Autor: Editor

  • Só

    Só

    Aproximadamente 21.019 palavras.

    Produced by Ricardo Diogo and Tiago Tejo. Edited by Rita
    Farinha (Biblioteca Nacional Digital–http://bnd.bn.pt).
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    Nacional de Portugal).)

    Je déclare que M. Francisco de França Amado, libraire-éditeur, 141,
    rua da Calçada, Coimbra: est mon unique représentant et dépositaire
    de o «Só», pour le Portugal.

    L.V.

    SÓ

    ANTONIO NOBRE

    SÓ

    PARIS

    LÉON VANIER, ÉDITEUR

    19, QUAI SAINT-MICHEL, 19

    1892

    Tous Droits Réservés

    MEMORIA Á MINHA MÃE AO MEU PAE

    Aquelle que partiu no brigue _Boa Nova_,
    E na barca _Oliveira_, annos depois, voltou;
    Aquelle santo (que velhinho e jà corcova)
    Uma vez, uma vez, linda menina amou:
    Tempos depois, por uma certa lua-nova,
    Nasci eu… O velhinho ainda cà ficou,
    Mas ella disse:–«Vou, alli adiante, à _Cova_,
    Antonio, e volto jà…» E ainda não voltou!
    Antonio é vosso. Tomae là a vossa obra!
    «Só» é o poeta-nato, _o lua_, o santo, a cobra!
    Trouxe-o d'um ventre: não fiz mais do que escrever…
    Lede-o e vereis surgir do poente as idas magoas,
    Como quem ve o sol sumir-se, pelas agoas,
    E sobe aos alcantis para o tornar a ver!

    *Antonio*

    Que noite de inverno! Que frio, que frio!
    Gelou meu carvão:
    Mas boto-o á lareira, tal qual pelo estio,
    Faz sol de verão!

    Nasci, n'um Reino d'Oiro e flores
    Á beira-mar.

    Ó velha Carlota, tivesse-te ao lado,
    Contavas-me historias:
    Assim… desenterro, do val do passado,
    As minhas Memorias.

    Sou neto de Navegadores,
    Heroes, Lobos d'agoa, Senhores
    Da India, d'Aquém e d'Além-mar!

    Moreno coveiro, tocando viola,
    A rir e a cantar!
    Empresta, bom homem, a tua sachola,
    Eu quero cavar:

    E o vento mia! e o vento mia!
    Que irà no mar!

    Erguei-vos, defuntas! da tumba que alveja
    Qual Lua, a distancia!
    Vizões enterradas no adro da Igreja,
    Branquinha, da Infancia…

    Que noite! ó minha Irmã Maria,
    Accende um cyrio à Virgem Pia,
    Pelos que andam no alto mar…

    Lá vem a Carlota que embala uma aurora
    Nos braços, e diz:
    «Meu lindo menino, que Nossa Senhora
    O faça feliz!»

    Ao mundo vim, em terça-feira,
    Um sino ouvia-se dobrar!

    E Antonio crescendo, sãosinho e perfeito,
    Feliz que vivia!
    (E a Dor, que morava com elle no peito,
    Com elle crescia…)

    Vim a subir pela ladeira
    E, n'uma certa terça-feira,
    Estive jà p'ra me matar…

    Mas foi a uma festa, vestido de anjinho,
    Que fado cruel!
    E a Antonio calhou-lhe levar, coitadinho!
    A _Esponja do Fel_…

    Ides gelar, agoas dos montes!
    Ides gelar!

    A Tia Delphina, velhinha tão pura,
    Dormia a meu lado
    E sempre rezava por minha ventura…
    E sou desgraçado!

    Agoas do rio! agoas das fontes!
    Cantigas d'agoa pelos monles,
    Que sois como amas a cantar…

    E eu ia ás novenas, em tardes de Maio,
    Pedir ao Senhor:
    E, ouvindo esses cantos, tremia em desmaio,
    Mudava de cor!

    Passam na rua os estudantes
    A vadrulhar…

    E a Mãe-Madrinha, do tempo da guerra
    A mail-os francezes,
    Quando ia ao confesso, á ermida da serra,
    Levava-me, ás vezes.

    Assim como elles era eu d'antes!
    Meus camaradas! estudantes!
    Deixae o Poeta trabalhar…

    Santinho como ia, santinho voltava:
    Peccados? Nem um!
    E a instancias do padre dizia (e chorava):
    «Não tenho nenhum…»

    Ó Job, coberto de gangrenas,
    Meu avatar!

    As noites, rezava (e rezo ainda agora)
    Ao pé da lareira.
    (A chuva gemente caia lá fóra,
    Fervia a chaleira…)

    Conservo as mesmas tuas penas,
    Mais tuas chagas e gangrenas,
    Que não me farto de coçar!

    –Que Deus se amercie das almas do Inferno!
    –Amen! Oxalá…
    E o moço rosnava, tranzido de inverno:
    –Que bom lá está!

    E a neve cae, como farinha,
    Là d'esse moinho a moer, no Ar:

    O sino da Igreja tocava, á tardinha:
    Que tristes seus dobres!
    Era a hora em que eu ia provar, á cozinha,
    O caldo dos pobres…

    Ó bom Moleiro, cautellinha!
    Não desperdices a farinha
    Que tanto custa a germinar…

    Ó velhas criadas! na roca fiando,
    Nos lentos serões…
    Corujas piando, _Farrusca_ ladrando
    Com medo aos ladrões!

    Andaes, à neve, sem sapatos,
    Vos que nâo tendes que calçar!

    O Zé do Telhado morara, alli perto:
    A triste viuva
    A nossa caza ia pedir, era certo,
    Em noites de chuva…

    Corpos au léu, vesti meus fatos!
    Pés nus! levae esses sapatos…
    Basta-me um par.

    Ó feira das uvas! em tardes de calma…
    (O tempo voou!)
    Pediam-me os pobres «esmola pela alma
    Que Deus lhe levou!»

    Quando eu morrer, hirto da magoa.
    Deitem-me ao mar!

    E havias-os com gotta, e havia-os herpeticos,
    Mostrando a gangrena!
    E mais, e ceguinhos, mas era dos ethicos
    Que eu tinha mais pena…

    Irei indo de fragua, em fragua,
    Até que, emfim, desfeito em agoa,
    Hei-de fazer parte do mar!

    Chegou uma carta tarjada: a estampilha
    Bastou-me enxergar…
    Coitados d'aquelles que perdem a filha,
    Tão longe do lar!

    No Panthéon, tragico, o sino
    Dà meia-noite, devagar:

    Ó tardes de outomno, com fontes carpindo
    Entre herva sedenta…
    Os cravos a abrirem, a lua aspergindo
    Luar, agoa-benta…

    É o Victor, outra vez menino,
    A compor um alexandrino,
    Pelos seus dedos a contar!

    Ao dar meia-noite no _cuco_ da sala,
    Batiam: «Truz! truz!»
    E o Avô que dormia, quietinho na valla,
    Entrava, Jezus!

    Que olhos tristes tem meu vizinho!
    Ve-me comer e poe-se a ougar:

    Nas sachas de Junho, ninguem se batia
    Com nosso cazeiro:
    Que espanto, pudéra! se da freguezia
    Elle era o coveiro…

    Sobe ao meu quarto, bom velhinho!
    Que eu dou-te um copo d'este vinho
    E metade do meu jantar.

    Morria o mais velho dos nossos criados,
    Que pena! que dó!
    Pedi-lhe, tremendo, fizesse recados
    Á alminha da Avó…

    Bairro-Latino! dorme um pouco!
    Faze, meu Deus, por socegar…

    Ó banzas dos rios, gemendo descantes
    E fados do mundo!
    Ó agoas fallantes! ó rios andantes,
    Com eiras no fundo!…

    Calla-te, Georges! estàs jà rouco!
    Deixa-me era paz! Calla-te, louco,
    Ó boulevard!

    Trepava ás figueiras cheiinhas de figos
    Como astros no céu:
    E em baixo, aparando-os, erguiam mendigos
    O roto chapéu…

    Boas almas, vinde ao meu seio!
    Espiritos errantes no Ar!

    Ó lua encantada no fundo do poço,
    Moirinha da magoa!
    O balde descia, chymeras de moço!
    Trazia só agoa…

    Sou médio: evoco-os, noite em meio,
    Vos não acreditaes, eu sei-o…
    Deixal-o não acreditar.

    Meus versos primeiros estão no Adro, ainda,
    Escriptos na cal:
    Cantavam Aquella que é a roza mais linda
    Que tem Portugal!

    Se eu vos podesse dar a vista,
    Ceguinhos que ides a tactear…

    A lua é ceifeira que, ás noites, ensaia
    Bailados na terra…
    Luar é caleiro que, pallido, caia
    Ermidas da serra…

    Quanto essa sorte me contrista!
    Mas ah! mais vale não ter vista,
    Que um mundo d'estes ter d'olhar.

    O conde de Furnas sabia o Horacio,
    Tin-tin, por tin-tin!
    E dava-me, á noite, passeiando em palacio,
    Licção de latim.

    A Morte, agora, é a minha ama…
    Que bem que sabe acalentar!

    E entrei para a escola, meu Deus! quem me dera
    N'essa hora da vida!
    Uzava uma bluza, que linda que era!
    E trança comprida…

    Á noite, quando estou na cama:
    «Nana, nana! Que a tua ama
    Vem jà, não tarda! foi cavar…»

    Os outros rapazes furtavam os ninhos
    Com ovos a abrir;
    Mas eu mercava-lhes os bons passarinhos,
    Deixava-os fugir…

    Camões! ó lua do mar-bravo!
    Vem-me ajudar…

    Os prezos, ás grades da triste cadeia,
    Olhavam-me em face!
    E eu ia á pouzada do guarda da aldeia
    Pedir que os soltasse…

    Tenho o nome do teu escravo;
    Em nome d'elle e do mar-bravo,
    Vem-me ajudar!

    E quando um malvado moia a chibata
    Um filho, ou assim,
    Corria a seus braços, gritando: «Não bata!
    Bata antes em mim…»

    E o vento geme! e o vento geme!
    Que irà no mar!

    E quando dobrava na terra algum sino
    Por velho, ou donzella,
    A meu Pae rogavam «deixasse o menino
    Pegar a uma vela…»

    Lobos d'agoa, que ides ao leme,
    Tende cuidado! a lancha treme…
    Orçar! orçar!

    Enterros de anjinhos! Oh dores que trazem
    Aos tristes cazaes!
    Ha doces, ha vinho, senhores que fazem
    Saudes aos paes…

    Meu velho cão, meu grande amigo,
    Porque me estàs assim a olhar?

    A Prima doidinha por montes andava,
    Á lua, em vigilia!
    Olhae-me, doutores! ha doidos, ha lava,
    Na minha Familia…

    Quando ou choro, choras commigo
    Meu velho cão! és meu amigo…
    Tu nunca me has-de abandonar.

    E os annos correram, e os annos cresceram,
    Com elles cresci:
    Os sonhos que tinha, meus sonhos… morreram,
    Só eu não morri…

    Frades do Monte de Crestello!
    Abri-me as portas! quero entrar…

    Fui vendo que as almas não eram no mundo
    Singellas e francas:
    A minha que o era ficou, n'um segundo,
    Cheiinha de brancas!

    Cortae-me as barbas e o cabello,
    Vesti-me esse habito singello…
    Deixae-me entrar!

    Fiquei pobrezinho, fiquei sem chymeras,
    Tal qual Pedro-Sem,
    Que teve fragatas, que teve galeras,
    Que teve e não tem…

    Moço Luziada! criança!
    Porque estàs trisle, a meditar?

    Vieram as rugas, caiu-me o cabello
    Qual musgo da rocha…
    Fiquei para sempre sequinho, amarello,
    Que nem uma tocha!

    Ves teu paiz sem esperança,
    Que todo allue, à semelhança
    Dos castellos que ergueste no Ar?

    E a velha Carlota, revendo-me agora
    Tão pallido, diz:
    «Meu pobre menino! que Nossa Senhora
    Fez tão infeliz…»

    Pariz, 1891.

    *Menino e Moço*

    Tombou da haste a flor da minha infancia alada,
    Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:
    Voou aos altos céus S.^{ta} Aguia, linda fada,
    Que d'antes estendia as azas sobre mim.

    Julguei que fosse eterna a luz d'essa alvorada,
    E que era sempre dia, e nunca tinha fim
    Essa vizão de luar que vivia encantada,
    N'um castello de prata embutido a marfim!

    Mas, hoje, as aguias de oiro, aguias da minha infancia,
    Que me enchiam de lua o coração, outrora,
    Partiram e no céu evolam-se, a distancia!

    Debalde clamo e choro, erguendo aos céus meus ais:
    Voltam na aza do vento os ais que a alma chora;
    Ellas, porém, Senhor! ellas não voltam mais…

    Leça, 1885.

    *Os Cavalleiros*

    –Onde vaes tu, cavalleiro,
    Pela noite sem luar?
    Diz o vento viajeiro,
    Ao lado d'elle a ventar…
    Não responde o cavalleiro,
    Que vae absorto a scismar.
    –Onde vaes tu, torna o vento,
    N'esse doido galopar?
    Vaes bater a algum convento?
    Eu ensino-te a rezar.
    E a lua surge, um momento,
    A lua, convento do Ar.
    –Vaes levar uma mensagem?
    Dá-m'a que eu vou-t'a entregar:
    Irás em meia viagem
    E eu já de volta hei-de estar.
    E o cavalleiro, á passagem,
    Faz as arvores vergar.
    –Vaes escalar um mosteiro?
    Eu ajudo-t'o a escalar:
    Não ha no mundo pedreiro
    Que a mim se possa egualar!
    Não responde o cavalleiro
    E o vento torna a fallar:
    –Dize, dize! vaes p'ra guerra?
    Monta em mim, vou-te levar:
    Não ha cavallo na Terra
    Que tenha tão bom andar…
    E os trovões rolam na serra
    Como vagas a arrolar!
    –E as guerras has-de ganhal-as,
    Que por ti hei-de velar:
    Ponho-me á frente das balas
    Para a força lhes tirar!
    E as arvores formam alas
    Para os guerreiros passar.
    –Vaes guiar as caravellas
    Por sobre as agoas do mar?
    Guiarei as tuas velas
    Á feição hei-de assoprar.
    E os astros vêm ás janellas
    E a lua vem espreitar…
    –Onde vaes na galopada,
    Á tua infancia, ao teu lar?
    Conheço a tua pousada:
    Já lá tenho ido ficar.
    E vae longe a trovoada,
    Vae de todo a alliviar.
    –Vaes ver tua velha tia,
    Na roca de oiro a fiar?
    Loiro linho que ella fia,
    Ajudei-lh'o eu a seccar!
    E o luar é a Virgem Maria…
    Que lindo vae o luar!
    –Vaes ver a tua mãesinha?
    Coitada! vi-a expirar:
    Tinha a alma tão levezinha,
    Que voou sem eu lhe tocar!…
    E o cavalleiro caminha,
    Caminha sem se importar!
    –Vaes ver tua irmã? Ao peito
    Traz um menino a criar:
    Ai com que bom, lindo geito
    Ella o sabe acalentar!
    E o vento embala no peito
    Uma nuvem, p'ra imitar!
    –Onde vaes tu? Aonde, aonde?
    Phantasma! vaes-te cazar?
    Eu sei da filha d'um conde
    Que por ti vive a penar…
    E o phantasma não responde,
    Sempre, sempre, sempre a andar!
    –Vaes á cata da Ventura
    Que anda os homens a tentar?
    (Ai d'aquelle que a procura
    Que eu nunca a pude encontrar…)
    N'isto, pára a criatura,
    Faz seu cavallo estacar:
    –Vento, sim! Espera, espera!
    Que estrada devo tomar?
    (É um menino, é uma chymera
    E todo lhe ri o olhar…)
    E o vento, com voz austera,
    Dor, querendo disfarçar:
    –Toma todas as estradas
    Todas, áquem e além-mar:
    Serão inuteis jornadas,
    Nunca lá has-de chegar…
    Palavras foram facadas
    Que é vel-o, todo a sangrar…
    E seus cabellos trigueiros
    Começam de branquiar,
    E olham-se os dois cavalleiros…
    Quedam-se ambos a scismar.
    Brilha o Oriente entre os pinheiros,
    Ouvem-se os gallos cantar…
    –Adeus, adeus! Nasce a aurora,
    Adeus! vamos trabalhar!
    Adeus, adeus! vou-me embora:
    Chamaram-me as velas, no mar…
    E o vento vae por hi fóra,
    No seu cavallo, a ventar…

    Pariz, 1891.

    *Purinha*

    O Espirito, a Nuvem, a Sombra, a Chymera,
    Que (aonde ainda não sei) neste mundo me espera
    Aquella que, um dia, mais leve que a bruma,
    Toda cheia de véus, como uma Espuma,
    O Sr. Padre me dará p'ra mim
    E a seus pés me dirá, toda corada: _Sim_!
    Ha-de ser alta como a _Torre de David_,
    Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
    E seu cabello em cachos, cachos d'uvas,
    E negro como a capa das viuvas…
    (Á maneira o trará das virgens de Belem
    Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
    E será uma espada a sua mão,
    E branca como a neve do Marão,
    E seus dedos serão como punhaes,
    Fuzos de prata onde fiarei meus ais!
    E os seus seios serão como dois ninhos,
    E seus sonhos serão os passarinhos,
    E será sua bocca uma romã,
    Seus olhos duas Estrellinhas da Manhã!
    Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
    Como um sonho, como a neve,
    Que hei-de suppor estar a ver, ao vel-a,
    Cabrinhas montezas da Serra da Estrella…
    E ha-de ser natural como as hervas dos montes
    E as rolas das serras e as agoas das fontes…
    E ha-de ser boa, excepcional, quazi divina.
    Mais pura, mais simples, que moça e menina.
    Deus, pela voz dos rouxinoes ha-de gabal-a
    E os rios ao passar hão-de cantal-a.
    Seu virgem coração ha-de ser tão branquinho,
    Que não ha neste, mundo a que egualal-o: o linho
    Que, em roca de crystal, fiava a minha Avó
    Parecerá de crepe, e a neve… far-me-á dó,
    Mais a farinha do moleiro e a violeta,
    E a lua para mim será como uma preta!

    Mas em que sitio, aonde? aonde? é que me espera
    Esta Torre, esta Lua, esta Chymera?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Onde haverá na Terra assim uma Rainha?»
    E a minha fada, com sua vara de encantar,
    Um reino me apontou, lá baixo, ao pé do mar…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    E no dia do meu recebimento!
    Manhã cedo, com luar ainda no firmamento,
    Quando ainda no céu não bole uma aza,
    A minha Noiva sairá de caza
    Mail-a sua mãe, mail-os seus irmãos.
    E ha-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos…
    E a sua ama ha-de seguil-a até á porta,
    E ficará, coitada! como morta!
    E ha-de ser triste vel-a, ao longe, ainda… olhando,
    Com o avental seus olhos enxugando…
    E hão-de cercal-a sete madrinhas,
    Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
    Todas contentes por estreiar vestido novo!
    E, ao vel-as, suas mães sorrirão d'entre o povo…
    E o povo da freguezia
    Esperará mais eu, no adro de _Santa Iria_.
    E hão-de mirar-me com seu ar curiozo,
    E hão-de cercar-me, n'um silencio respeitozo.
    E eu hei-de lhes fallar das colheitas, da chuva,
    E dir-me-ão que «já vae pintando a uva…»
    E animados então (o povo é uma criança!)
    Porque o Sr. Morgado deu-lhes confiança,
    «Que Deus o ajude» dirá um, e o regedor:
    «Que seja mui feliz, Sr. Doutor…»
    E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
    Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar…
    E d'entre o grupo exclamará um velho, então:
    «Já nasce o dia!» eu olharei… mas não:
    É a minha Noiva que parece dia,
    Branquinha como a cal de _Santa Iria_!
    E ao vel-a tão branca, de branco vestida,
    Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
    E dirá o pastor, com espanto tamanho,
    Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
    E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
    E o pescador explicará ao bom moleiro
    Que é tal qualzinha a sua Lancha pelo mar!
    E o moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
    Que assim já foram as velhinhas scismarão,
    E as netas, coitadas! que, um dia, o serão…
    Mas o Anjo assomará, á porta da capella,
    E eu branco e tremulo hei-de ir ter com ella.
    E a estrella deitar-me-á a benção dos seus olhos
    E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
    E a Bem-Amada entrar na igreja ha-de…
    E ha-de cazar-nos o Sr. Abbade.
    E, em seguida, será a nossa boda,
    E festas haverá, na aldeia toda.
    E as mais raparigas do sitio, solteiras,
    Hao-de bailar bailados sobre as eiras,
    Com _trinta moedas_ de oiro sobre o peito!
    E cantigas dirão a seu respeito.
    E a Noiva em gloria, prepassando nas janellas,
    Sorrirá com simplicidade para ellas.
    E a noite, pouco e pouco, descerá…
    E tudo acabará.
    E depois e depois, o Anjo ha-de se ir deitar,
    E a sua mãe ha-de aabraçar… E hão-de chorar!
    E a sua alcova deitará sobre o quintal,
    Onde uma fonte correrá, entre o ervilhal:
    E, ao ouvil-a cantar, deitadinha na cama,
    O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua ama…

    Mas qual a villa, qual a aldeia, qual a serra
    Que este Palacio de Ventura encerra?
    Fui ter com minha fada e disse-lhe: «Madrinha!
    Accaso nunca te mentiu tua varinha?»
    E a minha fada com sua vara de condão
    Nos ares escreveu com tres estrellas: «Não!»

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas! lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    O nosso lar!
    Minha Madrinha! ajuda-me a sonhar!
    Que a nossa caza se erga d'entre uma eminencia,
    Que seja tal qual uma rezidencia,
    Alegre, branca, rustica, por fóra.
    Que digam: «É o Sr. Abbade que alli mora…»
    Mas no interior ella ha-de ser sombria,
    Como eu com esta melancholia…
    E salas escuras, chorando saudades…
    E velhos os moveis, de antigas idades…
    (E, assim, me illuda e, assim, cuide viver
    N'outro seculo em que eu deveria nascer.)
    E nas paredes telas de parentes…
    E janellas abertas sobre os poentes…
    (E a Chymera lerá o seu livro de rezas…)
    E cravos vermelhos por cima das mezas…
    E o relogio dará as horas devagar,
    Como as palpitações de quem se vae finar…
    E, dia inteiro, n'esta solidão,
    Deixar-me-ei esquecer, ao canto do fogão.
    E a scismar e a scismar em que? em quem?
    Na Dor, na Vida, em Deus, no Infinito, no _Além_?
    E eu o Luziada sombrio, o Afflicto, o Médio,
    Rogarei aos Espiritos remedio
    E um bom Espirito virá tratar do doente
    E ha-de tremer de susto a outra gente.
    E a noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
    E a noite embrulhará o Afflicto no seu manto!
    Mas a Purinha, então, vindo da rua,
    Toda de branco surgirá, como uma Lua!
    E, então, acordarei d'essa desesperança
    E pela mão me levará, como uma criança.
    E eu pallido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
    «Não te afflijas…» dirá, baixinho…
    E, assim, será piedoza para os mais:
    E ha-de entrar na mizeria dos cazaes,
    Nos montes mais altos, nos sitios mais ermos,
    E será a Saude dos Enfermos!
    E quando pela estrada encontrar um velhinho
    Todo suado, carregadinho,
    (Louvado seja Nosso Senhor!)
    Ha-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
    E ás aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
    E, aos sabbados, o dia das esmolas,
    A Santa descerá ao patamar da escada,
    Envolta, sem saber, n'uma capa estrellada,
    Esmolas, distribuindo a este e áquelle: e aos ceguinhos
    E mais aos alleijadinhos,
    Mais aos que botam sangue pela bocca,
    Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
    Amores, naufragios e _A Nau Cathrineta_,
    Mais aos Afflictos deste vil Planeta,
    Mais ás viuvas dos degredados…
    E tudo seja pelos meus peccados!
    E ha-de cozer (serão os remendos de flores)
    As velas rôtas dos pescadores
    E a luz do seu olhar benzerá essas velas
    E nunca mais hão-de rasgar-lh'as as procellas!
    E accenderá os cyrios ao Senhor,
    (Que sejam como ella no talhe e na cor!)
    Quando houver temporal… e eu virei p'ra saccada
    Ver os relampagos, ouvir a trovoada!…
    E n'isto só rezumir-se-á a sua vida:
    Vestir os nus, aos pobres dar guarida,
    Fallar á alma que na angustia se consome,
    Dar de comer a quem tem fome,
    Dar de beber a quem tem sede…
    E, lá, do céu, Jezus dirá aos homens: «Vede…»
    E eu hei-de em minhas obras imital-a
    E amal-a como á Virgem e adoral-a.
    E a Virgem ha-de encher com a mesma paixão
    As marés-vazas d'este doido coração
    E as suas ondas ha-de, olympica, aplacar,
    Que para mim, linda Joanninha d'Arc,
    Que para mim será a lua-nova!
    E ha-de ir commigo para a mesma cova,
    Pois que no dia em que eu morrer
    Veneno tomará, n'uma colher…

    Mas em que patria, em que nação é que se esconde
    Esta Bandeira, esta India, este Castello, aonde? aonde?
    Fui ter com minha fada, e disse-lhe: «Madrinha!
    Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?»
    E a minha fada com sua vara de marfim
    Tocou meu peito… e _alguem_ sorriu lá dentro: _Sim_…

    Meninas, lindas meninas!
    Qual de vós é o meu ideal?
    Meninas, lindas meninas
    Do Reino de Portugal!

    Pariz, 1891.

    *Elegia*

    Vae em seis mezes que deixei a minha terra
    E tu ficaste lá, mettida n'uma serra,
    Boa velhinha! que eras mais uma criança…
    Mas, tão longe de ti, n'este Payz de França,
    Onde mal viste, então, que eu viesse parar,
    Vejo-te, quanta vez! por esta sala a andar…
    Bates. Entreabres de mansinho a minha porta.
    Virás tratar de mim, ainda depois de morta?
    Vens de tão longe! E fazes, só, essa jornada!
    Ajuda-te o bordão que te empresta uma fada.
    Altas horas, emquanto o bom coveiro dorme,
    Escapas-teãda cova e vens, Bondade enorme!
    Atravez do Marão que a lua-cheia banha,
    Atravessas, sorrindo, a mysteriosa Hespanha,
    Perguntas ao pastor que anda guardando o gado,
    (E as fontes cantam e o céu é todo estrellado…)
    Para que banda fica a França, e elle, a apontar,
    Diz: «Vá seguindo sempre a minha estrella, no Ar!»
    E ha-de ficar scismando, ao ver-te assim, velhinha,
    Que és tu a Virgem disfarçada em probrezinha…
    Mas tu, sorrindo sempre, olhando sempre os céus,
    Deixando atraz de ti, os negros Pyrineus,
    Sob os quaes rola a humanidade, nos Expressos,
    Em certo dia ao fim de tantos (conto-os, meço-os!)
    Vindo de villa em villa, e mais de serra em serra,
    Chegas!
    E cae e cae no soalho alguma terra:
    Tua cova que vem pegada aos teus vestidos!

    Ó lua do ceguinho! Amparo dos vencidos!
    Alpendre do perdão! ó Piedade! ó Clemencia!
    Singular fado o nosso, estranha coincidencia:
    Deixamos nossa Patria ao mesmo tempo: tu,
    Adentro d'um caixão, que era tambem bahu,
    Onde levavas as desgraças d'esta vida;
    Eu, n'um paquete sobre a vaga enraivecida
    (Sob a qual, entretanto, havia a paz das loizas)
    E n'elle o esquife do meu lar, as minhas coizas,
    E mais tu sabes, Santa! um sacco de mizerias!
    Mas a existencia, é um dia, esta vida são férias
    E, mal acabem, te verei de novo… em breve!
    E tu de novo me verás…
    Ah! como deve
    Ser frio esse teu lar de debaixo da terra
    Que teu cadaver de oiro ainda intacto encerra:
    Ainda intacto e sempre: disse-me o coveiro
    Que a tua cova era a unica sem cheiro…
    E assim te deixo, Santa! Santa! ao abandono,
    Só, aos cuidados das corujas e do Outomno!
    Com este frio, horror! Senhora da Piedade!
    Sem uma mão amiga e cheia de bondade
    Que te agazalhe e faça a dobra do lençol,
    Que abra a janella para tu veres o sol,
    Que, logo de manhã, venha trazer-te o leite
    E, á noite, a lamparina-esmalte com azeite!
    Sem uma voz que vá ao pé da tua loiza,
    Ancioza, perguntar se queres alguma coiza,
    Cobrir-te, dar-te as boas-noites… Sem ninguem!
    Ai de ti! ai de ti! minha segunda Mãe!

    Dobra era meu coração o sino da saudade…

    Aqui, no meio d'esta fria soledade,
    Evoco a Coimbra triste, em seu aspecto moiro:
    Entro, chapéu na mão, em tua Caza d'Oiro,
    Em frente a um cannavial, cheio de rouxinoes,
    Que era nervozo de mysterio, ao por-dos-soes…
    Vejo o teu lar e a ti, tão pura, tão singella,
    E vejo-te a sorrir, e vejo-te, á janella,
    Quando eu seguia para as aulas, manhã cedo,
    Ancioza, olhando d'entre as folhas do arvoredo,
    Olhando sempre até eu me sumir, a olhar,
    Que ás vezes não me fosse um carro atropelar.
    Vejo o meu quarto de dormir, todo caiado,
    D'onde ouvia arrulhar as pombas, no telhado;
    Oiço o relogio a dar as horas vagamente,
    Devagar, devagar, como os ais d'um doente…
    Vejo-te, á noite, pelas noites de Janeiro,
    Na sala a trabalhar, á luz do candieiro,
    Mais vejo o Emilio, indo a tactear, quasi sem vista,
    Mas que lembrava com seus olhos de ametysta,
    Meio cerrados, como ao sol uma janella,
    Que lindos olhos! uma pomba de _Ramella_!
    E andava á solta pela caza, não fugia,
    Que aos libres ares o cazulo preferia…
    Mais vejo Aquella, cujo olhar são pyrilampos,
    Que tem o nome da mais linda flor dos campos,
    Que tem o nome que tiveste… Vejo-a, ainda,
    Como se hontem fosse, a Margareth, tão linda:
    Vejo-a passar, sorrindo, e faz-me assim lembrar
    No seu vestido rubro, uma papoila a andar…
    Mais te vejo ainda ungir d'affagos minhas penas,
    Mais te vejo voltar, á tarde, das novenas…
    Mais oiço os sinos a dobrar, em _Santa Clara_,
    E tu encommendando a alminha que voara…
    Mais vejo os meus contemporaneos, pela _Estrada_,
    As capas destraçando, ao verem-te á saccada;
    Mais vejo o Ruy, na sua farda de artilheiro,
    E tu mirando-o (o que são mães!) o dia inteiro!
    Mais vejo o sol, aurea cabeça do Senhor,
    Mais vejo os cravos, notas de clarim em flor!
    Mais vejo no quintal as papoilas vermelhas,
    Mais vejo o lar das andorinhas, sob as telhas,
    Mais oiço o tanque a soluçar soluços d'agoa,
    Mais oiço as rãs, coaxando á noite a sua magoa,
    Mais vejo o figueiral todo cheio de figos,
    Mais vejo a tua mão a dal-os aos mendigos…
    Mais oiço os guizos, ao passar da mala-posta,
    Mais vejo a sala de jantar, a meza-posta,
    E tu, Senhora! prezidindo, á cabeceira.
    E (o que a distancia faz!) vejo-te na cadeira,
    Com uma touca preta a cobrir-te os cabellos,
    Que eram de neve, aos caracoes, estou a vel-os!
    (Hei-de ir cortar-t'os, alta noite, ao cemiterio…)
    Mais vejo o Vasco sempre triste, sempre serio,
    D'um lado e eu de outro…

    Que abençoado refeitorio!

    Mas tudo passa n'este mundo tranzitorio!
    E tudo passa e tudo fica! A Vida é assim
    E sel-o-á sempre pelos seculos sem fim!
    Ainda vejo a tua caza, e oiço os teus gritos
    (Mas nas janellas e na porta vejo escriptos!)
    O Vasco é ainda sempre triste, sempre serio
    (Mas sua caza, agora, é ao pé d'um cemiterio…)
    Meu quarto de dormir vejo-o no mesmo estado
    (Mas não sei que é, não me parece tão caiado.)
    A janella ainda tem o mesmo parapeito
    (Mas já não sou «o estudantinho de Direito».)
    Na sala de jantar ainda se estende a meza
    (Mas já não tem a meza-posta, a sobremeza.)
    Vejo o relogio na parede como outrora
    (Mas o ponteiro marca ainda a mesma hora…)
    O candieiro ainda tem o petroleo e a torcida
    (Mas apagou-se a luz a quando a tua vida.)
    A diligencia passa, á tardinha, a tinir,
    (Mas já não tem os olhos teus para a seguir…)
    Passam ainda pela _Estrada_ os estudantes
    (Mas não destraçam suas capas, como d'antes…)
    Vêm da novena ainda as moças e as donzellas
    (Mas procuro-te, em vão, já não te vejo entre ellas…)
    As andorinhas ainda têm o mesmo fito
    (Mas já fizeram trez jornadas ao Egypto…)
    Ainda dobra por defuntos e defuntas
    (Mas não te vejo a ti a rezar de mãos juntas.)
    Ainda lá está o figueiral com figos,
    (Mas não a tua mão a dal-os aos mendigos…)
    O Ruy ainda traz a farda de soldado
    (Mas, agora, já poe mais divizas, ao lado.)
    As rãs coaxam ainda á noite, á beira d'agoa
    (Mas, já não têm quem peça a Deus por essa magoa.)
    O Emilio tem ainda esse olhar que maravilha,
    (Mas, com seus olhos d'hoje, é uma pombinha da _Ilha_)
    Ainda lá estão os cravos, no jardim,
    (Mas já não são as mesmas notas de clarim…)
    Ainda oiço o tanque a soluçar a sua magoa
    (Mas já não acho tão branquinha a sua agoa…)
    A Margareth ainda é a papoila de outrora
    (Mas a papoila… já está uma senhora!)
    Ainda lá estão as papoilas em flor
    (Mas a velhinha já não vae de regador…)
    Meu coração é ainda o Valle de Gangrenas
    (Mas já não tenho quem lhe plante as açucenas…)
    Vive ainda o Sol, vivo eu ainda… (Mas tu morreste!)
    Tudo ficou, tudo passou…

    Que mundo este!

    Pariz, 1891.

    *Os Sinos*

    1

    Os sinos tocam a noivado,
    No Ar lavado!
    Os sinos tocam, no Ar lavado,
    A noivado!

    Que linda criança que assoma na rua!
    Que linda, a andar!
    Em extasi, o povo commenta que é a Lua,
    Que vem a andar…

    Tambem, algum dia, o povo na rua,
    Quando eu cazar,
    Ao ver minha noiva, dirá que é a Lua
    Que vae cazar…

    2

    E o sino toca a baptizado
    Que lindo fado?
    E o sino toca um lindo fado,
    A baptizado!

    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o lavar,
    E banham o anjinho na agoa de neve,
    Para o sujar.

    Ó boa madrinha, que o enxugas de leve,
    Tem dó d'esses gritos! Comprehende esses ais:
    Antes o enxugue a _Velha_! antes Deus t'o leve!
    Não soffre mais…

    3

    Os sinos dobram por anjinho,
    Coitadinho!
    Os sinos dobram, coitadinho…
    Pelo anjinho!

    Que aceiada que vae p'ra cova!
    Olhae! olhae!
    Sapatinhos de sola nova,
    Olhae! olhae!

    Ó lindos sapatos de solinha nova,
    Bailae! bailae!
    Nas eiras que rodam debaixo da cova…
    Bailae! bailae!

    4

    O sino toca p'ra novena,
    _Gratiae plena_,
    E o sino toca, _gratiae plena_,
    P'ra novena.

    Ide, meninas, á ladainha,
    Ide rezar!
    Pensae nas almas como a minha…
    Ide rezar!

    Se, um dia, me deres alguma filhinha,
    Ó Mãe dos Afflictos! ella ha-de ir, tambem:
    Ha-de ir ás novenas, assim, á tardinha,
    Com sua mãe…

    5

    E o sino chama ao Senhor-fóra,
    A esta hora!
    Os sinos clamam, a esta hora,
    Ao Senhor-fóra!

    Accendei, vizinhos, as velas,
    Allumiae!
    Velas de cera nas janellas!
    Allumiae!

    E luas e estrellas tambem poem velas,
    A allumiar!
    E a _alminha_, a esta hora, já está entre ellas,
    A allumiar…

    6

    E os sinos dobram a defuntos,
    Todos juntos!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    A defuntos!

    Que triste ver amortalhados!
    Senhor! Senhor!
    Que triste ver olhos fechados!
    Senhor! Senhor!

    Que pena me fazem os amortalhados,
    Vestidos de preto, deitados de costas…
    E de olhos fechados! e de olhos fechados!
    E de mãos postas!

    E os sinos dobram a defuntos,
    Dlin! dlang! dling! dlong!
    E os sinos dobram, todos juntos,
    Dlong! dlin! dling! dlong

    Pariz, 1891.

    *Terças-Feiras*

    Ao Alberto

    1

    Ó condezinho de Tolstoï (Alberto)
    Santo de minha extrema devoção,
    Alma tamanha, que adorei de perto,
    Lá na _Thebaida_ do Sr. João.

    Meu Calix do Senhor! Meu Pallio aberto!
    Luar branco na minha escuridão!
    Ó minha Joanna d'Arc! Amigo certo
    Na hora incerta! Aguia! Meu Irmão!

    A ti as _Terças-feiras_, n'este Inferno,
    D'aquelle que nasceu, em terça-feira
    E em terça-feira morrerá, talvez…

    Quando eu for morto já, noites de inverno,
    Aos teus filhinhos, conta-as á lareira
    Para eu ouvir de _lá_:

    «Era uma vez…

    Pariz, 1891.

    2

    Legenda do Santo

    «Era uma vez um velho, mui velhinho,
    Vinde, meus filhos! vinde ouvir contar!
    Seguia, ao por-do-sol, por um caminho,
    Dois saccos de Amargura a carregar.

    O pobre velho, todo derreadinho,
    Já não podia mais, queria arreiar;
    Mas passa um cavalleiro: «Olá, santinho!
    Eu deito-lhe uma mão para o ajudar…»

    E o fidalgo desceu do seu cavallo:
    Tomou-lhe os saccos que iam a matal-o
    E aos hombros carregou com o maior!

    E, hoje, o velhinho anda a construir, coitado!
    Que linda ermida, n'esse chão sagrado,
    Onde lhe appareceu _Nosso Senhor_!»

    Pariz, 1891.

    3

    Prologo

    Em hora de afflicçãô, molhei a penna
    Na chaga aberta d'esse corpo amado,
    Mas n'uma chaga a suppurar gangrena,
    Cheia de puz, de sangue já coalhado!

    E depois, com a mão firme e serena,
    Compuz este missal d'um torturado:
    Talvez choreis, talvez vos faça pena…
    Chorae! que immenso tenho eu já chorado.

    Abri-o! Orae com devoção sincera!
    E, à leitura final d'uma oração,
    Vereis cair no solo uma chymera…

    Moços do meu paiz! vereis então
    O que é esta Vida, o que é que vos espera…
    Toda uma Sexta-feira de Paixão!

    Coimbra, 1889.

    4

    Natal d'um Poeta

    Em certo reino, á esquina do planeta,
    Onde nasceram meus Avós, meus Paes,
    Ha quatro lustres, viu a luz um poeta
    Que melhor fôra não a ver jamais.

    Mal despontava para a vida inquieta,
    Logo ao nascer, mataram-lhe os ideaes,
    A falsa-fé, n'uma traição abjecta,
    Como os bandidos nas estradas reaes!

    E, embora eu seja descendente, um ramo
    D'essa arvore de Heroes que, entre perigos
    E guerras, se esforçaram pelo ideal:

    Nada me importas, Paiz! seja meu amo
    O Carlos ou o Zé da Th'reza… Amigos,
    Que desgraça nascer em Portugal!

    Coimbra, 1889.

    5

    Ai de Mim!

    Venho, torna-me velho esta lembrança!
    D'um enterro d'anjinho, nobre e puro:
    Infancia, era este o nome da criança
    Que, hoje, dorme entre os bichos, lá no escuro…

    Trez anjos, a Chymera, o Amor, a Esperança
    Acompanharam-n'o ao jazigo obscuro,
    E recebeu, segundo a velha usança,
    A chave do caixão o meu Futuro.

    Hoje, ambulante e abandonada Ermida,
    Leva-me o fado, á bruta, aos empurrões,
    Vá para a frente! Marcha! Á Vida! Á Vida!

    Que hei-de fazer, Senhor! o qu'é que espera
    Um bacharel formado em illuzões
    Pela Universidade da Chymera?

    Boa Nova, 1887.

    6

    Conde

    Na praia lá da Boa Nova, um dia,
    Edifiquei (foi esse um grande mal)
    Torreão de gloria, o que é a phantasia,
    Todo de lapis-lazzuli e coral!

    N'aquellas redondezas, não havia
    Quem se gabasse d'um dominio egual:
    Oh o Torreão de gloria! parecia
    O territorio d'um Senhor-feudal!

    Um dia, não sei quando, nem sei d'onde;
    Um vento secco de tortura e spleen
    Deitou por terra, ao pó que tudo esconde,

    O meu condado, o meu condado, sim!
    Porque eu já foi um poderoso Conde,
    N'aquella idade em que se é conde assim…

    Porto, 1887.

    7

    Ó Virgens!

    Ó virgens que passaes, ao sol-poente,
    Pelas estradas ermas, a cantar!
    Eu quero ouvir uma canção ardente
    Que me transporte ao meu perdido lar…

    Cantae-me, n'essa voz omnipotente,
    O sol que tomba, aureolando o mar,
    A fartura da seara reluzente,
    O vinho, a graça, a formozura, o luar!

    Cantae! cantae as limpidas cantigas!
    Das ruinas do meu lar desatterrae
    Todas aquellas illuzões antigas

    Que eu vi morrer n'um sonho, como um ai…
    Ó suaves e frescas raparigas;
    Adormecei-me n'essa voz… Cantae!

    Porto, 1886.

    8

    Á Luz de Lua!

    Iamos sós pela floresta amiga,
    Onde em perfumes o luar se evola,
    Olhando os céus, modesta rapariga!
    Como as crianças ao sair da escola.

    Em teus olhos dormentes de fadiga,
    Meio cerrados como o olhar da rola,
    Eu ia lendo essa ballada antiga
    D'uns noivos mortos ao cingir da estola…

    A Lua-a-Branca, que é tua avozinha,
    Cobria com os seus os teus cabellos
    E dava-te um aspeto de velhinha!

    Que linda eras, o luar que o diga!
    E eu compondo estes versos, tu a lel-os,
    E ambos scismando na floresta amiga…

    Porto, 1884.

    9

    Desobriga

    Os meus peccados, Anjo! os meus peccados!
    Contar-t'os? Para que, se não têm fim…
    Sou santo ao pé dos outros desgraçados,
    Mas tu és mais que santa ao pé de mim!

    A ti accendo cyrios perfumados,
    Faço novenas, queimo-te alecrim,
    Quando soffro, me vejo com cuidados…
    Nas tuas rezas, lembra-te de mim!

    Que eu seja puro d'alma e pensamento!
    E que, em dia do grande julgamento,
    Minhas culpas não sejam de maior:

    Pois tenho, que o céu tudo aponta e marca,
    Um processo a correr n'essa comarca,
    Cujo delegado é Nosso Senhor…

    Hamburgo, 1891.

    10

    Que Aborrecido!

    Meus dias de rapaz, de adolescente,
    Abrem a bocca a bocejar sombrios:
    Deslizam vagarozos, como os rios,
    Succedem-se uns aos outros, egualmente.

    Nunca desperto de manhã, contente.
    Pallido sempre com os labios frios,
    Oro, desfiando os meus rozarios pios…
    Fôra melhor dormir, eternamente!

    Mas não ter eu aspirações vivazes,
    E não ter, como têm os mais rapazes,
    Olhos boiando em sol, labio vermelho!

    Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
    E não sei, sendo assim, emquanto moço,
    O que serei, então, depois de velho…

    Bellos-Ares, 1889.

    11

    Poveiro

    Poveirinhos! meus velhos pescadores!
    Na Agoa quizera com vocês morar:
    Trazer o lindo gorro de trez cores,
    Mestre da lancha _Deixem-nos passar_!

    Far-me-ia outro, que os vossos interiores
    De ha tantos tempos, devem já estar
    Calafetados pelo breu das dores,
    Como esses pongos em que andaes no mar!

    Ó meu Pae, não ser eu dos poveirinhos!
    Não seres tu, para eu o ser, poveiro,
    Mail-Irmão do «Senhor de Mattozinhos»!

    No alto mar, ás trovoadas, entre gritos,
    Promettermos, _si o barco fôri intieiro_,
    _Nossa bela á Sinhora dos Afflictos_!

    Leça, 1889.

    12

    O Sr. Abbade

    Quando vem Junho e deixo esta cidade,
    Batina, _Caes_, tuberculozos céus,
    Vou para o Seixo, para a minha herdade:
    Adeus, cavaco e luar! choupos, adeus!

    Tomo o regimen do Sr. Abbade,
    E faço as pazes, elle o quer, com Deus.
    No seu direito olhar vejo a bondade,
    E ás capellinhas vou ver os judeus.

    Que homem sem par! Ignora o que são dores!
    Para elle uma ramada é o pallio verde,
    Os cachos d'uvas são as suas flores!

    Ao seu passal chama elle o mundo todo…
    Sr. Abbade! olhe que nada perde:
    Viva na paz, ahi, longe do lodo.

    Coimbra, 1850.

    13

    Maes, Vinde Ouvir!

    Longe de ti, na cella do meu quarto,
    Meu copo cheio de agoirentas fezes,
    Sinto que rezas do Outro-mundo, harto,
    Pelo teu filho. Minha Mãe, não rezes!

    Para fallar, assim, ve tu! já farto,
    Para me ouvires blasphemar, ás vezes,
    Soffres por mim as dores crueis do parto
    E trazes-me no ventre nove mezes!

    Nunca me houvesses dado á luz, Senhora!
    Nunca eu mamasse o leite aureolado
    Que me fez homem, magica bebida!

    Fôra melhor não ter nascido, fôra,
    Do que andar, como eu ando, degredado
    Por esta Costa d'Africa da Vida…

    Coimbra, 1889.

    14

    Sê Altivo!

    Altos pinheiros septuagenarios
    E ainda empertigados sobre a serra!
    Sois os Enviados-extraordinarios,
    Embaixadores d'El-Rey Pan, na Terra.

    A noite, sob aquelles lampadarios,
    Conferenciaes com elle… Ha paz? Ha guerra?
    E tomam notas vossos secretarios,
    Que o _Livro Verde_ secular encerra.

    Hirtos e altos, Tayllerands dos montes!
    Tendes a linha, não vergaes as frontes
    Na exigencia da côrte, ou beija-mão!

    Voltaes aos homens com desdem a face…
    Ai oxalá! que Pan me despachasse
    Addido á vossa extranha legação!

    Coimbra, 1888.

    15

    Sê de Pedra!

    Não reparaste nunca? Pela aldeia,
    Nos fios telegraphicos da estrada,
    Cantam as aves, desde que o sol nada,
    E, á noite, se faz sol a lua cheia…

    No entanto, pelo arame que as tenteia,
    Quanta tortura vae, n'uma ancia alada!
    O Ministro que joga uma cartada,
    Alma que, ás vezes, d'além-mar anceia:

    –Revolução!–Inutil.–Cem feridos,
    Setenta mortos.–Beijo-te!–Perdidos!
    –Emfim, feliz!–?–!–Desesperado.–Vem!

    E as lindas aves, bem se importam ellas!
    Continuam cantando, tagarellas:
    Assim, Antonio! deves ser tambem.

    Colonia, 1891.

    16

    Vae para um Convento!

    Falhei na Vida. Zut! Ideaes caidos!
    Torres por terra! As arvores sem ramos!
    Ó meus amigos! todos nós falhamos…
    Nada nos resta. Somos uns perdidos.

    Choremos, abracemo-nos, unidos!
    Que fazer? Porque não nos suicidamos?
    Jezus! Jezus! Resignação… Formamos
    No mundo, o Claustro-pleno dos Vencidos.

    Troquemos o burel por esta capa!
    Ao longe, os sinos mysticos da Trappa
    Clamam por nós, convidam-nos a entrar…

    Vamos semear o pão, podar as uvas,
    Pegae na enxada, descalçae as luvas,
    Tendes bom corpo, Irmãos! Vamos cavar…

    Coimbra, 1889.

    17

    A França!

    Vou sobre o Oceano (o luar de lindo enleva!)
    Por este mar de Gloria, em plena paz.
    Terras da Patria somem-se na treva,
    Agoas de Portugal ficam, atraz…

    Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
    Antonio, onde vaes tu, doido rapaz?
    Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
    Lembra o meu coração, na ancia em que jaz…

    Ó Luzitania que te vaes á vela!
    Adeus! que eu parto (rezarei por ella…)
    Na minha _Nau Catharineta_, adeus!

    Paquete, meu paquete, anda ligeiro!
    Sobe depressa á gavea, marinheiro,
    E grita, França! pelo amor de Deus!…

    Oceano Atlantico, 1890.

    18

    Tempestade!

    O meu beliche é tal qual o bercinho,
    Onde dormi horas que não vêm mais.
    Dos seus embalos já estou cheiinho:
    Minha velha ama são os vendavaes!

    Uivam os ventos! Fumo, bebo vinho.
    O vapor treme! Abraço a _Biblia_, aos ais…
    Covarde! Que dirá teu Avôzinho,
    Que foi moreante? Que dirão teus Paes?

    Coragem! Considera o que has soffrido,
    O que soffres e o que ainda soffrerás,
    E ve, depois, se accaso é permittido

    Tal medo á Morte, tanto apego ao mundo:
    Ah! fôra bem melhor, vás onde vás,
    Antonio, que o paquete fosse ao fundo!

    Golpho de Biscaya, 1891.

    19

    Continua a Tempestade

    Aqui, sobre estas aguas cor de azeite,
    Scismo em meu lar, na paz que lá havia:
    Carlota, á noite, ia ver se eu dormia
    E vinha, de manhã, trazer-me o leite…

    Aqui, não tenho um unico deleite!
    Talvez… baixando, em breve, á Agoa fria,
    Sem um beijo, sem uma _Ave-Maria_,
    Sem uma flor, sem o menor enfeite…

    Ah! podesse eu voltar á minha infancia!
    Lar adorado, em fumos, a distancia,
    Ao pé de minha Irmã, vendo-a bordar…

    Minha velha aia! conta-me essa historia
    Que principiava, tenho-a na memoria,
    «Era uma vez…»
    Ah deixem-me chorar!

    Canal da Mancha, 1891.

    20

    Vaidade, Tudo Vaidade!

    Vaidade, meu amor, tudo vaidade!
    Ouve: quando eu, um dia, for alguem,
    Tuas amigas ter-te-ão amizade,
    (Se isso é amizade) mais do que, hoje, têm.

    Vaidade é o luxo, a gloria, a caridade,
    Tudo vaidade! E, se pensares bem,
    Verás, perdoa-me esta crueldade,
    Que é uma vaidade o amor de tua mãe…

    Vaidade! Um dia, foi-se-me a Fortuna
    E eu vi-me só no mar com minha escuna,
    E ninguem me valeu na tempestade!

    Hoje, já voltam com seu ar composto,
    Mas eu, ve lá! eu volto-lhes o rosto…
    E isto em mim não será uma vaidade?

    Mar do Norte, 1891.

    21

    Paz!

    E a Vida foi, e é assim, e não melhora.
    Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão…
    Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora
    Com uma taça, ou um punhal na mão!

    Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora!
    Chymeras, sonhos, bolas de sabão.
    E a tortura do _além_ e quem lá mora!
    Isso é, talvez, minha unica afflicção…

    Toda a dor pode suspportar-se, toda!
    Mesmo a da noiva morta em plena boda,
    Que por mortalha leva… essa que traz…

    Mas uma não: é a dor do pensamento!
    Ai quem me dera entrar n'esse convento
    Que ha além da Morte e que se chama _A Paz_!

    Pariz, 1891.

    22

    Epilogo

    Meu coração, não batas, pára!
    Meu coração, vae-te deitar!
    A nossa dor, bem sei, é amara,
    A nossa dor, bem sei, é amara…
    Meu coração, vamos sonhar…
    Ao mundo vim, mas enganado.
    Sinto-me farto de viver:
    Vi o que elle era, estou massado,
    Vi o que elle era, estou massado…
    Não batas mais! vamos morrer…
    Bati á porta da Ventura
    Ninguem m'à abriu, bati em vão:
    Vamos a ver se a sepultura,
    Vamos a ver se a sepultura
    Nos faz o mesmo, coração!
    Adeus, Planeta! adeus, ó Lama!
    Que a ambos nós vaes digerir…
    Meu coração, a _Velha_ chama,
    Meu coração, a _Velha_ chama…
    Basta, por Deus! vamos dormir…

    Coimbra, 1888.

    *Carta a Manoel*

    Manoel, tens razão. Venho tarde. Desculpa.
    Mas não foi Anto, não fui eu quem teve a culpa,
    Foi Coimbra. Foi esta paysagem triste, triste,
    A cuja influencia a minha alma não reziste,
    Queres noticias? Queres que os meus nervos fallem?
    Vá! dize aos choupos do Mondego que se callem…
    E pede ao vento que não uive e gema tanto:
    Que, emfim, se soffre abafe as torturas em pranto,
    Mas que me deixe em paz! Ah tu não imaginas
    Quanto isto me faz mal! Peor que as sabbatinas
    Dos _ursos_ na aula, peor que beatas correrias
    De velhas magras, galopando _Ave-Marias_,
    Peor que um diamante a riscar na vidraça!
    Peor eu sei lá, Manoel, peor que uma desgraça!
    Hysterisa-me o vento, absorve-me a alma toda,
    Tal a menina pelas vesperas da boda,
    Atarefada mail-a ama, a arrumar…
    O vento afoga o meu espirito n'um mar
    Verde, azul, branco, negro, cujos vagalhões
    São todos feitos de luar, recordações.
    Á noite, quando estou, aqui, na minha toca,
    O grande evocador do vento evoca, evoca
    Nosso verão magnifico, este anno passado,
    (E a um canto bate, alli, cardiaco, apressado,
    O _tic-tac_ do relogio do fogão)…
    Bons tempos, Manoel, esses que já lá vão!
    Isto, tu sabes? faz vontade de chorar.
    E, pela noite em claro, eu fico-me a scismar,
    Triste, ao clarão da lamparina que desmaia,
    Na existencia que tive este verão na praia,
    Quando, mal na amplidão, vinha arraiando a aurora,
    Ia por esse mar de Jezus-Christo fóra,
    No barco á vela do moreno Gabriel!
    Vejo passar de negro, envoltas n'um burel,
    Quantos sonhos, meu Deus! quantas recordações!
    Phantasmas do passado! encantadas vizões!
    Que, embora estejam lá, no seu paiz distante,
    Oiço-as fallar na minha alcova de estudante.

    Minhas vizões! entrae, entrae, não tenhaes medo!

    Ó _Rio Doce_! tunnel d'agoa e de arvoredo!
    Por onde Anto vogava em o wagon d'um bote…
    E, ao sol do meio dia, os banhos em pelote,
    Quando iamos nadar, á _Ponte de Tavares_!
    Tudo se foi! Espuma em flocos pelos ares!
    Tudo se foi…

    Hoje, mais nada tenho que esta
    Vida claustral, bacharelatica, funesta,
    N'uma cidade assim, cheirando, essa indecente!
    Por toda a parte, desde a Alta á Baixa, a lente!
    Bem me dizias tu, como que adivinhando
    O que isto para mim seria, Amigo, quando
    O anno passado, vim contra tua vontade
    Matricular-me, ahi, n'essa Universidade:
    «Anto não vás…» dizias tu. Eu, fraco, vim.
    Mas certamente, é natural, não chego ao fim.
    Ah quanto fôra bem melhor a formatura,
    Na Escola-Livre da Natureza, Mãe pura!
    Que optimas prelecções as prelecções modernas,
    Cheias de observação e verdades eternas,
    Que faz diariamente o Proff. Oceano!
    Já tinha dado todo o _Coraçao Humano_,
    Manoel! faltava um anno só para acabar
    Meu curso de Psychologia com o Mar.
    Porque troquei pela Coimbra inutil, vã,
    Essa Escola sem par, cujo reitor é Pan?
    Talvez… preguiça, eu sei… A _cabra_ é a cotovia:
    As aulas, lá, começam mal aponta o dia!

    Que tedio o meu, Manoel! Antes de vir, gostava.
    Era a distancia, o _além_, que me impressionava:
    Tinha a poezia do sol-por, d'uma esperança.
    Mas, mal cheguei (que espanto! eu era uma criança…)
    Tudo rolou no solo! A _Tasca das Camellas_
    Para mim, era um sonho, o céu cheio de estrellas:
    Nossa Senhora a dar de ceiar aos estudantes
    Por _6 e 5_! Mas ah! foi-se a Virgem d'antes,
    Tia Camella… só ficou a camelice.

    Comtudo, em meio d'esta futil coimbrice,
    Que lindas coisas a lendaria Coimbra encerra!
    Que paysagera lunar que é a mais doce da Terra!
    Que extraordinarias e medievas raparigas!
    E o rio e as fontes? e as fogueiras? e as cantigas?
    As cantigas! Que encanto! Uma diz-te respeito,
    Manoel; é um sonho, é um beijo, é um amor-perfeito
    Onde o luar gelou: «Manoel! tão lindas moças!
    Manoel! tão lindas são…»

    Que pena que não ouças!

    Quero mostrar-te Coimbra. Has-de gostar. Partamos.
    Dá-me o teu braço e vem d'ahi commigo, vamos!

    Olha… São os _Geraes_, no intervallo das aulas.
    Bateu o quarto. Ve! Vem sahindo das jaulas
    Os estudantes, sob o olhar pardo dos lentes:
    Ao vel-os, quem dirá que são os descendentes
    Dos navegantes do seculo XVI?
    Curvam a espinha, como os aulicos aos reis!
    E magros! tristes! de cabeça derreiada!
    Ah! Como hão-de, amanhã, pegarem uma espada!
    –E os doutores?–Ahi, os tens graves, á porta.
    Porque te ris? Olhal-os tanto… Que te importa?
    Ha duas excepções: o mais, são todos um,
    Quaresma d'alma, sexta-feira de jejum…
    Não quero entanto, meu Manoel, que vás embora
    Sem ver aquelle amor que esta alma adora, adora:
    Olha, acolá. Gigante, altivo como um cedro,
    Olhando para mim com ternura: é o meu Pedro
    Penedo!
    Ó Pedro da minh'alma! meu amigo!
    Que feliz sou, bom velho, em estudar comtigo!
    Mal diria eu em pequenito, quando a ama
    Para eu me callar, vinha fazer-me susto á cama
    Por ti chamava: Pedro! e eu socegava logo,
    Que eras tu o _Papão_! A ama, de olhos em fogo,
    Imitava-te o andar, que não era bem de homem…
    Eu tinha birras?–Ahi vem o lobishomem!
    Dizia ella.–Bate á porta! Truz! truz! truz!
    E tu entravas, Pedro, eu via! Horror! Jezus!

    Meu velho Pedro! meu phantasma de criança!
    Quero-te bem, tanto que tenho na lembrança,
    Quando morreres, Pedro! (o Pedro nunca morre)
    Hei-de pegar em ti, encher de alcool a Torre
    Com todo o meu esmero e, zás! metter-te dentro!
    Pedro! assim ficas enfrascado, ao alto e ao centro,
    E eternamente, para espanto de vindoiros:
    No rotulo porei: _Alli-Bed, Rei dos Moiros_.

    Mas… toca a recolher. Dou uma falta: embora!
    Saiamos…
    Manoel, vamos por ahi fóra
    Lavar a alma, furtar beijos, colher flores,
    Por esses lindos, deliciozos arredores,
    Que vistos uma vez, ah! não se esquecem mais:
    Torres, Condeixa, Santo Antonio de Olivaes,
    Lorvão, Sernache, Nazareth, Tentugal, Cellas!
    Sitios sem par! Onde ha paysagens como aquellas?
    Santos Logares, onde jaz meu coração!
    Cada um é para mim uma recordação…

    _Condeixa_?

    Vamos ao arraial que, alli, ha.
    –Sol, poeira, tanta gente!–É o mesmo, vamos lá!

    Olha! Estudantes, dando o braço ás raparigas,
    Caras de leite, olhos de luar, tranças d'estrigas;
    Arrancam-lhes do seio arfando as violetas,
    Aos hombros d'ellas poem suas capas pretas:
    Que deliciosos estudantes que ellas ficam!
    Velhos aldeões que tudo vêm, mas não implicam,
    Porque, em summa, que mal pode fazer um beijo,
    Vem até nós, sorrindo, aproveitando o ensejo,
    Com o chapéu na mão, simples e bons e honrados:
    Vêm consultar-nos, porque «somos advogados
    E sabemos das leis…» O que devem fazer
    Ahi, n'uma questão, n'uma questão qualquer
    D'agoas com um vizinho: é tal a cheia d'ellas
    Que estraga as plantações!–Que hão-de fazer? Bebel-as!
    E vão-se, assim, jurando aviar nossos conselhos…
    Ai de vós! Ai das vossas agoas, pobres velhos!

    _Tentugal_?

    Que manhã! E não quereres vir…
    Pega nas luvas, no chapéu. Vamos partir.
    É logo alli: quinze kilometros, é perto.
    Espera-nos o Toy, extasia-se o Alberto,
    Pela janella d'esse mundo amplo e rasgado!
    Que lindo dia! ó sol, obrigado, obrigado!
    Paysagem outomnal, alegra-te tambem!
    Hoje, não quero ver ninguem triste, ninguem!
    Outomno, vá! melancholia, faze tregoas!
    Peço paz, rendo-me! Haja paz, n'estas trez legoas!
    Choupos, então? Que é isso? erguei a fronte, vamos!
    Ó verdilhões, ide cantar-lhes sobre os ramos!
    Aves por folhas! Animae-os! animae-os!
    Applica-lhes, ó sol! uma ducha de raios!
    Almas tristes e sós (não é mais triste a minha!)
    Aqui estaes, meu Deus! desde a aurora á tardinha.
    O vento leva-vos a folha, a pelle; o vento
    Leva-vos o orvalho, a agoa, o prezigo, o sustento!
    E dobra-vos ao chão, faz-vos tossir, coitados!
    Estaes aqui, estaes promptos, amortalhados…
    Fazeis lembrar-me, assim, postos n'estes logares,
    Uma colonia de phtysicos, a ares!…
    Não vos verei, talvez, quando voltar; comtudo
    Ver-vos-ei, _la_, um dia, onde se encontra tudo:
    A alma dos choupos, como a do homem, sobe aos céus…
    Ó choupos, até lá… Adeus! adeus! adeus!

    Foi-se a paysagem triste: agora, são collinas;
    Ve-se curraes, eiras, crianças pequeninas,
    Bois a pastar ao longe, aves dizendo missa
    Á natureza e o sol a semear Justiça!
    Vão pela estrada aleijadinhos de moletas;
    Atiro-lhes vintens: vêm pegar-lhes as netas.
    Mas o trem voa á desfilada…–Olá! arreda!
    (Ia-o apanhando: foi por um fio de seda…)
    E assim n'este galope, a charrette rodando,
    Já de Tentugal se vae quazi approximando:
    S. João do Campo já nos fica muito atraz…
    Assim, _Malhado_! puxa! Bravo, meu rapaz!
    Que estamos quasi lá! mexe-me essas ancas!
    Emfim!

    Tentugal toda a rir de cazas brancas!

    A linda aldeia! Venho cá todos os mezes
    E contrariado vou de todas essas vezes.
    Venho ao convento vizitar a linda freira,
    Nunca lhe fallo: talvez, hoje, a vez primeira…
    Vou lá comprar um pastellinho, que eu bem sei
    Que elle trará dentro um bilhete, isto sonhei:
    Assim o pastellinho, ó ventura sonhada!
    Tem de recheio o coração da minha amada.
    Abro o enveloppe ideal. Vamos a ver…–Traz?–Não!

    Regresso a Coimbra só com o meu coração.

    Coimbra, 1888-1889-1890.

    *Para As Raparigas de Coimbra*

    1

    Ó choupo magro e velhinho,
    Corcundinha, todo aos nós:
    És tal qual meu avôzinho,
    Falta-te apenas a voz.

    2

    Minha capa vos acoite
    Que é p'ra vos agazalhar:
    Se por fóra é cor da noite,
    Por dentro é cor do luar…

    3

    Ó sinos de _Santa Clara_,
    Por quem dobraes, quem morreu?
    Ah, foi-se a mais linda cara
    Que houve debaixo do céu!

    4

    A sereia é muito arisca,
    Pescador, que estás ao sol:
    Não cae, tolinho, a essa isca…
    Só pondo uma flor no anzol!

    5

    A lua é a hostia branquinha,
    Onde está Nosso Senhor:
    É d'uma certa farinha
    Que não apanha bolor!

    6

    Vou a encher a bilha e trago-a
    Vazia como a levei!
    Mondego, qu'é da tua agoa?
    Qu'é dos prantos que eu chorei?

    7

    A _cabra_ da velha Torre,
    Meu amor, chama por mim:
    Quando um estudante morre,
    Os sinos chamam, assim.

    8

    –E só porque o mundo zomba
    Que poes luto? Importa lá!
    Antes te vistas de pomba…
    –Pombas pretas tambem ha!

    9

    Therezinhas! Ursulinas!
    Tardes de novena, adeus!
    Os corações ás batinas
    Que diriam? sabe-o Deus…

    10

    Teu coração é uma igreja:
    N'uma eça dorme, alli,
    Manoel, bemdito seja,
    Que morreu d'amor por ti.

    11

    Manoel no _Pio_ repoiza:
    Todos os dias, lá vou
    Ver se quer alguma coiza,
    Perguntar como passou.

    12

    Agora, são tudo amores
    A roda de mim, no _Caes_,
    E, mal se apanham doutores,
    Partem e não voltam mais…

    13

    Aos olhos da minha fronte
    Vinde os cantaros encher:
    Não ha, assim, segunda fonte
    Com duas bicas a correr!

    14

    Nossa Senhora faz meia
    Com linha feita de luz:
    O novello é a lua-cheia,
    As meias são p'ra Jezus.

    15

    Meu violão é um cortiço,
    Tem por abelhas os sons
    Que fabricam, valha-me isso,
    Fadinhos de mel, tão bons…

    16

    Ó fogueiras, ó cantigas,
    Saudades! recordações!
    Bailae, bailae, raparigas!
    Batei, batei, corações!

    Coimbra, 1890.

    *Luzitania no Bairro-Latino*

    Só!
    Ai do Luziada, coitado,
    Que não tem mãe, nem tem avó,
    Que não ama, nem é amado…
    Nuzinho Outomno, no mez d'Abril!
    Que triste foi o seu fado!
    Antes fosse p'ra soldado,
    Antes fosse p'ro Brazil…

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite,
    Searas que davam linho de fiar,
    Moinhos de velas, como latinas,
    Que S. Silvestre fazia andar…
    Formozas cabras, muito pequeninas,
    Loiras vaquinhas de maternas ancas
    Que me davam o leite de manhã,
    Lindo rebanho de ovelhinhas brancas;
    Meus bibes eram da sua lã…

    Antonio era o pastor d'esse rebanho:
    Com ellas ia para os montes, a pastar.
    E tinha pouco mais ou menos seu tamanho,
    E o pasto d'ellas era o meu jantar…
    E a serra a toalha, o covilhete e a sala.
    Passava a noite, passava o dia
    Com essas boas irmãzinhas
    A quem só mingoava a falla
    Para serem perfeitas criaturinhas…
    E quando na Igreja das _Alvas Saudades_
    Que era da minha Torre a freguezia,
    Batiam as _Trindades_,
    Com os seus olhos christianissimos olhavam-me,
    Eu persignava-me, rezava _Ave-Maria_…
    E as doces ovelhinhas imitavam-me.

    Menino e moço, tive uma Torre de leite,
    Torre sem par!
    Oliveiras que davam azeite…
    Um dia, os castellos cairam do Ar!

    As oliveiras seccaram,
    Morreram as vaccas, perdi as ovelhas,
    Sairam-me os ladrões, só me deixaram
    As velas do moinho… mas rôtas e velhas!

    Que triste fado!
    Antes fosse aleijadinho,
    Antes doido, antes cego…

    Ai do Luziada, coitado!

    Veio da terra, mail-o seu moinho:
    Lá, faziam-no andar as agoas do Mondego,
    Hoje, fazem-no andar agoas do Sena…
    É negra a sua farinha!
    Orae por elle! tende pena!
    Pobre Moleiro da Saudade…
    Ó minha
    Terra encantada, cheia de sol,
    Ó campanarios, ó luas cheias,
    Lavadeira que lavas o lençol,
    Ermidas, sinos das aldeias,
    Ó ceifeira que cegas cantando,
    Ó moleiro das estradas,
    Carros de bois, chiando…
    Flores dos campos, beiços de fadas,
    Poentes de Julho, poentes mineraes,
    Ó choupos, ó luar, ó regas de verão!

    Que é feito de vocês? Onde estaes, onde estaes?

    Ó padeirinhas a amassar o pão,
    Velhinhas na roca a fiar,
    Cabello todo em caracoes!
    Pescadores a pescar
    Com a linha cheia de anzoes!
    Zumbidos das vespas, ferrões das abelhas,
    Ó bandeiras! ó sol! foguetes! ó toirada!
    Ó boi negro entre as capas vermelhas!
    Ó pregões d'agoa fresca e limonada!
    Ó romaria do _Senhor do Viandante_!
    Procissões com muzica e anjinhos!
    Srs. Abbades d'Amarante,
    Com trez ninhadas de sobrinhos!

    Onde estaes? onde estaes?

    Ó minha capa de estudante, ás ventanias!
    Cidade triste agazalhada entre choupaes!
    Ó dobres dos poentes, ás _Ave-Marias_!
    Ó _Cabo do Mundo_! _Moreira da Maia_!
    Estrada de S. Thiago! Sete-Estrello!
    Cazas dos pobres que o luar, á noite, caia…
    Fortalezas de Lipp! ó fosso do _Castello_,
    Amortalhado em perrexil e trepadeiras,
    Onde se enroscam como espozos as lagartas!
    Sr. Governador a podar as rozeiras!
    Ó Bruxa do Padre, que botas as cartas!
    Joaquim da Thereza! Francisco da Hora!

    Que é feito de vós?
    Fallaveis aos barcos que andavam, _la fora_,
    Pelo porta-voz…
    Arrabalde, maritimo da França,
    Conta-me a historia da _Princeza Magalona_,
    E do _Senhor de Calais_,
    Mais o naufragio do vapor _Perseverança_,
    Cujos cadaveres ainda vejo á tona…
    Ó pharolim da _Barra_, lindo, de bandeiras,
    Para os vapores a fazer signaes!
    Verdes, vermelhas, azues, brancas, extrangeiras,
    Diccionario magnifico de cores!
    Alvas espumas, espumando a fragua,
    Ou rebentando, á noite, como flores!
    Ondas do mar! Serras da Estrella d'agoa,
    Cheias de brigues como pinhaes…
    Morenos mareantes, trigueiros pastores!

    Onde estaes, onde estaes?

    Convento d'agoas do mar, ó verde convento,
    Cuja Abbadessa secular é a Lua
    E cujo Padre-capellão é o Vento…
    Agoa salgada d'esses verdes poços,
    Que nenhum balde, por maior, escua!
    Ó mar jazigo de paquetes, de ossos,
    Que o Sul, ás vezes, arrola á praia:
    Olhos em pedra, que ainda chispam brilhos!

    Corpo de virgem, que ainda veste a saia…
    Braços de mães, ainda a apertar braços de filhos!
    Noiva cadaver ainda com véu…
    Ossadas ainda com os mesmos fatos!
    Cabeça roxa ainda de chapéu!
    Pés de defunto que ainda traz sapatos!
    Boquinha linda que já não canta…
    Boccas abertas que ainda soltam ais!
    Noivos em nupcias, ainda, aos beijos, abraçados!
    Corpo intacto, a boiar (talvez alguma santa…)
    Ó defuntos do mar! ó roxos arrolados!

    Onde estaes, onde estaes?

    Ó _Boa Nova_, ermida á beira-mar,
    Unica flor, n'essa viv'alma de areaes!
    Na cal, meu nome ainda lá deve estar,
    Á chuva, ao vento, aos vagalhões, aos raios!
    Ó altar da _Senhora_, coberto de luzes!
    Ó poentes da _Barra_, que fazem desmaios…
    Ó _Sant'Anna_, ao luar, cheia de cruzes!
    Ó logar de _Roldao_! villa de _Perafita_!
    Aldeia de _Gonsalves_! Mesticoza!
    Engenheiros, medindo a estrada com a fita…
    Agoa fresquinha d'_Amoroza_!
    Rebolos pela areia! Ó praia da _Memoria_!
    Onde o Sr. D. Pedro, _Rei-soldado_,
    Atracou, diz a Historia,
    No dia… não estou lembrado;

    Ó capellinha do _Senhor d'Areia_,
    Onde o Senhor appareceu a uma velhinha…
    Algas! farrapos do vestido da sereia!
    Lanchas da Povoa que ides á sardinha,
    Poveiros, que ides para as _vinte braças_,
    Sol-por, entre pinhaes…
    Capellas onde o sol faz mortes, nas vidraças!

    Onde estaes?

    2

    Georges! anda ver meu paiz de marinheiros,
    Traze o teu livro, toma as tuas notas:

    Oh as lanchas dos poveiros
    A sairem a barra, entre ondas e gaivotas!
    Que extranho é!
    Fincam o remo n'agoa, até que o remo torça,
    Á espera da maré,
    Que não tarda hi, avista-se lá fóra!
    E quando a onda vem, fincando-o a toda a força,
    Clamam todos á uma. «_Agôra_! _agôra_! _agôra_!»
    E, a pouco e pouco, as lanchas vão saindo
    (Ás vezes, sabe Deus, para não mais entrar…)
    Que vista admiravel! Que lindo! que lindo!
    Içam a vela, quando já têm mar,
    Dá-lhes o vento e todas, á porfia,
    Lá vão soberbas, sob um céu sem manchas,
    Rozario de velas, que o vento desfia,
    A rezar, a rezar a _Ladainha das Lanchas_:

    _S^{nra} Nagonia_!

    Olha, acolá!
    Que linda vae com seu erro de ortographia…
    Quem me dera ir lá!

    _Senhora Da guarda_!

    (Ao leme vàe o Mestre Zé da Leonor)
    Parece uma gaivota: aponta-lhe a espingarda
    O caçador!

    _Senhora d'ajuda_!
    _Ora pro nobis_!
    _Calluda_!
    _Sêmos probes_!
    _S^{enr} dos ramos_!
    _Istrella do mar_!
    _Ca bamos_!

    Parecem Nossa Senhora, a andar.

    _S^{ra} da luz_!

    Parece o pharol…

    _Maim de Jesus_!

    É tal qual ella, se lhe dá o sol!

    _S^r dos Passos_!
    _Sinhora da Ora_!

    Aguias a voar, pelo mar dentro dos espàços!
    Parecem ermidas caiadas por fóra…

    _S^{nr} dos Navegantes_!
    _Senhor de Matuzinhos_!

    Os mestres ainda são os mesmos d'antes:
    Lá vae o Bernardo da Silva do Mar,
    A mail-os quatro filhinhos,
    Vascos da Gama, que andam a ensaiar…

    _Senhora aos aflitos_!
    _Martyr Sao Sebastiao_!
    _Ouvi os nossos gritos_!
    _Deus nos leve pla mao_!
    _Bamos em paz_!

    Ó lanchas, Deus vos leve pela mão!
    Ide em paz!

    Ainda lá vejo o Zé da Clara, os Remelgados,
    O Jéques, o Pardal, na _Nam te perdes_,
    E das vagas, aos rythmos cadenciados,
    As lanchas vão traçando, á flor das agoas verdes:
    «As armas e os barões assignalados…»

    Lá sae a derradeira!
    Ainda agarra as que vão na dianteira…
    Como ella corre! com que força o vento a impelle:

    _Bamos com Deus_!

    Lanchas, ide com Deus! ide e voltae com elle
    Por esse mar de Christo…

    Adeus! adeus! adeus!

    3

    Georges! anda ver meu pàiz de romarias
    E procissões!

    Olha essas moças, olha estas Marias!
    Caramba! dá-lhes beliscões!
    Os corpos d'ellas, ve! são ourivezarias,
    Gula e luxuria dos Maneis!
    Têm nas orelhas grossas arrecadas,
    Nas mãos (com luvas) _trinta moedas_, em anneis,
    Ao pescoço serpentes de cordões,
    E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
    Além dos seus, mais trinta _coraçoes_!
    Vá! Georges, faze-te Manel! viola ao peito,
    Toca a bailar!
    Dá-lhes beijos, aperta-as contra o peito,
    Que hão de gostar!

    Tira o chapéu, silencio!

    Passa a procissão.

    Estralejam foguetes e morteiros.
    Lá vem o Pallio e pegam ao cordão
    Honestos e morenos cavalheiros.
    Altos, tão altos e enfeitados, os andores,
    Parecem _Torres de David_, na amplidão!
    Que linda e aceiada vem a Senhora das Dores!
    Olha o mordomo, á frente, o Sr. Conde.
    Contempla! Que tristes os Nossos Senhores,
    Olhos leaes fitos no vago… não sei onde!

    Os anjinhos!
    Vêm a suar:
    Infantes de trez annos, coitadinhos!
    Mãos inviziveis levam-nos de rastros,
    Que elles mal sabem andar…

    Esta que passa é a _Noite_ cheia de astros!
    (Assim estava, em _certo dia_, na Judeia)
    Aquelle é o _Sol_! (Que bom o sol de olhos pintados!)
    E aquella outra é a _Lua-Cheia_!
    Seus doces olhos fazem luar…
    Essa, acolá, leva na mão os _Dados_,
    Mas perde tudo se vae jogar.
    E esta que passa, toda de arminhos,
    (Ve! d'entre o povo em extazi, olha-a a Mãe)…
    Leva, sorrindo a _Coroa dos Espinhos_,
    Flor de criança que os não tem.
    E que bonita vae a _Esponja de Fel_!
    Mal ella sabe, a innocentinha…
    Nas suas mãos a _Esponja_ deita mel:
    Abelhas d'oiro tomam-lhe a dianteira!
    Lá vem a _Lança_! A bainha
    Traz ainda o sangue da _Sexta-feira_…
    Jezus!
    Que maravilha de criança!
    O Leão morrera ainda outra vez, na cruz,
    Entre ladrões, a suar, lá no Calvario,
    Se fosse este anjo espicaçal-o com a lança…

    Passa o ultimo, o _Sudario_!
    O corpo de Jezus, Nosso Senhor…

    Parece o sol-por!
    E a procissão passa. Maré-cheia de povo!
    É o Oceano Atlantico!
    O bom povinho de fato novo,
    Nas violas de arame soluça, romantico,

    Fadinhos chorozos da su'alma beata.

    Trazem imagens da Funcção nos seus chapéus.

    Poeira opaca. Abafa-se. E, no céu ferro-e-oiro,
    O sol em gloria brilha olympico, e de prata,
    Como a velha cabeça aureolada de Deus!

    Trombetas clamam. Vae correr-se o toiro.
    Passam as chocas, boas mães! passam capinhas.

    Pregões. _Laranjas_! _Ricas cavaquinhas_!
    _Pão de ló de Margaride_!
    _Agoinha fresca da Moirama_!
    _Vinho verde a escorrer da vide_!

    Á porta d'um cazal, um tysico na cama,
    Olha tudo isto com seus olhos de Outro-mundo.
    E uma netinha com um ramo de loireiro
    Enxota as moscas, do moribundo…

    Dança de roda mail-as moças o coveiro.

    Clama um ceguinho:
    «Não ha maior desgraça n'esta vida,
    Que ser ceguinho!»
    Outro, moreno, mostra uma perna partida!
    Mas fede tanto, coitadinho…
    Este, sem braços, diz «que os deixou na pedreira…»
    E esse, acolá, todo o corpinho n'uma chaga,
    Labareda de cancros em fogueira,
    Que o sol atiça e que a gangrena apaga,
    Ó Georges, ve! que excepcional cravina…

    Que lindos cravos para por na botoeira!

    Tysicos! Doidos! Nus! Velhos a ler a sina!
    Etnas de carne! Jobs! Flores! Lazaros! Christos!
    Martyres! Cães! Dhalias de puz! Olhos fechados!
    Rheumaticos! Anões! Deliriuns-tremens! Kistos!
    Monstros, phenomenos, afflictos, aleijados,
    Talvez lá dentro com perfeitos corações:
    Todos, á uma, mugem roucas ladainhas,
    Tragicos, uivam «uma esmola p’las alminhas
    Das suas obrigações!»
    Pelo nariz corre-lhes puz, gangrena, ranho!
    E, coitadinhos! fedem tanto: é de arrazar…

    Qu'é dos pintores do meu paiz extranho?
    Onde estão elles que não vêm pintar!

    Pariz, 1890-1891.

    *Os Figos Pretos*

    –Verdes figueiras soluçantes nos caminhos!
    Vós sois odiadas desde os seculos avós:
    Em vossos galhos nunca as aves fazem ninhos,
    Os noivos fogem de se amar ao pé de vós!

    –Ó verdes figueiras! ó verdes figueiras
    Deixae-o fallar!
    Á vossa sombrinha, nas tardes fagueiras,
    Que bom que é amar!

    –O mundo odeia-vos. Ninguem nos quer, vos ama:
    Os paes transmittem pelo sangue esse odio aos moços.
    No sitio onde medraes, ha quazi sempre lama
    E debruçaes-vos sobre abysmos, sobre poços.

    –Quando eu for defunta para os esqueletos,
    Ponde uma ao meu lado:
    Tristinha, chorando, darà figos pretos…
    De luto pezado!

    –Os aldeões para evitar vosso perfume
    Sua respiração suspendem, ao passar…
    Com vossa lenha não se accende, á noite, o lume,
    Os carpinteiros não vos querem aplainar.

    –Oh cheiro de figos, melhor que o do incenso
    Que incensa o Senhor!
    Podesse eu, quem dera! deital-o no lenço
    Para o meu amor…

    –As outras arvores não são vossas amigas…
    Mãos espalmadas, estendidas, supplicantes,
    Com essas folhas, sois como velhas mendigas
    N'uma estrada, pedindo esmola aos caminhantes!

    –Mendigas de estrada! mendigas de estrada!
    E cheias de figos!
    Os ricos là passam e não vos dao nada,
    Vos daes aos mendigos…

    –Ai de ti! ai de ti! ó figueiral gemente!
    O goivo é mais feliz, todo amarello, lá.
    Ninguem te quer: tua madeira é unicamente
    Utilizada para as forcas, onde as ha…

    –Que màs creaturas! que injustas sois todas
    Que injustas que sois!
    Serà de figueira meu leito da bodas…
    E os berços, depois

    –Tragicas, nuas, esqueleticas, sem pelle,
    Por traz de vós, a lua é bem uma caveira!…
    Ó figos pretos, sois as lagrymas d'aquelle
    Que, em certo dia, se enforcou n'uma figueira!

    –Tambem era negro, de negro cegava
    O pranto, o rosario,
    Que, em certa tardinha, desfiava, desfiava,
    Alguem, no Calvario…

    –E, assim, ao ver no outomno uma figueira nua,
    Se os figos caem de maduros, pelo chão:
    Cuido que é a ossada do Traidor, á luz da lua,
    A chorar, a chorar sua alta traição!

    –Ó minhas figueiras! ó minhas figueiras
    Deixae-o fallar!
    Oh! vinde de hi ver-nos, a arder nas fogueiras
    Cantar e bailar…

    Coimbra, 1889.

    *Febre Vermelha*

    Rozas de vinho! Abri o calice avinhado!
    Para que em vosso seio o labio meu se atole:
    Beber até cair, bebedo, para o lado!
    Quero beber, beber até o ultimo gole!

    Rozas de sangue! Abri o vosso peito, abri-o!
    Montanhas alagae! deixae-as trasbordar!
    As ondas como o oceano, ou antes como um rio
    Levando na corrente Ophelias de luar…

    Camelias! Entreabri os labios de Eleonora!
    Desabrochae, á lua, a ancia dos vossos calis!
    Dá-me o teu genio, dá! ó tulipa de aurora!
    E dá-me o teu veneno, ó rubra digitalis…

    Papoilas! Descerrae essas boccas vermelhas!
    Apagae-me esta sede estonteadora e cruel:
    Ó favos rubros! os meus labios são abelhas,
    E eu ando a construir meu cortiço de mel…

    Rainunculos! Corae minhas faces-de-terra!
    Que seja sangue o leite e rubins as opalas!
    Tal se vêm pelo campo, em seguida a uma guerra,
    Tintos da mesma cor os corações e as balas!…

    Chagas de Christo! Abri as petalas chagadas!
    N'uma raiva de cor, n'uma erupção de luz!
    Escancarae a bocca, ás vermelhas rizadas,
    Cancros de Lazaro! Feridas de Jezus…

    Flores em braza! Orgaos da cor! Tirava
    Operas d'oiro, podesse eu, das vossas teclas.
    Volcões de Maio! ungi minha pelle de lava!
    Dae-me energia, audacia, ó pequeninos Heclas!

    Dae-me do vosso sangue, ó flores! entornae-o
    Nas veias do meu corpo estragado e sem cor:
    Que vida negra! Foi escripto, á luz do raio,
    O triste fado que me deu Nosso Senhor…

    Scismo já farto de velar minha alma doente,
    Não dura um mez siquer, minhas amigas, vede!
    Mas, mal vos vejo, então, pulo alegre e contente
    A uivar, como os leões quando os ataca a sede!

    Corto o estrellado céu, voo atravez do espaço,
    Cruzo o infinito e vou rolar aos pés de Deus,
    Como se accaso fosse, em catapultas de aço,
    Por um Titan de bronze atirado a esses céus!

    Amo o vermelho. Amo-te, ó hostia do sol-posto!
    Fascina-me o escarlate. Os meus tedios estanca:
    E apezar d'isso, ó cruel hysteria do Gosto,
    Certa flor da minh'alma é branca, branca, branca…

    Leça, 1886.

    *Poentes de França*

    –Ó sol! ó sol! ó sol! poente de vinho velho!
    Enche meu copo de S. Graal (deu-m'o a ballada…)
    Ó sol de Normandia! Occidente vermelho,
    Tal o circo andaluz depois d'uma toirada!

    –Vos sois extrangeiros, vos sois extrangeiros,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó sol, cautella! já a noite se avizinha
    O Padre-Oceano vae, em breve, commungar:
    Ó hostia vesperal de vermelha farinha,
    Que o bom Moleiro móe, no seu moinho do Ar!

    Ó sol, às _Trindades_, atraz dos pinheiros,
    Á hora em que passam branquinhos moleiros,
    Levando farinha p'ra cozer o pão!

    –Ó forca do sol-por! ó Inferno de Dante!
    Açougue d'astros! ó sabbat de feiticeiras!
    Ó sol ensanguentado! ó cabeça fallante,
    Que o funambulo Poente anda a mostrar nas feiras!

    –Que paz pelo mundo, n'essa hora ditoza!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –_Arco da Velha_, a rir rizos de sete cores!
    Ó lua na ascenção! ó sol! ó sol! ó sol!
    Cabeça de Iskariote, entre aguias e condores!
    Ó cabeça de Christo, impressa no lençol!

    Que paz pelo mundo, n'essa hora saudoza
    Quando fecha a lojinha a Sra. Roza,
    Quando vem das sachas o Sr. Joao…

    –Ó sol! ó sol! Titan d'este bloco da Terra!
    Ó sol em sangue que ainda pula e arde e scintilla:
    Ó bala de canhão, tu vens d'alguma guerra:
    Varaste os corações d'um exercito em fila!

    –Ó hora em que as agoas rebentam das minas…
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Ó poente verde-mar! ó por-de-sol de azeite!
    Ó longes de trovoada! ó céu dos ventos sues!
    Vacca do Ar, a mugir crepusculos de leite
    E roxos e cardeaes e amarellos e azues!

    –Ó hora em que passam moças e meninas
    Que, em tardes de Maio, vão às _Ursulinas_,
    Com rozas nos seios e um livro na mão…

    –Ó sol! ó sol! Tragico, afflicto, doido, venho
    A tua saude erguer a minha taça ardente!
    Meus grandes olhos são dois bebedos, e tenho
    Dlirium-tremens já, Sir Falstaff do Poente!

    –Eu amo os poentes, mas sem agonias,
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    –Adeus, ó sol! chegou a Noite na fragata,
    A tua porta os marinheiros vão bater:
    Lá vejo os astros por seus calices de prata,
    Na _Taverna do Occaso_, a beber, a beber…

    Ó céus phtysicos, cuspindo em bacias!
    Ó céus como escarros, às _Ave-Marias_!
    Ó poentes de França! não vos amo, não!

    Pariz, 1891.

    *Pobre Tysica*!

    Quando ella passa á minha porta,
    Magra, livida, quazi morta,
    E vae até á beira-mar,
    Labios brancos, olhos pizados:
    Meu coração dobra a finados,
    Meu coração poe-se a chorar…

    Perpassa leve como a folha,
    E suspirando, ás vezes, olha
    Para as gaivotas, para o Ar:
    E, assim, as suas pupillas negras
    Parecem duas toutinegras,
    Tentando as azas para voar!

    Veste um habito cor de leite,
    Saiinha liza, sem enfeite,
    Boina maruja, toda luar:
    Por isso, mal na praia alveja,
    As mais suspiram com inveja:
    «Noiva feliz, que vaes cazar…»

    Triste, acompanha-a um _Terra-Nova_
    Que, dentro em pouco, á fria cova
    A irá de vez acompanhar…
    O chão desnuda com cautella,
    Que _Boy_ conhece o estado d'ella:
    Quando ella tosse, poe-se a uivar!

    E, assim, sósinha com a aia,
    Ao sol, se assenta sobre a praia,
    Entre os bébés, que é o seu logar…
    E o Oceano, tremulo avôzinho,
    Cofiando as barbas cor de linho,
    Vem ter com ella a conversar…

    Fallam de sonhos, de anjos, e elle
    Falla d'amor, falla d'aquelle
    Que tanto e tanto a faz penar…
    E o coração parte-se todo,
    Quando a sorrir, com tão bom modo,
    O Mar lhe diz: «Ha-de sarar…»

    Sarar? Mizerrima esperança!
    Padres! ungi essa criança,
    Podeis sua alma encommendar:
    Corpinho d'anjo, casto e inerme,
    Vae ser amada pelo Verme:
    O bichos vão-na desfructar…

    Sarar? Da cor dos alvos linhos,
    Parecem fuzos seus dedinhos,
    Seu corpo é roca de fiar…
    E, ao ouvir-lhe a tosse secca e fina,
    Eu julgo ouvir n'uma officina
    Taboas do seu caixão pregar!

    Sarar? Magrita como o junco,
    O seu nariz (que é grego e adunco)
    Começa aos poucos de afilar,
    Seus olhos lançam igneas chammas…
    Ó pobre mãe, que tanto a amas,
    Cautella! O outomno está a chegar…

    Leça, 1889.

    *A Poezia do Outomno*

    Noitinha. O sol, qual brigue em chammas, morre
    Nos longes d'agoa… Ó tardes de novena!
    Tardes de sonho em que a poezia escorre
    E os bardos, a sonhar, molham a penna!

    Ao longe, os rios de agoas prateadas
    Por entre os verdes cannaviaes, esguios,
    São como estradas liquidas, e as estradas
    Ao luar, parecem verdadeiros rios!

    Os choupos nus, tremendo, arripiadinhos,
    O chale pedem a quem vae passando…
    E nos seus leitos nupciaes, os ninhos,
    As lavandiscas noivam piando, piando!

    O orvalho cae do céu, como um unguento.
    Abrem as boccas, aparando-o, os goivos…
    E a larangeira, aos repellões do vento,
    Deixa cair por terra a flor dos noivos.

    E o orvalho cae… E, á falta d'agoa, rega
    O val sem fruto, a terra arida e nua!
    E o Padre-Oceano, lá de longe, prega
    O seu Sermão de Lagrymas, á Lua!

    Tardes de outomno! ó tardes de novena!
    Outubro! Mez de Maio, na lareira!
    Tardes…
    Lá vem a Lua, _gratiae plena_,
    Do convento dos céus, a eterna freira!

    Porto, 1886.

    S.^{ta} Iria

    N'um rio virginal d'agoas claras e mansas,
    Pequenino baixel, a santa vae boiando…
    Pouco e pouco, dilue-se o oiro das suas tranças
    E, diluido, ve-se as agoas aloirando.

    Circumda-a um resplendor, a luzir esperanças,
    Unge-lhe a fronte o luar, avelludado e brando,
    E, com a graça etherea e meiga das crianças,
    Formosa Iria vae boiando, vae boiando…

    Á lua, cantam as aldeãs de _Riba-Joia_,
    E, ao verem-na passar, phantastica barquinha,
    Exclamam todas: «Olha um marmore que aboia!»

    Ella entra, emfim, no Oceano… E escuta-se, ao luar,
    A mãe do pescador, rezando a ladainha
    Pelos que andam, Senhor! sobre as agoas do mar…

    Leça, 1885.

    *Enterro de Ophelia*

    Morreu, Vae a dormir, vae a sonhar… Deixal-a!
    (Fallae baixinho: agora mesmo se ficou…)
    Como padres orando, os choupos formam ala,
    Nas margens do ribeiro onde ella se afogou…

    Toda de branco vae, n'esse habito de opala,
    Para um convento: não o que o Hamlet lhe indicou,
    Mas para um outro, horror! que tem por nome _Valla_,
    D'onde jamais saiu quem, lá, uma vez entrou!…

    O lindo Por-do-Sol, que era doido por ella,
    Que a perseguia sempre, em palacio e na rua,
    Vede-o, coitado! mal pode suster a vela…

    Como damas de honor, nymphas seguem-lhe os rastros,
    E, assomando no céu, sua Madrinha, a Lua,
    Por ella vae desfiando as suas contas, Astros!

    Leça, 1888.

    *Ballada do Caixão*

    O meu vizinho é carpinteiro,
    Algibebe de Dona Morte:
    Ponteia e coze, o dia inteiro,
    Fatos de pau de toda a sorte:
    Mogno, debruados de velludo
    Flandres gentil, pinho do Norte…
    Ora eu que trago um sobretudo
    Que já me vae a aborrecer,
    Fui-me lá, hontem: (era Entrudo,
    Havia immenso que fazer!…)
    –Olá, bom homem! quero um fato,
    Tem que me sirva?–Vamos ver…
    Olhou, mexeu na caza toda…
    –Eis aqui um e bem barato.

    –Está na moda?–Está na moda.
    (Gostei e nem quiz apreçal-o:
    Muito justinho, pouca roda…)
    –Quando posso mandar buscal-o?
    –Ao por-do-sol. Vou dal-o a ferro:
    (Poz-se o bom homem a aplainal-o…)

    Ó meus amigos! salvo-erro,
    Juro-o pela alma, pelo céu!
    Nenhum de vós, ao meu enterro,
    Irá mais dandy, olhae! do que eu!

    Pariz, 1891.

    *Á Toa*

    O Primeiro Homem

    Que lindo mundo! E eu só! Que tortura tamanha!
    Ninguem! Meu pae é o céu. Minha mãe é a montanha.

    A Montanha

    Os meus cabellos são os pinheiraes sombrios
    E veias do meu corpo os azulados rios.

    Os Rios

    Nós somos o suor que o Estio asperge e sua,
    Nós somos, em Janeiro, a agoa-benta da Lua!

    A Lua

    Eu sou a bala, no Ar detida, d'essa guerra
    Que teve contra Deus, em seu principio, a Terra…

    A Terra

    E eu uma das maçãs, entre outras a primeira,
    Que certo Virgem viu cair d'uma macieira!

    A Macieira

    Tantas ainda por cair! Vinde colhel-as!
    Abanae a macieira e cairão estrellas!

    A Estrellas

    No mar, á noite, reflectimo-nos, a olhar,
    E formamos, assim, as _Estrellas-do-mar_…

    O Mar

    Sou padre. São d'agoa meus Santos-Evangelhos:
    Accendei meu altar, relampagos vermelhos!

    Os Relampagos

    Nós somos (o contrario, embora, seja escripto)
    Os fogos-tátuos d'esta cova do Infinito…

    O Infinito

    Sou o mar sem borrasca, onde emfim se descança.
    Aqui, vem desagoar o rio da Esperança…

    A Esperança

    Morri, irmãos! mas lá ficaram minhas vestes,
    No vosso mundo: dei-as dadas aos cyprestes.

    Os Cyprestes

    Para apontar os céus, como dedos funereos,
    Plantaram-nos no pó dos mudos cemiterios…

    Os Cemiterios

    Porão, beliches, tudo cheio!… Os céus absortos!
    Não cabe em Josaphat esta leva de mortos!

    Os Mortos

    Seculos tombam uns sobre outros, como blocos,
    E nós dormindo sempre, eternos dorminhocos!

    Porto, 1885.

    *A Vida*

    Ó grandes olhos outomnaes! mysticas luzes!
    Mais tristes do que o amor, solemnes como as cruzes!
    Ó olhos pretos! olhos pretos! olhos cor
    Da capa d'Hamlet, das gangrenas do Senhor!
    Ó olhos negros como noites, como poços!
    Ó fontes de luar, n'um corpo todo ossos!
    Ó puros como o céu! ó tristes como levas
    De degredados!

    Ó Quarta-feira de Trevas!

    Vossa luz é maior, que a de trez luas-cheias:
    Sois vós que allumiaes os prezos, nas cadeias,
    Ó velas do perdão! candeias da desgraça!
    Ó grandes olhos outomnaes, cheios de Graça!
    Olhos accezos como altares de novena!
    Olhos de genio, aonde o Bardo molha a penna!
    Ó carvões que accendeis o lume das velhinhas,
    Lume dos que no mar andam botando as linhas…
    Ó pharolim da barra a guiar os navegantes!
    Ó pyrilampos a allumiar os caminhantes,
    Mais os que vão na diligencia pela serra!
    Ó Extrema-Uncção final dos que se vão da Terra!
    Ó janellas de treva, abertas no teu rosto!
    Thuribulos de luar! Luas-cheias d'Agosto!
    Luas d'Estio! Luas negras de velludo!
    Ó luas negras, cujo luar é tudo, tudo
    Quanto ha de branco: véus de noivas, cal
    Da ermida, velas do hiate, sol de Portugal,
    Linho de fiar, leite de nossas mães, mãos juntas
    Que têm erguidas entre cyrios, as defuntas!
    Consoladores dos Afílictos! Ó olhos, Portas
    Do Céu! Ó olhos sem bulir como agoas-mortas!
    Olhos ophelicos! Dois soes, que dão sombrinha…
    Que são em preto os _Olhos Verdes_ de Joanninha…
    Olhos tranquillos e serenos como pias!
    Olhos Christãos a orar, a orar _Ave Marias
    Cheias de Luz_! Olhos sem par e sem irmãos,
    Aos quaes estendo, toda a hora, as frias mâos!
    Estrellas do pastor! Olhos silenciozos,
    E milagrozos, e misericordiozos,
    Com os teus olhos nunca ha noites sem luar,
    Mesmo no inverno, com chuva e a relampejar!
    Olhos negros! vós sois duas noites fechadas,
    Ó olhos negros! como o céu das trovoadas…

    Mas dize, meu amor! ó Dona de olhos taes!
    De que te serve ter uns astros sem eguaes?
    Olha em redor, poiza os teus olhos! O que ves?
    O mar a uivar! A espuma verde das marés!
    Escarros! A traição, o odio, a agonia, a inveja!
    Toda uma cathedral de lutas, uma igreja
    A arder entre clarões de coleras! O orgulho
    Insupportavel tal o meu, e o sol de Julho!
    Jezus! Jezus! quantos doentinhos sem botica!
    Quantos lares sem lume e quanta gente rica!
    Quantos reis em palacio e quanta alma sem ferias!
    Quantas torturas! Quantas Londres de mizerias!
    Quanta injustiça! quanta dor! quantas desgraças!
    Quantos suores sem proveito! quantas taças
    A trasbordar veneno em espumantes boccas!
    Quantos martyrios, ai! quantas cabeças loucas,
    N'este macomio do Planeta! E as orfandades!
    E os vapores no mar, doidos, ás tempestades!
    E os defuntos, meu Deus! que o vento traz á praia!
    E aquella que não sae por ter uzada a saia!
    E os que sossobram entre a vaidade e o dever!
    E os que têm, amanhã, uma lettra a vencer!
    Olha essa procissão que passa: um torturado
    De Infinito! Um rapaz que ama sem ser amado,
    E para ser feliz fez todos os esforços…
    Olha as insomnias d'uma noite de remorsos,
    Como dez annos de prizão maior-cellular!
    Olha esse tysico a tossir, á beira-mar…
    Olha o bébé que teve Torre de coral
    De lindas illuzões, mas que uma aguia, afinal,
    Devorou, pois, ao vel-a ao longe, avermelhada,
    Cuidou, ingenua! que era carne ensanguentada!
    Quantos são, hoje? Horror! A lembrança das datas…
    Olha essas rugas que têm certos diplomatas!
    Olha esse olhar que têm os homens da politica!
    Olha um artista a ler, soluçando, uma critica…
    Olha esse que não tem talento e o julga ter
    E aquelle outro que o tem… mas não sabe escrever!
    Olha, acolá, a Estupidez! Olha a Vaidade!
    Olha os Afflictos! A Mentira na Verdade!
    Olha um filho a espancar o pae que tem cem annos!
    Olha um moço a chorar seus crueis desenganos!
    Olha o nome de Deus, cuspido n'um jornal!
    Olha aquelle que habita uma Torre de sal,
    Muros e andaimes feitos, não de ondas coalhadas,
    Mas de outras que chorou, de lagrymas salgadas!
    Olha um velhinho a carregar com a farinha
    E o filho no arraial, jogando a vermelhinha!
    Olha a sair a barra a galera _Gentil_
    E a Anna a chorar p'lo João que parte p'ro Brazil!
    Olha, acolá, no caes uma outra como chora:
    É o marido, um ladrão, que vae «p'la barra fóra!»
    Olha esta noiva amortalhada, n'um caixão…

    Jezus! Jezus! Jezus! o que hi vae de afflicção!

    Ó meu amor! é para ver tantos abrolhos,
    Ó flor sem elles! que tu tens tão lindos olhos!
    Ah! foi para isto que te deu leite a tua ama,
    Foi para ver, coitada! essa bola de lama
    Que pelo espaço vae, leve como a andorinha,
    A Terra!

    Ó meu amor! antes fosses ceguinha…

    Pariz, 1891.

    *O Somno de João*

    O João dorme… (Ó Maria,
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…)

    Tem só um palmo de altura
    E nem meio de largura:
    Para o amigo orangotango
    O João seria… um morango!
    Podia engulil-o um leão
    Quando nasce! As pombas são
    Um poucochinho maiores…
    Mas os astros são menores!

    O João dorme… Que regalo!
    Deixal-o dormir, deixal-o!
    Callae-vos, agoas do moinho!
    Ó mar! falla mais baixinho…
    E tu, Mãe! e tu, Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    O João dorme… Innocente!
    Dorme, dorme eternamente,
    Teu calmo somno profundo!
    Não acordes para o mundo,
    Póde affogar-te a maré:
    Tu mal sabes o que isto é…

    Ó Mae! canta-lhe a canção,
    Os versos do teu irmão:
    «Na Vida que a Dor povoa,
    Ha só uma coisa boa,
    Que é dormir, dormir, dormir…
    Tudo vae sem se sentir.»

    Deixa-o dormir, até ser
    Um velhinho… até morrer!

    E tu vel-o-ás crescendo
    A teu lado (estou-o vendo
    João! Que rapaz tão lindo!)
    Mas sempre, sempre dormindo…

    Depois, um dia virá
    Que (dormindo) passará
    Do berço, onde agora dorme,
    Para outro, grande, enorme:
    E as pombas que eram maiores
    Que João… ficarão menores!

    Mas para isso, ó Maria!
    Dize áquella cotovia
    Que falle mais devagar:
    Não vá o João, acordar…

    E os annos irão passando.

    Depois, já velhinho, quando
    (Serás velhinha tambem)
    Perder a cor que, hoje, tem,
    Perder as cores vermelhas
    E for cheiinho de engelhas:
    Morrerá sem o sentir,
    Isto é deixa de dormir…
    Acorda e regressa ao seio
    De Deus, que é d'onde elle veio…

    Mas para isso, ó Maria!
    Pede áquella cotovia
    Que falle mais davagar:

    Não vá o João, acordar…

    Pariz, 1891.

    *Ao Canto do Lume*

    Novembro. Só! Meu Deus, que insupportavel mundo!
    Ninguem, viv'alma… O que farão os mais?
    Senhor! a Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen o d'estas noites immortaes!

    Faz tanto frio. (Só de a ver me gela, a cama…)
    Que frio! Olá, Joseph! bota mais carvão!
    E quando todo se extinguir na aurea chamma,
    Eu botarei (para que serve? já não ama…)
    As cinzas brancas, meu vermelho coração!

    Lá fóra o vento como um gato bufa e mia…
    Ó pescadores, vae tão bravo o mar!
    Cautella… Orçae! Largae a escota! _Ave Maria!
    Cheia de Graça_… Horror! Mortos! E a agoa tão fria!…
    Que triste ver defuntos a boiar!

    Spleen! Que hei-de eu fazer? Dormir, não tenho somno,
    Leva-me a carne a Dor, desgasta-me o perfil.
    Nada ha peior que este somnambulo abandono!
    Ó meus Castellos-em-Hespanha! Ó meu outomno
    D'alma! Ó meu cair-das-folhas, em Abril!

    A Vida! Horror! Ó vós que estaes no ultimo alento!
    Que felizes, sois prestes a partir!
    Ó Morte, quero entrar no teu Recolhimento!…
    Oiço bater. Quem é? Ninguem: um rato… o vento…
    Coitado! é o Georges, tysico, a tossir…

    Mez de Novembro! Mez dos tysicos! Suando
    Quantos, a esta hora, não se estorcem a morrer!
    Ve-se os padres as mãos, contentes, esfregando…
    Mez em que a cera dá mais e a botica, e quando
    Os carpinteiros têm mais obra p'ra fazer…

    Oiço um apito. O trem que se vae… Engatar-te
    Quem me dera o wagon dos sonhos meus!
    Lá passa, ao longe. Adeus! Quizera accompanhar-te…
    –Boa viagem! Feliz de quem vae, de quem parte!
    Coitado de quem fica… Adeus! adeus!

    Viajar? Illuzão. Todo o planeta é zero.
    Por toda a parte é vil o homem e bom o céu.
    –Americas! Japão! Indias! Calvario!… Quero
    Mas é ir, á Ilha, orar sobre a cova do Anthero
    E a Agueda beber agoa do Botareu…

    Vi a Ilha loira, o Mar! Pizei terras de Hespanha,
    Paizes raros, Neves, Areiaes;
    Cantando, ao luar, errei nas ruas da Allemanha,
    Armei na França minha tenda de campanha…
    E tedio, tedio, tedio e nada mais!

    Que hei-de eu fazer? Callae essas canções immundas,
    Cervejarias do Quartier! Rezae, rezae!
    Paysagem, onde estás? Ó luar, agoas profundas!
    Ó choupos, á tardinha, altivos, mas corcundas,
    Tal como aspirações irrealizaveis, ai!

    Não me tortura mais a Dor. Sou feliz. Creio
    Em Deus, n'uma outra vida, além do Ar.
    Meus livros dei-os, meu Philosopho queimei-o:
    Agora, trago uma medalha sobre o seio
    Com a qual fallo, ás noites, ao deitar.

    Espiritos! em vão, debalde por vós clamo:
    Porque me abandonaes? Ó almas, vinde a mim!
    As vezes, vindes consolar-me e não vos chamo,
    E, hoje, não… Porque? Traço o parallelogrammo,
    Extingo o lume, apago a luz: nem mesmo assim!

    Ó almas do Outro-mundo! a minha alma anceia
    Pelo luar da lua de Canaan:
    Quero passar o _além_ que para além se alteia,
    A nação de que a Terra é uma pequena aldeia
    E um logarejo a Estrella da Manhã!

    (E a chuva cae…) Meu Deus! Que insupportavel mundo!
    Viv'alma! (O vento geme…) O que farão os mais?
    Senhor! A Vida não é um rapido segundo:
    Que longas horas estas horas! Que profundo
    Spleen mortal o d'estas noites immortaes!

    Pariz, 1890-1891.

    *A Sombra*

    Não tarda a sombra, ahi. Vae alto o Sete-Estrello
    São horas d'ella vir. Minha alma, attende!
    Que já a lua, a sentinella, rende
    Na esplanada do céu, ás portas do Castello…

    Oiço um rumor: talvez… Eil-a, é ella: ao longe, avisto
    Seu vulto em flor: postas as mãos no seio,
    Com o cabello separado ao meio,
    Todo caido para traz, como o de Christo!

    Sorri. Que linda vem, Jezus! Que bem vestida!
    Quantas lembranças d'este peito arranco!
    Foi assim, que primeiro a vi, de branco,
    Foi n'esse traje que ella sempre andou, em vida!

    Que luz projecta! Que explendor! Parece dia!
    Os gallos cantam, annunciando a aurora!…
    Ide deitar-vos que ainda não é a hora,
    Dorme o teu somno, socegada, ó cotovia!

    Mas vós, ó pedras, affastae-vos, que ella passa!
    Silencio, rouxinoes, eu quero ouvil-a…
    Terá ainda a mesma voz tranquilla?
    Ah! ainda é o mesmo o seu andar, cheio de Graça…

    Mas ao passar por mim, como d'algum perigo,
    Foge. (Talvez, já seja tarde…) Ó Clara!
    Nuvem! Phantasma! Ouve-me! Pára!…
    E oiço a voz d'ella n'um murmurio:
    «Anda commigo…»

    Coimbra, 1888.

    *O Meu Cachimbo*

    Ó meu cachimbo! Amo-te immenso!
    Tu, meu thuribudo sagrado!
    Com que, bom Abbade, incenso
    A Abbadia do meu passado.

    Fumo? E occorre-me á lembrança
    Todo esse tempo que lá vae,
    Quando fumava, ainda criança,
    Ás escondidas do meu Pae.

    Vejo passar a minha vida,
    Como n'um grande cosmorama:
    Homem feito, pallida Ermida,
    Infante, pela mão da ama…

    Por alta noite, ás horas mortas,
    Quando não se ouve pio, ou voz,
    Fecho os meus livros, fecho as portas
    Para fallar comtigo a sós.

    E a noite perde-se em cavaco,
    Na Torre d'Anto, aonde eu moro!
    Alli, mettido no buraco,
    Fumo e, a fumar, ás vezes… choro.

    Chorando (penso e não o digo)
    Os olhos fitos neste chão,
    Que tu és leal, és meu amigo…
    Os meus amigos onde estão?

    Não sei. Tral-os-á o «nevoeiro»…
    Os trez, os intimos, _Aquelles_,
    Estão na Morte, no extrangeiro…
    Dos mais não sei, perdi-me d'elles.

    Morreram-me uns. Por elles peço
    A Deus, quando está de maré:
    E, ás noites, quando eu adormeço,
    Phantasmas, vêm, pé ante pé…

    Tristes, nostalgicos da cova,
    Entram. Sorrio-lhes e fallo…
    Deixam-se estar na minha alcova,
    Até se ouvir cantar o gallo…

    Outros, por esses cinco oceanos,
    Por esse mundo erram, talvez…
    Não me escreveis, ha tantos annos!
    Que será feito de vocês?

    Hoje, delicias do abandono!
    Vivo na paz, vivo no limbo:
    Os meus amigos são o Outomno,
    O Mar e tu, ó meu Cachimbo!

    Ah! quando for do meu enterro,
    Quando eu partir gelado, emfim,
    No meu caixão de mogno e ferro,
    Quero que vás ao pé de mim.

    Santa mulher que me tratares,
    Quando em teus braços desfalleça,
    Caso meus olhos não cerrares,
    Embora! Que isto não te esqueça:

    Colloca, sob a travesseira,
    O meu cachimbo singular
    E enche-o, sollicita enfermeira,
    Com _Gold-Fly_, para eu fumar…

    Como passar a noite, amigo!
    No _Hotel da Cova_ sem conforto?
    Assim, levando-te commigo,
    Esquecer-me-ei de que estou morto…

    Coimbra, 1889.

    *Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)*

    Memoria
    A J. d'Oliveira Macedo,
    Eduardo Coimbra, Antonio Fogaça.

    Ás horas do crepusculo, ao _Bemdito_,
    Quando a formoza Lua, a leiteirinha,
    Vae dar o leite ás cazas do Infinito…

    Ás horas das _Trindades_, á noitinha,
    Quando ha milagres e sublimes couzas
    E caza o rouxinol com a andorinha…

    Quando a alma das virgens religiozas,
    Triste se envolve n'um burel de magoa
    E os anjos noivam mail-as suas Rozas…

    Quando o luar azula a espuma, a fragua,
    E o céu sem fim, a abbobada estrellada,
    Como que tem os olhos razos de agoa…

    N'essa hora indeciza, augustiada,
    Em que o universo está, meio ás escuras,
    Que não se sabe se é antes a alvorada:

    Eu pude ver, erguendo-se ás alturas,
    Essa radioza lagryma de pranto
    Que despedem, morrendo, as criaturas.

    E ao vir da noite, livido de espanto,
    Vi uma estrella a mais no azul do céu:
    É que um poeta, um justo, um bom, um santo,

    Ás horas do crepusculo… morreu!
    O simples coração de Julieta
    Dentro da alma clara de Romeu!

    Uma criação de Deus, mas incompleta:
    Aguia, encerrando um coração de pomba,
    Cedro que dava folhas de violeta!

    Ah, quando vejo alguma flor que tomba
    Meu coração estorce-se de dor,
    De Deus minha alma inconsolavel zomba!

    Um lyrio branco, o seu primeiro amor,
    Aos ventos, aos relampagos, ficou
    N'este Valle de Lagrymas, Senhor!

    Quem lhe dera a mortalha que levou
    Toda coberta do cabello loiro
    Da mystica menina que elle amou!

    Vede-a, acolá, chorando o seu thesoiro,
    Na janella que deita para o mar,
    Soltas ao vento as suas tranças de oiro!

    Ó Via-Lactea, ó Sete-Estrello, ó Luar,
    Ó Lua, noiva da esverdeada fera,
    Deixae do céu a vossa luz tombar!

    Ó aves, que trazeis a primavera,
    Para cobrir o solitario ninho,
    Ide buscar á sua campa a hera!

    Ó pombas de luar, pombas de linho,
    Que ides tão alto, divagando errantes,
    Quazi mortas, perdidas no caminho:

    Do vento sobre as azas triumphantes
    Prendei a aza e, assim, acompanhae
    O scismador que vos cantava d'antes!

    Elle precorre victoriozo, olhae!
    Entre espumas de brancas andorinhas
    O Novo-Mundo, e que ligeiro vae!

    Dizem-lhe adeus da terra as criancinhas,
    Co'as tranças a acenar, mandam-lhe abraços
    E beijos com as pallidas mãozinhas…

    Mas elle vae boiando nos espaços,
    Sendo o seu corpo uma subtil galera
    Com leves remos de marfim, seus braços…

    Onde vae elle? a que ditoza esphera
    Velhinha Morte a sua alma guia?…
    Que vida immensa, lá no céu, o espera!

    Para ganhar o pão de cada dia
    Cuidará da lavoira, mais das flores,
    Lavrando as terras da Virgem Maria!

    Longe dos vis, dos maus, dos peccadores,
    N'uma herdade do céu, entre charruas,
    A cavar entre simples lavradores,

    Semeando estrellas e plantando luas…
    E ainda o choram, que feliz desgosto!
    O vento passa a uivar por essas ruas…

    E um oleo algente, excepcional composto,
    Tomba do Ar: é a Extrema-Uncção da Morte
    Que lhe alvorece as mãos e lhe unge o rosto.

    E choraes! Quem vos dera a sua sorte!
    Porque é que vós carpis, agoas da fonte?
    Não chores mais estrella azul do Norte!

    Dobram-se ao vento os cannaviaes do monte,
    E, como a juba d'um leao hirsuto,
    O cedro curva, em tempestade, a fronte;

    Os pallidos jasmins vestem de luto…
    Comtudo o Morto fixa, inconsciente,
    O vivo olhar sem lagrymas, enxuto.

    Formozo, branco, meigo, sorridente,
    Com esses olhos que parecem soes,
    Vaes repoizar na cova, eternamente.

    O teu genio legaste-o aos rouxinoes.
    E allumia-te a bocca de criança,
    O sorrizo dos virgens, dos heroes!

    E o corpo teu na cova, essa esperança
    Eterna como os seculos e as flores,
    Entre verduras, afinal, descança…

    Ah, nem tigres, nem aguias, nem condores,
    Abrem as campas, lugubres cavernas:
    O coveiro é o melhor dos constructores!
    Covas que elle abra são cazas eternas.

    Leça, 1885.

    *Quando Chegar a Hora*

    Quando eu, feliz! morrer, oiça, Sr. Abbade,
    Oiça isto que lhe peço:
    Mande-me abrir, alli, uma cova á vontade,
    Olhe: eu mesmo lh'a meço…

    O coveiro é podão, fal-as sempre tão baixas…
    O cão pode lá ir:
    Diga ao moço, que tem a pratica das sachas,
    Que m'a venha elle abrir.

    E o sineiro que, em vez de dobrar a finados,
    Que toque a Alléluia!
    Não me diga orações, que eu não tenho peccados:
    A minha alma é dia!

    Será meu confessor o vento, e a luz do raio
    A minha Extrema-Uncção!
    E as carvalhas (chorae o poeta, encommendae-o!)
    De padres farão.

    Mas as aguias, um dia, em bando como astros,
    Virão devagarinho,
    E hão-de exhumar-me o corpo e leval-o-ão de rastros,
    Em tiras, para o ninho!

    E ha-de ser um deboche, um pagode, o demonio,
    N'aquelle dia, ai!
    Aguias! sugae o sangue a vosso filho Antonio,
    Sugae! sugae! sugae!

    Raro têm de comer. A pobreza consome
    As aguias, coitadinhas!
    Ao menos, n'esse dia, eu matarei a fome
    A essas desgraçadinhas…

    De que serve, Sr. Abbade! o nosso pacto:
    Não me lembrei, não vi
    Que tinha feito com as aguias um contrato,
    No dia em que nasci.

    Seixo, 1886.

    *Certa Velhinha*

    1

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    Não leva candeia; hoje, o céu não tem luzes…
    Cautella, velhinha, não vás tropeçar!

    Os ventos entoam cantigas funestas,
    Relampagos tingem de vermelho o Azul!
    Aonde irá ella, n'uma noite d'estas,
    Com vento da _Barra_ puxado do sul?

    Aonde irá ella, pastores! boieiras!
    Aonde irá ella, n'uma noite assim?
    Se for un phantasma, fazei-lhe fogueiras,
    Se for uma bruxa, queimae-lhe alecrim!

    Contava-me aquella que a tumba já cerra,
    Que Nossa Senhora, quando a chama alguem,
    Escolhe estas noites p'ra descer á Terra,
    Porque em noites d'estas não anda ninguem…

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que linda velhinha que vem a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes!
    Quaes velas accezas que a vêm a guiar…

    Que pobre capinha que leva de rastros,
    Tão velha, tão rôta! Que triste viuvez!
    Mas se lhe dá vento, meu Deus! tantos astros!
    É o céu estrellado vestido do envez…

    Seu alvo cabello, molhado das chuvas,
    Parece uma vinha de luar em flor…
    Oh cabello em cachos, como cachos de uvas!
    So no céu ha uvas com aquella cor…

    A luz dos seus olhos é uma luz tamanha
    Que ao redor espalha divino clarão!
    Parece que chove luar na montanha…
    Que noite de inverno que parece verão!

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Velhinha tão alta que vem a chegar!
    Parece uma Torre côada de luzes!
    Ou antes a _Torre de Marfim_, a andar!

    Não! Não é uma Torre côada de luzes,
    Nem antes a _Torre de Marfim_, a andar,
    Que pela tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite destas, eu vejo passar…

    Tambem não é, ouve, minha velha ama!
    Como tu contavas, a Virgem de Luz:
    Digo-te ao ouvido como ella se chama,
    Mas guarda segredo, que é…
    –Jezus! Jezus!

    2

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Já não é a velhinha que vae a passar:
    Um grande cortejo cheiinho de luzes,
    Anninhas da Eira que vae a enterrar.

    Falla d'um pastor:

    «Anninhas da Eira! Anninhas da Eira!
    Cantae, raparigas, cantae e chorae!
    Morreu, coitadinha! sorrindo, trigueira,
    Como um passarinho, sem soltar um ai.

    Quando era pequeno, levava-me á escola,
    E quando, mais tarde, cresci e medrei,
    Oh danças nas eiras, ao som da viola!
    Nas danças de roda, que beijos lhe dei!

    Os annos vieram, os annos passaram,
    Meu fado arrastou-me, da aldeia sai:
    Nunca mais meus olhos seus olhos tocaram,
    Perdi-a de todo, nunca mais a vi…

    E além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    N'uma noite d'estas com vento a ventar,
    Ó meu Deus! é ella que vae entre luzes!
    Ó meu Deus! é a Anninhas que vae a enterrar!

    Olá! bons senhores, vestidos de preto,
    Deixae a defunta, que a levarei eu!
    O suor alagava-vos, eu levo o carreto…
    O caixão de Anninhas é tambem o meu!

    Tenho os relampagos, deixae-me sem velas
    A rezar por ella, sob o temporal!
    Cai-me no peito, cravae-m'as, procellas!
    Cruzes da tapada, em forma de punhal!»

    Mas os bons senhores, de preto vestidos,
    Cigarros accezos, e velas na mão,
    Lá passam ao vento, com sete sentidos,
    Com medo que, ás vezes, não seja um ladrão…

    «Mãos das ventanias! mãos das ventanias!
    Tirae-lhes a Anninhas e levae-a a Deus!
    Com suas mãosinhas, agora tão frias,
    Irá na viagem a dizer-me adeus…

    Ó vento que passas! corcel de rajada!
    Assenta-nos ambos no mesmo selim:
    Quero ir mais ella na longa jornada…
    Quero ir com Anninhas pelo céu sem fim!

    Ó Leste, que trazes as rolas, ás costas,
    Quaes rolas, leva-nos aos pés do Senhor!
    Quero ir como ella, assim de mãos postas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella for!

    Ó Norte dos Marços! ó Sul das procellas,
    Levae-nos quaes brigues, como azas, levae!
    Levae-nos como aguias, levae-nos quaes velas…
    Quero ir com Anninhas para onde ella vae!»

    3

    Além, na tapada das _Quatorze Cruzes_,
    Que triste velhinha que vae a passar!
    E que olhos aquelles que parecem luzes…
    Aonde irá ella? Quem irá buscar?

    Pariz, 1891.

    *Males de Anto*

    A Ares n'uma aldeia

    Quando cheguei, aqui, Santo Deus! como eu vinha!
    Nem mesmo sei dizer que doença era a minha,
    Porque eram todas, eu sei lá! desde o odio ao tedio.
    Molestias d'alma para as quaes não ha remedio.
    Nada compunha! Nada, nada. Que tormento!
    Dir-se-ia accaso que perdera o meu talento:
    No entanto, ás vezes, os meus nervos gastos, velhos,
    Convulsionavam-nos relampagos vermelhos,
    Que eram, bem o sentia, instantes de Camões!
    Sei de cór e salteado as minhas afflicções:
    Quiz partir, professar n'um convento de Italia,
    Ir pelo Mundo, com os pés n'uma sandalia…
    Comia terra, embebedava-me com luz!
    Extasis, spasmos da Thereza de Jezus!
    Contei n'aquelle dia um cento de desgraças.
    Andava, á noite, só, bebia a noite ás taças.
    O meu cavaco era o dos mortos, o das loizas.
    Odiava os homens ainda mais, odiava as Coizas.
    Nojo de tudo, horror! Trazia sempre luvas
    (Na aldeia, sim!) para pegar n'um cacho d'uvas,
    Ou n'uma flor. Por cauza d'essas mãos… Perdoae-me,
    Aldeões! eu sei que vós sois puros. Desculpae-me.

    Mas, atravez da minha dor, da tempestade,
    Sentia renascer minha antiga bondade
    N'esta alma que a perdera. Achava-me melhor.
    Aos pobrezinhos enxugava-lhes o suor.
    A minha bolsa pequenina, de estudante,
    Era p'ros pobres (E é e sel-o-á d'oravante.)
    E ao vir das tardes, ao passar por um atalho,
    Eu ia olhando o chão, embora com trabalho,
    Pois os meus olhos não podiam de fadigas,
    P'ra não pizar os carreirinhos das formigas
    Que andam, coitadas! noite e dia, a carregar…
    E com vergonha, p'ra ninguem me ver chorar,
    Livido, magro, como um espeto, uma tocha,
    Costumava esconder-me em uma certa rocha,
    Que, por signal, tinha o feitio d'um gabão,
    E punha-me a chorar, a chorar como um leão!
    Tinha os berros do mar, pregando em seu convento
    E a gesticulação dos pinheiraes ao vento!

    Ó Dor! ó Dor! ó Dor! Job não tens dores mais,
    Que as tem maiores este filho de seus Paes!
    Ó Christo! calla os ais na tua ignea garganta,
    Ó Christo! que outra dor mais alta se alevanta!

    Meu pobre coração toda a noite gemia
    Como n'um hospital…

    Entrae na enfermaria!

    Vede! Kistos da Dor! Furo-os com uma lança:
    Que nojo, olhae! são as gangrenas da Esperança!
    Lanceto mais: que lindas cores! um Oceano!
    Ó mornos vagalhões do coração humano,
    Amarellos, azues, negros, cor de sol-posto!
    Ó preamar de puz! maré-viva d'Agosto!…
    Oceano! ó vagalhões! qual é a vossa lua?
    A que horas é a baixamar, quem vos escua?
    Lanceto mais ainda: as Illuzões sombrias!
    Cancros do Tedio a suppurar melancholias!
    Gangrenas verdes, outomnaes, cor de folhagem!
    O puz do Odio a escorrer n'esta alma sem lavagem!
    Tristezas cor de chumbo! Spleen! Perdidos somnos!
    Prantos, soluços, ais (o Mar pelos outomnos!…)
    A febre do Oiro! O Amor calcado aos pés! Genio! Ancia!
    Medievalite! O Sonho! As saudades da Infancia!

    Quantos males, Senhor! Que hospital! Quantas doenças!
    Philosophias vãs! Perda das minhas crenças!
    Nevrastenia! O Susto! Incoherencias! Desmaios!
    Sede de immensa luz como a dos pára-raios!
    Enthusiasmos! Lezão-cardiaca da Raiva!
    Magoas sem fim, prantos sem fim! Chuva, saraiva
    De insultos! Afflicções, desesperos! Gotta
    De coleras! Horror…

    Deixei fugir a escota,
    Perdi-me no alto mar, quando ia na galera
    Á India da Illuzão, ao Brazil da Chymera!…
    Ó Bancuos do remorso! Ó rainhas Machebetts
    Da ambição! ó Reis Lears da loucura! ó Hamlets
    Da minha vingança! ó Ophelias do perdão…
    (Socega! Faze por dormir, meu coração!
    Vae alta a noite…) E o sangue arde-me n'estas veias!
    Febre a cem graus! Delirio: o céu de luas-cheias
    Desde o oriente ao sol-por, de norte a sul coberto:
    O mundo jovial de guarda-sol aberto!
    Mar de esmeralda fluida, praias de oiro em pó!
    Ó esquadras das quaes era almirante eu só!
    Ó clarins a soar entre balas, na guerra!
    E vencer pela patria! E ser Conde da Terra
    E do Mar! El-Rey! Ser Senhor-feudal do Mundo!
    Encher a trasbordar a Vida, mar sem fundo,
    Com palacios, amor, glorias, luxo, batalhas,
    E reis e generaes envoltos nas mortalhas!…
    P'ra contar tanta coiza a encher tantos abysmos,
    Homens! criae outro systema de algarismos!

    Meu Deus! Que pezadello! Ah, tanta febre assusta…
    Struggle-for-life! Ó velho Darwin tanto custa!
    Antes não ter nascido. Ó Morte vem buscar-me…
    Um lenço branco _Adeus_! nos longes, a acenar-me:
    Adeus, meu lar! adeus, minha taça de leite!
    E foi o dia 13… E os corcundas e o azeite
    Que eu entornei, pretas que eu vi, uivos de cães!..
    Choras? Porque, por quem, Anto? Pelos _Alguens_…
    Lagrymas: suor da alma! Cançado? Vaes morrer,
    Vaes dormir… Ainda não! mais febre, suores frios
    Tremuras, convulsões, nevroses, arrepios!
    Unhas de leão, raspando cal n'uma parede!
    Corpos divinos, nus, ao léu! Luxurias, sede
    De amor mystico! Amar freiras de habito branco
    Morrer com ellas despenhado n'um barranco,
    Sob relampagos!…

    Jezus! Jezus! Jezus!

    Ah quanto foi bem peior que a tua a minha cruz!
    Quanto soffri, meu Deus! Ah! quanto eu soffro ainda!
    E isto n'um mez de paz, n'esta epoca tão linda,
    Solsticio de verão, quando nos sabe a vida,
    Quando apparece o cravo, a minha flor querida,
    Quando os soes-postos são uma delicia, quando
    Os aldeões andam a podar, cantarolando,
    E, alli, ao pé dos milheiraes, as lindas netas
    Ceifam curvadas, como na haste as violetas!

    Medico? Para que… A doença era d'alma.
    Saia, apenas, á tardinha, pela calma,
    Sorvendo aos haustos a rezina dos pinheiros.
    Tomava quazi sempre a estrada dos _Malheiros_.
    A nossa caza é ao virar mesmo da estrada,
    Onde perpassam os aldeões na caminhada
    E a mala-posta a rir, cheia de campainhas!
    Ora havia, lá (e ha ainda) umas _Alminhas_
    Com um painel antigo sob um oratorio,
    Que são as almas a penar no Purgatorio.
    E têm esta legenda: «Ó vos que ides passando
    Não esqueçais a nós n'este lume penando!»
    Deitava-lhes 10 reis, mas ficava a scismar
    Que mais penava eu… se ellas quizessem trocar…

    E mais adiante (ainda me lembro: n'um atalho,
    Ao pé da fonte) havia um monte de cascalho
    Com uma cruz de pau, braços ao sul e ao norte,
    Para mostrar que, alli, se fizera uma morte:
    Ora (é um costume) quando alguem vae de longada,
    Ao ver aquella cruz, que parece uma espada,
    Deita uma pedra: cada pedra é uma oração…
    Oh raras orações, que nunca findam, não!
    Perpetuamente, lá ficam os _Padre-Nossos_,
    Rezas de pedra, a orar, a orar por esses ossos!…
    Eu como os mais deitava uma pedra, tambem,
    Dizendo para mim: «se me matasse alguem…»
    Mas eu seguia o meu passeio, estrada fóra,
    E ninguem me matava…

    Ah! vinham a essa hora
    As moças da lavoira a cantar, a cantar,
    (Faziam-me, Senhor! vontade de chorar…)
    Mas quando, perto já, eu me ia approximando,
    Paravam de cantar e ficavam-me olhando…
    E que eu não fosse ouvir murmuravam, baixinho,
    Com dó, a olhar: «Como elle vae acabadinho!»

    Mais adiante, encontrava a mulher do moleiro,
    Que ia o cantaro encher á _Fonte do Salgueiro_,
    Lindos cabellos empoeirados de farinha:
    Era uma flor, mas parecia uma velhinha…
    –Vae melhorzinho?–Assim… vou indo, vou melhor…
    –Pois seja pelas cinco chagas do Senhor…

    E um pouco mais além, no logar do _Cazal_,
    N'uma caza de colmo, assentado ao portal,
    Estava um cego, e a fiar ao lado estava a mãe,
    E mal sentia, ao longe as passadas de alguem,
    Clamava em sua voz vibrante de céguinho:
    «Meu nobre senhor! olhe este desgraçadinho!»
    Ai de mim! ai de mim! como não ve quem passa,
    É que chama a attenção para a sua desgraça!

    E, para bem coroar o meu tragico fado,
    Dizia-me, ao passar, o Dr. Delegado:
    «Vá para caza, fuja aos orvalhos da noute.»
    E, grave, para si:
    «A Sciencia abandonou-te!»

    Horror! horror! horror! Que mizeravel sorte!
    Em tudo via a _Velha_, em tudo via a Morte:
    Um berço que dormia era um caixão p'ra cova!
    Vi-a a Foice no céu, quando era lua-nova…
    Se ia á tapada ver ceifar as raparigas,
    Vi-a entre ellas a cortar tambem espigas!
    E ao ver as terras estrumadas, como lume,
    Quedava-me a scismar no meu destino… estrume!
    A pomba que passava era a minha alma a voar…
    E era a minha agonia um pinheiro a ullular!
    E, ao ver meadas de linho a corarem, ao sol,
    Pensava… se estaria, alli, o meu lençol…
    E o que eu scismava ao ver passar os carpinteiros,
    Cantando alegres e fumando, prazenteiros,
    A tiracollo a cerra, o martello e o formão…
    Vinham, quem sabe! de acabar o meu caixão!
    Deitava-me no chão de ventre para o Ar,
    Scismava: se morrer, é assim que hei-de ficar…

    Como me tinha em pé, não sei. Siquer um musculo!

    A hora christã, entre as nevrozes do crepusculo,
    Entre os susurros da tardinha, ao sol-poente,
    Quando cantam na sombra as fontes, vagamente,
    Quando na estrada vão as mulinhas, a trote,
    Que o alvo moleiro faz marchar sem o chicote
    Ó Natureza! tão amigos são os dois!…
    E se ouvem expirar os chocalhos dos bois,
    Ao longe, ao longe, entre as carvalhas do caminho…
    Quando na ermida dão _Trindades_, de mansinho,
    E os cravos dão á luz o fruto do seu ventre…
    Quando se ve os céus mysticos, doidos, entre
    Soluços e ais a desmaiar, como n'um flato:
    Alli, na encosta aonde bebem n'um regato
    Os animaes, tambem bebia. Ora, uma vez
    (Sim, faz agora pelo S. Martinho um mez)
    Quando para beber me debrucei na pia,
    No fundo d'agoa, vi uma photographia…
    Jezus! Um velho! O seu cabello, assim ao lado,
    O mesmo era que o meu, todo encaracolado!
    O rosto eburneo! o olhar era tal qual o meu!
    E o labio… Horror! Fugi! esse velhinho era eu!

    Fugi!

    E, desde então, não mais sai de caza.
    Ha muito, que não vejo uma flor, uma aza,
    Ha muito já, que não sorvi o mel d'um beijo.
    Do meu cortiço voou a abelha do desejo.
    As duas filhas do cazeiro, ao vir da escola,
    D'antes vinham-me ver, eu dava-lhes esmola.
    Cantavam, riam e saltavam, um demonio!
    E tão lindas, Jezus! tão amigas do Antonio…
    E, agora, mal me vêm, tremem todas, coitadas!
    Eu chamo-as da janella e fogem, assustadas!
    E, ao vel-as, na fugida eu quasi que desmaio…
    Jezus, tao lindas! são duas tardes de Maio!

    Um doente faz medo. Por isso fogem d'elle.
    Estou, aqui, estou ido. Só tenho pelle.
    Nada me salva, nada! É impossivel salvar-me.
    E o que eu tenho a fazer é, apenas, rezignar-me
    E já me resignei… Mas Carlota, esse amor,
    Quiz por força chamar o bom Sr. Doutor.
    E eu consenti, emfim. E lá mandou o creado
    Buscar o cirurgião. Elle é o mais afamado
    N'estas trez legoas, o Dr. da _Preza Velha_.
    Eil-o que chega…
    –Olá!… Ve-me a lingua vermelha,
    Toma-me o pulso…–Está bem, isso não é nada,
    Beba-lhe bem, vá aos domingos á toirada,
    E, sobretudo, veja lá… nada de versos…
    Mas o doutor mais eu, nós somos tão diversos!
    Certo, elle é sábio, mas não tem pratica alguma
    D'estas molestias e o que eu tenho é, apenas, uma
    Tysica d'Alma. Emfim…

    Ó Carlota! ó Carlota!
    Boa velhinha, como ella é meiga e devota!
    Já estaria bom, se me valessem rezas.
    E, no Oratorio, tem duas velas accezas
    Noite e dia, a clamar á Senhora das Dores!
    E queima-lhe alecrim, põe-lhe jarras com flores
    E sei, até, que prometteu uma novena,
    Se eu escapar… Como tudo isso me faz pena!
    E trata-me tão bem, tão bem! como se eu fosse
    Seu filho. Dá-me, olhae, pratinhos de arroz doce
    Com as iniciaes do meu nome em canella,
    E traz-me o caldo, como exijo, na tigella
    Por onde come o seu. E dá-me o vinho fino,
    Onde me molha o pão de ló «p'ro seu menino»
    Que é assim que eu gosto, pelo Calix do Senhor,
    Que pertenceu, outrora, ao meu Tio Reitor.
    Carlota é um beijo. Faz-me todas as vontades.
    Quando me sinto pior, ao bater das _Trindades_,
    E me appetece comer terra, algumas vezes
    (Assim, são nossas mães, perto dos nove mezes)
    Sae a buscar uma mão cheia. Vem molhada:
    Foi ella que chorou… mas diz que «é da orvalhada…»
    E quando, emfim, sombrio, agoniado, farto,
    Me vou deitar, a santa acompanha-me ao quarto:
    Ajuda-me a despir e mette-me na cama.
    E com um mimo que só sabe ter uma ama
    Cobre-me bem, «durma, não scisme,» dá-me um beijo,
    E sae. Finge que sae, cuida ella que eu não vejo,
    Mas fica á porta, á escuta, a ouvir-me fallar só,
    E não se vae deitar…

    Onde ha, assim, uma avó?

    A todo o instante, se ouve á porta: «Tlim, tlim, tlim!»
    Trez legoas em redor manda saber de mim.
    (Aqui, lhes deixo minha eterna gratidão.)
    Toca o sino e lá vae a Carlota ao portão,
    Muito baixinha, atarefada; espreita á grade,
    –Quem é?… E, então, olhae!

    «É o Sr. Abbade
    Que manda esta perdiz, mortinha de manhã»;
    Mais o Sr. D. Sebastião de Villa-Meã
    «Que manda um gigo», mais as senhoras do _Rôfo_
    Que mandam ovos molles, pecegos, pão fofo,
    Uvas de Cheiro, peras D. Joaquina,
    Barrisinhos d'Ovar, copos de gelatina;
    Mais o Sr. Barão das Areias do Mar
    «Que manda este salmão do Tamega, a saltar»;
    Mais o Sr. Doutor de _Linhares_ «que manda
    Os cravos mais lindos que tinha na varanda»;
    Mais «o da _Igreja_ que offerece a codorniz
    Que matou, hoje, na _Tapada de D. Luiz_»;
    Mais o Sr. Miguel das _Alminhas de Pulpa_
    «Que manda este peru e que pede desculpa»;
    E, até, o Astronomo, coitado! e o Zé dos Lodos
    Mandam coisas: sei lá… o que podem. E todos
    Mandam tambem saber «como vae o menino…»
    E, então, Carlota, bom Deus! é tal qual o sino
    Na noite a badalar as suas badaladas!
    Poe-se a contar, carpindo, a minha doença ás criadas.
    Tudo o que eu digo, quanto faço, quanto quero:

    –Olhe, S.^{ra} Julia, ás vezes, desespero…
    Mas, eu quero-lhe tanto! ajudei-o, a criar…
    Em pequenino era tão bom de aturar…
    E depois era tão alegre, tão esperto!
    E então que lindo! era mesmo um cravo aberto!
    Mas, hoje, é aquillo: tem os olhinhos sumidos,
    Tão faltinho de cor, os cabellos compridos,
    E tosse tanta vez! já arqueia das costas…
    Só falta vel-o deitadinho, de mãos postas!
    E elle é tão bom, tem tão bons modos…
    –Coitadinho!
    –Olhe, S.^{ra} Julia, nunca viu o linho
    Que a gente deita ao sol, quando é para seccar,
    E que se poe assim a esticar, a esticar?
    Assim é o meu menino…
    –Ó S.^{ra} Carlota,
    E se eu fallasse á Anna Coruja, essa que bota
    As cartas? Foi talvez malzinho que lhe deu…
    –Nunca foi assim: foi depois que se metteu
    A fumar, a beber e lá com as po'sias.
    Aquillo para mim foram as companhias.
    Vinha p'ra caza, á meia-noite, noite morta,
    E eu fazia serão para lhe abrir a porta.
    E nunca ia á licção, ficava sempre mal
    Nos seus exames, escrevia no jornal;
    E o Pae, que é um santo, como ha poucos, que não via
    Nem ve mais nada, então nunca o reprehendia
    Com medo de o affligir… mas depois, quando estava
    Mettido á noite, só, no seu quarto… scismava.
    –O povo diz por hi que foi paixão que trouxe
    Lá dos estudos, de Coimbra…
    –Antes fosse
    Porque o remedio estava, alli, na Igreja… Adei…
    –Mas se a menina não quizesse… eu sei, eu sei…
    –S.^{ra} Julia! Não havia de querer!
    Não que elle é mesmo alguem hi para se perder,
    Para deitar á rua: um senhor tão prendado!
    Depois, está aqui, está quazi formado…

    Ai valha-me, Jesus! eu perco a ideia, faço
    A minha perdição… Ás vezes, ergue o braço
    E vae por hi fóra, por todas essas salas,
    A prégar, a prégar, e tem mesmo umas fallas
    Que não enxergo bem, mas que fazem tremer:
    Hontem, á noite, quando se ia a recolher,
    (Quando faz lindo luar, quer deitar-se sem vela)
    Entrou na alcova, eu tinha ainda aberta a janella,
    E diz-me, assim, tão mau: «p'ra que veio entornar
    Agoa no quarto?» e vae-se a ver… era o luar!
    E quando foi para chamar o cirurgião?
    Jezus, quanto custou! Que não, que não, que não!
    Não tinha fé nenhuma «em um doutor humano»
    Que só a tinha no Sr. Dr. Oceano…

    Mas uma coiza que lhe faz ainda peior,
    Que o faz saltar e lhe enche a testa de suor,
    É um grande livro que elle traz sempre comsigo,
    E nunca o larga: diz que é o seu melhor amigo,
    E le, le, chama-me: «Carlota, anda ouvir!»
    Mas… nada oiço. Diz que é o Sr. Shakespeare.

    E, ás vezes, bota versos, diz coizas tão más!
    Nada lhe digo, mas aquillo não se faz.
    Ainda, esta manhã: eu estava a por flores
    E as velas accendia á Senhora das Dores,
    (Que tem dó d'elle, coitadinha! chora tanto…)
    Vae o menino a olhar, a olhar, sae-me d'um canto
    E uiva-lhe, assim:
    «Antes as tuas sete espadas!»

    E o que á S.^{ra} Julia diz, diz ás mais criadas.

    Coimbra, 1890.

    Pariz, 1891.

    *Ah Deixem-me Dormir!*

    O Poeta

    Olá, bom velho! é aqui o _Hotel da Cova_,
    Tens algum quarto ainda para alugar?
    Simples que seja, basta-me uma alcova…
    (Como eu estou molhado! é de chorar…)

    O povo

    O luar averte as orvalhadas sobre a rua!
    Jezus! que lindo…

    Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
    Que eu tenho somno, quero-me deitar!
    Ó velha Morte, minha outra ama!
    Para eu dormir, vem dar-me de mamar…

    A S.^{ra} Julia

    São as Janeiras da Lua!

    O Coveiro

    Os quartos, meu senhor, estão tomados
    Mas se quizer na valla (que é de graça…)
    Dormem, alli, somente os desgraçados:
    Têm bom dormir… bom sitio… ninguem passa…

    O Zé dos Lodos

    A lua é a nossa vacca, ó Maria!
    Mugindo…

    Ainda lá, hontem, hospedei um moço
    E não se queixa… E ha-de poupal-o a traça,
    Porque esses hospedes só trazem osso,
    E a carne em si, valha a verdade, é escassa.

    O Dr. Delegado

    A noite parece dia!

    O Poeta

    Escassa, sim! mas tenho ossada ainda,
    Emquanto que a alma, ai de mim! nada tem…
    Guia-me ao quarto… (a lua vae tão linda!)
    Dize-me: quantos annos me dás? Cem?

    O Sr. Abbade

    E esta? Em vez de trazer a opa que é de logar
    Trouxe a d'anjinho!

    A Mulher do Moleiro

    É o luar, Sr. Abbade, é o luar…

    Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
    Os teus mortinhos, sim! dormem tão bem:
    «Dormi, dormi! que vossa mãe não tarda,
    Foi lavar á _Fontinha de Belem_…»

    O Astronomo

    Isto lunar assim! Isto é o verao
    De S. Martinho!

    O Coveiro

    Aqui. Fica melhor do que em 1^a:
    Colxão assim não acha em parte alguma!
    Os outros são de chumbo, de madeira,
    Mas este, veja bem, é sumauma…

    O Cego do Cazal

    Faz solzinho, que horas são?

    _Cantando_:

    «Colxão de raizes e de folhas, lizo,
    Lençoes de terra brandos como espuma,
    Dal-os-ei ao rol, no Dia de Juizo…»
    Prompto. Quer mais alguma coiza? Fuma?

    Carlota

    Ó luar, anda mais devagarinho!
    Deixa dormir o meu menino…
    Coitadinho!

    O Poeta

    Mais nada. Boas-noites. Fecha a porta.
    (Que linda noite! Os cravos vão a abrir…
    Faz tanto frio)! Apaga a luz! (Que importa?
    A roupa chega para me cobrir…)

    A Mãe do Poeta

    Aqui, espero-te, ha que tempo enorme!
    Tens o logar quentinho…

    Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
    Final, quando a Trombeta além se ouvir,
    Tu não me venhas acordar, embora
    Chamem… Ah! deixa-me dormir, dormir!

    Deus

    Dorme, dorme.

    Pariz, 1891.

    FIM

    TABOA

    Antonio
    Menino e Moço
    Os Cavalleiros
    Purinha
    Elegia
    Os Sinos
    Terças-Feiras
    Carta A Manoel
    Para As Raparigas De Coimbra
    Luzitania No Bairro-Latino
    Os Figos Pretos
    Febre Vermelha
    Poentes De França
    Pobre Tysica!
    A Poezia Do Outonno
    Sta. Iria
    Enterro De Ophelia
    Ballada Do Caixão
    Á Toa
    A Vida
    O Somno De Joao
    Ao Canto Do Lume
    A Sombra
    O Meu Cachimbo
    Ca (ro) Da (ta) Ver (mibus)
    Quando Chegar A Hora
    Certa Velhinha
    Males De Anto
    Ah Deixem-me Dormir!

    Imprimerie Henri Jouve, 15, rue Racine, Paris.

    Achevé d'imprimer le deux avril mil huit cent quatre-vingt-douze

    Pour

    LÉON VANIER

    éditeur

    Par

    HENRI JOUVE

    15, Rue Racine, 15

    A Paris

  • Os Simples

    Os Simples

    Aproximadamente 8.264 palavras.

    Produced by João Miguel Neves, Rita Farinha and the Online
    Distributed Proofreading Team at http://www.pgdp.net (This
    file was produced from images generously made available
    by National Library of Portugal (Biblioteca Nacional de
    Portugal).)

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    OS SIMPLES

    IMPRIMIRAM-SE D'ESTE LIVRO:

    1 exemplar em papel pergaminho
    16 exemplares em papel Wathman

    Todos estes exemplares são assignados e numerados pelo auctor.

    GUERRA JUNQUEIRO

    *Os Simples*

    PORTO

    TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL

    MDCCCXCII

    A F.

    _Querida:

    É este por emquanto o meu melhor livro.
    Pertence-te.

    teu J._

    *PRELUDIO*

    I

    A CAMINHO

    (_Abril, ao raiar d'alva. Por uma encosta de sementeiras, pastos,
    olivedos e amendoaes em flor vae um loiro peregrino adolescente, d'olhos
    ingenuos e extasiados no alvor da estrella da manhã_.)

    Um Lavrador

    (_de noventa anos, em mangas de camísa a lavrar uma terra_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Ides de caminho para algum logar?

    O Peregrino

    Vou dar volta ao mundo…

    O Lavrador

    Sem arnez ou lança?!
    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de esp'rança,
    Penas e miserias é o que ireis achar!…

    Uma Velhinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Ides com cuidados para um tal andar!…

    O Peregrino

    Vou a prender monstros, combater serpentes…

    A Velhinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos inocentes,
    Os dragões ferozes vam-no espostejar!…

    Uma Joven Camponeza

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Ides pela fresca para algum pomar?

    O Peregrino

    Vou-me a ler Destinos, descobrir os Fados…

    A Camponeza

    Ó Senhor tão novo, d'olhos encantados,
    Feiticeiros negros vam-no enfeitiçar!…

    Uma Pastorinha

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Vossos olhos disem que ides p'ra casar…

    O Peregrino

    Vou fazer tesoiros, fabricar diamantes…

    A Pastorinha

    Ó Senhor tão novo, d'olhos tão brilhantes,
    Ha ladrões nos bosques, vam-no assassinar!…

    Um Mendigo

    (_mais adiante_)

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Vossos olhos ardem como a luz solar!…

    O Peregrino

    Vou descobrir mundos, quero gloria e fama!…

    O Mendigo

    Ó Senhor tão novo, d'olhos côr de chama,
    Sobe o pó mais alto que os trovões do mar!…

    A Estrella D'Alva

    Ó creança, d'olhos côr da flor dos linhos,
    Por infernos deixas tua paz, teu lar!…

    O Peregrino

    (_desaparecendo ao longe_)

    Florirei as pedras pelos maus caminhos!
    Levo a luz dos astros e as canções dos ninhos
    A sorrir nos beijos e a tremer no olhar!…

    II

    DE VOLTA

    (_Crepusculo, Novembro. Pela encosta fria e desnudada vae andando,
    esfarrapado e exangue, um pobresinho triste, arrimado ao bordão_.)

    Um Lavrador

    (_de cem anos, ainda robusto, à porta do casebre_)

    Mendigo d'olhos sem esp'rança,
    Vaes-te perder na escuridão…
    Entra em meu lar; dorme, descança…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Quem dera a paz divina e mansa,
    Velho, que tens no coração!…

    Uma Velhinha

    (_a resar à porta do moinho_)

    Mendigo d'olhos sem ventura,
    Dentro da azenha ha um enxergão;
    Terás lençoes, terás fartura…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Eu só quizera essa candura,
    Irmã da Graça e da Ilusão!…

    Uma Camponeza

    (_que vem da vindima_)

    Mendigo d'olhos d'engeitado,
    Na nossa casa ha vinho e pão;
    E ha leite fresco; e ha mel doirado…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Tua alegria sem cuidado,
    Eis o que eu busco… em vão! em vão!…

    Uma Pastorinha

    Mendigo d'olhos de coveiro,
    Trago a merenda no surrão;
    O queijo é bom, mas é grosseiro…

    O Pobresinho

    (_andando sempre_)

    Dá-me o teu riso feiticeiro,
    Lirio do monte inda em botão!

    Um Pedinte

    Mendigo d'olhos na agonia,
    Dou-te o meu manto e o meu bordão;
    Nada mais levo… a noite é fria…

    O Pobrezinho

    (_andando sempre_)

    Apenas ai! desejaria
    Tua cristã resignação!…

    A Estrella Vesper

    Ó sonhador louco d'outrora,
    Teus sonhos lindos onde estão?!
    Ebrio da luz, rico d'aurora,
    Vi-te partir… e vejo agora
    Um morto erguido d'um caixão!

    Teus olhos fulvos namorei-os
    De dia e noite, da amplidão:
    Vi-os sorrir entre gorgeios,
    Vi-os cantar e vi-os cheios
    De pranto e febre e indignação!
    Regressa emfim, é teu destino,
    Á paz obscura, á submissão…
    E outra vez meigo e pequenino
    Deixa dormir, como um menino,
    Teu velho e exhausto coração!…

    O Pobresinho

    (_chorando_)

    Só tu, estrella, me conheces
    Em minha dor, minha aflição!…
    Só tu não dormes, não esqueces…
    Só tu ouviste as minhas preces…
    Bemdito, estrella, o teu clarão!

    Setembro–91.

    I

    *A MOLEIRINHA*

    A MOLEIRINHA

    Pela estrada plana, toc, toc, toc,
    Guia o jumentinho uma velhinha errante.
    Como vão ligeiros, ambos a reboque,
    Antes que anoiteça, toc, toc, toc,
    A velhinha atraz, o jumentito adiante!…

    Toc, toc, a velha vae para o moinho,
    Tem oitenta anos, bem bonito rol!…
    E comtudo alegre como um passarinho,
    Toc, toc, e fresca como o branco linho,
    De manhã nas relvas a córar ao sol.

    Vae sem cabeçada, em liberdade franca,
    O gerico russo d'uma linda côr;
    Nunca foi ferrado, nunca usou retranca,
    Tange-o, toc, toc, a moleirinha branca
    Com o galho verde d'uma giesta em flor.

    Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
    Toc, toc, toc, que recordação!
    Minha avó ceguinha se me representa…
    Tinha eu seis anos, tinha ella oitenta,
    Quem me fez o berço fez-lhe o seu caixão!…

    Toc, toc, toc, lindo burriquito,
    Para as minhas filhas quem m'o dera a mim!
    Nada mais gracioso, nada mais bonito!
    Quando a Virgem pura foi para o Egipto,
    Com certeza ia n'um burrico assim.

    Toc, toc, é tarde, moleirinha santa!
    Nascem as estrellas, vivas, em cardume…
    Toc, toc, toc, e quando o galo canta,
    Logo a moleirinha, toc, se levanta,
    P'ra vestir os netos, p'ra acender o lume…

    Toc, toc, toc, como se espaneja,
    Lindo o jumentinho pela estrada chan!
    Tão ingenuo e humilde, dá-me, salvo seja,
    Dá-me até vontade de o levar á egreja,
    Baptisar-lhe a alma p'ra a fazer cristan!

    Toc, toc, toc, e a moleirinha antiga,
    Toda, toda branca, vae n'uma frescata…
    Foi enfarinhada, sorridente amiga,
    Pela mó da azenha com farinha triga,
    Pelos anjos loiros com luar de prata!…

    Toc, toc, como o burriquito avança!
    Que prazer d'outrora para os olhos meus!
    Minha avó contou-me quando fui creança,
    Que era assim tal qual a jumentinha mansa
    Que adorou nas palhas o menino Deos…

    Toc, toc, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
    Moleirinha branca, branca de luar!…
    Toc, toc, e os astros abrem diamantinos,
    Como estremunhados cherubins divinos,
    Os olhitos meigos para a ver passar…

    Toc, toc, e vendo sideral tesoiro,
    Entre os milhões d'astros o luar sem veo,
    O burrico pensa: Quanto milho loiro!
    Quem será que moe estas farinhas d'oiro
    Com a mó de jaspe que anda alem no ceo!…

    Novembro de 1888.

    II

    *CADAVER*

    I

    PRESTITO FUNEBRE

    Que alegrias virgens, campezinas, fremem
    N'este imaculado, limpido arrebol!
    Como os galos cantam!… como as noras gemem!…
    Nos olmeiros brancos, cujas folhas tremem,
    Refulgente e novo passarinha o sol!…

    Pela estrada, que entre cerejaes ondea,
    Uma pequerrucha,–tro-la-ró-la-rá!–
    Vae cantando e guiando o carro para a aldeia…
    São os bois enormes, e a carrada cheia
    Com um castanheiro apodrecido já.

    Oh, que donairosa, linda boieirinha!
    Grandes olhos garços, sorrisinho arisco…
    D'aguilhada em punho lepida caminha,
    Com a graça aerea d'ave ribeirinha,
    Verdilhão, arveola, toutinegra ou pisco.

    Loira, mas do loiro fulvo das abelhas;
    Fresca como os cravos pelo amanhecer;
    Brincos de cerejas presos nas orelhas,
    Na boquita rosea tres canções vermelhas,
    Na aguilhada, ao alto, uma estrelinha a arder!

    Descalcinha e pobre, mas sem ar mendigo,
    Nada mais esvelto, mais encantador!
    Veste-a d'oiro a gloria do bom sol amigo…
    O chapeu é palha que inda ha um mez deu trigo,
    A saíta é linho inda ha bem pouco em flor!…

    E os dois bois enormes, colossaes, fleugmaticos,
    Na aleluia imensa, triunfal, da aurora,
    Vão como bondosos monstros enigmaticos,
    Almas por ventura d'ermitões extaticos
    Ruminando biblias pelos campos fora!…

    Ao arado e ao carro presos noite e dia,
    Como dois grilhetas, quer de inverno ou v'rão!
    E, submissos, uma pequerrucha os guia!
    E nos sulcos que abrem canta a cotovia,
    As boninas riem-se e amadura o pão!…

    Levam as serenas frontes magestosas
    Enramalhetadas como dois altares:
    Madresilvas, loiros, pampanos, mimosas,
    Abelhões ardentes desflorando rosas,
    Borboletas claras em noivado, aos pares…

    E eis no carro morto o castanheiro, emquanto
    Melros assobiam nos trigaes alem…
    Heras amortalham-no em seu verde manto…
    Deu-lhe a terra o leite, dá-lhe a aurora o pranto…
    Que feliz cadaver, que até cheira bem!…

    Musgos, lichens, fetos,–chimica incessante!–
    Fazem montões d'almas d'essa podridão…
    Já n'esse esqueleto seco de gigante,
    Sob a luz vermelha, n'um festim radiante,
    Mil milhões de vidas polulando estão!…

    Sempre á fortaleza casa-se a doçura:
    Como o leão da Biblia morto n'um vergel,
    Do seu tronco ainda na caverna escura
    Um enxame d'oiro rutilo murmura,
    Construindo um favo candido de mel!…

    Oh, os bois enormes, mansos como arminhos,
    Meditando estranhas, incubas visões!…
    Pousam-lhes nas hastes, vede, os passarinhos,
    E por sobre os longos, torridos caminhos
    Dos seus olhos caem bençãos e perdões…

    Chorarão o velho castanheiro ingente,
    Sob o qual dormiram sestas estivaes?
    Almas do arvoredo, o seu olhar plangente
    Saberá acaso misteriosamente
    Traduzir as lingoas em que vós fallaes?!…

    Castanheiro morto! que é da vida estranha
    Que no ovario exiguo d'uma flor nasceu,
    E criou raizes, e se fez tamanha,
    Que tresentos anos sobre uma montanha
    Seus tresentos braços de colosso ergueu?!…

    Onde a alma, origem d'essas formas bellas?
    Em tão varias formas que sonhou dizer?
    Qual a ideia, ó alma, convertida n'ellas?
    E desfeito o encanto, que nos não revelas,
    Que aparencias novas tomará teu ser?…

    Noite escura!… enigmas!… Ai, do que eu preciso,
    Boieirinha linda, linda d'encantar,
    É d'essa inocencia, d'esse paraiso,
    Da alegria d'oiro que ha no teu sorriso,
    Da candura d'alva que ha no teu olhar!…

    Grandes bois que adoro, p'ra fortuna minha,
    Quem me dera a vossa mansidão christã!
    Arrotear os campos, fecundar a vinha,
    E nos olhos garços d'uma boieirinha,
    Ter duas estrellas virgens da manhã!…

    E tambem quizera, mortos castanheiros,
    Como vós erguer-me para o sol a flux,
    Dar tresentos anos sombra aos pegureiros,
    E n'um lar de choça, em festivaes braseiros,
    A aquecer velhinhos, desfazer-me em luz!…

    1889.

    II

    IN PULVIS…

    Oh, que noite negra, que invernia brava!
    Nem uma estrellinha pelo ceo reluz!
    Chora o vento ao longe com a voz tão cava,
    Como quando dizem que de dor chorava
    Toda a santa noite em que expirou Jesus!…

    Vem sanguinolentos gritos muribundos
    Das soturnidades torvas do horisonte!…
    Já nos ermos andam lobos vagabundos…
    Já os rios cheios, com bramidos fundos,
    N'um diluvio d'agoa vão de mar a monte!…

    Em casal de serras arde o castanheiro,
    Lampada de pobres a fazer serão;
    De redor do grande, festival braseiro,
    A velhinha, o velho, o lavrador trigueiro,
    A mulher, os filhos, o bichano e o cão.

    Queima-se o gigante, rude centenario,
    Que jamais os astros hão-de ver florir…
    E do seu cadaver o esplendor mortuario
    Faz d'essa choupana quasi que um sacrario
    Com uma alma d'oiro dentro d'ella a rir!…

    Tem o velho ao colo o seu netinho doente;
    –Morte negra, foge do telhado, ó, ó…–
    E no lar as brasas simultaneamente
    Dizem para o anjo:–tudo é oiro ardente…
    Dizem para o velho:–tudo é cinza e pó!…

    Quantas vezes, quantas! por manhãs radiantes
    Em pequeno, alegre como um colibri,
    Não trepara aos braços todos verdejantes
    D'esse castanheiro, que n'alguns instantes
    Ha-de ver em cinzas já desfeito ali!…

    Quantas vezes, quantas! lhe bailara em torno!
    Quantas noites, quantas! elle ali dormia
    Pelo mez das ceifas, quando o luar é morno,
    E das restolhadas, quentes como um forno,
    Se evolavam cheiros d'arreçã bravia!…

    Como não sentir um entranhado afecto,
    Como não amal-o com veneração,
    Se lhe dera a trave que sustenta o tecto,
    Se lhe dera o berço onde repoisa o neto,
    Se lhe dera a tulha onde arrecada o pão!

    Fez com elle o jugo e fez com elle o arado;
    Fez com elle as portas contra os vendavaes;
    E com elle é feito o velho leito amado,
    Onde se deitara para o seu noivado,
    E onde já morreram seus avós, seus paes!

    E o bom velho embala o seu netinho doente…
    –Morte negra, foge… dorme, dorme… ó, ó…–
    E, fitando as chamas simultaneamente,
    Ri-se a creancinha, vendo o oiro ardente,
    Lagrimeja o velho, vendo cinza e pó!…

    A velhinha resa, resa afervorada…
    Tão velhinha e branca, branca de jasmins,
    Que a idealiso e creio d'esplendor banhada,
    Entre palmas verdes até Deos levada
    N'um andor de rosas pelos serafins…

    Resa pelos mortos… resa á virgem pura…
    Desde a sua infancia tão ditosa e bella,
    Já d'essa choupana (como a noite é escura!)
    Quantos tem partido para a sepultura,
    Quantos tem ficado dentro d'alma d'ella!…

    Dentro d'alma d'ella, triste campo santo,
    Muitas almas vivem mortas a sonhar!…
    Vivem mortas, mudas, n'um dorido encanto…
    Nos seus olhos vitreos cristalisa o pranto,
    Nos seus labios roxos fosforece o luar…

    E essas almas fluidas que ella traz comsigo,
    –Talisman da crença, magico poder!–
    Frias como a neve vem do seu jasigo,
    Vem sentar-se todas no logar antigo,
    A chorar á roda do braseiro a arder!…

    Ai dos pobres mortos que não tem fogueiras,
    Nem velhinhas santas que lhe deem luz!
    Sob leivas, onde ninguem põe roseiras,
    Umas sobre as outras juntam-se as caveiras,
    Dando sangue aos vermes, podridões á Cruz…

    D'esses desgraçados, mortos no abandono,
    Onde estão as almas? P'ra que Deos as fez?
    Quando o vento uivando lhes perturba o somno
    Pela treva errantes, como cães sem dono,
    Andarão perdidas a ulular talvez!…

    Pois até por essas que ninguem conforta
    A velhinha chama… e todas ellas vem…
    –Vinde pobresinhas, (como o vento as corta!)
    Vinde aqui sentar-vos, que eu vos abro a porta,
    A aquecer-vos, filhas, ao meu lar tambem!–

    E a dos olhos garços pastorinha bella
    Fia no seu fuso linho por corar;
    É trigueiro o linho, trigueirinha é ella…
    Rodopia o fuso… quando for donzella,
    Já terá camisas para se ir casar!…

    E esse fuso alegre onde se enrosca o linho
    Já foi ramo verde n'esse tronco em brasas:
    Deu já cachos brancos como o branco arminho,
    Já sobre elle a ave construiu seu ninho,
    Já sobre elle amando palpitaram azas!…

    Fuso como giras em dedinhos breves
    Prasenteiramente, com tão louco ardor!
    Que estarás fiando?… que enxovaes?… que neves?
    Se serão camisas, ou mortalhas leves,
    Cama para bodas, ou lençoes de dor!…

    No vetusto escano o lavrador sombrio
    Pensa na courela… Santo Deos, Jesus!
    Se a tormenta engrossa, se lha leva o rio,
    Como é que hade o gado pelo ardor do estio
    Sustentar-se a piornos de fraguedos nus!…

    Choram ventanias!… panica tristeza!…
    Sentem-se na loja bois a ruminar…
    Queixas insondaveis vem da naturesa!…
    Quanto monstro mudo, quanta lingoa presa,
    Contemplando a Noite sem poder fallar!…

    Ronronando ao lume, dorme o cão e o gato.
    Almas misteriosas, em que sonharão?…
    Como que n'um dubio lusco-fusco abstracto,
    De ter sido tigre lembra-se inda o gato?…
    De ter sido hiena lembra-se inda o cão?…

    Eis as brasas mortas… Eil-o já converso
    O castanheiro em cinza, em fumo vão, em luz…
    Luz e fumo e cinza tudo irá disperso
    Reviver na vida eterna do universo,
    Circulo de enigmas, que ninguem traduz…

    Sempre, sempre, sempre, cinza, fumo e chama
    Viverão, morrendo a toda a hora… sempre!…
    Nuvem que troveja, calix que enbalsama,
    Planta, pedra, insecto, humanidade, lama,
    Serão tudo, tudo!… inconcebivel!… Sempre!

    Mas a alma, as almas quem as ha criado?
    Qual a origem d'onde a sua essencia emana?…
    Ah, em vão levanto o triste olhar magoado
    Para os olhos d'ouro que do azul sagrado
    Lançam as estrellas á miseria humana!…

    Oh em vão!… que os astros, onde em sonho habito,
    São tambem fogueiras sobrenaturaes,
    Que na pavorosa noite do Infinito
    Crepitando espalham seu clarão bemdito,
    Suas alvoradas roseas, virginaes,

    Para em torno d'ellas se aquecerem mundos
    A tremer com frio, a soluçar com dor,
    Miseraveis monstros cegos, vagabundos,
    Atravez d'eternos turbilhões profundos,
    N'um virtiginoso, angustioso horror!…

    E ardam astros d'oiro, ou ardam castanheiros,
    No Infinito imenso ou n'um tugurio assim,
    Fica a mesma cinza d'esses dois braseiros,
    Atomos errantes, sonhos vãos, argueiros
    Na inconsciencia calma da amplidão sem fim!…

    E o mundo e os mundos a girar na altura
    Como vós, ó velhos, morrerão tambem…
    Blocos de materia fria, sem verdura,
    Errarão na vaga imensidade escura,
    Cemiterio d'astros que nem cruzes tem!…

    Dormirão? oh, nunca!… vão eternamente
    Circular na eterna vida universal:
    Nebulosa fluida, lavareda ardente,
    Lodo, o mesmo lodo, como antigamente,
    Com os mesmos dramas entre o Bem e o Mal!…

    Formas da materia, que eu em vão desnudo,
    Que invisiveis forças, e almas encobris?
    Quem o sabe? A Morte, que conhece tudo…
    Mas o enigma impresso no seu labio mudo
    Só na treva aos mortos é que a morte o diz!…

    Só a Morte o sabe… mais a Fé que abrasa,
    Que penetra as coisas com o seu olhar!
    Não ha fé na alma, não ha luz na casa…
    A rasão é um verme, mas a crença é aza…
    Verme! aos infinitos poderás chegar!…

    Ó velhinha santa, minha boa amiga,
    Resa o teu rosario, move os labios teus!…
    A oração é ingenua? Vem de crença antiga?
    Não importa! resa, minha boa amiga,
    Que orações são lingoas de falar com Deos!…

    Ha pedintes cegos de inspiradas frontes,
    Com estrellas n'alma, com visões mentaes,
    Que atravessam rios, que vão dar com fontes,
    Que andam por agrestes, solitarios montes,
    Sem errar a estrada, sem cahir jamais!…

    Pelos bosques ermos, onde venta e neva,
    Com os seus farrapos mais o seu bordão,
    Marcham por milagre na continua treva…
    Oh, dizei, dizei-me quem os guia e leva?
    Que prodigio oculto? que invisivel mão?

    Pois, velhinha branca, tua crença pura,
    Tua resa antiga, que me faz chorar,
    É egual aos cegos, que na noite escura
    Não precisam d'astros para ver a altura,
    Não precisam d'olhos para ter olhar!

    No Infinito mudo tua ingenua crença,
    Tremula ceguinha de risonho alvor,
    Eil-a andando, andando, como que suspensa,
    Pelos descampados d'uma noite imensa,
    Vastidões d'assombros, amplidões d'horror!…

    E onde a aguia, o genio de pupila ovante,
    Tem vertigens, auras, desfalece e cae,
    A ceguinha debil, vagabunda, errante,
    D'olhos ás escuras. Infinito adiante,
    N'um enlevo aereo perpassando vae!…

    Branca e pequenina, ligeirinha e leve,
    Corta por abismos, plagas sem faroes,
    Stepes infindaveis que ninguem descreve,
    Lugubres desertos de mudez e neve,
    Bategas de brasas, turbilhões de soes!…

    Vae andando, andando, té que emfim cercada
    D'uma aleluia mystica de luz,
    Com o bordãosinho que a amparou na estrada
    Bate ás portas d'oiro da feliz morada,
    Presbiterio d'Almas, onde está Jesus!…

    Vem um anjo abril-as; a ceguinha mansa
    Põe-se de joelhos, em adoração…
    Diz-lhe o anjo:–Toma, guarda esta lembrança:
    Uma palma d'astros, a luzir Esp'rança,
    Que á velhinha humilde levarás na mão!

    E, ave pressurosa recolhendo ao ninho,
    Já com alimento para os filhos seus,
    Eil-a que regressa por egual caminho,
    E vem dar-te, ó santa, côr de jaspe e arminho,
    Tão amada ofrenda que te envia Deos!…

    Resa esse rosario, santa lagrimosa!
    Sobre os teus joelhos deixa-me deitar!
    Triste da minh'alma!… vê, que desditosa!…
    Unge-m'a de bençãos, mão religiosa!…
    Cobre-m'a de graças, cristalino olhar!…

    Resa-lhe baixinho, minha boa amiga!
    Resa-lhe rosarios de orações ideaes!
    Morta de miseria, morta de fadiga,
    Deixa que ella durma na pureza antiga…
    Que ella durma… sonhe… e não acorde mais!…

    89.

    III

    *EIRAS AO LUAR*

    EIRAS AO LUAR

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Sobre espigas d'ouro bailam as ceifeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Bailae sob as lagrimosas
    Estrellinhas misteriosas,
    Scintilações, nebulosas,
    Fremitos vagos d'empyreos!…
    Deos golpeia a aurora p'ra dar sangue ás rosas,
    Deos ordenha a lua p'ra dar leite aos lirios!…

    Ai, medas de prata e oiro,
    De lua branca e pão loiro,
    Malhadas no malhadoiro,
    A enfeitiçar e a fulgir!…
    Oh, bailae á volta d'esse bom tesoiro,
    Que é a codea negra que ceaes a rir!…

    Quem nas ladeiras e prados,
    Com as lanças dos arados,
    Abriu sulcos e valados
    Na terra gelida e nua?
    Oh, bailae á volta desses bois deitados,
    Que estão d'olhos tristes adorando a lua!…

    Que bandos de passarinhos,
    Vem lá de campos maninhos,
    De fraguedos, de caminhos,
    Jantar aqui, merendar!…
    Oh, bailae em volta de milhões de ninhos!
    Oh, bailae cantando para os acordar!…

    Entre as palhas do centeio,
    Quantas esmolas no meio,
    Que deixam lirios no seio
    E as mãos escorrendo luz!…
    Oh, bailae em volta do celeiro cheio!
    Oh, bailae á volta dos mendigos nus!…

    Quanta hostia consagrada,
    –Pão da ultima jornada!–
    Dorme na meda encantada
    Ao luar tão leve e tão lindo!…
    Oh, bailae em volta d'essa mó doirada,
    Que bailaes á volta de Jesus dormindo!…

    Alvor da lua nas eiras,
    Nem linhos de fiandeiras,
    Nem veos de noivas ou freiras,
    Nem rendas d'ondas do mar!…
    Oh, bailae ceifeiras, lindas feiticeiras,
    Na aleluia argentea do clarão do luar!…

    Setembro–91.

    IV

    *AS ERMIDAS*

    AS ERMIDAS

    Alvas ermidinhas sob azues maguados,
    Vejo-vos de longe n'uma adoração,
    Como ninhos brancos de Ideal pousados
    Lá n'esses fragosos montes escalvados,
    Onde não ha agoa, nem germina o pão.

    Serranias ermas, solidões contritas…
    Azinheiras como velhos Briarcus….
    Pedras calcinadas… gados parasitas…
    Tristes montes ermos! ermos cenobitas,
    Que em burel d'estevas amortalha Deos!…

    Pelas torvas, fundas noites de invernada,
    Quando os lobos uivam, quando a neve cae,
    Que infinitos sustos n'uma tal morada,
    Para debil virgem tão desamparada
    Com um inocente nos seus braços… ai!

    Como é que não treme pelo seu menino?
    Como é que não chora seu piedoso olhar?
    Como é que o seu labio, fresco e matutino,
    Se abre n'um sorriso, precursor divino
    Da estrellinha d'alva quando vae raiar?!

    Não receia feras quem de rosto ledo
    Sofre sete espadas sobre o coração!…
    E ao filhinho a noite não lhe causa medo,
    Deu-lhe Deos o mundo para seu brinquedo,
    Como um fructo d'oiro tem-no ali na mão!…

    Lá nos altos montes sem trigaes, nem vinhas,
    Sem o bafo impuro que dos homens vem,
    É que a mãe de Christo com as andorinhas,
    E as estrellas d'oiro mesmo ali visinhas,
    N'um casebre terreo se acomoda bem.

    Bispos não precisa; servem-na pastores,
    Capelães d'ovelhas, mais o seu zagal…
    Lampada ás Trindades, chão varrido, flores,
    Nada falta á Virgem, mãe dos pecadores,
    N'uma egrejasinha que é como um pombal.

    E nas brutas, rudes solidões tão calmas
    Ai, muito se engana quem a julga só!
    Entre o luar dos hinos e o verdor das palmas,
    Para lá caminham romarias d'almas…
    Todos nós lá fomos com a nossa avó!…

    Oh, as invisiveis procissões piedosas,
    Romarias fluidas, sobrenaturaes!
    Por onde ellas marcham, brancas, vaporosas,
    Fica nos espaços um alvor de rosas
    E uma angelisante tremulina d'ais!…

    Almas de velhinhas, do palor silente
    D'uma estrella, quando desmaiando está…
    Vão buscar alivios p'ro netinho doente,
    Vão pedir noticias d'algum filho ausente,
    Vão rogar a Gloria para os mortos já…

    Almas de meninos, loiras como abelhas,
    A sorrir ao colo d'almas a cantar…
    Almas em noivados, roseas e vermelhas…
    E almas de pastores ofertando ovelhas,
    Chocalhinhos d'astros, velos de luar…

    Almas d'assassinos dos montados ermos,
    Com o seu remorso como um javali…
    Almas de mendigos, d'aleijões, d'enfermos…
    Almas vagabundas, de perdidos termos,
    Que atravessam agoas p'ra chegar ali!…

    Almas das corolas matinaes, dos ninhos,
    Das aradas verdes, da campina em flor…
    Almas de borregos, touros, passarinhos…
    E almas, sim! das urzes e hervas dos caminhos,
    Porque até nas fragas dorme o Sonho e a Dor!…

    E essas almas todas ella apasigua
    Com o dos seus olhos balsamo eficaz:
    Verte sobre as penas sugestões de lua,
    Mantos dá d'estrellas á miseria nua,
    Lagrimas aos crimes e ao remorso paz…

    Esconjura demos, bruxas, feiticeiras,
    E dos sonhos loucos o torpor febril…
    Dá verdura aos gados, chuva ás sementeiras,
    Faz bailar as moças ao luar nas eiras,
    Faz fugir os lobos vendo o seu candil.

    Mas tambem ha almas, pobresinhas d'ellas!
    Que á romagem d'oiro não acodem já!
    Almas moribundas… Noites de procellas…
    Olha nos casebres tremeluzem velas!…
    É signal que a Morte anda a rondar por lá!…

    Mas a sempre linda Virgem da Amargura
    Baixa do altarzinho toda afadigada,
    E atravez de serras, pela noite escura,
    De menino ao colo,–santa creatura!–
    Lá vae ella andando, não tem medo a nada!…

    Lá vae ella andando… no caminho estreito
    Deixa um rasto d'oiro pela escuridão…
    Deixa um rasto d'oiro de divino efeito,
    Porque as sete espadas, a fulgir no peito,
    Põem-lhe um setestrello sobre o coração…

    E de povo em povo, que é de serra em serra,
    Almas na agonia visitando vae;
    Quando chega, a Morte já as não aterra,
    Ella lhes dá azas p'ra voar da terra,
    Seu menino beijos p'ra levar ao Pae…

    Virgem das Angustias, Virgem da Bonança,
    Quantas noites, quantas! tremula de dor,
    Não vae ser parteira da ovelhinha mansa
    A parir, balando como uma creança,
    Entre fragaredos de meter horror!

    A deshoras mortas eil-a vigilante,
    Prompta a dar socorros ao menor queixume:
    Acender estrellas para o navegante,
    Ir levar ás mães o cordeirinho errante,
    Defender das cobras a ninhada implume…

    Pois como não ha-de consolar as dores
    Dos humildes, simples, engeitados, nus,
    Se inda se recorda de só ver pastores,
    Com cordeiros brancos, cantilenas, flores,
    Na sagrada noite em que pariu Jesus!…

    Sim! adora a rude gente da lavoira,
    Sementeiras, gados, matagaes, lebreus,
    Porque não se esquece da vaquinha loira,
    Que se poz de joelhos ante a mangedoira,
    Quando nas palhinhas dormitava Deos…

    E por isso arreda pestes, ventanias,
    Fomes e procellas, bruxas e trovão,
    Lá para malditas, negras penedias,
    Onde silvam cobras doudas e bravias,
    E onde não existe nem christão, nem pão!…

    E por isso ex-votos, que relembram dores,
    Cobrem de ternura todo o seu altar:
    Bustos de meninos, mãos de cavadores,
    Tranças de donzellas, soluçando amores…
    Corações e peitos, de fazer chorar!…

    Alvas capelinhas, sempre milagrosas,
    Sois n'essas alturas para os olhos meus,
    Como ninhos virgens d'orações piedosas,
    Miradoiros brancos de luar e rosas,
    D'onde as almas simples entreveem Deos!…

    90-91.

    V

    *CANÇÃO PERDIDA*

    CANÇÃO PERDIDA

    Halitos de lilaz, de violeta e d'opala,
    Roxas macerações de dor e d'agonia,
    O campo, anoitecendo e adormecendo, exhala…

    Triste, canta uma voz na sincope do dia:

    Alguem de mim se não lembra
    Nas terras d'alem do mar…
    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!…

    Com o beijo do sol na face cadaverica,
    Beijo que a morte esvae em palidez algente,
    Eis a lua a boiar sonambula e chimerica…

    Doce, canta uma voz melancolicamente:

    O meu amor escondi-o
    N'uma cova ao pé do mar…
    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Morre o amor, vive a saudade…
    Morre o sol, olha o luar!…

    Latescente a neblina opalica flutua,
    Diluindo, evaporando os montes de granito
    Em colossos de sonho, extasiados de lua…

    Flebil, chora uma voz no letargo infinito:

    Quem dá ais ó rouxinol,
    Lá para as bandas do mar?…
    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!…

    A lua enorme, a lua argentea, a lua calma,
    Imponderalisou a natureza inteira,
    Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma…

    Triste expira uma voz na canção derradeira:

    Ó meu amor, dorme, dorme
    Na areia fina do mar,
    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Que em antes da estrella d'alva
    Comtigo me irei deitar!…

    Maio–91.

    VI

    *O PASTOR*

    O PASTOR

    Sinos a defuntos! ai, quem morreria!
    Olha, foi o pobre do Ti Zé-Senhor!…
    Velho tão velhinho nenhum outro havia…
    P'ra cumprir cem anos lhe faltava um dia,
    Ha noventa e quatro que era já pastor.

    Zagalzinho alegre, desde tenra infancia
    Já de surrãosito cheio a tiracol,
    A escalar montanhas com ardor, com ancia,
    Por pastagens bravas d'auroral fragancia,
    Branqueadinho a neve e doiradinho a sol!…

    A deserta, imensa, rustica paisagem,
    Cordilheiras, campos, astros d'oiro, luar,
    Tudo se invertera, por continua imagem,
    Em heroica, em livre candidez selvagem
    Na extasiada flor do seu ingenuo olhar.

    Ordenhado o leite, cantarinho cheio,
    Ala para a aldeia, por manhãs sonoras,
    Mordiscando a codea do seu pão centeio,
    Arrancando á frauta um pastoril gorgeio,
    Rapinando ás sebes chupa-meis e amoras.

    Fez-se moço e grande pelas serras brutas,
    Onde as aguias pairam, onde o roble medra,
    E onde os fragaredos barbaros, com grutas,
    Se encastelam crespos, infernaes, em lutas,
    Tal como tormentas de trovões de pedra!

    Cada serrania alcantilada e brava,
    Sob o azul d'Agosto, côr de fogo e pó,
    Recozida a febre e atordoada em lava,
    Lagrimeja apenas d'uma rocha cava
    Pranto, que o bebera uma ovelhinha só!

    E por essas fulvas, ingremes ladeiras
    Pastoreava o gado, quasi morto já:
    Só rochedos tristes, nus como caveiras,
    E zambulhos, zimbros, tojos, cornalheiras,
    Acres como pragas d'uma boca má!

    E depois as torvas, negras invernadas,
    Noites formidandas, lobos a ulular,
    Desmoronamentos, temporaes, nevadas,
    Carcavões abertos pelas enxurradas,
    Troncos de sobreiros de raiz ao ar!…

    Oh, as noites tristes, alapado e quedo,
    N'um covil de feras, ou algar deserto!…
    E dormia ao lume sem temor, sem medo,
    Pois Nossa Senhora, Virgem do Degredo,
    Na ermidinha branca lhe ficava perto…

    Mas no mez de Março pincaros maninhos,
    Montes cenobitas, d'ossos e burel,
    Vestem-se de trevos e de rosmaninhos,
    Com sorrisos d'oiro que alvoroçam ninhos,
    E distilam favos de inocencia e mel!…

    Era então alegre como o sol nascente,
    Mais feliz nos campos do que Deos no altar!
    Anhos e cabritos, leite rescendente,
    Pastos tão mimosos, que quizera a gente
    Transformar-se em ave para os não calcar!

    Tanto Abril florido, tanta calma adusta,
    Tantas inverneiras, sem pesar ou dor,
    Tinham-lhe gravado na expressão robusta
    Como que uma sombra de grandeza augusta,
    Junta a uma inocencia matinal de flor.

    Que importavam gelos, ventanias, feras?
    Peito nu, aberto; construção de touro!
    Quasi me admirava que nas primaveras
    D'esse peito rude não brotassem heras,
    Margaridas, lirios com abelhas d'ouro!

    Ao relento a cama no orvalhado pasto,
    Cerca dos carneiros e dos bons lebreus;
    Que divino leito primitivo e casto,
    Todo embalsamado de serpol, mentrasto,
    Sob a paz imensa do perdão de Deos!…

    E esse gigantesco latagão corado
    Era, como os santos ermitões, frugal:
    Duas azeitonas, queijo do seu gado,
    E de rala escura meio pão migado
    N'um caldeiro d'agoa com azeite e sal.

    Não jantava morte, assassinato, dores,
    Hecatombes tristes que jantamos nós;
    E por isso ria como riem flores,
    Atrahindo em bandos aves de mil cores,
    Feiticeiro simples, com o olhar e a voz!…

    Sua rude frauta de pastor ouvindo
    Na misteriosa luz crepuscular,
    Iam-se as estrellas uma a uma abrindo,
    E desabrochava pelo azul infindo
    Soluçante a lua como um nenufar!…

    Que trinados vivos, d'argentino encanto
    Ai, missa do galo, lhe inspiravas tu,
    N'essa frauta, quando de cajado e manto
    Ia deitar loas ao menino santo
    No altar-mór da egreja sorridente e nu!

    Fôra lá creança, magica ventura!
    Centenario quasi a derradeira vez…
    E gorgeava a frauta com egual candura,
    Pois a alma virgem, luminosa e pura,
    Conservara-a sempre como Deos a fez.

    N'ella penetrava, n'ella se embebia
    Tudo que é inocencia, riso, amor, clarão:
    Fremito de pomba, voz de cotovia,
    Canticos dos montes ao nascer do dia,
    Lagrimas dos astros pela escuridão!…

    Longe dos Pecados de raivosas presas,
    Belzebuths famintos d'olhos de metal,
    Longe das horriveis tentações acezas
    No torpor dos leitos, na embriaguez das mezas,
    Pululantes larvas, vibriões do Mal,

    O pastor ditoso envelheceu ridente
    Por despenhadeiros, alcantis, calvarios,
    E na fronte augusta de ermitão, de crente,
    Lhe geavam anos luminosamente,
    Como as pombas brancas sobre os campanarios!

    Das ovelhas meigas,–intimas heranças!–
    Recolhera toda a abnegação christã:
    Oh, sejaes bemditas, ovelhinhas mansas,
    Que com vosso leite sustentaes creanças,
    E vestis os pobres com a vossa lã!

    Aos noventa anos, festival, risonho,
    Alamo gigante d'agoa viva ao pé;
    Sim! inda na boca risos de medronho,
    E nos olhos lentos, a tremer em sonho,
    Dois miosotis virgens de candura e fé!

    Com seu manto branco de burel grosseiro,
    Cans de puro arminho, baculo na mão,
    Alembrava um santo feito pegureiro,
    Que eu desejaria sobre o altar cruzeiro
    D'uma ogiva d'astros, em adoração!

    Centenario quasi, recordava aspectos
    De lendario tronco n'um feliz vergel,
    Moribundo em meio de seus verdes netos,
    Com a Providencia a agasalhal-o em fetos,
    Com abelhas d'ouro inda a nutril-o a mel,

    E que surdo á voz dos ledos passarinhos,
    E que cego ao ether de esplendor ideal,
    Com o ai extremo lança dois raminhos,
    A chamar ainda por canções de ninhos
    E a dizer aos astros um adeos final!

    Tal o pastor santo, já de vez cahido,
    Já corcovadinho, flebil, quasi morto,
    Arrimado ao velho baculo torcido,
    Nada ouvindo, nada, com o duro ouvido,
    Vagamente olhando com o olhar absorto,

    Ia pelos montes na tristeza infinda
    D'um coração ermo, com a morte aceite,
    A pedir aos anjos para ouvir ainda
    Badalar ovelhas n'uma noite linda,
    Quando a lua os campos alagasse em leite!…

    Seu bisavô fora guardador de gado,
    Guardador de gado seu avô, seu pae;
    Creou filho e netos como foi creado,
    E morreu ditoso porque o seu cajado
    Seu rebanho ainda pastoreando vae!

    Candido, na paz das solidões dormentes,
    Ignorando o mundo rancoroso e vil
    Aos cem anos inda, com a fé dos crentes,
    Punha olhos claros, simples, inocentes,
    Na estrellinha d'alva das manhãs d'Abril!

    Levará no esquife para os ceos a palma
    Da grandeza mansa, da virtude austera.
    Realisou no mundo a perfeição da Alma:
    Porque foi bondoso como a lua é calma,
    Porque foi um santo sem saber que o era!…

    Vós, ó semideuses do entremez da Gloria,
    Cesares, tiranos, capitães, heroes,
    Epicas figuras de imortal memoria,
    Que de serro em serro iluminaes a historia
    Como crepitantes, tragicos faroes,

    Na região do Imenso, no Infinito puro,
    Onde me deslumbra, como um sol, Jesus,
    Não sois mais que larvas a tremer no escuro,
    Que ninguem conhece, que eu em vão procuro
    Com meus olhos calmos n'esse mar de luz!

    E o pastor d'ovelhas, que comeu centeio,
    Que viveu nos montes, que dormiu nas grutas,
    Tão asselvajado, cabeludo e feio,
    Que dissereis quasi que esse monstro veio
    Da matriz da terra, como as pedras brutas,

    Já liberto agora da Ilusão do mundo
    Fez-se em anjo branco, inda outra vez pastor:
    Milhões d'astros seguem seu olhar jocundo,
    São rebanhos d'almas pelo azul profundo
    As ovelhas novas do Ti Zé-Senhor!…

    90-91.

    VII

    *O CAVADOR*

    O CAVADOR

    Dezembro, noite, canta o galo…
    Rouco na treva canta o galo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Aldeão não durmas!… Vae chamal-o,
    Miseria negra, vae chamal-o!…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bate-lhe á porta, é teu vassalo,
    Que traga a enxada, é teu vassalo,
    Miseria negra, o cavador!

    O vento ulula… Tremem ninhos…
    Na noite aziaga tremem ninhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    A neve cae, fria d'arminhos…
    Na escuridão, fria d'arminhos…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Passa maldito nos caminhos,
    D'enxada ao hombro nos caminhos,
    Fantasma negro, o cavador!

    Vem roxa a estrella d'alvorada…
    Vem morta a estrella d'alvorada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Montanhas nuas sob a geada!…
    Hirtas, de bronze, sob a geada…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Torvo, inclinado sobre a enxada,
    Rasga as montanhas com a enxada.
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou desde que é dia…
    Cavou, cavou… Bateu meio dia…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    De pé na encosta erma e bravia,
    Triste na encosta erma e bravia,
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Largando a enxada, «Ave Maria!…»
    Resa em silencio… «Ave Maria!…»
    Fantasma negro, o cavador!

    Cavou, cavou na serra agreste,
    D'alva á noitinha em serra agreste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    E um caldo em premio tu lhe deste,
    Meu Deos!… seis filhos tu lhe deste…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Batem trindades… «Pae celeste!…
    Bemdito sejas, Pae celeste!…»
    Resa, fantasma, o cavador!

    Cavou cem montes… que é do trigo?!
    Gerou seis bocas… que é do trigo?!
    –Oh, dor! oh, dor!–
    Bateu a Fome ao seu postigo…
    Bateu a Morte ao seu postigo…
    –Oh, dor! oh, dor!–
    «Que a paz de Deos seja comigo!
    Que a paz de Deos seja comigo!…»
    Disse, expirando, o cavador!

    Junho–91.

    VIII

    *OS POBRESINHOS*

    OS POBRESINHOS

    Pobres de pobres são pobresinhos,
    Almas sem lares, aves sem ninhos…

    Passam em bandos, em alcateias,
    Pelas herdades, pelas aldeias.

    É em Novembro, rugem procellas…
    Deos nos acuda, nos livre d'ellas!

    Vem por desertos, por estevaes,
    Mantas aos hombros, grandes bornaes.

    Como farrapos, coisas sombrias,
    Trapos levados nas ventanias…

    Filhos de Christo, filhos d'Adão,
    Buscam no mundo codeas de pão!

    Ha-os ceguinhos, em treva densa,
    D'olhos fechados desde nascença.

    Ha-os com f'ridas esburacadas,
    Roxas de lirios, já gangrenadas.

    Uns de voz rouca, grandes bordões,
    Quem sabe lá se serão ladrões!…

    Outros humildes, riso magoado,
    Lembram Jesus que ande disfarçado…

    Engeitadinhos, rotos, sem pão,
    Tremem maleitas d'olhos no chão…

    Campos e vinhas!… hortas com flores!…
    Ai, que ditosos os lavradores!

    Olha, fumegam tectos e lares…
    Fumo tão lindo!… branco, nos ares!…

    Batem ás portas, erguem-se as mães,
    Choram meninos, ladram os cães…

    Resam e cantam, levam a esmola,
    Vinho no bucho, pão na sacola.

    Fructa da horta, caldo ou toucinho,
    Dão sempre os pobres a um pobresinho.

    Um que tem chagas, velho, coitado,
    Quer ligaduras ou mel-rosado.

    Outro, promessa feita a Maria,
    Deitam-lhe azeite na almotolia.

    Pelos alpendres, pelos curraes,
    Dormem deitados como animaes.

    Em caravanas, em alcateias,
    Vão por herdades, vão por aldeias…

    Sabem cantigas, oraçõesinhas,
    Contos d'estrellas, reis e rainhas…

    Choram cantando, penam resando,
    Ai, só a morte sabe até quando!

    Mas no outro mundo Deos lhes prepara
    Leito o mais alvo, ceia a mais rara…

    Os pés doridos lh'os lavarão
    Santos e santas com devoção.

    Para laval-os, perfumaria
    Em gomil d'ouro, d'ouro a bacia.

    E embalsamados, transfigurados,
    Tunicas brancas, como em noivados,

    Viverão sempre na eterna luz,
    Pobres bemditos, amen, Jesus!…

    Outubro–91

    IX

    *CAMPO SANTO*

    CAMPO SANTO

    Ai ao relento, ai ao relento, sonham cavadores!…
    Somno d'arminho… colxão de terra… lençol de flores!…

    Cahi dormentes,
    Cahi exanimes, trementes,
    Palidos silencios do luar dorido!
    Litanias fluidas do luar dorido!
    Misereres brancos do luar dorido!
    Balsamos, piedades, orações dolentes
    Do luar dorido!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonham pegureiros!…
    Cama tão fresca!… cobertor branco, de jasmineiros…

    Cahi maviosas,
    Cahi somnambulas, piedosas,
    Concavas tristezas do luar magoado!
    Resonancias d'orgão do luar magoado!
    Extrema-unções profundas do luar magoado!
    Sincopes, oblivios, quietações chorosas
    Do luar magoado!…

    Ai ao relento, ai ao relento sonha a boeirinha!…
    Cama de violetas!… que lhe fez a Virgem, sua madrinha…

    Cahi radiantes,
    Angelisantes,
    Esfolhados lirios do luar divino!
    Musselina argentea do luar divino!
    Halitos de leite do luar divino!
    Perolas, opalas, beijos e diamantes
    Do luar divino!…

    Ai ao relento, ai ao relento as bisavós dormindo!…
    Cama de rosas, sobre-ceo d'astros!… que sonho lindo!…

    Cahi cantando,
    Cahi mas brando, muito brando,
    Misticas nevadas do luar de prata!
    Linho da candura do luar de prata!
    Angelus da ermida do luar de prata!
    Extasis boiando, sagrações ondeando
    No luar de prata!…

    Dormi, dormi!… que bellas camas!… ai, que bons lençoes!…
    Na travesseira, que bem que cheira! cantam roussinoes!…

    Dorme de costas, cavador, ao luar, ao luar de neve!…
    Ai, como a terra era pesada, e se fez leve, leve!…

    Dorme, pastor, ao luar de Junho, dorme sem cuidado!…
    Que anda a Senhora dos Montes-Ermos a guardar-te o gado…

    Durmam velhinhas! durmam creanças! durmam donzellas!
    Quando acordarem já tem os anjos á espera d'ellas…

    Ha-de acordar tudo lá nos ceos doirados…
    Ha-de haver banquetes, ha-de haver noivados…

    Põe a mesa a Virgem para os pobresinhos…
    Ai, que lindos fructos!… ai, que ricos vinhos!…

    Vinhos d'um vinhedo, fructos d'um pomar,
    Que no ceo os anjos regam com luar…

    Ordenhando ovelhas andam serafins,
    Cantarinhos d'oiro, leite de jasmins.

    Outros nas arribas crestam as colmeias,
    Grandes favos brancos como luas cheias.

    Ai, que bom almoço, feito n'um vergel,
    Pomos cor de aurora, leite, vinho e mel!…

    Para as avósinhas tem lá Deos bastantes
    Fusos d'esmeraldas, rocas de diamantes…

    Como vós, ó moças, lá no ceo casaes,
    Ellas darão teias para os enxovaes…

    Já no setestrello dançam nos terreiros,
    Tamboris e violas, frautas e pandeiros…

    Já lá vejo os noivos, com S. João á espera,
    N'uma ermida branca revestida d'hera…

    Ai, dormi, donzellas, ai dormi ao luar,
    Que no ceo com anjos vos ireis casar…

    Ai, dormi, creanças! que no azul divino
    Brincareis alegres com o Deos-menino…

    Partirá comvosco, porque é vosso irmão,
    A laranja,–o mundo, que lá tem na mão…

    Dormi, dormi, sem dor, sem penas…
    Dormi, dormi!…
    E em vossos leitos florescentes,
    De rosas brancas e assucenas,
    Caiam dormentes,
    Caiam exanimes, trementes,
    Graças do baptismo do luar alvissimo!
    Beijos do noivado do luar purissimo!
    Lagrimas da morte do luar tristissimo!
    Canticos d'exequias, orações dolentes
    Do luar santissimo!…

    Abril–91.

    *EPILOGO*

    REGRESSO AO LAR

    Ai, ha quantos anos que eu parti chorando
    D'este meu saudoso, carinhoso lar!…
    Foi ha vinte?… ha trinta?… Nem eu sei já quando!…
    Minha velha ama, que me estás fitando,
    Canta-me cantigas para me eu lembrar!…

    Dei a volta ao mundo, dei a volta á Vida…
    Só achei enganos, decepções, pesar…
    Oh! a ingenua alma tão desiludida!…
    Minha velha ama, com a voz dorida,
    Canta-me cantigas de me adormentar!…

    Trago d'amargura o coração desfeito…
    Vê que fundas maguas no embaciado olhar!
    Nunca eu sahira do meu ninho estreito!…
    Minha velha ama, que me déste o peito,
    Canta-me cantigas para me embalar!…

    Poz-me Deos outrora no frouxel do ninho
    Pedrarias d'astros, gemas de luar…
    Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!…
    Minha velha ama, sou um pobresinho…
    Canta-me cantigas de fazer chorar!…

    Como antigamente, no regaço amado,
    (Venho morto, morto!…) deixa-me deitar!
    Ai, o teu menino como está mudado!
    Minha velha ama, como está mudado!
    Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!…

    Canta-me cantigas, manso, muito manso…
    Tristes, muito tristes, como á noite o mar…
    Canta-me cantigas para ver se alcanço
    Que a minh'alma durma, tenha paz, descanço,
    Quando a Morte, em breve, m'a vier buscar!…

    90.

    *NOTA*

    NOTA

    É este o primeiro dos tres volumesinhos, que hão-de encerrar as minhas
    liricas ineditas. Os outros dois–_Flores de Ideal_–e _Infinito_
    (_Livro d'orações_) virão a lume successivamente, com intervalos de
    mezes.

    Duas palavras sobre os _Simples_.

    Precocemente chegado, pelo sofrimento, ao ocaso da vida, atravessei ha
    anos um periodo agudo, bem doloroso e triste, mas ao mesmo tempo
    salutar. Ante a morte proxima, n'uma anciedade inenarravel, senti-me
    electrisado, como por encanto, de energias subitas. O problema do _alem_
    (como agora se diz) impunha-se, dilacerante e devorador, á minha
    natureza inquieta de religioso e de metafisico. Mas o problema da
    _morte_ é, no fundo, o problema da vida. Estudei, pensei, meditei. Li
    com sofreguidão milhares de paginas. Dias, noites, semanas, mezes,
    revolvi no cerebro escandecido todos os enigmas torturantes. Pedi á
    historia natural (unica historia verdadeira) o segredo intimo das
    coisas. Questionei a razão, ouvi a consciencia. Dei balanço a mim
    proprio. E consegui, ao cabo, o que desejava: ter da vida, ter do
    universo uma ideia metodica e definitiva. Qual? Não é este o momento de
    dizel-o, nem isso interessa seguramente.

    A minha metafisica é para uso proprio. Não construi um sistema de
    filosofia humana. Tratei de responder apenas ás duvidas e curiosidades
    do meu espiríto. Não cheguei sequer a pontos de vista fundamentaes,
    muitissimo diversos dos que já tinha anteriormente. Mas o que era
    intuição tornou-se certeza, e o que era hipotese, mais ou menos
    sentimental e imaginaria, transformou-se n'um corpo de doutrina
    raciocinado e logico. Continuei pela mesma estrada; mas d'antes ia ás
    cegas e tateando, e agora d'olhos bem abertos e a passo firme e
    resoluto.

    D'uma visão mais intima e profunda do universo germinaram em mim novas
    emoções, e portanto uma nova arte. O poeta renasceu e cresceu. Fecundo
    renascimento psicologico, e não apenas uma evoluçãosinha toda literaria,
    meramente verbal e de superficie.

    No prefacio d'outro livro explanarei com vagar as conclusões ultimas do
    meu exame de consciencia, não pelo seu merito intrínseco, repito, mas
    como util comentario da minha obra poetica, de que ellas são
    verdadeiramente a alma essencial e geradora.

    Apasiguada um pouco a dupla crise de angustia intelectual e padecimento
    fisico, esbocei e dei começo a este pequenino poema lirico d'_Os
    Simples_.

    Quiz mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas
    creaturas, que atravessam um mundo de miserias e de injustiças, de
    vicios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição
    para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então
    encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha
    octogenaria e sorridente, no cavador tragico, nos mendigos bíblicos, na
    mansidão dos bois arroteando os campos e nas lavarêdas d'oiro do
    castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infancia, iluminando a
    choupana. E, depois d'uma existencia de sacrificio e de puresa,
    d'abnegação e de bondade, deitei esses ingenuos e pobres aldeões na
    terra misericordiosa e florida do campo-santo, pondo-lhes por cima das
    sepulturas rasas o ceo maravilhoso e candido, que em vida sonharam e
    desejaram.

    É claro que essas figuras não são inteiramente reaes, da realidade
    estricta, efemera e tangivel. Criei-as, ou antes completei-as com a
    minha alma, com o meu proprio ideal.

    Quem vir n'este livrinho somente o lado externo e literario, a forma, a
    paisagem, a pintura rustica, não o entendeu, nem o soube ler.

    É muito mais uma auto-biographia psicologica que uma serie de quadros
    campestres e bucolicos.

    A feição, por assim dizer, regional, do livro é, embora importante,
    subordinada e secundaria. A _Moleirinha_ é mínhota. O _Prestito funebre_
    minhoto é. Mas coisa curiosa, o segundo canto–_In Pulvis_ é já de todo
    transmontano. Inconscientemente, sem dar por tal, levei o castanheiro
    para a minha terra, e queimei-o no lar saudoso da minha meninice. Tambem
    eu me queria aquecer a elle, sentar-me ao pé da sua chama…

    Engana-se quem entre _Os Simples_ e a _Velhice do Padre Eterno_
    descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso d'aquella
    satira. Aquella indignação é o comentario d'esta elegia. O christianismo
    dos _Simples_ é o innocente e meigo christianismo popular, feito com a
    ignorancia absoluta do dogma e com a intuição humana dos Evangelhos. A
    exegese do povo, na sua rudeza nativa e embrionaria, é por vezes d'uma
    penetração sublime e reveladora.

    As minhas antigas opiniões religiosas, em vez de se modificarem,
    acentuam-se cada vez mais. Redobra em mim, com um desenvolvimento
    progressivo de misticismo naturalista, a aversão e a hostilidade á
    egreja catolica, grosseira formula materialisada do transcendente e
    divino espirito de Jesus.

    Em quanto á tecnica do poema, muitissimo havia que dizer, se esta nota
    não fosse escripta rapidamente, á ultima hora, com o impressor á espera.

    A forma poetica encaminha-se á evolução final. Horisonte imenso. O pouco
    que fiz de novo, em tal sentido, não deve nada a ninguem. É meu,
    pertence-me.

    E, de passagem, uma ligeira observação. Este livro, só hoje dado a
    publico, é d'ha muito conhecido entre homens de letras e poetas. E valha
    a verdade exerceu, aqui e alem, ainda inedito, uma certa influencia,
    que, embora leve, é inegavel e manifesta. Podia apontar, citar. Inutil.
    Desejo apenas estabelecer o facto, mais nada.

    Concluindo: tentei uma obra d'arte, que fosse ao mesmo tempo
    absolutamente individual, ingenitamente portugueza e vasta e
    fundamentalmente humana. Alcancei-o? O tempo o dirá.

    14 de Maio de 1892.

    _G. J._

    *INDICE*

    PRELUDIO
    I–A Caminho
    II–De Volta

    I–A MOLEIRINHA

    II–CADAVER
    I–Prestito funebre
    II–In Pulvis

    III–EIRAS AO LUAR

    IV–AS ERMIDAS

    V–CANÇÃO PERDIDA

    VI–O PASTOR

    VII–O CAVADOR

    VIII–OS POBRESINHOS

    IX–CAMPO SANTO

    EPILOGO
    Regresso ao lar

    NOTA

    ERRATA

    Passaram desapercebidos varios erros, principalmente ortograficos,
    de facil emenda para o leitor.

    PREÇOS DA TIRAGEM ESPECIAL

    Exemplar unico em pergaminho 45$000
    Exemplares em papel Wathman 4$000

    _A 1.^a edição d'este livro, destinada a Portugal, pertence ao snr.
    Baptista Domingues, Vianna do Castello, a quem devem dirigir-se todas as
    requisições_.

  • Os meus amores contos e balladas

    Os meus amores contos e balladas

    Aproximadamente 60.805 palavras.

    Produced by Ricardo F. Diogo (Spelling modernization of
    the original version, already available at Project
    Gutenberg: #17503; Actualização ortográfica da versão
    original, já disponível no Project Gutenberg.)

    OS MEUS AMORES

    TRINDADE COELHO

    *OS MEUS AMORES*

    (Contos e Baladas)

    _2.^a edição_

    LISBOA

    Livraria de António Maria Pereira

    50, 52–Rua Augusta–52, 54

    1894

    _LISBOA_

    Tipografia e Estereotipia Moderna

    11–_Apóstolos_–11

    Ao Doutor

    António Xavier Perestrelo

    «_Os Meus Amores_»

    _Folhas dispersas dos meus anos de ouro,
    Vivo enxame das minhas alvoradas,
    Tenho zelos de vós, folhas sagradas,
    As Desdémonas sois de um outro mouro.

    As brancas horas que eu em sonhos douro,
    Essas horas febris, iluminadas,
    Ei-las fugindo, em tristes debandadas…
    Levais nas asas todo o meu tesouro.

    Folhas: subi, voai ao céu tão alto,
    Que o céu em estrelas vos converta e mude,
    Lá nas longínquas ilusões que exalto;

    Como as frementes águas de um açude,
    Levai a Deus, no derradeiro salto,
    O derradeiro adeus da juventude_…

    _Luís Osório_.

    IDÍLIO RÚSTICO

    _A Fialho de Almeida_.

    Quando atravessou a povoação, rua abaixo, com o rebanho atrás dele,
    era ainda muito cedo. Ao longo das ruas tortuosas, as portas
    conservavam-se fechadas, e não vinha das habitações o mais
    insignificante ruído. Dormia-se a sono solto por todas aquelas casas.
    Apenas algum cão, subitamente acordado em sobressalto pelo chocalhar do
    rebanho, ladrava do alto dos escadórios de pedra onde ficara de
    sentinela, ou de dentro das curraladas, onde levara a noite fazendo
    companhia aos novilhos. Donde em onde, galos madrugadores entoavam
    matinas sonoras, que eram como risadas vibrantes de boémios, nalguma
    estúrdia, a desoras…

    Mas passadas as últimas casas, o silêncio condensava-se para toda a
    banda, numa grande pacificação de templo adormecido. Nem vivalma pela
    ladeira que levava ao rio, por um caminho em zig-zags. Fulgiam no céu
    azul-escuro cardumes prateados de estrelas. A toda a largura, a
    paisagem era torva e indecisa, imersa numa luz muito mortiça que nem
    era bem a da madrugada, nem era bem a da noite. No entanto a manhã era
    calma; nem rumores de brisa pela rama das azinheiras velhas que faziam
    guarda ao córrego por onde o rebanho tomara. Cigarras, grilos nas
    ervagens, rãs que coaxavam nas regueiras, era o mais que se ouvia acima
    do rumor brando dos chocalhos. Nem um balido de ovelha em todo o rebanho
    que se ia submissamente à mercê do pequeno pastor, parando se ele
    parava a colher as amoras frescas dos silvados, recomeçando marcha se de
    novo ele se punha a caminhar.

    Quando passou rente ao meloal da fidalga, ouviu-se o ruído de um tiro,
    que o eco levou para longe.

    –Não gastes pólvora, António!–recomendou o pastor.–Ouviste?

    E logo a voz do guardador:

    –Madrugas hoje, Gonçalo!

    –P'ra que saibas: cá um homem não tem medo.

    –Está bem. Adeus!

    –Saudinha.

    A esse tempo ia-se já definindo a manhã, na luz, no som, na cor. Invadia
    a amplidão da cúpula celeste uma tinta alvacenta, onde as estrelas
    feneciam no seu brilho. Ao alto, na ladeira de além, entravam de fazer-se
    nítidas as linhas sinuosas das cristas, onde enormes rochedos tinham
    altitudes de uma imobilidade misteriosa e sinistra… Neste assomo
    de alvorada, as coisas iam despertando lentamente para a alacridade
    vigorosa da luz. Das moitas e sebes, calhandras em bandos levantavam-se
    repentinamente, em voo perpendicular, e cortavam ares fora, chilreantes
    e alegres, até se perderem de vista por detrás dos arvoredos e cabeços.
    De cauda em riste e orelhas imóveis, o rafeiro espreitava as ervagens
    secas, onde algum réptil passasse vagaroso.

    –Busca, Turco!–fazia-lhe o Gonçalo que tinha medo às cobras.–Busca,
    valente!

    À medida que descia a ladeira, um marulhar monótono de águas ouvia-se,
    mais e mais distinto. Era o rio que parecia perto; mas primeiro que lá
    se chegasse ainda era preciso andar… Era um poder de passos e de
    paciência,–reflectia o pastor, a quem aborreciam de morte os
    intermináveis torcicolos da vereda. Ia andando, descendo sempre, à
    frente do rebanho silencioso. E quando os sapatos começaram de calcar
    areia, e ali, perto, o rio lampejava, sob aquele céu ainda estrelado,
    o Gonçalo desabafou:

    –Uff! até que enfim!–E pensava aliviado:–Nada mais fácil do que
    terem-me saído os lobos!…

    Mas vista àquela hora, e no meio de tal silêncio, a corrente líquida
    tinha o que quer que fosse de sinistro, que evocava lembranças
    aterradoras, espectros dos que ali mesmo tinham morrido afogados, numa
    luta desesperada com as águas, clamando em vão que lhes acudissem, em
    tamanho transe aflitivo. A margem de lá, especialmente, era toda
    acidentada de rochedos informes, blocos medonhos, por entre os quais no
    Inverno o vento assobiava lúgubre, e as águas faziam remoinho, o que era
    um perigo para os pobres barcos que se aventurassem incautos, num
    descuido involuntário–simples remadela pouco a tempo, manobra menos
    segura de leme, ou impulso errado de vara.

    E então, cabeços enormes de um lado e doutro, projectando sobre o largo
    leito do rio a sua sombra pesada e desconforme, que mais triste fazia o
    sitio e parece que mais solitário, pois fechavam-no bruscamente, fazendo
    limitada a paisagem.

    A todo o comprimento da margem, o rebanho pôs-se então a beber manso e
    manso, e sem o mínimo ruído.

    Foi quando o Gonçalo acabou de se convencer que na margem de lá, um
    pouco mais abaixo, outro rebanho bebia também.

    –Tate, Gonçalo! Aquela chocalhada…

    E imóvel, remordendo o lábio, com o ouvido à escuta, pensava:

    –Ora se será ela?…

    Súbito, estremeceu. Ante o seu espírito infantil perpassou, como um
    clarão de relâmpago, a imagem de uma rapariga, pastora como ele, com
    quem se havia encontrado mais vezes, mas que havia muito não vira.

    –Ai, se fosse a Rosária!… dizia consigo.

    E impondo silêncio ao rebanho, que acabara de beber, pôs-se atentamente
    à escuta do tilintar dos chocalhos na margem oposta.

    «O rebanho parecia o mesmo, lá isso… Agora o pastor é que podia ser
    outro que não a Rosária…»

    Senão quando, uma ideia lhe acudiu que o fez sorrir de contente. Atirou
    ao chão a manta e o marmeleiro, e puxando para diante o bornal, feito da
    pele de uma ovelha branca, morta pelas segadas, tirou de lá a sua
    flauta e pôs-se a tocar apressadamente um trecho de cantiga rústica.

    No mesmo instante, uma voz muito sonora gritou-lhe:

    –Eh lá, Gonçalo, és?

    O pastor desatou a rir.

    –Uh lá, Rosária, eu mesmo! Guarde-te Deus, pimpona!

    E logo a voz fresca da rapariga lembrou:

    –Não te esqueceu a moda, rapaz!

    –Isso esquece ela!… Ouviste, Rosária?–Se outra fosse que ma
    tivesse ensinado…

    Neste meio tempo já o Gonçalo retomara a manta e o marmeleiro para ir
    ter com a Rosária. Mas primeiro perguntou:

    –Boto pela ponte, ou és tu que vens, ó cachopa?

    –Vem tu daí. Por cá sempre é outra coisa p'r'as ovelhas. Hã?

    –Basta!

    E dando o sinal da partida, o Gonçalo pôs-se em marcha. Daí a
    pouco, entrava mais o rebanho pela velha ponte mourisca, toda severa de
    construção nos seus três arcos lançados sem elegância, atufados de
    parasitas seculares que a faziam pitoresca, heras, silvas, ortigas
    bravas.

    A meio da ponte, mão piedosa fizera construir pequeno oratório ao Senhor
    Salvador, cujo rosto sereno, espreitando por grades de arame, diziam dar
    coragem a barqueiros e almocreves, que ante o pequeno e humilde nicho
    com respeito se descobrissem, e com devoção rezassem uma velha prece que
    era como um talismã precioso para livrar de maiores
    desgraças–naufrágios no rio, e então maus encontros por aqueles
    caminhos escabrosos, que eram um perigo constante para homens e animais.

    Daí a pouco, as duas crianças estavam perto uma da outra, cada qual
    seguida do seu rebanho.

    –Ora viva a Rosária!–disse o pastor muito alegre, parando defronte da
    cachopa.

    –Bons dias, Gonçalo; então que ventos?

    Entre os dois travou-se então um longo diálogo em que se contaram tudo o
    que haviam feito desde aquele dia em que ambos tinham voltado juntos da
    feira dos Caniços.

    –Por sinal que nem rês se vendeu!–lembrou o Gonçalo.

    –Por sinal!–disse com pena a Rosária.

    Mas ele contou que viera por ali muitas vezes, muitas, sempre na fé que
    a encontrava. «Vê-la agora, só por milagre de santo; quem o havia de
    sonhar! Nanja ele…»

    –Mas se eu estive tão doente!–volveu triste a Rosária.

    E como o outro acudiu a informar-se, ela explicou:

    –Umas quartãs que me tiveram mondada! A peste as mate! Febre que era
    mesmo lume desde manhã até ao escurecer… Uma assim!

    E na sua ingenuidade infantil, contou ao Gonçalo que muitas vezes, na
    febre, sonhara com ele, que se encontravam os dois por montes e prados,
    como agora tinha acontecido, «tal e qual».

    –Assim te Deus salve, ó Rosária?–atalhou rápido o pastor, a quem
    enchiam de orgulho os sonhos daquela pequena amiga.

    –Assim; pois que dúvida?–tornou-lhe confiada a Rosária.

    –Não!–disse agastado o Gonçalo.–Não hás-de dizer assim… Diz certo,
    hás-de jurar direito.

    –Pois assim me Deus salve…

    –Como é verdade…–Diz tudo, Rosária!–suplicava o pastor.

    –Sim, volveu-lhe paciente a companheira,–como é verdade que sonhava
    que nos encontrávamos–concluiu por fim, muito risonha.

    E sem disfarçar o júbilo, prestes o Gonçalo a certificou de que também
    não a esquecera. «Tanto é que tirava da flauta as cantigas todas que
    ela lhe tinha ensinado.»

    –Lembras-te?

    A Rosária faz que sim com a cabeça. E logo, batendo na flauta de
    sabugueiro, o pastor apressou-se a declarar:

    –Saem daqui sem falhar uma.–E resoluto:–Vá feito, Rosária, pede por
    boca!

    A Rosária pediu então a _Pastorinha_.

    –Eu é da que mais gosto,–explicou.–É a mais linda.

    –E é!–concordou o Gonçalo.–Ora escuta lá.

    E levando aos lábios a avena, pôs-se a tocar a _Pastorinha_, enquanto a
    Rosária, com a sua vozita em surdina, entrava a tempo com a letra:

    Onde _vás_, ó Pastorinha,
    Ai-li, ai-li, ai-li, ai-lé…

    –Sabes essa! É mesmo assim!–disse-lhe a Rosária a rir-se.

    –É como vês!–afirmou contente o Gonçalo.

    Aos seus pés tinham-se deitado os rafeiros, e já os dois rebanhos,
    confundidos, andavam na pastagem.

    –Olha as ovelhas juntas!–notou o Gonçalo.

    –Também nós nos quedámos juntos,–volveu-lhe a pequena, sorrindo.–As
    pobres dão-se bem, são amigas…–continuou com júbilo.

    –E nós também, ora também, Rosária?

    –Também–respondeu afoita a pastora.

    E foram-se ter conta no rebanho, que choviam as coimas e as denúncias.

    * * * * *

    A esse tempo, no céu alto e lavado a estrela da alva fenecera por fim, e
    o horizonte começava de carminar-se ao de leve. Por todo o céu em
    cúpula, a luz fresca e viva da manhã vibrava harmonias estranhas que iam
    despertar tudo, a cor da paisagem e a música dos ninhos, cantigas de
    perdizes e rumor de gente por moinhos e atalhos. Manhã de Verão, serena,
    tranquila, dulcíssima. Ia pelo ar um movimento extraordinário de
    asas–passarada alegre que saía agora dos ninhos e voava a matar a sede
    à borda das ribeiras, andorinhas que deixavam as suas casinholas em
    recôncavos de rocha e tomavam para hortejos convizinhos onde a vegetação
    era mais rica de seiva e mais fácil a presa dos insectos, perdizes
    gralhadoras que iam de monte em monte, tordos, poupas, melros. Nos
    vinhedos das encostas, por entre os renques verdejantes, gente em mangas
    de camisa ia fazendo as vindimas. Pelos caminhos, em torcicolos,
    viam-se os que desciam aos moinhos, tangendo machos carregados de
    taleigos, e berrando-lhes cada _chó_! que se ouvia na outra ladeira. Já
    nas povoações próximas sinos chamavam para a missa de alva ou tocavam a
    ave-marias. Nas quintas e casas fumegavam os tectos, dizendo horas de
    almoço. De modo que o sol quando rompeu, solene e triunfante no céu
    imaculado, encontrou muita vida pelos campos, toda a natureza acordada
    para a labuta interminável do dia. Numa clareira elevada, dominando o
    rio e um trecho de paisagem para sul, tinham-se sentado os dois pastores
    e continuavam conversa.

    Ao pastor parecia-lhe agora mais bonita a pequena amiga, com a sua cor
    trigueira levemente pálida desde que tivera as maleitas. Não se
    lembrava com que santa que ele tinha visto se lhe parecia agora a
    Rosária…

    –Mas o cabelo assim cortado…–disse com mágoa, mirando-lhe a cabeça
    nua, e passando a mão pela dele,–é que te não fica bem!

    «Melhor fora que lhe tivessem deixado as tranças. Negras, de mais a
    mais, que era como ele gostava…»

    –Promessa da mãe se eu melhorasse–explicou a Rosária–Lembranças… A
    gente quando está aflita…

    –…Quando está aflita…–repetiu como um eco o pequeno. E depois,
    amuado:–Se promete os olhos…

    A rapariga fitou-o, espantada.

    –…é porque tos tirava!–concluiu convicto.

    Houve um momento de silêncio, em que o Gonçalo se pôs a escavar o chão
    com uma pedra, e a Rosária a torcer um fio saliente do seu vestido
    grosseiro. Ouviam-se as ovelhas chocalhando nas pastagens, ia a passar
    na rodeira, longe, um carro que chiava, com uvas para algum lagar.

    –Não falas, Rosária?–perguntou o pastor sem levantar os olhos para
    ela.

    –Também tu…–começou com medo a pequena,–logo te zangas! Olhem a
    lembrança dos olhos! Se a mãe fazia isso, credo!–E depois
    animando-se:–Já foste à Senhora dos Remédios?

    O Gonçalo fez sinal que não tinha ido.

    –Pois foi lá que deixámos as tranças, eu mais a mãe. Num prego ao lado
    do altar, um lacinho verde nas pontas. Ficou lindo.

    O pastor teve um movimento de enfado, não lhe agradava a conversa. E
    para acabar com ela:

    –Que enfim como melhoraste…–fez que concordava, pondo o bilro a
    girar.–Olha como dança…–E depois, mais pensativo, batendo com o
    bilro nos dentes:

    –Que às vezes as promessas pouco fazem…–E interrompendo:–Sabes quem
    fez este bilro?

    –Foste tu, aposto.

    Bateu no peito e fez com a cabeça que sim, mostrando-lho
    orgulhoso–«que visse os _torneados_.» Depois continuou:

    –Vai uma pessoa andando e os santos não se importam. Ora, os
    santos!–Olha a minha Joaquina, tu não conheceste. A gente bem rezou e
    bem promessas fez, mas ela foi-se.

    E pondo-se de joelhos, começou a procurar pelo rebanho.

    –Aquela ovelha, a branca, não vês? A que se vai agora deitar… Pois
    era p'ra Nossa Senhora, repara que é a melhor.–E deitando-se para
    trás:–Lá anda ela a pastar!–concluiu desalentado.

    –Mas tinha de ser,–volveu-lhe triste a Rosária,–que as promessas
    sempre fazem, lá isso…

    E convicta, a pequena contou casos acontecidos para convencer o Gonçalo
    de que sempre valiam as promessas. No entanto, deitado de costas, com a
    jaqueta a fazer de travesseiro, as pernas em ângulo tocando-se com os
    joelhos, o Gonçalo soprava pela palha o bugalhinho que constantemente ia
    subindo e descendo, acompanhado pelo olhar bondoso do cão que ali perto
    se deixara estar sentado. E contando, contando casos, a Rosária ia
    entretendo o pastor. Mas quando ela fazia pausa, logo o rapaz acudia,
    firme na sua objecção:

    –Ora! mas a nossa Joaquina morreu-se! Coitadinha da Joaquina!

    * * * * *

    À medida que o sol ia subindo, no céu glorioso e fulvo, iam os dois
    conduzindo as ovelhas para sítios mais ensombrados, para se livrarem da
    estiagem que ia valente. Calor de rachar, ali por volta do meio-dia, que
    foi quando tomaram para a banda das azinheiras, e para os pinheirais,
    depois. E sempre ao lado um do outro, os dois companheiros levaram de
    conversa quase o dia inteiro. Nunca tinham dado fé que as horas
    passassem tão depressa. Ainda armaram aos pássaros, mas foi o mesmo que
    nada, os demónios andavam espantados e já conheciam as esparrelas.

    –Olha lá não caiam,–tinha dito o Gonçalo, já cansado de estar à
    espreita, agachado, com o fio da armadilha preso ao dedo.–Se eles
    fossem tolos…

    E foi-se a recolher as esparrelas, dando ao demónio os pássaros. Ela
    então propôs que jogassem a pocinha.

    –E o fito, ó Rosária? Sabes jogar ao fito? No adro, aos Domingos de
    tarde, bato-me com qualquer, sabias?

    E generoso:–Mas a ti dou-te partido: vinte e cinco às quarenta…

    Como o tempo rendia, jogaram tudo–a pocinha, o fito, as necas, a
    bilharda. Na bilharda, como o rafeiro trazia à mão, era ele que ia
    buscar o pauzinho, quando zinia longe.

    –Turco, traz cá!

    * * * * *

    No entanto, ia descaindo a tarde. Ao alto, o largo céu esmorecia no seu
    azul suavíssimo. Em todo o espaço o ar estava tranquilo e sereno, e já
    começava para poente a decoração fantástica do ocaso. Parece que se
    ouvia mais distinto o marulhar das águas no rio; já não faiscava assim
    tão viva a areia branca das margens.

    Foi quando o Gonçalo lembrou que era melhor irem-se chegando, mais as
    ovelhas, para as terras onde tinham de pernoitar. E fitando fixamente os
    olhos negros da Rosária, disse-lhe assim:

    –Mas olha o que prometeste… Inda vais feita no que disseste?

    «Ora que lhe custava a ela! Já que as ovelhas tinham andado juntas todo
    o santo dia, que mais era que dormissem no mesmo curral, essa noite?»

    –E o mais, ó Rosária?–perguntou de novo com interesse.

    A pequena ficou perplexa. Mas como o pastor não cessava de a olhar,
    respondeu:

    –Também.–E sorriu-se.–Pois eu…

    Só depois desta segunda promessa o Gonçalo se levantou, e deu o sinal
    de partida, assobiando aos cães.

    Daí a pouco, estavam de marcha para o curral, Quando passavam a velha
    ponte, a obliquidade dos raios do sol fazia alongar desmedidamente pelo
    areal a sombra dos três arcos. Nas rugas da corrente, uma luz alaranjada
    tremeluzia, tirando à água a sua translucidez normal.

    –É bonito!–fez notar o pastor.

    A Rosária explicou logo:

    –São as moiras a caçar com redes de oiro, sabias?

    Para a outra banda, um pouco mais abaixo, assomavam à flor da corrente
    as cabeças dos dois rapazotes do moleiro. Dentro da _chata_ que vogava
    serenamente, a mãe com o mais novito ao colo não os perdia de vista,
    enquanto o pai, em mangas de camisa, de pé num topo de fraga, lhes ia
    ensinando as _manobras_. Ao fundo, três vitelas passavam o rio a vau,
    muito devagar, parando a espaços, alongando o pescoço para a veia de água
    serena, bebendo mansamente. Sobre o vitelo das malhas brancas, o
    guardador cantarolava, acenando com o chapéu ao moleiro–«boas tardes!
    boas tardes!» Ao sair da ponte, o rebanho teve de se afastar um pouco
    do caminho: aproximava-se um almocreve com a longa fila de machos
    carregados, tilintando campainhas.

    –Adeus pequenos! cumprimentou.

    –Venha com Deus!–tornaram-lhe ambos.

    E de novo se puseram em marcha. As ovelhas continuavam confundidas,
    confraternizavam os cães como bons e leais amigos. À frente, o Gonçalo
    ia tocando na flauta o mesmo que a Rosária cantava. O brando rumor dos
    chocalhos, que se levantava de todo o rebanho, casava-se com a música,
    fundindo-se numa nota subtil, de um pitoresco ingénuo de balada…

    Até que chegaram a um topo de serra, escurentado de matagal rasteiro, e
    então, parando um momento, o Gonçalo perguntou, colocando na sua frente
    a Rosária, e pondo-lhe à cara a flauta, na direcção em que devia olhar.

    –Vês além… neste direito? Resvés do castanheiro, não enxergas?

    A outra fez que sim com um gesto, e interrogou:

    –Então é ali?

    –Ali mesmo–volveu-lhe já de marcha.

    E repousando a mão direita sobre o ombro esquerdo da rapariga,
    repetiu-lhe muito contente:

    –É mesmo além.

    Numa terra de restolho, um largo quadrado de cancelas marcava o espaço
    que as ovelhas tinham de ocupar essa noite.

    –Falta pouco; a gente vai pelo atalho que é só mau p'ra quem passa a
    cavalo.

    E como ele ia expansivo, e a companheira não dava palavra, quis então
    saber:

    –Estás triste, ó Rosária?

    –Triste… não. Já agora… tem de ser–volveu-lhe cabisbaixa.

    –Huum! Arrependeu-se…–volveu consigo o pastor.

    * * * * *

    Até que por fim chegaram, tinha anoitecido havia instantes. Gado para
    dentro e toca a merendar; o que era de um era doutro: ele ainda trazia
    azeitonas, um naco de queijo, pão. Mal acabaram de comer, o Gonçalo
    apontou para a cabana que ficava ali perto, e propôs que se deitassem:
    estavam moídos da soalheira de todo o dia e da caminhada agora.

    Quando o Gonçalo e a Rosária entraram na cabana e se deitaram sobre o
    colmo, cobrindo-se com as mantas, e achegando para a cabeça um do outro
    os bornais que faziam de travesseiro, cerrara de todo a noite, e
    formigueiros de estrelas cintilavam vivezas de prata polida no azul
    indefinido do céu.

    –E os lobos?–perguntou a Rosária com medo.

    –Não há perigo–tranquilizou-a o Gonçalo.–Isso é lá com os cães.

    * * * * *

    Pouco a pouco, foi-se extinguindo no curral a música triste dos
    chocalhos. A ladrar, os cães faziam eco. O rebanho devia dormir
    profundamente, imerso no mesmo sono em que jazia prostrada toda a
    Natureza, ao largo. Dentro da cabana, os dois conversaram algum tempo,
    num ciciar brando de vozes, até que por fim, vencidos da fadiga, se
    deixaram adormecer,–quando a história das moiras encantadas ia no seu
    melhor episódio…

    E lá no alto céu, mesmo sobre a cabana, a estrela da tarde não era nem
    mais pura nem mais luminosa do que a alma simples e boa daquelas duas
    crianças…

    Quando ao repontar da manhã se levantaram, e saíram a ver o céu…

    –Bonito dia, Gonçalo!

    –Bonito dia, Rosária! Olha…

    …na calma placidez do azul, bandos de pombas mansas iam voando…
    voando…

    SULTÃO

    (Copiado do Natural)

    _Ao meu Henrique e a Beldemónio, seu amigo_.

    I

    Ao cair da tarde, o Tomé da Eira entrava em casa, cansado, esfalfado de
    andar um dia inteiro a mourejar no campo.

    –Meus pecados, boa tarde!–dizia ele para a mulher, com um sorriso a
    afectar seriedade.

    Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a bênção.

    –Deus te abençoe.

    –Pai, olhe que o «Sultão»… ia a dizer o pequeno.

    –Bem sei! atalhava logo o Tomé.–O «Sultão» é um maroto e tu és outro.

    E enquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bela navalha de
    _meia-lua_, que lhe custara um pinto havia bons quinze anos, e abria a
    gaveta do pão, o Tomé punha-se a fazer de interesseiro consigo mesmo,
    resmungando alto p'ra que a mulher o ouvisse:

    –É que por este caminho não tenho um dia descansado… Nem uma hora…

    Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

    –…Pois vamos já que já era tempo… Porque p'ra mim há-de chegar… A
    modos que vou já cansando…

    Mas o Tomé não era homem que dissesse estas coisas de coração.
    Pareciam-lhe longos, intermináveis, os aborrecidos Domingos que passava
    sem ir campos fora, madrugador como um melro.

    –Uma aquela como outra qualquer! dizia o bom do Tomé encolhendo os
    ombros, como quem está desgostoso com um génio assim.

    Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua
    cabrada, e veio sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra
    que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito à vontade.

    Costume velho do Tomé:–mal se sentava, mastigando o «bocado», dizia
    logo para o filho:

    –Ouves, Manuel? Bota cá fora o «Sultão».

    O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia
    nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de
    contente, dizendo cá da rua:

    –«Sultão»! Sai cá p'ra fora, «Sultão»!

    No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta
    baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em
    riste, grandes olhos de uma tristeza perpétua, num movimento moroso de
    pálpebras pestanudas…

    E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas
    pernas delgadas, a olhar o Tomé que o chamava,–um grande riso de
    alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».

    Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o
    Tomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de
    quadrúpede de boa raça, alguém lhe poderia ler no olhar, mole e
    impassível, o frio, gelado desprezo a que parecia votar o dono…

    Mas era àquilo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se
    então a falar muito sério, entre resignado e cortês, para o pequeno e
    desdenhoso jumento–o pão e o queijo esquecidos numa das mãos, na outra
    a navalha de _meia-lua_:

    –Então, «Sultão», não vens?

    –Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a
    envolvê-lo no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia daquela
    imobilidade de estátua, apenas de quando em quando uma pequenina patada
    na soleira, zap!

    –Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.–De mal comigo?

    E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir à
    vontade…–que não fosse vê-lo o «Sultão»… Metia entre dentes um
    pedacito de queijo, logo uma côdea de pão, e fazendo umas grandes rugas
    na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito sério:

    –Ficas aí, «Sultão»? Já não és meu amigo?

    O jerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que
    fazendo-se humilde…

    –Então se és, anda daí. Olha…–E mostrava um pedacito de pão.–P'ra
    ti se vieres…

    O «Sultão» dava três passos, e ficava fora do cortelho. E por se vingar,
    o Tomé carregava o semblante numa seriedade muito pesada, e erguendo o
    rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, afirmando que já lhe
    não dava o pão. E desfechando-lhe enfim a ameaça de o vender a um
    cigano, entrava a tratá-lo por senhor–_sôr_ «Sultão»…

    Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar… andando… orelhas
    baixas, pescoço caído, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão
    da arrelia.

    Nervoso, sapateando, o Tomé voltava a cara para a outra banda, a rir
    como um perdido.

    –Diabo do jerico! diabo do ratão! Capaz é ele de fazer rir as pedras,
    o mariola!–E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na goela.

    No entanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com
    o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Tomé sacudia-o:

    –Sai-te p'ra lá! dizia ele muito amuado, sem se voltar.–Cuidas talvez
    que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vai-te!

    Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao
    focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar
    oblíquo, entre sorrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço
    superior, a tremer, e roubava-lho da mão.

    Pazes feitas! Era então rir a perder, numas casquinadas agudas, muito
    estrídulas.

    –Credo, homem! dizia de cima, da janela, a Sr.^a Josefa.–Até pareces
    doido!

    –Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava
    o Tomé, nuns grandes gestos.–Vamos que eu lhe não queria dar da
    merenda? Ladrão, de mais a mais!… Ora bem! agora brinque.

    Era precisamente o que o Tomé queria:–ver o «Sultão» a brincar.

    …Nada, com efeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do
    lavrador, e melhor o indemnizasse daquelas fainas laboriosas que lhe
    consumiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob sóis
    causticantes e chuvas torrenciais.

    Por isso, era de ver como ele ria, com uma boa vontade deliciosa, das
    «partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Às vezes, o pequeno jumento,
    ferido não sei por que vespa invisível, despedia sem mais nem menos
    numa carreira aberta, focinho entre as pernas dianteiras, agitando a
    cauda, por aquela rua fora. Rompia de toda a banda num alarido o
    rancho pacífico das galinhas, que já no ar andavam como doidas,
    cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Acudia gente aos
    postigos, às portas, às janelas, a ver a polvorosa; e súbito se
    inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quase nus, correndo
    atrás do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o–como se o
    mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a própria
    rua… E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre
    todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, aclamado, na malta
    espavorida dos inimigos…

    –«Sultão»! eh lá! «Sultão»!

    Súbito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de
    volta dele postava-se a rapaziada, mas num alor de nova fuga, não lhe
    desse na bolha atacá-los… E abriam alas de repente, quando ele,
    tomado de novo acesso, voava para as bandas do dono, que por se não
    deixar atropelar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era,
    já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas
    estrídulas, os rogos para que pusesse tréguas, as súplicas para que se
    acomodasse, recuando o lavrador até ao último degrau da escada, onde
    se deixava cair,–derrotado!

    –P'ra lá, «Sultão»! p'ra lá! fazia então o Tomé, opondo-lhe os pés,
    desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para trás, a rir
    como um perdido.

    Então o pequeno jumento estacava, ofegante. Mas prestes rompia a
    girândola dos coices, em que era exímio, sacudindo muito as patas, cauda
    no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Tomé solícito dava aos
    rapazes o aviso de se arredarem–«porque era doido, aquele demónio»!…

    Outras vezes, parece que variando de táctica, entrava de seguir muito
    cauteloso, num ronceirismo pérfido, como um borrego ou como um cão,
    certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os
    saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes à surpresa da
    viandante.

    –Dê, tia Luísa! bata nesse maroto! fazia de lá o Tomé, com ares de
    zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma
    verdasca:–«Sultão»! venha já p'r'aqui! intimava.

    E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a ele,
    muito devagar, cauda caída, orelhas murchas, num cumprimento humilde
    de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça,
    preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» sinais de medo, e humilde
    prosseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um
    passo, espertando da sua indolência passiva; e de espinha arqueada
    ganhava o terreno perdido–fitando impassível o cão… O bruto formava
    então o salto, regougando forte, o pêlo eriçado; e ao investir para a
    primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que
    por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra
    coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

    –Eh! valente! gritava-lhe então o Tomé.

    E com duas palmadas na anca, espantava-o enfim para o cortelho, dizendo
    ao correr a caravelha:

    –Não há dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

    E comido o caldo-verde da ceia, nunca o Tomé da Eira ia para a cama sem
    primeiro descer a ver o «Sultão»,–de candeia na mão esquerda, e na
    direita, contra o sovaco, a bela quarta do grão, acogulada.

    Muitas vezes acontecia esquecer-se o Tomé a vê-lo comer, de candeia
    atenta, encostado à manjedoura, sorrindo: e, de cima, a Sr.^a Josefa
    tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

    –Tomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.

    E piamente, como fanático, achava verosímil a lenda da burra que
    falou,–história que uma tarde, passando, o abade lhe contara. Tanto
    que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, estranhou com certo
    desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:

    –Boas noites!

    * * * * *

    Mas o demónio, que sempre as arma, armou-lha também um dia! Foi ao
    cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Pôs-se a
    mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de
    enorme–gelada…

    –Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.–Ó Josefa!

    A mulher assomou à janela, sobressaltada.

    –Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!

    –Que te roubaram o quê? fez a Sr.^a Josefa, muito atónita.

    –O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que mo roubaram!

    E como ao tempo acudira já o Manuel, em camisa, descalço, romperam todos
    três na gritaria, defronte do cortelho vazio:

    –À d'el-rei! À d'el-rei! À d'el-rei!

    Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, pôs na
    peugada do burro, mais dos larápios, os cabos que compareceram.

    Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adiante, e desfechando
    ao peito abatido do Tomé a negra e vazia palavra:

    –Nada!…

    II

    Dois anos depois. Tarde de Agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a
    eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se numa sombra igual, e
    embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverizações doiradas da
    última luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de
    ferro levadas ao rubro, destacavam imóveis num fundo verde-mar,
    esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja.
    Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e
    além, alegremente, a monotonia profunda do azul. Num deslado, sob os
    castanheiros próximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da
    igreja, as paredes caiadas da escola.

    A vasta eira comum, levemente acidentada, apresentava àquela hora o
    aspecto tranquilo e de paz de uma grande oficina em repouso. Poucas
    «medas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e
    estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das
    «medas» altas, entre os utensílios da trilha e a criançada estrídula que
    brincava, os da lavoura descansavam–vermelhos da soalheira intensa de
    todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nu, arregaçados
    os braços musculosos, numa prostração regalada de matilha que alfim tem
    a sua hora de sossego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da
    fadiga os próprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram
    todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali,
    dando uma sensação agradável de fartura, perfilam-se os altos sacos no
    meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa,
    ao redor de um grande montão de palha triturada, vai «limpando»–visto
    que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao
    mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os
    «baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão,
    varrendo em roda num afã… Em certo ponto, carros vazios; um além, de
    altíssimas «angarelas», vai-se enchendo de palha; enquanto outros,
    atulhados de sacos, em rimas entre as cancelas mais baixas,
    estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois
    gigantes.

    Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de
    bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas
    oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêlo. E lá vão
    encosta abaixo, roçando pelos troncos ásperos dos castanheiros a enorme
    corpulência, fartar o largo bandulho à serena água das ribeiras,
    sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente,
    monotonamente, parece que insaciáveis no meio da água em que se atolam,
    submissa…

    Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres
    cantava alegremente, em coro. Acabara de ensacar-se o último grão da
    farta colheita do Tomé da Eira.

    –Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os vizinhos.–A primeira
    da aldeia!

    –Qual? isso sim! vão vocês ver a tulha. Muita palha, é que vocês hão-de
    dizer, muita palha e pouco grão…

    E muito azafamado, sem prosápias de maioral nem jeitos de soberba, as
    mangas arregaçadas pelos cotovelos, o Tomé ia e vinha, dando ordens,
    repetindo avisos, distribuindo aqui e além as últimas tarefas.

    –Aí vai um saco, ó tu! É p'r'as «rabeiras». Que não fique nem um
    grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por aí
    alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso.
    Margarida! ó Margarida! qu'é da tua rasa? Deixa! se vai no carro está
    bem.

    E era como um doido a meter-se no serviço de todos, muito expedito,
    loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora
    dormir…

    –Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por aí alguma,
    que eu depois te ensinarei, ouviste?–Que faz aí no chão esse
    «rasouro», ó coisa?–Olha p'r'o que estás a fazer, tu: esses sacos que
    fiquem bem atados.

    O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no
    ar, se era preciso mais alguma coisa.

    –Não, podes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te.
    Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo,
    deixa ir os animais a passo. Vai-te.

    Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

    –Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os
    bois para o lameiro.

    Mas o Francisco apontou dois sacos que ficavam:–«seria preciso vir por
    eles?»

    –Não vale a pena, lá irão.

    E depois, para aquela gente, observou que bem sabia ele quem os
    levava, aqueles dois sacos…

    –Com mil demónios! Apostar que vocês não adivinham?

    «Eles sabiam lá?… Quem quer podia levar os dois sacos, olhem agora!»

    –O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então
    que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

    Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a cisma do animal não lhe
    passava nem à mão de Deus Padre!»

    –A modos que isso é já mania, ó Sr. Tomé?

    Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpresa. Voltaram-se
    todos–«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando,
    a cavalo.

    –Vocês não querem ver, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se
    pálido.–Aquele burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por ele…

    Recordaram:–«estrela malhada na testa, a mão direita branca»…

    –É ele, com um milhão de diabos! não há que ver! E aquele é o ladrão!

    E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou,
    de um abanão, o cabo de uma «espalhadoura» e botou a fugir direito à
    estrada.

    Prestes ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

    –Que o mata! gritavam todas.–Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem
    a alma lhe deixa! Acudam!

    Os homens deitaram a correr atrás dele, afluía gente de todas as
    bandas da eira, os cães ladravam.

    –Então, Sr. Tomé? olhe que se perde, Sr. Tomé! diziam-lhe, já
    agarrados a ele.–Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem,
    Sr. Tomé, largue vossemecê o cabo!

    –Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costelas,
    mais a vocês, se me não largam! Arreda!

    E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a ele mais ao
    cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

    –Vê, Sr. Tomé?!

    «Não via nada, não queria ver coisa nenhuma! Arreda!» E num rompante de
    ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou à estrada, aos
    tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

    –Abaixo! intimou.–Você é um ladrão!

    –Um quê?

    –Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matá-lo aqui, seu patife!
    Deixem-me! larguem-me! Há-de aí ficar estendido, como um cão!

    E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda,
    e na direita o minacíssimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo
    raso–«com seiscentos milhões de diabos!»

    Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.

    –Já lhe disse que você é um ladrão!

    –Ladrão será você!–tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos
    cerrados.–E não mo diga outra vez, que o racho!

    Aflitas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a
    capelinha próxima, rogando o socorro da Virgem. O lavrador entrava de
    tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca
    bordejava-lhe os cantos da boca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um
    pedaço de ombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas
    agora esbracejava, punhos no ar sobre aquelas cabeças em desordem.

    Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:–«tinha-o
    comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado…»

    –Vê, Sr. Tomé? acudiram logo uns poucos.–O homem não tem culpa.–E
    gritavam-lhe aos ouvidos:–Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé.
    Vês–aí está!

    –Mente! objectava incrédulo o Tomé, cada vez mais irado.–Mente!

    –Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.

    –Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Tomé.

    De modo que para o convencerem, foi preciso afinal levá-lo quase à má
    cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Ele então,
    abrindo os braços como se fosse para nadar, sossegou um pouco,
    amainou,–prometeu levar aquilo com paciência, às boas. Chegou quase a
    pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das
    camarinhas.–«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»

    Chegou-se por fim a um acordo. «Sim, senhores, acomodava-se, mas
    punha uma condição: largasse ele o burro, e o burro é que havia de
    resolver…»

    –Serve-lhe o contrato?

    –Qual contrato?

    –Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro às soltas.
    Depois, é p'ra onde ele for. Se o burro larga p'ra trás, lá p'r'as
    bandas donde você vem… Você donde vem?

    –Dos Casais.

    –Pois aí está. Se o burro tomar p'r'os Casais, o burro fica seu…

    –E tomando direito à aldeia, é do Sr. Tomé,–concluíram alguns do
    grupo, conciliadores.

    –Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

    Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia história que o
    burro tomasse para a aldeia… Vinha de tão má vontade, que até lhe
    custara tirá-lo de casa.

    –Olhe que vai pr'os Casais! Digo-lhe então que vai pr'os
    Casais…–afirmou.

    –Melhor p'ra você. Mas nós veremos p'ra onde vai. Você está pelo
    dito?–quis saber o Tomé.

    –Sim senhor, estou! Pois que dúvida tem que estou? disse-lhe o outro
    num rompante. Olhe: uma, duas, três; às três largo-lhe a arreata.

    Ia já a abrir a boca para dizer–«uma!»

    –Alto! fez o Tomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas
    festas ao animal.

    E pôs-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um
    pouco a fitá-lo de frente, «para que o animal o conhecesse.»

    –«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!

    O burro estremeceu… Dir-se-ia que no fundo da sua memória, a
    lembrança porventura adormecida daquele nome despertara subitamente…

    –Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se
    p'ra ali. Isso. Nem é p'r'os Casais nem p'r'o lugar. Assim. Eh! Eh!

    E afastou-se para o lado, aguardando.

    Uma ansiedade dominava naquele momento os do grupo; o Tomé pôs-se a
    roer as unhas, nervoso…

    –Então você porque espera? perguntou.

    Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

    –À uma!…

    O Tomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de
    esguelha, e entre os dentes ferrados o polegar da mão direita…

    –…às duas!

    –Ih! c'um raio!… dizia baixo o Tomé.

    E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.

    –…às três!

    Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e
    gargalhadas! O Tomé vencera: corriam todos a abraçá-lo, afirmando que
    o caso era para foguetes.

    –Viva o Sr. Tomé! Viva o «Sultão»! Aquilo é que é burro!

    –Aquilo é que é amigo, hão-de vocês dizer!–emendava o Tomé a rir.
    Tenho-os com dois pés, que não valem metade…

    –Oh! Sr. Tomé! protestavam alguns.

    –Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa… Está visto que
    não é com vocês.

    E ria, ria como um perdido, enquanto, estrada fora, o «Sultão» corria
    que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao
    fundo, na poeirada imensa da estrada, como que nimbado num resplendor
    de apoteose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia
    agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casais…

    Quando o Tomé chegou a casa, ofegante, a suar, cheio de gestos e de
    palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava à
    porta do antigo cortelho, numa grande impaciência, um «rap-rap»
    contínuo na soleira.

    –Venham ver! Venham cá ver! berrava o Tomé para a vizinhança. Ó
    António! Ó compadre! Ó Maria Engrácia!

    Às janelas assomava gente, perguntando se era fogo.

    –Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó
    Josefa! Josefa! cá temos o burro, este demónio. Assoma.

    Ora imaginem agora os senhores, se podem, a efusão do lavrador.
    Abraços? E até beijos. Aquilo era um tesouro perdido que reaparecia
    alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu
    homem teria endoidecido…

    –Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda daí pelos sacos. São
    só dois. Ó Josefa! Ouves? p'ra cá esse garrafão que está ao pé da arca,
    avia-te. A caneca também, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

    E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um
    pulo.

    –Ah!

    A senhora Josefa assomava, ajoujada com o enorme garrafão.

    –Anda, mulher, põe aqui diante de mim. Avia-te.

    Ia a boa da senhora Josefa arriscar uma observação, um conselho,
    qualquer coisa de tomo…

    –Adeus, minhas encomendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe
    aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.

    –Nome do Padre…

    –Então que lhe queres? Deu-me agora p'r'aqui!

    –Nome do Padre, nome do Filho…

    –A caneca! Venha de lá agora a caneca!

    –…nome do Espírito Santo!

    –Passa bem, ó mulher,–concluiu às gargalhadas, entre as gargalhadas
    dos demais.–Ouves? Quando o Manuel vier dos ninhos, esse maroto,
    manda-mo às eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!

    E lá parte, veloz como uma seta. Já de longe volta-se do repente:

    –Josefa! ó Josefa! nesse alguidar do meio umas sopas de vinho p'r'o
    «Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno
    não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

    E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a
    direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, ele lá vai numa
    corrida, sumido numa onda de poeira, até chegar às primeiras «medas».

    –Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por
    andarmos de mal há 15 anos isso acabou-se!

    E o Tomé atravessou a eira sempre a cavalo no «Sultão», caneca de
    vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

    * * * * *

    Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manuel no meio
    dos sacos, e adiante do Manuel o belo garrafão–sem pinga…

    Pelo caminho, a todos o Tomé contava a história, a rir como um perdido,
    num ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito íntimas.

    –Colheita rica, sim senhores, um colheitão!

    E parando à porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e
    remexendo o alguidar de barro:

    –Nome do Padre, do Filho, do Espírito Santo.

    …Ao mesmo tempo que o Tomé, abrindo os braços, respondia reclamando
    as sopas:

    –Ámen!

    ÚLTIMA DÁDIVA

    _Ao dr. A.A. da Fonseca Pinto_.

    Distante do rio apenas um tiro de bala ficava o horto do José Cosme,
    belo horto ainda que pequeno, todo mimoso de frutas e hortaliças,
    fechado entre velhas paredes musgosas, atufadas em silvedo, comunicando
    com a estrada por um pequeno portelo mal seguro. E eis ali quanto ao
    pobre homem restava dos seus antigos haveres:–o horto, a um canto a
    nora, e perto da nora, sob a umbela tufada e virente da antiga magnólia
    gigantesca, a mísera casinhola de alpendre, apenas com uma porta e duas
    janelitas laterais mas toda pitoresca das heras que a revestiam, que
    lhe pendiam dos beirais enlaçadas com as trepadeiras.

    De modo que na Primavera, quando as parasitas abriam serenamente os seus
    melindrosos cálices sobre esse fundo de verdura reluzente, e a magnólia
    toda se toucava de flores fazendo docel à vivenda, aquele pequeno canto
    de horto, com a sua nora e com a sua água espelhante e límpida, tomava a
    feição ingénua de uma delicadíssima tela de paisagista, aguarela
    deliciosa, alegre e idílica, cheia de encantos na poesia rústica da sua
    simplicidade.

    No Verão, às horas de calor, quando o sol caía a pino sobre a larga
    paisagem adormecida e turva, e as árvores da estrada não davam sombra
    que aliviasse, aquela tranquilidade com que o José Cosme ressonava sob
    o alpendre, braços nus e peito nu, o chapeirão de palha grossa
    resguardando-lhe a cara, fazia inveja aos que por ali passavam, cansados
    e cheios de poeira, flagelados por aquela estiagem inclemente.

    –Ó tio José!–gritavam-lhe do caminho.–Tio José! Ó regalado!

    Mas os que entendiam de lavoura, proprietários e maiorais, esses
    deixavam dormir o José Cosme e ficavam-se a admirar o horto.

    Ora na verdade!… Belo horto, sim senhores! Por aquelas redondezas
    não havia outro que se lhe comparasse, tão esmerada era a sua
    cultura–tão esmerada e tão completa, pois que de mais a mais nem palmo
    de terra ficara inculto. Nas leiras, dispostas com simetria agradável,
    verdejavam cheios de viço, frescos e medrados, legumes de todas as
    castas–desde a alface muito tenra, de folhas verde-claras, toda
    acaçapada no chão húmido das regas, até às trepadeiras das vagens que
    enroscadas ascendiam pela basta «rodriga» de castanho aparada com todo o
    esmero, formando maciços de verdura sombria que os casulos esguios dos
    feijões crivavam de alto a baixo. Árvores, apenas as precisas para
    aformosearem o horto, sem prejudicarem com a sombra a vegetação franca
    das hortaliças. Mas todas as que havia eram mimosas de frutas nas
    estações competentes–cerejas, peras, maçãs, pêssegos mesmo.

    Poucas flores: uma coisa que todos notavam com estranheza. Mas desde que
    lhe morrera a mulher mais a filha, o José Cosme deixara-se de as
    cultivar, e nos canteiros assim devolutos tinha semeado repolhos, que
    por sinal vinham enfezados. Só teve o cuidado de não deixar morrer os
    goivos. Uma vez por ano, em fins de Maio, colhia-os todos de uma vez, e
    ia levá-los em braçado à sepultura rasa das suas defuntas.

    Exactamente nessa tarde tinha ele ido ao cemitério fazer a fúnebre
    visita. Quando se recolheu era já noite. Mal acabou de cear levantou-se
    bruscamente da mesa e foi-se para o horto, com uma grande vontade de
    chorar. Estava nas suas horas tristes, nessas horas em que as energias
    todas da sua alma e até as do seu corpo vergavam sob o flagelo de uma
    dor violenta, exacerbada agora pela saudade dos que lhe tinham
    morrido… E para maior desgraça fugira-lhe o bem das lágrimas. De modo
    que sem esse lenitivo, aquelas medonhas tempestades custavam o dobro a
    suportar. Abstracto, numa espécie de entorpecimento idiota, percorria
    sem descanso todas as ruas do horto, cabisbaixo, acabrunhado, autómato.
    Se por vezes parava, recolhendo-se numa quietação atenta, logo um
    gesto brusco desmanchava a sua imobilidade de estátua, soltava um fundo
    gemido, e punha-se de novo a andar.

    –Vens ou não vens?–perguntava ele, evocando com dorido esforço a
    imagem da mulher ou da filha. Não vinha; e quando aparecia era como se
    fosse um relâmpago, apagava-se logo.

    Nesta lua com a sua dor as horas iam passando longas. Era já tarde,
    talvez a uma da noite. Luz, apenas a das estrelas, pois que o luar
    nascia tarde. Pesava sobre toda a paisagem o largo silêncio da noite,
    apenas cortado, ao longe, pela melopeia sonolenta do rio.

    Um rapaz que ia na estrada olhou por acaso para o horto do José Cosmo e
    viu um vulto perpassar de repente e de repente sumir-se num recanto
    onde a sombra era mais densa.

    –Temos história…–resmungou consigo o rapaz.

    E, rente a uma árvore, quedou-se alapardado, à espreita. Não desconfiou
    que fosse o José Cosme: aquilo era mariola de larápio que vinha por ali
    fazer das suas. Agachou-se então, e pôs-se a procurar uma pedra. Apanhou
    duas, para o caso de não acertar a primeira.

    –Cão do diabo!–exclamou baixo o rapaz, pondo-se em posição de jogar a
    pedra.–Espera que eu te arranjo…–E já ia arremessá-la na direcção do
    canto, quando o vulto saiu da sombra e tomou por um carreiro, direito ao
    lugar onde o rapaz estava.

    –Melhor! Mais a jeito ficas…

    E debruçando-se um pouco na parede, pôs-se a fixar o vulto que avançava,
    para ver se o conhecia. Quem quer que era trazia a jaqueta sobre os
    ombros, alvejavam-lhe as mangas da camisa. A meio do carreiro, mesmo
    defronte dele, parou. Foi então que o rapaz se lembrou do José Cosme.
    O vulto parecia, com efeito, ser o dele; lembrava-se agora de ter
    ouvido que o pobre homem, quando o ralavam saudades da mulher e da
    filha, levava noites em claro, a percorrer como doido aqueles carreiros
    por onde elas tinham andado.

    Quando ouviu soluçar, acabou então de se convencer. Insensivelmente,
    deixou cair as pedras e perguntou:

    –Tio José! Ó tio José! Sou eu, o Luís… Vossemecê que tem?

    O lavrador não respondeu, parece que nem tinha ouvido. O rapaz insistiu:

    –Dói-lhe alguma coisa, ó tio José?

    –Não dói, não. Sabes que mais? peço-te pelas alminhas que me deixes.
    Bem me bondam as minhas aflições. Vai com Deus, vai.

    O rapaz ficou surpreendido, triste do tom de súplica dorida que o José
    Cosme dera àquelas palavras, e retirou-se silencioso, quase aterrado
    agora com a ideia de que poderia ter matado o pobre homem, caso jogasse
    a pedrada.

    No entanto a noite ia avançando, grave, soturna, sem outro ruído que não
    fosse o das águas do rio. E o José Cosme, sem despegar do seu fadário,
    ia e vinha pelas ruas do horto, lembrando um autómato ou um sonâmbulo.
    Às vezes abeirava-se da porta de casa e punha-se a escutar. Como não
    sentia nada, voltava de novo ao seu passeio. Nisto, de uma vez que
    passava em frente do cancelo, pareceu-lhe ouvir passos.

    –Ó Tomás!

    –Sr. José!–respondeu o que entrava, numa voz que era mesmo voz de
    barqueiro.

    O Cosme sentiu então uma grande vontade de chorar, mas remordendo os
    beiços dominou-a. Como o barqueiro estranhasse encontrá-lo a pé, ele
    então redarguiu-lhe que nem se tinha deitado.

    –Como tinha de madrugar…

    –Pois são horas de largar, Sr. José; isto vai p'r'as duas. Não tarda
    que comece a amanhecer.–E como estavam à porta de casa:–Será bom
    acordar já o pequeno: veste, não veste, é tempo que se vai.–Iam à vela
    se o tempo não mudasse. Era bom aviar, por isso.

    Mas à ideia de ter de acordar o pequeno, o José Cosme deixou-se cair
    sobre o banco que estava debaixo do alpendre, e desatou a chorar
    violentamente.

    O barqueiro tentou animá-lo, constrangido.

    –Então, Sr. José?… O chorar é lá para as mulheres. Olhem agora que
    homem!–E tentava levantá-lo, pô-lo de pé.–Limpe lá essas lágrimas, que
    vai afligir o pequeno! Ou quer que ele vá a chorar todo o caminho?

    O Cosme fez que não com a cabeça, violentamente, e pôs-se a enxugar os
    olhos com a manga da camisa.

    –Pois então levante-se lá.–E segurou-o com força por baixo dos
    braços.–Assim! Lá porque o pequeno vai para o Brasil não fique
    vossemecê a pensar que o não torna a ver.

    Mas era isso mesmo o que ele pensava…

    –Porque não sei que me adivinha que não torno a ver o pequeno–concluiu
    a chorar o José Cosme.

    –Cismas! lembranças que vêm à gente quando está aflita. Mas há-de
    vê-lo que o não há-de conhecer, digo-lho eu. Mais ano menos ano,
    aparece-lhe aí rico…

    Rico! bem lhe importava a ele que o pequeno viesse rico. O que desejava
    era que voltasse e que ele ainda fosse vivo só para o abraçar.

    Pois sim, mas era preciso aviar, que tivesse paciência: o José Cosme que
    se animasse para animar o pequeno–recomendava o barqueiro.

    –Sim… sim…–tartamudeava o Cosme.–Vamos lá com Deus! Com'assimU+2026.

    E num profundo ai dolorosíssimo, foi-se direito à porta para chamar a
    pequeno. Não havia remédio, tinha nascido em má hora, havia de ser
    desgraçado até que o levassem para a cova… Sobre a estreita e humilde
    cama o filho dormia profundamente. Que dor, ter de o acordar! Vieram-lhe
    tentações de mandar embora o Tomás e deixar dormir a criança. Quem sabe
    se a sua sorte futura, se toda a sua vida, valeria a boa tranquilidade
    daquele sono! Não tinha coragem para o acordar, fazê-lo vestir: era
    quase um pecado quebrar aquele último sono dormido sob o tecto
    paterno… O último sono! o último sono!

    –Ainda se o deixássemos acordar…–aventurou-se a dizer o triste.

    Mas o Tomás que estava com pressa, lembrou secamente que eram horas de
    pôr o barco a andar.

    O José Cosme acendeu então a candeia, receoso de que a luz o
    acordasse, e achegando-se do filho pôs-se a escutar-lhe a respiração.
    Dormia!… Mas brandamente pousou-lhe a mão sobre a cabeça e chamou
    baixinho, quase ao ouvido, beijando-o, sobressaltado como se fosse
    praticar um grande crime:

    –Filho, olha que são horas, meu filho…

    Quando o pequeno se sentou na cama, estremunhado, ainda sob o
    estonteamento do sono, cerrando os olhos àquela hostilidade viva da
    luz, o pai agarrou-se a ele num abraço, e ambos romperam a chorar.

    –Adeus, pai!

    –Adeus, filho!

    Confrangido, o Tomás que se deixara ficar à porta, avançou para desatar
    aquele abraço.

    –Olhe que é tarde, Sr. José. Perdoe, mas olhe que é tarde!

    O pai vestiu o pequeno, beijou-o ainda muito, e saíram. Debaixo do
    alpendre, o Joaquinzito ficou-se um instante a olhar o tecto.

    –A andorinha, filho?–perguntou o José Cosme.–Deixa que eu hei-de
    olhar por ela, mais pelos filhos quando os tiver. Vai sossegado.

    Mas o pequeno quis vê-la, pediu ao pai que o erguesse, era só um
    instante. Lá estava ela, coitadinha! sentiu-a estremecer quando lhe
    tocou com as pontas dos dedos…

    –Adeus!–disse-lhe o pequeno afagando-a.

    A esta palavra, o pai retraiu os braços e tomando o filho no colo
    seguiu. Atrás, o barqueiro levava ao ombro a mísera arca de pinho: toda
    a bagagem do Joaquim.

    Ao transpor o cancelo o José Cosme deteve-se um pouco e perguntou
    soluçando:

    –Quando voltarás ao horto, meu filho?

    O pequeno não respondeu. Chorava constantemente de ver que o separavam
    de tudo o que adorava–a andorinha, depois da andorinha o horto, as
    árvores, a velha nora, o cancelo, tudo enfim.

    Atravessaram então a estrada e tomaram para a banda do rio. Quando o
    sentiram murmurar, aperraram mais o abraço, deram-se um longo beijo,
    húmido das lágrimas que ambos derramavam. Ah, como o triste pai desejava
    que o rio ficasse ainda longe, mui longe, que fugisse diante deles, de
    modo que nunca o alcançassem! Mas eis que a areia principiava,
    divisava-se já perto o vulto escuro do barco onde os da tripulação
    falavam alto.

    –Pronto?–perguntou ainda de longe o Tomás.

    Do barco responderam que era só marchar, de mais a mais ia romper a lua.

    Chegaram enfim. Num leve silêncio de acaso ouviam-se os soluços dos
    dois, parece que prolongados infinitamente, na sua expressão de
    angústia, pelo deslizar monótono das águas… Aquilo confrangia o
    barqueiro, ele também era pai… Por isso, mal chegaram à beira do rio,
    apressou-se a dizer para o pequeno:

    –Ora bem, Joaquinzinho, beija a mão a teu pai e dize-lhe adeus.

    Ouviu-se um chorar lancinante, a voz do pobre José Cosme a querer animar
    o filho:

    –Então, meu filho?… Deus te abençoe, meu amor… Nossa Senhora te
    veja ir.–E fez-lhe prometer que havia de rezar sempre a Nossa Senhora,
    ele também lhe rezaria, pois era ela quem dava saúde, quem fazia a
    gente feliz.

    –Não te esqueças dela mais da alminha de tua mãe e de tua irmã…

    Mas o pequeno chorava cada vez mais, agarrado ao pescoço do pai,
    beijando-o sofregamente, acarinhando-o, sem forças para dizer palavra.
    Então o José Cosme, perdida a esperança de animar o filho, só exclamava
    desvairado:

    –Valha-me Deus! O Senhor me valha pela sua infinita misericórdia!

    E o Joaquim sempre agarrado a ele, beijava-o na cara, na cabeça, nas
    mãos. Até que o Tomás teve de intervir, era preciso despegar dali por
    uma vez.

    –Com'assim, Sr. José, isto tem de ser…–E segurando o pequeno com
    força puxou-o para ele. Quando já o tinha nos braços, ouviu-se o José
    Cosme que suplicava de mãos postas:

    –Só um instante, só um quase-nadinha, Tomás!–E o pobre pai caía de
    joelhos na areia, numa atitude de súplica.

    Mas nesse momento, o barqueiro saltou de um pulo para o barco, levando
    ao colo a criança.

    –Rema!–intimou em voz rápida.

    O barco recuou então subitamente, ao mesmo tempo que os remos fizeram
    _plhau_! sobre a água.

    Então o choro do José Cosme tornou-se de uma violência desesperada, ao
    ouvir a voz lacrimosa do pequeno dizendo-lhe adeus lá do barco.

    –Adeus, Joaquim, adeus!

    –Adeus, pai!

    –Adeus!

    Mas repentinamente, com voz resoluta e firme, o José Cosme gritou na
    direcção do barco:

    –Tomás! ó Tomás! por alma de teu pai faz lá alto um instante.

    Acabou-se! custara-lhe tomar aquela resolução, mas já agora era melhor
    ficar sozinho de todo. E segurando nos dentes um pequeno objecto,
    arremessou a jaqueta ao areal e de um lance deitou-se a nado. O Tomás
    que ouvira o mergulho do corpo, fez recuar o barco; mas o José Cosme,
    velho nadador destemido, com meia dúzia de braçadas ganhou-lhe de
    pronto a quilha. O filho tinha-se debruçado, na ânsia de esperar o pai,
    de o ver ainda outra vez. Num movimento rápido, o José Cosme entregou
    ao pequeno o que levava entre os dentes, dizendo-lhe a chorar:

    –É a medalha, Joaquim; é a medalhinha de tua mãe, meu filho!…
    Reza-lhe, sim?!

    E chorando cada vez mais, o pobre José Cosme pediu ao barqueiro que lhe
    chegasse o pequeno para o último beijo…

    Dado o último beijo, o barco pôs-se de novo em marcha. Vinha a romper a
    lua, enorme, torva, afogueada, como se viesse de algum banho de sangue
    em região misteriosa de lágrimas… E no silêncio agoireiro da noite,
    apenas cortado pelo bater monótono dos remos e pelo bracejar desalentado
    do triste nadador, à voz do filho que chamava respondia cada vez de mais
    longe–longe como se fora do Infinito! a voz lacrimosa do pai–com o seu
    fúnebre _adeus_! que ele bem sabia ser eterno…

    * * * * *

    …Só quando o eco do último adeus do Joaquim, perdido na distância,
    diluído no luar que surgia, desfeito no lugente murmúrio das águas,
    fundido no derradeiro suspiro da brisa matinal, deixou de chegar à
    praia, é que o pobre abandonou o areal e se foi, sempre a chorar,
    tiritando ao frio da sua desgraça, como a um vento agudíssimo do Pólo,
    na direcção do horto silencioso…

    COMÉDIA DA PROVÍNCIA

    _A Alberto Braga_.

    I

    PRELÚDIOS DE FESTA

    Esse ano, a festa da senhora das Dores devia ser coisa de estalo. A
    começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito–abonados e
    decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da
    festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra
    de jeito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que
    representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a
    entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se
    tivesse tempo de o acabar.

    –Homem de uma cana! resumiu o juiz quando acabou de ler a carta. E
    correu a espalhar a notícia, orgulhoso de que «no seu ano» a _coisa_
    fosse de arromba! Depois, era um despique. No ano atrás, o José da
    Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá
    uma peça que era um castelo a dar tiros, assim: Fff! Pum!

    –Ora deixa estar que eu te arranjo… murmurou com os seus botões o
    António Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do
    arraial todo o povo o havia de aclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que
    apresentara. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na vila, ninguém
    falava noutra coisa.

    –Então você já sabe?

    –Já sei. A cegonha.

    –A cegonha e o mais: um cavalo, um bezerro…

    –O que eu quero ver é o camelo. Feio bicho, já viu?

    –Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adiante do _Valente Rei
    Arauto Fiel_.

    Enganava-se.

    O escrivão da Câmara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves
    aferidor.

    –Até que enfim, amigo Alves. Até que enfim vou ter o gosto de o ver
    arder.

    O outro não percebeu. «Que se explicasse…»

    –Um urso, no arraial queima-se um urso.

    –Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.–Também se lá
    queima um burro.

    Às duas por três, o António Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não
    ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua
    predilecção.

    O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por
    dentro.

    –Põe a tranca, se for preciso.

    Mas então era cá da rua:

    –Ó Sr. António!

    E na porta as pancadas ferviam:

    –Truz! truz! truz! Sr. António!

    –Éna! c'um raio de diabos!–fazia lá de dentro o homem, furioso.

    –O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

    À janela assomava então o António Fagote, com os óculos na ponta do
    nariz e a carta do foguetório na mão.

    –O camelo? perguntava zangado.–O urso?! Camelos me parecem vocês,
    ouviram? O que o homem diz é isto.

    E lia a carta, rematando:

    –Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o
    macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?… Tirava
    os óculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.–Irra!

    E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não
    fosse ele burro… Mesmo porque cada um começou logo a inventar
    animais, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, aí
    tínhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o
    José da Loja.

    –Temos o caldo entornado! pensava aflito o Fagote, amedrontado com
    aquele espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe
    tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negócio…

    –Farófias! tinha dito o José da Loja. Farófias!

    –Pois se mo diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal
    soube.

    E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde
    rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se
    proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições.
    Depois, bom olho para a caçadeira. Duma ocasião, que foi preciso dar
    montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi ele que deu voz de
    preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lha deu? A frase ficou
    lendária:

    –Como-te a alma se te mexes!

    –E o outro não se mexeu, que ele comia-lhe a alma! comentavam
    convictos.

    Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua
    figura adquiriu para a velhice o jeito desempenado que tinha. Estava com
    60 anos e a sua atitude viril impressionava ainda agora. Não era
    nutrido, mas era sanguíneo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, uma
    largura de ombros que era o principal indício de força. Pescoço curto.
    Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremetia com força,
    conhecia-se-lhe a rijeza dos músculos naquele movimento sacudido.

    –Safa! que isso aí é de ferro! diziam os rapazes. Duma cana, hein?

    Mas bom homem, de uma grande franqueza de modos, simples e afável. Para
    se sair era preciso picá-lo. E uma vez, quando era juiz ordinário, uma
    testemunha tanto o picou em audiência, que ele desceu lá da cadeira,
    foi-se a ela e quebrou-lhe a cara. Por isso falava sério quando
    prometia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

    «Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau
    como o pintavam.»

    –Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o
    Fagote. Do que ele é capaz sei eu.

    Mas nesta ocasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe
    lembrava uma: ter sido juiz o ano atrás!

    Isto parecia-lhe com efeito uma velhacaria, feita a ele que era juiz
    este ano.

    –Pois tu que pensas? dizia ele para a mulher. Quem me meteu a festa
    em casa foi ele. Ele é que se lembrou de me escolher, como quem diz:
    «entrego-te a vara, sempre quero ver como te arranjas…»

    –Nome do Padre, do Filho… A mulher benzia-se «das ideias do seu
    António.»

    –Sejam ideias, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual,
    assim me Deus salve!

    –Mas quem to disse, homem? Quem foi que to disse?

    –Quem mo disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo mínimo da mão direita.–Foi
    este mindinho. Não falha.

    E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de
    levar à parede. Agora levava! A festa há-de se fazer, e festa de
    arromba; _nanja_ como a dele que só levava seis anjos, e não sei
    quantos andores, acho que meia dúzia!»

    –Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio de um homem!
    Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do
    corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava
    olhos de cólera para a mulher que remendava uns sacos, compungida de
    ver assim o seu António.

    E pôs-se então a renovar ordens, recomendações que a mulher já estava
    farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao
    atar das sangrias!»

    –Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel à cata deles por
    esses povos à roda. Querem-se de 7 semanas, três pelo menos.

    A mulher contraveio:–«dois seriam bastantes…»

    –Mau que aí principiamos nós!–E pôs-se a assobiar e a rufar com o pé
    no soalho, arreliado.–Três é que hão-de ser. Não quero cá dois, porque
    dois eram os do _outro_, o ano passado.

    A esta razão, a mulher calou-se. O António Fagote gostou do silêncio da
    mulher, que o lisonjeava nos seus despeitos contra o _outro_.

    –Agora não fanfas tu… insistiu ele, risonho. É assim mesmo que eu
    gosto. Sinal é que tens vergonha. A _outra_ tamém não é mais que a ti.

    A _outra_ era a mulher do José da Loja, está visto.

    –Nem mais, nem tanto, emendou a Luísa Fagote, abespinhada.

    –Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes
    de casarem…

    –E olha que depois de casada… insinuou a Sr.^a Luísa, de venta no ar,
    enfiando a agulha. Cala-te boca.

    Façamos de conta que a boca se calou, com efeito. Que não se calou.
    Mas neste particular, o resto do diálogo convém que se omita, mesmo
    porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal à mulher do José da
    Loja. Há-de perdoar-me o António Fagote, mas nisto não lhe faço a
    vontade. O pudor acima de tudo! E ademais ele bem sabe que eu sou
    conhecido da mulher. Adiante. Basta que lhes diga que por uma associação
    lógica de ideias a conversa veio parar em vitelas…

    –É preciso vermos como há-de ser isso da vitela, disse o António
    Fagote. Sem vitela é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

    Combinaram falar com tempo ao Manuel Cortador, segurar esse negócio. De
    mais a mais sabia-se que o pregador dava o cavaco por um bom pedaço de
    vitela assada.

    –O pregador é que arrasta aí muita gente, observou a Sr.^a Luísa. Para
    um bocado de sentimento não há como ele. Quando foi das missões, o que
    ele dizia daquele púlpito abaixo! É quanto se pode!

    –A mim o devem, se cá vem!–disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não
    queria vir, desculpava-se com a saúde: que tinha de ir a umas caldas, e
    14 léguas a cavalo por estas canículas eram de acabar com ele.

    –Isso desaba aí o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionário…

    Estavam nisto, quando bateram à porta. O Fagote foi ver à janela.

    –Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

    Era a criada da mestra régia, foram abrir.

    –A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a Sr.^a
    Luísa, e este bilhetinho para o Sr. António.

    Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o António Fagote foi
    acender uma luz.

    «Que conversassem, enquanto ele via se tinha resposta.»

    –Muito calor, começou a Sr.^a Luísa.

    –E então a casa da Sr.^a mestra que é mesmo um forno, disse por demais
    a criada.

    E antes que a conversa pegasse, avisou a Sr.^a Luísa, ao ouvido, de que
    lhe queria uma palavrinha.

    Foram para uma varanda que havia nas traseiras. A tarde descaía, numa
    serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

    –Está-se aqui bem! exclamou consolada a Sr.^a Luísa.

    –Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe
    um favor, disse atrapalhada a criada.

    –Se estiver na minha mão…

    A outra começou: «A Sr.^a Luísa estava ao facto do que se dizia dela
    com o criado do inglês. Decerto estava ao facto. Mas era mentira.
    Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda
    mentira.»–Estamos para casar! é o que estamos! «Ele já mandara vir os
    papéis lá da terra, não podiam tardar».–Está claro que eu tenho
    afeição ao rapaz…

    –Ele esteve aí doente uma temporada, interveio a Sr.^a Luísa, para
    dizer alguma coisa.

    –Esteve. Umas quartãs que o iam arrebanhando. Mas é aí que eu quero
    chegar.

    –Que experimente o limão azedo, aconselhou a Sr.^a Luísa. É milagroso
    nas quartãs. Não se aflija, que isso não há-de ser nada.–E
    dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom
    para matar quartãs, pensando que era o que ela queria, afinal.

    –Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recaia. Mas é por via
    disso que eu lhe quero pedir um favor.

    Chegou para ela o banco de cortiça e confidenciou:

    –Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira,
    qualquer noite. E ele vai, prometeu que sim. Mas veja, naquele
    estado! inda não há nada que saiu da cama.

    –Pelos modos, os rapazes vão este ano longe pelo pau, disse com pompa
    a Sr.^a Luísa.–Muito longe!

    –Ouvi que à Ribeira Velha, ao lameiro do Canelas. E logo com quem
    eles se vão meter, o Canelas! Se desconfia, vai-se para lá de clavina
    e faz alguma desgraça. Mais ele, que é atrevido!

    Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde eles iam pelo pau é
    que ela não sabia.

    –A outra noite é que para aí estiveram a combinar, o meu António mais
    os mordomos. Não ouvi.

    –Pois é lá! exclamou a criada. Mas o que eu queria, Sr.^a Luísa, é que
    o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,–suplicou aflita a
    rapariga.

    –Lá isso, esteja descansada, não vai! prometeu com grande autoridade
    a Sr.^a Luísa.–Digo-lhe eu que não vai. E se não quer mais nada…

    –Era só isto, muito agradecida à senhora.

    Nesse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os óculos para a
    testa.

    –Ora pois então aqui vai a resposta. Má letra, a Sr.^a mestra que
    desculpe. Mas enfim que leia como puder.

    –Então muita maçada co'a festa? inquiriu solícita a rapariga.

    –Muita. Faz lá ideia? Maçada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos
    os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquilo. Aí está que já
    hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

    –Chh! fez admirada a rapariga.

    –Pois é verdade. Fora o mais! fora o mais! Nicas! E depois de uma
    pausa:–Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que há muita coisa
    de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia
    uma horta, além no prado.

    –Muita gente… disse a rapariga.

    –Muita! e depois de certa aquela… À mesa talvez vinte e quatro
    pessoas…

    A rapariga benzeu-se!

    –Vinte e quatro, p'ra mais que não p'ra menos, insistiu o António
    Fagote.–Olhe: o pregador…

    –Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.

    –É. Não o há melhor. Missionário…–explicou o juiz. Pois o pregador,
    um; com mais quatro padres, cinco; com quatro músicos, nove; o compadre,
    os pequenos, dois, doze.

    –A comadre não vem! que pena! fez do lado a Sr.^a Luísa.

    –Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o
    António Capador, catorze. O Teles, é verdade, Teles escrivão, quinze.
    (_Pausa_). Com mais alguém que venha, vinte e quatro. Pode-se contar com
    mais de vinte e quatro pessoas à mesa.–E a rir-se: Mas há-de sobrar
    muita coisa, graças a Deus… E depois os pobres?

    –Isso então é uma praga! exclamou a Sr.^a Luísa. Até parece que vêm do
    chão assim… E colocava em pinha os dedos todos das mãos ambas.
    Assim…

    Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.–«Adeusinho! o que havia de
    estimar é que tudo corresse como desejavam.»–E se for preciso qualquer
    coisa… ofereceu-se. As minhas fracas posses…

    –Obrigada. Não faltarão ocasiões. Muitos recadinhos à senhora
    mestra…

    –E que hei-de estimar que o mano chegue de saúde, concluiu o António
    Fagote.

    E então explicou à mulher: «Aquele bilhete da mestra era a mandar-lhe
    perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».

    –Diz que o irmão, o brasileiro, assim que souber que há macaco de fogo
    no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o
    ponho ao pálio. Como três e dois serem cinco.

    A senhora Luísa quis saber a resposta que lhe mandara.

    –Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brasileiro. Sempre é
    homem que sabe dar o merecimento às coisas… Mas o diabo agora é o
    macaco! ponderou muito apreensivo. Está para aí meio mundo à espera
    do macaco…

    A senhora Luísa quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o
    bicho não viesse.

    –Tate! fez o António Fagote, batendo uma palmada rija na testa.–Dá cá
    daí a minha véstia. Manda-se uma «parte» ao homem.

    –Também pode ser, concordou a senhora Luísa. Mas hoje é que não,
    aquilo já está fechado, o fio.

    –Vai amanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez
    acrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que acrescento, por via
    das dúvidas.

    Então, a senhora Luísa confidenciou quase ao ouvido do homem:

    –Ouves? já se não pode ir ao lameiro do Canelas pelo pau.

    –Hã? qual pau?

    –O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.

    Ele riu-se.

    –Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!…

    E como ela ficasse estupefacta.

    –Nunca ouviste dizer que se põe o ramo numa porta e que se vende o
    vinho noutra?

    –Ah!…

    –Mas são verdes. Pois aí é que vai a história, e cantarolou,
    satisfeito:

    O ladrão do negro melro
    Onde foi fazer o ninho

    * * * * *

    Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãzinha o
    António Fagote sentiu bater à porta, de rijo.

    –Vai lá ver o que será, ó Luísa!–disse da cama o Fagote sobressaltado.

    Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

    –Vista-se, homem! Ande daí depressa! Vista-se.

    –Há novidade? perguntou logo o Fagote, sobressaltado.

    –Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.

    –Hom'essa! fez espantado o Fagote. Alguém à morte?

    –Pior do que isso! resumiu o José Manco.

    –Pior do que isso, então não sei…

    –Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.

    O António Fagote vestiu-se à toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou
    de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava
    chapéu.

    –Pronto! cá estou!

    –Venha comigo, avie-se. Abotoe as calças, se faz favor.

    E rodaram rua acima.

    –Diabo! mas então…? ia perguntando o Fagote.

    –Aguarde, que já vai saber. Não tarda.

    De quatro escanchadas foram dar ao adro da igreja.

    –Roubaram Nosso Pai, aposto?!

    –Pior! redarguiu o outro. Pior! Alto aí! Ora arregale-me esses olhos
    e veja vossemecê isto, esta porcaria!

    E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada
    na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Vários
    desenhos de animais, sobressaindo um burro de grandes orelhas, aos
    coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:–_Farófia_!

    Por um pouco, António Fagote, de mãos atrás das costas, amarasmou-se,
    com os olhos fitos no papel.

    E quando o outro pensava que ele ia romper desaustinadamente numa
    escamação, aos lábios do António Fagote aflorou apenas um sorriso.

    –Hum! resmungou. Bem sei…

    –Não tem que saber,–fez o outro.

    –O patife do José da Loja…

    –Pois está visto.

    –Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande sossego o
    Fagote.–Arranque lá isso, e venha você daí, se quer ver.

    O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que
    era melhor botar o patife ao desprezo.

    –Pois sim, disse o António Fagote, dobrando em quatro o papel e
    metendo-o na algibeira de dentro.–Pois sim!

    Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos
    arrancados do código penal. «Que não fosse agora pagar por bom
    semelhante estafermo. Como mordomo, também era com ele a ofensa, com
    ele José Manco. Mas fazia de conta… Como o outro que diz, vozes de
    burro não chegam ao céu».

    –Bem, levará só uma lambada, atendendo a que mais ninguém viu isto,
    disse num grande ar de condescendência o Fagote.–E você vá lá regar a
    horta.

    Foi-se dali direito à casa do José da Loja. Estava ainda fechada.
    Pôs-se à coca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia
    daquela demora.

    –Grande cão! grande cão! monologava.

    Até que enfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de
    casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo António
    Fagote senão quando se viu ao pé dele, cara a cara entre o balcão e a
    porta.

    –Ó Sr. José.

    –Dirá.

    –Venho aqui saber de um caso.

    Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lho pôr ao pé
    da cara:

    –Foi o Sr. José que fez isto?

    O outro olhou-o, atónito.

    –Sim! se foi o Sr. José que fez isto?

    –Nada, eu não senhor.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos?

    Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

    –Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

    O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:

    –É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.

    –É outro, que outro?!–disse arrogante o José da Loja, num ímpeto,
    barriga panda sob o casacório de lona.

    –Isto!–E foi-lhe uma bofetada para a cara.–E muito caladinho, que eu
    também não digo nada. Agora o papel, olhe! Fê-lo em pedaços, e
    atirou-lhe com eles à cara aparvalhada.

    Saiu dali e foi _matar o bicho_, tranquilamente, como quem vem de
    cumprir uma obra de misericórdia.

    * * * * *

    Na véspera da festa, um sábado às 10 horas da manhã, o fogueteiro
    passava enfim num deslado da vila direito à capela da Senhora das
    Dores. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

    –O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

    Por toda a vila passou um longo frémito de entusiasmo quando se ouviu o
    foguete. Desabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas.
    O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,
    a admirá-lo, a oferecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se
    ordens já dadas. Aquele foguete era a bem dizer o primeiro ruído da
    festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saíam esbaforidas
    as criadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o Sr.
    fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o
    que queria para o jantar.

    Solenemente, o juiz da festa atravessou quase a correr a vila,
    perguntando a todo o mundo se o que estoirara tinha sido efectivamente
    um foguete.

    –Foi foguete! pois que dúvida! diziam-lhe radiantes. Prometia, sim
    senhor! prometia! Se fossem todos assim… Caramba! que estoiro! Pum!

    –P'ra que saibam! clamava o António Fagote. E então isto? e punha-se a
    girar de volta com o braço–o que é fogo do chão?–Mas tinha-se visto em
    calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos
    tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O
    caso tinha estado sério!

    Mentia.

    –Hein? mas não o enganavam?

    –Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia ele a atravessar as
    eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

    O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abade, gritou cá da
    rua:

    –Senhor abade! ó senhor abade!

    –Que é lá?

    –Chegue à janela, faz favor?

    –Mas está muito sol, entre você, se quer.

    –Só duas palavras:

    O abade, um rapaz novo, assomou à janela.

    –Que é?

    –Chegou o homem!

    –O homem! que homem?

    –O fogueteiro, quem há-de ser?

    –Ah, sim, disse o abade a rir-se, velhaco. E você vai ter com ele?

    –De cara.

    –Faz-me então um favor?

    –Dirá.

    –Dê-lhe recados meus.

    E retirou-se da janela, a rir, enquanto o António Fagote prosseguia no
    seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se
    aquilo tinha sido o fogueteiro.

    –Grande homem! com seiscentos diabos!

    Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois
    machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao
    fogueteiro, com fúria.

    –Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu
    amigo, seu grande amigo».

    –Rapazes! gritou ele então. E tirou o chapéu da cabeça, muito
    solene.–Viva o senhor fogueteiro!

    –Viva!

    …Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores
    que o António Fagote–chorou!…

    II

    TIPOS DA TERRA

    Desembocaram num largo. Era o ponto mais central da terra,–«_a
    praça_.»–Aqui e ali, ao acaso, algumas árvores enfezadas, quase tudo
    olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas
    grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato,
    com casas em volta,–o que na vila havia de melhor em construções.
    Ficava ao meio o pelourinho, exótico, mutilado, de uma pedra grosseira e
    muito negra. Era uma alta coluna de oito faces, com o seu anel de
    ferro ao meio, e uma argola pendente do anel. A coluna, que se eleva
    sobre um pedestal de três degraus, em hexágono, terminava ao alto num
    grande _X_ de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de
    três gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do
    _X_, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estilo,
    sem gosto, sem cal. Algumas _pedras de armas_ em velhas paredes
    decrépitas, desequilibradas, hidrópicas, atestavam aristocracias
    remotas, agora de todo extintas. Ao alto, dominando a negrura
    chamuscada dos telhados, o velho castelo, romano de origem, fazia
    tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruínas.
    Ao lado do castelo erguia-se destacadamente a velha torre do relógio,
    de uma arquitectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as
    sete: aquele–«_estafermo_»–é que não andava nunca direito. De dia
    ninguém o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando num mostrador
    sem letras, de uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar,
    alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrasado ora adiantado,
    dando meia-noite quando eram quatro da tarde, e meio-dia mal despontava
    o sol.

    Eram as sete. Àquela hora é que os–«_figuros_»–da terra, quase tudo
    empregados públicos, vinham para o largo, à fresca. Alguns
    passeavam,–seu fraque, sua bengala de cana com castão, chapelinho à
    banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados,
    outros do mesmo feitio cavaqueavam,–coletes desabotoados, perna
    cruzada, chapéu para a nuca, às três pancadas. Um de pêra comprida, no
    degrau superior, contava facécias. Os outros riam alarvemente,
    chamavam-lhe intrujão. Algumas–«_madamas_»–pelas janelas em volta,
    nostálgicas, anafadas, de claro. À porta do estanco, em cima, havia
    outra roda,–uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando
    cadeiras de pinho. Era a–_roda mais forte_,–quase tudo maiores
    burocratas:–o Melo da Administração, o Antunes da Câmara, o Escrivão
    de Fazenda, o Rodrigues do Real de Água. E outros. À porta, perfilado e
    muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexível, com a sua
    cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras
    feminis, uma falinha melíflua, cantante, viva, muito desempenado
    quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse
    levantar voo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia falar diante dele
    num rato morto, numa carocha. Aquilo «fazia-lhe nervoso», enojava-o,
    ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

    –Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não
    lanço fora.»

    E se riam, ele exasperava-se: não compreendia como pudessem falar em
    tais coisas… De resto, bom sujeito, finório para o seu negócio,–um
    poucochinho beato,–diziam-lhe.

    –Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno,
    a arder. Leiam a _Missão Abreviada_, leiam esse rico livro.

    E as palavras saíam-lhe a correr, espremidas nos seus lábios delgados,
    um poucochinho sibiladas nos _ss_.

    –Cigarros, Ernestinho, um vintém deles. Querem-se dos de Lima,
    desses fortes.

    Declarou que também havia dos «especiais.» Algum senhor queria? Tinham
    chegado três maços, p'ra ver. Oito por um vintém.

    –Pois guarde-os!–disseram alguns, horrorizados com a ideia de dar um
    vintém por oito cigarros.–Guarde-os!

    «O senhor engenheiro, quando vinha à vila, perguntava-lhe sempre por
    eles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»

    –Olha o figurão!–disseram a rir. Por esse mundo fora sempre há muito
    idiota! forte cavalgadura!

    O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. À
    porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

    –O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos
    outros.

    Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um
    silêncio oprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo
    que num gesto acanhado, receoso, fazia menção de oferecer:–«alguém
    era servido?»

    Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licor, e das botijas de
    genebra, Ernestinho somava a conta. Era já taluda.–«E vão dois e dois
    quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os
    receberia!»–E suspirava, arrumando os maços encetados, sob o olhar
    tranquilo e indiferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao
    alto das estantes quase vazias, no seu nicho feito de um caixote forrado
    a verde, com flores artificiais muito sujas e duas velinhas dos lados.
    Mas resignava-se, que não tinha outro remédio. Eram os ossos do
    ofício…

    Cá fora tinham dado fé, acotovelavam-se chamando asno ao
    Ernestinho,–um pulha a quem ajudavam a viver… Se hoje não há
    dinheiro, há-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c'os diabos! E
    pagava-se. Mas não senhor! aquela besta mostrava sempre má cara, o
    alarve! A culpa tinham-na eles, afinal que o procuravam, que o
    preferiam. Tomaram os outros ter aquela freguesia…

    O dos cigarros fiados anuía, assobiando baixo o _Água leva o
    regadinho_. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um
    sorrisinho de despeito nos lábios, encolhendo os ombros.

    –Estender as pernas,–disse. Quem vem daí?

    Todos ficavam, era uma estopada andar p'ra trás p'ra diante, naquela
    sensaboria da praça.

    –Até logo. Você aparece no _sítio_, à noite?

    –Apareço, vou à desforra.

    E cumprimentando em roda:

    –Meus caros! Muito boa tarde, Sr. Ernesto.

    Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.

    –Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe
    diga _bem-haja_…

    Era um parvo.–Era um tolo.–Tinha dívidas nos outros estancos.–Em toda
    a parte.–Lá em casa a família passava fomes.–Um batoteiro de marca.

    Houve agitação, alguns puseram-se de pé, outros mudaram de lugares. Ia a
    passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de
    novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

    –Com que então… _ponha lá ao pé dos outros_?–disseram-lhe, para o
    lisonjear nos seus despeitos.–Bem bom freguês!

    Ele encolheu os ombros e cerrou os olhos, beatificamente, num gesto
    de mártir resignado. E não disse palavra–p'ra falar daquele tinha de
    falar também deles…

    Mandaram vir limonadas,–três limonadas!

    –Aí vão trinta réis!

    Diabo! era preciso animar aquilo. Assim não tinha jeito. E puseram-se a
    falar do tempo, das moscas, daqueles idiotas que andavam na praça a
    dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar três limonadas,–e
    sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

    O Ernestinho deu dois passos fora da porta, e chamou para a varanda,
    onde grandes manjericões floriam:

    –Ó Emília! Emilinha!

    A mulher assomou, gorducha, muito mole.

    –Três limonadas, ouves? Três limonadinhas, depressa.

    As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difícil encontrar
    uma colecção de asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos
    grupos.–Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe
    agora para cantar. Lá andava ele. Volta meia volta,

    _Vai alta a lua na mansão da morte_

    com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava
    antipático, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só
    tinha uma coisa boa–a caligrafia.–Um talhe de letra
    bonito,–confessavam.–E as calças, hein? reparem vocês naquelas
    calças, vai flamante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os
    do estanco, disse-lhes _adeus_ com a mão, afável. Corresponderam todos,
    muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:–idiota,
    palerma, pechisbeque…

    Sozinho, numa lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céu, o
    Teles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Às vezes
    quedava-se extático, suspenso, o polegar esquerdo entre os dentes, um
    olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em
    marcha, contrafeito.

    –Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Teles, aquele
    telhudo? E isto:–e pôs-se a imitar o escrivão.

    Riram. O Melo imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente.
    Mas aquilo era um logogrifo. Há uma semana às turras a um logogrifo
    em acróstico.

    –Isso é o Teles!–fez um que vinha da praça.–Aquilo é um intrujão.
    Na rua não é que se adivinham logogrifos. Ó Ernestinho, você ainda tem
    daquilo que _ferve_?

    O Ernestinho deixou descair o lábio, não percebia…

    –Homem! daquilo que vinha numas garrafórias escuras, compridotas…

    –Quer dizer gasosas. Uma rolha segura com guitas…

    –Ora é isso mesmo, nem mais.

    –Bem sei.

    Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p'ra quê? Achavam caro um
    tostão…

    –Eram aos três para beber uma garrafa…

    –Pudera! Por um pataco, trinta réis levando o açúcar, fazia o _Ervas_
    uma soda,–objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.

    –E aquela porcaria, ó Ernestinho, e aquela porcaria amarela que
    sujava tudo de escuma?

    Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com
    seiscentos diabos!

    –Cerveja!–disse o Ernestinho–cerveja! uma coisa que lá p'ra baixo
    toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

    E com um sorriso de desdém, exclamou:

    –O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho…

    Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distintamente a
    palavra–«_pulha_»–pronunciada com força. Saíram em tropel, ficaram só
    três.–O que pagava as limonadas exultou:–Homem! nem de propósito!
    Ficava exactamente quem ele queria, estava mesmo a ver que aquela
    súcia lhe chupava o refresco:

    –Tó Ruça! já lá vai esse tempo.

    Precisamente, a senhora Emília chegava, com os copos numa bandeja:–Que
    provassem, diriam se precisava mais açúcar. Mas parecia-lhe que devia
    estar bom…

    Beberam de um trago, estava óptima. A senhora Emília tinha dedo para
    aquelas coisas.

    –Obrigado, ó Melo!

    –Obrigado, ó menino!

    E os dois saíram de rompante, chamando _pato_ ao Melo, rindo-se dele
    e limpando os beiços.

    Quando o Melo ia sair,–a ver o que ia na praça,–o Ernestinho, muito
    cortês, objectou-lhe que faltavam trinta réis:–Se ali não tinha,
    depois. Isso era o mesmo…

    –Mas trinta réis?!… De que são os trinta réis?–perguntou desconfiado
    o Melo.

    –Do açúcar, foi do refinado,–explicou o Ernestinho. O mascavado
    acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Melo desculpe.

    Não tinha que desculpar; somente notava que aquelas coisas diziam-se no
    princípio.–E saiu sem dar mais palavra, furioso:–Uma ladroeira! Três
    vinténs não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco…

    Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma
    grande roda, comentava-se. O Melo quis informar-se:–que lhe
    contassem–«_o escândalo_».

    Ora! não fora nada: o Veiga que se tinha lembrado que as
    correspondências na _Voz do Distrito_ eram escritas pelo Albano.
    Disse-lho na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que
    é casmurro, teimou:–que não acreditava, ainda assim!–Vai o outro
    chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora aí está!

    –Mas afinal, quem diabo escreve aquilo?–quis saber o Melo. Aquilo
    há-de ser escrito por alguém, está claro.

    Dez réis pela novidade! Que havia de ser escrito por alguém sabiam
    eles…

    –Quem, então?

    Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro
    dava a sua palavra de honra que também não era ele, jurava-o. Houve um
    que se lembrou se aquilo seria do padre Mendonça.

    –Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se metesse
    nisso. Olha o padre Mendonça, o da _gibreira_ de Braga…

    Mas o da ideia insistiu, renitente:–havia ali suas coisas que o faziam
    lembrar, certas facécias, como a de chamar _Frei Asneira_ ao Reitor e
    _Cabeça de Comarca_ ao Felisberto.

    –Pois se é ele, que se regale, pode limpar as mãos à parede. Mente
    como um alarve, mente da primeira linha até à última!–disse firmemente
    o verdadeiro autor das correspondências. Olhem o que ele diz do juiz
    de direito, só calúnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco
    pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.

    De resto, eram todos acordes em que as correspondências eram uma
    infâmia. O que se chama uma infâmia pegada. Mexericos e mais nada, uma
    coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não
    havia duas amizades leais, que era tudo uma impostura…

    Houve um silêncio significativo, talvez de aprovação.

    –Só de pulha!–rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia
    as correspondências com o pseudónimo de _Aramis_. Vejam vocês aquelas
    galegadas ao comendador. Aquilo chama-se lá fazer política?!
    Discuta-se o homem como presidente da Câmara, sim senhor, discuta-se o
    homem público, o funcionário; mas deixe-se-lhe em paz a _marreca_, os
    fundilhos das calças; ninguém quer saber se os criados lhe param em casa
    ou se não. E depois, aquelas alusões à família, aquelas piadas à D.
    Engrácia, pobre velha…

    –A quem?–interrogaram uns poucos. À Dona quê?

    –À D. Engrácia, está bem de ver. Aquela beata que fazia peúgas de lã
    aos missionários é ela. Presumo eu que é ela–fazia o Nunes das
    correspondências com um grande ar de suposição. Eu cá foi para onde
    deitei.

    Os outros não. E como o das correspondências tinha prometido explorar a
    crónica beata, aguardariam mais informações. Supunham, no entanto, ser
    com a D. Joana, a do–«_chá de erva-cidreira_.»–Outra canalhice! A D.
    Joana, para festejar os anos da filha, convidara tudo, _lazarões e
    penicheiros_, não fizera política. Depois foi aquela tareia que se
    viu:–que o chá era erva-cidreira, que tinham bolor os doces de ovos,
    que ela parecia a Quaresma e a filha o Entrudo. Ora isto não se diz, a
    pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cor frases inteiras da
    correspondência. Por exemplo:–_A deusa da festa dizem que recebeu
    telegramas de… amor_.–Uma facécia de mau gosto aludindo ao Proença
    telegrafista. Depois do que por aí se diz, é forte… Que afinal, quem
    sabe lá? Entre os dois que diabo pode haver? Namoro?

    No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

    –Não senhores! Isto agora alto lá. A Amélia é uma rapariga séria…

    Riram às gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

    –Quando digo uma rapariga séria… Mau! Acomodem-se lá com o _banzé_,
    vocês deixem falar,–tornou o Nunes, formalizado. Quando digo uma
    rapariga séria, quero dizer… sim… quero dizer…–e procurava a
    frase, entalado,–por exemplo, que ela não é capaz de receber ninguém,
    alta noite, lá pelos quintais, como o tal das correspondências quer
    fazer suspeitar.

    Iam replicar-lhe, mas ele atalhou:

    –Chama-se àquilo ser canalha às direitas, arre! Isto agora é falar
    franco.

    Saltaram-lhe:

    –E você jura, ó Nunes? você jura?–perguntou, com gesto perfurante, o
    Alves dos Pesos e Medidas.

    Não… isso agora…Jurar, não jurava, mas, c'os diabos! pelo que se
    via, pelo que se podia julgar…

    –Léria!–disseram todos.

    O Nunes parece que estava com os beiços com que mamara. Com que então,
    para ele era tudo uma récua de _santas_? Desenganasse-se, que era tudo
    uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

    O Nunes observou modesto, quase agradecido:

    –Ingenuidade, eu te digo… Não é bem isso… O que sou é prudente.
    Desconto sempre noventa por cento àquilo que vocês dizem, aí é que
    está…

    –Vocês é um modo de falar,–emendaram alguns.

    –Vocês, digo eu, vocês… quando escrevem correspondências,–explicou
    sofisticamente o Nunes.

    Calaram-se, disfarçaram. Próximo deles, a Amélia toda de verde, com
    guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solenemente.
    Tiraram todos o chapéu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi
    cumprimentá-las, submisso.

    –Dar o seu passeio, não é verdade?–E apertando-lhes a
    mão:–Vosselência como passou? A senhora D. Amélia? Obrigadíssimo.
    Assim… assim…

    Então? que diziam àquele calor?

    –Abafava-se, ali pelas duas. Que forno!

    –O Brasil tal e qual–reforçou o Nunes.

    Mas que fora feito, que as não tornara a ver desde os anos? Uma noite
    de truz, aquilo sim!

    –Olhe, senhora D. Amélia, a flauta… a flauta é que nem por isso, foi
    pena! O Abelzito andava constipado.

    A D. Amélia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquelas
    noitadas.–E em voz mais baixa, quase dolente:

    –Depois, veio a _Voz do Distrito_, aquilo chocou-a muito.

    –Não há tal!–fez a mãe. Meteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a falar,
    senhor Nunes.

    E por pouco que não chorava ao dizer isto.

    O Nunes afectou um sentimento profundo:–Era melhor não falar nisso,
    não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham
    acabado de falar na tal correspondência, agora mesmo. Uma
    garotada!–resumiu o Nunes.–E em tom confidencial:

    –Anda-se na pista do garoto. Ele há-de aparecer. E depois… e
    depois… Muito boa tarde, minhas senhoras! O que for soará. É preciso
    dar um exemplo,–concluiu terminantemente. Uma severa lição!

    Despediram-se, elas agradeceram ao Nunes–«a parte que tomava no seu
    desgosto.»–E seguiram cumprimentando para as janelas, perguntando se
    vinham daí, um bocadinho até à capela, espairecer.

    As Silvas pediram que subissem. Um bocadinho só. Ficava muito bem
    aquele vestido à Amélia.

    Não podiam subir, talvez à volta.

    –Pois sim, hás-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quase
    pronto, que trabalhão!

    Estava na dúvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O
    risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito.
    Coisas de anjinhos:

    –Verás.

    Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que
    vinha do trabalho, da labuta áspera da eira,–homens com malhos, e
    mulheres de cestas à cabeça. A tarde descaía numa serenidade calma. No
    degrau de cima, o Paula, oficial da administração, com fama de tipo de
    chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas,
    zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros
    formavam roda. Todos riam, pediam _bis_.

    –Tu hás-de conhecer isto, ó Chico,–dizia o Paula para o Francisco
    Maria, um cabo que estava de licença. Tu hás-de conhecer isto.

    O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e filósofo,
    afirmava que lhe lembrava Coimbra, a pândega das vielas. Ao Paula
    valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o
    tinha demitido, às vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E
    pedia a rir, boçalmente:

    –Ó Paula, aquela do _bate-bate_, canta lá.

    E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.–Se era
    preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

    –É verdade, você que fez hoje que não me apareceu na repartição, ó
    Fernando?

    –Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo às vezes.
    Olhem que pergunta!

    Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

    –Então, ó Paula…–suplicava o administrador.

    –Está fechado o realejo… Depois.

    Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sítio». Ou perder ou
    ganhar; tinha ali seis tostões que eram para um _mico_.

    –Mas eu não lhe dizia, Sr. doutor? eu não lhe dizia ontem que a _dama_
    se negava? Eu estava mesmo a ver aquilo… Bem feito! «gramou» um
    entalão que se consolou.

    –Quatro coroas.–Na véspera tinha ganho um quartinho.

    Nesse momento passava o juiz, sozinho como sempre. Todos tiraram o
    chapéu, ele passou gravemente, cortejando.

    –Quem eu te quero à perna é o _Aramis_…–rosnou o Teles escrivão que
    embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.–E ainda ele não
    sabe tudo…–insinuava perfidamente.

    –Pois o resto diga-lho você, diga-lho no _Almanaque de Lembranças_, em
    verso–fez de um lado o Rodrigues do Real dU+2019.água.

    O Teles, com famas de literato, redarguiu que não dava confiança a
    analfabetos.

    –E eu a brutos, sabe você?

    Mau! que eles lá começavam. Oficiais do mesmo ofício… Ó senhores,
    lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com
    o outro. Pelo contrário.

    O Teles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava
    essa importância, essa honra.

    O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão nele. Mas jurou que doutra vez
    seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas
    tesas.

    –Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

    Havia de dar-lhas, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter
    o gosto de dizer depois, num comunicado, que desafrontara as letras
    portuguesas,–ele, o Rodrigues, ele, um simples fiscal do Real dU+2019.Água.

    Aquilo fez surpresa, convidaram-no a explicar-se.

    –Não senhores! dizia colérico o Rodrigues, com grandes gestos.–Bem sei
    que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu
    verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas
    não há de ser aquele _négalhé_ que o há-de dizer. Não o julgo
    habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o
    que mando para público sim, o que entrego aos prelos–é meu!–E batia no
    peito com a larga mão espalmada, furioso, numas raivas, de orgulho
    triunfante.–Não roubo! nunca roubarei!–afirmou mais alto o
    Rodrigues, para que o Teles que se ia retirando, no meio de dois
    amigos, conciliadores, o ouvisse.–Repito: não roubo, não faço como
    ele!–E as palavras saíam-lhe salivadas, violentas, por entre os
    lábios espumantes, atiradas ao Teles como pedradas.

    Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao
    Rodrigues, instintivamente, sem compreender bem o que ele queria
    dizer.

    –As provas…–e meteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com
    ímpeto:–as provas, vê-las aqui estão!

    Mostrou no ar a brochura verde do _Almanaque de Lembranças_.–Era do ano
    que vem, tinha-lhe chegado hoje. Ali estava o Peres do correio que lho
    tinha entregado ele mesmo.

    –Sou testemunha–confirmou do lado não sei quem.

    O Rodrigues, então, afirmou que era preciso historiar, contaria a coisa
    em duas palavras. O Sr. Teles, o borra-botas do Sr. Teles, lembrara-se
    um dia de ser escritor, de ser poeta. O alarve! Todos os anos–zás!
    versalhada para o _Lembranças_…

    –Era colaborador–disse o Antunes da Câmara que admirava o talento de
    Teles.–Era colaborador.

    –Era quê?–interrogou logo o Rodrigues, de mão atrás da
    orelha.–Maçador, maçador é que ele era. Nunca lhe admitiram as
    asneiras, se me faz favor, nunca! Na _correspondência_ troçavam-no,
    chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não
    chamava Deus para as letras. Aquele _Serei ousado_? é ele, sei que é
    ele. Nunca o admitiram.

    –Lembro-lhe a _Flor do Campo_, Sr. Rodrigues, lembro-lhe esses
    versos–insistiu o Antunes.

  • Os Lusíadas

    Os Lusíadas

    Aproximadamente 56.628 palavras.

    Luís Vaz de Camões
    Os Lusíadas

    Canto Primeiro

    1
    As armas e os barões assinalados,
    Que da ocidental praia Lusitana,
    Por mares nunca de antes navegados,
    Passaram ainda além da Taprobana,
    Em perigos e guerras esforçados,
    Mais do que prometia a força humana,
    E entre gente remota edificaram
    Novo Reino, que tanto sublimaram;

    2
    E também as memórias gloriosas
    Daqueles Reis, que foram dilatando
    A Fé, o Império, e as terras viciosas
    De África e de Ásia andaram devastando;
    E aqueles, que por obras valerosas
    Se vão da lei da morte libertando;
    Cantando espalharei por toda parte,
    Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

    3
    Cessem do sábio Grego e do Troiano
    As navegações grandes que fizeram;
    Cale-se de Alexandro e de Trajano
    A fama das vitórias que tiveram;
    Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
    A quem Neptuno e Marte obedeceram:
    Cesse tudo o que a Musa antígua canta,
    Que outro valor mais alto se alevanta.

    4
    E vós, Tágides minhas, pois criado
    Tendes em mim um novo engenho ardente,
    Se sempre em verso humilde celebrado
    Foi de mim vosso rio alegremente,
    Dai-me agora um som alto e sublimado,
    Um estilo grandíloquo e corrente,
    Porque de vossas águas, Febo ordene
    Que não tenham inveja às de Hipoerene.

    5
    Dai-me uma fúria grande e sonorosa,
    E não de agreste avena ou frauta ruda,
    Mas de tuba canora e belicosa,
    Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
    Dai-me igual canto aos feitos da famosa
    Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
    Que se espalhe e se cante no universo,
    Se tão sublime preço cabe em verso.

    6
    E vós, ó bem nascida segurança
    Da Lusitana antígua liberdade,
    E não menos certíssima esperança
    De aumento da pequena Cristandade;
    Vós, ó novo temor da Maura lança,
    Maravilha fatal da nossa idade,
    Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
    Para do mundo a Deus dar parte grande;

    7
    Vós, tenro e novo ramo florescente
    De uma árvore de Cristo mais amada
    Que nenhuma nascida no Ocidente,
    Cesárea ou Cristianíssima chamada;
    (Vede-o no vosso escudo, que presente
    Vos amostra a vitória já passada,
    Na qual vos deu por armas, e deixou
    As que Ele para si na Cruz tomou)

    8
    Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
    O Sol, logo em nascendo, vê primeiro;
    Vê-o também no meio do Hemisfério,
    E quando desce o deixa derradeiro;
    Vós, que esperamos jugo e vitupério
    Do torpe Ismaelita cavaleiro,
    Do Turco oriental, e do Gentio,
    Que inda bebe o licor do santo rio;

    9
    Inclinai por um pouco a majestade,
    Que nesse tenro gesto vos contemplo,
    Que já se mostra qual na inteira idade,
    Quando subindo ireis ao eterno templo;
    Os olhos da real benignidade
    Ponde no chão: vereis um novo exemplo
    De amor dos pátrios feitos valerosos,
    Em versos divulgado numerosos.

    10
    Vereis amor da pátria, não movido
    De prémio vil, mas alto e quase eterno:
    Que não é prémio vil ser conhecido
    Por um pregão do ninho meu paterno.
    Ouvi: vereis o nome engrandecido
    Daqueles de quem sois senhor superno,
    E julgareis qual é mais excelente,
    Se ser do mundo Rei, se de til gente.

    11
    Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
    Fantásticas, fingidas, mentirosas,
    Louvar os vossos, como nas estranhas
    Musas, de engrandecer-se desejosas:
    As verdadeiras vossas são tamanhas,
    Que excedem as sonhadas, fabulosas;
    Que excedem Rodamonte, e o vão Rugeiro,
    E Orlando, inda que fora verdadeiro,

    12
    Por estes vos darei um Nuno fero,
    Que fez ao Rei o ao Reino tal serviço,
    Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero
    A cítara para eles só cobiço.
    Pois pelos doze Pares dar-vos quero
    Os doze de Inglaterra, e o seu Magriço;
    Dou-vos também aquele ilustre Gama,
    Que para si de Eneias toma a fama.

    13
    Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
    Ou de César, quereis igual memória,
    Vede o primeiro Afonso, cuja lança
    Escura faz qualquer estranha glória;
    E aquele que a seu Reino a segurança
    Deixou com a grande e próspera vitória;
    Outro Joane, invicto cavaleiro,
    O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.

    14
    Nem deixarão meus versos esquecidos
    Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
    Fizeram, só por armas tão subidos,
    Vossa bandeira sempre vencedora:
    Um Pacheco fortíssimo, e os temidos
    Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
    Albuquerque terríbil, Castro forte,
    E outros em quem poder não teve a morte.

    15
    E enquanto eu estes canto, e a vós não posso,
    Sublime Rei, que não me atrevo a tanto,
    Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
    Dareis matéria a nunca ouvido canto.
    Comecem a sentir o peso grosso
    (Que pelo mundo todo faça espanto)
    De exércitos e feitos singulares,
    De África as terras, e do Oriente os marços,

    16
    Em vós os olhos tem o Mouro frio,
    Em quem vê seu exício afigurado;
    Só com vos ver o bárbaro Gentio
    Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
    Tethys todo o cerúleo senhorio
    Tem para vós por dote aparelhado;
    Que afeiçoada ao gesto belo e tenro,
    Deseja de comprar-vos para genro.

    17
    Em vós se vêm da olímpica morada
    Dos dois avós as almas cá famosas,
    Uma na paz angélica dourada,
    Outra pelas batalhas sanguinosas;
    Em vós esperam ver-se renovada
    Sua memória e obras valerosas;
    E lá vos tem lugar, no fim da idade,
    No templo da suprema Eternidade.

    18
    Mas enquanto este tempo passa lento
    De regerdes os povos, que o desejam,
    Dai vós favor ao novo atrevimento,
    Para que estes meus versos vossos sejam;
    E vereis ir cortando o salso argento
    Os vossos Argonautas, por que vejam
    Que são vistos de vós no mar irado,
    E costumai-vos já a ser invocado.

    19
    Já no largo Oceano navegavam,
    As inquietas ondas apartando;
    Os ventos brandamente respiravam,
    Das naus as velas côncavas inchando;
    Da branca escuma os mares se mostravam
    Cobertos, onde as proas vão cortando
    As marítimas águas consagradas,
    Que do gado de Próteo são cortadas

    20
    Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
    Onde o governo está da humana gente,
    Se ajuntam em concílio glorioso
    Sobre as cousas futuras do Oriente.
    Pisando o cristalino Céu formoso,
    Vêm pela Via-Láctea juntamente,
    Convocados da parte do Tonante,
    Pelo neto gentil do velho Atlante.

    21
    Deixam dos sete Céus o regimento,
    Que do poder mais alto lhe foi dado,
    Alto poder, que só co'o pensamento
    Governa o Céu, a Terra, e o Mar irado.
    Ali se acharam juntos num momento
    Os que habitam o Arcturo congelado,
    E os que o Austro tem, e as partes onde
    A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.

    22
    Estava o Padre ali sublime e dino,
    Que vibra os feros raios de Vulcano,
    Num assento de estrelas cristalino,
    Com gesto alto, severo e soberano.
    Do rosto respirava um ar divino,
    Que divino tornara um corpo humano;
    Com uma coroa e ceptro rutilante,
    De outra pedra mais clara que diamante.

    23
    Em luzentes assentos, marchetados
    De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
    Os outros Deuses todos assentados,
    Como a razão e a ordem concertavam:
    Precedem os antíguos mais honrados;
    Mais abaixo os menores se assentavam;
    Quando Júpiter alto, assim dizendo,
    C'um tom de voz começa, grave e horrendo:

    24
    "Eternos moradores do luzente
    Estelífero pólo, e claro assento,
    Se do grande valor da forte gente
    De Luso não perdeis o pensamento,
    Deveis de ter sabido claramente,
    Como é dos fados grandes certo intento,
    Que por ela se esqueçam os humanos
    De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.

    25
    "Já lhe foi (bem o vistes) concedido
    C'um poder tão singelo e tão pequeno,
    Tomar ao Mouro forte e guarnecido
    Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
    Pois contra o Castelhano tão temido,
    Sempre alcançou favor do Céu sereno.
    Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
    Teve os troféus pendentes da vitória.

    26
    "Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
    Que coa gente de Rómulo alcançaram,
    Quando com Viriato, na inimiga
    Guerra romana tanto se afamaram;
    Também deixo a memória, que os obriga
    A grande nome, quando alevantaram
    Um por seu capitão, que peregrino
    Fingiu na cerva espírito divino.

    27
    "Agora vedes bem que, cometendo
    O duvidoso mar num lenho leve,
    Por vias nunca usadas, não temendo
    De Áf rico e Noto a força, a mais se atreve:
    Que havendo tanto já que as partes vendo
    Onde o dia é comprido e onde breve,
    Inclinam seu propósito e porfia
    A ver os berços onde nasce o dia.

    28
    "Prometido lhe está do Fado eterno,
    Cuja alta Lei não pode ser quebrada,
    Que tenham longos tempos o governo
    Do mar, que vê do Sol a roxa entrada.
    Nas águas têm passado o duro inverno;
    A gente vem perdida e trabalhada;
    Já parece bem feito que lhe seja
    Mostrada a nova terra, que deseja.

    29
    "E porque, como vistes, têm passados
    Na viagem tão ásperos perigos,
    Tantos climas e céus experimentados,
    Tanto furor de ventos inimigos,
    Que sejam, determino, agasalhados
    Nesta costa africana, como amigos.
    E tendo guarnecida a lassa frota,
    Tornarão a seguir sua longa rota."

    30
    Estas palavras Júpiter dizia,
    Quando os Deuses por ordem respondendo,
    Na sentença um do outro diferia,
    Razões diversas dando e recebendo.
    O padre Baco ali não consentia
    No que Júpiter disse, conhecendo
    Que esquecerão seus feitos no Oriente,
    Se lá passar a Lusitana gente.

    31
    Ouvido tinha aos Fados que viria
    Uma gente fortíssima de Espanha
    Pelo mar alto, a qual sujeitaria
    Da índia tudo quanto Dóris banha,
    E com novas vitórias venceria
    A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
    Altamente lhe dói perder a glória,
    De que Nisa celebra inda a memória.

    32
    Vê que já teve o Indo sojugado,
    E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
    Por vencedor da Índia ser cantado
    De quantos bebem a água de Parnaso.
    Teme agora que seja sepultado
    Seu tão célebre nome em negro vaso
    D'água do esquecimento, se lá chegam
    Os fortes Portugueses, que navegam.

    33
    Sustentava contra ele Vénus bela,
    Afeiçoada à gente Lusitana,
    Por quantas qualidades via nela
    Da antiga tão amada sua Romana;
    Nos fortes corações, na grande estrela,
    Que mostraram na terra Tingitana,
    E na língua, na qual quando imagina,
    Com pouca corrupção crê que é a Latina.

    34
    Estas causas moviam Citereia,
    E mais, porque das Parcas claro entende
    Que há de ser celebrada a clara Deia,
    Onde a gente belígera se estende.
    Assim que, um pela infâmia, que arreceia,
    E o outro pelas honras, que pretende,
    Debatem, e na porfia permanecem;
    A qualquer seus amigos favorecem.

    35
    Qual Austro fero, ou Bóreas na espessura
    De silvestre arvoredo abastecida,
    Rompendo os ramos vão da mata escura,
    Com ímpeto e braveza desmedida;
    Brama toda a montanha, o som murmura,
    Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
    Tal andava o tumulto levantado,
    Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

    36
    Mas Marte, que da Deusa sustentava
    Entre todos as partes em porfia,
    Ou porque o amor antigo o obrigava,
    Ou porque a gente forte o merecia,
    De entre os Deuses em pé se levantava:
    Merencório no gesto parecia;
    O forte escudo ao colo pendurado
    Deitando para trás, medonho e irado,

    37
    A viseira do elmo de diamante
    Alevantando um pouco, mui seguro,
    Por dar seu parecer, se pôs diante
    De Júpiter, armado, forte e duro:
    E dando uma pancada penetrante,
    Com o conto do bastão no sólio puro,
    O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
    Um pouco a luz perdeu, como enfiado.

    38
    E disse assim: "Ó Padre, a cujo império
    Tudo aquilo obedece, que criaste,
    Se esta gente, que busca outro hemisfério,
    Cuja valia, e obras tanto amaste,
    Não queres que padeçam vitupério,
    Como há já tanto tempo que ordenaste,
    Não onças mais, pois és juiz direito,
    Razões de quem parece que é suspeito.

    39
    "Que, se aqui a razão se não mostrasse
    Vencida do temor demasiado,
    Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
    Pois que de Luso vem, seu tão privado;
    Mas esta tenção sua agora passe,
    Porque enfim vem de estâmago danado;
    Que nunca tirará alheia inveja
    O bem, que outrem merece, e o Céu deseja.

    40
    "E tu, Padre de grande fortaleza,
    Da determinação, que tens tomada,
    Não tornes por detrás, pois é fraqueza
    Desistir-se da cousa começada.
    Mercúrio, pois excede em ligeireza
    Ao vento leve, e à seta bem talhada,
    Lhe vá mostrar a terra, onde se informe
    Da índia, e onde a gente se reforme."

    41
    Como isto disse, o Padre poderoso,
    A cabeça inclinando, consentiu
    No que disse Mavorte valeroso,
    E néctar sobre todos esparziu.
    Pelo caminho Lácteo glorioso
    Logo cada um dos Deuses se partiu,
    Fazendo seus reais acatamentos,
    Para os determinados aposentos.

    42
    Enquanto isto se passa na formosa
    Casa etérea do Olimpo onipotente,
    Cortava o mar a gente belicosa,
    Já lá da banda do Austro e do Oriente,
    Entre a costa Etiópica e a famosa
    Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
    Queimava então os Deuses, que Tifeu
    Com o temor grande em peixes converteu.

    43
    Tão brandamente os ventos os levavam,
    Como quem o céu tinha por amigo:
    Sereno o ar, e os tempos se mostravam
    Sem nuvens, sem receio de perigo.
    O promontório Prasso já passavam,
    Na costa de Etiópia, nome antigo,
    Quando o mar descobrindo lhe mostrava
    Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

    44
    Vasco da Gama, o forte capitão,
    Que a tamanhas empresas se oferece,
    De soberbo e de altivo coração,
    A quem Fortuna sempre favorece,
    Para se aqui deter não vê razão,
    Que inabitada a terra lhe parece:
    Por diante passar determinava;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava.

    45
    Eis aparecem logo em companhia
    Uns pequenos batéis, que vêm daquela
    Que mais chegada à terra parecia,
    Cortando o longo mar com larga vela.
    A gente se alvoroça, e de alegria
    Não sabe mais que olhar a causa dela.
    Que gente será esta, em si diziam,
    Que costumes, que Lei, que Rei teriam?

    46
    As embarcações eram, na maneira,
    Mui veloces, estreitas e compridas:
    As velas, com que, vêm, eram de esteira
    Dumas folhas de palma, bem tecidas;
    A gente da cor era verdadeira,
    Que Faeton, nas terras acendidas,
    Ao mundo deu, de ousado, o não prudente:
    O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.

    47
    De panos de algodão vinham vestidos,
    De várias cores, brancos e listrados:
    Uns trazem derredor de si cingidos,
    Outros em modo airoso sobraçados:
    Da cinta para cima vêm despidos;
    Por armas têm adargas o terçados;
    Com toucas na cabeça; e navegando,
    Anafis sonoros vão tocando.

    48
    Co'os panos e co'os braços acenavam
    As gentes Lusitanas, que esperassem;
    Mas já as proas ligeiras se inclinavam
    Para que junto às ilhas amainassem.
    A gente e marinheiros trabalhavam,
    Como se aqui os trabalhos se acabassem;
    Tomam velas; amaina-se a verga alta;
    Da âncora, o mar ferido, em cima salta.

    49
    Não eram ancorados, quando a gente
    Estranha pelas cordas já subia.
    No gesto ledos vêm, e humanamente
    O Capitão sublime os recebia:
    As mesas manda pôr em continente;
    Do licor que Lieo prantado havia
    Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
    Os de Faeton queimados nada enjeitam.

    50
    Comendo alegremente perguntavam,
    Pela Arábica língua, donde vinham,
    Quem eram, de que terra, que buscavam,
    Ou que partes do mar corrido tinham?
    Os fortes Lusitanos lhe tornavam
    As discretas respostas, que convinham:
    "Os Portugueses somos do Ocidente,
    Imos buscando as terras do Oriente.

    51
    "Do mar temos corrido e navegado
    Toda a parte do Antártico e Calisto,
    Toda a costa Africana rodeado,
    Diversos céus e terras temos visto;
    Dum Rei potente somos, tão amado,
    Tão querido de todos, e benquisto,
    Que não no largo mar, com leda fronte,
    Mas no lago entraremos de Aqueronte.

    52
    "E por mandado seu, buscando andamos
    A terra Oriental que o Indo rega;
    Por ele, o mar remoto navegamos,
    Que só dos feios focas se navega.
    Mas já razão parece que saibamos,
    Se entre vós a verdade não se nega,
    Quem sois, que terra é esta que habitais,
    Ou se tendes da Índia alguns sinais?"

    53
    "Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
    Estrangeiros na terra, Lei e nação;
    Que os próprios são aqueles, que criou
    A natura sem Lei e sem razão.
    Nós temos a Lei certa, que ensinou
    O claro descendente de Abraão
    Que agora tem do mundo o senhorio,
    A mãe Hebréia teve, e o pai Gentio.
    Informações. A Ilha de Moçambique.

    54
    "Esta ilha pequena, que habitamos,
    em toda esta terra certa escala
    De todos os que as ondas navegamos
    De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
    E, por ser necessária, procuramos,
    Como próprios da terra, de habitá-la;
    E por que tudo enfim vos notifique,
    Chama-se a pequena ilha Moçambique.

    55
    "E já que de tão longe navegais,
    Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
    Piloto aqui tereis, por quem sejais
    Guiados pelas ondas sabiamente.
    Também será bem feito que tenhais
    Da terra algum refresco, e que o Regente
    Que esta terra governa, que vos veja,
    E do mais necessário vos proveja."

    56
    Isto dizendo, o Mouro se tornou
    A seus batéis com toda a companhia;
    Do Capitão e gente se apartou
    Com mostras de devida cortesia.
    Nisto Febo nas águas encerrou,
    Co'o carro de cristal, o claro dia,
    Dando cargo à irmã, que alumiasse
    O largo mundo, enquanto repousasse.

    57
    A noite se passou na lassa frota
    Com estranha alegria, e não cuidada,
    Por acharem da terra tão remota
    Nova de tanto tempo desejada.
    Qualquer então consigo cuida e nota
    Na gente e na maneira desusada,
    E como os que na errada Seita creram,
    Tanto por todo o mundo se estenderam,

    58
    Da Lua os claros raios rutilavam
    Pelas argênteas ondas Neptuninas,
    As estrelas os Céus acompanhavam,
    Qual campo revestido de boninas;
    Os furiosos ventos repousavam
    Pelas covas escuras peregrinas;
    Porém da armada a gente vigiava,
    Como por longo tempo costumava.

    59
    Mas assim como a Aurora marchetada
    Os formosos cabelos espalhou
    No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
    Ao claro Hiperiónio, que acordou,
    Começa a embandeirar-se toda a armada,
    E de toldos alegres se adornou,
    Por receber com festas e alegria
    O Regedor das ilhas, que partia.

    60
    Partia alegremente navegando,
    A ver as naus ligeiras Lusitanas,
    Com refresco da terra, em si cuidando
    Que são aquelas gentes inumanas,
    Que, os aposentos cáspios habitando,
    A conquistar as terras Asianas
    Vieram; e por ordem do Destino,
    O Império tomaram a Constantino.

    61
    Recebe o Capitão alegremente
    O Mouro, e toda a sua companhia;
    Dá-lhe de ricas peças um presente,
    Que só para este efeito já trazia;
    Dá-lhe conserva doce, e dá-lhe o ardente
    Não usado licor, que dá alegria.
    Tudo o Mouro contente bem recebe;
    E muito mais contente come e bebe.

    62
    Está a gente marítima de Luso
    Subida pela enxárcia, de admirada,
    Notando o estrangeiro modo e uso,
    E a linguagem tão bárbara e enleada.
    Também o Mouro astuto está confuso,
    Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
    E perguntando tudo, lhe dizia
    "Se por ventura vinham de Turquia?"

    63
    E mais lhe diz também, que ver deseja
    Os livros de sua Lei, preceito eu fé,
    Para ver se conforme à sua seja,
    Ou se são dos de Cristo, como Crê.
    E porque tudo note e tudo veja,
    Ao Capitão pedia que lhe dê
    Mostra das fortes armas de que usavam,
    Quando co'os inimigos pelejavam.

    64
    Responde o valeroso Capitão
    Por um, que a língua escura bem sabia:
    "Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
    De mim, da Lei, das armas que trazia.
    Nem sou da terra, nem da geração
    Das gentes enojosas de Turquia:
    Mas sou da forte Europa belicosa,
    Busco as terras da índia tão famosa.

    65
    A lei tenho daquele, a cujo império
    Obedece o visíbil e ínvisíbil
    Aquele que criou todo o Hemisfério,
    Tudo o que sente, o todo o insensíbil;
    Que padeceu desonra e vitupério,
    Sofrendo morte injusta e insofríbil,
    E que do Céu à Terra, enfim desceu,
    Por subir os mortais da Terra ao Céu.

    66
    Deste Deus-Homem, alto e infinito,
    Os livros, que tu pedes não trazia,
    Que bem posso escusar trazer escrito
    Em papel o que na alma andar devia.
    Se as armas queres ver, como tens dito,
    Cumprido esse desejo te seria;
    Como amigo as verás; porque eu me obrigo,
    Que nunca as queiras ver como inimigo."

    67
    Isto dizendo, manda os diligentes
    Ministros amostrar as armaduras:
    Vêm arneses, e peitos reluzentes,
    Malhas finas, e lâminas seguras,
    Escudos de pinturas diferentes,
    Pelouros, espingardas de aço puras,
    Arcos, e sagitíferas aljavas,
    Partazanas agudas, chuças bravas:

    68
    As bombas vêm de fogo, e juntamente
    As panelas sulfúreas, tão danosas;
    Porém aos de Vulcano não consente
    Que dêem fogo às bombardas temerosas;
    Porque o generoso ânimo e valente,
    Entre gentes tão poucas e medrosas,
    Não mostra quanto pode, e com razão,
    Que é fraqueza entre ovelhas ser leão.

    69
    Porém disto, que o Mouro aqui notou,
    E de tudo o que viu com olho atento
    Um ódio certo na alma lhe ficou,
    Uma vontade má de pensamento.
    Nas mostras e no gesto o não mostrou;
    Mas com risonho e ledo fingimento
    Tratá-los brandamente determina,
    Até que mostrar possa o que imagina.

    70
    Pilotos lhe pedia o Capitão,
    Por quem pudesse à Índia ser levado;
    Diz-lhe que o largo prémio levarão
    Do trabalho que nisso for tomado.
    Promete-lhos o Mouro, com tenção
    De peito venenoso, e tão danado,
    Que a morte, se pudesse, neste dia,
    Em lugar de pilotos lhe daria.

    71
    Tamanho o ódio foi, e a má vontade,
    Que aos estrangeiros súbito tomou,
    Sabendo ser sequazes da verdade,
    Que o Filho de David nos ensinou.
    ó segredos daquela Eternidade,
    A quem juízo algum nunca alcançou!
    Que nunca falte um pérfido inimigo
    Aqueles de quem foste tanto amigo!

    72
    Partiu-se Disto enfim coa companhia,
    Das naus o falso Mouro despedido,
    Com enganosa e grande cortesia,
    Com gesto ledo a todos, e fingido.
    Cortaram os batéis a curta via
    Das águas de Neptuno, e recebido
    Na terra do obsequente ajuntamento
    Se foi o Mouro ao cógnito aposento.

    73
    Do claro assento etóreo o grão Tebano,
    Que da paternal coxa foi nascido,
    Olhando o ajuntamento Lusitano
    Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
    No pensamento cuida um falso engano,
    Com que seja de todo destruído.
    E enquanto isto só na alma imaginava,
    Consigo estas palavras praticava:

    74
    "Está do fado já determinado,
    Que tamanhas vitórias, tão famosas,
    Hajam os Portugueses alcançado
    Das Indianas gentes belicosas.
    E eu só, filho do Padre sublimado,
    Com tantas qualidades generosas,
    Hei de sofrer que o fado favoreça
    Outrem, por quem meu nome se escureça?

    75
    "Já quiseram os Deuses que tivesse
    O filho de Filipo nesta parte
    Tanto poder, que tudo submetesse
    Debaixo de seu jugo o fero Marte.
    Mas há-se de sofrer que o fado desse
    A tão poucos tamanho esforço e arte,
    Que eu co'o grão Macedónio, e o Romano,
    Demos lugar ao nome Lusitano?

    76
    "Não será assim, porque antes que chegado
    Seja este Capitão, astutamente
    Lhe será tanto engano fabricados
    Que nunca veja as partes do Oriente.
    Eu descerei à Terra, e o indignado
    Peito revolverei da Maura gente;
    Porque sempre por via irá direita
    Quem do oportuno tempo se aproveita."

    77
    Isto dizendo, irado e quase insano,
    Sobre a terra africana descendeu,
    Onde vestindo a forma e gesto humano,
    Para o Prasso sabido se moveu.
    E por melhor tecer o astuto engano,
    No gesto natural se converteu
    Dum Mouro, em Moçambique conhecido
    Velho, sábio, e co'o Xeque mui valido.

    78
    E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
    A sua falsidade acomodadas,
    Lhe diz como eram gentes roubadoras,
    Estas que ora de novo são chegadas;
    Que das nações na costa moradoras
    Correndo a fama veio que roubadas
    Foram por estes homens que passavam,
    Que com pactos de paz sempre ancoravam.

    79
    E sabe mais, lhe diz, como entendido
    Tenho destes cristãos sanguinolentos,
    Que quase todo o mar têm destruído
    Com roubos, com incêndios violentos;
    E trazem já de longe engano urdido
    Contra nós; e que todos seus intentos
    São para nos matarem e roubarem,
    E mulheres e filhos cativarem.

    80
    "E também sei que tem determinado
    De vir por água a terra muito cedo
    O Capitão dos seus acompanhado,
    Que da tensão danada nasce o medo.
    Tu deves de ir também co'os teus armado
    Esperá-lo em cilada, oculto e quedo;
    Porque, saindo a gente descuidada,
    Cairão facilmente na cilada.

    81
    "E se inda não ficarem deste jeito
    Destruídos, ou mortos totalmente
    Eu tenho imaginado no conceito
    Outra manha e ardil, que te contente:
    Manda-lhe dar piloto, que de jeito
    Seja astuto no engano, e tão prudente,
    Que os leve aonde sejam destruídos,
    Desbaratados, mortos, ou perdidos."

    82
    Tanto que estas palavras acabou,
    O Mouro, nos tais casos sábio e velho,
    Os braços pelo colo lhe lançou,
    Agradecendo muito o tal conselho;
    E logo nesse instante concertou
    Para a guerra o belígero aparelho,
    Para que ao Português se lhe tornasse
    Em roxo sangue a água, que buscasse.

    83
    E busca mais, para o cuidado engano,
    Mouro, que por piloto à nau lhe mande,
    Sagaz, astuto, e sábio em todo o dano,
    De quem fiar-se possa um feito grande.
    Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
    Por tais costas e mares com ele ande,
    Que, se daqui escapar, que lá diante
    Vá cair onde nunca se alevante.

    84
    Já o raio Apolíneo visitava
    Os montes Nabatêos acendido,
    Quando o Gama, colos seus determinava
    De vir por água a terra apercebido.
    A gente nos batéis se concertava,
    Como se fosse o engano já sabido:
    Mas pode suspeitar-se facilmente,
    Que o coração pressago nunca mente.

    85
    E mais também mandado tinha a terra,
    De antes, pelo piloto necessário,
    E foi-lhe respondido em som de guerra,
    Caso do que cuidava mui contrário;
    Por isto, e porque sabe quanto erra
    Quem se crê de seu pérfido adversário,
    Apercebido vai como podia,
    Em três batéis somente que trazia.

    86
    Mas os Mouros que andavam pela praia,
    Por lhe defender a água desejada,
    Um de escudo embraçado e de azagaia,
    Outro de arco encurvado e seta ervada,
    Esperam que a guerreira gente saia,
    Outros muitos já postos em cilada.
    E, porque o caso leve se lhe faça,
    Põem uns poucos diante por negaça,

    87
    Andam pela ribeira alva, arenosa,
    Os belicosos Mouros acenando
    Com a adarga e co'a hástia perigosa,
    Os fortes Portugueses incitando.
    Não sofre muito a gente generosa
    Andar-lhe os cães os dentes amostrando.
    Qualquer em terra salta tão ligeiro,
    Que nenhum dizer pode que é primeiro.

    88
    Qual no corro sanguino o ledo amante,
    Vendo a formosa dama desejada,
    O touro busca, e pondo-se diante,
    Salta, corre, sibila, acena, e brada,
    Mas o animal atroce, nesse instante,
    Com a fronte cornígera inclinada,
    Bramando duro corre, e os olhos cerra,
    Derriba, fere e mata, e põe por terra:

    89
    Eis nos batéis o fogo se levanta
    Na furiosa e dura artilharia,
    A plúmbea péla mata, o brado espanta,
    Ferido o ar retumba e assovia:
    O coração dos Mouros se quebranta,
    O temor grande o sangue lhe resfria.
    Já foge o escondido de medroso,
    E morre o descoberto aventuroso.

    90
    Não se contenta a gente Portuguesa,
    Mas seguindo a vitória estrui e mata;
    A povoação, sem muro e sem defesa,
    Esbombardeia, acende e desbarata.
    Da cavalgada ao Mouro já lhe pesa,
    Que bem cuidou comprá-la mais barata;
    Já blasfema da guerra, e maldizia,
    O velho inerte, e a mãe que o filho cria.

    91
    Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
    Sem força, de covarde e de apressado,
    A pedra, o pau, e o canto arremessando;
    Dá-lhe armas o furor desatinado.
    Já a ilha e todo o mais desemparando,
    A terra firme foge amedrontado;
    Passa e corta do mar o estreito braço,
    Que a ilha em torno cerca, em pouco espaço

    92
    Uns vão nas almadias carregadas,
    Um corta o mar a nado diligente,
    Quem se afoga nas ondas encurvadas,
    Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
    Arrombam as miúdas bombardadas
    Os pangaios subtis da bruta gente:
    Desta arte o Português enfim castiga
    A vil malícia, pérfida, inimiga.

    93
    Tornam vitoriosos para a armada,
    Co'o despojo da guerra e rica presa,
    E vão a seu prazer fazer aguada,
    Sem achar resistência, nem defesa.
    Ficava a Maura gente magoada,
    No ódio antigo mais que nunca acesa;
    E vendo sem vingança tanto dano,
    Somente estriba no segundo engano.

    94
    Pazes cometer manda arrependido
    O Regedor daquela iníqua terra,
    Sem ser dos Lusitanos entendido,
    Que em figura de paz lhe manda guerra;
    Porque o piloto falso prometido,
    Que toda a má tenção no peito encerra,
    Para os guiar à morte lhe mandava,
    Como em sinal das pazes que tratava.

    95
    O Capitão, que já lhe então convinha
    Tornar a seu caminho acostumado,
    Que tempo concertado e ventos tinha
    Para ir buscar o Indo desejado,
    Recebendo o piloto, que lhe vinha,
    Foi dele alegremente agasalhado;
    E respondendo ao mensageiro a tento,
    As velas manda dar ao largo vento.

    96
    Desta arte despedida a forte armada,
    As ondas de Anfitrite dividia,
    Das filhas de Nereu acompanhada,
    Fiel, alegre e doce companhia.
    O Capitão, que não caía em nada
    Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
    Dele mui largamente se informava
    Da Índia toda, e costas que passava.

    97
    Mas o Mouro, instruído nos enganos
    Que o malévolo Baco lhe ensinara,
    De morte ou cativeiro novos danos,
    Antes que à Índia chegue, lhe prepara:
    Dando razões dos portos Indianos,
    Também tudo o que pede lhe declara,
    Que, havendo por verdade o que dizia,
    De nada a forte gente se temia.

    98
    E diz-lhe mais, com o falso pensamento
    Com que Sinon os Frígios enganou:
    Que perto está uma ilha, cujo assento
    Povo antigo cristão sempre habitou.
    O Capitão, que a tudo estava a tento,
    Tanto com estas novas se alegrou,
    Que com dádivas grandes lhe rogava,
    Que o leve à terra onde esta gente estava.

    99
    O mesmo o falso Mouro determina,
    Que o seguro Cristão lhe manda e pede;
    Que a ilha é possuída da malina
    Gente que segue o torpe Mahamede.
    Aqui o engano e morte lhe imagina,
    Porque em poder e forças muito excede
    A Moçambique esta ilha, que se chama
    Quíloa, mui conhecida pela fama.

    100
    Para lá se inclinava a leda frota;
    Mas a Deusa em Citere celebrada,
    Vendo como deixava a certa rota
    Por ir buscar a morte não cuidada,
    Não consente que em terra tão remota
    Se perca a gente dela tanto amada.
    E com ventos contrários a desvia
    Donde o piloto falso a leva e guia.

    101
    Mas o malvado Mouro, não podendo
    Tal determinação levar avante,
    Outra maldade iníqua cometendo,
    Ainda em seu propósito constante,
    Lhe diz que, pois as águas discorrendo
    Os levaram por força por diante,
    Que outra ilha tem perto, cuja gente
    Eram Cristãos com Mouros juntamente.

    102
    Também nestas palavras lhe mentia,
    Como por regimento enfim levava,
    Que aqui gente de Cristo não havia,
    Mas a que a Mahamede celebrava.
    O Capitão, que em tudo o Mouro cria,
    Virando as velas, a ilha demandava;
    Mas, não querendo a Deusa guardadora,
    Não entra pela barra, e surge fora.

    103
    Estava a ilha à terra tão chegada,
    Que um estreito pequeno a dividia;
    Uma cidade nela situada,
    Que na fronte do mar aparecia,
    De nobres edifícios fabricada,
    Como por fora ao longe descobria,
    Regida por um Rei de antiga idade:
    Mombaça é o nome da ilha e da cidade.

    104
    E sendo a ela o Capitão chegado,
    Estranhamente ledo, porque espera
    De poder ver o povo batizado,
    Como o falso piloto lhe dissera,
    Eis vêm batéis da terra com recado
    Do Rei, que já sabia a gente que era:
    Que Baco muito de antes o avisara,
    Na forma doutro Mouro, que tomara.

    105
    O recado que trazem é de amigos,
    Mas debaixo o veneno vem coberto;
    Que os pensamentos eram de inimigos,
    Segundo foi o engano descoberto.
    Ó grandes e gravíssimos perigos!
    Ó caminho de vida nunca certo:
    Que aonde a gente põe sua esperança,
    Tenha a vida tão pouca segurança!

    106
    No mar tanta tormenta, e tanto dano,
    Tantas vezes a morte apercebida!
    Na terra tanta guerra, tanto engano,
    Tanta necessidade avorrecida!
    Onde pode acolher-se um fraco humano,
    Onde terá segura a curta vida,
    Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
    Contra um bicho da terra tão pequeno?

    Canto Segundo

    1
    Já neste tempo o lúcido Planeta,
    Que as horas vai do dia distinguindo,
    Chegava à desejada e lenta meta,
    A luz celeste às gentes encobrindo,
    E da casa marítima secreta
    Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
    Quando as infidas gentes se chegaram
    As naus, que pouco havia que ancoraram.

    2
    Dentre eles um, que traz encomendado
    O mortífero engano, assim dizia:
    "Capitão valeroso, que cortado
    Tens de Neptuno o reino e salsa via,
    O Rei que manda esta ilha, alvoroçado
    Da vinda tua, tem tanta alegria,
    Que não deseja mais que agasalhar-te,
    Ver-te, e do necessário reformar-te.

    3
    "E porque está em extremo desejoso
    De te ver, como cousa nomeada,
    Te roga que, de nada receoso,
    Entres a barra, tu com toda armada:
    E porque do caminho trabalhoso
    Trarás a gente débil e cansada,
    Diz que na terra podes reformá-la,
    Que a natureza obriga a desejá-la.

    4
    "E se buscando vás mercadoria
    Que produze o aurífero Levante,
    Canela, cravo, ardente especiaria,
    Ou droga salutífera e prestante;
    Ou se queres luzente pedraria,
    O rubi fino, o rígido diamante,
    Daqui levarás tudo tão sobejo
    Com que faças o fim a teu desejo."

    5
    Ao mensageiro o Capitão responde
    As palavras do Rei agradecendo:
    E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
    Não entra para dentro, obedecendo;
    Porém que, como a luz mostrar por onde
    Vá sem perigo a frota, não temendo,
    Cumprirá sem receio seu mandado,
    Que a mais por tal senhor está obrigado.

    6
    Pergunta-lhe depois, se estão na terra
    Cristãos, como o piloto lhe dizia;
    O mensageiro astuto, que não erra,
    Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
    Desta sorte do peito lhe desterra
    Toda a suspeita e cauta fantasia;
    Por onde o Capitão seguramente
    Se fia da infiel e falsa gente.

    7
    E de alguns que trazia condenados
    Por culpas e por feitos vergonhosos,
    Por que pudessem ser aventurados
    Em casos desta sorte duvidosos,
    Manda dous mais sagazes, ensaiados,
    Por que notem dos Mouros enganosos
    A cidade e poder, e por que vejam
    Os Cristãos, que só tanto ver desejam.

    8
    E por estes ao Rei presentes manda,
    Por que a boa vontade, que mostrava,
    Tenha firme, segura, limpa e branda;
    A qual bem ao contrário em tudo estava.
    Já a companhia pérfida e nefanda
    Das naus se despedia e o mar cortava:
    Foram com gestos ledos e fingidos,
    Os dous da frota em terra recebidos.

    9
    E depois que ao Rei apresentaram,
    Co'o recado, os presentes que traziam,
    A cidade correram, e notaram
    Muito menos daquilo que queriam;
    Que os Mouros cautelosos se guardaras
    De lhes mostrarem tudo o que pediam:
    Que onde reina a malícia, está o receio,
    Que a faz imaginar no peito alheio.

    10
    Mas aquele que sempre a mocidade
    Tem no rosto perpétua, e foi nascido
    De duas mães, que urdia a falsidade
    Por ver o navegante destruído,
    Estava numa casa da cidade,
    Com rosto humano e hábito fingido,
    Mostrando-se Cristão, e fabricava
    Um altar sumptuoso, que adorava.

    11
    Ali tinha em retrato afigurada
    Do alto e Santo Espírito a pintura:
    A cândida pombinha debuxada
    Sobre a única Fénix, Virgem pura;
    A companhia santa está pintada
    Dos doze, tão torvados na figura,
    Como os que, só das línguas que caíram,
    De fogo, várias línguas referiram.

    12
    Aqui os dous companheiros conduzidos
    Onde com este engano Baco estava,
    Põem em terra os giolhos, e os sentidos
    Naquele Deus que o mundo governava.
    Os cheiros excelentes, produzidos
    Na Pancaia odorífera, queimava
    O Tioneu, e assim por derradeiro
    O falso Deus adora o verdadeiro.

    13
    Aqui foram de noite agasalhados,
    Com todo o bom e honesto tratamento,
    Os dous Cristãos, não vendo que enganados
    Os tinha o falso e santo fingimento.
    Mas assim como os raios espalhados
    Do Sol foram no mundo, e num momento
    Apareceu no rúbido horizonte
    Da moça de Titão a roxa fronte,

    14
    Tornam da terra os Mouros co'o recado
    Do Rei, para que entrassem, e consigo
    Os dous que o Capitão tinha mandado,
    A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
    E sendo o Português certificado
    De não haver receio de perigo,
    E que gente de Cristo em terra havia,
    Dentro no salso rio entrar queria.

    15
    Dizem-lhe os que mandou, que em terra
    Sacras aras e sacerdote sinto; viram
    Que ali se agasalharam o dormiram,
    Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
    E que no Rei e gentes não sentiram
    Senão contentamento e gosto tanto,
    Que não podia certo haver suspeita
    Numa mostra tão clara e tão perfeita.

    16
    Com isto o nobre Gama recebia
    Alegremente os Mouros que subiam;
    Que levemente um ânimo se fia
    De mostras, que tão certas pareciam.
    A nau da gente pérfida se enchia,
    Deixando a bordo os barcos que traziam.
    Alegres vinham todos, porque crêm
    Que a presa desejada certa têm.

    17
    Na terra, cautamente aparelhavam
    Armas e munições que, como vissem
    Que no rio os navios ancoravam,
    Neles ousadamente se subissem;
    E, nesta treição determinavam
    Que os de Luso de todo destruíssem,
    E que incautos pagassem deste jeito
    O mal que em Moçambique tinham feito.

    18
    As âncoras tenaces vão levando
    Com a náutica grita costumada;
    Da proa as velas sós ao vento dando
    Inclinam para a barra abalizada.
    Mas a linda Ericina, que guardando
    Andava sempre a gente assinalada,
    Vendo a cilada grande, e tão secreta,
    Voa do Céu ao mar como uma seta.

    19
    Convoca as alvas filhas de Nereu,
    Com toda a mais cerúlea companhia,
    Que, porque no salgado mar nasceu,
    Das águas o poder lhe obedecia.
    E propondo-lhe a causa a que desceu,
    Com todas juntamente se partia,
    Para estorvar que a armada não chegasse
    Aonde para sempre se acabasse.

    20
    Já na água erguendo vão, com grande pressa,
    Com as argênteas caudas branca escuma;
    Cloto eo'o peito corta e atravessa
    Com mais furor o mar do que costuma.
    Salta Nise, Nerine se arremessa
    Por cima da água crespa, em força suma.
    Abrem caminho as ondas encurvadas
    De temor das Nereidas apressadas.

    21
    Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
    Vai a linda Dione furiosa;
    Não sente quem a leva o doce peso,
    De soberbo com carga tão formosa.
    Já chegam perto donde o vento teso
    Enche as velas da frota belicosa;
    Repartem-se e rodeiam nesse instante
    As naus ligeiras, que iam por diante.

    22
    Põe-se a Deusa com outras em direito
    Da proa capitaina, e ali fechando
    O caminho da barra, estão de jeito,
    Que em vão assopra o vento, a vela inchando.
    Põem no madeiro duro o brando peito,
    Para detrás a forte nau forçando;
    Outras em derredor levando-a estavam,
    E da barra inimiga a desviavam.

    23
    Quais para a cova as próvidas formigas,
    Levando o peso grande acomodado,
    As forças exercitam, de inimigas
    Do inimigo inverno congelado;
    Ali são seus trabalhos e fadigas,
    Ali mostram vigor nunca esperado:
    Tais andavam as Ninfas estorvando
    A gente Portuguesa o fim nefando.

    24
    Torna para detrás a nau forçada,
    Apesar dos que leva, que gritando
    Mareiam velas; ferve a gente irada,
    O leme a um bordo e a outro atravessando;
    O mestre astuto em vão da popa brada,
    Vendo como diante ameaçando
    Os estava um marítimo penedo,
    Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

    25
    A celeuma medonha se alevanta
    No rudo marinheiro que trabalha;
    O grande estrondo a Maura gente espanta,
    Como se vissem hórrida batalha;
    Não sabem a razão de fúria tanta,
    Não sabem nesta pressa quem lhe valha;
    Cuidam que seus enganos são sabidos,
    E que hão de ser por isso aqui punidos.

    26
    Ei-los subitamente se lançavam
    A seus batéis velozes que traziam;
    Outros em cima o mar alevantavam,
    Saltando n'água, a nado se acolhiam;
    De um bordo e doutro súbito saltavam,
    Que o medo os compelia do que viam;
    Que antes querem ao mar aventurar-se
    Que nas mãos inimigas entregar-se.

    27
    Assim como em selvática alagoa
    As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
    Se sentem por ventura vir pessoa,
    Estando fora da água incautamente,
    Daqui e dali saltando, o charco soa,
    Por fugir do perigo que se sente,
    E acolhendo-se ao couto que conhecem,
    Sós as cabeças na água lhe aparecem:

    28
    Assim fogem os Mouros; e o piloto,
    Que ao perigo grande as naus guiara,
    Crendo que seu engano estava noto,
    Também foge, saltando na água amara.
    Mas, por não darem no penedo imoto,
    Onde percam a vida doce e cara,
    A âncora solta logo a capitaina,
    Qualquer das outras junto dela amaina.

    29
    Vendo o Gama, atentado, a estranheza
    Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
    O piloto fugir-lhe com presteza,
    Entende o que ordenava a bruta gente;
    E vendo, sem contraste e sem braveza
    Dos ventos, ou das águas sem corrente,
    Que a nau passar avante não podia,
    Havendo-o por milagre, assim dizia:

    30
    "Ó caso grande, estranho e não cuidado,
    Ó milagre claríssimo e evidente,
    Ó descoberto engano inopinado,
    Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
    Quem poderá do mal aparelhado
    Livrar-se sem perigo sabiamente,
    Se lá de cima a Guarda soberana
    Não acudir à fraca força humana?

    31
    "Bem nos mostra a divina Providência
    Destes portos a pouca segurança;
    Bem claro temos visto na aparência,
    Que era enganada a nossa confiança.
    Mas pois saber humano nem prudência
    Enganos tão fingidos não alcança,
    Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
    De quem sem ti não pode ser guardado!

    32
    "E se te move tanto a piedade
    Desta mísera gente peregrina,
    Que só por tua altíssima bondade,
    Da gente a salvas pérfida e malina,
    Nalgum porto seguro de verdade
    Conduzir-nos já agora determina,
    Ou nos amostra a terra que buscamos,
    Pois só por teu serviço navegamos."

    33
    Ouviu-lhe essas palavras piedosas
    A formosa Dione, e comovida,
    Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
    Ficaram desta súbita partida.
    Já penetra as Estrelas luminosas,
    Já na terceira Esfera recebida
    Avante passa, e lá no sexto Céu,
    Para onde estava o Padre, se moveu.

    34
    E como ia afrontada do caminho,
    Tão formosa no gesto se mostrava,
    Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho,
    E tudo quanto a via namorava.
    Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
    Uns espíritos vivos inspirava,
    Com que os Pólos gelados acendia,
    E tornava do Fogo a esfera fria.

    35
    E por mais namorar o soberano
    Padre, de quem foi sempre amada e eriça,
    Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
    Na selva Idea, já se apresentara.
    Se a vira o caçador, que o vulto humano
    Perdeu, vendo Diana na água clara,
    Nunca os famintos galgos o mataram,
    Que primeiro desejos o acabaram.

    36
    Os crespos fios d'ouro se esparziam
    Pelo colo, que a neve escurecia;
    Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
    Com quem Amor brincava, e não se via;
    Da alva petrina flamas lhe saíam,
    Onde o Menino as almas acendia;
    Pelas lisas colunas lhe trepavam
    Desejos, que como hera se enrolavam.

    37
    C'um delgado sendal as partes cobre,
    De quem vergonha é natural reparo,
    Porém nem tudo esconde, nem descobre,
    O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
    Mas, para que o desejo acenda o dobre,
    Lhe põe diante aquele objeto raro.
    Já se sentem no Céu, por toda a parte,
    Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

    38
    E mostrando no angélico semblante
    Co'o riso uma tristeza misturada,
    Como dama que foi do incauto amante
    Em brincos amorosos mal tratada,
    Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
    E se torna entre alegre magoada,
    Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
    Mais mimosa que triste ao Padre fala:

    39
    "Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
    Que, para as cousas que eu do peito amasse,
    Te achasse brando, afábil e amoroso,
    Posto que a algum contrário lhe pesasse;
    Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
    Sem que to merecesse, nem te errasse,
    Faça-se como Baco determina;
    Assentarei enfim que fui mofina.

    40
    "Este povo que é meu, por quem derramo
    As lágrimas que em vão caídas vejo,
    Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
    Sendo tu tanto contra meu desejo!
    Por ele a ti rogando choro e bramo,
    E contra minha dita enfim pelejo.
    Ora pois, porque o amo é mal tratado,
    Quero-lhe querer mal, será guardado.

    41
    "Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
    Que pois eu fui…" E nisto, de mimosa,
    O rosto banha em lágrimas ardentes,
    Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
    Calada um pouco, como se entre os dentes
    Se lhe impedira a fala piedosa,
    Torna a segui-la; e indo por diante,
    Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

    42
    E destas brandas mostras comovido,
    Que moveram de um tigre o peito duro,
    Co'o vulto alegre, qual do Céu subido,
    Torna sereno e claro o ar escuro,
    As lágrimas lhe alimpa, e acendido
    Na face a beija, e abraça o colo puro;
    De modo que dali, se só se achara,
    Outro novo Cupido se gerara.

    43
    E co'o seu apertando o rosto amado,
    Que os soluços e lágrimas aumenta,
    Como menino da ama castigado,
    Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
    Por lhe pôr em sossego o peito irado,
    Muitos casos futuros lhe apresenta.
    Dos fados as entranhas revolvendo,
    Desta maneira enfim lhe está dizendo:

    44
    "Formosa filha minha, não temais
    Perigo algum nos vossos Lusitanos,
    Nem que ninguém comigo possa mais,
    Que esses chorosos olhos soberanos;
    Que eu vos prometo, filha, que vejais
    Esquecerem-se Gregos e Romanos,
    Pelos ilustres feitos que esta gente
    Há-de fazer nas partes do Oriente.

    45
    "Que se o facundo Ulisses escapou
    De ser na Ogígia ilha eterno escravo,
    E se Antenor os seios penetrou
    Ilíricos e a fonte de Timavo;
    E se o piedoso Eneias navegou
    De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
    Os vossos, mores cousas atentando,
    Novos mundos ao mundo irão mostrando.

    46
    "Fortalezas, cidades e altos muros,
    Por eles vereis, filha, edificados;
    Os Turcos belacíssimos e duros,
    Deles sempre vereis desbaratados.
    Os Reis da índia, livres e seguros,
    Vereis ao Rei potente sojugados;
    E por eles, de tudo enfim senhores,
    Serão dadas na terra leis melhores.

    47
    "Vereis este, que agora pressuroso
    Por tantos medos o Indo vai buscando,
    Tremer dele Neptuno, de medroso
    Sem vento suas águas encrespando.
    Ó caso nunca visto e milagroso,
    Que trema e ferva o mar, em calma estando!
    Ó gente forte e de altos pensamentos,
    Que também dela hão medo os Elementos!

    48
    "Vereis a terra, que a água lhe tolhia,
    Que inda há-de ser um porto mui decente,
    Em que vão descansar da longa via
    As naus que navegarem do Ocidente.
    Toda esta costa enfim, que agora urdia
    O mortífero engano, obediente
    Lhe pagará tributos, conhecendo
    Não poder resistir ao Luso horrendo.

    49
    "E vereis o mar Roxo, tão famoso,
    Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
    Vereis de Ormuz o Reino poderoso
    Duas vezes tomado e sojugado.
    Ali vereis o Mouro furioso
    De suas mesmas setas traspassado:
    Que quem vai contra os vossos, claro veja
    Que, se resiste, contra si peleja.

    50
    "Vereis a inexpugnábil Dio forte,
    Que dous cercos terá, dos vossos sendo.
    Ali se mostrará seu preço e sorte,
    Feitos de armas grandíssimos fazendo.
    Invejoso vereis o grão Mavorte
    Do peito Lusitano fero e horrendo:
    Do Mouro ali verão que a voz extrema
    Do falso Mahamede ao Céu blasfema.

    51
    "Goa vereis aos Mouros ser tomada,
    A qual virá depois a ser senhora
    De todo o Oriente, e sublimada
    Co'os triunfos da gente vencedora.
    Ali soberba, altiva, e exalçada,
    Ao Gentio, que os ídolos adora,
    Duro freio porá, e a toda a terra
    Que cuidar de fazer aos vossos guerra.

    52
    "Vereis a fortaleza sustentar-se
    De Cananor, com pouca força e gente;
    E vereis Calecu desbaratar-se,
    Cidade populosa e tão potente:
    E vereis em Cochim assinalar-se
    Tanto um peito soberbo e insolente,
    Que cítara jamais cantou vitória,
    Que assim mereça eterno nome e glória.

    53
    "Nunca com Marte instructo e furioso,
    Se viu ferver Leucate, quando Augusto
    Nas civis Actias guerras animoso,
    O Capitão venceu Romano injusto,
    Que dos povos da Aurora, e do famoso
    Nilo, e do Bactra Cítico e robusto
    A vitória trazia, e presa rica,
    Preso na Egípcia linda e nego pudica.

    54
    Como vereis o mar fervendo aceso
    Colos incêndios dos vossos pelejando,
    Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
    De nações diferentes triunfando.
    E sujeita a rica Áurea Quersoneso,
    Até ao longínquo China navegando,
    E as ilhas mais remotas do Oriente,
    Ser-lhe-á todo o Oceano obediente.

    55
    "De modo, filha minha, que de jeito
    Amostrarão esforço mais que humano,
    Que nunca se verá tão forte peito,
    Do Gangético mar ao Gaditano,
    Nem das Boreais ondas ao Estreito,
    Que mostrou o agravado Lusitano,
    Posto que em todo o mundo, de afrontados,
    Ressuscitassem todos os passados."

    56
    Como isto disse, manda o consagrado
    Filho de Maia à Terra, por que tenha
    Um pacífico porto o sossegado,
    Para onde sem receio a frota venha;
    F, para que em Mombaça, aventurado,
    O forte Capitão se não detenha,
    Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
    A terra, onde quieto repousasse.

    57
    Já pelo ar o Cileneu voava;
    Com as asas nos pés à Terra desce;
    Sua vara fatal na mão levava,
    Com que os olhos cansados adormece:
    Com esta, as tristes almas revocava
    Do Inferno, e o vento lhe obedece.
    Na cabeça o galero costumado.
    E desta arte a Melinde foi chegado.

    58
    Consigo a Fama leva, por que diga
    Do Lusitano o preço grande e raro,
    Que o nome ilustre a um certo amor obriga
    E faz, a quem o tem, amado e caro.
    Desta arte vai fazendo a gente amiga,
    Co rumor famosíssimo, e perclaro.
    Já Melinde em desejos arde todo
    De ver da gente forte o gesto e modo.

    59
    Dali para Mombaça logo parte,
    Aonde as naus estavam temerosas,
    Para que à gente mande que se aparte
    Da barra amiga e terras suspeitosas:
    Porque mui pouco val esforço e arte,
    Contra infernais vontades enganosas;
    Pouco val coração, astúcia e siso,
    Se lá dos Céus não vem celeste aviso.

    60
    No feio caminho a noite tinha anelado,
    E, as estrelas no Céu, coa luz alhea,
    Tinham o largo Mundo alumiado;
    E só co'o sono a gente se recreia.
    O Capitão ilustre, já cansado
    De vigiar a noite que arreceia,
    Breve repouso então aos olhos dava,
    A outra gente a quartos vigiava;

    61
    Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece,
    Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
    Da cilada que o Rei malvado tece,
    Por te trazer ao fim, e extremo dano;
    Fuge, que o vento, e o Céu te favorece;
    Sereno o tempo tens e o Oceano,
    E outro Rei mais amigo, noutra parte,
    Onde podes seguro agasalhar-te.

    62
    "Não tens aqui senão aparelhado
    O hospício que o cru Diomedes dava,
    Fazendo ser manjar acostumado
    De cavalos a gente que hospedava;
    As aras de Busíris infamado,
    Onde os hóspedes tristes imolava,
    Terás certas aqui, se muito esperas.
    Fuge das gentes pérfidas e feras.

    63
    "Vai-te ao longo da costa discorrendo,
    E outra terra acharás de mais verdade,
    Lá quase junto donde o Sol ardendo
    Iguala o dia e noite em quantidade;
    Ali tua frota alegre recebendo
    Um Rei, com muitas obras de amizade,
    Gasalhado seguro te daria,
    E, para a índia, certa e sábia guia."

    64
    Isto Mercúrio disse, e o sono leva
    Ao Capitão, que com mui grande espanto
    Acorda, e vê ferida a escura treva
    De uma súbita luz e raio santo.
    E vendo claro quanto lhe releva
    Não se deter na terra iníqua tanto,
    Com novo espírito ao mestre seu mandava
    Que as velas desse ao vento que assopravam.

    65
    "Dai velas, disse, dai ao largo vento,
    Que o Céu nos favorece e Deus o manda;
    Que um mensageiro vi do claro assento
    Que só em favor de nossos passos anda."
    Alevanta-se nisto o movimento
    Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
    Levam gritando as âncoras acima,
    Mostrando a ruda força, que se estima.

    66
    Neste tempo, que as âncoras levavam,
    Na sombra escura os Mouros escondidos
    Mansamente as amarras lhe cortavam,
    Por serem, dando à costa, destruídos;
    Mas com vista de linces vigiavam
    Os Portugueses, sempre apercebidos.
    Eles, como acordados os sentiram,
    Voando, e não remando, lhe fugiram.

    67
    Mas já as agudas proas apartando
    Iam as vias húmidas de argento;
    Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
    Com suave e seguro movimento.
    Nos perigos passados vão falando,
    Que mal se perderão do pensamento
    Os casos grandes, donde em tanto aperto
    A vida em salvo escapa por acerto.

    68
    Tinha uma volta dado o Sol ardente
    E noutro começava, quando viram
    Ao longe deus navios, brandamente
    Co'os ventos navegando, que respiram:
    Porque haviam de ser da Maura gente,
    Para eles arribando, as velas viram:
    Um, de temor do mal que arreceava,
    Por se salvar a gente à costa dava.

    69
    Não é o outro que fica tão manhoso;
    Mas nas mãos vai cair do Lusitano,
    Sem o rigor de Marte furioso,
    E sem a fúria horrenda de Vulcano;
    Que como fosse débil e medroso
    Da pouca gente o fraco peito humano,
    Não teve resistência; e se a tivera,
    Mais dano resistindo recebera.

    70
    E como o Gama muito desejasse
    Piloto para a Índia que buscava,
    Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
    Mas não lhe sucedeu como cuidava,
    Que nenhum deles há que lhe ensinasse
    A que parte dos céus a Índia estava;
    Porém dizem-lhe todos, que tem perto
    Melinde, onde achará piloto certo.

    71
    Louvam do Rei os Mouros a bondade,
    Condição liberal, sincero peito,
    Magnificência grande e humanidade,
    Com partes de grandíssimo respeito.
    O Capitão o assela por verdade,
    Porque já lhe dissera, deste jeito,
    Cileneu em sonhos; e partia
    Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.

    72
    Era no tempo alegre, quando entrava
    No roubador de Europa a luz Febeia,
    Quando um e outro corno lhe aquentava,
    E Flora derramava o de Amalteia:
    A memória do dia renovava
    O pressuroso Sol, que o Céu rodeia,
    Em que Aquele, a quem tudo está sujeito,
    O selo pôs a quanto tinha feito;

    73
    Quando chegava a frota àquela parte,
    Onde o Reino Melinde já se via,
    De toldos adornada, e leda de arte
    Que bem mostra estimar o santo dia.
    Treme a bandeira, voa o estandarte,
    A cor purpúrea ao longe aparecia;
    Soam os atambores o pandeiros,
    E assim entravam ledos e guerreiros.

    74
    Enche-se toda a praia Melindana
    Da gente que vem ver a leda armada,
    Gente mais verdadeira, e mais humana,
    Que toda a doutra terra atrás deixada.
    Surge diante a frota Lusitana,
    Pega no fundo a âncora pesada;
    Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
    Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.

    75
    O Rei, que já sabia da nobreza
    Que tanto os Portugueses engrandece,
    Tomarem o seu porto tanto preza,
    Quanto a gente fortíssima merece:
    E com verdadeiro ânimo e pureza,
    Que os peitos generosos enobrece,
    Lhe manda rogar muito que saíssem,
    Para que de seus reinos se servissem.

    76
    São oferecimentos verdadeiros,
    E palavras sinceras, não dobradas,
    As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
    Que tanto mar e terras tem passadas.
    Manda-lhe mais lanígeros carneiros,
    E galinhas domésticas cevadas,
    Com as frutas, que então na terra havia;
    E a vontade à dádiva excedia.

    77
    Recebe o Capitão alegremente
    O mensageiro ledo e seu recado;
    E logo manda ao Rei outro presente,
    Que de longe trazia aparelhado:
    Escarlata purpúrea, cor ardente,
    O ramoso coral, fino e prezado,
    Que debaixo das águas mole cresce,
    E como é fora delas se endurece.

    78
    Manda mais um, na prática elegante,
    Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
    E que de não sair naquele instante
    De suas naus em terra o desculpasse.
    Partido assim o embaixador prestante,
    Como na terra ao Rei se apresentasse,
    Com estilo que Palas lhe ensinava,
    Estas palavras tais falando orava:

    79
    "Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
    Foi da suma Justiça concedido
    Refrear o soberbo povo duro,
    Não menos dele amado, que temido:
    Como porto mui forte e mui seguro,
    De todo o Oriente conhecido,
    Te vimos a buscar, para que achemos
    Em ti o remédio certo que queremos.

    80
    "Não somos roubadores, que passando
    Pelas fracas cidades descuidadas,
    A ferro e a fogo as gentes vão matando,
    Por roubar-lhe as fazendas cobiçadas;
    Mas da soberba Europa navegando,
    Imos buscando as terras apartadas
    Da Índia grande e rica, por mandado
    De um Rei que temos, alto e sublimado.

    81
    "Que geração tão dura há hi de gente,
    Que bárbaro costume e usança feia,
    Que não vedem os portos tão somente,
    Mas inda o hospício da deserta areia?
    Que má tenção, que peito em nós se sente,
    Que de tão pouca gente se arreceia?
    Que com laços armados, tão fingidos,
    Nos ordenassem ver-nos destruídos?

    82
    "Mas tu, e quem mui certo confiamos
    Achar-se mais verdade, ó Rei benigno,
    E aquela certa ajuda em ti esperamos,
    Que teve o perdido Ítaco em Alcino,
    A teu porto seguro navegamos,
    Conduzidos do intérprete divino;
    Que, pois a ti nos manda, está mui claro,
    Que és de peito sincero, humano e raro.

    83
    "E não cuides, ó Rei, que não saísse
    O nosso Capitão esclarecido
    A ver-te, ou a servir-te, porque visse
    Ou suspeitasse em ti peito fingido:
    Mas saberás que o fez, porque cumprisse
    O regimento, em tudo obedecido,
    De seu Rei, que lhe manda que não saia,
    Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.

    84
    "E porque é, de vassalos o exercício,
    Que os membros tem regidos da cabeça,
    Não quererás, pois tens de Rei o ofício,
    Que ninguém a seu Rei desobedeça;
    Mas as mercês e o grande benefício,
    Que ora acha em ti, promete que conheça
    Em tudo aquilo que ele e os seus puderem,
    Enquanto os rios para o mar correrem."

    85
    Assim dizia; e todos juntamente,
    Uns com outros em prática falando,
    Louvavam muito o estâmago da gente,
    Que tantos céus e mares vai passando.
    E o Rei ilustre, o peito obediente
    Dos Portugueses na alma imaginando,
    Tinha por valor grande e mui subido
    O do Rei que é tão longe obedecido.

    86
    E com risonha vista e ledo aspeito,
    Responde ao embaixador, que tanto estima:
    "Toda a suspeita má tirai do peito,
    Nenhum frio temor em vós se imprima;
    Que vosso preço e obras são de jeito
    Para vos ter o mundo em muita estima;
    E quem vos fez molesto tratamento,
    Não pode ter subido pensamento.

    87
    "De não sair em terra toda a gente,
    Por observar a usada preminência,
    Ainda que me pese estranhamente,
    Em muito tenho a muita obediência;
    Mas, se lho o regimento não consente,
    Nem eu consentirei que a excelência
    De peitos tão leais em si desfaça,
    Só porque a meu desejo satisfaça.

    88
    "Porém, como a luz crástina chegada
    Ao mundo for, em minhas almadias
    Eu irei visitar a forte armada,
    Que ver tanto desejo, há tantos dias;
    E se vier do mar desbaratada,
    Do furioso vento e longas vias,
    Aqui terá, de limpos pensamentos,
    Piloto, munições e mantimentos."

    89
    Isto disse; e nas águas se escondia
    O filho de Latona; e o mensageiro
    Coa embaixada alegre se partia
    Para a frota, no seu batel ligeiro.
    Enchem-se os peitos todos de alegria.
    Por terem o remédio verdadeiro
    Para acharem a terra que buscavam;
    E assim ledos a noite festejavam.

    90
    Não faltam ali os raios de artifício,
    Os trêmulos cometas imitando;
    Fazem os bombardeiros seu ofício,
    O céu, a terra e as ondas atroando.
    Mostra-se dos Ciclopas o exercício
    Nas bombas que de fogo estão queimando;
    Outros com vozes, com que o céu feriam,
    Instrumentos altíssonos tangiam.

    91
    Respondem-lhe da terra juntamente,
    Co'o raio volteando, com zunido;
    Anda em giros no ar a roda ardente,
    Estoura o pó sulfúreo escondido.
    A grita se alevanta ao céu, da gente;
    O mar se via em fogos acendido,
    E não menos a terra; e assim festeja
    Um ao outro, a maneira de peleja.

    92
    Mas já o Céu inquieto revolvendo,
    As gentes incitava a seu trabalho,
    E já a mãe de Menon a luz trazendo,
    Ao sono longo punha certo atalho;
    Iam-se as sombras lentas desfazendo,
    Sobre as flores da terra em frio orvalho,
    Quando o Rei Melindano se embarcava
    A ver a frota, que no mar estava.

    93
    Viam-se em derredor ferver as praias
    Da gente, que a ver só concorre leda;
    Luzem da fina púrpura as cabaias,
    Lustram os panos da tecida seda;
    Em lugar das guerreiras azagaias
    E do arco, que os cornos arremeda
    Da Lua, trazem ramos de palmeira,
    Dos que vencem, coroa verdadeira.

    94
    Um batel grande e largo, que toldado
    Vinha de sedas de diversas cores,
    Traz o Rei de Melinde, acompanhado
    De nobres e seu Reino e de senhores:
    Vem de ricos vestidos adornado,
    Segundo seus costumes e primores;
    Na cabeça uma fota guarnecida
    De ouro, e de seda e de algodão tecida.

    95
    Cabaia de Damasco rico e dino,
    Da Tíria cor, entre eles estimada,
    Um colar ao pescoço, de ouro fino,
    Onde a matéria da obra é superada,
    C'um resplendor reluze adamantino;
    Na cinta, a rica bem lavrada;
    Nas alparcas dos pés, em fim de tudo,
    Cobrem ouro e aljôfar ao veludo.

    96
    Com um redondo emparo alto de seda,
    Numa alta e dourada hástia enxerido,
    Um ministro à solar quentura veda.
    Que não ofenda e queime o Rei subido.
    Música traz na proa, estranha e leda,
    De áspero som, horríssono ao ouvido,
    De trombetas arcadas em redondo,
    Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.

    97
    Não menos guarnecido o Lusitano
    Nos seus batéis, da frota se partia
    A receber no mar o Melindano,
    Com lustrosa e lograda companhia.
    Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
    Mas Francesa era a roupa que vestia,
    De cetim da Adriática Veneza
    Carmesi, cor que a gente tanto preza:

    98
    De botões douro as mangas vêm tomadas,
    Onde o Sol reluzindo a vista cega;
    As calças soldadescas recamadas
    Do metal, que Fortuna a tantos nega,
    E com pontas do mesmo delicadas
    Os golpes do gibão ajunta e achega;
    Ao Itálico modo a áurea espada;
    Pluma na gorra, um pouco declinada.

    99
    Nos de sua companhia se mostrava
    Da tinta, que dá o múrice excelente,
    A vária cor, que os olhos alegrava,
    E a maneira do trajo diferente.
    Tal o formoso esmalte se notava
    Dos vestidos, olhados juntamente,
    Qual aparece o arco rutilante
    Da bela Ninfa, filha de Taumante.

    100
    Sonorosas trombetas incitavam
    Os ânimos alegres, ressoando;
    Dos Mouros os batéis, o mar coalhavam,
    Os toldos pelas águas arrojando;
    As bombardas horríssonas bramavam,
    Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
    Amiúdam-se os brados acendidos,
    Tapam com as mãos os Mouros os ouvidos.

    101
    Já no batel entrou do Capitão
    O Rei, que nos seus braços o levava;
    Ele coa cortesia, que a razão
    (Por ser Rei) requeria, lhe falava.
    C'umas mostras de espanto e admiração,
    O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
    Como quem em mui grande estima tinha
    Gente que de tão longe à índia vinha.

    102
    E com grandes palavras lhe oferece
    Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
    E que, se mantimento lhe falece,
    Como se próprio fosse, lho pedisse.
    Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
    A gente Lusitana, sem que a visse;
    Que já ouviu dizer, que noutra terra
    Com gente de sua Lei tivesse guerra.

    103
    E como por toda África se soa,
    Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
    Quando nela ganharam a coroa
    Do Reino, onde as Hespéridas viveram;
    E com muitas palavras apregoa
    O menos que os de Luso mereceram,
    E o mais que pela fama o Rei sabia.
    Mas desta sorte o Gama respondia:

    104
    "Ó tu, que só tiveste piedade,
    Rei benigno, da gente Lusitana,
    Que com tanta miséria e adversidade
    Dos mares experimenta a fúria insana;
    Aquela alta e divina Eternidade,
    Que o Céu revolve e rege a gente humana,
    Pois que de ti tais obras recebemos,
    Te pague o que nós outros não podemos.

    105
    "Tu só, de todos quantos queima Apolo,
    Nos recebes em paz, cio mar profundo;
    Em ti dos ventos hórridos de Eolo
    Refúgio achamos bom, fido e jocundo.
    Enquanto apascentar o largo Pólo
    As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
    Onde quer que eu viver, com fama e glória
    Viverão teus louvores em memória."

    106
    Isto dizendo, os barcos vão remando
    Para a frota, que o Mouro ver deseja;
    Vão as naus uma e uma rodeando,
    Porque de todas tudo note e veja.
    Mas para o céu Vulcano fuzilando,
    A frota coas bombardas o festeja,
    E as trombetas canoras lhe tangiam;
    Co'os anafis os Mouros respondiam.

    107
    Mas depois de ser tudo já notado
    Do generoso Mouro, que pasmava
    Ouvindo o instrumento inusitado,
    Que tamanho terror em si mostrava,
    Mandava estar quieto e ancorado
    N'água o batel ligeiro que os levava,
    Por falar de vagar co'o forte Gama,
    Nas cousas de que tem notícia e faina.

    108
    Em práticas o Mouro diferentes
    Se deleitava, perguntando agora
    Pelas guerras famosas e excelentes
    Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
    Agora lhe pergunta pelas gentes
    De toda a Hespéria última, onde mora;
    Agora pelos povos seus vizinhos,
    Agora pelos úmidos caminhos.

    109
    "Mas antes, valeroso Capitão,
    Nos conta, lhe dizia, diligente,
    Da terra tua o clima, e região
    Do mundo onde morais distintamente;
    E assim de vossa antiga geração,
    E o princípio do Reino tão potente,
    Co'os sucessos das guerras do começo,
    Que, sem sabê-las, sei que são de preço.

    110
    "E assim também nos conta dos rodeios
    Longos, em que te traz o mar irado,
    Vendo os costumes bárbaros alheios.
    Que a nossa África ruda tem criado.
    Conta: que agora vêm co'os áureos freios
    Os cavalos que o carro marchetado
    Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
    O vento dorme, o mar e as ondas jazem.

    111
    "E não menos co'o tempo se parece
    O desejo de ouvir-te o que contares;
    Que quem há, que por fama não conhece
    As obras Portuguesas singulares?
    Não tanto desviado resplandece
    De nós o claro Sol, para julgares
    Que os Melindanos têm tão rudo peito,
    Que não estimem muito um grande feito.

    112
    "Cometeram soberbos os Gigantes,
    Com guerra vã, o Olimpo claro e puro;
    Tentou Pirítoo e Teseu, de ignorantes,
    O Reino de Plutão horrendo e escuro.
    Se houve feitos no mundo tão possantes,
    Não menos é trabalho ilustre e duro,
    Quanto foi cometer Inferno o Céu,
    Que outrem cometa a fúria de Nereu.

    113
    "Queimou o sagrado templo de Diana,
    Do subtil Tesifónio fabricado,
    Heróstrato, por ser da gente humana
    Conhecido no mundo e nomeado:
    Se também com tais obras nos engana
    O desejo de um nome avantajado,
    Mais razão há que queira eterna glória
    Quem faz obras tão dignas de memória."

    Canto Terceiro

    1
    Agora tu, Calíope, me ensina
    O que contou ao Rei o ilustre Gama:
    Inspira imortal canto e voz divina
    Neste peito mortal, que tanto te ama.
    Assim o claro inventor da Medicina,
    De quem Orfeu pariste, ó linda Dama,
    Nunca por Dafne, Clície ou Leucotoe,
    Te negue o amor devido, como soe.

    2
    Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
    Como merece a gente Lusitana;
    Que veja e saiba o mundo que do Tejo
    O licor de Aganipe corre e mana.
    Deixa as flores de Pindo, que já vejo
    Banhar-me Apolo na água soberana;
    Senão direi que tens algum receio,
    Que se escureça o teu querido Orfeio.

    3
    Prontos estavam todos escutando
    O que o sublime Gama contaria,
    Quando, depois de um pouco estar cuidando,
    Alevantando o rosto, assim dizia:
    "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando
    De minha gente a grão genealogia:
    Não me mandas contar estranha história,
    Mas mandas-me louvar dos meus a glória.

    4
    "Que outrem possa louvar esforço alheio,
    Cousa é que se costuma e se deseja;
    Mas louvar os meus próprios, arreceio
    Que louvor tão suspeito mal me esteja;
    E para dizer tudo, temo e creio,
    Que qualquer longo tempo curto seja:
    Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
    Irei contra o que devo, e serei breve.

    5
    "Além disso, o que a tudo enfim me obriga,
    É não poder mentir no que disser,
    Porque de feitos tais, por mais que diga,
    Mais me há-de ficar inda por dizer.
    Mas, porque nisto a ordens leve e siga,
    Segundo o que desejas de saber,
    Primeiro tratarei da larga terra,
    Depois direi da sanguinosa guerra.

    6
    "Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
    Meta setentrional do Sol luzente,
    E aquela que por f ria se arreceia
    Tanto, como a do meio por ardente,
    Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
    Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
    Com suas salsas ondas o Oceano,
    E pela Austral o mar Mediterrano.

    7
    "Da parte donde o dia vem nascendo,
    Com Ásia se avizinha; mas o rio
    Que dos montes Rifeios vai correndo,
    Na alagoa Meotis, curvo o frio,
    As divide: e o mar que, fero e horrendo,
    Viu dos Gregos o irado senhorio,
    Onde agora de Tróia triunfante
    Não vê mais que a memória o navegante.

    8
    "Lá onde mais debaixo está do Pólo,
    Os montes Hiperbóreos aparecem,
    E aqueles onde sempre sopra Eolo,
    E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
    Aqui tão pouca força tem de Apolo
    Os raios que no mundo resplandecem,
    Que a neve está contido pelos montes,
    Gelado o mar, geladas sempre as fontes.

    9
    "Aqui dos Citas grande quantidade
    Vivem, que antigamente grande guerra
    Tiveram, sobre a humana antiguidade,
    Co'os que tinham então a Egípcia terra;
    Mas quem tão fora estava da verdade,
    (Já que o juízo humano tanto erra)
    Para que do mais certo se informara,
    Ao campo Damasceno o perguntara.

    10
    "Agora nestas partes se nomeia
    A Lápia fria, a inculta Noruega,
    Escandinávia Ilha, que se arreia
    Das vitórias que Itália não lhe nega.
    Aqui, enquanto as águas não refreia
    O congelado inverno, se navega
    Um braço do Sarmático Oceano
    Pelo Brúsio, Suécio e frio Dano.

    11
    "Entre este mar e o Tánais vive estranha
    Gente: Rutenos, Moseos e Livónios,
    Sármatas outro tempo; e na montanha
    Hircínia os Marcomanos são Polónios.
    Sujeitos ao Império de Alemanha
    São Saxones, Boêmios e Panónios,
    E outras várias nações, que o Reno frio
    Lava, e o Danúbio, Amasis e Albis rio.

    12
    "Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
    Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
    Estão os Traces de robusto peito,
    Do fero Marte pátria tão querida,
    Onde, colo Hemo, o Ródope sujeito
    Ao Otomano está, que submetida
    Bizâncio tem a seu serviço indino:
    Boa injúria do grande Constantino!

    13
    "Logo de Macedónia estão as gentes,
    A quem lava do Axio a água fria;
    E vós também, ó terras excelentes
    Nos costumes, engenhos e ousadia,
    Que criastes os peitos eloquentes
    E os juízos de alta fantasia,
    Com quem tu, clara Grécia, o Céu penetras,
    E não menos por armas, que por letras.

    14
    "Logo os Dálmatas vivem; e no seio,
    Onde Antenor já muros levantou,
    A soberba Veneza está no meio
    Das águas, que tão baixa começou.
    Da terra um braço vem ao mar, que cheio
    De esforço, nações várias sujeitou,
    Braço forte, de gente sublimada,
    Não menos nos engenhos, que na espada.

    15
    "Em torno o cerca o Reino Neptunino,
    Co'os muros naturais por outra parte;
    Pelo meio o divide o Apenino,
    Que tão ilustre fez o pátrio Marte;
    Mas depois que o Porteiro tem divino,
    Perdendo o esforço veio, e bélica arte;
    Pobre está já de antiga potestade:
    Tanto Deus se contenta de humildade!

    16
    "Gália ali se verá que nomeada
    Co'os Cesáreos triunfos foi no mundo,
    Que do Séquana e Ródano é regada,
    E do Giruna frio e Reno fundo.
    Logo os montes da Ninfa sepultada
    Pirene se alevantam, que segundo
    Antiguidades contam, quando arderam,
    Rios de ouro e de prata então correram.

    17
    "Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
    Como cabeça ali de Europa toda,
    Em cujo senhorio o glória estranha
    Muitas voltas tem dado a fatal roda;
    Mas nunca poderá, com força ou manha,
    A fortuna inquieta pôr-lhe noda,
    Que lhe não tire o esforço e ousadia
    Dos belicosos peitos que em si cria.

    18
    "Com Tingitânia entesta, e ali parece
    Que quer fechar o mar Mediterrano,
    Onde o sabido Estreito se enobrece
    Co'o extremo trabalhado Tebano.
    Com nações diferentes se engrandece,
    Cercadas com as ondas do Oceano;
    Todas de tal nobreza e tal valor,
    Que qualquer delas cuida que é melhor.

    19
    "Tem o Tarragonês, que se fez claro
    Sujeitando Parténope inquieta;
    O Navarro, as Astúrias, que reparo
    Já foram contra a gente Mahometa;
    Tem o Galego cauto, e o grande e raro
    Castelhano, a quem fez o seu Planeta
    Restituidor de Espanha e senhor dela,
    Bétis, Lião, Granada, com Castela.

    20
    "Eis aqui, quase cume da cabeça
    De Europa toda, o Reino Lusitano,
    Onde a terra se acaba e o mar começa,
    E onde Febo repousa no Oceano.
    Este quis o Céu justo que floresça
    Nas armas contra o torpe Mauritano,
    Deitando-o de si fora, e lá na ardente
    África estar quieto o não consente.

    22
    "Esta é a ditosa pátria minha amada,
    A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
    Torne, com esta empresa já acabada,
    Acabe-se esta luz ali comigo.
    Esta foi Lusitânia, derivada
    De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
    Filhos foram, parece, ou companheiros,
    E nela então os Íncolas primeiros.

    22
    "Desta o pastor nasceu, que no seu nome
    Se vê que de homem forte os feitos teve;
    Cuja fama ninguém virá que dome,
    Pois a grande de Roma não se atreve.
    Esta, o velho que os filhos próprios come
    Por decreto do Céu, ligeiro e leve,
    Veio a fazer no mundo tanta parte,
    Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:

    23
    "Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
    Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
    Que por armas sanguinas, força e manha,
    A muitos fez perder a vida o a terra;
    Voando deste Rei a fama estranha
    Do Herculano Calpe à Cáspia serra,
    Muitos, para na guerra esclarecer-se,
    Vinham a ele e à morte oferecer-se.

    24
    "E com um amor intrínseco acendidos
    Da Fé, mais que das honras populares,
    Eram de várias terras conduzidos,
    Deixando a pátria amada e próprios lares.
    Depois que em feitos altos e subidos
    Se mostraram nas armas singulares,
    Quis o famoso Afonso que obras tais
    Levassem prémio digno e dons iguais.

    25
    "Destes Anrique, dizem que segundo
    Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
    Portugal houve em sorte, que no mundo
    Então não era ilustre nem prezado;
    E, para mais sinal d'amor profundo,
    Quis o Rei Castelhano, que casado
    Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
    E com ela das terras tornou posse.

    26
    "Este, depois que contra os descendentes
    Da escrava Agar vitórias grandes teve,
    Ganhando muitas terras adjacentes,
    Fazendo o que a seu forte peito deve,
    Em prémio destes feitos excelentes,
    Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
    Um filho, que ilustrasse o nome ufano
    Do belicoso Reino Lusitano.

    27
    "Já tinha vindo Anrique da conquista
    Da cidade Hierosólima sagrada,
    E do Jordão a areia tinha vista,
    Que viu de Deus a carne em si lavada;
    Que não tendo Gotfredo a quem resista,
    Depois de ter Judeia sojugada,
    Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
    Para seus senhorios se tornaram;

    28
    "Quando chegado ao fim de sua idade,
    O forte e famoso Úngaro estremado,
    Forçado da fatal necessidade,
    O espírito deu a quem lhe tinha dado,
    Ficava o filho em tenra mocidade,
    Em quem o pai deixava seu traslado,
    Que do mundo os mais fortes igualava;
    Que de tal pai tal filho se esperava.

    29
    "Mas o velho rumor, não sei se errado,
    Que em tanta antiguidade não há certeza,
    Conta que a mãe, tomando todo o estado,
    Do segundo himeneu não se despreza.
    O filho órfão deixava deserdado,
    Dizendo que nas terras a grandeza
    Do senhorio todo só sua era,
    Porque, para casar, seu pai lhes dera.

    30
    "Mas o Príncipe Afonso, que desta arte
    Se chamava, do avô tomando o nome,
    Vendo-se em suas terras não ter parte,
    Que a mãe, com seu marido, as manda e come,
    Fervendo-lhe no peito o duro Marte,
    Imagina consigo como as tome.
    Revolvidas as causas no conceito,
    Ao propósito firme segue o efeito.

    31
    "De Guimarães o campo se tingia
    Co'o sangue próprio da intestina guerra,
    Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
    A seu filho negava o amor e a terra.
    Com ele posta em campo já se via;
    E não vê a soberba o muito que erra
    Contra Deus, contra o maternal amor;
    Mas nela o sensual era maior.

    32
    "Ó Progne crua! ó mágica Medeia!
    Se em vossos próprios filhos vos vingais
    Da maldade dos pais, da culpa alheia,
    Olhai que inda Teresa peca mais:
    Incontinência má, cobiça feia,
    São as causas deste erro principais:
    Cila, por uma, mata o velho pai,
    Esta, por ambas, contra o filho vai.

    33
    "Mas já o Príncipe claro o vencimento
    Do padrasto e da iníqua mãe levava;
    Já lhe obedece a terra num momento,
    Que primeiro contra ele pelejava.
    Porém, vencido de ira o entendimento,
    A mãe em ferros ásperos atava;
    Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
    Tanta veneração aos pais se deve!

    34
    "Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
    Para vingar a injúria de Teresa,
    Contra o tão raro em gente Lusitano,
    A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
    Em batalha cruel o peito humano,
    Ajudado da angélica defesa,
    Não só contra tal fúria se sustenta,
    Mas o inimigo aspérrimo afugenta.

    35
    "Não passa muito tempo, quando o forte
    Príncipe em Guimarães está cercado
    De infinito poder; que desta sorte
    Foi refazer-se o inimigo magoado;
    Mas, com se oferecer à dura morte
    O fiel Egas amo, foi livrado;
    Que de outra arte pudera ser perdido,
    Segundo estava mal apercebido.

    36
    "lulas o leal vassalo, conhecendo
    Que seu senhor não tinha resistência,
    Se vai ao Castelhano, prometendo
    Que ele faria dar-lhe obediência.
    Levanta o inimigo o cerco horrendo,
    Fiado na promessa e consciência
    De Egas Moniz; mas não consente o peito
    Do moço ilustre a outrem ser sujeito.

    37
    "Chegado tinha o prazo prometido,
    Em que o Rei Castelhano já aguardava
    Que o Príncipe, a seu mando sometido,
    Lhe desse a obediência que esperava.
    Vendo Egas que ficava fementido,
    O que dele Castela não cuidava,
    Determina de dar a doce vida
    A troco da palavra mal cumprida.

    38
    "E com seus filhos e mulher se parte
    A alevantar com eles a fiança,
    Descalços e despidos, de tal arte,
    Que mais move a piedade que a vingança.
    –"Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
    De minha temerária confiança,
    Dizia, eis aqui venho oferecido
    A te pagar, coa vida, o prometido.

    39
    "Vês aqui trago as vidas inocentes
    Dos filhos sem pecado e da consorte;
    Se a peitos generosos e excelentes,
    Dos fracos satisfaz a fera morte.
    Vês aqui as mãos e a língua delinquentes:
    Nelas sós exprimenta toda a sorte
    De tormentos, de mortes, pelo estilo
    De Cínis e do touro de Perilo"!–

    40
    "Qual diante do algoz o condenado,
    Que já na vida a morte tem bebido,
    Põe no cepo a garganta, e já entregado
    Espera pelo golpe tão temido:
    Tal diante do Príncipe indinado,
    Egas estava a tudo oferecido.
    Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
    Mais pôde, enfim, que a ira a piedade.

    41
    "Ó grão fidelidade Portuguesa,
    De vassalo, que a tanto se obrigava!
    Que mais o Persa fez naquela empresa,
    Onde rosto e narizes se cortava?
    Do que ao grande Dario tanto pesa,
    Que mil vezes dizendo suspirava,
    Que mais o seu Zopiro são prezara,
    Que vinte Babilónias que tomara.

    42
    Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
    O Lusitano exército ditoso,
    Contra o Mouro que as terras habitava
    D'além do claro Tejo deleitoso;
    Já no campo de Ourique se assentava
    O arraial soberbo e belicoso,
    Defronte do inimigo Sarraceno,
    Posto que em força e gente tão pequeno.

    43
    "Em nenhuma outra cousa confiado,
    Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
    Que tão pouco era o povo batizado,
    Que para um só cem Mouros haveria.
    Julga qualquer juízo sossegado
    Por mais temeridade que ousadia,
    Cometer um tamanho ajuntamento,
    Que para um cavaleiro houvesse cento.

    44
    "Cinco Reis Mouros são os inimigos,
    Dos quais o principal Ismar se chama;
    Todos exprimentados nos perigos
    Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
    Seguem guerreiras damas seus amigos,
    Imitando a formosa e forte Dama,
    De quem tanto os Troianos se ajudaram,
    E as que o Termodonte já gostaram.

    45
    "A matutina luz serena e fria,
    As estrelas do Pólo já apartava,
    Quando na Cruz o Filho de Maria,
    Amostrando-se a Afonso, o animava.
    Ele, adorando quem lhe aparecia,
    Na Fé todo inflamado assim gritava:
    –"Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
    E não a mim, que creio o que podeis!"

    46
    "Com tal milagre os ânimos da gente
    Portuguesa inflamados, levantavam
    Por seu Rei natural este excelente
    Príncipe, que do peito tanto amavam;
    E diante do exército potente
    Dos imigos, gritando o céu tocavam,
    Dizendo em alta voz:–"Real, real,
    Por Afonso alto Rei de Portugal."

    47
    "Qual co'os gritos e vozes incitado,
    Pela montanha o rábido Moloso,
    Contra o touro remete, que fiado
    Na força está do corno temeroso:
    Ora pega na orelha, ora no lado,
    Latindo mais ligeiro que forçoso,
    Até que enfim, rompendo-lhe a garganta,
    Do bravo a força horrenda se quebranta:

    48
    "Tal do Rei novo o estâmago acendido
    Por Deus e pelo povo juntamente,
    O Bárbaro comete apercebido,
    Co'o animoso exército rompente.
    Levantam nisto os perros o alarido
    Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
    As lanças e arcos tomam, tubas soam,
    Instrumentos de guerra tudo atroam.

    49
    "Bem como quando a flama, que ateada
    Foi nos áridos campos (assoprando
    O sibilante Bóreas) animada
    Co'o vento, o seco mato vai queimando;
    A pastoral companha, que deitada
    Co'o doce sono estava, despertando
    Ao estridor do fogo que se ateia,
    Recolhe o fato, e foge para a aldeia:

    50
    "Desta arte o Mouro atónito e torvado,
    Toma sem tento as armas mui depressa;
    Não foge; mas espera confiado,
    E o ginete belígero arremessa.
    O Português o encontra denodado,
    Pelos peitos as lanças lhe atravessa:
    Uns caem meios mortos, e outros vão
    A ajuda convocando do Alcorão.

    51
    "Ali se vêem encontros temerosos,
    Para se desfazer uma alta serra,
    E os animais correndo furiosos
    Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
    Golpes se dão medonhos e forçosos;
    Por toda a parte andava acesa a guerra:
    Mas o de Luso arnês, couraça e malha
    Rompe, corta, desfaz, abola e talha.

    52
    "Cabeças pelo campo vão saltando
    Braços, pernas, sem dono e sem sentido;
    E doutros as entranhas palpitando,
    Pálida a cor, o gesto amortecido.
    Já perde o campo o exército nefando;
    Correm rios de sangue desparzido,
    Com que também do campo a cor se perde,
    Tornado carmesi de branco e verde.

    53
    "Já fica vencedor o Lusitano,
    Recolhendo os troféus e presa rica;
    Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
    Três dias o grão Rei no campo fiei.
    Aqui pinta no branco escudo ufano,
    Que agora esta vitória certifica,
    Cinco escudos azuis esclarecidos,
    Em sinal destes cinco Reis vencidos,

    54
    "E nestes cinco escudos pinta os trinta
    Dinheiros por que Deus fora vendido,
    Escrevendo a memória em vária tinta,
    Daquele de quem foi favorecido.
    Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
    Porque assim fica o número cumprido,
    Contando duas vezes o do meio,
    Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.

    55
    "Passado já algum tempo que passada
    Era esta grão vitória, o Rei subido
    A tomar vai Leiria, que tomada
    Fora, mui pouco havia, do vencido.
    Com esta a forte Arronches sojugada
    Foi juntamente, e o sempre enobrecido
    Scalabicastro, cujo campo ameno,
    Tu, claro Tejo, regas tão sereno.

    56
    "A estas nobres vilas sometidas,
    Ajunta também Mafra, em pouco espaço,
    E nas serras da Lua conhecidas,
    Sojuga a fria Sintra o duro braço;
    Sintra, onde as Naiades, escondidas
    Nas fontes, vão fugindo ao doce laço,
    Onde Amor as enreda brandamente,
    Nas águas acendendo fogo ardente.

    57
    "E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
    Facilmente das outras és princesa,
    Que edificada foste do facundo,
    Por cujo engano foi Dardânia acesa;
    Tu, a quem obedece o mar profundo,
    Obedeceste à força Portuguesa,
    Ajudada também da forte armada,
    Que das Boreais partes foi mandada.

    58
    "Lá do Germânico Albis, e do Rene,
    E da fria Bretanha conduzidos,
    A destruir o povo Sarraceno,
    Muitos com tensão santa eram partidos.
    Entrando a boca já do Tejo ameno,
    Co'o arraial do grande Afonso unidos,
    Cuja alta fama então subia aos Céus,
    Foi posto cerco tos muros Ulisseus.

    59
    "Cinco vezes a Lua se escondera,
    E outras tantas mostrara cheio o rosto,
    Quando a cidade entrada se rendera
    Ao duro cerco, que lhe estava posto.
    Foi a batalha tão sanguina e fera,
    Quanto obrigava o firme pressuposto
    De vencedores ásperos e ousados,
    E de vencidos já desesperados.

    60
    "Desta arte enfim tomada se rendeu
    Aquela que, nos tempos já passados,
    A grande força nunca obedeceu
    Dos frios povos Cíticos ousados,
    Cujo poder a tanto se estendeu
    Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
    E enfim co'o Bétis tanto alguns puderam
    Que à terra de Vandália nome deram.

    61
    "Que cidade tão forte por ventura
    Haverá que resista, se Lisboa
    Não pôde resistir à força dura
    Da gente, cuja fama tanto voa?
    Já lhe obedece toda a Estremadura,
    Óbidos, Alenquer, por onde soa
    O tom das frescas águas, entre as pedras,
    Que murmurando lava, e Torres Vedras.

    62
    "E vós também, ó terras Transtaganas,
    Afamadas co'o dom da flava Ceres,
    Obedeceis às forças mais que humanas,
    Entregando-lhe os muros e os poderes.
    E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
    Se sustentar a fértil terra queres;
    Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
    E Alcácere-do-Sal estão rendidas.

    63
    "Eis a nobre Cidade, certo assento
    Do rebelde Sertório antigamente,
    Onde ora as águas nítidas de argento
    Vem sustentar de longo a terra e a gente,
    Pelos arcos reais, que cento e cento
    Nos ares se alevantam nobremente,
    Obedeceu por meio e ousadia
    De Giraldo, que medos não temia.

    64
    "Já na cidade Beja vai tomar
    Vingança de Trancoso destruída
    Afonso, que não sabe sossegar,
    Por estender coa fama a curta vida.
    Não se lhe pode muito sustentar
    A cidade; mas sendo já rendida,
    Em toda a cousa viva a gente irada
    Provando os fios vai da dura espada.

    65
    "Com estas sojugada foi Palmela,
    E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
    Sendo ajudado mais de sua estrela,
    Desbarata um exército potente:
    Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
    Que a socorrê-la vinha diligente
    Pela fralda da serra, descuidado
    Do temeroso encontro inopinado.

    66
    "O Rei de Badajoz era alto Mouro,
    Com quatro mil cavalos furiosos,
    Inúmeros peões, d'armas e de ouro
    Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
    Mas, qual no mês de Maio o bravo touro,
    Co'os ciúmes da vaca, arreceosos,
    Sentindo gente o bruto e cego amante
    Salteia o descuidado caminhante:

    67
    "Desta arte Afonso súbito mostrado
    Na gente dá, que passa bem segura,
    Fere, mata, derriba denodado;
    Foge o Rei Mouro, e só da vida cura.
    Dum pânico terror todo assombrado,
    Só de segui-lo o exército procura;
    Sendo estes que fizeram tanto abalo
    Não mais que só sessenta de cavalo.

    68
    "Logo segue a vitória sem tardança
    O grão Rei incansábil, ajuntando
    Gentes de todo o Reino, cuja usança
    Era andar sempre terras conquistando.
    Cercar vai Badajoz, e logo alcança
    O fim de seu desejo, pelejando
    Com tanto esforço, e arte, e valentia,
    Que a fez fazer às outras companhia.

    69
    "Mas o alto Deus, que para longe guarda
    O castigo daquele que o merece,
    Ou, para que se emende, às vezes tarda,
    Ou por segredos que homem não conhece,
    Se até que sempre o forte Rei resguarda
    Dos perigos a que ele se oferece;
    Agora lhe não deixa ter defesa
    Da maldição da mãe que estava presa.

    70
    "Que estando na cidade, que cercara,
    Cercado nela foi dos Lioneses,
    Porque a conquista dela lhe tomara,
    De Lião sendo, e não dos Portugueses.
    A pertinácia aqui lhe custa cara,
    Assim como acontece muitas vezes,
    Que em ferros quebra as pernas, indo aceso
    A batalha, onde foi vencido e preso.

    71
    "Ó famoso Pompeio, não te pene
    De teus feitos ilustres a ruína,
    Nem ver que a justa Némesis ordene
    Ter teu sogro de ti vitória dina,
    Posto que o frio Fásis, ou Siene,
    Que para nenhum cabo a sombra inclina,
    O Bootes gelado e a linha ardente,
    Temessem o teu nome geralmente.

    72
    "Posto que a rica Arábia e que os ferozes
    Eníocos e Colcos, cuja fama
    O Véu dourado estende, e os Capadoces,
    E Judeia, que um Deus adora e ama,
    E que os moles Sofenos, e os atroces
    Cilícios, com a Arménia, que derrama
    As águas dos dous rios, cuja fonte
    Está noutro mais alto e santo monte;

    73
    "E posto enfim que desde o mar de Atlante
    Até o Cítico Tauro monte erguido,
    Já vencedor te vissem, não te espanto
    Se o campo Emátio só te viu vencido,
    Porque Afonso verás, soberbo e ovante,
    Tudo render-se ser depois rendido.
    Assim o quis o conselho alto e celeste,
    Que vença o sogro a ti, e o genro a este.

    74
    "Tornado o Rei sublime finalmente,
    Do divino Juízo castigado,
    Depois que em Santarém soberbamente
    Em vão dos Sarracenos foi cercado,
    E depois que do mártire Vicente
    O santíssimo corpo venerado
    Do Sacro Promontório conhecido
    A cidade Ulisseia foi trazido;

    75
    "Porque levasse avante seu desejo,
    Ao forte filho manda o lasso velho
    Que às terras se passasse d'Alentejo,
    Com gente e co'o belígero aparelho.
    Sancho, d'esforço o d'ânimo sobejo,
    Avante passa, e faz correr vermelho
    O rio que Sevilha vai regando,
    Co'o sangue Mauro, bárbaro e nefando.

    76
    "E com esta vitória cobiçoso,
    Já não descansa o moço até que veja
    Outro estrago como este, temeroso,
    No Bárbaro que tem cercado Beja.
    Não tarda muito o Príncipe ditoso
    Sem ver o fim daquilo que deseja.
    Assim estragado o Mouro, na vingança
    De tantas perdas põe sua esperança.

    77
    "Já se ajuntam do monte a quem Medusa
    O corpo fez perder, que teve o Céu;
    Já vem do promontório de Ampelusa
    E do Tinge, que assento foi de Anteu.
    O morador de Abila não se escusa,
    Que também com suas armas se moveu,
    Ao som da Mauritana e ronca tuba,
    Todo o Reino que foi do nobre Juba.

    78
    "Entrava com toda esta companhia
    O Miralmomini em Portugal;
    Treze Reis mouros leva de valia,
    Entre os quais tem o ceptro imperial;
    E assim fazendo quanto mal podia,
    O que em partes podia fazer mal,
    Dom Sancho vai cercar em Santarém;
    Porém não lhe sucede muito bem.

    79
    "Dá-lhe combates ásperos, fazendo
    Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
    Não lhe aproveita já trabuco horrendo,
    Mina secreta, aríete forçoso:
    Porque o filho de Afonso não perdendo
    Nada do esforço e acordo generoso,
    Tudo provê com ânimo e prudência;
    Que em toda a parte há esforço e resistência.

    80
    "Mas o velho, a quem tinham já obrigado
    Os trabalhosos anos ao sossego,
    Estando na cidade, cujo prado
    Enverdecem as águas do Mondego,
    Sabendo como o filho está cercado
    Em Santarém do Mauro povo cego,
    Se parte diligente da cidade;
    Que não perde a presteza coa idade.

    81
    "E coa famosa gente à guerra usada
    Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
    A Portuguesa fúria costumada
    Em breve os Mouros tem desbaratados.
    A campina, que toda está coalhada
    De marlotas, capuzes variados,
    De cavalos, jaezes, presa rica,
    De seus senhores mortos cheia fica.

    82
    "Logo todo o restante se partiu
    De Lusitânia, postos em fugida;
    O Miralmomini só não fugiu,
    Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
    A quem lhe esta vitória permitiu
    Dão louvores e graças sem medida:
    Que em casos tão estranhos claramente
    Mais peleja o favor de Deus que a gente.

    83
    "De tamanhas vitórias triunfava
    O velho Afonso, Príncipe subido,
    Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
    Da larga e muita idade foi vencido.
    A pálida doença lhe tocava
    Com fria mão o corpo enfraquecido;
    E pagaram seus anos deste jeito
    A triste Libitina seu direito.

    84
    "Os altos promontórios o choraram,
    E dos rios as águas saudosas
    Os semeados campos alagaram
    Com lágrimas correndo piedosas.
    Mas tanto pelo mundo se alargaram
    Com faina suas obras valerosas,
    Que sempre no seu Reino chamarão
    "Afonso, Afonso" os ecos, mas em vão.

    85
    "Sancho, forte mancebo, que ficara
    Imitando seu pai na valentia,
    E que em sua vida já se exprimentara,
    Quando o Bétis de sangue se tingia,
    E o bárbaro poder desbaratara
    Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
    E mais quando os que Beja em vão cercaram,
    Os golpes de seu braço em si provaram;

    86
    "Depois que foi por Rei alevantado,
    Havendo poucos anos que reinava,
    A cidade de Silves tem cercado,
    Cujos campos o bárbaro lavrava.
    Foi das valentes gentes ajudado
    Da Germânica armada que passava,
    De armas fortes e gente apercebida,
    A recobrar Judeia já perdida.

    87
    "Passavam a ajudar na santa empresa
    O roxo Federico, que moveu
    O poderoso exército em defesa
    Da cidade onde Cristo padeceu,
    Quando Guido, coa gente em sede acesa,
    Ao grande Saladino se rendeu,
    No lugar onde aos Mouros sobejavam
    As águas que os de Guido desejavam.

    88
    "Mas a formosa armada, que viera
    Por contraste de vento àquela parte,
    Sancho quis ajudar na guerra fera,
    Já que em serviço vai do santo Marte.
    Assim como a seu pai acontecera
    Quando tomou Lisboa, da mesma arte
    Do Germano ajudado Silves toma,
    E o bravo morador destrue e doma.

    89
    "E se tantos troféus do Mahometa
    Alevantando vai, também do forte
    Lionês não consente estar quieta
    A terra, usada aos casos de Mavorte,
    Até que na cerviz seu jugo meta
    Da soberba Tui, que a mesma sorte
    Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
    Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.

    90
    "Mas entre tantas palmas salteado
    Da temerosa morte, fica herdeiro
    Um filho seu, de todos estimado,
    Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
    No tempo deste, aos Mouros foi tomado
    Alcácere-do-Sal por derradeiro;
    Porque dantes os Mouros o tomaram,
    Mas agora estruídos o pagaram.

    91
    "Morto depois Afonso, lhe sucede
    Sancho segundo, manso e descuidado,
    Que tanto em seus descuidos se desmede,
    Que de outrem, quem mandava, era mandado.
    De governar o Reino, que outro pede,
    Por causa dos privados foi privado,
    Porque, como por eles se regia,
    Em todos os seus vícios consentia.

    92
    "Não era Sancho, não, tão desonesto
    Como Nero, que um moço recebia
    Por mulher, e depois horrendo incesto
    Com a mãe Agripina cometia;
    Nem tão cruel às gentes e molesto,
    Que a cidade queimasse onde vivia,
    Nem tão mau como foi Heliogabalo,
    Nem como o mole Rei Sardanapalo.

    93
    "Nem era o povo seu tiranizado,
    Como Sicília foi de seus tiranos;
    Nem tinha como Fálaris achado
    Gênero de tormentos inumanos;
    Mas o Reino, de altivo e costumado
    A senhores em tudo soberanos,
    A Rei não obedece, nem consente,
    Que não for mais que todos excelente.

    94
    "Por esta causa o Reino governou
    O Conde Bolonhês, depois alçado
    Por Rei, quando da vida se apartou
    Seu irmão Sancho, sempre ao ócio dado.
    Este, que Afonso o bravo, se chamou,
    Depois de ter o Reino segurado,
    Em dilatá-lo cuida, que em terreno
    Não cabe o altivo peito, tão pequeno.

    95
    "Da terra dos Algarves, que lhe fora
    Em casamento dada, grande parte
    Recupera co'o braço, e deita fora
    O Mouro, mal querido já de Marte.
    Este de todo fez livre e senhora
    Lusitânia, com força e bélica arte;
    E acabou de oprimir a nação forte,
    Na terra que aos de Luso coube em sorte.

    96
    "Eis depois vem Dinis, que bem parece
    Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
    Com quem a fama grande se escurece
    Da liberalidade Alexandrina.
    Com este o Reino próspero florece
    (Alcançada já a paz áurea divina)
    Em constituições, leis e costumes,
    Na terra já tranquila claros lumes.

    97
    "Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva;
    E de Helicona as Musas fez passar-se
    A pisar do Monde-o a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
    Aqui as capelas dá tecidas de ouro,
    Do bácaro e do sempre verde louro.

    98
    "Nobres vilas de novo edificou
    Fortalezas, castelos mui seguros,
    E quase o Reino todo reformou
    Com edifícios grandes, e altos muros.
    Mas depois que a dura Átropos cortou
    O fio de seus dias já maduros,
    Ficou-lhe o filho pouco obediente,
    Quarto Afonso, mas forte e excelente.

    99
    "Este sempre as soberbas Castelhanas
    Co'o peito desprezou firme e sereno,
    Porque não é das forças Lusitanas,
    Temer poder maior, por mais pequeno.
    Mas porém, quando as gentes Mauritanas,
    A possuir o Hespérico terreno
    Entraram pelas terras de Castela,
    Foi o soberbo Afonso a socorrê-la.

    100
    "Nunca com Semirâmis gente tanta
    Veio os campos idáspicos enchendo,
    Nem Atila, que Itália toda espanta,
    Chamando-se de Deus açoute horrendo,
    Gótica gente trouxe tanta, quanta
    Do Sarraceno bárbaro estupendo,
    Co'o poder excessivo de Granada,
    Foi nos campos Tartésios ajuntada.

    101
    "E vendo o Rei sublime Castelhano
    A força inexpugnábil, grande e forte,
    Temendo mais o fim do povo hispano,
    Já perdido uma vez, que a própria morte,
    Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
    Lhe mandava a caríssima consorte,
    Mulher de quem a manda, e filha amada
    Daquele a cujo Reino foi mandada.

    102
    "Entrava a formosíssima Maria
    Pelos paternais paços sublimados,
    Lindo o gesto, mas fora de alegria,
    E seus olhos em lágrimas banhados;
    Os cabelos angélicos trazia
    Pelos ebúrneos ombros espalhados:
    Diante do pai ledo, que a agasalha,
    Estas palavras tais, chorando, espalha:

    103
    –"Quantos povos a terra produziu
    De África toda, gente fera e estranha,
    O grão Rei de Marrocos conduziu
    Para vir possuir a nobre Espanha:
    Poder tamanho junto não se viu,
    Depois que o salso mar a terra banha.
    Trazem ferocidade, e furor tanto,
    Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.

    104
    –"Aquele que me deste por marido,
    Por defender sua terra amedrontada,
    Co'o pequeno poder, oferecido
    Ao duro golpe está da Maura espada;
    E se não for contigo socorrido,
    Ver-me-ás dele e do Reino ser privada,
    Viúva e triste, e posta em vida escura,
    Sem marido, sem Reino, e sem ventura.

    105
    "Portanto, ó Rei, de quem com puro medo
    O corrente Muluca se congela,
    Rompe toda a tardança, acude cedo
    A miseranda gente de Castela.
    Se esse gesto, que mostras claro e ledo,
    De pai o verdadeiro amor assela,
    Acude e corre, pai, que se não corres,
    Pode ser que não aches quem socorres."–

    106
    "Não de outra sorte a tímida Maria
    Falando está, que a triste Vénus, quando
    A Júpiter, seu pai, favor pedia
    Para Eneias, seu filho, navegando;
    Que a tanta piedade o comovia
    Que, caído das mãos o raio infando,
    Tudo o clemente Padre lhe concede,
    Pesando-lhe do pouco que lhe pede.

    107
    "Mas já co'os esquadrões da gente armada
    Os Eborenses campos vão coalhados:
    Lustra co'o Sol o arnês, a lança, a espada;
    Vão rinchando os cavalos jaezados.
    A canora trombeta embandeirada,
    Os corações à paz acostumados
    Vai às fulgentes armas incitando,
    Pelas concavidades retumbando.

    108
    "Entre todos no meio se sublima,
    Das insígnias Reais acompanhado,
    O valeroso Afonso, que por cima
    De todos leva o colo alevantado;
    E somente co'o gesto esforça e anima
    A qualquer coração amedrontado.
    Assim entra nas terras de Castela
    Com a filha gentil, Rainha dela.

    109
    "Juntos os dous Afonsos finalmente
    Nos campos de Tarifa estão defronte
    Da grande multidão da cega gente,
    Para quem são pequenos campo e monte.
    Não há peito tão alto e tão potente,
    Que de desconfiança não se afronte,
    Enquanto não conheça e claro veja
    Que co'o braço dos seus Cristo peleja.

    110
    "Estão de Agar os netos quase rindo
    Do poder dos Cristãos fraco e pequeno,
    As terras como suas repartindo
    Antemão, entre o exército Agareno,
    Que com título falso possuindo
    Está o famoso nome Sarraceno.
    Assim também com falsa conta e nua,
    À nobre terra alheia chamam sua.

    111
    "Qual o membrudo e bárbaro Gigante,
    Do rei Saul, com causa, tão temido,
    Vendo o pastor inerme estar diante,
    Só de pedras e esforço apercebido,
    Com palavras soberbas o arrogante
    Despreza o fraco moço mal vestido,
    Que, rodeando a funda, o desengana
    Quanto mais pode a Fé que a força humana:

    112
    "Desta arte o Mouro pérfido despreza
    O poder dos Cristãos, e não entende
    Que está ajudado da Alta Fortaleza,
    A quem o inferno horrífico se rende.
    Co ela o Castelhano, e com destreza
    De Marrocos o Rei comete e ofende.
    O Português, que tudo estima em nada,
    Se faz temer ao Reino de Granada.

    113
    "Eis as lanças e espadas retiniam
    Por cima dos arneses: bravo estrago!
    Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
    Uns Mafamede, e os outros Santiago.
    Os feridos com grita o Céu feriam,
    Fazendo de seu sangue bruto lago,
    Onde outros meios mortos se afogavam,
    Quando do ferro as vidas escapavam.

    114
    "Com esforço tamanho estrui e mata
    O Luso ao Granadil, que, em pouco espaço,
    Totalmente o poder lhe desbarata,
    Sem lhe valer defesa ou peito de aço.
    De alcançar tal vitória tão barata
    Inda não bem contente o forte braço,
    Vai ajudar ao bravo Castelhano,
    Que pelejando está co'o Mauritano.

    115
    "Já se ia o Sol ardente recolhendo
    Para a casa de Tethys, e inclinado
    Para o Ponente, o Véspero trazendo,
    Estava o claro dia memorado,
    Quando o poder do Mauro grande e horrendo
    Foi pelos fortes Reis desbaratado,
    Com tanta mortandade, que a memória
    Nunca no mundo viu tão grã vitória.

    116
    "Não matou a quarta parte o forte Mário
    Dos que morreram neste vencimento,
    Quando as águas co'o sangue do adversário
    Fez beber ao exército sedento;
    Nem o Peno asperíssimo contrário
    Do Romano poder, de nascimento,
    Quando tantos matou da ilustro Roma,
    Que alqueires três de anéis dos mortos toma.

    117
    "E se tu tantas almas só pudeste
    Mandar ao Reino escuro de Cocito,
    Quando a santa Cidade desfizeste
    Do povo pertinaz no antigo rito:
    Permissão e vingança foi celeste,
    E não força de braço, ó nobre Tito,
    Que assim dos Vates foi profetizado,
    E depois por Jesu certificado.

    118
    "Passada esta tão próspera vitória,
    Tornando Afonso à Lusitana terra,
    A se lograr da paz com tanta glória
    Quanta soube ganhar na dura guerra,
    O caso triste, e dino da memória,
    Que do sepulcro os homens desenterra,
    Aconteceu da mísera e mesquinha
    Que depois de ser morta foi Rainha.

    119
    "Tu só, tu, puro Amor, com força crua,
    Que os corações humanos tanto obriga,
    Deste causa à molesta morte sua,
    Como se fora pérfida inimiga.
    Se dizem, fero Amor, que a sede tua
    Nem com lágrimas tristes se mitiga,
    É porque queres, áspero e tirano,
    Tuas aras banhar em sangue humano.

    120
    "Estavas, linda Inês, posta em sossego,
    De teus anos colhendo doce fruto,
    Naquele engano da alma, ledo e cego,
    Que a fortuna não deixa durar muito,
    Nos saudosos campos do Mondego,
    De teus fermosos olhos nunca enxuto,
    Aos montes ensinando e às ervinhas
    O nome que no peito escrito tinhas.

    121
    "Do teu Príncipe ali te respondiam
    As lembranças que na alma lhe moravam,
    Que sempre ante seus olhos te traziam,
    Quando dos teus fermosos se apartavam:
    De noite em doces sonhos, que mentiam,
    De dia em pensamentos, que voavam.
    E quanto enfim cuidava, e quanto via,
    Eram tudo memórias de alegria.

    122
    "De outras belas senhoras e Princesas
    Os desejados tálamos enjeita,
    Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
    Quando um gesto suave te sujeita.
    Vendo estas namoradas estranhezas
    O velho pai sesudo, que respeita
    O murmurar do povo, e a fantasia
    Do filho, que casar-se não queria,

    123
    "Tirar Inês ao mundo determina,
    Por lhe tirar o filho que tem preso,
    Crendo co'o sangue só da morte indina
    Matar do firme amor o fogo aceso.
    Que furor consentiu que a espada fina,
    Que pôde sustentar o grande peso
    Do furor Mauro, fosse alevantada
    Contra uma fraca dama delicada?

    124
    "Traziam-na os horríficos algozes
    Ante o Rei, já movido a piedade:
    Mas o povo, com falsas e ferozes
    Razões, à morte crua o persuade.
    Ela com tristes o piedosas vozes,
    Saídas só da mágoa, e saudade
    Do seu Príncipe, e filhos que deixava,
    Que mais que a própria morte a magoava,

  • Os fidalgos da Casa Mourisca

    Os fidalgos da Casa Mourisca

    Aproximadamente 147.699 palavras.

    Mauricio sorriu, objectando ao irmão:

    –És suspeito, Jorge. Tu duvidas encontrar a poesia ao teu lado, quando
    trabalhares, porque ainda a não viste, aonde todos a vêem, ahi por essas
    devezas, valles e ribeiras.

    –Vi-a ainda hoje em casa de um lavrador, aonde se trabalhava; tu é que
    não a vias lá.

    –Ah! então já confessas que ella está com os que trabalham?

    –Mas não a vêem esses. Não a viu Thomé, nem nenhum dos seus criados;
    vi-a eu que estava de fóra.

    –E quem deu a Thomé sentidos para a vêr?

    –A ninguem faltam, creio-o. Mas quando se trabalha com verdadeiro
    ardor, a visão encobre-se prudentemente, como se soubesse que quem a tem
    presente, tão namorado está d'ella, que o assaltam as distracções dos
    namorados. E o trabalho é exigente e severo; ha uns cuidados pequeninos,
    impertinentes, prosaicos, de que elle não prescinde. Ás vezes é util até
    certa irritação provocada pelas difficuldades fastidiosas que elle
    suscita; instigam, estimulam brios para vencêl-o.

    Continuaram os dois irmãos este dialogo e assentaram emfim na resolução
    de mudar de vida, cada um com o grau de firmeza propria do seu caracter,
    e portanto com firmeza desigual. Decidiram fallar n'aquelle mesmo
    momento a D. Luiz.

    A occasião era propicia. Frei Januario dormia ainda a sesta, e portanto
    o fidalgo devia estar só no seu quarto.

    Era já noite. O luar coloria com tintas magicas a paisagem fronteira á
    Casa Mourisca. Esta desenhava o seu vulto negro sobre o fundo azul
    pallido do céo sem estrellas. A ramaria dos carvalhos e a queda da agua
    nas fontes levantavam vozes melancolicas do meio das indistinctas
    sombras da quinta.

    Em noites assim conservava-se D. Luiz longo tempo á janella do quarto. A
    fronte encostada á mão, os olhos fitos nos pontos illuminados da
    perspectiva, e o pensamento… ai, quem sabe porque melancolicas
    paragens andava o pensamento do pobre velho?! Passadas magnificencias,
    festas, alegrias e triumphos de tempos mais felizes, memorias de vida
    n'esta habitação hoje silenciosa, e por toda a parte, e sempre, a
    pallida imagem da filha morta, o enlevo de toda a sua vida, que ao
    desapparecer lh'a deixou escura e desencantada… que outras podiam ser
    as visões presentes áquelle espirito sombrio?

    Pobre velho!

    Foi para este quarto escuro que se dirigiram os dois irmãos.

    VI

    Ao chegar á porta dos aposentos do pae experimentou Jorge uma primeira
    hesitação.

    D. Luiz tractava sempre os filhos de uma maneira tão austera,
    abria-se-lhes tão pouco em confidencias, mostrava tão má vontade ao ter
    com elles longas e sérias conversações, que Jorge precisava de exercer
    um grande esforço sobre si mesmo para dar aquelle passo tão fóra dos
    seus habitos.

    Pela primeira vez os filhos procuravam assim o pae no proprio quarto
    d'elle; a estranheza do facto seria pois já uma razão bastante para os
    perturbar, ainda quando não concorresse para o mesmo effeito a natureza
    do assumpto da conferencia, que não podia ser mais solemne.

    A resolução de Jorge era porém muito forte, e o enthusiasmo de Mauricio
    muito inconsiderado, para que se deixassem dominar por aquella quasi
    instinctiva timidez.

    Jorge bateu á porta com intimo sobresalto.

    Respondeu immediatamente a voz de D. Luiz, mandando entrar quem batia.

    Os dois irmãos impelliram diante de si a porta, e afastando o
    reposteiro, entraram.

    Os raios do luar tinham já principiado a penetrar na sala, desenhando no
    pavimento as projecções das janellas ogivaes, que a pouco e pouco
    cresciam para o interior.

    Do lado da porta eram porém ainda espessas as sombras, e D. Luiz não
    podia pois conhecer quem entrava.

    A sala era extensa, e por isso alguns momentos decorreram, longos para a
    impaciencia do fidalgo, antes que os dois rapazes chegassem ao logar
    onde elle os esperava, escutando com estranheza aquelles passos, sem
    poder conjecturar de quem fossem.

    A final proximos da cadeira do pae, pararam e guardaram por instantes
    silencio.

    A fronte descoberta ficava-lhes alumiada pelo luar, e recebia d'aquella
    mysteriosa luz uma singular expressão de gravidade.

    D. Luiz, reconhecendo os filhos, olhou fixamente para elles e
    perguntou-lhes admirado:

    –O que é que pretendem?

    Jorge foi o que respondeu.

    –Se v. exc.ª nos quizer ouvir, meu pae, desejavamos fallar-lhe.

    –Fallar-me?!–repetiu D. Luiz, em tom de espanto e quasi irritado.

    –Sim, senhor.

    –É singular! E a proposito de quê?

    –Do nosso futuro.

    –Ah!–exclamou o fidalgo, procurando encobrir em ironia a sua
    crescente irritação.–Deram-lhe para pensar n'elle agora pelo luar.

    –Penso n'elle ha muitos dias, meu pae. Ha muitos dias que elle me
    inquieta.

    D. Luiz fez um movimento, que immediatamente reprimiu, e passou a
    interrogar Mauricio, no mesmo tom de affectada ironia:

    –Tambem te atacaram as mesmas inquietações pelo futuro?

    –Ha menos tempo, mas com maior fundamento talvez–respondeu-lhe com
    firmeza o filho interrogado.

    D. Luiz calou-se por alguns instantes, depois tornou para Jorge:

    –Então vejamos a causa dos teus receios, saibamos o que te trouxe aqui.

    E principiou a tocar nervosamente com os dedos nos braços da cadeira.

    –Meu pae–principiou Jorge–perdoe-me a liberdade que tomo de fallar
    n'isto a v. exc.ª; mas é o empenho que faço em que o nome e o credito de
    nossa familia se conserve sem mancha… que…

    O fidalgo interrompeu-o, batendo com violencia no peitoril da janella.

    –E quem o manchou?–rugiu elle, quasi meio erguido, e fitando o filho
    com um olhar, cujo fulgor até á claridade tibia da lua se percebia.

    –Até hoje ninguem; manchal-o-hei eu talvez ámanhã, quando não puder
    satisfazer os compromissos da nossa casa; manchal-o-hei, quando me bater
    á porta a miseria e me encontrar com habitos de ociosidade e sem a
    sciencia do trabalho–respondeu placidamente Jorge á violenta
    interpellação do pae.

    –Então já sabes que te baterá á porta a miseria?–inquiriu o fidalgo
    amargamente.

    D'esta vez foi Mauricio quem respondeu:

    –Ha quem se encarregue de nol-o ensinar. Em cada homem do campo temos
    um mestre, e as crianças por ahi já sabem dizer que os fidalgos da Casa
    Mourisca estão empenhados.

    D. Luiz a estas palavras estremeceu, como ao contacto de um ferro
    candente; virou-se irritado para Jorge, fallando quasi a custo:

    –No meu tempo pagavam-se essas lições bem caras! Para isso serviam
    então, pelo menos, os rapazes das nossas familias.

    –Tambem nós as pagariamos, senhor; mas, voltando a casa, dir-nos-ia a
    consciencia que não ficavam assim saldadas todas as dividas. O orgulho e
    a vingança estariam satisfeitos; mas a razão e o dever,
    não–contestou-lhe Jorge.

    –Então queiram dizer-me o que lhes manda a razão, e… e o que mais?…
    Ah, sim… e mais o dever.

    Jorge, sem se perturbar, acudiu:

    –Mandam-nos trabalhar para remir essas dividas; luctar pela integridade
    d'estes bens, que são nossa herança, augmental-os antes se fôr possivel;
    mandam-nos manter em respeito essa gente, que nos olha com atrevimento,
    destruindo para isso os fundamentos da sua insolencia. A razão, meu pae,
    diz-nos que é uma vergonha e um crime para os nossos vinte annos a vida
    ociosa e inutil que passamos aqui.

    –Muito bem; querem então meus filhos que eu lhes dê um modo de vida;
    veem aqui no proposito de arguir-me por me ter descuidado de os…
    arrumar?

    O fidalgo empregou no verbo final, de um sabor burguez, toda a emphase
    sarcastica, que lhe inspirava a sua irritação e orgulho aristocratico.

    –Não, meu pae–insistiu Jorge–vimos apenas lembrar a v. exc.ª que
    chegamos a uma idade em que já nos não satisfazem os gozos da vida de
    rapaz, de que o muito amor de v. exc.ª nos tem permittido saciar. Vimos
    pedir-lhe que nos conceda agora licença de nos occuparmos de outra ordem
    de ideias e de mudarmos de vida. Sentimos despontar em nós desejos
    novos, vimos respeitosamente annuncial-o a v. exc.ª e rogar-lhe a
    permissão para realisal-os.

    D. Luiz sorriu ironico, porque não podia ainda tomar a serio a resolução
    dos filhos, em quem só via duas crianças; e continuou zombando:

    –Está bem. Então tu o que queres ser?

    Jorge respondeu promptamente:

    –Procurador de v. exc.ª na administração da nossa casa.

    D. Luiz olhou d'esta vez para o filho mais seriamente, porque lhe
    causára impressão a firmeza e promptidão da resposta, em vez das
    titubeações que esperava. Convenceu-se de que Jorge não procedia
    levianamente de todo, e que n'elle havia uma tenção formada. Voltando-se
    para Mauricio, interrogou-o, ainda no mesmo tom em que principiára:

    –E tu? Queres ir para o Brazil?

    Mauricio não tinha, como Jorge, uma resposta prompta, porque n'elle o
    projecto era apenas uma resolução vaga e mal definida, e não um plano
    fixo e meditado como o do irmão. Era n'essas fórmas vagas que elle mais
    o namorava, e talvez ao pretender fixal-o, principiasse a experimentar
    as primeiras repugnancias e desillusões.

    D. Luiz esperou alguns instantes pela resposta do filho mais novo, mas,
    como o visse hesitar, continuou, encolhendo os hombros:

    –Ainda não pensaste n'isso. Bom. Ouçamos então primeiro teu irmão.
    Visto isso achas tu que, sob a tua gerencia, a administração de nossa
    casa prosperaria?

    –Creio que não iria peor conduzida do que vae. V. exc.ª conhece
    perfeitamente que não será grande façanha ir tão longe como frei
    Januario.

    –É um homem experiente.

    –Triste resultado o da experiencia. O pae deve, melhor do que nós,
    saber o estado dos negocios d'esta casa; mas quer-me parecer que não me
    enganarei muito, conjecturando a maneira por que elles vão. Pedir
    emprestado sob encargos e hypothecas pesadissimas, não para melhorar o
    que ainda possuimos, mas para consumir o pouco que se obtem em gastos
    improductivos, lavrar arrendamentos com que o senhorio nada lucra e com
    que a propriedade se empobrece, deixar ao desprezo terras não
    arrendadas, é a pratica até hoje seguida, tão facil como funesta.

    –E quem te disse que é possivel fazer outra coisa?–objectou já sem
    ironia o pae.–Os tempos actuaes são de prova para familias como as
    nossas, a maré que sobe traz á flôr da agua o que era lôdo em outros
    tempos.

    –Deixe-me tentar, meu pae.

    –Tentar o que? criança. Queres ser enganado e escarnecido por esses
    manhosos proprietarios e rendeiros, com quem infelizmente temos de
    lidar? Que sabes tu da administração dos bens ruraes?

    –Aprenderei. A sciencia, patente ás faculdades de frei Januario, não é
    defeza a ninguem.

    –Nem tu sabes o que pedes. Não córarias de vergonha no tracto familiar
    a que esses negocios obrigam, com homens grosseiros, insolentes,
    miseraveis de hontem, e que hoje nos atiram á cara com a sua riqueza?

    –Procuraria d'entre esses os de mais educação.

    O velho encolheu os hombros com impaciencia, murmurando:

    –Educação! Elles!

    –Porém, meu pae–argumentou Jorge com mais vehemencia–é uma triste
    necessidade esta. Pense bem. Se é vergonha, como diz, procural-os para
    tractar negocios, maior vergonha será que elles nos procurem para nos
    expulsar d'esta casa; se a um homem da nossa familia fica mal velar por
    ella, peor e menos decoroso lhe será ter de deixar esta terra, onde já
    não possua um palmo de seu, sem poder attribuir essa desgraça senão á
    sua propria incuria. A memoria dos nossos antepassados soffrerá menos se
    um dia se disser dos seus descendentes que trabalharam, para livrar da
    destruição e de mãos alheias o solar que lhes pertencia; do que se se
    contar, apontando para as ruinas d'esta casa, que elles a deixaram cahir
    e invadir por estranhos, sem respeito por as gloriosas tradições que a
    illustravam. É pouco para ambicionar-se esta fama.

    –E depois, meu pae–acudiu Mauricio–que dôr não seria o vêr devassado
    por invasores o quarto em que morreu minha mãe, esta sala, o salão onde
    brincavamos em criança, e até os aposentos de nossa irmã, da sua querida
    Beatriz?

    A memoria da filha morta commovia sempre o coração d'aquelle velho, que
    ella ainda povoava de saudades; por isso curvou desalentado a cabeça
    assim que lhe ouviu o nome, e murmurou:

    –Não; a nossa miseria não irá tão longe. Creio que Deus não me
    reservará esse tremendo castigo. Morrerei primeiro.

    –E nós, se lhe sobrevivermos, senhor, não soffreremos tambem? Quererá
    legar a seus filhos uma herança d'essas?–interpellou-o Jorge.

    O pae escondeu a cabeça entre as mãos, já sem signaes da rispidez com
    que principiara a scena, e não pôde responder a esta interrogação de
    Jorge.

    Mauricio sentiu-se commovido ante aquella sincera manifestação de dôr,
    que observava no pae, na presença d'elles de ordinario tão reservado.

    –Não–acudiu elle impellido por aquelle sentimento–o interior da nossa
    casa não será devassado por estranhos, nem na sua vida, meu pae, nem
    depois da sua morte. Dê-nos apenas permissão para trabalharmos, e nós
    juramos evitar essa humilhação.

    D. Luiz ergueu finalmente a cabeça e pela primeira vez fez signal aos
    filhos para que se sentassem junto de si.

    Depois, dirigindo-se ao mais velho, já em tom menos severo:

    –Jorge–ponderou elle–a tarefa que queres emprehender não é facil. É
    verdade que não teem corrido pelas minhas mãos esses negocios, mas sei
    d'elles o bastante para prever os espinhos que n'elles encontrarias.
    Frei Januario não é um homem de talento, bem o sei, mas tem experiencia
    e boa vontade de nos servir, e ainda assim não prospéra esta casa, que
    foi das melhores da provincia. Como queres tu pois, ha poucos dias uma
    criança que em nada d'isto pensavas, tomar de repente sobre ti o encargo
    d'esta gerencia, e como imaginas que darias boa conta d'ella? Os teus
    planos são vagos. Fallas-me mais nos defeitos dos seguidos até hoje, dos
    que nas excellencias dos teus.

    –Perdão, meu pae, mas não são tão vagos como os suppõe. Pensei já muito
    n'isso. As difficuldades que ainda tenho, com tempo e meditação espero
    resolvêl-as; além d'isso… auxiliado… quando necessario fôr… dos
    conselhos de frei Januario, espero que me será possivel realisar o meu
    intento. Se me permitte exponho-lhe esses planos em poucas palavras.

    Tomando o silencio do pae por signal de aquiescencia, Jorge encetou a
    exposição dos seus projectos economicos.

    Não o seguiremos no longo relatorio, que pae e irmão escutaram admirados
    de tão inesperada sciencia. De facto, as informações de Thomé, os
    fructos da propria reflexão, as ideias adquiridas na leitura meditada
    dos poucos livros da sua bibliotheca, foram os elementos com que o
    espirito essencialmente methodico e organisador de Jorge construira um
    completo systema de administração, que, se tinha defeitos, não eram para
    ser apreciados pelo velho fidalgo, que nunca fôra dado a esses exames. A
    exposição clara, o tom de convicção, o calor do quasi enthusiasmo com
    que o filho fallava, enthusiasmo contagioso, exerceram no velho uma
    profunda influencia. Ao concluir, Jorge tinha vencido a causa.

    D. Luiz estava do fundo d'alma convicto de que este filho fôra destinado
    pela Providencia para ser o restaurador da sua casa.

    E comtudo havia um ponto essencial no plano de Jorge, que elle não
    mencionára. Para realisar a maior parte das medidas economicas, cujos
    maravilhosos effeitos com tanta eloquencia exposera, era indispensavel
    um capital inicial não pouco avultado, e Jorge não dissera como havia de
    obtêl-o. Esta era a parte secreta do seu plano; aquella, cuja menção
    bastaria para desvanecer toda a boa impressão produzida no animo de D.
    Luiz.

    O capital inicial devia vir do emprestimo razoavel, offerecido por Thomé
    da Povoa, ou obtido sob a garantia do credito d'elle. Esta operação era
    indispensavel, era a unica talvez salvadora; por quanto os outros
    capitalistas tinham sempre em vista apoderar-se dos bens do fidalgo, e
    por isso sómente emprestavam sob condições onerosissimas e perigosas.

    Mas o orgulho de D. Luiz não lhe deixaria aceitar favores de Thomé;
    nunca elle consentiria na menor transacção com o que fôra seu criado.

    Por isso Jorge guardou para si sómente esta parte das suas projectadas
    operações, e com D. Luiz felizmente era facil passar por alto certos
    pontos de questões d'esta natureza, que elle mal examinava. Assim pois o
    pae acabou por dar o consentimento pedido.

    –Seja; não me opponho a que te occupes da gerencia da casa, que dentro
    em pouco tempo será vossa. Vejo que tens reflectido n'isso mais do que
    eu julgava; comtudo marco duas condições; a primeira é que nunca faças
    contractos que sejam vergonhosos para o nome de nossa familia.

    –Prometto-lhe que não o envergonharei.

    –A segunda é que não desprezes os conselhos de frei Januario.

    –Por certo que não prescindirei das suas informações.

    –Eu lhe darei parte do que resolvi. E agora…–acrescentou D.
    Luiz–vamos ao resto… E Mauricio?

    Mauricio, interpellado pela segunda vez, achar-se-ia nas mesmas
    difficuldades para responder á interpellação, se Jorge não respondesse
    por elle:

    –Tambem pensei em Mauricio.

    –Ah! tambem?–disse o pae, não podendo occultar a quasi admiração, que
    lhe estava impondo Jorge.

    Mauricio interrogou tambem com a vista o irmão.

    –Se Mauricio confia em mim, é inutil a sua permanencia aqui na aldeia,
    onde não tem em que se occupe.

    –Tens a minha plena confiança, Jorge. E a não me quereres para teu
    guarda-livros…

    –Lembrou-me que Mauricio devia partir para Lisboa. Lá poderá ser mais
    util a si e a nossa casa. É verdade que não é essa por ora uma medida
    economica; antes obrigará a alguns sacrificios. Far-se-hão porém, se
    precisos forem, e Mauricio tem brios bastantes para não os deixar ficar
    improductivos.

    D. Luiz fez um gesto de duvida.

    –Humh!–objectou elle–que carreira póde n'estes tempos seguir na
    capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a
    nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje
    governa?

    –Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas
    sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se
    poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que
    seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia
    escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem
    poderá fornecer-nos valiosas indicações.

    –Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!–accentuou
    sarcasticamente o fidalgo.–Ora adeus! Uma doida…

    –Tem-se mostrado sempre nossa amiga–corrigiu Jorge–e ainda por
    occasião do fallecimento de Beatriz…

    –Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que
    casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da
    época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as
    armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos
    entre a gente, que a fez orphã.

    –Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para
    odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias
    frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel
    conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições
    sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem
    apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o
    comprehenderá e lhe dará as informações pedidas.

    Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge
    sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e
    elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse
    aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho
    e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado
    que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente.

    Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus
    artigos sanccionado o projecto de Jorge.

    VII

    Frei Januario, dormida a sua regalada sésta, dispoz-se a fazer horas
    para a ceia, indo communicar ao fidalgo a grande nova das disposições de
    espirito, suspeitas e subversivas, em que encontrou o filho mais velho.

    Ainda D. Luiz meditava nas mudanças que ia soffrer o regimen economico
    da casa e nas mais ou menos provaveis consequencias d'ellas, quando a
    voz fanhosa do padre procurador se fez ouvir á porta, articulando o
    costumado–_licet_?–E sem esperar resposta o padre frei Januario foi
    entrando.

    –Ainda ás escuras, snr. D. Luiz?!

    –Nem sempre temos para nos alumiar luzes tão bellas como esta;
    respondeu o fidalgo, designando o luar que já lhe inundava o quarto.

    –Quer não; isto de luar não é lá das melhores coisas e depois o ar da
    noite…

    –A noite está que parece de maio.

    –Sim? mas sempre os vapores dos campos… Eu acho mais prudente
    accender luz e fechar as janellas.

    –Não me opponho, frei Januario, até porque temos que fallar.

    –Sim? Tambem tenho que communicar a v. exc.ª

    –Pois, muito bem. Vamos a isso.

    Fecharam-se as janellas, vieram as luzes e dispoz-se tudo para a
    conferencia.

    D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro.

    –Visto isso, principiarei, e o que sinto é que seja para dar a v. exc.ª
    noticias assustadoras–preludiou o egresso.

    –Assustadoras! Que é a final? Alguma insolente exigencia de credor.

    –Nada, nada; a coisa é outra. Tracta-se do filho de v. exc.ª

    –De Mauricio? Que fez elle?

    –Não, senhor; não é do snr. D. Mauricio, que eu fallo.

    –Então? É de Jorge?

    –Justamente. Eu conto a v. exc.ª

    E frei Januario principiou a expôr ao fidalgo os pormenores da discussão
    que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexões proprias.
    Horas antes, esta communicação teria talvez produzido o effeito
    estupendo, que o egresso calculára; mas a prévia entrevista de D. Luiz
    com os filhos tirára toda a importancia á revelação. D. Luiz apenas
    franziu o sobrolho á parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas
    esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador
    acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignação e do espanto,
    com que esperava vêl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras,
    pronunciadas com a maior fleugma:

    –E então que pensa d'isso, frei Januario?

    Lá de si para si o padre replicou á pergunta com a sua expressão
    favorita de desapontamento–Lérias!–mas em voz alta não foi tão
    expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar:

    –O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc.ª o que pensa? Eu por mim
    penso que anda aqui febre liberal; o veneno já está no sangue. Tão
    certo! Aquillo dá logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me
    ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botões: «Pois sim,
    sim, estás arranjadinho.» O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum
    mação. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que estão na estalagem do
    Manco. Isto de engenheiros é gente que se não confessa; ou então são
    coisas do hortelão, que eu não seja quem sou se ainda não ha de dar que
    fallar n'esta casa; mas o certo é que lhe metteram na cabeça essas
    caraminholas e se v. exc.ª não olha por isso, eu lhe protesto que dão
    com o rapaz mação, o que é uma pena, porque é um bom rapazinho. Mas
    quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, torço-lhe
    logo o nariz.

    –Parece-me que d'esta vez são sem fundamento os seus receios, frei
    Januario. A final, pondo de parte alguma expressão menos sensata, e que
    o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz são razoaveis.

    –Razoaveis?

    –Pois porque não? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que
    perde na ociosidade. Está cançado da vida de rapaz. É natural e é
    louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que ámanhã será constrangido
    a fazer, com peior resultado; no que eu devêra ter feito na idade
    d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale então que
    principie já, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que
    tarde, ás cegas e sem uma pessoa de confiança a encaminhal-o.

    –Pois é verdade, mas…

    –Elle fallou-me n'isso ha pouco.

    –Ah! pois sempre fez o que disse?!

    –Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no
    caso e dei-lhe a permissão que elle pediu. Era até o que eu tinha para
    dizer-lhe.

    –Então, visto isso, de hoje em diante?…

    –De hoje em diante, Jorge se entenderá comsigo. O frei Januario precisa
    de descançar tambem.

    –Eu ainda não estou cançado–resmungou o padre.

    –Espero que dará a meu filho todos os esclarecimentos de que elle
    precise e todos os conselhos da sua muita experiencia.

    –Não seja essa a duvida; mas, na verdade…

    O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a
    phrase ao egresso.

    Pelos modos a ceia ia tardando.

    –Com licença–disse elle, levantando-se–eu vou vêr como correm as
    coisas na cozinha.

    Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico:

    –Não tem que vêr. Filho mação, pae idiota… casa perdida.

    Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos
    attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, pé ante
    pé, á cozinha, a fim de surprendêl-o em flagrante.

    Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate ás suspeitas um acalorado travar de
    vozes, que de lá vinha.

    Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelão, o inimigo
    irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais
    attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com
    uma perna atravessada sobre a outra e as mãos a segurarem o joelho, nem
    ouvia o chiar das caçarolas, nem se lembrava da ceia.

    O padre fumou com a descoberta.

    O hortelão dizia:

    –Foi então que o imperador… oh aquillo é que era um homem!… foi
    então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do
    Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832,
    alli pela tardinha.

    E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou
    recitando oratoriamente:

    –«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos
    paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa
    vinda e confiam…

    Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D.
    Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas
    vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo
    indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:

    –Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta
    sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!

    Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus
    postos. O hortelão reagiu, como era seu costume.

    –Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e
    ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer,
    póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do
    imperador e…

    –Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o
    logar dos hortelões não é na cozinha.

    –Lá se vamos a isso, tambem o do capellão não é ao pé das panellas, e
    comtudo vocemecê póde dizer-se que não tem outro posto, onde esteja mais
    firme.

    –Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e
    depois não se queixe.

    –Não se metta o snr. padre commigo, se não quer ouvir. Olhe que eu fui
    soldado, e não é um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos
    teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o
    convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco
    que não morriam queimados todos os meus camaradas de caçadores 5. Hein?
    que diz vocemecê áquella caridade?

    –Você não se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que você
    tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religião e da igreja.

    –Quem fallou em tal? Eu em quem fallo é nos frades, que é coisa
    differente.

    A desavença terminou com a subita sahida do padre, que perdia as
    estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas,
    e o hortelão passou a contar por miudo como tinha sido o caso do
    incendio do convento dos Franciscanos.

    O padre, na presença do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa
    contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua
    immediata demissão. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o
    silencio do costume.

    D'ahi a momentos estava o procurador aplacado…, porque ceiava.

    Á ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.

    Ninguem fallou durante a refeição nocturna. O padre estava amuado, D.
    Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre
    o aspecto carrancudo do padre.

    Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho:

    –O snr. frei Januario já está informado do que hoje se combinou. Ámanhã
    elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.

    E depois de uma sêca «boa noite», D. Luiz sahiu da sala.

    Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem.

    Jorge interrogou o padre:

    –A que horas quer que o procure ámanhã, snr. frei Januario?

    –A que horas?… Ah!… sim… isso… eu sei?… A coisa não é de
    pressa… Se não fôr ámanhã…

    –Ha de ser ámanhã–atalhou Jorge.

    –Ha de ser! Essa é boa! Sabe lá da minha vida? Ha de ser! Tem graça.

    –Não lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero só que me passe os livros
    e os papeis.

    –Os livros!… e os papeis… Mas para que?

    –Porque d'ámanhã em diante tomo conta d'elles.

    –Eu não me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o
    que eu nunca esperei d'elle. É bem custoso receber tal paga no fim de
    tantos annos de serviço! E então que patetices! Attender aos caprichos
    de uma criança em coisas tão sérias como estas! E sabe que mais, snr.
    Jorge? Eu não tenho vagar nem paciencia para me pôr agora a ensinar
    meninos.

    Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o,
    dizendo:

    –Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lição ou conselho?

    –Então para que me procura ámanhã?

    –Para que me dê os livros e mais documentos relativos á gerencia da
    casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. Não são perguntas
    de discipulo…

    –Percebo o que quer dizer na sua, são de juiz.

    –Não. Quem o suppõe réo? Não, senhor. É apenas uma curta conferencia,
    como o trocar da senha entre a guarda que se rende.

    –Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto?

    –Muito sériamente.

    –Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de
    consciencia, e eu não sei se devo…

    –Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um
    procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo
    constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os
    livros da sua escripturação.

    –E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de
    escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem.

    –Então geria de cabeça, frei Januario?–perguntou Mauricio, rindo.

    –Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de
    parlapatices e espalhafatos é que nunca fui.

    –Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei
    Januario–concluiu Jorge.

    –Snr. frei Januario, muito boa noite–secundou zombeteiramente
    Mauricio.

    –Ide com nossa Senhora–murmurou o padre irritado.

    Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.

    Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa
    ceia, ia resmungando:

    –Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola… E como elle
    falla?! Parece já um senhor que _todo lo manda_! Os livros! Era o que me
    faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da
    casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o
    nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a
    casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar.
    Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho
    ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar!
    Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vêr o sarilho, em que isto
    tudo está mettido, que nem eu sei já como sahir d'elle, então é que ha
    de dar vivas, e gritar «aqui d'el-rei.» Ora deixa estar.

    E o padre ria, ria de boa feição, ao pensar no logro que havia de pregar
    a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vêl-o.

    Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados
    baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador.

    Jorge não dormiu, como o padre; velou até alta noite, lendo, calculando,
    combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou
    igualmente no futuro, na revolução que ia operar-se na sua vida, mas de
    um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso.
    As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem
    que se fixasse uma só d'ellas. Era um succeder de ideias tão rapido, que
    parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o
    viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor.

    No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge.

    Frei Januario tentou realisar a traça que com applauso proprio delineára
    na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem
    classificação nem escolha, procurações, recibos, contas, contractos de
    arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitação com a
    fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a
    inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspirações ambiciosas.

    Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto
    successor, o padre, encostando os braços á banca, apoiou o queixo entre
    as mãos, posição em que a bôca repuxada lhe tomava um geito de
    caricatura eminentemente comico, e ficou á espera do resultado das suas
    manhas com um sorriso de malicia e triumpho.

    Jorge porém não desanimou. Com um rapido lançar de olhos julgava da
    importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha
    de lado para segundo exame ou os guardava como vistos.

    Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais
    minuciosa revista.

    Frei Januario já se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia
    vendo ás coisas, e insensivelmente foi tomando uma posição mais discreta
    e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que até alli observára Jorge.

    O peior não tinha principiado ainda.

    Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de
    importancia, de uma serie de perguntas, que embaraçaram sobre maneira o
    padre. Reconheceu então que o filho de D. Luiz não era a criança que
    elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle
    proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual
    esperava dar uma memoranda lição ao impertinente discipulo, podia muito
    bem terminar com notavel desvantagem do mestre.

    Ao principio do fogo cerrado de questões e objecções, o padre tentou
    entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas
    teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade
    varonil, com que Jorge lhe insinuou:

    –Snr. frei Januario, eu não vim aqui para brincar, nem o assumpto da
    nossa conversação é digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros
    herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada até
    agora.

    O padre experimentou a arma da dignidade offendida.

    –Então quer dizer que desconfia de mim?… e instaura-me um processo?

    –Peço-lhe por favor que não venha com isso outra vez. Ninguem o accusa,
    já lh'o disse. Peco-lhe só esclarecimentos sobre o passado, para poder
    caminhar para diante.

    Frei Januario acabou por se convencer de que não havia fugir á
    sabbatina. Não lhe foi suave tarefa aquella.

    Jorge pela primeira vez lhe fazia vêr os erros de officio que elle
    commettêra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo
    em que deixára outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que
    puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a
    testa, entrava em explicações confusas d'onde com muito custo sahia,
    titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio
    céos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro á paciencia e
    fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observação
    que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do
    padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o
    opposto ao que frei Januario prognosticára. Quem d'elle sahiu atordoado,
    desgostoso e disposto devéras a não querer saber mais da administração
    da casa, foi o padre e não o rapaz.

    Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia,
    em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao
    simples sôpro de uma criança. A impressão que lhe ficou d'este apertado
    inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mêdo
    de Jorge, e a empallidecer só com a lembrança de uma scena como aquella.

    Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, já o padre
    previa com terror uma interpellação e ficava nervoso! Muito mais se D.
    Luiz estivesse presente.

    Assim pois, graças a estes mêdos, frei Januario em vez de tornar-se
    vigilante em relação aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto,
    quanto podia.

    O desgraçado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua
    administração, que o seu desejo era vêr passar já sobre ellas muitos
    annos para desvanecer-lhes os vestigios.

    Jorge ficou pois completamente á vontade. D. Luiz, interrogando o
    capellão, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para
    administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar
    cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos,
    como por tantos annos fizera aos do padre.

    Portanto, sem desconfiança de pessoa alguma, pôde Jorge combinar com
    Thomé, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de
    administração. Thomé era n'estas coisas um prudente e avisado
    conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas
    commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro,
    por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas
    as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre
    que pôde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do
    emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thomé da Povoa.

    Causou espanto na terra a revolução administrativa da Casa Mourisca. Os
    que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que,
    movidos por ellas entravam em transacções com a casa, conceberam ao
    principio lisongeiras esperanças, vendo que tinham a tractar com um moço
    inexperiente. Cêdo porém se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso
    e perspicaz, graças á intelligencia propria e aos conselhos do
    previdente Thomé, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado
    sequer.

    As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite,
    como já dissemos.

    Jorge sahia de casa quando já todos dormiam menos Mauricio, unico que se
    recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmão.

    Thomé da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo
    mysterio, e ás vezes prolongavam-se até altas horas estes conciliabulos
    economicos.

    N'elles, ambos aprendiam. Thomé abria a Jorge os thesoiros da sua muita
    experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um são juizo e
    uma natural lucidez. Jorge, que já enriquecêra a sua bibliotheca de
    novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava
    a Thomé dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes
    estrangeiros, e eram para vêr a attenção e o enthusiasmo com que o
    lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e
    supersticioso amor pelas praticas velhas, Thomé tomava nota de muitas
    d'essas innovações, para as experimentar, praticando-as nas suas
    proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisação
    não planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura
    nos paizes mais adiantados, onde é exercida por homens intelligentes e
    instruidos!

    Passado pouco tempo Jorge gozava já na aldeia de uma fama de fino
    administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes.

    Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos
    ressentimentos de frei Januario.

    Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito
    inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu
    despeito, tentára o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade.

    Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura,
    que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperança d'ellas, e
    depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo
    sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da
    casa, não era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas
    atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do
    snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte
    lavava as mãos de tudo.

    A estas palavras, levantou-se murmuração entre alguns criados, que não
    tinham grande confiança no novo gerente e que reclamavam do padre o
    pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por
    esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administração.

    –Não quero saber de contos–insistia o padre.–Por feliz me dou eu em
    me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como
    puderem.

    A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelão, que declarou
    que pela sua parte estava satisfeito com a mudança, porque o snr. Jorge
    era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para
    cumprir a sua palavra.

    Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as
    modificou.

    Foi o apparecimento de Jorge.

    A scena passára-se em uma sala contigua á do cartorio da casa, onde
    desde pela manhã Jorge se encerrára a examinar uns papeis de
    importancia. O padre suppunha-o fóra, e por isso promovêra aquella
    reunião, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pôde Jorge ouvir tudo.

    Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e
    terminal-a airosamente, embora á custa de algum sacrificio. N'esta
    resolução levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual
    communicavam as duas salas.

    Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido.

    Jorge dirigiu-se placidamente áquelles.

    –Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem
    pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e não
    levantassem esse clamôr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou
    para lhes fazer contas.

    E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no
    gabinete, occultando-se uns com os outros.

    –Entre tambem, frei Januario–disse Jorge ao padre, que procurava
    retirar-se sorrateiramente da sala.

    O padre teve de obedecer, a seu pesar.

    Jorge sentou-se á mesa e principiou a interrogar os criados, um por um,
    sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois
    de obtida a informação.

    Assim os correu e satisfez a todos, á excepção do hortelão, que o estava
    a observar calado e com os olhos humidos.

    Jorge voltou-se para elle e disse-lhe:

    –Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes
    desconfiados. Tu és dos que esperam com esta garantia.

    E estendeu-lhe a mão francamente aberta.

    O hortelão quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas.

    –Ó snr. Jorge! A maior paga que me póde dar é… não me pagar nunca.

    Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra
    vez o dinheiro recebido.

    –Lá por isso… nós tambem esperamos…

    Jorge restituiu-lhes o dinheiro.

    –Não é necessario… Levem-n'o.

    E depois acrescentou:

    –As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanças
    no serviço. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar
    os de lavoura. Por isso, vossês quatro, Francisco, Lourenço, Pedro e
    Romão, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois.
    Vossês, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que
    pretendam empregar-se aqui no mesmo serviço, mandem-nos ter commigo. E
    agora podem ir.

    O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observação.
    Sahiram todos.

    –Frei Januario–acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava
    meio aparvalhado–podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de
    casa. Apesar d'isso agradeço-lhe o ensejo que me deu de a pagar!

    O padre resmungou não sei o quê, e sahiu cada vez com mais medo de
    Jorge.

    –Onde foi o diabo buscar já tanto dinheiro?–pensava elle.–Não póde
    deixar de ser da maçonaria.

    O hortelão ficou só com Jorge.

    O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distincção que
    recebêra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge
    como é que se tinha dado o ataque do monte das Antas.

    Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para
    augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia.

    VIII

    Succederam muitos dias sem que na vida dos differentes personagens, que
    já temos apresentado ao leitor, occorressem incidentes dignos de menção.

    Mauricio permanecia na aldeia, e vivia n'ella a mesma vida que até alli,
    porque não se obtivera ainda da prima baroneza a resposta á carta de D.
    Luiz.

    Apesar da energia com que vimos aquelle rapaz abraçar os nobres
    projectos do irmão, exige a verdade que se diga que elle soffria com
    demasiada resignação as delongas da empreza, na parte que lhe dizia
    respeito, e continuava a distrahir-se como d'antes em passeios, caçadas
    e aventuras galantes. Estava-lhe isto no caracter.

    Jorge, esse deitára-se de corpo e alma ao trabalho. Estudava no
    gabinete, discutia nas conferencias com Thomé, e principiára já a
    realisar reformas e melhoramentos, promettedores de vantagens futuras.

    Os capitaes agenciados pelo fazendeiro haviam já permittido libertar a
    casa de muita usura e encetar em uma das melhores propriedades do antigo
    morgado trabalhos agricolas mais activos e methodicos; viam-se já por lá
    as enxadas e os arados revolverem a terra e desarreigarem as hervas
    estereis; já se podava e enxertava nas vinhas e pomares quasi bravios,
    aproveitavam-se as aguas, fertilisava-se o solo, sentia-se renascer
    aquella natureza amortecida, como se entrasse na convalescença de uma
    longa enfermidade.

    Frei Januario presenciava aquelles prodigios com espanto e despeito,
    murmurando dos gastos loucos, em que o rapaz se mettia.

    –Muito havemos de rir a final–dizia elle.–Entradas de leão; agora as
    sahidas…

    Não communicava porém as suas reflexões ao fidalgo, porque tinha mêdo de
    Jorge.

    D. Luiz, que em um dos passeios que costumava dar a cavallo, acompanhado
    de escudeiro, á distancia marcada pela velha pragmatica, teve occasião
    de observar esses melhoramentos, sentiu um intimo prazer, sabendo que
    aquella fazenda era agricultada por conta da casa. O fidalgo não
    procurou informar-se dos meios pelos quaes Jorge chegára a realisar o
    milagre. Cresceu a confiança no filho e de olhos fechados entregou-se a
    ella.

    Não pararam aqui os trabalhos de Jorge. A casa, como já dissemos,
    luctava, havia muito tempo, com um importante litigio, que podia decidir
    do destino de quasi metade dos seus bens. Esta demanda, complicada e de
    uma marcha morosissima, tomára ultimamente uma feição pouco favoravel
    aos fidalgos da Casa Mourisca.

    Frei Januario já prevenira D. Luiz de que a considerasse perdida.

    Jorge, na revista a que procedeu nos archivos de familia, encontrou
    documentos, a seu vêr importantes e até alli não aproveitados, por
    incuria do padre-capellão. Mostrou-os a Thomé, que experiente n'estes
    negocios como um verdadeiro lavrador do Minho, confirmou a valia do
    achado, e ambos resolveram remettêl-os a um novo advogado, a quem se
    entregou a direcção do litigio.

    Haviam pois sido bem encetados os trabalhos de Jorge. Longe ia ainda o
    seu pensamento da realisação completa. O que havia por fazer era muito
    mais do que o que estava feito, mas os principios animavam.

    Por este tempo porém sobreveio um acontecimento, que algum tanto
    transtornou a face d'estes negocios.

    Recebeu-se na Herdade uma carta de Bertha.

    Preciso é porém dizermos algumas palavras a respeito de Bertha, antes de
    a introduzirmos em scena; porque a leitora suspeita já que vae chegar a
    final a heroina da historia; e a ausencia d'ella em sete capitulos
    inteiros talvez não tenha já sido pouco estranhada.

    Bertha, segundo atraz fica dito, era a filha mais velha de Thomé.

    Nascida na época em que o fazendeiro não era ainda o homem abastado em
    que depois se tornou, procuraram-lhe os paes bons padrinhos, para
    assegurarem o futuro da pequena.

    Thomé obteve do fidalgo da Casa Mourisca a condescendencia de acompanhar
    a criança á pia baptismal; Luiza, pela sua parte, solicitou e conseguiu
    identico favor de uma senhora do Porto, para casa de quem ella por muito
    tempo lavára, quando n'esse mister occupava a sua robusta juventude.

    A roda da fortuna, por uma das suas muito sabidas revoluções, alterou a
    posição relativa de toda esta gente, durante o decurso dos primeiros
    annos de Bertha.

    Já sabemos como, em virtude d'esta revolução, Thomé subiu gradual e
    incessantemente, emquanto D. Luiz descia. O mesmo que a este ultimo
    succedeu á tal senhora, cuja indole bondosa e timida não soube oppôr
    estorvos ás prodigalidades de um irmão perdulario; vendo-se em
    consequencia d'isso obrigada a sahir do Porto, onde vendeu tudo o que
    tinha, para ir para Lisboa educar meninas.

    A primeira discipula que teve foi Bertha. Os paes sentiam ambições por a
    filha e queriam dar-lhe a educação de uma senhora, aproveitando e
    cultivando n'ella as boas disposições que já adquirira na convivencia
    com os pequenos da Casa Mourisca, onde era recebida com affecto. Além
    d'isso, outra e mais generosa intenção levou-os a darem aquelle passo.
    Queriam concorrer para alliviar o infortunio da infeliz senhora, que
    sempre na opulencia os auxiliára e estimára. Possuiam porém bastante
    delicadeza para lhe offerecerem soccorros, sem um pretexto a coloril-os.
    Pediram-lhe pois que tomasse conta da educação de Bertha, e assim, além
    da mezada do costume, tinham o ensejo de fazerem valiosos presentes á
    mestra, que percebia e apreciava com lagrimas a generosidade d'aquelle
    proceder.

    Foi assim Bertha mandada educar para Lisboa, o que não provocou escassos
    commentarios na aldeia, onde se disse que o Thomé da Herdade se
    afidalgava, e que já não queria ter filhos lavradores.

    O senhor da Casa Mourisca não viu tambem com bons olhos aquelle passo de
    Thomé, cujo engrandecimento havia já muito tempo que principiára a
    incommodal-o.

    Bertha, que fôra até então a companheira de brinquedos dos meninos da
    Casa Mourisca e de Beatriz, a pallida e meiga criança, que temos visto
    viver ainda na memoria de quantos a amaram, deixou a aldeia uma
    madrugada com lagrimas e soluços.

    Desde então conservou-se em Lisboa, onde só o pae a foi vêr, por duas
    vezes, deixando-a inteiramente entregue aos cuidados da senhora, que lhe
    ganhára affeição, cada vez mais funda.

    Bertha crescêra; as graças infantis foram a pouco e pouco perdendo
    n'ella aquellas illuminadas cores com que nos alegram e, diluindo-se nas
    mysteriosas sombras de uma juventude de mulher, sombras que não empanam
    a belleza, antes lhe dão mais e mais seductor relêvo. Bertha não era já
    a criança que sahira da aldeia, sem um pensamento que retivesse, sem um
    sorriso que encobrisse, sem um olhar que se desviasse pensativo ou
    timido, sem uma dôr que se não manifestasse em lagrimas; era já a virgem
    de dezoito annos, sob a influencia da vida nascente do coração, e
    portanto sujeita a todas as subtis impressões, dominada por todos os
    impulsos contradictorios e por todas as indefinidas aspirações d'aquella
    quadra magica.

    A vida das cidades, sem lhe dar a morbida languidez, que tão sem razão
    anda confundida com a elegancia, apurára-lhe a delicadeza feminina,
    desenvolvêra-lhe a sensibilidade para os affectos e a intelligencia para
    os prazeres do espirito.

    Mas o que em Bertha sobre tudo havia mais digno de referir-se aqui, por
    ser menos commum phenomeno do que esses que descrevemos, era a
    permanencia de uma razão clara no meio dos attractivos e seducções, com
    que a phantasia tantas vezes, em circumstancias taes, a offusca. Gozava,
    mas sem embriaguez; sentia, mas sem arroubamentos; e, apreciando as
    prendas de educação que ia adquirindo, nunca perdia de vista a modestia
    do seu nascimento e a modestia do futuro que naturalmente devia ser o
    seu. Se tinha sonhos de juventude… e quem os não tem n'aquella idade?
    sabia que sonhava e não se distrahia a procurar no mundo real as visões,
    que n'elles lhe appareciam.

    A lembrança da sua origem modesta não a fazia melancolica, mas prudente.
    Não era aquella ideia uma sombra negra, que não lhe deixava vêr a luz;
    simplesmente um como crystal córado, que lhe permittia fital-a, sem mêdo
    de offuscação e cegueira.

    Assim, no meio das suas effusões, das suas melancolias e até dos seus
    pequenos caprichos de rapariga, Bertha nunca deixava de ser uma rapariga
    de juizo.

    A educação de collegio não produzira n'ella a adocicada pedantaria de
    algumas meninas da moda. Nas cartas, que escrevia aos paes, nunca se lia
    uma phrase que elles não entendessem, uma palavra que os embaraçasse e
    lhes fizesse sentir a inferioridade da sua educação. Revelava-se n'isto
    um natural instincto de delicadeza, que Thomé, por um instincto analogo,
    sabia apreciar.

    Sentia que Bertha nunca se envergonharia de chamar a elle pae e mãe á
    boa Luiza, e esta convicção não o deixava arrepender de a haver educado
    com esmero. Pobre do homem se esses cuidados lhe tivessem alienado os
    affectos da rapariga!

    As cartas de Bertha eram escriptas de fórma, que não sómente aos paes
    agradavam, mas a quantos as liam.

    Thomé mostrara-as a Jorge, e este não pôde deixar de apreciar a redacção
    singela e despretenciosa em que parecia reflectir-se a candura e pureza
    d'aquelle caracter de mulher. Havia n'ellas uma maneira de pensar tão
    acertada, vistas tão despidas de preconceitos, tanto sentimento revelado
    com tanta sobriedade de phrases sentimentaes, que são o maior achaque
    nas cartas de mulher; transpareciam tão distinctamente os suaves e
    generosos instinctos da sua alma feminina, que o espirito de Jorge
    sympathisou naturalmente com aquelle outro espirito que, n'essas
    ligeiras manifestações, se revelava tão irmão seu.

    A pouco e pouco uma d'estas sympathias, que ás vezes se originam no
    coração, lentas, brandas, ignoradas, sem a agudeza das paixões,
    despertadas por um ente, de quem apenas se conhece o nome, ou quando
    muito uma feição, um acto da vida, um pensamento, insinuou-se no coração
    de Jorge. Era um sentimento, que não o inquietava ao principio, nem lhe
    perturbava o espirito, por isso não se acautelou d'elle; deixou-se
    repassar d'aquelle grato influxo, sem se lembrar sequer de lhe estudar a
    natureza, e muito menos de suspeitar-lhe os perigos.

    Um dia mostrou-lhe Thomé o retrato da filha. Jorge encontrou n'elle as
    feições que conhecêra infantis, animadas agora pela vida da
    adolescencia. Pareceu-lhe não haver contradicção entre aquella
    physionomia e o caracter que suppozera a Bertha; e a imagem da rapariga
    começou a apparecer-lhe com insistencia nos seus devaneios de rapaz.

    Jorge então assustou-se. Sentia pela primeira vez alguma coisa em si, de
    que a razão lhe não dava boas contas. Pareceu-lhe ser aquillo uma
    fraqueza, indigna do seu caracter serio, e resolveu pois vencêl-a.

    Desde esse momento principiou uma estranha lucta n'aquella alma, sem que
    apparecessem fóra vestigios que a denunciassem. Sentia um inexprimivel
    prazer ao ouvir fallar de Bertha; e por isso mesmo fugia aos ensejos de
    experimental-o. Esta contenção forçada acabou por produzir no espirito
    de Jorge um effeito singular; foi um grau de irritação, revelado em uma
    especie de hostilidade para com Bertha, cuja imagem viera perturbar-lhe
    a limpidez de coração, que tivera até alli, e fazer-lhe pela primeira
    vez vacillar a razão, que todos n'elle admiravam. Era o caso de poder
    dizer-se, em estylo de conceitos: «queria-lhe mal por lhe querer bem.»
    Receiava-se d'ella, e fazia o possivel para desvanecer a impressão por
    que se sentia dominado.

    Taes são as indicações que julgamos dever dar a respeito de Bertha,
    antes de narrarmos o effeito da carta, que d'ella se recebeu na Herdade.

    Esta não era uma simples carta de cumprimentos ou d'aquellas, em que a
    filha se estendia em longas conversas com o pae, contando-lhe por miudo
    os singelos episodios da sua vida de rapariga. D'esta vez havia n'ella
    uma nova importante e que ia modificar o plano de vida da familia.

    A senhora, em casa de quem Bertha se educava, havia repentinamente
    fallecido.

    Bertha escrevia assim ao pae:

    «Meu querido pae.

    «Escrevo-lhe a chorar e com o coração a partir-se-me de dôr. A minha
    madrinha falleceu esta madrugada. Ainda hontem à noite esteve a
    conversar e a rir comnosco, e tinhamos até combinado para hoje um
    passeio a Cintra! De madrugada foram acordar-me a toda a pressa para
    ir ter com a senhora, que estava mal. Cheguei para a vêr expirar;
    custou-lhe já a dar-me um beijo e a despedir-se de mim. Imagine como
    estou! Nós todas ficamos como loucas! Ainda isto me parece um sonho!
    Veja que malfadada senhora! Agora que principiava a viver outra vez
    mais feliz!… Peço-lhe que me diga o que devo fazer n'este caso. Eu
    sei que o pae já uma vez fallou em mandar-me para outro colegio, se
    por acaso me faltasse a minha madrinha. Deixe-me porém lembrar-lhe
    algumas coisas, e depois decida. Eu não quero dizer que tenha uma
    educação perfeita; mas, como não conto, nem desejo, viver nas salas
    d'aqui, posso bem passar sem esses apuros, que para isso me seriam
    precisos. Muito tem já o pae feito por mim; é preciso agora olhar
    por meus irmãos, e alguns estão em idade em que ainda podem
    agradecer-me alguns serviços, que eu ahi consiga fazer-lhes.
    Mande-me ir. A mãe deve ter muito trabalho em olhar por tudo em
    casa. É tempo que eu a ajude em alguma coisa. Aos dezoito annos é
    uma vergonha não o fazer. É uma parte da minha educação que posso
    concluir ahi e que me será bem necessaria. Demais confesso-lhe que,
    depois da morte de minha madrinha, havia de custar-me a continuar em
    Lisboa. Peço-lhe pois que me deixe ir viver comsigo e matar as
    saudades, que já tenho de todos e de tudo.

    Muitas lembranças á mãe, muitos beijos aos pequenos.

    Sua filha, que espera muito cêdo abraçal-o,

    _Bertha_.

    P.S. Que não esqueça dar muitos recados á Joanna, ao Manoel da Costa
    e á filha, assim como á tia Euzebia e ás mais pessoas amigas.»

    Thomé leu á mulher a carta da filha, e entre ambos discutiram o partido
    que conviria adoptar.

    Saudades maternas e paternas, desejos de vêr de perto e abraçar a filha
    dilecta e primogenita, que havia tanto tempo lhes andava longe das
    vistas, o sonhado prazer de a sentir, animando a casa com todo o calor
    de vida que em torno de si diffunde uma rapariga de dezoito annos,
    resolveram a questão no sentido indicado por Bertha; e para assim a
    resolver, quasi bastava que ella o indicasse.

    Decidiu-se pois que Bertha voltasse para a Herdade.

    D'ahi os necessarios preparativos para a accommodação da filha, cujos
    habitos, modificados pela vida da cidade, deviam ter exigencias, a que
    era justo attender.

    O instincto materno adivinhava melhor do que era d'esperar essas miudas
    necessidades, e a liberalidade paterna provia a ellas. E tudo isto
    preoccupava o feliz casal, cujo contentamento se reflectia em criados e
    jornaleiros.

    Jorge encontrou uma noite Thomé ainda empenhado n'esta labutação
    caseira, e soube d'elle a causa de tanto alvoroço.

    O filho mais velho de D. Luiz ouviu com sobresalto a noticia.

    Parecia prever a aproximação d'um perigo, que mal ousava definir.

    Dissimulou comtudo o que sentia, e deu a Thomé e a Luiza os parabens
    pela proxima chegada da filha, e até os auxiliou com o seu alvitre na
    resolução de algumas difficuldades, relativas ao arranjo do gabinete
    destinado a Bertha.

    Sahiu porém da Herdade debaixo de estranhas impressões moraes.
    Experimentava um mixto de mal definido prazer e ao mesmo tempo de
    desgosto.

    Thomé resolvêra ir elle proprio a Lisboa buscar a filha.

    Interromperam-se pois, durante alguns dias, as conferencias economicas
    da Herdade.

    A demora de Thomé não foi longa.

    Pouco mais de oito dias passados, era elle de volta com a Bertha.

    Uma tarde vinha Mauricio a cavallo de uma excursão pelos campos, quando,
    ao descer por entre os pinheiros de uma bouça cerrada, viu passar, em um
    curto lanço de estrada, que as entreabertas do arvoredo deixavam
    patentes, o vulto de dois cavalleiros.

    Attrahiram-lhe naturalmente a attenção e esperou, para melhor os
    reconhecer, que chegassem a outro lanço mais proximo e mais descoberto
    da estrada que seguiam.

    De facto, pouco depois viu que eram um homem e uma senhora, que
    cavalgavam a par.

    No homem reconheceu Thomé; a senhora pareceu-lhe nova e elegante.

    Em resultado d'esta dupla descoberta dirigiu o cavallo immediatamente
    para elles.

    Perto principiou a divisar na dama, que Thomé acompanhava, feições
    conhecidas.

    Antes porém que esclarecesse a vaga ideia que aquellas feições lhe iam
    suscitando, o fazendeiro exclamou, saudando-o com a mão:

    –Venha dar-me aqui os parabens, snr. Mauricio; venha cá, que me volta
    ao pombal uma pomba que deixei sahir d'elle ha muito tempo.

    Mauricio acabou por corroborar a suspeita que já tivera.

    Era Bertha a amazona.

    Bertha, a pequena aldeã com quem brincára em criança no pateo e na
    quinta da Casa Mourisca, a companheira de sua irmã Beatriz, a afilhada
    de seu pae e a pequenina dama, a quem dedicava já então os seus
    galanteios infantis; era ella, mas com todas as surprendentes e rapidas
    transformações que opéra o sangue da juventude na formosura de criança,
    com todo o realce e prestigio que dá á belleza a educação.

    Bertha era uma rapariga de olhos negros e de bôca graciosa, onde
    fluctuava um sorriso expressivo ao mesmo tempo de alegria e de bondade.
    Havia nos movimentos, nos olhares e nos modos d'ella um mixto da candura
    de uma criança e dos delicados instinctos da mulher; reconhecia-se a
    falta de dissimulação, que é propria dos caracteres generosos, e ao
    mesmo tempo uma natural dignidade, que impõe respeito aos menos
    reverentes.

    Mauricio sentia-se maravilhado diante da filha de Thomé.

    –Bertha!–exclamou elle, sem disfarçar a sua surpreza, nem desviar os
    olhos da rapariga, que o saudára córando.–E é certo que é Bertha!
    Conheço ainda o sorriso, que é o mesmo de outros tempos. Mas que
    differença em tudo o mais!

    Bertha desviou os olhos sob a insistencia e expressão dos de Mauricio, e
    dominando a custo a commoção conseguiu dizer:

    –Fiz-me mais velha, não é verdade?

    –Não, Bertha, fez-se um anjo–acudiu Mauricio.

    –Isso é que não–atalhou Thomé–anjo era d'antes. Hoje já não
    repicariam os sinos, se ella morresse.

    –A terra teria bem razão para lamentar-se. Ao céo é que competiriam as
    festas–atalhou, galanteando, Mauricio.

    –Tambem eu encontro mudança em si, snr. Mauricio–observou
    Bertha.–Quando o deixei, não dizia ainda d'essas coisas.

    E a mesma intima turbação tirava-lhe ainda a firmeza á voz e ao olhar.

    –Porque não as sentia, Bertha–redarguiu Mauricio.

    Bertha abanou a cabeça com ar de duvida e quasi de tristeza, e tornou
    sobresaltada:

    –Parece-me que os que melhor dizem d'essas coisas são os que menos
    sentem.

    –Tambem lhe ensinaram a desconfiar, Bertha?

    –É tão facil ensino! Cada um aprende por si.

    –Vamos–interrompeu Thomé–nada de estar parados no meio da estrada.
    Lembra-te, Bertha, de que tua mãe a estas horas não faz outra coisa mais
    do que espreitar da janella a vêr se te vê chegar.

    –Vamos lá.

    Mauricio dirigiu o cavallo para o lado do de Bertha, que cavalgava assim
    entre o fidalgo e o pae.

    –Que saudades me estão fazendo estes sitios!–dizia Bertha, suspirando
    e emquanto corria a vista pelo horisonte, que a rodeava.–Tudo me é tão
    conhecido ainda!

    –Lembra-se d'aquelles freixos, lá em baixo, ao descer para os Palheiros
    Queimados?–perguntou Mauricio, apontando para o logar que designava.

    –Bem sei. É onde está a fonte da Moira.

    –E aonde nós um dia fomos com a Anna do Védor colher agriões. Está
    certa?

    –É verdade. E por signal que nos sahiu da quinta do Emigrado um cão
    grande que lá havia, e que se atirou a mim com uma furia!

    –E não se lembra de quem lhe acudiu?

    –Sim, foi o snr. Mauricio, mas tambem lhe valeu a Anna do Védor, que se
    não fosse ella, vamos, não sei o que seria.

    –Ainda assim não impediu que o endiabrado me mordesse no pulso; ainda
    conservo a cicatriz. Olhe.

    E Mauricio mostrou o pulso a Bertha, que se curvou para observar o
    vestigio d'aquelle episodio de infancia.

    –É verdade–proseguiu Bertha, já mais á vontade–e a boa ti'Anna do
    Védor? que tanto lhes queria, a si e ao snr. Jorge? Sei que vive; mas
    ainda é o que era d'antes? alegre, robusta, franca?…

    –Quem? a ti'Anna?!–acudiu Thomé–verás, Bertha, que ainda te parece
    mais nova. Aquillo é que é mulher de casa! É um gosto vêl-a, no meio dos
    campos, de mangas arregaçadas e chapéo de palha na cabeça e de enxada ou
    mangoal na mão. O seu trabalho vale por o de dois homens. Pois n'uma
    eira?

    N'este ponto Thomé deu um assobio, que exprimia a grande conta em que
    tinha o trabalho de Anna do Védor.

    –O filho está regedor.

    –É uma boa e generosa alma–tornou Mauricio, com uma expressão de
    sincera sympatia.–E quer-nos como a filhos.

    –Isso quer–confirmou Thomé–quando falla nos seus meninos que trouxe
    ao collo e que sustentou com o seu leite, luzem-lhe os olhos.

    –E tambem me ralha com uma severidade!

    –Vamos, que ella bem sabe porque o faz. Então pensa que não lhe merece
    ainda mais?

    –Não digo que não. Só me queixo de certa parcialidade que manifesta por
    Jorge.

    –E como vae o snr. Jorge?–perguntou Bertha.

    –Muito bem. Fez-se caixeiro. Não sabe? Atirou-se aos livros e á
    papelada da casa, como um homem, e já não ha de tirar-lhe palavra que
    não seja de contas e de negocios.

    –E é um homem ás direitas–disse Thomé, com gravidade.

    –Pois sim, mas podia distrahir-se mais um bocado. Mas então? Deu-lhe
    Deus aquelle genio frio como gêlo!…

    –Eu não sei lá se é frio ou se é quente. O que sei é que é um rapaz de
    juizo e que, se continuar assim, ha de remediar muita doudice, antiga e
    moderna, que ha lá por casa.

    –A moderna é commigo, aposto. Não tem razão. Eu tambem estou decidido a
    trabalhar. Se ainda aqui me vê, a culpa não é minha.

    –Então vae partir?–perguntou Bertha.

    –Que remedio, Bertha? Cumpro uma dura lei. Deixo o coração por aqui,
    acredite; por esses valles, por essas devezas, por essas ribeiras… Mas
    que lhe hei de fazer?

    –E para onde vae?

    –Eu sei? Para onde me levar o destino. Mas o Thomé ri-se! Seu pae
    ri-se, Bertha!

    –Rio-me da lamuria. Quem o ouvir, ha de acreditar que elle parte
    devéras e que lhe custa immenso a partida.

    –E então?

    –A mim já me custa a crêr que o snr. Mauricio nos deixe; mas, a isso
    succeder, não ha de ser a chorar que arranjará as malas.

    –É injusto com o meu coração. É o que se segue.

    –Não, senhor; não sou; mas sei o que é ter vinte annos, e sei o que é
    essa cabeça. E agora o nosso caminho é por aqui. O snr. Mauricio, se
    quizer dar-nos o prazer da sua companhia, tem no fim d'esta rua uma casa
    para o receber, senão…

    –Agradecido, Thomé. Outro dia será. Não quero perturbar com a minha
    presença as alegrias de familia. Adeus, Bertha, continuaremos a ser os
    amigos que eramos d'antes, não é verdade?

    –Porque não, Mauricio… snr. Mauricio?

    E Bertha, com um sorriso de generosa confiança, estendeu a pequena e
    delicada mão á que Mauricio lhe offerecia.

    Este, com uma galanteria, que o seculo actual traz quasi esquecida,
    levou-a cavalheirosamente aos labios, movimento que augmentou as côres
    nas faces de Bertha; depois, cortejando-a com perfeita elegancia, partiu
    a galope.

    Bertha seguiu-o por muito tempo com os olhos e ficou pensativa, depois
    que o perdeu de vista.

    Thomé, que notára tudo isto, não deixou passar muito tempo que não
    admoestasse a filha.

    –Olha cá, Bertha, tem cautela com o teu coração, que não vá elle por
    ahi deixar-se prender. Eu não sei como é costume viver-se hoje lá na
    cidade, mas aqui sei o que vae. Eu te digo, não ponhas muita confiança
    n'estas amizades de Mauricio. Não digo que elle seja mau rapaz, mas a
    cabeça é que é assim não sei como. E n'isso mesmo é que está o perigo.
    Aqui ha poucos rapazes que agradem mais do que elle; é bem feito, vivo,
    esperto, generoso… Na tua idade, e com a educação que tens, não era
    para admirar que te agradasses de um rapaz assim. Mas, pensa emquanto é
    tempo, filha, no mal que a ti propria fazias, se estouvadamente te
    deixavas enfeitiçar. Elles são os fidalgos que sabes, e mais fidalgos
    ainda se julgam do que são. Tu, rapariga, és minha filha, e eu sou um
    lavrador, que já servi n'aquella casa. Entendes? Ó Bertha, por quem és,
    não me faças arrepender da educação que te dei. Porque eu, ás vezes,
    tenho minhas duvidas. Digo eu commigo: «Faria eu bem em educar minha
    filha assim? Se a tivesse deixado viver na aldeia e a creasse como filha
    de lavrador, dava-lhe um marido lavrador, e ella havia de estimal-o e de
    ser feliz com elle, e de olhar com amor pelos filhos descalços, que lhe
    andassem pelos campos e apegados á saia de baêta; mas assim… Quem
    poderá costumal-a a isso? Mas que outro marido póde ella escolher?»

    Bertha escutou o pae com um sorriso nos labios, mas sorriso que não
    annullava a expressão melancolica e pensativa, que conservavam o resto
    das feições. Mais de uma vez se perturbou ao ouvil-o, mas cêdo adquiriu
    a serenidade habitual.

    N'este ponto atalhou-o, dizendo:

    –São prudentes os conselhos que me dá. Farei por não os esquecer. Mas
    não se inquiete pela minha sorte. Nunca me deixei illudir pelos bens que
    a sua bondade me teem permittido gozar na vida; não perdi de vista o que
    sou. Sei ao que devo aspirar, e farei por não collocar a felicidade
    muito acima do alcance de meu braço. Na amizade de Mauricio creio que
    não haverá perigos para mim; mas se os houver, hei de saber fugir-lhes.
    Foram meus companheiros, quando brincavamos todos n'aquella casa;
    quero-lhes por isso, mas sei o que d'elles me separa.

    –Lá de Jorge nada temas. É um caracter serio aquelle. Se disser que é
    teu amigo, é teu amigo devéras; senão, não t'o diria; mas este…

    –Jorge é ainda o que sempre foi. Já em criança era o mesmo. Sempre tão
    serio!

    –Agora ainda mais. Elle hoje não pensa senão nos negocios da casa, que
    tomou a seu cuidado e que levará a bom fim. Creio-o. Vem quasi todas as
    noites a nossa casa; vem de noite por causa do pae, porque o velho não
    tem cura, a querer-me mal.

    –Sim?! Mas que pena!

    –Deixal-o lá, que eu em vingança hei de fazer-lhe o bem que puder.

    Poucos momentos depois chegavam a casa o pae e a filha; esta foi
    recebida nos braços da boa Luiza, que a devorou com beijos e a banhou de
    lagrimas generosas; os irmãos pequenos olhavam espantados para Bertha
    que não conheciam, e cujas maneiras de senhora estranhavam. Os criados
    felicitavam-n'a tirando o chapéo e murmurando phrases incompletas.

    Bertha no meio d'aquella effusão, d'aquelle cordial acolhimento,
    d'aquelle renascer dos dias passados e despertar de memorias queridas,
    sentia-se feliz.

    Debalde Thomé, um dos mais folgados corações alli presentes, bradava que
    era tempo de pôr termo á festa, que cada um tinha a sua vida a tractar,
    e que Bertha precisava de descanço; os abraços succediam-se, os beijos
    estalavam, as perguntas cruzavam-se e interrompiam as respostas em meio.

    Prolongou-se por muito tempo aquelle grato alvoroço, que produz a
    chegada de uma pessoa querida. A ordem, a etiqueta, os costumes, tudo
    esquece; a manifestação é ruidosa, irresistivel, desordenada, anarchica.
    Sómente quando principia a acalmar-se este agradavel delirio de alma, é
    que se repara nas irregularidades da scena, e que se remedeiam.

    Succedeu d'esta vez que só passada meia hora Luiza notou que tinham
    estado tanto tempo no quinteiro, quando os esperava a sala que ella de
    proposito e tão anticipadamente preparára para a recepção.

    A familia recolheu-se então, principiou mais regular e ordenada conversa
    entre mãe e filha, e prolongou-se até tarde.

    Thomé foi n'esse dia pouco vigilante nos campos e mais caseiro do que
    era seu costume.

    Foram momentos festivos para a Herdade, d'estes que é inutil descrever,
    porque não ha expressões que bem traduzam o que se sente então.
    Suppram-n'as as recordações do leitor; e muito sem conforto deve ter
    sido o seu passado, se não lhe dá elementos para conceber alegrias
    d'estas.

    IX

    Duram pouco as effusões, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros
    instantes, em que tornamos a vêr scenas e pessoas conhecidas, de que por
    muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire
    gradualmente a serenidade do costume; e o coração, que julgava saciar
    emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece
    que ainda não chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas
    e inquietadoras aspirações que sentia.

    É grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se
    experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um
    prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis
    expansões, desvanece-se a illusão em que se vinha; como sempre, como em
    toda a parte, o vazio sente-se no coração, que nenhum gozo enche, e ahi
    se volta a aspirar sem saber a quê, e a aguardar uma nova aurora sem
    saber d'onde.

    Quando, á noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia já
    satisfeito a sêde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar.

    O coração batia-lhe com o rithmo normal, habituára-se de novo a sua
    sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da
    impressão que o primeiro olhar que lançou sobre elles lhe produzira, já
    nem indicios restavam.

    O passado, resuscitando, perdêra já o prestigio e a poesia, que só como
    passado tem.

    Ó feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos,
    devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque
    tão depressa nos abandonaes á chegada? Porque dissipaes os vapores
    inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos
    fascinados, e nos fazeis vêr a realidade como a viamos d'antes?

    Bertha, só no remanso e solidão do seu quarto, sentiu uma profunda
    melancolia tomar-lhe o coração. Os cuidados e disvelos de Thomé e de
    Luiza não tinham sido sufficientes para transformar completamente
    aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que
    respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada.

    A este desconforto relativo não podia ser de todo insensivel a
    organisação feminil de Bertha.

    Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse
    effeito, sentia-se com uma disposição para lagrimas, que a surprendia.

    O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns
    indistinctos murmurios, que são o mysterio das noites campestres,
    conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia.

    Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de nós o
    coração, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a
    existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade
    estreitam cada vez mais a suffocar-nos.

    Não accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o
    coração na propria noite, em que voltára á casa paterna. Não duvidem por
    isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher.

    Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que
    algumas a tudo se amoldam. Ha-as tão delicadas, que a menor mudança
    resentem.

    Os corações que se prendem depressa com raizes onde se demoram, são os
    que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantação.

    Não era isto em Bertha pezar por ser tão modesta a casa dos seus paes; a
    sua tristeza era mais de instincto que de razão. E pelas impressões que
    vem do instincto, ninguem é responsavel; só á razão ha direito de pedir
    contas, e a de Bertha não recearia prestal-as.

    Como para fugir á estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou á
    janella do quarto, que deitava para os campos.

    Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de
    pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fóra um
    silencio que amedronta, uma escura vastidão que apavora, silencio que ás
    vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha,
    e não sei que outros ruidos vagos; escuridão, onde parece distinguir-se
    o movimento de umas fórmas estranhas e monstruosas.

    Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplação por algum tempo, já não
    a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa
    interrupção vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos
    no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que
    aquella paz, que aquella quietação, que aquella treva nos absorve, que
    nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte
    integrante de si mesma.

    Opera-se em nós uma quasi magnetisação. Adormece a sensibilidade que nos
    revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda
    d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses
    momentos, Sancto Deus! Como a imaginação vagueia, como parece que
    d'aquellas confusas sombras, que temos diante de nós, nos surjem as
    memorias do passado e veem, em silencioso vôo, adejar sobre as nossas
    cabeças e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas.

    O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes
    affectos. Não havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil
    clarão da aurora que os precede, essa mysteriosa vibração de alma, que
    sente nascer em si faculdades novas.

    Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam.

    Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a
    delicada criança, que parecia ter vivido sómente para semear de saudades
    o coração de quantos a conheceram.

    Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas
    com ella; os jogos, os folgares e até as lagrimas, choradas em commum.

    Que tempos!

    E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras
    duas crianças, seus irmãos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual já
    então havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se
    Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou
    reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que
    todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinião; e a
    contrastar com esta serena imagem, esboçava-se a do inquieto, vivo e
    estouvado Mauricio, criança prompta nos risos e no chôro, violenta nas
    expansões, tão amoravel como colerica, e em cujo coração infantil
    ferviam já nascentes as paixões de homem. Era esta talvez de todas a
    imagem que avultava mais distincta nas recordações de Bertha. Que de
    episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmãos
    fôra este o predilecto; o seu coração de criança abrira-se mais á
    franqueza de Mauricio, do que á seriedade de Jorge; havia no olhar
    d'este uma expressão grave que a intimidava. Depois a differença da
    idade concorria para augmentar esse effeito.

    E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa
    Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas.

    Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros
    enormes, que guardavam os jardins encantados.

    De repente o monstro abriu um olho.

    Appareceu uma luz em uma das torres do palacio.

    Era a unica que divisava em toda aquella escuridão.

    Bertha não pôde mais desviar os olhos d'ella.

    De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem
    passeiasse diante. Depois fixou-se, e sómente mais de espaço a espaço se
    eclipsava, para surgir mais viva.

    Tudo parecia indicar que se velava alli dentro.

    –Será o snr. D. Luiz?–perguntava a si mesmo Bertha, observando a
    luz.–Em que pensará elle a estas horas? Pobre velho, alli só, n'aquella
    casa deserta!… É em Beatriz de certo que pensa como eu… Ou, quem
    sabe? talvez não seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio,
    provavelmente… Sim, alli deve ser o quarto d'elles…

    E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo
    da visão de Bertha.

    As palavras que trocára com elle aquella tarde, a maneira como a olhára,
    e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia
    reflectir.

    Adivinharia Thomé com o seu bom instincto de homem do campo?

    Haveria para o coração de Bertha perigos na presença de Mauricio?

    Era tão natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que, á similhança
    da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de
    puros aromas, o noivo que tarda; encontra tão facil asylo a imagem de um
    adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das
    saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si
    umas pueris paixões, com que se illudiu a infancia, que razão tinha
    Thomé para receios e razão tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar
    com inquieta apprehensão o sanctuario dos seus mais intimos affectos.

    Prolongou-se esta contemplação em Bertha, e succederam-se-lhe no
    espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na
    luz da Casa Mourisca. Só muito tarde desappareceu subitamente essa luz.
    Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se então para o interior do
    quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo.

    A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito
    que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstracção.

    A vista dos objectos do quarto evocou-a á realidade. Passou as mãos pelo
    rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a
    opprimiam, sacudiu a cabeça suspirando, e procurou serenar o espirito,
    para dormir.

    –É necessario ter juizo–murmurava ella, soltando as tranças–e soprar
    quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vêr, como elle é, o
    sol da realidade. É tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida
    que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os
    annos de criança passaram.

    E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resolução.

    Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das
    janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella
    uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha não se
    perdêra no espaço, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns
    raios na passagem.

    Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do
    fidalgo.

    Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da
    noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no
    quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim.

    Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a
    momentaneamente.

    Esta noite havia porém mais agitação em Jorge do que lhe era habitual;
    os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril;
    concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais
    frequentemente.

    As vigilias de Mauricio não eram mais curtas do que as de Jorge, mas
    consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas
    digressões pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das
    circumvisinhanças, onde houvesse uma mesa de _wist_ ou um canto de
    fogão, animado pelo sorriso das damas.

    Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmão estudando, e era de
    costume d'elles passarem alguns momentos a conversar.

    N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge,
    que passeiava no quarto, sentou-se depressa á banca, e inclinou a cabeça
    sobre um livro que tinha aberto diante de si.

    Á entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mão, e proseguiu ou
    fingiu que proseguia na leitura que encetára, até terminar a pagina.

    –Boas noites, nigromante–saudou-o Mauricio.–A estas horas, n'esta
    torre, á luz mortiça d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti,
    representas admiravelmente um astrologo.

    Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.

    Mauricio chegou-se á janella:

    –Mas é preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E
    ellas hoje que estão tão scintillantes! Ah! grande novidade no nosso
    firmamento! Graças a Deus que, além de nós, ha já mais alguem na aldeia
    que não dorme a estas horas!

    Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmão á janella.

    –Que queres dizer?–perguntou aproximando-se.

    –Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia!

    –Uma luz?!

    –Sim, e é em casa de Thomé.

    Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo
    calado; depois murmurou:

    –Thomé ainda de vela a estas horas! É singular!

    –Faz-lhe mais justiça–tornou Mauricio.–Thomé dorme ha boas quatro
    horas. A gente do campo é incapaz do extravagante delicto de
    escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios
    de habitos cidadãos. Quem vela é a filha, com certeza.

    –Ah! sim… Bertha… esquecia-me de que tinha voltado–acudiu Jorge,
    esforçando-se por dizer isto em tom natural e indifferente.

    –Voltou, e bem outra do que foi!–advertiu Mauricio.

    –Em quê?–perguntou Jorge, olhando para o irmão.

    –Foi d'aqui uma criança agradavel, e veio uma encantadora mulher!

    –Ah! ah; já notaste?–disse Jorge, com um sorriso contrafeito.

    –Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vêl-a, que fosse a
    filha do Thomé. Um ar tão delicado, umas maneiras tão distinctas, tão de
    cidade!…

    –Olha se te deixas apaixonar por ella; anda lá!–continuou Jorge, ainda
    no mesmo tom.

    –Não seria prova de mau gosto, afianço-te. Que superioridade, comparada
    a todas as nossas primas d'estes arredores! O que é a educação!

    Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado:

    –Provavelmente não produzirá em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza
    de que hei de sentir saudades, ao vêl-a, da Bertha, que conheci pequena.

    –Não duvido, porque és bastante philosopho para isso. Eu por mim
    confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que
    tenho por crianças, não me sinto com disposições para repetir as
    palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para
    mim… as grandes…

    –Em vez da criança alegre e innocente–proseguiu Jorge com
    acrimonia–da criança que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz,
    preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda,
    com um pouco de geographia e de historia na cabeça e deixando cahir da
    bôca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a
    heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E é isto o que
    te encanta?… Pois olha, eu até já não gosto de vêr aberta aquella
    janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e é nas raparigas
    uma doença impertinente, insupportavel.

    E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar.

    –Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime
    que dizes, até tu, o homem menos capaz de commettêl-o que eu conheço,
    poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha é realmente adoravel.
    Verás. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais
    depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem
    suspeitará, ao vêr Bertha, a origem aldeã que ella teve. A mim
    parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que tão airosamente
    cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thomé da Povoa e d'aquella
    excellente Luiza.

    –Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? Já?!–notou Jorge, em um tom de
    acerba ironia, que era novo n'elle.

    –Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. Não a conheci ao
    principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E
    depois tinha no olhar tantas promessas!

    Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado.

    –É o que eu digo–murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou:

    –Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Póde ser de
    mais sérias consequencias do que as duzias de paixões que tens tido por
    as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam
    conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco
    illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de
    uma sêpa igualmente ante-diluviana.

    –Ahi estás tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheço-te,
    Jorge. Realmente não sei d'onde te veio essa febre democratica e
    philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria.

    Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente não lhe era inspirada
    pelo assumpto:

    –Não sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexão por dia. É o
    que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se
    deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que
    resista á sua inutil ociosidade; e que hão de ficar muito admirados
    quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os
    não tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a.

    Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na
    vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito
    de facticio; como se procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo
    do seu estado nervoso.

    –Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções
    aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por
    Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha
    n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que,
    se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para…
    arranjar um modo de vida… não juro que pudesse ser indifferente
    áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer
    parecer-me que ella ainda as não esqueceu.

    Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.

    –Mas aquella luz não me sahe do pensamento–proseguiu Mauricio.–Que
    estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece
    que está alguem á janella?

    –Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo
    que sim.

    –Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão
    ter realidade as vagas aspirações do seu coração.

    Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:

    –Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que
    deixou suspirando em Lisboa.

    –Estás insupportavel, Jorge.

    –Uma experiencia!–exclamou, passados alguns momentos de silencio,
    Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.–Tu estás
    dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de
    Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz,
    ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha
    que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que
    fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer
    mostrar que tambem prolonga as suas _rêveries_ por noite alta.

    –Ora! deixa-me com as tuas observações!

    –Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado.

    Mauricio condescendeu.

    A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da
    noite.

    Como o leitor já sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por
    Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto.

    –Eu que dizia?–exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se
    aquelle rir lhe fizesse mal.

    –Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor–disse Mauricio, despeitado.

    –Tanto melhor?!

    –Sim. Porque não hei de eu vêr, n'este proposito de acompanhar a nossa
    vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje
    tornou a vêr?

    –Ah! ah! Pensas n'isso?

    –Porque não? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do coração proprias
    do sexo não é uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos cá por este mundo,
    anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapéo,
    benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma oração, mas afianço-te que não
    os amava.

    –Boa noite, Mauricio. Olha que são duas horas.

    –Adeus, Jorge.

    –Não sonhes com Bertha.

    –Não sonhes tu com a arithmetica, que é peior pesadêlo.

    E os dois irmãos separaram-se, rindo.

    A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha.

    Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto
    podia, no proprio conceito, esforçando-se por convencer-se de tudo
    quanto a respeito d'ella dissera ao irmão, para diminuir assim a
    impressão, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.

    Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fôra sensivel ao seu galanteio,
    e esta ideia torturava o espirito de Jorge.

    Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposição de que a vigilia
    de Bertha lhe fôra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso
    e sonhou… sonhou… Oh! quem póde exprimir o longo romance dos sonhos
    de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginação como a de
    Mauricio!

    X

    Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com
    coragem de mulher as suas novas condições de vida, e de entregar-se de
    alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para
    isso a indocil imaginação de rapariga.

    Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia,
    avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a
    resolução de vêl-a e de fallar-lhe.

    Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella
    noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questão agronomica, em que
    meditava havia muitos dias.

    Veremos o que as diversas disposições de animo d'estes tres personagens
    deram de si no decurso do dia.

    O aspecto risonho da manhã dissipou as nuvens, que de noite se haviam
    accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e
    vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e não podia perdoar a si
    mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a mãe nas occupações
    domesticas, encontrava n'isso uma distracção poderosa e quasi um intimo
    prazer. As caricias dos irmãos commoviam-n'a, e foi já com desassombrada
    alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mão ao outro,
    atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e
    foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta
    entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella
    parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo
    orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do chão, e cahia em
    gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!

    Os irmãos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flôres campestres que
    iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e
    ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os
    presenteava depois.

    Entregue toda a esta tarefa, sentia-se tão do intimo contente, que se
    pôz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.

    Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas
    julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos
    silvados, e não lhe deu maior attenção.

    D'uma vez porém, em que os irmãos corriam para ella com uma regaçada de
    flôres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a
    separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direcção d'aquelle olhar, e
    descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava
    observando.

    A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar
    de todo a confusão que experimentava com o inesperado encontro,
    interrogou sorrindo:

    –Estava ahi ha muito?

    –Ha alguns momentos, ao que me parece.

    –A fazer o quê?

    –A vêl-a e a ouvil-a.

    –Com tão pouco se entretem!

    –Então parece-lhe que não será novo para mim o espectaculo?

    –Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianças? Ora essa!

    –Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é
    que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras
    femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso
    bello paiz?

    –É muito injusto com as suas patricias.

    –Oh! não as lisongeie.

    –N'isso interesso eu tambem, bem vê.

    –Poupe-lhes a humilhação de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que,
    indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua
    natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolução espontanea, ao
    mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma força occulta que
    assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde
    sómente encontrava ambiente apropriado.

    –Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei,
    sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria,
    que estes são os ares, em que respiro á vontade.

    –Esse bem-estar não tardará que se transforme em fastio.

    –Não, não, não creio.

    –Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as
    aspirações naturaes a um espirito como o seu.

    –Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que
    aspirações são essas que diz?

    –Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da
    immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?

    –E espero que ha de satisfazer-me.

    –E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que
    se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou
    Maria da Azenha?

    –Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não
    me incommódo com isso.

    –Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor
    baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a
    Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores,
    posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se
    assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha…

    –Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu
    não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas
    aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes
    cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade
    a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca
    senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos
    trabalhos aldeãos…

    –Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos
    educados para a poesia que ella rescende.

    –A poesia!–repetiu Bertha, com um forçado gesto de desdem, encolhendo
    os hombros.

    Mauricio percebeu-o.

    –Ri-se?–interrogou elle.

    –É que ouço fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade,
    ainda não pude saber bem o que seja.

    –Não sabe o que é a poesia?!

    –A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi…–disse Bertha,
    simulando um tom de completa ingenuidade.

    A chegada das crianças, pedindo á irmã que as conduzisse a casa,
    interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de
    Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.

    –Será possivel que eu me engane?–pensava elle.–Será a final de contas
    uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradições da familia?
    Não creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza
    de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou não
    é indifferença o que ella sente, quando me falla.

    E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.

    Bertha, rindo e brincando com os irmãos, pensava tambem:

    –Parece-me que alguma coisa conseguiria. É preciso desvial-o d'este
    proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me
    aborreça. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e
    de entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não
    experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar.
    Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso
    saber nem quero. Ás vezes… desconfio de mim… receio… assusto-me.
    Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!…
    Hoje… Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do
    meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla.
    É preciso acabar com isto, antes que augmente.

    O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas
    relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do
    venturoso casal.

    Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que
    a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.

    Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e
    não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata
    perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores,
    onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia
    possuida.

    Assim correu o dia.

    O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez
    a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que
    ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha,
    como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.

    Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem
    mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que
    communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa.
    Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no
    portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao
    patamar.

    –Ahi vem o snr. Jorge–disse Luiza para o homem.–Conheço-o já pelo
    andar.

    –É elle, é; e temos hoje bastante que fallar.

    –Eu vou accender o candieiro no quarto–acrescentou Luiza, que sahiu a
    preparar a sala das conferencias.

    Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha.

    Jorge não era superior a uma occulta commoção, ao entrar alli. Ia
    encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára
    emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas
    apprehensões. Era tão forte a sua turbação, que lhe tremiam as pernas ao
    transpôr a porta da sala.

    Na presença de Bertha, Jorge lançou para ella um olhar rapido, mas
    penetrante, e desviou-o logo. O espirito não serenou com o resultado
    d'esse primeiro exame.

    Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.

    Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, tão
    differente do do irmão, acolheu-o com mais franqueza e menos precauções
    do que tivera com Mauricio. Contra Jorge não precisava de acautelar o
    coração.

    O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de
    galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse,
    quasi sem olhar para Bertha:

    –Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda
    se lembre de um antigo conhecido.

    –Não costumo esquecer-me, snr. Jorge–respondeu Bertha, sem poder
    deixar de examinal-o com curiosidade.

    Jorge proseguiu no mesmo tom:

    –Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero
    acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora
    esta terra?

    E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas
    desviou-os ao encontrar os d'ella.

    –A mesma que deixei–respondeu Bertha–a aldeia guarda melhor as
    memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na
    volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flôres, que nos
    despediram, nos dão as boas vindas outra vez. Se alguma mudança ha é nas
    pessoas.

    –Encontrou mudança n'essas?

    E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em
    Bertha.

    –Nem podia deixar de ser–tornou esta–para nós não ha estações; as
    folhas que vão cahindo, não vem primavera renoval-as.

    Jorge pôz-se a folhear, com apparente distracção, um livro que encontrou
    sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse
    ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.

    Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a
    curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga
    aquelle caracter serio de rapaz.

    Thomé propôz a Jorge principiarem os seus trabalhos.

    Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a mãe.

    –Então que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?–perguntou o
    enlevado Thomé.

    Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.

    –Olhe o que é a educação–insistiu Thomé.–Quem ha de dizer que foi
    nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda
    um pouco peior do que hoje?!

    –Ah! sim… a educação… vale muito, mas é preciso que os dotes
    naturaes a auxiliem–murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o
    assumpto da conversa.

    –Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda… Mas o que
    ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a
    ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!

    Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a
    Jorge, que nada respondeu d'esta vez.

    Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus
    desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr
    aquella noite, e por isso abriu a sessão.

    Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.

    Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto.
    Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou
    machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a
    arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto
    elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.

    Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos
    amores de Paulo e Virginia.

    Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho
    sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.

    –Lê romances–murmurava elle.–A estas horas phantasia-se a heroina de
    algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo
    mundo a realisação d'esse ideal. A final é o que eu digo. É como as
    outras. É uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco
    pedante… É o resultado do systema de Thomé… Fazer viver estas
    mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade,
    que lhes ha de parecer insupportavel!… Triste methodo de formar
    esposas e mães!

    E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritação, que elle proprio
    não podia justificar.

    Depois proseguiu, com crescente malignidade:

    –E quem sabe?… Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou
    proposito? É natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de
    espirito adquiridas no collegio, e ha tão pouca gente no caso de as
    apreciar n'esta aldeia, que não admiro que seja eu um dos eleitos.
    Emfim, são vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser
    indulgente. E demais que tenho eu com isso?… Mauricio que averigue, se
    quizer. Está no gosto d'elle…

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 07

    Aproximadamente 50.547 palavras.

    Produced by Carla Martins Ramos, Ricardo Diogo, and Tiago
    Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt).

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

    *TOMO VII*

    *QUESTÕES PUBLICAS*

    TOMO IV

    1.^a EDIÇÃO

    LISBOA

    TAVARES CARDOSO & IRMÃO–EDITORES

    _5, Largo de Camões, 6

    1898

    Typ. da Empreza Litteraria e Typographica

    Rua de D. Pedro, 184–Porto

    ADVERTENCIA

    O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a
    data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos
    ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida
    do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos
    para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar
    com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um
    vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,
    politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a
    entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,
    entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão
    esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da
    recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo
    quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara
    e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte
    d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em
    diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um
    formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia
    de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com
    esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura
    dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,
    facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de
    emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na
    cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o
    apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu
    ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,
    pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;
    mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto
    ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes
    considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre
    vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento
    d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos
    fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de
    poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção
    dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos
    de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera
    com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para
    o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior
    proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos
    fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22
    de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento
    do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se
    tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se
    conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo
    Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a
    essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então
    effectuadas segundo a lei de 1846.

    Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.
    Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de
    1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,
    outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.
    Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume
    apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes
    importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,
    tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.
    A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de
    1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os
    concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas
    do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não
    attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella
    devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos
    recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para
    prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as
    opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle
    plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do
    concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de
    vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o
    pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o
    ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este
    modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações
    da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para
    satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.
    Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração
    mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse
    procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da
    sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que
    falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local
    que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros
    concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que
    em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a
    grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas
    profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa
    prosperidade e força politica.

    Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.
    Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o
    historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que
    ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.

    1898.

    Os editores.

    DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA

    1843

    Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi
    D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o
    reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em
    ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,
    e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e
    magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,
    mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em
    conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou
    sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV
    levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V
    tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia
    lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João
    V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo
    vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que
    só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.

    D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com
    o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz
    n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o
    palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo
    inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com
    púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo
    que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que
    sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do
    seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão
    brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos
    andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo
    isso.

    Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe
    quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que
    n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das
    artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.
    Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos
    que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma
    chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos
    historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os
    homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas
    a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas
    inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração
    que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro
    de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por
    motivo tal foi a architectura sincera.

    Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira
    grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como
    os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do
    templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma
    velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines
    ou de Tertulliano.

    Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei
    liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal
    na primeira metade do seculo XVIII.

    Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender
    quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,
    em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A
    Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva
    como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,
    santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que
    edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,
    deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,
    crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A
    Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,
    ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão
    complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo
    povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.

    O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um
    edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas
    vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia
    fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida
    e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo
    anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses
    generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.

    Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:
    que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque
    se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua
    decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque
    principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai
    esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões
    pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do
    sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;
    deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e
    confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o
    mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a
    escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será
    grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a
    precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não
    tem procellas.

    O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e
    ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre
    terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:
    e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta
    situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,
    posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não
    foi riscado do livro dos eternos destinos.

    Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo
    o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento
    industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira
    entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem
    incontestavelmente sido o nosso principal progresso.

    Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de
    regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia
    substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas
    geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri
    a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil
    monumentos que significarão o espirito do presente.

    Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o
    céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,
    a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as
    tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das
    montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações
    virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto
    universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um
    hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor
    e gratidão de nossos filhos!

    Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans
    grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas
    eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas
    pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente
    estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos
    ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de
    muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão
    de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores
    tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que
    coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,
    hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da
    Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas
    e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a
    qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no
    comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem
    repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.

    A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram
    nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a
    segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente
    quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o
    symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em
    pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre
    ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e
    o amor do trabalho.

    Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos
    os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado
    de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras
    hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a
    curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o
    preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;
    mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia
    tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados
    de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e
    as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;
    transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde
    dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome
    manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.

    A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo
    edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou
    uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:
    serão no futuro bençãos da posteridade.

    O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua
    juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre
    mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos
    que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.
    Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das
    injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os
    membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte
    e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento
    redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas
    solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos
    capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas
    passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta
    o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do
    estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria
    não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as
    ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?

    A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios
    creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo
    zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á
    munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem
    algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que
    mais vale, em fructos de verdadeira gloria.

    Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,
    estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e
    outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde
    raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar
    continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no
    meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um
    symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu
    conjuncto–o orgulho tendo por fundamento o nada.

    Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos
    incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino
    Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,
    e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada
    mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os
    trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as
    despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que
    talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o
    pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que
    ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.

    O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de
    tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser
    prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro
    progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos
    proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam
    os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da
    imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada
    nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o
    exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos
    ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de
    estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae
    estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça
    sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.
    Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do
    paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos
    seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de
    Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos
    melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da
    Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito
    exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos
    agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam
    ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e
    progressivo pensamento d'este seculo.

    Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar
    á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,
    cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até
    hoje.

    O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.
    Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos
    habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O
    inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a
    quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o
    solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito
    deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa
    cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta
    tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no
    anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,
    cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que
    de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas
    onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos
    sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,
    e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e
    nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,
    os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.

    Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já
    uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas
    entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi
    são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na
    começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores
    methodos modernos, e com attenção a importantes considerações
    hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o
    tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa
    se bom ou máu.

    Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de
    regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados
    como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este
    estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da
    azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que
    separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão
    os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.

    As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a
    luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a
    anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens
    ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem
    adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o
    methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de
    luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma
    especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de
    pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de
    luzerna que não fosse transplantada.

    O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e
    tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.
    Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e
    supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas
    construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar
    convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar
    um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.

    A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de
    agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo–o noroeste. Este vento
    sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que
    vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste
    na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas
    ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema
    d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas
    até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os
    pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados
    que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os
    castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,
    quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e
    então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e
    fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando
    extensos e bem ordenados viveiros.

    Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante
    extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer
    progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos
    brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.
    Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as
    terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.

    Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são
    construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso
    principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça
    grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades
    triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de
    traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do
    paiz construidos com perfeição.

    Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses
    maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante
    transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz
    n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as
    vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae
    abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos
    livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma
    fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este
    é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos
    abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações
    da sciencia–o alimento para o espirito.

    O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado
    da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São
    dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a
    philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as
    intelligencias que fizeram surgir um e outro.

    BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA

    1849

    Ajuda, 8 de março de 1849

    Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz
    de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno
    em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças
    dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal
    tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.

    Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é
    cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é
    respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á
    fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é
    generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta
    situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente
    proveito para o futuro.

    O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do
    seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da
    America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a
    tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os
    sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam
    para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então
    que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades
    da religião.

    Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons
    missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas
    verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para
    interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que
    vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,
    praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos
    seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella
    depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.

    Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem
    lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,
    aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para
    insinuar n'estes importantes verdades.

    A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma
    pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,
    a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.
    Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha
    das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma
    certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de
    todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.

    Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,
    podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado
    pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que
    sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos
    cereaes.

    Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar
    é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é
    necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria
    onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes
    n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é
    proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a
    natureza a supprir a alimentação dos animaes.

    Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo
    de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,
    pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,
    imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento
    quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina
    fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma
    larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.

    As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a
    producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma
    grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se
    collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada
    proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e
    embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o
    anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e
    o cultivador fica sempre miseravel.

    A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a
    negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para
    este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na
    distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e
    engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas
    tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão
    que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de
    uma abundancia mais apparente que real.

    Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,
    pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós
    talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma
    infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso
    _d'intensidade_ na agricultura nacional.

    Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por
    diversos modos a nossa situação deploravel.

    De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os
    interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio
    pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que
    possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi
    exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á
    Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança
    nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a
    faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da
    Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa
    actividade intellectual e material.

    Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;
    perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto
    pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.

    Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas
    hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a
    segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e
    reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os
    prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses
    recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão
    para resistir ás incertezas das estações?

    O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava
    ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta
    pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,
    variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que
    porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que
    não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.

    Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,
    essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para
    os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima
    adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»

    Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o
    sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo
    que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,
    limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.

    E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria
    agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr
    annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por
    centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,
    fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção
    excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,
    mais admiravel?

    Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da
    nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que
    dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas
    noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de
    humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes
    productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras
    fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem
    odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,
    que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são
    o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia
    lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o
    seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à
    perdição.

    Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de
    contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A
    Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,
    que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do
    destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na
    Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde
    se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos
    dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do
    norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as
    encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o
    orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na
    verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao
    cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas
    impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão
    vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como
    advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem
    mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.
    Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio
    contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição
    das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.

    O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos
    arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica
    indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos
    sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as
    penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e
    enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,
    pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o
    baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs
    são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás
    maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos
    terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,
    ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso
    clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para
    ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia
    duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,
    n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados
    dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa
    propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma
    quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura
    exclusiva.

    A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais
    graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a
    natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até
    certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de
    afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem
    uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema
    sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações
    judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de
    multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo
    a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,
    não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de
    adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,
    pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe
    necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para
    ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a
    carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em
    que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de
    principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação
    dos animaes.

    Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de
    consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de
    consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos
    incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas
    vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os
    povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os
    supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter
    combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas
    á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha
    de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.
    Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados
    emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,
    achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta
    de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto
    que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se
    vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a
    que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente
    sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.

    Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no
    interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma
    porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,
    cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a
    escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno
    correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos
    deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,
    forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de
    pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros
    terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou
    o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos
    visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela
    devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes
    do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores
    um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de
    um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o
    rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a
    reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo
    interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de
    vir.

    E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova
    que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações
    de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que
    finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento
    das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias
    economicas, os meios de progresso material, as indicações da
    experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra
    ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a
    que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do
    nosso dominio.

    S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de
    Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e
    calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de
    verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se
    vão prolongando até a beira do oceano.

    Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho
    uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o
    dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso
    era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno
    acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da
    vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio
    porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;
    tem-n'a ás miserias da terra.

    Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne
    mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.
    Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o
    deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de
    previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,
    que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto
    redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.
    Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da
    industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a
    pretensão de justa, e a intenção de progressiva.

    E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias
    economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as
    metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos
    dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso
    exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem
    de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,
    incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja
    perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de
    nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das
    discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe
    compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não
    acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito
    commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe
    calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro
    qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o
    ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos
    convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas
    paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.

    Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o
    aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma
    das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de
    S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as
    preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não
    aconteceu assim.

    O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do
    maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.
    Pinta o paiz.

    Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões
    tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes
    malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as
    verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não
    appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.

    Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra
    abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem
    quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A
    mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma
    grande parte da serra.

    Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às
    solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe
    parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos
    que carneiros. O bom Sancho era um typo!

    Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o
    remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se
    façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo
    logico.

    Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos
    frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha
    das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os
    estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas
    raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as
    em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza
    de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as
    converter em combustivel.

    E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma
    epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?

    No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á
    serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o
    que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil
    braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.

    Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de
    trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual
    força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes
    jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que
    possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel
    à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial
    ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela
    jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas
    quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia
    agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso
    não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam
    lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados
    vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou
    meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens
    laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do
    vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da
    indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se
    oppõe ao verdadeiro progresso agricola.

    Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.
    Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?

    Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:
    deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;
    que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é
    illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os
    homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao
    pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão
    nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem
    a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.
    Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás
    conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria
    sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de
    elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um
    passado de independencia e de probidade politica, é generoso não
    vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem
    poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.

    A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos
    communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está
    resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa
    questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não
    vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de
    mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;
    estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da
    agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,
    aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na
    questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,
    accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a
    distribuição e applicação dos maninhos.

    A GRANJA DO CALHARIZ

    1851

    Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,
    maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos
    curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se
    pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão
    das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa
    litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou
    sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.
    Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus
    auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e
    discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo
    são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as
    doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se
    escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas
    quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero
    de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam
    na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e
    pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar
    associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as
    reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no
    paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um
    cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem
    que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando
    uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos
    interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos
    resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de
    subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,
    (para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes
    aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes
    especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr
    ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto
    positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,
    onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis
    paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,
    bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural
    pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante
    trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos
    melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento
    agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,
    d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar
    os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,
    contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem
    unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa
    parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,
    uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em
    qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,
    não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor
    proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.
    A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da
    revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que
    tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em
    certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que
    todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por
    certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por
    ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É
    necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias
    agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido
    illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,
    feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades
    rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é
    determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de
    productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,
    preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas
    illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas
    doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do
    jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé
    da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que
    tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a
    sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.
    Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia
    bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como
    o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões
    modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,
    que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais
    sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a
    _rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma
    gloriosa… mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de
    quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)
    ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo
    amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a
    condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á
    vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os
    consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que
    esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,
    teem até certo ponto razão?

    D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:
    d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna
    na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não
    seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte
    especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é
    contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não
    estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor
    escala? Parece-me que sim.

    E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões
    agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.
    Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado
    aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto
    de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de
    quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo
    grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.
    Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado
    com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os
    resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle
    estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as
    cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de
    agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o
    custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,
    não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito
    que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir
    opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se
    accommodadas sempre a este solo e a este clima?

    Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os
    elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos
    foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da
    terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do
    desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões
    scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter
    relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas
    que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a
    Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como
    desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais
    habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a
    imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos
    institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que
    não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples
    particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que
    os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na
    edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em
    manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que
    nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos
    nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a
    que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse
    d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita
    Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido
    duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á
    patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada
    devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.

    Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.
    Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a
    acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que
    sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando
    casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em
    muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que
    tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração
    nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo
    a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se
    tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o
    snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia
    sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias
    custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a
    _de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,
    que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.

    Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje
    as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres
    cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o
    agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes
    esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou
    lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.

    PROJECTO DE DECRETO

    1851

    Senhora!

    O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de
    trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de
    propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento
    de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro
    acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se
    assim um desenvolvimento vigoroso de população.

    Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a
    Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os
    espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não
    legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de
    uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado
    mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e
    terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de
    contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque
    o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto
    que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por
    esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes
    illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos
    especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,
    que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a
    propriedade e a familia sejam completamente annulladas.

    Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação
    comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que
    rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é
    incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa
    para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os
    riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer
    diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e
    do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil
    factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade
    dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que
    não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o
    supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais
    adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;
    combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade
    humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi
    nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a
    liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos
    mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,
    aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao
    feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de
    similhante natureza.

    Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as
    complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma
    grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate
    desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas
    e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;
    previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;
    aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de
    modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,
    nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais
    atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação
    as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder
    com prudencia.

    Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,
    ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem
    accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que
    possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra
    pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos
    oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em
    todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes
    inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,
    e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança
    pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a
    patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para
    outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os
    interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a
    propriedade sabem inspirar.

    Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha
    e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população
    agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços
    robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de
    frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande
    consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o
    espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que
    rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e
    pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de
    paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem
    comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as
    suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as
    exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.

    Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá
    dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de
    terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.
    Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas
    presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia
    publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.
    Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar
    se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e
    os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura
    prosperidade do paiz.

    Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos
    directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo
    procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por
    condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia
    de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as
    provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.
    Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de
    produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,
    não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a
    suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio
    de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a
    subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura
    a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao
    imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito
    necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo
    progressivo da renda publica.

    A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para
    facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário
    applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,
    pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e
    principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como
    effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o
    instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o
    proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados
    politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode
    ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.

    Á emphyteuse e ao systema parcellario teem opposto, Senhora, varias
    considerações economicas, os adversarios d'essa instituição, filha da
    civilisação romana, que resistindo a todos os abalos, a todas as
    transformações profundas verificadas durante os seculos medios, chegou
    até nós, abonando por esse facto a sua congruencia com a indole das
    sociedades humanas. Considerada no seu valor absoluto, e pelas regras da
    moral e da justiça, nada se vê na separação entre o dominio directo e
    util, que offenda uma ou outra. Os motivos para a preferir á
    allodialidade, ou para lhe preferir esta são todos relativos,
    condicionaes. Olhada a questão em these, como theoria abstracta, algumas
    razões podem militar a favor da allodialidade, mas, era hypothese, em
    relação ao nosso estado actual, a emphyteuse é preferivel se quizermos
    dar impulso á cultura e mais rapido movimento á transmissão da
    propriedade. N'um paiz onde a representação monetaria escacea, onde o
    atrazo da sciencia agronomica é incontestavel, onde, emfim, a elevação
    do salario e a depreciação dos generos teem produzido um desiquilibrio
    embaraçoso para o cultivador, a consideração acima feita de que o
    principio da allodialidade, isto é, a compra do fundo, absorve desde
    logo uma parte do capital, que nos aforamentos se substitue, em rigor,
    pela promessa de um juro, juro pagavel depois de obtido o producto da
    applicação do capital, bem demonstra que aquelle principio não soffre
    comparação com o emphyteutico, e quanto este será efficaz para os fins a
    que se destina o presente decreto.

    Modificada pelo systema parcellario a emphyteuse contrapõe-se ao systema
    dos latifundios allodiaes. Caracterisados assim, a antinomia entre os
    dous principios torna-se mais evidente e profunda. Mas é aqui tambem
    onde a superioridade de um ao outro, se torna mais incontestavel. Os
    defensores dos vastos allodios ponderam que a grande cultura é só
    propria dos extensos terrenos, só ella é compativel com os grandes
    melhoramentos, só ahi se podem introduzir as machinas, que produzindo
    mais barato facilitam o consumo; e, não podendo negar os inconveníentes
    sociaes da grande propriedade, accrescentam que sujeitos ao direito
    commum, esses predios se retalharão pela divisão forçada das successões,
    resultando d'ahi que dentro de curto praso ha-de apparecer um novo
    phenomeno economico e agricola; isto é, que a propriedade, dividindo-se
    quanto ao dominio, se conservará unida quanto ao trabalho, porque de
    outro modo, separando-se, individualisando-se o trabalho, a grande seria
    forçosamente substituida pela pequena cultura, e inutilisando-se as
    machinas, os novos possuidores do solo teriam de annullar um capital
    avultado sem vantagem conhecida. Assim quanto a elles, a exploração
    industrial da terra se conservará unida pela associação, ao passo que o
    dominio se irá retalhando atravez de todas as phases possiveis, n'uma
    esphera separada.

    Estas doutrinas, Senhora, são inexactas em grande parte. Pondo de lado
    os inconvenientes, as difficuldades prácticas da associação applicada ao
    trabalho agricola, quando, separado o dominio, o valor do producto
    relativo a cada fracção do fundo, não é só determinado pela applicação
    do trabalho, mas tambem pela força productiva do solo, grandemente
    variavel em vastos tractos de terra; suppondo possivel e até fácil
    similhante associação, e admittindo sem reserva os seus importantes
    effeitos, não se vê como o incitamento do interesse individual não possa
    conduzir os colonos no systema emphyteutico, a associarem-se para
    substituir pela grande a pequena cultura, adoptando as machinas que
    barateam os productos e empregando um trabalho commum. Por outra parte é
    inexacto que a pequena cultura não possa simplificar-se pela introducção
    de machinas e instrumentos novos ou aperfeiçoados, embora n'um grau
    inferior ao da grande cultura, e por isso fazer tambem descer até certo
    ponto o valor das subsistencias e dos outros productos agricolas,
    accrescendo a essa consideração o facto incontestavel, de que se a
    introducção dos instrumentos e machinas que simplificam o trabalho
    agricola, acha mais poderosos incentivos na grande cultura, os methodos
    aperfeiçoados teem nascido e nascem quotidianamente, da experiencia e
    das necessidades da pequena cultura. Independentemente porém, d'este
    argumento, sendo a divisão do solo pela indole da allodialidade sem
    questão mais tardia do que pela emphyteuse parcellaria, favorecida
    immediatamente pela lei, porque privaremos a geração presente, o homem
    de trabalho actual, do beneficio que queremos proporcionar aos
    vindouros? Emfim, Senhora, os que attribuem tão rapidos e efficazes
    effeitos aos obitos e ás successões, attenderam a todos os factos que
    modificam e retardam esses effeitos? Lembraram-se, por exemplo, dos
    consorcios, dos dotes, das terças e de tantas outras instituições civis,
    tendentes a entorpecer esse meio, sem duvida poderoso, de retalhar os
    predios rusticos? Attenderam acaso aos usos immemoriaes de algumas
    provincias, como o Alemtejo, onde o costume dos chamados quinhões torna
    a allodialidade inutil para a divisão das grandes herdades, porque se
    reparte a renda mas fica o solo unido em poder de um só agricultor?

    Que o systema da emphyteuse parcellaria seja o meio mais efficaz e
    talvez unico de chamar as classes humildes á propriedade, parece
    evidente. A acquisição do dominio pleno de vastos predios suppõe
    avultados capitaes. A dos pequenos predios suppõe-nos menores; mas ainda
    os suppõe. Nos emprazamentos de áreas limitadas como aquellas cujo
    maximo se fixa no presente decreto, e que é o mesmo estabelecido no
    Alvará de 27 de novembro de 1804, as economias do simples seareiro, do
    operario rural, bastarão de ordinario para as despezas do arroteamento.
    Elle conta além d'isso com os proprios braços, com o auxilio de sua
    mulher e de seus filhos, recursos cuja efficacia o sentimento da
    propriedade sabe redobrar de um modo maravilhoso. Como consequencia do
    facto logo que os aforamentos d'esta especie se facilitem e protejam, o
    trabalhador celibatario, a quem convidam as exempções concedidas por
    este decreto, e que uma ambição legitima incita a aproveitar-se do
    beneficio da lei, cuidará em associar a si uma companheira que o auxilie
    na sua laboriosa empreza. Assim os consorcios serão promovidos e
    portanto o desenvolvimento da população.

    Se, porém, a applicação do capital quasi unico das classes pobres, o
    trabalho dos proprios braços se torna não só possivel mas tambem facil
    pela emphyteuse parcellaria, o emprego do grande capital monetario
    torna-se onde ella predomina assaz difficil. A experiencia quotidiana
    nos ensina que os pequenos predios ruraes cultivados por conta do seu
    dono, mas não pelas mãos d'elle são constantemente causa de ruina. A
    pequena cultura exige grande numero de prevenções, e de economias
    insignificantes mas severas, uma actividade contínua, um zelo sem
    limites, um meditar incessante em tornar productiva a minima parcella de
    terra. Nada d'isto se obtem a troco de salarios, com que o homem do
    capital monetario tem de contar para alem d'isso obter um lucro, e com
    que o homem de trabalho não conta porque tirando da cultura o seu
    salario e o da sua familia, elle considera a somma d'esses salarios como
    o principal lucro. Assim os capitaes amoedados não podendo fraccionar-se
    em pequenas e ruinosas emprezas, operarão com dobrada energia na grande
    cultura que sempre ha-de ser avultada, ao passo que se tornarão mais
    accessiveis á industria fabril.

    A consideração mais grave que se pode oppor á idea que predomina n'esta
    proposta de decreto, e o Governo não quer, Senhora, dissimulal-a, é que
    abrindo-se em larga escala o caminho da propriedade ás classes
    trabalhadoras, os agricultores actuaes, que já laboram na difficuldade
    do augmento gradual do salario ao lado da diminuição de valor nos
    productos, verão crescer essa difficuldade pela distracção de um
    avultado numero de braços que habilitados para trabalhar por conta
    propria, recusarão fazel-o por conta alheia. Até certo ponto a
    consideração é verdadeira. Mas por um lado ha algumas que a attenuam, e
    por outro o governo pode e ha-de empregar os meios para que esse
    inconveniente seja compensado. Primeiro que tudo como o recurso unico do
    operario é o trabalho, ha-de verificar-se frequentemente o que já
    acontece por muitas partes. Nos tractos de terra mais ferteis que se tem
    arroteado pelo systema parcellario, porque, ainda sem o favor da lei, o
    interesse individual tem sido bastante para o fazer adoptar em diversos
    logares, o novo proprietario redobrando d'esforcos reparte as suas lidas
    entre a cultura propria e a alheia. Essa divisão é grandemente
    facilitada pelo atrazo da agricultura entre nós, porque sendo esta na
    maxima parte dedicada aos cereaes, ás vinhas e aos olivedos apresenta
    uma procura mui desigual de trabalho, de modo que elevando o salario
    desmesuradamente em certas epochas em outras essa procura affrouxa,
    chegando o obreiro rural a ponto de não achar muitas vezes emprego.
    Onde, porém, não for possivel restabelecer o equilibrio por similhante
    meio, esse embaraço irá gradualmente desapparecendo com o accrescimo da
    população, sendo entretanto um incentivo poderoso para os grandes
    cultivadores irem trocando o systema das culturas exclusivas pelo das
    culturas alternas, que, exigindo n'um tempo dado menor numero de braços,
    exige um mais constante emprego d'elles. Finalmente tendo a peito o
    governo acudir quanto antes á primeira necessidade do paiz, a
    construcção das estradas, para as quaes vae applicar todos os recursos
    de que pode dispor, a facilidade da viação e por consequencia a barateza
    do transporte, compensarão amplamente qualquer elevação de salarios, que
    n'um ou n'outro caso possa resultar da applicação do presente decreto.

    Não é necessário nem possivel, Senhora, entrar em largas explicações
    sobre os motivos que levaram o governo a propor a V. Magestade, a
    promulgação das disposições contidas nos diversos paragraphos do art.
    4.^o. A gradação estabelecida entre as varias culturas corresponde ao
    estado actual da nossa industria agricola e á necessidade de não dirigir
    cegamente o impulso que se pretende dar-lhe. O favor, desproporcionado
    na apparencia, que se liberalisa á plantação dos bosques, não se estriba
    só na consideração do demorado resultado que se dá no seu cultivo;
    funda-se tambem na da repugnancia á arborisação que é um dos erros mais
    communs e que parece necessario combater energicamente. É obvia tambem a
    causa das excepções ácerca do pinheiro maritimo, unica madeira que
    superabunda no nosso mercado. O favor comparativamente excessivo que o
    decreto pretende dar á cultura collectiva ou singular das forragens, das
    amoreiras e do canhamo, importa a idéa de fortalecer pela sabedoria das
    leis civis as reformas que hão-de trazer o ensino e educação dos futuros
    agricultores, por via das sociedades agrícolas, das escholas, e dos
    predios rusticos experimentaes, que o governo começou já a promover e
    fundar, e que está resolvido a fazer progredir logo que para isso se lhe
    proporcionem recursos, contando aliás com o auxilio de todos os homens
    de boa vontade e sinceros amigos do paiz. Escaceam entre nós os gados,
    sobretudo nas provincias do sul, porque a cultivação dos cereaes tem
    progredido em extensão e não em intensidade; porque os systemas biennal
    e triennal, que ahi predominam e que em certas circumstancias serão
    desculpaveis, serão até preferiveis, nunca podem ser uma regra geral
    senão onde a agricultura está na infancia: emfim, a falta de gados e de
    bons methodos de afolhamento explicam a maior parte dos embaraços da
    grande cultura em Portugal. Por outro lado se considerarmos os enormes
    valores que a Italia, o paiz mais analogo ao nosso e ainda
    agronomicamente inferior a elle, sabe tirar da producção da seda,
    devemos propagar até onde for possivel o cultivo da amoreira. Tambem a
    experiencia tem provado que o canhamo do nosso paiz, cultivado
    judiciosamente e nos terrenos convenientes, excede em bondade não só o
    da Russia mas o proprio canhamo de Bolonha, reputado o melhor da Italia.
    Por ultimo os fundamentos da menor protecção dada aos ramos de
    agricultura largamente espalhados pelo reino, fundamentos que em parte
    derivam do que fica dito, são obvios para V. Magestade.

    Era impossivel, Senhora, propor a promulgação de um decreto tendente a
    trazer á producção os terrenos incultos e a fomentar a divisão
    espontanea da propriedade territorial, sem estender a sua acção ao solo
    vinculado. São sobretudo os vinculos que nos offerecem o triste
    espectaculo de terras, muitas vezes de primeira qualidade, inuteis e
    desaproveitadas. Entre as razões moraes, politicas e economicas, que
    condemnam a instituição dos vinculos, esse facto subministra contra ella
    um argumento assaz ponderoso. A sua extincção parcial ou completa é
    questão, na verdade, que os ministros de V. Magestade não poderiam
    discutir aqui, e que se deve tractar pausada e reflectidamente; porque,
    resolvida de leve e, sobretudo, decretada de golpe, a abolição dos
    vinculos ainda parcial, teria, talvez, inconvenientes politicos e até
    economicos maiores do que geralmente se pensa. Todavia a instituição é
    em these insustentavel e se considerações de tempo e de circumstancias,
    podem absolver a sua existencia e aconselhar a sua condicional
    conservação, essas considerações são absolutamente inapplicaveis aos
    terrenos incultos, que na maior parte dos casos não representam valor
    algum, ou só o representam minimo. Exemptar os vinculos de contribuirem
    para o bem commum n'esta parte seria absurdo.

    Egualal-os para os effeitos da lei ás propriedades allodiaes, dar-lhes
    as mesmas vantagens e impor-lhes as mesmas restricções era justiça. Foi
    o que se fez n'este projecto de decreto.

    É evidente que nos aforamentos dos maninhos vinculados se dá um facto
    similhante ao que se verifica nos dos maninhos allodiaes. A somma total
    dos fóros representa um juro e portanto a creação de um capital. O
    decreto, suppondo para estabelecer as suas ulteriores providencias, que
    a somma dos fóros representa um juro de cinco por cento, faz d'ahi
    resultar um capital inferior á realidade, porque é sabido que os
    emprazamentos difficilmente produzem essa renda. Em todo o caso esta
    nascerá do favor da lei, favor que se não é um sacrificio effectivo e
    presente, virá a sel-o de futuro. Um tal favor, tendo por fim
    exclusivamente desenvolver o progresso de uma agricultura sensata e
    chamar o proletariado ao amor da paz e da ordem, pela acquisição da
    propriedade, produziria ao mesmo tempo, sem as convenientes restricções,
    a consequencia de augmentar o valor dos vinculos ou por outra, daria
    maior vulto a um genero de propriedade que á luz das indicações
    economicas apenas pode ser tolerado. Era, portanto, dever do governo
    obstar a similhante augmento, e o governo obstou-lhe com as providencias
    consignadas nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o. Ao passo que
    firmou o principio de libertar um cumulo de bens igual em valor ao
    capital accrescido pelos novos aforamentos, deu o maximo alvedrio aos
    administradores de vinculos para se aproveitarem do beneficio do
    decreto, pelo modo que reputassem mais conveniente, e até para não se
    aproveitarem d'elle. Entretanto elle feriu n'um ponto a integridade dos
    cumulos vinculados. Foi na disposição do artigo 13.^o; mas este
    sacrificio é tão tenue comparado com o alto objectivo de promover a
    divisão do solo, que os ministros de V. Magestade poderão antes ser
    taxados de nimiamente escrupulosos a favor da instituição, do que
    suspeitos em demasia de seus adversarios.

    Alguem poderá objectar, Senhora, que em logar do systema um tanto
    complicado que os ministros de V. Magestade adoptaram, para operar um
    grande movimento de propriedade nos bens vinculados, seria mais simples,
    depois de auctorisar e favorecer a alienação do dominio util dos
    terrenos incultos pela emphyteuse parcellaria, auctorisar também a
    alienação do dominio directo d'esses mesmos bens, ou pela remissão ou
    pela venda. Com a lealdade que professam os ministros de V. Magestade,
    dirão a proposito d'esta consideração, que parece razoavel, o seu
    pensamento inteiro. Primeiro que tudo o movimento dos valores, da
    propriedade considerada de um modo absoluto, seria na verdade o mesmo;
    mas o movimento do dominio util da propriedade territorial seria
    equivalente a metade, a um terço, e em certos casos ainda a menos. O fim
    principal do decreto, o augmentar o numero dos proprietarios, tão
    favorecido pelos artigos 12.^o e 13.^o, ficaria incomparavelmente mais
    restricto; o numero dos afiliados pelo sentimento da propriedade e da
    familia ao partido da paz e da ordem, seria muito menor. Por outro lado
    esse systema complexo cria um incentivo poderoso e talvez irresistivel,
    para o rapido aforamento dos baldios vinculados. Não será tanto o homem
    de trabalho que procure obter um tracto de terra para cultivar, como o
    administrador de vinculo que busque o homem de trabalho para lh'o
    offerecer, porque um grande interesse o incita. Gravados por dividas em
    grande parte ficticias e fructo monstruoso dos desvarios das paixões e
    de uma agiotagem infrene, uma parte dos possuidores de vinculos e
    sobretudo dos grandes vinculos, laboram em graves difficuldades
    economicas, de que os soltará em muitos casos a libertação de uma parte
    dos bens vinculados. Nem se diga que a muitos d'elles faltará a cordura
    para aproveitar utilmente o beneficio da lei: a obcecação d'estes não
    deve reverter em damno dos prudentes e avisados; ao passo que esses
    taes, ainda quando se não verificasse a libertação de uma parte do
    vinculo, saberiam sempre completar de um ou de outro modo a propria
    ruina, ajudados pela agudeza infernal da usura e da agiotagem.

    Em todo o caso, Senhora, o governo respeitou com escrupulo o fundo
    hypothecario e os direitos de terceiro, sem entrar no exame da
    legitimidade moral da origem d'esses direitos. Depois de um grande
    movimento de propriedade dentro d'essa instituição immobilisadora, o
    fundo vinculado fica em rigor sendo o mesmo e portanto a mesma a
    garantia dos encargos e hypothecas. É esse na opinião dos ministros de
    V. Magestade, o principal merito, n'esta parte, da presente proposta de
    decreto.

    Por todos os motivos e fundamentos economicos e politicos até aqui
    ponderados, o governo tem a honra de offerecer á Regia approvação de V.
    Magestade o seguinte:

    DECRETO

    Artigo 1.^o São confirmadas, ampliadas, alteradas ou revogadas as
    disposições dos Alvarás de 23 de julho de 1766, de 27 de novembro de
    1804 e de 11 de julho de 1815, da Carta de Lei de 24 de novembro de
    1823, e de outra qualquer legislação geral existente, relativas a
    maninhos ou terrenos incultos de qualquer especie ou denominação que
    sejam, possuidos allodialmente, e que forem reduzidos a cultura por
    contractos d'emprazamento, debaixo das condições declaradas nos artigos
    do presente decreto.

    Artigo 2.^o Os emprazamentos a que se refere o artigo antecedente
    constituirão prazos fateosins perpetuos hereditarios. Fica a respeito
    d'elles supprimido o direito senhorial do laudemio, bem como o de opção
    e prelação. O canon será fixado livremente por accordo entre o senhorio
    e o emphyteuta.

    Artigo 3.^o Os terrenos assim reduzidos a cultura ficarão
    temporariamente exemptos de todos e quasquer impostos directos geraes ou
    municipaes, tanto em relação à renda liquida do emphyteuta, como ao foro
    estipulado por este com o senhorio directo.

    Artigo 4.^o Os novos predios constituidos em virtude d'este decreto, e
    cuja superficie não exceder dez mil braças quadradas (proximamente dez
    geiras) gosarão da exempção concedida no artigo antecedente, debaixo das
    condições e com as limitações seguintes:

    § 1.^o–A exempção durará 30 annos em relação aos predios que forem
    applicados, ao menos em duas terças partes da sua superficie, ao plantio
    de bosques de arvores de córte, que não sejam pinheiros maritimos, salvo
    sendo o predio situado na orla do mar oceano, até a distancia de uma
    legua para o interior das terras, dentro da qual a cultura dos pinheiros
    maritimos é equiparada á de quaesquer outros arvoredos de córte.

    § 2.^o–A mesma exempção durará 16 annos sendo os predios applicados, ao
    menos em dous terços da sua superficie, á cultura, singular ou
    collectiva, da amoreira branca, do canhamo e dos prados artificiaes,
    quer permanentes, quer temporarios, sendo porém necessario, no caso de
    se applicarem os dous terços sobredictos á cultura dos prados
    artificiaes, com exclusão da amoreira branca e do canhamo, que se
    conserve sempre um quarto do dicto predio em prados artificiaes
    permanentes, para se verificar a exempção concedida.

    § 3.^o–A mesma exempção durará 12 annos se ao menos os dictos dous
    terços forem applicados ao plantio de oliveiras.

    § 4.^o–Durará 8 annos a sobredicta exempção se ao menos dous terços do
    predio forem applicados á cultura da vinha.

    § 5.^o–Se ao menos dous terços do predio forem applicados á cultura dos
    cereaes ou a outras quaesquer culturas não especificadas nos §§
    antecedentes, esse predio gosará por seis annos de igual exempção.

    Artigo 5.^o O beneficio da exempção não é applicavel em nenhum caso aos
    prazos instituidos em terrenos incultos de regadio ou pantanosos, que se
    applicarem no todo ou em parte á cultura de arrozaes.

    Artigo 6.^o Se a superficie do prazo exceder a que é fixada no artigo
    4.^o, o periodo da exempção será reduzido a metade do tempo, em cada uma
    das hypotheses dos diversos §§ do mesmo artigo.

    § unico–Exceptua-se a cultura dos arvoredos de córte de que tracta o §
    1.^o do artigo 4.^o, á qual é applicavel favor igual, seja qual for a
    extensão do terreno emprazado.

    Artigo 7.^o Se um individuo possuir, quer como emphyteuta originario,
    quer como cessionario, dous ou mais prazos d'aquelles de que tracta o
    artigo 4.^o, a exempção ficará reduzida a metade do tempo em relação a
    cada um d'elles, salva sempre a hypothese do § 1.^o do dicto artigo 4.^o.

    Artigo 8.^o O beneficio reduzido, designado no artigo 6.^o, é igualmente
    concedido ao proprietario que, conservando em si unidos os dominios
    directo e util, tornar productivos os seus terrenos incultos, dando-lhes
    a applicação de que tractam o § unico do dicto artigo e o § 1.^o do
    artigo 4.^o.

    Artigo 9.^o O presente decreto fica sendo extensivo a quaesquer maninhos
    ou terrenos incultos que tenham a natureza vincular. Para os effeitos
    d'esta disposição os dictos terrenos são considerados como livres e
    allodiaes, e os administradores actuaes ou futuros dos vinculos havidos
    como proprietarios d'esses terrenos com dominio pleno, unicamente para
    poderem celebrar com respeito a elles os contractos emphyteuticos,
    permittidos nos artigos anteriores, com as condições n'estes expressas.

    Artigo 10.^o Os fóros estabelecidos em cada um dos prazos, cuja
    instituição é facultada no artigo antecedente, ficarão incorporados no
    vinculo a que pertencia o terreno emprazado, e sujeitos desde logo aos
    encargos e hypothecas que pesarem sobre o mesmo vinculo.

    Artigo 11.^o Tanto que o administrador de um vinculo houver emprazado,
    pela maneira precedentemente prescripta, a totalidade dos terrenos
    incultos pertencentes ao mesmo vinculo, ser-lhe-ha licito alienar o
    dominio pleno de uma porção de predios urbanos, ou de predios rusticos
    cultivados anteriormente á data deste decreto, e pertencentes ao cumulo
    vinculado. Esta porção alienavel será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros, considerados como juro de cinco
    por cento; isto é, será igual em valor a vinte vezes a somma dos fóros.
    A livre alienação de taes predios não poderá ser embaraçada pelos
    encargos ou hypothecas que possam pesar sobre o vinculo, ou por
    quaesquer outros motivos ou pretextos.

    Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente
    por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,
    unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos
    predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do
    artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que
    corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como
    juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta
    vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon
    estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser
    inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo
    rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses
    contractos ficarão incorporados no vinculo.

    Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem
    feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,
    ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma
    estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela
    dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra
    porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas
    disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os
    fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda
    media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.

    Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do
    dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e
    d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo
    do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições
    dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.

    Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe
    é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do
    vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua
    morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que
    pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a
    successão d'esses bens pelo direito commum.

    Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se
    verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação
    da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do
    procurador regio.

    Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto
    nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas
    judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que
    tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou
    por hypothecas.

    Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.

    O PAIZ E A NAÇÃO

    (ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL–«o PAIZ»)

    1851

    I

    Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as
    observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o
    nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o
    cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.

    O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais
    hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas
    instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que
    elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma
    alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de
    inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios
    horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas
    congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem
    nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam
    differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em
    serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a
    censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam
    apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos
    mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o
    exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,
    para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e
    tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta
    ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram
    víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo
    de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,
    Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de
    Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos
    velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada
    ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este
    seculo, a fabula e o escarneo das gentes.

    Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia
    contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em
    que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da
    tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao
    obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos
    conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,
    virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,
    ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava
    arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,
    para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal
    chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real
    magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e
    ignorantes.

    Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do
    presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas
    _Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de
    Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos
    tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas
    de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae
    certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas
    saudosas por bem diversos monumentos.

    Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da
    que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia
    secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis
    conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas
    as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as
    cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as
    com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e
    depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da
    _anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e
    material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre
    a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?

    Sois singularmente esquecidos!

    Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem
    roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os
    educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou
    essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe
    de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados
    era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo
    vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa
    regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos
    militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções
    honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem
    a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,
    pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem
    sobre nós, da sentina do absolutismo?

    N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a
    que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as
    armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não
    tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido
    vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;
    combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de
    franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens
    publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,
    reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,
    reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios
    reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,
    partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,
    dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,
    sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o
    absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e
    carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo
    tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,
    monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto
    benemerito da monarchia.

    Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes
    nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde
    as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha
    poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter
    pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os
    malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,
    tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero
    instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da
    tyrannia.

    Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.
    Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos
    comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do
    suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos
    antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,
    foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,
    empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso
    e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre
    practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas
    republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas
    tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa
    negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma
    cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de
    Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que
    fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu
    tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma
    auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de
    usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da
    logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.
    Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de
    D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal
    e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a
    suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe
    conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos
    tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é
    desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes
    magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação
    publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a
    necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.

    O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da
    sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com
    que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito
    e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,
    com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte
    e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a
    trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento
    os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas
    grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,
    junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da
    dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que
    sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os
    salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma
    restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em
    abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os
    dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as
    jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas
    _ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios
    desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e
    prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda
    deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos
    antepassados.

    Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,
    como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma
    providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos
    com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de
    subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.

    Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É
    exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é
    exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e
    posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas
    populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.

    Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde
    era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que
    é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão
    escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na
    sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a
    aos passageiros nús, famélicos, espoliados.

    A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos
    geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos
    povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o
    absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um
    d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando
    os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_
    que amaldiçoaes.

    Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos
    traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das
    façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a
    sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das
    aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido
    tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.

    Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos
    _bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações
    religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das
    leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal
    podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se
    extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de
    amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de
    responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá
    vão.

    Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o
    mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má
    fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes
    d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das
    nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os
    impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que
    apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os
    pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos
    queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado
    a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?
    Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de
    10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara
    a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que
    partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao
    de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.
    Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso
    não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes
    da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos
    e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.

    Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero
    está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é
    inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a
    differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos
    envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos
    fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os
    resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos
    em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a
    emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com
    um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que
    vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo
    iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,
    d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,
    mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e
    corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que
    com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,
    por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em
    miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de
    frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque
    statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo
    era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte
    ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,
    nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes
    que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,
    aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos
    banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do
    lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de
    alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa
    exiguidade.

    Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas
    actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber
    quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para
    instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,
    as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias
    dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria
    do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o
    contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois
    defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas
    porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os
    fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os
    beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero
    aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.

    Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema
    vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos
    capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos
    soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos
    em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma
    increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas
    aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso
    com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista
    dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses
    soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,
    ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se
    por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,
    vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que
    lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O
    unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta
    princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.
    De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio
    da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na
    praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide
    para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do
    Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.

    Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do
    quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,
    fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé
    popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares
    se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter
    feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,
    para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas
    pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de
    Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio
    essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da
    companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares
    que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas
    e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e
    os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue
    em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos
    cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,
    não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?
    Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia
    tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós
    inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos
    officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os
    vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas
    que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos
    patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta
    terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre
    as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,
    onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam
    acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o
    genio do duque de Bragança não os houveram salvado.

    Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr
    a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais
    milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide
    ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles
    compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será
    uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar
    letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.

    II

    Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a
    legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na
    carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se
    parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso
    da redacção da _Nação_ comnosco.

    O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.
    Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro
    comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma
    questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então
    accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,
    reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o
    absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa
    historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição
    primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão
    democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a
    _Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes
    côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos
    seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do
    mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em
    que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem
    dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos
    que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de
    municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de
    liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam
    salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo
    isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da
    comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes
    de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de
    D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o
    absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só
    depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao
    estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da
    communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,
    como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,
    suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições
    primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do
    sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de
    uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A
    _Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda
    o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos
    duramente. Foi um proceder ferino.

    Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas
    da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e
    vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás
    actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de
    controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um
    homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto
    individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a
    dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á
    intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria
    politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.
    Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da
    indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um
    tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez
    haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas
    as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a
    supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da
    corrupção e da tyrannia.

    No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.
    Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até
    á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não
    respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente
    ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança
    sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é
    inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos
    cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,
    ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.
    Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam
    os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que
    apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a
    liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra
    cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas
    mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava
    fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a
    _Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas
    publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de
    alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram
    composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de
    sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho
    (sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as
    mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em
    sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão
    largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos
    liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,
    inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com
    os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se
    enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella
    onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge
    pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o
    libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia
    para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,
    irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas
    mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da
    victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e
    o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o
    _Raio_.

    Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á
    prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,
    extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis
    perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos
    de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar
    debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas
    do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os
    vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria
    envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a
    sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito
    pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes
    antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as
    gentis façanhas dos defensores do passado!

    Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as
    nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois
    nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva
    que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade
    das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,
    dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.
    Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.

    III

    Os sete seculos

    Agora nós.

    Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um
    artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não
    sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu
    profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas
    faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho
    insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que
    deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,
    fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,
    pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os
    flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.
    Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes
    saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as
    maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados
    e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa
    resignação christã.

    Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas
    descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma
    carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,
    conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era
    efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita
    polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem
    apenas por cima da cabeça dos inimigos.

    Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a
    descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o
    despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança
    de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,
    ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros
    como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de
    nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas
    ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos
    cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a
    civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações
    de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento
    invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,
    que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,
    e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de
    depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para
    dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a
    _Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de
    parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das
    sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,
    rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do
    altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os
    fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda
    trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o
    diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar
    á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e
    com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches
    espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um
    espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na
    dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos
    desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e
    tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em
    si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.

    Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre
    velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas
    esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.
    Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os
    ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da
    sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam
    impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro
    5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços
    apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas
    aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem
    de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma
    edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos
    emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em
    quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar
    a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das
    taipas e páus podres de que era construida.

    Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes
    d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal
    o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os
    olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das
    vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos
    da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;
    são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de
    joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do
    convento absurdo de Mafra.

    Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e
    prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a
    primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre
    estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa
    decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande
    pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial
    e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande
    por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria
    comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da
    Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim
    pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita
    entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da
    indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam
    patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime
    constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.

    Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos
    tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma
    serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados
    commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma
    fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar
    algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais
    commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos
    jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as
    doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes
    de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no
    coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.

    Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do
    céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas
    que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam
    escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos
    municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das
    cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a
    sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se
    continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e
    cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos
    contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que
    os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a
    cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham
    introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico
    municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.

    Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até
    1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não
    raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,
    na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que
    nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses
    parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e
    revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)
    senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do
    poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito
    constitucional com que crescera e vigorava o paiz?

    Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um
    pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a
    que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para
    nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos
    da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e
    cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e
    crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para
    os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do
    tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a
    abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para
    viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa
    que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso
    espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das
    prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,
    roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,
    canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da
    gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da
    corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os
    pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se
    fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.
    Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o
    lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da
    terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos
    olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o
    que está elevado, para o ar e para o céu.

    É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em
    que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e
    accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do
    absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem–falsificaste,
    inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos
    factos,–traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um
    crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria
    não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante
    do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos
    filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa
    ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,
    dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a
    perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para
    a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,
    sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa
    reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á
    cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio
    podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o
    nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de
    instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas
    instituições primitivas?

    Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender
    contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações
    foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao
    mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso
    não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são
    vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos
    de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas
    de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da
    sociedade politica.

    Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes
    assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação
    mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres
    senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes
    para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a
    villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas
    medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava
    uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas
    no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte
    do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta
    municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente
    á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a
    sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer
    aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,
    porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»
    Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a
    reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só
    vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.

    Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como
    nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a
    estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a
    organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses
    gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de
    obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios
    de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma
    terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros
    villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro
    para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava
    atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o
    direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos
    vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,
    que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em
    breve, novas da boa-saude do direito divino.

    Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos
    velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos
    agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á
    democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,
    que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos
    barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que
    subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos
    assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos
    corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de
    liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu
    antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus
    primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra
    morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões
    constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.
    Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a
    pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se
    tranquillamente sobre o paiz.

    Até ao seculo XV, posto que já a indole politica da sociedade começasse
    a alterar-se, porque os desembargadores caminharam de longe e de vagar
    para não serem sentidos, os procuradores de côrtes tinham uma
    significação, um valor politico; atraz d'elles e do seu mandado estava
    um grupo social, a democracia, formado de muitos grupos, os concelhos.
    Desde que estes se compozeram de _clero, nobreza e povo_, desde que as
    classes se confundiram politicamente, a liberdade popular morreu. Os
    concelhos não foram mais d'ahi ávante, do que um instrumento de governo
    e uma divisão territorial e administrativa. Cessou entre nós o direito
    politico do povo, e reinou despeado o absolutismo. Que são todas essas
    côrtes posteriores senão um simulacro, ou antes um escarneo dos nossos
    antigos parlamentos? Esses procuradores do _povo_, eleitos pelo _clero_,
    _nobreza_ e _povo_, senão uns titeres com que os oppressores se
    divertiam á custa da democracia? Desde o seculo XVI Portugal teve factos
    politicos mais ou menos tyrannicos, mais ou menos vergonhosos, mais ou
    menos abusivos; mas o direito constitucional onde estava elle? Onde
    estavam os pactos sociaes que Fernão de Pina trocára por outros,
    _reformados_ exclusivamente com os olhos no céo e nas amplas barrigas
    dos alcaides-móres, dos donatarios da corôa, dos dignissimos avós de
    vossas excellencias e reverencias? Estavam esquecidos no fundo dos
    archivos do reino, onde ainda estão hoje para vossa vergonha eterna,
    raça de escravos, que succedestes n'esta nobre terra a uma raça gigante
    de homens livres; estavam onde ainda existem hoje, onde os podeis lêr e
    polluir com essas mãos servas, mentirosos insignes, porque as portas
    estão abertas para examinardes a infidelidade com que os citamos, as
    entrelinhas que n'elles escrevemos, as raspaduras com que os viciamos.
    Ide, miseraveis, punir-nos!

    Respondei, illustres Pegas _ad ordinationem_, donde veiu aos reis de
    Portugal o direito de rescindir contractos politicos solemnes? Os
    monarchas portuguezes da edade media reconheceram estarem limitados os
    deveres dos povos e os proprios direitos, por essas cartas
    constitucionaes, que reunidas eram o complexo do direito publico do
    paiz, e que tinham em si proprias as garantias da realidade: os seus
    successores proclamaram o principio contrario e derivaram d'ahi a
    manifestação do poder publico. Como agrupaes vós estas duas idéas que se
    excluem, que se negam? Como unis a morte á vida? Como ousaes dizer:
    _pertencem-nos sete seculos_? A vós? dementes! O primeiro monumento
    grave da vossa historia, o primeiro resultado practico das vossas
    adoradas doutrinas é a inquisição. A inquisição não foi filha da
    perversidade da curia romana, que tem sobejos crimes para que não se lhe
    attribuam os alheios. A inquisição foi um calculo frio e feroz do
    absolutismo de D. João III (este é vosso: guardae-o) que estava pobre
    pela sua falta de juizo e pelas vaidades paternas. Quiz queimar os
    judeus para os roubar, e pediu lume a Roma, que lh'o recusou largo
    tempo, porque não ignorava para que elle o pedia. Quando quizerdes as
    provas d'isso, fallae; já se sabe, entrelinhadas, supprimidas,
    respançadas, viciadas segundo o velho costume de que nos accusaes com as
    provas na mão, como bons e verdadeiros jesuitas.

    Absolutistas, vós acceitaes a solidariedade do passado: posto que não
    possaes reclamar senão a do que vos pertence. Falamos por isso comvosco,
    não para apontar uma ou outra mancha no vosso predominio, como vós
    modestamente imaginaes, mas para vos dizer o que elle foi na sua
    essencia. Começastes, insultando o evangelho, por queimar aquelles que
    não adoravam Deus á vossa guiza, e terminastes, matando ás machadadas
    prisioneiros inermes, diante dos quaes, armados, tantas vezes tinheis
    fugido. Na vossa historia o espectro da tyrannia esconde a fronte no
    fumo da carne humana, assada para o sancto rei D. João III ter dinheiro,
    e firma os pés nas poças de sangue, sobre os ossos triturados e as
    carnes esmagadas pelos machados dos bravos que tão valentemente fugiam
    das nossas bayonetas. Mas o vosso pedestal e a vossa corôa são
    comparativamente dous dixes infantis. O crime imperdoavel, sem nome,
    pelo qual a posteridade vos ha de escrever a maldição sobre a campa, é o
    terdes vivido abraçados durante tres seculos com esse espectro da
    tyrannia. É o terdes arrastado aos pés dos cortezãos, dos conegos de Gil
    Vicente, dos Pegas, dos bobos regios, dos frades gordos, luxuriosos e
    hypocritas, de que nos fala o viso-rei D. João de Castro na sua
    correspondencia inedita, (viciada por nós, já se sabe), as velhas
    liberdades do paiz, as liberdades do povo, que querieis espoliar sem que
    vos resistisse, concedendo-lhe apenas, se estaveis de pachorra para dar
    gargalhadas, o direito dos gemidos.

    Quando o vosso idolo vos fugiu das mãos, quando a espoliação,
    regio-fidalga, clerical e desembargatoria passou para mãos castelhanas,
    que vos tractaram como vós tinheis tractado o povo durante oitenta
    annos, veiu-vos, excellentissimos e reverendissimos senhores, um accesso
    momentaneo de febre liberdadeira. Incumbistes então um frade ignorante
    de vos redigir um codigo imaginario, em que todas as instituiçães
    sociaes da edade media estão desmentidas, e em que até o regicidio é
    elevado á altura de principio politico. Porque fizestes isto? Porque
    entre vós e as epochas de liberdade havia um abysmo insondavel; porque o
    seculo que precedêra se divorciava da antiga monarchia, em que os povos
    não precisavam do regicidio para defender os seus fóros, de que só foram
    privados por uma serie de traições cobardes e indignas.

    Na verdade depois de sacudido o jugo estranho representastes uma farça
    parlamentar, e depois outras farças analogas. Sempre gostastes de
    galhofa, como succede a todos os mandriões, que comem bem e dormem
    commodamente á custa do suor alheio. Vieram á folia politica os
    procuradores do _povo_, eleitos tambem pelo _clero_ e _nobreza_ das
    cidades e villas: vieram ahi os padres e os fidalgos. Apraziam-vos estes
    espectaculos em que o povo fazia o papel de urso. Que importa que no
    preambulo das côrtes de 1641, se escrevesse a doutrina da soberania
    nacional sobre os proprios reis. Era o horror da tyrannia, que tambem
    vos fizera experimentar como morde, quem vos arrancava esta concessão
    theorica, reproduzida por Velasco de Gouvêa, no livro com que a vossa
    recondita erudição nos assassina? Perguntae-o aos vossos cabelleiras do
    absolutismo. Essa doutrina foi declarada depois _illusiva_, _ob_ e
    _subrepticia_, _atroz_ e _sacrilega_, introduzida n'essas côrtes e no
    livro de Velasco, pelo _synedrio monarchomaco_ dos jesuitas; porque é de
    advertir que o jesuitismo e o absolutismo andaram sempre ás unhadas,
    emquanto os Franzonis e os Autonellis não os jungiram com a mesma soga,
    para trabalharem na vinha do Senhor com a benção cardinalicia.

    Entre parenthesis. Os jurisconsultos de ha cem annos pareciam-se
    convosco, doutores da _Nação_. É a mesma logica. Regeitavam as idéas
    jesuiticas sobre o direito dos subditos para deporem os reis, e
    acceitavam as côrtes de Lamego, o codigo do frade bernardo, onde se
    proclama o regicidio. O absolutismo tem ao menos uma gloria: é a de
    verificar em si um milagre: o de ser ao mesmo tempo profundamente atroz
    e soberanamente ridiculo.

    Vamos, sabichões! Que é o que vale? São as doutrinas do synedrio
    monarchomaco de Velasco e do frade regicida, ou é o direito divino?
    Podemos esganar de vez em quando o nosso reizito, se reconhecer
    supremacia estranha; depôl-o, se não nos andar a geito, ou pelo
    contrario é inviolavel a legitimidade da monarchia?

    E dizeis vós que haveis de morrer no vosso posto! Qual posto, nem qual
    morte, nem qual carapuça? Quem ha-de agora matar meia duzia de patetas,
    que parecem mandados de proposito pela Providencia para divertimento
    d'esta terra, no meio das mágoas e afllicções que lhe causa o
    cabralismo?

    Sabeis o que são, alem de farças, as vossas côrtes de 1641, e as outras
    côrtes do absolutismo? São um monte de inepcias em direito politico.
    Depois de proclamarem a soberania nacional por ordem dos jesuitas, os
    absolutistas de 1641 estabeleciam que o testamento de um rei era uma
    constituição, d'onde derivava a legitimidade de outro rei por direito
    incontroverso!

    Defensores do absolutismo, buscae nas actas parlamentares da edade
    media, alguma passagem em que os mandatarios dos concelhos de Portugal
    declarem, como os titeres de 1641, que a demissão dos tributos
    violentos, _impostos tyrannicamente_ pelos reis de Castella, era uma
    _liberalidade_, uma _magnificencia_, uma mercê d'el-rei. Onde achaes vós
    lá esta linguagem de Baixo-Imperio? Lá oppunham-se os aggravamentos dos
    concelhos aos abusos do poder. Era a distancia que vae de uma epoca de
    liberdade a outra de servidão.

    A servidão, a servidão! Eis o grande crime dos tres seculos que vos
    pertencem. Pensaes vós que nos importam, considerados em si, os
    adulterios da mulher de Affonso VI, ou que D. João V dormisse em
    Odivellas, ou cantassem n'aquella bestialidade architectonica de Mafra,
    cem ou duzentos frades comilões e ignorantes? Importa-nos tudo isso
    porque vós, que nos accusaes de não havermos feito nada em dezoito
    annos, não fizestes cóusa nenhuma em tres seculos, senão consumir a
    substancia publica em devassidões e em bugiarias; senão queimar judeus
    para os roubar, e perseguir-vos uns aos outros, jesuitas e absolutistas,
    quando vos faltou o judaismo para cevar os vossos instinctos
    sanguinarios. O que nos importa é que vós, legitimistas de agua doce,
    representaes a illegitimidade de tres seculos: a tyrannia convertida em
    principio politico, por velhacadas desembargatorias que havemos de vos
    contar um dia, e pela ingratidão fementida da dynastia manuelina para
    com o povo, que tão leal havia sido á monarchia nas suas luctas com os
    padres e fidalgos d'esta terra. Importa-nos que, accusando-nos
    diariamente de destruidores dos thronos, tendes estampada na fronte do
    vosso jornal a lei regicida do frade bernardo, e que entoando hymnos á
    lealdade, ao realismo do alto clero e da fidalguia, ousaes metter no
    peitilho da roupeta os quatro seculos de liberdade, durante os quaes o
    unico exemplo de um rei atirado do throno para o exilio, e substituido
    por um principe estrangeiro, (estrangeiro segundo as vossas doutrinas)
    foi dado pelo alto clero e pela nobreza, em quanto o povo combatia a
    favor de uma illustre desdita. Importa-nos pagar-vos a divida do partido
    liberal, que estaes insultando refalsadamente, porque tem tido a
    desgraça de haverem obtido o poder, pelos meios essencialmente
    absolutistas da corrupção e da violencia, homens cujas doutrinas
    prácticas de governo são as vossas, e contra as quaes tendes visto
    protestar a maioria do partido liberal, com a palavra e com o ferro, do
    mesmo modo que o fizera contra vós. Importa-nos que penseis parvamente
    ao vêr-nos regeitar a anarchia ou a demagogia, ter descoberto nas nossas
    idéas contradicções monstruosas. Importa-nos que enchaes as bochechas
    com as vossas crenças, escrevendo ao signal das chibatas dos vossos
    sargentos, adoradores da censura, da abnegação servil das proprias
    idéas, e tendo opiniões uniformes por que estão stereotypadas nas
    capellas e sacristias. Importa-nos que, não vos movendo impulsos de
    convicções espontaneas, quando vêdes na imprensa as provas de que o
    sacerdocio vem audazmente insultar, n'um convenio insolente, as regalias
    do imperio civil, (a sustentação das quaes é o unico ponto em que são
    acordes as doutrinas politicas dos sete seculos da monarchia) vos caleis
    cobardemente, para não terdes de despir a roupeta de sancto Ignacio, ou
    de tirar a cabelleira desembargatoria, ao que essa questão forçosamente
    vos constrangeria, provando assim que os vossos enthusiasmos
    monarchicos, o vosso patriotismo, são apenas hypocrisias necessarias
    para vêr se grangeaes de novo as commendas e as prebendas, os quartos e
    as jugadas, as alcaidarias-móres e as capitanias-móres, os bispados e as
    conezias, e os beneficios succulentos.

    _Sic valeas ut farina es_.

    IV

    As prestações foraleiras e a fidalguia

    Os servos voluntarios e perpetuos, os que venderam alma e corpo á
    tyrannia, insultam-nos a nós liberaes, e cospem sobre as cinzas de D.
    Pedro, porque não quizemos que esta terra de Portugal fosse uma vasta
    gleba de adscriptos que trabalhassem para suas excellencias
    reverendissimas. Os bens da corôa, o patrimonio publico, os tributos
    locaes eram propriedade d'esse grupo de nobres luxuarios, que enlameavam
    com o rodar dos seus coches, com o galopar dos seus cavallos, o homem
    laborioso curvado para o sólo desde que o sol rompia até que
    desapparecia no occaso. Assim nol-o affirmam. Debalde nossos avós, os
    villãos, protestaram contra a accumulação dos tributos geraes e dos
    locaes, debalde a monarchia, a propria monarchia absoluta, fazia
    recordar nas leis e nos actos, que a renda publica não era, não podia
    ser, patrimonio dos donatarios; os doutores da _Nação_, esses Pegas que
    nos atiram a proposito de tudo com a sua sabença juridica, que nos falam
    nas manuelinas e nas philippinas, nas extravagantes, e nas leis de D.
    José, declaram que os bens da corôa eram do dominio dos comilões,
    alcunham-nos de communistas e, quando dizemos a esses illustres senhores
    que vão trabalhar, respondem-nos em nome d'elles que os espoliámos já do
    fructo do trabalho dos seus antepassados, e que queremos que trabalhem
    de novo para de novo os roubarmos, porque o primeiro roubo não satisfez
    as ambições de todos nós.

    O que é mais admiravel n'estas palavras absurdas, a demencia ou a
    imprudencia?

    Mentís, porque todas as leis, todos os actos do poder, desde a lei
    mental até á lei sobre confirmações do 1769, vos estão dizendo que as
    terras, os direitos dominicaes, os tributos locaes, as jurisdições, as
    rendas, tudo emfim, quanto fôra havido da corôa pelos donatarios, era em
    seu poder um simples uso-fructo, que o rei podia fazer cessar por
    solemne, perpetua, incondicional, que fosse a concessão.

    D'onde vinha, pois, esse direito de propriedade de que falaes, em
    contradicção não só com o direito publico do tempo da liberdade, mas até
    com as leis, com as doutrinas e com os actos do absolutismo? D'onde
    vinha essa propriedade, causidicos dos orgulhosos comilões, e mandriões
    das armarias e dos reposteiros? Da prescripcão? Mas vós, doutores da
    _Nação_, ignoraes que ainda nas vossas côrtes de 1641, se proclamou a
    doutrina de que contra o paiz não ha prescripção, emquanto elle não tem
    liberdade para reclamar, e esqueceis que a tolerancia dos povos durante
    os seculos XVI, XVII e XVIII, ácerca da ladroice com que eram
    malbaratados os bens da corôa, não significa o seu consenso, mas sim os
    terrores do absolutismo?

    Vós pensaes que os redactores do _Paiz_ são os dos jornaes do conde de
    Thomar, aos quaes vós ousastes dizer que as côrtes de Lamego haviam sido
    invocadas a favor de D. Catharina em 1550, antes de as inventar o frade
    bernardo, e que não souberam punir-vos d'esta falsificação?

    Mentís quando dizeis que nós queremos que os fidalgos trabalhem para os
    espoliar de novo. Falta a primeira espoliação para d'ella inferirdes a
    segunda. O decreto de 13 de agosto que respondeu definitivamente aos
    aggravos dos nossos avós, os canalhas do tempo de D. Fernando, de D.
    João I, de Affonso V; que tornou uma realidade práctica, em harmonia com
    a sciencia economica e fiscal das eras modernas, as promessas d'aquelles
    principes e o direito que elles reconheciam nos povos, se teve algum
    defeito foi o ser nimiamente generoso com os donatarios, com os
    excellentissimos filhos do sol e netos da lua: foi a homenagem que os
    ladrões do Mindello prestaram ao trabalho e á morigeração, aos nobres
    que haviam sabido tractar d'esses bens mal-havidos por seus
    antepassados, investindo-os no dominio allodial dos predios que
    desfructavam até ahi por uma posse mal-segura, mas que, como bons
    economos, como homens de costumes regulares, os cultivavam por si ou por
    seus rendeiros, e não tinham alienado o dominio util d'elles por titulos
    permanentes. O decreto de 13 de agosto não perguntou se os que auferiam
    proveitos das suas disposições, eram liberaes ou absolutistas; libertou
    o solo e honrou a morigeração e o trabalho. O partido liberal
    deixou-vos, excellentissimos, aquillo de que segundo as vossas leis
    tinha direito de privar-vos. Os descamisados, os homens do povo que o
    absolutismo trazia subjugados pela miseria, e a classe media em cujos
    bens patrimoniaes e adquiridos licitamente, vós vos cevastes durante
    cinco annos pelos sequestros, pelas peitas dadas aos vossos esbirros
    togados, para concederem um pouco de ar nas masmorras, e pelas luvas
    para trocarem a forca pelos presidios de Africa, podiam ajustar contas
    comvosco, expulsando-vos d'esses bens mal-havidos para se resarcirem de
    lhes haverdes roubado tudo, inclusivamente a camisa, recordações
    gloriosas, em que se estriba o vosso direito de lhes chamardes
    descamisados.

    Os descamisados perguntam-vos pela nossa bocca quanto renderam na
    almoeda dos sequestros, as camisas repassadas do suor da agonia, quando
    despistes os martyres da liberdade enforcados no campo de Sanct'Anna, na
    Praça-Nova, no Cães do Tojo, no Cães do Sodré? Quanto renderam as
    camisas dos martyres da liberdade fallecidos nos presidios pestiferos da
    Africa e nas casa-matas de S. Julião e de Cascaes, as dos mortos a páu
    ao serem conduzidos das enxovias do Porto para as de Lamego, e as dos
    presos assassinados nas outras cadêas do reino? Quantas orgias fizestes
    no fundo das sacristias, nas alcovas soturnas dos palacios com esse
    dinheiro? As dos prisioneiros mortos a machado, essas haviam de estar
    muito despedaçadas. Pouco deviam valer.

    Nós vamos traçar-vos em rapido esboço os titulos da _vossa propriedade_,
    que vos convidâmos a desmentir.

    A fazenda publica do paiz consistia na sua origem em propriedades, cujos
    cultivadores pagavam fóros, pensões, quotas por um systema assaz variado
    e complexo, nos tributos dos concelhos, pagos pelo uso-fructo do sólo, e
    por um systema analogo, nas multas judiciaes, nas portagens ou direitos
    de barreira das villas e cidades, e finalmente nos impostos das
    alfandegas maritimas. Os tributos indirectos, os cobrados nas alfandegas
    e barreiras recahiam pela sua natureza sobre todas as classes. Dos
    tributos directos eram isentos os nobres. Nas honras e coutos não
    entrava o agente fiscal nem o judicial. Para as despezas do estado
    pagava o homem laborioso; o nobre mandrião não tinha nada com isso.

    O serviço militar, o tributo de sangue estava regulado pelo mesmo
    principio. Organisados os concelhos, os seus habitantes, divididos em
    cavalleiros, besteiros e peões, segundo a sua fortuna, ou a natureza
    anterior da sua propriedade, eram arrolados para o serviço da guerra, ou
    para os trabalhos de fortificação, que se consideravam analogos.
    Armavam-se, compravam cavallos e sustentavam-se á sua custa, salvo se a
    guerra ou os trabalhos se protraiam demasiadamente. Os nobres eram
    isentos da defeza da patria, salvo o caso de uma recompensa. A maxima
    parte da renda publica n'isso se consumia. Os ricos-homens governadores
    civis e militares dos districtos, recebiam uma grande parte dos tributos
    locaes, e distribuiam a percepção das rendas dos bens publicos pelos
    cavalleiros, a cada um sua aldêa, sua porção de cazaes, etc. A isto
    chamava-se prestamos. Os alcaides-móres, chefes militares, e até certo
    ponto civis dos concelhos, haviam pelo seu serviço uma porção de rendas.

    Este systema profundamente injusto, segundo as idéas de hoje, não feria
    então os espiritos. O nobre tinha o direito de não supportar encargos na
    sua propriedade patrimonial, e de não defender a patria; o villão devia
    pagar e servir, e ainda com o seu dinheiro comprava o serviço dos
    illustres suissos d'aquelle tempo.

    Rico-homias, prestamos, alcaidarias, tudo era movel: o rei tirava-o,
    dava-o, trocava-o a seu bel-prazer; porque nada d'isso passava em rigor
    de um systema de subvenções pessoaes. Entre nós não havia nada que
    recordasse a fixidade do feudalismo.

    Gradualmente estes encargos e concessões foram-se tornando menos moveis;
    mas a hereditariedade feudal nunca se introduziu: mesmo quando os filhos
    succediam aos paes, os estylos e as leis recordavam que tudo isso era
    accidental, temporario, dependente da vontade do poder central, do
    principe.

    Mas tambem gradualmente se introduziu um abuso. Ás rendas publicas
    procedidas das imposições directas sobre o solo, dadas a qualquer nobre
    e depois d'elle a seus filhos, foram-se pouco a pouco considerando como
    mercês graciosas, e d'ahi nasceram os soldos, as _quantias dos nobres_,
    isto é, um vencimento em dinheiro para servirem o paiz.

    Dizemos _quantias dos nobres_ porque tambem os villãos tinham
    _quantias_, mas negativas; isto é, avaliavam-se-lhes os bens para na
    proporção d'estes terem armas e cavallos, serem bésteiros ou lanceiros,
    para formarem, digamos assim, a cavalleria, a infanteria pezada e a
    infanteria ligeira, tudo gratuito.

    Introduzido aquelle abuso dos soldos, a economia d'esta organisacão
    ficou sendo: o povo pagar na proporção dos seus meios, e servir
    militarmente na mesma proporção: os nobres serem isentos de tributos e
    de serviço militar, ao passo que, como homens de guerra, comiam uma boa
    porção da renda publica em soldos, e outra parte como donatarios da
    corôa.

    Nos fins do seculo XIV este iniquo systema de percepção e distríbuição
    da renda publica, tinha tomado proporções tão espantosas, que a
    principal materia dos aggravamentos populares, nas diversas assembléas
    de côrtes do reinado de D. Fernando, é este assumpto. Ahi o rei
    reconheceu a extensão do mal, e prometteu até onde fosse possivel
    remedio, que na verdade era difficultoso, attento o poder da nobreza.

    Na revolução de D. João I, uma grande parte da nobreza, ou seguiu a
    parcialidade de Castella, ou se mostrou avessa ao mestre de Aviz. Os
    fidalgos, porém, não se esqueceram no meio dos transes e miserias porque
    a nação passava na lucta gigante que emprehendera, de conservar intacta
    a malversação da fazenda publica. Emquanto as derramas e as sizas vinham
    pelas necessidades da guerra aggravar a sorte do povo, a fidalguia
    invocava o passado para que se lhe pagassem as _quantias_ em dinheiro, e
    as terras se lhe dessem gratuitamente, para ser _mercê acabada_. D. João
    I commettêra a _atrocidade_ de resolver com o povo em cortes, que aos
    fidalgos que serviam na guerra se lhes descontassem as quantias nos
    redditos das terras de que eram donatarios, já se sabe, comendo elles o
    resto de mão-beijada, porque esse resto não se dividia em prestamos para
    pagarem a outros cavalleiros que os seguissem na guerra, segundo a
    organisação primitiva. Era só o serviço pessoal que por essas terras se
    exigia dos illustres suissos dos seculos XIV e XV. Os villãos, esses
    combatiam de graça, lá estavam para sustentar com a bolça e com o corpo,
    a independencia do paiz.

    Esse vil e escandaloso requerimento da nobreza lá está impresso ha
    muitos annos na ordenação affonsina. Vós, doutores da _Nação_,
    conhecereis melhor a philippina, o codigo do rei estrangeiro, mas nós
    conhecemos melhor a affonsina, o codigo do rei portuguez.

    Sabeis vós, como a nobreza se desforrava da falta de despacho á sua
    petição? O sancto Nunalvares, os mestres das ordens e os outros
    fidalgos, roubavam os mantimentos nas povoações por onde passavam: os
    alcaides-móres em vez de pagarem ás guarnições dos castellos, pediam
    gente dos concelhos para os guardar; e os senhores quando se achavam
    n'alguma povoação com homens de armas, bastantes para sopear os villãos,
    deixavam-se ficar ahi, comendo e bebendo sem pagar e forçando mulheres.
    Lá tendes essas gloriosas paginas da nobreza nas côrtes de 1397.

    O desbarato gradual da renda publica pelas mãos dos fidalgos, fez
    apparecer o systema dos tributos geraes directos: a principio pelos
    _pedidos reaes_, que eram em rigor o mesmo que o recente imposto de
    repartição, que ha poucos annos se quiz introduzir no paiz, com a
    differença de que os pedidos só se repartiam entre os concelhos. As
    sizas foram o primeiro tributo geral directo que abrangeu tudo. Sobre
    estas bases se fundou o systema das contribuições geraes, de que o
    estado subsequentemente viveu.

    Nas côrtes do seculo XV, como nas do anterior, o povo protestou sempre
    contra a dispersão dos bens da corôa. A monarchia dava-lhe razão,
    promettia emenda, e alguma cousa chegou a fazer por vezes, mas
    insufficiente e estragada d'ahi a pouco por influencia dos poderosos. Ha
    uma observação singular a este respeito. O povo em vez de exigir a
    organisação dos impostos geraes, e a suppressão dos chamados direitos
    reaes que constituiam o grosso dos bens da corôa, queria que se
    despojassem os donatarios, e que o estado vivesse das suas rendas
    primitivas. Era um erro economico, mas que provava o desinteresse dos
    villãos, e quanto elles amavam as instituições de liberdade, com que
    estava ligado por muitos modos, aquelle systema da imposição antiga.

    O absolutismo triumphante poz emfim ordem n'estas gritarias populares. O
    paiz ficou dotado com dous systemas tributarios: o primitivo para os
    fidalgos e desembargadores comerem, pagando-se-lhes além d'isso o
    serviço que faziam: para os fidalgos e desembargadores começados por
    _mercé acabada_, como diziam os virtuosos avós de suas excellencias e
    reverencias: o outro systema para se pagar aos que comiam os fructos do
    antigo, e para o resto das despezas do estado. Como se isto não bastasse
    metteram-lhes na barriga os dizimos e os outros rendimentos das
    commendas, prebendas e beneficios.

    Realmente, os absolutistas teem razão de chorar pelos bons tempos.
    Aquillo era uma delicia. Este seculo de ferro só foi feito para os
    demagogos e para os pedreiros livres.

    E crêem os pantalões que em falando em duas ou tres batalhas, em dous ou
    tres nomes historicos, em Ourique, em Aljubarrota e em Montes-Claros, em
    Martim de Freitas, no Condestavel e em Affonso d'Albuquerque, na Sancta
    religião, no amor das nossas cousas antigas, teem feito tudo; teem-nos
    mettido pelo chão abaixo, esmagados pelo peso de tantas maravilhas.

    Pensam que ao lado da historia dos conventos, das cathedraes e dos
    palacios, não se escreve a da choupana, a do homem de trabalho? Pensam
    que se esses nobres senhores teem os seus registos esplendidos e
    luxuarios, o povo não tem tambem as suas humildes memorias de
    espoliações, de aggravos, de soffrimentos? Enganam-se. Tem-nas, e lê-as.
    Por isso é impossivel a volta do absolutismo.

    E crêdes vós que esta gente insaciavel, chegou a comprehender o
    patriotismo e a abnegação? Abri as chancellarias de Philippe II, vereis
    que ella sacrificou sempre ao egoismo e á cubica. Lá achareis os
    ferretes que o rei castelhano poz em tantas familias illustres por seus
    avós e pela sua situação. Lá estão os preços porque cada alcaide-mór,
    cada titular, cada desembargador vendia esta terra ao estrangeiro, em
    quanto a _canalha_, a villanagem, combatia e morria nas espadas e lanças
    dos soldados do duque d'Alva, pensando ter um novo D. João I no prior do
    Crato, o miseravel que tractava tambem com Philippe II sobre o preço
    d'esse povo generoso, que cria n'elle, porque era da raça dos seus
    principes.

    Depois de sessenta annos de oppressão, em que o paiz recebera duras
    lições, crêdes que os donatarios da corôa aprenderam a amar a patria e a
    morrer por ella. Quereis o reverso dos quarenta conspiradores de 1640,
    muitos dos quaes vingaram com a revolução aggravos particulares? Não vos
    falaremos das conspirações fidalgas e episcopaes contra D. João IV.
    Pedimos-vos só que leiaes um parecer, hoje impresso, do procurador da
    corôa, Thomé Pinheiro da Veiga, um dos mais venerados e veneraveis
    caracteres d'aquella epocha. Vianna, no meio da excitação popular que a
    revolução produzira, teve uma saudade, uma velleidade das suas garantias
    da edade-media. Lembrou-se dos tempos em que pertencia ao povo em muitos
    concelhos do typo de Salamanca, que fôra o da sua origem, a instituição
    electiva do seu chefe militar, do seu alcaide-mór. Pediu-a. Thomé
    Pinheiro da Veiga foi ouvido sobre a pretenção e votou por ella. N'um
    impeto de indignação, elle que tinha por dever reprimir e _amaldiçoar_
    (como elle se exprime) estas pretenções da democracia, viu-se
    constrangido a abençoal-as. E porque? Lêde-o. Porque os alcaides-móres
    comiam as rendas e desamparavam os castellos no fervor da guerra, sem
    gastarem um vintem na defesa, não havendo _quasi nenhum_, que cumprisse
    os seus deveres, no que se pareciam com os outros chefes militares, os
    capitães-móres, que comiam os soldos e roubavam os soldados. Elle ahi
    lança em rosto aos avós de vossas excellencias e reverencias, o atroarem
    o paço com petições de bens da corôa, sem fazerem cousa nenhuma. Será
    Thomé Pinheiro um dos ladrões do Mindello?

    Bem sabeis que tambem fariamos um livro contra vós, se quizessemos
    descer aos factos singulares que mostram a corrupção espalhada
    largamente entre a aristocracia dos tempos do absolutismo. Não quizemos
    senão apresentar-vos em grande, a origem monstruosa d'essa
    _propriedade_, de que nós a espoliamos, e mostrar-vos quanto ella em
    massa era digna de que se conservassem dous systemas tributarios no
    paiz: um para o estado e outro para ella: ambos, porém, tirados aos
    contribuintes.

    Direis que com esses bens da corôa recompensou o absolutismo os serviços
    das comquistas? Recompensou é verdade; mas foi os d'aquelles que vinham
    curvar a fronte gloriosa á corrupção cortezã: as almas altivas e nobres
    tinham paga diversa. Lembrae-vos de Pacheco, de Albuquerque, de Camões.
    Depois serviram elles nos tempos modernos para isso mesmo? Quantas
    alcaidarias-móres, quantos direitos reguengueiros, quantas terras da
    corôa, distribuistes pelos soldados da guerra peninsular, cuja sorte
    vindes hoje deplorar com lagrimas hypocritas? Fostes sequer buscar os
    bens da corôa a essas casas, onde elles se tinham tornado uma especie de
    patrimonio, para recompensar aquelles que se batiam contra nós os
    salteadores do Mindello? Repartistes sequer a tunica popular segundo as
    vossas idéas de justiça politica? Respondei.

    Com o decreto de 13 de agosto D. Pedro cumpriu as promessas dos seus
    antepassados, os reis da edade-media; mas cumpriu-as segundo as
    condições da civilisação moderna: aboliu o systema tributario local e
    excepcional que seria hoje absurdo, e que devorado pela nobresa era um
    duplicado escandalo. As cinzas de tantas gerações de villãos espoliados
    por seculos, foram, emfim, vingadas pelo braço de um rei. Que quereis?
    Nós, os vis, por força havemos de abençoar a memoria de D. Pedro.

    Dizei, doutores da _Nação_, é verdade ou é mentira aquillo que se
    escreveu nas actas das _vossas_ côrtes de 1641, que não ha prescripção
    contra o reino emquanto elle não tem faculdade, nem liberdade para
    reclamar os seus direitos? Outra vez: respondei.

    Sabeis vós uma coisa? Se o decreto de 13 de agosto podesse conter
    disposições de uma reparação atroz, não só seria preciso fazer cessar as
    prestações foraleiras, mas tambem mandar trabalhar nos campos com as
    cadêas da servidão aos pés, tres ou quatro gerações de donatarios de
    bens da corôa, por conta das suas victimas. Nem assim, talvez, flcaria
    compensada a oppressão e o escandalo de alguns seculos.

    V

    No momento em que escreviamos e mandavamos para a imprensa o ultimo
    artigo, em resposta ao que a _Nação_ escrevera contra nós, a proposito
    das leis da dictadura de D. Pedro, mal imaginavamos que o agente publico
    intervinha na questão, para defender nos tribunaes a memoria do
    imperador, se, como crêmos, é exacto o que se lê hoje nas columnas
    d'aquelle jornal. Se o tivessemos sabido a tempo, o nosso artigo teria
    sido supprimido. Desde o momento em que a auctoridade interveiu no
    combate, a questão acabou para nós. D. Pedro e a sua vida pertencem hoje
    á historia: na nossa opinião o defendel-o ou aggredil-o não pertence ao
    ministerio publico. Crêmos que sem negar os seus deffeitos de homem,
    teriamos meios de o fazer vêr a uma luz mais favoravel, do que o viu a
    _Nação_, e que saberiamos reivindicar para elle a justiça dos homens,
    que apreciam os actos e os successos não só em si, mas tambem nas suas
    causas e effeitos. As reivindicações da imprensa são mais efficazes e
    uteis para os mortos do que as dos tribunaes.

    Na redacção do _Paiz_ ha quem fosse soldado de D. Pedro; quem entrasse
    em mais de vinte combates sob o seu mando supremo. Não lhe consta que
    elle désse nunca ordem aos seus soldados para que, no recontro com os
    inimigos, chamassem os officiaes de justiça para os prenderem, ou os
    escrivães para os auctoarem. A ordem era levar os sessenta na patrona,
    outros sessenta no burnal, e as bayonetas bem pulidas. Se as ordens
    tivessem sido o inverso, o ministerio publico não teria hoje o incómmodo
    de accusar o jornal realista.

    De hoje ávante até que se conclua o processo da _Nação_, o orgão do
    partido do snr. D. Miguel não nos ha-de encontrar mais no campo da
    imprensa, ainda mesmo quando nos aggredisse. A perseguição sanctificou e
    tornou para nós inviolaveis os nossos adversarios politicos.

    Os redactors do _Paiz_ são em geral pobres, e os recursos de um jornal
    nascente são sempre limitados. Se, todavia, os gastos de um processo, ou
    o seu resultado na hypothese de ser desfavoravel, collocarem a _Nação_
    em embaraços pecuniarios, nós rogamos singella e sinceramente aos seus
    redactores que não se esqueçam de que no escriptorio do _Paiz_, hão de
    encontrar alguns dos seus irmãos na imprensa, posto que seus inimigos, e
    provavelmente inimigos irreconciliaveis, em opiniões politicas[2].

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO GOVERNO

    1854

    Senhor.

    A camara do concelho de Belem, eleita para o biennio de 1854 e 1855, no
    momento de entrar no exercicio das suas funcções, entendeu que o seu
    primeiro dever é fazer subir á presença de V.M., uma exposição fiel da
    situação economica e administrativa do novo municipio, e pedir justiça
    para os habitantes d'elle, sem o que a camara não se poderá habilitar
    para estabelecer os seus meios de administração e satisfazer aos
    encargos que pesam sobre ella. Os vereadores sentem ter de distrahir a
    attenção de V.M. e a dos seus ministros, dos negocios geraes do Estado
    para uma questão puramente local; mas constrange-os a assim procederem a
    obrigação que teem de não trahir a confiança que n'elles depositaram os
    seus concidadãos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, que constituiram os dous
    concelhos de Belem e dos Olivaes com o antigo termo de Lisboa, foram uma
    providencia benefica; mas foram ainda mais do que isso: foram uma
    providencia justa no seu pensamento. O Governo reconheceu no respectivo
    relatorio a _urgencia e a justiça_ d'aquella medida reclamada pelos
    povos. Posto que ahi não se particularisassem os fundamentos d'essa
    justiça, os ministros que propozeram e referendaram aquelles decretos
    tinham-nos por certo presentes. Á camara de Belem cumpre, todavia,
    apontar os principaes para n'elles estribar as conclusões mais
    importantes d'esta representação.

    Talvez em nenhuma questão de direito publico, o legislador deva ser mais
    cauteloso em não ferir o dogma da igualdade dos cidadãos perante a lei,
    do que em materia de tributos. Era todavia n'esta relação que os
    habitantes do _denominado_ termo de Lisboa, pareciam constituir uma
    classe de ilotas no meio da população portugueza. Aos tributos geraes
    d'este territorio, que entravam nos cofres do Estado, accresciam outros
    que constituiam pela sua indole e origem, e pela sua importancia, a
    melhor porção dos impostos municipaes, sendo necessario ainda contribuir
    com uma serie de pesadas e variadas contribuições directas e indirectas,
    que conservavam o primitivo destino, para perfazer a sua quota nos
    encargos geraes do concelho de Lisboa, a que o mesmo territorio andava
    annexo. Por este modo os numerosos habitantes de algumas leguas
    quadradas em volta da capital, ficavam n'essa parte fóra do direito
    commum.

    Na apparencia, esta situação constitucionalmente impossivel, vinha a ser
    a mesma de Lisboa, onde as contribuições arrecadadas na repartição das
    Sete Casas, são verdadeiros impostos municipaes que entram no thesouro
    publico e de que o Governo deduz certa parte para dotação do concelho.
    Mas em Lisboa esta excepção tinha e tem um fim justo. Tende a
    estabelecer a igualdade parecendo destruil-a: equilibra por excesso de
    encargos um excesso de vantagens. Lisboa tem theatros, aqueductos,
    jardins, monumentos que custaram milhões tirados dos cofres publicos,
    escholas superiores, academias, museus, bibliothecas, tudo mantido á
    custa do Estado. Grande parte das contribuições geraes despendem-se no
    seu seio, e a circumstancia de ser o centro da administração, o foco do
    luxo e da civilisação do paiz, dá-lhe uma população fluctuante, que vem
    por mil modos consummir ahi boa parte da renda liquida da propriedade e
    do trabalho nacional. A applicação de uma porção das rendas do municipio
    a compensar beneficios tão custosos para o resto do reino como
    importantes para a cidade, é justa. Repetimol-o, desigualdade apparente
    é n'este caso a igualdade real.

    Estas considerações não eram nem são applicaveis ao territorio
    circumadjacente de Lisboa, districto pela maior parte rural, cuja
    industria agricola definhava, como bem advertiu o Governo, debaixo da
    pressão inevitavel da fiscalisação dos impostos de consumo. Aqui a
    desigualdade de situação, relativamente aos outros concelhos ruraes, era
    palpavel e escandalosa, porque não tinha nenhuma das compensações que
    justificam o gravame extraordinario que pesa sobre a capital. Bastava
    comparar dous factos que estavam patentes aos olhos de todos, para
    conhecer a injustiça que se practicava. Ao ponto que em Lisboa os
    edificios arruinados se reedificavam e se multiplicavam as novas
    construcções; emquanto ahi o commercio em grosso e de retalho e as
    industrias fabris cresciam a olhos vistos, na parte urbana mais populosa
    do termo e que se considerava até como um bairro da cidade, nas
    freguezias de Belem e Ajuda, viam-se cair ou serem derribadas as casas,
    fecharem-se lojas, acabarem pequenas industrias, emfim todos os signaes
    de uma rapida decadencia. A oppressão e o excesso do imposto faziam seu
    officio; o que faltava eram os elementos de vida que annullam em Lisboa
    os effeitos da desigualdade das contribuições.

    Taes deviam ser os fundamentos principaes da desannexação. A
    consequencia forçosa d'esta, era equiparar os novos concelhos aos outros
    concelhos do reino. Foi o que só se fez até certo ponto, deixando-se
    continuar a subsistir a injustiça na applicação para o thesouro publico,
    de uma parte dos impostos de sua natureza municipaes, que até então se
    cobravam pela alfandega das Sete Casas.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, tiveram por objecto beneficiar os
    habitantes do antigo termo. Negal-o seria negar a verdade. O que não
    lhes fizeram foi justiça inteira. Talvez se possa sustentar a
    legitimidade do imposto excepcional e gradativo, que a lei estabeleceu
    nas licenças para a venda de líquidos, até certa distancia da linha de
    circumvallação de Lisboa. É materia essa que esta camara ainda não
    examinou devidamente e sobre que, portanto, não se julga habilitada para
    reclamar, podendo acaso considerar-se tal tributo como uma transformação
    de parte dos impostos de consumo da capital, que de nenhum modo se
    poderiam cobrar nas barreiras. Mas alem d'esse, estabeleceram-se outros
    dous para os quaes a camara não acha razão plausivel. São os de dez reis
    em canada de vinho, vendido a miudo e de quinze reis em arratel de carne
    verde. A disposição que os estabeleceu, reduzindo os direitos que o
    termo pagava ás Sete Casas, importava um beneficio, uma concessão
    parcial; mas importava tambem um encargo que nada pode justificar.

    No relatorio que precede um dos decretos de 11 de setembro relativos a
    este assumpto, assevera-se que a solução dos impostos especiaes que os
    novos concelhos continuam a pagar, é justa _pelos beneficios e cómmodos
    que lhes resultam do contacto com a capital_.

    Quaes são os fundamentos d'esta affirmativa? Occultou-os o Governo. A
    camara procurou rastrial-os. Examinando a serie de factos em que ella se
    poderia estribar, não achou senão tres que não sejam insignificantes:
    1.^o a segurança publica mantida n'uma pequena porção do seu territorio
    pela guarda municipal: 2.^o desnecessidade de um estabelecimento
    especial d'expostos: 3.^o a proximidade do grande mercado de Lisboa para
    os productos da industria agricola dos dous concelhos. Fóra d'isto a
    camara não atina com as vantagens que possa trazer aos seus
    administrados a visinhança da capital.

    Pelo que respeita ao serviço de segurança publica, feito n'uma pequena
    parte do concelho, a camara de Belem, uma vez que se faça inteira
    justiça, pagará cora a melhor vontade pelo seu cofre, a quota que se
    arbitrar proporcional ao serviço da guarda municipal de Lisboa n'este
    concelho.

    Relativamente aos expostos o concelho de Belem está igualmente prompto a
    contribuir para a Sancta Casa da Misericordia de Lisboa, do mesmo modo
    que contribue a camara da cidade, guardada a relação das respectivas
    populações, alem de estar certo que a Junta Geral do Districto não
    deixará de prover n'esse caso, conforme as attribuições que lhe confere
    o § 7 do art. 216.^o do codigo Administrativo.

    Reconhecendo essas vantagens, a camara de Belem dá um documento de boa
    fé, offerecendo-se voluntariamente a retribuil-as. A mesma boa fé a
    obriga, porém, a ponderar que o 3.^o fundamento que póde occorrer para a
    conservação de impostos excepcionaes, ou não existe ou é compensado de
    sobra por desvantagens reaes.

    A população dos novos concelhos de Belem e dos Olivaes é uma população
    principalmente rural, facto que não deveria ter esquecido na confecção
    das leis de setembro. Todos sabem que hoje o maior embaraço da
    agricultura portugueza é a escacez de braços. Tendo-se desenvolvido
    muito em extensão e pouco em intensidade, o augmento progressivo do seu
    producto bruto, resultado da maior area cultivada, não está em harmonia
    com o desenvolvimento da população agricola. Assim, em quanto os
    productos da primeira industria nacional caminham regularmente para a
    baixa pela superabundancia, o salario tende de contínuo a elevar-se. No
    reino em geral a situação do proletario melhorou e muito, porém o
    cultivador por essas tendencias oppostas de alta e baixa, mas que
    convergem ambas em seu damno, cada vez se vê em maiores apuros e
    difficuldades. Este phenomeno commum aggrava-se nas cercanias de Lisboa
    por diversas circumstancias, que justamente procedem da visinhança de
    uma populosa capital. A industria fabril desenvolvida em Lisboa
    desproporcionadamente com o resto do paiz, exceptuando, talvez o Porto,
    traz uma procura maior de braços, que é causa poderosa do accrescimo do
    salario rural nos concelhos limitrophes. Depois o excesso de produccão
    geral mantendo um excesso de concorrencia por toda a parte, exaggera
    esta no principal mercado do reino, e a depressão dos preços torna-se
    correlativa d'essa exaggeração; por isso acontece, não só equipararem-se
    ás vezes, mas até acharem-se mais baratos os generos (captivos de
    direitos) na capital do que nos districtos remotos onde foram
    produzidos. Accrescente-se a isto a decadencia no mercado dos trigos
    durazios, principal producção do antigo termo, e a preferencia dada aos
    trigos ribeiros improprios d'estes terrenos; accrescente-se tambem a
    continua destruição dos pomares por uma enfermidade que não tem sido,
    que não será provavelmente atalhada, e poder-se-ha calcular se os novos
    concelhos, debaixo destas condições desfavoraveis, independentes da sua
    proximidade ou não proximidade da capital, mas peioradas pelas
    circumstancias que nascem d'essa visinhança, devem ser onerados com
    impostos extraordinarios.

    Na situação economica em que se acha a agricultura, de produzir caro e
    vender barato, a tenuidade do lucro sente-se com dobrada força na
    visinhança da capital, e essa visinhança para as populações agricolas,
    longe de ser um bem é um mal. A maxima concorrencia do numerario é em
    Lisboa, e o numerario como outra qualquer mercadoria deprime-se pela
    concorrencia; ou por outra, a vida torna-se mais cara por esse motivo
    não só na cidade mas tambem nas suas immediações. Ao passo porém, que se
    dá este facto, occorre outro que com elle se combina. A população rural
    visinha de Lisboa, cuja civilisação material é muito maior que a das
    provincias, participa mais ou menos d'essa civilisação, porque a
    influencia d'esta é inevitavel e irresistivel. D'ahi resulta para ella
    um maior numero de necessidades a satisfazer com o numerario deprimido
    no seu valor de troca. E este facto vem não só influir directamente no
    bem estar do proprietario, do agricultor, do seareiro, do pequeno
    commerciante, dos contribuintes, em summa, mas tambem associar-se ás
    causas geraes e locaes da elevação do salario, e a recair por outro modo
    indirectamente sobre elles.

    Ha mais. Quando a acção fiscal das Sete Casas abrangia tambem o termo,
    os cereaes que vinham de fóra encontravam aqui um tributo que
    rigorosamente constituia um dos chamados direitos protectores para os
    lavradores d'estes contornos. Era o de 60 reis por arroba no genero, ao
    passo que os cereaes de lavra propria consumidos no termo não soffriam
    contribuição alguma de consumo. Separados os novos concelhos, os cereaes
    estranhos vem concorrer livremente com os de producção local, que aliás
    tem de ir luctar com elles no mercado de Lisboa, onerados com os mesmos
    60 reis por arroba que os outros pagam. Accresce a isto outro
    inconveniente resultante da proximidade de um grande mercado. Os cereaes
    do Ribatejo e Alemtejo affluindo á capital, deprimidos como se notou já
    por uma concorrencia excessiva, achando aberto o mercado contiguo dos
    novos concelhos, com um favor de quasi 50 reis por alqueire que lhes
    resulta da suppressão do direito fiscal n'estes pontos, e sem differença
    de custo no transporte, affluem naturalmente aqui ainda mais do que a
    Lisboa, e augmentam pelos effeitos de urna concorrencia exaggerada, no
    mercado interno dos dictos concelhos, os embaraços geraes e particulares
    em que laboram os agricultores do nosso territorio.

    A camara, Senhor, tem de advertir de passagem, para que os seus desejos
    não sejam calurmniados e as suas idéas mal interpretadas, que não
    suspira por direitos alguns protectores, por leis d'excepção que
    favoreçam a agricultura do concelho de Belem com detrimento da alheia.
    Pelo contrario está persuadida de que a liberdade da industria e do
    commercio, quanto mais ampla melhor, hade vir a remediar os males que
    quasi sempre resultam da transição do antigo systema de tropeços
    fiscaes, para o systema contrario que é o verdadeiramente protector. A
    camara crê ser fiel interprete da opinião dos seus representados,
    asseverando que estes preferem a sua independencia municipal, a essa
    união absurda com a capital, que tinha por base a injustiça e a
    iniquidade; preferem-na a essa rede de vexames que fazia pesar sobre
    este territorio a fiscalisação das Sete Casas e que eram uma fonte
    perenne de immoralidade e de crimes; preferem-na aos tributos desiguaes
    e sem razão d'existencia com que estavam onerados. O intuito da camara é
    provar que os que se decretaram são tão injustos como os que foram
    supprimidos, porque as vantagens da visinhança de Lisboa em que a
    dictadura se fundou para os estabelecer, não existem ou são annulladas
    por desvantagens que resultam da mesma circumstancia.

    Ha, Senhor, um fado assaz significativo, que se prende a esta questão, e
    sobre o qual a camara de Belem chama a attencão dos ministros de V.M. O
    termo fiscal das Sete Casas não abrangia só o territorio dos concelhos
    novamente creados: estendia-se por freguezias de outros concelhos
    limitrophes. Acabando com o termo, e creando os novos impostos só nos
    dous municipios, a dictadura libertou indirectamente de todos os onus
    extraordinarios aquellas freguezias. Se isso era justo em relação a
    ellas, como o seria tambem que ficassem ao mesmo tempo oneradas as que
    compõem os concelhos de Belem e dos Olivaes? Nenhuns motivos podem
    existir para tão flagrante desigualdade.

    Mas supponhamos, Senhor, que as considerações em que se estriba a
    imposição dos novos tributos, cuja suppressão a camara pede, eram
    exactas. Não desapparecem essas razões diante de outro facto da propria
    dictadura, de que ella se esqueceu ao promulgar os decretos de 11 de
    setembro? O Governo contractou a feitura de um caminho de ferro que
    partindo da capital vai atravessar alguns territorios mais ferteis do
    reino. Os effeitos de uma tal via de communicação serão o approximar,
    tornar contiguos, digamos assim, das portas da capital, um grande numero
    de ricos concelhos da Extremadura e do Alemtejo. Em relação ao contacto
    commercial entre esta e muitos dos concelhos do Ribatejo; em relação á
    facilidade de transportes, e communicações de toda a ordem, esses
    concelhos ficarão mais perto do centro de Lisboa do que Odivellas,
    Carnide, Porcalhota, o valle de Oliveiras ou a ribeira de Algés, cujos
    cultivadores teem de conduzir os productos da sua industria ou de ir
    buscar os objectos de que carecem, por estradas ordinarias abertas
    imperitamente em encostas ladeirentas, estradas que não é possivel mudar
    ou sequer melhorar, sem dispendio de avultados impostos municipaes.

    Se dos novos concelhos se devem tirar algumas dezenas de contos de reis
    porque estão em proximo contacto com Lisboa, ou a igualdade dos cidadãos
    perante as leis tributarias é uma fabula, ou a esses concelhos
    corographicamente mais remotos, mas atravessados pelo caminho de ferro,
    se ha-de exigir uma maioria de impostos, tanto ou mais pesados que os
    creados pelos decretos de 11 de setembro, para o termo desannexado e
    constituido municipalmente.

    Mas abstrahindo da existencia ou não existencia do caminho de ferro,
    temos um facto actual e não contingente, que mostra com evidencia o
    nenhum fundamento de um imposto especial nos dous municipios do antigo
    termo. É o dos concelhos da margem esquerda do Tejo em frente de Lisboa.
    Todos sabem que a facilidade de transporte e communicação pelas vias
    aquaticas apenas é inferior á que proporcionam as estradas ferreas, e
    que em relação á barateza esse meio de transito é ás vezes superior ao
    d'estas. Nos seus effeitos economicos a distancia de algumas freguezias
    dos novos concelhos ao interior da cidade, empregando os meios
    ordinarios de transporte, pelos caminhos communs, está talvez n'uma
    razão quadrupla da distancia d'Almada (por exemplo) ao centro da
    capital. E todavia ninguem se lembra de fazer pagar aos habitantes
    d'aquelles territorios um imposto especial, pela rapidez e facilidade
    das suas communicações com Lisboa.

    A camara, Senhor, não pede esses impostos, porque não pede absurdos, nem
    folga com os males e oppressões alheias. Reclama simplesmente para os
    seus administrados o direito commum, a lei da igualdade garantida na
    Carta constitucional.

    Demonstrada a insubsistencia da razão do relatorio que precede um dos
    decretos de 11 de setembro, resta outra talvez menos categoricamente
    expressa no mesmo relatorio, mas que era a mais forte em relação ao
    thesouro publico. O respectivo ministro presuppunha uma diminuição de
    renda pelo facto da desannexação do termo. Obstava-lhe isto á suppressão
    de alguns direitos de consummo em Lisboa, mas influia tambem na
    conservação de parte d'elles no antigo termo. Vem proval-o a discussão
    que houve na camara dos Dignos Pares na sessão de 13 de agosto de 1853,
    exclusivamente relativa aos impostos excepcionaes conservados nos dous
    novos concelhos. N'essa sessão o mesmo ministro declarou que, attento o
    estado da Fazenda, a mente do Governo não fôra effectuar uma reducção no
    _quantitativo_ dos impostos, mas _unicamente_ alliviar os vexames. Posto
    que esta declaração seja altamente inexacta, (visto que foi diminuido o
    quantitativo na carne e no vinho, e substituida a base do consummo pela
    da venda, o que põe a salvo do mesmo imposto, todos os que mandarem vir
    de fóra do concelho aquelles dous generos directamente para o proprio
    consummo, e visto que foram inteiramente abolidos outros impostos das
    Sete Casas, no termo, como os do azeite e do combustivel) todavia a
    explicação é terminante quanto ás considerações economicas que moveram a
    dictadura a conservar nos novos concelhos _uma parte_ dos antigos
    impostos. Além da persuasão de que era justo pagar mais pela
    contiguidade de Lisboa, as apprehensões do Governo ácerca de um
    desfalque na renda publica, em frente de um _deficit_, obrigaram-no
    pois, a não estender a esta parte do paiz o beneficio do direito commum.

    Sem discutir se é licito invocar motivos de tal ordem quando se tracta
    de um negocio de justiça ou de injustiça, porque se o acto é justo as
    considerações de conveniencia ou inconveniencia são superfluas, e se é
    injusto nunca ellas o podem legitimar, a camara de Belem acceita esse
    fundamento. Se, porém, os factos vierem provar que a desannexação do
    termo, longe de trazer um desfalque nas rendas cobradas pelas Sete
    Casas, deu um resultado contrario, isto é, um augmento de receita, é
    evidente que esse mesmo fundamento cae por terra, e a conservação dos
    direitos nos novos concelhos fica reduzida á categoria de uma oppressão
    absolutamente infundada.

    E é exactamente, Senhor, o que se verifica. Tomado o rendimento das Sete
    Casas e Terreiro (repartições unidas pelas reformas de 11 de setembro de
    1852) durante os primeiros seis mezes da nova organisação, (setembro,
    outubro, novembro, dezembro, de 1852, janeiro e fevereiro de 1853)
    acha-se que o seu valor foi de 532:098$421 réis: examinando porém os
    rendimentos das duas repartições separadas, nos mezes correspondentes de
    1851 a 52, acha-se que o das Sete Casas foi de 416:054$523 réis e o do
    Terreiro de 70:894$940 réis, o que perfaz um total de 486:949$463 réis.
    Assim a concentração da acção fiscal até á linha da circumvallação, onde
    essa acção é possivel e efficaz, produziu o effeito que devia produzir,
    um augmento de receita em seis mezes de 45:148$958 réis. Na verdade, os
    novos direitos creados sobre legumes e que subiram n'esse periodo a
    5:450$561 réis, reduziriam o excesso a menos de 40 contos: mas deve-se
    attender tambem a que desappareceu do rendimento das Sete Casas a verba
    dos direitos de exportação de vinhos, e além d'isso, por effeito da nova
    lei da sisa, o producto d'esta diminuiu nos seis mezes de 1852 a 53,
    tomados por termo de comparação, de 3:500$000 réis, podendo-se deduzir
    da falta de uma verba e da diminuição da outra, que o sobredito
    accrescimo nos direitos de consummo, excede muito os 45 contos de réis.

    Taes são, Senhor, os factos e as razões que a camara municipal de Belem
    submette á consideração de V.M., ácerca dos impostos extraordinarios que
    ficaram pesando sobre os novos municipios. A abolição d'elles é
    moralmente necessaria, e de certo o Governo de V.M. não deixará, á vista
    das considerações expostas, de tomar, perante o Parlamento, a iniciativa
    de uma modificação indispensavel da lei, cujo espirito e cuja intenção
    benefica não é possivel desconhecer.

    A camara, Senhor, diz–intenção benefica–e dil-o mui de proposito.
    Repetindo ainda uma vez que os habitantes d'este concelho tiraram
    vantagens reaes dos decretos de 11 de setembro, ella sente que lhe
    cumpra representar dentro em breve a V.M., sobre as interpretações
    forçadas que se tem dado ás disposições claras e terminantes da lei,
    para se gravarem os povos, e abusos que se tem practicado e practicam,
    para conservar em proveito particular os vexames de que, na sessão de 13
    de agosto de 1853, o ministro da fazenda asseverava (provavelmente por
    falta de exactas informações) estarem livres os novos municipios. N'esta
    parte a camara recorrerá opportunamente a V.M., para que de prompto se
    occorra a males, cujo remedio depende simplesmente do executivo. Na
    presente supplica restringe-se a mostrar os inconvenientes que só podem
    ser removidos pelo legislativo.

    A insubsistencia dos motivos que se buscaram para conservar os novos
    concelhos n'uma situação excepcional produziu, como era de esperar,
    disposições que na lei contrariavam esses motivos. A consciencia de que
    realmente os novos concelhos não deviam ser onerados com os encargos
    especiaes que se lhes impozeram, inspirou a prescripção do artigo 12.^o
    do decreto de 11 de setembro de 1852, expedido pelo Ministerio do Reino,
    no qual se estatue que o Governo dará annualmente uma prestação ás
    camaras dos municipios novamente creados, equivalente á despeza media
    que anteriormente fazia a camara de Lisboa, com a illuminação e calçadas
    no territorio desannexado. Se na realidade os impostos então
    estabelecidos eram uma conpensação das vantagens obtidas pela
    proximidade da capital, se o Governo queria alem d'isso obstar com elles
    a um augmento de _deficit_, a camara de Belem não póde atinar com a
    razão porque se lhe havia de fazer um dom puramente gratuito,
    augmentando para isso o _deficit_ em detrimento commum da nação. Nem se
    diga que essa dadiva é deduzida da prestação concedida ao conselho de
    Lisboa. Não importam para este caso nem a origem ou legitimidade
    d'aquella prestação, nem a justiça das deducções que n'ella se fazem. O
    que importa é que estabelecendo a dotação que se destina a esta camara,
    a dictadura ou não estava bem firme nos principios que invocava, ou
    desbaratava uma somma que aliás deveria entrar nos cofres publicos,
    fazendo donativo d'ella aos habitantes do antigo termo.

    Mas esta disposição não é só contradictoria com os fundamentos das
    provisões tributarias de um dos decretos de 11 de setembro: é tambem
    inexplicavel em si mesma. Ordena-se ahi que as sommas dadas aos novos
    concelhos, sejam calculadas pela media da anterior despeza local, de
    illuminação e calçadas. Porque, porém, essas duas unicas verbas hão-de
    ser tomadas para base do calculo, e não conjunctamente a assaz avultada
    da limpeza, a dos vencimentos, etc.?

    Se o Governo entende, contra as suas proprias declarações, que recebendo
    d'estes dous concelhos perto de 60 contos annuaes de contribuição
    extraordinaria, tem o dever de prover ás suas despezas municipaes, não é
    por certo com supprimentos calculados arbitrariamente e muito inferiores
    aos encargos locaes, que reparará a flagrante injustiça d'aquella
    contribuição.

    Se todavia taes provisões devem cair deante das considerações que
    theoricamente as invalidam, que dirá, Senhor, esta camara ácerca do
    artigo 6.^o do decreto de 11 de setembro expedido pelo Ministerio do
    Reino, que priva o concelho das propriedades municipaes, para as
    attribuir ao de Lisboa? Acaso os logradouros communs dos visinhos e que
    só pelos visinhos podem materialmente ser utilisados, os mercados, cuja
    localidade aliás pertence á camara escolher, com approvação da Junta
    Geral de Districto, os cemiterios emfim, onde repousam as cinzas dos
    paes, irmãos e filhos dos habitantes do concelho, podem ou devem
    constituir propriedade alheia? Esta prescripção, van quanto a mercados e
    logradouros de que os habitantes de Lisboa não podem utilisar-se,
    offerece, quanto aos cemiterios, uma nova especie de servidão, a
    servidão que passa alem dos tumulos. As cinzas dos mortos do concelho de
    Belem pertencerão ao municipio da capital, e poderão ser mudadas ou
    dispersas ou vendidas com o chão que as cobre, sem que seja licito á
    propria municipalidade obstar a taes actos? Fortes deviam ser os motivos
    que a dictadura teve presentes para tomar tão estranha providencia; mas
    esta camara não os alcança, e por isso mal póde combatel-os.

    Demonstrado, como parece ficar, que os decretos de 11 de setembro,
    justos e beneficos no seu pensamento, pelas provisões especiaes que
    encerram, annullam na maior parte os bons effeitos d'esse pensamento,
    segue-se a necessidade da sua reforma. Tendo sido os mesmos decretos
    acto do Governo constituido em dictadura, e sendo para elle honroso o
    havel-os publicado, embora imperfeitos no seu desenvolvimento, esta
    camara entendeu que devia antes dirigir-se a V.M. do que ao Parlamento,
    para que o Governo podesse usar n'este negocio de uma iniciativa que
    justamente lhe pertence.

    Não só essa consideração, mas tambem o sabido e provado amor de V.M. á
    equidade e a tudo quanto possa arredar dos povos oppressões e vexames,
    asseguram feliz exito a uma pretenção tão legitima, e fundada em tão
    urgentes razões. Se, porém, os ministros de V.M. houvessem de
    desprezal-a, o que de nenhum modo esta camara espera, então ella se
    veria na necessidade de appellar directamente para os representantes do
    paiz, e não cessaria nas suas supplicas até obter desaggravo e inteira
    justiça.

    A camara de Belem está tão convencida de que não existe motivo nenhum
    razoavel para os seus administrados viverem, em relação aos impostos,
    fóra do direito commum; conhece tanto a impossibilidade de sobrecarregar
    com fintas, derramas ou outros quaesquer tributos, um concelho em cuja
    parte urbana as apparencias externas bastam para indicar decadencia, e
    que na parte rural lucta com as difficuldades que ficam ponderadas;
    repugna-lhe tão profundamente annullar pelo estabelecimento de novos
    encargos, o allivio que resultou para este territorio da sua separação
    da capital, que está na firmissima resolução de não exigir dos
    habitantes d'elle um unico ceitil para as despezas do municipio, em
    quanto não forem libertados do tributo extraordinario lançado pelas leis
    de setembro sobre dous dos mais importantes objectos de consummo, as
    carnes verdes e o vinho, tributo cuja importancia n'este concelho excede
    a 30 contos de réis. Seja qual fôr o resultado dos seus esforços, que
    serão incessantes ácerca d'este negocio, a resolução que tomou de não
    legitimar com a sua aquiescencia uma situação constitucionalmente
    impossivel, ficará inabalavel porque assenta em convicções
    indestructiveis.

    A camara reconhece que o mal não pode ser remediado senão n'um certo
    prazo, pela indispensavel intervenção do Parlamento. Existe além d'isso
    um contracto de arrematação dos novos impostos no concelho de Belem, que
    só termina em junho do corrente anno, e um dos primeiros deveres do
    Governo é manter illésa a fé publica. O tempo que resta ainda para os
    habitantes d'este municipio soffrerem a arrematação dos direitos de
    venda sobre o vinho e carnes verdes, é sufficiente para o Governo fazer
    votar nas duas casas do Parlamento, as reformas indispensaveis dos
    decretos dictatoriaes de 11 de setembro. No decurso d'este periodo a
    camara procurará conciliar os deveres que lhe impõe a voz da consciencia
    com a escrupulosa obediencia ás leis vigentes, porque sabe que a
    primeira condição da liberdade é a observancia da lei. Na orbita da sua
    acção não tolerará abusos da parte dos arrematantes d'aquelles tributos
    excepcionaes, mas não tolerará tambem que lhes sejam defraudados pelos
    habitantes do concelho do que legitimamente lhes pertencer.

    Applicando ao cofre municipal de Belem uma quota deduzida da dotação do
    de Lisboa, calculada sobre uma base desarrazoada, mas precisa, as leis
    de setembro attribuiram ao Governo e á camara da capital a avaliação
    d'essa quota, excluindo virtualmente a camara de Belem do direito de
    verificar, á vista dos documentos da mesma avaliação, a exacção d'ella.
    É mais uma violencia transitoria a que este concelho tem de
    submetter-se. A camara acceitará essa somma (qualquer que venha a ser)
    fixada pelo arbitrio do Governo e da camara de Lisboa interessada em que
    seja a mais modica possivel. Com ella, com o producto das licenças e com
    outra qualquer pequena fonte de rendimento que possa existir, occorrerá
    ás despezas de administração, de limpeza, de calçadas e de illuminação,
    até onde esses rendimentos chegarem, certa de que os seus representados
    preferirão a falta temporaria de uma parte dos cómmodos e vantagens que
    deve subministrar-lhe a administração municipal, a que esta camara
    practique o minimo acto, do qual se possa deduzir que o concelho presta
    a sancção do seu assentimento a provisões tributarias que são moralmente
    impossiveis.

    Se porventura, Senhor, o Governo de V.M. entendesse dever cerrar os
    ouvidos ás representações d'esta camara, o que nem remotamente os abaixo
    assignados suspeitam, tambem ella poderia elevar respeitosamente á
    presença de V.M., uma supplica para que ordenasse ao seu Governo que,
    usando das attribuições que lhe confere o artigo 106.^o do Codigo
    Administrativo, a dissolvesse, sendo certo que os habitantes do concelho
    de Belem facilmente achariam outros cidadãos que melhor soubessem
    promover os seus interesses municipaes do que os actuaes vereadores.

    Deus Guarde a Vossa Magestade por muitos e dilatados annos como todos
    havemos mister,–Camara 11 de fevereiro de 1854–O presidente, Alexandre
    Herculano–João Ferreira Godinho–João José Teixeira–José Street
    d'Arriaga e Cunha–Visconde da Junqueira.

    REPRESENTAÇÃO DA CAMARA MUNICIPAL DE BELEM AO PARLAMENTO

    1854

    Senhores deputados da nação portugueza.

    A camara municipal do concelho de Belem vem perante o Parlamento pedir a
    reforma dos decretos de 11 de setembro de 1852, que instituiram com o
    antigo termo de Lisboa os dous concelhos de Belem e Olivaes. Ella
    recorreu já com esse intuito ao Governo de Sua Magestade, para que o
    mesmo Governo usasse da sua iniciativa naquella reforma, pelos
    fundamentos expostos no requerimento que lhe dirigiu, e que se ajunta á
    presente súpplica. Á vista d'este o Parlamento não só apreciará, sem que
    seja necessario repetil-as aqui, as razões em que esta camara se
    estriba, para pedir uma reforma altamente reclamada pelos principios
    mais incontestaveis do direito publico constitucional e da economia
    politica, mas tambem avaliará devidamente o proceder do Governo sobre
    tão grave assumpto.

    N'esse requerimento a camara dava ao Ministerio uma prova de deferencia,
    expondo-lhe os aggravos que dos decretos de setembro resultam para os
    seus administrados, e confiando á sua iniciativa o remedio dos mesmos
    aggravos. Via na idéa fundamental dos decretos uma idéa benefica e
    justa, e esperava que o Governo adoptasse uma desenvolução mais logica
    de um pensamento que era seu. Quando assim não succedesse esta camara
    tinha o direito de contar com uma denegação franca e positiva dentro de
    curto prazo. Só assim poderia recorrer em tempo opportuno á
    Representação Nacional. Versando a questão principalmente sobre tributos
    cobrados por arrematação, e devendo esta renovar-se antes de julho do
    anno corrente, é claro que a resolução favoravel da pretensão da camara
    de Belem ficaria indefinidamente addiada, logo que, celebrada a nova
    arrematação, se creasse a necessidade de manter por um, dous ou tres
    annos a fé de um contracto, que nem o proprio Parlamento poderia
    invalidar sem prévia indemnisação aos lesados.

    Á deferencia d'esta camara o Governo respondeu com o silencio; á
    confiança d'ella na sua illustração, na sua justiça, na sua lealdade
    respondeu com uma das propostas apresentadas na Camara dos Senhores
    Deputados pelo Ministro da Fazenda, na sessão de 11 de abril, proposta
    relativa ao imposto do real d'agua, inteiramente connexa com a pretensão
    do municipio de Belem, e cuja approvacão sem restricções importa uma
    negativa ás suas justissimas súpplicas. Este procedimento, posto que
    singular, seria na verdade cómmodo para sem ruido se calcarem aos pés a
    justiça e o direito de milhares de cidadãos, se a esta camara não
    incumbisse velar por elles, e impedir que o Parlamento haja de ser
    illudido, tornando-se innocente cumplice de uma obra de iniquidade.

    Reportando-se ás ponderações feitas no requerimento dirigido ao Governo,
    sobre as diversas disposições mais ou menos irreflectidas e injustas dos
    decretos de 11 de setembro, que esta camara espera sejam abrogadas ou
    substituidas pelo Parlamento, ella invoca especialmente a attenção dos
    Senhores Deputados da Nação sobre o imposto excepcional de quinze réis
    em arratel de carne e de dez réis em canada de vinho, creado nos dous
    novos concelhos de Belem e Olivaes, e assimilado ao real d'agua, por ser
    lançado, não sobre o consumo total, mas sobre a venda a retalho, e por
    ficar incluindo em si, nos ditos concelhos, aquelle antigo tributo
    geral.

    Na representação junta á presente súpplica está ponderada largamente a
    insignificancia dos fundamentos em que a dictadura de 1852 se estribou,
    para crear aquelle tributo excepcional. Aqui, esta camara tem
    considerações de outra ordem que ajuntar ás que offereceu ao Governo, e
    que por certo não serão inuteis na discussão da materia.

    A parte tributaria dos decretos de 11 de setembro pecca desde logo na
    base. É sabido que os tributos do paiz, em harmonia com as nossas
    instituições, se dividem em duas categorias: tributos geraes e
    contribuições municipaes. Directos ou indirectos, a condição de todos os
    impostos geraes é a universalidade. A Carta consagrou este principio. A
    lei que o quebrar é de direito nulla. Pela sua indole o imposto
    indirecto affecta ás vezes mais particularmente uma classe de cidadãos,
    conforme os objectos sobre que recae; mas esse facto resulta sempre das
    leis economicas e da diversidade das condições sociaes. O direito
    publico escripto não póde nunca admittir a hypothese de se tributarem
    diversamente os habitantes de diversas circumscripções. Os impostos
    municipaes, destinados a despezas publicas exclusivamente locaes, são os
    unicos que justamente variam de localidade para localidade, porque o
    municipio é uma pequena sociedade civil dentro da grande sociedade, e os
    seus membros teem deveres e direitos, vantagens e encargos proprios e
    exclusivos da vida publica municipal. Os decretos de setembro, em
    contravenção d'estas doutrinas, crearam um tributo hybrido nos dous
    concelhos do antigo termo: fundiram no imposto do real d'agua outro, que
    é municipal na sua indole, porque exclusivo e de localidade, e que é ao
    mesmo tempo geral na sua applicação, por ser destinado a entrar nos
    cofres do Estado. Esta situação, monstruosa e constitucionalmente
    impossivel, é que o Parlamento, a quem incumbe manter as doutrinas da
    Carta e a inviolabilidade dos principios, deve primeiro que tudo fazer
    cessar.

    Na verdade a dictadura fundamentou as insolitas provisões dos decretos
    de 11 de setembro, nas vantagens que os dous concelhos deviam auferir da
    proximidade da capital. Dado, porém não concedido, o facto, a
    consequencia d'elle, se a dictadura soubesse respeitar as boas
    doutrinas, seria exigir uma compensação directa do municipio, na
    hypothese de que essas vantagens resultavam de um sacrificio especial do
    Estado, porque, resultando das condições naturaes e corographicas dos
    dous concelhos, é ignorar os elementos da economia politica, imaginar
    que taes vantagens escapam aos tributos geraes. Reduzindo os fundamentos
    allegados pela dictadura ás suas verdadeiras dimensões na representação
    junta, esta camara declarou que acceitaria de bom grado o encargo de
    retribuir directamente quaesquer beneficios, em que se dessem os
    caracteres que exigem uma retribuição especial. Era o mais que
    legitimamente d'ella se podia exigir, e que ella se apressou a offerecer
    para tirar todos os pretextos á espoliação.

    Independente da inconstitucionalidade do tributo especial, que os
    decretos de setembro estabeleceram nos dous concelhos do antigo termo,
    para elles poderem gosar de um direito desconhecido dos publicistas, o
    _direito de proximidade_, é de notar o desacordo d'este acto da
    dictadura com o systema que, como tal, e depois como poder executivo, o
    actual Ministerio parece haver adoptado. As suas tendencias, pela
    reducção das pautas, pela adopção do imposto de repartição e por outras
    providencias analogas, bem ou mal concebidas, são evidentemente para o
    tributo directo e para a sua divisão equitativa. E todavia, tractando de
    impôr uma especie de contribuição de guerra nos dous concelhos que
    creára, em vez de exigir a troca de serviços, fossem elles quaes fossem,
    a compensação directa dos sacrificios especiaes do Estado em beneficio
    especial dos mesmos municipios, por uma somma qualquer paga pelos cofres
    das respectivas camaras, a dictadura quintuplicou ahi o imposto do real
    d'agua, imposto cuja substituição ha muito houvera procurado qualquer
    Governo, que, habituando-se a fazer ou a propôr leis depois de examinar
    os factos, achasse que elle tira das bolsas dos contribuintes talvez o
    triplo do que entra nos cofres publicos, com offensa flagrante dos
    principios fundamentaes sobre materia de contribuições, acceitos por
    todos os economistas desde Adam Smith até hoje.

    A dictadura, promulgando os decretos de 11 de setembro, reconheceu nos
    respectivos relatorios uma verdade sabida por todos, a decadencia da
    riqueza nos territorios _extramuros_ sujeitos á fiscalisacão das
    Sete-Casas, decadencia que na realidade, e segundo a opinião do proprio
    Governo, procedia do peso dos impostos e dos vexames, ainda mais
    gravosos, que se ligavam á sua arrecadação e fiscalisação. Esse estado,
    procedido de uma situação tributaria especial, repugnava a todas as
    conveniencias publicas; repugnava á justiça e á moral. A primeira e mais
    importante necessidade na reforma das Sete-Casas era, na opinião dos
    Ministros, destruir esse estado anormal. O Governo entendia com a medida
    que decretava _prover amplamente ás urgentes e justas reclamações dos
    povos_. É evidente que as consequencias logicas d'estas premissas
    consistiam em acabar com o tributo excepcional e com as oppressões; em
    acabar no termo, como diziam os Ministros, com os _impostos de cidade e
    vexames a elles inherentes_. Vejamos como estas bellas promessas se
    realisaram.

    Depois d'espoliar os novos concelhos de todos os proprios, que lhes
    pertenciam pelo simples facto de existirem, attribuindo á camara de
    Lisboa baldios, logradouros, predios urbanos e rusticos, mercados,
    aqueductos, e até os ossos dos mortos, nos dous concelhos de Belem e
    Olivaes, do modo que se vê nos decretos de 11 de setembro, e vai
    largamente exposto no requerimento appenso a esta súpplica, a dictadura
    veiu á questão do imposto especial. Escondido no meio das phrases
    pomposas, dos annuncios prosperos do futuro, encontra-se no relatorio
    dos Ministros o seguinte periodo:–«os concelhos novamente creados,
    ficando sujeitos ás imposições geraes do reino, apenas são obrigados ao
    pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os deixa em grandissima
    vantagem em relação ao seu estado anterior.»–Examinemos se os factos
    condizem com estas affirmativas.

    O antigo termo fiscal das Sete-Casas, como é vulgarmente sabido,
    compunha-se de 37 freguezias, 23 pertencentes ao termo municipal de
    Lisboa, e 14 aos termos de outros concelhos limitrophes. No anno
    economico que precedeu immediatamente a reforma das Sete-Casas e a
    creação dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o rendimento d'essa casa
    fiscal no termo d'ella dependente foi proximamente, segundo os mappas
    officiaes, de reis 62:000$000. Suppondo as forças economicas das 23
    freguezias _extramuros_ do concelho de Lisboa similhantes ás das 14 dos
    outros concelhos, porque as desigualdades entre as de cada um dos dous
    grupos são compensadas pelas desigualdades entre as do outro grupo,
    segue-se que os habitantes dos dous novos concelhos, ou das 23
    freguezias, pagavam proximamente 38 ou 40 contos. O novo imposto foi
    arrematado nos dous concelhos em 51 contos, despresadas as fracções. É
    portanto evidente que o encargo tributario dos dous concelhos ficou
    sendo maior do que era d'antes. Á vista disto, o Parlamento poderá
    apreciar qual é essa _grandissïma vantagem_ em que os deixaram,
    relativamente ao seu estado anterior, os decretos de 11 de setembro.

    Cumpre aqui obviar a um reparo que por parte do Governo, ou dos homens
    de simples theorias se poderá fazer. Descendo á analyse dos impostos das
    Sete-Casas achar-se-ha na verdade que d'antes, no territorio dos dous
    novos concelhos, eram tributados mais generos do que hoje, e que nas
    proprias carnes verdes o imposto era duplo e no vinho quadruplo. Mas o
    ponto verdadeiro da questão é o comparar a totalidade do onus a que
    estes territorios estavam sujeitos, com aquelle a que o estão agora.
    Quando se diz que era impossivel que o termo prosperasse debaixo da
    pressão dos tributos, attende-se ao facto real, e não ao facto nominal.
    A differenca enorme, que achamos entre os suppostos resultados das
    imposições e fiscalisação das Sete-Casas e os seus resultados
    verdadeiros, o que prova? Prova o mesmo que se deduz de outro facto
    altamente significativo, observado na historia do rendimento das
    Sete-Casas no decurso de 18 ou 20 annos, isto é, que esse rendimento
    augmenta logo que se encurta o termo fiscal, diminue desde que este se
    dilata; prova que a medida de reduzir a acção das Sete-Casas ao
    perimetro da circumvallação da cidade foi profundamente judiciosa, e um
    acto em que, á justiça feita aos habitantes do antigo termo,
    separando-os municipalmente da capital, se associou a conveniencia do
    thesouro; prova finalmente que, a não suppormos uma espantosa
    malversação nas Sete-Casas, o contrabando, esse castigo supremo e
    inevitavel de leis ineptas e anti-economicas, remediava até certo ponto
    a exaggeração do tributo, sendo impotente contra elle uma fiscalisação
    violenta, assoladora, immoral nas suas consequencias, e incapaz de
    preencher os fins a que era destinada.

    O imposto sobre a carne e o vinho basta pois, na realidade, para
    compensar actualmente com um gravame novo, ainda maior, o gravame
    antigo. Mas não ha só isto. Na representação junta, dirigida ao Governo,
    esta camara absteve-se de discutir o imposto gradativo, estabelecido
    pelos decretos de 11 de setembro para as vendas de liquidos. Queria
    examinar primeiramente os effeitos positivos d'esse imposto, que ao
    simples aspecto parece ter unicamente por objecto tornar mais facil a
    fiscalisação das barreiras da cidade, e ferir especialmente, de um modo
    indirecto, o consumo de vinho feito pelas classes inferiores da capital
    fóra da linha de circumvallação. A verdade, porém, é que elle nem
    protege a fiscalisação naquella linha, nem recae só sobre o povo da
    capital que vem (quasi exclusivamente nos dias sanctos) consumir vinho
    nos arrabaldes. Por grande que seja este consumo, é evidentemente muito
    inferior ao dos proprios moradores dos novos concelhos, cujo gasto é
    diario, e que consomem outros liquidos. Assim, calculando proximamente
    em 7 contos de réis annuaes o producto das licenças gradativas de cem,
    cincoenta, vinte e dez mil réis, exigidas pelo fisco ás lojas de
    liquidos dos novos concelhos, póde-se affirmar sem exaggeração que 4
    contos de réis recaem sobre os habitantes d'elles e não sobre a
    população inferior de Lisboa. Esta somma addicionada aos 51 contos por
    que foi arrematado o imposto da carne e vinho, eleva o gravame actual
    pelo menos a 55 contos, augmentando-lhe assim o excesso sobre o gravame
    antigo. Ao mesmo tempo a nova taxa de licença, pelo lado dos seus
    effeitos economicos e commerciaes, é por muitos modos vexatoria para os
    novos concelhos; porque o resultado della foi fecharem as portas
    centenares de pequenas lojas de liquidos, que não poderam resistir a um
    direito quasi prohibitivo, convertendo-se assim a taxa n'uma especie de
    direito de patente de um exclusivo, exigida aos donos dos grandes
    armazens de liquidos. De similhante exclusivo resultou que, além de
    ficarem na miseria centenares de familias, apesar do imposto gradativo o
    preço do vinho não subiu, porque o novo encargo para os grandes
    estabelecimentos ficou superabundantemente compensado pelo triplicado ou
    quadruplicado da venda. Todavia as consequencias d'este estado de cousas
    vão mais longe. Diminuindo em virtude de tal facto o numero das licenças
    municipaes, e consequentemente os redditos das novas camaras
    provenientes d'essa origem, ellas teem de ir buscar por outro qualquer
    meio ás algibeiras dos contribuintes, o supprimento de similhante
    desfalque.

    Esta perda e gravame para os habitantes dos dous concelhos reverte,
    porém, em beneficio do fisco? Como todos os tributos, sobretudo
    indirectos, imprevidentemente estabelecidos, os 6 ou 7 contos auferidos
    por esse meio, produzem por outro lado um desfalque, talvez igual. São
    duzentos a trezentos sellos de licenças, duzentas a trezentas verbas de
    decima e do imposto de quatro por cento sobre casas, que desappareceram
    com a cessação d'esses duzentos a trezentos estabelecimentos
    commerciaes. Entretanto os 6 a 7 contos da taxa gradativa figurarão como
    um augmento de receita no orçamento geral do Estado, do mesmo modo que
    tantas outras decepções, que n'elle figuram por motivos analogos.

    Esta camara disse que o imposto gradativo não protege a fiscalisação nas
    barreiras da cidade. Efectivamente n'esta relação elle é de todo
    impotente ou nullo. Basta para o conhecer saber-se o que no nosso
    systema fiscal se entende em regra por imposto de consumo, á vista do
    Codigo Administrativo e leis correlativas. O imposto de consumo
    unicamente se póde verificar na venda a retalho. Assim, não sómente em
    virtude dos regulamentos existentes, mas tambem pelas indicações da
    experiencia, o unico meio de fiscalisação para taes impostos é o methodo
    dos manifestos combinados com os varejos dados nas lojas de retalho. O
    systema do imposto das barreiras, como existe em Lisboa, é o que
    propriamente corresponde aos direitos chamados em França d'_octroi et
    d'entrée_. Se as barreiras e registos fiscaes na orla dos dous novos
    concelhos fossem licitos, e todos os generos importados pagassem sem
    distincção um direito maior ou menor, essas barreiras, especie de guarda
    avançada das de Lisboa, defenderiam mais ou menos estas, fazendo elevar
    sempre os preços dos generos no territorio dos dous concelhos, que assim
    voltariam legalmente ao estado de oppressão e vexame, de que as leis de
    setembro tentaram libertal-os. Mas sem isto, nem o imposto de consumo
    sobre a carne e o vinho, nem a taxa gradativa das licenças conduzem, por
    essa parte, a resultado algum. O contrabandista não precisa de ser
    taberneiro, carniceiro ou merceeiro, para exercer o seu odioso mister, e
    não o sendo póde livremente conduzir o objecto destinado ao contrabando
    até á proximidade da linha de circumvallação, sem pagar nem o imposto
    nem a taxa gradativa. Uma vez que não venda a retalho o que conduz, nada
    tem com elle o fisco ou os seus subrogados.

    Que o Parlamento releve a esta camara uma observação. As linhas fiscaes
    de Lisboa defendem-se como se defenderam ha vinte annos as suas linhas
    militares. Defendem-se com animos probos; com a lealdade dos agentes
    fiscaes; com a vigilancia e actividade de quem quer e sabe cumprir o seu
    dever; com a severidade do castigo e com a justiça das recompensas. O
    espirito mais rude comprehende que uma alta muralha, dominada por um
    passeio de ronda, onde de noite e de dia se patrulhe convenientemente, e
    cujas vinte ou trinta portas sejam continuamente vigiadas por homens
    zelosos, é inaccessivel ao contrabando. Se, por hypothese, houvesse um
    Ministro que viesse perante o Parlamento dizer–«tenho nas barreiras da
    capital empregados fiscaes que trahem o seu dever: tenho chefes a quem
    incumbe vigial-os e que não os vigiam: tenho regulamentos imperfeitos:
    tenho considerações de patronato que me impedem de demitir os suspeitos,
    e de fazer punir os culpados: concedei-me, portanto, que cinja essas
    barreiras com uma faixa de territorio sujeito a uma lei excepcional, com
    um vasto _pomoerium_ de maldição, cujos habitantes innocentes,
    absolutamente innocentes, dos descaminhos que tolero por falta de
    energia e de vigilancia, ou por considerações pessoaes, sejam obrigados
    a compensar pelas suas bolsas, os effeitos da corrupção ou da
    incapacidade dos meus propostos e subordinados»,–o Parlamento
    rejeitaria com indignação esta proposta demente e atroz, e por certo o
    individuo que assim escarnecesse da intelligencia e da consciencia dos
    Representantes do paiz, não tornaria a sentar-se nos bancos do
    Ministerio.

    Não é, por consequencia, possivel que o Governo pense em defender por
    este lado a manutenção das provisões tributarias dos decretos de 11 de
    setembro, aliás já condemnadas no tribunal da razão, por contradictorias
    com a sua idéa fundamental, visto que em vez de reduzirem os impostos
    que _effectivamente_ pesavam sobre o territorio dos dous concelhos, os
    aggravam, directa e indirectamente, ainda mais.

    Ao augmento de encargos que veiu pesar pelo tributo indirecto sobre este
    opprimido territorio, em virtude de expressas disposições das leis de
    setembro, accresce o de outro imposto directo, augmento que resulta das
    leis geraes de Fazenda. Os quatro por cento sobre a renda das casas cuja
    base era em Belem, como districto municipal de Lisboa, de 30$000 réis,
    agora, convertido este territorio em concelho sobre si, teem por base a
    renda de 12$000 réis, vindo a sobrecarregar as classes pobres com um
    tributo de que estavam exemptas, e aos proprietarios urbanos que, com
    difficuldade achavam inquilinos para os seus predios, do que dão
    testemunho as casas deshabitadas e em ruinas que se encontram a cada
    passo n'esta povoação, augmentam-se por essa mudança de base tributaria,
    as difficuldades para auferirem uma renda modica dos seus capitaes
    immobilisados.

    Se, porém, aquelles decretos e as suas consequencias, não tornaram menos
    oppressivas as contribuições que affligiam o antigo termo, cumpre
    confessar que ao menos o exemptavam dos vexames a que os sujeitava a
    fiscalisação das Sete-Casas, com o seu cortejo de violencias, de
    embaraços commerciaes, de extorsões, de rixas, e até de assassinios,
    quadro repugnante, que por inutil esta camara não desenhará diante dos
    olhos dos Senhores Deputados. Mas infelizmente esse beneficio, que está
    na lei e que devia traduzir-se nos factos, não chegou a realisar-se no
    concelho de Belem. O que se tem passado a similhante respeito não se
    acreditaria, se a narrativa dos successos não se estribasse em provas
    irrecusaveis. Na representação junta, esta camara julgou dever abster-se
    de mencionar certos factos e de apreciar severamente outros, de modo que
    parecesse dirigir ao Governo acres censuras. O procedimento d'este para
    com ella, soltando-a de quaesquer considerações, habilitam-na para dizer
    a verdade nua, a verdade em toda a sua extensão, perante os
    Representantes do paiz.

    Apenas celebrados pelos fins de 1852 os contractos de arrematação dos
    novos impostos, nos dous concelhos do antigo termo de Lisboa, e o do
    real d'agua no resto do antigo termo fiscal das Sete-Casas, os
    arrematantes estabeleceram immediatamente registos fiscaes no perimetro
    do territorio que os seus contractos abrangiam. N'estes registos
    exigiam-se direitos de consumo, e davam-se guias dos generos
    despachados. Por auctoridade particular collocaram-se homens armados em
    diversos pontos, e começaram a apprehender-se individuos que, diziam os
    guardas dos arrematantes, se esquivavam ao pagamento dos impostos. A
    fiscalisação, emfim, das Sete-Casas, tão odiosa e tão justamente odiada,
    renascia n'este infeliz territorio com todo o seu sequito de abusos e
    violencias. Unanimemente, porém, as auctoridades administrativas do
    concelho dos Olivaes e dos outros concelhos limitrophes ao antigo termo
    municipal de Lisboa, aonde d'antes chegava o termo fiscal das
    Sete-Casas, intimaram os arrematantes para retirarem os registos, e
    fazerem cessar um systema de fiscalisação incompativel com os
    regulamentos e com a indole do imposto que haviam arrematado. Obedeceram
    elles ás intimações dos magistrados administrativos, e o abuso cessou.
    No Concelho de Belem não succedeu assim. A auctoridade tolerou tudo, e
    os renovados vexames das Sete-Casas continuaram. Como era natural,
    surgiram as resistencias, e os arrematantes pensaram em manter o abuso
    recorrendo ao Governo. Requereram ao Ministerio da Fazenda para que lhes
    assegurasse a conservação d'aquella especie de barreiras fiscaes que
    haviam estabelecido; mas as suas súpplicas foram indeferidas; nem podiam
    deixar de o ser. Communicou-se officialmente esta resolução ao
    respectivo Administrador de concelho, que se recusou a cumpril-a por
    motivos que esta camara ignora, e apesar das leis, dos regulamentos e da
    decisão do Ministro, as cousas continuaram no mesmo estado.

    Entretanto crescia a reacção popular contra um abuso intoleravel, e
    tanto mais intoleravel quando se considerava que os outros concelhos
    limitrophes, e sobretudo o dos Olivaes, creado pelas mesmas leis, com as
    mesmas condições de existencia, e sendo-lhe applicaveis os mesmos
    regulamentos fiscaes, estavam perfeitamente exemptos de taes vexames, só
    reservados ao territorio do concelho de Belem. Os habitantes d'este
    lembraram-se então de procurar allivio aos seus males recorrendo tambem
    ao Ministro, que já ordenara se lhes pozesse termo e que não havia sido
    obedecido. Dirigiram pelo Ministerio da Fazenda um requerimento em que
    pediam de novo essa justiça, que já espontaneamente se lhes mandara
    fazer. Mais de um anno tem decorrido desde então, e até hoje, uma
    súpplica tão simples, tão justa, tão clara, até, para o Ministro, que de
    antemão e por si proprio a resolvêra, não pôde obter uma resolução
    favoravel!

    A camara de Belem deixa á apreciação do Parlamento similhantes factos. A
    sua significação e o seu valor podem todavia calcular-se melhor pela
    comparação com outros que lhes são correlativos. Singulares e estranhos,
    esta camara não ousa nem quer explical-os. Pertence ao Parlamento
    remontar ás suas causas.

    É de antigos tempos contestavel e contestada a extensão que se deve dar
    ao imposto do real d'agua. É questionavel se elle deve recair unicamente
    sobre as carnes verdes ou se tambem abrange as seccas, salgadas ou
    fumadas. Os tribunaes teem julgado diversamente, e o Governo em diversas
    epochas e por diversos actos tem procurado fazer admittir a significação
    mais lata. Estes actos do Governo são perfeitamente indifferentes,
    porque não é ao Executivo, mas ao Legislativo que pertence a
    interpretação das leis. De que a do real d'agua é obscura não ha a menor
    dúvida. Ao passo que o Poder Judicial vacilla a este respeito, o
    Ministro da Fazenda vem ao Parlamento pedir a sua interpretação,
    reconhecendo por esse acto a nullidade de todas as portarias, circulares
    ou officios com que se tem pretendido fixar o sentido d'ella. Posto
    isto, venhamos aos factos.

    Os decretos de 11 de setembro de 1852, conglobaram o real d'agua no novo
    imposto que estabeleceram nos dous concelhos. Liberto dos impostos das
    Sete-Casas, este territorio ficava por esse facto submettido ao do real
    d'agua, a que a dictadura, por aquelles decretos, veiu accrescentar nove
    réis em canada de vinho e onze réis em arratel de carne. Os §§ 1.^o e
    2.^o do artigo 3.^o do decreto expedido pelo Ministerio da Fazenda,
    dizem que os dous concelhos são obrigados:

    «A pagar o imposto de dez réis por cada canada de vinho vendido a miudo,
    nos mesmos termos em que se paga o real d'agua.»

    «A pagar quinze réis por cada arratel de _carne verde_,
    comprehendendo-se n'este direito o real d'agua, e os tres réis
    addicionaes.»

    Se a dictadura entendia que o imposto do real d'agua era legalmente
    extensivo ás carnes seccas, é evidente que quiz restringir a nova
    imposição ás carnes verdes.: se entendia que não o era, quiz tornar bem
    sensivel a intelligencia que dava á lei do real d'agua, excluindo
    positivamente as carnes seccas. Se estas ultimas se comprehendiam
    n'aquella designação limitativa, quaes eram as que excluia a lei?

    Trez mezes depois o Ministerio da Fazenda publicava as condições para a
    arrematação do real d'agua no antigo termo fiscal das Sete-Casas,
    comprehendendo o territorio dos dous novos concelhos, desannexado do
    municipio de Lisboa, e as freguezias dos outros concelhos limitrophes,
    que haviam pertencido ao termo fiscal das Sete-Casas. A quinta condição
    dizia assim:

    Que ao arrematante ficará pertencendo no territorio que constituia o
    termo fiscal da extincta alfandega das Sete-Casas, a percepção do
    imposto do real d'agua, assim em canada de vinho que se vender para
    consumo nas ditas terras, quer seja nas tabernas, quer fóra d'ellas,
    como em arratel de carne de gado vacum, suino, lanigero e cabrum, que no
    estado de verde, secca, ou por qualquer fórma preparada, fôr vendida nos
    açougues ou fóra d'elles; sendo o sobredito imposto, nas freguezias dos
    concelhos que faziam parte do referido termo, de um real por canada de
    vinho, e quatro réis em arratel de carne, conforme foi estabelecido pelo
    alvará de 23 de janeiro de 1643, lei de 21 de novembro de 1844, e mais
    legislação a similhante respeito; e nas freguezias que formam
    actualmente os concelhos de Belem e Olivaes, de dez réis em canada de
    vinho, e quinze réis em arratel de carne, como se acha determinado nos
    n.^os 1.^o e 2.^o do artigo 3.^o do decreto de 11 de setembro do
    presente anno.

    N'esta condição o Ministerio da Fazenda revelava a intelligencia que a
    dictadura déra á lei do imposto do real d'agua, isto é, a extensiva,
    mandando regular a percepção d'elle pela legislação anterior á
    dictadura, e ao mesmo tempo mandava que nos dous novos concelhos se
    observasse na percepção do imposto excepcional dos dez réis em canada de
    vinho e dos quinze réis em arratel de carne, o disposto nos n.^os 1.^o e
    2.^o acima citados do decreto com força de lei de 11 de setembro,
    expedido pelo mesmo Ministerio, e que o restringia ao vinho e ás carnes
    verdes. A condição discriminava as duas hypotheses e referia-se nos seus
    dous membros ás leis que regulavam uma e outra. Rigorosamente a condição
    estava dentro da estricta legalidade. Seria nulla se d'ella se
    departisse.

    Os arrematantes, depois de celebrado o contracto, não entendendo a
    condição, ou fingindo não a entender, exigiram direitos das carnes
    seccas. Resistiram-lhes os interessados. Recorreram elles ao Governo. A
    12 de janeiro de 1853 expedia-se pelo Ministerio da Fazenda a seguinte
    portaria:

    «Ministerio da Fazenda.–Direcção Geral das Alfandegas.–Sua Magestade a
    Rainha, attendendo ao que lhe representaram os arrematantes do imposto
    do real d'agua, nas carnes, e no vinho dos Concelhos de Belem e Olivaes,
    sobre a necessidade de se fazer constar aos moradores d'estes Concelhos,
    que lhes cumpre pagar a elles arrematantes não só aquelle imposto na
    razão de dez réis em canada de vinho, e quinze réis em arratel de carne
    verde, e secca, de todas as qualidades d'estes generos que foram
    encontrados em ser na occasião do varejo a que se procedeu, e das que de
    novo admittirem para consumo; mas tambem o imposto addicional para
    amortisação das notas do Banco de Lisboa: Ha por bem determinar que o
    Delegado do Thesouro, no districto de Lisboa, expeça as ordens
    convenientes aos escrivães de fazenda dos Concelhos de Belem, e Olivaes,
    para que elles façam constar por meio de Editaes affixados nos lugares
    publicos dos mesmos Concelhos, quaes as condições com que o referido
    imposto foi arrematado, e as penas a que está sujeito todo e qualquer
    individuo que se recusar ao pagamento d'elle, as quaes são as de que
    tractam os §§ 4.^o e 7.^o do Alvará de 23 de Janeiro de 1643, e mais
    leis posteriores a similhante respeito.»

    O Parlamento desculpará por certo alguma expressão mais dura que possa
    escapar aos signatarios da presente súpplica, ao fazerem a repugnante
    exegese d'este singular diploma. A maior demonstração de benevolencia
    que poderiam dar ao Ministro que o assignou seria acreditar que o fez
    sem ler o que assignava. Esta camara quer suppol-o assim. Na essencia a
    portaria de 12 de janeiro illude a questão. É uma d'essas composições,
    com pretensão á ambiguidade, indignas de um Ministro da Corôa. Despojada
    do seu preambulo, das longas e tortuosas phrases que se arrastam como a
    serpente, o que resta? Uma ordem para se publicarem por Editaes as
    condições da arrematação, e as penas em que incorre quem devendo pagar o
    imposto, recusar fazel-o. Mas o que pediam os arrematantes? Pediam, que
    entre outras cousas, se fizesse constar, não aos logistas, aos
    vendedores de retalho, mas _aos moradores_ dos dous concelhos, que
    deviam pagar quinze réis de cada arratel não de carne verde, mas de
    _carne verde, e secca_. Era este o ponto importante. Na sua modesta
    súpplica elles exigiam simplesmente que ao direito de consumo cobrado
    sobre a venda a retalho, fosse substituido um direito de entrada ou
    barreiras. Queriam tornar fecundos os seus registos de Belem. Pediam
    que, limitando o decreto de 11 de setembro o imposto da carne ás carnes
    verdes, o Governo o estendesse ás carnes seccas. Eram pretensões
    absurdas que o Ministro devia desattender porque tendiam a ultrapassar
    uma lei, e lei tributaria. Pediam-lhe que perpetrasse um crime. E em vez
    de repellir a injuria; em vez de recommendar aos seus subalternos
    severidade e vigilancia em cohibirem as violencias dos arrematantes e em
    manterem o direito dos cidadãos, que se defendiam da espoliação, o
    Ministro, invocando n'esta comedia vergonhosa o nome do Chefe do Estado,
    ordenava que se lhes recordasse a penalidade fulminada contra os que
    tentam subtrahir-se ao pagamento dos tributos legitimos. Por uma
    inversão de todas as idéas administrativas e até do senso commum, a
    advertencia severa fazia-se aos cidadãos ameaçados, que se defendiam com
    a lei: a attenção era para as pretensões da cobiça insolente que
    reclamava para chegar aos seus fins, o apoio illegal do poder!

    Que todo o homem honesto diga com a mão na consciencia, se ao ler a
    portaria de 12 de janeiro não conhece o intuito com que foi redigida; se
    não sente que se busca produzir um effeito de temor, para que os
    habitantes dos dous concelhos se hajam de submetter ás exacções dos
    arrematantes justas ou injustas, sem que todavia se possa em rigor
    accusar o Ministro de exorbitar? Quem não tivesse presentes os decretos
    de 11 de setembro; quem não conhecesse bem o mechanismo dos nossos
    impostos de consumo e os diversos regulamentos sobre a sua percepção e
    fiscalisação, vendo n'essa portaria que o Governo _attendia_ ás
    representações dos arrematantes, sobre a _necessidade_ de recommendar
    aos cidadãos o cumprimento de certos deveres, e que o mesmo Governo
    depois de enumerar sem distincção esses deveres, reaes e imaginarios,
    ameaçava os renitentes com o rigor das leis; quem, dizemos, se não
    persuadiria de que os arrematantes invocavam unicamente direitos
    legitimos, resultantes de um contracto, que a boa fé do Executivo era
    obrigada a manter?

    O povo, todavia, continuou no concelho de Belem a resistir ao vexame dos
    registos e guias, e d'estas resistencias chegaram a originar-se
    symptomas de graves conflictos. Por outra parte os vendedores de carnes
    seccas, bem aconselhados, deixaram os agentes publicos affixar os seus
    Editaes, as suas condições, as suas portarias, e recorreram ao Poder
    Judicial, de quem ainda hoje está pendente a decisão do negocio. D'esse
    Poder esperam elles justiça, se antes d'isso as Côrtes não approvarem a
    actual proposta do Ministro da Fazenda; porque sanccionada ella, nada
    mais resta aos cidadãos do que curvar a cabeça ante a soberania
    nacional.

    Aos factos precedentes veiu, passados mezes, associar-se outro que os
    completa, e que illustrando o anterior procedimento do Ministerio da
    Fazenda, acaba de habilitar a Camara dos Senhores Deputados para avaliar
    aquelle procedimento e talvez remontar ás suas causas. Interpellado na
    Camara dos Dignos Pares, na sessão de 13 de agosto de 1853, sobre os
    impostos e vexames dos dous concelhos de Belem e Olivaes, o Ministro da
    Fazenda contradisse o direito e os factos, e fez revelações
    deploraveis.–Disse que a intenção do Governo, (queria dizer da
    dictadura) nos decretos de setembro fôra pôr os povos ao abrigo das
    vexações, sem o thesouro d'isso tirar partido, e que tambem o Governo (a
    dictadura) não quizera diminuir o quantitativo dos impostos nos dous
    concelhos, como o declarava no relatorio de um d'esses decretos. Tudo
    isto era inexacto. Os vexames não cessaram como se acaba de mostrar. O
    thesouro tirou partido da reforma, porque em lugar de 38 ou 40 contos
    que auferia do territorio dos dous concelhos, passou a tirar 55 contos
    como tambem se mostrou. Diminuiu-se o quantitativo dos impostos, embora
    os factos viessem depois provar que a diminuição era nominal. Emfim, a
    dictadura não declarou as intenções que o Ministro lhe attribuia n'essa
    memoravel sessão, citando aquelle relatorio, porque todas quantas
    considerações n'elle se fazem relativas a _deficit_, impossibilidade de
    reduzir impostos, etc., referem-se aos direitos fiscaes na cidade de
    Lisboa, e não aos dos dous concelhos, como facilmente verificará quem se
    der ao trabalho de o ler. E tanto assim, que depois d'essas
    considerações os Ministros da dictadura accrescentaram, que os concelhos
    de Belem e Olivaes «ficavam sujeitos ás imposições geraes do Reino, e
    apenas obrigados ao pagamento de alguns tributos a maior, que ainda os
    deixava _em grandissima vantagem em relação ao seu estado anterior_, mas
    que era justo pagassem pelos beneficios e cómmodos que lhes resultam do
    contacto com a capital.»

    Se isto é deploravel, mais o foi ainda a defesa da portaria de 12 de
    janeiro. O Ministro que nessa conjunctura confessava que não soubera
    redigir o decreto de 11 de setembro, relativo ao assumpto, podia tambem
    declarar francamente que não soubera o que tinha feito expedindo-a. A
    Camara dos Dignos Pares seria por certo indulgente á vista d'esta
    confissão ingenua. O joven Ministro achou, porém, mais facil emprehender
    a apologia d'aquella monstruosidade administrativa. Para isso preferiu
    confessar que a portaria tinha por alvo fazer considerar como extensivo
    ás carnes seccas o novo imposto. O real d'agua era-o na opinião do
    Tribunal do Thesouro, do conselho da direcção dos impostos e d'elle
    Ministro, que hoje vem pedir ao Parlamento a interpretação d'essas leis
    sobre o real d'agua, ácerca das quaes nenhuma duvida tinha. Por um
    genero novo de hermeneutica tirou d'esse facto supposto uma conclusão
    singular. O decreto de 11 de setembro era lei promulgada por uma
    dictadura. Esta, assumindo, bem ou mal, o poder legislativo, podia
    modificar, alterar, revogar todas as leis do Reino, menos o alvará de
    1643 e a carta de lei de 1844, relativos ao real d'agua. A esse poder
    nem se quer era licito dar-lhes uma interpretação menos extensiva do que
    lhes dava o Ministerio da Fazenda e as repartições ou individuos d'elle
    dependentes. Aquelle alvará e as leis correlativas eram inviolaveis como
    o Chefe do Estado, embora se dissesse no decreto de 11 de setembro que
    os dous novos concelhos pagariam o imposto de quinze réis por arratel de
    _carne verde_. Supposta a inviolabilidade do alvará de 1643 e da
    interpretação ministerial, essa designação não podia significar o que
    significa. A expressão _carnes verdes_, dizia o Ministro, é alli
    similhante á disposição _em globo_ do alvará de 1643 e da lei de
    1844.–Na sua opinião _verde_ é o genero, _secco_ a especie. Até hoje os
    adjectivos indicavam as qualidades do sujeito, e importavam sempre uma
    limitação porque excluiam as qualidades contrarias, e repugnavam ao
    absoluto; mas desde agora podem incorporar aquellas e representar este.
    Se qualificarmos de branco um corpo qualquer, isso não obstará a que
    seja ao mesmo tempo preto. _Branco_ ficará qualificando o genero;
    _preto_ ficará qualificando a especie. É pelo menos esta a theoria do
    illustre Ministro da Fazenda. A grammatica geral e o diccionario da
    lingua foram abrogados por elle naquella memorada sessão.

    Apesar, porém, da nova theoria, o Ministro não evitou a responsabilidade
    dos seus actos. Quando se publicaram as condições da arrematação do
    imposto que nos dous concelhos de Belem e dos Olivaes substituiu o real
    d'agua, essa theoria era desconhecida no mundo visivel. Podia existir na
    intelligencia do Ministro e na jurisprudencia occulta dos seus tribunaes
    e conselhos fiscaes, mas de certo não na dos licitantes d'aquella
    arrematação. O dever, portanto, do Ministro era expôl-a a tempo, e tanto
    mais que existindo ainda a dictadura seria legal, embora absurda, a
    interpretação dada por ella ao n.^o 2 do artigo 3.^o do respectivo
    decreto. Valia a pena fazel-o n'uma questão de tributos. Declarando-se
    aos licitantes que a expressão _carnes verdes_ significava igualmente
    _carnes seccas_, é evidente que o preço da arrematação subiria alguns
    contos de réis. Adoptal-a por uma portaria quinze ou vinte dias depois
    da adjudicação, e interpretal-a e confirmal-a perante o Parlamento
    passados seis mezes, foi defraudar o thesouro, em proveito particular,
    da somma differencial a que teria subido o preço da arrematação.

    Mas se tudo isto apenas merece a compaixão ou o riso dos Senhores
    Deputados, ha no acto ministerial de 12 de janeiro uma circumstancia que
    se tornava de notavel gravidade, desde que o Ministro vinha declarar
    n'uma das casas do Parlamento que a ambiguidade evidente na forma d'esse
    acto, não existia na indole e na intenção d'elle e que, praticando-o, o
    Ministro da Fazenda adoptára como verdadeiras e legitimas as indicações
    dos arrematantes. Dizia-se na portaria que os _moradores_ dos dous
    concelhos deviam pagar o imposto do vinho e de todas as carnes verdes e
    seccas existentes, ou que de futuro se consumissem. Esta doutrina
    alterava forçosamente o systema da fiscalisação. Pelo Codigo
    Administrativo os impostos sobre o consumo affectam só os generos
    vendidos a retalho dentro de qualquer circumscripção fiscal. O vinho ou
    as carnes que os moradores conduzem de fóra d'essa circumscripção, para
    seu proprio consumo e não para revenderem, são livres. D'aqui a _fórma_
    de se verificar a cobrança e fiscalisação do imposto. É a esta _fórma_
    de arrecadação a que evidentemente allude o decreto de 11 de setembro. O
    vendedor a retalho manifesta o genero perante a auctoridade quando o
    intruduz e paga o imposto: os agentes fiscaes fiscalisam pelos varejos,
    comparando os resultados d'estes com os manifestos. Considerando como
    sujeitos ao pagamento do imposto todos os moradores da circumscripção, e
    onerado sem excepção o genero tributado consumido dentro d'ella, (que é
    o que succede em Lisboa) a fórma da cobrança e fiscalisação varia
    necessariamente. Surgem então as barreiras, as linhas de circumvallação
    e, á falta d'estas, os registos, as guias, os homens armados que vigiam
    a orla do redil fiscal, que espancam e assassinam os contrabandistas, ou
    que são por elles espancados e assassinados. Volta-se ao systema das
    portagens do seculo XIII. A portaria de 12 de janeiro, confundindo o
    tributo portuguez de consumo pela venda a retalho com o tributo francez
    de _octroi_, de barreiras, ou de consumo absoluto, legitimava as guias,
    os registos, os guardas armados que existiam por excepção no concelho de
    Belem, ao passo que indeferia a súpplica dos arrematantes para os
    estabelecerem. A auctoridade local, despresando esse indeferimento e
    mantendo o vexame, era mais logica do que o Ministerio da Fazenda, e
    este mais logico deixando sem solução até hoje a representação dos
    moradores do concelho, do que indeferindo a pretensão dos arrematantes.

    De tudo quanto se passou na sessão de 13 de agosto da Camara dos Dignos
    Pares, a proposito da interpellação do Sr. Conde de Peniche, nada
    porventura é mais singular do que a audacia com que o Ministro
    exclamava: «_Hoje não ha a guia_ (nos dous concelhos): _transita-se por
    toda a parte sem o incómmodo d'esses exames geraes a que procediam os
    guardas das Sete-Casas: não ha registo, etc._» E no mesmo dia, e á mesma
    hora, talvez, em que elle orava no Parlamento, os guardas dos
    arrematantes estavam postados a espaços nas estradas do concelho de
    Belem, e os moradores que conduziam generos para seu consumo eram
    arrastados aos registos, onde se lhes exigiam os impostos, que pagavam
    ou deixavam de pagar conforme conheciam melhor ou peior o seu direito, e
    tinham mais ou menos valor para o sustentar. No dia, e talvez na hora,
    em que o Ministro falava, davam-se guias selladas e pagas n'esses
    registos, que não só existiam então, mas tambem existem hoje, embora com
    um caracter menos vexatorio, porque esta camara saberia defender os seus
    administrados se actualmente se dessem violencias, recorrendo, não ao
    Ministerio da Fazenda, mas sim ao chefe da policia para que mantivesse a
    segurança das vias publicas, e aos tribunaes para que punissem os
    culpados.

    A camara de Belem, depois da exposição de todos estes factos, tão
    incriveis como verdadeiros, transcreve um periodo da resposta dada pelo
    Ministro da Fazenda á interpellação do Digno Par Conde de Peniche. São
    as suas palavras textuaes:

    «Se o Governo substituisse os vexames dos arrematantes pelos da Fazenda
    teria feito talvez peior; porque os impostos arrematados são sempre
    cobrados com maior rigor fiscal; mas o Governo não tem admittido o
    registo pelos arrematantes; não está estabelecido o systema de guias
    como antes estava…»

    Confessa, portanto, o Ministro que em relação aos vexames, o systema que
    chama de Fazenda, e pelo qual esta camara suppõe que elle entende o das
    Sete-Casas ou de barreiras com registos, guias, etc., a situação dos
    novos concelhos, dada a hypothese da arrematação dos impostos, seria
    mais dura de soffrer do que antes, pela maior severidade da fiscalisação
    feita em proveito particular. Ora o systema que tem regido o Concelho de
    Belem é o dos registos e guias. Logo a situação dos habitantes d'este
    concelho tem sido, conforme a opinião dos Ministros, mais vexatoria do
    que sob o regimen das Sete-Casas.

    Fica, portanto, claro, á vista dos factos ponderados n'esta súpplica e
    na representação annexa dirigida ao Governo, que o concelho de Belem,
    espoliado dos bens que lhe deviam pertencer, sobrecarregado de onus
    tributarios, nominalmente menores, mas na realidade maiores do que os da
    epocha em que formava parte do de Lisboa, soffrendo em relação aos
    impostos geraes as consequencias da acquisição da sua individualidade
    municipal, continuando a experimentar por um abuso intoleravel da
    auctoridade os vexames das anteriores fórmas fiscaes, vilipendiado na
    sua magistratura municipal pelo desdenhoso silencio com que foi
    despresada a modesta e respeitosa representação dirigida ao Governo pela
    camara do mesmo concelho, não podia deixar de vir buscar protecção e
    justiça no seio do Parlamento. É o que em nome d'elle esta camara faz.
    Fal-o porque é o seu restricto dever; fal-o porque de outro modo
    trahiria a confiança dos que a elegeram. Pede a reforma dos decretos de
    11 de setembro; pede que as provisões d'esses decretos se affiram pelos
    principios eternos da moral e da justiça; que o concelho de Belem seja
    libertado de tributos excepcionaes e que tambem seja privado de
    quaesquer vantagens excepcionaes, cuja manutenção esteja a cargo da
    Fazenda Publica ou do municipio de Lisboa, uma vez que não se prefira
    haver uma compensação recebida do cofre d'esta camara; que se lhe retire
    consequentemente a subvenção deduzida das prestações dadas pelo Governo
    á camara de Lisboa; que se lhe restituam as propriedades, terrenos e
    edificios municipaes contidos no perimetro do concelho, e que fique este
    sujeito unicamente ao imposto do real d'agua como os outros concelhos do
    Reino, cobrado e fiscalisado do mesmo modo; pede em summa, em quanto
    esse admiravel invento dos economistas de D. João IV continuar a
    devastar o paiz, que aos habitantes d'este territorio seja applicado o
    direito commum, e concedido igual quinhão nos deveres e encargos que
    oneram os outros cidadãos, igualdade garantida a todos pela lei politica
    da monarchia.

    Esta camara, precisando de applicar ás despezas ordinarias do municipio
    uma somma excedente a dezeseis contos de réis, tem de rendimento actual,
    incluindo a subvenção do Governo estabelecida nas leis de setembro,
    menos de nove contos de réis. Onerados já com o imposto excepcional, a
    carne e o vinho, não poderiam ser tributados municipalmente senão n'uma
    proporção tenuissíma. No meio dos embaraços em que labora a agricultura
    do concelho, embaraços que se acham expostos na representação dirigida
    ao Governo, seria absolutamente impossivel sobrecarregar com imposições
    os cereaes, o principal, o quasi unico alimento das classes mais
    infelizes, e a unica producção importante d'este territorio. Os impostos
    indirectos sobre outras subsistencias dariam apenas sommas
    insignificantes. Resta a contribuição directa. Esta pelas nossas
    instituições administrativas não póde exceder a dez por cento da decima
    do concelho, e hoje da respectiva quota de repartição, a qual se eleva
    proximamente a 16 contos de réis, e cujo decimo, portanto, equivale
    apenas a 1:600$000 réis. Assim, ainda lançando todas as contribuições
    possiveis, directas e indirectas, esta camara difficilmente chegaria a
    igualar a sua receita com as suas inevitaveis despezas. Mas para obstar
    á decadencia da riqueza na circumscripção municipal de Belem, decadencia
    evidente a todos os olhos e que o proprio Governo reconheceu, além
    d'essas despezas ordinarias a municipalidade tem de recorrer á
    reconstrucção de estradas geraes e caminhos travessos, pela maior parte
    intransitaveis, para o que se precisam sommas avultadissimas,
    despendidas com a mais severa economia, porque a linha das estradas e
    caminhos de todo o municipio equivale á extensão de muitas leguas. Urge
    tambem a construcção de matadouros, porque a população inteira clama
    contra os abusos no fornecimento das carnes verdes, abusos que não só
    lhe affectam as bolsas, mas tambem a saude e a existencia, e para obstar
    aos quaes o unico meio é o estabelecimento de matadouros publicos, onde
    o genero se fiscalise, porque um dos resultados do imposto do real
    d'agua quer simples quer quintuplicado, como nos dous novos concelhos, é
    impossibilitar a concorrencia e converter o fornecimento das carnes
    verdes em monopolio dos arrematantes do imposto. Ás despezas porém, do
    meneio ordinario do regimen municipal, e ás extraordinarias que são
    inevitaveis para acudir á decadencia do concelho, e ás primeiras
    exigencias da hygiene publica, ajunta-se a necessidade de occorrer á
    creação do material indispensavel da administração de um concelho novo,
    constituido no termo de outro concelho, para o qual passou a maior parte
    do material empregado no serviço do territorio desannexado. Em
    similhante situação, a camara actual ignora a que meios hade recorrer
    para manter a administração do municipio, se continuar a pesar sobre
    elle o imposto excepcional.

    N'estes termos, a camara espera do Parlamento uma resolução favoravel
    sobre o presente assumpto.

    E.R.M.

    Ajuda 28 de abril de 1854. O presidente, Alexandre Herculano. Vogaes,
    João Ferreira Godinho–José Street d'Arriaga e Cunha–Joaquim Ferreira
    Pinto Basto–João José Teixeira Leal–Mathias Antonio Vieira.

    PROJECTO DE CAIXA DE SOCCORROS AGRICOLAS

    1855

    Senhor.

    A camara municipal de Belem, resolvida a occorrer a uma das maiores
    necessidades do concelho, a crear uma instituição do mais subido
    interesse e cuja utilidade já hoje ninguem se atreve a pôr em duvida,
    embora as opiniões variem sobre o modo de a realisar, offerece á
    approvação do Governo de Vossa Magestade, pedindo o uso da iniciativa do
    mesmo Governo perante o Parlamento a favor d'elle, o projecto de lei
    junto, relativo á fundação de uma Caixa de Soccorros Agricolas, especie
    de banco rural, accommodado ás necessidades d'este concelho, ao nosso
    estado economico e juridico, aos nossos usos agricolas, e até ás idéas e
    talvez ás preoccupações dos cultivadores, idéas e preoccupacões que, não
    havendo inconveniente, se devem respeitar, porque é esse o meio de fazer
    acceitar instituições novas, de cuja importancia só a experiencia de
    seus salutares effeitos póde persuadir os menos illustrados. Vossa
    Magestade permittirá que esta camara exponha, com a brevidade que taes
    materias comportam, os fundamentos que abonam a idéa geral do projecto e
    as suas varias disposições.

    Por toda a Europa se tem reconhecido a necessidade de salvar da usura a
    industria agricola, de facilitar a esta capitaes, cujo modico juro seja
    accommodado aos modestos lucros do cultivador. Em Portugal, onde tantas
    vezes e por tantas maneiras tem reinado uma agiotagem desenfreada, nem a
    industria fabril, nem o commercio, nem a fazenda publica teem padecido
    talvez por este lado metade dos males que a agricultura padece. Nas
    provincias do sul, sobretudo, os campos são devorados por uma praga de
    usurarios, que conservam o lavrador n'uma barbara servidão, e que
    defecando-lhe de continuo os recursos, não só lhe obstam a toda e
    qualquer tentativa de aperfeiçoamento rural, mas tambem o vão
    gradualmente conduzindo á miseria. Clama-se contra o atrazo dos
    cultivadores portuguezes, contra a imperfeição dos methodos, e esses
    clamores são em grande parte pouco assisados. Sem pretendermos que a
    nossa agricultura seja modelo, é certo que muitos dos defeitos que se
    lhe notam, não são senão necessidades resultantes do clima, do solo, do
    estado da viação, das condições dos mercados, do modo de ser da
    propriedade, e de mil outras circumstancias economicas e juridicas, que
    os agronomos especulativos desconhecem, ou que não apreciam. Se
    attendermos á elevação quasi constante dos salarios ruraes desde 1834
    para cá, á depreciação progressiva dos generos, e sobretudo á carestia
    sempre crescente dos capitaes, o accrescimo constante da massa dos
    nossos productos agricolas, abona a crença de que o systema de
    agricultar não é tão imperfeito como folgam de pintal-o os admiradores
    exclusivos das prácticas estrangeiras. Os grandes embaraços para o mais
    rapido desenvolvimento da agricultura consistem sobretudo na falta de
    capitaes, nas leis que por differentes modos se oppõem á divisão da
    terra e á translação do dominio, á falta de vias de transito e de
    policia rural, a circumstancias, em summa, que nada teem que vêr com
    esta ou com aquella fórma de instrumentos agricolas, com este ou com
    aquelle systema de afolhamentos, com a introducção d'esta ou d'aquella
    cultura nova, ou que, se teem alguma influencia n'essas cousas, é em dar
    razão ás vezes ao agricultor para não as adoptar, embora sejam boas
    absolutamente consideradas.

    A camara de Belem, tractando de remover o maior dos obstaculos ao
    desenvolvimento da agricultura n'este concelho, a carestia dos capitaes,
    deve fazer sentir a maneira como a usura procede na obra infernal de
    arruinar os cultivadores. O quadro que ella vae traçar é triste, mas
    verdadeiro, e oxalá não representasse ao mesmo tempo o que se passa na
    maioria dos outros concelhos, ao menos no sul do reino.

    Em geral a usura exercida sobre a agricultura é de duas especies. A 1.^a
    tem os caracteres genericos d'esta immoralidade: o mutuante, segundo a
    necessidade do agricultor, empresta sobre as hypothecas ordinarias com
    os juros mais exorbitantes que póde, suppostas taes ou taes
    circurmstancias no mutuario: é um agiota insolente, vulgar, ávido como
    qualquer outro. A 2.^a especie tem caracteres á parte: é a usura
    hypocrita, muito mais commum no campo do que a primeira. O usurario
    d'esta especie segue diverso rumo. É homem chão, modesto, exacto no
    cumprimento dos seus deveres civis, laborioso, valedor: é quasi um bom
    homem. Ignora as partidas dobradas e repugnam-lhe por via de regra, não
    só os juros exorbitantes mas até o juro legal. Quando empresta o seu
    dinheiro ao agricultor é por dó d'elle; é para lhe acudir n'um apuro. O
    que quer é assegurar o reembolso da somma mutuada. Tendo horror ás
    demandas, se o lavrador é proprietario não lhe acceita o predio como
    hypotheca, porque conhece a imperfeição das nossas leis hypothecarias:
    se o não é, nem por isso quer abandonal-o. N'esta situação que faz?
    Empresta sem juro; mas exige um contracto que lhe dê a certeza do
    reembolso. O cultivador ha de pagar-lhe em genero na eira. E como ha de
    ser o pagamento? Os cereaes regular-se-hão pelo preço mais inferior do
    genero n'essa conjunctura. É uma precaução. Para os riscos das baixas
    possiveis que depois sobrevenham de uma venda anterior, de uma divida
    desconhecida, de uma colheita insignificante, etc., o mutuario promette
    o abatimento de um, de dous, de tres vintens ou mais em alqueire. É
    outra precaução. O usurario é compassivo, é benevolo para com a sua
    victima, mas precisa de ser prudente. O contracto fica secreto ou como
    secreto; não se escreve porque o mutuante conta com a probidade do
    mutuario, ou para melhor dizer, com o temor que este terá de achar em
    novos apuros condições mais onerosas, e esses apuros são quasi
    inevitaveis desde que o cultivador caíu uma vez nas suas mãos. Taes são
    as fórmas mais communs da agiotagem rural n'este e n'outros concelhos.
    As circumstancias especiaes modificam-nas, mas em geral as transacções
    d'este genero caracterisam-se assim.

    O segredo que se guarda ácerca d'estas transacções obscuras e hediondas,
    a que se póde chamar a crapula da agiotagem, predomina tambem
    forçosamente no facto geral que resume esses mil factos de usura. A
    cargo da irregularidade das estações e dos mercados, da falta de vias de
    transito, do peso dos impostos, etc., ficam todos os males do lavrador.
    Murmura-se vagamente e em voz baixa; mas nas queixas publicas o usurario
    passa illéso. Como buscando o verme que destroe a arvore antiga, é
    preciso que o ouvido do observador seja bem agudo e o silencio á roda
    d'elle bem profundo, para sentir a usura roendo no amago da industria
    agricola. Se o Governo ou o Parlamento instituissem um inquerito solemne
    a este respeito, o mais provavel é que fosse nullo o seu resultado. O
    agricultor calar-se-hia porque não crê na auctoridade; não espera d'ella
    remedio. Martyr, olharia para o algoz e vêr-lhe-hia nas mãos os
    instrumentos dos tractos, ao passo que no poder publico só creria
    descortinar a indifferença, a fraqueza, a impotencia. Curvar-se-hia por
    isso e respeitaria o mais forte. Evitaria assim que no seguinte anno a
    sua imprudencia fosse castigada com mais uma volta na corda do potro;
    com mais um ou dous vintens de abatimento no preço por que devera vender
    cada alqueire de trigo.

    Para se avaliar bem toda a extensão do mal, é necessario, Senhor,
    attender a alguns factos. Ordinariamente o lavrador executa com um
    capital seu os primeiros trabalhos annuaes. Na prosecução d'esses
    trabalhos é que é vulgar virem a faltar-lhe os recursos, e é então que
    elle compromette o futuro. As mondas, as sachas, as cavas, as ceifas, as
    vindimas, acham-no muitas vezes desprovido. Ora entre estes ultimos
    trabalhos e o recolhimento dos fructos medeiam apenas de cinco a dous
    mezes e ainda prazos mais curtos. Por outro lado, como é vulgarmente
    sabido, a epocha em que os productos da agricultura teem menor valor é
    na occasião da colheita. Ajunte-se a isto a reducção de um tanto no
    preço de cada alqueire de cereaes ou de cada almude de vinho, e
    imagine-se qual será a exorbitancia do lucro do mutuante. Supponhamos (e
    esta supposição não vae por certo longe do que commummente succede) que
    o preço medio annual dos trigos temporãos, principal producção d'este
    concelho, corresponde a 500 reis, e que na epocha das eiras o cereal
    vale a 460 reis. Fazendo o abatimento de 20 reis em alqueire, o lavrador
    paga com cada um d'estes apenas 440 reis de uma divida que, suppondo-se
    contrahida por uma media de tres mezes, vem a soffrer um juro de 12 por
    cento em trimestre, ou 48 por cento ao anno.

    Esta camara, Senhor, não foi buscar exemplos aos casos mais
    escandalosos, que annualmente occorrem. Quando o credito do lavrador
    está abalado, muitas vezes por causa das mesmas usuras de que foi
    victima, quando a sua reputação de probidade não é inconcussa, quando os
    seus habitos de economia são pouco severos, quando as incertezas das
    estações o empobreceram, as usuras redobram de violencia. Mas, ou
    maiores ou menores, as difficuldades da sua situação augmentam de anno
    para anno, e o resultado mais ou menos remoto d'essa situação é a ruina
    e a miseria. O cancro da usura devorou-lhe interiormente a vida
    economica lento, lento e sem ruido; e esta lentidão e este silencio são
    uma das caracteristicas da agiotagem rural que a tornam mais difficil de
    extirpar. O que enleva, o que arrasta sobretudo o lavrador, é o mysterio
    d'essas transacções leoninas que não se escrevem, que não se vão contar
    na praça, porque o usurario é discreto e sabe tirar partido d'essa
    preoccupação dos agricultores.

    Foi attendendo a estes factos e ás circumstancias d'elles, que se
    concebeu o projecto de uma instituição que, supprindo com vantagem os
    bancos ruraes como existem nos outros paizes e que parecem, ao menos por
    emquanto, inapplicaveis ao nosso, trouxesse um alivio seguro á
    agricultura d'este concelho, mais compromettida e ameaçada de ruina do
    que se cuida. O pensamento do projecto foi aproveitar a experiencia,
    digamos assim, da industria da usura para a combater, organisando a
    Caixa de Soccorros de modo que á facilidade das transacções se ajuntasse
    a modicidade do juro, e o respeito por certos habitos e preoccupações
    que o progresso da illustração ha de destruir, mas que desattendidos
    emquanto são vigorosos, impedem sempre a realisação das melhores cousas.

    Affirmou, Senhor, esta camara que a Caixa de Soccorros, instituição
    simples e exequivel, substituirá com vantagem os bancos ruraes, que esta
    camara reputa inapplicaveis ao paiz. Efectivamente varias objecções
    gravissimas se pódem oppôr á tentativa de crear entre nós o chamado
    credito rural por via de bancos. Que são os bancos territoriaes ou
    hypothecarios? Uma instituição de garantia, intermedia entre o mutuante
    e o mutuario, ou mais exactamente entre o capital e a propriedade, e que
    attrahe aquelle pela segurança, esta pela barateza do dinheiro que a
    segurança do emprestimo produz. Na expressão da indole de taes bancos se
    manifesta desde logo o imperfeito da instituição, ainda absolutamente
    considerada. Não é só, diremos mais, não é tanto a propriedade rural
    como a industria rural que precisa de ser por toda a parte soccorrida
    por capitaes baratos. A terra é um capital como o dinheiro, porque não
    passa de um instrumento de producção: o productor é o que a cultiva. É
    para este, para quem representa o trabalho que sobretudo taes bancos
    deveram ser instituidos. Proprietario ou rendeiro, que importa a qual
    das duas cathegorias pertence o cultivador, o industrial agricola? Um
    carecerá só de ser mutuario do capital dinheiro; outro carecerá do
    capital dinheiro e do capital terra. Qual d'elles precisa de maior
    protecção? Evidentemente o segundo. Os bancos ruraes não satisfazem a
    esta necessidade. Aproveitam aos primeiros, porém não aos segundos, ao
    menos directamente. E todavia, não dizemos em Portugal, mas em quasi
    todos os paizes, o maximo numero dos cultivadores são os rendeiros. Na
    Polonia, na Allemanha, na Russia, na Dinamarca, na Belgica, as
    instituições de credito agricola não vão além da propriedade
    territorial. Nem outra cousa podia ser porque ellas suppõem geralmente a
    existencia do fundo, os bens de raiz, como hypotheca para o reembolso.
    D'esse facto deriva outra objecção grave contra os bancos ruraes. Os
    paizes do norte, onde a instituição nasceu, teem luctado com os mil
    tropeços, que traz á sua consolidação o regimen hypothecario, e a França
    debate-se para a crear com as difficuldades d'esse mesmo regimen, mais
    imperfeito ainda que n'aquelles paizes. Entre nós o systema de
    hypothecas póde considerar-se na infancia, e elle seria um obstaculo
    insuperavel ao estabelecimento dos bancos de credito territorial.

    Dir-se-ha que as nossas leis hypothecarias serão reformadas como acto
    preliminar á creação dos bancos? As nações mais adiantadas teem
    consumido annos e annos em estudos e tentativas para reformar essas
    leis, que prendem directa ou indirectamente com todo o direito civil, e
    ainda não o teem completamente alcançado. É permittido por isso duvidar
    de que tal facto se verifique entre nós, que ainda não temos um Codigo
    Civil e onde a legislação é um chaos. Faz, na verdade, sorrir a
    facilidade com que se imagina prover em Portugal, ao complemento e
    organisação d'esse esboço que ahi temos de um systema hypothecario.

    As instituições destinadas a servirem de intermedio entre os
    capitalistas e os proprietarios, ou dependem de associações poderosas e
    respeitaveis, ou da garantia publica. Mas quer sejam de um, quer de
    outro genero, é necessario que o seu credito se repute inabalavel. Sem
    isso debalde se buscaria obter capitaes baratos para agricultura. Mas
    quaes serão as associações poderosas e respeitaveis que possam ou
    queiram organisar entre nós os bancos territoriaes? Por outra parte a
    historia da fazenda publica e dos grandes estabelecimentos de credito
    n'este paiz, não abonaria demasiado a confiança dos mutuantes na
    garantia publica. Todos os diversos bancos ruraes actualmente existentes
    na Europa presuppõem a emissão de notas, de letras, de inscripções, de
    titulos de credito, em summa, para funccionarem. Mas quem prudentemente
    poderia esperar hoje em Portugal a acceitação de taes titulos? Mr.
    Thiers dizia em 1848 perante a assembléa nacional, n'um paiz onde o
    credito publico mal se poderia comparar com o nosso: «Basta que um papel
    se introduza n'um paiz como nota de banco para se me tornar suspeito».
    Nós os portuguezes não suspeitamos: descremos. E esta descrença matará
    todas as tentativas; porque o credito nem se improvisa, nem se decreta.

    Ás precedentes objecções vem associar-se outra, talvez não menos
    peremptoria. Os capitaes em Portugal teem um valor subido. São communs
    os emprestimos, feitos com toda a segurança compativel com o desordenado
    e incompleto das nossas leis civis, a 7, a 8 e a mais por cento. Ainda
    suppondo possivel a existencia de bancos ruraes que offerecessem solidas
    garantias, e que a situação actual da agricultura portugueza admittisse
    a exigencia de um juro de 5 ou 6 por cento, como attrahir os capitaes
    para os bancos? Como resolver o capitalista a contentar-se com um juro
    de 4 ou 5 por cento, visto ser necessario reservar pelo menos 1 por
    cento para as despezas da gerencia dos bancos, quando elle póde obter
    para o seu dinheiro um preço mais subido?

    Restaria só um meio, a emissão de notas que não representassem valores
    positivos; restariam as chimeras da mobilisação do solo e da
    multiplicação dos capitaes, ou por outra a moeda papel, que os utopistas
    crêem ter descoberto porque inventaram algumas phrases ou palavras
    novas, para exprimir erros velhos. Esta camara julga inutil combater
    similhantes preoccupações, porque o Governo de Vossa Magestade e o
    Parlamento estão acima de taes desvios. Se fosse possivel não o estarem,
    a opinião publica faria prompta e inexoravel justiça a esses papeis de
    credito, desacreditados ainda antes de emittidos.

    Esta camara, Senhor, não pretende com o que leva dito negar os
    beneficios produzidos pelos bancos ruraes nos diversos paizes da Europa,
    nem que o progresso das luzes economicas os venha a tornar mais amplos
    nos seus effeitos, nem finalmente que possa chegar um dia em que a sua
    fundação seja não só possivel, mas tambem conveniente ao nosso paiz.
    Quiz só mostar a convicção profunda que tem de que, por agora, para
    fazer alguma cousa verdadeiramente util á agricultura, considerada nas
    suas relações com o capital, cumpre tomar por base outro pensamento, e
    desenvolvel-o em harmonia com o nosso estado economico e civil, e além
    d'isso com as idéas, habitos e até preoccupações innocentes dos
    agricultores.

    Na creação da Caixa de Soccorros, que submette á approvação, e para que
    pede a iniciativa do Governo, esta camara tomou para ponto de partida o
    tributo municipal, em vez da esperança de obter capitaes alheios para
    gerir. A razão é simples: não os obteria senão por um preço que o estado
    da agricultura do concelho não comporta. Considerações mais largas a
    este proposito talvez aqui tivessem cabida, mas ella contenta-se com o
    que já ponderou, e que no caso especial é decisivo. Conhecendo pelos
    exames a que procedeu sobre a materia, que o grande mal consiste nas
    usuras a que o lavrador tem de sujeitar-se para obter os meios de
    executar os amanhos annuaes, foi sobretudo este mal que procurou
    combater. Se a usura espreita as necessidades instantes, que
    regularmente vêm assaltar o cultivador no grangeio annual, é ahi que
    deve ser repellida. A Caixa de Soccorros emprestará annualmente e só
    annualmente. D'este principio resultam a possibilidade e a proficuidade
    da instituição. Resulta: 1.^o que sendo a hypotheca do emprestimo os
    fructos em vez do predio, as questões hypothecarias desapparecem com um
    pequeno favor da lei, e sem offensa grave do direito de terceiro: 2.^o
    que limitando-se a quantia mutuada ao equivalente da renda liquida do
    cultivador, reduzida ainda a tres quartos para obviar aos inconvenientes
    das alterações inevitaveis n'essa renda, a Caixa, obrigada a
    subministrar apenas sommas comparativamente modicas, poderá multiplicar
    os emprestimos e, recolhido integralmente o capital todos os annos,
    salvo nos de escacez completa, estará sempre habilitada com recursos
    para renovar opportunamente o beneficio: 3.^o que limitando-se a
    emprestimos annuaes a mesma Caixa, evitará um dos grandes escolhos dos
    bancos hypothecarios, a absorpcão de capitaes avultados por um periodo
    indeterminado ou demasiado longo; isto é, evitará a causa mais ordinaria
    da ruina dos bancos hypothecarios: 4.^o que por esta mesma razão deixará
    de cair na justificada censura, que mais de uma vez se tem feito aos
    bancos territoriaes, de favorecerem a paixão excessiva pela propriedade,
    paixão vulgar no homem do campo, e a que se póde chamar _o vicio da
    terra_. Este vicio produz, mais frequentemente do que se cuida, a ruina
    do cultivador. Ha uma observação feita já por toda a Europa, e que é
    facil de fazer em Portugal. O lavrador que póde obter um capital por
    tempo indeterminado ou assás longo, não procura em regra dar maior
    intensidade ou aperfeiçoamento, á cultura do predio que cultiva: tracta
    de dilatar o grangeio. Ás difficuldades com que luctava accrescenta
    maiores, endivida-se cada vez mais; cada vez faz maiores sacrificios até
    que completamente se arruina. É esta a historia de muitos. O
    proprietario rural não deve estender a sua propriedade senão com
    economias realisadas: o rendeiro não deve converter-se em proprietario
    senão pelos mesmos meios. Tudo o mais é imprudente e arriscado, e tanto
    mais arriscado quanto é certo que o _vicio da terra_ cria facilmente na
    imaginação do cultivador esperanças de lucros, que se não verificam. Os
    bancos ruraes teem no meio de muitas vantagens este inconveniente. A
    amortisação pelas annuidades, systema facil para o mutuario remir a
    divida insensivelmente, não remedeia o mal senão causando outro. A
    annuidade não significa para o cultivador senão um augmento de juro, que
    excedendo as forças productivas da terra, o arruina tambem. No fim de um
    certo numero de annos não deverá o capital extincto pelas annuidades,
    mas deverá outro que tomará emprestado, quando a somma da annuidade com
    o juro annual exceder o producto liquido da sua industria.

    Nas disposições organicas da Caixa de Soccorros Agricolas, esta camara
    inseriu algumas provisões tendentes a remover uma apprehensão grave.
    Esta apprehensão, a que já anteriormente se alludiu, funda-se n'um facto
    de ordem moral: o cultivador portuguez envergonha-se de tomar dinheiro a
    juro: entende que ha o que quer que seja menos regular n'esse acto tão
    innocente como legitimo. Prefere tudo á publicidade do que elle chama a
    sua miseria, e que ás vezes o é. Não raro o usurario explora este
    sentimento de orgulho, porventura nobre na sua origem. Custa menos ao
    agricultor pedir áquelle a quem já pediu uma vez, e que não assoalha o
    facto, porque o defeito da usura não é ser vangloriosa. O usurario
    contenta-se com reter em servidão perpétua o cultivador que uma vez lhe
    caiu nas mãos. Aos olhos de muitos essa circumstancia pareceria de bem
    pouco momento: a esta camara pareceu que, practicamente, era uma das
    maiores difficuldades a vencer, e por isso insiste n'ella. Um facto,
    hoje esquecido, prova a sua importancia. Em 1845 o Governo decretando um
    emprestimo aos lavradores do Ribatejo, convidou a Companhia das Lezirias
    a fazel-o. Acceitou a Companhia o encargo com condições que presuppunham
    a publicidade como garantia. Pedia-se um juro modico em relação ás
    usuras de que ordinariamente é victima áquelle districto agricola.
    Nenhum mutuario todavia appareceu. Era o emprestimo um acto publico, e
    até certo ponto ruidoso, no qual cumpria que cada um se confessasse
    necessitado. Preferiram a usura, e uma circumstancia apparentemente
    insignificante bastou para inutilisar as intenções bemfazejas do Governo
    e da Companhia. Importava, portanto obstar a que igual successo se
    renovasse no caso presente. Imaginou-se o meio de conciliar a segurança
    da Caixa com as prevenções dos cultivadores, e esta camara crê têl-o
    achado nas disposições dos artigos 5.^o, 11.^o e 12.^o O registo dos
    emprestimos, se não dá a certeza de um segredo absoluto, offerece pelo
    menos tantas garantias de pouca publicidade como a discrição dos
    usurarios. Para o mutuario honesto ha a segurança de que, paga a divida,
    não ficarão d'ella vestigios escriptos, e de que emquanto subsistiu, o
    conhecimento da sua existencia não passou de poucos individuos. Na
    occasião da venda dos productos agricolas, raras vezes terá de se
    verificar o disposto no artigo 14.^o Ninguem duvida em geral de entregar
    ao lavrador uma parte do preço do genero vendido antes de completar a
    tróca.

    Com os simples meios de operar as transacções tanto dos emprestimos como
    da restituição adoptadas por esta camara, o cultivador evita esses
    tramites complicados a que ficaria sujeito n'outra qualquer instituição
    de credito. Os cultivadores, em troco do direito que adquirem a obter um
    capital barato quando lhes convier, não tomam senão o encargo de mandar
    buscar á Caixa de Soccorros uma certidão de corrente, se d'ella
    precisarem antes do dia 30 de agosto, para sem obstaculo negociarem os
    seus generos, e os compradores de productos agricolas nunca poderão
    allegar ignorancia, visto ser prohibido aos cultivadores do concelho
    operarem qualquer transacção sobre fructos, sem mostrarem o estado das
    suas relações com a Caixa.

    A vantagem dos cultivadores, sobretudo dos de cereaes, que são a
    grandissima maioria dos do concelho, não é só a de obterem capitaes a
    1/4 por cento ao mez, ou a 3 por cento ao anno, em logar dos juros
    exorbitantes de 30, 40 ou 50 por cento; é tambem a de poderem vender em
    conjunctura mais propicia do que a da colheita, visto que a restituição
    só tem de estar verificada no fim de janeiro: e se, por causa da
    facilidade de se harmonisarem os emprestimos com os reembolsos, os
    primeiros ficam circumscriptos ao periodo de fevereiro a julho, é esta a
    epocha em que realmente o cultivador precisa d'elles, porque é sabido
    que todo aquelle que não póde executar os primeiros trabalhos do anno
    agricola com os proprios recursos, não está habilitado para ser
    agricultor. Quando porém tal situação se désse, teria o lavrador a
    liberdade de vender na eira, restituindo o emprestimo á Caixa, fazendo
    os primeiros trabalhos com o resto, e vindo buscar em fevereiro novo
    emprestimo.

    Explicado o pensamento da camara no essencial, seria offender a
    intelligencia do Governo e do Parlamento, dar tambem a razão de cada uma
    das provisões do projecto. Em geral, ha n'elle a manifestação de
    desconfiança da boa vontade com que será mantida de futuro a nova
    instituição. Esta desconfiança existe de feito no espirito da actual
    camara. A fundação da Caixa de Soccorros Agricolas fere interesses
    poderosos. Esses interesses cuja legitimidade é mais que disputavel,
    hão-de combatêl-a antes e depois de creada, e o combate será tanto mais
    perigoso, quanto é certo que a usura tem de caminhar nas trevas, usando
    de meios indirectos. Eram necessarias prevenções contra o perigo, e a
    camara crê têl-as tomado. Quando, o que não é de esperar, viesse uma
    vereação hostil á existencia da instituição, as provisões do projecto
    são taes, que os vereadores comprometteriam seriamente a propria
    fortuna, faltando n'esta parte ao seu dever. Além d'isso, o
    administrador da Caixa, cuja subsistencia dependerá da permanencia da
    instituição, defendido de uma demissão injusta da parte da camara pelas
    disposições da lei, será um obstaculo permanente aos abusos que poderiam
    trazer a ruina da mesma Caixa.

    Resta ainda, Senhor, a esta camara dar algumas explicações sobre o meio
    adoptado para a formação do fundo, e sobre a quantia que se fixou para o
    constituir.

    Das considerações até aqui feitas deriva a creação do fundo por meio de
    um imposto. O capital assim accumulado, sendo propriedade do concelho,
    pôde mutuar-se por um juro insignificante sem detrimento de ninguem.
    Levantando-se um capital por emprestimo e applicando-se o imposto á
    amortisação d'elle, as operações da Caixa poderiam na verdade satisfazer
    desde logo a toda a procura de pequenos capitaes; mas é evidente que o
    imposto oneraria o concelho por mais annos, e o juro exigido dos
    mutuarios não poderia ser inferior a seis ou sete por cento, para
    occorrer ao pagamento do juro de 5 por cento (suppondo que se obtivesse
    dinheiro por preço tal) e ás despezas do estabelecimento. A camara,
    porém, está convencida de que a cultura do concelho, sobretudo a de
    cereaes, não soffre similhante juro. Além d'isso, sendo esta uma
    instituição nova no paiz, tendo contra si as repugnancias e hesitações
    que sempre se dão em taes casos, a fóra a guerra que lhe hão-de fazer os
    interessados em manter o estado actual das cousas, a procura de pequenos
    capitaes deve ser tenue a principio e crescer gradativamente á medida
    que o fundo augmentar.

    A base adoptada para determinar o algarismo do fundo foi a estatistica
    dos predios rusticos do concelho, a que a camara mandou proceder com a
    exacção possivel, supposta a sabida carencia de recursos que ha para
    obter a exacção em taes materias. Existem no concelho 812 predios
    rusticos, que se distribuem do modo seguinte, por uma escala gradativa
    da sua renda liquida:

    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+
    | |De 1$000|De 10$000|De 50$000|De 100$000|De 200$000|De 300$000|
    |FREGUEZIAS|a 10$000|a 50$000 |a 100$000|a 200$000 |a 300$000 |a 600$000 |
    | |reis |reis |reis |reis |reis |reis |
    |———-+——–+———+———+———-+———-+———-|
    |Belem | 3 | 10 | 7 | 2 | — | 2 |
    | | | | | | | |
    |Ajuda | 16 | 37 | 14 | 11 | 5 | 3 |
    | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | |
    |d' | | | | | | |
    |Alcantara | — | 2 | 11 | 10 | 3 | — |
    | | | | | | | |
    |Bemfica | 30 | 193 | 74 | 48 | 14 | 5 |
    | | | | | | | |
    |S. | | | | | | |
    |Sebastião | | | | | | |
    |da | | | | | | |
    |Pedreira | — | 20 | 20 | 24 | 4 | 3 |
    | | | | | | | |
    |Carnide | — | 49 | 8 | 10 | 2 | 2 |
    | | | | | | | |
    |Odivellas | 18 | 107 | 28 | 13 | 3 | 1 |
    | |——–+———+———+———-+———-+———-|
    |7 | | | | | | |
    |Freguezias| 67 | 418 | 162 | 118 | 31 | 16 |
    +———-+——–+———+———+———-+———-+———-+

    Tomadas as medias da escala gradativa, e multiplicando cada media pelo
    numero de predios de cada-gráu, achamos a media da renda liquida total
    ser de 57:175$000 reis.

    Mas aconselhando a prudencia que se limitem os emprestimos a trez
    quartos da renda liquida de cada mutuario, seguir-se-hia que o fundo da
    Caixa deveria ser proximamente de 42 contos de reis. Entretanto, do
    seguinte mappa, em que os predios rusticos do concelho são classificados
    segundo a natureza das respectivas culturas, deriva a consequencia de
    que uma somma menos elevada satisfará plenamente aos fins da
    instituição. Eis o mappa:

    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    | FREGUEZIAS |Quintas|Casaes|Terras|Hortas|Vinhas|Cercas|Olivaes|Pinhaes|
    |————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+
    |Belem | 4 | 2 | 14 | 4 | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |Ajuda | 19 | 19 | 67 | — | — | 1 | — | — |
    | | | | | | | | | |
    |S. Pedro | | | | | | | | |
    |d'Alcantara | 13 | 6 | — | 2 | 1 | — | 1 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Bemfica | 89 | 61 | 219 | — | 25 | — | 3 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Carnide | 19 | 1 | 21 | 11 | 27 | 2 | 2 | — |
    | | | | | | | | | |
    |Odivellas | 22 | 34 | 123 | 16 | 9 | 1 | 3 | 2 |
    | | | | | | | | | |
    |S. Sebastião| | | | | | | | |
    |da Pedreira | 33 | 7 | 21 | 2 | 7 | — | 3 | — |
    | |——-+——+——+——+——+——+——-+——-|
    | | 199 | 130 | 465 | 35 | 69 | 5 | 12 | 2 |
    +————+——-+——+——+——+——+——+——-+——-+

    As quintas e as hortas no precedente mappa constituem mais da quarta
    parte dos predios rusticos do concelho. As primeiras pertencentes no
    maximo numero a proprietarios abastados da capital, e cultivadas por
    seus donos, sendo além d'isso muitas d'ellas antes objecto de luxo que
    de industria, não carecerão provavelmente nunca de soccorros da Caixa
    para o seu cultivo. As segundas pela indole de uma cultura, que não
    soffre a accumulação de fructos que possam servir de garantia ao
    emprestimo, estão forçadamente excluidas do beneficio da Caixa. Muitos
    dos predios, porém, incluidos n'estas duas categorias, figuram entre os
    de maior renda na lista das propriedades rusticas do concelho. Seria,
    portanto, necessario que todos os cultivadores, para cuja utilidade, ou
    antes para cuja redempção do captiveiro da usura esta instituição é
    destinada, carecessem de emprestimos integralmente equivalentes a trez
    quartos da respectiva renda liquida, para ser absorvido o fundo creado
    de 35:000$000 reis.

    O imposto destinado para este objecto, posto não seja senão a
    transformação de outro mais antigo e pesado, que hoje não poderia
    subsistir, tem encontrado as difficuldades que se costumam encontrar na
    fiscalisação e cobrança de um imposto novo. Para o realisar era
    necessario que a moderação acompanhasse a firmeza. Esta camara adoptou o
    methodo das avenças, methodo popular que facilita as operações da
    cobrança, tanto para os exactores como para os contribuintes, e que sob
    certo aspecto equivale ao systema do imposto directo e simples, e está
    demonstrando a excellencia d'elle, excellencia que infelizmente o povo
    ainda não comprehende. As avenças feitas não representam por agora a
    verba do que o imposto deve produzir; mas hão de approximar-se d'ella á
    medida que fôr possivel ir tornando a fiscalisação mais severa. Se a
    camara se não illude nas suas previsões, o fundo da Caixa estará
    preenchido dentro de sete ou oito annos, podendo e devendo cessar o
    imposto desde que estiverem preenchidos os fins d'elle.

    Reservando a quarta parte do tributo especial para as despezas geraes do
    municipio, a camara attendeu a que sem esta reserva recaíria sobre os
    outros ramos do serviço municipal a cobrança e fiscalisação d'elle, bem
    como a despeza com a gerencia da Caixa, emquanto os seus rendimentos não
    chegarem para isso, e finalmente considerou essa reserva como uma
    indemnisação pelo encargo estabelecido no ultimo periodo do artigo 23.^o.

    A camara de Belem espera que esta sua tentativa, para acudir á mais
    urgente necessidade de um concelho, em grande parte rural, merecerá a
    benevola attenção de Vossa Magestade, e que o projecto junto, corrigido
    pela sabedoria do Governo de Vossa Magestade, será submettido á
    approvação do Parlamento, que não a recusará por certo a uma
    instituição, cuja utilidade é inquestionavel.

    Deus Guarde a preciosa vida de Vossa Magestade, como todos havemos
    mister.–Camara, em Vereação, 27 de março de 1855.

    O Presidente–_Alexandre Herculano_.

    _Joaquim Ferreira Pinto Bastos_.

    _João José Teixeira Leal_.

    _Matheus Antonio Vieira_.

    _José Street d'Arriaga e Cunha_.

    CAIXA MUNICIPAL DE SOCCORROS AGRICOLAS

    Artigo 1.^o É instituido no concelho de Belem um fundo permanente com a
    denominação de Caixa Municipal de Soccorros Agricolas. O seu destino é
    subministrar capitaes baratos aos cultivadores para os amanhos ruraes.

    Artigo 2.^o O fundo d'esta Caixa formar-se-ha com tres quartos do
    producto do actual imposto de 20 reis em cada alqueire de farinha
    fabricada, até completar a somma de 35:000$000 reis.

    § unico. A camara poderá substituir o dito imposto por outro qualquer,
    uma vez que o seu producto seja pelo menos equivalente ao dos mesmos
    tres quartos do actual. Se a camara, porém, distrahir estes do fim a que
    são destinados, ou supprimir o imposto sem o substituir, antes de se
    completar o fundo, embora com approvação do Conselho de Districto, os
    vereadores ficarão responsaveis por seus bens ao complemento d'elle.

    Artigo 3.^o A administração superior da Caixa incumbe a uma direcção
    composta do presidente da camara, que será o presidente da direcção, do
    fiscal, e de um vogal eleito pelos cinco membros restantes da camara
    d'entre si.

    Artigo 4.^o A Caixa emprestará aos cultivadores do concelho, por prazos
    que nunca excederão a um anno, e a juro de 1/4 por cento ao mez, o
    capital necessario para o movimento da cultura annual dos respectivos
    predios, pela totalidade da somma existente em Caixa até ao complemento
    do fundo creado, e d'ahi ávante pelo total do mesmo fundo, o qual por
    nenhum pretexto poderá ter outra applicação, que não seja a de
    emprestimos annuaes aos cultivadores.

    Artigo 5.^o Haverá um registo, numerado e rubricado em todas as folhas
    pelos membros da direcção, de todos os cultivadores do concelho.

    Artigo 6.^o Os ditos cultivadores serão designados em duas categorias:
    1.^a lavradores; 2.^a fazendeiros.

    § 1.^o Entende-se por lavrador o cultivador de cereaes, e por fazendeiro
    o vinhateiro, o pomareiro e o que cumulativamente cultiva vinhas e
    pomares.

    § 2.^o Quando o grangeio do cultivador abranger ambas as categorias, o
    mesmo cultivador será classificado conforme a importancia relativa
    d'esse grangeio em cada uma d'ellas.

    Artigo 7.^o Abrir-se-ha um titulo a cada um dos cultivadores do
    concelho, contendo o seu nome, a natureza e condições da cultura, que
    determinaram a sua categoria, e bem assim a verba do producto liquido
    ordinario da mesma cultura, á vista da ultima quota do tributo geral
    directo, em que o cultivador tiver sido tributado. A administração,
    porém, da Caixa recorrerá ás informações que julgar opportunas para
    verificar a exacção da verba, que todavia nunca poderá ser superior á
    que corresponde a quota do tributo directo.

    Artigo 8.^o A somma mutuada por cada cultivador, nunca poderá exceder a
    tres quartos da sua renda liquida averbada no registo.

    Artigo 9.^o Serão hypotheca especial do emprestimo os fructos do anno
    corrente, produzidos no predio ou predios cultivados pelo mutuario, e na
    falta d'estes os dos annos immediatos até o reembolso da divida.

    Artigo 10.^o Os emprestimos far-se-hão durante o decurso dos mezes de
    fevereiro a julho de cada anno, por uma vez na importancia de tres
    quartos da renda liquida do mutuario, ou por duas vezes em duas
    parcellas iguaes, que completem os ditos tres quartos, ou apenas por um
    terço da renda liquida do mesmo mutuario, tudo a arbitrio d'este.

    Artigo 11.^o Haverá um livro de talão, chamado do registo annual dos
    emprestimos, numerado e rubricado em todas as folhas pelos membros da
    direcção da Caixa, onde se registarão as ementas dos mesmos emprestimos.
    Estas ementas, que conterão um numero de ordem, o nome do mutuario e a
    quantia por que fica devedor, serão escriptas, datadas e sobscriptas
    pelo administrador da Caixa e assignadas pelos mutuarios ou por outra
    pessoa a seu rogo, e por uma testemunha quando o mutuario não souber
    escrever. No talão escrever-se-ha o numero de ordem, a quantia mutuada e
    data da transacção.

    § 1.^o Cada uma das ementas feitas da maneira determinada no precedente
    artigo, será lançada n'uma folha separadamente.

    § 2.^o As certidões passadas do livro das ementas pelo administrador da
    Caixa, e referendadas pelos membros da commissão e pelo administrador do
    concelho, terão para os effeitos legaes o valor de uma escriptura
    publica de divida.

    § 3.^o O exame do registo annual dos emprestimos é vedado a todas as
    pessoas estranhas á administração da Caixa, salvo ao administrador do
    concelho.

    § 4.^o Na escripturação da Caixa de Soccorros o numero de ordem
    substituirá sempre o nome do mutuario.

    Artigo 12.^o No fim do anno, ou antes se os cultivadores o quizerem,
    verificar-se-ha o reembolso da Caixa, capital e juro, devendo esse
    reembolso estar realisado dentro do mez de janeiro immediato.
    Entregar-se-ha a cada mutuario como quitação a ementa ou ementas, que
    lhe forem relativas cortadas dos respectivos talões.

    Artigo 13.^o A acção e direito da Caixa de Soccorros terá a preferencia
    a outra qualquer acção e direito particular, sobre os fructos do anno em
    que foi contraído o emprestimo. Exceptua-se a acção da fazenda publica
    pelos impostos devidos.

    Artigo 14.^o Ninguem poderá levantar por titulo de compra, troca, cessão
    ou outro qualquer contracto, os fructos do predio rustico cultivados
    pelos individuos designados nos artigo 5.^o e 6.^o, sem que o cultivador
    lhe apresente certidão do estado da sua conta com a Caixa de Soccorros.

    § 1.^o Estas certidões serão rubricadas pelos membros da direção da
    Caixa, e passadas gratuitamente pelo administrador da mesma, e só ao
    cultivador interessado. Se a certidão declarar este em divida, o
    comprador dos fructos será obrigado a entrar na Caixa com a importancia,
    capital e juro, da dita divida, pagando ao cultivador a somma
    correspondente a essa importancia com o recibo respectivo. Se não
    cumprir o disposto n'este artigo, ficará responsavel pela divida,
    capital e juro.

    § 2.^o Se o contracto de compra ou de outra qualquer especie, e o
    levantamento dos fructos tiver sido feito occultamente, aquelle que
    houver feito o contracto ou recebido os fructos, ficará não só
    responsavel pela divida, capital e juro, mas tambem sujeito a uma multa
    de 20 por cento da mesma divida para o official da camara ou da
    administração, que descobrir o facto, ou para outro qualquer individuo
    que venha denuncial-o á direcção da Caixa.

    § 3.^o Se o cultivador tiver vendido os fructos a comprador transeunte e
    desconhecido, sendo por este levantados os mesmos fructos, ficará o dito
    cultivador incurso no crime de burla, e sujeito ás penas das leis.

    § 4.^o Aos cultivadores do concelho, que não houverem recebido
    emprestimos da Caixa, enviar-se-ha a certidão corrente n'esse anno até
    ao dia 30 de agosto, embora elles não a hajam anteriormente exigido.

    Artigo 15.^o Os cultivadores que mudarem de predio serão obrigados a dar
    aviso á administração da Caixa, e a declarar a importancia do seu novo
    grangeio e do rendimento liquido d'elle. Os que não o fizerem, ficarão
    inhabilitados por dous annos para receber emprestimos da Caixa.

    Artigo 16.^o Todos os annos, depois de concluido o lançamento dos
    tributos geraes directos, o administrador do concelho communicará á
    direcção da Caixa as alterações que houverem occorrido nas respectivas
    quotas de repartição, em relação aos cultivadores do concelho. Dadas
    essas alterações, mudar-se-ha no registo a verba, até a qual póde subir
    o emprestimo ao respectivo cultivador.

    Artigo 17.^o Acontecendo que o total das verbas pedidas pelos
    cultivadores exceda os recursos da Caixa, a preferencia será dada em
    razão ascendente da menor renda liquida para a maior.

    Artigo 18.^o Se qualquer cultivador do concelho fôr eleito vereador não
    poderá, em quanto exercer esse cargo, ser mutuario de somma alguma
    havida da Caixa de Soccorros Agricolas.

    Artigo 19.^o A nenhum dos mutuarios individualmente poderá a
    administração da Caixa espaçar o prazo fatal do reembolso no fim do
    anno. Quando por motivo de escacez das colheitas, ou de outra calamidade
    publica, se reputar necessaria a concessão de móra, a camara resolverá
    essa concessão, e fundamentando-a a offerecerá á sancção do Conselho de
    Districto. Sendo por este approvada, gosarão do beneficio da móra todos
    os mutuarios que d'ella quizerem aproveitar-se. Se a camara, porém
    entender que as circumstancias aconselham que se faca a dita concessão,
    ou só á classe dos cultivadores de cereaes, ou só á dos fazendeiros,
    conceder-se-ha a essa classe a móra especial com approvação do Conselho
    de Districto, sob a mesma condição de nunca ser individual.

    § 1.^o A móra entende-se em todo o caso para o capital; o juro será pago
    no prazo prefixo.

    § 2.^o O pagamento da divida não poderá ser exigido nos annos
    subsequentes, senão pela decima parte da renda liquida do cultivador,
    que se calculará com abatimento da mesma decima parte para o effeito de
    novos emprestimos.

    § 3.^o São hypothecas d'esta divida os bens de raiz do
    cultivador-proprietario, e os do cultivador-rendeiro, se os tiver. Se
    este não os tiver, sel-o-hão os seus bens moveis e semoventes, sendo
    além d'isso obrigado a dar fiador idoneo á divida.

    § 4.^o Estas dividas não vencerão juro, e a acção e direito da Caixa
    para as cobrar serão os mesmos da fazenda publica.

    Artigo 20.^o Para supprir até onde fôr possivel o desfalque do fundo
    pala móra, dada a hypothese do artigo antecedente, a Caixa tomará um
    emprestimo dentro das seguintes limitações:

    1.^a O total do emprestimo será equivalente ao capital representado por
    dous terços do rendimento liquido da Caixa, considerados como juro, os
    quaes effectivamente ficarão applicados ao pagamento do juro do
    emprestimo.

    2.^a O terço restante do rendimento liquido ficará destinado á
    amortisação, bem como o remanescente annual dos dous terços applicados
    para o pagamento do juro.

    3.^a A camara, sobre proposta da direcção, submetterá o contracto do
    emprestimo á sancção legal, na forma do artigo 103.^o do Codigo
    Administrativo.

    Artigo 21.^o Os membros da direcção da Caixa serão responsaveis pelos
    actos da sua gerencia, remettendo annualmente até o mez de março uma
    conta especificada das transacções operadas no anno anterior, para o
    Conselho de Districto examinar se a lei foi cumprida, e impôr a
    responsabilidade á direcção.

    Artigo 22.^o Haverá um administrador com o vencimento annual de 300$000
    reis, a quem pertencerá o meneio de todos os negocios da Caixa que lhe
    forem incumbidos pelo respectivo regulamento. Os zeladores da camara
    servirão por turno de contínuos, e o procurador da mesma camara servirá
    de agente forense, mediante uma gratificação annual arbitrada pela
    camara, e approvada pelo Conselho de Districto, a qual nunca excederá a
    20$000 reis. Quando trabalhos extraordinarios o exigirem, a direcção
    requisitará da camara o serviço de um ou mais amanuenses da secretaria
    da mesma camara.

    Artigo 23.^o O administrador da Caixa será nomeado pela camara, que lhe
    exigirá fiança idonea no valor de 3:000$000 reis; só, porém, poderá ser
    demittido por uma resolução do Conselho de Districto, sobre proposta da
    direcção, approvado pela camara, a qual aliás o póde suspender, havendo
    para isso proposta da direcção.

    Artigo 24.^o Os vencimentos acima referidos e mais despezas da Caixa
    serão pagos pelo seu rendimento e emquanto este para isso não chegar,
    será completada a somma total da despeza pelo cofre da camara.

    Artigo 25.^o O rendimento da Caixa, deduzidas as despezas da sua
    gerencia, e fóra do caso previsto no artigo 20.^o, será exclusivamente
    applicado, a arbitrio da camara, aos seguintes objectos: 1.^o á
    manutenção das escholas primarias municipaes de 1.^o ou de 2.^o grau;
    2.^o à compra de sementes, cuja introduccão se repute util, para serem
    gratuitamente distribuidas aos cultivadores, que quizerem tentar a sua
    cultura; 3.^o á compra de instrumentos, machinas ou utensilios
    agricolas, com as mesmas condições e fins; 4.^o á sementeira ou plantio
    de pinhaes ou mattas nos baldios ou terrenos de inferior qualidade,
    pertencentes ao concelho, ou adquiridos por elle para tal fim.

    § _unico_. Estas applicações só se verificarão depois de completo o
    fundo da Caixa. Até ahi o seu rendimento liquido será n'elle
    encorporado.

    Artigo 26.^o A camara fará os regulamentos opportunos para a boa
    gerencia da Caixa, os quaes terão vigor depois de approvados pelo
    Conselho de Districto.

    Camara de Belem, 27 de março de 1855.

    _Alexandre Herculano_.

    SOBRE A QUESTÃO DOS FORAES

    1858

    Meu amigo.–Sinto que as primeiras linhas que escrevo para o seu jornal,
    e que escrevo e escreverei para satisfazer ao desejo que me manifestou,
    de que o ajudasse na sua util empreza conforme as minhas escassas
    possibilidades, seja para rectificar idéas ahi contidas e que me parecem
    pouco exactas. São as de uma correspondencia insérta a paginas 94 do
    1.^o volume do Archivo. Pondera-se n'aquella correspondencia a
    necessidade de uma nova lei de Foraes. Não sei até que ponto essa nova
    lei é possivel, depois de tantos factos consummados em harmonia com a
    carta de lei de 22 de junho de 1846. Quando medito nas difficuldades,
    nas injustiças relativas, nas incertezas que resultariam de novas
    providencias contrarias ás d'aquella lei, eu, que não recuo facilmente
    diante das consequencias de commettimentos de tal ordem, quando se
    tracta de grandes reformas, de grandes actos de justiça social, titubeio
    perante as hypotheses que prevejo se dariam quando se tratasse de
    legislar com mais liberal espirito sobre tão grave assumpto, e faço
    votos para que os legisladores que tentarem tal empreza, achem a solução
    racional de um problema, que a meus olhos não a tem das mais faceis.

    A lei de 1846 é uma lei reaccionaria, profundamente reaccionaria. É a
    explosão da guerra occulta feita por interesses illegitimos ao grande
    acto de justiça nacional, chamado o decreto de 13 de agosto de 1832,
    pensamento talvez o mais grandioso da dictadura do Duque de Bragança, a
    que só faltaram desenvolvimento e provisões, que facilitassem a sua
    execução, falta que subministrou pretextos ao espirito de reacção para o
    falsificar e annullar em grande parte. A lei de 1846 não me inspira só
    hostilidade; inspira-me indignação. Mas quando uma lei tem actuado
    durante doze annos sobre o modo de ser de uma grande parte da
    propriedade territorial do paiz, quando tem regulado milhares de
    contractos, servido de norma a milhares de sentenças, influido em
    milhares de successões, determinado para mais ou para menos milhares de
    fortunas, pretender alteral-a póde não ser uma grande temeridade, mas
    requer por certo uma alta força de intelligencia, e uma circumspecção
    pouco vulgar.

    Mas o que ha mais grave na correspondencia que o meu amigo publicou é
    uma outra circumstancia. Adopta-se ahi um erro analogo ao que produziu
    as peiores disposições da lei de 22 de junho, se abstrahirmos do seu
    pensamento fundamental, o salvar tudo o que, sem extremo escandalo,
    fosse possivel salvar das velhas extorsões dominicaes. O pensamento,
    infelizmente mal desenvolvido, do decreto de 13 de agosto era libertar o
    paiz do nosso primitivo systema de renda publica, derivada por abusos de
    seculos para a algibeira de particulares, e substituido em relação ao
    estado por outro systema de renda, o que trouxera uma situação
    intoleravel para a maior parte da propriedade territorial, a solução de
    duas series de impostos uma só das quaes chegava aos cofres do erario. O
    decreto de 13 de agosto supprimia a serie primitiva, a serie delapidada.
    Era uma idéa simples, clara, justa em these. O mal veiu da
    insufficiencia dos meios na sua applicação á hypothese. O decreto de 13
    de agosto não tivera, não podia ter em mira offender contractos
    particulares sobre propriedade patrimonial: o que cumpria em qualquer
    lei posterior tendente a esclarecel-o e a rectifical-o, era reformar as
    suas provisões que de qualquer modo dessem azo a ser offendido o direito
    privado, e por outra parte completar aquellas que não bastassem a
    extirpar o grande abuso, a immensa extorsão publica a que se pozera o
    machado. Para isso tornava-se necessario designar quaes caracteres,
    quaes condições, na falta de provas directas e incontestaveis, serviriam
    para demonstrar ou para se presumir que tal fôro, tal censo, tal direito
    dominical procedia de um contracto expresso ou tacito com o estado. Onde
    e quando as condições e os caracteres fossem demonstrativos, a prova em
    contrario deveria ser supprimida; onde e quando produzissem só
    presumpções, admittir-se-hia essa prova em contrario. Tudo o mais
    reputar-se-hia resultado de contractos particulares, salvo tambem o
    direito do colono, emphyteuta, ou censuario a provar a origem publica do
    onus ligado ao predio que possuia. O principio da abolição, dada essa
    origem publica, não podia ter nem excepção nem limites. A lei devia
    reconhecer a indemnisação pelo estado na unica hypothese em que ella era
    justa, a da venda de direitos dominicaes feita pela corôa. A verba total
    não havia de ser demasiado avultada; e que o fosse era uma divida que se
    pagava. As gerações são solidarias.

    Em vez d'isto, appellou-se para a distincção cerebrina de _titulo
    generico_ e _titulo especial_, que vinha tanto para o assumpto, como uma
    sura do alcorão, ou um artigo das leis de Manú; e á sombra d'esta
    distincção que não distinguia nada, confundiu-se tudo, e restaurou-se
    quasi tudo fazendo-se aos colonos originariamente da corôa, o grande
    favor de poderem remir o onus dando por elle (considerado como juro ou
    renda) o equivalente em capital. O que os legisladores quizeram bem
    averiguado foi se a transmissão do uso da terra, reservado o dominio,
    fôra escripta para servir de titulo a muitos colonos ou a um só, se n'um
    se em muitos diplomas. Era uma curiosidade archeologica sobre a
    abundancia ou a raridade do pergaminho na idade media, que poderia
    subministrar um capitulo interessante a alguma nova edição da _Economia
    Politica del Medio Evo_, do meu amigo Luiz Cibrario.

    É este erro, esta confusão do direito privado com o publico, mas em
    sentido opposto ao da lei de 22 de junho, que me parece conter-se na
    correspondencia de que falo. Rigorosamente, e considerado na sua
    verdadeira indole, o decreto de 13 de agosto estatuiu sobre uma questão
    de direito publico. Consideral-o de outro modo é desconhecer os seus
    fins e o seu alcance. Libertar a terra é exemptal-a de onus injustos, de
    vexames, de encargos impostos pela força; não é annullar contractos
    livres particulares ácerca da propriedade patrimonial. Quando se pede
    uma lei que crie para emphyteutas e sub-emphyteutas, sem excepção, o
    direito de _remir todos os fóros_, pede-se que a lei desfaça contractos
    livremente debatidos, espontaneamente celebrados, e conformes na sua
    essencia aos principios de justiça absoluta. O canon emphyteutico, o
    censo, qualquer quota no producto da terra que o senhorio directo de um
    predio, de accordo com o colono, reserva para si transmittindo o dominio
    directo, é em rigor a renda de um capital, ou aluguer perpétuo de um
    instrumento de producção. Póde a lei expropriar o dono d'esse
    instrumento para utilidade particular, e por um preço taxado de antemão
    por ella? Se tal se houvesse de admittir porque não se admittiria a
    regra contraria? Porque não revocaria a si o senhorio directo o capital,
    o instrumento, pagando as bemfeitorias ao colono? Suppondo justa a
    primeira prescripção, porque se reputaria injusta a segunda?

    Repito: não sei se é possivel recuar no caminho que abriu a lei de 22 de
    junho. Se o é, se os fóros de Alpiarça pertencem á categoria d'aquelles
    que o decreto da primeira dictadura queria abolidos, e se a lei
    reaccionaria e insensata que destruiu, ao menos em parte, aquelle grande
    acto de justiça nacional, póde ainda ser substituida por outra mais
    conforme com o espirito d'esse acto, não é a remissão de taes fóros que
    d'ella deve resultar, quer o senhorio directo pertença hoje ao estado,
    quer a corporações, quer a individuos; é a suppressão, a abolição
    completa. Quanto a fóros em bens de origem patrimonial, é impossivel
    acceitar a doutrina da correspondencia.

    Escrevo estas linhas, meu amigo, ao correr da penna e sem os
    desenvolvimentos que requeria a gravidade do assumpto, porque antevejo
    os inconvenientes sociaes da propagação de taes doutrinas. Para mim o
    grande meio de progresso na cultivação do paiz, da melhor distribuição
    da população, do melhoramento das classes laboriosas, do chamamento do
    proletario ao goso da propriedade, e por ella aos bons costumes e ao
    amor da familia e da patria, é a emphyteuse. A meus olhos, a emphyteuse
    é o unico meio de obstar aos inconvenientes da divisão indefinita do
    solo, e ao mesmo tempo de combater os males que resultam da existencia
    dos latifundios, sobretudo dos latifundios amortisados, esterilisados
    pela instituição vincular. Mas se a opinião que proclama o direito de
    remissão a bel-prazer do emphyteuta, ameaçar de contínuo o dominio
    directo, todas as providencias que se hajam de tomar, que se devem
    tomar, para impellir indirectamente os donos de vastos tractos de terra
    a retalhal-os por aforamentos, serão baldadas. Os possuidores de
    latifundios mal cultivados preferirão o atrazamento agricola, os menores
    redditos actuaes á espoliação futura, e o paiz difficilmente sahirá de
    uma situação economicamente mais embaraçosa do que muitos crêem, e que
    nos horisontes do futuro se me representa assaz carregada.

    Que o direito emphyteutico seja simplificado; que se dispa de todos os
    accessorios de que o revestiram os costumes e as idéas de epochas
    barbaras, é necessario e justo: que se vicie na sua essencia, n'aquillo
    em que é legitimo, sensato, benefico e civilisador, é absurdo. A lei que
    tal ordenasse seria ao mesmo tempo espoliadora e inepta.

    Julho, 10 de 1858.

    _A. Herculano_.

    FIM DO VOLUME VII.

    NOTAS

    [1] O novo artigo não veio a publico.

    _Nota dos editores_.

    [2] Este artigo foi publicado em 22 de agosto e o primeiro em 7 do mesmo
    mez.

    _Nota dos editores_.

    INDICE

    Advertencia

    Duas epochas e dous monumentos ou a granja real de Mafra

    Breves reflexões sobre alguns pontos de economia agricola

    A Granja do Calhariz

    Projecto de decreto

    _O Paiz e A Nação_

    Representação da Camara Municipal de Belem ao governo

    Representação da Camara Municipal de Belem ao parlamento

    Projecto de Caixa de Soccorros Agricolas

    Sobre a questão dos foraes

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 05

    Aproximadamente 58.014 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Nuno Lopes (Projecto Enclave) and edited by Rita Farinha

    OPUSCULOS V

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO V*

    CONTROVERSIAS E ESTUDOS HISTORICOS

    TOMO II

    LISBOA

    VIUVA BERTRAND & C.^a SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXX VI

    COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE

    AO

    ILL-^{MO} E EX.^{MO} SENHOR CONSELHEIRO

    ANTONIO DE SERPA PIMENTEL

    DEDICAM

    OS EDITORES

    Compõe-se este volume de tres escriptos já impressos em outras épochas,
    mas provavemente desconhecidos da maior parte dos leitores actuaes, e
    bem assim de um notavel estudo inedito ácerca do Feudalismo, que o
    auctor não chegou a concluir, e em que trabalhava quando a morte o
    surprehendeu.

    Pouco diremos a respeito d'aquellas primeiras composições.

    As noticias da vida e obras de alguns historiadores portuguezes são
    extrahidas do _Panorama_. Destinadas, apenas, a satisfazer a curiosidade
    dos leitores habituaes d'este genero de publicações, nas quaes a
    variedade e a concisão são requisitos essenciaes, essas noticias não
    teem todo o desenvolvimento que o auctor hoje lhes daria, se houvesse de
    aproveital-as para algum d'estes volumes; mas, apezar d'isso, cremos que
    o leitor folgará de as encontrar aqui reunidas, não só pelo seu
    indisputavel merecimento, mas tambem por serem invocadas em todos os
    artigos do _Diccionario bibliographico_, onde coube ao laborioso
    Innocencio da Silva tractar dos escriptores a que ellas dizem respeito.

    As _Cartas sobre a historia de Portugal_ sairam á luz nos tomos 1.^o e
    2.^o da _Revista universal lisbonense_, precedidas das seguintes
    palavras do illustre redactor d'este semanario: «Temos em nosso poder a
    preciosa serie de cartas, cuja primeira publicamos hoje. N'ellas
    descobre o nosso infatigavel e eloquentissimo antiquario, o sr.
    Alexandre Herculano, um grande numero de importantes verdades ácerca dos
    principios de Portugal–da constituição, natureza e relações mutuas das
    classes, n'esses tempos tão obscuros e tão pouco averiguados. N'estes
    escriptos, que não são mais do que o preludio de uma obra, que sem falta
    sairá cabal, sobre a materia, faz o sr. Herculano á sua pátria, e
    geralmente á sciencia, um presente de altissima valia, de que a _Revista
    universal_ devidamente aprecia a honra de ser mensageira.» Com effeito,
    estas cartas, publicadas em dezeseis numeros d'este semanario, desde 7
    de abril de 1842 até 3 de novembro do mesmo anno, foram então
    interrompidas, porque o auctor, conscio já das proprias forças, dedicou
    d'ahi em deante todos os cuidados ao immenso valor da obra monumental,
    que lhe havia de conquistar o primeiro logar entre os historiadores do
    seu paiz.

    O terceiro dos opusculos agora reunidos, isto é, a carta em defeza de
    algumas asserções do primeiro volume da _Historia de Portugal_,
    appareceu, tambem, na _Revista universal_. O auctor mantem e defende as
    suas idéas, combatendo um artigo de critica publicado em 2 de abril de
    1846, e firmado com as iniciaes D. S. M. de Vilhena Saldanha, que
    suppômos serem a assignatura do respeitavel ancião D. Sancho Manuel,
    fallecido em 30 de maio de 1880. Como esta carta não trazia titulo, e
    nós tinhamos de lhe dar algum, pareceu-nos conveniente alludir á pessoa
    que escreveu o artigo a que ella responde: tanto mais que a cortezia de
    ambas as composições tornava desnecessario qualquer resguardo.

    Até aqui falámos de trabalhos que já tinham visto a luz publica, e a
    respeito dos quaes é sufficiente o que fica dicto. Agora, porém,
    chegados á parte inedita e mais valiosa do presente volume, procuraremos
    satisfazer a justa curiosidade do leitor, descrevendo minuciosamente o
    manuscripto, e declarando o systema que seguimos ao dal-o à estampa.

    O luminoso estudo ácerca da existencia ou não existencia do feudalismo
    em Portugal compõe-se (no estado em que chegou ás nossas mãos) de oito
    capitulos completos e um apenas começado, além de algumas folhas
    avulsas, de que adeante nos occuparemos.

    Os primeiros seis, que neste livros abrangem as paginas 193 a 242, foram
    escriptos em 1875, isto é, dois annos depois da publicação do _Ensaio
    sobre la historia de la propriedad territorial en España_, como o auctor
    declara, e chegaram a estar no escriptorio da _Revista occidental_, onde
    todavia não poderam sair impressos, por ter acabado esta _Revista_ em
    julho do mesmo anno. Acham-se lançados em meias folhas de papel almaço,
    escriptas de um só lado, e promptos para a imprensa, não offerecendo,
    por isso, difficuldade alguma de leitura. O grande escriptor calculava
    n'esse tempo ser esta a terça parte do que lhe seria necessario dizer em
    relação a tão interessante e debatido ponto historico.

    Ou por essa occasião ou pouco tempo depois, accrescentou os capitulos
    VII e VIII, não já em meias folhas, mas em oitavos do mesmo papel,
    formato que lhe permittia, não só intercalar quaesquer novas provas ou
    argumentos, que lhe fossem occorrendo, mas ainda dar diversa collocação
    aos paragraphos, se de futuro a deducção das idéas e a harmonia da
    composição o exigissem.

    Incommodos de saude mais ou menos graves, trabalhos litterarios de outra
    indole, e varios negocios domesticos, impediram então o auctor de
    proseguir n'este importante assumpto, e foram causa de não possuirmos
    hoje completo mais um livro serio, coisa de extrema raridade nos tempos
    que vão correndo.

    Quando, d'ahi a muitos mezes, recuperada a saude e dispondo do tempo
    necessario, pôde dedicar-se de novo ao exame da obra do sr. Cárdenas,
    tudo nos persuade de que trazia profundamente alterado o plano primitivo
    do seu trabalho. Achou-se, sem duvida, apertado e tolhido nos estreitos
    limites em que a principio o circumscrevera, e resolveu abrir mais largo
    campo, onde podesse desenvolver a grande copia de noticias que
    enthezourara, e que directa ou indirectamente se prendian com o assumpto
    em discussão.

    Foi este, a nosso, ver, o motivo por que, voltando atraz, tomou nota de
    numerosas proposições do _Ensayo_, transcrevendo as passsagens
    respectivas em meias folhas de papel de pequeno formato, e pondo no alto
    da primeira a cota: «_IV_ (_Continuação_)». O leitor encontrará este
    additamento desde paginas 242 até o fim do capitulo.

    Resolvido, pois, a dar maior amplidão ao seu trabalho, tractou o auctor
    de reconstruir os capitulos VII e VIII, que hoje apresentam em mais de
    um logar graves difficuldades de leitura, por causa das transposições,
    emendas, entrelinhas e accrescentamentos, de que estão cheios os
    respectivos borrões.

    Apezar d'isso, o capitulo VII–o magistral estudo do _Codigo
    wisigothico_–póde considerar-se completamente organisado, tanto na
    doutrina como na forma, embora deixe vêr, aqui ou alli, «as arestas
    vivas do cunho», porque o auctor não chegou a pôr-lhe a ultima lima.

    Não acontece, porém, outro tanto com o VIII, destinado ao estudo do
    _Direito consuetudinario_. Este capitulo compõe-se de 32 oitavos de
    papel, que a principio tinham tido outra ordem, e cuja disposição
    definitiva não ficou claramente marcada senão até o 17, isto é, até
    paginas 283 d'este livro. D'ahi em deante os embaraços crescem, porque
    alguns d'esses oitavos não teem numeração antiga nem moderna, e,
    formando sentido completo, sem dependencia de outros anteriores ou
    posteriores, tornam sobremodo difficil acertar com o seu verdadeiro
    logar: quer-nos parecer, porém, que não contrariámos demasiado a
    intenção do auctor, dando-lhes a ordem em que vão impressos.

    Além dos já referidos, encontrámos uma serie de oitavos numerados de 1
    até 10, mas sem designação do capitulo a que eram destinados. O ultimo
    d'elles está acabar, o que indica que foi ahi que se interrompeu o
    trabalho do insigne escriptor. Por esta circumstancia, e tambem por ser
    a materia de que ia tractar (a divisão da propriedade territorial) a que
    justamente se devia esperar, na ordem dos apontamentos que tomara do
    livro do sr. Cárdenas, não tivemos duvida em os considerar como
    principio do capitulo IX, marcando, comtudo, entre paretheses este
    numero de ordem.

    Restavam ainda duas folhas da primeira composição, que não tinham sido
    aproveitadas, nem podiamos introduzir no texto, embora se conheça que
    deviam fazer do capitulo que ficou por acabar. São, porém, tão
    importantes, e formam por si sós um corpo de doutrina tão perfeito, que
    julgamos prestar um serviço, formando com ellas o Esclarecemento A, no
    fim do volume.

    No mesmo caso está uma nota relativa á intelligencia que se deve dar á
    palavra _Feudo_, nas raras vezes que apparece nos documentos d'aquella
    edade. Esta nota estava lançada tambem em folhas inteiras, e tanto pode
    servir de elucidação ao que se diz na Carta 3.^a sobre a Historia de
    Portugal (pag. 79), como de prova da affirmativa do auctor a pag. 199,
    onde fizemos a competente chamada. Constitue o Esclarecimento B.

    Resumindo: os primeiros seis capitulos estavam promptos para serem
    impressos, segundo o plano primitivo; a continuação do VI, o VII e o
    VIII, conservavam-se no primeiro borrão, e portanto dependentes de
    ulteriores modificações, tanto na sua disposição geral, como no estylo,
    que não tinha recebido ainda as ultimas correcções; o que reputamos IX
    ficou apenas principiado; e as folhas avulsas, que aproveitámos para
    Esclarecimento, esperavam o seu futuro destino.

    Se attendermos, agora, ás doutrinas contidas nos extractos do livro do
    sr. Cárdenas, com que o auctor ampliou o capitulo VI do seu trabalho,
    reconheceremos que elle se propunha estudar detidamente a divisão da
    propriedade territorial, as relações das diversas classes entre si, o
    serviço militar, a administração da justiça, o poder central e seus
    representantes locaes; a organisação social, em summa, do nosso paíz
    n'aquellas épochas remotas. Já não era, pois, um simples opusculo que
    tinhamos a esperar da sua penna auctorisada: era um livro precioso, que
    viria supprir, em grande parte, o V volume da _Historia de Portugal_, se
    não no desenvolvimento e discussão erudita de todos os pontos
    controvertidos ou ignorados, com certeza nos resultados finaes a que
    chegara o seu longo estudo e admiravel lucidez de espirito.

    Entre Fernão Lopes e fr. Antonio Brandão mediaram dois seculos. Entre o
    douto cisterciense e o auctor d'este livro outros dois, e bem medidos.
    Oxalá que, d'esta vez, seja mais curto o prazo, em que tenha de
    apparecer o continuador idoneo dos trabalhos, que Alexandre Herculano
    deixou interrompidos.

    (1881).

    _Os editores_.

    HISTORIADORES PORTUGUEZES

    1839–1840

    I

    *Fernão Lopes*

    Tão raros ou tão pouco lido andam os antigos escriptores portuguezes,
    que muitas pessoas ha, não de todo hospedes nas letras, que apenas de
    nome os conhecem, e frequentes vezes nem de nome. Grave mal, por certo,
    e mui de lamentar é tal e tão ingrato desamor áquelles que assim lidaram
    em suas doutas vigilias ou para nos transmittirem as heroicas façanhas
    de nossos antepassados, ou para nos doutrinarem com virtuosos conselhos,
    ou para nos consolarem com um brado de poesia de mais singelas eras, ou,
    finalmente, para nos herdarem sua sciencia; que muita e boa a tiveram.
    Assustam os livros pesados e volumosos do tempo passado as almas debeis
    da geração presente: a aspereza e severidade do estylo e linguagem de
    nossos velhos escriptores offende o paladar mimoso dos affeitos ao
    polido e suave dos livros francezes. Sabemos assim quaes são os
    documentos em que estribam glorias alheias: ignoramos quaes sejam os da
    propria, ou, se os conhecemos, é porque estranhos nol-os apontam,
    viciando-os quasi sempre. Symptoma terrivel da decadencia de uma nação é
    este; porque o é da decadencia da nacionalidade, a peior de todas;
    porque tal symptoma só apparece no corpo social quando este está a ponto
    de dissolver-se, ou quando um despotismo ferrenho poz os homens ao livel
    dos brutos. Desenterra a Allemanha do pó dos cartorios e bibliothecas
    seus velhos chronicons, seus poemas dos Nibelungos e Minnesingers; os
    escriptores encarnam na poesia, no drama e na novella actual as
    tradições populares, as antigas glorias germanicas, e os costumes e
    opiniões que foram: o mesmo fazem a Inglaterra de hoje á velha
    Inglaterra, e a França de hoje á velha França: os povos do Norte saúdam
    o Edda e os Sagas da Irlanda, e interrogam com religioso respeito as
    pedras runicas, cobertas de musgos e sumidas no amago das selvas: todas
    as nações, emfim, querem alimentar-se e viver da propria substancia. E
    nós? Reimprimimos os nossos chronistas? Publicamos os nossos numerosos
    ineditos? Revolvemos os archivos? Estudamos os monumentos, as leis, os
    usos, as crenças, os livros, herdados de avoengos?

    Não.–Vamos todos os dias ás lojas dos livreiros saber se chegou alguma
    nova semsaboria de Paul de Kock; alguma exaggeração novelleira do
    pseudonymo Michel Massan; algum libello antisocial de Lamennais. Depois,
    corremos a derrubar monumentos, a converter em latrinas[1] ou tabernas
    os logares consagrados pela historia ou pela religião…

    E, depois, se vos perguntarem: de que nação sois? respondereis:
    Portuguezes!

    Callae-vos; que mentis desfaçadamente.

    Mas nós faremos lembrada, ao menos aqui, a nossa gloria litteraria.

    Como o pae da historia nacional, como o velho Fernão Lopes, começámos a
    escrever as memorias que d'elle restam moralisando primeiro, do mesmo
    modo que elle moralisava antes de entrar na materia. Não se nos leve a
    mal um defeito, se o é, em que já caiu o nosso principal chronista,
    quando é d'elle que devemos fallar.

    Escassas são as noticias que chegaram até nós ácerca de Fernão Lopes. A
    epocha do seu nascimento ignora-se; mas parece que devia ser na da
    gloriosa revolução de 1380, ou alguns annos antes. O abbade Barbosa e
    outros dizem que fôra secretario d'el-rei D. Duarte, quando infante, e
    de seu irmão D. Fernando, e cavalleiro da casa do infante D. Henrique.
    Em 1418 foi encarregado por D. João I da guarda do real archivo, cargo
    que até então andava unido a um emprego da fazenda publica.

    Por trinta e seis annos serviu Fernão Lopes de guarda dos archivos, e de
    todo este tempo existem varias certidões, passadas por elle, _das
    escripturas da torre do castello da cidade de Lisboa_. Depois de tão
    largo periodo foi substituido por Gomes Eannes de Azurara, que D.
    Affonso V nomeou em logar de Fernão Lopes, _por este ser já tam velho e
    flaco, que per sy non podia bem servir o dicto officio_, dando-o a
    outrem _por seu prazimento e por fazer a elle mercê, como é rezom de se
    dar aos boõs servidores_, segundo diz a carta de nomeação de Azurara. A
    epocha da morte do chronista ignora-se absolutamente; mas sabe-se que
    ainda vivia em 1459, cinco annos depois de ter sido exonerado do cargo
    de guarda do archivo.

    Quando D. Duarte subiu ao throno (1434) deu _carrego a Fernão Lopes, seu
    escripvam, de poer em caronyca as estorias dos Reys, que antygamente em
    Portugal forom; e esso mesmo os grandes feytos e altos do muy vertuoso e
    de grandes vertudes El-Rey seu senhor e padre_ (D. João I), dando-lhe
    por isto quatorze mil libras cada anno, mercê que foi confirmada em nome
    do moço principe, por influencia do infante D. Pedro, tão sabio quanto
    infeliz, pae e protector das letras.

    Foi, com effeito, Fernão Lopes o primeiro que poz em _caronyca_, isto é,
    em ordem, as _estorias_ da primeira dynastia dos reis portuguezes, e fez
    a bella Chronica de D. João I. Até ahi havia apenas algumas memorias
    espalhadas, alguns breves compendios dos successos publicos. N'este
    numero deve entrar um manuscripto que existia em Sancta Cruz de Coimbra,
    feito, segundo parece, nos fins do seculo XIV, em que mui de leve se
    mencionam os acontecimentos mais notaveis dos tres primeiros reinados, e
    d'elle talvez se houvessem de contar as antigas chronicas, que Duarte
    Nunes reformou, ou estragou, e que muito desconfiamos sejam as mesmas
    que _colligiu_ Acenheiro no principio do seculo XVI, e que serviram de
    fundamento a Ruy de Pina e Galvão: sobre tudo o que pesam ainda muitas
    sombras, ao menos para nós, parecendo-nos, todavia, indubitavel que
    alguma cousa havia escripta antes de Fernão Lopes; porque a alguma cousa
    eram essas _estorias_ dos antigos reis, mencionadas na carta de nomeação
    de Fernão Lopes, e que n'esse documento se distinguem claramente dos
    _feitos_ de D. João I.

    De quanto Fernão Lopes escreveu, o que hoje existe conhecido e impresso
    é a Chronica de D. Pedro I, a de D. Fernando e a D. João I. Comtudo, por
    averiguado se tem que elle escrevera as dos outros reis anteriores, e
    até Damião de Goes lhe attribue uma de D. Duarte. Seja o que for, é
    certo que para a gloria de Fernão Lopes são monumentos sobejos as tres
    chronicas que d'elle existem.

    O nosso celebre critico Francisco Dias, o homem, talvez, de mais apurado
    engenho que Portugal tem tido para avaliar os meritos de escriptores,
    diz que Fernão Lopes fôra o primeiro, na moderna Europa, que dignamente
    escrevera a historia: com razão o diz, e poderia accrescentar que poucos
    homens teem _nascido_ historiadores como Fernão Lopes. Se em tempos mais
    modernos e mais civilisados houvera vivido e escripto, não teriamos por
    certo que invejar ás outras nações nenhum dos seus historiadores. Além
    do primor com que trabalhou sempre por apurar os successos politicos,
    Lopes adivinhou os principios da moderna historia: a _vida_ dos tempos
    de que escreveu transmittiu-a á posteridade, e não, como outros fizeram,
    sómente um esqueleto de successos politicos e de nomes celebres. Nas
    chronicas de Fernão Lopes não ha só historia: ha poesia e drama: ha a
    edade media com sua fé, seu enthusiasmo, seu amor de gloria. N'isto se
    parece com o quasi contemporaneo chronista francez Froissart; mas em
    todos esses dotes lhe leva conhecida vantagem. Com isto, e com chamar a
    Fernão Lopes o Homero da grande epopea das glorias portuguezas, teremos
    feito a tão illustre varão o mais cabal elogio.

    II

    *Gomes Eannes de Azurara*

    A Fernão Lopes succedeu no cargo de guarda dos archivos Gomes Eannes de
    Azurara, como dissemos no primeiro artigo, com o consentimento d'elle,
    que por velho e doente de boa vontade resignou o emprego, que tão
    dignamente servira. Foi Gomes Eannes filho de João Eannes de Zurara ou
    de Azurara, conego de Evora e de Coimbra. Entrou, sendo mancebo, na
    ordem de cavalleria de Christo, onde chegou a ter o grau de commendador
    de Alcains, a qual commenda possuia em 1454, e que depois trocou pelas
    do Pinheiro-grande e da Granja de Ulmeiro, que achamos serem suas pelos
    annos de 1459.

    Parece que durante a sua mocidade Gomes Eannes, segundo o costume dos
    cavalheiros d'aquelles tempos, se occupou inteiramente no exercicio das
    armas, sem curar de instruir-se nas boas letras. Verdade é que o abbade
    Barbosa o faz erudito na historia desde mancebo; mas o mestre Matheus de
    Pisano, seu contemporaneo, preceptor de D. Affonso V e auctor de uma
    chronica da conquista de Ceuta, escripta em latim, diz que, sendo já de
    idade madura, se applicàra ao estudo, mas que até então fôra
    inteiramente hospede em litteratura.

    Foi depois d'esta epocha que Gomes Eannes entrou no serviço d'el-rei D.
    Affonso V, como guarda da Torre do Tombo, segundo se colhe da carta de
    sua nomeação, passada a 6 de Junho de 1454; como bibliothecario da
    livraria real fundada por aquelle monarcha, do que nos informa mestre
    Matheus na obra citada; e como encarregado de escrever varias chronicas
    das cousas portuguezas, conforme o diz o proprio Azurara no capitulo II
    da Chronica do conde D. Pedro de Menezes.

    Documentos d'aquelle tempo provam D. Affonso V fizera grande estimação
    de Gomes Eannes. Morava este em umas casas d'el-rei á porta do paço de
    Lisboa; tinha uma tença de doze mil reaes brancos; e fez-se-lhe mercê,
    em 1467, de uma capella que vagara para a corôa, graça esta que, como
    observa o abbade Corrêa da Serra, era n'aquelles tempos assaz
    extraordinaria. Doou-lhe, tambem, el-rei umas casas em Lisboa, do que se
    acha memoria no livro 3.^o dos Misticos. Antes d'isto, porém, Gomes
    Eannes era homem abastado, segundo se colhe de outros documentos coevos.

    Ácerca d'este chronista se conserva ainda uma lembrança curiosa no
    Archivo da Torre do Tombo. Em 1461 uma pelliteira viuva e rica, chamada
    Joanna Eannes, o adoptou por filho, constituindo-o seu herdeiro. O já
    citado abbade Corrêa nota, com razão, que tal adopção de um homem
    nobilitado por seus cargos e pela qualidade de cavalleiro, feita por uma
    plebea, era inteiramente opposta ás idêas do seculo XV, devendo-se por
    isso suspeitar que Azurara foi d'aquellas pessoas, para quem o respeito
    ao dinheiro é o principal de todos os respeitos.

    São incertissimas todas as datas relativas á vida de Gomes Eannes:
    apenas se póde dizer que vivera pelo meado do seculo XV. A maior parte
    das memorias que d'elle fallam não mencionam nem a epocha do seu
    nascimento, nem a da sua morte. Algumas ha que dizem fôra nomeado
    chronista em 1459: ignoramos se existe ainda a carta de tal nomeação;
    mas d'isso duvidamos. O que se póde affirmar é que Azurara acabou uma
    das suas chronicas (a do conde D. Pedro) em 1463, porque elle proprio o
    diz. Antes d'esta compozera a da tomada de Ceuta, que serve de terceira
    parte á de D. João I escripta pelo immortal Fernão Lopes; e depois
    d'ella a de D. Duarte de Menezes. Estas são as tres obras, que com
    certeza se podem attribuir a Azurara. Quer, todavia, Damião de Goes que
    na Chronica d'el-rei D. Duarte, attribuida vulgarmente a Ruy de Pina, e
    cuja melhor parte elle julga de Fernão Lopes, houvesse tambem alguma
    cousa de Gomes Eannes.

    Apesar da estimação e respeito que merecera Fernão Lopes aos seus
    contemporaneos, parece que o seu immediato successor lhe levou n'isso
    conhecida vantagem, posto que muito inferior lhe fosse em merito.
    Azurara, tendo de escrever sobre cousas de Africa, passou áquellas
    partes, e lá fez larga demora para conhecer miudamente os logares e
    circumstancias das façanhas que tinha de narrar. Estando alli, recebeu a
    celebre carta de D. Affonso V, que anda impressa no principio da
    Chronica de D. Duarte de Menezes. Este documento prova quão bella era a
    alma d'aquelle monarcha, a quem podemos sem receio chamar o ultimo rei
    cavalheiro, e cuja honrada memoria teem pretendido escurecer aquelles
    que só em seu filho encontram um grande homem. Vê-se nesta carta que D.
    Affonso entendia que uma penna vale bem um sceptro, e o engenho um
    throno. De irmão para irmão não houvera mais affavel e affectuosa
    linguagem, e mais generosas animações e mercês. Bem nos pêsa que não
    seja possivel, pela extensão d'esse documento, o lançal-o n'este logar;
    não para exemplo de reis, mas de quem mais do que elles carece de tão
    formosa lição, neste seculo que se diz allumiado, e em que ha homens que
    em nome da patria votam miseria e fome para àquelles que mais bem
    merécem.

    Do merecimento litterario de Gomes Eannes de Azurara diremos em breves
    palavras o que entendemos. Pode-se de algum modo comparar ao italiano
    Alfieri, posto que pareça pouco exacta qualquer comparação entre um
    auctor de chronicas e um poeta dramatico. E todavia muito ha em um que
    do outro se possa dizer: ambos chegaram á idade viril sem possuirem os
    rudimentos sequer das boas letras: nos escriptos de ambos apparece o
    resultado d'esta falta de educação litteraria: ha em um e outro certa
    inflexibilidade feroz e ausencia inteira d'aquellas graças de estylo que
    nascem do coração amaciado desde a infancia pela cultivação do espirito:
    as concepções nascem-lhes do entendimento, como Minerva da cabeça de
    Jupiter, cubertas, por assim dizer, de um arnez de ferro. Louva-se em
    Azurara, e de louvar talvez é, a sinceridade bravia, com que lança em
    rosto aos heroes, cujas façanhas escreve, os defeitos que tiveram, os
    erros e culpas em que cairam: n'isto se parece tambem, de certo modo,
    com Alfieri. Mas nós preferimos o systema de Froissant e Fernão Lopes:
    para cada um dos seus heroes havia n'estas almas generosas um typo ideal
    a que procuravam assemelhal-os, engrandecendo-os: e por ventura que mais
    proficua é assim a historia ao genero humano. Para acabarmos um
    parallelo, que poderiamos levar mais longe, notaremos a tendencia dos
    dois escriptores, que collocámos em frente um do outro, para
    _philosophar trivialidades_, e ostentar elegancias rhetoricas e
    erudições suadas para elles, impertinentes para os leitores. Move a riso
    ver o pobre Azurara a lidar em pôr claro como a luz do dia, com a
    auctoridade de S. Jeronymo, Sallustio, Fulgencio, e _casy todolos outros
    auctores_, que são temiveis as más linguas, como causa somno o observar
    os tractos que o illustre dramaturgo italiano dá ao juizo para nos fazer
    odiar a tyrannia, ácerca da qual escreveu um volume, cousa muito
    escusada na moderna litteratura. Todavia, em ambos elles a sinceridade
    das intenções suppre de algum modo a aridez e o vazio da obra.

    Posto, porém, que Azurara esteja em grau inferior a Fernão Lopes, não
    deixou de fazer com seus escriptos bom serviço à litteratura patria.
    João de Barros o tinha em subida conta, e até no estylo d'elle se
    comprazia. Não assim Damião de Goes, que foi o primeiro em notar-lhe as
    affectações rhetoricas. Infelizmente para Azurara, Goes era melhor juiz;
    e a posteridade, confirmando a sentença do perspicaz chronista de D.
    Manuel, rejeitou o parecer do historiador da India.

    III

    *Vasco Fernandes de Lucena–Ruy de Pina*

    O nome de Lucena parece vir pouco a ponto em uma noticia dos
    historiadores portuguezes, porque d'elle não resta uma só pagina
    _original_ sobre historia; mas julgamos dever fazer menção de Vasco
    Fernandes, não só por ter sido um dos homens mais celebres do seu tempo,
    como tambem, e principalmente, por ser d'entre elles o primeiro que,
    depois de Azurara, teve o cargo de chronista-mór. Encarregado de varias
    missões politicas nos reinados de D. Duarte, D. Affonso V e D. João II,
    e vivendo, por tal motivo, a maior parte da vida em paizes extranhos,
    occupado, além d'isso, quando residíu no reino, em grandes negocios
    d'estado, não pôde provavelmente occupar-se dos estudos historicos
    necessarios para poder desempenhar as obrigações do seu cargo, do qual
    fez desistencia em Ruy de Pina no anno de 1497.

    Escreveu, todavia, Vasco de Lucena varias obras que, ou se perderam, ou
    jazem manuscriptas em parte que se não sabe. Da _Instrucção para
    Principes_, de Paulo Vergerio, traduzida por elle de ordem do infante D.
    Pedro e que Barbosa diz existir na bibliotheca real, não achámos o menor
    vestigio, apesar de consultarmos um catalogo anterior, segundo nos
    parece, a 1807. Das outras obras suas, de que faz menção Barbosa, tambem
    nenhum rasto encontramos, ao passo que existe uma, que não duvidamos de
    lhe attribuir, e que o nosso illustre bibliographo não conheceu. É esta
    uma traducção franceza de Quinto Curcio, feita no anno de 1468, a qual
    pertenceu a Philippe de Cluys, commendador da ordem de S. João de
    Jerusalem, e que actualmente se guarda entre os manuscriptos do Museu
    britannico.[2]

    * * * * *

    Ruy de Pina succedeu, como dissemos, a Vasco Fernandes, em 1497, no
    cargo de chronista-mór, postoque muito antes exercitasse o officio de
    historiador. Dos primeiros annos de Ruy de Pina apenas se sabe que foi
    natural da Guarda, mas ignora-se o anno do seu nascimento, ainda que
    haja algumas suspeitas de fosse pelos annos de 1440. Em 1482 diz elle
    que fôra por secretario da embaixada mandada por D. João II a Castella,
    e o mesmo cargo serviu d'ahi a dous annos na embaixada de Roma. Parece
    que, voltando de desempenhar esta commissão, o encarregou el-rei de
    escrever as chronicas do reino, apesar de então ser chronista-mór
    Lucena, o que se deprehende de uma provisão de D. João II, em que lhe
    manda dar uma tença de nove mil e seiscentos réis «esguardando ao
    trabalho e á occupação grande que Ruy de Pina escripvão da nossa camara
    tem com o carrego que lhe demos de escrepver e assentar os feitos
    famosos _asy nossos_ como de nossos regnos que _em nossos dias são
    passados_, e ao diante se fizerem[3].» Em outra provisão lhe concede
    tambem seis mil réis de mantimento.

    Depois d'esta epocha ainda Ruy de Pina serviu em outra embaixada a
    Castella e andou envolvido nos difficeis negocios publicos d'aquelle
    tempo, até que, succedendo na corôa D. Manuel, não só lhe confirmou as
    mercês do seu antecessor, mas fez-lhe outras novas, dando-lhe finalmente
    o cargo de chronista-mór, e guarda-mór da Torre do Tombo e da livraria
    real.

    Em 1504 tinha Ruy de Pina concluido os seus trabalhos historicos, porque
    n'esse anno recebeu de D. Manuel uma nova tença de trinta mil réis pelas
    chronicas de D. Affonso V e de D. João II, accrescentando a esta somma
    cinco moios de trigo em Ceuta e um cazal d'el-rei no termo da Guarda.

    «Cheio de honras e de recompensas, diz o abbade Corrêa, que para aquelle
    tempo eram grandes, viveu Ruy de Pina todo o reinado de el-rei D.
    Manuel, alcançando ainda alguns annos do d'el-rei D. João III, que lhe
    encommendou a chronica de seu pae, que deixou adiantada até a tomada de
    Azamor, e de que Damião de Goes confessa ter-se servido para a
    composição da sua.»

    É Ruy de Pina de todos os nossos antigos chronistas o de que nos restam
    maior numero de chronicas. Escreveu elle a de D. Sancho I, D. Affonso
    II, D. Sancho II, D. Affonso III, D. Diniz, D. Affonso IV, D. Duarte, D.
    Affonso V e D. João II. As duas ultimas são sem duvida escriptas
    originalmente por elle. Na de D. Duarte, segundo parece a Damião de
    Goes, o substancial da historia é de Fernão Lopes; o que é relativo á
    expedição de Tangere, de Gomes Eannes de Azurara; e de Ruy de Pina
    apenas a coordenação d'esses diversos trabalhos. Quanto ás da primeira
    dynastia, quer o mesmo Goes (e esta opinião prevalece hoje) que não
    sejam mais que uma recopilação ou resumo do primeiro volume das
    chronicas de Fernão Lopes, que existia em poder de um tal Fernão de
    Novaes, e que D. João II mandou fosse entregue a Ruy de Pina. Impossivel
    parece hoje averiguar até a certeza esta opinião; porque esse volume de
    Lopes ou se perdeu, ou foi aniquilado por Pina, que, ambicioso de pouco
    suada gloria, quiz, pobre corvo de D. João II, adornar-se com as
    brilhantes pennas de pavão do Homero de D. João I.

    Segundo o testemunho de João de Barros, Ruy de Pina foi uma potencia
    litteraria no seu tempo. O historiador da India refere que o grande
    Affonso de Albuquerque tivera a fraqueza de enviar joias a Ruy de Pina,
    para que se não esquecesse d'elle na sua historia. Aquella cujo nome
    devia encher o mundo não teve a consciencia de que era o maior capitão
    do seculo, é creu que a sua immortalidade dependia de um chronista
    obscuro! Triste documento de que os genios mais portentosos estão como
    os homens ordinarios sujeitos às mais ridiculas fraquezas.

    O abbade Corrêa da Serra põe Ruy de Pina acima dos chronistas que o
    precederam. É talvez o juizo litterario mais injusto que se tem
    pronunciado na republica das letras. Que elle exceda Azurara não o
    contestaremos nós; mas que seja anteposto a Fernão Lopes é no que não
    podemos consentir: as narrações de Ruy de Pina, postoque superiores ás
    de Gomes Eannes, estão mui longe da vida e _côr local_ que se encontra
    nos escriptos do patriarcha dos chronistas portuguezes.

    Parece que os fados de Ruy de Pina eram ganhar nome e celebridade á
    custa do trabalho alheio: ajudou elle o seu destino em quanto vivo;
    ajudaram-lh'o outros depois de morto. Em 1608 publicou-se em Lisboa um
    volume em 8.^o com o titulo de _Compendio das grandezas e cousas
    notaveis d'entre Douro e Minho_, obra que no frontispicio é attribuida a
    Ruy de Pina. Este livro, porém, nada mais é do que o que compoz mestre
    Antonio, _fisiquo e solorgiam_, natural de Guimarães, e que em antigos
    codices anda juncto ás chronicas de Ruy de Pina, bastando ler uma pagina
    d'elle para nos convencermos de que é escripto em um periodo da lingua
    anterior á epocha d'este chronista, e que elle talvez não fez mais que
    copial-o, com intento de lhe chamar seu, podendo-se-lhe applicar aquelle
    distico francez:

    Pour tout esprit que le bon homme avait, Il compilait, compilait,
    compilait.

    IV

    *Garcia de Rezende*

    Com os começos do reinado de D. Manuel os horizontes da nossa
    litteratura estenderam-se consideravelmente. Era a epocha do esplendor
    nacional e, ao passo que as nossas conquistas e poderio se dilatavam,
    dilatavam-se tambem os progressos litterarios dos portuguezes. A
    imprensa tinha produzido o magnifico livro da _Vita-Christi_, e com isso
    dava mostra de que Portugal possuia, esse motor maravilhoso que devia
    conduzir a Europa com passos agigantados pela estrada da civilisação e
    do progresso. N'este reinado de gloria e de predominio–mas de uma
    gloria differente da antiga e de um predominio que assentava sobre base
    tão incerta como eram os milhões de ondas do oceano em que elle se
    estribava–proseguiu em maior escala o triste systema de D. João II de
    substituir a agricultura pelo commercio, como fonte principal da riqueza
    publica. Era então que a monarchia, aniquilando os derradeiros restos da
    sociedade feudal nas Ordenações Manuelinas, e assentando-se na larga e
    firme base do direito romano, realisava e completava, por um lado o
    pensamento politico, por outro o pensamento economico do manhoso filho
    do nosso ultimo rei cavalleiro. As palavras _e da conquista, navegação e
    commercio da Ethiopia_, etc., que D. Manuel accrescentava ao dictado de
    _senhor de Guiné_, que D. João para si tomara, eram a expressão mais
    simples e mais exacta da idêa commercial e monarchica, isto é, de que o
    commercio obtido por meio das conquistas e navegações pertencia ao
    _senhorio real_, e a historia dos ciumes de D. João II e do seu
    successor sobre os novos descobrimentos confirma a nossa opinião. Assim
    o estado se confundia ou, antes, se incorporava na corôa, e se
    constituiam essas formas politicas dos reinados seguintes que resumbram
    em toda a legislação posterior, e a que, talvez, possamos chamar meio
    termo entre o absolutismo e o despotismo, como a organisação social
    portugueza antes das côrtes de 1481 se póde também considerar como um
    meio termo entre o absolutismo e a monarchia representativa.

    Substituida, portanto, a agricultura, que era do povo, pelo commercio
    exclusivo, que era da corôa, e extinctas as tradições feudaes na nova
    compilação Manuelina, a idade media morrera, com o seu systema de luctas
    e resistencias, e começara esse seculo XVI, cujo caracter essencial em
    politica foi a unidade monarchica. Este phenomeno explica o novo aspecto
    que tomou a historia e o apparecimento de uma litteratura cortezan e
    paceira, que visivelmente se distingue nos poetas mais modernos do
    cancioneiro, nas obras latinas que por esse tempo appareceram,
    principalmente nas de Cataldo Siculo, e nos autos do Aristophanes
    portuguez Gil-Vicente, compostos para alegrar as horas de tedio nos
    paços de D. Manuel. A chronica tomou logo o sabor do elogio historico, e
    Garcia de Rezende, velho cortezão, escreveu a vida de D. João II debaixo
    dos tectos dos sumptuosos paços da Ribeira. A este pobre homem não cabe,
    todavia, a gloria da invenção d'aquelle genero historico: Ruy de Pina
    foi o seu inventor. A Chronica de D. João II escripta por este foi o
    modelo ou, antes, o original da de Garcia de Rezende, que apenas lhe
    accrescentou alguns dictos e feitos do seu heroe, algumas anecdotas
    desenxabidas e triviaes de antecamara, em que não esqueceram as
    acontecidas com o proprio auctor. Garcia de Rezende não fez senão
    aperfeiçoar a chronica individual e tornal-a, ainda mais que Ruy de
    Pina, uma biographia real. E que outra fórma podia ter a historia n'uma
    epocha em que a organisação social tinha sumido o povo, a nobreza, e
    ainda o clero, debaixo do throno do monarcha?

    Seria uma das comparações mais curiosas a do caracter historico da
    Chronica de D. João I por Fernão Lopes com o da Chronica de D. João II
    por Garcia de Rezende, se ao mesmo tempo se comparasse o estado da
    sociedade portugueza no meado do seculo XV com o em que se achava no
    principio do XVI. Esta comparação nos parece serviria para explicar as
    formulas historicas pelas politicas, e vice-versa estas por aquellas.

    Que distancia espantosa não ha, com effeito, entre o grande poema de
    Lopes e a mesquinha collecção de historietas de Garcia de Rezende, onde
    apenas avultam algumas paginas com o supplicio de um nobre, o assassinio
    de outro, e o mysterio de um rei que morre, ao que parece; envenenado?
    Que distancia espantosa de um cadafalso, de um punhal, e de uma taça de
    veneno, ao cerco de Lisboa, à batalha d'Aljubarrota, ao baquear de
    Ceuta? No livro de Garcia de Rezende vê-se o aspecto triste, e a vida de
    agonia, e o sorrir forçado de um rei sem familia, rodeado de cortezãos,
    cujos nomes pela maior parte se resolvem em fumo com o morrer de seu
    senhor, a quem seguem os ginetes de Fernão Martins, os bésteiros e
    espingardeiros da guarda, não para pelejarem com estranhos, mas para o
    defenderem contra os odios de seus naturaes. Ahi o vulto real abrange
    quasi os horizontes do quadro, e só lá no fundo, mal desenhadas e
    indistinctas, se enxergam as personagens historicas d'aquella epocha, e
    as multidões agitadas ou tranquillas a um volver d'olhos do monarcha,
    mas nullas tanto em um como em outro caso. Na chronica de Fernão Lopes
    ha, pelo contrario, a historia de uma geração: é um quadro immenso de
    muitas figuras no primeiro plano. Nos degráus do throno de D. João I
    estão assentados guerreiros e _sabedores_, e monges e clerigos, e povo
    que tumultua e brada com vóz de gigante–_patria_! Ao pé da imagem
    homerica de Nunalvrez vê-se a fronte serena e sancta do arcebispo de
    Braga, e a face meditabunda e enrugada de João das Regras, e os vultos
    terriveis do Ajax portuguez Mem Rodrigues, e do esforçadissimo Martim
    Vasques, e de tantos outros cavalleiros a quem difficilmente sobrepuja o
    rei popular, o Mestre de Aviz. O chronista faz-vos acompanhar as
    multidões quando rugem amotinadas pelas ruas e praças; guia-vos aos
    campos de batalha onde se dão e recebem golpes temerosos; abre-vos as
    portas dos paços ao celebrar das côrtes, ao discutir dos conselhos;
    arrasta-vos aos templos onde trôa a voz do monge eloquente; lança-vos,
    emfim, no existir dos tempos antigos, e embriagando-vos com o perfume da
    idade media, e deslumbrando-vos com o brilho da epocha mais gloriosa da
    historia d'esta nossa boa terra portugueza, evoca inteiro o passado, e
    rasgando-lhe o sudario em que jaz, com o sopro do genio dá alma, e vida,
    e linguagem ao que era pó, e morte, e silencio.

    Em Ruy de Pina raro se encontra a historia da nação: em Garcia de
    Rezende talvez nunca. Fernão Lopes e Azarara tinham escripto no tempo de
    Affonso V: estes escreviam no de D. Manuel. D'ahi provém a differença.

    Em poucas palavras o pouco que se sabe da biographia de Rezende.

    Ignora-se a epocha do seu nascimento; mas sabe-se que era natural de
    Evora é irmão do celebre André de Rezende, o traductor de Cícero. Foi
    pagem da escrevaninha de D. João II e seu predilecto. Grato por isto,
    lhe escreveu a vida, a qual se imprimiu Evora em 1554.[4] Compoz tambem
    uma relação da ida infanta D. Beatriz para Saboia, e outra da viagem
    d'el-rei D. Manuel a Castella, e finalmente umas trovas satyricas que
    intitulou _Miscellanea_. Colligiu em um volume as poesias avulsas que no
    seu tempo tinham mais celebridade, tanto dos poetas d'quella epocha,
    como de outros mais antigos. Este volume, que foi dado á luz por elle em
    Lisboa em 1516 com o titulo de _Cancioneiro Geral_, é hoje um dos mais
    raros monumentos da nossa litteratura, e o verdadeiro titulo de gloria
    de Garcia de Rezende.

    Em 1514 foi a Roma como secretario de embaixador Tristão da Cunha,
    mandado ao papa por el-rei D. Manuel. Voltando á patria morreu em Evora,
    não sabemos em que anno, e jaz no convento do Espinheiro.

    CARTAS SOBRE A HISTORIA DE PORTUGAL

    1842

    *CARTA I*

    1 d'abril de 1842.

    Srs. Redactores da _Revista universal lisbonense_.–A reforma ha pouco
    feita no seu estimado jornal; o agasalhado que n'elle se concede a tudo
    quanto se chama fructo de sciencia humana; a maior extensão de
    escriptura que nas suas paginas se póde hoje encerrar; e sobretudo a
    ambição, que desperta nos entendimentos ainda humildes, de se acharem á
    meza da sciencia em tão honrada companhia litteraria como a dos
    collaboradores da _Revista_; tudo isso me excitou a dirigir-lhes esta
    carta, que folgarei mereça a honra da publicação, e que se o merecer
    será seguida por outras sobre o mesmo objecto, porque traçando e
    alevantando a _Revista_ um formoso edificio de civilisação n'esta pobre
    terra de Portugal, posto que eu saiba serem as pedras que posso cortar e
    carrear para o monumento toscas e mal desbastadas, sei tambem que até
    estas teem sua cabida e serventia, quando para mais não sejam ao menos
    para sumir lá nos alicerces e na grossura dos muros, em quanto os
    artifices de primor vão aperfeiçoando as portadas, columnas, cimalhas,
    remates, e mais exterioridades de desenho, em que os architectos da obra
    põem as suas complacencias d'artistas.

    Entendi eu, que o entreter alguns momentos os leitores da _Revista_ com
    diversos estudos sobre a nossa antiga antiga historia, não seria
    fazer-lhes mau serviço. Ha n'este fallar das recordações de avós o que
    quer que é saudoso e sancto, porque a historia patria é como uma d'estas
    conversações d'ao pé do lar em que a familia, quando se acha só, recorda
    as memorias do pae e mãe que já não são, de antepassados e parentes que
    mal conheceu. Mais saboroso pasto d'espirito que esse não ha talvez,
    porque em taes lembranças alarga-se o ambito dos nossos affectos: com
    ellas povoamos a casa de mais entes para amarmos; explicamos pelos
    caracteres e inclinações dos mortos os caracteres e inclinações dos que
    vivem; os habitos actuaes pelos habitos e costumes dos nossos velhos.
    Se, abastados e engrandecidos, viemos de humildes e pobres, pretendemos
    muitas vezes fazer esquecer ao mundo o nosso berço; mas no abrigo
    familiar, deixada tão viciosa vergonha, abrimos o larario domestico e
    tiramos d'elle os deuses da meninice, grosseiros simulacros da imagens
    paternas, e folgamos de os contemplar, e de recontar ou de ouvir a sua
    historia, que temos recontado e ouvido mil vezes, que todos os da casa
    bem sabem, mas que sempre narramos ou escutamos com attenção e deleite,
    e talvez com enthusiasmo. As recordações da terra da patria não são,
    porém, mais que as memorias de uma numerosa familia.

    Ha muito que para ellas voltei as minhas predilecções. E não sei, até,
    quem possa deixar de o fazer em tempos como os que ora correm. Se o rico
    e poderoso que nasceu dos minguados e chãos vai pedir ao passado frescor
    e regalo para o espirito, como deixará o que se vê abatido e em
    amarguras de lembrar-se de opulentos e nobres avós? Qual será a nação
    que amarrada ao poste do padecer, ludibriada e appupada por tudo,
    despida, cuberta de lodo, cheia de pisaduras e de feridas, se não volte
    para os tempos que passaram quando esses tempos foram feracissimos de
    muitos generos de grandezas e de glorias, e como o Salvador no Calvario
    lhes não diga: _Tenho sêde_? Quem, vendo diante de si desfolharem-se-lhe
    uma a uma todas as esperanças, se não retrahe do presente, e não vai
    pelo campo sancto dos seculos buscar e colher saudades de consolação?

    Separado, e não de poucos dias, d'esse tumulto e ruido da sociedade
    actual, que Deus louvado não entendo nem desejo entender, e em cujas
    opiniões e idéas, ou por demasiado grandiosas ou por vergonhosamente
    pequeninas, não acho medida pela qual afira e concerte as minhas, que
    não passam de triviaes e means; ajuramentado com a propria consciencia
    para deixarmos seguir o mundo seu caminho, bom ou mau, com tanto que não
    nos embargue o nosso, tenho procurando estudar algumas epochas da tão
    poetica e formosa historia da gente portugueza. É para varios d'esses
    estudos imperfeitissimos que eu peço algumas columnas da _Revista
    universal_, não porque elles preencham completamente os fins da
    instituição d'este Jornal–a instrucção; mas porque poderão mover os que
    valem e sabem muito a que, pretendendo corrigir erros sobejos, em que
    por certo cairei; instruam verdadeiramente o commum dos leitores da
    _Revista_, e os chamem a contemplar o espectaculo da nossa sociedade
    antiga.

    Estes estudos, feitos por um systema d'historia como me pareceu que
    elles deviam ser feitos, apparecerão na _Revista_ soltos, em quanto de
    mais perfeito modo os não posso trazer á luz da imprensa. Fragmentos são
    os que unicamente se hão-de e devem lançar nas columnas de uma folha
    volante, entre cujos meritos a variedade é talvez o que mais se busca.
    Trabalhos completos são para livros, e livros d'historia estou eu (sem
    humildade hypocrita o digo) bem longe ainda de os poder fazer. Todavia
    darei a estas Cartas, quanto em mim couber, um certo nexo, que a
    natureza da materia requer. Um dos principaes defeitos dos trabalhos
    historicos do nosso paiz parece-me ser a _insulação_ de cada um dos
    aspectos sociaes de qualquer epocha, que nunca se conhecerá, nem
    entenderá, em quantop a sociedade se não estudar em todas as suas formas
    d'existir, em quanto se não contemplar em todos os seus caracteres.

    Estas Cartas, se merecerem a approvação de vv. ss., poderão algum dia
    servir, no que tiverem bom, se tiverem, de esclarecimento e notas a uma
    parte da Historia Portugueza, como eu concebo que ella se deveria
    escrever: historia não tanto dos individuos como da Nação; historia que
    não ponha á luz do presente o que se deve ver á luz do passado;
    historia, emfim, que ligue os elementos diversos que constituem a
    existencia de um povo em qualquer epocha, em vez de ligar um ou dois
    d'esses elementos, não com os outros que com elle coexistem, mas com os
    seus affins na successão dos tempos, grudados pelos tôpos
    chronicologicos com massa de papel feita das folhas _Arte de verificar
    as datas_.

    *CARTA II*

    Quando, volvendo os olhos para os tempos remotos, indagamos a historia
    de nossos antepassados e da terra em que nascemos, a primeira pergunta
    que nos occorre para fazermos ás tradições e monumentos é naturalmente a
    seguinte: onde, quando, e como nasceu este individuo moral chamado a
    Nação? O berço da sociedade de ser, com effeito, a primeira pagina da
    sua historia.

    Quem, examinando uma carta topographica da Peninsula espanhola, vê esta
    faixa de terra chamada Portugal, estreitada entre o oceano e o vulto
    enorme da Hespanha, sem divisões nascidas da natureza do solo e fundadas
    na geographia physica, que a separem naturalmente della, e quando depois
    disto sabe que por sete seculos, com a curta interrupção de sessenta
    annos, os habitadores deste cantinho do mundo conservaram intacta a sua
    independencia e individualidade nacional, prevê desde logo nesses
    homens, que assim souberam conservar-se livres d'estranho jugo, grandes
    virtudes e generoso esforço, e na organisação social do paiz uma
    extraordinaria robustez e uma harmonia notavel com as suas necessidades
    e indole; porque as instituições e costumes de qualquer povo são a sua
    physiologia, pela qual se lhe explica principalmente o curto ou o
    dilatado da vida. A curiosidade então volta-se para a primeira infancia
    desse povo, para a epocha em que disse a si mesmo: _Eu existo_. Na
    disposição daquelles tenros annos devem-se-lhe achar já os annuncios do
    vigor da juventude e da idade viril.

    Tanto que o imperio wisigodo desabou em ruinas ao embate violento do
    enthusiasmo e pericia militar dos arabes, e a policia e civilisação
    destes substituiu nas Hespanhas a muito mais viciosa e incompleta
    civilisação dos godos, a reacção christã e europea contra a violencia
    mahometana e asiatico-africana começou immediatamente. Desde a batalha
    do Chryssus ou Guadalete, em que expirou o imperio fundado por
    Theodorico e estabelecido em toda a Peninsula por Leovigildo, até o
    encontro de Canicas ou Cangas, em que pôde dizer nasceu o reino de
    Asturias, bem curto espaço mediou. Restituido pela desgraça a esse
    punhado de godos o antigo valôr e energia, em quanto os arabes perdiam o
    primeiro nos ocios do triumpho, nos deleites de uma civilisação immensa,
    e malbaratavam a segunda nas luctas intestinas, os territorios e o
    poderio christão cresceram e prosperaram até o tempo d'Affonso III rei
    d'Oviedo, ao passo que o imperio arabe se achava já decadente no rei
    reinado de Abdallah, antecessor e avô do celebre Abderranhhman III
    (Annassir). Mas Abderrahhman, o maior dos Ommaijadas, restabelecendo a
    unidade do governo na Hespanha arabe, regendo os povos com justiça e
    sabedoria, resistindo aos valentes reis de Leão e Asturias, Ordonho II e
    Ramiro II, e aproveitando habilmente, depois da morte destes, as
    dissenções dos christãos para exercitar sobre elles uma especie de
    patronato, segurou para largos annos na Peninsula o dominio do Islam.
    Seguiram-se as variadas e terriveis guerras de mais de dous seculos
    entre as duas raças inimigas que disputavam o dominio das Hespanhas, e a
    representação dos dramas ensanguentados que mancham torpemente tanto as
    paginas dos annaes christãos como as dos musulmanos. Ora os arabes levam
    de vencida os netos dos godos, ora estes os arabes; de dia para dia as
    fronteiras indecisas das duas nações inimigas circumscrevem-se ou
    alargam-se prodigiosamente: as divisões intestinas de um dos campos são
    por via de regra o signal de victoria para o campo contrario; grandes
    capitães sobem aos thronos, e d'ahi a pouco os thronos se derrocam
    debaixo dos pés de reis inhabeis, viciosos, ou crueis.

    Durante mais de cinco seculos a Peninsula foi um cahos, e a sua historia
    é um mixto confuso e monstruoso de todas as virtudes e de todas as
    atrocidades. Entre os arabes, apezar da cultura intellectual,
    predominava a barbaria moral: as letras e as sciencias, levadas a um
    alto gráu d'esplendor, não suavisaram jámais os costumes ferozes dos
    mahometanos, porque a civilisação moral nunca existiu na terra senão por
    beneficio do christianismo. Nos estados christãos, pelo contrario, era a
    rudeza intellectual que destruia as influencias moraes do evangelho. As
    paixões desenfreadas no meio do estrondo de uma lucta de morte entre
    homens diversos por origem, lingua, instituições e religião, corriam
    despeadas, e os fratricidios, os homicidios, os roubos, as violações, os
    incendios, os sacrilegios multiplicavam-se por toda a parte. As leis
    calavam-se, a espada imperava, e a bruteza do povo era tal, que o
    proprio clero, classe distincta no tempo dos wisigodos por sua cultura,
    tinha caído na extrema barbaridade. Ainda nos fins do seculo XI os
    conegos de Compostella eram comparados por um escriptor, que vivia entre
    elles, a animaes brutos e indomados[5], comparação que justificam
    milhares de successos conservados nos documentos e memorias desses
    tempos.

    Da somma, porém, dos acontecimentos daquella epocha vêem-se resultar
    dous factos geraes–a decadencia da sociedade arabe, e os progressos de
    organisação na sociedade christã. Tendia a dissolver a primeira a grande
    variedade de tribus e nações africanas, asiaticas e europeas, que
    estanceavam pelas diversas provincias da Hespanha, umas vezes sujeitas
    ao khalifado de Cordova, outras rebelladas contra elle[6]. Estas tribus
    e nações, unidas unicamente pela crença commum, guerreavam-se atrozmente
    a todos os instantes, e para maior desordem por entre ellas vivia a raça
    gothica-romana, conhecida pelo nome pouco proprio de mosarabes[7] que,
    sujeitando-se aos arabes na occasião da conquista, forçosamente devia
    desejar o triumpho e predominio dos seus correligionarios. Por outro
    lado a civilisação dos arabes, assentando sobre a falsa base do
    Islamismo, brevemente envelheceu e tornou-se em corrupção de costumes,
    enfraquecendo e envilecendo os animos. O quadro da decadencia moral da
    Hespanha mahometana no meado do Seculo XII, que no livro intitulado
    _Regimento de principes e capitães_ faz Ben Abdelvahed, é espantoso, e
    quanto ao estado politico a situação dos arabes não era melhor. Não
    havia paz nem segurança em parte alguma, e o imperio caía em pedaços no
    meio das dissenções civis[8]. Accrescentavam o mal as estreitas relações
    e unidade politica do imperio de Cordova com as provincias da
    Mauritania, cujas revoluções estendiam os seus effeitos até a Peninsula;
    e as repetidas mudanças de predominio das tribus e dynastias, por via de
    regra, procediam das alterações e guerras que se alevantavam na Africa.

    Pelo contrario os reinos christãos da Hespanha eram mais homogeneos:
    havia ahi muitas dissidencias de ambição; porém as incompatibilidades de
    raça quasi que não existiam, porque só no reinado de Affonso VI os
    francezes vieram influir na Peninsula, mas como individuos e não como
    nação, e esta influencia foi ainda ecclesiastica do que politica. Não
    houve uma colonisação franceza nos dominios de Affonso VI: houve sim a
    collocação de bispos daquelle paiz em muitas dioceses, o chamamento de
    muitos principes e cavalleiros da França aos cargos politicos e
    militares. Estes estrangeiros traziam as idéas e as instituições da sua
    terra natal, traziam ás vezes a oppressão, mas incorporavam-se na raça
    goda. Se impunham habitos e costumes estranhos, acceitavam tambem muitos
    usos e idéas da nova patria, os seus filhos eram inteiramente
    hespanhoes, e este elemento adventicío de povoação, em vez de contribuir
    para o enfraquecimento da força social, servia realmente para a
    fortalecer.

    Os resultados das invasões e conquistas, que de continuo arabes e
    christãos faziam mutuamente nos territorios dos seus a adversarios, eram
    tambem diversos. Ainda rebaixando no que dizem os escriptores arabes
    sobre a excessiva povoação das Hespanhas, é indubitavel que nas
    provincias dominadas pelos serracenos ella foi muito mais numerosa do
    que hoje é. Esta povoação, porém, era em grande parte romano-gothica ou
    mosarabe, e, como já disse, para ella as invasões feitas pelos homens da
    mesma crença não podiam ser consideradas como destinadas a subjuga-la
    mas a quebrar-lhe o jugo dos infieis. Esta circumstancia tornava-se
    tanto mais importante, quanto é certo que os wisigodos que acceitaram o
    dominio arabe, ficaram na mesma situação civil[9] em que se achavam no
    momento da conquista, e por consequencia possuidores de riquezas,
    senhores de servos, superiores por isso forçosamente a uma parte da
    população arabe, e iguaes da mais abastada. Assim não só eram um
    poderoso auxilio para os christãos no meio dos inimigos, mas por muitas
    vezes bastaram por si sós para expulsar d'algumas povoações os
    conquistadores sarracenos[10].

    Desde os meados do undecimo seculo apparece na Hespanha um systema
    regular d'organisação. O concilio, ou côrtes, de Leão convocado em 1020
    por Affonso V constitue uma data importante na historia social da
    Peninsula. N'este concilio, ou côrtes, se estabeleceram leis politicas e
    civis geraes para todas as provincias do reino leonez, que eram Leão,
    Galliza, Asturias e Castella. Fernando I celebrou igualmente côrtes em
    1046, 1050, e 1058.

    O caracter principal das resoluções d'estes parlamentos (á excepção do
    ultimo que elle convocou para dar validade á divisão do reino entre seus
    tres filhos) é o de regular e fixar o direito de propriedade. A par
    d'estas leis geraes, os _fueros_ propriamente dictos (foraes) tendiam a
    augmentar a povoação, estabelecendo as communas e ligando-as por muitos
    modos ao corpo politico. Alguns d'estes foraes conhecidos remontam ao
    tempo de Affonso V, mas multiplicam-se cada vez mais com o correr dos
    tempos. Isto é, o pensamento de organisação vigora e cresce cada vez
    mais. A sociedade christã da Hespanha revela no seculo XI um progresso
    constante de vida, de ordem, e de energia.

    E a sociedade arabe?–A queda do imperio dos Ommaijadas (1037), o qual
    durara perto de tres seculos, foi o resultado das dissenções civis.
    Tirado este centro d'unidade, que nos seus ultimos tempos era apenas um
    nome, os diversos bandos travaram luctas duradouras e sanguinolentas. A
    Hespanha arabe retalhou-se em tantos principados, quantos eram os
    cabeças de partido. A guerra civil prolongou-se por quasi todo o seculo
    XI; e bem que nos estados christãos as houvesse tambem entre os tres
    filhos de Fernando Magno, estas tinham passado rapidamente, e Affonso
    VI, vencidos seus irmãos, reinava por fim tranquillo nas Asturias,
    Galliza, Leão e Castella, e rei de uma nação energica e unida
    conquistava, ou fazia tributarias da sua corôa, as principaes cidades e
    provincias dos sarracenos da Peninsula.

    Para as suas guerras brilhantes muitos nobres cavalleiros francezes
    atravessaram os Pyreneus. Foi entre estes que Henrique de Borgonha veio
    á Hespanha, para ser o fundador da independencia dos portuguezes.

    *CARTA III*

    A origem da independencia de Portugal, e a sua separação do reino
    leonez, tem sido uniformente attribuida pelos nossos historiadores ao
    casamento do principe borgonhez Henrique com D. Thereza, filha de
    Affonso VI. É cousa assentada que o rei leonez, casando sua filha, lhe
    dera _em dote_ a terra de Portugal, que, tendo estado já separada da
    Galliza, então o foi de novo ficando-lhe servindo de limite o Minho.
    Esta opinião que até hoje tem passado inconcussa, sendo ainda recebida
    por um sabio dos nossos dias, respeitavel por todos os titulos,
    parece-me todavia involver difficuldades insuperaveis.

    Até á invação dos arabes, os godos conservaram nas Hespanhas tenazmente
    as instituições germanicas ácerca dos dotes. Pelas suas leis, contrarias
    ao que estatuiam as leis romanas, era noivo quem dotava a mulher.
    Similhante costume dos barbaros, porventura mais nobre que o romano, foi
    regulado por uma lei de Chindaswintho, inserida no _Codigo
    wisigothico_[11]. Esta lei, assim como as mais disposições d'aquelle
    codigo, atravessando o dominio dos arabes, que deixaram aos vencidos o
    governarem-se civilmente pela sua legislação e pelos seus magistrados,
    continuou a vigorar, não só até o tempo de Affonso VI, mas porventura
    até a publicação da lei das Partidas[12]. Não havia pois na legislação
    d'Hespanha, nem nos usos nacionaes, n'esta parte perfeitamente accordes
    com ella, causa alguma para o rei de Leão se lembrar de pôr em pratica,
    no casamento de sua filha, um costume romano, provavelmente até ignorado
    por elle.

    Seria este acto insolito uma imitação de costumes francezes? Fica dicto
    foi no reinado de Affonso VI, principalmente, que as idéas e
    instituições francezas se introduziram na Peninsula. Nas suas vastas
    empresas contra os arabes, este rei ajudou-se grandemente de cavalleiros
    francezes, a quem enriquecia e honrava, ao mesmo passo que enchia as
    cadeiras episcopaes de bispos d'aquella nação.

    A predilecção que elle sempre mostrou pelas cousas de França, e que
    tanto contribuiu para alterar os costumes wisigodos, podiam tê-lo movido
    a seguir, casando suas filhas com os principes borgonhezes Raimundo e
    Henrique, e outra com o conde de Tolosa, os costumes d'aquelle paiz, se
    elles n'esta parte fossem contrarios aos das Hespanhas.

    Mas não acontecia assim. Ainda n'aquelle seculo era commum por toda a
    Europa a instituição germanica ácerca dos dotes. Em Ducange, á palavra
    _Dos_, se acham colligidas as disposições dos diversos codigos europeus
    a este respeito, bem como documentos de que os factos não eram
    contrarios á legislação: o que sempre é necessario examinar na historia
    da idade media, na qual a confusão social, e a ignorancia em que jaziam
    todas as nações, faziam que a pratica das relações civis contrastasse ás
    vezes com os preceitos legaes.

    A difficuldade de acceitar a tradição de um facto incomprehensivel para
    os individuos por quem se diz praticado seria bastante para o tornar
    mais que suspeito. Mas ainda occorrem contra elle outras considerações.

    É incontestavel que Raimundo, o marido de D. Urraca, senhoreou a Galliza
    e Portugal, antes de Henrique; e que a porção do territorio hespanhol
    dado a este para governar como conde, ou consul, foi desmembrada do
    territorio governado pelo conde Raimundo antes do fallecimento d'este.
    Se Portugal foi dado em dote a D. Theresa com direito hereditario,
    segundo affirma a chronica latina do imperador Affonso Raimundez,
    provindo d'essa circumstancia o governo de Henrique, como se ha-de
    suppor que D. Urraca, filha mais velha e incontestavelmente legitima,
    não recebesse em dote tambem, _jure haereditario_, as terras que seu
    marido governou? E se assim foi, como e porque se destruiu em parte este
    direito, dando em dote de outra filha uma porção do que já era dote de
    D. Urraca, e isto sem que Raimundo se queixasse, antes fazendo pactos de
    concordia e mútua alliança, como o que fez com o conde Henrique?

    Além d'isso, D. Elvira, irmã de D. Theresa e casada com o conde de
    Tolosa, não recebeu em dote terras algumas: diz-se que fôra a causa
    d'isto o possuir Raimundo de S. Gil estados em França. Mas que lei ou
    costume d'Hespanha obstava a que elle possuisse um condado em outro
    paiz, conjunctamente com os estados que tivesse em Leão? E se não havia
    legislação ou uso em contrario, porque consentiu este principe, mais
    poderoso que os outros dois, que fossem para elles estas liberalidades,
    ao passo que ficava sem quinhão na monarchia hespanhola, que assim se
    faz retalhar loucamente pelo habil Affonso VI?[13].

    Mas admittindo que isto acontecesse, ainda resta difficuldade maior.
    Além de Urraca, Theresa e Elvira, Affonso VI teve uma filha chamada
    Sancha e outra Elvira[14], nascidas da rainha Isabel, a primeira das
    quaes casou com o conde Rodrigo Gonçalves e a segunda com Rogerio, duque
    de Sicilia. Quanto a este, nada accrescentarei ao que já disse ácerca do
    conde de Tolosa, Raimundo de S. Gil. Mas no conde Rodrigo Gonçalves não
    se dava por certo a circumstancia de ser principe estrangeiro, com
    estados fóra d'Hespanha, e todavia não consta que el-rei dotasse a
    infanta D. Sancha com terras ou provincias que elle devesse possuir
    _hereditariamente_, antes pelo contrario, possuindo o conde Rodrigo as
    honras de Asturias de Santillana, lhe foram estas tiradas por suas
    turbulencias, e reconciliado depois com Affonso VI lhe deu el-rei o
    governo de Segovia, e a alcaidaria de Toledo, que tornou a tirar-lhe
    passados tempos, ao que parece, por seu genio inquieto[15]. Porque seria
    excluido, porém, o conde Rodrigo, nobre, natural, e poderoso, do
    beneficio que recebera um estrangeiro pobre, embora illustre e valente?
    É na verdade inexplicavel similhante contradicção.

    A estes raciocinios, fundados em factos incontroversos, nenhum
    argumento, nenhuma auctoridade se póde oppor senão uma phrase do
    chronista anonymo de Affonso Raimundez, que, fallando de D. Theresa, não
    directamente mas por occasião da guerra de Affonso VII com seu primo
    Affonso Henriques, diz–que Affonso VI a casara com o conde Henrique, e
    a dotara magnficamente, dando-lhe a terra portugalense com _dominio
    hereditario_. Este testemunho singular, porque todas as outras memorias
    coevas guardam silencio a similhante respeito, será porém de tal peso
    que nos faça acreditar um facto contrario á legislação e aos costumes da
    epocha, e laborando nas difficuldades que apontei? Não o creio. A
    chronica latina é proxima, porém não contemporanea do reinado de Affonso
    VII, segundo o diz seu auctor, _que ouviu contar os successos d'aquelle
    reinado aos que os tinham presenciado_[16], o que por certo não poderia
    dizer do reinado de Affonso VI, começado, pela segunda vez, 54 annos
    antes do de seu neto. E sendo d'aquelle reinado o casamento de D.
    Theresa, deve-se confessar que para o A. da chronica eram as
    circumstancias d'elle tradições um pouco remotas.

    Ajunte-se a isso que d'esta historia apenas restavam copias incorrectas
    e incompletas quando, depois de Berganza, a publicou Flores, e que ella
    passou pelas mãos do celebre falsario, consocio de Fr. Bernardo de
    Brito, o padre Higuera[17]. Será portanto bastante por si só para
    dissolver as dúvidas apontadas? Aconselha-lo-ha a boa critica? Parece-me
    que não.

    Mas suppondo a chronica d'Affonso VII esteja correcta e sem
    interpollação, e que a sua auctoridade se deva acceitar como a de um
    testemunho contemporaneo, ainda assim ella provaria quando muito que D.
    Affonso VI dera a seu genro, em attenção a D. Theresa, o governo de
    Portugal para si e seus filhos perpetuamente, visto que o hereditario se
    ía introduzindo nos cargos administrativos como na corôa. Tal seria pois
    n'esse caso a significação da palavra _dote_, que então era mui diversa
    da que hoje lhe damos, e correspondia a _donatio_, como se vê claramente
    dos diplomas que vão indicados em nota[18].

    Mas o conde Henrique governou Portugal em quanto viveu. D. Theresa o
    governou igualmente depois da morte d'elle, em 1112[19], até seu filho a
    desapossar da suprema auctoridade em 1128. Este, finalmente, tomando o
    titulo de rei, firmou para sempre a separação e independencia de
    Portugal dos reinos de Leão e Castella. Como se consummou similhante
    facto? Qual foi a historia d'este successo, verdadeira ou pelo menos
    provavel?[20]

    Como seu primo Raimundo conde de Borgonha; como os demais cavalheiros
    francezes que n'aquella epocha vinham exercitar nas Hespanhas a maxima
    virtude do seculo–o guerrear o Islamismo, Henrique IV, filho de outro
    Henrique senhor de Borgonha ducado, serviu ao que parece por muito tempo
    nos exercitos de Affonso VI. As conquistas de Fernando Magno tinham
    alargado os ambitos do imperio leonez. Affonso VI seguiu a carreira
    gloriosa de seu pae, e Toledo, a antiga capital dos godos, caiu em suas
    mãos. Pelo lado de Portugal os dominios de Fernando Magno tinham-se
    estendido até Coimbra. Seu filho continuou a guerra por esta parte, e
    chegou a apossar-se temporariamente de Santarem, Lisboa e Cintra, mas
    empregou principalmente as forças para o lado de Toledo. O conde
    Raimundo de Borgonha, marido de sua filha D. Urraca, foi por elle
    encarregado do governo da Galliza, incluindo n'esse territorio tudo o
    que corre desde o Minho até o Mondego, e depois até o Téjo: o que n'esse
    tempo ora se considerava como parte da Galliza, ora como um ou mais
    condados distinctos d'ella[21], constituindo no todo, talvez, a mais
    vasta provincia do reino de Leão e Castella.

    Mas esta mesma grandeza tornava necessaria a divisão do territorio;
    porque, estabelecida a auctoridade militar, civil, e politica no centro
    da actual Galliza, não era facil nem admnistrar bem os logares mais
    remotos para o sul, nem preseguir com energia e actividade a guerra na
    frontaria dos mouros. Este pensamento deu provavelmente origem á escolha
    de Henrique para governar as terras que se estendiam desde o Minho até
    as raias da provincia conhecida entre os arabes pelo nome generico
    d'_Algarb_;[22] e por ventura a derrota que padece o conde Raimundo
    n'uma entrada que fizera até Lisboa[23] pelos annos de 1094 serviu para
    apressar a realisação d'este pensamento. Ou Henrique fôsse já conde e
    genro d'el-rei, ou n'esta occasião casasse, e recebesse esse titulo[24]
    pelo governo que se lhe encarregava, o que é certo é que no principio de
    1095 elle governava Coimbra, em 1096 o territorio de Braga,
    incontestavelmente desde o Minho até o Téjo em 1097.[25] Se ao principio
    esteve subordinado a Raimundo na administração parcial de Coimbra e de
    Braga; se logo governou independente d'elle toda a parte de Portugal
    moderno, conquistada já então aos mouros, é cousa que me parece não se
    poder affirmar nem negar, e que talvez algum dia se haja de resolver,
    quando venha a ser conhecido maior numero de documentos d'aquella
    epocha.

    O novo conde deu provavelmente então toda a actividade á guerra com os
    sarracenos; ainda que as noticias dos primeiros annos do seu governo
    sejam bastante escassas. A viagem, porém, que emprehendeu á Terra-Santa
    nos primeiros annos do XII seculo retardou por certo as suas conquistas.
    Esta viagem, intentada depois de 1100, estava indubitavelmente concluida
    em 1106, em que Henrique apparece fazendo uma doação a dous presbyteros
    de uma herdade em Céa.[26] Desde então até à sua morte, em 1112[27],
    elle proseguiu na administração do territorio que lhe fora confiado por
    Affonso VI, e foi no periodo que decorre de 1109, epocha da morte do rei
    de Leão, que elle se prepararou para tornar estado independente o
    condado que lhe fora dado para reger como simples consul ou governador.
    É a este tempo que me parece pertencer o pacto successorio entre
    Henrique e Raimundo, isto é, aos fins de 1106 ou principios de 1107,
    anno do fallecimento de Raimundo[28]. Henrique foi mais feliz
    sobrevivendo ao sogro, e recusando depois da morte d'este reconhecer a
    supremacia de D. Urraca, que succedera a seu pae por falta d'herdeiro
    varão, tendo morrido na batalha d'Uclés o infante D. Sancho, para quem,
    parece, elle procurava a eleição dos hespanhoes, por seu fallecimento.

    Affonso VI foi incontestavelmente um habil e valoroso rei: a morte porém
    de Sancho destruiu todos os seus intentos, e abreviou-lhe por ventura a
    vida. Proximo a morrer, viu que a Hespanha leoneza se dividiria em
    facções, e a experiencia do passado lhe ensinava que isto seria a causa
    da sua ruina. Assim, tendo já dado dous annos antes a investidura da
    Galliza a seu neto Affonso Raimundez[29], cuja mãe e sua filha mais
    velha, a viuva D. Urraca, ficava, na falta de filho varão, successora do
    reino, ordenou a esta casasse com Affonso o _Batalhador_, rei d'Aragão,
    rude e grosseiro soldado, mas por isso mesmo capaz de conservar a
    integridade do estado do leonez[30]. Por morte de D. Urraca a corôa
    devia passar para Affonso Raimundez, que entretanto possuiria a Galliza.
    Estas disposições de Affonso VI cumpriram-se; mas não produziram todo o
    effeito salutar, que elle d'ahi esperava, pelo caracter das personagens
    a quem respeitavam, ou que deviam contribuir para o seu cumprimento.

    A dissolução dos costumes n'aquelles seculos era geral, e D. Urraca não
    escapou a ella. Naturalmente d'ahi nasceram as suas dissensões com o rei
    aragonez, que com a brutalidade propria dos tempos chegou a
    espanca-la[31]. A separação dos dous conjuges deu aso á guerra civil, e
    ás suas terríveis consequencias n'uma epocha em que o vicio, a
    perversidade, e a cubiça se apresentavam em todo o seu vigor barbaro, e
    sem o veu hypocrita com que n'estes tempos mais politicos se costumam
    esconder. Os nobres e cavalleiros, a titulo de pertencerem a este ou
    àquelle bando, apossavam dos castellos de que eram alcaides, ou
    construiam-nos de novo, e d'alli faziam guerra por sua conta, ou os
    convertiam em covis de salteadores, d'onde sahiam a roubar ou matar os
    viandantes e mercadores. Tal é pelo menos o quadro que do estado da
    Galliza faz a _Historia Compostellana_, e que era provavelmente
    similhante no resto do imperio leonez. Tal pelo menos no-lo devem fazer
    suppôr as palavras de Pelaio de Oviedo, quando assevera que por morte
    d'Affonso VI o lucto e as tribulações cobriram o solo da Peninsula.

    Foi no meio d'estas perturbações que o conde Henrique pôde assegurar,
    senão de direito ao menos de facto, a independencia das terras que
    governava. Ora mostrando-se favoravel ao moço Affonso Raimundez contra a
    mãe e padrasto, que se tinham temporariamente congraçado, e incitando
    Pedro Froylaz, conde de Trava, aio do infante, a sustentar animosamente
    a causa do seu pupillo, quando o veio[32] sobre isso consultar; ora
    colligando-se com o rei d'Aragão contra D. Urraca, divorciada de novo do
    marido no anno seguinte de 1111[33]. Henrique evidentemente procurava
    aproveitar nas dissensões civis a occasião de constituir independente o
    seu condado, e, com effeito, procrastinadas as perturbações da Hespanha
    quasi até 1126, elle falleceu em 1112[34], deixando o governo a sua
    mulher D. Theresa, sem nunca submetter o collo ao jugo de D. Urraca.

    É resumidamente nisto que me parece encerrar-se a historia da separação
    de Portugal da monarchia leoneza. Sobre a origem d'este facto tem-se
    discursado muito, porque com a legitimidade d'elle quizeram legitimar a
    nossa independencia os escriptores portuguezes, e com a sua
    illegitimidade impugna-la os escriptores castelhanos. Ha um ou dois
    seculos tal materia poderia ainda parecer grave á luz politica; hoje,
    porém, não sei eu se tocaria, a similhante luz, as raias de ridicula.
    Qual é a nação que não vae achar no seu berço uma violencia ou uma
    illegalidade? E que tem com isso o presente? _Somos independentes porque
    o queremos ser_: eis a razão absoluta, cabal, inconstrastavel, da nossa
    individualidade nacional. E se essa não bastasse, ahi estão escriptos
    com sangue, desde Valdevez até Montes-Claros, por toda esta nobre e
    livre terra de Portugal, os títulos da nossa alforria. Com subtilisar ou
    torcer a historia não é que se defende a patria: a sua defensão está em
    saberem seus filhos pelejar por ella, quando o soldado estrangeiro ousar
    accommetter a terra que nos herdaram nossos paes, e onde elles morreram
    livres, como nós havemos de morrer.

    O eruditissimo auctor das _Memorias_ sobre as origens de Portugal e
    sobre o conde Henrique segue algumas opiniões acerca d'estes primeiros
    tempos da monarchia differentes das minhas. O peso, que o respeitavel
    nome d'aquelle sabio dá a todos os seus escriptos, obriga-me a
    accrescentar varias considerações em abono da opinião, que o estudo
    d'essa epocha e dos seus monumentos me constrange a seguir.

    Destruida, como me parece ficou, a tradição de haver sido dado _em dote_
    a D. Theresa _o dominio_ de Portugal, resta averiguar se não se fundaria
    em outros motivos legaes o procedimento do conde Henrique,
    alevantando-se com o condado de Portugal, e convertendo-o em estado
    independente.

    Digo _alevantando-se_, e digo-o muito de proposito, porque esta
    expressão é a que designa exactamente o facto que resulta dos documentos
    d'aquella epocha. A somma dos diplomas que colligiu J. P. Ribeiro[35],
    relativos ao governo em Portugal do conde Henrique, levam á evidencia
    que, emquanto viveu Affonso VI, seu genro se considerou sempre como um
    consul ou governador de provincia dependente do rei, segundo o systema
    politico e administrativo da Hespanha, e que por morte d'aquelle
    principe é que este reconhecimento de dependencia desapparece dos
    documentos. Não constando, porém, de acto ou diploma algum publico a
    separação legal do condado d'Henrique, antes pelo contrario, não se
    fazendo menção d'ella ajunctamento que antes de morrer, para deixar a
    Galliza a seu neto, e fazer acceitar D. Urraca por successora da
    monarchia, póde concluir-se que a independencia do conde foi apenas uma
    revolta, que as circumstancias das divisões intestinas coroaram de bom
    successo.

    O respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ diz que «a
    practica d'aquella edade parece _em certo modo_ favoravel ás pretenções,
    que os leonezes e castelhanos tiveram a este respeito. Os muitos e
    grandes senhores, que então havia em Leão, Castella e Galliza, e
    governavam algum grande territorio com o titulo de condes, eram sujeitos
    _como feudatarios_ aos reis…» Seja-me permittido dizer que n'estas
    palavras ha talvez uma notavel confusão d'idéas. Eram as _instituições_,
    não a _practica_, que, não _em certo modo_, mas _postivamente_, eram
    favoraveis a essas pretenções. Os grandes senhores que governavam
    condados eram sujeitos á corôa, não _como feudatarios_, mas como
    exercendo uma _delegação do soberano_. As instituições feudaes
    essencialmente diversas das da Hespanha christã, central e occidental.
    Um conde, um senhor (_princeps terrae_), um alcaide de castello
    (_municeps_) eram n'este paiz existencias e castelleiros (_castellani_)
    dos paizes feudaes. A influencia franceza introduziu na Hespanha muitas
    fórmulas da organisação aristocratica chamada feudalismo, mas na
    essencia a indole wisigothica da sociedade hespanhola subsistiu sempre
    atravez d'essa influencia. É isto o que nos dizem claramente as leis e
    os factos, os documentos, os monumentos e a historia.

    No seculo XI o systema feudal chegou ao seu desenvolvimento completo. Os
    feudos, amoviveis a principio, tinham-se tornado hereditarios, e a
    feudalidade tinha-se estendido não só á terra, mas aos cargos, ao
    serviço publico, a tudo. A perpetuidade foi o seu primeiro caracter: a
    soberania do feudatario em seu feudo, o segundo. Satifeitas as
    obrigações dos serviços do senhor territorial para com o suzerano, elle
    exercitava livremente em suas terras todos os actos, que n'um governo
    absoluto dos tempos modernos póde exercitar o rei. O terceiro caracter
    do feudalismo, que consistia nas relações mutuas entre os nobres e entre
    estes e o monarcha ou suzerano supremo, era todo, por assim dizer,
    exterior á organização interna do dominio feudal. Estes tres caracteres
    são os que distinguem essencialmente aquelle systema politico. Tudo o
    mais é variavel, accessorio, incerto[36]. Dão-se porém esses caracteres
    no que se chama feudalidade hespanhola? Não; porque as instituições do
    paiz lhes eram contrarias. O feudalismo invadindo a Peninsula aninhou-se
    geralmente nas fórmulas, mas nunca pôde penetrar no amago da organização
    social.

    Eu já lembrei o absurdo que resulta de suppôr que ao _dote_ de D. Urraca
    se tirou uma porção para dar tambem _em dote_ a D. Theresa. O mesmo
    absurdo resultaria de suppôr que ao feudo do conde Raimundo se tinha
    tirado um fragmento para infeudar a Henrique. Mas já na instituição
    d'aquelle feudo da Galliza occorre outra difficuldade: ou os condes e
    senhores, que vemos governarem differentes districtos de Galliza e
    Portugal antes de Raimundo, tinham todos morrido e _sem filhos_, quando
    este foi posto no governo do territorio gallego e portuguez, ou d'este
    successo resulta igual absurdo. Associar com taes factos a idéa de
    feudalismo é em meu intender gerar uma monstruosidade; é pretender
    destruir incompatibilidades indestructiveis; é tirar ao feudalismo o seu
    primeiro caracter.

    A célebre carta de Affonso VI ao conde Henrique, ácerca da demanda que
    corria entre o bispo de Coimbra e um tal D. Cibrão sobre a aldêa de
    Golpelhares, em que diz que não a concederá (_outorgabo_) ao D. Cibrão
    se pertencer ao mosteiro de Vacariça[37], seria um attentado flagrante
    contra o direito feudal, como elle se achava já constituido n'aquella
    epocha; seria offender a soberania do feudatario dentro dos seus
    territorios, se Portugal fosse possuido pelo conde segundo os principios
    da jurisprudencia feudal.

    Lemos na _Historia Compostellana_[38] que, tendo o conde Raimundo feito
    uma lei para obviar a certas vexações que padeciam os burguezes de
    Compostella, na qual impunha aos transgressores penas pecuniarias, vindo
    depois Affonso VI fazer as suas devoções a Sanctiago, os cidadãos e o
    proprio consul Raimundo lhe pediram a confirmação d'ella para que fosse
    valedoura no futuro. Ou Raimundo, tendo vindo do paiz do feudalismo,
    ignorava completamente os principios essenciaes do direito feudal, ou
    não se considerava de modo algum como senhor feudatario da Galliza,
    aliás regeitaria similhante confirmação.

    Poderia citar centenares de factos análogos, que estão demonstrando que
    taes feudatarios não existiam na Hespanha. Mas a demonstração capital
    d'esta verdade resulta da impossibilidade em que estava o paiz de
    admittir esses extensos feudos.

    As situações hierarchicas dos senhores de terras nos paizes feudaes eram
    n'aquelle tempo diversas. Os _vavassores majores_, ou _barões_, eram os
    feudatarios da corôa; abaixo d'estes ficavam os simples _vavassores_ e
    _castellani_, subfeudatarios dos primeiros[39]. Esta graduação era
    possivel em França, por exemplo, porque no tempo das conquistas dos
    francos nas Gallias, os capitães das hostes (_herzoge, koninge_),
    tomando para si vastas extensões de territorio, as tinham repartido pelo
    seus guerreiros. Passando da vida errante á existencia fixa, os barbaros
    sentiram logo a necessidade do principio hereditario applicado á
    propriedade territorial. D'aqui os feudos e subfeudos, e as obrigações
    diversas inherentes aos possuidores d'elles. Mas as hierarchias não se
    alteravam á mercê suzerano supremo; o filho do barão era barão como seu
    pae, o filho do vavassor, vavassor como este. Os factos que se possam
    apresentar de algum modo em contrario, ou foram practicados em terras
    que fossem primitivamente _allodios reaes_ (correspondentes aos nossos
    _reguengos_), que o rei podia infeudar a um vavassor para o elevar á
    hierarchia de _Baro_, ou custaram muitas guerras, incendios, e mortes;
    isto é, nasceram da violencia e da extra-legalidade, e não das
    instituições feudaes, a que seriam perfeitamente contrarios.

    Na Hespanha, porém, a elevação de Raimundo e de Henrique não foi
    resultado de uma conquista. Os territõrios da Galliza dados áquelle, e
    os de Portugal dados a este, para governarem como condes, estavam
    libertados do jugo árabe, na sua maxima parte, e regidos por condes,
    senhores, maiorinos, alcaides, etc., que, admittindo ser então a
    organisação politica da sociedade Hespanhola feudal, eram (pelo menos os
    condes) _barões_, isto é, feudatarios immediatos do rei. E como
    consentiriam estes _vavassores majores_ em passar para a classe de
    simples _vavassores_, o que de necessidade aconteceria se na realidade
    se tivessem creado então estes dous grandes feudos? Como não apparece o
    menor vestigio de resistencia a essa violação do direito politico do
    paiz?

    Sei que os que imaginam existirem na Hespanha instituições feudaes
    poderão talvez soccorrer-se ás clausulas, que no pacto successorio entre
    Raimundo e Henrique assentam nos principios de direito feudal[40].
    D'estas passagens muitas outras se poderiam colligir dos diplomas e
    memorias d'esse tempo; mas n'este documento, que era um tractado
    secreto, não admira que os dous principes, sendo ambos francezes,
    contractassem debaixo dos principios da jurisprudencia patria, ou que,
    bem como acontece nos outros diplomas, em que se acham passagens
    analogas, houvesse n'elle um abuso de terminologia feudal accommodada ás
    instituições hispanicas, vindo assim a significarem as palavras _ut sis
    inde meus homo, et de me eam habeas domino_, que o conde Henrique
    ficaria com o governo de Toledo, como conde delegado n'aquella
    provincia, reconhecendo a supremacia real de Raimundo n'esse districto,
    emquanto Portugal ficava sendo estado separado e independente.

    Que se fazia este abuso de termos da Peninsula é incontestavel. O
    _Feudum reddibile_ não existia ainda n'aquella epocha, porque só
    appareceu quando, degeneradas as instituições feudaes, a palavra
    _feudum_ começou a servir para indicar todo o genero de transmissão
    incompleta de propriedade[41]. Não podia, portanto, ser conhecido na
    Hespanha no principío do seculo XII um genero de falso feudo, que se
    oppunha á mesma essencia da propriedade feudal–o hereditario e a
    perpetuidade. Todavia a _Historia Compostellana_ assevera que o
    arcebispo de Santiago dera ao de Braga certas propriedades _ad tempus
    pro feudo_, e este declara que as recebera _in praestimonium sive
    feudum_, d'onde claramente se vê que então se tomava _feudo_ por
    synonymo de _prestano_, sendo aliás coisas diversissimas[42]. A rainha
    D. Urraca, tendo comprado ao mesmo arcebispo de Santiago o castello de
    Cira, pediu-lh'o depois _in pheodum_, diz o historiador compostellano, e
    elle lh'o concedeu com a condição de que logo que lhe fosse pedido o
    entregasse[43]. Se entendessemos, porém, a palavra _pheodum_ na sua
    verdadeira accepção, não houvera sido impossivel similhante contracto?

    Vemos, pois, que a idéa de ter sido dado Portugal em feudo ao conde
    Henrique é tão repugnante e inadmissível como a de lhe ter vindo em dote
    de sua mulher. Resta só um meio para deixar de attribuir pura e
    simplesmente á revolta do conde a sua independencia politica.

    Este meio consiste em suppôr que, morrendo Affonso VI sem filhos varões,
    o conde julgasse que o reino se devia dividir entre suas filhas; que a
    sua mulher tocava, pelo menos, a provincia que elle governava; e que
    finalmente se estribasse n'este fundamento para não se reconhecer
    subdito de D. Urraca. Similhante idéa parece ter occorrido ao
    respeitavel auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, quando por
    occasião do célebre pacto successorio, diz que «_os dois condes_, vendo
    que a _herança_ de tão vastos e ricos estados, a que por suas mulheres
    _tinham direito_, lhes escapava das mãos….. isto devia…..
    inspirar-lhes o pensamento de se prevenirem, etc.»

    Tal reflexão, creio eu, não fizeram os dois condes pela mui simples
    razão de que não a podiam fazer; tal motivo não tiveram porque não o
    podiam ter. A razão do pacto, a meu ver, não foi mais que um calculo de
    forças: os dois condes unidos assim eram naturalmente mais fortes que
    qualquer outro competidor ao throno que por morte de Affonso VI se
    alevantasse. O conde Raimundo entendeu, e entendeu bem, que valia a pena
    de sacrificar uma parte de territorio á ambição de Henrique, com a
    condição de cingir a corôa d'Hespanha. Do theor o pacto successorio se
    vê que este negocio começou a ser tecido em Cluni; porque este celebre
    mosteiro era então o foco de todos os grandes enredos politicos, e
    exercia uma influencia immensa na curia romana, sempre prompta para
    proteger novidades uma vez que estas lhe produzissem as celebres
    _benedictiones_[44], de que tantas vezes falla á _Historia
    Compostellana_. E com effeito o negocio tinha assim todas as
    probabilidades de bom resultado, se a morte, como costuma, não viesse
    baralhar as combinações humanas.

    Disse que Raimundo e Henrique não podiam ter tido por motivo do pacto a
    consciência de um direito commum a ambos; porque tal direito seria
    sonhado. Que!? A coròa do reino leonez-castelhano era alguma herdade,
    aldêa, mosteiro, _testamento_[45] emfim, que se repartisse entre
    herdeiros, ficando a este o quarto, a outro o sexto, a aquell'outro o
    resto? Se o fosse, que deveriamos nós chamar a Raimundo, o qual se
    contentava com tomar para seu quinhão _hanc totam terram Regis
    Aldephonsi_, ou ao conde Henrique, que promettia ajuda-lo em tão sancta
    e louvavel empreza? Porque haviam assim de ser espoliadas as outras
    filhas de Affonso VI, entre as quaes se contam algumas com mais
    segurança legitimas que a mulher de Henrique?[46] Raimundo poderia
    talvez julgar-se com justiça na successão, por ser sua mulher a filha
    mais velha de Affonso VI: o hereditario da corôa começara de havia muito
    a fixar-se por direito consuetudinario opposto ao direito politico
    escripto, e Urraca devia succeder a seu pae por este _costume_, que
    apenas deixava a sentença do codigo wisigothico a tal respeito, como
    simples e mera formalidade: Henrique, porém, nada tinha que vêr em
    similhante negocio, e só legalmente lhe cumpria obedecer ao novo
    monarcha, como obedecia a Affonso VI.

    Mas, dir-se-ha, Raimundo podia d'antemão ceder uma parte da monarchia,
    que lhe havia de pertencer, a Henrique, seu cunhado, primo e companheiro
    d'armas, a fim de que este o ajudasse com a força a tornar effectivo o
    seu direito de successão, se este direito existia[47]. Não! A indole das
    instituições hespanholas oppunha-se formalmente a similhante cessão.

    É preciso em todas estas averiguações não esquecer nunca um grande facto
    social d'aquella epocha, facto que o historiador-philosopho Martinez
    Marina provou irrecusavelmente, e que derruba pelos fundamentos essas
    explicações violentas de um acontecimento mui simples–a revolta do
    conde Henrique. Este acontecimento não deshonra o conde, porque elle não
    podia ter as idéas de estreita legalidade, que nós hoje exigimos e
    devemos exigir dos homens politicos. No seu tempo a força corria
    trivialmente parelhas com o direito: era esta uma das infinitas e
    pessimas consequencias moraes da barbaria e rudeza dos tempos. Do mesmo
    modo nenhuma nódoa póde pôr nos fastos gloriosos da nação essa origem
    menos ajustada pelas regras da jurisprudencia politica d'aquellas eras.
    Toda a nação independente legitimamente o é, seja qual for a historia do
    apparecimento da sua individualidade ou da sua organisação. Nem a França
    recusa a usurpação de Pepino, ou de Hugo, nem a Inglaterra a conquista
    de Guilherme o _Normando_: essas nações possuem sobeja luz de gloria
    para desvanecer taes sombras. Será o velho Portugal mais pobre e obscuro
    do que ellas?

    O facto, digo, de que nunca nos devemos esquecer é, que a monarchia
    fundada por Pelaio nas Asturias, e que depois se chamou Leão e Castella,
    não foi uma nova sociedade que appareceu; não foi uma nova raça que pela
    conquista substituísse no dominio da terra uma sociedade conquistada o
    dissolvida. A monarchia leoneza foi a reacção wisigothica contra a
    invasão arabe: mais nada. O throno de Leovigildo recuou deante do throno
    dos califas até as margens do Deva, e d'abi voltou a Toledo. Ida e volta
    foi por uma estrada coberta de cadaveres, e a viagem gastou tres
    seculos. Mas com esse throno, na fuga e no triumpho, as instituições, as
    leis, quasi os costumes, que o rodeavam, subsistiram por largo tempo. As
    _Partidas_ de Affonso o _Sabio_ são a declaração de que a sociedade
    wisigothica tinha emfim expirado, depois de dilatada agonia. Este codigo
    feudal-canonico-romano é o verdadeiro ponto d'intersecção entre a
    monarchia germanica e a monarchia moderna; e ainda áquem das _Partidas_,
    quantas reminiscencias, quantos costumes, quantas leis, enraizadas no
    solo Peninsula pela cuidadosa cultura dos godos, melhor radicadas talvez
    ainda, como as arvores robustas, pelo tufão terrivel da conquista arabe,
    não ficaram vivas, perennes, activas, no meio da sociedade moderna!
    Ninguem mais que nós os filhos das Hespanhas se abraça ternamente com as
    usanças do passado. É que ainda em nossas veias gira muito sangue dos
    godos. Na historia das instituições, os povos da Peninsula são mais
    velhos do que elles pensam.

    Todos sabem que o codigo das _Partidas_ pertence á segunda metade do
    seculo XIII, e que a epocha de Affonso VI pertence aos fins do XI, e
    primeiros annos do XII. Para outro logar deixamos o exame das
    alterações, quasi todas formaes e poucas substanciaes, que os francos
    introduziram na organisação politica da Hespanha: é, porém, indubitavel
    que a natureza da monarchia não tinha sido mudada. A substituição do
    hereditario ao electivo na successão havia-se convertido em uso, é
    verdade; mas este uso não pertencia exclusivamente aos tempos
    posteriores a Pelaio. Anteriormente aos arabes, os godos tinham
    conhecido a vantagem immensa d'aquelle systema de transmissão da corôa
    ao systema electivo; e a successão de paes a filhos começava a fixar-se
    como principio politico na côrte de Toledo, quando justamente uma
    offensa feita a esse principio na enthronização de Rudericus (Rodrigo)
    produziu a guerra civil, que abriu o caminho aos conquistadores
    sarracenos.

    A eleição do rei lá ficou, todavia, escripta na lei da terra, no codigo
    wisigothico, e as consequencias naturaes do principio electivo
    designadas nesta lei, e além d'isso traduzidas nos factos. A acclamação
    do novo imperante, o _hominium_ ou preito e menagem que lhe faziam os
    barões convocados a côrtes (_concilium_), e até a expressão de
    _electus_, de que muitos reis de Oviedo e Leão usaram nos diplomas
    fallando de si, provam que elles não se esqueciam de qual era o
    fundamento legal da sua existencia politica[48]–a escolha dos godos.
    D'esta circumstancia, d'este pensamento, que por assim dizer se achava
    como incorporado no facto contrario–a successão hereditaria–e
    modificava esse facto, nascia que todas as outras disposições do codigo
    wisigothico, relativas ás obrigações contrahidas pelos reis no momento
    da acclamação, se conservavam em vigor como nos tempos em que a
    monarchia era na realidade electiva. Entre estas obrigações era uma das
    mais importantes o prestarem juramento de nunca alhearem os bens ou
    estados da corôa, e de não herdarem a seus filhos senão as terras ou
    bens que adquirissem antes de subirem ao throno, ficando no patrimonio
    do estado tudo o que depois da sua eleição n'elle tivessem
    accrescentado[49]. Era a esta lei, observa Martinez Marina[50], que D.
    Affonso o _Sabio_ se referia no seculo XIII, dizendo: «foro e
    estabelecimento fizeram antigamente em Hespanha, que o senhorio do rei
    nunca se dividisse ou alheasse.»[51] A tradição d'esta antiga
    jurisprudencia veio ainda reflectir de algum modo entre nós na feitura
    da _Lei mental_.

    Similhante instituição obsta a que qualquer cessão de Raimundo a seu
    primo tivesse validade ainda quando subisse ao throno, quanto mais sendo
    apenas um simples pretendente. Assim, ao passo que se vê não ser o pacto
    successorio mais que um documento da ambição dos dous condes, conhece-se
    tambem que é escusado procurar n'elle o titulo da independencia
    portugueza. Ainda, repito, subindo ao throno, Raimundo teria exorbitado
    das suas attribuições: teria offendido uma das partes essencialissimas
    do direito politico da Hespanha, se houvesse alheado da corôa uma tão
    importante porção de territorio como Portugal, sem consentimento do
    _concilium_, ou _côrtes_. Fernando Magno tinha entendido isto
    perfeitamente quando, para dividir a monarchia em tres estados que
    herdassem seus tres filhos, as convocou em Leão a fim de obter o
    consentimento nacional[52].

    Nestas considerações, a meu ver, está a razão capital de se dever
    recusar a sancção historica a essas tradições de dotes, d'infeudações,
    de direitos hereditarios, que se tem acceitado de antigas chronicas com
    demasiada boa fé.

    Não concluirei já agora, sem accrescentar alguns reparos aos argumentos
    negativos, que faz o sabio auctor das _Memorias do conde D. Henrique_, a
    favor da opinião que sustenta a legalidade do acto de separação que deu
    origem á monarchia portugueza.

    Aquelle erudito illustre observa que, practicando o conde depois da
    morte d'Affonso VI todos os actos de um soberano independente (e isto,
    creio eu, ninguem contesta hoje), não appareceu um documento público em
    que os leonezes accusassem Henrique e depois D. Theresa de _rebeldes_,
    ou em que exigissem vassalagem d'elles; que não _ha prova alguma
    positiva e certa de que por esse singular motivo fizessem a guerra aos
    portuguezes_; que finalmente nenhuma das _numerosas_ chronicas
    d'aquelles tempos haja feito menção da dependencia de Portugal, salvo a
    _Historia Compostellana_, a que, n'esta parte, o illustre auctor das
    citadas _Memorias_ parece recusar o seu assenso por ser obra d'estylo e
    modo d'historiar _exaggerado_, e ás vezes manifestamente apaixonado.

    O governo do conde Henrique divide-se em dois periodos distinctos: o
    primeiro, que corre de 1096 até 1109, isto é, até a morte _d'Affonso_
    VI: o segundo desde esta epocha até a morte d'elle proprio em 1112[53].
    Quanto á primeira não pode haver questãpo sobre a sua dependencia do
    monarcha: os diplomas d'esse tempo não consentem a menor sombra de
    dúvida a similhante respeito. Quanto á segunda tambem me parece
    indubitavel que o conde saccudiu o jugo de Leão; mas o que não posso
    admittir é que os leonezes legalisassem este facto com o seu
    reconhecimento antes do tempo de D. Affonso Henrique.

    Bastaria dizer aqui que um argumento negativo bem pouco fôrça pode ter
    contra provas em contrario deduzidas da propria natureza, instituições,
    leis e costumes do paiz. Mas não ha só isso; considerando em si o
    argumento, elle não parece dos mais vehementes no seu genero. Vejamos.

    Primeiro que tudo, _as numerosas chronicas d'esses tempos_ parece-me uma
    expressão demasiado vaga e incerta. Se o respeitavel sabio, a que
    alludo, intende por _chronicas d'esses tempos_ os escriptores
    _contemporaneos_ do conde e ainda de D. Theresa, que lhe sobreviveu 18
    annos, eu desejaria saber onde existe esse grande numero d'ellas, para
    as lêr, e evitar assim os avultados erros, em que por ignorancia das
    fontes historicas terei provavelmente caído. Se intende os escriptores
    dos tempos immediatos, seja-me permittido lembrar-lhe que Rodrigo de
    Toledo, escrevia na primeira metade do seculo XIII[54], concorda com a
    _Historia Compostellana_ em chamar _rebellião_ ao procedimento do
    conde[55], e n'esse caso não é _singular_ o testimunho d'aquella
    importante historia.

    Eu sei que existe um certo numero de _chronicons d'esses tempos_,
    publicados pela maior parte nos appendices da _Hespanha Sagrada_. Mas
    infelizmente para o nosso caso, aquelles em que os successos vem mais
    particularisados, e que mereceriam não o nome de _historias_, mas
    talvez, alguns pelo menos, o de _chronicas_[56], não ultrapassam a
    epocha d'Affonso VI. Taes são o d'Isidoro de Béja, o do Biclarense, o de
    Sebastião de Salamanca, o de Sampiro, o Monge de Sillos etc. Os que
    passam áquem da morte d'Affonso VI são apenas um aggregado de datas
    relativas aos seculos XII e XIII e aos anteríores, datas estremes de
    nascimentos, batalhas, obitos e phenomenos naturaes. Em taes monumentos,
    essencialmente chronologicos, como fôra possivel encontrar a menção do
    facto que pela sua propria natureza devia ser lento, e concluido por uma
    série de actos graduaes e escuros, praticados successivamente durante
    annos? Como se poderia achar uma historia politica em rudes apontamentos
    de monges ignorantes, que muitas vezes para indicarem uma batalha
    importante contentavam-se com dizer: _Era de tal_–_Foi a de Sagralias:
    foi a d'Ucles_? Eu, ao menos, não creio que similhante espécie ahi se
    podesse encontrar.

    Mas, se abstrairmos d'estes _chronicons_, que obras historicas nos
    restam escriptas n'esse tempo ou proximamente, com tal extensão, que
    devamos buscar n'ellas noticia d'este facto politico e complexo? Conheço
    apenas tres: a _Historia Compostellana_, a _Chronica d'Affonso VII_, e o
    livro de D. Rodrigo Ximenes _Das coisas de Hespanha_. Como já notei, a
    primeira e terceira chamam rebellião a esse facto: a segunda é que
    guarda silencio a similhante respeito. Tire d'aqui o leitor a conclusão
    que quizer, não se esquecendo que já ponderei sobre o valor historico
    que me parece têr a _Chronica d'Affonso VII_.

    O clarissimo auctor das _Memorias do conde D. Henrique_ regeita, ao que
    parece, n'este ponto a auctoridade dos historiadores compostellanos
    (postoque na _Memoria sobre a origem de Portugal_ os houvesse
    qualificado de _não suspeitos_) por serem _exaggerados_ e _apaixonados_.
    Esta observação é exactissima. Quem ler dez ou vinte capitulos d'aquella
    chronica ficará plenamente convencido de tão inquestionavel verdade, sem
    que lhe seja preciso ter presente a extensa dissertação de Masdeu a este
    respeito.[57] Mas o que _exaggeram_ os tres conegos de Sanctiago
    auctores do livro?–A perversidade de D. Urraca, e as virtudes do
    arcebispo Diogo Gelmirez. Não ha injúria que elles não vomitem repetidas
    vezes contra aquella rainha, que sem ser sancta, ou pelo menos beata,
    como a pinta Flores, não foi tão detestavel mulher como os tres honrados
    conegos a descreveram. Por outra parte não ha lisonja ridicula ou louvor
    despropositado que não dirijam ao seu velhaco, hypocrita, cubiçoso e
    violento patrono. Porque serão pois elles suspeitos mostrando-se
    favoraveis ás pretensões de D. Urraca ácerca de Portugal, quando, além
    d'isso, não tinham motivo nenhum de odio contra D. Theresa, que
    beneficiou a sé de Compostella, e que até, andando Diogo Gelmirez com a
    rainha D. Urraca devastando o Minho, lhe deu aviso de que sua irmã o
    queria prender ou matar? É realmente incomprehensivel para mim o motivo
    por que na questão da legitimidade ou illegitimidade da separação de
    Portugal a _Historia Compostellana_ haja de ser-nos suspeita por
    exaggeração e parcialidade.

    Finalmente, a exigencia de um documento leonez, pelo qual conste a
    pretendida sujeição de Portugal, parece-me demasiado violenta. Qual
    devia ser o documento? Um manisfesto? No seculo XII não creio existisse
    ainda essa divindade dos homens honestos, chamada opinião pública. Nas
    questões politicas recorria-se ás armas para obter justiça ou desforço,
    e não se faziam allegações. Se apparecesse um tal documento, a prova da
    sua falsidade seria a sua existencia; e todavia só por um manifesto
    poderiam constar directamente as pretensões de D. Urraca e de Affonso
    VII. Indirectamente, porém, na propria _Memoria_, a que alludo, se
    lembra seu respeitavel auctor do que D. Urraca se intitúlava _rainha de
    toda a Hespanha_. Que mais podia fazer? Doações em Portugal de bens da
    corôa? Ninguem lh'as quizera, porque não se effeituariam, visto que
    Portugal não a tinha por senhora. Providencias governativas? Não lhe
    obedeceriam. De que titulo, pois, pode resultar a prova directa que se
    exige?

    Prova directa digo, porque só esta tinha em mente por certo o sabio, de
    cuja opiniões me vejo constrangido a afastar-me, quando escreveu que não
    existe documento pelo qual _conste a pretendida sujeição_[58]. Era
    impossivel que elle se não lembrasse do tractado que traz Brandão[59] em
    cujo preambulo se lê: «É este o juramento e convenio que faz a _rainha_
    D. Urraca a sua irmã a _infanta_ D. Theresa.» Desejaria eu saber porque,
    intitulando-se a viuva do conde Henrique constantemente _regina_ nos
    documentos de Portugal, consentiu em um tractado de paz com sua irmã que
    esta reservasse para si similhante titulo, e lhe désse unicamente o
    d'_infanta_? Como se registou tal denominação no _Liber Fidei_ de Braga,
    d'onde a tirou Brandão, sendo assim offensiva da legitima independencia
    e senhorio real de D. Theresa?

    Accrescentarei uma conjectura. O documento produzido por Brandão não tem
    data. Quem lêr attentamente os capitulos 40 e 42 do livro 2.^o da
    _Historia Compostellana_ poderá talvez attribui-lo ao anno de 1121, em
    que D. Urraca acompanhada do guerreiro arcebispo Diogo Gelmirez entrou
    por Portugal dentro, e o devastou, chegando D. Theresa ás estreitezas de
    se ver cercada no castello de Lanhoso. Distraídos pelos perigos do seu
    heroe Gelmirez, que n'esta occasião D. Urraca, dizem elles, quiz prende,
    esqueceram-se de narrar expressamente as consequencias politicas da
    guerra. Mas dos factos referidos n'esses capitulos se pode deduzir que
    as duas irmãs fizeram pazes, e até os dois campos inimigos conviveram
    familiarmente[60]. Aquelle tractado não é por ventura mais que o
    desfècho da invasão; bem como as condições vantajosas que por elle devia
    obter D. Theresa, o repentino intento de prender o arcebispo, e a
    notoria perfidia e turbulencia d'aquelle sancto varão, me fazem
    suspeitar que elle tramaria alguma traição contra a sua soberana, a qual
    odiava cordialmente, e tractando secretamente com D. Theresa (cujo
    repentino accésso de amor por um homem que lhe devastava o paiz é aliás
    inexplicavel) pretenderia com a juncção das suas forças ás portuguezas
    aniquilar D. Urraca. Se assim foi, porque isto é apenas uma conjectura
    verosimil, habilmente andou a rainha em conceder uma paz vantajosa a sua
    irmã, para poder desaggravar-se da traição de Gelmirez. Admittida esta
    hypothese, o documento do _Liber Fidei_ e a _Historia Compostellana_
    concorda e explicam-se excellentemente.

    O titulo d'_infanta_, dado com exclusão de outro a D. Theresa, não
    apparece unicamente no _Liber Fidei_. Remettendo Bernardo, arcebispo de
    Toledo, a Diogo Gelmirez copia de certas letras apostolicas relativas ao
    celebre Mauricio Bordino, arcebispo de Braga, envia-lhe com ellas outras
    dirigidas á _infanta dos portuguezes_[61]. Vê-se d'esta passagem, da
    carta do primaz que tal era o titulo diplomatico com que na côrte de
    Toledo se designava D. Theresa; titulo vago, que mostra, a meu vêr, a
    incerteza d'aquella côrte entre o facto, que provavelmente não tinha
    fôrça para annullar, e o direito de supremacia, que julgava evidente.

    Ficarei aqui pelo que toca ao facto da origem da independencia de
    Portugal: algum dia examinaremos como ella se consolidou e legalisou.
    Chama-nos mais grave assumpto–a historia social do nosso paiz n'essa
    épocha.

    *CARTA IV*

    A folhinha d'algibeira, tecendo o catalogo dos nossos reis, divide-se em
    quatro dynastias: a 1.^a Luso-Capêta, a 2.^a, do Mestre d'Aviz, a 3.^a
    dos Philippes, a 4.^a Brigantina. A folhinha resume e representa o
    estado da sciencia historica do nosso paiz.

    Mas a folhinha, salvo o incompleto e inexacto d'aquellas divisões
    dynasticas, tem razão. Ella tece o catalogo das familias reaes. Quem não
    tem razão é a sciencia, que, annunciando a _Historia de Portugal_, em
    vez de distribuir as épochas chronologicas pelas transformações
    essenciaes da sociedade, sujeita a ordem dos acontecimentos sociaes ás
    mudanças das raças reinantes. Isto é altamente absurdo.

    Mr. Thierry, fallando das divisões dynasticas applicadas á historia
    franceza, já observou a impropriedade de similhante systema[62].
    «Supponde (diz elle) que um estrangeiro, pessoa de juizo, que não seja
    hospede na leitura dos historiadores originaes da decadencia do imperio
    romano, e que nunca houvesse aberto um volume moderno da nossa historia;
    supponde, digo, que ao encontrar a primeira vez um livro d'estes lhe
    corra o indice, e divise ahi por balizas, ou antes por fundamentos da
    obra, a distincção das diversas raças. Que idéa quereis que faça d'estas
    raças e do pensamento do auctor? Ha-de provavelmente crer que tal
    distincção corresponde á de diversas gentes, ou gaulesas ou peregrinas,
    cuja mistura produziu a nação franceza; e quando souber que se enganou,
    que são unicamente diversas familias de principes, sobre as quaes versa
    todo o systema da nossa historia, ficará sem duvida cheio
    d'assombro.»–Esta reflexão do mais célebre historiador francez da
    épocha presente, é inteiramente applicavel ao nosso paiz.

    Com effeito, quem, á vista das diversões estabelecidas na _Historia de
    Portugal_, imaginará, por exemplo, que os acontecimentos sociaes do
    ultimo quartel do seculo XIII, isto é, do reinado de D. Diniz, consituem
    uma divisão naturalissima, uma verdadeira épocha historica, ao mesmo
    tempo que a intrusão dos Philippes apenas mereceria tal nome? Quem
    adivinhará que no reinado de D. João II se completa uma revolução
    capital na indole da organisação politica do paiz, ao passo que a
    revolução de 1640 traz á sociedade portugueza levissimas mudanças no seu
    mode de existir? Ninguem o crerá, se attendendo unicamente ás épochas
    assentadas pelos historiadores se persuadir de que a historia é a
    biographia dos individuos eminentes.

    A historia pode comparar-se a uma columna polygona de marmore. Quem
    quizer examina-la deve andar ao redor d'ella, contempla-la em todas as
    suas faces. O que entre nós se tem feito, com honrosas excepções, é
    olhar para um dos lados, contar-lhe os veios da pedra, medir-lhe a
    altura por palmos, pollegadas e linhas. E até não sei dizer ao certo se
    estas indagações se teem applicado a uma face ou unicamente a uma
    aresta.

    Mas é similhante trabalho desprezivel? Não por certo. Este exame miudo,
    feito com consciencia, tem grande applicação, e ainda em si é
    importante; mas dar-nos isso como a historia da nação é, salvo erro,
    enganar redondamente o genero humano; é não perceber os fins da
    historia, a sua applicação como sciencia; é sobretudo fazer uma coisa, a
    que podêmos chamar novella, distincta sómente d'aquellas a que se dá tal
    titulo, pelo tedioso, árido e sem sabor da leitura que offerece.

    As divisões historicas actuaes nasceram d'este modo falso (por
    incompleto) de considerar o passado. A necessidade de estabelecer uma
    chronologia rigorosa era evidente: os factos politicos e a vida dos
    homens publicos precisavam de ser fixados com exacção no correr dos
    tempos, principalemente para o julgamento dos diplomas, genero de
    monumentos, em que as gerações extinctas se pintam melhor, que em
    nenhuns outros. O erro, a meu vêr, foi acreditar que ficando-se aqui
    existia a historia: erro digo, e completo; porque nem se quer a
    biographia dos homens eminentes surgiu de taes averiguações. Temos a
    certidão do seu nascimento, baptismo, casamento e morte. Se foi um
    guerreiro, temos a descripção das suas batalhas; se legislador, a medida
    intellectual e moral de seu espirito, os seus habitos e costumes, não os
    conhecemos. E porque? Porque esse homem é uma abstracção: está separado
    do seu seculo. As opiniões, os costumes, os usos, todos os modos, emfim,
    de existir da épocha em que viveu, são desconhecidos para nós; e todavia
    tudo isso, toda essa existencia complexa de muitos milhares de homens, a
    que se chama nação, devia ter uma influencia immensa, absoluta,
    n'aquella existencia individual do homem illustre, que o historiador
    acreditou poder fazer-nos conhecer com os simples extractos de quatro
    chronicas, cosidos com bom ou máu estylo ás respectivas certidões de
    baptismo, de casamento e de obito.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 04

    Aproximadamente 55.130 palavras.

    Produced by Isabel Calderon Dinis (Projecto Enclave) and
    edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional
    Digital–http://bnd.bn.pt)

    OPUSCULOS

    *OPUSCULOS*

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

    SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO
    DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE
    TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    *TOMO IV*

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO III

    LISBOA

    *VIUVA BERTRAND & C.^a* SUCCESSORES CARVALHO & C.^a

    73, Chiado, 75

    M DCCC LXXIX

    *COIMBRA–IMPRENSA DA UNIVERSIDADE*

    ADVERTENCIA

    Propondo-nos continuar a interrompida compilação dos _Opusculos_ do
    fallecido escriptor Alexandre Herculano, importa dizermos em breves
    palavras qual é o nosso intuito, para que não se tomem á conta de
    insensato arrojo as timidas diligencias que fazemos por cumprir um
    dever, que reputamos impreterivel.

    Quem leu a primorosa _Advertencia previa_ do primeiro volume d'esta
    collecção sabe que o auctor resolvera imprimir de novo, de envolta com
    alguns trabalhos seus ainda ineditos, os numerosos escriptos que, no
    dilatado periodo de quasi quarenta annos, dera á luz, ou em folhetos
    avulsos, cujas edições estavam esgotadas, ou em folhas periodicas,
    algumas pouco conhecidas hoje, e todas mais ou menos difficeis de reunir
    e compulsar. Como elle proprio declara, um dos motivos, se não o
    principal, que o levava a «ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do seu passado intellectual», era o desejo de ser um dia julgado,
    com imparcialidade e justiça, pelas idéas que emittira e pelas opiniões
    que sustentara. E foi para tornar mais justa semelhante apreciação que
    assentou em conservar escrupulosamente a parte doutrinal dos opusculos
    primitivos, junctando-lhes, apenas, as datas da sua composição; porque,
    «sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entendia que a responsabilidade seria ora maior ora menor, se porventura
    se attendesse á epocha em que essas opiniões foram manifestadas.»

    Fiel a estes principios, e obedecendo ao plano que traçara, conseguiu
    ainda o sabio escriptor dar á luz os tres primeiros volumes da presente
    collecção, nos quaes inseriu grande parte dos trabalhos que maior abalo
    produziram no animo publico, pela elevação, desassombro e energia com
    que ahi são tractados os mais melindrosos assumptos. Muitos outros,
    porém, estavam virtualmente destinados a formar novos livros, que por
    fim haviam de completar os elementos necessarios do processo, sobre que
    tinha de recair a sentença definitiva dos juizes imparciaes, a quem elle
    com tamanha confiança entregava o julgamento da sua causa; e são esses
    trabalhos dispersos, entre os quaes ha não poucos inteiramente
    desconhecidos da geração actual, que diligenciamos reunir e publicar.

    É grave, sem duvida, a responsabilidade moral e litteraria que
    contrahimos, escasso o tempo de que podemos dispor, debeis as forças,
    nulla a competencia. Erraremos, necessariamente, na escolha dos artigos,
    na ordem em que os collocarmos, na preferencia que lhes dermos, e acaso,
    até, na inserção de algum que o proprio auctor excluiria, O que, porém,
    podemos affirmar ao leitor é que empregaremos os maximos esforços para
    que seja fidelissima a transcripção d'esses artigos: fidelissima,
    dizemos, em quanto ao texto; porque a orthographia deixamol-a ao cuidado
    da imprensa. Seria muito moroso, além de sujeito a frequentes
    irregularidades, querer reduzir escriptos de tão differentes epochas, e
    publicados em desvairadas folhas periodicas, sem unidade orthographica,
    ao systema que o auctor ultimamente seguia.

    Para este quarto volume da collecção geral dos _Opusculos_, e terceiro
    das _Questões publicas_, escolhemos dois trabalhos egualmente
    importantes, e que nos parece terem intima correlação.

    O primeiro é um largo e consciencioso estudo ácerca da instituição
    vincular, onde são maduramente apreciadas as vantagens e os
    inconvenientes d'este modo de ser da propriedade, bem como as
    difficuldades que offerecia, n'aquella epocha, a sua immediata abolição.
    Este estudo, que encontrámos completo e mostra ter sido escripto sem
    interrupções, ficou, todavia, inedito na sua maior parte; porque apenas
    se imprimiram os tres primeiros capitulos, no jornal _A Patria_ de 8, 17
    e 25 de fevereiro de 1856, e o quinto, d'ahi a tres annos, nos numeros 5
    e 7 do _Archivo Universal-, a instancias do mallogrado escriptor Rodrigo
    Paganino. Quaes foram os motivos que impediram a publicação dos
    restantes, n'uma conjunctura em que as luminosas reflexões do auctor
    podiam auxiliar a resolução do grave problema, não nos foi possivel
    descobril-os; mas, com quanto a abolição dos vinculos fosse, poucos
    annos depois, levada a effeito, pelas leis de 30 de junho de 1860 e de
    19 de maio de 1863, aos homens competentes pertence o decidir se n'essas
    leis foram, ou não, previstas com lucidez, e resolvidas com acerto todas
    as diffículdades que faziam vacillar um espirito tão esclarecido e um
    animo tão resoluto.

    Compõe-se o segundo trabalho de uma serie de cartas, dirigidas ao sr.
    conselheiro Carlos Bento da Silva, nas quaes o auctor manifesta, com a
    sua habitual lealdade e franqueza, a opinião que tinha ácerca da
    emigração para a America, assumpto que então preoccupava muito os
    espiritos, e hoje parece não dar excessivo cuidado a ninguem. Publicadas
    na _Revista agricola_ e no _Jornal do Commercio_, e sustentando
    doutrinas contrarias, em grande parte, às que eram geralmente seguidas,
    estas cartas levantaram clamores, que, não só interromperam um estudo
    cheio de bom senso e de generosas aspirações, mas arrastaram, em breve,
    para o terreno ingrato das luctas politicas a discussão, que só podia
    ser proveitosa mantendo-se nas regiões serenas da sciencia. Não é, por
    conseguinte, o dezejo de avivar a lembrança de uma controversia
    desagradavel, que nos leva a reproduzir, sem a menor alteração, algumas
    paginas mais calorosas deste trabalho litterario: fazemol-o, porque era
    impossivel mutilar um escripto de tanta importancia, justamente na parte
    em que o auctor, além de responder ás objecções do seu antagonista,
    desenvolve e reforça com argumentos novos as suas proprias idéas.

    Como succede a todos os homens que, súperiores ás preoccupações do seu
    tempo e movidos por um sentimento innato de rectidão, não encobrem o seu
    modo de pensar, nem sacrificam a verdade, embora tenham de censurar
    amigos ou de dar razão a adversarios, Alexandre Herculano foi, por via
    de regra, mal avaliado pelo commum dos seus concidadãos, e victima
    frequentes vezes de infundadas e contradictorias accusações. Têm,
    comtudo, os grandes engenhos e as consciencias immaculadas certa no
    futuro a justiça que os contemporaneos lhes negaram; e nós cremos que o
    leitor desapaixonado, comparando estes dois opusculos, distanciados até
    aqui por um intervallo de cerca de vinte annos e reunidos agora no
    presente volume, encontrará n'elles, como em todas as obras do auctor,
    os mais claros testemunhos da coherencia das suas idéas, da
    imparcialidade dos seus juizos, e da pureza das suas intenções.

    _Os legatarios_.

    OS VINCULOS

    1876

    I

    *Preliminares*

    O caracter mais prominente dos actos legislativos promulgados durante a
    dictadura do duque de Bragança, foi a tendencia para alterar na sua
    essencia, melhorando-a, a condição das classes laboriosas e productoras,
    aquellas em que verdadeiramente reside a força vital da sociedade.

    As leis d'essa epocha singular da nossa moderna historia tinham de
    ordinario por fim principal desmoronar os alicerces do antigo systema
    politico, e tornar impossivel a sua restauração. Era uma idéa grandiosa,
    implacavel como o destino, que presidia á redacção de todas ellas; mas,
    em quasi todas, ao pensamento da lei ou ás suas provisões ligava-se a
    idéa de um allivio ou o de um incitamento á quasi unica industria do
    paiz–a agricultura. Assim a lei dos foraes e a abolição dos dizimos,
    destruindo os recursos de certas corporações de mão-morta e de certa
    aristocracia de berço, em cuja influencia fatal se estribava
    principalmente o velho systema, livravam ao mesmo tempo a propriedade e
    o trabalho rural dos mais gravosos impostos; e a extincção das milicias,
    dos capitães-móres e das ordenanças, ao passo que desorganisava as
    resistencias locaes ás novas instituições, restituia ao lavrador e ao
    obreiro dos campos o uso integral do fructo do seu suor.

    A restauração era grandemente revolucionaria nas suas manifestações
    legislativas; mas, como todas as revoluções vivedoiras, ella
    representava uma revolução politica e ao mesmo tempo uma revolução
    social e economica.

    Em quanto Mousinho da Silveira influiu nos conselhos do duque de
    Bragança, a restauração conservou os caracteres que lhe imprimira esse
    homem singular. Os actos subsequentes da dictadura, sem deixarem de ser
    logicos com os que até ahi se haviam practicado, deixaram de ter egual
    alcance. A extincção, por exemplo, das ordens monasticas, ao mesmo tempo
    que desprezava direitos legitimos, os que os monges tinham ás suas
    dotações, e condemnava á miseria muitos individuos innocentes e
    respeitaveis, atirava para o mercado ou desbaratava sem tino e sem
    previsão um enorme cumulo de propriedade territorial, que, alienada por
    um systema sensato e previdente, teria sido dez vezes mais util á
    prosperidade geral do que realmente foi.

    A suppressão das ordens religiosas e a extincção do papel-moeda
    constituem os dois unicos actos de verdadeira audacia revolucionaria
    practicados pelos successores de Mousinho. As chagas sociaes em que elle
    não puzera o ferro ficaram. Taes foram as complicações do direito
    emphyteutico, que tornam absurda essa excellente fórma de transmissão e
    conservação de propriedade; taes os vinculos, instituição incompativel
    com o espirito da nossa epocha e com o regimen da liberdade; taes as
    contribuições municipaes sobre o consumo; taes os pastos communs, que
    offerecem embaraços permanentes a uma revolução agricola, que as
    circumstancias tornaram indispensavel. Toda essa farragem do passado
    teria provavelmente desapparecido, se o genio de Mousinho houvesse
    dirigido por mais algum tempo os destinos de Portugal.

    O movimento mais ou menos bem regulado d'aquella grandiosa revolução
    tinha por principal incentivo a febre de uma guerra civil violenta,
    especie de duello gigante entre o passado e o futuro. Quando a lucta
    cessou, o impulso reformador foi esmorecendo, e a reacção começou, como
    era natural apoz tamanho abalo, a modificar os espiritos. Houve quem
    parasse nos limites do justo; mas outros passaram além. Movia á piedade
    a situação do clero regular; causava graves apprehensões a
    desorganisação do secular; e o systema de administração franceza, cuja
    adopção fôra um erro de Mousinho, funccionava mal. Estes lados da
    reforma eram os menos defensaveis, e tinham contra si por um lado o
    sentimento religioso offendido, e por outro o incommodo dos povos nas
    suas relações administrativas. Explorou-se a mina: buscou-se tirar
    partido a favor dos velhos abusos das confissões leaes d'aquelles que,
    addictos ás doutrinas generosas da dictadura, eram assaz sinceros para
    condemnarem os erros que se haviam commettido. Animados por essas
    confissões, os interesses illegitimos, que a revolução havia ferido
    profundamente, agítaram-se e conspiraram contra ella. No meio das luctas
    civis que sobrevieram de novo, posto que menos violentas, e das
    incertezas e perturbações publicas, devidas umas aos nossos erros e
    paixões, outras a circumstancias independentes da vontade do paiz e das
    parcialidades, as tradições do duque de Bragança esqueceram
    gradualmente. Os exemplos de tentativas para sophismar ou destruir as
    suas leis economicas não foram raros. Houve mais d'um Oza que estendesse
    a mão á arca santa, não para a amparar, mas para a derribar, sem que
    cahisse fulminado. Nada prova mais esse progresso gradual de reacção do
    que os diversos projectos de refórma do decreto de 13 de agosto de 1832,
    chamado vulgarmente lei dos foraes, e as respectivas discussões nas duas
    camaras, reacção que veiu a formular-se na lei de 22 de junho. A questão
    do restabelecimento completo ou incompleto dos dizimos chegou a
    agitar-se nas commissões do parlamento. A idéa da reorganisação das
    milicias tem passado uma e outra vez pelas cabeças de homens assaz
    influentes, e porventura ahi vive ligada á existencia dos denominados
    batalhões nacionaes, que successivamente perecem e renascem. O jury,
    combatido a principio cora vantagem, como succede a todas as
    instituições novas que por via de regra funccionam mal, accusado por
    algumas das suas decisões, que a maior parte das vezes procediam e
    procedeam de causas alheias à instituição, foi pouco a pouco
    restringido, desnaturado, e posto á mercê dos juizes chamados letrados,
    designação infelizmente inexacta em relação a muitos. Não se ponderou
    que não ha jurados sem segurança publica, e que essa segurança não
    existia; que não os ha sem juizes habeis, e que muitos d'elles o não
    eram; que não os ha sem ensino primario, amplo na extensão e
    intensidade, e que o ensino era entre nós, como ainda é, incompletissimo
    em ambas as relações. Reagiu-se, em summa, no que se pôde, desde a
    vaidade de ter em Lisboa um patriarcha e um simulacro de patriarchal,
    inutilidades dispendiosas que a dictadura annullara, até o imposto sobre
    a pesca, vexame intoleravel abolido pelo duque de Bragança em favor de
    uma classe e de uma industria, que a humanidade e as boas doutrinas
    economicas mandavam proteger com a melhor das protecções, a plena
    liberdade.

    A reacção manifestada nestes e em outros factos parece incutir já
    receios em muitos homens publicos, que reflectem. N'outros uma especie
    de instincto politico suppre a falta da intelligencia superior e da
    razão esclarecida. Sente-se que é preciso conter o movimento retrogrado.
    Em nossa opinião o remedio é simples: é voltar aos bons principios; é
    comprehender bem a indole da restauração; é applicar as suas doutrinas,
    modificando-as nas applicações pelo que a experiencia de vinte annos nos
    deve ter ensinado. A dictadura do duque de Bragança foi demasiado curta
    e tempestuosa. Fez muito; mas não podia fazer tudo. Completae a sua
    obra; favorecei o augmento e o bem estar das classes productoras; ligae
    os seus interesses á manutenção das instituições, e a reacção reduzida á
    impotencia de uma vã theoria cessará de se reproduzir nos factos.

    As questões de direito publico são graves: o respeito pelas fórmulas e
    garantias da liberdade não merecem por certo o desdem com que alguns
    escriptores, aliás sinceramente liberaes, as tem às vezes tractado,
    desdem de que bem desejamos, por nós e por elles, não tenham ainda de
    arrepender-se. Entretanto é indubitavel que o meio mais seguro de
    colligir uma força moral que as mantenha é crear interesses de tal modo
    ligados com a existencia d'ellas, que toda e qualquer reacção os ameace
    collectivamente. É necessario que esses interesses se contraponham á
    organisação social, ao modo de ser da propriedade, ao systema de
    administração e de impostos, á distribuição das classes, congenitos com
    a monarchia absoluta. Não ha evolução completa de progresso sem as duas
    condições do melhoramento material e do aperfeiçoamento social. Podem
    dar-se factos que realisem a primeira, e que todavia sejam estranhos á
    fórmula politica do paiz onde se verificam. Nenhum descobrimento
    contribuiu tanto para o augmento da civilisação como o vapor e os
    caminhos de ferro, e todavia o vapor e os caminhos de ferro tem-se
    estabelecido em maior ou menor extensão, mas com as mesmas facilidades e
    vantagens, tanto na Inglaterra e nos Estados-Unidos, como na Austria ou
    na Russia, sem que alterem ou devam alterar por em quanto a indole
    politica ou social d'esses paizes. O erro deploravel dos adeptos de
    certa escola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no
    melhoramento social e moral dos povos, e aquelle que só melhora a sua
    condição physica. Esses taes não contestam a superioridade do primeiro,
    porque isso seria demasiado imprudente; mas julgam ter cumprido com o
    que devem ás doutrinas que professam, limitando-se a applaudir quaesquer
    tentativas mais ou menos imperfeitas para se obter o ultimo. Dir-se-hia
    que para elles o homem interior em relação ao homem physico equivale a
    zero á esquerda de qualquer algarismo. E todavia não é assim. Se o povo,
    deduzindo as ultimas consequencias de certas maximas que elles ás vezes
    proclamam sem reflexão, se entregasse nas mãos do primeiro despota que
    lhe promettesse o bem estar material; se essa triste philosophia do luxo
    e dos gosos, que dominava no imperio romano sob a tyrannia dos Cesares,
    chegasse a gangrenar inteiramente as sociedades modernas, horrorisados
    da obra para que teriam contribuido, apressar-se-hiam a renegar a
    propria escola e a alistar-se n'aquella, que, sem desprezar o homem
    exterior, não esquece que ha n'elle uma coisa interior chamada a
    consciencia, que reclama a liberdade e a dignidade como condições
    impreteriveis em todo e qualquer progresso das sociedades humanas.

    É debaixo da impressão d'estas doutrinas, e convencidos da sua
    importancia, que vamos escrever. Os estudos que iremos successivamente
    publicando não são um trabalho completo; porque talvez n'elles nenhuma
    questão seja considerada sob todos os seus aspectos. São apenas
    reflexões soltas que temos lançado ao papel nas diversas epochas em que
    circumstancias especiaes nos obrigaram a volver a attenção para os
    negocios publicos: são simples apontamentos, posto que coordenados e
    ampliados agora. Podem ter erros; mas a intenção que os dictou é leal. O
    auctor nunca poz a penna a soldo de partidos ou de escolas; nunca
    mercadejou com a sua razão, nem com a sua consciencia. Á falta de outro
    merecimento, estes estudos tem o da convicção sincera.

    II

    *Processo agricola.–Propriedade rural.–Opportunidade da discussão*

    Apezar do impulso dado ao desinvolvimento agricola pelas leis da
    dictadura de 1832, as consequencias de certos factos historicos, de
    certas instituições abusivas, que por seculos haviam esmagado o paiz,
    ainda em parte se experimentam. Remover essas instituições; neutralisar
    os effeitos d'aquelles factos é completar a revolução politica pelo
    complemento da revolução economica.

    A extincção dos dizimos, das milicias, das ordenanças, das prestações
    foraleiras deram á lavoira uma extensão imprevista, e a situação do
    cultivador portuguez melhorou sensivelmente. Se por uma parte os
    methodos sempre cambiantes da percepção dos tributos, aliás viciosos na
    sua essencia, não houvessem substituido por gravames novos os gravames
    antigos, posto que em muito menor escala; se, por outra parte, a grande
    propriedade não fosse ainda demasiado preponderante; se a falta de
    proporção entre o accrescimo da cultura e o accrescimo da população não
    houvesse augmentado, pela subida do salario, o custo das producções,
    cujo valor a concorrencia nos mercados tem ido progressivamente
    diminuindo; se a falta de instituições de credito agricola e a derivação
    dos recursos pecuniarios do paiz para a agiotagem, resultado de uma
    pessima administração da fazenda publica, não houvessem tornado o
    capital esquivo á agricultura; se o quasi nenhum melhoramento das vias
    de communicação não pesasse indirectamente sobre os productos; se o
    atrazo da instrucção popular não inhabilitasse o homem do campo para
    simplificar os methodos e instrumentos de cultura; se finalmente um
    falso systema de protecção não difficultasse indirectamente ao productor
    portuguez o accesso aos mercados estrangeiros; a industria agricola
    entre nós teria chegado ou chegaria em breve a uma situação brilhante.
    Descentralisação administrativa; divisão razoavel de propriedade;
    construcção de estradas geraes e caminhos concelhios; simplicidade e
    ordem no systema tributario, tanto geral como municipal; meios de crear
    o credito rural accommodado aos habitos e necessidades do paiz; impulso
    á instrucção popular, ou antes nacional, substituindo o impulso, talvez
    excessivo, dado á instrucção litteraria e superior; mudança gradual e
    reflectida do systema protector para o systema da livre permutação, a
    que só se poderá chegar pela descentralisação administrativa; eis o que,
    em nosso intender, constituiria em geral o complemento da revolução de
    1832. Por esses meios, desinvolvidas as forças productivas da terra em
    toda a sua energia, o accrescimo da população acompanharia o accrescimo
    de trabalho; o valor d'este se harmonisaria com o das subsistencias; o
    producto liquido guardaria sempre proporcionalidade com o producto
    bruto, ou, pelo menos, seria bastante para se accumular em capital e
    converter-se em instrumento de producção; e emfim a grande industria
    nacional, livre de peias e, ainda melhor, de uma falsa protecção,
    influiria poderosamente no progresso da industria fabril e do commercio,
    cuja prosperidade é impossivel onde a agricultura definha debaixo do
    peso de instituições ou incompletas ou absurdas.

    De todas estas questões, cuja solução importa a este grande problema,
    nenhuma, se exceptuarmos a da liberdade do commercio, é tão grave,
    difficil e importante como a da divisão do sólo, isto é, da fórma e
    condições da propriedade territorial em relação á industria agricola.
    Debatendo-a, não só se discute uma das principaes materias economicas:
    discutem-se, digamos assim, as bases da sociedade civil.

    A revolução de 1832, a unica revolução séria que tem havido em Portugal,
    occorreu, entre outras coisas, ao damno e á vergonha, a que os erros dos
    nossos antepassados nos haviam conduzido, de comprarmos aos
    estrangeiros, durante uma parte do anno, a subsistencia de uma população
    pouquissimo numerosa em relação ao nosso territorio, e que uma
    insignificante industria fabril por certo não distrahia do trabalho
    agricola. Mas as grandes providencias d'essa epocha não deram nem podiam
    dar á industria e á população rural um impulso de maxima energia.
    Deram-lhes apenas o que procede da libertação da terra, da cessação de
    certas rapinas senhoriaes e fiscaes, e, consequentemente, o impulso
    indirecto que provinha da maior facilidade de produzir subsistencias,
    cuja abundancia e barateza, sempre progressivas, nos tem efficazmente
    convertido, no fim de quinze ou vinte annos, de importadores em
    exportadores. Os outros meios de augmento de população e de industria
    agricola, que eram consectarios do largo systema que a revolução
    adoptara, não se pozeram por obra desde que os dois elevados espiritos
    que tinham encetado a reforma radical do paiz desappareceram, um no
    tumulo, outro no esquecimento ingrato dos seus concidadãos.

    A redempção da terra pela destruição dos antigos vexames devia
    completar-se, de feito, por instituições e leis cujas tendencias fossem
    accordes com as da revolução. Desde que pelas providencias da dictadura
    de D. Pedro se entrava no caminho da reforma; desde que se fazia sair a
    agricultura da immobilidade e somnolencia em que jazera por seculos;
    desde que se lhe dizia «caminha!» era necessario acabar de lhe pôr
    franca a estrada, removendo todos os obstaculos á sua marcha ulterior.
    Não succedeu, porém, assim. Um dos factos mais importantes da historia
    da nossa fazenda publica prova que o systema da revolução, ou não foi
    comprehendido, ou foi promptamente abandonado por aquelles que deviam
    manter as tradições d'essa epocha.

    A lei dos foraes e, ainda mais do que ella, a extincção da maior e mais
    opulenta parte das corporações de mão morta trouxeram á massa de bens
    publicos uma porção avultadissima de propriedade rural. Calcular com
    alguma certeza os valores, os capitaes possuidos por essas corporações
    abolidas, ou rehavidos pela reversão gradual dos bens da corôa, é
    dífficillimo, senão impossivel, pelo pessimo methodo com que taes bens
    foram e tem sido incorporados na fazenda e depois alienados. Não será
    porém excessivo o algarismo de cincoenta a sessenta mil contos. Mas
    esses bens eram na sua maxima parte predios rusticos, ou censos e
    pensões sobre elles, symbolo do senhorio directo e portanto equivalentes
    de um capital. Tendo-se aberto uma nova era ao progresso da agricultura,
    os homens publicos d'então deviam pensar que não seria indifferente e
    sem influencia na economia social do paiz o destino que se désse a tão
    avultada somma de instrumentos de trabalho rural. N'um paiz de vinculos,
    de commendas, de bens de corôa, devia suppôr-se que a grande propriedade
    não estava em equilibrio com a pequena. Não era, porém, necessario
    suppol-o. Sabia-se que só na provincia do Minho preponderava a ultima, e
    que nas outras províincias predominava a primeira, sendo quasi exclusivo
    esse predominio na mais extensa de todas, o Alemtejo. Cumpria, portanto,
    comparar os resultados económicos e sociaes da grande e da pequena
    propriedade. Este exame mostraria, quanto a nós, a necessidade de
    favorecer a multiplicação dos pequenos predios, sobretudo no centro e no
    sul do reino. Não se fez, porém, isto. A massa enorme de riqueza
    territorial possuida então pelo Estado, a qual na maxima parte poderia
    ter cabido em mãos laboriosas e humildes por emprasamentos de superficie
    limitada, ou que, pelo menos, poderia ser vendida depois de retalhada,
    alienou-se por um systema absolutamente contrario. Dividida a
    propriedade tornar-se-hia accessivel a todas as condições e fortunas
    pelo emprasamento, e pela venda a milhares de pequenos peculios. Em vez
    d'isso cahiu geralmente nas mãos de homens opulentos, trocou-se por
    capitaes avultados. Em muitos casos foi o rico proprietario que
    conglobou nos seus extensos predios vastos predios nacionaes, e isto
    n'um mercado onde reinava pela abundancia a depreciação do genero, e
    onde a concorrencia era difficil. Outra parte serviu para converter
    muitos capitalistas em proprietarios. Assim se annullaram os mais
    importantes resultados que se deviam ter tirado da reivindicação parcial
    dos bens da corôa para o patrimonio publico, e da extincção das
    corporações religiosas.

    Foi a ignorancia que produziu o mal? Foi a persuasão de que a grande
    propriedade era mais util do que a pequena? Não o cremos. A verdadeira
    razão era o interesse pessoal dos homens influentes. Tinham-se inventado
    as indemnisações; tinham-se taxado os exilios, as perdas effectivas, os
    lucros cessantes, as perseguições que se haviam padecido por causa de
    opiniões. A religião do juramento, a fé nos principios, a lealdade á
    dynastia legitima deixaram de ser uma herança de honra para se legar
    como exemplo a filhos e netos, e converteram-se em capital com juro: os
    heroes transformaram-se em chatins. Foi uma abdicação moral quasi
    completa, a que a historia fará justiça. Para as indemnisações a
    alienação em grande convinha por mais de um modo. O _Ha-de-haver_ da
    conta de ganhos e perdas engrossava-se prodigiosamente ao lado do _Deve_
    em branco. Os mercadores politicos, que a escripturavam, viam-se no
    governo, no parlamento, nos conselhos, nos altos cargos administrativos,
    judiciaes, e militares. Olharam para essa mole appetitosa e immensa que
    tinham ante si, e talharam a reparação pelo valor da presa cubiçada.
    Quanto mais se accumulassem e portanto se depreciassem no mercado os
    bens nacionaes, maior porção d'elles seria necessaria para satisfazer
    indemnisações exaggeradas. Com o tempo desappareceu tudo. O que não
    serviu para se trocar a honra politica por fortuna predial,
    desbaratou-se por preços insignificantes. Os capitalistas vieram
    substituir-se aos donatarios, aos commendadores e aos frades. Depois os
    heroes e os capitalistas foram ao templo dar graças aos deuses. A
    republica estava salva.

    Então seguiram-se quinze a vinte annos de revoluções tão estrondosas
    como insignificantes. Os partidos disputaram o poder, luctaram,
    digladiaram-se: houve sangue e desventuras; houve theorias dominantes,
    vencidas depois, e vencedoras de novo; houve homens turbulentos e
    cubiçosos (os ambiciosos são raros no nosso paiz) que ora se apoderaram
    do poder, ora desappareceram na obscuridade, quando não no exilio: houve
    todas as convulsões, todas as peripecias dos tempos de politica pessoal,
    de politica de odios acerbos e de interesses individuaes feridos. Só
    faltaram novos incitamentos para o progresso legitimo. Dentro da acção
    administrativa e parlamentar, o desenvolvimento do paiz, desenvolvimento
    innegavel, posto que muito inferior ao que devera ter sido, foi apenas a
    consequencia das providencias da primeira dictadura, e de alguns poucos
    actos da revolução de 1836, em que appareceu um homem de verdadeiro
    talento e de verdadeiro patriotismo, mas que, perdoe-nos elle, quasi
    compensou o bem que fez com os males cuja semente lançou á terra,
    transportando do campo da theoria para o dos factos as idéas
    proteccionistas. Ainda eram, comtudo, idéas: ainda era um reflexo de
    1832. Depois só houve politica esteril ou reaccionaria. O progresso,
    independente das instituições, das leis e da acção administrativa, que
    se realisou n'este periodo, tem-se devido ás idéas e aos esforços
    particulares, á razão e á actividade dos cidadãos, movendo-se n'um
    ambiente de liberdade intellectual; porque é preciso confessar que
    n'esta longa epocha de pequenas paixões e de turbulencias interminaveis
    a iniciativa individual e a liberdade dos espiritos, fóra da esphera
    politica, tem sido geralmente respeitada.

    O cansaço quebrou por fim a violecia das facções e trouxe o periodo do
    repoiso. Boas ou más que fossem as doutrinas dos partidos militantes,
    ellas eram bandeira, não crença. A prova ahi está na historia dos
    ultimos quatro annos. Modificaram-se e mollificaram-se as opiniões,
    porque não tinham sido senão o estandarte dos interesses particulares, e
    porque nas phases variadas da longa lucta das parcialidades aquelles
    interesses chegaram mesmo, por acaso, a uma combinação politicamente
    possivel. Mas este facto trouxe outro mais grave: o paiz, que suspeitava
    de muitos, descreu de todos. É um mal ou um bem absoluto? O futuro o
    dirá. O que é certo é que desanimou e tornou-se indifferente aos
    partidos. Entretanto é incontestavel que vivemos n'uma quadra
    tranquilla. Que os homens influentes da situação o attribuam, não á
    indifferença do paiz, ao seu tedio de conflictos mais ou menos
    sanguinolentos e devastadores, mas sim á illustração, á justiça, á
    moralidade e ao liberalismo do poder, e á sua propria philosophia
    politica, que se remonta acima da comprehensão de nós outros homens
    vulgares, que importa? É uma rixa domestica; é uma questão entre os
    labios e a voz intima do coração. Nada temos com isso. O que nos importa
    é o facto, e o facto é que gosamos de paz e de liberdade de discussão
    ácerca de todas as materias politicas e sociaes. A quem nos deixa isto
    deve-se perdoar alguma coisa. Pode-se ter qualquer sentimento a respeito
    dos homens da situação: ter-lhes odio seria impossivel. Estão abaixo e
    além d'isso.

    E no meio da paz e da liberdade da palavra e da escripta apparecem
    tendencias, e mais do que tendencias, esforços para a realisação de
    novos progressos. O governo actual é arrastado pela opinião publica,
    como o seria qualquer outro que o substituisse, a melhorar as
    communicações internas, e no Minho ergue-se o povo para tomar n'esta
    parte a iniciativa. As questões d'instrucção popular, que passavam
    desapercebidas, excitam já a attencão e o interesse: não tardará que a
    opinião reclame a sua solução practica tão imperiosamente como reclama
    as estradas. As doutrinas da liberdade da industria e do commercio não
    só combatem face a face as preoccupações contrarias, mas até são
    chamadas á prova, e legitimam-se pelos resultados. Os espiritos começam
    a comprehender que o credito rural pode deixar de ser uma utopia, a
    associação uma vã palavra. No parlamento é atacada a instituição dos
    vinculos, e parece aproximar-se a ultima ruina d'estes. O governo,
    emíim, abriu o caminho para se chegar um dia ao verdadeiro systema
    tributario, sem o qual o triumpho completo do livre commercio e da livre
    industria é impossivel. Por ora a repartição do imposto directo,
    substituida á decima, pouco mais é do que uma troca de palavras, e Deus
    queira que não deixe de o ser antes de tempo; mas o povo vai-se afazendo
    á idéa, e é essa uma grande difficuldade vencida para o futuro.

    Estes factos são importantes, e estão, em geral, no espirito da
    revolução de 1832; mas todos elles tem uma desenvolução posterior, e
    essa desenvolução é que ha-de aproximal-os ou afastal-os do systema
    d'aquella epocha. Oppõem-se-lhes as tendencias reaccionarias, algumas
    das quaes já se manifestam nas leis e traduzem-se nos factos. Quando em
    muitos animos preponderam os desejos da restauração do passado; quando
    estes desejos começam a apparecer na legislação, é preciso estar de
    sobreaviso para que a reacção se não introduza no progresso sob o manto
    da imparcialidade. É esse o perigo das doutrinas, que nos aconselham
    afastemos os olhos das questões de ordem moral para só pensarmos no
    melhoramento material. Servirão taes doutrinas a tal ou tal situação,
    porque precisará d'ellas para se absolver a si propria; mas não servem
    ao paiz, e podem ser ainda fataes áquelles mesmos que as propugnam.
    Cumpre na desenvolução de cada reforma ligal-a pelas suas condições ao
    systema da liberdade.

    Se repetidos exemplos de corrupção fizeram descrer o paiz dos homens
    publicos, o progresso material, desligado e independente das condições
    politicas da sociedade actual, pode fazel-o descrer d'essas condições. O
    governo representativo não é commodo nem barato. É preciso que o povo
    considere as vantagens do bem estar como inseparaveis dos incommodos e
    sacrificios que as instituições exigem. O triste espectaculo, que hoje
    presenceamos, de uma grande nação privada dos seus fóros é a mais
    tremenda lição que nos offerece a historia sobre as consequencias de
    converter o porco de Epicuro em symbolo exclusivo da religião social.

    III

    *Abolição dos vinculos*

    O pró e o contra

    Entre as reformas pendentes merece attenção particular a abolição dos
    vinculos. Agita-se hoje essa questão, á roda da qual vêm accumular-se
    outras mais graves. Considerada em si, e só em relação aos seus
    resultados economicos, a extincção d'esta fórma de propriedades
    realisar-se-ha de um modo. Considerada em relação a todas as
    consequencias da medida, tanto economicas como sociaes e politicas,
    ha-de realisar-se de outro. A abolição dos morgados e capellas pode, até
    certo ponto, remediar o mal que resultou do systema inconveniente
    adoptado na distribuição e alienação dos bens nacionaes, se essa
    abolição se reputar um problema subordinado, uma hypothese que entra na
    questão geral da organisação da propriedade em relação ao bem estar
    material, moral e politico da sociedade. A esta luz a solução da questão
    geral determina forçosamente a da hypothese. Não é possivel, portanto,
    separal-as. Nas considerações que vamos fazer, considerações talvez
    incompletas, mas que cremos uteis, procuraremos quanto fôr possivel
    attingir á generalidade.

    As principaes objecções que se podem oppôr á existencia dos vinculos são
    de diversa ordem: moraes, politicas e economicas. Uma parte d'ellas
    entram na questão geral da grande e da pequena propriedade. Outras
    pertencem á ordem politica e á ordem moral.

    Oppõe-se aos vinculos que, sendo estes uma fórma de propriedade em que o
    direito de testar é tirado ao possuidor d'ella, convertido em simples
    administrador, falta a este o principal estimulo para os melhoramentos
    permanentes. Tudo pelo contrario o incita a tirar dos predios que possue
    a maxima utilidade pessoal. Salvas as hypotheses de viva affeição
    áquelle, que, não elle, mas a lei e a instituição fazem seu herdeiro, ou
    de uma decisiva paixão pela agricultura, o administrador do vinculo será
    sempre o peior entre os proprietarios ruraes, e a terra vinculada será
    constantemente um modelo de atrazamento e de incuria, um obstaculo
    permanente ao progresso agricola. A historia e o estado dos vinculos em
    Portugal demonstram _a posteriori_ a verdade e o alcance d'esta
    objecção.

    A instituição vincular é injusta excluindo os irmãos menores de egual
    quinhão na herança paterna, tornando-os dependentes, por um subsidio, do
    irmão mais velho, ao passo que não podem obstar a que este annulle os
    recursos para o pagar. Aquelle incerto meio de subsistencia é, alem
    d'isso, um incentivo de preguiça e ignorancia, uma fonte de irremediavel
    miseria para o homem a quem um berço illustre poz sem culpa sua fora do
    direito commum.

    O vinculo é a negação permanente de uma das primeiras condições da
    propriedade: n'elle os dois dominios estão incorporados n'um só, mas
    esse dominio não está _actualmente_ em parte nenhuma. Ficou, digamos
    assim, chumbado na campa de um tumulo: o tumulo retem-n'o até o fim das
    gerações. O morto desmentiu o direito dos vivos. O seu herdeiro, o homem
    que lhe succedeu na posse da terra e que elle chamou a isso por um acto
    livre e espontaneo, é pouco mais que um simples usufructuario. Mas ha
    outro que deva depois d'elle succeder com pleno direito, porque o
    affecto nascido dos laços domesticos ou do sentimento da gratidão moveu
    o instituidor a tornal-o proprietario d'essa terra apoz o
    quasi-usufructuario? Não ha. Ha só uma serie de descendentes que o
    instituidor desconhece, e, na falta d'estes, os de collateraes que não
    lhe importam. O fundador de um vinculo não fez mais do que empilhar os
    corpos de individuos tirados das diversas gerações para sobre elles
    assentar o throno da sua vaidade. Decretou-se homem grande: teve pena de
    que o futuro esquecesse personagem tão importante. Certa escola
    socialista mais moderada nega no que possue o direito de testar: os que
    estabeleceram a jurisprudencia dos morgados foram os precursores d'essa
    escola. Os antigos sacrificavam ao Deus desconhecido, _ignoto deo_; os
    instituidores de vinculos sacrificam _ignoto homini_.

    Os vinculos refogem, pela condição da inalienabilidade, aos impostos
    sobre transmissão por venda. Tornam, n'esta parte, em virtude de um
    privilegio, impossivel de se realisar ácerca d'elles a proporcionalidade
    constitucional das contribuições.

    A existencia dos vinculos, derivando de um privilegio, está
    absolutamente em antinomia com a lei política, não se provando que essa
    existencia seja de utilidade publica.

    Admittidos entre nós os vinculos em epochas, nas quaes o atrazo agricola
    tornava pouco productiva a terra, esta só podia constituir um morgado ou
    capella importante, vinculando-se uma immensa extensão de solo. No meio,
    porém, de população rara e de cultura pouco intensa e pouco frequente,
    elles não ofereciam grande obstaculo á exploração da terra. Agora,
    porém, que já o agricultor arrosta com os terrenos de segunda qualidade,
    e que a população se desenvolve e cresce, cada decada, cada anno, cada
    dia estão mostrando mais claramente o absurdo de se conservarem
    terrenos, muitas vezes de primeira ordem, incultos ou mal cultivados por
    causa de uma instituição, cuja existencia não é legitimada por nenhum
    motivo attendivel.

    A propriedade d'esta especie esta em regra condemnada á ruina e ao
    atrazamento. O predio vinculado, passando livre ao successor, é uma
    pessima hypotheca. O capital não se põe em contacto com elle senão por
    meio de exorbitantes usuras. Comprehende-se como um mau administrador de
    vinculo para satisfazer os proprios appetites ou paixões sacrifique á
    agiotagem um futuro que é seu; mas não se comprehenderia egual
    sacrificio da parte de um homem cordato, que pretendesse applicar um
    capital avultado aos melhoramentos de propriedades arruinadas pelo
    desleixo e falta de economia dos seus antecessores. Embora as
    bemfeitorias sejam encargo transmissivel, é certo que o dinheiro seria
    sempre incomparavelmente mais caro para elle do que para o proprietario
    cujos bens podem ser executados, e o dinheiro caro é para a agricultura
    do nosso paiz como se não existisse.

    Na verdade, trazida sem restricções a propriedade vinculada ao direito
    commum, o mau administrador desbarataria facilmente os proprios haveres;
    mas o bom poderia com uma parte d'esses bens, por qualquer modo
    alienados, tornar solido o resto da sua fortuna: mais; poderia tirar do
    sacrificio os meios de dar á porção salva um valor egual ou maior do que
    tinha todo o vinculo. Por certo que para isso necessitava de actividade,
    de economia e de intelligencia; mas favorecer taes dotes não seria uma
    das menores vantagens da abolição.

    Se a facil divisão do solo tem em geral uma grande importancia economica
    e social; se a tem egualmente a facil transmissão pelos contratos de
    compra e venda; os vinculos, contradizendo completamente esses dois
    factos, devem cessar de existir.

    Taes são as considerações principaes que se offerecem ou podem offerecer
    para se abolir esta forma especial de propriedade. Os seus defensores
    recorrem não raro a subterfugios e a razões insignificantes. Ha todavia
    algumas considerações que parecem favorecer os vinculos. Contrapol-as às
    allegações em contrario é mostrar que se busca sinceramente a verdade.

    O direito de propriedade é virtualmente atacado na abolição dos
    vinculos. O instituidor de qualquer d'elles estabeleceu-o em bens seus
    inteiramente livres, e sem offensa das leis de successão. Se elle tinha
    o direito de testar esses bens, tinha tambem o direito de regular o modo
    de succeder, de limitar e impôr condições á fruição do que era seu.

    Nas monarchias representativas considera-se a existencia das
    aristocracias como um facto social legitimo. Pelas instituições esse
    facto é convertido em principio politico manifestado no pariato: ou,
    antes, o facto indestructivel da desegualdade social é circumscripto por
    aquellas instituições dentro da orbita politica, ficando ao mesmo tempo
    excluido das relações civis legaes. Desde que, porém, a aristocracia,
    representante da desegualdade, é considerada como elemento politico,
    torna-se necessario garantil-a. Os vinculos, destinados a manter e
    perpetuar as familias aristocraticas, estão portanto essencialmente
    ligados á existencia da monarchia representativa.

    A divisão indefinita do solo tem os inconvenientes que a França, onde as
    instituições de direito publico e de direito civil a favorecem
    excessivamente, já experimenta em larga escala. A idéa de allodialidade
    absoluta da terra, e de favor para a subdivisão contínua da propriedade,
    prevalecendo entre nós no commum dos espiritos, e manifestando-se já nas
    tendencias de certas leis, ha-de emfim vir a produzir os mesmos males
    que produz em França e em outros paizes, e contra os quaes varios
    estados de Allemanha tratam de prevenir-se por via de leis positivas e
    terminantes. A existencia dos morgados estabelece uma compensação a
    similhantes tendencias, e equilibra a grande e a pequena propriedade.

    Suppondo, porém, que em geral a grande propriedade prepondere hoje;
    suppondo ainda que a parte allodial d'ella se não transforme pelo
    decurso do tempo, e que resista ás tendencias e leis que favorecem a
    divisão do solo; nem ainda assim os vinculos devem ser abolidos por
    manterem a grande propriedade. Esta não pode ser considerada como um
    inconveniente, visto parecer demonstrado que a grande cultura produz
    mais barato, que dá em resultado maior producto liquido, e que não ha
    grande cultura sem vasta propriedade. Deduzir da situação accidental dos
    vinculos, situação que ainda se não examinou se podia ser melhorada,
    argumentos contra a essencia de uma instituição, que pode contribuir
    para a creação de importantes valores, parece pessima logica e ainda
    peior economia politica.

    Na hypothese, porém, de que a propriedade perfeitamente livre tenda sem
    remedio a subdividir-se indefinidamente, opinião que tem por si os
    factos e as previsões de distinctos economistas, abolidos os vinculos,
    que é o que fica para satisfazer á necessidade economica da existencia
    de grandes predios ruraes?

    A centralisação é o grande defeito dos governos representativos:
    centralisação da soberania; centralisação da administração pelo
    executivo; centralisação da justiça; centralisação da força publica. Mas
    todos os poderes centraes tendem a destruir a independencia ou a acção
    uns dos outros e a elevar-se acima d'elles. Não raro acontece isto, e a
    experiencia ensina-nos que por via de regra é o executivo quem triumpha,
    sobre tudo pelos meios de corrupção, triumpho tanto mais perigoso,
    quanto é certo que se mantem de ordinario as apparencias
    constitucionaes, e que esse absolutismo é mais facil de sentir do que de
    demonstrar quando acata certas formulas tornadas estereis. A força dos
    agentes administrativos é, n'esta hypothese, immensa; porque se
    multiplica de um modo incalculavel a energia da centralisação já d'antes
    exaggerada. Abolindo-se os morgados e capellas, e destruindo-se por esse
    modo a grande propriedade e as influencias dos nomes historicos, não se
    faz mais do que remover obstaculos ás demasias dos delegados do poder
    central. O _cavalheiro de provincia_, essa entidade com recursos
    materiaes e moraes para contrastar a autocracia do funccionalismo,
    cessará de existir. Retalhados os predios allodiaes pelas heranças, os
    morgados seriam o ultimo e unico refugio da resistencia legal ao
    despotismo da centralisação administrativa.

    Ainda outros argumentos a favor da manutenção dos vinculos se costumam
    deduzir de certa ordem de considerações moraes. Tal é a difficuldade de
    os abolir sem offender direitos adquiridos ou as regras da equidade. Mas
    tambem os adversarios dos vinculos vão buscar nessa mesma ordem de idéas
    considerações que se oppõem á sua conservação. Subsequentemente teremos
    de avaliar alguns d'esses encontrados argumentos quando a successão das
    idéas nol-os suggerir. Aqui só quizemos indicar as ponderações mais
    graves que mutuamente se contrapõem sobre um problema, de cuja solução
    pendem muitos interesses, não só geraes mas tambem particulares, e em
    que por isso as exaggerações e argucias são frequentes e é difficil a
    imparcialidade.

    Basta porém attender ás considerações principaes para se conhecer que a
    sua confirmação ou refutação dependem do modo de resolver os mais serios
    problemas sociaes, taes como a indole e fins das aristocracias nas
    sociedades modernas, a organisação do poder central, e o equilibrio
    politico pela descentralisação administrativa, as vantagens e os
    inconvenientes da grande e da pequena propriedade, da grande e da
    pequena cultura, as leis que determinam o augmento da riqueza publica,
    tudo, emfim, quanto mais intimamente se liga com o progresso material e
    moral do paiz. Importa ter idéas claras ácerca d'esses graves assumptos
    para dar um voto sobre a questão dos morgados. Sem isto os instinctos ou
    os interesses de classe, de partido ou de individuos influirão
    exclusivamente na abolição ou não abolição, e, supposta a primeira
    hypothese, nas disposições da lei por que forem abolidos.

    IV

    *O principio vincular considerado na sua legitimidade*

    A primeira consideração que parece favorecer a conservação dos vinculos
    é de ordem juridica; liga-se com a maxima questão social–o direito de
    propriedade. O commum dos morgados em Portugal foram instituidos em
    terças, de que os instituidores podiam livremente dispor; e quando, com
    licença do rei, então arbitro supremo, abrangiam os bens de legitima,
    resalvavam-se os alimentos, a que se entendia terem jus os filhos por
    direito natural, que ao rei não era licito infringir. Os instituidos,
    com permissão regia, em bens de corôa, em commendas, etc., ou fundados
    por individuos sem herdeiros forçados, é evidente que não offendiam
    direito algum particular, e que o instituidor não fazia senão practicar
    um acto legitimo, dando esse futuro destino a bens que podia livremente
    testar, ou de que a auctoridade suprema lhe consentia dispor para esse
    fim como de cousa propria. Assim a abolição, destruindo a fórma e
    condições impostas na transmissão da propriedade pelo proprietario,
    negaria retroactivamente o uso de um direito legitimo. A lei pode
    prohibir as novas instituições vinculares; mas não pode converter o
    administrador em proprietario, nem regular a successão dos bens de
    vinculo pelo direito commum.

    Na verdade os instituidores de morgados tinham o direito de transmittir
    a propriedade de que livremente podiam dispor com as condições que
    entendessem; mas as consequencias que d'ahi se deduzem estão longe de
    serem incontestaveis. Se admittis a doutrina que apenas estriba o
    direito de propriedade nas leis positivas, é evidente que ellas podem
    modificar, restringir e até annullar esse direito. Se, com mais razão,
    considerais a propriedade como de direito natural, ainda assim as
    difficuldades subsistem. As opiniões variam ácerca da extensão d'esse
    direito. Ha quem negue que a successão testamentaria e _ab intestato_ se
    inclua n'elle; não seja de pura instituição civil: ou, por outra, que o
    direito de propriedade possa subsistir além do tumulo. O acto, porém, de
    instituir um vinculo não é mais do que levar o exercicio d'esse direito
    não só além da morte, mas tambem á perpetuidade. Supponhamos, todavia,
    que a successão esteja envolvida no direito natural da familia. Não se
    comprehende melhor como a successão vincular se haja de fundar em tal
    direito. Que é o que transmittiu o instituidor? Apenas uma parte do
    dominio. Nenhum dos seus herdeiros tem o dominio absoluto dos bens do
    vinculo: o que tem é, digamos assim, apenas meia propriedade. Resulta
    d'aqui um facto. Pela nossa jurisprudencia os morgados extinguem-se: e
    esta extincção dimana da sua natureza. Quando ao ultimo administrador
    não restam parentes consanguineos, que tambem por consanguinidade o
    sejam do instituidor, o morgado acabou. Os bens vinculados devolvem-se
    então á corôa, á fazenda publica, á sociedade. Por mais intimos que
    sejam os laços de familia que unam o derradeiro possuidor com outros
    individuos, esses individuos são excluidos. Comtudo a legitimidade da
    successão nos vinculos, como em outra qualquer propriedade, estriba-se
    forçosamente ou na lei civil revogavel, ou no direito natural da
    familia. N'esta ultima hypothese o vinculo repugna ao principio da sua
    propria validade. Porque veiu a succeder o Estado? O dominio residia
    n'elle? Dir-se-hia que sim. A idéa de semi-propriedade é uma idéa de
    restricção, limitativa: cumpre por isso que exista a cousa restringida,
    limitada. Concebe-se, por exemplo, perfeitamente o usofructo nos bens
    não vinculados: após o usofructuario ha sempre um herdeiro definitivo.
    Nos morgados não acontece assim. Existe á limitação sem a cousa
    limitada, se não suppozermos o Estado revestido d'aquelle dominio que
    não existe no possuidor. Em relação, pois, ao direito natural da
    propriedade a existencia dos vinculos é uma cousa incoherente,
    contradictoria, inexplicavel.

    Mas ha uma consideração ainda mais grave a oppor áquelles que invocam os
    fundamentos do direito em favor d'essa instituição. É que, para
    subsistir, ella carece absolutamente das leis de privilegio. A sociedade
    deve proteger o livre uso da propriedade e as disposições testamentarias
    em quanto ellas se conformam com o direito commum. Lei de excepção para
    taes ou taes hypotheses é que não deve nem pode admittir senão por um
    motivo que virtualmente o faça entrar na regra geral–a utilidade
    publica; e a utilidade publica só pode qualificar-se por uma declaração
    legal, por uma disposição de direito positivo. Declarada não util a
    existencia dos vinculos, o direito politico faz desapparecer
    necessariamente desde logo as leis que mantêm os vinculos. Revogadas
    estas, como se não pode conceber propriedade sem proprietario, ou o
    dominio completo dos bens de morgado será considerado como _nullius_ e
    recahirá no Estado, ou esse dominio se incorporará no meio dominio,
    convertendo-se o administrador em proprietario. Seria, com effeito,
    absurdo que qualquer individuo tivesse o direito de regular a applicação
    e uso dos proprios bens _post mortem_ por tal arte que não se houvesse
    de realisar a sua vontade sem certas disposições especiaes de direito
    positivo, e que a sociedade fosse constrangida a promulgar ou a manter
    semelhantes disposições. A soberania de tal homem excederia a da razão
    publica, unica de legitimidade indubitavel.

    A abolição, pois, dos vinculos, ou, para falarmos mais exactamente, a
    revogação das leis positivas que os protegem, e sem as quaes a sua
    existencia não se comprehende, respeita o direito de propriedade. A
    questão pode versar sobre a conveniencia ou não conveniencia do
    principio vincular, e sobre a maneira da abolição ou da conservação, mas
    nunca sobre o direito que o paiz tem de retirar o seu apoio a esta
    antiga instituição.

    Tirada, porém, a base de um direito primitivo e indestructivel, os
    defensores dos morgados appellam para o direito politico. A monarchia
    representativa consagra o principio da desegualdade social, fazendo-a
    representar pela aristocracia de berço, cuja conservação forçada deriva
    da indole do pariato hereditario. Exigindo-se para este, além de outras
    habilitações, uma renda avultada, importa que as instituições e as leis
    mantenham a perpetuidade d'essa renda, em harmonia com as que consagram
    a perpetuidade das funcções. A permanencia dos vinculos assegura esse
    resultado, ao passo que a sua abolição importa a não existencia do
    pariato hereditario.

    A lei politica estabelece o pariato hereditario e o vitalicio; mas nem
    determina a proporção de um ou de outro, nem, rigorosamente, exige a
    existencia simultanea de ambos. Não a exige, porque seria absurda essa
    exigencia. Sem as leis organicas e com a Carta na mão, o rei poderia
    substituir o par fallecido sem herdeiro que o representasse por um par
    vitalicio. Esta hypothese verificada em vinte ou trinta casos teria
    acabado com o pariato hereditario. Vice-versa o rei poderia deixar de
    supprir os logares vagos por morte dos pares vitalicios, ou tornal-os
    hereditarios e acabar assim com a não hereditariedade.

    A lei de 11 de abril de 1845, exigindo, além de outras habilitações, uma
    certa renda ao individuo que succede no pariato, levou em mira a
    manutenção da dignidade e independencia dos membros da camara alta. Ora
    essas condições não podem verificar-se com uma renda imaginaria: é
    preciso que esta seja real e effectiva. Mas são justamente os vinculos
    que menos asseguram a realidade e effectividade de semelhante renda, e
    que ao mesmo tempo offerecem mais meios para ser sophismada a letra e
    desmentido o espirito da lei. O mau administrador de morgado (e a regra
    é ser mau administrador do fundo quem não passa de pouco mais de
    usufructuario) pode reduzir-se a si proprio á miseria dentro de um ou
    dous annos, e perder a independencia e a dignidade que a lei requer
    n'elle: pode, até, transmittir ao seu successor a propria miseria,
    porque são vulgarmente sabidos os alvitres de que usa o capital, ou, se
    quizerem, a agiotagem, para illudir o principio da immunidade vincular.
    Na apparencia, porém, a renda exigida pela lei continua a subsistir: o
    fundo não desapparece: o administrador actual lá possue nominalmente
    _uma casa_ de quatro, seis ou oito contos de réis. Na verdade hoje não
    tem que almoçar, ámanhã não terá que jantar; ao seu successor acontecerá
    o mesmo; mas que importa? A letra da lei está salva: o que se annullou
    completamente foi o seu intuito, o seu espirito, a razão que a
    sanctificava. Se os bens do par fossem sujeitos á lei commum, este facto
    servir-lhe-hia de poderoso incentivo para ser um cidadão economico,
    activo e bem morigerado; porque a manutenção da dignidade de par, em si
    e n'aquelle que houvesse de succeder-lhe, dependeria d'essas virtudes,
    virtudes que aliás não deixariam de influir nas suas opiniões e no seu
    procedimento politico, e de reverterem em beneficio da republica.

    Mas admittamos por um momento que o pariato hereditario seja inseparavel
    da existencia dos vinculos. Não se segue d'ahi a necessidade de os
    conservar. É facil reformar o artigo constitucional que consagra
    simultaneamente a hereditariedade e o vitalicio no pariato, reduzindo-o
    a esta ultima fórmula. Se a abolição dos vinculos involve um grande
    interesse social, a solução mais razoavel será a suppressão da
    hereditariedade do pariato, suppressão que em nosso modo de ver
    representaria um verdadeiro progresso na organisação politica, acabando
    com uma idéa falsa.

    Esta idéa, na qual se estriba o pariato por successão, é a de que a
    aristocracia, elemento politico, é forçadamente o mesmo que a
    aristocracia de linhagem: ou, por outra, que o facto indestructivel da
    desegualdade humana se ha de manifestar eterna e quasi exclusivamente na
    fórmula dos tempos feudaes.

    É uma opinião que vale a pena de se examinar.

    V

    *Desegualdade e personalidade*

    A desegualdade natural entre os homens tem sido negada de um modo
    absoluto nos tempos modernos: tem-se empregado todas as subtilezas da
    philosophia do direito para demonstrar a possibilidade de destruir um
    facto indestructivel. Tudo nasce, em nosso entender, de se confundirem
    as idéas de diversa ordem.

    A egualdade civil não é só possivel, é necessaria. Deriva do direito
    natural que cada um tem de desenvolver a sua actividade até onde não
    impede a desenvolução da actividade alheia. Esse direito suppõe deveres
    correlativos. A sociedade existe para manter aquelle e estes. É por isso
    que o estado social é inseparavel da humanidade, e que o homem da
    natureza, sonhado por alguns philosophos do seculo passado como anterior
    á sociedade, não passa de uma chimera. Um simples exemplo fará sentir
    melhor esta incontestavel doutrina do que longas dissertações. O que,
    trabalhando, deu valor a um tracto de terra desoccupado e inculto e o
    fez fructificar, desenvolveu legitimamente a propria actividade. Se
    outrem quizer colher os fructos ou substituir-se ao primeiro occupador
    do campo agricultado exorbitará da esphera legitima da propria
    actividade, e deixará de cumprir o dever de respeitar a livre acção
    alheia. N'este exemplo se resumem e symbolisam as infinitas relações
    civis que a sociedade mantém e que correspondem ás idéas de egualdade.
    As instituições que asseguram o livre movimento do individuo dentro da
    esphera da propria acção, sejam quaes forem, são instituições de
    liberdade, porque mantém a egualdade civil.

    Mas a egualdade civil importa a desegualdade social. Outro exemplo
    tornará tambem evidente esta doutrina. Se em campina illimitada e
    fertil, mas sem dono e inculta, dous individuos occuparam dous tractos
    de terra diversos, e um d'elles dotado de maiores forças physicas, de
    melhores instrumentos, de maior energia e actividade, assignalou mais
    extensa área aos proprios esforços e accumulou maior somma de trabalho
    intelligente, e por consequencia maior somma de productos, nem por isso
    o menos forte e menos habil pode queixar-se de que elle penetrou na sua
    esphera de legitima actividade. Se pretendesse que a sociedade
    repartisse com elle uma parte dos valores creados pelo seu vizinho,
    pretenderia uma injustiça–a quebra da egualdade civil. Por outro lado,
    se o mais robusto e intelligente, pretextando a incapacidade relativa,
    physica e moral, do menos energico e menos habil, pretendesse
    apoderar-se da terra e dos instrumentos do pequeno cultivador, a
    sociedade seria injusta se lhe désse razão; se tolerasse que elle
    estendesse a esphera da propria actividade até penetrar na esphera da
    acção alheia: toleraria a quebra da egualdade civil, se não mantivesse
    cada qual na orbita que lhe fôra assignalada pelo supremo direito da
    natureza.

    Se a manutenção, porém, do livre exercicio da actividade dos vizinhos
    era n'este caso equivalente á manutenção da egualdade e da justiça, as
    consequencias que derivassem d'esse facto, e só d'elle, seriam tambem
    incontroversamente legitimas. Ora uma d'ellas, a mais importante, havia
    de ser forçosamente a desegualdade social; a desegualdade d'aquellas
    relações cujas normas se estabelecem, em parte, pelas regras a que
    chamamos direito publico, direito que a razão e a historia nos
    apresentam como mais cambiante, menos conforme no espaço, e menos
    permanente no tempo, do que as regras das relações civis. A desegualdade
    social dos dois vizinhos manifestar-se-ia em muitos factos
    impreteriveis. O que por excesso de energia e de trabalho tivesse obtido
    melhores, mais numerosos, e mais variados productos, gosaria mais, e
    necessariamente, pela intelligencia e pelos recursos materiaes,
    exerceria maior influxo no animo dos outros homens. A sua generosidade
    fora mais ampla, a sua hospitalidade mais opulenta, o seu tracto mais
    aprazivel, a sua opinião mais seguida: isto é, elle seria socialmente um
    algarismo em relação ao qual o seu vizinho representaria outro bem
    inferior. E todavia a desegualdade nascida da egualdade não offenderia o
    direito, não seria senão justiça.

    O arroteador do grande predio é o symbolo da aristocracia: como emanação
    do direito fundamental que virtualmente a gera é que esta se absolve e
    legitíma. Mas d'ahi nasce o corollario de que ella é essencialmente
    individual, personalissima. A desegualdade não é de gerações, de
    linhagens predestinadas: é de individuos. Por isso as suas manifestações
    collectivas, para serem naturaes e logicas, devem ter ao mesmo tempo o
    sello da individualidade. A aristocracia, como entidade real, é uma
    concreção necessaria, mas artificial; é a generalisação da idéa das
    desegualdades individuaes; é a incorporação das maximas forças sociaes;
    é o reconhecimento e a organisação de um facto impreterivel.

    Na verdade, superioridade social herdada e derivando do direito natural
    da familia pode em alguns casos ser legitima; mas é accidental, e vem
    entrar em ultima analyse na regra da superioridade individual. Se o pae,
    que era um membro da aristocracia pela sua riqueza, a legar ao filho,
    este o será como seu pae, independentemente de todas as instituições
    positivas, do mesmo modo que deixará de o ser na realidade desde o dia
    em que perder essa herança, sejam quaes forem as leis que pretendam
    manter-lhe um caracter social que lhe desappareceu da fronte.

    A fórma por que adquiriu os valores, que o convertem em uma força de
    excepção, nada importa, uma vez que seja legitima. É indifferente que
    lh'os désse o trabalho, a intelligencia ou o berço. O importante, o
    indispensavel é que elle actualmente os possua: que exista um facto que
    a força bruta pode destruir, mas que a razão publica não pode deixar de
    reconhecer.

    O influxo moral de um nome illustre, herdado de antepassados, é tambem
    uma força social. Esse influxo constitue a nobreza, a qual, não sendo em
    rigor um facto indestructivel, é todavia uma realidade. A democracia,
    quando o condemna ou o nega, engana-se. O valor da _aristocracia de
    sangue_ assenta n'uma ordem de idéas extranha ao direito; procede do
    sentimento, digamos assim, poetico das sociedades, porque todas as
    sociedades tem a sua poesia. A esta luz nada mais legitimo do que a
    fidalguia; porque o senso esthetico é uma condição natural das
    sociedades civilisadas, e o orgulho pelas tradições gloriosas do passado
    constitue uma parte da sua vida moral. A nobreza de linhagem é um
    monumento do passado. Os que pretendem expungil-a da lista das
    manifestações da vida social devem por maioria de razão mandar destruir
    os tumulos dos heroes e dos sabios, e dispersar-lhes as cinzas ao vento,
    quebrar-lhes os bustos e as estatuas, arrazar os templos, os obeliscos,
    os monumentos, sejam quaes forem, que ligam as glorias do passado ao
    presente pelas recordações. Aquelle que affirma ser coisa absolutamente
    van a herança de um grande nome, não chame vandalo ao que derriba a
    quadrella da muralha ou a torre do castello antigo para calçar as ruas.
    Este não faz mais do que elle: nega a significação dos monumentos; nega
    tudo aquillo que só a poesia nacional sanctifica. N'este systema a unica
    maneira de ser rigorosamente logico é ir até aonde foi a revolução
    franceza de 1793. É necessario que ao lado das pedras, que desabam,
    rolem pelo chão as cabeças.

    O facto social, em que se estriba a aristocracia de linhagem, está,
    porém, ligado a uma condição que forçadamente dá a esta o mesmo caracter
    de personalidade, que é indelevel nas outras especies de aristocracia.
    Essa condição deriva do principio de que o poetico é inseparavel do
    moral, o bello do bom. Ora o que se eleva acima dos outros, porque
    herdou um nome venerado pela opinião, está adstricto a respeitar a
    moralidade dos seus actos para não perder essa _força_ herdada, que não
    póde existir sem a sua condição philosophica. Esta doutrina é confirmada
    plenamente pela observação practica. Os netos degenerados dos homens
    grandes, se os depojardes de todas as distincções facticias que servem
    de encobrir o vicio e a incapacidade, invocarão debalde o nome de seus
    avós como uma _desegualdade_, uma _força_, que os eleva _socialmente_
    acima d'aquelles que _civilmente_ são seus iguaes. O sentimento moral,
    que exteriormente se traduzia em consideração e respeito, desappareceu
    ao passo que a lei esthetica se annullou. Assim a nobreza hereditaria,
    dependendo inteiramente da acção do individuo, entra na lei geral da
    aristocracia–a personalidade.

    O erro dos escriptores democraticos, que entendem ser possivel a
    destruição _effectiva_ de uma classe aristocratica, procede de
    confundirem a fidalguia hereditaria com a do corpo aristocratico; de
    tomarem a especie pelo genero. É possivel que a especie chegue a
    desapparecer temporariamente, ou por degeneração moral dos individuos
    que representam as velhas linhagens, ou pela extincção d'estas; mas o
    tempo sanctificará as novas illustrações que se alevantam, e em quanto
    as nações tiverem o sentimento do bom e do bello, isto é, em quanto
    tiverem uma condição sem a qual não podem existir, a progenie d'esses
    homens summos herdará a força moral de seus nomes, e só a perderá
    destruindo-a pela _villania_ pessoal.

    Mas extincta ou existente, brilhante ou obumbrada, a fidalguia não é uma
    formula essencial da aristocracia. Para ser revalidado o protesto da
    desegualdade social em todas as gerações, não é necessaria a assignatura
    das castas; não é preciso que esse protesto seja firmado com sellos
    blasonados. O genero fica, embora a especie desappareça.

    Reflectiram bem os que dizem que as sociedades caminham á completa
    egualdade democratica, porque se facilita o caminho das mais elevadas
    situações, das mais poderosas influencias, a todas as vontades
    energicas, a todos os talentos fecundos, e porque, do fastigio das
    grandezas e do poderio, familias e individuos caem facilmente na
    obscuridade e na impotencia social? Esta observação, que muitos julgam
    profunda, não passa de uma trivialidade sem alcance. A questão é se esse
    fastigio, esse poderio, essas influencias, essas manifestações, em
    summa, da desegualdade humana desappareceram; se podem desapparecer ou
    se ha sempre, ou não ha, sujeitos em quem ellas se personalisem; se,
    collocados em situação identica e tendo interesses communs, elles
    constituem ou não uma entidade moral juxtaposta ou sobreposta á
    democracia. Eis a questão. Que importa se a preeminencia do individuo se
    explica por um testamento, por um berço, pelo genio, pelo trabalho, ou
    por um acaso feliz? Seja qual for a origem d'essa preeminencia, d'essa
    força, a sociedade pode negal-a, combatel-a, annullal-a temporariamente;
    o que não pode é impedir a sua reproducção. A desegualdade é a lei: a
    aristocracia a sua manifestação indestructivel.

    No mosaismo e no brahmismo o sacerdocio foi e é a herança de tribus ou
    de castas privilegiadas; no christianismo, porém, o sacerdocio acceitou
    sempre homens de todas as condições e hierarchias. Desde a dignidade do
    metropolita até ás humildes funcções do ostiario, que situação houve ou
    ha na igreja, a que igualmente não houvessem ou não hajam de ser
    chamados o nobre, o burguez, o filho da plebe? E todavia o clero foi por
    seculos a mais poderosa aristocracia conhecida. As tradições de
    influencia e predominio do corpo ecclesiastico perderam-se, alteraram-se
    acaso, porque não era a hereditariedade do berço que as mantinha? Não
    era e não é o corpo do clero a negação da familia, e por consequencia da
    hereditariedade? Houve nunca, especialmente durante a idade media, uma
    classe social mais compacta, mais distincta das outras, com interesses
    mais exclusivos, com uma acção collectiva mais irresistivel e incessante
    na vida das nações? O clero que combatia nos campos, nas conspirações, e
    nos parlamentos contra o poder central; que não raro o fazia ceder, e
    que o esmagava algumas vezes, valia bem mais do que essa fidalguia
    hereditaria dos ultimos seculos, que vivia das migalhas distribuidas
    pela côroa, e que, sem iniciativa nem vigor, comprava com genuflexões
    nos paços do rei a altanaria que ostentava nas ruas e praças do povo.

    Parece-nos evidente que a aristocracia, ao passo que é indestructivel
    como elemento social, é no concreto e em relação aos individuos
    essencialmente pessoal e por consequencia movel. Assim, na sua
    manifestação politica, não pode perder esse caracter que lhe é
    essencial.

    Pouco tardará a epocha em que a razão triumphe das preoccupações, a
    realidade de hoje das tradições de uma sociedade que deixou de existir.
    O pariato deve tornar-se em breve simplesmente vitalicio e talvez
    amissivel. Dado e não concedido que a existencia dos vinculos fosse uma
    condição impreterivel do pariato hereditario, a abolição d'elles não
    faria senão apressar n'esta parte convenientemente a reforma das
    instituições politicas.

    VI

    *Os vinculos garantia de liberdade*

    Demonstrado, como parece, que nem na abrogação do direito vincular se
    offende principio algum de justiça absoluta, nem a manifestação politica
    das desegualdades sociaes está ligada á existencia dos vinculos, antes
    de entrar nas difficeis questões economicas que este debate suscita,
    passemos a examinar o que ha mais grave nas objecções politicas que se
    offerecem contra a abolição d'esta fórma especial de propriedade. As
    considerações sobre as resistencias, que uma aristocracia territorial
    permanente e hereditaria pode oppôr ás demasias de um poder central
    excessivamente forte, parecem-nos fundadas, e nunca se poderão
    desprezar, em quanto o nosso systema administrativo fôr, como é, uma
    copia, mais ou menos mal delineada, do systema administrativo da França.
    Na verdade hoje a unica resistencia séria, que os abusos do executivo e
    dos seus delegados podem encontrar em certas provincias, é a d'essa
    especie de aristocracia rural, que vulgarmente se designa pelo nome de
    _cavalheiros_. A illustração e a riqueza, não excessiva mas solida,
    consistindo geralmente em bens territoriaes, pertencem principalmente a
    esta classe nos districtos do norte do reino, onde predomina quasi
    exclusivamente a pequena propriedade. Sem a fundação de municipios assaz
    vastos e poderosos, mas organisados de modo que a vastidão do territorio
    não faça com que a administração se difficulte aos administrados; sem as
    magistraturas municipaes recuperarem a força primitiva que
    successivamente perderam; sem um novo methodo de renovação d'essas
    magistraturas, que mantenha na administração dos concelhos a sequencia e
    unidade de systema e de idéas; sem se lhes restituirem as funcções que
    lhes são proprias e que a centralisação lhes traz alheadas; sem, em
    summa, restaurar a vida municipal, de que resta apenas um vão simulacro;
    o correctivo contra os abusos do poder central só pode consistir nas
    resistencias legaes e pacificas dos individuos que, pelo respeito
    tradicional do povo ao nome da sua familia, pelos recursos materiaes de
    que dispõem, pela maior cultura intellectual, pelos instinctos generosos
    que lhes inspira uma educação mais elevada, constituem um elemento
    poderoso de equilibrio. Quem tem residido nas provincias do norte ou por
    ellas viajado sabe que naquella classe é que principalmente se dão essas
    condições de superioridade individual, que suppre até certo ponto nas
    relações politicas a falta ou o incompleto das instituições locaes.

    É preciso notar aqui um facto, que ao diante havemos de ponderar mais
    detidamente. Os vinculos nas provincias do norte não tem em geral os
    mesmos caracteres que nas provincias do sul: aproximam-se mais, nas suas
    condições economicas, dos bens emphyteuticos, e não é raro achar
    individuos que se denominam morgados e que não passam de possuidores de
    prazos. Tão facil é neste ponto a confusão das cousas pelos accidentes
    externos. Em geral, o vinculo dos districtos do norte ou é instituido em
    uma ou mais propriedades de mediocre grandeza, ou em propriedades e em
    direitos dominicaes. Mas o que em todo o caso se pode affirmar é que as
    grandes fortunas vinculares são raras. Os poucos inconvenientes
    economicos dos vinculos mediocres havemos de avalial-os n'outra parte.
    Para o intuito presente o que importa é attender ás consequencias
    politicas da sua abolição. Ou mediocres em si, ou compostos de diversas
    e pouco vastas propriedades, e de censos e pensões senhoriaes, entrando
    esses vinculos no direito commum, as leis da successão e os accidentes
    da vida, que accumulam ou dissolvem mais rapidamente as pequenas do que
    as grandes fortunas, fariam desapparecer em breve a aristocracia
    provincial, e por conseguinte um poderoso elemento de resistencia ás
    demasias da auctoridade central, e uma importante garantia de liberdade.

    Mas, dir-se-ha, assim como a desvinculação, o livre movimento da
    propriedade, produziria a dissolução das fortunas e das familias
    patricias, tambem esse movimento elevaria, como já eleva, outras
    familias, crearia, como já cria, outras fortunas, e uma especie de
    aristocracia movel e pessoal substituiria a hereditaria como elemento de
    resistencia e equilibrio. Em these a resposta é concludente: o que não
    tem é applicação á hypothese.

    'Nesta, o argumento a favor dos vinculos estriba-se em factos
    transitorios e especiaes, factos que só o tempo e os progressos sempre
    lentos da civilisação moral e material podem destruir. De certo os
    vinculos não são de um modo absoluto obstaculo ás demasias do poder
    nesta especie de organisação plethorica, de apoplexia administrativa
    eminente em que vivemos. São-no relativamente. A restauração da vida
    municipal, a descentralisação bem caracterisada; seria o remedio natural
    e completo contra os excessos do executivo. Com elle, não só a
    aristocracia permanente e hereditaria, mas tambem a individual e movel
    seriam inuteis como obstaculos ou instrumentos de equilibrio. Mas
    tracta-se do presente, e no presente as condições da nossa sociedade dão
    todo o valor ás considerações politicas em que os defensores dos
    vinculos estribam a manutenção delles.

    A riqueza maior ou menor não basta para que o cidadão saiba, queira e
    possa defender o seu direito ou erguer a voz a favor do opprimido. É
    necessario que a educação o habituasse a uma nobre altivez ou á
    independencia moderada mas firme do homem livre, e que a cultura do
    intendimento o habilitasse para discernir e apreciar os proprios
    direitos e deveres, e os direitos e deveres dos agentes do poder. Ora
    esses dotes, nos districtos da Beira, Traz-os-Montes e Minho, dão-se
    principalmente entre os cavalheiros, que, alem das idéas que lhes
    inculcam na educação domestica, frequentam de ordinario os estudos
    juridicos, e que, ainda abandonando a cultura das letras, não perdem
    nunca, digamos assim, o verniz litterario e as idéas geraes que
    adquiriram na universidade; porque a universidade, com todos os seus
    defeitos, ainda é o foco d'onde irradia a luz da civilisação
    intellectual para a maxima porção do paiz. Os advogados, os
    facultativos, um certo numero de ecclesiasticos, e os administradores de
    vinculos, constituem quasi exclusivamente a classe illustrada das
    provincias sertanejas. Na verdade, o filho de um ou de outro lavrador
    mais abastado, de um ou de outro industrial ou commerciante, recebe a
    educação universitaria, e despido de ambições honra-se de seguir a
    condição paterna; mas o geral d'estes busca na carreira das letras uma
    situação mais elevada ou pelo fôro ou pela medicina ou pelas funcções
    publicas. Os possuidores de direitos territoriaes ou de predios assaz
    consideraveis para não serem obrigados a cultival-os pelas suas proprias
    mãos, e para não procurarem um supprimento de renda pelo exercicio de
    uma profissão scientifica, são quasi unicamente os administradores dos
    vinculos. 'Nelles reside, por tanto, e residirá por muito tempo a
    principal força de resistencia, a quasi unica barreira que encontra uma
    centralisação excessiva.

    Nos districtos sertanejos, nesses tractos do paiz onde vive a maxima
    parte da sua população, só muito excepcionalmente apparecem os grandes
    capitaes monetarios, as grandes industrias, o grande commercio, e, como
    já dissemos, nos do norte até é rara a vasta propriedade. Não ha, por
    consequencia, ahi as poderosas influencias pessoaes que resultam de
    factos puramente economicos. As grandes influencias só podem proceder de
    se darem no mesmo individuo condições de diversa ordem–a superioridade
    da intelligencia, a superioridade da fortuna, a superioridade de um nome
    illustre que o povo está costumado a venerar, e a elevação de animo
    resultado da educação domestica, elevação de que é consectario o valor
    civil indispensavel para defender a liberdade e os outros direitos, ou
    proprios ou dos pequenos e humildes. Com a ruina das familias nobres
    essas influencias salutares desapparecerão quasi completamente, e o
    imperio das portarias e das circulares não achará limites.

    O celebre dr. Johnson, fallando das substituições inglezas, dizia que
    tinham a vantagem de não produzirem senão um tolo em cada familia. O dr.
    Johnson fazia um epigramma de mau gosto, porque era falso. A historia
    diplomatica, militar, naval, administrativa e parlamentar da Inglaterra
    prova que os primogenitos da aristocracia ingleza podem ser tanto homens
    grandes como os segundo-genitos, ou como os filhos da raça puramente
    saxonia. Entre nós o epigramma do dr. Johnson é uma preoccupação
    popular, preoccupação que invade até espiritos que tinham obrigação de
    serem superiores a ella. A idéa da incapacidade dos administradores de
    vinculos é tão verdadeira como a da ignorancia e imbecilidade mental dos
    cistercienses, que não eram nem mais ignorantes nem mais imbecis do que
    outros quaesquer frades. Os que tem visitado os districtos interiores do
    reino sabem por experiencia que é no seio das familias aristocraticas
    onde se encontram mais vestigios do que o antigo caracter portuguez
    tinha generoso, elevado e bom, e onde se acha mais illustração, embora
    misturada com os preconceitos nobiliarios. É nessa categoria que
    predomina uma benevolencia efficaz e real para com as classes
    inferiores, benevolencia muito mais rara entre a duvidosa burguezia
    saída d'essas mesmas classes.

    Esta burguezia das provincias, considerada em geral, está longe por
    emquanto de ser uma forte barreira aos excessos da auctoridade central.
    Os seus destinos politicos tem de ser grandes quando existirem no paiz
    instituições congenitas com a indole das tradições primitivas d'elle;
    quando nos cançarmos de traduzir _ad usum_ administração franceza em
    portuguez bastardo. Por emquanto faltam-lhe os principaes elementos dos
    que constituem a força da opinião e o espirito publico; falta-lhe a
    cultura intellectual, que nos habilita para irmos até ás raias do nosso
    direito sem as ultrapassar; falta-lhe o orgulho da independencia, que
    está principalmente na consciencia e no caracter. Tudo isto tem
    excepções, e excepções notaveis; mas fallamos da regra geral. A
    burguezia mais ou menos opulenta das provincias, e sobretudo dos
    districtos do centro e do norte, forma-se pela pequena industria, pelo
    commercio de retalho, e pelos mediocres grangeios agricolas. Fóra das
    duas cidades mais populosas, as grandes fabricas, as vastas emprezas
    commerciaes, em summa, as applicações de avultados capitaes e a
    existencia d'estes na mão de um individuo, são cousas raras. Mas é acaso
    de esperar d'aquelle, que começou obscura e quasi pobremente a edificar
    uma fortuna modesta pelo trabalho, pela parcimonia, pelos habitos da
    obediencia passiva, quasi da subserviencia, sem educação politica, sem
    educação litteraria, sem idéas geraes, e que depois de vinte ou trinta
    annos de esforços, de prudencia, de abnegação, de sacrificios moraes e
    materiaes, creou uma riqueza, que aliás poderia servir-lhe de esteio, e
    inspirar audacia para manter a dignidade e independencia de cidadão de
    um paiz livre; é de esperar, dizemos, de tal homem que lhe chegue tão
    tarde o sentimento e a convicção profunda do seu direito e o valor
    politico para o fazer respeitar do poder? Que o leitor busque a resposta
    na sua razão, e, ainda melhor, na sua experiencia.

    Para nós é grave, pois, a questão da existencia ou não existencia de uma
    especie de aristocracia provinciana, que tenha, em geral, por titulo da
    sua preponderancia o nome, a educação, e a fortuna, em quanto o
    municipio fôr entre nós pouco mais de que um vão nome, ou de que uma
    tapeçaria das salas administrativas. É grave essa questão, porque são
    ainda graves, ao menos para nós, as questões da liberdade e da dignidade
    humanas. Quando as resistencias d'essa aristocracia aos excessos a que
    tende naturalmente uma centralisação exaggerada fossem demasiado
    egoistas, e nunca servissem de egide ás classes democraticas
    desorganisadas e opprimidas, quereriamos mantel-a como protesto, como
    laço entre as tradições do passado e a organisação do futuro. Se a
    historia serve para alguma cousa, lembremo-nos de que o absolutismo se
    erguia em Portugal á altura de uma instituição quando a um chefe da
    aristocracia do paiz rolava a cabeça pelo cadafalso, e outro cahia
    apunhalado aos pés d'aquelle monarcha, tão caro a uma democracia
    inintelligente, que substituiu a vontade real, como principio politico,
    ao rude esboço de monarchia representativa com que a sociedade
    portugueza vivera e progredira durante mais de tres seculos. Diminuir as
    resistencias individuaes ao absolutismo do executivo, em quanto se não
    criam resistencias collectivas, é um erro profundo. Direitos, que não
    tem força para se traduzirem em factos, são, por nos servirmos de uma
    phrase de Shakespeare, palavras, palavras e mais palavras. São isto, e
    nada mais.

    VII

    *Difficuldades moraes e economicas na abolição dos vinculos*

    Se considerações de ordem politica parece aconselharem a manutenção
    temporaria dos pequenos mas numerosos vinculos das provincias do norte,
    na questão practica da abolição da propriedade vincular suscitam-se
    dificuldades de ordem economica e de ordem moral, que tendem
    indirectamente a manter uma instituição, a qual, absolutamente
    considerada, não tem motivo nenhum racional de existencia. A apreciação
    d'essas difficuldades deve influir nas resoluções que se hajam de tomar
    sobre tão grave assumpto.

    Supponhamos que abolimos os vinculos; que fazemos entrar essa parte de
    propriedade territorial no direito commum; que lançamos esse capital
    immobilisado no vortice das evoluções economicas, fazendo-o mover
    livremente por toda a esphera da sua acção. Foi, em these, um
    melhoramento social importante. Falta o modo practico de conseguir esses
    resultados salutares.

    A lei proclamou que o principio vincular pereceu; que o direito commum
    rege toda a propriedade. Mas não basta proclamar a regra geral: é
    preciso ver o modo de a applicar aos factos.

    Quaes são estes factos?

    Até agora havia certa especie de propriedade, em que uma porção de
    dominio pertencia não sabemos a quem (porque o considerar como
    co-proprietarios os _successores_, entidades contingentes, não passa de
    uma subtileza juridica), e outra porção d'esse dominio, que se confunde
    quasi com o usofructo, pertencia a um individuo chamado administrador de
    morgado. É esta fórmula da propriedade a que deixou de existir.

    O administrador do morgado passou a ser proprietario d'aquillo de que
    era pouco mais que usufructuario: pode hypothecar, doar, vender,
    emprazar, testar, como outro qualquer possuidor de bens allodiaes. Este
    facto, porém, deve forçosamente produzir consequencias juridicas e
    economicas.

    A primeira é para o Estado. O Estado é sempre, ao menos potencialmente,
    um dos successores, mas successor que existe já, que não é uma entidade
    contingente. Extincta a linha chamada pelo instituidor, o herdeiro
    definitivo é o Estado, que não morre, ao passo que as linhas
    successorias vem mais tarde ou mais cedo a extinguir-se. Convertendo o
    vinculo em bens livres, a sociedade despojou-se de um direito em
    beneficio de um homem que não tem motivo nenhum especial para
    beneficiar.

    Os vinculos tem encargos pios, que, ou pela propria instituição ou por
    effeito de providencias legislativas, revertem muitas vezes em beneficio
    de instituições, cuja existencia as doutrinas economicas não podem
    condemnar. Seja qual for a resolução que se tome a este respeito
    abolindo-se os vinculos, ou a propriedade que se quiz fazer allodial
    ficará forçadamente censitica, ou serão espoliados os institutos de
    caridade.

    Embora os jurisconsultos considerem ou não os bens vinculados como
    hypotheca dos alimentos dos irmãos do administrador, o que é certo
    economicamente é que esses alimentos constituem uma renda, e que essa
    renda é representada necessariamente por um capital incluido na somma
    dos bens vinculados, porque as subtilezas juridicas não alteram a
    essencia das cousas. Desvinculados aquelles bens, ficarão as pensões dos
    segundo-genitos consideradas como onus e seguindo os bens atravez de
    todas as phases de venda, emphyteuticação e hypotheca? Qual será o valor
    de troca dos predios gravados por pensões cuja duração é indeterminada?
    Serão os segundo-genitos espoliados dos alimentos para tornar a
    propriedade inteiramente livre?

    Á luz economica, a utilidade real do administrador era poder, em quanto
    vivo, consummir a renda liquida do vinculo, excepto a parte destinada
    aos encargos. Rigorosamente, ao menos em grande numero de hypotheses, as
    pensões dos segundo-genitos representando uma renda e correspondendo a
    um capital estavam no caso da renda fruida pelo administrador. Porque,
    pois, não entregar aos segundo-genitos como allodiaes porções de bens ao
    menos equivalentes ao capital das respectivas pensões? Porque ha-de a
    lei favorecer desegualmente o mais velho convertendo-o só a elle em
    proprietario? Não repugna esse facto a um dos motivos que se invocam
    para a abolição–a desegualdade de direitos entre os irmãos? Desde que a
    lei reconhece que essa desegualdade é uma injustiça pode reservar a
    reparação d'ella para a geração seguinte?

    Mas juncto a este direito ha outro direito antinomico, inconciliavel com
    elle. É o do immediato successor. Salvos os raros casos da lenta
    devolução ao Estado, o vinculo sempre tem um successor immediato, porque
    a successão vai até o millesimo gráu de parentesco. O nascimento deu a
    esse individuo, quem quer que seja, o direito de succeder integralmente
    no morgado, embora onerado com alimentos. Desde que a obrigação de os
    solver cessar, por morte dos pensionistas ou por outra qualquer
    circumstancia, a fruição d'essa parte da renda liquida será sua. Se,
    reduzidos os bens vinculados a allodiaes, uma parte d'esses bens tiver
    passado aos irmãos do antecedente administrador, elle será espoliado do
    seu direito n'essa parte pela lei.

    Estatuindo-se, porém, que a applicação d'esta sómente se verificasse por
    morte do administrador actual, evitar-se-hiam esses inconvenientes? Não
    por certo. O direito do successor existe já durante a vida do
    administrador. Como pois serão partiveis os bens entre elle e seus
    irmãos sem offensa grave do anterior direito, sem uma espoliação? Na
    verdade, em relação á sua legitima elle passa a possuir com pleno
    dominio; mas servir-lhe-ha isso de compensação ao que perde? Estribado
    n'um direito que as leis lhe garantiam, achou-se collocado n'uma
    situação social accorde com os seus futuros recursos. Educação, habitos,
    profissão, relações de familia, tudo foi calculado para elle ou por elle
    á luz d'esse direito. Sem culpa sua, a sociedade retira-lhe, digamos
    assim, a base da sua vida civil. Será isto justo? A lei que proclamou
    como iniqua a indivisibilidade dos vinculos, e que todavia a manteve em
    beneneficio do administrador, no momento em que a morte d'este chama o
    successor a uma situação perfeitamente identica cessa de tolerar a
    iniquidade que tolerou até ahi.

    Removendo o facto da abolição para a epocha da morte do immediato
    successor, uma parte d'estes inconvenientes da ordem moral poderiam
    evitar-se; mas nem se evitariam todos, nem a abrogação do principio
    vincular teria grande importancia. Apenas indicámos aqui uma parte das
    difficuldades que cumpria resolver, conforme á consciencia e á justiça,
    em relação á familia. Muitas se apresentariam ainda quando a
    transformação do direito e do facto houvessem de verificar-se n'uma
    epocha mais remota. Legislar, porém, sobre factos economicos, que só
    poderiam realizar-se depois de quarenta ou cincoenta annos, parece-nos
    absurdo. Suppondo a media da vida humana de 30 annos, e portanto a media
    da vida que resta aos administradores actuaes de 15, pode tambem
    calcular-se a media da extincção de todos os administradores e
    immediatos successores em 45 annos. O que é incalculavel é o progresso
    que terão feito n'este periodo as idéas politicas e economicas, e a
    relação em que estaria uma lei actual de desvinculação com essas idéas e
    com o estado da sociedade: podendo-se affirmar, sem receio de erro, que
    no fim de tão largo periodo uma tal lei seria obsoleta antes de ser
    applicada.

    Depois, a solução da questão dos vinculos é uma instante necessidade.
    Este modo de ser da propriedade, conservado sem modificação, embaraça
    profundamente o progresso economico, ao menos n'uma parte do reino.
    Veremos adiante como a nossa situação exige que se pense attentamente na
    maneira por que a população está distribuida pela superficie do paiz, e
    o movimento que cumpre dar á translação e divisão da propriedade
    rustica. Os vinculos são um grande obstaculo á satisfação d'essa
    necessidade, e o unico modo legal de desvincular a propriedade–a
    subrogação–não corresponde ás exigencias da situação presente, antes a
    contraría como teremos occasião de observar.

    Mas a jurisprudencia que regula as subrogações é sobretudo immoral e
    antieconomica. A subrogacão faz-se, em regra, por inscripcões ou
    apolices de divida fundada, e o que se exige n'esse contracto é o
    equivalente não do capital mas da renda. A renda media da propriedade
    territorial não excede a tres por cento, em quanto a das inscripções é,
    ainda hoje depois de reduzido o juro, de seis a sete por cento, visto
    que o valor nominal das apolices é mais que duplo do seu valor de
    mercado. Assim 47$000 réis em dinheiro, convertidos n'uma apolice de cem
    mil réis, crearão uma renda de 3$000 réis; em quanto, convertidos em
    propriedade territorial, apenas darão 1$410 reis. Trocado por
    inscripções o predio, resta portanto um capital de mais de metade do
    valor d'esse predio, de que o administrador de vinculo parece poder
    livremente dispor. Como, porém, taes actos para serem válidos necessitam
    da acquiescencia do successor do vinculo, cumpre repartir com elle: e se
    o successor é menor, recorre-se não raro á corrupção para obter o
    consentimento dos seus tutores e curadores; porque a subrogação por
    inscripções é sempre para elle um mal. O remanescente divide-se de
    ordinario entre o novo proprietario e o administrador; porque, em regra,
    semelhantes transacções são feitas debaixo da pressão de necessidades
    urgentes: o luxo, o jogo, as devassidões, a miseria são as mais das
    vezes os conselheiros d'estes deploraveis negocios, e a situação mais ou
    menos apurada do possuidor do vinculo determina as deducções mais ou
    menos fortes a favor do capitalista. Raras vezes acontece reverter
    integralmente o agio da transacção em beneficio do primeiro.

    A lei em que se estriba esta especie de contractos não pertence á nossa
    epocha. É o alvará de 13 de maio 1797, que permitte a subrogação por
    apolices. Semelhante meio de aggredir as instituições vinculares não é
    uma transacção entre o passado e o futuro, porque estas podem e devem
    fazer-se quando grandes e radicados interesses se oppõem a uteis
    innovações: é apenas uma astucia indigna de figurar na jurisprudencia de
    nações livres. Se entendeis que não existe outro meio de libertar a
    terra vinculada se não destruindo absolutamente os vinculos, matae-os,
    mas não os _assassineis_. Os expedientes da timidez são os peiores de
    todos. N'este meio capcioso não ha, porém, só isso: ha outros
    inconvenientes não menos graves. É o primeiro o jogo de bolsa, a
    agiotagem dos fundos publicos feita pela lei; é a creação de um elemento
    de falso credito. Milhares de contos de inscripções, procurados
    successivamente no mercado, e procurados para se amortisarem, para não
    voltarem a elle, tem contribuido e contribuem de certo para a elevação
    do preço dos titulos de divida fundada. Mas essa elevação, que em regra
    é um indicio de credito, deixa de o ser n'este caso, porque a procura
    significa, não a confiança, mas a necessidade creada pela lei. Na compra
    pelo capitalista e na venda immediata que este faz ao administrador de
    vinculo a troco da propriedade territorial, ao primeiro não importa o
    que lhe custam os titulos que compra, nem a sua futura depreciação, em
    quanto o segundo, indifferente até certo ponto a isso, visto que só lhe
    interessa a manutenção do juro e a regularidade do pagamento d'este,
    considera como uma vantagem o trocar a propriedade por titulos o mais
    depreciados que for possivel, porque maior será o seu lucro individual
    n'aquella operação, operação que desmente as leis do mercado, por isso
    que é essencialmente viciosa.

    A procura dos fundos publicos, resultado de especulações livres,
    podendo, em resultado de outras especulações, converter-se brevemente em
    offerta, não incita os governos a abusarem do credito; ao passo que a
    procura das apolices para subrogações é um incitamento para novas
    emissões, e portanto um meio de facilitar o augmento da divida do
    Estado. Averbadas nos titulos dos vinculos, essas inscripções
    immobilisaram-se, e o governo pode ir substituindo-as gradualmente com
    diversos pretextos, sem que o mercado se resinta, ao menos de um modo
    facil de appreciar, do augmento da divida publica. Por ventura esse
    unico pensamento explica o alvará de 1797.

    Não são os administradores de moderados vinculos, que os cultivam por si
    proprios em todo ou em parte, e a quem o modico rendimento d'elles
    obriga a viver longe dos grandes centros da população e do luxo, os que
    de ordinario recorrem a estas transacções deploraveis. São, por via de
    regra, os donos de grandes casas, os cortesãos, os titulares, os homens
    para quem os habitos de uma vida dissipada ou luxuaria se converteram em
    segunda natureza, os opulentos possuidores dos vastos predios do sul,
    incapazes não raro de se dedicarem a uma administração complicada e
    trabalhosa, que mal se accommoda com a sua educação; são de ordinario
    estes, quando a desordem dos seus negocios os tem collocado em
    difficuldades insoluveis, que se precipitam na voragem das subrogações.
    Não faltam exemplos de ser o lavrador abastado, o proprio rendeiro do
    predio destinado á subrogação, quem se aproveita das circumstancias para
    se apoderar do solo onde exerce a sua industria. Succede isto quando
    elle casualmente vem, n'uma conjunctura de angustia, tentar com o cumulo
    das suas lentas economias a miseria ostentosa do administrador
    arruinado. 'Nesta hypothese o mal das subrogações é menor. Na verdade
    aquelle capital, accumulado por privações, por honestos e longos
    esforços, seria mais utilmente empregado em augmentar as forças
    productivas do solo; mas ao menos o industrial agricola consolida a
    propriedade com o trabalho, e as novas economias irão d'ahi ávante
    preencher fins mais positivos para a sociedade. É, todavia, commum esta
    hypothese? Não por certo. O desperdicio, o luxo, as noites febris do
    jogo, os affectos de bastidor, as vãs ambições da vaidade, os extravios
    de um sensualismo que a saciedade leva até o delirio; as paixões ruins
    em summa, que arruinam tantas familias das classes mais elevadas, só
    raramente consentem que nos cataclysmos das grandes fortunas vinculares
    aquella hypothese se verifique. É o cabedal monetario do especulador, a
    quem, não sabemos se com justiça, se dá o nome insultuoso de agiota, o
    que vai de ordinario trocar-se pela propriedade territorial. A razão é
    obvia. O capitalista está sempre prompto para empregar dinheiro n'uma
    transacção vantajosa, e elle sabe que o desleixo, a incapacidade, ou os
    vicios dos administradores dos vinculos são campos feracissimos para a
    especulação.

    Mas posto que a abolição completa dos morgados, ainda que fosse em
    virtude de uma lei irreflectida e imprevidente, valesse mais que a
    existencia d'elles com o systema da destruição lenta pelo meio indirecto
    das subrogações, é certo que a abolição traria tambem, em muitos casos,
    ou uma difficuldade insoluvel, ou uma vantagem para os mutuantes de
    capitaes, que não seria menos immoral do que as subrogações, porque
    equivaleria a uma espoliação dos mutuarios. Fallamos do que succederia a
    respeito dos vinculos, cujos administradores contrahiram dividas mais ou
    menos avultadas, ficando hypothecados á divida os rendimentos dos bens
    vinculares durante a vida d'elles, ou d'elles e dos immediatos
    successores, se os ultimos intervieram no contracto com o seu
    assentimento.

    Diz-se que a agiotagem mais infrene preside commummiente a esta especie
    de negocios. Cremos que nisto ha pelo menos exaggeração. De certo que o
    juro de ura emprestimo de tal ordem deve ser avultado; mas pode ser
    avultado sem ser excessivo. Não ha ahi só a renda do capital mutuado: ha
    um juro de risco. É evidente que a restricção legal de passarem livres
    aos successores os bens vinculados pode modificar de mil modos as
    condições do mutuo. Na hypothese de intervir no contracto o immediato
    successor, o risco é menor mas não deixa de ser grandissimo. A garantia
    é dupla, mas egualmente incerta: é a instabilidade de duas vidas em
    logar da de uma. Depois, a idade mais ou menos avançada do administrador
    do vinculo, ou d'este e do successor quando o successor intervem, os
    seus habitos de maior ou menor dissipação, a existencia de outras
    dividas, a deterioração dos bens vinculados e por consequencia a
    diminuição gradativa do rendimento; esses factos e dezenas de outros
    analogos determinam a maior ou menor elevação do juro em contractos que,
    considerados de um modo absoluto, seriam altamente usurarios, mas que as
    poucas probabilidades do pagamento integral talvez plenamente
    justifiquem.

    Mas como se representa esse juro de risco? Uma lei inepta, impotente
    sempre para impedir a usura, e que, taxando o lucro do capital, não
    discrimina as circumstancias que o devem fazer variar, fixa ao dinheiro
    determinado preço para todas as hypotheses. A necessidade, porém, e o
    capital são astutos: o capitalista e o administrador do morgado sabem
    como se illude a lei. O juro de risco representa-se no capital e no juro
    da parte nominal d'este. Quando se recebe uma somma, o contracto
    refere-se ao duplo; a mais ou menos, conforme o valor do dinheiro, a
    gravidade do risco, a necessidade do mutuario e a consciencia do
    mutuante. A transacção, respeitando na apparencia a lei, ludibria-a na
    essencia: sorte de todas as leis civis, que radicalmente contradizem as
    economicas.

    Qual é, porém, a consequencia d'estes factos, que constituem a historia
    da avultadissima divida que grava os vinculos? É que uma parte d'essa
    divida representa apenas um juro e juro de risco. No contracto que lhe
    deu existencia houve um verdadeiro jogo sobre um calculo de
    probabilidades. O capitalista arriscou-se a perder a somma que realmente
    emprestou, recebendo como premio no caso de amortisação o capital
    nominal, além dos juros legaes; a eventualidade d'esse premio
    equilibrou-se portanto com a possibilidade da não amortisação. Entre as
    vantagens e as desvantagens deu-se a mutua compensação.

    Desvinculae, porém, a propriedade vincular e sujeitae-a ao direito
    commum. Em relação ás dividas que pesam sobre ella violaes um contracto,
    irregular na verdade, mas irregular porque as leis que sanctificavam a
    exempção hereditaria dos vinculos, e as que fixavam o juro do
    emprestimo, o tornavam tal forçadamente. Supponde illicitas, criminosas
    as transacções d'esta especie: considerae, se quizerdes, o mutuante como
    usurario e o mutuario como prodigo. A desvinculação pune este e premeia
    aquelle. A divida nominal, escripta no contracto, é uma; a real é outra.
    O mutuante receberá, porém, ou por execução ou por outro qualquer modo,
    o valor expresso. O que terá desapparecido é a desvantagem do risco.

    A iniquidade é flagrante, e tem-se reconhecido que o é. Como meio de a
    evitar lembram-se varios arbitrios para restringir a acção do credor
    sobre os bens desvinculados. De todos esses arbitrios o mais simples e o
    que parece mais justo e exequivel é o de considerar taes bens como ainda
    vinculados em relação ás dividas contrahidas, limitando-se o direito do
    credor á percepção da renda, durante a vida d'aquelle ou d'aquelles que
    contrahiram o encargo, se n'este periodo não se verificar a amortisacão
    completa. Mas qual será o resultado d'esta nova situação d'aquella
    especie de propriedade? A quasi impossibilidade da alienação. Ninguem
    compraria um predio cuja renda está hypothecada por um periodo
    indeterminado (e a que, portanto, não se pode fixar o valor) senão por
    um preço infimo, que salvasse todas as eventualidades, e que o vendedor
    não acceitaria. A transacção só poderá effeituar-se com o proprio
    credor; mas este, certo de que é impossivel a competencia, ha-de levar
    as suas pretensões até onde chegar a possibilidade de se realisarem as
    vantagens que aliás lhe dá o proprio direito. Assim a transacção tem de
    ser forçosamente lesiva para o vendedor; lesiva a ponto de impedir a
    alienação, ou de se realisar a expoliação que se pretendera evitar.

    A consequencia ordinaria de tal arbitrio seria, pois, a immobilidade dos
    bens ainda depois de desvinculados; ou, por outra, a desvinculação pelo
    que respeita aos grandes morgados, sobre cujos redditos pesam
    avultadissimos encargos e que são os mais numerosos, não alteraria as
    principaes condições da sua existencia actual que justificam a abolição.
    O livre movimento do dominio territorial, a subdivisão da propriedade, o
    desenvolvimento da população e da cultura, o augmento das sizas; tudo
    isso ficaria, em regra, suspenso até á morte dos individuos pessoalmente
    responsaveis pelas dividas. É outra vez o adiamento, que parece
    tornar-se inevitavel desde que, partindo da idéa da abolição absoluta,
    se pretende legislar sobre a propriedade privilegiada, na qual o
    interesse publico exige modificações immediatas.

    VIII

    *Os vinculos considerados em relação á grande e á pequena propriedade, á
    grande e á pequena cultura*

    Antes de debater em relação a Portugal uma questão ventilada com ardor
    na Europa ha mais de um seculo, a da grande e da pequena propriedade,
    consideremol-a successivamente como resolvida em favor de um e de outro
    systema, e indaguemos que influencia possa exercer no predominio de um
    ou de outro a conservação ou a abolição dos vinculos. Vendo-os a esta
    luz, os que defendem a sua manutenção presuppõem a grande propriedade
    como ligada á grande cultura, e a grande cultura como preferivel á
    pequena. Os que sustentam a abolição presuppõem vantajosa a divisão
    indefinita da propriedade, embora acompanhada da pequena cultura, que em
    regra é a consequencia da subdivisão illimitada do solo, e ácerca de
    cujas vantagens variam as opiniões d'aquelles mesmos que mais
    ardentemente desejam a suppressão de todas as instituições tendentes a
    impedir a livre divisão do solo.

    Os que, preferindo os vastos predios e a grande lavoura aos pequenos
    casaes, cuja cultura principalmente se caracterisa pelo trabalho braçal,
    vêem nos vinculos um meio poderoso de manter o systema agricola que
    suppõem mais vantajoso, podem acaso invocar em seu abono os factos?
    Podem invocal-os os que pensam de modo contrario? Comecemos pelos
    exemplos do nosso paiz, que são os primeiros que nos importa estudar.

    Já n'outra parte nos referimos á differença profunda que se dá entre os
    vinculos das provincias septemtrionaes e os das provincias meridionaes
    do reino. Nos districtos do norte a constituição moral dos vinculos é a
    mesma dos vinculos situados nos districtos do sul; mas a sua
    constituição material é diversa. Em geral os vinculos do norte são
    constituidos, em relação á propriedade territorial, n'um maior ou menor
    numero de predios de dimensões taes que a designação de latifundios lhes
    seria inteiramente inapplicavel. São quintas, casaes, bouças, campos;
    nunca ou raramente uma granja, uma herdade analoga áquillo a que damos
    estes nomes nos districtos do sul. O senhorio directo de predios
    emphyteuticos e os censos completam para o administrador do morgado o
    cumulo da renda territorial. Todas as fórmas de exploração agricola se
    manifestam n'aquella multidão de propriedades vinculadas: a cultura
    directa, a parçaria, o arrendamento, o colonato. Discorrei pelo Minho.
    Certos edificios nas villas, nas aldeias, mais grandiosos, ornados de
    pedras-d'armas, hão-de revelar-vos a existencia de centenares de
    morgados: mas os campos e a sua cultura, as quintas e as suas dimensões
    não vos dirão nada; porque a allodialidade, a emphyteuse, o vinculo na
    sua influencia sobre a agricultura não imprimem aos campos caracteres
    especiaes que distingam estas diversas especies de propriedade, ou
    diversifiquem as culturas.

    Penetremos agora no Alemtejo, sobretudo no Alemtejo central e
    meridional. Como o Minho é o typo da propriedade e da cultura
    septemtrionaes do reino, o Alemtejo é o typo mais acabado da propriedade
    e da cultura meridionaes. As outras provincias são a transição entre os
    dous extremos. Como o Minho é a terra classica da subdivisão
    territorial, o Alemtejo é a terra classica dos latifundios. Grande parte
    d'estes latifundios pertencem a importantes morgados; mas o resto
    constitue geralmente propriedades allodiaes, sendo os prasos n'aquella
    provincia, em contradicção com o que succede no Minho, apenas uma
    excepção rara, e ainda assim caracterisados ás vezes pela indole geral
    da propriedade no Alemtejo–a extensão demasiada. Um systema de cultura
    uniforme é applicado ahi sem distincção aos predios livres e aos
    vinculados.

    Na Extremadura e na Beira occidental, mas principalmente na Extremadura,
    predomina a cultura media e a propriedade media, se exceptuarmos as
    margens do Tejo desde a Barquinha até perto de Lisboa, onde a extensão
    da propriedade, como na Beira-baixa, annuncia, por assim nos
    exprimirmos, a aproximação do Alemtejo. Mas, no meio de todos estes
    cambiantes nas dimensões dos predios rusticos, vemos os vinculos
    amoldarem-se a todas as fórmas de propriedade e de cultura, e
    amortizarem em si a quinta, o casal, a granja, o praso, a horta, o
    pinhal, o montado, a charneca interminavel; com a mesma facilidade com
    que se amoldam ás manifestações extremas da grande e da pequena
    propriedade e da pequena cultura.

    Que se infere d'estes factos? Que outras causas alheias á instituição
    vincular determinam a maior ou menor vastidão dos predios rusticos e o
    seu systema de grangeio. Umas são puramente historicas, outras
    juridicas, outras agronomicas, outras economicas. Não queremos dizer com
    isto que a instituição não influa, n'um ou n'outro caso, no facto de
    maior ou menor dimensão dos predios, e na sua situação agricola; mas
    cremos que de todas as causas esta é a menos importante. Desejariamos
    que os defensores da manutenção dos vinculos como garantia de grande
    propriedade nos explicassem a existencia dos vastos allodios do
    Alemtejo, a sua força de cohesão contra os effeitos do direito commum da
    successão, pelo engenhoso expediente dos _quinhões_, de que n'outra
    parte teremos de falar. Esses predios estão provando que não é
    necessario o principio vincular para impedir a disgregação das grandes
    propriedades rusticas; que o interesse individual bem ou mal avaliado,
    as condições do solo e clima, a natureza das culturas dependentes
    d'essas condições, o estado economico do respectivo districto, e, até,
    os habitos e preconceitos, podem assegurar a união de amplos tractos de
    terra, embora deixe de existir uma instituição que o espirito publico
    reprova, por motivos que, posto sejam especiosos ás vezes, são em grande
    parte subejamente justificados.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 02

    Aproximadamente 63.487 palavras.

    Croyez vouz que le peuple ne comprit pas cela?

    Quand je dis le peuple je n'entends pas parler de la populace, qui ne
    réfléchissait point; qui n'avait presque pas d'intêrêts matériels ou
    moraux attachés aux mesures du cabinet Mousinho; qui journellement était
    prêchée, excitée, fanatisée par des prêtres et par des moines. Cette
    partie de la nation était alors ce qu'elle aujourd'hui, ce qu'elle sera
    demain. Elle aimait à mendier aux portes des couvens et des abbayes, et
    à s'enrôler parmi la valetaille des _donatarios da corôa_, des
    _commendadores_, des _capitães-móres_, de tous ceux qui vivaient du
    produit des vieilles taxes, que les institutions et les lois rendaient
    légales, mais que la justice, la raison, et l'humanité rendaient
    illégitimes. Non, ce n'est pas de ces gens-là que je vous parle: j'en
    laisse le soin aux démocrates. Pour moi, le peuple est quelque chose de
    grave, d'intelligent, de laborieux; ce sont ceux qui possèdent et qui
    travaillent, depuis l'humble métayer, ou le laboureur de son propre
    champ, jusqu'au grand propriétaire; depuis le colporteur et le
    boutiquier jusqu'au marchand en gros; depuis l'homme de métier jusqu'au
    fabricant. C'étaient ceux-ci que les lois de Mousinho regardaient de
    plus près; c'était à eux qu'elles s'adressaient. Toutes les mesures du
    parti royaliste pour empêcher l'effet moral de ces ordonnances sur
    l'esprit des gens qu'elles favorisaient, étaient inutiles: les libéraux
    les faisaient circuler partout: on les lisaint; on les commentait; on
    comparait leurs résultats nécessaires avec les lourdes charges qui
    écrasaient les classes laborieuses, et qui empêchaient tout progrès
    matériel: car, pour vous donner une idée de l'état de notre agriculture
    et de notre industrie il y a vingt ans, il suffira de vous dire que ce
    pays, qui maintenant exporte des céréales, des pommes de terre, de
    l'huile, de la viande, n'avait pas de quoi manger pendant deux ou trois
    mois de l'année, et se trouvait obligé d'acheter des subsistances à prix
    d'or; il vous suffira de savoir que dans ce pays, où voyez pulluler tant
    d'industries, surtout de petites industries, on ne tissait pas une pouce
    de cotonnade, et qu'on vendait le liège de nos chênes aux anglais, qui
    nous le renvoyaient faconné en bouchons. Ces faits résument et
    représentent notre histoire agricole et industrielle pendant les trente
    premières années du dix-neuvième siècle.

    Les doctrines proclamées et dévelopées dans les rapports et sanctionnées
    dans les ordonnances du cabinet Mousinho, la religion du bien-être
    matériel, du progrès économique, étaient le seul moyen que le parti
    liberal eut à opposer à l'habile emploi que le parti contraire faisait
    de l'ignorance et de la crédulité de la populace. On avait mis les
    intérêts du gouvernement absolu sous la sauvegarde des croyances
    religieuses; on avait accroché le salut des ames au bout de la lance de
    l'étendard bleu et rouge: Mousinho mit le salut du corps des gens
    taillables et corvéables sous la bannière bleue et blanche. Les deux
    partis usaient de leur droit, mais avec des résultats divers. L'avantage
    apparent restait du côté rouge et bleu; l'avantage réel restait du côté
    bleu et blanc. Tout le monde assure qu'on aime son ame plus que son
    corps, et tout le monde ment ou se trompe. Peu de gens en tombant
    malades appellent le confesseur avant le médecin. Cette observation très
    simple et d'une exactitude admirable, comme presque toutes les vérités
    fécondes, faisait le fond de la politique de Mousinho. Voilà, ce me
    semble, ce que explique, non pas absolument, je le sais, mais en grande
    partie, ce manque d'énergie et d'ensemble, ces découragemens profonds
    après des excès d'enthousiasme, ces tiraillemens et ces hésitations qui
    travaillaient le parti royaliste, et qui l'on perdu. L'idée progressive
    et l'espérance d'un meilleur avenir se trouvaient face à face avec
    l'idée de l'immobilité dans la gêne et avec le malaise général. Il y
    avait à l'armée absolutiste tant d'individus qui gagnaient à être
    battus, qu'il eut été vraiment étonnant que beaucoup d'entre eux
    n'eussent pas cherché de leur mieux à se faire battre. C'était la
    trahison, mais non celle des chefs: c'était la trahison des miliciens,
    des volontaires, voire même des _capitães de ordenanças_, marmottant
    tous bas, et dans un autre sens, le refrain de Béranger–«vivent nos
    amis; nos amis les ennemis»–après avoir crié à tue-tête–«vive la
    religion; vive le rói.»–Il fallait bien que l'idée progressive
    triomphât, car c'était la loi historique. Cependant comme ceci est un
    fait qu'on ne mesure pas à l'aune; qui n'est ni blanc ni rouge; qu'on ne
    touche pas du doigt, presque personne n'y croyait alors, vu qu'il n'est
    pas donné à tout le monde, nommément à ceux qui admettent comme des
    oracles les plus grosses sottises, de croire à ces choses là.

    Mais cet immense déblai d'institutions vermoulues fait par Mousinho a
    été surtout une oeuvre d'avenir. La dîme, les droits seigneuriaux,
    l'organisation militaire du pays, la confusion de l'administratif et du
    judiciaire, les majorais, l'hérédité des emplois, la censure, la
    puissance du haut clergé et des ordres monastiques; toutes ces vieilles
    choses, qui arretaient la sève de la vie sociale, formaient les
    arcs-boutants du gouvernement absolu. Si quelques révolutionnaires en
    herbe jetaient à bas la voûte, on prenait les moëllons tombés et on la
    rebatissait du soir au matin. Ce fut ce qui arriva aux époques de 1820-3
    et de 1826-8. En rasant tout, en brisant les pierres de l'édifice, en
    les mettant en poussière, et en jetant cette poussière au vent de Dieu,
    la réédification devenait impossible. La monarchie pure a vécu pendant
    plus de trois siècles, parce qu'elle s'harmonisait avec l'état de la
    société; parce qu'elle était entrée dans les moeurs. Pour renverser tout
    à fait cet Antée politique, il fallait bien lui oter le sol de dessous
    les pieds. Le despotisme appuyé sur les baïonnettes, sur la force et sur
    la terreur, est possible aujourd'hui, comme il l'a été, comme il le
    sera, tant qu'il y aura sur la terre des armées permanentes, institution
    sans avenir, et qui évidemment commence à se détacher des sociétés,
    comme les chairs corrompues d'une plaie en voie de guérison. Mais le
    despotisme-mous-tache, s'il arrive, ne durera, juste, que le temps
    nécessaire pour épuiser sa violence. L'absolutisme, chose possible,
    chose viable avec certaines données sociales, et partant plus à
    craindre, il ne reviendra point chez nous, je vous l'assure. Il lui
    manque l'atmosphère pour respirer, car autour de lui est le vide que les
    lois de Mousinho ont fait.

    Pour vous donner une idée de la force que la royanté absolute puisait
    dans l'ancienne organisation sociale, il me suffira de faire un peu
    d'histoire, et de vous dire quelques mots touchant deux ou trois de ces
    vieilleries. Prenons la dîme. La dîme chez nous, comme partout, s'est
    établie peu à peu pendant les époques ténébreuses du moyen-âge. Aux XII
    et XIII siècles, elle prit le rang d'une institution; on la regarda
    comme de droit divin. C'était une erreur, vous le savez, mais ce n'était
    pas une chose absolument déraisonnable. Il fallait bien qu'on maintint
    le clergé, qu'on pourvut au matériel du culte, qu'on secourut les
    pauvres. Selon la doctrine d'Innocent III, voilà les trois causes
    finales de la dîme. Pendant les époques suivantes, les nobles, les
    courtisans, les moines convoitèrent un peu ce plat succulent, que le
    clergé hiérarchique et les pauvres devaient manger tout-seuls. On
    imagina des expédiens, on inventa des prétextes, et pour sanctionner ces
    expédiens et ces prétextes on acheta des bulles au grand marchè de Rome.
    Au bout de cinq siècles la dîme était devenue une chose à peu-près
    séculière. Il est vrai qu'on garda, jusqu'à un certain point, les
    apparences. C'était aux ordres religieux et militaires, et aux instituts
    monastiques que revenait la meilleure partie de cet impôt, qui se
    rapportait, non à la rente de la terre, mais au produit brut de la
    culture. De plus, les ordres militaires et les couvens avaient
    l'obligation de subvenir aux dépenses du culte dans les paroisses dont
    ils mangeaient la dîme. Et ils le faisaient avec une parcimonie
    admirable; je dirais presque touchante. Le bas clergé, les curés, pour
    ne pas mourir de faim, étaient obligés de se faire payer le service
    paroissial par leurs ouailles, ce qu'on appelait, et qu'on appele
    encore, le _pied d'autel_. Au temps des apôtres on l'aurait appelé
    simonie; mais ces temps ne sont plus. Le ciel était devenu trop cher. Le
    haut clergé, les évêques et les chapitres n'y voyaient pas de mal: on
    leur avait fait la part du lion, et l'on avait respecté cette part,
    attendu que, si par leurs fonctions ils appartenaient à la vraie
    hiérarchie ecclésiastique, par leur position sociale ils tenaient aux
    nobles et aux puissans. A la fin, cependant, même de ce côté, on trancha
    dans le vif. On inventa un patriarche de Lisbonne et une église
    patriarchale avec force _principaux_, monseigneurs, chanoines, etc.
    espèce de caricature de la cour papale, qui servait à égayer ce fameux
    loup-cervier appelé le roi Jean V, dont les dégâts parmi les vierges du
    Seigneur forment à peu près l'histoire de son règne. Au fond, l'église
    patriarchale n'était qu'un rang de nonveaux couverts mis à la table de
    la dîme, couverts destinés surtout au cadets des nobles familles. En un
    mot, pour vous faire comprendre quelles bouchées on prenait depuis
    long-temps à cette table, il suffira de vous dire que d'une seule fois
    le roi Emmanuel attacha à l'ordre du Christ quatre-cents paroisses;
    c'est-à-dire qu'il mit au régime broussaisien quatre-cents pauvres curés
    pour engraisser quelques douzaines de commandeurs à l'égal de ces
    esturgeons et de ces lamproies mirifiques qu'on savourait avec délices
    aux banquets romains. Or Mousinho savait par coeur son catéchisme: il y
    avait lu parmi les commandemens de l'église; «_tu paieras la dîme et les
    prémices à Dieu notre seigneur_». Alors il flaira de loin ces gros abbés
    mitrés et crossés, ces bénéficiers mariés, ou pire, ces commandeurs des
    ordres militaires, braves gens, qui mangeaient, jouaient ou ronflaient
    sur les deux oreilles, se souciant fort peu de savoir si les infidèles,
    turcs ou algériens, faisaient ramer des chrétiens sur les bancs de leurs
    galères. Après avoir flairé, il lui vint à d'idée que ces messieurs
    n'étaient pas précisement le Dieu notre seigneur du catéchisme. Il
    devint colère. En sa qualitè de fou (je crois avoir eu déjà l'honneur de
    vous prévenir que Mousinho était fou, à ce qu'on disait) il les envoya
    au diable, et, renversant d'un coup de pied la sainte table, il dit aux
    bonnes gens décimés: «_Gardez votre bien; car on vous vote_». Il aimait
    à dire de ces bétises là. On lui prouva que cette ripaille, qui durait
    depuis trois ou quatre siècles, était chose legale et partant légitime:
    il haussa les épaules. On l'appela assassin, hérétique, satan: il envoya
    derechef les tapageurs à tous les diables. Plus tard, quand l'ordonnance
    qui avait détruit ce grande abus, devint loi de droit et de fait pour
    tout le pays, il y eut encore par ci par la des ames timorées,
    d'honnêtes laboureurs qui empilèrent le dixième de leurs récoltes au
    bout d'un champ, et mettant un croix dessus y laissèrent pourrir la dîme
    du Seigneur. Ceci dura peu. En voyant que la foudre ne frappait ni la
    cave, ni le cellier de leur voisins moins scrupuleux; que la santé de
    ceux-ci n'était pas pour cela moins florissante, ni leur récoltes moins
    riches, ni leur bétail plus maigre, ils se ravisèrent. Par le temps qui
    court, mon cher F…, si l'on vous a sali l'habit de quelqu'un de ces
    brimborions qu'on appele commanderies de Saint-Jacques, du Christ, ou
    d'autres, je ne vous conseille pas d'aller recueillir les pieux dépôts
    sur les terres qui payaient des dîmes à votre ordre. Hélàs! vous
    retourneriez les mains vides; car l'abomination de la désolation s'est
    nichée dans tous les coins de ce royaume, et l'on n'y pense plus à
    l'engraissement des commandeurs.

    Maintenant, pour vous consoler, prenons les revenus de la couronne, les
    _Direitos Reaes_, comme on les appelait, par antiphrase, je pense.
    C'était quelque chose de plus absurde encore que la dîme. Imaginez-vous
    toutes les exactions, tout ce que la rapacité fiscale du moyen-âge, tout
    ce que son ignorance des principes économiques avaient invente pour
    frapper la propriété territoriale, pour pressurer le travail, pour se
    faire une part magnifique dans les profits commerciaux, et vous saurez
    ce que signifiaient avant 1832 ces mots de _Biens de la Couronne_, de
    _Droits Royaux_, de _Contributions des Foraes_, que vous aurez entendus
    bourdonner à vos oreilles dans les conversations, et que vous aurez lus
    dans les journaux, où il faut quelquefois en parler, car au bout de
    quatorze ans on a rétabli ce qu'il était possible de rétablir de toutes
    ces absurdités-là. Les _Biens de la Couronne_, ou _Droits Royaux_,
    choses identiques en fait et en droit, se composaient des biens-fonds,
    qui étaient censés appartenir intègralement à l'État; des droits sur des
    fermes, possédées à bail emphytéotique, ou grévées de cens très lourds,
    comme, par exemple, le quart du produit brut, imposé sur les terres
    (_reguengos_) que par une fiction historique et légale on supposait
    avoir été destinées, à l'occasion de la conquête du pays sur les maures,
    à l'apanage du roi; des anciens octrois des villes; des amendes pour les
    délits; des mille sources, enfin, de revenu de notre vieux systême
    d'impôts, analogue à celui des autres contrées de l'Europe pendant le
    moyen-âge. Toutes ces exactions, presque innombrables dans ses variétés
    aux noms barbares, jetées inégalement sur le pays, frappant aveuglement
    sa vie économique, formaient un joli pâté propre à allumer l'appétit de
    tous les Falstaffs, de tous les Hudibras du bon vieux temps d'allonger
    sournoisement le bras, et de mettre sans bruit la main sur l'appétissant
    pâté, et de ler percer du bout de l'ongle, et de tirer à soi quelques
    miettes, et d'y retourner, et d'y engouffrer tous les doigts, et de
    tirer de nouveau à soi, et de répéter ce manêge jusqu'à ce qu'il ne
    restât que quelques morceaux de croûte brulée. Ces messieurs qui
    faisaient ce beau travail s'appelaient nobles, s'appelaient évêques,
    s'appelaient abbés, s'appelaient juges, s'appelaient serviteurs du roi.
    Aussi le roi était-il censé distribuer tout ceci à ces braves gens: on
    l'écrivait du moins sur des parchemins, aux quels on apposait le sceau
    royal. On trouva un mot élastique, inépuisable, pour expliquer ces
    parchemins:–_les services_. Il est vrai qu'on payait des soldes aux
    nobles pour se battre (le peuple se battait gratis), des dîmes ou du
    moins des subventions aux prêtres pour dire des messes et chanter des
    oremus, des appointemens aux juges pour faire pendre les assassins et
    les voleurs (de grand-chemin), des honoraires aux serviteurs du roi pour
    ne rien faire; mais les _services_ se dressaient toujours insatiables,
    impayables. Ils s'attachaient aux générations comme la chemise de Nessus
    à la peau d'Hercule. Les _Droits Royaux_ étaient partout, excepté aux
    mains du roi. La royauté était devenue mendiante. En conséquence elle
    tendit la main aux communes pour attraper quelque argent: les communes
    tempêtèrent. On les apaisa par de belles paroles: on fit, même, une loi
    qui semblait rendre chose périssable ces récompenses éternelles: les
    communes payèrent. On mangea ce qu'elles avaient donné et on leur
    demanda de nouveaux subsides. Nouvelles criailleries: nouvelles
    promesses: nouvelles concessions de la bourgeoisie. On vécut ainsi
    pendant de longues années. Au milieu de tout ce brouhaha, on établit peu
    à peu un autre systême de finances basé sur des impots généraux, tant
    directs qu'indirects. C'eut été un véritable progrès, si l'on en eut
    fini en même temps avec les anciennes redevances des hameaux et des
    villes. On n'en fit rien: les gens aux _services_ ne voulaient pas
    démordre. Mesires Hudibras et Falstaff veillaient à l'honneur de la
    noblesse, à ses prérogatives. Comme le peuple, cet enfant à dentition
    éternelle, pleurnichait toujours et quelquefois criait, on oublia peu à
    peu de convoquer les États Généraux (_Cortes_) et tout fut dit. On
    prouva que la fable de l'âne, qui ne se souciait guère de choisir entre
    deux maîtres, car, disait l'âne, il ne porterait jamais deux bâts,
    n'était au fond qu'une ânerie. Le peuple les porta tous les deux jusqu'à
    nos jours sans se plaindre. Il était dument baillonné et bâté, et on le
    disait tranquille.

    Or Mousinho savait tout cela; un peu confusement, à la vérité; mais il
    le savait. C'était pour lui chose incomprehensible que l'immutabilité,
    l'éternité, l'infini des récompenses pour des services très
    contestables. En revanche, il comprenait très bien qu'il serait
    absolument impossible de relever l'agriculture du pays, languissante,
    arriérée, misérable, tant que dans la cour de chaque ferme, dans d'aire
    de chaque champ, sur le seuil de chaque cave on verrait les agens du
    commandeur ou de l'évêque, du chapitre ou de l'abbé, du _donatario_ ou
    de l'_alcaide-mor_ demandant, l'un la dîme, l'autre le quart, l'autre le
    huitième du rendement total des céréales, du vin, du lin, de l'huile, de
    presque tous les produits de la terre;–tant qu'on verrait lesdits
    agens, supputant ici combien de charretées de maïs le laboureur devait,
    en vertu d'un _foral_ d'Alphonse I, à un gros monsieur jouflu, joyeux
    compagnon, illustre fainéant, issu de nobles aieux, mais qui
    certainement n'avait pas hérité la couronne dudit Alphonse I; lá
    dénombrant une kirielle de redevances, aux noms hétéroclites et
    barbares, exigibles du hameau ou de la ferme; tant qu'on verrait encore,
    quand le pauvre cultivateur tombait épuisé, le cosur navré de douleur,
    sur les restes du fruit de son travail, venir l'exacteur fiscal lui
    demander, au nom du roi vivant, des nouveaux dixièmes, et d'autres
    impôts dont était redevable tout ce qui ne lui avait pas été enlevé au
    nom des rois morts. Ce spectacle soulevait aussi la colère de Mousinho.
    Dominé par l'indignation, il ne savait plus se contenir. D'un coup de
    poing il fit voler en éclats la vieille machine à pressurer les
    laboureurs. Les droits royaux s'en allèrent. Tous ceux qu'y vivaient
    attachés, comme les huitres aux roches crevassées de la mer, tombèrent
    ventre à terre en criant: _au voletir_! Sa colère passée, Mousinho se
    contenta de répondre: «_Prenez garde, messieurs, que ce ne soit votre
    écho_». Et il passa outre: car il était pressé, le terrible démolisseur.

    III

    Il serait trop long, et presque impossible dans une lettre, de vous
    exposer en détail la portée de toutes les mesures du cabinet Mousinho,
    ou de vous faire connaître tous les vieux abus qu'elles déracinèrent,
    abus puissans, devant lesquels avaient jusqu' alors tremblé les
    révolutionnaires aux grands mots et aux petites oeuvres des deux époques
    libérales de 1820 et de 1826, et que quelques esprits chagrins opposent
    encore comme des beautés administratives aux sottises qu'on a faites
    depuis, et que je suis loin de nier. Vous aurez entendu, par exemple,
    vanter l'ancienne organisation militaire du Portugal. C'est qu'il y a
    des gens, qui oublient vite. Cette organisation n'aurait en rien empêché
    l'anéantissement de notre indépendance, si la politique générale de
    l'Europe n'eut été intéressée à la soutenir. Il y avait, sans doute,
    quelque chose de bon dans l'idée de l'institution des _milicias_ et des
    _ordenanças_, mais pas assez dans le fait pour compenser les maux qui
    découlaient de cette organisation militaire, dont l'étreinte embrassait
    toute la population mâle du pays. Se je vous faisais la description de
    ce que c'était un _capitão-mor_, c'est à dire le chef militaire de la
    troisième ligne dans chaque localité, vous en frémiriez. Dans ses mains
    existaient mille moyens d'opprimer une population de soldats, soldats
    pour souffrir des avanies, et pour acheter le repos par des présens, par
    des services indus, par le des honneur même; mais non soldats pour se
    battre, car ils n'étaient armés que de piques et ne recevaient aucune
    instruction militaire sérieuse. Les _capitães-mores_ étaierit des pachas
    turcs, devant lesquels les villageois tremblaient. C'était l'oppression
    journalière organisée partout; c'était un phantôme menaçant qui se
    dressait matin et soir au seuil de chaque porte, sur le toit de chaque
    famille.

    Figurez-vous maintenant si tous ces _donatarios da corôa_, ces
    commandeurs, ces _alcaides-mores_, ces _capitães-mores_, ces opulens
    évêques, ces gros chanoines, ces abbés puissans, qui tous, plus ou
    moins, tenaient leurs richesses du bon plaisir du roi, c'est-à-dire de
    ses ministres, ne préchaient point partout une obéissance sans bornes
    aux volontés royales; s'ils ne mettaient pas en usage toutes leurs
    ressources matérielles et morales pour empêcher de crier ceux qui
    pouvaient en avoir envie. Ils eussent supporté toutes les injustices,
    toutes les tyrannies, la honte et le deshonneur, plutôt que de perdre
    les gros bénéfices de ces vieilles exactions, qu'on leur gardait et que
    le gouvernement pouvait leur ôter d'un jour à l'autre sans sortir de la
    légalité. Imaginez quelles tendances de basse servitude on devait
    imprimer aux populations; comme les idées de dignité morale, de liberté,
    de justice, devaient être journellement calomniées, méprisées,
    conspuées. Une anecdote curieuse vous fera comprendre dans quelle fange
    on était tombè quand on arriva au milieu du dix-huitième siècle. Pendant
    l'interrogatoire des nobles qui tentèrent d'assassiner le roi Joseph,
    quand le tour du duc d'Aveiro fut venu, craignant les tortures de la
    question, il avoua que la cause du crime était la vengeance des Tavoras
    contre le roi, qui avait déshonoré leur famille. Les juges restèrerit
    ébahis: cela passait leur croyance. Ils firent observer au prévenu que
    ce motif était absurde, monstrueux, impossible; parce que, disaient-ils,
    dans ce cas, la tradition, le principe, le droit serait de se laisser
    déshonorer humblement, ou tout au plus d'abandoner le pays sans souffler
    un mot sur les royales fredaines. C'est, peut-être, la partie la plus
    horrible de cet horrible procès. Cela peint cette époque de décadence
    morale, pire cent fois que le relâchement actuel, et dont le retour est
    maintenant devenu impossible; car, du moins, les agens de la pression
    gouvernementale, les agens de l'ordre (mot, qui, selon Mr. Guizot, est
    le prétexte de toutes les tyrannies) ne sont plus en règle les riches,
    les nobles, les hommes d'influence morale, mais de pauvres diables, mal
    retribués, obscurs, qui maintes fois pressurent le peuple, mais qui ne
    se frottent pas volontiers à la richesse, à l'intelligence, au courage
    civil du citoyen qui connait son droit, et surtout à la presse.

    Voilà le bon vieux temps, que vous aurez entendu vanter à des gens qui
    se tiennent pour sensés et qui vous auront gravement débite un millier
    de billevesées sur l'imprudence des réformes de D. Pedro, sur les ruines
    qu'on a amoncelées, sur les moyens de gouvernement qu'on a détruits.
    Tout ceci est souverainement bête; mais qu'importe? On fait le prudent,
    on fait le capable, on fait l'homme d'état à bon marché. Et les badauds
    d'admirer et d'applaudir. Dieu en soit loué!

    Entendons-nous, mon cher F… Je ne regarde point notre organisation
    actuelle comme un type de perfection. Loin de là. Mon défaut n'est point
    de m'extasier devant les hommes ni devant les choses de notre temps.
    Personne ne déteste plus cordialement que moi la manie qui nous possède
    d'imiter la France dans toutes ses idées de gouvernement, et dans toutes
    ses institutions. Je déplore profondement cette abdication honteuse de
    la raison nationale. Rien de plus contraire, je ne dis pas seulement à
    l'autonomie portugaise, je dis aussi à l'autonomie péninsulaire, que
    cette espèce d'absolutisme hypocrite, affublé du manteau libéral, qu'on
    appelle centralisation, que les césars sans-culottes de votre première
    révolution ont légué au césar à la couronne de fer appelé Buonaparte, et
    qu'il a perfectionné à l'usage de son despotisme-moustache, pour le
    léguer, ensuite, à la restauration, et, à ce qu'il semble, à toutes les
    restaurations, et révolutions, et républiques, et monarchies, et
    empíres, que vous avez faits et que vous avez défaits; que vous ferez et
    que vous déferez jusqu'à la consommation des siècles. Ça peut vous
    convenir: mais ça ne nous va pas. J'aime le passé de mon pays, et ses
    traditions primitives. Je lui désire une manière d'être logique avec ses
    origines, parce que dans les formules sociales de chaque nation à son
    berceau tout vient naturellement; les institutions découlent des
    instincts de liberté innés dans le coeur de l'homme, de ses besoins
    matériels et moraux, que la force alors méprise et qu'elle réduit
    quelquefois au silence, mais que personne ne songe à sophistiquer. Il y
    a, à cette époque de la vie des peuples, beaucoup de choses incomplètes,
    barbares; il y a beaucoup d'absurdités de détail; mais, passez moi le
    mot, la charpente de la société n'est jamais absurde. Ces époques son en
    général trop grossières pour avoir des législateurs songe-creux, des
    faiseurs de systêmes, des jurisconsultes chargés d'embrouiller les
    usages simples du peuple. Je voudrais qu'on rattachât la liberté moderne
    à la liberté antique. J'aime les choses anciennes; mais je n'aime pas
    les vieilleries. De ce que je sais que, en étudiant les institutions de
    notre moyen-âge on y dècouvre presque tous les principes de liberté
    qu'on croit avoir découverts de nos jours; de ce que je vois là des
    garanties plus réélles, plus solides au fond que celles dont nous
    jouissons, il ne s'ensuit point que je méconnaisse l'expérience des
    siècles, les avantages de la civilisation et les vérités acquises aux
    sciences sociales. Puis, quel passe cherche-t'on pour lapider le présent
    et pour tuer l'avenir, comme si l'on pouvait le tuer? Ce qu'on veut
    entourer des respects dus à la tradition nationale, ce qu'on oppose à la
    corruption actuelle n'est que de la corruption vieillie, laide, puante,
    quoique à demi voilée par l'ombre sainte des tombeaux, dorée par le
    soleil de milliers de jours: car le soleil teint la tour lézardée et
    croulante à l'égal de la pyramide compacte et éternelle. Je défie, qui
    que ce soit, de me prouver que les institutions que Mousinho a
    renversées aient existé avant le seizième siècle, ou que, dans le cas
    affirmatif, elles soient arrivées au commencement du dix-neuvième sans
    avoir été dénaturées, au point d'être devenues complètement
    méconnaissables; je le défie de me prouver que à cette epoque elles
    remplissaient en aucune façon leur destination primitive; de me prouver,
    enfin, que ce qu'on appele des moyens de gouvernement était autre chose
    que des moyens d'absolutisme.

    Y a-t-il une boutade de mauvaise humeur dans ce que je viens d'écrire?
    Peut-être. Mais notez bien ceci: je ne fais point allusion à ceux que
    des intérêts cruellement blessés, des affections froissées, des
    croyances acceptées comme une religion pendant la jeunesse, et qu'ils
    n'ont jamais discutées pendant l'âge mur, attachent immuablement aux
    souvenirs d'un passé trop moderne. Je m'explique l'amour âpre et colère
    avec lequel ils défendent leur foi politique. Je comprends leur haine
    profonde contre toutes les idées de liberté. Le malheur reserre les
    liens de nos affections, parce que dans l'intensité même de ces
    affections nous puisons du courage pour souffrir. Non, je ne fais pas
    d'allusion à ceux-ci: la foi ne discute point, ou si elle discute, elle
    ne veut jamais savoir quels sont les faits, ou ce que les faits
    prouvent: elle ne les accepte, que pour se prouver soi-même: autrement,
    elle les rejette ou les oublie. Ce qui me blesse c'est de voir les
    _capables_ du parti libéral, les soi-disants sages, les hommes d'état au
    petit-pied foudroyer de leur sourire dédaigneux ces deux géans qui
    dorment dans la tombe, et qu'on appele Mousinho et D. Pedro. C'est chose
    curieuse que de les entendre, amoncelant des tas de lieux communs pour
    nous prouver, aux applaudissemens des sots, que la démolition de la
    vieille masure de l'absolutisme n'a été qu'une insigne folie. Puis ils
    vous analysent un article de telle loi qui n'est pas clair: ils vous
    citent une ordonnance où il manque un paragraphe dont l'absence dépare
    l'ensemble; ils s'apitoient sur l'imperfection du style et du langage,
    sur le désordre des idées et sur je ne sais plus quels défauts, qui
    pullulent dans les rapports et dans les textes des lois de Mousinho.
    C'est à faire dresser les cheveux sur la tête. Après ces graves
    considérations, on conclut que tout ça ne vaut rien. C'était un vrai
    béotien que ce pauvre Mousinho! Sont-ils pas savans ces messieurs?

    Quelle pitié!

    Il faut le répéter: je ne vante pas le peu d'organisation positive qu'on
    trouve dans l'oeuvre de la dictature de D. Pedro; pas plus que ce qu'on
    a fait après elle. Ce que je vante c'est la démolition, car la
    démolition était la liberte, était le progrès, était la sureté des
    nouvelles institutions politiques, et partant était virtuellement la
    possibilité d'une bonne organisation pour l'avenir. Si Mousinho eut
    gardé le pouvoir plus longtemps, son génie aurait compris que ce n'était
    pas avec des imitations batardes des institutions et des lois étrangères
    qu'on pouvait rajeunir ce peuple rappelè à la vie. Il aurait compris
    qu'il fallait étudier ses origines, ses moeurs, ses habitudes, ses
    institutions civiles, ses conditions économiques, ses traditions
    légitimes, et modifier tout cela, mais seulement modifier, par les
    vérités acquises irrévocablement aux sciences sociales, non parce
    qu'elles sont ou ne sont pas acceptées en France ou en Angleterre, mais
    parce qu'elles sont des vérités incontestables. Il n'a pas eu le temps
    de faire ceci. Les vieux libéraux à la cravate blanche, vieillerie qu'on
    avait oublié de démolir, frappaient en foule à la porte du ministère,
    pressés qu'ils étaient de jouir du pouvoir. Homme supérieur, il ne
    savait point se cramponner à un buffet de ministre, ou attacher son
    bonheur aux cartons d'un portefeuille. Il sortit, et ce fut pour ne
    jamais rentrer. Les liliputiens politiques craignaient, en marchant à
    côté de lui, que par mégarde il ne les écrasât sous son pied. On pouvait
    le calomnier; on pouvait le persécuter; on fit mieux: on l'oublia, et il
    disparut dans l'obscurité.

    On dit qu'à son heure dernière Mousinho se souvint de ce qu'il avait
    fait pour le salut de son pays, et que, comme Camões, il mourut avec la
    conviction de sa gloire. Il avait raison: nous pouvons l'oublier; mais
    l'histoire ne l'oubliera pas.

    CARTA AOS ELEITORES DO CIRCULO DE CINTRA

    1858

    Senhores eleitores do circulo eleitoral de Cintra.–Acabaes de me dar
    uma demonstração de confiança, escolhendo-me para vosso procurador no
    parlamento: sinto que me não seja permittido acceitá-la.

    Se tal escolha não foi um daquellas inspirações que vem ao mesmo tempo
    ao espirito do grande número, o que é altamente improvavel, porque o meu
    nome deve ser desconhecido para muitos de vós; se alguem, se pessoas
    preponderantes nesse circulo, pelo conceito que vos merecem, vos
    apresentaram a minha candidatura, andaram menos prUdentemente, fazendo-o
    sem me consultarem, e promovendo uma eleição Ínutil.

    Ha annos que os eleitores de um circulo da Beira, na sua muita
    benevolencia para comigo, pretenderam fazer-me a honra que me fizestes
    agora. Um delles, um dos mais nobres, mais puros e mais intelligentes
    caracteres dos muitos que conheço, sumidos, esquecidos, nessa vasta
    granja da capital chamada–as provincias, encarregou-se de vir a Lisboa
    consultar-me. Respondi-lhe como a consciencia me disse que lhe devia
    responder, e o meu nome foi posto de parte. De Cintra a Lisboa é mais
    perto, e a communicação mais facil, do que dos remotos e quasi impervios
    sertões da Beira.

    Duas vezes nos comicios populares, muitas na imprensa tenho manifestado
    a minha intima convicção de que nenhum circulo eleitoral deve escolher
    para seu representante individuo que lhe não pertença; que por larga
    experiencia não tenha conhecido as suas necessidades e miserias, os seus
    recursos e esperanças; que não tenha com os que o elegerem communidade
    de interesses, interesses que variam, que se modificam, e até se
    contradizem, de provincia para provincia, de districto para districto, e
    ás vezes de concelho para concelho. Esta doutrina, postoque tenha
    vantagens no presente, reputo-a sobretudo importante pelo seu alcance,
    pelos seus resultados em relação ao futuro. É, no meu modo de ver, o
    ponto de Archimedes, um fulcro de alavanca, dado o qual, as gerações que
    vierem depois de nós poderão lançar a sociedade n'um molde mais
    português e mais sensato do que o actual, inutilisando as copias, ao
    mesmo tempo servis e bastardas, de instituições perigrinas, que em meio
    seculo tem dado sobejas provas na sua terra natal do que podem e do que
    valem para manterem a paz e a ordem publicas, e mais que tudo uma
    honesta liberdade.

    Durante meses, no decurso de dous annos, tive de vagar pelos districtos
    centraes e septemtrionaes do reino. Pude então observar amplamente
    quantas miserias, quanto abandono, quantos vexames pesam sobre os
    habitantes das provincias, principalmente dos districtos ruraes, como o
    vosso, que constituem a grande maioria do paiz. Vi com dor e tristeza
    definhados e moribundos os restos das instituições municipaes que o
    absolutismo nos deixara: vi com indignação essas solemnes mentiras a que
    impiamente chamâmos a agricultura, a verdadeira industria de Portugal,
    lidando inutilmente por desenvolver-se no meio da insufficiencia dos
    seus recursos; vi, em resultado dos erros economicos que pullulam na
    nossa legislação, a má organisação da propriedade territorial e a
    desigualdade espantosa na distribuição das populações ruraes, procedida
    da mesma origem, e dando-nos ao sul do reino uma imagem das solidões
    sertanejas das America, e ao norte uma Irlanda em perspectiva: vi a
    injusta repartição e a peior applicação dos tributos e encargos: vi a
    falta de segurança pessoa e real, especialmente nos campos, onde o homem
    é obrigado a confiar só em si e em Deus para a obter: vi um systema
    administrativo máu por si e pessimo em relação a Portugal, com uma
    jerarchia de funccionarios e uma distribuição de funcções que tornam
    remotas, complicadas, gravosas, e até impossiveis, a administração e a
    justiça para as classes populares, e incommodas e espoliadoras para as
    altas classes: vi, sobretudo, a falta da vida pública, a concentração do
    homem na vida individual e de familia, que é ao mesmo tempo causa e
    effeito da decadencia dos povos que se dizem livres: vi todos esperarem
    e temerem tudo do governo central; confiarem nelle, como se fosse a
    Providencia; maldizerem-no, como se fosse o principio máu: idéas
    completamente falsas, postoque bem desculpaveis num paiz de
    centralisação; idéas que significam uma abdicação tremenda da
    consciencia de cidadão, e da actividade humana, e que são o symptoma
    infallivel de que os males públicos procedem, não da vontade deste ou
    daquelle individuo, da indole particular desta ou daquella instituição,
    mas sim do estado moral da sociedade e da indole em geral da sua
    organisação.

    E isto que vi perspicuamente, apesar de uma observação transitoria,
    vêem-no todos os dias, palpam-no, e, o que mais é, padecem-no centenares
    de homens honestos e intelligentes que vivem obscuramente por essas
    villas e aldeias de Portugal. Como os seus vizinhos, elles são victimas
    da nossa absurda organisação; disso a que por antiphrase chamamos
    administração e governo. É entre taes homens que os circulos deveriam
    escolher os seus representantes: é entre elles que os escolherão por
    certo no dia em que comprehenderem que o direito eleitoral é uma espada
    de dous gumes com que os cidadãos estão armados para se defenderem a si
    e a seus filhos, mas com que tambem podem assassinar-se e assissiná-los.
    Foi o que disse a todos aquelles, e não foram poucos, que durante a
    minha peregrinação pareceram confiar, senão no valor das minhas
    opiniões, ao menos na sinceridade d'ellas. Interrogado ácerca do
    lenitivo que suppunha possivel para os males que presenciava, indiquei
    sempre, não como remedio definitivo, mas como preparação para elle, como
    instrumentos de uma reforma futura, a eleição exclusivamente local e os
    esforços constantes para obter, contra o interesse das facções, dos
    partidos e dos governos, a reducção dos grandes circulos a circulos de
    eleição singular, que um dia possam servir á restauração da vida
    municipal, da expressão verdadeira da vida publica do paiz, e de
    garantia da descentralisação administrativa, como a descentralisação
    administrativa é a garantia da liberdade real.

    Fortes tendencias para a eleição da localidade se manifestam já por
    muitas partes, e os governos e as parcialidades vêem-se constrangidos a
    transigir com esse instincto salvador. Se não me é licito gloriar-me de
    ter contribuido para elle se desenvolver, ser-me-ha licito, ao menos,
    applaudi-lo. É o primeiro passo dado no caminho do verdadeiro progresso
    social: cumpre não recuar.

    Mas, pensando assim, como poderia eu, sem desmentir a minha consciencia
    e as minhas palavras; sem trahir a verdade, sem vos trahir a vós
    proprios, acceitar em silencio o vosso mandato? É honroso merecer a
    confiança dos nossos concidadãos, mas é mais honroso viver e morrer
    honrado.

    Não haverá no meio de vós um proprietario, um lavrador, um advogado, um
    commerciante, qualquer individuo, que, ligado comvosco por interesses e
    padecimentos communs, tenha pensado na solução das questões sociaes,
    administrativas e economicas que vos importam; um homem de cuja
    probidade e bom juizo o tracto de muitos annos vos tenha certificado?
    Ha, sem dùvida. Porque, pois, não haveis de escolhê-lo para vosso
    mandatario?

    Os que não vêem como eu nesta idéa da representação exclusivamente local
    o primeiro élo de uma cadeia de transformações, que serão ao mesmo tempo
    administrativas e politicas, podem, sem desdouro, não só acceitar, mas
    até sollicitar os vossos votos. Ninguem deve afferir os seus actos
    livres senão pelas proprias opiniões, pelas doutrinas que tem
    propugnado. Afferir pelas minhas idéas o meu proceder é o que unicamente
    faço.

    Recusando o vosso favor, nem por isso vo-lo agradeço menos; e a prova é
    que vo-lo retribuo com estes conselhos, que não serão bons, mas que
    evidentemente são desinteressados. Da confiança que mostrastes ter em
    mim deriva o meu direito a dar-vo-los.

    Aconselho-vos, como acabaes de ver, uma cousa para a qual os estadistas
    de profissão olham com supremo desprezo, a eleição de campanario, só a
    eleição de campanario, a eleição de campanario, permitti-me a expressão,
    até a ferocidade.

    Não sei se podereis soffrer o affrontoso ridiculo que anda associado á
    doutrina que vos inculco. Eu posso. Em mim este alto esforço é o habito
    que resulta do longo tracto. A aguda e graciosa invectiva de deputado de
    campanario tem cãs veneraveis. Conheço-a ha muitos annos. Além dos
    Pyrenéos andava já em serviço dos ambiciosos, dos officiaes de politica
    ha bem meio seculo. Os nossos politicos encartados traduziram-na para
    seu uso. É que, assim como traduzem leis, traduzem o mais, postoque, se
    me é licito dizê-lo, o façam mal, muito mal, de ordinario.

    Indubitavelmente este paiz trasborda de homens grandes, de profundos
    estadistas. Aqui o estadista nasce, como nasce o poeta: precede a
    escóla: dispensa-a, até. Sou o primeiro em confessá-lo. E a paixão dos
    homens grandes, dos profundos estadistas, é a salvação da patria: é a
    sua vocação, o seu destino, a sua suprema felicidade. Esses varões
    illustres pertencem, porém, ao paiz: é do paiz que devem ser deputados.
    Entendem-no elles assim, e parece-me que entendem bem. Em tal caso,
    eleja-os o paiz. Quando algum vos mendigar de porta em porta, e com o
    chapéu na mão, os vossos votos, respondei-lhe, como os eleitores dos
    diversos circulos do reino lhe responderiam, se o são juizo fosse uma
    cousa desmesuradamente vulgar:

    «Somos uma pobre gente, que apenas conhecêmos as nossas necessidades, e
    querêmos por mandatario quem tambem as conheça e que n'ellas tenha
    parte; quem seja verdadeiro interprete dos nossos desejos, das nossas
    esperanças, dos nossos aggravos. Se os deputados dos outros circulos
    procederem de uma escolha analoga, entendemos que as opiniões
    triumphantes no parlamento representarão a satisfação dos desejos, o
    complemento das esperanças, a reparação dos aggravos da verdadeira
    maioria nacional, sem que isto obste a que se attenda aos interesses da
    minoria, que ahi se acharão representados e defendidos como se
    representa e defende uma causa propria. Na vulgaridade da nossa
    intelligencia, custa-nos a abandonar as superstições do nossos páes:
    cremos ainda na arithmetica, e que o paiz não é senão a somma das
    localidades. Homem do absoluto, das vastas concepções, se a vossa
    abnegação chega ao ponto de sollicitar a deputação do campanario, fazei
    com que vos elejam aquelles que vos conhecem de perto, que podem
    apreciar as vossas virtudes, o vosso caracter. Certamente vós habitaes
    n'alguma parte. Se não quereis abater-vos tanto, arredae-vos da sombra
    do nosso presbyterio, que offusca o brilho do vosso grande nome. Sêde,
    como é razão que sejaes, deputado do paiz. Não temos para vos dar senão
    um mandato de campanario.»

    A resposta dos eleitores aos estadistas parece-me que deveria ser esta.

    A eleição de campanario é o symptoma e o preambulo de uma reacção
    descentralisadora, a descentralisação é a condição impreterivel da
    administração do paiz pelo paiz, e a administração do paiz pelo paiz é a
    realisação material, palpavel, effectiva da liberdade na sua plenitude,
    sem anarchia, sem revoluções, de que não vem quasi nunca senão mal. Para
    obter este resultado, é necessario começar pelo principio; é necessario
    que a vida pública renasça.

    Na verdade, a doutrina de que o excesso de acção administrativa, hoje
    acumulada, deve derivar em grande parte do centro para a circumferencia
    repugna aos partidos, e irrita-os. Sei isso, e sei porque. Os partidos,
    sejam quaes forem as suas opiniões ou seus interesses, ganham sempre com
    a centralisação. Se não lhes dá maior numero de probabilidades de
    vencimento nas luctas do poder, concentra-as n'um ponto, simplifica-as,
    e obtido o poder, a centralisação é o grande meio de o conservarem.
    Nunca esperem dos partidos essas tendencias. Sería o suicidio. D'ahi vem
    a sua incompetencia, a nenhuma auctoridade do seu voto n'esta materia. É
    preciso que o paiz da realidade, o paiz dos casaes, das aldeias, das
    villas, das cidades, das provincias acabe com o paiz nominal, inventado
    nas secretarías, nos quarteis, nos clubs, nos jornaes, e constituido
    pelas diversas camadas do funccionalismo que é, e do funccionalismo que
    quer e que ha de ser.

    A centralisação tem ido até as saturnaes. A jerarchia administrativa
    chegou já, por exemplo, a arrogar-se o direito de declarar suspensas ou
    em vigor as leis civís e criminaes do reino e a acção dos tribunaes.
    Lêde o artigo 357.^o do codigo administrativo e estudae a sua
    jurisprudencia, que haveis de ficar edificados. Vêde se algum governo,
    se algum grande estadista, saído de qualquer parte, propôs a sua
    revogação. Não o espereis jámais.

    O poder que pela immunidade do funccionario criminoso, que pelo
    monopolio na distribuição de todas as funcções retribuidas, que pela
    monstruosa invenção do contencioso administrativo, que pelas mais ou
    menos disfarçadas dictaduras, cuja necessidade elle mesmo cria, que por
    mil concessões arrancadas á fraqueza ou á condescendencia parlamentar,
    acha grandes facilidades para penetrar na esphera dos outros poderes,
    deve ir longe na propria esphera. E vai.

    Quereis encontrar o governo central? Do berço á cova encontrae-lo por
    todas as phases da vossa vida, raramente para vos proteger, de continuo
    para vos incommodar. Nada, a bem dizer, se mover na vida collectiva do
    povo, que não venha de cima o impulso, ou que pelo menos o governo se
    não associe a esse impulso. Entrae, por exemplo, no presbyterio da
    primeira aldeia que topardes. Vereis ahi um homem enchendo a pia da agua
    benta, apagando ou accendendo as vélas, arrumando os cereaes. É o
    governo central. O sacristão, exornado com o titulo pomposo de
    thesoureiro, é seu funccionario; é a mão delle estendida até o gavetão
    das vestimentas. Esse personagem tem carta pela secretaria de estado.

    Isto é impossivel que seja racional, sensato. Essa immensa tutela de
    milhões de homens por seis ou sete homens é forçosamente absurda. Deve
    haver um dia em que a sociedade, como os individuos, chegue á
    maioridade.

    Não receeis que a descentralisação seja a disgregação. O governo central
    ha de e deve ter sempre uma acção poderosa na administração pública; ha
    de e deve cingi-la; mas cumpre restringir-lhe a esphera dentro de justos
    limites, e os seus justos limites são aquelles em que a razão pública e
    as demonstrações da experiencia provarem que a sua acção é inevitavel. O
    ambito desta não deve dilatar-se mais.

    A centralisação, na cópia portuguesa, como hoje existe e como a
    soffremos, é o fidei-commisso legado pelo absolutismo aos governos
    representativos, mas enriquecido, exaggerado; é, desculpae-me a phrase,
    o absolutismo liberal. A differença está nisto: d'antes os fructos que
    dá o predominio da centalisação suppunha-se colhê-los um homem chamado
    rei: hoje colhem-nos seis ou sete homens chamados ministros. D'antes os
    cortezãos repartiam entre si esses fructos, e diziam ao rei que tudo era
    d'elle e para elle: hoje os ministros reservam-nos para si ou
    distribuem-nos pelos que lhes servem de voz, de braços, de mãos; pelo
    partido que os defende, e dizem depois que tudo é do paiz, pelo paiz, e
    para o paiz. E não mentem. O paiz de que falam é o seu paiz nominal; é a
    sua clientella, o seu funccionalismo; é o proprio governo; é a traducção
    moderna da phrase de Luiz XIV _l'état c'est moi_, menos a sinceridade.

    Não accuso alguem em particular; descrevo um facto geral; não sirvo, nem
    combato nenhum partido: pago-vos com a franqueza um pouco rude da minha
    linguagem a vossa benevolencia. Se accusasse, accusava-me tambem a mim,
    e talvez a vós. Ninguem está acima das paixões, dos preconceitos, das
    fórmulas, da indole da sua épocha. Nem sequer, e muito é, os estadistas
    o estão, se me é concedido avaliar essas altas capacidades. A carne é
    fraca. Sejam quaes forem as nossas aspirações, as nossas theorias, e se
    quizerem, os nossos sonhos quanto ao futuro, vivemos no presente, e
    quando não nos abstemos da politica, enfileiramo-nos nos partidos, ás
    vezes, até, sem o querermos, sem o sabermos. Como tive a honra de vos
    fazer notar, a questão da liberdade na sua plenitude e na sua existencia
    real está fóra, ou antes, acima dos partidos. Se, conforme creio, a
    eleição na qual quizestes que eu tivesse uma parte honorifica manifesta
    as vossas propensões para manter o ministerio actual, não se deduz do
    que vos digo a necessidade de mostrar propensões contrarias. Por ora não
    se tracta senão de adoptar um principio, uma regra, cujas consequencias
    verdadeiramente importantes virão mais tarde. Não importa, em relação a
    essas consequencias, que escolhaes n'este ou n'aquelle partido: o que
    importa é que escolhaes d'entre vós; o que importa é que os circulos
    ruraes não obriguem algum homem grande a consummir dez minutos em
    procurar no mappa do reino a situação relativa do districto que
    representa, e muitas horas em soletrar os nomes romanos, gothicos,
    mouriscos, barbaros, que n'esse mappa designam rios, montes, logarejos,
    aldeias, freguezias, concelhos, em que nunca ouviu falar. Pelos recostos
    das vossas pintorescas montanhas, pelos vossos valles frondosos, pelas
    quintas e granjas mais remotas, no campo ou nas povoações, deve habitar
    algum amigo de ministerio que mereça os vossos votos. Dae-lh'os, se
    entendeis que os homens que estão no poder são menos máus do que os seus
    adversarios.

    Não me consentindo a brevidade do tempo e a urgencia de outras
    occupações expôr-vos todos os motivos por que dou tanta importancia á
    doutrina eleitoral que submetto á vossa consideração, não tenho direito
    a insistir em que a sigaes com a inabalavel firmeza com que intimamente
    creio que a deverieis seguir. N'essa hypothese, se vos apresentarem
    candidaturas de individuos extranhos ao vosso circulo, cujo caracter não
    possaes avaliar por vós mesmos, consenti em que vos lembre um arbitrio
    para não serdes ludibriados. Consultae aquelles que pessoalmente os
    conhecerem, mas só aquelles, que, pagando tributos, e não
    disfructando-os, viverem no meio de vós ha longos annos do producto do
    seu trabalho ou da sua propriedade, e que gosarem de solida reputação de
    intelligencia e de probidade. Como homens de bem, e como tendo
    interesses analogos aos vossos e confundidos com os vossos, elles não
    podem enganar-vos. Escolhei o que elles escolherem; regeitae o que elles
    regeitarem. Vença qual partido vencer, tereis ao menos um procurador
    honesto; porque todos os partidos tem no seu seio gente honrada.
    Escusado é dizer-vos o que n'isso haveis de ganhar.

    Depois, quando alguem, que accidentalmente se ache no meio de vós, sem
    casa, sem bens, sem familia, sem industria destinada a augmentar com
    vantagem propria a riqueza commum, e só porque o seu talher na mesa do
    tributo ficou posto para esse lado, se mostrar demasiado sollicito em
    nobilitar o vosso voto pela escolha de algum celebre estadista, em que
    nunca talvez ouvistes falar, ou em livrar-vos de elegerdes algum máu
    cidadão, cujas malfeitorias escutaes da sua bôca pela primeira vez,
    voltae-lhe as costas. Padre, militar, magistrado, funccionario civil,
    seja quem for, esse homem que tanto se agita, afflicto pela vossa honra
    eleitoral, pelos vossos acertos ou desacertos politicos, póde ser um
    partidario ardente e desinteressado; mas é mais provavel que seja um
    hypocrita, um miseravel, que já tenha na algibeira o preço do vosso
    ludibrio, ou que, por serviços abjectos, espere obter, ou dos que são
    governo, ou dos que querem fazer o immenso sacrificio de o serem, a
    realisação de ambições que a consciencia lhe não legitima, e ácerca das
    quaes só podeis saber uma cousa: é que as haveis de pagar.

    Permitti-me, senhores eleitores, que termine esta carta, já demasiado
    extensa, reiterando-vos os protestos da minha gratidão pela vossa
    bondade para comigo, e assegurando-vos que, se me fallece ambição para
    acceitar os vossos votos contradizendo as minhas opiniões, sobeja-me
    avareza para buscar não perder jámais um ceitil da vossa estima.

    MANIFESTO DA ASSOCIAÇÃO POPULAR PROMOTORA DA EDUCAÇÃO DO SEXO FEMININO
    AO PARTIDO LIBERAL PORTUGUÊS

    1858

    Muitos cidadãos de Lisboa pertencentes ás diversas fracções do partido
    liberal, movidos por um sentimento de perigo commum, tendo-se congregado
    para deliberarem sobre o modo de obviar a esse perigo, que reputam mais
    ou menos grave, mais ou menos imminente, mas indubitavel, resolveram
    constituir uma associação, que, crescendo e dilatando-se pelo reino,
    possa combatê-lo com vantagem. O laço principal d'esta associação
    consiste na unidade de idéas, e na unidade de esforços para annullar,
    sem sair da estricta legalidade, as tentativas de reacção anti-liberal,
    cuja manifestação mais importante é o empenho de transviar a educação
    popular, entregando-a a congregações religiosas, não só estrangeiras,
    mas tambem regidas por principios oppostos às instituições do estado.

    A Associação, desejando firmar bem a sua bandeira, e habilitar o paiz
    para a favorecer, ou para a condemnar, ordenou que em seu nome se
    publicasse o presente escripto, onde amplamente se exposessem os motivos
    da sua existencia e o alvo em que põe a mira.

    Os acontecimentos de 1848, que agitaram a Europa, deram origem a
    exaggerações e desconcertos, que, ferindo não só os interesses ligados á
    manutenção do passado, o que pouco importava, mas tambem, o que era mais
    grave, os interesses das numerosissimas classes que unicamente vêem o
    progresso no lento e prudente desenvolvimento das idéas e das
    instituições representativas, produziram temores que, podendo
    justificar-se a principio, não tardaram a ultrapassar os limites do
    justo e a precipitar-se n'um systema de reacção, que se confundiu com o
    dos partidos anterior e absolutamente adversos á liberdade legitima e
    honesta, procedimento não menos absurdo que o d'aquelles que se haviam
    declarado inimigos da sociedade.

    No meio do estampido das revoluções, das peripecias dos thronos e das
    gentes, das luctas e das desgraças publicas, algumas nações, ancoradas
    no porto das instituições liberaes, e forcejando pacificamente por
    obterem o progresso pelos meios que subministra o governo parlamentar,
    haviam-se abstido de se associarem ao movimento revolucionario da
    Europa, visto que disso não careciam para assegurar os seus destinos
    futuros. Tal fora a Inglaterra, a civilisadora do mundo, esse paiz
    modelo, essa terra da nobre raça anglo-saxonia, defensora natural dos
    povos livres menos poderosos: taes haviam sido Portugal e a Belgica.
    Outras, por um accordo generoso entre o soberano e os subditos, souberam
    tirar da grande agitação europêa só as consequencias justas, e vieram
    associar-se, emfim, pacificamente ao gremio das sociedades livres. Tal
    foi o Piemonte, tão moderado nos dias prosperos, como tinha sido nobre
    nos da adversidade, e que a Providencia collocou nos pendores dos Alpes
    e dos Apeninos como pharol e ultima esperança da Italia.

    Ha annos que estas nações respondem triumphantemente com a eloquencia
    dos factos ás accusações da reacção contra a liberdade: ha annos que
    apontam a povos que se reputavam mais allumiados do que ellas, e que só
    sabemos terem sido ou mais imprudentes ou mais infelizes, a lei moral do
    futuro, as condições impreteriveis de vitalidade para as instituições
    representativas; isto é, a moderação e a firmeza. Foragidos de todos os
    paizes, que no seio dellas tem vindo reclinar a cabeça e respirar a
    atmosphera da liberdade, voltando algum dia á patria não esquecerão as
    salutares licções que receberam, e amestrarão os menos experientes para
    não confundirem o desacato do direito com o direito, a revolta com a
    resistencia legitima, a licença com a liberdade.

    Protesto vivo contra a reacção, a fórma da existencia politica d'estas
    nações devia ser profundamente odiosa aos que sonham na restauração do
    passado. Absorvê-las, affeiçoá-las pelo proprio pensamento, desmentir a
    sua muda linguagem, era para a reacção um postulado importante. Na
    Grã-Bretanha a empreza seria impossivel. Do mar das Hebridas a canal da
    Mancha, a luz da liberdade que fulgura no céu da Inglaterra é demasiado
    intensa. A reacção ficaria deslumbrada passando além da penumbra do
    continente. Mas a Grã-Bretanha, physicamente insulada, podia sê-lo
    moralmente, se lhe destruissem as affinidades continentaes que ainda
    conserva.

    No Piemonte a reacção apresentou-se audaz, e a lucta foi renhida; mas a
    firmeza moderada dos poderes constitucionaes tem bastado para a
    reprimir. Não evitou a Belgica ser convertida em campo de batalha,
    postoque o partido liberal alevantasse energicamente a luva que se lhe
    atirava ás faces. A prudencia, porém, de um monarcha verdadeiramente
    constitucional, grande pelos dotes da intelligencia, mas ainda maior
    pela sabedoria que dá a longa experiencia, impediu até agora que o fogo,
    nem sempre latente, se convertesse em assolador incendio.

    Portugal não podia fugir á sorte commum. Ha annos que os annuncios da
    procella assomavam nos horisontes; que nuvens fugitivas offuscavam os
    ares. Não faltou quem o advertisse; mas a advertencia passou
    despercebida. Debalde em publicações assás conhecidas se chamou a
    attenção do paiz para certas tendencias que se manifestavam: debalde a
    imprensa periodica mais de uma vez as assignalou tambem. Foi necessario
    para o espirito publico despertar, que essas tendencias assustadoras se
    convertessem em actos demasiado positivos e palpaveis, e que, com o
    pretexto de se crearem os meios de dirigir melhor a educação publica, se
    fizesse uma grave injustiça á moralidade e á intelligencia nacionaes,
    introduzindo-se em Portugal mestras estrangeiras, pertencentes a uma
    corporação do sexo feminino, que, conservando a sua organisação actual,
    é incompativel com as leis e instituições do paiz.

    Deste despertar da attenção publica nasceu esta Associação. Não foi o
    pensamento de um ou de alguns homens que a creou. Foi uma idéa que
    brotara ao mesmo tempo no commum dos espiritos; uma destas illuminações
    subitas que o povo tem ás vezes na hora dos grandes perigos. O que se
    chama de ordinario o instincto do povo não é senão um raciocinio; mas
    raciocinio obvio, simples, claro, accessivel a todos os entendimentos, e
    irresistivel para a consciencia de todos. A reacção ameaçava a
    liberdade, não só no presente, mas tambem no futuro; dava um dos passos
    mais importantes para a conquista, senão da sociedade que é, ao menos da
    sociedade que ha de ser. E o partido liberal uniu-se e marchou ao
    encontro do inimigo no terreno em que elle lhe apresentava o combate.

    De certo que nem todas as pessoas envolvidas nesta deploravel
    manifestação dos planos reaccionarios podem com justiça ser taxadas de
    favorecerem de proposito deliberado os intentos da reacção. Não tendo
    provavelmente estudado a historia dos progressos desta na Europa, dos
    seus esforços e artificios, dos seus triumphos e dos seus desastres nos
    ultimos trinta ou quarenta annos, deixaram-se embaír pela sua linguagem
    devota, pelos seus ademanes modestos, pelo seu apparente zêlo da moral e
    da ordem publica. Ignoravam quantas vezes ella tem soltado rugidos de
    colera e de ameaça; quantas vezes se tem trahido a si propria, e
    revelado o seu intimo pensamento: ignoravam como certos homens, cujo
    caracter religioso e austero, e cuja moderação de opiniões politicas
    estão acima de qualquer suspeita, tem julgado o partido cujas tendencias
    esta Associação é destinada a combater, e que por toda a parte se
    manifestam principalmente no desvelado affinco com que esse partido
    procura apoderar-se dos animos feminis e de affeiçoar aos seus intuitos
    as gerações novas. Cremos que eram nobres e puras as intenções das
    pessoas sinceramente liberaes que, sem o saberem, sem o quererem,
    ampararam com o seu nome, com a sua bolsa, e com a sua influencia o
    pensamento da reacção, ou della se tornaram instrumentos. Mas nem a
    respeitabilidade do seu caracter as tornaria infalliveis, ainda em
    materias nas quaes fossem mais competentes, nem essa respeitabilidade
    póde obrigar-nos a submetter-lhes o nosso alvedrio, a nossa
    intelligencia e a livre manifestação das proprias convicções. O nosso
    unico dever para com ellas é uma justiça indulgente; é não accusar as
    suas intenções, que não o merecem, nem reputar irremissivel o seu erro.

    A essas pessoas só pediriamos, quando certos resentimentos infundados
    chegassem a acalmar, que reflectissem n'um phenomeno que tem diante dos
    olhos; que, digamos assim, as rodeia por todos os lados, e que é de uma
    significação indubitabel e immensa. Depois de terem reflectido,
    pedir-lhes-hiamos sómente que seguissem, não o que lhes dictasse o peior
    dos conselheiros, o amor proprio offendido, mas a voz intima de uma
    honesta consciencia.

    Existe em Portugal um partido numeroso, dirigido por homens
    intelligentes, que ha vinte e cinco annos está organisado e
    disciplinado; partido moralmente tão legitimo como o partido liberal,
    mas que professa francamente o seu amor exclusivo ao passado, e cujos
    escriptores, usando dos fóros de cidadãos de um paiz livre, affirmam ha
    vinte e cinco annos perante Deus e o mundo o direito de o não serem, ou,
    para melhor dizer, o direito de não se lhes tolerar que o sejam. Na
    grande questão agita o paiz, e que nós cremos importar uma grave
    manifestação do pensamento reaccionario, ninguem mais do que esse
    partido tem mostrado zêlo ardente pela educação peregrina, e por tanto
    lançado com mais violencia o stygma de incapacidade moral e intellectual
    sobre as pessoas do sexo feminino nascidas nesta terra que possam
    dedicar-se ao magisterio. No symbolo daquelle partido, uma adoração
    supersticiosa da nacionalidade figurara entre os seus artigos
    fundamentaes por vinte e cinco annos; e quando, não esta ou aquella
    mulher, mas a mulher portuguesa, em geral, é vilipendiada, amaldicçoada,
    condemnada na sua capacidade moral e intellectual de mãe (porque a
    educadora é verdadeira mãe da infancia que lhe é confiada), esse partido
    apaga aquelle artigo fundamental do velho symbolo, e saúda a invasão
    estrangeira! E não a saúda só; declara-a a táboa de salvação das novas
    gerações. Não acha que apoderarem-se de orphãos adoptados pela patria
    seis mulheres e dous ou tres frades estrangeiros seja um facto
    insignificante ou indifferente. É que os homens eminentes desse partido
    tem estudado a historia. No seio delle não ha uma voz que se alevante
    para protestar contra a suppressão da mais exaggerada sentença do seu
    credo; não ha quem não marche alegremente ao combate. No meio das
    profundas fileiras do lazarismo, ou do jesuitismo, ou do
    ultramontanismo, ou como quizerem chamar-lhe, os vultos liberaes apenas
    raramente se descortinam, perdidos entre a multidão dos combatentes que
    detestam a liberdade. Sería o partido que sempre se mostrou tão leal,
    tão francamente e, não duvidamos dizê-lo, tão nobremente reaccionario,
    porque póde haver nobreza até no erro e no mal, seria esse partido assás
    insensato para fazer sacrificios taes, se não estivesse empenhado nisso
    o seu dogma supremo, a reacção? Valeria para elle a pena de se agitar,
    colerico e impaciente, por causa de seis mulheres e dous frades, e de
    combater com tanto azedume os que repellem essa importação estrangeira;
    elles, os homens da nacionalidade exaggerada? Se tal facto não disser
    nada aos transviados do campo liberal, então só nos resta deplorar a sua
    irremediavel cegueira.

    Ha tres seculos que tambem dous frades de um instituto novo, chamado a
    Companhia de Jesus, entravam sósinhos em Portugal. Um delles abandonava
    logo este paiz para atravessar o oceano e ir embrenhar-se entre as
    gentilidades da Asia. Ficou o outro. Foi o que bastou para nucleo de uma
    associação, que em breve dominou tudo. A mocidade é amiga de novidades.
    Mancebos saídos do seio das mais nobres familias, outros nascidos entre
    o povo e entre a burguesia correram a alistar-se no gremio nascente, ao
    passo que os reforços estrangeiros chegavam pouco a pouco. Vinham,
    dizia-se, moralisar o paiz e instrui-lo pela religião. Homens de estado
    conspicuos, a universidade de Coimbra, a parte mais illustrada da
    sociedade era-lhes adversa, e fazia sinistras predicções, que o tempo se
    encarregou de justificar. O poder estava, porém, nas mãos do fanatismo,
    da hypocrisia, e sobretudo da imbecilidade intellectual. A liberdade da
    palavra, a liberdade do pensamento escripto, a liberdade de associação
    não existiam. Ponderavam-se os fins tão uteis do sancto instituto, o bem
    que tinha feito fóra do paiz, como por toda a parte o acolhiam. As
    reluctancias, estereis porque sem nexo, esmoreceram e calaram-se. A
    instituição estrangeira venceu, enraizou-se, dilatou-se e dominou. A
    historia politica, social e litteraria do paiz durante duzentos annos
    está ahi para responder aos que perguntarem quaes foram os resultados da
    influencia incontrastada e incontrastavel dos jesuitas.

    Este exemplo memoravel e de triste recordação domestica deve ser inutil
    para nós? As apprehensões actuaes serão menos justificadas do que as dos
    homens instruidos, sisudos e experientes do meiado do seculo XVI? Ha
    quem diga que sim; ha quem pense que a historia serve só para pasto de
    uma curiosidade van; quem supponha que as leis da humanidade não são
    sempre as mesmas; que onde se derem causas identicas não se hão de
    repetir os mesmos effeitos. Deploremos a intelligencia dos que assim
    pensam. Dizem-nos que o espirito das congregações religiosas é diverso
    do que foi; que ellas não exercerão a perniciosa influencia que
    exerceram n'outras epochas, ao passo que podem ser grandemente uteis á
    illustração e á moralidade. Affirmam-nos que é preciso retemperar os
    antigos instrumentos de religiosidade para os oppor á irreligião do
    indifferentismo que invadiu as sociedades, e para fortificar o elemento
    christão, unico que póde combater com vantagem os delirios das novas
    escholas que poem em questão a propriedade e a familia, principios
    vitaes da existencia civil. A educação, dizem-nos, está fóra da esphera
    dos partidos: educae e instrui só por educar e instruir, e não cureis de
    saber qual será o destino politico das novas gerações. Ensinae-lhes os
    elementos da instrucção geral, a religião e a moral, de modo que depois
    se adaptem a todas as fórmas de governo, a todas as situações da
    sociedade.

    Diz-se isto, escreve-se, proclama-se. Os que assim falam são os
    reaccionarios occultos, os transfugas do campo liberal, e tambem
    aquelles que devemos considerar como suas victimas, os que se deixam
    illudir pelos sophismas desses homens de trevas, que, não tendo a nobre
    ousadia de declarar lealmente que abandonaram os seus estandartes,
    calumniam a liberdade para a trahirem sem trahirem os proprios intuitos,
    e sem sacrificarem os proventos que lhes resultam da sua supposta
    permanencia na fileiras em que andavam alistados. Comparada com a
    linguagem destes, a dos reaccionarios puros é nobre, porque é franca e
    sincera. O mal, na sua opinião, não consiste nas aberrações do
    liberalismo; consiste no proprio liberalismo. As doutrinas liberaes
    conduzem logicamente, forçadamente, os povos aos desvarios anarchicos, á
    negação absoluta da ordem social. É precioso restaurar o passado nas
    fórmas mais absolutas, nas maximas extremas da igreja e do estado;
    expungir todos os axiomas, todas as idéas de progresso civil e politico
    dos ultimos dez ou doze lustros, todas as instituições d'ahi derivadas.
    Os progressos materiaes deste seculo são acceitaveis: nada mais. O molde
    social novo cumpre quebrá-lo, repondo as sociedades no antigo, unico em
    que podem salvar-se.

    Entre este partido e o nosso está dicto tudo. Somos radicalmente
    adversarios. Podemos combater sem mutuamente nos desprezarmos; podemos
    ser mais ou menos violentos na lucta, sem que, em regra, em principio,
    nos accusemos de deslealdade. Não é esse partido, que nos obriga a
    defender esta Associação, e a expôr na imprensa os motivos da sua
    existencia, a sua indole, o pensamento que dirige todos os seus actos.
    As accusações d'alli vindas serão o seu melhor titulo para grangeiar a
    confiança do partido sinceramente liberal; porque os dous campos estão
    estremados e circumscriptos. O que importa é precaver-nos contra o mal
    que lavra nos proprios arraiaes; contra os inimigos que nos querem
    introduzir nelles como alliados. O fim dos nossos esforços deve ser
    repellir doutrinas que se vão pedir emprestadas ás theorias dos
    adversarios para se nos darem como idéas progressivas; deve ser repellir
    taes doutrinas principalmente nas suas applicações practicas.

    Dizem-nos que estamos n'uma épocha de progresso, e não podemos
    retrogradar; que a publicidade, a discussão, a liberdade bastam para
    preservar a sociedade das aggressões da reacção. São phrases oucas, sem
    valor, nem alcance na questão que deu origem a esta Associação, porque
    não determinam nenhum facto especial. De certo que o genero humano
    progride no seculo presente; porque o progresso é uma condição
    impreterivel da sua existencia: progride neste seculo, como progrediu em
    todos desde as mais remotas eras. Nem os tempos tormentosos das invasões
    dos barbaros deixaram de ser uma épocha de progresso. Demonstra-o a
    historia. Mas tem esse grande facto de genero-humano impedido que, n'um
    ou n'outro paiz, domine a tyrannia depois da liberdade; que os fóros do
    homem tenham sido desprezados; que as nações tenham sido individualmente
    opprimidas, desmoralisadas, barbarisadas, dissolvidas, anniquiladas como
    entidades politicas? Concluir do progresso constante da civilisação
    geral que um povo não póde retrogradar, e que portanto não deve
    premunir-se contra a reacção que o aggride, é aconselhar ao homem que se
    não previna contra as causas ordinarias da morte, porque a raça humana
    tem por condição a perpetuidade.

    A liberdade do pensamento, a discussão, a publicidade, as garantias, em
    summa, de um paiz livre bastam á defesa da sociedade. Mas então porque
    se acha extranho que pensemos livremente, que discutamos, que nos
    associemos, que usemos, dentro da estricta legalidade, d'esses meios que
    as instituições facultam aos cidadãos, para affastarmos um perigo que
    cremos sério e imminente? Porque a injuria, a colera, a calumnia?
    Dir-se-hia, ao ver os sanctos furores que se alevatam em regiões mais
    que suspeitas, que os nossos temores não são tão infundados, as nossas
    prevenções tão inuteis como se affirma, e que o perigo é verdadeiro e
    real.

    A reacção não póde vencer-nos: cruzemos os braços! Como se julgaria o
    homem, que n'uma praça sitiada, mas defendida por centenares de canhões
    e por uma guarnição numerosa e aguerrida, clamasse aos soldados no
    momento do ataque:–«Não assesteis a artilheria: não marcheis para as
    muralhas; confiae na efficacia dos nossos recursos; cruzae os braços,
    porque a praça é inexpugnavel.»–Este homem não chegaria a ser reputado
    traidor: te-lo-hiam apenas por mentecapto.

    Dizem-nos que a aggressão não existe; que a importação de um instituto
    estrangeiro, repugnante pela sua indole, pela sua regra, ás instituições
    do paiz, não é um symptoma, e mais do que um symptoma, um acto de
    reacção organisada. Examinemos esse facto em si: procuremos a sua causa.

    Uma calamidade publica determinou subitamente na capital do reino a
    existencia de um grande numero de orphãos, que foram perfilhados pela
    compaixão publica. Sem aquella calamidade, esses individuos teriam
    recebido a educação no seio das suas familias, ou nos estabalecimentos
    de educação já existentes, e a sociedade não teria visto n'isso um
    grande mal. Eram os estabelecimentos publicos e privados, já instituidos
    no reino, e destinados á educação da infancia e da puericia,
    radicalmente incapazes de preencher o seu fim? Onde estão as provas?
    Cumpria crear um estabelecimento de educação diversamente organisado? Se
    assim era, as pessoas que tinham dirigido, mantido, protegido parte dos
    já existentes, o parlamento e o governo que mantinham e dirigiam outra
    parte, todos se haviam enganado, ou enganavam o paiz. Em perto de um
    milhão de mulheres portuguesas, não havia cinco ou seis que se podessem
    encarregar da sancta e nobre missão de serem as mães adoptivas dos
    orphãos tutelados pela commiseração publica? A sciencia da educação
    inspira-a Deus por metade ao coração da mulher, porque o destino
    providencial desta é a maternidade: a outra metade dão-lh'a as tradições
    domesticas, as recordações dos primeiros annos, o ensino dos livros e
    dos mestres e a observação da sociedade. Tinha-se Deus esquecido de nós?
    A mulher portuguesa ignorava, porventura, esses delicados affectos, essa
    arte instinctiva, com que o espirito feminil attrahe para o bem a
    infancia desprevenida, e lhe suavisa as asperezas inevitaveis do
    primeiro ensino? Dir-se-hia, acaso, que o typo da mulher mãe e mestra
    não existia em Portugal, ou existia em regiões tão elevadas, e por
    excepção tão singular, que descobrir no paiz quem podesse desempenhar as
    graves funcções de educadora seria um problema insoluvel? Se assim
    fosse, a familia não existiria entre nós senão por excepção, porque, a
    primeira e impreterivel qualidade da mãe de familia é possuir o
    instincto e os dotes de educadora. Onde se não dá essa condição, a
    familia não passa de uma juxta-posição de pessoas. Acreditar que esta
    fosse a nossa situação; que poderia ser a situação de alguma povo, seria
    presuppor um absurdo. Não se partiu, de certo, de semelhante hypothese
    para a introducção em Portugal das irmãs de caridade francesas. E se
    assim foi, digam-nos que meios empregaram para verificar a existencia de
    tão monstruoso facto?

    Foi essa introducção apenas um capricho, uma puerilidade? Capricho,
    leveza pueril, poderia ter-se reputado, se a indignação, manifestada
    desde logo pelo sentimento nacional ferido, houvera ensinado a
    prudencia. Mas o sentimento publico só despertou coleras indiscretas e
    declamações apaixonadas. Isto prova que o facto não nascera de
    irreflexão; que fora calculado, discutido, apreciado, nos seus motivos e
    nas suas consequencias. Buscava-se o bem ou o mal; mas buscava-se alguma
    cousa importante. Podiam as pessoas que figuravam naquelle empenho não
    medir o seu alcance; mas atraz dellas estava decerto quem o medisse, e
    que talvez guardasse para si previsões e esperanças que não lhes
    revelava.

    Nasceria o facto do desejo de dar a conhecer ao paiz systemas e methodos
    mais perfeitos de educação physica e intellectual? Cremos que se devem
    estudar os systemas de educação estrangeira, e adoptar aquillo que
    nelles for verdadeiramente util e applicavel a Portugal. Mas para isto
    não bastam nem servem algumas irmãs de caridade francesas collocadas á
    frente de um asylo-eschola. Suppondo que a França fosse o paiz classico
    da pedagogia, o que é mais que duvidoso[5], seria das escholas normaes
    de metras que alumnas nossas poderiam trazer a Portugal os
    aperfeiçoamentos de que carecessemos, ou alumnas dessas escholas vir
    introduzi-los, não n'um asylo-eschola, mas n'uma eschola normal.

    A lei francesa de 15 de março de 1850, promulgada no meio do terror do
    socialismo, lei organica do artigo constitucional que proclamava a
    liberdade do ensino, permittiu ás congregações religiosas o magisterio
    sem a habilitação das escholas publicas. Queria-se oppôr o ensino
    clerical ao do professorado secular, que, na escala inferior, tendia,
    conforme se affirmava, para as idéas socialistas.

    O titulo de capacidade das irmãs de caridade francesas para o magisterio
    está nas prescripções dessa lei de reacção fundada no medo, prescripções
    que, aliás, qualificam do mesmo modo os individuos de ambos os sexos
    pertencentes a quaesquer outras cengregações religiosas. Especialmente,
    as irmãs de caridade não tem habilitação alguma official como
    educadoras: tem apenas as provisões geraes da sua regra; mas nem essa
    regra indica systema algum de ensino, nem temos meio nenhum de verificar
    a bondade dos que seguem, se alguns seguem, a não ser a auctoridade da
    congregação lazarista, e as vagas affirmativas dos partidarios da
    educação clerical.

    Que se póde esperar das congregações religiosas como instrumentos da
    educação? A circular do ministro de instrucção publica em França, de 19
    de agosto de 1850, diz:–«Pelo que respeita á creação de mestras, as
    escholas normaes e os cursos normaes que existem tem feito serviços
    assás positivos para não se poder duvidar de que os recursos para manter
    essas escholas sejam facilmente votados»–e o commentador da lei de 15
    de março. Rendu, accrescenta:–«A utilidade destas escholas normaes é
    tanto mais apreciada quanto é certo que em quasi todos os departamentos
    ha falta de mestras, falta provada pela experiencia diaria.»–O governo,
    portanto, que procurou entregar quanto fosse possivel a educação ao
    clero, appella especialmente para os antigos institutos seculares, e põe
    nelles a sua esperança de poder subministrar á França mestras habeis, ao
    passo que um dos homens mais competentes na materia nos revela que ellas
    faltam em quasi todos os districtos administrativos do imperio. Mas que
    fazem essas vinte ou trinta congregações a quem se tiram todas as
    restricções no ensino, e que devem salvar as gerações futuras da impia
    educação secular? A regra de S. Vicente de Paulo não excluiu o
    patriotismo. Enviando a este paiz inhospito e barbaro seis irmãs de
    caridade habilitadas para educadoras, o geral dos lazaristas privou a
    França dos seus serviços e trahiu o próprio dever, senão para com Deus,
    de certo para com a patria.

    O que, porém, na realídade a circular do ministro e as palavras de Mr.
    Rendu provam é que o progresso da educação em intensidade e em extensão
    não ha de nem póde vir de se entregar o magisterio ás corporações
    religiosas, cuja impotencia no meio da liberdade de ensino que se lhes
    concedeu, sem garantias sequer para a sociedade, os factos estão
    demonstrando. Póde e ha de vir de institutos seculares liberal e
    fortemente organisados. A civilisação gradual e crescente das sociedades
    pela educação popular é uma das primeiras questões de governo, e não uma
    intriga de sacristia. Se ha paizes onde as paixões politicas a
    reduzissem a essas dimensões, deploremos os seus destinos, mas
    abstenhamo-nos de os imitar.

    Assim, considerada pelo lado pedagogico, a introducção das irmãs de
    caridade francesas não correspondeu a nenhuma idéa de progresso; não
    satisfez a nenhuma necessidade da educação popular. Fugir-se-ha desta
    questão suprema para a de simples caridade? Dir-se-ha que o
    estabelecimento que serviu de pretexto á introducção desses frades e
    dessas mulheres não é propriamente um instituto de ensino, mas de
    beneficencia? Todos os absurdos se podem dizer quando se defende uma
    ruim causa, mas, em tal caso, porque excluir a mulher portuguesa? Porque
    reputá-la incapaz de carinho, de aceio, de religião, de moralidade? É
    licito, porém, admittir-se que o asylo entregue ao lazarismo seja apenas
    um abrigo para a indigencia material? As casas de asylo são
    essencialmente instítutos de educação. O mais superficial exame da sua
    indole o está provando. Se os homens da reacção ignoram até isso,
    citar-lhes-hemos uma auctoridade insuspeita para elles, a do actual
    governo francês. O decreto do imperador Napoleão de 21 de março de 1855
    diz:–«As casas de asylo, quer publicas, quer livres, são institutos de
    educação»,–e a circular de Mr. de Fortoul de 18 de maio do mesmo anno
    declara-as–«casas de educação primeiro que tudo.»–De certo não seriam
    nem o senso commum, nem a opinião que prevalece em França que
    auctorisariam os fautores de educação lazarista a considerar o asylo
    confiado ás irmãs de caridade como simples instituto de beneficencia.

    Se accusar as mulheres de um paiz em peso de falta de capacidade natural
    para a educação da infancia equivale a negar a possibilidade da
    existencia da familia, e portanto da sociedade, proposição de tal modo
    absurda que por si propria se refuta; se manifestações inequivocas nos
    provam que a introducção das irmãs de caridade francesas não foi um acto
    de capricho ou de inconsideração; se nem as doutrinas nem os factos
    relativos a tão grave assumpto legitimam aquella importação estrangeira
    no interesse do progresso do ensino, que resta para a explicar senão um
    pensamento de reacção social, pensamento que se tem, em assumptos
    analogos, manifestado na Belgica e no Piemonte, e que triumpha por
    outras partes?

    Mas o que quer esta reacção? Para onde caminha? Até onde vai? É o
    sentimento christão que se pretende avivar, restaurando por elle a moral
    positiva e practica? É a fé amortecida no animo das multidões, que por
    um impulso sublime de caridade se lhes quer restituir em toda a sua
    benefica energia, com guia, consolação e esperança, no meio das miserias
    da vida? Não é nada d'isso. Se o fosse, esta Associação, justamente
    porque é composta de liberaes sinceros, de homens de ordem, de justiça e
    de paz, seria tambem reaccionaria. A reacção é o catholicismo posto ao
    serviço dos interesses mundanos; é uma parte importante do clero que se
    deixa assoldadar pelo absolutismo com a esperança de que fazendo
    retroceder os povos até o estado social que precedeu a liberdade, poderá
    um dia recuar ainda mais longe e restabelecer a supremacia clerical
    sobre o poder civil. É, por outro lado, o absolutismo, que, servindo-se
    dessa parte do clero, e da poderosa arma da religião, procura restaurar
    o proprio predominio, persuadido de que, depois de obtido o triumpho,
    conterá o seu perigoso alliado pelos mesmos meios que outr'ora empregou
    para o domar, a resistencia energica ás suas pretenções, e a
    participação generosa nos proventos dos abusos, violencias, espoliações
    e vexames com que por seculos flagellou a humanidade. A reacção é o
    abraço refalsado de dous poderes que se hostilisaram, que se
    perseguiram, que alternadamente se esmagaram muitas vezes durante
    seculos, e cuja paz nos ultimos tempos era apenas uma tregua que
    tacitamente ajustara a corrupção. O direito divino da monarchia absoluta
    e a supremacia do chefe da igreja sobre os monarchas são duas idéas que
    repugnam entre si; que ainda hoje mutuamente se condemnam na região das
    theorias, como durante sete seculos os seus representantes se tinham
    amaldicçoado, injuriado, despedaçado mutuamente, em nome de dous
    principios contradictorios, que se diziam ambos emanados do céu. O
    absolutismo e o ultramontanismo, dando um abraço fraterno dimittiram a
    historia. A desgraça aconselhava-lhes a união. Guardaram para tempos
    mais prosperos os odios mutuos, filhos de mutuos aggravos, e no vacuo
    que lhes deixava nos corações aquelle antigo sentimento ficou mais á
    larga o rancor contra a liberdade. Na lucta gigante que emprehenderam,
    para fazer retroceder a torrente impetuosa das gerações e das idéas,
    empregam a arte e a dissimulação onde lhes falta a força; a força onde a
    arte e a dissimulação se escusam. Onde e quando cumpre, o absolutismo
    prostitue e compromette a monarchia em serviço do recente alliado; o
    ultramontanismo prostitue e compromette a religião em vantagem do seu
    implacavel adversario de outr'ora. Os defensores do throno absoluto
    somem cuidadosamente debaixo dos degraus delle os processos, as
    sentenças, as providencias, as leis, com que, unanimes, os tribunaes
    catholicos e os soberanos da Europa fulminaram e anniquilaram a
    sociedade dos jesuitas, como um gremio de homens corruptos e criminosos:
    o jesuitismo esconde nos recéssos mais escusos das casas-professas as
    vastas bibliothecas da litteratura do regicidio, os volumes
    pulverulentos de Bellarmino, de Suares, d'Escobar, de Molina, de
    Juvenci, de Busenbáum, de Lacroix, de Mazotta, e dos outros escriptores,
    dos bons tempos da companhia de Jesus. A sancta alliança póde não ser
    duradoura, porque as reservas casuisticas estão atraz della; mas é
    intima e forte. Abonam-na os custosos sacrificios feitos pelos dous
    alliados sobre o altar da concordia.

    Um homem de estado dos maiores da Europa, o maior talvez do seu paiz,
    cujos destinos dirigiu largos annos, tão probo e moderado como
    escriptor, quanto o foi na vida publica, descreveu com rapidos traços,
    n'um livro recentissimo, o caracter da reacção clerical e absolutista a
    que impiamente foi sacrificado o sentimento religioso que renascia em
    França. «O mal que ainda dura–diz Mr. Guizot-–apesar de tantas
    procellas e de tanta luz vertida, é a guerra declarada por uma porção
    consideravel da igreja catholica de França á sociedade francesa actual,
    aos seus principios, à sua organisação plitica e civil, ás suas origens
    e às suas vocações… Em nenhum tempo houve guerra de tal natureza mais
    desarrazoada e inopportuna… O movimento que reconduzia a França para o
    christianismo era sincero e mais grave do que parecia… Entregue a si,
    e sustentado pela influencia de um clero que só se preoccupasse de
    renovar a fé e a vida christã, aquelle movimento teria grandes
    probabilidades de se propagar, e de restituir á religião o seu legitimo
    imperio. Mas, em vez de se conservarem nesta alta esphera, muitos
    membros do clero catholico e seus cegos partidarios desceram a questões
    mundanas, e mostraram-se mais ardentes em repôr no antigo molde a
    sociedade francesa, com o intuito de restituir á igreja a anterior
    situação, do que em reformar e dirigir moralmente os espiritos[6].»

    Esta sentença fulminada por uma altissima intelligencia, por um nobre
    caracter, collocado por muitos annos n'uma posição sem igual para
    ajuizar com segurança das tendencias e fins de todas as parcialidades do
    seu paiz; esta affirmativa tremenda de um homem de bem assentado na
    borda do tumulo, é tão verdadeira, como triste para nós os que, sem
    intenções reservadas, amamos o catholicismo, como crença de nossos paes,
    como religião unica na constancia e unidade de doutrina, e cujos dogmas,
    precisos, indubitaveis, completos, se tem conservado immutaveis por mais
    de dezoito seculos, desde os tempos apostolicos até agora, no meio das
    heresias, das variações, das superstições, nascidas hoje para se
    desmentirem, se alterarem ou desapparecerem ámanhã. O facto descripto
    pelo grande historiador da civilisação repete-se em Portugal.
    Perverteram-se aqui como lá as tendencias christãs, que se manifestaram
    depois dos graves acontecimentos de 1833, para se ir tentando
    gradualmente a restauração de certas formulas sociaes e politicas, de
    certos abusos escandalosos condemnados e destruidos irrevogavelmente.
    Faz-se guerra á sociedade portuguesa actual, aos seus principios, á sua
    organisação politica e civil, ás suas origens e ás suas vocações. Faz-se
    intervir a religião em questões mundanas, e pensa-se mais em repôr no
    antigo molde a sociedade portuguesa do que em reformar e dirigir
    moralmente os espiritos.

    A corrupção de uma parte preponderante do clero, a sua participação nas
    rapinas, nas violencias, nas extorsões fiscaes dos antigos tempos, a sua
    devassidão, o seu luxo, e por fim os seus esforços insensatos a favor do
    absolutismo, levados até a cooperação armada, fizeram com que elle se
    achasse debaixo das ruinas do edificio que a liberdade desmoronou no dia
    assignalado pela justiça de Deus. O partido liberal não desejava
    encontrar lá o clero; mas tambem não perguntou quem tinha ido abrigar a
    cabeça debaixo do tecto maldicto. Confundem facilmente os espiritos
    vulgares a idéa com a manifestação, a doutrina com o homem. O povo
    confundiu até certo ponto o altar com o ministro, e confundiu-o,
    justamente, porque por muitos annos a porção corrupta do clero fizera
    escudo do altar. O sentimento religioso esmorecera. A mocidade
    intelligente ousou então pedir paz para o innocente, perdão para o
    culpado, respeito para a cruz. Uma parte dos vencedores riram-se, e
    todavia a supplica era justa. Suspeitosos de nós, os vencidos sorriram
    tambem; e todavia a supplica era sincera. Ouviu-a Deus. No fim de tempos
    o sentimento christão dominava no liberalismo. A litteratura de quinze
    annos, e a imprensa periodica desta épocha ahi estão para responder por
    nós quando o futuro tiver de julgar a reacção e a liberdade. Os
    espiritos mais nobres e mais illustrados do partido do progresso social
    comprehendiam, emfim, uma verdade simples, que as paixões haviam
    offuscado; comprehendiam que o christianismo e a liberdade eram a
    prolação do evangelho; eram dous irmãos que os maus tinham inimizado, e
    que cumpria reconciliar. De todas as obras do pregresso, a mais grave, a
    mais fecunda, a mais civilisadora era esta. Mas, incorrigivel aqui, como
    em França, como por toda a parte, o velho partido da corrupção na
    igreja, que fizera já uma vez paz com o absolutismo, porque o
    absolutismo tinha ouro, tinha grandezas, tinha esplendores para o
    saciar, apertou mais energicamente os laços que o ligavam a elle.
    Aterrava-o a idéa de que a religião podesse erguer-se pura e illesa do
    seio das revoluções sociaes. Rendia pouco uma religião assim. Correi as
    publicações chamadas religiosas feitas n'este paiz ha vinte cinco annos;
    vereis que as suas tendencias, as suas manifestações de sympathia são,
    talvez sem excepção, para o ultramontanismo, isto é, para o despotismo
    na igreja, e para a monarchia de direito divino, isto é, para o
    despotismo na sociedade. Excluem-se os dous principios em theoria;
    excluiram-se por seculos nos factos: mas que importa isso aos grandes
    incredulos chamados os defensores da religião? Se gosarem dous dias
    n'este mundo, que lhes importam os males futuros dos povos? Que lhes
    importa que d'aqui a cem annos a thiara role no lodo aos pés do throno
    dos reis, ou que as coroas se revolvam no pó aos pés do solio
    pontifical?

    D'ahi veio a guerra implacavel e tenaz feita á liberdade. Onde esta se
    debilitou pelo excesso temporario de vida, até degenerar em licença e em
    ameaça á sociedade, a reacção, que fora até então vencida, venceu a
    final. E tão completamente venceu, que já nos horisontes apparecem, como
    consequencias inevitaveis dessa victoria, os primeiros signaes da lucta
    entre o sacerdocio e o imperio, ou antes entre os dous despotismos, que,
    por força da propria indole, são obrigados a aggredir-se desde que se
    equilibram. Nos paizes onde a liberdade é forte, porque é moderada, como
    na Belgica, no Piemonte e em Portugal, o definitivo triumpho será mais
    difficil para os reaccionarios, se o partido liberal, sejam quaes forem
    as suas dissensões intestinas, não cahir nas exaggerações politicas, e
    se conservar unido em frente da reacção.

    Por muito tempo foi esta apreciada mal entre nós, porque as suas
    manifestações eram desconnexas, intermittentes. Appareceram,
    desappareceram, renovaram-se certas confrarias e associações do sexo
    feminino, nas quaes um singular perfume de mysticismo se accommoda aos
    habitos e costumes luxuarios que dá a opulencia. A devoção é ahi
    diversão de certas classes, a quem o berço e a fortuna habilitaram para
    se esquivarem á dura comminação do trabalho imposta no Génesis.
    Publicações devotas e quasi romanticas, traduzidas do francês, e onde
    nem, sempre a pureza severa da crença catholica é respeitada, feitas com
    a elegancia typographica dos prelos franceses vieram expulsar do mercado
    aristocratico o antigo livro de resas português, grosseiro na fórma,
    rude no aspecto, singelo na phrase. A reacção civilisa-se. Alguns dos
    verdadeiros amigos do altar e do throno, que, refugiados em Paris,
    vertiam ou architectavam, em lingua proximamente portuguesa, essas
    maravilhas do mysticismo francês, já foram recompensados por prelados
    nossos dos seus serviços á boa causa politica e á boa causa religiosa.
    Aquelles varões apostolicos não recusaram o amplexo fraterno á igreja
    lusitana arrependida. Esperemos que os mais colericos e pertinazes não
    continuem a negar ao arrependimento o osculo de paz. O povo não esqueceu
    á reacção: a caridade desta estende-se a todos e a tudo. Trovejando
    contra a sociedade moderna, missionarios analphabetos sobem aos pulpitos
    dos povoados e dos campos, e ora se occultam, ora resurgem como fogos
    fatuos. Os milagres tinham militado no campo da reacção em França, na
    Allemanha, e na Italia: não podiamos por isso dispensá-los. Os milagres,
    porém, entre nós foram de máu gosto: os fabricantes eram inexpertos, e a
    impiedade da sciencia inutilisou a obra[7]. Reconheceu-se que eram
    soldados de pouco prestimo. Mas a agencia da associação francesa da
    propagação da fé fazia alistamento de tropas mais solidas; e se
    inferirmos da verba total da contribuição paga por Portugal áquelle
    instituto, attendendo á exiguidade da quota, não se podem calcular os
    seus adeptos neste paiz em menos de quatorze ou quinze mil
    individuos[8]. O nexo apparente que une esta vasta associação é a
    contribuição para as missões francesas e a leitura dos _Annaes da
    Propagação da Fé_, tecido de embustes, já desmascarado por um
    missionario, o padre Gabet, e por outros escriptores. Os _Annaes_,
    especie de Carlos-Magno da reacção, servem para manter com patranhas a
    confiança dos adeptos na influencia da associação, na grandeza dos seus
    recursos, e no zêlo dos seus missionarios, mas ainda mais lhe devem
    servir para calcular as forças de que póde dispor em cada paiz, e para
    manter sem custo por toda a parte uma jerarchia de agentes, cujos
    serviços utilize nas occasiões opportunas, como, por exemplo, em
    grangeiar assignaturas a favor de alguma tentativa reaccionaria.

    Estes meios, sem exceptuar os proprios milagres, e além delles outros,
    taes como os trabalhos occultos da sociedade cujos gremios se denominam
    _capellas_, especie de maçonaria ao divino, de ha muito organisada, ou
    como as invectivas diarias de certa parte da imprensa ignobil e da
    imprensa politica, dirigidas contra as instituições liberaes, e ainda
    alguns desabafos, mais ou menos violentos, na imprensa litteraria, a
    proposito deste seculo ferreo, que não desconjuncta no potro, não
    pendura no patibulo, não esquarteja nem queima ninguem pelos erros ou
    acertos da sua intelligencia; tudo isso eram e são manifestações da
    reacção que vai lavrando; mas o partido liberal podia e devia
    tolerá-las, embora nem sempre fossem alheias á sancção do codigo penal.
    Era ao governo que pertencia submetter esses factos á apreciação dos
    tribunaes; e todavia, não queremos invectivá-lo pelo seus desleixo ou
    indolencia nesta parte. Se ha alguma circumstancia em que aos
    magistrados se deva perdoar a frouxidão no cumprimento de leis, ás vezes
    demasiado severas, é quando a applicação dessas leis póde comprometter
    aos olhos da consciencia publica a doutrina evangelica e liberal da
    tolerancia. Mas ao lado destas diversas manifestações ostensivamente
    desconnexas, e mais ou menos particulares, appareceram outras de maior
    gravidade, porque mostravam que o mal havia invadido tambem as regiões
    officiaes. Uma das primeiras em data e em ponderação foi o convenio de
    21 de outubro de 1848, monumento de subserviencia, onde o
    plenipotenciario português tolerava que o ministro do governo papal
    escrevesse a insolente qualificação de _odiosa_ em relação a uma lei
    vigente do reino; onde se pactuava um compromisso vergonhoso ácerca do
    arcebispo de Goa, que se houvera com valor repellindo as doutrinas
    subversivas e as espoliações brutaes dos agentes da Propaganda na sua
    provincia do oriente; onde a curia ousava fixar, não só congruas a
    membros da jerarchia ecclesiastica da igreja portuguesa, mas, até, a
    remuneração de simples funccionarios; onde se estatuia a manutenção de
    corporações religiosas e a faculdade de novas profissões, em
    contraposição ás leis do reino; onde, finalmente, se consentia que o
    nuncio chamasse _escandalo_ a annunciar-se a venda dos bens nacionaes,
    que tinham pertencido ás corporações de mão morta, acceitando-se a
    validade das doutrinas ultramontanas a tal respeito, e conculcando-se a
    auctoridade legitima do poder civil. Neste acto, porém, a reacção não
    medira bem a extensão dos seus recursos. O governo viu-se constrangido a
    enganar o parlamento, escondendo-lhe as condições mais repugnantes desta
    deploravel negociação[9].

    Entretanto a curia romana e com ella o partido reaccionario tinham dado
    um grande passo; tinham feito amaldicçoar os principios que haviam
    presidido á grande revolução social de 1834, por um governo cuja
    legitimidade moral e, portanto, cuja força derivavam justamente do
    predominio desses principios. Seguir com prudencia a victoria é de
    general habil. O arcebispo de Goa foi compellido a condemnar perante o
    papa tudo quanto dissera e fizera na India em defesa dos seus
    irrefragaveis direitos metropoliticos, comprando por esse preço a
    coadjutoria e futura successão da mitra de Braga. Estatuira-se que se
    creasse uma delegação da nunciatura em todas as camaras ecclesiasticas,
    e esta novidade realisou-se, ao menos em parte. Os proventos moraes da
    bulla da cruzada, das dispensas de Roma, e de outras concessões
    igualmente importantes cahiram como chuva benefica sobre o solo arido de
    Portugal. Os proventos materiaes, esses cahiram cá e em Roma, mas com a
    devida selecção de favorecidos. O ultramontanismo ganhara muito, e as
    cousas ficavam encaminhadas para novos triumphos; mas era preciso contar
    com um elemento indispensavel, o tempo. Era preciso deixar funccionar o
    mysticismo francês, as confrarias romantico-religiosas, a imprensa
    temente a Deus, os milagres, os padres emigrados, a associação da
    propagação da fé: era preciso augmentar o producto bruto da bulla da
    cruzada, e o producto liquido das sanações e dispensas; a reacção bem
    sabia para que[10]. Era preciso, sobretudo, ir viciando, gangrenando
    systematicamente o partido liberal, adquirindo nelle patronos e agentes
    occultos, illudindo os bons e inexpertos com as esperanças da
    restauração da moralidade, e comprando os ambiciosos, que estavam nesta
    campo só porque não estavam no outro, com o prospecto de uma victoria
    definitiva, que, restabelecendo os vexames e espoliações do povo, e as
    sinecuras e esplendores que a revolução de 1833 tinha destruido, podesse
    amplamente satísfazer tanto as grandes como as pequenas cubiças. Quando
    todo este conjuncto de elementos deleterios tivesse produzido
    sufficiente effeito, então poder-se-hia arrojar a mascara, e não se
    passar, como em 1849, pela humilhação de calar diante do parlamento as
    vantagens adquiridas.

    Uma tentativa que por muito tempo ficou occulta, apesar do seu bom
    resultado, deu á reacção, tempo depois, a medida dos progressos que
    havia feito nas regiões officiaes. A audacia dessa tentativa, pura e
    exclusivamente ultramontana, está indicando que era uma experiencia.
    Acertando o golpe, a reacção clerical tirava d'ahi duas vantagens; obter
    uma nova victoria, e obtê-la no mesmo terreno onde sempre fora repellida
    pelo seu recente alliado, o absolutismo, quando o absolutismo era o
    poder civil. Ficava assim este advertido de que no dia do commum
    triumpho, se tal dia tivesse de raiar, lhe cumpria ser mais docil para
    com as pretensões do ultramontranismo. Achava-se vaga a diocese de
    Aveiro, não existia alli cabido, a nomeiação do vigario capitular
    devolvia-se, por isso, ao metropolitano, o arcebispo de Braga. Appareceu
    então uma bulla pontificia auctorisando o metropolita _como delegado da
    sé apostolica_ para fazer aquella nomeiação. Uma tal bulla, que
    constituia um attentado contra o direito canonico recebido no reino, que
    offendia por mais de um modo as liberdades da igreja portuguesa, que
    vilipendiava a primeira, a mais illustre metropole do reino, apresentada
    ao governo na epocha do absolutismo, teria dado em resultado a saída do
    nuncio de Lisboa dentro de quarenta e oito horas; no governo liberal
    teve a confirmação regia, o _placet_. _Placet_ a derogação virtual do
    direito ecclesiastico; _placet_ a quebra dos fóros da igreja portuguesa;
    _placet_ a affronta do soberano protector e defensor dessa igreja;
    _placet_ a confissão de que Roma triumphou emfim n'uma lucta de sete
    seculos. Politicamente, o governo que sanccionou semelhante escandalo,
    era responsavel por elle; moralmente não. Não ha responsabilidade desta
    especie onde não existe a faculdade de apreciação.

    Coincidindo com este facto, facto gravissimo, não tanto pelo seu objecto
    como pela sua significação, caminhava-se nas trevas para se realisar
    outro de igual significação, mas cuja importancia material era sem
    comparação maior. Falamos da concordata sobre o nosso padroado do
    Oriente. É um facto assás recente e assás estrondoso para estar na
    memoria de todos. Na imprensa e no parlamento fez-se conhecer de modo
    innegavel a monstruosidade dessa convenção desastrosa. Nunca o
    ultramontanismo havia obtido mais decisivas vantagens. Repetir aqui as
    ponderações que opportunamente se fizeram a este respeito fora escusado.
    O que importa agora é notar com certa individuação o que nas discussões
    que então se alevantaram e que induziram a camara dos deputados a
    inutilisar a concordata, rejeitando algumas das suas provisões mais
    escandalosas, não se fez sentir senão accidentalmente, isto é, a
    influencia que tinha na politica geral da Europa aquella nova e mais
    audaz tentativa da reacção ultramontana. O pensamento da concordata
    reduzia-se, na sua expressão mais simples, a deixar subsistir na
    incerteza o exercicio do nosso direito de padroado nas igrejas
    catholicas da India, e a privar-nos desse direito nas regiões
    transgangeticas, especialmente na China. Na India, as luctas do clero
    português com o clero ultramontano perturbavam a paz publica no
    territorio inglês, e as decisões dos tribunaes ingleses, quando questões
    dessa ordem eram levadas perante elles, decididas sempre a nosso favor e
    conforme a justiça, não podiam obstar á repetição das desordens, que a
    associação da propagação da fé de Paris e Lyão e a Propaganda de Roma
    indirectamente alimentavam e alimentam com toda a especie de auxilios
    que enviam aos seus agentes naquellas partes. Na India, a conservação do
    _statu quo_ era uma vantagem para a reacção, porque as turbulencias que
    suscita a contenda tem tres resultados importantes: disfructar o partido
    ultramontano, por pouco ou por muito tempo, os bens e rendimentos de
    igrejas numerosas e em grande parte opulentas, incommodar uma nação
    liberal e catholica no exercicio de um direito que com justiça se lhe
    não póde disputar, e manter mais um elemento de desordem nos estados
    indicos da Grã-Bretanha liberal e protestante. Na China, a questão
    revestia-se de outras circumstancias, e tomava diversa fórma. Ahi era
    necessario destruir a influencia moral dos nossos bispos e missionarios;
    influencia antiga, radicada e até acceita na propria côrte de Pekin,
    onde mais de uma vez esses bispos e missionarios tinham sido revestidos
    de cargos importantes na jerarchia dos funccionarios civis. A nossa
    influencia na China não podia de certo ser util ao anglicanismo; mas
    era-o sem duvida aos interesses materiaes da Inglaterra. Nação pequena e
    por consequencia inhabilitada para disputar preponderancia e
    preferencias politicas naquella vasta e populosa região, que se acaba de
    abrir ao commercio e ás combinações diplomaticas dos estados da Europa,
    não podia a influencia moral que alli houvessemos de exercer por meio da
    religião ser adversa aos intuitos commerciaes e politicos da Inglaterra.
    A alliança sincera de Portugal com a patria de Nelson e de Wellington é
    indestructivel, porque procede, não só das tradições historicas e da
    analogia de instituições politicas, mas tambem da força das
    circumstancias actuaes. A origem dessa intima alliança tem a data
    escripta no mais grandioso monumento do paiz. A Batalha recorda-nos que
    ha um pacto perpetuo asselado com sangue entre Portugal e a Inglaterra.
    Quando o povo português deixar de ser o irmão e o amigo do povo inglês,
    tem que derribar primeiro o templo de Sancta Maria da Victoria, e de lá,
    de cima das suas ruinas, sobre os ossos de D. João I, o arauto da
    discordia, tem a annunciar ao mundo que esse velho pacto expirou. Ha
    perto de quatro seculos, nos campos de Aljubarrota e em frente dos
    esquadrões franceses e castelhanos, a invencivel infanteria inglesa
    jurava com os cavalleiros portugueses que esta terra seria livre, e uns
    e outros cumpriam heroicamente o seu voto. Nesta épocha, porém, de
    actividade, de industria, de trabalho ligam-nos aos alliados do mestre
    d'Aviz, do rei mais nobre e mais português da nossa historia, não só as
    reminiscencias do passado, mas tambem os interesses materiaes do
    presente. A Inglaterra é a consumidora dos nossos productos; nós os
    consumidores de uma pequena parte da immensa producção industrial
    inglesa: nós levamos ao mercado de vinte e sete milhões de individuos a
    melhor parte do que nos sobeja da nossa producção agricola; elles
    entregam n'um mercado de quatro milhões de homens em productos da sua
    industria ou em metaes preciosos o equivalente do que nos convem
    vender-lhes. A nossa vida economica tem uma relação tão intima com a
    vida economica da Grã-Bretanha, que não se comprehende sequer como se
    poderiam hostilisar os interesses dos dous povos na extremidade da Asia,
    ainda suppondo que coubesse nas nossas forças contrastar ali o poder
    collossal da Inglaterra.

    Assim a reacção sabia que as influencias religiosas, influencias mais
    efficazes naquellas regiões remotas do que geralmente se cuida, não as
    podia empregar em damno da Grã-Bretanha, da sua mortal inimiga, se o
    nosso direito de padroado nas igrejas catholicas da China fosse
    respeitado. Espoliava-nos, pois, desse direito, com a acquiescencia dos
    seus adeptos em Portugal, emquanto centenares de lazaristas, de jesuitas
    e não sabemos de que outras congregações italianas e francesas velejavam
    para o oriente ao lado das esquadras britannicas que iam abrir aquelle
    immenso mercado ás especulações da Europa. Se o governo de Inglaterra
    não comprehendeu então o que significava a espoliação do padroado do
    Oriente feita ao seu antigo alliado, o povo inglês ficará algum dia
    sabendo á sua custa a connexão que esse negocio tinha com os seus
    futuros interesses.

    Taes foram os mais notaveis factos do que ha muito denunciavam a obra
    reaccionaria nas regiões do poder. Estas tendencias ultramontanas e
    anti-liberaes tem tal permanencia, constituem uma serie de actos tão
    logicos e concatenados entre si, atravez de todas as modificações de
    homens e de partidos proprias do governo representativo, que se torna
    facil chegar a uma triste illação. É que esses factos não procederam das
    diversas administrações que tem succedido umas às outras no decurso de
    dez ou doze annos. A culpa real dos individuos a quem cabe a
    responsabilidade politica de tantos erros e vergonhas é unicamente a de
    terem ambicionado ou de terem acceitado funcções superiores á sua
    capacidade. A idéa, o intuito inflexivel e fatal residia e reside
    forçosamente em funccionarios menos elevados, porém mais permanentes, ou
    em influencias occultas, que actuam constantemente na gerencia dos
    negocios publicos, e que reproduzem ahi de modo mais serio as outras
    manifestações, na apparencia irregulares e desconnexas, da reacção.

    É d'estes precedentes que principalmente deriva a gravidade do facto da
    introducção das irmãs de caridade francesas em Portugal, introducção
    que, segundo já mostrámos e continuaremos a mostrar, não se póde reputar
    alheia á conspiração organisada neste paiz contra a liberdade; que não
    é, que não póde ser senão uma nova phase della. Nada mais logico da
    parte dos reaccionarios do que, ao passo que aggrediam a sociedade
    actual, começarem a preparar o terreno para futuras victorias
    apoderando-se da educação. Havia tempos que se dera principio á empreza
    inspirando a pessoas piedosas e collocadas em alta jerarchia o desejo de
    sollicitarem do governo, não a permissão de augmentar e organisar melhor
    o instituto português das irmãs de caridade, porque este apenas serviria
    para satisfazer aos preceitos de utilidade practica da regra de S.
    Vicente de Paulo, mas sim a admissão de irmãs de caridade francesas,
    instrumentos cegos dos lazaristas, muitos dos quaes pouco depois se
    dirigiam ao Oriente para recolher o fructo da expulsão do clero
    português de uma parte das nossas igrejas da Asia. O mais difficultoso
    do negocio era que essas pobres mulheres deviam, em conformidade com a
    disciplina da ordem, ser acompanhadas de alguns daquelles membros da
    congregação das missões que se não tinham reputado necessarios para
    combater em regiões longinquas o nome português e os direitos da corôa
    de Portugal, paiz que aliás a corte de Roma declarava officialmente
    schismatico, n'uma especie de circular aos vigarios apostolicos da
    India[11], na mesma conjunctura em que, por intervenção do seu nuncio em
    Lisboa, negociava comnosco a famosa concordata que tinha por fim
    principal hostilisar o predominio da Inglaterra na Asia. Diz-se que
    houve resistencias á nova pretensão, mas cedeu-se por fim a poderosas
    influencias, e as irmãs de caridade francesas, acompanhadas dos seus
    mentores, não tardaram em chegar a Portugal, em parte para tomarem conta
    do novo asylo de orphãos que se creara, em parte com o pretexto do
    serviço dos hospitaes. A reacção ganhara outra victoria, na apparencia
    mais obscura, mas a mais importante de todas nos seus resultados.

  • Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Opúsculos por Alexandre Herculano – Tomo 01

    Aproximadamente 54.592 palavras.

    Produced by Biblioteca Nacional Digital (http://bnd.bn.pt),
    Rita Farinha and the Online Distributed Proofreading Team

    OPUSCULOS

    POR

    A. HERCULANO

    SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA
    SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA
    SOCIO CORRESPONDENTE
    DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID
    DO INSTITUTO DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES)
    DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE TURIM
    DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA YORK, ETC.

    QUESTÕES PUBLICAS

    TOMO I

    LISBOA
    EM CASA DA VIUVA BERTRAND & C.ª–CHIADO, N.º 73

    M DCCC LXXIII

    IMPRENSA NACIONAL

    *ADVERTENCIA PRÉVIA*

    Havia annos que os meus velhos editores e amigos, os fallecidos Irmãos
    Bertrands, admiraveis typos dessa modesta austeridade e dessa nobre
    honradez, em todas as relações da vida civil, que eram gloriosa tradição
    da classe burguesa, e que a burguesia destes nossos tempos, ensanefada
    já de ouropeis fidalgos, não parece inclinada a manter com excessivo
    ciume; havia muito, digo, que os meus editores instavam comigo para que
    ajunctasse em volumes alguns opusculos, escriptos por mim e publicados
    por elles em diversas conjuncturas, cujas edições se achavam de todo
    esgotadas. Na sua opinião, eu devia incluir tambem nessa collecção
    outros opusculos, que, ou impressos avulsamente por minha conta, ou
    inseridos em publicações periodicas, tinham feito certo ruido, e não se
    encontravam já no commercio. Entendiam igualmente que nesta compilação
    de trabalhos sobre assumptos tão variados poderiam introduzir-se
    quaesquer outros ainda ineditos, que me não parecessem indignos de virem
    a lume, o que, no seu modo de ver, daria certo realce á publicação que
    se propunham, e em cujo exito confiavam.

    Apesar das ponderações que me faziam homens tão experimentados nas
    cousas da imprensa, hesitei muito tempo em acceder aos seus intuitos.
    Após largos annos consumidos na vida agitada das letras, em que o meu
    baixel mais de uma vez fora açoutado por violentas tempestades, tinha,
    emfim, ancorado no porto tranquillo e feliz do silencio e da
    obscuridade. Olhava com uma especie de horror para as vagas revoltas da
    immensa lucta das intelligencias, contraste profundo da vida rural a que
    me acolhera. Depois, o espirito sentia bem a propria decadencia, cujos
    effeitos a interrupção dos habitos litterarios devia aggravar.
    Reflectia, sobretudo, no tedioso de rever escriptos, parte dos quaes
    remontavam a tempos assás distantes. Podia, na verdade, devia talvez,
    deixá-los passar como estavam, no que respeita á maior ou menor exacção
    das doutrinas, porque a pretensão á infallibilidade é sempre ridicula no
    individuo, e eu nunca tive tal pretensão; mas era indispensavel
    castigá-los em relação á fórma. O methodo, o estylo, a linguagem, as
    condições, em summa, da arte de escrever são, no mundo das letras, o que
    a boa educação, a cortesia, as attenções, o respeito para com os usos
    recebidos são no tracto civil, o que os ritos são nas sociedades
    religiosas. No ente que cogita, a idéa póde e ha de variar com o decurso
    do tempo, com a ampliação dos horisontes do pensamento. Sobrepõe-se
    gradualmente a verdade ao erro, e ainda mal que, outras vezes, é o erro
    que succede ao erro, quando não á verdade. Aprender quasi sempre é
    esquecer; affirmar quasi sempre é negar: esquecer o que aprendemos;
    negar o que nós proprios affirmámos. É por isso que, no meio de milhões
    de duvidas, cada geração lega á que lhe succede poucas verdades
    incontrastaveis, e que a lentidão do progresso real é um bem triste e
    desenganador dynamometro da tão limitada potencia das faculdades
    humanas. Não assim pelo que toca ás formulas externas das manifestações
    do espirito. O incompleto, o barbaro, o vicioso, o tolhido, o
    desordenado, o obscuro não são o revolutear do oceano das idéas: são
    simplesmente ignorancia ou preguiçoso desalinho, mais ou menos
    indesculpaveis.

    Ora a revisão de escriptos de tão diversas epochas, ainda limitando-me
    ao exame da contextura e execução, repugnava-me. Era renovar o tracto
    com as letras no que ha nellas menos attractivo, na questão da fórma. E
    todavia, sem esse trabalho preliminar, não podia decentemente satisfazer
    os desejos dos meus editores, desejos que o ultimo d'elles, pouco antes
    de fallecer, ainda vivamente manifestava.

    Mas, o que era na realidade esta repugnancia ao trabalho, embora fosse
    um trabalho ingrato? Era o egoismo dos annos derradeiros; o amor á
    quietação da intelligencia, que, no outono da vida, é em nós como o
    prenuncio da completa, da eterna paz. Para vencer esta enfermidade dos
    espiritos cançados e gastos, cumpre que surja nelles um incitamento
    poderoso, uma necessidade instante. Foi, porém, este incitamento ou esta
    necessidade que, a final, nasceu para mim, justamente das condições da
    vida rural.

    Para o velho que vive na granja, na quinta, no casal, como que perdidos
    por entre as collinas e serras do nosso anfractuoso paiz, ha na
    existencia uma condição que todos os annos lhe prostra o animo por
    alguns mezes, doença moral, mancha negra da vida rustica, facil de
    evitar nas cidades. É o tedio das longas noites de inverno; das horas
    estereis em que o peso do silencio e da soledade cai com duplicada força
    sobre o espirito. Para o velho do ermo, nesses intervallos da vida
    exterior, a corrente impetuosa do tempo parece chegar de subito a pégo
    dormente e espraiar-se pela sua superficie. A leitura raramente o
    acaricia, porque os livros novos são raros. A decima visão da mesma
    idéa, vestida do seu decimo trajo, repelle-o, não o distrahe. As
    convicções ardentes, as alegrias das illuminações subitas, as coleras e
    indignações que inspiram e que, na mocidade e nos annos viris, enchem a
    cella do estudo de turbulencias interiores, de arrebatamentos
    indomaveis, de debates inaudiveis, de lagrymas não sentidas, de amargo
    sorrir, cousas são que se desvaneceram. Matou-as o gear do inverno da
    existencia. Desfallece-lhe o animo, mal tenta embrenhar-se na selva das
    cogitações, engolfar-se nas ondas dos pensamentos, que, em melhor idade,
    lhe roubavam á consciencia os ruidos longinquos e confusos das
    multidões, e aquella especie de zumbido obscuro que ha no silencio
    profundo, e as passadas tenebrosas da noite, e o surgir e o galgar do
    sol ao zenith, emquanto a penna inspirada arfava, deslisando sobre o
    papel, semelhante á véla branca da bateirinha, que, ao refrescar do
    vento, vai e vem de margem a margem, atravez da ria. Não: para o velho
    não ha a febre da alma que devora o tempo. Sente-o gotejar no passado,
    como os suores da terra que cáhem, lagryma após lagryma, pela claraboia
    de galeria deserta na mina abandonada. É verdade que a natureza compensa
    o esmorecer e passar do vigor e da actividade intellectual com a propria
    somnolencia do espirito, voluptuosidade da velhice, ameno e dourado
    pôr-do-sol, que se refrange no espectro da sepultura já vizinha e o
    illumina suavemente. Mas o dormitar do entendimento, para ser deleitoso
    enleio, exige o movimento externo e as singelas occupações e cuidados da
    vida campestre. Sem isso, e é isso que falta muitas vezes nas
    interminaveis noites de inverno, a inercia da intelligencia, que vagueia
    no indefinito sem o norte da realidade, vai-se convertendo pouco a pouco
    em intoleravel tormento; tormento no qual ha, por fim, o que quer que
    seja da céllula circular e esmeradamente branqueiada, onde o grande
    criminoso é entregue, sósinho, á euménide da propria consciencia. N'esta
    extremidade, por mais somnolenta e obscurecida que esteja a mente, por
    mais que ella ame o repouso, o trabalho do espirito, ainda o mais arido,
    é preferivel, cem vezes preferivel, ao fluctuar indeciso no vacuo.

    Foi por isto que comecei a ajunctar os _disjecta membra_ de uma grande
    parte do meu passado intellectual; a accrescentar, a cortar, a corrigir,
    a completar. Vencido o primeiro inverno, vi desapparecerem os marcos
    negros juncto dos quaes cumpria que longamente me assentasse ao cabo de
    cada um dos poucos estadios que ainda me restam a transitar pela estrada
    da vida. Que esta confissão ingenua sirva para ser absolvido da especie
    da correria que, apesar dos mais firmes propositos, faço, ainda uma vez,
    na republica das letras.

    Os escriptos aqui reunidos, os quaes, na sua maior parte, foram
    inspirados por impressões momentaneas, perderam o interesse que lhes
    provinha das circumstancias que os provocaram; mas, ainda assim, podem
    ficar como marcos milliarios que ajudem a assignalar as luctas e o
    progresso das idéas em Portugal no decurso de mais de trinta annos que
    as datas d'esses escriptos abrangem. Naquellas luctas o auctor dos
    seguintes opusculos teve largo quinhão, e se, como é possivel, nem
    sempre a razão esteve da sua parte, esteve-o sempre a convicção. É do
    que lhe parece hão-de dar testemunho a propria contextura e o proprio
    estylo dessas composições, que não vinham só da intelligencia, que
    vinham muitas vezes tambem do coração. A demasiada vivacidade, a talvez
    exaggerada energia, com que frequentemente ahi são expostas e defendidas
    taes ou taes ideas e combatidas outras, revelam a indole impetuosa mas
    sincera de quem escreveu essas paginas. Foi, porventura, este o melhor
    titulo do auctor á benevolencia publica largamente manifestada;
    benevolencia que encontrou ainda em muitos que estavam longe de
    commungar com elle nas doutrinas para as quaes buscava ou obter o
    triumpho ou adquirir sectarios.

    Ordenando esta compilação, não me adstringi nem a conservar
    rigorosamente a ordem das epochas a que esses varios escriptos
    pertencem, nem a distribui-los precisamente conforme a sua indole.
    Adoptei um termo medio, que me facilitasse ao mesmo tempo o trabalho de
    revisão, e me habilitasse para ir successivamente publicando qualquer
    volume á medida que o coordenasse. N'uma grande variedade de assumptos,
    o espirito não se amoldaria a reconsiderá-los nem pela ordem das datas,
    nem pela identidade da materia. A intelligencia é caprichosa, e
    duplicadamente caprichosa na sua decadencia. Attendendo em geral á
    natureza dos diversos opusculos, entendi que podiam dividir-se em tres
    categorias–Questões publicas–Estudos historicos–Litteratura.–Estas
    tres categorias constituirão tres series separadas, servindo-lhes apenas
    de nexo o serem uma collecção geral das minhas opiniões, quer em
    questões litterarias ou historicas, quer em questões sociaes. Assim, um
    volume seguir-se-ha a outro da mesma ou de diversa serie sem
    inconveniente para a publicação, e sem se tornar necessario que, n'um
    trabalho tedioso e frequentemente interrompido, a attenção se dirija por
    muito tempo e sem desvio para idéas até certo ponto congeneres ou pelo
    menos analogas.

    Ajunctando aos titulos dos opusculos as datas em que foram escriptos, o
    auctor teve em mira habilitar o leitor para o julgar com justiça. Sem
    querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões,
    entende que a responsabilidade será ora maior, ora menor, se porventura
    se attender á epocha em essas opiniões foram manifestadas. O decurso de
    trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje
    as idéas passam, modificando-se, transformando-se, é um periodo que
    corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem
    comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações criticas, os
    systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o homem. O
    pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje parecer
    apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a observação
    profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um
    raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada
    e transfigurada em apreciação mais complexa que illumine dilatados
    horisontes. Por isso, a data de cada um dos opusculos contidos nos
    seguintes volumes é um dos elementos indispensaveis para estes serem
    avaliados com justiça e imparcialidade. Nem sempre fugimos á pressão das
    idéas que se manifestam ao redor de nós, e muito faz aquelle que algumas
    vezes sabe elevar-se acima das preoccupações ou dos interesses da epocha
    em que escreve.

    Não se associarão a estas considerações, que sollicitam a indulgencia,
    algumas instigações do amor proprio? Suspeito que sim. Nos seguintes
    escriptos ha, em mais de um logar, idéas, previsões, affirmativas,
    negações que não raro grangeiaram para o auctor as qualificações de
    temerario, de paradoxal, de visionario. Em certos casos, o decurso do
    tempo encarregou-se de decidir de que lado estava ou a perspicacia ou a
    boa razão: em alguns, o paradoxo, a visão, foram-se lentamente
    insinuando em outros espiritos, e mais de uma vez o visionario primitivo
    veio a achar-se como sumido na turba de tardígrados visionarios. Que o
    facto não contribuisse para se datarem estes opusculos ninguem o
    acreditaria, nem eu pretendo negá-lo. Chamarão uns a isso orgulho:
    chamar-lhe-hão outros vaidade. E uns e outros terão razão. A vaidade e o
    orgulho que são, senão duas especies de um genero unico de fraquezas? O
    vaidoso é o que chama o mundo para espectador do seu orgulho: o
    orgulhoso é o que se colloca a si como unico espectador da propria
    vaidade. Symptomas varios de enfermidade identica: manifestações
    diversas de uma só miseria do coração humano.

    A VOZ DO PROPHETA

    1837

    INTRODUCÇÃO

    1867

    Depois da epocha em que o seguinte opusculo foi publicado e dos factos
    que lhe deram origem, têem decorrido mais de trinta annos. Os homens que
    intervieram nesses factos dormem já, pela maior parte, debaixo da terra.
    Com raras excepções, restam apenas alguns dos que eram mais moços. O
    auctor da _Voz do Propheta_ pertence a esse numero. Contava vinte e seis
    annos naquelle tempo.

    O homem de hoje póde julgar imparcialmente o escripto do homem de então.
    O animo tranquillo póde avaliar a paixão que o inspirou. Aquelles a quem
    esse verbo ardente feria viram no auctor um partidario que friamente
    calculava os resultados politicos das suas palavras. Injustiça ou erro;
    o mesmo que havia da parte delle em ver nos homens que forcejavam por
    dirigir a revolta de 1836, por fazer sair desse facto um governo
    regular, grandes criminosos. A verdade era que, n'uns davam-se ambições,
    mas ambições talvez nobres; n'outros houve, de certo, o sacrificio das
    proprias sympathias, o silencio imposto ás proprias convicções, para que
    a revolta não degenerasse em anarchia. Em muitos desses individuos,
    apparentemente revolucionarios, havia o patriotismo reflexivo, e até a
    abnegação, emquanto em nós, os que os aggrediamos com a sinceridade da
    indignação, havia, por amor exagerado aos bons principios, uma colera
    que em muitas cousas offuscava a razão. A _Voz do Propheta_ representa
    esse estado dos espiritos.

    Hoje a exageração sincera do insulto, a invectiva hyperbolica,
    inspirada, não pelo calculo, mas pelas irritações da consciencia, mal se
    comprehende. Neste crepusculo da vida publica, tão favoravel ás
    prostituições do cidadão, como o crepusculo do dia ás prostituições da
    mulher; nesta epocha de extrema agonia, iniciada pela proclamação dos
    _interesses materiaes_ acima de tudo, fórmula decente de sanctificar o
    egoismo, porque para cada individuo o interesse material alheio é apenas
    um interesse de ordem moral; agora que a boa educação dos homens novos
    mudou a linguagem politica, e vai arrojando para os archaismos
    historicos a lucta face a face, a punhalada pelos peitos; agora que a
    strychnina da allusão calumniosa e amena, o enredo tortuoso, a traição
    ridente vão expulsando da arena das facções as objurgatorias, rudes na
    substancia e na fórma, a _Voz do Propheta_ é, sem duvida, uma composição
    agreste e brutal. Inutil como exemplo e modelo, servirá todavia como
    amostra do que eram as malevolencias da geração cujos raros
    representantes, hoje quasi estrangeiros no seu paiz, não tardarão a ir
    esconder no tumulo as ultimas grosserias que deturpam a suavidade dos
    costumes e as tolerancias de toda a especie dos cultos filhos de
    barbaros.

    Os homens que em 1837 se aggrediam violentamente na imprensa e no campo
    tinham, de feito, habitos e sentir diversos dos actuaes. As febres
    politicas eram então ardentes, indomaveis, porque derivavam de crenças.
    Naquella epocha havia, como houve sempre, belforinheiros da politica;
    mas constituiam a excepção. O geral era gente baptisada com fogo e com
    sangue nas duas religiões inimigas do absolutismo e do liberalismo.
    Chamo-lhes religiões, porque o eram. A guerra civil, que terminara em
    1834, tivera muitos dos caracteres das antigas cruzadas. Sobretudo nos
    primeiros impetos della, haviam-se practicado actos de abnegação, de
    constancia, de valor e de soffrimento sobrehumanos, ao passo que se
    perpetravam outros de bruteza e ferocidade inauditas. A maior parte
    delles, factos obscuros, individuaes, reiterados cada dia, cada hora
    daquelle prolongado paroxismo de grandiosa barbaria, não os registou,
    não os registará nunca a historia, talvez. E todavia, é isso que explica
    a proceridade da estatura moral dos homens daquelle tempo, estatura a
    que não chegaram, nem provavelmente chegarão as gerações subsequentes.
    Sem paixões violentas e exclusivas, não ha as energias que assombram.
    Então a existencia e os commodos e gosos della eram tão casuaes e
    transitorios, as privações e dores de tão completa vulgaridade, que dar
    a vida ou tirá-la aos outros pouco mais significavam do que acções
    indifferentes. Diante do fanatismo politico, a reflexão que discrimina o
    bom do mau, o justo do injusto, quasi que era puerilidade. Podia
    ceder-se, e não raro cedia-se, a instinctos generosos para com o
    adversario: a justiça em apreciá-lo moralmente, ou em respeitar-lhe os
    direitos, isso é que se tornara difficil.

    Taes eram os homens que, depois de esmagarem a monarchia absoluta,
    vinham, emfim, a aggredir-se mutuamente na imprensa e no campo. A
    revolta, desmembrando o partido liberal, constituia dous partidos
    violentos, daquella violencia a que estavam affeitos e cujo embate devia
    produzir males profundos e em parte irremediaveis.

    Esta scisão, logo depois da victoria, era difficil de explicar fóra de
    Portugal. Aqui entendia-se, embora derivasse de um facto injustificavel.
    A harmonia de opiniões, a unidade de crenças e intuitos dos vencedores
    dissipava-se, porque realmente não existia senão nas suas relações
    negativas. Negava-se, combatia-se o passado. Era no que havia accordo.
    As apparencias de união e conformidade creara-as a grandeza do perigo. A
    phalange é e será sempre o mais poderoso instrumento de guerra, moral e
    materialmente. Embora, porém, houvesse diversidade de doutrinas, o que
    havia mais era contraposição de interesses. Para as primeiras se
    manifestarem e tenderem ao predominio bastavam a liberdade da palavra
    oral e escripta, e a discussão parlamentar. Aos segundos, dada a
    impetuosidade e impaciencia da ambição humana, sobretudo nas raças
    latinas, não bastava nenhuma liberdade. Recorreu-se ao illegal, ao
    tumultuario, e a revolta de septembro de 1836 appareceu.

    Quem a preparou e fez surgir? Não sei. Ostensivamente, os seus auctores
    foram a plebe de Lisboa e alguns soldados que se negaram a dispersar os
    amotinados. Os individuos que, depois de consummado o facto, tomaram nas
    mãos as redeas do governo, recusaram para si a paternidade daquelle féto
    político. Creio que, affirmando-se innocentes, falavam verdade; senão
    todos, ao menos alguns. Fugir, porém, á responsabilidade de uma
    situação, que aliás se busca fortalecer e constituir, é indirectamente
    condemná-la; é dizer _não_ com a consciencia; _sim_ com os labios. A
    sentença daquelle motim lavravam-na os mesmos que forcejavam por
    convertê-lo n'uma cousa grave. Por outra parte, o que me parece evidente
    é que os governos que cahem como cahiu o que existia, embora simulem de
    vivos, estão já moralmente mortos.

    E o governo de então estava-o. Por grandes que os seus serviços ao paiz
    houvessem sido durante a lucta, o seu proceder depois da victoria não o
    abonava. Havia quem fizesse sentir isso, quem até desmesuradamente o
    exagerasse. Exageravam-no, sobretudo, os vencidos. Emquanto durou o
    ruido das armas, os lamentos destes não se ouviam; mas quando o estrondo
    cessou, e asserenaram os terrores, os queixumes foram-se convertendo em
    invectivas colericas, e tambem em accusações não raro ou justificadas ou
    plausiveis. A liberdade da palavra falada e escripta tinha-se
    conquistado não só contra os defensores da censura e do absolutismo, mas
    tambem para elles. Nas expansões da sua dor e do seu despeito, no pouco
    ou muito que essas expansões contribuiram para o descredito dos homens
    que mais cordialmente odiavam, tiveram os vencidos occasião de
    reconhecer que a liberdade humana, ruim em these, sobretudo para a
    salvação eterna, póde, em tal ou tal circumstancia, não ser
    absolutamente má.

    Os depositarios do poder executivo tinham, porém, adversarios mais
    perigosos. No gremio liberal houvera homens, alguns de dotes não
    vulgares, que, ou por despeitos pessoaes, ou por falta de animo para
    affrontarem os trabalhos e riscos de commettimento desigual, ou
    finalmente por obstaculos independentes do seu alvedrio, tinham ficado
    extranhos á guerra civil, sumidos em escondrijos na propria patria, ou
    acoutados na terra estrangeira para escaparem aos impetos da tyrannia.
    Desaccordos nascidos no exilio entre alguns destes ultimos e os homens
    de valia de quem o Duque de Bragança se rodeiara quando emprehendia a
    guerra da restauração, não tinham feito senão medrar e azedar-se
    progressivamente por diversas causas. Estes desaccordos, que pareciam
    pouco importantes emquanto durou a contenda, apenas essa epocha
    tormentosa cessou, tornaram-se mais graves, porque os individuos que se
    haviam conservado como extranhos á lucta em que se lhes conquistava uma
    patria, tinham amigos e parciaes numerosos entre os que pelejavam e
    venciam. Constituido o regimen parlamentar, as malevolencias, mais ou
    menos latentes, converteram-se em hostilidade acerba. Esta hostilidade
    podia ter, e tinha em parte, motivos maus; mas, contida no ambito
    constitucional, era, até certo ponto, bem fundada e util.

    Os estadistas, que, cercados durante annos de espantosas difíiculdades,
    souberam superá-las exercendo o poder, eram indubitavelmente homens de
    alta esphera. Podia reputar-se problematica a virtude de um ou de outro:
    a capacidade e a firmeza não podiam disputar-se a nenhum delles.
    Affeitos a reger o paiz com o vigor de uma dictadura, inevitavel
    emquanto durara a guerra, e com as formulas militares, custava-lhes
    esquecerem-se dos habitos dessa epocha, confundindo mais de uma vez, na
    praxe da administração, as duas idéas oppostas, de paiz libertado e de
    paiz conquistado. Por outra parte, os que muito haviam padecido queriam
    gosar muito, e o reino, devorado por discordias intestinas superiores ás
    proprias forças e exhausto de recursos, via comprometter o futuro da
    riqueza publica por larguezas, não só desacertadas, mas tambem
    juridicamente injustificaveis. Homens que teriam legado á posteridade
    nomes gloriosos e sem mancha, e que, mais modestos nas suas ambições
    materiaes, seriam vultos heroicos na historia, pagaram-se como
    _condottieri_ mercenarios, ao passo que outros, depondo as armas e
    voltando á vida civil, exigiam ser revestidos de cargos publicos para
    exercer os quaes lhes faltavam todos os predicados; homens cujo unico
    titulo era terem combatido com maior ou menor denodo nas fileiras
    liberaes ou haverem padecido nas masmorras os tratos da tyrannia. A
    grande, a séria, a profunda revolução que se fizera no meio do estrondo
    das armas levara de envolta com os dizimos, com os bens da corôa, com as
    capitanias-mores, com toda a farragem do absolutismo, os antigos
    _officios_, moeda que por seculos servira para pagar algumas vezes
    meritos reaes, muitas mais vezes, porém, prostituições e villanias. Mas
    as funcções publicas, os empregos vieram supprir essa moeda, tomando não
    raramente cunho analogo, e distribuindo-se com a mesma justiça e
    cordura. Estes e outros erros e abusos que o governo commettera, ora por
    impulso proprio, ora para satisfazer as influencias preponderantes com
    que o poder tem de transigir, necessidade fatal do regimen parlamentar,
    e um dos maiores defeitos da sua indole ainda tão imperfeita,
    engrossaram rapidamente, com os muitos desgostosos e indignados, a
    parcialidade que na origem representava antes malevolencias pessoaes do
    que antinomia de doutrinas.

    Foi por isso que a revolta de septembro, se não achou eccho pelo paiz,
    também não achou nelle repugnancia manifesta, e pôde na capital
    constituir-se e tomar em poucos dias a importancia que não tinha em si.
    A consciencia da propria impopularidade, o inesperado dos
    acontecimentos, talvez, até o tedio e cansaço de aggressões continuas,
    haviam feito titubeiar os membros do governo decahido, tornando-os
    inhabeis para séria resistencia, emquanto os seus adversarios
    aproveitavam o successo com a energia de inimizades encanecidas e de
    ambições até ahi não satisfeitas.

    Os homens que entenderam ser do seu interesse ou do interesse do paiz
    fazer surgir daquelle estado anormal uma situação regular viram que a
    primeira necessidade era elevar o motim á altura de uma revolução.
    Faltava o assumpto. O derribar um ministerio não o subministra. Basta
    para isso a acção mais ou menos lenta, mas segura e pacifica, da
    liberdade da palavra, da imprensa e do voto. O povo que com estes
    recursos não sabe tirar os seus negocios das mãos de quem lh'os gere
    mal, é um povo ou que ainda não chegou á maioridade ou que já se arrasta
    na senilidade. Urgiam, porém, as circumstancias. Á falta de outra cousa,
    proclamou-se irreflexivamente a constituição de 1822 com as modificações
    que decretassem as futuras constituintes.

    Tinha-se, pois, feito uma revolução para obter um projecto, um texto de
    discussão constitucional? Se o intuito dos amotinados fôra só derribar
    os ministros, o facto era excessivo, injustificavel e portanto
    illegitimo e criminoso; se porém o motim, nobilitado em revolução, tinha
    por alvo alterar as instituições, não menos digno de reprovação se
    tornava, porque era um crime inutil. A Carta encerrava em si o processo
    da propria reforma, processo aliás prudente, regular, exequivel. Partir
    da constituição de 1822, acervo de theorias irrealisaveis, se theorias
    se podiam chamar, de instituições talvez impossiveis sempre, mas de
    certo impossiveis n'uma sociedade como a nossa e na epocha em que taes
    instituições se iam assim exhumar do cemiterio dos desacertos humanos,
    era mais que insensato. A revolução, reconhecendo a necessidade de
    reformar o codigo que restabelecia, condemnava-o, e condemnava-se.

    Parece-me que me não engano se disser que, em geral, aos liberaes mais
    illustrados e sinceros a nova situação politica repugnava altamente.
    Ponderavam que a mudança das instituições politicas de qualquer paiz por
    via de uma revolução é sempre um abalo profundo cheio de riscos, e que
    mais de uma vez, longe de produzir o bem, tem conduzido as sociedades á
    sua ruina. Sem rejeitar de modo absoluto as revoluções como elemento de
    progresso, é certo que ellas são um meio extremo. Só, talvez, a
    necessidade de combater o despotismo as justifique, porque só debaixo de
    tal regimen são impossiveis quaesquer outras manifestações da opinião
    publica, e não existe campo diverso onde a lucta do direito contra a
    força, das idéas novas contra os velhos abusos possa travar-se. Em 1836
    essas manifestações não tinham porém obstaculo algum, e o campo onde as
    doutrinas podiam debater-se, os interesses contrapor-se, os partidos
    digladiar-se, era amplissimo. Se em taes circumstancias uma revolução
    fosse legitima, quaes seriam aquellas em que se lhe negasse a
    legitimidade?

    Depois, nas proprias relações politicas, o espirito humano não se dirige
    unicamente pela reflexão. As paixões e affectos modificam e alteram as
    suggestões do raciocinio; porque o homem imprime necessariamente em
    todos os actos da vida as condições do seu ser. A favor da manutenção da
    Carta não militava só a boa-razão; militavam affectos, e affectos
    profundos. A Carta havia sido o grito de guerra do campo liberal em lide
    de um contra dez. Havia sido, digamos assim, a traducção moderna do
    _Sanctiago!_ de Affonso I, do _S. Jorge!_ do Mestre d'Aviz. Nas
    reminiscencias indeleveis de muitos de então, (bem poucos hoje) estavam
    ainda os vivas á Carta proferidos por labios que iam cerrar-se na morte,
    quando as bayonetas inimigas desciam inexoraveis sobre o peito ou sobre
    o ventre dos nossos soldados feridos e derribados[1]. Em nome da Carta
    se tinha desfeito o triangulo fatal do patibulo, e quebrado o ferrolho
    da masmorra e da enxovia, em nome della se tinham aberto para os
    foragidos as portas da patria que davam para os desertos do desterro, do
    desterro que é sempre solidão e desventura. A Carta fora como a estrella
    polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das
    tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade desses
    dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos,
    mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações
    novas.

    A razão, pois, e o sentimento falavam a muitos energicamente em favor
    das instituições annulladas. Falavam tambem a favor dellas a consciencia
    e a dignidade humanas. Tinham jurado manter essas instituições milhares
    e milhares de homens; milhares e milhares de homens as tinham nobremente
    mantido com o sangue, com as privações, com a resignação illimitada no
    sacrificio. Podem valer pouco os juramentos politicos; póde, até, ser
    absurdo o juramento em geral. Mas a quebra de promessas solemnes e
    espontaneas, seja qual for a sua formula, será sempre uma villania
    emquanto tiverem culto a honra e a lealdade.

    Taes eram os principaes incentivos que induziam grande numero de
    liberaes a constituirem um partido hostil á nova ordem de cousas. A
    denominação de cartista, que esse partido adoptou, não correspondia
    rigorosamente ás causas da sua existencia, nem aos seus intuitos ou á
    sua indole. Mas representava até certo ponto isso tudo, ao mesmo tempo
    que era conciso, e facilmente comprehensivel para o vulgo. O cartista
    não reputava todas as instituições, todos os preceitos da Carta como a
    mais alta manifestação da sabedoria humana. Nesta parte os liberaes eram
    em geral eclecticos. Tanto o partido da revolução, como o
    anti-revolucionario nenhum tinha em si unidade completa de principios;
    nem entre um e outro havia senão antinomias parciaes quanto ás doutrinas
    de direito politico. No primeiro, que tomava por base das ulteriores
    reformas uma constituição democratica, exagerada até o despotismo das
    turbas, havia individuos para quem, como o tempo mostrou, as theorias da
    democracia ainda mais moderada eram altamente odiosas, ao passo que
    outros forcejavam por chegar, senão á republica, ao menos a instituições
    republicanas. No partido cartista dava-se o mesmo phenomeno. Todas as
    modificações do governo representativo tinham ahi fautores; tinham-nos,
    talvez, até, as doutrinas do absolutismo illustrado. A meu ver, a
    distincção profunda e precisa entre o cartismo e o septembrismo
    consistia em negar o primeiro o principio da revolução, dentro das
    instituições representativas livre e solemnemente adoptadas ou acceitas
    pelo paiz, e em affirmá-lo o segundo. Tudo o mais em ambos os campos era
    fluctuante e vago.

    É essa a explicação de um facto que os homens daquelle tempo poderão
    testemunhar recorrendo ás proprias reminiscencias. Alistaram-se nas
    fileiras cartistas talvez mais individuos que haviam sido adversos aos
    ministros derribados, do que amigos e parciaes seus, ao passo que alguns
    destes abraçavam sem hesitar a revolução. De uns e de outros se deve
    crer que preferiam nobremente as suas opiniões aos seus interesses, ás
    suas affeições ou inimizades pessoaes. Para muitas dessas opiniões havia
    logar em ambas as parcialidades. Os que, porém, só attendiam á
    moralidade e cordura dos actos de administração ordinaria, lançavam-se,
    por via de regra, na revolução; os que, sem desattender taes questões,
    sem approvarem corrupções ou iniquidades a que eram extranhos e que
    tinham condemnado, remontavam a mais elevadas considerações de ordem
    moral e politica, abraçavam o cartismo. Não falo dos especuladores que
    se resolviam conforme as vantagens que se lhes antolhavam n'um ou
    n'outro campo. O proceder destes taes tinha na consciencia publica
    então, como depois, como sempre, uma qualificação conhecida.

    Mas, dir-se-ha, como nessa epocha se disse, que entre o cartismo e o
    septembrismo se dava uma distincção mais radical e profunda. A Carta,
    outorgada por D. Pedro IV, representava o direito divino dos reis; era
    uma concessão de senhor, em vez de um pacto social, ao passo que a
    constituição de 1822, derivada da soberania popular, era a consagração
    das doutrinas democraticas. Considerada a esta luz, a revolução adquiria
    as proporções de um facto gravissimo, porque assentava a liberdade em
    novos fundamentos, e vinha a ser um passo gigante dado na estrada do
    progresso politico.

    Na epocha, quasi exclusivamente liberal, em que se passavam aquelles
    successos, a resposta do cartismo a estas allegacões parecia facil. Não
    sei se o seria agora; agora que se tem achado e demonstrado, segundo
    parece, não prestar para nada o liberalismo. As intelligencias vigorosas
    da mocidade hodierna têem aberto caminho a theorias ou novas ou
    rejuvenescidas que nós os velhos de hoje e moços de então ou ignoravamos
    ou suppunhamos estereis, e talvez pueris, e de que sorriamos, quando
    alguns engenhos que reputavamos tão brilhantes como superficiaes,
    buscavam, evangelisando-as, jungir por meio dellas as turbas, más porque
    ignorantes, odientas porque invejosas, espoliadoras porque miseraveis,
    ao carro das proprias ambições. A questão da soberania popular não era
    precisamente o que preoccupava mais os entendimentos, cultos, mas
    tardos, daquelle tempo, e a democracia não apaixonava demasiado os
    animos, sobretudo os animos dos que haviam pelejado desde os Açores até
    Evoramonte as batalhas da liberdade, ou padecido na patria durante cinco
    annos, sem o refrigerio sequer de um gemido tolerado, as orgias do
    despotismo. Uns tinham visto de perto a face da democracia; tinham-na
    visto por entre a selva de oitenta mil baionetas que fora preciso
    quebrar-lhe nas mãos para a liberdade triumphar; tinham-na visto nas
    chapadas e pendores das collinas que circumdam o Porto, até onde os
    olhos podem enxergar, alvejando-lhe nos hombros os cem mil embornaes
    preparados para recolher os despojos da cidade da Virgem, da cidade
    maldicta, rendida e posta a sacco; outros haviam-na visto de machado e
    de cutello em punho, mutilando e assassinando prisioneiros inermes e
    agrilhoados. O liberalismo achara a catadura da democracia pouco
    sympathica. Restava a soberania popular. Essa funccionara durante cinco
    annos e dera mostra de si. A soberania do direito divino, repartindo com
    ella o supremo poder, provava que não era tão ignorante como a faziam.
    Tinha litteratura. Applicava, modificando-o, o verso:

    Divisum imperium cum _plebe_ Caesar habet.

    As classes inferiores constituiam então, como hoje, como hão de
    constituir sempre, a maioria do paiz, e foi a esta maioria que ella
    entregou os direitos que cedia. Era a legitimidade consagrando outra
    legitimidade. Amavam-se, comprehendiam-se ambas. É que entre as
    extremidades ha contacto ás vezes. A democracia americana cuida ter
    inventado a lei do Linch. Puro plagio. Inventou-a em Portugal a
    soberania popular. Havia uma differença. Na America a plebe prende,
    julga, condemna á morte e executa; em Portugal o direito divino
    reservara para si o tribunal excepcional e o privilegio do cadafalso.
    Modesta no exercicio do supremo poder, a soberania popular limitou-se á
    prisão, ao espancamento, á multa, elevada, quando occorria, até o
    confisco. Se o incendio, o estupro, o assassinio se ingeriam ás vezes
    nesses actos judiciaes, era por simples casualidade. Manchas, tem-nas o
    sol. O mercador, o artista, o industrial, o professor, o proprietario
    urbano e o rural, o homem de letras, o cultivador, o capitalista, todas
    as desigualdades sociaes, todos esses attentados vivos contra a perfeita
    igualdade democratica conservaram por muito tempo dolorosas lembranças
    do amplexo das duas soberanias.

    O liberalismo, que durante a contenda fora um pouco aspero para com a
    democracia, mais de uma vez tambem, empregara sacrilegamente a prancha
    do sabre e a coronha da espingarda para cohibir o excesso de zêlo
    administrativo e judicial da soberania popular. A brutalidade do
    liberalismo obrigara esta a abdicar após a abdicação da soberania de
    direito divino. Os dogmas, pois, em que se estribava a constituição de
    1822, e contra os quaes protestava a historia, ainda palpitante, dos
    ultimos annos, eram inefficazes, porque os tornava impotentes a
    heterodoxia das consciencias. Duvido de que nesses rudes tempos de
    positivismo liberal elles obtivessem uma só conversão sincera.

    O amor do real e do evidente era um dos grandes defeitos dos homens de
    então. O cartismo argumentava: «Que nos importa, dizia, d'onde veio a
    Carta? A questão é se ella consagra a liberdade humana e a cérca de
    garantias. É deficiente? É defeituosa? Esperemos que a razão publica, a
    torrente da opinião force os poderes do estado a completá-la, a
    corrigi-la. A opinião illustrada largamente preponderante é irresistivel
    nos governos livres. O que não é irresistivel é a opinião de alguns ou
    de muitos que benevolamente se encarregam de interpretar pelo proprio
    voto o voto commum, o voto dos que têem capacidade para o dar.–«Não se
    reputaria louco, accrescentava o cartismo, o representante de uma
    familia outr'ora opulenta, mas reduzida á miseria por espoliação remota,
    que, ao vir, por impulso espontaneo, o descendente do espoliador
    restituir-lhe os bens extorquidos, repellisse aquelle acto de nobreza e
    virtude, achando desar recuperá-los pacificamente? E se tal desar
    existiu; se a outorga da Carta e a tacita acceitação do paiz não podiam,
    aos olhos da metaphysica politica, elevá-la á altura de um pacto social,
    os immensos sacrificios que o restaurá-la, depois de abolida, custou á
    parte mais illustrada, mais rica, mais activa e laboriosa da nação, ás
    forças vivas da sociedade, e as torrentes de sangue e de lagrymas que
    serviram de sacro encausto á assignatura do paiz não valeriam bem o
    plebiscito da maioria inintelligente, o plebiscito daquellas classes
    inferiores que pelejaram até o ultimo extremo, senão com valor, de certo
    com ferocidade, para conservar essa monstruosa e horrivel soberania que
    a servidão lhes trouxera?

    Tem passado trinta annos depois daquella epocha; as paixões tempestuosas
    de então fizeram silencio, e o cartismo e o septembrismo são dous
    cadaveres sepultados no cemiterio da historia. O auctor da _Voz do
    Propheta_ contempla tão placidameute o seu opusculo como se mão extranha
    o houvera escripto. A experiencia e os desenganos fazem-no sorrir
    daquellas coleras, daquellas hyperboles dos vinte e seis annos. Quantos
    erros, quantas ignorancias em muitas das suas opiniões desse tempo! E
    todavia, ainda os sentimentos que inspiravam o cartismo no seu berço lhe
    parecem nobres e elevados, as doutrinas que constituiam a sua essencia
    solidas e justas. É innegavel que o credo democratico, em que os
    adversarios se estribavam, tem desde essa epocha adquirido numerosos
    sectarios. O velho liberalismo passa de moda. O dogma da soberania
    popular, proclamado como supremo direito, substitue o unico direito
    absoluto que elle reconhecia, a liberdade e os fóros individuaes. Isso
    passou: agora a igualdade civil, que era um consectario do dogma
    liberal, transfere-se para o mundo politico, e um nivel imaginario passa
    theoricamente por cima de todas as desigualdades humanas, perpetuas,
    indestructiveis. A paixão da liberdade esmorece, porque a absorve e
    transforma a da igualdade, a mais forte, a quasi unica paixão da
    democracia. E a igualdade democratica, onde chega a predominar, caminha
    mais ou menos rapida, mas sem desvio, para a sua derradeira
    consequencia, a annullação do individuo diante do estado, manifestada
    por uma das duas formulas, o despotismo das multidões, ou o despotismo
    dos cesares do plebiscito.

    O partido cartista tinha por si as grandes e recentes recordações, a
    consistencia politica, os bons principios que representava, e,
    sobretudo, o sensato e practico das theorias que predominavam entre os
    seus membros. Mas a eiva moral quasi que lhe começou no berço. O seu
    primeiro erro foi adoptar por chefes os homens eminentes que, pela
    gerencia dos negocios em situações difficilimas, tinham concitado contra
    si, como succede quasi sempre e a quasi todos, a animadversão publica,
    talvez a da maioria daquelles mesmos que acceitavam agora a sua direcção
    politica. Deviam honrar-se taes homens, embora muitos dos actos da sua
    administração não podessem defender-se, porque esses actos eram bem
    pequeno desconto aos immensos serviços que a liberdade lhes devia.
    Tomá-los, porém, por guias era acceitar uma parte da sua
    responsabilidade; era polluir a pureza das doutrinas com as manchas da
    fraqueza humana; era, sobretudo, arriscar que a irritação das paixões e
    os intuitos de desaggravo dirigissem o procedimento de um partido novo e
    cheio de vida, que só deveriam inspirar a razão tranquilla e a
    applicação logica das proprias doutrinas. Deste primeiro erro nasceram
    as tentativas infelizes de contra-revolução. Essas tentativas não podiam
    reputar-se crime, porque o elemento revolucionario tinha entrado como
    formula politica no direito publico do paiz, mas eram altamente
    illogicas em relação á índole e ao symbolo do cartismo. Por outro lado,
    o governo da revolução mostrava-se, ao mesmo tempo, tolerante para com
    as opiniões e energico em cohibir excessos. Por isso o partido cartista
    podia contar com a victoria incruenta que na urna lhe havia de dar o
    paiz; victoria para os principios, e não desaggravo para as paixões
    irritadas. Que este resultado era seguro, provaram-no os factos. Vencido
    na guerra civil, desauctorisado e moralmente enfraquecido, o cartismo
    viu triumphar em grande parte as suas idéas na contextura da
    constituição de 1838, votada por umas constituintes onde os vencidos
    estavam representados por insignificante minoria. Era a condemnação
    solemne da revolução, lavrada por um parlamento eleito debaixo da
    influencia della. O que no novo codigo politico parecia mais opposto á
    indole da Carta era a organisação da segunda camara, e todavia o
    cartismo adquiria por aquelle meio uma arma poderosa para de futuro
    reformar constitucionalmente o que havia mau na recente organisação de
    um dos corpos colegislativos, de modo que nem se restaurasse o absurdo
    pariato hereditario e illimitado, nem a assembléa conservadora
    significasse apenas a interposição de uma parede entre duas porções de
    parlamento unico. Uma vez que o senado procedia simplesmente da eleição,
    logo que o cartismo obtivesse a preponderancia eleitoral, dominaria
    completamente em ambas as camaras. Dentro em dous annos, de feito, o
    predominio do cartismo era indubitavel.

    O ulterior procedimento deste partido estava estrictamente determinado
    pela sua origem e pelo seu passado. Como vimos, não era tanto a sua
    indole menos democratica, o seu apego á liberdade e aos direitos
    individuaes com preferencia a tudo, que o caracterisavam. Sans opiniões,
    erradas opiniões, havia-as tanto n'um como n'outro campo. O que
    constituia a essencia do cartismo era a lealdade ao juramento; a
    lealdade viril no cumprimento da palavra dada pelo homem honrado quando
    a dá no pleno uso do seu alvedrio. Os cartistas tinham feito tudo quanto
    materialmente podiam, mais do que moralmente deviam, para supprimir a
    revolução. Não o tinham conseguido, e ella fechara o periodo da sua
    duração, protestando na lei politica decretada pelas constituintes
    contra a propria origem, contra a sua razão de ser. A constituição de
    1838 era um campo neutro onde todos se podiam encontrar pacificamente e
    procurar, sem sair da legalidade, o predominio das respectivas opiniões.

    E o cartismo entrou naquelle campo. Quando o paiz viu os homens que tão
    tenazmente haviam mantido a fé que deviam ao seu juramento, jurarem
    solemnemente o novo pacto, acreditou que falavam verdade, e que o cyclo
    das revoluções terminara. Passados tempos, a urna provava aos cartistas,
    de modo indubitavel, que nas classes influentes, nas forças vivas da
    sociedade, a preponderancia era sua. No fim de tres annos podia-se dizer
    que o triumpho moral do cartismo estava consummado. O poder e o futuro
    pertenciam-lhe.

    Um facto inopinado veio então desbaratar todos os calculos, desmentir
    todas as previsões. Uma grande parte, ou antes a maioria desse partido,
    cuja essencia era a lealdade a solemnes promessas, e a execração das
    revoluções no seio de um paiz livre, hasteou subitamente a bandeira
    revolucionaria, substituindo ao motim da plebe o unico motim peior do
    que elle, o da soldadesca. Quebrando inutilmente o seu ultimo juramento,
    derribava a constituição do estado e proclamava o restabelecimento da
    Carta pura, que, sem os acontecimentos de 1836, os mesmos homens que a
    achavam agora um codigo perfeito teriam constitucionalmente modificado.
    É que á victoria dos principios faltava um laurel, o desaggravo do amor
    proprio offendido. O partido cartista suicidava-se juncto, ao altar da
    vaidade, e amortalhava-se a si proprio, morrendo, no estandarte da
    revolução.

    Depois houve muitos que continuaram a chamar-se cartistas, porque os
    vocabulos são propriedade dos homens, e a propriedade, conforme o velho
    direito, consiste na faculdade de usar e abusar. Era como os graus e
    veneras das ordens de cavallaria extinctas. Enfeitam, mas correspondem
    ao nada. Symbolos vãos sobre um sepulchro. Para a historia, como a
    historia ha-de ser quando de todo houverem calado as paixões dos que
    intervieram nessas tristes luctas, o cartismo tinha expirado com a
    restauração da Carta.

    [Nota de rodapé 1: Assim vi morrerem alguns soldados do 5.° de caçadores
    e voluntarios da Rainha no temerario reconhecimento de Vallongo, que
    precedeu a batalha de Ponte-Ferreira.]

    A VOZ DO PROPHETA

    PRIMEIRA SERIE

    Et irruet populus, vir ad virum, et
    unusquisque ad proximum suum:
    tumultuabitur puer contra senem et
    ignobilis contra nobilem.

    ISAIAS, III-5.

    I

    O Espirito de Deus passou pelo meu espirito, e disse-me: vai, e faze
    resoar nos ouvidos das turbas palavras de terror e de verdade.

    E eu obedecerei ao meu Deus no meio dos punhaes de assassinos.

    Povo!… breve soará a tua hora extrema: tu mesmo a assignalaste no
    decorrer dos tempos.

    O anjo exterminador vibra sobre ti a espada da assolação, e tu danças e
    folgas ebrio das tuas esperanças.

    Essa terra que pisas crês que é um solo remido por tuas mãos: repara
    porém; olha que é um sepulchro.

    Amplo é o sepulchro de um povo: dentro em breve tu ahi calarás para
    sempre.

    Creste-te forte, porque sabes rugir como a panthera: mas somente Deus é
    grande.

    Encheste o vaso das tuas iniquidades; elle trasbordou, e a terra ficou
    polluida.

    Maldictos os nomes dos que accenderam o volcão popular; nomes
    abominaveis perante o céu e a terra.

    Portugal foi pesado na balança da eterna justiça, e a Providencia
    retirou a mão de cima delle.

    Derribem-se os altares, cerrem-se as portas dos templos: Deus já não
    acceita os sacrificios, nem ouve as preces deste povo, senão como uma
    expressão de escarneo.

    E como o aquilão varre a folha secca do outono, o sopro do Senhor
    varrerá da face da terra esta raça corrompida e immoral.

    II

    O que tem ouvidos para ouvir ouça: o que tem olhos para ver veja: o que
    tem coração para se contristar, contriste-se.

    O povo tinha a liberdade e quiz a licença; tinha a justiça e quiz a
    iniquidade: o povo perecerá.

    Desgraçado daquelle que anda fóra dos caminhos do Senhor: correndo
    despelado por despenhadeiros, sentir-se-ha por fim baqueiar no fundo de
    um precipicio.

    Porque a lei e a virtude foram postas no mundo para proveito do homem,
    não para proveito de Deus.

    Quando uma nação quebra todos os laços sociaes, della será todo o damno.

    Para as turbas o cheiro do sangue é perfume suave; o roubo gloriosa
    conquista.

    E ellas se fartarão de sangue e de rapinas com a voluptuosidade atroz do
    anthropophago que se banqueteia com os membros semivivos do seu
    semelhante.

    Porque a plebe desenfreiada é como o phantasma do crime, como o espectro
    da morte, como o grito do exterminio.

    Horrível é o aspecto do empestado, que, entreabrindo o lençol que lhe
    servirá de mortalha, descobre as pustulas, donde mana a podridão e o
    cheiro da sanie, e que por entre os labios amarellos e os dentes
    cerrados deixa fugir o som rouco do estertor.

    Mas para o homem honesto, que contemplar uma scena das raivas da plebe e
    ouvir as suas blasphemias e vir as faces hediondas dos homens
    dissolutos, será como allivio a asquerosidade das chagas, o halito podre
    e o rouco estertor do empestado.

    III

    E o povo continúa a dançar em roda do seu mesmo sepulchro.

    E as outras nações meneiam a cabeça em signal de compaixão.

    Os tyrannos sorriem e dizem por escarneo aos homens virtuosos: ide, e
    dae a liberdade ás turbas: erguei á dignidade de homens livres servos
    devassos e educados no lodo: elles vos pagarão com a unica moeda que
    guardam em seus thesouros.

    A relé popular é chamada as fezes da sociedade, não porque é humilde,
    não porque é pobre, mas porque é vil e malvada.

    O sabio e o virtuoso indigentes são mais nobres do que os grandes da
    republica, do que os dominadores da terra.

    O ferrete da abjecção e da infamia estampa-se em qualquer fronte sem
    excepção de berço, e aos que trazem este signal de reprovação é que a
    philosophia chama escoria da sociedade.

    A medida por que Deus conta os graus dos meritos da vida é a da pureza
    de coração; é a do aperfeiçoamento da intelligencia.

    Os typos das diversas alturas a que sobe o espirito humano na carreira
    indefinita da perfeição formam como uma pyramide, cuja base assenta no
    fundo de um tremedal, cujo ápice se esconde no interior dos céus.

    Muitos nasceram no infimo da pyramide e subiram a grande altura: outros
    de grande altura desceram a mergulhar-se no lodo.

    E tanto a uns como a outros julgará a immutavel justiça de Deus.

    IV

    Os soldados da liberdade morreram nos combates da patria e misturaram o
    seu sangue com o sangue dos satellites da tyrannia: os seus ossos
    alvejam nas serras e nos valles, como alvejam as ossadas dos servos com
    quem combateram.

    Foi sasão essa de abundante messe de almas puras para o céu. Consolem as
    lagrymas dos justos as cinzas desses valentes.

    Eram apenas um punhado; a morte ceifou os mais delles; o resto já não
    tem força senão para pranteiar sobre as ruinas da patria.

    E o vidente pranteiará com elles, porque o Senhor lhe amostrou o futuro.

    Se os homens do desterro e das tempestades podessem levantar-se da sua
    jazida, a terra de antigas glorias ainda seria salva: mas elles dormem o
    perpetuo somno do repouso.

    E foi o ultimo leito honrado em que portugueses se reclinaram no seu dia
    extremo.

    Felizes os que então se despediram do sol e misturaram com a terra o pó
    que lhes emprestara a terra.

    Os dias dos que restamos não eram ainda contados; porque nossos erros
    pediam a punição do opprobrio.

    O Senhor nosso Deus é justo; curvemos a cabeça diante da sua
    Providencia.

    V

    Formosos eram os tempos em que pelejavamos pela liberdade do povo; tão
    formosos, quão negros estes em que a plebe peleja pela licença.

    As nossas armas vomitavam a morte: semeiava-a tambem o inimigo pelas
    nossas fileiras: e nós estavamos firmes nos pincaros das montanhas, ou,
    descendo, faziamo-las resoar debaixo de nossos pés.

    E arrojando-nos aos contrarios, as bayonetas reluziam á luz do sol; e o
    tinido dos ferros encontrados, e o clamor dos feridos, e o estampido dos
    tiros reboavam pelas quebradas dos valles.

    Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o
    triumpho era para nós um delirio; porque o combate fora de homens
    valentes.

    Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina é a historia do
    nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperação de todo o
    humano soccorro dobraram a robustez de corações ousados.

    Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.

    Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de sóes ardentes, e
    as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como
    a urze já morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e
    supportavamos a sede.

    Encostados a mal construídos vallos e cercados por quarenta mil
    soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A
    chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros
    mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.

    Ou se as cataractas do céu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu
    sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.

    Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao
    redor de nós tudo estava devastado, e não havia um unico tronco para
    alimentar a fogueira do arraial.

    E o frio recalcava a vida toda no coração do soldado; e elle sem um
    lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.

    A fome apresentou-se diante de nós: medonho era o seu aspecto: os
    membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mãos.

    Mas o amor da patria estava vivo em todos os corações. A Providencia
    infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.

    Gloria a Deus!–Os ultimos portugueses saíram illesos da prova. Os
    antigos cavalleiros os receberam como irmãos lá onde são com o Senhor.

    Bemaventurados os que deixaram esta terra de lagrymas, porque não viram
    que o seu sangue fôra derramado em vão.

    VI

    E depois dos combates íamos sepultar os mortos.

    No campo da batalha abria-se uma grande cova, e simultaneante se
    lançavam nella os cadaveres de amigos e de inimigos.

    Porque além do limiar do outro mundo calam todos os humanos odios.

    E o tecto de terra estendia-se sobre os muitos que ahi dormiam no mesmo
    jazigo.

    E algum pranto derramado sobre o pó revolto, e as preces da igreja
    proferidas pelo sacerdote consolavam os extinctos.

    Plantava-se a cruz sobre a gleba para consagrar a memoria dos mortos;
    para pedir a esmola da oração ao que passasse, e para lhe annunciar que
    todos os que alli repousavam eram irmãos por Jesu Christo; eram irmãos
    pelo sepulchro.

    Perdoavamos para sermos perdoados: perdoavamos porque eramos fortes.

    VII

    Alevantou-se a plebe, e logo commetteu um crime.

    Agitava-se e ondeiava pelas ruas com clamor inintelligivel; arrastava-a
    o espirito das turbulencias civis.

    Um homem inerme passou por entre os amotinados: era um dos votados ao
    exterminio: muitos tiros e golpes partiram do meio da turba, e o homem
    cahiu exangue e sem vida.

    E arrastaram até o cemiterio publico, ao som de injurias e risadas,
    esses restos que a morte sanctificara. As maldicções do odio mais
    profundo param á beira do tumulo. A maldicção popular, essa é que não
    parou ahi.

    Soterraram por meio corpo o cadaver e cuspiram naquellas faces lividas
    aonde já não podia subir do coração o rubor, e que os olhos cerrados não
    podiam já mundificar com lagrymas.

    E esse homem assassinado e arrastado e cuberto da escuma fetida da
    gentalha, fora um dos que salvaram o povo do cutello dos tyrannos.

    Plebe: commetteste um assassinio, e serás julgada. A ferro morrerá o que
    ferir com ferro: disse-o o Propheta do Golgotha.

    Deixaste acaso a face da tua victima descuberta para monumento do crime?

    Quizeste porventura desafiar a eterna justiça, e convocar a combate o
    Regedor dos mundos?

    Se na tua maldade e soberba assim o pensaste, sabe que baldada foi a
    profanação da sepultura.

    Se nos confins da terra sumisses o morto; se o escondesses nos abysmos
    do oceano; se o arrojasses na cratera de um volcão encendido, lá Deus o
    havia de divisar.

    Porque todo o gemido do moribundo resoa até o throno do Eterno.

    Preparae-vos, vermes, se tanto ousaes: porque o Senhor se erguerá sobre
    os orbes, e o estridor da setta exterminadora sibillará atravez do
    Universo: ella se cravará na terra que pisaes e passareis como o fumo.

    Ai daquelle que, impenitente, acordar ao som da ultima trombeta tincto
    no sangue injustamente derramado de algum de seus irmãos!

    Em verdade vos digo que para esse já não ha perdão, mas só o ranger de
    dentes e o bramir sempiterno.

    VIII

    Povo! Onde estão os teus sabios, os teus generaes, os teus nobres, os
    teus abastados, os teus homens virtuosos!

    Os timidos escondem-se diante da tua sanha: os valentes, não podendo
    combater com as turbas, erram no oceano á mercê das tempestades.

    E é a segunda vez que se affrontam com ellas por amor da liberdade e da
    lei.

    Deus proverá os foragidos, como provê de sustento os animaes que
    vagueiam na terra e as aves que cruzam os ares.

    E os timidos que, ouvindo o rugido da plebe, se embrenham por antros de
    serranias, por profundezas de bosques, confiem tambem no Senhor.

    Porque delle vem a salvação para os bons no dia da cólera e do castigo.

    Que os perseguidos se consolem lembrando-se dos proprios erros, porque
    ninguem se isenta da culpa, e antes remi-la neste valle do desterro, do
    que além da sepultura.

    O que padece não deve queixar-se, nem rebellar-se contra a Providencia:
    porque essa queixa inspira-a a soberba.

    Que é um homem em comparação de uma cidade; uma cidade em comparação de
    um povo: um povo em comparação do genero humano; o genero humano em
    comparação do Universo?

    E que intelligencia é capaz de medir a distancia que vai do primeiro ao
    ultimo?

    Milhões de milhões de vezes menos importa a existencia de um individuo
    na somma das existencias, do que na pyramide de Cheops o mais miudo grão
    de argamassa importa á solidez do monumento.

    Emquanto vive na terra, o homem é um atomo na immensidade: grande será
    depois da morte no reino do céu; grande ainda entre os bramidos do
    inferno.

    Porque para elle existe a eternidade só então: só então comprehende a
    omnipotencia de Deus.

    IX

    Cinco annos em nome do Evangelho uma parte do povo perseguiu seus
    irmãos, e cobriu-os de opprobrio.

    Em nome do Evangelho pregoou-se o odio, a vingança, e o perjurio: em
    nome do Crucificado pregoou-se o incendio, o roubo, o sangue e o
    exterminio.

    Mas o dia da punição chegou, porque as lagrymas da innocencia orvalharam
    o seio de Deus.

    Elle estendeu o seu braço, suscitou os ousados, e conduziu-os de milagre
    em milagre. Então os impios dobraram a cerviz altiva.

    As nossas victorias foram de homens fortes; mas a robustez de animo
    vinha-nos daquelle que é fonte e origem de toda a humana virtude.

    Vestia-se então a maldade dos trajos puros da religião para perpetrar
    impunemente crimes: hoje abriga-se á sombra da arvore sancta da
    liberdade para assolar a terra da nossa infancia.

    Ai dos maus, porque os olhos do Todo-poderoso lhes vêem nus os corações
    em toda a hediondez da sua perversidade!

    A justiça celeste nunca dorme, como na alma do criminoso nunca se cala o
    remorso.

    E a hora da tribulação e das angustias chegará para os malvados; e elles
    amaldicçoarão o ventre materno e os peitos que os amamentaram.

    X

    Povo! os que hoje saudas como numes, ámanhã fa-los-has em pedaços, e
    arrastarás pelas ruas os seus cadaveres cobertos de feridas e pisaduras.

    Porque, bem que tarde, conhecerás que elles te hão enganado.

    Prometteram-te abundancia, e achar-te-has faminto; prometteram-te
    liberdade, e achar-te-has servo.

    A licença mata a liberdade; porque se livremente opprimes, livremente
    podes ser oppresso; se o assassinio é teu direito, direito será para os
    outros assassinar-te.

    Se a força, e não a moral, é a lei popular, quando os tyrannos tiverem
    mais força, legitimamente podem pôr no collo do povo um jugo de ferro.

    Ministros da tyrannia são os que suscitaram a lucta das facções, os que
    deram o primeiro grito da revolta, os que accenderam a guerra civil;

    Porque a nação se dilacerará, e enfraquecida passará das mãos da plebe
    para as mãos d'algum despota que a devore.

    Lembrae-vos da Serpente, que enganou nossos primeiros paes: foi com
    palavras sonoras, com promessas de gloria e de ventura que ella perdeu a
    ambos.

    Dado que para vós não houvesse liberdade e elles vo-la offerecessem á
    custa de perpetuo damno, devieis tê-los por vossos destruidores.

    Porque a liberdade não é tanto um fim como um meio: quer-se a liberdade
    não tanto para as nações serem livres, como para serem felizes.

    Que importa o respeito de propriedade ao que nada possue? Que vale a
    liberdade da palavra para o que só tem de proferir maldicções e
    queixumes? Que monta que os vossos pares vos julguem, se o odio das
    facções nos fez inimigos uns dos outros?

    Sem concordia, inevitavel é que o edifício social desabe: e porventura
    nascerá a concordia do meio das sedições?

    XI

    Se no coração de algum dos concitadores da anarchia existe vislumbre de
    virtude, ai delle! Ai delle, se a sua alma é inteiramente negra!

    Porque de qualquer dos modos um abysmo está cavado debaixo de seus pés:
    na estrada do arrependimento o da vingança popular, no seguimento do
    crime o da justiça de Deus.

    Elles revelaram á multidão o segredo da sua força, e as turbas os
    levarão diante de si.

    O leão ruge livre na arena, e o conductor que o desatrellou cumpre que
    mais ligeiro lhe preceda na carreira, aliás será o primeiro que elle
    desfaça entre as garras.

    Aquelles que hoje são o amor das turbas serão chamados por ellas para
    presidirem a conselhos de sangue, a longos dramas de destruição e de
    angustias.

    E se a consciencia lhes clamar com a voz do remorso, e se tremulos
    quizerem retroceder, a plebe lhes dirá–ávante!

    E se ousarem implorar piedade para com as victimas do desenfreiamento e
    da barbaridade, rir-se-ha a plebe, e gritar-lhes-ha–ávante!

    E se, aterrados da altura do precipicio, voltarem atrás um passo, este
    passo será o extremo: a plebe os anniquilará.

    Elles encheram o calice das amarguras publicas: os justos o beberão aos
    tragos; mas as fezes serão para os escanções do banquete popular.

    A salvação unica do instigador de revoltas e uniões está em admittir
    todas as consequencias dellas.

    E então forçoso lhe é tornar-se conspicuo no crime e revolver-se no
    sangue.

    Mas qual será a eternidade de tal homem?

    Deus não deu palavras ás línguas da terra para o dizerem. É esse um dos
    mysterios do inferno.

    XII

    Temo as horas caladas da noite, e o coração aperta-se quando o somno me
    pesa sobre as palpebras amortecidas:

    Porque para mim o somno não é repouso, e os phantasmas das sombras são
    mais crueis do que as crueis realidades do dia.

    Deus converteu a sua voz no meu pensamento e collocou nos meus labios o
    grito da sua colera.

    O seu verbo desfará a minha alma, como o ar aquecido dilatando-se dentro
    do vaso o desfaz em fragmentos.

    O espanto cerca-me no meio das trevas, e o futuro está parado diante de
    mim como um pesadello eterno.

    Em um momento reune o Senhor na minha alma as dores com que por largos
    dias gemerá esta desventurada patria.

    E, em sonhos, oro ao Deus de nossos paes; mas na sua ira o Altissimo
    repelle as minhas preces; e acordo debulhado em lagrymas.

    Este acordar arremessa-me á vida actual, a esta atmosphera de
    depravação, ao meio do deshonesto tumultuar de um povo corrompido.

    E a oração, que em sonhos ousara levantar a Deus, cahe gelada na terra
    ao som das pragas e blasphemias da turba desenfreiada.

    XIII

    Eu vi uma visão do futuro, e o Senhor me disse: vai e revela-a na terra.

    Como em panorama immenso, um reino inteiro estava diante dos meus olhos.

    E nas duas cidades mais populosas delle homens de má catadura começavam
    de agglomerar-se nas praças e a trasbordar pelas ruas.

    E nos campos e nas aldeias outros homens com aspecto de reprobos
    começavam tambem a apinhar-se nos passos das serras, nas assomadas das
    montanhas e nas clareiras das florestas.

    E tanto nas faces dos filhos dos campos, como nas dos habitadores das
    cidades adivinhava-se o grito de exterminio que bramia no fundo dos
    corações.

    Os magotes de serranos fundiram-se n'uma só turma; e o mesmo succedeu
    aos das cidades.

    E cada uma das turmas se converteu em uma besta-féra, que se assemelhava
    ao tigre.

    Agigantada era a sua estatura, e na fronte de uma lia-se–Fanatismo–e
    na da outra–Desenfreiamento.–

    Com os olhos tinctos em fel e sangue, correram então os dous monstros um
    para o outro, ergueram-se em pé e estenderam as garras.

    No mesmo instante abriram-se os céus: dous grandes cutelos afiados e
    dous fachos encendidos cahiram juncto das alimarias ferozes.

    E nas laminas dos cutelos estavam escriptas com letras de fogo as
    palavras seguintes–Maldicção de Deus.

    E cada uma das alimarias segurou com a esquerda um dos fachos, e com a
    direita um dos cutelos.

    A das cidades arrojou o seu facho sobre os campos, e os campos ficaram
    em um momento áridos e ermos.

    E a outra sacudiu o seu sobre as duas cidades, e subito no logar onde
    ellas foram estavam dous montões de ruínas.

    Depois, combatendo por largo tempo e atassalhadas de golpes, cahiram e
    renderam os espiritos.

    Então as lagrymas me offuscaram os olhos; porque bem entendia o que
    significava a visão.

    Mas enxugando-os, tornei a lançá-los para o logar da peleja.

    E vi uma solidão safara e negra, sobre a qual a perder de vista para
    todos os lados alvejavam milhares de ossadas.

    E em cima dellas estavam assentados dous espectros gigantes. Chamavam-se
    Assolação e Silencio.

    XIV

    Era uma noite serena, e, ao clarão da lua, a sombra de templo antigo
    estirava-se no terreiro contiguo.

    Os sinos dormiam nos campanarios das torres erguidas, e tudo estava
    calado no ambito do monumento religioso, herdado aos homens impios deste
    seculo pelos homens crentes dos tempos que foram.

    Atravez das esguias e ponte-agudas janellas da igreja transverberava na
    praça a luz amortecida das alampadas penduradas ante as capellas
    desertas.

    Era a hora em que se passam cousas mysteriosas por adros e cemiterios, e
    em que vagueiam pela terra os mortos condemnados a assim cumprirem com
    sua justiça.

    N'um angulo do terreiro estava eu. Não sabía que mão me tinha para alli
    arrastado; mas era a mão de Deus.

    Ao longo de uma rua que naquelle logar desembocava vinha ondeiando um
    turbilhão negro, cujo rugido era semelhante ao rugido do pinhal da
    montanha em noite tempestuosa.

    E parecia aquelle grande vulto um fragmento do cahos, a quem, de todos
    os elementos de harmonia e de ordem, só o Creador concedera o movimento.

    E chegou o tumulto diante da igreja e espraiou-se por toda a praça, e
    houve profundo silencio.

    E um homem alevantou a voz no meio do tropel, que pendia de seus labios,
    e disse:

    «Vós sacudistes o jugo dos poderosos, e o nome de rei e o titulo de
    nobre são palavras sem significação na linguagem de nação regenerada.

    O povo que jazia no lodaçal alevantou-se como gigante de prodigiosa
    altura, e estendendo os braços, estreitou os palacios dos abastados e
    dos potentados: os pannos dos muros vacillaram nos seus fundamentos de
    marmore e de granito, e começaram de desmoronar-se e baqueiaram por
    terra.

    E o gigante popular riu-se e assentou-se em cima de montões de ruinas.
    Foi este dia dia de sempiterna gloria.

    Mas os monumentos da credulidade e do fanatismo de nossos paes ainda
    assoberbam a cidade dos homens livres. A hypocrisia abriga-se á sombra
    dos altares e invoca, talvez contra nós, um Deus que não existe.

    O unico Deus de corações generosos é a liberdade. Quando cumpre, o altar
    della é o cadafalso: o seu sacerdote o algoz: o seu culto verter o
    sangue dos tyrannos.

    A religião que tem por fundamento a humildade e a abnegação de si é a
    religião dos servos.

    É por isso que nossos paes foram servos.

    Amaldicçoemos, pois, o nome dos que nos geraram e derribemos a obra da
    superstição.

    E cada um daquelles precítos amaldicçoou seu pae. Os cabellos
    erriçaram-se-me de horror.

    Então a turba arrojou-se ao portal do templo, e os largos ferros dos
    machados scintillavam erguidos e faziam estourar as portas. Pelas naves
    da igreja retumbava um gemido longo e sonoro.

    E o terreiro ficou esgotado dessas ondas de povo, vertidas pelo ádito da
    velha cathedral dentro de seu amplo recincto.

    Como os vermes se arrastam vagueiando pelos membros do cadaver, assim os
    homens do sacrilegio se espalharam, arremessando-se aos altares e a
    todos os logares onde reluzia a prata ou o ouro.

    E cuspindo sobre a hostia do Cordeiro, pisavam-na aos pés e motejavam do
    Crucificado.

    E despido o templo das riquezas alli depositadas em testemunho da
    piedade de seculos, os impios saíram delle carregados de despojos.

    Depois, accendendo fachos, lançaram-lhe fogo por todos os angulos, e
    breve as chammas se ergueram ao céu com espantoso ruido.

    O estalido das pedras que se desconjunctavam, e o fragor das abobadas
    desabando, e o estridor do incendio, que trepava em espiraes pelas
    columnas e se estendia em lençoes vermelhos, lambendo a face dos muros,
    e o ultimo gemido dos orgãos era a orchestra deste sarau popular.

    E a plebe folgava de roda, e embriagava-se, passando de mão em mão as
    taças do vinho espumoso, e tecendo danças com as mais vis prostitutas.

    Tal foi o sonho do futuro que o Senhor me enviou n'uma noite de agonia.

    XV

    O anjo das predicções mudou então na minha alma a scena do porvir.

    Á mesma hora, á mesma luz da lua, estava eu no logar onde vira o povo
    quebrar as portas do sanctuario; onde vira os homens dissolutos transpor
    a ultima barreira que os separava dos tigres, e lançar de si o ultimo
    signal que os distinguia dos espiritos das trevas.

    Dos fustes truncados das columnas do templo pendiam hervas bravias, e
    nos muros semi-rotos enlaçava-se a héra.

    Nos campanarios afumados pelo incendio haviam as aves nocturnas
    construído os seus ninhos: ao cahir das trevas, em vez dos sons
    religiosos dos sinos, despenhavam-se lá dos cimos das torres os pios
    melancholicos da poupa solitaria.

    E no meio do terreiro surgia o que quer que era negro e que não se
    assemelhava a nenhuma obra da natureza, a nenhuma obra das mãos do homem
    feita para o uso da vida.

    Approximei-me. Era o patibulo.

    Um vulto humano pendia do alto delle e volteiava para um e outro lado á
    mercê da brisa da noite.

    E tinha as faces disformes e os olhos espantados, e da bôca meia aberta
    gotejava-lhe a espaços o sangue.

    Eu estava com os olhos cravados nelle, e não os podia despregar do homem
    do patibulo.

    E involuntariamente cahi de joelhos: as preces pelo morto íam-me a
    romper dos labios. Sentia ardente a fronte e batia-me o pulso rapido e
    com força.

    Á primeira palavra de oração que proferi, um estremeção agitou o cadaver
    do justiçado.

    E sem mecher os beiços murmurou sons inarticulados: depois proferiu
    algumas palavras: a sua voz era a de um ventriloquo.

    Cala-te!–disse o cadaver.–A eternidade é já minha. Deus riscou-me do
    livro da vida: maldicto seja o seu nome!

    Fartei-me de crimes na terra: por isso fui condemnado.

    A minha existencia foi como um halito de pulmoens ralados: a minha voz
    nunca ensinou senão a destruição.

    Hypocrita da liberdade, pregoei a anarchia e a licença, como os
    hypocritas da religião pregoam a intolerancia e o exterminio.

    Fui eu o que nas trevas preparei a discordia dos homens livres; que
    suscitei o primeiro dia de furor popular.

    Colloquei em frente dos amotinados alguns mancebos, em cujo seio havia
    fragmentos de virtude, mas cuja ambição era cega.

    Porque bem sabia eu que a plebe immoral anniquilaria todos os que não
    fossem tão dissolutos como ella.

    Deixei na arena dos bandos civis todos os meus émulos, e abandonei o
    paiz que de futuro devia ser minha prêa.

    Quando voltei, o povo tinha feito pedaços os seus idolos de um dia, e
    havia-os sumido debaixo dos pés das turbas.

    Era então que começava o meu imperio. Ai dos que eu tinha arrolado no
    livro da morte! Nenhum ficou sobre a terra.

    Milhares deixaram a cabeça debaixo do cutelo do algoz: milhares
    volteiaram no cadafalso por noites de luar, como agora eu volteio.

    E este baraço que ora me sobreleva do chão ainda o achei aquecido do
    collo da minha ultima victima.

    Fartei a sede de vingança e de sangue que mirrava o meu coração, e morri
    seguro de que deixava atraz de mim a campa cerrada em cima de todos os
    virtuosos.

    O tyranno do céu folgue embora em me ver no inferno: ao menos pude
    apagar o seu nome na terra que me deu o berço.

    Um brado meu desmoronou os templos: o sacerdocio desappareceu; a oração
    calou para todo o sempre.

    Agora tambem eu passei; porque na senda do crime o povo com uma passada
    vence o caminho de um seculo, e eu era apenas um homem.

    Os que empolgaram o poder, que me foi arrancado, não os tinha ainda
    conhecido, porque se arrastavam hontem em regiões obscuras; aliás
    ter-me-hiam precedido em descer aos abysmos.

    Aqui, dando um longo gemido, o suppliciado calou; os olhos
    fecharam-se-lhe, e a cabeça pendeu-lhe para o peito.

    Emquanto falara, bem conheci quem era; mas o Senhor me ordenou não
    revelasse o seu nome.

    XVI

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Era por noite fria de inverno: n'uma quadra desadornada de palacio meio
    arruinado jazia um homem em pobrissima enxerga.

    No seu rosto estava pintada a doença e a fome, as bagas do suor da morte
    transudavam-lhe da fronte, e dos olhos fugia-lhe a lagryma extrema do
    moribundo.

    Os farrapos que vestia não o resguardavam do frio; e o homem tremia, e
    os dentes batiam-lhe uns contra os outros.

    E no seu delirio o misero soltava palavras cortadas.–Agua!
    agua!–dizia; porque a sede lhe roía as entranhas. E não havia quem lhe
    desse um pucaro de agua.

    Tribunos da plebe, dae-me um pouco de pão. Ah! bem negro que seja! que
    tambem eu sou do povo.–E lançava os olhos para os seus farrapos.

    Fui nobre e rico; mas esquecei-vos disso! Perdoae-me, porque nada me
    resta: tão pobre sou como o mais humilde mendigo, que d'antes estendia a
    mão para o ultimo dos meus servos.

    E o homem sorria, e o seu riso significava a desesperação da sua alma.

    Depois olhou para um crucifixo que estava encostado á parede, e estendeu
    para lá os braços.

    Mas não havia quem lhe unisse ao peito a imagem do Salvador: não havia
    um sacerdote que lhe desse o extremo _vale_.

    Então deixou descahir os braços, fechou os olhos, e morreu. Sobre o
    cadaver ir-lhe-ha amontoando o tempo as ruinas dos paços que lhe
    herdaram seus paes.

    E será esta a campa republicana do homem que foi nobre e abastado.

    XVII

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Era o dia da lucta das facções: era um dia de ampla carnificina.

    E o demonio do meio-dia pairava sobre a cidade do sangue, e blasphemava
    do Senhor.

    O povo corria furioso e tumultuava; e os tiros e golpes soavam pelas
    praças, pelas ruas e pelas encruzilhadas.

    O gemer dos feridos, as pragas dos vencidos, e as ameaças dos vencedores
    conglobavam-se em rumor semelhante ao arquejar de volcão.

    As portas dos edificios estouravam pelos gonzos e fechaduras, e a plebe
    clamorosa entrava de tropel até o mais recondito das habitações.

    E o ulular das mulheres, e o vagido dos infantes e o chôro dos velhos
    rompiam por entre o clamor da matança.

    Mas a lascivia e o punhal breve punham o sello do silencio nas frontes
    de inteiras famílias.

    No recontro das diversas parcialidades os irmãos assassinavam os irmãos,
    os filhos assassinavam os paes.

    Porque á voz das sedições, o povo tinha quebrado, depois dos laços
    sociaes, os vinculos da natureza.

    E o roubo, a dissolução, a morte e o incendio estavam assentados nos
    quatro angulos de uma cidade outrora populosa e rica.

    Estas eram as divindades que adorava a plebe nos dias da licença e do
    furor.

    XVIII

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    Nas abas de uma serra das provincias do norte ainda as casinhas de
    pequena aldeia alvejavam certa manhã ao despontar o sol.

    E nas assomadas dos montes, e nos comoros dos outeiros ondeiavam os
    cimos dos pinhaes agitados pela viração matutina.

    A aldeia e os campos que a rodeiavam eram, no meio deste paiz assolado,
    como o vulto da esperança erguido sobre a lousa do sepulchro.

    E os habitantes pacificos do valle não sabiam que as tempestades
    politicas trovejavam além das suas montanhas.

    Mas nesse dia souberam-no para morrerem. O raio da furia popular
    fulminou-lhes a destruição.

    Bandos de soldados negrejavam em ondas descendo para a planicie; e os
    primeiros raios do sol espelhavam-se nas suas armas.

    E seguiu-se mais uma scena de carnificina, como tantas que eu tinha
    visto em meus sonhos do futuro. O ultimo abrigo da felicidade neste
    mal-aventurado paiz foi reduzido a cinzas.

    Os velhos morriam abraçados aos troncos dos carvalhos e castanheiros,
    seus veneraveis amigos da infancia, que tinham testemunhado a ventura de
    seis gerações inteiras.

    Os moços cahiam combatendo pela salvação dos paes, das esposas e dos
    filhos; mas, inexpertos nas armas, levemente eram vencidos da soldadesca
    feroz.

    Na ermida do presbyterio buscaram as mulheres indefensas guarida contra
    os assassinos; porque as desgraçadas não sabiam que a religião tinha
    fugido desta terra dos crimes.

    Alli, ante o altar do Senhor, foram vilipendiadas e saciaram a bruteza
    dos filhos da dissolução.

    E no dia seguinte, nos soutos e nos pinhaes da encosta ouvia-se tão
    somente o murmurio das ramas; e no meio do valle fumegava um monte de
    cinzas.

    XIX

    O anjo das predicções mudou o espirito dos meus sonhos.

    N'uma vasta sala estavam congregados muitos homens de aspecto feroz e em
    cujos olhos faiscavam as coleras immensas dos bandos civis.

    Chamavam-se estes homens os legisladores, os eleitos do povo.

    Vans denominações eram essas: a lei residia na vontade mudavel da plebe;
    e elles eram em grande parte mandados para aquelle recincto pela
    parcialidade que então triumphava.

    De roda, em balcoens erguidos, agitava-se a plebe tumultuosa.

    Alli se lavravam os decretos de exterminio: e era, ouvindo-os, que as
    turbas victoriavam os homens do sangue.

    Mas, se aos labios de algum assomava uma palavra de humanidade, e se
    ousava proferi-la inteira, os gritos de traição e de morte
    recalcavam-lhe das faces para o coração esse impensado impeto de
    piedade.

    Neste dia pelejavam as parcialidades nas ruas para decidir quem tinha
    direito de commetter mais crimes: era dia de abundante colheita para o
    sepulchro e para o inferno.

    Mas ao recincto, outrora chamado o sanctuario das leis, não chegava o
    clamor do combate: porque ahi a discordia excitava alaridos e, sacudindo
    o seu facho, encendia os animos de uns contra outros, Luctavam tambem as
    parcialidades lá dentro.

    Na praça publica a victoria convertia a final o que naquella assembléa
    se chamava minoria facciosa em irresistivel maioria. A plebe soberana
    annunciou-o aos legisladores, fazendo estourar a golpes de machado as
    portas da immensa quadra, onde o vozeiar não era de ardentes debates,
    mas sim de pugilato infrene. A turba-rei precipitou-se como torrente: o
    tumulto ondeiou pela sala espaçosa, e houve um momento de ancia e de
    silencio.

    Então os punhaes reluziram erguidos e desceram com força; e os gritos e
    as pragas e as blasphemias misturaram-se com o estertor dos moribundos.

    E a plebe nos balcoens batia as palmas, e dizia entre risadas:–_viva!_

    Tal foi a ultima scena de meus sonhos; e nada mais me revelou o Senhor.

    XX

    O Filho do Homem comprazia-se em ensinar a sabedoria por meio de
    parabolas: na parabola está a philosophia do povo.

    Um agricultor possuia certo campo que não produzia senão fructos
    enfezados; porque o solo se havia tornado sáfaro por falta de cultura
    durante largos annos.

    Porém ainda, aqui e acolá, pela extensão da veiga, vecejavam algumas
    arvores e cepas de boas castas, e que só de maltractadas pareciam
    bravias.

    E este agricultor morreu, deixando o campo de seus paes a tres filhos
    que tinha; e estes tractaram entre si ácerca do que deviam fazer da
    herança paterna.

    E o mais velho disse:–Respeitemos a memoria de nossos antepassados, e
    deixemos aos que de nós vierem o campo que herdámos do mesmo modo que o
    recebemos:

    Porque se não diga que menoscabamos a prudencia dos velhos e que
    pretendemos ser mais avisados do que foi nosso pae.

    Elle viveu, posto que pobre, tranquillo: vívamos como elle viveu.

    E disse o segundo-genito:–Veneranda é a memoria dos que nos geraram:
    comtudo tambem se deve acatar a razão, que nos foi dada por Deus.

    Conservemos todas as obras do tempo passado; mas melhoremos tudo o que
    nellas houver ruim.

    Ahi estão arvores uteis no meio da nossa herdade: não as derribemos,
    porque o fazê-lo, além de impiedade, fora rematada loucura.

    Porém roteemos os bréjos e sarçaes, adubemos a terra, e procuremos fazer
    novos plantios adequados á qualidade do solo.

    E disse o irmão mais novo:–Que nos importa os que passaram, ou que
    temos nós com o que elles fizeram?

    Nossos paes viveram nas trevas da ignorancia; e por isso todas as suas
    obras são loucura e vaidade.

    A luz e a sciencia só veio ao mundo em nossos dias, e só a propria
    sabedoria póde fazer-nos felizes.

    Comecemos pois por arrancar deste agro todos os vestigios de antiga
    cultivação: não verdeça nelle nem uma unica planta.

    E depois buscaremos arvores extranhas de fructos saborosos e sementes
    uteis, e a nossa herdade causará inveja a todos os vizinhos.

    Cada um dos irmãos estava firme em seu proposito, e os servos e os
    familiares bandeiaram-se em tres partidos.

    E luctaram uns com os outros, e triumphou a opinião do mais velho.

    E o campo mal cultivado, cada vez produzia menos, e a fome veio
    assentar-se no limiar da porta dos tres irmãos.

    O que vendo o segundo-genito, disse aos do seu bando:

    Força é que tiremos o poder das mãos dos que nos governam, aliás
    morreremos todos á pura mingua.

    E assim o fizeram; e, posto que a lucta fosse longa e encarniçada,
    venceram; porque a razão estava da sua parte, e Deus os abençoava.

    Então começaram a trabalhar: alimparam as arvores dos ramos seccos e
    exuberantes; adubaram os campos e prados, e arrancaram as moutas e as
    plantas nocivas.

    E lançaram boas sementes á terra, e quando a seara foi crescendo,
    começaram de mondar-lhe o joio e as outras hervas damninhas.

    Promettia naquelle anno ser excellente a colheita, e no coração dos
    familiares renascia já a esperança.

    Mas o irmão mais novo, possuido do espirito de destruição, colligou-se
    com os criados devassos e que aborreciam o trabalho continuo a que eram
    forçados.

    E fizeram uma união contra o segundo-genito e tiraram-lhe o mando,
    valendo-se de muitos clientes do primogenito, os quaes, por via da
    dissensão entre os dous mais novos, esperavam triumphasse o mais velho.

    Lançaram-se então ao campo, destruiram a sementeira, cortaram as
    arvores, e passaram a charrua por cima dos campos arrelvados.

    E buscaram sementes exquisitas e arvores exoticas, e atiraram á terra
    desalinhadamente com tudo isso, e depois adormeceram.

    As arvores, porém, seccaram logo, e as sementes, apenas rebentaram,
    morreram; porque os imprudentes não haviam estudado nem a natureza do
    clima, nem as propriedades do solo, nem as regras de agricultar.

    E a familia inteira no fim do anno tinha perecido de fome.

    XXI

    Na terra de Cethim houve um rei que era bom e cheio de liberalidade e
    valor.

    E cançado de reinar, disse em certo dia a seu filho, que ainda era muito
    moço:

    Pesam-me já demais a coroa e o sceptro, e os esplendores do throno não
    me deslumbram. Vem, e assenta-te nelle.

    E o filho obedeceu, e começou de reger os povos por certas leis
    estabelecidas por seu pae, o qual foi viver em regiões longínquas.

    Mas um tyranno alevantou-se com o reino, e o moço principe errou largo
    tempo por extranhos paizes com os poucos seguidores de sua má ventura.

    E o bom rei que descera do throno correu a restituir ao filho a herança
    que lhe legara.

    E a sua espada foi como a de Gedeão; o seu braço come o dos Machabeus.

    Então o principe desterrado voltou á patria, reassumiu o sceptro que lhe
    fora roubado, e a lei e a justiça recobraram o antigo vigor.

    Depois o rei virtuoso morreu de puras fadigas, e foi dormir com seus
    paes: sobre a sua memoria desceram não só as bençãos dos seus soldados,
    mas tambem as de todos os amigos da justiça e da paz.

    Nas trevas, porém, homens corrompidos começavam a tramar dissensões
    civis; porque pretendiam que os bons soffressem, depois da tyrannia de
    um unico mau, a tyrannia de muitos homens ruins.

    E estes mysterios da corrupção vieram a lume, e a plebe disse um dia ao
    principe e aos cidadãos pacificos:–A força está em nós, e a força é o
    direito: obedecei-nos pois, aliás um descerá do throno, outros serão
    reduzidos a pó.

    E tudo calou diante da plebe; porque era verdade que ella tinha a força.

    Os nobres, os prudentes, e os homens bons cubriram-se de dó, e no gesto
    lia-se-lhes a amargura do coração.

    Mas o moço rei a quem os turbulentos fingiam acatar, porque descera até
    elles, mostrou-se contente do seu damno, e engolfou-se nas delicias de
    que o rodeiaram os algozes da patria.

    Foi então que se apagou em todos os animos honestos o ultimo raio de
    esperança.

    XXII

    Havia naquelle tempo em Cethim um propheta, em cuja boca posera Deus o
    verbo da eterna verdade.

    E este propheta entrou um dia nos paços do principe e disse-lhe:

    Mancebo inconsiderado, emquanto folgas e ris, vai desconjunctar-se
    debaixo de teus pés o throno que te herdaram teus paes.

    Lembra-te de que subiste a elle por cima das ossadas de vinte mil dos
    teus amigos, regadas pelas lagrymas de cem mil familias.

    E não te esqueças de que entre esses ossos jaziam os de teu pae: não
    maldigas com tuas obras a sua memoria; porque elle foi justificado
    diante do Senhor.

    Crês tu que os homens do nada te perdoarão o teres nascido do sangue dos
    reis? Enganas-te! Crime para elles é este que nunca te será relevado.

    O sorriso que na tua presença lhes aclara o torvo das faces, não o
    creias de amor: repara, e verás que é o riso infernal do desprezo.

    Os filhos da abjecção queriam igualar-se comtigo; não, sendo elles quem
    subisse, mas sendo tu quem descesse.

    As taboas da lei foram feitas pedaços; se o vê-las partidas te apraz ou
    disso não curas, antes de o patenteiar cumpria-te restituir-nos as vidas
    e o sangue de nossos irmãos.

    Este paiz soffreu tudo por guardar o pacto que jurou, e que também tu
    juraste: que direito é o teu para approvares que esse pacto seja
    rasgado? Porque não padecerias alguma cousa a bem dos que tanto
    padeceram por ti?

    Crês, porventura, que é bello e generoso assentares-te em um throno que
    a relé do povo conspurcou de lodo e de infamia?

    A plebe era forte: embora. Mais forte era o tyranno de outrora, e
    baqueiou por terra.

    Devias deixar aos maus a consummação do seu crime e não o sanctificares
    tu.

    Devias confiar na Providencia, e arrojar de ti o manto de ignominia que
    sobre os hombros te lançavam.

    Devias conservar sem mancha o teu nome, porque está ligado ao do que te
    deu o ser, e este será glorioso até o termo dos séculos.

    Nós iremos ajoelhar juncto ao sepulchro de teu pae, e ás cinzas do rei
    virtuoso pediremos a justiça que não encontramos na face da terra.

    Oh, que se fosse possivel alevantar-se elle em pé sobre a campa, um seu
    olhar te encheria de remorsos; um brado seu fulminaria os perversos!

    Taes foram as palavras que o propheta de Cethim disse ao principe
    mancebo: o que depois aconteceu não o sei eu narrar.

    E este é um fragmento da historia de eras que passaram ha muito.

    XXIII

    A justiça de Deus é grande: maior a sua misericordia.

    Para o que se arrepende mana do seio do Senhor fonte perenne de perdão,
    e as preces do contrito sobem ligeiras até os degraus de seu throno.
    Depois dos dias de afflicção, elle envia o consolo e quebra em pedaços o
    vaso da sua colera.

    Povo, que vagueias desenfreiado pelas sendas da morte, converte-te á
    vida, converte-te ao Deus de teus paes.

    Elle não se esquecerá dos netos desses fortes que espalharam a luz do
    seu Verbo entre os mais remotos barbaros, e os teus erros serão
    esquecidos.

    Nossos avós souberam ser livres sem ser licenciosos; souberam ser
    grandes sem crimes: eterna é a sua gloria.

    Ousariamos nós irmos ajunctar-nos com elles no repouso do tumulo
    carregados das maldicções do Altissimo, e sepultando comnosco a herança
    do nome português cuberta da execração do universo?

    Lembrae-vos de que as cinzas dos cavalleiros de João primeiro; dos
    valentes de Ceuta, de Tangere e de Arzila, dos conquistadores do
    Oriente, estão envoltas na terra que pisaes.

    E onde quer que ponhaes os pés levantará o passado um grito de
    reprehensão contra a depravação do seculo actual.

    Formosa e pura é a luz do sol neste amoroso clima do occidente: não
    queiraes convertê-la no facho avermelhado e sinistro que fulgura por
    cavernas de salteadores e de assassinos.

    Unamo-nos, pois, como irmãos, e abraçando-nos uns com outros, cáiam
    algumas lagrymas de reconciliação sobre esta terra tão regada de
    lagrymas de amargura; tão ensopada no sangue do fratricidio.

    Refloreçamos entre nós a paz e a amizade: tenhamos um nome só, o de
    portugueses, um só bando, o da patria.

    Ainda algum dia estes rogos do propheta serão ouvidos: mas quando, é um
    segredo de Deus.

    A VOZ DO PROPHETA

    SEGUNDA SERIE

    Iniquitas surrexit in virga impietatis;
    non ex eis, et non ex populo, neque
    ex sonitu eorum, et non erit requies
    in eis.

    EZECHIEL, VII-11.

    I

    Lisboa, cidade de marmore, rainha do oceano, tu és a mais formosa entre
    as cidades do mundo.

    A brisa que varre os teus outeiros é pura como o céu azul, que se
    espelha no teu amplo porto, semelhante a grande mar.

    Trinta seculos tem surgido depois que tu surgiste, e sorvendo milhares
    de existencias cahiram todos no abysmo do passado.

    E tu os has visto nascer e morrer; e sorriste-te, porque julgavas que a
    vida te estava travada com a vida do universo.

    Escondendo nas trevas dos tempos remotissimos a tua origem, dizias ás
    demais cidades da Europa:–Sou vossa irmã mais velha.

    Nobre e rica outrora, quando o Oriente e a Africa te mandavam o ouro das
    suas veias, os extranhos vinham assentar-se-te ao pé dos muros e
    abastecer-se com as migalhas cahidas das mesas dos teus banquetes.

    Cada um dos teus velhos palacios abrigou já os ultimos dias de um grande
    capitão; em cada pedra dos teus templos ha uma recordação das virtudes
    passadas; em muitas lousas de sepulturas nomes que não morrerão.

    Nas eras de tua gloria, os monarchas dos ultimos confins da terra se
    haviam por honrados com chamar irmãos a teus filhos; e filhos teus davam
    e tiravam coroas.

    As tuas armadas aravam as campinas do oceano, e neste nem uma vaga
    deixou de gemer debaixo das naus do Tejo.

    Para as frotas da nova Tyro, os golpes de machado resoavam ao mesmo
    tempo nos bosques da Europa e da Africa, do Oriente e do Novo-Mundo: os
    lenhos do Indostão cosidos com os da Nigricia fluctuavam por mares
    distantes, e sobre elles se hasteiava um signal de terror para o orbe:
    era o pendão das Quinas.

    Então, oh cidade do Tejo, reinavas tu e eras forte, mais do que Roma ou
    Carthago; mas o imperio e a força vinham-te das virtudes de teus filhos,
    dos homens a quem sem pudor chamamos nossos avós.

    Vivificavam-te o seio um sem numero de bem nascidos espiritos, e eras
    seminario feracissimo de corações generosos.

    Porém, que te resta hoje do antigo esplendor, da gloria de tantos
    seculos? Um echo do passado nas paginas da historia, o sol puro da tua
    primavera, os restos dos paços e templos que os terremotos te não
    consumiram, e o grande vulto das aguas do amplo ádito do Tejo.

    II

    Mas este echo da historia, que devia ser para ti como um grito de
    remorso, não ha ouvidos que o escutem, e soa em vão e morre no meio do
    vozeiar descomposto da plebe:

    Mas este céu puro que te cobre, e que testemunhará no grande dia as
    virtudes de nossos maiores, testificará também perante o Senhor a tua
    corrupção actual:

    Mas este porto, que a liberdade regrada de tres annos começava a povoar
    de entenas, torná-lo-ha o reinado da licença tão ermo como os extremos
    dos mares gelados:

    Mas pelos palacios de marmore já não retumba a voz dos heroes, e os
    templos estão desertos: só por lupanares e praças sussurra o clamor dos
    populares, ou entoando os canticos das orgias, ou tumultuando em
    assuadas e preparando o dia em que satisfaçam a sede do roubo e do
    assassinio.

    Viuva prostituida, os vicios corromperam-te a seiva da vida, e a
    gangrena e os herpes corroem-te os membros, que ainda vestes de trajos
    louçãos, mas onde a morte se encarnou ha muito.

    Formosa ainda no aspecto, assemelhas-te ao sepulchro do evangelho, alvo
    e polido no exterior, mas cheio de podridão e negrura.

    Nova Jerusalém, a dextra do Senhor vergou pesando-te os crimes e, como a
    antiga, saberás se por ventura são asperas as angustias que o
    Omnipotente manda aos povos no dia da sua justiça.

    Rapida é a carreira do malvado pelos atalhos do crime: porque esses
    atalhos levam, de despenhadeiro em despenhadeiro, ao abysmo da perdição.

    Breve empallidece o outono as folhas das arvores; breve as desprende dos
    troncos; breve as espalha e some, arrebatando-as sobre as azas dos
    ventos.

    Esse curto praso bastou ao povo para esgotar os thesouros da
    misericordia divina, que os erros e culpas de seculos não haviam podido
    empobrecer.

    Os feitos portentosos de dous annos de combates civis foram
    amaldicçoados pelo povo em uma noite de sedição, e a arvore da liberdade
    cerceiada juncto da terra.

    E as esperanças de salvação e de felicidade passaram como o sonho
    matutino que se desvanece ao alteiar do sol.

    III

    Como a antiga Jerusalém se afundou em mar de crimes, assim a moderna
    Sião, a grande cidade do occidente, se mergulhou em torrente de
    perversidades.

    E a maldicção celeste que sumiu aquella d'entre as nações pesará ainda
    mais rijamente sobre a desgraçada Lisboa, sobre esta caverna de vicios e
    de desenfreiamento.

    Á roda dos muros de Solima apinhavam-se os cavalleiros de Babilonia, e
    as tendas de Nabuchodonosor estavam assentadas ao pé da torrente de
    Cedron.

    E as catapultas arrojavam pedras sobre os eirados do templo, no cimo do
    Moria: os arietes batiam os baluartes, que vacillavam até os
    fundamentos, e o granizo das settas sibilava, passando por entre as mal
    defendidas ameias.

    E ao longe scintillavam os ferros das lanças e o bronze dos elmos e dos
    cossoletes, e ouvia-se o nitrir dos cavallos.

    Surgira o dia extremo para a cidade das maravilhas, para a reproba
    Solima. E d'alli a um anno, sobre as ruinas della estava assentado um
    velho.

    Era o propheta de Anathot, que, em cima da ossada dos palacios e do
    templo, entoava uma elegia tremenda, a elegia da sua nação.

    IV

    Tambem o dia em que, entre os vestigios da cidade maldicta, algum vate
    levante um grito de agonia, um grito de desesperança, não tardará a
    chegar.

    Porque Deus ergueu-se no seu furor, e mandou descer sobre este paiz o
    anjo do exterminio.

    Mais cruel será o teu castigo, oh terra do meu berço, do que o de
    Jerusalém: porque ella pereceu a mãos de extranhos, e seus filhos
    morreram defendendo os lares paternos.

    Mas a ti é um matricidio popular, é a febre ardente das sedições que te
    vae arremessar ao sepulchro.

    Os teus muros converter-se-hão em circo: pelas praças e ruas
    pelejar-se-hão pelejas como de gladiadores, combates como de mastins e
    feras.

    Porque o temor de Deus saiu do coração do povo, e entraram nelle todas
    as raivas do inferno.

    Aspero é para o que morre assassinado não poder clamar ao céu justiça
    contra o seu matador.

    E neste mau caso cahirá o povo; porque serão as suas proprias mãos que
    lhe rasgarão as entranhas: será elle quem lavre a sua sentença de morte.

    Elle se amaldicçoará a si, e o remorso e a desesperação de toda a humana
    piedade lhe dobrarão as agonias do passamento.

    V

    Os que pelejaram contra os tyrannos purpurados mal sabiam que lhes
    quebravam o sceptro de ferro, para metter a espada da assolação na
    dextra de tyrannos cobertos de vermes e farrapos.

    Mal pensavam que uma raça corrupta não conhece outra estrada senão a da
    servidão ou a da licenciosidade.

    A nação, esmagada pelos reis, tinha muito tempo gemido debaixo da
    propria miseria.

    Mas surgiu um principe que deu a liberdade ao povo e que veio morrer
    para lh'a restituir, quando elle vilmente a deixou baqueiar por terra.

    E estes homens, que pouco antes haviam dobrado o joelho perante o
    despotismo, mostraram-se tão orgulhosos e insolentes, quanto, até então
    haviam sido abjectos e timidos.

    E n'uma orgia popular fizeram resoar gritos insultuosos nos ouvidos
    daquelle que duas vezes os libertara, e invocaram-lhe a morte. Nesse
    momento longe estavam os seus soldados, e muitos delles arquejavam
    moribundos no campo onde se pelejou a ultima batalha da patria.

    Em verdade vos digo que tal crime é dos que Deus não perdoa; porque a
    ingratidão é a mais horrenda de todas as perversões humanas.

    Elles apressaram o repouso do tumulo para o salvador da republica: mas o
    nome de parricidas será o que sobre a jazida lhes escreverá a historia.

    VI

    O sonho da liberdade, o sonho da minha juventude, esta fonte da poesia e
    de acções generosas, converteu-se para mim n'um pesadello cansado.

    Digno era o povo de compaixão quando estava em ferros, e por bom feito
    se tinha entre as almas puras o affrontar-se o homem com a morte pela
    salvação dos seus semelhantes:

    Porque, subindo ao patibulo ou expirando entre o estrondo das armas, a
    voz da consciencia assegurava ao que fenecia as lagrymas e as bençãos
    dos vindouros, e que algum dia cyprestes se plantariam na terra que lhe
    bebesse o sangue.

    Mas isto era crer na virtude popular: era apenas um sonho, e a
    consciencia mentia.

    A corrupção estava no amago das existencias. A arvore da vida social
    carcomiu-a a servidão. Cumpria que as tempestades politicas a
    derribassem; que os vermes da sociedade lhe roessem e desfizessem os
    troncos.

    E estes vermes são as turmas de uma plebe invejosa, que incessantemente
    trabalham na grande obra da publica destruição.

    Almas virtuosas, que nos paizes ainda escravos preparaes no silencio a
    queda dos tyrannos, não apresseis o grande dia da emancipação popular.

    Porque nesse mesmo momento sereis amaldicçoados pelos que salvastes, e
    cubertos de escarneos e de injurias, sabereis que a plebe lança em
    poucos mezes mais crimes na balança da eterna justiça do que os tyrannos
    ahi hão lançado por seculos.

    VII

    Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paços de Affonso quinto, e
    os cortesãos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da
    republica.

    E o conde disse-lhes:–mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vós
    prova-lo-hei á lança e á espada: innocente e justo é o mui nobre filho
    de meu senhor e rei, Dom João de excellente memoria.

    E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrotéa; porque bem
    sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.

    D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira,
    sobre um montão de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome
    do seu desventurado amigo.

    Onde estavam os do valente capitão da nova Diu, do rei soldado da
    patria, quando o vulgacho no meio da praça publica, assentado no seu
    lodaçal mandava derrocar as leis, as recordações e a gloria d'uma nação
    inteira?

    Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era
    amaldicçoada na condemnação da sua obra; quando sobre as suas cinzas a
    dissolução cuspia escarneos; quando a liberdade morria ás mãos da
    licença popular?

    Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lançar a luva em defesa
    da justiça, e dizer ás turbas:–sois desleaes e mentis?

    Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal já não ha um
    cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a
    sua espada foi sepultada com elle.

    VIII

    Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os
    rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus
    palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e
    menoscabar as dores dos supplicios.

    Então era ousado o propheta, quando, nos paços de Balthasar, lia nos
    muros, escriptas pela mão de Deus, palavras de condemnação.

    Eram sublimes os martyres, quando perante os cesares davam testemunho do
    evangelho, e escarnecendo dos apparelhos de morte, se deitavam
    tranquillamente sobre a cruz da agonia.

    Era bello ouvir o poeta de Florença trovejar contra a prostituta Roma,
    denunciar ao mundo a corrupção e os crimes dos pontifices do Tibre, e
    comer no desterro um pão eivado de lagrymas e esmolado por estranhos.

    Era bello, quando nós, assentados sobre os gelos do Norte, saudavamos do
    desterro a terra que nos deu o berço, e vinhamos, fracos pelo numero,
    mas fortes de coração, lançar as nossas baionetas na balança da
    Providencia, onde a tyrannia tinha tambem lançado as suas.

    Tudo isto era bello e generoso; porque então os pequenos gemiam
    oppressos debaixo dos pés dos grandes, e ao homem justo incumbia fazer
    resoar na terra a voz da eterna justiça, o grito da liberdade.

    Mas hoje que a plebe reina e, como ampla voragem, ameaça tragar a
    virtude, a liberdade, a justiça e todas as recordações sanctas do
    passado, para o homem de boa consciencia sê-lo-ha, tambem, o morrer.

    Sê-lo-ha o bradar no meio das turbas, e derramar sobre ellas a
    condemnação, que Deus confiou em todos os seculos aos labios do
    innocente e virtuoso.

    Sê-lo-ha chegar aos tribunos populares, apontar-lhes para o céu, e
    apresentar a cabeça ao cutello dos lictores.

    IX

    Povo, hoje és tu quem impera, e absoluto é o teu poder; porque te dizes
    unica fonte delle.

    Toma, pois, em tuas mãos a vara do magistrado, e assenta-te uma vez mais
    no teu throno, amassado com sangue e pó.

    Vem assentar-te, e julga-nos, a nós, que tu maldizes, e aos tribunos,
    aos instigadores de tumultos, que cobres de amor e de bençãos.

    Porque isto diz o Senhor Deus: se a plebe julgar com justiça, a plebe
    ainda será salva.

    Desça o terror da tua vingança sobre o coração do que te houver
    offendido; volvam-se no pó as frontes onde tu achares estampado o
    ferrete do crime.

    Recorre as acções da nossa vida, recorre as obras passadas das vidas dos
    teus tribunos, e por preço do perdão de Deus, julga-nos com justiça.

    Quando tu jazias na servidão, e os grilhões, encarnando-se-te nos pés e
    nos pulsos, te roçavam pelos ossos, peleijavamos nós por te salvar;
    derramavamos o nosso sangue por ti.

    Por ti viamos o irmão e o amigo morder o pó dos campos de batalha, e
    calavamos; sentiamo-nos descahir de fome, e não soltavamos um queixume.

    Porque guardavamos os ais para o silencio das trevas. Soldados da
    patria, ousariamos acaso queixar-nos diante da luz do sol?

    E elles, que faziam, emquanto as nossas noites eram veladas debaixo de
    um céu de ferro e de fogo, emquanto os nossos dias se consumiam entre o
    sibilar dos pelouros?

    Elles? Nos lupanares e tabernas de paizes extranhos, folgavam nos
    banquetes da embriaguez; reclinavam-se no leito da prostituição.

    Elles? Cubriam-nos de insultos, chamavam loucura e vaidade á nossa nobre
    ousadia, e riam-se do juramento que faziamos de morrer ou dar a
    liberdade a nossos irmãos.

    Elles? Buscavam por todas as vias semeiar a zizania e os odios, damnar a
    nossa causa sancta, e fazer-nos perecer debaixo das ruinas de uma cidade
    illustre.

    Eis o que elles fizeram em proveito da patria. No meio do foro, diante
    de teu tribunal terrivel, descubra quem o ousar o peito, e mostre e
    conte as cicatrizes das feridas que recebeu pela salvação da republica.

    Um só delles as mostrará; porque esse foi valente e amigo da virtude.
    Anjo de luz, porque te despenhaste no abysmo?

    A historia escrevia o teu nome na pagina das bênçãos: tu mesmo o
    riscaste e o foste escrever na pagina das maldicções……………….
    ……………………………………………………………..
    ……………………………………………………………..

    X

    Porém, debalde invocariamos justiça perante o tribunal popular; porque o
    povo é abastado de injustiça e ingratidão.

    Os que estão cubertos de cicatrizes, os que foram longamente saciados de
    angustias por salvá-lo seriam condemnados, e os tribunos, os
    concitadores da anarchia, cujas obras unicas tem sido conduzir a patria
    ao abysmo da perdição, seriam absolvidos, seriam abençoados.

    Embora: a nossa consciencia está tranquilla, e no grande dia é Deus quem
    a todos nos julgará.

    Houve um propheta outrora em Israel, e chamava-se o Filho do Homem.

    E este propheta amava os humildes e os pobres, e reprehendia os
    poderosos.

    E condemnava os hypocritas da religião, e por isso era abominado pelos
    grandes e pelos sacerdotes.

    Mas respeitava as leis, e ensinava a obediencia: mandava que se pagasse
    o tributo das duas drachmas do templo, e o tributo de Cesar.

    E affeiava aos populares os seus vicios e abominações; e por isso era
    tambem malquisto da gentalha.

    E, condemnado á morte pelos poderosos, o povo, a quem tinha trazido a
    luz e a vida eterna, o povo, que elle tanto amava, cubria-o de
    opprobrios.

    E podendo salvá-lo do supplicio, antepunha-lhe um grande criminoso, e
    clamava aos algozes:–Pregae-o na cruz, e cáia o seu sangue sobre a
    nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos.

    E este propheta era o Messias, era o redemptor do genero humano, era o
    filho de Deus.

    Consolem-se, pois, aquelles que sobre os hombros tomaram o odio dos
    tyrannos por amor do povo, e a quem o povo paga com injurias e pragas.

    Como Jesu-Christo, os hypocritas e os oppressores das nações
    abominam-nos: como a Jesu-Christo, o vulgacho cobre-nos de affrontas, e
    pede para nós aos seus tribunos a condemnação e o supplicio.

    E que nos cumpre fazer para seguirmos em tudo o exemplo do Justo
    assassinado, do Deus que nos deixou na terra o consolo e a esperança?

    Pedir morrendo ao Eterno Pae o perdão de nossos perseguidores e, como o
    divino Mestre, lançar á conta da ignorancia as culpas de corações
    corruptos.

    Imitando o Salvador na cruz, seja um pensamento de benção o nosso
    pensamento extremo; porque o derradeiro suspiro do christão deve ser um
    murmurio de affecto grande para os que o amaram, mas ainda maior para os
    que o odeiaram e perseguiram.

    XI

    E ainda uma vez, filhos da perdição, ainda uma vez vos falarei em nome
    do Senhor nosso Deus.

    Que foi o que fizestes assassinando as esperanças da salvação publica,
    derribando a sancta tradição da patria?

    Até no crime fostes apoucados. Porque não se ergue um de vós, perverso,
    mas sublime, como o archanjo das trevas, e diz:–fui eu o concitador do
    motim popular, fui eu o primeiro que clamei «quebrem-se as taboas da
    lei?»

    Louvaes a sedição, chamaes-lhe obra illustre, e nenhum de vós acceita a
    gloria de ser o bem-feitor do seu paiz?

    Quando combatiamos pela liberdade gravavamos os proprios nomes em nossas
    armas, e o inimigo que ousasse vê-las de perto, ahi os lería inteiros.

    Não combatiamos nas trevas; e os nossos capitães diziam ao
    mundo:–Vede:–e mostravam a face diante da luz do sol.

    Hypocritas, que enganaes o povo, credes porventura que tambem enganareis
    o Senhor e que, semelhantes á prostituta que engeita o fructo de seu
    crime, engeitareis diante delle a obra da vossa iniquidade?

    Não! Lá se levantarão os nossos e os vossos filhos, para quem preparaes
    berço de miseria, vida de amargura e morte de desesperação.

    E elles testemunharão contra vós na presença do Altissimo: e haverá ahi
    choro e ranger de dentes.

    XII

    Ambiciosos, que desvairaes o povo, o Senhor leu no fundo dos vossos
    corações e revelou-me o que ahi está escripto!

    A cubiça do mando e do ouro é o vosso amor de patria; a vossa ancia de
    liberdade a sêde de tyrannia.

    Merecedores de jazer perpetuamente na escuridade, e ermos de virtude e
    de sabedoria, não podendo fulgir com luz celestial, tentastes romper as
    trevas de vossos caminhos com o clarão torvo do inferno.