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  • Luar de Janeiro

    Luar de Janeiro

    Aproximadamente 6.229 palavras.

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    Augusto Gil

    Luar de Janeiro

    [Figura: Olhos Olhae a Direito]

    Luar de Janeiro

    AUGUSTO GIL

    *Luar de Janeiro*

    LISBOA

    1909

    Edição da empreza d'A Lanterna–Escriptorios, rua das Gaveas, 45, 2.^o

    Typ. do Commercio, rua da Oliveira, ao Carmo, 10, Lisboa

    Áquelles que virem, neste volume de liricas, uma reviravolta effectuada
    sobre a génese d'_O Canto da Cigarra_ objectarei, com antecipada promessa
    de facil prova, que os dois livros teem uma tão intima ligação como a
    existente entre os pontos extremos da curva d'amplitude dum pêndulo.

    Aos que me censurem pela circumstancia de não ter logrado, na minha
    subalterna categoria de poeta menor, firmar-me numa posição d'equilibrio
    estavel, pergunto, em tom humilde, quem é que neste confuso seculo de
    latente misticismo humanitario, de demolidora negação e d'anciedade
    conjunctamente afflictiva e sceptica, terá a coragem de dizer que o
    encontrou–já não quero como artista, porque a esse as influencias
    ambientes lhe communicam entre-cruzadas e descoordenadas vibrações–mas
    na propria e mais serena esphera do pensamento. Se algum de vós me
    retorquir com o _eureka_ do antigo geometra, ou é um sectario, ou um
    caturra,–ou um simples.

    Sabio, como o de Syracusa, é que não é…

    Adeante.

    Novembro de (1)909.

    O auctor

    De la musique encore et toujours

    * * * * *

    Que ton vers soit la bonne aventure
    Éparse au vent crispé du matin
    Qui va fleurant la menthe et le thym,
    _Et tout le reste est litterature_.

    Verlaine

    Et c'est pourquoi ce livre-ci (qu'il était peut-être bon d'écrire) nous
    savons, toi et moi, a quels mysterieux balbutiements le réduirait le
    tête-à-tête–et tout ce que je n'ai pas dit, qu'il ne fallait pas dire.
    Et tu sais combien de pages menteuses devront, pour des motifs de
    faiblesse personnelle ou de nécessité invencible, accompagner la bonne
    page, celle que ce livre encore annonce et ordone–_tu sais, tu
    comprends et tu pardonnes_…

    Charles Morice.

    _A Coelho de Carvalho_

    _Tout court_, porque não ha adjectivos que não empallideçam ante a
    claridade dos seus talentos.

    Luar de janeiro,
    Fria claridade

    Á luz delle foi talvez
    Que primeiro
    A bocca dum português
    Disse a palavra saudade…

    Luar de platina,
    Luar que allumia
    Mas que não aquece,
    Photographia
    D'alegre menina
    Que ha muitos annos já… envelhecesse.

    Luar de janeiro,
    O gelo tornado
    Luminosidade…
    Rosa sem cheiro,
    Amor passado
    De que ficasse apenas a amizade…

    Luar das nevadas,
    Algido e lindo,
    Janellas fechadas,
    Fechadas as portas
    E elle fulgindo,
    Limpido e lindo,
    Como boquinhas de creanças mortas,
    Na morte geladas
    –E ainda sorrindo…

    Luar de janeiro,
    Luzente candeia
    De quem não tem nada,
    –Nem o calor dum brazeiro,
    Nem pão duro para a ceia,
    Nem uma pobre morada…

    Luar dos poetas e dos miseraveis,
    Como se um laço estreito nos unisse,
    São similhaveis
    O nosso mau destino e o que tens…

    De nós, da nossa dôr, a turba–ri-se
    –E a ti, sagrado ladram-te os cães!

    [Figura: A linda imagem pertence ao arruinado Mosteiro do Calvario,
    d'Evora, e constitue a unica mas encantadora manifestação d'arte desse
    pobrissimo convento. Foi doado ás monjas que o occupavam, por D. Izabel
    Juliana de Souza Coutinho, forçada noiva de José de Carvalho, filho do
    Marquez de Pombal. D. Izabel esteve enclausurada no Mosteiro do
    Calvario, por ordem do duro ministro, até se resolver a acceitar a mão
    do filho. Depois da morte do rei D. José, foi o matrimonio annullado,
    vindo D. Izabel a formar o tronco da casa Palmella pelo casamento com D.
    Alexandre de Souza. (Notas extrahidas dum artigo do erudito antiquario
    eborense Sr. José Barata. In _Serões_, Junho de (1)907)

    O menino Jesus será obra de Machado de Castro?]

    SEXTILHAS A UM MENINO JESUS D'EVORA

    _A João Barreira_

    «Em Evora vi um menino…
    …Que a dois annos não chegava
    …Era de maravilhar»…

    Garcia de Rezende. _Miscellanea._

    Num convento solitario
    D'Evora, cidade clara,
    Claro celleiro de pão,
    Existe uma imagem rara
    Obra dum imaginario
    Dos tempos que já lá vão…

    É um menino Jesus,
    De bochechinha brunida
    Côr de maçã camoeza,
    Mas no seu rosto transluz
    Uma expressão dolorida
    Que enche a gente de tristeza…

    De tantissimas imagens
    Nenhuma vi que mais prenda,
    Que maior ternura expanda,
    Com suas calças de renda,
    Seu vestido de ramagens,
    –E corôa posta á banda…

    Gordo, nedio, bem trajado,
    Deveria ser feliz,
    Deveria estar sorrindo;
    Mas o seu olhar maguado,
    Tão maguado, tão lindo,
    Que não o é, bem n'o diz…

    Se não fosse por ser Deus
    E o seu poder infinito
    Ter sempre que o demonstrar,
    Cá na terra e lá nos ceus,
    Estenderia o beicito
    –E desatava a chorar!…

    Corre o tempo descuidado,
    Passa uma hora, outra hora,
    Atraz desta outras se vão
    E, quem o vê, encantado,
    Sem se poder ir embora
    Numa perpetua attração…

    Eu entrei com sol a pino.
    Pouco depois da chegada
    (Pouco a mim me pareceu)
    Deixei de ver o Menino…
    Não era a vista cançada,
    –Foi a noite que desceu…

    Mesmo assim lá ficaria
    Absorto em muda prece
    De quem mal sabe rezar,
    Se o sacristão não viesse,
    Com rodas de Senhoria,
    Dizer-me que ia fechar…

    Pudesse tel-o trazido
    E não fosse eu rico, apenas
    De phantasias, d'esp'ranças,
    Punha-o num nicho florido
    Por sobre as camas pequenas
    Dum hospital de creanças…

    Dum hospital modelar
    Sustentado por meus bens,
    Entre olaias e roseiras,
    Cheio de sol, cheio d'ar,
    E em que as boas enfermeiras
    –Seriam as proprias mães…

    A mais ampla enfermaria
    Desse escolhido local
    De bondade e soffrimento
    –Era o fundo natural
    Da funda melancolia
    Do Menino do convento…

    BALLADA DA NEVE

    Il pleure dans mon coeur
    Comme il pleut sur la ville.

    Verlaine

    _A Vicente Arnoso_

    Batem leve, levemente
    Como quem chama por mim…
    Será chuva? Será gente?
    Gente não é certamente
    E a chuva não bate assim…

    É talvez a ventania;
    Mas ha pouco, ha poucochinho,
    Nem uma agulha bolia
    Na quieta melancolia
    Dos pinheiros do caminho…

    Quem bate assim levemente
    Com tão estranha leveza
    Que mal se ouve, mal se sente?…
    Não é chuva, nem é gente,
    Nem é vento com certeza.

    Fui ver. A neve cahia
    Do azul cinzento do ceu
    Branca e leve, branca e fria…
    –Ha quanto tempo a não via!
    E que saudades, Deus meu!

    Olho-a atravez da vidraça.
    Poz tudo da côr do linho.
    Passa gente e quando passa
    Os passos imprime e traça
    Na brancura do caminho…

    Fico olhando esses signaes
    Da pobre gente que avança
    E noto, por entre os mais,
    Os traços miniaturais
    Duns pézitos de creança…

    E descalcinhos, doridos…
    A neve deixa inda vel-os
    Primeiro bem definidos,
    –Depois em sulcos compridos,
    Porque não podia erguel-os!…

    Que quem já é peccador
    Soffra tormentos, emfim!
    Mas as creanças, Senhor,
    Porque lhes daes tanta dôr?!…
    Porque padecem assim?!…

    E uma infinita tristeza
    Uma funda turbação
    Entra em mim, fica em mim prêsa.
    Cae neve na natureza…
    –E cae no meu coração.

    TOADA PARA AS MÃES ACALENTAREM OS FILHOS

    _A Bertha Cayolla Gil Vianna_, minha sobrinha

    Oh Desgraça! vae-te embora,
    Que esta linda criancinha
    Andou no meu ventre e agora
    Trago-a nos braços. É minha!…

    Do berço, segue-me os passos;
    Onde eu vou, seus olhos vão…
    E quando a aperto nos braços
    –Abraço o meu coração.

    Quando o seu chôro receio,
    Embalo-a, faço que acceite
    A alegria do meu seio
    Na brancura do meu leite…

    E quando assim não descança,
    Que tristezas me consomem!
    –Mas antes chore em creança
    Que depois, quando fôr homem…

    Se ao dal-o ao mundo soffri
    Tormentos, ancias mortaes,
    Desgraça, vae-te d'aqui,
    O que pretendes tu mais?!

    Bate as azas, mas ao voares,
    Não me apagues esta estrella.
    Se alguem d'aqui precisares,
    –Aqui me tens, em vez della!

    Tocam ás ave-marias.
    Foi-se o sol. Não vem a lua.
    Luzinha que me allumias,
    Que sorte será a tua?…

    Riquezas tenhas tão grandes,
    E tal bondade tambem,
    Que ao redor d'onde tu andes
    Não fique pobre ninguem.

    Que a todos chegue a ventura:
    Toda a bocca tenha pão,
    Toda a nudez cobertura,
    Toda a dôr, consolação…

    Mas se o oiro é mau caminho,
    –Antes tu venhas a ser
    O pobre mais pobrezinho
    De quantos pobres houver.

    Iremos por esses montes
    Altos e azues, como os céus…
    Que onde ha fructos e onde ha fontes,
    –Está a meza de Deus!

    E, quando a neve cahir
    E as seivas adormecerem,
    Iremos então pedir…
    (Acceitar o que nos derem!)

    Andaremos á mercê
    Dos genios bons, e dos falsos,
    Leguas e leguas a pé,
    Rotinhos, magros, descalços…

    E onde houver urzes e tojos,
    Pedras que rasgam a pelle,
    Porei o corpo de rôjos
    –Passarás por cima delle!

    Dorme, dorme, meu menino,
    Foi-se o sol. Nasceu a lua.
    Qual será o teu destino?
    Que sorte será a tua?…

    Se um crime tens de fazer,
    Antes fique vago um throno,
    Antes um palacio a arder,
    –Do que uma enxada sem dono…

    Se, porém, no teu destino,
    Ha tão cruentos signaes,
    Dorme, dorme, meu menino,
    –Não tornes a acordar mais!

    O NOSSO LAR

    _A Antonio Arroyo_

    «Sonhar a vida é apenas entretel-a.
    Partamos della para nós, senão
    Lá vae o coração para uma estrella
    E fica a gente sem o coração!»

    _GUEDES TEIXEIRA_. _Esperança Nossa_

    Quem vir–como eu os vejo–decorrer
    Annos e annos duma vida rasa
    Em miseraveis quartos d'aluguer,

    Frios no inverno e no estío em braza,
    –A um amôr sonhado de mulher
    Allía sempre o sonho duma casa…

    O aspecto duma casa raro mente,
    A côr, as linhas duma frontaria
    Dão logo a perceber nitidamente,

    Melhor do que um vizinho o contaria,
    O genio e a indole da gente
    Que nella tem o lar, a moradia.

    Vejam esses _cottages_ tanto em moda
    Entre os inglezes e os capitalistas,
    Com grades no jardim, a toda a roda…

    Impenetraveis ás alheias vistas…
    Não abrem nunca uma janella toda…
    São mudos, graves, individualistas.

    E aquelles caixotões de pedra e cal
    Que surgem ao formar-se um bairro novo,
    No constante engordar da Capital,

    (O que eu, aliás, muito aprecio e louvo…)
    –Não mostram bem, com o seu ar banal,
    A falta de caracter deste povo?

    Quando uma santa e pobre rapariga,
    Em cujo olhar se abranda o meu soffrer
    E a cujo coração o meu se liga,

    Puder chegar a ser minha mulher,
    Eu quero então que a nossa casa diga
    Bondade e alegria de viver.

    Terá um só andar. Grandes alturas
    Causam vertigens, trazem ambições.
    Os sonhos de riqueza e d'aventuras

    Enchem as almas de desillusões.
    A f'licidade vem ás creaturas
    Da pacificação dos corações.

    As portas sem degraus. Que sejam rentes
    Da terra. Portas largas e rasgadas,
    Convidativas, francas, attrahentes;

    Ao rez da terra, para as aleijadas
    e os tropegos velhinhos indigentes
    Se não cançarem a subir escadas…

    Amplas janellas para a natureza.
    Que o sol na sua clara irradiação
    Dissipe atravez dellas a tristeza;

    Amplas–e baixas. Quem precise pão,
    E o vir da rua sobre a nossa meza,
    Que estenda o braço, que lhe lance a mão…

    Ao lado um horto e um jardim fragrante,
    Sem grades aguçadas para o céu.
    A grade é agressiva, hostilisante,

    E sempre a impressão cruel me deu
    Dum dono que bradasse ao caminhante:
    –Tudo isto aqui é meu, sómente meu…

    Sem gradeamento. Um murosito apenas
    Revestido de rosas de toucar,
    De ariolas, de glicinias, de verbenas.

    Muro d'onde os que forem a passar
    Vejam lilazes, cravos, assucenas…
    –E a paz, a doce paz do nosso lar.

    O QUE O FOGO POUPOU DUM POEMETO QUEIMADO

    _Ao Conego Manuel do Nascimento Simão_

    I

    Escrevo em testamento este poema
    Que elle tenha, na angustia com que o ligo,
    O brilho rutilante duma gemma
    Achada nos farrapos dum mendigo…

    Ao vesperal crepusculo da vida
    E sob o olhar da morte é que o componho;
    Erguendo assim, por minha despedida,
    O ultimo escalão dum alto sonho.

    Nesse degrau que d'entre os soes dispersos
    Hade attingir a cúpula dos céus,
    Direi ao mundo os derradeiros versos,
    Porei o coração nas mãos de Deus!

    E as mãos de Deus que os astros têm guiado
    Como se leve pluma cada um fôra,
    Hão de o sentir pesar, sollicitado
    Pelo logar da terra onde ella móra…

    II

    …Sei lá pintar!
    Se eu soubesse pintar, era pintor.

    _Guedes Teixeira_

    Na mais alta cidade portuguêsa
    Nasceu, para abrandar meu fundo mal,
    A mais santa, a mais cheia de pureza
    Das moças deste lindo Portugal.

    Os seus olhos são tristes e suggerem
    Todo um passado de resignação.
    São tristes, certamente por não verem
    O rosto incomparavel onde estão…

    A voz é clara como as assucenas
    E dolorida, candida, modesta.
    É dolorida, porque sente penas
    D'abandonar a sua bocca honesta…

    O riso, que é em nótulas delidas
    Vibra em seus labios tão rapidamente
    Como um beijo d'amor, ás escondidas,
    Na curva duma estrada em que vem gente…

    A mão della, uma vez, poisou na minha;
    Pareceu-me ao sentir-lhe a commoção,
    Que era o seu proprio coração que eu tinha
    A palpitar dentro da minha mão…

    Se passa, ás tardes, e de traz cahindo,
    O sol abraza os longes da paizagem,
    A sombra que em sua frente vae seguindo
    É a luz–a abrir-se, p'ra lhe dar passagem…

    Se passa, acalma os corações maguados
    Como outr'ora as parabolas de Christo
    Acalmavam a dôr aos desgraçados.
    Acalma os corações?! Não… não é isto.

    As estrophes d'amor, a quem o sinta,
    Dão um trabalho cheio de tormento;
    O tenebroso liquido da tinta
    Apaga, rouba a côr ao sentimento.

    Quiz celebrar dum modo original
    As finas graças do seu corpo. Errei-as.
    Oh Fórma! És como um fato d'hospital.
    Palavras! Sois a nevoa das ideias…

    MELODIA CONFIDENCIAL

    (De Albert Samain)

    _A L.C._

    Num andamento
    Discreto, lento,
    Mal se ouve o pêndulo lavrado e antigo.

    Vamos vogando
    No lago brando
    E sem limites do silencio amigo…

    O ultimo e cavo
    Accorde do cravo
    Ficou vibrando exclamativamente.

    E, em espiral
    Ascencional,
    Cingiu-nos num abraço enlanguescente.

    Na alcatifa macia
    Entrou na agonia
    Uma rosa sedenta e abandonada,

    E a ambos nos invade
    A mistica vontade
    D'entrar na morte, no não ser, no nada…

    Com seu docel vermelho
    Forrado d'oiro velho,
    Que evoca velhas eras d'esplendor,

    O leito pesado,
    Como um deus concentrado,
    Remembra obscuramente o nosso amor…

    Na atmosphera morna
    O teu corpo entorna
    Um perfume subtil, sensual, complexo,

    Aroma inapagavel,
    Philtro informulavel
    Gerado á chama clara do teu sexo.

    Teus olhos silentes
    E transparentes
    Teem, no fundo, verdes melancolicos,

    E as brazas do fogão,
    Já quasi extinctas, dão
    Clarões hypnotisantes e symbolicos…

    Amêmo-nos assim
    Com um amor sem fim,
    Verdadeiro na carne e nas ideias;

    P'los dedos enlaçados
    Sejamos penetrados
    D'amor, até ás mais miudinhas veias.

    Em extasis intensos
    Quedemo-nos suspensos
    Por sobre a terra ironica e brutal

    Sem nada saber,
    Sem nada ver,
    –Numa vida isolada e musical…

    Não fales. Não?
    Ou se o fizer's, então
    Que seja de vagar, muito baixinho,

    Numa toada, leve
    Como o halito breve
    Duns labios d'anjo numa pel' d'arminho…

    O PASSEIO DE SANTO ANTONIO

    _A Columbano_

    La fleur des traditions nationales est flétrie. Mais libre a tous
    de puiser, dans l'herbier cosmopolite des legendes, les admirables
    pretextes à fiction qu'il recèle.

    (_Litterature à Tout á L'Heure_.)

    Sahira Santo Antonio do convento,
    A dar o seu passeio costumado
    E a decorar, num tom rezado e lento,
    Um candido sermão sobre o peccado.

    Andando, andando sempre, repetia
    O divino sermão piedoso e brando,
    E nem notou que a tarde esmorecia,
    Que vinha a noite placida baixando…

    E andando, andando, viu-se num outeiro,
    Com arvores e casas espalhadas,
    Que ficava distante do mosteiro
    Uma legua das fartas, das puxadas.

    Surprehendido por se vêr tão longe,
    E fraco por haver andado tanto,
    Sentou-se a descançar o bom do monge,
    Com a resignação de quem é santo…

    O luar, um luar clarissimo nasceu.
    Num raio dessa linda claridade
    O Menino Jesus baixou do céu,
    Poz-se a brincar com o capuz do frade.

    Perto, uma bica d'agua murmurante
    Juntava o seu murmurio ao dos pinhaes.
    Os rouxinoes ouviam-se distante.
    O luar, mais alto, illuminava mais.

    De braço dado, para a fonte, vinha
    Um par de noivos todo satisfeito.
    Ella trazia ao hombro a cantarinha,
    Elle trazia… o coração no peito.

    Sem suspeitarem de que alguem os visse,
    Trocaram beijos ao luar tranquillo.
    O menino, porém, ouviu e disse:
    –Oh Frei Antonio, o que foi aquillo?…

    O santo, erguendo a manga de burel
    Para tapar o noivo e a namorada,
    Mentiu numa voz doce como o mel:
    –Não sei que fosse. Eu cá não ouvi nada…

    Uma risada limpida, sonora,
    Vibrou com timbres d'oiro no caminho.
    –Ouviste, Frei Antonio? Ouviste agora?
    –Ouvi, Senhor, ouvi. É um passarinho…

    –Tu não estás com a cabeça boa…
    Um passarinho a cantar assim!…
    E o pobre Santo Antonio de Lisboa
    Calou-se embaraçado, mas por fim,

    Córado como as véstes dos cardeaes,
    Achou esta sahida redemptora:
    –Se o Menino Jesus pregunta mais,
    …Queixo-me á sua mãe, Nossa Senhora!

    Voltando-lhe a carinha contra a luz
    E contra aquelle amôr sem casamento,
    Pegou-lhe ao collo e acrescentou: Jesus,
    São horas…
    –E abalaram p'r'ó convento.

    UM GRÃO DE INCENSO

    _A Lourenço Cayolla_

    Entraste com ar cançado
    Numa egreja fria e triste.
    Ajoelhei-me ao teu lado
    –E nem ao menos me viste…

    Ficaste a rezar alli,
    Naquella immensa tristeza.
    Rezei tambem, mas a ti,
    –Que aos anjos tambem se reza…

    Ficaste a rezar até
    Manhã dentro, manhã alta.
    Como é que tens tanta fé
    –E a caridade te falta?…

    A MÁSCARA

    _A Santos Tavares_

    Por acaso, parou na minha frente,
    De _loup_ e dóminó de seda negra,
    Uma mulher d'olhar resplandecente
    E mento breve de figura grega.

    Tomei-lhe as mãos esguias entre as minhas…

    E os seus olhos doirados reluziram
    Como os punhaes ao sol, quando se tiram,
    Aguçados e frios, das bainhas.

    –Máscara, quem és tu?

    –E tu quem és?…

    –Um homem que te viu e te deseja…

    E um riso vago, de desdem talvez,
    Floriu na sua bocca de cereja.

    Ergui-lhe as mãos asceticas. Beijei-as.

    Em vibrações entrecortadas, sêccas,
    Tiniam taças irisadas, cheias.
    E uma phrase d'amôr, toda em colcheias,
    Vibrava nas arcadas das rebecas.

    Levei-a para o vão duma janella.
    –Máscara, quem és tu?

    –Para que insistes?…

    Outro riso subiu da bocca della
    Aos olhos enigmaticos e tristes.

    E descobriu a face. No capuz
    Emoldurou-se um rosto lindo e sério.

    Que differente porém do que eu supuz!

    A gente nunca deve entrar com luz
    Nos divinos recantos do misterio…

    IN PROMPTUM PASTORAL

    _A Amadeu de Freitas_

    «Muito vence quem se vence
    Muito diz quem não diz tudo,
    Porque a um discreto pertence
    A tempo fazer-se mudo.»

    (_Copla do Infante D. Luiz_.)

    Sob este céu creador
    De manhã vergiliana,
    Apetece ser pastor
    E tocar frauta de cana;

    Não, pastor d'autos d'amor,
    D'eclogas frias e velhas,
    Mas verdadeiro pastor
    De verdadeiras ovelhas…

    Não conhecer o talento
    Nem nada do que se ensina.
    Esta dôr do entendimento
    É peor do que se imagina…

    Guiar o meu coração
    Num ingenuo christianismo.
    Esta civilisação
    É cheia de pessimismo…

    Comer pão negro, pão duro,
    Beber o leite das peáras.
    Pão de centeio é escuro,
    –Mas põe as almas ás claras…

    Amar alguma pastora
    Com palavras e com obras.
    Estas senhoras d'agora
    São mais falsas do que as cóbras…

    E vêr crear com carinho,
    Com cuidados infinitos,
    Á companheira, um filhinho…
    E ás ovelhas, borreguitos…

    MEDITAÇÕES SOBRE THEMAS DO ECCLESIASTES

    I

    _A Celestino Steffanina_

    Vaidade de vaidades, disse o Ecclesiastes: vaidade de vaidades, e
    tudo vaidade.

    (_Capit. I, v. 1_).

    Semeador de iniquidades,
    Porque é que mandas sobre os teus eguaes?!
    O mando o que é? _Vaidade de vaidades_,
    Fumo que ao desfazer-se engrossa mais…

    Oh minha vista o que é que foi que viste
    Cá neste mundo impiedoso e rudo?

    _Que só a vaidade existe_
    –Em todos nós, e em tudo!…

    II

    _A Israel Anahory_

    Todas as coisas são difficeis; o homem não as póde explicar com
    palavras. Os olhos não se fartam de vêr nem o ouvido se enche de
    escutar.

    (_Capit. I, v. 8_).

    Palavras são palavras… Nada dizem.
    Teias d'aranha que jámais impedem
    Que as ideias se escapem e deslizem…

    Nescios os homens são quando procedem
    Como quem a verdade sempre traja
    E nunca della se encontrou despido…

    Difficil é… o que mais simples haja
    –Quanto mais o que fôr mais escondido!…

    Para que uma verdade vá julgar,
    Para que um sentimento vá sentir,
    Olhos: não vos canceis nunca d'olhar
    E vós, ouvidos, não deixeis d'ouvir.

    Mas por fim
    Nem assim…

    O mais profundo pensamento
    É sempre insubsistente e aerio,
    Por que a todo o momento
    –Se perde no misterio…

    III

    _A José Barbosa_

    Que é o que foi? É o mesmo que hade ser. Que é o que se fez? É o
    mesmo que o que se hade fazer.

    Que é o que foi?
    –O mesmo que hade ser…

    A vida é como o passo egual dum boi
    Que vem dos campos ao anoitecer;
    Com o seu lento e resignado aspeito,
    Andou um passo, e logo um outro dá.

    _Tudo quanto foi feito
    De novo se fará_…

    IV

    _A Ladislau Patricio_

    Os olhos do sabio estão na sua cabeça: o insensato anda em trevas:
    e aprendi que era uma e mesma a morte dum e doutro.

    (_Capit. II, v. 14_)

    O sabio tem os olhos da razão
    Além desses que tu na fronte levas,
    Oh nescio que sem guia e sem bordão
    Vaes pela vida a caminhar nas trevas…

    (_E d'ahi? E depois?
    Se surge um incidente,
    Fere indistinctamente
    Ou ambos elles, ou qualquer dos dois_…)

    V

    _A Adelaide Gil, minha irmã_

    Todas as coisas caminham a um logar: de terra foram feitas e em
    terra se hão de tornar do mesmo modo.

    (_Capit. III, v. 3_).

    Mas o que é, afinal, a perfeição?
    Como é que tudo, oh sabios, evolue
    _Se as coisas todas caminhando vão
    Para um egual e unico logar,
    Se o pó que as constitue
    Em pó se hade tornar_?

    VI

    _A Eduardo Graça_

    Todas as coisas teem seu tempo e todas ellas passam debaixo do céu
    segundo o termo que a cada uma foi prescripto.

    (_Capit. III, v. 2_).

    Socega, coração attribulado,
    De toda a dôr se apaga todo o traço.
    Pois quanto ao mundo vem, traz já marcado
    _O seu tempo e tambem o seu espaço_…

    E queira Deus, coração,
    Que esta hora de anciedade
    E de pranto e d'afflicção
    –Nunca te cause saudade!…

    A CANÇÃO DAS PERDIDAS

    _A Vianna da Motta_

    I

    Quem por amôr se perdeu
    Não chore, não tenha pena.
    Uma das santas do céu
    –É Maria Magdalena…

    II

    Minha mãe foi o que eu sou.
    Eu sou o que tantas são.
    Que triste herança te dou,
    Filha do meu coração!

    III

    Meu pae foi para o degredo
    Era eu inda pequena.
    Se não morresse tão cedo,
    Morria agora–de pena…

    IV

    E ha no mundo quem afronte
    Uma mulher quando cae!
    Nasce agua limpa na fonte,
    Quem a suja é quem lá vae…

    V

    Aquelle que me roubou
    A virtude de donzella
    Se outra honra lhe não dou,
    –É porque só tive aquella!…

    VI

    Nós temos o mesmo fado,
    Oh fonte d'agua cantante,
    Quem te quer, pára um boccado.
    Quem não quer, pássa adeante…

    VII

    O meu amôr, por amal-o,
    Poz-me o peito numa chaga:
    Deu-me facadas. Deixal-o.
    Mas ao menos não me paga!

    VIII

    Nem toda a agua do mar
    Por estes olhos chorada
    Daria bem a mostrar
    O que eu sou de desgraçada!

    IX

    Como querem vêr contente
    Este paiz desgraçado,
    Se dão só livros á gente
    Nas escolas do peccado…

    X

    Dormia o meu coração
    Cançado de fingimento.
    Bateste-me, e vae então
    Acordou nesse momento.

    XI

    Se aquillo que a gente sente,
    Cá dentro, tivesse vóz,
    Muita gente… toda a gente
    Teria pena de nós!

    CARTA A UM RAPAZ SENTIMENTAL

    «Um mover d'olhos brando e piedoso
    Sem vêr de quê; um riso brando e honesto
    Quasi forçado; um doce e humilde gesto
    De qualquer alegria duvidoso

    * * * * *

    Um encolhido ousar; uma brandura,
    Um medo sem ter culpa; um ar sereno,
    Um longo e obediente soffrimento.

    * * * * *

    Camões

    Num quente e perturbante fim de tarde,
    Cujo magnetico e profundo enlevo
    Ainda agora em mim crepita e arde,
    Como se fosse a tarde em que te escrevo,

    Ergui os olhos distrahidamente,
    A ver se já brilhava alguma estrella
    No concavo do céu opalescente
    –E vi, numa varanda, os olhos della…

    Do episodio que acabo de contar-te
    Tão simples, tão banal, que dá vontade,
    Para lhe pôr um boccadinho d'arte,
    De lhe roubar um pouco de verdade,

    Foi que este amor espiritual nasceu,
    Nasceu, cresceu e se tornou eterno…
    Repara, amigo, como olhando o céu
    A gente, ás vezes, póde achar o inferno.

    Mas quem podia então adivinhal-o?
    O olhar dessa mulher era tão lindo
    Que deslumbrado me fiquei a olhal-o.
    Descera a noite. A lua ia subindo…

    Era lua cheia e, para mais, d'agosto;
    Dava em toda a varanda. Assim, eu via
    As fórmas portuguêsas do seu rosto
    Nitidamente, como á luz do dia.

    E cá dentro de mim senti nascer
    A dúvida, a incerteza, a hesitação
    Sobre o que mais desejaria ser:
    Se o noivo della, se o primeiro irmão…

    Uma estrella cadente reluziu
    Por sobre as torres da vizinha egreja,
    Pensei commigo: Deus o decidiu:
    É minha noiva que Elle quer que seja.

    Não dizia ventura, mas desgraça,
    A claridade do signal aereo.
    (Na mesma direcção da egreja, passa
    A rua que vae dar ao cemiterio…)

    Porém, como querendo agradecer-me
    A decisão que attribuira a Deus,
    Inclinou-se de leve para ver-me
    E os doces olhos demorou nos meus.

    Sob a caricia desse olhar cinzento,
    Que ao abaixar-se parecia negro,
    O coração que me batia lento,
    Mudou o andamento para alegro.

    Uma hora decorreu. Outras passaram.
    Passaram, foram-se; e naquelle enleio
    Que tempo os nossos olhos conversaram!…
    Estava a noite já em mais de meio.

    Vinha dos montes uma brisa ardente.
    O céu ganhára tons d'azul cobalto.
    O luar cahia silenciosamente.
    Na sombra, os rouxinoes cantavam alto.

    Arrependidos, ou então, cançados
    De se fitarem com demora em mim,
    Os seus olhos piedosos e sagrados
    Ao dialogo d'amor puzeram fim.

    Desviára-os; e entre as palpebras discretas,
    Poisára-os nas mãos claras e pequenas,
    Como se foram duas borboletas
    Voando para duas assucenas.

    Ergueu-se. O busto delicado e fino
    Tinha os suaves, religiosos traços
    Da Virgem num altar. Só o Menino
    Faltava na doçura dos seus braços…

    Num olhar impregnado de candura,
    Disse-me adeus e recolheu. Depois…
    A luminosa noite fez-se escura.
    Calaram-se na sombra os rouxinoes.

    Entrei em casa e quiz dormir. Raiára
    A madrugada sem que o conseguisse.
    Quem um sonho tão limpido sonhára,
    Inutil se tornava que dormisse…

    Annos felizes neste amor gastei.
    Vieram em seguida as horas más.
    O que nellas soffri, o que passei,
    Um dia, noutra carta, o saberás.

    MÃOS FRIAS CORAÇÃO QUENTE

    Dez da manhã. Vento da
    serra. Tres graus negativos

    _Mãos frias, coração quente_!
    Quanta vez isto dizias
    Com o teu ar sorridente,
    Apertando-me as mãos frias…

    Agora decerto o tenho
    Num brazeiro, num vulcão.
    O frio é tanto, é tamanho
    Que a penna cae-me da mão…

    Q'ria dizer-te o que penso
    E o que faço e premedito,
    Mas posso lá ser extenso
    Com este frio maldito!

    Tu perdoas certamente,
    Tu não te zangas, pois não?
    _Mãos frias, coração quente_
    –Lá diz o velho rifão…

    NOIVA

    _A João da Silva_

    «Anda a dôr dissimulada
    Mas ella dará seu fruito.»

    Crisfal

    «_Vae ser pedida. Casa qualquer dia._»

    (_Trecho duma carta_)

    Tive noticias hoje a teu respeito:
    «Vae ser pedida. Casa qualquer dia».
    E o coração tranquillo no meu peito
    –Continuou a bater como batia…

    Surpreso duma tal serenidade,
    Todo eu, intimamente, me sondava:
    Pois nem ciume? Nem sequer saudade?!
    –E nem ciumes, nem saudade achava…

    Saudades, não; que o teu amor antigo
    Guardam-no as cinzas (neste coração)
    Como em Pompeia aquelles grãos de trigo
    Que após centenas d'annos deram pão…

    Saudades! Mas de quê?! Pois não sei eu
    A lei antiga como o proprio mundo
    De que o prazer mal chega, já morreu,
    E só a dôr nas almas cava fundo?

    Causei-te longas horas d'amargura,
    Não consegues voltar a ser feliz;
    A chaga que te abri não terá cura,
    E se curar–lá fica a cicatriz.

    Á luz dum juramento que trahiste
    Tu has de vêr-me toda a vida pois.
    Ergueste-o a Deus num dia amargo e triste
    E Deus casou-nos esse dia, aos dois…

    Ciumes tambem não, por te venderes.
    Desgraçadinha! Antes te houvesses dado;
    Não descerias tanto entre as mulheres,
    Seria mais humano o teu peccado.

    Porém, embora a tua falta aponte,
    P'ra mim és a que foste (ou que eu suppuz);
    O sol desapparece no horisonte
    –E a gente vê-o ainda a dar-nos luz…

    Póde a desgraça erguer em frente a mim
    Altas montanhas d'elevados cumes.
    O sol do amôr doiral-as-ha, e assim,
    Vendo-o tão alto, não terei ciumes.

    Ciumes! _Elle_ é que hade tel-os, quando,
    Em claras noites de luar silente,
    Ouvir vibrar alguma voz, cantando
    Os versos que te fiz devotamente.

    Versos para te ungirem os ouvidos
    E os labios d'anemica e de santa,
    Tão pobres, tão ingenuos, tão sentidos,
    Que o povo humilde os acolheu e os canta.

    Então, se te olhar bem, logo adivinha…
    Logo sombriamente se convence
    De que a tua alma se fundiu na minha
    –E apenas o teu corpo lhe pertence.

    DE PROFUNDIS CLAMAVI AD TE DOMINE

    _Á Leo_

    Ao charco mais escuso e mais immundo
    Chega uma hora no correr do dia
    Em que um raio de sol, claro e jocundo,
    O visita, o alegra, o alumía;

    Pois eu, nesta desgraça em que me afundo,
    Nesta contínua e intérmina agonia,
    Nem tenho uma hora só dessa alegria
    Que chega ás coisas infimas do mundo!…

    Deus meu, acaso a roda do destino
    A movimentam vossas mãos leaes
    Num aceno impulsivo e repentino,

    Sem que na cega turbulencia a domem?!
    Senhor! Não é um seixo o que esmagaes;
    Olhae que é–_o coração dum homem_!…

    JOANNINHA

    _A Mayer Garção_

    Descance de quando em quando…
    Passar assim toda a tarde
    Sempre bordando, bordando,
    Sem que um momento desista,
    Até faz pena! Não lhe arde
    Nem se lhe perturba a vista?…

    Descance de quando em quando…
    Erga os olhos do bordado
    E veja quem vae passando.
    O trabalho alegra a gente,
    Mas assim, tão aturado,
    –Não lhe faz bem certamente.

    Erga a carinha tranquilla,
    Erga esse rosto tão lindo
    E veja os moços da villa
    A passarem por aqui,
    Uns descendo, outros subindo,
    –E todos d'olhos em si…

    Descance de quando em quando
    E veja se escolhe algum;
    Já é tempo d'ir pensando
    Em casar. Não é assim?…
    Se não lhe agrada nenhum,
    –Diga se gosta de mim.

    Desde os começos do outono
    Que eu a trago no sentido,
    Não como, não tenho sono,
    Tudo me dá ralação?
    Quer-me para seu marido?
    –Diga que sim ou que não…

    QUANDO AS ANDORINHAS PARTIAM…

    _A Cassianno Neves_

    Bocca talhada em milagrosas linhas,
    A luz augmenta com o seu falar.

    Esta manhã um bando de andorinhas
    Ia-se embora, atravessava o mar.

    Chegou-lhes ás alturas, pela aragem,
    Um adeus suave que ella lhes dissera,

    –E suspenderam todas a viagem,
    Julgando que voltára a primavera…

    A PARÁBOLA DO PUCARO D'AGUA

    Acreditaram os romanticos que a arte residia principalmente na
    disformidade. Se atravez das proprias dores descessem ás profundas
    realidades da vida, teriam observado que… o viver do povo encerra
    em si uma poesia sagrada. Sentil-a e mostral-a não é tarefa de
    machinista; para tal, não é necessario juntar-lhe effeitos
    theatraes.

    … O que é preciso é ter olhos para vêr na sombra, na pequenez e
    na humildade, é um coração que auxilie a vista nestes recessos do
    lar, nestas sombras de Rembrandt.

    _MICHELET_. _O Povo_

    _A Manuel Penteado_

    Buscava em algum assunto adrede
    A versos que inculcassem novidade,
    Quando uma intensa e irreprimivel sêde
    Me fez voltar do sonho á realidade.

    E pedi agua (já se vê) que veio
    Consoante é d'uzo cá por entre o povo
    Num pucaro de barro ingenuo e feio,
    Servindo-lhe de salva um prato côvo.

    Bebi o liquido dum trago só;
    E dito o «Deus te pague» habitual,
    Subi de novo a escada de Jacob
    No heroico intuito de escalar o ideal…

    Mas o idealismo é como a nevoa ondeante
    Que os rios erguem pela madrugada;
    O olhar destingue-a, quando está distante,
    E da que nos rodeia–não vê nada…

    De que serve afinal tentar a gente
    Reter, dentro das mãos, fumo de palha,
    Se aqui, aos nossos olhos, no existente,
    Ha tanta coisa que os attráia e valha?…

    A agua vinda neste vaso fragil
    Que um ignorado artista modelou
    Num gesto–já mechanisado e agil–
    Á força d'imitar o que encontrou,

    É um assunto cheio de belleza,
    Cheio de claro e alto ensinamento.
    Assim na branda fala portuguêsa
    O désse eu, como o tenho em pensamento!…

    A agua é como a esp'rança
    Que a tudo se sujeita…
    Onde quer que se deita
    Lá fica humildemente acommodada,
    Seja a concha da mão duma creança,
    Ou a taça lendaria da ballada…

    Tanto sacia
    Num vaso tyrrêno dos da antiga Roma
    (Que um só valia
    O rútilo oiro d'avaro banqueiro)
    Como a que se toma
    Na argilla porosa,
    Alegre trabalho dum simples oleiro…

    E é
    Até
    Bem mais saborosa
    No barro suarento
    Deixado á janella,
    Que num opulento
    Copo lavrado
    Que seja pertença de rica baixella
    E sonho gentil, cinzel phantasista
    Dalgum grande artista
    Dos raros d'agora, ou do tempo afastado…

    Bichos humanos, féras em pé,
    Sêde bondosos como a agua o é…

    No luzente alcantil da magnitude,
    Ou no áspero declive da pobreza,
    Nunca cerreis o espirito á virtude,
    Nunca fecheis os olhos á belleza.
    Que todo o coração,
    Desde o sabio de genio ao cavador,
    Seja o Calix de paz e de perdão
    Contendo a agua limpida e lustral
    Dum irmanado e perpetuo amôr…

    Agua que limpe a mácula do mal
    E mitigue a miseria, a ancia, a magua
    Desta cruenta e impiedosa guerra
    Em que tantas creaturas se consomem.

    Nem só da agua
    Que vem da terra
    Tem sêde o homem…

    Nasce uma fonte
    Rumurejante
    Na encosta dum monte;

    E mal que do seio
    Da terra brotou,
    Logo o seu veio
    Transparente
    E diligente
    Buscou e achou
    Mais baixo logar…

    E sempre descendo,
    E sempre a cantar,
    Vae andando,
    Galgando,
    Vencendo,
    (Ou tenta vencer…)
    Folha, raíz, areia, o que tolher
    A sua descida…

    Ao brotar da dura frágoa
    –É uma lagrima d'agua…

    Mas esse humilde fiozinho,
    Que um destino bom impelle,
    Encontra pelo caminho
    Um outro que é como elle…

    Reunem-se, fundem-se os dois,
    Proseguem de companhia,
    E fica dupla depois
    A força que os leva e guia…

    Junta-se aos dois um terceiro,
    Outros confluindo vão,
    E o regato é já ribeiro
    E o ribeiro é rio então…

    E nada agora o domina
    Ao fiozinho da fonte.
    Entre collina e collina,
    Ou entre um monte e outro monte,

    Caminha sem descançar,
    Circula atravez do mundo
    –Até á beira do mar
    Omnipotente e profundo…

    Da altura em que estejaes (ou vos pareça;
    A vaidade é uma amante enganadora)
    Que o mais alto de vós se humilhe e desça
    Como se humilde e pobre sempre fôra…

    E que os demais desçam tambem de todo
    O orgulho e mando sobre escravas gentes
    Até ao valle, de lagrimas e lôdo
    Onde a miseria brada e range os dentes.

    E como as aguas que se vão juntando
    E juntas, e cantando, vão descendo,
    Reuni o choro derramado, quando
    Atravessardes esse valle horrendo.

    E o atoleiro que se havia feito
    No val, dantesco, pútrido, sombrio,
    Mudar-se-ha no irrigante leito
    Dum fertilisador e claro rio;

    E o rio, andando, andando, hade alargar
    –Com biliões de lagrimas vertidas–
    Num infinito e luminoso mar
    De novas e amplas e cantantes vidas!

    Outubro de 1909.

    INDICE

    Prefacio
    Dedicatoria
    Luar de Janeiro
    Sextilhas a um menino Jesus d'Evora
    Ballada da Neve
    Toada para as mães acalentarem os filhos
    O nosso lar
    O que o fogo poupou dum poemeto queimado
    Melodia confidencial
    O passeio de Santo Antonio
    Um grão de incenso
    A máscara
    In promptum pastoral
    Meditações sobre themas do Ecclesiastes
    A canção das perdidas
    Carta a um rapaz sentimental
    Mãos frias coração quente
    Noiva
    De profundis clamavi ad te domine
    Joanninha
    Quando as andorinhas partiam
    A parábola do pucaro d'agua

    Acabado de imprimir aos trinta e um de dezembro de 1909 em Lisboa, na
    Typographia do Commercio, Rua da Oliveira, 10, ao Carmo.

  • Livro de Máguas

    Livro de Máguas

    Aproximadamente 3.482 palavras.

    Produced by Rita Farinha and the Online Distributed
    Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This file was
    produced from images generously made available by National
    Library of Portugal (Biblioteca Nacional de Portugal).)

    FLORBELA ESPANCA

    Livro de Máguas

    MCMXIX

    LIVRO DE MÁGUAS

    FLORBELA ESPANCA

    LIVRO DE MÁGUAS

    MCMXIX

    _A meu Pai_

    Ao meu melhor amigo

    Á querida Alma irmã da minha,

    _Ao meu Irmão_

    Procuremos sòmente a Beleza, que a vida
    É um punhado infantil de areia resequida,
    Um som dágua ou de bronze e uma sombra que passa…

    Eugénio de Castro.

    Isolés dans l'amour ainsi qu'en un bois noir,
    Nos deux coeurs, exalant leur tendresse paisible,
    Seront deux rossignols qui chantent dans le soir.

    Verlaine.

    *Êste livro*…

    ÊSTE LIVRO…

    Êste livro é de máguas. Desgraçados
    Que no mundo passais, chorae ao lê-lo!
    Sòmente a vossa dor de Torturados
    Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo…

    Este livro é p'ra vós, Abençoados
    Os que o sentirem, sem sêr bom nem belo!
    Bíblia de tristes… Ó Desventurados,
    Que a vossa imensa dôr se acalme ao vê-lo!

    Livro de Máguas… Dôres… Ansiedades!
    Livro de Sombras… Névoas… e Saudades!
    Vai pelo mundo… (Trouxe-o no meu seio…)

    Irmãos na Dôr, os olhos razos de agua,
    Chorae comigo a minha imensa mágua,
    Lendo o meu livro só de máguas cheio!…

    *Vaidade*

    VAIDADE

    Sonho que sou a Poetisa eleita,
    Aquela que diz tudo e tudo sabe,
    Que tem a inspiração pura e perfeita,
    Que reúne num verso a imensidade!

    Sonho que um verso meu tem claridade
    Para encher todo o mundo! E que deleita
    Mesmo aqueles que morrem de saudade!
    Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

    Sonho que sou Alguem cá neste mundo…
    Aquela de saber vasto e profundo,
    Aos pés de quem a terra anda curvada!

    E quando mais no ceu eu vou sonhando,
    E quando mais no alto ando voando,
    Acordo do meu sonho…
    E não sou nada!…

    *Eu*…

    EU…

    Eu sou a que no mundo anda perdida,
    Eu sou a que na vida não tem norte,
    Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
    Sou a crucificada… a dolorida…

    Sombra de névoa ténue e esvaecida,
    E que o destino amargo, triste e forte,
    Impele brutalmente para a morte!
    Alma de luto sempre incompreendida!…

    Sou aquela que passa e ninguem vê…
    Sou a que chamam triste sem o sêr…
    Sou a que chora sem saber porquê…

    Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
    Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
    E que nunca na vida me encontrou!

    *Castelã da Tristêsa*

    CASTELÃ DA TRISTÊSA

    Altiva e couraçada de desdem,
    Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
    Passa por êle a luz de todo o amôr….
    E nunca em meu castelo entrou alguem!

    Castelã da Tristêsa, vês?… A quem?!…
    –E o meu olhar é interrogadôr–
    Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr…
    Chora o silêncio… nada… ninguem vem…

    Castelã da Tristêsa, porque choras
    Lendo, toda de branco, um livro de oras,
    Á sombra rendilhada dos vitrais?…

    Á noite, debruçada p'las ameias,
    Porque rezas baixinho?… Porque anseias?…
    Que sonho afagam tuas mãos reais?…

    *Tortura*

    TORTURA

    Tirar dentro do peito a Emoção,
    A lucida Verdade, o Sentimento!
    –E ser, depois de vir do coração,
    Um punhado de cinza esparso ao vento!…

    Sonhar um verso d'alto pensamento,
    E puro como um rythmo d'oração!
    –E ser, depois de vir do coração,
    O pó, o nada, o sonho dum momento!…

    São assim ôcos, rudes, os meus versos:
    Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
    Com que eu iludo os outros, com que minto!

    Quem me déra encontrar o verso puro,
    O verso altivo e forte, extranho e duro,
    Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

    *Lágrimas ocultas*

    LÁGRIMAS OCULTAS

    Se me ponho a scismar em outras éras
    Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
    Parece-me que foi noutras esféras,
    Parece-me que foi numa outra vida…

    E a minha triste bôca dolorida
    Que dantes tinha o rir das primavéras,
    Esbate as linhas graves e severas
    E cae num abandôno de esquecida!

    E fico, pensativa, olhando o vago…
    Toma a brandura plácida dum lago
    O meu rôsto de monja de marfim…

    E as lágrimas que choro, branca e calma,
    Ninguem as vê brotar dentro da alma!
    Ninguem as vê cair dentro de mim!

    *Torre de névoa*

    TORRE DE NÉVOA

    Subi ao alto, á minha Torre esguia,
    Feita de fumo, névoas e luar,
    E puz-me, comovida, a conversar
    Com os poetas mortos, todo o dia.

    Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
    Dos versos que são meus, do meu sonhar,
    E todos os poetas, a chorar,
    Responderam-me então: «Que fantasia,

    Creança doida e crente! Nós tambêm
    Tivemos ilusões, como ninguem,
    E tudo nos fugiu, tudo morreu!…»

    Calaram-se os poetas, tristemente…
    E é desde então que eu choro amargamente
    Na minha Torre esguia junto ao Ceu!…

    *A minha Dôr*

    A MINHA DÔR

    _A Você_

    A minha Dôr é um convento ideal
    Cheio de claustros, sombras, arcarias,
    Aonde a pedra em convulsões sombrias
    Tem linhas dum requinte escultural.

    Os sinos teem dobres d'agonias
    Ao gemer, comovidos, o seu mal…
    E todos teem sons de funeral
    Ao bater horas, no correr dos dias…

    A minha Dôr é um convento. Ha lírios
    Dum roxo macerado de martírios,
    Tão belos como nunca os viu alguem!

    Nesse triste convento aonde eu móro,
    Noites e dias reso e grito e chóro!
    E ninguem ouve… ninguem vê… ninguem…

    *Dizêres íntimos*

    DIZÊRES INTIMOS

    É tão triste morrer na minha idade!
    E vou ver os meus olhos, penitentes
    Vestidinhos de rôxo, como crentes
    Do soturno convento da Saudade!

    E logo vou olhar (com que ansiedade!…)
    As minhas mãos esguias, languescentes,
    De brancos dedos, uns bébés doentes
    Que hão de morrer em plena mocidade!

    E ser-se novo é ter-se o Paraiso,
    É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
    Aonde tudo é luz e graça e riso!

    E os meus vinte e tres anos… (Sou tão nova!)
    Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!…»
    Responde a minha Dôr: «Que linda a cova!»

    *As minhas Ilusões*

    AS MINHAS ILUSÕES

    Hora sagrada dum entardecer
    D'Outono, á beira mar, côr de safira.
    Sôa no ar uma invisivel lira…
    O sol é um doente a enlanguescer…

    A vaga estende os braços a suster,
    Numa dôr de revolta cheia de ira,
    A doirada cabeça que delira
    Num último suspiro, a estremecer!

    O sol morreu… e veste luto o mar…
    E eu vejo a urna d'oiro, a baloiçar,
    Á flôr das ondas, num lençol d'espuma!

    As minhas Ilusões, dôce tesoiro,
    Tambem as vi levar em urna d'oiro,
    No Mar da Vida, assim… uma por uma…

    *Neurastenia*

    NEURASTENIA

    Sinto hoje a alma cheia de tristesa!
    Um sino dobra em mim, Ave Marias!
    Lá fôra, a chuva, brancas mãos esguias,
    Faz na vidraça rendas de Venesa…

    O vento desgrenhado, chora e resa
    Por alma dos que estão nas agonias!
    E flocos de neve, aves brancas, frias,
    Batem as azas pela Natureza…

    Chuva… tenho tristesa! Mas porquê?!
    Vento… tenho saudades! Mas de quê?!
    Ó neve que destino triste o nosso!

    Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
    Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
    Digam isto que sinto que eu não posso!!…

    *Pequenina*

    PEQUENINA

    _Á Maria Helena Falcão Risques_

    És pequenina e ris… A bôca breve
    É um pequeno idílio côr de rosa…
    Haste de lírio frágil e mimosa!
    Cofre de beijos feito sonho e neve!

    Dôce quimera que a nossa alma deve
    Ao Ceu que assim te fez tão graciosa!
    Que nesta vida amarga e tormentosa
    Te fez nascer como um perfume leve!

    O ver o teu olhar faz bem á gente…
    E cheira e sabe, a nossa bôca, a flôres
    Quando o teu nome diz, suavemente…

    Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
    Que ela afaste de ti aquelas dôres
    Que fizeram de mim isto que sou!

    *A Maior Tortura*

    A MAIOR TORTURA

    _A um grande poeta de Portugal_

    Na vida, para mim, não ha deleite.
    Ando a chorar convulsa noite e dia…
    E não tenho uma sombra fugidía
    Onde poise a cabeça, onde me deite!

    E nem flôr de lilaz tenho que enfeite
    A minha atroz, imensa nostalgia!…
    A minha pobre Mãe tão branca e fria
    Deu-me a beber a Magua no seu leite!

    Poeta, eu sou um cardo despresado,
    A urze que se pisa sob os pés.
    Sou, como tu, um riso desgraçado!

    Mas a minha tortura inda é maior:
    Não ser poeta assim como tu és,
    Para gritar num verso a minha Dôr!…

    *A Flôr do Sonho*

    A FLÔR DO SONHO

    A Flôr do Sonho alvissima, divina
    Miraculosamente abriu em mim,
    Como se uma magnolia de setim
    Fosse florir num muro todo em ruina.

    Pende em meio seio a haste branda e fina
    E não posso entender como é que, emfim,
    Essa tão rara flôr abriu assim!…
    Milagre… fantasia… ou talvez, sina…

    Ó Flôr que em mim nascêste sem abrolhos,
    Que tem que sejam tristes os meus olhos
    Se eles são tristes pelo amôr de ti?!…

    Desde que em mim nascêste em noite calma,
    Voou ao longe a aza da minh'alma
    E nunca, nunca mais eu me entendi…

    *Noite de Saudade*

    NOITE DE SAUDADE

    A Noite vem poisando devagar
    Sobre a terra que inunda de amargura…
    E nem sequer a benção do luar
    A quiz tornar divinamente pura…

    Ninguem vem atraz dela a acompanhar
    A sua dôr que é cheia de tortura…
    E eu oiço a Noite imensa soluçar!
    E eu oiço soluçar a Noite escura!

    Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!
    É que, talvez, ó Noite, em ti existe
    Uma Saudade egual á que eu contenho!

    Saudade que eu nem sei donde me vem…
    Talvez de ti, ó Noite!… Ou de ninguem!…
    Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

    *Angustia*

    ANGUSTIA

    Tortura do pensar! Triste lamento!
    Quem nos déra calar a tua voz!
    Quem nos déra cá dentro, muito a sós,
    Estrangular a hidra num momento!

    E não se quer pensar!… E o pensamento
    Sempre a morder-nos bem, dentro de nós…
    Qu'rer apagar no Ceu–Ó sonho atroz!–
    O brilho duma estrela, com o vento!…

    E não se apaga, não… nada se apaga!
    Vem sempre rastejando como a vaga…
    Vem sempre perguntando. «O que te resta?…»

    Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
    Ser pedaço de gelo, ser granito,
    Ser rugido de tigre na floresta!

    *Amiga*

    AMIGA

    Deixa-me ser a tua amiga, Amôr;
    A tua amiga só, já que não queres
    Que pelo teu amôr seja a melhor
    A mais triste de todas as mulheres.

    Que só, de ti, me venha mágua e dôr
    O que me importa a mim?! O que quiséres
    É sempre um sonho bom! Seja o que fôr
    Bemdito sejas tu por m'o dizêres!

    Beija-me as mãos, Amôr, devagarinho…
    Como se os dois nascessemos irmãos,
    Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho…

    Beija-mas bem!… Que fantasia louca
    Guardar assim, fechados, nestas mãos,
    Os beijos que sonhei p'rá minha bôca!…

    *Desejos vãos*

    DESEJOS VÃOS

    Eu qu'ria ser o Mar d'altivo porte
    Que ri e canta, a vastidão imensa!
    Eu qu'ria ser a pedra que não pensa,
    A Pedra do caminho, rude e forte!

    Eu qu'ria ser o Sol, a luz intensa,
    O bem do que é humilde e não tem sorte!
    Eu qu'ria ser a arvore tôsca e densa
    Que ri do mundo vão e até da morte!

    Mas o Mar tambêm chora de tristesa…
    As Arvores tambêm, como quem resa,
    Abrem, aos Ceus, os braços, como um crente!

    E o Sol altivo e forte, ao fim dum dia,
    Tem lágrimas de sangue na agonia!
    E as Pedras… essas… pisa-as toda a gente!…

    *Peor velhice*

    PEOR VELHICE

    Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
    Dum riso são andou na minha bôca!
    Gritando que me acudam, em voz rouca,
    Eu, naufraga da Vida, ando a morrer!

    A Vida que ao nascer enfeita e touca
    D'alvas rosas, a fronte da mulher,
    Na minha fronte mística de louca
    Martírios só poisou a emurchecer!

    E dizem que sou nova… A mocidade
    Estará só, então, na nossa idade,
    Ou está em nós e em nosso peito mora?!…

    Tenho a peor velhice, a que é mais triste,
    Aquela onde nem sequer existe
    Lembrança de ter sido nova… outróra…

    *A um livro*

    A UM LIVRO

    No silêncio de cinzas do meu Ser
    Agita-se uma sombra de cypreste.
    Sombra roubada ao livro que ando a ler,
    A esse livro de máguas que me deste.

    Extranho livro aquele que escreveste
    Artista da saudade e do sofrer!
    Extranho livro aquele em que puzéste
    Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

    Leio-o e folhêio, assim, toda a minh'alma!
    O livro que me déste é meu e psalma
    As orações que choro e rio e canto!…

    Poeta egual a mim, ai quem me déra
    Dizer o que tu dizes!… Quem soubéra
    Velar a minha Dôr desse teu manto!…

    *Alma perdida*

    ALMA PERDIDA

    Toda esta noite o rouxinol chorou,
    Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
    Alma de rouxinol, alma da gente,
    Tu és, talvez, alguem que se finou!

    Tu és, talvez, um sonho que passou,
    Que se fundiu na Dôr, suavemente…
    Talvez sejas a alma, alma doente
    D'alguem que quiz amar e nunca amou!

    Toda a noite choraste… e eu chorei
    Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
    Que ninguem é mais triste do que nós!

    Contaste tanta coisa á noite calma,
    Que eu pensei que tu eras a minh'alma
    Que chorasse perdida em tua voz!…

    *De joelhos*

    DE JOELHOS

    «Bendita seja a Mãe que te gerou.»
    Bendito o leite que te fez crescer.
    Bendito o berço aonde te embalou
    A tua ama, p'ra te adormecer!

    Bendita essa canção que acalentou
    Da tua vida o dôce alvorecer…
    Bendita seja a lua que inundou
    De luz, a terra, só para te vêr…

    Benditos sejam todos que te amarem,
    As que em volta de ti ajoelharem,
    Numa grande paixão fervente e louca!

    E se mais que eu, um dia, te quiser
    Alguem, bendita seja essa Mulher,
    Bendito seja o beijo dessa bôca!!

    *Languidez*

    LANGUIDEZ

    Tardes da minha terra, dôce encanto,
    Tardes duma puresa d'açucenas,
    Tardes de sonho, as tardes de novenas,
    Tardes de Portugal, as tardes d'Anto.

    Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
    Horas benditas, leves como pênas,
    Horas de fumo e cinza, horas serênas,
    Minhas horas de dôr em que eu sou santo!

    Fecho as palpebras rôxas, quasi pretas,
    Que poisam sôbre duas violetas,
    Azas leves cançadas de voar…

    E a minha bôca tem uns beijos mudos…
    E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
    Traçam gestos de sonho pelo ar…

    *Para quê?!*

    PARA QUÊ?!

    Tudo é vaidade neste mundo vão…
    Tudo é tristesa; tudo é pó, é nada!
    E mal desponta em nós a madrugada,
    Vem logo a noite encher o coração!

    Até o amôr nos mente, essa canção
    Que o nosso peito ri á gargalhada,
    Flôr que é nascida e logo desfolhada,
    Pétalas que se pisam pelo chão!…

    Beijos d'amôr! P'ra quê?!… Tristes vaidades!
    Sonhos que logo são realidades,
    Que nos deixam a alma como morta!

    Só acredita neles quem é louca!
    Beijos d'amor que vão de bôca em bôca,
    Como pobres que vão de porta em porta!…

    *Ao vento*

    AO VENTO

    O vento passa a rir, torna a passar,
    Em gargalhadas asp'ras de demente;
    E esta minh'alma trágica e doente
    Não sabe se ha de rir, se ha de chorar!

    Vento de voz tristonha, voz plangente,
    Vento que ris de mim, sempre a troçar,
    Vento que ris do mundo e do amar,
    A tua voz tortura toda a gente!…

    Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
    Desabafa essa dôr a sós comigo,
    E não rias assim!… Ó vento, chóra!

    Que eu bem conheço, amigo, êsse fadário
    Do nosso peito ser como um Calvario,
    E a gente andar a rir p'la vida fóra!!…

    *Tédio*

    TÉDIO

    Passo pálida e triste. Oiço dizer
    «Que branca que ela é! Parece morta!»
    E eu que vou sonhando, vaga, absorta,
    Não tenho um gesto, ou um olhar sequer…

    Que diga o mundo e a gente o que quizer!
    –O que é que isso me faz?… O que me importa?…
    O frio que trago dentro gela e corta
    Tudo que é sonho e graça na mulher!

    O que é que isso me importa?! Essa tristesa
    É menos dôr intensa que friesa,
    É um tédio profundo de viver!

    E é tudo sempre o mesmo, eternamente…
    O mesmo lago plácido, dormente…
    E os dias, sempre os mesmos, a correr…

    *A minha Tragédia*

    A MINHA TRAGÉDIA

    Tenho ódio á luz e raiva á claridade
    Do sol, alegre, quente, na subida.
    Parece que a minh'alma é perseguida
    Por um carrasco cheio de maldade!

    Ó minha vã, inutil mocidade
    Trazes-me embriagada, entontecida!…
    Duns beijos que me déste, noutra vida,
    Trago em meus lábios rôxos, a saudade!…

    Eu não gosto do sol, eu tenho medo
    Que me leiam nos olhos o segrêdo
    De não amar ninguem, de ser assim!

    Gosto da Noite imensa, triste, preta,
    Como esta extranha e doida borboleta
    Que eu sinto sempre a voltejar em mim!…

    *Sem remédio*

    SEM REMÉDIO

    Aqueles que me teem muito amôr
    Não sabem o que sinto e o que sou…
    Não sabem que passou, um dia, a Dôr,
    Á minha porta e, nesse dia, entrou.

    E é desde então que eu sinto êste pavôr,
    Este frio que anda em mim, e que gelou
    O que de bom me deu Nosso Senhor!
    Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!

    Sinto os passos da Dôr, essa cadência
    Que é já tortura infinda, que é demência!
    Que é já vontade doida de gritar!

    E é sempre a mesma mágua, o mesmo tédio,
    A mesma angústia funda, sem remédio,
    Andando atraz de mim, sem me largar!…

    *Mais triste*

    MAIS TRISTE

    É triste, diz a gente, a vastidão
    Do Mar imenso! E aquela voz fatal
    Com que êle fala, agita o nosso mal!
    E a Noite é triste como a Extrema Unção!

    É triste e dilacera o coração
    Um poente do nosso Portugal!
    E não veem que eu sou… eu… afinal,
    A coisa mais maguada das que o são?!…

    Poentes d'agonia trago-os eu
    Dentro de mim e tudo quanto é meu
    É um triste poente d'amargura!

    E a vastidão do Mar, toda essa agua
    Trago-a dentro de mim num Mar de Mágua!
    E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

    *Velhinha*

    VELHINHA

    Se os que me viram já cheia de graça
    Olharem bem de frente para mim,
    Talvez, cheios de dôr, digam assim:
    «Já ela é velha! Como o tempo passa!…»

    Não sei rir e cantar por mais que faça!
    Ó minhas mãos talhadas em marfim,
    Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
    Deixem correr a vida até ao fim!

    Tenho vinte e tres anos! Sou velhinha!
    Tenho cabelos brancos e sou crente…
    Já murmuro orações… falo sòsinha…

    E o bando côr de rosa dos carinhos
    Que tu me fazes, olho-os indulgente,
    Como se fosse um bando de nètinhos…

    *Em busca do Amôr*

    EM BUSCA DO AMOR

    O meu Destino disse-me a chorar:
    «Pela estrada da Vida vae andando;
    E, aos que vires passar, interrogando
    Acerca do Amôr que has de êncontrar.»

    Fui pela estrada a rir e a cantar,
    As contas do meu sonho desfiando…
    E noite e dia, á chuva e ao luar,
    Fuí sempre caminhando e perguntando…

    Mesmo a um velho eu perguntei: «Velhinho,
    Viste o Amôr acaso em teu caminho?»
    E o velho estremeceu… olhou… e riu…

    Agora pela estrada, já cançados
    Voltam todos p'ra traz, desanimados…
    E eu paro a murmurar: Ninguem o viu!…»

    *Impossivel*

    IMPOSSIVEL

    Disseram-me hoje, assim, ao vêr-me triste:
    «Parece Sexta Feira de Paixão.
    Sempre a scismar, scismar, d'olhos no chão,
    Sempre a pensar na dôr que não existe…

    O que é que tem?! Tão nova e sempre triste!
    Faça por 'star contente! Pois então?!…»
    Quando se sofre o que se diz é vão…
    Meu coração, tudo, calado ouviste…

    Os meus males ninguem mos adivinha…
    A minha Dôr não fala, anda sòsinha…
    Dissesse ela o que sente! Ai quem me déra!…

    Os males d'Anto toda a gente os sabe!
    Os meus… ninguem… A minha Dôr não cabe
    Nos cem milhões de versos que eu fizéra!…

    ÍNDICE

    Êste livro
    Vaidade
    Eu…
    Castelã da Tristesa
    Tortura
    Lágrimas ocultas
    Torre de névoa
    A minha dôr
    Dizêres íntimos
    As minhas ilusões
    Neurastenia
    Pequenina
    A maior tortura
    A flôr do sonho
    Noite de saudade
    Angustia
    Amiga
    Desejos vãos
    Peor velhice
    A um livro
    Alma perdida
    De joelhos
    Languidez
    Para quê?!
    Ao vento
    Tédio
    A minha tragédia
    Sem remédio
    Mais triste
    Velhinha
    Em busca do amôr
    Impossivel

    ACABOU-SE DE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO
    NO MÊS DE JUNHO DE 1919 NA
    TIPOGRAFIA MAURICIO, RUA
    DO SALITRE, 102-A
    LISBOA