar dos membros da rez que se lhe agita moribunda entre as
    garras sanguentas. Nessa lucta infernal em que lhe trazia a alma
    estava o segredo da attracçâo e repugnancia, que ao mesmo tempo o
    velho monarcha mostrava para com o fakih, cujo apparecimento em
    Azzahrat cada vez se tornava mais frequente, e agora se renovava
    todos os dias.

    A noite descia triste: as nuvens corriam rapidamente do lado do
    oeste, e deixavam de quando em quando passar um raio afogueado
    do sol que se punha. O vento tepido, humido e violento fazia
    ramalhar as arvores dos jardins que circumdavam os aposentos de
    Abdu-r-rahman. As folhas, retinctas já de um verde amarellado
    e mortal, desprendiam-se das tranças das romeiras, dos sarmentos
    das videiras e dos ramos dos choupos em que estas se enredavam,
    e, remoinhando nas correntes da ventania, íam, íam, até rastejar
    pelo chão e empeçar na grama sêcca dos prados. O kalifa, exhausto,
    sentia aquelle ciclo da vegetação moribunda chama-lo tambem para
    a terra, e a melancholia da morte pesava-lhe sobre o espirito.
    Al-muulin durante a conversação daquella tarde havia-se mostrado,
    contra o seu costume, severamente grave, e nas suas palavras
    havia o que quer que era accorde com a tristeza que o rodeava.

    "Conheço que se aproxima a hora fatal:–dizia o kalifa.–Nestas
    veias em breve se gelará o sangue; mas, sancto fakih, não me será
    licito confiar na misericordia de Deus? Derramei o bem entre
    os mussulmanos, o mal entre os infiéis: fiz emmudecer o livro
    de Jesus perante o de Mohammed; e deixo a meu filho um throno
    firmado no amor dos subditos e na veneração e temor dos inimigos
    da dynastia dos Beni-Umeyyas. Fiz quanto a um homem era dado fazer
    pela gloria do Islam. Que mais pretendes?–Porque não tens nos
    labios para o pobre moribundo senão palavras de terror?–Porque ha
    tantos annos me fazes beber gole a gole a taça da desesperação?"

    Os olhos do fakih, ao ouvir estas perguntas, brilharam com desusado
    fulgor, e um daquelles sorrisos diabolicos, com que costumava
    fazer gelar todas as ardentes idéas mysticas do principe, lhe
    assomou ao rosto enrugado e carrancudo. Contemplou por um momento
    o do velho monarcha, onde de feito já vagueavam as sombras da
    morte: depois dirigiu-se á porta da camara, assegurou-se bem
    de que não era possivel abrirem-na exteriormente, e voltando
    para ao pé do almatrah, tirou do peitilho um rôlo de pergaminho,
    e começou a ler em tom de indizivel escarneo:

    "Resposta de Al-gafir o triste ás ultimas perguntas do poderoso
    Abdu-r-rahman, oitavo kalifa de Cordova, o sempre vencedor,
    justiceiro e bemaventurado entre todos os principes da raça dos
    Beni-Umeyyas. Capitulo avulso da sua historia."

    Um rir prolongado seguiu a leitura do titulo do manuscripto.
    Al-muulin continuou:

    "No tempo deste celebre, virtuoso, illustrado e justiceiro monarcha
    havia no seu diwan um wasir, homem sincero, zeloso da lei do
    propheta, e que não sabia torcer por humanos respeitos a voz
    da sua consciencia. Chamava-se Mohammed-Ibn-Ishak, e era irmão
    de Umeyya-Ibn-Ishak, kaid de Chantaryn, um dos guerreiros mais
    illustres do Islam, segundo diziam."

    "Ora esse wasir cahiu no desagrado do Abdu-r-rahman, porque lhe
    falava verdade, e rebatia as adulações dos seus lisongeiros.
    Como o kalifa era generoso, o desagrado para com Mohammed
    converteu-se em odio; e como era justo, o odio breve se traduziu
    n'uma sentença de morte. A cabeça do ministro cahiu no cadafalso,
    e a sua memoria passou á posteridade manchada pela calumnia.
    Todavia o principe dos fiéis sabia bem que tinha assassinado um
    innocente."

    As feições transtornadas de Abdu-r-rahman tomaram uma expressão
    horrivel de angustia: quiz falar, mas apenas pôde fazer um signal
    como que pedindo ao fakih que se calasse. Este proseguiu:

    "Parece-me que o ouvir a leitura dos annaes do teu illustre reinado
    te allivia e revoca á vida. Continuarei. Podesse eu prolongar
    assim os teus dias, clementissimo kalifa!"

    "Umeyya, quando soube da morte ignominiosa de seu querido irmão,
    ficou como insensato. Á saudade ajunctava-se o horror do ferrete
    posto sobre o nome, sempre immaculado, da sua familia. Dirigiu
    as supplicas mais vehementes ao príncipe dos fiéis para que ao
    menos rehabilitasse a memoria da pobre victima; mas soube-se
    que ao ler a sua carta o virtuoso principe desatara a rir…!
    Era, conforme lhe relatou o mensageiro, deste modo que elle ria."

    E Al-muulin aproximou-se de Abdu-r-rahman, e soltou uma gargalhada.
    O moribundo arrancou um gemido.

    "Estás um pouco melhor … não é verdade, invencivel kalifa?
    Prosigamos. Umeyya quando tal soube, calou-se. O mesmo mensageiro
    que chegara de Korthoba partiu para Oviedo. O rei cristão de
    Al-djuf não se riu da sua mensagem. Dahi o pouco Radmiro tinha
    passado o Douro, e as fortalezas e cidades mussulmanas até o
    Tejo haviam aberto as portas ao rei franco, por ordem do kaid
    de Chantaryn. Com um numeroso esquadrão de amigos leaes este
    ajudou a devastar o territorio mussulmano do Gharb até Merida.
    Foi uma esplendida festa; um sacrifício digno da memoria de seu
    irmão. Seguiram-se muitas batalhas, em que o sangue humano correu
    em torrentes."

    "Pouco a pouco Umeyya começou a rellectir. Era Abdu-r-rahman quem
    o offendêra. Para que tanto sangue vertido? A sua vingança fôra
    a de uma besta-féra; fôra estúpida e van. Ao kalifa, quasi sempre
    victorioso, que importavam os que por elle pereciam? O kaid de
    Chantaryn mudou então de systema. A guerra publica e inutil
    converteu-a em perseguição occulta e efficaz: á forca oppoz a
    destreza. Fingiu abandonar os seus alliados e sumiu-se nas trevas.
    Esqueceram-se delle. Quando tornou a apparecer á luz do dia ninguém
    o conheceu. Era outro. Vestia um burel grosseiro; cingia uma corda
    de esparto; os cabellos cahiam-lhe desordenados sobre os hombros
    e velavam-lhe metade do rosto: as faces tinha-lh'as tisnado o
    sol dos desertos. Corrêra o Andaluz e o Moghreb; espalhara por
    toda a parte os thesouros da sua família e os próprios thesouros
    até o ultimo dirhem, e em toda a parte deixara agentes e amigos
    fiéis. Depois veio viver nos cemiterios de Korthoba, juncto dos
    porticos soberbos do seu inimigo mortal; espiar todos os momentos
    em que podesse offerecer-lhe a amargura, as angustias em troca
    do sangue de Mohammed-Ibn-Isbak. O guerreiro chamou-se desde
    esse tempo Al-gafir, e o povo denominava-o Al-muulin, o sancto
    fakih…"

    Como sacudido por uma corrente electrica, Abdu-r-rahman dera
    um pulo no almatrah ao ouvir estas ultimas palavras, e ficára
    sentado, hirto e com as mãos estendidas. Queria bradar, mas o
    sangue escumou-lhe nos labios, e só pôde murmurar já quasi
    inintelligivelmente:

    "Maldicto!"

    "Boa cousa é a historia,–proseguiu o seu algoz sem mudar de
    postura–quando nos recordâmos do nosso passado, e não achâmos lá
    para colher um único espinho de remorso! É o teu caso, virtuoso
    principe! Mas sigamos ávante. O sancto fakih Al-muulin foi quem
    instigou Al-barr a conspirar contra Abdu-r-rahman; quem perdeu
    Abdallah; quem delatou a conspiração; quem se apoderou do teu
    animo credulo; quem te puniu com os terrores de tantos annos;
    quem te acompanha no trance derradeiro, para te lembrar juncto ás
    portas do inferno que se foste o assassino de seu irmão, tambem
    o foste do proprio filho; para te dizer que se cobriste o seu
    nome de ignominia, tambem ao teu se ajunctará o de tyranno. Ouve
    pela ultima vez o rir que responde ao teu riso de ha dez annos.
    Ouve, ouve, kalifa!"

    Al-gafir, ou antes Umeyya, levantára gradualmente a voz, e estendia
    os punhos cerrados para Abdu-r-rahman, cravando nelle os olhos
    reluzentes e desvairados. O velho monarcha tinha os seus abertos,
    e parecia tambem olhar para elle, mas perfeitamente tranquillo.
    A quem houvesse presenciado aquella tremenda scena não seria
    facil dizer qual dos dous tinha mais horrendo gesto.

    Era um cadaver o que estava diante de Umeyya: o que estava diante
    do cadaver era a expressão mais energica da atrocidade de coração
    vingativo.

    "Oh, se não ouviria as minhas derradeiras palavras!…"–murmurou
    o fakih depois de ter conhecido que o kalifa estava morto. Poz-se
    depois a scismar largo espaço: as lagrymas rolavam-lhe a quatro
    e quatro pelas faces rugosas.–"Um anno mais de tormentos, e
    ficava satisfeito!–exclamou por fim.–Podéra eu dilatar-lhe a
    vida!"

    Dirigiu-se então para a porta, abriu-a de par em par e bateu as
    palmas. Os eunuchos, as mulheres, e o proprio Al-hakem, inquieto
    pelo estado de seu pae, precipitaram-se no aposento. Al-muulin
    parou no limiar da porta, voltou-se para traz, e com voz lenta
    e grave disse:

    "Orae ao propheta pelo repouso do kalifa."

    Houve quem o visse saír, quem á luz baça do crepusculo o visse
    tomar para o lado de Cordova com passos vagarosos, apesar das
    lufadas violentas do oeste, que annunciavam uma noite procellosa.
    Mas nem em Cordova, nem em Azzahrat, ninguém mais o viu desde
    aquelle dia.

    ARRHAS POR FORO D'HESPANHA (1371-2)

    A Arraya-Miuda

    O sino das ave-marias, ou da oração, tinha dado na torre da sé
    a ultima badalada, e pelas frestas e portas dessa multidão de
    casas, que apinhadas á roda do castello, e como enfeixadas e
    comprimidas pela apertada cincta das muralhas primitivas de Lisboa,
    pareciam mal caberem nellas, viam-se fulgurar aqui e acolá as
    luzes interiores, emquanto as ruas, tortuosas e immundas, jaziam
    como baralhadas e confusas sob o manto das trevas. Era chegada a
    hora dos terrores; porque durante a noite, naquelles bons tempos,
    a estreita senda de bosque deserto não era mais triste, temerosa
    e arriscada que a propria rua-nova, a mais opulenta e formosa da
    capital. O que, porém, havia ahi desacostumado e estranho era o
    completo silencio e a escuridão profunda em que jazia sepultado o
    paço d'apar S. Martinho, onde então residia elrei D. Fernando, ao
    mesmo tempo que pelos becos e encruzilhadas soava um tropear de
    passadas, um sussurro de vozes vagas, que indicavam terem sido
    agitadas as ondas populares pelo vento de Deus, e que ainda esse
    mar revolto não tinha inteiramente cahido na calma e somnolencia
    que vem após a procella.

    E assim era, com effeito, como o leitor poderá averiguar por
    seus proprios olhos e ouvidos, se, manso, manso e disfarçado,
    quizer entrar comnosco na mui affamada e antiga taberna do velho
    Folco Taca, que nos fica bem perto, logo ao sair da sé, na rua
    que sobe para os paços da alcaçova, sete ou oito portas acima
    dos paços do concelho.

    A taberna de micer Folco Taca, genovez, que viera a Portugal
    ainda impubere, como pagem d'armas do famoso almirante Lançarote
    Peçanha, e que havia annos abandonára o serviço maritimo para se
    dar á mercancia, era a mais celebre entre todas as de Lisboa,
    não só pelo luxo do seu adereço, e bondade dos liquidos encerrados
    nas cubas monumentaes que a pejavam, mas tambem porque em um
    aposento mais retirado e interior uma vasta banca de pinho e
    muitos assentos rasos, ou escabellos, offereciam todo o commodo
    aos tavolageiros de profissão, para perderem ou ganharem ahi,
    em noites de jogo infrene, os bellos alfonsins e maravedis de
    ouro, ou as estimadas dobras de D. Pedro I, que, ao contrario
    dos seus antecessores e successores, julgára ser mais rico e
    poderoso fazendo cunhar moeda de bom toque e peso, do que
    roubando-lhe o valor intrinseco, e augmentando-lhe o nominal,
    segundo o costume de todos os reis no começo de seu reinar.

    Micer Folco soubera estender grossas nevoas sobre os olhos do
    corregedor da côrte e de todos os saiões, algozes e mais familia
    da nobre raça dos alguazis sobre a illegalidade de semelhante
    estabelecimento industrial. O elixir que elle empregára para
    produzir essa maravilhosa cegueira não sabemos nós qual fosse;
    mas é certo que não se perdeu com a alchimia, porque se vê que
    elle existe em mãos abençoadas, produzindo ainda hoje repetidos
    milagres em tudo analogos a este.

    Era, pois, na taberna-tavolagem da porta do ferro, conhecida
    vulgarmente por tal nome em consequencia da vizinhança desta porta
    da antiga cêrca, onde os ruídos vagos e incertos, que sussurravam
    pelas ruas da cidade, soavam mais alta e distinctamente, como
    em sorvedouro marinho as ondas, remoinhando e precipitando-se,
    estrepitam no centro da voragem com mais soturno e retumbante
    fragor. A vasta quadra da taberna estava apinhada de gente, que
    trasbordava até o breve terreirinho da sé, falando todos a um
    tempo, accesos, ao que parecia, em violentas disputas, que ás
    vezem eram interrompidas pelo mais alto brado das pragas e
    blasphemias, indicio evidente de que o successo que motivava
    aquella assuada ou tumulto era negocio que excitava vivamente
    a colera popular.

    Já no fim do seculo decimo-quarto era o povo, assim como boje,
    colerico. Então coleras da puericia; hoje aborrimentos de velhice.

    Se na rua o borborinho era tempestuoso e confuso, dentro da casa
    de micer Folco a bulha podia chamar-se infernal. Para um dos
    lados, no meio de uma espessa mó de populares, ouviam-se palavras
    ameaçadoras, sem que fosse possivel perceber contra qual ou quaes
    individuos se accumulava tanta sanha. Para outra parte, d'entre o
    vozear de uma cerrada pinha de mulheres, cuja vida de perdição se
    revelava nos seus coromens de panno d'Arrás, nos cinctos escuros,
    nas camisas e véus desadornados e lisos, rompiam risadas discordes
    e esganiçadas, em que se sentia profundamente impresso o descaro
    e insolencia daquellas desgraçadas. Em cima dos bofetes viam-se
    picheis e taças vazias, e debaixo de alguns delles corpos estirados,
    que simulariam cadaveres, se os assovios e roncos que ás vezes
    sobresaíam através do ruído daquelle respeitavel congresso, não
    provassem que esses honrados cidadãos, suavemente embalados pelos
    vapores do vinho e do enthusiasmo, tinham adormecido na paz d'uma
    boa consciencia. Emfim, a composta e illustre taberna do antigo
    companheiro de gloria de micer Lançarote estava visivelmente
    prostituida e livelada com as mais immundas e vis baiúcas de
    Lisboa. O gigante popular tinha ahi assentado a sua curia feroz, e
    pela primeira vez o vicio e a corrupção tinham transposto aquelles
    umbraes sem a sua mascara de modestia e gravidade. Sobre os farrapos
    do povo não têem cabida os adornos de ouropel. É a unica differença
    moral que ha entre elle e as classes superiores, que se crêem
    melhores, porque no gymnasio da civilisação aprendem desde a
    infancia as destrezas e os momos de compostura hypocrita.

    O astro que parecia alumiar com sua luz, aquecer com seu calor
    aquelle turbilhão de planetas; o centro moral, á roda do qual
    giravam todos aquelles espiritos, era um homem que dava mostras
    de ter bem quarenta annos, alto, magro, trigueiro, olhos encovados
    e scintilantes, cabello negro e revolto, barba grisalha e espessa.
    Encostado a um dos muitos bofetes que adornavam o amplo aposento,
    e rodeado de uma vasta pinha de populares de ambos os sexos, que
    o escutavam em respeitoso silencio, a sua voz grossa e sonora
    sobresaía no ruído, e só se confundia com alguma jura blasphema
    que se disparava do meio das outras pinhas de povo, ou com as
    modulações das risadas, que vibravam naquelle ambiente denso e
    abafado, de certo modo semelhantes a clarão affogueado que sulcasse
    rapidamente as trevas humidas e profundas da crypta subterranea
    de alguma igreja do sexto seculo.

    De repente dous cavalleiros, cuja graduação se conhecia pelos
    barretes de veludo preto adornados de pluma ao lado, pelas calças
    de seda golpeadas, e pelos cinctos de pelle de gamo lavrados
    de prata, entraram na taberna, e, rompendo por entre o povo,
    que lhes alargava a passagem, chegaram ao pé do homem alto e
    trigueiro. Traziam os capeirotes puxados para a cara, de modo
    que nenhum dos circumstantes pôde conhecer quem eram. Bastantes
    desejos passaram por muitos daquelles cerebros vinolentos de o
    indagar; mas uma identica reflexão atou todas as mãos. Ao longo
    da côxa esquerda dos embuçados via-se reluzir a espada, e no lado
    direito, apertado no cincto, que a ponta erguida do capeirote
    deixava apparecer, descortinava-se o punhal. O passaporte para
    virem assim aforrados era digno de todo o respeito, e ainda que
    entre a turba se achassem alguns homens d'armas, principalmente
    bésteiros, quasi todos estavam desarmados. Tinha seus riscos,
    portanto, o pôr-lhes o visto popular.

    Os dous desconhecidos falaram em segredo por alguns minutos ao
    homem alto e magro, que de quando em quando meneava a cabeça
    fazendo um gesto de assentimento: depois romperam por entre a
    turba, que os examinava com uma especie de receio misturado de
    respeito, e foram assentar-se em dous dos escabellos enfileirados
    ao correr da parede. Encostando os cotovelos em um bofete, com
    as cabeças apertadas entre os punbos, ficaram imoveis e como
    alheios ao sussurro que começava a alevantar-se de novo á roda
    delles.

    Este durou breves instantes; um psiuh do homem alto e magro fez
    voltar todos os olhos para aquella banda. Subindo a um escabello,
    elle deu signal com a mão de que pretendia falar.

    "Ouvide! Ouvide!"–bradaram alguns que pareciam os maioraes daquella
    multidão desordenada.

    Todos os pescoços se alongaram a um tempo, e viram-se muitas
    mãos callosas erguerem-se encurvadas, e formarem em volta das
    orelhas de seus donos uma especie de annel acustico. O orador
    principiou:

    "Arraya-miuda[1]! tendes vós já elegido, entre vós outros, cidadãos
    bem falantes e avisados para propôr vossos embargos e razoados
    contra este maldicto e descommunal casamento d'el-rei com a mulher
    de João Lourenço da Cunha?"

    "Todos á uma entendemos que deveis ser vós, mestre Fernão Vasques:
    –respondeu um velho, cuja calva polida reverberava os raios
    d'uma das lampadas pendentes do tecto, e que parecia ser homem de
    conta entre os populares.–Quem ha ahi entre a arraya-miuda mais
    discreto e aposto para taes autos que vós? Quem com mais urgentes
    razões proporia nosso aggravo e a deshonra e vilta d'elrei, do
    que vós o fizestes hoje na mostra que démos ao paço esta tarde?"

    "Alcacer, alcacer! por nosso capitão Fernão Vasques:–bradou unisona
    a chusma.

    "Fico-vos obrigado, mestre Bartholomeu Chambão!–replicou Fernão
    Vasques, socegado o tumulto.–Pelo razoado de hoje terei em paga
    a forca, se a adultera chega a ser rainha: pelo do ámanhan terei
    as mãos decepadas em vida, se elrei com suas palavras mansas e
    enganosas souber apaziguar o povo. E tendes vós por averiguado,
    mestre Bartholomeu, que o carrasco sabe apertar melhor o nó da
    corda na garganta, que eu o ponto em peitilho de saio, ou em
    costura de redondel ou pelote, e que o cutelo do algoz entra mais
    rijo no gasnate de um christão que a vossa enchó n'uma aduela
    de pipa?"

    "Nanja emquanto na minha aljava houver almazem, e a garrucha
    da bésta, me não estourar:–exclamou um bésteiro de conto,
    cambaleando e erguendo-se debaixo d'um bofete, para onde o haviam
    derribado certas perturbações d'enthusiasmo politico.

    "Amendico Vobis!–gritou um beguino, cujas faces vermelhas e
    voz de Stentor brigavam com o habito de grosseiro burel e com
    as desconformes camandulas que lhe pendiam da cincta.

    "Olé, Fr. Roy Zambrana, fala linguagem christenga, se queres
    vir nesse bordo por nossa esteira:–bradou um petintal d'Alfama,
    que, segundo parecia, capitaneava um grande troço de pescadores,
    barqueiros e galeotes daquelle bairro, então quasi exclusivamente
    povoado de semelhante gente.

    "Digo por linguagem"–acudiu o beguino–"que ninguém como mestre
    Fernão Vasques é homem de cordura e sages para ámanhan falar a
    elrei aguisadamente sobre o feito do casamento de Leonor Telles,
    do mesmo modo que ninguem leva vantagem ao petintal Ayras Gil
    em ousadia para fugir ás galés de Castella e doestar os bons
    servos da igreja."

    Era allusão pessoal. Uma risada ruidosa e longa correspondeu
    á mordente desforra de Fr. Roy, que abaixou os olhos com certo
    modo hypocritamente contrito, semelhante ao gato, que, depois de
    dar a unhada, vem roçar-se mansamente pela mão que ensanguentou.

    Fr. Roy era tambem, como Ayras Gil, um idolo popular, e a má
    vontade que parecia haver entre o beguino e o petintal nascêra da
    emulação; de uma duvida cruel sobre a altura relativa do throno
    de encruzilhada, do throno de lama e farrapos, em que cada um
    delles se assentava.

    Se, pois, aquella multidão não estivesse persuadida da superioridade
    intellectual do alfaiate Fernão Vasques, a opinião desses dous
    oraculos lhe não teria deixado a menor duvida sobre isso. Todavia,
    nas palavras de ambos havia um pensamento escondido; pensamento
    de odio que nascêra n'um dia, e n'um dia lançára profundas raizes
    nos corações de ambos. O marinheiro e o eremita tinham pensado ao
    mesmo tempo que, lisongeando esse homem mimoso do vulgo, tirariam
    juntamente dous resultados, o de ganharem mais credito entre
    este, e de aplanarem a estrada da forca ao novo rei das turbas,
    erguido, havia poucas horas, sobre os broqueis populares.

    Mas que auto era este de que o povo falava? Sabe-lo-hemos remontando
    um pouco mais alto.

    O amor cego d'el-rei D. Fernando pela mulher de João Lourenço
    da Cunha, D. Leonor Telles, havia muito que era o pasto saboroso
    da maledicencia do povo, dos calculos dos politicos e dos enredos
    dos fidalgos. Ligada por parentesco com muitos dos principaes
    cavalleiros de Portugal, D. Leonor, ambiciosa, dissimulada e
    corrompida, tinha empregado todas as artes do seu engenho prompto
    e agudo em formar entre a nobreza uma parcialidade que lhe fosse
    favoravel. Quanto a elrei, a paixão violenta em que este ardia
    lhe assegurava a ella o completo dominio no seu coração. Mas
    as miras daquella mulher, cuja alma era um abysmo de cubiça,
    de desenfreamento, de altivez e de ousadia, batiam mais alto do
    que na triste vangloria de vêr a seus pés um rei bom, generoso
    e gentil. Através do amor de D. Fernando ella só enxergava o
    refulgir da corôa, e o homem sumia-se nesse esplendor. O nome de
    rainha misturava-se em seus sonhos; era o significado de todas
    as suas palavras de ternura, o resumo de todas as suas caricias,
    a idéa primitiva de todas as suas idéas. Leonor Telles não amava
    elrei, como o provou o tempo; mas D. Fernando cria no amor della;
    e este principe, que seria um dos melhores monarchas portuguezes,
    e que a muitos respeitos o foi, deixou na historia, quasi sempre
    superficial, um nome deshonrado, por ter escripto esse nome na
    horrivel chronica da nossa Lucrecia Borgia. Uma difficuldade,
    quasi insuperavel para outra que não fosse D. Leonor, se interpunha
    entre ella e seus ambiciosos designios. Era casada! Um processo
    de divorcio por parentesco, julgado por juizes affectos a D.
    Leonor, ou que sabiam até onde chegava a sua vingança, a livrou
    desse tropeço. Seu marido, João Lourenço da Cunha, atterrado,
    fugiu para Castella, e D. Fernando, casado, segundo se dizia,
    a occultas com ella, muito antes da epocha em que começa esta
    narrativa, viu emfim satisfeito o seu amor insensato.

    Aquelles d'entre os nobres, que ainda conservavam puras as tradições
    severas dos antigos tempos, indignavam-se pelo opprobrio da corôa e
    pelas consequencias que devia ter o repudio da infante de Castella,
    cujo casamento com elrei, ajustado e jurado, este desfizera com
    a leveza que se nota como defeito principal no caracter de D.
    Fernando. Entre os que altamente desapprovavam taes amores, o
    infante D. Diniz, o mais moço dos filhos de D. Ignez de Castro,
    e o velho Diogo Lopes Pacheco[2] eram, segundo parece, os cabeças
    da parcialidade contraria a D. Leonor; aquelle pela altivez de
    seu animo; este por gratidão a D. Henrique de Castella, em quem
    achára amparo e abrigo no tempo dos seus infortunios, e que o
    salvára da triste sorte de Alvaro Gonçalves Coutinho e de Pedro
    Coelho, seus companheiros no patriotico crime da morte de D.
    Ignez.

    O casamento d'elrei, ou verdadeiro ou falso, era ainda um rumor
    vago, uma suspeita. Os nobres, porém, que o desapprovavam souberam
    transmittir ao povo os proprios temores; e a agitacão dos animos
    crescia á medida que os amores d'elrei se tornavam mais publicos.
    D. Fernando tinha já revelado aos seus conselheiros a resolução
    que tomára, e estes, posto que a principio lhe falassem com a
    liberdade que então se usava nos paços dos reis, vendo suas
    diligencias baldadas, contentaram-se de condemnar com o silencio
    essa malaventurada resolução. O povo, porém, não se contentou
    com isso.

    Conforme as idéas desse tempo, além das considerações politicas,
    semelhante consorcio era monstruso aos olhos do vulgo, por um motivo
    de religião, o qual ainda de maior peso seria hoje, e sê-lo-ha em
    todos os tempos em que a moral social fòr mais respeitada do que
    o era naquella epocha. Tal consorcio constituia um verdadeiro
    adulterio, e os filhos que delle procedessem mal poderiam ser
    considerados como infantes de Portugal, e por consequencia como
    fiadores da successão da corôa.

    A irritação dos animos, assoprada pela nobreza, tínha chegado
    ao seu auge, e a colera popular rebentára violenta na tarde que
    precedeu a noite em que começa esta historia.

    Tres mil homens se tinham dirigido tumultuariamente ás portas do
    paço, dando apenas tempo a que as cerrassem. A vozeria e estrepito
    que fazia aquella multidão desordenada assustou elrei, que por
    um seu privado mandou perguntar o que lhes prazia e para que
    estavam assim reunidos. Então o alfaiate Fernão Vasques, capitão
    e procurador por elles, como lhe chama Fernão Lopes, affeiou
    em termos violentos as intenções d'elrei, liberalisando a D.
    Leonor os titulos de má mulher e feiticeira, e asseverando que o
    povo nunca havia de consentir em seu casamento adultero. A arenga
    rude e vehemente do alfaiate orador, acompanhada e victoriada de
    gritas insolentes e ameaçadoras do tropel que o seguia, moveu
    elrei a responder com agradecimentos ás injurias, e a affirmar
    que nem D. Leonor era sua mulher, nem o seria nunca, promettendo
    ir na manhan seguinte aclarar com elles este negocio no mosteiro
    de S. Domingos, para onde os emprasava. Com taes promessas pouco
    a pouco se aquietou o motim, e ao cahir da noite o terreiro d'apar
    S. Martinho estava em completo silencio. Como se, na solidão,
    elrei quizesse consultar comsigo o que havia de dizer ao seu bom
    e fiel povo de Lisboa, as vidraças córadas das esguias janellas
    dos paços reaes, que vertiam quasi todas as noites o ruido e o
    esplendor dos saráus, cerradas nesta hora e caladas como sepulchro,
    contrastavam com o reluzir dos fachos, com o estrepito das ruas,
    com o rir das mulheres perdidas e dos homens embriagados, com
    o perpassar contínuo dos magotes e pinhas de gente que se
    encontravam, uniam, separavam, retrocediam, vacillavam, ficavam
    immoveis, agglomeravam-se para se desfazer, desfaziam-se para
    se agglomerar de novo, sem vontade e sem constrangimento, sem
    motivo e sem objecto, vulto inerte, movido ao acaso, como as
    vagas do mar, tempestuoso e irreflectido como ellas. Feroz na
    sua colera razoada, ferocissimo no seu rir insensato, o vulgo
    passava, rei de um dia. Esse ruído, essa vertigem que o agitava
    era o seu baile, a sua festa de triumpho: e as estrellas de serena
    noite de agosto, semelhantes a lampadas pendentes de abobada
    profunda, alumiavam o saráu popular, as salas do seu folguedo,
    a praça e a encruzilhada. Era a um tempo truanesco e terrivel.

    Na taberna de micer Folco (onde deixámos as personagens principaes
    desta historia, para inserir, talvez fóra de logar, o prologo ou
    introducção a ella) as acclamaçôes freneticas dos populares tinham
    tornado indubitavel que o propoedor para o ajunctamento do dia
    seguinte devia ser o mui avisado e sages mestre Fernão Vasques. Fr.
    Roy era de todos os circumstantes o que mais parecia ter a peito
    esta escolha, e o petintal Ayras Gil ajudava-o poderosamente com
    o ruido dos amplos pulmões dos galeotes d'Alfama, contrabidos
    como em voga arrancada, victoriando o seu capitão. O alfaiate
    não pôde resistir, nem porventura tinha vontade d'isso, a tanta
    popularidade, e em pé sobre o escabello, com a cabeça levemente
    inclinada para o peito, n'uma postura entre de resignação e de
    bemaventurança, tremulava-lhe nos labios semi-abertos um sorriso
    que revelava uma parte dos mysterios do seu coração. Emfim, quando
    a grita começou a asserenar, Fernão Vasques ergueu a cabeça, e
    com aspecto grave deu signal de que pretendia falar ainda.

    Fez-se de novo silencio.

    "Seja, pois, como quereis:–disse o alfaiate–mas vede o grão risco
    a que me ponho por vós outros. Falarei eu a elrei com liberdade
    portuguesa: proporei vosso aggravo e a deshonra e feio peccado
    de sua real senhoria, mas é necessario que vós todos quantos
    ahi sois estejaes de alcateia e ao romper d'alva no alpendre
    de S. Domingos. Dizem que a adultera é mulher de grande coração
    e ousados pensamentos; em Lisboa estão muitos cavalleiros seus
    parentes e parciaes. Bésteiros deste concelho, que não vos esqueçam
    em casa vossas béstas e aljavas! Pioada de Lisboa, levae vossas
    ascumas! Os trons e engenhos do castello–accrescentou o alfaiate
    em voz mais baixa e hesitando–não vos apoquentarão, ainda que
    elrei o quizesse, porque o alcaidemór João Lourenço Bubal não
    é dos affeiçoados a D. Leonor Telles. Sancta Maria e Sanctiago
    sejam comvosco! Alcacer, alcacer pela arraya-miuda! A repousar,
    amigos!"

    –"Alcacer, alcacer!–respondeu a turbamulta.

    "Morra a comborça!"–gritou Ayras Gil com voz de trovão.–"Morra
    a comborça!"–repetiram os galeotes e as virtuosas matronas dos
    coromens d'arrás e cinctos pretos, que assistiam áquelle conclave.

    "Olha, Ayras, que S. Martinho fica perto, e contam que D. Leonor
    tem ouvido subtil:"–disse Fr. Roy ao petintal com um sorriso
    diabólico.

    "Dor de levadigas te consumam, ichacorvos!"–replicou o
    petintal.–"Quando eu quero que me ouçam é que falo alto. Alcacer
    por sua senhoria o bom rei D. Fernando! Deus o livre de Castella
    e de feitiços!"

    O petintal emendava a mão como podia. E entre morras e alcaceres;
    entre risadas e pragas; entre ameaças vans e insultos inuteis,
    aquella vaga de povo contida na taberna de micer Folco, espraiou-se
    pelas ruas, derivou pelas quelhas, vielas e becos, e embebeu-se
    pelas casinhas e choupanas, que nessa epocha jaziam muitas vezes
    deitadas juncto ás raízes dos palacios na velha e opulenta Lisboa.

    Com os braços cruzados o alfaiate contemplava aquella multidão, que
    diminuia rapidamente, e cujo sussurro alongando-se era comparavel
    ao gemido do tufão, que passa de noite pelas sarças da campina.
    Ainda elle tinha os olhos fitos no portal por onde saíra o vulto
    indelineavel chamado povo, e já ninguem ahi estava, salvo os
    dous cavalleiros, que se tinham conservado immoveis na mesma
    postura que haviam tomado, e Fr. Roy, que se estirára sobre um
    dos bofetes, e já roncava e assobiava como em somno profundo.

    Os dous cavalleiros ergueram-se e descobriram os rostos: a um
    ainda a barba de homem não pungia nas faces: o outro, na alvura
    das melenas brancas, que trazia cahidas sobre os hombros á moda
    de Castella, e no rosto sulcado de rugas, certificava ser já
    bem larga a historia da sua peregrinação na terra.

    O mancebo olhou para Fernão Vasques, que parecia absorto, e depois
    para o velho com um gesto de impaciencia. Este olhou tambem para
    elle, e sorriu-se. Depois o ancião chamou o alfaiate em voz baixa,
    mas perceptivel.

    Este, como se cahisse em terra da altura dos seus pensamentos,
    estremeceu, e, saltando do escabello, onde ainda se conservava
    em pé, encaminhou-se rapidamente para os dous cavalleiros:

    "Senhor infante, que vossa mercê me perdôe e o senhor Diogo Lopes
    Pacheco! Á fé que, no meio d'este arruído, quasi me esquecêra
    de que ereis aqui. Estaes desenganados por vossos olhos de que
    posso responder pelo povo, e de que ámanhan não faltarão em S.
    Domingos?"

    "Na verdade–respondeu o mancebo–que tu governas mais nelle
    que meu irmão com ser rei! Veremos se ámanhan te obedecem como
    te obedeceram hoje."

    "És um notavel capitão:–accrescentou Diogo Lopes, rindo e batendo
    no hombro do alfaiate.–Se fosses capaz de reger assim em hoste
    uma bandeira de homens d'armas merecerias a alcaidaria de um
    castello."

    "Que só entregaria, no alto e no baixo, irado e pagado, de noite
    ou de dia, áquelle que de mim tivesse preito e menagem."

    "Bem dicto!–interrompeu o velho Pacheco, no mesmo tom em que
    começára.–Se t'a negarem não será por errares as palavras do
    preito. Tem a certeza, de que has-de ir longe, Fernão Vasques;
    muito longe! Assim eu a tivera, de que não me será preciso cozer
    á ponta de punhal a bôca de quem ousar dizer que o infante D.
    Diniz e Diogo Lopes Pacheco cruzaram esta noite a porta da taberna
    do gonovez Folco Taca."

    Quando estas ultimas palavras, proferidas lentamente, saíram
    dos labios do que as proferia, os roncos e assobios do beguino
    que dormia foram mais rapidos e tremulos.

    "Quem é aquelle ichacorvos?–proseguiu Diogo Lopes, apontando
    para Fr. Roy com um gesto de desconfiança.

    "É um dos nossos:–respondeu o alfaiate–um dos que mais têem
    encarniçado a arraya-miuda contra a feiticeira adultera. Na assuada
    desta tarde foi dos que mais gritaram defronte dos paços d'el-rei.
    Por este respondo eu. Não tereis, senhor Diogo Lopes, de lhe
    cozer a bôca á ponta de vosso punhal."

    "Responde por ti, honrado capitão da arraya-miuda–replicou o
    velho cortezão.–Quem me responde por elle é o seu dormir profundo:
    quem me responderia por elle, se acordando nos visse aqui, seria
    este ferro que trago na cincta. Agora o que importa. Em quanto
    ámanhan elrei se demorar em S. Domingos, um troço d'arraya-miuda
    e bésteiros ha-de commetter o paço, e ou do terreiro, ou rompendo
    pelos aposentos interiores, é necessario que uma pedra perdida,
    um tiro de bésta disparado por engano, uma ascuma brandida em
    algum corredor escuro, nos assegure que elrei não póde deixar
    de attender ás supplicas dos seus leaes vassallos e dos cidadãos
    de Lisboa."

    "Morta!–exclamou o infante com um gesto de horror.–Não, não,
    Diogo Lopes; não ensanguenteis os paços de meu irmão, como …"

    "Como ensanguentei os paços de Sancta Clara:–atalhou
    Pacheco–dizei-o francamente; porque nem remorsos me ficaram cá
    dentro. Senhor infante, vós esquecestes-vos d'isso, porque eu
    posso e valho com elrei de Castella! Senhor infante, a ambição
    tem que saltar muitas vezes por cima dos vestigios de sangue!
    Vós passastes ávante, e não vistes os do sangue de vossa mãe!
    Porque hesitareis ao galgar os do sangue de Leonor Telles? Senhor
    infante, quem sobe por sendas ingremes e por despenhadeiros tem
    a certeza de precipitar-se no fojo, se covardemente recúa."

    D. Diniz tinha-se tornado pallido como cera. Não respondeu nada;
    mas dos olhos rebentaram-lhe duas lagrymas.

    Fernão Vasques escutou a prelecção politica do velho matador
    de D. Ignez de Castro com religiosa attenção. E resolveu tambem
    lá comsigo não se deixar cahir no fojo.

    "Far-se-ha como apontaes:–disse elle falando com Diogo Lopes–mas
    se os homens d'armas e bésteiros de João Lourenço Buval descerem
    do castello…"

    "Não te disse, ainda ha pouco, que João Lourenço ficaria quedo no
    meio da revolta?–Podes estar socegado, que não te certifiquei
    d'isso só para animares o povo. É a realidade. Agora tracta de
    dispôr as cousas para que não seja um dia inutil o dia d'ámanhan."

    Pegando então na mão do infante, o feroz Pacheco saíu da taberna,
    e tomou com elle o caminho da Alcaçova. Fernão Vasques ficou
    um pouco scismando: depois saíu, dirigindo-se para a porta do
    ferro, e repetindo em voz baixa:–"Não me precipitarei no fojo!"

    Passados alguns instantes de silencio Fr. Roy alevantou devagarinho
    a cabeça, assentou-se no bofete e poz-se a escutar: depois saltou
    para o chão, apagou a lampada que ardia no meio da casa, abandonada
    por Folco Taca logo que o povo tumultuariamente a innundára,
    chegou á porta, escutou de novo alguns momentos, manso e manso
    encaminhou-se para a torre da sé da banda do norte, e como um
    fantasma, desappareceu cozido com a negra e alta muralha da
    cathedral.

    [1] Fernão Lopes dá a entender (Chr. de D. João I. P.
    1.ª c.44) que a denominação de arraya-miuda se começára a dar aos
    populares no principio da revolta a favor do Mestre d'Aviz, para
    os distinguir dos nobres, pela maior parte fautores de D. Leonor
    e dos castelhanos; mas este titulo chocarreiro o havia tomado
    para si o povo miudo já d'antes e com muita seriedade. Em um
    documento de 1305 (Chancell. de D. Diniz L. 3º das Doações fol.
    42 v.) se diz que outorgavam certas cousas os cavalleiros, juizes
    e concelho de Bragança e toda a arraya-miuda.

    [2] Fernão Lopes affirma que Pacheco não tornára ao
    reino desde que fugíra por escapar á vingança de D. Pedro I por
    causa da morte de D. Ignez, senão no anno de 72, em que viera
    por embaixador d'elrei D. Henrique. Isto parece inexacto; Fr.
    Manuel dos Santos affirma o contrario fundado na restituição
    de todos os seus bens e titulos feita por D. Fernando no começo
    do seu reinado. Não é isto que prova a assistencia de Pacheco
    em Portugal no anno de 1371, não só porque depois de vir podia
    voltar para Castella, mas tambem essa restituição podia ser feita
    estando e conservando-se elle ausente, visto que a fruição d'um
    titulo, ou de terras da corôa, por simples mercê, não obrigando
    a serviço pessoal, ao menos até o tempo de D. João I, não tornava
    necessaria a presença do donatario no reino. O que prova a verdade
    da opinião de Santos é a doação feita a Diogo Lopes em 1371
    (Chancell. D. Fern. f.84) da terra de Trancoso para pagamento
    de sua quantia, o que supõe serviço pessoal; porque era pelas
    quantias que os fidalgos estavam obrigados a faze-lo.

    O Beguino.

    Quem hoje passa pela cadeia da cidade de Lisboa, edificio immundo,
    miseravel, insalubre, que por si só bastára a servir de castigo
    a grandes crimes[1], ainda vê na extermidade delle umas ruinas,
    uns entulhos amontoados, que separa da rua uma parede de pouca
    altura, onde se abre uma janella gothica. Esta parede e esta
    janella são tudo o que resta dos antigos paços d'apar S. Martinho,
    igreja que tambem já desappareceu, sem deixar sequer por memoria
    um panno de muro, uma fresta, de outro tempo. O Limoeiro é um dos
    monumentos de Lisboa sobre que revoam mais tradições de remotas
    eras. Nenhuns paços dos nossos reis da primeira e segunda dynastia
    foram mais vezes habitados por elles. Conhecidos successivamente
    pelos nomes de paços d'elrei, paços dos infantes, paços da moeda,
    paços do limoeiro, a sua historia vae sumir-se nas trevas dos
    tempos. Sâo da era mourisca? Fundaram-nos os primeiros reis
    portugueses? Ignoramo-lo. E que muito, se a origem de Sancta
    Maria Maior, da veneranda cathedral de Lisboa, é um mysterio! Se,
    transfigurada pelos terremotos, pelos incendios e pelos conegos,
    nem no seu archivo queimado, nem nas suas rugas caiadas e douradas
    póde achar a certidão do seu nascimento e dos annos da sua vida!
    Como as da igreja, as ruinas da monarchia dormem em silencio á
    roda de nós, e, involto nos seus eternos farrapos, o povo vive
    eterno em cima ou ao lado dellas, e nem sequer indaga porque
    jazem ahi!

    Na memoravel noite em que se passaram os successos narrados no
    capítulo antecedente, essa janella dos paços d'elrei era a unica
    aberta em todo o vasto edificio, mas calada e escura como todas
    as outras. Só, de quando em quando, quem para lá olhasse attento
    do meio do terreiro enxergaria o que quer que era alvacento, que
    ora se chegava á janella, ora se retrahia. Mas o silencio que
    reinava naquelles sitios não era interrompido pelo menor ruído.
    De repente um vulto chegou debaixo da janella e bateu de vagarinho
    as palmas: a figura alvacenta chegou á janella, debruçou-se,
    disse algumas palavras em voz baixa, retirou-se, tornou a voltar
    e pendurou uma escada de corda que segurou por dentro. O vulto
    que chegára subiu rapidamente, e ambos desappareceram através
    dos corredores e aposentos do paço.

    Em um destes ultimos, alumiado por tochas seguras por longos
    braços de ferro chumbados nas paredes, passeava um homem de meia
    idade e gentil. Os seus passos eram rapidos e incertos, e o seu
    aspecto carregado. De quando em quando parava e escutava a uma
    porta, cujo reposteiro se meneava levemente; depois continuava a
    passear, parando ás vezes com os braços cruzados e como entregue
    a cogitações dolorosas.

    Por fim o reposteiro ondeou d'alto a baixo e franziu-se no meio:
    mão alva de mulher o segurava. Esta entrou, após ella um homem
    alto e robusto, vestido de burel e cingido de cincto de esparto,
    d'onde pendiam umas grossas camandulas. A dama atravessou
    vagarosamente a sala e foi sentar-se em um estrado de altura
    de palmo, que corria ao longo d'uma das paredes do aposento.
    O homem que passeava assentou-se também no unico escabello que
    alli havia. Fr. Roy, que o leitor já terá conhecido, ficou ao
    pé da porta por onde entrara, com a cabeça baixa e em postura
    abeatada.

    "Aproxima-te, beguino!"–disse com voz trémula elrei; porque era
    elrei D. Fernando o homem que se assentára.

    Fr. Roy deu uns poucos de passos para diante.

    "Que ha de novo?"–perguntou elrei.

    "O povo cada vez está mais alvorotado, e jura falar rijamente
    ámanhan a vossa senhoria. Mas essa não é a peior nova que eu
    trago!"

    "Fala, fala, beguino!–acudiu elrei, estendendo a mão convulsa
    para o ichacorvos.

    "É que ámanhan, em quanto vossa senhoria estiver em S. Domingos,
    o paço será accommettido. Pretendem matar…"

    "Mentes, beguino!–gritou a dama, erguendo-se do estrado de um
    salto, semelhante a tigre descoberto pelos caçadores nos matagaes
    da Ásia.–Mentes! Podem não me querer minha: mas assassinar-me!
    Isso é impossivel. Amo muito o povo de Lisboa; tenho-lhe feito as
    mercês que posso, para que elle haja de me odiar assim de morte.
    Os fidalgos podem persuadi-lo a oppôr-se ao nosso casamento; mas
    nunca a pôr mãos violentas na pobre Leonor Telles."

    "Prouvera a Deus que eu mentisse hoje! Seria a primeira vez na
    minha vida:–replicou o ichacorvos com ar contrito.–Mas ouvi
    com meus ouvidos a ordem para o feito e a promessa da execução,
    haverá tres credos, na taberna de Folco Taca."

    "Miseraveis!–bradou erguendo-se tambem elrei, a quem o risco
    da sua amante restituira por um momento a energia.–Miseraveis!
    Querem sobre a cerviz o jugo de ferro de meu pae? Te-lo-hão.
    Quem ousa ordenar tal cousa?"

    "Diogo Lopes Pacheco, do vosso conselho, o disse ao alfaiate
    Fernão Vasques, o coudel dos revoltosos, e vosso irmão D. Diniz
    estava tambem com elles:"–respondeu Fr. Roy.

    O beguino era o espia mais sincero e imperturbavel de todo o mundo.

    "Velho assassino!–exclamou D. Fernando–cubriste de luto eterno
    o coração do pae! Queres cubrir o do filho. E tu, Diniz, que eu
    amei tanto, tambem entre os meus inimigos! Leonor, que faremos
    para te salvar?! Aconselha-me tu, que eu quasi que enlouqueci!"

    O pobre e irresoluto monarcha cobriu o rosto com as mãos, arquejando
    violentamente. D. Leonor, cujos olhos centelhantes, cujos labios
    esbranquiçados revelavam mais odio que terror, lançou-lhe um
    olhar de desprezo, e em tom de mofa respondeu:

    "Sim, senhor rei, na falta de vossos leaes conselheiros posso eu,
    triste mulher, dar-vos um bom conselho. Acordae vossos pagens,
    que vão pregar um poste à porta destes paços, e mandae-me amarrar
    a elle para que o vosso bom povo de Lisboa possa despedaçar-me
    tranquillamente ámanhan sem profanar os vossos aposentos reaes.
    Será mais uma grande mercê que lhe fareis em recompensa do seu
    amor á vossa pessoa, da sua obediencia aos vossos mandados."

    "Leonor, Leonor, não me fales assim, que me matas!–gritou D.
    Fernando, deitando-se aos pés de D. Leonor e abraçando-a pelos
    joelhos, com um chôro convulso.–Que te fiz eu para me tractares
    tão cruelmente?"

    "D. Fernando, lembra-te bem do que te vou dizer! O povo ou se
    rege com a espada do cavalleiro, ou elle vem collocar a ascuma
    do peão sobre o throno real. Quem não sabe brandir o ferro, cede;
    deixa-o reinar."

    "Tens razão, Leonor!–disse D. Fernando, enxugando as lagrymas
    e alçando a fronte nobre e formosa, onde se pintava a indignação.
    –Serei filho de D. Pedro o cruel; serei successor de meu pae.
    Eu mesmo vou ao alcaçar examinar os engenhos mais valentes que
    cubram o terreiro de S. Martinho de pedras, de virotões e de
    cadaveres: os montantes e as béstas dos homens d'armas e bésteiros
    do meu alcaide-mór de Lisboa farão o resto. João Lourenço Bubal
    será fiel a seu rei. Se necessario fôr com minhas proprias mãos
    ajudarei a pôr fogo á cidade, para que nem um revoltoso escape.
    Adeus, Leonor: conta que serás vingada."

    D. Fernando voltou-se rapido para a porta do aposento. Fr. Roy
    estava immovel diante delle.

    "João Lourenço Bubal–disse o espia sem se alterar–é dos revoltosos.
    Ouvi-o da bôca do proprio Diogo Lopes, que o certificou a Fernão
    Vasques. Os trons do alcacer estão desapparelhados; e a maior parte
    dos homens d'armas e bésteiros do alcaide-mór eram na taberna de
    Folco Taca os mais furiosos contra a que elles chamam…."

    "Cal-te, beguino!"–gritou elrei, empurrando-o com força e procurando
    tapar-lhe a bôca.

    O ichacorvos parou onde o impulso recebido o deixou parar, e
    ficou outra vez immovel diante de D. Fernando, a quem este ultimo
    golpe lançava de novo na sua habitual perplexidade.

    "… A adultera:–proseguiu Fr. Roy acabando a phrase, porque
    ainda a devia, e era escrupuloso e pontual do desempenho do seu
    ministerio.

    "Beguino!–atalhou D. Leonor com voz trémula de raiva–melhor
    fôra que nunca essa palavra te houvesse passado pela bôca; porque
    talvez um dia ella seja fatal para os que a tiverem proferido."

    "Mas que faremos!?–murmurou elrei com gesto d'indizivel agonia.

    "Havia ainda ha pouco tres expedientes,–respondeu D. Leonor,
    recobrando apparente serenidade–combater, ceder, fugir. O primeiro
    é já impossível; o segundo!… Porque não o acceitas, Fernando?
    Prestes estou para tudo. Não me verás mais, ainda que, longe de
    ti, por certo estalarei de dor. Cede á força: os teus vassallos
    o querem; que-lo o teu povo. Esquece-te para sempre de mim!"

    "Esquecer-me de ti? Não te vêr mais? Nunca! Obedecer á força?
    Quem ha ahi que ouse dizer ao rei de Portugal:–rei de Portugal,
    obedece á força?–Os peões de Lisboa?! Porque sou manso na paz,
    não crêem que a minha espada no campo de batalha córte arnezes
    como a do melhor cavalleiro? Bons escudeiros e homens d'armas da
    minha hoste, por onde andaes derramados? Dormis por vossas honras
    e solares? O povo vos acordará como me acordou a mim; bramirá como
    os lobos da serra ao redor de vossas moradas; saltear-vos-ha no
    meio de vossos banquetes, por entre o ruído de vossos folgares.
    No ardor de vossos amores dir-vos-ha:–desamae!–Elle ousa já
    dize-lo a seu rei e senhor… Oh desgraçado de mim, desgraçado
    de mim!"

    "Não queres, pois, deixar-me entregue á minha estrella?–disse
    D. Leonor, com voz entre de chôro e de ternura, abraçando pelo
    pescoço o pobre monarcha, e chegando a sua fronte suave e pallida
    ás faces afogueadas de D. Fernando, que n'uma especie de delirio
    olhava espantado para ella.

    "Não, não! Viver comtigo, ou morrer comtigo. Cahirei do throno,
    ou tu subirás a elle."

    Um sorriso quasi imperceptivel se espraiou pelo rosto de Leonor
    Telles, que, recuando e tomando uma postura resoluta e ao mesmo
    tempo de resignação, proseguiu com voz lenta mas firme:

    "Então resta o fugir."

    "Fugir!"–exclamou elrei. E esta palavra só era mais expressiva
    que narração bem extensa dos atrozes martyrios que o malaventurado
    curtia no coração irresoluto mas generoso, com a idéa de um feito
    vil e covarde em qualquer escudeiro, vilissimo e torpissimo n'um
    rei de Portugal, em um neto de Affonso IV.

    Elrei olhou para ella um momento. Era sereno o seu rosto angelico,
    semelhante ao de uma dessas virgens que se encontram nas illuminuras
    de antigos codices, o segredo de cujos toques, perdido no fim do
    seculo quinze, a arte moderna a muito custo pôde fazer resurgir. O
    mais experto physionomista difficultosamente adivinharia a negrura
    d'alma que se escondia debaixo das puras e candidas feições de
    D. Leonor, se não fossem duas rugas que lhe desciam da fronte
    e se uniam entre os sobr'olhos, contrahindo-se e deslisando-se
    rapidamente, como as vesiculas peçonhentas das fauces d'uma vibora.

    "Seja, pois, assim! Fujamos:"–murmurou D. Fernando com o tom e
    gesto com que o suppliciado daria no alto do patibulo o perdão
    ao algoz.

    D. Leonor tirou do largo cincto, com que apertava a airosa cinctura,
    uma bolça de ouropel, e atirou com ella aos pés do beguino, que,
    de mãos cruzadas sobre o peito e os olhos semi-abertos cravados na
    abobada do aposento, parecia extatico e engolfado nos pensamentos
    sublimes do ceu.

    "Vinte dobras de D. Pedro por teu soldo, beguino: vinte pelo teu
    silencio. O resto da recompensa te-lo-has um dia, se a adultera
    atravessar triumphadora o portal por onde vae saír fugitiva."

    O rir affavel de que estas palavras foram acompanhadas fizeram
    correr um calafrio pela medulla espinal do ichacorvos, cujas
    pernas vacillaram. Mas o contacto das quarenta dobras, que uniu
    immediatamente ao peito debaixo do escapulario, lhe restituiram
    o vigor natural.

    Elrei havia-se assentado, quasi desfallecido, no escabello unico
    do aposento, e o seu aspecto demudado infundia ao mesmo tempo
    terror e compaixão. Quando o beguino alevantou a bolça, D. Fernando
    fitou nelle os olhos e estendeu a mão para o reposteiro sem dizer
    palavra.

    Fr. Roy curvou a cabeça, cruzou de nova as mãos sobre o peito,
    e, recuando até a porta, desappareceu no corredor escuro por
    onde entrára.

    Apenas os passos lentos e pesados do ichacorvos deixaram de soar,
    D. Leonor encaminhou-se para uma janella que dava para um vasto
    terrado, e affastou a cortina que servia durante o dia de mitigar
    a excessiva luz do sol. A noite ía em meio do seu curso, como o
    indicava o mortiço das tochas, que mal allumiavam o aposento, e
    a lua, já no minguante, começava a subir na abobada do firmamento,
    mergulhando no seu clarão sereno o brilho esplendido das estrellas.
    A janella estava aberta, e o escabello d'elrei ficava proximo
    e fronteiro: o luar batia de chapa no rosto bello e triste de
    D. Fernando, que, embebido no seu amargurado scismar, parecia alheio
    ao que passava á roda delle, e esquecido de que lhe restavam poucas
    horas para poder levar a cabo a resolução que tomára. Leonor Telles,
    encostada ao mainel da janella, poz-se a olhar attentamente. A
    cidade dormia; e apenas o ladro de algum cão cortava aquella
    especie de zumbido, que é como o respirar nocturno de uma grande
    povoação que repousa. Lá em baixo uma faixa trémula, semelhante
    a uma ponte de luz, cortava obliquamente o Téjo, d'onde mais
    largo se encurva pela margem esquerda. Os mastros de milhares de
    navios, emparelhados com a cidade desde Sacavem até o promontorio
    onde campeava fóra dos arrabaldes de S. Francisco, formavam uma
    especie de floresta lançada entre a cidade e a sua immensa bahia.
    Desde o terrado, para o qual dava a janella, até o rio, o bairro
    dos judeus, pendurado pela encosta ingreme e fechado com travezes
    e cadeias nos topos das ruas, desenhava uma especie de triangulo,
    cuja hase assentava sobre o lanço oriental da muralha mourisca, e
    cujo vertice, voltado para o occidente, se coroava com a synagoga,
    abrigada á sombra do vulto disforme da cathedral. Pouco distante
    do terrado, entre o palacio e a judearia, a claridade da lua
    batia de chapa em um terreiro irregular, rodeado de mesquinhas e
    meio-arruinadas casas, que pela maior parte pareciam deshabitadas.
    No meio delle o que quer que era se erguia semelhante ao arco de
    um portul romano. Parecia ser uma ruina, um fragmento de edíficío
    da antiga Olisipo, que esquecêra alli aos terremotos, ás guerras e
    aos incendios, e ao qual finalmente chegára a sua hora de desabar,
    porque uma alta escada de mão estava encostada á verga que assentava
    sobre os dous pilares lateraes e os unia, como se alli a tivessem
    posto para, em amanhecendo, os obreiros poderem subir acima e
    derribarem-no em terra.

    Era para esse vulto que D. Leonor se pozera a olhar attentamente.

    Depois voltou o rosto para elrei, que, com a cabeça baixa, os
    braços estendidos, e as mãos encurvadas sobre os joelhos, parecia
    vergar sob o peso da sua amargura: contemplou-o com um gesto de
    compaixão por alguns momentos, e, estendendo para elle os braços,
    exclamou:

    "Fernando!"

    Havia no tom com que foi proferida esta unica palavra um mundo de
    amor e voluptuosidade; mas no meio da brandura da voz de Leonor
    Telles havia tambem uma corda aspera; a lguma cousa do rugir do
    tigre.

    Elrei deu um estremeção, como se pelos membros lhe houvera coado
    uma faisca electrica; ergueu-se e atirou-se a chorar aos braços
    de Leonor Telles.

    "Ámanhan–disse elle com voz affogada,–o rei mais deshonrado
    da christandade serei eu: o cavalleiro mais vil das Hespanhas
    será D. Fernando de Portugal. Que me resta? Só o teu amor; mais
    nada. Porque não me pedem antes a corôa real, que para mim tem
    sido corôa de espinhos? Dera-a de boa vontade. Oh Leonor, Leonor!
    serias a mulher mais perversa se um dia me atraiçoasses."

    Um beijo da adultera cortou as lastimas d'elrei. A formosura desta
    mulher tinha um toque divino á claridade da lua. D. Fernando,
    embriagado d'amor, esqueceu-se de que poucas horas lhe restavam
    para fugir do seu povo enganado e ludibriado por elle.

    "Fernando!"–proseguiu D. Leonor–"jura-me ainda uma vez que serás
    sempre meu, como eu serei sempre tua."

    Dizendo isto, affastou-o brandamente de si.

    "Juro-t'o uma e mil vezes pela fé de leal cavalleiro que até
    hoje fui. Juro-t'o pelo ceu que nos cobre. Juro-t'o pelos ossos
    de meu nobre e valente avo, que àlli dorme juncto ao altar-mór
    da sé, debaixo das bandeiras infiéis que conquistou no Salado.
    Juro-t'o por mais que tudo isso: juro-t'o pelo meu amor!"

    "Bem está, rei de Portugal!–atalhou D. Leonor.–Agora só uma
    cousa me resta para te pedir. Não é favor; é justiça."

    "Não me peças Lisboa, que essa sabe Deus se tornará a ser minha,
    rica, povoada e feliz como eu a tornei, ou se repousarei ainda a
    cabeça nestes paços de meus antepassados, passando por cima das
    ruinas dela! Não me peças Lisboa, que talvez ámanhan deixe de
    me chamar seu rei: do resto de Portugal pede-me o que quizeres."

    "Quero que me dês as minhas arrhas: quero o preço do meu corpo,
    segundo foro de Hespanha."

    "Villa-viçosa é alegre como um horto de flores, e Villa-viçosa
    dar-t'a-hei eu. O casteilo d'Obidos é forte e roqueiro: são numerosos
    e prestes para a defesa os seus engenhos, e o castello d'Obidos
    será teu. Cintra pendura-se pela montanha entre lençoes d'aguas
    vivas, e respira o cheiro das hervas e flores que crescem á sombra
    das penedias: pódes ter por tua a Cintra. Alemquer é rica no
    meio de suas vinhas e pomares, e Alemquer te chamará senhora."

    "Guarda as tuas villas, D. Fernando, que eu não t'as peço em
    dote: quero apenas uma promessa de cousa de bem pouca valia."

    "De muita ou de pouca, não me importa! Dar-te-hei o que me pedires."

    D. Leonor estendeu a mão para a especie de portada romana, que
    se erguia solitaria no meio do terreiro deserto:

    "É alli que tu me darás o preço do meu corpo, se um dia a cerviz
    da orgulhosa Lisboa se curvar debaixo de teu jugo real."

    Elrei lançou um rapido volver d'olhos para onde Leonor Telles
    tinha o braço estendido, mas recuou horrorisado. O vulto que
    negrejava no meio do terreiro, era o patibulo popular e peão:
    era a forca, tétrica, temerosa, maldicta!

    "Leonor, Leonor!–disse elrei com um som de voz cavo e debil–porque
    vens tu misturar pensamentos de sangue com pensamentos d'amor?
    Porque interpões um instrumento de morte e de affronta entre mim
    e ti? Porque preferes o fructo do cadafalso ás villas e castellos
    de que te faço senhora? Porque trocas a estola do clerigo que
    ha-de unir-nos pelo baraço aspero do algoz?"

    "Rei de Portugal!–respondeu a mulher de João Lourenço da Cunha
    com um brado de furor–ainda me perguntas porque o faço? Tu nunca
    serás digno do sceptro de teu pae! Queres saber porque ajuncto
    pensamentos de sangue a pensamentos d'amor? É porque esses de
    quem eu o peço pediram tambem o meu sangue. Queres saber porque
    interponho entre mim e ti um instrumento de morte e d'affronta? É
    porque o teu bom povo de Lisboa quiz também interpôr entre nós a
    morte, e saciar-me de affrontas. Queres que te diga porque prefiro
    o fructo do cadafalso ás villas e castellos que me offereces?
    É porque para os animos generosos não ha vender vinganças por
    ouro. Vingança, rei de Portugal, te pede em dote a tua noiva!
    Jura-me que um dia os teus vassallos que me perseguem serão tambem
    perseguidos, e que essa vil plebe, que cobre de injurias e pragas
    o meu nome, porque te amo, o amaldiçoem, porque levo os seus
    caudilhos ao patibulo. Este é o preço do meu corpo. Sem esse
    preço a neta de D. Ordonho de Leão[2] nunca será mulher de D.
    Fernando de Portugal."

    E com um braço estendido para o logar sem nome[3] do supplicio,
    e com o outro curvado como quem affastava de si elrei, esta mulher
    vingativa era sublime de atrocidade.

    "Tens razão, Leonor:–disse por fim D. Fernando, depois de largo
    silencio, em que os affectos inconstantes do seu caracter voluvel
    mudaram gradualmente.–Tens razão. A futura rainha de Portugal
    terá o seu desaggravo: as linguas que te offenderam calar-se-hão
    para sempre: os corações que te desejaram a morte deixarão de
    bater. No meu throno, até aqui de mansidão e bondade, assentar-se-ha
    a crueza. Com Judas o traidor seja eu sepultado no inferno se
    faltar ao juramento que te faço de lavar em sangue a tua e a
    minha injuria."

    A estas palavras o aspecto severo de Leonor Telles mudou-se em
    um sorrir de inexplicavel doçura.

    "Oh, como te hei-de amar sempre!"–murmurou ella. E estas palavras
    cahiam de seus labios meigos e suaves como o arrulhar de pomba
    amorosa.

    Um beijo ardente, que sussurrou levado nas asas da brisa fresca
    da noite, assellou este pacto de odio e d'exterminio.

    [1] Isto era escrípto em 1844.

    [2] A familia de Leonor Telles suppunha-se descender
    de D. Ordonho II, rei de Leão.

    [3] Logar sem nome. Nós pelo menos não nos atrevemos a
    pôr-lh'o. Sabemos só que em tempos remotos a forca esteve perto
    da igreja de S. João da Praça, freguezia cuja existencia data
    pelo menos do tempo de D. Affonso III. (Mem. para as Inquir.
    Doc. 2.º) Talvez o terreiro ou praça em que ella estava désse o
    cognome á parochia. Desconfiâmos, todavia, de que este terreiro
    se estendesse para o lado oriental da sé, e que nesse caso o
    nome fosse Aljami. D. João I fez mercê em 1392 ao bispo de Lisboa
    D. Martinho (Chancel. de D. João I, L. 2.°) de uns pardieiros
    no chão d'Aljami, que partem com os paços do dito bispo, para
    fazer umas casas e torre. Os paços dos bispos ficavam para o
    lado oriental da sé. Além d'isso Aljami parece derivar-se do
    arabico aljamea, que significa o laço com que se amarram o pescoço
    e as mãos.

    Um bulhão e uma agulha d'alfaiate

    O sol, que havia mais de meia hora subíra do oriente cingido
    da sua aureola de vermelhidão, no meio da atmosphera turva e
    cinzenta de um dia dos fins de agosto, dava de chapa no rocío ou
    praça onde avultava o mosteiro de S. Domingos, rodeado de hortas
    e pomares, que verdejavam pelo valle da Mouraria ao oriente, e
    pelo de Valverde ao norte. Já muitos bésteiros e peões armados
    de ascumas se derramavam ao longo da parede dos paços de Lançarote
    Peçanha fronteiros ao mosteiro, descendo uns por entre as vinhas
    d'Almafalla[1], outros do arrabalde da Pedreira, ou bairro do
    almirante[2], outros da banda da alcaçova, outros, emfim,
    desembocando das ruas estreitas e irregulares que íam dar á opulenta
    e celebre rua-nova[3]. Homens e mulheres apinhavam-se aos dez e aos
    doze no meio da praça e ás bocas das ruas; falavam, meneavam-se,
    riam, cbamavam-se uns aos outros. Ás vezes aquella mó de gente,
    cujo vulto engrossava de minuto para minuto, agitava-se como
    a superficie de um pego passando o tufão. Incerta, vacillante,
    informe, subitamente se configurava, alinhava-se, e semelhante
    a triangulo enorme, a quadrella gigante desfechada de trom
    monstruoso, vibrava-se contra a vasta alpendrada do mosteiro,
    cujas portas ainda estavam fechadas. Ahi hesitava, ondeava e
    retrahia-se, como resultaria a folha cortadora de uma acha d'armas
    quando não podesse romper as portas chapeadas de forte castello.
    Então aquella multidão tomava a fórma de meia lua, cujas pontas
    se encurvavam pelos lados de Valverde e da Mouraria, e vinham
    topar uma com outra por baixo do bairro ladeirento da Pedreira,
    d'onde, confundindo-se e irradiando-se de novo, se espalhavam
    pela vastidão do terreiro. O povo, que dorme ás vezes por seculos,
    fòra accommettido d'uma das suas raras insomnias, e vivia essa
    possante vida da praça publica, em que de ordinario é ridiculo
    e feroz; mas em que não raro é sublime e terrivel.