Autor: Editor

  • Os Lusíadas

    Os Lusíadas

    Aproximadamente 56.628 palavras.

    Luís Vaz de Camões
    Os Lusíadas

    Canto Primeiro

    1
    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;

    2
    E também as memórias gloriosas
    Daqueles Reis, que foram dilatando
    A Fé, o Império, e as terras viciosas
    De África e de Ásia andaram devastando;
    E aqueles, que por obras valerosas
    Se vão da lei da morte libertando;
    Cantando espalharei por toda parte,
    Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

    3
    Cessem do sábio Grego e do Troiano
    As navegações grandes que fizeram;
    Cale-se de Alexandro e de Trajano
    A fama das vitórias que tiveram;
    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
    A quem Neptuno e Marte obedeceram:
    Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    4
    E vós, Tágides minhas, pois criado
    Tendes em mim um novo engenho ardente,
    Se sempre em verso humilde celebrado
    Foi de mim vosso rio alegremente,
    Dai-me agora um som alto e sublimado,
    Um estilo grandíloquo e corrente,
    Porque de vossas águas, Febo ordene
    Que não tenham inveja às de Hipoerene.

    5
    Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
    E não de agreste avena ou frauta ruda,
    Mas de tuba canora e belicosa,
    Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
    Dai-me igual canto aos feitos da famosa
    Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
    Que se espalhe e se cante no universo,
    Se tão sublime preço cabe em verso.

    6
    E vós, ó bem nascida segurança
    Da Lusitana antígua liberdade,
    E não menos certíssima esperança
    De aumento da pequena Cristandade;
    Vós, ó novo temor da Maura lança,
    Maravilha fatal da nossa idade,
    Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
    Para do mundo a Deus dar parte grande;

    7
    Vós, tenro e novo ramo florescente
    De uma árvore de Cristo mais amada
    Que nenhuma nascida no Ocidente,
    Cesárea ou Cristianíssima chamada;
    (Vede-o no vosso escudo, que presente
    Vos amostra a vitória já passada,
    Na qual vos deu por armas, e deixou
    As que Ele para si na Cruz tomou)

    8
    Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
    O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
    Vê-o também no meio do Hemisfério,
    E quando desce o deixa derradeiro;
    Vós, que esperamos jugo e vitupério
    Do torpe Ismaelita cavaleiro,
    Do Turco oriental, e do Gentio,
    Que inda bebe o licor do santo rio;

    9
    Inclinai por um pouco a majestade,
    Que nesse tenro gesto vos contemplo,
    Que já se mostra qual na inteira idade,
    Quando subindo ireis ao eterno templo;
    Os olhos da real benignidade
    Ponde no chão: vereis um novo exemplo
    De amor dos pátrios feitos valerosos,
    Em versos divulgado numerosos.

    10
    Vereis amor da pátria, não movido
    De prémio vil, mas alto e quase eterno:
    Que não é prémio vil ser conhecido
    Por um pregão do ninho meu paterno.
    Ouvi: vereis o nome engrandecido
    Daqueles de quem sois senhor superno,
    E julgareis qual é mais excelente,
    Se ser do mundo Rei, se de til gente.

    11
    Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
    Fantásticas, fingidas, mentirosas,
    Louvar os vossos, como nas estranhas
    Musas, de engrandecer-se desejosas:
    As verdadeiras vossas são tamanhas,
    Que excedem as sonhadas, fabulosas;
    Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
    E Orlando, inda que fora verdadeiro,

    12
    Por estes vos darei um Nuno fero,
    Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
    Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
    A cítara para eles só cobiço.
    Pois pelos doze Pares dar-vos quero
    Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
    Dou-vos também aquele ilustre Gama,
    Que para si de Eneias toma a fama.

    13
    Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
    Ou de César, quereis igual memória,
    Vede o primeiro Afonso, cuja lança
    Escura faz qualquer estranha glória;
    E aquele que a seu Reino a segurança
    Deixou com a grande e próspera vitória;
    Outro Joane, invicto cavaleiro,
    O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

    14
    Nem deixarão meus versos esquecidos
    Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
    Fizeram, só por armas tão subidos,
    Vossa bandeira sempre vencedora:
    Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
    Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
    Albuquerque terríbil, Castro forte,
    E outros em quem poder não teve a morte.

    15
    E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
    Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
    Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
    Dareis matéria a nunca ouvido canto.
    Comecem a sentir o peso grosso
    (Que pelo mundo todo faça espanto)
    De exércitos e feitos singulares,
    De África as terras, e do Oriente os marços,

    16
    Em vós os olhos tem o Mouro frio,
    Em quem vê seu exício afigurado;
    Só com vos ver o bárbaro Gentio
    Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
    Tethys todo o cerúleo senhorio
    Tem para vós por dote aparelhado;
    Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
    Deseja de comprar-vos para genro.

    17
    Em vós se vêm da olímpica morada
    Dos dois avós as almas cá famosas,
    Uma na paz angélica dourada,
    Outra pelas batalhas sanguinosas;
    Em vós esperam ver-se renovada
    Sua memória e obras valerosas;
    E lá vos tem lugar, no fim da idade,
    No templo da suprema Eternidade.

    18
    Mas enquanto este tempo passa lento
    De regerdes os povos, que o desejam,
    Dai vós favor ao novo atrevimento,
    Para que estes meus versos vossos sejam;
    E vereis ir cortando o salso argento
    Os vossos Argonautas, por que vejam
    Que são vistos de vós no mar irado,
    E costumai-vos já a ser invocado.

    19
    Já no largo Oceano navegavam,
    As inquietas ondas apartando;
    Os ventos brandamente respiravam,
    Das naus as velas côncavas inchando;
    Da branca escuma os mares se mostravam
    Cobertos, onde as proas vão cortando
    As marítimas águas consagradas,
    Que do gado de Próteo são cortadas

    20
    Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
    Onde o governo está da humana gente,
    Se ajuntam em concílio glorioso
    Sobre as cousas futuras do Oriente.
    Pisando o cristalino Céu formoso,
    Vêm pela Via-Láctea juntamente,
    Convocados da parte do Tonante,
    Pelo neto gentil do velho Atlante.

    21
    Deixam dos sete Céus o regimento,
    Que do poder mais alto lhe foi dado,
    Alto poder, que só co'o pensamento
    Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
    Ali se acharam juntos num momento
    Os que habitam o Arcturo congelado,
    E os que o Austro tem, e as partes onde
    A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

    22
    Estava o Padre ali sublime e dino,
    Que vibra os feros raios de Vulcano,
    Num assento de estrelas cristalino,
    Com gesto alto, severo e soberano.
    Do rosto respirava um ar divino,
    Que divino tornara um corpo humano;
    Com uma coroa e ceptro rutilante,
    De outra pedra mais clara que diamante.

    23
    Em luzentes assentos, marchetados
    De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
    Os outros Deuses todos assentados,
    Como a razão e a ordem concertavam:
    Precedem os antíguos mais honrados;
    Mais abaixo os menores se assentavam;
    Quando Júpiter alto, assim dizendo,
    C'um tom de voz começa, grave e horrendo:

    24
    "Eternos moradores do luzente
    Estelífero pólo, e claro assento,
    Se do grande valor da forte gente
    De Luso não perdeis o pensamento,
    Deveis de ter sabido claramente,
    Como é dos fados grandes certo intento,
    Que por ela se esqueçam os humanos
    De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

    25
    "Já lhe foi (bem o vistes) concedido
    C'um poder tão singelo e tão pequeno,
    Tomar ao Mouro forte e guarnecido
    Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
    Pois contra o Castelhano tão temido,
    Sempre alcançou favor do Céu sereno.
    Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
    Teve os troféus pendentes da vitória.

    26
    "Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
    Que coa gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com Viriato, na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram;
    Também deixo a memória, que os obriga
    A grande nome, quando alevantaram
    Um por seu capitão, que peregrino
    Fingiu na cerva espírito divino.

    27
    "Agora vedes bem que, cometendo
    O duvidoso mar num lenho leve,
    Por vias nunca usadas, não temendo
    De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
    Que havendo tanto já que as partes vendo
    Onde o dia é comprido e onde breve,
    Inclinam seu propósito e porfia
    A ver os berços onde nasce o dia.

    28
    "Prometido lhe está do Fado eterno,
    Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
    Que tenham longos tempos o governo
    Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
    Nas águas têm passado o duro inverno;
    A gente vem perdida e trabalhada;
    Já parece bem feito que lhe seja
    Mostrada a nova terra, que deseja.

    29
    "E porque, como vistes, têm passados
    Na viagem tão ásperos perigos,
    Tantos climas e céus experimentados,
    Tanto furor de ventos inimigos,
    Que sejam, determino, agasalhados
    Nesta costa africana, como amigos.
    E tendo guarnecida a lassa frota,
    Tornarão a seguir sua longa rota."

    30
    Estas palavras Júpiter dizia,
    Quando os Deuses por ordem respondendo,
    Na sentença um do outro diferia,
    Razões diversas dando e recebendo.
    O padre Baco ali não consentia
    No que Júpiter disse, conhecendo
    Que esquecerão seus feitos no Oriente,
    Se lá passar a Lusitana gente.

    31
    Ouvido tinha aos Fados que viria
    Uma gente fortíssima de Espanha
    Pelo mar alto, a qual sujeitaria
    Da índia tudo quanto Dóris banha,
    E com novas vitórias venceria
    A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
    Altamente lhe dói perder a glória,
    De que Nisa celebra inda a memória.

    32
    Vê que já teve o Indo sojugado,
    E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
    Por vencedor da Índia ser cantado
    De quantos bebem a água de Parnaso.
    Teme agora que seja sepultado
    Seu tão célebre nome em negro vaso
    D'água do esquecimento, se lá chegam
    Os fortes Portugueses, que navegam.

    33
    Sustentava contra ele Vénus bela,
    Afeiçoada à gente Lusitana,
    Por quantas qualidades via nela
    Da antiga tão amada sua Romana;
    Nos fortes corações, na grande estrela,
    Que mostraram na terra Tingitana,
    E na língua, na qual quando imagina,
    Com pouca corrupção crê que é a Latina.

    34
    Estas causas moviam Citereia,
    E mais, porque das Parcas claro entende
    Que há de ser celebrada a clara Deia,
    Onde a gente belígera se estende.
    Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
    E o outro pelas honras, que pretende,
    Debatem, e na porfia permanecem;
    A qualquer seus amigos favorecem.

    35
    Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
    De silvestre arvoredo abastecida,
    Rompendo os ramos vão da mata escura,
    Com ímpeto e braveza desmedida;
    Brama toda a montanha, o som murmura,
    Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
    Tal andava o tumulto levantado,
    Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

    36
    Mas Marte, que da Deusa sustentava
    Entre todos as partes em porfia,
    Ou porque o amor antigo o obrigava,
    Ou porque a gente forte o merecia,
    De entre os Deuses em pé se levantava:
    Merencório no gesto parecia;
    O forte escudo ao colo pendurado
    Deitando para trás, medonho e irado,

    37
    A viseira do elmo de diamante
    Alevantando um pouco, mui seguro,
    Por dar seu parecer, se pôs diante
    De Júpiter, armado, forte e duro:
    E dando uma pancada penetrante,
    Com o conto do bastão no sólio puro,
    O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
    Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

    38
    E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
    Tudo aquilo obedece, que criaste,
    Se esta gente, que busca outro hemisfério,
    Cuja valia, e obras tanto amaste,
    Não queres que padeçam vitupério,
    Como há já tanto tempo que ordenaste,
    Não onças mais, pois és juiz direito,
    Razões de quem parece que é suspeito.

    39
    "Que, se aqui a razão se não mostrasse
    Vencida do temor demasiado,
    Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
    Pois que de Luso vem, seu tão privado;
    Mas esta tenção sua agora passe,
    Porque enfim vem de estâmago danado;
    Que nunca tirará alheia inveja
    O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

    40
    "E tu, Padre de grande fortaleza,
    Da determinação, que tens tomada,
    Não tornes por detrás, pois é fraqueza
    Desistir-se da cousa começada.
    Mercúrio, pois excede em ligeireza
    Ao vento leve, e à seta bem talhada,
    Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
    Da índia, e onde a gente se reforme."

    41
    Como isto disse, o Padre poderoso,
    A cabeça inclinando, consentiu
    No que disse Mavorte valeroso,
    E néctar sobre todos esparziu.
    Pelo caminho Lácteo glorioso
    Logo cada um dos Deuses se partiu,
    Fazendo seus reais acatamentos,
    Para os determinados aposentos.

    42
    Enquanto isto se passa na formosa
    Casa etérea do Olimpo onipotente,
    Cortava o mar a gente belicosa,
    Já lá da banda do Austro e do Oriente,
    Entre a costa Etiópica e a famosa
    Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
    Queimava então os Deuses, que Tifeu
    Com o temor grande em peixes converteu.

    43
    Tão brandamente os ventos os levavam,
    Como quem o céu tinha por amigo:
    Sereno o ar, e os tempos se mostravam
    Sem nuvens, sem receio de perigo.
    O promontório Prasso já passavam,
    Na costa de Etiópia, nome antigo,
    Quando o mar descobrindo lhe mostrava
    Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

    44
    Vasco da Gama, o forte capitão,
    Que a tamanhas empresas se oferece,
    De soberbo e de altivo coração,
    A quem Fortuna sempre favorece,
    Para se aqui deter não vê razão,
    Que inabitada a terra lhe parece:
    Por diante passar determinava;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava.

    45
    Eis aparecem logo em companhia
    Uns pequenos batéis, que vêm daquela
    Que mais chegada à terra parecia,
    Cortando o longo mar com larga vela.
    A gente se alvoroça, e de alegria
    Não sabe mais que olhar a causa dela.
    Que gente será esta, em si diziam,
    Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

    46
    As embarcações eram, na maneira,
    Mui veloces, estreitas e compridas:
    As velas, com que, vêm, eram de esteira
    Dumas folhas de palma, bem tecidas;
    A gente da cor era verdadeira,
    Que Faeton, nas terras acendidas,
    Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
    O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

    47
    De panos de algodão vinham vestidos,
    De várias cores, brancos e listrados:
    Uns trazem derredor de si cingidos,
    Outros em modo airoso sobraçados:
    Da cinta para cima vêm despidos;
    Por armas têm adargas o terçados;
    Com toucas na cabeça; e navegando,
    Anafis sonoros vão tocando.

    48
    Co'os panos e co'os braços acenavam
    As gentes Lusitanas, que esperassem;
    Mas já as proas ligeiras se inclinavam
    Para que junto às ilhas amainassem.
    A gente e marinheiros trabalhavam,
    Como se aqui os trabalhos se acabassem;
    Tomam velas; amaina-se a verga alta;
    Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

    49
    Não eram ancorados, quando a gente
    Estranha pelas cordas já subia.
    No gesto ledos vêm, e humanamente
    O Capitão sublime os recebia:
    As mesas manda pôr em continente;
    Do licor que Lieo prantado havia
    Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
    Os de Faeton queimados nada enjeitam.

    50
    Comendo alegremente perguntavam,
    Pela Arábica língua, donde vinham,
    Quem eram, de que terra, que buscavam,
    Ou que partes do mar corrido tinham?
    Os fortes Lusitanos lhe tornavam
    As discretas respostas, que convinham:
    "Os Portugueses somos do Ocidente,
    Imos buscando as terras do Oriente.

    51
    "Do mar temos corrido e navegado
    Toda a parte do Antártico e Calisto,
    Toda a costa Africana rodeado,
    Diversos céus e terras temos visto;
    Dum Rei potente somos, tão amado,
    Tão querido de todos, e benquisto,
    Que não no largo mar, com leda fronte,
    Mas no lago entraremos de Aqueronte.

    52
    "E por mandado seu, buscando andamos
    A terra Oriental que o Indo rega;
    Por ele, o mar remoto navegamos,
    Que só dos feios focas se navega.
    Mas já razão parece que saibamos,
    Se entre vós a verdade não se nega,
    Quem sois, que terra é esta que habitais,
    Ou se tendes da Índia alguns sinais?"

    53
    "Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
    Estrangeiros na terra, Lei e nação;
    Que os próprios são aqueles, que criou
    A natura sem Lei e sem razão.
    Nós temos a Lei certa, que ensinou
    O claro descendente de Abraão
    Que agora tem do mundo o senhorio,
    A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
    Informações. A Ilha de Moçambique.

    54
    "Esta ilha pequena, que habitamos,
    em toda esta terra certa escala
    De todos os que as ondas navegamos
    De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
    E, por ser necessária, procuramos,
    Como próprios da terra, de habitá-la;
    E por que tudo enfim vos notifique,
    Chama-se a pequena ilha Moçambique.

    55
    "E já que de tão longe navegais,
    Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
    Piloto aqui tereis, por quem sejais
    Guiados pelas ondas sabiamente.
    Também será bem feito que tenhais
    Da terra algum refresco, e que o Regente
    Que esta terra governa, que vos veja,
    E do mais necessário vos proveja."

    56
    Isto dizendo, o Mouro se tornou
    A seus batéis com toda a companhia;
    Do Capitão e gente se apartou
    Com mostras de devida cortesia.
    Nisto Febo nas águas encerrou,
    Co'o carro de cristal, o claro dia,
    Dando cargo à irmã, que alumiasse
    O largo mundo, enquanto repousasse.

    57
    A noite se passou na lassa frota
    Com estranha alegria, e não cuidada,
    Por acharem da terra tão remota
    Nova de tanto tempo desejada.
    Qualquer então consigo cuida e nota
    Na gente e na maneira desusada,
    E como os que na errada Seita creram,
    Tanto por todo o mundo se estenderam,

    58
    Da Lua os claros raios rutilavam
    Pelas argênteas ondas Neptuninas,
    As estrelas os Céus acompanhavam,
    Qual campo revestido de boninas;
    Os furiosos ventos repousavam
    Pelas covas escuras peregrinas;
    Porém da armada a gente vigiava,
    Como por longo tempo costumava.

    59
    Mas assim como a Aurora marchetada
    Os formosos cabelos espalhou
    No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
    Ao claro Hiperiónio, que acordou,
    Começa a embandeirar-se toda a armada,
    E de toldos alegres se adornou,
    Por receber com festas e alegria
    O Regedor das ilhas, que partia.

    60
    Partia alegremente navegando,
    A ver as naus ligeiras Lusitanas,
    Com refresco da terra, em si cuidando
    Que são aquelas gentes inumanas,
    Que, os aposentos cáspios habitando,
    A conquistar as terras Asianas
    Vieram; e por ordem do Destino,
    O Império tomaram a Constantino.

    61
    Recebe o Capitão alegremente
    O Mouro, e toda a sua companhia;
    Dá-lhe de ricas peças um presente,
    Que só para este efeito já trazia;
    Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
    Não usado licor, que dá alegria.
    Tudo o Mouro contente bem recebe;
    E muito mais contente come e bebe.

    62
    Está a gente marítima de Luso
    Subida pela enxárcia, de admirada,
    Notando o estrangeiro modo e uso,
    E a linguagem tão bárbara e enleada.
    Também o Mouro astuto está confuso,
    Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
    E perguntando tudo, lhe dizia
    "Se por ventura vinham de Turquia?"

    63
    E mais lhe diz também, que ver deseja
    Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
    Para ver se conforme à sua seja,
    Ou se são dos de Cristo, como Crê.
    E porque tudo note e tudo veja,
    Ao Capitão pedia que lhe dê
    Mostra das fortes armas de que usavam,
    Quando co'os inimigos pelejavam.

    64
    Responde o valeroso Capitão
    Por um, que a língua escura bem sabia:
    "Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
    De mim, da Lei, das armas que trazia.
    Nem sou da terra, nem da geração
    Das gentes enojosas de Turquia:
    Mas sou da forte Europa belicosa,
    Busco as terras da índia tão famosa.

    65
    A lei tenho daquele, a cujo império
    Obedece o visíbil e ínvisíbil
    Aquele que criou todo o Hemisfério,
    Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
    Que padeceu desonra e vitupério,
    Sofrendo morte injusta e insofríbil,
    E que do Céu à Terra, enfim desceu,
    Por subir os mortais da Terra ao Céu.

    66
    Deste Deus-Homem, alto e infinito,
    Os livros, que tu pedes não trazia,
    Que bem posso escusar trazer escrito
    Em papel o que na alma andar devia.
    Se as armas queres ver, como tens dito,
    Cumprido esse desejo te seria;
    Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
    Que nunca as queiras ver como inimigo."

    67
    Isto dizendo, manda os diligentes
    Ministros amostrar as armaduras:
    Vêm arneses, e peitos reluzentes,
    Malhas finas, e lâminas seguras,
    Escudos de pinturas diferentes,
    Pelouros, espingardas de aço puras,
    Arcos, e sagitíferas aljavas,
    Partazanas agudas, chuças bravas:

    68
    As bombas vêm de fogo, e juntamente
    As panelas sulfúreas, tão danosas;
    Porém aos de Vulcano não consente
    Que dêem fogo às bombardas temerosas;
    Porque o generoso ânimo e valente,
    Entre gentes tão poucas e medrosas,
    Não mostra quanto pode, e com razão,
    Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

    69
    Porém disto, que o Mouro aqui notou,
    E de tudo o que viu com olho atento
    Um ódio certo na alma lhe ficou,
    Uma vontade má de pensamento.
    Nas mostras e no gesto o não mostrou;
    Mas com risonho e ledo fingimento
    Tratá-los brandamente determina,
    Até que mostrar possa o que imagina.

    70
    Pilotos lhe pedia o Capitão,
    Por quem pudesse à Índia ser levado;
    Diz-lhe que o largo prémio levarão
    Do trabalho que nisso for tomado.
    Promete-lhos o Mouro, com tenção
    De peito venenoso, e tão danado,
    Que a morte, se pudesse, neste dia,
    Em lugar de pilotos lhe daria.

    71
    Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
    Que aos estrangeiros súbito tomou,
    Sabendo ser sequazes da verdade,
    Que o Filho de David nos ensinou.
    ó segredos daquela Eternidade,
    A quem juízo algum nunca alcançou!
    Que nunca falte um pérfido inimigo
    Aqueles de quem foste tanto amigo!

    72
    Partiu-se Disto enfim coa companhia,
    Das naus o falso Mouro despedido,
    Com enganosa e grande cortesia,
    Com gesto ledo a todos, e fingido.
    Cortaram os batéis a curta via
    Das águas de Neptuno, e recebido
    Na terra do obsequente ajuntamento
    Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

    73
    Do claro assento etóreo o grão Tebano,
    Que da paternal coxa foi nascido,
    Olhando o ajuntamento Lusitano
    Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
    No pensamento cuida um falso engano,
    Com que seja de todo destruído.
    E enquanto isto só na alma imaginava,
    Consigo estas palavras praticava:

    74
    "Está do fado já determinado,
    Que tamanhas vitórias, tão famosas,
    Hajam os Portugueses alcançado
    Das Indianas gentes belicosas.
    E eu só, filho do Padre sublimado,
    Com tantas qualidades generosas,
    Hei de sofrer que o fado favoreça
    Outrem, por quem meu nome se escureça?

    75
    "Já quiseram os Deuses que tivesse
    O filho de Filipo nesta parte
    Tanto poder, que tudo submetesse
    Debaixo de seu jugo o fero Marte.
    Mas há-se de sofrer que o fado desse
    A tão poucos tamanho esforço e arte,
    Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
    Demos lugar ao nome Lusitano?

    76
    "Não será assim, porque antes que chegado
    Seja este Capitão, astutamente
    Lhe será tanto engano fabricados
    Que nunca veja as partes do Oriente.
    Eu descerei à Terra, e o indignado
    Peito revolverei da Maura gente;
    Porque sempre por via irá direita
    Quem do oportuno tempo se aproveita."

    77
    Isto dizendo, irado e quase insano,
    Sobre a terra africana descendeu,
    Onde vestindo a forma e gesto humano,
    Para o Prasso sabido se moveu.
    E por melhor tecer o astuto engano,
    No gesto natural se converteu
    Dum Mouro, em Moçambique conhecido
    Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.

    78
    E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
    A sua falsidade acomodadas,
    Lhe diz como eram gentes roubadoras,
    Estas que ora de novo são chegadas;
    Que das nações na costa moradoras
    Correndo a fama veio que roubadas
    Foram por estes homens que passavam,
    Que com pactos de paz sempre ancoravam.

    79
    E sabe mais, lhe diz, como entendido
    Tenho destes cristãos sanguinolentos,
    Que quase todo o mar têm destruído
    Com roubos, com incêndios violentos;
    E trazem já de longe engano urdido
    Contra nós; e que todos seus intentos
    São para nos matarem e roubarem,
    E mulheres e filhos cativarem.

    80
    "E também sei que tem determinado
    De vir por água a terra muito cedo
    O Capitão dos seus acompanhado,
    Que da tensão danada nasce o medo.
    Tu deves de ir também co'os teus armado
    Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
    Porque, saindo a gente descuidada,
    Cairão facilmente na cilada.

    81
    "E se inda não ficarem deste jeito
    Destruídos, ou mortos totalmente
    Eu tenho imaginado no conceito
    Outra manha e ardil, que te contente:
    Manda-lhe dar piloto, que de jeito
    Seja astuto no engano, e tão prudente,
    Que os leve aonde sejam destruídos,
    Desbaratados, mortos, ou perdidos."

    82
    Tanto que estas palavras acabou,
    O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
    Os braços pelo colo lhe lançou,
    Agradecendo muito o tal conselho;
    E logo nesse instante concertou
    Para a guerra o belígero aparelho,
    Para que ao Português se lhe tornasse
    Em roxo sangue a água, que buscasse.

    83
    E busca mais, para o cuidado engano,
    Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
    Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
    De quem fiar-se possa um feito grande.
    Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
    Por tais costas e mares com ele ande,
    Que, se daqui escapar, que lá diante
    Vá cair onde nunca se alevante.

    84
    Já o raio Apolíneo visitava
    Os montes Nabatêos acendido,
    Quando o Gama, colos seus determinava
    De vir por água a terra apercebido.
    A gente nos batéis se concertava,
    Como se fosse o engano já sabido:
    Mas pode suspeitar-se facilmente,
    Que o coração pressago nunca mente.

    85
    E mais também mandado tinha a terra,
    De antes, pelo piloto necessário,
    E foi-lhe respondido em som de guerra,
    Caso do que cuidava mui contrário;
    Por isto, e porque sabe quanto erra
    Quem se crê de seu pérfido adversário,
    Apercebido vai como podia,
    Em três batéis somente que trazia.

    86
    Mas os Mouros que andavam pela praia,
    Por lhe defender a água desejada,
    Um de escudo embraçado e de azagaia,
    Outro de arco encurvado e seta ervada,
    Esperam que a guerreira gente saia,
    Outros muitos já postos em cilada.
    E, porque o caso leve se lhe faça,
    Põem uns poucos diante por negaça,

    87
    Andam pela ribeira alva, arenosa,
    Os belicosos Mouros acenando
    Com a adarga e co'a hástia perigosa,
    Os fortes Portugueses incitando.
    Não sofre muito a gente generosa
    Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
    Qualquer em terra salta tão ligeiro,
    Que nenhum dizer pode que é primeiro.

    88
    Qual no corro sanguino o ledo amante,
    Vendo a formosa dama desejada,
    O touro busca, e pondo-se diante,
    Salta, corre, sibila, acena, e brada,
    Mas o animal atroce, nesse instante,
    Com a fronte cornígera inclinada,
    Bramando duro corre, e os olhos cerra,
    Derriba, fere e mata, e põe por terra:

    89
    Eis nos batéis o fogo se levanta
    Na furiosa e dura artilharia,
    A plúmbea péla mata, o brado espanta,
    Ferido o ar retumba e assovia:
    O coração dos Mouros se quebranta,
    O temor grande o sangue lhe resfria.
    Já foge o escondido de medroso,
    E morre o descoberto aventuroso.

    90
    Não se contenta a gente Portuguesa,
    Mas seguindo a vitória estrui e mata;
    A povoação, sem muro e sem defesa,
    Esbombardeia, acende e desbarata.
    Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
    Que bem cuidou comprá-la mais barata;
    Já blasfema da guerra, e maldizia,
    O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

    91
    Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
    Sem força, de covarde e de apressado,
    A pedra, o pau, e o canto arremessando;
    Dá-lhe armas o furor desatinado.
    Já a ilha e todo o mais desemparando,
    A terra firme foge amedrontado;
    Passa e corta do mar o estreito braço,
    Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

    92
    Uns vão nas almadias carregadas,
    Um corta o mar a nado diligente,
    Quem se afoga nas ondas encurvadas,
    Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
    Arrombam as miúdas bombardadas
    Os pangaios subtis da bruta gente:
    Desta arte o Português enfim castiga
    A vil malícia, pérfida, inimiga.

    93
    Tornam vitoriosos para a armada,
    Co'o despojo da guerra e rica presa,
    E vão a seu prazer fazer aguada,
    Sem achar resistência, nem defesa.
    Ficava a Maura gente magoada,
    No ódio antigo mais que nunca acesa;
    E vendo sem vingança tanto dano,
    Somente estriba no segundo engano.

    94
    Pazes cometer manda arrependido
    O Regedor daquela iníqua terra,
    Sem ser dos Lusitanos entendido,
    Que em figura de paz lhe manda guerra;
    Porque o piloto falso prometido,
    Que toda a má tenção no peito encerra,
    Para os guiar à morte lhe mandava,
    Como em sinal das pazes que tratava.

    95
    O Capitão, que já lhe então convinha
    Tornar a seu caminho acostumado,
    Que tempo concertado e ventos tinha
    Para ir buscar o Indo desejado,
    Recebendo o piloto, que lhe vinha,
    Foi dele alegremente agasalhado;
    E respondendo ao mensageiro a tento,
    As velas manda dar ao largo vento.

    96
    Desta arte despedida a forte armada,
    As ondas de Anfitrite dividia,
    Das filhas de Nereu acompanhada,
    Fiel, alegre e doce companhia.
    O Capitão, que não caía em nada
    Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
    Dele mui largamente se informava
    Da Índia toda, e costas que passava.

    97
    Mas o Mouro, instruído nos enganos
    Que o malévolo Baco lhe ensinara,
    De morte ou cativeiro novos danos,
    Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
    Dando razões dos portos Indianos,
    Também tudo o que pede lhe declara,
    Que, havendo por verdade o que dizia,
    De nada a forte gente se temia.

    98
    E diz-lhe mais, com o falso pensamento
    Com que Sinon os Frígios enganou:
    Que perto está uma ilha, cujo assento
    Povo antigo cristão sempre habitou.
    O Capitão, que a tudo estava a tento,
    Tanto com estas novas se alegrou,
    Que com dádivas grandes lhe rogava,
    Que o leve à terra onde esta gente estava.

    99
    O mesmo o falso Mouro determina,
    Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
    Que a ilha é possuída da malina
    Gente que segue o torpe Mahamede.
    Aqui o engano e morte lhe imagina,
    Porque em poder e forças muito excede
    A Moçambique esta ilha, que se chama
    Quíloa, mui conhecida pela fama.

    100
    Para lá se inclinava a leda frota;
    Mas a Deusa em Citere celebrada,
    Vendo como deixava a certa rota
    Por ir buscar a morte não cuidada,
    Não consente que em terra tão remota
    Se perca a gente dela tanto amada.
    E com ventos contrários a desvia
    Donde o piloto falso a leva e guia.

    101
    Mas o malvado Mouro, não podendo
    Tal determinação levar avante,
    Outra maldade iníqua cometendo,
    Ainda em seu propósito constante,
    Lhe diz que, pois as águas discorrendo
    Os levaram por força por diante,
    Que outra ilha tem perto, cuja gente
    Eram Cristãos com Mouros juntamente.

    102
    Também nestas palavras lhe mentia,
    Como por regimento enfim levava,
    Que aqui gente de Cristo não havia,
    Mas a que a Mahamede celebrava.
    O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
    Virando as velas, a ilha demandava;
    Mas, não querendo a Deusa guardadora,
    Não entra pela barra, e surge fora.

    103
    Estava a ilha à terra tão chegada,
    Que um estreito pequeno a dividia;
    Uma cidade nela situada,
    Que na fronte do mar aparecia,
    De nobres edifícios fabricada,
    Como por fora ao longe descobria,
    Regida por um Rei de antiga idade:
    Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

    104
    E sendo a ela o Capitão chegado,
    Estranhamente ledo, porque espera
    De poder ver o povo batizado,
    Como o falso piloto lhe dissera,
    Eis vêm batéis da terra com recado
    Do Rei, que já sabia a gente que era:
    Que Baco muito de antes o avisara,
    Na forma doutro Mouro, que tomara.

    105
    O recado que trazem é de amigos,
    Mas debaixo o veneno vem coberto;
    Que os pensamentos eram de inimigos,
    Segundo foi o engano descoberto.
    Ó grandes e gravíssimos perigos!
    Ó caminho de vida nunca certo:
    Que aonde a gente põe sua esperança,
    Tenha a vida tão pouca segurança!

    106
    No mar tanta tormenta, e tanto dano,
    Tantas vezes a morte apercebida!
    Na terra tanta guerra, tanto engano,
    Tanta necessidade avorrecida!
    Onde pode acolher-se um fraco humano,
    Onde terá segura a curta vida,
    Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
    Contra um bicho da terra tão pequeno?

    Canto Segundo

    1
    Já neste tempo o lúcido Planeta,
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo,
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    As naus, que pouco havia que ancoraram.

    2
    Dentre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assim dizia:
    "Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria,
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te, e do necessário reformar-te.

    3
    "E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada:
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.

    4
    "E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria,
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo."

    5
    Ao mensageiro o Capitão responde
    As palavras do Rei agradecendo:
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra para dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.

    6
    Pergunta-lhe depois, se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.

    7
    E de alguns que trazia condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

    8
    E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade, que mostrava,
    Tenha firme, segura, limpa e branda;
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos,
    Os dous da frota em terra recebidos.

    9
    E depois que ao Rei apresentaram,
    Co'o recado, os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaras
    De lhes mostrarem tudo o que pediam:
    Que onde reina a malícia, está o receio,
    Que a faz imaginar no peito alheio.

    10
    Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava numa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso, que adorava.

    11
    Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura:
    A cândida pombinha debuxada
    Sobre a única Fénix, Virgem pura;
    A companhia santa está pintada
    Dos doze, tão torvados na figura,
    Como os que, só das línguas que caíram,
    De fogo, várias línguas referiram.

    12
    Aqui os dous companheiros conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assim por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.

    13
    Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento,
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas assim como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido horizonte
    Da moça de Titão a roxa fronte,

    14
    Tornam da terra os Mouros co'o recado
    Do Rei, para que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo,
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.

    15
    Dizem-lhe os que mandou, que em terra
    Sacras aras e sacerdote sinto; viram
    Que ali se agasalharam o dormiram,
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto,
    Que não podia certo haver suspeita
    Numa mostra tão clara e tão perfeita.

    16
    Com isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam;
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras, que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos, porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.

    17
    Na terra, cautamente aparelhavam
    Armas e munições que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E, nesta treição determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que incautos pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.

    18
    As âncoras tenaces vão levando
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando
    Inclinam para a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande, e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como uma seta.

    19
    Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia.
    E propondo-lhe a causa a que desceu,
    Com todas juntamente se partia,
    Para estorvar que a armada não chegasse
    Aonde para sempre se acabasse.

    20
    Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto eo'o peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma.
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa, em força suma.
    Abrem caminho as ondas encurvadas
    De temor das Nereidas apressadas.

    21
    Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão formosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.

    22
    Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito,
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Para detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam,
    E da barra inimiga a desviavam.

    23
    Quais para a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado,
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    A gente Portuguesa o fim nefando.

    24
    Torna para detrás a nau forçada,
    Apesar dos que leva, que gritando
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

    25
    A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
    Cuidam que seus enganos são sabidos,
    E que hão de ser por isso aqui punidos.

    26
    Ei-los subitamente se lançavam
    A seus batéis velozes que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam,
    Saltando n'água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.

    27
    Assim como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem por ventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando, o charco soa,
    Por fugir do perigo que se sente,
    E acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:

    28
    Assim fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.

    29
    Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos, ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assim dizia:

    30
    "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo sabiamente,
    Se lá de cima a Guarda soberana
    Não acudir à fraca força humana?

    31
    "Bem nos mostra a divina Providência
    Destes portos a pouca segurança;
    Bem claro temos visto na aparência,
    Que era enganada a nossa confiança.
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!

    32
    "E se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos."

    33
    Ouviu-lhe essas palavras piedosas
    A formosa Dione, e comovida,
    Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Para onde estava o Padre, se moveu.

    34
    E como ia afrontada do caminho,
    Tão formosa no gesto se mostrava,
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
    E tudo quanto a via namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a esfera fria.

    35
    E por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
    Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
    Na selva Idea, já se apresentara.
    Se a vira o caçador, que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.

    36
    Os crespos fios d'ouro se esparziam
    Pelo colo, que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava, e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Menino as almas acendia;
    Pelas lisas colunas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.

    37
    C'um delgado sendal as partes cobre,
    De quem vergonha é natural reparo,
    Porém nem tudo esconde, nem descobre,
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, para que o desejo acenda o dobre,
    Lhe põe diante aquele objeto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

    38
    E mostrando no angélico semblante
    Co'o riso uma tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
    E se torna entre alegre magoada,
    Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:

    39
    "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, para as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrário lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
    Sem que to merecesse, nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei enfim que fui mofina.

    40
    "Este povo que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo!
    Por ele a ti rogando choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado,
    Quero-lhe querer mal, será guardado.

    41
    "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui…" E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Se lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

    42
    E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa, e acendido
    Na face a beija, e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.

    43
    E co'o seu apertando o rosto amado,
    Que os soluços e lágrimas aumenta,
    Como menino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:

    44
    "Formosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais,
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente.

    45
    "Que se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo;
    E se o piedoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.

    46
    "Fortalezas, cidades e altos muros,
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros,
    Deles sempre vereis desbaratados.
    Os Reis da índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados;
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis melhores.

    47
    "Vereis este, que agora pressuroso
    Por tantos medos o Indo vai buscando,
    Tremer dele Neptuno, de medroso
    Sem vento suas águas encrespando.
    Ó caso nunca visto e milagroso,
    Que trema e ferva o mar, em calma estando!
    Ó gente forte e de altos pensamentos,
    Que também dela hão medo os Elementos!

    48
    "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
    Que inda há-de ser um porto mui decente,
    Em que vão descansar da longa via
    As naus que navegarem do Ocidente.
    Toda esta costa enfim, que agora urdia
    O mortífero engano, obediente
    Lhe pagará tributos, conhecendo
    Não poder resistir ao Luso horrendo.

    49
    "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
    Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
    Vereis de Ormuz o Reino poderoso
    Duas vezes tomado e sojugado.
    Ali vereis o Mouro furioso
    De suas mesmas setas traspassado:
    Que quem vai contra os vossos, claro veja
    Que, se resiste, contra si peleja.

    50
    "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
    Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
    Ali se mostrará seu preço e sorte,
    Feitos de armas grandíssimos fazendo.
    Invejoso vereis o grão Mavorte
    Do peito Lusitano fero e horrendo:
    Do Mouro ali verão que a voz extrema
    Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

    51
    "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
    A qual virá depois a ser senhora
    De todo o Oriente, e sublimada
    Co'os triunfos da gente vencedora.
    Ali soberba, altiva, e exalçada,
    Ao Gentio, que os ídolos adora,
    Duro freio porá, e a toda a terra
    Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

    52
    "Vereis a fortaleza sustentar-se
    De Cananor, com pouca força e gente;
    E vereis Calecu desbaratar-se,
    Cidade populosa e tão potente:
    E vereis em Cochim assinalar-se
    Tanto um peito soberbo e insolente,
    Que cítara jamais cantou vitória,
    Que assim mereça eterno nome e glória.

    53
    "Nunca com Marte instructo e furioso,
    Se viu ferver Leucate, quando Augusto
    Nas civis Actias guerras animoso,
    O Capitão venceu Romano injusto,
    Que dos povos da Aurora, e do famoso
    Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
    A vitória trazia, e presa rica,
    Preso na Egípcia linda e nego pudica.

    54
    Como vereis o mar fervendo aceso
    Colos incêndios dos vossos pelejando,
    Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
    De nações diferentes triunfando.
    E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
    Até ao longínquo China navegando,
    E as ilhas mais remotas do Oriente,
    Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

    55
    "De modo, filha minha, que de jeito
    Amostrarão esforço mais que humano,
    Que nunca se verá tão forte peito,
    Do Gangético mar ao Gaditano,
    Nem das Boreais ondas ao Estreito,
    Que mostrou o agravado Lusitano,
    Posto que em todo o mundo, de afrontados,
    Ressuscitassem todos os passados."

    56
    Como isto disse, manda o consagrado
    Filho de Maia à Terra, por que tenha
    Um pacífico porto o sossegado,
    Para onde sem receio a frota venha;
    F, para que em Mombaça, aventurado,
    O forte Capitão se não detenha,
    Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
    A terra, onde quieto repousasse.

    57
    Já pelo ar o Cileneu voava;
    Com as asas nos pés à Terra desce;
    Sua vara fatal na mão levava,
    Com que os olhos cansados adormece:
    Com esta, as tristes almas revocava
    Do Inferno, e o vento lhe obedece.
    Na cabeça o galero costumado.
    E desta arte a Melinde foi chegado.

    58
    Consigo a Fama leva, por que diga
    Do Lusitano o preço grande e raro,
    Que o nome ilustre a um certo amor obriga
    E faz, a quem o tem, amado e caro.
    Desta arte vai fazendo a gente amiga,
    Co rumor famosíssimo, e perclaro.
    Já Melinde em desejos arde todo
    De ver da gente forte o gesto e modo.

    59
    Dali para Mombaça logo parte,
    Aonde as naus estavam temerosas,
    Para que à gente mande que se aparte
    Da barra amiga e terras suspeitosas:
    Porque mui pouco val esforço e arte,
    Contra infernais vontades enganosas;
    Pouco val coração, astúcia e siso,
    Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

    60
    No feio caminho a noite tinha anelado,
    E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
    Tinham o largo Mundo alumiado;
    E só co'o sono a gente se recreia.
    O Capitão ilustre, já cansado
    De vigiar a noite que arreceia,
    Breve repouso então aos olhos dava,
    A outra gente a quartos vigiava;

    61
    Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
    Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
    Da cilada que o Rei malvado tece,
    Por te trazer ao fim, e extremo dano;
    Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
    Sereno o tempo tens e o Oceano,
    E outro Rei mais amigo, noutra parte,
    Onde podes seguro agasalhar-te.

    62
    "Não tens aqui senão aparelhado
    O hospício que o cru Diomedes dava,
    Fazendo ser manjar acostumado
    De cavalos a gente que hospedava;
    As aras de Busíris infamado,
    Onde os hóspedes tristes imolava,
    Terás certas aqui, se muito esperas.
    Fuge das gentes pérfidas e feras.

    63
    "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
    E outra terra acharás de mais verdade,
    Lá quase junto donde o Sol ardendo
    Iguala o dia e noite em quantidade;
    Ali tua frota alegre recebendo
    Um Rei, com muitas obras de amizade,
    Gasalhado seguro te daria,
    E, para a índia, certa e sábia guia."

    64
    Isto Mercúrio disse, e o sono leva
    Ao Capitão, que com mui grande espanto
    Acorda, e vê ferida a escura treva
    De uma súbita luz e raio santo.
    E vendo claro quanto lhe releva
    Não se deter na terra iníqua tanto,
    Com novo espírito ao mestre seu mandava
    Que as velas desse ao vento que assopravam.

    65
    "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
    Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
    Que um mensageiro vi do claro assento
    Que só em favor de nossos passos anda."
    Alevanta-se nisto o movimento
    Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
    Levam gritando as âncoras acima,
    Mostrando a ruda força, que se estima.

    66
    Neste tempo, que as âncoras levavam,
    Na sombra escura os Mouros escondidos
    Mansamente as amarras lhe cortavam,
    Por serem, dando à costa, destruídos;
    Mas com vista de linces vigiavam
    Os Portugueses, sempre apercebidos.
    Eles, como acordados os sentiram,
    Voando, e não remando, lhe fugiram.

    67
    Mas já as agudas proas apartando
    Iam as vias húmidas de argento;
    Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
    Com suave e seguro movimento.
    Nos perigos passados vão falando,
    Que mal se perderão do pensamento
    Os casos grandes, donde em tanto aperto
    A vida em salvo escapa por acerto.

    68
    Tinha uma volta dado o Sol ardente
    E noutro começava, quando viram
    Ao longe deus navios, brandamente
    Co'os ventos navegando, que respiram:
    Porque haviam de ser da Maura gente,
    Para eles arribando, as velas viram:
    Um, de temor do mal que arreceava,
    Por se salvar a gente à costa dava.

    69
    Não é o outro que fica tão manhoso;
    Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
    Sem o rigor de Marte furioso,
    E sem a fúria horrenda de Vulcano;
    Que como fosse débil e medroso
    Da pouca gente o fraco peito humano,
    Não teve resistência; e se a tivera,
    Mais dano resistindo recebera.

    70
    E como o Gama muito desejasse
    Piloto para a Índia que buscava,
    Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava,
    Que nenhum deles há que lhe ensinasse
    A que parte dos céus a Índia estava;
    Porém dizem-lhe todos, que tem perto
    Melinde, onde achará piloto certo.

    71
    Louvam do Rei os Mouros a bondade,
    Condição liberal, sincero peito,
    Magnificência grande e humanidade,
    Com partes de grandíssimo respeito.
    O Capitão o assela por verdade,
    Porque já lhe dissera, deste jeito,
    Cileneu em sonhos; e partia
    Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

    72
    Era no tempo alegre, quando entrava
    No roubador de Europa a luz Febeia,
    Quando um e outro corno lhe aquentava,
    E Flora derramava o de Amalteia:
    A memória do dia renovava
    O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
    Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
    O selo pôs a quanto tinha feito;

    73
    Quando chegava a frota àquela parte,
    Onde o Reino Melinde já se via,
    De toldos adornada, e leda de arte
    Que bem mostra estimar o santo dia.
    Treme a bandeira, voa o estandarte,
    A cor purpúrea ao longe aparecia;
    Soam os atambores o pandeiros,
    E assim entravam ledos e guerreiros.

    74
    Enche-se toda a praia Melindana
    Da gente que vem ver a leda armada,
    Gente mais verdadeira, e mais humana,
    Que toda a doutra terra atrás deixada.
    Surge diante a frota Lusitana,
    Pega no fundo a âncora pesada;
    Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
    Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

    75
    O Rei, que já sabia da nobreza
    Que tanto os Portugueses engrandece,
    Tomarem o seu porto tanto preza,
    Quanto a gente fortíssima merece:
    E com verdadeiro ânimo e pureza,
    Que os peitos generosos enobrece,
    Lhe manda rogar muito que saíssem,
    Para que de seus reinos se servissem.

    76
    São oferecimentos verdadeiros,
    E palavras sinceras, não dobradas,
    As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
    Que tanto mar e terras tem passadas.
    Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
    E galinhas domésticas cevadas,
    Com as frutas, que então na terra havia;
    E a vontade à dádiva excedia.

    77
    Recebe o Capitão alegremente
    O mensageiro ledo e seu recado;
    E logo manda ao Rei outro presente,
    Que de longe trazia aparelhado:
    Escarlata purpúrea, cor ardente,
    O ramoso coral, fino e prezado,
    Que debaixo das águas mole cresce,
    E como é fora delas se endurece.

    78
    Manda mais um, na prática elegante,
    Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
    E que de não sair naquele instante
    De suas naus em terra o desculpasse.
    Partido assim o embaixador prestante,
    Como na terra ao Rei se apresentasse,
    Com estilo que Palas lhe ensinava,
    Estas palavras tais falando orava:

    79
    "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
    Foi da suma Justiça concedido
    Refrear o soberbo povo duro,
    Não menos dele amado, que temido:
    Como porto mui forte e mui seguro,
    De todo o Oriente conhecido,
    Te vimos a buscar, para que achemos
    Em ti o remédio certo que queremos.

    80
    "Não somos roubadores, que passando
    Pelas fracas cidades descuidadas,
    A ferro e a fogo as gentes vão matando,
    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
    Mas da soberba Europa navegando,
    Imos buscando as terras apartadas
    Da Índia grande e rica, por mandado
    De um Rei que temos, alto e sublimado.

    81
    "Que geração tão dura há hi de gente,
    Que bárbaro costume e usança feia,
    Que não vedem os portos tão somente,
    Mas inda o hospício da deserta areia?
    Que má tenção, que peito em nós se sente,
    Que de tão pouca gente se arreceia?
    Que com laços armados, tão fingidos,
    Nos ordenassem ver-nos destruídos?

    82
    "Mas tu, e quem mui certo confiamos
    Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
    E aquela certa ajuda em ti esperamos,
    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
    A teu porto seguro navegamos,
    Conduzidos do intérprete divino;
    Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
    Que és de peito sincero, humano e raro.

    83
    "E não cuides, ó Rei, que não saísse
    O nosso Capitão esclarecido
    A ver-te, ou a servir-te, porque visse
    Ou suspeitasse em ti peito fingido:
    Mas saberás que o fez, porque cumprisse
    O regimento, em tudo obedecido,
    De seu Rei, que lhe manda que não saia,
    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

    84
    "E porque é, de vassalos o exercício,
    Que os membros tem regidos da cabeça,
    Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
    Que ninguém a seu Rei desobedeça;
    Mas as mercês e o grande benefício,
    Que ora acha em ti, promete que conheça
    Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
    Enquanto os rios para o mar correrem."

    85
    Assim dizia; e todos juntamente,
    Uns com outros em prática falando,
    Louvavam muito o estâmago da gente,
    Que tantos céus e mares vai passando.
    E o Rei ilustre, o peito obediente
    Dos Portugueses na alma imaginando,
    Tinha por valor grande e mui subido
    O do Rei que é tão longe obedecido.

    86
    E com risonha vista e ledo aspeito,
    Responde ao embaixador, que tanto estima:
    "Toda a suspeita má tirai do peito,
    Nenhum frio temor em vós se imprima;
    Que vosso preço e obras são de jeito
    Para vos ter o mundo em muita estima;
    E quem vos fez molesto tratamento,
    Não pode ter subido pensamento.

    87
    "De não sair em terra toda a gente,
    Por observar a usada preminência,
    Ainda que me pese estranhamente,
    Em muito tenho a muita obediência;
    Mas, se lho o regimento não consente,
    Nem eu consentirei que a excelência
    De peitos tão leais em si desfaça,
    Só porque a meu desejo satisfaça.

    88
    "Porém, como a luz crástina chegada
    Ao mundo for, em minhas almadias
    Eu irei visitar a forte armada,
    Que ver tanto desejo, há tantos dias;
    E se vier do mar desbaratada,
    Do furioso vento e longas vias,
    Aqui terá, de limpos pensamentos,
    Piloto, munições e mantimentos."

    89
    Isto disse; e nas águas se escondia
    O filho de Latona; e o mensageiro
    Coa embaixada alegre se partia
    Para a frota, no seu batel ligeiro.
    Enchem-se os peitos todos de alegria.
    Por terem o remédio verdadeiro
    Para acharem a terra que buscavam;
    E assim ledos a noite festejavam.

    90
    Não faltam ali os raios de artifício,
    Os trêmulos cometas imitando;
    Fazem os bombardeiros seu ofício,
    O céu, a terra e as ondas atroando.
    Mostra-se dos Ciclopas o exercício
    Nas bombas que de fogo estão queimando;
    Outros com vozes, com que o céu feriam,
    Instrumentos altíssonos tangiam.

    91
    Respondem-lhe da terra juntamente,
    Co'o raio volteando, com zunido;
    Anda em giros no ar a roda ardente,
    Estoura o pó sulfúreo escondido.
    A grita se alevanta ao céu, da gente;
    O mar se via em fogos acendido,
    E não menos a terra; e assim festeja
    Um ao outro, a maneira de peleja.

    92
    Mas já o Céu inquieto revolvendo,
    As gentes incitava a seu trabalho,
    E já a mãe de Menon a luz trazendo,
    Ao sono longo punha certo atalho;
    Iam-se as sombras lentas desfazendo,
    Sobre as flores da terra em frio orvalho,
    Quando o Rei Melindano se embarcava
    A ver a frota, que no mar estava.

    93
    Viam-se em derredor ferver as praias
    Da gente, que a ver só concorre leda;
    Luzem da fina púrpura as cabaias,
    Lustram os panos da tecida seda;
    Em lugar das guerreiras azagaias
    E do arco, que os cornos arremeda
    Da Lua, trazem ramos de palmeira,
    Dos que vencem, coroa verdadeira.

    94
    Um batel grande e largo, que toldado
    Vinha de sedas de diversas cores,
    Traz o Rei de Melinde, acompanhado
    De nobres e seu Reino e de senhores:
    Vem de ricos vestidos adornado,
    Segundo seus costumes e primores;
    Na cabeça uma fota guarnecida
    De ouro, e de seda e de algodão tecida.

    95
    Cabaia de Damasco rico e dino,
    Da Tíria cor, entre eles estimada,
    Um colar ao pescoço, de ouro fino,
    Onde a matéria da obra é superada,
    C'um resplendor reluze adamantino;
    Na cinta, a rica bem lavrada;
    Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
    Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

    96
    Com um redondo emparo alto de seda,
    Numa alta e dourada hástia enxerido,
    Um ministro à solar quentura veda.
    Que não ofenda e queime o Rei subido.
    Música traz na proa, estranha e leda,
    De áspero som, horríssono ao ouvido,
    De trombetas arcadas em redondo,
    Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

    97
    Não menos guarnecido o Lusitano
    Nos seus batéis, da frota se partia
    A receber no mar o Melindano,
    Com lustrosa e lograda companhia.
    Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
    Mas Francesa era a roupa que vestia,
    De cetim da Adriática Veneza
    Carmesi, cor que a gente tanto preza:

    98
    De botões douro as mangas vêm tomadas,
    Onde o Sol reluzindo a vista cega;
    As calças soldadescas recamadas
    Do metal, que Fortuna a tantos nega,
    E com pontas do mesmo delicadas
    Os golpes do gibão ajunta e achega;
    Ao Itálico modo a áurea espada;
    Pluma na gorra, um pouco declinada.

    99
    Nos de sua companhia se mostrava
    Da tinta, que dá o múrice excelente,
    A vária cor, que os olhos alegrava,
    E a maneira do trajo diferente.
    Tal o formoso esmalte se notava
    Dos vestidos, olhados juntamente,
    Qual aparece o arco rutilante
    Da bela Ninfa, filha de Taumante.

    100
    Sonorosas trombetas incitavam
    Os ânimos alegres, ressoando;
    Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
    Os toldos pelas águas arrojando;
    As bombardas horríssonas bramavam,
    Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
    Amiúdam-se os brados acendidos,
    Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

    101
    Já no batel entrou do Capitão
    O Rei, que nos seus braços o levava;
    Ele coa cortesia, que a razão
    (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
    C'umas mostras de espanto e admiração,
    O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
    Como quem em mui grande estima tinha
    Gente que de tão longe à índia vinha.

    102
    E com grandes palavras lhe oferece
    Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
    E que, se mantimento lhe falece,
    Como se próprio fosse, lho pedisse.
    Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
    A gente Lusitana, sem que a visse;
    Que já ouviu dizer, que noutra terra
    Com gente de sua Lei tivesse guerra.

    103
    E como por toda África se soa,
    Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
    Quando nela ganharam a coroa
    Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
    E com muitas palavras apregoa
    O menos que os de Luso mereceram,
    E o mais que pela fama o Rei sabia.
    Mas desta sorte o Gama respondia:

    104
    "Ó tu, que só tiveste piedade,
    Rei benigno, da gente Lusitana,
    Que com tanta miséria e adversidade
    Dos mares experimenta a fúria insana;
    Aquela alta e divina Eternidade,
    Que o Céu revolve e rege a gente humana,
    Pois que de ti tais obras recebemos,
    Te pague o que nós outros não podemos.

    105
    "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
    Nos recebes em paz, cio mar profundo;
    Em ti dos ventos hórridos de Eolo
    Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
    Enquanto apascentar o largo Pólo
    As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
    Onde quer que eu viver, com fama e glória
    Viverão teus louvores em memória."

    106
    Isto dizendo, os barcos vão remando
    Para a frota, que o Mouro ver deseja;
    Vão as naus uma e uma rodeando,
    Porque de todas tudo note e veja.
    Mas para o céu Vulcano fuzilando,
    A frota coas bombardas o festeja,
    E as trombetas canoras lhe tangiam;
    Co'os anafis os Mouros respondiam.

    107
    Mas depois de ser tudo já notado
    Do generoso Mouro, que pasmava
    Ouvindo o instrumento inusitado,
    Que tamanho terror em si mostrava,
    Mandava estar quieto e ancorado
    N'água o batel ligeiro que os levava,
    Por falar de vagar co'o forte Gama,
    Nas cousas de que tem notícia e faina.

    108
    Em práticas o Mouro diferentes
    Se deleitava, perguntando agora
    Pelas guerras famosas e excelentes
    Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
    Agora lhe pergunta pelas gentes
    De toda a Hespéria última, onde mora;
    Agora pelos povos seus vizinhos,
    Agora pelos úmidos caminhos.

    109
    "Mas antes, valeroso Capitão,
    Nos conta, lhe dizia, diligente,
    Da terra tua o clima, e região
    Do mundo onde morais distintamente;
    E assim de vossa antiga geração,
    E o princípio do Reino tão potente,
    Co'os sucessos das guerras do começo,
    Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

    110
    "E assim também nos conta dos rodeios
    Longos, em que te traz o mar irado,
    Vendo os costumes bárbaros alheios.
    Que a nossa África ruda tem criado.
    Conta: que agora vêm co'os áureos freios
    Os cavalos que o carro marchetado
    Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
    O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

    111
    "E não menos co'o tempo se parece
    O desejo de ouvir-te o que contares;
    Que quem há, que por fama não conhece
    As obras Portuguesas singulares?
    Não tanto desviado resplandece
    De nós o claro Sol, para julgares
    Que os Melindanos têm tão rudo peito,
    Que não estimem muito um grande feito.

    112
    "Cometeram soberbos os Gigantes,
    Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
    Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
    O Reino de Plutão horrendo e escuro.
    Se houve feitos no mundo tão possantes,
    Não menos é trabalho ilustre e duro,
    Quanto foi cometer Inferno o Céu,
    Que outrem cometa a fúria de Nereu.

    113
    "Queimou o sagrado templo de Diana,
    Do subtil Tesifónio fabricado,
    Heróstrato, por ser da gente humana
    Conhecido no mundo e nomeado:
    Se também com tais obras nos engana
    O desejo de um nome avantajado,
    Mais razão há que queira eterna glória
    Quem faz obras tão dignas de memória."

    Canto Terceiro

    1
    Agora tu, Calíope, me ensina
    O que contou ao Rei o ilustre Gama:
    Inspira imortal canto e voz divina
    Neste peito mortal, que tanto te ama.
    Assim o claro inventor da Medicina,
    De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
    Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
    Te negue o amor devido, como soe.

    2
    Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
    Como merece a gente Lusitana;
    Que veja e saiba o mundo que do Tejo
    O licor de Aganipe corre e mana.
    Deixa as flores de Pindo, que já vejo
    Banhar-me Apolo na água soberana;
    Senão direi que tens algum receio,
    Que se escureça o teu querido Orfeio.

    3
    Prontos estavam todos escutando
    O que o sublime Gama contaria,
    Quando, depois de um pouco estar cuidando,
    Alevantando o rosto, assim dizia:
    "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
    De minha gente a grão genealogia:
    Não me mandas contar estranha história,
    Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

    4
    "Que outrem possa louvar esforço alheio,
    Cousa é que se costuma e se deseja;
    Mas louvar os meus próprios, arreceio
    Que louvor tão suspeito mal me esteja;
    E para dizer tudo, temo e creio,
    Que qualquer longo tempo curto seja:
    Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
    Irei contra o que devo, e serei breve.

    5
    "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
    É não poder mentir no que disser,
    Porque de feitos tais, por mais que diga,
    Mais me há-de ficar inda por dizer.
    Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
    Segundo o que desejas de saber,
    Primeiro tratarei da larga terra,
    Depois direi da sanguinosa guerra.

    6
    "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
    Meta setentrional do Sol luzente,
    E aquela que por f ria se arreceia
    Tanto, como a do meio por ardente,
    Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
    Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
    Com suas salsas ondas o Oceano,
    E pela Austral o mar Mediterrano.

    7
    "Da parte donde o dia vem nascendo,
    Com Ásia se avizinha; mas o rio
    Que dos montes Rifeios vai correndo,
    Na alagoa Meotis, curvo o frio,
    As divide: e o mar que, fero e horrendo,
    Viu dos Gregos o irado senhorio,
    Onde agora de Tróia triunfante
    Não vê mais que a memória o navegante.

    8
    "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
    Os montes Hiperbóreos aparecem,
    E aqueles onde sempre sopra Eolo,
    E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
    Aqui tão pouca força tem de Apolo
    Os raios que no mundo resplandecem,
    Que a neve está contido pelos montes,
    Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

    9
    "Aqui dos Citas grande quantidade
    Vivem, que antigamente grande guerra
    Tiveram, sobre a humana antiguidade,
    Co'os que tinham então a Egípcia terra;
    Mas quem tão fora estava da verdade,
    (Já que o juízo humano tanto erra)
    Para que do mais certo se informara,
    Ao campo Damasceno o perguntara.

    10
    "Agora nestas partes se nomeia
    A Lápia fria, a inculta Noruega,
    Escandinávia Ilha, que se arreia
    Das vitórias que Itália não lhe nega.
    Aqui, enquanto as águas não refreia
    O congelado inverno, se navega
    Um braço do Sarmático Oceano
    Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.

    11
    "Entre este mar e o Tánais vive estranha
    Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
    Sármatas outro tempo; e na montanha
    Hircínia os Marcomanos são Polónios.
    Sujeitos ao Império de Alemanha
    São Saxones, Boêmios e Panónios,
    E outras várias nações, que o Reno frio
    Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.

    12
    "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
    Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
    Estão os Traces de robusto peito,
    Do fero Marte pátria tão querida,
    Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
    Ao Otomano está, que submetida
    Bizâncio tem a seu serviço indino:
    Boa injúria do grande Constantino!

    13
    "Logo de Macedónia estão as gentes,
    A quem lava do Axio a água fria;
    E vós também, ó terras excelentes
    Nos costumes, engenhos e ousadia,
    Que criastes os peitos eloquentes
    E os juízos de alta fantasia,
    Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
    E não menos por armas, que por letras.

    14
    "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
    Onde Antenor já muros levantou,
    A soberba Veneza está no meio
    Das águas, que tão baixa começou.
    Da terra um braço vem ao mar, que cheio
    De esforço, nações várias sujeitou,
    Braço forte, de gente sublimada,
    Não menos nos engenhos, que na espada.

    15
    "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
    Co'os muros naturais por outra parte;
    Pelo meio o divide o Apenino,
    Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
    Mas depois que o Porteiro tem divino,
    Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
    Pobre está já de antiga potestade:
    Tanto Deus se contenta de humildade!

    16
    "Gália ali se verá que nomeada
    Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
    Que do Séquana e Ródano é regada,
    E do Giruna frio e Reno fundo.
    Logo os montes da Ninfa sepultada
    Pirene se alevantam, que segundo
    Antiguidades contam, quando arderam,
    Rios de ouro e de prata então correram.

    17
    "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
    Como cabeça ali de Europa toda,
    Em cujo senhorio o glória estranha
    Muitas voltas tem dado a fatal roda;
    Mas nunca poderá, com força ou manha,
    A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
    Que lhe não tire o esforço e ousadia
    Dos belicosos peitos que em si cria.

    18
    "Com Tingitânia entesta, e ali parece
    Que quer fechar o mar Mediterrano,
    Onde o sabido Estreito se enobrece
    Co'o extremo trabalhado Tebano.
    Com nações diferentes se engrandece,
    Cercadas com as ondas do Oceano;
    Todas de tal nobreza e tal valor,
    Que qualquer delas cuida que é melhor.

    19
    "Tem o Tarragonês, que se fez claro
    Sujeitando Parténope inquieta;
    O Navarro, as Astúrias, que reparo
    Já foram contra a gente Mahometa;
    Tem o Galego cauto, e o grande e raro
    Castelhano, a quem fez o seu Planeta
    Restituidor de Espanha e senhor dela,
    Bétis, Lião, Granada, com Castela.

    20
    "Eis aqui, quase cume da cabeça
    De Europa toda, o Reino Lusitano,
    Onde a terra se acaba e o mar começa,
    E onde Febo repousa no Oceano.
    Este quis o Céu justo que floresça
    Nas armas contra o torpe Mauritano,
    Deitando-o de si fora, e lá na ardente
    África estar quieto o não consente.

    22
    "Esta é a ditosa pátria minha amada,
    A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
    Torne, com esta empresa já acabada,
    Acabe-se esta luz ali comigo.
    Esta foi Lusitânia, derivada
    De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
    Filhos foram, parece, ou companheiros,
    E nela então os Íncolas primeiros.

    22
    "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.
    Esta, o velho que os filhos próprios come
    Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
    Veio a fazer no mundo tanta parte,
    Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

    23
    "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
    Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
    Que por armas sanguinas, força e manha,
    A muitos fez perder a vida o a terra;
    Voando deste Rei a fama estranha
    Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
    Muitos, para na guerra esclarecer-se,
    Vinham a ele e à morte oferecer-se.

    24
    "E com um amor intrínseco acendidos
    Da Fé, mais que das honras populares,
    Eram de várias terras conduzidos,
    Deixando a pátria amada e próprios lares.
    Depois que em feitos altos e subidos
    Se mostraram nas armas singulares,
    Quis o famoso Afonso que obras tais
    Levassem prémio digno e dons iguais.

    25
    "Destes Anrique, dizem que segundo
    Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
    Portugal houve em sorte, que no mundo
    Então não era ilustre nem prezado;
    E, para mais sinal d'amor profundo,
    Quis o Rei Castelhano, que casado
    Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
    E com ela das terras tornou posse.

    26
    "Este, depois que contra os descendentes
    Da escrava Agar vitórias grandes teve,
    Ganhando muitas terras adjacentes,
    Fazendo o que a seu forte peito deve,
    Em prémio destes feitos excelentes,
    Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
    Um filho, que ilustrasse o nome ufano
    Do belicoso Reino Lusitano.

    27
    "Já tinha vindo Anrique da conquista
    Da cidade Hierosólima sagrada,
    E do Jordão a areia tinha vista,
    Que viu de Deus a carne em si lavada;
    Que não tendo Gotfredo a quem resista,
    Depois de ter Judeia sojugada,
    Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
    Para seus senhorios se tornaram;

    28
    "Quando chegado ao fim de sua idade,
    O forte e famoso Úngaro estremado,
    Forçado da fatal necessidade,
    O espírito deu a quem lhe tinha dado,
    Ficava o filho em tenra mocidade,
    Em quem o pai deixava seu traslado,
    Que do mundo os mais fortes igualava;
    Que de tal pai tal filho se esperava.

    29
    "Mas o velho rumor, não sei se errado,
    Que em tanta antiguidade não há certeza,
    Conta que a mãe, tomando todo o estado,
    Do segundo himeneu não se despreza.
    O filho órfão deixava deserdado,
    Dizendo que nas terras a grandeza
    Do senhorio todo só sua era,
    Porque, para casar, seu pai lhes dera.

    30
    "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
    Se chamava, do avô tomando o nome,
    Vendo-se em suas terras não ter parte,
    Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
    Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
    Imagina consigo como as tome.
    Revolvidas as causas no conceito,
    Ao propósito firme segue o efeito.

    31
    "De Guimarães o campo se tingia
    Co'o sangue próprio da intestina guerra,
    Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
    A seu filho negava o amor e a terra.
    Com ele posta em campo já se via;
    E não vê a soberba o muito que erra
    Contra Deus, contra o maternal amor;
    Mas nela o sensual era maior.

    32
    "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
    Se em vossos próprios filhos vos vingais
    Da maldade dos pais, da culpa alheia,
    Olhai que inda Teresa peca mais:
    Incontinência má, cobiça feia,
    São as causas deste erro principais:
    Cila, por uma, mata o velho pai,
    Esta, por ambas, contra o filho vai.

    33
    "Mas já o Príncipe claro o vencimento
    Do padrasto e da iníqua mãe levava;
    Já lhe obedece a terra num momento,
    Que primeiro contra ele pelejava.
    Porém, vencido de ira o entendimento,
    A mãe em ferros ásperos atava;
    Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
    Tanta veneração aos pais se deve!

    34
    "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
    Para vingar a injúria de Teresa,
    Contra o tão raro em gente Lusitano,
    A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
    Em batalha cruel o peito humano,
    Ajudado da angélica defesa,
    Não só contra tal fúria se sustenta,
    Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

    35
    "Não passa muito tempo, quando o forte
    Príncipe em Guimarães está cercado
    De infinito poder; que desta sorte
    Foi refazer-se o inimigo magoado;
    Mas, com se oferecer à dura morte
    O fiel Egas amo, foi livrado;
    Que de outra arte pudera ser perdido,
    Segundo estava mal apercebido.

    36
    "lulas o leal vassalo, conhecendo
    Que seu senhor não tinha resistência,
    Se vai ao Castelhano, prometendo
    Que ele faria dar-lhe obediência.
    Levanta o inimigo o cerco horrendo,
    Fiado na promessa e consciência
    De Egas Moniz; mas não consente o peito
    Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

    37
    "Chegado tinha o prazo prometido,
    Em que o Rei Castelhano já aguardava
    Que o Príncipe, a seu mando sometido,
    Lhe desse a obediência que esperava.
    Vendo Egas que ficava fementido,
    O que dele Castela não cuidava,
    Determina de dar a doce vida
    A troco da palavra mal cumprida.

    38
    "E com seus filhos e mulher se parte
    A alevantar com eles a fiança,
    Descalços e despidos, de tal arte,
    Que mais move a piedade que a vingança.
    –"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
    De minha temerária confiança,
    Dizia, eis aqui venho oferecido
    A te pagar, coa vida, o prometido.

    39
    "Vês aqui trago as vidas inocentes
    Dos filhos sem pecado e da consorte;
    Se a peitos generosos e excelentes,
    Dos fracos satisfaz a fera morte.
    Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
    Nelas sós exprimenta toda a sorte
    De tormentos, de mortes, pelo estilo
    De Cínis e do touro de Perilo"!–

    40
    "Qual diante do algoz o condenado,
    Que já na vida a morte tem bebido,
    Põe no cepo a garganta, e já entregado
    Espera pelo golpe tão temido:
    Tal diante do Príncipe indinado,
    Egas estava a tudo oferecido.
    Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
    Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

    41
    "Ó grão fidelidade Portuguesa,
    De vassalo, que a tanto se obrigava!
    Que mais o Persa fez naquela empresa,
    Onde rosto e narizes se cortava?
    Do que ao grande Dario tanto pesa,
    Que mil vezes dizendo suspirava,
    Que mais o seu Zopiro são prezara,
    Que vinte Babilónias que tomara.

    42
    Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
    O Lusitano exército ditoso,
    Contra o Mouro que as terras habitava
    D'além do claro Tejo deleitoso;
    Já no campo de Ourique se assentava
    O arraial soberbo e belicoso,
    Defronte do inimigo Sarraceno,
    Posto que em força e gente tão pequeno.

    43
    "Em nenhuma outra cousa confiado,
    Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
    Que tão pouco era o povo batizado,
    Que para um só cem Mouros haveria.
    Julga qualquer juízo sossegado
    Por mais temeridade que ousadia,
    Cometer um tamanho ajuntamento,
    Que para um cavaleiro houvesse cento.

    44
    "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
    Dos quais o principal Ismar se chama;
    Todos exprimentados nos perigos
    Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
    Seguem guerreiras damas seus amigos,
    Imitando a formosa e forte Dama,
    De quem tanto os Troianos se ajudaram,
    E as que o Termodonte já gostaram.

    45
    "A matutina luz serena e fria,
    As estrelas do Pólo já apartava,
    Quando na Cruz o Filho de Maria,
    Amostrando-se a Afonso, o animava.
    Ele, adorando quem lhe aparecia,
    Na Fé todo inflamado assim gritava:
    –"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
    E não a mim, que creio o que podeis!"

    46
    "Com tal milagre os ânimos da gente
    Portuguesa inflamados, levantavam
    Por seu Rei natural este excelente
    Príncipe, que do peito tanto amavam;
    E diante do exército potente
    Dos imigos, gritando o céu tocavam,
    Dizendo em alta voz:–"Real, real,
    Por Afonso alto Rei de Portugal."

    47
    "Qual co'os gritos e vozes incitado,
    Pela montanha o rábido Moloso,
    Contra o touro remete, que fiado
    Na força está do corno temeroso:
    Ora pega na orelha, ora no lado,
    Latindo mais ligeiro que forçoso,
    Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
    Do bravo a força horrenda se quebranta:

    48
    "Tal do Rei novo o estâmago acendido
    Por Deus e pelo povo juntamente,
    O Bárbaro comete apercebido,
    Co'o animoso exército rompente.
    Levantam nisto os perros o alarido
    Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
    As lanças e arcos tomam, tubas soam,
    Instrumentos de guerra tudo atroam.

    49
    "Bem como quando a flama, que ateada
    Foi nos áridos campos (assoprando
    O sibilante Bóreas) animada
    Co'o vento, o seco mato vai queimando;
    A pastoral companha, que deitada
    Co'o doce sono estava, despertando
    Ao estridor do fogo que se ateia,
    Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

    50
    "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
    Toma sem tento as armas mui depressa;
    Não foge; mas espera confiado,
    E o ginete belígero arremessa.
    O Português o encontra denodado,
    Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
    Uns caem meios mortos, e outros vão
    A ajuda convocando do Alcorão.

    51
    "Ali se vêem encontros temerosos,
    Para se desfazer uma alta serra,
    E os animais correndo furiosos
    Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
    Golpes se dão medonhos e forçosos;
    Por toda a parte andava acesa a guerra:
    Mas o de Luso arnês, couraça e malha
    Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

    52
    "Cabeças pelo campo vão saltando
    Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
    E doutros as entranhas palpitando,
    Pálida a cor, o gesto amortecido.
    Já perde o campo o exército nefando;
    Correm rios de sangue desparzido,
    Com que também do campo a cor se perde,
    Tornado carmesi de branco e verde.

    53
    "Já fica vencedor o Lusitano,
    Recolhendo os troféus e presa rica;
    Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
    Três dias o grão Rei no campo fiei.
    Aqui pinta no branco escudo ufano,
    Que agora esta vitória certifica,
    Cinco escudos azuis esclarecidos,
    Em sinal destes cinco Reis vencidos,

    54
    "E nestes cinco escudos pinta os trinta
    Dinheiros por que Deus fora vendido,
    Escrevendo a memória em vária tinta,
    Daquele de quem foi favorecido.
    Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
    Porque assim fica o número cumprido,
    Contando duas vezes o do meio,
    Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

    55
    "Passado já algum tempo que passada
    Era esta grão vitória, o Rei subido
    A tomar vai Leiria, que tomada
    Fora, mui pouco havia, do vencido.
    Com esta a forte Arronches sojugada
    Foi juntamente, e o sempre enobrecido
    Scalabicastro, cujo campo ameno,
    Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

    56
    "A estas nobres vilas sometidas,
    Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
    E nas serras da Lua conhecidas,
    Sojuga a fria Sintra o duro braço;
    Sintra, onde as Naiades, escondidas
    Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
    Onde Amor as enreda brandamente,
    Nas águas acendendo fogo ardente.

    57
    "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
    Facilmente das outras és princesa,
    Que edificada foste do facundo,
    Por cujo engano foi Dardânia acesa;
    Tu, a quem obedece o mar profundo,
    Obedeceste à força Portuguesa,
    Ajudada também da forte armada,
    Que das Boreais partes foi mandada.

    58
    "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
    E da fria Bretanha conduzidos,
    A destruir o povo Sarraceno,
    Muitos com tensão santa eram partidos.
    Entrando a boca já do Tejo ameno,
    Co'o arraial do grande Afonso unidos,
    Cuja alta fama então subia aos Céus,
    Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

    59
    "Cinco vezes a Lua se escondera,
    E outras tantas mostrara cheio o rosto,
    Quando a cidade entrada se rendera
    Ao duro cerco, que lhe estava posto.
    Foi a batalha tão sanguina e fera,
    Quanto obrigava o firme pressuposto
    De vencedores ásperos e ousados,
    E de vencidos já desesperados.

    60
    "Desta arte enfim tomada se rendeu
    Aquela que, nos tempos já passados,
    A grande força nunca obedeceu
    Dos frios povos Cíticos ousados,
    Cujo poder a tanto se estendeu
    Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
    E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
    Que à terra de Vandália nome deram.

    61
    "Que cidade tão forte por ventura
    Haverá que resista, se Lisboa
    Não pôde resistir à força dura
    Da gente, cuja fama tanto voa?
    Já lhe obedece toda a Estremadura,
    Óbidos, Alenquer, por onde soa
    O tom das frescas águas, entre as pedras,
    Que murmurando lava, e Torres Vedras.

    62
    "E vós também, ó terras Transtaganas,
    Afamadas co'o dom da flava Ceres,
    Obedeceis às forças mais que humanas,
    Entregando-lhe os muros e os poderes.
    E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
    Se sustentar a fértil terra queres;
    Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
    E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

    63
    "Eis a nobre Cidade, certo assento
    Do rebelde Sertório antigamente,
    Onde ora as águas nítidas de argento
    Vem sustentar de longo a terra e a gente,
    Pelos arcos reais, que cento e cento
    Nos ares se alevantam nobremente,
    Obedeceu por meio e ousadia
    De Giraldo, que medos não temia.

    64
    "Já na cidade Beja vai tomar
    Vingança de Trancoso destruída
    Afonso, que não sabe sossegar,
    Por estender coa fama a curta vida.
    Não se lhe pode muito sustentar
    A cidade; mas sendo já rendida,
    Em toda a cousa viva a gente irada
    Provando os fios vai da dura espada.

    65
    "Com estas sojugada foi Palmela,
    E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
    Sendo ajudado mais de sua estrela,
    Desbarata um exército potente:
    Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
    Que a socorrê-la vinha diligente
    Pela fralda da serra, descuidado
    Do temeroso encontro inopinado.

    66
    "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
    Com quatro mil cavalos furiosos,
    Inúmeros peões, d'armas e de ouro
    Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
    Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
    Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
    Sentindo gente o bruto e cego amante
    Salteia o descuidado caminhante:

    67
    "Desta arte Afonso súbito mostrado
    Na gente dá, que passa bem segura,
    Fere, mata, derriba denodado;
    Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
    Dum pânico terror todo assombrado,
    Só de segui-lo o exército procura;
    Sendo estes que fizeram tanto abalo
    Não mais que só sessenta de cavalo.

    68
    "Logo segue a vitória sem tardança
    O grão Rei incansábil, ajuntando
    Gentes de todo o Reino, cuja usança
    Era andar sempre terras conquistando.
    Cercar vai Badajoz, e logo alcança
    O fim de seu desejo, pelejando
    Com tanto esforço, e arte, e valentia,
    Que a fez fazer às outras companhia.

    69
    "Mas o alto Deus, que para longe guarda
    O castigo daquele que o merece,
    Ou, para que se emende, às vezes tarda,
    Ou por segredos que homem não conhece,
    Se até que sempre o forte Rei resguarda
    Dos perigos a que ele se oferece;
    Agora lhe não deixa ter defesa
    Da maldição da mãe que estava presa.

    70
    "Que estando na cidade, que cercara,
    Cercado nela foi dos Lioneses,
    Porque a conquista dela lhe tomara,
    De Lião sendo, e não dos Portugueses.
    A pertinácia aqui lhe custa cara,
    Assim como acontece muitas vezes,
    Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
    A batalha, onde foi vencido e preso.

    71
    "Ó famoso Pompeio, não te pene
    De teus feitos ilustres a ruína,
    Nem ver que a justa Némesis ordene
    Ter teu sogro de ti vitória dina,
    Posto que o frio Fásis, ou Siene,
    Que para nenhum cabo a sombra inclina,
    O Bootes gelado e a linha ardente,
    Temessem o teu nome geralmente.

    72
    "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
    Eníocos e Colcos, cuja fama
    O Véu dourado estende, e os Capadoces,
    E Judeia, que um Deus adora e ama,
    E que os moles Sofenos, e os atroces
    Cilícios, com a Arménia, que derrama
    As águas dos dous rios, cuja fonte
    Está noutro mais alto e santo monte;

    73
    "E posto enfim que desde o mar de Atlante
    Até o Cítico Tauro monte erguido,
    Já vencedor te vissem, não te espanto
    Se o campo Emátio só te viu vencido,
    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
    Tudo render-se ser depois rendido.
    Assim o quis o conselho alto e celeste,
    Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

    74
    "Tornado o Rei sublime finalmente,
    Do divino Juízo castigado,
    Depois que em Santarém soberbamente
    Em vão dos Sarracenos foi cercado,
    E depois que do mártire Vicente
    O santíssimo corpo venerado
    Do Sacro Promontório conhecido
    A cidade Ulisseia foi trazido;

    75
    "Porque levasse avante seu desejo,
    Ao forte filho manda o lasso velho
    Que às terras se passasse d'Alentejo,
    Com gente e co'o belígero aparelho.
    Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
    Avante passa, e faz correr vermelho
    O rio que Sevilha vai regando,
    Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

    76
    "E com esta vitória cobiçoso,
    Já não descansa o moço até que veja
    Outro estrago como este, temeroso,
    No Bárbaro que tem cercado Beja.
    Não tarda muito o Príncipe ditoso
    Sem ver o fim daquilo que deseja.
    Assim estragado o Mouro, na vingança
    De tantas perdas põe sua esperança.

    77
    "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
    O corpo fez perder, que teve o Céu;
    Já vem do promontório de Ampelusa
    E do Tinge, que assento foi de Anteu.
    O morador de Abila não se escusa,
    Que também com suas armas se moveu,
    Ao som da Mauritana e ronca tuba,
    Todo o Reino que foi do nobre Juba.

    78
    "Entrava com toda esta companhia
    O Miralmomini em Portugal;
    Treze Reis mouros leva de valia,
    Entre os quais tem o ceptro imperial;
    E assim fazendo quanto mal podia,
    O que em partes podia fazer mal,
    Dom Sancho vai cercar em Santarém;
    Porém não lhe sucede muito bem.

    79
    "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
    Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
    Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
    Mina secreta, aríete forçoso:
    Porque o filho de Afonso não perdendo
    Nada do esforço e acordo generoso,
    Tudo provê com ânimo e prudência;
    Que em toda a parte há esforço e resistência.

    80
    "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
    Os trabalhosos anos ao sossego,
    Estando na cidade, cujo prado
    Enverdecem as águas do Mondego,
    Sabendo como o filho está cercado
    Em Santarém do Mauro povo cego,
    Se parte diligente da cidade;
    Que não perde a presteza coa idade.

    81
    "E coa famosa gente à guerra usada
    Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
    A Portuguesa fúria costumada
    Em breve os Mouros tem desbaratados.
    A campina, que toda está coalhada
    De marlotas, capuzes variados,
    De cavalos, jaezes, presa rica,
    De seus senhores mortos cheia fica.

    82
    "Logo todo o restante se partiu
    De Lusitânia, postos em fugida;
    O Miralmomini só não fugiu,
    Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
    A quem lhe esta vitória permitiu
    Dão louvores e graças sem medida:
    Que em casos tão estranhos claramente
    Mais peleja o favor de Deus que a gente.

    83
    "De tamanhas vitórias triunfava
    O velho Afonso, Príncipe subido,
    Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
    Da larga e muita idade foi vencido.
    A pálida doença lhe tocava
    Com fria mão o corpo enfraquecido;
    E pagaram seus anos deste jeito
    A triste Libitina seu direito.

    84
    "Os altos promontórios o choraram,
    E dos rios as águas saudosas
    Os semeados campos alagaram
    Com lágrimas correndo piedosas.
    Mas tanto pelo mundo se alargaram
    Com faina suas obras valerosas,
    Que sempre no seu Reino chamarão
    "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

    85
    "Sancho, forte mancebo, que ficara
    Imitando seu pai na valentia,
    E que em sua vida já se exprimentara,
    Quando o Bétis de sangue se tingia,
    E o bárbaro poder desbaratara
    Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
    E mais quando os que Beja em vão cercaram,
    Os golpes de seu braço em si provaram;

    86
    "Depois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    87
    "Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, coa gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    88
    "Mas a formosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assim como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado Silves toma,
    E o bravo morador destrue e doma.

    89
    "E se tantos troféus do Mahometa
    Alevantando vai, também do forte
    Lionês não consente estar quieta
    A terra, usada aos casos de Mavorte,
    Até que na cerviz seu jugo meta
    Da soberba Tui, que a mesma sorte
    Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
    Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

    90
    "Mas entre tantas palmas salteado
    Da temerosa morte, fica herdeiro
    Um filho seu, de todos estimado,
    Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
    No tempo deste, aos Mouros foi tomado
    Alcácere-do-Sal por derradeiro;
    Porque dantes os Mouros o tomaram,
    Mas agora estruídos o pagaram.

    91
    "Morto depois Afonso, lhe sucede
    Sancho segundo, manso e descuidado,
    Que tanto em seus descuidos se desmede,
    Que de outrem, quem mandava, era mandado.
    De governar o Reino, que outro pede,
    Por causa dos privados foi privado,
    Porque, como por eles se regia,
    Em todos os seus vícios consentia.

    92
    "Não era Sancho, não, tão desonesto
    Como Nero, que um moço recebia
    Por mulher, e depois horrendo incesto
    Com a mãe Agripina cometia;
    Nem tão cruel às gentes e molesto,
    Que a cidade queimasse onde vivia,
    Nem tão mau como foi Heliogabalo,
    Nem como o mole Rei Sardanapalo.

    93
    "Nem era o povo seu tiranizado,
    Como Sicília foi de seus tiranos;
    Nem tinha como Fálaris achado
    Gênero de tormentos inumanos;
    Mas o Reino, de altivo e costumado
    A senhores em tudo soberanos,
    A Rei não obedece, nem consente,
    Que não for mais que todos excelente.

    94
    "Por esta causa o Reino governou
    O Conde Bolonhês, depois alçado
    Por Rei, quando da vida se apartou
    Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
    Este, que Afonso o bravo, se chamou,
    Depois de ter o Reino segurado,
    Em dilatá-lo cuida, que em terreno
    Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

    95
    "Da terra dos Algarves, que lhe fora
    Em casamento dada, grande parte
    Recupera co'o braço, e deita fora
    O Mouro, mal querido já de Marte.
    Este de todo fez livre e senhora
    Lusitânia, com força e bélica arte;
    E acabou de oprimir a nação forte,
    Na terra que aos de Luso coube em sorte.

    96
    "Eis depois vem Dinis, que bem parece
    Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
    Com quem a fama grande se escurece
    Da liberalidade Alexandrina.
    Com este o Reino próspero florece
    (Alcançada já a paz áurea divina)
    Em constituições, leis e costumes,
    Na terra já tranquila claros lumes.

    97
    "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva;
    E de Helicona as Musas fez passar-se
    A pisar do Monde-o a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
    Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
    Do bácaro e do sempre verde louro.

    98
    "Nobres vilas de novo edificou
    Fortalezas, castelos mui seguros,
    E quase o Reino todo reformou
    Com edifícios grandes, e altos muros.
    Mas depois que a dura Átropos cortou
    O fio de seus dias já maduros,
    Ficou-lhe o filho pouco obediente,
    Quarto Afonso, mas forte e excelente.

    99
    "Este sempre as soberbas Castelhanas
    Co'o peito desprezou firme e sereno,
    Porque não é das forças Lusitanas,
    Temer poder maior, por mais pequeno.
    Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
    A possuir o Hespérico terreno
    Entraram pelas terras de Castela,
    Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

    100
    "Nunca com Semirâmis gente tanta
    Veio os campos idáspicos enchendo,
    Nem Atila, que Itália toda espanta,
    Chamando-se de Deus açoute horrendo,
    Gótica gente trouxe tanta, quanta
    Do Sarraceno bárbaro estupendo,
    Co'o poder excessivo de Granada,
    Foi nos campos Tartésios ajuntada.

    101
    "E vendo o Rei sublime Castelhano
    A força inexpugnábil, grande e forte,
    Temendo mais o fim do povo hispano,
    Já perdido uma vez, que a própria morte,
    Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
    Lhe mandava a caríssima consorte,
    Mulher de quem a manda, e filha amada
    Daquele a cujo Reino foi mandada.

    102
    "Entrava a formosíssima Maria
    Pelos paternais paços sublimados,
    Lindo o gesto, mas fora de alegria,
    E seus olhos em lágrimas banhados;
    Os cabelos angélicos trazia
    Pelos ebúrneos ombros espalhados:
    Diante do pai ledo, que a agasalha,
    Estas palavras tais, chorando, espalha:

    103
    –"Quantos povos a terra produziu
    De África toda, gente fera e estranha,
    O grão Rei de Marrocos conduziu
    Para vir possuir a nobre Espanha:
    Poder tamanho junto não se viu,
    Depois que o salso mar a terra banha.
    Trazem ferocidade, e furor tanto,
    Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

    104
    –"Aquele que me deste por marido,
    Por defender sua terra amedrontada,
    Co'o pequeno poder, oferecido
    Ao duro golpe está da Maura espada;
    E se não for contigo socorrido,
    Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
    Viúva e triste, e posta em vida escura,
    Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

    105
    "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
    O corrente Muluca se congela,
    Rompe toda a tardança, acude cedo
    A miseranda gente de Castela.
    Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
    De pai o verdadeiro amor assela,
    Acude e corre, pai, que se não corres,
    Pode ser que não aches quem socorres."–

    106
    "Não de outra sorte a tímida Maria
    Falando está, que a triste Vénus, quando
    A Júpiter, seu pai, favor pedia
    Para Eneias, seu filho, navegando;
    Que a tanta piedade o comovia
    Que, caído das mãos o raio infando,
    Tudo o clemente Padre lhe concede,
    Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

    107
    "Mas já co'os esquadrões da gente armada
    Os Eborenses campos vão coalhados:
    Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
    Vão rinchando os cavalos jaezados.
    A canora trombeta embandeirada,
    Os corações à paz acostumados
    Vai às fulgentes armas incitando,
    Pelas concavidades retumbando.

    108
    "Entre todos no meio se sublima,
    Das insígnias Reais acompanhado,
    O valeroso Afonso, que por cima
    De todos leva o colo alevantado;
    E somente co'o gesto esforça e anima
    A qualquer coração amedrontado.
    Assim entra nas terras de Castela
    Com a filha gentil, Rainha dela.

    109
    "Juntos os dous Afonsos finalmente
    Nos campos de Tarifa estão defronte
    Da grande multidão da cega gente,
    Para quem são pequenos campo e monte.
    Não há peito tão alto e tão potente,
    Que de desconfiança não se afronte,
    Enquanto não conheça e claro veja
    Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

    110
    "Estão de Agar os netos quase rindo
    Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
    As terras como suas repartindo
    Antemão, entre o exército Agareno,
    Que com título falso possuindo
    Está o famoso nome Sarraceno.
    Assim também com falsa conta e nua,
    À nobre terra alheia chamam sua.

    111
    "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
    Do rei Saul, com causa, tão temido,
    Vendo o pastor inerme estar diante,
    Só de pedras e esforço apercebido,
    Com palavras soberbas o arrogante
    Despreza o fraco moço mal vestido,
    Que, rodeando a funda, o desengana
    Quanto mais pode a Fé que a força humana:

    112
    "Desta arte o Mouro pérfido despreza
    O poder dos Cristãos, e não entende
    Que está ajudado da Alta Fortaleza,
    A quem o inferno horrífico se rende.
    Co ela o Castelhano, e com destreza
    De Marrocos o Rei comete e ofende.
    O Português, que tudo estima em nada,
    Se faz temer ao Reino de Granada.

    113
    "Eis as lanças e espadas retiniam
    Por cima dos arneses: bravo estrago!
    Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
    Uns Mafamede, e os outros Santiago.
    Os feridos com grita o Céu feriam,
    Fazendo de seu sangue bruto lago,
    Onde outros meios mortos se afogavam,
    Quando do ferro as vidas escapavam.

    114
    "Com esforço tamanho estrui e mata
    O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
    Totalmente o poder lhe desbarata,
    Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
    De alcançar tal vitória tão barata
    Inda não bem contente o forte braço,
    Vai ajudar ao bravo Castelhano,
    Que pelejando está co'o Mauritano.

    115
    "Já se ia o Sol ardente recolhendo
    Para a casa de Tethys, e inclinado
    Para o Ponente, o Véspero trazendo,
    Estava o claro dia memorado,
    Quando o poder do Mauro grande e horrendo
    Foi pelos fortes Reis desbaratado,
    Com tanta mortandade, que a memória
    Nunca no mundo viu tão grã vitória.

    116
    "Não matou a quarta parte o forte Mário
    Dos que morreram neste vencimento,
    Quando as águas co'o sangue do adversário
    Fez beber ao exército sedento;
    Nem o Peno asperíssimo contrário
    Do Romano poder, de nascimento,
    Quando tantos matou da ilustro Roma,
    Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

    117
    "E se tu tantas almas só pudeste
    Mandar ao Reino escuro de Cocito,
    Quando a santa Cidade desfizeste
    Do povo pertinaz no antigo rito:
    Permissão e vingança foi celeste,
    E não força de braço, ó nobre Tito,
    Que assim dos Vates foi profetizado,
    E depois por Jesu certificado.

    118
    "Passada esta tão próspera vitória,
    Tornando Afonso à Lusitana terra,
    A se lograr da paz com tanta glória
    Quanta soube ganhar na dura guerra,
    O caso triste, e dino da memória,
    Que do sepulcro os homens desenterra,
    Aconteceu da mísera e mesquinha
    Que depois de ser morta foi Rainha.

    119
    "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
    Que os corações humanos tanto obriga,
    Deste causa à molesta morte sua,
    Como se fora pérfida inimiga.
    Se dizem, fero Amor, que a sede tua
    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
    É porque queres, áspero e tirano,
    Tuas aras banhar em sangue humano.

    120
    "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruto,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuto,
    Aos montes ensinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    121
    "Do teu Príncipe ali te respondiam
    As lembranças que na alma lhe moravam,
    Que sempre ante seus olhos te traziam,
    Quando dos teus fermosos se apartavam:
    De noite em doces sonhos, que mentiam,
    De dia em pensamentos, que voavam.
    E quanto enfim cuidava, e quanto via,
    Eram tudo memórias de alegria.

    122
    "De outras belas senhoras e Princesas
    Os desejados tálamos enjeita,
    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
    Quando um gesto suave te sujeita.
    Vendo estas namoradas estranhezas
    O velho pai sesudo, que respeita
    O murmurar do povo, e a fantasia
    Do filho, que casar-se não queria,

    123
    "Tirar Inês ao mundo determina,
    Por lhe tirar o filho que tem preso,
    Crendo co'o sangue só da morte indina
    Matar do firme amor o fogo aceso.
    Que furor consentiu que a espada fina,
    Que pôde sustentar o grande peso
    Do furor Mauro, fosse alevantada
    Contra uma fraca dama delicada?

    124
    "Traziam-na os horríficos algozes
    Ante o Rei, já movido a piedade:
    Mas o povo, com falsas e ferozes
    Razões, à morte crua o persuade.
    Ela com tristes o piedosas vozes,
    Saídas só da mágoa, e saudade
    Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
    Que mais que a própria morte a magoava,

  • Os fidalgos da Casa Mourisca

    Os fidalgos da Casa Mourisca

    Aproximadamente 147.699 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    OS FIDALGOS

    DA

    CASA MOURISCA

    CHRONICA DA ALDEIA

    POR

    *JULIO DINIZ*

    *VOLUME I*

    *PORTO*

    TYPOGRAPHIA DO JORNAL DO PORTO
    Rua Ferreira Borges, 31

    1871

    OS FIDALGOS DA CASA MOURISCA

    I

    A tradição popular em Portugal, nos assumptos de historia patria, não se
    remonta além do periodo da dominação arabe nas Hespanhas.

    Pouco ou nada sabe o povo de celtiberos, de romanos e de wisigodos. É,
    porém, entre elle noção corrente que, em outros tempos, fôra este paiz
    habitado por mouros, e que só á força de cutiladas e de botes de lança
    os expulsaram os christãos para as terras da Mourama. Os vultos heroicos
    de reis e cavalleiros nossos, que se assignalaram nas luctas d'essa
    época, ainda não desappareceram das chronicas oraes, onde vivem
    illuminados por a mesma poetica luz das xacaras e dos romances
    nacionaes; e hoje ainda, nas dansas e jogos que se celebram nos logares
    publicos das villas e aldeias, por occasião das principaes solemnidades
    do anno, apraz-se a memoria do povo de recordar os feitos d'aquelles
    tempos historicos por meio de simulados combates de mouros e christãos.

    Nos contos narrados em volta da lareira, onde nas longas noites de serão
    se reune a familia rustica, ou ás rapidas horas d'uma noite de estio, na
    soleira da porta, ao auditorio attento que segue com os olhos a lua em
    silenciosa carreira por um céo sem estrellas, avulta uma creação
    extremamente sympathica, a das mouras encantadas, princezas
    formosissimas que ficaram d'esses remotos tempos na peninsula, em paços
    invisiveis, á espera de quem lhes venha quebrar o captiveiro, soltando a
    palavra magica.

    Falla-se em diversos pontos das nossas provincias, com a seriedade que é
    propria a uma arreigada crença, de thesouros enterrados, que os mouros
    por ahi deixaram, na esperança de voltarem um dia a resgatal-os, e já
    não tem sido poucas as escavações emprehendidas no ávido intuito de os
    descobrir.

    Esta mesma noção historica do povo é a que dá logar a um outro frequente
    facto. Quando, no centro de qualquer aldeia, se eleva um palacio, um
    solar de familia, distincto dos edificios communs por uma qualquer
    particularidade architectonica mais saliente, ouvireis no sitio
    designal-o por o nome de Casa Mourisca, e, se não se guarda ahi memoria
    da sua fundação, a chronica lhe assignará infallivelmente como data a
    lendaria e mysteriosa época dos mouros.

    Era o que succedia com o solar dos senhores Negrões de Villar de Corvos,
    que, em tres leguas em redondo, eram por isso conhecidos pelo nome dos
    Fidalgos da Casa Mourisca.

    Não se persuada o leitor de que possuia aquelle solar feição
    pronunciadamente arabe, que justificasse a denominação popular, ou que
    mãos agarenas houvessem de feito cimentado os alicerces da casa nobre
    denominada assim. Ás pequenas torres quadradas, que se erguiam, coroadas
    de ameias, nos quatro angulos do edificio, ao desenho ogival das portas
    e janellas, ás estreitas setteiras abertas nos muros, e finalmente a
    certo ar de castello feudal, que um dos antepassados d'esta fidalga
    familia tentou dar aos paços de sua residencia senhoril, devêra ella a
    qualificação de mourisca, que persistira, apesar dos protestos da arte.
    Nenhum estylo architectonico fôra na construcção escrupulosamente
    respeitado; o gosto e capricho do proprietario presidiram mais que tudo
    á traça e execução da obra; não ha pois exigencias artisticas que me
    imponham a obrigação de descrevel-a miudamente.

    Diga-se porém a verdade; fossem quaes fossem os defeitos de
    architectura, as incongruencias e absurdos d'aquella fabrica grandiosa,
    quem, ao dobrar a ultima curva da estrada irregular por onde se vinha á
    aldeia, via surgir de repente do seio de um arvoredo secular aquelle
    vulto escuro e sombrio, contrastando com os brancos e risonhos casaes
    disseminados por entre a verdura das collinas proximas, mal podia reter
    uma exclamação de surpreza e involuntariamente parava a contemplal-o.

    Ou o sol no poente lhe doirasse a fachada de granito, ou as ameias, que
    o coroavam, se desenhassem como negra dentadura no céo azul, alumiado
    pela claridade matinal, era sempre melancolico e triste o aspecto
    d'aquella residencia, sempre magestoso e severo.

    Reparando mais attentamente, outros motivos concorriam ainda para
    fortalecer esta primeira impressão. O tempo não se limitára a colorir o
    velho solar com as tintas negras da sua palheta; derrocára-lhe aqui e
    além uma ameia ou um balaustre do eirado, mutilára-lhe a cruz da
    capella, desconjunctára-lhe a cantaria em extensos lanços de muro,
    abrindo-lhe intersticios, d'onde irrompia uma inutil vegetação parasita:
    e esta permanencia de estragos, trahindo a incuria ou a insufficiencia
    de meios do proprietario actual, iniciava no espirito do observador uma
    serie de melancolicas reflexões.

    E se o movesse a curiosidade a indagar na visinhança informações sobre a
    familia que alli habitava, obtel-as-ia proprias a corroborar-lhe os seus
    primeiros e espontaneos juizos.

    Os chamados Fidalgos da Casa Mourisca eram actualmente tres. D. Luiz, o
    pae, velho sexagenario, grave, severo, e taciturno; Jorge e Mauricio, os
    seus dois filhos, robustos e esbeltos rapazes: o mais velho dos quaes,
    Jorge, ainda não completára vinte e tres annos.

    A historia d'aquella casa era a historia sabida dos ricos fidalgos da
    provincia, que, orgulhosos e imprevidentes, deixaram, a pouco e pouco,
    embaraçar as propriedades com hypothecas e contractos ruinosos,
    desfallecer a cultura nos campos, empobrecer os celleiros, despovoar os
    curraes, exhaurir a seiva da terra, transformar longas varzeas em
    charnecas, e desmoronarem-se as paredes das residencias e das granjas e
    os muros de circunscripção das quintas.

    Filho segundo de uma das mais nobres familias da provincia, D. Luiz fôra
    pelos paes destinado para a carreira diplomatica, na qual entrou
    apadrinhado e favorecido por os mais altos personagens da côrte.

    Nas primeiras capitaes da Europa, em cujas embaixadas serviu, obteve o
    fidalgo provinciano um grau de illustração e de tracto do mundo, um
    verniz social, que nunca adquiriria se, como tantos, de moço se creasse
    para morgado.

    Quando, por morte do primogenito, veio a succeder nos vinculos, D. Luiz
    podia considerar-se, graças á occupação dos seus primeiros annos de
    mocidade, como o mais instruido e civilisado proprietario da sua
    provincia; e como tal effectivamente foi sempre havido pelos outros, que
    o tractavam com uma deferencia excepcional.

    Ainda depois da morte do irmão, D. Luiz, costumado ao viver da grande
    sociedade e á esplendida elegancia das côrtes estrangeiras, não
    abandonou a carreira que encetára. Secretario de embaixada em Vienna,
    casou alli com a filha de um fidalgo portuguez, que então residia n'essa
    corte, encarregado de negocios politicos.

    Ao manifestarem-se em Portugal os primeiros symptomas da profunda
    revolução, que devia alterar a face social do paiz, D. Luiz mostrou-se
    logo hostil ao movimento nascente, e abandonando então o seu logar
    diplomatico, voltou ao reino para representar um papel importante nas
    scenas politicas d'essa época.

    Ahi tiveram origem grande parte dos desgostos domesticos, que lhe
    amarguraram o resto da vida.

    Os parentes de sua esposa abraçaram a causa liberal.

    D. Luiz, com toda a intolerancia partidaria, rompeu completamente as
    relações com elles, ferindo assim no intimo os affectos mais sanctos da
    pobre senhora, que sentia esmagar-se-lhe o coração entre as fortes e
    irreconciliaveis paixões dos que ella com igual affecto amava.

    O rancor faccioso foi ainda mais longe em D. Luiz. Impelliu-o á
    perseguição.

    O irmão mais novo da esposa, obedecendo ao enthusiasmo de rapaz e á
    vehemencia de uma convicção sincera, sustentára com a penna, e mais
    tarde com a espada, a causa da ideia nova, que tanto namorava os animos
    generosos e juvenis.

    Sobre a bella e arrojada cabeça d'aquelle adolescente pesaram as sombras
    das suspeitas e das vinganças politicas; e D. Luiz, cego pela paixão,
    não duvidou em fazer-se instrumento d'ellas.

    Este era o irmão querido da esposa, que o fidalgo estremecia; mas nem as
    supplicas, nem as lagrimas d'ella puderam abrandar a força d'aquelle
    rancor.

    O imprudente moço viu-se perseguido, prêso, processado e em quasi
    imminente risco de expiar, como tantos, no supplicio o crime de pensar
    livremente. Conseguindo, quasi por milagre, escapar á furia dos seus
    perseguidores, emigrou para voltar mais tarde n'essa memoranda
    expedição, que principiou em Portugal a heroica iliada da nossa
    emancipação politica.

    Guerreiro tão fogoso, como o fôra publicista, o pobre rapaz não assistiu
    porém á victoria da sua causa. Ao raiar da aurora liberal, por que tanto
    anhelava, cahiu em uma das ultimas e mais disputadas refregas d'aquella
    sanguinolenta lucta, crivado de balas inimigas, sendo a sua ultima voz
    um grito de enthusiasmo pela grande ideia, em cujo martyrologio se ia
    inscrever o seu nome.

    A morte d'este enthusiasta levou o lucto e a tristeza ao solar de D.
    Luiz. O coração amoravel e extremoso da infeliz senhora recebeu então um
    golpe decisivo; das consequencias d'aquella dôr nunca mais podia ella
    convalescer. A sua vida foi depois toda para luto e para lagrimas.

    Fez-se a paz, implantou-se no paiz a arvore da liberdade; D. Luiz deixou
    então a vida da côrte e veio encerrar no canto da provincia os seus
    despeitos, os seus odios e os seus desalentos. Trouxe comsigo um enxame
    de misanthropos, a quem o sol da liberdade igualmente incommodava, e que
    tinham resolvido pedir á natureza conforto contra os suppostos delictos
    da humanidade.

    O solar do fidalgo transformou-se pois em asylo de muitos
    correligionarios, como elle desgostosos e irreconciliaveis com a nova
    organisação social.

    Instituiu-se alli uma pequena côrte na aldeia, uma especie de assembleia
    ou conventiculo politico, que não poucas vezes attrahiu as vistas dos
    liberaes desconfiados e as ameaças dos mais insoffridos. Havia alli
    homens de todas as condições, e alguns de illustração e sciencia.

    A hospitalidade do fidalgo era magnifica. D. Luiz mostrava ignorar, ou
    não querer saber, qual o preço por que ella lhe ficava. Indifferente a
    tudo, dir-se-ia sêl-o tambem á ruina da sua propria casa, que apressava
    assim.

    A victoria da causa contraria; a morte, em curtos intervallos, de tres
    filhos, que parecia cahirem victimas de uma sentença fatal; o receio
    pela vida dos outros; a tristeza e doença progressivas da esposa, a quem
    aquelles odios e luctas tinham despedaçado o coração; ás vezes uma vaga
    consciencia da sua situação precaria, e por ventura ainda remorsos pelas
    violencias, a que os odios politicos o impelliram, quebrantaram o
    caracter, outr'ora varonil, d'aquelle homem, que desde então começou a
    mostrar-se taciturno e descoroçoado. A prova evidente de que alguns
    remorsos tambem lhe torturavam o espirito fôra a insolita generosidade,
    com que recebeu e gasalhou permanentemente em sua casa um pobre soldado
    do exercito liberal, meio mutilado pela guerra d'esses tempos, e que
    tinha sido o fiel camarada do infeliz mancebo, contra quem tanto se
    encarniçára o odio do implacavel realista.

    Viera o soldado entregar á esposa do fidalgo uma medalha, ultima
    lembrança do irmão que lh'a enviára, quando já agonisante no campo do
    combate. Havia-a confiado ao camarada para que a entregasse áquella, a
    quem tanto queria.

    D. Luiz não só permittiu que o soldado fizesse a entrega em mão propria
    da esposa, mas deixou-o com ella em larga conferencia, não querendo que
    a sua presença a reprimisse na ancia natural de saber as menores
    particularidades da vida e da morte do infeliz, de quem o emissario fôra
    companheiro inseparavel. Não se limitou a isso a tolerancia do fidalgo.
    Viu, sem a menor reflexão, que o mensageiro se demorava alguns dias na
    Casa Mourisca, e não oppôz resistencia alguma ao pedido, que a esposa
    mais tarde lhe fez para que o deixasse ficar alli, no logar do hortelão
    que fallecêra.

    Este facto insignificante foi de não pequena influencia nos destinos
    d'aquella familia.

    Os filhos de D. Luiz, creados no meio d'essa côrte de provincia,
    cresciam sob influencias que actuavam d'uma maneira contradictoria sobre
    os seus caracteres infantis.

    Não lhes faltavam mestres que os instruissem, que muitos eram os
    habilitados para isso nas salas do fidalgo, refugio de tantos illustres
    descontentes. Graças a estas especiaes condições, puderam os dois
    rapazes receber uma educação, difficil de conseguir em um canto tão
    retirado da provincia, como aquelle era.

    Mas, ao lado da lição dos mestres, que, juntamente com a sciencia, se
    esforçavam por imbuir-lhes os seus principios politicos, aos quaes se
    atinham como a artigos de fé, havia uma outra lição mais obscura, mas
    por ventura mais efficaz. Era a lição da mãe e a do veterano.

    A esposa de D. Luiz era uma senhora de esmeradissima educação e de um
    profundo bom senso. Amava o marido, mas via com pezar os excessos, a que
    o impelliam as suas opiniões politicas. Educada no seio de uma familia
    liberal, possuia sentimentos favoraveis ás ideias novas; mas sabia
    guardal-os no coração, para não despertar conflictos na familia.

    Porém, no tracto intimo entre mãe e filhos, trahia-se muita vez essa
    prudente discrição, e as fidalgas crianças iam recebendo a doutrina, de
    que os outros lhes blasphemavam como de heresias, e naturalmente,
    seduzidas pela origem d'onde ella lhes vinha, abriam-lhe de melhor
    vontade o coração, do que aos preceitos austeros e um pouco pedantescos
    dos mestres.

    Demais, ouviam tantas vezes a mãe fallar-lhes do irmão que perdêra, dos
    seus sentimentos generosos, do seu nobre caracter e da sua dedicação
    heroica a bem da causa liberal, que elles, e o mais velho sobre tudo,
    costumaram-se a venerar a memoria do tio, como a de um heroe e a de um
    martyr e a vêl-o aureolado de um verdadeiro prestigio lendario.

    Para isto porém concorreu mais que outrem o hortelão.

    O velho soldado era uma chronica viva das batalhas e façanhas d'aquelles
    tempos historicos e um panegyrista ardente do seu pobre official, cujo
    ultimo suspiro recolhêra.

    As crianças sentiam-se instinctivamente attrahidas para a companhia do
    velho, em cujas narrações pintorescas e vivamente coloridas achavam um
    encanto irresistivel. Feria-lhes fundo a curiosidade a maneira por que
    elle fallava dos trabalhos da emigração, dos episodios do cerco do
    Porto, da fome, da peste e da guerra, triplice calamidade que conhecêra
    de perto, das batalhas em que havia entrado, da bravura do seu amo, e
    finalmente do Imperador, por quem o mutilado veterano professava um
    enthusiasmo quasi supersticioso, e a cujo vulto a sua narrativa
    imaginosa dava um aspecto epico e sobrenatural.

    As crianças não se fartavam de interrogar aquella testemunha presencial
    de tantos feitos heroicos.

    E assim eram neutralisadas as doutrinas dos pedagogos eruditos,
    encarregados da educação dos filhos de D. Luiz, e estes iam crescendo
    affeiçoados aos principios liberaes, que amavam de instincto, antes de
    os amarem de reflexão.

    Mas dias de maior provação estavam reservados para esta familia.

    A munificencia que o senhor da Casa Mourisca mantivera no voluntario
    desterro, a que se condemnou, obrigára-o a enormes e perigosos
    sacrificios.

    D. Luiz nunca propriamente se occupára da gerencia dos seus bens. Fiel
    aos habitos aristocraticos dos seus maiores, deixára desde muito a
    procuradores todos os cuidados de administração, e de quando em quando
    recebia d'elles a noticia de que a sua casa se estava perdendo, sem que
    se lembrasse de perguntar a si proprio se não seria possivel oppôr um
    obstaculo áquella ruina.

    O padre Januario, ou frei Januario dos Anjos, velho egresso, homem de
    letras gordas, que se estabelecêra commodamente n'aquella acastellada
    residencia, como em casa sua, era um d'esses procuradores.

    Faça-se justiça ao padre, que não era de má fé, nem em proveito proprio,
    que elle apressava, com mão poderosa, a decadencia de D. Luiz. Mas,
    homem de curtas faculdades e de nenhum expediente financeiro, se obtinha
    capitaes para o seu constituinte, nas crises mais apertadas, era sempre
    sob condições de tal natureza, que deixava de cada vez mais onerada a
    propriedade e mais irremediavel o triste futuro d'ella. Succedeu pois o
    que era de esperar. Dispersou-se a côrte de D. Luiz. Por muito que
    fizessem os administradores da casa para a manter no costumado
    esplendor, cêdo principiaram a transparecer os signaes da declinação.
    Foi o aviso para a debandada. Uns porque delicadamente comprehenderam
    que a sua permanencia concorreria para augmentar as difficuldades, com
    que o fidalgo já luctava; outros, porque aspiravam melhores auras, longe
    d'alli, em solares menos estremecidos pelo vaivem da adversidade; é
    certo que todos se foram retirando, a um por um, e deixaram a familia
    só.

    Augmentou com este isolamento a taciturnidade do fidalgo.

    Depois veio a doença e a morte da esposa, d'aquella que lhe tinha sido
    tão fiel amiga, que, para lhe poupar desgostos, até escondia as
    lagrimas, que elle lhe fazia verter; veio essa nova dôr atribular-lhe
    ainda mais a existencia. E ainda não haviam acabado as provações! No
    fundo do calice estavam ainda depositadas as gotas mais amargas.

    D. Luiz tinha por esses tempos uma filha, mimoso legado da esposa, cuja
    missão consoladora continuava no mundo. Queria-lhe muito o pae! Se não
    havia de querer! O coração árido d'aquelle velho e o tenro coração
    d'aquella criança procuravam-se, como para um pelo outro se completarem.

    O velho fidalgo, concentrado e quasi rispido para com os outros filhos,
    se alguma vez teve nos labios sorrisos desanuviados e sinceros, foi na
    presença da sua Beatriz. Aquelle desgraçado coração, vazio de affectos,
    queimado de odios e de paixões esterilisadoras, sentia um grato
    refrigerio em deixar-se penetrar do suave influxo das caricias da
    criança, que beijava as faces rugosas do pae e lhe brincava com os
    cabellos prateados; e muitas vezes, n'esses momentos, lagrimas de
    desafogo dissipavam a cerração que ia na alma d'aquelle homem, que com
    tanta força sabia odiar.

    E não era só o pae que experimentava essa influencia.

    Jorge, que de pequeno fôra pensativo e serio, sentia-se tomar por a
    bondade e ternura de Beatriz. Criança ainda, tinha ella, quando a sós
    com o irmão, um olhar penetrante e um gesto grave como o d'elle, um
    espirito para communicar á vontade com o seu. Ella parecia comprehender
    o alcance do auxilio que poderia receber um dia d'aquelle rapaz sisudo,
    que a fitava, e elle sentia-se engrandecer aos proprios olhos,
    lembrando-se de que seria sua missão na vida proteger aquelle anjo.

    Mauricio, genio mais impetuoso e impaciente, dobrava tambem a vontade a
    um aceno da fragil e delicada creatura, em quem um estouvamento seu
    desafiava lagrimas. E estas lagrimas eram a unica repressão que o
    continham nos desvarios.

    Pois até n'esta filha feriu o Senhor o pobre ancião.

    Criança mimosa, colheu-a um sopro da morte, ainda com o sorriso nos
    labios, e prostrou-a exanime no tumulo.

    Fez-se então devéras escuro no espirito do pae.

    Quando aquella pequena fada domestica desappareceu, como uma visão
    vaporosa em contos de magia, foi como que se todos ficassem em trevas. A
    vida era tão outra! O ente que absorvia os instantes d'aquelles tres
    homens, a quem todos tres tributavam os seus mais puros affectos e os
    seus pensamentos mais constantes, desapparecêra, e elles olhavam-se
    assustados, meio loucos, como se de subito se lhes tivesse apagado a luz
    que os alumiava; sentiam a indecisão do homem, a quem no meio da estrada
    fulmina inesperada cegueira.

    Passada a violencia da primeira dôr, em todos ficou a saudade, negra e
    concentrada em D. Luiz, melancolica em Jorge, expansiva e vehemente em
    Mauricio; e para todos o nome de Beatriz, a recordação dos seus gestos,
    das suas palavras, era um talisman, cuja efficacia nunca se desmentia. A
    alma d'aquelle anjo assistia ainda á familia, que o chorava, e á sua
    mysteriosa direcção obedeciam todos, sem o perceberem.

    Morta aos dezeseis annos, Beatriz vivia ainda nos logares que habitava.

    Ha entes assim, cuja influencia posthuma lhes dá uma quasi
    immortalidade, á maneira da luz sideral, que continua a scintillar para
    nós, depois de aniquilado o fóco que a emittia.

    O padre Januario tornou-se desde então a creatura indispensavel, e a
    companhia exclusiva de D. Luiz, que via n'elle o unico representante da
    sua antiga côrte.

    Acerrimo partidario do regimen absoluto, apesar de lhe não ser possivel
    enfeixar dois argumentos serios em defeza d'elle, o padre Januario
    passava a vida aproveitando os mais ridiculos ensejos para premissas dos
    seus corollarios anti-liberaes, artificio com que lisongeava as paixões
    do seu illustre amo e patrono, e mantinha n'elle o fogo sagrado.

    O padre achava-se bem n'aquella vida monotona, que exercia sobre si os
    mais notaveis effeitos analepticos. Podia dizer-se que elle dividia alli
    o tempo entre duas occupações exclusivas: comer e esperar com
    impaciencia as horas da comida.

    Uma unica circumstancia assombrava os dias do padre. Era a presença na
    Casa Mourisca do hortelão, em quem fallamos, e que mantinha com elle uma
    aberta hostilidade. Frei Januario exasperava-se sempre que o ouvia
    fallar no Imperador e no Cerco e nos Voluntarios da Rainha e na Carta,
    com o enthusiasmo e a emphase de um soldado d'aquelles tempos. Por vezes
    rompiam ambos em scenas violentas; por vezes o capellão ia aconselhar ao
    fidalgo a demissão d'aquelle homem, que ameaçava infectar de liberalismo
    a familia inteira.

    D. Luiz porém, apesar de nunca fallar com o hortelão, não attendia
    n'estas reclamações o padre. Conservando no seu serviço o veterano,
    satisfazia a um pedido da esposa, e não teria coragem para fazer o
    contrario. Assim perpetuavam-se os conflictos entre os dois, porque nem
    o procurador supportava as rudes franquezas do soldado, nem este os
    remoques encapotados do procurador.

    Tal era a situação da familia da Casa Mourisca na época em que vae
    procural-a a nossa narração.

    Já se vê quão mal assegurado andava o futuro dos dois jovens filhos de
    D. Luiz. A educação que elles haviam recebido não tendêra a fim algum
    prático.

    D. Luiz não podia soffrer a ideia de dar a seus filhos uma profissão. A
    nobre carreira das armas, que mais lhes conviria, estava-lhes fechada
    pelas ultimas evoluções politicas. Os descendentes dos ultra-monarchicos
    Negrões de Villar de Corvos não eram para se assalariarem em defeza dos
    principios e das instituições que abalaram os velhos thronos, firmados
    no direito divino. Nobre era tambem a carreira ecclesiastica, que muitos
    dos seus antepassados haviam trilhado, apoiados no baculo episcopal; mas
    se D. Luiz estava persuadido de que já não havia religião n'este
    territorio de antigos crentes? e se frei Januario teimava, ensinado pelo
    mallogro de longas pretenções ás honras de umas meias vermelhas, que só
    se adiantava nas phalanges do clero quem fosse pedreiro livre!

    Assim pois os jovens descendentes do velho realista passavam o tempo
    cavalgando e caçando nas immediações, e fruindo em sancto ocio uma vida,
    cujos espinhos todos procuravam occultar-lhes. Caminhavam por estrada de
    rosas para um fundo precipicio, d'onde lhes desviavam as vistas.

    Deve porém dizer-se que não caminhavam ambos igualmente desprevenidos;
    porque de criança era diverso o caracter dos dois, e de dia para dia
    mais a differença se pronunciava.

    Jorge, na infancia como na juventude, fôra sempre grave e reflectido.
    Nos brinquedos tomava para si o desempenho de um papel serio. Era o pae,
    o mestre, o commandante, o medico, o padre, tudo aquillo que o obrigasse
    a um porte sisudo e a uma gravidade de homem. Adolescente, nunca as
    raparigas do logar lhe ouviram uma phrase atrevida; era sempre uma
    saudação affectuosa, casta e quasi paternal a que lhes dirigia, ainda
    quando as encontrasse a sós nas veredas mais solitarias das devezas ou
    pinheiraes. Ellas habituaram-se áquella juvenil seriedade, saudavam-n'o
    como a um velho, fallavam d'elle com acatamento, certas de encontrarem
    n'aquelle silencioso rapaz um protector na occasião precisa, mas nunca
    um namorado. E comtudo a figura esbelta de Jorge, a varonil e
    intelligente expressão d'aquelle rosto bem desenhado e um certo fulgor
    no olhar, que denunciava energia de caracter, obrigavam a desviar-se
    para o vêr mais de um olhar feminino, quando elle passava com um livro
    debaixo do braço ou a cavallo pelos caminhos do campo.

    As pessoas da indole de Jorge impoem uma especie de estranho temor ás
    mulheres, que se afastam d'ellas como de um ser mysterioso, d'onde lhes
    podem vir perigos desconhecidos.

    Mauricio, pelo contrario, mal podia dizer de que idade encetára o seu
    primeiro amor. Com os brinquedos pueris misturára já uns arremedos de
    galanteio e mais o competente cortejo de arrufos e de ciumes. Desde
    então nunca lhe andou o coração devoluto, ainda que tambem nunca tão
    tomado e absorvido por amores, que o fizesse passar por qualquer belleza
    feminina, sem uma lisonja e sem um sorriso.

    Era popularissimo entre as raparigas da aldeia; todas o conheciam, e
    elle a todas designava por os nomes. A todas não, que para as feias
    tinha uma memoria ingrata.

    Além d'isso Jorge gastava muito do seu tempo na leitura. Era bem provida
    a livraria da casa. A educação esmerada da mãe e bom gosto litterario
    tinham enriquecido a bibliotheca dos melhores modelos da litteratura
    nacional e da estrangeira. Ahi encontraram os dois rapazes farto
    alimento para a sua curiosidade. Jorge lia tambem furtivamente os poucos
    livros, espolio do tio fallecido, os quaes o hortelão guardára como
    reliquia, furtando-os ao auto de fé a que os condemnaria inevitavelmente
    a indignação do fidalgo e do padre. N'esses livros aprendeu Jorge a
    pensar, a comprehender o alcance de certas ideias e de certas
    instituições, e a fazer a justiça devida a muitos preconceitos, que lhe
    haviam imposto como dogmas.

    A um espirito d'estes, educado em observar e reflectir, não podiam
    passar por muito tempo desapercebidos os numerosos symptomas da
    decadencia que apresentava a Casa Mourisca. Assim, por vezes vinha-lhe
    ao espirito uma secreta apprehensão pelo seu precario futuro.

    Mauricio, imaginação mais forte, natureza mais ardente, caracter mais
    frivolo e voluvel, vivia a sua vida de joven fidalgo de provincia;
    deixava-se ir na corrente dos seus amores faceis, dos seus prazeres e
    das suas dissipações, allucinado por os sonhos e chimeras de uma fertil
    fantasia, e não profundava os olhos até o seio obscuro das realidades. A
    sua leitura era exclusiva de romancistas e poetas. Imaginação nimiamente
    inquieta, razão por indolencia inactiva, não via, nem quereria vêr, o
    espectro, que ás vezes apparecia aos olhos do irmão.

    Uma circumstancia havia, a que mais que a outras devia Jorge a apparição
    d'esse espectro, que, á semelhança da sombra do rei da Dinamarca, em
    Hamlet, ia exercendo uma funda influencia no animo do adolescente.

    Esta circumstancia não era só para elle manifesta. Ao viajante, que já
    suppozemos parado a contemplar o vulto denegrido da Casa Mourisca, não
    passaria ella tambem desapercebida.

    Na raiz da collina fronteira áquella, onde o solar dos fidalgos erguia
    as suas torres ameiadas, assentava o mais risonho e prospero casal dos
    arredores. Era uma completa casa rustica, conhecida por aquelles sitios
    pelo nome, que por excellencia se lhe dera, da Herdade.

    O contraste entre a Herdade e o velho solar era perfeito.

    Ella graciosa e alvejante, elle severo e sombrio; de um lado todos os
    signaes de actualidade, de vida, de trabalho, da industria que tudo
    aproveita, que não dorme, que não descança; a economia, a previdencia, o
    futuro: do outro, o passado, a tradição esteril, o silencio, a incuria,
    o desperdicio, a ruina: a cada pedra que o tempo derrubava do palacio,
    correspondia uma que se assentava na Herdade para alicerces de novas
    construcções; aqui desmoronava-se um pavilhão, alli levantava-se um
    celleiro, uma azenha, um lagar; aos velhos carvalhos, ás heras
    vigorosas, aos avelludados musgos, aos lichens multicores, severas
    galas, com que se adornava a casa nobre, oppunha a Herdade os pomares
    productivos, as ondulantes searas, os prados verdes, as vinhas ferteis e
    proximo de casa, os canteiros de rosas e balsaminas, onde volteavam
    incessantes as abelhas das colmeias proximas. Nas amplas cavallariças do
    palacio, onde outr'ora relinchavam duzias de cavallos das mais apuradas
    raças, ainda batiam com impaciencia no lagedo dois velhos exemplares de
    bom sangue, cujo sacrificio a economia não exigira ainda; nas mais
    modestas cavallariças do casal, duas eguas robustas, promptas para o
    serviço, e domaveis por uma criança, preparavam-se em fartas mangedouras
    para frequentes e longas excursões; e ao entardecer abriam-se os curraes
    a numerosas cabeças de gado, cujos mugidos chegavam até o alto da Casa
    Mourisca, onde o velho fidalgo muita vez os escutava, pensativo e
    melancolico.

    Este contraste, que apontamos, era a circumstancia que evocava no
    espirito de Jorge o espectro que o entristecia.

    O dono da Herdade fôra pobre, servira como criado na casa dos fidalgos,
    passára depois a rendeiro de um pequeno casal, mais tarde arrendára uma
    fazenda maior; chegando emfim a ser proprietario, tornára-se em pouco
    tempo possuidor de extensos bens, e era já o chefe d'uma familia
    numerosa e talvez o primeiro agricultor d'aquelle circulo.

    Porque prosperava a Herdade, e porque declinava o palacio? Se de tão
    pouco se chegára a tanto, como se podia cahir de tanto em tão pouco?

    Taes eram, em summa, as vagas reflexões que se assenhoreavam do espirito
    de Jorge, quando das janellas do seu quarto, em uma das torres do
    palacio, ou do alto de alguma eminencia, observava a animação, a vida da
    propriedade do seu antigo criado, e voltava depois os olhos para o vulto
    silencioso e como adormecido do velho paço dos seus maiores.

    II

    Por uma manhã de setembro, limpida e serena, como ás vezes são na nossa
    terra as manhãs do outomno, Jorge sahiu a pé, a passear pelos campos.
    Errou ao acaso por bouças e tapadas, seguiu a estreita vereda a custo
    cedida ao transito pela sôfrega cultura nas terras marginaes do pequeno
    rio da aldeia. Depois, subindo a uma eminencia, parou a contemplar do
    alto o aspecto do feracissimo valle, que suavemente se lhe abatia aos
    pés, e no fundo do qual se erguia, d'entre veigas e pomares, a Herdade,
    de que já fallamos.

    Jorge sentou-se sobre uma d'essas enormes moles de granito, que se
    encontram com frequencia em certos logares da provincia, soltas pelos
    montes, como se fossem roladas para alli em remotas eras por mãos de
    fundibularios gigantes, empenhados em encarniçada lucta. Os olhos
    dirigiram-se-lhe instinctivamente para a Herdade, onde se fixaram, como
    se com força irresistivel os attrahisse o espectaculo que via.

    Era a época de mais intensa vida nas granjas. Os cereaes, cobrindo as
    eiras, lourejavam aos raios desanuviados do sol; carros, a vergarem sob
    o fardo das colheitas, transpunham lentos as portas patentes do
    quinteiro, chiando estridorosamente; apinhavam-se além em montes as
    cannas e o folhelho de milho, restos de recentes descamisadas; longas
    series de mêdas elevavam-se mais longe, á maneira de tendas em um
    arraial de campanha; juntas de bois, já livres do jugo, repousavam das
    fadigas d'aquelles dias de azafama, ruminando em socego; os moços da
    lavoura iam e vinham, atarefados em diversos misteres; e de tudo isto
    erguia-se um clamor de trabalho, que o socego dos campos e a serenidade
    do dia deixavam chegar distincto até o alto da collina.

    O dono da Herdade, o antigo criado da Casa Mourisca, presidia áquellas
    tarefas, e em volta d'elle moviam-se, saltavam e riam duas ou tres
    robustas crianças, com quem brincava um formidavel rafeiro.

    E era esta a scena que Jorge contemplava, e que em tão profundas
    meditações parecia absorvêl-o. De repente distrahiu-o o som dos passos
    de alguem que se aproximava d'aquelle mesmo logar, em que tão
    desapercebidamente lhe ia correndo a manhã.

    Voltando-se, viu seu irmão Mauricio, que em traje rigoroso e competentes
    petrechos de caça, e com a esmerada elegancia e apuro, que lhe eram
    habituaes, subia a collina, precedido de dois ou tres cães de boa raça,
    que de longe descobriram Jorge e correram para elle, afagando-o, com
    latidos e cabriolas.

    Mauricio, assim avisado e conduzido pelos cães, veio ter com o irmão,
    exclamando jovialmente á distancia de alguns passos:

    –Em flagrante delicto de meditação poetica, o snr. Jorge! Bravo! Já não
    desespero de te vêr um dia fazer versos.

    Jorge respondeu, encolhendo os hombros:

    –Quem se senta no alto de um monte, depois de subir toda a encosta
    d'elle sem parar, póde fazêl-o simplesmente com o prosaico intento de
    tomar fôlego. Se isto fosse symptoma de poesia, então…

    –Pois sim, mas já isso de subir o monte com as mãos vazias, como estás,
    sem uma espingarda que revele um razoavel fim no passeio, é um symptoma
    importante. Quem é que se dá ao incommodo de uma ascensão d'essas,
    quando o gozo da perspectiva que espera encontrar lhe não compensa as
    fadigas? E quem tem d'essas compensações senão os poetas, que são os
    unicos que sabem _ce qu'on entend sur la montagne_?

    Avez vous quelque fois, calme et silencieux,
    Monté sur la montagne en presence des cieux?

    E, a recitar os primeiros versos da poesia alludida, sentava-se ao lado
    do irmão, pousava a espingarda, e descobrindo a cabeça, sacudia aos
    ventos os formosos e bastos cabellos castanhos, objecto de muitos
    cuidados seus.

    Os cães andavam inquietos a farejar por entre as urzes e as tojeiras do
    monte.

    Interrompendo de subito a recitação, Mauricio proseguiu:

    –Mas que teima a tua em te mostrares frio ante estas magnificencias!
    Que escrupulos póde haver em declarar isto tudo admiravel? Repara como é
    bem talhado aquelle córte além, no monte; parece feito de proposito para
    deixar vêr no plano posterior aquella povoação distante, que não sei que
    nome tem. E alli o campanario, com a sua alameda? Quem teria a feliz
    inspiração de o assentar tão bem? Onde é que elle ficaria melhor? Parece
    que andou um gosto de artista a dirigir estas coisas.

    E acrescentou, suspirando:

    –Ai, na aldeia o scenario bem está, pouco tem que se lhe diga; mas os
    actores e a comedia que aqui se representa é que são de uma insipidez!

    Os instinctos urbanos de Mauricio, cuja indole mal se accommodava á
    simplicidade campesina, e o fazia suspirar pela vida das capitaes,
    arrancavam-lhe frequentemente d'estas exclamações.

    Jorge, que escutára o irmão sob uma meia distracção e sem desviar os
    olhos da Herdade, replicou-lhe sorrindo:

    –Ha quasi uma hora que estou aqui, e posso jurar-te que não tinha
    notado uma só d'essas particularidades da paisagem que descreves.

    –Gostas mais da contemplação em globo. Até isso é de poeta. Analysar
    minuciosamente as impressões recebidas não é o seu forte.

    –Enganas-te ainda; não era tambem o conjuncto da paisagem que eu
    observava; mas um ponto limitado d'ella, muito limitado.

    –Qual era então?

    –Olha alli para baixo; a Herdade de Thomé, aquella azafama, aquella
    gente toda a trabalhar, a vida que alli vae!

    –Ora adeus!–exclamou Mauricio–é justamente o que me não roubaria um
    momento de attenção. Não te estou a dizer que para mim o que ha de
    insupportavel no campo é a gente que o habita, a vida que n'elle se
    passa? Faz pena vêr que especie de contempladores tem a natureza para
    estas maravilhas. A indifferença com que estes selvagens encaram tudo
    isto! Repara, vê aquelle labrego passar lá em baixo na ponte; olha lá se
    elle desvia a cabeça para algum dos lados, ou se pára um momento para
    gozar do bello espectaculo que d'alli observa. Olha para aquillo!
    Selvagem! Pergunta ao Thomé ou a toda essa gente que lá anda em baixo a
    trabalhar quantas vezes admiraram as bellezas de uma noite de luar,
    vista do alto do oiteiro pequeno, ou se o pôr do sol lhes produz alguma
    sensação na alma, a não ser a lembrança de que vão sendo horas da ceia.

    Jorge sorria ao ouvir o irmão, e tornou placidamente:

    –Que homem este! A poesia precisa de ter quem a entenda e quem a faça;
    e olha que nem sempre os que a entendem a fazem, nem os que a fazem a
    entendem. Esta pobre gente do campo é uma parte integrante d'elle; não o
    contemplam, completam-n'o. Que querias tu? Gostavas talvez mais de que
    em vez d'essa gente indifferente, que trabalha, estivessem por ahi os
    montes, os valles e as ribeiras povoados de poetas contempladores como
    tu? Deves confessar que seria um campo bem ridiculo esse. Se eu até,
    para que te diga a verdade, estou persuadido de que não encontraria
    encantos nos logares muito visitados, que ha por as quatro partes do
    mundo, onde, a cada momento, apreciadores inglezes, francezes, russos e
    allemães passeiam, soltando exclamações polyglotas, e onde o nosso
    enthusiasmo nos é prescripto a paginas tantas do GUIA DO VIAJANTE. O que
    torna os lavradores poeticos é a inconsciencia com que elles o são.

    –Vistos de longe. Pelo menos concorda n'isto; vistos de longe, e de
    muito longe.

    –Vistos de longe, sim, que duvida? como tudo o mais. Ao perto tambem
    muitos d'esses prados são pantanos mal cheirosos, que infectam, e
    mexe-se uma miryada de insectos repugnantes n'essa verdura que tanto
    admiras. Dize-me uma coisa, Mauricio, parece-te que o nosso velho solar
    prejudica a belleza d'esta paisagem?

    –Se prejudica? Ora essa! Adorna-a. Olha que bem que elle sahe d'aquelle
    fundo que lhe fazem os castanheiros!

    –Muito bem, e comtudo, visto de perto, ha lá tristes e prosaicas
    realidades–observou Jorge, suspirando.

    Ao olhar de estranheza, com que, ao ouvir-lhe estas palavras, o irmão o
    fitou, Jorge correspondeu, dizendo:

    –Sim, Mauricio, triste e prosaica realidade para quem o olhar de perto.
    Ha nada mais triste do que aquelles campos invadidos pelas ortigas, que
    nós lá temos, do que aquelles pomares mal tractados, e aquelles
    celleiros em ruinas? Quererás encontrar poesia na nossa pobreza,
    Mauricio?

    –Pobreza?!

    –Pobreza, sim; pois que nome lhe queres dar? Olha, compara o aspecto
    d'essa casa branca de um andar, que ahi fica em baixo, com o do nosso
    paço acastellado, a actividade d'aquelles homens com a somnolencia
    chronica do nosso capellão; compara ainda, Mauricio, compara a
    desafogada alegria de Thomé com a tristeza sem conforto do nosso pae.

    Mauricio curvou a cabeça, e uma como sombra de tristeza parou-lhe algum
    tempo na fronte, habitualmente desanuviada. Dir-se-ia que pela primeira
    vez o vulto descarnado da realidade se lhe apresentava aos olhos, até
    então fascinados pelo fulgor de lisongeiras illusões.

    Mas, depois de breves instantes de silencio, respondeu ao irmão:

    –Pois bem, será como dizes. Creio até que seja essa a verdade. A
    riqueza está alli, a pobreza do nosso lado; porém a poesia… oh! essa
    deixa-nol-a ficar, que bem sabes que não é ella a habitual companheira
    da opulencia.

    –Da opulencia ociosa, egoista e inutil, de certo que não; mas da
    opulencia activa, benefica, que semeia, que transmitte a vida em volta
    de si, da opulencia que fomenta o trabalho, que cultiva os terrenos
    maninhos, que fertilisa a terra esteril, que sustenta, que educa e
    civilisa o povo, oh! d'essa é a poesia companheira tambem. Se o castello
    arruinado tem poesia bastante para fazer correr lagrimas de saudade; a
    granja, activa e prospera, tem-n'a de sobra para as provocar de
    enthusiasmo e de fé no futuro.

    Mauricio ficou outra vez silencioso; depois, como se pretendesse sacudir
    de si as ideias negras evocadas pelas palavras do irmão, exclamou
    erguendo-se e com affectado estouvamento:

    –Estás enganado, Jorge, o que reina alli em baixo não é a poesia, é…
    é… é a economia. A poesia não assiste ao edificio que se levanta, mas
    ao que se arruina; gosta mais dos musgos, do que da cal; do lado do
    passado é que a encontras, melancolica, que é o ar que lhe convém. E
    ella tem razão; o futuro tem muita vida para precisar do prestigio
    poetico. A poesia dos utilitarios! Com o que tu me vens! Não sei quem
    foi que ha tempos me disse ter lido uma noticia curiosa a respeito da
    Inglaterra. Parece que o espirito industrial e economico d'aquella gente
    vae por lá destruindo as florestas, as matas, as sebes vivas, o que
    emmudecerá dentro em pouco os córos das aves; os rebanhos, que d'antes
    pastavam pelas campinas verdes, hoje já prosaicamente se vão engordando
    nos estabulos! Que mais falta? A voz dos camponezes, as cantigas e as
    musicas ruraes hão de calar-se ao ruido do ranger das machinas e do
    silvo do vapor. Admiravel! Em vez do fumo alvo e tenue das choças ficará
    o céo coberto de fumo negro e espesso do carvão de pedra. Que modelo de
    aldeia o que nos vem da Inglaterra! Na verdade! que poesia!

    –No que tu me vens fallar! Na Inglaterra agricola!–acudiu Jorge–Mas
    antes lá é que bem se comprehende a poesia da vida rural, que até a
    nobreza a não despreza. Sempre ouvi dizer que os senhores das terras e
    os rendeiros fraternisam e auxiliam-se mutuamente, e que os trabalhos do
    anno succedem-se entre festas e solemnidades populares, lucrando todos,
    trabalhando todos, e enriquecendo cada vez mais a terra. Deves confessar
    que ha mais poesia nos dominios senhoris dos lords de Inglaterra, que
    dirigem por si mesmos as suas vastas emprezas agricolas, do que nos
    pardieiros em ruinas dos nossos morgados, em cujas velhas salas dormem
    os proprietarios o somno da ignorancia, da inutilidade e da devassidão.

    –Não o nego, mas… na nossa casa, naquella triste Casa Mourisca, ha um
    quê de poesia, de poesia elegiaca, se assim quizeres. Essa de que fallas
    será a poesia das georgicas; mas a da elegia deixa-m'a ficar.

    –O peior, Mauricio, é que um dia virá talvez em que o tremendo
    prosaismo da completa miseria dissipará esse tenue perfume que dizes.

    –Safa! Estás hoje com uns humores de Cassandra, Jorge! Deixa lá;
    lembra-te de que se diz que nas nossas propriedades ha um thesouro
    escondido desde o tempo dos mouros, e que um dia alguem de nossa familia
    o achará, ficando fabulosamente rico. Que essa esperança dissipe o humor
    negro que tens. Vamos, vem d'ahi. Pega n'esta espingarda e vae caçar. É
    bom para dissipar visões.

    –Não estou hoje para caçar.

    –Então vaes reatar aqui o fio das tuas cogitações?

    –Não, vou reatal-o acolá.

    –Vaes á Herdade?!

    –Vou.

    –Fazer o quê?

    –Vêr de mais perto aquella poesia, ou aquella prosa, como quizeres.

    –Sabes que o pae não gosta que lidemos muito de perto com o Thomé?

    –Sei. É um preconceito. Elle não o saberá.

    –Um preconceito! Bom! Estás hoje muito philosopho. Adeus, Jorge; espero
    vêr-te ao jantar de melhor aspecto.

    –Adeus, Mauricio.

    E os dois irmãos separaram-se. Mauricio, precedido pelos cães, seguiu em
    direcção dos montes, cantando. Jorge desceu a collina e caminhou para a
    Herdade.

    III

    Thomé da Povoa era o typo mais completo de fazendeiro, que póde
    desejar-se.

    «Alma sã em corpo são»: esta phrase do poeta é a que descreve melhor o
    homem; no physico, a força e a saude em pessoa; no moral, a honradez e a
    alegria.

    Emquanto houvesse alguem que trabalhasse em casa, não descançava elle.
    Delicias do somno de madrugada, attractivos das sestas, a tudo resistia
    com nunca desmentida coragem. Na abastança conservava os costumes
    laboriosos de tempos mais arduos. Tudo lhe corria pelas mãos, a tudo
    superintendia. Antes de almoçar já elle havia passado revista á Herdade
    toda. No decurso do dia montava a cavallo e lá ia inspeccionar uma ou
    outra propriedade mais distante, que não deixava entregue á discrição
    dos caseiros. Uma ou duas vezes no mez estendia as suas excursões até o
    Porto, chamado por negocios relativos á lavoura.

    Franco, lizo de contas, pontual nos pagamentos, cavalheiro nos
    contractos, não se lhe limitava o credito á circumscripção da sua
    aldeia, estendia-se até á cidade, onde o seu nome era melhor garantia em
    certas transacções, do que o de muitos faustosos negociantes. Em
    familia, perfeitamente patriarchal, estremecia a mulher e os filhos; e a
    lembrança de que para elles trabalhava, illudia-lhe as fadigas e os
    desalentos.

    Quando Jorge se dirigiu á Herdade, presidia ainda Thomé aos diversos
    trabalhos, em que a sua gente andava occupada n'aquella manhã.

    Não havia alli braços quietos, nem movimentos inuteis. N'aquellas casas
    o trabalho não distingue sexo nem idade. Todos desde a infancia se
    familiarisam com elle. Dá-se o mesmo que se dá com o tracto dos bois;
    sómente na cidade é que estes possantes e bondosos animaes mettem medo
    ás mulheres e ás crianças; na aldeia umas e outras os afagam e dirigem.

    Assim pois trabalhava-se, fallava-se, ria-se e cantava-se com alma nas
    eiras e quinteiros da Herdade.

    E Thomé, centro d'aquelle movimento, lançando os olhos a tudo, dirigindo
    a todos a palavra e a todos prestando o auxilio do seu braço robusto; e
    da porta da casa, assistindo tambem áquella scena rural, a boa e sancta
    mulher do fazendeiro, a socia fiel nos seus prazeres e penas,
    sustentando ao collo o ultimo dos seus filhos, emquanto que os mais
    crescidos jogavam as escondidas por entre aquella gente azafamada.

    –Olha lá esse carro que não está bem seguro, ó Manoel. Vê lá se me
    arranjas ainda hoje por aqui alguma desgraça… Ó meu maluco, não
    reparas que me vaes semeando as espigas pelo chão? Salta, apanha-me tudo
    isso, que eu não quero nada desperdiçado… Está quieto, João, vae para
    casa, agora não se brinca no quinteiro. Sahe-me de ao pé dos bois,
    menino! Ai que tu… Ó Luiza, olha se mandas dar uma pinga áquelles
    homens…. Que quer você, tio? Cubra-se, ponha o seu chapéo. Ai, vem por
    causa de muro que cahiu? Olhe, tenha paciencia, volte cá ámanhã. Hoje
    não posso olhar por isso… Ó Chico Engeitado, que diabo estás tu
    fazendo, pateta? Deixa-me estar essas pipas. Vae-me recolher aquelle
    milho que eu te disse; corre… O moleiro já veio? Pois as azenhas já
    moem, e o homem não tem desculpas que dê pela demora… Ó Manoel, arreda
    esse carro mais para o meio, senão não póde entrar o outro, homem de
    Deus! Disseram ao Luiz que visse como estava o milho da baixa do rio?
    Que m'o não vá cortar antes do tempo. Eu sempre quero lá ir primeiro;
    elle não apodrece na terra. Ó mulher, chama para lá esses pequenos, que
    podem aleijar-se por aqui. Vae, Joãosinho, vae para casa e leva o mano.
    Olha, queres uma espiga assada? Ó Chico, escolhe ahi duas espigas para
    os pequenos. Que demonio anda aquelle cão a fazer atraz das gallinhas?
    Aqui já, atrevido! Vá, vá, rapazes! Vocês n'esse andar não acabam hoje.
    Dá cá um ensinho, que eu vou arredando este folhelho.

    No meio d'este fogo cerrado de ordens, de conselhos e de observações foi
    Thomé da Povoa interrompido pela voz da mulher, que exclamou:

    –Ai, ó Thomé, olha quem alli está!

    O fazendeiro voltou-se e deu com os olhos em Jorge, que do portão do
    quinteiro viera, cumprindo o que tinha dito ao irmão, contemplar o mesmo
    espectaculo, que tanto o havia attrahido ao observal-o da collina.

    Era raro que os filhos de D. Luiz visitassem a Herdade. O velho fidalgo
    ainda se não costumára á prosperidade do homem que fôra seu criado. A
    granja era como que uma censura pungente á sua imprevidencia; era uma
    lição muda que elle recebia a todos os momentos, que o humilhava no seu
    orgulho e pungia-lhe o coração de remorsos.

    Thomé não se mostrava soberbo nem insolente, antes conservava por a
    familia da Casa Mourisca, e principalmente por D. Luiz, certa deferencia
    e respeito, que se ressentiam ainda da passada posição do fazendeiro em
    casa do fidalgo.

    Este porém procurára o primeiro pretexto para interromper as relações
    com Thomé. Uma questão de aguas, occasionada por a abertura de uma mina
    em terrenos da Herdade, serviu-lhe para o intento. D. Luiz, sempre
    indifferente a litigios d'essa ordem, mostrou-se então muito cioso de
    seus hypotheticos direitos, e, não obstante a nenhuma animosidade que
    houve da parte do lavrador, desde essa época nunca mais conviveu com
    elle.

    Jorge e Mauricio, que costumavam frequentar a casa do homem que os
    trouxera ao collo e que lhes queria devéras, receberam ordem para não
    voltarem lá.

    Thomé da Povoa sentiu-se com este proceder, que não tinha merecido; mas
    possuia bastante finura para perceber a verdadeira causa da irritação do
    fidalgo; por isso limitou-se a encolher os hombros, dizendo para a
    mulher:

    –Então que queres tu que eu lhe faça? assim nasceu, e assim ha de
    morrer.

    Eis a razão porque a presença de Jorge o surprendeu; mas, sem dar
    signaes de estranheza, caminhou para elle com as mãos estendidas e o
    rosto aberto em risos da mais cordial hospitalidade.

    –Entre, snr. Jorge, entre. Isto por aqui está tudo uma desordem, mas
    emfim é casa de lavrador, e em setembro não ha maneira de a ter asseada.
    Ó Luiza, manda para aqui uma cadeira… ou deixa estar, é melhor entrar
    lá para dentro.

    –Não, Thomé, eu prefiro ficar aqui. E não se incommode. Olhe, já estou
    sentado.

    –Ora! n'um carro! Isso é que não. Nada, não tem geito. Luiza, manda
    então a cadeira, manda. Quer beber alguma coisa, snr. Jorge?

    –Agradecido, Thomé; não tenho sêde. Appeteceu-me vir vêr de perto esta
    lida, que por aqui vae, e que estive observando, perto de uma hora, alli
    de cima: por isso desci.

    –Ora essa! Pois bem vindo seja, que sempre me dá alegria ver aquelles
    meninos, que conheci tão pequerruchos como estes.

    E apontava para as crianças que, agarradas ás pernas do pae, olhavam com
    grandes olhos para Jorge.

    –São todos seus?–perguntou Jorge, afagando-as e sentando uma nos
    joelhos.

    –E aquelle que a mãe traz ao collo e a pequena que está na cidade.

    –Ai, sim, a Bertha. Deve estar uma senhora?

    –Está crescidita, está. Mas vamos, tome alguma coisa. Olhe que o meu
    vinho é puro e não faz mal de qualidade alguma. Aquillo é sumo de uva e
    nada mais.

    –Obrigado, obrigado; mas não bebo agora. Peço-lhe que continue com o
    seu trabalho, sem se importar commigo. Para isso é que vim.

    –Ai, isto está a acabar. Vae no meio dia–acrescentou olhando para o
    sol–d'aqui a nada vae esta gente jantar e… Para onde levas tu esse
    carro, ó desalmado? Perdoe-me, snr. Jorge, mas estes diabos… Eu
    attendo-o já.

    E, sem poder conter-se, collocou-se elle proprio á frente dos bois, e
    encaminhou o carro na direcção conveniente.

    –Vocês juraram dar-me cabo dos limoeiros. Olhe que tenho tido limões
    este anno, que é uma coisa por maior, snr. Jorge–disse elle,
    regressando ao seu posto com um enorme limão, que mostrava com orgulho.

    Luiza voltou com uma cadeira para offerecer a Jorge.

    –Como está crescido e fero–dizia ella, olhando-o com curiosidade e
    complacencia–e o mano como vae? Vi-o ha dias passar a cavallo alli na
    ponte do Giestal. Pareceu-me bom.

    –E como está seu pae, snr. Jorge?–perguntou Thomé gravemente.

    Jorge ia respondendo a estas perguntas e seguindo o movimento dos
    criados da lavoura, a quem de quando em quando Thomé dava ordens e fazia
    recommendações, que entremeiava na conversa, sem perder o fio d'esta.

    Luiza, com o filho ao collo, não abandonou tambem a scena, senão quando
    o sino da igreja parochial bateu as tres badaladas que recordam aos
    fieis a oração do meio dia. O trabalho na eira e no quinteiro
    suspendeu-se como por encanto. Os homens descobriram-se a fazer uma
    curta reza, no fim da qual a mulher de Thomé, depois de dar aos
    presentes as boas tardes, disse, seguindo o caminho de casa:

    –Venham jantar.

    Todos obedeceram immediatamente á agradavel ordem, e em pouco tempo
    ficou só e silenciosa a scena, havia pouco tão ruidosa e animada.

    –São horas do seu jantar, Thomé–disse Jorge, levantando-se para sahir.

    –Depois d'esta gente acabar, é que eu principio. A Luiza não póde
    attender a todos a um tempo. Deixe-se o menino estar. Eu não lhe
    offereço do meu jantar, porque não é feito para si; mas se quizer dar
    uma volta por os campos emquanto elles jantam…

    –Se lhe não causar incommodo…

    –Nenhum; até preciso de ir vêr o que elles hoje trabalharam no poço que
    mandei abrir lá em baixo.

    E empurrando a porta, que dava para as outras partes do casal, Thomé
    obrigou Jorge a passar adiante e seguiu-o logo depois.

    E de caminho ia-lhe commentando tudo que viam; narrou como alporcára uns
    pecegueiros, o resultado que tirára do enxoframento das vinhas, a
    quantidade de fructa que o laranjal lhe produzira, quanto despendêra na
    construcção do lagar, as difficuldades que encontrou na abertura da
    nora, o que fizera pouco productiva aquelle anno a cultura do trigo, os
    cuidados que lhe mereceram os meloaes, e mil outras coisas relativas ao
    amanho das suas terras, das quaes nem um só palmo se poderia encontrar,
    onde as plantas nocivas usurpassem o logar das proveitosas.

    Jorge escutou-o com uma attenção e interesse, que estavam causando
    grande estranheza a Thomé, pouco acostumado a vêr as pessoas da
    categoria de Jorge, e da idade d'elle ainda menos, interrogarem-n'o com
    tanta curiosidade e ouvirem-n'o com tanta sisudez sobre objectos de
    lavoura.

    E as perguntas do joven fidalgo não eram vagas e ociosas, como essas que
    por condescendencia se fazem, para lisongear a vaidade natural de um
    proprietario. Havia n'ellas uma precisão, uma minuciosidade;
    acompanhavam-n'as reflexões tão acertadas, duvidas tão racionaes, que
    Thomé não podia illudir-se, e via bem que o descendente dos nobres
    Negrões de Villar de Corvos o interrogava com desejo de saber.

    Esta convicção enthusiasmava Thomé, que proseguia com ardor as suas
    informações.

    Jorge quiz saber aproximadamente o custeio necessario para manter uma
    propriedade como aquella no ponto de cultura em que estava, e o capital
    exigido para a elevar a esse grau de florescencia.

    Thomé era forte na especialidade dos orçamentos; por isso deu com a
    melhor vontade a Jorge as informações que este lhe pedia.

    A final Jorge, depois de um mais longo intervallo de silencio, que
    terminou com um suspiro, disse, como a medo, e desviando a cabeça, a
    fingir-se entretido no exame da roda hydraulica de uma nora:

    –E porque será que só os campos que nos pertencem estão cheios de
    ortigas e saramagos, Thomé?

    Thomé da Povoa voltou-se de repente para Jorge, e fitou n'elle um olhar
    penetrante. Porque o fazendeiro tinha ás vezes um certo olhar, que ia
    até o fundo do pensamento de uma pessoa.

    –Quer que lhe diga porque é, snr. Jorge?–perguntou elle logo depois,
    com um tom de voz serio e quasi triste.

    –Quero, sim.

    –É porque o dono d'elles é o snr. D. Luiz Negrão de Villar de Corvos, o
    fidalgo da Casa Mourisca, como por aqui lhe chamamos todos.

    Jorge olhou interrogadoramente para Thomé, que continuou:

    –É pela mesma razão porque chove nas salas do morgado do Penedo e
    porque seus primos do Cruzeiro perderam o anno passado todo o Casal de
    Mattoso. Se eu tivesse agora vagar para contar-lhe a minha vida, desde
    que sahi aos vinte e dois annos de sua casa, snr. Jorge, até hoje, o
    menino não me perguntava depois porque os seus campos estão cheios de
    serralha e de saramagos. Trabalhei muito, snr. Jorge, não é só com agua
    que se regam estas terras para as ter no ponto em que as vê; é com o
    suor do rosto de um homem. É preciso que o dono vigie por ellas, sem
    confiar em ninguem, como um pae vigia pela educação dos filhos. Ora ahi
    está. As bençãos de um padre capellão não dão adubo ás
    terras–acrescentou Thomé com um sorriso epigrammatico a commentar a
    allusão, que não escapára a Jorge.

    –Mas como se explica isto, Thomé?–continuou Jorge com a docilidade de
    um discipulo–os meus avós nunca se occuparam muito com a lavoura;
    passaram a vida quasi toda na côrte e nas embaixadas, e raras vezes
    visitaram as suas terras, onde só vinham para caçar, e comtudo a nossa
    casa era então uma das mais ricas da provincia, e hoje…

    –Isso lá… Olhe, snr. Jorge, se elles se não occuparam dos seus bens e
    não sentiram o mal, é porque tinham ainda muito que perder. Quem hoje o
    está pagando é seu pae e amanhã serão os meninos. Isto é como uma pessoa
    robusta que leva vida extravagante. Emquanto é nova e tem muitas forças,
    não dá por as que perde e julga que nada lhe faz mal, mas chega lá a um
    certo ponto e de repente acha-se fraca e então é que considera o damno
    que fez a si mesma e aos filhos que gerou. Entende o que eu digo?

    –Entendo, Thomé, entendo, e creio que é essa a verdade. Além de
    que–proseguiu Jorge pensativo–n'aquelles tempos, as classes
    privilegiadas podiam entregar-se sem receio a uma vida de incuria e de
    dissipação, porque os privilegios velavam por ellas e remediavam-lhes os
    desvarios; adormeceram n'essa confiança e não sentiram que tinham mudado
    as condições sociaes, e agora ao acordarem…

    Jorge, que dissera estas palavras mais para si do que para o seu
    interlocutor, interrompeu-as subitamente, e apontando para a Casa
    Mourisca, que d'alli se avistava, exclamou quasi com desespero:

    –E não será ainda possivel sustentar aquella casa na sua quéda?

    Thomé da Povoa sorriu com uma expressão de intelligencia.

    –Entregue-a ás mãos de um lavrador, de um homem de trabalho, que possa
    dispôr d'alguns capitaes para os primeiros tempos, e verá.

    –Principiaria por deitar abaixo aquellas paredes velhas e aquellas
    arvores–observou Jorge, olhando com tristeza para o seu meio arruinado
    solar e para os bosques seculares que o rodeavam.

    –Talvez deitasse–disse Thomé–póde bem ser que o fizesse, porque lá
    amor a essas coisas não teem elles, não. Mas não seria necessario. Eu,
    que tambem lhes tenho affeição, áquelle arvoredo e áquellas paredes
    negras, porque alli passei um tempo… mau era elle de certo… mas
    emfim… sempre tinha vinte annos…, eu, que me não atreveria a
    deitar-lhe o machado… ainda me aventurava a pôr aquillo no pé em que
    esteve.

    Jorge não pôde tirar ás suas palavras um ligeiro tom de amargura e quasi
    de ironia, quando, depois d'esta resposta de Thomé, exclamou voltando-se
    para a Casa Mourisca:

    –Espera pois, casa de meus paes, que a nossa miseria nos expulse dos
    teus tectos e te abra as portas á familia de um lavrador abastado, para
    vêres reparados os teus muros, e cultivados esses campos maninhos; assim
    Deus dê a esse homem um pouco de amor ás coisas velhas, para te não
    destruir na reforma.

    Thomé, que percebeu a occulta expressão d'estas palavras, replicou com
    dignidade:

    –Porque não ha de antes dizer, snr. Jorge: Espera, casa de meus paes,
    que Deus inspire um dos teus donos, para que olhe por seus proprios
    olhos para os teus achaques e os cure por suas mãos?

    –Os remedios são caros na botica, Thomé. Os pobres vêem ás vezes morrer
    um doente, porque não podem comprar a droga que o salvaria.

    –Senhor Jorge–acudiu Thomé com um ar quasi solemne–resolva-se devéras
    a ser homem, deixe-se de viver como vivem e teem vivido os seus, queira
    do coração fazer-se economico, trabalhador e vigilante, livre-se da
    praga dos seus mordomos e procuradores, deixe o padre dizer missas, mal
    ou bem, conforme puder, porque isso é lá com Deus e elle, faça tudo isto
    e os capitaes não lhe faltarão. O homem que principiou a ganhal-os
    n'aquella casa será um dos que não porá duvida em empregal-os, até onde
    chegarem, para a sustentar e não deixar cahir; e onde não chegarem os
    capitaes, chegará o credito.

    –É uma esmola que me offerece, Thomé?–perguntou Jorge, mas sem o menor
    signal de irritação.

    –Não, snr. Jorge, não é. Nem o menino m'a aceitava, nem eu poderia
    fazêl-a, sem prejudicar meus filhos. Não é uma esmola, é um emprestimo,
    menos perigoso do que os arranjados pelo padre capellão. Não é vergonha
    um emprestimo, quando se faz em condições de poder por elle alliviar-se
    um homem de dividas mais pesadas e de credores mal intencionados, e
    resgatar e melhorar a propriedade. Ha muito que a sua casa vive d'isso,
    mas a taes portas tem ido bater e tão mau uso tem feito do pouco e caro
    que obtinha que, em vez de se salvar, cada vez se perdia mais. Não fica
    mal um emprestimo, snr. Jorge, quando se procura satisfazer com lealdade
    os compromissos que se ajustaram. Então não vê que até os governos pedem
    emprestado?

    –Mas quando, como no meu caso, não ha garantias a offerecer, o
    emprestimo é bem parecido com a esmola, deve confessar.

    –Não ha garantias? Quem foi que lhe disse isso? E a sua probidade?…
    Sabe que mais? Eu sempre lhe vou contar a minha historia e verá depois
    se tenho razão no que digo.

    E Thomé da Povoa, conduzindo Jorge para a sombra da ramada que toldava a
    nora, na roda da qual se sentaram ambos, principiou:

    –Quando sahi da casa de seu pae, por esta vontade, ás vezes bem doida,
    que a gente tem de trabalhar por sua conta, empreguei algum dinheirito,
    que juntára, em arrendar um casebre e uma horta, da qual, lidando do
    romper do dia até á noite, tirava quando muito o preciso para não morrer
    de fome. O menino sabe aquella nesga de campo, que eu tenho ao pé dos
    açudes e o palheirito que fica ao lado?

    –Bem sei.

    –Pois foi essa a minha primeira casa. A Luiza, com quem por esse tempo
    casei, trabalhava tanto como eu, e assim iamos vivendo, sabe Deus como,
    mas pagando pontualmente o nosso aluguel e sem ficar a dever nada na
    tenda. O meu senhorio era um homem muito rico e muito de bem. Deus lhe
    falle n'alma! O menino ha de ter ouvido fallar d'elle: era o doutor
    Menezes, pessoa de muito saber e que tinha sido da relação do Porto.

    –Ainda tenho uma ideia de o vêr.

    –Não havia melhor senhorio; nada exigente com os caseiros e até sempre
    prompto a ajudal-os. Um anno veio uma sequeira, que matou toda a
    novidade. Foi uma coisa de fazer dó. Nem gota de agua, as fontes sêcas,
    as levadas enxutas, os moinhos parados, e os lavradores a agarrarem as
    mãos na cabeça e a pedir a Deus misericordia! A coisa foi de maneira
    que, chegado o tempo de pagar a renda, poucos tinham com que a pagar.

    –Succedeu-lhe o mesmo a si? Está visto.

    –A mim?! eu nada colhi n'esse anno; mas de maneira nenhuma queria
    faltar ao ajustado com o senhorio. Fui-me ao escaninho da caixa, tirei
    para fóra uns cruzados novos que, a muito custo, puzera de lado para o
    caso de uma doença; mas não era coisa que chegasse. Como ha de ser, como
    não ha de ser, eis que a minha Luiza, que sempre foi boa companheira, me
    diz: «Não te afflijas, homem; ahi vão as minhas arrecadas, pega», e
    atirou-m'as para cima dos cruzados. Lá me custava o servir-me das
    arrecadas da rapariga, que era a unica riqueza que ella tinha; mas não
    houve outro remedio. Pul-as em penhor, e com o dinheiro que me deram
    completei o aluguer, e no dia marcado apresentei-me em casa do doutor
    Menezes.

    –E elle?

    –Parece-me que ainda o estou a vêr no seu quarto de estudo, com as
    pernas embrulhadas em uma manta e olhando-me por cima dos oculos: «Então
    o que o traz por cá, Thomé?» «Eu, snr. doutor, venho para o que v. s.ª
    sabe.» «Ah! sim, estamos no S. Miguel. O anno pelos modos foi mau.» «Ora
    se foi! mas emfim vamo-nos conformando com a vontade do Senhor. Outro
    virá melhor.» E fui-me chegando para a banca e tirei do bolso o
    dinheiro, que me puz a contar e a encastellar. O homem estava calado a
    vêr aquillo. Quando cheguei ao fim olhou para mim d'uma certa maneira e
    disse-me: «Então está ahi tudo?» Está, sim senhor, v. s.ª não viu? «E
    você quer-me dar tanta coisa?» D'esta vez fui eu que me puz a olhar para
    elle admirado. «Então não é este o preço ajustado no arrendamento?» «É
    celebre, disse o snr. doutor abanando a cabeça, é o primeiro rendeiro
    que me paga tão prompto este anno e sem pedir que lhe perdoe alguma
    coisa, vista a escassez da estação. Onde foi você buscar esse dinheiro,
    ó Thomé? Você é o mais pobre dos meus caseiros e eu lá vi o estado do
    seu campo.» Eu não tive remedio senão contar-lhe tudo. Elle nem me
    deixou acabar. «Leve isso d'aqui, homem, e desempenhe as arrecadas da
    sua mulher. Eu não sou nenhum vampiro para sugar o sangue do meu
    proximo.»

    –Bella alma!–exclamou Jorge commovido pela narração.

    Thomé continuou:

    –«Em todo o caso–disse-me d'ahi a pouco o snr. doutor–você fez hoje
    um grande negocio sem o saber. Você é trabalhador, que isso tenho eu
    visto por a maneira porque me traz bem aproveitado o campito que lhe
    aluguei. Mas, para tirar partido dos seus bons desejos, faltava-lhe o
    capital e hoje arranjou-o.

    –Que queria elle dizer n'isso?

    –Foi o que eu lhe perguntei. «Arranjou-o sim, senhor, respondeu elle,
    porque arranjou credito, que vale por um capital enorme. O que você fez,
    mostra-me o de que é capaz. Appareça ámanhã por aqui, porque temos que
    tractar.»

    –E que lhe queria elle?–perguntou Jorge, cada vez mais attento.

    –No dia seguinte fui procural-o, sem imaginar o que fosse que elle
    tinha para dizer-me. Mal me viu, exclamou logo: «Ora venha cá, Thomé,
    sente-se aqui, porque temos um contracto a fazer.» E, obrigando-me a
    sentar ao lado d'elle, continuou: «Vocemecê vae assignar-me um escripto
    de arrendamento da minha propriedade das Barrocas.» Ora faça ideia o
    menino de como eu fiquei, assim que tal ouvi. Conhece a quinta das
    Barrocas? aquillo é um condado, se póde dizer. Como havia eu de
    arrendal-a, Sancto Deus! Elle, conhecendo o meu espanto, acudiu logo:
    «Não lhe pareça isso uma coisa por ahi além. Nós ajustamos a renda e
    você vae tomar conta d'aquillo. A quinta está bem educada e nutrida, e
    estou certo de que não o deixará ficar mal no fim do anno.» «Mas,
    disse-lhe eu, v. s.ª bem vê que uma peça d'aquellas precisa de braços
    para ser bem trabalhada, de braços e de certas despezas.» Mas, homem,
    torna-me elle, quem lhe diz menos d'isso? Olhe lá que eu a deixe ao
    desamparo, para você m'a entregar no estado em que por ahi em geral os
    caseiros as entregam aos senhorios. Mas é bem feito, que elles tambem
    fazem uns arrendamentos taes, que os caseiros morreriam esfomeados, se
    não esfomeassem a terra.

    –Mas esse homem era um grande philosopho!–observou Jorge.

    –«Vá você para lá–continuou elle–tracte-me bem d'aquillo, e os
    capitaes precisos para instrumentos, gado, adubos, jornaleiros e algumas
    obras, eu lh'os adiantarei. Você é trabalhador, a terra é boa, ia
    apostar que ambos havemos de lucrar.

    –E o Thomé foi?

    –Fui, e foi o principio da minha felicidade. A terra era abençoada! e
    depois, alli nada faltava para a fazer produzir. Creia o snr. Jorge que
    o dinheiro tambem nasce como a semente. O dinheiro, enterrado assim na
    terra, produz dinheiro, senhor. Eu lá o vi, que quanto mais se gastava
    com a terra, mais ella produzia. Foi lá que eu aprendi a ser lavrador.
    Muito devi aos conselhos d'aquelle homem. «Anda para diante Thomé,
    dizia-me elle. Se queres que o cavallo te não deite a terra e te leve a
    longa jornada, dá-lhe bem de comer; a ração de aveia que lhe furtares da
    mangedoura é a que mais cara te sahe.» Mais tarde, quando eu, com a
    ajuda de Deus, já ia, além de pagar as minhas dividas a pouco e pouco,
    juntando algum peculio no canto da caixa, foi elle que me disse: «Não
    abafes o dinheiro, Thomé. Põe-n'o ao ar para elle se não estragar; tudo
    quer ar n'este mundo.» E ahi me animei eu, ao principio com mêdo, que
    fui perdendo depois, a dar emprego ás minhas economias; e era um gosto
    vêr como ellas augmentavam. Passados annos eram taes, que já eu pensava
    em comprar umas terras, que era cá o meu sonho. Foi elle ainda quem me
    tirou isso da cabeça. «Não tenhas pressa de ser proprietario, prégava-me
    elle, olha que os lucros que vaes ter, gastando todo o teu dinheiro em
    comprar qualquer leira de terra, não correspondem ao gostinho de te
    chamares dono d'ella. Não te afogues em pouca agua. Se comprares um
    cavallo e ficares sem cinco reis para o sustento d'elle, vê lá que
    negociarrão; pois as terras tambem comem e tu bem o deves saber.» E o
    caso é que me convenceu e nem pensei mais n'isso.

    –Mas a final sempre comprou?

    –Quando elle mesmo m'o disse. Foi á praça esta granja, que não era
    ainda o que é hoje. «Vê agora se ficas com aquillo», disse-me o snr.
    doutor. A propriedade era de valor e eu não queria empregar na compra
    todo o meu capital. O snr. doutor ajudou-me mais uma vez, e a
    propriedade passou para as minhas mãos. Então trabalhei mais do que
    nunca. Todo o meu empenho era remir depressa a minha divida, porque,
    emquanto o não fizesse, parecia-me que não podia chamar ainda meu a
    isto. Deus ajudou-me com annos felizes e com boas colheitas, e como
    continuava com o arrendamento das Barrocas e depois com este negocio de
    gado, pude, mais cêdo do que esperava, pagar a minha ultima prestação e
    remir a divida.

    Chegando a este ponto da sua narrativa, animou-se a physionomia de Thomé
    da Povoa de um clarão de enthusiasmo e com as faces córadas e os olhos
    radiantes proseguiu, suspirando com desafogo.

    –Que dia aquelle, snr. Jorge! Eu nem lhe sei dizer o que sentia em mim!
    Eu sei lá?! Quando voltei da casa do doutor, com o escripto da quitação
    no bolso, vinha a tremer, pulava-me no peito o coração como o de uma
    criança; abri surrateiramente aquella porta da quinta, e sósinho, como
    um ladrão, sem que ninguem me visse, entrei aqui. Digo-lhe que estava
    quasi louco. Até fallei alto; lembra-me bem de que disse ao vêr-me cá
    dentro: Isto é meu! E depois que sabia que era meu, parecia-me outra
    coisa tudo isto. Meu! eu não me fartava de repetir esta palavra! Meu!
    Estas arvores eram minhas, estas fontes eram minhas, até estes passaros,
    que por ahi cantavam, eram meus, porque emfim vinham fazer ninho e
    cantar no que me pertencia. Vae rir-se, se eu lhe disser o que fiz. Eu
    abracei estas arvores, eu bati palmadas n'estes muros, lavei-me n'esses
    tanques todos, bebi agua d'essas fontes, deitei-me á sombra d'essas
    arvores, eu cantei, eu saltei, eu chorei, e a final…. quer que lhe
    diga? Não tive mão em mim que não ajoelhasse para beijar esta terra!
    beijei, sim, beijei esta terra, que eu ganhára á custa de muito
    trabalho, de muito suor e de nenhuma vileza. Tinha orgulho, e tenho-o,
    em me lembrar de que tudo isto me viera de eu ser honrado e amigo de
    cumprir a minha palavra. Eu não me recordo de ter um contentamento assim
    na minha vida, a não ser no dia em que estreitei nos braços a Luiza, e
    que tambem pela primeira vez lhe chamei minha mulher. Era quasi a mesma
    coisa; este era o meu segundo casamento. D'ahi em diante foi que eu
    soube o que é ter amor á terra. Desde a sementeira á colheita era um
    cuidado incessante com o campo. Ver crescer as plantas, para mim
    causava-me tanto prazer como vêr o crescer dos filhos; cada novo rebento
    era como que um nascimento em casa. Media o quanto iam crescendo as
    arvores que plantava e trazia contados os fructos dos pomares. Aquillo
    nos primeiros tempos foi uma loucura. Aqui tem a minha vida. Deus
    ajudou-me, e d'ahi por diante tudo me tem corrido bem. Já vê, snr.
    Jorge, que quem deve o que é a ter sido honesto, não póde recusar o seu
    pouco auxilio a um rapaz de brios e de probidade como é o menino.

    Jorge estendeu a mão a Thomé, dizendo-lhe sensibilisado:

    –Fez-me bem ouvil-o, Thomé. A sua vida é um exemplo, é uma lição, e
    n'ella procurarei aprender. Eu tambem sinto os mesmos desejos de remir a
    rninha ultima divida para depois chamar meu ao que me pertence. E n'esse
    dia eu tambem abraçaria com enthusiasmo aquellas velhas arvores, e
    ajoelharia para beijar a terra, que os meus antepassados me deixaram.
    Mas não sei se a empreza estará ao alcance das minhas forças.

    –Está. Eu lhe digo. Ha aqui só uma difficuldade a vencer. Empregue toda
    a sua força para esse fim, porque se tracta do bem de sua casa, do seu
    futuro e da sua dignidade. É preciso que o pae lhe dê licença para o
    menino administrar a casa e que o padre capellão se contente com dizer
    missas, porque depois…

    –Ainda quando vencesse essa difficuldade, que é grande, Thomé, porque
    meu pae ainda vê em mim uma criança, surgiria outra. De si nunca meu
    pae…

    Thomé da Povoa não o deixou concluir.

    –Eu sei, mas o snr. D. Luiz não se mette por miudo nos negocios da
    casa, desde que tem um procurador encarregado d'elles. Consiga que elle
    ponha em si a confiança que tão mal emprega no padre, e eu lhe prometto
    que o mais se fará. Eu não exijo mais garantias para o meu dinheiro, do
    que um escripto seu, snr. Jorge. Demais, como a sua experiencia é pouca,
    eu, se m'o permittir, guial-o-hei nos primeiros tempos. Como seu pae não
    gosta de que o menino venha por aqui, virá sem que elle o saiba. Os
    serões de inverno são longos, nós conversaremos algumas noites.

    Jorge disse finalmente com resolução:

    –Aceito, Thomé. Fallarei a meu pae. O dever de salvar a minha casa da
    ruina me dará coragem. Aceito, porque tenho fé em que me não será
    impossivel pagar-lhe mais tarde a divida que contrahir.

    –E eu tenho fé em que ha de ainda haver dias alegres e de festa
    n'aquella triste casa. Não é verdade que se diz que ha lá um thesouro
    escondido? Pois cave na terra, que o ha de encontrar.

    A voz de Luiza, ao longe, annunciou n'este momento ao marido que o
    jantar esperava por elle.

    Jorge sahiu d'alli com o coração palpitando de esperanças e de commoção,
    que lhe estava já causando a ideia da entrevista que precisava de ter
    com o pae.

    Thomé jantou com o appetite de quem tinha feito uma boa acção e
    realisado uma ideia, com que havia muito tempo lhe lidava o cerebro.

    A mulher achou-o mais fallador do que de costume; e depois de jantar
    voltou para a eira, cantando.

    Era feliz n'aquelle momento a sua alma generosa.

    IV

    Em uma das espaçosas salas da Casa Mourisca, alumiada por tres rasgadas
    janellas ogivaes e mobilada ainda com certa opulencia, vestigios do
    esplendor passado, esperavam a hora de jantar o velho fidalgo e o seu
    capellão-procurador frei Januario dos Anjos.

    Não foi rigoroso o emprego no plural do verbo da ultima oração.

    Frei Januario era quem esperava, porque essa era tambem a principal
    occupação dos seus dias. Os gozos do paladar mal lhe compensavam as
    amarguras d'estas longas expectações. Eram ellas talvez que não o
    deixavam medrar na proporção dos alimentos consumidos, porque frei
    Januario era magro. O mysterio physiologico d'esta magreza ainda não era
    para se devassar de prompto.

    D. Luiz lia as folhas absolutistas, que lhe mandavam da capital e do
    Porto, e dava assim em alimento ao seu odio contra as instituições
    liberaes um dos fructos mais saborosos d'ellas–a liberdade de
    imprensa–; fructo, em que os seus correligionarios mordem com demasiada
    complacencia, apesar de ser para elles fructo prohibido.

    De quando em quando D. Luiz interrompia a leitura com uma phrase de
    approvação ao artigo que lia ou de censura a qualquer medida promovida
    pelo governo, que nunca tinha razão.

    Frei Januario secundava, com toda a força do seu obscuro credo politico,
    as reflexões de s. exc.ª, e requintava na intensidade dos anathemas, com
    que eram fulminados os homens da época.

    Mas, solta a phrase que o caso pedia, e as competentes exclamações,
    voltava o padre a consultar o relogio, a abrir a bôca, a suspirar; dava
    dois ou tres passeios na sala e terminava por ir inspeccionar a cozinha.
    Os intervallos das refeições eram para elle seculos!

    –Humh!–disse D. Luiz n'aquella manhã, poisando a folha, como enojado
    com o que lêra–Lá foi concedido um subsidio para a construcção do lanço
    de estrada de Valle-escuro!

    –Fartos sejam elles de estradas!–acudiu logo frei Januario–Para esta
    gente a moralidade e a ventura de um paiz consiste em ter estradas e
    diligencias, e acabou-se. Olhem lá se elles levantam sequer uma igreja?
    Isso sim! O dinheiro do clero sabem elles roubar! E que pena não terão
    por não deitarem a baixo os templos que por ahi ainda ha! Mas atraz do
    tempo tempo vem. Vontade não lhes falta.

    Não sei se foi esta ultima phrase que recordou ao padre que tambem a
    elle não faltava vontade… de comer. O certo é que, mudando de tom,
    acrescentou:

    –Querem vêr que o Bernardino se esqueceu hoje do jantar? Isto são quasi
    duas horas, e eu não ouço tugir nem mugir na cozinha! Nada, aqui anda
    coisa. Com licença, eu vou vêr e volto já.

    E frei Januario sahiu da sala para ir pela vigesima vez á cozinha, que
    elle suspeitava abandonada pela incuria do cozinheiro, estando pois a
    familia toda ameaçada com a tremenda catastrophe d'uma retardação do
    jantar.

    D. Luiz pegou de novo nas folhas e deixou-se ficar lendo até á volta do
    padre, que entrou indignado.

    –Eu que dizia?! Posto á taramela com o hortelão, sem se lembrar do
    jantar? Olhem se eu lá não ia! Não que dizem que uma pessoa póde
    descançar nos criados. Ha de poder! São uma corja! E, v. exc.ª não quer
    crêr, aquelle excommungado d'aquelle hortelão ha de ser a ruina d'esta
    casa. Foi uma imprudencia da parte do snr. D. Luiz metter em casa um
    libertino d'aquelles, mação nos ossos e no sangue. Foi um passo muito
    errado… Aquillo é um pessimo exemplo para os outros. Sabe v. exc.ª em
    que elle estava fallando? Na cantiga do costume. No desembarque do
    Mindello. Quando eu cheguei ainda lhe ouvi dizer que eram sete mil e
    quinhentos bravos que vieram pôr fóra da cidade os oitenta mil lobos que
    andavam lá, e coisas assim. E o cozinheiro a dar-lhe ouvidos, e o leitão
    a queimar-se e a sôpa a pegar-se no fundo da panella, que logo me
    cheirou a esturro. É preciso que v. ex.ª dê as providencias, quando
    não…

    D. Luiz, tomando menos a peito do que o capellão os destinos do jantar e
    da sôpa, e fiel ao habito de nunca fallar, nem em mal nem em bem, do
    hortelão, não respondeu e proseguiu a leitura das folhas.

    D'ahi a pouco referiu ao padre a noticia que tinha lido do desastre
    succedido a uma diligencia ao passar em uma ponte que na occasião
    abatêra, resultando muitas victimas.

    A indignação do padre exaltou-se.

    –Pois se esta gente que nos governa deixa as estradas e pontes em um
    abandono d'esses! Vejam que tempos os nossos! e que governos que não se
    importam com as vidas dos cidadãos! Em que paiz do mundo se vêem
    estradas assim arruinadas como as nossas? São os bens que nos trouxeram
    os homens da Carta! Isto é bonito!

    E o padre Januario continuou ainda por algum tempo a condemnar, pelo
    crime de desleixo e de falta de protecção á viação publica, os mesmos
    governos que, momentos antes, accusára de conceder para esse fim
    subsidios e de lhe dar importancia demasiada.

    A politica de frei Januario é vulgar na nossa terra.

    D. Luiz, tendo concluido a leitura da folha, pôl-a de lado e resumiu a
    serie de pensamentos que essa leitura lhe suggerira, na seguinte e
    contrahida synthese:

    –Isto vae cada vez melhor, frei Januario.

    –Isto vae bonito, não tem duvida nenhuma–secundou o padre.

    –O peior é o futuro–tornou o fidalgo, assombrado.

    –Ai, o futuro ha de ser fresco!–repetiu o procurador, fungando uma
    pitada.

    –Emfim, quem viver verá aonde isto vae parar, onde nos leva esta
    torrente.

    –E não é preciso viver muito. Mais dia menos dia temos ahi os
    hespanhoes, ou então passamos a ser inglezes. Não ha que vêr; da maneira
    por que vão as coisas…

    –Ai, pobre Portugal!–exclamou melancolicamente D. Luiz.

    –Que vaes á vela–concluiu o padre.–Desde que puzeram a cabeça á roda
    a esta gente com liberalismos… ficou tudo transtornado. Agora todos
    mandam, todos fallam, e não ha quem governe. Isto de não haver um que
    governe… Estes patetas não se desenganam de que um paiz é como uma
    casa. Ora deixem á vontade os criados em uma cozinha, sem ninguem que os
    vigie, e verão o que vae! esperem por o jantar, que hão de achar-se
    servidos!

    O simile fôra suggerido a frei Januario pela sua constante preoccupação.

    –O que me custa é lembrar-me de que meus filhos teem de viver n'esta
    sociedade assim organisada. Quem sabe a sorte que lhes está reservada,
    aos pobres rapazes!–disse o fidalgo, suspirando com escuras
    apprehensões sobre a posição precaria da familia.

    –Os filhos de v. exc.ª não devem transigir em caso algum com estes
    homens!–exclamou com vehemencia o padre–É não fazer como a sobrinha de
    v. exc.ª, a snr.ª D. Gabriella, que já é baroneza das feitas por elles.
    Quando se é fidalgo é preciso ser fidalgo.

    –É bem negro o futuro que espera as casas como a nossa, e sabe Deus se
    em parte preparado por nós–insistia o fidalgo.–Tambem peccamos.

    –Pois é uma triste verdade, mas isso não é razão para que os que
    nasceram n'essas casas se abaixem diante dos que nem sabem aonde
    nasceram. Deixe v. exc.ª medrar quanto quizer o Thomé da Herdade, que no
    fim de tudo sempre ha de mostrar que andou descalço em criança e que foi
    levar a beber o gado d'esta casa. Ha certas coisas que não dá o
    dinheiro.

    –O Thomé da Herdade!–repetiu D. Luiz com amargura–Esse é que
    prospéra, os tempos estão para elle. Quem viu e quem vê aquillo!

    –Então que quer? Inda mais havemos de ver. E então não sabe v. ex.ª que
    o homem mandou educar a filha na cidade, como se fosse a filha de
    alguem?

    –A Bertha?

    –Sim, a que é afilhada de v. exc.ª Com que fim faz aquelle toleirão uma
    coisa d'essas? Veja a parlapatice d'aquelle homem. Não repara na posição
    falsa em que colloca a rapariga. Metteu-se-lhe talvez na cabeça que
    ainda a casava com algum fidalgo! Póde ser. Veja v. exc.ª se ella serve
    para algum dos seus filhos.

    D. Luiz sorriu, encolhendo os hombros.

    –Ora para que precisa a mulher de um lavrador, que é a final o que ella
    tem de ser, das prendas e da educação que o pae lhe mandou dar? Não me
    dirá v. exc.ª?

    –Todos hoje teem aspirações a subir–reflectiu D. Luiz com ironia.–A
    maré sóbe.

    –Eu bem sei o que é que dá causa a estas tolerias. Tudo isto vem da
    barulhada que estes liberalões fizeram na sociedade. Tudo está remexido
    e ninguem se entende. O sapateiro que nos vem tomar medida de umas botas
    parece um visconde. Onde isso é bonito, segundo dizem, é em Lisboa. Hoje
    todos por lá tem excellencia!

    N'estes sediços commentarios sobre o estado do seculo deixaram-se ficar
    os dois por muito tempo, desafogando assim a sua má vontade contra as
    instituições modernas. O padre Januario porém não perdia com isto a
    ideia do jantar, e de quando em quando voltava os olhos para o relogio,
    cujos lentos ponteiros não correspondiam nunca á impaciencia dos seus
    desejos. Emfim deu uma hora e frei Januario ergueu-se instinctivamente
    para ir vêr se o jantar estava servido.

    Passado pouco tempo tocava a sineta, tão grata aos ouvidos do reverendo.
    Vibraram pelos desertos aposentos e extensos corredores da Casa Mourisca
    aquelles sons, que em felizes tempos punham em movimento uma numerosa e
    esplendida côrte, que os ventos da adversidade tinham dispersado.

    D. Luiz entrou na sala do jantar, onde com impaciencia o aguardava já o
    capellão.

    Aquella grande sala vazia, aquella extensa mesa, apenas servida com
    quatro talheres, fallava tanto do esplendor passado e da decadencia
    presente, que poucos logares havia na casa que deixassem no fidalgo mais
    melancolicas impressões. Nunca se lhe anuviava tanto o coração como ao
    sentar-se á cabeceira da mesa, em torno da qual outr'ora vira rostos
    conhecidos e amigos, hoje tão solitaria e abandonada.

    D. Luiz, reparando que o escudeiro principiava a servir, perguntou,
    apontando para os logares dos filhos, que ainda estavam de vago.

    –Então os senhores não ouviram a sineta?

    –Os senhores ainda não vieram.

    –Nem Jorge?–perguntou D. Luiz, como se estranhasse menos a ausencia de
    Mauricio.

    –Nem um, nem outro.

    –O snr. D. Mauricio–observou o padre, que temia um adiamento do
    jantar–sahiu para a caça; quando virá elle agora?

    E dizendo isto, fazia signal ao criado para que servisse o fidalgo.

    –E Jorge?–insistiu o pae.

    –O snr. D. Jorge… esse não sei… talvez esteja ahi por alguma parte.

    O fidalgo, evidentemente contrariado com a ausencia dos filhos, que
    ainda mais augmentava a solidão d'aquella sala, resignou-se a principiar
    a jantar sem elles.

    O jantar correu em silencio.

    O humor negro de um dos commensaes e o appetite do outro não davam azo
    ao dialogo.

    Estava o padre deliciando-se com uma farta posta de assado e o
    competente accessorio de massas, quando Jorge entrou na sala.

    D. Luiz não lhe dirigiu a palavra, nem sequer um olhar.

    Jorge formulou uma vaga desculpa, que o pae interrompeu com um gesto a
    mandal-o sentar; e, passados momentos, levantou-se elle e sahiu
    silencioso.

    Frei Januario, tendo já satisfeito as primeiras e mais urgentes
    exigencias do seu estomago, achou-se disposto a continuar o dialogo. Por
    isso, ao encetar a sobremesa, dirigiu por comprazer a palavra a Jorge:

    –Com que vem do seu passeio, hein? A manhã estava bem bonita. E então o
    que viu por esses campos?

    –Muito trabalho, snr. frei Januario, muita vida rural–respondeu Jorge.

    –Sim, agora é o tempo das colheitas. Anda por ahi tudo azafamado.

    –Mas porque é, snr. frei Januario, que nos campos da nossa casa não
    vejo o movimento dos outros?

    A imprevista interpellação do adolescente ia entalando o padre.

    –Causou-me sensação isto hoje–proseguiu Jorge.–Quem subir ao alto do
    outeiro da Faia, por exemplo, e olhar de lá, em roda de si, para o
    valle, póde marcar as propriedades da nossa casa; onde vir um campo
    quasi maninho, um muro a cahir, umas paredes negras, um aspecto de
    cemiterio, tenha a certeza de que nos pertencem esses bens.

    –Não é tanto assim… É verdade que… meu rico filho, que quer? depois
    que os homens do liberalismo tomaram conta d'este paiz, as coisas
    mudaram. Quem não está por o que elles querem…

    –Não vejo em que elles influam para isto, snr. frei Januario. Quem nos
    impede de fazer o que os outros fazem? de cultivar os nossos campos? de
    pôr homens a trabalhar n'essas terras incultas?

    –O que os outros fazem, diz elle! Os outros… os outros… e quem são
    os outros? Uns miseraveis que eu conheci de pé descalço, a limpar os
    cavallos e a cavar nos campos d'esta casa.

    –Tanto mais para admirar e para louvar o esforço que os tirou d'essa
    posição humilde e os elevou áquella, que hoje occupam.

    –Olhem que grande milagre! Homens que não devem respeito a si mesmos,
    para quem todo o trabalho está bem, como não hão de enriquecer? Ora essa
    é muito boa!

    –E os que devem respeito a si mesmos estão pois condemnados á miseria?

    –Á miseria… á miseria!… Que palavra! Ora para o que lhe deu hoje!
    Foi febre que se lhe pegou? Se ella anda por ahi tão accêsa! O menino
    ainda é muito criança para pensar n'estas coisas. Coma e beba e…

    As faces de Jorge tingiram-se de um rubor intenso, e redarguiu com
    energia e irritação:

    –Não sou criança, frei Januario; acredite que o não sou. Tenho mais de
    vinte annos e estou resolvido a ser homem. Córo da minha ociosidade,
    quando vejo que sómente as nossas terras fazem vergonha á actividade
    d'este povo. Tenho annos para viver, deveres de honra a cumprir, um nome
    para conservar sem mancha, e quero saber que futuro me preparam os
    gerentes da nossa casa, quero desviar a tempo de mim a tremenda
    responsabilidade de ser na minha familia talvez o primeiro a faltar um
    dia aos seus compromissos. É por isso que fallei e que desejo que me
    responda, snr. frei Januario.

    –Ai, menino, menino; isso não é seu! Ahi anda doutrina liberal. Eu
    cheiro-a a distancia de legoas. Então quando o senhor seu pae me honra
    com a sua confiança, é acaso justo, é acaso bonito que eu seja
    suspeitado e interrogado por uma criança, que ainda nada sabe do mundo?

    –E quando hei de aprender? Querem-me estupido, como esses morgados que
    por ahi se arruinam?

    –Mas que quer o snr. Jorge a final? Então não sabe que desde que os
    lavradores se fizeram fidalgos, ninguem lucta com elles? O dinheiro está
    de lá; para lá vão os trabalhadores, senhor. Ora é boa! Eu acho graça a
    certa gente!

    –O dinheiro está de lá! Mas como conseguiram elles enriquecer? Pois não
    diz que eram uns miseraveis?

    –Ah! então quer principiar como elles principiaram, cavando com uma
    enxada todo o dia e furtando á bôca para juntar ao canto da caixa com o
    fim de comprar uns bois? etc. etc. Veja se quer.

    –Não principiavamos de tão longe como elles, escusavamos de tantos
    sacrificios. Bastava que olhassemos com attenção para o muito que temos
    ainda, e que tentassemos desenredar, a pouco e pouco, esta meiada, que
    nos enleia e que nos ha de afogar a todos.

    –Ora é boa! E então o que é que eu faço, o que é que estou fazendo ha
    quasi trinta e oito annos em que o snr. D. Luiz me distingue com a sua
    confiança? Mas a coisa não é tão facil, como lhe parece. É boa!

    –Mas quaes são os seus planos, padre Januario, qual é o seu systema de
    administração?

    –Os meus planos?!… Ora essa!… Então que planos quer que sejam os
    meus? Systema de administração!… isso é phrase de côrtes… Humh!
    tenho entendido… É o que eu digo… Ó snr. Jorge, ora falle-me a
    verdade, ahi andam ideias de liberalismo. Com quem fallou esta manhã?
    ora diga.

    –Venham d'onde vierem as ideias. A origem pouco importa, a questão é
    que ellas sejam boas. Eu não tracto de liberaes nem de absolutistas
    agora. Vejo que a minha casa se perde, vejo cahirem os muros e nunca se
    repararem; vejo campos e campos sem a menor cultura, encontro em tudo
    quanto nos pertence profundos signaes de decadencia, e quero saber a
    grandeza do mal que nos opprime.

    –E se fôr grande o mal, o que quer que se lhe faça?

    –Quero que se trabalhe para remedial-o; que se façam sacrificios uteis,
    que deixemos a louca vergonha e o orgulho enfatuado que nos faz viver
    hoje ainda uma vida que não é d'estes tempos. Desenganemo-nos; a época
    não é de privilegios nem de isenções nobiliarias, é de trabalho e de
    actividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna util
    pelo trabalho honrado.

    –Jesus! O que ahi vae! O que ahi vae! Eu bem o digo! Ha liberal na
    costa! Isso é tão certo como dois e dois serem quatro. Se o pae o ouvia!

    –Ha de ouvir-me, porque tenciono hoje mesmo fallar-lhe.

    –Que vae fazer, snr. Jorge?

    –O meu dever. Eu e meu irmão seremos um dia os representantes da nossa
    familia. Para que nos orgulhemos do nome que herdamos, é necessario que
    esse nome não tenha manchas e que nós lh'as não lancemos.

    –Mas quem lhe diz, quem lhe falla em manchas? Ora… ora… ora… ora
    esta não está má!

    –Frei Januario, eu não sou criança, repito-o. Sel-o-ia hontem, hoje não
    o sou já. Faça de conta que o sol d'esta manhã me amadureceu. Por isso
    não me illudo emquanto á natureza dos meios com que se sustenta ainda
    n'esta casa um resto do esplendor de antigos tempos. Pois mais valeria
    comer em louça nacional e vender as matilhas e os dois cavallos de luxo,
    que ainda temos, para comprar dois bois.

    –Mas…

    –Até logo, frei Januario, conversaremos mais de espaço sobre isto.

    –Mas…

    Jorge, sem o attender, dispunha-se a sahir, quando o padre, quasi
    assustado, o chamou.

    –Mas venha cá. Ouça-me, valha-me Deus! Olhem que homem este! Tem muita
    razão no que diz. Sim, senhor. As coisas não vão bem. Hoje não é hontem;
    e esta casa já viu melhores tempos do que os que correm. Mas de quem é a
    culpa? É de mim ou do senhor seu pae? Pois não foste! Para remediar o
    mal trabalhamos nós ha muito. A culpa é d'esta gente que nos governa,
    d'estes homens que juraram perder tudo quanto era nobreza para poderem á
    vontade fazer das suas, sem ter quem lhe vá á mão. Percebe agora? Desde
    que os liberaes…

    –Por quem é, frei Januario, não me venha outra vez com os liberaes. Eu
    tenho a razão bastante clara para vêr as coisas como ellas são, e não me
    deixar levar por essa cantiga do costume. Os liberaes!… Os liberaes o
    que fizeram foi alliviar a agricultura dos enormes encargos que d'antes
    pesavam sobre ella e que não a deixavam prosperar, foi crear leis e
    instituições que facilitassem os esforços dos laboriosos e castigassem
    severamente a incuria e a ociosidade. Quando ao desopprimir-se o
    lavrador de tributos pesados e iniquos e dos odiosos vexames do fisco,
    ao tornarem-se-lhe mais faceis os contractos e as transmissões da
    propriedade, ao crearem-se-lhe recursos para elle tirar do seu trabalho
    e da sua intelligencia dez vezes mais do que d'antes podia obter, quando
    na época em que tudo isto se realisa, uma casa como a nossa, em vez de
    prosperar como tantas, vê apressada a sua decadencia, é porque tem em si
    um velho e incuravel cancro a roêl-a. E é esse cancro que eu quero
    conhecer, para extirpal-o, se ainda fôr possivel.

    –Eu estou pasmado! Pelo que ouço, acha o menino que todas essas
    fornadas de leis, que esta gente tem feito, são muito boas e que a sua
    casa devia ser muito bem servida com ellas?

    –Essas leis de que se queixa, são racionaes; uma casa racionalmente
    administrada não póde pois perder com ellas.

    –Sim, senhor! Visto isso, o menino, que depois da morte dos manos,
    ficou sendo o filho mais velho da familia, gostou talvez muito de vêr
    acabar com os morgados? Sim, como as leis modernas são tão boas, havia
    de gostar–argumentou o procurador, com ares de finura, como de quem
    apanhava em falso o seu adversario.

    Jorge respondeu serenamente:

    –E porque não? A abolição dos morgados acho eu que foi um grande acto
    de justiça e de moralidade; além de ser uma medida de longo alcance
    politico.

    –Ai… ai… ai… O que mais terei de ouvir! O menino está perdido!…
    Pois já me applaude a maldita lei, que ha de dar cabo das familias mais
    illustres do reino… Ai, como elle está!…

    –Deixe-se d'isso. A abolição dos vinculos só trouxe a morte ás casas
    que deviam morrer. O que ella fez foi proclamar a necessidade do
    trabalho indistinctamente para quem quizer prosperar. O esplendor das
    familias deve ficar sómente ao cuidado dos membros d'ellas e não da lei.
    Quando esses não tenham brio nem dignidade para o sustentar, justo é que
    elle se apague, e que o nome dos antepassados não continue a ser
    deshonrado pelos vicios e ociosidade dos descendentes. Mas deixemo-nos
    d'estas discussões, frei Januario. O meu partido está tomado. Mais tarde
    saberá das consequencias d'elle.

    E Jorge sahiu da sala, deixando o egresso apatetado com o que ouvira.

    –Que anda aqui liberalismo, isso para mim é de fé. Mas que mosca o
    morderia? Querem vêr que já fizeram do rapaz mação? Pois olhem que não é
    outra coisa. Eu quando os ouço fallar muito do trabalho… já estou de
    pé atraz. Tem graça! Quem os ouvir, persuade-se de que o trabalho é um
    prazer. Ora adeus! O trabalho é uma necessidade, o trabalho é um
    castigo. Para ahi vou eu. Que trabalho tinha Adão no paraizo? E não lhe
    chamam os livros sagrados um logar de delicias? Amassar o pão com o suor
    do rosto, olhem que titulo de nobreza! Estes modernismos! Mas é a
    cantiga da moda. O trabalho ennobrece, o trabalho consola, o trabalho é
    uma coisa muito appetitosa… Será, será, mas eu, por mim, se pudesse
    deixar de trabalhar… Ah! ah! ah.

    Aqui bocejava o egresso.

    –Mas que alli anda liberalismo, isso é tão certo como eu estar onde
    estou. Como elle fallou nos morgados!… Provará que é tão pateta que,
    sendo elle morgado, diz d'aquillo. E que vae declarar ao pae… Não
    declara nada. Um criançola que não sabe senão passear. Tomára elle que o
    deixem… O ocioso é que é o plebeu, o nobre é o que trabalha. Sim, sim,
    contem-me d'essas. Aquillo é musica de anjos. Diga-se o que é verdade,
    quem puder deixar de trabalhar…

    Frei Januario, n'estas graves ponderações, deixou-se a pouco e pouco
    invadir pelo somno, e acabou por adormecer á mesa, sonhando-se em uma
    especie de paraizo, como o tal logar de delicias de Adão, cuja
    ociosidade sempre fôra objecto muito dos seus enlevos.

    Deixemol-o adormecido, e vamos ter com Jorge a um dos menos arruinados
    angulos da Casa Mourisca.

    V

    Jorge continuou no seu quarto a serie de meditações com que trouxera
    occupado o espirito toda a manhã. Abria alguns livros, consultava-os com
    attenção, afastava-os depois com impaciencia, porque raros pareciam
    responder cabalmente ás mudas interrogações que elle lhes dirigia.

    A bibliotheca da Casa Mourisca era na maior parte composta de livros
    proprios para a cultura do espirito, mas sem definida tendencia para uma
    applicação pratica qualquer.

    Jorge tinha o gosto bem educado e não era indifferente ás obras de pura
    arte; mas d'esta vez dominava-o uma ideia fixa, um ardente desejo de se
    instruir nos preceitos positivos de economia rural, e nos conhecimentos
    necessarios para a realisação da grande obra em que meditava. Algumas
    arithmeticas, um ou outro raro folheto de agricultura e poucos numeros
    soltos de jornaes estrangeiros, foi tudo quanto pôde encontrar e que
    consultou, sem que o satisfizessem as noções rudimentares que n'elles
    lia. A pequena livraria do tio, á qual devêra grande parte dos seus
    avançados principios sociaes, estava já esgotada por elle; além de que
    não abundava em livros de indole verdadeiramente didactica.

    Depois de ter folheado por algum tempo todas essas brochuras, Jorge
    fechou os olhos, como para concentrar o espirito, e resolver só por elle
    os problemas, cuja solução em vão procurára na leitura. E a razão de
    Jorge era poderosa bastante para o servir no empenho; colheu d'ella mais
    fructos do que das paginas dos livros elementares, que anciosamente
    consultava.

    A estas cogitações veio emfim arrancal-o a chegada de Mauricio, já quasi
    ao fechar da tarde.

    Mauricio, logo que transpôz a porta, arremessou o chapéo sobre a mesa
    com certa vivacidade de movimentos, que trahia uma profunda agitação.
    Atravessou silenciosamente o quarto com passos apressados, sentou-se ou
    antes deixou-se cahir sobre uma cadeira, e correu a mão por a fronte,
    sacudindo para traz os cabellos com um movimento febril.

    Jorge, que percebeu em todos estes signaes um dos costumados frenesis do
    irmão, interrogou-o:

    –Que é isso, Mauricio? Que é o que tens? Que te succedeu lá por fóra?

    –Deixa-me, Jorge–respondeu Mauricio, levantando-se outra vez e
    pondo-se a passear no quarto.–Se soubesses como eu venho suffocado de
    raiva?

    –Contra quem?

    –Contra esta canalha d'esta gente do campo. Uns miseraveis insolentes
    que lançam a lama suja, onde nasceram e vivem, á face da gente com o
    mais intoleravel arrojo! Mas eu esmago-os com a sola da bota!

    –Bom! Temos bravatas de fidalguia! Esses arreganhos de senhor feudal
    hoje são de mau gosto, Mauricio. Olha que já passou o tempo d'elles.

    –É sempre tempo de castigar um insolente. O essencial é que se tenha
    sangue nas veias e pundonor no coração.

    –E sangue tambem no coração–emendou Jorge, sorrindo.–Olha que tambem
    é lá preciso.

    –Não rias, Jorge! Por quem és!–tornou o irmão despeitado.–Bem vês que
    fallo seriamente.

    –Então conta-me tudo. Receio que haja ahi alguma das tuas exagerações.

    –Não exagero. Esta manhã fui caçar, como sabes. Corri o monte com pouca
    felicidade; os cães pareciam ter perdido o faro. Voltava já para casa
    sem esperança, quando, alli pela Quebrada do Moinho, levantaram-se-me
    quatro codornizes; atiro-lhes, mas mal as feri. Ellas seguem na direcção
    das azenhas, atravessam os campos que estão em baixo e vão poisar no
    pinhal que fica para lá da prêsa do Queimado. Sabes? Eu desço com os
    cães, e, para não dar a volta do portello, galguei o murito da fazenda
    do Luiz da Azinhaga e ia para atravessar o campo, quando aquelle
    grosseirão do matto, aquelle villão infame sahe da casa da eira, aonde
    andava com os criados, e berra-me: «Olá, ó fidalguinho, isto aqui não é
    terra baldia, nem roupa de francezes.» Eu olhei para elle, mas não lhe
    respondi e continuei andando; elle tornou de lá, e já caminhando para
    mim: «Menino, não ouviu? Eu não quero os meus campos trilhados.» «O que
    estragar, pagarei», respondi-lhe já azedado. O estupido soltou uma
    risada insolente, e disse-me: «Com o que? Pergunte primeiro em casa se o
    que lá tem chega para pagar o que devem já.» Ouvindo isto, perdi a
    cabeça e corri para o homem, exclamando: «Para que não duvides da minha
    palavra, eu te vou já pagar uma divida, canalha.» Elle estava desarmado,
    mas recuou para pegar em uma enxada; os homens que trabalhavam na eira
    correram para mim com malhos e mangoaes; armei a espingarda logo; o
    primeiro que me ameaçasse estendia-o, palavra d'honra! N'isto ouvi uns
    gritos por detraz de mim. Era o Thomé da Povoa que passava e que correu
    a separar-nos. Fez-nos um sermão e trouxe-me quasi á força d'alli. Ahi
    tens como está esta gentalha. Já não podemos sahir sem nos arriscarmos a
    ser insultados e assassinados. Quem deu a esses miseraveis o atrevimento
    de fallar nas dividas da nossa casa?

    –Quem as contrahiu e não procura pagal-as–respondeu, triste mas
    placidamente, Jorge.

    E logo depois acrescentou:

    –Mas dizes bem, Mauricio, foi uma desagradavel occorrencia. Já vês
    agora que eu tinha razão no que te dizia esta manhã.

    –O que foi?

    –Isto não póde continuar assim, Mauricio. Nem tu nem eu temos animo
    para soffrer humilhações, e ellas são inevitaveis.

    –Inevitaveis?! Eu te juro…

    –Não jures; não é pela violencia que os obrigaremos a calar. Ou, se se
    calarem, tem a certeza de que o olhar com que nos seguirem, o pensamento
    que lhes despertarmos, serão para nós igualmente humilhantes. Ha muito
    que eu adivinho esse pensamento na maneira por que nos fitam. E foi isso
    que me fez pensar.

    –Mas que intentas fazer então? Qual é o teu plano?

    –Fazer-me respeitado; mostrar que não sou inferior a elles.

    –Sim, mas de que maneira?

    –Resgatando a nossa casa, calando com a paga a bôca d'esses credores
    insolentes, e collocando-nos, pela prosperidade das nossas terras, ao
    lado d'elles todos, e acima, pela nobreza dos nossos sentimentos.

    –Queres então fazer-te lavrador?

    –Quero trabalhar. Olha, Mauricio, tenho pensado muito estes ultimos
    dias, e hoje mais do que nos outros. A nossa regeneração depende de nos
    despirmos dos preconceitos sem fundamento, com que nos educaram. A nossa
    perda é uma inevitavel e justa consequencia do nosso louco modo de
    pensar e de viver, do nosso falso orgulho e dos nossos habitos viciosos.
    Pois que quer dizer este infatuamento com que fallamos dos nossos avós?
    Qual foi a acção nobre, magnanima, que deu tal esplendor a nossa
    familia, que se não possa apagar esse esplendor com a vida de
    ociosidade, de desleixo e de dissipação ingloria que levamos? A chronica
    não é clara a esse respeito. Tivemos guerreiros que morreram pela
    patria, é nobreza, de certo; mas quantos soldados obscuros não existiram
    entre os ascendentes d'esses pobres homens que por ahi ha, tão heroes
    como os nossos, mas ignorados? tivemos um ou dois bispos; elles, algum
    pobre sacerdote, modesto e humilde, que fez por ventura mais serviços á
    religião do que o nosso parente mitrado; mas não lhes deu isso nobreza.
    O que lhes faltou talvez foi um avoengo que prestasse serviços
    particulares a algum rei benevolente, que em compensação o fez nobre por
    toda a eternidade; porque tambem ha d'estas raizes em muitas arvores
    genealogicas; desengana-te.

    –Estás eivado de uma philosophia democratica e revolucionaria, que não
    sei onde te levará, Jorge. E em vista d'isso que resolves?

    –Resolvo não continuar a merecer essas humilhações, que não posso
    deixar de reconhecer que são justas. Elles teem mais direito de nos
    desprezar do que nós a elles.

    –Desprezar-nos!–repetiu indignado Mauricio.

    –Sim, sim; desprezar-nos. E senão repara. A nossa casa deve muito.
    Grande parte dos nossos bens estão hypothecados. O nome da nossa familia
    não é já segura garantia nos contractos, e os emprestimos, que todos os
    dias os nossos procuradores contrahem, são obtidos por um preço que em
    pouco tempo nos levará á miseria. Na aldeia todos sabem isto. Não queres
    pois que nos desprezem, ao verem-nos, rapazes de vinte annos, robustos,
    e com energia e intelligencia, gastar ociosamente a vida e a juventude
    em passeios e em caçadas, olhando por cima do hombro para esses homens
    que talvez ámanhã, authorisados por a lei, nos virão pôr fóra de nossas
    casas e tomar posse d'ellas? É acaso nobre este nosso proceder,
    Mauricio? Esta cegueira, com que vamos na corrente que nos arrasta ao
    precipicio, não merece pelo menos um sorriso de compaixão?

    –Tu exageras, Jorge. Acaso teremos já chegado a taes extremos, que…

    –Nem tu imaginas a que extremos temos chegado; mas ainda nos poderemos
    salvar, se quizermos ser homens.

    –E como?

    –Mudando de vida, applicando-nos devéras á restauração d'esta casa.

    –Mas…

    –D'aqui a pouco tenciono procurar o pae e fallar-lhe desenganadamente,
    pedir-lhe que me deixe olhar por mim proprio para a administração das
    nossas propriedades, que nas mãos de fr. Januario caminham a uma perda
    certa.

    –Mas que entendes tu de administração?

    –Aprenderei. O interesse é um grande mestre. Não tiveram outro esses
    rusticos proprietarios, que por ahi vemos enriquecer.

    Mauricio ficou pensativo.

    A ideia do irmão parecia havel-o ferido profundamente. Estava-lhe
    achando um sabor de poesia que lhe agradava. Porque Mauricio, não tendo
    o caracter meditativo e o espirito analytico de Jorge, era nas coisas da
    vida guiado mais pela imaginação do que pela razão. Se uma causa o
    seduzia, adoptava-a, sem a julgar. Igualmente a rejeitaria, se á
    primeira intuição lhe desagradasse. Era tão facil de se enthusiasmar por
    o que ao principio repellira, que não se podia ter muita confiança
    n'aquelle ardor. Lavrava muito depressa a lavareda para ser de longa
    duração.

    Assim aconteceu d'esta vez, pois voltando-se para Jorge, disse-lhe com
    uma impetuosidade juvenil:

    –Dizes bem, Jorge. O nosso dever manda-nos acabar com esta vida de ocio
    e de inutilidade. É assim. É preciso que sejamos homens. Temos uma
    missão a cumprir, generosa e nobre. Trabalhemos. O trabalho traz comsigo
    a recompensa e os gozos. De certo deve sentir-se orgulhosa e satisfeita
    a alma do que trabalha, porque vê que cumpre um dever. O que se nos
    figura fadiga é prazer. Pois não te parece que um escriptor, por
    exemplo, deve ser feliz nas horas de composição? e que o artista curvado
    sobre os instrumentos do seu officio, e o lavrador vergado no campo, nem
    sequer sentem o suor que lhes corre da fronte? Tens razão, trabalhemos,
    a poesia visitar-nos-ha nas nossas horas de labor, e não nos deixará
    sentir saudades dos perdidos ocios de fidalgo.

    Jorge escutava o irmão com um sorriso triste e innocentemente malicioso,
    e commentava com um movimento de cabeça uma e outra d'estas estrophes em
    honra do trabalho. Quando Mauricio concluiu, elle ponderou-lhe com a sua
    habitual serenidade:

    –Valha-te Deus, Mauricio, que estás tu ahi a dizer? Não sonhes nem
    adoptes uma resolução séria, como a de que fallo, sob o dominio d'essas
    illusões. Vê as coisas como ellas são. O trabalho é nobre por certo, mas
    a poesia d'elle nem sempre a percebe quem muito de perto lhe conhece as
    fadigas. Não vás seduzido para a carreira do trabalho, porque cedo te
    desanimaria um cruel desengano. É preciso entrar n'isto guiado pela
    razão, e não por um enthusiasmo fugaz. O escriptor nas horas de
    composição, e principalmente o artista e o lavrador nas fadigas do seu
    mister, não teem esses gozos que fantasias; antes devem sentir muitas
    vezes grandes desalentos e grandes fastios. O que os estimula, mais do
    que a poesia, é o dever. Recompensas ha, não nego que as haja, além das
    materiaes. Deve haver uma certa tranquillidade de consciencia, uma
    ausencia de remorsos, isto de um homem poder fitar sem vergonha os que
    trabalham a seu lado, como se lhes dissesse: «Tambem tenho direito a
    viver.» Isso sim; mas o ideal, que sonhas, anda longe das officinas, das
    fabricas e dos gabinetes de estudo, ou se ahi penetra, é á maneira
    d'aquelles deuses do paganismo, que acompanhavam invisiveis os heroes
    que protegiam. Estarás sob a influencia d'elle, mas não o verás. Se a
    contemplação d'essa divindade é a recompensa que esperas, deixa-te antes
    ficar a montear por estas aldeias.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Aproximadamente 50.547 palavras.

    Produced by Carla Martins Ramos, Ricardo Diogo, and Tiago
    Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt).

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

    *TOMO VII*

    *QUESTÕES PUBLICAS*

    TOMO IV

    1.^a EDIÇÃO

    LISBOA

    TAVARES CARDOSO & IRMÃO–EDITORES

    _5, Largo de Camões, 6

    1898

    Typ. da Empreza Litteraria e Typographica

    Rua de D. Pedro, 184–Porto

    ADVERTENCIA

    O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a
    data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos
    ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida
    do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos
    para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar
    com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um
    vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,
    politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a
    entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,
    entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão
    esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da
    recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo
    quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara
    e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte
    d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em
    diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um
    formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia
    de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com
    esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura
    dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,
    facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de
    emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na
    cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o
    apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu
    ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,
    pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;
    mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto
    ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes
    considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre
    vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento
    d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos
    fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de
    poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção
    dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos
    de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera
    com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para
    o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior
    proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos
    fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22
    de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento
    do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se
    tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se
    conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo
    Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a
    essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então
    effectuadas segundo a lei de 1846.

    Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.
    Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de
    1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,
    outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.
    Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume
    apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes
    importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,
    tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.
    A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de
    1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os
    concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas
    do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não
    attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella
    devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos
    recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para
    prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as
    opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle
    plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do
    concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de
    vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o
    pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o
    ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este
    modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações
    da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para
    satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.
    Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração
    mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse
    procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da
    sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que
    falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local
    que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros
    concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que
    em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a
    grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas
    profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa
    prosperidade e força politica.

    Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.
    Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o
    historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que
    ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.

    1898.

    Os editores.

    DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA

    1843

    Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi
    D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o
    reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em
    ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,
    e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e
    magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,
    mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em
    conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou
    sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV
    levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V
    tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia
    lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João
    V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo
    vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que
    só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.

    D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com
    o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz
    n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o
    palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo
    inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com
    púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo
    que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que
    sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do
    seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão
    brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos
    andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo
    isso.

    Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe
    quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que
    n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das
    artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.
    Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos
    que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma
    chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos
    historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os
    homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas
    a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas
    inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração
    que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro
    de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por
    motivo tal foi a architectura sincera.

    Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira
    grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como
    os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do
    templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma
    velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines
    ou de Tertulliano.

    Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei
    liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal
    na primeira metade do seculo XVIII.

    Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender
    quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,
    em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A
    Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva
    como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,
    santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que
    edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,
    deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,
    crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A
    Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,
    ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão
    complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo
    povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.

    O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um
    edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas
    vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia
    fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida
    e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo
    anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses
    generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.

    Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:
    que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque
    se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua
    decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque
    principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai
    esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões
    pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do
    sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;
    deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e
    confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o
    mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a
    escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será
    grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a
    precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não
    tem procellas.

    O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e
    ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre
    terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:
    e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta
    situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,
    posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não
    foi riscado do livro dos eternos destinos.

    Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo
    o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento
    industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira
    entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem
    incontestavelmente sido o nosso principal progresso.

    Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de
    regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia
    substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas
    geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri
    a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil
    monumentos que significarão o espirito do presente.

    Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o
    céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,
    a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as
    tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das
    montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações
    virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto
    universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um
    hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor
    e gratidão de nossos filhos!

    Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans
    grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas
    eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas
    pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente
    estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos
    ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de
    muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão
    de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores
    tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que
    coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,
    hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da
    Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas
    e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a
    qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no
    comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem
    repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.

    A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram
    nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a
    segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente
    quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o
    symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em
    pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre
    ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e
    o amor do trabalho.

    Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos
    os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado
    de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras
    hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a
    curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o
    preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;
    mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia
    tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados
    de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e
    as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;
    transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde
    dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome
    manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.

    A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo
    edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou
    uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:
    serão no futuro bençãos da posteridade.

    O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua
    juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre
    mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos
    que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.
    Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das
    injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os
    membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte
    e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento
    redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas
    solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos
    capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas
    passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta
    o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do
    estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria
    não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as
    ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?

    A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios
    creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo
    zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á
    munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem
    algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que
    mais vale, em fructos de verdadeira gloria.

    Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,
    estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e
    outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde
    raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar
    continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no
    meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um
    symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu
    conjuncto–o orgulho tendo por fundamento o nada.

    Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos
    incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino
    Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,
    e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada
    mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os
    trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as
    despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que
    talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o
    pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que
    ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.

    O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de
    tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser
    prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro
    progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos
    proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam
    os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da
    imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada
    nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o
    exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos
    ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de
    estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae
    estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça
    sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.
    Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do
    paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos
    seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de
    Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos
    melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da
    Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito
    exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos
    agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam
    ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e
    progressivo pensamento d'este seculo.

    Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar
    á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,
    cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até
    hoje.

    O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.
    Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos
    habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O
    inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a
    quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o
    solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito
    deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa
    cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta
    tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no
    anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,
    cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que
    de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas
    onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos
    sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,
    e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e
    nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,
    os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.

    Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já
    uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas
    entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi
    são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na
    começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores
    methodos modernos, e com attenção a importantes considerações
    hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o
    tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa
    se bom ou máu.

    Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de
    regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados
    como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este
    estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da
    azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que
    separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão
    os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.

    As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a
    luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a
    anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens
    ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem
    adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o
    methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de
    luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma
    especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de
    pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de
    luzerna que não fosse transplantada.

    O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e
    tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.
    Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e
    supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas
    construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar
    convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar
    um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.

    A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de
    agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo–o noroeste. Este vento
    sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que
    vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste
    na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas
    ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema
    d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas
    até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os
    pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados
    que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os
    castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,
    quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e
    então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e
    fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando
    extensos e bem ordenados viveiros.

    Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante
    extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer
    progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos
    brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.
    Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as
    terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.

    Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são
    construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso
    principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça
    grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades
    triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de
    traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do
    paiz construidos com perfeição.

    Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses
    maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante
    transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz
    n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as
    vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae
    abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos
    livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma
    fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este
    é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos
    abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações
    da sciencia–o alimento para o espirito.

    O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado
    da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São
    dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a
    philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as
    intelligencias que fizeram surgir um e outro.

    BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA

    1849

    Ajuda, 8 de março de 1849

    Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz
    de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno
    em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças
    dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal
    tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.

    Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é
    cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é
    respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á
    fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é
    generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta
    situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente
    proveito para o futuro.

    O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do
    seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da
    America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a
    tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os
    sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam
    para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então
    que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades
    da religião.

    Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons
    missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas
    verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para
    interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que
    vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,
    praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos
    seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella
    depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.

    Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem
    lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,
    aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para
    insinuar n'estes importantes verdades.

    A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma
    pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,
    a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.
    Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha
    das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma
    certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de
    todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.

    Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,
    podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado
    pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que
    sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos
    cereaes.

    Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar
    é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é
    necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria
    onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes
    n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é
    proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a
    natureza a supprir a alimentação dos animaes.

    Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo
    de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,
    pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,
    imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento
    quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina
    fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma
    larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.

    As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a
    producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma
    grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se
    collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada
    proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e
    embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o
    anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e
    o cultivador fica sempre miseravel.

    A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a
    negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para
    este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na
    distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e
    engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas
    tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão
    que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de
    uma abundancia mais apparente que real.

    Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,
    pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós
    talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma
    infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso
    _d'intensidade_ na agricultura nacional.

    Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por
    diversos modos a nossa situação deploravel.

    De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os
    interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio
    pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que
    possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi
    exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á
    Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança
    nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a
    faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da
    Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa
    actividade intellectual e material.

    Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;
    perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto
    pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.

    Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas
    hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a
    segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e
    reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os
    prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses
    recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão
    para resistir ás incertezas das estações?

    O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava
    ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta
    pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,
    variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que
    porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que
    não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.

    Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,
    essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para
    os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima
    adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»

    Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o
    sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo
    que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,
    limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.

    E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria
    agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr
    annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por
    centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,
    fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção
    excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,
    mais admiravel?

    Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da
    nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que
    dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas
    noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de
    humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes
    productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras
    fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem
    odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,
    que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são
    o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia
    lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o
    seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à
    perdição.

    Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de
    contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A
    Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,
    que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do
    destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na
    Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde
    se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos
    dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do
    norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as
    encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o
    orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na
    verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao
    cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas
    impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão
    vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como
    advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem
    mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.
    Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio
    contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição
    das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.

    O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos
    arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica
    indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos
    sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as
    penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e
    enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,
    pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o
    baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs
    são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás
    maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos
    terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,
    ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso
    clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para
    ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia
    duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,
    n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados
    dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa
    propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma
    quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura
    exclusiva.

    A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais
    graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a
    natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até
    certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de
    afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem
    uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema
    sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações
    judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de
    multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo
    a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,
    não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de
    adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,
    pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe
    necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para
    ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a
    carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em
    que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de
    principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação
    dos animaes.

    Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de
    consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de
    consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos
    incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas
    vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os
    povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os
    supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter
    combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas
    á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha
    de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.
    Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados
    emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,
    achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta
    de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto
    que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se
    vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a
    que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente
    sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.

    Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no
    interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma
    porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,
    cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a
    escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno
    correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos
    deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,
    forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de
    pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros
    terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou
    o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos
    visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela
    devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes
    do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores
    um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de
    um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o
    rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a
    reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo
    interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de
    vir.

    E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova
    que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações
    de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que
    finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento
    das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias
    economicas, os meios de progresso material, as indicações da
    experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra
    ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a
    que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do
    nosso dominio.

    S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de
    Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e
    calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de
    verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se
    vão prolongando até a beira do oceano.

    Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho
    uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o
    dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso
    era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno
    acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da
    vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio
    porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;
    tem-n'a ás miserias da terra.

    Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne
    mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.
    Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o
    deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de
    previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,
    que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto
    redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.
    Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da
    industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a
    pretensão de justa, e a intenção de progressiva.

    E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias
    economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as
    metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos
    dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso
    exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem
    de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,
    incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja
    perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de
    nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das
    discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe
    compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não
    acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito
    commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe
    calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro
    qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o
    ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos
    convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas
    paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.

    Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o
    aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma
    das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de
    S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as
    preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não
    aconteceu assim.

    O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do
    maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.
    Pinta o paiz.

    Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões
    tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes
    malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as
    verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não
    appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.

    Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra
    abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem
    quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A
    mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma
    grande parte da serra.

    Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às
    solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe
    parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos
    que carneiros. O bom Sancho era um typo!

    Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o
    remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se
    façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo
    logico.

    Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos
    frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha
    das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os
    estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas
    raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as
    em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza
    de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as
    converter em combustivel.

    E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma
    epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?

    No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á
    serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o
    que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil
    braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.

    Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de
    trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual
    força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes
    jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que
    possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel
    à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial
    ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela
    jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas
    quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia
    agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso
    não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam
    lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados
    vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou
    meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens
    laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do
    vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da
    indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se
    oppõe ao verdadeiro progresso agricola.

    Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.
    Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?

    Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:
    deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;
    que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é
    illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os
    homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao
    pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão
    nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem
    a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.
    Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás
    conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria
    sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de
    elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um
    passado de independencia e de probidade politica, é generoso não
    vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem
    poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.

    A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos
    communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está
    resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa
    questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não
    vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de
    mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;
    estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da
    agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,
    aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na
    questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,
    accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a
    distribuição e applicação dos maninhos.

    A GRANJA DO CALHARIZ

    1851

    Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,
    maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos
    curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se
    pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão
    das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa
    litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou
    sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.
    Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus
    auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e
    discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo
    são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as
    doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se
    escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas
    quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero
    de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam
    na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e
    pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar
    associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as
    reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no
    paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um
    cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem
    que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando
    uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos
    interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos
    resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de
    subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,
    (para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes
    aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes
    especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr
    ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto
    positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,
    onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis
    paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,
    bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural
    pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante
    trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos
    melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento
    agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,
    d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar
    os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,
    contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem
    unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa
    parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,
    uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em
    qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,
    não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor
    proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.
    A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da
    revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que
    tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em
    certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que
    todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por
    certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por
    ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É
    necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias
    agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido
    illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,
    feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades
    rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é
    determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de
    productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,
    preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas
    illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas
    doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do
    jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé
    da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que
    tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a
    sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.
    Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia
    bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como
    o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões
    modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,
    que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais
    sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a
    _rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma
    gloriosa… mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de
    quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)
    ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo
    amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a
    condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á
    vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os
    consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que
    esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,
    teem até certo ponto razão?

    D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:
    d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna
    na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não
    seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte
    especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é
    contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não
    estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor
    escala? Parece-me que sim.

    E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões
    agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.
    Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado
    aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto
    de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de
    quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo
    grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.
    Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado
    com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os
    resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle
    estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as
    cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de
    agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o
    custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,
    não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito
    que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir
    opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se
    accommodadas sempre a este solo e a este clima?

    Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os
    elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos
    foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da
    terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do
    desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões
    scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter
    relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas
    que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a
    Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como
    desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais
    habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a
    imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos
    institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que
    não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples
    particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que
    os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na
    edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em
    manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que
    nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos
    nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a
    que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse
    d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita
    Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido
    duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á
    patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada
    devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.

    Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.
    Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a
    acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que
    sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando
    casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em
    muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que
    tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração
    nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo
    a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se
    tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o
    snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia
    sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias
    custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a
    _de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,
    que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.

    Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje
    as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres
    cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o
    agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes
    esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou
    lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.

    PROJECTO DE DECRETO

    1851

    Senhora!

    O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de
    trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de
    propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento
    de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro
    acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se
    assim um desenvolvimento vigoroso de população.

    Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a
    Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os
    espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não
    legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de
    uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado
    mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e
    terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de
    contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque
    o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto
    que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por
    esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes
    illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos
    especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,
    que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a
    propriedade e a familia sejam completamente annulladas.

    Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação
    comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que
    rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é
    incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa
    para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os
    riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer
    diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e
    do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil
    factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade
    dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que
    não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o
    supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais
    adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;
    combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade
    humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi
    nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a
    liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos
    mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,
    aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao
    feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de
    similhante natureza.

    Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as
    complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma
    grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate
    desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas
    e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;
    previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;
    aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de
    modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,
    nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais
    atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação
    as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder
    com prudencia.

    Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,
    ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem
    accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que
    possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra
    pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos
    oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em
    todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes
    inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,
    e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança
    pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a
    patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para
    outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os
    interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a
    propriedade sabem inspirar.

    Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha
    e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população
    agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços
    robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de
    frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande
    consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o
    espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que
    rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e
    pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de
    paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem
    comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as
    suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as
    exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.

    Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá
    dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de
    terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.
    Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas
    presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia
    publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.
    Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar
    se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e
    os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura
    prosperidade do paiz.

    Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos
    directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo
    procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por
    condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia
    de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as
    provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.
    Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de
    produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,
    não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a
    suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio
    de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a
    subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura
    a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao
    imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito
    necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo
    progressivo da renda publica.

    A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para
    facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário
    applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,
    pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e
    principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como
    effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o
    instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o
    proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados
    politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode
    ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.

    Á emphyteuse e ao systema parcellario teem opposto, Senhora, varias
    considerações economicas, os adversarios d'essa instituição, filha da
    civilisação romana, que resistindo a todos os abalos, a todas as
    transformações profundas verificadas durante os seculos medios, chegou
    até nós, abonando por esse facto a sua congruencia com a indole das
    sociedades humanas. Considerada no seu valor absoluto, e pelas regras da
    moral e da justiça, nada se vê na separação entre o dominio directo e
    util, que offenda uma ou outra. Os motivos para a preferir á
    allodialidade, ou para lhe preferir esta são todos relativos,
    condicionaes. Olhada a questão em these, como theoria abstracta, algumas
    razões podem militar a favor da allodialidade, mas, era hypothese, em
    relação ao nosso estado actual, a emphyteuse é preferivel se quizermos
    dar impulso á cultura e mais rapido movimento á transmissão da
    propriedade. N'um paiz onde a representação monetaria escacea, onde o
    atrazo da sciencia agronomica é incontestavel, onde, emfim, a elevação
    do salario e a depreciação dos generos teem produzido um desiquilibrio
    embaraçoso para o cultivador, a consideração acima feita de que o
    principio da allodialidade, isto é, a compra do fundo, absorve desde
    logo uma parte do capital, que nos aforamentos se substitue, em rigor,
    pela promessa de um juro, juro pagavel depois de obtido o producto da
    applicação do capital, bem demonstra que aquelle principio não soffre
    comparação com o emphyteutico, e quanto este será efficaz para os fins a
    que se destina o presente decreto.

    Modificada pelo systema parcellario a emphyteuse contrapõe-se ao systema
    dos latifundios allodiaes. Caracterisados assim, a antinomia entre os
    dous principios torna-se mais evidente e profunda. Mas é aqui tambem
    onde a superioridade de um ao outro, se torna mais incontestavel. Os
    defensores dos vastos allodios ponderam que a grande cultura é só
    propria dos extensos terrenos, só ella é compativel com os grandes
    melhoramentos, só ahi se podem introduzir as machinas, que produzindo
    mais barato facilitam o consumo; e, não podendo negar os inconveníentes
    sociaes da grande propriedade, accrescentam que sujeitos ao direito
    commum, esses predios se retalharão pela divisão forçada das successões,
    resultando d'ahi que dentro de curto praso ha-de apparecer um novo
    phenomeno economico e agricola; isto é, que a propriedade, dividindo-se
    quanto ao dominio, se conservará unida quanto ao trabalho, porque de
    outro modo, separando-se, individualisando-se o trabalho, a grande seria
    forçosamente substituida pela pequena cultura, e inutilisando-se as
    machinas, os novos possuidores do solo teriam de annullar um capital
    avultado sem vantagem conhecida. Assim quanto a elles, a exploração
    industrial da terra se conservará unida pela associação, ao passo que o
    dominio se irá retalhando atravez de todas as phases possiveis, n'uma
    esphera separada.

    Estas doutrinas, Senhora, são inexactas em grande parte. Pondo de lado
    os inconvenientes, as difficuldades prácticas da associação applicada ao
    trabalho agricola, quando, separado o dominio, o valor do producto
    relativo a cada fracção do fundo, não é só determinado pela applicação
    do trabalho, mas tambem pela força productiva do solo, grandemente
    variavel em vastos tractos de terra; suppondo possivel e até fácil
    similhante associação, e admittindo sem reserva os seus importantes
    effeitos, não se vê como o incitamento do interesse individual não possa
    conduzir os colonos no systema emphyteutico, a associarem-se para
    substituir pela grande a pequena cultura, adoptando as machinas que
    barateam os productos e empregando um trabalho commum. Por outra parte é
    inexacto que a pequena cultura não possa simplificar-se pela introducção
    de machinas e instrumentos novos ou aperfeiçoados, embora n'um grau
    inferior ao da grande cultura, e por isso fazer tambem descer até certo
    ponto o valor das subsistencias e dos outros productos agricolas,
    accrescendo a essa consideração o facto incontestavel, de que se a
    introducção dos instrumentos e machinas que simplificam o trabalho
    agricola, acha mais poderosos incentivos na grande cultura, os methodos
    aperfeiçoados teem nascido e nascem quotidianamente, da experiencia e
    das necessidades da pequena cultura. Independentemente porém, d'este
    argumento, sendo a divisão do solo pela indole da allodialidade sem
    questão mais tardia do que pela emphyteuse parcellaria, favorecida
    immediatamente pela lei, porque privaremos a geração presente, o homem
    de trabalho actual, do beneficio que queremos proporcionar aos
    vindouros? Emfim, Senhora, os que attribuem tão rapidos e efficazes
    effeitos aos obitos e ás successões, attenderam a todos os factos que
    modificam e retardam esses effeitos? Lembraram-se, por exemplo, dos
    consorcios, dos dotes, das terças e de tantas outras instituições civis,
    tendentes a entorpecer esse meio, sem duvida poderoso, de retalhar os
    predios rusticos? Attenderam acaso aos usos immemoriaes de algumas
    provincias, como o Alemtejo, onde o costume dos chamados quinhões torna
    a allodialidade inutil para a divisão das grandes herdades, porque se
    reparte a renda mas fica o solo unido em poder de um só agricultor?

    Que o systema da emphyteuse parcellaria seja o meio mais efficaz e
    talvez unico de chamar as classes humildes á propriedade, parece
    evidente. A acquisição do dominio pleno de vastos predios suppõe
    avultados capitaes. A dos pequenos predios suppõe-nos menores; mas ainda
    os suppõe. Nos emprazamentos de áreas limitadas como aquellas cujo
    maximo se fixa no presente decreto, e que é o mesmo estabelecido no
    Alvará de 27 de novembro de 1804, as economias do simples seareiro, do
    operario rural, bastarão de ordinario para as despezas do arroteamento.
    Elle conta além d'isso com os proprios braços, com o auxilio de sua
    mulher e de seus filhos, recursos cuja efficacia o sentimento da
    propriedade sabe redobrar de um modo maravilhoso. Como consequencia do
    facto logo que os aforamentos d'esta especie se facilitem e protejam, o
    trabalhador celibatario, a quem convidam as exempções concedidas por
    este decreto, e que uma ambição legitima incita a aproveitar-se do
    beneficio da lei, cuidará em associar a si uma companheira que o auxilie
    na sua laboriosa empreza. Assim os consorcios serão promovidos e
    portanto o desenvolvimento da população.

    Se, porém, a applicação do capital quasi unico das classes pobres, o
    trabalho dos proprios braços se torna não só possivel mas tambem facil
    pela emphyteuse parcellaria, o emprego do grande capital monetario
    torna-se onde ella predomina assaz difficil. A experiencia quotidiana
    nos ensina que os pequenos predios ruraes cultivados por conta do seu
    dono, mas não pelas mãos d'elle são constantemente causa de ruina. A
    pequena cultura exige grande numero de prevenções, e de economias
    insignificantes mas severas, uma actividade contínua, um zelo sem
    limites, um meditar incessante em tornar productiva a minima parcella de
    terra. Nada d'isto se obtem a troco de salarios, com que o homem do
    capital monetario tem de contar para alem d'isso obter um lucro, e com
    que o homem de trabalho não conta porque tirando da cultura o seu
    salario e o da sua familia, elle considera a somma d'esses salarios como
    o principal lucro. Assim os capitaes amoedados não podendo fraccionar-se
    em pequenas e ruinosas emprezas, operarão com dobrada energia na grande
    cultura que sempre ha-de ser avultada, ao passo que se tornarão mais
    accessiveis á industria fabril.

    A consideração mais grave que se pode oppor á idea que predomina n'esta
    proposta de decreto, e o Governo não quer, Senhora, dissimulal-a, é que
    abrindo-se em larga escala o caminho da propriedade ás classes
    trabalhadoras, os agricultores actuaes, que já laboram na difficuldade
    do augmento gradual do salario ao lado da diminuição de valor nos
    productos, verão crescer essa difficuldade pela distracção de um
    avultado numero de braços que habilitados para trabalhar por conta
    propria, recusarão fazel-o por conta alheia. Até certo ponto a
    consideração é verdadeira. Mas por um lado ha algumas que a attenuam, e
    por outro o governo pode e ha-de empregar os meios para que esse
    inconveniente seja compensado. Primeiro que tudo como o recurso unico do
    operario é o trabalho, ha-de verificar-se frequentemente o que já
    acontece por muitas partes. Nos tractos de terra mais ferteis que se tem
    arroteado pelo systema parcellario, porque, ainda sem o favor da lei, o
    interesse individual tem sido bastante para o fazer adoptar em diversos
    logares, o novo proprietario redobrando d'esforcos reparte as suas lidas
    entre a cultura propria e a alheia. Essa divisão é grandemente
    facilitada pelo atrazo da agricultura entre nós, porque sendo esta na
    maxima parte dedicada aos cereaes, ás vinhas e aos olivedos apresenta
    uma procura mui desigual de trabalho, de modo que elevando o salario
    desmesuradamente em certas epochas em outras essa procura affrouxa,
    chegando o obreiro rural a ponto de não achar muitas vezes emprego.
    Onde, porém, não for possivel restabelecer o equilibrio por similhante
    meio, esse embaraço irá gradualmente desapparecendo com o accrescimo da
    população, sendo entretanto um incentivo poderoso para os grandes
    cultivadores irem trocando o systema das culturas exclusivas pelo das
    culturas alternas, que, exigindo n'um tempo dado menor numero de braços,
    exige um mais constante emprego d'elles. Finalmente tendo a peito o
    governo acudir quanto antes á primeira necessidade do paiz, a
    construcção das estradas, para as quaes vae applicar todos os recursos
    de que pode dispor, a facilidade da viação e por consequencia a barateza
    do transporte, compensarão amplamente qualquer elevação de salarios, que
    n'um ou n'outro caso possa resultar da applicação do presente decreto.

    Não é necessário nem possivel, Senhora, entrar em largas explicações
    sobre os motivos que levaram o governo a propor a V. Magestade, a
    promulgação das disposições contidas nos diversos paragraphos do art.
    4.^o. A gradação estabelecida entre as varias culturas corresponde ao
    estado actual da nossa industria agricola e á necessidade de não dirigir
    cegamente o impulso que se pretende dar-lhe. O favor, desproporcionado
    na apparencia, que se liberalisa á plantação dos bosques, não se estriba
    só na consideração do demorado resultado que se dá no seu cultivo;
    funda-se tambem na da repugnancia á arborisação que é um dos erros mais
    communs e que parece necessario combater energicamente. É obvia tambem a
    causa das excepções ácerca do pinheiro maritimo, unica madeira que
    superabunda no nosso mercado. O favor comparativamente excessivo que o
    decreto pretende dar á cultura collectiva ou singular das forragens, das
    amoreiras e do canhamo, importa a idéa de fortalecer pela sabedoria das
    leis civis as reformas que hão-de trazer o ensino e educação dos futuros
    agricultores, por via das sociedades agrícolas, das escholas, e dos
    predios rusticos experimentaes, que o governo começou já a promover e
    fundar, e que está resolvido a fazer progredir logo que para isso se lhe
    proporcionem recursos, contando aliás com o auxilio de todos os homens
    de boa vontade e sinceros amigos do paiz. Escaceam entre nós os gados,
    sobretudo nas provincias do sul, porque a cultivação dos cereaes tem
    progredido em extensão e não em intensidade; porque os systemas biennal
    e triennal, que ahi predominam e que em certas circumstancias serão
    desculpaveis, serão até preferiveis, nunca podem ser uma regra geral
    senão onde a agricultura está na infancia: emfim, a falta de gados e de
    bons methodos de afolhamento explicam a maior parte dos embaraços da
    grande cultura em Portugal. Por outro lado se considerarmos os enormes
    valores que a Italia, o paiz mais analogo ao nosso e ainda
    agronomicamente inferior a elle, sabe tirar da producção da seda,
    devemos propagar até onde for possivel o cultivo da amoreira. Tambem a
    experiencia tem provado que o canhamo do nosso paiz, cultivado
    judiciosamente e nos terrenos convenientes, excede em bondade não só o
    da Russia mas o proprio canhamo de Bolonha, reputado o melhor da Italia.
    Por ultimo os fundamentos da menor protecção dada aos ramos de
    agricultura largamente espalhados pelo reino, fundamentos que em parte
    derivam do que fica dito, são obvios para V. Magestade.

    Era impossivel, Senhora, propor a promulgação de um decreto tendente a
    trazer á producção os terrenos incultos e a fomentar a divisão
    espontanea da propriedade territorial, sem estender a sua acção ao solo
    vinculado. São sobretudo os vinculos que nos offerecem o triste
    espectaculo de terras, muitas vezes de primeira qualidade, inuteis e
    desaproveitadas. Entre as razões moraes, politicas e economicas, que
    condemnam a instituição dos vinculos, esse facto subministra contra ella
    um argumento assaz ponderoso. A sua extincção parcial ou completa é
    questão, na verdade, que os ministros de V. Magestade não poderiam
    discutir aqui, e que se deve tractar pausada e reflectidamente; porque,
    resolvida de leve e, sobretudo, decretada de golpe, a abolição dos
    vinculos ainda parcial, teria, talvez, inconvenientes politicos e até
    economicos maiores do que geralmente se pensa. Todavia a instituição é
    em these insustentavel e se considerações de tempo e de circumstancias,
    podem absolver a sua existencia e aconselhar a sua condicional
    conservação, essas considerações são absolutamente inapplicaveis aos
    terrenos incultos, que na maior parte dos casos não representam valor
    algum, ou só o representam minimo. Exemptar os vinculos de contribuirem
    para o bem commum n'esta parte seria absurdo.

    Egualal-os para os effeitos da lei ás propriedades allodiaes, dar-lhes
    as mesmas vantagens e impor-lhes as mesmas restricções era justiça. Foi
    o que se fez n'este projecto de decreto.

    É evidente que nos aforamentos dos maninhos vinculados se dá um facto
    similhante ao que se verifica nos dos maninhos allodiaes. A somma total
    dos fóros representa um juro e portanto a creação de um capital. O
    decreto, suppondo para estabelecer as suas ulteriores providencias, que
    a somma dos fóros representa um juro de cinco por cento, faz d'ahi
    resultar um capital inferior á realidade, porque é sabido que os
    emprazamentos difficilmente produzem essa renda. Em todo o caso esta
    nascerá do favor da lei, favor que se não é um sacrificio effectivo e
    presente, virá a sel-o de futuro. Um tal favor, tendo por fim
    exclusivamente desenvolver o progresso de uma agricultura sensata e
    chamar o proletariado ao amor da paz e da ordem, pela acquisição da
    propriedade, produziria ao mesmo tempo, sem as convenientes restricções,
    a consequencia de augmentar o valor dos vinculos ou por outra, daria
    maior vulto a um genero de propriedade que á luz das indicações
    economicas apenas pode ser tolerado. Era, portanto, dever do governo
    obstar a similhante augmento, e o governo obstou-lhe com as providencias
    consignadas nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o. Ao passo que
    firmou o principio de libertar um cumulo de bens igual em valor ao
    capital accrescido pelos novos aforamentos, deu o maximo alvedrio aos
    administradores de vinculos para se aproveitarem do beneficio do
    decreto, pelo modo que reputassem mais conveniente, e até para não se
    aproveitarem d'elle. Entretanto elle feriu n'um ponto a integridade dos
    cumulos vinculados. Foi na disposição do artigo 13.^o; mas este
    sacrificio é tão tenue comparado com o alto objectivo de promover a
    divisão do solo, que os ministros de V. Magestade poderão antes ser
    taxados de nimiamente escrupulosos a favor da instituição, do que
    suspeitos em demasia de seus adversarios.

    Alguem poderá objectar, Senhora, que em logar do systema um tanto
    complicado que os ministros de V. Magestade adoptaram, para operar um
    grande movimento de propriedade nos bens vinculados, seria mais simples,
    depois de auctorisar e favorecer a alienação do dominio util dos
    terrenos incultos pela emphyteuse parcellaria, auctorisar também a
    alienação do dominio directo d'esses mesmos bens, ou pela remissão ou
    pela venda. Com a lealdade que professam os ministros de V. Magestade,
    dirão a proposito d'esta consideração, que parece razoavel, o seu
    pensamento inteiro. Primeiro que tudo o movimento dos valores, da
    propriedade considerada de um modo absoluto, seria na verdade o mesmo;
    mas o movimento do dominio util da propriedade territorial seria
    equivalente a metade, a um terço, e em certos casos ainda a menos. O fim
    principal do decreto, o augmentar o numero dos proprietarios, tão
    favorecido pelos artigos 12.^o e 13.^o, ficaria incomparavelmente mais
    restricto; o numero dos afiliados pelo sentimento da propriedade e da
    familia ao partido da paz e da ordem, seria muito menor. Por outro lado
    esse systema complexo cria um incentivo poderoso e talvez irresistivel,
    para o rapido aforamento dos baldios vinculados. Não será tanto o homem
    de trabalho que procure obter um tracto de terra para cultivar, como o
    administrador de vinculo que busque o homem de trabalho para lh'o
    offerecer, porque um grande interesse o incita. Gravados por dividas em
    grande parte ficticias e fructo monstruoso dos desvarios das paixões e
    de uma agiotagem infrene, uma parte dos possuidores de vinculos e
    sobretudo dos grandes vinculos, laboram em graves difficuldades
    economicas, de que os soltará em muitos casos a libertação de uma parte
    dos bens vinculados. Nem se diga que a muitos d'elles faltará a cordura
    para aproveitar utilmente o beneficio da lei: a obcecação d'estes não
    deve reverter em damno dos prudentes e avisados; ao passo que esses
    taes, ainda quando se não verificasse a libertação de uma parte do
    vinculo, saberiam sempre completar de um ou de outro modo a propria
    ruina, ajudados pela agudeza infernal da usura e da agiotagem.

    Em todo o caso, Senhora, o governo respeitou com escrupulo o fundo
    hypothecario e os direitos de terceiro, sem entrar no exame da
    legitimidade moral da origem d'esses direitos. Depois de um grande
    movimento de propriedade dentro d'essa instituição immobilisadora, o
    fundo vinculado fica em rigor sendo o mesmo e portanto a mesma a
    garantia dos encargos e hypothecas. É esse na opinião dos ministros de
    V. Magestade, o principal merito, n'esta parte, da presente proposta de
    decreto.

    Por todos os motivos e fundamentos economicos e politicos até aqui
    ponderados, o governo tem a honra de offerecer á Regia approvação de V.
    Magestade o seguinte:

    DECRETO

    Artigo 1.^o São confirmadas, ampliadas, alteradas ou revogadas as
    disposições dos Alvarás de 23 de julho de 1766, de 27 de novembro de
    1804 e de 11 de julho de 1815, da Carta de Lei de 24 de novembro de
    1823, e de outra qualquer legislação geral existente, relativas a
    maninhos ou terrenos incultos de qualquer especie ou denominação que
    sejam, possuidos allodialmente, e que forem reduzidos a cultura por
    contractos d'emprazamento, debaixo das condições declaradas nos artigos
    do presente decreto.

    Artigo 2.^o Os emprazamentos a que se refere o artigo antecedente
    constituirão prazos fateosins perpetuos hereditarios. Fica a respeito
    d'elles supprimido o direito senhorial do laudemio, bem como o de opção
    e prelação. O canon será fixado livremente por accordo entre o senhorio
    e o emphyteuta.

    Artigo 3.^o Os terrenos assim reduzidos a cultura ficarão
    temporariamente exemptos de todos e quasquer impostos directos geraes ou
    municipaes, tanto em relação à renda liquida do emphyteuta, como ao foro
    estipulado por este com o senhorio directo.

    Artigo 4.^o Os novos predios constituidos em virtude d'este decreto, e
    cuja superficie não exceder dez mil braças quadradas (proximamente dez
    geiras) gosarão da exempção concedida no artigo antecedente, debaixo das
    condições e com as limitações seguintes:

    § 1.^o–A exempção durará 30 annos em relação aos predios que forem
    applicados, ao menos em duas terças partes da sua superficie, ao plantio
    de bosques de arvores de córte, que não sejam pinheiros maritimos, salvo
    sendo o predio situado na orla do mar oceano, até a distancia de uma
    legua para o interior das terras, dentro da qual a cultura dos pinheiros
    maritimos é equiparada á de quaesquer outros arvoredos de córte.

    § 2.^o–A mesma exempção durará 16 annos sendo os predios applicados, ao
    menos em dous terços da sua superficie, á cultura, singular ou
    collectiva, da amoreira branca, do canhamo e dos prados artificiaes,
    quer permanentes, quer temporarios, sendo porém necessario, no caso de
    se applicarem os dous terços sobredictos á cultura dos prados
    artificiaes, com exclusão da amoreira branca e do canhamo, que se
    conserve sempre um quarto do dicto predio em prados artificiaes
    permanentes, para se verificar a exempção concedida.

    § 3.^o–A mesma exempção durará 12 annos se ao menos os dictos dous
    terços forem applicados ao plantio de oliveiras.

    § 4.^o–Durará 8 annos a sobredicta exempção se ao menos dous terços do
    predio forem applicados á cultura da vinha.

    § 5.^o–Se ao menos dous terços do predio forem applicados á cultura dos
    cereaes ou a outras quaesquer culturas não especificadas nos §§
    antecedentes, esse predio gosará por seis annos de igual exempção.

    Artigo 5.^o O beneficio da exempção não é applicavel em nenhum caso aos
    prazos instituidos em terrenos incultos de regadio ou pantanosos, que se
    applicarem no todo ou em parte á cultura de arrozaes.

    Artigo 6.^o Se a superficie do prazo exceder a que é fixada no artigo
    4.^o, o periodo da exempção será reduzido a metade do tempo, em cada uma
    das hypotheses dos diversos §§ do mesmo artigo.

    § unico–Exceptua-se a cultura dos arvoredos de córte de que tracta o §
    1.^o do artigo 4.^o, á qual é applicavel favor igual, seja qual for a
    extensão do terreno emprazado.

    Artigo 7.^o Se um individuo possuir, quer como emphyteuta originario,
    quer como cessionario, dous ou mais prazos d'aquelles de que tracta o
    artigo 4.^o, a exempção ficará reduzida a metade do tempo em relação a
    cada um d'elles, salva sempre a hypothese do § 1.^o do dicto artigo 4.^o.

    Artigo 8.^o O beneficio reduzido, designado no artigo 6.^o, é igualmente
    concedido ao proprietario que, conservando em si unidos os dominios
    directo e util, tornar productivos os seus terrenos incultos, dando-lhes
    a applicação de que tractam o § unico do dicto artigo e o § 1.^o do
    artigo 4.^o.

    Artigo 9.^o O presente decreto fica sendo extensivo a quaesquer maninhos
    ou terrenos incultos que tenham a natureza vincular. Para os effeitos
    d'esta disposição os dictos terrenos são considerados como livres e
    allodiaes, e os administradores actuaes ou futuros dos vinculos havidos
    como proprietarios d'esses terrenos com dominio pleno, unicamente para
    poderem celebrar com respeito a elles os contractos emphyteuticos,
    permittidos nos artigos anteriores, com as condições n'estes expressas.

    Artigo 10.^o Os fóros estabelecidos em cada um dos prazos, cuja
    instituição é facultada no artigo antecedente, ficarão incorporados no
    vinculo a que pertencia o terreno emprazado, e sujeitos desde logo aos
    encargos e hypothecas que pesarem sobre o mesmo vinculo.

    Artigo 11.^o Tanto que o administrador de um vinculo houver emprazado,
    pela maneira precedentemente prescripta, a totalidade dos terrenos
    incultos pertencentes ao mesmo vinculo, ser-lhe-ha licito alienar o
    dominio pleno de uma porção de predios urbanos, ou de predios rusticos
    cultivados anteriormente á data deste decreto, e pertencentes ao cumulo
    vinculado. Esta porção alienavel será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros, considerados como juro de cinco
    por cento; isto é, será igual em valor a vinte vezes a somma dos fóros.
    A livre alienação de taes predios não poderá ser embaraçada pelos
    encargos ou hypothecas que possam pesar sobre o vinculo, ou por
    quaesquer outros motivos ou pretextos.

    Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente
    por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,
    unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos
    predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do
    artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como
    juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta
    vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon
    estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser
    inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo
    rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses
    contractos ficarão incorporados no vinculo.

    Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem
    feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,
    ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma
    estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela
    dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra
    porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas
    disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os
    fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda
    media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.

    Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do
    dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e
    d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo
    do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições
    dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.

    Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe
    é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do
    vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua
    morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que
    pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a
    successão d'esses bens pelo direito commum.

    Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se
    verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação
    da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do
    procurador regio.

    Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto
    nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas
    judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que
    tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou
    por hypothecas.

    Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.

    O PAIZ E A NAÇÃO

    (ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL–«o PAIZ»)

    1851

    I

    Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as
    observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o
    nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o
    cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.

    O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais
    hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas
    instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que
    elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma
    alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de
    inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios
    horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas
    congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem
    nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam
    differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em
    serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a
    censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam
    apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos
    mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o
    exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,
    para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e
    tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta
    ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram
    víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo
    de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,
    Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de
    Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos
    velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada
    ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este
    seculo, a fabula e o escarneo das gentes.

    Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia
    contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em
    que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da
    tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao
    obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos
    conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,
    virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,
    ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava
    arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,
    para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal
    chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real
    magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e
    ignorantes.

    Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do
    presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas
    _Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de
    Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos
    tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas
    de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae
    certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas
    saudosas por bem diversos monumentos.

    Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da
    que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia
    secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis
    conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas
    as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as
    cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as
    com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e
    depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da
    _anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e
    material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre
    a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?

    Sois singularmente esquecidos!

    Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem
    roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os
    educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou
    essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe
    de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados
    era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo
    vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa
    regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos
    militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções
    honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem
    a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,
    pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem
    sobre nós, da sentina do absolutismo?

    N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a
    que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as
    armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não
    tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido
    vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;
    combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de
    franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens
    publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,
    reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,
    reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios
    reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,
    partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,
    dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,
    sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o
    absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e
    carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo
    tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,
    monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto
    benemerito da monarchia.

    Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes
    nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde
    as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha
    poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter
    pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os
    malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,
    tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero
    instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da
    tyrannia.

    Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.
    Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos
    comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do
    suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos
    antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,
    foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,
    empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso
    e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre
    practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas
    republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas
    tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa
    negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma
    cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de
    Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que
    fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu
    tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma
    auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de
    usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da
    logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.
    Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de
    D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal
    e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a
    suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe
    conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos
    tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é
    desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes
    magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação
    publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a
    necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.

    O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da
    sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com
    que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito
    e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,
    com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte
    e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a
    trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento
    os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas
    grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,
    junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da
    dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que
    sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os
    salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma
    restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em
    abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os
    dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as
    jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas
    _ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios
    desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e
    prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda
    deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos
    antepassados.

    Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,
    como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma
    providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos
    com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de
    subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.

    Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É
    exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é
    exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e
    posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas
    populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.

    Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde
    era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que
    é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão
    escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na
    sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a
    aos passageiros nús, famélicos, espoliados.

    A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos
    geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos
    povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o
    absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um
    d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando
    os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_
    que amaldiçoaes.

    Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos
    traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das
    façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a
    sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das
    aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido
    tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.

    Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos
    _bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações
    religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das
    leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal
    podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se
    extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de
    amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de
    responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá
    vão.

    Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o
    mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má
    fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes
    d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das
    nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os
    impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que
    apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os
    pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos
    queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado
    a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?
    Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de
    10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara
    a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que
    partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao
    de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.
    Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso
    não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes
    da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos
    e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.

    Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero
    está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é
    inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a
    differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos
    envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos
    fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os
    resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos
    em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a
    emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com
    um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que
    vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo
    iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,
    d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,
    mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e
    corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que
    com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,
    por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em
    miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de
    frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque
    statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo
    era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte
    ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,
    nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes
    que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,
    aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos
    banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do
    lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de
    alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa
    exiguidade.

    Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas
    actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber
    quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para
    instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,
    as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias
    dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria
    do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o
    contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois
    defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas
    porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os
    fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os
    beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero
    aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.

    Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema
    vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos
    capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos
    soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos
    em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma
    increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas
    aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso
    com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista
    dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses
    soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,
    ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se
    por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,
    vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que
    lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O
    unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta
    princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.
    De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio
    da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na
    praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide
    para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do
    Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.

    Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do
    quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,
    fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé
    popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares
    se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter
    feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,
    para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas
    pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de
    Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio
    essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da
    companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares
    que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas
    e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e
    os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue
    em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos
    cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,
    não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?
    Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia
    tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós
    inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos
    officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os
    vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas
    que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos
    patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta
    terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre
    as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,
    onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam
    acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o
    genio do duque de Bragança não os houveram salvado.

    Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr
    a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais
    milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide
    ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles
    compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será
    uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar
    letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.

    II

    Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a
    legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na
    carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se
    parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso
    da redacção da _Nação_ comnosco.

    O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.
    Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro
    comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma
    questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então
    accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,
    reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o
    absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa
    historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição
    primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão
    democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a
    _Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes
    côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos
    seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do
    mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em
    que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem
    dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos
    que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de
    municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de
    liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam
    salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo
    isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da
    comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes
    de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de
    D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o
    absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só
    depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao
    estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da
    communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,
    como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,
    suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições
    primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do
    sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de
    uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A
    _Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda
    o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos
    duramente. Foi um proceder ferino.

    Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas
    da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e
    vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás
    actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de
    controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um
    homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto
    individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a
    dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á
    intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria
    politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.
    Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da
    indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um
    tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez
    haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas
    as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a
    supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da
    corrupção e da tyrannia.

    No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.
    Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até
    á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não
    respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente
    ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança
    sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é
    inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos
    cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,
    ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.
    Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam
    os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que
    apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a
    liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra
    cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas
    mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava
    fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a
    _Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas
    publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de
    alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram
    composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de
    sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho
    (sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as
    mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em
    sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão
    largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos
    liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,
    inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com
    os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se
    enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella
    onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge
    pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o
    libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia
    para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,
    irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas
    mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da
    victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e
    o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o
    _Raio_.

    Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á
    prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,
    extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis
    perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos
    de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar
    debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas
    do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os
    vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria
    envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a
    sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito
    pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes
    antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as
    gentis façanhas dos defensores do passado!

    Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as
    nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois
    nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva
    que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade
    das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,
    dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.
    Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.

    III

    Os sete seculos

    Agora nós.

    Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um
    artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não
    sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu
    profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas
    faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho
    insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que
    deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,
    fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,
    pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os
    flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.
    Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes
    saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as
    maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados
    e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa
    resignação christã.

    Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas
    descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma
    carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,
    conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era
    efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita
    polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem
    apenas por cima da cabeça dos inimigos.

    Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a
    descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o
    despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança
    de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,
    ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros
    como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de
    nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas
    ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos
    cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a
    civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações
    de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento
    invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,
    que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,
    e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de
    depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para
    dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a
    _Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de
    parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das
    sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,
    rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do
    altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os
    fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda
    trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o
    diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar
    á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e
    com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches
    espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um
    espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na
    dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos
    desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e
    tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em
    si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.

    Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre
    velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas
    esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.
    Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os
    ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da
    sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam
    impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro
    5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços
    apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas
    aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem
    de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma
    edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos
    emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em
    quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar
    a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das
    taipas e páus podres de que era construida.

    Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes
    d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal
    o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os
    olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das
    vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos
    da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;
    são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de
    joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do
    convento absurdo de Mafra.

    Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e
    prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a
    primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre
    estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa
    decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande
    pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial
    e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande
    por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria
    comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da
    Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim
    pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita
    entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da
    indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam
    patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime
    constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.

    Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos
    tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma
    serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados
    commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma
    fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar
    algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais
    commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos
    jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as
    doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes
    de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no
    coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.

    Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do
    céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas
    que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam
    escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos
    municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das
    cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a
    sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se
    continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e
    cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos
    contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que
    os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a
    cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham
    introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico
    municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.

    Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até
    1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não
    raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,
    na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que
    nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses
    parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e
    revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)
    senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do
    poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito
    constitucional com que crescera e vigorava o paiz?

    Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um
    pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a
    que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para
    nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos
    da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e
    cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e
    crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para
    os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do
    tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a
    abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para
    viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa
    que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso
    espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das
    prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,
    roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,
    canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da
    gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da
    corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os
    pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se
    fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.
    Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o
    lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da
    terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos
    olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o
    que está elevado, para o ar e para o céu.

    É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em
    que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e
    accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do
    absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem–falsificaste,
    inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos
    factos,–traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um
    crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria
    não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante
    do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos
    filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa
    ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,
    dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a
    perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para
    a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,
    sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa
    reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á
    cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio
    podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o
    nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de
    instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas
    instituições primitivas?

    Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender
    contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações
    foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao
    mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso
    não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são
    vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos
    de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas
    de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da
    sociedade politica.

    Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes
    assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação
    mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres
    senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes
    para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a
    villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas
    medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava
    uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas
    no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte
    do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta
    municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente
    á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a
    sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer
    aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,
    porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»
    Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a
    reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só
    vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.

    Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como
    nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a
    estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a
    organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses
    gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de
    obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios
    de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma
    terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros
    villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro
    para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava
    atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o
    direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos
    vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,
    que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em
    breve, novas da boa-saude do direito divino.

    Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos
    velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos
    agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á
    democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,
    que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos
    barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que
    subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos
    assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos
    corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de
    liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu
    antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus
    primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra
    morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões
    constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.
    Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a
    pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se
    tranquillamente sobre o paiz.

    Até ao seculo XV, posto que já a indole politica da sociedade começasse
    a alterar-se, porque os desembargadores caminharam de longe e de vagar
    para não serem sentidos, os procuradores de côrtes tinham uma
    significação, um valor politico; atraz d'elles e do seu mandado estava
    um grupo social, a democracia, formado de muitos grupos, os concelhos.
    Desde que estes se compozeram de _clero, nobreza e povo_, desde que as
    classes se confundiram politicamente, a liberdade popular morreu. Os
    concelhos não foram mais d'ahi ávante, do que um instrumento de governo
    e uma divisão territorial e administrativa. Cessou entre nós o direito
    politico do povo, e reinou despeado o absolutismo. Que são todas essas
    côrtes posteriores senão um simulacro, ou antes um escarneo dos nossos
    antigos parlamentos? Esses procuradores do _povo_, eleitos pelo _clero_,
    _nobreza_ e _povo_, senão uns titeres com que os oppressores se
    divertiam á custa da democracia? Desde o seculo XVI Portugal teve factos
    politicos mais ou menos tyrannicos, mais ou menos vergonhosos, mais ou
    menos abusivos; mas o direito constitucional onde estava elle? Onde
    estavam os pactos sociaes que Fernão de Pina trocára por outros,
    _reformados_ exclusivamente com os olhos no céo e nas amplas barrigas
    dos alcaides-móres, dos donatarios da corôa, dos dignissimos avós de
    vossas excellencias e reverencias? Estavam esquecidos no fundo dos
    archivos do reino, onde ainda estão hoje para vossa vergonha eterna,
    raça de escravos, que succedestes n'esta nobre terra a uma raça gigante
    de homens livres; estavam onde ainda existem hoje, onde os podeis lêr e
    polluir com essas mãos servas, mentirosos insignes, porque as portas
    estão abertas para examinardes a infidelidade com que os citamos, as
    entrelinhas que n'elles escrevemos, as raspaduras com que os viciamos.
    Ide, miseraveis, punir-nos!

    Respondei, illustres Pegas _ad ordinationem_, donde veiu aos reis de
    Portugal o direito de rescindir contractos politicos solemnes? Os
    monarchas portuguezes da edade media reconheceram estarem limitados os
    deveres dos povos e os proprios direitos, por essas cartas
    constitucionaes, que reunidas eram o complexo do direito publico do
    paiz, e que tinham em si proprias as garantias da realidade: os seus
    successores proclamaram o principio contrario e derivaram d'ahi a
    manifestação do poder publico. Como agrupaes vós estas duas idéas que se
    excluem, que se negam? Como unis a morte á vida? Como ousaes dizer:
    _pertencem-nos sete seculos_? A vós? dementes! O primeiro monumento
    grave da vossa historia, o primeiro resultado practico das vossas
    adoradas doutrinas é a inquisição. A inquisição não foi filha da
    perversidade da curia romana, que tem sobejos crimes para que não se lhe
    attribuam os alheios. A inquisição foi um calculo frio e feroz do
    absolutismo de D. João III (este é vosso: guardae-o) que estava pobre
    pela sua falta de juizo e pelas vaidades paternas. Quiz queimar os
    judeus para os roubar, e pediu lume a Roma, que lh'o recusou largo
    tempo, porque não ignorava para que elle o pedia. Quando quizerdes as
    provas d'isso, fallae; já se sabe, entrelinhadas, supprimidas,
    respançadas, viciadas segundo o velho costume de que nos accusaes com as
    provas na mão, como bons e verdadeiros jesuitas.

    Absolutistas, vós acceitaes a solidariedade do passado: posto que não
    possaes reclamar senão a do que vos pertence. Falamos por isso comvosco,
    não para apontar uma ou outra mancha no vosso predominio, como vós
    modestamente imaginaes, mas para vos dizer o que elle foi na sua
    essencia. Começastes, insultando o evangelho, por queimar aquelles que
    não adoravam Deus á vossa guiza, e terminastes, matando ás machadadas
    prisioneiros inermes, diante dos quaes, armados, tantas vezes tinheis
    fugido. Na vossa historia o espectro da tyrannia esconde a fronte no
    fumo da carne humana, assada para o sancto rei D. João III ter dinheiro,
    e firma os pés nas poças de sangue, sobre os ossos triturados e as
    carnes esmagadas pelos machados dos bravos que tão valentemente fugiam
    das nossas bayonetas. Mas o vosso pedestal e a vossa corôa são
    comparativamente dous dixes infantis. O crime imperdoavel, sem nome,
    pelo qual a posteridade vos ha de escrever a maldição sobre a campa, é o
    terdes vivido abraçados durante tres seculos com esse espectro da
    tyrannia. É o terdes arrastado aos pés dos cortezãos, dos conegos de Gil
    Vicente, dos Pegas, dos bobos regios, dos frades gordos, luxuriosos e
    hypocritas, de que nos fala o viso-rei D. João de Castro na sua
    correspondencia inedita, (viciada por nós, já se sabe), as velhas
    liberdades do paiz, as liberdades do povo, que querieis espoliar sem que
    vos resistisse, concedendo-lhe apenas, se estaveis de pachorra para dar
    gargalhadas, o direito dos gemidos.

    Quando o vosso idolo vos fugiu das mãos, quando a espoliação,
    regio-fidalga, clerical e desembargatoria passou para mãos castelhanas,
    que vos tractaram como vós tinheis tractado o povo durante oitenta
    annos, veiu-vos, excellentissimos e reverendissimos senhores, um accesso
    momentaneo de febre liberdadeira. Incumbistes então um frade ignorante
    de vos redigir um codigo imaginario, em que todas as instituiçães
    sociaes da edade media estão desmentidas, e em que até o regicidio é
    elevado á altura de principio politico. Porque fizestes isto? Porque
    entre vós e as epochas de liberdade havia um abysmo insondavel; porque o
    seculo que precedêra se divorciava da antiga monarchia, em que os povos
    não precisavam do regicidio para defender os seus fóros, de que só foram
    privados por uma serie de traições cobardes e indignas.

    Na verdade depois de sacudido o jugo estranho representastes uma farça
    parlamentar, e depois outras farças analogas. Sempre gostastes de
    galhofa, como succede a todos os mandriões, que comem bem e dormem
    commodamente á custa do suor alheio. Vieram á folia politica os
    procuradores do _povo_, eleitos tambem pelo _clero_ e _nobreza_ das
    cidades e villas: vieram ahi os padres e os fidalgos. Apraziam-vos estes
    espectaculos em que o povo fazia o papel de urso. Que importa que no
    preambulo das côrtes de 1641, se escrevesse a doutrina da soberania
    nacional sobre os proprios reis. Era o horror da tyrannia, que tambem
    vos fizera experimentar como morde, quem vos arrancava esta concessão
    theorica, reproduzida por Velasco de Gouvêa, no livro com que a vossa
    recondita erudição nos assassina? Perguntae-o aos vossos cabelleiras do
    absolutismo. Essa doutrina foi declarada depois _illusiva_, _ob_ e
    _subrepticia_, _atroz_ e _sacrilega_, introduzida n'essas côrtes e no
    livro de Velasco, pelo _synedrio monarchomaco_ dos jesuitas; porque é de
    advertir que o jesuitismo e o absolutismo andaram sempre ás unhadas,
    emquanto os Franzonis e os Autonellis não os jungiram com a mesma soga,
    para trabalharem na vinha do Senhor com a benção cardinalicia.

    Entre parenthesis. Os jurisconsultos de ha cem annos pareciam-se
    convosco, doutores da _Nação_. É a mesma logica. Regeitavam as idéas
    jesuiticas sobre o direito dos subditos para deporem os reis, e
    acceitavam as côrtes de Lamego, o codigo do frade bernardo, onde se
    proclama o regicidio. O absolutismo tem ao menos uma gloria: é a de
    verificar em si um milagre: o de ser ao mesmo tempo profundamente atroz
    e soberanamente ridiculo.

    Vamos, sabichões! Que é o que vale? São as doutrinas do synedrio
    monarchomaco de Velasco e do frade regicida, ou é o direito divino?
    Podemos esganar de vez em quando o nosso reizito, se reconhecer
    supremacia estranha; depôl-o, se não nos andar a geito, ou pelo
    contrario é inviolavel a legitimidade da monarchia?

    E dizeis vós que haveis de morrer no vosso posto! Qual posto, nem qual
    morte, nem qual carapuça? Quem ha-de agora matar meia duzia de patetas,
    que parecem mandados de proposito pela Providencia para divertimento
    d'esta terra, no meio das mágoas e afllicções que lhe causa o
    cabralismo?

    Sabeis o que são, alem de farças, as vossas côrtes de 1641, e as outras
    côrtes do absolutismo? São um monte de inepcias em direito politico.
    Depois de proclamarem a soberania nacional por ordem dos jesuitas, os
    absolutistas de 1641 estabeleciam que o testamento de um rei era uma
    constituição, d'onde derivava a legitimidade de outro rei por direito
    incontroverso!

    Defensores do absolutismo, buscae nas actas parlamentares da edade
    media, alguma passagem em que os mandatarios dos concelhos de Portugal
    declarem, como os titeres de 1641, que a demissão dos tributos
    violentos, _impostos tyrannicamente_ pelos reis de Castella, era uma
    _liberalidade_, uma _magnificencia_, uma mercê d'el-rei. Onde achaes vós
    lá esta linguagem de Baixo-Imperio? Lá oppunham-se os aggravamentos dos
    concelhos aos abusos do poder. Era a distancia que vae de uma epoca de
    liberdade a outra de servidão.

    A servidão, a servidão! Eis o grande crime dos tres seculos que vos
    pertencem. Pensaes vós que nos importam, considerados em si, os
    adulterios da mulher de Affonso VI, ou que D. João V dormisse em
    Odivellas, ou cantassem n'aquella bestialidade architectonica de Mafra,
    cem ou duzentos frades comilões e ignorantes? Importa-nos tudo isso
    porque vós, que nos accusaes de não havermos feito nada em dezoito
    annos, não fizestes cóusa nenhuma em tres seculos, senão consumir a
    substancia publica em devassidões e em bugiarias; senão queimar judeus
    para os roubar, e perseguir-vos uns aos outros, jesuitas e absolutistas,
    quando vos faltou o judaismo para cevar os vossos instinctos
    sanguinarios. O que nos importa é que vós, legitimistas de agua doce,
    representaes a illegitimidade de tres seculos: a tyrannia convertida em
    principio politico, por velhacadas desembargatorias que havemos de vos
    contar um dia, e pela ingratidão fementida da dynastia manuelina para
    com o povo, que tão leal havia sido á monarchia nas suas luctas com os
    padres e fidalgos d'esta terra. Importa-nos que, accusando-nos
    diariamente de destruidores dos thronos, tendes estampada na fronte do
    vosso jornal a lei regicida do frade bernardo, e que entoando hymnos á
    lealdade, ao realismo do alto clero e da fidalguia, ousaes metter no
    peitilho da roupeta os quatro seculos de liberdade, durante os quaes o
    unico exemplo de um rei atirado do throno para o exilio, e substituido
    por um principe estrangeiro, (estrangeiro segundo as vossas doutrinas)
    foi dado pelo alto clero e pela nobreza, em quanto o povo combatia a
    favor de uma illustre desdita. Importa-nos pagar-vos a divida do partido
    liberal, que estaes insultando refalsadamente, porque tem tido a
    desgraça de haverem obtido o poder, pelos meios essencialmente
    absolutistas da corrupção e da violencia, homens cujas doutrinas
    prácticas de governo são as vossas, e contra as quaes tendes visto
    protestar a maioria do partido liberal, com a palavra e com o ferro, do
    mesmo modo que o fizera contra vós. Importa-nos que penseis parvamente
    ao vêr-nos regeitar a anarchia ou a demagogia, ter descoberto nas nossas
    idéas contradicções monstruosas. Importa-nos que enchaes as bochechas
    com as vossas crenças, escrevendo ao signal das chibatas dos vossos
    sargentos, adoradores da censura, da abnegação servil das proprias
    idéas, e tendo opiniões uniformes por que estão stereotypadas nas
    capellas e sacristias. Importa-nos que, não vos movendo impulsos de
    convicções espontaneas, quando vêdes na imprensa as provas de que o
    sacerdocio vem audazmente insultar, n'um convenio insolente, as regalias
    do imperio civil, (a sustentação das quaes é o unico ponto em que são
    acordes as doutrinas politicas dos sete seculos da monarchia) vos caleis
    cobardemente, para não terdes de despir a roupeta de sancto Ignacio, ou
    de tirar a cabelleira desembargatoria, ao que essa questão forçosamente
    vos constrangeria, provando assim que os vossos enthusiasmos
    monarchicos, o vosso patriotismo, são apenas hypocrisias necessarias
    para vêr se grangeaes de novo as commendas e as prebendas, os quartos e
    as jugadas, as alcaidarias-móres e as capitanias-móres, os bispados e as
    conezias, e os beneficios succulentos.

    _Sic valeas ut farina es_.

    IV

    As prestações foraleiras e a fidalguia

    Os servos voluntarios e perpetuos, os que venderam alma e corpo á
    tyrannia, insultam-nos a nós liberaes, e cospem sobre as cinzas de D.
    Pedro, porque não quizemos que esta terra de Portugal fosse uma vasta
    gleba de adscriptos que trabalhassem para suas excellencias
    reverendissimas. Os bens da corôa, o patrimonio publico, os tributos
    locaes eram propriedade d'esse grupo de nobres luxuarios, que enlameavam
    com o rodar dos seus coches, com o galopar dos seus cavallos, o homem
    laborioso curvado para o sólo desde que o sol rompia até que
    desapparecia no occaso. Assim nol-o affirmam. Debalde nossos avós, os
    villãos, protestaram contra a accumulação dos tributos geraes e dos
    locaes, debalde a monarchia, a propria monarchia absoluta, fazia
    recordar nas leis e nos actos, que a renda publica não era, não podia
    ser, patrimonio dos donatarios; os doutores da _Nação_, esses Pegas que
    nos atiram a proposito de tudo com a sua sabença juridica, que nos falam
    nas manuelinas e nas philippinas, nas extravagantes, e nas leis de D.
    José, declaram que os bens da corôa eram do dominio dos comilões,
    alcunham-nos de communistas e, quando dizemos a esses illustres senhores
    que vão trabalhar, respondem-nos em nome d'elles que os espoliámos já do
    fructo do trabalho dos seus antepassados, e que queremos que trabalhem
    de novo para de novo os roubarmos, porque o primeiro roubo não satisfez
    as ambições de todos nós.

    O que é mais admiravel n'estas palavras absurdas, a demencia ou a
    imprudencia?

    Mentís, porque todas as leis, todos os actos do poder, desde a lei
    mental até á lei sobre confirmações do 1769, vos estão dizendo que as
    terras, os direitos dominicaes, os tributos locaes, as jurisdições, as
    rendas, tudo emfim, quanto fôra havido da corôa pelos donatarios, era em
    seu poder um simples uso-fructo, que o rei podia fazer cessar por
    solemne, perpetua, incondicional, que fosse a concessão.

    D'onde vinha, pois, esse direito de propriedade de que falaes, em
    contradicção não só com o direito publico do tempo da liberdade, mas até
    com as leis, com as doutrinas e com os actos do absolutismo? D'onde
    vinha essa propriedade, causidicos dos orgulhosos comilões, e mandriões
    das armarias e dos reposteiros? Da prescripcão? Mas vós, doutores da
    _Nação_, ignoraes que ainda nas vossas côrtes de 1641, se proclamou a
    doutrina de que contra o paiz não ha prescripção, emquanto elle não tem
    liberdade para reclamar, e esqueceis que a tolerancia dos povos durante
    os seculos XVI, XVII e XVIII, ácerca da ladroice com que eram
    malbaratados os bens da corôa, não significa o seu consenso, mas sim os
    terrores do absolutismo?

    Vós pensaes que os redactores do _Paiz_ são os dos jornaes do conde de
    Thomar, aos quaes vós ousastes dizer que as côrtes de Lamego haviam sido
    invocadas a favor de D. Catharina em 1550, antes de as inventar o frade
    bernardo, e que não souberam punir-vos d'esta falsificação?

    Mentís quando dizeis que nós queremos que os fidalgos trabalhem para os
    espoliar de novo. Falta a primeira espoliação para d'ella inferirdes a
    segunda. O decreto de 13 de agosto que respondeu definitivamente aos
    aggravos dos nossos avós, os canalhas do tempo de D. Fernando, de D.
    João I, de Affonso V; que tornou uma realidade práctica, em harmonia com
    a sciencia economica e fiscal das eras modernas, as promessas d'aquelles
    principes e o direito que elles reconheciam nos povos, se teve algum
    defeito foi o ser nimiamente generoso com os donatarios, com os
    excellentissimos filhos do sol e netos da lua: foi a homenagem que os
    ladrões do Mindello prestaram ao trabalho e á morigeração, aos nobres
    que haviam sabido tractar d'esses bens mal-havidos por seus
    antepassados, investindo-os no dominio allodial dos predios que
    desfructavam até ahi por uma posse mal-segura, mas que, como bons
    economos, como homens de costumes regulares, os cultivavam por si ou por
    seus rendeiros, e não tinham alienado o dominio util d'elles por titulos
    permanentes. O decreto de 13 de agosto não perguntou se os que auferiam
    proveitos das suas disposições, eram liberaes ou absolutistas; libertou
    o solo e honrou a morigeração e o trabalho. O partido liberal
    deixou-vos, excellentissimos, aquillo de que segundo as vossas leis
    tinha direito de privar-vos. Os descamisados, os homens do povo que o
    absolutismo trazia subjugados pela miseria, e a classe media em cujos
    bens patrimoniaes e adquiridos licitamente, vós vos cevastes durante
    cinco annos pelos sequestros, pelas peitas dadas aos vossos esbirros
    togados, para concederem um pouco de ar nas masmorras, e pelas luvas
    para trocarem a forca pelos presidios de Africa, podiam ajustar contas
    comvosco, expulsando-vos d'esses bens mal-havidos para se resarcirem de
    lhes haverdes roubado tudo, inclusivamente a camisa, recordações
    gloriosas, em que se estriba o vosso direito de lhes chamardes
    descamisados.

    Os descamisados perguntam-vos pela nossa bocca quanto renderam na
    almoeda dos sequestros, as camisas repassadas do suor da agonia, quando
    despistes os martyres da liberdade enforcados no campo de Sanct'Anna, na
    Praça-Nova, no Cães do Tojo, no Cães do Sodré? Quanto renderam as
    camisas dos martyres da liberdade fallecidos nos presidios pestiferos da
    Africa e nas casa-matas de S. Julião e de Cascaes, as dos mortos a páu
    ao serem conduzidos das enxovias do Porto para as de Lamego, e as dos
    presos assassinados nas outras cadêas do reino? Quantas orgias fizestes
    no fundo das sacristias, nas alcovas soturnas dos palacios com esse
    dinheiro? As dos prisioneiros mortos a machado, essas haviam de estar
    muito despedaçadas. Pouco deviam valer.

    Nós vamos traçar-vos em rapido esboço os titulos da _vossa propriedade_,
    que vos convidâmos a desmentir.

    A fazenda publica do paiz consistia na sua origem em propriedades, cujos
    cultivadores pagavam fóros, pensões, quotas por um systema assaz variado
    e complexo, nos tributos dos concelhos, pagos pelo uso-fructo do sólo, e
    por um systema analogo, nas multas judiciaes, nas portagens ou direitos
    de barreira das villas e cidades, e finalmente nos impostos das
    alfandegas maritimas. Os tributos indirectos, os cobrados nas alfandegas
    e barreiras recahiam pela sua natureza sobre todas as classes. Dos
    tributos directos eram isentos os nobres. Nas honras e coutos não
    entrava o agente fiscal nem o judicial. Para as despezas do estado
    pagava o homem laborioso; o nobre mandrião não tinha nada com isso.

    O serviço militar, o tributo de sangue estava regulado pelo mesmo
    principio. Organisados os concelhos, os seus habitantes, divididos em
    cavalleiros, besteiros e peões, segundo a sua fortuna, ou a natureza
    anterior da sua propriedade, eram arrolados para o serviço da guerra, ou
    para os trabalhos de fortificação, que se consideravam analogos.
    Armavam-se, compravam cavallos e sustentavam-se á sua custa, salvo se a
    guerra ou os trabalhos se protraiam demasiadamente. Os nobres eram
    isentos da defeza da patria, salvo o caso de uma recompensa. A maxima
    parte da renda publica n'isso se consumia. Os ricos-homens governadores
    civis e militares dos districtos, recebiam uma grande parte dos tributos
    locaes, e distribuiam a percepção das rendas dos bens publicos pelos
    cavalleiros, a cada um sua aldêa, sua porção de cazaes, etc. A isto
    chamava-se prestamos. Os alcaides-móres, chefes militares, e até certo
    ponto civis dos concelhos, haviam pelo seu serviço uma porção de rendas.

    Este systema profundamente injusto, segundo as idéas de hoje, não feria
    então os espiritos. O nobre tinha o direito de não supportar encargos na
    sua propriedade patrimonial, e de não defender a patria; o villão devia
    pagar e servir, e ainda com o seu dinheiro comprava o serviço dos
    illustres suissos d'aquelle tempo.

    Rico-homias, prestamos, alcaidarias, tudo era movel: o rei tirava-o,
    dava-o, trocava-o a seu bel-prazer; porque nada d'isso passava em rigor
    de um systema de subvenções pessoaes. Entre nós não havia nada que
    recordasse a fixidade do feudalismo.

    Gradualmente estes encargos e concessões foram-se tornando menos moveis;
    mas a hereditariedade feudal nunca se introduziu: mesmo quando os filhos
    succediam aos paes, os estylos e as leis recordavam que tudo isso era
    accidental, temporario, dependente da vontade do poder central, do
    principe.

    Mas tambem gradualmente se introduziu um abuso. Ás rendas publicas
    procedidas das imposições directas sobre o solo, dadas a qualquer nobre
    e depois d'elle a seus filhos, foram-se pouco a pouco considerando como
    mercês graciosas, e d'ahi nasceram os soldos, as _quantias dos nobres_,
    isto é, um vencimento em dinheiro para servirem o paiz.

    Dizemos _quantias dos nobres_ porque tambem os villãos tinham
    _quantias_, mas negativas; isto é, avaliavam-se-lhes os bens para na
    proporção d'estes terem armas e cavallos, serem bésteiros ou lanceiros,
    para formarem, digamos assim, a cavalleria, a infanteria pezada e a
    infanteria ligeira, tudo gratuito.

    Introduzido aquelle abuso dos soldos, a economia d'esta organisacão
    ficou sendo: o povo pagar na proporção dos seus meios, e servir
    militarmente na mesma proporção: os nobres serem isentos de tributos e
    de serviço militar, ao passo que, como homens de guerra, comiam uma boa
    porção da renda publica em soldos, e outra parte como donatarios da
    corôa.

    Nos fins do seculo XIV este iniquo systema de percepção e distríbuição
    da renda publica, tinha tomado proporções tão espantosas, que a
    principal materia dos aggravamentos populares, nas diversas assembléas
    de côrtes do reinado de D. Fernando, é este assumpto. Ahi o rei
    reconheceu a extensão do mal, e prometteu até onde fosse possivel
    remedio, que na verdade era difficultoso, attento o poder da nobreza.

    Na revolução de D. João I, uma grande parte da nobreza, ou seguiu a
    parcialidade de Castella, ou se mostrou avessa ao mestre de Aviz. Os
    fidalgos, porém, não se esqueceram no meio dos transes e miserias porque
    a nação passava na lucta gigante que emprehendera, de conservar intacta
    a malversação da fazenda publica. Emquanto as derramas e as sizas vinham
    pelas necessidades da guerra aggravar a sorte do povo, a fidalguia
    invocava o passado para que se lhe pagassem as _quantias_ em dinheiro, e
    as terras se lhe dessem gratuitamente, para ser _mercê acabada_. D. João
    I commettêra a _atrocidade_ de resolver com o povo em cortes, que aos
    fidalgos que serviam na guerra se lhes descontassem as quantias nos
    redditos das terras de que eram donatarios, já se sabe, comendo elles o
    resto de mão-beijada, porque esse resto não se dividia em prestamos para
    pagarem a outros cavalleiros que os seguissem na guerra, segundo a
    organisação primitiva. Era só o serviço pessoal que por essas terras se
    exigia dos illustres suissos dos seculos XIV e XV. Os villãos, esses
    combatiam de graça, lá estavam para sustentar com a bolça e com o corpo,
    a independencia do paiz.

    Esse vil e escandaloso requerimento da nobreza lá está impresso ha
    muitos annos na ordenação affonsina. Vós, doutores da _Nação_,
    conhecereis melhor a philippina, o codigo do rei estrangeiro, mas nós
    conhecemos melhor a affonsina, o codigo do rei portuguez.

    Sabeis vós, como a nobreza se desforrava da falta de despacho á sua
    petição? O sancto Nunalvares, os mestres das ordens e os outros
    fidalgos, roubavam os mantimentos nas povoações por onde passavam: os
    alcaides-móres em vez de pagarem ás guarnições dos castellos, pediam
    gente dos concelhos para os guardar; e os senhores quando se achavam
    n'alguma povoação com homens de armas, bastantes para sopear os villãos,
    deixavam-se ficar ahi, comendo e bebendo sem pagar e forçando mulheres.
    Lá tendes essas gloriosas paginas da nobreza nas côrtes de 1397.

    O desbarato gradual da renda publica pelas mãos dos fidalgos, fez
    apparecer o systema dos tributos geraes directos: a principio pelos
    _pedidos reaes_, que eram em rigor o mesmo que o recente imposto de
    repartição, que ha poucos annos se quiz introduzir no paiz, com a
    differença de que os pedidos só se repartiam entre os concelhos. As
    sizas foram o primeiro tributo geral directo que abrangeu tudo. Sobre
    estas bases se fundou o systema das contribuições geraes, de que o
    estado subsequentemente viveu.

    Nas côrtes do seculo XV, como nas do anterior, o povo protestou sempre
    contra a dispersão dos bens da corôa. A monarchia dava-lhe razão,
    promettia emenda, e alguma cousa chegou a fazer por vezes, mas
    insufficiente e estragada d'ahi a pouco por influencia dos poderosos. Ha
    uma observação singular a este respeito. O povo em vez de exigir a
    organisação dos impostos geraes, e a suppressão dos chamados direitos
    reaes que constituiam o grosso dos bens da corôa, queria que se
    despojassem os donatarios, e que o estado vivesse das suas rendas
    primitivas. Era um erro economico, mas que provava o desinteresse dos
    villãos, e quanto elles amavam as instituições de liberdade, com que
    estava ligado por muitos modos, aquelle systema da imposição antiga.

    O absolutismo triumphante poz emfim ordem n'estas gritarias populares. O
    paiz ficou dotado com dous systemas tributarios: o primitivo para os
    fidalgos e desembargadores comerem, pagando-se-lhes além d'isso o
    serviço que faziam: para os fidalgos e desembargadores começados por
    _mercé acabada_, como diziam os virtuosos avós de suas excellencias e
    reverencias: o outro systema para se pagar aos que comiam os fructos do
    antigo, e para o resto das despezas do estado. Como se isto não bastasse
    metteram-lhes na barriga os dizimos e os outros rendimentos das
    commendas, prebendas e beneficios.

    Realmente, os absolutistas teem razão de chorar pelos bons tempos.
    Aquillo era uma delicia. Este seculo de ferro só foi feito para os
    demagogos e para os pedreiros livres.

    E crêem os pantalões que em falando em duas ou tres batalhas, em dous ou
    tres nomes historicos, em Ourique, em Aljubarrota e em Montes-Claros, em
    Martim de Freitas, no Condestavel e em Affonso d'Albuquerque, na Sancta
    religião, no amor das nossas cousas antigas, teem feito tudo; teem-nos
    mettido pelo chão abaixo, esmagados pelo peso de tantas maravilhas.

    Pensam que ao lado da historia dos conventos, das cathedraes e dos
    palacios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam
    que se esses nobres senhores teem os seus registos esplendidos e
    luxuarios, o povo não tem tambem as suas humildes memorias de
    espoliações, de aggravos, de soffrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-as.
    Por isso é impossivel a volta do absolutismo.

    E crêdes vós que esta gente insaciavel, chegou a comprehender o
    patriotismo e a abnegação? Abri as chancellarias de Philippe II, vereis
    que ella sacrificou sempre ao egoismo e á cubica. Lá achareis os
    ferretes que o rei castelhano poz em tantas familias illustres por seus
    avós e pela sua situação. Lá estão os preços porque cada alcaide-mór,
    cada titular, cada desembargador vendia esta terra ao estrangeiro, em
    quanto a _canalha_, a villanagem, combatia e morria nas espadas e lanças
    dos soldados do duque d'Alva, pensando ter um novo D. João I no prior do
    Crato, o miseravel que tractava tambem com Philippe II sobre o preço
    d'esse povo generoso, que cria n'elle, porque era da raça dos seus
    principes.

    Depois de sessenta annos de oppressão, em que o paiz recebera duras
    lições, crêdes que os donatarios da corôa aprenderam a amar a patria e a
    morrer por ella. Quereis o reverso dos quarenta conspiradores de 1640,
    muitos dos quaes vingaram com a revolução aggravos particulares? Não vos
    falaremos das conspirações fidalgas e episcopaes contra D. João IV.
    Pedimos-vos só que leiaes um parecer, hoje impresso, do procurador da
    corôa, Thomé Pinheiro da Veiga, um dos mais venerados e veneraveis
    caracteres d'aquella epocha. Vianna, no meio da excitação popular que a
    revolução produzira, teve uma saudade, uma velleidade das suas garantias
    da edade-media. Lembrou-se dos tempos em que pertencia ao povo em muitos
    concelhos do typo de Salamanca, que fôra o da sua origem, a instituição
    electiva do seu chefe militar, do seu alcaide-mór. Pediu-a. Thomé
    Pinheiro da Veiga foi ouvido sobre a pretenção e votou por ella. N'um
    impeto de indignação, elle que tinha por dever reprimir e _amaldiçoar_
    (como elle se exprime) estas pretenções da democracia, viu-se
    constrangido a abençoal-as. E porque? Lêde-o. Porque os alcaides-móres
    comiam as rendas e desamparavam os castellos no fervor da guerra, sem
    gastarem um vintem na defesa, não havendo _quasi nenhum_, que cumprisse
    os seus deveres, no que se pareciam com os outros chefes militares, os
    capitães-móres, que comiam os soldos e roubavam os soldados. Elle ahi
    lança em rosto aos avós de vossas excellencias e reverencias, o atroarem
    o paço com petições de bens da corôa, sem fazerem cousa nenhuma. Será
    Thomé Pinheiro um dos ladrões do Mindello?

    Bem sabeis que tambem fariamos um livro contra vós, se quizessemos
    descer aos factos singulares que mostram a corrupção espalhada
    largamente entre a aristocracia dos tempos do absolutismo. Não quizemos
    senão apresentar-vos em grande, a origem monstruosa d'essa
    _propriedade_, de que nós a espoliamos, e mostrar-vos quanto ella em
    massa era digna de que se conservassem dous systemas tributarios no
    paiz: um para o estado e outro para ella: ambos, porém, tirados aos
    contribuintes.

    Direis que com esses bens da corôa recompensou o absolutismo os serviços
    das comquistas? Recompensou é verdade; mas foi os d'aquelles que vinham
    curvar a fronte gloriosa á corrupção cortezã: as almas altivas e nobres
    tinham paga diversa. Lembrae-vos de Pacheco, de Albuquerque, de Camões.
    Depois serviram elles nos tempos modernos para isso mesmo? Quantas
    alcaidarias-móres, quantos direitos reguengueiros, quantas terras da
    corôa, distribuistes pelos soldados da guerra peninsular, cuja sorte
    vindes hoje deplorar com lagrimas hypocritas? Fostes sequer buscar os
    bens da corôa a essas casas, onde elles se tinham tornado uma especie de
    patrimonio, para recompensar aquelles que se batiam contra nós os
    salteadores do Mindello? Repartistes sequer a tunica popular segundo as
    vossas idéas de justiça politica? Respondei.

    Com o decreto de 13 de agosto D. Pedro cumpriu as promessas dos seus
    antepassados, os reis da edade-media; mas cumpriu-as segundo as
    condições da civilisação moderna: aboliu o systema tributario local e
    excepcional que seria hoje absurdo, e que devorado pela nobresa era um
    duplicado escandalo. As cinzas de tantas gerações de villãos espoliados
    por seculos, foram, emfim, vingadas pelo braço de um rei. Que quereis?
    Nós, os vis, por força havemos de abençoar a memoria de D. Pedro.

    Dizei, doutores da _Nação_, é verdade ou é mentira aquillo que se
    escreveu nas actas das _vossas_ côrtes de 1641, que não ha prescripção
    contra o reino emquanto elle não tem faculdade, nem liberdade para
    reclamar os seus direitos? Outra vez: respondei.

    Sabeis vós uma coisa? Se o decreto de 13 de agosto podesse conter
    disposições de uma reparação atroz, não só seria preciso fazer cessar as
    prestações foraleiras, mas tambem mandar trabalhar nos campos com as
    cadêas da servidão aos pés, tres ou quatro gerações de donatarios de
    bens da corôa, por conta das suas victimas. Nem assim, talvez, flcaria
    compensada a oppressão e o escandalo de alguns seculos.

    V

    No momento em que escreviamos e mandavamos para a imprensa o ultimo
    artigo, em resposta ao que a _Nação_ escrevera contra nós, a proposito
    das leis da dictadura de D. Pedro, mal imaginavamos que o agente publico
    intervinha na questão, para defender nos tribunaes a memoria do
    imperador, se, como crêmos, é exacto o que se lê hoje nas columnas
    d'aquelle jornal. Se o tivessemos sabido a tempo, o nosso artigo teria
    sido supprimido. Desde o momento em que a auctoridade interveiu no
    combate, a questão acabou para nós. D. Pedro e a sua vida pertencem hoje
    á historia: na nossa opinião o defendel-o ou aggredil-o não pertence ao
    ministerio publico. Crêmos que sem negar os seus deffeitos de homem,
    teriamos meios de o fazer vêr a uma luz mais favoravel, do que o viu a
    _Nação_, e que saberiamos reivindicar para elle a justiça dos homens,
    que apreciam os actos e os successos não só em si, mas tambem nas suas
    causas e effeitos. As reivindicações da imprensa são mais efficazes e
    uteis para os mortos do que as dos tribunaes.

    Na redacção do _Paiz_ ha quem fosse soldado de D. Pedro; quem entrasse
    em mais de vinte combates sob o seu mando supremo. Não lhe consta que
    elle désse nunca ordem aos seus soldados para que, no recontro com os
    inimigos, chamassem os officiaes de justiça para os prenderem, ou os
    escrivães para os auctoarem. A ordem era levar os sessenta na patrona,
    outros sessenta no burnal, e as bayonetas bem pulidas. Se as ordens
    tivessem sido o inverso, o ministerio publico não teria hoje o incómmodo
    de accusar o jornal realista.

    De hoje ávante até que se conclua o processo da _Nação_, o orgão do
    partido do snr. D. Miguel não nos ha-de encontrar mais no campo da
    imprensa, ainda mesmo quando nos aggredisse. A perseguição sanctificou e
    tornou para nós inviolaveis os nossos adversarios politicos.

    Os redactors do _Paiz_ são em geral pobres, e os recursos de um jornal
    nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou
    o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a _Nação_
    em embaraços pecuniarios, nós rogamos singella e sinceramente aos seus
    redactores que não se esqueçam de que no escriptorio do _Paiz_, hão de
    encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e
    provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas[2].

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO GOVERNO

    1854

    Senhor.

    A camara do concelho de Belem, eleita para o biennio de 1854 e 1855, no
    momento de entrar no exercicio das suas funcções, entendeu que o seu
    primeiro dever é fazer subir á presença de V.M., uma exposição fiel da
    situação economica e administrativa do novo municipio, e pedir justiça
    para os habitantes d'elle, sem o que a camara não se poderá habilitar
    para estabelecer os seus meios de administração e satisfazer aos
    encargos que pesam sobre ella. Os vereadores sentem ter de distrahir a
    attenção de V.M. e a dos seus ministros, dos negocios geraes do Estado
    para uma questão puramente local; mas constrange-os a assim procederem a
    obrigação que teem de não trahir a confiança que n'elles depositaram os
    seus concidadãos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, que constituiram os dous
    concelhos de Belem e dos Olivaes com o antigo termo de Lisboa, foram uma
    providencia benefica; mas foram ainda mais do que isso: foram uma
    providencia justa no seu pensamento. O Governo reconheceu no respectivo
    relatorio a _urgencia e a justiça_ d'aquella medida reclamada pelos
    povos. Posto que ahi não se particularisassem os fundamentos d'essa
    justiça, os ministros que propozeram e referendaram aquelles decretos
    tinham-nos por certo presentes. Á camara de Belem cumpre, todavia,
    apontar os principaes para n'elles estribar as conclusões mais
    importantes d'esta representação.

    Talvez em nenhuma questão de direito publico, o legislador deva ser mais
    cauteloso em não ferir o dogma da igualdade dos cidadãos perante a lei,
    do que em materia de tributos. Era todavia n'esta relação que os
    habitantes do _denominado_ termo de Lisboa, pareciam constituir uma
    classe de ilotas no meio da população portugueza. Aos tributos geraes
    d'este territorio, que entravam nos cofres do Estado, accresciam outros
    que constituiam pela sua indole e origem, e pela sua importancia, a
    melhor porção dos impostos municipaes, sendo necessario ainda contribuir
    com uma serie de pesadas e variadas contribuições directas e indirectas,
    que conservavam o primitivo destino, para perfazer a sua quota nos
    encargos geraes do concelho de Lisboa, a que o mesmo territorio andava
    annexo. Por este modo os numerosos habitantes de algumas leguas
    quadradas em volta da capital, ficavam n'essa parte fóra do direito
    commum.

    Na apparencia, esta situação constitucionalmente impossivel, vinha a ser
    a mesma de Lisboa, onde as contribuições arrecadadas na repartição das
    Sete Casas, são verdadeiros impostos municipaes que entram no thesouro
    publico e de que o Governo deduz certa parte para dotação do concelho.
    Mas em Lisboa esta excepção tinha e tem um fim justo. Tende a
    estabelecer a igualdade parecendo destruil-a: equilibra por excesso de
    encargos um excesso de vantagens. Lisboa tem theatros, aqueductos,
    jardins, monumentos que custaram milhões tirados dos cofres publicos,
    escholas superiores, academias, museus, bibliothecas, tudo mantido á
    custa do Estado. Grande parte das contribuições geraes despendem-se no
    seu seio, e a circumstancia de ser o centro da administração, o foco do
    luxo e da civilisação do paiz, dá-lhe uma população fluctuante, que vem
    por mil modos consummir ahi boa parte da renda liquida da propriedade e
    do trabalho nacional. A applicação de uma porção das rendas do municipio
    a compensar beneficios tão custosos para o resto do reino como
    importantes para a cidade, é justa. Repetimol-o, desigualdade apparente
    é n'este caso a igualdade real.

    Estas considerações não eram nem são applicaveis ao territorio
    circumadjacente de Lisboa, districto pela maior parte rural, cuja
    industria agricola definhava, como bem advertiu o Governo, debaixo da
    pressão inevitavel da fiscalisação dos impostos de consumo. Aqui a
    desigualdade de situação, relativamente aos outros concelhos ruraes, era
    palpavel e escandalosa, porque não tinha nenhuma das compensações que
    justificam o gravame extraordinario que pesa sobre a capital. Bastava
    comparar dous factos que estavam patentes aos olhos de todos, para
    conhecer a injustiça que se practicava. Ao ponto que em Lisboa os
    edificios arruinados se reedificavam e se multiplicavam as novas
    construcções; emquanto ahi o commercio em grosso e de retalho e as
    industrias fabris cresciam a olhos vistos, na parte urbana mais populosa
    do termo e que se considerava até como um bairro da cidade, nas
    freguezias de Belem e Ajuda, viam-se cair ou serem derribadas as casas,
    fecharem-se lojas, acabarem pequenas industrias, emfim todos os signaes
    de uma rapida decadencia. A oppressão e o excesso do imposto faziam seu
    officio; o que faltava eram os elementos de vida que annullam em Lisboa
    os effeitos da desigualdade das contribuições.

    Taes deviam ser os fundamentos principaes da desannexação. A
    consequencia forçosa d'esta, era equiparar os novos concelhos aos outros
    concelhos do reino. Foi o que só se fez até certo ponto, deixando-se
    continuar a subsistir a injustiça na applicação para o thesouro publico,
    de uma parte dos impostos de sua natureza municipaes, que até então se
    cobravam pela alfandega das Sete Casas.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, tiveram por objecto beneficiar os
    habitantes do antigo termo. Negal-o seria negar a verdade. O que não
    lhes fizeram foi justiça inteira. Talvez se possa sustentar a
    legitimidade do imposto excepcional e gradativo, que a lei estabeleceu
    nas licenças para a venda de líquidos, até certa distancia da linha de
    circumvallação de Lisboa. É materia essa que esta camara ainda não
    examinou devidamente e sobre que, portanto, não se julga habilitada para
    reclamar, podendo acaso considerar-se tal tributo como uma transformação
    de parte dos impostos de consumo da capital, que de nenhum modo se
    poderiam cobrar nas barreiras. Mas alem d'esse, estabeleceram-se outros
    dous para os quaes a camara não acha razão plausivel. São os de dez reis
    em canada de vinho, vendido a miudo e de quinze reis em arratel de carne
    verde. A disposição que os estabeleceu, reduzindo os direitos que o
    termo pagava ás Sete Casas, importava um beneficio, uma concessão
    parcial; mas importava tambem um encargo que nada pode justificar.

    No relatorio que precede um dos decretos de 11 de setembro relativos a
    este assumpto, assevera-se que a solução dos impostos especiaes que os
    novos concelhos continuam a pagar, é justa _pelos beneficios e cómmodos
    que lhes resultam do contacto com a capital_.

    Quaes são os fundamentos d'esta affirmativa? Occultou-os o Governo. A
    camara procurou rastrial-os. Examinando a serie de factos em que ella se
    poderia estribar, não achou senão tres que não sejam insignificantes:
    1.^o a segurança publica mantida n'uma pequena porção do seu territorio
    pela guarda municipal: 2.^o desnecessidade de um estabelecimento
    especial d'expostos: 3.^o a proximidade do grande mercado de Lisboa para
    os productos da industria agricola dos dous concelhos. Fóra d'isto a
    camara não atina com as vantagens que possa trazer aos seus
    administrados a visinhança da capital.

    Pelo que respeita ao serviço de segurança publica, feito n'uma pequena
    parte do concelho, a camara de Belem, uma vez que se faça inteira
    justiça, pagará cora a melhor vontade pelo seu cofre, a quota que se
    arbitrar proporcional ao serviço da guarda municipal de Lisboa n'este
    concelho.

    Relativamente aos expostos o concelho de Belem está igualmente prompto a
    contribuir para a Sancta Casa da Misericordia de Lisboa, do mesmo modo
    que contribue a camara da cidade, guardada a relação das respectivas
    populações, alem de estar certo que a Junta Geral do Districto não
    deixará de prover n'esse caso, conforme as attribuições que lhe confere
    o § 7 do art. 216.^o do codigo Administrativo.

    Reconhecendo essas vantagens, a camara de Belem dá um documento de boa
    fé, offerecendo-se voluntariamente a retribuil-as. A mesma boa fé a
    obriga, porém, a ponderar que o 3.^o fundamento que póde occorrer para a
    conservação de impostos excepcionaes, ou não existe ou é compensado de
    sobra por desvantagens reaes.

    A população dos novos concelhos de Belem e dos Olivaes é uma população
    principalmente rural, facto que não deveria ter esquecido na confecção
    das leis de setembro. Todos sabem que hoje o maior embaraço da
    agricultura portugueza é a escacez de braços. Tendo-se desenvolvido
    muito em extensão e pouco em intensidade, o augmento progressivo do seu
    producto bruto, resultado da maior area cultivada, não está em harmonia
    com o desenvolvimento da população agricola. Assim, em quanto os
    productos da primeira industria nacional caminham regularmente para a
    baixa pela superabundancia, o salario tende de contínuo a elevar-se. No
    reino em geral a situação do proletario melhorou e muito, porém o
    cultivador por essas tendencias oppostas de alta e baixa, mas que
    convergem ambas em seu damno, cada vez se vê em maiores apuros e
    difficuldades. Este phenomeno commum aggrava-se nas cercanias de Lisboa
    por diversas circumstancias, que justamente procedem da visinhança de
    uma populosa capital. A industria fabril desenvolvida em Lisboa
    desproporcionadamente com o resto do paiz, exceptuando, talvez o Porto,
    traz uma procura maior de braços, que é causa poderosa do accrescimo do
    salario rural nos concelhos limitrophes. Depois o excesso de produccão
    geral mantendo um excesso de concorrencia por toda a parte, exaggera
    esta no principal mercado do reino, e a depressão dos preços torna-se
    correlativa d'essa exaggeração; por isso acontece, não só equipararem-se
    ás vezes, mas até acharem-se mais baratos os generos (captivos de
    direitos) na capital do que nos districtos remotos onde foram
    produzidos. Accrescente-se a isto a decadencia no mercado dos trigos
    durazios, principal producção do antigo termo, e a preferencia dada aos
    trigos ribeiros improprios d'estes terrenos; accrescente-se tambem a
    continua destruição dos pomares por uma enfermidade que não tem sido,
    que não será provavelmente atalhada, e poder-se-ha calcular se os novos
    concelhos, debaixo destas condições desfavoraveis, independentes da sua
    proximidade ou não proximidade da capital, mas peioradas pelas
    circumstancias que nascem d'essa visinhança, devem ser onerados com
    impostos extraordinarios.

    Na situação economica em que se acha a agricultura, de produzir caro e
    vender barato, a tenuidade do lucro sente-se com dobrada força na
    visinhança da capital, e essa visinhança para as populações agricolas,
    longe de ser um bem é um mal. A maxima concorrencia do numerario é em
    Lisboa, e o numerario como outra qualquer mercadoria deprime-se pela
    concorrencia; ou por outra, a vida torna-se mais cara por esse motivo
    não só na cidade mas tambem nas suas immediações. Ao passo porém, que se
    dá este facto, occorre outro que com elle se combina. A população rural
    visinha de Lisboa, cuja civilisação material é muito maior que a das
    provincias, participa mais ou menos d'essa civilisação, porque a
    influencia d'esta é inevitavel e irresistivel. D'ahi resulta para ella
    um maior numero de necessidades a satisfazer com o numerario deprimido
    no seu valor de troca. E este facto vem não só influir directamente no
    bem estar do proprietario, do agricultor, do seareiro, do pequeno
    commerciante, dos contribuintes, em summa, mas tambem associar-se ás
    causas geraes e locaes da elevação do salario, e a recair por outro modo
    indirectamente sobre elles.

    Ha mais. Quando a acção fiscal das Sete Casas abrangia tambem o termo,
    os cereaes que vinham de fóra encontravam aqui um tributo que
    rigorosamente constituia um dos chamados direitos protectores para os
    lavradores d'estes contornos. Era o de 60 reis por arroba no genero, ao
    passo que os cereaes de lavra propria consumidos no termo não soffriam
    contribuição alguma de consumo. Separados os novos concelhos, os cereaes
    estranhos vem concorrer livremente com os de producção local, que aliás
    tem de ir luctar com elles no mercado de Lisboa, onerados com os mesmos
    60 reis por arroba que os outros pagam. Accresce a isto outro
    inconveniente resultante da proximidade de um grande mercado. Os cereaes
    do Ribatejo e Alemtejo affluindo á capital, deprimidos como se notou já
    por uma concorrencia excessiva, achando aberto o mercado contiguo dos
    novos concelhos, com um favor de quasi 50 reis por alqueire que lhes
    resulta da suppressão do direito fiscal n'estes pontos, e sem differença
    de custo no transporte, affluem naturalmente aqui ainda mais do que a
    Lisboa, e augmentam pelos effeitos de urna concorrencia exaggerada, no
    mercado interno dos dictos concelhos, os embaraços geraes e particulares
    em que laboram os agricultores do nosso territorio.

    A camara, Senhor, tem de advertir de passagem, para que os seus desejos
    não sejam calurmniados e as suas idéas mal interpretadas, que não
    suspira por direitos alguns protectores, por leis d'excepção que
    favoreçam a agricultura do concelho de Belem com detrimento da alheia.
    Pelo contrario está persuadida de que a liberdade da industria e do
    commercio, quanto mais ampla melhor, hade vir a remediar os males que
    quasi sempre resultam da transição do antigo systema de tropeços
    fiscaes, para o systema contrario que é o verdadeiramente protector. A
    camara crê ser fiel interprete da opinião dos seus representados,
    asseverando que estes preferem a sua independencia municipal, a essa
    união absurda com a capital, que tinha por base a injustiça e a
    iniquidade; preferem-na a essa rede de vexames que fazia pesar sobre
    este territorio a fiscalisação das Sete Casas e que eram uma fonte
    perenne de immoralidade e de crimes; preferem-na aos tributos desiguaes
    e sem razão d'existencia com que estavam onerados. O intuito da camara é
    provar que os que se decretaram são tão injustos como os que foram
    supprimidos, porque as vantagens da visinhança de Lisboa em que a
    dictadura se fundou para os estabelecer, não existem ou são annulladas
    por desvantagens que resultam da mesma circumstancia.

    Ha, Senhor, um fado assaz significativo, que se prende a esta questão, e
    sobre o qual a camara de Belem chama a attencão dos ministros de V.M. O
    termo fiscal das Sete Casas não abrangia só o territorio dos concelhos
    novamente creados: estendia-se por freguezias de outros concelhos
    limitrophes. Acabando com o termo, e creando os novos impostos só nos
    dous municipios, a dictadura libertou indirectamente de todos os onus
    extraordinarios aquellas freguezias. Se isso era justo em relação a
    ellas, como o seria tambem que ficassem ao mesmo tempo oneradas as que
    compõem os concelhos de Belem e dos Olivaes? Nenhuns motivos podem
    existir para tão flagrante desigualdade.

    Mas supponhamos, Senhor, que as considerações em que se estriba a
    imposição dos novos tributos, cuja suppressão a camara pede, eram
    exactas. Não desapparecem essas razões diante de outro facto da propria
    dictadura, de que ella se esqueceu ao promulgar os decretos de 11 de
    setembro? O Governo contractou a feitura de um caminho de ferro que
    partindo da capital vai atravessar alguns territorios mais ferteis do
    reino. Os effeitos de uma tal via de communicação serão o approximar,
    tornar contiguos, digamos assim, das portas da capital, um grande numero
    de ricos concelhos da Extremadura e do Alemtejo. Em relação ao contacto
    commercial entre esta e muitos dos concelhos do Ribatejo; em relação á
    facilidade de transportes, e communicações de toda a ordem, esses
    concelhos ficarão mais perto do centro de Lisboa do que Odivellas,
    Carnide, Porcalhota, o valle de Oliveiras ou a ribeira de Algés, cujos
    cultivadores teem de conduzir os productos da sua industria ou de ir
    buscar os objectos de que carecem, por estradas ordinarias abertas
    imperitamente em encostas ladeirentas, estradas que não é possivel mudar
    ou sequer melhorar, sem dispendio de avultados impostos municipaes.

    Se dos novos concelhos se devem tirar algumas dezenas de contos de reis
    porque estão em proximo contacto com Lisboa, ou a igualdade dos cidadãos
    perante as leis tributarias é uma fabula, ou a esses concelhos
    corographicamente mais remotos, mas atravessados pelo caminho de ferro,
    se ha-de exigir uma maioria de impostos, tanto ou mais pesados que os
    creados pelos decretos de 11 de setembro, para o termo desannexado e
    constituido municipalmente.

    Mas abstrahindo da existencia ou não existencia do caminho de ferro,
    temos um facto actual e não contingente, que mostra com evidencia o
    nenhum fundamento de um imposto especial nos dous municipios do antigo
    termo. É o dos concelhos da margem esquerda do Tejo em frente de Lisboa.
    Todos sabem que a facilidade de transporte e communicação pelas vias
    aquaticas apenas é inferior á que proporcionam as estradas ferreas, e
    que em relação á barateza esse meio de transito é ás vezes superior ao
    d'estas. Nos seus effeitos economicos a distancia de algumas freguezias
    dos novos concelhos ao interior da cidade, empregando os meios
    ordinarios de transporte, pelos caminhos communs, está talvez n'uma
    razão quadrupla da distancia d'Almada (por exemplo) ao centro da
    capital. E todavia ninguem se lembra de fazer pagar aos habitantes
    d'aquelles territorios um imposto especial, pela rapidez e facilidade
    das suas communicações com Lisboa.

    A camara, Senhor, não pede esses impostos, porque não pede absurdos, nem
    folga com os males e oppressões alheias. Reclama simplesmente para os
    seus administrados o direito commum, a lei da igualdade garantida na
    Carta constitucional.

    Demonstrada a insubsistencia da razão do relatorio que precede um dos
    decretos de 11 de setembro, resta outra talvez menos categoricamente
    expressa no mesmo relatorio, mas que era a mais forte em relação ao
    thesouro publico. O respectivo ministro presuppunha uma diminuição de
    renda pelo facto da desannexação do termo. Obstava-lhe isto á suppressão
    de alguns direitos de consummo em Lisboa, mas influia tambem na
    conservação de parte d'elles no antigo termo. Vem proval-o a discussão
    que houve na camara dos Dignos Pares na sessão de 13 de agosto de 1853,
    exclusivamente relativa aos impostos excepcionaes conservados nos dous
    novos concelhos. N'essa sessão o mesmo ministro declarou que, attento o
    estado da Fazenda, a mente do Governo não fôra effectuar uma reducção no
    _quantitativo_ dos impostos, mas _unicamente_ alliviar os vexames. Posto
    que esta declaração seja altamente inexacta, (visto que foi diminuido o
    quantitativo na carne e no vinho, e substituida a base do consummo pela
    da venda, o que põe a salvo do mesmo imposto, todos os que mandarem vir
    de fóra do concelho aquelles dous generos directamente para o proprio
    consummo, e visto que foram inteiramente abolidos outros impostos das
    Sete Casas, no termo, como os do azeite e do combustivel) todavia a
    explicação é terminante quanto ás considerações economicas que moveram a
    dictadura a conservar nos novos concelhos _uma parte_ dos antigos
    impostos. Além da persuasão de que era justo pagar mais pela
    contiguidade de Lisboa, as apprehensões do Governo ácerca de um
    desfalque na renda publica, em frente de um _deficit_, obrigaram-no
    pois, a não estender a esta parte do paiz o beneficio do direito commum.

    Sem discutir se é licito invocar motivos de tal ordem quando se tracta
    de um negocio de justiça ou de injustiça, porque se o acto é justo as
    considerações de conveniencia ou inconveniencia são superfluas, e se é
    injusto nunca ellas o podem legitimar, a camara de Belem acceita esse
    fundamento. Se, porém, os factos vierem provar que a desannexação do
    termo, longe de trazer um desfalque nas rendas cobradas pelas Sete
    Casas, deu um resultado contrario, isto é, um augmento de receita, é
    evidente que esse mesmo fundamento cae por terra, e a conservação dos
    direitos nos novos concelhos fica reduzida á categoria de uma oppressão
    absolutamente infundada.

    E é exactamente, Senhor, o que se verifica. Tomado o rendimento das Sete
    Casas e Terreiro (repartições unidas pelas reformas de 11 de setembro de
    1852) durante os primeiros seis mezes da nova organisação, (setembro,
    outubro, novembro, dezembro, de 1852, janeiro e fevereiro de 1853)
    acha-se que o seu valor foi de 532:098$421 réis: examinando porém os
    rendimentos das duas repartições separadas, nos mezes correspondentes de
    1851 a 52, acha-se que o das Sete Casas foi de 416:054$523 réis e o do
    Terreiro de 70:894$940 réis, o que perfaz um total de 486:949$463 réis.
    Assim a concentração da acção fiscal até á linha da circumvallação, onde
    essa acção é possivel e efficaz, produziu o effeito que devia produzir,
    um augmento de receita em seis mezes de 45:148$958 réis. Na verdade, os
    novos direitos creados sobre legumes e que subiram n'esse periodo a
    5:450$561 réis, reduziriam o excesso a menos de 40 contos: mas deve-se
    attender tambem a que desappareceu do rendimento das Sete Casas a verba
    dos direitos de exportação de vinhos, e além d'isso, por effeito da nova
    lei da sisa, o producto d'esta diminuiu nos seis mezes de 1852 a 53,
    tomados por termo de comparação, de 3:500$000 réis, podendo-se deduzir
    da falta de uma verba e da diminuição da outra, que o sobredito
    accrescimo nos direitos de consummo, excede muito os 45 contos de réis.

    Taes são, Senhor, os factos e as razões que a camara municipal de Belem
    submette á consideração de V.M., ácerca dos impostos extraordinarios que
    ficaram pesando sobre os novos municipios. A abolição d'elles é
    moralmente necessaria, e de certo o Governo de V.M. não deixará, á vista
    das considerações expostas, de tomar, perante o Parlamento, a iniciativa
    de uma modificação indispensavel da lei, cujo espirito e cuja intenção
    benefica não é possivel desconhecer.

    A camara, Senhor, diz–intenção benefica–e dil-o mui de proposito.
    Repetindo ainda uma vez que os habitantes d'este concelho tiraram
    vantagens reaes dos decretos de 11 de setembro, ella sente que lhe
    cumpra representar dentro em breve a V.M., sobre as interpretações
    forçadas que se tem dado ás disposições claras e terminantes da lei,
    para se gravarem os povos, e abusos que se tem practicado e practicam,
    para conservar em proveito particular os vexames de que, na sessão de 13
    de agosto de 1853, o ministro da fazenda asseverava (provavelmente por
    falta de exactas informações) estarem livres os novos municipios. N'esta
    parte a camara recorrerá opportunamente a V.M., para que de prompto se
    occorra a males, cujo remedio depende simplesmente do executivo. Na
    presente supplica restringe-se a mostrar os inconvenientes que só podem
    ser removidos pelo legislativo.

    A insubsistencia dos motivos que se buscaram para conservar os novos
    concelhos n'uma situação excepcional produziu, como era de esperar,
    disposições que na lei contrariavam esses motivos. A consciencia de que
    realmente os novos concelhos não deviam ser onerados com os encargos
    especiaes que se lhes impozeram, inspirou a prescripção do artigo 12.^o
    do decreto de 11 de setembro de 1852, expedido pelo Ministerio do Reino,
    no qual se estatue que o Governo dará annualmente uma prestação ás
    camaras dos municipios novamente creados, equivalente á despeza media
    que anteriormente fazia a camara de Lisboa, com a illuminação e calçadas
    no territorio desannexado. Se na realidade os impostos então
    estabelecidos eram uma conpensação das vantagens obtidas pela
    proximidade da capital, se o Governo queria alem d'isso obstar com elles
    a um augmento de _deficit_, a camara de Belem não póde atinar com a
    razão porque se lhe havia de fazer um dom puramente gratuito,
    augmentando para isso o _deficit_ em detrimento commum da nação. Nem se
    diga que essa dadiva é deduzida da prestação concedida ao conselho de
    Lisboa. Não importam para este caso nem a origem ou legitimidade
    d'aquella prestação, nem a justiça das deducções que n'ella se fazem. O
    que importa é que estabelecendo a dotação que se destina a esta camara,
    a dictadura ou não estava bem firme nos principios que invocava, ou
    desbaratava uma somma que aliás deveria entrar nos cofres publicos,
    fazendo donativo d'ella aos habitantes do antigo termo.

    Mas esta disposição não é só contradictoria com os fundamentos das
    provisões tributarias de um dos decretos de 11 de setembro: é tambem
    inexplicavel em si mesma. Ordena-se ahi que as sommas dadas aos novos
    concelhos, sejam calculadas pela media da anterior despeza local, de
    illuminação e calçadas. Porque, porém, essas duas unicas verbas hão-de
    ser tomadas para base do calculo, e não conjunctamente a assaz avultada
    da limpeza, a dos vencimentos, etc.?

    Se o Governo entende, contra as suas proprias declarações, que recebendo
    d'estes dous concelhos perto de 60 contos annuaes de contribuição
    extraordinaria, tem o dever de prover ás suas despezas municipaes, não é
    por certo com supprimentos calculados arbitrariamente e muito inferiores
    aos encargos locaes, que reparará a flagrante injustiça d'aquella
    contribuição.

    Se todavia taes provisões devem cair deante das considerações que
    theoricamente as invalidam, que dirá, Senhor, esta camara ácerca do
    artigo 6.^o do decreto de 11 de setembro expedido pelo Ministerio do
    Reino, que priva o concelho das propriedades municipaes, para as
    attribuir ao de Lisboa? Acaso os logradouros communs dos visinhos e que
    só pelos visinhos podem materialmente ser utilisados, os mercados, cuja
    localidade aliás pertence á camara escolher, com approvação da Junta
    Geral de Districto, os cemiterios emfim, onde repousam as cinzas dos
    paes, irmãos e filhos dos habitantes do concelho, podem ou devem
    constituir propriedade alheia? Esta prescripção, van quanto a mercados e
    logradouros de que os habitantes de Lisboa não podem utilisar-se,
    offerece, quanto aos cemiterios, uma nova especie de servidão, a
    servidão que passa alem dos tumulos. As cinzas dos mortos do concelho de
    Belem pertencerão ao municipio da capital, e poderão ser mudadas ou
    dispersas ou vendidas com o chão que as cobre, sem que seja licito á
    propria municipalidade obstar a taes actos? Fortes deviam ser os motivos
    que a dictadura teve presentes para tomar tão estranha providencia; mas
    esta camara não os alcança, e por isso mal póde combatel-os.

    Demonstrado, como parece ficar, que os decretos de 11 de setembro,
    justos e beneficos no seu pensamento, pelas provisões especiaes que
    encerram, annullam na maior parte os bons effeitos d'esse pensamento,
    segue-se a necessidade da sua reforma. Tendo sido os mesmos decretos
    acto do Governo constituido em dictadura, e sendo para elle honroso o
    havel-os publicado, embora imperfeitos no seu desenvolvimento, esta
    camara entendeu que devia antes dirigir-se a V.M. do que ao Parlamento,
    para que o Governo podesse usar n'este negocio de uma iniciativa que
    justamente lhe pertence.

    Não só essa consideração, mas tambem o sabido e provado amor de V.M. á
    equidade e a tudo quanto possa arredar dos povos oppressões e vexames,
    asseguram feliz exito a uma pretenção tão legitima, e fundada em tão
    urgentes razões. Se, porém, os ministros de V.M. houvessem de
    desprezal-a, o que de nenhum modo esta camara espera, então ella se
    veria na necessidade de appellar directamente para os representantes do
    paiz, e não cessaria nas suas supplicas até obter desaggravo e inteira
    justiça.

    A camara de Belem está tão convencida de que não existe motivo nenhum
    razoavel para os seus administrados viverem, em relação aos impostos,
    fóra do direito commum; conhece tanto a impossibilidade de sobrecarregar
    com fintas, derramas ou outros quaesquer tributos, um concelho em cuja
    parte urbana as apparencias externas bastam para indicar decadencia, e
    que na parte rural lucta com as difficuldades que ficam ponderadas;
    repugna-lhe tão profundamente annullar pelo estabelecimento de novos
    encargos, o allivio que resultou para este territorio da sua separação
    da capital, que está na firmissima resolução de não exigir dos
    habitantes d'elle um unico ceitil para as despezas do municipio, em
    quanto não forem libertados do tributo extraordinario lançado pelas leis
    de setembro sobre dous dos mais importantes objectos de consummo, as
    carnes verdes e o vinho, tributo cuja importancia n'este concelho excede
    a 30 contos de réis. Seja qual fôr o resultado dos seus esforços, que
    serão incessantes ácerca d'este negocio, a resolução que tomou de não
    legitimar com a sua aquiescencia uma situação constitucionalmente
    impossivel, ficará inabalavel porque assenta em convicções
    indestructiveis.

    A camara reconhece que o mal não pode ser remediado senão n'um certo
    prazo, pela indispensavel intervenção do Parlamento. Existe além d'isso
    um contracto de arrematação dos novos impostos no concelho de Belem, que
    só termina em junho do corrente anno, e um dos primeiros deveres do
    Governo é manter illésa a fé publica. O tempo que resta ainda para os
    habitantes d'este municipio soffrerem a arrematação dos direitos de
    venda sobre o vinho e carnes verdes, é sufficiente para o Governo fazer
    votar nas duas casas do Parlamento, as reformas indispensaveis dos
    decretos dictatoriaes de 11 de setembro. No decurso d'este periodo a
    camara procurará conciliar os deveres que lhe impõe a voz da consciencia
    com a escrupulosa obediencia ás leis vigentes, porque sabe que a
    primeira condição da liberdade é a observancia da lei. Na orbita da sua
    acção não tolerará abusos da parte dos arrematantes d'aquelles tributos
    excepcionaes, mas não tolerará tambem que lhes sejam defraudados pelos
    habitantes do concelho do que legitimamente lhes pertencer.

    Applicando ao cofre municipal de Belem uma quota deduzida da dotação do
    de Lisboa, calculada sobre uma base desarrazoada, mas precisa, as leis
    de setembro attribuiram ao Governo e á camara da capital a avaliação
    d'essa quota, excluindo virtualmente a camara de Belem do direito de
    verificar, á vista dos documentos da mesma avaliação, a exacção d'ella.
    É mais uma violencia transitoria a que este concelho tem de
    submetter-se. A camara acceitará essa somma (qualquer que venha a ser)
    fixada pelo arbitrio do Governo e da camara de Lisboa interessada em que
    seja a mais modica possivel. Com ella, com o producto das licenças e com
    outra qualquer pequena fonte de rendimento que possa existir, occorrerá
    ás despezas de administração, de limpeza, de calçadas e de illuminação,
    até onde esses rendimentos chegarem, certa de que os seus representados
    preferirão a falta temporaria de uma parte dos cómmodos e vantagens que
    deve subministrar-lhe a administração municipal, a que esta camara
    practique o minimo acto, do qual se possa deduzir que o concelho presta
    a sancção do seu assentimento a provisões tributarias que são moralmente
    impossiveis.

    Se porventura, Senhor, o Governo de V.M. entendesse dever cerrar os
    ouvidos ás representações d'esta camara, o que nem remotamente os abaixo
    assignados suspeitam, tambem ella poderia elevar respeitosamente á
    presença de V.M., uma supplica para que ordenasse ao seu Governo que,
    usando das attribuições que lhe confere o artigo 106.^o do Codigo
    Administrativo, a dissolvesse, sendo certo que os habitantes do concelho
    de Belem facilmente achariam outros cidadãos que melhor soubessem
    promover os seus interesses municipaes do que os actuaes vereadores.

    Deus Guarde a Vossa Magestade por muitos e dilatados annos como todos
    havemos mister,–Camara 11 de fevereiro de 1854–O presidente, Alexandre
    Herculano–João Ferreira Godinho–João José Teixeira–José Street
    d'Arriaga e Cunha–Visconde da Junqueira.

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO PARLAMENTO

    1854

    Senhores deputados da nação portugueza.

    A camara municipal do concelho de Belem vem perante o Parlamento pedir a
    reforma dos decretos de 11 de setembro de 1852, que instituiram com o
    antigo termo de Lisboa os dous concelhos de Belem e Olivaes. Ella
    recorreu já com esse intuito ao Governo de Sua Magestade, para que o
    mesmo Governo usasse da sua iniciativa naquella reforma, pelos
    fundamentos expostos no requerimento que lhe dirigiu, e que se ajunta á
    presente súpplica. Á vista d'este o Parlamento não só apreciará, sem que
    seja necessario repetil-as aqui, as razões em que esta camara se
    estriba, para pedir uma reforma altamente reclamada pelos principios
    mais incontestaveis do direito publico constitucional e da economia
    politica, mas tambem avaliará devidamente o proceder do Governo sobre
    tão grave assumpto.

    N'esse requerimento a camara dava ao Ministerio uma prova de deferencia,
    expondo-lhe os aggravos que dos decretos de setembro resultam para os
    seus administrados, e confiando á sua iniciativa o remedio dos mesmos
    aggravos. Via na idéa fundamental dos decretos uma idéa benefica e
    justa, e esperava que o Governo adoptasse uma desenvolução mais logica
    de um pensamento que era seu. Quando assim não succedesse esta camara
    tinha o direito de contar com uma denegação franca e positiva dentro de
    curto prazo. Só assim poderia recorrer em tempo opportuno á
    Representação Nacional. Versando a questão principalmente sobre tributos
    cobrados por arrematação, e devendo esta renovar-se antes de julho do
    anno corrente, é claro que a resolução favoravel da pretensão da camara
    de Belem ficaria indefinidamente addiada, logo que, celebrada a nova
    arrematação, se creasse a necessidade de manter por um, dous ou tres
    annos a fé de um contracto, que nem o proprio Parlamento poderia
    invalidar sem prévia indemnisação aos lesados.

    Á deferencia d'esta camara o Governo respondeu com o silencio; á
    confiança d'ella na sua illustração, na sua justiça, na sua lealdade
    respondeu com uma das propostas apresentadas na Camara dos Senhores
    Deputados pelo Ministro da Fazenda, na sessão de 11 de abril, proposta
    relativa ao imposto do real d'agua, inteiramente connexa com a pretensão
    do municipio de Belem, e cuja approvacão sem restricções importa uma
    negativa ás suas justissimas súpplicas. Este procedimento, posto que
    singular, seria na verdade cómmodo para sem ruido se calcarem aos pés a
    justiça e o direito de milhares de cidadãos, se a esta camara não
    incumbisse velar por elles, e impedir que o Parlamento haja de ser
    illudido, tornando-se innocente cumplice de uma obra de iniquidade.

    Reportando-se ás ponderações feitas no requerimento dirigido ao Governo,
    sobre as diversas disposições mais ou menos irreflectidas e injustas dos
    decretos de 11 de setembro, que esta camara espera sejam abrogadas ou
    substituidas pelo Parlamento, ella invoca especialmente a attenção dos
    Senhores Deputados da Nação sobre o imposto excepcional de quinze réis
    em arratel de carne e de dez réis em canada de vinho, creado nos dous
    novos concelhos de Belem e Olivaes, e assimilado ao real d'agua, por ser
    lançado, não sobre o consumo total, mas sobre a venda a retalho, e por
    ficar incluindo em si, nos ditos concelhos, aquelle antigo tributo
    geral.

    Na representação junta á presente súpplica está ponderada largamente a
    insignificancia dos fundamentos em que a dictadura de 1852 se estribou,
    para crear aquelle tributo excepcional. Aqui, esta camara tem
    considerações de outra ordem que ajuntar ás que offereceu ao Governo, e
    que por certo não serão inuteis na discussão da materia.

    A parte tributaria dos decretos de 11 de setembro pecca desde logo na
    base. É sabido que os tributos do paiz, em harmonia com as nossas
    instituições, se dividem em duas categorias: tributos geraes e
    contribuições municipaes. Directos ou indirectos, a condição de todos os
    impostos geraes é a universalidade. A Carta consagrou este principio. A
    lei que o quebrar é de direito nulla. Pela sua indole o imposto
    indirecto affecta ás vezes mais particularmente uma classe de cidadãos,
    conforme os objectos sobre que recae; mas esse facto resulta sempre das
    leis economicas e da diversidade das condições sociaes. O direito
    publico escripto não póde nunca admittir a hypothese de se tributarem
    diversamente os habitantes de diversas circumscripções. Os impostos
    municipaes, destinados a despezas publicas exclusivamente locaes, são os
    unicos que justamente variam de localidade para localidade, porque o
    municipio é uma pequena sociedade civil dentro da grande sociedade, e os
    seus membros teem deveres e direitos, vantagens e encargos proprios e
    exclusivos da vida publica municipal. Os decretos de setembro, em
    contravenção d'estas doutrinas, crearam um tributo hybrido nos dous
    concelhos do antigo termo: fundiram no imposto do real d'agua outro, que
    é municipal na sua indole, porque exclusivo e de localidade, e que é ao
    mesmo tempo geral na sua applicação, por ser destinado a entrar nos
    cofres do Estado. Esta situação, monstruosa e constitucionalmente
    impossivel, é que o Parlamento, a quem incumbe manter as doutrinas da
    Carta e a inviolabilidade dos principios, deve primeiro que tudo fazer
    cessar.

    Na verdade a dictadura fundamentou as insolitas provisões dos decretos
    de 11 de setembro, nas vantagens que os dous concelhos deviam auferir da
    proximidade da capital. Dado, porém não concedido, o facto, a
    consequencia d'elle, se a dictadura soubesse respeitar as boas
    doutrinas, seria exigir uma compensação directa do municipio, na
    hypothese de que essas vantagens resultavam de um sacrificio especial do
    Estado, porque, resultando das condições naturaes e corographicas dos
    dous concelhos, é ignorar os elementos da economia politica, imaginar
    que taes vantagens escapam aos tributos geraes. Reduzindo os fundamentos
    allegados pela dictadura ás suas verdadeiras dimensões na representação
    junta, esta camara declarou que acceitaria de bom grado o encargo de
    retribuir directamente quaesquer beneficios, em que se dessem os
    caracteres que exigem uma retribuição especial. Era o mais que
    legitimamente d'ella se podia exigir, e que ella se apressou a offerecer
    para tirar todos os pretextos á espoliação.

    Independente da inconstitucionalidade do tributo especial, que os
    decretos de setembro estabeleceram nos dous concelhos do antigo termo,
    para elles poderem gosar de um direito desconhecido dos publicistas, o
    _direito de proximidade_, é de notar o desacordo d'este acto da
    dictadura com o systema que, como tal, e depois como poder executivo, o
    actual Ministerio parece haver adoptado. As suas tendencias, pela
    reducção das pautas, pela adopção do imposto de repartição e por outras
    providencias analogas, bem ou mal concebidas, são evidentemente para o
    tributo directo e para a sua divisão equitativa. E todavia, tractando de
    impôr uma especie de contribuição de guerra nos dous concelhos que
    creára, em vez de exigir a troca de serviços, fossem elles quaes fossem,
    a compensação directa dos sacrificios especiaes do Estado em beneficio
    especial dos mesmos municipios, por uma somma qualquer paga pelos cofres
    das respectivas camaras, a dictadura quintuplicou ahi o imposto do real
    d'agua, imposto cuja substituição ha muito houvera procurado qualquer
    Governo, que, habituando-se a fazer ou a propôr leis depois de examinar
    os factos, achasse que elle tira das bolsas dos contribuintes talvez o
    triplo do que entra nos cofres publicos, com offensa flagrante dos
    principios fundamentaes sobre materia de contribuições, acceitos por
    todos os economistas desde Adam Smith até hoje.

    A dictadura, promulgando os decretos de 11 de setembro, reconheceu nos
    respectivos relatorios uma verdade sabida por todos, a decadencia da
    riqueza nos territorios _extramuros_ sujeitos á fiscalisacão das
    Sete-Casas, decadencia que na realidade, e segundo a opinião do proprio
    Governo, procedia do peso dos impostos e dos vexames, ainda mais
    gravosos, que se ligavam á sua arrecadação e fiscalisação. Esse estado,
    procedido de uma situação tributaria especial, repugnava a todas as
    conveniencias publicas; repugnava á justiça e á moral. A primeira e mais
    importante necessidade na reforma das Sete-Casas era, na opinião dos
    Ministros, destruir esse estado anormal. O Governo entendia com a medida
    que decretava _prover amplamente ás urgentes e justas reclamações dos
    povos_. É evidente que as consequencias logicas d'estas premissas
    consistiam em acabar com o tributo excepcional e com as oppressões; em
    acabar no termo, como diziam os Ministros, com os _impostos de cidade e
    vexames a elles inherentes_. Vejamos como estas bellas promessas se
    realisaram.

    Depois d'espoliar os novos concelhos de todos os proprios, que lhes
    pertenciam pelo simples facto de existirem, attribuindo á camara de
    Lisboa baldios, logradouros, predios urbanos e rusticos, mercados,
    aqueductos, e até os ossos dos mortos, nos dous concelhos de Belem e
    Olivaes, do modo que se vê nos decretos de 11 de setembro, e vai
    largamente exposto no requerimento appenso a esta súpplica, a dictadura
    veiu á questão do imposto especial. Escondido no meio das phrases
    pomposas, dos annuncios prosperos do futuro, encontra-se no relatorio
    dos Ministros o seguinte periodo:–«os concelhos novamente creados,
    ficando sujeitos ás imposições geraes do reino, apenas são obrigados ao
    pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os deixa em grandissima
    vantagem em relação ao seu estado anterior.»–Examinemos se os factos
    condizem com estas affirmativas.

    O antigo termo fiscal das Sete-Casas, como é vulgarmente sabido,
    compunha-se de 37 freguezias, 23 pertencentes ao termo municipal de
    Lisboa, e 14 aos termos de outros concelhos limitrophes. No anno
    economico que precedeu immediatamente a reforma das Sete-Casas e a
    creação dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o rendimento d'essa casa
    fiscal no termo d'ella dependente foi proximamente, segundo os mappas
    officiaes, de reis 62:000$000. Suppondo as forças economicas das 23
    freguezias _extramuros_ do concelho de Lisboa similhantes ás das 14 dos
    outros concelhos, porque as desigualdades entre as de cada um dos dous
    grupos são compensadas pelas desigualdades entre as do outro grupo,
    segue-se que os habitantes dos dous novos concelhos, ou das 23
    freguezias, pagavam proximamente 38 ou 40 contos. O novo imposto foi
    arrematado nos dous concelhos em 51 contos, despresadas as fracções. É
    portanto evidente que o encargo tributario dos dous concelhos ficou
    sendo maior do que era d'antes. Á vista disto, o Parlamento poderá
    apreciar qual é essa _grandissïma vantagem_ em que os deixaram,
    relativamente ao seu estado anterior, os decretos de 11 de setembro.

    Cumpre aqui obviar a um reparo que por parte do Governo, ou dos homens
    de simples theorias se poderá fazer. Descendo á analyse dos impostos das
    Sete-Casas achar-se-ha na verdade que d'antes, no territorio dos dous
    novos concelhos, eram tributados mais generos do que hoje, e que nas
    proprias carnes verdes o imposto era duplo e no vinho quadruplo. Mas o
    ponto verdadeiro da questão é o comparar a totalidade do onus a que
    estes territorios estavam sujeitos, com aquelle a que o estão agora.
    Quando se diz que era impossivel que o termo prosperasse debaixo da
    pressão dos tributos, attende-se ao facto real, e não ao facto nominal.
    A differenca enorme, que achamos entre os suppostos resultados das
    imposições e fiscalisação das Sete-Casas e os seus resultados
    verdadeiros, o que prova? Prova o mesmo que se deduz de outro facto
    altamente significativo, observado na historia do rendimento das
    Sete-Casas no decurso de 18 ou 20 annos, isto é, que esse rendimento
    augmenta logo que se encurta o termo fiscal, diminue desde que este se
    dilata; prova que a medida de reduzir a acção das Sete-Casas ao
    perimetro da circumvallação da cidade foi profundamente judiciosa, e um
    acto em que, á justiça feita aos habitantes do antigo termo,
    separando-os municipalmente da capital, se associou a conveniencia do
    thesouro; prova finalmente que, a não suppormos uma espantosa
    malversação nas Sete-Casas, o contrabando, esse castigo supremo e
    inevitavel de leis ineptas e anti-economicas, remediava até certo ponto
    a exaggeração do tributo, sendo impotente contra elle uma fiscalisação
    violenta, assoladora, immoral nas suas consequencias, e incapaz de
    preencher os fins a que era destinada.

    O imposto sobre a carne e o vinho basta pois, na realidade, para
    compensar actualmente com um gravame novo, ainda maior, o gravame
    antigo. Mas não ha só isto. Na representação junta, dirigida ao Governo,
    esta camara absteve-se de discutir o imposto gradativo, estabelecido
    pelos decretos de 11 de setembro para as vendas de liquidos. Queria
    examinar primeiramente os effeitos positivos d'esse imposto, que ao
    simples aspecto parece ter unicamente por objecto tornar mais facil a
    fiscalisação das barreiras da cidade, e ferir especialmente, de um modo
    indirecto, o consumo de vinho feito pelas classes inferiores da capital
    fóra da linha de circumvallação. A verdade, porém, é que elle nem
    protege a fiscalisação naquella linha, nem recae só sobre o povo da
    capital que vem (quasi exclusivamente nos dias sanctos) consumir vinho
    nos arrabaldes. Por grande que seja este consumo, é evidentemente muito
    inferior ao dos proprios moradores dos novos concelhos, cujo gasto é
    diario, e que consomem outros liquidos. Assim, calculando proximamente
    em 7 contos de réis annuaes o producto das licenças gradativas de cem,
    cincoenta, vinte e dez mil réis, exigidas pelo fisco ás lojas de
    liquidos dos novos concelhos, póde-se affirmar sem exaggeração que 4
    contos de réis recaem sobre os habitantes d'elles e não sobre a
    população inferior de Lisboa. Esta somma addicionada aos 51 contos por
    que foi arrematado o imposto da carne e vinho, eleva o gravame actual
    pelo menos a 55 contos, augmentando-lhe assim o excesso sobre o gravame
    antigo. Ao mesmo tempo a nova taxa de licença, pelo lado dos seus
    effeitos economicos e commerciaes, é por muitos modos vexatoria para os
    novos concelhos; porque o resultado della foi fecharem as portas
    centenares de pequenas lojas de liquidos, que não poderam resistir a um
    direito quasi prohibitivo, convertendo-se assim a taxa n'uma especie de
    direito de patente de um exclusivo, exigida aos donos dos grandes
    armazens de liquidos. De similhante exclusivo resultou que, além de
    ficarem na miseria centenares de familias, apesar do imposto gradativo o
    preço do vinho não subiu, porque o novo encargo para os grandes
    estabelecimentos ficou superabundantemente compensado pelo triplicado ou
    quadruplicado da venda. Todavia as consequencias d'este estado de cousas
    vão mais longe. Diminuindo em virtude de tal facto o numero das licenças
    municipaes, e consequentemente os redditos das novas camaras
    provenientes d'essa origem, ellas teem de ir buscar por outro qualquer
    meio ás algibeiras dos contribuintes, o supprimento de similhante
    desfalque.

    Esta perda e gravame para os habitantes dos dous concelhos reverte,
    porém, em beneficio do fisco? Como todos os tributos, sobretudo
    indirectos, imprevidentemente estabelecidos, os 6 ou 7 contos auferidos
    por esse meio, produzem por outro lado um desfalque, talvez igual. São
    duzentos a trezentos sellos de licenças, duzentas a trezentas verbas de
    decima e do imposto de quatro por cento sobre casas, que desappareceram
    com a cessação d'esses duzentos a trezentos estabelecimentos
    commerciaes. Entretanto os 6 a 7 contos da taxa gradativa figurarão como
    um augmento de receita no orçamento geral do Estado, do mesmo modo que
    tantas outras decepções, que n'elle figuram por motivos analogos.

    Esta camara disse que o imposto gradativo não protege a fiscalisação nas
    barreiras da cidade. Efectivamente n'esta relação elle é de todo
    impotente ou nullo. Basta para o conhecer saber-se o que no nosso
    systema fiscal se entende em regra por imposto de consumo, á vista do
    Codigo Administrativo e leis correlativas. O imposto de consumo
    unicamente se póde verificar na venda a retalho. Assim, não sómente em
    virtude dos regulamentos existentes, mas tambem pelas indicações da
    experiencia, o unico meio de fiscalisação para taes impostos é o methodo
    dos manifestos combinados com os varejos dados nas lojas de retalho. O
    systema do imposto das barreiras, como existe em Lisboa, é o que
    propriamente corresponde aos direitos chamados em França d'_octroi et
    d'entrée_. Se as barreiras e registos fiscaes na orla dos dous novos
    concelhos fossem licitos, e todos os generos importados pagassem sem
    distincção um direito maior ou menor, essas barreiras, especie de guarda
    avançada das de Lisboa, defenderiam mais ou menos estas, fazendo elevar
    sempre os preços dos generos no territorio dos dous concelhos, que assim
    voltariam legalmente ao estado de oppressão e vexame, de que as leis de
    setembro tentaram libertal-os. Mas sem isto, nem o imposto de consumo
    sobre a carne e o vinho, nem a taxa gradativa das licenças conduzem, por
    essa parte, a resultado algum. O contrabandista não precisa de ser
    taberneiro, carniceiro ou merceeiro, para exercer o seu odioso mister, e
    não o sendo póde livremente conduzir o objecto destinado ao contrabando
    até á proximidade da linha de circumvallação, sem pagar nem o imposto
    nem a taxa gradativa. Uma vez que não venda a retalho o que conduz, nada
    tem com elle o fisco ou os seus subrogados.

    Que o Parlamento releve a esta camara uma observação. As linhas fiscaes
    de Lisboa defendem-se como se defenderam ha vinte annos as suas linhas
    militares. Defendem-se com animos probos; com a lealdade dos agentes
    fiscaes; com a vigilancia e actividade de quem quer e sabe cumprir o seu
    dever; com a severidade do castigo e com a justiça das recompensas. O
    espirito mais rude comprehende que uma alta muralha, dominada por um
    passeio de ronda, onde de noite e de dia se patrulhe convenientemente, e
    cujas vinte ou trinta portas sejam continuamente vigiadas por homens
    zelosos, é inaccessivel ao contrabando. Se, por hypothese, houvesse um
    Ministro que viesse perante o Parlamento dizer–«tenho nas barreiras da
    capital empregados fiscaes que trahem o seu dever: tenho chefes a quem
    incumbe vigial-os e que não os vigiam: tenho regulamentos imperfeitos:
    tenho considerações de patronato que me impedem de demitir os suspeitos,
    e de fazer punir os culpados: concedei-me, portanto, que cinja essas
    barreiras com uma faixa de territorio sujeito a uma lei excepcional, com
    um vasto _pomoerium_ de maldição, cujos habitantes innocentes,
    absolutamente innocentes, dos descaminhos que tolero por falta de
    energia e de vigilancia, ou por considerações pessoaes, sejam obrigados
    a compensar pelas suas bolsas, os effeitos da corrupção ou da
    incapacidade dos meus propostos e subordinados»,–o Parlamento
    rejeitaria com indignação esta proposta demente e atroz, e por certo o
    individuo que assim escarnecesse da intelligencia e da consciencia dos
    Representantes do paiz, não tornaria a sentar-se nos bancos do
    Ministerio.

    Não é, por consequencia, possivel que o Governo pense em defender por
    este lado a manutenção das provisões tributarias dos decretos de 11 de
    setembro, aliás já condemnadas no tribunal da razão, por contradictorias
    com a sua idéa fundamental, visto que em vez de reduzirem os impostos
    que _effectivamente_ pesavam sobre o territorio dos dous concelhos, os
    aggravam, directa e indirectamente, ainda mais.

    Ao augmento de encargos que veiu pesar pelo tributo indirecto sobre este
    opprimido territorio, em virtude de expressas disposições das leis de
    setembro, accresce o de outro imposto directo, augmento que resulta das
    leis geraes de Fazenda. Os quatro por cento sobre a renda das casas cuja
    base era em Belem, como districto municipal de Lisboa, de 30$000 réis,
    agora, convertido este territorio em concelho sobre si, teem por base a
    renda de 12$000 réis, vindo a sobrecarregar as classes pobres com um
    tributo de que estavam exemptas, e aos proprietarios urbanos que, com
    difficuldade achavam inquilinos para os seus predios, do que dão
    testemunho as casas deshabitadas e em ruinas que se encontram a cada
    passo n'esta povoação, augmentam-se por essa mudança de base tributaria,
    as difficuldades para auferirem uma renda modica dos seus capitaes
    immobilisados.

    Se, porém, aquelles decretos e as suas consequencias, não tornaram menos
    oppressivas as contribuições que affligiam o antigo termo, cumpre
    confessar que ao menos o exemptavam dos vexames a que os sujeitava a
    fiscalisação das Sete-Casas, com o seu cortejo de violencias, de
    embaraços commerciaes, de extorsões, de rixas, e até de assassinios,
    quadro repugnante, que por inutil esta camara não desenhará diante dos
    olhos dos Senhores Deputados. Mas infelizmente esse beneficio, que está
    na lei e que devia traduzir-se nos factos, não chegou a realisar-se no
    concelho de Belem. O que se tem passado a similhante respeito não se
    acreditaria, se a narrativa dos successos não se estribasse em provas
    irrecusaveis. Na representação junta, esta camara julgou dever abster-se
    de mencionar certos factos e de apreciar severamente outros, de modo que
    parecesse dirigir ao Governo acres censuras. O procedimento d'este para
    com ella, soltando-a de quaesquer considerações, habilitam-na para dizer
    a verdade nua, a verdade em toda a sua extensão, perante os
    Representantes do paiz.

    Apenas celebrados pelos fins de 1852 os contractos de arrematação dos
    novos impostos, nos dous concelhos do antigo termo de Lisboa, e o do
    real d'agua no resto do antigo termo fiscal das Sete-Casas, os
    arrematantes estabeleceram immediatamente registos fiscaes no perimetro
    do territorio que os seus contractos abrangiam. N'estes registos
    exigiam-se direitos de consumo, e davam-se guias dos generos
    despachados. Por auctoridade particular collocaram-se homens armados em
    diversos pontos, e começaram a apprehender-se individuos que, diziam os
    guardas dos arrematantes, se esquivavam ao pagamento dos impostos. A
    fiscalisação, emfim, das Sete-Casas, tão odiosa e tão justamente odiada,
    renascia n'este infeliz territorio com todo o seu sequito de abusos e
    violencias. Unanimemente, porém, as auctoridades administrativas do
    concelho dos Olivaes e dos outros concelhos limitrophes ao antigo termo
    municipal de Lisboa, aonde d'antes chegava o termo fiscal das
    Sete-Casas, intimaram os arrematantes para retirarem os registos, e
    fazerem cessar um systema de fiscalisação incompativel com os
    regulamentos e com a indole do imposto que haviam arrematado. Obedeceram
    elles ás intimações dos magistrados administrativos, e o abuso cessou.
    No Concelho de Belem não succedeu assim. A auctoridade tolerou tudo, e
    os renovados vexames das Sete-Casas continuaram. Como era natural,
    surgiram as resistencias, e os arrematantes pensaram em manter o abuso
    recorrendo ao Governo. Requereram ao Ministerio da Fazenda para que lhes
    assegurasse a conservação d'aquella especie de barreiras fiscaes que
    haviam estabelecido; mas as suas súpplicas foram indeferidas; nem podiam
    deixar de o ser. Communicou-se officialmente esta resolução ao
    respectivo Administrador de concelho, que se recusou a cumpril-a por
    motivos que esta camara ignora, e apesar das leis, dos regulamentos e da
    decisão do Ministro, as cousas continuaram no mesmo estado.

    Entretanto crescia a reacção popular contra um abuso intoleravel, e
    tanto mais intoleravel quando se considerava que os outros concelhos
    limitrophes, e sobretudo o dos Olivaes, creado pelas mesmas leis, com as
    mesmas condições de existencia, e sendo-lhe applicaveis os mesmos
    regulamentos fiscaes, estavam perfeitamente exemptos de taes vexames, só
    reservados ao territorio do concelho de Belem. Os habitantes d'este
    lembraram-se então de procurar allivio aos seus males recorrendo tambem
    ao Ministro, que já ordenara se lhes pozesse termo e que não havia sido
    obedecido. Dirigiram pelo Ministerio da Fazenda um requerimento em que
    pediam de novo essa justiça, que já espontaneamente se lhes mandara
    fazer. Mais de um anno tem decorrido desde então, e até hoje, uma
    súpplica tão simples, tão justa, tão clara, até, para o Ministro, que de
    antemão e por si proprio a resolvêra, não pôde obter uma resolução
    favoravel!

    A camara de Belem deixa á apreciação do Parlamento similhantes factos. A
    sua significação e o seu valor podem todavia calcular-se melhor pela
    comparação com outros que lhes são correlativos. Singulares e estranhos,
    esta camara não ousa nem quer explical-os. Pertence ao Parlamento
    remontar ás suas causas.

    É de antigos tempos contestavel e contestada a extensão que se deve dar
    ao imposto do real d'agua. É questionavel se elle deve recair unicamente
    sobre as carnes verdes ou se tambem abrange as seccas, salgadas ou
    fumadas. Os tribunaes teem julgado diversamente, e o Governo em diversas
    epochas e por diversos actos tem procurado fazer admittir a significação
    mais lata. Estes actos do Governo são perfeitamente indifferentes,
    porque não é ao Executivo, mas ao Legislativo que pertence a
    interpretação das leis. De que a do real d'agua é obscura não ha a menor
    dúvida. Ao passo que o Poder Judicial vacilla a este respeito, o
    Ministro da Fazenda vem ao Parlamento pedir a sua interpretação,
    reconhecendo por esse acto a nullidade de todas as portarias, circulares
    ou officios com que se tem pretendido fixar o sentido d'ella. Posto
    isto, venhamos aos factos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, conglobaram o real d'agua no novo
    imposto que estabeleceram nos dous concelhos. Liberto dos impostos das
    Sete-Casas, este territorio ficava por esse facto submettido ao do real
    d'agua, a que a dictadura, por aquelles decretos, veiu accrescentar nove
    réis em canada de vinho e onze réis em arratel de carne. Os §§ 1.^o e
    2.^o do artigo 3.^o do decreto expedido pelo Ministerio da Fazenda,
    dizem que os dous concelhos são obrigados:

    «A pagar o imposto de dez réis por cada canada de vinho vendido a miudo,
    nos mesmos termos em que se paga o real d'agua.»

    «A pagar quinze réis por cada arratel de _carne verde_,
    comprehendendo-se n'este direito o real d'agua, e os tres réis
    addicionaes.»

    Se a dictadura entendia que o imposto do real d'agua era legalmente
    extensivo ás carnes seccas, é evidente que quiz restringir a nova
    imposição ás carnes verdes.: se entendia que não o era, quiz tornar bem
    sensivel a intelligencia que dava á lei do real d'agua, excluindo
    positivamente as carnes seccas. Se estas ultimas se comprehendiam
    n'aquella designação limitativa, quaes eram as que excluia a lei?

    Trez mezes depois o Ministerio da Fazenda publicava as condições para a
    arrematação do real d'agua no antigo termo fiscal das Sete-Casas,
    comprehendendo o territorio dos dous novos concelhos, desannexado do
    municipio de Lisboa, e as freguezias dos outros concelhos limitrophes,
    que haviam pertencido ao termo fiscal das Sete-Casas. A quinta condição
    dizia assim:

    Que ao arrematante ficará pertencendo no territorio que constituia o
    termo fiscal da extincta alfandega das Sete-Casas, a percepção do
    imposto do real d'agua, assim em canada de vinho que se vender para
    consumo nas ditas terras, quer seja nas tabernas, quer fóra d'ellas,
    como em arratel de carne de gado vacum, suino, lanigero e cabrum, que no
    estado de verde, secca, ou por qualquer fórma preparada, fôr vendida nos
    açougues ou fóra d'elles; sendo o sobredito imposto, nas freguezias dos
    concelhos que faziam parte do referido termo, de um real por canada de
    vinho, e quatro réis em arratel de carne, conforme foi estabelecido pelo
    alvará de 23 de janeiro de 1643, lei de 21 de novembro de 1844, e mais
    legislação a similhante respeito; e nas freguezias que formam
    actualmente os concelhos de Belem e Olivaes, de dez réis em canada de
    vinho, e quinze réis em arratel de carne, como se acha determinado nos
    n.^os 1.^o e 2.^o do artigo 3.^o do decreto de 11 de setembro do
    presente anno.

    N'esta condição o Ministerio da Fazenda revelava a intelligencia que a
    dictadura déra á lei do imposto do real d'agua, isto é, a extensiva,
    mandando regular a percepção d'elle pela legislação anterior á
    dictadura, e ao mesmo tempo mandava que nos dous novos concelhos se
    observasse na percepção do imposto excepcional dos dez réis em canada de
    vinho e dos quinze réis em arratel de carne, o disposto nos n.^os 1.^o e
    2.^o acima citados do decreto com força de lei de 11 de setembro,
    expedido pelo mesmo Ministerio, e que o restringia ao vinho e ás carnes
    verdes. A condição discriminava as duas hypotheses e referia-se nos seus
    dous membros ás leis que regulavam uma e outra. Rigorosamente a condição
    estava dentro da estricta legalidade. Seria nulla se d'ella se
    departisse.

    Os arrematantes, depois de celebrado o contracto, não entendendo a
    condição, ou fingindo não a entender, exigiram direitos das carnes
    seccas. Resistiram-lhes os interessados. Recorreram elles ao Governo. A
    12 de janeiro de 1853 expedia-se pelo Ministerio da Fazenda a seguinte
    portaria:

    «Ministerio da Fazenda.–Direcção Geral das Alfandegas.–Sua Magestade a
    Rainha, attendendo ao que lhe representaram os arrematantes do imposto
    do real d'agua, nas carnes, e no vinho dos Concelhos de Belem e Olivaes,
    sobre a necessidade de se fazer constar aos moradores d'estes Concelhos,
    que lhes cumpre pagar a elles arrematantes não só aquelle imposto na
    razão de dez réis em canada de vinho, e quinze réis em arratel de carne
    verde, e secca, de todas as qualidades d'estes generos que foram
    encontrados em ser na occasião do varejo a que se procedeu, e das que de
    novo admittirem para consumo; mas tambem o imposto addicional para
    amortisação das notas do Banco de Lisboa: Ha por bem determinar que o
    Delegado do Thesouro, no districto de Lisboa, expeça as ordens
    convenientes aos escrivães de fazenda dos Concelhos de Belem, e Olivaes,
    para que elles façam constar por meio de Editaes affixados nos lugares
    publicos dos mesmos Concelhos, quaes as condições com que o referido
    imposto foi arrematado, e as penas a que está sujeito todo e qualquer
    individuo que se recusar ao pagamento d'elle, as quaes são as de que
    tractam os §§ 4.^o e 7.^o do Alvará de 23 de Janeiro de 1643, e mais
    leis posteriores a similhante respeito.»

    O Parlamento desculpará por certo alguma expressão mais dura que possa
    escapar aos signatarios da presente súpplica, ao fazerem a repugnante
    exegese d'este singular diploma. A maior demonstração de benevolencia
    que poderiam dar ao Ministro que o assignou seria acreditar que o fez
    sem ler o que assignava. Esta camara quer suppol-o assim. Na essencia a
    portaria de 12 de janeiro illude a questão. É uma d'essas composições,
    com pretensão á ambiguidade, indignas de um Ministro da Corôa. Despojada
    do seu preambulo, das longas e tortuosas phrases que se arrastam como a
    serpente, o que resta? Uma ordem para se publicarem por Editaes as
    condições da arrematação, e as penas em que incorre quem devendo pagar o
    imposto, recusar fazel-o. Mas o que pediam os arrematantes? Pediam, que
    entre outras cousas, se fizesse constar, não aos logistas, aos
    vendedores de retalho, mas _aos moradores_ dos dous concelhos, que
    deviam pagar quinze réis de cada arratel não de carne verde, mas de
    _carne verde, e secca_. Era este o ponto importante. Na sua modesta
    súpplica elles exigiam simplesmente que ao direito de consumo cobrado
    sobre a venda a retalho, fosse substituido um direito de entrada ou
    barreiras. Queriam tornar fecundos os seus registos de Belem. Pediam
    que, limitando o decreto de 11 de setembro o imposto da carne ás carnes
    verdes, o Governo o estendesse ás carnes seccas. Eram pretensões
    absurdas que o Ministro devia desattender porque tendiam a ultrapassar
    uma lei, e lei tributaria. Pediam-lhe que perpetrasse um crime. E em vez
    de repellir a injuria; em vez de recommendar aos seus subalternos
    severidade e vigilancia em cohibirem as violencias dos arrematantes e em
    manterem o direito dos cidadãos, que se defendiam da espoliação, o
    Ministro, invocando n'esta comedia vergonhosa o nome do Chefe do Estado,
    ordenava que se lhes recordasse a penalidade fulminada contra os que
    tentam subtrahir-se ao pagamento dos tributos legitimos. Por uma
    inversão de todas as idéas administrativas e até do senso commum, a
    advertencia severa fazia-se aos cidadãos ameaçados, que se defendiam com
    a lei: a attenção era para as pretensões da cobiça insolente que
    reclamava para chegar aos seus fins, o apoio illegal do poder!

    Que todo o homem honesto diga com a mão na consciencia, se ao ler a
    portaria de 12 de janeiro não conhece o intuito com que foi redigida; se
    não sente que se busca produzir um effeito de temor, para que os
    habitantes dos dous concelhos se hajam de submetter ás exacções dos
    arrematantes justas ou injustas, sem que todavia se possa em rigor
    accusar o Ministro de exorbitar? Quem não tivesse presentes os decretos
    de 11 de setembro; quem não conhecesse bem o mechanismo dos nossos
    impostos de consumo e os diversos regulamentos sobre a sua percepção e
    fiscalisação, vendo n'essa portaria que o Governo _attendia_ ás
    representações dos arrematantes, sobre a _necessidade_ de recommendar
    aos cidadãos o cumprimento de certos deveres, e que o mesmo Governo
    depois de enumerar sem distincção esses deveres, reaes e imaginarios,
    ameaçava os renitentes com o rigor das leis; quem, dizemos, se não
    persuadiria de que os arrematantes invocavam unicamente direitos
    legitimos, resultantes de um contracto, que a boa fé do Executivo era
    obrigada a manter?

    O povo, todavia, continuou no concelho de Belem a resistir ao vexame dos
    registos e guias, e d'estas resistencias chegaram a originar-se
    symptomas de graves conflictos. Por outra parte os vendedores de carnes
    seccas, bem aconselhados, deixaram os agentes publicos affixar os seus
    Editaes, as suas condições, as suas portarias, e recorreram ao Poder
    Judicial, de quem ainda hoje está pendente a decisão do negocio. D'esse
    Poder esperam elles justiça, se antes d'isso as Côrtes não approvarem a
    actual proposta do Ministro da Fazenda; porque sanccionada ella, nada
    mais resta aos cidadãos do que curvar a cabeça ante a soberania
    nacional.

    Aos factos precedentes veiu, passados mezes, associar-se outro que os
    completa, e que illustrando o anterior procedimento do Ministerio da
    Fazenda, acaba de habilitar a Camara dos Senhores Deputados para avaliar
    aquelle procedimento e talvez remontar ás suas causas. Interpellado na
    Camara dos Dignos Pares, na sessão de 13 de agosto de 1853, sobre os
    impostos e vexames dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o Ministro da
    Fazenda contradisse o direito e os factos, e fez revelações
    deploraveis.–Disse que a intenção do Governo, (queria dizer da
    dictadura) nos decretos de setembro fôra pôr os povos ao abrigo das
    vexações, sem o thesouro d'isso tirar partido, e que tambem o Governo (a
    dictadura) não quizera diminuir o quantitativo dos impostos nos dous
    concelhos, como o declarava no relatorio de um d'esses decretos. Tudo
    isto era inexacto. Os vexames não cessaram como se acaba de mostrar. O
    thesouro tirou partido da reforma, porque em lugar de 38 ou 40 contos
    que auferia do territorio dos dous concelhos, passou a tirar 55 contos
    como tambem se mostrou. Diminuiu-se o quantitativo dos impostos, embora
    os factos viessem depois provar que a diminuição era nominal. Emfim, a
    dictadura não declarou as intenções que o Ministro lhe attribuia n'essa
    memoravel sessão, citando aquelle relatorio, porque todas quantas
    considerações n'elle se fazem relativas a _deficit_, impossibilidade de
    reduzir impostos, etc., referem-se aos direitos fiscaes na cidade de
    Lisboa, e não aos dos dous concelhos, como facilmente verificará quem se
    der ao trabalho de o ler. E tanto assim, que depois d'essas
    considerações os Ministros da dictadura accrescentaram, que os concelhos
    de Belem e Olivaes «ficavam sujeitos ás imposições geraes do Reino, e
    apenas obrigados ao pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os
    deixava _em grandissima vantagem em relação ao seu estado anterior_, mas
    que era justo pagassem pelos beneficios e cómmodos que lhes resultam do
    contacto com a capital.»

    Se isto é deploravel, mais o foi ainda a defesa da portaria de 12 de
    janeiro. O Ministro que nessa conjunctura confessava que não soubera
    redigir o decreto de 11 de setembro, relativo ao assumpto, podia tambem
    declarar francamente que não soubera o que tinha feito expedindo-a. A
    Camara dos Dignos Pares seria por certo indulgente á vista d'esta
    confissão ingenua. O joven Ministro achou, porém, mais facil emprehender
    a apologia d'aquella monstruosidade administrativa. Para isso preferiu
    confessar que a portaria tinha por alvo fazer considerar como extensivo
    ás carnes seccas o novo imposto. O real d'agua era-o na opinião do
    Tribunal do Thesouro, do conselho da direcção dos impostos e d'elle
    Ministro, que hoje vem pedir ao Parlamento a interpretação d'essas leis
    sobre o real d'agua, ácerca das quaes nenhuma duvida tinha. Por um
    genero novo de hermeneutica tirou d'esse facto supposto uma conclusão
    singular. O decreto de 11 de setembro era lei promulgada por uma
    dictadura. Esta, assumindo, bem ou mal, o poder legislativo, podia
    modificar, alterar, revogar todas as leis do Reino, menos o alvará de
    1643 e a carta de lei de 1844, relativos ao real d'agua. A esse poder
    nem se quer era licito dar-lhes uma interpretação menos extensiva do que
    lhes dava o Ministerio da Fazenda e as repartições ou individuos d'elle
    dependentes. Aquelle alvará e as leis correlativas eram inviolaveis como
    o Chefe do Estado, embora se dissesse no decreto de 11 de setembro que
    os dous novos concelhos pagariam o imposto de quinze réis por arratel de
    _carne verde_. Supposta a inviolabilidade do alvará de 1643 e da
    interpretação ministerial, essa designação não podia significar o que
    significa. A expressão _carnes verdes_, dizia o Ministro, é alli
    similhante á disposição _em globo_ do alvará de 1643 e da lei de
    1844.–Na sua opinião _verde_ é o genero, _secco_ a especie. Até hoje os
    adjectivos indicavam as qualidades do sujeito, e importavam sempre uma
    limitação porque excluiam as qualidades contrarias, e repugnavam ao
    absoluto; mas desde agora podem incorporar aquellas e representar este.
    Se qualificarmos de branco um corpo qualquer, isso não obstará a que
    seja ao mesmo tempo preto. _Branco_ ficará qualificando o genero;
    _preto_ ficará qualificando a especie. É pelo menos esta a theoria do
    illustre Ministro da Fazenda. A grammatica geral e o diccionario da
    lingua foram abrogados por elle naquella memorada sessão.

    Apesar, porém, da nova theoria, o Ministro não evitou a responsabilidade
    dos seus actos. Quando se publicaram as condições da arrematação do
    imposto que nos dous concelhos de Belem e dos Olivaes substituiu o real
    d'agua, essa theoria era desconhecida no mundo visivel. Podia existir na
    intelligencia do Ministro e na jurisprudencia occulta dos seus tribunaes
    e conselhos fiscaes, mas de certo não na dos licitantes d'aquella
    arrematação. O dever, portanto, do Ministro era expôl-a a tempo, e tanto
    mais que existindo ainda a dictadura seria legal, embora absurda, a
    interpretação dada por ella ao n.^o 2 do artigo 3.^o do respectivo
    decreto. Valia a pena fazel-o n'uma questão de tributos. Declarando-se
    aos licitantes que a expressão _carnes verdes_ significava igualmente
    _carnes seccas_, é evidente que o preço da arrematação subiria alguns
    contos de réis. Adoptal-a por uma portaria quinze ou vinte dias depois
    da adjudicação, e interpretal-a e confirmal-a perante o Parlamento
    passados seis mezes, foi defraudar o thesouro, em proveito particular,
    da somma differencial a que teria subido o preço da arrematação.

    Mas se tudo isto apenas merece a compaixão ou o riso dos Senhores
    Deputados, ha no acto ministerial de 12 de janeiro uma circumstancia que
    se tornava de notavel gravidade, desde que o Ministro vinha declarar
    n'uma das casas do Parlamento que a ambiguidade evidente na forma d'esse
    acto, não existia na indole e na intenção d'elle e que, praticando-o, o
    Ministro da Fazenda adoptára como verdadeiras e legitimas as indicações
    dos arrematantes. Dizia-se na portaria que os _moradores_ dos dous
    concelhos deviam pagar o imposto do vinho e de todas as carnes verdes e
    seccas existentes, ou que de futuro se consumissem. Esta doutrina
    alterava forçosamente o systema da fiscalisação. Pelo Codigo
    Administrativo os impostos sobre o consumo affectam só os generos
    vendidos a retalho dentro de qualquer circumscripção fiscal. O vinho ou
    as carnes que os moradores conduzem de fóra d'essa circumscripção, para
    seu proprio consumo e não para revenderem, são livres. D'aqui a _fórma_
    de se verificar a cobrança e fiscalisação do imposto. É a esta _fórma_
    de arrecadação a que evidentemente allude o decreto de 11 de setembro. O
    vendedor a retalho manifesta o genero perante a auctoridade quando o
    intruduz e paga o imposto: os agentes fiscaes fiscalisam pelos varejos,
    comparando os resultados d'estes com os manifestos. Considerando como
    sujeitos ao pagamento do imposto todos os moradores da circumscripção, e
    onerado sem excepção o genero tributado consumido dentro d'ella, (que é
    o que succede em Lisboa) a fórma da cobrança e fiscalisação varia
    necessariamente. Surgem então as barreiras, as linhas de circumvallação
    e, á falta d'estas, os registos, as guias, os homens armados que vigiam
    a orla do redil fiscal, que espancam e assassinam os contrabandistas, ou
    que são por elles espancados e assassinados. Volta-se ao systema das
    portagens do seculo XIII. A portaria de 12 de janeiro, confundindo o
    tributo portuguez de consumo pela venda a retalho com o tributo francez
    de _octroi_, de barreiras, ou de consumo absoluto, legitimava as guias,
    os registos, os guardas armados que existiam por excepção no concelho de
    Belem, ao passo que indeferia a súpplica dos arrematantes para os
    estabelecerem. A auctoridade local, despresando esse indeferimento e
    mantendo o vexame, era mais logica do que o Ministerio da Fazenda, e
    este mais logico deixando sem solução até hoje a representação dos
    moradores do concelho, do que indeferindo a pretensão dos arrematantes.

    De tudo quanto se passou na sessão de 13 de agosto da Camara dos Dignos
    Pares, a proposito da interpellação do Sr. Conde de Peniche, nada
    porventura é mais singular do que a audacia com que o Ministro
    exclamava: «_Hoje não ha a guia_ (nos dous concelhos): _transita-se por
    toda a parte sem o incómmodo d'esses exames geraes a que procediam os
    guardas das Sete-Casas: não ha registo, etc._» E no mesmo dia, e á mesma
    hora, talvez, em que elle orava no Parlamento, os guardas dos
    arrematantes estavam postados a espaços nas estradas do concelho de
    Belem, e os moradores que conduziam generos para seu consumo eram
    arrastados aos registos, onde se lhes exigiam os impostos, que pagavam
    ou deixavam de pagar conforme conheciam melhor ou peior o seu direito, e
    tinham mais ou menos valor para o sustentar. No dia, e talvez na hora,
    em que o Ministro falava, davam-se guias selladas e pagas n'esses
    registos, que não só existiam então, mas tambem existem hoje, embora com
    um caracter menos vexatorio, porque esta camara saberia defender os seus
    administrados se actualmente se dessem violencias, recorrendo, não ao
    Ministerio da Fazenda, mas sim ao chefe da policia para que mantivesse a
    segurança das vias publicas, e aos tribunaes para que punissem os
    culpados.

    A camara de Belem, depois da exposição de todos estes factos, tão
    incriveis como verdadeiros, transcreve um periodo da resposta dada pelo
    Ministro da Fazenda á interpellação do Digno Par Conde de Peniche. São
    as suas palavras textuaes:

    «Se o Governo substituisse os vexames dos arrematantes pelos da Fazenda
    teria feito talvez peior; porque os impostos arrematados são sempre
    cobrados com maior rigor fiscal; mas o Governo não tem admittido o
    registo pelos arrematantes; não está estabelecido o systema de guias
    como antes estava…»

    Confessa, portanto, o Ministro que em relação aos vexames, o systema que
    chama de Fazenda, e pelo qual esta camara suppõe que elle entende o das
    Sete-Casas ou de barreiras com registos, guias, etc., a situação dos
    novos concelhos, dada a hypothese da arrematação dos impostos, seria
    mais dura de soffrer do que antes, pela maior severidade da fiscalisação
    feita em proveito particular. Ora o systema que tem regido o Concelho de
    Belem é o dos registos e guias. Logo a situação dos habitantes d'este
    concelho tem sido, conforme a opinião dos Ministros, mais vexatoria do
    que sob o regimen das Sete-Casas.

    Fica, portanto, claro, á vista dos factos ponderados n'esta súpplica e
    na representação annexa dirigida ao Governo, que o concelho de Belem,
    espoliado dos bens que lhe deviam pertencer, sobrecarregado de onus
    tributarios, nominalmente menores, mas na realidade maiores do que os da
    epocha em que formava parte do de Lisboa, soffrendo em relação aos
    impostos geraes as consequencias da acquisição da sua individualidade
    municipal, continuando a experimentar por um abuso intoleravel da
    auctoridade os vexames das anteriores fórmas fiscaes, vilipendiado na
    sua magistratura municipal pelo desdenhoso silencio com que foi
    despresada a modesta e respeitosa representação dirigida ao Governo pela
    camara do mesmo concelho, não podia deixar de vir buscar protecção e
    justiça no seio do Parlamento. É o que em nome d'elle esta camara faz.
    Fal-o porque é o seu restricto dever; fal-o porque de outro modo
    trahiria a confiança dos que a elegeram. Pede a reforma dos decretos de
    11 de setembro; pede que as provisões d'esses decretos se affiram pelos
    principios eternos da moral e da justiça; que o concelho de Belem seja
    libertado de tributos excepcionaes e que tambem seja privado de
    quaesquer vantagens excepcionaes, cuja manutenção esteja a cargo da
    Fazenda Publica ou do municipio de Lisboa, uma vez que não se prefira
    haver uma compensação recebida do cofre d'esta camara; que se lhe retire
    consequentemente a subvenção deduzida das prestações dadas pelo Governo
    á camara de Lisboa; que se lhe restituam as propriedades, terrenos e
    edificios municipaes contidos no perimetro do concelho, e que fique este
    sujeito unicamente ao imposto do real d'agua como os outros concelhos do
    Reino, cobrado e fiscalisado do mesmo modo; pede em summa, em quanto
    esse admiravel invento dos economistas de D. João IV continuar a
    devastar o paiz, que aos habitantes d'este territorio seja applicado o
    direito commum, e concedido igual quinhão nos deveres e encargos que
    oneram os outros cidadãos, igualdade garantida a todos pela lei politica
    da monarchia.

    Esta camara, precisando de applicar ás despezas ordinarias do municipio
    uma somma excedente a dezeseis contos de réis, tem de rendimento actual,
    incluindo a subvenção do Governo estabelecida nas leis de setembro,
    menos de nove contos de réis. Onerados já com o imposto excepcional, a
    carne e o vinho, não poderiam ser tributados municipalmente senão n'uma
    proporção tenuissíma. No meio dos embaraços em que labora a agricultura
    do concelho, embaraços que se acham expostos na representação dirigida
    ao Governo, seria absolutamente impossivel sobrecarregar com imposições
    os cereaes, o principal, o quasi unico alimento das classes mais
    infelizes, e a unica producção importante d'este territorio. Os impostos
    indirectos sobre outras subsistencias dariam apenas sommas
    insignificantes. Resta a contribuição directa. Esta pelas nossas
    instituições administrativas não póde exceder a dez por cento da decima
    do concelho, e hoje da respectiva quota de repartição, a qual se eleva
    proximamente a 16 contos de réis, e cujo decimo, portanto, equivale
    apenas a 1:600$000 réis. Assim, ainda lançando todas as contribuições
    possiveis, directas e indirectas, esta camara difficilmente chegaria a
    igualar a sua receita com as suas inevitaveis despezas. Mas para obstar
    á decadencia da riqueza na circumscripção municipal de Belem, decadencia
    evidente a todos os olhos e que o proprio Governo reconheceu, além
    d'essas despezas ordinarias a municipalidade tem de recorrer á
    reconstrucção de estradas geraes e caminhos travessos, pela maior parte
    intransitaveis, para o que se precisam sommas avultadissimas,
    despendidas com a mais severa economia, porque a linha das estradas e
    caminhos de todo o municipio equivale á extensão de muitas leguas. Urge
    tambem a construcção de matadouros, porque a população inteira clama
    contra os abusos no fornecimento das carnes verdes, abusos que não só
    lhe affectam as bolsas, mas tambem a saude e a existencia, e para obstar
    aos quaes o unico meio é o estabelecimento de matadouros publicos, onde
    o genero se fiscalise, porque um dos resultados do imposto do real
    d'agua quer simples quer quintuplicado, como nos dous novos concelhos, é
    impossibilitar a concorrencia e converter o fornecimento das carnes
    verdes em monopolio dos arrematantes do imposto. Ás despezas porém, do
    meneio ordinario do regimen municipal, e ás extraordinarias que são
    inevitaveis para acudir á decadencia do concelho, e ás primeiras
    exigencias da hygiene publica, ajunta-se a necessidade de occorrer á
    creação do material indispensavel da administração de um concelho novo,
    constituido no termo de outro concelho, para o qual passou a maior parte
    do material empregado no serviço do territorio desannexado. Em
    similhante situação, a camara actual ignora a que meios hade recorrer
    para manter a administração do municipio, se continuar a pesar sobre
    elle o imposto excepcional.

    N'estes termos, a camara espera do Parlamento uma resolução favoravel
    sobre o presente assumpto.

    E.R.M.

    Ajuda 28 de abril de 1854. O presidente, Alexandre Herculano. Vogaes,
    João Ferreira Godinho–José Street d'Arriaga e Cunha–Joaquim Ferreira
    Pinto Basto–João José Teixeira Leal–Mathias Antonio Vieira.

    PROJECTO DE CAIXA DE SOCCORROS AGRICOLAS

    1855

    Senhor.

    A camara municipal de Belem, resolvida a occorrer a uma das maiores
    necessidades do concelho, a crear uma instituição do mais subido
    interesse e cuja utilidade já hoje ninguem se atreve a pôr em duvida,
    embora as opiniões variem sobre o modo de a realisar, offerece á
    approvação do Governo de Vossa Magestade, pedindo o uso da iniciativa do
    mesmo Governo perante o Parlamento a favor d'elle, o projecto de lei
    junto, relativo á fundação de uma Caixa de Soccorros Agricolas, especie
    de banco rural, accommodado ás necessidades d'este concelho, ao nosso
    estado economico e juridico, aos nossos usos agricolas, e até ás idéas e
    talvez ás preoccupações dos cultivadores, idéas e preoccupacões que, não
    havendo inconveniente, se devem respeitar, porque é esse o meio de fazer
    acceitar instituições novas, de cuja importancia só a experiencia de
    seus salutares effeitos póde persuadir os menos illustrados. Vossa
    Magestade permittirá que esta camara exponha, com a brevidade que taes
    materias comportam, os fundamentos que abonam a idéa geral do projecto e
    as suas varias disposições.

    Por toda a Europa se tem reconhecido a necessidade de salvar da usura a
    industria agricola, de facilitar a esta capitaes, cujo modico juro seja
    accommodado aos modestos lucros do cultivador. Em Portugal, onde tantas
    vezes e por tantas maneiras tem reinado uma agiotagem desenfreada, nem a
    industria fabril, nem o commercio, nem a fazenda publica teem padecido
    talvez por este lado metade dos males que a agricultura padece. Nas
    provincias do sul, sobretudo, os campos são devorados por uma praga de
    usurarios, que conservam o lavrador n'uma barbara servidão, e que
    defecando-lhe de continuo os recursos, não só lhe obstam a toda e
    qualquer tentativa de aperfeiçoamento rural, mas tambem o vão
    gradualmente conduzindo á miseria. Clama-se contra o atrazo dos
    cultivadores portuguezes, contra a imperfeição dos methodos, e esses
    clamores são em grande parte pouco assisados. Sem pretendermos que a
    nossa agricultura seja modelo, é certo que muitos dos defeitos que se
    lhe notam, não são senão necessidades resultantes do clima, do solo, do
    estado da viação, das condições dos mercados, do modo de ser da
    propriedade, e de mil outras circumstancias economicas e juridicas, que
    os agronomos especulativos desconhecem, ou que não apreciam. Se
    attendermos á elevação quasi constante dos salarios ruraes desde 1834
    para cá, á depreciação progressiva dos generos, e sobretudo á carestia
    sempre crescente dos capitaes, o accrescimo constante da massa dos
    nossos productos agricolas, abona a crença de que o systema de
    agricultar não é tão imperfeito como folgam de pintal-o os admiradores
    exclusivos das prácticas estrangeiras. Os grandes embaraços para o mais
    rapido desenvolvimento da agricultura consistem sobretudo na falta de
    capitaes, nas leis que por differentes modos se oppõem á divisão da
    terra e á translação do dominio, á falta de vias de transito e de
    policia rural, a circumstancias, em summa, que nada teem que vêr com
    esta ou com aquella fórma de instrumentos agricolas, com este ou com
    aquelle systema de afolhamentos, com a introducção d'esta ou d'aquella
    cultura nova, ou que, se teem alguma influencia n'essas cousas, é em dar
    razão ás vezes ao agricultor para não as adoptar, embora sejam boas
    absolutamente consideradas.

    A camara de Belem, tractando de remover o maior dos obstaculos ao
    desenvolvimento da agricultura n'este concelho, a carestia dos capitaes,
    deve fazer sentir a maneira como a usura procede na obra infernal de
    arruinar os cultivadores. O quadro que ella vae traçar é triste, mas
    verdadeiro, e oxalá não representasse ao mesmo tempo o que se passa na
    maioria dos outros concelhos, ao menos no sul do reino.

    Em geral a usura exercida sobre a agricultura é de duas especies. A 1.^a
    tem os caracteres genericos d'esta immoralidade: o mutuante, segundo a
    necessidade do agricultor, empresta sobre as hypothecas ordinarias com
    os juros mais exorbitantes que póde, suppostas taes ou taes
    circurmstancias no mutuario: é um agiota insolente, vulgar, ávido como
    qualquer outro. A 2.^a especie tem caracteres á parte: é a usura
    hypocrita, muito mais commum no campo do que a primeira. O usurario
    d'esta especie segue diverso rumo. É homem chão, modesto, exacto no
    cumprimento dos seus deveres civis, laborioso, valedor: é quasi um bom
    homem. Ignora as partidas dobradas e repugnam-lhe por via de regra, não
    só os juros exorbitantes mas até o juro legal. Quando empresta o seu
    dinheiro ao agricultor é por dó d'elle; é para lhe acudir n'um apuro. O
    que quer é assegurar o reembolso da somma mutuada. Tendo horror ás
    demandas, se o lavrador é proprietario não lhe acceita o predio como
    hypotheca, porque conhece a imperfeição das nossas leis hypothecarias:
    se o não é, nem por isso quer abandonal-o. N'esta situação que faz?
    Empresta sem juro; mas exige um contracto que lhe dê a certeza do
    reembolso. O cultivador ha de pagar-lhe em genero na eira. E como ha de
    ser o pagamento? Os cereaes regular-se-hão pelo preço mais inferior do
    genero n'essa conjunctura. É uma precaução. Para os riscos das baixas
    possiveis que depois sobrevenham de uma venda anterior, de uma divida
    desconhecida, de uma colheita insignificante, etc., o mutuario promette
    o abatimento de um, de dous, de tres vintens ou mais em alqueire. É
    outra precaução. O usurario é compassivo, é benevolo para com a sua
    victima, mas precisa de ser prudente. O contracto fica secreto ou como
    secreto; não se escreve porque o mutuante conta com a probidade do
    mutuario, ou para melhor dizer, com o temor que este terá de achar em
    novos apuros condições mais onerosas, e esses apuros são quasi
    inevitaveis desde que o cultivador caíu uma vez nas suas mãos. Taes são
    as fórmas mais communs da agiotagem rural n'este e n'outros concelhos.
    As circumstancias especiaes modificam-nas, mas em geral as transacções
    d'este genero caracterisam-se assim.

    O segredo que se guarda ácerca d'estas transacções obscuras e hediondas,
    a que se póde chamar a crapula da agiotagem, predomina tambem
    forçosamente no facto geral que resume esses mil factos de usura. A
    cargo da irregularidade das estações e dos mercados, da falta de vias de
    transito, do peso dos impostos, etc., ficam todos os males do lavrador.
    Murmura-se vagamente e em voz baixa; mas nas queixas publicas o usurario
    passa illéso. Como buscando o verme que destroe a arvore antiga, é
    preciso que o ouvido do observador seja bem agudo e o silencio á roda
    d'elle bem profundo, para sentir a usura roendo no amago da industria
    agricola. Se o Governo ou o Parlamento instituissem um inquerito solemne
    a este respeito, o mais provavel é que fosse nullo o seu resultado. O
    agricultor calar-se-hia porque não crê na auctoridade; não espera d'ella
    remedio. Martyr, olharia para o algoz e vêr-lhe-hia nas mãos os
    instrumentos dos tractos, ao passo que no poder publico só creria
    descortinar a indifferença, a fraqueza, a impotencia. Curvar-se-hia por
    isso e respeitaria o mais forte. Evitaria assim que no seguinte anno a
    sua imprudencia fosse castigada com mais uma volta na corda do potro;
    com mais um ou dous vintens de abatimento no preço por que devera vender
    cada alqueire de trigo.

    Para se avaliar bem toda a extensão do mal, é necessario, Senhor,
    attender a alguns factos. Ordinariamente o lavrador executa com um
    capital seu os primeiros trabalhos annuaes. Na prosecução d'esses
    trabalhos é que é vulgar virem a faltar-lhe os recursos, e é então que
    elle compromette o futuro. As mondas, as sachas, as cavas, as ceifas, as
    vindimas, acham-no muitas vezes desprovido. Ora entre estes ultimos
    trabalhos e o recolhimento dos fructos medeiam apenas de cinco a dous
    mezes e ainda prazos mais curtos. Por outro lado, como é vulgarmente
    sabido, a epocha em que os productos da agricultura teem menor valor é
    na occasião da colheita. Ajunte-se a isto a reducção de um tanto no
    preço de cada alqueire de cereaes ou de cada almude de vinho, e
    imagine-se qual será a exorbitancia do lucro do mutuante. Supponhamos (e
    esta supposição não vae por certo longe do que commummente succede) que
    o preço medio annual dos trigos temporãos, principal producção d'este
    concelho, corresponde a 500 reis, e que na epocha das eiras o cereal
    vale a 460 reis. Fazendo o abatimento de 20 reis em alqueire, o lavrador
    paga com cada um d'estes apenas 440 reis de uma divida que, suppondo-se
    contrahida por uma media de tres mezes, vem a soffrer um juro de 12 por
    cento em trimestre, ou 48 por cento ao anno.

    Esta camara, Senhor, não foi buscar exemplos aos casos mais
    escandalosos, que annualmente occorrem. Quando o credito do lavrador
    está abalado, muitas vezes por causa das mesmas usuras de que foi
    victima, quando a sua reputação de probidade não é inconcussa, quando os
    seus habitos de economia são pouco severos, quando as incertezas das
    estações o empobreceram, as usuras redobram de violencia. Mas, ou
    maiores ou menores, as difficuldades da sua situação augmentam de anno
    para anno, e o resultado mais ou menos remoto d'essa situação é a ruina
    e a miseria. O cancro da usura devorou-lhe interiormente a vida
    economica lento, lento e sem ruido; e esta lentidão e este silencio são
    uma das caracteristicas da agiotagem rural que a tornam mais difficil de
    extirpar. O que enleva, o que arrasta sobretudo o lavrador, é o mysterio
    d'essas transacções leoninas que não se escrevem, que não se vão contar
    na praça, porque o usurario é discreto e sabe tirar partido d'essa
    preoccupação dos agricultores.

    Foi attendendo a estes factos e ás circumstancias d'elles, que se
    concebeu o projecto de uma instituição que, supprindo com vantagem os
    bancos ruraes como existem nos outros paizes e que parecem, ao menos por
    emquanto, inapplicaveis ao nosso, trouxesse um alivio seguro á
    agricultura d'este concelho, mais compromettida e ameaçada de ruina do
    que se cuida. O pensamento do projecto foi aproveitar a experiencia,
    digamos assim, da industria da usura para a combater, organisando a
    Caixa de Soccorros de modo que á facilidade das transacções se ajuntasse
    a modicidade do juro, e o respeito por certos habitos e preoccupações
    que o progresso da illustração ha de destruir, mas que desattendidos
    emquanto são vigorosos, impedem sempre a realisação das melhores cousas.

    Affirmou, Senhor, esta camara que a Caixa de Soccorros, instituição
    simples e exequivel, substituirá com vantagem os bancos ruraes, que esta
    camara reputa inapplicaveis ao paiz. Efectivamente varias objecções
    gravissimas se pódem oppôr á tentativa de crear entre nós o chamado
    credito rural por via de bancos. Que são os bancos territoriaes ou
    hypothecarios? Uma instituição de garantia, intermedia entre o mutuante
    e o mutuario, ou mais exactamente entre o capital e a propriedade, e que
    attrahe aquelle pela segurança, esta pela barateza do dinheiro que a
    segurança do emprestimo produz. Na expressão da indole de taes bancos se
    manifesta desde logo o imperfeito da instituição, ainda absolutamente
    considerada. Não é só, diremos mais, não é tanto a propriedade rural
    como a industria rural que precisa de ser por toda a parte soccorrida
    por capitaes baratos. A terra é um capital como o dinheiro, porque não
    passa de um instrumento de producção: o productor é o que a cultiva. É
    para este, para quem representa o trabalho que sobretudo taes bancos
    deveram ser instituidos. Proprietario ou rendeiro, que importa a qual
    das duas cathegorias pertence o cultivador, o industrial agricola? Um
    carecerá só de ser mutuario do capital dinheiro; outro carecerá do
    capital dinheiro e do capital terra. Qual d'elles precisa de maior
    protecção? Evidentemente o segundo. Os bancos ruraes não satisfazem a
    esta necessidade. Aproveitam aos primeiros, porém não aos segundos, ao
    menos directamente. E todavia, não dizemos em Portugal, mas em quasi
    todos os paizes, o maximo numero dos cultivadores são os rendeiros. Na
    Polonia, na Allemanha, na Russia, na Dinamarca, na Belgica, as
    instituições de credito agricola não vão além da propriedade
    territorial. Nem outra cousa podia ser porque ellas suppõem geralmente a
    existencia do fundo, os bens de raiz, como hypotheca para o reembolso.
    D'esse facto deriva outra objecção grave contra os bancos ruraes. Os
    paizes do norte, onde a instituição nasceu, teem luctado com os mil
    tropeços, que traz á sua consolidação o regimen hypothecario, e a França
    debate-se para a crear com as difficuldades d'esse mesmo regimen, mais
    imperfeito ainda que n'aquelles paizes. Entre nós o systema de
    hypothecas póde considerar-se na infancia, e elle seria um obstaculo
    insuperavel ao estabelecimento dos bancos de credito territorial.

    Dir-se-ha que as nossas leis hypothecarias serão reformadas como acto
    preliminar á creação dos bancos? As nações mais adiantadas teem
    consumido annos e annos em estudos e tentativas para reformar essas
    leis, que prendem directa ou indirectamente com todo o direito civil, e
    ainda não o teem completamente alcançado. É permittido por isso duvidar
    de que tal facto se verifique entre nós, que ainda não temos um Codigo
    Civil e onde a legislação é um chaos. Faz, na verdade, sorrir a
    facilidade com que se imagina prover em Portugal, ao complemento e
    organisação d'esse esboço que ahi temos de um systema hypothecario.

    As instituições destinadas a servirem de intermedio entre os
    capitalistas e os proprietarios, ou dependem de associações poderosas e
    respeitaveis, ou da garantia publica. Mas quer sejam de um, quer de
    outro genero, é necessario que o seu credito se repute inabalavel. Sem
    isso debalde se buscaria obter capitaes baratos para agricultura. Mas
    quaes serão as associações poderosas e respeitaveis que possam ou
    queiram organisar entre nós os bancos territoriaes? Por outra parte a
    historia da fazenda publica e dos grandes estabelecimentos de credito
    n'este paiz, não abonaria demasiado a confiança dos mutuantes na
    garantia publica. Todos os diversos bancos ruraes actualmente existentes
    na Europa presuppõem a emissão de notas, de letras, de inscripções, de
    titulos de credito, em summa, para funccionarem. Mas quem prudentemente
    poderia esperar hoje em Portugal a acceitação de taes titulos? Mr.
    Thiers dizia em 1848 perante a assembléa nacional, n'um paiz onde o
    credito publico mal se poderia comparar com o nosso: «Basta que um papel
    se introduza n'um paiz como nota de banco para se me tornar suspeito».
    Nós os portuguezes não suspeitamos: descremos. E esta descrença matará
    todas as tentativas; porque o credito nem se improvisa, nem se decreta.

    Ás precedentes objecções vem associar-se outra, talvez não menos
    peremptoria. Os capitaes em Portugal teem um valor subido. São communs
    os emprestimos, feitos com toda a segurança compativel com o desordenado
    e incompleto das nossas leis civis, a 7, a 8 e a mais por cento. Ainda
    suppondo possivel a existencia de bancos ruraes que offerecessem solidas
    garantias, e que a situação actual da agricultura portugueza admittisse
    a exigencia de um juro de 5 ou 6 por cento, como attrahir os capitaes
    para os bancos? Como resolver o capitalista a contentar-se com um juro
    de 4 ou 5 por cento, visto ser necessario reservar pelo menos 1 por
    cento para as despezas da gerencia dos bancos, quando elle póde obter
    para o seu dinheiro um preço mais subido?

    Restaria só um meio, a emissão de notas que não representassem valores
    positivos; restariam as chimeras da mobilisação do solo e da
    multiplicação dos capitaes, ou por outra a moeda papel, que os utopistas
    crêem ter descoberto porque inventaram algumas phrases ou palavras
    novas, para exprimir erros velhos. Esta camara julga inutil combater
    similhantes preoccupações, porque o Governo de Vossa Magestade e o
    Parlamento estão acima de taes desvios. Se fosse possivel não o estarem,
    a opinião publica faria prompta e inexoravel justiça a esses papeis de
    credito, desacreditados ainda antes de emittidos.

    Esta camara, Senhor, não pretende com o que leva dito negar os
    beneficios produzidos pelos bancos ruraes nos diversos paizes da Europa,
    nem que o progresso das luzes economicas os venha a tornar mais amplos
    nos seus effeitos, nem finalmente que possa chegar um dia em que a sua
    fundação seja não só possivel, mas tambem conveniente ao nosso paiz.
    Quiz só mostar a convicção profunda que tem de que, por agora, para
    fazer alguma cousa verdadeiramente util á agricultura, considerada nas
    suas relações com o capital, cumpre tomar por base outro pensamento, e
    desenvolvel-o em harmonia com o nosso estado economico e civil, e além
    d'isso com as idéas, habitos e até preoccupações innocentes dos
    agricultores.

    Na creação da Caixa de Soccorros, que submette á approvação, e para que
    pede a iniciativa do Governo, esta camara tomou para ponto de partida o
    tributo municipal, em vez da esperança de obter capitaes alheios para
    gerir. A razão é simples: não os obteria senão por um preço que o estado
    da agricultura do concelho não comporta. Considerações mais largas a
    este proposito talvez aqui tivessem cabida, mas ella contenta-se com o
    que já ponderou, e que no caso especial é decisivo. Conhecendo pelos
    exames a que procedeu sobre a materia, que o grande mal consiste nas
    usuras a que o lavrador tem de sujeitar-se para obter os meios de
    executar os amanhos annuaes, foi sobretudo este mal que procurou
    combater. Se a usura espreita as necessidades instantes, que
    regularmente vêm assaltar o cultivador no grangeio annual, é ahi que
    deve ser repellida. A Caixa de Soccorros emprestará annualmente e só
    annualmente. D'este principio resultam a possibilidade e a proficuidade
    da instituição. Resulta: 1.^o que sendo a hypotheca do emprestimo os
    fructos em vez do predio, as questões hypothecarias desapparecem com um
    pequeno favor da lei, e sem offensa grave do direito de terceiro: 2.^o
    que limitando-se a quantia mutuada ao equivalente da renda liquida do
    cultivador, reduzida ainda a tres quartos para obviar aos inconvenientes
    das alterações inevitaveis n'essa renda, a Caixa, obrigada a
    subministrar apenas sommas comparativamente modicas, poderá multiplicar
    os emprestimos e, recolhido integralmente o capital todos os annos,
    salvo nos de escacez completa, estará sempre habilitada com recursos
    para renovar opportunamente o beneficio: 3.^o que limitando-se a
    emprestimos annuaes a mesma Caixa, evitará um dos grandes escolhos dos
    bancos hypothecarios, a absorpcão de capitaes avultados por um periodo
    indeterminado ou demasiado longo; isto é, evitará a causa mais ordinaria
    da ruina dos bancos hypothecarios: 4.^o que por esta mesma razão deixará
    de cair na justificada censura, que mais de uma vez se tem feito aos
    bancos territoriaes, de favorecerem a paixão excessiva pela propriedade,
    paixão vulgar no homem do campo, e a que se póde chamar _o vicio da
    terra_. Este vicio produz, mais frequentemente do que se cuida, a ruina
    do cultivador. Ha uma observação feita já por toda a Europa, e que é
    facil de fazer em Portugal. O lavrador que póde obter um capital por
    tempo indeterminado ou assás longo, não procura em regra dar maior
    intensidade ou aperfeiçoamento, á cultura do predio que cultiva: tracta
    de dilatar o grangeio. Ás difficuldades com que luctava accrescenta
    maiores, endivida-se cada vez mais; cada vez faz maiores sacrificios até
    que completamente se arruina. É esta a historia de muitos. O
    proprietario rural não deve estender a sua propriedade senão com
    economias realisadas: o rendeiro não deve converter-se em proprietario
    senão pelos mesmos meios. Tudo o mais é imprudente e arriscado, e tanto
    mais arriscado quanto é certo que o _vicio da terra_ cria facilmente na
    imaginação do cultivador esperanças de lucros, que se não verificam. Os
    bancos ruraes teem no meio de muitas vantagens este inconveniente. A
    amortisação pelas annuidades, systema facil para o mutuario remir a
    divida insensivelmente, não remedeia o mal senão causando outro. A
    annuidade não significa para o cultivador senão um augmento de juro, que
    excedendo as forças productivas da terra, o arruina tambem. No fim de um
    certo numero de annos não deverá o capital extincto pelas annuidades,
    mas deverá outro que tomará emprestado, quando a somma da annuidade com
    o juro annual exceder o producto liquido da sua industria.

    Nas disposições organicas da Caixa de Soccorros Agricolas, esta camara
    inseriu algumas provisões tendentes a remover uma apprehensão grave.
    Esta apprehensão, a que já anteriormente se alludiu, funda-se n'um facto
    de ordem moral: o cultivador portuguez envergonha-se de tomar dinheiro a
    juro: entende que ha o que quer que seja menos regular n'esse acto tão
    innocente como legitimo. Prefere tudo á publicidade do que elle chama a
    sua miseria, e que ás vezes o é. Não raro o usurario explora este
    sentimento de orgulho, porventura nobre na sua origem. Custa menos ao
    agricultor pedir áquelle a quem já pediu uma vez, e que não assoalha o
    facto, porque o defeito da usura não é ser vangloriosa. O usurario
    contenta-se com reter em servidão perpétua o cultivador que uma vez lhe
    caiu nas mãos. Aos olhos de muitos essa circumstancia pareceria de bem
    pouco momento: a esta camara pareceu que, practicamente, era uma das
    maiores difficuldades a vencer, e por isso insiste n'ella. Um facto,
    hoje esquecido, prova a sua importancia. Em 1845 o Governo decretando um
    emprestimo aos lavradores do Ribatejo, convidou a Companhia das Lezirias
    a fazel-o. Acceitou a Companhia o encargo com condições que presuppunham
    a publicidade como garantia. Pedia-se um juro modico em relação ás
    usuras de que ordinariamente é victima áquelle districto agricola.
    Nenhum mutuario todavia appareceu. Era o emprestimo um acto publico, e
    até certo ponto ruidoso, no qual cumpria que cada um se confessasse
    necessitado. Preferiram a usura, e uma circumstancia apparentemente
    insignificante bastou para inutilisar as intenções bemfazejas do Governo
    e da Companhia. Importava, portanto obstar a que igual successo se
    renovasse no caso presente. Imaginou-se o meio de conciliar a segurança
    da Caixa com as prevenções dos cultivadores, e esta camara crê têl-o
    achado nas disposições dos artigos 5.^o, 11.^o e 12.^o O registo dos
    emprestimos, se não dá a certeza de um segredo absoluto, offerece pelo
    menos tantas garantias de pouca publicidade como a discrição dos
    usurarios. Para o mutuario honesto ha a segurança de que, paga a divida,
    não ficarão d'ella vestigios escriptos, e de que emquanto subsistiu, o
    conhecimento da sua existencia não passou de poucos individuos. Na
    occasião da venda dos productos agricolas, raras vezes terá de se
    verificar o disposto no artigo 14.^o Ninguem duvida em geral de entregar
    ao lavrador uma parte do preço do genero vendido antes de completar a
    tróca.

    Com os simples meios de operar as transacções tanto dos emprestimos como
    da restituição adoptadas por esta camara, o cultivador evita esses
    tramites complicados a que ficaria sujeito n'outra qualquer instituição
    de credito. Os cultivadores, em troco do direito que adquirem a obter um
    capital barato quando lhes convier, não tomam senão o encargo de mandar
    buscar á Caixa de Soccorros uma certidão de corrente, se d'ella
    precisarem antes do dia 30 de agosto, para sem obstaculo negociarem os
    seus generos, e os compradores de productos agricolas nunca poderão
    allegar ignorancia, visto ser prohibido aos cultivadores do concelho
    operarem qualquer transacção sobre fructos, sem mostrarem o estado das
    suas relações com a Caixa.

    A vantagem dos cultivadores, sobretudo dos de cereaes, que são a
    grandissima maioria dos do concelho, não é só a de obterem capitaes a
    1/4 por cento ao mez, ou a 3 por cento ao anno, em logar dos juros
    exorbitantes de 30, 40 ou 50 por cento; é tambem a de poderem vender em
    conjunctura mais propicia do que a da colheita, visto que a restituição
    só tem de estar verificada no fim de janeiro: e se, por causa da
    facilidade de se harmonisarem os emprestimos com os reembolsos, os
    primeiros ficam circumscriptos ao periodo de fevereiro a julho, é esta a
    epocha em que realmente o cultivador precisa d'elles, porque é sabido
    que todo aquelle que não póde executar os primeiros trabalhos do anno
    agricola com os proprios recursos, não está habilitado para ser
    agricultor. Quando porém tal situação se désse, teria o lavrador a
    liberdade de vender na eira, restituindo o emprestimo á Caixa, fazendo
    os primeiros trabalhos com o resto, e vindo buscar em fevereiro novo
    emprestimo.

    Explicado o pensamento da camara no essencial, seria offender a
    intelligencia do Governo e do Parlamento, dar tambem a razão de cada uma
    das provisões do projecto. Em geral, ha n'elle a manifestação de
    desconfiança da boa vontade com que será mantida de futuro a nova
    instituição. Esta desconfiança existe de feito no espirito da actual
    camara. A fundação da Caixa de Soccorros Agricolas fere interesses
    poderosos. Esses interesses cuja legitimidade é mais que disputavel,
    hão-de combatêl-a antes e depois de creada, e o combate será tanto mais
    perigoso, quanto é certo que a usura tem de caminhar nas trevas, usando
    de meios indirectos. Eram necessarias prevenções contra o perigo, e a
    camara crê têl-as tomado. Quando, o que não é de esperar, viesse uma
    vereação hostil á existencia da instituição, as provisões do projecto
    são taes, que os vereadores comprometteriam seriamente a propria
    fortuna, faltando n'esta parte ao seu dever. Além d'isso, o
    administrador da Caixa, cuja subsistencia dependerá da permanencia da
    instituição, defendido de uma demissão injusta da parte da camara pelas
    disposições da lei, será um obstaculo permanente aos abusos que poderiam
    trazer a ruina da mesma Caixa.

    Resta ainda, Senhor, a esta camara dar algumas explicações sobre o meio
    adoptado para a formação do fundo, e sobre a quantia que se fixou para o
    constituir.

    Das considerações até aqui feitas deriva a creação do fundo por meio de
    um imposto. O capital assim accumulado, sendo propriedade do concelho,
    pôde mutuar-se por um juro insignificante sem detrimento de ninguem.
    Levantando-se um capital por emprestimo e applicando-se o imposto á
    amortisação d'elle, as operações da Caixa poderiam na verdade satisfazer
    desde logo a toda a procura de pequenos capitaes; mas é evidente que o
    imposto oneraria o concelho por mais annos, e o juro exigido dos
    mutuarios não poderia ser inferior a seis ou sete por cento, para
    occorrer ao pagamento do juro de 5 por cento (suppondo que se obtivesse
    dinheiro por preço tal) e ás despezas do estabelecimento. A camara,
    porém, está convencida de que a cultura do concelho, sobretudo a de
    cereaes, não soffre similhante juro. Além d'isso, sendo esta uma
    instituição nova no paiz, tendo contra si as repugnancias e hesitações
    que sempre se dão em taes casos, a fóra a guerra que lhe hão-de fazer os
    interessados em manter o estado actual das cousas, a procura de pequenos
    capitaes deve ser tenue a principio e crescer gradativamente á medida
    que o fundo augmentar.

    A base adoptada para determinar o algarismo do fundo foi a estatistica
    dos predios rusticos do concelho, a que a camara mandou proceder com a
    exacção possivel, supposta a sabida carencia de recursos que ha para
    obter a exacção em taes materias. Existem no concelho 812 predios
    rusticos, que se distribuem do modo seguinte, por uma escala gradativa
    da sua renda liquida:

    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+
    | |De 1$000|De 10$000|De 50$000|De 100$000|De 200$000|De 300$000|
    |FREGUEZIAS|a 10$000|a 50$000 |a 100$000|a 200$000 |a 300$000 |a 600$000 |
    | |reis |reis |reis |reis |reis |reis |
    |———-+——–+———+———+———-+———-+———-|
    |Belem | 3 | 10 | 7 | 2 | — | 2 |
    | | | | | | | |
    |Ajuda | 16 | 37 | 14 | 11 | 5 | 3 |
    | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | |
    |d' | | | | | | |
    |Alcantara | — | 2 | 11 | 10 | 3 | — |
    | | | | | | | |
    |Bemfica | 30 | 193 | 74 | 48 | 14 | 5 |
    | | | | | | | |
    |S. | | | | | | |
    |Sebastião | | | | | | |
    |da | | | | | | |
    |Pedreira | — | 20 | 20 | 24 | 4 | 3 |
    | | | | | | | |
    |Carnide | — | 49 | 8 | 10 | 2 | 2 |
    | | | | | | | |
    |Odivellas | 18 | 107 | 28 | 13 | 3 | 1 |
    | |——–+———+———+———-+———-+———-|
    |7 | | | | | | |
    |Freguezias| 67 | 418 | 162 | 118 | 31 | 16 |
    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+

    Tomadas as medias da escala gradativa, e multiplicando cada media pelo
    numero de predios de cada-gráu, achamos a media da renda liquida total
    ser de 57:175$000 reis.

    Mas aconselhando a prudencia que se limitem os emprestimos a trez
    quartos da renda liquida de cada mutuario, seguir-se-hia que o fundo da
    Caixa deveria ser proximamente de 42 contos de reis. Entretanto, do
    seguinte mappa, em que os predios rusticos do concelho são classificados
    segundo a natureza das respectivas culturas, deriva a consequencia de
    que uma somma menos elevada satisfará plenamente aos fins da
    instituição. Eis o mappa:

    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    | FREGUEZIAS |Quintas|Casaes|Terras|Hortas|Vinhas|Cercas|Olivaes|Pinhaes|
    |————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    |Belem | 4 | 2 | 14 | 4 | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |Ajuda | 19 | 19 | 67 | — | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | | | |
    |d'Alcantara | 13 | 6 | — | 2 | 1 | — | 1 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Bemfica | 89 | 61 | 219 | — | 25 | — | 3 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Carnide | 19 | 1 | 21 | 11 | 27 | 2 | 2 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Odivellas | 22 | 34 | 123 | 16 | 9 | 1 | 3 | 2 |
    | | | | | | | | | |
    |S. Sebastião| | | | | | | | |
    |da Pedreira | 33 | 7 | 21 | 2 | 7 | — | 3 | — |
    | |——-+——+——+——+——+——+——-+——-|
    | | 199 | 130 | 465 | 35 | 69 | 5 | 12 | 2 |
    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+

    As quintas e as hortas no precedente mappa constituem mais da quarta
    parte dos predios rusticos do concelho. As primeiras pertencentes no
    maximo numero a proprietarios abastados da capital, e cultivadas por
    seus donos, sendo além d'isso muitas d'ellas antes objecto de luxo que
    de industria, não carecerão provavelmente nunca de soccorros da Caixa
    para o seu cultivo. As segundas pela indole de uma cultura, que não
    soffre a accumulação de fructos que possam servir de garantia ao
    emprestimo, estão forçadamente excluidas do beneficio da Caixa. Muitos
    dos predios, porém, incluidos n'estas duas categorias, figuram entre os
    de maior renda na lista das propriedades rusticas do concelho. Seria,
    portanto, necessario que todos os cultivadores, para cuja utilidade, ou
    antes para cuja redempção do captiveiro da usura esta instituição é
    destinada, carecessem de emprestimos integralmente equivalentes a trez
    quartos da respectiva renda liquida, para ser absorvido o fundo creado
    de 35:000$000 reis.

    O imposto destinado para este objecto, posto não seja senão a
    transformação de outro mais antigo e pesado, que hoje não poderia
    subsistir, tem encontrado as difficuldades que se costumam encontrar na
    fiscalisação e cobrança de um imposto novo. Para o realisar era
    necessario que a moderação acompanhasse a firmeza. Esta camara adoptou o
    methodo das avenças, methodo popular que facilita as operações da
    cobrança, tanto para os exactores como para os contribuintes, e que sob
    certo aspecto equivale ao systema do imposto directo e simples, e está
    demonstrando a excellencia d'elle, excellencia que infelizmente o povo
    ainda não comprehende. As avenças feitas não representam por agora a
    verba do que o imposto deve produzir; mas hão de approximar-se d'ella á
    medida que fôr possivel ir tornando a fiscalisação mais severa. Se a
    camara se não illude nas suas previsões, o fundo da Caixa estará
    preenchido dentro de sete ou oito annos, podendo e devendo cessar o
    imposto desde que estiverem preenchidos os fins d'elle.

    Reservando a quarta parte do tributo especial para as despezas geraes do
    municipio, a camara attendeu a que sem esta reserva recaíria sobre os
    outros ramos do serviço municipal a cobrança e fiscalisação d'elle, bem
    como a despeza com a gerencia da Caixa, emquanto os seus rendimentos não
    chegarem para isso, e finalmente considerou essa reserva como uma
    indemnisação pelo encargo estabelecido no ultimo periodo do artigo 23.^o.

    A camara de Belem espera que esta sua tentativa, para acudir á mais
    urgente necessidade de um concelho, em grande parte rural, merecerá a
    benevola attenção de Vossa Magestade, e que o projecto junto, corrigido
    pela sabedoria do Governo de Vossa Magestade, será submettido á
    approvação do Parlamento, que não a recusará por certo a uma
    instituição, cuja utilidade é inquestionavel.

    Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Magestade, como todos havemos
    mister.–Camara, em Vereação, 27 de março de 1855.

    O Presidente–_Alexandre Herculano_.

    _Joaquim Ferreira Pinto Bastos_.

    _João José Teixeira Leal_.

    _Matheus Antonio Vieira_.

    _José Street d'Arriaga e Cunha_.

    CAIXA MUNICIPAL DE SOCCORROS AGRICOLAS

    Artigo 1.^o É instituido no concelho de Belem um fundo permanente com a
    denominação de Caixa Municipal de Soccorros Agricolas. O seu destino é
    subministrar capitaes baratos aos cultivadores para os amanhos ruraes.

    Artigo 2.^o O fundo d'esta Caixa formar-se-ha com tres quartos do
    producto do actual imposto de 20 reis em cada alqueire de farinha
    fabricada, até completar a somma de 35:000$000 reis.

    § unico. A camara poderá substituir o dito imposto por outro qualquer,
    uma vez que o seu producto seja pelo menos equivalente ao dos mesmos
    tres quartos do actual. Se a camara, porém, distrahir estes do fim a que
    são destinados, ou supprimir o imposto sem o substituir, antes de se
    completar o fundo, embora com approvação do Conselho de Districto, os
    vereadores ficarão responsaveis por seus bens ao complemento d'elle.

    Artigo 3.^o A administração superior da Caixa incumbe a uma direcção
    composta do presidente da camara, que será o presidente da direcção, do
    fiscal, e de um vogal eleito pelos cinco membros restantes da camara
    d'entre si.

    Artigo 4.^o A Caixa emprestará aos cultivadores do concelho, por prazos
    que nunca excederão a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o
    capital necessario para o movimento da cultura annual dos respectivos
    predios, pela totalidade da somma existente em Caixa até ao complemento
    do fundo creado, e d'ahi ávante pelo total do mesmo fundo, o qual por
    nenhum pretexto poderá ter outra applicação, que não seja a de
    emprestimos annuaes aos cultivadores.

    Artigo 5.^o Haverá um registo, numerado e rubricado em todas as folhas
    pelos membros da direcção, de todos os cultivadores do concelho.

    Artigo 6.^o Os ditos cultivadores serão designados em duas categorias:
    1.^a lavradores; 2.^a fazendeiros.

    § 1.^o Entende-se por lavrador o cultivador de cereaes, e por fazendeiro
    o vinhateiro, o pomareiro e o que cumulativamente cultiva vinhas e
    pomares.

    § 2.^o Quando o grangeio do cultivador abranger ambas as categorias, o
    mesmo cultivador será classificado conforme a importancia relativa
    d'esse grangeio em cada uma d'ellas.

    Artigo 7.^o Abrir-se-ha um titulo a cada um dos cultivadores do
    concelho, contendo o seu nome, a natureza e condições da cultura, que
    determinaram a sua categoria, e bem assim a verba do producto liquido
    ordinario da mesma cultura, á vista da ultima quota do tributo geral
    directo, em que o cultivador tiver sido tributado. A administração,
    porém, da Caixa recorrerá ás informações que julgar opportunas para
    verificar a exacção da verba, que todavia nunca poderá ser superior á
    que corresponde a quota do tributo directo.

    Artigo 8.^o A somma mutuada por cada cultivador, nunca poderá exceder a
    tres quartos da sua renda liquida averbada no registo.

    Artigo 9.^o Serão hypotheca especial do emprestimo os fructos do anno
    corrente, produzidos no predio ou predios cultivados pelo mutuario, e na
    falta d'estes os dos annos immediatos até o reembolso da divida.

    Artigo 10.^o Os emprestimos far-se-hão durante o decurso dos mezes de
    fevereiro a julho de cada anno, por uma vez na importancia de tres
    quartos da renda liquida do mutuario, ou por duas vezes em duas
    parcellas iguaes, que completem os ditos tres quartos, ou apenas por um
    terço da renda liquida do mesmo mutuario, tudo a arbitrio d'este.

    Artigo 11.^o Haverá um livro de talão, chamado do registo annual dos
    emprestimos, numerado e rubricado em todas as folhas pelos membros da
    direcção da Caixa, onde se registarão as ementas dos mesmos emprestimos.
    Estas ementas, que conterão um numero de ordem, o nome do mutuario e a
    quantia por que fica devedor, serão escriptas, datadas e sobscriptas
    pelo administrador da Caixa e assignadas pelos mutuarios ou por outra
    pessoa a seu rogo, e por uma testemunha quando o mutuario não souber
    escrever. No talão escrever-se-ha o numero de ordem, a quantia mutuada e
    data da transacção.

    § 1.^o Cada uma das ementas feitas da maneira determinada no precedente
    artigo, será lançada n'uma folha separadamente.

    § 2.^o As certidões passadas do livro das ementas pelo administrador da
    Caixa, e referendadas pelos membros da commissão e pelo administrador do
    concelho, terão para os effeitos legaes o valor de uma escriptura
    publica de divida.

    § 3.^o O exame do registo annual dos emprestimos é vedado a todas as
    pessoas estranhas á administração da Caixa, salvo ao administrador do
    concelho.

    § 4.^o Na escripturação da Caixa de Soccorros o numero de ordem
    substituirá sempre o nome do mutuario.

    Artigo 12.^o No fim do anno, ou antes se os cultivadores o quizerem,
    verificar-se-ha o reembolso da Caixa, capital e juro, devendo esse
    reembolso estar realisado dentro do mez de janeiro immediato.
    Entregar-se-ha a cada mutuario como quitação a ementa ou ementas, que
    lhe forem relativas cortadas dos respectivos talões.

    Artigo 13.^o A acção e direito da Caixa de Soccorros terá a preferencia
    a outra qualquer acção e direito particular, sobre os fructos do anno em
    que foi contraído o emprestimo. Exceptua-se a acção da fazenda publica
    pelos impostos devidos.

    Artigo 14.^o Ninguem poderá levantar por titulo de compra, troca, cessão
    ou outro qualquer contracto, os fructos do predio rustico cultivados
    pelos individuos designados nos artigo 5.^o e 6.^o, sem que o cultivador
    lhe apresente certidão do estado da sua conta com a Caixa de Soccorros.

    § 1.^o Estas certidões serão rubricadas pelos membros da direção da
    Caixa, e passadas gratuitamente pelo administrador da mesma, e só ao
    cultivador interessado. Se a certidão declarar este em divida, o
    comprador dos fructos será obrigado a entrar na Caixa com a importancia,
    capital e juro, da dita divida, pagando ao cultivador a somma
    correspondente a essa importancia com o recibo respectivo. Se não
    cumprir o disposto n'este artigo, ficará responsavel pela divida,
    capital e juro.

    § 2.^o Se o contracto de compra ou de outra qualquer especie, e o
    levantamento dos fructos tiver sido feito occultamente, aquelle que
    houver feito o contracto ou recebido os fructos, ficará não só
    responsavel pela divida, capital e juro, mas tambem sujeito a uma multa
    de 20 por cento da mesma divida para o official da camara ou da
    administração, que descobrir o facto, ou para outro qualquer individuo
    que venha denuncial-o á direcção da Caixa.

    § 3.^o Se o cultivador tiver vendido os fructos a comprador transeunte e
    desconhecido, sendo por este levantados os mesmos fructos, ficará o dito
    cultivador incurso no crime de burla, e sujeito ás penas das leis.

    § 4.^o Aos cultivadores do concelho, que não houverem recebido
    emprestimos da Caixa, enviar-se-ha a certidão corrente n'esse anno até
    ao dia 30 de agosto, embora elles não a hajam anteriormente exigido.

    Artigo 15.^o Os cultivadores que mudarem de predio serão obrigados a dar
    aviso á administração da Caixa, e a declarar a importancia do seu novo
    grangeio e do rendimento liquido d'elle. Os que não o fizerem, ficarão
    inhabilitados por dous annos para receber emprestimos da Caixa.

    Artigo 16.^o Todos os annos, depois de concluido o lançamento dos
    tributos geraes directos, o administrador do concelho communicará á
    direcção da Caixa as alterações que houverem occorrido nas respectivas
    quotas de repartição, em relação aos cultivadores do concelho. Dadas
    essas alterações, mudar-se-ha no registo a verba, até a qual póde subir
    o emprestimo ao respectivo cultivador.

    Artigo 17.^o Acontecendo que o total das verbas pedidas pelos
    cultivadores exceda os recursos da Caixa, a preferencia será dada em
    razão ascendente da menor renda liquida para a maior.

    Artigo 18.^o Se qualquer cultivador do concelho fôr eleito vereador não
    poderá, em quanto exercer esse cargo, ser mutuario de somma alguma
    havida da Caixa de Soccorros Agricolas.

    Artigo 19.^o A nenhum dos mutuarios individualmente poderá a
    administração da Caixa espaçar o prazo fatal do reembolso no fim do
    anno. Quando por motivo de escacez das colheitas, ou de outra calamidade
    publica, se reputar necessaria a concessão de móra, a camara resolverá
    essa concessão, e fundamentando-a a offerecerá á sancção do Conselho de
    Districto. Sendo por este approvada, gosarão do beneficio da móra todos
    os mutuarios que d'ella quizerem aproveitar-se. Se a camara, porém
    entender que as circumstancias aconselham que se faca a dita concessão,
    ou só á classe dos cultivadores de cereaes, ou só á dos fazendeiros,
    conceder-se-ha a essa classe a móra especial com approvação do Conselho
    de Districto, sob a mesma condição de nunca ser individual.

    § 1.^o A móra entende-se em todo o caso para o capital; o juro será pago
    no prazo prefixo.

    § 2.^o O pagamento da divida não poderá ser exigido nos annos
    subsequentes, senão pela decima parte da renda liquida do cultivador,
    que se calculará com abatimento da mesma decima parte para o effeito de
    novos emprestimos.

    § 3.^o São hypothecas d'esta divida os bens de raiz do
    cultivador-proprietario, e os do cultivador-rendeiro, se os tiver. Se
    este não os tiver, sel-o-hão os seus bens moveis e semoventes, sendo
    além d'isso obrigado a dar fiador idoneo á divida.

    § 4.^o Estas dividas não vencerão juro, e a acção e direito da Caixa
    para as cobrar serão os mesmos da fazenda publica.

    Artigo 20.^o Para supprir até onde fôr possivel o desfalque do fundo
    pala móra, dada a hypothese do artigo antecedente, a Caixa tomará um
    emprestimo dentro das seguintes limitações:

    1.^a O total do emprestimo será equivalente ao capital representado por
    dous terços do rendimento liquido da Caixa, considerados como juro, os
    quaes effectivamente ficarão applicados ao pagamento do juro do
    emprestimo.

    2.^a O terço restante do rendimento liquido ficará destinado á
    amortisação, bem como o remanescente annual dos dous terços applicados
    para o pagamento do juro.

    3.^a A camara, sobre proposta da direcção, submetterá o contracto do
    emprestimo á sancção legal, na forma do artigo 103.^o do Codigo
    Administrativo.

    Artigo 21.^o Os membros da direcção da Caixa serão responsaveis pelos
    actos da sua gerencia, remettendo annualmente até o mez de março uma
    conta especificada das transacções operadas no anno anterior, para o
    Conselho de Districto examinar se a lei foi cumprida, e impôr a
    responsabilidade á direcção.

    Artigo 22.^o Haverá um administrador com o vencimento annual de 300$000
    reis, a quem pertencerá o meneio de todos os negocios da Caixa que lhe
    forem incumbidos pelo respectivo regulamento. Os zeladores da camara
    servirão por turno de contínuos, e o procurador da mesma camara servirá
    de agente forense, mediante uma gratificação annual arbitrada pela
    camara, e approvada pelo Conselho de Districto, a qual nunca excederá a
    20$000 reis. Quando trabalhos extraordinarios o exigirem, a direcção
    requisitará da camara o serviço de um ou mais amanuenses da secretaria
    da mesma camara.

    Artigo 23.^o O administrador da Caixa será nomeado pela camara, que lhe
    exigirá fiança idonea no valor de 3:000$000 reis; só, porém, poderá ser
    demittido por uma resolução do Conselho de Districto, sobre proposta da
    direcção, approvado pela camara, a qual aliás o póde suspender, havendo
    para isso proposta da direcção.

    Artigo 24.^o Os vencimentos acima referidos e mais despezas da Caixa
    serão pagos pelo seu rendimento e emquanto este para isso não chegar,
    será completada a somma total da despeza pelo cofre da camara.

    Artigo 25.^o O rendimento da Caixa, deduzidas as despezas da sua
    gerencia, e fóra do caso previsto no artigo 20.^o, será exclusivamente
    applicado, a arbitrio da camara, aos seguintes objectos: 1.^o á
    manutenção das escholas primarias municipaes de 1.^o ou de 2.^o grau;
    2.^o à compra de sementes, cuja introduccão se repute util, para serem
    gratuitamente distribuidas aos cultivadores, que quizerem tentar a sua
    cultura; 3.^o á compra de instrumentos, machinas ou utensilios
    agricolas, com as mesmas condições e fins; 4.^o á sementeira ou plantio
    de pinhaes ou mattas nos baldios ou terrenos de inferior qualidade,
    pertencentes ao concelho, ou adquiridos por elle para tal fim.

    § _unico_. Estas applicações só se verificarão depois de completo o
    fundo da Caixa. Até ahi o seu rendimento liquido será n'elle
    encorporado.

    Artigo 26.^o A camara fará os regulamentos opportunos para a boa
    gerencia da Caixa, os quaes terão vigor depois de approvados pelo
    Conselho de Districto.

    Camara de Belem, 27 de março de 1855.

    _Alexandre Herculano_.

    SOBRE A QUESTÃO DOS FORAES

    1858

    Meu amigo.–Sinto que as primeiras linhas que escrevo para o seu jornal,
    e que escrevo e escreverei para satisfazer ao desejo que me manifestou,
    de que o ajudasse na sua util empreza conforme as minhas escassas
    possibilidades, seja para rectificar idéas ahi contidas e que me parecem
    pouco exactas. São as de uma correspondencia insérta a paginas 94 do
    1.^o volume do Archivo. Pondera-se n'aquella correspondencia a
    necessidade de uma nova lei de Foraes. Não sei até que ponto essa nova
    lei é possivel, depois de tantos factos consummados em harmonia com a
    carta de lei de 22 de junho de 1846. Quando medito nas difficuldades,
    nas injustiças relativas, nas incertezas que resultariam de novas
    providencias contrarias ás d'aquella lei, eu, que não recuo facilmente
    diante das consequencias de commettimentos de tal ordem, quando se
    tracta de grandes reformas, de grandes actos de justiça social, titubeio
    perante as hypotheses que prevejo se dariam quando se tratasse de
    legislar com mais liberal espirito sobre tão grave assumpto, e faço
    votos para que os legisladores que tentarem tal empreza, achem a solução
    racional de um problema, que a meus olhos não a tem das mais faceis.

    A lei de 1846 é uma lei reaccionaria, profundamente reaccionaria. É a
    explosão da guerra occulta feita por interesses illegitimos ao grande
    acto de justiça nacional, chamado o decreto de 13 de agosto de 1832,
    pensamento talvez o mais grandioso da dictadura do Duque de Bragança, a
    que só faltaram desenvolvimento e provisões, que facilitassem a sua
    execução, falta que subministrou pretextos ao espirito de reacção para o
    falsificar e annullar em grande parte. A lei de 1846 não me inspira só
    hostilidade; inspira-me indignação. Mas quando uma lei tem actuado
    durante doze annos sobre o modo de ser de uma grande parte da
    propriedade territorial do paiz, quando tem regulado milhares de
    contractos, servido de norma a milhares de sentenças, influido em
    milhares de successões, determinado para mais ou para menos milhares de
    fortunas, pretender alteral-a póde não ser uma grande temeridade, mas
    requer por certo uma alta força de intelligencia, e uma circumspecção
    pouco vulgar.

    Mas o que ha mais grave na correspondencia que o meu amigo publicou é
    uma outra circumstancia. Adopta-se ahi um erro analogo ao que produziu
    as peiores disposições da lei de 22 de junho, se abstrahirmos do seu
    pensamento fundamental, o salvar tudo o que, sem extremo escandalo,
    fosse possivel salvar das velhas extorsões dominicaes. O pensamento,
    infelizmente mal desenvolvido, do decreto de 13 de agosto era libertar o
    paiz do nosso primitivo systema de renda publica, derivada por abusos de
    seculos para a algibeira de particulares, e substituido em relação ao
    estado por outro systema de renda, o que trouxera uma situação
    intoleravel para a maior parte da propriedade territorial, a solução de
    duas series de impostos uma só das quaes chegava aos cofres do erario. O
    decreto de 13 de agosto supprimia a serie primitiva, a serie delapidada.
    Era uma idéa simples, clara, justa em these. O mal veiu da
    insufficiencia dos meios na sua applicação á hypothese. O decreto de 13
    de agosto não tivera, não podia ter em mira offender contractos
    particulares sobre propriedade patrimonial: o que cumpria em qualquer
    lei posterior tendente a esclarecel-o e a rectifical-o, era reformar as
    suas provisões que de qualquer modo dessem azo a ser offendido o direito
    privado, e por outra parte completar aquellas que não bastassem a
    extirpar o grande abuso, a immensa extorsão publica a que se pozera o
    machado. Para isso tornava-se necessario designar quaes caracteres,
    quaes condições, na falta de provas directas e incontestaveis, serviriam
    para demonstrar ou para se presumir que tal fôro, tal censo, tal direito
    dominical procedia de um contracto expresso ou tacito com o estado. Onde
    e quando as condições e os caracteres fossem demonstrativos, a prova em
    contrario deveria ser supprimida; onde e quando produzissem só
    presumpções, admittir-se-hia essa prova em contrario. Tudo o mais
    reputar-se-hia resultado de contractos particulares, salvo tambem o
    direito do colono, emphyteuta, ou censuario a provar a origem publica do
    onus ligado ao predio que possuia. O principio da abolição, dada essa
    origem publica, não podia ter nem excepção nem limites. A lei devia
    reconhecer a indemnisação pelo estado na unica hypothese em que ella era
    justa, a da venda de direitos dominicaes feita pela corôa. A verba total
    não havia de ser demasiado avultada; e que o fosse era uma divida que se
    pagava. As gerações são solidarias.

    Em vez d'isto, appellou-se para a distincção cerebrina de _titulo
    generico_ e _titulo especial_, que vinha tanto para o assumpto, como uma
    sura do alcorão, ou um artigo das leis de Manú; e á sombra d'esta
    distincção que não distinguia nada, confundiu-se tudo, e restaurou-se
    quasi tudo fazendo-se aos colonos originariamente da corôa, o grande
    favor de poderem remir o onus dando por elle (considerado como juro ou
    renda) o equivalente em capital. O que os legisladores quizeram bem
    averiguado foi se a transmissão do uso da terra, reservado o dominio,
    fôra escripta para servir de titulo a muitos colonos ou a um só, se n'um
    se em muitos diplomas. Era uma curiosidade archeologica sobre a
    abundancia ou a raridade do pergaminho na idade media, que poderia
    subministrar um capitulo interessante a alguma nova edição da _Economia
    Politica del Medio Evo_, do meu amigo Luiz Cibrario.

    É este erro, esta confusão do direito privado com o publico, mas em
    sentido opposto ao da lei de 22 de junho, que me parece conter-se na
    correspondencia de que falo. Rigorosamente, e considerado na sua
    verdadeira indole, o decreto de 13 de agosto estatuiu sobre uma questão
    de direito publico. Consideral-o de outro modo é desconhecer os seus
    fins e o seu alcance. Libertar a terra é exemptal-a de onus injustos, de
    vexames, de encargos impostos pela força; não é annullar contractos
    livres particulares ácerca da propriedade patrimonial. Quando se pede
    uma lei que crie para emphyteutas e sub-emphyteutas, sem excepção, o
    direito de _remir todos os fóros_, pede-se que a lei desfaça contractos
    livremente debatidos, espontaneamente celebrados, e conformes na sua
    essencia aos principios de justiça absoluta. O canon emphyteutico, o
    censo, qualquer quota no producto da terra que o senhorio directo de um
    predio, de accordo com o colono, reserva para si transmittindo o dominio
    directo, é em rigor a renda de um capital, ou aluguer perpétuo de um
    instrumento de producção. Póde a lei expropriar o dono d'esse
    instrumento para utilidade particular, e por um preço taxado de antemão
    por ella? Se tal se houvesse de admittir porque não se admittiria a
    regra contraria? Porque não revocaria a si o senhorio directo o capital,
    o instrumento, pagando as bemfeitorias ao colono? Suppondo justa a
    primeira prescripção, porque se reputaria injusta a segunda?

    Repito: não sei se é possivel recuar no caminho que abriu a lei de 22 de
    junho. Se o é, se os fóros de Alpiarça pertencem á categoria d'aquelles
    que o decreto da primeira dictadura queria abolidos, e se a lei
    reaccionaria e insensata que destruiu, ao menos em parte, aquelle grande
    acto de justiça nacional, póde ainda ser substituida por outra mais
    conforme com o espirito d'esse acto, não é a remissão de taes fóros que
    d'ella deve resultar, quer o senhorio directo pertença hoje ao estado,
    quer a corporações, quer a individuos; é a suppressão, a abolição
    completa. Quanto a fóros em bens de origem patrimonial, é impossivel
    acceitar a doutrina da correspondencia.

    Escrevo estas linhas, meu amigo, ao correr da penna e sem os
    desenvolvimentos que requeria a gravidade do assumpto, porque antevejo
    os inconvenientes sociaes da propagação de taes doutrinas. Para mim o
    grande meio de progresso na cultivação do paiz, da melhor distribuição
    da população, do melhoramento das classes laboriosas, do chamamento do
    proletario ao goso da propriedade, e por ella aos bons costumes e ao
    amor da familia e da patria, é a emphyteuse. A meus olhos, a emphyteuse
    é o unico meio de obstar aos inconvenientes da divisão indefinita do
    solo, e ao mesmo tempo de combater os males que resultam da existencia
    dos latifundios, sobretudo dos latifundios amortisados, esterilisados
    pela instituição vincular. Mas se a opinião que proclama o direito de
    remissão a bel-prazer do emphyteuta, ameaçar de contínuo o dominio
    directo, todas as providencias que se hajam de tomar, que se devem
    tomar, para impellir indirectamente os donos de vastos tractos de terra
    a retalhal-os por aforamentos, serão baldadas. Os possuidores de
    latifundios mal cultivados preferirão o atrazamento agricola, os menores
    redditos actuaes á espoliação futura, e o paiz difficilmente sahirá de
    uma situação economicamente mais embaraçosa do que muitos crêem, e que
    nos horisontes do futuro se me representa assaz carregada.

    Que o direito emphyteutico seja simplificado; que se dispa de todos os
    accessorios de que o revestiram os costumes e as idéas de epochas
    barbaras, é necessario e justo: que se vicie na sua essencia, n'aquillo
    em que é legitimo, sensato, benefico e civilisador, é absurdo. A lei que
    tal ordenasse seria ao mesmo tempo espoliadora e inepta.

    Julho, 10 de 1858.

    _A. Herculano_.

    FIM DO VOLUME VII.

    NOTAS

    [1] O novo artigo não veio a publico.

    _Nota dos editores_.

    [2] Este artigo foi publicado em 22 de agosto e o primeiro em 7 do mesmo
    mez.

    _Nota dos editores_.

    INDICE

    Advertencia

    Duas epochas e dous monumentos ou a granja real de Mafra

    Breves reflexões sobre alguns pontos de economia agricola

    A Granja do Calhariz

    Projecto de decreto

    _O Paiz e A Nação_

    Representação da Camara Municipal de Belem ao governo

    Representação da Camara Municipal de Belem ao parlamento

    Projecto de Caixa de Soccorros Agricolas

    Sobre a questão dos foraes

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Aproximadamente 58.014 palavras.

    Assim, n'esta materia continuam fluctuantes as idéas, não só dos que
    ignoram, mas ainda de eruditos taes como Muñoz y Romero. Porque? Porque
    a questão nunca foi tractada de modo exclusivo e completo dos Pyreneus
    para cá, ao menos até onde eu sei. O proprio Marina não deu á sua these
    o desenvolvimento que poderia dar-lhe, nem a firmou em tal numero de
    provas que bastassem a encerrar desde logo o debate. Fál-o-hei eu agora?
    Não m'o permittem nem as circumstancias do meu viver actual, nem o
    limitado da minha competencia, nem as condições de um simples estudo.
    Com habitos de vida estranhos ás lettras, rodeado de poucos livros e de
    notas tomadas em grande parte ha mais de vinte annos, notas claras e
    intelligiveis para quem de continuo pensava em assumptos de tal ordem,
    mas desordenadas e muitas vezes obscuras para quem raramente pensa hoje
    n'elles, é antes uma serie de observações e duvidas que submetto á
    apreciação do sr. Cárdenas, do que uma doutrina completa que estabeleço
    em solidos fundamentos. Digo isto para que se não dê ás seguintes
    reflexões maior importancia do que ellas merecem.

    IV

    Qual é o primeiro passo a dar para chegarmos á solução d'este difficil
    problema historico? Quando affirmamos ou negamos que a indole de taes ou
    taes instituições corresponde a certo typo de organisação social, a
    simples boa-razão nos ensina o caminho que devemos seguir. Esse typo tem
    forçosamente caracteres que, ou singularmente ou no seu complexo, são
    essenciaes, intrinsecos, exclusivos n'elle, embora varie em accidentes
    n'esta ou n'aquella sociedade. É como na estructura e na physiologia
    hamanas, identicas sempre na essencia, mas indefinitamente varias nos
    accidentes individuaes. Para apreciar, portanto, se as instituições de
    um paiz foram feudaes, cumpre determinar previamente as condições
    impreteriveis, a indole e os caracteres exclusivos do feudalismo.

    O sr. Cárdenas diz-nos em que consistem esses caracteres essenciaes, que
    reduz a tres: 1.^o–Separação entre o dominio util e o directo,
    reservando para si o possuidor d'este ultimo a faculdade de exigir do
    possuidor do primeiro fidelidade e serviços militares e politicos:
    2.^o–União ao dominio directo da terra de uma parte maior ou menor da
    auctoridade publica em relação aos individuos que ahi habitam, quer como
    naturaes, quer como colonos: 3.^o–Restricções á faculdade de dispôr de
    qualquer dos dois dominios, umas por utilidade das familias que n'elles
    devem succeder, outras para não padecerem diminuição os direitos do
    dominio directo. Onde a propriedade territorial com estes tres
    caracteres determina e firma as relações do individuo com o estado, com
    a auctoridade local, e com a familia, existe o feudalismo[97].

    Um dos escriptores francezes d'este seculo que mais profundamente
    estudaram o mechanismo da sociedade feudal, e que em dotes de
    historiador difficilmente encontrou emulos entre os seus compatricios,
    Guizot, entende tambem que a sociedade feudal se caracterisa por tres
    factos essenciaes, elementos constituitivos d'aquelle regimen. O
    primeiro de todos, na opinião do celebre historiador, era a natureza
    especial da propriedade territorial, effectiva, inteira, hereditaria, e
    todavia havida de um superior e envolvendo na posse, com pena de
    commisso, certas obrigações pessoaes. O segundo facto é a incorporação
    da soberania na propriedade, isto é, a attribuição ao proprietario do
    solo, em relação á universalidade dos que ahi habitavam, de todos ou
    quasi todos os direitos que constituem o que chamamos soberania, e que
    hoje só o estado, o poder publico, possue. O terceiro facto é a
    existencia de um systema hierarchico nas instituições legislativas,
    judiciaes e militares, que ligavam uns aos outros os possuidores de
    feudos constituindo assim a sociedade geral[98].

    Ao primeiro aspecto, entre as duas maneiras de caracterisar o feudalismo
    não ha grande distancia; mas examinadas com mais attenta analyse
    conhece-se quão profundamente divergem. Guizot contempla-o como
    publicista; o sr. Cárdenas como jurisconsulto. Guizot busca a influencia
    que elle teve no modo de ser da sociedade; o sr. Cárdenas a que teve no
    modo de ser da propriedade. O estudo dos feudos por qualquer das faces é
    egualmente legitimo e util. Onde está, pois, o erro do sr. Cárdenas, se
    tal erro, como me parece, existe? Está na confusão de duas épochas e da
    instituição civil com a instituição social; e está em considerar como
    erroneo o resultado de uma apreciação de indole totalmente diversa da
    indole da sua apreciação.

    Os tres factos especificados por Guizot constituem caracteres essenciaes
    e exclusivos da sociedade feudal, porque nenhum d'elles se realisa
    completamente n'outro molde social. O seu complexo repugna a qualquer
    organisação politica anterior ou posterior aos seculos verdadeiramente
    feudaes. Representam e resumem esses factos o largo periodo entre duas
    transformações, entre duas revoluções lentas, postoque não pacificas, da
    tempestuosa juventude de uma parte das modernas nações da Europa. Pode
    dizer-se o mesmo das tres condições caracteristicas que o sr. Cárdenas
    attribue ao feudalismo? Correspondem ellas a factos então actuaes? Creio
    que não. De certo o auctor do _Ensayo_ teve presente o modo como o
    grande historiador da civilisação franceza caracterisava a sociedade
    feudal; mas preoccupado pela idéa de um feudalismo _sui generis_, o
    feudalismo hespanhol, modificou um typo que desde logo sentiu lhe seria
    difficil de conciliar com a indole da sociedade néo-gothica. Na
    constituição do feudo o sr. Cárdenas vê a separação do dominio util do
    dominio directo, simples relação civil do direito de propriedade, como o
    é na emphyteuse moderna, e por tanto ficando no feudatario o util e no
    suzerano o directo. Guizot vê o que realmente foi exclusivo do
    feudalismo, o dominio territorial completo no feudatario, dominio em que
    se incorpora o poder publico e que leva este comsigo na transmissão
    hereditaria. O que ligava o feudatario ao suzerano era o dever pessoal e
    politico de fidelidade e de prestação de serviços de natureza alheia ás
    obrigações e direitos privados entre dous co-proprietarios. Pode
    chamar-se a isto separação dos dominios directo e util? Os serviços
    militares e politicos de que fala o sr. Cárdenas constituiam relações de
    vida publica: o dominio directo e o util constituem apenas relações de
    vida civil. No senhor do feudo estavam incorporadas a propriedade e a
    soberania, mas nem por isso eram identicas; nem por isso eram porções de
    um direito unico e homogeneo. Tinham origens e naturezas diversas. Se na
    praxe se confundiam, não podem confundir-se na historia. É o que os
    trabalhos de Championnière tornaram evidente[99].

    A segunda caracteristica attribuida pelo sr. Cárdenas ao feudalismo
    afigura-se-me como não menos inexacta. Quanto a elle, o possuidor do
    dominio directo accumulava uma parte maior ou menor da auctoridade
    publica sobre os _naturaes e colonos_ que habitavam no territorio em que
    esse dominio recaía. Porei de parte a divisão das populações sujeitas em
    naturaes e colonos, inintelligivel para mim, applicada ás classes
    inferiores d'aquella épocha. Segundo o auctor do _Ensayo_ a soberania
    era exercida no feudo, não pelo feudatario, mas pelo suzerano. Ora
    Guizot suppõe, e com razão, o contrario. Para elle o direito de
    propriedade do primeiro é pleno, e se o poder publico se associa com a
    propriedade, é elle que o exerce. Se, porém, a auctoridade andasse
    annexa á suzenaria na terra do feudatario, não estaria de modo algum a
    soberania incorporada na propriedade, nem o poder central se teria
    annullado, porque no vertice da pyramide feudal estava o rei. E todavia
    essa incorporação é o facto culminante do feudalismo, porque é o que
    sobretudo o distingue no meio das transformações sociaes e politicas,
    por que tem passado a passado a Europa civilisada[100].

    A terceira caracteristica da sociedade feudal, no systema do sr.
    Cárdenas, consistindo em certas restricções á faculdade de dispôr de
    modo absoluto do dominio, quer util, quer directo, é tão pouco uma
    condição especial e exclusiva do feudalismo, que se dá no nosso actual
    direito emphyteutico, o que não obsta a que a sociedade portugueza seja
    perfeitamente livre sem deixar de ser monarchica, e onde seria difficil
    encontrar o menor vestigio de feudalismo. Na opinião, porém, de Guizot,
    o terceiro facto que discrimina a épocha feudal é o complexo de
    instituições legislativas, judiciaes e militares, acommodadas a
    constituir uma sociedade geral no meio da desmembração da auctoridade,
    não pela divisão de funcções, mas pela individuação collectiva d'estas,
    e pela sua aggregação á propriedade territorial. De feito, aquelle
    complexo de instituições, se instituições lhes podemos chamar, pertence
    exclusivamente á épocha feudal. Simulando dar unidade à dispersão,
    limites ao illimitado arbitrio, ordem á anarchia aristocratica, esse
    nexo politico, mais apparente que real, não tardou a alluir-se, e logo a
    desmoronar-se ao embate do elemento monarchico, que readquirira vigor, e
    do elemento monarchico, que surgia vingativo e implacavel. «O
    feudalismo, diz Guizot, era uma confederação de pequenos soberanos, de
    pequenos despotas de diversas graduações, ligados entre si por mutuos
    deveres e direitos, mas revestidos, cada um, dentro dos proprios
    dominios, de poder absoluto e arbitrario sobre os que lhes estavam
    pessoal e directamente sujeitos[101]». No meu modo de vêr, é a definição
    mais concisa e mais exacta do feudalismo, ao passo que na terceira
    caracteristica proposta pelo meu illustre consocio parece-me haver o
    mesmo equivoco da primeira–a confusão ou, antes, substituição das
    relações de direito publico pelas de direito privado.

    Sei que a doutrina que considera o senhorio feudal como uma especie de
    propriedade dividida, similhante á moderna emphyteuse, em dous dominios,
    o directo do suzerano e o util feudatario, tem o seu fundamento na
    jurisprudencia dos feudistas, mas esta jurisprudencia começou a
    ordenar-se quando o feudalismo, como expressão do que hoje chamamos
    direito poblico, dava já signaes de proxima ruina. O _Liber feudorum_,
    que era nas escholas o texto principal dos commentadores, nem remontava
    além da ultima metade do seculo XII, nem era verdadeiramente um codigo.
    A sua auctoridade, mais scientifica do que legal, provinha de ter sido
    mandado explicar na eschola de Bolonha pelo imperador Friderico I[102].
    No notavel livro de Championnière, onde se apresenta sob novo aspecto a
    organisação feudal, separando-se juridicamente a soberania da
    propriedade, reconhece-se que a definição de feudo no _Liber feudorum_ é
    inexacta[103]. Na opinião do escriptor, tão cedo roubado aos estudos
    profundos, n'esta parte accorde com a historia, essa definição applicava
    erradamente as idéas de direito romano sobre propriedade e usofructo a
    um modo diverso de dominio territorial. A divisão d'este em directo e
    util, desconhecida em direito romano, desconhecida na praxe da épocha
    rigorosamente feudal, foi uma fórmula scientifica de origem obscura,
    trazida pela necessidade de exprimir, não o estado real do direito
    publico dos seculos X, XI e XII, mas sim o estado civil a que, pelo
    predominio gradual do elemento monarchico, ficou reduzido o feudalismo.
    A esta luz, póde dizer-se que elle subsistiu até os nossos dias, sem que
    por isso chamemos seculos feudaes aos que teem decorrido desde o XIII
    até o presente. A distincção entre as duas especies de feudalismo,
    presentida já por Dumoulin (Molinêo), não creio que seja licito
    esquecêl-a depois das observações de Montesquieu[104].

    Que o sr. Cárdenas labora n'esse equivoco parece mostrál-o com clareza a
    proposição de que o codigo feudal (allude necessariamente ao _Liber
    feudorum_), addicionado ao codigo de Justiniano, servia de direito
    commum. Se o auctor do _Ensaio sobre a historia da propriedade_ se
    referisse ao estado social das nações modernas no periodo decorrido dos
    fins do seculo IX até os principios do XIII, poderia dizer isto?
    Exceptuando uma parte da Italia, como o demonstrou Savigny, as
    disposições de direito romano, que se introduziram nos codigos barbaros,
    ou que regeram as populações romanas em quanto as leis foram pessoas e
    não territoriaes, eram as do codigo theodosiano, e dos codigos
    conhecidos pelo nome de _Lex romana_, d'elle derivados. A influencia
    practica, não especialmente do codigo de Justiniano, mas das Pandectas,
    do Codigo, das institutas, e do _Authenticum_[105] começou no occaso do
    feudalismo politico, pelo valor juridico que esse corpo de direito
    adquiriu no decurso do seculo XII com o magisterio da celebre eschola de
    Bolonha. O _Decretum_ de Ivo de Chartres, onde se encontram numerosos
    textos de direito justinianeo, pertence já a este seculo, e as
    _Exceptiones legum romanarum_, a que Savigny attribuiu maior
    antiguidade, provou Laferrière que eram posteriores ao _Decretum_[106].
    Antes d'isso, aquelle corpo de direito, sobretudo conhecido pelas
    _Novellas_ na compilação de Juliano, apenas tinha exercido uma acção mui
    limitada nas instituições e nas leis civis das épochas beneficiaria e
    feudal. É por isso que com razão diz Laferrière: «O esplendido
    renascimento do direito romano (justinianeo) na edade media deve-se á
    eschola de Irnerio e dos glossadores. A eschola de Bolonha foi um
    apostolado juridico.»

    É no ensino d'esta eschola, e não na praxe dos tempos anteriores, que o
    _Liber feudorum_ se associa ao direito de Justiniano. O _Livro dos
    feudos_, longe de representar a sociedade feudal, representa apenas uma
    phase da lucta do poder central contra a dispersão da soberania e contra
    a sua incorporação na propriedade. Foi um resultado indirecto das
    victorias de Friderico Barba-roxa e da dieta de Roncaglia (1154).
    Compilado por mão desconhecida e offerecido ao imperador victorioso,
    este ordenou, como já disse, que se lesse na eschola de Bolonha,
    junctamente com os textos de direito romano. Por isso é bem pouca a sua
    importancia como monumento do direito publico feudal.

    O que foi, na expressão mais comprehensivel, o feudalismo como
    organisação social, se em boa verdade fosse licito dar-lhe tal nome? Foi
    o despotismo de uma aristocracia anarchica, que de longe e visto atravez
    do prisma da nossas idéas actuaes nos apparece debaixo do falso aspecto
    de systema politico. Dentro do seu feudo, e satisfeitas as condições com
    que hereditariamente o adquirira, o feudatario era soberano absoluto.
    Leis, fazia-as elle ou admittia as que lhe convinham. A administração
    publica e o poder judicial estavam nas suas mãos. Tributava a seu
    bel-prazer, batia ou falsificava a moeda, e fazia a guerra aos outros
    feudatarios, e em certas hypotheses ao proprio suzerano, ou celebrava
    pazes e formava allianças conforme o seu capricho ou os seus interesses.
    A monarchia, a imagem do poder central, existia; mas na dependencia dos
    grandes feudatarios, e não como manifestação e instrumento da unidade
    social. O rei só podia considerar-se como verdadeiro soberano nos seus
    dominios particulares, que ás vezes não eram mais amplos do que os de
    alguns dos grandes vassallos. Cumpridos os deveres publicos d'estes para
    com essa especie de suzerano dos suzeranos, a acção do rei cessava. Não
    era a tyrannia de um principe despotico, que pesa na razão directa dos
    meios de resistencia e a que mais facilmente escapam as condições
    humildes e obscuras: era a tyrannia assentando-se á porta de todos os
    oppressos, certificando-se por si propria dos gemidos de todas as
    victimas. A unidade repugnava radicalmente ao feudalismo. As multidões,
    as classes abjectas, isto é, laboriosas, estavam á mercê, não de uma
    classe nobre, mas de nobres individuos. Não havia uma oligarchia; havia
    oligarchas. As republicas aristocraticas podem constituir um estado
    regular, forte, pacifico, onde imperem leis geraes civis e
    administrativas, onde a segurança dos subditos, a recta distribuição da
    justiça, a equidade e moderação no tributo não sejam cousas
    desconhecidas. O feudalismo estava bem longe d'isso. A sua indole era
    tão estranha á dos governos aristocraticos, como á das monarchias puras
    ou das democracias. Era uma especie de communismo invertido e
    hierarchico, isto é, um d'esses estados sociaes, em que os povos
    consideram o advento do absolutismo regio como uma enorme conquista de
    paz, de justiça, e, em certas relações e debaixo de certos aspectos, até
    de liberdade.

    V

    Indirectamente, o feudalismo foi consequencia das invasões germanicas,
    da ruina e desmembração do imperio romano, e das luctas travadas entre
    os barbaros sobre a posse dos fragmentos do imperio; mas não foi um
    resultado directo d'esses grandes factos, como alguns o teem pintado.
    Derivou do modo por que, desde os fins do seculo V até os do IX, se
    foram conciliando e limitando reciprocamente os elementos da vida
    publica, ás vezes analogos, ás vezes repugnantes entre si, da raça
    vencedora e da raça vencida; da barbaria e da civilisação. Como o feudo
    foi a manifestação prominente das sociedades da Europa central dos fins
    do seculo IX até o XIII, assim nos quatro seculos anteriores o foi em
    maior extensão o _beneficio_. A hereditariedade transformou estes
    n'aquelles, nos estados nascidos da desmembração do imperio de Carlos
    Magno, transformação gradual, que, depois da morte d'aquelle homem
    extraordinario, progrediu com rapidez e se caracterisou melhor,
    englobando a final em si a vida social inteira.

    A decadencia senil do imperio romano no periodo decorrido do IV ao VI
    seculo manifestava-se no systema militar, como em tudo. O serviço de
    guerra, que para os antigos romanos fora um privilegio dos cidadãos,
    converteu-se em encargo dos subditos, tornando-se privilegio em vez de
    deshonra a exempção d'elle. Não tardou que esse privilegio se
    transformasse em expediente fiscal, e a exempção comprada, locupletando
    o fisco, rareou as legiões. Mas o imperio, enfraquecido por luctas
    intestinas, era ao mesmo tempo devastado pelas correrias das gentes
    septemtrionaes. Buscou-se então novo expediente para esteiar o edificio
    politico que ameaçava ruina. Achou-se que o melhor meio de defesa, sem
    onus para o erario, consistia nas colonias militares, compostas de
    barbaros, distribuidas pelas fronteiras. Tornavam-se assim os agressores
    em defensores, ao menos na apparencia. Alistavam-se troços de germanos e
    de outros povos do norte, e davam-se terras nos districtos de frontaria
    a esses homens robustos e audazes, com obrigação de serviço militar,
    obrigação que se transmittia de paes a filhos com o quinhão de terra que
    se distribuira a cada individuo. Quando esses auxiliares eram germanos,
    denominavam-se _letos_ (_laeti_); quando pertenciam a outras tribus
    não-germanicas, designavam-se pela palavra _gentios_ (_gentiles_). A
    concessão da propriedade territorial com a natureza de hereditaria,
    tendo por fundamento e por impreterivel condição o serviço militar de
    qualquer modo exigido, chamava-se _beneficium_[107].

    É curioso ver como o systema feudal, que vulgarmente se reputa
    consequencia dos costumes germanicos, está mais proximo de uma
    instituição do imperio decadente, do que da clientela militar dos
    barbaros. É conhecida a distincção entre as tribus mais ou menos
    sedentarias, que estanceavam para além dos limites do imperio na Europa,
    e as agglomerações ou bandos de guerreiros, que, saindo do seio d'essas
    tribus, se precipitavam sobre as provincias romanas, quer como
    invasores, quer como alliados, e que em todo o caso eram elementos
    deleterios introduzidos no corpo enfermo do estado. Os letos ou os
    gentios, meio romanizados, afazendo-se á propriedade territorial e aos
    habitos que ella gera, representavam um termo medio entre a civilisação
    e a barbaria. Defendendo o imperio, facilitavam de certo modo as
    invasões, porque habituavam o romano á convivencia e logo ao predominio
    do barbaro, e o barbaro a apreciar melhor as vantagens da vida
    civilisada e a desprezar menos o romano quando subjugado. É por isso que
    na lenta transformação das provincias do mundo latino em embriões dos
    estados modernos achamos mantidos, emquanto o direito conserva o
    caracter pessoal e não toma o territorial, os costumes e as leis civis
    do imperio para os vencidos, ao passo que nos codigos dos vencedores
    vamos encontrar substituidas ou modificadas muitas das antigas usanças
    germanicas por doutrinas de direito romano.

    Entre os barbaros, os chefes das hostes que vagueavam nos confins do
    imperio, e que não raro invadiam e devastavam as provincias, obtinham
    rodear-se de uma clientela de guerreiros, mais ou menos numerosa, pelo
    sustento e por dadivas de armas offensivas e defensivas, de cavallos de
    combate, e de objectos analogos. Depois da conquista, os novos
    dominadores, que encontravam por toda a parte milhares de compatricios
    constituindo corpos de soldadesca, retribuidos, cada um d'elles, com o
    producto do respectivo predio, adoptaram o systema dos beneficios, mas
    accommodando-o aos proprios habitos. Em vez de constituirem familias
    militares, succedendo os filhos aos paes na posse do predio ou predios
    beneficiarios, com a sujeição aos encargos pessoaes ligados a esses
    predios, os antrustiões, leudes, fieis, vassos, etc., isto é, os
    clientes dos reis, dos magistrados, e dos chefes militares, recebiam dos
    seus patronos em _beneficio_ terras que representavam, de modo mais
    amplo e mais regular, os antigos alimentos e dadivas, mas que, todavia,
    eram concessões temporarias e revogaveis, ou quando muito vitalicias.
    Foi só depois, na transformação do beneficio em feudo, que as obrigações
    beneficiarias se acharam associadas com o dominio pleno e a
    hereditariedade, restaurado assim de certo modo o beneficio romano[108].

    Além da aristocracia procedida do exercicio de cargos eminentes, e sobre
    tudo das altas funcções militares, analoga, portanto, á aristocracia
    romana, os novos estados conservavam uma nobreza de berço ou de raça,
    distincção social de origem germanica. Se não absolutamente, as duas
    aristocracias confundiam-se em geral, porque de ordinario as funções
    mais elevadas recaíam nessas familias illustres. Era, até,
    exclusivamente do seio de algumas d'ellas que saiam pela eleição os
    _koninge_ ou reis barbaros. Os membros mais poderosos d'esta
    aristocracia guerreira e turbulenta, tendo-se apoderado em larga escala
    da propriedade territorial, concediam beneficios aos seus apaniguados
    para os acompanharem, quer nas guerras entre os diversos estados que
    laboriosamente se constituiam, quer nas _faidas_ ou rixas privadas, que
    diariamente se alevantavam entre elles proprios. Assim generalisado cada
    vez mais, o beneficio, instituição, como acabamos de vêr, radicalmente
    romana, tornou-se um modo vulgar de usufruir a terra. Na essencia,
    porém, o que era elle? Certa forma economica de retribuição. Era o
    soldo, o ordenado, o vencimento, a gratificação, pagos em troco de
    serviços, entre os quaes, n'aquella épocha tormentosa, avultuava mais
    que todos o tracto das armas. O beneficiario, em vez de receber do
    estado ou do poderoso a quem servia uma retribuição pecuniaria, recebia
    directamente em trabalho, em productos, ou em moeda, do tributario, do
    colono, ou do servo da gleba, do productor, em summa, que fecundava a
    terra, o que nos tempos modernos recebe do erario ou da bolsa do
    opulento. O beneficio, temporario ou vitalicio, podia ser e era um mau
    systema de retribuição publica ou privada, mas de certo não era
    obstaculo á constituição de uma sociedade regular, ao passo que o feudo,
    como elemento predominante das instituições politicas, não fazia senão
    dar a uma anarchia despotica as apparencias de ordem e de regularidade.

    Muitos escriptores teem considerado o advento do feudalismo como
    necessidade fatal; como phase indispensavel no progresso das nações
    modernas. Duvido da solidez d'esta doutrina, e parece-me que a historia
    social das Hespanhas a torna mais que problematica. Se os successores de
    Carlos Magno, assim como herdaram os vastos estados que elle lhes legou,
    houvessem herdado o seu genio, e se as discordias de familia não
    tivessem enfraquecido o principio da unidade e o poder central que elle
    constituira vigoroso, é possivel que a hereditariedade dos beneficios
    nunca chegasse a predominar, e que, pelo menos, as varias magistraturas
    não se convertessem em propriedade dos que as exerciam. É sobretudo
    n'este ultimo facto, cuja individuação é necessaria para bem se apreciar
    a sua influencia na transformação que se operava, que vamos encontrar a
    causa proxima e dobradamente efficaz da organisação ou, antes,
    desorganisação feudal.

    VI

    As varias gentes de raça germanica, apoderando-se das provincias romanas
    e constituindo ahi nações diversas, achavam n'essa nova patria um
    mechanismo administrativo, judicial, e militar, que não saberiam
    substituir, porque, embora oppressivo, era admiravelmente harmonico,
    previdente e efficaz. Adoptaram-no, modificando-o n'aquillo que
    repugnava ás suas rudes instituições ou usos inveterados. Em relação aos
    caracteres e condições das magistraturas superiores de cada districto
    davam-se analogias entre a sociedade germanica e a romana. Os _gravios_
    teutonicos correspondiam não só aos _praesides_, _rectores_ ou
    _judices_, magistrados que nas circumscripções provinciaes do imperio
    exerciam o mais alto poder administrativo e judicial, mas tambem aos
    _comites_ de diversos graus que dirigiam a milicia conjunctamente com os
    _duces_, inferiores aos _comites magistri militum_, e ainda aos _comites
    dioeceseon_, mas superiores aos _comites minores_. O _gravio_ germanico
    era o principal magistrado civil e militar de cada _gau_, ou districto,
    que constituia uma unidade social entre os povos teutonicos. Era elle
    que presidia ás assembleas dos homens livres do _gau_, (adelingos,
    arimanos, rachimburgos, etc.), que lhes distribuia justiça, e que os
    acaudilhava na guerra. Como o _dux_ entre os romanos, o _herzog_
    (conductor do exercito), chefe transitorio e electivo, capitaneava a
    hoste, acervo dos bandos armados dos diversos _gaus_, e as suas funcções
    cessavam acabada a guerra. A denominação de _koning_, que ás vezes e em
    dadas circumstancias designava aquelles d'estes chefes cuja supremacia
    se mantinha indefinidamente nas longas luctas da invasão e conquista,
    traduziram-na os romanos pela palavra _rex_, á falta de vocabulo que
    rigorosamente lhe correspondesse. D'ahi a idéa inexacta que se ligou á
    natureza do poder que exerciam, e que contribuiu para se elevar esse
    poder, convetendo-o em verdadeira soberania, durante o prolongado
    cataclysmo donde surgiram as nações modernas.

    Abaixo do _koning_, do _herzog_, do _gravio_, como abaixo do _praeses_,
    do _dux_, do _comes_, havia, sobretudo na jerarchia militar, varios
    cargos subalternos, uns de origem germanica, outros de origem romana.
    Durante os quatro seculos em que predominou o systema beneficiario,
    tanto os cargos inferiores como os superiores, romanos e germanicos,
    vieram aqui juxta-pôr-se, acolá confundir-se, agora modificar-se, logo
    substituir-se, e a mesma confusão reinou não raro nas attribuições que
    lhes competiam, e até nos vocabulos que os designavam. Estes ficaram
    sendo latinos ou teutonicos conforme preponderava nas novas sociedades o
    elemento romano ou o germanico. Ás vezes empregavam-se indistinctamente
    uns ou outros, tomando aliás o nome teutonico uma desinencia do idioma
    latino, que se tornava geralmente a lingua official. Sirva de exemplo a
    denominação do chefe superior de uma circumscripção territorial, do
    _judex ordinarius_, que no latim corrupto das leis e documentos
    posteriores ao V seculo, ora se chama _comes_, ora _graphio_, isto na
    mesma épocha e no mesmo paiz.

    Todos esses individuos que constituiam a jerarchia administrativa,
    judicial, e militar, recebiam uma retribuição correspondente á sua
    categoria. Além dos bens de raiz que se lhes concediam a titulo de
    beneficio, desfructavam uma porção dos tributos publicos, tanto de
    origem romana, os quaes se mantiveram atravez de toda a épocha
    beneficiaria[109], como de origem germanica. Tal era entre os ultimos a
    terça fiscal (_fredum_) das composições pelos crimes contra as pessoas
    (_wehrgeld_), da qual tocava ao _judex_ o terço; tal a multa por
    desobediencias ao chamamento ás armas (_heribanum_), cujo terço
    egualmente pertencia ao _judex_, quer _dux_, quer _comes_, quer
    designado com outra denominação.

    A épocha beneficiaria não foi mais tranquilla, nem menos anarchica,
    postoque por diverso modo, do que a feudal. Os monumentos d'aquelle
    periodo de devastações e morticinios, as chronicas, as hagiographias, as
    leis, os actos publicos, os documentos particulares, revelam-nos a cada
    passo a soltura das paixões, a sanctificação da força, o vilipendio do
    direito. O mechanismo social e politico era menos monstruoso que o
    feudalismo, mas os costumes eram mais brutaes e ferozes. A ambição
    ignorava ainda os cultos disfarces dos tempos modernos. Ao passo que o
    detentor do beneficio forcejava por tornar hereditaria a posse d'elle,
    os magistrados e chefes militares, sobretudo os da classe mais elevada,
    buscavam supprimir a incommoda supremacia dos reis. A unidade do estado
    representada pelas monarchias barbaras, mal coordenadas com os
    fragmentos do imperio romano, era debil. Os dynastas não tinham melhor
    titulo do que a superioridade dos recursos do proprio valor e
    capacidade, e a velha nobreza de familia, nem mais segurança do que
    preparar de antemão os meios para que a successão recaísse nos seus. O
    principio electivo, mantido em varias partes, fazia lembrar que nas
    florestas da Germania o _koning_ exercia uma auctoridade limitada e, por
    duradoura que fosse, radicalmente transitoria. A tradição dizia aos seus
    barões, aos seus _optimates_, aos seus _vassi_, que esse homem, chamado
    rex na lingua dos vencidos, teria sido no paiz da commum origem egual a
    qualquer d'elles e inferior a todos considerados collectivamente.
    D'estas cogitações deviam tirar força o orgulho e a cubiça. Por outro
    lado, o exemplo dos simples possuidores de beneficios, que já se não
    contentavam da posse vitalicia, e que frequentemente alcançavam da
    fraqueza do poder central a concessão perpetua e hereditaria d'elles, a
    troco dos mesmos serviços pessoaes, limitados, e muitas vezes mal
    definidos, a que estavam adstrictos, era incentivo para os funccionarios
    da mais alta jerarchia, e ainda os de grau inferior, envidarem esfórços
    para transformar a soberania que representavam e os proventos annexos ás
    funcções que exerciam em patrimonio hereditario. Mal podiam monarchias,
    sem a solidez que lhes dá o rijo cimento dos seculos, contrapôr-se a
    esse conjuncto de interesses e ambições. O genio de Carlos Magno reteve
    por algum tempo o impeto da revolução; mas quando a morte removeu o
    obstaculo, a torrente precipitou-se com dobrada violencia. Retalhava-se
    indefinidamente a auctoridade. Se o funccionario incorporava n'uma
    propriedade facticia a soberania, os tributos, e os bens fiscaes, o
    beneficiario, convertido em proprietario, convertia-se tambem em
    soberano dentro do seu beneficio, usurpando a auctoridade dos
    usurpadores. Completava-se assim a dispersão do poder central, e a
    unidade do estado mantinha-se apenas pelo tenue fio das obrigações
    pessoaes que ligava de menor para maior a generalidade dos
    proprietarios. O capitular de Kiersy (Junho de 877), reconhecendo a
    hereditariedade dos cargos, com todas as suas attribuições e direitos,
    não fazia uma revolução; sanccionava uma transformação. O systema
    beneficiario estava transformado e o feudalismo definitivamente
    constituido.

    Esta evolução vê-se despontar, crescer, precipitar-se, e triumphar a
    final, desde o seculo VII até quasi os fins do IX. Corre parallela com o
    ultimo periodo da monarchia wisigothica na Peninsula hispanica, com a
    sua ruina pela conquista mussulmana, e depois com a fundação e
    desenvolvimento da nova monarchia gothica de Oviedo e Leão. Se o
    feudalismo chegou a constituir-se na restaurada monarchia christan, é
    necessario que causas, senão identicas, pelo menos analogas, produzissem
    o mesmo resultado. Buscal-as-hei na historia social dos wisigodos, e nos
    primordios da sociedade néo-gothica. Se não as descubrir, ser-me-ha
    licito duvidar de um effeito sem causa, e interrogar os monumentos que,
    directa ou indirectamente, nos revelam o organismo politico e social do
    occidente da Peninsula no periodo correspondente ao predominio do
    feudalismo, isto é, do fins do seculo XI até os principios do século
    XIII. Não é, de certo, impossivel que a ruim semente, trazida de fóra,
    nascesse e prosperasse no solo da Hespanha. São tambem os monumentos que
    nos hão-de dizer se os factos nos obrigam a recorrer a essa hypothese.

    * * * * *

    É necessario que eu ponha deante dos olhos do leitor o que me parece
    essencial na exegese da legislação wisigothica, d'onde o auctor do
    _Ensayo_ deduz as suas consequencias feudaes. Só assim se poderá fazer
    idéa da exacção ou inexacção das interpretações que dá ás leis, das
    inferencias que d'ellas tira, e apreciar se, com effeito, n'esta ou
    n'aquella instituição, n'esta ou n'aquella praxe juridica, estão como
    incubados alguns elementos de feudalismo.

    Transcreverei, portanto, as passagens do _Ensayo_[110] que servem de
    fundamento á sustentação da these.

    Eis o que o auctor nos diz: «Para dar a conhecer e, sobretudo, para
    explicar devidamente a organisação da propriedade em Hespanha durante a
    edade media, é indispensavel ter presente a que lhe haviam dado as leis
    e os costumes dos wisigodos, quando occorreu a invasão sarracena.
    D'esses costumes e leis, das necessidades que provieram da reconquista
    do territorio, e do exemplo de outros paizes, conquistados tambem
    n'outro tempo pelas tribus septemtrionaes e possuidos ainda por ellas,
    nasceu essa organisação, tão feudal na essencia como a de Catalunha,
    postoque com formas e nomes diversos. Vejamos, pois, como os principaes
    elementos que vieram a constituil-a (a organisação feudal do occidente
    da Hespanha) se encontravam já na sociedade e na legislação
    wisigothicas.

    Era um principio de direito publico entre as nações antigas que o
    conquistador, por isso que o era, adquiria não só o dominio eminente,
    mas tambem o dominio privado de todo o terreno que o seu poder
    abrangia.[111] Em virtude d'este principio, capitães e soldados tomavam
    para si as terras que, conforme a jerarchia ou merito respectivos, lhes
    cabiam na repartição, deixando só aos vencidos uma parte maior ou menor
    do territorio, não como reconhecimento do direito d'elles, mas sim por
    considerações de conveniencia publica. Apropriaram-se, portanto, os
    wisigodos as duas terças partes das terras cultivadas, e deixaram aos
    hespanhoes só o terço das que possuiam.

    A propriedade repartida entre a corôa, os godos conquistadores, e os
    hespanhoes, veio a servir de vinculo entre as varias classes de pessoas
    e de fundamento á nova organisação social. Os godos, que tiveram quinhão
    na rapina, ficaram mais obrigados que d'antes a seguir na guerra e a
    auxiliar com outros serviços o chefe da monarchia. Os reis distribuiram
    uma boa parte das suas terras pela igreja que os ajudava a governar os
    subditos, pelo curiaes e provados de côrte, e pelos servos fiscaes que
    faziam produzir as herdades e contribuiam com as rendas d'ellas e com os
    proprios haveres a satisfazer os encargos publicos. Os capitães e
    senhores godos fizeram repartimentos analogos pelos seus clientes e
    buccellarios, tanto para tirar proveito dos seus latifundios, como para
    manter a propria jerarchia com servidores e defensores numerosos.

    Os godos nobres foram proprietarios allodiaes e liberrimos possuidores
    das terras conquistadas; mas, postoque, adquirindo-as, não contrahissem
    com o estado ou com o rei nenhuma nova obrigação por lei ou por pacto,
    as que já tinham para com os chefes, debaixo de cujas bandeiras haviam
    militado voluntariamente, deviam effectivamente ser mais efficazes,
    assim por interesse de «conservar as vantagens obtidas, como porque,
    tendo residencia fixa e propriedade de raiz, era mais facil de exigir o
    cumprimento d'ellas.

    As terras adquiridas d'este modo foram origem de um sem numero de novas
    relações individuaes, elementos necessarios d'aquella organisação
    social. É sabido que nos povos de raças ou costumes germanicos existia o
    patronato, em virtude do qual cada chefe ou homem poderoso tinha á sua
    devoção uma clientela numerosa, que o servia na paz e na guerra e á qual
    dispensava favores e dadivas. Até a conquista, costumavam estas
    consistir em armas e manjares; mas quando os godos se viram donos de
    vastas herdades, a cuja cultura não podiam prover por si mesmos,
    repartiram muitas d'ellas pelos seus clientes ou buccellarios com
    condições expressas e como paga dos seus serviços. Novidade tão
    importante teve notaveis consequencias no que tocava ás relações
    sociaes, porque com ella o vinculo do patronato tornou-se mais apertado
    e duradouro. Familias numerosas, que d'antes vagueavam à mercê dos
    accidentes da guerra ou conforme o capricho dos seus senhores, fizeram
    assento em sitios certos, defendendo-se com as armas, povoando-os com os
    filhos, e fecundando-os com o trabalho. Patronos e clientes ficaram
    assim identificados por um interesse commum mais efficaz do que o que
    poderia haver quando apenas se enlaçavam por presentes e banquetes. E
    não pode duvidar-se de que, estabelecidos os godos em Hespanha, se
    serviram dos seus herdamentos para constituir e estender os patronatos,
    visto que uma lei do _Forum Judicum_, estatuia que o patrono que tomava
    para si um cliente alheio lhe concedesse _terra_, para que elle largasse
    a terra e o mais que tivesse do anterior patrono.»

    O auctor declara _exorbitantes_ os direitos do patrono sobre o cliente
    entre os wisigodos: 1.^o–a perpetuidade do patronato e clientela de
    paes a filhos: 2.^o–a tutela das filhas do cliente passando por morte
    d'este ao patrono, e perdendo ellas os bens herdados havidos do patrono
    por seu pae, se casavam com individuo de condição inferior:
    3.^o–pertencer ao patrono o que o cliente adquiria com seu saião ou
    agente judicial: 4.^o–perder o cliente que trahia o patrono quanto
    d'elle houvera, e metade do que afóra disso adquirira: 5.^o–ter o
    patrono o direito de julgar, castigar e açoutar o cliente. O unico
    direito do cliente era o de deixar o patrono quando queria, e de possuir
    o que d'elle houvera em quanto o não deixava ou não lhe era infiel. O
    sr. Cárdenas vê n'estas relações do patrono e do cliente a _verdadeira
    origem_ das que se deram posteriormente entre senhores e vassallos nos
    feudos propriamente dictos, e nos senhorios similhantes a elles. Depois
    continua:

    «Muitas das terras adjudicadas á corôa foram repartidas pelos _curiaes_
    e _privados de côrte_, e pela igreja. Parece que se chamavam curiaes e
    privados aquelles que, em razão das propriedades que disfructavam,
    contribuiam para o erario com certos censos e prestações de fructos e
    cavallos. _Eram fidalgos_, postoque possuidores de terras tributarias.

    Dava além d'isso o rei as terras da corôa aos seus _fieis_, isto é, aos
    que estavam ás suas ordens, que lhe faziam serviço e que guardavam a sua
    pessoa.» Estes não deviam ser privados da propria dignidade nem dos bens
    havidos do rei, que poderiam legar, salvo no caso de traição. «Por
    ventura–continúa o auctor–não eram na essencia diversos dos que,
    depois, Chindaswintho chamava _curiaes_ e _privados de côrte_, com a
    differença de que uns podiam dispor dos seus bens e outros não. Davam-se
    outras terras da corôa a _servos fieis_ para que as cultivassem e
    contribuissem para o erario com parte dos fructos d'ellas. Era a
    condição d'estes servos mui superior á dos outros.» O auctor enumera
    depois em que consistiam estas differenças de que terei ainda occasião
    de falar.

    Omitto n'estes extractos o que é relativo á propriedade ecclesiastica.
    Sejam quaes forem as reflexões que a similhante respeito o trabalho do
    sr. Cárdenas possa suscitar, pouco serviriam taes reflexões para
    investigar os elementos de feudalismo que elle crê encontrar na
    contextura da sociedade wisigothica. Por egual razão deixarei de parte o
    que pondera ácerca das manumissões e dos libertos, dos colonos, e dos
    cultivadores por titulo precario. A transformação da servidão em
    colonato, em adhesão á gleba, e o gradual desapparecimento do homem
    livre de condição humilde, do trabalhor rural, e até do pequeno
    proprietario, na grande massa dos adscriptos foi um phenomeno social,
    que nem acompanhou de modo synchronico a transformação do systema
    beneficiario em feudalismo, nem derivou d'este, nem finalmente
    contribuiu para a sua existencia. Só mencionarei a singular
    interpretação que o sr. Cárdenas dá a uma das leis do Código wisigothico
    mais importantes para illustrar a obscura historia das instituições
    sociaes d'essa épocha, d'aquillo a que chamamos hoje relações de direito
    publico. É a que se refere á transmissão de terras pelos proprietarios a
    cultivadores. «Uma lei wisigothica–diz elle–alludindo aos colonos que
    os proprietarios costumavam pôr nas suas terras, suppõe ser inherente
    nos mesmos colonos a obrigação de pagar ao dono certas prestações ou
    censos. Dá-se a entender n'essa lei, apesar da sua obscuridade no
    original latino, que se o colono (_accola_) posto pelo dono na herdade
    transmittia a outro o terço d'ella (_tertiam_), isto é, a porção de
    terra deixada aos romanos, o cessionario devia pagar por ella ao
    senhorio do mesmo modo que o fazia o cedente. D'esta lei deduzem-se dous
    factos importantes: 1.^o que os patronos davam terras de colonia aos
    seus clientes: 2.^o que o terço das deixadas aos indigenas costumava ser
    possuido por esses como colonos e debaixo do patronato do dono dos
    outros dous terços.»

    O sr. Cárdenas suppõe que desde a entrada dos godos os hispano-romanos
    ficaram como estes obrigados ao serviço militar; mas reconhece que tal
    obrigação não se ligava com a posse da propriedade territorial. «Os
    godos de raça….. julgavam-se obrigados… a defender, ajudar e servir
    o monarcha… Os hispano-romano… estavam á mercê dos seus dominadores,
    tanto para os encargos da paz como para as lidas da guerra. Uns e outros
    haviam de cumprir fielmente aquella obrigação nos tempos immediatos á
    conquista.» E depois de lembrar as leis que coagiam ao serviço de
    guerra, e sobretudo as severas providencias de Wamba, prosegue: «Bem que
    todas estas apertadas disposições não se note relação alguma entre o
    goso da propriedade e as obrigações militares, uma lei posterior de
    Egica offerece alguns indicios d'essa relação, postoque vagos. Os servos
    ficaes, que, como já disse, costumavam possuir terras da corôa, com
    condições similhantes ás dos vassallos feudaes da edade media, tinham
    sem duvida recebido, no acto de serem emancipados, elles ou seus
    ascendentes, alguma porção d'aquellas terras, ou outra doação do seu
    real patrono… Estes libertos não deviam a principio ter entre as
    demais obrigações suas a de vestirem as armas, porque indubitavelmente
    nos primeiros tempos era isso privilegio dos godos originariamente
    livres.» Confessa o auctor, depois, que as leis de Wamba abrangiam
    tambem os libertos fiscaes. Entretanto vê na lei de Egica a prova da
    insufficiente efficacia d'aquelloutras leis em relação a esta classe de
    libertos, ou qualquer conveniencia de uma lei especial a respeito
    d'elles, e accrescenta: «Não se deve presumir que o fundamento d'esta
    obrigação (a imposta especificadamente por Egica) foi a concessão de
    terras que a corôa costumava fazer aos seus servos no acto de lhes dar
    alforria?

    Tambem existem indicios da mesma obrigação na que tinham os curiaes e os
    clientes para com os respectivos patronos, derivada das suas relações
    especiaes, e das liberalidades que estes faziam áquelles. Conforme uma
    lei já citada, os _curiaes e privados de côrte_ deviam dar cavallos ao
    rei (_caballos ponere_) o que na linguagem d'aquelle tempo significava
    servir o principe com cavalleiros armados. Tendo os curiaes os seus bens
    gravados com este encargo, é claro que a posse d'elles envolvia em si o
    dever do serviço militar. Outras leis do mesmo codigo mostram que os
    patronos davam aos seus clientes armas ou outras cousas que estes
    perdiam quando deixavam o serviço d'elles; donde deve inferir-se que os
    buccellarios contrahiam a obrigação de servir com ellas aos seus
    senhores, do mesmo modo que os clientes aos patronos germanicos, e os
    vassallos aos senhores feudaes.

    A jurisdicção e o poder publico egualmente se não consideravam ainda
    como derivando do dominio privado da terra… Porém, se não era esta a
    origem immediata da jurisdicção, já começava de certo modo a fundal-a
    creando relações sociaes que a produziam, embora limitada. Exercia-se a
    jurisdicção em geral por delegados regios, chamados duques, condes,
    vigarios, _assertores pacis_, tiuphados, millenarios, centenarios,
    decanos e defensores, ou pelo rei pessoalmente, e ás vezes pelos bispos.
    Mas, afóra isso, existia outra especie de jurisdicção privada, a dos
    senhores sobre seus escravos, e a dos patronos sobre os seus clientes. A
    primeira procedia do dominio senhorial, e postoque inicialmente não
    tivesse nenhuma relação com a propriedade territorial, chegou de certo
    modo a depender d'ella quando os servos ficaram perpetuamente adscriptos
    á gleba e se lhe reconheceu por costume o direito de não serem separados
    dos predios onde trabalhavam. Transmittida tal jurisdicção com esses
    predios, claro está que o adquirente obtinha, em virtude da acquisição,
    a auctoridade correlativa sobre aquelles que ahi habitavam e os
    grangeavam. Quando estes servos eram manumittidos com a condição de
    ficarem adscriptos ao solo, sem duvida melhoravam de situação; mas não
    saíam de todo do poder dos seus senhores, os quaes continuavam a ter
    sobre elles a mesma jurisdicção que tinham anteriormente.

    As leis wisigothicas…. ordenavam que os servos, réos de homicidio ou
    d'outro crime capital, fossem sujeitos ao julgamento publico e não
    julgados pelos senhores… A jurisdicção dominical estendia-se a todos
    os delictos não capitaes, e ainda aos capitaes consentindo-o os juizes.

    Tambem as leis wisigothicas presuppõem nos patronos a faculdade de
    castigar com açoutes os que estavam postos debaixo do seu patrocinio,
    que eram os libertos e os clientes ou buccellarios. Não especificam
    essas leis os limites d'este poder nem a fórma de o exercer; mas
    reconhecem-no positivamente, declarando irresponsavel aquelle que, no
    acto de castigar o seu pupillo, patrocinado, ou servo, lhe causava
    involuntariamente a morte.»

    * * * * *

    É do complexo das precedentes disposições legaes, e dos factos que
    d'ellas crê resultarem, que o sr. Cárdenas deduz, como já vimos, que,
    embora a propriedade entre os wisigodos não tivesse _todos_ os signaes
    caracteristicos do feudalismo, encerrava como em incubação _todos_ os
    germens d'elle.

    VII

    É, pois, quasi exclusivamente nas leis do Codigo wisigothico que o sr.
    Cárdenas vai encontrar os elementos feudaes que, na sua opinião, se
    desenvolveram e completaram nas monarchias neogothicas. Para apreciar o
    valor d'este celebre monumento cumpre dizer algumas palavras sobre a sua
    origem e sobre a sua historia.

    Na exposição e interpretação das leis d'esse codigo, em que o auctor do
    _Ensayo_ pensa estribar a propria doutrina, ha, a meu ver, um defeito
    grave. É a confusão das épochas, o que não raro o illude sobre o valor e
    significação dos textos. No estado em que chegou até nós, essa
    compilação legal é um complexo, uma collecção de leis quasi
    exclusivamente civis, criminaes, e relativas à ordem do processo,
    estatuidas em diversos tempos atravez de dous seculos: é o resultado de
    successivas reformas de um codigo primitivo; e representa modificações
    graduaes realisadas, ou pelo menos tentadas, nas relações civis e na
    administração da justiça. Para a historia da propriedade, como para a de
    outra qualquer condição da existencia social, é indispensavel que não
    apreciemos aquelles monumentos legislativos como juxta-postos n'um plano
    uniforme, mas que os observemos na sua concatenação chronologica.

    O Codigo wisigothico ou _Livro dos Juizes_, dividido por materias, ao
    menos intencionalmente, e em livros e titulos, deve, como fonte
    historica, dividir-se de diverso modo. Posta de parte a intenção
    scientifica da sua distribuição, as leis n'elle contidas constituem tres
    grupos distinctos:–o das que na respectiva rubrica são designadas pela
    palavra _antiqua_;–o d'aquellas que na rubrica se attribuem
    expressamente a tal ou tal rei;–finalmente, o das leis em cuja rubrica
    nem se exprime o nome do auctor, nem apparece a designação de _antiqua_.

    Infelizmente as numerosas copias que serviram para a edição d'este
    importante monumento, feita pela Academia de Madrid nos começos do
    seculo actual, são comparativamente modernas, e em todas ellas as
    rubricas foram transcriptas com maior ou menor negligencia, de modo que,
    faltando a qualificação de _antiqua_ e não sendo o auctor de qualquer
    lei uniformemente designado em todos os codices ou mencionado no proprio
    texto da lei, só por conjecturas chegaremos a approximar-nos da certeza
    sobre o reinado em que foi promulgada ou se pertence á collecção antiga.
    Se existissem exemplares dos traslados authenticos que se mencionam no
    proprio codigo[112], seria possivel determinar as differenças entre as
    varias redacções d'elle, e assignar a épocha de cada uma das leis
    avulsas ahi inseridas successivamente, para o que as rubricas seriam
    guia segura; mas nenhum de taes exemplares é conhecido nem provavelmente
    existe. Não devendo a ultima redacção ser posterior aos fins do VII
    seculo, e não remontando cópia alguma das existentes além do IX[113], á
    falta de qualquer outro indicio, não haverá razão para crer que o
    copista d'esta épocha fosse menos negligente do que os do X ou XI, ou
    que não a estes mas áquelle tivesse servido ou deixado de servir de
    texto um antigo exemplar authentico.

    Abstraindo, porém, dos erros e omissões em que n'este ponto possam ter
    caido os copistas dos varios codices que restam do _Liber Judicum_, a
    proproção entre os tres grupos, na ordem em que ficam mencionados, é
    proximamente e em numeros redondos 220, 240, 110. D'estas ultimas cumpre
    diminuir as 15 que constituem o livro I e que não são actos
    legislativos, mas sim considerações de ordem moral ácerca dos deveres do
    legislador e dos caracteres da lei. As restantes são na maxima parte
    qualificadas de _antiquae_ n'um dos manuscriptos mais auctorisados, o do
    cabido de S. Izidro de Leão, manuscripto que parece ter sido considerado
    no tempo de S. Fernando, elle ou outro texto identico, como texto
    official para se fazerem as versões vulgares[114].

    A Academia de Madrid omittiu a qualificação de _antiqua_ quando faltava
    na maioria dos codices, embora se encontrasse em algum e nas rubricas
    dos outros não se attribuisse a lei a nenhum rei determinadamente. Mas
    parecendo razoavel acceitar em geral o texto legionense como mais digno
    de fé, ainda suppondo que nas indicações d'elle haja um ou outro
    equivoco, pode dizer-se que as leis denominadas vagamente _antiquae_
    excedem em numero as que na rubrica individuam o nome do respectivo
    legislador. D'aqui resulta evidentemente que na conjunctura da invasão
    sarracena havia na legislação gothica duas partes distinctas: uma que se
    considerava como principal fonte do direito escripto; como corpo de
    doutrina, digamos assim, impessoal, representando a tradição juridica da
    antiga sociedade gothica: outra que continha as reformas e as novas
    codificações de Chindaswintho e de seu filho Receswintho, de Ervigio e
    de Egica, em que se incluiam algumas constituições avulsas de outros
    reis godos adoptadas pelos mais recentes reformadores. Na minha opinião,
    as _antiquae_ correspondem á épocha decorrida de Eurico a Leovigildo; e
    as novas á que se estende do reinado de Reccaredo até o reinado de
    Egica. No pequeno numero d'aquellas em cuja rubrica se lêem as palavras
    _antiqua noviter emendata_ é que não é possivel distinguir o que
    pertence a cada uma das duas épochas.

    A publicação de um fragmento do primitivo codigo dos wisigodos
    conservado n'um palimpsesto do mosteiro de Corbie, fragmento descuberto
    pelos maurienses, transcripto modernamente por Knust, e dado á luz por
    Bluhme em 1847[115], lançou luz inesperada sobre as origens da
    legislação dos godos. Seguindo as indicações de Lucas de Tuy, Bluhme viu
    neste fragmento uma parte do resumo do codigo gothico que o auctor do
    _Chronicon Mundi_ attribue ao filho do Leovigildo. O professor Gaupp
    combateu com razões vehementes os fundamentos da opinião de Bluhme,
    attribuindo muito maior antiguidade ao fragmento, e estribando-se n'uma
    auctoridade mais solida do que a de Lucas de Tuy, a de S. Isidoro, para
    lhe dar por auctor Eurico. Merkel, o erudito editor da _Lex Alemanorum_
    na grande Collecção de Pertz, tomou vigorosamente a defeza da opinião de
    Bluhme, mostrando a impossibilidade de se attribuirem a Eurico as leis
    do _Liber Judicum_ denominadas _antiquae_, que são evidentemente a
    reproducção mais ou menos alterada do codigo de que fazia parte o
    fragmento do palimpsesto. Pétigny, n'um trabalho que se distingue pela
    penetração e lucidez, assenta que esse antigo codigo, cuja existencia é
    indisputavel á vista do manucripto de Corbie, teve por auctor o mesmo
    Alarrico II que promulgou o _Breviarium_ como lei pessoal dos seus
    subditos gallo-romanos e hispano-romanos. É a hypothese que me parece
    mais plausivel[116].

    A lei 277 do fragmento obriga forçosamente a escolher entre a opinião de
    Bluhme e a de Pétigny. Resulta d'essa lei que o auctor d'aquelle codigo
    era filho e successor de um rei legislador. Ora pelo testemunho de S.
    Isidoro sabemos que antes de Eurico, pae e antecessor de Alarico II, os
    wisigodos não tinham leis escriptas, regendo-se por costumes
    tradicionaes, e depois d'isso o unico rei o que celebre bispo de Sevilha
    menciona como reformador do código gothico é Leovigildo, pae de
    Reccaredo I. Depois de Reccaredo só consta da existencia da compilação
    de Chindaswintho e Receswintho, que representa uma tentativa de
    conversão do direito pessoal em real ou territorial, e que com as
    successivas modificações de Ervigio e algumas leis de Egica constitue o
    que hoje chamamos Codigo wisigothico.

    Na opinião de Lardizabal (em cujo tempo era desconhecido o texto do
    palimpsesto de Corbie), opinião adoptada por Gaupp e por Haenel, as
    _leges antiquae_ representam o codigo gothico primitivo, e pertencem á
    compilação legislativa que S. Isidoro parece attribuir a Eurico. Assim o
    fragmento de Bluhme, cuja similhança com as _leges antiquae_
    correlativas é evidente, constituiria uma parte desse codigo primordial
    de Eurico. Mas uma simples observação de Bluhme destroe a opinião
    adoptada por Gaupp e Haenel. É que o capitulo 285 do texto palimpsesto é
    a reproducção da _interpretatio_ do _Breviarium_ ao liv. II, tit. 33, l.
    2, do Codigo theodosiano. Sendo, porém, o _Breviarium_ compilado por
    ordem de Alarico II, e promulgado nos primeiros annos do seculo VI, não
    podia o seu antecessor ter ido nos meados do V seculo buscar lá o texto
    de uma lei. Independente d'isso, e conforme já se advertiu, o fragmento
    do palimpsesto, ou por outra o codigo a que pertenceram inicialmente as
    _antiquae_, não póde attribuir-se a um principe, cujo pae não fosse
    legislador, como se deduz do proprio fragmento, e supposto o facto
    attestado por S. Isidoro de que anteriormente a Eurico os godos se
    regiam por costumes tradicionaes, e não tinham leis escriptas. É por
    isso que, excluido Reccaredo, a nenhum outro rei anterior a Leovigildo
    se póde attribuir o codigo a que pertencia o fragmento de Corbie senão a
    Alarico.

    Tudo, pois, conspira em levar a um alto gráu de probabilidade a opinião
    de Pétigny, cujos fundamentos se podem ver no seu excellente trabalho,
    regeitada não só a hypothese de Bluhme, mas tambem a de Lardizabal e de
    Gaupp, embora esta pareça fundar-se na grande auctoridade de S. Isidoro.

    Digo _pareça_, porque a interpretação que se tem dado a duas passagens
    da _Historia Gothorum_ não a creio indisputavel[117]. Na primeira diz S.
    Isidoro que os godos _principiaram_ (_coeperunt_) no reinado de Eurico a
    ter disposições legislativas por escripto; porque antes d'isso regiam-se
    _tão somente_ (_tantum_) por usos e costumes. A inferencia rigorosa
    d'estas palavras não se me afigura ser de que Eurico incorporou n'um
    codigo escripto os usos e costumes dos godos; mas sim que promulgou por
    escripto as proprias leis, as quaes vigoraram a par do direito
    tradicional. A passagem relativa a Leovigildo deve, a meu ver,
    significar que, no corpo ou collecção das leis (_in legibus_), este
    principe corrigiu ou aclarou as disposições legislativas de Eurico que
    pareciam confusas, suscitando além d'isso algumas leis omittidas, e
    supprimindo muitas inuteis. N'esta referencia á refórma de Leovigildo
    vejo a existencia de um codigo, ou de uma collecção, na qual se contém
    certo numero, maior ou menor, de leis confusas de Eurico que Leovigildo
    corrige, e onde ao mesmo tempo introduz certas leis, necessarias ou
    uteis, bem que postas de parte, e supprime muitas caidas em desuso e por
    tanto inuteis. Não alcanço bem como se emendariam as obscuridades, as
    confusões dos actos legislativos de Eurico, pondo e tirando leis na
    collecção. São evidentemente dous factos distinctos. _In legibus, ea
    quae ab Eurico inconditè constituta_, etc. é forçosamente diverso de
    _Leges ab Eurico inconditè conflatas_, como diria S. Isidoro, se
    existisse um corpo de leis ou codigo de Eurico, e as correcções feitas
    por Leovigildo a esse codigo tivessem consistido em restituir leis
    omittidas por elle, o que supporia a existencia de um codigo mais
    antigo, e em supprimir as inutilmente conservadas.

    Admittido, porém, o que seria por si só assás provavel, isto é, que
    Alarico, ao passo que fazia redigir o _Breviarium_ para uso dos subditos
    gallo-romanos e hispano-romanos, coordenava para os homens da sua raça
    um codigo contendo as leis de Eurico, as modificações que aos antigos
    usos e costumes germanicos traziam forçosamente as novas condições
    sociaes dos godos, e bem assim as disposições de direito romano
    convenientes ou necessarias á sociedade barbara como se achava agora
    constituida, o palimpsesto de Corbie e a passagem de S. Isidoro
    esclarecem-se mutuamente. Na épocha de Leovigildo tinha passado quasi um
    seculo desde que Eurico dilatara os estreitos limites de Westgothia e
    constituira um estado assas vasto no sul das Gallias e na Hespanha. As
    leis que esse engrandecimento tinha obrigado o conquistador a promulgar,
    e que do palimpsesto vemos terem sido incluidas ou mandadas guardar no
    codigo gothico de Alarico, agora que os godos se tinham achado por tanto
    tempo em intimo com a civilisação romana, deviam carecer de
    modificações, e não só ellas, mas tambem outras leis do codigo em que
    estavam contidas. Das reformas politicas feitas por Leovigildo
    restam-nos vestigios, embora obscuros e fugitivos[118]. A revisão das
    leis civis e criminaes era um conectario natural d'essas reformas,
    factos ambos tornados indubitaveis pela affirmativa de uma testemunha
    tal como o celebre bispo de Sevilha.

    Escriptor contemporaneo, e um dos homens mais instruidos se não o mais
    instruido do seu tempo, S. Isidoro, irmão de S. Leandro e seu successor
    no episcopado, fôra testemunha e naturalmente actor no drama politico da
    substituição do catholicismo ao arianismo como religião do estado. S.
    Leandro fizera n'essa mudança o principal papel, e de certo a nenhum dos
    dous irmãos era cara a memoria de Leovigildo, grande principe, mas
    ferrenho ariano. Escrevendo resumidamente a historia dos godos, S.
    Isidoro não podia deixar de mencionar um dos factos mais importantes do
    reinado de Leovigildo–a reforma do codigo. Por maioria de razão, se
    algum dos principes catholicos, desde o converso Reccaredo até Suintila,
    em cujo reinado termina a sua _Historia Gothorum_, houvesse emprehendido
    e levado a cabo uma nova revisão do codigo, elle não esqueceria esse
    notavel facto, elle que tanto os exalta sem exceptuar o proprio
    Suintila, cuja deposição depois ajudou a sanccionar no IV concilio de
    Toledo. O silencio de S. Isidoro é eloquente.

    Mas ha uma circumstancia que me parece decisiva no assumpto. As leis
    contidas no fragmento de Corbie correspondem geralmente a outras tantas
    leis do _Liber Judicum_ designadas como _antiquae_. Raras correspondem
    ás _antiquae noviter emendatae_, e apenas quatro, de que só restam
    poucas palavras soltas, podem suspeitar-se analogas a quatro leis da
    compilação moderna, que n'uns codices teem a qualificação _antiqua_,
    n'outros são attribuidas a Chindaswintho. Entre as que estão completas
    ou quasi completas e as _antiquae_ correspondentes ha numerosas mudanças
    de phrase, que ás vezes modificam a substancia da lei. Sendo, porém, o
    inedito publicado por Bluhme um fragmento do primitivo codigo, é forçoso
    que as _antiquae_ pertençam á reforma de Leovigildo, visto não constar
    da existencia de outra revisão anterior á de Chindaswintho e
    Receswintho.

    Confirma isto mesmo a especificação dos principes que promulgaram as
    outras leis successivamente addicionadas ao codigo, especificação que
    não remonta em nenhum manuscripto além de Reccaredo. É preciso não
    esquecer que a revolução religiosa sanccionada pelo habil filho de
    Leovigildo alterou profundamente as condições politicas da sociedade. O
    elemento hispano-romano, pela influencia que os concilios desde o III de
    Toledo começaram a exercer nas cousas temporaes, punha-se politicamente
    a par do elemento germanico. Abstrahindo dos oito nomes gothicos dos
    bispos que abjuraram o arianismo, os nomes greco-latinos da quasi
    totalidade dos prelados que intervieram n'aquella assemblea são
    sobejamente significativos. A preponderancia do clero catholico ou
    hispano-romano trouxe, como não podia deixar de trazer, importantes
    modificações no estado social. Na legislação, como em muitas outras
    cousas, a figurada conversão dos godos divide a historia do dominio
    d'estes na Peninsula em duas épochas: a _antiga_ do codigo alariciano
    reformado por Leovigildo; a _moderna_ das leis avulsas que o modificaram
    ou augmentaram, e que com elle foram systematisadas primeiramente nos
    reinados de Chindaswintho e Receswintho, depois nos de Ervigio e de
    Egica.

    Disse que esta épocha moderna corre desde o reinado de Reccaredo I até o
    de Egica. Tem-se duvidado se existem actos legislativos de
    Reccaredo[119]. De uma lei de Sisebutho consta, porém, com certeza que
    elle promulgara uma constituição ácerca dos escravos dos judeus[120].
    Effectivamente no III concilio de Toledo, em que se começaram a tractar
    assumptos de ordem civil, embora por indicação do rei e com assenso dos
    officiaes palatinos, estatuiu-se no canon 14 que os judeus não podessem
    ter mulher, creada, ou escrava christan, e que os filhos havidos d'estas
    fossem baptizados. As leis hostis aos judeus romantam, pois, áquelle
    reinado, e a referencia de Sisebutho a uma constituição de Reccaredo,
    d'onde se vê que se estendeu a disposição do concilio aos escravos do
    sexo masculino, prova que, ao menos em relação a este assumpto, é
    Reccaredo que deve contar-se como o primeiro legislador da épocha
    moderna; nem é impossivel que varias leis do codigo que em mais de um
    dos textos manuscriptos se lhe attribuem sejam realmente d'elle. Deve
    ultimamente notar-se que nas referencias feitas nas leis dos successores
    de Reccaredo a alguma das designadas pela rubrica _antiqua_, a
    referencia é sempre impessoal, é sempre ás _priscae leges_, e que
    Sisebuto referindo-se á constituição ácerca dos judeus exprime o auctor
    da lei.

    Existem, pois, em geral dous corpos distinctos na legislação dos
    wisigodos: a compilação alariciana revista e alterada por Leovigildo; e
    a reforma posterior á victoria do catholicismo, reforma representada
    pela substituição de um codigo territorial ao direito pessoal, ás _leges
    wisigothorum_ e á _lex romana_, codigo ainda uma vez accrescentado e
    alterado pouco antes da dissolução da sociedade godo-romana. Mas
    notes-se bem: esta distincção chronologica refere-se em geral á doutrina
    das disposições contidas no _Liber Judicum_, e nem sempre á sua letra e
    forma externa. Há alterações evidentes de redacção n'algumas _antiquae_,
    em que aliás falta a rubrica _antiqua noviter emendata_. Podem estas
    ser, não intencionaes, mas resultado ou da irreflexão ou da inhabilidade
    com que foram transferidas para o moderno codigo.

    VIII

    Considerado como um dos diversos modos de usufruir a terra, luz a que os
    civilistas principalmente o vêem, o systema feudal pertence ao direito
    civil, e quasi se confunde com o systema emphyteutico. Mas, quando
    dizemos que em qualquer épocha ou em qualquer paiz dominou o feudalismo,
    formulamos uma concepção de ordem inteiramente diversa; referimo-nos ás
    instituições sociaes; ao que hoje chamamos direito publico. Para
    podermos, pois, affirmar que na sociedade wisigothica estavam em
    incubação todos os elementos do organismo feudal, os quaes sem a
    conquista mussulmana teriam produzido na Hespanha um feudalismo
    inteiramente similhante ao da Europa central, é preciso que examinemos a
    estructura do corpo politico e o complexo das relações do individuo com
    a sociedade. Mas para isto bastará acaso recorrer ao Codigo wisigothico,
    quer na parte antiga quer na moderna? Creio que não. Que se me permittam
    algumas considerações geraes antes de expôr os motivos d'esta minha
    incredulidade.

    Queremos achar estatuido sempre nos codigos barbaros o direito que regia
    quer a vida civil quer a vida publica dos homens d'aquelles tempos.
    Vemos a cada momentos a edade media pelo prisma dos nossos habitos;
    pelas idéas que nos tornou congenitas uma civilisação incomparavelmente
    mais adeantada. As proprias locuções com que o escriptor precisa de
    exprimir-se para evitar longas periphrases, ou para ser comprehendido
    por aquella parte do publico, á qual os livros sobre taes assumptos são
    especialmente destinados, conduzem os leitores a conceberem
    inexactamente os factos. Os vocabulos _instituições_, _direito_, _lei_,
    e outros analogos, despertam em nós a idéa de preceitos, de regras de
    vida civil, escriptos n'alguma parte, absolutos, precisamente definidos,
    com data sabida, promulgados com solemnidade, e applicados
    permanentemente aos casos previstos n'esses preceitos ou regras. Nas
    relações juridicas, o modo de ser das novas sociedades em via de
    formação era diverso. Na minha opinião, os codigos barbaros,
    considerados cumulativamente e no todo de cada um d'elles, longe de
    representarem as instituições juridicas iniciaes, espontaneas, da varias
    tribus germanicas que, avassallando as provincias do imperio, começavam
    a constituir as nações actuaes, representam antes a lucta da esplendida
    civilisação que expirava e dos arrebóes da civilisação que ia nascer com
    a barbaria triumphante. Por profundas que sejam as trevas em que achemos
    submerso o espirito humano nas épochas tristes da sua historia, sempre
    ha no meio d'essa immensa noite intelligencias que se alteiem como
    pharoes e liguem com os seus clarões, ás vezes bem tenues, a luz que foi
    com a luz que ha-de ser. Nas regiões do direito, os legisladores
    barbaros foram estes pharoes. A _lex romana_, promulgada ou antes
    mantida por toda a parte para uso dos vencidos, era a pompa funebre da
    civilisação que expirava: a _lex barbara_, wisigothica, salica,
    burgundia, ripuaria, bavara, etc. era o protesto e o testamento, mais ou
    menos rude, incompleto, confuso, d'essa mesma civilisação em beneficio
    do futuro. Assim, na penumbra d'aquelles codigos, emmaranhados e
    fluctuantes na phrase, desordenados na contextura, insufficientes no
    complexo das suas disposições, estavam os costumes juridicos
    tradicionaes das tribus germanicas, que descortinamos ás vezes n'uma
    allusão obscura; costumes que resistiam e se mantinham independentes da
    lei escripta, e até ás vezes apesar d'ella.

    Se pozermos de parte, digamos assim, as nossas preoccupações
    scientificas, o nosso poder de generalisação, os nossos habitos de
    regularidade, os nossos methodos e formulas, o cumulo, em summa, dos
    grandiosos resultados de alguns seculos de civilisação sempre crescente,
    e nos transportarmos em espirito ao meio d'aquelles como que embryões de
    sociedades, conceberemos facilmente qual deva ser a insufficiencia dos
    codigos barbaros para nos revelarem o quadro completo da vida juridica
    d'então. Porque e para que, n'uma épocha em que a escriptura era por
    muitos motivos obra difficultosa e rara, se haviam de pôr por escripto,
    e decretar como deveres legaes, actos ordinarios da vida civil que todos
    practicavam, ou reconhecer direitos que se podiam offender, mas cuja
    legitimidade ninguem disputava? Que vantagem havia em crear legalmente a
    funcção e o funccionario que já existiam? O consuetudinario dispensava o
    legislativo, quando a lei não tinha por objecto restringir, modificar,
    ou abolir a instituição ou o costume. A difficuldade toda estava em
    tornar effectivas essas reformas que se contrapunham a praxes e a
    opiniões inveteradas. Quantas vezes a lei escripta seria letra morta e o
    uso tradicional continuaria a dominar? Os actos legislativos de uma
    épocha, em que se renovam disposições estatuidas já n'um épocha
    anterior, não significam senão a impotencia da lei ante os usos
    radicados. A má distribuição e circumscripção das funcções publicas e
    magistraturas, exercidas de ordinario por homens sem nenhuma especie de
    disciplina intellectual, e habituados a dirigir-se pelas normas
    recebidas de seus maiores, eram tambem poderosos obstaculos á realisação
    practica dos codigos barbaros, quando contrariavam antigas idéas e
    antigas praxes. Não raro os que deveriam ser os seus principaes
    mantenedores seriam os primeiros em postergal-as.

    Estas considerações, applicaveis em geral aos monumentos legislativos da
    edade media, especialmente aos mais antigos, são-no sobretudo ao direito
    escripto dos wisigodos, no qual, além d'isso, se dá uma circumstancia
    digna de notar-se.

    O _Liber Judicum_, como chegou até nós, é o que este titulo exprime: é o
    manual, o guia do _judex_, o livro que o dirige no exercicio da sua
    auctoridade, menos intensa, menos independente que a do juiz dos tempos
    modernos, mas incomparavelmente mais extensa, porque da distincção do
    judicial, do administrativo, e do fiscal, apenas existiam vislumbres nas
    monarchias barbaras. O _Liber Judicum_ tem um destino especial,
    restricto. Não organisa a sociedade: suppõe-na constituida. Suppõe a
    necessidade de punir delictos e de resolver collisões de direitos.
    Quando Receswintho abroga toda e qualquer legislação diversa do novo
    codigo, a forma por que promulga este é caracteristica. Não sancciona em
    abstracto direitos e deveres communs: vê apenas o libello ou o debate
    forense, e prohibe que se invoque no fôro outro corpo legal. Dirige-se,
    não aos subditos, mas aos juizes, a quem recommenda mandem rasgar
    qualquer corpo de leis que alguem ouse invocar apresentando-o no
    tribunal[121].

    Assim, é obvio que o _Livro dos Juizes_ não pode subministrar-nos senão
    especies incompletas sobre a constituição do estado, sobre o organismo
    da sociedade; e isso mesmo de modo indirecto. É, portanto, necessario
    buscar ao lado d'esse direito escripto, d'essas leis exclusivamente
    destinadas á solução dos pleitos, a tradição juridical da vida
    collectiva dos wisigodos. Essa tradição, abrangendo tambem as principaes
    relações da vida privada, devia achar-se frequentes vezes em
    contradicção com as leis escriptas, em que é impossivel desconhecer,
    ainda nas mais remotas, a influencia das doutrinas de direito romano
    luctando contra os costumes germanicos, e supprindo a insufficiencia
    d'estes para reger a nova situação em que depois da conquista se achava
    a sociedade barbara.

    No proprio _Liber Judicum_ se descobre ás vezes a lucta latente dos
    costumes com o direito escripto. Achamos ahi, por exemplo, entre as
    _antiquae_, a lei penal relativa ao homicidio voluntario:

    «Quem quer que, não por acaso, mas de proposito matar alguem, seja
    punido pelo homicidio.»[122]

    Mas qual era a punição? É o que a lei não diz. A punição a que a lei
    allude pode ser a _faida_, a vingança privada dos parentes do morto;
    pode ser a composição ou _wehrgeld_ facultativo ou forçado. Vejamos se
    alguma lei diversa esclarece esta notavel obscuridade.

    Prevê-se no codigo a hypothese de que algum desattendo simulando uma
    aggressão ou vibrando em tropel confuso um golpe ao acaso, d'ahi resulte
    um homicidio. Provado que não houvera má tenção, a lei estatue o
    seguinte:

    «O que feriu não ficará infamado de assassino nem sujeito á pena de
    morte, visto não ser voluntario o homicidio.[123]»

    É indirectamente, quando se tracta de uma hypothese em que se exclue a
    applicação d'ella, que o legislador declara ser a morte a pena do
    homicidio.

    Na parte moderna do codigo a lei contra os homicidas promulgada por
    Chindaswintho, ou, segundo o codice legionense, refundida por elle, é
    perfeitamente explicita.

    «Se alguns homens livres de commum accordo resolverem a perpetração de
    um homicidio, o matador será condemnado á morte, e os cumplices,
    postoque não matassem, por isso que intervieram na trama, recebam
    duzentos açoutes, e sejam descalvados.[124]»

    No complexo d'estes textos descobrimos o progresso gradual das idéas
    juridicas. Na épocha verdadeiramente gothica a repressão social dos
    crimes contra as pessoas titubêa ainda ante a tradição germanica da
    vindicta privada, substituida já então, postoque não de todo, pela
    composição, pelo _wehrgeld_. É muito depois que o legislador affirma sem
    hesitação que a vindicta passou do individuo para a sociedade; que ao
    assassinio corresponde o ultimo supplicio. Mas ainda assim a doutrina da
    lei realisava-se nos factos? Não o acredito. O systema das composições
    devia continuar-se na praxe. Era já um grande passo na manutenção da
    ordem publica, e o _fredum_, ou quota tributaria deduzida do _wehrgeld_,
    um dos principaes proventos do fisco. A composição pecuniaria, eximindo
    da pena afflictiva, apparece-nos francamente estatuida nos delictos
    menos graves e, digamos assim, meia occulta na penumbra das leis
    draconianas relativas aos crimes atrozes. Tomemos como exemplo a lei
    contra os incendiarios, qualificada como _antiqua_ na edição da
    Academia, mas sem auctor nem rubrica nos principaes codices.[125] É uma
    d'aquellas que nos revelam a existencia da sociedade real atravez, por
    assim dizer, da sociedade legal. É curiosa a sua analyse.

    Por esta lei o incendiario, que _na cidade_ lançava fogo a uma casa,
    tinha a pena de ser queimado vivo. Quaesquer damnos que do incendio
    resultavam para o offendido, bem como o valor da casa queimada, tudo era
    pago pelos bens do reu. _Fóra das cidades_ o incendiario devia receber
    cem açoutes, e restituir o valor de tudo quanto ficasse queimado. Esta
    differença monstruosa entre crimes identicos, differença determinada
    pela diversidade de logar, lança luz inesperada sobre a indole da
    sociedade n'aquella obscura épocha. São a tradição juridica dos
    hispano-romanos e a dos godos que se accumulam na redacção de
    Chindaswintho e Receswintho sem que possam fundir-se. Todos sabem quanto
    repugnava aos germanos viver no ambito das cidades, e como as populações
    romanas ou romanisadas se agglomeravam de ordinario nos grandes centros
    urbanos. Durante a invasão dos barbaros os habitantes da Peninsula
    deviam refugiar-se, concentrar-se ainda mais nas cidades, e os
    conquistadores, apoderando-se de dous terços de grande numero de
    propriedades ruraes, das _sortes gothicae_, estabeleciam naturalmente a
    residencia nos seus predios immunes, mantendo ahi os velhos costumes da
    raça germanica. Assim, a profunda differença da penalidade que a lei
    applica ao incendiario da habitação urbana e ao incendiario da habitação
    rural pode explicar-se por esse facto. O hispano-romano concebia e
    acceitava a pena capital em muitos delictos; mas é pouco crivel que as
    tradição dos godos admittissem a pena de morte[126]. O barbaro acceitava
    nos crimes contra as pessoas a vindicta particular, e em logar d'ella a
    composição que a remia. Tambem a pena de açoutes, tão largamente
    applicada pelo codigo wisigothico a grande numero de delictos, e que
    n'esta mesma lei é imposta ao incendiario fóra das cidades, é
    essencialmente germanica. Na épocha descripta por Tacito os sacerdotes
    germanos tinham a prerogativa de punir por esse modo os crimes, não como
    magistrados, mas como ministros da divindade, e os costumes conservaram
    depois da conversão dos barbaros a antiga usança religiosa na tradição
    civil.

    Se d'aqui a alguns seculos, dos variadissimos monumentos que hão-de
    instruir os vindouros ácerca do modo de ser das sociedades actuaes, não
    restasse mais nada senão a legislação e alguns raros e desconnexos
    documentos e memorias, os historiadores de então podiariam provar com as
    leis na mão que a usança estolida e feroz do duello deixara ha muito de
    existir. Mostrariam, além d'sso, o absurdo, o anarchronismo, a
    incongruencia de suppôr que, no meio da nossa immensa civilisação, da
    brandura dos nossos costumes, appellavamos nas questões mais graves do
    homem de hoje, as da sua honra, para o mais barbaro e inepto dos
    _Ordalia_ ou _Urtells_[127] germanicos, fazendo connivente a justiça de
    Deus com a força ou com a destreza.

    A existencia do combate singular, de que o moderno duello é uma
    degeneração, omitte-se no _Forum Judicum_ como prova judicial. Dos
    _Urtells_ apenas ahi parece transigir-se, em casos restrictos, com a
    prova da agua a ferver (_caldaria_), e ainda assim como prova incompleta
    e apenas indicio para se proceder aos tractos[128]; sendo, porém, de
    notar que a lei se limita a determinar os casos em que esse meio de
    averiguação deve ser usado. Não o descreve, não lhe assignala condições.
    É evidentemente uma cousa que todos conhecem, que está na praxe, e de
    que o legislador se aproveita para em certas hyptheses evitar o abuso
    dos tractos. O que absolutamente elle parece não tolerar nos costumes e
    tradições germanicas é o combate singular. Não ha em todo o Codigo, como
    hoje o possuimos, a menor allusão a elle. E, todavia, sabemos que o
    duello judicial se perpetuou entre os wisigodos até os ultimos tempos da
    monarchia. Os districtos que além dos Pyrenéus constituiam parte do
    reino wisigothico, pela invasão dos sarracenos e com as victorias de
    Carlos Martelo e dos seus successores, vieram a unir-se ao vasto imperio
    de Carlos Magno. Não só a população gallo-romana, mas tambem os godos
    que estanceavam por aquelles districtos, e muitos dos da Peninsula que
    alli buscavam refugio, ficaram assim incorporados nos estados frankos, e
    a respeito d'elles mais de uma providencia se encontra nos capitulares.
    Tanto para uns como para outros devia ser direito commum o _Liber
    Judicum_ na ultima redacção de Erwigio e de Egica. E, todavia, um
    escriptor coevo, o auctor anonymo da Vida de Luiz o _Bondoso_,
    revela-nos um facto importante. Esses godos sollicitaram d'aquelle
    principe que lhes consentisse o combate como prova judicial, visto ser
    isso direito privilegiado da sua raça[129]. D'aqui resulta que as
    formulas legaes eram na praxe postas de parte, ao menos em certos
    litigios, quando entre entre si litigavam dous godos.

    De um documento do seculo seguinte[130] resulta o mesmo que se deduz da
    narrativa do anonymo. A população mixta d'aquella parte da destruida
    monarchia, unificada na intenção de Chindaswintho e de Receswintho,
    conservava-se, ainda nos começos do seculo X, separada pela diversidade
    de raça, continuando a subsistir entre ella, não juizes godos e romanos,
    mas sim juizes dos godos (_judices gothorum_) e juizes _dos_ romanos
    (_judices romanorum_). Que indica esta distincção de magistraturas,
    senão o uso na praxe do direito pessoal posposto o territorial?

    Abrogando a lei antiga, que prohibia os consorcios entre os individuos
    de raça hispano-romana e goda, negando a faculdade de invocar no foro
    leis estrangeiras e nomeadamente a legislação romana, e estatuindo que a
    nova reforma do codigo civil e penal e as leis que de futuro se
    promulgassem regessem exclusivamente e sem distincção de origem os godos
    e os hispano-romanos, Chindaswintho e seu filho Receswintho quizeram
    substituir, como já notei, o direito territorial ao direito pessoal,
    fundindo n'uma só as duas nacionalidades. Virtualmente, o _Breviarium_,
    a _Lex Wisigothorum_ de Alarico II, e a redacção de Leovigildo, tudo
    devia ser lacerado pelos magistrados judiciaes apenas lhes fosse
    apresentado[131].

    Se attribuirmos ao Codigo wisigothico uma efficacia, uma acção na vida
    real tão completa como geralmente se crê, as duas sociedades, até ahi
    juxta-postas porém não confundidas, achavam-se emfim encorporadas e
    constituindo uma sociedade só. Tractando-se de direitos e deveres,
    referir-se a godos ou a romanos seria theoricamente absurdo, porque não
    havia nem uma nem outra cousa: havia o estado e os subditos, mais nada.
    O absurdo, porém, cessa desde que sabemos que o legal não correspondia
    ao real; que uma cousa era a doutrina e outra cousa o facto. É assim que
    naturalmente se explica a existencia, nas monarchias neo-gothicas e
    ainda em tempos mais modernos, de condições de vida publica e civil, de
    origem germanica e de origem romana, estranhas e a até contrarias á
    doutrina ou á índole do Codigo wisigothico na sua mais recente fórma, o
    qual, todavia, continuou a ser a lei official n'essas novas monarchias.
    Explicar o phenomeno por imitações de usanças ou instituições analogas
    d'além dos Pyrenéus, o menor defeito que tem, a meu vêr, é o ser uma
    hypothese inteiramente gratuita.

    Um eminente escriptor contemporaneo[132] notou já que o _Liber Judicum_
    participara dos tres caracteres, de lei, de sciencia, e de sermão. É
    possivel que o descobrimento de monumentos hoje desconhecidos, ou mais
    attento estudo dos que restam, nos venham provar que a parte de parenese
    e de sciencia juridica é n'aquella compilação mais ampla do que se
    cuida, embora se manisfeste debaixo da fórma preceptiva de lei.

    Que me seja licito accrescentar ás precedentes observações as que a
    similhante proposito fazem dous dos mais atilados e eruditos criticos
    contemporaneos. «Em quanto estes povos (os germanos)–diz Mr. de
    Pétigny[133]–se conservaram como em si eram; em quanto não sairam da
    terra natal, nem obedeceram a estranho dominio, regeram-se por costumes
    tradicionaes, e póde dizer-se que o aferro ao direito consuetudinario e
    a aversão ás leis escriptas são caracteres permanentes da sua raça.»
    «Não se dá todo o peso que se devera dar–observa Mr. de
    Rozière[134]–ao facto da fraca auctoridade que na edade média tinha o
    direito escripto, e do imperio absoluto que o consuetudinario exercia.»

    Este aferro ao direito não escripto, á tradição juridica, aferro commum
    aos godos como ás outras raças germanicas, tornava dobradamente efficaz
    a resistencia á acceitação practica, effectiva de um codigo em que
    muitas das usanças barbaras eram esquecidas ou alteradas, ou positiva e
    completamente abrogadas. Pela natureza das cousas, os godos constituiam
    em geral a aristocracia, e a aristocracia era quem exercia
    principalmente a auctoridade, tanto civil como militar, que de ordinario
    andavam unidas. A revolução, ainda mais politica do que religiosa, que
    substituiu o arianismo pelo catholicismo trouxe, na verdade, uma grande
    influencia social ao elemento hispano-romano, influencia que até ahi não
    tivera; mas esta era exercida especialmente pelo alto clero orthodoxo,
    que por via de regra pertencia á raça latina. Na aristocracia secular e
    guerreira ficou sempre predominando largamente o elemento gothico; e
    quanto mais pela auctoridade dos concilios o clero buscasse romanisar a
    sociedade, mais fortes deviam ser as repugnancias, as resistencias da
    classe nobre. A reforma da legislação, que tendia a fundir as duas raças
    pela unificação do direito e pela liberdade dos consorcios entre ellas,
    foi iniciada por Chindaswintho e levada ao cabo por seu filho. É
    altamente provavel que n'essa conjuctura fosse consultada mais de uma
    tradição juridica de origem barbara, que existiria no codigo wisigothico
    de Alarico II e ainda na reforma de Leovigildo. Mas entre o reinado de
    Receswintho e a ruina do imperio gothico mediou apenas meio seculo. Não
    é crivel que em tão curto periodo, no meio de luctas intestinas, da
    corrupção da sociedade, das resistencias da nobreza, e até, por ventura,
    dos proprios hispano-romanos, a transformação do direito pessoal em
    territorial e, muito menos, a fusão das duas raças podessem facilmente
    realisar-se. Assim, os documentos de além dos Pyrenéus, anteriormente
    citados, não devem por modo algum causar-nos a menor estranheza.

    A importancia d'estas considerações havemos de sentil-a, sobretudo,
    quando tivermos de apreciar o modo de ser politico e social da monarchia
    ovetense-leoneza. Instituições e praxes que nos hão-de parecer novas
    explicar-se-hão facilmente pela persistencia de duas tradições juridicas
    extra-legaes mantidas pelos costumes: a germanica, representada
    principalmente pelos foragidos das Asturias, e a romana, representada
    sobretudo pelos mosarabes, que deviam pertencer na sua grande maioria á
    raça hispano-romana, como opportunamente terei occasião de mostrar.

    (IX)

    Tanto o sr. Apezechéa (_Introducc. al Libro de los Juices_, c. 5, § 93,
    edic. de 1847) como o sr. Cárdenas interpretam a lei 15, do tit. 1 do
    liv. X, por modo que annullam a importancia d'ella dando-lhe uma
    intelligencia erronea. Se a considerassem em relação á idéa predominante
    n'este titulo, cujo principal objecto é regular os effeitos da divisão
    da propriedade territorial entre godos e romanos, e sobre tudo se a
    confrontassem com a immediata (lei 16), d'ahi lhes teria vindo luz para
    uma interpretação, a meu vêr, mais clara e mais exacta. Ordena a lei
    que, transmittido por alguem o seu predio a um ou mais cultivadores ou
    colonos (_accolae_), succedendo depois que o transmittente tenha de
    ceder o dominio da terça parte d'elle a outrem, a situação de cada um
    dos diversos cultivadores seja determinada pela condição dos respectivos
    senhorios. Estatue-se na lei seguinte que os juizes e agentes fiscaes
    tirem por execução immediata as terças dos romanos a quem quer que as
    tenha occupado e lh'as restituam a elles. A lei accrescenta ao
    dispositivo a sua razão de ser. Tracta-se–diz ella–de evitar perdas
    para o fisco. A intima correlação das duas leis é obvia. Ambas ellas no
    codice legionense trazem a qualificação de _antiqua_, e nos outros
    codice não se lhes indica auctor conhecido. Evidentemente são
    disposições do codigo wisigothico primitivo, disposições que se
    conservaram no codigo reformado de Leovigildo, e nas ultimas redacções
    desde o reinado de Chindaswintho até o de Egica. Da segunda lei resulta
    que as sortes gothicas, isto é, as duas partes dos latifundios de que os
    conquistadores se haviam apoderado, eram immunes, ficando as terças
    deixadas aos antigos possuidores gravadas com os encargos tributarios do
    tempo do imperio, ainda subsistentes para os hispano-romanos. Assim, a
    lei 15 vinha a ser em rigor, postoque indirectamente, uma lei fiscal.
    Immune o predio inteiro em quanto possuido integralmente, e por isso
    indevidamente, pelo godo, immunes ficavam os que o cultivavam, quer por
    emprazamento (_ad placitum_), quer por outro qualquer contracto, ou por
    colonia. Restituida a terça ao romano, o accola ou o colono das terras
    dessa terça, a quem até ahi se estendera a immudade do possuidor
    illegitimo, entrava pela mudança do patrono ou senhorio na classe dos
    tributarios.

    Em quanto as leis da monarchia wisigothica foram pessoaes, era facil de
    realisar a appropriação das terças usurpadas, quando a prescripção de 50
    annos não tivesse absolvido a usurpação. Mas, desde o reinado de
    Chindaswintho, tornada a legislação, ao menos theoricamente, territorial
    e commum para as duas raças juxtapostas, e abrogada no de seu filho
    Receswintho a lei que prohibia os consorcio entre os individuos de uma e
    de outra, o direito de successão legitima e testamentaria, os dotes, as
    execuções por dividas, etc., confundiam naturalmente a propriedade
    exempta com a tributaria. Havia apenas um meio practico de evitar a
    confusão: era descerem por um lado a immunidade, e pelo outro o tributo,
    do homem para a terra e fixarem-se ahi; e isto era tanto mais natural e
    exequivel, que as restituições, encarregadas aos magistrados e
    funccionarios pela _lex antiqua_, deviam já ser raras ou nenhumas na
    épocha de Chindaswintho e Receswintho, seculo e meio depois da
    conquista, porque, onde e quando tivesse deixado de se cumprir a lei, a
    prescripção legalisara abuso. Effectivamente, outra lei (liv. V, tit. 4,
    l. 19), attribuida a Chindaswinto, mas que o codice legionense qualifica
    de _antiga_, e cujo auctor se omitte no codice toledano, que cremos de
    origem mosarabe, vem confirmar a idéa de que a natureza de terras
    immunes ou a de tributarias, em vez de se determinar pela circumstancia
    de ser o possuidor godo ou hispanho-godo, ligava-se ao predio conforme
    este representava ou uma primitiva _sors_ gothica, ou uma _tertia
    romanorum_. Doutrinalmente, essa lei condemna as alienações feitas pelos
    curiaes e privados (_curiales vel privati_) a individuos estranhos á sua
    classe. Não as prohibe, porém, absolutamente, comtanto que o comprador
    continue a pagar os tributos que o vendedor pagava, especificando-se os
    encargos no contracto de transmissão. Entre si curiaes e privados podem
    livremente alienar quaesquer bens. Aos plebeus (_plebei_) é que toda a
    especie de alienação é absolutamente prohibida. A sua gleba (_glebam
    suam_) é inseparavel d'elles. Quem lhes comprar vinhas, campos, casas,
    escravos, perderá infallivelmente o preço da compra.

    Dado o facto de que a _sors_ gothica era immune e de que a propriedade
    do hispano-romano ficara tributaria, como o fôra antes da conquista
    wisigothica, a população subjugada, não falando dos escravos, entres
    humanos, porém não pessoas civis, constituia, pois, tres categorias ou
    classes, a dos curiaes, a dos privados, e a dos plebeus, regidas pela
    _Lex romana_, isto é, pelo _Breviarium_ com as modificações da
    _Interpretatio_. Eram as mesmas que existiam nas provincias do imperio.
    As designações d'essas classes é que em parte se achavam alteradas, e
    modificado ou, antes, simplificado o imposto. Sabemos o que eram os
    curiaes na sociedade romana do tempo dos imperadores, e não ha motivo
    para suppôr que se alterasse na essencia a condição dos membros da
    curia, continuando as leis e instituições romanas a reger depois da
    invasão e conquista dos barbaros a população submettida. Evidentemente,
    os _privati_ são os antigos _possessores_, isto é, os proprietarios que
    não tinham os requisitos legaes para serem membros da curia. Como uns e
    outros eram sujeitos á solução dos impostos, as mutuas vendas, doações,
    ou trocas, não offereciam inconveniente em relação ao fisco. Por isso se
    omittem em toda a amplitude. Os _plebei_ são os antigos _coloni_ do
    imperio, pessoas civis, mas que não podiam separar-se da gleba que
    cultivavam. A lei exprime essa idéa quando se refere á gleba dos plebeus
    (_glebam suam_). Não se estatue uma disposição nova; recorda-se um
    principio, uma regra anterior (_Nam plebeis_). Como consequencia d'essa
    regra, declara-se que quem comprar um gleba ao colono perderá sem
    remissão o que tiver dado por ella. O pensamento fiscal revela-se
    egualmente aqui. É o colono do proprietario hispano-romano, do curial,
    ou do privado, que o legislador tem em mente. O colono não-servo sob a
    administração romana pagava ao senhorio o canon ou renda (_redditus_) e
    ao estado a contribuição pessoal (_humana capitatio_). Assim, de modo
    nenhum convinha ao fisco que as glebas situadas nas _tertias_ se
    incorporassem nas sortes gothicas, e nem, sequer, na parte não
    colonisada das proprias _tertias_ a que pertenciam, cujo imposto
    territorial ficaria o mesmo, desapparecendo o imposto pessoal do colono.
    Se interpretei rectamente a lei 15 do tit. 1 do liv. X, o legislador,
    embora falasse em geral das glebas, pouco devia curar das que eram
    situadas nas sortes gothicas, immunes da _humana capitatio_, do mesmo
    modo que o todo do predio o estava da contribuição territorial. Era
    unicamente ao senhorio godo que no predio immune interessava a alienação
    ou não alienação da gleba. De certo o poder publico forçaria o colono da
    _sors_ a respeitar a regra da adscripção, quando o _dominus_ a
    invocasse; mas não imporia ao immunista tal ou tal especie de relações
    de dominio e uso entre elle e o seu _accola_.

    Debaixo da administração romana os _possessores_ constituiam a parte
    mais numerosa e que hoje chamamos a burguezia, a classe media, isto é,
    os proprietarios territoriaes. Na verdade os curiaes eram em rigor
    tambem _possessores_, mas, como a adscripção no _album_ da curia os
    collocava n'uma situação excepcional e os convertia na realidade dos
    factos em funccionarios publicos, a palavra _possessor_ nas
    constituições theodosianas, que são as mesmas do _Breviarium_,
    restringe-se a significar o proprietario não curial. Tomando assento no
    sul das Gallias e das Hespanhas, e apoderando-se de uma parte da
    propriedade territorial, os godos convertiam-se tambem em
    possessores[135].

    * * * * *

    _E sulle dotte pagine
    Cadde la stanca man_!

    ESCLARECIMENTO

    A

    (Sortes gothicas)

    O sr. Cárdenas affirma que entre as nações antigas era principio de
    direito publico que o conquistador em virtude da conquista adquiria, não
    só o dominio eminente, mas tambem o pleno dominio particular de cada
    propriedade no paiz conquistado. É demasiado vaga a expressão _nações
    antigas_. Applicada ás hostes e tribus barbaras da Germania, a doutrina
    parece-me infundada. Pelo menos ignoro quaes sejam os monumentos da
    existencia de tal principio de direito publico entre os barbaros. É mau
    de crer que essas gentes rudes, sem leis escriptas, regulando as suas
    relações privadas por costumes tradicionaes, que variavam de federação
    para federação, e ás vezes de tribu para tribu dentro da mesma
    federação, tivessem idéas geraes e portanto principios de direito
    publico e das gentes. O que tinham eram paixões, instinctos, e a
    consciencia de que podiam fazer o que quizessem dos vencidos e do que
    estes possuiam. Tinham o sentimento da força. Para a exercer não
    careciam de idéas geraes ou de principios. As circumstancias do momento
    determinavam o seu proceder. Os frankos, a federação mais poderosa de
    todas as que vieram constituir as nações modernas nas provincias
    romanas, não dividiram as propriedades entre si e os antigos
    possuidores: ao que parece, occuparam integralmente algumas d'ellas. Os
    burgundios no primeiro impeto da invasão tomaram para si metade de cada
    habitação e da area ou jardim contiguos, dous terços das terras
    cultivadas, e um terço dos escravos, ficando communs as florestas. Aos
    que chegavam depois da conquista dava-se-lhes apenas metade de alguns
    dos predios rusticos ainda indivisos e nenhuns escravos. Na Italia os
    ostrogodos apoderaram-se da porção de cada propriedade que já os herulos
    tinham tomado para si, e portanto pode em geral dizer-se que nada
    tiraram de novo aos romanos. Os longobardos deixaram estes de posse das
    terras que cultivavam por seus colonos e servos, e exigiram dos
    proprietarios o terço do producto bruto do respectivo grangeio, o que
    era mais do que o terço, porque se eximiam da despeza do cultivo, isto
    é, da quota dos colonos ou da manutenção dos escravos, encargos que
    vinham a recair sobre o proprietario[136]. Da legislação dos wisigodos
    pode inferir-se que no sul das Gallias e na Hespanha os conquistadores
    tomaram a um certo numero de possuidores da latifundios duas terças
    partes d'estes. Os factos vem portanto confirmar aquillo mesmo que era
    facil de suspeitar; isto é, que não havia nenhuma regra, nenhum
    principio geral, que guiasse os barbaros no modo de se apropriarem uma
    parte da riqueza territorial das provincias submettidas.

    Contrahindo a questão á sociedade wisigothica, o auctor do _Ensayo_, em
    harmonia com a doutrina que estabeleceu, assenta que entre os wisigodos
    a propriedade derivava da conquista. N'esta fórma absoluta a proposição
    é evidentemente inexacta. Ainda admittindo a opinião vulgar de que todas
    as propriedades ruraes cultivadas foram repartidas entre os
    conquistadores e os antigos proprietarios, ficando a estes apenas um
    terço d'ellas, é preciso confessar que ao menos este terço não procedia
    da conquista: mantinha-se a posse anterior. Mas corresponde essa idèa
    dos dous terços attribuidos aos conquistadores á realidade dos factos?
    Tenho hoje a esse respeito as mesmas duvidas que outros escriptores teem
    tido[137]. Em primeiro logar cumpriria admittir um facto desmentido
    pelos monumentos, isto é, que os invasores correspondiam numericamente
    aos proprietarios hispanoromanos, para haver um godo que se apoderasse
    de dous terços de cada propriedade. Imaginar, por outro lado, que se fez
    cumulativamente a divisão, para depois se distribuir o cumulo das
    _sortes gothicae_ pelos conquistadores, é admittir a existencia de uma
    operação que seria hoje difficil, e que então era impossivel. Accresce
    que no proprio Codigo wisigothico se acham claros indicios de que um
    repartimento absoluto e completo não existiu. A divisão que se fez de
    _uma porção de terras_ e de mattos–diz a lei–entre um godo e um romano
    não se altere, _provando-se que houve a tal divisão_[138]. Sabemos em
    geral que as hostes e tribus germanicas que se estabeleceram nas
    provincias romanas eram muitissimo menos numerosas que os antigos
    habitantes. Clovis, esse _koning_ que se apoderou da maior parte das
    Gallias e se considera como o fundador da monarchia dos frankos, era o
    chefe de cinco ou seis mil guerreiros, e a nação dos Burgundios, que
    luctava com as nações barbaras circumvisinhas, compunha-se proximamente
    de sessenta mil homens[139]. Se ignoramos qual era apopulação wisigoda,
    podemos d'aqui inferil-o, ainda suppondo migrações successivas. Os godos
    começaram por fazer assento no sul e poente das Gallias, dilatando
    depois o seu predominio áquem dos Pyreneus, e embora perdessem
    successivamente grande parte das provincias gallo-romanas, conservaram
    sempre a Septimania. As sortes gothicas não abrangiam portanto só a
    Peninsula; abrangiam tambem o meio-dia das Gallias. Como, pois,
    acreditar que n'uma grande extensão do actual territorio francez e em
    quasi toda a Hespanha houvesse godos bastantes para se tornarem
    coproprietarios de todas as propriedades grandes, mediocres, ou
    pequenas? No ultimo quartel do V seculo, com as conquistas de Eurico, a
    Westegothica tinha por limites no territorio da moderna França, ao norte
    o _Liger_ (Loire), ao nascente o _Rhodanus_ (Rhône), e ao poente o mar.
    Pertencia-lhe na Hespanha a Tarraconense, ao passo que, exceptuadas a
    Gallecia e a Lusitania, onde dominavam os Suevos, os romanos iam pouco a
    pouco cedendo aos godos o resto da Peninsula.

    Não chegou até nós um unico monumento que directamente descreva o facto
    da divisão de uma parte da propriedade territorial entre godos e
    romanos. Sabêmol-o, porque as leis gothicas o presuppõem. A épocha em
    que se realisou; se foi um facto unico, se repetido; e que
    particularidades acompanhavam essa divisão; podemos apenas
    conjectural-o. A historia é n'este ponto forçadamente hypothetica; mas,
    para a hypothese ser acceita, é preciso que não repugne a factos
    conhecidos nem á natureza das cousas.

    B

    Feudo

    A palavra _Feudum_, _Feodum_, não apparece em nenhum documento, nem nas
    leis, nem nas memorias historicas, de Leão e de Portugal, desde a
    constituição do feudalismo no seculo X até a sua degeneração nos seculos
    XIII e XIV, ao passo que tão vulgar é nos monumentos dos povos
    neo-latinos da Europa central. Este facto bastaria para levar os homens
    circumspectos a duvidarem da existencia da instituição entre nós.

    Ha, todavia, uma excepção a esta regra. É a _Historia Compostellana_. Em
    mais de um logar os auctores d'ella se referem a terras ou bens
    concedidos _in pheodum_. Entre outras, ha uma d'essas concessões que,
    pelos debates a que deu origem, nos habilita para apreciarmos com que
    exacção os biographos do arcebispo Gelmires usavam d'aquelle vocabulo,
    verdadeiro neologismo na linguagem juridica do reino leonez n'aquella
    épocha.

    Existia dentro dos limites do territorio immune de Sanctiago um castello
    real denominado _Cira_. Entendeu o astuto prelado que lhe convinha
    adquiril-o. A razão adivinha-se: turbulento e audaz como era,
    considerava-o como um padrasto que o sofreava. Propoz o negocio, e
    obteve que a rainha D. Urraca lh'o vendesse por 150 marcos de parta,
    ficando assim _hereditas_ da igreja de Sanctiago. Sobrevieram as
    discordias da rainha com Gelmires, discordias em que frequentemente a
    lucta era dissimulada sob apparencias de paz. Então «Regina castrum
    illud a domino archiepiscopo _in pheodum_ petivit, cujus petitioni ipse
    condescendens, municipium illud quod petebat illi concessit, ea
    videlicet conditione et eo pacto ut, cùm ipse vel suus successor
    _castrum suum recuperare vellet_, ipsa regina domino archiepiscopo aut
    suo successori, _quod suum erat et quod emerat_, quiete et absque ulla
    rebellione _redderet_.» Morreu a rainha deixando ordenado a um _miles_,
    «sub cujus jure et dominio pretaxatum castrum tenebatur,»….. que….
    «archiepiscopo…. redderet.» Repugnou. Preparou-se Gelmires para lh'o
    tirar de mão armada, depois de obter de Affonso VII a confirmação e
    repetição dos preceitos de sua mãe, e auctorisação para empregar a
    força. Vendo a resolução em que estava o arcebispo, o _miles_ fez
    _hominium et fidelitatem_ ao prelado, promettendo ir á corte e entregar
    o castello _se o rei lh'o ordenasse_; mas, precedendo o arcebispo que
    tambem ia para a corte, obtivera por via de protecções «ut rex Scirense
    castrum _in pheodum_ sibi concederet, et _hominium atque fidelitatem_
    ipsi regi….. fecerat.» Chegado o arcebispo queixou-se. Respondeu-lhe o
    rei «se castrum illud Joanni Didaci (era o _miles_) _in pheodum_ teste
    curia jam dedisse, nec se illi amplius posse auferre, quod hominium et
    fidelitatem pro illo castro…. jam recepisse.» Continuava o arcebispo a
    insistir, mas o rei respondia-lhe que «se nunquam militem suum……
    illo castro ablato expoliaturum, neque se quod coram omnibus curiae
    primoribus fecerat, inconstantis et levis viri more, aliquatenus
    cassaturum.» Gelmires tractou então de corromper os validos do rei,
    dando 10 marcos de prata ao _maiordomus curiae_ (que o historiador
    compostellano chama _majorinus domus regis_), promettendo outro tanto
    _alii conciliario_, e por fim, dando ao proprio rei 50 marcos, obteve
    uma especie de julgamento pelo qual lhe foi restituido o castello.

    É da propria narrativa do compostellano que se conhece que não se
    tractava de um feudo, mas do dominio e posse de um castello; e que o
    _miles_, que o tinha, fazia _preito e menagem_ (hominium et fidelitatem)
    ao senhor do castello, uso que subsistiu entre nós, como já existia no
    seculo XI, depois de ter o systema feudal desapparecido nos paizes onde
    imperou, isto é, no seculo XVI. Assim, D. Urraca vende ao arcebispo o
    castello. Depois elle dá-lh'o _in feodum_, mas com a condição de elle ou
    os seus successores lh'o tirarem cada vez que quizessem. Isto repugna á
    essencia das concessões feudaes: é menos que um _beneficium_, menos
    talvez que um _prestimonium_. No estado de continuas luctas civis e com
    os sarracenos, a Peninsula estava coberta de castellos, que eram
    verdadeiros instrumentos de guerra, postos militares que podiam importar
    como meio de rebellião, de oppressão, ou de defesa, mas não como
    organisação de propriedade e de rendimento. O proprio Gelmires deu o
    castello de Faro a Affonso VII, porque não só estava longe de
    Compostella, mas tambem porque «nihil fere utilitatis ipsi
    compostellano, excepto solo nomine, conferebat, immo pro eo custodiendo
    et vigilando plurima stipendiariis militibus unoquoque anno erogabat.»
    Construia-os quem queria e podia, e, longe de serem um elemento de
    organisação social e de ordem, como era o feudalismo, eram justamente o
    contrario: eram apenas um instrumento de rapinas, de violencias e de
    anarchia.

    Os historiadores compostellanos eram francezes; tinham sido creados n'um
    paiz feudal, na épocha da definitiva constituição do feudalismo. O
    preito e menagem dos castellos, como as concessões de prestimonios, como
    a instituição dos ricos-homens, tenentes, ou senhores de districtos,
    como as doações perpetuas de bens da coroa, assemelhavam-se nas
    exterioridades ás formulas da organisação feudal. Não admira por isso
    que, para designar esses factos diversos, usassem de uma expressão com
    que estavam familiarisados e que correspondia a factos analogos do seu
    paiz. Entende-se assim como, por uma excepção singular, a _Historia
    Compostellana_ nos fala da existencia de feudos no occidente da
    Pensinsula.

    Achamos no liv. 2, c. 87, § 6 outro exemplo de um castello egualmente
    concedido como _hereditas_ a Sanctiago, exemplo que prova bem quanto o
    senhorio d'estes castellos diversificava dos feudos, e que não passava
    de uma tenencia ou concessão temporaria e amovivel. Promette Affonso VI
    doar _causa mortis_ ao arcebispo Gelmires o perpetuo dominio do
    _castrum_ de S. Jorge «et comes Rodericus, qui illud castrum _mòdo_ a
    _tenet, hominium et fidelitatem_ vobis de illo castro faciat, ut _in
    morte mea_ illud vobis liberum et solutum omnimodo _dimittat_; et si
    Rodericus comes _mortuus fuerit_, vel castrum _quoquomodo amiserit_, et
    _alius princeps à me_ acceperit, prius quam accipiat hominium et
    fidelitatem similiter vobis et vestrae ecclesae faciat, ut illud castrum
    vobis absque ulla rebellione tradat.» A tenencia do conde Rodrigo é
    menos que um _beneficium_ e talvez que um _prestimonium_: é uma funcção
    retribuida provavelmente pela renda de bens ou tributos annexos ao
    castello (_castellaticum_).

    FIM.

    INDICE

    HISTORIADORES PORTUGUEZES
    (1839-1840)

    Fernão Lopes
    Gomes Eannes de Azurara
    Vasco Fernandes de Lucena–Ruy de Pina
    Garcia de Rezende

    CARTAS SOBRE A HISTORIA DE PORTUGAL
    (1842)

    Carta 1.^a
    » 2.^a
    » 3.^a
    » 4.^a
    » 5.^a

    RESPOSTA ÁS CENSURAS DE VILHENA SALDANHA
    (1846)

    Carta ao redactor da _Revista universal_

    DA EXISTENCIA E NÃO EXISTENCIA DO FEUDALISMO
    EM PORTUGAL
    (1875-1877)

    I.
    II.
    III.
    IV.
    V.
    VI.
    VII.
    VIII.
    (IX).

    ESCLARECIMENTOS

    A. Sortes gothicas
    B. Feudo

    LIVRARIA BERTRAND

    LISBOA–73, CHIADO, 75

    OBRAS DE ALEXANDRE HERCULANO

    *POESIAS*

    1 Vol Contendo: Livro I. _A harpa do crente_.–A semana santa–A voz–A
    Arribida–Mocidade e morte–Deus–A tempestade–O soldado–A victoria e
    a piedade–A cruz mutilada.–Livro II. _Poesia varias_.–A perda
    d'Arzilla–A rosa–O mendigo–O bom pescador–Tristezas do desterro–O
    mosteiro deserto–A volta do proscripto–N'um album–A felicidade–Os
    infantes em Ceuta.–Livro III. _Versões_.–O seccar das folhas
    (Millevoye)–A noiva do sepulcro (imitação do inglez)–O canto do
    cossaco (Béranger)–O caçador feroz (Burger)–O cão do Louvre
    (Delavigne)–Leonor (Burger)–A costureira e o pintasilgo morto
    (Lamartine).

    *ROMANCES*

    _Eurico e Presbytero_, 1 vol. (Epocha wisigothica, 1.^o vol. do
    _Monasticon_)

    _O Monge de Cister_, 2 vol. (Epocha de D. João I–2.^o e 3.^o vol. do
    _Monasticon_)

    _O Bobo_, 1 vol. (Epocha de D. Theresa, 1128)

    _Lendas e Narrativas_, 2 vol. Contendo: Vol. I: O Alcaide de Santarem
    (950-961)–Arrhas por foro d'Hespanha (1371-1372)–O castello de Faria
    (1373)–A abobada (1401).–Vol. II: A dama Pé-de-Cabra (seculo XI)–O
    bispo negro (1130)–A morte do Lidador (1170)–O parocho da aldeia
    (1825)–de Jersey a Granville (1831).

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Aproximadamente 55.130 palavras.

    Produced by Isabel Calderon Dinis (Projecto Enclave) and
    edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt)

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO IV*

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO III

    LISBOA

    *VIUVA BERTRAND & C.^a* SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXIX

    *COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE*

    ADVERTENCIA

    Propondo-nos continuar a interrompida compilação dos _Opusculos_ do
    fallecido escriptor Alexandre Herculano, importa dizermos em breves
    palavras qual é o nosso intuito, para que não se tomem á conta de
    insensato arrojo as timidas diligencias que fazemos por cumprir um
    dever, que reputamos impreterivel.

    Quem leu a primorosa _Advertencia previa_ do primeiro volume d'esta
    collecção sabe que o auctor resolvera imprimir de novo, de envolta com
    alguns trabalhos seus ainda ineditos, os numerosos escriptos que, no
    dilatado periodo de quasi quarenta annos, dera á luz, ou em folhetos
    avulsos, cujas edições estavam esgotadas, ou em folhas periodicas,
    algumas pouco conhecidas hoje, e todas mais ou menos difficeis de reunir
    e compulsar. Como elle proprio declara, um dos motivos, se não o
    principal, que o levava a «ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do seu passado intellectual», era o desejo de ser um dia julgado,
    com imparcialidade e justiça, pelas idéas que emittira e pelas opiniões
    que sustentara. E foi para tornar mais justa semelhante apreciação que
    assentou em conservar escrupulosamente a parte doutrinal dos opusculos
    primitivos, junctando-lhes, apenas, as datas da sua composição; porque,
    «sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entendia que a responsabilidade seria ora maior ora menor, se porventura
    se attendesse á epocha em que essas opiniões foram manifestadas.»

    Fiel a estes principios, e obedecendo ao plano que traçara, conseguiu
    ainda o sabio escriptor dar á luz os tres primeiros volumes da presente
    collecção, nos quaes inseriu grande parte dos trabalhos que maior abalo
    produziram no animo publico, pela elevação, desassombro e energia com
    que ahi são tractados os mais melindrosos assumptos. Muitos outros,
    porém, estavam virtualmente destinados a formar novos livros, que por
    fim haviam de completar os elementos necessarios do processo, sobre que
    tinha de recair a sentença definitiva dos juizes imparciaes, a quem elle
    com tamanha confiança entregava o julgamento da sua causa; e são esses
    trabalhos dispersos, entre os quaes ha não poucos inteiramente
    desconhecidos da geração actual, que diligenciamos reunir e publicar.

    É grave, sem duvida, a responsabilidade moral e litteraria que
    contrahimos, escasso o tempo de que podemos dispor, debeis as forças,
    nulla a competencia. Erraremos, necessariamente, na escolha dos artigos,
    na ordem em que os collocarmos, na preferencia que lhes dermos, e acaso,
    até, na inserção de algum que o proprio auctor excluiria, O que, porém,
    podemos affirmar ao leitor é que empregaremos os maximos esforços para
    que seja fidelissima a transcripção d'esses artigos: fidelissima,
    dizemos, em quanto ao texto; porque a orthographia deixamol-a ao cuidado
    da imprensa. Seria muito moroso, além de sujeito a frequentes
    irregularidades, querer reduzir escriptos de tão differentes epochas, e
    publicados em desvairadas folhas periodicas, sem unidade orthographica,
    ao systema que o auctor ultimamente seguia.

    Para este quarto volume da collecção geral dos _Opusculos_, e terceiro
    das _Questões publicas_, escolhemos dois trabalhos egualmente
    importantes, e que nos parece terem intima correlação.

    O primeiro é um largo e consciencioso estudo ácerca da instituição
    vincular, onde são maduramente apreciadas as vantagens e os
    inconvenientes d'este modo de ser da propriedade, bem como as
    difficuldades que offerecia, n'aquella epocha, a sua immediata abolição.
    Este estudo, que encontrámos completo e mostra ter sido escripto sem
    interrupções, ficou, todavia, inedito na sua maior parte; porque apenas
    se imprimiram os tres primeiros capitulos, no jornal _A Patria_ de 8, 17
    e 25 de fevereiro de 1856, e o quinto, d'ahi a tres annos, nos numeros 5
    e 7 do _Archivo Universal-, a instancias do mallogrado escriptor Rodrigo
    Paganino. Quaes foram os motivos que impediram a publicação dos
    restantes, n'uma conjunctura em que as luminosas reflexões do auctor
    podiam auxiliar a resolução do grave problema, não nos foi possivel
    descobril-os; mas, com quanto a abolição dos vinculos fosse, poucos
    annos depois, levada a effeito, pelas leis de 30 de junho de 1860 e de
    19 de maio de 1863, aos homens competentes pertence o decidir se n'essas
    leis foram, ou não, previstas com lucidez, e resolvidas com acerto todas
    as diffículdades que faziam vacillar um espirito tão esclarecido e um
    animo tão resoluto.

    Compõe-se o segundo trabalho de uma serie de cartas, dirigidas ao sr.
    conselheiro Carlos Bento da Silva, nas quaes o auctor manifesta, com a
    sua habitual lealdade e franqueza, a opinião que tinha ácerca da
    emigração para a America, assumpto que então preoccupava muito os
    espiritos, e hoje parece não dar excessivo cuidado a ninguem. Publicadas
    na _Revista agricola_ e no _Jornal do Commercio_, e sustentando
    doutrinas contrarias, em grande parte, às que eram geralmente seguidas,
    estas cartas levantaram clamores, que, não só interromperam um estudo
    cheio de bom senso e de generosas aspirações, mas arrastaram, em breve,
    para o terreno ingrato das luctas politicas a discussão, que só podia
    ser proveitosa mantendo-se nas regiões serenas da sciencia. Não é, por
    conseguinte, o dezejo de avivar a lembrança de uma controversia
    desagradavel, que nos leva a reproduzir, sem a menor alteração, algumas
    paginas mais calorosas deste trabalho litterario: fazemol-o, porque era
    impossivel mutilar um escripto de tanta importancia, justamente na parte
    em que o auctor, além de responder ás objecções do seu antagonista,
    desenvolve e reforça com argumentos novos as suas proprias idéas.

    Como succede a todos os homens que, súperiores ás preoccupações do seu
    tempo e movidos por um sentimento innato de rectidão, não encobrem o seu
    modo de pensar, nem sacrificam a verdade, embora tenham de censurar
    amigos ou de dar razão a adversarios, Alexandre Herculano foi, por via
    de regra, mal avaliado pelo commum dos seus concidadãos, e victima
    frequentes vezes de infundadas e contradictorias accusações. Têm,
    comtudo, os grandes engenhos e as consciencias immaculadas certa no
    futuro a justiça que os contemporaneos lhes negaram; e nós cremos que o
    leitor desapaixonado, comparando estes dois opusculos, distanciados até
    aqui por um intervallo de cerca de vinte annos e reunidos agora no
    presente volume, encontrará n'elles, como em todas as obras do auctor,
    os mais claros testemunhos da coherencia das suas idéas, da
    imparcialidade dos seus juizos, e da pureza das suas intenções.

    _Os legatarios_.

    OS VINCULOS

    1876

    I

    *Preliminares*

    O caracter mais prominente dos actos legislativos promulgados durante a
    dictadura do duque de Bragança, foi a tendencia para alterar na sua
    essencia, melhorando-a, a condição das classes laboriosas e productoras,
    aquellas em que verdadeiramente reside a força vital da sociedade.

    As leis d'essa epocha singular da nossa moderna historia tinham de
    ordinario por fim principal desmoronar os alicerces do antigo systema
    politico, e tornar impossivel a sua restauração. Era uma idéa grandiosa,
    implacavel como o destino, que presidia á redacção de todas ellas; mas,
    em quasi todas, ao pensamento da lei ou ás suas provisões ligava-se a
    idéa de um allivio ou o de um incitamento á quasi unica industria do
    paiz–a agricultura. Assim a lei dos foraes e a abolição dos dizimos,
    destruindo os recursos de certas corporações de mão-morta e de certa
    aristocracia de berço, em cuja influencia fatal se estribava
    principalmente o velho systema, livravam ao mesmo tempo a propriedade e
    o trabalho rural dos mais gravosos impostos; e a extincção das milicias,
    dos capitães-móres e das ordenanças, ao passo que desorganisava as
    resistencias locaes ás novas instituições, restituia ao lavrador e ao
    obreiro dos campos o uso integral do fructo do seu suor.

    A restauração era grandemente revolucionaria nas suas manifestações
    legislativas; mas, como todas as revoluções vivedoiras, ella
    representava uma revolução politica e ao mesmo tempo uma revolução
    social e economica.

    Em quanto Mousinho da Silveira influiu nos conselhos do duque de
    Bragança, a restauração conservou os caracteres que lhe imprimira esse
    homem singular. Os actos subsequentes da dictadura, sem deixarem de ser
    logicos com os que até ahi se haviam practicado, deixaram de ter egual
    alcance. A extincção, por exemplo, das ordens monasticas, ao mesmo tempo
    que desprezava direitos legitimos, os que os monges tinham ás suas
    dotações, e condemnava á miseria muitos individuos innocentes e
    respeitaveis, atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem
    previsão um enorme cumulo de propriedade territorial, que, alienada por
    um systema sensato e previdente, teria sido dez vezes mais util á
    prosperidade geral do que realmente foi.

    A suppressão das ordens religiosas e a extincção do papel-moeda
    constituem os dois unicos actos de verdadeira audacia revolucionaria
    practicados pelos successores de Mousinho. As chagas sociaes em que elle
    não puzera o ferro ficaram. Taes foram as complicações do direito
    emphyteutico, que tornam absurda essa excellente fórma de transmissão e
    conservação de propriedade; taes os vinculos, instituição incompativel
    com o espirito da nossa epocha e com o regimen da liberdade; taes as
    contribuições municipaes sobre o consumo; taes os pastos communs, que
    offerecem embaraços permanentes a uma revolução agricola, que as
    circumstancias tornaram indispensavel. Toda essa farragem do passado
    teria provavelmente desapparecido, se o genio de Mousinho houvesse
    dirigido por mais algum tempo os destinos de Portugal.

    O movimento mais ou menos bem regulado d'aquella grandiosa revolução
    tinha por principal incentivo a febre de uma guerra civil violenta,
    especie de duello gigante entre o passado e o futuro. Quando a lucta
    cessou, o impulso reformador foi esmorecendo, e a reacção começou, como
    era natural apoz tamanho abalo, a modificar os espiritos. Houve quem
    parasse nos limites do justo; mas outros passaram além. Movia á piedade
    a situação do clero regular; causava graves apprehensões a
    desorganisação do secular; e o systema de administração franceza, cuja
    adopção fôra um erro de Mousinho, funccionava mal. Estes lados da
    reforma eram os menos defensaveis, e tinham contra si por um lado o
    sentimento religioso offendido, e por outro o incommodo dos povos nas
    suas relações administrativas. Explorou-se a mina: buscou-se tirar
    partido a favor dos velhos abusos das confissões leaes d'aquelles que,
    addictos ás doutrinas generosas da dictadura, eram assaz sinceros para
    condemnarem os erros que se haviam commettido. Animados por essas
    confissões, os interesses illegitimos, que a revolução havia ferido
    profundamente, agítaram-se e conspiraram contra ella. No meio das luctas
    civis que sobrevieram de novo, posto que menos violentas, e das
    incertezas e perturbações publicas, devidas umas aos nossos erros e
    paixões, outras a circumstancias independentes da vontade do paiz e das
    parcialidades, as tradições do duque de Bragança esqueceram
    gradualmente. Os exemplos de tentativas para sophismar ou destruir as
    suas leis economicas não foram raros. Houve mais d'um Oza que estendesse
    a mão á arca santa, não para a amparar, mas para a derribar, sem que
    cahisse fulminado. Nada prova mais esse progresso gradual de reacção do
    que os diversos projectos de refórma do decreto de 13 de agosto de 1832,
    chamado vulgarmente lei dos foraes, e as respectivas discussões nas duas
    camaras, reacção que veiu a formular-se na lei de 22 de junho. A questão
    do restabelecimento completo ou incompleto dos dizimos chegou a
    agitar-se nas commissões do parlamento. A idéa da reorganisação das
    milicias tem passado uma e outra vez pelas cabeças de homens assaz
    influentes, e porventura ahi vive ligada á existencia dos denominados
    batalhões nacionaes, que successivamente perecem e renascem. O jury,
    combatido a principio cora vantagem, como succede a todas as
    instituições novas que por via de regra funccionam mal, accusado por
    algumas das suas decisões, que a maior parte das vezes procediam e
    procedeam de causas alheias à instituição, foi pouco a pouco
    restringido, desnaturado, e posto á mercê dos juizes chamados letrados,
    designação infelizmente inexacta em relação a muitos. Não se ponderou
    que não ha jurados sem segurança publica, e que essa segurança não
    existia; que não os ha sem juizes habeis, e que muitos d'elles o não
    eram; que não os ha sem ensino primario, amplo na extensão e
    intensidade, e que o ensino era entre nós, como ainda é, incompletissimo
    em ambas as relações. Reagiu-se, em summa, no que se pôde, desde a
    vaidade de ter em Lisboa um patriarcha e um simulacro de patriarchal,
    inutilidades dispendiosas que a dictadura annullara, até o imposto sobre
    a pesca, vexame intoleravel abolido pelo duque de Bragança em favor de
    uma classe e de uma industria, que a humanidade e as boas doutrinas
    economicas mandavam proteger com a melhor das protecções, a plena
    liberdade.

    A reacção manifestada nestes e em outros factos parece incutir já
    receios em muitos homens publicos, que reflectem. N'outros uma especie
    de instincto politico suppre a falta da intelligencia superior e da
    razão esclarecida. Sente-se que é preciso conter o movimento retrogrado.
    Em nossa opinião o remedio é simples: é voltar aos bons principios; é
    comprehender bem a indole da restauração; é applicar as suas doutrinas,
    modificando-as nas applicações pelo que a experiencia de vinte annos nos
    deve ter ensinado. A dictadura do duque de Bragança foi demasiado curta
    e tempestuosa. Fez muito; mas não podia fazer tudo. Completae a sua
    obra; favorecei o augmento e o bem estar das classes productoras; ligae
    os seus interesses á manutenção das instituições, e a reacção reduzida á
    impotencia de uma vã theoria cessará de se reproduzir nos factos.

    As questões de direito publico são graves: o respeito pelas fórmulas e
    garantias da liberdade não merecem por certo o desdem com que alguns
    escriptores, aliás sinceramente liberaes, as tem às vezes tractado,
    desdem de que bem desejamos, por nós e por elles, não tenham ainda de
    arrepender-se. Entretanto é indubitavel que o meio mais seguro de
    colligir uma força moral que as mantenha é crear interesses de tal modo
    ligados com a existencia d'ellas, que toda e qualquer reacção os ameace
    collectivamente. É necessario que esses interesses se contraponham á
    organisação social, ao modo de ser da propriedade, ao systema de
    administração e de impostos, á distribuição das classes, congenitos com
    a monarchia absoluta. Não ha evolução completa de progresso sem as duas
    condições do melhoramento material e do aperfeiçoamento social. Podem
    dar-se factos que realisem a primeira, e que todavia sejam estranhos á
    fórmula politica do paiz onde se verificam. Nenhum descobrimento
    contribuiu tanto para o augmento da civilisação como o vapor e os
    caminhos de ferro, e todavia o vapor e os caminhos de ferro tem-se
    estabelecido em maior ou menor extensão, mas com as mesmas facilidades e
    vantagens, tanto na Inglaterra e nos Estados-Unidos, como na Austria ou
    na Russia, sem que alterem ou devam alterar por em quanto a indole
    politica ou social d'esses paizes. O erro deploravel dos adeptos de
    certa escola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no
    melhoramento social e moral dos povos, e aquelle que só melhora a sua
    condição physica. Esses taes não contestam a superioridade do primeiro,
    porque isso seria demasiado imprudente; mas julgam ter cumprido com o
    que devem ás doutrinas que professam, limitando-se a applaudir quaesquer
    tentativas mais ou menos imperfeitas para se obter o ultimo. Dir-se-hia
    que para elles o homem interior em relação ao homem physico equivale a
    zero á esquerda de qualquer algarismo. E todavia não é assim. Se o povo,
    deduzindo as ultimas consequencias de certas maximas que elles ás vezes
    proclamam sem reflexão, se entregasse nas mãos do primeiro despota que
    lhe promettesse o bem estar material; se essa triste philosophia do luxo
    e dos gosos, que dominava no imperio romano sob a tyrannia dos Cesares,
    chegasse a gangrenar inteiramente as sociedades modernas, horrorisados
    da obra para que teriam contribuido, apressar-se-hiam a renegar a
    propria escola e a alistar-se n'aquella, que, sem desprezar o homem
    exterior, não esquece que ha n'elle uma coisa interior chamada a
    consciencia, que reclama a liberdade e a dignidade como condições
    impreteriveis em todo e qualquer progresso das sociedades humanas.

    É debaixo da impressão d'estas doutrinas, e convencidos da sua
    importancia, que vamos escrever. Os estudos que iremos successivamente
    publicando não são um trabalho completo; porque talvez n'elles nenhuma
    questão seja considerada sob todos os seus aspectos. São apenas
    reflexões soltas que temos lançado ao papel nas diversas epochas em que
    circumstancias especiaes nos obrigaram a volver a attenção para os
    negocios publicos: são simples apontamentos, posto que coordenados e
    ampliados agora. Podem ter erros; mas a intenção que os dictou é leal. O
    auctor nunca poz a penna a soldo de partidos ou de escolas; nunca
    mercadejou com a sua razão, nem com a sua consciencia. Á falta de outro
    merecimento, estes estudos tem o da convicção sincera.

    II

    *Processo agricola.–Propriedade rural.–Opportunidade da discussão*

    Apezar do impulso dado ao desinvolvimento agricola pelas leis da
    dictadura de 1832, as consequencias de certos factos historicos, de
    certas instituições abusivas, que por seculos haviam esmagado o paiz,
    ainda em parte se experimentam. Remover essas instituições; neutralisar
    os effeitos d'aquelles factos é completar a revolução politica pelo
    complemento da revolução economica.

    A extincção dos dizimos, das milicias, das ordenanças, das prestações
    foraleiras deram á lavoira uma extensão imprevista, e a situação do
    cultivador portuguez melhorou sensivelmente. Se por uma parte os
    methodos sempre cambiantes da percepção dos tributos, aliás viciosos na
    sua essencia, não houvessem substituido por gravames novos os gravames
    antigos, posto que em muito menor escala; se, por outra parte, a grande
    propriedade não fosse ainda demasiado preponderante; se a falta de
    proporção entre o accrescimo da cultura e o accrescimo da população não
    houvesse augmentado, pela subida do salario, o custo das producções,
    cujo valor a concorrencia nos mercados tem ido progressivamente
    diminuindo; se a falta de instituições de credito agricola e a derivação
    dos recursos pecuniarios do paiz para a agiotagem, resultado de uma
    pessima administração da fazenda publica, não houvessem tornado o
    capital esquivo á agricultura; se o quasi nenhum melhoramento das vias
    de communicação não pesasse indirectamente sobre os productos; se o
    atrazo da instrucção popular não inhabilitasse o homem do campo para
    simplificar os methodos e instrumentos de cultura; se finalmente um
    falso systema de protecção não difficultasse indirectamente ao productor
    portuguez o accesso aos mercados estrangeiros; a industria agricola
    entre nós teria chegado ou chegaria em breve a uma situação brilhante.
    Descentralisação administrativa; divisão razoavel de propriedade;
    construcção de estradas geraes e caminhos concelhios; simplicidade e
    ordem no systema tributario, tanto geral como municipal; meios de crear
    o credito rural accommodado aos habitos e necessidades do paiz; impulso
    á instrucção popular, ou antes nacional, substituindo o impulso, talvez
    excessivo, dado á instrucção litteraria e superior; mudança gradual e
    reflectida do systema protector para o systema da livre permutação, a
    que só se poderá chegar pela descentralisação administrativa; eis o que,
    em nosso intender, constituiria em geral o complemento da revolução de
    1832. Por esses meios, desinvolvidas as forças productivas da terra em
    toda a sua energia, o accrescimo da população acompanharia o accrescimo
    de trabalho; o valor d'este se harmonisaria com o das subsistencias; o
    producto liquido guardaria sempre proporcionalidade com o producto
    bruto, ou, pelo menos, seria bastante para se accumular em capital e
    converter-se em instrumento de producção; e emfim a grande industria
    nacional, livre de peias e, ainda melhor, de uma falsa protecção,
    influiria poderosamente no progresso da industria fabril e do commercio,
    cuja prosperidade é impossivel onde a agricultura definha debaixo do
    peso de instituições ou incompletas ou absurdas.

    De todas estas questões, cuja solução importa a este grande problema,
    nenhuma, se exceptuarmos a da liberdade do commercio, é tão grave,
    difficil e importante como a da divisão do sólo, isto é, da fórma e
    condições da propriedade territorial em relação á industria agricola.
    Debatendo-a, não só se discute uma das principaes materias economicas:
    discutem-se, digamos assim, as bases da sociedade civil.

    A revolução de 1832, a unica revolução séria que tem havido em Portugal,
    occorreu, entre outras coisas, ao damno e á vergonha, a que os erros dos
    nossos antepassados nos haviam conduzido, de comprarmos aos
    estrangeiros, durante uma parte do anno, a subsistencia de uma população
    pouquissimo numerosa em relação ao nosso territorio, e que uma
    insignificante industria fabril por certo não distrahia do trabalho
    agricola. Mas as grandes providencias d'essa epocha não deram nem podiam
    dar á industria e á população rural um impulso de maxima energia.
    Deram-lhes apenas o que procede da libertação da terra, da cessação de
    certas rapinas senhoriaes e fiscaes, e, consequentemente, o impulso
    indirecto que provinha da maior facilidade de produzir subsistencias,
    cuja abundancia e barateza, sempre progressivas, nos tem efficazmente
    convertido, no fim de quinze ou vinte annos, de importadores em
    exportadores. Os outros meios de augmento de população e de industria
    agricola, que eram consectarios do largo systema que a revolução
    adoptara, não se pozeram por obra desde que os dois elevados espiritos
    que tinham encetado a reforma radical do paiz desappareceram, um no
    tumulo, outro no esquecimento ingrato dos seus concidadãos.

    A redempção da terra pela destruição dos antigos vexames devia
    completar-se, de feito, por instituições e leis cujas tendencias fossem
    accordes com as da revolução. Desde que pelas providencias da dictadura
    de D. Pedro se entrava no caminho da reforma; desde que se fazia sair a
    agricultura da immobilidade e somnolencia em que jazera por seculos;
    desde que se lhe dizia «caminha!» era necessario acabar de lhe pôr
    franca a estrada, removendo todos os obstaculos á sua marcha ulterior.
    Não succedeu, porém, assim. Um dos factos mais importantes da historia
    da nossa fazenda publica prova que o systema da revolução, ou não foi
    comprehendido, ou foi promptamente abandonado por aquelles que deviam
    manter as tradições d'essa epocha.

    A lei dos foraes e, ainda mais do que ella, a extincção da maior e mais
    opulenta parte das corporações de mão morta trouxeram á massa de bens
    publicos uma porção avultadissima de propriedade rural. Calcular com
    alguma certeza os valores, os capitaes possuidos por essas corporações
    abolidas, ou rehavidos pela reversão gradual dos bens da corôa, é
    dífficillimo, senão impossivel, pelo pessimo methodo com que taes bens
    foram e tem sido incorporados na fazenda e depois alienados. Não será
    porém excessivo o algarismo de cincoenta a sessenta mil contos. Mas
    esses bens eram na sua maxima parte predios rusticos, ou censos e
    pensões sobre elles, symbolo do senhorio directo e portanto equivalentes
    de um capital. Tendo-se aberto uma nova era ao progresso da agricultura,
    os homens publicos d'então deviam pensar que não seria indifferente e
    sem influencia na economia social do paiz o destino que se désse a tão
    avultada somma de instrumentos de trabalho rural. N'um paiz de vinculos,
    de commendas, de bens de corôa, devia suppôr-se que a grande propriedade
    não estava em equilibrio com a pequena. Não era, porém, necessario
    suppol-o. Sabia-se que só na provincia do Minho preponderava a ultima, e
    que nas outras províincias predominava a primeira, sendo quasi exclusivo
    esse predominio na mais extensa de todas, o Alemtejo. Cumpria, portanto,
    comparar os resultados económicos e sociaes da grande e da pequena
    propriedade. Este exame mostraria, quanto a nós, a necessidade de
    favorecer a multiplicação dos pequenos predios, sobretudo no centro e no
    sul do reino. Não se fez, porém, isto. A massa enorme de riqueza
    territorial possuida então pelo Estado, a qual na maxima parte poderia
    ter cabido em mãos laboriosas e humildes por emprasamentos de superficie
    limitada, ou que, pelo menos, poderia ser vendida depois de retalhada,
    alienou-se por um systema absolutamente contrario. Dividida a
    propriedade tornar-se-hia accessivel a todas as condições e fortunas
    pelo emprasamento, e pela venda a milhares de pequenos peculios. Em vez
    d'isso cahiu geralmente nas mãos de homens opulentos, trocou-se por
    capitaes avultados. Em muitos casos foi o rico proprietario que
    conglobou nos seus extensos predios vastos predios nacionaes, e isto
    n'um mercado onde reinava pela abundancia a depreciação do genero, e
    onde a concorrencia era difficil. Outra parte serviu para converter
    muitos capitalistas em proprietarios. Assim se annullaram os mais
    importantes resultados que se deviam ter tirado da reivindicação parcial
    dos bens da corôa para o patrimonio publico, e da extincção das
    corporações religiosas.

    Foi a ignorancia que produziu o mal? Foi a persuasão de que a grande
    propriedade era mais util do que a pequena? Não o cremos. A verdadeira
    razão era o interesse pessoal dos homens influentes. Tinham-se inventado
    as indemnisações; tinham-se taxado os exilios, as perdas effectivas, os
    lucros cessantes, as perseguições que se haviam padecido por causa de
    opiniões. A religião do juramento, a fé nos principios, a lealdade á
    dynastia legitima deixaram de ser uma herança de honra para se legar
    como exemplo a filhos e netos, e converteram-se em capital com juro: os
    heroes transformaram-se em chatins. Foi uma abdicação moral quasi
    completa, a que a historia fará justiça. Para as indemnisações a
    alienação em grande convinha por mais de um modo. O _Ha-de-haver_ da
    conta de ganhos e perdas engrossava-se prodigiosamente ao lado do _Deve_
    em branco. Os mercadores politicos, que a escripturavam, viam-se no
    governo, no parlamento, nos conselhos, nos altos cargos administrativos,
    judiciaes, e militares. Olharam para essa mole appetitosa e immensa que
    tinham ante si, e talharam a reparação pelo valor da presa cubiçada.
    Quanto mais se accumulassem e portanto se depreciassem no mercado os
    bens nacionaes, maior porção d'elles seria necessaria para satisfazer
    indemnisações exaggeradas. Com o tempo desappareceu tudo. O que não
    serviu para se trocar a honra politica por fortuna predial,
    desbaratou-se por preços insignificantes. Os capitalistas vieram
    substituir-se aos donatarios, aos commendadores e aos frades. Depois os
    heroes e os capitalistas foram ao templo dar graças aos deuses. A
    republica estava salva.

    Então seguiram-se quinze a vinte annos de revoluções tão estrondosas
    como insignificantes. Os partidos disputaram o poder, luctaram,
    digladiaram-se: houve sangue e desventuras; houve theorias dominantes,
    vencidas depois, e vencedoras de novo; houve homens turbulentos e
    cubiçosos (os ambiciosos são raros no nosso paiz) que ora se apoderaram
    do poder, ora desappareceram na obscuridade, quando não no exilio: houve
    todas as convulsões, todas as peripecias dos tempos de politica pessoal,
    de politica de odios acerbos e de interesses individuaes feridos. Só
    faltaram novos incitamentos para o progresso legitimo. Dentro da acção
    administrativa e parlamentar, o desenvolvimento do paiz, desenvolvimento
    innegavel, posto que muito inferior ao que devera ter sido, foi apenas a
    consequencia das providencias da primeira dictadura, e de alguns poucos
    actos da revolução de 1836, em que appareceu um homem de verdadeiro
    talento e de verdadeiro patriotismo, mas que, perdoe-nos elle, quasi
    compensou o bem que fez com os males cuja semente lançou á terra,
    transportando do campo da theoria para o dos factos as idéas
    proteccionistas. Ainda eram, comtudo, idéas: ainda era um reflexo de
    1832. Depois só houve politica esteril ou reaccionaria. O progresso,
    independente das instituições, das leis e da acção administrativa, que
    se realisou n'este periodo, tem-se devido ás idéas e aos esforços
    particulares, á razão e á actividade dos cidadãos, movendo-se n'um
    ambiente de liberdade intellectual; porque é preciso confessar que
    n'esta longa epocha de pequenas paixões e de turbulencias interminaveis
    a iniciativa individual e a liberdade dos espiritos, fóra da esphera
    politica, tem sido geralmente respeitada.

    O cansaço quebrou por fim a violecia das facções e trouxe o periodo do
    repoiso. Boas ou más que fossem as doutrinas dos partidos militantes,
    ellas eram bandeira, não crença. A prova ahi está na historia dos
    ultimos quatro annos. Modificaram-se e mollificaram-se as opiniões,
    porque não tinham sido senão o estandarte dos interesses particulares, e
    porque nas phases variadas da longa lucta das parcialidades aquelles
    interesses chegaram mesmo, por acaso, a uma combinação politicamente
    possivel. Mas este facto trouxe outro mais grave: o paiz, que suspeitava
    de muitos, descreu de todos. É um mal ou um bem absoluto? O futuro o
    dirá. O que é certo é que desanimou e tornou-se indifferente aos
    partidos. Entretanto é incontestavel que vivemos n'uma quadra
    tranquilla. Que os homens influentes da situação o attribuam, não á
    indifferença do paiz, ao seu tedio de conflictos mais ou menos
    sanguinolentos e devastadores, mas sim á illustração, á justiça, á
    moralidade e ao liberalismo do poder, e á sua propria philosophia
    politica, que se remonta acima da comprehensão de nós outros homens
    vulgares, que importa? É uma rixa domestica; é uma questão entre os
    labios e a voz intima do coração. Nada temos com isso. O que nos importa
    é o facto, e o facto é que gosamos de paz e de liberdade de discussão
    ácerca de todas as materias politicas e sociaes. A quem nos deixa isto
    deve-se perdoar alguma coisa. Pode-se ter qualquer sentimento a respeito
    dos homens da situação: ter-lhes odio seria impossivel. Estão abaixo e
    além d'isso.

    E no meio da paz e da liberdade da palavra e da escripta apparecem
    tendencias, e mais do que tendencias, esforços para a realisação de
    novos progressos. O governo actual é arrastado pela opinião publica,
    como o seria qualquer outro que o substituisse, a melhorar as
    communicações internas, e no Minho ergue-se o povo para tomar n'esta
    parte a iniciativa. As questões d'instrucção popular, que passavam
    desapercebidas, excitam já a attencão e o interesse: não tardará que a
    opinião reclame a sua solução practica tão imperiosamente como reclama
    as estradas. As doutrinas da liberdade da industria e do commercio não
    só combatem face a face as preoccupações contrarias, mas até são
    chamadas á prova, e legitimam-se pelos resultados. Os espiritos começam
    a comprehender que o credito rural pode deixar de ser uma utopia, a
    associação uma vã palavra. No parlamento é atacada a instituição dos
    vinculos, e parece aproximar-se a ultima ruina d'estes. O governo,
    emíim, abriu o caminho para se chegar um dia ao verdadeiro systema
    tributario, sem o qual o triumpho completo do livre commercio e da livre
    industria é impossivel. Por ora a repartição do imposto directo,
    substituida á decima, pouco mais é do que uma troca de palavras, e Deus
    queira que não deixe de o ser antes de tempo; mas o povo vai-se afazendo
    á idéa, e é essa uma grande difficuldade vencida para o futuro.

    Estes factos são importantes, e estão, em geral, no espirito da
    revolução de 1832; mas todos elles tem uma desenvolução posterior, e
    essa desenvolução é que ha-de aproximal-os ou afastal-os do systema
    d'aquella epocha. Oppõem-se-lhes as tendencias reaccionarias, algumas
    das quaes já se manifestam nas leis e traduzem-se nos factos. Quando em
    muitos animos preponderam os desejos da restauração do passado; quando
    estes desejos começam a apparecer na legislação, é preciso estar de
    sobreaviso para que a reacção se não introduza no progresso sob o manto
    da imparcialidade. É esse o perigo das doutrinas, que nos aconselham
    afastemos os olhos das questões de ordem moral para só pensarmos no
    melhoramento material. Servirão taes doutrinas a tal ou tal situação,
    porque precisará d'ellas para se absolver a si propria; mas não servem
    ao paiz, e podem ser ainda fataes áquelles mesmos que as propugnam.
    Cumpre na desenvolução de cada reforma ligal-a pelas suas condições ao
    systema da liberdade.

    Se repetidos exemplos de corrupção fizeram descrer o paiz dos homens
    publicos, o progresso material, desligado e independente das condições
    politicas da sociedade actual, pode fazel-o descrer d'essas condições. O
    governo representativo não é commodo nem barato. É preciso que o povo
    considere as vantagens do bem estar como inseparaveis dos incommodos e
    sacrificios que as instituições exigem. O triste espectaculo, que hoje
    presenceamos, de uma grande nação privada dos seus fóros é a mais
    tremenda lição que nos offerece a historia sobre as consequencias de
    converter o porco de Epicuro em symbolo exclusivo da religião social.

    III

    *Abolição dos vinculos*

    O pró e o contra

    Entre as reformas pendentes merece attenção particular a abolição dos
    vinculos. Agita-se hoje essa questão, á roda da qual vêm accumular-se
    outras mais graves. Considerada em si, e só em relação aos seus
    resultados economicos, a extincção d'esta fórma de propriedades
    realisar-se-ha de um modo. Considerada em relação a todas as
    consequencias da medida, tanto economicas como sociaes e politicas,
    ha-de realisar-se de outro. A abolição dos morgados e capellas pode, até
    certo ponto, remediar o mal que resultou do systema inconveniente
    adoptado na distribuição e alienação dos bens nacionaes, se essa
    abolição se reputar um problema subordinado, uma hypothese que entra na
    questão geral da organisação da propriedade em relação ao bem estar
    material, moral e politico da sociedade. A esta luz a solução da questão
    geral determina forçosamente a da hypothese. Não é possivel, portanto,
    separal-as. Nas considerações que vamos fazer, considerações talvez
    incompletas, mas que cremos uteis, procuraremos quanto fôr possivel
    attingir á generalidade.

    As principaes objecções que se podem oppôr á existencia dos vinculos são
    de diversa ordem: moraes, politicas e economicas. Uma parte d'ellas
    entram na questão geral da grande e da pequena propriedade. Outras
    pertencem á ordem politica e á ordem moral.

    Oppõe-se aos vinculos que, sendo estes uma fórma de propriedade em que o
    direito de testar é tirado ao possuidor d'ella, convertido em simples
    administrador, falta a este o principal estimulo para os melhoramentos
    permanentes. Tudo pelo contrario o incita a tirar dos predios que possue
    a maxima utilidade pessoal. Salvas as hypotheses de viva affeição
    áquelle, que, não elle, mas a lei e a instituição fazem seu herdeiro, ou
    de uma decisiva paixão pela agricultura, o administrador do vinculo será
    sempre o peior entre os proprietarios ruraes, e a terra vinculada será
    constantemente um modelo de atrazamento e de incuria, um obstaculo
    permanente ao progresso agricola. A historia e o estado dos vinculos em
    Portugal demonstram _a posteriori_ a verdade e o alcance d'esta
    objecção.

    A instituição vincular é injusta excluindo os irmãos menores de egual
    quinhão na herança paterna, tornando-os dependentes, por um subsidio, do
    irmão mais velho, ao passo que não podem obstar a que este annulle os
    recursos para o pagar. Aquelle incerto meio de subsistencia é, alem
    d'isso, um incentivo de preguiça e ignorancia, uma fonte de irremediavel
    miseria para o homem a quem um berço illustre poz sem culpa sua fora do
    direito commum.

    O vinculo é a negação permanente de uma das primeiras condições da
    propriedade: n'elle os dois dominios estão incorporados n'um só, mas
    esse dominio não está _actualmente_ em parte nenhuma. Ficou, digamos
    assim, chumbado na campa de um tumulo: o tumulo retem-n'o até o fim das
    gerações. O morto desmentiu o direito dos vivos. O seu herdeiro, o homem
    que lhe succedeu na posse da terra e que elle chamou a isso por um acto
    livre e espontaneo, é pouco mais que um simples usufructuario. Mas ha
    outro que deva depois d'elle succeder com pleno direito, porque o
    affecto nascido dos laços domesticos ou do sentimento da gratidão moveu
    o instituidor a tornal-o proprietario d'essa terra apoz o
    quasi-usufructuario? Não ha. Ha só uma serie de descendentes que o
    instituidor desconhece, e, na falta d'estes, os de collateraes que não
    lhe importam. O fundador de um vinculo não fez mais do que empilhar os
    corpos de individuos tirados das diversas gerações para sobre elles
    assentar o throno da sua vaidade. Decretou-se homem grande: teve pena de
    que o futuro esquecesse personagem tão importante. Certa escola
    socialista mais moderada nega no que possue o direito de testar: os que
    estabeleceram a jurisprudencia dos morgados foram os precursores d'essa
    escola. Os antigos sacrificavam ao Deus desconhecido, _ignoto deo_; os
    instituidores de vinculos sacrificam _ignoto homini_.

    Os vinculos refogem, pela condição da inalienabilidade, aos impostos
    sobre transmissão por venda. Tornam, n'esta parte, em virtude de um
    privilegio, impossivel de se realisar ácerca d'elles a proporcionalidade
    constitucional das contribuições.

    A existencia dos vinculos, derivando de um privilegio, está
    absolutamente em antinomia com a lei política, não se provando que essa
    existencia seja de utilidade publica.

    Admittidos entre nós os vinculos em epochas, nas quaes o atrazo agricola
    tornava pouco productiva a terra, esta só podia constituir um morgado ou
    capella importante, vinculando-se uma immensa extensão de solo. No meio,
    porém, de população rara e de cultura pouco intensa e pouco frequente,
    elles não ofereciam grande obstaculo á exploração da terra. Agora,
    porém, que já o agricultor arrosta com os terrenos de segunda qualidade,
    e que a população se desenvolve e cresce, cada decada, cada anno, cada
    dia estão mostrando mais claramente o absurdo de se conservarem
    terrenos, muitas vezes de primeira ordem, incultos ou mal cultivados por
    causa de uma instituição, cuja existencia não é legitimada por nenhum
    motivo attendivel.

    A propriedade d'esta especie esta em regra condemnada á ruina e ao
    atrazamento. O predio vinculado, passando livre ao successor, é uma
    pessima hypotheca. O capital não se põe em contacto com elle senão por
    meio de exorbitantes usuras. Comprehende-se como um mau administrador de
    vinculo para satisfazer os proprios appetites ou paixões sacrifique á
    agiotagem um futuro que é seu; mas não se comprehenderia egual
    sacrificio da parte de um homem cordato, que pretendesse applicar um
    capital avultado aos melhoramentos de propriedades arruinadas pelo
    desleixo e falta de economia dos seus antecessores. Embora as
    bemfeitorias sejam encargo transmissivel, é certo que o dinheiro seria
    sempre incomparavelmente mais caro para elle do que para o proprietario
    cujos bens podem ser executados, e o dinheiro caro é para a agricultura
    do nosso paiz como se não existisse.

    Na verdade, trazida sem restricções a propriedade vinculada ao direito
    commum, o mau administrador desbarataria facilmente os proprios haveres;
    mas o bom poderia com uma parte d'esses bens, por qualquer modo
    alienados, tornar solido o resto da sua fortuna: mais; poderia tirar do
    sacrificio os meios de dar á porção salva um valor egual ou maior do que
    tinha todo o vinculo. Por certo que para isso necessitava de actividade,
    de economia e de intelligencia; mas favorecer taes dotes não seria uma
    das menores vantagens da abolição.

    Se a facil divisão do solo tem em geral uma grande importancia economica
    e social; se a tem egualmente a facil transmissão pelos contratos de
    compra e venda; os vinculos, contradizendo completamente esses dois
    factos, devem cessar de existir.

    Taes são as considerações principaes que se offerecem ou podem offerecer
    para se abolir esta forma especial de propriedade. Os seus defensores
    recorrem não raro a subterfugios e a razões insignificantes. Ha todavia
    algumas considerações que parecem favorecer os vinculos. Contrapol-as às
    allegações em contrario é mostrar que se busca sinceramente a verdade.

    O direito de propriedade é virtualmente atacado na abolição dos
    vinculos. O instituidor de qualquer d'elles estabeleceu-o em bens seus
    inteiramente livres, e sem offensa das leis de successão. Se elle tinha
    o direito de testar esses bens, tinha tambem o direito de regular o modo
    de succeder, de limitar e impôr condições á fruição do que era seu.

    Nas monarchias representativas considera-se a existencia das
    aristocracias como um facto social legitimo. Pelas instituições esse
    facto é convertido em principio politico manifestado no pariato: ou,
    antes, o facto indestructivel da desegualdade social é circumscripto por
    aquellas instituições dentro da orbita politica, ficando ao mesmo tempo
    excluido das relações civis legaes. Desde que, porém, a aristocracia,
    representante da desegualdade, é considerada como elemento politico,
    torna-se necessario garantil-a. Os vinculos, destinados a manter e
    perpetuar as familias aristocraticas, estão portanto essencialmente
    ligados á existencia da monarchia representativa.

    A divisão indefinita do solo tem os inconvenientes que a França, onde as
    instituições de direito publico e de direito civil a favorecem
    excessivamente, já experimenta em larga escala. A idéa de allodialidade
    absoluta da terra, e de favor para a subdivisão contínua da propriedade,
    prevalecendo entre nós no commum dos espiritos, e manifestando-se já nas
    tendencias de certas leis, ha-de emfim vir a produzir os mesmos males
    que produz em França e em outros paizes, e contra os quaes varios
    estados de Allemanha tratam de prevenir-se por via de leis positivas e
    terminantes. A existencia dos morgados estabelece uma compensação a
    similhantes tendencias, e equilibra a grande e a pequena propriedade.

    Suppondo, porém, que em geral a grande propriedade prepondere hoje;
    suppondo ainda que a parte allodial d'ella se não transforme pelo
    decurso do tempo, e que resista ás tendencias e leis que favorecem a
    divisão do solo; nem ainda assim os vinculos devem ser abolidos por
    manterem a grande propriedade. Esta não pode ser considerada como um
    inconveniente, visto parecer demonstrado que a grande cultura produz
    mais barato, que dá em resultado maior producto liquido, e que não ha
    grande cultura sem vasta propriedade. Deduzir da situação accidental dos
    vinculos, situação que ainda se não examinou se podia ser melhorada,
    argumentos contra a essencia de uma instituição, que pode contribuir
    para a creação de importantes valores, parece pessima logica e ainda
    peior economia politica.

    Na hypothese, porém, de que a propriedade perfeitamente livre tenda sem
    remedio a subdividir-se indefinidamente, opinião que tem por si os
    factos e as previsões de distinctos economistas, abolidos os vinculos,
    que é o que fica para satisfazer á necessidade economica da existencia
    de grandes predios ruraes?

    A centralisação é o grande defeito dos governos representativos:
    centralisação da soberania; centralisação da administração pelo
    executivo; centralisação da justiça; centralisação da força publica. Mas
    todos os poderes centraes tendem a destruir a independencia ou a acção
    uns dos outros e a elevar-se acima d'elles. Não raro acontece isto, e a
    experiencia ensina-nos que por via de regra é o executivo quem triumpha,
    sobre tudo pelos meios de corrupção, triumpho tanto mais perigoso,
    quanto é certo que se mantem de ordinario as apparencias
    constitucionaes, e que esse absolutismo é mais facil de sentir do que de
    demonstrar quando acata certas formulas tornadas estereis. A força dos
    agentes administrativos é, n'esta hypothese, immensa; porque se
    multiplica de um modo incalculavel a energia da centralisação já d'antes
    exaggerada. Abolindo-se os morgados e capellas, e destruindo-se por esse
    modo a grande propriedade e as influencias dos nomes historicos, não se
    faz mais do que remover obstaculos ás demasias dos delegados do poder
    central. O _cavalheiro de provincia_, essa entidade com recursos
    materiaes e moraes para contrastar a autocracia do funccionalismo,
    cessará de existir. Retalhados os predios allodiaes pelas heranças, os
    morgados seriam o ultimo e unico refugio da resistencia legal ao
    despotismo da centralisação administrativa.

    Ainda outros argumentos a favor da manutenção dos vinculos se costumam
    deduzir de certa ordem de considerações moraes. Tal é a difficuldade de
    os abolir sem offender direitos adquiridos ou as regras da equidade. Mas
    tambem os adversarios dos vinculos vão buscar nessa mesma ordem de idéas
    considerações que se oppõem á sua conservação. Subsequentemente teremos
    de avaliar alguns d'esses encontrados argumentos quando a successão das
    idéas nol-os suggerir. Aqui só quizemos indicar as ponderações mais
    graves que mutuamente se contrapõem sobre um problema, de cuja solução
    pendem muitos interesses, não só geraes mas tambem particulares, e em
    que por isso as exaggerações e argucias são frequentes e é difficil a
    imparcialidade.

    Basta porém attender ás considerações principaes para se conhecer que a
    sua confirmação ou refutação dependem do modo de resolver os mais serios
    problemas sociaes, taes como a indole e fins das aristocracias nas
    sociedades modernas, a organisação do poder central, e o equilibrio
    politico pela descentralisação administrativa, as vantagens e os
    inconvenientes da grande e da pequena propriedade, da grande e da
    pequena cultura, as leis que determinam o augmento da riqueza publica,
    tudo, emfim, quanto mais intimamente se liga com o progresso material e
    moral do paiz. Importa ter idéas claras ácerca d'esses graves assumptos
    para dar um voto sobre a questão dos morgados. Sem isto os instinctos ou
    os interesses de classe, de partido ou de individuos influirão
    exclusivamente na abolição ou não abolição, e, supposta a primeira
    hypothese, nas disposições da lei por que forem abolidos.

    IV

    *O principio vincular considerado na sua legitimidade*

    A primeira consideração que parece favorecer a conservação dos vinculos
    é de ordem juridica; liga-se com a maxima questão social–o direito de
    propriedade. O commum dos morgados em Portugal foram instituidos em
    terças, de que os instituidores podiam livremente dispor; e quando, com
    licença do rei, então arbitro supremo, abrangiam os bens de legitima,
    resalvavam-se os alimentos, a que se entendia terem jus os filhos por
    direito natural, que ao rei não era licito infringir. Os instituidos,
    com permissão regia, em bens de corôa, em commendas, etc., ou fundados
    por individuos sem herdeiros forçados, é evidente que não offendiam
    direito algum particular, e que o instituidor não fazia senão practicar
    um acto legitimo, dando esse futuro destino a bens que podia livremente
    testar, ou de que a auctoridade suprema lhe consentia dispor para esse
    fim como de cousa propria. Assim a abolição, destruindo a fórma e
    condições impostas na transmissão da propriedade pelo proprietario,
    negaria retroactivamente o uso de um direito legitimo. A lei pode
    prohibir as novas instituições vinculares; mas não pode converter o
    administrador em proprietario, nem regular a successão dos bens de
    vinculo pelo direito commum.

    Na verdade os instituidores de morgados tinham o direito de transmittir
    a propriedade de que livremente podiam dispor com as condições que
    entendessem; mas as consequencias que d'ahi se deduzem estão longe de
    serem incontestaveis. Se admittis a doutrina que apenas estriba o
    direito de propriedade nas leis positivas, é evidente que ellas podem
    modificar, restringir e até annullar esse direito. Se, com mais razão,
    considerais a propriedade como de direito natural, ainda assim as
    difficuldades subsistem. As opiniões variam ácerca da extensão d'esse
    direito. Ha quem negue que a successão testamentaria e _ab intestato_ se
    inclua n'elle; não seja de pura instituição civil: ou, por outra, que o
    direito de propriedade possa subsistir além do tumulo. O acto, porém, de
    instituir um vinculo não é mais do que levar o exercicio d'esse direito
    não só além da morte, mas tambem á perpetuidade. Supponhamos, todavia,
    que a successão esteja envolvida no direito natural da familia. Não se
    comprehende melhor como a successão vincular se haja de fundar em tal
    direito. Que é o que transmittiu o instituidor? Apenas uma parte do
    dominio. Nenhum dos seus herdeiros tem o dominio absoluto dos bens do
    vinculo: o que tem é, digamos assim, apenas meia propriedade. Resulta
    d'aqui um facto. Pela nossa jurisprudencia os morgados extinguem-se: e
    esta extincção dimana da sua natureza. Quando ao ultimo administrador
    não restam parentes consanguineos, que tambem por consanguinidade o
    sejam do instituidor, o morgado acabou. Os bens vinculados devolvem-se
    então á corôa, á fazenda publica, á sociedade. Por mais intimos que
    sejam os laços de familia que unam o derradeiro possuidor com outros
    individuos, esses individuos são excluidos. Comtudo a legitimidade da
    successão nos vinculos, como em outra qualquer propriedade, estriba-se
    forçosamente ou na lei civil revogavel, ou no direito natural da
    familia. N'esta ultima hypothese o vinculo repugna ao principio da sua
    propria validade. Porque veiu a succeder o Estado? O dominio residia
    n'elle? Dir-se-hia que sim. A idéa de semi-propriedade é uma idéa de
    restricção, limitativa: cumpre por isso que exista a cousa restringida,
    limitada. Concebe-se, por exemplo, perfeitamente o usofructo nos bens
    não vinculados: após o usofructuario ha sempre um herdeiro definitivo.
    Nos morgados não acontece assim. Existe á limitação sem a cousa
    limitada, se não suppozermos o Estado revestido d'aquelle dominio que
    não existe no possuidor. Em relação, pois, ao direito natural da
    propriedade a existencia dos vinculos é uma cousa incoherente,
    contradictoria, inexplicavel.

    Mas ha uma consideração ainda mais grave a oppor áquelles que invocam os
    fundamentos do direito em favor d'essa instituição. É que, para
    subsistir, ella carece absolutamente das leis de privilegio. A sociedade
    deve proteger o livre uso da propriedade e as disposições testamentarias
    em quanto ellas se conformam com o direito commum. Lei de excepção para
    taes ou taes hypotheses é que não deve nem pode admittir senão por um
    motivo que virtualmente o faça entrar na regra geral–a utilidade
    publica; e a utilidade publica só pode qualificar-se por uma declaração
    legal, por uma disposição de direito positivo. Declarada não util a
    existencia dos vinculos, o direito politico faz desapparecer
    necessariamente desde logo as leis que mantêm os vinculos. Revogadas
    estas, como se não pode conceber propriedade sem proprietario, ou o
    dominio completo dos bens de morgado será considerado como _nullius_ e
    recahirá no Estado, ou esse dominio se incorporará no meio dominio,
    convertendo-se o administrador em proprietario. Seria, com effeito,
    absurdo que qualquer individuo tivesse o direito de regular a applicação
    e uso dos proprios bens _post mortem_ por tal arte que não se houvesse
    de realisar a sua vontade sem certas disposições especiaes de direito
    positivo, e que a sociedade fosse constrangida a promulgar ou a manter
    semelhantes disposições. A soberania de tal homem excederia a da razão
    publica, unica de legitimidade indubitavel.

    A abolição, pois, dos vinculos, ou, para falarmos mais exactamente, a
    revogação das leis positivas que os protegem, e sem as quaes a sua
    existencia não se comprehende, respeita o direito de propriedade. A
    questão pode versar sobre a conveniencia ou não conveniencia do
    principio vincular, e sobre a maneira da abolição ou da conservação, mas
    nunca sobre o direito que o paiz tem de retirar o seu apoio a esta
    antiga instituição.

    Tirada, porém, a base de um direito primitivo e indestructivel, os
    defensores dos morgados appellam para o direito politico. A monarchia
    representativa consagra o principio da desegualdade social, fazendo-a
    representar pela aristocracia de berço, cuja conservação forçada deriva
    da indole do pariato hereditario. Exigindo-se para este, além de outras
    habilitações, uma renda avultada, importa que as instituições e as leis
    mantenham a perpetuidade d'essa renda, em harmonia com as que consagram
    a perpetuidade das funcções. A permanencia dos vinculos assegura esse
    resultado, ao passo que a sua abolição importa a não existencia do
    pariato hereditario.

    A lei politica estabelece o pariato hereditario e o vitalicio; mas nem
    determina a proporção de um ou de outro, nem, rigorosamente, exige a
    existencia simultanea de ambos. Não a exige, porque seria absurda essa
    exigencia. Sem as leis organicas e com a Carta na mão, o rei poderia
    substituir o par fallecido sem herdeiro que o representasse por um par
    vitalicio. Esta hypothese verificada em vinte ou trinta casos teria
    acabado com o pariato hereditario. Vice-versa o rei poderia deixar de
    supprir os logares vagos por morte dos pares vitalicios, ou tornal-os
    hereditarios e acabar assim com a não hereditariedade.

    A lei de 11 de abril de 1845, exigindo, além de outras habilitações, uma
    certa renda ao individuo que succede no pariato, levou em mira a
    manutenção da dignidade e independencia dos membros da camara alta. Ora
    essas condições não podem verificar-se com uma renda imaginaria: é
    preciso que esta seja real e effectiva. Mas são justamente os vinculos
    que menos asseguram a realidade e effectividade de semelhante renda, e
    que ao mesmo tempo offerecem mais meios para ser sophismada a letra e
    desmentido o espirito da lei. O mau administrador de morgado (e a regra
    é ser mau administrador do fundo quem não passa de pouco mais de
    usufructuario) pode reduzir-se a si proprio á miseria dentro de um ou
    dous annos, e perder a independencia e a dignidade que a lei requer
    n'elle: pode, até, transmittir ao seu successor a propria miseria,
    porque são vulgarmente sabidos os alvitres de que usa o capital, ou, se
    quizerem, a agiotagem, para illudir o principio da immunidade vincular.
    Na apparencia, porém, a renda exigida pela lei continua a subsistir: o
    fundo não desapparece: o administrador actual lá possue nominalmente
    _uma casa_ de quatro, seis ou oito contos de réis. Na verdade hoje não
    tem que almoçar, ámanhã não terá que jantar; ao seu successor acontecerá
    o mesmo; mas que importa? A letra da lei está salva: o que se annullou
    completamente foi o seu intuito, o seu espirito, a razão que a
    sanctificava. Se os bens do par fossem sujeitos á lei commum, este facto
    servir-lhe-hia de poderoso incentivo para ser um cidadão economico,
    activo e bem morigerado; porque a manutenção da dignidade de par, em si
    e n'aquelle que houvesse de succeder-lhe, dependeria d'essas virtudes,
    virtudes que aliás não deixariam de influir nas suas opiniões e no seu
    procedimento politico, e de reverterem em beneficio da republica.

    Mas admittamos por um momento que o pariato hereditario seja inseparavel
    da existencia dos vinculos. Não se segue d'ahi a necessidade de os
    conservar. É facil reformar o artigo constitucional que consagra
    simultaneamente a hereditariedade e o vitalicio no pariato, reduzindo-o
    a esta ultima fórmula. Se a abolição dos vinculos involve um grande
    interesse social, a solução mais razoavel será a suppressão da
    hereditariedade do pariato, suppressão que em nosso modo de ver
    representaria um verdadeiro progresso na organisação politica, acabando
    com uma idéa falsa.

    Esta idéa, na qual se estriba o pariato por successão, é a de que a
    aristocracia, elemento politico, é forçadamente o mesmo que a
    aristocracia de linhagem: ou, por outra, que o facto indestructivel da
    desegualdade humana se ha de manifestar eterna e quasi exclusivamente na
    fórmula dos tempos feudaes.

    É uma opinião que vale a pena de se examinar.

    V

    *Desegualdade e personalidade*

    A desegualdade natural entre os homens tem sido negada de um modo
    absoluto nos tempos modernos: tem-se empregado todas as subtilezas da
    philosophia do direito para demonstrar a possibilidade de destruir um
    facto indestructivel. Tudo nasce, em nosso entender, de se confundirem
    as idéas de diversa ordem.

    A egualdade civil não é só possivel, é necessaria. Deriva do direito
    natural que cada um tem de desenvolver a sua actividade até onde não
    impede a desenvolução da actividade alheia. Esse direito suppõe deveres
    correlativos. A sociedade existe para manter aquelle e estes. É por isso
    que o estado social é inseparavel da humanidade, e que o homem da
    natureza, sonhado por alguns philosophos do seculo passado como anterior
    á sociedade, não passa de uma chimera. Um simples exemplo fará sentir
    melhor esta incontestavel doutrina do que longas dissertações. O que,
    trabalhando, deu valor a um tracto de terra desoccupado e inculto e o
    fez fructificar, desenvolveu legitimamente a propria actividade. Se
    outrem quizer colher os fructos ou substituir-se ao primeiro occupador
    do campo agricultado exorbitará da esphera legitima da propria
    actividade, e deixará de cumprir o dever de respeitar a livre acção
    alheia. N'este exemplo se resumem e symbolisam as infinitas relações
    civis que a sociedade mantém e que correspondem ás idéas de egualdade.
    As instituições que asseguram o livre movimento do individuo dentro da
    esphera da propria acção, sejam quaes forem, são instituições de
    liberdade, porque mantém a egualdade civil.

    Mas a egualdade civil importa a desegualdade social. Outro exemplo
    tornará tambem evidente esta doutrina. Se em campina illimitada e
    fertil, mas sem dono e inculta, dous individuos occuparam dous tractos
    de terra diversos, e um d'elles dotado de maiores forças physicas, de
    melhores instrumentos, de maior energia e actividade, assignalou mais
    extensa área aos proprios esforços e accumulou maior somma de trabalho
    intelligente, e por consequencia maior somma de productos, nem por isso
    o menos forte e menos habil pode queixar-se de que elle penetrou na sua
    esphera de legitima actividade. Se pretendesse que a sociedade
    repartisse com elle uma parte dos valores creados pelo seu vizinho,
    pretenderia uma injustiça–a quebra da egualdade civil. Por outro lado,
    se o mais robusto e intelligente, pretextando a incapacidade relativa,
    physica e moral, do menos energico e menos habil, pretendesse
    apoderar-se da terra e dos instrumentos do pequeno cultivador, a
    sociedade seria injusta se lhe désse razão; se tolerasse que elle
    estendesse a esphera da propria actividade até penetrar na esphera da
    acção alheia: toleraria a quebra da egualdade civil, se não mantivesse
    cada qual na orbita que lhe fôra assignalada pelo supremo direito da
    natureza.

    Se a manutenção, porém, do livre exercicio da actividade dos vizinhos
    era n'este caso equivalente á manutenção da egualdade e da justiça, as
    consequencias que derivassem d'esse facto, e só d'elle, seriam tambem
    incontroversamente legitimas. Ora uma d'ellas, a mais importante, havia
    de ser forçosamente a desegualdade social; a desegualdade d'aquellas
    relações cujas normas se estabelecem, em parte, pelas regras a que
    chamamos direito publico, direito que a razão e a historia nos
    apresentam como mais cambiante, menos conforme no espaço, e menos
    permanente no tempo, do que as regras das relações civis. A desegualdade
    social dos dois vizinhos manifestar-se-ia em muitos factos
    impreteriveis. O que por excesso de energia e de trabalho tivesse obtido
    melhores, mais numerosos, e mais variados productos, gosaria mais, e
    necessariamente, pela intelligencia e pelos recursos materiaes,
    exerceria maior influxo no animo dos outros homens. A sua generosidade
    fora mais ampla, a sua hospitalidade mais opulenta, o seu tracto mais
    aprazivel, a sua opinião mais seguida: isto é, elle seria socialmente um
    algarismo em relação ao qual o seu vizinho representaria outro bem
    inferior. E todavia a desegualdade nascida da egualdade não offenderia o
    direito, não seria senão justiça.

    O arroteador do grande predio é o symbolo da aristocracia: como emanação
    do direito fundamental que virtualmente a gera é que esta se absolve e
    legitíma. Mas d'ahi nasce o corollario de que ella é essencialmente
    individual, personalissima. A desegualdade não é de gerações, de
    linhagens predestinadas: é de individuos. Por isso as suas manifestações
    collectivas, para serem naturaes e logicas, devem ter ao mesmo tempo o
    sello da individualidade. A aristocracia, como entidade real, é uma
    concreção necessaria, mas artificial; é a generalisação da idéa das
    desegualdades individuaes; é a incorporação das maximas forças sociaes;
    é o reconhecimento e a organisação de um facto impreterivel.

    Na verdade, superioridade social herdada e derivando do direito natural
    da familia pode em alguns casos ser legitima; mas é accidental, e vem
    entrar em ultima analyse na regra da superioridade individual. Se o pae,
    que era um membro da aristocracia pela sua riqueza, a legar ao filho,
    este o será como seu pae, independentemente de todas as instituições
    positivas, do mesmo modo que deixará de o ser na realidade desde o dia
    em que perder essa herança, sejam quaes forem as leis que pretendam
    manter-lhe um caracter social que lhe desappareceu da fronte.

    A fórma por que adquiriu os valores, que o convertem em uma força de
    excepção, nada importa, uma vez que seja legitima. É indifferente que
    lh'os désse o trabalho, a intelligencia ou o berço. O importante, o
    indispensavel é que elle actualmente os possua: que exista um facto que
    a força bruta pode destruir, mas que a razão publica não pode deixar de
    reconhecer.

    O influxo moral de um nome illustre, herdado de antepassados, é tambem
    uma força social. Esse influxo constitue a nobreza, a qual, não sendo em
    rigor um facto indestructivel, é todavia uma realidade. A democracia,
    quando o condemna ou o nega, engana-se. O valor da _aristocracia de
    sangue_ assenta n'uma ordem de idéas extranha ao direito; procede do
    sentimento, digamos assim, poetico das sociedades, porque todas as
    sociedades tem a sua poesia. A esta luz nada mais legitimo do que a
    fidalguia; porque o senso esthetico é uma condição natural das
    sociedades civilisadas, e o orgulho pelas tradições gloriosas do passado
    constitue uma parte da sua vida moral. A nobreza de linhagem é um
    monumento do passado. Os que pretendem expungil-a da lista das
    manifestações da vida social devem por maioria de razão mandar destruir
    os tumulos dos heroes e dos sabios, e dispersar-lhes as cinzas ao vento,
    quebrar-lhes os bustos e as estatuas, arrazar os templos, os obeliscos,
    os monumentos, sejam quaes forem, que ligam as glorias do passado ao
    presente pelas recordações. Aquelle que affirma ser coisa absolutamente
    van a herança de um grande nome, não chame vandalo ao que derriba a
    quadrella da muralha ou a torre do castello antigo para calçar as ruas.
    Este não faz mais do que elle: nega a significação dos monumentos; nega
    tudo aquillo que só a poesia nacional sanctifica. N'este systema a unica
    maneira de ser rigorosamente logico é ir até aonde foi a revolução
    franceza de 1793. É necessario que ao lado das pedras, que desabam,
    rolem pelo chão as cabeças.

    O facto social, em que se estriba a aristocracia de linhagem, está,
    porém, ligado a uma condição que forçadamente dá a esta o mesmo caracter
    de personalidade, que é indelevel nas outras especies de aristocracia.
    Essa condição deriva do principio de que o poetico é inseparavel do
    moral, o bello do bom. Ora o que se eleva acima dos outros, porque
    herdou um nome venerado pela opinião, está adstricto a respeitar a
    moralidade dos seus actos para não perder essa _força_ herdada, que não
    póde existir sem a sua condição philosophica. Esta doutrina é confirmada
    plenamente pela observação practica. Os netos degenerados dos homens
    grandes, se os depojardes de todas as distincções facticias que servem
    de encobrir o vicio e a incapacidade, invocarão debalde o nome de seus
    avós como uma _desegualdade_, uma _força_, que os eleva _socialmente_
    acima d'aquelles que _civilmente_ são seus iguaes. O sentimento moral,
    que exteriormente se traduzia em consideração e respeito, desappareceu
    ao passo que a lei esthetica se annullou. Assim a nobreza hereditaria,
    dependendo inteiramente da acção do individuo, entra na lei geral da
    aristocracia–a personalidade.

    O erro dos escriptores democraticos, que entendem ser possivel a
    destruição _effectiva_ de uma classe aristocratica, procede de
    confundirem a fidalguia hereditaria com a do corpo aristocratico; de
    tomarem a especie pelo genero. É possivel que a especie chegue a
    desapparecer temporariamente, ou por degeneração moral dos individuos
    que representam as velhas linhagens, ou pela extincção d'estas; mas o
    tempo sanctificará as novas illustrações que se alevantam, e em quanto
    as nações tiverem o sentimento do bom e do bello, isto é, em quanto
    tiverem uma condição sem a qual não podem existir, a progenie d'esses
    homens summos herdará a força moral de seus nomes, e só a perderá
    destruindo-a pela _villania_ pessoal.

    Mas extincta ou existente, brilhante ou obumbrada, a fidalguia não é uma
    formula essencial da aristocracia. Para ser revalidado o protesto da
    desegualdade social em todas as gerações, não é necessaria a assignatura
    das castas; não é preciso que esse protesto seja firmado com sellos
    blasonados. O genero fica, embora a especie desappareça.

    Reflectiram bem os que dizem que as sociedades caminham á completa
    egualdade democratica, porque se facilita o caminho das mais elevadas
    situações, das mais poderosas influencias, a todas as vontades
    energicas, a todos os talentos fecundos, e porque, do fastigio das
    grandezas e do poderio, familias e individuos caem facilmente na
    obscuridade e na impotencia social? Esta observação, que muitos julgam
    profunda, não passa de uma trivialidade sem alcance. A questão é se esse
    fastigio, esse poderio, essas influencias, essas manifestações, em
    summa, da desegualdade humana desappareceram; se podem desapparecer ou
    se ha sempre, ou não ha, sujeitos em quem ellas se personalisem; se,
    collocados em situação identica e tendo interesses communs, elles
    constituem ou não uma entidade moral juxtaposta ou sobreposta á
    democracia. Eis a questão. Que importa se a preeminencia do individuo se
    explica por um testamento, por um berço, pelo genio, pelo trabalho, ou
    por um acaso feliz? Seja qual for a origem d'essa preeminencia, d'essa
    força, a sociedade pode negal-a, combatel-a, annullal-a temporariamente;
    o que não pode é impedir a sua reproducção. A desegualdade é a lei: a
    aristocracia a sua manifestação indestructivel.

    No mosaismo e no brahmismo o sacerdocio foi e é a herança de tribus ou
    de castas privilegiadas; no christianismo, porém, o sacerdocio acceitou
    sempre homens de todas as condições e hierarchias. Desde a dignidade do
    metropolita até ás humildes funcções do ostiario, que situação houve ou
    ha na igreja, a que igualmente não houvessem ou não hajam de ser
    chamados o nobre, o burguez, o filho da plebe? E todavia o clero foi por
    seculos a mais poderosa aristocracia conhecida. As tradições de
    influencia e predominio do corpo ecclesiastico perderam-se, alteraram-se
    acaso, porque não era a hereditariedade do berço que as mantinha? Não
    era e não é o corpo do clero a negação da familia, e por consequencia da
    hereditariedade? Houve nunca, especialmente durante a idade media, uma
    classe social mais compacta, mais distincta das outras, com interesses
    mais exclusivos, com uma acção collectiva mais irresistivel e incessante
    na vida das nações? O clero que combatia nos campos, nas conspirações, e
    nos parlamentos contra o poder central; que não raro o fazia ceder, e
    que o esmagava algumas vezes, valia bem mais do que essa fidalguia
    hereditaria dos ultimos seculos, que vivia das migalhas distribuidas
    pela côroa, e que, sem iniciativa nem vigor, comprava com genuflexões
    nos paços do rei a altanaria que ostentava nas ruas e praças do povo.

    Parece-nos evidente que a aristocracia, ao passo que é indestructivel
    como elemento social, é no concreto e em relação aos individuos
    essencialmente pessoal e por consequencia movel. Assim, na sua
    manifestação politica, não pode perder esse caracter que lhe é
    essencial.

    Pouco tardará a epocha em que a razão triumphe das preoccupações, a
    realidade de hoje das tradições de uma sociedade que deixou de existir.
    O pariato deve tornar-se em breve simplesmente vitalicio e talvez
    amissivel. Dado e não concedido que a existencia dos vinculos fosse uma
    condição impreterivel do pariato hereditario, a abolição d'elles não
    faria senão apressar n'esta parte convenientemente a reforma das
    instituições politicas.

    VI

    *Os vinculos garantia de liberdade*

    Demonstrado, como parece, que nem na abrogação do direito vincular se
    offende principio algum de justiça absoluta, nem a manifestação politica
    das desegualdades sociaes está ligada á existencia dos vinculos, antes
    de entrar nas difficeis questões economicas que este debate suscita,
    passemos a examinar o que ha mais grave nas objecções politicas que se
    offerecem contra a abolição d'esta fórma especial de propriedade. As
    considerações sobre as resistencias, que uma aristocracia territorial
    permanente e hereditaria pode oppôr ás demasias de um poder central
    excessivamente forte, parecem-nos fundadas, e nunca se poderão
    desprezar, em quanto o nosso systema administrativo fôr, como é, uma
    copia, mais ou menos mal delineada, do systema administrativo da França.
    Na verdade hoje a unica resistencia séria, que os abusos do executivo e
    dos seus delegados podem encontrar em certas provincias, é a d'essa
    especie de aristocracia rural, que vulgarmente se designa pelo nome de
    _cavalheiros_. A illustração e a riqueza, não excessiva mas solida,
    consistindo geralmente em bens territoriaes, pertencem principalmente a
    esta classe nos districtos do norte do reino, onde predomina quasi
    exclusivamente a pequena propriedade. Sem a fundação de municipios assaz
    vastos e poderosos, mas organisados de modo que a vastidão do territorio
    não faça com que a administração se difficulte aos administrados; sem as
    magistraturas municipaes recuperarem a força primitiva que
    successivamente perderam; sem um novo methodo de renovação d'essas
    magistraturas, que mantenha na administração dos concelhos a sequencia e
    unidade de systema e de idéas; sem se lhes restituirem as funcções que
    lhes são proprias e que a centralisação lhes traz alheadas; sem, em
    summa, restaurar a vida municipal, de que resta apenas um vão simulacro;
    o correctivo contra os abusos do poder central só pode consistir nas
    resistencias legaes e pacificas dos individuos que, pelo respeito
    tradicional do povo ao nome da sua familia, pelos recursos materiaes de
    que dispõem, pela maior cultura intellectual, pelos instinctos generosos
    que lhes inspira uma educação mais elevada, constituem um elemento
    poderoso de equilibrio. Quem tem residido nas provincias do norte ou por
    ellas viajado sabe que naquella classe é que principalmente se dão essas
    condições de superioridade individual, que suppre até certo ponto nas
    relações politicas a falta ou o incompleto das instituições locaes.

    É preciso notar aqui um facto, que ao diante havemos de ponderar mais
    detidamente. Os vinculos nas provincias do norte não tem em geral os
    mesmos caracteres que nas provincias do sul: aproximam-se mais, nas suas
    condições economicas, dos bens emphyteuticos, e não é raro achar
    individuos que se denominam morgados e que não passam de possuidores de
    prazos. Tão facil é neste ponto a confusão das cousas pelos accidentes
    externos. Em geral, o vinculo dos districtos do norte ou é instituido em
    uma ou mais propriedades de mediocre grandeza, ou em propriedades e em
    direitos dominicaes. Mas o que em todo o caso se pode affirmar é que as
    grandes fortunas vinculares são raras. Os poucos inconvenientes
    economicos dos vinculos mediocres havemos de avalial-os n'outra parte.
    Para o intuito presente o que importa é attender ás consequencias
    politicas da sua abolição. Ou mediocres em si, ou compostos de diversas
    e pouco vastas propriedades, e de censos e pensões senhoriaes, entrando
    esses vinculos no direito commum, as leis da successão e os accidentes
    da vida, que accumulam ou dissolvem mais rapidamente as pequenas do que
    as grandes fortunas, fariam desapparecer em breve a aristocracia
    provincial, e por conseguinte um poderoso elemento de resistencia ás
    demasias da auctoridade central, e uma importante garantia de liberdade.

    Mas, dir-se-ha, assim como a desvinculação, o livre movimento da
    propriedade, produziria a dissolução das fortunas e das familias
    patricias, tambem esse movimento elevaria, como já eleva, outras
    familias, crearia, como já cria, outras fortunas, e uma especie de
    aristocracia movel e pessoal substituiria a hereditaria como elemento de
    resistencia e equilibrio. Em these a resposta é concludente: o que não
    tem é applicação á hypothese.

    'Nesta, o argumento a favor dos vinculos estriba-se em factos
    transitorios e especiaes, factos que só o tempo e os progressos sempre
    lentos da civilisação moral e material podem destruir. De certo os
    vinculos não são de um modo absoluto obstaculo ás demasias do poder
    nesta especie de organisação plethorica, de apoplexia administrativa
    eminente em que vivemos. São-no relativamente. A restauração da vida
    municipal, a descentralisação bem caracterisada; seria o remedio natural
    e completo contra os excessos do executivo. Com elle, não só a
    aristocracia permanente e hereditaria, mas tambem a individual e movel
    seriam inuteis como obstaculos ou instrumentos de equilibrio. Mas
    tracta-se do presente, e no presente as condições da nossa sociedade dão
    todo o valor ás considerações politicas em que os defensores dos
    vinculos estribam a manutenção delles.

    A riqueza maior ou menor não basta para que o cidadão saiba, queira e
    possa defender o seu direito ou erguer a voz a favor do opprimido. É
    necessario que a educação o habituasse a uma nobre altivez ou á
    independencia moderada mas firme do homem livre, e que a cultura do
    intendimento o habilitasse para discernir e apreciar os proprios
    direitos e deveres, e os direitos e deveres dos agentes do poder. Ora
    esses dotes, nos districtos da Beira, Traz-os-Montes e Minho, dão-se
    principalmente entre os cavalheiros, que, alem das idéas que lhes
    inculcam na educação domestica, frequentam de ordinario os estudos
    juridicos, e que, ainda abandonando a cultura das letras, não perdem
    nunca, digamos assim, o verniz litterario e as idéas geraes que
    adquiriram na universidade; porque a universidade, com todos os seus
    defeitos, ainda é o foco d'onde irradia a luz da civilisação
    intellectual para a maxima porção do paiz. Os advogados, os
    facultativos, um certo numero de ecclesiasticos, e os administradores de
    vinculos, constituem quasi exclusivamente a classe illustrada das
    provincias sertanejas. Na verdade, o filho de um ou de outro lavrador
    mais abastado, de um ou de outro industrial ou commerciante, recebe a
    educação universitaria, e despido de ambições honra-se de seguir a
    condição paterna; mas o geral d'estes busca na carreira das letras uma
    situação mais elevada ou pelo fôro ou pela medicina ou pelas funcções
    publicas. Os possuidores de direitos territoriaes ou de predios assaz
    consideraveis para não serem obrigados a cultival-os pelas suas proprias
    mãos, e para não procurarem um supprimento de renda pelo exercicio de
    uma profissão scientifica, são quasi unicamente os administradores dos
    vinculos. 'Nelles reside, por tanto, e residirá por muito tempo a
    principal força de resistencia, a quasi unica barreira que encontra uma
    centralisação excessiva.

    Nos districtos sertanejos, nesses tractos do paiz onde vive a maxima
    parte da sua população, só muito excepcionalmente apparecem os grandes
    capitaes monetarios, as grandes industrias, o grande commercio, e, como
    já dissemos, nos do norte até é rara a vasta propriedade. Não ha, por
    consequencia, ahi as poderosas influencias pessoaes que resultam de
    factos puramente economicos. As grandes influencias só podem proceder de
    se darem no mesmo individuo condições de diversa ordem–a superioridade
    da intelligencia, a superioridade da fortuna, a superioridade de um nome
    illustre que o povo está costumado a venerar, e a elevação de animo
    resultado da educação domestica, elevação de que é consectario o valor
    civil indispensavel para defender a liberdade e os outros direitos, ou
    proprios ou dos pequenos e humildes. Com a ruina das familias nobres
    essas influencias salutares desapparecerão quasi completamente, e o
    imperio das portarias e das circulares não achará limites.

    O celebre dr. Johnson, fallando das substituições inglezas, dizia que
    tinham a vantagem de não produzirem senão um tolo em cada familia. O dr.
    Johnson fazia um epigramma de mau gosto, porque era falso. A historia
    diplomatica, militar, naval, administrativa e parlamentar da Inglaterra
    prova que os primogenitos da aristocracia ingleza podem ser tanto homens
    grandes como os segundo-genitos, ou como os filhos da raça puramente
    saxonia. Entre nós o epigramma do dr. Johnson é uma preoccupação
    popular, preoccupação que invade até espiritos que tinham obrigação de
    serem superiores a ella. A idéa da incapacidade dos administradores de
    vinculos é tão verdadeira como a da ignorancia e imbecilidade mental dos
    cistercienses, que não eram nem mais ignorantes nem mais imbecis do que
    outros quaesquer frades. Os que tem visitado os districtos interiores do
    reino sabem por experiencia que é no seio das familias aristocraticas
    onde se encontram mais vestigios do que o antigo caracter portuguez
    tinha generoso, elevado e bom, e onde se acha mais illustração, embora
    misturada com os preconceitos nobiliarios. É nessa categoria que
    predomina uma benevolencia efficaz e real para com as classes
    inferiores, benevolencia muito mais rara entre a duvidosa burguezia
    saída d'essas mesmas classes.

    Esta burguezia das provincias, considerada em geral, está longe por
    emquanto de ser uma forte barreira aos excessos da auctoridade central.
    Os seus destinos politicos tem de ser grandes quando existirem no paiz
    instituições congenitas com a indole das tradições primitivas d'elle;
    quando nos cançarmos de traduzir _ad usum_ administração franceza em
    portuguez bastardo. Por emquanto faltam-lhe os principaes elementos dos
    que constituem a força da opinião e o espirito publico; falta-lhe a
    cultura intellectual, que nos habilita para irmos até ás raias do nosso
    direito sem as ultrapassar; falta-lhe o orgulho da independencia, que
    está principalmente na consciencia e no caracter. Tudo isto tem
    excepções, e excepções notaveis; mas fallamos da regra geral. A
    burguezia mais ou menos opulenta das provincias, e sobretudo dos
    districtos do centro e do norte, forma-se pela pequena industria, pelo
    commercio de retalho, e pelos mediocres grangeios agricolas. Fóra das
    duas cidades mais populosas, as grandes fabricas, as vastas emprezas
    commerciaes, em summa, as applicações de avultados capitaes e a
    existencia d'estes na mão de um individuo, são cousas raras. Mas é acaso
    de esperar d'aquelle, que começou obscura e quasi pobremente a edificar
    uma fortuna modesta pelo trabalho, pela parcimonia, pelos habitos da
    obediencia passiva, quasi da subserviencia, sem educação politica, sem
    educação litteraria, sem idéas geraes, e que depois de vinte ou trinta
    annos de esforços, de prudencia, de abnegação, de sacrificios moraes e
    materiaes, creou uma riqueza, que aliás poderia servir-lhe de esteio, e
    inspirar audacia para manter a dignidade e independencia de cidadão de
    um paiz livre; é de esperar, dizemos, de tal homem que lhe chegue tão
    tarde o sentimento e a convicção profunda do seu direito e o valor
    politico para o fazer respeitar do poder? Que o leitor busque a resposta
    na sua razão, e, ainda melhor, na sua experiencia.

    Para nós é grave, pois, a questão da existencia ou não existencia de uma
    especie de aristocracia provinciana, que tenha, em geral, por titulo da
    sua preponderancia o nome, a educação, e a fortuna, em quanto o
    municipio fôr entre nós pouco mais de que um vão nome, ou de que uma
    tapeçaria das salas administrativas. É grave essa questão, porque são
    ainda graves, ao menos para nós, as questões da liberdade e da dignidade
    humanas. Quando as resistencias d'essa aristocracia aos excessos a que
    tende naturalmente uma centralisação exaggerada fossem demasiado
    egoistas, e nunca servissem de egide ás classes democraticas
    desorganisadas e opprimidas, quereriamos mantel-a como protesto, como
    laço entre as tradições do passado e a organisação do futuro. Se a
    historia serve para alguma cousa, lembremo-nos de que o absolutismo se
    erguia em Portugal á altura de uma instituição quando a um chefe da
    aristocracia do paiz rolava a cabeça pelo cadafalso, e outro cahia
    apunhalado aos pés d'aquelle monarcha, tão caro a uma democracia
    inintelligente, que substituiu a vontade real, como principio politico,
    ao rude esboço de monarchia representativa com que a sociedade
    portugueza vivera e progredira durante mais de tres seculos. Diminuir as
    resistencias individuaes ao absolutismo do executivo, em quanto se não
    criam resistencias collectivas, é um erro profundo. Direitos, que não
    tem força para se traduzirem em factos, são, por nos servirmos de uma
    phrase de Shakespeare, palavras, palavras e mais palavras. São isto, e
    nada mais.

    VII

    *Difficuldades moraes e economicas na abolição dos vinculos*

    Se considerações de ordem politica parece aconselharem a manutenção
    temporaria dos pequenos mas numerosos vinculos das provincias do norte,
    na questão practica da abolição da propriedade vincular suscitam-se
    dificuldades de ordem economica e de ordem moral, que tendem
    indirectamente a manter uma instituição, a qual, absolutamente
    considerada, não tem motivo nenhum racional de existencia. A apreciação
    d'essas difficuldades deve influir nas resoluções que se hajam de tomar
    sobre tão grave assumpto.

    Supponhamos que abolimos os vinculos; que fazemos entrar essa parte de
    propriedade territorial no direito commum; que lançamos esse capital
    immobilisado no vortice das evoluções economicas, fazendo-o mover
    livremente por toda a esphera da sua acção. Foi, em these, um
    melhoramento social importante. Falta o modo practico de conseguir esses
    resultados salutares.

    A lei proclamou que o principio vincular pereceu; que o direito commum
    rege toda a propriedade. Mas não basta proclamar a regra geral: é
    preciso ver o modo de a applicar aos factos.

    Quaes são estes factos?

    Até agora havia certa especie de propriedade, em que uma porção de
    dominio pertencia não sabemos a quem (porque o considerar como
    co-proprietarios os _successores_, entidades contingentes, não passa de
    uma subtileza juridica), e outra porção d'esse dominio, que se confunde
    quasi com o usofructo, pertencia a um individuo chamado administrador de
    morgado. É esta fórmula da propriedade a que deixou de existir.

    O administrador do morgado passou a ser proprietario d'aquillo de que
    era pouco mais que usufructuario: pode hypothecar, doar, vender,
    emprazar, testar, como outro qualquer possuidor de bens allodiaes. Este
    facto, porém, deve forçosamente produzir consequencias juridicas e
    economicas.

    A primeira é para o Estado. O Estado é sempre, ao menos potencialmente,
    um dos successores, mas successor que existe já, que não é uma entidade
    contingente. Extincta a linha chamada pelo instituidor, o herdeiro
    definitivo é o Estado, que não morre, ao passo que as linhas
    successorias vem mais tarde ou mais cedo a extinguir-se. Convertendo o
    vinculo em bens livres, a sociedade despojou-se de um direito em
    beneficio de um homem que não tem motivo nenhum especial para
    beneficiar.

    Os vinculos tem encargos pios, que, ou pela propria instituição ou por
    effeito de providencias legislativas, revertem muitas vezes em beneficio
    de instituições, cuja existencia as doutrinas economicas não podem
    condemnar. Seja qual for a resolução que se tome a este respeito
    abolindo-se os vinculos, ou a propriedade que se quiz fazer allodial
    ficará forçadamente censitica, ou serão espoliados os institutos de
    caridade.

    Embora os jurisconsultos considerem ou não os bens vinculados como
    hypotheca dos alimentos dos irmãos do administrador, o que é certo
    economicamente é que esses alimentos constituem uma renda, e que essa
    renda é representada necessariamente por um capital incluido na somma
    dos bens vinculados, porque as subtilezas juridicas não alteram a
    essencia das cousas. Desvinculados aquelles bens, ficarão as pensões dos
    segundo-genitos consideradas como onus e seguindo os bens atravez de
    todas as phases de venda, emphyteuticação e hypotheca? Qual será o valor
    de troca dos predios gravados por pensões cuja duração é indeterminada?
    Serão os segundo-genitos espoliados dos alimentos para tornar a
    propriedade inteiramente livre?

    Á luz economica, a utilidade real do administrador era poder, em quanto
    vivo, consummir a renda liquida do vinculo, excepto a parte destinada
    aos encargos. Rigorosamente, ao menos em grande numero de hypotheses, as
    pensões dos segundo-genitos representando uma renda e correspondendo a
    um capital estavam no caso da renda fruida pelo administrador. Porque,
    pois, não entregar aos segundo-genitos como allodiaes porções de bens ao
    menos equivalentes ao capital das respectivas pensões? Porque ha-de a
    lei favorecer desegualmente o mais velho convertendo-o só a elle em
    proprietario? Não repugna esse facto a um dos motivos que se invocam
    para a abolição–a desegualdade de direitos entre os irmãos? Desde que a
    lei reconhece que essa desegualdade é uma injustiça pode reservar a
    reparação d'ella para a geração seguinte?

    Mas juncto a este direito ha outro direito antinomico, inconciliavel com
    elle. É o do immediato successor. Salvos os raros casos da lenta
    devolução ao Estado, o vinculo sempre tem um successor immediato, porque
    a successão vai até o millesimo gráu de parentesco. O nascimento deu a
    esse individuo, quem quer que seja, o direito de succeder integralmente
    no morgado, embora onerado com alimentos. Desde que a obrigação de os
    solver cessar, por morte dos pensionistas ou por outra qualquer
    circumstancia, a fruição d'essa parte da renda liquida será sua. Se,
    reduzidos os bens vinculados a allodiaes, uma parte d'esses bens tiver
    passado aos irmãos do antecedente administrador, elle será espoliado do
    seu direito n'essa parte pela lei.

    Estatuindo-se, porém, que a applicação d'esta sómente se verificasse por
    morte do administrador actual, evitar-se-hiam esses inconvenientes? Não
    por certo. O direito do successor existe já durante a vida do
    administrador. Como pois serão partiveis os bens entre elle e seus
    irmãos sem offensa grave do anterior direito, sem uma espoliação? Na
    verdade, em relação á sua legitima elle passa a possuir com pleno
    dominio; mas servir-lhe-ha isso de compensação ao que perde? Estribado
    n'um direito que as leis lhe garantiam, achou-se collocado n'uma
    situação social accorde com os seus futuros recursos. Educação, habitos,
    profissão, relações de familia, tudo foi calculado para elle ou por elle
    á luz d'esse direito. Sem culpa sua, a sociedade retira-lhe, digamos
    assim, a base da sua vida civil. Será isto justo? A lei que proclamou
    como iniqua a indivisibilidade dos vinculos, e que todavia a manteve em
    beneneficio do administrador, no momento em que a morte d'este chama o
    successor a uma situação perfeitamente identica cessa de tolerar a
    iniquidade que tolerou até ahi.

    Removendo o facto da abolição para a epocha da morte do immediato
    successor, uma parte d'estes inconvenientes da ordem moral poderiam
    evitar-se; mas nem se evitariam todos, nem a abrogação do principio
    vincular teria grande importancia. Apenas indicámos aqui uma parte das
    difficuldades que cumpria resolver, conforme á consciencia e á justiça,
    em relação á familia. Muitas se apresentariam ainda quando a
    transformação do direito e do facto houvessem de verificar-se n'uma
    epocha mais remota. Legislar, porém, sobre factos economicos, que só
    poderiam realizar-se depois de quarenta ou cincoenta annos, parece-nos
    absurdo. Suppondo a media da vida humana de 30 annos, e portanto a media
    da vida que resta aos administradores actuaes de 15, pode tambem
    calcular-se a media da extincção de todos os administradores e
    immediatos successores em 45 annos. O que é incalculavel é o progresso
    que terão feito n'este periodo as idéas politicas e economicas, e a
    relação em que estaria uma lei actual de desvinculação com essas idéas e
    com o estado da sociedade: podendo-se affirmar, sem receio de erro, que
    no fim de tão largo periodo uma tal lei seria obsoleta antes de ser
    applicada.

    Depois, a solução da questão dos vinculos é uma instante necessidade.
    Este modo de ser da propriedade, conservado sem modificação, embaraça
    profundamente o progresso economico, ao menos n'uma parte do reino.
    Veremos adiante como a nossa situação exige que se pense attentamente na
    maneira por que a população está distribuida pela superficie do paiz, e
    o movimento que cumpre dar á translação e divisão da propriedade
    rustica. Os vinculos são um grande obstaculo á satisfação d'essa
    necessidade, e o unico modo legal de desvincular a propriedade–a
    subrogação–não corresponde ás exigencias da situação presente, antes a
    contraría como teremos occasião de observar.

    Mas a jurisprudencia que regula as subrogações é sobretudo immoral e
    antieconomica. A subrogacão faz-se, em regra, por inscripcões ou
    apolices de divida fundada, e o que se exige n'esse contracto é o
    equivalente não do capital mas da renda. A renda media da propriedade
    territorial não excede a tres por cento, em quanto a das inscripções é,
    ainda hoje depois de reduzido o juro, de seis a sete por cento, visto
    que o valor nominal das apolices é mais que duplo do seu valor de
    mercado. Assim 47$000 réis em dinheiro, convertidos n'uma apolice de cem
    mil réis, crearão uma renda de 3$000 réis; em quanto, convertidos em
    propriedade territorial, apenas darão 1$410 reis. Trocado por
    inscripções o predio, resta portanto um capital de mais de metade do
    valor d'esse predio, de que o administrador de vinculo parece poder
    livremente dispor. Como, porém, taes actos para serem válidos necessitam
    da acquiescencia do successor do vinculo, cumpre repartir com elle: e se
    o successor é menor, recorre-se não raro á corrupção para obter o
    consentimento dos seus tutores e curadores; porque a subrogação por
    inscripções é sempre para elle um mal. O remanescente divide-se de
    ordinario entre o novo proprietario e o administrador; porque, em regra,
    semelhantes transacções são feitas debaixo da pressão de necessidades
    urgentes: o luxo, o jogo, as devassidões, a miseria são as mais das
    vezes os conselheiros d'estes deploraveis negocios, e a situação mais ou
    menos apurada do possuidor do vinculo determina as deducções mais ou
    menos fortes a favor do capitalista. Raras vezes acontece reverter
    integralmente o agio da transacção em beneficio do primeiro.

    A lei em que se estriba esta especie de contractos não pertence á nossa
    epocha. É o alvará de 13 de maio 1797, que permitte a subrogação por
    apolices. Semelhante meio de aggredir as instituições vinculares não é
    uma transacção entre o passado e o futuro, porque estas podem e devem
    fazer-se quando grandes e radicados interesses se oppõem a uteis
    innovações: é apenas uma astucia indigna de figurar na jurisprudencia de
    nações livres. Se entendeis que não existe outro meio de libertar a
    terra vinculada se não destruindo absolutamente os vinculos, matae-os,
    mas não os _assassineis_. Os expedientes da timidez são os peiores de
    todos. N'este meio capcioso não ha, porém, só isso: ha outros
    inconvenientes não menos graves. É o primeiro o jogo de bolsa, a
    agiotagem dos fundos publicos feita pela lei; é a creação de um elemento
    de falso credito. Milhares de contos de inscripções, procurados
    successivamente no mercado, e procurados para se amortisarem, para não
    voltarem a elle, tem contribuido e contribuem de certo para a elevação
    do preço dos titulos de divida fundada. Mas essa elevação, que em regra
    é um indicio de credito, deixa de o ser n'este caso, porque a procura
    significa, não a confiança, mas a necessidade creada pela lei. Na compra
    pelo capitalista e na venda immediata que este faz ao administrador de
    vinculo a troco da propriedade territorial, ao primeiro não importa o
    que lhe custam os titulos que compra, nem a sua futura depreciação, em
    quanto o segundo, indifferente até certo ponto a isso, visto que só lhe
    interessa a manutenção do juro e a regularidade do pagamento d'este,
    considera como uma vantagem o trocar a propriedade por titulos o mais
    depreciados que for possivel, porque maior será o seu lucro individual
    n'aquella operação, operação que desmente as leis do mercado, por isso
    que é essencialmente viciosa.

    A procura dos fundos publicos, resultado de especulações livres,
    podendo, em resultado de outras especulações, converter-se brevemente em
    offerta, não incita os governos a abusarem do credito; ao passo que a
    procura das apolices para subrogações é um incitamento para novas
    emissões, e portanto um meio de facilitar o augmento da divida do
    Estado. Averbadas nos titulos dos vinculos, essas inscripções
    immobilisaram-se, e o governo pode ir substituindo-as gradualmente com
    diversos pretextos, sem que o mercado se resinta, ao menos de um modo
    facil de appreciar, do augmento da divida publica. Por ventura esse
    unico pensamento explica o alvará de 1797.

    Não são os administradores de moderados vinculos, que os cultivam por si
    proprios em todo ou em parte, e a quem o modico rendimento d'elles
    obriga a viver longe dos grandes centros da população e do luxo, os que
    de ordinario recorrem a estas transacções deploraveis. São, por via de
    regra, os donos de grandes casas, os cortesãos, os titulares, os homens
    para quem os habitos de uma vida dissipada ou luxuaria se converteram em
    segunda natureza, os opulentos possuidores dos vastos predios do sul,
    incapazes não raro de se dedicarem a uma administração complicada e
    trabalhosa, que mal se accommoda com a sua educação; são de ordinario
    estes, quando a desordem dos seus negocios os tem collocado em
    difficuldades insoluveis, que se precipitam na voragem das subrogações.
    Não faltam exemplos de ser o lavrador abastado, o proprio rendeiro do
    predio destinado á subrogação, quem se aproveita das circumstancias para
    se apoderar do solo onde exerce a sua industria. Succede isto quando
    elle casualmente vem, n'uma conjunctura de angustia, tentar com o cumulo
    das suas lentas economias a miseria ostentosa do administrador
    arruinado. 'Nesta hypothese o mal das subrogações é menor. Na verdade
    aquelle capital, accumulado por privações, por honestos e longos
    esforços, seria mais utilmente empregado em augmentar as forças
    productivas do solo; mas ao menos o industrial agricola consolida a
    propriedade com o trabalho, e as novas economias irão d'ahi ávante
    preencher fins mais positivos para a sociedade. É, todavia, commum esta
    hypothese? Não por certo. O desperdicio, o luxo, as noites febris do
    jogo, os affectos de bastidor, as vãs ambições da vaidade, os extravios
    de um sensualismo que a saciedade leva até o delirio; as paixões ruins
    em summa, que arruinam tantas familias das classes mais elevadas, só
    raramente consentem que nos cataclysmos das grandes fortunas vinculares
    aquella hypothese se verifique. É o cabedal monetario do especulador, a
    quem, não sabemos se com justiça, se dá o nome insultuoso de agiota, o
    que vai de ordinario trocar-se pela propriedade territorial. A razão é
    obvia. O capitalista está sempre prompto para empregar dinheiro n'uma
    transacção vantajosa, e elle sabe que o desleixo, a incapacidade, ou os
    vicios dos administradores dos vinculos são campos feracissimos para a
    especulação.

    Mas posto que a abolição completa dos morgados, ainda que fosse em
    virtude de uma lei irreflectida e imprevidente, valesse mais que a
    existencia d'elles com o systema da destruição lenta pelo meio indirecto
    das subrogações, é certo que a abolição traria tambem, em muitos casos,
    ou uma difficuldade insoluvel, ou uma vantagem para os mutuantes de
    capitaes, que não seria menos immoral do que as subrogações, porque
    equivaleria a uma espoliação dos mutuarios. Fallamos do que succederia a
    respeito dos vinculos, cujos administradores contrahiram dividas mais ou
    menos avultadas, ficando hypothecados á divida os rendimentos dos bens
    vinculares durante a vida d'elles, ou d'elles e dos immediatos
    successores, se os ultimos intervieram no contracto com o seu
    assentimento.

    Diz-se que a agiotagem mais infrene preside commummiente a esta especie
    de negocios. Cremos que nisto ha pelo menos exaggeração. De certo que o
    juro de ura emprestimo de tal ordem deve ser avultado; mas pode ser
    avultado sem ser excessivo. Não ha ahi só a renda do capital mutuado: ha
    um juro de risco. É evidente que a restricção legal de passarem livres
    aos successores os bens vinculados pode modificar de mil modos as
    condições do mutuo. Na hypothese de intervir no contracto o immediato
    successor, o risco é menor mas não deixa de ser grandissimo. A garantia
    é dupla, mas egualmente incerta: é a instabilidade de duas vidas em
    logar da de uma. Depois, a idade mais ou menos avançada do administrador
    do vinculo, ou d'este e do successor quando o successor intervem, os
    seus habitos de maior ou menor dissipação, a existencia de outras
    dividas, a deterioração dos bens vinculados e por consequencia a
    diminuição gradativa do rendimento; esses factos e dezenas de outros
    analogos determinam a maior ou menor elevação do juro em contractos que,
    considerados de um modo absoluto, seriam altamente usurarios, mas que as
    poucas probabilidades do pagamento integral talvez plenamente
    justifiquem.

    Mas como se representa esse juro de risco? Uma lei inepta, impotente
    sempre para impedir a usura, e que, taxando o lucro do capital, não
    discrimina as circumstancias que o devem fazer variar, fixa ao dinheiro
    determinado preço para todas as hypotheses. A necessidade, porém, e o
    capital são astutos: o capitalista e o administrador do morgado sabem
    como se illude a lei. O juro de risco representa-se no capital e no juro
    da parte nominal d'este. Quando se recebe uma somma, o contracto
    refere-se ao duplo; a mais ou menos, conforme o valor do dinheiro, a
    gravidade do risco, a necessidade do mutuario e a consciencia do
    mutuante. A transacção, respeitando na apparencia a lei, ludibria-a na
    essencia: sorte de todas as leis civis, que radicalmente contradizem as
    economicas.

    Qual é, porém, a consequencia d'estes factos, que constituem a historia
    da avultadissima divida que grava os vinculos? É que uma parte d'essa
    divida representa apenas um juro e juro de risco. No contracto que lhe
    deu existencia houve um verdadeiro jogo sobre um calculo de
    probabilidades. O capitalista arriscou-se a perder a somma que realmente
    emprestou, recebendo como premio no caso de amortisação o capital
    nominal, além dos juros legaes; a eventualidade d'esse premio
    equilibrou-se portanto com a possibilidade da não amortisação. Entre as
    vantagens e as desvantagens deu-se a mutua compensação.

    Desvinculae, porém, a propriedade vincular e sujeitae-a ao direito
    commum. Em relação ás dividas que pesam sobre ella violaes um contracto,
    irregular na verdade, mas irregular porque as leis que sanctificavam a
    exempção hereditaria dos vinculos, e as que fixavam o juro do
    emprestimo, o tornavam tal forçadamente. Supponde illicitas, criminosas
    as transacções d'esta especie: considerae, se quizerdes, o mutuante como
    usurario e o mutuario como prodigo. A desvinculação pune este e premeia
    aquelle. A divida nominal, escripta no contracto, é uma; a real é outra.
    O mutuante receberá, porém, ou por execução ou por outro qualquer modo,
    o valor expresso. O que terá desapparecido é a desvantagem do risco.

    A iniquidade é flagrante, e tem-se reconhecido que o é. Como meio de a
    evitar lembram-se varios arbitrios para restringir a acção do credor
    sobre os bens desvinculados. De todos esses arbitrios o mais simples e o
    que parece mais justo e exequivel é o de considerar taes bens como ainda
    vinculados em relação ás dividas contrahidas, limitando-se o direito do
    credor á percepção da renda, durante a vida d'aquelle ou d'aquelles que
    contrahiram o encargo, se n'este periodo não se verificar a amortisacão
    completa. Mas qual será o resultado d'esta nova situação d'aquella
    especie de propriedade? A quasi impossibilidade da alienação. Ninguem
    compraria um predio cuja renda está hypothecada por um periodo
    indeterminado (e a que, portanto, não se pode fixar o valor) senão por
    um preço infimo, que salvasse todas as eventualidades, e que o vendedor
    não acceitaria. A transacção só poderá effeituar-se com o proprio
    credor; mas este, certo de que é impossivel a competencia, ha-de levar
    as suas pretensões até onde chegar a possibilidade de se realisarem as
    vantagens que aliás lhe dá o proprio direito. Assim a transacção tem de
    ser forçosamente lesiva para o vendedor; lesiva a ponto de impedir a
    alienação, ou de se realisar a expoliação que se pretendera evitar.

    A consequencia ordinaria de tal arbitrio seria, pois, a immobilidade dos
    bens ainda depois de desvinculados; ou, por outra, a desvinculação pelo
    que respeita aos grandes morgados, sobre cujos redditos pesam
    avultadissimos encargos e que são os mais numerosos, não alteraria as
    principaes condições da sua existencia actual que justificam a abolição.
    O livre movimento do dominio territorial, a subdivisão da propriedade, o
    desenvolvimento da população e da cultura, o augmento das sizas; tudo
    isso ficaria, em regra, suspenso até á morte dos individuos pessoalmente
    responsaveis pelas dividas. É outra vez o adiamento, que parece
    tornar-se inevitavel desde que, partindo da idéa da abolição absoluta,
    se pretende legislar sobre a propriedade privilegiada, na qual o
    interesse publico exige modificações immediatas.

    VIII

    *Os vinculos considerados em relação á grande e á pequena propriedade, á
    grande e á pequena cultura*

    Antes de debater em relação a Portugal uma questão ventilada com ardor
    na Europa ha mais de um seculo, a da grande e da pequena propriedade,
    consideremol-a successivamente como resolvida em favor de um e de outro
    systema, e indaguemos que influencia possa exercer no predominio de um
    ou de outro a conservação ou a abolição dos vinculos. Vendo-os a esta
    luz, os que defendem a sua manutenção presuppõem a grande propriedade
    como ligada á grande cultura, e a grande cultura como preferivel á
    pequena. Os que sustentam a abolição presuppõem vantajosa a divisão
    indefinita da propriedade, embora acompanhada da pequena cultura, que em
    regra é a consequencia da subdivisão illimitada do solo, e ácerca de
    cujas vantagens variam as opiniões d'aquelles mesmos que mais
    ardentemente desejam a suppressão de todas as instituições tendentes a
    impedir a livre divisão do solo.

    Os que, preferindo os vastos predios e a grande lavoura aos pequenos
    casaes, cuja cultura principalmente se caracterisa pelo trabalho braçal,
    vêem nos vinculos um meio poderoso de manter o systema agricola que
    suppõem mais vantajoso, podem acaso invocar em seu abono os factos?
    Podem invocal-os os que pensam de modo contrario? Comecemos pelos
    exemplos do nosso paiz, que são os primeiros que nos importa estudar.

    Já n'outra parte nos referimos á differença profunda que se dá entre os
    vinculos das provincias septemtrionaes e os das provincias meridionaes
    do reino. Nos districtos do norte a constituição moral dos vinculos é a
    mesma dos vinculos situados nos districtos do sul; mas a sua
    constituição material é diversa. Em geral os vinculos do norte são
    constituidos, em relação á propriedade territorial, n'um maior ou menor
    numero de predios de dimensões taes que a designação de latifundios lhes
    seria inteiramente inapplicavel. São quintas, casaes, bouças, campos;
    nunca ou raramente uma granja, uma herdade analoga áquillo a que damos
    estes nomes nos districtos do sul. O senhorio directo de predios
    emphyteuticos e os censos completam para o administrador do morgado o
    cumulo da renda territorial. Todas as fórmas de exploração agricola se
    manifestam n'aquella multidão de propriedades vinculadas: a cultura
    directa, a parçaria, o arrendamento, o colonato. Discorrei pelo Minho.
    Certos edificios nas villas, nas aldeias, mais grandiosos, ornados de
    pedras-d'armas, hão-de revelar-vos a existencia de centenares de
    morgados: mas os campos e a sua cultura, as quintas e as suas dimensões
    não vos dirão nada; porque a allodialidade, a emphyteuse, o vinculo na
    sua influencia sobre a agricultura não imprimem aos campos caracteres
    especiaes que distingam estas diversas especies de propriedade, ou
    diversifiquem as culturas.

    Penetremos agora no Alemtejo, sobretudo no Alemtejo central e
    meridional. Como o Minho é o typo da propriedade e da cultura
    septemtrionaes do reino, o Alemtejo é o typo mais acabado da propriedade
    e da cultura meridionaes. As outras provincias são a transição entre os
    dous extremos. Como o Minho é a terra classica da subdivisão
    territorial, o Alemtejo é a terra classica dos latifundios. Grande parte
    d'estes latifundios pertencem a importantes morgados; mas o resto
    constitue geralmente propriedades allodiaes, sendo os prasos n'aquella
    provincia, em contradicção com o que succede no Minho, apenas uma
    excepção rara, e ainda assim caracterisados ás vezes pela indole geral
    da propriedade no Alemtejo–a extensão demasiada. Um systema de cultura
    uniforme é applicado ahi sem distincção aos predios livres e aos
    vinculados.

    Na Extremadura e na Beira occidental, mas principalmente na Extremadura,
    predomina a cultura media e a propriedade media, se exceptuarmos as
    margens do Tejo desde a Barquinha até perto de Lisboa, onde a extensão
    da propriedade, como na Beira-baixa, annuncia, por assim nos
    exprimirmos, a aproximação do Alemtejo. Mas, no meio de todos estes
    cambiantes nas dimensões dos predios rusticos, vemos os vinculos
    amoldarem-se a todas as fórmas de propriedade e de cultura, e
    amortizarem em si a quinta, o casal, a granja, o praso, a horta, o
    pinhal, o montado, a charneca interminavel; com a mesma facilidade com
    que se amoldam ás manifestações extremas da grande e da pequena
    propriedade e da pequena cultura.

    Que se infere d'estes factos? Que outras causas alheias á instituição
    vincular determinam a maior ou menor vastidão dos predios rusticos e o
    seu systema de grangeio. Umas são puramente historicas, outras
    juridicas, outras agronomicas, outras economicas. Não queremos dizer com
    isto que a instituição não influa, n'um ou n'outro caso, no facto de
    maior ou menor dimensão dos predios, e na sua situação agricola; mas
    cremos que de todas as causas esta é a menos importante. Desejariamos
    que os defensores da manutenção dos vinculos como garantia de grande
    propriedade nos explicassem a existencia dos vastos allodios do
    Alemtejo, a sua força de cohesão contra os effeitos do direito commum da
    successão, pelo engenhoso expediente dos _quinhões_, de que n'outra
    parte teremos de falar. Esses predios estão provando que não é
    necessario o principio vincular para impedir a disgregação das grandes
    propriedades rusticas; que o interesse individual bem ou mal avaliado,
    as condições do solo e clima, a natureza das culturas dependentes
    d'essas condições, o estado economico do respectivo districto, e, até,
    os habitos e preconceitos, podem assegurar a união de amplos tractos de
    terra, embora deixe de existir uma instituição que o espirito publico
    reprova, por motivos que, posto sejam especiosos ás vezes, são em grande
    parte subejamente justificados.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Aproximadamente 63.487 palavras.

    Temendo, todavia, a irritação publica, o partido ultramontano appellava
    para a imprensa, não só para a imprensa ignobil e para a imprensa
    politica, mas tambem para a litteraria. Apotheoses das irmãs de caridade
    e dos lazaristas franceses precediam e acompanhavam a sua entrada no
    reino, e essas apotheoses, espalhadas pelas columnas dos jornaes,
    tomavam ás vezes a fórma de livro, e apresentavam-se ao mundo com
    pretensões de estylo e de philosophia. Ahi o liberalismo, verberado
    despiedadamente, era confundido e anniquilado. Ponderavam-se os serviços
    das irmãs de caridade nos tumultos de Paris e nos arraiaes da Criméa, e
    dessas premissas concluia-se, com logica admiravel, que ninguem era mais
    apto do que ellas para educar a infancia e regenerar a mulher em
    Portugal. Taes escriptos não passavam de um tecido de puerilidades; mas
    provavam ao menos, pela data em que começaram a apparecer, e pela épocha
    em que se espalharam debaixo de outra fórma, que, se á reacção faltavam
    recursos intellectuaes para tornar plausiveis as suas doutrinas, não lhe
    falleciam bons desejos de as inculcar.

    Apesar de ter esse lado ridiculo, a questão não perdia nem a sua
    importancia, nem a sua gravidade. Certas associações, compostas de
    pessoas respeitaveis pela pureza das suas intenções, mas altamente
    incompetentes para apreciarem o valor dos factos á luz dos grandes
    interesses sociaes, tinham experimentado subitamente, synchronicamente,
    e em logares do reino assás remotos entre si, um sentimento, uma
    convicção profunda e irresistivel da urgentissima necessidade da
    introducção do lazarismo em Portugal. Se não supposermos quasi um
    milagre, como acreditar na espontaneidade desta inspiração simultanea?
    Evidentemente na penumbra dessas diversas associações havia uma
    entidade, uma idéa, um designio, que as illudia e as inspirava. E o que
    podia ser, senão a reacção, já em tantas questões e por tantos modos
    manifestada?

    Não é a esta Associação que pertence accusar, nem pedir a
    responsabilidade das diversas administrações que serviram de doceis
    instrumentos ao partido ultramontano. Essa responsabilidade vem de
    longe. Temos fé nas instituições. Incumbe ao parlamento manter a fiel
    execução das leis do reino; pertence-lhe a manutenção dos principios
    politicos que o regem. Não nos associámos para o substituir. O partido
    liberal o que faz é preparar-se para uma lucta a que foi longamente
    provocado, e que as instituições lhe permittem acceitar. Se os
    parlamentos passados, se o parlamento presente tem até hoje julgado
    opportuno oppôr apenas resistencia passiva ás entreprezas da reacção, é
    possivel que ámanhã se erga tremendo e inexoravel para punir mais de um
    culpado. Como cidadãos, os membros desta Associação são tambem juizes
    dos representantes do paiz na imprensa e juncto da urna; mais como
    corporação, os seus deveres e os seus direitos estão limitados,
    circumscriptos pelos fins que se proposeram. A reacção está illudida, se
    pensa, com os seus clamores, fazer-nos ultrapassar esta meta.

    Entretanto a historia é do dominio commum, e os factos consummados são
    do dominio da historia. As leis do reino e o instituto das irmãs de
    caridade francesas são antinomicos, antinomicos na letra, e ainda mais
    na espirito. Antes de deferir ás supplicas em que se pedia que as leis
    fossem infringidas, o governo consultou alguns prelados. Era uma
    exorbitancia. O governo não tinha que consultar senão o codigo dos seus
    deveres, que imprudentemente rasgou á vista das informações dos bispos.
    Deploramos o procedimento do poder executivo: não deploramos menos que
    as consultas dos prelados fossem publicadas, porque nos doe que o clero
    hierarchico, que os legitimos pastores possam subministrar á
    malevolencia suspeitas de fraqueza diante de influencias mundanas.
    Dizendo ao governo que as irmãs de caridade francesas não vinham
    estabelecer um instituto regular, os prelados não previam que os factos
    haviam em breve de desmenti-los. Affirmando que os membros da
    congregação da missão, visto prestarem obediencia ao ordinario, e delle
    receberem jurisdicção quanto aos actos externos do officio sacerdotal,
    podiam ser admittidos neste paiz, ultrapassavam os limites da sua
    competencia, invadiam as attribuições do procurador geral da corôa, e
    enredavam-se a si e ao governo n'um sophisma cujas consequencias tambem
    não previam. A questão não era se os lazaristas reconheciam a
    auctoridade do diocesano. Fazem-no assim hoje, porque sempre o fizeram.
    Impõe-lhes o cumprimento desse dever a propria regra[12]; e se tanto
    bastasse, poderiam admittir-se no reino os jesuitas, cujo instituto
    igualmente os obriga a reconhecer a jurisdicção diocesana[13]. A questão
    era se a base dos estatutos dos lazaristas e da congregação do sexo
    feminino, que elles dirigem, é ou não a obediencia cega, illimitada,
    absoluta, a uma chefe para nós estrangeiro; se os individuos que
    professam esses estatutos podem entender a sujeição aos diocesanos de
    outro modo que não seja até o ponto em que ella se não ache em collisão
    com a vontade, ou simplesmente com os intuitos do geral, que para elles
    deve ser como um Deus na terra[14]. A questão era se a lei que aboliu em
    Portugal os regulares, e entre elles a congregação da missão, não é
    offendida quando se admittem neste paiz, para nelle permanecerem, homens
    que publicamente se proclamam membros de uma sociedade abolida, que
    publicamente usam dos trajos e de todos os signaes externos da sua
    ordem, e que assim affirmam a existencia de uma sociedade que a lei
    nega. O direito natural e a constituição do estado dizem que a
    manifestação do pensamento é livre, livres todas as acções que não
    penetram na esphera da livre acção dos outros, que a lei civil é
    destinada a garantir; e a existencia dos lazaristas no meio de nós é uma
    affirmação publica de que são licitos pactos de escravidão mental
    contrarios ao direito natural e aos nossos principios constitutivos. O
    estrangeiro que vem viver no meio desta sociedade tem jus á sua
    protecção, mas tem tambem a obrigação de a reconhecer e de a respeitar.
    No foro intimo, na vida domestica, estrangeiros e portugueses podem ser
    jesuitas, mormons, lazaristas, ou o que bem lhes parecer: o foro intimo
    e a vida domestica são sanctuarios onde os poderes publicos não
    penetram. Mas essa condição fundamental da existencia de um povo livre
    não auctorisa ninguem para saír á rua, proclamando com as suas
    declarações officiaes, com os seus actos, e até com os seus trajos, que
    o direito natural não é imprescriptivel, que a constituição e as leis
    não tem validade moral. A providencia legislativa que supprimiu as
    corporações regulares não aboliu só os gremios compostos de um certo
    numero de individuos: aboliu a instituição, aboliu os estatutos, aboliu
    as regras. Quem se accingir publicamente a esses estatutos, a essas
    regras, seja um, sejam mil, está em contravenção com a lei.

    Nem se diga que um ou muitos membros de congregações religiosas podem
    ter necessidade de vir a este paiz sem que o poder publico haja de lhes
    tolher a entrada, ou de os obrigar a sairem antes de concluirem os
    negocios que os compelliram a habitar temporariamente entre nós. De
    certo, nenhum governo de nação civilisada procederia de tal modo; mas o
    primeiro cuidado desses individuos, se forem prudentes e honestos, será
    absterem-se de contrastar por manifestações externas as leis e os
    costumes da nação cujos hospedes são. Se procedessem de diversa maneira,
    o executivo, que tem o dever e o direito de exercer vigilancia sobre a
    ordem publica e sobre a execução das leis, teria o dever e o direito de
    os cohibir ou de os expulsar do paiz.

    Póde, porém, a existencia de lazaristas e de irmãs de caridade francesas
    em Portugal considerar-se como um facto accidental e temporario? Os
    prelados, nas consultas que dirigiam ao governo sobre este assumpto,
    buscavam attenuar, sem effectivamente o conseguirem, os graves
    inconvenientes da entrada simultanea dos lazaristas e das irmãs de
    caridade, o que indica não julgarem possivel a separação dos dous
    factos. E de feito, é geralmente sabido que essa entrada se negociou
    primeiro com o geral dos lazaristas; que elle veio a este paiz tractar
    do assumpto; que delle partiu a permissão da vinda daquellas mulheres.
    Emfim, o prelado de Lisboa dizia expressamente na sua consulta, que as
    irmãs de caridade francesas estão sujeitas ao geral da congregação da
    missão. Os defensores do lazarismo asseveram, portanto, com fundamento,
    que os dous institutos são inseparaveis. A existencia, a permanencia, a
    perpetuidade dos lazaristas em Portugal são consectarios forçados da
    existencia, da permanencia, da perpetuidade da congregação lazarista do
    sexo feminino. Assim a questão simplifica-se. Reduz-se a uma
    pergunta:–A admissão e a residencia em Portugal das irmãs de caridade
    do instituto francês é accidental e temporaria, ou importa o
    estabelecimento de um instituto permanente?

    Se é uma residencia accidental e temporaria, onde estão as vossas
    magnificas promessas de regeneração moral para esta terra, onde a
    educação para a infancia, a conversão para a degenerada mulher
    portuguesa, a luz para nós todos, povo de ignorantes, de impios, de
    barbaros? É com seis mulheres que haveis de fazer essas maravilhas? Ou
    quereis que o geral da congregação da missão despovoe successivamente a
    França das irmãs de caridade e dos seus directores para nos restituir a
    luz da fé, a pureza dos costumes, a educação christã, que, segundo
    parece, os successores dos apostolos, os successores dos discipulos, os
    representantes dos doutores primitivos, os pastores, em summa, de
    instituição divina deixaram perder, e que são, conforme dizeis,
    incapazes de restaurar? Não; vós não quereis collocar o chefe do
    lazarismo na dura collisão de arriscar a patria a novas invasões de
    impiedade, para dedicar os inexgotaveis thesouros do seu amor do proximo
    a gente peregrina e rude, que talvez não lh'o agradeça. Não; vós quereis
    plantar entre nós ao mesmo tempo ambos os institutos de S. Vicente de
    Paulo; quereis edificar para os seculos. É a modestia que vos obriga a
    envolver no mysterio os vossos generosos designios. A salvação das
    gerações futuras merece-vos tanta sollicitude como a das gerações
    presentes.

    Um facto decisivo demonstra que isto é assim, e que os prelados
    comprometteram a propria veracidade affirmando o contrario. Entre nós
    existia uma congregação de irmãs de caridade sujeitas á auctoridade
    diocesana e só a ella, em conformidade das leis do reino. O titulo da
    sua instituição era legitimo, viviam em commum, tinham habito proprio,
    bens proprios. Era uma casa regular no rigor do termo. Esta congregação
    desappareceu. Nem a auctoridade civil nem a ecclesiastica podiam
    aboli-la. Só a lei o podia, e não a aboliu. Dissolveu-se, extinguiu-se
    por si? Então a fazenda nacional deve ter tomado posse da casa da rua de
    Santa Martha e dos poucos bens a ella annexos. Não aconteceu nada disso.
    Foi só que transformaram a congregação portuguesa em congregação
    francesa, e incorporaram aquellas pobres mulheres com as recem-vindas.
    Commetteram simplesmente um crime[15]. Que é o fizeram, que é o que
    constituiram, senão uma casa regular? É ou não é essa casa sujeita ao
    geral dos lazaristas franceses? A lei qualifica de rebellião o acto de
    se reconhecer em qualquer corporação religiosa um prelado maior que não
    seja o bispo diocesano, e impõe aos contraventores a pena da sua
    rebeldia.

    O crime é aqui aggravado pela circumstancia de ser esse prelado um
    estrangeiro. A reacção amotinou-se contra as leis; estamos em plena
    revolução. A èpocha de 1832 a 1834 foi condemnada, e amaldicçoado o nome
    do grande principe que a fez surgir. Velhos soldados do duque de
    Bragança, sois já poucos para defender as suas cinzas; sois ainda
    sobejos para morrer ao pé dellas. Soldados de Mindelo rodeiae o tumulo
    do imperador!

    A capital deste paiz, remido para a liberdade ha vinte e cinco annos á
    custa de torrentes de sangue, presenciou com assombro um espectaculo
    digno dos bons tempos da tyrannia. Quando em carruagens esplendidas
    passavam, commodamente reclinados, os confrades daquelles que, no
    extremo Oriente, andam occupados em apagar os vestigios dos nossos
    martyres; quando, ao lado delles, se viam essas pobres mulheres enviadas
    de Paris para instrumentos dos planos de ultramontanismo, o lodo das
    ruas espadanando debaixo das suas carruagens ia salpicar a estamenha
    monastica, o grosseiro crucifixo de metal de outras mulheres que
    perpassavam com a fronte inclinada para o chão, com as faces retinctas
    na pallidez que ahi tinha imprimido o longo padecer de longas miserias.
    Eram as irmãs de caridade portuguesas, declaradas schismaticas pelo
    synedrio da rua de S. Lazaro em Paris, como a sua patria era declarada
    schismatica pela congregação da Propaganda, não sabemos de que rua de
    Roma. As irmãs portuguesas estavam irregulares: tinham obedecido aos
    bispos instituidos apenas por Christo, e não ao geral dos lazaristas
    creado por ninguem menos do que por Urbano VIII: tinham apenas seguido à
    risca por trinta ou quarenta annos os preceitos da caridade evangelica;
    mas não tinham chegado a comprehender todos os aperfeiçoamentos do
    evangelho, que as cartas patentes de Luiz XIV haviam em 1658 revelado à
    França[16]. Vacillavam quasi á borda do atheismo. Era por isto que o
    zelo com que haviam sido instituidas esfriara em quasi todos os animos
    devotos: era por isto que, á porta dos palacios sumptuosos, raramente o
    lacaio grosseiro lhes atirava ao regaço alguma esmola mesquinha. As
    economias da devoção era necessario enthesourá-las para tornar commodas
    as carruagens que tinham de servir aos verdadeiros agentes da exaltação
    da fé. Vinha a ser o mesmo que enthesourá-las no céu.

    O povo soltou um gemido de dor e de indignação olhando para suas irmãs;
    porque as mulheres macilentas que passavam a pé, ao lado das carruagens
    dos lazaristas, eram irmãs do povo. Do alto da tribuna respondeu-lhe a
    injuria. Houve quem receiasse que o gemer se convertesse em rugido.
    Enganavam-se. O povo é paciente, porque é christão, e porque tem a
    força. Calumniaram-no então. Affirmaram que elle insultara as mulheres
    estrangeiras. A regra de S. Vicente de Paulo diz: «Se a congregação ou
    qualquer das pessoas a ella sujeitas for perseguida ou calumniada,
    abster-nos-hemos cuidadosamente de tirar disso a menor vingança, de
    maldizermos o offensor, e até do minimo queixume.» Conseguintemente o
    lazarismo foi a casa da policia, denunciou intenções, e pediu vingança.
    A policia saiu, correu, espreitou, inquiriu e veio, desconsolada e
    triste, declarar ao lazarismo que mentia. A policia tornava-se
    evidentemente impia. Era deploravel. Os adeptos consolaram-se com um
    grande e honrado triumpho que haviam entretanto obtido. A auctoridade
    ecclesiastica descera ao humilde retiro das mulheres macilentas, e com
    gesto severo imposera-lhes o dever de vestirem o novo trajo que chegara
    de França. Era a salvação. Obedeceram caladas. Aquelle escapulario, que
    bebera tantas vezes o suor da agonia na fronte do moribundo encostada ao
    peito da mulher do evangelho; aquella vestidura, cuja fimbria tinham
    regado tantas lagrymas de creancinhas abraçadas aos joelhos da mulher
    macilenta, ao pé da enxerga da mãe expirante; aquella estamenha,
    thesouro das pobres enfermeiras dos desvalidos, porque lhes era
    esperança no ceu e mortalha na terra, disseram-lhes que a despissem,
    porque sem certos trajos franceses não havia irmãs de caridade. Trinta
    ou quarenta annos de privações, de insomnias, de abnegação, de preces,
    de lagrymas, tudo isso fora vão e mentido diante de Deus. Não sabemos se
    aquelles velhos habitos se venderam vantajosamente para a congregação.
    Sabemos só que o homem do povo, quando os for encontrar no mercado dos
    andrajos, deve salvá-los, guardando-os como uma memoria sancta entre as
    memorias dos seus, sob pena de ser ingrato.

    As pobres mulheres do evangelho tinham tido o seu pretorio, a sua
    chlamyde coccinea e a sua corôa de espinhos. Ignoramos se, antes disso,
    lhes haviam apontado para as carruagens esplendidas do lazarismo, e
    repetido em voz baixa as palavras de um livro chamado a Biblia, de que é
    possivel terem noticia certos defensores da religião: _Haec omnia tibi
    dabo, si cadens adoraveris me_.

    As leis, os poderes publicos, a auctoridade administrativa, tudo curva a
    cabeça, tudo se esconde para deixar desembaraçado o caminho á reacção,
    que no seu impeto revolucionario passa radiosa. Vilipendiado o direito
    canonico recebido nestes reinos, em que se estriba a jurisdicção
    immediata dos prelados diocesanos nas respectivas dioceses, violadas as
    leis que mantem esse direito e punem como criminosos d'estado os seus
    infractores, abrogadas pela vontade privada as condições legaes com que
    as irmãs de caridade existiam entre nós como corporação reconhecida,
    restava escarnecer das leis, que regem a educação publica, e que não
    são, na sua essencia, senão a expressão das doutrinas dominantes nas
    leis analogas de uma grande parte dos paizes civilisados. As leis e
    regulamentos de instrucção publica exigem habilitação para o magisterio,
    tanto publico como livre, e fixam as condições, as fórmas dessa
    habilitação. Os governos relaxados que ha muito dirigem os negocios do
    paiz haviam tolerado abusos na educação privada, que, sem deixarem de
    ser perniciosos, não tinham, todavia, inconvenientes politicos. No
    relatorio dos fins de 1856 o commissario geral dos estudos em Lisboa
    assignalava esses abusos, e pedia a sua repressão: «Os mestres e mestras
    das casas de asylo da infancia desvalida–dizia elle–exercem alli o
    magisterio sem prévio exame feito perante esta commissão. Quem os póde
    exemptar dessa obrigação? Ninguem: a lei é clara e terminante. E não
    virá daqui em grande parte o nenhum progresso de taes escholas? Creio
    que sim.» Inquieto com as manifestações do desgosto publico, o governo
    ordenava em setembro de 1858 áquelle zeloso funccionario que visitasse
    as escholas do asylo dos orphãos da Ajuda, dos asylos da infancia
    desvalida[17] e do hospicio de Sancta Martha, e que posesse ahi em vigor
    as leis e regulamentos d'instrucção publica. Devia terminar o exame, que
    aliás era obrigação do seu cargo, por um relatorio, em que proposesse as
    providencias que excedessem a sua alçada, e fossem precisas para se
    verificar o exacto cumprimento da lei. Fez-se o exame: os abusos
    existiam; o relatorio não podia deixar de ser accorde com as instantes
    representações feitas pelo commissario dous annos antes. Se o mal era
    profundo até ahi por falta de sufficientes habilitações litterarias nos
    mestres e mestras das casas de asylo, os inconvenientes actuaes, ainda
    abstrahindo de todas as considerações politicas, eram sem comparação
    maiores. As irmãs de caridade não só careciam de habilitações legaes,
    mas tinham, até, sido exemptas de concurso. Chegavam de Paris para
    ensinar a ler e escrever português: vinham explicar á infancia as
    verdades fundamentaes da religião n'uma lingua que lhes era extranha,
    quando é sabido que na doutrina catholica uma palavra trocada, uma
    phrase inexactamente empregada podem converter um dogma n'uma heresia.
    No excesso do abuso associava-se o perigoso ao ridiculo, o illegal ao
    inconveniente. O relatorio do habil funccionario fez de certo sentir ao
    governo toda a extensão do mal. O commissario dos estudos sería indigno
    das funcções que exercitava, trahiria ignobilmente a sua consciencia,
    se, pondo de parte as doutrinas de legalidade que invocava dous annos
    antes, não ordenasse, dentro da esphera das sua attribuições, remedio a
    tantos desconcertos, e não sollicitasse do governo as providencias que
    ultrapassavam a sua jurisdicção. Por certo ordenou: por certo pediu. E
    todavia a situação monstruosa e illegal dos estabelecimentos da Ajuda e
    de Sancta Martha não mudou. Os preceitos do commissario dos estudos não
    foram respeitados, a lei não se cumpriu, e o governo, que a mandara
    executar rigorosamente, abaixou a cabeça em profundo silencio. Como
    explicar phenomenos taes, senão pela vontade energica da reacção,
    preponderante já, postoque occulta, na esphera dos poderes politicos?

    É diante dos factos que temos ponderado; é diante de signaes tão
    evidentes, de manifestações tão positivas de uma vasta conspiração
    contra a liberdade; e quando as descargas cerradas da reacção fuzilam na
    imprensa periodica, nos livros, nas associações, nas secretarias, na
    tribuna, nas regiões diplomaticas, nas alturas da jerarchia civil e da
    jerarchia ecclesiastica, nos pulpitos das aldeias e nas escholas da
    infancia, que a insipiencia e a perfidia nos accusam de combater contra
    seis mulheres e dous frades! Quando apontamos para as leis rasgadas,
    para os principios postergados, para os canones e para as liberdades da
    igreja nacional vilipendiados, para a mulher portuguesa insultada e
    calumniada, accusam-nos de rancorosos e de violentos! A violencia está
    da nossa parte. A Europa indigna-se, porque o fanatismo rouba um filho a
    seu pae para o educar n'uma religião, embora verdadeira, em que este não
    crê. A nós não nos é permittida a indignação quando aos que dormem
    debaixo da terra, feridos pelo flagello de Deus, se lhes entregam os
    filhos, que elles não podem defender, a que affeiçoe aquelles espiritos
    innocentes aos intuitos da reacção ultramontana e absolutista; aos
    intuitos desses mesmos homens, cuja audacia fanatica a Europa
    solemnemente acaba de condemnar. Não nos é licito oppormo-nos a que as
    novas gerações se eduquem no odio dos principios que regem a terra
    patria, e pelos quaes a geração presente padeceu e combateu longamente.
    Não valerão, proventura, nada os principios, quando se tracta da
    innocencia desamparada, depois que sobre os labios frios dos seus
    naturaes defensores se estampou o sello da morte?

    No meio de tantos delirios, uma das cousas que repugnam mais á razão, á
    consciencia e á verdadeira piedade, é a blasphemia que se encobre
    debaixo do diluvio de phrases com que se exaltam, sobre as ruinas da
    jerarchia ecclesiastica e da divina missão dos pastores, essas
    congregações religiosas de ambos os sexos nascidas ha dous dias,
    jesuitas, lazaristas, irmãs de caridade, e não sabemos que mais
    invenções modernas do ultramontanismo, desconhecidas durante quinze
    seculos da igreja. O bispo, o parocho, aquelles que o Salvador instituiu
    para ensinarem a lei e a salvação; aquelles que o Divino Mestre julgou
    sufficientes para manterem a pureza da fé, para serem o sal da terra e a
    luz do mundo, são declarados inhabeis ou insuficientes para exercerem as
    funcções que exclusivamente lhes foram commettidas, e muitos delles não
    hesitam em subscrever ao pensamento impio, escondido como o aspide nos
    morraçaes da algaravia devota. A congregação tende irresistivelmente a
    supprimir o episcopado e a ordem inferior dos pastores, como uma
    inutilidade. Do mesmo modo que dimitte a historia, a reacção dimitte a
    igreja. Se escapa aquelle que nós todos reconhecemos como o primeiro
    entre os seus irmãos, como o metropolita dos metropolitas, como o chefe
    espiritual do catholicismo, é para o converterem n'um despota; para
    precipitarem o reino Deus das alturas do céu no abysmo da terra; para
    collocarem a thiara, nas relações temporaes, acima do poder civil; para,
    emfim, resolverem de modo definitivo o tremendo problema proposto por
    Gregorio VII á sociedade christã.

    A estes intuitos a existencia ou, pelo menos, a auctoridade da ordem
    superior e da ordem inferior do clero legitimo há-de ser sempre um
    obstaculo, senão insuperavel, ao menos altamente incommodo. Sempre ha-de
    haver uma parte delle que saiba a sua origem, que creia na sua missão
    divina, e que ouse protestar contra o despotismo da curia romana. Se a
    influencia dos chefes das congregações sobrepujar a dos prelados, não
    resta a estes senão uma energica e legitima resistencia, a não quererem
    a desauctoração do proprio caracter e a dissolução da igreja. Aquelles
    chefes, porém, cujos subditos devem ser diante delles como o cadaver,
    como o baculo na mão do cego, como a lima na mão do obreiro, e cujo
    despotismo, não podendo estribar-se no céu, foi buscar sanctificação em
    Roma; esses, de certo, nunca hão-de protestar contra a applicação á
    sociedade christã e á sociedade civil de um principio que é a essencia
    do proprio poder.

    O antigo monachato, na singeleza da sua origem, nem era um perigo para
    as instituições sociaes, nem seria uma ameaça para a liberdade. O
    monachato, como elle nos apparece nos primeiros seculos christãos,
    representava os profundos desenganos, o cansaço e o tedio do viver
    civil. O monge desposando a solidão firmava um acto de divorcio com a
    sociedade. Esta não seria nem tolerante nem justa se perguntasse ao que
    se collocava além della, que nada lhe pedia, nem impunha, nem offerecia,
    nem acceitava, qual era a norma da sua existencia. O mosteiro nos
    desvios selvaticos devia ser uma sanctuario talvez ainda mais immune que
    a familia. Nesses tempos, nem sequer existia nexo entre cenobio e
    cenobio, embora ente elles houvesse uma regra commum. Para adquirir o
    alimento pelo trabalho e o céu pelo sacrificio não era preciso
    transportar para o deserto o mechanismo de uma organisação complicada,
    nem vestir a cogulla ao despotismo. Um chefe electivo mantinha em cada
    gremio a disciplina indispensavel para a quietação de todos. Nas
    relações puramente espirituaes, esses homens pios nem sequer imaginavam
    que o sacerdocio devesse associar-se como o ermo, e se abandonavam a
    sociedade civil, não deixavam por isso de acceitar e reconhecer a
    igreja. Nunca se persuadiram de que a instituição divina dos pastores
    fosse insufficiente para apascentar o rebanho. Na sinceridade do seu
    coração não suspeitavam, sequer, que viriam tempos, em que os homens
    achassem incompleto o christianismo, e quizessem aperfeiçoar a jerarchia
    e o governo da igreja, immutaveis na essencia, como a sua doutrina.

    Os institutos monasticos dilataram-se, prosperaram, degeneraram
    regressando ao mundo social, decahiram e pereceram, ou vejetam apenas
    n'um triste crepusculo. O liberalismo olha-os com suspeitas que os
    factos justificam. Entretanto a sua condemnação completa não se escreveu
    ainda. Talvez um dia, quando a liberdade for por toda a parte uma
    condição impreterivel da civilisação e da existencia das nações
    christãs, o monachato resurja na sua primitiva pureza. Ha dores para as
    quaes a vida civil não tem balsamo, desalentos para que não tem
    conforto, desesperanças para que não tem illusões, amarguras que não
    cabem nella. Além das suas fronteiras, dos seus asylos para os
    infortunios vulgares, porque se não deixará construir um refugio de
    preces e de lagrymas para as miserias moraes incuraveis, e para as
    situações insoluveis e extremas?

    Mas que ha commum entre isto e as congregações modernas, que se
    organisam pelo ideal do despotismo, e que, regidas por esse principio,
    tão odioso e brutal como energico, penetram no amago da sociedade como o
    ferro do machado no cerne do roble? Quando ellas pedirem ao povo o
    coração da mulher para o dirigir, e a debil intelligencia da infancia
    para a affeiçoar, o povo, se não for insensato, há-de forçosamente
    replicar-lhes:–«Para que pedis isso? Vindes do despotismo: não podeis
    senão arrastá-los para o despotismo; para o despotismo na igreja, e para
    o despotismo no estado.»

    A introducção das irmãs de caridade francesas não é senão o prodromo do
    restabelecimento das congregações, que, longe de buscarem os ermos, só
    tem em mira apoderar-se da sociedade. A reacção sabe que ás vezes é
    melhor ir de roda para chegar mais depressa.

    N'um documento official allegaram-se os serviços das irmãs de caridade
    francesas no Oriente, principalmente nos arraiaes da Criméa, para
    legitimar a admissão daquelle instituto no reino, quando o principal fim
    ostensivo dessa admissão era o gravissimo negocio de educação da
    infancia. Vinha a ser a melhor allegação, sendo pessima. Naquelle
    documento dimittia-se a logica; e convertia-se a enfermaria em eschola
    normal. A reacção, tão astuta de ordinario, tem suas puerilidades. A
    capacidade das irmãs de caridade francesas para o magisterio talvez
    ainda venha a inserir-se como dogma no catecismo. Por emquanto está
    sujeito á discussão. A regra de S. Vicente de Paulo não encerra em si a
    demonstração de tal capacidade, e os factos ainda tambem não a
    demonstraram. Ensinar não é synonimo de ensinar bem. Permittam-nos,
    pois, que entretanto duvidemos da virtude pedagogica dessa regra,
    virtude que seria mais um milagre dos officiaes deste genero de
    producto, porque não resulta de nenhuma das sua disposições positivas. A
    caridade poderá, talvez, só por si fazer uma boa enfermeira; o que de
    certo não faz é uma boa mestra.

    O instituto das irmãs de caridade cerca-se de uma auréola facticia,
    porque é um instrumento de reacção. Admitti que a dedicação, aliás
    louvavel, dessas mulheres seja um titulo que suppra a sciencia, que
    inutilise a intervenção do estado na educação, e diante do qual devam
    ceder os principios, as leis, os regulamentos, e achar-vos-heis em breve
    nas regiões do jesuitismo. Que vale a historia, mais ou menos
    exaggerada, dos sacrificios, do zelo, da constancia das irmãs de
    caridade ao lado dos sacrificios, do zelo, da constancia dos jesuitas,
    não neste ou naquelle paiz da Europa, mas no mundo conhecido? Depois, o
    jesuitismo tem titulos de sciencia bem diversos do que podem invocar as
    irmãs de caridade e a ordem que as dirige. Entregae, portanto, a
    educação e a instrucção, não só da puericia, mas tambem da mocidade, á
    companhia de Jesus.

    Lá chegaremos, se não estivermos precavidos contra os sophistas.

    O furor dimissorio da reacção não pára, nem na historia, nem na
    jerarchia christã, nem nos canones da logica: vai até a Providencia e
    até o Evangelho. Que ha particular e exclusivo na regra de S. Vicente de
    Paulo para produzir os resultados beneficos daquella associação como
    está constituida em França? A força impulsiva da vontade absoluta de um
    só homem é na verdade um elemento efficaz, postoque vulgar. O despotismo
    produz ás vezes o bem, aindaque em regra só produza males. Mas os
    effeitos dessa organisação, innegavelmente poderosa, acabam ahi. O resto
    operam-no a indole da mulher e a luz immortal do Evangelho. Quem ha que
    não visse, ao menos alguma vez, na obscuridade da vida domestica, uma
    irmã de caridade assentada á beira do leito da dor ou da ultima agonia?
    Onde está a mulher está a irmã de caridade. O seu espirito adeja em
    volta do padecer humano, para se precipitar nelle, como a mariposa á
    roda da luz. É o seu instincto, a sua indole, o seu destino. O amor, a
    amizade, a affeição filial ou fraterna, a maternidade escondem aos olhos
    dos outros e a seus proprios olhos as tendencias irresistiveis que a
    arrastam para levar um affecto aonde quer que sôa um gemido. Acima de
    todos os votos que se lhe podem ou pedir ou impor em nome do céu, ella
    tem dous, escriptos lá dentro, que a seguem do berço ao tumulo, a
    piedade e a paixão do sacrificio. Impellidas pelo sentimento religioso,
    essas tendencias vão até o sublime da abnegação: vão mais longe do que a
    irmã de caridade; vão até a mulher que se precipita na fogueira dos
    funeraes do Indostão. Essa mulher, como a irmã de caridade na Europa,
    representa a suprema devoção pelo sacrificio. A differença, porém, não
    está na regra de S. Vicente de Paulo: está em que na Europa a mulher
    educa-se á luz esplendida do Evangelho; no Indostão ao crepusculo triste
    dos Védas.

    Sem a sujeição aos lazaristas, o que a regra de S. Vicente de Paulo póde
    fazer é dar unidade e ordem aos admiraveis instinctos da mulher
    sanctificados pela religião; é estender o que ha mais bello no mundo, as
    consolações do affecto domestico juncto de um leito de dores, aos que
    não tem familia que lhas possa dar, ou aos que a miseria e a doença
    entregaram á caridade official. Mas attribuir á virtude do instituto o
    que principalmente provém da natureza e da religião, é depôr a
    Providencia e o Christianismo para enthronisar um homem: é suppor que a
    sua obra vale mais que a obra de Deus: é a blasphemia da superstição.

    Com o predominio, porém, do lazarismo; com uma obediencia cega a
    individuos que abnegam, diante de um chefe supremo, a vontade, a razão e
    a consciencia, as irmãs de caridade não são senão mais um perigo para a
    sociedade debaixo de apparencias illusorias. O bem que ainda assim fazem
    nem remotamente compensa os males que podem produzir. Instrumentos,
    provavelmente inscientes, do ultramontanismo, são como os maus actores,
    que se limitam a estudar o respectivo papel, sem conhecerem nem o
    enredo, nem os effeitos do drama.

    Os serviços feitos á humanidade na guerra do Oriente pelas irmãs de
    caridade francesas, texto fecundo das pareneses da imprensa
    reaccionaria, e que tão pouco a proposito figuram em documentos que
    deveriam ser graves, tem acaso o valor e a significação que se lhes
    attribue? A guerra do Oriente foi emprehendida por duas das mais
    poderosas nações, uma d'ellas a mais opulenta e illustrada da Europa. As
    miserias e desgraças ordinarias da guerra são faceis de prever, e os
    governos dessas nações tinham-nas previsto: tínham-se preparado para
    ellas. Facultativos, hospitaes, enfermeiros, remedios, os confortos, em
    summa, que são compativeis com a dura e aventurada vida do soldado, não
    tinham sido predispostos com mão avara. Aquelles para quem esses
    immensos soccorros se destinavam eram homens no vigor da existencia,
    educados para affrontar virilmente as privações, a dor e a morte. As
    calamidades imprevistas não foram, nem podiam ser combatidas com menor
    energia. As inspirações da simples humanidade eram avivadas pelo
    interesse de manter a força material e moral dos exercitos, n'uma
    campanha onde se decidia o duello entre as sociedades do Occidente e os
    netos de Attila. Quanto a sciencia, a industria, a riqueza e a
    actividade administrativa podiam suggerir e applicar para allivio dos
    males inseparaveis da guerra, tudo se achava ao lado do homem robusto
    que padecia nos arraiaes da Criméa. Imaginar que cincoenta ou cem
    mulheres distribuidas pela vastidão dos hospitaes militares, suppriam,
    modificavam sequer as privações e os incommodos nascidos da falta
    accidental de recursos, ou das desordens imprevistas da natureza, é um
    paradoxo, que pedimos licença para não acreditar, embora tenha a seu
    favor o testemunho _insuspeito_ de generaes que haviam metralhado a
    liberdade por conta da reacção, e que se ufanavam com a intimidade dos
    chefes do jesuitismo; embora se estribe nos elogios gratuitos de
    funccionarios collocados n'uma situação elevada, mas dependente desses
    pios generaes, e que nada perdiam em exaggerar, á vontade delles, os
    serviços dos jesuitas, dos lazaristas, das irmãs de caridade, ou de
    outras quaesquer corporações, que elles pretendessem exaltar.

    Os pomposos relatorios das maravilhas practicadas pelas irmãs de
    caridade no Oriente o que provam de modo peremptorio é que a reacção é
    hábil. Sabeis o que se passava então no paiz que ellas abandonavam para
    supprir as insufficiencias dos governos da Inglaterra, da França, da
    Sardenha e da Turquia? Dir-vo-lo-hemos. Em França, dos doze milhões de
    desgraçados cuja alimentação consiste apenas em centeio, batatas e agua,
    e que em grande parte vivem em casebres infectos[18], morriam de fome e
    de miseria oitenta mil pessoas, só no decurso de 1855! É uma auctoridade
    insuspeita, o chefe actual da repartição de estatistica em França, que
    no-lo assegura[19]. Onde era o posto da irmã de caridade francesa no
    meio de tantos infortunios? Era na patria, ou nos acampamentos do
    Oriente? Era ao pé do soldado, ferido ou doente, mas de constituição
    robusta e de animo féro, vigiado, acariciado pela previdencia sollicita
    dos poderes publicos, ou na aldeia, no casal solitario, na agua furtada
    do operario fabril, ao pé da enxerga do velho, da mulher, do infante,
    nús, esfaimados, esquecidos do mundo, abandonados pela caridade publica,
    e enviando, talvez, no ultimo alento um grito de maldicção á sociedade?
    Se, educadas antes de se descobrir em França, que toda a mulher deve
    aprender nos primeiros annos a executar os artefactos proprios do seu
    sexo, não podiam trabalhar de noite e dia para ministrar aos extenuados
    e quasi moribundos, não confortos, não carinhos, não suavidades, mas
    simplesmente um bocado de pão negro que devorassem assentados no atrio
    da morte, podiam ao menos forcejar para que o ultimo suspiro delles não
    fosse um grito de desespero, mas um murmurio de resignação; podiam ir
    pelas portas do palacios sumptuosos implorar a piedade dos ricos; pelas
    moradas da devoção opulenta pedir-lhe que fechasse por minutos o _Mez de
    Maria_, para ler algumas paginas d'um livro plebeu chamado o Evangelho,
    que bastou para inspirar todas as virtudes, todos os heroismos do mais
    ardente amor do proximo nos seculos primitivos do christianismo. Os
    preceitos do livro plebeu podiam cumprir-se em França. Não sabemos se
    foram cumpridos no Oriente.

    O que sabemos é que a piedade com o infortunio, exercida obscuramente,
    no casebre, na mansarda, nos recèssos onde se occultam as grandes
    miserias, vê-a sómente Deus. A Criméa, Athenas, Varna, Gallipoli eram
    proscenios diante quaes se assentava espectadora a Europa, e a reacção
    sabe o que valem as artes scenicas. O theatro tentava! Se não servia
    excessivamente a humanidade enviando as irmãs de caridade ao Oriente, o
    lazarismo escrevia um magnifico thema para as pareneses dos seus
    missionarios, quando tractasse de as introduzir e de se introduzir, á
    sombra dellas, em qualquer paiz, onde a reacção carecesse do seu
    auxilio.

    Aggredida, não só desde o primeiro dia da sua existencia, mas, até,
    ainda antes de se constituir, a Associação Popular Promotora da Educação
    do Sexo Feminino precisava de mostrar a sua opportunidade, a sua indole
    e os seus fins. Para isto cumpria traçar rapidamente a historia da
    reacção nos ultimos dez annos. Essa historia revela o progresso
    constante da idéa reaccionaria, a sua pertinacia e as suas victorias. Os
    factos provam que o partido liberal necessita, emfim, de acordar do seu
    longo torpor, e essa necessidade justifica a existencia desta
    Associação. Os anteriores triumphos dos sectarios de toda a especie de
    despotismo tem sido daquelles que um governo firme e esclarecido póde
    facilmente inutilisar em qualquer tempo. A perversão, porém, das
    gerações novas, sobretudo a perversão do espirito das mulheres, produz
    consequencias fataes, duradouras, e difficeis de extirpar. No homem, a
    instrucção superior e a experiencia do mundo corrigem às vezes as idéas
    falsas, as más tendencias da primeira educação. Á mulher faltam de
    ordinario esses dous auxilios. Vehiculo seguro da peçonha que lhe
    instilou no entendimento a maldade, vai, sem o saber nem o querer,
    propiná-la no seio da familia aos que entranhavelmente ama. Persuadida
    uma vez de que as abusões e os actos mais contrarios à indole grave e
    servera do christianismo são condições da vida religiosa, não ha
    superstição, nem crendice que não imprima, com a quasi
    indestructibilidade das primeiras impressões, em animos innocentes, que
    ella, na sinceridade do seu coração, crê guiar pelo caminho do céu.
    Corrompe, logo a dous passos de berço, o infante regenerado pelo
    baptismo; torna moralmente rachitico o que, como christão e como homem
    social, deve ser moralmente forte. Da juventude até a velhice vai
    semeando na terra o mal e o erro, e morre tranquilla. Morre tranquilla
    com razão; porque foi apenas o baculo na mão do cego, a lima na mão do
    obreiro, o punhal na mão do assassino.

    É da educação que póde dar e receber a mulher que a reacção tende a
    apoderar-se introduzindo em Portugal as irmãs de caridade francesas. Nos
    asylos da primeira infancia a mestra substitue a mãe; na eschola do sexo
    feminino educam-se as que hão de ser mães. Entregae esse asylo e essa
    eschola á influencia de congregações fortemente constituidas, e hoje
    arregimentadas para combater o liberalismo, e calculae como pensarão
    daqui a vinte annos as gerações novas, e o que será feito, d'ahi a
    outros vinte, da liberdade politica e do verdadeiro christianismo.

    A Associação Popular Promotora da Educação do Sexo Feminino deplora a
    fraqueza dos poderes publicos diante dessa tentativa audaz; lamenta que
    não haja nesta terra quem fale em nome do direito natural, da
    constituição, das leis e da sociedade; que os Thomés Pinheiro da Veiga,
    os Josés de Seabra, os Pereira Ramos não tivessem successores; que não
    se alevante uma voz auctorisada pelo seu cargo para revocar os governos
    e os funccionarios ao sentimento do proprio dever. Pessoa moral
    particular, composta de simples cidadãos, esta Associação não póde nem
    quer substitui-los; limita-se a repellir o empenho ultramontano na
    esphera de acção que as instituições lhe concedem. Busca oppor o asylo
    liberal, a eschola liberal, ao asylo ultramontano, á eschola
    ultramontana. A lucta não é nem facil, nem ingloria. Independente das
    suas allianças, publicas e secretas, e do pensamento politico que
    servem, os humildes missionarios de S. Vicente de Paulo não são
    adversarios de desprezar. Se não brilham, como nunca brilharam, pela
    sciencia, tem outra força que a vale. Rotschilds das congregações
    religiosas, dispõem de milhões, prudentemente empregados nos fundos
    publicos de diversas nações da Europa, e adquiridos nas pias
    especulações do commercio e da industria[20]. Não é inglória a lucta
    para manter o _escandalo_ de não ser representada nas assembléas geraes
    da congregação lazarista a _provincia_ de Portugal[21].

    Dizem-nos que viemos tarde; que outras associações nos precederam no
    empenho da educação. Cremos, apesar disso, que viemos a ponto. Não temos
    a pretensão de havermos inventado a eschola; não temos mais enthusiasmo
    pelas escholas do que por outro qualquer meio de civilisação moral ou
    material. Não nos associámos até aqui para as fundar, pela mesma razão
    porque não nos associámos para construir estradas, ou caminhos de ferro,
    ou caixas economicas, ou bancos ruraes, ou presepes da infancia no
    berço. A lei do paiz impõe a todos os cidadãos o dever de mandar seus
    filhos á eschola, e obriga, portanto, o estado a subministrar-lha.
    Pagamos os tributos, e nunca prohibimos aos nossos mandatarios que
    votassem amplamente os recursos pedidos para quaesquer institutos de
    educação publica que reputassem necessarios ou uteis. Fiámo-nos nas
    leis, nos governos, nos parlamentos. Podiamos instituir escholas como
    especulação: não quizemos especular no genero. Se intentamos fundá-las
    hoje, é como instrumento politico; é porque a reacção caminha ha dez
    annos de conquista em conquista, e aggride agora a liberdade por um lado
    perigosissimo. O procedimento dos poderes publicos durante dez annos e
    as suas tristes hesitações na actual conjunctura legitimam, sanctificam
    a nossa resolução; porque se tracta do envenenamento moral da sociedade
    pelo envenenamento moral da familia. Uma lei desta terra, uma lei de
    sete seculos, uma lei cuja duração representa um profundo sentimento de
    honra, diz que se póde ser homicida sem crime quando a prostituição do
    adulterio vai ennodoar o seio da familia[22]. É que a familia é a
    molecula social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se n'um monte
    de podridão. Vamos muito menos longe que a lei. E todavia o perigo é
    maior; porque nos seminarios da reacção não se hostilisa só a liberdade:
    ensina-se tambem a revelar á donzella e á mãe de familia delictos mais
    monstruosos que o adulterio. Defendemos nossas mulheres, nossas irmãs
    nossas filhas: defendemos as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão
    de vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia, o erro, o
    motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, não tergiversamos; a nossa
    linguagem é simples e explicita como as nossas intenções.

    E diz-se-nos que eduquemos por educar, e instruamos por instruir; que
    instituamos cidadãos aptos para todas as fórmas de governo; que
    ensinemos a ler e escrever e a doutrina christã, e não curemos de mais
    nada. Todos esses conselhos não chegam a ser absurdos: ficam aquém; na
    demencia. Educar por educar! Instruir por instruir! Só ha uma cousa nas
    obras humanas que tenha em si mesma a sua causa final; é a arte. Tudo o
    mais tem por objecto a sociedade ou o indivíduo. A educação não é nenhum
    poema, nenhum quadro, nenhuma partitura: a educação e a instrucção são o
    acto pelo qual uma geração transmitte a outra os thesouros de progresso
    moral e intellectual que herdou e augmentou; são uma grande questão
    social, e é por isso que o estado exerce nellas intervenção tão ampla.
    Se não fosse assim, a lei que, em todos os paizes cultos, fórça os
    individuos a receberem na eschola esse baptismo da civilisação, fora
    tyrannia; fora tyrannia a inspecção do estado na educação livre. Crear
    cidadãos aptos para todas as fórmas de governo! Mas ha fórmas de governo
    que vos pedem vassalos, que vos pedem servos, que vos pedem escravos,
    mas que não vos acceitam cidadãos. Se quereis subministrar-lhes o que
    elles pedem, fazei-o: nós não queremos. Nós forcejamos para que a
    geração que vier após nós seja uma nobre raça de homens livres; que
    odeie, não o reaccionario, que póde estar involutariamente no erro, mas
    o despotismo e a servidão; queremos affeiçoar uma geração nova
    rancorosa, mais rancorosa do que nós. Que ensinemos a ler, a escrever, a
    contar, e a doutrina christã sómente. Ensinae-o, se podeis, a uma
    creança sem lhe imprimir no espirito, cincoenta, cem, mil vezes mais
    idéas do que as necessarias para possuir esses elementos de cultura.
    Metade do que conhece do mundo material e moral a mais vasta
    intelligencia adquiriu-o na infancia. É nessa épocha da vida que a
    torrente das idéas, boas ou más, exactas ou inexactas, accumuladas pela
    tradição humana, se precipita com mais força no nosso espirito. O ensino
    voluntario e previsto é, sem comparação, menor do que o involuntario e
    desapercebido, que do educador ou do mestre recebe o educando ou o
    discipulo. As preoccupações e os erros de facto ou de apreciação passam,
    com a mesma facilidade que as idéas sans, de um para outro espirito, e
    passam, a cada hora, a cada momento, com uma auctoridade, com um
    prestigio, que não tem as transmittidas pelos outros individuos que
    revelam ao homem na infancia o mundo em que vai viver. Estas verdades
    triviaes, elementares, só as ignora quem as quer ignorar. A reacção póde
    fazer com que as affoguem em phrases oucas e em paradoxos; mas próva de
    sobejo, pelos seus actos, que sabe o que ellas valem. Tambem nós o
    sabemos; e nessas phrases e nesses paradoxos não vemos senão uma injuria
    á recta razão do paiz.

    No meio das puerilidades, das affrontas, das calumnias, das maldicções,
    nós proseguiremos ávante nesta cruzada sancta da civilisação e da
    liberdade. Chamamos a ella todos os homens sinceramente liberaes, que
    não estão resolvidos a transigir com genero algum de absolutismo, nem no
    estado, nem na igreja. Esses homens são os que querem as consequencias
    da restauração de 1833, restauração que foi ao mesmo tempo uma grande
    revolução, ou antes a unica revolução verdadeiramente importante deste
    paiz. A guerra da reacção é dirigida ainda mais contra as conquistas
    sociaes que então fizemos do que contra o governo parlamentar, embora
    tambem este seja aggredido. Querem-se os dizimos, os bens da corôa, os
    direitos de foral, os privilegios de casta ou de classe, os officios
    hereditarios, as rendosas capitanias-móres, as mitras opulentas, as
    ricas abbadias, os beneficios patriarchaes, a magestade do throno
    calumniada pela rapacidade cortezã, a suppressão da imprensa, methodo
    facil de moralisar, que consiste em fazer silencio ao redor da
    corrupção. A liberdade tornou-se incommoda, não só para os que perderam
    com os successos de 1833, mas tambem para muitos daquelles que mais
    ganharam com elles. Os que esgotaram o que a nova situação tinha para
    dar, vêem agora que o absolutismo dispunha de instrumentos mais
    efficazes para sugar da riqueza publica, do fructo do trabalho honesto,
    a quota do luxo e da devassidão dos escolhidos. Todas essas deplorações
    sobre a decadencia da moral e da religião; todos esses esforços para
    restaurar instituições derrocadas, são calculos de cubiça. O fanatismo é
    raro: o que está sendo vulgar é a hypocrisia. As comparações que se
    fazem do presente com o passado são falsas. Sem desconhecer que os
    costumes estão corrompidos, protestamos, com a historia nas mãos, que a
    decadencia moral dos seculos de absolutismo era muito maior do que a
    nossa. O remedio do mal presente não está em approximarmo-nos delles,
    está em affastarmo-nos. Os que pensam o contrario illudem-se; os que
    fingem pensá-lo são os que querem lucrar com as especulações ao divino.

    Deploramos que, semelhantes ás facções religiosas do Baixo-Imperio,
    anathematisando-se mutuamente dentro dos muros de Constantinopola
    assediada pelos mussulmanos, as parcialidades liberaes não ouçam, no
    meio das suas discordias, o estrepito da reacção que marcha de victoria
    em victoria. Extranha a essas parcialidades, sem compromissõs
    anteriores, esta Associação a nenhuma tem de servir, nem de combater.
    Não busca para si um logar no meio dos grupos que pleiteiam na urna, no
    parlamento, e na imprensa um poder ephemero. Não tem ninguem a quem o
    offerecer. Que o partido liberal não abdique; ficará satisfeita. Todos
    os governos devem estar tranquillos ácerca da influencia maior ou menor
    que ella possa exercitar, porque não ha de empregá-la senão contra os
    homens que se mostrarem deliberadamente favoraveis ás tentativas
    reaccionarias. Esses, se um dia se acharem no poder, contem com uma
    hostilidade implacavel da parte della. Persigam-na, que é do seu
    interesse fazê-lo. Hoje constitue-se para fundar escholas e asylos; póde
    amanhã alargar a esphera da sua acção, ou transformar-se. As phases da
    lucta determinarão o seu proceder. Se por emquanto só tracta de atalhar
    o perigo presente, porque é gravissimo, não se infira d'ahi que cruzará
    os braços quando qualquer outro perigo igualmente grave ameaçar a
    sociedade nova, e a aggredir nas suas tendencias, na sua indole, ou nas
    suas tradições. Se a aggressão é ainda mais social que politica, a
    defesa hade ter os mesmos caractéres.

    Como os antigos templarios, cujas preceptorias se collocavam nos confins
    dos paizes remidos para o christianismo e na frontaria dos sarracenos,
    nós vamos plantar as nossas tendar de guerra juncto aos marcos que
    dividem os dominios da reacção dos dominios da liberdade. Vigiaremos
    emquanto outros dormem: combateremos emquanto outros disputam. Quando
    algum de nós cahir, os seus companheiros perguntarão quem rege os
    arraiaes da liberdade; perguntá-lo-hão para pedir sete palmos de terra
    livre que dê asylo ao que cahiu. Se os houver para no-los darem, não
    indagaremos como se chamam os que no-los concederam. Sabemos que esses
    sete palmos não podem estar encravados em terra de servos. Eis o facto
    importante, e o fim supremo desta Associação. É o titulo da melhor
    herança que temos de legar a nossos filhos.

    Notas

    [1] Die Person hat das Recht in iede _Sache_ ibren Willen zu legen,
    welche dadurch die Meinige ist, zu ihrem substantiellen Zwecke, da sie
    eine solchen nicht in sich selbst hat, etc. _Sache_, em contraste com
    _Person_, exprime a cousa physica e que é capaz de ser possuida, e
    contrapõe-se a _Idee, Gedanken_.

    [2] _Etude sur la propriété littéraire_, par F. de Azevedo.

    [3] Ihrer Bestimmung und Seele meinen Willen erhält.

    [4] Studj critici, tom. II, pag. 444 (Delle ristampe).

    [5] O artigo 48.^o da lei de 15 de março de 1850, que hoje rege a
    instrucção publica em França, prescreve que nas escholas primarias do
    sexo feminino se ensinem os trabalhos de agulha. Segundo o commentador
    Rendu, esta disposição da lei é uma _feliz innovação_. Saibam as mestras
    portuguesas que os legisladores franceses descobriram em 1850, que as
    meninas devem aprender a coser, a bordar, etc. As irmãs de caridade
    introduzidas em Portugal em 1858 foram de certo educadas antes de 1850.
    Saberão ellas fazer uma camisa? Cremos que é licito perguntá-lo.

    [6] _Memoires_, tom. 1.^o, pag. 272 (1858).

    [7] A maravilha da serva de Deus, que fazia milagres de dysuria,
    adornados pelas cores do prisma, incommodou a policia de Lisboa.
    Recolhida ao hospital a sancta mulher, os facultativos descubriram com
    facilidade a origem da maravilha. O negocio supitou-se para evitar o
    escandalo. Entretanto a auctoridade do districto de Coimbra applicava a
    um sancto vivo, que começava a disparar milagres naquelle districto, o
    celebre distico.

    _De par le roi, défense à Dieu
    De faire miracles dans ce lieu_.

    [8] A quota dos membros da associação da propagação da fé não excede a
    480 réis annuaes, e o producto destas quotas remettidas para França tem
    subido alguns annos a 8:000$000 réis.

    [9] No relatorio feito ás cortes pelo ministro dos negocios estrangeiros
    em 1849 vem o texto mutilado do convenio de 21 de outubro de 1848, donde
    foi transcripto para a _Collecção de Tractados_ do sr. Borges de Castro
    (tom. 7, pag. 221). O texto por integra appareceu no jornal _O Paiz_, em
    agosto de 1851.

    [10] Nas especulações de exportação da bulla da cruzada o nimio zelo dos
    corretores trahiu-se imprudentemente no confessionario, annos depois, o
    que obrigou o sr. Seabra, sendo ministro dos negocios ecclesiasticos e
    de justiça, a tomar severas providencia para reduzir aquelle commercio
    aos seus limites naturaes.

    [11] Veja-se a circular da congregação _De Propaganda Fide_ de 4 de
    junho de 1858 a p. 75 do _Additamento ás Reflexões sobre o padroado
    portuguez no Oriente_.

    [12] Constitutiones Communes Congreg. Miss. cap. 5.^o, § 1.^o, e cap.
    11.^o, §§ 4.^o e 5.^o.

    [13] Cùm igressi fuerint loca ea, in quibus Ordinarii resident, eos quam
    primùm adeant, suamque operam illis submissè offerant, et facultatem ad
    exercenda societatis ministeria modestè ac religiosè petant. _Institutum
    societ_. _Jesu_, vol. I, pag. 376.

    [14] Non solum quoad ejus voluntatem nobis notificatam, sed etiam quoad
    ejus intentionem. _Const. Com. Congreg. Mission._, cap. 5.^o, §
    2.^o,–tenebit pro certo voluntatem Dei sibi significari per voluntatem
    superioris. Ibid, § 4.^o.

    [15] Vide decreto de 9 de agosto de 1833.

    [16] O instituto das irmãs de caridade foi auctorisado em França em
    1658.

    [17] Nestes asylos, de que o commissario dos estudos se queixava em
    1856, os logares de magisterio eram providos por concurso na fórma dos
    respectivos estatutos approvados pelo governo. Em 1858, porém, as
    mestras já haviam sido substituidas por irmãs de caridade francesas por
    mero arbitrio das pessoas que os dirigiam.

    [18] De Lavergne, _L'Agriculture et la Population_, pag. 399. (Note F.)

    [19] Legoyt, _Journal des Economistes_, mars de 1857; De Lavergne,
    ibid., pag. 337.

    [20] Les lazaristes ont plus de vingt millions placés en rentes sur
    differents états, de manière qu'à tout événement leurs ressources et
    leurs moyens d'action ne leur manquent jamais. Génin, _Ou l'Église ou
    l'État_, pag. 213.

    Tous les journaux, et notamment _l'Univers_, ont été remplis d'annonces
    et de prospectus de la caisse militaire et des distilleries du Nord, et
    parmi les noms des administrateurs destinés à faire arriver
    l'actionnaire, le public lisait avec édification: Mr. l'abbé _Étienne_,
    procureur générale des prêtres de S. Lazare… Mr. J. B. Nozo, supérieur
    général des lazaristes. Les lazaristes marchands d'hommes et fabricants
    d'eau de vie! Id. _Ibid._

    [21] Excepté l'infortunée Pologne, l'Espagne, le Portugal, toutes les
    provinces de l'ordre y sont représentées. _L'Univers_ cit. por Génin,
    pag. 211.

    [22] Ord., liv. 5.^o tit. 38.

    INDICE

    Monumentos Patrios
    Da Propriedade Litteraria
    Appendice
    Carta á Academia das Sciencias
    Mousinho da Silveira
    Carta aos Eleitores do Circulo de Cintra
    Manifesto da Associação Popular Promotora da Educação do Sexo Feminino

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Aproximadamente 54.592 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team

    OPUSCULOS

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
    SOCIO CORRESPONDENTE
    DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID
    DO INSTITUTO DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES)
    DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM
    DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO I

    LISBOA
    EM CASA DA VIUVA BERTRAND & C.ª–CHIADO, N.º 73

    M DCCC LXXIII

    IMPRENSA NACIONAL

    *ADVERTENCIA PRÉVIA*

    Havia annos que os meus velhos editores e amigos, os fallecidos Irmãos
    Bertrands, admiraveis typos dessa modesta austeridade e dessa nobre
    honradez, em todas as relações da vida civil, que eram gloriosa tradição
    da classe burguesa, e que a burguesia destes nossos tempos, ensanefada
    já de ouropeis fidalgos, não parece inclinada a manter com excessivo
    ciume; havia muito, digo, que os meus editores instavam comigo para que
    ajunctasse em volumes alguns opusculos, escriptos por mim e publicados
    por elles em diversas conjuncturas, cujas edições se achavam de todo
    esgotadas. Na sua opinião, eu devia incluir tambem nessa collecção
    outros opusculos, que, ou impressos avulsamente por minha conta, ou
    inseridos em publicações periodicas, tinham feito certo ruido, e não se
    encontravam já no commercio. Entendiam igualmente que nesta compilação
    de trabalhos sobre assumptos tão variados poderiam introduzir-se
    quaesquer outros ainda ineditos, que me não parecessem indignos de virem
    a lume, o que, no seu modo de ver, daria certo realce á publicação que
    se propunham, e em cujo exito confiavam.

    Apesar das ponderações que me faziam homens tão experimentados nas
    cousas da imprensa, hesitei muito tempo em acceder aos seus intuitos.
    Após largos annos consumidos na vida agitada das letras, em que o meu
    baixel mais de uma vez fora açoutado por violentas tempestades, tinha,
    emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz do silencio e da
    obscuridade. Olhava com uma especie de horror para as vagas revoltas da
    immensa lucta das intelligencias, contraste profundo da vida rural a que
    me acolhera. Depois, o espirito sentia bem a propria decadencia, cujos
    effeitos a interrupção dos habitos litterarios devia aggravar.
    Reflectia, sobretudo, no tedioso de rever escriptos, parte dos quaes
    remontavam a tempos assás distantes. Podia, na verdade, devia talvez,
    deixá-los passar como estavam, no que respeita á maior ou menor exacção
    das doutrinas, porque a pretensão á infallibilidade é sempre ridicula no
    individuo, e eu nunca tive tal pretensão; mas era indispensavel
    castigá-los em relação á fórma. O methodo, o estylo, a linguagem, as
    condições, em summa, da arte de escrever são, no mundo das letras, o que
    a boa educação, a cortesia, as attenções, o respeito para com os usos
    recebidos são no tracto civil, o que os ritos são nas sociedades
    religiosas. No ente que cogita, a idéa póde e ha de variar com o decurso
    do tempo, com a ampliação dos horisontes do pensamento. Sobrepõe-se
    gradualmente a verdade ao erro, e ainda mal que, outras vezes, é o erro
    que succede ao erro, quando não á verdade. Aprender quasi sempre é
    esquecer; affirmar quasi sempre é negar: esquecer o que aprendemos;
    negar o que nós proprios affirmámos. É por isso que, no meio de milhões
    de duvidas, cada geração lega á que lhe succede poucas verdades
    incontrastaveis, e que a lentidão do progresso real é um bem triste e
    desenganador dynamometro da tão limitada potencia das faculdades
    humanas. Não assim pelo que toca ás formulas externas das manifestações
    do espirito. O incompleto, o barbaro, o vicioso, o tolhido, o
    desordenado, o obscuro não são o revolutear do oceano das idéas: são
    simplesmente ignorancia ou preguiçoso desalinho, mais ou menos
    indesculpaveis.

    Ora a revisão de escriptos de tão diversas epochas, ainda limitando-me
    ao exame da contextura e execução, repugnava-me. Era renovar o tracto
    com as letras no que ha nellas menos attractivo, na questão da fórma. E
    todavia, sem esse trabalho preliminar, não podia decentemente satisfazer
    os desejos dos meus editores, desejos que o ultimo d'elles, pouco antes
    de fallecer, ainda vivamente manifestava.

    Mas, o que era na realidade esta repugnancia ao trabalho, embora fosse
    um trabalho ingrato? Era o egoismo dos annos derradeiros; o amor á
    quietação da intelligencia, que, no outono da vida, é em nós como o
    prenuncio da completa, da eterna paz. Para vencer esta enfermidade dos
    espiritos cançados e gastos, cumpre que surja nelles um incitamento
    poderoso, uma necessidade instante. Foi, porém, este incitamento ou esta
    necessidade que, a final, nasceu para mim, justamente das condições da
    vida rural.

    Para o velho que vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos
    por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na
    existencia uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por
    alguns mezes, doença moral, mancha negra da vida rustica, facil de
    evitar nas cidades. É o tedio das longas noites de inverno; das horas
    estereis em que o peso do silencio e da soledade cai com duplicada força
    sobre o espirito. Para o velho do ermo, nesses intervallos da vida
    exterior, a corrente impetuosa do tempo parece chegar de subito a pégo
    dormente e espraiar-se pela sua superficie. A leitura raramente o
    acaricia, porque os livros novos são raros. A decima visão da mesma
    idéa, vestida do seu decimo trajo, repelle-o, não o distrahe. As
    convicções ardentes, as alegrias das illuminações subitas, as coleras e
    indignações que inspiram e que, na mocidade e nos annos viris, enchem a
    cella do estudo de turbulencias interiores, de arrebatamentos
    indomaveis, de debates inaudiveis, de lagrymas não sentidas, de amargo
    sorrir, cousas são que se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da
    existencia. Desfallece-lhe o animo, mal tenta embrenhar-se na selva das
    cogitações, engolfar-se nas ondas dos pensamentos, que, em melhor idade,
    lhe roubavam á consciencia os ruidos longinquos e confusos das
    multidões, e aquella especie de zumbido obscuro que ha no silencio
    profundo, e as passadas tenebrosas da noite, e o surgir e o galgar do
    sol ao zenith, emquanto a penna inspirada arfava, deslisando sobre o
    papel, semelhante á véla branca da bateirinha, que, ao refrescar do
    vento, vai e vem de margem a margem, atravez da ria. Não: para o velho
    não ha a febre da alma que devora o tempo. Sente-o gotejar no passado,
    como os suores da terra que cáhem, lagryma após lagryma, pela claraboia
    de galeria deserta na mina abandonada. É verdade que a natureza compensa
    o esmorecer e passar do vigor e da actividade intellectual com a propria
    somnolencia do espirito, voluptuosidade da velhice, ameno e dourado
    pôr-do-sol, que se refrange no espectro da sepultura já vizinha e o
    illumina suavemente. Mas o dormitar do entendimento, para ser deleitoso
    enleio, exige o movimento externo e as singelas occupações e cuidados da
    vida campestre. Sem isso, e é isso que falta muitas vezes nas
    interminaveis noites de inverno, a inercia da intelligencia, que vagueia
    no indefinito sem o norte da realidade, vai-se convertendo pouco a pouco
    em intoleravel tormento; tormento no qual ha, por fim, o que quer que
    seja da céllula circular e esmeradamente branqueiada, onde o grande
    criminoso é entregue, sósinho, á euménide da propria consciencia. N'esta
    extremidade, por mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por
    mais que ella ame o repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido,
    é preferivel, cem vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo.

    Foi por isto que comecei a ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do meu passado intellectual; a accrescentar, a cortar, a corrigir,
    a completar. Vencido o primeiro inverno, vi desapparecerem os marcos
    negros juncto dos quaes cumpria que longamente me assentasse ao cabo de
    cada um dos poucos estadios que ainda me restam a transitar pela estrada
    da vida. Que esta confissão ingenua sirva para ser absolvido da especie
    da correria que, apesar dos mais firmes propositos, faço, ainda uma vez,
    na republica das letras.

    Os escriptos aqui reunidos, os quaes, na sua maior parte, foram
    inspirados por impressões momentaneas, perderam o interesse que lhes
    provinha das circumstancias que os provocaram; mas, ainda assim, podem
    ficar como marcos milliarios que ajudem a assignalar as luctas e o
    progresso das idéas em Portugal no decurso de mais de trinta annos que
    as datas d'esses escriptos abrangem. Naquellas luctas o auctor dos
    seguintes opusculos teve largo quinhão, e se, como é possivel, nem
    sempre a razão esteve da sua parte, esteve-o sempre a convicção. É do
    que lhe parece hão-de dar testemunho a propria contextura e o proprio
    estylo dessas composições, que não vinham só da intelligencia, que
    vinham muitas vezes tambem do coração. A demasiada vivacidade, a talvez
    exaggerada energia, com que frequentemente ahi são expostas e defendidas
    taes ou taes ideas e combatidas outras, revelam a indole impetuosa mas
    sincera de quem escreveu essas paginas. Foi, porventura, este o melhor
    titulo do auctor á benevolencia publica largamente manifestada;
    benevolencia que encontrou ainda em muitos que estavam longe de
    commungar com elle nas doutrinas para as quaes buscava ou obter o
    triumpho ou adquirir sectarios.

    Ordenando esta compilação, não me adstringi nem a conservar
    rigorosamente a ordem das epochas a que esses varios escriptos
    pertencem, nem a distribui-los precisamente conforme a sua indole.
    Adoptei um termo medio, que me facilitasse ao mesmo tempo o trabalho de
    revisão, e me habilitasse para ir successivamente publicando qualquer
    volume á medida que o coordenasse. N'uma grande variedade de assumptos,
    o espirito não se amoldaria a reconsiderá-los nem pela ordem das datas,
    nem pela identidade da materia. A intelligencia é caprichosa, e
    duplicadamente caprichosa na sua decadencia. Attendendo em geral á
    natureza dos diversos opusculos, entendi que podiam dividir-se em tres
    categorias–Questões publicas–Estudos historicos–Litteratura.–Estas
    tres categorias constituirão tres series separadas, servindo-lhes apenas
    de nexo o serem uma collecção geral das minhas opiniões, quer em
    questões litterarias ou historicas, quer em questões sociaes. Assim, um
    volume seguir-se-ha a outro da mesma ou de diversa serie sem
    inconveniente para a publicação, e sem se tornar necessario que, n'um
    trabalho tedioso e frequentemente interrompido, a attenção se dirija por
    muito tempo e sem desvio para idéas até certo ponto congeneres ou pelo
    menos analogas.

    Ajunctando aos titulos dos opusculos as datas em que foram escriptos, o
    auctor teve em mira habilitar o leitor para o julgar com justiça. Sem
    querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entende que a responsabilidade será ora maior, ora menor, se porventura
    se attender á epocha em essas opiniões foram manifestadas. O decurso de
    trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje
    as idéas passam, modificando-se, transformando-se, é um periodo que
    corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem
    comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações criticas, os
    systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o homem. O
    pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje parecer
    apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a observação
    profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um
    raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada
    e transfigurada em apreciação mais complexa que illumine dilatados
    horisontes. Por isso, a data de cada um dos opusculos contidos nos
    seguintes volumes é um dos elementos indispensaveis para estes serem
    avaliados com justiça e imparcialidade. Nem sempre fugimos á pressão das
    idéas que se manifestam ao redor de nós, e muito faz aquelle que algumas
    vezes sabe elevar-se acima das preoccupações ou dos interesses da epocha
    em que escreve.

    Não se associarão a estas considerações, que sollicitam a indulgencia,
    algumas instigações do amor proprio? Suspeito que sim. Nos seguintes
    escriptos ha, em mais de um logar, idéas, previsões, affirmativas,
    negações que não raro grangeiaram para o auctor as qualificações de
    temerario, de paradoxal, de visionario. Em certos casos, o decurso do
    tempo encarregou-se de decidir de que lado estava ou a perspicacia ou a
    boa razão: em alguns, o paradoxo, a visão, foram-se lentamente
    insinuando em outros espiritos, e mais de uma vez o visionario primitivo
    veio a achar-se como sumido na turba de tardígrados visionarios. Que o
    facto não contribuisse para se datarem estes opusculos ninguem o
    acreditaria, nem eu pretendo negá-lo. Chamarão uns a isso orgulho:
    chamar-lhe-hão outros vaidade. E uns e outros terão razão. A vaidade e o
    orgulho que são, senão duas especies de um genero unico de fraquezas? O
    vaidoso é o que chama o mundo para espectador do seu orgulho: o
    orgulhoso é o que se colloca a si como unico espectador da propria
    vaidade. Symptomas varios de enfermidade identica: manifestações
    diversas de uma só miseria do coração humano.

    A VOZ DO PROPHETA

    1837

    INTRODUCÇÃO

    1867

    Depois da epocha em que o seguinte opusculo foi publicado e dos factos
    que lhe deram origem, têem decorrido mais de trinta annos. Os homens que
    intervieram nesses factos dormem já, pela maior parte, debaixo da terra.
    Com raras excepções, restam apenas alguns dos que eram mais moços. O
    auctor da _Voz do Propheta_ pertence a esse numero. Contava vinte e seis
    annos naquelle tempo.

    O homem de hoje póde julgar imparcialmente o escripto do homem de então.
    O animo tranquillo póde avaliar a paixão que o inspirou. Aquelles a quem
    esse verbo ardente feria viram no auctor um partidario que friamente
    calculava os resultados politicos das suas palavras. Injustiça ou erro;
    o mesmo que havia da parte delle em ver nos homens que forcejavam por
    dirigir a revolta de 1836, por fazer sair desse facto um governo
    regular, grandes criminosos. A verdade era que, n'uns davam-se ambições,
    mas ambições talvez nobres; n'outros houve, de certo, o sacrificio das
    proprias sympathias, o silencio imposto ás proprias convicções, para que
    a revolta não degenerasse em anarchia. Em muitos desses individuos,
    apparentemente revolucionarios, havia o patriotismo reflexivo, e até a
    abnegação, emquanto em nós, os que os aggrediamos com a sinceridade da
    indignação, havia, por amor exagerado aos bons principios, uma colera
    que em muitas cousas offuscava a razão. A _Voz do Propheta_ representa
    esse estado dos espiritos.

    Hoje a exageração sincera do insulto, a invectiva hyperbolica,
    inspirada, não pelo calculo, mas pelas irritações da consciencia, mal se
    comprehende. Neste crepusculo da vida publica, tão favoravel ás
    prostituições do cidadão, como o crepusculo do dia ás prostituições da
    mulher; nesta epocha de extrema agonia, iniciada pela proclamação dos
    _interesses materiaes_ acima de tudo, fórmula decente de sanctificar o
    egoismo, porque para cada individuo o interesse material alheio é apenas
    um interesse de ordem moral; agora que a boa educação dos homens novos
    mudou a linguagem politica, e vai arrojando para os archaismos
    historicos a lucta face a face, a punhalada pelos peitos; agora que a
    strychnina da allusão calumniosa e amena, o enredo tortuoso, a traição
    ridente vão expulsando da arena das facções as objurgatorias, rudes na
    substancia e na fórma, a _Voz do Propheta_ é, sem duvida, uma composição
    agreste e brutal. Inutil como exemplo e modelo, servirá todavia como
    amostra do que eram as malevolencias da geração cujos raros
    representantes, hoje quasi estrangeiros no seu paiz, não tardarão a ir
    esconder no tumulo as ultimas grosserias que deturpam a suavidade dos
    costumes e as tolerancias de toda a especie dos cultos filhos de
    barbaros.

    Os homens que em 1837 se aggrediam violentamente na imprensa e no campo
    tinham, de feito, habitos e sentir diversos dos actuaes. As febres
    politicas eram então ardentes, indomaveis, porque derivavam de crenças.
    Naquella epocha havia, como houve sempre, belforinheiros da politica;
    mas constituiam a excepção. O geral era gente baptisada com fogo e com
    sangue nas duas religiões inimigas do absolutismo e do liberalismo.
    Chamo-lhes religiões, porque o eram. A guerra civil, que terminara em
    1834, tivera muitos dos caracteres das antigas cruzadas. Sobretudo nos
    primeiros impetos della, haviam-se practicado actos de abnegação, de
    constancia, de valor e de soffrimento sobrehumanos, ao passo que se
    perpetravam outros de bruteza e ferocidade inauditas. A maior parte
    delles, factos obscuros, individuaes, reiterados cada dia, cada hora
    daquelle prolongado paroxismo de grandiosa barbaria, não os registou,
    não os registará nunca a historia, talvez. E todavia, é isso que explica
    a proceridade da estatura moral dos homens daquelle tempo, estatura a
    que não chegaram, nem provavelmente chegarão as gerações subsequentes.
    Sem paixões violentas e exclusivas, não ha as energias que assombram.
    Então a existencia e os commodos e gosos della eram tão casuaes e
    transitorios, as privações e dores de tão completa vulgaridade, que dar
    a vida ou tirá-la aos outros pouco mais significavam do que acções
    indifferentes. Diante do fanatismo politico, a reflexão que discrimina o
    bom do mau, o justo do injusto, quasi que era puerilidade. Podia
    ceder-se, e não raro cedia-se, a instinctos generosos para com o
    adversario: a justiça em apreciá-lo moralmente, ou em respeitar-lhe os
    direitos, isso é que se tornara difficil.

    Taes eram os homens que, depois de esmagarem a monarchia absoluta,
    vinham, emfim, a aggredir-se mutuamente na imprensa e no campo. A
    revolta, desmembrando o partido liberal, constituia dous partidos
    violentos, daquella violencia a que estavam affeitos e cujo embate devia
    produzir males profundos e em parte irremediaveis.

    Esta scisão, logo depois da victoria, era difficil de explicar fóra de
    Portugal. Aqui entendia-se, embora derivasse de um facto injustificavel.
    A harmonia de opiniões, a unidade de crenças e intuitos dos vencedores
    dissipava-se, porque realmente não existia senão nas suas relações
    negativas. Negava-se, combatia-se o passado. Era no que havia accordo.
    As apparencias de união e conformidade creara-as a grandeza do perigo. A
    phalange é e será sempre o mais poderoso instrumento de guerra, moral e
    materialmente. Embora, porém, houvesse diversidade de doutrinas, o que
    havia mais era contraposição de interesses. Para as primeiras se
    manifestarem e tenderem ao predominio bastavam a liberdade da palavra
    oral e escripta, e a discussão parlamentar. Aos segundos, dada a
    impetuosidade e impaciencia da ambição humana, sobretudo nas raças
    latinas, não bastava nenhuma liberdade. Recorreu-se ao illegal, ao
    tumultuario, e a revolta de septembro de 1836 appareceu.

    Quem a preparou e fez surgir? Não sei. Ostensivamente, os seus auctores
    foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os
    amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas
    mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade daquelle féto
    político. Creio que, affirmando-se innocentes, falavam verdade; senão
    todos, ao menos alguns. Fugir, porém, á responsabilidade de uma
    situação, que aliás se busca fortalecer e constituir, é indirectamente
    condemná-la; é dizer _não_ com a consciencia; _sim_ com os labios. A
    sentença daquelle motim lavravam-na os mesmos que forcejavam por
    convertê-lo n'uma cousa grave. Por outra parte, o que me parece evidente
    é que os governos que cahem como cahiu o que existia, embora simulem de
    vivos, estão já moralmente mortos.

    E o governo de então estava-o. Por grandes que os seus serviços ao paiz
    houvessem sido durante a lucta, o seu proceder depois da victoria não o
    abonava. Havia quem fizesse sentir isso, quem até desmesuradamente o
    exagerasse. Exageravam-no, sobretudo, os vencidos. Emquanto durou o
    ruido das armas, os lamentos destes não se ouviam; mas quando o estrondo
    cessou, e asserenaram os terrores, os queixumes foram-se convertendo em
    invectivas colericas, e tambem em accusações não raro ou justificadas ou
    plausiveis. A liberdade da palavra falada e escripta tinha-se
    conquistado não só contra os defensores da censura e do absolutismo, mas
    tambem para elles. Nas expansões da sua dor e do seu despeito, no pouco
    ou muito que essas expansões contribuiram para o descredito dos homens
    que mais cordialmente odiavam, tiveram os vencidos occasião de
    reconhecer que a liberdade humana, ruim em these, sobretudo para a
    salvação eterna, póde, em tal ou tal circumstancia, não ser
    absolutamente má.

    Os depositarios do poder executivo tinham, porém, adversarios mais
    perigosos. No gremio liberal houvera homens, alguns de dotes não
    vulgares, que, ou por despeitos pessoaes, ou por falta de animo para
    affrontarem os trabalhos e riscos de commettimento desigual, ou
    finalmente por obstaculos independentes do seu alvedrio, tinham ficado
    extranhos á guerra civil, sumidos em escondrijos na propria patria, ou
    acoutados na terra estrangeira para escaparem aos impetos da tyrannia.
    Desaccordos nascidos no exilio entre alguns destes ultimos e os homens
    de valia de quem o Duque de Bragança se rodeiara quando emprehendia a
    guerra da restauração, não tinham feito senão medrar e azedar-se
    progressivamente por diversas causas. Estes desaccordos, que pareciam
    pouco importantes emquanto durou a contenda, apenas essa epocha
    tormentosa cessou, tornaram-se mais graves, porque os individuos que se
    haviam conservado como extranhos á lucta em que se lhes conquistava uma
    patria, tinham amigos e parciaes numerosos entre os que pelejavam e
    venciam. Constituido o regimen parlamentar, as malevolencias, mais ou
    menos latentes, converteram-se em hostilidade acerba. Esta hostilidade
    podia ter, e tinha em parte, motivos maus; mas, contida no ambito
    constitucional, era, até certo ponto, bem fundada e util.

    Os estadistas, que, cercados durante annos de espantosas difíiculdades,
    souberam superá-las exercendo o poder, eram indubitavelmente homens de
    alta esphera. Podia reputar-se problematica a virtude de um ou de outro:
    a capacidade e a firmeza não podiam disputar-se a nenhum delles.
    Affeitos a reger o paiz com o vigor de uma dictadura, inevitavel
    emquanto durara a guerra, e com as formulas militares, custava-lhes
    esquecerem-se dos habitos dessa epocha, confundindo mais de uma vez, na
    praxe da administração, as duas idéas oppostas, de paiz libertado e de
    paiz conquistado. Por outra parte, os que muito haviam padecido queriam
    gosar muito, e o reino, devorado por discordias intestinas superiores ás
    proprias forças e exhausto de recursos, via comprometter o futuro da
    riqueza publica por larguezas, não só desacertadas, mas tambem
    juridicamente injustificaveis. Homens que teriam legado á posteridade
    nomes gloriosos e sem mancha, e que, mais modestos nas suas ambições
    materiaes, seriam vultos heroicos na historia, pagaram-se como
    _condottieri_ mercenarios, ao passo que outros, depondo as armas e
    voltando á vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos para
    exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados; homens cujo unico
    titulo era terem combatido com maior ou menor denodo nas fileiras
    liberaes ou haverem padecido nas masmorras os tratos da tyrannia. A
    grande, a séria, a profunda revolução que se fizera no meio do estrondo
    das armas levara de envolta com os dizimos, com os bens da corôa, com as
    capitanias-mores, com toda a farragem do absolutismo, os antigos
    _officios_, moeda que por seculos servira para pagar algumas vezes
    meritos reaes, muitas mais vezes, porém, prostituições e villanias. Mas
    as funcções publicas, os empregos vieram supprir essa moeda, tomando não
    raramente cunho analogo, e distribuindo-se com a mesma justiça e
    cordura. Estes e outros erros e abusos que o governo commettera, ora por
    impulso proprio, ora para satisfazer as influencias preponderantes com
    que o poder tem de transigir, necessidade fatal do regimen parlamentar,
    e um dos maiores defeitos da sua indole ainda tão imperfeita,
    engrossaram rapidamente, com os muitos desgostosos e indignados, a
    parcialidade que na origem representava antes malevolencias pessoaes do
    que antinomia de doutrinas.

    Foi por isso que a revolta de septembro, se não achou eccho pelo paiz,
    também não achou nelle repugnancia manifesta, e pôde na capital
    constituir-se e tomar em poucos dias a importancia que não tinha em si.
    A consciencia da propria impopularidade, o inesperado dos
    acontecimentos, talvez, até o tedio e cansaço de aggressões continuas,
    haviam feito titubeiar os membros do governo decahido, tornando-os
    inhabeis para séria resistencia, emquanto os seus adversarios
    aproveitavam o successo com a energia de inimizades encanecidas e de
    ambições até ahi não satisfeitas.

    Os homens que entenderam ser do seu interesse ou do interesse do paiz
    fazer surgir daquelle estado anormal uma situação regular viram que a
    primeira necessidade era elevar o motim á altura de uma revolução.
    Faltava o assumpto. O derribar um ministerio não o subministra. Basta
    para isso a acção mais ou menos lenta, mas segura e pacifica, da
    liberdade da palavra, da imprensa e do voto. O povo que com estes
    recursos não sabe tirar os seus negocios das mãos de quem lh'os gere
    mal, é um povo ou que ainda não chegou á maioridade ou que já se arrasta
    na senilidade. Urgiam, porém, as circumstancias. Á falta de outra cousa,
    proclamou-se irreflexivamente a constituição de 1822 com as modificações
    que decretassem as futuras constituintes.

    Tinha-se, pois, feito uma revolução para obter um projecto, um texto de
    discussão constitucional? Se o intuito dos amotinados fôra só derribar
    os ministros, o facto era excessivo, injustificavel e portanto
    illegitimo e criminoso; se porém o motim, nobilitado em revolução, tinha
    por alvo alterar as instituições, não menos digno de reprovação se
    tornava, porque era um crime inutil. A Carta encerrava em si o processo
    da propria reforma, processo aliás prudente, regular, exequivel. Partir
    da constituição de 1822, acervo de theorias irrealisaveis, se theorias
    se podiam chamar, de instituições talvez impossiveis sempre, mas de
    certo impossiveis n'uma sociedade como a nossa e na epocha em que taes
    instituições se iam assim exhumar do cemiterio dos desacertos humanos,
    era mais que insensato. A revolução, reconhecendo a necessidade de
    reformar o codigo que restabelecia, condemnava-o, e condemnava-se.

    Parece-me que me não engano se disser que, em geral, aos liberaes mais
    illustrados e sinceros a nova situação politica repugnava altamente.
    Ponderavam que a mudança das instituições politicas de qualquer paiz por
    via de uma revolução é sempre um abalo profundo cheio de riscos, e que
    mais de uma vez, longe de produzir o bem, tem conduzido as sociedades á
    sua ruina. Sem rejeitar de modo absoluto as revoluções como elemento de
    progresso, é certo que ellas são um meio extremo. Só, talvez, a
    necessidade de combater o despotismo as justifique, porque só debaixo de
    tal regimen são impossiveis quaesquer outras manifestações da opinião
    publica, e não existe campo diverso onde a lucta do direito contra a
    força, das idéas novas contra os velhos abusos possa travar-se. Em 1836
    essas manifestações não tinham porém obstaculo algum, e o campo onde as
    doutrinas podiam debater-se, os interesses contrapor-se, os partidos
    digladiar-se, era amplissimo. Se em taes circumstancias uma revolução
    fosse legitima, quaes seriam aquellas em que se lhe negasse a
    legitimidade?

    Depois, nas proprias relações politicas, o espirito humano não se dirige
    unicamente pela reflexão. As paixões e affectos modificam e alteram as
    suggestões do raciocinio; porque o homem imprime necessariamente em
    todos os actos da vida as condições do seu ser. A favor da manutenção da
    Carta não militava só a boa-razão; militavam affectos, e affectos
    profundos. A Carta havia sido o grito de guerra do campo liberal em lide
    de um contra dez. Havia sido, digamos assim, a traducção moderna do
    _Sanctiago!_ de Affonso I, do _S. Jorge!_ do Mestre d'Aviz. Nas
    reminiscencias indeleveis de muitos de então, (bem poucos hoje) estavam
    ainda os vivas á Carta proferidos por labios que iam cerrar-se na morte,
    quando as bayonetas inimigas desciam inexoraveis sobre o peito ou sobre
    o ventre dos nossos soldados feridos e derribados[1]. Em nome da Carta
    se tinha desfeito o triangulo fatal do patibulo, e quebrado o ferrolho
    da masmorra e da enxovia, em nome della se tinham aberto para os
    foragidos as portas da patria que davam para os desertos do desterro, do
    desterro que é sempre solidão e desventura. A Carta fora como a estrella
    polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das
    tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade desses
    dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos,
    mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações
    novas.

    A razão, pois, e o sentimento falavam a muitos energicamente em favor
    das instituições annulladas. Falavam tambem a favor dellas a consciencia
    e a dignidade humanas. Tinham jurado manter essas instituições milhares
    e milhares de homens; milhares e milhares de homens as tinham nobremente
    mantido com o sangue, com as privações, com a resignação illimitada no
    sacrificio. Podem valer pouco os juramentos politicos; póde, até, ser
    absurdo o juramento em geral. Mas a quebra de promessas solemnes e
    espontaneas, seja qual for a sua formula, será sempre uma villania
    emquanto tiverem culto a honra e a lealdade.

    Taes eram os principaes incentivos que induziam grande numero de
    liberaes a constituirem um partido hostil á nova ordem de cousas. A
    denominação de cartista, que esse partido adoptou, não correspondia
    rigorosamente ás causas da sua existencia, nem aos seus intuitos ou á
    sua indole. Mas representava até certo ponto isso tudo, ao mesmo tempo
    que era conciso, e facilmente comprehensivel para o vulgo. O cartista
    não reputava todas as instituições, todos os preceitos da Carta como a
    mais alta manifestação da sabedoria humana. Nesta parte os liberaes eram
    em geral eclecticos. Tanto o partido da revolução, como o
    anti-revolucionario nenhum tinha em si unidade completa de principios;
    nem entre um e outro havia senão antinomias parciaes quanto ás doutrinas
    de direito politico. No primeiro, que tomava por base das ulteriores
    reformas uma constituição democratica, exagerada até o despotismo das
    turbas, havia individuos para quem, como o tempo mostrou, as theorias da
    democracia ainda mais moderada eram altamente odiosas, ao passo que
    outros forcejavam por chegar, senão á republica, ao menos a instituições
    republicanas. No partido cartista dava-se o mesmo phenomeno. Todas as
    modificações do governo representativo tinham ahi fautores; tinham-nos,
    talvez, até, as doutrinas do absolutismo illustrado. A meu ver, a
    distincção profunda e precisa entre o cartismo e o septembrismo
    consistia em negar o primeiro o principio da revolução, dentro das
    instituições representativas livre e solemnemente adoptadas ou acceitas
    pelo paiz, e em affirmá-lo o segundo. Tudo o mais em ambos os campos era
    fluctuante e vago.

    É essa a explicação de um facto que os homens daquelle tempo poderão
    testemunhar recorrendo ás proprias reminiscencias. Alistaram-se nas
    fileiras cartistas talvez mais individuos que haviam sido adversos aos
    ministros derribados, do que amigos e parciaes seus, ao passo que alguns
    destes abraçavam sem hesitar a revolução. De uns e de outros se deve
    crer que preferiam nobremente as suas opiniões aos seus interesses, ás
    suas affeições ou inimizades pessoaes. Para muitas dessas opiniões havia
    logar em ambas as parcialidades. Os que, porém, só attendiam á
    moralidade e cordura dos actos de administração ordinaria, lançavam-se,
    por via de regra, na revolução; os que, sem desattender taes questões,
    sem approvarem corrupções ou iniquidades a que eram extranhos e que
    tinham condemnado, remontavam a mais elevadas considerações de ordem
    moral e politica, abraçavam o cartismo. Não falo dos especuladores que
    se resolviam conforme as vantagens que se lhes antolhavam n'um ou
    n'outro campo. O proceder destes taes tinha na consciencia publica
    então, como depois, como sempre, uma qualificação conhecida.

    Mas, dir-se-ha, como nessa epocha se disse, que entre o cartismo e o
    septembrismo se dava uma distincção mais radical e profunda. A Carta,
    outorgada por D. Pedro IV, representava o direito divino dos reis; era
    uma concessão de senhor, em vez de um pacto social, ao passo que a
    constituição de 1822, derivada da soberania popular, era a consagração
    das doutrinas democraticas. Considerada a esta luz, a revolução adquiria
    as proporções de um facto gravissimo, porque assentava a liberdade em
    novos fundamentos, e vinha a ser um passo gigante dado na estrada do
    progresso politico.

    Na epocha, quasi exclusivamente liberal, em que se passavam aquelles
    successos, a resposta do cartismo a estas allegacões parecia facil. Não
    sei se o seria agora; agora que se tem achado e demonstrado, segundo
    parece, não prestar para nada o liberalismo. As intelligencias vigorosas
    da mocidade hodierna têem aberto caminho a theorias ou novas ou
    rejuvenescidas que nós os velhos de hoje e moços de então ou ignoravamos
    ou suppunhamos estereis, e talvez pueris, e de que sorriamos, quando
    alguns engenhos que reputavamos tão brilhantes como superficiaes,
    buscavam, evangelisando-as, jungir por meio dellas as turbas, más porque
    ignorantes, odientas porque invejosas, espoliadoras porque miseraveis,
    ao carro das proprias ambições. A questão da soberania popular não era
    precisamente o que preoccupava mais os entendimentos, cultos, mas
    tardos, daquelle tempo, e a democracia não apaixonava demasiado os
    animos, sobretudo os animos dos que haviam pelejado desde os Açores até
    Evoramonte as batalhas da liberdade, ou padecido na patria durante cinco
    annos, sem o refrigerio sequer de um gemido tolerado, as orgias do
    despotismo. Uns tinham visto de perto a face da democracia; tinham-na
    visto por entre a selva de oitenta mil baionetas que fora preciso
    quebrar-lhe nas mãos para a liberdade triumphar; tinham-na visto nas
    chapadas e pendores das collinas que circumdam o Porto, até onde os
    olhos podem enxergar, alvejando-lhe nos hombros os cem mil embornaes
    preparados para recolher os despojos da cidade da Virgem, da cidade
    maldicta, rendida e posta a sacco; outros haviam-na visto de machado e
    de cutello em punho, mutilando e assassinando prisioneiros inermes e
    agrilhoados. O liberalismo achara a catadura da democracia pouco
    sympathica. Restava a soberania popular. Essa funccionara durante cinco
    annos e dera mostra de si. A soberania do direito divino, repartindo com
    ella o supremo poder, provava que não era tão ignorante como a faziam.
    Tinha litteratura. Applicava, modificando-o, o verso:

    Divisum imperium cum _plebe_ Caesar habet.

    As classes inferiores constituiam então, como hoje, como hão de
    constituir sempre, a maioria do paiz, e foi a esta maioria que ella
    entregou os direitos que cedia. Era a legitimidade consagrando outra
    legitimidade. Amavam-se, comprehendiam-se ambas. É que entre as
    extremidades ha contacto ás vezes. A democracia americana cuida ter
    inventado a lei do Linch. Puro plagio. Inventou-a em Portugal a
    soberania popular. Havia uma differença. Na America a plebe prende,
    julga, condemna á morte e executa; em Portugal o direito divino
    reservara para si o tribunal excepcional e o privilegio do cadafalso.
    Modesta no exercicio do supremo poder, a soberania popular limitou-se á
    prisão, ao espancamento, á multa, elevada, quando occorria, até o
    confisco. Se o incendio, o estupro, o assassinio se ingeriam ás vezes
    nesses actos judiciaes, era por simples casualidade. Manchas, tem-nas o
    sol. O mercador, o artista, o industrial, o professor, o proprietario
    urbano e o rural, o homem de letras, o cultivador, o capitalista, todas
    as desigualdades sociaes, todos esses attentados vivos contra a perfeita
    igualdade democratica conservaram por muito tempo dolorosas lembranças
    do amplexo das duas soberanias.

    O liberalismo, que durante a contenda fora um pouco aspero para com a
    democracia, mais de uma vez tambem, empregara sacrilegamente a prancha
    do sabre e a coronha da espingarda para cohibir o excesso de zêlo
    administrativo e judicial da soberania popular. A brutalidade do
    liberalismo obrigara esta a abdicar após a abdicação da soberania de
    direito divino. Os dogmas, pois, em que se estribava a constituição de
    1822, e contra os quaes protestava a historia, ainda palpitante, dos
    ultimos annos, eram inefficazes, porque os tornava impotentes a
    heterodoxia das consciencias. Duvido de que nesses rudes tempos de
    positivismo liberal elles obtivessem uma só conversão sincera.

    O amor do real e do evidente era um dos grandes defeitos dos homens de
    então. O cartismo argumentava: «Que nos importa, dizia, d'onde veio a
    Carta? A questão é se ella consagra a liberdade humana e a cérca de
    garantias. É deficiente? É defeituosa? Esperemos que a razão publica, a
    torrente da opinião force os poderes do estado a completá-la, a
    corrigi-la. A opinião illustrada largamente preponderante é irresistivel
    nos governos livres. O que não é irresistivel é a opinião de alguns ou
    de muitos que benevolamente se encarregam de interpretar pelo proprio
    voto o voto commum, o voto dos que têem capacidade para o dar.–«Não se
    reputaria louco, accrescentava o cartismo, o representante de uma
    familia outr'ora opulenta, mas reduzida á miseria por espoliação remota,
    que, ao vir, por impulso espontaneo, o descendente do espoliador
    restituir-lhe os bens extorquidos, repellisse aquelle acto de nobreza e
    virtude, achando desar recuperá-los pacificamente? E se tal desar
    existiu; se a outorga da Carta e a tacita acceitação do paiz não podiam,
    aos olhos da metaphysica politica, elevá-la á altura de um pacto social,
    os immensos sacrificios que o restaurá-la, depois de abolida, custou á
    parte mais illustrada, mais rica, mais activa e laboriosa da nação, ás
    forças vivas da sociedade, e as torrentes de sangue e de lagrymas que
    serviram de sacro encausto á assignatura do paiz não valeriam bem o
    plebiscito da maioria inintelligente, o plebiscito daquellas classes
    inferiores que pelejaram até o ultimo extremo, senão com valor, de certo
    com ferocidade, para conservar essa monstruosa e horrivel soberania que
    a servidão lhes trouxera?

    Tem passado trinta annos depois daquella epocha; as paixões tempestuosas
    de então fizeram silencio, e o cartismo e o septembrismo são dous
    cadaveres sepultados no cemiterio da historia. O auctor da _Voz do
    Propheta_ contempla tão placidameute o seu opusculo como se mão extranha
    o houvera escripto. A experiencia e os desenganos fazem-no sorrir
    daquellas coleras, daquellas hyperboles dos vinte e seis annos. Quantos
    erros, quantas ignorancias em muitas das suas opiniões desse tempo! E
    todavia, ainda os sentimentos que inspiravam o cartismo no seu berço lhe
    parecem nobres e elevados, as doutrinas que constituiam a sua essencia
    solidas e justas. É innegavel que o credo democratico, em que os
    adversarios se estribavam, tem desde essa epocha adquirido numerosos
    sectarios. O velho liberalismo passa de moda. O dogma da soberania
    popular, proclamado como supremo direito, substitue o unico direito
    absoluto que elle reconhecia, a liberdade e os fóros individuaes. Isso
    passou: agora a igualdade civil, que era um consectario do dogma
    liberal, transfere-se para o mundo politico, e um nivel imaginario passa
    theoricamente por cima de todas as desigualdades humanas, perpetuas,
    indestructiveis. A paixão da liberdade esmorece, porque a absorve e
    transforma a da igualdade, a mais forte, a quasi unica paixão da
    democracia. E a igualdade democratica, onde chega a predominar, caminha
    mais ou menos rapida, mas sem desvio, para a sua derradeira
    consequencia, a annullação do individuo diante do estado, manifestada
    por uma das duas formulas, o despotismo das multidões, ou o despotismo
    dos cesares do plebiscito.

    O partido cartista tinha por si as grandes e recentes recordações, a
    consistencia politica, os bons principios que representava, e,
    sobretudo, o sensato e practico das theorias que predominavam entre os
    seus membros. Mas a eiva moral quasi que lhe começou no berço. O seu
    primeiro erro foi adoptar por chefes os homens eminentes que, pela
    gerencia dos negocios em situações difficilimas, tinham concitado contra
    si, como succede quasi sempre e a quasi todos, a animadversão publica,
    talvez a da maioria daquelles mesmos que acceitavam agora a sua direcção
    politica. Deviam honrar-se taes homens, embora muitos dos actos da sua
    administração não podessem defender-se, porque esses actos eram bem
    pequeno desconto aos immensos serviços que a liberdade lhes devia.
    Tomá-los, porém, por guias era acceitar uma parte da sua
    responsabilidade; era polluir a pureza das doutrinas com as manchas da
    fraqueza humana; era, sobretudo, arriscar que a irritação das paixões e
    os intuitos de desaggravo dirigissem o procedimento de um partido novo e
    cheio de vida, que só deveriam inspirar a razão tranquilla e a
    applicação logica das proprias doutrinas. Deste primeiro erro nasceram
    as tentativas infelizes de contra-revolução. Essas tentativas não podiam
    reputar-se crime, porque o elemento revolucionario tinha entrado como
    formula politica no direito publico do paiz, mas eram altamente
    illogicas em relação á índole e ao symbolo do cartismo. Por outro lado,
    o governo da revolução mostrava-se, ao mesmo tempo, tolerante para com
    as opiniões e energico em cohibir excessos. Por isso o partido cartista
    podia contar com a victoria incruenta que na urna lhe havia de dar o
    paiz; victoria para os principios, e não desaggravo para as paixões
    irritadas. Que este resultado era seguro, provaram-no os factos. Vencido
    na guerra civil, desauctorisado e moralmente enfraquecido, o cartismo
    viu triumphar em grande parte as suas idéas na contextura da
    constituição de 1838, votada por umas constituintes onde os vencidos
    estavam representados por insignificante minoria. Era a condemnação
    solemne da revolução, lavrada por um parlamento eleito debaixo da
    influencia della. O que no novo codigo politico parecia mais opposto á
    indole da Carta era a organisação da segunda camara, e todavia o
    cartismo adquiria por aquelle meio uma arma poderosa para de futuro
    reformar constitucionalmente o que havia mau na recente organisação de
    um dos corpos colegislativos, de modo que nem se restaurasse o absurdo
    pariato hereditario e illimitado, nem a assembléa conservadora
    significasse apenas a interposição de uma parede entre duas porções de
    parlamento unico. Uma vez que o senado procedia simplesmente da eleição,
    logo que o cartismo obtivesse a preponderancia eleitoral, dominaria
    completamente em ambas as camaras. Dentro em dous annos, de feito, o
    predominio do cartismo era indubitavel.

    O ulterior procedimento deste partido estava estrictamente determinado
    pela sua origem e pelo seu passado. Como vimos, não era tanto a sua
    indole menos democratica, o seu apego á liberdade e aos direitos
    individuaes com preferencia a tudo, que o caracterisavam. Sans opiniões,
    erradas opiniões, havia-as tanto n'um como n'outro campo. O que
    constituia a essencia do cartismo era a lealdade ao juramento; a
    lealdade viril no cumprimento da palavra dada pelo homem honrado quando
    a dá no pleno uso do seu alvedrio. Os cartistas tinham feito tudo quanto
    materialmente podiam, mais do que moralmente deviam, para supprimir a
    revolução. Não o tinham conseguido, e ella fechara o periodo da sua
    duração, protestando na lei politica decretada pelas constituintes
    contra a propria origem, contra a sua razão de ser. A constituição de
    1838 era um campo neutro onde todos se podiam encontrar pacificamente e
    procurar, sem sair da legalidade, o predominio das respectivas opiniões.

    E o cartismo entrou naquelle campo. Quando o paiz viu os homens que tão
    tenazmente haviam mantido a fé que deviam ao seu juramento, jurarem
    solemnemente o novo pacto, acreditou que falavam verdade, e que o cyclo
    das revoluções terminara. Passados tempos, a urna provava aos cartistas,
    de modo indubitavel, que nas classes influentes, nas forças vivas da
    sociedade, a preponderancia era sua. No fim de tres annos podia-se dizer
    que o triumpho moral do cartismo estava consummado. O poder e o futuro
    pertenciam-lhe.

    Um facto inopinado veio então desbaratar todos os calculos, desmentir
    todas as previsões. Uma grande parte, ou antes a maioria desse partido,
    cuja essencia era a lealdade a solemnes promessas, e a execração das
    revoluções no seio de um paiz livre, hasteou subitamente a bandeira
    revolucionaria, substituindo ao motim da plebe o unico motim peior do
    que elle, o da soldadesca. Quebrando inutilmente o seu ultimo juramento,
    derribava a constituição do estado e proclamava o restabelecimento da
    Carta pura, que, sem os acontecimentos de 1836, os mesmos homens que a
    achavam agora um codigo perfeito teriam constitucionalmente modificado.
    É que á victoria dos principios faltava um laurel, o desaggravo do amor
    proprio offendido. O partido cartista suicidava-se juncto, ao altar da
    vaidade, e amortalhava-se a si proprio, morrendo, no estandarte da
    revolução.

    Depois houve muitos que continuaram a chamar-se cartistas, porque os
    vocabulos são propriedade dos homens, e a propriedade, conforme o velho
    direito, consiste na faculdade de usar e abusar. Era como os graus e
    veneras das ordens de cavallaria extinctas. Enfeitam, mas correspondem
    ao nada. Symbolos vãos sobre um sepulchro. Para a historia, como a
    historia ha-de ser quando de todo houverem calado as paixões dos que
    intervieram nessas tristes luctas, o cartismo tinha expirado com a
    restauração da Carta.

    [Nota de rodapé 1: Assim vi morrerem alguns soldados do 5.° de caçadores
    e voluntarios da Rainha no temerario reconhecimento de Vallongo, que
    precedeu a batalha de Ponte-Ferreira.]

    A VOZ DO PROPHETA

    PRIMEIRA SERIE

    Et irruet populus, vir ad virum, et
    unusquisque ad proximum suum:
    tumultuabitur puer contra senem et
    ignobilis contra nobilem.

    ISAIAS, III-5.

    I

    O Espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze
    resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade.

    E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos.

    Povo!… breve soará a tua hora extrema: tu mesmo a assignalaste no
    decorrer dos tempos.

    O anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolação, e tu danças e
    folgas ebrio das tuas esperanças.

    Essa terra que pisas crês que é um solo remido por tuas mãos: repara
    porém; olha que é um sepulchro.

    Amplo é o sepulchro de um povo: dentro em breve tu ahi calarás para
    sempre.

    Creste-te forte, porque sabes rugir como a panthera: mas somente Deus é
    grande.

    Encheste o vaso das tuas iniquidades; elle trasbordou, e a terra ficou
    polluida.

    Maldictos os nomes dos que accenderam o volcão popular; nomes
    abominaveis perante o céu e a terra.

    Portugal foi pesado na balança da eterna justiça, e a Providencia
    retirou a mão de cima delle.

    Derribem-se os altares, cerrem-se as portas dos templos: Deus já não
    acceita os sacrificios, nem ouve as preces deste povo, senão como uma
    expressão de escarneo.

    E como o aquilão varre a folha secca do outono, o sopro do Senhor
    varrerá da face da terra esta raça corrompida e immoral.

    II

    O que tem ouvidos para ouvir ouça: o que tem olhos para ver veja: o que
    tem coração para se contristar, contriste-se.

    O povo tinha a liberdade e quiz a licença; tinha a justiça e quiz a
    iniquidade: o povo perecerá.

    Desgraçado daquelle que anda fóra dos caminhos do Senhor: correndo
    despelado por despenhadeiros, sentir-se-ha por fim baqueiar no fundo de
    um precipicio.

    Porque a lei e a virtude foram postas no mundo para proveito do homem,
    não para proveito de Deus.

    Quando uma nação quebra todos os laços sociaes, della será todo o damno.

    Para as turbas o cheiro do sangue é perfume suave; o roubo gloriosa
    conquista.

    E ellas se fartarão de sangue e de rapinas com a voluptuosidade atroz do
    anthropophago que se banqueteia com os membros semivivos do seu
    semelhante.

    Porque a plebe desenfreiada é como o phantasma do crime, como o espectro
    da morte, como o grito do exterminio.

    Horrível é o aspecto do empestado, que, entreabrindo o lençol que lhe
    servirá de mortalha, descobre as pustulas, donde mana a podridão e o
    cheiro da sanie, e que por entre os labios amarellos e os dentes
    cerrados deixa fugir o som rouco do estertor.

    Mas para o homem honesto, que contemplar uma scena das raivas da plebe e
    ouvir as suas blasphemias e vir as faces hediondas dos homens
    dissolutos, será como allivio a asquerosidade das chagas, o halito podre
    e o rouco estertor do empestado.

    III

    E o povo continúa a dançar em roda do seu mesmo sepulchro.

    E as outras nações meneiam a cabeça em signal de compaixão.

    Os tyrannos sorriem e dizem por escarneo aos homens virtuosos: ide, e
    dae a liberdade ás turbas: erguei á dignidade de homens livres servos
    devassos e educados no lodo: elles vos pagarão com a unica moeda que
    guardam em seus thesouros.

    A relé popular é chamada as fezes da sociedade, não porque é humilde,
    não porque é pobre, mas porque é vil e malvada.

    O sabio e o virtuoso indigentes são mais nobres do que os grandes da
    republica, do que os dominadores da terra.

    O ferrete da abjecção e da infamia estampa-se em qualquer fronte sem
    excepção de berço, e aos que trazem este signal de reprovação é que a
    philosophia chama escoria da sociedade.

    A medida por que Deus conta os graus dos meritos da vida é a da pureza
    de coração; é a do aperfeiçoamento da intelligencia.

    Os typos das diversas alturas a que sobe o espirito humano na carreira
    indefinita da perfeição formam como uma pyramide, cuja base assenta no
    fundo de um tremedal, cujo ápice se esconde no interior dos céus.

    Muitos nasceram no infimo da pyramide e subiram a grande altura: outros
    de grande altura desceram a mergulhar-se no lodo.

    E tanto a uns como a outros julgará a immutavel justiça de Deus.

    IV

    Os soldados da liberdade morreram nos combates da patria e misturaram o
    seu sangue com o sangue dos satellites da tyrannia: os seus ossos
    alvejam nas serras e nos valles, como alvejam as ossadas dos servos com
    quem combateram.

    Foi sasão essa de abundante messe de almas puras para o céu. Consolem as
    lagrymas dos justos as cinzas desses valentes.

    Eram apenas um punhado; a morte ceifou os mais delles; o resto já não
    tem força senão para pranteiar sobre as ruinas da patria.

    E o vidente pranteiará com elles, porque o Senhor lhe amostrou o futuro.

    Se os homens do desterro e das tempestades podessem levantar-se da sua
    jazida, a terra de antigas glorias ainda seria salva: mas elles dormem o
    perpetuo somno do repouso.

    E foi o ultimo leito honrado em que portugueses se reclinaram no seu dia
    extremo.

    Felizes os que então se despediram do sol e misturaram com a terra o pó
    que lhes emprestara a terra.

    Os dias dos que restamos não eram ainda contados; porque nossos erros
    pediam a punição do opprobrio.

    O Senhor nosso Deus é justo; curvemos a cabeça diante da sua
    Providencia.

    V

    Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo; tão
    formosos, quão negros estes em que a plebe peleja pela licença.

    As nossas armas vomitavam a morte: semeiava-a tambem o inimigo pelas
    nossas fileiras: e nós estavamos firmes nos pincaros das montanhas, ou,
    descendo, faziamo-las resoar debaixo de nossos pés.

    E arrojando-nos aos contrarios, as bayonetas reluziam á luz do sol; e o
    tinido dos ferros encontrados, e o clamor dos feridos, e o estampido dos
    tiros reboavam pelas quebradas dos valles.

    Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o
    triumpho era para nós um delirio; porque o combate fora de homens
    valentes.

    Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina é a historia do
    nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperação de todo o
    humano soccorro dobraram a robustez de corações ousados.

    Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.

    Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de sóes ardentes, e
    as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como
    a urze já morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e
    supportavamos a sede.

    Encostados a mal construídos vallos e cercados por quarenta mil
    soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A
    chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros
    mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.

    Ou se as cataractas do céu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu
    sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.

    Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao
    redor de nós tudo estava devastado, e não havia um unico tronco para
    alimentar a fogueira do arraial.

    E o frio recalcava a vida toda no coração do soldado; e elle sem um
    lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.

    A fome apresentou-se diante de nós: medonho era o seu aspecto: os
    membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mãos.

    Mas o amor da patria estava vivo em todos os corações. A Providencia
    infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.

    Gloria a Deus!–Os ultimos portugueses saíram illesos da prova. Os
    antigos cavalleiros os receberam como irmãos lá onde são com o Senhor.

    Bemaventurados os que deixaram esta terra de lagrymas, porque não viram
    que o seu sangue fôra derramado em vão.

    VI

    E depois dos combates íamos sepultar os mortos.

    No campo da batalha abria-se uma grande cova, e simultaneante se
    lançavam nella os cadaveres de amigos e de inimigos.

    Porque além do limiar do outro mundo calam todos os humanos odios.

    E o tecto de terra estendia-se sobre os muitos que ahi dormiam no mesmo
    jazigo.

    E algum pranto derramado sobre o pó revolto, e as preces da igreja
    proferidas pelo sacerdote consolavam os extinctos.

    Plantava-se a cruz sobre a gleba para consagrar a memoria dos mortos;
    para pedir a esmola da oração ao que passasse, e para lhe annunciar que
    todos os que alli repousavam eram irmãos por Jesu Christo; eram irmãos
    pelo sepulchro.

    Perdoavamos para sermos perdoados: perdoavamos porque eramos fortes.

    VII

    Alevantou-se a plebe, e logo commetteu um crime.

    Agitava-se e ondeiava pelas ruas com clamor inintelligivel; arrastava-a
    o espirito das turbulencias civis.

    Um homem inerme passou por entre os amotinados: era um dos votados ao
    exterminio: muitos tiros e golpes partiram do meio da turba, e o homem
    cahiu exangue e sem vida.

    E arrastaram até o cemiterio publico, ao som de injurias e risadas,
    esses restos que a morte sanctificara. As maldicções do odio mais
    profundo param á beira do tumulo. A maldicção popular, essa é que não
    parou ahi.

    Soterraram por meio corpo o cadaver e cuspiram naquellas faces lividas
    aonde já não podia subir do coração o rubor, e que os olhos cerrados não
    podiam já mundificar com lagrymas.

    E esse homem assassinado e arrastado e cuberto da escuma fetida da
    gentalha, fora um dos que salvaram o povo do cutello dos tyrannos.

    Plebe: commetteste um assassinio, e serás julgada. A ferro morrerá o que
    ferir com ferro: disse-o o Propheta do Golgotha.

    Deixaste acaso a face da tua victima descuberta para monumento do crime?

    Quizeste porventura desafiar a eterna justiça, e convocar a combate o
    Regedor dos mundos?

    Se na tua maldade e soberba assim o pensaste, sabe que baldada foi a
    profanação da sepultura.

    Se nos confins da terra sumisses o morto; se o escondesses nos abysmos
    do oceano; se o arrojasses na cratera de um volcão encendido, lá Deus o
    havia de divisar.

    Porque todo o gemido do moribundo resoa até o throno do Eterno.

    Preparae-vos, vermes, se tanto ousaes: porque o Senhor se erguerá sobre
    os orbes, e o estridor da setta exterminadora sibillará atravez do
    Universo: ella se cravará na terra que pisaes e passareis como o fumo.

    Ai daquelle que, impenitente, acordar ao som da ultima trombeta tincto
    no sangue injustamente derramado de algum de seus irmãos!

    Em verdade vos digo que para esse já não ha perdão, mas só o ranger de
    dentes e o bramir sempiterno.

    VIII

    Povo! Onde estão os teus sabios, os teus generaes, os teus nobres, os
    teus abastados, os teus homens virtuosos!

    Os timidos escondem-se diante da tua sanha: os valentes, não podendo
    combater com as turbas, erram no oceano á mercê das tempestades.

    E é a segunda vez que se affrontam com ellas por amor da liberdade e da
    lei.

    Deus proverá os foragidos, como provê de sustento os animaes que
    vagueiam na terra e as aves que cruzam os ares.

    E os timidos que, ouvindo o rugido da plebe, se embrenham por antros de
    serranias, por profundezas de bosques, confiem tambem no Senhor.

    Porque delle vem a salvação para os bons no dia da cólera e do castigo.

    Que os perseguidos se consolem lembrando-se dos proprios erros, porque
    ninguem se isenta da culpa, e antes remi-la neste valle do desterro, do
    que além da sepultura.

    O que padece não deve queixar-se, nem rebellar-se contra a Providencia:
    porque essa queixa inspira-a a soberba.

    Que é um homem em comparação de uma cidade; uma cidade em comparação de
    um povo: um povo em comparação do genero humano; o genero humano em
    comparação do Universo?

    E que intelligencia é capaz de medir a distancia que vai do primeiro ao
    ultimo?

    Milhões de milhões de vezes menos importa a existencia de um individuo
    na somma das existencias, do que na pyramide de Cheops o mais miudo grão
    de argamassa importa á solidez do monumento.

    Emquanto vive na terra, o homem é um atomo na immensidade: grande será
    depois da morte no reino do céu; grande ainda entre os bramidos do
    inferno.

    Porque para elle existe a eternidade só então: só então comprehende a
    omnipotencia de Deus.

    IX

    Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus
    irmãos, e cobriu-os de opprobrio.

    Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingança, e o perjurio: em
    nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o
    exterminio.

    Mas o dia da punição chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam
    o seio de Deus.

    Elle estendeu o seu braço, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre
    em milagre. Então os impios dobraram a cerviz altiva.

    As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo
    vinha-nos daquelle que é fonte e origem de toda a humana virtude.

    Vestia-se então a maldade dos trajos puros da religião para perpetrar
    impunemente crimes: hoje abriga-se á sombra da arvore sancta da
    liberdade para assolar a terra da nossa infancia.

    Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vêem nus os corações
    em toda a hediondez da sua perversidade!

    A justiça celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o
    remorso.

    E a hora da tribulação e das angustias chegará para os malvados; e elles
    amaldicçoarão o ventre materno e os peitos que os amamentaram.

    X

    Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e
    arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.

    Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.

    Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te
    liberdade, e achar-te-has servo.

    A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente
    podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os
    outros assassinar-te.

    Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem
    mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.

    Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que
    deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;

    Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe
    para as mãos d'algum despota que a devore.

    Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com
    palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a
    ambos.

    Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á
    custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.

    Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade
    não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.

    Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a
    liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e
    queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das
    facções nos fez inimigos uns dos outros?

    Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura
    nascerá a concordia do meio das sedições?

    XI

    Se no coração de algum dos concitadores da anarchia existe vislumbre de
    virtude, ai delle! Ai delle, se a sua alma é inteiramente negra!

    Porque de qualquer dos modos um abysmo está cavado debaixo de seus pés:
    na estrada do arrependimento o da vingança popular, no seguimento do
    crime o da justiça de Deus.

    Elles revelaram á multidão o segredo da sua força, e as turbas os
    levarão diante de si.

    O leão ruge livre na arena, e o conductor que o desatrellou cumpre que
    mais ligeiro lhe preceda na carreira, aliás será o primeiro que elle
    desfaça entre as garras.

    Aquelles que hoje são o amor das turbas serão chamados por ellas para
    presidirem a conselhos de sangue, a longos dramas de destruição e de
    angustias.

    E se a consciencia lhes clamar com a voz do remorso, e se tremulos
    quizerem retroceder, a plebe lhes dirá–ávante!

    E se ousarem implorar piedade para com as victimas do desenfreiamento e
    da barbaridade, rir-se-ha a plebe, e gritar-lhes-ha–ávante!

    E se, aterrados da altura do precipicio, voltarem atrás um passo, este
    passo será o extremo: a plebe os anniquilará.

    Elles encheram o calice das amarguras publicas: os justos o beberão aos
    tragos; mas as fezes serão para os escanções do banquete popular.

    A salvação unica do instigador de revoltas e uniões está em admittir
    todas as consequencias dellas.

    E então forçoso lhe é tornar-se conspicuo no crime e revolver-se no
    sangue.

    Mas qual será a eternidade de tal homem?

    Deus não deu palavras ás línguas da terra para o dizerem. É esse um dos
    mysterios do inferno.

    XII

    Temo as horas caladas da noite, e o coração aperta-se quando o somno me
    pesa sobre as palpebras amortecidas:

    Porque para mim o somno não é repouso, e os phantasmas das sombras são
    mais crueis do que as crueis realidades do dia.

    Deus converteu a sua voz no meu pensamento e collocou nos meus labios o
    grito da sua colera.

    O seu verbo desfará a minha alma, como o ar aquecido dilatando-se dentro
    do vaso o desfaz em fragmentos.

    O espanto cerca-me no meio das trevas, e o futuro está parado diante de
    mim como um pesadello eterno.

    Em um momento reune o Senhor na minha alma as dores com que por largos
    dias gemerá esta desventurada patria.

    E, em sonhos, oro ao Deus de nossos paes; mas na sua ira o Altissimo
    repelle as minhas preces; e acordo debulhado em lagrymas.

    Este acordar arremessa-me á vida actual, a esta atmosphera de
    depravação, ao meio do deshonesto tumultuar de um povo corrompido.

    E a oração, que em sonhos ousara levantar a Deus, cahe gelada na terra
    ao som das pragas e blasphemias da turba desenfreiada.

    XIII

    Eu vi uma visão do futuro, e o Senhor me disse: vai e revela-a na terra.

    Como em panorama immenso, um reino inteiro estava diante dos meus olhos.

    E nas duas cidades mais populosas delle homens de má catadura começavam
    de agglomerar-se nas praças e a trasbordar pelas ruas.

    E nos campos e nas aldeias outros homens com aspecto de reprobos
    começavam tambem a apinhar-se nos passos das serras, nas assomadas das
    montanhas e nas clareiras das florestas.

    E tanto nas faces dos filhos dos campos, como nas dos habitadores das
    cidades adivinhava-se o grito de exterminio que bramia no fundo dos
    corações.

    Os magotes de serranos fundiram-se n'uma só turma; e o mesmo succedeu
    aos das cidades.

    E cada uma das turmas se converteu em uma besta-féra, que se assemelhava
    ao tigre.

    Agigantada era a sua estatura, e na fronte de uma lia-se–Fanatismo–e
    na da outra–Desenfreiamento.–

    Com os olhos tinctos em fel e sangue, correram então os dous monstros um
    para o outro, ergueram-se em pé e estenderam as garras.

    No mesmo instante abriram-se os céus: dous grandes cutelos afiados e
    dous fachos encendidos cahiram juncto das alimarias ferozes.

    E nas laminas dos cutelos estavam escriptas com letras de fogo as
    palavras seguintes–Maldicção de Deus.

    E cada uma das alimarias segurou com a esquerda um dos fachos, e com a
    direita um dos cutelos.

    A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram
    em um momento áridos e ermos.

    E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde
    ellas foram estavam dous montões de ruínas.

    Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e
    renderam os espiritos.

    Então as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que
    significava a visão.

    Mas enxugando-os, tornei a lançá-los para o logar da peleja.

    E vi uma solidão safara e negra, sobre a qual a perder de vista para
    todos os lados alvejavam milhares de ossadas.

    E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se
    Assolação e Silencio.

    XIV

    Era uma noite serena, e, ao clarão da lua, a sombra de templo antigo
    estirava-se no terreiro contiguo.

    Os sinos dormiam nos campanarios das torres erguidas, e tudo estava
    calado no ambito do monumento religioso, herdado aos homens impios deste
    seculo pelos homens crentes dos tempos que foram.

    Atravez das esguias e ponte-agudas janellas da igreja transverberava na
    praça a luz amortecida das alampadas penduradas ante as capellas
    desertas.

    Era a hora em que se passam cousas mysteriosas por adros e cemiterios, e
    em que vagueiam pela terra os mortos condemnados a assim cumprirem com
    sua justiça.

    N'um angulo do terreiro estava eu. Não sabía que mão me tinha para alli
    arrastado; mas era a mão de Deus.

    Ao longo de uma rua que naquelle logar desembocava vinha ondeiando um
    turbilhão negro, cujo rugido era semelhante ao rugido do pinhal da
    montanha em noite tempestuosa.

    E parecia aquelle grande vulto um fragmento do cahos, a quem, de todos
    os elementos de harmonia e de ordem, só o Creador concedera o movimento.

    E chegou o tumulto diante da igreja e espraiou-se por toda a praça, e
    houve profundo silencio.

    E um homem alevantou a voz no meio do tropel, que pendia de seus labios,
    e disse:

    «Vós sacudistes o jugo dos poderosos, e o nome de rei e o titulo de
    nobre são palavras sem significação na linguagem de nação regenerada.

    O povo que jazia no lodaçal alevantou-se como gigante de prodigiosa
    altura, e estendendo os braços, estreitou os palacios dos abastados e
    dos potentados: os pannos dos muros vacillaram nos seus fundamentos de
    marmore e de granito, e começaram de desmoronar-se e baqueiaram por
    terra.

    E o gigante popular riu-se e assentou-se em cima de montões de ruinas.
    Foi este dia dia de sempiterna gloria.

    Mas os monumentos da credulidade e do fanatismo de nossos paes ainda
    assoberbam a cidade dos homens livres. A hypocrisia abriga-se á sombra
    dos altares e invoca, talvez contra nós, um Deus que não existe.

    O unico Deus de corações generosos é a liberdade. Quando cumpre, o altar
    della é o cadafalso: o seu sacerdote o algoz: o seu culto verter o
    sangue dos tyrannos.

    A religião que tem por fundamento a humildade e a abnegação de si é a
    religião dos servos.

    É por isso que nossos paes foram servos.

    Amaldicçoemos, pois, o nome dos que nos geraram e derribemos a obra da
    superstição.

    E cada um daquelles precítos amaldicçoou seu pae. Os cabellos
    erriçaram-se-me de horror.

    Então a turba arrojou-se ao portal do templo, e os largos ferros dos
    machados scintillavam erguidos e faziam estourar as portas. Pelas naves
    da igreja retumbava um gemido longo e sonoro.

    E o terreiro ficou esgotado dessas ondas de povo, vertidas pelo ádito da
    velha cathedral dentro de seu amplo recincto.

    Como os vermes se arrastam vagueiando pelos membros do cadaver, assim os
    homens do sacrilegio se espalharam, arremessando-se aos altares e a
    todos os logares onde reluzia a prata ou o ouro.

    E cuspindo sobre a hostia do Cordeiro, pisavam-na aos pés e motejavam do
    Crucificado.

    E despido o templo das riquezas alli depositadas em testemunho da
    piedade de seculos, os impios saíram delle carregados de despojos.

    Depois, accendendo fachos, lançaram-lhe fogo por todos os angulos, e
    breve as chammas se ergueram ao céu com espantoso ruido.

    O estalido das pedras que se desconjunctavam, e o fragor das abobadas
    desabando, e o estridor do incendio, que trepava em espiraes pelas
    columnas e se estendia em lençoes vermelhos, lambendo a face dos muros,
    e o ultimo gemido dos orgãos era a orchestra deste sarau popular.

    E a plebe folgava de roda, e embriagava-se, passando de mão em mão as
    taças do vinho espumoso, e tecendo danças com as mais vis prostitutas.

    Tal foi o sonho do futuro que o Senhor me enviou n'uma noite de agonia.

    XV

    O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.

    Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo
    quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor
    a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo
    signal que os distinguia dos espiritos das trevas.

    Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e
    nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.

    Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas
    construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons
    religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios
    melancholicos da poupa solitaria.

    E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se
    assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem
    feita para o uso da vida.

    Approximei-me. Era o patibulo.

    Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á
    mercê da brisa da noite.

    E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bôca meia aberta
    gotejava-lhe a espaços o sangue.

    Eu estava com os olhos cravados nelle, e não os podia despregar do homem
    do patibulo.

    E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto íam-me a
    romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e
    com força.

    Á primeira palavra de oração que proferi, um estremeção agitou o cadaver
    do justiçado.

    E sem mecher os beiços murmurou sons inarticulados: depois proferiu
    algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.

    Cala-te!–disse o cadaver.–A eternidade é já minha. Deus riscou-me do
    livro da vida: maldicto seja o seu nome!

    Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.

    A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz
    nunca ensinou senão a destruição.

    Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licença, como os
    hypocritas da religião pregoam a intolerancia e o exterminio.

    Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que
    suscitei o primeiro dia de furor popular.

    Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia
    fragmentos de virtude, mas cuja ambição era cega.

    Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que não
    fossem tão dissolutos como ella.

    Deixei na arena dos bandos civis todos os meus émulos, e abandonei o
    paiz que de futuro devia ser minha prêa.

    Quando voltei, o povo tinha feito pedaços os seus idolos de um dia, e
    havia-os sumido debaixo dos pés das turbas.

    Era então que começava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no
    livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.

    Milhares deixaram a cabeça debaixo do cutelo do algoz: milhares
    volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.

    E este baraço que ora me sobreleva do chão ainda o achei aquecido do
    collo da minha ultima victima.

    Fartei a sede de vingança e de sangue que mirrava o meu coração, e morri
    seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os
    virtuosos.

    O tyranno do céu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude
    apagar o seu nome na terra que me deu o berço.

    Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a oração
    calou para todo o sempre.

    Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada
    vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.

    Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, não os tinha ainda
    conhecido, porque se arrastavam hontem em regiões obscuras; aliás
    ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.

    Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos
    fecharam-se-lhe, e a cabeça pendeu-lhe para o peito.

    Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou não
    revelasse o seu nome.

    XVI

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Era por noite fria de inverno: n'uma quadra desadornada de palacio meio
    arruinado jazia um homem em pobrissima enxerga.

    No seu rosto estava pintada a doença e a fome, as bagas do suor da morte
    transudavam-lhe da fronte, e dos olhos fugia-lhe a lagryma extrema do
    moribundo.

    Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio; e o homem tremia, e
    os dentes batiam-lhe uns contra os outros.

    E no seu delirio o misero soltava palavras cortadas.–Agua!
    agua!–dizia; porque a sede lhe roía as entranhas. E não havia quem lhe
    desse um pucaro de agua.

    Tribunos da plebe, dae-me um pouco de pão. Ah! bem negro que seja! que
    tambem eu sou do povo.–E lançava os olhos para os seus farrapos.

    Fui nobre e rico; mas esquecei-vos disso! Perdoae-me, porque nada me
    resta: tão pobre sou como o mais humilde mendigo, que d'antes estendia a
    mão para o ultimo dos meus servos.

    E o homem sorria, e o seu riso significava a desesperação da sua alma.

    Depois olhou para um crucifixo que estava encostado á parede, e estendeu
    para lá os braços.

    Mas não havia quem lhe unisse ao peito a imagem do Salvador: não havia
    um sacerdote que lhe desse o extremo _vale_.

    Então deixou descahir os braços, fechou os olhos, e morreu. Sobre o
    cadaver ir-lhe-ha amontoando o tempo as ruinas dos paços que lhe
    herdaram seus paes.

    E será esta a campa republicana do homem que foi nobre e abastado.

    XVII

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Era o dia da lucta das facções: era um dia de ampla carnificina.

    E o demonio do meio-dia pairava sobre a cidade do sangue, e blasphemava
    do Senhor.

    O povo corria furioso e tumultuava; e os tiros e golpes soavam pelas
    praças, pelas ruas e pelas encruzilhadas.

    O gemer dos feridos, as pragas dos vencidos, e as ameaças dos vencedores
    conglobavam-se em rumor semelhante ao arquejar de volcão.

    As portas dos edificios estouravam pelos gonzos e fechaduras, e a plebe
    clamorosa entrava de tropel até o mais recondito das habitações.

    E o ulular das mulheres, e o vagido dos infantes e o chôro dos velhos
    rompiam por entre o clamor da matança.

    Mas a lascivia e o punhal breve punham o sello do silencio nas frontes
    de inteiras famílias.

    No recontro das diversas parcialidades os irmãos assassinavam os irmãos,
    os filhos assassinavam os paes.

    Porque á voz das sedições, o povo tinha quebrado, depois dos laços
    sociaes, os vinculos da natureza.

    E o roubo, a dissolução, a morte e o incendio estavam assentados nos
    quatro angulos de uma cidade outrora populosa e rica.

    Estas eram as divindades que adorava a plebe nos dias da licença e do
    furor.

    XVIII

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Nas abas de uma serra das provincias do norte ainda as casinhas de
    pequena aldeia alvejavam certa manhã ao despontar o sol.

    E nas assomadas dos montes, e nos comoros dos outeiros ondeiavam os
    cimos dos pinhaes agitados pela viração matutina.

    A aldeia e os campos que a rodeiavam eram, no meio deste paiz assolado,
    como o vulto da esperança erguido sobre a lousa do sepulchro.

    E os habitantes pacificos do valle não sabiam que as tempestades
    politicas trovejavam além das suas montanhas.

    Mas nesse dia souberam-no para morrerem. O raio da furia popular
    fulminou-lhes a destruição.

    Bandos de soldados negrejavam em ondas descendo para a planicie; e os
    primeiros raios do sol espelhavam-se nas suas armas.

    E seguiu-se mais uma scena de carnificina, como tantas que eu tinha
    visto em meus sonhos do futuro. O ultimo abrigo da felicidade neste
    mal-aventurado paiz foi reduzido a cinzas.

    Os velhos morriam abraçados aos troncos dos carvalhos e castanheiros,
    seus veneraveis amigos da infancia, que tinham testemunhado a ventura de
    seis gerações inteiras.

    Os moços cahiam combatendo pela salvação dos paes, das esposas e dos
    filhos; mas, inexpertos nas armas, levemente eram vencidos da soldadesca
    feroz.

    Na ermida do presbyterio buscaram as mulheres indefensas guarida contra
    os assassinos; porque as desgraçadas não sabiam que a religião tinha
    fugido desta terra dos crimes.

    Alli, ante o altar do Senhor, foram vilipendiadas e saciaram a bruteza
    dos filhos da dissolução.

    E no dia seguinte, nos soutos e nos pinhaes da encosta ouvia-se tão
    somente o murmurio das ramas; e no meio do valle fumegava um monte de
    cinzas.

    XIX

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    N'uma vasta sala estavam congregados muitos homens de aspecto feroz e em
    cujos olhos faiscavam as coleras immensas dos bandos civis.

    Chamavam-se estes homens os legisladores, os eleitos do povo.

    Vans denominações eram essas: a lei residia na vontade mudavel da plebe;
    e elles eram em grande parte mandados para aquelle recincto pela
    parcialidade que então triumphava.

    De roda, em balcoens erguidos, agitava-se a plebe tumultuosa.

    Alli se lavravam os decretos de exterminio: e era, ouvindo-os, que as
    turbas victoriavam os homens do sangue.

    Mas, se aos labios de algum assomava uma palavra de humanidade, e se
    ousava proferi-la inteira, os gritos de traição e de morte
    recalcavam-lhe das faces para o coração esse impensado impeto de
    piedade.

    Neste dia pelejavam as parcialidades nas ruas para decidir quem tinha
    direito de commetter mais crimes: era dia de abundante colheita para o
    sepulchro e para o inferno.

    Mas ao recincto, outrora chamado o sanctuario das leis, não chegava o
    clamor do combate: porque ahi a discordia excitava alaridos e, sacudindo
    o seu facho, encendia os animos de uns contra outros, Luctavam tambem as
    parcialidades lá dentro.

    Na praça publica a victoria convertia a final o que naquella assembléa
    se chamava minoria facciosa em irresistivel maioria. A plebe soberana
    annunciou-o aos legisladores, fazendo estourar a golpes de machado as
    portas da immensa quadra, onde o vozeiar não era de ardentes debates,
    mas sim de pugilato infrene. A turba-rei precipitou-se como torrente: o
    tumulto ondeiou pela sala espaçosa, e houve um momento de ancia e de
    silencio.

    Então os punhaes reluziram erguidos e desceram com força; e os gritos e
    as pragas e as blasphemias misturaram-se com o estertor dos moribundos.

    E a plebe nos balcoens batia as palmas, e dizia entre risadas:–_viva!_

    Tal foi a ultima scena de meus sonhos; e nada mais me revelou o Senhor.

    XX

    O Filho do Homem comprazia-se em ensinar a sabedoria por meio de
    parabolas: na parabola está a philosophia do povo.

    Um agricultor possuia certo campo que não produzia senão fructos
    enfezados; porque o solo se havia tornado sáfaro por falta de cultura
    durante largos annos.

    Porém ainda, aqui e acolá, pela extensão da veiga, vecejavam algumas
    arvores e cepas de boas castas, e que só de maltractadas pareciam
    bravias.

    E este agricultor morreu, deixando o campo de seus paes a tres filhos
    que tinha; e estes tractaram entre si ácerca do que deviam fazer da
    herança paterna.

    E o mais velho disse:–Respeitemos a memoria de nossos antepassados, e
    deixemos aos que de nós vierem o campo que herdámos do mesmo modo que o
    recebemos:

    Porque se não diga que menoscabamos a prudencia dos velhos e que
    pretendemos ser mais avisados do que foi nosso pae.

    Elle viveu, posto que pobre, tranquillo: vívamos como elle viveu.

    E disse o segundo-genito:–Veneranda é a memoria dos que nos geraram:
    comtudo tambem se deve acatar a razão, que nos foi dada por Deus.

    Conservemos todas as obras do tempo passado; mas melhoremos tudo o que
    nellas houver ruim.

    Ahi estão arvores uteis no meio da nossa herdade: não as derribemos,
    porque o fazê-lo, além de impiedade, fora rematada loucura.

    Porém roteemos os bréjos e sarçaes, adubemos a terra, e procuremos fazer
    novos plantios adequados á qualidade do solo.

    E disse o irmão mais novo:–Que nos importa os que passaram, ou que
    temos nós com o que elles fizeram?

    Nossos paes viveram nas trevas da ignorancia; e por isso todas as suas
    obras são loucura e vaidade.

    A luz e a sciencia só veio ao mundo em nossos dias, e só a propria
    sabedoria póde fazer-nos felizes.

    Comecemos pois por arrancar deste agro todos os vestigios de antiga
    cultivação: não verdeça nelle nem uma unica planta.

    E depois buscaremos arvores extranhas de fructos saborosos e sementes
    uteis, e a nossa herdade causará inveja a todos os vizinhos.

    Cada um dos irmãos estava firme em seu proposito, e os servos e os
    familiares bandeiaram-se em tres partidos.

    E luctaram uns com os outros, e triumphou a opinião do mais velho.

    E o campo mal cultivado, cada vez produzia menos, e a fome veio
    assentar-se no limiar da porta dos tres irmãos.

    O que vendo o segundo-genito, disse aos do seu bando:

    Força é que tiremos o poder das mãos dos que nos governam, aliás
    morreremos todos á pura mingua.

    E assim o fizeram; e, posto que a lucta fosse longa e encarniçada,
    venceram; porque a razão estava da sua parte, e Deus os abençoava.

    Então começaram a trabalhar: alimparam as arvores dos ramos seccos e
    exuberantes; adubaram os campos e prados, e arrancaram as moutas e as
    plantas nocivas.

    E lançaram boas sementes á terra, e quando a seara foi crescendo,
    começaram de mondar-lhe o joio e as outras hervas damninhas.

    Promettia naquelle anno ser excellente a colheita, e no coração dos
    familiares renascia já a esperança.

    Mas o irmão mais novo, possuido do espirito de destruição, colligou-se
    com os criados devassos e que aborreciam o trabalho continuo a que eram
    forçados.

    E fizeram uma união contra o segundo-genito e tiraram-lhe o mando,
    valendo-se de muitos clientes do primogenito, os quaes, por via da
    dissensão entre os dous mais novos, esperavam triumphasse o mais velho.

    Lançaram-se então ao campo, destruiram a sementeira, cortaram as
    arvores, e passaram a charrua por cima dos campos arrelvados.

    E buscaram sementes exquisitas e arvores exoticas, e atiraram á terra
    desalinhadamente com tudo isso, e depois adormeceram.

    As arvores, porém, seccaram logo, e as sementes, apenas rebentaram,
    morreram; porque os imprudentes não haviam estudado nem a natureza do
    clima, nem as propriedades do solo, nem as regras de agricultar.

    E a familia inteira no fim do anno tinha perecido de fome.

    XXI

    Na terra de Cethim houve um rei que era bom e cheio de liberalidade e
    valor.

    E cançado de reinar, disse em certo dia a seu filho, que ainda era muito
    moço:

    Pesam-me já demais a coroa e o sceptro, e os esplendores do throno não
    me deslumbram. Vem, e assenta-te nelle.

    E o filho obedeceu, e começou de reger os povos por certas leis
    estabelecidas por seu pae, o qual foi viver em regiões longínquas.

    Mas um tyranno alevantou-se com o reino, e o moço principe errou largo
    tempo por extranhos paizes com os poucos seguidores de sua má ventura.

    E o bom rei que descera do throno correu a restituir ao filho a herança
    que lhe legara.

    E a sua espada foi como a de Gedeão; o seu braço come o dos Machabeus.

    Então o principe desterrado voltou á patria, reassumiu o sceptro que lhe
    fora roubado, e a lei e a justiça recobraram o antigo vigor.

    Depois o rei virtuoso morreu de puras fadigas, e foi dormir com seus
    paes: sobre a sua memoria desceram não só as bençãos dos seus soldados,
    mas tambem as de todos os amigos da justiça e da paz.

    Nas trevas, porém, homens corrompidos começavam a tramar dissensões
    civis; porque pretendiam que os bons soffressem, depois da tyrannia de
    um unico mau, a tyrannia de muitos homens ruins.

    E estes mysterios da corrupção vieram a lume, e a plebe disse um dia ao
    principe e aos cidadãos pacificos:–A força está em nós, e a força é o
    direito: obedecei-nos pois, aliás um descerá do throno, outros serão
    reduzidos a pó.

    E tudo calou diante da plebe; porque era verdade que ella tinha a força.

    Os nobres, os prudentes, e os homens bons cubriram-se de dó, e no gesto
    lia-se-lhes a amargura do coração.

    Mas o moço rei a quem os turbulentos fingiam acatar, porque descera até
    elles, mostrou-se contente do seu damno, e engolfou-se nas delicias de
    que o rodeiaram os algozes da patria.

    Foi então que se apagou em todos os animos honestos o ultimo raio de
    esperança.

    XXII

    Havia naquelle tempo em Cethim um propheta, em cuja boca posera Deus o
    verbo da eterna verdade.

    E este propheta entrou um dia nos paços do principe e disse-lhe:

    Mancebo inconsiderado, emquanto folgas e ris, vai desconjunctar-se
    debaixo de teus pés o throno que te herdaram teus paes.

    Lembra-te de que subiste a elle por cima das ossadas de vinte mil dos
    teus amigos, regadas pelas lagrymas de cem mil familias.

    E não te esqueças de que entre esses ossos jaziam os de teu pae: não
    maldigas com tuas obras a sua memoria; porque elle foi justificado
    diante do Senhor.

    Crês tu que os homens do nada te perdoarão o teres nascido do sangue dos
    reis? Enganas-te! Crime para elles é este que nunca te será relevado.

    O sorriso que na tua presença lhes aclara o torvo das faces, não o
    creias de amor: repara, e verás que é o riso infernal do desprezo.

    Os filhos da abjecção queriam igualar-se comtigo; não, sendo elles quem
    subisse, mas sendo tu quem descesse.

    As taboas da lei foram feitas pedaços; se o vê-las partidas te apraz ou
    disso não curas, antes de o patenteiar cumpria-te restituir-nos as vidas
    e o sangue de nossos irmãos.

    Este paiz soffreu tudo por guardar o pacto que jurou, e que também tu
    juraste: que direito é o teu para approvares que esse pacto seja
    rasgado? Porque não padecerias alguma cousa a bem dos que tanto
    padeceram por ti?

    Crês, porventura, que é bello e generoso assentares-te em um throno que
    a relé do povo conspurcou de lodo e de infamia?

    A plebe era forte: embora. Mais forte era o tyranno de outrora, e
    baqueiou por terra.

    Devias deixar aos maus a consummação do seu crime e não o sanctificares
    tu.

    Devias confiar na Providencia, e arrojar de ti o manto de ignominia que
    sobre os hombros te lançavam.

    Devias conservar sem mancha o teu nome, porque está ligado ao do que te
    deu o ser, e este será glorioso até o termo dos séculos.

    Nós iremos ajoelhar juncto ao sepulchro de teu pae, e ás cinzas do rei
    virtuoso pediremos a justiça que não encontramos na face da terra.

    Oh, que se fosse possivel alevantar-se elle em pé sobre a campa, um seu
    olhar te encheria de remorsos; um brado seu fulminaria os perversos!

    Taes foram as palavras que o propheta de Cethim disse ao principe
    mancebo: o que depois aconteceu não o sei eu narrar.

    E este é um fragmento da historia de eras que passaram ha muito.

    XXIII

    A justiça de Deus é grande: maior a sua misericordia.

    Para o que se arrepende mana do seio do Senhor fonte perenne de perdão,
    e as preces do contrito sobem ligeiras até os degraus de seu throno.
    Depois dos dias de afflicção, elle envia o consolo e quebra em pedaços o
    vaso da sua colera.

    Povo, que vagueias desenfreiado pelas sendas da morte, converte-te á
    vida, converte-te ao Deus de teus paes.

    Elle não se esquecerá dos netos desses fortes que espalharam a luz do
    seu Verbo entre os mais remotos barbaros, e os teus erros serão
    esquecidos.

    Nossos avós souberam ser livres sem ser licenciosos; souberam ser
    grandes sem crimes: eterna é a sua gloria.

    Ousariamos nós irmos ajunctar-nos com elles no repouso do tumulo
    carregados das maldicções do Altissimo, e sepultando comnosco a herança
    do nome português cuberta da execração do universo?

    Lembrae-vos de que as cinzas dos cavalleiros de João primeiro; dos
    valentes de Ceuta, de Tangere e de Arzila, dos conquistadores do
    Oriente, estão envoltas na terra que pisaes.

    E onde quer que ponhaes os pés levantará o passado um grito de
    reprehensão contra a depravação do seculo actual.

    Formosa e pura é a luz do sol neste amoroso clima do occidente: não
    queiraes convertê-la no facho avermelhado e sinistro que fulgura por
    cavernas de salteadores e de assassinos.

    Unamo-nos, pois, como irmãos, e abraçando-nos uns com outros, cáiam
    algumas lagrymas de reconciliação sobre esta terra tão regada de
    lagrymas de amargura; tão ensopada no sangue do fratricidio.

    Refloreçamos entre nós a paz e a amizade: tenhamos um nome só, o de
    portugueses, um só bando, o da patria.

    Ainda algum dia estes rogos do propheta serão ouvidos: mas quando, é um
    segredo de Deus.

    A VOZ DO PROPHETA

    SEGUNDA SERIE

    Iniquitas surrexit in virga impietatis;
    non ex eis, et non ex populo, neque
    ex sonitu eorum, et non erit requies
    in eis.

    EZECHIEL, VII-11.

    I

    Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre
    as cidades do mundo.

    A brisa que varre os teus outeiros é pura como o céu azul, que se
    espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.

    Trinta seculos tem surgido depois que tu surgiste, e sorvendo milhares
    de existencias cahiram todos no abysmo do passado.

    E tu os has visto nascer e morrer; e sorriste-te, porque julgavas que a
    vida te estava travada com a vida do universo.

    Escondendo nas trevas dos tempos remotissimos a tua origem, dizias ás
    demais cidades da Europa:–Sou vossa irmã mais velha.

    Nobre e rica outrora, quando o Oriente e a Africa te mandavam o ouro das
    suas veias, os extranhos vinham assentar-se-te ao pé dos muros e
    abastecer-se com as migalhas cahidas das mesas dos teus banquetes.

    Cada um dos teus velhos palacios abrigou já os ultimos dias de um grande
    capitão; em cada pedra dos teus templos ha uma recordação das virtudes
    passadas; em muitas lousas de sepulturas nomes que não morrerão.

    Nas eras de tua gloria, os monarchas dos ultimos confins da terra se
    haviam por honrados com chamar irmãos a teus filhos; e filhos teus davam
    e tiravam coroas.

    As tuas armadas aravam as campinas do oceano, e neste nem uma vaga
    deixou de gemer debaixo das naus do Tejo.

    Para as frotas da nova Tyro, os golpes de machado resoavam ao mesmo
    tempo nos bosques da Europa e da Africa, do Oriente e do Novo-Mundo: os
    lenhos do Indostão cosidos com os da Nigricia fluctuavam por mares
    distantes, e sobre elles se hasteiava um signal de terror para o orbe:
    era o pendão das Quinas.

    Então, oh cidade do Tejo, reinavas tu e eras forte, mais do que Roma ou
    Carthago; mas o imperio e a força vinham-te das virtudes de teus filhos,
    dos homens a quem sem pudor chamamos nossos avós.

    Vivificavam-te o seio um sem numero de bem nascidos espiritos, e eras
    seminario feracissimo de corações generosos.

    Porém, que te resta hoje do antigo esplendor, da gloria de tantos
    seculos? Um echo do passado nas paginas da historia, o sol puro da tua
    primavera, os restos dos paços e templos que os terremotos te não
    consumiram, e o grande vulto das aguas do amplo ádito do Tejo.

    II

    Mas este echo da historia, que devia ser para ti como um grito de
    remorso, não ha ouvidos que o escutem, e soa em vão e morre no meio do
    vozeiar descomposto da plebe:

    Mas este céu puro que te cobre, e que testemunhará no grande dia as
    virtudes de nossos maiores, testificará também perante o Senhor a tua
    corrupção actual:

    Mas este porto, que a liberdade regrada de tres annos começava a povoar
    de entenas, torná-lo-ha o reinado da licença tão ermo como os extremos
    dos mares gelados:

    Mas pelos palacios de marmore já não retumba a voz dos heroes, e os
    templos estão desertos: só por lupanares e praças sussurra o clamor dos
    populares, ou entoando os canticos das orgias, ou tumultuando em
    assuadas e preparando o dia em que satisfaçam a sede do roubo e do
    assassinio.

    Viuva prostituida, os vicios corromperam-te a seiva da vida, e a
    gangrena e os herpes corroem-te os membros, que ainda vestes de trajos
    louçãos, mas onde a morte se encarnou ha muito.

    Formosa ainda no aspecto, assemelhas-te ao sepulchro do evangelho, alvo
    e polido no exterior, mas cheio de podridão e negrura.

    Nova Jerusalém, a dextra do Senhor vergou pesando-te os crimes e, como a
    antiga, saberás se por ventura são asperas as angustias que o
    Omnipotente manda aos povos no dia da sua justiça.

    Rapida é a carreira do malvado pelos atalhos do crime: porque esses
    atalhos levam, de despenhadeiro em despenhadeiro, ao abysmo da perdição.

    Breve empallidece o outono as folhas das arvores; breve as desprende dos
    troncos; breve as espalha e some, arrebatando-as sobre as azas dos
    ventos.

    Esse curto praso bastou ao povo para esgotar os thesouros da
    misericordia divina, que os erros e culpas de seculos não haviam podido
    empobrecer.

    Os feitos portentosos de dous annos de combates civis foram
    amaldicçoados pelo povo em uma noite de sedição, e a arvore da liberdade
    cerceiada juncto da terra.

    E as esperanças de salvação e de felicidade passaram como o sonho
    matutino que se desvanece ao alteiar do sol.

    III

    Como a antiga Jerusalém se afundou em mar de crimes, assim a moderna
    Sião, a grande cidade do occidente, se mergulhou em torrente de
    perversidades.

    E a maldicção celeste que sumiu aquella d'entre as nações pesará ainda
    mais rijamente sobre a desgraçada Lisboa, sobre esta caverna de vicios e
    de desenfreiamento.

    Á roda dos muros de Solima apinhavam-se os cavalleiros de Babilonia, e
    as tendas de Nabuchodonosor estavam assentadas ao pé da torrente de
    Cedron.

    E as catapultas arrojavam pedras sobre os eirados do templo, no cimo do
    Moria: os arietes batiam os baluartes, que vacillavam até os
    fundamentos, e o granizo das settas sibilava, passando por entre as mal
    defendidas ameias.

    E ao longe scintillavam os ferros das lanças e o bronze dos elmos e dos
    cossoletes, e ouvia-se o nitrir dos cavallos.

    Surgira o dia extremo para a cidade das maravilhas, para a reproba
    Solima. E d'alli a um anno, sobre as ruinas della estava assentado um
    velho.

    Era o propheta de Anathot, que, em cima da ossada dos palacios e do
    templo, entoava uma elegia tremenda, a elegia da sua nação.

    IV

    Tambem o dia em que, entre os vestigios da cidade maldicta, algum vate
    levante um grito de agonia, um grito de desesperança, não tardará a
    chegar.

    Porque Deus ergueu-se no seu furor, e mandou descer sobre este paiz o
    anjo do exterminio.

    Mais cruel será o teu castigo, oh terra do meu berço, do que o de
    Jerusalém: porque ella pereceu a mãos de extranhos, e seus filhos
    morreram defendendo os lares paternos.

    Mas a ti é um matricidio popular, é a febre ardente das sedições que te
    vae arremessar ao sepulchro.

    Os teus muros converter-se-hão em circo: pelas praças e ruas
    pelejar-se-hão pelejas como de gladiadores, combates como de mastins e
    feras.

    Porque o temor de Deus saiu do coração do povo, e entraram nelle todas
    as raivas do inferno.

    Aspero é para o que morre assassinado não poder clamar ao céu justiça
    contra o seu matador.

    E neste mau caso cahirá o povo; porque serão as suas proprias mãos que
    lhe rasgarão as entranhas: será elle quem lavre a sua sentença de morte.

    Elle se amaldicçoará a si, e o remorso e a desesperação de toda a humana
    piedade lhe dobrarão as agonias do passamento.

    V

    Os que pelejaram contra os tyrannos purpurados mal sabiam que lhes
    quebravam o sceptro de ferro, para metter a espada da assolação na
    dextra de tyrannos cobertos de vermes e farrapos.

    Mal pensavam que uma raça corrupta não conhece outra estrada senão a da
    servidão ou a da licenciosidade.

    A nação, esmagada pelos reis, tinha muito tempo gemido debaixo da
    propria miseria.

    Mas surgiu um principe que deu a liberdade ao povo e que veio morrer
    para lh'a restituir, quando elle vilmente a deixou baqueiar por terra.

    E estes homens, que pouco antes haviam dobrado o joelho perante o
    despotismo, mostraram-se tão orgulhosos e insolentes, quanto, até então
    haviam sido abjectos e timidos.

    E n'uma orgia popular fizeram resoar gritos insultuosos nos ouvidos
    daquelle que duas vezes os libertara, e invocaram-lhe a morte. Nesse
    momento longe estavam os seus soldados, e muitos delles arquejavam
    moribundos no campo onde se pelejou a ultima batalha da patria.

    Em verdade vos digo que tal crime é dos que Deus não perdoa; porque a
    ingratidão é a mais horrenda de todas as perversões humanas.

    Elles apressaram o repouso do tumulo para o salvador da republica: mas o
    nome de parricidas será o que sobre a jazida lhes escreverá a historia.

    VI

    O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e
    de acções generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.

    Digno era o povo de compaixão quando estava em ferros, e por bom feito
    se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela
    salvação dos seus semelhantes:

    Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a
    voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as bençãos
    dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe
    bebesse o sangue.

    Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a
    consciencia mentia.

    A corrupção estava no amago das existencias. A arvore da vida social
    carcomiu-a a servidão. Cumpria que as tempestades politicas a
    derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os
    troncos.

    E estes vermes são as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente
    trabalham na grande obra da publica destruição.

    Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a
    queda dos tyrannos, não apresseis o grande dia da emancipação popular.

    Porque nesse mesmo momento sereis amaldicçoados pelos que salvastes, e
    cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lança em
    poucos mezes mais crimes na balança da eterna justiça do que os tyrannos
    ahi hão lançado por seculos.

    VII

    Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paços de Affonso quinto, e
    os cortesãos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da
    republica.

    E o conde disse-lhes:–mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vós
    prova-lo-hei á lança e á espada: innocente e justo é o mui nobre filho
    de meu senhor e rei, Dom João de excellente memoria.

    E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrotéa; porque bem
    sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.

    D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira,
    sobre um montão de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome
    do seu desventurado amigo.

    Onde estavam os do valente capitão da nova Diu, do rei soldado da
    patria, quando o vulgacho no meio da praça publica, assentado no seu
    lodaçal mandava derrocar as leis, as recordações e a gloria d'uma nação
    inteira?

    Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era
    amaldicçoada na condemnação da sua obra; quando sobre as suas cinzas a
    dissolução cuspia escarneos; quando a liberdade morria ás mãos da
    licença popular?

    Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lançar a luva em defesa
    da justiça, e dizer ás turbas:–sois desleaes e mentis?

    Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal já não ha um
    cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a
    sua espada foi sepultada com elle.

    VIII

    Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os
    rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus
    palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e
    menoscabar as dores dos supplicios.

    Então era ousado o propheta, quando, nos paços de Balthasar, lia nos
    muros, escriptas pela mão de Deus, palavras de condemnação.

    Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do
    evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam
    tranquillamente sobre a cruz da agonia.

    Era bello ouvir o poeta de Florença trovejar contra a prostituta Roma,
    denunciar ao mundo a corrupção e os crimes dos pontifices do Tibre, e
    comer no desterro um pão eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.

    Era bello, quando nós, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do
    desterro a terra que nos deu o berço, e vinhamos, fracos pelo numero,
    mas fortes de coração, lançar as nossas baionetas na balança da
    Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lançado as suas.

    Tudo isto era bello e generoso; porque então os pequenos gemiam
    oppressos debaixo dos pés dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer
    resoar na terra a voz da eterna justiça, o grito da liberdade.

    Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaça tragar a
    virtude, a liberdade, a justiça e todas as recordações sanctas do
    passado, para o homem de boa consciencia sê-lo-ha, tambem, o morrer.

    Sê-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a
    condemnação, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do
    innocente e virtuoso.

    Sê-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o céu, e
    apresentar a cabeça ao cutello dos lictores.

    IX

    Povo, hoje és tu quem impera, e absoluto é o teu poder; porque te dizes
    unica fonte delle.

    Toma, pois, em tuas mãos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais
    no teu throno, amassado com sangue e pó.

    Vem assentar-te, e julga-nos, a nós, que tu maldizes, e aos tribunos,
    aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de bençãos.

    Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justiça, a plebe
    ainda será salva.

    Desça o terror da tua vingança sobre o coração do que te houver
    offendido; volvam-se no pó as frontes onde tu achares estampado o
    ferrete do crime.

    Recorre as acções da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos
    teus tribunos, e por preço do perdão de Deus, julga-nos com justiça.

    Quando tu jazias na servidão, e os grilhões, encarnando-se-te nos pés e
    nos pulsos, te roçavam pelos ossos, peleijavamos nós por te salvar;
    derramavamos o nosso sangue por ti.

    Por ti viamos o irmão e o amigo morder o pó dos campos de batalha, e
    calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e não soltavamos um queixume.

    Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da
    patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?

    E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de
    um céu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o
    sibilar dos pelouros?

    Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos
    banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituição.

    Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade á nossa nobre
    ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a
    liberdade a nossos irmãos.

    Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a
    nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade
    illustre.

    Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante
    de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e
    conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvação da republica.

    Um só delles as mostrará; porque esse foi valente e amigo da virtude.
    Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?

    A historia escrevia o teu nome na pagina das bênçãos: tu mesmo o
    riscaste e o foste escrever na pagina das maldicções……………….
    ……………………………………………………………..
    ……………………………………………………………..

    X

    Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o
    povo é abastado de injustiça e ingratidão.

    Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de
    angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os
    concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria
    ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.

    Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem
    a todos nos julgará.

    Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.

    E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os
    poderosos.

    E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos
    grandes e pelos sacerdotes.

    Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse
    o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.

    E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era
    tambem malquisto da gentalha.

    E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a
    luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de
    opprobrios.

    E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e
    clamava aos algozes:–Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a
    nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.

    E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o
    filho de Deus.

    Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos
    tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.

    Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações
    abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e
    pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.

    E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo
    assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?

    Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o
    divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações
    corruptos.

    Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso
    pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um
    murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os
    que o odeiaram e perseguiram.

    XI

    E ainda uma vez, filhos da perdição, ainda uma vez vos falarei em nome
    do Senhor nosso Deus.

    Que foi o que fizestes assassinando as esperanças da salvação publica,
    derribando a sancta tradição da patria?

    Até no crime fostes apoucados. Porque não se ergue um de vós, perverso,
    mas sublime, como o archanjo das trevas, e diz:–fui eu o concitador do
    motim popular, fui eu o primeiro que clamei «quebrem-se as taboas da
    lei?»

    Louvaes a sedição, chamaes-lhe obra illustre, e nenhum de vós acceita a
    gloria de ser o bem-feitor do seu paiz?

    Quando combatiamos pela liberdade gravavamos os proprios nomes em nossas
    armas, e o inimigo que ousasse vê-las de perto, ahi os lería inteiros.

    Não combatiamos nas trevas; e os nossos capitães diziam ao
    mundo:–Vede:–e mostravam a face diante da luz do sol.

    Hypocritas, que enganaes o povo, credes porventura que tambem enganareis
    o Senhor e que, semelhantes á prostituta que engeita o fructo de seu
    crime, engeitareis diante delle a obra da vossa iniquidade?

    Não! Lá se levantarão os nossos e os vossos filhos, para quem preparaes
    berço de miseria, vida de amargura e morte de desesperação.

    E elles testemunharão contra vós na presença do Altissimo: e haverá ahi
    choro e ranger de dentes.

    XII

    Ambiciosos, que desvairaes o povo, o Senhor leu no fundo dos vossos
    corações e revelou-me o que ahi está escripto!

    A cubiça do mando e do ouro é o vosso amor de patria; a vossa ancia de
    liberdade a sêde de tyrannia.

    Merecedores de jazer perpetuamente na escuridade, e ermos de virtude e
    de sabedoria, não podendo fulgir com luz celestial, tentastes romper as
    trevas de vossos caminhos com o clarão torvo do inferno.

  • Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

    Obras poéticas de Nicoláo Tolentino de Almeida, Tom. II

    Aproximadamente 17.397 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team
    at https://www.pgdp.net

    OBRAS POETICAS

    DE

    NICOLÁO TOLENTINO
    DE ALMEIDA.

    TOM. II.

    LISBOA.

    NA REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA.

    ANNO M.DCCCI.

    _Com licença da Meza do Desembargo do Paço_.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de S.
    Lourenço_.

    Ante vós, Claro Senhor,
    Que pondes os sãos cuidados
    De bons estudos no amor,
    E que d'homens applicados
    Sois o exemplo, e o protector;

    Levanto sem pejo a voz;
    Que essa alma nunca despreza
    O pouco que encontra em nós;
    Não produz a Natureza
    Muitos homens como vós;

    Pois vi outr'ora amparado
    O discreto, e doce Brito,
    Triste moço, em flor cortado,
    Que hia alevantando o esprito,
    De vossas luzes guiado;

    Pois na vida lhe adoçastes
    De seu fado a má ventura,
    E não vos envergonhastes,
    Quando a fria sepultura
    Com as lagrimas lhe honrastes;

    Se os seus Versos sonorozos
    Inda repetis com mágoa;
    E pensamentos saudozos
    Vos trazem aos olhos agua,
    Que os deixa, Senhor, formozos;

    Hoje, outro triste vos faça
    Nascer iguaes sentimentos;
    Com os vossos pés se abraça;
    Não tem os mesmos talentos;
    Mas tem a mesma desgraça;

    Nascido em baixa pobreza,
    Quiz buscar huma Colu'na,
    Foi sempre baldada a empreza,
    Achou ingrata a fortuna,
    Inda mais, que a natureza.

    Em vão paternal ternura
    Com vivo zêlo me assiste;
    Foi trabalho sem ventura;
    Crescia no Filho triste,
    Com a idade, a desventura;

    Das boas Artes no estudo
    Bom Pai empenhar-me quiz;
    Traçava o velho sizudo
    Que fosse hum Filho feliz
    Dos outros Filhos o escudo;

    Forão seus intentos vãos;
    Zombou desgraça importuna
    Destes pensamentos sãos;
    Para vencer a fortuna
    Não ha lagrimas, nem mãos;

    Cortado então de agonias,
    Só esperei ter ventura,
    Quando envolto em cinzas frias
    Escondesse a sepultura
    Meu nome, e meus tristes dias;

    E em quanto o vento forceja,
    E no mar, que em flor rebenta,
    Meu fraco lenho veleja,
    Demando, em tanta tormenta,
    Por porto a Casa de Angeja;

    Surgi em lugar seguro,
    Onde achei mil acolhidos;
    Clareou o dia escuro;
    E meus molhados vestidos
    Pelas paredes penduro;

    De meu fado a força dura
    Foi hum pouco enfraquecendo;
    E ainda que em sombra escura,
    Vem-me ao longe apparecendo
    O bom rosto da Ventura;

    Vossos Sobrinhos me dão
    (Porque de meus males sabem)
    Principios de protecção;
    Mandai-lhe que em mim acabem
    Esta obra da sua mão.

    Mandai, que apressem o passo,
    Que inda longe a méta vejo,
    Pois nas supplicas que faço,
    Não se vence com dezejo,
    Vence-se á forca de braço;

    Mandai, pois tendes direito,
    Que o turvo mar arrostando,
    A' corrente ponhão peito;
    Fallai, Senhor, que em fallando,
    O vosso mandado he feito.

    Não vedes venal incenso
    Por astuta mão queimado;
    Fallo, Senhor, como penso;
    Eu sei quanto he respeitado
    O Erudîto São Lourenço;

    Eu sei bem o alto conceito,
    E as geraes estimações,
    Que todos de vós tem feito;
    Oiço ternas expressões,
    Filhas de amor, e respeito;

    Do bom Irmão, e Sobrinhos
    Oiço tod'ora louvar-vos;
    Oiço-lhes doces carinhos;
    De poderem agradar-vos
    Dezejão achar caminhos;

    Vosso Irmão, e pregoeiro
    Ordena, como sizudo,
    Ao Illustre Neto, e Herdeiro,
    Que das Sciencias no estudo
    Vai dar o passo primeiro,

    Se encoste a vós, sem desvio,
    Qual ao Choupo Hera silvestre;
    Que em Artes, virtude, e brio,
    Mais, do que as regras do Mestre,
    Siga os dictames do Tio;

    Com que gosto oiço, e contemplo,
    Dizer-lhe = Se ao bem te inclinas,
    Segue-o no estudo, e no Templo;
    Elle te dê as doutrinas;
    Elle te sirva de Exemplo.

    Mas sigo inutil empreza,
    Pois sabeis quaes são seus peitos,
    Mistura-se esta fineza
    Com os sagrados direitos
    Do sangue, e da natureza;

    Todo o mundo, em vosso abono,
    Põe na boca os corações,
    E delles vos chama dono;
    Oiço mil acclamações
    Desde a plebe até ao Throno;

    A geral estimação
    Nos arma de authoridade;
    Vinde pôr nesta obra a mão,
    E dai-me felicidade,
    Como me dais instrucção;

    Sabeis a fundo, e de cór,
    Tudo quanto ha bom, escrito;
    Juntai extremos, Senhor;
    Ao homem mais erudíto,
    Juntai o mais bemfeitor.

    Pois sabeis da Antiguidade
    Prozas sans, e sã poezia,
    Deveis sentir mais piedade;
    Quem tem mais filozofia,
    Vê melhor a humanidade:

    Que eu nesta fresca espessura,
    Entre estes Loiros sagrados,
    Sentado sobre a verdura,
    Cantarei Versos limados
    A quem me fez ter ventura.

    Deixarei em mil letreiros
    O vosso Nome entalhado
    Nos troncos destes Loureiros;
    Possa elle ser respeitado
    Do negro vento, e chuveiros;

    Ramos sobre elle estendendo,
    Dafne no seu peito o tome;
    E eu, doces hymnos tecendo,
    Verei ir o tronco, e o Nome
    Té ás Estrellas crescendo.

    QUINTILHAS

    _Offerecidas ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez do
    Lavradio_.

    Se os Versos, que outra ora fiz
    Escutastes prompto, e attento;
    E se aos pés, que abraçar quiz,
    Achou grato acolhimento
    A minha Muza infeliz;

    Dai-me benignos ouvidos
    A outros, em dôr traçados,
    D'arte, e de enfeite despidos;
    Pela verdade dictados,
    E a vós, Senhor, dirigidos;

    Em louvores não os fundo,
    Pois sei que sempre os pizastes;
    E co'as mais acções confundo
    As do tempo, em que tomastes
    As rédeas do Novo Mundo;

    Mas se eu disser parte dellas,
    Não me julgueis lizonjeiro;
    Que vos poupo em não dizellas?
    Se vedes, que o Mundo inteiro
    As vai erguendo ás Estrellas?

    Diz que vio a Capital
    Cheia de pompa, e grandeza;
    E que a ergueis a lustre tal
    D'entre os braços da molleza,
    Que he no Clima natural.

    Que nas mãos, onde se encerra
    Alto Poder respeitozo,
    Mostraste na nova Terra
    Ao Vizinho revoltozo,
    N'uma a paz, em outra a guerra.

    Que offreceis a vida então
    Para a palavra salvar-se,
    Que, os bons Reis não dão em vão;
    Acção digna de contar-se
    Entre as de Mario, ou Catão;

    Que a mão que as Quinas voltêa,
    Justiça ao Povo reparte;
    E que igualmente menêa,
    Ora as Bandeiras de Marte,
    Ora as Balanças de Astiéa;

    Mas já vossa austeridade
    Minha narração reprime;
    Ouvis-me contra vontade;
    Perdoai, Senhor, hum crime,
    De que foi causa a verdade;

    Pois que vos não dão desvelos
    Louvores, que préza a gente,
    Eu vou, Senhor, suspendellos;
    E vou dar-vos novamente
    Motivos de merecellos.

    A minha longa fadiga
    Já sabeis qual he, Senhor;
    Levai-me a bem, que a não diga;
    Deixai-me poupar a dôr
    De abrir huma chaga antiga.

    Pintar Irmans desgrenhadas
    Co'as creanças innocentes.
    Nos débeis braços alçadas,
    E de lagrimas ardentes,
    Quasi sem fruto, banhadas.

    Mostrar-lhe os olhos magoados,
    Onde inutil pranto assiste,
    Immoveis no chão pregados,
    Nutrindo hum silencio triste,
    Falsa paz dos desgraçados;

    Contar-vos, que entre os Irmãos,
    Diz o bom Pai, com ternura,
    Que ao Ceo levantem as mãos;
    Que assim se emenda a ventura,
    E não com queixumes vãos:

    Que he do espirito fraqueza
    Perder suspiros no vento;
    Que venção a natureza;
    Que fação co'soffrimento
    Honroza a dura pobreza;

    Não lhe ver de dor sinais;
    Ter no rosto olhos serenos,
    E no peito agudos ais;
    Que porque se escutão menos,
    Por isso me córtão mais:

    Dar-vos huma inteira idéa
    Da desgraça minha, e delles,
    Pintura de pranto chêa;
    Se he preciza, he para aquelles,
    A quem não dóe dor alhêa.

    As almas tão bem nascidas,
    Como a vossa vejo ser,
    Para serem condoîdas,
    Não tem precizão de ver
    Correr sangue das feridas;

    Sabeis, que soffro a impiedade
    De vã fortuna traidora;
    Mudai pois de heroicidade;
    Vinde pleitear agora
    A cauza da humanidade;

    Por vós tirar não podeis
    Penas, que a alma me abafárão;
    Mas ante o Throno valeis;
    E se o Sceptro vos fiárão,
    Que vos negarão os Reis?

    Reger-lhe os vastos Estados,
    Ir dar-lhe hum novo esplendor,
    São feitos famigerados;
    Mas inda o será maior
    Ir pedir por desgraçados,

    Disse a Cezar o Orador,
    Que os Soldados tinhão parte
    No perigo, e no louvor;
    Que fosse em outro Estendarte
    Elle só o Vencedor;

    Que era, de doce brandura
    O deixar-se então vencer,
    Mór victoria, e mais segura;
    Onde não tinhão poder
    Nem ferro, nem má ventura.

    Vencei vós sem ter Soldados;
    Fazei de dias de dor
    Dias bemaventurados;
    E possa essa mão, Senhor,
    Mais do que podem meus fados;

    Claros Avós imitastes,
    Que o Mundo apenas abrange;
    No berço palmas achastes;
    Dos Heróes que vio o Gange,
    O sangue, e as acções herdastes;

    Remotos Povos vencêrão,
    E mares bravos abrindo;
    As Quinas desenvolvêrão;
    Ante eles o Gange, e o Indo,
    Tintos de sangue corrêrão.

    Vós, que em obras semelhantes
    Fostes ser a Copia honroza
    Do que elles fizerão d'antes,
    Na série maravilhoza
    Das vossas acções brilhantes;

    Consenti, que a larga historia,
    Que Almeidas levanta aos Ceos,
    Lhes deixe no Altar da Gloria
    Pendente, entre os mais Troféos,
    Huma negra Palmatoria.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Condeça de Tarouca, na
    occasião do seu Casamento_.

    Senhora, o Forte da Estrella,
    Chorando o bem que perdeo,
    Das suas justas saudades
    Por portador me escolheo;

    Quiz que eu viesse contallas
    Ao som desta rouca Lyra,
    De longos annos affeita
    A acompanhar quem suspira;

    Não fallo nos ternos Pais;
    Nelles a alta Jerarquia
    Tempéra saudozo pranto
    Com o pranto da alegria;

    Ao nome dos seus Passados
    Planos caminhos achárão,
    Unindo ao sangue de Heróes
    O sangue de Heróes que herdárão;

    Não fallo no amavel Conde;
    Esse não faz compaixão;
    Tem seges, tem bons cavallos,
    Tem o remedio na mão;

    Sobre rápidos ginetes,
    Quebrando a dura calçada,
    Com o Francisco a reboque,
    Andará sempre na estrada;

    Tambem das caras Irmans
    Não venho as mágoas pintar;
    Co'a terna Mãi muitas vezes
    As virão desafogar;

    Fallo da triste Familia,
    Que em amoroza manîa
    Accuza o Ceo, que vos deo
    Formozura, e Fidalguia;

    Dons, de seu mal cauzadores;
    E que deixão coroado,
    Na mais illustre Conquista,
    O mais ditozo Soldado;

    Ralham delle a toda hora;
    Foi cauza do seu tormento;
    Elogião, e praguejão
    Seu alto merecimento;

    Se he Soldado, siga a Guerra,
    E as funestas glorias della;
    Ataque milhões de Fortes,
    Mas deixe em paz o da Estrella;

    Tem figura, tem talentos;
    Tem alta Estirpe preclara;
    Oxalá que assim não fosse,
    Ella então o desprezára; =

    Mas, Senhores, perdoai-lhes;
    A's vezes na grande dor
    Fallão palavras de raiva
    A linguagem de amor;

    O Silva, o Authomato honrado,[1]
    Anda mais abstracto, e mudo;
    Põe o doce antes da sôpa;
    Queima o Café, quebra tudo;

    [Nota de rodapé 1: Copeiro.]

    O hirsuto, austéro Rodrigues,
    Semblante de poucas pazes,
    Desafoga a sua dor,
    Dando murros nos rapazes;

    Vossa Aya, de tres idades,
    Em canto escuro assentada,
    Vos manda calado pranto,
    N'um cobertor abafada.

    Outras vezes esquecida
    De quanto seu Fado he crú,
    No queixo ajustando o lenço,
    E sobrepondo o bajú:

    Ergue ao ar cansados ossos;
    E sem temer ventos frios,
    Tirando-lhe Amor o pezo
    Dos gelados pés tardios;

    Do bom costume enganada,
    E com a uzada cautela,
    Para dar, e ter, bons dias,
    Vos vai abrir a janela;

    A janela a desengana;
    Renova-lhe a dor no peito;
    Chama em vão o vosso nome,
    Abraçando hum ermo leito.

    Do peito das mais Creadas
    A saudade se não risca,
    Desde as Ayas ralhadoras,
    Té á ladina Francisca.

    E pois que o sangue de Reis,
    Pois que a Augusta Ceremonia,
    Bem a pezar das Creadas,
    Vos trouxe a Santa Apollonia;

    Ide, Senhora, mil vezes
    Curar-lhes a fresca chaga;
    Seu pranto he filho de amor,
    E amor com amor se paga;

    Na rica, airoza Berlinda,
    Dando ao digno Espozo parte,
    Aos patrios lares vos leve
    Amor nos braços de Marte.

    O Téjo, abaixando as ondas,
    Vossos pés virá beijar;
    Vai das Ninfas que creou,
    Ver a Ninfa Tutelar.

    Os Prazeres com os Rizos
    Sejão a vossa equipagem;
    Revôem em torno as Graças,
    De quem sois a inveja, e a imagem:

    Entrai nos tectos dourados,
    Hoje lugar de saudade;
    Ide, dos braços do Amor,
    Lançar-vos nos da Amizade;

    Levai-nos as doces noites,
    Em que a voz que se escutava,
    Sobre as azas da harmonia,
    Nos nossos peitos entrava;

    Quando o Cómico travêsso,
    Entre geitos, e corcovos,
    Habilmente arremedava
    Todos os Muzicos novos,

    O triste, calado Cravo;
    Já não sente a déstra mão;
    Apenas he perseguido
    Pelo Senhor Dom João.[2]

    [Nota de rodapé 2: Menino.]

    Ide, Senhora, levar-nos
    No vosso rosto a alegria;
    Fazei á triste Junqueira,
    O que faz o Sol ao dia;

    Mas, Senhora, a minha Muza
    Tem talvez errado os Cultos;
    Cuidando ter feito obsequios,
    Talvez tenha feito insultos;

    Dirão, que, trocando as cordas
    Forão meus sons desiguaes;
    Que errei em fallar aos Filhos,
    Sem fallar primeiro aos Pais.

    Que podia esta Embaixada
    Se désse em mais habil mão,
    Cumprir as leis da Saudade,
    Sem violar as da razão;

    Mas, Penalvas, dito, dito;
    Defendo o meu sacrilegio;
    Sois tudo; mas não sois Noivos,
    E he este o seu privilegio.

    _No dia dos Annos da Illustrissima, e Excellentissima Senhora D. Maria
    de Noronha, hoje Condeça de Valladares_.

    Senhora, os pobres vestidos
    Do vosso humilde Compadre,
    Não o deixão ir aos Annos
    Da sua Illustre Comadre;

    O conhecido Colete
    De bordadas guarnições,
    Encartado ha longo tempo
    Em Colete das Funções;

    Sobre os seus cançados annos,
    De humido Inverno Assaltado,
    Cheio de invenciveis manchas
    Me foi hoje apresentado;

    Em vão bemfeitor miôlo
    Lhe esfrega o quarto offendido;
    A minha choroza Mana
    Dá o cazo por perdido;

    E se assim me apresentasse
    A tão alta Companhia,
    As suas nódoas serião
    Manchas da seda, e do Dia;

    Do Tempo a fôice raivoza
    Não me dá só hum revéz;
    Além de me fazer velho,
    Faz-me tambem descortez;

    Mas elle honrou hoje o Mundo;
    Sois do Mundo ornato, e inveja;
    Deo hoje mais huma paga
    A' Illustre Caza de Angêja.

    Sua mão, que aperfeiçoa
    Altos dons da Natureza,
    A huns lindos, modestos olhos
    Vai augmentando a belleza;

    Altêa a airoza figura
    Sobre a das Graças moldada;
    A huma alma a mais digna, e nobre
    Dá a mais digna morada;

    Justo Tempo, eu abençôo
    O teu poder desigual;
    E em honra de tantos bens,
    Eu te perdoo o meu mal;

    Cem vezes nas tuas azas
    Nos mande este dia o Ceo;
    As Virtudes o consagrem
    Nos altares de Hymenêo.

    E Vós, Illustre Senhora,
    Perdoai Coletes rotos;
    Valem mais, que inuteis sedas,
    Puro incenso, puros votos;

    Quiz mandallos em bons versos;
    Suou em vão meu topete;
    Fui achar a minha Muza
    Como achei o meu Colete.

    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete,
    quando lhe nasceo huma Filha_.

    Senhora, he couza sabida,
    Que aos Deozes não são vedados
    Os escondidos segredos
    Do escuro livro dos Fados;

    E pois que em tempos antigos
    Já tive alguma valia
    Co'aquelle, a quem coube em forte
    O governo da Poezia;

    Não esperando do Tempo
    O vagarozo progresso,
    E desejando augurar-vos
    O vosso feliz successo;

    Na raiz do alto Parnazo,
    Curvando o humilde joelho,
    Exclamei = Se aqui se escutão
    Votos de hum Poeta velho,

    Não te peço, esquivo Apollo,
    Teus verdes, sagrados loiros;
    Não aspirão a coroas
    Desta testa os velhos coiros;

    Abre, sim, a densa nevoa
    Do vindoiro tempo escuro;
    E ante meus ávidos olhos
    Rasga as sombras do futuro;

    Saiba meu justo dezejo
    Quanto o destino promette
    Aos nossos ardentes votos,
    E aos da assustada Alegrete;

    O Deos, que nunca em mim vio
    De Odes moiras a manía,
    Que sem o assumpto honrarem,
    Lhe deshonrão a Poezia;

    Que em Oiteiros de Oratorio
    Não lhe puz a Lyra ao frio,
    Arriscando-a a ter por paga
    Ou pedrada, ou assobio;

    E muito mais porque vio,
    Que da minha petição
    Erão sagrados motivos
    A amizade, e a gratidão;

    Fez fuzilar em meus olhos
    Nova luz, vedada, e pura;
    E de tudo o que então vi,
    Vos vou fazer a pintura.

    Vi, Senhora, as loiras Graças
    Com doce, e rizonho aspeito,
    Tecendo engenhozas danças
    Em torno de hum aureo leito;

    E abrindo as ricas Cortinas
    Trazerem nos castos braços
    O digno, e precioso Fruto
    De Illustres, sagrados laços.

    Sobre o mimoso semblante,
    Em que os seus dons inspiravão,
    Dos mais altos Pertendentes,
    Mil suspiros auguravão;

    Os Prazeres sobre as azas
    O berço lhe rodeavão;
    Fortuna lhe abria os cofres,
    As Virtudes a embalavão;

    Vi Penalvas, vi Angejas,
    Que aos Ceos mil hymnos mandavão;
    Aos Ceos, que as duas Familias
    Novamente abençoavão:

    Vi a roda das Creadas,
    Que á Menina dando vai,
    Humas, os olhos da Mãi,
    Outras, a boca do Pai;

    Mas Apollo aqui fechando
    As altas couzas futuras,
    E deixando o pobre velho
    Alegre, mas ás escuras;

    Me disse = Conta o que viste;
    O mais, em tempo vindoiro,
    Fiel, apurada historia,
    O dirá em letras de oiro;

    Corri: mas trémulas pernas
    Tem sempre estrada comprida;
    E pois acho a profecia,
    Gradas aos Ceos, já cumprida,

    Beijo respeitozamente
    Estas faixas, que envolvêrão
    Aquella, a quem dão a vida
    Os que a minha protejêrão;

    = Recebe, oh Recem-nascida,
    Terno amor, alto respeito;
    Teus Avós, teus claros Pais
    Te derão este direito;

    E tu, Formoza Alegrete,
    Que depois de erguida a meza,
    Ficavas co'as velhas Aias
    De mágicos filtros prêza;

    Quando eu a teus pés contava,
    Mentirozo historiador,
    Ora a do Caixão de vidro,
    Ora a das Cidras do amor;

    Quando os mesmos tenros annos
    A tua Filha contar,
    Todos os dias virei
    Meu officio exercitar,

    E em tanto, a pezar do tempo,
    Que a fronte me vai gelando,
    Com a rouca Lyra ás costas
    Pelo Parnazo trepando:

    Vou sentar-me entre os Loireiros,
    Que réga Castalia fria;
    Onde revôam em bandos
    Os genios da Poezia;

    E co'a testa descuberta
    A' viração bemfeitora,
    Traçarei mais dignos versos
    Do que estes, que ouvis agora;

    Com tempo os irei fazendo;
    O Deos também me fez ver,
    Que sobre este mesmo assumpto
    Tenho muito que escrever.

    _Na occazião em que o A. hia ver o Varatojo_.

    Meu Amigo, duro Amigo,
    Fatal, rígido Banqueiro,
    Motivo dos meus pezares,
    Herdeiro do meu dinheiro;

    Em taes termos me deixaste,
    Que sou deste rancho o nôjo;
    E co'as lagrimas nos olhos
    Parto para o Varatojo;

    Por ti filho da pobreza,
    Irei ser naquelle mato,
    Qual foi São Sebastião,
    Não na vida, mas no fato;

    Vai tu seguindo a fortuna,
    E leva a bandeira alçada,
    De tarde na laranginha,
    A' noite na Arrenegada;

    Até que voltando a roda,
    Mande teu fado inimigo,
    Que deixes crescer as barbas,
    E venhas viver comigo:

    Vem, e traze o teu baralho,
    Ministro dos meus destroços;
    Farei do vicio virtude,
    Apontando a Padres nossos;

    Vem viver entre altas brenhas;
    Vem curtir as minhas dores;
    Traze o pranto dos Parentes,
    Traze as pragas dos Crédores.

    Não falla vão Agoureiro,
    De cujas palavras rias;
    Meus trabalhos me fizerão
    Mestre nestas profecias.

    Não te fies em ventura;
    Quem joga, tem o meu fim;
    Outrem te dará os gostos,
    Que tu me tens dado a mim.

    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava o A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.

    A tua polida Carta,
    Que honrou hum Poeta razo,
    Escrita em pura linguagem,
    E assignada no Parnazo;

    Da mais injusta ambição
    Traz testemunhos fieis;
    Possues grossos thezoiros,
    E citas-me por dez reis?

    Quem do doce Anacreonte
    Bebeo o estilo divino,
    Quer prostituir seus olhos
    Co'as Trovas do Tolentino?

    Pago, em fim, divida louca;
    Mas quem quer pontualidade,
    Cuide tambem em pagar
    As dividas da Amizade;

    Sabes que intento imprimir;
    E porque o Povo não fuja,
    Sabio Amigo, emenda, risca,
    Põe sabão na roupa suja;

    Não te vendo falso íncenso;
    Es Juiz da Confraria;
    Oxalá que altos negocios
    Se tratassem em Poezia;

    A Paz, a fugida Paz,
    Voltára seu alvo cóllo;
    E dera brandos ouvidos
    A' branda Lyra de Apollo;

    Reziste humana cabeça
    A' mais discreta razão;
    Mas ao poder da harmonia
    Não reziste o coração:

    Faze, pois, o que eu te peço;
    Que inda que ha vótos diversos,
    Se lhe pões a tua lima,
    Quem morderá nos meus Versos?

    Dá-lhe, depois, teus louvores;
    Comprará toda Lisboa,
    Se huma vez te ouvir dizer =
    Que comprem, que a Obra he boa;

    Farta-me a bolsa; e se queres
    Ver tambem minha alma farta,
    Manda riquezas de Athenas
    Embrulhadas n'outra Carta.

    _Offerecendo hum Perum em caza, aonde todos os Domingos davão ao A. este
    prato_.

    Senhora, tambem hum dia
    Entrarei co'a frente erguida;
    Não serei na vossa meza
    Dependente toda a vida;

    Nem sempre abatido pejo
    Dirá nesta cara feia
    Quanto doe a hum peito altivo
    Matar fome em caza alheia;

    Airozo, gordo Perum,
    He meu soberbo prezente;
    Traz inda as pennas molhadas
    Co'pranto da minha gente;

    No Santo Dia esperavão,
    Quebrando antigo jejum,
    Cravar inexpertos dentes
    Neste primeiro Perum;

    A russa, magra Jozefa,[3]
    Ergueo queixume sentido;
    Custou-lhe mais esta auzencia,
    Que a do defunto Marido.

    [Nota de rodapé 3: Creada.]

    O loiro, alvar galleguinho
    Chegou aos olhos seu trapo;
    Tinha vistas sobre a carne,
    E muitas mais sobre o papo.

    Seu almôço requerendo
    Em luzindo a madrugada,
    Na esquerda, grossa fatia
    D'ambas as partes barrada;

    Na dextra, com branda cana
    O seu pupîlo guiava;
    Em tenras, públicas malvas,
    Para si o apascentava;

    Quando lhe mandei trazer-vos
    O bom companheiro seu,
    Pedindo-me côxos mezes,
    Me disse, que o trouxesse eu.

    Eu o trago; a offerta he pura,
    Mas a tenção a envenena;
    Traz escondida huma uzura,
    Maior, que a da meia sena.[4]

    [Nota de rodapé 4: Partido de jogo.]

    Com hum sorrizo acceitai
    O atraiçoado convite;
    Vem a morrer huma vez,
    Porque muitas resuscite.

    Curai todos os Domingos
    A minha doença interna;
    Sobre a meza milagroza
    Seja esta ave, huma ave eterna;

    De outra, que finge a Poezia,
    Trocai em verdade a pêta;
    E seja hum negro Perum
    A Fenis deste Poeta;

    Na ondada, pia toalha,
    Co'a benção da vossa mão
    Seus frios, despidos ossos,
    De carne se cubriráõ;

    Consenti, que este ouco peito
    Ao prodígio se consagre;
    E que dentro em si colloque
    A mór parte do milagre;

    Quanto ao Padre Prégador,[5]
    Meu voto he não convidallo;
    Porque ha de comer o assumpto,
    Muito melhor que prégallo.

    [Nota de rodapé 5: Capellão da Caza.]

    _A huma Preta, que pertendia que a obsequiassem_.

    Domingas, debalde queres,
    Nesse canto da Cozinha,
    Vencer a invencivel teima
    Da rebelde carapinha;

    Em vão te arripia a frente,
    De que zomba o Deos de Amor,
    Alvo côto de pomada,
    Furtado do Toucador;

    Debalde tufado laço
    De atadeira fitta Ingleza
    Te assombra a lêveda pôpa,
    Rissada por natureza.

    Debalde altêas as ancas,
    Esguias, e enganadoras,
    Co'as velhas algibeirinhas,
    Que vão deixando as Senhoras,

    Amor, fingindo dotar-te,
    Te poz, com traidora mão,
    Junto dos dentes de neve,
    Faces tintas de carvão;

    Inda que ancião pezado,
    Desprézo teus vãos intentos;
    Debaixo de murchas cans
    Nutro altivos pensamentos.

    Vejo a quebrada madeixa
    Já tornada em gêlo frio;
    Tudo o tempo me levou,
    Mas não me levou o brio.

    Debaixo da Zona Ardente
    Jurar-te-hia amor, e fé;
    Mas não tem culto na Europa
    As Deidades de Guiné;

    Se ás vezes te ponho os olhos,
    Não he de amor sinal certo;
    São dezejos de levar-te
    A' caza de João Alberto.[6]

    [Nota de rodapé 6: Comprador.]

    A engomada cazaquinha
    Te descobre novas faltas;
    Para outro corpo foi feita,
    Dizem-no as feições mais altas.

    Já n'outros pés teus çapatos
    Soffrêrão do tempo o açoite;
    Cansada, fendida sêda,
    Mostra dedos côr da noite;

    E pois que a Amor queres dar-te,
    Eu te aponto hum Xafariz,
    Onde aches dignos amantes
    Assentados em barris;

    Acharás o Pai Francisco,
    Homem a bulhas contrario,
    Já duas vezes Juiz
    Na Irmandade do Rozario;

    Acharás o forro Antonio,
    Que o tabaco, e vinho enjôa;
    E tem nos calmozos Junhos
    Caiado meia Lisboa;

    Verás esbelto Crioilo,
    Dado ao vento o peito nû,
    Levantando airosos saltos
    No manejo do barubû;

    Que ávidos cães enxotando,
    Tem, com braço arregaçado,
    Nas êrmas praias do Téjo
    Cem cavallos esfolado;

    Nestes, vaidoza Domingas,
    Assenta bem teu amor;
    Chovão settas de teus olhos
    Em peitos da tua côr;

    Vai da janella da escada
    Acolher, com doce agrado,
    Os suspiros que te envião,
    Ao som do londum chorado;

    E deixa de atormentar-me
    Com tuas loucas idéas;
    Também sinto dores proprias,
    E escuto pouco as alhêas;

    Sim, Domingas, nós marchamos
    Na mesma infeliz estrada;
    E do amor, que eu te não pago,
    Assaz estás bem vingada;

    Tu puzeste em mim teus olhos,
    E eu fui pôr em Marcia os meus;
    Que me paga mil extremos,
    Assim como eu pago os teus;

    Marcia, que em alçando os olhos,
    Mil settas nesta alma crava;
    E em cuja caza tu tens
    A dita de ser escrava;

    Tens-me a mim por companheiro;
    Temos o mesmo Senhor;
    Tu, por cazos da fortuna,
    Eu, por castigo de Amor;

    E pois que eu não posso amar-te,
    Seguirás melhor esteira,
    Se de meus ternos suspiros
    Quizeres ser mensageira;

    Em vendo que ella está só,
    Vai-lhe expôr a paixão minha;
    Eu peço a Amor, que entretanto
    Tóme conta na cozinha;

    Amor lavará teus pratos,
    E escumará a panella,
    Em quanto tu a seus pés
    Dizes, que eu morro por ella;

    Teus grossos, trombudos beiços,
    Lhe vão expôr meus cuidados;
    Hão de ser melhor ouvidos,
    Que sendo por mim contados;

    Pinta-lhe as lagrimas tristes
    Em que meu rosto se lava;
    Por hum infeliz cativo
    Peça huma ditoza escrava;

    Dize-lhe, que não se assuste
    De meu cabello nevado;
    Jura-lhe que não são annos,
    Mas penas, que me tem dado;

    Que a cauza das minhas rugas
    He o seu desabrimento;
    E vai da minha velhice
    Fazer-me hum merecimento;

    Ah Domingas, se em seu peito
    Me fazes achar piedade,
    Tambem eu juro fazer
    A tua felicidade;

    E pois que o teu coração
    Sómente he baixo, e grosseiro,
    Em preferir liberdade
    A tão feliz cativeiro;

    Por amor serei mesquinho;
    Meus gastos verás cortar;
    Para ajuntar-te quantia
    Com que te possas forrar;

    Cheia de teus beneficios
    Minha mão agradecida
    Te irá pôr em larga praça
    Rendozo modo de vida;

    E assentada em novo estrado,
    De fasquiada madeira,
    Ondeando ao som do vento
    Trémulo tecto de esteira,

    Teus negros, airozos braços,
    Chocalhando hum assador,
    Encherão famintos peitos
    De castanhas, e de amor;

    Terás bojudas tigellas
    Sobre incendidos tições,
    Onde fêrvão em cardumes
    Saborosos mexilhões;

    Teus doces, sonóros écos,
    Sem mentir, apregoaráõ
    O azeite de Santarem,
    O cravo do Maranhão.

    Domingas, segue esse rumo;
    Que teu amor reloucado,
    Sem te fazer venturoza,
    Me deixa a mim desgraçado;

    E se sem dó dos meus ais,
    Teimas nos projectos teus,
    Fallando nos teus amores,
    Em vez de fallar nos meus;

    Trocando boa amizade
    Por entranhado rancor,
    Vou descubrir teus intentos
    A teu austéro Senhor;

    Que em zelo honrozo inflammado,
    Sem ser precizo atiçallo,
    Vai a caza do Lagoia[7]
    Trocar-te por hum cavallo.

    [Nota de rodapé 7: Comprador]

    CARTA

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.

    Foi este o ditozo dia,
    Que te deo a Espoza bella;
    Doce, sólida alegria,
    Para ti, junto com ella,
    No mesmo berço nascia;

    Por tua maior ventura,
    Natureza lhe quiz pôr,
    Entre os Dons da Formozura,
    Outro dote inda maior,
    Que he, alma innocente, e pura;

    Eu sei teu costume antigo,
    A Mulher, que he só formoza,
    Não vale tudo comtigo;
    Soubeste escolher Espoza,
    Em quem tens Espoza, e Amigo;

    Quer sempre ter hum Senhor
    Nosso humano coração;
    E na ventura maior
    Inda sente em si hum vão,
    Que só enche o casto amor;

    De quantos males te eximes,
    Dando ao teu tão bom Senhor?
    Damnozas paixões reprimes;
    Recebes das mãos do Amor
    Os prazeres, sem os crimes;

    Céga mocidade errada,
    A' conjugal união
    Quiz chamar vida cansada;
    Diz que he triste escravidão,
    De mil pensões carregada.

    Chama á paz hum dissabor;
    Diz, que de susto, e desdens
    Se alimenta o Deos de Amor;
    E que a certeza dos bens
    Lhes diminue o valor;

    Fechão olhos á verdade,
    Caminhando apôs seus erros;
    E em falsa tranquilidade,
    Ao som de pezados ferros,
    Vão cantando liberdade;

    Mil remórsos na alma estão,
    Que inda que o rosto os suffoca,
    Roendo as entranhas vão;
    Que importa rizo na boca,
    Se ha punhaes no coração?

    Amor he fogo sublime,
    Que nas almas se accendeo;
    As outras paixões reprime;
    Elle he dadiva do Ceo,
    O abuzo he que o faz ser crime;

    Beija, Amigo, os teus grilhões;
    Hum para o outro erão feitos
    Os vossos bons corações;
    Crava em vossos ternos peitos
    Santo Amor os seus farpões;

    Onde achas pessoa estranha,
    Que não contrafaça o rosto,
    Porque vê, que assim te ganha?
    Quem he que na pena, ou gosto,
    Com verdade te acompanha?

    Contas teus cazos sem medo
    A quem por amigo passa;
    Fiaste-te em rosto lêdo;
    Foste no meio da praça
    Assoalhar teu segredo;

    Mal os homens conheceo
    Pura amizade enganada,
    O santo rosto escondeo,
    E tornou-se envergonhada
    Para o Ceo, donde desceo;

    O amigo que te rodeia,
    Véste das tuas paixões;
    Com ellas te lizonjeia;
    São raros os corações,
    Em que dôa dor alheia;

    Quando acertares de ler,
    Que houve entre homens união,
    O Escritor a quiz fazer;
    Não os pintou como são;
    Mas como devião ser;

    São coizas imaginadas
    Dos _Nizos_ o amor profundo;
    São fábulas bem contadas;
    Ou os não houve no Mundo,
    Ou não deixárão pégadas;

    Puro amor, limpa verdade,
    Só entre Esposos estão;
    Desce a elles a Amizade;
    Traz-lhes co'a santa união
    Huma só alma, e vontade;

    Communica á Espoza amada
    Teus mais internos cuidados;
    E vive em paz descançada
    A vida dos bem cazados,
    Vida bemaventurada;

    Sem receio de perigo
    Dorme sono saborozo;
    Que não tens junto comtigo;
    Lisonjeiro suspeitozo,
    Traidor, com rosto de amigo;

    Tens por doce companhia
    Aquella, que o justo Ceo
    Com mil virtudes te invia;
    Tu es o cuidado seu,
    E como seu, te vigia;

    Goza em socego profundo
    Tão pura felicidade;
    Tens hum thezoiro fecundo;
    Tens amor, tens amizade,
    Tens todos os bens do Mundo.

    E se ha entre homens desvelo
    (Coiza que aqui contradigo)
    Conta com hum, que he singelo;
    E foi sempre teu amigo,
    Quanto os homens podem sêlo.

    CARTA

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé
    de Noronha, hoje Marquez de Angeja_.

    Senhor, eu não sou culpado;
    Traçar outros Versos quiz;
    Mas tenho perdido o trilho
    Com as Trovas do Luiz;

    A Muza, que ha pouco as fez,
    Outra rima não me inspira;
    Por mais que mordo nas unhas,
    E que em vão tempéro a Lyra.

    Acceitai meus bons dezejos;
    E como homem de razão
    Não desprezeis baixos Versos,
    Quando os dicta o coração;

    Minhas fiéis expressões,
    Filhas de amor, e saudade,
    O que não tem em poezia,
    Lhe vai supprido em verdade.

    Em quanto co'as soltas vélas,
    Forçadas do vento rijo,
    Demandava a Galeota
    Os areaes do Montijo;

    Em quanto ao Principe Augusto
    O patrio Téjo se humilha,
    E sobre os rasgados hombros
    Lhe leva a soberba quilha;

    Meus olhos, meus tristes olhos,
    Nas aguas seguindo a esteira,
    De lagrimas se arrazavão
    Sobre as praias da Junqueira.

    Dentro do cansado peito
    Se ateou crua peleja;
    Senti huma guerra viva
    De saudades, e de inveja;

    Não era de baixa inveja
    Affecto grosseiro, e injusto;
    Era invejar ao Creado
    Ir junto a seu Amo Augusto.

    Senhor, não sou atrevido;
    Ha lugares derradeiros;
    O meu dezejo me punha
    Entre a chusma dos Remeiros;

    Com as faces açoitadas
    Dos agudos ventos frios,
    Entre os borrifos das ondas,
    E as pragas dos Algarvios;

    A Apóllo pedindo a Lyra,
    Que só para isto invéjo,
    Chamára das frias grutas
    As loiras Filhas do Téjo;

    Que escutando o som divino
    Entre as húmidas moradas,
    E levantando nas ondas
    Suas cabeças doiradas;

    De tal Hospede soberbas
    O lenho rodearião;
    E as aguas co'branco peito
    A' porfia lhe abririão;

    O fatídico Protêo,
    Cheio de saber divino,
    Revelára ao novo Heróe
    Os segredos do Destino;

    Famozas acções cantára,
    Levantando a sábia voz,
    Moldadas sobre as historias
    Dos Augustos Pais, e Avós:

    Mas, Senhor, a minha Muza
    Sem tino ao ar se remonta;
    E vai-se mettendo em obra,
    De que não póde dar conta;

    Esta levantada empreza
    Até a _Boileau_ deo sustos;
    Dizia que só Virgilios
    Podião louvar Augustos;

    He queimar-lhe baixo incenso,
    Cansallo com Versos frios;
    Amor respeitoso, e votos
    Serão os meus elogios:

    Vós, Illustre Villa Verde,
    Com quem sempre me hei achado,
    Fazei que seja o meu nome
    A seus ouvidos levado;

    Se lhe der acolhimento,
    Sigamos de Horacio as traças,
    Façamos que a par das Muzas
    Marchem as rizonhas Graças;

    Dizei-lhe, que na Folhinha,
    Com letras doiradas puz
    Aquelles formozos dias
    Das escadas de Quéluz;

    Aquelles dias ditozos,
    Quando a seus pés ajoelhado,
    Era ao abrigo das Muzas
    Benignamente escutado;

    Quando, tendo já traçado
    Melhorar-me os meus destinos,
    Se dignava perguntar-me
    Como estavão os meninos.

    Quando me mandou, que em verso
    Contasse como escapára
    Naquelle funesto encontro
    Dos taes Carreiros da Enxára;[8]

    [Nota de rodapé 8: Allude ás Decimas.]

    E se inda o favor mereço
    De tão alta Protecção,
    Dizei, que mudei de Officio,
    Porém de ventura, não;

    Que não me enganão zumbaias
    Dos humildes Supplicantes;
    Porque a bolsa mais sincera
    Trata-me inda como dantes.

    Que inda os cães atrás do Russo
    Esperão nelle a merenda,
    Quando eu vou para Lisboa
    Fazendo Versos, e renda;

    Que dando aos oucos ilhaes,
    Vai marchando triste, e só;
    Que as mais seges fazem sécia,
    Porém que a minha faz dó;

    Que até o boçal Gallego,
    Que eu tinha por innocente,
    Já me conhece a fraqueza,
    E já me revíra o dente;

    Depois, que as vélas de cebo
    Já cerceia no topete,
    E vai conquistar o Bairro
    De polainas, e colete;

    Depois que em chapeo de Braga,
    Que só põe em dia claro,
    Cozeo em devota rosca
    Candêa de Santo Amaro;

    Depois que em déstros meneios
    O suado corpo bole,
    E abre guerra ás Cozinheiras
    Ao som da Gaita de fole;

    Já responde focinhudo,
    E eu me cálo as mais das vezes;
    Porque, pelos meus peccados,
    Sou réo de huns poucos de mezes:

    Mas, Senhor, este Epizódio
    Vai sendo dos arrastados,
    O Gallego veio nelle,
    Como me vai aos recados;

    Se o julgardes enfadonho,
    Ao Principe o não conteis;
    Nos factos da minha vida
    A' vontade escolhereis;

    Pintai-lhe a triste familia,
    Gritando-me por dinheiro;
    Hoje o rol de hum Alfaiate,
    A' manhã o de hum Tendeiro;

    Pintai-lhe hum Procurador,
    Que aqui vem todos os dias
    Saber da minha saude
    Da parte das Senhorias;[9]

    [Nota de rodapé 9: Das Cazas.]

    Enfeitai de côr alegre
    A funesta narração;
    Marchão ás vezes os rizos
    Ao lado da compaixão;

    E pois que os vossos esforços
    Nunca me tem sido vãos,
    Acabai, benigno Conde,
    Esta obra das vossas mãos;

    De hum mal fadado Poeta
    Trocai em prazer as penas;
    Já diante d'outro Augusto
    Fez o mesmo outro Mecenas.

    CARTA

    _No dia dos Annos do Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Angeja D. Jozé de Noronha, estando o Author doente_.

    Senhor, se vos são acceitos
    Pobres Versos, mal limados,
    Entre vidros, e receitas,
    Em triste leito traçados;

    Se de hum sombrio doente
    A fúnebre poezia
    Os prazeres não perturba
    Deste faustissimo Dia;

    Consenti, que a branda Lyra,
    Por vós outr'ora escutada,
    E que teimoza molestia
    Tem ha muito pendurada;

    Sobre este cansado peito,
    Ferida com debil mão,
    Mande ao Ceo singelos hymnos,
    Nascidos do coração;

    Consenti, que eu louve o Dia,
    Para mim assinalado,
    Qne raia em nosso Horizonte,
    De nova luz coroado;

    Dia, que vos vio nascer;
    E que quiz trazer comsigo
    Quem une ao nome de Grande,
    O santo nome de Amigo;

    Quem não quer só a Nobreza
    De Illustres Antepassados;
    E mais ama huma virtude,
    Que cem Titulos herdados;

    Quem sabe, que o vir honrar
    Dos pequenos a baixeza,
    He entre os que nascem Grandes
    A verdadeira Grandeza;

    Quem a favor de infelizes
    Traz sempre occupada a idéa;
    E estima a fortuna propria,
    Só para fazer a alhea;

    Cem vezes, formozo Dia,
    Vem o Horizonte doirar;
    Nunca possão negros ventos
    Tuas luzes perturbar;

    Tu nos déste em peito illustre,
    Que se doe de alheios ais,
    Hum coração adornado
    De mil Virtudes Morais;

    Senhor, eu não doiro enganos,
    Que venal lizonja approva;
    Sabidas verdades digo,
    E sou dellas huima prova;

    Sou hum dos muitos exemplos
    Do vosso bom coração;
    A minha felicidade
    Foi obra da vossa mão;

    Razoando em meu favor
    Contra teimozos destinos,
    Felizmente pleiteastes
    A cauza dos meus Meninos;

    Ao bom Principe pedistes,
    Que com mão compadecida,
    Lhes concedesse humas ferias,
    Que durassem toda a vida;

    Pedistes depois, Senhor,
    Que a sua Real Grandeza
    Se dignasse de arrancar-me
    D'entre os braços da pobreza;

    Sei que nelle he natural
    Ter dó das alheias penas:
    Mas ouve-as melhor Augusto,
    Quando lhas conta Mecenas;

    Por este modo alegrastes
    A triste familia minha;
    E em caza nos levantastes
    O Interdicto da Cozinha:

    Já hum segundo Frizão,
    Pendurada a lingua velha,
    Dá reboque, como póde,
    A' antiga meia parelha;

    Já o sórdido Gallego,
    Meu antigo companheiro,
    De gravata, e carrapito
    Arvorado em Boleeiro;

    Açoitando surdas ancas
    De dois Sendeiros roazes,
    No mesmo Bairro apregôa,
    Ora barrîs; ora pazes;

    Mas, Senhor, deixando graças,
    Pois não as pede a materia,
    E pedindo á minha Muza,
    Que seja comvosco séria;

    Rogo ao Ceo vos dê mil annos,
    Já que são tão bem gastados;
    Annos que achareis depois
    Em Livro de Oiro apontados;

    E se em dia de Mercês
    Ides de Semana entrar,
    Seja a Mercê destes Annos
    O meu nome apprezentar.

    Ao Principe, ajoelhando,
    Em favoravel momento,
    Por mim, Senhor, lhe jurai
    Eterno agradecimento;

    E eu, em largando este leito,
    Já sei a hora opportuna
    De poder ajoelhar-lhe,
    Quando elle chega á Tribuna;

    E pondo-me ao pé do Ginja,
    Que na _Náo Ajuda_ falla;
    E faz a todos os _Glorias_
    Continencias co'a vengalla;

    Surdo á historia do naufragio,
    Com que elle ás vezes me afferra,
    Rezarei ao Deos do Ceo,
    E assistirei aos da Terra.

    CARTA.

    _Tendo mandado huma Senhora ao Author Vinho da Madeira com huma Carta em
    boa Poezia_.

    Hum humilde admirador
    Da vossa bondade, e estilo,
    Beija a Carta precioza,
    Que veio honrallo, e instruillo;

    Desde hoje, do Mestre Horacio
    Minha alma a lição escuza;
    Quiz a minha Bemfeitora
    Ser tambem a minha Muza;

    De fino licor mandastes
    A minha cava prover;
    A vossa mão generoza
    Sabe dar, como escrever;

    A' parca meza assentado,
    Em Vinho, e Carta pegava;
    Hia bebendo, hia lendo,
    E tudo me embebedava;

    Deixo o velho Anacreonte,
    Hoje mettido a hum cantinho;
    Sua meza nunca teve
    Tão bons Versos, tão bom Vinho;

    Se os teve, Vós o roubastes
    Por minha felicidade;
    Já cá tem o Vinho, e os Versos
    Quem delle só tinha a idade;

    Das escumas do Madeira
    Vejo nascer a alegria;
    Com as azas affugenta
    A minha melancolia;

    Já se perturba a cabeça;
    Já tenho emprestadas cores;
    Já começão a esquecer-me
    As molestias, e os Crédores;

    O tal Horacio enganou-se;
    Não conhecêo a parreira;
    Não se chamava Falerno;
    Se era bom, era Madeira;

    He bom, mas tira o juizo;
    Mandai-mo, em vez de o beber;
    Não se arrisque neste jogo
    Quem tem tanto que perder.

    CARTA.

    _Desculpando-se o Author de não ir a huns Annos_.

    Senhora, em honra do Dia,
    Esforçando a mão pezada,
    Tómo a Lyra, ha longo tempo
    Ao silencio consagrada;

    E em quanto lhe alimpo as cordas,
    Que bolor aos dedos dão,
    E atarantadas aranhas
    Despejando o bêco vão;

    C'os olhos ao ar alçados
    A' minha Muza pedia
    Me désse sonóros Versos,
    Dignos de Apollo, e do Dia;

    Que me ensinasse a louvar
    O ditozo Nascimento,
    Que ao vosso brilhante Séxo
    Trouxe mais hum ornamento;

    Que pintasse a loira Venus
    Vosso rosto bafejando;
    Que me mostrasse as tres Graças
    O rico berço embalando;

    Que me ensinasse a cantar,
    Cingida a testa de loiro,
    Huns claros, triunfantes olhos,
    Huns finos cabellos de oiro;

    Que me fizesse augurar,
    Rasgando ao futuro o véo,
    Amor consagrando as settas
    Nos Altares de Hymenêo;

    Mas as Muzas, como as Ninfas,
    Tem para mim os pés mancos;
    Fogem de trémulas vozes,
    Tremem de cabellos brancos;

    Fiquei, pois, desamparado;
    E merecendo desculpa,
    De não vos mandar bons Versos,
    Peco perdão, sem ter culpa;

    Sei que devia ir pedillo
    Respeitozo, e diligente;
    Mas impede-me essa honra
    Hum defluxo impertinente;

    E quem em caza traz botas,
    E vinte xaropes bebe;
    E quando fahe, fahe mettido
    N'uma loge de Algebebe;

    Se fosse em tempo invernozo
    Entrar na illustre Assembléa
    Com leve, ingleza cazaca,
    Fina, transparente mêa;

    Sem acabar cumprimentos,
    Logo o corpo arripiado,
    Gelada a voz sobre os beiços,
    Cahiria constipado;

    E o Marcos largando os bules,
    Pondo o Velho em quentes pannos,
    Entre os applauzos dos vossos,
    Praguejaria os meus annos;

    Vossa bondade não quer
    Pôr o Cortezão em risco,
    De ir com Habito de Christo,
    E vir no de S. Francisco;

    Acceitai dahi meus votos;
    Daqui a mão vos beijei;
    E dos doces que não como,
    Domingo me vingarei;

    Darei escumantes copos
    Ao perum, e aos môlhos seus;
    Brindarei os vossos Annos,
    Tratando mui bem dos meus.

    CARTA.

    _Aconselhando a hum Cebelleireiro, que não continuasse a fazer Versos_.

    Pois que o talento inquieto
    Até em poezia provas,
    E queres ás mais desgraças
    Ajuntar desgraças novas;

    Pois, que em galantes cantigas
    Teu Rival puzeste razo,
    E coroado de trovas
    Vás entrando no Parnazo,

    Quero em trovas avizar-te,
    Que ha baixîos nesta barra;
    Vou ser Prégador trovista,
    Vou ser hum novo Bandarra;

    A occupação de Poeta
    He nobre por natureza;
    Mas todo o Officio tem ossos,
    E os deste são, a pobreza;

    Os dentes do bom Camões
    Sejão fieis testemunhas;
    Muitas vezes esfaimados
    Não achárão senão unhas;

    Depois que seus frios olhos
    Se fechárão no Hospital
    Logo as Filhas da Memoria
    Lhe erguêrão Busto immortal;

    De que serve honra tardia?
    Bem sei, que o rifão vem torto;
    Mas faz lembrar a cevada,
    Que se deo ao asno morto;

    Só as Muzas o chorárão;
    E o enterro devia ser
    Como hoje nos pinta o Lobo
    O de João Xavier.

    Homéro, o divino Homéro,
    Honra de antigas Idades,
    Por cujos inuteis ossos
    Brigárão sete Cidades;

    Doces Versos recitando,
    Pela Grecia discorria;
    Tinha os Thezouros de Apollo,
    E esmola aos homens pedia;

    Mas se de Authores antigos
    Tens tido pouco exercicio,
    Eu te aponto hum bem moderno,
    E até do teu mesmo Officio;

    Foi este o famozo Quita,
    A quem triste fado ordena,
    Que a fome lhe traga o pentem,
    E da mão lhe tire a penna;

    Em quanto na suja banca
    Pobre tarefa tecia,
    Seu espirito sublime
    Sobre o Parnazo se erguia;

    Cozendo sobre o joelho
    Era dura, falsa cáveira,
    A sua alma conversava
    Com Bernardes, e Ferreira;

    Mil vezes travêssas Muzas
    Da baixa obra o desvião;
    E mostrando-lhe o tinteiro,
    Pós, e banha lhe escondião;

    Mas de que servem talentos
    A quem nasceo sem ventura?
    Vale mais, que cem Sonetos,
    A peior penteadura;

    Amigo, vamos errados;
    Escolhemos muito mal;
    He o fado dos Poetas
    Não professarem real;

    Péga no pardo baralho,
    E sobre a cama assentado,
    Fisga as biscas conhecidas
    Ao parceiro descuidado;

    Matando boçaes tafûes,
    Vai mexendo os papelinhos;
    Nem poupes no cadafalso
    As gargantas dos Sobrinhos;

    Em lhe vendo huma de seis,
    Arma-lhe os laços viscozos;
    Antes que lhe caia a xina
    Na ceira dos laparozos;

    Imita ondados cabellos
    Co'rubro lápis na mão;
    Estas pinturas dão xina,
    As da Poezia, não;

    Se em roda de loiras Ninfas
    Gyrão em torno teus ais,
    Em quanto lhe deres Versos,
    Acharás sempre Vestais;

    Fallo como exprimentado;
    Fallo com peito sincero,
    Póde huuma vara de fitta,
    Mais que a Ilíada de Homéro;

    No sonóro bandolim
    Fortuna as armas te deo;
    Não ha Dama, que rezista
    A' moda do Melibêo;

    Toca-lhe mil contradanças;
    Mas se não tiverem Dom,
    Entre ellas não sevandiges
    O Fidalgo Cotilhom;

    Nestas coizas he que eu creio;
    Poezia he mal fadada;
    Assenta, amigo Luiz,
    Que nunca servio de nada;

    Poucas Damas a conhecem;
    Se a pedem, e se a festejão,
    Gostão do que não entendem,
    Pedem o que não dezejão;

    Inda que por moda querem,
    Que lhes repitão Versinhos,
    Tem por modas de mais gosto
    Convulsões, e Jozézinhos;

    Huma Venus me pedio,
    Por quem inda eu hoje peno,
    Que lhe fizesse hum Soneto,
    Inda que fosse pequeno;

    Dinheiro, invisto dinheiro,
    Só em ti he que eu me fundo;
    Tens o Direito da força,
    És o Tyranno do Mundo;

    Amigo, escolhe hum Paralta,
    Corpo esbelto, perna teza,
    O chapeo tocando as nuvens,
    As fivellas á Malteza;

    Ornem-lhe loiros canudos,
    Pendentes com igualdade,
    Tenras faces, onde morão
    A Saûde, e a Mocidade;

    Chegue á bocca rubicunda
    Cheirozo lenço anilado;
    Dê bilhetinho discreto,
    De huma Novela furtado;

    Põe da outra parte hum Ginja,
    Fivella de oiro no pé,
    Bom vestido de lemiste,
    Boa meia grudifé;

    Com óculos no nariz,
    Mas com a penna na mão,
    Assignando vinte letras
    Para Londres, e Amsterdão;

    E dize-me, qual assentas,
    Que será o mais querido?
    Apósto, que as Damas todas
    Cuidão que o Velho he Cupido.

    Amigo, tenho acabado
    O meu comprido Sermão;
    Préguei-te as altas verdades,
    Que trago no coração;

    Abre mão das Poezias,
    Que nenhum prestimo tem;
    E cuida em sólidos meios
    De ganhar algum vintem;

    Se dizes, que contra os Versos,
    Em Verso huma Carta ordeno,
    E que aqui me contradigo,
    Praticando o que condemno;

    A teu forçozo argumento
    Respondo com Fr. Thomaz;
    Faze o que o Prégador diz,
    Não faças o que elle faz.

    CARTA.

    _Pedindo-se ao Author huma Gloza_.

    Menino, dizer finezas,
    Só o proprio Pertendente;
    Amor não póde imitar-se,
    Só o pinta quem o sente;

    Se adora alguma Nerina,
    Se he para ella a tal Gloza,
    Que vão fazer os meus Versos,
    Onde está a sua proza?

    Além disso, essa figura,
    Faces tenras, e córadas,
    Fallão mais discretamente,
    Que mil Cantigas glozadas;

    Lenço nas pontas bordado,
    Cipó, tízicas fivellas,
    Sobre hum corpo assim talhado,
    Se eu gósto, que farão ellas?

    Versos são mui fracas armas
    Para vencer corações;
    He clara a letra redonda,
    Leia a vida de Camões;

    Sua divina Poezia
    Teve mui curtos poderes;
    Tratarão-no mal os homens,
    E inda peior as mulheres;

    Pois entra de amor na estrada,
    Siga nella outro farol;
    Embuce-se a huma esquina,
    Soffra chuva, soffra Sol;

    Erga alli o Altar do Amor;
    Queime alli humilde incenso;
    Suba ao alto do capote
    Branco, alcoviteiro lenso;

    Que importa que os Çapateiros
    Dem assobio insultante,
    Se os negocios vão marchando
    Com passadas de Gigante?

    Cem vezes na mesma tarde
    Pize esbelto a feliz rua;
    Alheias cadeias de aço,
    Relogio de hollanda crua;

    Vá por aqui, que por Versos
    Dá em vão loucas passadas;
    São divertimento inutil,
    São as historias das Fadas;

    Inda que para cantallos
    Lhe désse Garção a Lyra,
    Como hão de crer-lhe verdades
    Na linguagem da mentira?

    Seja acérrimo chorão;
    Pranto entendem raparigas;
    Faça em lagrimas seu fundo,
    E não o faca em Cantigas;

    Palêe co'estes remedios,
    Pois não tem o verdadeiro;
    He elle (aqui em segredo)
    O mílagrozo dinheiro;

    Mas se teima em pedir Versos,
    E conselhos não supporta,
    Então perdôe, meu Menino,
    Póde bater a outra porta.

    CARTA.

    _Agradecendo alguns pratos, que despertárão a vontade de comer_.

    Senhor, a dada Perdiz,
    Acerejada, e fresquinha,
    Veio emendar os estragos
    Da enjoativa gallinha;

    Esta ave he sempre odioza
    A melancólicos dentes;
    Faz lembrar ultimos caldos
    De já perdidos doentes;

    He, além disto, hum cruzado
    Fugido do mialheiro;
    Este meu mortal fastio
    Custou rios de dinheiro;

    Mas da vossa lauta meza
    Bocados medicinais
    Forão tão bem applicados,
    Que me curárão de mais;

    Venceo vosso cozinheiro
    O tal fastio cruel;
    Meu estomago já pede
    Meças com Fr. Manoel;

    Mas, Senhor, vossa piedade
    Vai ser-vos hum dom fatal;
    Quizestes fazer hum bem,
    Que redunda em vosso mal;

    Fizestes nascer a fome,
    E a fome pede mantença;
    Se a deixais entregue a mim,
    Póde morrer á nascença;

    A vossa filha amparai;
    Não he de peitos honrados
    Pôr as suas Creaturas
    Na Roda dos Engeitados.

    Em soando as duas horas,
    Sabei que esta cara minha
    Tem longos, ávidos olhos,
    Fitos na vossa Cozinha;

    Eu não vou, porque inda fraco,
    Indo arrostar ar delgado,
    Antes de matar a fome,
    Morreria constipado.

    CARTA

    _Sobre o mesmo Assumpto_.

    Senhor, assim que eu largar
    A baetal fatiota minha,
    Vou beijar as pias lágeas
    Da vossa farta Cozinha;

    Não foi attento Hespanhol,[10]
    Receitando amarga quina,
    Quem venceo meu mal co'as armas
    Da fallivel Medicina;

    [Nota de rodapé 10: Medico.]

    Vós sabeis traçar receitas
    Mais gratas, e mais felizes:
    Curárão-me oppostos males
    Bem applicadas Perdizes;

    Humas o appetite abrírão,
    Outras socêgo lhe dão;
    Sarárão as duas chagas
    Co'pêllo do mesmo cão:

    Dizem linguas inimigas,
    Que esta doença he ficticia;
    E os Práticos do meu pulso
    A capitúlão malicia.

    Que em meu capote abafadas
    Estas goellas felizes,
    Em vez de cozerem lynfas,
    Estão armando ás Perdizes;

    Senhor, não devo atalhar
    Este conjurado assédio;
    Porque era, provar doença,
    Ingratidão ao remédio;

    Só digo, que não ganhais,
    Dando ouvido ás vozes suas;
    Aqui dais-me huma Perdiz,
    E se lá vou, tiro duas.

    CARTA.

    Bom Sobral, o que eu te disse
    He, a meu pezar, verdade;
    Sonóros, amenos versos,
    São obra da Mocidade;

    Mandaste que em Crescentini;
    Louvando a doce harmonia,
    O que o Mundo diz em proza,
    Eu lho enfeitasse em Poezia;

    Que invocando as brandas Muzas,
    Encostada ao peito a Lyra;
    Cante os ternos sentimentos,
    Que elle nas almas inspira;

    Môço Sobral, tu ignoras
    Da inerte velhice os damnos;
    Nesta fria testa brigão,
    Co'teu preceito, os meus annos:

    Que importa, que a huma orelha
    A tua voz respeitada
    Me mande afinar a Lyra
    Ha dez annos pendurada,

    Se á outra me diz Apollo,
    Que eu sou já dos reformados;
    Que em seu Tribunal não tornão
    A servir Apozentados?

    Longa idade, he longo mal;
    Velho, só he bom o Amigo;
    O teu mesmo Crescentini
    Ha de provar o que eu digo:

    Este homem, que a seu arbitrio
    Move as humanas paixões;
    Que traz na sua voz o sceptro
    Dos sensiveis corações;

    Que nos deixa duvidozos
    Quaes forças maiores são,
    Se os encantos da harmonia,
    Ou se a viveza da acção;

    Que em mim, que sou homem duro,
    E rebelde ás Leis primeiras;
    Que não chóro nos mais homens
    As desgraças verdadeiras;

    Que, insensivel, vi no Circo
    Burlesco Neto arrastado
    Deixar co'a rôta cabeça
    O terreno ensanguentado;

    Que vejo com olhos seccos,
    Com firme semblante inteiro,
    Fugir-me n'um parolim
    O meu ultimo dinheiro;

    Que em mim, digo, arranca pranto;
    Que amolga hum peito de seixo;
    Que muita vez co'chapeo
    Encubro o trêmulo queixo;

    Que quando dos tenros Filhos
    Chorava o triste destino,
    Tinha este peito de bronze
    O coração de Sabino;

    Este homem, que solto o panno,
    Vivas vem á força ouvir;
    Se cantar de hoje a déz lustros,
    Em vez de chorar, faz rir;

    Sobre os levantados áres
    A envergonhada Harmonia,
    Batendo apressadas azas,
    Do seu Filho fugiria;

    E o Jeronymo estendido[11]
    Co'as pernas nos tamboretes,
    Cabeceára entre as rimas
    Dos ociozos bilhetes;

    [Nota de rodapé 11: O Vendedor dos bilhetes.]

    E cuidavas tu, que a foice
    Que a taes dons ha de pôr fim,
    Que ha de ferir Crescentini,
    Me tinha poupado a mim?

    Se eu hoje fosse aos Oiteiros,
    Onde já tive elogios,
    Dir-me-hião crueis verdades
    Mil sinceros assobios;

    Este Genio dos Poetas
    He fugitivo, e mesquinho;
    A' primeira cam nos deixa
    Na ametade do caminho;

    Não he irmão do teu Genio,
    Este estende mão segura;
    Acompanha os seus Valídos
    A' borda da sepultura;

    Fará que sempre as desgraças
    Em tristes peitos emendes;
    Que sigas sempre os exemplos,
    Que dentro de caza aprendes;

    Lastima, pois, minhas rugas,
    Que até me cauzão o mal
    De faltar ao teu preceito,
    E a louvar hum homem tal;

    Mas vasto, cheio Theatro,
    Que elle encalma em tempo frio,
    Falla melhor, que dez Odes,
    He mais util elogio;

    E nelle estas velhas mãos
    Co'as forças que nascem d'alma,
    Darão, em lugar de Versos
    Muito pinto[12], e muito palma.

    [Nota de rodapé 12: Cruzado novo.]

    CARTA

    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.

    Senhora, o Quadro pedido
    Não estava retocado,
    Mas brevemente o remetto,
    Deixai isto ao meu cuidado;

    Mostra os erros da velhice;
    Põe alguns Velhos á raza;
    Custou-me pouco a pintura,
    Por ter as tintas de caza;

    Que já hum Amigo o vio,
    Eu, Senhora, vos confesso,
    Porém mostrei-lho inda em calva
    Como eu tambem lhe appareço

    Vós sois de mais ceremonia,
    E pezais com mais rigor;
    Temi, que sem rir c'os Versos,
    Só vos vissem rir do Author;

    Tómo outra vez o pincel,
    Vou-lhe pôr attenta mão;
    Abençoarei meu trabalho,
    Se lhe derdes protecção;

    Pois que a deve o sangue illustre,
    Tem dois direitos meu cazo;
    Porque a peço a huma Fidalga,
    Que o he tambem no Parnazo;

    De tão alto voto espero,
    Que geral favor me traga
    A huns Versos, que antes de lidos
    Tiverão tamanha paga.

    Ao favor de mos pedirdes,
    Honra, que eu não merecia,
    Ajuntastes o thezoiro
    De mos pedir em Poezia;

    Que fáceis, que amenos Versos!
    Trazem das Muzas o bafo;
    A moral os faz ser vossos,
    Que quanto ao mais são de Sapho;

    Só na pintura dos annos
    Errou essa mestra mão;
    Porque inda que era em Poezia,
    Foi puchar muito a ficção;

    A doce, igual harmonia,
    A imaginação fogoza,
    Depuzerão contra vós,
    E vos chamão mentiroza.

    Se occulto, fyzico acazo
    Branqueou huns fios de oiro,
    Vosso vingador Apollo
    Os cobre de mirto, e loiro;

    Quem marcha ao lado das Graças,
    Não sabe o que he fria idade;
    Deixai-me dizer a mim
    Essa funesta verdade;

    He em mim que o voraz Tempo
    Já empolgou a mão forte;
    Se inda me mêcho em Poezia,
    He já co'a ansia da morte;

    Cedo raivozos Crédores,
    A quem não curei as chagas,
    Darão a meus frios ossos,
    Em lugar de pranto, pragas;

    E outros, a que a carapuça
    Mesmo, sem mira, não erra,
    Dirão com gosto ao Coveiro
    =Enche-lhe a boca de terra.=

    Mas tudo perdoaráõ
    Minhas sepultadas cans,
    Se de cypreste as cobrirdes
    Vós, e as vossas oito Irmans.

    CARTA.

    A ti, amavel Bandeira,
    Partidista da Verdade,
    E de quem tenho mil provas,
    Que o és tambem da Amizade:

    Que são Filozofo vives,
    E o mesmo morrer protestas,
    A' excepção de me dares
    Bilhete de boas festas:

    Tolentino firme amigo
    Inda quando o Mundo caia,
    E a quem obrigas a sêllo
    Desde a rua da Atalaia,[13]

    [Nota de rodapé 13: Onde tinhão morado havia muitos annos.]

    Dezeja pura alegria,
    Saûde, e muito vintem;
    Dezeja-te tudo aquillo,
    Que elle quasi nunca tem;

    Pois, que chuva, e negros ventos
    Me fechão a porta, e o dia,
    E em caza apontão cuidados,
    Redobrada bateria;

    Pois que a horrivel solidão
    Aviva a idéa cruel
    Da gaveta, vão sepulchro
    Do agonizante quartel.

    E a engenhoza Hypocondria
    Me mette no antigo empenho
    De jurar, que estou morrendo
    Das molestias, que não tenho,

    Vou ver se posso esquivar-me
    A tanto mortal immigo,
    Acolhendo-me ás lembranças
    Do nosso bom tempo antigo;

    Tem a sôlta fantazia
    Farto, milagrozo armario;
    Cura-me penas reaes
    Com prazer imaginario;

    O nosso bom tempo antigo!
    Quando alçando a tôrva fronte
    Jantava Quintiliano
    A' meza de Anacreonte;

    Quando nos brilhantes copos
    Do casto, herdado Gorizos,[14]
    Hião mergulhar as azas
    Os Prazeres com os Rizos;

    [Nota de rodapé 14: Nome de huma Quinta do Amigo, a quem o A.
    escreve, a qual produz bom vinho.]

    Quando em renhidas disputas
    Mettias traidora mão,
    Sendo o motivo da guerra
    Solapada mangação.

    E sem haver lindos olhos,
    Sem haver ondadas tranças,
    Doidos com doidos tecião
    Turbulentas contradanças.

    Quando o assustado Ministro,
    Que as margens do Doiro trilha,
    Pôde salvar da procella
    A sua estimavel bilha.

    Clama em vão por tão bom tempo
    Minha discreta saudade;
    Doce, fugitivo tempo,
    Da nossa doirada idade!

    Ante meus olhos sâudozos
    Cruas azas despregou;
    E em cambio de tantos bens,
    Cans, e rugas me deixou.

    Só tu podes, caro Amigo,
    Virar-lhe o vôo apressado;
    E fazer que elle me traga
    Outra vez o meu reinado:

    Não peço bruxos prestigios,
    Basta ouvires meu alvitre,
    Põe a rua da Atalaia
    Na Calçada do Salitre;[15]

    [Nota de rodapé 15: O A. jantava muitas vezes na rua da Atalaia em casa
    do Amigo, a quem escreve, o qual se mudou para o Salitre.]

    Prepara farta vingança
    A meus compridos jejuns;
    Lança, em nome da Amizade,
    Mais nozes aos teus peruns;

    Lance fumo a faca tinta
    Nas victimas degolladas;
    Revôem pelo quintal
    As pennas ensanguentadas;

    Tornem a dar os teus lares
    Guarida á minha desgraça;
    Tornem a ter teus amigos
    Polido Isidro de graça;[16]

    [Nota de rodapé 16: Caza de Pasto.]

    Vai na franca, lauta meza,
    Versos ouvindo, e tecendo;
    Entre as Muzas, entre as Graças
    Vai, a rir, empobrecendo;

    Correntes do Doiro, e Rheno
    Escaldem meu Estro fraco;
    Abrão-me o Templo de Apóllo
    Atrevidas mãos de Baco;

    Sólte o rozado Taful
    A falsa eloquencia sua;
    E marche pelas Sciencias
    Como marcha pela rua;[17]

    [Nota de rodapé 17: Cóxeava.]

    He alma das Companhias,
    Alegres mezas governa;
    Depois de estar assentado,
    Não conheço melhor perna;

    Tomando amolada faca
    Teu sizudo Capitão,
    Nos demonstre, sobre hum lombo,
    A guerra do Rossilhão;

    Aliza assim, caro Amigo,
    Meu velho, engelhado coiro;
    Manda ás Parcas, que o meu fio,
    Já que he curto, seja de oiro.

    Dá brando ouvido a meus rogos;
    Teu bom peito em bem os tome;
    Não te falla vil lizonja,
    Falla-te a Amizade, e a fome:

    E tu, dia tormentozo,
    Que abalas velhas trapeiras,
    Que o telhado me arripias,
    Que me ensopas as esteiras;

    Que em meus reumaticos ossos
    Assentas pezado açoite;
    E sobre medonhas nuvens,
    Me mandas de tarde a noite;

    Serás o dia mais alvo,
    Que em meus largos annos levo,
    Se for acceita esta Carta,
    Que á tua má luz escrevo;

    Chamarei Zéfiros brandos
    A teus roucos ventos frios,
    Se hoje rezolve o Bandeira
    Dar de comer a vádios.

    CARTA

    _A hum Camarista_.

    N'uma infeliz madrugada,
    Antes que o Sol esclareça,
    Mettido em pobre caleça,
    Puz peito, Senhor, á estrada:
    Sahi em hora mingoada,
    Pois negra traição me espera;
    Homens, com genios de féra,
    Me atacárão sem motivo;
    Por milagre fiquei vivo,
    E devo pezar-me a cêra.

    Vi revoltozos Carreiros
    Com duro aguilháo armados;
    Vi nuvens de páos alçados
    Pelos cumes dos oiteiros:
    Roldão, e o bravo Oliveiros,
    Que alta pena Heróes declara,
    Talvez voltassem a cara,
    Que a tantos tremer fazia,
    Se nos campos da Turquia
    Vissem Carreiros da Enxara.

    Vi os Campos inundados
    De gentes vagas, e incertas;
    Vi as estradas cobertas
    De cacheiras, e cajados:
    Não valem rogos, nem brados,
    Não valem ligeiras pernas;
    A raiva, e o Deos das Tavernas
    Accendêo tanto os Campinos,
    Que cuidei que os meus Meninos
    Terião férias eternas.[18]

    [Nota de rodapé 18: O A. era Professor de Rhetorica, e pertendia passar
    para outro emprego.]

    Em quanto no duro chão
    Meu Companheiro arquejava,
    Eu muito humilde esperava
    Tambem a minha ração;
    Bem me lembrou que esta acção
    Deslustrava a minha gloria;
    Mas não pertende vitoria,
    Nem sabe mover espada
    Mão, ha annos, costumada
    A dar só com palmatoria.

    Entre mortaes agonias,
    Da bruta gente escapando,
    Me fui na sege encaixando,
    Maldizendo as romarias;
    Praguejei meus negros dias,
    Dias de pranto, e de dor;
    Conheci então, Senhor,
    Que só me dão meus destinos,
    Ou Carreiros, ou Meninos,
    Que Deos sabe o que he peior.

    Mas a perda da vitoria
    Sirva de abrandar meus fados;
    Dem-vos motivo os Cajados
    De fallar na Palmatoria;
    Saiba o Principe esta historia;
    Contai-lha com viva côr;
    Fazei com que, em meu favor,
    Sentindo affectos diversos,
    Lhe motivem rizo os Versos,
    E lhe faça dó, o Author.

    CARTA

    _A hum Camarista, tendo o A. sido despachado_.

    A rara benignidade,
    Que quiz o Ceo conceder-vos,
    Permitta que de escrever-vos,
    Tome eu hoje a liberdade;
    Pois tendes tanta bondade,
    Peço, nella confiado,
    Que por mim ajoelhado,
    E na bocca o coração,
    Beijeis ao Principe a mão,
    E lhe deis este recado.

    =Dizei, pois, a Sua Alteza,
    Que eu, seu humilde Afilhado,
    Por elle ha pouco arrancado
    D'entre os braços da pobreza,
    Na simples, mas farta meza,
    Entre os Irmãos, e os Parentes,
    Aos Ceos, com votos ardentes,
    Pedimos, que em paga justa,
    Prosperem a Mão Augusta,
    Que nos faz viver contentes:

    E se entre as puras verdades,
    Que Vós lhe podeis contar,
    Virdes, que terão lugar
    Algumas jovialidades,
    Pintai-lhe as felicidades,
    Que vai tendo a gente minha;
    Dizei-lhe que na Cozinha
    Ardem já montões de brazas;
    Que em todas as minhas cazas,
    Era a mais fresca, que eu tinha;

    Que os enroupados Sobrinhos,
    Affrontando o vento frio,
    Vem todos mostrar ao Tio
    Os seus novos jozésinhos;
    Que então lhes conto, e aos vizinhos,
    Por quem a roupa foi dada;
    Que Mão, nunca assás louvada,
    Mão Real, piedoza, e justa,
    Me poz livre a Rua Augusta,[19]
    Por varios crimes vedada;

    [Nota de rodapé 19: Aonde se vende panno.]

    Que hum Tendeiro, que os seus bens
    Me fiava, dando arrancos,
    Veio em barrete, e támancos
    Dar-me logo os parabens;
    Espera que os meus vintens
    O fação tambem feliz;
    Porque, segundo elle diz,
    Ha de haver na sua Tenda
    Mais sahida na fazenda,
    E menos gasto no giz.[20]

    [Nota de rodapé 20: Costumão marcar com giz o que dão fiado.]

    Mas eu hum crime cometto,
    Quando de ensinar-vos trato;
    Quiz ser ao Principe grato,
    Mas fui comvosco indiscreto;
    Homem, como Vós, discreto
    Não preciza formulario;
    A Egoa do Seminario[21]
    Me deve os rompões cravar,
    Por eu querer ensinar
    O Padre nosso ao Vigario.

    [Nota de rodapé 21: Tinha alluzão particular.]

    _A' Illustrissima, Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de
    Souza, tendo feito a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim;
    e pedindo-lhe este que lembrasse o Requerimento, em que seu Irmão
    pertendia o Governo de hum Forte_.

    Minha respeitoza mão
    De seus limites não sai;
    A escritura, que aqui vai,
    Não he carta, he Petição;
    Até ante os Thronos vão
    Vozes em papel incluzas;
    As minhas não vão confuzas;
    São memorial mui claro;
    Sou Poeta, dai-me amparo,
    He obrigação das Muzas.

    Não peço hoje para mim;
    Bem cuberto anda meu peito;
    Inda beijo, inda respeito
    Huma Vestia de Setim.
    Triste Irmão tem já no fim
    Farda rôta, e chamuscada;
    Tem má côr, e he mal fadada;
    Quer que a mão piedoza, e franca,
    Que a mim me deo Vestia branca,
    Lhe dê Cazaca encarnada.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje
    Marquez de Angeja_.

    Em sege estreita entaipados,
    Sol á ilharga, Sol por cima,
    Vinha eu, e o Padre Lima
    Cheios de pó, e encalmados.
    Eis-que na estrada atacados,

    Párão as mulas baratas;
    Cuidei eu que erão Piratas,
    Que tirão vida, e dinheiro,
    Fui ver se era o Clavineiro,
    E achei duas Açafatas.

    Trazião a arma mais dura,
    Que nos peitos se tem posto,
    Trazião ambas no rosto
    O respeito, e a formozura.
    Querem sege mais segura,
    Porque a sua está quebrada;
    E em quanto o Padre na estrada
    Lhe diz palavras pompozas,
    As minhas mãos respeitozas
    Lhe affoufavão a almofada.

    Trabalho infeliz fizerão,
    Porque meus Fados são tais,
    Que acceitando tudo o mais,
    A almofada não quizerão.[22]
    Debaixo dos pés puzerão

    [Nota de rodapé 22: Por cauza dos toucados altos.]

    Minha obra desprezada
    Senhor, não fazemos nada,
    Tomar vãos trabalhos oizas,
    Tem todas as minhas coízas
    O destino da almofada.

    _No dia dos annos da Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde de
    Villa Verde, hoje Marquez de Angeja, em cuja caza o Author jantou_.

    Senhor, talvez neste dia
    Já cantei Versos polidos;
    Porém em tectos cahidos
    Não mora o Deos da Poezia.
    Voou; e da testa fria
    Me tirou o verde loiro,
    E das mãos a Lyra de oiro;
    Tudo em fim se foi co'a bréca;
    Mas se a Aganippe se séca,
    Não se ha de secar o Doiro.

    Embora no velho caco
    Murche o cansado miôlo;
    Se os loiros lhe tira Apollo,
    Com parras o adorna Baccho;
    Põe mira meu peito fraco
    Nos vossos puros almudes;
    E em honra de mil virtudes,
    De mil talentos diversos,
    Em vez de fazer dois Versos,
    Farei duas mil saûdes.

    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.

    Devo pouco á Natureza,
    E muito a hum brinco innocente;
    Porque elle me faz parente
    Da mais distinta Nobreza.
    Embora esquiva riqueza
    Pretas fortes me não mande;
    Qne importa que ha annos ande
    Sempre a perder nas menores,
    Se nas dos premios maiores
    Me sahio o premio grande.

    _Fazendo annos o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de
    Angeja, Tenente General, na occazião em que sahíra Provedor da
    Mizericordia_.

    Que fazem Versos cansados,
    Applaudindo os vossos Annos,
    Se dos nossos Soberanos
    São melhor elogiados?
    Se os trazem sempre empregados
    Em servir a Monarquia,
    Se a Real Secretaria
    Escreve em vosso favor,
    Taes prozas louvão melhor,
    Do que a melhor Poezia.

    Da vossa dexteridade
    Fião coizas encontradas;
    Dão-vos as duas estradas,
    A do Sangue, e da Piedade.
    Vivei pois comprida idade

    Sempre entre Povos amigos;
    Mas se crescerem perigos,
    Cresceráõ as acções nobres;
    E a mão que defende os Pobres,
    Cortará os Inimigos.

    _No dia dos annos do mesmo Senhor_.

    A Minha Muza cansada,
    Perdendo os vôos ligeiros,
    E ao pé de murchos loireiros
    Com razão apozentada,
    Hoje, Senhor, animada
    Do amor, e da gratidão,
    Esquecendo a multidão
    De frios cabellos brancos,
    Vem, forcejando os pés mancos,
    Metter-me a Lyra na mão.

    Gratidão seus passos rege;
    Quer que em limada Poezia
    Venha louvar neste dia
    Quem em todos me protege;
    Nas cordas de oiro, que elege,
    Quer, que invocando as Camenas,
    Eu cante as horas serenas
    Em que o Ceo piedozo, e justo
    Para o lado de hum Augusto
    Me fez nascer hum Mecenas.

    Eu respondi, que a harmonia
    Me fugio co'a mocidade;
    E que a sólida verdade
    Não depende da Poezia;
    Que em proza sempre seguia
    Seu acertado conselho;
    E que em fim Poeta velho
    Por teima querer rimar,
    He o mesmo que ir dançar
    O vosso ginja, Botelho.[23]

    [Nota de rodapá 23: Creado muito velho, tentado com minuetes.]

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Senhor, co'as minhas Poezias
    Festejava os annos teus;
    Porém mandão já os meus,
    Que eu venha co'as mãos vazias;
    Geladas madeixas frias
    Fechão do Parnazo o passo;
    Pois que já o Tempo escaço
    Esfriar meus Versos quiz,
    Quem me acceitou os que fiz,
    Me agradeça os que não faço.

    Mas he da tua Grandeza,
    E a tal dia acção adquada,
    Inda que não trago nada,
    Não perder a Caza, e a meza;
    Por culpas da Natureza
    Não perca os meus ordenados;
    Cubrão teus tectos doirados
    Inutil, mudo Jarrêta;
    Não o merece o Poeta,
    Mas he costume aos Creados.

    _Ao mesmo Senhor em outro dia de annos_.

    Neste venturozo Dia,
    Honrado, e honrador Marquez,
    Sempre eu vim a vossos pés
    Trazer a offerta em Poezia;
    Ante Vós a Lyra erguia
    Humilde, alegre, e casquilho;
    Mas hoje mudando o trilho,
    A bem, Senhor, me levai,
    Que sendo os annos do Pai,
    Dê a Colgadura ao Filho.

    Moço Illustre, eu dou conselhos,
    Filhos de, amor, e verdade;
    Permittida liberdade
    Aos fieis Creados velhos;
    Ouvi: Bons Pais são espelhos;
    Dão doutrinas sem enganos;
    E eu rogo aos Ceos Soberanos,
    Que ao vosso ouvindo as lições,
    Sejão as vosss acções
    O elogio dos seus Annos.

    _Ao Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Marquez de Marialva, com quem
    se tinha encontrado o A. na Caza em que estava o Embaixador de
    Marrocos_.

    Na Quinta da Praia clama,
    Que lhe tireis a Cadeira
    Hum triste, que quarta feira
    Comvosco esteve em Moirama:
    Se a Estrella, que a Vós o chama,
    Não lhe abranda os seus destinos,
    Torna para os Marroquinos;
    Porque, agoiros por agoiros,
    Antes cativo de Moiros,
    Do que Mestre de Meninos.

    _No dia dos Annos de hum Menino_.

    De plumachos emplumado,
    Manso, alegre Cavallinho,
    Ou torneado carrinho
    D'alvos Carneiros puchado,
    Devião marchar ao lado
    Deste papel que remetto;
    Mas mostrando o meu affecto
    Como póde o meu destino,
    Em obzequio de hum Menino,
    Vou dar aos outros Suéto.

    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus Filhos_.

    A Lei da pura amizade
    Minhas lagrimas condemna;
    Quer que ceda a minha pena
    A' tua felicidade;
    Vai; e em quanto a vil maldade,

    E a intrigante cubiça,
    A baixa inveja, a injustiça
    Pézas na recta balança,
    Conserva de mim lembrança,
    Que he tambem fazer justiça.

    E vós, lindos Innocentes,
    Que nessas tenras idades
    Já sabeis mover saudades
    Nos amigos, nos parentes,
    Quando lhe virdes pendentes
    As balanças da razão,
    Ide internecello então
    Com rizos, com géstos novos;
    Lembrai-lhe, que aquelles Povos,
    Como vós, seus filhos são.

    _A hum Fidalgo, que pedia para o Author hum lugar na Secretaria, na
    occazião em que elle pertendia o seu proprio Despacho_.

    Se vemos rir quem chorava,
    E tantos exemplos temos,
    Senhor, não desesperemos,
    Deos ainda está onde estava:
    Água branda as pedras cava;
    Em tudo o tempo he precizo;
    Saber teimar com juizo
    Tem mil montes aplanado;
    Talvez sejais despachado,
    E talvez que eu lavre o Avizo.

    Ah Senhor, com que alvoroço,
    Na liza banca forrada,
    Eu de cazaca encarnada,
    E fitta preta ao pescoço
    Lançára o despacho vosso,
    Que tanto tempo esqueceo!
    Que grande favor do Ceo,
    Se o meu primeiro exercicio
    Fosse servir-me do Officio
    A favor de quem mo deo!

    _A respeito de hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica; que
    tomava triaga contra o veneno que ainda lhe havião de dar; que dizia que
    estava eleito Cardeal; e que era demaziadamente trigueiro, se deo este_

    MOTE.

    _Não tem côr de Cardeal_

    Não ajuda ao Padre a cara;
    Revolvo antigos Annaes,
    E vejo que os Cardeaes
    Tinhão a pelle mais clara;
    Será maravilha rara
    Achar hum de côr igual;
    Forão brancos como a cal
    Mazarino, e Alberoni;
    E a não ser este o Negroni,
    Não tem côr de Cardeal.

    _Respondeo em Decimas, ás quaes se fizerão as seguintes_:

    Que venhão fuscos garraios
    Metter em Versos a mão!
    Potente Jove, aonde estão
    Os teus vingadores raios?
    Hum homem de coiros baios
    Segue as Muzas tuas filhas;
    Tu, pois, que os vaidozos trilhas,
    Faze que este, em todo o cazo,
    Saia logo do Parnazo,
    E passe para Cassilhas.

    Se em rhetorico exercicio
    Já soubeste regras dar,
    Tambem eu posso fallar,
    Porque sou do mesmo officio;
    Que o teu cérebro tem vicio,
    He verdade assás notoria;
    Na Poezia, e na Oratoria
    Vaz em total decadencia;
    Collega, tem paciencia,
    Has de vir á palmatoria.

    No teu escuro Papel,
    Aos bons ouvidos ingrato;
    Achei hum vivo retrato
    Da confuzao de Babel;
    A' patria lingua infiel
    Ès da Nação o desdoiro;
    Bem sei que te chego ao coiro;
    Mas não merece passagem,
    Que a batina, e a linguagem
    Ajuntem Clerigo, e Moiro.

    A quem me queira arguir,
    Mostro, Padre, o tal Papel;
    He testemunha fiel,
    Não me deixará mentir;
    Em novos termos urdir
    Mettes a todos n'um canto;
    Que uzas palavras de encanto
    Assentão gentes maxuchas,
    Boas para ajuntar bruchas,
    Ou para tirar quebranto;

    Deixei-me, pois, de criterio,
    E tomei melhor caminho;
    Meu amigo, a hum louquinho
    He loucura fallar serio;
    Chova, pois, o vituperio
    Sobre esse tostado coiro;
    Saia o tal Cardeal Moiro,
    Que o Capinha, alvoroçado,
    Vai, por ordem do Senado,
    Metter garrochas no toiro.

    Fulla escrava Americana
    Já mandava á luz do dia
    Hum Crioilo, que seria
    Nódoa da Curia Romana;
    Carregado de banana,
    Porque no caminho coma,
    O rumo da Europa toma;
    E em terra, marchando á pata,
    Com sacco, e folha de lata,
    Deo a sua entrada em Roma.

    Assim mesmo estropeado,
    E envolvido em grosso panno,
    Foi entre o Povo Romano
    Com mil respeitos tratado;
    Do vento, e do Sol queimado,
    Semblante quebrado, e afflito,
    Tem tal dom na cara escrito,
    Que gritavão de redor,
    Huns, que he o Rei Belxior,
    Outros, que he S. Benedito.

    Tomou a Benção Papal;
    E teve tanto poder,
    Que sem o Papa o saber,
    Ficou feiro Cardeal;
    Voltou para Portugal
    Já Cardeal Protector;
    Achou cá pouco favor;
    E zombão-lhe do Capello,
    Por ter mui crespo o cabello,
    E ser muito bassa a côr.

    Erra o Vulgo os passos seus;
    He hum cego, e maldizente;
    A côr he méro accidente,
    Todos são filhos de Deos.
    Porém para os lucros teus
    O Capello te faz mal;
    No S. João, e Natal
    Terias gôrda guedelha,
    Armado de faca velha,
    Pincel, e pote de cal.

    Padre, vai-te o mundo ao pêllo;
    E c'o a lingua maldizente
    Te vai cortando igualmente
    As Poezias, e o Capello;
    Porém eu, que sou singelo,
    E meus contrarios ameigo,
    Te affirmo, piedozo, e meigo,
    Que se não tens, por teu mal,
    Em Roma o de Cardeal,
    Tens no Parnazo o de Leigo.

    Deves voltar outra vez,
    E dizem que nisso fallas;
    Mas pégão-se pelas sallas
    Teus molles tardîos pés.
    Se ajuda de custo vês,[24]
    Fazes-te côxo, e ronceiro;
    Meu Padre, és muito matreiro,
    Já todos estão de acôrdo;
    E sem te verem a bórdo,
    Não pões a mão no dinheiro.

    [Nota de rodapé 24: Pedia huma ajuda de custo.]

    Tua saude se estraga,
    Mas teu Medico condemno;
    Meu amigo, o teu veneno
    Não se cura com triaga;
    Para a tua antiga chaga
    Medicina impropria he esta;
    Muda, pois vês que não presta;
    Grita c'os olhos em braza,
    Que te fechem n'uma caza,
    E que te sangrem na testa.

    De balde em Lisboa gritas,
    Attestando a Italia inteira,
    Que regeste huma Cadeira
    Nos Claustros dos Jezuitas;
    As obras que vejo escritas
    Provão que nos tens mentido;
    Até das Ordens duvido,
    Quando as tem cabeças tontas;
    Tu, cá pelas minhas contas,
    Ès hum mulato fugido.

    Foge outra vez, se tal és,
    Qual foge apupado mono;
    Antes que venha teu dono,
    E te ponha nas Galés;
    Antes que enfeite teus pés
    Legal, sonóro fuzil;
    Não veja o patrio Brazil,
    Que os hombros do filho bello,
    Vindo buscar hum Capello,
    Só achárão hum barril.

    Dizem todos, que és fingido,
    Que ninguem louco te chame;
    Por mais que eu lhe jure, e clame,
    Que és mesmo doido varrido;
    Dizem que estás conhecido,
    E que o fazes por estudo;
    Em tal cazo prompto acudo,
    E de outro lado te ataco;
    Se não és doido, és velhaco,
    E talvez que sejas tudo.

    Mas já quem póde me ordena,
    Que armas ponhamos em terra;
    Apôs sanguinoza guerra,
    Alce a frente a Paz serena;
    Sobre essa pelle morena
    Em paz teu Capello ajusta;
    Assento que he coiza justa
    Seguires methodo novo,
    E não dares gosto ao Povo,
    Que quer rir á tua custa.

    Não te finge falso agrado
    Meu semblante contrafeito;
    Não encobre honrado peito
    Coração refalseado;
    Se me julgas disfarçado,
    Alta injustiça me fazes;
    Eu te juro eternas pazes;
    E se falto aos votos meus,
    Ah Padre, permitta Deos
    Que eu sempre ensine rapazes.

    E tu, que sem estes sustos
    Vives cheio de alegrias,
    Serenos, doirados dias,
    Aos pés de teus Reis Augustos;
    Tu, que por titulos justos
    Te chamas o novo Horacio,
    Quando entrares em Palacio
    Conserva de mim lembranças,
    Porque tenho as esperanças
    Postas em ti, e no _Estacio_.[25]

    [Nota de rodapé 25: Bobo célebre.]

    MOTE.

    _Hum suspiro de repente,
    Hum certo mudar de côr,
    São evidentes sinaes
    De que o peito occulta amor_.

    GLOZA.

    Debalde as penas, e os gostos
    Disfarçais, loucos Amantes,
    Se os attentos circumstantes
    Tem em vós os olhos postos;
    De que servem falsos rostos,
    Se o coração desmente
    N'um instante infelizmente
    Sabe perdido o longo estudo,
    Pois vem destruir-vos tudo
    Hum suspiro de repente.

    Nada faz cautella, ou medo
    N'alma que devéras ama;
    Esta turbulenta chamma
    Não sabe arder em segredo;
    Sobe ao rosto, ou tarde, ou sedo,
    Do escondido fogo o ardor;
    Basta a declarar a dor,
    Vãmente n'alma guardada,
    Huma palavra truncada,
    Hum certo mudar de côr.

    Duro amor, que coração
    Saberá nunca occultar-te?
    Que vai fazer força, ou arte,
    Onde as tuas settas vão?
    Cegos Amantes, em vão
    O vivo fogo abafais;
    Esses descuidados ais,
    Que sem tino ao vento dáveis,
    São provas incontestaveis,
    São evidentes sinais.

    De que serve estar fallando
    Sizudos, e comedidos,
    Se esses olhos insoffridos
    Vos estão sempre entregando?
    Alçados de quando em quando
    Vão dizendo a occulta dôr;
    Abaixallos, he peior;
    Que essas vistas contrafeitas
    Dão ás vezes mais suspeitas,
    De que o peito occulta amor.

    _Mandando huma gallinha a huma Pretinha bonita, que gostava de brincar
    com ellas_.

    As tuas fulas mãoszinhas,
    Que a fome já não descarna,
    E que de crearem sarna
    Passão a crear gallinhas;
    Acceitem creações minhas,
    Que eu a outros fins guardava;
    Senhora com côr de escrava,
    Alta estrella, que em ti brilha,
    Manda que se dê á Filha
    Aquillo que o Pai furtava.

    CANTIGAS

    _Feitas nas caldas com o Estribilho_.

    _Olhos meus, cansados olhos,
    O vosso officio he chorar_.

    Nas Caldas, nas tristes Caldas
    Alegria vim buscar;
    Quiz de noíte ver o Sol,
    Quiz achar fogo no mar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa mudar de terra,
    E baldados passos dar,
    Se a toda a parte a que os volto
    Vai comigo o meu pezar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo pálidos doentes
    Pela Copa passear,
    Oiço de antigas molestias
    Tristes effeitos contar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo nas férvidas aguas
    Mirrados corpos banhar,
    E de balde aos surdos Ceos
    Convulsos braços alçar.
    _Olhos meus, etc._

    Vejo de perdido pranto
    Tristes ais acompanhar,
    Com as lagrimas alhêas
    Vou as minhas misturar.
    _Olhos meus, etc._

    Que importa ver Ninfas bellas,
    Se accrescentão meu pezar?
    Gostão de attrahir os olhos,
    E as almas tyrannlzar.
    _Olhos meus, etc._

    Ao som de feridas cordas
    Dão doces vozes ao ar,
    Quaes enganozas Serêas,
    Que cantão para matar.
    _Olhos meus, etc._

    Se o meu pobre coração
    Se deixa huma vez tocar,
    Com escarneos, com rizadas,
    Meu pranto vejo pagar.
    _Olhos meus, etc._

    Fartai-vos, pois, olhos meus
    De lagrimas derramar;
    Vós nascestes para tristes,
    E escolhestes o lugar.
    _Olhos meus, etc._

    _A hum Leigo, que era vesgo, e que nunca teve fastio; e a quem por acazo
    tocou na cabeça a ponta de hum espadim_.

    Ferio sacrilega espada,
    Alçada por mão traidora,
    Cabeça, que sempre fôra
    Té aos Barbeiros vedada;
    D'entre a grenha profanada
    Corre o sangue á terra dura;
    Tosquiou-se a matadura;
    E o casco rebelde a ordens,
    Precizou destas desordens
    Para ter Prima Tonsura.

    Feroz Soldado imprudente,
    Que nova espada esgrimio,
    Foi o ímpio que ferio
    Esta victima innocente;
    A quem do golpe insolente
    O motivo lhe procura,
    Diz que fez compra segura;
    Pois duvidozo na escolha,
    Quiz ver que tal era a folha,
    Cortando por coiza dura.

    Homem de tenção damnada,
    Só tu conseguiste o fim
    De entrar o teu espadim
    Aonde não entra nada;
    Da repentina estocada
    Cahe o Padre desmaiado;
    Mas quando recuperado
    A ti os olhos volveo,
    Sabes o que te valeo?
    Foi teres já almoçado.

    Todo o Mundo te pragueja,
    Porque em detestavel guerra
    Hias deitando por terra
    Esta columna da Igreja;
    Mas se triunfaste a inveja,
    E o Padre morresse então,
    Dize, ó ímpío coração,
    Que tanto em furor te atiças,
    Quem ajudaria ás Missas?
    Quem tocaria ao Sermão?

    Quem nos daria a certeza
    De haver outro homem sizudo,
    Que pudesse comer tudo
    Ouanto se puzer na meza?
    Da próvida Natureza
    Quem havia as Leis seguir!
    Observante em digerir
    Qual outro havia saber
    Depois de acordar, comer,
    Depois de comer, dormir!

    Que importa, ó cruel Soldado,
    Para desculpar teu erro
    Ter sido o teu ímpio ferro
    Já pela Patria arrancado?
    Que importa que em campo armado
    Junto a si Lippe te veja,
    Que importa que o Mundo seja
    Das tuas acções o abono,
    Se a mão que defende o Throno,
    Ataca depois a Igreja?

    E tu, que segues os trilhos,
    Que S. Francisco te fez,
    E pões os teus gordos pés
    Sobre os seus santos ladrilhos;
    Pois que a seus devotos filhos
    Guarda no Ceo largas pagas,
    Nos olhos he bem que o tragas,
    E de modélo não mudes;
    E pois não he nas virtudes,
    Que o seja ao menos nas chagas.

    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, aonde jantava
    o sobredito Leigo_.

    Hum estomago cansado,
    De cuja antiga ruina
    Tem sido cauzas iguaes
    A molestia, e a Medicina;

    Que tendo em si dos tres Reinos
    As perigozas heranças,
    Só não bebeo das Boticas
    Os S. Migueis, e as balanças;

    Hum estomago sem forcas,
    E ás leis geraes ínfiel,
    Que não trabalha em diamante,
    Como o de Fr. Manoel;

    Que não tem, como este Padre,
    Tanta fome obediente;
    E olha já para a gallinha
    Como elle olha para a gente;

    Para emendar semrazões,
    Que faz Arte, e Natureza,
    Vai, fugido das Boticas,
    Acoitar-se á vossa meza;

    Mil vezes por outra cauza
    Teve a honra de bussalla;
    Indo então por matar fome,
    Vai hoje por despertalla;

    Perdiz, ou branda vitella,
    São deste remedio o nome;
    Da vossa esplendida meza
    Seja elogio huma fome;

    E porque o Padre o não saiba,
    Será a melhor cautella,
    Mandar tirar a iguaria
    Quando elle olhar para ella.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez, de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos, na occazião em que o mesmo Senhor se tinha encarregado de lhe
    promever a mercê de se imprimirem as suas Obras na Officina Regia_.

    CARTA.

    Senhor, entreguei meu livro;
    Foi esse filho mesquinho
    Co'a esteril benção do Pai
    Lançar-se aos pés do Padrinho;

    Dei-lhe em dote inuteis rimas,
    Dei-lhe vazio thezoiro;
    Mas vossas mãos milagrozas
    Convertem nadas em oiro;

    Do mal fadado Parnazo
    Quebrareis o injusto encanto;
    Nem sempre seus verdes loiros
    Serão regados com pranto;

    Impertinentes crédores
    Largar-me-hão em fim a rua;
    O meu cégo abrindo a bocca
    Lhes ha de fechar a sua;

    Até apertados genios
    Sem vontade comprarão;
    Farão focinho á Poezia,
    E obzequios á Protecçao;

    Mas, Senhor, de livro basta;
    He ínsulto ás mãos em que anda
    Passar de ser o meu livro
    A ser a minha demanda;

    Foi esse meu rogo ouvido;
    Deixai que para outro mude;
    Tem objecto inda mais alto,
    He mais do que oiro, he saude;

    Contra o mal que me tem feito
    Raivozos Caniculares
    Me off-rece a fresca Ericeira
    Seus claros, sádios mares;

    Sei que nestas ondas bravas
    O banho hum risco teria;
    Posso começallo alli,
    E ir acaballo á Bahia;

    Bramindo na vasta praia
    Enrolada vaga forte,
    Dentro do pérfido seio
    Me traz a saûde, e a morte;

    Mas com protector penedo,
    E cauto Marujo amigo,
    O impune, tónico susto,
    Tórna em remedio o perigo;

    Falta só licença vossa,
    E juro, Senhor, que vem;
    Como podeis Vós negalla,
    Se sabeis que ella he hum bem?

    He o Pindo o meu thezoiro,
    O Oceâno he meu Jordão;
    D'ambos recebo mil bens,
    Mas todos por vossa mão;

    Eu a beijo; ella receba
    Gratidão devida, e pura
    Em tributo que lhe paga
    O Creado, e a Creatura.[26]

    [Nota de rodapé 26: Tinha nomeado o A. Official da Secretaria.]

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima, tendo promettido ao A.
    que quando chegasse das Caldas, havia lembrar a mercê de se imprimirem
    estas Obras_.

    CARTA.

    Ora do cume dos Montes,
    Ora em suas verdes fraldas,
    Hia estender os meus olhos
    Na longa estrada das Caldas;

    Sobre escumozos cavallos
    Trotando empoada sege,
    Disse quem fez os meus versos
    =Ahi vem quem os protege;=

    Alçando-me, hia a dizer-vos
    =Senhor, chegou o meu prazo;
    Honrastes hoje outros Montes,
    Honrai agora o Parnazo;

    Promettestes fazer ferteis
    Seus estereis Mirto, e Loiro;
    Promettestes que a Hypocrene
    Levaria arêas de oiro;

    Sua clara, inutil vêa
    Réga chão, que não se lavra;
    Vinde fazello fecundo,
    Vinde cumprir-me a palavra.=

    Mas, Senhor, não éreis Vós;
    Era hum Casquilho, e do Povo;
    Tornei a pegar nas Contas,
    Tomei a esperar de novo;

    Mil votos ao Céo mandava
    Este humilde orador fraco,
    Que vos não vissem Carreiros,[27]
    Nem os ladrões do Tabaco;[28]

    [Nota de rodapé 27: Allude ás Decimas da Enchára.]

    [Nota de rodapé 28: Furto célebre feito naquella estrada.]

    Então carrancuda Noite
    Me enxotou co'as negras azas;
    E em honra dos taes Amigos
    Vim como Gato por brazas;

    Sei, em fim, que já chegastes
    Chamou por Vós minha dôr,
    Venha o Illustre Conselheiro
    Honrar-se em Procurador;

    Fazer bem, he mór grandeza;
    Deo-vos, tambem esta, o Pai;
    Vós ambos d'entre os meus loiros
    Cruas silvas arrancai;

    Com piedoza Geografia
    As Paternas mãos benignas,
    Emendando ingratos Mappas,
    Ponhão o Pindo nas Minas;

    O Impressor gosta de Versos;
    Quer que os meus públicos andem;
    Mas he hum tanto acanhado,
    Não imprime sem que o mandem;

    Elle perdoa o contagio;
    Pegai-lhe a minha doença;
    Só deixarei de gemer
    Em gemendo a sua Imprensa;

    Assigne, pois, meu Avizo,
    Pia, obedecida mão;
    Mas não cuideis que com isso
    Dais férias á protecção;

    O mais ávido Leitor,
    Das Quintilhas pregoeiro,
    Ha de achallas insoffriveis
    Em lhe custando dinheiro;

    E só em nojoza Tenda
    De Braguez Chatim mesquinho
    Terão sahida os meus Versos,
    Embrulhando o seu toicinho;

    Só rapazes acharão
    Minha Muza doce, e meiga;
    Não porque tenha Poezia,
    Mas porque teve manteiga;

    Mettei, pois, Senhor, em brios
    Ricos peitos avarentos;
    Dizei, que comprem partidas,
    Que he honra honrar os talentos;

    Que serão, comigo, eternos
    Se me evitarem o mal
    De ir ao Templo da Memoria
    Pela porta do Hospital;

    E então da escondida burra
    Ouvirá a surda aldraba
    Não as vozes da Poezia,
    Mas a voz de quem lha gaba;

    Indo abrindo, juraráõ
    A duas Artes odio, e medo;
    A' da Guerra, em alta voz;
    A' da Poezia, em segredo.

    Entretanto ao digno Pai
    Pedi que me faça Author;
    Sejão públicos no Mundo
    Meus versos, e o seu favor;

    De Limas na honroza historia
    Não serão titulos falsos
    Fazer que as augustas Artes
    Não marchem cos'pés descalços;

    E Vós, firme Protector,
    Fazei que por taes favores
    Vamos beijar-vos a Mão,
    Eu, e os meus dois mil Credores.

    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Bateu aos vossos Portaes
    Hum morador do outro Pólo;[29]
    Veio ao Templo de Minerva
    Dar hum recado de Apollo;

    [Nota de rodapé 29: Morava muito distante.]

    Vós sois dos seus obrigados,
    Bebeis seu licôr divino;
    Manda que lembreis na Roza[30]
    O esquecido Tolentino;

    [Nota de rodapé 30: Sitio, aonde morava o Ministro de Estado respectivo.]

    Sei que alli meu pobre livro
    Altos Protectores tem;
    Mas agora só se falla
    Nesta magica _Dutein_;[31]

    [Nota de rodapé 31: Dançarina célebre.]

    Apollo não troca as Artes;
    Mas vendo a Artifice, infia;
    Recêa que com taes braços
    A Dança affaste a Poezia;

    Tambem sois réo; mas bem póde
    A Mágia dos passos seus
    Encantar os vossos olhos,
    Sem fazer chorar os meus.

    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima, sobre o mesmo assumpto_.

    CARTA.

    Forte co'a vossa promessa
    Dura voz se vai alçar;
    Não vem como das mais vezes,
    Não vem pedir, vem ralhar;

    Não he de esteril rabugem
    Raiva inutil, que em mim lavra;
    Venho brigar, e vencer-vos,
    Minha arma he vossa palavra;

    São Leis os priscos rifões;
    Na mão a Lei me mettestes;
    Sei que a ricos não deveis,
    Mas a pobre promettestes;

    Promettestes, que huma Imprensa
    Faria hum faminto farto;
    Meu livro, e as vossas promessas
    Inda estão no vosso Quarto;

    Sei que a vossa Illustre Caza
    He das que honrão Portugal;
    Mas eu quero outra melhor,
    Quero a Caza Manescal;[32]

    [Nota de rodapé 32: Administrador da Imprensa Regia.]

    Reis de Hespanha a vossa honrárão,
    E eu espero o mesmo delle;
    Fizerão-vos _Ricos Homens_,
    O mesmo me fará elle;

    Vós sois Protector das Artes,
    E dahi meu mal viria;
    Talvez que pela da Dança
    Vos esqueça a da _Poezia_;

    Por _Dutein_ esquece tudo;
    Estes grupos tão gabados,
    Não digo que são os vossos,
    Porém são os meus peccados;

    As tres Graças a fadárão,
    Mas seus dons funestos são;
    Tira ás Deozas a maçã,[33]
    E a hum triste Poeta o pão;

    [Nota de rodapé 33: Fazia a figura de Venus na Pantomima, em que se
    reprezentava a fabula de Páris, julgando-lhe o pomo de oiro, destinado á
    mais formoza.]

    Se a vosso Pai vou queixar-me,
    Juro que acceita a querella;
    Juro, que vos quer os olhos
    Antes em mim, do que nella;

    Mas, Senhor, deixando graças
    De poetica licença,
    Este brinco quer dizer
    Que apresseis a tal Imprensa;

    Até por curiozidade
    Forjai-me este mialheiro;
    Só para vermos que effeito
    Faz em mim o ter dinheiro;

    Talvez que altiva luneta
    Nos piscos olhos traidores
    Não conheça huns tantos homens,
    Principalmente os Crédores;

    Talvez que o novel Gallego,
    Que soltas bragas trazia,
    Entaipado em pantalonas
    Dê ao Amo senhoria;

    Talvez que inventando heranças
    Bisneto de grão Senhor,
    A falso espectro agradeça
    O que devo ao Protector;

    Senhor, se o oiro tal póde;
    Levantai da empreza a mão;
    Antes réo do meu tendeiro,
    Do que réo de ingratidão

    Mas inda agora he que eu vejo,
    Quanto me fui desmentindo;
    Disse que vinha ralhar,
    Por fim acho-me pedindo;

    Não pude acabar a farça;
    Costume custa a vencer;
    Comvosco a minha linguagem
    He pedir, e agradecer.

    _A' Illustrissima, e Excelentissima Senhora Dona Catharina Micaella de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do Author na Officina
    Regia_.

    CARTA.

    Senhora, Apollo bem sabe
    Que sois digna companhia
    De quem em doirados annos
    Lhe honrava a doce Poezia;

    Inda de viçozo loiro
    Lhe guarda a verde coroa;
    Fez-lhe falta em sua Corte,
    Mas a bem de outra o perdoa;

    Manda, pois lhe estais ao lado,
    Canteis polidos louvores
    A quem em honra ao Parnazo
    Fez versos, e faz favores;

    Vio o prazer generozo
    Com que acabou a tenção,
    Que crua Parca arrancára
    De outra bemfeitora Mão;[34]

    [Nota de rodapé 34: O Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de
    Ponte de Lima, Ministro de Estado, tinha obtido a mercê de se imprimirem
    estes Versos a beneficio do A. cujo Avizo não chegou a assignar por seu
    repentino falecimento.]

    Vio, que apressou seus negocios
    Perante quem todos rege;
    E que amigo do seu Monte,
    Ora o sóbe, ora o protege;

    Grato ao grande beneficio
    Vos envia o estilo, e a lyra;
    Manda-vos cantar-lhe os hymnos,
    Que lhe traja, e vos inspira;

    Diz que esta empreza vos toca,
    E que não admitte escuzas;
    Que favor feito ao Parnazo
    Hão de agradecello as Muzas;

    Pulsai a lyra, enfreai
    Bravos ventos rugidores;
    Cantai agradecimentos
    A quem cantastes amores;

    Em má honra a longas cans
    Desta empreza escuzo fico;
    Fechou-me Apollo a sua Arte,
    E quer que aprenda a de rico;

    Dura, enganoza sciencia!
    Incómmoda, tumultuaria!
    Muito mais a quem andou
    Sempre na escóla contraria;

    Já em socegado somno
    Não vejo doces ficções;
    Inda a obra está na Imprensa
    E já sonho com ladrões;

    Sonho, que escalada a porta,
    Medonhas caras sem dó,
    Vem furtar a Tolentino
    O que elle furta a _Boileau_;

    Co'esse metal turbulento
    Já d'antemão me malquisto;
    Que me não fará a posse,
    Se a esperança já faz isto?

    Sei quem poz a ultima força
    Ao punhal, de que me dôo;
    Mas, em fim, nada de raivas,
    Dizei-lhe que eu lhe perdôo;

    E que he tal nesta virtude
    Meu conforme coração,
    Que não só perdoo o mal,
    Mas beijo por elle a Mão.

    _Offerecendo alguns dos Versos, que vão neste Livro ao lllustrissimo,
    Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, Ministro de Estado, perante o
    qual se pertendeo desabonar a Poezia, e os Poetas_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    V. Excellencia se digne de não julgar atrevimento ir eu aprezentar hum
    Livro de inuteis Versos naquellas mesmas mãos, em que se apresentão
    Papeis, que decidem dos interesses do Estado, e dos destinos dos homens.
    A Poezia, Senhor, só he odioza a quem nella não he instruido. V.
    Excellencia sabe a origem, e os progressos desta Arte divina; sabe que
    de seu berço foi consagrada ao uzo da Religião, e da Politica; que por
    meio della o homem natural, que nutria vagamente entre fragas, e
    penedîas hum coração tão contrario ao do homem civil, conheceo a
    humanidade, e tomou sobre seus hombros o jugo da Razão, e da Justiça.

    Que os primeiros Legisladores escrevião as Leis em verso, para que a
    harmonia lhes aplanasse, ou encubrisse aquelles passos escabrozos, que
    ferem, e revoltão a nossa natureza, sempre amiga da liberdade; que os
    Filosofos, e Sacerdotes do Egypto ensinavão em Poezia os seus Dogmas;
    que os bons tempos dos Gregos, modélo dos Seculos de Augusto, e de Luiz
    XIV, ao mesmo passo que se alargavão os limites do seu Imperio, vírão
    levadas á ultima perfeição, de que são capazes as obras dos homens, a
    Lirica, a Epica, e a Poezia de theatro.

    V. Excellencia sabe, que os Poetas de Augusto, mais do que as Victorias
    de Farsalia, fizerão chamar-se o seu seculo, o seculo de Oiro: que a
    passagem do Rheno, e a conquista da Hollanda jazerião no esquecimento,
    com o nome de Luiz XIV, se Corneille, e os que o seguírão, não mandassem
    ás extremidades do Mundo a fama de suas Victorias; que ainda hoje a
    França conta, com prazer, entre as acções daquelle Monarca, a protecção,
    e acolhimento, que achárão ante elle as Artes, principalmente a da
    Poezia; e que as ultimas palavras do grande Corneille moribundo, forão
    agradecimentos ás liberalidades de Luiz XIV.

    V. Excellencia sabe, que a Augusta Theologia da Escritura nos instrue
    muitas vezes dos Attributos de Deos por imagens inteiramente poeticas;
    que os Profetas, unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fallão da
    existencia, e da Omnipotencia de Deos, com a locução, e com as figuras
    da mais alta Poezia.

    Mas, SENHOR, eu insensivelmente vou fazendo de huma Dedicatoria huma
    Dissertação. V. Excellencia se digne attribuir este erro de methodo á
    desordem de animo, em que me põe a ingrata sem-razão de ver os Poetas
    desfavorecidos de alguns homens, talvez sem mais crime, que serem
    favorecidos das Muzas.

    V. Excellencia, em cuja alma raia a razão illustrada, limpa das sombras
    do abuzo, não faz cahir sobre o Poeta os defeitos, que são do homem: a
    inconstancia de genio, o desconcerto das acções, a filozofia mal
    entendida, que caminha a passo cheio á devassidão de costumes, são os
    crimes de que o vulgo errado accuza indifferentemente todos os Poetas;
    mas se vemos que estas más qualidades brotão no coração de tantos
    homens, que não são Poetas, para que hão de elles sós levar o ferrete,
    que a Natureza corrupta põe indistinctamente sobre todos os que não
    deixão guiar-se da Religião, e da honra? Sempre houve Poetas, bem, e mal
    morigerados, assim como o resto dos outros homens: e porque lei barbara
    ha de pagar a Poezia as fraquezas da humanidade? Porque falsa Logica
    havemos inferir, que o commercio das Muzas, a suave lição dos Antigos,
    em que vemos pintada a Natureza, e explicada docemente a boa filozofia,
    ha de affogar no coração do Poeta as virtudes, que a índole, ou a
    educação talvez alli plantárão?

    V. Excellencia julga mais rectamente; sabe, que em todos os ramos da
    vida Christã, e Civil tem havido Poetas, que hum talento não exclue os
    outros; que Richilieu fazia Versos, e foi grande Ministro; que entre os
    Poetas, como entre todos os mais homens, huns são venturozos, outros
    desgraçados; huns chamados aos grandes Empregos, ontros inteiramente
    esquecidos; que se houve hum Camões, e hum Bernardes, cuja memoria
    posthuma foi a unica paga do seu merecimento; tambem, houve hum Sá e
    Menezes levantado a Camareiro Mór dos Senhores Reis D. João o III, e D.
    Sebastião; hum Pedro de Andrade Caminha, Camareiro Mór do Infante D.
    Duarte; hum Garcia de Rezende muito estimado do Senhor D. João o II;
    hum Sá de Miranda feito Commendador pelo Senhor D. João o III; e para
    não fazer hum catalogo quazi infinito, houve o grande Ferreira, e
    Gabriel Pereira de Castro, os quaes, cada hum no gosto do seu Seculo,
    misturando Bartholo, e Accureio com Homero, e com Virgilio, forão tão
    estimados pelos Versos, que fazião no seu gabinete, como pelas Sentenças
    que lançárão nos diversos Tribunaes a que forão promovidos.

    O conhecimento da Historia Portugueza, huma das lições, que recreão o
    espirito de V. Excellencia, talvez concorra junto com o gosto, que tem
    pelas Artes, a que, seguindo o exemplo de tantos Reis, se não despreze
    de ouvir os Poetas: eu sou huma prova viva de que V. Excellencia os
    ouve, e os protege: nos tempos da antiga Roma Augusto fazia o mesmo, nos
    tempos da moderna, lemos, que Benedicto XIV. não se envergonhou de fazer
    a apologia aos Versos de hum Poeta Francez com aquella mesma mão, de que
    pendião as Chaves do Ceo.

    Esta justiça, e bom acolhimento, que V. Excellencia faz á Poezia, foi
    quem me esforçou a pôr nas respeitaveis mãos de V. Excellencia hum Livro
    de Versos; o terem alguns agradado a V. Excellencia, faz o seu unico
    merecimento: hum tal voto fez com que eu julgasse bem delles, e os
    levantasse á grande honra de serem offerecidos a V. Excellencia. Não me
    acovardão alguns assumptos joviaes, que nelles trato; V. Excellencia
    sabe, que se a Tragedia castiga os costumes pelos grandes afectos da
    compaixão, e do terror, tambem a Sátyra os castiga pelo meio do rizo; e
    este trabalho de minha penna, com que eu entretinha os meus cançados
    dias, passará a ser o mais feliz, se tiver a fortuna de divertir alguns
    instantes a V. Excellencia, para que com mais força torne depois a
    metter mão nos importantes Negocios, de que os Reis, prevenindo os
    dezejos do Público, se dignárão encarregar a V. Excellencia: isto
    dezeja, Senhor

    DE V. Excellencia

    O Criado mais humilde, e mais venerador.

    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

    ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.

    Os louvores nem sempre são filhos da lizonja, nem sempre são a linguagem
    baixa, em que os infelices fazem o seu commercio com os Poderozos;
    quando assentão em merecimento sólido, são huma paga devida ás Virtudes;
    o Ceo as dá; os Reis devem-lhe os premios; os outros homens os louvores.

    Hoje, Ill.^mo e Exc.^mo Senhor, nos apontão os Fastos de Portugal o
    feliz Nascimento de V. Excellencia; o costume consagra com Elogios estes
    dias solemnes; a Patria recompensa assim os Annos, que a ella se derão;
    e se em hum dia destinado aos obsequios, eu fosse hum méro espectador,
    hum assistente ociozo, o silencio, tantas vezes virtude, seria agora hum
    crime, seria huma prova da minha ingratidão.

    A força do agradecimento, e a abundancia, da materia me porião na boca
    huma torrente de louvores; mas V. Excellencia põe tanto cuidado em
    merecellos, como em não querer ouvillos; temo a sua modestia; e huma
    virtude de V. Excellencia me não deixa fallar-lhe nas outras; porém ao
    menos seja-me permittido, que a minha alma se encha de complacencia,
    lembrando-se de que tres Reis elogiárão a V. Excellencia, chamando-o a
    grandes coizas; não quizerão que estes talentos jazessem debaixo da
    terra; sobre ella, e sobre os mares os fizerão luzir.

    Na flor dos annos, quando as paixões, os exemplos, a natureza abrem
    guerra viva ao coração do homem, então vio a severa Magestade do Senhor
    Rei D. João o V, que V. Excellencia tão moço nos annos, era já ancião
    no conselho, e nos costumes, queria o seu voto nos Tribunaes, e o seu
    braço nas Armadas, negros ventos, mares cavados, ferro, sangue, erão os
    leitos brandos, em que V. Excellencia hia descançar das honrozas fadigas
    da terra.

    Que direi do Augusto, Piedozo, e ainda de fresco banhado das nossas
    lagrimas, o Senhor Rei D. Jozé o I.? O merecimento, junto com a
    semelhança dos genios, e de idades, puzerão sempre a V. Excellencia ao
    lado daquelle Monarca; mandou-lhe que acceitasse novos, e importantes
    Empregos; recebeo mil provas do seu poder, e da sua familiaridade, e
    entre ellas aquella, que V. Excellencia não disse, mas que todos sabem;
    aquella de que V. Excellencia nunca poderá lembrar-se sem dôr, e sem
    gloria.

    Os Benignos, e Amaveis Soberanos, que vemos sobre o Throno, puzerão o
    Sêllo na Obra, que seus Augustos Predecessores tinhão começado;
    encarregárão a V. Excellencia dos mais importantes Negocios do Estado: a
    madureza nos conselhos, o sevéro espirito de inteireza, os Reis, a Lei,
    a utilidade pública, são os objectos, que vírão sempre na frente dos
    cuidados de V. Excellencia.

    Mas, Senhor, eu vou abuzando da bondade, com que V. Excellencia se digna
    ouvir-me: eu converto a minha falla ao Throno do Todo-poderozo, que tem
    na sua mão as vidas, e os successos dos homens; alli peço ardentemente,
    que dilate, que prospére tão bem cultivados annos; que conserve em V.
    Excellencia o bom Pai, o Vassallo zelozo, o grande Ministro.

    Vós, Illustres Mortos, antigos Instituidores da Caza de Angeja, que
    trouxestes no peito o Sangue de dois Reis, não peçais conta delle;
    descançai em paz nos frios moimentos, cheios de Victorias, cheios de
    Serviços, que pagárão Deos, e os Reis por quem se fizerão. O vosso
    Herdeiro he digno de Vós; caminha sobre as vossas pizadas; herdou os
    vossos Titulos, e as vossas Virtudes.

    E Vós, Moços Illustres, seus dignos Filhos, cujos costumes, frutos do
    exemplo, são alto elogio da mão, que vos educa, já os Reis vos chamão;
    querem nos Filhos perpetuar o Pai. Os largos, e felices annos, que o Ceo
    lhe concederá de vida, serão a vossa escola. Servi os Reis, e a Patria;
    sacrificai-lhe os vossos annos, e as vossas fadigas; sede affaveis,
    justos, inteiros; sede como elle.

    FIM.

    INDICE

    Do que contém este II. Tomo.

    QUINTILHAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de S. Lourenço_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Lavradio_.

    QUARTETOS.

    _A' Excelentissima Senhora Condeça de Tarouca_.
    _No dia dos Annos da Excellentissima Senhora D. Maria de Noronha_.
    _A' Excellentissima Senhora Marqueza de Alegrete, nascendo-lhe huma
    filha_.
    _Na occasião em que o A. hia ver o Varatojo_.
    _Resposta a huma Carta, que em boa Poezia citava ao A. por huns Versos,
    que tinha promettido_.
    _Offerecendo hum Perum em huma caza, aonde todos os Domingos davão ao A.
    este prato_.
    _A huma Preta, que pertendia que a obzequiassem_.

    CARTAS.

    _A hum Amigo, louvando-lhe o estado de cazado_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde D. Jozé de Noronha, hoje
    Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor, no dia dos seus Annos, estando o A. doente_.
    _Tendo mandado huma Senhora ao A. Vinho da Madeira com huma Carta em boa
    Poezia_.
    _Desculpando-se o A. de não ir a huns Annos_.
    _Aconselhando hum Cabelleireiro, que não continuasse a fazer versos_ .
    _Pedindo-se ao A. huma Gloza_.
    _Agradecendo o A. alguns pratos, que lhe despertárão a vontade de comer_.
    _Sobre o mesmo Assumpto_.
    _Ao Senhor Dezembargador Sebastião Antonio Sobral_.
    _A huma Senhora, que em bons Versos pedio ao A. a Sátyra do Velho_.
    _Ao Senhor Deputado Domingos Pires Monteiro Bandeira_.
    _A hum Camarista_.

    DECIMAS.

    _A' Excellentissima Senhora D. Catharina Micaella de Souza, tendo feito
    a honra ao A. de lhe offerecer huma Vestia de Setim_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Conde de Villa Verde, hoje Marquez de Angeja_.
    _No dia dos Annos do mesmo Senhor_.
    _Sahindo por sortes Compadre de huma Senhora da primeira Grandeza_.
    _Fazendo Annos o Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao mesmo Senhor_.
    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Marialva_.
    _No dia dos Annos de hum Menino_.
    _Na despedida de hum Ministro, que partia levando seus filhos_.
    _A hum Fidalgo, que pedia para o A. hum lugar na Secretaria, na occazião
    em que elle pertendia o seu proprio despacho_.
    _A hum Padre, que dizia ter sido Mestre de Rhetorica, e estava eleito
    Cardeal_.
    _Mote: Hum suspiro de repente_.
    _Mandando huma galinha a huma Pretinha bonita_.
    _Cantigas feitas nas Caldas_.
    _A hum Leigo, que era vesgo_.
    _Estando o A. doente, e mandando pedir algum prato á meza, onde jantava
    o sobredito Leigo_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Marquez de Ponte de Lima,
    Ministro de Estado, pedindo-lhe o A. licença para ir ao remedio de
    banhos_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Lourenço de Lima_.
    _Ao Illustrissimo, e Excellentissimo Senhor Conde dos Arcos, sobre o
    mesmo assumpto_.
    _Ao Excellentissimo Senhor D. Fernando de Lima_.
    _A' Illustrissima, e Excellentissima Senhora Dona Catharina Micaela de
    Souza, tendo o Illustrissimo, e Excelentissimo Senhor Luiz Pinto de
    Souza expedido Avizo para se imprimirem as Obras do A. na Officina
    Regia_.

    PROZAS.

    _Ao Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, offerecendo alguns dos
    Versos, que vão neste Livro_.
    _Ao mesmo Senhor no dia dos seus Annos_.

  • O Mandarim

    O Mandarim

    Aproximadamente 20.685 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
    Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    EÇA DE QUEIROZ

    O MANDARIM

    LIVRARIA INTERNACIONAL

    DE

    ERNESTO CHARDRON, EDITOR.

    Porto e Braga

    1880

    O MANDARIM

    PROLOGO

    1.^o AMIGO (_bebendo Cognac e soda, debaixo d'arvores, n'um terraço, á
    beira d'agua_)

    Camarada, por estes calores do estio que embotam a ponta da sagacidade,
    repousemos do aspero estudo da Realidade humana… Partamos para os
    campos do Sonho, vaguear por essas azuladas collinas romanticas onde se
    ergue a torre abandonada do Sobrenatural, e musgos frescos recobrem as
    ruinas do Idealismo… Façamos phantasia!…

    2.^o AMIGO

    Mas sobriamente, camarada, parcamente!… E como nas sabias e amaveis
    Allegorias da Renascença, misturando-lhe sempre uma Moralidade
    discreta…

    (COMEDIA INEDITA).

    I

    Eu chamo-me Theodoro–e fui amanuense do Ministerio do Reino.

    N'esse tempo vivia eu á travessa da Conceição n.^o 106, na casa
    d'hospedes da D. Augusta, a esplendida D. Augusta, viuva do major
    Marques. Tinha dois companheiros: o Cabrita, empregado na Administração
    do bairro central, esguio e amarello como uma tocha d'enterro; e o
    possante, o exuberante tenente Couceiro, grande tocador de viola
    franceza.

    A minha existencia era bem equilibrada e suave. Toda a semana, de mangas
    de lustrina á carteira da minha repartição, ia lançando, n'uma formosa
    letra cursiva, sobre o papel Tojal do Estado, estas phrases faceis:
    «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr._–_Tenho a honra de communicar a V. Exc.^a…
    Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a, Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr…_»

    Aos domingos repousava: installava-me então no canapé da sala de jantar,
    de cachimbo nos dentes, e admirava a D. Augusta, que, em dias de missa,
    costumava limpar com clara d'ovo a caspa do tenente Couceiro. Esta hora,
    sobretudo no verão, era deliciosa: pelas janellas meio cerradas
    penetrava o bafo da soalheira, algum repique distante dos sinos da
    Conceição Nova, e o arrulhar das rolas na varanda; a monotona susurração
    das moscas balançava-se sobre a velha cambraia, antigo véo nupcial da
    Madame Marques, que cobria agora no aparador os pratos de cerejas
    bicaes; pouco a pouco o tenente, envolvido n'um lençol como um idolo no
    seu manto, ia adormecendo, sob a fricção molle das carinhosas mãos da D.
    Augusta; e ella, arrebitando o dedo minimo branquinho e papudo,
    sulcava-lhe as rêpas lustrosas com o pentesinho dos bichos… Eu então,
    enternecido, dizia á deleitosa senhora:

    –Ai D. Augusta, que anjo que é!

    Ella ria; chamava-me _enguiço_! Eu sorria, sem me escandalisar.
    _Enguiço_ era com effeito o nome que me davam na casa–por eu ser magro,
    entrar sempre as portas com o pé direito, tremer de ratos, ter á
    cabeceira da cama uma lithographia de Nossa Senhora das Dôres que
    pertencera á mamã, e corcovar. Infelizmente corcóvo–do muito que
    verguei o espinhaço, na Universidade, recuando como uma pêga assustada
    diante dos senhores Lentes; na repartição, dobrando a fronte ao pó
    perante os meus Directores Geraes. Esta attitude de resto convém ao
    bacharel; ella mantem a disciplina n'um Estado bem organisado; e a mim
    garantia-me a tranquillidade dos domingos, o uso d'alguma roupa branca,
    e vinte mil reis mensaes.

    Não posso negar, porém, que n'esse tempo eu era ambicioso–como o
    reconheciam sagazmente a Madame Marques e o lepido Couceiro. Não que me
    revolvesse o peito o appetite heroico de dirigir, do alto d'um throno,
    vastos rebanhos humanos; não que a minha louca alma jámais aspirasse a
    rodar pela Baixa em trem da Companhia, seguida d'um correio
    choitando;–mas pungia-me o desejo de poder jantar no Hotel Central com
    Champagne, apertar a mão mimosa de viscondessas, e, pelo menos duas
    vezes por semana, adormecer, n'um extasi mudo, sobre o seio fresco de
    Venus. Oh! moços que vos dirigieis vivamente a S. Carlos, atabafados em
    paletots caros onde alvejava a gravata de _soirée_! Oh! tipoias,
    apinhadas de andaluzas, batendo galhardamente para os touros–quantas
    vezes me fizestes suspirar! Porque a certeza de que os meus vinte mil
    reis por mez e o meu geito encolhido de enguiço me excluiam para sempre
    d'essas alegrias sociaes vinha-me então ferir o peito–como uma frecha
    que se crava n'um tronco, e fica muito tempo vibrando!

    Ainda assim, eu não me considerava sombriamente um «pária». A vida
    humilde tem doçuras: é grato, n'uma manhã de sol alegre, com o
    guardanapo ao pescoço, diante do bife de grelha, desdobrar o Diario de
    Noticias; pelas tardes de verão, nos bancos gratuitos do Passeio,
    gozam-se suavidades de idyllio; é saboroso á noite no Martinho, sorvendo
    aos goles um café, ouvir os verbosos injuriar a patria… Depois, nunca
    fui excessivamente infeliz–porque não tenho imaginação: não me
    consumia, rondando e almejando em torno de paraisos ficticios, nascidos
    da minha propria alma desejosa como nuvens da evaporação d'um lago; não
    suspirava, olhando as lucidas estrellas, por um amor á Romeo, ou por uma
    gloria social á Camors. Sou um positivo. Só aspirava ao racional, ao
    tangivel, ao que já fôra alcançado por outros no meu bairro, ao que é
    accessivel ao bacharel. E ia-me resignando, como quem a uma _table
    d'hôte_ mastiga a bucha de pão secco á espera que lhe chegue o prato
    rico da _Charlotte russe_. As felicidades haviam de vir: e para as
    apressar eu fazia tudo o que devia como portuguez e como
    constitucional:–pedia-as todas as noites a Nossa Senhora das Dôres, e
    comprava decimos da loteria.

    No entanto procurava distrahir-me. E como as circumvoluções do meu
    cerebro me não habilitavam a compôr odes, á maneira de tantos outros ao
    meu lado que se desforravam assim do tedio da profissão; como o meu
    ordenado, paga a casa e o tabaco, me não permittia um vicio–tinha
    tomado o habito discreto de comprar na feira da Ladra antigos volumes
    desirmanados, e á noite, no meu quarto, repastava-me d'essas leituras
    curiosas. Eram sempre obras de titulos ponderosos: Galera da Innocencia,
    Espelho Milagroso, Tristeza dos Mal Desherdados… O typo venerando, o
    papel amarellado com picadas de traça, a grave encadernação freiratica,
    a fitinha verde marcando a pagina–encantavam-me! Depois, aquelles
    dizeres ingenuos em letra gorda davam uma pacificação a todo o meu sêr,
    sensação comparavel á paz penetrante d'uma velha cêrca de mosteiro, na
    quebrada d'um valle, por um fim suave de tarde, ouvindo o correr d'agua
    triste…

    Uma noite, ha annos, eu começára a lêr, n'um d'esses in-folios vetustos,
    um capitulo intitulado _Brecha das Almas_; e ia cahindo n'uma
    somnolencia grata, quando este periodo singular se me destacou do tom
    neutro e apagado da pagina, com o relevo d'uma medalha d'ouro nova
    brilhando sobre um tapete escuro: copío textualmente:

    «No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis
    de que a Fabula ou a Historia contam. D'elle nada conheces, nem o
    nome, nem o semblante, nem a sêda de que se veste. Para que tu
    herdes os seus cabedaes infindaveis, basta que toques essa
    campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Elle soltará apenas um
    suspiro, n'esses confins da Mongolia. Será então um cadaver: e tu
    verás a teus pés mais ouro do que póde sonhar a ambição d'um avaro.
    Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?»

    Estaquei, assombrado, diante da pagina aberta: aquella interrogação
    «homem mortal, tocarás tu a campainha?» parecia-me facêta, picaresca, e
    todavia perturbava-me prodigiosamente. Quiz lêr mais; mas as linhas
    fugiam, ondeando como cobras assustadas, e no vazio que deixavam, d'uma
    lividez de pergaminho, lá ficava, rebrilhando em negro, a interpellação
    estranha–«tocarás tu a compainha?»

    Se o volume fosse d'uma honesta edição Michel-Levy, de capa amarella,
    eu, que por fim não me achava perdido n'uma floresta de ballada allemã,
    e podia da minha sacada vêr branquejar á luz do gaz o correame da
    patrulha–teria simplesmente fechado o livro, e estava dissipada a
    allucinação nervosa. Mas aquelle sombrio in-folio parecia estalar magia;
    cada letra affectava a inquietadora configuração d'esses signaes da
    velha cabala, que encerram um attributo fatidico; as virgulas tinham o
    retorcido petulante de rabos de diabinhos, entrevistos n'uma alvura de
    luar; no _ponto d'interrogação_ final eu via o pavoroso gancho com que o
    Tentador vai fisgando as almas que adormeceram sem se refugiar na
    inviolavel cidadella da Oração!… Uma influencia sobrenatural
    apoderando-se de mim, arrebatava-me devagar para fóra da realidade, do
    raciocinio: e no meu espirito foram-se formando duas visões–d'um lado
    um Mandarim, decrepito, morrendo sem dôr, longe, n'um kiosque chinez, a
    um _ti-li-tin_ de campainha; do outro toda uma montanha de ouro
    scintillando aos meus pés! Isto era tão nitido, que eu via os olhos
    obliquos do velho personagem embaciarem-se, como cobertos d'uma tenue
    camada de pó; e sentia o fino tinir de libras rolando juntas. E immovel,
    arripiado, cravava os olhos ardentes na campainha, pousada pacatamente
    diante de mim sobre um diccionario francez–a campainha prevista, citada
    no mirifico in-folio…

    Foi então que, do outro lado da mesa, uma voz insinuante e metallica me
    disse, no silencio:

    –Vamos, Theodoro, meu amigo, estenda a mão, toque a campainha, seja um
    forte!

    O _abat-jour_ verde da vela punha uma penumbra em redor. Ergui-o, a
    tremer. E vi, muito pacificamente sentado, um individuo corpulento, todo
    vestido de preto, de chapéo alto, com as duas mãos calçadas de luvas
    negras gravemente apoiadas ao cabo d'um guarda-chuva. Não tinha nada de
    phantastico. Parecia tão contemporaneo, tão regular, tão classe-média
    como se viesse da minha repartição…

    Toda a sua originalidade estava no rosto, sem barba, de linhas fortes e
    duras; o nariz brusco, d'um aquilino formidavel, apresentava a expressão
    rapace e atacante d'um bico d'aguia; o córte dos labios, muito firme,
    fazia-lhe como uma bocca de bronze; os olhos, ao fixar-se, assemelhavam
    dois clarões de tiro, partindo subitamente d'entre as sarças tenebrosas
    das sobrancelhas unidas; era livido–mas, aqui e além na pelle,
    corriam-lhe raiações sanguineas como n'um velho marmore phenicio.

    Veio-me á idéa de repente que tinha diante de mim o Diabo: mas logo todo
    o meu raciocinio se insurgiu resolutamente contra esta imaginação. Eu
    nunca acreditei no Diabo–como nunca acreditei em Deus. Jámais o disse
    alto, ou o escrevi nas gazetas, para não descontentar os poderes
    publicos, encarregados de manter o respeito por taes entidades: mas que
    existam estes dois personagens, velhos como a Substancia, rivaes
    bonacheirões, fazendo-se mutuamente pirraças amaveis,–um de barbas
    nevadas e tunica azul, na toilette do antigo Jove, habitando os altos
    luminosos, entre uma côrte mais complicada que a de Luiz XIV; e o outro
    enfarruscado e manhoso, ornado de cornos, vivendo nas chammas
    inferiores, n'uma imitação burgueza do pitoresco Plutão–não acredito.
    Não, não acredito! Céo e Inferno são concepções sociaes para uso da
    plebe–e eu pertenço á classe-média. Rezo, é verdade, a Nossa Senhora
    das Dôres: porque, assim como pedi o favor do senhor doutor para passar
    no meu acto; assim como, para obter os meus vinte mil reis, implorei a
    benevolencia do senhor deputado; igualmente para me subtrahir á tisica,
    á angina, á navalha de ponta, á febre que vem da sargeta, á casca de
    laranja escorregadia onde se quebra a perna, a outros males publicos,
    necessito ter uma protecção extra-humana. Ou pelo rapa-pé ou pelo
    incensador o homem prudente deve ir fazendo assim uma serie de sabias
    adulações desde a Arcada até ao Paraiso. Com um compadre no bairro, e
    uma comadre mystica nas Alturas–o destino do bacharel está seguro.

    Por isso, livre de torpes superstições, disse familiarmente ao individuo
    vestido de negro:

    –Então, realmente, aconselha-me que toque a campainha?

    Elle ergueu um pouco o chapéo, descobrindo a fronte estreita, enfeitada
    d'uma gaforinha crespa e negrejante como a do fabuloso Alcides, e
    respondeu, palavra a palavra:

    –Aqui está o seu caso, estimavel Theodoro. Vinte mil reis mensaes são
    uma vergonha social! Por outro lado, ha sobre este globo coisas
    prodigiosas: ha vinhos de Borgonha, como por exemplo o _Romanée-Conti_
    de 58 e o _Chambertin_ de 61, que custam, cada garrafa, de dez a onze
    mil reis; e quem bebe o primeiro calix, não hesitará, para beber o
    segundo, em assassinar seu pai… Fabricam-se em Paris e em Londres
    carruagens de tão suaves molas, de tão mimosos estofos, que é preferivel
    percorrer n'ellas o Campo Grande, a viajar, como os antigos deuses,
    pelos céos, sobre os fôfos coxins das nuvens… Não farei á sua
    instrucção a offensa de o informar que se mobilam hoje casas, d'um
    estylo e d'um conforto, que são ellas que realisam superiormente esse
    regalo ficticio, chamado outr'ora a «Bemaventurança». Não lhe fallarei,
    Theodoro, d'outros gozos terrestres: como, por exemplo, o Theatro do
    _Palais Royal_, o _baile Laborde_, o _Café Anglais_… Só chamarei a sua
    attenção para este facto: existem sêres que se chamam
    Mulheres–differentes d'aquelles que conhece, e que se denominam Femeas.
    Estes sêres, Theodoro, no meu tempo, a paginas 3 da Biblia, apenas
    usavam exteriormente uma _folha de vinha_. Hoje, Theodoro, é toda uma
    symphonia, todo um engenhoso e delicado poema de rendas, _baptistes_,
    setins, flôres, joias, cachemiras, gazes e velludos… Comprehende a
    satísfação inenarravel que haverá, para os cinco dedos de um christão,
    em percorrer, palpar estas maravilhas macias;–mas tambem percebe que
    não é com o troco d'uma placa honesta de cinco tostões que se pagam as
    contas d'estes cherubins… Mas ellas possuem melhor, Theodoro: são os
    cabellos côr do ouro ou côr da treva, tendo assim nas suas tranças a
    apparencia emblematica das duas grandes tentações humanas–a fome do
    metal precioso e o conhecimento do absoluto transcendente. E ainda teem
    mais: são os braços côr de marmore, d'uma frescura de lirio orvalhado;
    são os seios, sobre os quaes o grande Praxiteles modelou a sua Taça, que
    é a linha mais pura e mais ídeal da Antiguidade…. Os seios, outr'ora
    (na idéa d'esse ingenuo Ancião que os formou, que fabricou o mundo, e de
    quem uma inimizade secular me veda de pronunciar o nome), eram
    destinados á nutrição augusta da humanidade; socegue porém, Theodoro;
    hoje nenhuma maman racional os expõe a essa funcção deterioradora e
    severa; servem só para resplandecer, aninhados em rendas, ao gaz das
    _soirées_,–e para outros usos secretos. As conveniencias impedem-me de
    proseguir n'esta exposição radiosa das bellezas, que constituem o _Fatal
    Feminino_… De resto as suas pupillas já rebrilham…. Ora todas estas
    coisas, Theodoro, estão para além, infinitamente para além dos seus
    vinte mil reís por mez… Confesse, ao menos, que estas palavras teem o
    veneravel sello da verdade!…

    Eu murmurei com as faces abrasadas:

    –Teem.

    E a sua voz proseguiu, paciente e suave:

    –Que me diz a cento e cinco, ou cento e seis mil contos? Bem sei, é uma
    bagatella… Mas emfim, constituem um começo; são uma ligeira
    habilitação para conquistar a felicidade. Agora pondere estes factos: o
    Mandarim, esse Mandarim do fundo da China, está decrepito e está
    gottoso: como homem, como funccionario do celeste imperio, é mais inutil
    em Pekin e na humanidade, que um seixo na bocca d'um cão esfomeado. Mas
    a transformação da substancia existe: garanto-lh'a eu, que sei o segredo
    das coisas… Porque a terra é assim: recolhe aqui um homem apodrecido,
    e restitue-o além ao conjuncto das fórmas como vegetal viçoso. Bem póde
    ser que elle, inutil como Mandarim no Imperio do Meio, vá ser util
    n'outra terra como rosa perfumada ou saboroso repôlho. Matar, meu filho,
    é quasi sempre equilibrar as necessidades universaes. É eliminar aqui a
    excrescencia para ir além supprir a falta. Penetre-se d'estas solidas
    philosophias. Uma pobre costureira de Londres anceia por vêr florir, na
    sua trapeira, um vaso cheio de terra negra: uma flôr consolaria aquella
    desherdada; mas na disposição dos sêres, infelizmente, n'esse momento, a
    substancia que lá devia ser rosa é aqui na Baixa homem d'Estado… Vem
    então o fadista de navalha aberta, e fende o estadista; o enxurro
    leva-lhe os intestinos; enterram-no, com tipoias atraz; a materia começa
    a desorganisar-se, mistura-se á vasta evolução dos atomos–e o superfluo
    homem de governo vai alegrar, sob a fórma de amor perfeito, a agua
    furtada da loura costureira. O assassino é um philanthropo! Deixe-me
    resumir, Theodoro: a morte d'esse velho Mandarim idiota traz-lhe á
    algibeira alguns milhares de contos. Póde desde esse momento dar
    pontapés nos poderes publicos: medite na intensidade d'este gozo! É
    desde logo citado nos jornaes: reveja-se n'esse maximo da gloria humana!
    E agora note: é só agarrar a campainha, e fazer _ti-li-tin._ Eu não sou
    um barbaro: comprehendo a repugnancia d'um _gentleman_ em assassinar um
    contemporaneo: o espirrar do sangue suja vergonhosamente os punhos, e é
    repulsivo o agonisar d'um corpo humano. Mas aqui, nenhum d'esses
    espectaculos torpes… É como quem chama um criado… E são cento e
    cinco ou cento e seis mil contos; não me lembro, mas tenho-o nos meus
    apontamentos… O Theodoro não duvída de mim. Sou um
    cavalheiro:–provei-o, quando, fazendo a guerra a um tyranno na primeira
    insurreição da justiça, me vi precipitado d'alturas que nem Vossa
    Senhoria concebe… Um trambulhão consideravel, meu caro senhor! Grandes
    desgostos! O que me consola é que o OUTRO está tambem muito abalado:
    porque, meu amigo, quando um Jehovah tem apenas contra si um Satanaz,
    tira-se bem de difficuldades mandando carregar mais uma legião
    d'archanjos; mas quando o inimigo é o homem, armado d'uma penna de pato
    e d'um caderno de papel branco–está perdido… Emfim são seis mil
    contos. Vamos, Theodoro, ahi tem a campainha, seja um homem.

    Eu sei o que deve a si mesmo um christão. Se este personagem me tivesse
    levado ao cume d'uma montanha na Palestina, por uma noite de lua cheia,
    e ahi, mostrando-me cidades, raças e imperios adormecidos, sombriamente
    me dissesse:–«Mata o Mandarim, e tudo o que vês em valle e collina será
    teu»,–eu saberia replicar-lhe, seguindo um exemplo illustre, e erguendo
    o dedo ás profundidades constelladas:–«O meu reino não é d'este mundo!»
    Eu conheço os meus authores. Mas eram cento e tantos mil contos,
    offerecidos á luz d'uma vela de stearina, na travessa da Conceição, por
    um sujeito de chapéo alto, apoiado a um guarda-chuva…

    Então não hesitei. E, de mão firme, repeniquei a campainha. Foi talvez
    uma illusão; mas pareceu-me que um sino, de bocca tão vasta como o mesmo
    céo, badalava na escuridão, através do Universo, n'um tom temeroso que
    decerto foi acordar sóes que faziam né-né e planetas pançudos resonando
    sobre os seus eixos…

    O individuo levou um dedo á palpebra, e limpando a lagrima que ennevoára
    um instante o seu olho rutilante:

    –Pobre Ti-Chin-Fú!…

    –Morreu?

    –Estava no seu jardim, socegado, armando, para o lançar ao ar, um
    papagaio de papel, no passatempo honesto d'um Mandarim retirado,–quando
    o surprehendeu este _ti-li-tin_ da campainha. Agora jaz á beira d'um
    arroio cantante, todo vestido de sêda amarella, morto, de pança ao ar,
    sobre a relva verde: e nos braços frios tem o seu papagaio de papel, que
    parece tão morto como elle. Ámanhã são os funeraes. Que a sabedoria de
    Confucio, penetrando-o, ajude a bem emigrar a sua alma!

    E o sujeito, erguendo-se, tirou respeitosamente o chapéo, sahiu, com o
    seu guarda-chuva debaixo do braço.

    Então, ao sentir bater a porta, afigurou-se-me que emergia d'um
    pesadêlo. Saltei ao corredor. Uma voz jovial fallava com a Madame
    Marques; e a cancella da escada cerrou-se subtilmente.

    –Quem é que sahiu agora, ó D. Augusta?–perguntei, n'um suor.

    –Foi o Cabritinha que vai um bocadinho á batota…

    Voltei ao quarto: tudo lá repousava tranquillo, identico, real. O
    in-folio ainda estava aberto na pagina temerosa. Reli-a: agora
    parecia-me apenas a prosa antiquada d'um moralista caturra; cada palavra
    se tornára como um carvão apagado…

    Deitei-me:–e sonhei que estava longe, para além de Pekin, nas
    fronteiras da Tartaria, no kìosque d'um convento de Lamas, ouvindo
    maximas prudentes e suaves que escorriam, com um aroma fino de chá, dos
    labios de um Buddha vivo.

    II

    Decorreu um mez.

    Eu, no entanto, rotineiro e triste, lá ia pondo o meu cursivo ao serviço
    dos poderes publicos, e admirando aos domingos a pericia tocante com que
    a D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Era agora evidente para mim
    que, n'essa noite, eu adormecera sobre o in-folio, e sonhára com uma
    «Tentação da Montanha» sob fórmas familiares. Instinctivamente, porém,
    comecei a preoccupar-me com a China. Ia lêr os telegrammas á Havaneza; e
    o que o meu interesse lá buscava, eram sempre as noticias do Imperio do
    Meio; parece porém que, a esse tempo, nada se passava na região das
    raças amarellas… A _Agencia Havas_ só tagarellava sobre a Herzegovina,
    a Bosnia, a Bulgaria e outras curiosidades barbaras….

    Pouco a pouco fui esquecendo o meu episodio phantasmagorico: e ao mesmo
    tempo, como gradualmente o meu espirito reserenava, voltaram de novo a
    mover-se as antigas ambições que lá habitavam,–um ordenado de Director
    Geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta.
    Mas taes regalos pareciam-me tão inaccessiveis, tão nascidos do
    sonho–como os proprios milhões do Mandarim. E pelo monotono deserto da
    vida,–lá foi seguindo, lá foi marchando, a lenta caravana das minhas
    melancolias…

    Um domingo de agosto, de manhã, estirado na cama em mangas de camisa, eu
    dormitava, com o cigarro apagado no labio–quando a porta rangeu
    devagarinho, e entreabrindo a palpebra dormente, vi curvar-se ao meu
    lado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:

    –O snr. Theodoro?… O snr. Theodoro do Ministerio do Reino?…

    Ergui-me lentamente sobre o cotovêlo e respondi, n'um bocejo:

    –Sou eu, cavalheiro.

    O individuo recurvou o espinhaço: assim na presença augusta d'el-rei
    Bobeche se arquêa o cortezão… Era pequenino e obeso: a ponta das
    suiças brancas roçava-lhe as lapellas do fraque d'alpaca: veneraveis
    oculos d'oiro reluziam na sua face bochechuda, que parecia uma prospera
    personificação da Ordem: e todo elle tremia desde a calva, lustrosa até
    aos botíns de bezerro. Pigarreou, cuspilhou, balbuciou:

    –São noticias para vossa senhoria! Consideráveis noticias! O meu nome é
    Silvestre… Silvestre, Juliano & C.^a… Um serviçal criado de vossa
    excellencia… Chegaram justamente pelo paquete de Southampton… Nós
    somos correspondentes de Brito, Alves & C.^a de Macau… Correspondentes
    de Craig and Co d'Hong-Kong… As letras vem d'Hong-Kong…

    O sujeito engasgava-se; e a sua mão gordinha agitava em tremuras um
    _enveloppe_ repleto, com um sello de lacre negro.

    –Vossa excellencia–proseguiu–estava decerto prevenido… Nós é que o
    não estavamos… A atrapalhação é natural… O que esperamos é que vossa
    excellencia nos conserve a sua benevolencia… Nós sempre respeitámos
    muito o caracter de vossa excellencia… Vossa excellencia é n'esta
    terra uma flôr de virtude, e espelho de bons! Aqui estão os primeiros
    saques sobre Bhering and Brothers de Londres… Letras a trinta dias
    sobre Rothschild…

    A este nome, resoante como o mesmo oiro, saltei vorazmente do leito.

    –O que é isso, senhor?–gritei.

    E elle, gritando mais, brandindo o _enveloppe_, todo alçado no bico dos
    botins:

    –São cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre
    Londres, Paris, Hamburgo e Amsterdam, sacados a seu favor,
    excellentissimo senhor!… A seu favor, excellentissimo senhor! Pelas
    casas de Hong-Kong, de Chang-Hai e de Cantão, da herança depositada do
    Mandarim Ti-Chin-Fú!!

    Senti tremer o Globo sob os meus pés–e cerrei um momento os olhos. Mas
    comprehendi, n'um relance, que eu era, desde essa hora, como uma
    incarnação do Sobrenatural, recebendo d'elle a minha força e possuindo
    os seus attributos. Não podia comportar-me como um homem, nem
    desconsiderar-me em expansões humanas. Até, para não quebrar a linha
    hieratica–abstive-me de ir soluçar, como m'o pedia a alma, sobre o
    vasto seio da Madame Marques…

    D'ora em diante cabia-me a impassibilidade d'um Deus–ou d'um Demonio:
    dei, com naturalidade, um puxão ás calças, e disse a Silvestre, Juliano
    & C.^a estas palavras:

    –Está bem! O Mandarim… Esse Mandarim que disse portou-se com
    cavalheirismo. Eu sei de que se trata. É uma questão de familia. Deixe
    ahi os papeis… Bons dias.

    Silvestre, Juliano & C.^a retirou-se, ás arrecuas, de dorso vergado e
    fronte voltada ao chão.

    Eu então fui abrir, toda larga, a janella: e, dobrando para traz a
    cabeça, respirei o ar calido, consoladamente, como uma corça cançada…

    Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguezia se escoava,
    n'uma pacata sahida de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e
    além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metaes
    brilhantes d'arreios. E de repente, veio-me esta idéa, esta triumphante
    certeza–que todas aquellas tipoias as podia eu tomar á hora ou ao anno!
    Que nenhuma das mulheres que via, deixaria de me offerecer o seu seio
    nú, a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de
    domingo, se prostrariam diante de mim como diante de um Christo, de um
    Mahomet ou de um Buddha, se eu lhes sacudisse junto á face cento e seis
    mil contos sobre as praças da Europa!…

    Apoiei-me á varanda: e ri, com tedio, vendo a agitação ephemera
    d'aquella humanidade subalterna–que se considerava livre e forte, em
    quanto por cima, n'uma sacada de quarto andar, eu tinha na mão, n'um
    _enveloppe_ lacrado de negro, o principio mesmo da sua fraqueza e da sua
    escravidão!… Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do
    Poder, tudo gozei, pela imaginação, n'um instante, e d'um só sôrvo. Mas
    logo, uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e sentindo o mundo
    aos meus pés–bocejei como um leão farto.

    De que me serviam por fim tantos milhões, senão para me trazerem, dia a
    dia, a affirmação desoladora da villeza humana?… E assim, ao choque de
    tanto oiro, ia desapparecer aos meus olhos como um fumo a belleza moral
    do Universo! Tomou-me uma tristeza mystica. Abati-me sobre uma cadeira;
    e, com a face entre as mãos, chorei abundantemente.

    D'ahi a pouco a Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas
    sêdas pretas.

    –Está-se á sua espera para jantar, enguiço!…

    Emergi da minha amargura para lhe responder seccamente:

    –Não janto.

    –Mais fica!

    N'esse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo,
    dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flammejou, attrahindo-me
    deliciosamente:–era a tourada vista d'um camarote; depois um jantar com
    _Champagne_; á noite a orgia, como uma iniciação! Corri á mesa. Atulhei
    as algibeiras de letras sobre Londres. Desci á rua com um furor d'abutre
    fendendo o ar contra a presa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a,
    berrei:

    –Aos touros!

    –São dez tostões, meu amo!

    Encarei com repulsão aquelle reles pedaço de materia organisada–que
    fallava em placas de prata a um colosso d'oiro! Enterrei a mão na
    algibeira ajoujada de milhões, e tirei o meu metal: tinha setecentos e
    vinte!

    O cocheiro bateu a anca da egoa e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:

    –Mas tenho letras!… Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!…

    –Não péga.

    Setecentos e vinte!… E touros, jantar de lord, andaluzas nuas, todo
    esse sonho expirou como uma bola de sabão que bate a ponta de um prego.

    Odiei a Humanidade, abominei o Numerario. Outra tipoia, lançada a trote,
    apinhada de gente festiva, quasi me atropellou n'aquella abstracção em
    que eu ficára com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada.

    Cabisbaixo, enchumaçado de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu
    quarto andar; humilhei-me á Madame Marques, aceitei-lhe o bife corneo; e
    passei essa primeira noite de riqueza, bocejando sobre o leito
    solitario,–em quanto fóra o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de
    quinze mil reis de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando á viola o
    _Fado da Cotovia_.

    * * * * *

    Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre a origem
    dos meus milhões. Ella era evidentemente sobrenatural e suspeita.

    Mas como o meu Racionalismo me impedia d'attribuir estes thesouros
    imprevistos á generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, ficções
    puramente escolasticas; como os fragmentos de Positivismo, que
    constituem o fundo da minha Philosophia, não me permittiam a indagação
    _das causas primarias, das origens essenciaes_–bem depressa me decidi a
    aceitar seccamente este Phenomeno; e a utilisal-o com largueza. Portanto
    corri de quinzena ao vento para o _London Brazìlian Bank_…

    Ahi, arremessei para cima do balcão um papel sobre o _Banco
    d'Inglaterra_, de mil libras; e soltei esta deliciosa palavra:

    –Oiro!

    Um caixeiro suggeriu-me com doçura:

    –Talvez lho fosse mais commodo em notas…

    Repeti seccamente:

    –Oiro!

    Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado,
    icei-me para uma caleche. Sentía-me gordo, sentia-me obeso; tinha na
    bocca um sabor d'oiro, uma seccura de pó d'oiro na pelle das mãos: as
    paredes das casas pareciam-me faiscar como longas laminas d'oiro: e
    dentro do cerebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metaes–como o
    movimento d'um oceano que nas vagas rolasse barras d'oiro.

    Abandonando-me á oscillação das molas, rebolante como um odre mal firme,
    deixava cahir sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo e tedioso do sêr
    repleto. Emfim, atirando o chapéo para a nuca, estirando a perna,
    empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatulencia ricaça…

    Muito tempo rolei assim pela cidade, bestialisado n'um gozo de Nababo.

    Subitamente um brusco appetite de gastar, de dissipar oiro, veio-me
    enfunar o peito como uma rajada que incha uma véla.

    –Pára, animal!–berrei, ao cocheiro.

    A parelha estacou. Procurei em redor com a palpebra meio cerrada alguma
    coisa cara a comprar–joia de rainha ou consciencia de estadista: nada
    vi; precipitei-me então para um estanco.

    –Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!

    –Quantos?–perguntou servilmente o homem.

    –Todos!–respondi, com brutalidade.

    Á porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio,
    estendeu-me a mão transparente. Incommodava-me procurar os trocos de
    cobre por entre os meus punhados d'oiro. Repelli-a, impaciente: e, de
    chapéo sobre o olho, encarei friamente a turba.

    Foi então que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu Director
    Geral: immediatamente, achei-me com o dorso curvado em arco e o chapéo
    comprimentador roçando as lages. Era o habito da dependencia: os meus
    milhões não me tinham dado ainda a verticalidade á espinha…

    Em casa despejei o oiro sobre o leito, e rolei-me por cima d'elle, muito
    tempo, grunhindo n'um gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tres horas; e
    o sol apressado já descia, levando comsigo o meu primeiro dia de
    opulencia… Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!

    Ah, que dia! Jantei n'um gabinete do Hotel Central, solitario e egoista,
    com a mesa alastrada de Bordeus, Borgonha, Champagne, Rheno, licôres de
    todas as communidades religiosas–como para matar uma sêde de trinta
    annos! Mas só me fartei de Collares. Depois, cambaleando, arrastei-me
    para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou por traz das persianas; e
    achei-me estatelado no tapete, exhausto e semi-nú, sentindo o corpo e a
    alma como esvaírem-se, dissolverem-se n'aquelle ambiente abafado onde
    errava um cheiro de pó de arroz, de fêmea e de punch…

    Quando voltei á travessa da Conceição, as janellas do meu quarto estavam
    fechadas, e a véla expirava, com fogachos lividos, no castiçal de latão.
    Então ao chegar junto á cama, vi isto: estirada de través, sobre a
    coberta, jazia uma figura bojuda, de Mandarim fulminado, vestida de sêda
    amarella, com um grande rabicho solto; e entre os braços como morto
    tambem, tinha um papagaio de papel!

    Abri desesperadamente a janella: tudo desappareceu;–o que estava agora
    sobre o leito era um velho paletot alvadio.

    III

    Então começou a minha vida de milionario. Deixei bem depressa a casa da
    Madame Marques–que, desde que me sabía rico, me tratava todos os dias a
    arroz dôce, e ella mesma me servia, com o seu vestido de sêda dos
    domingos. Comprei, habitei o palacete amarello, ao Loreto: as
    magnificencias da minha installação são bem conhecidas pelas gravuras
    indiscretas da Illustração Franceza. Tornou-se famoso na Europa o meu
    leito, d'um gosto exuberante e barbaro, com a barra recoberta de laminas
    d'ouro lavrado, e cortinados d'um raro brocado negro onde ondeam,
    bordados a perolas, versos eroticos de Catullo; uma lampada, suspensa no
    interior, derrama alli a claridade lactea e amorosa d'um luar de verão.

    Os meus primeiros mezes ricos, não o occulto, passei-os a amar–a amar
    com o sincero bater de coração d'um pagem inexperiente. Tinha-a visto,
    como n'uma pagina de novella, regando os seus craveiros á varanda:
    chamava-se Candida; era pequenina, era loira; morava a Buenos-Ayres,
    n'uma casinha casta recoberta de trepadeiras; e lembrava-me pela graça e
    pelo airoso da cinta, tudo o que a Arte tem creado de mais fino e
    fragil–Mimi, Virginia, a Joanninha do Valle de Santarem.

    Todas as noites eu cahia, em extasis de mystico, aos seus pés côr de
    jaspe. Todas as manhãs lhe alastrava o regaço de notas de vinte mil
    reis: ella repellia-as primeiro com um rubor,–depois, ao guardal-as na
    gaveta, chamava-me o seu _anjo Tótó_.

    Um dia que eu me introduzira, a passos subtis, por sobre o espesso
    tapete syrio, até ao seu _boudoir_–ella estava escrevendo, muito
    enlevada, de dedinho no ar: ao vêr-me, toda tremula, toda pallida,
    escondeu o papel que tinha o seu monogramma. Eu arranquei-lh'o, n'um
    ciume insensato. Era a carta, a carta costumada, a carta necessaria, a
    carta que desde a velha antiguidade a mulher sempre escreve; começava
    por _meu idolatrado_–e era para um alferes da visinhança…

    Desarraiguei logo esse sentimento do meu peito como uma planta venenosa.
    Descri para sempre dos Anjos loiros, que conservam no olhar azul o
    reflexo dos céos atravessados: de cima do meu oiro, deixei cahir sobre a
    Innocencia, o Pudor, e outras idealisações funestas acida gargalhada de
    Mephistopheles: e organisei friamente uma existencia animal, grandiosa e
    cynica.

    * * * * *

    Ao bater do meio dia, entrava na minha tina de marmore côr de rosa, onde
    os perfumes derramados davam á agua um tom opaco de leite: depoîs pagens
    tenros, de mão macia, fríccionavam-me com o ceremonial de quem celebra
    um culto: e embrulhado n'um _robe-de-chambre_ de sêda da India, através
    da galeria, dando aqui e além um olhar aos meus Fortunys e aos meus
    Corots, entre alas silenciosas de lacaios, dirigia-me ao bife á ingleza,
    servido em Sèvres, azul e oiro.

    O resto da manhã, se havia calor, passava-o sobre coxins de setim côr de
    perola, n'um _boudoir_ em que a mobilia era de porcelana fina de Dresde
    e as flôres faziam um jardim d'Armida; ahi, saboreava o Diario de
    Noticiais, em quanto lindas raparigas vestidas á japoneza refrescavam o
    ar, agitando leques de plumas.

    De tarde ia dar uma volta a pé, até ao Pote das Almas: era a hora mais
    pesada do dia: encostado á bengala, arrastando as pernas molles, abria
    bocejos de fera saciada,—e a turba abjecta parava a contemplar, em
    extasis, o Nababo enfastiado!

    Ás vezes vinha-me como uma saudade dos meus tempos occupados da
    Repartição. Entrava em casa; e encerrado na livraria, onde o Pensamento
    da Humanidade repousava esquecido e encadernado em marroquim, aparava
    uma penna de pato, e ficava horas lançando sobre folhas do meu querido
    Tojal d'outr'ora: «_Ill.^{mo} e Exc.^{mo} Snr.–Tenho a honra de participar
    a V. Exc.^a… Tenho a honra de passar ás mãos de V. Exc.^a!…_».

    Ao começo da noite um criado, para annunciar o jantar, fazia soar pelos
    corredores na sua tuba de prata, á moda gothica, uma harmonia solemne.
    Eu erguia-me e ia comer, magestoso e solitario. Uma populaça de lacaios,
    de librés de sêda negra, servia, n'um silencio de sombras que resvalam,
    as vitualhas raras, vinhos do preço de joias: toda a mesa era um
    esplendor de flôres, luzes, crystaes, scintillações d'oiro:–e
    enrolando-se pelas pyramides de fructos, misturando-se ao vapor dos
    pratos, errava, como uma nevoa subtil, um tedio inenarravel…

    Depois, apopletico, atirava-me para o fundo do coupé–e lá ia ás
    Janellas Verdes onde nutria, n'um jardim de serralho, entre requintes
    musulmanos, um viveiro de fêmeas: revestiam-me d'uma tunica de sêda
    fresca e perfumada,–e eu abandonava-me a delirios abominaveis…
    Traziam-me semi-morto para casa, ao primeiro alvor da manhã: fazia
    machinalmente o meu signal da cruz, e d'ahi a pouco roncava de ventre ao
    ar, livido e com um suor frio, como um Tiberio exhausto.

    * * * * *

    Entretanto Lisboa rojava-se aos meus pés. O pateo do palacete estava
    constantemente invadido por uma turba: olhando-a enfastiado das janellas
    da galeria, eu via lá branquejar os peitilhos da Aristocracia, negrejar
    a sotaina do Clero, e luzîr o suor da Plebe: todos vinham supplicar, de
    labio abjecto, a honra do meu sorriso e uma participação no meu oiro. Ás
    vezes, consentia em receber algum velho de titulo historico:–elle
    adiantava-se pela sala, quasi roçando o tapete com os cabellos brancos,
    tartamudeando adulações; e immediatamente, espalmando sobre o peito a
    mão de fortes vêas onde corria um sangue de tres seculos, offerecia-me
    uma filha bem-amada para esposa ou para concubina.

    Todos os cidadãos me traziam presentes como a um Idolo sobre o
    altar–uns Odes votivas, outros o meu monogramma bordado a cabello,
    alguns chinelas ou boquilhas, cada um a sua consciencia. Se o meu olhar
    amortecido fixava, por acaso, na rua, uma mulher–era logo ao outro dia
    uma carta em que a creatura, esposa ou prostituta, me offertava a sua
    nudez, o seu amor, e todas as complacencias da lascivia.

    Os jornalistas esporeavam a imaginação para achar adjectivos dignos da
    minha grandeza; fui o _sublime snr. Theodoro_, cheguei a ser o _celeste
    snr. Theodoro_; então, desvairada, a Gazeta das Locaes chamou-me o
    _extra-celeste snr. Theodoro_! Diante de mim nenhuma cabeça ficou jámais
    coberta–ou usasse a corôa ou o côco. Todos os dias me era offerecida
    uma Presidencia de Ministerio ou uma Direcção de Confraria. Recusei
    sempre, com nojo.

    Pouco a pouco o rumor das minhas riquezas foi passando os confins da
    Monarchia. O Figaro, cortezão, em cada numero fallou de mim,
    preferindo-me a Henrique V; o grotesco immortal, que assigna
    _Saint-Genest_, dirigiu-me apostrophes convulsivas, pedindo-me para
    salvar a França; e foi então que as Illustrações estrangeiras
    publicaram, a côres, as scenas do meu viver. Recebi de todas as
    princezas da Europa enveloppes, com sêllos heraldicos, expondo-me, por
    photographias, por documentos, a fórma dos seus corpos e a antiguidade
    das suas genealogias. Duas pilherias que soltei durante esse anno foram
    telegraphadas ao Universo pelos fios da Agencia Havas; e fui considerado
    mais espirituoso que Voltaire, que Rochefort, e que esse fino
    entendimento que se chama _Todo-o-Mundo_. Quando o meu intestino se
    alliviava com estampido–a Humanidade sabia-o pelas gazetas. Fiz
    emprestimos aos Reis, subsidiei guerras civis–e fui caloteado por todas
    as Republicas latinas que orlaram o golfo do Mexico.

    E eu, no entanto, vivia triste…

    * * * * *

    Todas as vezes que entrava em casa estacava, arripiado, diante da mesma
    visão: ou estirada no limiar da porta, ou atravessada sobre o leito
    d'oiro–lá jazia a figura bojuda, de rabicho negro e tunica amarella,
    com o seu papagaio nos braços… Era o Mandarim Ti-Chin-Fú! Eu
    precipitava-me, de punho erguido: e tudo se dissipava.

    Então cahia aniquilado, todo em suor, sobre uma poltrona, e murmurava no
    silencio do quarto, onde as vélas dos candelabros davam tons
    ensaguentados aos damascos vermelhos:

    –_Preciso matar este morto_!

    E todavia, não era esta impertinencia d'um velho phantasma pançudo,
    accommodando-se nos meus moveis, sobre as minhas colchas, que me fazia
    saber mal a vida.

    O horror supremo consistia na idéa, que se me cravára então no espirito
    como um ferro inarrancavel–_que eu tinha assassinado um velho_!

    Não fôra com uma corda em torno da garganta á moda musulmana; nem com
    veneno n'um calix de vinho de Syracusa, á maneira italiana da
    Renascença; nem com algum dos methodos classicos, que na historia das
    Monarchias teem recebido consagrações augustas–a punhal como D. João
    II, á clavina como Carlos IX…

    Tinha eliminado a creatura, de longe, com uma campainha. Era absurdo,
    phantastico, faceto. Mas não diminuia a tragica negrura do facto: _eu
    assassinára um velho_!

    Pouco a pouco esta certeza ergueu-se, petrificou-se na minha alma, e
    como uma columna n'um descampado dominou toda a minha vida interior: de
    sorte que, por mais desviado caminho que tomassem os meus pensamentos
    viam sempre negrejar no horisonte aquella Memoria accusadora; por mais
    alto que se levantasse o vôo das minhas imaginações, ellas terminavam
    por ir fatalmente ferir as azas n'esse Monumento de miseria moral.

    Ah! por mais que se considere Vida e Morte como banaes transformações da
    Substancia, é pavoroso o pensamento–que se fez regelar um sangue
    quente, que se immobilisou um musculo vivo! Quando depois de jantar,
    sentindo ao lado o aroma do café, eu me estirava no sophá, enlanguecido,
    n'uma sensação de plenitude, elevava-se logo dentro em mim, melancolico
    como o côro que vem d'um ergastulo, todo um susurro de accusações:

    –E todavia tu fizeste que esse bem-estar em que te regalas, nunca mais
    fosse gozado pelo veneravel Ti-Chin-Fú!…

    Debalde eu replicava á Consciencia, lembrando-lhe a decrepitude do
    Mandarim, a sua gôta incuravel… Facunda em argumentos, gulosa de
    controversia, ella retorquia logo com furor:

    –Mas, ainda na sua actividade mais resumida, a vida é um bem supremo:
    porque o encanto d'ella reside no seu principio mesmo, e não na
    abundancia das suas manifestações!

    Eu revoltava-me contra este pedantismo rhetorico de pedagogo rigido:
    erguia alto a fronte, gritava-lhe n'uma arrogancia desesperada:

    –Pois bem! Matei-o! Melhor! Que queres tu? o teu grande nome de
    Consciencia não me assusta! És apenas uma perversão da sensibilidade
    nervosa. Posso eliminar-te com _flôr de laranja_!

    E immediatamente sentia passar-me n'alma, com uma lentidão de briza, um
    rumor humilde de murmurações ironicas:

    –Bem, então come, dorme, banha-te e ama…

    Eu assim fazia. Mas logo, os proprios lençoes de Bretanha do meu leito
    tomavam aos meus olhos apavorados os tons lividos d'uma mortalha; a agua
    perfumada em que me mergulhava arrefecia-me sobre a pelle, com a
    sensação espessa d'um sangue que coalha: e os peitos nús das minhas
    amantes entristeciam-me, como lapides de marmore que encerram um corpo
    morto.

    Depois assaltou-me uma amargura maior: comecei a pensar que Ti-Chin-Fú
    tinha de certo uma vasta familia, netos, bisnetos tenros, que,
    despojados da herança que eu comia á farta em pratos de Sèvres, n'uma
    pompa de sultão perdulario, iam atravessando na China todos os infernos
    tradicionaes da miseria humana–os dias sem arroz, o corpo sem agasalho,
    a esmola recusada, a rua lamacenta por morada…

    Comprehendi então porque me perseguia a figura obesa do velho letrado; e
    dos seus labios recobertos pelos longos pellos brancos do seu bigode de
    sombra, parecia-me sahir agora esta accusação desolada:–«Eu não me
    lamento a mim, fórma meio morta que era; chóro os tristes que
    arruinaste, e que a estas horas, quando tu vens do seio fresco das tuas
    amorosas, gemem de fome, regelam na frialdade, apinhados n'um grupo
    expirante, entre leprosos e ladrões, na _Ponte dos Mendigos_, ao pé dos
    terraços do Templo do Céo!»

    Oh tortura engenhosa! Tortura realmente chineza! Não podia levar á bocca
    um pedaço de pão sem imaginar immediatamente o bando faminto de
    criancinhas, a descendencia de Ti-Chin-Fú, penando, como passarinhos
    implumes que abrem debalde o bico e piam em ninho abandonado; se me
    abafava no meu paletot era logo a visão de desgraçadas senhoras, mimosas
    outr'ora de tepido conforto chinez, hoje rôxas de frio, sob andrajos de
    velhas sêdas, por uma manhã de neve; o tecto d'ébano do meu palacete
    lembrava-me a familia do Mandarim, dormindo á beira dos canaes, farejada
    pelos cães; e o meu coupé bem forrado fazia-me arripiar á idéa das
    longas caminhadas errantes, por estradas encharcadas, sob um duro
    inverno asiatico.

    O que eu soffria!–E era o tempo em que a populaça invejosa vinha pasmar
    para o meu palacete, commentando as felicidades inaccessiveis que lá
    deviam habitar!

    Emfim, reconhecendo que a Consciencia era dentro em mim como uma
    serpente irritada–decidi implorar o auxilio d'Aquelle que dizem ser
    superior á Consciencia porque dispõe da Graça.

    Infelizmente eu não acreditava n'Elle… Recorri pois á minha antiga
    divindade particular, ao meu dilecto idolo, padroeira da minha familia,
    Nossa Senhora das Dôres. E, regiamente pago, um povo de curas e conegos,
    pelas cathedraes de cidade e pelas capellas d'aldêa, foi pedindo a Nossa
    Senhora das Dôres que voltasse os seus olhos piedosos para o meu mal
    interior… Mas nenhum allivio desceu d'esses céos inclementes, para
    onde ha milhares d'annos debalde sobe o clamor da miseria humana.

    Então eu proprio me abysmei em praticas piedosas–e Lisboa assistiu a
    este espectaculo extraordinario: um ricaço, um Nababo, prostrando-se
    humildemente ao pé dos altares, balbuciando de mãos postas phrases de
    _Salvè-Rainha_, como se visse na Oração e no Reino do Céo que ella
    conquista, outra cousa mais que uma consolação ficticia que os que
    possuem tudo inventaram para contentar os que não possuem nada… Eu
    pertenço á Burguezia; e sei que se ella mostra á Plebe desprovída um
    paraiso distante, gozos ineffaveis a alcançar–é para lhe afastar a
    attenção dos seus cofres repletos e da abundancia das suas searas.

    Depois, mais inquieto, fiz dizer milhares de missas, simples e cantadas,
    para satisfazer a alma errante de Ti-Chin-Fú. Pueril desvario d'um
    cerebro peninsular! O velho Mandarim na sua classe de letrado, de membro
    da Academia dos Han-Lin, collaborador provavel do grande tratado
    Khou-Tsuane-Chou que já tem setenta e oito mil e setecentos e trinta
    volumes, era certamente um sectario da Doutrina, da Moral positiva de
    Confucio… Nunca elle, sequer, queimára mechas perfumadas em honra de
    Buddha: e os ceremoniaes do Sacrificio mystico deviam parecer á sua
    abominavel alma de grammatico e de sceptico como as pantomimas dos
    palhaços, no theatro de Hong-Tung!

    Então prelados astutos, com experiencia catholica, deram-me um conselho
    subtil–captar a benevolencia de Nossa Senhora das Dores com presentes,
    flôres, brocados e joias, como se quizesse alcançar os favores
    d'Aspasia: e á maneira d'um banqueiro obeso, que obtem as complacencias
    d'uma dançarina dando-lhe um _Cottage_ entre arvores–eu, por uma
    suggestão sacerdotal, tentei peitar a dôce Mãi dos Homens, erguendo-lhe
    uma cathedral toda de marmore branco. A abundancia das flôres punha
    entre os pilares lavrados perspectivas de paraisos: a multiplicidade dos
    lumes lembrava uma magnificencia sideral… Despezas vãs! O fino e
    erudito cardeal Nani veio de Roma consagrar a Igreja; mas, quando eu
    n'esse dia entrei a visitar a minha hospeda divina, o que vi, para além
    das calvas dos celebrantes, entre a mystica nevoa dos incensos, não foi
    a Rainha da Graça, loira, na sua tunica azul,–foi o velho malandro com
    o seu olho obliquo e o seu papagaio nos braços! Era a _elle_, ao seu
    branco bigode tartaro, á sua pança côr d'oca, que todo um sacerdocio
    recamado d'oiro estava offerecendo, ao roncar do orgão, a Eternidade dos
    Louvores!…

    * * * * *

    Então, pensando que Lisboa, o meio dormente em que me movia, era
    favoravel ao desenvolvimento d'estas imaginações–parti, viajei
    sobriamente, sem pompa, com um bahú e um lacaio.

    Visitei, na sua ordem, classica, Paris, a banal Suissa, Londres, os
    lagos taciturnos da Escocia; ergui a minha tenda diante das muralhas
    evangelicas de Jerusalém; e d'Alexandria a Thebas, fui ao comprido
    d'esse longo Egypto monumental e triste como o corredor d'um mausoléo.
    Conheci o enjôo dos paquetes, a monotonia das ruinas, a melancolia das
    multidões desconhecidas, as desillusões do _boulevard_: e o meu mal
    interior ia crescendo.

    Agora já não era só a amargura de ter despojado uma familia veneravel:
    assaltava-me o remorso mais vasto de ter privado toda uma sociedade d'um
    Personagem fundamental, um letrado experiente, columna da Ordem, esteio
    d'Instituições. Não se póde arrancar assim a um Estado uma personalidade
    do valor de cento e seis mil contos, sem lhe perturbar o equilibrio…
    Esta idéa pungia-me, acerbamente. Anciei por saber se na verdade a
    desapparição de Ti-Chin-Fú fôra funesta á decrepita China: li todos os
    jornaes de Hong-Kong e de Chang-Hai, velei a noite sobre Historias de
    viagens, consultei sabios missionarios:–e artigos, homens, livros, tudo
    me falla da decadencia do Imperio do Meio, provincias arruinadas,
    cidades moribundas, plebes esfomeadas, pestes e rebelliões, templos
    aluindo-se, leis perdendo a authoridade, a decomposição d'um mundo, como
    uma nau encalhada que a vaga desfaz tábua a tábua!…

    E eu attribuia-me estas desgraças da Sociedade chineza! No meu espirito
    doente Ti-Chin-Fú! tomára então o valor desproporcionado d'um Cesar, um
    Moysés, um d'esses sêres providenciaes que são a força d'uma raça. Eu
    matára-o; e com elle desapparecera a vitalidade da sua patria! O seu
    vasto cerebro poderia talvez ter salvado, a rasgos geniaes, aquella
    velha monarchia asiatica–e eu immobilisára-lhe a acção creadora! A sua
    fortuna concorreria a refazer a grandeza do Erario–e eu estava-a
    dissipando a offerecer pecegos em janeiro ás messalinas do
    Helder!…–Amigos, conheci o remorso colossal de ter arruinado um
    imperio!

    Para esquecer este tormento complicado, entreguei-me á orgia.
    Installei-me n'um palacete da avenida dos Campos-Elysios–e fui medonho.
    Dava festas á Trimalcião: e, nas horas mais asperas de furia libertina,
    quando das charangas, na estridencia brutal dos cobres, rompiam os
    _can-cans_; quando prostitutas, de seio desbragado, ganiam coplas
    canalhas; quando os meus convidados bohemios, atheus de cervejaria,
    injuriavam Deus, com a taça de _Champagne_ erguida–eu, tomado
    subitamente como Heliogabalo d'um furor de bestialidade, d'um ódio
    contra o Pensante e o Consciente, atirava-me ao chão a quatro patas e
    zurrava formidavelmente de burro…

    Depois quiz ir mais baixo, ao deboche da plebe, ás torpezas alcoólicas
    do _Assomoir_: e quantas vezes, vestido de blusa, com o casquete para a
    nuca, de braço dado com _Mes-Bottes_ ou _Bibi-la-Gaillarde_, n'um tropel
    avinhado, fui cambaleando pelos _boulevards_ exteriores, a uivar, entre
    arrotos:

    _Allons, enfants de la patrie-e-e!…
    Le jour de gloire est arrivé…_

    Foi uma manhã, depois d'um d'estes excessos, á hora em que nas trevas da
    alma do debochado se ergue uma vaga aurora espiritual–que me nasceu, de
    repente, a idéa de partir para a China! E, como soldados em acampamento
    adormecido, que ao som do clarim se erguem, e um a um se vão juntando e
    formando columna–outras idéas se foram reunindo no meu espirito,
    alinhando-se, completando um plano formidavel… Partiria para Pekin;
    descobriria a familia de Ti-Chin-Fú; esposando uma das senhoras,
    legitimaría a posse dos meus milhões; daria áquella casa letrada a
    antiga prosperidade; celebraria funeraes pomposos ao Mandarim, para lhe
    acalmar o espirito irritado; iria pelas provincias miseraveis fazendo
    colossaes distribuições d'arroz; e, obtendo do Imperador o botão de
    crystal de Mandarim, accesso facil a um bacharel, substituir-me-hia á
    personalidade desapparecida de Ti-Chin-Fú–e poderia assim restituir
    legalmente á sua patria, senão a authoridade do seu saber, ao menos a
    força do seu oiro.

    Tudo isto, por vezes, me apparecia como um programma indefinido,
    nevoento, pueril e idealista. Mas já o desejo d'esta aventura original e
    epica me envolvera; e eu ia, arrebatado por elle, como uma folha secca
    n'uma rajada.

    Anhelei, suspirei por pisar a terra da China!–Depois d'altos
    preparativos, apressados a punhados d'oiro, uma noite parti emfim para
    Marselha. Tinha alugado todo um paquete, o _Ceylão_. E na manhã
    seguinte, por um mar azul-ferrete, sob o vôo branco das gaivotas, quando
    os primeiros raios do sol ruborisavam as torres de Nossa Senhora da
    Guarda, sobre o seu rochedo escuro–puz a prôa ao Oriente.

    IV

    O Ceylão teve uma viagem calma e monotona até Chang-Hai.

    D'ahi subimos pelo rio Azul a Tien-Tsin n'um pequeno _steamer_ da
    Companhia Russel. Eu não vinha visitar a China n'uma curiosidade ociosa
    de _touriste_: toda a paizagem d'essa provincia, que se assemelha á dos
    vasos de porcelana, d'um tom azulado e vaporoso, com collinasinhas
    calvas e de longe a longe um arbusto bracejante, me deixou sombriamente
    indifferente.

    Quando o capitão do _steamer_, um _yankee_ impudente de focinho de
    chibo, ao passarmos á altura de Nankin, me propoz parar, ir percorrer as
    ruinas monumentaes da velha cidade de porcelana,–eu recusei, com um
    movimento secco de cabeça, sem mesmo desviar os olhos tristes da
    corrente barrenta do rio.

    Que pesados e soturnos me pareceram os dias de navegação de Tien-Tsin a
    Tung-Chou, em barcos chatos que o cheiro dos remadores chinezes
    empestava; ora através de terras baixas inundadas pelo Pei-hó, ora ao
    longo de pallidos e infindaveis arrozaes; passando aqui uma lugubre
    aldêa de lama negra, além um campo coberto de esquifes amarellos;
    topando a cada momento com cadaveres de mendigos, inchados e
    esverdeados, que desciam ao fio d'agua, sob um céo fusco e baixo!

    Em Tung-Chou fiquei surprehendido, ao dar com uma escolta de cossacos
    que mandava ao meu encontro o velho general Camilloff, heroico official
    das campanhas da Asia Central, e então embaixador da Russia em Pekin. Eu
    vinha-lhe recommendado como um sêr precioso e raro: e o verboso
    interprete Sá-Tó, que elle punha ao meu serviço, explicou-me que as
    cartas de sêllo imperial, avisando-o da minha chegada, recebera-as elle,
    havia semanas, pelos correios da Chancellaria que atravessam a Siberia
    em trenó, descem a dorso de camêlo até á Grande Muralha tartara, e
    entregam ahi a mala a esses corredores mongolicos, vestidos de coiro
    escarlate, que dia e noite galopam sobre Pekin.

    Camilloff enviava-me um poney da Manchouria, ajaezado de sêda, e um
    cartão de visita, com estas palavras traçadas a lapis sob o seu nome:
    «_Saúde! o animal é dôce de bocca_!»

    Montei o poney: e a um _hurrah_! dos cossacos, n'um agitar heroico de
    lanças, partimos á desfilada pela poeirenta planicie–porque já a tarde
    declinava, e as portas de Pekin fecham-se mal o ultimo raio de sol deixa
    as torres do Templo do Céo. Ao principio seguimos uma estrada, caminho
    batido do transito das caravanas, atravancado de enormes lages de
    marmore dessoldadas da antiga Via Imperial. Depois passámos a ponte de
    Pa-li-kao, toda de marmore branco, flanqueada de dragões arrogantes.
    Vamos correndo então á beira de canaes d'agua negra: começam a apparecer
    pomares, aqui e além uma aldêa de côr azulada, aninhada ao pé de um
    Pagode:–de repente, a um cotovêlo do caminho, paro assombrado…

    Pekin está diante de mim! É uma vasta muralha, monumental e barbara,
    d'um negro baço, estendendo-se a perder de vista, e, destacando, com as
    architecturas babylonicas das suas portas de tectos recurvos, sobre um
    fundo de poente de purpura ensanguentada…

    Ao longe, para o Norte, n'um vago de vapor roxo, esbatem-se, como
    suspensas no ar, as montanhas da Mongolia…

    Uma rica liteira esperava-me á porta de Tung-Tsen-Men, para eu
    atravessar Pekin até á Residencia militar de Camilloff. A muralha agora,
    ao perto, parecia erguer-se até aos céos com o horror d'uma construcção
    biblica: á sua base apinhava-se uma confusão de barracas, feira exotica,
    onde rumorejava uma multidão, e a luz de lanternas oscillantes cortava
    já o crepúsculo de vagas manchas côr de sangue; os toldos brancos faziam
    ao pé do negro muro como um bando de borboletas pousadas.

    Senti-me triste; subi á liteira, cerrei as cortinas de sêda escarlate
    todas bordadas a oiro; e cercado dos cossacos, eis-me entrando a velha
    Pekin, por essa porta babelica, na turba tumultuosa, entre carretas,
    cadeirinhas de xarão, cavalleiros mongolicos armados de flechas, bonzos
    de tunica alvejante marchando um a um, e longas filas de lentos
    dromedarios balançando a sua carga em cadencia…

    D'ahi a pouco a liteira parou. O respeitoso Sá-Tó correu as cortinas, e
    vi-me n'um jardim, escurecido e calado, onde, por entre sycomoros
    seculares, kiosques alumiados brilhavam com uma luz dôce, como colossaes
    lanternas pousadas sobre a relva: e toda a sorte de aguas correntes
    murmuravam na sombra. Sob um peristilo feito de madeiros pintados a
    vermelhão, aclarado por fios de lampadas de papel transparente,
    esperava-me um membrudo figurão, de bigodes brancos, apoiado a um grosso
    espadão. Era o general Camilloff. Ao adiantar-me para elle, eu sentia o
    passo inquieto das gazellas fugindo de leve sob as arvores…

    O velho heroe apertou-me um momento ao peito, e conduziu-me logo,
    segundo os usos chinezes, ao banho da hospitalidade, uma vasta tina de
    porcelana, onde entre rodelas finas de limão sobrenadavam esponjas
    brancas, n'um perfume forte de lilaz…

    Pouco depois a lua banhava deliciosamente os jardins: e eu, muito
    fresco, de gravata branca, entrava pelo braço de Camilloff no _boudoir_
    da generala. Era alta e loira; tinha os olhos verdes das sereias de
    Homero; no decote baixo do seu vestido de sêda branca pousava uma rosa
    escarlate; e nos dedos, que lhe beijei, errava um aroma fino de sandalo
    e de chá.

    Conversámos muito da Europa, do Nihilismo, de Zola, de Leão XIII, e da
    magreza de Sarah Bernardth…

    Pela galeria aberta penetrava um ar calido que rescendia a heliotropio.
    Depois ella sentou-se ao piano–e a sua voz de contralto quebrou até
    tarde os silencios melancolicos da cidade tartara, com as picantes arias
    de _Madame Favart_ e com as melodias afagantes do _Rei de Lahore_.

    * * * * *

    Ao outro dia cedo, encerrado com o general n'um dos kiosques do jardim,
    contei-lhe a minha lamentavel historia e os motivos fabulosos que me
    traziam a Pekin. O heroe escutava, cofiando sombriamente o seu espesso
    bigode cossaco…

    –O meu prezado hospede sabe o chinez?–perguntou-me de repente, fixando
    em mim a pupilla sagaz.

    –Sei duas palavras importantes, general: _Mandarim_ e _chá_.

    Bile passou a sua mão de fortes cordovêas sobre a medonha cicatriz que
    lhe sulcava a calva:

    –_Mandarim_, meu amigo, não é uma palavra chineza, e ninguem a entende
    na China. É o nome que no seculo XVI os navegadores do seu paiz, do seu
    bello paiz…

    –Quando nós tinhamos navegadores…–murmurei, suspirando.

    Elle suspirou tambem, por polidez, e continuou:

    –…Que os seus navegadores deram aos funccionarios chinezes. Vem do
    seu verbo, do seu lindo verbo…

    –Quando tinhamos verbos…–rosnei, no habito instinctivo de deprimir a
    patria.

    Elle esgazeou um momento o seu olho redondo de velho mocho–e proseguiu
    paciente e grave:

    –Do seu lindo verbo _mandar_ … Resta-lhe por tanto _chá_. É um
    vocabulo que tem um vasto papel na vida chineza, mas julgo-o
    insufficiente para servir a todas as relações sociaes. O meu estimavel
    hospede pretende esposar uma senhora da famillia Ti-Chin-Fú, continuar a
    grossa influencia que exercia o Mandarim, substituir, domestica e
    socialmente, esse chorado defunto… Para tudo isto dispõe da palavra
    _chá_. É pouco.

    Não pude negar–que era pouco. O venerando russo, franzindo o seu nariz
    adunco de milhafre, pôz-me ainda outras objecções que eu via erguerem-se
    diante do meu desejo–como as muralhas mesmas de Pekin: nenhuma senhora
    da familia Ti-Chin-Fú consentiria jámais em casar com um barbaro; e
    seria impossivel, terrivelmente impossivel que o Imperador, o Filho do
    Sol, concedesse a um estrangeiro as honras privilegiadas d'um
    Mandarim…

    –Mas porque m'as recusaria?–exclamei.–Eu pertenço a uma boa familia
    da provincia do Minho. Sou bacharel formado: portanto na China, como em
    Coimbra, sou um letrado! Já fiz parte d'uma repartição publica… Possuo
    milhões… Tenho a experiencia do estylo administrativo…

    O general ia-se curvando com respeito a esta abundancia dos meus
    attributos.

    –Não é–disse elle emfim–que o Imperador realmente o recusasse: é que
    o individuo que lh'o propozesse seria immediatamente decapitado. A lei
    chineza, n'este ponto, é explicita e secca.

    Baixei a cabeça, acabrunhado.

    –Mas, general–murmurei–eu quero livrar-me da presença odiosa do velho
    Ti-Chin-Fú e do seu papagaio!… Se eu entregasse metade dos meus
    milhões ao thesouro chinez, já que não me é dado pessoalmente
    applical-os, como Mandarim, á prosperidade do Estado…? Talvez
    Ti-Chin-Fú se calmasse…

    O general pousou-me paternalmente a vasta mão sobre o hombro:

    –Êrro, consideravel êrro, mancebo! Esses milhões nunca chegariam ao
    thesouro imperial. Ficariam nas algibeiras insondaveis das classes
    dirigintes: seriam dissipados em plantar jardins, colleccionar
    porcelanas, tapetar de pelles os soalhos, fornecer sêdas ás concubinas:
    não alliviariam a fome d'um só chinez, nem reparariam uma só pedra das
    estradas publicas… Iriam enriquecer a orgia asiatica. A alma de
    Ti-Chin-Fú deve conhecer bem o Imperio: e isso não a satisfaria.

    –E se eu empregasse parte da fortuna do velho malandro em fazer
    particularmente, como philanthropo, largas distribuições d'arroz á
    populaça faminta? É uma idéa…

    –Funesta–disse o general, franzindo medonhamente o sobr'olho.–A côrte
    imperial veria ahi immediatamente uma ambição politica, o tortuoso plano
    de ganhar os favores da plebe, um perigo para a Dynastia… O meu bom
    amigo seria decapitado… É grave…

    –Maldição!–berrei.—Então para que vim eu á China?

    O diplomata encolheu vagarosamente os hombros; mas logo, mostrando n'um
    sorriso astuto os seus dentes amarellos de cossaco:

    –Faça uma coisa. Procure a familia de Ti-Chin-Fú… Eu indagarei do
    primeiro ministro, sua excellencia o principe Tong, onde pára essa prole
    interessante… Reuna-os, atire-lhes uma ou duas duzias de milhões…
    Depois prepare ao defunto funeraes regios. Funeraes d'alto ceremonial,
    com um prestito d'uma legua, filas de bonzos, todo um mundo de
    estandartes, palanquins, lanças, plumas, andores escarlates, legiões de
    carpideiras ululando sinistramente, etc. etc… Se depois de tudo isto a
    sua consciencia não adormecer e o phantasma insistir…

    –Então?

    –Córte as guelas.

    –Obrigado, general.

    * * * * *

    Uma coisa porém era evidente, e n'ella concordaram Camilloff, o
    respeitoso Sá-Tó e a generala:–que, para frequentar a familia
    Ti-Chin-Fú, seguir os funeraes, misturar-me á vida de Pekin, eu devia
    desde já vestir-me como um chinez opulento, da classe letrada, para me
    ir habituando ao traje, ás maneiras, ao ceremonial mandarim…

    A minha face amarellada, o meu longo bigode pendente favoreciam a
    caracterisação:–e quando na manhã seguinte, depois d'arranjado pelos
    costureiros engenhosos da rua Chá-Coua, entrei na sala forrada de sêda
    escarlate, onde já rebrilhavam as porcelanas do almoço sobre a mesa de
    charão negro,–a generala recuou como á appariçâo do proprio Tong-Tché,
    Filho do Céo!

    Eu trazia uma tunica de brocado azul escuro abotoada ao lado, com o
    peitilho ricamente bordado de dragões e flôres d'oiro: por cima um
    casabeque de sêda de um tom azul mais claro, curto, amplo e fôfo: as
    calças de setim côr de avellã descobriam ricas babouches amarellas
    pespontadas a perolas, e um pouco da meia picada d'estrellinhas negras:
    e á cinta, n'uma linda facha franjada de prata, tinha mettido um leque
    de bambú, dos que teem o retrato do philosopho Lá-o-Tsé e são fabricados
    em Swaton.

    E, pelas mysteriosas correlações com que o vestuario influenceia o
    caracter, eu sentia já em mim idéas, instinctos chinezes:–o amor dos
    ceremoniaes meticulosos, o respeito bureocratico das fórmulas, uma ponta
    de scepticismo letrado; e tambem um abjecto terror do Imperador, o odio
    ao estrangeiro, o culto dos antepassados, o fanatismo da tradição, o
    gosto das coisas assucaradas…

    Alma e ventre, era já totalmente um Mandarim. Não disse á
    generala:–_Bon jour, Madame_. Dobrado ao meio, fazendo girar os punhos
    fechados sobre a fronte abaixada, fiz gravemente o _chin-chin_!

    –É adorável, é precioso!–dizia ella, com o seu lindo riso, batendo as
    maosinhas pallidas.

    N'essa manhã, em honra da minha nova incarnação, havia um almoço chinez.
    Que gentis guardanapos de papel de sêda escarlate, com monstros
    fabulosos desenhados a negro! O serviço começou por ostras de Ning-Pó.
    Eximias! Absorvi duas duzias com um intenso regalo chinez. Depois vieram
    deliciosas febras de barbatana de tubarão, olhos de carneiro com picado
    d'alho, um prato de nenufares em calda d'assucar, laranjas de Cantão, e
    emfim o arroz sacramental, o arroz dos avós…

    Delicado repasto, regado largamente de excellente vinho de Chão-Chigne!
    E por fim, com que gôzo recebi a minha taça d'agua a ferver, onde deitei
    uma pitada de folhas de chá imperial, da primeira colheita de março,
    colheita unica, que é celebrada como um rito santo pelas mãos puras de
    virgens!…

    Duas cantadeiras entraram, em quanto nós fumavamos; e muito tempo, n'uma
    modulação guttural, disseram velhas cantigas dos tempos da dynastia
    Ming, ao som de guitarras recobertas de pelles de serpente, que dous
    tartaros agachados repenicavam, n'uma cadencia melancolica e barbara. A
    China tem encantos d'um raro gosto…

    Depois a loira generala cantou-nos, com chiste, a _Femme à barbe_: e
    quando o general sahiu com a sua escolta cossaca para o Yamen do
    principe Tong, a informar-se da residencia da familia Ti-Chin-Fú–eu,
    repleto e bem disposto, sahi com Sá-Tó a vêr Pekin.

    * * * * *

    A habitação de Camilloff ficava na cidade tartara, nos bairros militares
    e nobres. Ha aqui uma tranquillidade austera. As ruas assemelham-se a
    largos caminhos d'aldêa sulcados pelas rodas dos carros; e quasi sempre
    se caminha ao comprido de um muro, d'onde sahem ramos horisontaes de
    sycomoros.

    Por vezes uma carreta passa rapidamente, ao trote de um poney mongol,
    com altas rodas cravejadas de pregos dourados; tudo n'ella oscilla, o
    toldo, as cortinas pendentes de sêda, os ramos de plumas aos angulos; e
    dentro entrevê-se alguma linda dama chineza, coberta de brocados claros,
    a cabeça toda cheia de flôres, fazendo girar nos pulsos dois aros de
    prata, com um ar de tedio ceremonioso. Depois é alguma aristocratica
    cadeirinha de Mandarim, que koulis vestidos d'azul, de rabicho solto,
    vão levando a um trote arquejante para os Yamens do Estado; precede-os
    uma criadagem maltrapilha que ergue ao alto rolos de seda com
    inscripções bordadas, insignias d'authoridade; e dentro o personagem
    bojudo, com enormes oculos redondos, folheia a sua papelada ou dormita
    de beiço cahido…

    A cada momento paravamos a olhar as lojas ricas, com as suas taboletas
    verticaes de letras douradas sobre fundo escarlate: os freguezes, n'um
    silencio d'igreja, subtis como sombras, vão examinando as
    preciosidades–porcelanas da dynastia Ming, bronzes, esmaltes, marfins,
    sêdas, armas marchetadas, os leques maravilhosos de Swaton: por vezes,
    uma fresca rapariga d'olho obliquo, tunica azul, e papoilas de papel nas
    tranças, desdobra algum raro brocado diante d'um grosso chinez que o
    contempla beatamente, com os dedos cruzados na pança: ao fundo o
    mercador apparatoso e immovel, escreve com um pincel sobre longas
    taboinhas de sandalo: e um perfume adocicado que sahe das coisas
    perturba e entristece…

    Eis-aqui a muralha que cérca a Cidade interdictca, morada santa do
    Imperador! Moços nobres vem descendo do terraço d'um templo onde se
    estiveram adestrando á frecha. Sá-Tó disse-me os seus nomes: eram da
    guarda selecta, que nas ceremonias escolta o guarda-sol de sêda
    amarella, com o Dragão bordado, que é o emblema sagrado do Imperador.
    Todos elles comprimentaram profundadamente um velho que ia passando, de
    barbas venerandas, com o casabeque amarello que é o privilegio do
    ancião; vinha fallando só, e trazia na mão uma vara sobre que pousavam
    cotovias domesticadas… Era um principe do Imperio.

    Estranhos bairros! Mas nada me divertia como vêr a cada instante, a uma
    porta de jardim, dois Mandarins pançudos que para entrar se trocavam
    indefinidamente salamalés, cortezias, recusas, risinhos agudos
    d'etiqueta, todo um ceremonial dogmatico–que lhes fazia oscillar d'um
    modo picaresco, sobre as costas, as longas pennas de pavão. Depois se
    erguia os olhos para o ar, lá via sempre pairar enormes papagaios de
    papel, ora em fórma de dragões, ora de cetaceos, ora d'aves
    fabulosas–enchendo o espaço d'uma inverosimil legião de monstros
    transparentes e ondeantes…

    * * * * *

    –Sá-Tó, basta de cidade tartara! Vamos vêr os bairros chinezes…

    E lá fomos penetrando na cidade chineza, pela porta monstruosa de
    Tchin-Men. Aqui habita a burguezia, o mercador, a populaça. As ruas
    alinham-se como uma pauta; e no sólo vetusto e lamacento, feito da
    immundicie de gerações recalcada desde seculos, ainda aqui e além jaz
    alguma das lages de marmore côr de rosa que outr'ora o calçavam, no
    tempo da grandeza dos Ming.

    Dos dois lados são–ora terrenos vagos onde uivam manadas de cães
    famintos, ora filas de casebres fuscos, ora pobres lojas com as suas
    taboletas esguias e sarapintadas, balouçando-se d'uma haste de ferro. A
    distancia erguem-se os arcos triumphaes feitos de barrotes côr de
    purpura, ligados no alto por um telhado oblongo de telhas azues
    envernizadas, que rebrilham como esmaltes. Uma multidão rumorosa e
    espessa, onde domina o tom pardo e azulado dos trajes, circula sem
    cessar; a poeira envolve tudo d'uma nevoa amarellada; um fedor acre
    exhala-se dos enxurros negros; e a cada momento uma longa caravana de
    camêlos fende lentamente a turba, conduzida por mongoes sombrios
    vestidos de pelle de carneiro…

    Fomos até ás entradas das pontes sobre os canaes, onde saltimbancos
    semi-nús, com mascaras simulando demonios pavorosos, fazem destrezas
    d'um picaresco barbaro e subtil; e muito tempo estive a admirar os
    astrologos de longas tunicas, com dragões de papel collados ás cóstas,
    vendendo ruidosamente horoscopos e consultas d'astros. Oh cidade
    fabulosa e singular!

    De repente ergue-se uma gritaria! Corremos: era um bando de presos, que
    um soldado, de grandes oculos, ia impellindo com o guarda-sol, amarrados
    uns aos outros pelo rabicho! Foi ahi n'essa avenida, que eu vi o
    estrepitoso cortejo de um funeral de Mandarim, todo ornado de
    auriflammas e de bandeirolas; grupos de sujeitos funebres vinham
    queimando papeis em fogareiros portateis; mulheres esfarrapadas uivavam
    de dôr espojando-se sobre tapetes; depois erguiam-se, galhofavam, e um
    kouli vestido de luto branco servia-lhes logo chá, d'um grande bule em
    fórma d'ave.

    Ao passar junto ao Templo do Céo, vejo apinhada n'um largo uma legiao de
    mendigos; tinham por vestuario um tijolo preso á cinta n'um cordel; as
    mulheres, com os cabellos entremeados de velhas flôres de papel, roiam
    ossos tranquillamente; e cadaveres de crianças apodreciam ao lado, sob o
    vôo dos moscardos. Adiante topamos com uma jaula de traves, onde um
    condemnado estendia, através das grades, as mãos descarnadas, á
    esmola… Depois Sá-Tó mostrou-me respeitosamente uma praça estreita:
    ahi, sobre pilares de pedra, poupavam pequenas gaiolas contendo cabeças
    de decapitados: e gotta a gotta ia pingando d'ellas um sangue espesso e
    negro…

    * * * * *

    –Ouf!–exclamei, fatigado e aturdido.–Sá-Tó, agora quero o repouso, o
    silencio, e um charuto caro…

    Elle curvou-se: e, por uma escadaria de granito, levou-me ás altas
    muralhas da cidade, formando uma esplanada que quatro carros de guerra a
    par podem percorrer durante leguas.

    E emquanto Sá-Tó, sentado n'um vão d'ameia, bocejava n'um desafôgo de
    _cicerone_ enfastiado, eu fumando contemplei muito tempo aos meus pés a
    vasta Pekin…

    É como uma formidavel cidade da Biblia, Babel, ou Ninive que o propheta
    Jonas levou tres dias a atravessar. O grandioso muro quadrado limita os
    quatro pontos do horisonte, com as suas portas de torres monumentaes,
    que o ar azulado, áquella distancia, faz parecer transparentes. E na
    immensidão do seu recinto agglomeram-se confusamente verduras de
    bosques, lagos artificiaes, canaes scintillantes como aço, pontes de
    marmore, terrenos alastrados de ruinas, telhados envernizados reluzindo
    ao sol; por toda a parte são pagodes heraldicos, brancos terraços de
    templos, arcos triumphaes, milhares de kiosques sahindo d'entre as
    folhagens dos jardins; depois espaços que parecem um montão de
    porcelanas, outros que se assemelham a monturos de lama; e sempre a
    intervallos regulares o olhar encontra algum dos bastiões, d'um aspecto
    heroico e fabuloso…

    A multidão, junto a essas edificações grandiosas, é apenas como grãos
    d'arêa negra que um vento brando vai trazendo e levando…

    Aqui está o vasto palacio imperial, entre arvoredos mysteriosos, com os
    seus telhados d'um amarello d'oiro vivo! Como eu desejaria penetrar-lhe
    os segredos, e ver desenrolar-se, pelas galerias sobrepostas, a
    magnificencia barbara d'essas Dynastias seculares!

    Além ergue-se a torre do Templo do Céo semelhando três guarda-soes
    sobrepostos: depois a grande columna dos Principios, hieratica e sêcca
    como o Genio mesmo da Raça: e adiante branquejam n'uma meia tinta
    sobrenatural os terraços de jaspe do Santuario da Purificação…

    Então interrogo Sá-Tó: e o seu dedo respeitoso vai-me mostrando o Templo
    dos Antepassados, o Palacio da Soberana Concordia, o Pavilhão das Flôres
    das Letras, o Kiosque dos Historiadores, fazendo brilhar, entre os
    bosques sagrados que os cercam, os seus telhados lustrosos de faianças
    azues, verdes, escarlates e côr de limão. Eu devorava, d'olho avido,
    esses monumentos da Antiguidade asiatica, n'uma curiosidade de conhecer
    as impenetraveis classes que os habitam, o principio das Instituições, a
    significação dos Cultos, o espirito das suas letras, a grammatica, o
    dogma, a estranha vida interior d'um cerebro de letrado chinez… Mas
    esse mundo é inviolavel como um Santuario…

    Sentei-me na muralha, e os meus olhos perderam-se pela planicie arenosa
    que se estira para além das portas até aos contrafortes dos montes
    mongolicos; ahi incessantemente redemoinham ondas infindaveis de poeira;
    a toda a hora negrejam filas vagarosas de caravanas… Então invadiu-me
    a alma uma melancolia, que o silencio d'quellas alturas, envolvendo
    Pekin, tornava d'um vago mais desolado: era como uma saudade de mim
    mesmo, um longo pezar de me sentir alli isolado, absorvido n'aquelle
    mundo duro e barbaro: lembrei-me, com os olhos humedecidos, da minha
    aldêa do Minho, do seu adro assombreado de carvalheiras, a venda com um
    ramo de louro á porta, o alpendre do ferrador, e os ribeiros tão frescos
    quando verdejam os linhos…

    Aquella era a época em que as pombas emigram de Pekin para o sul. Eu
    via-as reunirem-se em bandos por cima de mim, partindo dos bosques dos
    templos e dos pavilhões imperiaes; cada uma traz, para a livrar dos
    milhafres, um leve tubo de bambu que o ar faz silvar; e aquellas nuvens
    brancas passavam como impellidas d'uma aragem molle, deixando no
    silencio um lento e melancolico suspiro, uma ondulação eolia, que se
    perdia nos ares pallidos…

    Voltei para casa, pesado e pensativo.

    Ao jantar, Camilloff, desdobrando o seu guardanapo, pediu-me com
    bonhomia as minhas impressões de Pekin.

    –Pekin faz-me sentir bem, general, os versos d'um poeta nosso:

    Sôbolos rios que vão
    Por Babylonia me achei…

    –Pekin é um monstro!–disse Camilloff oscillando reflectidamente a
    calva.–E agora considere, que a esta capital, á classe tartara e
    conquistadora que a possue, obedecem trezentos milhões d'homens, uma
    raça subtil, laboriosa, soffredora, prolifica, invasora… Estudam as
    nossas sciencias… Um calice de Medoc, Theodoro?… Teem uma marinha
    formidavel! O exercito, que outr'ora julgava destroçar o estrangeiro com
    dragões de papelão d'onde sahiam bichas de fogo, tem agora tactica
    prussiana e espingarda d'agulha! Grave!

    –E todavia, general, no meu paiz, quando, a proposito de Macau, se
    falla do Imperio Celeste, os patriotas passam os dedos pela grenha, e
    dizem negligentemente: _Mandamos lá cincoenta homens, e varremos a
    China_…

    A esta sandice–fez-se um silencio. E o general, depois de tossir
    formidavelmente, murmurou, com condescendencia:

    –Portugal é um bello paiz…

    Eu exclamei com seccura e firmeza:

    –É uma choldra, general.

    A generala, collocando delicadamente á borda do prato uma aza de frango,
    e limpando o dedinho, disse:

    –É o paiz da canção de Mignon. É lá que floresce a laranjeira…

    O gordo Meriskoff, doutor allemão pela Universidade de Bonn, chanceller
    da legação, homem de poesia e de commentario, observou com respeito:

    –Generala, o dôce paiz de Mignon é a Italia: _Conheces tu a terra
    privilegiada onde a laranjeira dá flor_? O divino Goethe referia-se á
    Italia, _Italia mater_… A Italia será o eterno amor da humanidade
    sensivel!

    –Eu prefiro a França!–suspirou a esposa do primeiro secretario, uma
    bonecasinha sardenta, de cabello arruivascado.

    –Ah! a França!…–murmurou um addido, revirando um bugalho d'olho
    ternissimo.

    O gordo Meriskoff ageitou os oculos d'oiro:

    –A França tem um mal, que é a Questão social…

    –Oh! a Questão social!–rosnou sombriamente Camilloff.

    –Ah! a Questão social!…–considerou ponderosamente o addido.

    E discreteando com tanta sapiencia, chegámos por fim ao café.

    Ao descer ao jardim, a generala, apoiando-se sentimentalmente ao meu
    braço, murmurou-me, junto á face:

    –Ai, quem me dera viver n'esses paizes apaixonados, onde verdejam os
    laranjaes!…

    –É lá que se ama, generala–segredei-lhe eu, levando-a dôcemente para a
    escuridão dos sycomoros…

    V

    Foi necessario todo um longo verão para descobrir a provincia onde
    residira o defunto Ti-Chin-Fú!

    Que episodio administrativo tão pittoresco, tão chinez! O serviçal
    Camillof, que passava o dia inteiro a percorrer os Yamens do Estado,
    teve de provar primeiro que o desejo de conhecer a morada d'um velho
    Mandarim não encobria uma conspiração contra a segurança do Imperio; e
    depois foi-lhe ainda preciso jurar que não havia n'esta curiosidade um
    attentado contra os Ritos sagrados! Então, satisfeito, o principe Tong
    permittiu que se fizesse o inquerito imperial: centenares d'escribas
    empallideceram noite e dia, de pincel na mão, desenhando relatorios
    sobre papel d'arroz; mysteriosas conferencias sussurraram
    incessantemente por todas as repartições da Cidade Imperial, desde o
    Tribunal astronomico até ao Palacio da Bondade Preferida; e uma
    população de koulis transportava da legação russa para os kiosques da
    Cidade Interdicta, e d'ahi para o Pateo dos Archivos padiolas estalando
    ao peso de maços de documentos vetustos…

    Quando Camilloff perguntava _pelo resultado_, vinha-lhe a resposta,
    satisfactoria que se estavam consultando os Livros Santos de Lá-o-Tsé,
    ou que se iam explorar velhos textos do tempo de Nor-ha-chú. E para
    calmar a impaciencia bellica do russo, o principe Tong remettia, com
    estes recados subtis, algum substancial presente de confeitos recheados,
    ou de gomos de bambú em calda d'assucar…

    * * * * *

    Ora em quanto o general trabalhava com fervor para encontrar a familia
    Ti-Chin-Fú,–eu ia tecendo horas de sêda e oiro (assim diz um poeta
    japonez) aos pés pequeninos da generala…

    Havia um kiosque no jardim sob os sycomoros, que se denominava, á
    maneira chineza, do _Repouso discreto_:–ao lado um arroio fresco ia
    cantando dôcemente sob uma pontesinha rustica pintada de côr de rosa. As
    paredes eram apenas um gradeado de bambú fino forrado de sêda côr de
    ganga: o sol, passando através d'ellas, fazia uma luz sobrenatural de
    opala desmaiada. Ao centro afofava-se um divan de sêda branca, d'uma
    poesia de nuvem matutina, attrahente como um leito nupcial. Aos cantos,
    em ricas jarras transparentes da época de Yeng, erguiam-se, na sua
    gentileza aristocratica, lirios escarlates do Japão. Todo o soalho
    estava recoberto d'esteiras finas de Nankin; e junto á janella
    rendilhada, sobre um airoso pedestal de sandalo, pousava aberto ao alto
    um leque formado de laminas de crystal separadas, que a aragem entrando
    fazia vibrar, n'uma modulação melancolica e terna.

    As manhãs do fim d'agosto em Pekin são muito suaves; já erra no ar um
    enternecimento outonal. A essa hora o conselheiro Meriskoff, os
    officiaes da legação, estavam sempre na chancellaria _fazendo a mala_
    para S. Petersburgo.

    Eu então, de leque na mão, pisando subtilmente na ponta das babouches de
    setim as ruasinhas areadas do jardim, ia entreabrir a porta do _Repouso
    discreto_:

    –Mimi?

    E a voz da generala respondia, suave como um beijo:

    –_All right_…

    Como ella era linda vestida de dama chineza! Nos seus cabellos
    levantados alvejavam flôres de pecegueiro; e as sobrancelhas pareciam
    mais puras e negras avivadas a tinta de Nankin. A camisinha de gaze,
    bordada a soutache de filigrana d'oiro, collava-se aos seus seios
    pequeninos e direitos: vastas, fôfas calças de foulard côr de _côxa de
    Nympha_, que lhe davam uma graça de serralho, recahiam sobre o tornozêlo
    fino, coberto de meia de seda amarella:–e apenas tres dedos da minha
    mão cabiam na sua chinelinha…

    Chamava-se Vladimira; nascera ao pé de Nidji-Novogorod; e fôra educada
    por uma tia velha que admirava Rousseau, lia Faublas, usava o cabello
    empoado, e parecia a grossa lithographia cossaca d'uma dama galante de
    Versalhes…

    O sonho de Vladimira era habitar Paris; e fazendo ferver delicadamente
    as folhas de chá, pedia-me historias ladinas de _Cocottes_, e dizia-me o
    seu culto por Dumas filho…

    Eu arregaçava-lhe a larga manga do casabeque de sêda côr de folha morta,
    e ia fazendo viajar os meus labios devotos pela pelle fresca dos seus
    bellos braços;–e depois sobre o divan, enlaçados, peito contra peito,
    n'um extasi mudo, sentiamos as laminas de crystal resoar eoliamente, as
    pêgas azues esvoaçarem pelos platanos, o fugitivo rhythmo do arroio
    corrente…

    Os nossos olhos humedecidos encontravam ás vezes um quadro de setim
    preto, por cima do divan, onde em caracteres chinezes se desenrolavam
    sentenças do Livro Sagrado de Li-Num «sobre os deveres das esposas». Mas
    nenhum de nós percebia o chinez… E no silencio os nossos beijos
    recomeçavam, espaçados, soando dôcemente, e comparaveis (na lingua
    florida d'aquelles paizes) a perolas que cahem uma a uma sobre uma bacia
    de prata…–Oh suaves séstas dos jardins de Pekin, onde estaes vós?
    Onde estaes, folhas mortas dos lirios escarlates do Japão?…

    * * * * *

    Uma manhã Camilloff entrando na chancellaria, onde eu fumava o cachimbo
    d'amizade de companhia com Meriskoff, atirou o seu enorme sabre para um
    canapé, e contou-nos radiante as noticias que lhe dera o penetrante
    principe Tong.–Descobrira-se emfim que um opulento Mandarim, de nome
    Ti-Chin-Fú, vivera outr'ora nos confins da Mongolia, na villa de
    Tien-Hó! Tinha morrido subitamente: e a sua larga descendencia residia
    lá, em miseria, n'um casebre vil…

    Esta descoberta, é certo, não fôra devida á sagacidade da burocracia
    imperial–mas fizera-a um astrologo do templo de Faqua, que durante
    vinte noites folheára no céo o luminoso archivo dos astros…

    –Theodoro, ha-de ser o seu homem!–exclamou Camilloff.

    E Meriskoff repetiu, sacudindo a cinza do cachimbo:

    –Ha-de ser o seu homem, Theodoro!

    –O meu homem…–murmurei sombriamente.

    Era talvez o _meu homem_, sim! Mas não me seduzia ir procurar o _meu
    homem_ ou a sua familia, na monotonia d'uma caravana, por essas
    desoladas extremidades da China!… Depois, desde que chegára a Pekin,
    eu não tornára a avistar a fórma odiosa de Ti-Chin-Fú e do seu papagaio.
    A Consciencia era dentro em mim como uma pomba adormecida. Certamente, o
    alto esforço de me ter arrancado ás doçuras do _boulevard_ e do Loreto,
    de ter sulcado os mares até ao Império do Meio, parecera á Eterna
    Equidade uma expiação sufficiente e uma peregrinação reparadora.
    Certamente Ti-Chin-Fú, acalmado, recolhera-se com o seu papagaio á
    sempiterna Immobilidade… Para que iria eu, pois, a Tien-Hó? Porque não
    ficaria alli, n'aquelle amavel Pekin, comendo nenufares em calda
    d'assucar, abandonando-me ás somnolencias amorosas do _Repouso
    discreto_, e pelas tardes azuladas, dando o meu passeio pelo braço do
    bom Meriskoff, nos terraços de jaspe da Purificação ou sob os cedros do
    Templo do Céo?…

    Mas já o zeloso Camilloff, de lapis na mão, ia marcando no mappa o meu
    itinerário para Tien-Hó! E mostrando-me, n'um desagradavel
    entrelaçamento, sombras de montes, linhas tortuosas de rios, esfumados
    de lagôas:

    –Aqui está! O meu hospede sobe até Ni-ku-hé, na margem do Pei-Hó…
    D'ahi, em barcos chatos vai a My-yun. Boa cidade, ha lá um Buddha
    vivo… D'ahi, a cavallo, segue até á fortaleza de Ché-hia. Passa a
    grande muralha, famoso espectáculo!… Descança no forte de Ku-pi-hó.
    Póde lá caçar a gazella. Soberbas gazellas… E com dois dias de
    caminhada está em Tien-Hó… Brilhante, hein?… Quando quer partir?
    Ámanhã?…

    –Ámanhã–rosnei, tristonho.

    Pobre generala! N'essa noite, em quanto Meriskoff, ao fundo da sala,
    fazia com tres officiaes da embaixada o seu _whist_ sacramental; e
    Camilloff, ao canto do sophá, de braços cruzados, solemne como n'uma
    poltrona do Congresso de Vienna, dormia de bocca aberta;–ella sentou-se
    ao piano. Eu ao lado, na attitude d'um Lara, devastado pela fatalidade,
    retorcia lugubremente o bigode. E a dôce creatura, entre dois gemidos do
    teclado, d'uma saudade penetrante, cantou revirando para mim os seus
    olhos rebrilhantes e humidos:

    L'oiseau s'envole,
    Lá bas, lá bas!…
    L'oiseau s'envole…
    Ne revient pas…

    –A ave ha-de voltar ao ninho,–murmurei eu enternecido.

    E, afastando-me a esconder uma lagrima, ia resmungando furioso:

    –Canalha de Ti-Chin-Fú! Por tua causa! Velho malandro! Velho garoto!…

    * * * * *

    Ao outro dia lá vou para Tien-Hó–com o respeitoso interprete Sá-tó, uma
    longa fila de carretas, dois cossacos, toda uma populaça de koulis.

    Ao deixar a muralha da cidade tartara, seguimos muito tempo ao comprido
    dos jardins sagrados que orlam o templo de Confucio.

    Era no fim do outono; já as folhas tinham amarellecido; uma doçura
    tocante errava no ar…

    Dos kiosques santos sahia uma susurração de canticos, de nota monotona e
    triste. Pelos terraços, enormes serpentes, veneradas como deuses, iam-se
    arrastando, já entorpecidas da friagem. E aqui e além, ao passar,
    avistavamos buddhistas decrepitos, sêccos como pergaminhos e nodosos
    como raizes, encruzados no chão sob os sycomoros, n'uma immobilidade de
    idolos, contemplando incessantemente o umbigo, á espera da perfeição do
    Nirvana…

    E eu ia pensando, com uma tristeza tão pallida como aquelle mesmo céo
    d'outubro asiatico, nas duas lagrimas redondinhas que vira brilhar, á
    despedida, nos olhos verdes da generala!…

    VI

    Já a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal
    candente, quando chegámos a Tien-Hó.

    As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d'uma
    torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e
    poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um
    vasto edificio–que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo
    norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar
    como nuvens.

    Alojámo-nos n'um barracão fetido, intitulado _Estalagem da Consolação
    terrestre_. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria
    fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel
    recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor
    aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com
    um rumor secco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grotesca.

    Antes que escurecesse fui vêr com Sá-tó a villa: mas bem depressa fugi
    ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro–os
    casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça
    abjecta… Recolhi ao albergue–onde arreeiros mongoes e crianças
    piolhosas me miravam com assombro.

    –Toda esta gente me parece suspeita, Sá-tó–disse eu, franzindo a
    testa.

    —Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não ha perigo: eu matei, antes
    de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente.
    Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos… Quer Vossa Honra
    o chá?…

    –Traze, Sá-tó.

    Bebido o chá, conversámos do _grande plano_: na manhã seguinte eu a
    levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú,
    annunciando-lhe os milhões que lhe dava, depositados já em Pekin:
    depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa
    distribuição de arroz pela populaça: e á noite illuminações, danças como
    n'uma gala publica…

    –Que te parece, Sá-tó?

    –Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio… Vai ser
    grande! Vai ser grande!

    Como vinha cançado, bem cêdo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o
    estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China;
    enrolado na minha pelliça, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos
    braços brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia…

    Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que
    envolvia o barracão–como de forte vento n'um arvoredo, ou uma maresia
    grossa batendo um paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no
    quarto, um luar triste d'outono asiatico, dando aos dragões suspensos do
    tecto fórmas, semelhanças chimericas…

    Ergui-me, já nervoso–quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na
    facha luminosa do luar…

    –Sou eu, Vossa Honra!–murmurou a voz apavorada de Sá-tó.

    E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n'um fluxo de palavras
    roucas a sua afflicção:–emquanto eu dormia, espalhára-se pela villa que
    um estrangeiro, o _Diabo estrangeiro_, chegára com bagagens carregadas
    de thesouros… Já desde o começo da noite elle tinha entrevisto faces
    agudas, d'olho voraz, rondando o barracão, como chacaes impacientes… E
    ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das
    bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara… Mas pouco
    a pouco a malta crescera… Agora vinha d'espreitar por um postigo: e
    era em roda da estalagem toda a populaça de Tien-Hó, rosnando
    sinistramente… A deusa Kaonine não se satisfizera com o sangue do
    gallo preto!… Além d'isso elle vira á porta d'um Pagode uma cabra
    negra recuar!… A noite sería de terrores!… E sua mulher, o osso do
    seu osso, que estava tão longe, em Pekin!…

    –E agora, Sá-tó?–perguntei eu.

    –Agora… Vossa Honra! Agora…

    Calou-se: e a sua magra figura tremia, acaçapada como um cão que se roja
    sob o açoite.

    Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro
    fronteiro, coberto d'um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com
    effeito estava uma turba negra apinhada. Ás vezes uma figura,
    rastejando, adiantava-se no espaço alumiado, espreitava, farejava as
    carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se
    na escuridão: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento
    á luz algum ferro de lança inclinada…

    –Que querem vossês, canalha?–bradei eu em portuguez.

    A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma
    pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma
    flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabeça, n'um barrote…

    Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados
    sobre os calcanhares, batiam o queixo n'um terror; e os dois cossacos
    que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú
    nos joelhos.

    O velho estalajadeiro d'oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo
    deitando ao ar um papagaio de papel, os arreeiros mongoes, as crianças
    piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo
    d'opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multidão
    vociferar.

    Interpellei então Sá-tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós
    estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, não podiam repellir o
    assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador,
    revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe
    Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da
    hospitalidade!…

    Mas Sá-tó confessou-me, n'uma voz debil como um sôpro, que o Governador
    de certo é quem estava dirigindo o assalto! Desde as authoridades até
    aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas
    d'oiro inflammára todos os appetites!… A prudencia ordenava, como um
    mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas
    de comestiveis…

    –E ficar aqui, n'esta aldêa maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem
    mantimentos?…

    –Mas com a rica vida, Vossa Honra!

    Cedi. E ordenei a Sá-tó que fosse propôr á turba uma copiosa
    distribuição de sapeques,–se ella consentisse em recolher aos seus
    casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha…

    Sá-tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á
    malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d'um cão que
    ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-lhe passando cartuchos, saccos de
    sapeques–que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador…
    Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes;
    depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n'uma
    suspensão _de quem espera mais_…

    –Mais!–murmurava Sá-tó, voltando-se para mim ancioso.

    Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rôlos, mólhos de
    moedas de meio real enfiadas em cordeis… Já a maleta estava vazia. A
    turba rugia, insaciada.

    –Mais, Vossa Honra!–supplicou Sá-tó.

    –Não tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!

    –Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos!–chamou Sá-tó, abatendo-se sobre
    os joelhos.

    A populaça, calada, esperava ainda. De repente, uma ululação selvagem
    rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as
    carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o
    madeiramento da _Estalagem da Consolação terrestre_ rangeu e oscillou…

    Corri á varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros
    derrubados: os machados reluziam cahindo sobre a tampa dos caixotes: o
    coiro das malas abria-se fendido á faca por mãos innumeraveis: no
    alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da
    lua, eu via em roda do barracão errarem tochas, n'uma dispersão de
    fagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os cães; e
    de todas as viellas desembocava, corria populaça, sombras ligeiras,
    agitando chuços e foices recurvas…

    Subitamente, na loja terrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia pelas
    portas despedaçadas: de certo me procuravam, suppondo que eu teria
    commigo o melhor do thesouro, pedras preciosas ou oiros… O terror
    desvairou-me. Corri a uma grade de bambús para o lado do pateo.
    Demoli-a, saltei sobre uma camada de matto grosso, n'um cheiro acre de
    immundicies. O meu poney, preso a uma trave, relinchava, puxando
    furiosamente o cabresto: arremessei-me sobre elle, empolguei-lhe as
    crinas…

    N'esse momento, do portão da cozinha arrombada rompia uma horda com
    lanternas, lanças, n'um clamor de delirio. O poney, espantado, salta um
    regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no
    hombro, outro nos rins, outro na anca do poney, outro mais grosso
    rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente ás crinas, archejando, com
    a lingua de fóra, o sangue a gottejar da orelha, vou despedido n'uma
    desfilada furiosa ao longo d'uma lua negra… De repente vejo diante de
    mim a muralha, um bastião, a porta da villa fechada!

    Então, allucinado, sentindo atraz rugir a turba, abandonado de todo o
    soccorro humano–_precisei de Deus_! Acreditei n'elle, gritei-lhe que me
    salvasse; e o meu espirito ia tumultuosamente arrebatando, para lhe
    offerecer, fragmentos de orações, de _Salvè-Rainhas_, que ainda me
    jaziam no fundo da memoria… Voltei-me sobre a anca do potro: d'uma
    esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!… Larguei de
    golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta
    fita negra furiosamente desenrolada: de subito avisto uma brecha, um
    boqueirão erriçado d'esgalhos de sarças, e fóra a planicie que sob a lua
    parecia como uma vasta agua dormente! Lancei-me para lá,
    desesperadamente, sacudido aos galões do potro… E muito tempo galopei
    no descampado.

    De repente o poney, eu, rolámos com um baque surdo. Era uma lagôa.
    Entrou-me pela bocca agua putrida, e os pés enlaçaram-se-me nas raizes
    molles dos nenufares… Quando me ergui, me firmei no sólo,–vi o poney,
    correndo, muito longe, como uma sombra, com os estribos ao vento…

    Então comecei a caminhar por aquella solidão, enterrando-me nas terras
    lodosas, cortando através do matto espinhoso. O sangue da orelha ia-me
    pingando sobre o hombro: á frialdade agreste, o fato encharcado
    regelava-se-me sobre a pelle: e por vezes, na sombra, parecia-me vêr
    luzir olhos de feras.

    Emfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto
    negro, um d'aquelles montões d'esquifes amarellos que os chinezes
    abandonam nos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caixão,
    prostrado: mas um cheiro abominavel pesava no ar: e ao apoiar-me sentia
    o viscoso d'um liquido que escorria pelas fendas das tábuas… Quiz
    fugir. Mas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e arvores, rochas, hervas
    altas, todo o horisonte começou a girar em torno de mim como um disco
    muito rapido. Faiscas sanguineas vibravam-me diante dos olhos: e
    senti-me como cahindo de muito alto, devagar, á maneira d'uma penna que
    desce…

    Quando recuperei a consciencia estava estirado n'um banco de pedra, no
    pateo d'um vasto edificio semelhante a um convento, que um alto silencio
    envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Um ar
    fresco circulava; a roldana d'um poço rangia lentamente; um sino tocava
    a matinas. Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janellinhas
    gradeadas e uma cruz no topo: então, vendo n'aquella paz de claustro
    catholico como um recanto da patria recuperada, o abrigo e a consolação,
    rolaram-me das palpebras duas lagrimas mudas.

    VII

    De madrugada, dois padres lazaristas, dirigindo-se a Tien-Hó, tinham-me
    encontrado desmaiado no caminho. E, como disse o alegre padre Loriot,
    «era já tempo»; porque em redor do meu corpo immovel um negro
    semi-circulo d'esses grossos e soturnos corvos da Tartaria já me estava
    contemplando com gula…

    Trouxeram-me sem demora para o convento n'uma padiola,–e grande foi o
    regosijo da communidade quando soube que eu era um latino, um christão e
    um subdito dos Reis Fidelissimos. O convento fórma alli o centro d'um
    pequeno burgo catholico, apinhado em torno da maciça residencia como uma
    casaria de servos á base d'um castello feudal. Existe desde os primeiros
    missionarios que percorreram a Manchouria. Porque nós estamos aqui nos
    confins da China: para além já é a Mongolia, a Terra das Hervas, immenso
    prado verde-escuro, leziria sem fim, colorida aqui e além do vivo das
    flôres silvestres…

    Ahi jaz a vasta planicie dos Nomadas. Da minha janella eu via negrejar
    os circulos de tendas cobertas de feltro, ou de pelles de carneiro; e
    por vezes assistia á partida d'uma tribu, em filas de longas caravanas,
    levando os seus rebanhos para o oeste…

    O superior lazarista era o excellente padre Giulio. A longa permanencia
    entre as raças amarellas tornára-o quasi um chinez: quando eu o
    encontrava no claustro com a sua tunica rôxa, o rabicho longo, a barba
    veneravel, agitando devagar um enorme leque–parecia-me algum sábio
    letrado mandarim commentando mentalmente, na paz de um templo, o Livro
    sacro de Chú. Era um santo: mas o cheiro d'alho que exhalava–afastaria
    as almas mais doloridas e precisadas de consolação.

    Conservo suave a memoria dos dias alli passados! O meu quarto, caiado de
    branco, com uma cruz negra, tinha um recolhimento de cella. Acordava
    sempre ao toque de matinas. Em respeito aos velhos missionarios, vinha
    ouvir a missa á capella: e enternecia-me, alli, tão longe da patria
    catholica, n'aquellas terras mongolicas, vêr á clara luz da manhã a
    casula do padre, com a sua cruz bordada, curvando-se diante do altar, e
    sentir ciciar no fresco silencio–os _Dominus vobiscum_, e os _Cum
    spiritu tuo_…

    De tarde ia á escóla, admirar os pequenos chinezes declinando _Hora,
    Horoe_… E depois do refeitorio, passeando no claustro, escutava
    historias de longiquas missões, de viagens apostolicas ao _Paiz das
    Hervagens_, as prisões supportadas, as marchas, os perigos, as Chronicas
    heroicas da Fé…

    Eu por mim não contei no convento as minhas aventuras phantasticas:
    dei-me como um _touriste_ curioso, tomando apontamentos pelo Universo. E
    esperando que a minha orelha cicatrizasse, abandonava-me, n'uma lassidão
    d'alma, áquella paz de mosteiro…

    Mas estava decidido a deixar bem depressa a China, esse Imperio barbaro,
    que eu odiava agora, prodigiosamente!

    Quando me punha a pensar que viera desde os confins do Occidente, para
    trazer a uma provincia chineza a abundancia dos meus milhões, e que
    apenas lá chegára fôra logo saqueado, apedrejado, fréchado–enchia-me um
    rancor surdo, gastava horas agitando-me pelo quarto, a revolver coisas
    feras que tentaria para me vingar do Imperio do Meio!

    Retirar-me com os meus milhões era a desforra mais pratica, mais facil!
    Demais, a minha idéa de resuscitar artificialmente, para bem da China, a
    personalidade de Ti-Chin-Fú, parecia-me agora absurda, d'uma insensatez
    de sonho. Eu não comprehendia a lingua, nem os costumes, nem os ritos,
    nem as leis, nem os sabios d'aquella raça: que vinha pois fazer alli,
    senão expôr-me, pelo apparato da minha riqueza, aos assaltos d'um povo,
    que, ha quarenta e quatro seculos, é pirata nos mares e traz as terras
    varridas de rapina!…

    Além d'isso, Ti-Chin-Fú e o seu papagaio continuavam invisiveis,
    remontados de certo ao Céo chinez dos Avós: e já o aplacamento do
    remorso visivel diminuira em mim singularmente o desejo da expiação…

    Sem duvida o velho letrado estava fatigado de deixar essas regiões
    ineffaveis para se vir estirar pelos meus moveis. Vira os meus esforços,
    o meu desejo de ser util á sua prole, á sua provincia, á sua raça–e,
    satisfeito, accommodára-se regaladamente para a sua sésta eterna. Eu
    nunca mais avistaria a sua pança amarella!…

    E então mordia-me o appetite de me achar já tranquillo e livre, no
    pacifico gozo do meu oiro, ao Loreto ou no _boulevard_, sorvendo o mel
    ás flôres da Civilisação…

    Mas a viuva de Ti-Chin-Fú, as mimosas senhoras da sua descendencia, os
    netos pequeninos?… Iria eu deixal-os barbaramente, na fome e no frio,
    pelas viellas negras de Tien-Hó? Não. Esses não eram culpados das
    pedradas que me atirára a populaça. E eu christão, asylado n'um convento
    christão, tendo á cabeceira da cama o Evangelho, cercado d'existencias
    que eram incarnações de Caridade–não podia partir do Imperio sem
    restituir áquelles que despojára, a abundancia, esse conforto honesto
    que recommenda o Classico da Piedade Filial…

    Então escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha abjecta fuga, sob as
    pedras da turba chineza; o abrigo christão que me dera a Missão; o vivaz
    desejo de partir do Imperio do Meio. Pedia-lhe que remettesse elle á
    viuva de Ti-Chin-Fú os milhões depositados por mim em casa do mercador
    Tsing-Fó, na avenida de Cha-Coua, ao lado do arco triumphal de Tong,
    junto ao templo da deusa Kaonine.

    O alegre padre Loriot, que ia a Pekin em missão, levou esta carta, que
    eu lacrára com o sêllo do convento–uma cruz sahindo d'um coração em
    chammas…

    Os dias passaram. As primeiras neves alvejaram nas montanhas
    septentrionaes da Manchouria: e eu occupava-me a caçar a gazella pela
    Terra das Hervas… Horas energicas e fortemente vívidas, as d'essas
    manhãs, quando eu largava á desfilada, no grande ar agreste da planicie,
    entre os monteadores mongolicos que, com um grito ululado e vibrante,
    batiam o matagal á lançada! Por vezes, uma gazella saltava: e, d'orelha
    baixa, estirada e fina, partia no fio do vento… Soltavamos o falcão
    que voava sobre ella, d'aza serena, dando-lhe a espaços regulares, com
    toda a força do bico recurvo, uma picada viva no craneo. E iamo'l-a
    abater, por fim, á beira d'alguma agua morta, coberta de nenufares…
    Então os cães negros da Tartaria amontoavam-se-lhe sobre o ventre, e,
    com as patas no sangue, iam-lhe a ponta de dente, desfiando devagar as
    entranhas…

    Uma manhã o leigo da portaria avistou emfim o alegre padre Loriot,
    galgando á lufa-lufa pelo caminho ingreme do burgo, de volta de Pekin,
    com a sua mochila ao hombro, e uma criancinha nos braços: tinha-a
    encontrado abandonada, nuasinha, morrendo á beira d'um caminho:
    baptisára-a logo n'um regato com o nome de _Bem-Achado_: e alli a
    trazia, todo enternecido, arquejando de tanto que estugára o passo, para
    dar depressa á creaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento…

    Depois d'abraçar os religiosos, d'enxugar as grossas bagas de suor,
    tirou da algibeira dos calções um enveloppe com o sello da aguia russa:

    –É isto que manda o papá Camilloff, amigo Theodoro. Ficou optimo. E a
    senhora tambem… Tudo rijo.

    Corri a um recanto do claustro a lêr as duas folhas de prosa. Meu bom
    Camilloff, de calva severa e olho de mocho! Como elle alliava tão
    originalmente ao senso fino d'um habil de Chancellaria as caturrices
    picarescas de diplomata bufo! A carta dizia assim:

    «Amigo, hospede, e carissimo Theodoro,

    «Ás primeiras linhas da sua carta ficámos consternados! Mas logo as
    seguintes nos deram um grato allivio, por nos certificar que estava
    com esses santos padres da Missão christã… Eu parti para o Yamen
    imperial a fazer uma severa reclamação ao principe Tong, sobre o
    escandalo de Tien-Hó. Sua excellencia mostrou um jubilo
    desordenado! Porque, se lamenta como particular a offensa, o roubo
    e as pedradas que o meu hospede soffreu, como ministro do Imperio
    vê ahi a dôce opportunidade d'extorquir á villa de Tien-Hó, em
    multa, em castigo da injuria feita a um estrangeiro, a vantajosa
    somma de _trezentos mil francos_, ou, segundo os calculos do nosso
    sagaz Meriskoff, _cincoenta e quatro contos de reis_ na moeda do
    seu bello paiz! É, como disse Meriskoff, um excellente resultado
    para o Erario imperial, e fica assim a sua orelha copiosamente
    vingada… Aqui, começam a picar os primeiros frios, e já estamos
    usando pelles. O bom Meriskoff lá vai soffrendo do figado, mas a
    dôr não lhe altera o criterio philosophico nem a sábia
    verbosidade… Tivemos um grande desgosto: o lindo cãosinho da boa
    Madame Tagarieff, a esposa do nosso amado secretario, o adoravel
    _Tu-tu_ desappareceu na manhã de 15… Fiz, na policia, instancias
    urgentes, mas o _Tu-tu_ não nos foi restituido,–e o sentimento é
    tanto maior, quanto é sabido que a populaça de Pekin aprecia
    extremamente estes cãesinhos, guisados em calda de assucar…
    Deu-se aqui um facto abominavel e de consequencias funestas: a
    ministra de França, essa petulante Madame Grijon, esse _galho
    sêcco_ (como diz o nosso Meriskoff), no ultimo jantar da legação,
    deu, em desprezo de todas as regras internacionaes, o braço, o seu
    descarnado braço, e a sua direita á mesa a um simples addido
    inglez, lord Gordon! Que me diz a isto? É crivel? É racional? É
    destruir a ordem social! O braço, a direita, a um addido, um
    escossez côr de tijolo, de vidro entalado no olho, quando havia
    presentes todos os embaixadores, os ministros, e eu! Isto tem
    causado, no corpo diplomatico, uma sensação inenarravel…
    Esperamos instrucções dos nossos governos. Como diz Meriskoff,
    oscillando tristemente a cabeça–_é grave… é muito grave_!–O que
    prova (e ninguem o duvidava) que lord Gordon é o Benjamim do _galho
    sêcco_. Que podridão! Que lodo!… A generala não tem passado bem,
    desde a sua partida para essa malfadada Tien-Hó; o doutor Pagloff
    não lhe percebe o mal; é uma languidez, um murchar, uma saudosa
    indolencia que a conserva horas e horas immovel sobre o sophá, no
    _Pavilhão do Repouso discreto_, com o olhar vago e o labio cheio de
    suspiros… Eu não me illudo: sei perfeitamente o que a mina: é a
    desgraçada doença de bexiga, que lhe veio das más aguas, quando
    estivemos na legação de Madrid… Seja feita a vontade do
    Senhor!… Ella pede-me para lhe mandar _un petit bonjour_, e
    deseja que o meu hospede apenas chegue a Paris, se fôr a Paris, lhe
    remetta pela mala da Embaixada para S. Petersburgo (d'ahi virá a
    Pekin) duas duzias de luvas de doze botões, numero _cinco e tres
    quartos_, da marca _Sol_, dos armazens do Louvre; assim como os
    ultimos romances de Zola, Mademoiselle de Maupin de Gautier, e uma
    caixa de frascos de _Opoponax_… Esquecia-me dizer-lhe que mudámos
    de padeiro: fornecemo-nos agora na padaria da Embaixada ingleza:
    deixámos a da Embaixada franceza para não ter communicações com o
    _galho sêcco_… Ahi estão os inconvenientes de não termos aqui na
    Embaixada russa uma padaria–apesar de tantos relatorios, tantas
    reclamações que, sobre esse ponto, tenho feito para a chancellaria
    de S. Petersburgo! Elles sabem bem que em Pekin não ha padarias,
    que cada legação tem a sua propria, como um elemento d'installação
    e d'influencia. Mas quê! Na côrte imperial desattendem-se os mais
    serios interesses da civilisação russa!… Creio que é tudo o que
    ha de novo em Pekin e nas legações. Meriskoff recommenda-se, e
    todos d'esta Embaixada; e tambem o condesinho Arthur, o Zizi da
    legação hespanhola, o _Focinho cahido_, e o Lulú; emfim todos; eu
    mais que ninguem, que me assigno com saudade e affeição

    «_General Camilloff_».

    «P.S. Em quanto á viuva e familia de Ti-Chin-Fú, houve um engano: o
    astrologo do templo de Faqua equivocou-se na interpretação sideral:
    não é realmente em Tien-Hó que reside essa familia… É ao sul da
    China, na provincia de Cantão. Mas também ha uma familia Ti-Chin-Fú
    para além da Grande Muralha, quasi na fronteira russa, no districto
    de Ka-ó-li. A ambas morreu o chefe, a ambas assaltou a pobreza…
    Portanto, esperando novas ordens, não levantei os dinheiros da casa
    de Tsing-Fó. Esta recente informação mandou-m'a hoje sua
    excellencia o principe Tong, com uma deliciosa compota de
    calombro… Devo annunciar-lhe que o nosso bom Sá-Tó aqui
    appareceu, de volta de Tien-Hó, com um beiço rachado e leves
    contusões no hombro, tendo apenas salvado da bagagem saqueada uma
    lithographia de Nossa Senhora das Dôres, que, pela inscripção a
    tinta, vejo que pertencera a sua respeitavel mamã… Os meus
    valentes cossacos, esses, lá ficaram n'uma poça de sangue. Sua
    excellencia o principe Tong condescende em m'os pagar a dez mil
    francos cada um, das sommas extorquidas á villa de Tien-Hó… Sá-Tó
    diz-me que se o meu hospede, como é natural, recomeçar as suas
    viagens através do imperio em busca dos Ti-Chin-Fú,–elle
    considerar-se-hia honrado e venturoso em o acompanhar, com uma
    fidelidade canina e uma docilidade cossaca…

    «_Camilloff_».

    –Não! nunca!–rugi com furor, amarrotando a carta, monologando a largas
    passadas pelo melancolico claustro.–Não, por Deus ou pelo Demonio! Ir
    de novo bater as estradas da China? Jámais! Oh sorte grotesca e
    desastrosa! Deixo os meus regalos ao Loreto, o meu ninho amoroso de
    Paris, venho rolado pela vaga enjoadôra de Marselha a Chang-Hai, soffro
    as pulgas das bateiras chinezas, o fedor das viellas, a poeirada dos
    caminhos aridos–e para quê? Tinha um plano, que se erguia até aos céos,
    grandioso e ornamentado como um trophéo: por sobre elle scintillavam,
    d'alto a baixo, toda a sorte d'acções boas: e eis que o vejo tombar ao
    chão, peça a peça, n'uma ruina! Queria dar o meu nome, os meus milhões,
    e metade do meu leito d'oiro a uma senhora Ti-Chin-Fú–e não m'o
    permittem os prejuizos sociaes d'uma raça barbara! Pretendo, com o botão
    de crystal de Mandarim, remodelar os destinos da China, trazer-lhe a
    prosperidade civil,–e veda-m'o a lei imperial! Aspiro a derramar uma
    esmola sem fim por esta populaça faminta–e corro o perigo ingrato de
    ser decapitado como instigador de rebelliões! Venho enriquecer uma
    villa–e a turba tumultuosa apedreja-me! Ia emfim dar a abundancia, o
    conforto que louva Confucio, á família Ti-Chin-Fú,–e essa familia
    some-se, evapora-se como um fumo, e outras familias Ti-Chin-Fú surgem,
    aqui e além, vagamente, ao sul, a oeste, como clarões enganadores… E
    havia d'ir a Cantão, a Ka-ó-li, expôr a outra orelha a tijolos brutaes,
    fugir ainda pelos descampados, agarrado ás crinas d'um potro? Jámais!

    Parei: e de braços erguidos, fallando ás arcadas do claustro, ás
    arvores, ao ar silencioso e fino que me envolvia:

    –Ti-Chin-Fú!–bradei–Ti-Chin-Fú, para te aplacar, fiz o que era
    racional, generoso e logico! Estás emfim satisfeito, letrado veneravel,
    tu, o teu gentil papagaio, a tua pança official? Falla-me! Falla-me!…

    Escutei, olhei: a roldana do poço, áquella hora do meio dia, rangia
    devagar, no pateo: sob as amoreiras, ao longo da arcaria do claustro,
    seccavam em papel sêda as folhas de chá da colheita d'outubro: da porta
    meio cerrada da aula vinha um susurro lento de declinações latinas: era
    uma paz severa, feita da simplicidade das occupações, da honestidade dos
    estudos, do ar pastoril d'aquella collina, onde dormia, sob um sol
    branco d'inverno, o burgo religioso… E com aquella serenidade
    ambiente, pareceu-me receber na alma, de repente, uma pacificação
    absoluta!

    Accendi com os dedos ainda tremulos um charuto, e disse, limpando na
    testa uma baga de suor, esta palavra, resumo d'um destino:

    –Bem, Ti-Chin-Fú está contente. Fui logo á cella do excellente padre
    Giulio. Elle lia o seu Breviario á janella, debicando confeitos
    d'assucar, com o gato do convento no collo.

    –Reverendissimo, volto á Europa… Algum dos nossos bons padres vai por
    acaso em missão, para os lados de Chang-Hai?…

    O veneravel superior pôz os seus oculos redondos: e folheando com uncção
    um vasto registro em letra chineza, ia assim murmurando:

    –Quinto dia da decima lua… Sim, ha o padre Anacleto para Tien-Tzin,
    para a novena dos Irmãos da Santa Creche. Duodecima lua, o padre Sanchez
    para Tien-Tzin tambem, para a obra do Catecismo aos Orphãos… Sim, caro
    hospede, tem companheiros para Léste…

    –Ámanhã?

    –Ámanhã. É dolorosa a separação n'estes confins do mundo, quando as
    almas se comprehendem bem em Jesus… O nosso padre Gutierrez que lhe
    faça um bom farnel… Nós já o amavamos como irmão, Theodoro… Coma um
    confeito, são deliciosos… As coisas estão em feliz repouso quando se
    acham no seu lugar e elemento natural: o lugar do coração do homem é o
    coração de Deus: e o seu está n'esse asylo seguro… Coma um confeito…
    Que é isso, meu filho, que é isso?

    Eu estava collocando sobre o seu Breviario aberto, n'uma pagina do
    Evangelho de pobreza, um rôlo de notas do _Banco d'Inglaterra;_ e
    balbuciei:

    –Meu reverendissimo, para os seus pobres…

    –Excellente, excellente… O nosso bom Gutierrez que lhe faça um farnel
    copioso… _Amen_, meu filho … _In Deo omnia spes_!…

    Ao outro dia, entre o padre Anacleto e o padre Sanchez, montado na mula
    branca do convento, desci o burgo, ao repique dos sinos. E ahi vamos
    para Hiang-Hiam, villa negra e murada, onde atracam os barcos que descem
    a Tien-Tzin. Já as terras ao longo do Pei-Hó estavam todas brancas de
    neve: nas enseadas baixas já a agua ia gelando: e embrulhados em pelles
    de carneiro, em roda do fogareiro, á pôpa do barco, os bons padres e eu
    iamos conversando de trabalhos de Missionarios, de coisas da China, por
    vezes dos interesses do Céo–passando em redor sem cessar o grosso
    frasco da genebra…

    Era Tien-Tzin separei-me d'aquelles santos camaradas. E d'ahi a duas
    semanas, por um meio dia de sol tepido, passeava, fumando o meu charuto
    e olhando a azafama dos caes d'Hong-Kong, no tombadilho do _Java_ que ia
    levantar ferro para a Europa.

    * * * * *

    Foi um momento commovente para mim, aquelle em que vi, ás primeiras
    voltas do helice, afastar-se a terra da China.

    Desde que acordára, n'essa manhã, uma inquietação surda recomeçava a
    pesar-me na alma. Agora, punha-me a pensar que viera áquelle vasto
    imperio para acalmar pela expiação um protesto temeroso da Consciencia:
    e por fim, impellido por uma impaciencia nervosa, ahi partia, sem ter
    feito mais que deshonrar os bigodes brancos d'um general heroico, e ter
    recebido pedradas pela orelha n'uma villa dos confins da Mongolia.

    Estranho destino, o meu!…

    * * * * *

    Até ao anoitecer estive encostado sombriamente á borda do paquete, vendo
    o mar liso, como uma vasta peça de sêda azul, dobrar-se aos lados em
    duas pregas molles: pouco a pouco grandes estrellas palpitaram na
    concavidade negra; e o helice na sombra ia trabalhando em rhythmo.
    Então, tomado d'uma fadiga molle, fui errando pelo paquete, olhando,
    aqui e além, a bussola alumiada; os montões de cabrestantes; as peças da
    machina, n'uma claridade ardente, batendo em cadencia; as fagulhas que
    fugiam do cano, n'um rôlo de fumaraça negra; os marinheiros de barba
    ruiva, immoveis á roda do leme; e as fórmas dos pilotos, sobre o pontal,
    altas e vagas na noite. Na _cabine_ do capitão, um inglez de capacete de
    cortiça, cercado de damas que bebiam Cognac, ia tocando melancolicamente
    na flauta a aria de _Bonnie Dundee_…

    Eram onze horas quando desci ao meu beliche. As luzes já estavam
    apagadas: mas a lua que se erguia ao nivel da agua, redonda e branca,
    batia o vidro da _cabine_ com um raio de claridade: e então, a essa meia
    tinta pallida, lá vi estirada sobre a maca a figura pançuda, vestida de
    sêda amarella, com o seu papagaio nos braços!

    Era _elle_, outra vez!

    E foi _elle_, perpetuamente! Foi elle em Singapura e em Ceylão. Foi elle
    erguendo-se dos areaes do deserto ao passarmos no canal de Suez;
    adiantando-se á prôa d'um barco de provisões quando parámos em Malta;
    resvalando sobre as rosadas montanhas da Sicilia; emergindo dos
    nevoeiros que cercam o morro de Gibraltar! Quando desembarquei em
    Lisboa, no caes das Columnas, a sua figura bojuda enchia todo o arco da
    rua Augusta; o seu olho obliquo fixava-me–e os dois olhos pintados do
    seu papagaio pareciam fixar-me tambem…

    VIII

    Então, certo que não poderia jámais aplacar Ti-Chin-Fú, toda essa noite
    no meu quarto ao Loreto, onde como outr'ora as velas innumeraveis das
    serpentinas davam aos damascos tons de sangue fresco, meditei sacudir de
    mim, como um adorno de peccado, esses milhões sobrenaturaes. E assim me
    libertaria talvez d'aquella pança e d'aquelle papagaio abominavel!

    Abandonei o palacete ao Loreto, a existencia de Nababo. Fui, com uma
    quinzena coçada, realugar o meu quarto na casa da Madame Marques: e
    voltei á Repartição, d'espinhaço curvo, a implorar os meus vinte mil
    reis mensaes, e a minha dôce penna de amanuense!…

    Mas um soffrimento maior veio amargurar os meus dias. Julgando-me
    arruinado,–todos aquelles, que a minha opulencia humilhára, cobriram-me
    de offensas, como se alastra de lixo uma estatua derrubada de principe
    decahido. Os jornaes, n'um triumpho de ironia, achincalharam a minha
    miseria. A aristocracia, que balbuciára adulações aos pés do Nababo,
    ordenava agora aos seus cocheiros que atropellassem nas ruas o corpo
    encolhido do plumitivo de Secretaría. O clero, que eu enriquecera,
    accusava-me de _feiticeiro_; o povo atirou-me pedras; e a Madame
    Marques, quando eu me queixava humildemente da dureza granitica dos
    bifes,–plantava as duas mãos á cinta, e gritava:

    –Ora o enguiço! Então que quer vossê mais? Aguente! Olha o pelintra!…

    E, apesar d'esta expiação, o velho Ti-Chin-Fú lá estava sempre á minha
    ilharga, obeso e côr d'óca,–porque os seus milhões, que jaziam agora
    estereis e intactos nos Bancos, ainda de facto eram meus!
    Desgraçadamente meus!

    Então, indignado, um dia subitamente reentrei com estrondo no meu
    palacete e no meu luxo. N'essa noite, de novo o resplendor das minhas
    janellas alumiou o Loreto: e pelo portão aberto viram-se como outr'ora
    negrejar, nas suas fardas de sêda negra, as longas filas de lacaios
    decorativos.

    Logo, Lisboa, sem hesitar, se rojou aos meus pés. A Madame Marques
    chamou-me, chorando, _filho do seu coração_. Os jornaes deram-me os
    qualificativos que, de antiga tradição, pertencem á Divindade: fui o
    _Omnipotente_, fui o _Omnisciente_! A aristocracia beijou-me os dedos
    como a um Tyranno: e o clero incensou-me como a um idolo. E o meu
    desprezo pela Humanidade foi tão largo,–que se estendeu ao Deus que a
    creou.

    Desde então uma saciedade enervante mantem-me semanas inteiras n'um
    sophá, mudo e soturno, pensando na felicidade do _não-ser_…

    Uma noite, recolhendo só por uma rua deserta, vi diante de mim o
    Personagem vestido de preto com o guarda-chuva debaixo do braço, o mesmo
    que no meu quarto feliz da travessa da Conceição me fizera, a um
    _ti-li-tin_ de campainha, herdar tantos milhões detestaveis. Corri para
    elle, agarrei-me ás abas da sua sobrecasaca burgueza, bradei:

    –Livra-me das minhas riquezas! Resuscita o Mandarim! Restitue-me a paz
    da miseria!

    Elle passou gravemente o seu guarda-chuva para debaixo do outro braço, e
    respondeu com bondade:

    –Não póde ser, meu prezado senhor, não póde ser…

    Eu atirei-me aos seus pés n'uma supplicação abjecta: mas só vi diante de
    mim, sob uma luz mortiça de gaz, a fórma magra de um cão farejando o
    lixo.

    Nunca mais encontrei este individuo.–E agora o mundo parece-me um
    immenso montão de ruinas onde a minha alma solitaria, como um exilado
    que erra por entre columnas tombadas, geme, sem descontinuar…

    As flôres dos meus aposentos murcham e ninguem as renova: toda a luz me
    parece uma tocha: e quando as minhas amantes véem, na brancura dos seus
    penteadores, encostar-se ao meu leito, eu chóro–como se avistasse a
    legião amortalhada das minhas alegrias defuntas…

    * * * * *

    Sinto-me morrer. Tenho o meu testamento feito. N'elle lego os meus
    milhões ao Demonio; pertencem-lhe; elle que os reclame e que os
    reparta…

    E a vós, homens, lego-vos apenas, sem commentarios, estas palavras: «_Só
    sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o
    Mandarim_!»

    E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta idéa: que do
    Norte ao Sul e do Oeste a Léste, desde a Grande Muralha da Tartaria até
    ás ondas do Mar Amarello, em todo o vasto Imperio da China, nenhum
    Mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses
    supprimir e herdar-lhe os milhões, oh leitor, creatura improvisada por
    Deus, obra má de má argilla, meu semelhante e meu irmão!

    Angers, junho, 1880.

    PORTO–TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA

    62, Cancella Velha, 62

  • O Livro de Cesario Verde

    O Livro de Cesario Verde

    Aproximadamente 14.882 palavras.

    Produced by João Miguel Neves from images of the National
    Digital Library project from the National Library of
    Portugal.

    O LIVRO DE CESARIO VERDE

    Prefácio

    A JORGE VERDE

    Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu
    irmão. A minha «obra» terminou no dia em que elle saiu da nossa
    doce amizade para a nossa terrível amargura: morri, meu querido
    Jorge–deixe-me chamar assim ao irmão do meu querido Cesario;–morri
    para as alegrias do trabalho, para as esperanças dos enganos doces!
    O desmoronamento fez-se, a um tempo, no espírito e no coração! Dos
    restos do passado deixe-me offerecer-lhe a dedicação extremada:
    peça-me o sacrifício; e, quando no decorrer da vida, se lembrar de
    nós, tenha este pensamento consolador:–A grande alma de meu irmão
    soube impôr-se a um coração endurecido; e tenha este outro pensamento:
    –Mas não estava de todo endurecido o coração que soube amal-a.

    Adeus, meu querido Jorge!

    S.P.

    20 de julho de 1886.

    Encontrámo-nos pela primeira vez no Curso Superior de Lettras. Foi
    em 1873. Cesario Verde marticulara-se no Curso em homenagem ás
    Lettras, como se as Lettras lá estivessem–no Curso. Eu matriculara-me,
    com a esperança de habilitar-me um dia á conquista de uma cadeira
    disponivel. Encontrámo-nos e ficámos amigos–para a vida e para a
    morte.

    Para a vida e para a morte.

    Tenho de fallar de mim, se eu pretendo fallar de Cesario Verde. Elle
    não teve, desde aquelle dia–ha treze annos–maior amigo do que eu
    fui; e sobre esta mesa onde eu estou escrevendo, ás 10 horas da
    noite d'este formidavel dia glacial–20 de Julho de 1886, dia do
    seu enterro,–sobre esta mesa onde eu estou escrevendo tenho estas
    palavras suas de ha poucos dias:–«E como se dê o caso de tu seres
    o mais dedicado dos meus amigos…» Tenho aqui essas palavras:
    ellas constituem a justificação dos meus soluços de ha poucas horas,
    alli, no cemiterio visinho onde elle dorme–o Cesario!–a sua
    primeira noite redimida…

    Eu fui, pois, a luctar nas grandes batalhas da Desgraça, n'aquelle
    anno para mim terrivel de 1874. Fui-me, a dezenas de leguas de
    Lisboa. Elle ficou. E no dia em que eu medi forças com as avançadas
    do meu destino, a inquietação invadiu o espirito e o coração de
    Cesario Verde, por modo que já eu assoberbara com o meu desprezo
    a desventura pertinaz e ainda elle não vingára libertar-se do peso
    de seus cuidados e afflições. Durante annos escreveu-me centenares
    de paginas–commentarios sobre os meus infortunios, conselhos do
    seu espirito lucidissimo, sobresaltos do seu coração fraternal. Um
    dia, trocámos estas palavras:–«Como tu tens tempo, meu amigo, para
    soffrer tanto!»–«Como tu tens tempo, meu amigo, para me acompanhar
    no soffrimento!».

    É indispensavel ter conhecido intimamente Cesario Verde para
    conhecel-o um pouco. Os que apenas lhe ouviram a phrase rapida,
    imperiosa, dogmatica, mal podem imaginar o fundo de tolerancia
    espectante d'aquelle bello e poderoso espirito. Elle tinha o furor
    da discussão–a toda a hora. Eu careço de preparar-me durante horas
    para a simples comprehensão. As exigencias do meu caro polemista
    irritavam-me. Eu respondia ao acaso; mas acontecia por vezes que o
    sorriso ligeiramente ironico do perseguidor expandia-se n'um bom e
    largo sorriso de convencido; e então–meu querido amigo! meu santo
    poeta!–elle saudava com um enthusiasmo de creança amoravel o que
    elle chamava o meu triumpho! Não hesitava em confessar-se vencido;
    e congratulava-se commigo–porque eu o vencera inconscientemente.
    A generosa alma chamava áquillo a minha superioridade!

    Os campos, a verdura dos prados e dos montes; a liberdade do homem
    em meio da natureza livre: os seus sonhos amados; as suas realidades
    amadas! Quando aquelle artista delicado, quando aquelle poeta de
    primeira grandeza julgava em raros momentos sacrificar a Arte aos
    seus gostos de lavrador e de homem pratico, succedia que as cousas
    do campo, da vida pratica assimilavam a fecundante seiva artistica
    do poeta: e então dos fructos alevantavam-se aromas que disputavam
    fóros de poesia aos aromas das flôres. O mesmo sopro bondoso e
    potente agitava e fecundava os milharaes e as violetas e os trigaes
    e as rosas! A bondade summa está no poeta,–mais visivel, pelo menos,
    do que em Deus.

    Artista–e de alta plana! Eu pude vêl-o cioso de seus direitos e
    reivindicando-os com tanto de ingenuidade quanto de vigor. E pois
    que um ligeiro esboço, precedendo mais detido trabalho, estou
    elaborando sobre os traços mais salientes d'aquella individualidade,
    não me dispensarei d'esta indicripção:

    Ha dois mezes escrevia-me Cesario Verde: «O Doutor Sousa Martins
    perguntou-me qual era a minha occupação habitual. Eu respondi-lhe
    naturalmente: Empregado no commercio. Depois, elle referiu-se á
    minha vida trabalhosa que me distrahia, etc. Ora, meu querido amigo,
    o que eu te peço é que, conversando com o dr. Sousa Martins, lhe
    dês a perceber que eu não sou o sr. Verde, empregado no commercio.
    Eu não posso bem explicar-te; mas a tua amizade comprehende os meus
    escrupulos: sim?…»

    E eu fui á beira de Sousa Martins e perguntei-lhe se o poeta Cesario
    Verde podia ser salvo. O grande e illustre medico tranquilisou-me
    –e apunhalou-me em pleno peito:–Que o poeta Cesario Verde estava
    irremediavelmente perdido!

    Meu poeta! Meu amigo! Tu estavas condemnado no tribunal superior,
    quando eu te mentia e ao publico e a mim proprio: estavas condemnado,
    meu santo! Mas podia viver tranquillo o teu orgulho de artista: o
    teu medico sabia que o poeta Cesario Verde eras tu proprio, meu
    pallido agonisante illudido!

    A esthesia, o processo artistico e a individualidade d'este admiravel
    e originalissimo poeta merecem á Critica independente uma attenção
    desvelada. Eu não hesito em vincular o meu nome á promessa de um
    tributo que a obra de Cesario Verde está reclamando.

    * * * * *

    E todavia, não póde o meu espirito evadir-se á idéa consoladora de
    que é um sonho isto que o entenebrece! Não pódes evadir-te, ó meu
    espirito amargurado! mas eu vou libertar-te para a dôr!

    Foi ás cinco da tarde–ainda agora. Caía o sol a prumo sobre a
    estrada do Lumiar e nós vinhamos arrastando a nossa miseria,–nós
    os vivos; o morto arrastava a sua indifferença. Chegámos, com duas
    horas de amargura, alli ao porto de abrigo e de descanço. Veio o
    ceremonial tragico, o latim, o encerramento. Caso de uma eloquencia
    terrivel: Entre algumas dezenas de homens não houve uma phrase
    indifferente–e em dado momento explosiram soluços n'um enternecimento
    que ageitava a loira cabeça do cadaver lá dentro do caixão–como
    as mãos da mãe lh'a ageitaram infantil, no travesseiro, ha vinte
    e quatro annos, e moribunda ha vinte e quatro horas!

    Eram sete horas da tarde, ó minha alma triste! Eu fui-me a chorar
    velhas lagrimas de gelo, avocadas por lagrimas de fogo recemnascidas.
    Fui-me por entre os tumulos, a pedir ao meu Deus de ha trinta annos
    que que me désse força, que me désse força nova,–pois que se
    prolonga o captiveiro! E a sós, caminhando por entre os tumulos,
    ao cair da noite, pareceu-me comprehender que nós recebemos força
    nova em cada nova dôr, para soffrermos de novo–do mesmo modo que
    o alcatruz de uma nóra se despeja para encher-se, para despejar-se
    –sem saber porque…

    20 de Agosto

    * * * * *

    A morada nova do Cesario é de pedra e tem uma porta de ferro, com
    um respiradouro em cruz;–rua n.º 6 do cemiterio dos Prazeres. Á
    porta está um arbusto da familia dos cyprestes–um brinde ao meu
    querido morto. Eu offerecera uma palmeira que o vento esgarçou ao
    terceiro dia, e tive de escolher uma especie resistente, cá da
    minha raça–funebre e resistente. Está verdejante e vigorosa a
    pequenina arvore, e de longe é uma sentinella perdida da minha doce
    amizade religiosa. De longe vou já perguntando á nossa arvore:–Está
    bom o nosso amigo?… E ella inclina os pequeninos trocos, com a
    gravidade do cypreste:–Bem; não houve novidade em toda a noite…

    É que eu vou pelas tardes visital-o; e saber como elle passou é
    todo um meu cuidado, como é toda a minha alegria o bem-estar
    d'aquella hora em que não ha risos. Não fomos risonhos–o Cesario
    e eu. As nossas horas de convivencia foram tristes e severas. Depois
    da morte do Cesario eu deixei de viver nos dominios onde elle sentira
    consolações, alentos, esperanças, onde elle imaginára renascimentos,
    horisontes, claridades novas. Nunca mais publiquei uma palavra que
    se lhe não consagrasse–ao meu querido morto. Em face d'aquelle
    cadaver eu senti alastrar-se no meu pobre ser fatigado o bem-amado
    desprezo da vida. O meu santo está alli,–está resignado: é tudo.
    Vós todos, que o amastes, sabei que elle está resignado–o nosso
    querido morto impassivel!

    E n'uma dessas tardes, alguns dias depois da sua morte, eu aproximei
    da porta de ferro a minha pobre cabeça esbrazeada e olhei para
    dentro do jazigo, involuntariamente; e então, como quer que eu
    visse lá a dentro do jazigo alguns caixões arrumados, e como eu
    acertasse em descobrir o caixão do Cesario, os soluços despedaçaram-se
    contra a minha garganta, n'uma afflicção immensa e cruel. E foi
    então que a voz rouca e enfraquecida do Cesario–lembram-se da voz
    d'elle?–pronunciou distinctamente lá a dentro do caixão:–«Sê
    natural, meu amigo; sê natural!»

    Era a voz do Cesario; era a sua voz tremente e doce, ó meu sagrado
    horror inconsciente! Debrucei-me contra a porta do jazigo e suppliquei
    n'uma angustia:–«Fala! Dize! Falla, outra vez, meu amigo!» Não se
    reproduziu o doloroso encanto. Apenas uma especie de marulho brando,
    um arrastar de folhagem resequida–e o morto na paz da Morte!

    Vão já decorridos dez annos sobre um periodo de alguns mezes serenos
    da minha via dolorosa. Eu viera a conquistar a certeza de que não
    havia luz misericordiosa para a noite que me vem acompanhando e
    torturando os olhos ávidos, desde o berço á sepultura redemptora.
    Cheguei aqui, á cidade maldita da minha primeira hora e trazia o
    sonho de uma aurora pacifica de vida nova no meu pobre espirito
    illudido. A aurora fez-se com um desabamento de esperanças: a
    crueldade bestial que se debruçára sobre o meu primeiro dia não
    estava arrependida, nem fatigada: a perseguição renasceu. E quando
    eu, no singular desespero dos esmagados em sua crença, pensei na
    Morte como no abrigo antecipado–querido abrigo inevitavel!–a voz
    de Cesario foi a voz evocadora para a continuação do soffrimento
    –do soffrimento amparado e protegido…

    Protegido! A protecção foi a maior da grande alma serena para a
    pobre alma abatida: foi de lagrimas que se confundiram com as minhas
    lagrimas; foi aquelle sorriso triste de resignação, consagrado ás
    minhas amarguras,–que para o Cesario não foram mysteriosas; foi o
    aperto de mão robusto, na vertigem do combate; foi a voz firme e
    severa na hora dos desfallecimentos; foi o reflexo permanente que
    a minha angustia encontrou na sua.

    Ah, santo! Ah, meu santo! Ah, meu puro e meu grande! Ah, meu forte!
    Vae-se na corrente, desfallecido, se nos não troveja nos ouvidos a
    voz reanimadora! Vae-se na corrente,–que o sei eu! Mas tu, depois
    do grito salvador, tinhas um applauso vibrante lá do fundo da tua
    grandeza e da tua generosidade. E tu sabias que me salvara a tua
    mão, a tua palavra, a tua alma de justo, a tua face que eu não
    quizera vêr, contrahida e severa, retraindo-se perante o quadro
    da minha fraqueza! Tu bem o sabias,–forte, bom, generoso, nobre,
    sempre bom–e todavia sempre justo!

    A crise mais feroz atravessei-a, pois, abrigado,–abrigado pela sua
    voz amiga. Eu tive de luctar com a lenda de rebellião, com a
    desconfiança dos homens praticos, com o odio dos pequeninos malvados
    offendidos em seus orgulhos e desmascarados em suas hypocrisias:
    conseguintemente, com a suppressão do trabalho,–do pão,–com a
    calumnia, com a intriga, com todas as armadilhas á minha colera,
    com todas as ciladas á minha fé… Ah, perdidos em paiz de Cafres!
    Mal conceberieis o horror de uma lucta como aquella, de todos os
    dias de dez annos, em paiz de conta aberta no bazar da Civilisação!

    Hoje, o meu santo amigo está alli em baixo, na sua morada nova,
    esperando… Espera que eu vá dizer-lhe dos horisontes novos abertos
    á consciencia dos justos; espera que eu vá dizer-lhe as victorias da
    Justiça absoluta–da Justiça illuminada e serena;–espera que eu vá
    dizer-lhe as victorias do Trabalho, da Razão, da Sciencia, da
    Sinceridade, do Amor: os homens reconciliados, esclarecidos, a
    Natureza convertida em Progresso, Deus explicado, o Futuro illuminado,
    a Vida possível, A Mulher fortalecida, o Homem abrandado, as luctas
    supprimidas, o concerto da Terra desentranhando-se em harmonias
    reconhecidas, a Bondade convertida em nórma, os Direitos e os Deveres
    supprimidos pela Igualdade: os seus sonhos, a sua fé, o seu horisonte,
    o seu amor!

    Está alli em baixo, esperando… Eu, mensageiro triste, não saberei
    dizer-lhe o ascendêr dos espiritos, e só poderei levar-lhe no meu
    abatimento a demonstração da minha pouca fé, aggravada pela espantosa
    amargura d'estes ultimos dias,–d'estas ultimas horas. As visões
    do poeta hão de emmurchecer confundidas com as ultimas rozas que a
    minha pobre mão tremente e desfallecida lhe deporá no tumulo, e os
    restos da minha fé hão-de misturar-se com o pó accumulado á entrada
    do seu tumulo pelo Nordéste–menos frio do que a minha alma succumbida!

    * * * * *

    Silva Pinto.

    Os versos

    I

    CRISE ROMANESCA

    DESLUMBRAMENTOS

    Milady, é perigoso contemplal-a,
    Quando passa aromatica e normal,
    Com seu typo tão nobre e tão de sala,
    Com seus gestos de neve e de metal.

    Sem que n'isso a desgoste ou desenfade,
    Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,
    Eu vejo-a, com real solemnidade,
    Ir impondo toilettes complicadas!…

    Em si tudo me attrae como um thesoiro:
    O seu ar pensativo e senhoril,
    A sua voz que tem um timbre de oiro
    E o seu nevado e lucido perfil!

    Ah! Como m'estontêa e me fascina…
    E é, na graça distincta do seu porte,
    Como a Moda superflua e feminina,
    E tão alta e serena como a Morte!…

    Eu hontem encontrei-a, quando vinha,
    Britannica, e fazendo-me assombrar;
    Grande dama fatal, sempre sósinha,
    E com firmeza e musica no andar!

    O seu olhar possue, n'um fogo ardente,
    Um archanjo e um demonio a illuminal-o;
    Como um florete, fere agudamente,
    E afaga como o pello d'um regalo!

    Pois bem. Conserve o gelo por esposo,
    E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,
    O modo diplomatico e orgulhoso
    Que Anna d'Austria mostrava aos cortezãos.

    E emfim prosiga altiva como a Fama,
    Sem sorrisos, dramatica, cortante;
    Que eu procuro fundir na minha chamma
    Seu ermo coração, como um brilhante.

    Mas cuidado, milady, não se afoite,
    Que hão-de acabar os barabaros reaes;
    E os povos humilhados, pela noite,
    Para a vingança aguçam os punhaes.

    E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,
    Sob o setim do Azul e as andorinhas,
    Eu hei-de ver errar, allucinadas,
    E arrastando farrapos–as rainhas!

    SEPTENTRIONAL

    Talvez já te esquecesses, ó bonina,
    Que viveste no campo só commigo,
    Que te osculei a bocca purpurina,
    E que fui o teu sol e o teu abrigo.

    Que fugiste commigo da Babel,
    Mulher como não ha nem na Circassia,
    Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
    E regámos com prantos uma acacia.

    Talvez já te não lembres com desgosto
    D'aquellas brancas noites de mysterio,
    Em que a lua sorria no teu rosto
    E nas lages que estão no cemiterio.

    Quando, á brisa outoniça, como um manto,
    Os teus cabellos d'ambar desmanchados,
    Se prendiam nas folhas d'um acantho,
    Ou nos bicos agrestes dos silvados,

    E eu ia desprendel-os, como um pagem
    Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
    E ouvia murmurar á doce aragem
    Uns delirios d'amor, entristecidos;

    Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
    Pousarem borbeletas doudejantes
    Nas tuas formosissimas madeixas,
    D'aquellas côr das messes lourejantes,

    E no pomar, nós dois, hombro com hombro,
    Caminhavamos sós e de mãos dadas,
    Beijando os nossos rostos sem assombro,
    E colorindo as faces desbotadas;

    Quando ao nascer d'aurora, unidos ambos
    N'um amor grande como um mar sem praias,
    Ouviamos os meigos dithyrambos,
    Que os rouxinoes teciam nas olaias,

    E, afastados da aldeia e dos casaes,
    Eu comtigo, abraçado como as heras,
    Escondidos nas ondas dos trigaes,
    Devolvia-te os beijos que me déras;

    Quando, se havia lama no caminho,
    Eu te levava ao collo sobre a greda,
    E o teu corpo nevado como o arminho
    Pesava menos que um papel de sêda…

    E foste sepultar-te, ó seraphim,
    No claustro das Fieis emparedadas,
    Escondeste o teu rosto de marfim
    No véu negro das freiras resignadas.

    E eu passo, tão calado como a Morte,
    N'esta velha cidade tão sombria,
    Chorando afflictamente a minha sorte
    E prelibando o calix da agonia.

    E, tristissima Helena, com verdade,
    Se podéra na terra achar supplicios,
    Eu tambem me faria gordo frade
    E cobriria a carne de cilicios.

    MERIDIONAL

    Cabellos

    Ó vagas de cabello esparsas longamente,
    Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
    E tendes o crystal d'um lago refulgente
    E a rude escuridão d'um largo e negro mar;

    Cabellos torrenciaes d'aquella que m'enleva,
    Deixae-me mergulhar as mãos e os braços nús
    No barathro febril da vossa grande treva,
    Que tem scintillações e meigos ceos de luz.

    Deixae-me navegar, morosamente, a remos,
    Quando elle estiver brando e livre de tufões,
    E, ao placido luar, ó vagas, marulhemos
    E enchamos de harmonia as amplas solidões.

    Daixae-me naufragar no cimo dos cachopos
    Occultos n'esse abysmo ebanico e tão bom
    Como um licor rhenano a fermentar nos copos,
    Abysmo que s'espraia em rendas de Alençon!

    E ó magica mulher, ó minha Inegualavel,
    Que tens o immenso bem de ter cabellos taes,
    E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbavel,
    Entre o rumor banal dos hymnos triumphaes;

    Consente que eu aspire esse perfume raro,
    Que exhalas da cabeça erguida com fulgor,
    Perfume que estontêa um millionario avaro
    E faz morrer de febre um louco sonhador.

    Eu sei que tu possues balsamicos desejos,
    E vaes na direcção constante do querer,
    Mas ouço, ao ver-te andar, melodicos harpejos,
    Que fazem mansamente amar e elanguescer.

    E a tua cabelleira, errante pelas costas,
    Supponho que te serve, em noites de verão,
    De flaccido espaldar aonde te recostas
    Se sentes o abandono e a morna prostração.

    E ella hade, ella hade, um dia, em turbilhões insanos
    Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
    Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
    Um oleo para ungir o corpo ao gladiador.

    * * * * *

    Ó mantos de veludo esplendido e sombrio,
    Na vossa vastidão posso talvez morrer!
    Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
    E quero asphyxiar-me em ondas de prazer.

    IRONIAS DO DESGOSTO

    «Onde é que te nasceu»–dizia-me ella ás vezes–
    «O horror calado e triste ás cousas sepulcraes?
    «Porque é que não possues a verve dos Francezes
    «E aspiras, em silencio, os frascos dos meus saes?

    «Porque é que tens no olhar, moroso e persistente,
    «As sombras d'um jazigo e as fundas abstracções,
    «E abrigas tanto fel no peito, que não sente
    «O abalo feminil das minhas expansões?

    «Ha quem te julgue um velho. O teu sorriso é falso;
    «Mas quando tentas rir parece então, meu bem,
    «Que estão edificando um negro cadafalso
    «E ou vae alguem morrer ou vao matar alguem!

    «Eu vim–não sabes tu?–para gosar em maio,
    «No campo, a quietação banhada de prazer!
    «Não vês, ó descórado, as vestes com que saio,
    «E os jubilos, que abril acaba de trazer?

    «Não vês como a campina é toda embalsamada
    «E como nos alegra em cada nova flor?
    «E então porque é que tens na fronte consternada
    «Um não sei quê tocante e enternecedor?

    E eu só lhe respondia:–«Escuta-me. Conforme
    «Tu vibras os crystaes da bocca musical,
    «Vae-nos minando o tempo, o tempo–o cancro enorme
    «Que te ha de corromper o corpo de vestal.

    «E eu calmamente sei, na dôr que me amortalha,
    «Que a tua cabecinha ornada á Rabagas,
    «A pouco e pouco ha de ir tornando-se grisalha
    «E em breve ao quente sol e ao gaz alvejará!

    «E eu que daria um rei por cada teu suspiro,
    «Eu que amo a mocidade e as modas futeis, vans,
    «Eu morro de pezar, talvez, porque prefiro
    «O teu cabelo escuro ás veneraveis cans!»

    HUMILHAÇÕES
    (De todo o coração–a Silva Pinto)

    Esta aborrece quem é pobre. Eu, quasi Job,
    Acceito os seus desdens, seus odios idolatro-os;
    E espero-a nos salões dos principaes theatros,
    Todas as noites, ignorado e só.

    Lá cança-me o ranger da seda, a orchestra, o gaz;
    As damas, ao chegar, gemem nos espartilhos,
    E emquanto vão passando as cortezans e os brilhos,
    Eu analyso as peças no cartaz.

    Na representação d'um drama de Feuillet,
    Eu aguradava, junto à porta, na penumbra,
    Quando a mulher nervosa e van que me deslumbra
    Saltou soberba o estribo do coupé.

    Como ella marcha! Lembra um magnetisador.
    Roçavam no veludo as guarnições das rendas;
    E, muito embora tu, burguez, me não entendas,
    Fiquei batendo os dentes de terror.

    Sim! Por não podia abandonal-a em paz!
    Ó minha pobre bolsa, amortalhou-se a idéa
    De vel-a aproximar, sentado na platéa,
    De tel a n'um binoculo mordaz!

    Eu occultava o fraque usado nos botões;
    Cada contratador dizia em voz rouquenha:
    –Quem compra algum bilhete ou vende alguma senha?
    E ouviam-se cá fóra as ovações.

    Que desvanecimento! A perola do Tom!
    As outras ao pé d'ella imitam as bonecas;
    Tem menos melodia as harpas e as rabecas,
    Nos grandes espetaculos do Som.

    Ao mesmo tempo, eu não deixava de a abranger;
    Vi-a subir, direita, a larga escadaria
    E entrar no camarote. Antes estimaria
    Que o chão se abrisse para me abater.

    Saí; mas ao sair senti-me atropellar.
    Era um municipal sobre um cavallo. A guarda
    Espanca o povo. Irei-me; e eu, que detesto a farda,
    Cresci com raiva contra o militar.

    De subito, fanhosa, infecta, rota, má,
    Pôz-se na minha frente uma velhinha suja,
    E disse-me, piscando os olhos de coruja:
    –Meu bom senhor! Dá-me um cigarro? Dá?…

    RESPONSO

    I

    N'um castello deserto e solitario,
    Toda de preto, ás horas silenciosas,
    Envolve-se nas pregas d'um sudario
    E chora como as grandes criminosas.

    Podesse eu ser o lenço de Bruxellas
    Em que ella esconde as lagrimas singellas.

    II

    E loura como as doces escocezas,
    D'uma belleza ideal, quasi indecisa;
    Circumda-se de luto e de tristezas
    E excede a melancolica Artemisa.

    Fosse eu os seus vestidos afogados
    E havia de escutar-lhe os seus peccados.

    III

    Alta noite, os planetas argentados
    Deslisam um olhar macio e vago
    Nos seus olhos de pranto marejados
    E nas aguas mansissimas do lago

    Podesse eu ser a lua, a lua terna,
    E faria que a noite fosse eterna.

    IV

    E os abutres e os corvos fazem giros
    De roda das ameias e dos pégos,
    E nas salas resoam uns suspiros
    Dolentes como as supplicas dos cegos.

    Fosse eu aquellas aves de pilhagem
    E cercara-lhe a fronte, em homenagem.

    V

    E ella vaga nas praias rumorosas,
    Triste como as rainhas desthronadas,
    A contemplar as gondolas airosas,
    Que passam, a giorno illuminadas.

    Podesse eu ser o rude gondoleiro
    E alli é que fizera o meu cruzeiro.

    VI

    De dia, entre os veludos e entre as sedas,
    Murmurando palavras afflictivas,
    Vagueia nas umbrosas alamedas
    E acarinha, de leve, as sensitivas.

    Fosse eu aquellas arvores frondosas
    E prendera-lhe as roupas vaporosas.

    VII

    Ou domina, a rezar, no pavimento
    Da capella onde outr'ora se ouviu missa,
    A musica dulcissima do vento
    E o sussuro do mar, que s'espreguiça.

    Podesse eu ser o mar e os meus desejos
    Eram ir borrifar-lhe os pés, com beijos.

    VIII

    E ás horas do crepusculo saudosas,
    Nos parques com tapetes cultivados,
    Quando ella passa curvam-se amorosas
    As estatuas dos seus antepassados.

    Fosse eu tambem granito e a minha vida
    Era vêl-a a chorar arrependida.

    IX

    No palacio isolado como um monge,
    Erram as velhas almas dos precítos,
    E nas noites de inverno ouvem-se ao longe
    Os lamentos dos naufragos afflictos.

    Podesse eu ter tambem uma procella
    E as lentas agonias ao pé d'ella!

    X

    E ás lages, no silencio dos mosteiros,
    Ella conta o seu drama negregado,
    E o vasto carmesim dos resposteiros
    Ondula como um mar ensanguentado.

    Fossem aquellas mil tapeçarias
    Nossas mortalhas quentes e sombrias.

    XI

    E assim passa, chorando, as noites bellas,
    Sonhando nos tristes sonhos doloridos,
    E a reflectir nas gothicas janellas
    As estrellas dos ceus desconhecidos.

    Podesse eu ir sonhar tambem comtigo
    E ter as mesmas pedras no jazigo!

    XII

    Mergulha-se em angustias lacrimosas
    Nos ermos d'um castello abandonado,
    E as proximas florestas tenebrosas
    Repercutem um choro amargurado.

    Unissemos, nós dois, as nossas covas,
    Ó doce castellã das minhas trovas!

    II

    NATURAES

    CONTRARIEDADES

    Eu hoje estou cruel, frenetico, exigente;
    Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
    Incrivel! Já fumei tres massos de cigarros
    Consecutivamente.

    Doe-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
    Tanta depravação nos usos, nos costumes!
    Amo, insensatamente, os acidos, os gumes
    E os angulos agudos.

    Sentei-me á secretaria. Alli defronte móra
    Uma infeliz, sem, peito, os dois pulmões doentes;
    Soffre de falta d'ar, morreram-lhe os parentes
    E engomma para fóra.

    Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
    Tão livida! O doutor deixou-a. Mortifica.
    Lidando sempre! E deve a conta á botica!
    Mal ganha para sopas…

    O obstaculo estimula, torna-nos perversos;
    Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
    Por causa d'um jornal me regeitar, ha dias,
    Um folhetim de versos.

    Que mau humor! Rasguei uma epopeia morta
    No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
    Mais d'uma redacção, das que elogiam tudo,
    Me tem fechado a porta.

    A critica segundo o methodo de Taine
    Ignoram-n'a. Juntei n'uma fogueira immensa.
    Muitissimos papeis ineditos. A imprensa
    Vale um desdem solemne.

    Com raras excepções merece-me o epigramma.
    Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
    Um sol-e-dó. Chovisca. O populacho
    Diverte-se na lama.

    Eu nunca dediquei poemas ás fortunas,
    Mas sim, por deferencia a amigos ou a artistas,
    Independente! Só por isso os jornalistas
    Me negam as columnas.

    Receiam que o assignante ingenuo os abandone,
    Se forem publicar taes cousas, taes auctores.
    Arte? Não lhes convem, visto que os seus leitores
    Deliram por Zaccone.

    Um prosador qualquer desfructa fama honrosa,
    Obtem dinheiro, arranja a sua «coterie»;
    E a mim, não ha questão que mais me contrarie
    Do que escrever em prosa.

    A adulação repugna aos sentimentos finos;
    Eu raramente falo aos nossos litteratos,
    E apuro-me em lançar originaes e exactos,
    Os meus alexandrinos…

    E a tisica? Fechada, e com o ferro acceso!
    Ignora que a asphyxia a combustão das brazas,
    Não foge do estendal que lhe humedece as casas,
    E fina-se ao desprezo!

    Mantem-se a chá e pão! Antes de entrar na cova.
    Esvae-se; e todavia, á tarde, fracamente,
    Oiço-a cantarolar uma canção plangente
    D'uma opereta nova!

    Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
    Quem sabe se depois, eu rico e n'outros climas,
    Conseguirei reler essas antigas rimas,
    Impressas em volume?

    Nas lettras eu conheço um campo de manobras;
    Emprega-se a réclame, a intriga, o annuncio, a blague,
    E esta poesia pede um editor que pague
    Todas as minhas obras…

    E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
    A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?
    Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia…
    Que mundo! Coitadinha!

    A DEBIL

    Eu, que sou feio, solido, leal,
    A ti, que és bella, fragil, assustada,
    Quero estimar-te, sempre, recatada
    N'uma existencia honesta, de crystal.

    Sentado á mesa d'um café devasso,
    Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,
    N'esta Babel tão velha e corruptora,
    Tive tenções de offerecer-te o braço.

    E, quando soccorreste um miseravel,
    Eu, que bebia calices d'absintho,
    Mandei ir a garrafa, porque sinto
    Que me tornas prestante, bom, saudavel.

    «Ella ahi vem!» disse eu para os demais;
    E puz-me a olhar, véxado e suspirando,
    O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
    Na frescura dos linhos matinaes.

    Via-te pela porta envidraçada;
    E invejava,–talvez que o não suspeites!–
    Esse vestido simples, sem enfeites,
    N'essa cintura tenra, immaculada.

    Ia passando, a quatro, o patriarcha.
    Triste eu sahi. Doía-me a cabeça;
    Uma turba ruidosa, negra, espessa,
    Voltava das exequias d'um monarcha.

    Adoravel! Tu muito natural
    Seguias a pensar no teu bordado;
    Avultava, n'um largo arborisado,
    Uma estatua de rei n'um pedestal.

    Sorriam nos seus trens os titulares;
    E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
    A tua boa mãe, que te ama tanto,
    Que não te morrerá sem te casares!

    Soberbo dia! Impunha-me respeito
    A limpidez do teu semblante grego;
    E uma familia, um ninho de socego,
    Desejava beijar sobre o teu peito.

    Com elegancia e sem ostentação,
    Atravessavas branca, esvelta e fina,
    Uma chusma de padres de batina,
    E d'altos funccionarios da nação.

    «Mas se a atropella o povo turbolento!
    Se fosse, por acaso, alli pisada!»
    De repente, paraste embaraçada
    Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

    E eu, que urdia estes faceis esbocetos,
    Julguei vêr, com a vista de poeta,
    uma pombinha timida e quieta
    N'um bando ameaçador de corvos pretos.

    E foi, então, que eu homem varonil,
    Quiz dedicar-te a minha pobre vida,
    A ti, que és tenue, docil, reconhecida,
    Eu, que sou habil, pratico, viril.

    N'UM BAIRRO MODERNO

    A Manuel Ribeiro

    Dez horas da manhã; os transparentes
    Matizam uma casa apalaçada;
    Pelos jardins estancam-se os nascentes,
    E fere a vista, com brancuras quentes,
    A larga rua macadamisada.

    Rez-de-chaussée repousam socegados,
    Abriram-se, n'alguns, as persianas,
    E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
    Ou entre a rama dos papeis pintados,
    Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.

    Como é saudavel ter o seu conchego,
    E a sua vida facil! Eu descia,
    Sem muita pressa, para o meu emprego,
    Aonde agora quasi sempre chego
    Com as tonturas d'uma apoplexia.

    E rota, pequenina, aramafada,
    Notei de costas uma rapariga,
    Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
    Como um retalho de horta agglomerada,
    Pousára, ajoelhando, a sua giga.

    E eu, apesar do sol, examinei-a:
    Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;
    E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
    Se ella se curva, esguedelhada, feia,
    E pendurando os seus bracinhos brancos.

    Do patamar responde-lhe um criado:
    «Se te convém, despacha; não converses.
    Eu não dou mais.» E muito descançado,
    Atira um cobre livido, oxidado,
    Que vem bater nas faces d' uns alperces.

    Subitamente,–que visão de artista!–
    Se eu transformasse os simples vegetaes,
    Á luz do sol, o intenso colorista,
    N'um ser humano que se mova e exista
    Cheio de bellas proporções carnaes?!

    Boiam aromas, fumos de cozinha;
    Com o cabaz ás costas, e vergando,
    Sobem padeiros, claros de farinha;
    E ás portas, uma ou outra campainha
    Toca, frenetica, de vez em quando.

    E eu recompunha, por anatomia,
    Um novo corpo organico, aos bocados.
    Achava os tons e as fórmas. Descobria
    Uma cabeça n'uma melancia,
    E n'uns repolhos seios injectados.

    As azeitonas, que nos dão o azeite,
    Negras e unidas, entre verdes folhos,
    São tranças d'um cabello que se ageite;
    E os nabos–ossos nus, da côr do leite,
    E os cachos d'uvas–os rosarios d'olhos.

    Ha collos, hombros, boccas, um semblante
    Nas posições de certos fructos. E entre
    As hortaliças, tumido, fragrante,
    Como d'alguem que tudo aquilo jante,
    Surge um melão, que me lembrou um ventre.

    E, como um feto, emfim, que se dilate,
    Vi nos legumes carnes tentadoras,
    Sangue na ginja vivida, escarlate,
    Bons corações pulsando no tomate
    E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

    O sol dourava o céo. E a regateira,
    Como vendera a sua fresca alface
    E déra o ramo de hortelã que cheira,
    Voltando-se, gritou-me prazenteira:
    «Não passa mais ninguem!… Se me ajudasse?!…»

    Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
    E, pelas duas azas a quebrar,
    Nós levantámos todo aquelle peso
    Que ao chão de pedra resistia preso,
    Com um enorme esforço muscular.

    «Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
    E recebi, náquella despedida,
    As forças, a alegria, a plenitude,
    Que brotam d'um excesso de virtude
    Ou d'uma digestão desconhecida.

    E em quanto sigo para o lado opposto,
    E ao longe rodam umas carruagens,
    A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
    Descolorida nas maçãs do rosto,
    E sem quadris na saia de ramagens.

    Um pequerrucho rega a trepadeira
    D'uma janella azul; e, com o ralo
    Do regador, parece que joeira
    Ou que borrifa estrellas; e a poeira
    Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

    Chegam do gigo emanações sadias,
    Oiço um canario–que infantil chilrada!–
    Lidam ménages entre as gelosias,
    E o sol estende, pelas frontarias,
    Seus raios de laranja distillada.

    E pittoresca e audaz, na sua chita,
    O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
    D'uma desgraça alegre que me incita,
    Ella apregôa, magra, enfezadita,
    As suas couves repolhudas, largas.

    E como as grossas pernas d'um gigante,
    Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
    Carregam sobre a pobre caminhante,
    Sobre a verdura rustica, abundante,
    Duas frugaes aboboras carneiras.

    CRYSTALISAÇÕES

    A Bettencourt Rodrigues

    Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,
    Vibra uma immensa claridade crua.
    De cocaras, em linha os calceteiros,
    Com lentidão, terrosos e grosseiros,
    Calcam de lado a lado a longa rua.

    Como as elevações seccaram do relento,
    E o descoberto sol abafa e cria!
    A frialdade exige o movimento;
    E as poças d'agua, como em chão vidrento,
    Reflectem a molhada casaria.

    Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,
    Disseminadas, gritam as peixeiras;
    Luzem, aquecem na manhã bonita,
    Uns barracões de gente pobresita.
    E uns quintalorios velhos com parreiras.

    Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!
    Tomam por outra parte os viandantes;
    E o ferro e a pedra–que união sonora!–
    Retinem alto pelo espaço fóra,
    Com choques rijos, asperos, cantantes.

    Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,
    Cuja columna nunca se endireita,
    Partem penedos; cruzam-se estilhaços.
    Pesam enormemente os grossos maços,
    Com que outros batem a calçada feita.

    A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!
    Que espessos forros! N'uma das regueiras
    Acamam-se as japonas, os colletes:
    E elles descalçam com os picaretes,
    Que ferem lume sobre pederneiras.

    E n'esse rude mez, que não consente as flores,
    Fundêam, como a esquadra em fria paz,
    As arvores despidas. Sobrias côres!
    Mastros, enxarcias, vergas! Valladores
    Atiram terra com as largas pás.

    Eu julgo-me no Norte, ao frio–o grande agente!–
    Carros de mão, que chiam carregados,
    Conduzem saibro, vagarosamente;
    Vê se a cidade, mercantil, contente:
    Madeiras, aguas, multidões, telhados!

    Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;
    Em arco, sem as nuvens fluctuantes,
    O ceu renova a tinta corredia;
    E os charcos brilham tanto, que eu diria
    Ter ante mim lagôas de brilhantes!

    E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,
    Eu tudo encontro alegremente exacto.
    Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.
    E tangem-me, excitados, sacudidos,
    O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

    Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem
    De tão lavada e egual temperatura!
    Os ares, o caminho, a luz reagem;
    Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;
    Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

    Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo;
    Dois assobiam, altas as marretas
    Possantes, grossas, temperadas d'aço;
    E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço
    E manso, tira o nivel das valletas.

    Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!
    Que vida tão custosa! Que diabo!
    E os cavadores pousam as enxadas,
    E cospem nas callosas mãos gretadas,
    Para que não lhes escorregue o cabo.

    Povo! No panno cru rasgado das camizas
    Uma bandeira penso que transluz!
    Com ella soffres, bebes, agonisas:
    Listrões de vinho lançam-lhe divisas,
    E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!

    D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,
    Surge um perfil direito que se aguça;
    E ar matinal de quem sahiu da toca,
    Uma figura fina, desemboca,
    Toda abafada n'um casaco á russa.

    D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento
    E a quem, á noite na plateia, attraio
    Os olhos lizos como polimento!
    Com seu rostinho estreito, friorento,
    Caminha agora para o seu ensaio.

    E aos outros eu admiro os dorsos, os costados
    Como lajões. Os bons trabalhadores!
    Os filhos das lezirias, dos montados;
    Os das planicies, altos, aprumados;
    Os das montanhas, baixos, trepadores!

    Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto,
    Furtiva a tiritar em suas pelles,
    Espanta-me a actrizita que hoje pinto,
    N'este dezembro energico, succinto,
    E n'estes sitios suburbanos, reles!

    Como animaes communs, que uma picada esquente,
    Elles, bovinos, masculos, ossudos,
    Encaram-n'a sanguinea, brutamente:
    E ella vacilla, hesita impaciente
    Sobre as botinhas de tacões agudos.

    Porém, desempenhando o seu papel na peça,
    Sem que inda o publico a passagem abra,
    O demonico arrisca-se, atravessa
    Covas, entulhos, lamaçaes, depressa,
    Com seus pésinhos rapidos, de cabra!

    NOITES GELIDAS

    MERINA

    Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
    Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada,
    Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
    Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada;
    Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
    Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
    Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia
    De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.

    SARDENTA

    Tu, n'esse corpo completo,
    Ó lactea virgem doirada,
    Tens o lymphatico aspecto
    D'uma camelia melada.

    FLORES VELHAS

    Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,
    Aonde tanta vez a luz nos beijou,
    E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
    Soberba como um sol, serena como um vôo.

    Em tudo scintillava o limpido poema
    Com osculos rimado ás luzes dos planetas;
    A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
    E ondulava o matiz das leves borboletas.

    Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
    A imagem que inspirava os castos madrugaes;
    E as virações, o rio, os astros, a pasizagem,
    Traziam-me á memoria idyllios immortaes.

    Diziam-me que tu, no florido passado,
    Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas,
    Aquelle teu olhar moroso e delicado,
    Que fala de languor e d'emoções mimosas;

    E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura,
    Que não me desgostou nem uma vez sequer,
    Eu não sabia haurir do calix da ventura
    O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

    Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,
    Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
    As falas quasi irmãs do vento com as flores
    E a molle exhalação das varzeas rescendentes.

    Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas
    No ninho de affeições creado para ti,
    Por entre o riso claro, e as vozes das creanças,
    E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

    Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas,
    Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
    E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas
    Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

    E nosso bom romance escripto n'um desterro,
    Com beijos sem ruido em noites sem luar,
    Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,
    Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

    Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas
    Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
    E eu não beijarei, ás horas somnolentas,
    Os dedos de marfim, polidos e delgados…

    Eu, por não ter sabido amar os movimentos
    Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,
    Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
    E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

    E tudo emfim passou, passou como uma penna,
    Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,
    E aquella doce vida, aquella vida amena,
    Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!

    Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
    Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
    A areia em que rangia a saia roçagante,
    Que foi na minha vida o ceo aurirosado,

    Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
    Que as ondas que formei das suas illusões
    Fizeram-me enganar na minha soledade
    E as azas ir abrindo ás minhas impressões.

    Soltei com devoção lembranças inda escravas,
    No espaço construi phantasticos castellos,
    No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
    E onde o luar parava os raios amarellos.

    Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
    Suster a minha fé, n'um veo consolador,
    O teu divino olhar que as pedras amollece,
    E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.

    Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves,
    Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
    E imaginei ouvir ao conversar das aves
    As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.

    NOITE FECHADA

    (L.)

    Lembras-te tu do sabbado passado,
    Do passeio que démos, devagar,
    Entre um saudoso gaz amarellado
    E as caricias leitosas do luar?

    Bem me lembro das altas ruasinhas,
    Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
    Ás janellas palravam as visinhas;
    Tinham lividas luzes as fachadas.

    Não me esqueço das cousas que disseste,
    Ante um pesado templo com recortes;
    E os cemiterios ricos, e o cypreste
    Que vive de gorduras e de mortes!

    Nós saíramos proximo ao sol-posto,
    Mas seguiamos cheios de demoras;
    Não me esqueceu ainda o meu desgosto
    Nem o sino rachado que deu horas.

    Tenho ainda gravado no sentido,
    Porque tu caminhavas com prazer,
    Cara rapada, gordo e presumido,
    O padre que parou para te ver.

    Como uma mitra a cúpula da egreja
    Cobria parte do ventoso largo;
    E essa bocca viçosa de cereja,
    Torcia risos com sabor amargo.

    A lua dava tremulas brancuras,
    Eu ia cada vez mais magoado;
    Vi um jardim com arvores escuras,
    Como uma jaula todo gradeado!

    E para te seguir entrei comtigo
    N'um pateo velho que era d'um canteiro,
    E onde, talvez, se faça inda o jazigo
    Em que eu irei apodrecer primeiro!

    Eu sinto ainda a flôr da tua pelle,
    Tua luva, teu veu, o que tu és!
    Não sei que tentação é que te impelle
    Os pequeninos e cançados pés.

    Sei que em tudo attentavas, tudo vias!
    Eu por mim tinha pena dos marçanos,
    Como ratos, nas gordas mercearias,
    Encafunados por immensos annos!

    Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,
    Que apparecem ao fundo d'umas minas,
    E á crua luz os pallidos barbeiros
    Com oleos e maneiras femininas!

    Fins de semana! Que miseria em bando!
    O povo folga, estupido e grisalho!
    E os artistas d'officio iam passando,
    Com as ferias, ralados do trabalho.

    O quadro anterior, d'um que á candêa,
    Ensina a filha a ler, metteu-me dó!
    Gosto mais do plebeu que cambalêa,
    Do bebado feliz que falla só!

    De subito, na volta de uma esquina,
    Sob um bico de gaz que abria em leque,
    Vimos um militar, de barretina
    E galões marciaes de pechisbeque,

    E em quanto elle fallava ao seu namoro,
    Que morava n'um predio de azulêjo,
    Nos nossos labios retinio sonoro
    Um vigoroso e formidavel beijo!

    E assim ao meu capricho abandonada,
    Errámos por travessas, por viellas,
    E passámos por pé d'uma tapada
    E um palacio real com sentinellas.

    E eu que busco a moderna e fina arte,
    Sobre a umbrosa calçada sepulchral,
    Tive a rude intenção de violentar-te
    Imbecilmente como um animal!

    Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,
    Como longiquos bosques muito ermos,
    Tu querias no meio da folhagem
    Um ninho enorme para nós vivermos.

    E ao passo que eu te ouvia abstractamente,
    Ó grande pomba tépida que arrulha,
    Vinham batendo o macadam fremente,
    As patadas sonoras da patrulha,

    E atravez a immortal cidadesinha,
    Nós fomos ter ás portas, ás barreiras,
    Em que uma negra multidão se apinha
    De tecelões, de fumos, de caldeiras.

    Mas a noite dormente e esbranquiçada
    Era uma esteira lucida d'amor;
    Ó jovial senhora perfumada,
    Ó terrivel creança! Que esplendor!

    E ali começaria o meu desterro!…
    Lodoso o rio, e glacial, corria;
    Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro
    Na muralha dos caes de cantaria.

    Nunca mais amarei, já que não me amas,
    E é preciso, decerto, que me deixes!
    Toda a maré luzida como escamas,
    Como alguidar de prateados peixes.

    E como é necessario que eu me afoite
    A perder-me de ti por quem existo,
    Eu fui passar ao campo aquella noite
    E andei leguas a pé, pensando n'isto.

    E tu que não serás sómente minha,
    Ás caricias leitosas do luar,
    Recolheste-te, pallida e sósinha
    Á gaiola do teu terceiro andar!

    MANHANS BRUMOSAS

    Aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,
    Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

    Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,
    –Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!–
    Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
    E o meu desejo nada em epoca de banhos,
    E, ave de arribação, elle enche de surprezas
    Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

    As irlandezas teem soberbos desmazelos!
    Ella descobre assim, com lentidões ufanas,
    Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
    E como aquellas são maritimas, serranas,
    Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos
    E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

    Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,
    Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
    Botões a tiracollo e applicações vermelhas;
    E á roda, n'um paiz de prados e barrancos,
    Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas,
    Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

    E aquella, cujo amor me causa alguma pena,
    Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,
    E com a forte voz cantada com que ordena,
    Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,
    Por entre o campo e o mar, catholica, morena,
    Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.

    FRIGIDA

    I

    Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!
    Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!
    Mas elle eternisou-lhe a singular belleza
    E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

    II

    Admiro-a. A sua longa e placida estatura
    Expõe a magestade austera dos invernos.
    Não cora no seu todo a timida candura;
    Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

    III

    Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,
    N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!…
    Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,
    Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

    IV

    Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,
    Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;
    Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,
    É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

    V

    Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,
    Ó gelida mulher bizarramente estranha,
    E tremulo depor os labios no seu pulso,
    Entre a macia luva e o punho de bretanha!…

    VI

    Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.
    Ao encarar comsigo a phantasia pasma;
    Pausadamente lembra o silvo das giboias
    E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

    VII

    Metallica visão que Charles Baudelaire
    Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,
    Permitta que eu lhe adule a distincção que fere,
    As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

    VIII

    Deslise como um astro, uma astro que declina;
    Tão descançada e firme é que me desvaria,
    E tem a lentidão d'uma corveta fina
    Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

    IX

    Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,
    No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!
    E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe
    O socegado espectro angelico da Morte!

    X

    O seu vagar occulta uma elasticidade
    Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,
    E a sua glacial impassibilidade
    Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

    XI

    Porem, não arderei aos seus contactos frios,
    E não me enroscará nos serpentinos braços:
    Receio supportar febrões e calefrios;
    Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

    XII

    E se uma vez me abrisse o collo transparente,
    E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,
    Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,
    Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

    DE VERÃO

    A Eduardo Coelho

    I

    No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:
    A claridade, a robustez, a acção.
    Esta manhã, saí com minha prima,
    Em que eu noto a mais sincera estima
    E a mais completa e séria educação.

    II

    Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro
    Da lyrica excursão, d'intimidade
    Não pinto a velha ermida com seu adro;
    Sei só desenho de compasso e esquadro,
    Respiro industria, paz, salubridade.

    III

    Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;
    E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?
    Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;
    Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!
    Quando me alegra a calma das debulhas!»

    IV

    E perguntavas sobre os ultimos inventos
    Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!
    Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!
    Olha: Os saloios vivos, corpulentos,
    Como nos fazem grandes barretadas!

    V

    Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens
    Dos olivaes escuros. Onde irás?
    Regressam os rebanhos das pastagens;
    Ondeiam milhos, nuvens e miragens,
    E, silencioso, eu fico para traz.

    VI

    N'uma collina azul brilha um logar caiado.
    Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,
    Com teu chapéo de palha, desabado,
    Tu continúas na azinhaga; ao lado
    Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

    VII

    N'isto, parando, como alguem que se analysa,
    Sem desprender do chão teus olhos castos,
    Tu começaste, harmonica, indecisa,
    A arregaçar a chita, alegre e lisa
    Da tua cauda um poucochinho a rastos.

    VIII

    Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;
    O sol abrasa as terras já ceifadas,
    E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,
    Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,
    As saias curtas, frescas, engommadas.

    IX

    E, como quem saltasse, extravagantemente,
    Um rego d'agua sem se enxovalhar,
    Tu, a austera, a gentil, a intelligente,
    Depois de bem composta, déste á frente
    Uma pernada comica, vulgar!

    X

    Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!
    No atalho enxuto, e branco das espigas
    Caidas das carradas no salmejo,
    Esguio e a negrejar em um cortejo,
    Destaca-se um carreiro de formigas.

    XI

    Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,
    Na natureza trémula de sede,
    Arrastam bichos, uvas e sementes;
    E atulha, por instincto, previdentes,
    Seus antros quasi occultos na parede.

    XII

    E eu desatei a rir como qualquer macaco!
    «Tu não as esmagares contra o solo!»
    E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,
    Eu de jasmim na casa do casaco
    E d'oculo deitado a tiracolo!

    XIII

    «As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora
    Um sublimado corrosivo, uns pós
    De solimão, eu, sem maior demora,
    Envenenal-as-hia! Tu, por ora,
    Preferes o romantico ao feroz.

    XIV

    Que compaixão! Julgava até que matarias
    Esses insectos importunos! Basta.
    Merecem-te espantosas sympathias?
    Eu felicito suas senhorias,
    Que honraste com um pulo de gymnasta!»

    XV

    E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros
    Luziam, com doçura, honestamente;
    De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,
    Lembravam-me fusões d'immensos oiros,
    E o mar um prado verde e florescente.

    XVI

    Vibravam, na campina, as chocas da manada;
    Vinham uns carros a gemer no outeiro,
    E finalmente, energica, zangada,
    Tu inda assim bastante envergonhada,
    Volveste-me, apontando o formigueiro:

    XVII

    «Não me incommode, não, com ditos detestaveis!
    Não seja simplesmente um zombador!
    Estas mineiras negras, incançaveis,
    São mais economistas, mais notaveis,
    E mais trabalhoras que o senhor.»

    O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL

    A Guerra Junqueiro

    I

    AVE MARIAS

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
    Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,
    Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia
    Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.

    O ceu parece baixo e de neblina,
    O gaz extravasado enjôa-me, perturba;
    E os edificios, com as chaminés, e a turba
    Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.

    Batem os carros de aluguer, ao fundo,
    Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!
    Occorrem-me em revista exposições, paizes:
    Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
    As edificações sómente emmadeiradas:
    Como morcegos, ao cair das badaladas,
    Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
    De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;
    Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,
    Ou érro pelos caes a que se atracam botes.

    E evoco, então, as chronicas navaes:
    Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!
    Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
    Singram soberbas naus que eu não verei jámais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!
    De um couraçado inglez vogam os escaleres;
    E em terra n'um tinir de louças e talheres
    Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.

    N'um trem de praça arengam dois dentistas;
    Um tropego arlequim braceja n'umas andas;
    Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;
    Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!

    Vasam-se os arsenaes e as officinas;
    Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
    E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,
    Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vem sacudindo as ancas opulentas!
    Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
    E algumas, á cabeça, embalam nas canastras
    Os filhos que depois naufragam nas tormentas,

    Descalças! Nas descargas de carvão,
    Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;
    E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,
    E o peixe pôdre géra os focos de infecção!

    II

    NOITE FECHADA

    Toca-se as grades, nas cadeias. Som
    Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
    O aljube, em que hoje estão velhinhas e creanças,
    Bem raramente encerra uma mulher de «dom»!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
    Tão morbido me sinto, ao accender das luzes;
    Á vista das prisões, da velha sé, das cruzes,
    Chora-me o coração que se enche e que se abysma.

    A espaços, illuminam-se os andares,
    E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
    Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
    E a lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas egrejas, n'um saudoso largo,
    Lançam a nodoa negra e funebre do clero:
    N'ellas esfumo um ermo inquisidor severo,
    Assim que pela Historia eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
    Muram-se as construcções rectas, eguaes, crescidas;
    Affrontam-me, no resto, as ingremes subidas,
    E os sinos d'um tanger monastico e devoto.

    Mas, n'um recinto publico e vulgar,
    Com bancos de namoro e exiguas pimenteiras,
    Bronzeo, monumental, de proporções guerreiras,
    Um épico d'outr'ora ascende, n'um pilar!

    E eu sonho o Colera, imagina a Febre,
    N'esta accumulação de corpos enfezados;
    Sombrios e espectraes recolhem os soldados;
    Inflamma-se um palacio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavallaria
    Dos arcos dos quarteis que foram já conventos;
    Edade-média! A pé, outras, a passos lentos,
    Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
    Uma paixão defunta! Aos lampeões distantes,
    Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
    Curvadas a sorrir ás montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
    Descem dos magasins, causam-me sobresaltos;
    Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
    E muitas d'ellas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
    Eu acho sempre assumpto a quadros revoltados:
    Entro na brasserie; ás mesas de emigrados,
    Ao riso e á crua luz joga-se o dominó.

    III

    AO GAZ

    E saio. A noite peza, esmaga. Nos
    Passeios de lagedo arrastam-se as impuras.
    Ó molles hospitaes! Sae das embocaduras
    Um sopro que arripia os hombros quasi nús.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
    Ver cirios lateraes, ver filas de capellas,
    Com santos e fieis, andores, ramos, velas,
    Em uma cathedral de um comprimento immenso.

    As burguezinhas do Catholocismo
    Resvalam pelo chão minado pelos canos;
    E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
    As freiras que os jejuns matavam de hysterismo.

    N'um cutileiro, de avental, ao torno,
    Um forjador maneja um malho, rubramente;
    E de uma padaria exhala-se, inda quente,
    Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exarcebe,
    Quizera que o real e a analyse m'o dessem;
    Casas de confecções e modas resplandecem;
    Pelas vitrines ólha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
    Com versos magistraes, salubres e sinceros,
    A esguia diffusão dos vossos reverberos,
    E a vossa pallidez romantica e lunar!

    Que grande cobra, a lubrica pessoa,
    Que espartilhada escolhe uns chales com debuxo!
    Sua excellencia attráe, magnetica, entre luxo,
    Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquella velha, de bandós! Por vezes,
    A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
    Nas barras verticaes, a duas tintas. Perto,
    Escarvam, á victoria, os seus mecklemburguezes.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
    Plantas ornamentaes seccam nos mostradores;
    Flócos de pós de arroz pairam suffocadores,
    E em nuvems de setins requebram-se os caixeiros,

    Mas tudo cança! Apagam-se nas frentes
    Os candelabros, como estrellas, pouco a pouco;
    Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
    Tornam-se mausoléos as armações fulgentes.

    «Dó da miseria!… Compaixão de mim!…»
    E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
    Pede-me sempre esmola um homemzinho idoso,
    Meu velho professor nas aulas de latim!

    IV

    HORAS MORTAS

    O tecto fundo de oxygenio, d'ar,
    Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
    Vem lagrimas de luz dos astros com olheiras,
    Enleva-me a chimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
    Um parafuso cáe nas lages, ás escuras:
    Collocam-se taipaes, rangem as fechaduras,
    E os olhos d'um caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
    A dupla correnteza augusta das fachadas;
    Pois sobem, no silencio, infaustas e trinadas,
    As notas pastoris de uma longiqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
    Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
    Esqueço-me a prever castissimas esposas,
    Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhos! Que de sonhos ageis,
    Pousando, vos trarão a nitidez ás vidas!
    Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
    N'umas habitações translucidas e frageis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
    E as frótas dos avós, e os nómadas ardentes,
    Nós vamos explorar todos os continentes
    E pelas vastidões aquaticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
    Sem arvores, no valle escuro das muralhas!…
    Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
    E os gritos de soccorro ouvir estrangulados.

    E n'estes nebulosos corredores
    Nauseam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
    Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
    Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
    Afastam-se, a distancia, os dubios caminhantes;
    E sujos, sem ladrar, osseos, febris, errantes,
    Amarelladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
    Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
    Por cima, as immoraes, nos seus roupões ligeiros,
    Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, n'esta massa irregular
    De predios sepulchraes, com dimensões de montes,
    A Dôr humana busca os amplos horisontes,
    E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

    DE TARDE

    N'aquelle «pic-nic» de burguezas,
    Houve uma cousa simplesmente bella,
    E que, sem ter historia nem grandezas,
    Em todo o caso dava uma aguarella.

    Foi quando tu, descendo do burrico,
    Foste colher, sem imposturas tolas,
    A um granzoal azul de grão de bico
    Um ramalhete rubro de papoulas.

    Pouco depois, em cima d'uns penhascos,
    Nós acampámos, inda o sol se via;
    E houve talhadas de melão, damascos,
    E pão de ló molhado em malvasia.

    Mas, todo purpuro a sahir da renda
    Dos teus dois seios como duas rolas,
    Era o supremo encanto da merenda
    O ramalhete rubro das papoulas!

    EM PETIZ

    I

    DE TARDE

    Mais morta do que viva, a minha companheira
    Nem força teve em si para soltar um grito;
    E eu, n'esse tempo, um destro e bravo rapazito,
    Como um homemzarrão servi-lhe de barreira!

    Em meio de arvoredo, azenhas e ruinas,
    Pulavam para a fonte as bezerrinhas brancas;
    E, têtas a abanar, as mães de largas ancas,
    Desciam mais atraz, malhadas e turinas.

    Do seio do logar–casitas com postigos–
    Vem-nos o leite. Mas baptisam-n'o primeiro.
    Leva-o, de madrugada, em bilhas, o leiteiro,
    Cujo pregão vos tira ao vosso somno, amigos!

    Nós davamos, os dois, um giro pelo valle:
    Varzeas, povoações, pégos, silencios vastos!
    E os fartos animaes, ao recolher dos pastos,
    Roçavam pelo teu «costume de percale».

    Já não receias tu essa vaquita preta,
    Que eu segurei, prendi por um chavelhoe? Juro
    Que estavas a tremer, cosida com o muro,
    Hombros em pé, medrosa, e fina, de luneta!

    II

    OS IRMÃOSINHOS

    Pois eu, que no deserto dos caminhos,
    Por ti me expunha immenso, contra as vaccas;
    Eu, que apartava as mansas das velhacas,
    Fugia com terror dos pobresinhos!

    Vejo-os no pateo, ainda! Ainda os ouço!
    Os velhos, que nos rezam padre-nossos;
    Os mandriões que rosnam, altos, grossos;
    E os cegos que se apoiam sobre o moço.

    Ah! Os ceguinhos com a côr dos barros,
    Ou que a poeira no suor mascarra,
    Chegam das feiras a tocar guitarra,
    Rolam os olhos como dois escarros!

    E os pobres mettem medo! Os de marmita,
    Para forrar, por anno, alguns patacos,
    Entrapam-se nas mantas com buracos,
    Choramingando, a voz rachada, afflicta.

    Outros pedincham pelas cinco chagas;
    E no poial, tirando as ligaduras,
    Mostram as pernas putridas, maduras,
    Com que se arrastam pelas azinhagas!

    Querem viver! E picam-se nos cardos;
    Correm as villas; sobem os outeiros;
    E ás horas de calor, nos esterqueiros,
    De roda d'elles zumbem os moscardos.

    Aos sabbados, os monstros, que eu lamento,
    Batiam ao portão com seus cajados;
    E um aleijado com os pés quadrados,
    Pedia-nos de cima de um jumento.

    O resmungão! Que barbas! Que saccolas!
    Cheirava a migas, a bafio, a arrotos;
    Dormia as noutes por telheiros rotos,
    E sustentava o burro a pão d'esmolas.

    * * * * *

    Ó minha loura e doce como um bolo!
    Affavel hospeda na nossa casa,
    Logo que a torrida cidade abraza,
    Como um enorme fôrno de tijolo!

    Tu visitavas, esmoler, garrida,
    Umas creanças n'um casal queimado;
    E eu, pela estrada, espicaçava o gado,
    N'uma attitude esperta e decidida.

    Por lobishomens, por papões, por bruxas,
    Nunca soffremos o menor receio.
    Temieis vós, porém, o meu aceio,
    Mendigasitas sordidas, gorduchas!

    Vicios, sezões, epidemias, furtos,
    De certo, fermentavam entre lixos;
    Que podridão cobria aquelles bichos!
    E que luar nos teus fatinhos curtos!

    * * * * *

    Sei de uma pobre, apenas, sem desleixos,
    Ruça, descalça, a trote nos atalhos,
    E que lavava o corpo e os seus retalhos
    No rio, ao pé dos choupos e dos freixos.

    E a douda a quem chamavam a «Ratada»
    E que fallava só! Que antipathia!
    E se com ella a malta contendia,
    Quanta indecencia! Quanta palavrada!

    Uns operarios, n'estes descampados,
    Tambem surdiam, de chapeu de côco,
    Dizendo-se, de olhar rebelde e louco,
    Artistas despedidos, desgraçados.

    Muitos! E um bebedo–o Camões–que fôra
    Rico, e morreu a mendigar, zarolho,
    Com uma pala verde sobre um olho!
    Tivera ovelhas, bois, mulher, lavoura.

    E o resto? Bandos de selvagensinhos:
    Um nú que se gabava de maroto;
    Um, que cortada a mão, coçava o coto,
    E os bons que nos tratavam por padrinhos.

    Pediam fatos, botas, cobertores!
    Outro jogava bem o pau, e vinha
    Chorar, humilde, junto da coxinha!
    «Cinco réisinhos!… Nobres bemfeitores!…

    E quando alguns ficavam nos palheiros,
    E de manhã catavam os piolhos:
    Emquanto o sol batia nos restolhos
    E os nossos cães ladravam, resingueiros!

    Hoje entristeço. Lembro-me dos coxos,
    Dos surdos, dos manhosos, dos manetas.
    Sulcavam as calçadas, de muletas;
    Cantavam, no pomar, os pintarroxos!

    III

    HISTORIAS

    Scismatico, doente, azedo, apoquentado,
    Eu agourava o crime, as facas, a enxovia,
    Assim que um besuntão dos taes se apercebia
    Da minha blusa azul e branca, de riscado.

    Minaveis, ao serão, a cabecita loira,
    Com contos de provincia, ingenuas creaditas:
    Quadrilhas assaltando as quintas mais bonitas,
    E pondo a gente fina, em postas, de salmoira!

    Na noite velha, a mim, como tições ardendo,
    Fitavam-me os olhões pesados das ciganas;
    Deitavam-n'os o fogo aos predios e arribanas;
    Cercava-me um incendio ensanguentado, horrendo.

    E eu que era um cavallão, eu que fazia pinos,
    Eu que jogava a pedra, eu que corria tanto;
    Sonhava que os ladrões–homens de quem m'espanto
    Roubavam para azeite a carne dos meninos!

    E protegia-te eu, n'aquelle outomno brando,
    Mal tu sentias, entre as serras esmoitadas,
    Gritos de maioraes, mugidos de boiadas,
    Branca de susto, meiga e miope, estacando!

    NÓS

    A A. de S. V.

    I

    Foi quando em dois verões, seguidamente, a Febre
    E o Cholera tambem andaram na cidade,
    Que esta população, com um terror de lebre,
    Fugiu da capital como da tempestade.

    Ora, meu pae, depois das nossas vidas salvas,
    (Até então nós só tiveramos sarampo),
    Tanto nos viu crescer entre uns montões de malvas
    Que elle ganhou por isso um grande amor ao campo.

    Se acaso o conta, ainda a fronte se lhe enruga:
    O que se ouvia sempre era o dobrar dos sinos;
    Mesmo no nosso predio, os outros inquilinos
    Morreram todos. Nós salvámo-nos na fuga.

    Na parte mercantil, foco da epidemia,
    Um panico! Nem um navio entrava a barra,
    A alfandega parou, nenhuma loja abria,
    E os turbolentos caes cessaram a algazarra.

    Pela manhã, em vez dos trens dos baptisados,
    Rodavam sem cessar as seges dos enterros.
    Que triste a sucessão dos armazens fechados!
    Como um domingo inglez na «city», que desterro!

    Sem canalisação, em muitos burgos ermos,
    Seccavam dejecções cobertas de mosqueiros.
    E os medicos, ao pé dos padres e coveiros,
    Os ultimos fieis, tremiam dos enfermos!

    Uma illuminação a azeite de purgueira,
    De noite amarellava os predios macillentos.
    Barricas d'alcatrão ardiam; de maneira
    Que tinham tons d'inferno outros arruamentos.

    Porém, lá fora, á solta, exageradamente
    Emquanto acontecia essa calamidade,
    Toda a vegetação, plethorica, potente,
    Ganhava immenso com a enorme mortandade!

    N'um impeto de seiva os arvoredos fartos,
    N'uma opulenta furia as novidades todas,
    Como uma universal celebração de bodas,
    Amaram-se! E depois houve soberbos partos.

    Por isso, o chefe antigo e bom da nossa casa,
    Triste d'ouvir fallar em orphãos e em viuvas,
    E em permanencia olhando o horizonte em brasa,
    Não quiz voltar senão depois das grandes chuvas.

    Elle d'um lado, via os filhos achacados,
    Um livido flagello e uma molestia horrenda!
    E via, do outro lado, eiras, lezirias, prados,
    E um salutar refugio e um lucro na vivenda!

    E o campo, desde então, segundo o que me lembro,
    É todo o meu amor de todos estes annos!
    Nós vamos para lá; somos provincianos,
    Desde o calor de maio aos frios de novembro!

    II

    Que de fructa! E que fresca e temporã,
    Nas duas boas quintas bem muradas,
    Em que o sol, nos talhões e nas latadas,
    Bate de chapa, logo de manhã!

    O laranjal de folhas negrejantes,
    (Porque os terrenos são resvaladiços)
    Desce em socalcos todos os macissos,
    Como uma escadaria de gigantes.

    Das courellas, que criam cereaes,
    De que os donos–ainda!–pagam foros.
    Dividem-n'o fechados pitosporos,
    Abrigos de raizes verticaes.

    Ao meio, a casaria branca assenta
    Á beira da calçada, que divide
    Os escuros pomares de pevide,
    Da vinha, n'uma encosta soalhenta!

    Entretanto, nao ha maior prazer
    Do que, na placidez das duas horas,
    Ouvir e ver, entre o chiar das noras,
    No largo tanque as bicas a correr!

    Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,
    Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,
    O seu leito é um atalho de passagem,
    Pedregosissimo, entre dois logares.

    Como lhe luzem seixos e burgaus
    Roliçõs! Marinham nas ladeiras
    Os renques africanos das piteiras,
    Que como áloes espigam altos paus!

    Montanhas inda mais longiquamente,
    Com restevas, e combros como boças,
    Lembram cabeças estupendas, grossas,
    De cabello grisalho, muito rente.

    E, a contrastar, nos valles, em geral,
    Como em vidraça d'uma enorme estufa,
    Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa,
    D'uma vitalidade equatorial!

    Que de frugalidades nós criamos!
    Que torrão espontaneo que nós somos!
    Pela outomnal maturação dos pomos,
    Com a carga, no chão pousam os ramos.

    E assim postas, nos barros e areiaes,
    As maceiras vergadas fortemente,
    Parecem, d'uma fauna surprehendente,
    Os polypos enormes, diluviaes.

    Comtudo, nós não temos na fazenda
    Nem uma planta só de mero ornato!
    Cada pé mostra-se util, é sensato,
    Por mais finos aromas que rescenda!

    Finalmente, na fertil depressão,
    Nada se vê que a nossa mão não regre:
    A florescencias d'um matiz alegre
    Mostra um sinal–a fructificação!

    * * * * *

    Ora, ha dez annos, n'este chão de lava
    E argila e areia e alluviões dispersas,
    Entre especies botanicas diversas,
    Forte, a nossa familia radiava!

    Unicamente, a minha doce irmã,
    Como uma tenue e immaculada rosa,
    Dava a nota galante e melindrosa
    Na trabalheira rustica, aldeã.

    E foi n'um anno prodigo, excellente,
    Cuja amargura nada sei que adoce,
    Que nós perdemos essa flor precoce,
    Que cresceu e morreu rapidamente!

    Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,
    E, sendo fracos, sejam generosos!
    As doenças assaltam os bondosos
    E–custa a crer–deixam viver os maus!

    * * * * *

    Fecho os olhos cançados, e descrevo
    Das telas da memoria retocadas,
    Biscates, hortas, batataes, latadas,
    No paiz montanhoso, com relevo!

    Ah! Que aspectos benignos e ruraes
    N'esta localidade tudo tinha,
    Ao ires, com o banco de palhinha,
    Para a sombra que faz nos parreiraes!

    Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente
    Que uma folha se mova ou se desmanche,
    Tu, refeita e feliz com o teu «lunch»,
    Nos ajudavas, voluntariamente!…

    Era admiravel–n'este grau do Sul!–
    Entre a rama avistar o teu rosto alvo,
    Ver-te escolhendo a uva diagalvo,
    Que eu embarcava para Liverpool.

    A exportação de frutas era um jogo:
    Dependiam da sorte do mercado
    O boal, que é de perolas formado,
    E o ferral, que é ardente e côr de fogo!

    Em agosto, ao calor canicular,
    Os passaros e enxames tudo infestam;
    Tu cortavas os bagos que não prestam
    Com a tua thesoura de bordar.

    Douradas, pequeninas, as abelhas,
    E negros, volumosos, os besoiros,
    Circumdavam, com impetos de toiros,
    As tuas candidissimas orelhas.

    Se uma vespa lançava o seu ferrão
    Na tua cutis–petala de leite!–
    Nós collocavamos dez réis e azeite
    Sobre a galante, a rosea inflammação!

    E se um de nós, já farto, arrenegado,
    Com o chapeo caçava a bicharia,
    Cada zangão voando, á luz do dia,
    Lembrava o teu dedal arremessado.

    * * * * *

    Que d'encantos! Na força do calor
    Desabrochavas no padrão da bata,
    E, surgindo da gola e da gravata,
    Teu pescoço era o caule d'uma flor!

    Mas que cegueira a minha! Do teu porte
    A fina curva, a indefinida linha,
    Com bondades d'herbivora mansinha,
    Eram prenuncios de fraqueza e morte!

    Á procura da libra e do «schilling»,
    Eu andava abstracto e sem que visse
    Que o teu alvor romantico de «miss»
    Te obrigava a morrer antes de mim!

    E antes tu, ser lindissimo, nas faces
    Tivesses «panno» como as camponezas;
    E sem brancuras, sem delicadezas,
    Vigorosa e plebeia, inda durasses!

    Uns modos de carnivora feroz
    Podias ter em vez de inoffensivos;
    Tinhas caninos, tinhas incisivos,
    E podias ser rude como nós!

    Pois n'este sítio, que era de sequeiro,
    Todo o genero ardente resistia,
    E, á larguissima luz do Meio-dia,
    Tomava um tom opalico e trigueiro!

    * * * * *

    Sim! Europa do Norte, o que suppões
    Dos vergeis que abastecem teus banquetes,
    Quando ás dockas, com fructas, os paquetes
    Chegam antes das tuas estações?!

    Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra
    E as tuas frutas acidas, tardias,
    No azedo amoniacal das queijarias
    Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra!

    Ó cidades fabris, industriaes,
    De nevoeiros, poeiradas de hulha,
    Que pensaes do paiz que vos atulha
    Com a fructa que sae dos seus quintaes?

    Todos os annos, que frescor se exhala!
    Abundancias felizes que eu recordo!
    Carradas brutas que iam para bórdo!
    Vapores por aqui fazendo escala!

    Uma alta parreira muscatel
    Por doce não servia para embarque:
    Palacios que rodeiam Hyde-Park,
    Não conheceis esse divino mel!

    Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado,
    Não as têm nas florestas em que ha corças,
    Nem em vós que dobraes as vossas forças,
    Pradarias d'um verde illimitado!

    Anglos-Saxonios, tendes que invejar!
    Ricos suicidas, comparae comvosco!
    Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,
    Facilimo, evidente, salutar!

    Opponde ás regiões que dão os vinhos
    Vossos montes d'escorias inda quentes!
    E as febris officinas estridentes
    Ás nossas tecelagens e moinhos!

    E ó condados mineiros! Extensões
    Carboniferas! Fundas galerias!
    Fabricas a vapor! Cutelarias!
    E mechanicas, tristes fiações!

    Bem sei que preparaes correctamente
    O aço e a seda, as laminas e o estofo;
    Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,
    Tudo o que ha de mais rijo e resistente!

    Mas isso tudo é falso, é machinal,
    Sem vida, como um circulo ou um quadrado,
    Com essa perfeição do fabricado,
    Sem o rythmo do vivo e do real!

    E cá o santo sol, sobre isso tudo,
    Faz conceber as verdes ribanceiras;
    Lança as rosaceas bellas e fructeiras
    Nas searas de trigo palhagudo!

    Uma aldeia d'aqui é mais feliz,
    Londres sombria, em que scintilla a corte!…
    Mesmo que tu, que vives a compor-te,
    Grande seio arquejante de Paris!…

    Ah! Que de gloria, que de colorido,
    quando, por meu mandado e meu conselho,
    Cá se empapelam «as maçãs d'espelho»
    Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

    Para alguns são prosaicos, são banaes
    Estes versos de fibra succolenta;
    Como se a polpa que nos dessedenta
    Nem ao menos valesse uns madrigaes!

    Pois o que a bocca trava com surprezas
    Senão as frutas tónicas e puras!
    Ah! N'um jantar de carnes e gorduras
    A graça vegetal das sobremesas!…

    Jack, marujo inglez, tu tens razão
    Quando, ancorando em portos como os nossos,
    As laranjas com cascas e caróços
    Comes com bestial soffreguidão!…

    * * * * *

    A impressão d'outros tempos, sempre viva,
    Dá estremeções no meu passado morto,
    E inda viajo, muita vez, absorto,
    Pelas varzeas da minha retentiva.

    Então recordo a paz familiar,
    Todo um painel pacifico d'enganos!
    E a distancia fatal d'uns poucos annos
    É uma lente convexa, d'augmentar.

    Todos os typos mortos resuscito!
    Perpetuam-se assim alguns minutos!
    E eu exagéro os casos diminutos
    Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.

    Pinto quadros por lettras, por signaes,
    Tão luminosos como os do Levante,
    Nas horas em que a calma é mais queimante,
    Na quadra em que o verão aperta mais.

    Como destacam, vivas, certas cores,
    Na vida externa cheia d'alegrias!
    Horas, vozes, locaes, physionomias,
    As ferramentas, os trabalhadores!

    Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar
    E a rama do pinheiro! Eu adivinho
    O resinoso, o tão agreste pinho
    Serrado nos pinhaes da beira mar.

    Vinha cortada, aos feixes, a madeira,
    Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas;
    Depois armavam-se, n'um prompto as caixas
    Sob uma calma espessa e calaceira!

    Feias e fortes! Punham-lhes papel,
    A forral-as. E em grossa serradura
    Acamava-se a uva prematura
    Que não deve servir para tonel!

    Cingiam-n'as com arcos de castanho
    Nas ribeiras cortados, nos riachos;
    E eram d'assucar e calor os cachos,
    Criados pelo esterco e pelo amanho!

    Ó pobre estrume, como tu compões
    Estes pampanos doces como afagos!
    «Dedos de dama»: transparentes bagos!
    «Tetas de cabra»: lacteas carnações!

    E não eram caixitas bem dispostas
    Como as passas de Malaga e Alicante;
    Com sua fórma estavel, ignorante,
    Estas pesavam, brutalmente, ás costas!

    Nos vinhatorios via fulgurar,
    Com tanta cal que torna as vistas cegas,
    Os parallelogramos das adegas,
    Que têm lá dentro as dornas e o lagar!

    Que rudeza! Ao ar livre dos estios.
    Que grande azafama! Apressadamente
    Como soava um martellar frequente,
    Véspera da saida dos navios!

    Ah! Ninguem entender que ao meu olhar
    Tudo tem certo espirito secreto!
    Com folhas de saudades um objecto
    Deita raizes duras de arrancar!

    As navalhas de volta, por exemplo,
    Cujo bico de passaro se arqueia,
    Forjadas no casebre d'uma aldeia,
    São antigas amigas que eu contemplo!

    Ellas, em seu labor, em seu lidar,
    Com sua ponta como a da podoas,
    Serviam próbas, uteis, dignas, boas,
    Nunca tintas de sangue e de matar.

    E as enxós de martello, que d'um lado
    Cortavam mais do que as enxadas cavam,
    Por outro lado, rápidas, pregavam,
    D'uma pancada, o prego fasquiado!

    O meu animo verga na abstracção,
    Com a espinha dorsal dobrada ao meio;
    Mas se de materiaes descubro um veio
    Ganho a musculatura d'um Sansão!

    E assim–e mais no povo a vida é corna–
    Amo os officios como o de ferreiro,
    Com seu folle arquejante, seu brazeiro,
    Seu malho retumbante na bigorna!

    E sinto, se me ponho a recordar
    Tanto utensilio, tantas perspectivas,
    As tradições antigas, primitivas,
    E a formidavel alma popular!

    Oh! Que brava alegria eu tenho quando
    Sou tal qual como os mais! E, sem talento,
    Faço um trabalho technico, violento,
    Cantando, praguejando, batalhando!

    * * * * *

    Os fruteiros, tostados pelos soes,
    Tinham passado, muita vez, a raia,
    E, espertos, entre os mais da sua laia,
    –Pobres camponios–eram uns heroes.

    E por isso, com phrases imprevistas,
    E colorido e estylo e valentia,
    As «haciendas» que ha na «Andalucia»
    Pintavam como novos paysagistas.

    De como, ás calmas, n'essas excursões,
    Tinham aguas salobras por refrescos;
    E amarellos, enormes, gigantescos,
    Lá batiam o queixo com sesões!

    Tinham corrido já na adusta Hespanha,
    Todo um fertil plató sem arvoredos,
    Onde armavam barracas nos vinhedos,
    Como tendas alegres de campanha.

    Que pragas castelhanas, que alegrão,
    Quanto contavam scenas de pousadas!
    Adoravam as cintas encarnadas
    E as côres, como os pretos do sertáo!

    E tinham, sem que a lei a tal obrigue,
    A educação vistosa das viagens!
    Uns por terra partiam e estalagens,
    Outros, aos montes, no convez d'um brigue!

    Só um havia, triste e sem fallar
    Que arrastava a maior misantropia,
    E, roxo como um figado, bebia
    O vinho tinto que eu mandava dar!

    Pobre da minha geração exangue
    De ricos! Antes, como os abrutados,
    Andar com uns sapatos encebados,
    E ter riqueza chimica no sangue!

    * * * * *

    Mas hoje a rustica lavoura, quer
    Seja o patrão, quer seja o jornaleiro,
    Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro
    E a filharada lidam, e a mulher!…

    Desde o princípio ao fim é uma maçada
    De mil demonios! Torna-se preciso
    Ter-se muito vigor, muito juizo
    Para trazer a vida equilibrada!

    Hoje eu sei quanto custam a criar
    As cepas, desde que eu as pódo e empo.
    Ah! O campo não é um passatempo
    Com bucolismos, rouxinoes, luar.

    A nós tudo nos rouba e nos dizima:
    O rapazio, o imposto, as pardaladas,
    As osgas peçonhentas, achatadas,
    E as abelhas que engordam na vindima.

    E o pulgão, a lagarta, os caracoes,
    E ha inda, alem do mais com que se ateima,
    As intemperies, o granizo, a queima,
    E a concorrencia com os hespanhoes.

    Na vendas, os vinhateiros d'Almeria
    Competem contra os nossos fazendeiros.
    Dão frutas aos leilões dos estrangeiros,
    Por uma cotação que nos desvia!

    Pois tantos contras, rudes como são,
    Forte e teimoso, o camponez destroe-os!
    Venham de lá pesados os comboyos
    E os «buques» estivados no porão!

    Não, não é justo que eu a culpa lance
    Sobre estes nadas! Puras bagatellas!
    Nós não vivemos só de coisas bellas,
    Nem tudo corre como n'um romance!

    Para a Terra parir hade ter dor,
    E é para obter as asperas verdades,
    Que os agronomos cursam nas cidades,
    E, á sua custa, aprende o lavrador.

    Ah! Não eram insectos nem as aves
    Que nos dariam dias tão difficeis,
    Se vós, sabios, na gente descobrisseis
    Como se curam as doenças graves.

    Não valem nada a cava, a enxofra, e o mais!
    Difficultoso trato das cearas!
    Lutas constantes sobre as jornas caras!
    Compras de bois nas feiras annuaes!

    O que a alegria em nós destroe e mata,
    Não é rede arrastante d'escalracho,
    Nem é «suão» queimante como um facho,
    Nem invasões bulhosas d'herva pata.

    Podia ter seccado o poço em que eu
    Me debruçava e te pregava sustos,
    E mais as hervas, arvores e arbustos
    Que–tanta vez!–a tua mão colheu.

    «Molestia negra» nem «charbon» não era,
    Como um archote incendiando as parras!
    Tão pouco as bastas e invisiveis garras,
    Da enorme legião do phylloxera!

    Podiam mesmo, com o que contêm,
    Os muros ter caido às invernias!
    Somos fortes! As nossas energias
    Tudo vencem e domam muito bem!

    Que os rios, sim, que como touros mugem,
    Transbordando atulhassem as regueiras!
    Chorassem de resina as larangeiras!
    Ennegrecessem outras com ferrugem!

    As turvas cheias de novembro, em vez
    Do nateiro subtil que fertilisa,
    Fossem a inundação que tudo pisa,
    No rebanho afogassem muita rez!

    Ah! N'esse caso pouco se perdera,
    Pois isso tudo era um pequeno damno,
    Á vista do cruel destino humano
    Que os dedos te fazia como cera!

    Era essa tysica em terceiro grau,
    Que nos enchia a todos de cuidado,
    Te curvava e te dava um ar alado
    Como quem vae voar d'um mundo mau.

    Era a desolação que inda nos mina
    (Porque o fastio é bem peior que a fome)
    Que a meu pai deu a curva que a consome,
    E a minha mãe cabellos de platina.

    Era a chlorose, esse tremendo mal,
    Que desertou e que tornou funesta
    A nossa branca habitação em festa
    Reverberando a luz meridional.

    Não desejemos,–nós os sem defeitos,–
    Que os tysicos pereçam! Má theoria,
    Se pelos meus o apuro principia,
    Se a Morte nos procura em nossos leitos!

    A mim mesmo, que tenho a pretensão
    De ter saude, a mim que adoro a pompa
    Das forças, pode ser que se me rompa
    Uma arteria, e me mine uma lesão.

    Nós outros, teus irmãos, teus companheiros,
    Vamos abrindo um matagal de dores!
    E somos rijos como os serradores!
    E positivos como os engenheiros!

    Porém, hostis, sobresaltados, sós,
    Os homens architectam mil projectos
    De victoria! E eu duvido que os meus netos
    Morram de velhos como os meus avós!

    Porque, parece, ou fortes ou velhacos
    Serão apenas os sobreviventes;
    E ha pessoas sinceras e clementes,
    E troncos grossos com seus ramos fracos!

    E que fazer se a geração decae!
    Se a seiva genealogica se gasta!
    Tudo empobrece! Extingue-se uma casta!
    Morre o filho primeiro do que o pai!

    Mas seja como for, tudo se sente
    Da tua ausencia! Ah! como o ar nos falta,
    Ó flor cortada, susceptivel, alta,
    Que assim seccaste prematuramente!

    Eu que de vezes tenho o desprazer
    De reflectir no tumulo! E medito
    No eterno Incognoscivel infinito,
    Que as idéas não podem abranger!

    Como em paul em que nem cresça a junca
    Sei d'almas estagnadas! Nós absortos,
    Temos ainda o culto pelos Mortos,
    Esses ausentes que não voltam nunca!

    Nós ignoramos, sem religião,
    Ao rasgarmos caminho, a fé perdida,
    Se te vemos ao fim d'esta avenida
    Ou essa horrivel aniquilação!…

    E ó minha martyr, minha virgem, minha
    Infeliz e celeste creatura,
    Tu lembras-nos de longe a paz futura,
    No teu jazigo, como uma santinha!

    E emquanto a mim, és tu que substitues
    Todo o mysterio, toda a santidade,
    Quando em busca do reino da verdade
    Eu ergo o meu olhar aos ceos azues!

    III

    Tinhamos nós voltado á capital maldicta,
    Eu vinha de polir isto tranquillamente,
    Quando nos seccedeu uma cruel desdita,
    Pois um de nós caiu, de subito, doente.

    Uma tuberculose abria-lhe cavernas!
    Dá-me rebate ainda o seu tossir profundo!
    E eu sempre lembrarei, triste, as palavras ternas,
    Com que se despediu de todos e do mundo!

    Pobre rapaz robusto e cheio de futuro!
    Não sei d'um infortunio immenso como o seu!
    Vio o seu fim chegar como um medonho muro,
    E, sem querer, afflicto e attonito, morreu!

    De tal maneira que hoje, eu desgostoso e azedo
    Como tanta crueldade e tantas injustiças,
    Se inda trabalho é como os presos no degredo,
    Com planos de vingança e idéas insubmissas.

    E agora, de tal modo a minha vida é dura,
    Tenho momentos maus, tão tristes, tão perversos,
    Que sinto só desdem pela litteratura,
    E até desprézo e esqueço os meus amados versos!

    PROVINCIANAS

    I

    Olá! Bons dias! Em março
    Que mocetona e que joven
    A terra! Que amor esparso
    Corre os trigos, que se movem
    Ás vagas d'um verde garço!

    Como amanhece! Que meigas
    As horas antes de almoço!
    Fartam-se as vaccas nas veigas
    E um pasto orvalhado e moço
    Produz as novas manteigas.

    Toda a paizagem se doura;
    Tibida ainda, que frecas!
    Bella mulher, sim senhora,
    N'esta manhã pittoresca,
    Primaveral, creadora!

    Bom sol! As sebes d'encosto
    Dão madresilvas cheirosas
    Que entotecem como um mosto
    Floridas, ás espinhosas
    Subio-lhes o sangue ao rosto.

    Cresce o relevo dos montes,
    Como seios offegantes;
    Murmuram como umas fontes
    Os rios que dias antes
    Bramiam galgando pontes.

    E os campos, milhas e milhas,
    Com póvos d'espaço a espaço,
    Fazem-se ás mil maravilhas;
    Dir-se-ia o mar de sargaço
    Glauco, ondulante, com ilhas!

    Pois bem. O inverno deixou-nos.
    É certo. E os grãos e as sementes
    Que ficam d'outros outonos
    Acordam hoje frementes
    Depois d'uns poucos de somnos.

    Mas nem tudo são descantes
    Por esses longos caminhos
    Entre favaes palpitantes
    Há solos bravos, maninhos,
    Que expulsam seus habitantes!

    E n'esta quadra d'amores
    Que emigram os jornaleiros
    Ganhões e trabalhadores!
    Passam clans de forasteiros
    Nas terras de lavradores.

    Tal como existem mercados
    Ou feiras, semanalmente
    Para comprarmos os gados
    Assim ha praças de gente
    Pelos domingos calados!

    Emquanto a ovelha arredonda,
    Vão tribus de sete filhos,
    Por varzeas que fazem onda,
    Para as derregas dos milhos
    E molhadellas da monda.

    De roda pulam borregos;
    Enchem então as cardosas
    As moças d'esses labregos
    Com altas botas bartrosas
    De se atirarem aos regos!

    Eil-as que vem ás manadas
    Com caras de soffrimento,
    Nas grandes marchas forçadas!
    Vem ao trabalho, ao sustento,
    Com fouces, sachos, enchadas!

    Ai o palheiro das servas
    Se o feitor lhe tira as chaves!
    Ellas chegam ás catervas,
    Quando acasalam as aves
    E se fecundam as hervas!…

    II

    Ao meio dia na cama,
    Branca fidalga o que julga
    Das pequenas da su'ama?!
    Vivem minadas da pulga
    Negras do tempo e da lama.

    Não é caso que a commova
    Ver suas irmans de leite,
    Quer faça frio, quer chova,
    Sem uma mamã que as deite
    Na tepidez d'um alcova?!

    Nota: Incompleta esta poesia. Foram os ultimos versos do poeta.

    NOTAS

    Cesario Verde (José Joaquim Cesario Verde) nasceu em Lisboa,
    freguesia da Magdalena, em 25 de fevereiro de 1855 e falleceu no
    Paço do Lumiar em 19 de julho de 1886. Era filho do sr. José
    Anastacio Verde, negociante, e da srª. D. Maria da Piedade dos
    Santos Verde.

    * * * * *

    A estreia do poeta nos dominios da publicidade data de 1873. Foi
    o auctor d'estas notas e editor d'este livro quem fez publicar no
    Diario da Tarde do Porto, em folhetim, os primeiros versos de Cesario
    Verde, precedendo-os de uma carta de apresentação a Manoel d'Arriaga.
    Esses versos não se reproduzem no livro de Cesario Verde, porque o
    poeta os considerou muito inferiores aos que hoje se reproduzem.
    Realmente o eram–pela hesitação do neophyto.

    * * * * *

    Outros versos foram condemnados pelo auctor e a condemnação foi hoje
    respeitada: entre elles citaremos a Satyra ao Diario Illustrado, as
    poesias Vaidosa, Subindo, Desastre, e algumas outras composições de
    menos folego.

    * * * * *

    No Prefacio registra-se a promessa de um estudo critico sobre a Obra
    de Cesario Verde. Essa obra, dispersa nas columnas do Diario da
    tarde, do Porto, da Renascença, da Revista de Coimbra, da Tribuna,
    da Illustração, etc., não será discutida pelo auctor d'estas linhas.
    Não é hoje discutida, nem o será jamais. Sobeja-lhe, ao auctor da
    promessa, em enternecimento e amargura quanto lhe falta em serenidade;
    –ficam auctorizados a dizer: quanto lhe falta em competencia.

    Tambem se registrou algures a promessa de um ajuste de contas com
    os insultadores do poeta. Inutil:–nenhum d'elles sobreviveu aos
    insultos.

    * * * * *

    Os 200 exemplares d'este livro serão distribuidos pelos parentes,
    pelos amigos e pelos admiradores provados do illustre poeta, bem
    como por Bibliothecas do paiz e do estrangeiro. A lista de distribuição
    será publicada. As reclamações justificadas serão attendidas.

    1887.

    S. P.

    INDICE

    Dedicatoria
    Prefacio

    VERSOS

    CRISE ROMANESCA

    Deslumbramentos
    Septentrional
    Meridional
    Ironias do Desgosto
    Humilhações
    Responso

    NATURAES

    Contrariedades
    A debil
    N'um bairro moderno
    Crystalisações
    Noites gelidas
    Sardenta
    Flores velhas
    Noite fechada
    Manhans brumosas
    Frigida
    De verão
    O sentimento d'um occidental
    De tarde
    Em petiz
    Nós
    Provincianas

    Notas

    End of Project Gutenberg's O Livro de Cesario Verde, by Cesario Verde